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Foucault e o Anarquismo

Salvo Vaccaro

Coletivo
SABOTAGEM
http://www.sabotagem.cjb.net/

A Teoria Crítica de Horkheimer. Michel Foucault. um tipo de reflexão: o uso do pensamento como uma “caixa de utilidades” de onde se deve retirar aquilo que serve em um momento oportuno. almoçavam juntos com freqüência. Muitas vezes em mesas de dez pessoas. Juntamente aos pensadores da Escola de Frankfurt . Afastando todo academicismo. principalmente no que diz respeito a uma ampla tradição histórica? Qual acepção dada à expressão “anarquista de esquerda”. Milão. . uma utilização anarquista do texto teórico. mas ainda hoje esta específica formação preliminar me dá a oportunidade. permaneceu em mim indelevelmente colocado um estilo de leitura.. Faziam longas caminhadas pelas ruas do centro histórico.. que não negue a prática. sobretudo. por vezes na companhia de colegas da faculdade de filosofia.) E ainda assim eram muitas as diferenças entre os dois professores. em contraposição à idéia de um “anarquista de direita” (para além da pessoa em questão)? Será somente uma afinidade eletiva para com o herético. e os seus artigos na coletânea Microfisica do Poder. a sua história do nascimento da prisão. em primeiro lugar.textos como O Homem Unidimensional de Herbert Marcuse. que me fosse concedida uma motivação autobiográfica. Acima de tudo. trad. permaneceu um homem de esquerda. 1 Indícios Inéditos Obviamente li também os clássicos do pensamento anarquista. A Dialética do Iluminismo de Horkheimer e Adorno . ou seja. p. bem ou mal. Vigiar e Punir.) A distância que os separava era também considerável: Vuillemin aproximou-se gradualmente da direita. 1991. para citar o título do famoso livro de Pier Carlo Masini. assim como no passado. it. Foucault nos ensinou. de não me fossilizar no caminho traçado de Bakunin a Malatesta. sem reverências filológicas ou 1 Didier Eribon. historiador.. crítico) que me aproximou do anarquismo entre os anos 1976-77. enquanto que Foucault. acima de tudo. Discutiam muito entre si e Foucault concluía em geral com o comentário: “No fundo.Michel Foucault é o autor (filósofo. Michel Foucault tomou-se amigo de Jules Vuillemin. Gostaria. por uma autônoma construção conceitual. Leonardo. Mínima Moralia de Theodor W Adorno. o marginal. você é uma anarquista de direita e eu um anarquista de esquerda”1 De que posição Foucault pode auto-identificar-se dessa maneira? Com que grau de compreensão. o anômalo? São estas as questões que tentaremos compreender ao longo deste artigo. uma curiosidade de pesquisa..Introdução “Nos dois primeiros anos de vida em Clermont (60-62). (. (. 174. cada vez que apareça a necessidade de um sustentáculo para firmar o caminho tomado por uma reflexão.

ILA Palma/ Associate. para ser preciso) . BFS. declaradamente anarquista. 223. em relação ao qual o movimento sempre ostentou uma certa desconfiança . Foucault não cita o anarquismo durante a conversa. maturar um processo de deslizamento do pensamento em direção a indícios inéditos. e promoveu a publicação. intitulada exatamente "Dits et Ecrits” organizada por Daniel Defert e François Ewald. 30/9/1980. 8 Noam Chomsky . it. mas sim de Foucault. A partire da Foucault. L’immaginazione dell’Ottocento. Pisa. Por exemplo. Sorvegliare e Punire (1975). entre outras coisas. junto às edições Biblioteca Franco Serantini de Pisa. Não há limites intransponíveis. Palermo. seu professor e estudioso de epistemologia)5. Godzilla de Livorno. 4 vol. Apesar de discordar das posições políticas de Chomsky. 1981182.1970-1982. assim. com o qual teve uma conversação em 1971 em um colégio holandês (em Eindhoven) intermediado pelo anarquista Fons Elders8. Apesar disso. trad. Paris. nem mesmo como pano de fundo ou ponto de polêmica. nº. 1993. mas sim em um presente no qual seja possível atirar as flechas de uma crítica genealógica (de acordo com uma feliz imagem de Habermas) que encontre.. e de Kropotkin (uma citação das Confissões de um Revolucionário. e Resumés de Cours . p. artigos e entrevistas.recordo-me de minha desavença para com Mássimo La Torre em Umanità Nova (nº. 1994.que hoje não haveria existido graças à atividade do CSOA. em horizontes antes velados. La Zisa. in Diacritics. famoso compositor)4 . 19 de 21/5/1978 e nº. 197 1. Giustizia e Natura Umana. que organizou. 206 6 Michel Foucault. in Barbarie. Foucault cita uma só vez o nome de Bakunin (ao fazer uma conexão com Wagner. Foucault não a vislumbra em um amanhã palingenético de liberdade adquirida em sua plenitude. era comum repetir). I. Gallimard. . 1994. Tornase possível. 3. das relações anuais dos cursos acadêmicos sobre Foucault no Collège de France (cátedra de História dos Sistemas de Pensamento. no meio de 2 Respectivamente. p. ít. Turim. 4 Michel Foucault. entre livros. em um artigo sobre a versão do Anel de Nibelungo apresentada por Pierre Boulez. escancarando vínculos de compatibilidade que refletem-se no campo do próprio pensamento. 4-5. Monstrosities in Criticism. 3 É recente a coleção completa. publicou as atas da primeira. in Corriere della Sera. nº. mencionamos uma entrevista de 1970 na neo-Universidade de Vincennes. como demonstra a utopia. A auto-identificação de Foucault como “anarquista de esquerda” não deve nos enganar: indica menos um reconhecimento de pertencimento a uma identidade a ser revelada que uma tensão na direção que chamaria posteriormente de “insurreição dos saberes sujeitos. enfrentando o conteúdo do pensar e as condições sóciohistóricas dentro das quais torna-se possível pensar uma coisa e não uma outra. Além disso. nº. Palermo/Roma. assinalada por Georges Canguilhem. Studi su Potere e Soggettività. compreendem os "ditos e escritos”3. hoje.” De resto. 1. En passant. 1976. 7 Michel Foucault. 1994. organização de Salvo Vaccaro. sem respeito pela autoridade do Nome (“O que importa quem fala?”. algumas reuniões delicadas ao autor francês. e um outro conhecido anarquista Noam Chomsky. 28 de 30/7/1978. nas milhares de páginas que. organização de Andrea Grillo. Mas não é deste último que se pretende fazer a história de uma possível relação com o pensamento anarquista. dinâmicas de subtração e liberação das relações de poder dominantes.formalismos sistemáticos. quando Foucault. Foucault conhece certamente os intelectuais Etienne de La Boétie6 e Pierre Clastres7 . criada pelo próprio em 1970)2. As Malhas do Poder (1976). trad. Einaudi. há raros traços de anarquismo e anarquistas. 5 Michel Foucault.Michel Foucault.

