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Mary Balogh

Prólogo
O clima poderia estar melhor. Nuvens baixas corriam
rapidamente através do céu, impulsionadas por um vento forte e
a chuva que vinha ameaçando o dia todo, começara a cair. O mar
tempestuoso tinha a cor de um metal cinzento. A fria umidade
penetrou o interior da carruagem, fazendo seu único ocupante se
contentar com seu pesado, sobretudo.
Seu ânimo não estava para a umidade, ele preferia mesmo os
raios de sol. Estava a caminho de Penderris Hall, na Cornualha,
a casa de campo de George Crabbe, Duque de Stanbrook. Sua
Graça era uma das seis pessoas que ele mais amava no mundo,
uma confissão estranha, talvez, quando cinco dessas pessoas
eram homens. Eram as seis pessoas que ele mais confiava no
mundo. Embora o termo confiança parecesse muito impessoal,
não havia nada de impessoal sobre seus sentimentos por esses
amigos. Estavam todos indo para Penderris para passar as
próximas três semanas ou mais.
Eles formavam um grupo de sobreviventes das guerras
napoleônicas, cinco deles ex-oficiais militares que tinham ficado
incapacitados por vários ferimentos, sendo enviados à Inglaterra
para se recuperarem. Todos eles haviam chamado à atenção do
Duque de Stanbrook, que lhes enviara à Penderris Hall para
tratamento, repouso e convalescença. O próprio duque passara da
idade de lutar nas guerras, mas seu único filho não. Ele lutara e
morrera na Península durante os primeiros anos da campanha. O
sétimo membro do clube era a viúva de um oficial de vigilância
que fora capturado pelo inimigo na Península e morrera sob
tortura, a qual ela havia presenciado, pelo menos
parcialmente. O duque era um primo distante dela e a resgatara,
depois de seu retorno à Inglaterra.
Os sete desenvolveram um vínculo estreito durante o longo
período de suas curas e convalescenças. E como, por diferentes
motivos, todos sabiam que iriam carregar as marcas de suas

feridas e experiências de guerra para o resto de suas vidas,
tinham concordado que, quando chegasse o tempo de se
separarem e voltarem às suas próprias vidas, além dos limites
seguros de Penderris, voltariam por algumas semanas a cada
ano, a fim de relaxar e renovar sua amizade, discutir seu
progresso e oferecer, um ao outro, apoio em qualquer dificuldade
que pudesse ter surgido.
Eram todos sobreviventes, fortes o suficiente para levar uma
vida
independente. Mas
todos
eles
também
ficaram
permanentemente marcados, de uma forma ou de outra, e não
tinham que esconder esse fato quando estavam juntos.
Uma vez, um deles chamou-os de Clube dos Sobreviventes, e
o nome pegou, mesmo que apenas entre eles.
Hugo Emes, Lorde Trentham, forçou o olhar através da
chuva que agora batia contra a janela da carruagem. Pôde ver a
borda das altas falésias não muito distantes e o mar além delas,
uma linha de espuma salpicada de um cinza mais escuro que o do
céu. Ele já estava nas terras de Penderris. Estaria em casa em
poucos minutos.
Sair daqui, há três anos, tinha sido uma das coisas mais
difíceis que todos eles já haviam feito. Hugo teria sido feliz em
passar o resto de sua vida aqui. Mas, claro, a vida estava sempre
mudando e que tinha chegado a hora de partir.
E agora chegara a hora de mudar de novo...
Mas ele não pensaria nisso ainda.
Esta era a terceira reunião, embora Hugo tivesse sido
forçado a perder a do ano anterior. Ele não via nenhum desses
amigos há dois anos, então.
A carruagem se deteve ao pé dos degraus que levam às
enormes portas da frente de Penderris Hall e balançou por
alguns momentos sobre suas molas. Hugo se perguntou se

qualquer um dos outros tinha já chegado. Sentia-se como uma
criança que chega a uma festa, pensou com algum desgosto, toda
ansiedade, expectativa e nervosismo agitando seu estômago.
As portas da casa se abriram e o próprio duque apareceu
entre elas. Ele começou a descer as escadas, apesar da chuva e o
alcançou quando o cocheiro abria a porta da carruagem e Hugo
saltava para fora, sem esperar que os degraus fossem colocados
para baixo.
- George! - Disse ele.
Ele não era o tipo de homem que normalmente abraçava
outras pessoas, ou até mesmo tocava-as desnecessariamente. Mas
pode muito bem ter sido ele quem iniciara o abraço apertado em
que ambos foram logo envolvidos.
- Meu Deus! - Disse o duque, soltando-se do abraço após
alguns momentos e dando um passo para trás, a fim de pousar o
olhar sobre Hugo. - Você não encolheu em dois anos, Hugo, não
é? Nem em altura, nem em largura. Você é uma das poucas
pessoas que podem fazer-me sentir pequeno. Venha para dentro,
fora da chuva, que vou verificar minhas costelas para descobrir
quantas você esmagou.
Ele não fora o primeiro a chegar, Hugo percebeu logo que
entraram no grande salão. Flavian estava lá para cumprimentálo – Flavian Arnott, Visconde Ponsonby. E Ralph também –
Ralph Stockwood, conde de Berwick.
- Hugo! - Disse Flavian, levantando um monóculo até o olho e
movendo-se com uma languidez entediada. - Seu grande urso
feio. É surpreendentemente bo-bom ver você. "
- Flavian, seu pequeno, menino bonito, - disse Hugo,
caminhando em direção a ele, os saltos de suas botas ressoando
no chão de ladrilhos, - é bom ver você, e eu não estou nenhum
pouco surpreso com isso.

Eles se envolveram em um abraço enquanto davam-se tapas
nas costas.
- Hugo, - disse Ralph - parece que foi ontem que te vi pela
última vez. Você parece o mesmo de sempre. Mesmo seu cabelo
ainda parece uma ovelha recém-tosquiada.
- E essa cicatriz em seu rosto ainda te faz parecer com
alguém que eu não gostaria de encontrar num beco escuro, Ralph.
- Disse Hugo quando os dois se reuniram em um abraço. - Os
outros ainda não estão aqui?
Mas, logo que falou, pôde ver sobre o ombro de Ralph que
Imogen estava descendo as escadas - Imogen Hayes, Lady
Barclay.
- Hugo! - Disse ela enquanto corria em direção a ele, ambas
as mãos estendidas. - Oh, Hugo!
Ela era alta, esbelta e graciosa. Seu cabelo loiro escuro
estava preso em um coque na parte de trás de sua cabeça, mas a
própria austeridade do estilo apenas enfatizava a beleza perfeita
de seu rosto um pouco longo, nórdico, com as maçãs elevadas,
boca larga e generosa, e grandes olhos verde azulados. Também
se destacava a impassibilidade quase marmórea daquele
rosto. Nada mudara nos últimos dois anos.
- Imogen! - Ele apertou suas mãos e, em seguida, puxou-a
para um abraço apertado, respirando seu cheiro familiar. Beijou
uma de suas faces e olhou para ela.
Ela levantou uma mão e traçou uma linha entre as
sobrancelhas com a ponta de seu dedo indicador.
- Você ainda faz carranca - disse ela.
- Ele ainda é carrancudo - disse Ralph. - Maldição, sentimos
sua falta no ano passado, Hugo. Flavian não tinha ninguém para

chamar de feio. Tentou fazê-lo comigo uma vez, mas eu o
persuadi a não repetir a experiência.
- Ele me deixou mortalmente at-aterrorizado, Hugo - disse
Flavian. - Queria que estivesse aqui para me esconder atrás de
você. Escondi-me atrás de Imogen.
- Para responder à sua pergunta anterior, Hugo, - disse o
duque, batendo a mão no ombro dele, - você foi o último a chegar
e estávamos todos impacientes. Ben teria descido para
cumprimentá-lo, mas levaria muito tempo para descer as escadas
só para ter que subir de novo, quase que imediatamente. Vincent
ficou na sala de estar com ele. Vamos lá para cima. Você pode ir
para o seu quarto mais tarde.
- Eu pedi a bandeja de chá logo que Vincent ouviu sua
carruagem se aproximando, - disse Imogen, - mas sem dúvida,
vou ser a única a beber do bule. É o que recebo por me aliar a
uma horda de bárbaros.
- Na verdade, - disse Hugo, - uma xícara de chá quente
parece à coisa certa, Imogen. Espero que você tenha
encomendado um clima melhor para amanhã e nas próximas
semanas, George.
- É somente março - o duque assinalou, conforme subiam. Mas se você insistir, Hugo, terá a luz do sol no resto de sua
estadia aqui. Algumas pessoas parecem robustas, mas na
verdade, são meras plantas de estufa.
Sir Benedict Harper estava de pé quando entraram na sala
de desenho. Estava apoiado em suas bengalas, mas o seu peso
todo não estava sobre elas. E ele realmente caminhou em direção
a Hugo. Muitos dos especialistas o haviam chamado de tolo por se
recusar a amputar as pernas esmagadas após seu cavalo cair
sobre elas. Ele tinha jurado que voltaria a andar e, de certo modo,
estava fazendo exatamente isso.

- Hugo, - disse ele - você é um colírio para os olhos. Você já
dobrou de tamanho ou é apenas o efeito do casaco?
- Ele é um espetáculo para causar dor nos olhos, certamente,
- Flavian disse com um suspiro. - E ninguém avisou ao Hugo que
várias capas em um, sobretudo foram projetadas em benefício
daqueles menos favorecidos no departamento ombro.
- Ben, - disse Hugo, pegando o outro homem cuidadosamente
entre seus braços. - Em seus pés, não é? Você deve ser o homem
mais teimoso que eu já conheci.
- Acredito que você poderia ser um forte oponente - disse
Ben.
Hugo se voltou para o sétimo membro do Clube dos
Sobreviventes, o mais jovem. Ele estava em pé perto da janela,
seus cachos louros demasiado longos e indisciplinados como
sempre, com o rosto tão aberto e bem-humorado, que parecia um
anjo. Estava sorrindo agora.
- Vince! - Disse Hugo enquanto avançava pelo quarto.
Vincent Hunt, Lorde Darleigh, olhou diretamente para ele
com olhos tão grandes e azuis como Hugo lembrava - olhos
arrasa-corações, Flavian uma vez chamou-os a fim de obter uma
risada do menino. Hugo sempre achou seus olhares fixos um
pouco desconcertantes.
Por Vincent ser cego.
- Hugo! - Disse ele quando foi pego em um abraço. - Como é
bom ouvir sua voz novamente. E tê-lo de volta conosco este
ano. Se você estivesse aqui no ano passado, não teria permitido
que todos os outros zombassem do meu violino, não é? Bem, todos
exceto Imogen, é óbvio.
Houve um suspiro coletivo por trás deles.
- Você toca violino? - Perguntou Hugo.

- Eu toco, e é claro que você não teria permitido zombaria disse Vincent, sorrindo. - Me disseram que você se parece com um
grande e feroz guerreiro, Hugo, mas se for verdade, então você é
uma fraude, porque eu posso sempre ouvir a gentileza sob a
rouquidão de sua voz. Você deve ouvir-me tocar este ano, e você
não vai rir.
- Ele pode muito bem chorar, Vince - disse Ralph.
- Sou famoso por causar esse efeito em meus ouvintes - disse
Vincent, rindo.
Hugo tirou o casaco e atirou-o sobre as costas de uma cadeira
antes de se sentar com os outros. Todos beberam chá apesar da
oferta do duque de algo mais forte.
- Ficamos muito tristes por não o ver no ano passado, Hugo disse ele depois de terem conversado por um tempo. - Ficamos
ainda mais tristes sobre o motivo de sua ausência.
- Eu estava tudo pronto para vir, - disse Hugo, - quando
chegou à notícia do ataque de coração do meu pai. Assim, eu
estava preparado para partir quase imediatamente, e cheguei
antes dele morrer. Ainda consegui falar com ele. Eu deveria ter
feito isso antes. Não havia necessidade real do breve
distanciamento entre nós, embora eu tenha quebrado seu coração
depois de insistir para que ele comprasse uma comissão para
mim, quando por toda a minha vida ele esperou que eu o seguisse
no negócio da família. Ele me amou até ao fim, vocês sabem.
Suponho que serei sempre grato por ter chegado a tempo de dizer
a ele que eu o amava muito, embora possa ter parecido que eram
só palavras.
Imogen, que estava sentado ao lado dele, em um gesto de
amor, afagou sua mão.

- Ele deve ter entendido - disse ela. - As pessoas entendem a
linguagem do coração, você sabe, mesmo que a cabeça nem
sempre a compreenda.
Em silêncio, todos olharam para ela por um momento,
incluindo Vincent.
- Ele deixou uma pequena fortuna para Fiona, minha
madrasta, - disse Hugo, - e um grande dote à Constance, minha
meia-irmã. Mas deixou a maior parte de seu vasto império
comercial e de negócios para mim. Estou indecentemente rico.
Ele franziu a testa. Sentia a riqueza, por vezes, como uma
pesada pedra atada ao pescoço. Mas as obrigações que tinha
trazido com ela, eram piores.
- Pobre, pobre Hugo! - Disse Flavian, puxando um lenço de
linho do bolso e enxugando os olhos com ele. - Meu coração
sangra por você.
- Ele esperava que eu assumisse a gestão dos negócios - disse
Hugo. - Não que ele exigisse. Ele só esperava que fosse o que eu
gostaria, e seu rosto brilhava com prazer com a perspectiva,
embora estivesse morrendo. E disse para eu passar tudo
para meu filho quando chegar a hora.
Imogen afagou sua mão novamente e serviu-lhe uma xícara
de chá.
- O caso é, - Hugo disse - que tenho sido feliz com a minha
vida tranquila no campo. Estive feliz em minha casa por dois
anos e fui feliz em Crosslands Park no ano passado, embora, é
claro, a tenha comprado com uma parte da minha nova
fortuna. Tenho sido capaz de desculpar minha protelação,
dizendo-me que este é um ano de luto e seria indecoroso se
começasse a agir como se tudo que eu sempre quisera fosse sua
fortuna. Mas o aniversário de sua morte é amanhã. Não tenho
mais desculpa.

- Sempre lhe dissemos, Hugo, - Vincent falou - que ser um
recluso não é muito adequado à sua natureza.
- Mais especificamente, - Ben disse - nós te comparamos a
um foguete que não explodiu, Hugo, apenas esperando por uma
faísca para acendê-lo.
Hugo suspirou.
- Eu gosto da minha vida como ela é - disse ele.
- Então, o fato de você ter recebido seu título como uma
recompensa por sua extraordinária coragem não significa nada,
afinal de contas? - Perguntou Ralph. - Você está planejando
retornar às suas raízes de classe média, Hugo?
Hugo franziu a testa novamente.
- Eu nunca as deixei - disse ele. - Nunca quis ser um membro
das classes superiores. Desprezaria a todos coletivamente, como
meu pai sempre fez, se não fosse por vocês seis. Adquirir
Crosslands pode ter parecido um pouco pretensioso, mas eu
queria meu próprio pedaço de terra onde possa estar em paz. Isso
é tudo.
- E ele vai sempre estar lá para você - disse o duque. - Vai ser
um retiro tranquilo quando a pressão dos negócios te
derrubarem.
- É a parte filho que está conseguindo me derrubar agora disse Hugo. - Ele teria de ser legítimo, não é? Eu teria que
ter uma esposa, a fim de produzi-lo. Isso é o que me espera
quando sair daqui. Eu decidi. Tenho que encontrar uma
esposa. Ideia dos diabos! Perdoe-me, Imogen. Não tenho
absolutamente nada contra as mulheres. Realmente, só não
quero uma de forma permanente na minha vida. Ou na minha
casa.

- Então, não está procurando romance ou amor romântico,
Hugo? - Perguntou Flavian. - Isso é muito sábio de sua parte,
meu velho. O amor é o próprio de-demônio e deve ser evitado
como à peste.
A senhora de quem Flavian tinha sido noivo quando foi para
a guerra, rompera o noivado ao se ver incapaz de lidar com as
feridas que ele trouxera para casa desde a Península. Após dois
meses, ela casara com outra pessoa, um homem que, uma vez,
tinha considerado seu melhor amigo.
- Você tem alguém em mente, Hugo? - Perguntou o duque.
- Na verdade, não. - Hugo suspirou. - Tenho um exército de
primas e tias que ficariam muito satisfeitas em apresentar-me a
um desfile de possibilidades se lhes pedisse, apesar de eu ter
negligenciado a todas vergonhosamente, por anos. Mas eu
perderia o controle da situação desde o primeiro momento. Odeio
isso! Na verdade, eu estava esperando que alguém aqui tivesse
algum conselho para mim. Sobre como fazer para encontrar uma
esposa, é isso.
Isso silenciou a todos.
- É realmente muito simples, Hugo - disse Ralph
finalmente. - Se aproxime da primeira mulher razoavelmente
agradável que encontrar. Para começar, diga-lhe que você é um
lorde e indecentemente rico, e pergunte se ela gostaria de se
casar com você. Então você se afasta e assiste todo o trajeto de
sua língua na ânsia de dizer sim.
Os outros riram.
- É bem fácil, não é? - Disse Hugo. - Um enorme
alívio. Então, vou descer à praia amanhã, se o tempo permitir, e
esperar por mulheres razoavelmente apresentáveis para atrair ao
ninho. Meu problema será resolvido mesmo antes de sair de
Penderris.

- Oh, não as mulheres, Hugo - disse Ben. - Não é plural. Elas
vão estar lutando por você, e há muito para lutar, mesmo
separando-o do seu título e riqueza. Vá até a praia e encontre
uma mulher. Vamos torná-lo fácil para você ficando longe de lá o
dia todo. Para mim, é claro, vai ser simples, já que não tenho um
bom par de pernas com as quais chegar lá, de qualquer forma.
- Agora que temos seu futuro satisfatoriamente resolvido,
Hugo, - disse o duque, levantando-se, - permitiremos que vá para
o seu quarto para refrescar-se, trocar-se e talvez descansar antes
do jantar. Vamos, no entanto, discutir o assunto mais a sério
durante os próximos dias. Talvez nós ainda sejamos capazes de
sugerir algum prático plano de ação. Enquanto isso, deixe-me
dizer como é esplêndido ter todos do Clube dos Sobreviventes
juntos novamente este ano. Ansiava por este momento.
Hugo recolheu o casaco e saiu da sala com o duque, sentindo
todo o sedutor conforto e prazer de estar de volta à Penderris na
companhia das seis pessoas que mais significavam para ele no
mundo.
Mesmo o tamborilar da chuva contra as vidraças só serviu
para adicionar uma sensação de aconchego.

Capítulo 1
Gwendoline Grayson, Lady Muir, encolheu os ombros e
puxou a capa mais confortavelmente sobre ela. Era um
revigorante, tempestuoso dia de março, fazia mais frio pelo fato
de ela estar de pé no porto de pesca abaixo da aldeia onde se
hospedava. A maré estava baixa, e alguns barcos de pesca
estavam meio tombados na areia molhada, esperando a água
voltar e flutuá-los na posição correta novamente.
Ela deveria voltar para casa. Ficara fora por mais de uma
hora, e parte dela ansiava pelo calor do fogo e do conforto de
uma xícara de chá. Infelizmente, porém, a casa de Vera
Parkinson não era dela, apenas a casa onde estava hospedada
por um mês. E ela e Vera tinham acabado brigando, ou pelo
menos, Vera havia brigado com ela e a transtornara. Ela não
estava pronta para voltar ainda. Preferia suportar os elementos.
Não podia andar para a esquerda. Um promontório que se
projetava impedia seu caminho. À direita, no entanto, a praia de
seixos sob os altos penhascos alongava-se na distância. Haveria
ainda várias horas antes de a maré subir alto o suficiente para
cobri-las.
Gwen geralmente evitava andar pela água, mesmo tendo
vivido perto do mar, na casa da viúva de Newbury Abbey em
Dorsetshire. Achava as praias muito vastas, os penhascos por
demais ameaçadores, o mar muito elementar. Preferia um
mundo menor, mais ordenado, sobre o qual ela poderia exercer
algum tipo de controle -um jardim de flores cuidadosamente
cultivado, por exemplo.
Mas hoje ela precisava ficar longe de Vera por mais algum
tempo, e da aldeia e caminhos estreitos onde poderia encontrar
algum vizinho de Vera e se sentir obrigada a ter uma conversa
animada. Precisava ficar sozinha e a praia de seixos estava

deserta, tão longe na distância que ela podia ver até antes da
curva. Ela se deixou levar.
Percebeu, depois de uma curta distância, no entanto,
porque ninguém mais estava andando por ali. Pois, embora a
maioria dos seixos fossem antigos, corroídos suavemente e
arredondados por milhares de marés, um número significativo
deles era mais recente, e estes eram maiores, mais ásperos, mais
irregulares. Andar a pé através deles não era fácil e não teria
sido mesmo que ela tivesse as duas pernas saudáveis. Assim
como era, a perna direita nunca se tinha curado corretamente
depois de ser quebrada oito anos atrás, quando foi jogada do
cavalo. Ela passou habitualmente a mancar, mesmo em terreno
plano.
Não voltaria, embora. Teimosamente, marchou em frente,
com cuidado onde colocava os pés. Não estava com nenhuma
pressa para chegar a algum lugar, afinal de contas.
Este foi realmente o dia mais horrível de uma quinzena
horrível. Ela tinha vindo para uma visita de um mês, totalmente
por impulso, quando Vera escrevera para informá-la da triste
morte, há alguns meses, do marido, que estava doente há vários
anos. Vera adicionou a queixa que ninguém da família do Sr.
Parkinson ou da sua própria estava se importando com seu
sofrimento, apesar do fato de que ela estava quase prostrada de
dor e exaustão após alimentá-lo por tanto tempo. Ela estava
sentindo terrivelmente a falta dele. Gwen se importaria de ir?
Elas tinham sido uma espécie de amigas por um breve
período durante o turbilhão da temporada de estreia londrina e
haviam trocado raras cartas após o casamento de Vera com o Sr.
Parkinson, um irmão mais novo de Sir Roger Parkinson, e Gwen
com o Visconde Muir. Vera tinha escrito uma longa carta de
simpatia após a morte de Vernon, e convidado Gwen para ficar
com ela e o Sr. Parkinson durante o tempo que desejasse, pois
tinha sido negligenciada por quase todos, incluindo o próprio Sr.

Parkinson, e gostaria de ter a companhia dela. Gwen havia
declinado o convite em seguida, mas respondeu ao apelo de Vera,
nesta ocasião, apesar de alguns receios. Ela sabia a tristeza, o
cansaço e a solidão que se sentia após a morte de um cônjuge.
Foi uma decisão que ela lamentou quase desde o primeiro
dia. Vera, como as cartas sugeriam, era desagradável e
resmungona, e enquanto Gwen tentava tolerá-la pelo fato dela
ter cuidado de um marido doente por alguns anos e acabado de
perdê-lo, logo chegou à conclusão de que os anos desde a estreia
haviam azedado Vera e a deixado permanentemente
desagradável. A maioria de seus vizinhos a evitava sempre que
possível. Seus únicos amigos eram um grupo de senhoras que
muito se assemelhavam a ela em personalidade. Sentada e
ouvindo a conversa, Gwen tinha chegado à conclusão de que se
sentia como que sugada para um buraco negro, ficando privada
de ar suficiente para respirar. Elas só sabiam ver o que estava
errado em suas vidas e no mundo, nunca o que era certo.
Gwen percebeu, com uma sacudida mental, que era
exatamente isso o que ela estava fazendo agora enquanto
pensava nelas. Negatividade poderia ser assustadoramente
contagioso.
Mesmo antes desta manhã, quando ela desejou não ter se
comprometido a uma longa visita. Duas semanas teriam sido
perfeitamente suficientes - e ela já poderia ir para casa. Mas
havia concordado com um mês, um mês teria de ser. Esta
manhã, no entanto, seu estoicismo foi posto à prova.
Tinha recebido uma carta de sua mãe, que morava na casa
da viúva com ela, na qual ela contava algumas anedotas
divertidas envolvendo Sylvie e Leo, os filhos mais velhos de
Neville e Lily - Neville, Conde de Kilbourne, era irmão de Gwen
e vivia em Newbury Abbey. Gwen leu a parte da carta em voz
alta para Vera na mesa do café, na esperança de conseguir um
sorriso ou uma risada dela. Em vez disso, viu-se recebendo um

discurso petulante, o básico golpe de que rir era muito fácil para
Gwen, fazendo pouco de seu sofrimento, porque o marido de
Gwen tinha morrido anos atrás a deixando confortavelmente
bem; porque tinha um irmão e mãe dispostos e ansiosos para
recebê-la de volta ao rebanho da família; porque sua
sensibilidade não era muito profunda, de qualquer maneira. Era
fácil ser insensível e cruel quando se casara por dinheiro e
status em vez de amor. Todo mundo sabia aquela verdade sobre
ela durante a estreia, assim como todo mundo sabia que ela,
Vera, havia se casado abaixo de seu nível, porque ela e o Sr.
Parkinson se amavam um ao outro, e nada mais importava.
Gwen encarou a amiga em silêncio, quando ela finalmente
se calou para dar alguns soluços distorcidos no lenço. Não se
atreveu a abrir a boca. Poderia ter replicado e, assim, se
rebaixar ao nível da própria maldade de Vera. Não seria
arrastada para uma briga indecorosa. Mas quase vibrou com a
raiva. E ficou profundamente magoada.
- Vou sair para uma caminhada, Vera - ela disse
finalmente, levantando-se e empurrando a cadeira para trás. Quando eu voltar, você pode me informar se deseja que eu fique
aqui por mais duas semanas, como planejado, ou prefere que eu
volte para Newbury sem mais demora.
Teria de ir na diligência do correio ou na
pública. Demoraria boa parte de uma semana para que o
transporte de Neville viesse buscá-la, depois que escrevesse para
informar que precisava dele mais cedo do que o planejado.
Vera tinha soluçado mais forte e pedido que não fosse
cruel, mas Gwen acabara saindo de qualquer maneira.
Seria perfeitamente feliz, pensou agora, se nunca mais
voltasse à casa de Vera. Que terrível erro que tinha sido vir, e
durante um mês inteiro, para apoiar uma breve e tão distante
conhecida.

Eventualmente, circulou o promontório que tinha visto a
partir do porto e descobriu que a praia estendida à frente,
aparentemente para o infinito, era mais larga ali, e os seixos
davam lugar à areia, onde seria muito mais fácil para
caminhar. No entanto, ela não deveria ir longe demais. Embora
a maré ainda estivesse baixa, podia ver que, definitivamente,
estava subindo e, em alguns lugares bastante planos, poderia
subir muito mais rápido do que se pudesse imaginar. Vivia perto
do mar tempo o suficiente para saber disso. De qualquer forma,
não podia ficar longe de Vera para sempre, embora desejasse
poder. Deveria retornar em breve.
Por perto havia uma lacuna nos penhascos, e parecia
possível alcançar o promontório acima se estivesse disposta a
subir uma encosta íngreme de pedras e, em seguida, uma
inclinação ligeiramente mais gradual de grama rasteira. Se ela
pudesse chegar até lá, seria capaz de caminhar de volta para a
aldeia ao longo do topo, em vez de ter de fazer o difícil caminho
de volta através dos seixos.
A perna fraca estava doendo um pouco, percebeu. Fora
uma tola ao ir até ali.
Parou por um momento e olhou para a linha ainda distante
da maré. E foi atingida, de repente, tão subitamente, não por
uma onda do mar, mas por uma onda de solidão, que caiu sobre
ela e a privou tanto de fôlego quanto da vontade de resistir.
Solidão?
Ela nunca pensou em si mesma como solitária. Viveu um
casamento tumultuado, mas, uma vez que a crueza da dor pela
morte de Vernon diminuiu, se estabeleceu em uma vida de paz e
contentamento com a sua família. Nunca sentiu qualquer desejo
de voltar a casar, embora não fosse uma cínica sobre o
casamento. O irmão era feliz no casamento. Então havia Lauren,
a prima por casamento que era mais como uma irmã, uma vez
que cresceram juntas em Newbury Abbey. Gwen, no entanto,

estava perfeitamente contente de permanecer viúva e definir-se
como filha, irmã, cunhada, prima, tia. Tinha vários outros
parentes e amigos também. Estava confortável na casa da viúva,
que ficava apenas a uma curta caminhada até a abadia, onde
era sempre bem-vinda. Fazia visitas frequentes a Lauren e Kit
em Hampshire e, ocasionalmente, aos parentes. Tinha o costume
de passar um mês ou dois da primavera em Londres para
aproveitar parte da temporada.
Sempre achara que tinha uma vida abençoada.
Então, de onde vinha essa solidão repentina? Uma
sensação de que seus joelhos estavam fracos e parecia como se
sua respiração tivesse sido roubada? Por que podia sentir a
crueza de lágrimas na garganta?
Solidão?
Ela não estava só, apenas deprimida por estar presa ali
com Vera. E magoada com o que esta dissera sobre ela e sua
falta de sensibilidade. Estava sentindo pena de si mesma, isso
era tudo. Ela nunca sentiu pena de si mesma. Bem, quase
nunca. E quando o fazia, em seguida, rapidamente fazia algo a
respeito. A vida era muito curta para ficar se lamentando. Havia
sempre muito mais com que se alegrar.
Mas a solidão. Quanto tempo esteve esperando por ela,
apenas esperando para atacar? Sua vida era realmente tão vazia
quanto
parecia
neste
momento,
uma
visão
quase
assustadora? Tão vazia como esta vasta praia sombria?
Ah, ela odiava praias.
Gwen deu outra sacudida mental e olhou, primeiro para o
caminho que tinha vindo e, em seguida, até a praia com seu
caminho
íngreme
entre
os
penhascos. Qual
deveria
tomar? Hesitou por alguns instantes e, em seguida, decidiu
subir. Não parecia íngreme o suficiente para ser perigoso e, uma

vez lá em cima, certamente seria capaz de encontrar um
caminho fácil para a aldeia.
As pedras na encosta não eram mais fáceis do que as da
praia; na verdade, eram mais traiçoeiras, pois se moviam e
deslizavam sob seus pés enquanto ia subindo. Quando chegou na
metade do caminho, desejou ter ficado na praia, mas seria tão
difícil voltar agora quanto continuar a subir. E ela podia ver a
parte gramada da encosta não muito distante. Seguiu em frente
obstinadamente.
E então veio o desastre.
Seu pé direito pressionou em busca de uma pedra
resistente, mas foi ligeiramente comprimido contra aquelas
embaixo dele e escorregou bruscamente para baixo, até que ela
caiu dolorosamente sobre um joelho, enquanto estendia as mãos
para se firmar na encosta. Pela fração de um momento ela
sentiu somente um alívio por ter se salvado de cair na praia lá
embaixo. E então sentiu a afiada e penetrante dor no tornozelo.
Cautelosamente, ela levantou-se sobre o pé esquerdo e
tentou pousar o direito ao lado deste. Mas foi envolvida pela dor
assim que tentou colocar algum peso em cima - e mesmo sem
colocar. Exalou um alto "Ohh!" de angústia e virou com cuidado
para que pudesse se sentar nas pedras, virada para baixo, em
direção à praia. A inclinação parecia muito mais acentuada dali
de cima. Oh, foi muito tola por tentar subir.
Levantou os joelhos, plantou o pé esquerdo tão firmemente
quanto pôde, e agarrou o tornozelo direito em ambas as
mãos. Tentou girar o pé lentamente, descansou a testa no joelho
levantado enquanto fazia isso. Foi uma entorse momentânea,
disse a si mesma, e ficaria bem em um momento. Não havia
necessidade de pânico.

Mas, mesmo sem colocar o pé para baixo de novo, sabia que
estava enganando a si mesma. Foi uma entorse de
verdade. Talvez pior. Ela não podia andar.
E assim veio o pânico, apesar do esforço para manter a
calma. No entanto, como ela iria voltar para a aldeia? E
ninguém sabia onde estava. A praia abaixo dela e o promontório
acima estavam desertos.
Ela respirou regularmente. Não havia razão para se
desesperar. Ela daria um jeito. É claro que sim. Não tinha
escolha, tinha?
Foi nesse momento que ouviu uma voz - uma voz
masculina por perto. Não foi sequer alta.
- Levando em conta a minha opinião, - disse a voz - este
tornozelo está torcido ou realmente quebrado. De qualquer
forma, seria muito insensato tentar colocar qualquer peso sobre
ele.
Gwen ergueu a cabeça e olhou em volta para localizar de
onde vinha à voz. À sua direita, um homem apareceu
parcialmente na superfície do íngreme penhasco ao lado da
encosta. Ele desceu até os seixos e os atravessou em direção a
ela, como se não houvesse qualquer perigo de escorregar.
Era um homem gigante, com ombros largos, peito e coxas
poderosas. O sobretudo que usava dava a impressão de ser ainda
maior. Ele parecia ameaçadoramente grande, na verdade. Não
usava chapéu. O cabelo castanho estava cortado rente à
cabeça. As feições eram fortes e duras; os olhos escuros e ferozes;
a boca, uma linha reta grave; a mandíbula forte. E a expressão
não fazia nada para suavizar a aparência. Ele estava franzindo
a testa, ou fazendo uma carranca, talvez.
As mãos sem luvas eram enormes.

O terror engoliu Gwen e a fez quase esquecer a dor por um
momento.
Ele deveria ser o duque de Stanbrook. Ela poderia ter se
desviado para as terras dele, mesmo Vera tendo avisado para
manter distância da propriedade. De acordo com Vera, ele era
um monstro cruel, que havia empurrado a esposa para a morte
do alto de um penhasco da sua propriedade, vários anos atrás e,
em seguida, alegou que ela tinha saltado. Que tipo de mulher
iria saltar para a morte de maneira horrível, Vera perguntara
retoricamente. Especialmente quando era uma duquesa e tinha
tudo que poderia precisar no mundo.
O tipo de mulher, Gwen pensara na época, embora não
tenha dito isso em voz alta, que acabara de perder seu único
filho para uma bala em Portugal, pois isso foi exatamente o que
tinha acontecido pouco tempo antes da morte da duquesa. Mas
Vera, juntamente com as senhoras da vizinhança com quem ela
se juntara, escolheu acreditar na teoria mais excitante, a de
assassinato, apesar do fato de que nenhum deles, quando
pressionado, poderia oferecer qualquer elemento de prova para
corroborar isso.
Mas, embora Gwen tivesse sido cética sobre a história
quando a ouviu, ela não tinha tanta certeza agora. Ele parecia
um homem que poderia ser tão implacável quanto cruel. Até
mesmo um assassino.
E ela havia invadido as terras dele. A muito deserta terra.
Ela também era incapaz de fugir.

Hugo foi sozinho para a praia sob Penderris após o café da
manhã. A chuva havia parado durante a noite. Ele foi provocado
sobre isso. Flavian lhe disse para não se esquecer de levar a

futura esposa de volta para a casa, para que todos pudessem
conhecê-la e decidir se eles aprovariam sua escolha.
Eles se divertiram à custa dele.
Hugo dissera a Flavian onde ele poderia ir e como chegaria
lá, embora tivesse sido imediatamente obrigado a pedir desculpas
por ter usado a linguagem de um soldado na presença de Imogen.
A praia sempre fora sua parte favorita da propriedade. Nos
primeiros dias de sua estada ali, o mar muitas vezes o acalmou
quando nada mais podia. E mais frequentemente que não, ia até
aquele local sozinho, mesmo assim. Apesar da proximidade e
camaradagem que se desenvolveu entre os sete membros do
Clube dos Sobreviventes enquanto eles estavam todos se curando
e convalescendo, nunca foram dependentes uns dos outros. Pelo
contrário, a maioria de seus demônios tiveram de ser enfrentados
e exorcizados sozinhos, e ainda eram. Uma das principais
atrações de Penderris sempre foi que oferecia espaço mais que
suficiente para acomodar todos eles.
Ele havia se recuperado de suas próprias feridas - até onde
ele poderia se recuperar, pelo menos.
Se fosse contar as bênçãos, ele precisaria dos dedos de
ambas as mãos, pelo menos. Sobrevivera às suas experiências de
guerra. Conferiram-lhe a promoção a major que almejava, bem
como o bônus inesperado do título, como resultado do sucesso da
missão final. No ano passado, herdara uma grande fortuna e um
negócio extremamente rentável. Tinha família - tios, tias e
primos que o amavam, embora os tivesse ignorado por muitos
anos. Mais importante, havia Constance, sua meia-irmã de
dezenove anos, que o adorava, embora ela fosse apenas uma
criança quando ele partira para a guerra. Possuía uma casa no
interior, que lhe fornecia toda a privacidade e paz que poderia
pedir. Tinha os seis companheiros do Clube dos Sobreviventes,
que às vezes pareciam mais perto dele do que seu próprio

coração. Desfrutava de boa saúde, talvez até mesmo da saúde
perfeita. A lista podia continuar.
Mas cada vez que fazia a lista mental de suas bênçãos, isso
se tornava uma espada de dois gumes. Por que ele era tão feliz
quando tantos outros haviam morrido? Mais importante, havia
sua ambição implacável, que trouxe sucesso e recompensas que
eram muito superiores ao que ele esperava, realmente causado
um número dessas mortes? O Tenente Carstairs diria que sim,
sem hesitação.
Não haviam mulheres razoavelmente bem-apessoadas
passeando ao longo da praia, ou qualquer uma não apresentável
também, para falar a verdade. Ele teria que inventar algumas
para a diversão de seus amigos quando voltasse para casa, e
algumas histórias em torno de seus encontros com elas. Talvez
até mesmo adicionasse uma sereia ou duas. No entanto, ele não
tinha pressa para voltar, apesar de ser um dia frio agravado por
um vento bastante rude.
Quando voltou para a parte dos seixos da praia, aos pés do
antigo desabamento na face do penhasco que dava acesso ao
promontório e o parque de Penderris acima, Hugo parou por
alguns instantes e olhou para o mar, enquanto o vento chicoteava
em seu cabelo curto e deixava as pontas das orelhas
dormentes. Ele não estava usando um chapéu. Não havia
realmente nenhum sentido quando ele teria que o perseguir ao
longo da praia mais do que o usaria.
Ele encontrou-se pensando no pai. Era realmente
inevitável, ele supôs, pois hoje era o primeiro aniversário de sua
morte.
A culpa veio com os pensamentos. Tinha adorado o pai como
um rapaz e o seguiu em todos os lugares, até mesmo para
trabalhar, especialmente após a morte de sua mãe devido a
algum problema de mulher quando ele tinha sete anos – a
natureza exata da doença nunca havia sido explicada a ele. O pai

o descreveu carinhosamente como seu braço direito e o herdeiro
aparente. Outros o haviam descrito como a sombra de seu pai.
Mas então veio o segundo casamento do pai e Hugo, com treze
anos de idade e desajeitado desde a fase da adolescência,
desenvolveu um comportamento hostil tão grande quanto uma
pedra. Ele ainda era jovem o suficiente para ficar chocado de que
o pai pudesse sequer pensar em substituir sua mãe, que foi tão
fundamental para a vida e a felicidade deles, que era
simplesmente insubstituível. Ele tinha crescido inquieto, rebelde
e determinado a estabelecer a própria identidade e
independência.
Olhando para trás agora, podia ver que o pai não o amara
menos - ou desonrara a memória de sua mãe, apenas porque se
casara com uma bonita e exigente jovem esposa, e logo tivera
uma nova filha a quem idolatrar. Mas um jovem em crescimento
nem sempre pode ver o seu mundo de forma racional. Outra
evidência disso foi o fato de que ele, Hugo, tinha adorado
Constance desde o momento do seu nascimento, quando era
esperado que ele a odiasse ou se ressentisse.
Foi uma etapa de sua vida, bastante típica de meninos de
sua idade, que ele poderia muito bem ter superado com um
mínimo de danos para todos os interessados, se não tivesse
havido algo mais para fazer pender a balança. Mas houve algo
mais, e a balança inclinou irremediavelmente quando ele nem
sequer havia chegado aos dezoito anos.
E ele decidiu abruptamente que seria um soldado. Nada iria
dissuadi-lo, nem mesmo o argumento de que ele não tinha o
temperamento para uma vida tão difícil. Na verdade, esse
argumento só o deixou mais teimoso e mais determinado a
vencer. Seu pai, decepcionado e triste, tinha finalmente comprado
uma comissão em um regimento de infantaria para o único filho,
mas seria a primeira e única aquisição. Ele deixou isso bem claro.
Hugo estava por conta própria depois disso. Ele teria que ganhar
suas promoções, não as obter compradas pelo pai rico, como a

maioria dos outros oficiais faziam. O pai de Hugo sempre
desprezou um pouco as classes mais altas, para quem privilégio e
ociosidade muitas vezes passava de mão em mão.
Hugo agira para ganhar essas promoções. Tinha
realmente gostado do fato de que estava em seu próprio
território. Perseguira a carreira escolhida com energia,
determinação, entusiasmo e a ambição de chegar ao topo. Teria
alcançado isso também, se seu maior triunfo não tivesse sido
seguido, em um mês, pela maior humilhação, e ele não tivesse
terminado ali em Penderris.
O pai o amara firmemente por tudo isso. Mas Hugo virara
as costas para ele, quase como se o pai tivesse sido o culpado por
todos os seus problemas. Talvez fora a vergonha que o levara a
fazer isso. Ou, talvez, a pura impossibilidade de voltar para casa.
E como seu pai o retribuíra por sua negligência? Havia
deixado quase tudo para ele, fez isso quando poderia
concebivelmente ter deixado tudo para Fiona ou para
Constance. Ele confiava no filho para manter seus negócios e
para passá-los a um filho próprio quando chegasse o
momento. Ele confiou nele até para que fizesse com que
Constance tivesse um futuro brilhante, seguro. Ele deve ter
pensado que ela poderia ficar sem nada se fosse deixada
unicamente aos cuidados de sua mãe. Ele fez de Hugo o guardião
dela.
Agora, seu ano de luto, sua desculpa para a inatividade, até
agora, tinha acabado.
Ele parara quando estava a meio caminho da
encosta. Ainda não estava pronto para voltar para
casa. Contornou o declive e subiu um curto caminho até o
precipício ao lado dele, até que chegou a uma plana borda rochosa
que havia descoberto anos atrás. Ficava abrigada da maioria dos
ventos, e mesmo que impedisse qualquer vista da areia da praia
mais a oeste, ainda lhe permitia ver a face oposta do penhasco, da

praia de seixos e do mar. Era uma perspectiva nitidamente
estéril, mas não sem uma certa beleza própria. Duas gaivotas que
voavam através de sua linha de visão, gritando alguma coisa
inteligente para a outra.
Ele relaxaria ali por um tempo antes de procurar a
companhia dos amigos.
Pegou algumas pedras pequenas da borda ao lado dele e
jogou, uma a uma, em um alto arco para a praia abaixo. Ouviu
aterrissar e viu saltar uma vez. Mas seus dedos se acalmaram em
torno da segunda pedra quando vislumbrou um agitar de cor.
O penhasco, do outro lado da encosta de cascalho, curvado
em direção ao mar. À maré cheia chegou mais cedo do que o
normal ao precipício em que estava sentado. Havia um caminho
em torno da base do penhasco que se projetava para a aldeia, de
um quilometro ou um pouco mais, mas poderia ser um caminho
traiçoeiro se não estivesse ciente da maré que se aproximava.
Alguém andava na extensão da praia de seixos - uma
mulher vestindo um casaco vermelho. Ela acabara de aparecer
perto do promontório, embora ainda estivesse a alguma
distância. A cabeça, com um chapéu, estava abaixada. Ela
parecia estar se concentrando em manter o equilíbrio. Ela parou
e olhou para o mar. Que, de qualquer modo, ainda estava longe e
não havia perigo iminente para ela. Se ela tivesse que voltar para
vila, no entanto, realmente deveria voltar logo. O único outro
caminho de volta era por cima do promontório, mas a faria
invadir as terras de Penderris.
A cabeça dela se virou para olhar para o declive de cascalho
íngreme até o topo como se tivesse lido seus pensamentos. Não o
viu, felizmente. Ele estava na sombra, e sentou-se muito
quieto. Não queria ser visto. Queria que ela voltasse do jeito que
havia chegado.

Ela não virou as costas, no entanto. Em vez disso, foi na
direção da encosta e, em seguida, começou a marchar para cima,
a capa e a aba do chapéu balançando ao vento. Parecia
pequena. Parecia jovem. Era impossível dizer quão jovem, porém,
já que ele não podia ver seu rosto. Pela mesma razão, não havia
como saber se ela era graciosa ou feia, ou simplesmente comum.
Os amigos iriam provocá-lo por uma semana, se viessem a
descobrir sobre isso, Hugo pensou. Tinha uma imagem mental de
si mesmo pulando da posição na qual se encontrava, caminhando
propositadamente em direção a ela através das pedras,
informando-a que ele possuía um título e era imensamente rico, e
perguntando se ela gostaria de casar com ele.
Embora não fosse um pensamento particularmente
divertido, teve que reprimir o impulso de rir e deixá-la ciente da
sua presença.
Ele ficou muito quieto e esperou que, ainda assim, ela se
virasse para trás. Se ressentia por ter a solidão ameaçada por um
estranho e transgressor. Não conseguia se lembrar disso ter
acontecido antes. Não eram muitas as pessoas de fora da
propriedade que iam àquele caminho. O duque de Stanbrook era
temido por muitos nesta parte do país. O rumor inevitável que
tinha florescido após a morte da duquesa, de que ele tinha
realmente a empurrado sobre o penhasco de onde ela havia
saltado. Essas histórias não morrem facilmente, apesar da falta
de qualquer evidência. Mesmo aqueles que não chegavam a temêlo, pareciam cautelosos com ele. E sua maneira contida e austera
não ajudava a dissipar qualquer suspeita.
Talvez a mulher de vermelho fosse uma estranha. Talvez
ela não soubesse que estava subindo diretamente ao covil do
dragão.
Hugo se perguntou por que ela estava sozinha em um
cenário tão desolado.

As pedrinhas soltas deslizavam debaixo dos seus pés
enquanto ela subia. Não era uma subida fácil, como ele sabia por
experiência própria. E então, justamente quando parecia que ela
iria seguramente passar e não o ver, seu pé direito desalojou uma
pequena avalanche de pedras e deslizou para baixo
bruscamente. Ela caiu desajeitadamente sobre seus joelhos e
mãos, a perna direita esticada para trás. Por um momento ele
teve um vislumbre de uma delgada perna nua entre o topo da
bota e a orla do manto.
Ele ouviu um gemido de dor.
Esperou. Realmente não queria ter que revelar sua
presença. Logo se tornou evidente, porém, que ela havia
machucado gravemente o pé ou o tornozelo e que não seria capaz
de terminar de subir e seguir seu caminho. Ela era jovem, ele
podia ver. E era pequena e esbelta. Sob a aba do chapéu, cachos
de cabelo louro estavam soprando no vento. Ele ainda não tinha
visto seu rosto.
Seria grosseiro permanecer em silêncio.
- Levando em conta a minha opinião, - disse ele - este
tornozelo está torcido ou realmente quebrado. De qualquer forma,
seria muito insensato tentar colocar qualquer peso sobre ele.
Sua cabeça se ergueu quando ele desceu sobre os seixos e
caminhou em direção a ela. Arregalou os olhos, com uma
expressão que parecia ser medo em vez de alívio de que a ajuda
estivesse a caminho. Eram grandes olhos azuis, em um rosto de
rara beleza, mesmo que ela não fosse mais uma garota. Ele supôs
que a idade dela estivesse próxima da sua, trinta e três.
Ele estava irritado. Odiava quando as pessoas tinham medo
dele. Muitas vezes as pessoas tinham. Até mesmo alguns
homens. Mas especialmente as mulheres.

Poderia ter lhe ocorrido que um semblante carrancudo não
era algo para inspirar confiança, especialmente em um cenário
desolado, solitário como este. No entanto, não lhe ocorreu.
Ele fez uma careta para ela do alto de sua grande estatura.

Capítulo 2
- Oh! - Ela gritou. - Quem é o senhor? O Duque de
Stanbrook?
Ela mal conhecia esta parte do país, então...
- Meu nome é Trentham - disse ele. - A senhora veio da
aldeia?
- Sim. Eu pensei que caminhando pelo outro lado do
promontório, chegaria logo lá - disse ela. - Mas o caminho é mais
longo e difícil de andar do que eu esperava.
Ela certamente era uma senhora. Suas roupas eram
elegantes e pareciam caras. Era articulada e falava com um leve
sotaque. Havia um ar indefinível de boa educação em suas
maneiras.
Ele não tinha o que repreender nos modos dela.
- É melhor que eu dê uma olhada no seu tornozelo - disse
ele.
- Oh, não. - Ela recuou horrorizada. - Isso é completamente
desnecessário, obrigada, Sr. Trentham. Foi uma leve torção.
Ficarei bem, só preciso de alguns minutos de descanso e voltarei
a caminhar novamente.
Senhoras e seu senso de dignidade! Gostavam de ignorar
qualquer realidade desagradável.
- Vou dar uma olhada, de qualquer forma. - Ele se abaixou
ao lado dela e estendeu a mão grande até a barra da saia. Ela
olhou para ele, inclinou o corpo para trás, mordeu o lábio, e não
argumentou mais.
Ele segurou a bota com firmeza e delicadeza ao examinar
seu tornozelo com a outra mão, com todo o cuidado para não

causar mais danos. Não achou que estivesse fraturado, mas
estava relutante em prosseguir o exame, com receio de remover a
bota. A bota poderia estar sendo de alguma ajuda, já que o
tornozelo começava a inchar. Nesse estado, hoje ela não
prosseguiria a caminhada de volta à aldeia ou qualquer outro
lugar, nem mesmo com a ajuda de um braço para se apoiar.
Ela ainda estava mordendo o lábio quando ele a fitou. Seu
rosto estava pálido e tenso com a dor, e talvez constrangimento.
Ele havia descoberto sua perna quase até o joelho. Havia um
buraco irregular na meia de seda, seu joelho fora atingido de
raspão e até havia um pouco de sangramento. Ele enfiou a mão
no bolso do sobretudo, onde colocara um lenço de linho limpo esta
manhã. Ele o abriu, dobrou-o três vezes, e envolveu o joelho dela
antes de firmá-lo com um nó abaixo da rótula. Em seguida, ele
baixou sua saia e se levantou.
Notou o vermelho intenso sobre as maçãs de seu rosto.
Por que diabo ele observara, com certo interesse, sua
caminhada pela praia? Porque ela não fora mais cuidadosa
enquanto subia a ladeira? Maldição! Ele não podia simplesmente
deixá-la sozinha ali.
- Vou levá-la a Penderris - ele disse, não muito satisfeito. Um médico deve olhar esse tornozelo o mais rápido possível. O
joelho também deve ser limpo e enfaixado corretamente. Eu não
sou um médico.
- Oh, não... - ela gemeu lastimosa. - Penderris. A
propriedade está assim tão perto? Eu não percebi. Fui
aconselhada a não ir tão longe. O senhor acaso conhece o Duque
de Stanbrook?
- Sou um convidado na casa - disse ele secamente. - Agora,
podemos fazer isso da maneira mais difícil, senhora. Posso apoiála junto ao meu corpo e, com a mão em sua cintura, ajudá-la a se
mover enquanto a senhora pula em um pé... Mas devo avisá-la

que estamos a uma boa distância da casa. Ou podemos fazê-lo da
forma mais fácil, simplesmente posso carregá-la nos braços.
- Oh, não! - Ela gemeu de novo, mais alto desta vez, e meio
que se encolheu. - Eu peso uma tonelada. Além disso...
- Eu duvido, senhora - disse ele. - E garanto que sou
perfeitamente capaz carregá-la, sem deixá-la cair ou causar mais
danos ao seu tornozelo.
Ele se inclinou sobre ela, deslizou um braço sobre os ombros
enquanto passava o outro sob seus joelhos, e endireitou-se com
ela já nos braços. Ela soltou às pressas um braço sob a capa e
envolveu o pescoço masculino. Mas foi muito óbvia em mostrar
que se assustou. Em seguida, mostrou certa indignação.
Naturalmente lhe tinha oferecido uma escolha, mas não
esperara que ela a fizesse. Na verdade, não lhe dera escolha
alguma. Afinal, para ele, era só uma mulher idiota que
certamente escolheria causar mais danos a si mesma, apenas
para preservar a tão afamada dignidade feminina.
Ele caminhou para cima, carregando-a da melhor maneira
possível, permitindo que seus músculos, trabalhassem.
- O senhor sempre - ela perguntou-lhe, com a voz ofegante e
frieza arrogante, - faz exatamente só o que lhe convém, Sr.
Trentham, mesmo quando oferece uma opção de escolha às suas
vítimas?
Vítimas?
- Além disso - continuou ela sem lhe dar a oportunidade de
responder à pergunta - eu teria feito outra escolha, senhor.
Prefiro caminhar com meus próprios pés até a casa.
- Isso seria uma tolice - disse ele, nem mesmo tentando
esconder o desprezo que estava sentindo. - Caso não tenha
percebido, senhora, seu tornozelo está inchando.

Ela cheirava bem. Não era o tipo de perfume que muitas
mulheres usavam, do tipo que agrediam o olfato e a garganta, lhe
causando espirros e tosse. Suspeitava que fosse um perfume
muito caro. O perfume agradável se agarrava sedutoramente à
mulher, sem invadir o espaço pessoal dele. Seu traje de cor clara
parecia ser feito de lã fina. Lã cara. Ela não era uma senhora de
poucas posses.
Era apenas uma mulher descuidada e tola...
Bem, geralmente senhoras ricas estavam sempre
acompanhadas por criados onde quer que fossem. Onde estava
sua comitiva? Ele poderia ter sido salvo do envolvimento pessoal
se ela estivesse devidamente acompanhada.
- Senhor, meu tornozelo sempre foi problemático - disse ela.
- Estou acostumada a isso. Há anos atrás, caí de um cavalo e
quebrei o pé; a fratura não foi calcificada corretamente. Eu
realmente devo lhe pedir que me coloque no chão para que eu
siga meu caminho.
- A senhora está com o pé muito inchado - disse ele. - Se veio
da vila, terá mais de uma milha a percorrer antes que chegue lá.
Quanto tempo à senhora suportará a dor enquanto rasteja por
toda essa distância?
- Acredito - disse ela com voz fria e desdenhosa - que essa
preocupação seja minha, Sr. Trentham, não sua. Mas vejo que é o
tipo de homem que sempre acredita estar certo e os outros
errados, segundo a sua opinião.
“Bom Deus! Será que ela pensa que ele estava gostando de
bancar Sir Galahad?”
Ainda estavam acima da encosta, apesar de terem deixado o
caminho pedregoso para trás e estarem em solo coberto de grama
rasteira. Ele parou de repente, colocou-a no chão e, com uma
passada, afastou-se dela. Cruzou as mãos atrás das costas e a

olhou fixamente com uma expressão que usara com soldados
recalcitrantes durante as marchas.
Queria realmente provocá-la.
- Obrigada - disse ela com fria altivez, embora ela meio que
zombasse de seu olhar, de repente irritado. - Agradeço-lhe por ter
vindo em meu auxílio, senhor. Sei que poderia ter ignorado meu
acidente, mas, em sua gentileza, não o fez. Sou Lady Muir.
Ah, definitivamente uma Lady. Ela esperava que ele,
provavelmente, abaixasse a cabeça e se desmanchasse em
desculpas.
Ela deu um passo para trás e desabou em uma profusão de
saias e anáguas, de forma nada digna no chão.
Ele fechou os olhos e franziu os lábios. Ela não gostaria que
um estranho zombasse de sua perda de dignidade.
Silêncio... Então Trentham abriu os olhos e a viu ajoelhada
no chão, com o corpo trêmulo e ... rindo. Era um som alegre, de
pura diversão, embora cessasse em um leve gemido de dor.
- Senhor Trentham, - a jovem dama disse - tem minha
permissão para dizer “eu avisei”.
- Sim, eu avisei, - disse ele - mas não se deve discutir com
uma Lady. E é Lorde Trentham.
Foi uma atitude imatura ressaltar esse detalhe, mas ela o
irritava.
Ela virou-se para se sentar no chão. Foi, provavelmente,
uma atitude ainda mais tola. O solo ainda devia estar úmido da
chuva de ontem, ele pensou. Ele a fitou com olhos duros e altivos.
Ela suspirou diante da expressão severa. Seu rosto estava
pálido de novo. Ele apostava que o tornozelo latejava. E agora a

dor devia ser quase insuportável, graças à sua tentativa de
colocar peso sobre ele.
- O senhor me deu uma escolha, há poucos minutos - disse
ela, toda a arrogância ausente em sua voz, embora um traço de
riso permanecesse. - Embora o senhor me julgue uma mulher
tola, não o sou, vou escolher a segunda. Ao menos espero que a
oferta ainda esteja de pé. O senhor tem todo o direito de retirá-la
agora, mas eu ficaria muito grata se me levasse a Penderris.
Creia-me, Lorde Trentham, o mero pensamento de impor minha
presença na casa de estranhos, me é profundamente angustiante.
Se o Senhor me fizesse à gentileza de arranjar algum transporte
assim que chegarmos, talvez eu não precise entrar e...
Ele se curvou e a pegou nos braços novamente. Ela se calou
com expressão arrependida.
Trentham caminhou em direção da casa. Não deixou
brechas para conversas. Só podia imaginar o tipo de recepção que
teriam, e o tipo de provocação que ele teria que suportar
enquanto durasse sua estadia em Penderris.
- Acaso o senhor é ou foi um militar, Lorde Trentham - disse
ela, quebrando o silêncio alguns minutos mais tarde. - Estou certa
que foi, não?
- O que a faz dizer isso? - Ele perguntou sem olhar para ela.
- Bem, o senhor tem o porte e a atitude de um oficial militar
- a Lady disse. - Tem uma expressão dura, parece um homem
acostumado a comandar.
Ele a fitou rapidamente. E não respondeu.
- Oh, isso vai ser terrivelmente embaraçoso - ela gemeu
minutos mais tarde, quando se aproximavam da casa.
- No entanto, bem melhor, eu diria - ele disse secamente. Imagine ficar abandonada na encosta acima da praia, exposta aos

elementos e à espera das gaivotas que bicariam seus olhos. Impiedosamente, ele desejava que fosse precisamente isso, exceto
pela participação das gaivotas na cena, é claro.
- Oh... - ela disse com uma careta. - Quando o senhor coloca
as coisas nessa perspectiva, devo confessar que está
absolutamente certo.
- Às vezes estou - disse ele.
Senhor! Que piada! Por que justamente hoje ele tivera a
necessidade de caminhar pela praia e encontrar essa mulher que
preenchia os requisitos ideais para se casar. E ali estava ele, na
hora certa, carregando uma verdadeira Lady de volta para casa.
Uma Lady extremamente bonita também.
Talvez ela não fosse o que aparentava. Na verdade, quase
não existiam mulheres ideais para se casar. Ela se apresentou
como Lady Muir. Isso indicava que em algum lugar, talvez na
aldeia, a uma milha de distância, houvesse um Lorde Muir. Fato
que não o salvaria da provocação. Ele simplesmente seria
admoestado. De fato, seria acusado da forma mais ingênua de
erro de cálculo.
E levaria um longo tempo para que esquecessem o ocorrido.
Gwen
certamente
estaria
pensando
no
maior
constrangimento que passaria na sua vida, se sua mente não
estivesse mais preocupada com a dor que sentia. Ainda assim,
sentia-se envergonhada.
Não só estava sendo levada para uma casa estranha, a
propriedade de um nobre importante que não estava à espera
dela, mas também estava sendo carregada por um desconhecido
enorme, rabugento e que não fizera nada para esconder o fato de
que a desprezava. O problema era que ela não podia culpá-lo. Ela
havia se comportado mal. Tinha feito o papel de tola.

Mas, intimamente, ficara impressionada com aquela
montanha de músculos e força. Enquanto o observara se
aproximar dela na praia, o estranho lhe parecera
perturbadoramente masculino. Podia sentir o calor do corpo dele
atravessar sua roupa pesada e a dela. Podia sentir seu perfume
ou o seu sabão de barbear, um cheiro extremamente masculino.
Podia ouvir sua respiração, embora ele não estivesse ofegante
pelo esforço de carregá-la. Na verdade, sua ação inusitada a fazia
se sentir como se não pesasse nada.
Seu tornozelo estava latejando muito, de fato. Não havia
razão para continuar a fingir que seria capaz de caminhar de
volta à vila, assim que sentiu as primeiras pontadas de dor.
Oh... Céus, ele realmente era um homem taciturno. E
silencioso. Não tinha sequer confirmado ser um militar ou não. E
ele não parecia querer oferecer mais informações, embora, para
ser justa, ao carregá-la, ele precisaria usar de toda força física.
Pelos céus... Ela teria pesadelos sobre isso por um longo
tempo.
De fato, ele a levava direto às portas da frente de Penderris
Hall, que parecia uma mansão enorme. Ele continuava, como ela
já esperava, ignorando totalmente seu pedido de ser levada às
portas de trás da residência, onde certamente conseguiria um
coche que a levaria para casa... Mas não... Céus ela queria evitar
entrar na casa. Só esperava que o Duque não estivesse por perto
quando ela fosse levada para dentro. Talvez um dos criados
pudesse trazer uma carruagem para transportá-la de volta à vila.
Mesmo imaginando o espetáculo da cena.
Lorde Trentham subiu um pequeno lance de escadas e virou
de lado, a fim de bater o ombro contra uma das portas. Foram
recebidos quase que imediatamente por um homem de aparência
sóbria, vestido de preto, como qualquer mordomo que se preze.
Ele ficou de lado, sem soltar nenhum comentário enquanto Lorde
Trentham a carregava até um grande salão.

- Temos um soldado ferido aqui, Lambert - Lorde Trentham
disse sem qualquer traço de humor na voz. - Vou levá-la até a
sala de estar.
- Oh, não, por favor.
- Quer que eu mande chamar o Dr. Jones, meu Lorde? Perguntou o mordomo.
Mas antes que Lorde Trentham pudesse responder ou Gwen
protestar, alguém entrou em cena. Um cavalheiro magro, loiro,
alto e extremamente bonito, com os olhos verdes e uma
sobrancelha levantada, entrou no salão com expressão
zombeteira. O Duque de Stanbrook, Gwen pensou com o coração
apertado. Ela dificilmente poderia ter imaginado uma cena igual
a esta por mais que tivesse tentado.
- Hugo, meu caro - disse o cavalheiro, com voz preguiçosa Como conseguiu essa proeza? Você é um homem de muitos
recursos, não? De um simples passeio à praia, consegue
arrebatar, literalmente, uma bela donzela com seu charme, para
não mencionar seu título e fortuna. Realmente, meu caro, estou
surpreso com seu feito. Se eu fosse um artista, me atiraria às
telas e pincéis a fim de gravar tal cena para o deleite de seus
descendentes, até a terceira e quarta geração.
Ele havia baixado a sobrancelha e levantara um monóculo
para o olho enquanto falava.
Gwen olhou para ele. E respondeu com toda dignidade fria
que conseguiu reunir.
- Senhor, eu só torci o tornozelo - explicou ela - Lorde
Trentham teve a gentileza de me socorrer e trazer-me até aqui.
Não tenho a intenção de impor minha presença à sua
hospitalidade por mais tempo do que o necessário, Vossa Graça.
Tudo que peço é o préstimo de algum transporte que me leve de

volta à vila, onde estou hospedada. Presumo que seja o Duque de
Stanbrook, não?
O cavalheiro loiro baixou o monóculo e levantou a
sobrancelha novamente.
- Minha cara senhora..., sinto-me lisonjeado por ser elevado
na hierarquia - disse ele. – Infelizmente, está enganada. E ouso
dizer que Lambert vai armar um show se você insistir com isso,
meu caro Hugo. No entanto, você parece ansioso para
impressionar a dama com sua força ao querer levá-la ao andar de
cima nos braços e entrar na sala de visitas, sem qualquer outra
explicação.
- É bom você não se exceder, Flavian - outro senhor, mais
velho, disse quando se aproximou da parte de trás do salão. Você não parece saber nada sobre hospitalidade. Milady, eu
concordo plenamente com Hugo e meu bom mordomo. A senhora
deve ser levada à sala de estar para descansar o pé em um sofá,
enquanto eu chamo o médico para avaliar os danos. Deixo
Stanbrook inteiramente ao seu serviço. A senhora gostaria que eu
mandasse chamar alguém na vila..., seu marido, talvez?
Céus, isso está ficando cada vez pior. Se houvesse um
buraco no meio do salão, me jogaria nele. Gwen pensou... Agora
ela ficaria feliz se Lorde Trentham a tivesse deixado na encosta.
O Duque era mais do que tinha imaginado. Alto, magro,
elegante, feições finamente esculpidas e bonitos cabelos escuros
com mechas prateadas nas têmporas. Sua maneira era cortês,
mas seus olhos cinzentos eram constrangedores, frios; até a voz
era fria. Ele falou de hospitalidade, mas a fez sentir-se como uma
intrusa.
- Sou a viúva do Visconde Muir - Gwen disse ao duque. Sou uma convidada na casa da Sra. Parkinson, na aldeia.

- Ah... - disse o duque. - Ela perdeu o marido recentemente,
depois de ele ter sofrido uma doença prolongada. Mas não
queremos ficar em seu caminho, Hugo. Leve a Lady para cima.
Mais tarde, espero ter o prazer de uma conversa com a senhora,
Lady Muir, depois que seu tornozelo seja bem cuidado.
Ele fez soar como se toda aquela comoção não fosse nada,
como se fosse só uma convidada para o chá. Ou talvez estivesse
sendo injusta devido a seu extremo desconforto com a situação.
Ele estava oferecendo hospitalidade e os serviços de um médico,
afinal.

Como podia uma torção no tornozelo causar tanta dor? Ou
talvez estivesse quebrado.
Lorde Trentham virou-se com ela nos braços e caminhou em
direção a uma grande escadaria que serpenteava acima em uma
curva elegante. Ela podia ouvir o Duque de Stanbrook dando
ordens, tanto para chamar o médico quanto a informar sobre o
paradeiro da hóspede relutante na vila, tudo era resolvido sem
mais delongas. Ao longe, ouviu que o cavalheiro de monóculo,
aquele que falou com um suspiro afetado na voz e uma leve
gagueira, parecia estar se oferecendo para executar a missão.
Já no andar de cima, a sala estava vazia. Foi um alívio, pelo
menos. Era uma sala grande, quadrada, com paredes brancas
cobertas de pinturas, cortinas de cor vinho nos batentes das
grandes janelas, e uma lareira de mármore esculpido em frente à
porta. O teto abobadado era pintado com cenas da mitologia, o
friso abaixo delas todo dourado. Os móveis elegantes e suntuosos.
As longas janelas davam vistas ao gramado cercado por sebes,
mas proporcionavam uma visão distante dos penhascos e do mar.
Um fogo crepitava na lareira, e o calor da sala impedia que o
olhar demasiado duro de seu salvador a perturbasse ainda mais.

Gwen lançou o olhar ao ambiente requintado e sentiu toda a
humilhação de ser uma hóspede indesejada, principalmente em
tal casa. Mas, por enquanto, seria melhor não arranjar mais
confusão e exigir novamente o empréstimo do coche para ser
levada de volta à vila.
Lord Trentham a colocou sobre um sofá de brocado e pegou
uma almofada para colocar sob o tornozelo lesionado.
- Não, por favor - ela soltou um gritinho - minhas botas
estão imundas, sujarão o sofá.
Essa seria a última gota.
Mas ele não a deixaria tocar o pé no chão. Nem permitiria,
também, que ela se inclinasse para frente para retirar as botas.
Ele insistiu em fazer isso por ela. Não que ele pronunciasse
alguma palavra pedindo consentimento ou um comando, mas
seria difícil para ela empurrar de lado suas mãos grandes e os
braços maciços, ou sequer impor sua opinião a ouvidos surdos.
Ele fora um perfeito cavalheiro ao lhe prestar socorro, ela
admitiu a contragosto, mas ele precisava ser tão desagradável
assim?
O Lorde desfez os laços de sua bota esquerda e removeu-a
sem qualquer problema antes de colocá-la no chão. Ele foi muito
mais cuidadoso com a outra bota. Gwen soltou as fitas do chapéu,
puxando-o para fora de sua cabeça, e ele caiu para o lado do sofá.
Ela descansou a cabeça contra o braço almofadado. E fechou os
olhos, cerrando-os com força enquanto sentia uma nova onda de
agonia. Ele tinha as mãos surpreendentemente delicadas, mas
não foi fácil para ele tirar o pé do calçado, e uma vez livre, mais
nada poderia fazer para apoiar o pé ou impedir o inchaço. Ela o
sentiu levantar ainda mais a almofada.
Mas a dor, às vezes, entorpecia a sensibilidade, ela pensou
alguns momentos mais tarde, quando sentiu as mãos chegarem

debaixo de sua saia, primeiro para remover o lenço que tinha
enrolado sobre seu joelho e, depois, para rolar para baixo sua
meia rasgada, facilitando o acesso ao pé.
Dedos quentes sondaram o inchaço.
- Eu não acredito que esteja quebrado - disse Lorde
Trentham. - Mas não posso ter certeza. Você deve manter o pé no
alto até que o médico chegue. O corte no seu joelho é superficial e
vai cicatrizar em poucos dias.
Ela abriu os olhos, estando ciente de seu pé descalço e uma
boa parte da perna nua levantada sobre a almofada. Lorde
Trentham estava de pé, mãos cruzadas às costas, com os pés
calçados com botas. Uma típica imagem de militar à vontade.
Seus olhos escuros estavam olhando diretamente em volta dela, e
sua postura permanecia rígida.
Ele se ressentia por ela estar ali, pensou. Bem, ela tinha
tentado não estar. Ela é quem deveria estar bem ressentida.
- A maior parte das mulheres - disse ele - não costuma
suportar bem a dor. A senhora o faz bem.
Ele estava insultando seu sexo, mas elogiando sua pessoa.
Ela deveria sentir gratidão?
- O senhor se esquece - disse ela - que são as mulheres que
carregam e parem crianças. Nunca ouviu dizer que a dor do parto
é a pior que existe?
- A senhora tem filhos para comprovar esse ditado? Perguntou.
- Não. - Ela fechou os olhos novamente e sem razão
aparente continuou um assunto que evitava ao máximo, mesmo
diante dos entes mais próximos e queridos. - Eu o perdi antes de
nascer. Aconteceu quando fui jogada do meu cavalo e quebrei a
perna.

- E o que a senhora estava fazendo sobre um cavalo sabendo
que estava grávida? - Perguntou.
Era uma boa pergunta, mesmo que fosse dita de um modo
insolente demais.
- Saltando. - disparou ela - Vernon e eu estávamos saltando.
Sempre estávamos a cavalo. Mas meu alazão era um tanto difícil
de controlar e acabei no chão
Houve um curto silêncio. Por que Diabos ela tinha dito
aquilo?
- O seu marido sabia que estava grávida? - Perguntou.
Era uma pergunta imperdoavelmente íntima. Mas ela
começara o assunto.
- Claro - disse ela. - Eu estava com quase seis meses de
gestação.
E agora ele pensaria todo tipo de coisas pouco elogiosas
sobre Vernon. Era injusto da parte dela ter dito tanto, quando ela
certamente não estava preparada para dar outras explicações.
Ela parecia ter metido os pés pelas mãos novamente, mas não a
agradava se mostrar sob uma luz desfavorável, então colocou os
olhos sobre ele primeiro e se encolheu de medo. Sim, ela
realmente teve medo dele.
- A senhora queria essa criança? - Perguntou.
Seus olhos se arregalaram e ela o fitou sem palavras. Que
tipo de pergunta era aquela?
Ele a fitava com os olhos duros. Acusadores. Condenando-a.
Mas o que ela esperava? Ela fizera Vernon e a si mesma
parecerem imprudentes e irresponsáveis.
Era hora de mudar de assunto.

- Será que o senhor loiro que encontramos no térreo é um
convidado em Penderris também? - Perguntou ela. - Haverá
alguma festa na casa?
- Ele é o Visconde Ponsonby - disse ele. - Há seis convidados
aqui, além de Stanbrook. Nós nos reunimos aqui por algumas
semanas a cada ano. Stanbrook abriu a casa para nós por vários
anos durante e depois das guerras, enquanto nos recuperávamos
de várias feridas.
Gwen olhou para ele. Não havia nenhum sinal exterior de
qualquer ferimento que poderia ter incapacitado o Lorde
Trentham por tanto tempo. Mas ela estava certa sobre ele. Ele
era um militar.
- Todos eram oficiais? - Ela perguntou.
- Sim - disse ele. - Cinco de nós estiveram nas últimas
guerras, Stanbrook nas anteriores. Seu filho e outros morreram
nas guerras de Napoleão
Ah, sim. Pouco antes de a Duquesa pular do penhasco para
a morte.
- E a sétima pessoa? - Perguntou ela.
- Uma mulher - disse ele - viúva de um oficial que foi
torturado até a morte depois de ser capturado. Ela estava
presente quando ele finalmente foi executado.
- Oh - disse Gwen, fazendo uma careta.
Agora ela se sentia pior do que nunca. Isso era muito pior
do que se impor em uma festa em casa estranha. E a simples
torção no tornozelo parecia embaraçosamente trivial em
comparação ao que o Duque e demais pessoas naquela casa
deviam ter sofrido.
Lorde Trentham pegou uma manta na parte de trás de uma
cadeira próxima e se aproximou para estendê-la sobre a perna

ferida de Gwen. No mesmo instante, as portas se abriram
novamente e uma mulher entrou carregando uma bandeja de
chá. Ela era uma Lady, não uma empregada. Era alta e de
postura empertigada. Seu cabelo loiro escuro estava preso em um
coque, mas a simplicidade, apesar da severidade, do estilo
enfatizava a estrutura óssea perfeita de seu rosto oval, com as
maçãs do rosto finamente esculpidas, nariz reto e olhos azulesverdeados cercados por cílios um tom mais escuro que o cabelo.
Sua boca era ampla e generosa. Era linda, apesar do fato de que
seu rosto parecia esculpido em mármore. Parecia nunca ter
sorrido, ou melhor, era como se ela fosse incapaz de fazê-lo,
mesmo se quisesse. Seus olhos eram grandes e muito calmos,
quase não pareciam naturais.
Ela veio para o sofá e teria colocado a bandeja sobre a mesa
ao lado de Gwen, se Lorde Trentham não a tivesse tomado das
mãos dela primeiro.
- Eu servirei o chá, Imogen - disse ele.
- George supôs que me diria isso, mas julgo impróprio que
fiquem o cavalheiro e a dama a sós em uma sala - a senhora disse
- Lady Muir, mesmo que ele a tenha resgatado de uma situação
perigosa, creio que será melhor eu permanecer aqui e lhe fazer
companhia. Mais tarde pode voltar para a casa onde está
hospedada. Servirei como sua acompanhante.
Sua voz era fria.
- Esta é Imogen, Lady Barclay, - Lorde Trentham disse que nunca pareceu considerar impróprio ficar em Penderris com
seis cavalheiros e nenhuma acompanhante.
- Eu confiaria minha vida a qualquer um dos seis - Lady
Barclay disse, inclinando a cabeça cortesmente à Gwen. - Na
verdade, eu já o fiz. A senhora parece constrangida, minha cara.
Não precisa. Como machucou o tornozelo?

Serviu três xícaras de chá enquanto Gwen descrevia o que
havia acontecido.
Então, esta é a Senhora que perdera o marido de modo tão
trágico, pensou Gwen. Ela podia imaginar os tormentos que a
mulher devia ter vivido a cada minuto desde aquele dia fatídico.
Ela devia se perguntar se poderia ter feito algo para evitar o
desastre. Assim como Gwen sempre se perguntara a si mesma o
que poderia ter feito quanto à morte de Vernon.
- Eu me sinto uma tola - disse, concluindo a história.
- Claro que não - Lady Barclay declarou. - Isso pode
acontecer a qualquer um, principalmente aos hóspedes desta
casa. Estamos sempre subindo e descendo à praia, o caminho é
bem traiçoeiro, ainda mais tendo em conta a quantidade de
pedras que vivem rolando pela encosta.
Gwen olhou para Trentham, que bebia o
silenciosamente, seus olhos escuros descansando sobre ela.

chá

Ele era, pensou com alguma surpresa e um pouco de temor,
um homem terrivelmente atraente. E não deveria pensar nele
assim. O homem era muito grande para ser elegante ou gracioso.
Seu cabelo era curto demais para suavizar a dureza de suas
feições ou sua expressão continuamente rígida. Sua boca sempre
estreitada com um ricto de desprazer não deveria ser considerada
sensual. Seus olhos eram tão escuros e penetrantes que
dificilmente uma mulher haveria de querer esse olhar fixo nela.
Não havia nada que sugerisse charme ou bom humor, muito
menos qualquer tipo de calor em tal personalidade.
Mas ainda assim…
Ainda assim, sentia uma sombria atração quase irresistível
sobre ele. Sim, masculinidade.
Seria uma experiência absolutamente maravilhoso, pensou,
ir para a cama com ele.

O pensamento a chocou intimamente. Desde a morte de
Vernon, há sete anos, ela mantivera à distância qualquer
pensamento que se referisse à satisfação sensual e física. Não
pensara em um compromisso e nem em casamento. Porque
pensar em sexo agora?
Será que a atração inesperada e ridícula tinha algo a ver
com a onda também inesperada de solidão que a dominara na
praia, pouco antes de conhecê-lo?
Ela ignorou a conversa de Lady Barclay, enquanto os
pensamentos estranhos zumbiam loucamente em sua cabeça.
Mas realmente começava a lhe parecer difícil se concentrar
totalmente nas palavras ou pensamentos. Dor... Lembrava-se
agora do momento em que ela quebrou a perna. Nunca poderia
limitar-se à parte física da fratura, mas a dor latejante
transpassava o corpo e a mente.
Lorde Trentham chegou a seus pés, logo que ela terminou
sua xícara de chá, levou um guardanapo de linho não usado da
bandeja de chá e foi até um aparador, onde deve ter encontrado
um jarro de água fria entre as garrafas de bebidas. Ele voltou
com um guardanapo úmido, colocando-o dobrado sobre a testa de
Gwen, e continuou segurando no lugar com uma mão. Ela
descansou a parte de trás da cabeça contra a almofada
novamente e fechou os olhos.
A frieza... Até mesmo a pressão da mão a fazia sentir-se
muito bem.
Onde estava agora o bruto insensível, como ela o julgara?
- Tive a esperança de distraí-la com a conversa - disse Lady
Barclay. - Está tão pálida, coitadinha. Mas ela não soltou um
gemido de queixa. Admirável, não?
- E Jones, certamente não pode demorar tanto - disse Lorde
Trentham.

- Ele virá assim que estiver livre - disse Lady Barclay. - Ele
é um homem ocupado, Hugo. E não há melhor médico no mundo.
- Lady Muir sofreu uma lesão anterior na mesma perna disse Lorde Trentham. - Ouso dizer que deve estar doendo muito.
Eles estavam falando dela como se ela não estivesse ali
para falar por si mesma, pensou Gwen. Mas, no momento, não se
importava. Ela realmente queria se distanciar da dor atroz.
E havia calor em suas vozes, ela notou. Como se realmente
gostassem um do outro. Quase como se estivessem de fato
preocupados com ela.
Mesmo assim, ela desejou que o médico chegasse logo para
que ela pudesse pedir ao Duque de Stanbrook, novamente, um
coche para levá-la à vila.
Oh, como ela odiava estar em dívida com alguém.

Capítulo 3
Quando Flavian retornou com o médico, trouxe a senhora
Parkinson também. Foi ela quem correu primeiro para a sala de
estar. Ela fez uma reverência para Imogen e Hugo e asseguroulhes que Sua Graça e eles eram a bondade em pessoa. E que ela
ficaria muito grata a Lorde Ponsonby pelo resto dos seus dias,
palavras dela, por trazê-la tão prontamente devido ao acidente de
sua querida amiga, e insistido sobre levá-la na carruagem de Sua
Graça, apesar do fato de que ela teria ficado feliz em caminhar
dez vezes a distância se necessário.
- Eu iria caminhando cinco, não, até dez milhas pela
querida Lady Muir, - ela assegurou-lhes - mesmo ela tendo sido
descuidada ao andar nas terras de Sua Graça, quando eu tinha
especificamente avisado para ter cuidado e evitar ofender ao
ilustre par do reino. Sua Graça teria bastante razão se tivesse
escolhido se recusar a acolhê-la em Penderris, embora eu ouse
dizer que ele hesitou em fazê-lo quando soube que ela é Lady
Muir. Suponho que tenho que agradecer o meu convite para
andar na carruagem, de fato tal distinção nunca me foi oferecida
antes, vocês sabem, apesar do fato de que o Sr. Parkinson era o
irmão mais novo de Sir Roger Parkinson e era ele mesmo o
quarto na linha do título depois dos três filhos de seu irmão.
Foi só depois que ela proferiu esse discurso notável, olhando
de Hugo a Imogen enquanto o fazia, que ela se virou para sua
amiga com as mãos no peito.
Hugo e Imogen trocaram um olhar inexpressivo, que diziam
muito. Flavian veio ficar em pé em silêncio ao lado da porta,
olhando abertamente entediado.
- Gwen! - Gritou à senhora Parkinson. - Oh, minha pobre
querida Gwen, o que você fez a si mesma? Eu estava fora de mim
de preocupação quando você não voltou de sua caminhada após
uma hora. Eu temia o pior e me culpava amargamente por ter me

sentido sem ânimo para acompanhá-la. O que eu teria feito se
você tivesse sofrido um acidente fatal? O que eu teria dito ao
conde de Kilbourne, seu querido irmão? Foi realmente muita,
muita maldade sua me causar tanto pânico. Tudo que eu senti, é
claro, é porque eu amo você querida.
- Eu torci o tornozelo, isso é tudo Vera - Lady Muir explicou.
- Mas, infelizmente, é impossível andar, pelo menos por
enquanto. Espero não ter de aproveitar da hospitalidade do
duque por muito tempo, no entanto. Confio que ele terá a
amabilidade de permitir que a carruagem volte à aldeia com nós
duas, uma vez que o médico tenha olhado meu tornozelo e o
enfaixado.
A Sra. Parkinson fitou sua amiga com claro horror, soltou
um gritinho e apertou as mãos ainda mais firmemente contra o
peito.
- Você não deve sequer pensar em ser removida - disse ela. Oh, minha pobre Gwen, você vai causar à sua perna danos
irreparáveis se tentar algo tão imprudente. Você já tem aquele
coxear do lamentável acidente anterior, e ouso dizer que isso tem
desencorajado outros senhores de a cortejarem, desde que morreu
o querido Lorde Muir. Você simplesmente não deve se arriscar a
se tornar inteiramente coxa. Sua Graça, estou certa, vai se juntar
a mim, e insistir que permaneça aqui até que seu tornozelo esteja
completamente curado. Você não deve se preocupar, pois não vou
descuidar de você. Vou suportar caminhar diariamente, para lhe
fazer companhia. Você é minha amiga mais querida no mundo,
depois de tudo. Estou certa que esta senhora e este cavalheiro,
bem como o Visconde Ponsonby também insistirão em que você
fique.
Ela sorriu graciosamente virando em direção a Imogen e
Hugo, Flavian parecendo ainda mais aborrecido do que o
habitual, apresentou-os.

A Sra. Parkinson estava provavelmente próxima em idade
de Lady Muir. Hugo supôs, se o tempo tivesse sido mais gentil
com ela. Considerando que Lady Muir ainda era bonita, embora
ela provavelmente tivesse mais de trinta anos, qualquer
pretensão de boa aparência da Sra. Parkinson ficara num
passado distante. Ela também carregava peso demais em seu
corpo e, mais do que era aceitável, sob o queixo e sobre peito e
quadris. Seu cabelo castanho tinha perdido qualquer brilho
juvenil, que uma vez poderia ter tido.
Lady Muir abriu a boca para falar. Ela estava claramente
consternada com a sugestão de permanecer em Penderris. Ela foi
impedida de expressar seus sentimentos, no entanto, quando a
porta se abriu novamente para a entrada de George e o Dr.
Jones, o médico de Londres que foi chamado anos atrás, quando
ele abrira sua casa para seis deles, e outros cuja permanência foi
de curta duração. O médico, desde então, tinha permanecido para
cuidar dos pobres que não podiam pagar seus honorários, assim
como dos ricos que podiam.
- Aqui está o Dr. Jones, Lady Muir - disse George. - Ele é o
mais hábil dos médicos, eu lhe garanto. A senhora pode se sentir
segura por confiar em seus cuidados. Imogen, faria a gentileza de
permanecer aqui com Lady Muir? O resto de nós vai retirar-se à
biblioteca. Sra. Parkinson, posso oferecer-lhe um chá e bolos? Foi
bom você ter vindo com Flavian e o médico em tão pouco tempo.
- Eu é que deveria ficar com Lady Muir - disse a Sra.
Parkinson, no entanto permitindo-se levar para a porta. - Porém
meus nervos estão no limite, Vossa Graça, depois de cuidar de
meu pobre e querido marido por tanto tempo. O Dr. Jones poderá
dizer que eles estiveram muito perto de se romperem por
completo desde o falecimento dele. Eu não sei como serei capaz de
dar a Lady Muir o cuidado que ela vai precisar em minha casa,
embora esteja muito ansiosa, como você pode imaginar, para
levá-la. Sinto-me responsável pelo que aconteceu. Se eu estivesse
com ela, como teria estado se não me sentisse desanimada esta

manhã, eu a teria mantido a uma distância decente de Penderris.
Estou aborrecida por ela ter desobedecido, embora eu suponha
que foi mais descuido do que deliberado da parte dela.
George fechou as portas da sala de estar e seguiu
caminhando para o andar de baixo com a Sra. Parkinson em seu
braço. Hugo e Flavian seguiram juntos, atrás deles.
- Será um prazer ter Lady Muir aqui, milady - disse George.
- E o médico já confirmou que a senhora está muito cansada após
sua devotada atenção ao seu marido durante sua longa doença.
- Isso é muito simpático dele, tenho certeza - disse a Sra.
Parkinson. - Virei todos os dias para visitar Lady Muir, é claro.
- Estou muito contente de ouvir isso milady - disse George,
acenando para um lacaio abrir as portas da biblioteca. - Minha
carruagem estará à sua disposição.
Flavian e Hugo trocaram um olhar, com uma sobrancelha
levantada. Vamos passar despercebidos enquanto podemos? O
olhar parecia perguntar.
Hugo franziu os lábios. Era tentador. Mas ele seguiu George
e sua convidada. Flavian deu de ombros e veio atrás dele.
- Lamento essa imposição à sua hospitalidade, Vossa Graça
- a Sra. Parkinson garantiu a George.
- Mas não é da minha natureza abandonar um amigo, em
necessidade. E assim, vou aceitar sua oferta da carruagem a cada
dia, embora eu teria o maior prazer em andar até aqui. Eu não
serei absolutamente um incômodo para você e seus convidados
enquanto eu estiver aqui. Será à Lady Muir que estarei visitando.
Eu, certamente, não devo esperar chá a cada dia.
Uma empregada tinha acabado de entrar na sala e estava
arrumando uma bandeja sobre a grande mesa de carvalho perto
da janela.

Era surpreendente, pensou Hugo, que a Sra. Parkinson
tivesse cultivado a amizade de Lady Muir. Afinal, ela era viúva
de um Lorde e irmã de um conde, e a Sra. Parkinson era
subserviente ao extremo. Era uma incógnita o porquê Lady Muir
era amiga dela. Ela tinha parecido a Hugo como sendo
decididamente arrogante, dos pés à cabeça. Ele não tinha
simpatizado com ela, apesar de sua inegável beleza. Embora ela
tivesse rido de sua própria situação, depois de exigir que a
colocasse no chão quando ele a carregava. Então, pedira para ser
carregada, depois de tudo. Mas ela, um dia, tinha sofrido um
aborto, devido à incrível imprudência de seu comportamento e o
descuido de seu marido. Ela era o tipo de mulher de classe alta
que Hugo mais desprezava. Parecia totalmente envolvida com si
mesma. E ainda assim, era amiga da Sra. Parkinson. Talvez ela
gostasse de ser venerada e adorada.
Pobre George, fora deixado sozinho para suportar o todo
peso da conversa, desde que ele, Hugo, estava em pé, em um
silêncio sombrio, desejando nunca ter parado para subir à borda
do penhasco, mas ter vindo direto para casa. E Flavian estava ao
lado de uma estante, folheando um livro, com um olhar de
desdém. Flavian sempre demonstrava desdém muito bem, ele
nem sequer precisava dizer uma palavra.
Isto era de extrema grosseria com George.
- A senhora conhece Lady Muir há muito tempo, Sra.
Parkinson? - Perguntou Hugo.
- Oh, meu Lorde, - disse ela, pousando a xícara e o pires, a
fim de apertar as mãos contra o peito novamente - nos
conhecemos desde sempre. Fizemos nossa apresentação juntas em
Londres quando éramos jovens, você sabe. Fomos apresentadas à
rainha no mesmo dia e dançamos em cada um dos bailes que
vieram depois. As pessoas eram gentis, diziam que éramos as
duas mais lindas e deslumbrantes jovens senhoritas no mercado

matrimonial daquele ano, embora eu ouse dizer que eles estavam
apenas sendo gentis comigo. Apesar de eu ter minha quota de
pretendentes, é verdade. Mais que Gwen, de fato, embora eu
suponha que foi devido, em parte, ao fato de que ela dera uma
olhada em Lorde Muir e decidira que seu título e sua fortuna
valeriam à pena. Eu poderia ter me casado com um marquês, ou
visconde, ou qualquer um de uma série de barões. Mas me
apaixonei perdidamente pelo Sr. Parkinson e nunca me
arrependi, em momento algum, por renunciar à vida
deslumbrante com um cavalheiro da nobreza e dez mil ou mais
por ano. Não há nada mais importante que o amor, mesmo
quando se trata de um simples irmão mais novo de um barão.
Como teria morrido Muir, se perguntou Hugo, depois de sua
mente vagar. Embora ele não tenha perguntado.
O médico estava entrando na sala, e confirmou a suspeita
de Hugo de que o tornozelo da paciente havia se torcido
severamente, mas aparentemente não tinha quebrado ou
trincado. No entanto, era imperativo que ela repousasse sua
perna por, pelo menos, uma semana.
O clube dos sobreviventes, iria se expandir e admitir mais
um
membro ao
que
parecia,
mesmo
que
apenas
temporariamente. George tinha permitido a Sra. Parkinson
ganhar um ponto e dar a oportunidade de vir impor sua
companhia sobre eles por alguns dias. Lady Muir ficaria
hospedada.
A Sra. Parkinson era a única entre eles que parecia
satisfeita com o veredicto, embora ao mesmo tempo em que ela
limpava os olhos com o lenço, emitisse um suspiro profundo.
Teria sido melhor, pensou Hugo, que ele não tivesse descido
à praia hoje. As brincadeiras da última noite deveriam ter sido
aviso suficiente. Deus, às vezes, se divertia dando à piada seu
próprio toque peculiar.

A nova entorse tinha sido agravada pela anterior que, por
sua vez, tinha sido mal curada. Ele gostaria muito de ter uma
palavra com o médico que cuidara dela, disse o Dr. Jones com
alguma gravidade, depois de ter explicado a situação a Gwen.
Ordenou que ela não colocasse o pé no chão por, pelo menos, uma
semana, nem mesmo sobre um banquinho baixo, mas mantê-lo
elevado em todos os momentos, sempre que possível, no mesmo
nível do coração.
Teria sido uma declaração sombria o suficiente, em
qualquer circunstância. Mesmo em casa, a perspectiva de
permanecer inativa por tanto tempo, teria sido cansativa. E junto
de Vera mais de uma semana, sem poder fugir da companhia de
seu anfitrião e seus amigos, era como ser condenado a uma
estadia no purgatório. No entanto, isso parecia o paraíso, em
comparação à realidade que ela enfrentava. Teria que passar ao
menos uma semana em Penderris Hall, como convidada do Duque
de Stanbrook. Estava sendo forçada a impor-se em uma reunião
de pessoas que passaram longos meses juntos, se recuperando de
ferimentos sofridos durante as guerras. Eles eram, certamente,
um grupo estreitamente ligado. A última coisa que qualquer um
deles queria era ser forçado à presença de uma estranha, uma
estranha para todos, que estava sendo cuidada por nada mais
letal que um tornozelo machucado.
Ela se sentiu envergonhada, com dor e com terríveis
saudades de casa. Mas, acima de tudo, estava com raiva. Estava
com raiva de si mesma por ter continuado ao longo da praia
depois de descobrir como era difícil caminhar naquele terreno, e
ter escolhido subir aquela ladeira traiçoeira. Ela tinha um
tornozelo fraco. Sabia de suas limitações e, normalmente, era
bastante sensata sobre o tipo de exercício que podia fazer.
Porém, acima de tudo, ela estava com raiva de Vera, estava
bastante furiosa de fato. Que verdadeira dama fecharia sua casa

à própria amiga a qual implorara para vir e fazer companhia em
sua dor e solidão, só porque essa amiga tinha sofrido um ligeiro
acidente? Caso fosse o contrário, a reação dela não teria sido o
oposto? Mas Vera, claramente e embaraçosamente, estava sendo
interesseira na sua falta de vontade em permitir que Gwen fosse
transportada a casa dela. Por mais que ela protestasse contra o
Duque de Stanbrook antes de hoje, ficara excitada além de
palavras pelo oferecimento e chance de vir à Penderris na
carruagem dele, nada menos, para que todos os habitantes da
aldeia testemunhassem. Ela tinha visto uma oportunidade de
prolongar a emoção, se tornando uma visitante diária aqui na
próxima semana ou, desse modo, tinha procedido a conseguir,
sem alguma consideração aos sentimentos de Gwen.
Gwen viu crescer sua humilhação, dor e raiva enquanto era
reclinada em cima da cama, no quarto de hóspedes que tinha sido
atribuído a ela. Lorde Trentham a tinha levado ali, a depositado
na cama e saído quase sem dizer uma palavra. Ele perguntou se
poderia lhe buscar qualquer coisa, mas tanto seu rosto quanto
sua voz tinham sido inexpressivos, ficando claro que ele não
esperava que ela dissesse sim.
Oh, ela não devia ceder à tentação de jogar a culpa pelo seu
desconforto nos ocupantes de Penderris Hall. Eles tinham sido
extremamente gentis com ela. Lorde Trentham a tinha carregado
todo o caminho da praia, ou quase isso. E suas mãos tinham sido
surpreendentemente gentis quando tirara suas botas. Ele tinha
trazido aquele pano fresco e colocado contra a testa dela apenas
quando a dor vinha, ameaçando-a de perder controle.
Ela não deveria gostar dele.
Ela só desejava que ele não a fizesse se sentir como uma
mimada colegial petulante.
Uma empregada a distraiu depois de um tempo. Trouxe-lhe
mais chá e as notícias de que uma porção de pertences dela

haviam sido trazidos da aldeia e estavam no closet ao lado do
quarto de dormir.
A mesma criada a ajudou a se lavar e trocar a roupa por um
vestido mais adequado para noite. Escovou o cabelo de Gwen e
refez o penteado. E, então, saiu do quarto deixando Gwen a
imaginar o que aconteceria a seguir. Ela esperava
desesperadamente que pudesse permanecer no quarto, e a
empregada trouxesse sua bandeja na hora do jantar.
No entanto, suas esperanças foram logo frustradas.
Uma batida na porta foi precedida pela entrada de Lorde
Trentham. Ele parecia muito grande e realmente esplêndido, em
um casaco de noite sobre outro bem ajustado traje de noite. Ele
também estava carrancudo. Não, isso era injusto. Seu rosto
demonstrava um certo olhar naturalmente ameaçador, Gwen
pensou. Ele tinha a aparência de um guerreiro feroz. Olhava
como se as sutilezas da vida civilizadas não fossem importantes
para ele.
- A senhora está pronta para descer? - Ele perguntou.
- Oh, - ela disse - eu realmente prefiro ficar aqui, Lorde
Trentham, e não ser um incômodo a ninguém. E, se não for um
problema, talvez o senhor pudesse pedir que me enviassem uma
bandeja?
Ela sorriu para ele.
- Acredito que seria um problema milady - disse ele. - Fui
enviado para levá-la para baixo.
As faces de Gwen esquentaram, com muita vergonha. E que
resposta muito grosseira. Ele não poderia a ter respondido de
forma diferente? Poderia ter dito a ela que sua companhia não
seria um incômodo para ninguém. Poderia ir mais longe, a ponto
de dizer que o duque e seus convidados estavam ansiosos para
que ela se juntasse a eles.

Ele poderia ter sorrido.
Ele caminhou em direção à cama, inclinou-se sobre ela, e
pegou-a.
Gwen colocou o braço em volta do pescoço e olhou para o
rosto dele, embora estivesse perturbadoramente perto. Ela
poderia manter suas boas maneiras, mesmo que ele não.
- O que fazem durante suas reuniões? Ela perguntou
educadamente. - Relembram velhas histórias de guerra?
- Isso seria uma estupidez - disse ele.
Ele sempre era tão rude? Ou apenas se ressentia dela e não
podia ser civilizado com ela? Mas, poderia tê-la levado de volta à
aldeia em vez de trazê-la aqui. Era forte como um gigante, de tal
forma que seu peso não seria um empecilho a ele.
- Vocês cuidadosamente evitam qualquer menção às
guerras, então? - Ela perguntou enquanto desciam as escadas.
- Nós sofremos neste lugar - ele disse a ela. - Nos curamos
aqui. Desnudamos nossas almas uns aos outros aqui. Deixar este
lugar, foi uma das coisas mais difíceis que tivemos de fazer em
um longo tempo. Mas era necessário para que nossas vidas
tivessem um significado novamente. Uma vez por ano, no
entanto, voltamos para nos tornar inteiros uma vez mais, ou para
fortalecer a ilusão de que somos um todo.
Foi um longo discurso para Lorde Trentham. Mas ele não
olhara para ela enquanto falava. Sua voz soara feroz e
ressentida. Ele a entendera errado novamente. Dera a entender
que ela era uma delicada e mimada dama, que não poderia
entender o tipo de sofrimento que ele e seus amigos tinham
passado. Ou o fato de que a dor nunca chegara a ter um fim e
que, por isso, o sofrimento ficara marcado para sempre.
Ela entendia.

Quando as feridas se curassem, tudo deveria ser reparado.
A pessoa deveria estar inteira novamente. Isso parecia fazer
sentido. Mas ela não tinha sido curada quando sua perna foi
unida depois de ter quebrado. Sua perna tinha sido mal curada.
No entanto, ela não teria ficado inteira, mesmo que sua perna
tivesse se curado perfeitamente. Ela também tinha perdido seu
filho não nascido, como resultado da queda. Poderia até se dizer
que ela matara seu filho. E Vernon nunca tinha sido o mesmo
depois do acontecido. E, então, aquilo levantou a questão – era a
mesma coisa?
Quando se havia sofrido uma vez um grande dano, haveria
sempre uma grande fraqueza depois, uma vulnerabilidade onde
havia antes integridade, força e inocência.
Oh, ela entendia.
Lorde Trentham levou-a para sala de estar e a colocou no
mesmo sofá, como antes. Mas, desta vez, a sala não estava vazia.
Haviam de fato outras seis pessoas presentes, além dos dois. O
Duque de Stanbrook era um, Lady Barclay outra, Visconde
Ponsonby o terceiro. Gwen se perguntou fugazmente quais
seriam suas feridas. Ele parecia deslumbrantemente bonito e
fisicamente perfeito, assim como Lorde Trentham parecia grande
e fisicamente perfeito.
Era óbvio o que estava errado com o outro cavalheiro. Ele
arrastou seus pés quando Gwen entrou na sala, usando dois
bastões amarrados aos seus braços. Suas pernas pareciam
estranhamente torcidas entre os bastões, e parecia que ele estava
apoiando muito do seu peso em seus braços.
- Lady Muir, - disse o duque de sua posição diante da
lareira, - eu aprecio o seu esforço para se juntar a nós.
Compreendo perfeitamente que isso deve ter sido um grande
esforço. Estou muito contente de tê-la como convidada em minha
casa, embora eu lamente as circunstâncias. Estou ansioso em

conhecê-la melhor durante a próxima semana. Espero que a
senhora não hesite em pedir qualquer coisa que precisar”.
- Obrigada, Sua Graça - disse ela, corando. - É muito gentil
de sua parte.
Suas palavras eram corteses, embora suas maneiras fossem
duras, distantes e austeras. Mas pelo menos ele foi cortês, ao
contrário de Lorde Trentham. Ele era um cavalheiro da cabeça
aos pés. Um cavalheiro extremamente elegante também.
- Já conhece Imogen, Lady Barclay e Flavian, Visconde
Ponsonby, - continuou ele, cruzando a sala para encher um copo
de vinho que trouxe até ela.
- Permita-me apresentar Sir Benedict Harper.
Indicou-lhe o homem de pernas retorcidas. Ele era alto e
magro, com um rosto magro e feições angulosas que, uma vez,
talvez, tivesse sido claramente bonito. Agora, eles davam provas
de sofrimento e dor prolongada.
- Lady Muir.
- Sir Benedict. - Gwen inclinou a cabeça para ele.
- E Ralph, Conde de Berwick - indicando um jovem de boa
aparência, se ignorada a cicatriz que cruzava um lado do rosto.
Ele acenou, mas não falou e nem sorriu.
Outro homem sisudo.
- Milorde - disse ela.
- E Vincent, Lorde Darleigh - disse Sua Graça.
Ele era ligeiramente jovem, com cabelos loiros
encaracolados. Tinha um alegre e aberto sorriso em seu rosto, e
os maiores e mais belos olhos azuis que Gwen já tinha visto.

Ora, havia um homem destinado a quebrar jovens corações,
pensou. Não havia nenhum sinal de lesão que ele poderia ter
sofrido, tanto no corpo como na alma. E ele era tão jovem. Se
realmente tinha sido um oficial durante as guerras, ele deveria
ter sido um mero rapaz...
Ele parecia fora de lugar nesse grupo. parecia muito jovem
e despreocupado para que tivesse sofrido muito.
- Meu Lorde - disse Gwen.
- A senhora tem a voz de uma mulher bonita, Lady Muir ele disse - e me disseram que sua aparência corresponde. É um
prazer conhecê-la. Imogen diz que a senhora está terrivelmente
envergonhada por estar aqui, mas não precisa ficar. Enviamos
Hugo à praia hoje para encontrá-la. Ele tem uma reputação
merecida, por nunca falhar em qualquer missão dada a ele, e esta
não foi exceção. Ele foi buscar uma beleza rara.
Gwen sentiu um choque que não tinha nada a ver com suas
últimas palavras. Na verdade, por alguns momentos, não
compreendera totalmente nem mesmo o que era. Ela percebeu de
repente que, apesar da beleza de seus olhos e o fato de que ele
parecia estar olhando diretamente para ela, Lorde Darleigh era
cego.
Talvez o seu ferimento fosse o pior de todos, ela pensou. Não
podia imaginar algo pior do que perder a visão. No entanto, ele
sorria e era claramente encantador. Será que seu sorriso se
estendia para dentro dele, no entanto? Havia algo ligeiramente
perturbador sobre seu comportamento alegre, agora que ela
entendia a devastação das guerras que havia desabado sobre a
vida dele.
- Se Hugo tivesse trazido uma gárgula, Vincent, - o conde de
Berwick disse - não faria nenhuma diferença para você, não é?

- Ah! - Lorde Darleigh disse, virando os olhos com grande
precisão na direção do conde e sorrindo docemente. - Não
importaria para mim Ralph, desde que ela tivesse a alma de um
anjo.
- Uma sorte, de fato, Ralph - disse o Visconde Ponsonby.
E, nesse momento, foi quando Gwen ouviu o eco do que o
Visconde Darleigh lhe dissera. Enviamos Hugo à praia para
encontrá-la... Ele foi buscar uma rara beleza.
- Lorde Trentham veio me encontrar? - Ela perguntou. Mas como ele sabia que eu estaria lá? Eu não planejei antes que
iria caminhar.
- Você faria bem Vincent, - Lord Trentham disse – se
amarrasse sua língua com um nó.
- Tarde demais - disse o Visconde Ponsonby. - Seu segredo
veio à tona Hugo. Lady Muir, por uma série de razões, todas que
parecem sólidas para Hugo, ele decidiu arranjar uma noiva este
ano. Seu único problema é a escolha. Ele é sem dúvida o melhor
soldado que o exército britânico produziu nos últimos anos. Não
é, infelizmente, conhecido igualmente como um a-amante perfeito
e galanteador do belo sexo. Quando ele explicou sua situação
para nós na noite passada e acrescentou que, como um homem
sensato, não estava em busca de um grande caso de amor, ele foi
aconselhado a procurar uma mulher gentil, explicar-lhe que ele é
um lorde e realmente muito fa-fabulosamente rico e, em seguida,
pedir que ela se casasse com ele. Ele concordou em ir à praia hoje
e encontrar uma mulher assim. E aqui estão vocês.
Se suas faces ficassem mais quente, pensou Gwen, elas
iriam pegar fogo. E toda sua vergonha e raiva anterior
retornaram com força. Ela olhou para Lorde Trentham, que
estava duro e ereto como um soldado à vontade, mas não tão à
vontade com seu queixo levantado e os olhos faiscando.

- Talvez, então, Lorde Trentham, - disse ela - Você pudesse
me informar seu título e sua riqueza agora, na presença de seus
amigos. E me fazer o pedido de casamento.
Ele olhou diretamente para ela e não disse nada. Não foi
dada realmente a oportunidade a ele.
- Milady, - Lorde Darleigh disse, seus olhos azuis nos dela
novamente, embora agora eles pareciam tão perturbados quanto
sua voz - eu falei para fazer todo mundo rir. Não foi até que as
palavras saíram da minha boca, que percebi o quão
imperdoavelmente embaraçoso elas eram para a senhora.
Estávamos, obviamente, todos brincando à última noite. E foi
puro acaso a senhora estar na praia, se machucar e que Hugo
passasse lá e prestasse assistência. Peço-lhe que me perdoe, e
perdoe Hugo. Ele é inocente de seu constrangimento. A culpa é
toda minha.
Gwen transferiu seu olhar para ele. E ela riu.
- Eu imploro seu perdão - disse ela. - Eu consigo ver o lado
engraçado da coincidência.
Ela não tinha certeza se estava dizendo a verdade.
- Obrigado, milady. O jovem Lorde parecia aliviado.
- É o momento que determinado tópico da conversa seja
colocado em descanso - disse Sir Benedict. - Onde é sua casa,
Lady Muir? Quando a senhora não está hospedada com a... Sra.
Parkinson, não é?
- Eu vivo em Newbury Abbey em Dorsetshire - disse Gwen. Ou melhor, minha casa é Dower House, no parque. Eu moro com
minha mãe. Meu irmão, o Conde de Kilbourne, e sua família
vivem na abadia.
- Eu o conheci ligeiramente na Península - Lorde Trentham
disse. - Ele era um Visconde, então. Foi enviado para casa, se

bem me lembro, depois que sua patrulha de vigia foi emboscada
nas montanhas de Portugal, deixando-o à beira da morte. Ele se
recuperou completamente?
- Ele está bem - disse Gwen.
- Era a esposa de Kilbourne, não era, - o duque perguntou que acabou por ser a filha, há muito tempo perdida, do Duque de
Portfrey?
- Sim, Gwen disse. – Lily, minha cunhada.
- Portfrey e eu éramos amigos próximos ao longo de nossa
juventude - disse o Duque de Stanbrook.
- Ele é casado com minha tia - disse ela. - Essas relações
familiares são um pouco complicadas, para dizer o mínimo.
O duque assentiu.
- Lady Muir, - ele disse - eu acredito que será melhor para a
senhora se nos perdoar por não se sentar conosco à mesa de
jantar. Embora eu pudesse fornecer um banquinho para o seu pé,
não seria o adequado. O bom médico foi inflexível em suas
instruções, de que mantenha seu pé elevado até a próxima
semana. A senhora jantará, portanto, aqui. Espero que não seja
muito inconveniente. No entanto, nós não vamos abandoná-la
totalmente. Hugo foi escolhido para lhe fazer companhia. Posso
assegurar-lhe ele não vai atacar seus ouvidos com contos de suas
riquezas, ou com sugestões de se casar com ele, a fim de
resguardar uma parte dele para si mesmo.
Seu sorriso era austero.
- Ouso dizer que jamais me recuperarei dessa gafe - Lorde
Darleigh disse com tristeza.
O duque ofereceu o braço a Lady Barclay e a levou para fora
da sala. Os outros o seguiram. Sir Benedict Harper, Gwen notou,
não usou seus bastões como muletas, embora ele parecesse forte o

suficiente para suportar seu peso. Em vez disso, ele caminhou
lentamente, com cuidado meticuloso, usando os bastões para se
equilibrar.
O silêncio na sala, depois que a porta se fechou atrás deles,
parecia quase insuportavelmente alto.

Capítulo 4
Não tinha sido culpa dele, pensou Gwen, da piada e da
coincidência dela estar naquela praia hoje e não em outro dia
qualquer. Mas ela sentia como se fosse culpa dele. De qualquer
maneira, gostava dele. Ela tinha acabado de ser horrivelmente
envergonhada.
E Lorde Trentham parecia se ressentir com ela.
Provavelmente porque ele tinha acabado de ser horrivelmente
envergonhado.
Os olhos dele estavam na porta, como se pudesse ver seus
colegas através dos painéis e desejasse estar no outro lado, com
eles. Ela desejava fervorosamente que ele estivesse lá também.
- Será que Sir Benedict irá andar sem a sua bengala um
dia? - Ela precisava dizer alguma coisa.
Ele apertou os lábios e, por um momento, ela pensou que ele
não fosse responder.
- O mundo inteiro, para além dessas paredes, - ele disse,
eventualmente, ainda observando a porta - diria um rotundo não.
O mundo inteiro o chamou de idiota por se recursar a ter as suas
pernas amputadas, não aceitar a realidade e se resignar a viver o
resto da sua vida em uma cama ou, pelo menos, uma cadeira. Há
seis de nós nesta casa que apostariam uma fortuna nele. Ele jura
que um dia irá dançar e a única coisa com que nos preocupamos é
quem vai ser a parceira dele.
Oh Deus, ela pensou após mais um longo período de
silêncio, ia ser uma silenciosa batalha.
- Vê, muitas vezes, pessoas lá em baixo, na praia? - Ela
perguntou.
Ele tornou a olhar a olhar para ela.

- Nunca. - Ele disse. - Em todas as vezes que estive lá,
nunca encontrei outra alma que não fosse dessa casa. Até hoje. Havia uma sugestão de censura em sua voz.
- Então, eu suponho, - ela disse, - que seria seguro dizer que
seus amigos estavam brincando com o senhor. Que o senhor iria
encontrar uma mulher para propor casamento, lá em baixo, na
praia.
- Sim, - ele concordou - seria.
Ela sorriu para ele e riu suavemente. Ele olhou para trás,
sem corresponder ao riso dela.
- Tudo é realmente engraçado, - ela disse - exceto que agora,
sem dúvida, será provocado indefinidamente. E eu estou
confinada aqui, pelo menos durante uma semana, com um
tornozelo torcido. E, - ela adicionou quando ele não sorriu - eu e o
senhor seremos horrivelmente envergonhados em companhia um
do outro, até que eu possa partir.
- Se eu pudesse atirar no jovem Darleigh - ele disse - sem
realmente cometer assassinato, eu adoraria.
Gwen riu de novo.
E um silêncio desceu de novo.
- Lorde Trentham, - ela disse - realmente não precisa me
fazer companhia aqui, o senhor sabe. O senhor veio à Penderris
para aproveitar a companhia do duque de Stanbrook e seus
convidados. Ouso dizer que o seu sofrimento aqui, há tanto
tempo, estabeleceu um laço especial entre vocês e eu invadi essa
intimidade. Todos foram muito gentis e corteses comigo, mas
estou bastante determinada a não ser um incômodo enquanto
estiver aqui. Por favor, sinta-se à vontade para se juntar aos
outros convidados na sala de jantar.

Ele continuava olhando para ela, com as mãos cruzadas
atrás das costas.
- Acha que eu iria negar o desejo de quem me convidou? Ele
perguntou a ela. - Não vou fazer isso, senhora. Ficarei aqui.
Lorde Trentham. Ele poderia ser de um simples barão até
um marques, Gwen pensou, ela nunca tinha ouvido falar dele, até
hoje. E se o que o visconde Ponsonby disse era correto, ele
também era extremamente rico. No entanto, não tinha os modos
de um cavalheiro.
Ela inclinou a cabeça na direção dele e resolveu não dizer
outra palavra antes que ele o fizesse, embora descesse em suas
maneiras, se igualando ao nível dele. Que fosse assim.
Mas antes que o silêncio ficasse novamente desconfortável,
a porta se abriu e entraram dois criados, que levaram uma mesa
até perto do sofá e a prepararam para o jantar. Antes que esses
dois criados saíssem, outros dois entraram com bandejas
carregadas. Uma foi colocada no colo de Gwen enquanto que a
outra foi carregada até a mesa, onde vários pratos foram
dispostos para o jantar de Lorde Trentham.
Os serventes saíram tão silenciosos como entraram. Gwen
olhou para a sua sopa e pegou a sua colher, enquanto Lorde
Trentham ocupou seu lugar na mesa.
- Eu peço o seu perdão, - Lorde Trentham disse - pelo
embaraço que uma piada sem sentido lhe causou, Lady Muir.
Uma coisa é ser provocado por amigos, outra é ser humilhada por
estranhos.
Ela olhou para ele, surpresa.
- Me atrevo a dizer, - ela disse - que eu vou sobreviver.
Ele tornou a olhar para ela, viu que ela estava sorrindo e
assentiu com a cabeça, antes de voltar ao seu jantar.

O duque de Stanbrook tem um excelente chef, pensou
Gwen, se a sopa de rabada era algo para se julgar.
- Anda a procura de esposa, Lorde Trentham? Ela disse. Tem alguma dama especial em mente?
- Não, - ele disse - mas eu quero alguém do meu tipo. Uma
mulher prática e capaz.
Ela olhou para ele. Alguém da minha própria espécie.
- Eu não nasci um cavalheiro. Ele explicou. - O título me foi
dado durante as guerras, como resultado de algo que eu fiz. O
meu pai foi, provavelmente, um dos homens mais ricos da
Inglaterra, um homem de negócios muito bem-sucedido, mas não
um cavalheiro. E ele não tinha desejo de ser um, não possuía
ambições sociais para os seus filhos também. Na verdade,
desprezava as classes superiores, classificando-os como
vagabundos ociosos. Queria que nos encaixássemos na classe à
qual pertencíamos. Eu não pude sempre realizar os seus desejos,
mas nesse, em particular, eu concordo com ele. Seria melhor que
eu encontrasse uma esposa da minha própria classe.
Muito foi explicado, pensou Gwen.
- O que o senhor fez? Ela perguntou, enquanto terminava a
sopa de rabada e começava a comer o seu prato de carne assada
com legumes.
Ele olhou para ela, as suas sobrancelhas se levantaram.
- Deve ter sido algo extraordinário, - ela disse - para o
prêmio ser um título.
Ele assentiu.
- Eu liderei uma Forlorn Hope1 – ele disse.

1

Bando de soldados ou outros combatentes escolhidos para aceitar o papel principal em uma operação
militar, como um ataque a uma posição defendida, onde o risco de acidentes é alto.

- Uma Forlorn Hope? O garfo e faca dela ficaram suspensos
acima do prato. - E sobreviveu?
- Como vê - ele disse.
Ela olhou para ele com preocupação e admiração. Uma
Forlorn Hope era quase sempre suicida e quase sempre um
fracasso. Ele não poderia ter falhado se ganhara um título. E,
Deus do céu, ele nem era um cavalheiro. Não havia muitos
oficiais que não o fossem.
- Eu não falo sobre isso. Ele disse, cortando sua carne. Nunca.
Gwen continuou a observá-lo antes de voltar à sua refeição.
Será que as memórias eram tão más, que nem o título
compensava? Fora lá que ele tinha sido tão terrivelmente ferido
para ter que passar um longo tempo aqui recuperando sua saúde?
Mas o seu título, ela percebeu, assentava perfeitamente
sobre seus ombros.
- Há quanto tempo é viúva? Ele perguntou, o que, pareceu a
ela, uma tentativa de mudar de assunto.
- Sete anos - ela disse.
- Nunca desejou casar de novo? Ele perguntou.
- Nunca. - Ela disse, e pensou na estranha solidão que
sentira lá embaixo, na praia.
- A senhora o amava, então? Perguntou.
- Sim. - Era verdade. Apesar de tudo, ela tinha amado
Vernon. - Sim, eu o amei.
- Como ele morreu? Perguntou.
Um cavalheiro nunca teria perguntado isso.

- Ele caiu, - ela disse - sobre a balaustrada da galeria do
salão de mármore da nossa casa. Ele caiu de cabeça e morreu
instantaneamente.
Tarde demais ocorreu a ela que, talvez, tivesse respondido
com alguma verdade, como ele tinha feito momentos antes. - Eu
não falo sobre isso. Nunca.
Ele engoliu a comida que estava em sua boca, mas ela sabia
o que ele estava prestes a perguntar, mesmo antes de ele o fazer.
- Há quanto tempo foi isso? Ele perguntou. - Depois de a
senhora cair do cavalo e perder o bebê?”
Bem, ela estava comprometida agora.
- Um ano. - Ela disse. - Talvez menos.
- A senhora teve um casamento incomum, pontuado pela
violência. - Ele disse.
A resposta dela não precisava ser comentada, ou melhor,
não merecia comentários. Ela baixou os talheres no prato meio
vazio, produzindo um barulho.
- O senhor é impertinente, Lorde Trentham. - Ela disse.
Oh, mas isso era culpa dela. A primeira pergunta dele tinha
sido impertinente e ela devia ter dito isso a ele na ocasião.
- Eu sou. - Ele disse. - Não é como um cavalheiro se
comporta, não é? Ou um homem que não é um cavalheiro, quando
conversa com uma dama. Eu nunca me libertei do hábito de,
quando quero saber sobre algo, simplesmente perguntar. Não é a
maneira mais educada de fazer, eu aprendi isso.
Ela terminou a comida no seu prato, empurrou-o para o
fundo da bandeja e puxou para frente o seu pudim. Pegou seu
copo de vinho, tomou um gole, pousou-o na mesa e suspirou.

- Os meus familiares mais próximos, - ela disse - escolheram
sempre acreditar que Vernon e eu tivemos uma feliz relação de
amor, que foi marcada por acidentes e tragédias. Outras pessoas
escolheram ficar em silêncio sobre o assunto do meu casamento e
a morte do meu marido, mas, muitas vezes, eu quase podia ouvilos pensando e assumindo que foi um casamento cheio de
violência e abuso.
- E foi isso? - Ele perguntou.
Ela fechou os olhos por alguns momentos.
- Algumas vezes, - ela disse - a vida é demasiado complicada
para que haja uma resposta simples para uma pergunta simples.
Eu, de fato, amei-o e ele me amou. Muitas vezes o nosso amor foi
feliz. Mas … Bem, às vezes parecia que Vernon fosse duas
pessoas diferentes. Muitas vezes, a maior parte do tempo, de fato,
ele era alegre, charmoso, espirituoso, inteligente, carinhoso e
uma série de outras coisas que o faziam ser querido para mim.
Mas algumas vezes, embora ele sempre parecesse igual, era como
se fosse… oh, desesperado sobre seu humor. E sempre senti que
havia uma fina linha entre a felicidade e o desespero, e ele
cruzava essa linha. O problema é que ele nunca permanecia do
lado da felicidade. Ele sempre caía do outro lado. E por alguns
dias, ocasionalmente, até mesmo por algumas semanas, ele
mergulhava no mais negro mau humor e não havia nada que eu
pudesse dizer ou fazer que o ajudasse, até que um dia ele voltava
ao normal. Eu aprendi a reconhecer o momento em que a sua
personalidade mudava. Aprendi a esperar por esses momentos.
Apesar disso, no último ano, ele estava sempre no mais negro dos
humores. E o senhor é a única pessoa, Lorde Trentham, a quem
eu falei sobre isso. Não tenho ideia do porquê de eu ter quebrado
o meu silêncio com um quase estranho.
Ela estava parcialmente aterrorizada, parcialmente
aliviada de que tivesse revelado tanto a um homem que ela nem

sequer gostava, particularmente. Porém, havia muito, é claro,
que ela não tinha dito.
- É este lugar. - Ele disse. – Tem sido palco de muitos
desabafos ao longo dos anos, alguns deles indescritíveis e
impensáveis. Há confiança nessa casa. Nós confiamos uns nos
outros e ninguém nunca traiu essa confiança. A senhora
concordou em ir àquele passeio quando Lorde Muir estava em um
dos seus dias de humor negro?
- Naquela época do meu casamento, - ela disse - eu
acreditava que conseguiria ajudá-lo satisfazendo todo os seus
desejos. Ele queria que eu andasse a cavalo com ele naquele dia e
ignorou todos os meus protestos. E, então, eu o segui. Eu estava
com medo de que ele se machucasse. O que eu achava que podia
fazer para impedi-lo, apenas por estar com ele, eu não sei.
- Mas não foi ele quem se machucou. - Ele disse.
Exceto que, em muitos aspectos, ele se ferira tanto quanto
ela. E nenhum deles se ferira tanto quanto seu filho.
- Não. - Ela fechou os olhos, sua colher suspensa, esquecida
em sua mão.
- Mas foi ele quem se machucou na noite em que morreu. Ele disse.
Ela olhou friamente para ele. Quem era ele? Seu inquisidor?
- É o suficiente - ela disse. - Ele não abusou de mim, Lorde
Trentham. Ele nunca levantou a mão ou a voz contra mim, ou me
ofendeu com palavras. Eu acredito que ele estava doente, mesmo
que não houvesse um nome para a sua doença. Ele não era louco.
Não merecia ir para um asilo. Nem pertencia a uma cama de
hospital, mas estava doente. É difícil entender, para os que não
conviviam com ele dia e noite como eu, mas é verdade. Eu o amei
e prometi amá-lo na doença e na saúde até que a morte nos
separasse. E eu o amei até o fim. Mas não foi fácil, por tudo isso.

Depois de sua morte, fiquei devastada. Eu também estava
cansada do casamento, até a medula dos meus ossos. Depois
disso, eu queria paz, para o resto da minha vida. Eu a tive por
sete anos e estou perfeitamente feliz em permanecer como estou.
- Nenhum homem conseguiria lhe fazer mudar de ideia? Ele perguntou.
Ainda ontem ela teria dito não, sem hesitação. Mesmo esta
manhã, em que ela tinha estado negando o vazio e a solidão em
sua vida. Ou, talvez, aquele breve momento na praia tinha sido
instigado por nada mais sério do que sua briga com Vera e a
desolação à sua volta.
- Ele teria de ser um homem perfeito, - ela disse - e não há
ninguém perfeito, não é? Ele teria que ser bem-humorado, um
companheiro alegre, confortável, que não tivesse tido grandes
problemas em sua vida. Ele teria de me oferecer uma relação que
tivesse estabilidade, paz e ... simplicidade, sem excessivos altos e
baixos.
Sim, pensou, surpresa, tal casamento seria agradável. Mas
ela duvidava que houvesse um homem perfeito para suas
necessidades. E, mesmo que houvesse um homem assim e que
desejasse casar com ela, como saberia ao certo até depois que
estivesse casada e vivesse com ele, e fosse tarde demais para
mudar de ideia?
E como poderia ela ser merecedora de tal felicidade?
- Sem paixão? - Ele perguntou a ela. - Ele não precisaria ser
bom na cama?
Sua cabeça girou em direção a ele. Sentiu seus olhos se
arregalam com o choque e suas faces pegarem fogo.
- O senhor é realmente um homem que vai direto ao
assunto, Lorde Trentham, - ela disse - ou um extraordinário
impertinente.
Prazer no leito conjugal não precisa

envolver paixão, como você diz. Ele pode ser, simplesmente,
conforto compartilhado. Se eu estivesse procurando um marido,
ficaria feliz com o conforto compartilhado. E se você está
procurando uma esposa que seja prática e capaz, não está
buscando paixão também, está?
Ela estava se sentindo desconcertada e que havia sido
bastante indiscreta.
- Uma mulher pode ser capaz, prática e sensual também. Ele disse. - Ela teria de ser sensual para que eu me casasse com
ela. Vou ter que deixar as outras mulheres quando me casar. Não
seria decente procurar prazer fora meu leito conjugal, seria? Não
seria justo para minha esposa ou um bom exemplo para meus
filhos. Eis um exemplo de moralidade da classe média para você,
Lady Muir. Eu sou sensual, mas acredito em fidelidade conjugal.
Ela pousou a colher em cima do seu prato, com cuidado
dessa vez, para não fazer barulho. Então, ela pôs as mãos à
frente do rosto e começou a rir. Poderia ele ter dito o que ela
achava que ele tinha dito?
- Eu tenho quase a certeza, - ela disse - que esse foi um dos
dias mais estranhos da minha vida, Lorde Trentham. E que
agora culmina em um sermão sobre luxúria e a moralidade da
classe média.
- Bem, - ele disse, puxando a cadeira e ficando em pé, - isso
é o que acontece quando se torce o tornozelo perto de um homem
que não é um cavalheiro, senhora. Vou tirar a bandeja de seu colo
e colocá-la sobre a mesa. Terminou de jantar?
- Terminei. - Ela disse enquanto ele tirava os pratos e
voltava a olhar para ela.
- Porque diabos, - ele perguntou a ela - está hospedada com
a Sra. Parkinson? Porque é amiga dela?
Ela levantou as sobrancelhas para ambas as perguntas.

- Ela perdeu o marido recentemente - ela disse - e estava se
sentindo infeliz e sozinha. Conheço ambos os sentimentos. Eu a
conheci há muito tempo e, desde então, me correspondia com ela
ocasionalmente. Eu estava livre para vir e então eu vim.
- Suponho que perceba - ele disse - que ela não sente
absolutamente nada por você, mas apenas por seu título e sua
conexão com o conde de Kilbourne. Ela virá aqui todos os dias, só
porque aqui é Penderris Hall, a casa do duque de Stanbrook.
- Lorde Trentham, - ela disse - a solidão de Vera Parkinson
é muito real. Se eu a tiver aliviado durante as últimas duas
semanas, estou satisfeita.
- O problema com as classes mais altas, - ele disse - é que
raramente falam a verdade. A mulher é um horror!
Oh, céus! Gwen temia ter de engolir essa última frase com
alegria.
- Algumas vezes, Lorde Trentham, - ela disse – temperar a
verdade com tato e bondade é chamado de boas maneiras.
- Você o faz mesmo quando repreende - ele disse.
- Eu tento.
Ela desejou que ele se sentasse de novo. Mesmo que ela
também estivesse em pé, ele parecia uma torre sobre ela. Com
aquela estatura, ele parecia um gigante. Talvez o inimigo contra
quem ele havia liderado a Forlorn Hope tivesse dado uma olhada
nele e fugido. Não seria surpresa para ela.
- Não é, de nenhuma maneira, a mulher que eu procuro
para esposa, - ele disse - e eu sou totalmente diferente do marido
que espera encontrar, mas, apesar disso, sinto um forte desejo de
lhe beijar.
O que?

Mas o problema era que suas palavras ultrajantes a
deixaram excitada, trazendo uma urgência a todas as partes
relevantes de seu corpo, deixando-a sem fôlego. E apesar do
tamanho gigantesco dele, do seu corte de cabelo sisudo, seu rosto
feroz e sua falta de boas maneiras, ela ainda o achava
excessivamente atraente.
- Acho, - ele disse - que eu deveria me conter. Mas há a
coincidência do encontro na praia, como vê.
Ela fechou a boca e respirou fundo. Não ia deixá-lo sair
disso com tanta impertinência, iria?
- Sim, - disse ela enquanto olhava para ele – foi uma
coincidência. E há uma escola de pensamento, eu ouvi dizer, que
afirma que não existem coincidências.
Ele realmente a beijaria? Ela deixaria? Ela não era beijada
há sete anos. Havia permitido o contato de alguns cavalheiros
que conhecia, mas nunca chegou ao ponto de sentir uma grande
atração, apenas simpatia. E nenhum deles despertou qualquer
desejo físico, não nela, de qualquer maneira.
Por alguns segundos ela pensou que ele não iria beijá-la. A
postura dele não mudou e sua expressão não se suavizou. Mas
então ele se inclinou e ela levantou as mãos e pousou-as em seus
ombros. Oh deuses, eles eram largos e sólidos, mas ela já sabia
disso. Ele a tinha carregado…
Ele tocou os lábios nos dela.
E ela foi invadida por um súbito calor de desejo.
Ela esperava que ele fosse esmagá-la em seus braços e
pressionar sua boca dura contra a dela. Ela esperava ter de
afastar uma explosão quente de ardor.
Em vez disso, ele estendeu as mãos levemente em ambos os
lados da sua cintura, seus polegares sob o peito, mas não

apertando. E seus lábios roçaram levemente os lábios dela,
saboreando-a, provocando-a. Ela moveu as suas mãos para
abraçar o grande pescoço. Conseguia sentir a respiração dele
contra sua face. Podia sentir o cheiro de sabão ou perfume, que
tinha notado antes, algo sedutoramente masculino.
O calor diminuiu, mas o que o substituiu foi muito pior. Ela
estava muito consciente sobre ele. Estava bastante consciente
que, apesar de todas as aparências, havia gentileza nele. Ela
havia sentido no toque das suas mãos em seu tornozelo, é claro,
mas decidiu ignorá-lo em seguida. Parecia algo contrário a tudo o
que tinha observado nele.
Ele levantou a cabeça e olhou nos olhos dela. Oh, meu Deus,
seu olhar não parecia menos feroz do que antes. Ela olhou de
volta e levantou as sobrancelhas.
- Eu suponho, - ele disse – que se eu fosse um cavalheiro,
estaria agora oferecendo um pedido de desculpas.
- Mas o senhor me deu um aviso prévio, - ela disse - e eu não
disse não. Devemos concordar, Lorde Trentham, que hoje foi um
dia muito estranho para ambos, mas que agora está quase no
fim? Amanhã deixaremos isso tudo para trás e retornaremos a
um comportamento mais decoroso.
Ele ficou em pé e cruzou as em suas costas. Ela estava
começando a reconhecer isso como uma pose familiar.
- Isso parece sensato - ele disse.
Felizmente, não houve tempo para dizer mais nada. Uma
batida na porta foi seguida pela entrada de dois criados, que
vieram para limpar a mesa e tirar os pratos. Alguns momentos
depois da porta se fechar atrás deles, abriu-se novamente para a
entrada do duque e seus outros convidados, retornando da sala de
jantar.

Lady Barclay e Lorde Darleigh sentaram-se próximos a
Gwen e começaram a conversar com ela, enquanto Lorde
Trentham afastou-se para jogar cartas com outros três
cavalheiros.
Se ela estivesse despertando agora, pensou Gwen, iria, com
certeza, julgar que o sonho de hoje fora o mais bizarro que ela já
tinha sonhado. Mas, acima de tudo, os eventos, começando com a
chegada da carta da mãe dela esta manhã, teriam sido muito
bizarros se não fossem reais. E era possível sentir o sabor de um
sonho? De alguma maneira ela ainda conseguia sentir o sabor dos
lábios de Lorde Trentham em seus lábios, embora ele tivesse
comido a mesma comida e bebido o mesmo vinho que ela.

Capítulo 5
Os membros do clube dos sobreviventes ficaram acordados
até muito tempo depois que Hugo tivesse transportado Lady
Muir até a cama dela. Era costume de eles relaxarem durante o
dia, às vezes em conjunto ou em pequenos grupos, muitas vezes
sozinhos, mas sentar-se juntos até tarde da noite, falando sobre
os assuntos mais sérios que diziam respeito a eles.
Esta noite não fora exceção. Tudo começou com as desculpas
de Vincent e as provocações de todos os outros. Vincent foi
esmiuçado sobre sua língua solta, Hugo sobre o feliz progresso da
sua busca por uma mulher. Levaram na brincadeira. Não havia
nenhuma outra maneira de levar, é claro, que não resultasse
pior.
Mas, finalmente, todos eles se tornaram mais pensativos.
George tinha tido uma recorrência do velho sonho, em que ele
pensasse apenas a coisa certa a dizer para dissuadir a esposa de
saltar do penhasco, no exato momento em que ela ia saltou. Ele
tinha acordado suando frio, chorando e estendendo a mão para
ela. Ralph tinha encontrado a irmã de um dos seus três melhores
amigos mortos, em uma festa em Londres na época do Natal, e
ela iluminara-se com prazer ao vê-lo, com vontade de falar sobre
o irmão com alguém que estivera mais perto dele. E Ralph tinha
se fechado. Quatro deles tinham sido virtualmente inseparáveis
durante toda a escola, tinham entrado juntos para o serviço
militar e foram para guerra com a idade de dezoito anos. Ele
tinha visto os outros três sendo feitos em pedaços apenas uma
fração de um momento antes que ele quase, mas não
completamente, seguisse-os para a outra vida. Tinha deixado à
companhia da senhorita Courtney para lhe buscar um copo de
limonada. Ele tinha a total intenção de levá-lo para ela. Em vez
disso, saíra da casa e deixara Londres na manhã seguinte. Não
oferecera nenhuma explicação, nem desculpas e não a tinha visto
desde então.

Na manhã seguinte, Hugo estava sentindo-se terrivelmente
envergonhado da noite anterior. Mais especificamente sobre
aquele beijo. Ele não tinha nenhuma explicação para isso. Não
era um cavalheiro. Sempre tivera uma vida sexual saudável, era
verdade, embora não tanto nos últimos anos. Primeiro por causa
de sua doença e mais recentemente, porque ele era Lorde
Trentham - aquela pedra enorme no pescoço – e, de alguma
forma, não parecia certo estar correndo aos bordéis, sempre que o
humor o abandonava. Além disso, vivia no campo, longe de
qualquer tentação. Não conseguia lembrar de ter beijado
qualquer mulher respeitável, desde que tinha 16 anos e se
escondera no armário das vassouras, junto com uma das amigas
de escola de sua prima, num jogo de esconde-esconde durante a
festa de aniversário da prima.
Ele nunca, nunca beijara uma lady. Ou sentira qualquer
desejo de fazê-lo.
Ele nem sequer gostava particularmente de Lady Muir. Ele
a tinha julgado irresponsável, fútil, arrogante, uma aristocrata
entediada, mimada, embora ela fosse linda. Claro, a história que
ela contara sobre o marido, tinha acrescentado alguma
profundidade ao seu personagem. Sem dúvida, ela tinha sofrido
um casamento difícil, com o qual lidara da melhor forma que
pôde. E ela, ele admitiu a contragosto, tinha senso de humor e
uma risada contagiante.
Era toda a explicação para sua súbita vontade de beijá-la
depois de remover a bandeja de jantar do colo dela. Ou uma
desculpa para entregar-se a esse desejo.
E por que, em nome de todas as maravilhas, ela permitiu
isso? Não tinha feito nada para insinuar-se a ela. Pelo contrário,
tinha sido muito ranzinza. Tendia a ser assim com os das classes
superiores, com exceção dos membros do clube dos sobreviventes.
Ele não tinha sido bem recebido pelos seus colegas oficiais nas
forças armadas. A maioria deles o tinha tratado com desprezo e

condescendência, alguns com hostilidade aberta por sua ousadia
de infiltrar-se entre eles só porque seu pai poderia se dar ao luxo
de comprar sua Comissão. As damas tinham-no ignorado
inteiramente,
assim
como
ignoravam
seus
servos.
Particularmente, isso tudo não tinha incomodado Hugo. Ele
queria ser um oficial, não um membro de um clube social. Queria
distinguir-se no campo de batalha, e tinha feito isso.
Mas ontem ele tinha beijado uma mulher. Por nenhuma
razão particular, exceto que ela tinha posto as mãos sobre o rosto
corado e rido, impotente depois que ele falara em desistir de
prostitutas quando se casasse. E ainda havia riso na voz dela
quando falara - Eu tenho quase a certeza, que esse foi um dos dias
mais estranhos da minha vida, Lorde Trentham. E que agora
culmina em um sermão sobre luxúria e a moralidade da classe
média.
Sim, foi isso que o fez querer beijá-la.
Desejou que Deus o tivesse feito capaz de manter seus
desejos em uma rédea mais curta.
Iria evitá-la tanto quanto fosse possível pelo resto de sua
estadia aqui. Isso ia ser frustrante, desviar-se de vê-la cara a
cara novamente.
Foi uma determinação que ele manteve até depois do
almoço. Passou a manhã, enquanto chovia lá fora, no jardim de
inverno com Imogen. Durante o tempo em que ela regou as
plantas para que elas parecessem bem mais atraentes e mais
frescas, ele leu a carta de sua meia-irmã que tinha chegado com o
correio da manhã. Constance escrevia-lhe pelo menos duas vezes
por semana. Ela tinha dezenove anos de idade e, basicamente,
era uma menina animada, bonita, que estava pronta e ansiosa
para as festas e o casamento. Mas sua mãe era uma mulher
egoísta, possessiva, que tinha usado a delicada saúde e sua
doença, real ou imaginária, para manipular aqueles em torno
dela, desde que Hugo a conhecia. Ela manteve sua filha como

uma prisioneira virtual em casa, sempre ao seu dispor.
Constance raramente saia, exceto para executar tarefas breves e
específicas. Ela não tinha amigos, nenhuma vida social, nenhuma
festa. Não que ela se queixasse abertamente a Hugo. As cartas
eram, invariavelmente, alegres e quase vazias de qualquer
conteúdo real, porque realmente não tinha nada a dizer.
Era dever de Hugo conseguir que tudo estivesse bem. Um
dever impelido pelo amor. E pelo fato de que ele era o guardião
dela. E por uma promessa ao seu pai, que ele iria assegurar um
futuro feliz para ela, tanto quanto fosse capaz.
Ela era uma das principais razões para sua decisão de
casar. Ele não tinha a menor ideia de como lançá-la na sociedade
de classe média por conta própria, ou como conduzir
adequadamente homens elegíveis de classe média na direção
dela. Se ele se casasse... Não, quando ele casasse, sua esposa
saberia como apresentar sua meia-irmã a tipos de homens que
poderiam lhe oferecer segurança e felicidade para o resto da sua
vida.
Havia, claro, outra razão para tomar a decisão de casar.
Não era um celibatário natural, e sua necessidade por sexo - sexo
regular, sensual - tinha sido muito dolorosa no passado, num
combate constante contra sua inclinação em direção à
privacidade e independência.
Ele tinha decidido, quando saiu de Penderris há três anos,
que, acima de tudo, ele queria uma vida de paz. Ele tinha
vendido sua comissão do exército e estabeleceu-se em um
pequeno chalé em Hampshire. Sustentava-se com o que crescia
no jardim da cozinha, mantinha algumas galinhas e fazia
pequenos serviços para seus vizinhos. Era grande e forte, afinal.
Os serviços dele tinham sido muito requisitados, especialmente
entre os idosos. Ele mantivera silêncio sobre seu título.
Tinha sido feliz. Bem, contente, de qualquer forma, apesar
dos avisos de seus seis amigos, de que ele se assemelhava a um

fogo de artifício que não explodira e, certamente, iria explodir em
algum momento no futuro, talvez quando ele menos esperasse.
No ano passado, após a morte de seu pai, ele comprara
Crosslands Park não muito longe do chalé, mas em uma escala
um pouco maior. De alguma forma, a notícia de seu título tinha
vazado. Ele tinha começado a aumentar o jardim um pouco mais
e a cultivar uma pequena lavoura para manter algumas galinhas
a mais e adicionar algumas ovelhas e vacas. Tinha contratado um
mordomo que, por sua vez, tinha contratado alguns
trabalhadores para ajudar com o trabalho agrícola. Hugo tinha,
porém, continuado a fazer o trabalho ele mesmo. Ociosidade não
lhe convinha. Ele ainda fez uns trabalhos para seus vizinhos
também, embora ele, obstinadamente, se recusasse a aceitar o
pagamento. Sua propriedade ainda era pouco desenvolvida, A
casa, parcialmente fechada, já que ele usara apenas três cômodos
com alguma regularidade. Tinha uma equipe muito pequena.
Mas fora feliz lá por um ano. Contente, de qualquer forma.
Sua vida fora pouco interessante. Faltava-lhe desafio. Não tinha
qualquer companheiro próximo, mesmo que tivesse estabelecido
boas relações com os seus vizinhos. Era a vida que ele queria.
E agora ele iria mudar tudo ao se casar, porque realmente
ele não tinha escolha.
A carta jazia há muito esquecida em seu colo. Imogen
estava ainda no jardim de inverno. Sentara-se na borda da
janela, as pernas penduradas, um livro apoiado nelas. Estava
lendo.
Ela sentiu seus olhos nela e olhou para cima, fechando o
livro, como o fazia.
- É hora do almoço, - ela disse - vamos entrar?
Ele ficou de pé e ofereceu a mão.

Lady Muir, ele soube na sala de jantar, estava na sala de
estar. George julgara o lugar mais aconchegante para ela durante
o dia. Um lacaio teve de carregá-la para baixo, e George e Ralph
tinham tomado café da manhã com ela. Depois, ela pedira papel e
caneta para escrever para o irmão. A Sra. Parkinson estava com
ela agora, tinha chegado há algumas horas.
- Pobre senhora Muir - disse Flavian. - Sente-se quase
inclinado a correr em seu socorro como um cavaleiro em
armadura brilhante. Mas a pers-perspectiva de ser persuadido a
escoltar a amiga até sua casa, é o suficiente para fa-fazer com
que qualquer cavaleiro fugisse e corresse para a maldita
cavalaria.
- Já cuidei disso - George garantiu-lhe. - Antes que a
senhora chegasse, sugeri à Lady Muir que, em seu estado de
fraqueza, ela talvez quisesse descansar esta tarde, em vez de
enfrentar os esforços de uma prolongada visita. Ela me entendeu
perfeitamente e concordou. Na verdade, ela esperava dormir um
pouco depois do almoço. Minha carruagem estará na porta em
quarenta e cinco minutos.
As nuvens tinham se afastado e o sol brilhava uma hora
mais tarde, quando Hugo foi estava em pé no terraço, tentando
decidir se iria dar uma longa caminhada ao longo do promontório,
ou iria se poupar e dar um passeio no parque mais próximo. Ele
decidiu pela alternativa preguiçosa e passou uma hora vagando
sozinho pelo parque. Não foi concebido de uma forma elaborada,
mas ainda assim, havia jardins floridos, passeios sombreados,
gramados pontilhados com árvores e uma casa de verão protegida
de qualquer vento que soprasse do mar. A pequena estrutura
ofereceu uma visão ao longo de uma via arborizada até uma
estátua de pedra na extremidade.
Isso fez Hugo pensar, com alguma insatisfação, sobre seu
próprio parque em Crosslands. Era grande, quadrado e estéril. E
ele não tinha ideia de como torná-lo atraente. Não podia ter só

cantos, árvores e caminhos desertos, onde qualquer pessoa
poderia caminhar. E a casa se assemelhava um pouco a um
grande celeiro de onde todos os animais tinham fugido. Poderia
ser adorável. Ele tinha percebido quando decidira comprá-la.
Mas, considerando que ele pudera apreciar de forma eficaz
a beleza e o formato quando os viu, não havia nenhum canto
criativo em sua mente, no qual os desenhos originais viessem à
vida. Ele precisava contratar alguém para planejar tudo por ele,
supôs. Ele tinha o dinheiro para contratar tais pessoas para fazer
o serviço.
Vagueou de volta para casa depois de uma hora ou mais.
Lady Muir estava realmente dormindo, ele se perguntou,
quando chegou à porta da frente. Ou simplesmente estava
contente de aproveitar-se da desculpa que George tinha sugerido
e se livrado de sua amiga cansativa? Se ela estava sozinha na
sala de estar e não estivesse dormindo, é claro, George teria
certamente arranjado alguém que lhe fizesse companhia. Ele era
bom em tais sutilezas de hospitalidade.
Hugo não precisara chegar perto dela. E ele certamente não
queria. Ele ficaria muito feliz em nunca mais vê-la. Era difícil de
explicar, então, porque ele fez uma pausa na porta da sala de
estar e inclinou seu ouvido mais próximo da porta.
Silêncio.
Ou ela estava lá em cima, descansando, ou estava na sala,
dormindo. De qualquer forma, ele estava completamente livre
para prosseguir em seu caminho para a biblioteca, onde
planejava escrever para Constance e William Richardson, o
competente gerente de negócios do seu pai, agora seu próprio.
Sua mão deslizou para a maçaneta da porta, em vez disso. Ele
girou-a tão silenciosamente como poderia e empurrou a porta
entreaberta.

Ela estava lá. Estava deitada em um sofá, que fora
posicionado para que ela tivesse uma vista do jardim de flores
através da janela. O mesmo já ostentava algumas flores e alguns
brotos e botões verdes, ao contrário do jardim de flores de Hugo,
em Crosslands, de que ele tinha estado muito orgulhoso no verão
passado. Ele plantara todas as flores do verão e teve um glorioso
jardim florido por alguns meses e depois... nada. E eles tinham
dado tudo naquele ano, aprendera mais tarde, e não iriam
florescer novamente neste verão.
Ele tinha muito a aprender. Crescera em Londres e depois
saído para lutar nas guerras.
Ela não tinha ouvido a porta abrir... ou estava dormindo.
Era impossível dizer de onde ele estava. Ele entrou, fechou a
porta tão silenciosamente como a tinha aberto e caminhou ao
redor do sofá até que pudesse olhar para ela.
Ela estava dormindo.
Ele franziu a testa.
O rosto dela parecia pálido e cansado.
Ele deveria partir antes que ela acordasse.

Gwen tinha dormido, embalada pelo bem-aventurado
silêncio e a dose do medicamento que o Duque de Stanbrook a
tinha persuadido a tomar, quando ele tinha percebido, a partir da
palidez de seu rosto, que ela estava sofrendo com mais dor do que
poderia facilmente suportar.
Ela não tinha visto o senhor Trentham durante toda a
manhã. Foi um grande alívio, pois ela tinha acordado recordando
seu beijo, uma lembrança difícil de apagar. Por que ele quis beijála, já que ele não tinha dado nenhuma indicação de que gostava

dela ou se sentira atraído por ela? E por que diabos ela tinha
consentido o beijo?
Certamente não poderia alegar que ele o tinha roubado
antes que ela pudesse protestar.
Nem que tinha sido uma experiência desagradável.
Mais decididamente, não tinha sido.
E esse fato era, talvez, o mais preocupante de todos.
Ela tinha sofrido a visita de Vera por várias horas antes de
o próprio Duque vir para o quarto, como prometido, e muito
cortês, mas muito firmemente, a escoltou para fora, para sua
carruagem que esperava, depois de assegurar-lhe que ele iria
enviá-la para ela novamente amanhã de manhã.
Vera tinha posto para fora, de forma eloquente, seu
descontentamento por ter sido deixada sozinha com Gwen
durante toda a sua visita. Quando o almoço tinha sido trazido
para a sala de estar, embora fosse delicioso, ela tinha protestado
contra a descortesia de Sua Graça por não a convidar para se
juntar ao resto de seus convidados na mesa da sala de jantar. Ela
estava decepcionada com os arranjos e tinha dito que voltaria
para casa mais cedo. Ela tinha garantido à Sua Graça em sua
chegada, contara à Gwen, que ficaria feliz em andar até sua
própria casa, lhe poupando o trabalho de chamar sua carruagem
novamente, se um dos cavalheiros fosse gentil o suficiente para
acompanhá-la pelo menos uma parte do caminho. Ele tinha
ignorado sua generosa oferta.
Mas o que se poderia esperar de um homem que matou a
própria esposa?
Como ela esperava, Gwen pensara enquanto adormecia,
Neville não demoraria em enviar uma carruagem para ela, uma
vez que recebesse sua carta. Garantira que estava bem o
suficiente para viajar.

Ela veria o senhor Trentham hoje? Talvez fosse demais
esperar que não, mas esperava que ele fosse manter distância e
que o Duque não o nomeasse para levar o jantar para ela esta
noite. Ela tinha se envergonhado o suficiente em relação a ele
ontem, para a próxima vida ou duas.
Ele foi à última pessoa em quem ela pensou quando
adormeceu. E foi a primeira pessoa que ela viu quando acordou
novamente, algum tempo depois. Ele estava a uma curta
distância do sofá em que ela se deitara, seus pés ligeiramente
afastados, as mãos entrelaçadas atrás das costas, franzindo a
testa. Parecia muito com um oficial militar, mesmo que estivesse
vestido com um casaco revestido, calças verdes superfinas e botas
Hessian altamente polidas. Estava franzindo a testa para ela.
Sua expressão habitual, parecia.
Ela sentiu uma desvantagem enorme, deitada como estava.
- A maioria das pessoas, - ele disse - ronca quando dorme
sobre suas costas.
Confie nele para dizer algo totalmente inesperado.
Gwen ergueu suas sobrancelhas.
- E eu não?
- Não, nesta ocasião, - ele disse – embora estivesse
dormindo com a boca parcialmente aberta.
- Oh.
Como ele se atrevera a entrar ali e observá-la enquanto
dormia? Havia algo desconfortavelmente íntimo sobre isso.
- Como está seu tornozelo hoje? - Ele perguntou.
- Eu pensei que estaria melhor, mas irritantemente não
está - ela disse. - É apenas uma entorse no tornozelo, depois de
tudo. Sinto-me envergonhada por toda a confusão que estou

causando. O senhor não precisa sentir-se obrigado a continuar
falando sobre isso ou me perguntar sobre isso. Ou continuar a
fazer-me companhia.
Ou me observar enquanto eu durmo.
- Deveria tomar um pouco de ar fresco - disse ele. - Seu
rosto está pálido. Está na moda às senhoras ficarem pálidas,
suponho, embora duvide que alguém deseje olhar para figuras
pastosas.
Maravilhoso! Ele só lhe informara que ela parecia pastosa.
- É um dia frio, - ele disse - mas o vento diminuiu, o sol está
brilhando e a senhora pode desfrutar, sentada no jardim por um
tempo. Vou buscar sua capa se desejar ir.
Tudo o que ela tinha que fazer era dizer que não. Ele
certamente iria embora e ficaria longe.
- Como eu iria até lá? - Ela perguntou em vez disso e, então,
poderia ter mordido a língua, já que a resposta era óbvia.
- A senhora poderia rastejar em suas mãos e joelhos, - ele
disse - se quiser ser tão teimosa quanto ontem. Ou poderia ser
carregada por um lacaio corpulento. Acredito que um deles te
carregou esta manhã. Ou eu poderia carregá-la se a senhora
confiar em que eu não vá tomar liberdades novamente.
Gwen sentiu-se corar.
- Espero, - ela disse - que não tenha se sentido culpado pela
última noite, Lorde Trentham. Fomos igualmente culpados por
aquele beijo, se culpa é a palavra certa. Por que deveríamos não
ter nos beijado, afinal de contas, se nós dois desejávamos fazê-lo?
Nenhum de nós é casado ou noivo de outra pessoa.
Ela tinha a sensação de que sua tentativa de indiferença
estava falhando miseravelmente.

- Que decide então? - Ele disse. - Que não deseja rastejar
para fora em suas mãos e joelhos e posso levá-la?
- Pode. - Ela disse.
Nada mais foi dito sobre o lacaio corpulento.
Ele se virou e caminhou para fora da sala sem dar um pio,
presumivelmente para buscar a sua capa.
Tinha sido bem feito para ela, Gwen pensou com ironia
considerável.
Mas a perspectiva de um ar fresco não era para se resistir.
E a perspectiva da companhia do senhor Trentham?

Capítulo 6
Fazia frio, realmente. Apesar de o sol estar brilhando, e eles
estarem cercados por prímulas, açafrão e até mesmo alguns
narcisos. Gwen nunca antes havia cogitado em se perguntar por
que tantas flores da primavera tinham vários tons de amarelo.
Era essa a maneira com que a natureza adicionava um pouco de
sol para a temporada que vinha logo depois da monotonia do
inverno, mas antes o brilho do verão?
- Tudo isto é muito lindo! - Disse ela, respirando o ar
ligeiramente salgado e fresco. - A primavera é a minha estação
favorita."
Ela envolveu a capa vermelha mais confortavelmente sobre
si mesma, quando Lorde Trentham a colocou no chão ao longo de
um banco de madeira debaixo da janela da sala de estar. Ele
pegou as duas almofadas ela havia levado, como ele havia
sugerido, colocando uma às costas de Gwen para protegê-la do
braço de madeira, e deslizando a outra cuidadosamente debaixo
de seu tornozelo direito. Ele estendeu o cobertor que havia
trazido sobre as pernas dela.
- Por quê? - Ele perguntou quando se endireitou.
- Eu prefiro um narciso a uma rosa - disse ela. - E a
primavera é sempre cheia de novidade e esperança.
Ele se sentou no pedestal da urna de pedra ali perto e
colocou os braços sobre a extensão de seus joelhos. Era um
ambiente descontraído, de postura casual, mas seus olhos
encaravam os dela.
- O que você gostaria que acontecesse de novo em sua vida?
- Ele lhe perguntou. - Quais são suas esperanças no futuro?

- Eu percebo, Lorde Trentham, - disse ela - que devo
escolher minhas palavras com cuidado, quando estiver em sua
companhia. O senhor interpreta tudo que eu digo literalmente”.
- Por que dizer alguma coisa, - ele perguntou - quando suas
palavras não significam nada?
Era uma pergunta bastante justa.
- Oh, muito bem - ela disse. - Deixe-me pensar.
Seu primeiro pensamento foi que ela não estava
arrependida por ele ter ido àquela sala e sugerido levá-la para
fora para tomar um pouco de ar fresco. Se ela fosse perfeitamente
honesta consigo mesma, teria que admitir que havia ficado
decepcionada quando um lacaio apareceu em seu quarto naquela
manhã para levá-la para baixo. E tinha ficado decepcionado por
Lorde Trentham não tê-la procurado ao longo de toda manhã. E,
ainda assim, ela também tinha a esperança de evitá-lo pelo resto
de sua permanência ali. Ele estava certo sobre palavras que não
significavam nada, mesmo que as palavras estivessem apenas na
cabeça de alguém.
- Eu não quero nada de novo - ela disse. - E minha
esperança é que eu possa permanecer contente e em paz.
Ele continuou a olhar para ela como se seus olhos pudessem
perfurá-la até atingir sua própria alma. E ela percebeu que
achava que estava falando a verdade, mas realmente não tinha
certeza sobre isso.
- O senhor percebeu, - ela perguntou a ele - como ficar
parado, às vezes, pode não ser diferente de se mover para trás?
Por todo o mundo, a cada vez que nos movemos, deixamos alguém
para trás".
Oh, céus. Era a casa, ele havia dito na noite passada, que
inspirava tais confidências.

- A senhora já foi deixada para trás? - Ele perguntou.
- Fui à primeira da minha geração, em nossa família, a se
casar - disse ela. - Fui à primeira, e de fato a única, a ficar viúva.
Agora meu irmão está casado, e Lauren também, minha prima e
amiga mais querida. Todos os meus outros primos também estão
casados. Todos eles formando família e se mudando, ao que
parece, para outra fase de suas vidas que está fechada para mim.
Não é que eles não sejam simpáticos ou acolhedores. Eles são.
Eles estão sempre me convidando a ficar, e o desejo por minha
companhia é perfeitamente genuíno. Eu sei disso. Eu ainda tenho
uma amizade extremamente íntima com Lauren, com Lily minha cunhada - e com os meus primos. E eu vivo com minha
mãe, a quem eu amo profundamente. Eu me considero bastante
abençoada.
O discurso soou oco para seus próprios ouvidos.
- Um período de luto de sete anos por um marido é
extremamente longo, - ele disse - especialmente quando a mulher
é tão jovem. Que idade você tem?
Confie em Lorde Trentham para perguntar o imperguntável.
- Estou com trinta e dois - ela respondeu. - É perfeitamente
possível viver uma existência satisfatória sem voltar a se casar.
- Não se desejar ter filhos sem incorrer em um escândalo disse ele. – A senhora seria sábia em não esperar muito mais
tempo para fazê-lo.
Ela elevou as sobrancelhas. Não havia fim à sua
impertinência? E ainda, o que sem dúvida seria impertinência em
qualquer outro homem que ela conhecia, não era seu caso. Na
verdade, não. Ele era apenas um homem direto e objetivo, que
dizia o que pensava.

- Eu não tenho certeza se posso ter filhos - ela disse. - O
médico que me atendeu quando eu tive o aborto, disse que eu não
poderia mais ter filhos.
- Foi o homem que cuidou da sua perna quebrada? - Ele
perguntou.
- Sim.
- E você nunca procurou uma segunda opinião?
Ela negou com a cabeça.
- Isso não tem importância, de qualquer maneira - ela
respondeu. - Eu tenho sobrinhos e sobrinhas. Tenho grande
carinho por eles e eles por mim.
Isso tinha importância, pensou, e somente agora, neste
momento, se deu conta do quanto isso importava. Tal era o poder
da negação. O que havia nesta casa? Ou neste homem?
- Parece-me, - ele disse - como se esse médico fosse um
charlatão da pior espécie. Ele a deixou com um defeito
permanente e, ao mesmo tempo, destruiu toda sua esperança de
ter um filho, justamente depois de você ter perdido um, sem
nunca sugerir que você consultasse um médico com mais
conhecimento e experiência nesses assuntos do que ele mesmo”.
- O melhor, - ela concluiu - é que não se tenha certeza de
algumas coisas, Lorde Trentham.
Ele baixou os olhos dos dela, finalmente. Olhou para o chão
e com a ponta de sua grande bota suavizou o cascalho do
caminho.
O que o fez ficar tão atrevido? Talvez fosse seu tamanho.
Mas ainda que fosse surpreendentemente grande, não havia
nada de desajeitado nele. Cada parte dele era proporcional às
demais. Até mesmo seu cabelo curto, o que deveria diminuir
qualquer pretensão de boa aparência que ele pudesse possuir,

adequava-se à forma de sua cabeça e à dureza de suas feições.
Suas mãos podiam ser gentis. Assim também podiam ser seus
lábios ...
- O que o senhor faz? - Ela perguntou. - Quero dizer, quando
não está aqui, o que o senhor faz? Já não é mais um oficial, não?
- Eu vivo em paz - respondeu, voltando a olhar para ela. Como à senhora. E contente. Comprei uma mansão e criei raízes
no ano passado, depois que meu pai morreu. E ali, vivo sozinho.
Tenho ovelhas, vacas, galinhas, uma pequena fazenda, uma
horta, um jardim de flores. Trabalho em tudo. Sujo as mãos e fico
com terra sob minhas unhas. Meus vizinhos estão perplexos, por
eu ser Lorde Trentham. Minha família está estarrecida, porque
agora
sou
proprietário
de
um
vasto
negócio
de
importação/exportação e imensamente rico. Eu poderia viver com
grande ostentação em Londres. Cresci como filho de um homem
rico, embora sempre esperasse ter que trabalhar duro,
preparando-me para o dia em que eu ocuparia o lugar de meu
pai. Ao invés disso, eu insisti para que ele comprasse uma
comissão para mim em um regimento de infantaria e trabalhei
duro na carreira por mim escolhida. Eu me destaquei. Então, eu
saí. E agora eu vivo em paz. E contente.
Havia alguma coisa indefinível em seu tom de voz. Desafio?
Irritação? Defesa? Ela se perguntou se ele era realmente feliz.
Felicidade e contentamento não eram a mesma coisa, não é
verdade?
- E um casamento iria completar seu contentamento? - Ela
quis saber.
Ele franziu os lábios.
- Eu não fui feito para uma vida sem sexo - disse ele.
Ela pediu por esta resposta. Assim, tentou não corar.

- Eu decepcionei meu pai - disse Lorde Trentham. - Quando
eu era menino, eu o seguia como uma sombra. Ele me adorava e
eu a ele. Ele imaginou, na minha opinião, que eu iria seguir seus
passos no negócio e assumi-los, a partir do momento em que ele
desejasse se aposentar. Então, veio esse ponto inevitável em
minha vida, quando eu queria ser eu mesmo. No entanto, tudo o
que eu podia ver na minha frente é que estava me tornando cada
vez mais como meu pai. Eu o amava, mas eu não queria ser como
ele. Eu cresci inquieto e infeliz. Eu também cresci forte e grande,
um legado do lado da família da minha mãe. Eu precisava fazer
alguma coisa. Algo físico. Atrevo-me a dizer que eu poderia ter
feito alguma tolice relativamente inofensiva na juventude, antes
de retornar para casa, se não tivesse sido por... Bem, não tomei
esse rumo. Em vez disso, parti o coração do meu pai, indo embora
e ficando longe de casa. Ele me amava e teve orgulho de mim até
o fim, mas, naquela altura, seu coração estava partido. Quando
ele estava morrendo, eu disse a ele que iria tomar as rédeas de
suas empresas comerciais e que faria tudo que estivesse ao meu
alcance para passá-las para o meu filho. Então, depois que ele
morreu, fui para o meu chalé e comprei Crosslands, que fica nas
proximidades e estava justamente para ser vendida. E passei a
viver como eu tinha vivido nos dois anos anteriores, exceto em
uma escala um pouco maior. Para mim, chamei este período de
meu ano de luto. Mas esse ano acabou, e eu não posso, em sã
consciência, prorrogar por mais tempo. Já não estou tão jovem.
Eu estou com trinta e três.
Ele olhou para cima, assim como Gwen o fez, para um grupo
de gaivotas que voava, chamando ruidosamente uns aos outros.
- Tenho uma meia-irmã - ele disse quando eles voltaram a
se olhar. - Constance. Ela mora em Londres com a mãe dela, que
é minha madrasta. Ela precisa de alguém para levá-la para sair,
assim como precisa de amigos e admiradores. Precisa e quer um
marido. Mas sua mãe, teoricamente, é uma inválida e não está
disposta a deixá-la ir. Eu tenho responsabilidade por minha irmã.

Sou seu tutor. Mas o que posso fazer por ela enquanto
permanecer solteiro? Eu preciso de uma esposa.
O braço da cadeira estava cravando nas costas de Gwen,
apesar da almofada. Ela se contorceu em uma posição diferente, e
Lorde Trentham ficou de pé para acomodar a almofada,
reposicionando-a atrás dela.
- Está pronta para voltar lá para dentro?
- Não. - Ela disse. - Não, a menos que o senhor esteja.
Ele não respondeu e voltou a se sentar no pedestal de
pedra.
Por que ele havia se tornado um recluso em potencial? Tudo
em sua vida levaria a fazer crer que ele fosse exatamente o
oposto.
- Foi durante o Forlorn Hope que chefiou, que o senhor
sofreu as lesões que lhe trouxeram aqui? - Ela perguntou.
Seu olhar era tão ardente e tão firme que ela quase se
inclinou para o lado contra o encosto do banco, a fim de colocar
maior distância entre eles. Ele não falou sobre o ataque, ele tinha
dito a ela ontem, nunca.
E por que ela queria saber isso? Normalmente, ela não era
curiosa a ponto de se intrometer nesses assuntos.
- Eu não sofri um só arranhão durante o Forlorn Hope disse ele. - Nem em qualquer outra batalha que eu tenha lutado.
Se a senhora me examinasse da cabeça aos pés, nunca iria
imaginar que eu tivesse sido um soldado por quase dez anos. Ou
diria que eu era o tipo de oficial que se encolhia em uma tenda e
dava ordens, sem nunca sair pelo risco de interceptar uma bala
errante.
Sua vida tinha sido tão encantadora como a vida do duque
de Wellington, então. Dizia-se que Wellington, muitas vezes, de

forma imprudente, tinha ficado dentro do alcance das armas
inimigas, apesar de todos os esforços de seus assessores em
mantê-lo fora de perigo.
- Então por que... -Gwen começou.
- ... eu estou aqui? - Ele disse, interrompendo-a. - Oh, eu
tinha feridas suficientes, Lady Muir. Simplesmente, elas eram do
tipo invisíveis. Minha cabeça ficou fora de lugar. O que não é
realmente uma descrição precisa da minha forma particular de
loucura, porque se eu, realmente, tivesse ficado com minha
cabeça fora de ordem, tudo estaria muito bem. O fato era que eu
ainda estava com ela, e esse era o problema. Eu não podia sair.
Eu queria matar todos ao meu redor, especialmente aqueles que
foram mais gentis comigo. Eu odiava a todos, acima de tudo, a
mim mesmo. Eu queria me matar. Acredito que comecei a falar
com alguma coisa não inferior a um grito, e a cada segunda ou
terceira palavra, eu dizia o abominável, até mesmo para os
padrões do vocabulário de um soldado. Isso me enfureceu de tal
forma, que logo fiquei sem palavras fortes o suficiente para tirar
o ódio de dentro de mim.
Ele novamente baixou o olhar para o chão entre seus pés.
Gwen só conseguia ver o topo de sua cabeça.
- Eles me mandaram para casa em uma camisa de força ele disse. - Se existe algo mais calculado para aumentar a fúria,
acima do ponto de ebulição, eu não sei o que é, e realmente não
quero saber. Não quiseram me enviar para Bedlam, embora
pensassem que ali fosse o meu lugar. Eles ficaram muito
constrangidos, já que eu era uma espécie de celebridade, e tinha
acabado de ser promovido e festejado, além de ter recebido meu
título pelo rei - ou pelo príncipe regente, na verdade, dede que o
próprio rei está louco. Irônico, não? Eu não iria para a casa do
meu pai. Alguém soube do Duque de Stanbrook e do que ele
estava fazendo por outros oficiais. Então ele me encontrou e me
trouxe para cá, sem a necessidade de uma camisa de força. Ele

assumiu o risco. Acredito que eu não teria matado mais ninguém,
além de mim mesmo, mas ele não tinha como saber disso. Ele me
disse para eu não me matar - pediu, não disse. Ele me contou que
sua esposa tinha cometido suicídio, e foi de certa forma um
último ato de egoísmo, uma vez que deixou para trás um
sofrimento sem fim, impossível de ser descrito, em todos aqueles
que haviam testemunhado tudo aquilo, mas que não foram
capazes de fazer qualquer coisa para impedir o ocorrido. E assim,
eu continuei vivo. Era o mínimo que eu poderia fazer para me
redimir.
- Para se redimir do quê? - Ela perguntou docemente. Por
alguma razão, ela tinha a manta, antes estendida sobre suas
pernas, colada em seus seios, segurando-a ali com as duas mãos.
Ele olhou para cima com os olhos em branco, como se
tivesse esquecido que ela estava lá. Em seguida, voltou à razão.
- Eu matei perto de trezentos homens, - ele disse - trezentos
dos meus próprios homens.
- Matou? - Ela perguntou.
- Matei, ou deixei que fossem mortos - ele disse. - É tudo a
mesma coisa. Eu fui responsável pela morte deles.
- Conte para mim - ela disse e sua voz ainda era doce.
Ele voltou a olhar para o chão. Ela ouviu quando ele inalou
profundamente e expirou lentamente.
- Não é assunto para os ouvidos de uma mulher - ele disse,
mas continuou assim mesmo. - Eu guiei meus homens a uma
encosta cheia de armas. Era morte certa. Nós fomos detidos em
nossa trilha quando estávamos no meio do caminho. Metade de
nós foi morta, a outra metade estava desencorajada. O sucesso
parecia impossível, então meu tenente me deu uma ordem de
retirada. Ninguém poderia nos culpar, porque seguir adiante
seria uma forma de suicídio. Mas era para isso que nós tínhamos

nos alistado, para sermos voluntários, e eu estava determinado a
morrer tentado, ao invés de voltar derrotado. Eu dei a ordem
para avançar e não olhei para trás para ver se alguém me
acompanhava. E saímos vitoriosos. Embora não tenham restado
muitos de nós, abrimos a brecha que permitiu que o restante da
força brotasse entre nós. Dos dezoito sobreviventes, eu era o
único que não estava ferido. Alguns homens morreram logo
depois, mas eu não dei importância. Eu havia aceitado a missão e
eu a completei com sucesso. Eu fui enaltecido com elogios e
prêmios. Apenas eu. Oh, meu tenente conseguiu sair capitão.
Todos os outros homens, vivos ou mortos, não significaram nada.
Eles foram apenas bucha de canhão: sem importância em vida,
imediatamente esquecidos na morte. Eu não me importei, porque
eu estava em uma nuvem de glória.
Ele remexeu o cascalho que havia alisado mais cedo.
- E por que eu não deveria estar? - Ele questionou. - Aquilo
era Forlorn Hope. Todos aqueles homens eram voluntários. Todos
eles esperavam morrer. Eu mesmo o fiz, porque eu liderava
aquela frente.
Gwen molhou os lábios. Ela não sabia o que dizer.
- Dois dias antes de eu ter aquele surto, - ele disse, olhando
para ela com um olhar assustadoramente sombrio - eu fui ver
dois dos meus homens. Um era um tenente, recentemente
promovido. Ele tinha ferimentos internos e ninguém esperava
que ele vivesse. Tinha grande dificuldade para respirar. No
entanto, ele conseguiu coletar secreção suficiente em sua boca
para cuspir em mim. O outro teve as duas pernas amputadas e
ia, sem dúvida, morrer, mas ele estava ganhando seu tempo
sobre isso. Eu sabia, e ele sabia disso também. Ele agarrou
minha mão e ... beijou-a. Ele me agradeceu por eu ter-me
lembrado dele e ter ido vê-lo. Isso, ele disse, fez dele um homem
orgulhoso e disse que iria morrer um homem feliz. E outras
coisas idiotas como essa. Eu queria abaixar e beijar sua testa,

mas tive receio sobre o que outras pessoas, que estavam ali por
perto, iriam pensar ou dizer entre eles depois disso. Ao invés
disso, eu simplesmente apertei a mão dele e disse que eu voltaria
no dia seguinte. Eu voltei, mas ele morreu meia hora antes de eu
chegar".
Ele olhou para Gwen.
- E agora a senhora conhece minha vergonha - disse ele. Eu fui de grande herói a um completo idiota em apenas um mês.
Suas perguntas foram todas respondidas?
Havia uma dureza em seus olhos, uma aspereza em sua
voz.
Gwen engoliu em seco.
- O sentimento de culpa, quando claramente se fez algo de
errado, - disse ela - é natural e até desejável. Talvez seja possível
dizer ou fazer alguma coisa para corrigir o erro. Sentir-se culpado
quando não houve, evidentemente, nada de errado, é
infinitamente mais prejudicial. E, claro, Lorde Trentham, o
senhor não fez nada de errado. Fez o que deveria ser feito. No
entanto, de nada adianta eu trabalhar nesse sentido, não é?
Inúmeras outras pessoas devem ter dito a mesma coisa. Seus
amigos aqui devem ter dito isso. E isso não ajuda muito, não é?
Seus olhos procuraram os dela, mas ela baixou o olhar,
ocupando suas mãos em arrumar o cobertor.
- Eu sinto muito pelo senhor - disse ela. - Mas o seu
esgotamento nervoso era vergonhoso apenas se olhado a partir da
perspectiva da dura e implacável masculinidade. Não se espera
que um comandante militar possa dar importância a um dos
homens sob seu comando. O fato de você ter-se importado, de
você realmente se importar, torna tudo muito mais admirável aos
meus olhos.

- Não há muitas batalhas a serem vencidas, Lady Muir, ele disse - se os comandantes colocam a segurança e o bem-estar
de seus homens à frente de uma vitória sobre o inimigo.
- Não, - ela concordou - suponho que não. Mas o senhor não
fez isso, não é? O senhor cumpriu o seu dever. Somente depois se
permitiu sofrer.
- A senhora transforma minha covardia em ato heroico disse ele.
- Covardia? - Ela questionou. - Dificilmente isso. Quantos
comandantes levam seus homens à morte certa em uma batalha?
E, em seguida, visitam os seus homens terrivelmente feridos,
especialmente aqueles que certamente iriam morrer? E mesmo
aqueles que o odeiam e se ressentem com ele?
- Eu a trouxe aqui - ele disse - para desfrutar o ar fresco e
as flores.
- E eu fiz isso tudo - disse ela. - Me sinto bem melhor. Até o
meu tornozelo não está doendo tanto quanto antes. Ou talvez os
efeitos do remédio contra dor, que o duque de Stanbrook sugeriu
que eu tomasse, não tenha se esgotado ainda. O ar está adorável
hoje, mesmo com a saudade que há nele. Lembro-me de casa.
- Abbey Newbury? - Disse.
Ela assentiu com a cabeça.
- É tão perto do mar como Penderris Hall - disse ela. - Há
uma praia privada abaixo da abadia com penhascos por trás dela.
É muito semelhante a isso aqui. É surpreendente, porém, que eu
estivesse caminhando à beira do mar ontem. Eu não costumo ir
até a praia em casa.
- A senhora não gosta da areia em seu sapato? - Perguntou.
- Bem, também tem isso - disse ela. - Mas também acho o
mar muito vasto. Isso me assusta um pouco, embora eu não

tenha a certeza do por que. Realmente, não é o medo de me
afogar nele. Eu acho que é mais o fato de o mar ser um lembrete
de quão pouco controle temos sobre nossas vidas, não importa
quão cuidadosamente planejamos e organizamos nosso destino.
Tudo muda da maneira que menos esperamos, e tudo é
assustadoramente grande. Somos tão pequenos.
- Às vezes, esse ponto de vista pode realmente ser
reconfortante - disse ele. - Quando nós nos castigamos a nós
mesmos por termos perdido o controle, somos lembrados de que
nunca podemos estar no controle total, que tudo que a vida pede
de nós é que façamos o nosso melhor para lidar com aquilo que
nos é entregue. É mais fácil falar do que fazer, é claro. Na
realidade, muitas vezes é impossível ser feito. Mas eu sempre
acredito que um passeio na praia seja reconfortante.
Ela sorriu para ele e ficou surpresa ao descobrir que
realmente gostava dele. Pelo menos ela o entendia melhor do que
o entendera no dia anterior.
- O ar fresco trouxe cor às suas faces - disse ele.
- E tenho certeza que também ao meu nariz, sem dúvida disse ela.
- Eu estava tentando ser cavalheiro, - ele falou - evitando
qualquer menção a isso. Eu me esforcei para nem mesmo olhar
para ele.
A piada a surpreendeu, encantando-a. Ela levantou a mão
para cobrir seu nariz e sorriu.
Ele se levantou e encurtou a distância entre eles. Então,
pegou o cobertor que ainda estava em uma pilha desordenada na
cintura dela, e espalhou-o sobre suas pernas novamente antes de
se endireitar e olhar para ela. Cruzou suas mãos atrás das costas.
Gwen tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu.

- Eu não sou um cavalheiro, como à senhora deve saber disse ele depois de um momento de silêncio. - Eu nunca quis ser
um. Quando eu tenho que me misturar com as classes mais altas,
eles podem me aceitar ou rejeitar, como desejarem. Não fico
ofendido por ser considerado inferior. Eu sei que eu não sou. Sou
apenas diferente.
Gwen inclinou a cabeça para um lado.
- A que ponto quer chegar, Lorde Trentham? - Ela
perguntou.
- Não me sinto inferior à senhora, - ele disse - mesmo sendo,
de fato, muito diferente. Eu não tenho nenhuma ambição de
cortejá-la ou me casar com a senhora e, assim, impulsionar-me
discretamente a uma classe social superior.
A irritação com ele, de ontem, voltou com força total.
- Estou contente por sua causa, - disse ela - já que o senhor
estaria fadado a certa frustração.
- Mas eu estou irresistivelmente atraído pela senhora disse ele.
- Irresistivelmente?
- Eu vou resistir, se for preciso - disse ele. - Com uma
palavra sua, eu vou resistir.
Gwen abriu a boca e a fechou novamente. Como eles
chegaram a este ponto? Apenas alguns momentos atrás, ele havia
desnudando sua alma para ela. Mas talvez essa fosse a
explicação. Talvez a emoção que ele estivesse sentindo naquela
hora, precisasse ser traduzida em algo mais, alguma coisa mais
suave e mais familiar.
- Resistir a quê? - Ela perguntou, franzindo a testa.
- Eu gostaria de beijá-la outra vez, - disse ele - no mínimo.

Ela fez a pergunta que deveria ter permanecido sem ser
mencionada.
- E, no máximo?
- Eu gostaria de levá-la para a cama - disse ele.
Seus olhos se encontraram e Gwen sentiu uma onda de
desejo que definitivamente roubou seu fôlego. Meu Deus, ela
deveria estar batendo no rosto dele, exceto que ficava muito
acima do alcance de seu braço. De qualquer maneira, ela
perguntara e ele apenas havia respondido. De repente, pareceu
mais como se estivesse em julho do que no início de março
naquele jardim.
- Gwendoline - disse ele. - Esse é o seu nome?
Ela olhou para ele com surpresa. Mas Vera tinha dito o
nome dela ontem, na presença dele, é claro.
- Todos me chamam de Gwen - ela disse a ele.
- Gwendoline - disse ele. - Por que encurtar um nome que é
perfeitamente bonito quando totalmente pronunciado?
Ninguém nunca a chamou por seu nome completo. Soou
estranho em seus lábios. Íntimo. Ela deveria se opor com firmeza
a tais intimidades.
Ele era Hugo. O nome combinava com ele.
Sentou-se ao lado dela, de repente, e ela recuou até o fundo
do assento para abrir espaço para ele. Ele se virou para o lado e
apoiou uma mão na parte de trás do assento.
O que ele ia...? O que ele estava...?
Ele baixou a cabeça e a beijou. Beijou com os lábios abertos.
Seus próprios lábios abertos em reflexo, e houve um súbito calor
entre eles. A língua dele pressionava duramente em sua boca, e

um de seus braços vieram até suas costas, enquanto o outro se
espalhava sobre a parte traseira de sua cabeça. Suas mãos,
presas dentro de sua capa, eram pressionadas contra o peito
largo, muito sólido.
Não era um breve abraço, como o beijo da noite anterior
tinha sido. Mas ele suavizou, e depois de um tempo seus lábios
percorreram o rosto dela, ao longo de suas têmporas, até sua
orelha, onde ela podia sentir sua respiração, sua língua e seus
dentes beliscando o lóbulo. Ele beijou o caminho ao longo de sua
mandíbula e voltou até sua boca.
Eu gostaria de levá-la para a cama.
Ah não. Isso foi demais. Aquele era o eufemismo do ano. Ela
apertou as mãos contra o peito dele, e ele ergueu a cabeça. Ela se
viu olhando profundamente dentro daqueles olhos escuros e
muito, muito intensos.
Ele era um pouco assustador. Pelo menos, ele deveria ser.
Ela respirou fundo para falar.
- Vocês dois estão correndo o grave risco de perderem o chá disse uma voz alegre, fazendo-os se afastarem de imediato, - e
parece que o chef de George se superou com seus bolos de hoje, ou
foi assim que me informaram. Não os provei ainda. Decidi adiar
tamanho deleite e vir aqui chamar vocês. Ralph viu da janela da
sala de estar, quando foi buscar Lady Muir, que vocês já estavam
aqui fora".
Lorde Darleigh, que olhava diretamente para eles daquela
forma extraordinária que ele fazia, como se realmente não
pudesse vê-los, sorriu docemente.
Lorde Trentham ficou de pé e dobrou o cobertor sobre seu
braço, enquanto Gwen recolhia as duas almofadas. E então,
quando ele se abaixou para pegá-la, não olhou para ela, e ela não

chegou a olhar para ele. Eles não se falaram enquanto ele a
levava para dentro, seguindo atrás de Lorde Darleigh.
Isso tinha sido muito imprudente, ela pensou. Outro grande
eufemismo. E indiscreto. O Conde de Berwick, com certeza, os viu
pela janela. Mas, o que exatamente ele tinha visto?
Lorde Trentham a levou para a sala de estar, onde todos a
cumprimentaram educadamente e ninguém lançou olhares de
cumplicidade a ela ou a Lorde Trentham.

Capítulo 7
Hugo esteve o resto do dia mais silencioso e distante do que
normalmente. E encontrava-se, muito injustamente, ressentido
com a presença de Lady Muir. Sem ela, poderia estar relaxando
com os amigos, conversando, rindo, brincando e sendo arreliado,
jogando cartas, lendo, sentado em amigável silêncio - tudo o que
mudou, na verdade. Atividades em Penderris raramente eram
planeadas.
Todos pareciam estar desfrutando da companhia de Lady
Muir. Ninguém mais parecia ressentir-se dela. Talvez porque
fosse uma Lady, parte do mundo deles. Ela entrou na conversa
com aparente facilidade, mas sem tentar dominá-la de forma
alguma. Poderia falar sobre, praticamente, qualquer assunto.
Podia ouvir e rir e fazer apenas os comentários corretos e as
perguntas certas. Gostava de todos eles, ao que parecia, e eles
tinham vindo a gostar dela. Era a mulher perfeita.
Ou talvez fosse porque nenhum dos outros a tinha beijado duas vezes.
Ben fora nomeado para a acompanhar no jantar. Tanto ele
como ela pareciam felizes com o acordo. Não muito tempo depois
do jantar, ela sugeriu se retirar para o seu quarto.
- A senhora está com dor, Lady Muir? - Perguntou George.
- Dificilmente quando me mantenho quieta - disse ela. - Mas
vocês são um clube. Ouso dizer que as noites são o momento em
que mais gostam de estar juntos, desfrutando do companheirismo
e da conversa. Vou-me retirar.
Ela era sensível demais. E tinha tato. