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“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus.

Ele estava no princípio junto de Deus.
Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.
Nele havia a vida, e a vida era a luz dos homens.
A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.
Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João.
Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos
cressem por meio dele.
Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.
Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.
Mas a todos aqueles que o receberam, aos que crêem no seu nome, deu-lhes o
poder de se tornarem filhos de Deus,
os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do
homem, mas sim de Deus.
E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o
Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.”
(João 1, 1-14)

“Em
Jesus,
a humanidade
pode
seguir
o caminho
do Céu.”

A ÚNICA PESSOA QUE FOI PREANUNCIADA
A história está cheia de homens que se apresentaram como vindos de Deus,
quer como deuses, quer como portadores de mensagens Divinas – Buda, Maomé,
Confúcio, Cristo, Lao-tze e milhares de outros até ao último que em nossos dias
fundou uma nova religião. Cada um deles tem direito a ser ouvido e considerado.
Mas assim como precisamos duma régua, externa e independente das coisas que
hão de ser medidas, assim também há de haver provas permanentes ao alcance
de todos os homens, de todas as civilizações e idades que nos habilitem a decidir
se cada um ou todos estes pretendentes podem justificar sua pretensão. Estas
provas são de duas espécies: razão e história. Razão, porque é comum a todos,
mesmo aos sem fé; história, porque todos vivem dentro dela e devem saber
alguma coisa a seu respeito.
A razão diz-nos que, se alguns destes homens veio realmente de Deus, o
mínimo que Deus podia fazer em apoio da sua pretensão, seria preanunciar a sua
vinda. Os fabricantes de automóveis avisam os seus clientes do tempo em que
devem esperar um novo modelo. Se alguém é enviado por Deus pessoalmente, ou
se veio Ele próprio com uma mensagem de importância vital para todos os
homens, parece razoável que primeiro desse a conhecer aos homens o tempo da
vinda do seu mensageiro, onde devia nascer, onde devia viver, a doutrina que
devia ensinar, os inimigos que teria, o programa que adaptaria para o futuro e o
gênero de morte que sofreria. Podíamos assim avaliar a validade das suas
pretensões pela maior ou menor exatidão no cumprimento destas predições.
A razão assegura-nos ainda que, se Deus não fizesse assim, nada impediria
que qualquer impostor se apresentasse na história dizendo: “Eu venho de Deus”;
ou: “Um anjo apareceu-me no deserto e deu-me esta mensagem. Em tal caso, não
haveria maneira objetiva e histórica de comprovar a verdade do mensageiro.
Teríamos apenas o seu testemunho, o qual, como é óbvio, podia ser falso.

(Por agora podemos considerar os escritos pagãos e até o Antigo Testamento só como documentos históricos. . A linguagem profética não tem a exatidão da matemática. de modo que os homens ficassem habilitados. Gregos e Romanos”. dizendo: “Examinai os escritos do povo Judaico e os relatos históricos dos Babilônios. acredita-me”. Graças às profecias do Antigo Testamento. de se encontrar. a profecia de Isaías (cap. Maomé. (E nesta fase preliminar. Cristo está no mesmo plano dos outros). se examinarmos as várias correntes messiânicas do Antigo Testamento e compararmos a pintura que daí resulta com a vida e ações de Cristo. É certo que as profecias do Antigo Testamento se compreendem melhor à luz da sua realização. o Servo do Senhor que fará oferta da sua vida em oblação pelos pecados do seu povo. os Setenta. a razão pede que se proceda do mesmo modo com os mensageiros que se apresentam como enviados por Deus. apenas homens entre homens e não o Divino no humano. não como palavra inspirada). Persas. à sua chegada. a sua vinda não foi inesperada. mas havia-as acerca de Cristo. mas também se deu descontinuidade de sacrifícios logo que o verdadeiro Cordeiro Pascal foi sacrificado.Se um viajante estrangeiro chegasse a Washington e se apresentasse como diplomata. A razão diz a cada um dos pretendentes: “Onde está o testemunho. referente à tua vinda?”. Com este exame podemos avaliar os pretendentes. E uma vez que a realização destas profecias se comprovou historicamente na pessoa de Cristo. a predição de que a tribo de Judá dominaria todas as outras tribos hebraicas até a vinda daquele a quem todas as nações obedeceriam. Com Cristo. Sócrates não teve ninguém que predissesse o seu nascimento. as perspectivas do reino glorioso e eterno da Casa de Davi – em quem se cumpriram estas profecias senão em Cristo? Mesmo só do ponto de vista histórico temos aqui algo de único que coloca cristo à parte de todos os outros fundadores de religiões do mundo. A data desses papéis devia ser anterior à sua vinda. não somente cessaram todas as profecias em Israel. 53) acerca do padecente resignado. Eram. O nome da mãe de Confúcio e o lugar do seu nascimento não foram mencionados nem declarados aos homens uns séculos antes da sua vinda. na bíblia dos judeus de Alexandria. pois. ou outro qualquer. de que por ele todas as nações da terra seriam abençoadas. mas inegável. Não havia predições acerca de Buda. porém. anterior ao teu nascimento. o fato estranho. Se se exigem tais provas de identidade aos delegados de países estranhos. Os outros chegaram simplesmente e disseram: “Aqui estou. podemos acaso duvidar que as antigas predições se referem a Jesus e aos reino por ele estabelecido? A promessa de Deus aos patriarcas. a autoridade pedir-lhe-ia o passaporte e outros documentos que o acreditassem como representante dum determinado governo. Só Cristo saiu desta linha. Confúcio. Buda não teve ninguém que o preanunciasse a ele e à sua mensagem nem que declarasse o dia em que se sentaria debaixo da árvore. Lao-tze. é diferente. à reconhecê-lo como mensageiro de Deus. Contudo. claramente predito o nascimento virginal do Messias.

interrogou aos sábios. escreveu: “Além disso.Voltemos ao testemunho pagão: Tácito. Suetónio cita um autor contemporâneo a propósito do grande temor que invadiu os romanos por causa dum rei que havia de dominar o mundo. ao salvador e redentor que libertaria o homem da “primeira e mais antiga maldição”. expõe deste modo a tradição romana: “existia em todo o Oriente uma crença antiga e constante de que segundo profecias indubitavelmente certas. que esta ficou. Suetónio. Os gregos esperavam-no. O monarca. dividida em dois períodos: um antes e outro depois da sua vinda. Na China encontramos a mesma expectativa. julgava-se que o grande Sábio nasceria no Ocidente. Eles mostrando-lhe os livros segundo os quais este prodígio significava o aparecimento do grande Santo do Ocidente cuja religião viria a ser introduzida no seu país”. Mas não eram só os judeus que esperavam o nascimento dum Grande Rei. porque Ésquilo no seu Prometheus. as Sibilas. Como souberam os Magos do Oriente da sua vinda? Provavelmente através das profecias postas a circular no mundo pelos judeus. desde logo. falando dos antigos romanos. depois de narrar as sentenças dos antigos oráculos e das Sibilas acerca dum “Rei o qual temos de reconhecer para sermos salvos” pergunta em tom de expectativa: “Quem é o homem e qual é período de tempo a que se referem estas predições?” Virgílio menciona na Quarta Écloga. Cícero. ao “Rei Universal”. ou redentor. Toda esta expectativa no seio do mundo gentílico. com a vinda do qual acabaria a idade de ferro”. a mesma tradição antiga e fala de uma mulher casta que sorri para o seu menino. da disnatia de Tcheou. dum Sábio. os judeus haviam de alcançar o mais alto poder”. nem algum dos grandes filósofos indianos fizeram . na relação da vida de Vespasiano. Confúcio referiu-se ao “Santo”. seis séculos antes da sua vinda. também Platão e Sócrates falavam do Logos e do Sábio Universal “ainda por vir”. tanto que ordenaram fossem mortas todas as crianças naquele ano – ordem essa que só foi cumprida por Herodes. para receber sobre a sua Cabeça as angústias dos teus próprios pecados como teu substituto”. surpreendido pelo seu esplendor. Basta este fato para o distinguir de todos os outros chefes religiosos. os próprios gentios ansiavam por um libertador. no 8° dia da 4° lua. Nem Buda. dum Salvador. juntamente com a profecia feita por Daniel aos gentios uns séculos antes do seu nascimento. não espere pelo fim desta maldição até que Deus apareça. mas por estar situada no outro lado do mundo. é que ele era esperado. apareceu uma luz no Sudoeste que iluminou o palácio do rei. diz: “O povo em geral estava persuadido da verdade das antigas profecias segundo as quais o Oriente havia de dominar e da Judeia viria o Mestre e Legislador do mundo”. os dramaturgos gregos. O que em primeiro lugar separa Cristo de todos os homens. O segundo distintivo foi que a sua aparição causou tal repercussão na história. Os Anais do Celeste Império contem a seguinte passagem: “No ano 24°do Tchao-Wang.

e como no átomo está todo o sistema solar em miniatura. Ele veio para morrer. ou “Salvador”. fala ao poeta da natureza. Não foi tanto o seu nascimento que espalhou uma sombra sobre a sua vida. Poucas das suas palavras e ações são inteligíveis se as não relacionarmos com a sua Cruz. resgatando-os da desgraça da culpa. A Escritura descreve-o como o “Cordeiro sacrificado desde o princípio do mundo’. projetou a sua sombra até ao seu nascimento. Como a flor. vieram para viver. a morte foi um obstáculo fatal que pôs fim às suas lições. Os próprios ateus são obrigados a datar os seus ataques a Deus: A. A história da vida de cada homem começa o nascimento e acaba com a morte. o ouro que vinha procurar. da razão da sua vinda manifestada pelo nome de “Jesus”. A sua vida foi a única no mundo que foi vivida recuando. que foi envolvida pela sombra do Espírito e “cheia de graça”. a morte constituiu a meta e a realização plena da sua vida. aparecendo primeiro. D. nascido duma Virgem. De nada valeria ensinar os homens a serem bons. Para Sócrates. porém. ou tantos anos após a sua vinda. Vida de Cristo – Fulton J. arrastando-o assim para a morte. Na pessoa de Cristo. Foi morto intencionalmente pelo primeiro pecado e rebelião contra Deus. Nascido de mulher.outro tanto. se lhes não desse também o poder de serem bons. ele era homem e podia unir-se com toda a humanidade. Mateus a sua pré-história temporal. É significativo que a ascendência temporal de Cristo estivesse tão ligada aos pecadores e estrangeiros! Este ferrete no escudo da sua linhagem humana sugere uma Aliança de misericórdia para com os pecadores e estrangeiros. Ele passou do conhecido ao conhecido. João dá-nos a sua pré-história eterna. pendente do muro. à morte na Cruz. Mas a sombra dum passado maculado faz prever um futuro de amor pelos maculados. Estes dois aspectos da sua compaixão seriam mais tarde lançados contra ele como acusações: “Ele é amigo dos pecadores”. assim também o nascimento de Cristo revela o mistério do patíbulo. esteve primeiro a sua morte e no fim a sua vida. ele estaria fora da corrente de pecado que infectava todos os homens. Sheen . foi antes a Cruz que. “Ele é Samaritano”. O terceiro fato que o põe à parte de todos os outros é o seguinte: todas as outras pessoas que vieram a este mundo. isto é. à realização da sua vinda. Apresentou mais como Salvador do que como simples Mestre. por meio da sua genealogia. tantos de tal. mas para Cristo.

morta. e encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria e Se fez homem» (79). 5): «Enferma.ARTIGO 3 «JESUS CRISTO FOI CONCEBIDO PELO PODER DO ESPÍRITO SANTO E NASCEU DA VIRGEM MARIA» PARÁGRAFO 1 O FILHO DE DEUS FEZ-SE HOMEM I. «O Pai enviou o Filho como salvador do mundo» (1 Jo 4. 10). 14). Porque é que o Verbo encarnou? 456. homens. «E Ele veio para tirar os pecados»(1 Jo 3. precisava de ser elevada. reconciliando-nos com Deus: «Foi Deus que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de expiação pelos nossos pecados» (1 Jo 4. Encerrados nas trevas. Com o Credo Niceno-Constantinopolitano. . a nossa natureza precisava de ser curada. 457. desceu dos céus. decaída. O Verbo fez-Se carne para nos salvar. respondemos confessando: «Por nós. era preciso que nos fosse restituído. precisávamos de quem nos trouxesse a luz. precisava de ser ressuscitada. cativos. Tínhamos perdido a posse do bem. e para nossa salvação. esperávamos um salvador: prisioneiros.

mas aniquilou-Se a Si próprio. para nos fazer deuses» (84). 460. Num hino que nos foi conservado por São Paulo. e morte de Cruz» (Fl 2. ordena: «Escutai-o» (Mc 9. tornou-Se semelhante aos homens. escravos. para ser o nosso modelo de santidade: «Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim [. ut homines deos faceret factos homo – O Filho Unigénito de Deus. feito homem. «Unigenitus [. para nela levar a efeito a nossa salvação.. 459. 29).. na montanha da Transfiguração. entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adopção divina. a ponto de O fazer descer até à nossa natureza humana para a visitar. O Verbo fez-Se carne. «Porque Deus amou tanto o mundo. 14). Retomando a expressão de São João («o Verbo fez-Se carne»: Jo 1. 458. O Verbo fez-Se carne. querendo que fôssemos participantes da sua divindade. «Porque o Filho de Deus fez-Se homem. De facto. mas tenha a vida eterna» (Jo 3. precisávamos dum libertador. para que assim conhecêssemos o amor de Deus: «Assim se manifestou o amor de Deus para connosco: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito. «Eu sou o caminho. A Encarnação 461.. para que vivamos por Ele» (I Jo 4. 12). 4): «Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem. e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem. II. Este amor implica a oferta efectiva de nós mesmos. E o Pai. naturam nostram assumpsit. assumindo a condição de servo. fizesse os homens deuses» (84). suae divinitatis volens nos esse participes. já que a humanidade se encontrava em estado tão miserável e infeliz?» (80). para que todo o homem que acredita n'Ele não pereça. que entregou o seu Filho Unigénito. Ninguém vai ao Pai senão por Mim» (Jo 14.] Dei Filias. .. a Igreja canta este mistério: «Tende em vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo Jesus.esperávamos um auxílio. a verdade e a vida. se tornasse filho de Deus» (83). Ele é o modelo das bem-aventuranças e a norma da Lei nova: «Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15. assumiu a nossa natureza para que. 7) (81). Seriam razões sem importância? Não seriam suficientes para comover a Deus. O Verbo fez-Se carne. humilhou-Se ainda mais.]» (Mt 11. Aparecendo como homem. 6). Ele. 5-8) (86). 16). não se valeu da sua igualdade com Deus. no seu seguimento (82). 9). que era de condição divina. obedecendo até à morte. a Igreja chama «Encarnação» ao facto de o Filho de Deus ter assumido uma natureza humana. para nos tornar «participantes da natureza divina» (2 Pe 1.

teve a Igreja de a defender e clarificar no decurso dos primeiros séculos. Perante esta heresia. perante heresias que a falsificavam. Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. não . Verdadeiro Deus e verdadeiro homem 464. III. mas formaste-Me um corpo. A Epístola aos Hebreus fala do mesmo mistério: «É por isso que. Mãe de Deus. Por isso.confessaram que «o Verbo. Desde os tempos apostólicos que a fé cristã insistiu sobre a verdadeira Encarnação do Filho de Deus «vindo na carne» (87). unindo na sua pessoa uma carne animada por uma alma racional. o qual afirmava que «o Filho de Deus saiu do nada» (89) e devia ser «duma substância diferente da do Pai» (90). Se fez homem» (91). 463. reunido em Éfeso em 431. consubstancial ('homoúsios') ao Pai» (88). É esta a alegre convicção da Igreja desde o seu princípio. Mas. Esta verdade da fé. As primeiras heresias negaram menos a divindade de Cristo que a sua verdadeira humanidade (docetismo gnóstico). em 325. citando o Sl 40. nem que seja o resultado de uma mistura confusa do divino com o humano. O primeiro Concílio ecuménico de Niceia. ao entrar neste mundo. segundo os LXX). a partir do século III. Ele fez-Se verdadeiro homem. permanecendo verdadeiro Deus. Cristo diz: "Não quiseste sacrifícios e oferendas. que Maria se tornou.] para fazer a tua vontade"» (Heb 10. 16). São Cirilo de Alexandria e o terceiro Concilio ecuménico. que Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza e não por adopção. que a assumiu e a fez sua desde que foi concebida. 7-9. A heresia nestoriana via em Cristo uma pessoa humana unida à pessoa divina do Filho de Deus. A fé na verdadeira Encarnação do Filho de Deus é o sinal distintivo da fé cristã: «Nisto haveis de reconhecer o Espírito de Deus: todo o espírito que confessa a Jesus Cristo encarnado é de Deus» (1 Jo 4. A humanidade de Cristo não tem outro sujeito senão a pessoa divina do Filho de Deus. ao cantar «o grande mistério da piedade»: «Ele manifestou-Se na carne» (1 Tm 3. 5-7. 465. num concilio reunido em Antioquia. não criado. cm 431. 466. confessou no seu Credo que o Filho de Deus é «gerado.. Holocaustos e imolações pelo pecado não Te foram agradáveis. com toda a verdade. 2).. contra Paulo de Samossata.462. por ter concebido humanamente o Filho de Deus em seu seio: «Mãe de Deus. Então Eu disse: Eis-Me aqui [. a Igreja teve de afirmar. o Concílio de Éfeso proclamou. O acontecimento único e absolutamente singular da Encarnação do Filho de Deus não significa que Jesus Cristo seja em parte Deus e em parte homem. e condenou Ario.

467. É verdadeiramente o Filho de Deus feito homem. salvai-nos!» (100). nosso irmão. sendo imortal. e nestes últimos dias. Depois do Concílio de Calcedónia. sem divisão. consubstancial ao Pai pela sua divindade. Filho Único. Assim. Um só e mesmo Cristo. na sua pessoa. o quinto Concílio ecuménico. como canta a Liturgia Romana (90). em Calcedónia. Confrontando-se com esta heresia. e sem mudança Vos fizestes homem e fostes crucificado! Ó Cristo Deus. que sois um da Santíssima Trindade. não só os milagres. composto duma alma racional e dum corpo. para nossa salvação. consubstancial a nós pela sua humanidade. se diz que o Verbo nasceu segundo a carne» (92). Contra eles. igualmente perfeito na divindade e perfeito na humanidade. reunido em Constantinopla em 553. 469. E a Liturgia de São João Crisóstomo proclama e canta: «Ó Filho único e Verbo de Deus. encarnar no seio da Santa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria. sem mudança. nascido da Virgem Mãe de Deus segundo a humanidade. Senhor da glória e um da Santíssima Trindade» (98). confessou: «Na sequência dos santos Padres. é verdadeiro Deus. portanto. Tudo na humanidade de Cristo deve. menos no pecado» (93): gerado do Pai antes de todos os séculos segundo a divindade. a Igreja confessa que Jesus é inseparavelmente verdadeiro Deus e verdadeiro homem.porque o Verbo de Deus dela tenha recebido a natureza divina. . ensinamos unanimemente que se confesse um só e mesmo Filho. sem separação. «semelhante a nós em tudo. no ano de 451. por nós e pela nossa salvação. Os monofisitas afirmavam que a natureza humana tinha deixado de existir. confessou a propósito de Cristo: «não há n'Ele senão uma só hipóstase (ou pessoa). um da santa Trindade» (95). sem confusão. nosso Senhor: «Id quod fuit remansit. sendo o mesmo verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. A diferença das naturezas não é abolida pela sua união. et quod non fuit assumpsit» – «Continuou a ser o que era e assumiu o que não era». as propriedades de cada uma são salvaguardadas e reunidas numa só pessoa e numa só hipóstase» (94). 468. nosso Senhor Jesus Cristo. que por Vossa morte esmagastes a morte. dotado duma alma racional. o quarto Concílio ecuménico. e isso sem deixar de ser Deus. sendo assumida pela sua pessoa divina de Filho de Deus. antes. ser atribuído à sua pessoa divina como seu sujeito próprio (96). unido ao qual. Senhor. em Cristo. glorificado com o Pai e o Espírito Santo. alguns fizeram da natureza humana de Cristo uma espécie de sujeito pessoal. que devemos reconhecer em duas naturezas. mas porque dela recebeu o corpo sagrado. como tal. nosso Senhor Jesus Cristo. Vos dignastes. mas também os sofrimentos (97) e a própria morte: «Aquele que foi crucificado na carne. que é nosso Senhor Jesus Cristo.

52) e também teve de Se informar sobre o que. mas pela sua união com o Verbo. Como tal. a Igreja confessou que o Filho eterno assumiu também uma alma racional humana (104). fazendo-Se homem. ao mesmo tempo. semelhante a nós em tudo. não absorvida» (101). Foi por isso que o Filho de Deus. Contra este erro. que o Filho de Deus assumiu. na união misteriosa da Encarnação. excepto no pecado» (103). em Cristo. pôde aceitar «crescer em sabedoria. o Verbo tinha ocupado o lugar da alma ou do espírito. na condição humana. Apolinário de Laodiceia afirmava que. 473. estatura e graça» (Lc 2. no decorrer dos séculos. Isso correspondia à realidade do seu abatimento voluntário na «condição de servo» (106). a mesma Igreja teve de lembrar repetidamente que a natureza humana de Cristo pertence. 472. em primeiro . à pessoa divina do Filho de Deus que a assumiu. conhecia e manifestava em si tudo o que é próprio de Deus» (108). paralelamente. Nascido da Virgem Maria. Cristo exprime humanamente os costumes divinos da Trindade (102): «O Filho de Deus trabalhou com mãos humanas. o Filho de Deus comunica à sua humanidade o seu próprio modo de existir pessoal na Santíssima Trindade. Portanto. tanto na sua alma como no seu corpo. «a natureza humana foi assumida. Exercia-se nas condições históricas da sua existência no espaço e no tempo. com as suas operações de inteligência e vontade. Uma vez que. Mas. este não podia ser por si mesmo ilimitado. depende de «um da Trindade».IV. tornou-Se verdadeiramente um de nós. agiu com uma vontade humana. como própria. Mas. pensou com uma inteligência humana. a Igreja. é dotada de um verdadeiro conhecimento humano. e do corpo humano de Cristo. não por si mesma. É o caso. deve aprender-se de modo experimental (105). Como é que o Filho de Deus é homem 470. E assim. amou com um coração humano. este conhecimento verdadeiramente humano do Filho de Deus exprimia a vida divina da sua pessoa (107). Esta alma humana. Tudo o que Ele fez e faz nela. foi levada a confessar a plena realidade da alma humana. «A natureza humana do Filho de Deus. A ALMA E O CONHECIMENTO HUMANO DE CRISTO 471.

«venera nela a pessoa nela representada» (120). não opostas mas cooperantes. No VII Concílio ecuménico (118). «Deus que. podem ser venerados porque o crente que venera a sua imagem. a Igreja reconheceu como legítimo que ele fosse representado em santas imagens. Pela sua união com a Sabedoria divina na pessoa do Verbo Encarnado. 477. de tal modo que. a Igreja sempre reconheceu que. no seu conhecimento humano. O VERDADEIRO CORPO DE CRISTO 476. no sexto Concilio ecuménico. da ciência dos desígnios eternos que tinha vindo revelar (111). não ter a missão de o revelar (113). A VONTADE HUMANA DE CRISTO 475. em obediência ao Pai. noutro ponto. de maneira que o Verbo feito carne quis humanamente. sem fazer resistência nem oposição em relação a ela. assumindo uma verdadeira natureza humana. divinas e humanas. do conhecimento íntimo e imediato que o Filho de Deus feito homem tem do seu Pai (109). as particularidades individuais do corpo de Cristo exprimem a pessoa divina do Filho de Deus. em plenitude. De igual modo. Com efeito. O que neste domínio Ele reconhece ignorar (112) declara. no corpo de Jesus.lugar. O CORAÇÃO DO VERBO ENCARNADO . 474. a Igreja confessou. que Cristo possui duas vontades e duas operações naturais. pintados numa imagem sagrada. O Filho também mostrava. o rosto humano de Jesus pode ser «pintado» (117). Ao mesmo tempo. a clarividência divina que tinha dos pensamentos secretos do coração dos homens (110). o conhecimento humano de Cristo gozava. tudo quanto decidiu divinamente com o Pai e o Espírito Santo para a nossa salvação (114). Este fez seus os traços do seu corpo humano. Uma vez que o Verbo Se fez carne. Portanto. por sua natureza. era invisível. o corpo de Cristo era circunscrito (116). tornou-Se visível aos nossos olhos» (119). A vontade humana de Cristo «segue a sua vontade divina. antes estando subordinada a essa vontade omnipotente» (115).

81. 2. 844. trespassado pelos nossos pecados e para nossa salvação (121). p. 3: TD 7. Cf. 29 (Parisiis 1876) p. São Gregório de Nissa. 4. Cf. v.710. a todos e a cada um. 83. 54. editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1973-1974). Santo Ireneo de Lião. o Sagrado Coração de Jesus. São Tomás de Aquino. 939).629. 78 (PG 45. 82.633. 4. Por esse motivo. 3: SC 199.. Cântico nas I Vésperas de Domingo: Liturgia Horarum. De Incarnatione. entregando-Se por cada um de nós: «O Filho de Deus amou-me e entregou-Se por mim» (Gl 2. 91. daquele amor com que o divino Redentor ama sem cessar o eterno Pai e todos os homens» (122). 192B). 4-5. Adversus haereses 3. 48). Lectio 1: Opera omnia. 458 (PG 25. Símbolo de Niceia: DS 125.1037 e 1129: v. 3. p. p. v. p. Símbolo de Niceia: DS 126.478. 90.866 e 980]. 3. 621.793 e 916. 496. 984.937. 545. Epistula II Cyrilli Alexandrini ad Nestorium: DS250. v. 92. v. Santo Atanasio. quo divinus Redemptor aeternum Patrem hominesque universos continenter adamat é considerado sinal e símbolo por excelência. . 87.718 e 808: v. Epistola II Cyrilli Alexandrini ad Nestorium: DS251. portuguesa: Liturgia das Horas(Gráfica de Coimbra 1983). a sua agonia e a sua paixão. 88. 20). 84. Amou-nos a todos com um coração humano. Cf. I. durante a sua vida. Cf.918 e 1032. 374 (PG 7. 80. 1079.803 e 897: v. 336. Mc 8. p. 548. p. 2-3. Epistula synodalis «Epeidê tês» ad Aegyptios: DS 130. v.669. In primo Nocturno. Concílio de Éfeso. 79. illius amoris. Jesus conheceu-nos e amou-nos.748. Concílio de Éfeso. 1 Jo 4. 89. 34. 85. 685.. Officium de festo corporis Christi. 2. Concílio de Nicéia. 86. Oratio catechetica 15. Dt 6.617.800. v. 1.. p.«praecipuus consideratur index et symbolus. 1: SC 211. p.741 e 864 [Ed. Ad Matutinas. 19. DS 150. 2 Jo 7. 1182 e 1278..

Cf. 7. II Concílio do Vaticano. Sess. Q. Cf. 55. Canon 4: DS 424. 14. Cf. . Const. Anathematismi Cyrilli Alexandrini. Ep. Cf.18. Canon 3: DS 423. v. 110. 113. 8ª. Tropário «O monoghenis»: «Horológion tò méga (Romae 1876) p. 31. past. Concílio de Calcedónia. 105. São Máximo Confessor. 95. 106. Gaudium et spes. Jo 11. Cf. Mc 14. Cf. Concílio de Éfeso.v. 1. 111. Cf. Antífona do «Benedictus» no ofício da Solenidade de Santa Maria Mãe de Deus: Liturgia Horarum. etc. 18-20. 103. Gaudium et spes. 31: 10. Ofício das Horas Bizantino. 8. Definido de duabus in Christo voluntatibus et operatianibus: DS 556-559. 109.ª. 97. 15. 9. Symbolum: DS 301-302. Const. São Leão Magno. 96. 87 (PL 54. 18. Sess. 26-30. 108. Mc 8. 22: AAS 58 (1966) 1042-1043. Canon 10: DS 432. Cf. 32. past. Act 1. 98. 33-34. Cf. São Gregório Magno. 155 (66: PG 90. Cf. 8ª. 8ª. Jo 14. 104. II Concílio de Constantinopla. II Concílio de Constantinopla. 114. Cf. Cf. 27. III Concílio de Constantinopla (ano 681). II Concílio de Constantinopla. 7. 38: 8. I. 107. 4: DS 255. 100. Epistula «Hóti tê apostolikê kathédra»: DS 149. 9-10. 36: Mt 11. Fl 2. 67: CCG10. Cf. 2: CCL138.93. etc. 840). 27. 8. 1 (Typis Polyglottis Vaticanis 1973) p. 102. Heb 4. 22: AAS 58 (1966) 1042. Mc 6. editio typica. Mc 2. São Dâmaso I. Sermão 21. Mc 13. 394 [a edição oficial portuguesa omite a versão deste texto: Liturgia das Horas (Gráfica de Coimbra 1983). 99. Jo I. 94. Jo 2. Cf. 438]: cf. p. 112. Sess. 34: etc. 192). Quaestiones et dubia. 82. 101. Sess. Cf. Sicut aqua: DS 475. 61. 25. II Concílio do Vaticano. 6.

Pio XII. 458]. Gráfica de Coimbra 1992. Mystici corporis: DS 3812. 119. Cf. Enc. 1. Enc. 121. 7ª. 34. entender o mistério dessa união sem antes entender um outro mistério: o da Encarnação. Canon 4: DS 504. Definitio de sacris imaginibus: DS 601. Cf. p. 120. 122. III Concílio de Constantinopla (ano 681). p. Não é possível.115. Prefácio do Natal II: Missale Romanum. 118. Jo 19. Act. Gl 3. Existem duas naturezas: humana e divina.vatican. editio typica (Typis Polyglottis Vaticanis 1970). uma distância intransponível entre o homem e Deus. Definitio de sacris imaginibus: DS 600-603. 116. Concílio de Nicéia. Fonte: http://www. ID.18ª. Entre uma e outra há um abismo. Sess. Concílio de Nicéia (ano 787). Act.. Haurietis aquas: DS 3924: cf. Tal distância já existia antes . 117. Concílio de Latrão (ano 649). porém. Definitio de duabus in Christo voluntatibus et operationibus: DS 556.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap2_422682_po.htm O QUE É A UNIÃO HIPOSTÁTICA? O termo técnico “união hipostática” é usado em teologia para se referir à forma como Deus e a humanidade estão unidos em Jesus Cristo. 396 [Missal Romano. Cf.7ª.

e este somente a aumentou. peruca. seja um só o Senhor Jesus Cristo e. mas as duas realidades continuam distintas. o que foi feito de maneira inseparável. uma única e a mesma seja a pessoa da verdadeira divindade e da verdadeira . Desse modo. agora estão unidos. A Sua glória é tamanha que se ela se manifestasse plenamente as criaturas se diluíriam em Deus. Não é errado dizer que sozinho o ser humano jamais chegará até Deus. chapéu. mas substancial. portanto. como se Deus assumisse a humanidade como uma pessoa coloca acidentalmente brincos. A humanidade de Cristo tem como substrato a pessoa do Verbo Eterno. Não se trata de uma união acidental. só resta clamar misericórdia e pedir a Deus que venha. É impossível e qualquer esforço humano nesse sentido é semelhante à Torre de Babel. No entanto. É possível dizer também que Ele é o próprio casamento. cachecol… Não. Ela permanece. A palavra “hipóstases” em grego é usada para designar “pessoa”. pois isso seria insuportável para a humanidade. Deus veio ao encontro do homem. Assim. desde aquele início no qual o Verbo se fez carne no útero da Virgem. pois naquele. Os que estavam infinitamente separados. portanto. os dois se tornam uma só carne. em Jesus. Ele veio. de fato. mas percebemos pela qualidade das obras que cada coisa seja própria de cada forma… Embora. todavia não confundimos. a união entre Deus e o homem não se dá de forma acidental. mas não de modo que a humanidade desapareça.do pecado original. A distância entre Criador e criatura faz parte da natureza das coisas. Deus resolveu esse problema se encarnando no seio de Maria. de tal forma que em Jesus Cristo a humanidade e a divindade estão unidas numa espécie de casamento. magnífica e poderosa não poderia simplesmente “aparecer”. pelo fato de Deus ser uma realidade tão portentosa. existe um só Filho: Deus e homem ao mesmo tempo. não somente o Esposo. Não seria possível ao homem suportar tão grande majestade. Ao homem. A analogia é perfeita. nele. por mistura alguma. pois recorda que se trata de uma relação substancial. jamais tenha existido entre as duas formas divisão alguma e durante todas as etapas do crescimento do corpo as ações sempre tenham sido de uma única pessoa. Ele é o casamento entre Deus e o homem. ainda que empreenda os maiores esforços. Uma das pessoas da Santíssima Trindade (o Filho) se fez homem. Conforme afirmado pela Igreja desde o Concílio de Calcedônia: Se bem que. porém. é mais forte que o termo latino “persona”.

humanidade. como diz o Doutor dos gentios. O mistério da união hipostática se reverte em graça santificante para a humanidade. (DH 317 e 318) A união entre as duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo é substancial.org/episodios/o-que-e-a-uniao-hipostatica . pois. pela humanidade de Cristo pôde ser também ela unida à divindade. mesmo que de modo acidental. Trata-se de uma graça incomensurável de Deus para com sua criatura que jamais seria capaz de transpor o abismo que a separa de seu Criador de quem tudo brota e de onde vem a salvação. se refere àquela forma que devia ser enriquecida com o aumento de tão grande glorificação. Fonte: https://padrepauloricardo. Deus o exaltou e lhe deu um nome que supera todo nome. compreendemos todavia que a exaltação com a qual.

Após as indagações envolvendo a Trindade. no século IV. resolvidas pelos .CONCÍLIO DE CALCEDÔNIA O que ditou o rumo das discussões teológicas no século V foi a Cristologia.

Nesta reunião. Cirilo “carregou nas tintas” e. colocando o monofisismo sob a proteção do poder real. O sucessor de Cirilo no patriarcado de Alexandria. a Sua divindade. Para explicar que “em Jesus havia uma natureza”. não atendeu ao apelo do Papa. quando tomou consciência das circunstâncias em que se deu a reunião de Éfeso. no fervor de defender a fé contra os nestorianos. no entanto. a parte de Istambul . em uma expressão infeliz. Dois extremos foram escolhidos pelos hereges: ou se separavam totalmente as duas naturezas. enfim. a ponto de elas ficarem justapostas. além de sua própria reabilitação. Consciente da gravidade do problema. no ano de 431.Concílios de Niceia e Constantinopla. por exemplo –. Com a morte de Teodósio. sobem ao poder sua irmã Pulquéria e seu cunhado Marciano. Leão pediu ao imperador Teodósio II que convocasse um Concílio. outros. Eutiques. na verdade. outros advogavam uma espécie de mistura das naturezas. monge de Constantinopla. explanando a fé católica e condenando com clareza os erros de Eutiques –. Esse deslize de Cirilo deu origem à heresia monofisita. conseguiu acesso junto à imperatriz Eudóxia e ao imperador Teodósio II. que teve alguns de seus escritos definidos como dogmáticos. ressuscitaram a heresia do apolinarismo. o heresiarca conseguiu mais uma condenação do nestorianismo – ainda defendido por Teodoreto de Cirro. foi condenada pelo Concílio de Éfeso. A heresia nestoriana. que a divindade se esvaziara na humanidade. Ao revés. convocando um Concílio para a cidade de Calcedônia – hoje. “como uma gota de mel diluída no oceano”. patriarca de Constantinopla. e outros. em Éfeso. São Leão Magno – que já havia escrito uma carta a Flaviano [1]. de modo a uma absorver a outra. Dióscoro. O Papa da época. chamou-a de “concílio de ladrões”. Infelizmente. sendo monofisita. No entanto. Flaviano. em um ato de coragem. conseguiu do imperador Teodósio II a convocação de um concílio. que. Eutiques. sobressaiu-se a figura de São Cirilo de Alexandria. no ano de 449. o que era para ser um concílio se revelou um verdadeiro conciliábulo: a confusão instalou-se entre os presentes e o patriarca de Constantinopla acabou agredido e assassinado. ainda. defensor da fé católica. escreveu que em Jesus havia “μία φύσις – uma natureza”. reuniu alguns bispos e condenou Eutiques. uns diziam que a divindade tomara posse da humanidade. que adotou a primeira postura. decidem atender ao pedido do Sumo Pontífice. mas ele. tornou-se adepto desta heresia e um de seus discípulos. que dizia que a “alma” de Jesus era. os cristãos se depararam com outra questão: como as naturezas divina e humana se relacionavam em Cristo. novamente por influências políticas. ou se juntavam demais. Neste Concílio.

“ομοούσιος ημιν – consubstancial a nós”. Os dois primeiros advérbios refutam o monofisismo e os dois últimos refutam o nestorianismo. immutabiliter. sem divisão. distintas. 451: Símbolo de fé de Calcedônia: DS 300-303 Fonte: https://padrepauloricardo. como acontece no panteísmo hegeliano. A fé cristã é uma coisa totalmente diferente disso: ela crê na comunhão do homem com Deus. 22 out. Ali. e. exclamaram. Essas noções teológicas também são importantes para estudar e compreender uma série de dogmas cristãos. ou tudo se tornaria Deus. por exemplo. ao mesmo tempo. n’Ele. como acontece no materialismo marxista. se em Cristo houvesse duas naturezas separadas –. 13 jun. abismados com a sabedoria e a precisão teológica do Papa. o Concílio de Calcedônia é de uma importância fundamental para a fé católica. Por que esses conceitos são tão importantes? Por causa de suas consequências soteriológicas: se o nestorianismo vencesse – ou seja. O símbolo de fé de Calcedônia [2] estabelece com bastante clareza a relação entre a divindade e a humanidade de Cristo: Ele é “ομοούσιος τω πατρι – consubstancial ao Pai”. pois o abismo entre Deus e o homem continuaria existindo. Portanto. sem mudança. A pessoa de Maria Santíssima também se relaciona em grande parte com esta realidade. sem se separarem. através da união hipostática de Cristo. 449: DS 290-295 2. ao bispo Flaviano de Constantinopla (“Tomus [I] Leonis”). sem separação”. há “uma só pessoa” (πρόσωπον) e “uma só hipóstase” (υπόστασιν). Por isso. Referências 1. também. e as suas duas naturezas se relacionam “inconfuse.org/aulas/historia-do-concilio-de-calcedonia . Carta Lectis dilectionis tuae. compreender o sacerdócio. uma das duas naturezas se teria aniquilado – ou Deus desapareceria. 5ª sessão. sem se confundirem. mas. em Cristo há duas naturezas: unidas. seiscentos bispos reunidos ouviram a leitura do Tomus ad Flavianum.que fica na Ásia –. se o monofisismo tivesse prevalecido. Não é possível. inseparabiliter – sem confusão. no ano de 451. em uníssono: “Pedro falou por Leão”. indivise. não haveria salvação. senão como participação no mistério da união hipostática.

vazia também é a vossa fé. Encontra-se aqui o fecho da abóbada da cristologia paulina: tudo gira em volta deste centro gravitacional. quase um axioma prévio (cf. e o que é usado nas primeiras comunidades cristãs prépaulinas. mas está ao serviço da verdade transmitida. Com estas fortes palavras da primeira Carta aos Coríntios. ao serviço do facto real de Cristo. 1 Cor 15.. . O mistério pascal consiste no facto de que aquele Crucificado "ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras (1 Cor 15.l PAPA BENTO XVI AUDIÊNCIA GERAL Praça de São Pedro Quarta-feira. eis o que pregamos" (1 Cor 15.. vazia é a nossa pregação. da ressurreição. São Paulo atribui muita importância à formulação literal da tradição. 12). e que assim manifestou o amor imenso de Deus pelo homem. ressuscitou e está vivo entre nós. realça bem o nexo entre "receber" e "transmitir". com base no qual Paulo pode formular o seu anúncio (querigma)sintético: Aquele que foi crucificado. do anúncio para todos os crentes e para todos os que anunciarem a ressurreição de Cristo. A ressurreição é um acontecimento fundamental. O querigma dos Apóstolos preside sempre à reelaboração pessoal de Paulo. A tradição à qual se refere é a fonte da qual haurir. do modo como Paulo o formula. qualquer sua argumentação parte da tradição comum. no final do trecho em questão ressalta: "Tanto eu como eles. 14. E assim São Paulo oferece um modelo para todos os tempos sobre como fazer teologia e como rezar. 4) assim afirma a tradição protocristã. Aliás permaneceria uma tragédia.17). É importante compreender o vínculo entre o anúncio da ressurreição. na qual se expressa a fé partilhada por todas as Igrejas. De facto. A originalidade da sua cristologia nunca é em desvantagem da fidelidade à tradição. Sozinha. ainda estais nos vossos pecados" (1 Cor 15. 11). 5 de Novembro de 2008 São Paulo (11) A importância da cristologia . Todo o ensinamento do apóstolo Paulo parte do e chega sempre ao mistério d'Aquele que o Pai ressuscitou da morte. dando assim relevo à unidade doquerigma. da Cruz. o pregador não cria novas visões do mundo e da vida. O texto sobre a ressurreição. O teólogo. a Cruz não poderia explicar a fé cristã. contido no cap. com grande respeito e atenção.A decisividade da ressurreição Queridos irmãos e irmãs! "Se Cristo não ressuscitou. 15. neste acontecimento está a solução para o problema apresentado pelo drama da Cruz. Nele pode-se ver a importância da tradição que precede o Apóstolo e que ele. que são uma só Igreja. indicação do absurdo do ser. deseja por sua vez transmitir. 1-11 da primeira Carta aos Coríntios. São Paulo faz compreender que importância decisiva ele atribui à ressurreição de Jesus.

1516. 6). que diz respeito a seu Filho. à distância de dois mil anos? A afirmação "Cristo ressuscitou" é atual também para nós? Por que a ressurreição é para ele e para nós hoje um tema tão determinante? Paulo responde solenemente a esta pergunta no início da Carta aos Romanos. de novo e. portanto. 5. Paulo sabe bem e diz muitas vezes que Jesus era Filho de Deus sempre.. mas também com uma luz interior que estimula a reconhecer o que os sentidos externos afirmam como dado objectivo. marcado por sinais muito claros. Naquela manhã de Páscoa aconteceu algo de extraordinário. O Jesus humilhado até . não se preocupa em apresentar uma exposição doutrinal orgânica não quer escrever um manual de teologia mas enfrenta o tema respondendo a dúvidas e perguntas concretas que lhe eram apresentadas pelos fiéis. A primeira consequência. tornados justos. Mas podemos perguntar-nos: qual é. está diante do Sinédrio como acusado. ao anunciar a ressurreição. 1 Cor 9. ou o primeiro modo de expressar este testemunho.. segundo as antigas palavras. A novidade da ressurreição consiste no facto de que Jesus. 9 s. sem o qual a vida cristã seria simplesmente absurda. estabelecido Filho de Deus com poder pela sua ressurreição dos mortos" (Rm 1. o sentido profundo do acontecimento da ressurreição de Jesus? Que nos diz. um discurso ocasional. 1 Ts 1. Tratase de ver e de sentir não só com os olhos ou com os sentidos. registrados por numerosas testemunhas. chegará às gerações sucessivas. onde começa referindo-se ao "Evangelho de Deus. Gl 1.A sua tarefa é ajudar-nos a compreender hoje. ele indica qual é o sentido e o conteúdo de toda a sua pregação: "É pela nossa esperança. até nós. mas cheio de fé e de teologia vivida. 3). é constituído Filho de Deus "com poder". a ressurreição está ligada ao testemunho de quem fez uma experiência direta do Ressuscitado. a ressurreição dos mortos. 1). desde o momento da sua encarnação. Sobressai antes de tudo o facto da ressurreição. Paulo faz isto em diversas ocasiões: podem-se consultar as Cartas dos Atos dos Apóstolos onde se vê sempre que o ponto essencial para ele é ser testemunha da ressurreição. 13-18. que estou a ser julgado" (At 23. Estes dois factos são importantes: o túmulo está vazio e Jesus apareceu realmente. salvos. as quais são a condição fundamental para a fé no Ressuscitado que deixou o túmulo vazio. elevado da humildade da sua existência terrena. como para os outros autores do Novo Testamento. portanto a realidade da verdadeira vida. nascido da estirpe de David segundo a carne. Constituiu-se assim aquela cadeia da tradição que. ao mesmo tempo. de muito concreto.. Nesta circunstância na qual está em questão para ele a morte ou a vida. 10). Portanto Paulo como os quatro Evangelhos dá importância fundamental ao tema das aparições. É oportuno esclarecer: São Paulo. feito prisioneiro em Jerusalém. pelo Cristo morto e ressuscitado por nós. Também para Paulo. é pregar a ressurreição de Cristo como síntese do anúncio evangélico e como ponto culminante de um itinerário salvífico. para São Paulo. ao seu encontro pessoal com Cristo ressuscitado (cf. a realidade do "Deus conosco". Paulo repete continuamente nas suas Cartas esta mesma frase (cf. ou seja. através do testemunho dos Apóstolos e dos primeiros discípulos. Nele encontra-se uma concentração sobre o essencial: nós fomos "justificados". nas quais faz apelo também à sua experiência pessoal. Gostaria de citar só um texto: Paulo. 4.

viver a verdade e o amor obriga a renúncias todos os dias. a morte não tem mais domínio sobre ele" (Rm 6. que anuncia aquela plena configuração com Ele mediante a ressurreição pela qual aspiramos na esperança. 2 Cor 5. porque viver a fé expressa a coragem de enfrentar a vida e a história mais em profundidade. 9. revela-se no mistério da ressurreição. uma relação que se revela plenamente no acontecimento pascal. Em síntese. 18-23). Portanto. este novo Reino que não conhece outro poder a não ser o da verdade e do amor. Contudo só assim. 15) ou. podemos dizer com Paulo que o verdadeiro crente obtém a salvação professando com a sua boca que Jesus é o Senhor crendo com o seu coração que Deus ressuscitou dos mortos (cf. Começa portanto com a ressurreição o anúncio do Evangelho de Cristo a todos os povos começa o Reino de Cristo. e eu te darei as nações como herança". da nossa redenção e ressurreição (cf. que Jesus ressuscitou para ser o Senhor dos mortos e dos vivos (cf. Tudo isto está repleto de importantes consequências para a nossa vida de fé: nós somos chamados a participar até ao íntimo do nosso ser em toda a vicissitude da morte e da ressurreição de Cristo. também nós gememos na expectativa da redenção do nosso corpo. mas não é suficiente . 10-11. 9). experimentando o sofrimento. a ressurreição que de certa forma já está presente e ativa em nós (cf. agora o título de Filho de Deus ilustra a íntima relação de Jesus com Deus. 8-12). a sofrimentos. 18). Realiza-se o que diz o Salmo 2. na sua beleza. A ressurreição e a extraordinária estrutura do Crucificado. 25). Ef 2. Isto traduz-se numa partilha dos sofrimentos de Cristo. por outras palavras. Enquanto o título de Cristo. 6). Santo Agostinho diz: Aos cristãos não é poupado o sofrimento. conhecemos a vida na sua profundidade. 14. conhecer o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos. cf. já não morre. o nosso Salvador (cf. a eles cabe um pouco mais. É antes de tudo importante o coração que crê em Cristo e na fé "toca" o Ressuscitado. portanto. mas iluminada pela luz de Cristo e pela grande esperança que nasce d'Ele. Diz o Apóstolo: "morremos com Cristo" e cremos que "viveremos com Ele. aliás. isto é de "Messias". mas antes uma escalada exigente. cuja experiência pessoal é descrita nas Cartas com tons tão prementes quanto realistas: "para conhecê-lo. na grande esperança suscitada por Cristo crucificado e ressuscitado. 2 Tm 2. Rm 10.à morte de cruz pode agora dizer aos Onze: "Foi-me dada toda a autoridade sobre o céu e sobre a terra" (Mt 28. 8: "Pede. 89). ainda mais do que na encarnação. a urgência de se inserir naquele processo que leva todos e tudo à plenitude. Cl 3. A teologia da Cruz não é uma teoria é a realidade da vida cristã. E o que aconteceu também a São Paulo. O cristianismo não é o caminho do conforto. uma vez ressuscitado de entre os mortos. para ver se alcanço a ressurreição de entre os mortos"(Fl 3. por outro. em São Paulo tende a tornar-se o nome próprio de Jesus e o do Senhor especifica a sua relação pessoal com os crentes. Uma dignidade incomparável e elevadíssima: Jesus é Deus! Para São Paulo a identidade secreta de Jesus. sabendo que Cristo. Rm 14. Viver na fé em Jesus Cristo. descrita na Carta aos Romanos com uma imagem ousada: assim como toda a criação geme e sofre como que dores de parto. Podese dizer. conformando-me com ele na sua morte. Rm 4. "Ungido". Rm 8. o crente encontra-se situado entre dois pólos: por um lado.

o cristão insere-se naquele processo graças ao qual o primeiro Adão. Este processo foi iniciado com a ressurreição de Cristo. Amparados por esta esperança prossigamos com coragem e com alegria. terrestre e sujeito à corrupção e à morte. 20-22. o celeste e incorruptível (cf. com a nossa vida. tornando assim presente a verdade da cruz e da ressurreição na nossa história. 1 Cor 15.vatican.42-49). Assim. Fonte:https://w2.html . vai-se transformando no último Adão.va/content/benedictxvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20081105. de facto. na qual se funda portanto a esperança de podermos um dia também nós entrar com Cristo na nossa verdadeira pátria que está nos Céus.trazer a fé no coração. devemos confessá-la e testemunhá-la com a boca.