uma polêmica dirigida contra os docentes de filosofia de esquerda. além de percorrer o caminho histórico do nascimento das prisões. Loriot. de tradição maoísta.e também estava ligado ao movimento da antipsiquiatria de Basaglia. mas não concordo com vocês quando dizem que os revolucionários procuram tomar o poder”12. recorda como também no início do século era censurado aos docentes de filosofia “divulgar idéias anarquistas”9.. 12 Ibidem." No que diz respeito mais especificamente ao anarquismo. 2 "Não sou Anarquista na medida em que. ou 9 Le Piège de Vincennes. 11 Ibidem p. erudita de um pensamento hippie. dando ênfase a este último. eu seria muito mais anárquico quanto a isso.” Na aula de 7 de janeiro de 1976. Costuma-se dizer que eu não sou anarquista na medida em que não admito essa concepção totalmente negativa do poder. p. Laing e outros) ao lado daquelas ligadas à justiça de classe.274. Foi dito a esse respeito que os revolucionários procuram tomar o poder. 9-15 de fevereiro de 1970. p.fazendo a distinção entre poder opressivo e poder produtivo. Foucault considerou diversas vezes o anarquismo durante o decorrer das aulas do primeiro semestre de 1976 dedicado ao tema: “Defender a sociedade. Le Nouvel Observateur.. juntamente com Félix Guattari) é hippie e anarquista . Pois bem. entrevista de P. 623-46. de Anti-Édipo. Szasz. existe uma versão. cit. La Città del Sole. 1994. em uma forma mais contemporânea”11. “Seria mais prudente analisar as condições negativas e positivas do poder.. Foucault responde a uma polêmica levantada. Napoli. se não fizesse esta distinção. que julgava não haver nada de mal com o pensamento anarquista ou hippie . organizada por Lucio D'Alessandro. verdade e a forma jurídica que Foucault ministrou de 21 a 25 de março de 1973 na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro10. La Verità e le Forme Giuridiche. 641-2. 642 10 . sobre algumas lutas da época contra a justiça e os aparatos judiciários e psiquiátricos (Foucault. alguns interlocutores pareciam ver em Foucault uma certa aversão à idéia de transformar o caráter repressor do poder em fetiche. recuperaria simplesmente uma base anarquista ou uma versão acadêmica. pois. entre outras obras. Desta conferência. No debate após as conferências. é possível recuperar uma discussão ocorrida durante algumas conferências sobre o poder. Cooper. “Eu não aprovo a análise simplista que consideraria o poder como uma coisa só. v 11. encontrável em Dits et Ecrits. nº. estava pessoalmente engajado nos GIP .Grupos de Informação sobre as Prisões . que todavia não leva à discussão ampla. italiana. sem distingui-lo do aspecto produtivo de positividade.e de acordo com um interlocutor até mesmo o pensamento do filósofo Gilles Deleuze (autor.

seria interessante investigar a plausibilidade e veracidade do anti-semitisino. Foucault denuncia a continuação de tais políticas. 170-2. nº. descrevendo algumas tipologias comuns de lutas antiautoritárias de oposições ao poder. Por parecer estravagante uniformizar os diversos socialismos dos oitocentos. quando tentaram nem tanto heroicizar a revolta dos delinqüentes como desconectar a delinqüência da legalidade e ilegalidade burguesas que a haviam colonizado. Vat-on Extrader Klaus Croissant?. 21. leis (aparentemente) mais liberais em relação àquelas da virada do século. 14 Ibidem. p. preso e finalmente expulso depois do aparecimento dos cadáveres de Baader. por ocasião da súbita extradição para a Alemanha do advogado francês Klaus Croissant. Ponte alle Grazie. que atinge apenas o anarquismo. Sorvegliare e Punire. it. in Aut Aut. tradicional terra da tolerância e de asilo por questões políticas. 2-10. anos marcados pelo “terror” dos anarquistas (no duplo sentido da expressão). seja no sentido que não adiam para o futuro) ligadas aos “efeitos do poder enquanto tais” (cf. Em 1983. 15 Michel Foucault. quando pensaram poder reconhecer nela a forma mais combativa de recusa à lei. Foucault aqui retorna de forma mais detalhada. Foucault lembra aquelas que "se relacionavam de forma precisa à temática anarquista”13. a convenção européia de 1957 e. refugiado na França por asilo político. quando o anarquismo estava ligado à política da ilegalidade delinqüêncial da segunda metade do século XIX. p. incluindo a Comuna)14. 16 Michel Foucault. inspiradas nas indicações de Reich e Marcuse. 205. ou seja. que Foucault terminou seu livro sobre a prisão: as polêmicas e as discussões desenvolvidas na primeira metade do século “serão despertadas pelo eco de resposta aos anarquistas quando. Denunciando a traição da França. sem prová-la ou verificá-la através das cabeças da época. Perché Studiare il Potere: La Questione del Soggetto. Firenze. especialmente p. cit. incluindo aquelas fourierianas e anarquistas (até o caso Dreyfus. 1985. Ao final do ciclo de 12 aulas. Meinhof e companheiros16 . “imediata” (seja no sentido que atingem o aspecto do poder mais próximo aos indivíduos. A transcrição das lições mostra as argumentações da tese foucaultiana.14-20/11/1977.aquelas de fundo psicanalítico.. impedido de exercer sua profissão e acusado de cumplicidade com a RAF.. quando quiseram restabelecer ou constituir a unidade política das ilegalidades populares”15. em geral. . apesar de nesse meio-tempo terem-se constituído as Declarações dos Direitos do Homem de 1948. p. no dia 17 de março de 1976. in Le Nouvel Observateur. esclareceu “transversais”. Foucault recupera as origens das medidas de repressão nos acordos dos governos entre os séculos XIX e XX. trad. Foucault voltou ao tema do anarquismo em novembro de 1977. na segunda metade do século XIX. 323. Difendere la Società. 13 Michel Foucault. Foucault enfrentou de forma problemática o “componente racial” (e também racista) das diversas formas de socialismo francês do século XIX. 5). nº. p. 1990. “lutas anárquicas”. colocaram o problema político da delinqüência tomando como ponto de ataque o aparato penal. 3 Vigiar e Punir É mais ou menos neste período. 679.

Dits et Ecrits. de outro. Foucault revelou em um certo momento como uma certa esquerda francesa e européia tenha se esclarecido com o subproletário. Falando em 27 de abril sobre a “filosofia analítica da política”. na Sociedade Francesa de Filosofia. 17 Michel Foucault. 2. mesmo não sendo esta sua perspectiva18. p. cit. Bulletin de la Socíété Française de Philosophie. especialmente p. que “acaba sendo verdade que há duas grandes famílias ideológicas que jamais conseguiram entender-se: de um lado. Enfim. nota Foucault. dessa vez de especialistas. já que a tradução para o japonês de Vigiar e Punir e A Vontade de Saber suscitou um grande interesse. 36-9. p. enquanto outra tenha tomado partido do proletariado. Foucault deu uma conferência entitulada “O que é a crítica?”. detémse na base do “anarquismo fundamental”. De l'Ethique comme Esthétique de L’existence. pode-se dizer que estas lutas são anarquistas. 18 . especialmente p. E quando os entrevistadores arriscaram fazer um paralelo com o “anarquismo libertário”. aceita e reconhecida como infinitamente aberta”17. Foucault não esclarece se de fato o sabia. 546. Magazine Litéraire. não se trata de colocar em prática os princípios leninistas da aliança mais fraca ou do inimigo mais importante. em frente a um auditório. Foucault. 38. Michel Foucaul. ou seja. Eu não as quero. sessão de 27 maio de 1978. LXXXIV . define o anarquismo. em 1978. Foucault replicou: “É o que vocês gostariam que fosse. cit. eu não me identifico com os anarquistas libertários. Foucault deu algumas conferências sobre o poder. nº. especificamente quanto ao estilo de vida e preferências sexuais.Em uma tournée pelo Japão. “o desaparecimento das classes ou do definhamento do estado” que possam ser delegados como “a solução dos problemas”. renegando uma potencial solidariedade. Foucault em um certo momento toca um exemplo bem atual para o público local: o embate popular contra a construção do novo aeroporto de Tokio em Narita. 325. afirma simplesmente que “não o excluía em absoluto”.. inscrevendo-se em uma história imediata. “com relação a uma hierarquia teórica de motivações ou a uma ordem revolucionária que polarizaria a história e que articularia hierarquicamente os momentos. nº. os anarquistas. 59. em 27 de maio de 1978. Naquelas lutas. recentemente recordou tal momento Wilhelm Schmid. por solicitação de um ouvinte. “São lutas imediatas” que não remetem a um momento futuro libertador e revolucionário. outubro 1994. me nego acima de tudo ser identificado. Foucault disse com respeito a este fato. porque há uma certa filosofia libertária que acredita nas necessidades fundamentais do homem. Qu'est-ce que la Critique?.que. Exatamente um mês depois. os marxistas”. Interrogando-se sobre o governo e sobre a vontade de subtrair-se ao governo de qualquer tipo. abril-junho de 1990. em uma entrevista na Bélgica em 22 de maio de 1981 durante uma série de seis conferências na Faculdade de Direito da Universidade Católica de Louvaine. referindo-se ao Iluminismo dos dias de ouro nos séculos XVII e XVIII. p. Dits et Ecrits. Não.. 19 Michel Foucault. 664 e 667. sobre qual a motivação e o horizonte no momento de sua análise genealógica do surgimento de uma atitude crítica e de uma “vontade” de não se fazer governar . ser localizado pelo poder”19. de fato.

E devo admitir que me alegra bastante aquilo que desejam tentar” (Polemics. que no final das contas são bastante semelhantes. e assim por diante”20 Como justificar ou motivar aquela imagem dos anos 60. 376. Philosophy and non-Philosophy since Merleau-Ponty. Rorty. parece mostrar sua indiferença quanto às tentativas de rotulá-lo: “Fui considerado um tecnocrata. especialmente p. Habermas o considera como “o herdeiro anárquico” de Nietzsche. “iconoclasta” (O'Connor). Mesmo porque. Londres 1984.Andrew Arato. Cambridge. 1988. 34. in ibidem p.. pela direita. p. etc. acrescentado: “nenhuma destas imagens é importante em si. e se tanto por uma política enquanto ética.).an Interview. Na maioria das vezes. The Foucault Reader. anterior à época de seu famoso engagement político (em favor dos presos. 21 . Londres. 20 Politics and Ethic: an Interview. e Foucault. p.). seria convidado pelas universidades americanas. uma entrevista em Berkeley em 1983 (um ano antes de morrer de Aids). . como “herético”.)? Somente um típico vício intelectual? Vontade de épater la bourgeoise? Além da intenção de participar do concurso mundial para rotulá-lo. Arato. 384). assim como Heidegger representaria o herdeiro conservador). dos opositores do franquismo. agente do governo gaullista pelos democratas e pelos gaullistas. sem na verdade jamais aprofundar ou demonstrar uma atenção específica e direta. especialmente p. afirmando interessar-se fundamentalmente pela ética. Routledge. MIT Press. Racevskis. analogamente Foucault se manifesta de maneira irônica sobre as legendas políticas arregimentadas no curso dos anos. “libertário” (Sawicki). são muito mais numerosas (valorativa e qualitativamente) que as raras citações textuais dele próprio. Civil Society and Political Theory. outros esforçam-se para entrar no mérito destas posições21. 136. falamos de "erro anárquico" Jean Cohen . como foi sumariamente elaborado até agora. os seus interlocutores associam às suas obras valores “anarquistas” (por exemplo. Penguin. 1992. como um perigoso anarquista. Iconoclasta. 373 e p.Veja-se respectivamente: Tony O'Connor. Foucault parece ignorar as solicitações que lhe são feitas para que se declare politicamente. certamente um agente da KGB. cita ou mostra algum conhecimento sobre o anarquismo.4 Herético. apenas um mês antes de morrer. dos dissidentes dos países da Europa oriental. Libertário Parece-me que são somente estas as passagens em que Foucault explícita. Routledge. Em entrevista concedida a Paul Rabinow em maio de 1984. dos boat-people. até mesmo um docente americano indignou-se porque nunca um veterano marxista como eu. in Paul Rabinow (Ed. dos loucos psiquiátricos. Além disso. 136-5 1. Politics and Problematizations. significam qualquer coisa. Jana Sawicki. Enquanto algums destes autores se limitam a dar-lhe uma rotulação genérica. tomadas juntas. Hacking). Nova Iorque. em que sentido Foucault participa de uma certa idéia de anarquismo? Provavelmente a resposta não está contida em uma obra em particular: deve ser procurada em uma bibliografia de citações de anarquistas e de outras relacionadas a esse pensamento. as intervenções dos críticos e autores (alguns deles conhecidos pelo próprio Foucault) que testemunham positiva ou negativamente sobre um certo anarquismo teórico e político de Foucault. Foucault and the Transgression of Limits. Disciplining Foucault. ou até mesmo indicando uma acepção crítica/depreciativa (Cohen. de outro lado. in Hugh Silverman (Ed. 1991.

4. Um ótimo intérprete dessa teorização é sem dúvida Reiner Schürmann. Nietzsche. Negando ambos os momentos. histórica e. A ligação Nietzsche Foucault é determinada. op. 1. nº.). . Karlis Racevskis. Ian Hacking. Nietzsche e Foucault acreditam ser oportuno cortar todo elo de continuidade para que o não-ainda-existente não seja prejulgado conservando elementos do presente.). que determinam a torsão das relações sociais com base hierárquica e autoritária. que cada um encontra e herda. Trata-se de uma interpretação da possível leitura anarquista de um nietzscheanismo contemporâneo (muito francesa. especialmente p. Richard Rorty.Ora Gruengard (Eds. especialmente p.). in Philosophy and Social Criticism. que não deve deixar-se subjugar nem deve subjugar outros (diferentemente do sujeito grego da polis. de forma plausível. in Marcelo Dascal . é aquele que se autoconstitui nas lutas contra os dispositivos disciplinares de poder e analíticos da verdade. social. Westview Press. Foucault et l'Epistémologie. in Semiotexte. 22 Veja-se Terry Hoy. reelaborando Heidegger). mediada por Deleuze. O sujeito “anárquico”. 55-63. Deconstructivism. 1983. 52. p. entre outras coisas. nº. 291-315. Ithaca. 462. 1989. o elo de conjunção entre nietzscheanismo (isto é uma posição teórico-interpretativa que ultrapassa a limitada fidedignidade ao texto do filósofo alemão) e o anarquismo? Provavelmente na não utilização da dialética por parte de Nietzsche e Foucault. Lectures Critiques. de tal forma que esta última alimentase da inversão da primeira. p. in David Couzens Hoy (Ed. e das quais é necessário libertar-se sem que se tenha que especialmente p. especialmente p. especialmente p. The Infernal Recurrence of the Same: Nietzsche and Foucault on Knowledge and Power. Reiner Schürmann. cujo cidadão dominador. por sua comum impostação metodológica de pesquisa filosófica. p. Cornell U. 1986. nº. individualizando a proveniência das “palavras” e das “coisas” inerentes a este evento (querendo-se parafrasear o título de um célebre livro de Foucault). 96-107. 23 Cf. de acordo com Schürmann. Se Constituer Soi-Même comme Sujet Anarchique. 3. especialmente p. 62 (onde se encontra escrito sobre um “galanteio radical complacente”). 1989. 215. p. Nele.Um filão abre caminho para um “anarco-nietzscheanismo”22 . denominada genealogia Esta última tenta descobrir as condições materiais e discursivas de uma certo evento em sua singularidade. in David Camns Hoy (Ed. Bruxelas. homem público domina a mulher esposa no oikos). em um sentido amplo. 451-471: “O sujeito anárquico se constitui através de micro-intervenções diretas contra as configurações recorrentes da subjeção e da objetivação” (p. John Rajchman. que é elaborada pela combinação entre o uso do texto de Nietzsche e a acepção de Foucault. 39-53. Foucault esboça uma perspectiva de cura libertária do sujeito. masculino. Harry Redner. o sujeito é efeito de um duplo processo de sujeição. ou seja. P. que refaz o caminho de formação do sujeito no pensamento foucaultiano. soberano centralizador metafísico: os sujeitos constituem-se no interior de relações de saber e poder prefixadas. segundo um exercício de poder ativo e um passivo. XVI. Foucault and the Anarchism of Power. Enquanto a dialética intui uma continuidade rompida entre o existente e a utopia. 101 (“retórica de igualitarismo e libertarismo”). The Moral Ontology of Charles Taylor: contra. p. Onde pode surgir. Foucault pretende declarar a “morte do homem”. 1990. cit. 300 e 307. os quais não crêem e nem mesmo usam o método dialético (em qualquer versão em que este apareça: hegeliana. 1978. Michel Foucault. Knowledge and Politics. De Boeck-Wesmael.. 470). L'Archéologie de Foucault. que é ou não lícito por ser verdadeiro23. fixando aquilo que é possível ou não. p.. marxista e historicista) para derivar do presente aquilo que ele negou ou exclui. Michel Foucault and the Subversions of Intellect. III. in Les Etudes Philosophiques. 207-25. Boulder.

in Human Studies X. Up Against Foucault. por exemplo. já que ambos aspiram “a uma libertação anárquica do domínio”24 Hayden White compara algumas passagens de Foucault sobre a defesa do indivíduo em relação ao Estado às passagens de Albert Camus sobre o “homem em revolta”. 128. sem governo nem lei. 1987. 197). faz um paralelo entre um pretenso anarquismo sartriano e o anarquismo “niilista” de Foucault. in Caroline Ramazanoglu (Ed. 37.. Berkeley.especialmente a versão atomista de Stirner. Dallmayr.) E nesse sentido está muito próximo da idéia anarquista de uma política antiestado. 24 Kate Soper. 166..reconstituir a mais primitiva posição de soberania centralizada para poder somente então dominar e filtrar qualquer processo social e cultural. Por fim.. o primeiro “de inspiração marxista. demonstra a equivalência da “dimensão anarco-existencialista” de Foucault com a “lógica emancipativa e utópica do feminismo”. Alex Callinicos. a provocação permanente de um desafio libertário26. retomando o “anarco-nietzscheanismo”.). 26 Philíp Knee. nas quais se opõe “ao totalitarismo auspiciando a anarquia como uma adorável alternativa”25. o sujeito pode reconstituir-se somente de forma descentrada. Foucault's Discourse: The Historiography of AntiHuinanism. mas sim da qualidade dos sujeitos: na teoria de Foucault e. Is There a Future for Marxism?. Le Problème Politique chez Sartre et Foucault in LavalThéologique et Philosophique. McMillan. P. as resistências ao poder (qualquer que seja a forma destas). Routledge. especialmente p. Parece uma diferença insignificante. XL VII. p. especialmente p. 90-1. na crítica de Proudhon a Rousseau”. a semelhança entre Foucault e o utopismo socialista e anárquico. Democracy and Post-modernism. 1985. p. fevereiro de 1991. Dessa forma é entendida sua aproximação ao anarquismo “niilista” de Foucault. o distingue “dos tipos precedentes de anarquismo . in The Content of the Form. sem deixar-se recolocar no círculo mágico da sua institucionalização simbólica e jurídica. 5 Para uma Política Antiestatal Há uma outra corrente que vê em Foucault um “anarco-existencialismo”. Johns Hopkins U. 1986. p. 83-93. 29-50. 25 Hayden White. nômade. que exalta os excluídos. no sentido do anarquismo antipolítico do jovem Marx quando critica a separação da política para uma esfera distorcida da economia. ao se referir a uma multiplicidade de sujeitos”27. especialmente p. A diferença consiste no fato de Foucault e Deleuze terem substituído o sujeito individual. Retorne-se acima Fred R. . p. Baltimore. por exemplo. mas trata-se de fato não só da pluralidade. p. 27 Alex Callinicos. Londres. 1993. por sua vez. A escritora feminista inglesa Kate Soper. 143-170. bem como levavam ao extremo. 1982. Productive Contradictions. é posta em discussão por Alan Megill.. (. cuja soberania e unidade substancial Stirner e companheiros não só mantinham. como se encontra. Em relação à utopia da mudança. como por exemplo aquele de Charles Fourier. 111. University of Califomia Press. que faz notar como em Foucault não existe uma visão final de libertação ou de felicidade (Alan Megill. Prophets of extremity. Londres. Philip Knee. 1. p. principalmente na de Deleuze.

125-7 29 Jacques Léonard. p. além de reproduzir por inteiro a célebre idéia de Proudhon “Ser governado significa. os de Jean Grave em Les Temps Modernes. 4. judiciário. Quase como resposta. 17 e 18 e p.. nem uma harmonia possível”31. ou seja é uma ironia infinita muitas vezes próxima a um gélido niilismo”30. A possibilidade que cada um tem de traçar o trajeto da própria existência. op. “a sua política anárquica”. 1988. ancorada em Urs Marti. Lo Storico e il Filosofo.. it. 657. deve-se falar de crenças anárquicas mais que liberais (. mas ético. 3. Rizzoli. Beck. médico. portanto. Frankfurt.”. 20 e notas.. X. mas sim como obra de arte: a vida como criação estética individualizada que comunica. 255. Urs Marti. entretanto. Limpossibile Prigione. cit.Wolfgang Essbach também estabelece orna ligação Stirner-Foucault... policial. in Michelle Perrot (Organização). se a posição foucaultiana consiste “em uma anarcopolítica na qual tudo aquilo que não é sistemático é valorizado como subversivo. “indissociável do trabalho histórico”: “trata-se de denunciar a sutileza dos mecanismos repressivos ativados pelas classes dirigentes”32. “Na medida em que é possível atribuir uma política ao Foucault francês. LIII. trad.”. in Boundary 2. Michel Foucault. Social Research. embora seu anarquismo não presuma. que polemizou com Foucault a respeito da metodologia histórica. p. 32 Richard Rorty. não hesita em afirmar que "o autor de Vigiar e Punir situa-se na linha de pensadores políticos individualistas que criticam firmemente tais noções [de poder]. solidária e reciprocamente. à qual confronta de forma indireta a crítica foucaultiana das relações dominantes de poder29. E lembra os artigos de Sébastien Faure em Le Libertaire. estatal. de Paul Robin e de Albert Thierry. paterno. Milano. não como elemento de uma estratégia política. especialmente p. Por seu lado Edith Kurzweil afirma que “o seu pensamento é completamente anárquico” (Edith Kurzweil. 240. além da predileção e da solidariedade para com grupos espontâneos e movimentos experimentais. nº. que afirma detectar em Foucault “simpatias anarquistas” reconhecendo-as naquelas (raras) passagens em que Foacault falou dos anarquistas. 1981. por outro lado. 6 Política e/ou Ética O individualismo reivindicado por Foucault não é. que ao mesmo tempo substitui e enfraquece a violência bélica introduzindo lógicas distorcivas e dissuasivas. clerical. Richard Porty recupera. 369. 1982. nº. 28 Wolfgang Essbach. colonial. Michel Foucault's History of Sexuality as Interpreted by Feminist and Marxists. inverno 1986. primavera 1982. as diferentes formas de cuidado de si não-hegemônicas. Gegenzüge. O historiador francês Jacques Léonard.. como o anarquismo clássico. Alan Megill sustenta que “a recusa do sistema por parte de Foucault poderia induzir-nos a considerá-lo anarquista. Dana Polan se interroga. Fables of Transgression: The Reading of Politics and the Politics of Reading in Foucauldian Discourse. Munique. Polan. Foucault et L’épistémologíe. p. Não seria difícil indicar que os seus precursores são os anarquistas do século XIX que denunciam com intransigência quase todas as formas de poder: patronal. cit.) são estes passos ‘anárquicos’ que os . 30 Dana B.. uma ordem subjacente que deva ser expressa para que prevaleça a harmonia: em Foucault não existe uma ordem natural. p. 6 1. típicos de 196828. político.. 31 Alan Megill. p. jurídico.

provocação criada pelos marxistas revolucionários do início do século contra os teóricos reformistas e social-democratas). Veja-se outrossim J. Mas o que sobra. trad. p. Bolonha. a normalidade e a anormalidade pelas disciplinas científicas. possui menos um caráter anarquista que niilista”33. XXVII. Identità Morale e Autonomia Privata: il Caso Foucault in Scritti Filosofici II. 162. há “pelo menos três momentos em que Foucault aderiu à atmosfera efervescente do anarquismo que inspirava a revolta dos estudantes (e fez alçar a bandeira do anarquismo na Sorbonne ocupada em maio de 1968)”: a simpatia pelas formações políticas descentralizadas. 33 Michael Walzer. Walzer critica a incongruência entre expressão e empenho. Il Mulino. 22. o é tanto de um ponto de vista moral quanto político. it. La Politica di Foucault in L’intellettuale Militante. p. um neo-anarquismo em Foucault: “O rótulo de libertário é efetivamente o melhor para indicar Foucault enquanto teórico social. e. está convencido que não existe algo que possa ser definido como um ser humano livre. como demonstra a dissensão em relação aos maoístas no que seus admiradores franceses parecem agradecer mais que tudo". morais e também científicas.“Mas Foucault é realmente um propugnador de seu comportamento anarconiilista?”.. que não existam homens ou mulheres naturais. cit. Abolir os sistemas de poder significa abolir de uma só vez as categorias jurídicas. Simpson. que o ser humano livre sei a um sujeito de um certo tipo. caminham lado a lado: a culpa e a inocência são criadas pelo código jurídico. concentradas em experiências particulares. e o ímpeto generoso claramente perceptível. para ele. 1988. falando inclusive de um “niilismo de cátedra” (da mesma forma que se falava de “socialismo de cátedra”. it. 7 Em 68 José Guilherme Merquior parece concordar com este julgamento. mais do que na global luta de classes. E assim o radical abolicionismo de Foucault. “Quando Foucault é anarquista. respectivamente p. trad. como faziam os primeiros anarquistas. Foucault. 258 e 257-8. Merquior identifica. entretanto. Laterza. Bari. . 1994. Segundo Merquior. trad. 263). Homens e mulheres são sempre criações sociais. 1. moral e política. Foucault era convicto na sua falta de crença nas instituições” (mesmo naquelas revolucionárias. bom por natureza e sinceramente sociável -. questiona Michael Walzer. it. 1991. e em sintonia ainda mais acentuada com a mais pura tradição anarquista. produtos de códigos e disciplinas. pelo contrário. Archaeology and Politicism: Foucalt's Epistemic Anarchism. nº. “por último. ele foi (mesmo que não tenha utilizado essa palavra) um anarquista moderno”34 . 1993. se é sério. Veja-se também Introduzione di David Couzens Hoy na coleção dos textos por ele organizada. Laterza. entre teoria crítica. ao seu ver incompleta e contraditória. (Richard Rorty. 261 e p. Acreditando encontrar nele um meio-termo entre a posição teórica e o engajamento político. então? Foucault não acredita. in Man and the World. espontâneas. p. Mais precisamente. Bari. 34 José Guilherme Merquior.

trad. it.diz respeito à justiça revolucionária. Negativismo e irracionalismo. 1977. são os elementos de fundo na crítica radical da contracultura contemporânea. tribunais e coreografias típicas da burguesia)35. Os principais pensadores anárquicos do século XIX eram também grandes utopistas. as lutas do presente constituem o possível espaço de mudança. parece ser absolutamente negativo. para o marxismo. Parece não ter nenhuma pars construens. oficializando seu matrimônio com o anarquismo. p. é drasticamente invertido por Foucault que dedica atenção específica à microfísica das relações de poder. 36 Ibidem p. concebível somente além dos ritos. De qualquer forma. Firenze. 1975.. as suas crenças consistem naquilo que recusa. talvez tenha no fim prevalecido sobre o são e humano espírito de Kroptkin?. ..” (p.. no sentido psicanalítico) elementos de ponderação já presentes na constelação de idéias. como retomo. 19-38. que seriam em outras condições potenciais vetores de dissonância dos discursos e práticas afirmados. como o mutualismo de Proudhon ou as cooperativas de Kropotkin. assim. Merquior aponta para o predomínio do componente irracional nas “bases científicas” que orgulhavam Kropotkin. É importante. Microfisica del Potere. 197 1. in AA. Como é possível subtrair da conversa com Chomsky. discursos e valores que se pretende negar. Somente a destruição da “lei do ‘até hoje’”37 poderá apresentar um terreno sobre o qual constituir uma diferente articulação das relações sociais não correlacionadas a hierarquias dominantes e a formações hegemônicas de soberania. Guaraldi. Einaudi Turim. Apesar de nutrir profundas suspeitas com relação às instituições impessoais. e não em idéias positivas”36. 163-4. 35 Ibidem. VV. mesmo que esta seja encarada como fonte original da qual se distanciar. típico das manifestações que aspiram alcançar o ápice do poder para promover a modificação da qualidade de vida. estruturas. se bem que apenas sucessivamente. o romântico incendiário que em seu coração amava voluptuosamente a destruição. Na realidade o que o tomou um neo-anarquista foi a colocação de dois novos aspectos junto à teoria clássica do anarquismo. preocuparam-se em propor novas formas de vida econômica e social. “O fantasma de Bakunin. especialmente p. que Foucault e Marcuse representam. todavia. conclui Merquior. 71-106. p. provavelmente reflexo do niilismo da modernidade. O autor se refere a uma discussão em 1972. Em primeiro lugar o seu sincero antiutopismo. Contrariamente ao que se pode imaginar. Em segundo lugar. p. lhe sugere imediatamente a recusa de todo “o conjunto desta sociedade”. pois para Foucault são significativas as práticas que determinam uma ordem vigente. chamar a atenção para o motivo pelo qual Foucault não dá espaço para o utopismo. 37-8. O percurso que vai do geral ao particular. 162-3. Foucault não estava na França em maio de 1968 (mas em Tunis) e não exerceu então qualquer influência sobre o movimento. 37 Entrevista com Michel Foucault (Actuel. encontrável em Michel Foucault. 164). o temor de que a prefiguração imaginária de uma outra sociedade contenha de forma fantasmagórica (ou seja. cujo exercício atinge e atravessa indivíduos constituídos em sua materialidade. O neo-anarquismo de hoje. com prejuízo. Aspettando la Rivoluzione. “Mas Foucault não se limitou a seguir o anarquismo.

) quanto discursivas (idéias. entende referir-se à dimensão histórico-moderna do sujeito soberano que superinstitucionalizou corpos e desejos de cada indivíduo. cit. imaginários. etc. fascinação. E indubitavelmente a analítica do poder esboça mapas de relações de poder assimétricas. vínculos normativos. 48. pois são as práticas em que cada um está imbuído que ditam a posição individual no campo de tensões tomado em consideração (família. subtrair-se ao grilhão disciplinar que regulamenta a existência singular e coletiva dos indivíduos nos vários e específicos âmbitos da vida cotidiana e institucional.. ou seja uma relação entre sujeitos com referência a um específico campo de possibilidades tanto materiais (práticas. sujeitos nômades (tomando a expressão emprestada de Deleuze) indicariam a presença de um corpo de um desejo que não se fixam a nada. do pensamento radical das mulheres) e servem para uma crítica. valores. What is Enlightenment?. grupo étnico. O Iluminismo tinha-nos prometido o resgate do homem da menoridade à qual tinha sido reduzido. que mais se assemelham a uma sensibilidade libertária (como mutação. biunívocas. escola. mas sim em uma particular relação topológica. alterar as práticas. política e social. permitindo-lhe alcançar a autonomia desejada na esfera intelectual. integrabilidade.8 Novas formas de subjetividade Ao final deste reconhecimento.). comportamentos.) op. mudar comportamento. é possível evidenciar o que dentro das idéias do autor é útil para uma elaboração contemporânea do anarquismo. hospital. que vão além de uma mera identificação ou designação de idéias. etc. As relações de poder não são estranhas a esta estratégia capiciosa que utiliza a liberdade para revertê-la contra si mesma: “o que se coloca é o seguinte: de que forma é possível desligar o elo entre desenvolvimento das capacidades e intensificação das relações de poder?”38. é possível chegar de forma suscinta a algumas conclusões (parciais) sobre a relação Foucault-anarquismo. em linhas anarquistas da dominação. identidade. Torna-se importante. prisão. Fiéis à busca de “otoutils” na “boîte” de seu pensar. adotar estilos de vida diferenciados. transferibilidade. não no sentido niilista do querer o nada. Não há nenhuma garantia absoluta de isenção do exercício de poder. então. já que acredita que o poder não consiste em uma substância possuída a ser utilizada no momento oportuno. . A relação de poder assim constituída engloba elementos típicos do domínio moderno: anonimato.). Não é verdade que Foucault não indica caminhos de forma positiva. Foucault não nos fornece uma teoria geral. reversíveis. por exemplo. etc. hierárquicas. transversalidade. dissociado de vínculos de gênero. in Paul Rabinow (Ed. p. Subtrair-se às relações de poder torna-se praticável somente para as singularidades que não seguem os mesmos horizontes constitutivos do individualismo moderno (em última instância sempre os burgueses enquanto proprietários). Dessa forma. pelo contrário: não são constituídos por alguma coisa e sim se constituem 38 Michel Foucault. Quando enuncia a famosa frase sobre a “ morte do homem”.

“Sem dúvida. Perché Studiare il Potere. 9-10 (tradução italiana ligeiramente modificada). 39 Michel Foucault. nos dias de hoje. Devemos promover novas formas de subjetividade recusando o tipo de individualidade que nos foi imposto por tantos séculos”39. o objetivo principal não é o de descobrir o que somos. mas tentar nos libertar tanto do Estado quanto do tipo de individualização a ele vinculada. mas sim o de recusar aquilo que somos. ético.autonomamente a partir de um “cuidado consigo mesmo” simétrico a uma interpenetração recíproca e horizontal para com o outro. filosófico dos dias de hoje não é aquele de tentar libertar o indivíduo do Estado e das instituições estatais.. Devemos imaginar e construir aquilo que poderíamos ser. cit. para liberar-nos deste tipo de “dupla ligação” política que são a individualização e a totalização simultânea das modernas estruturas de poder. A conclusão seria então que o problema político. p. . social.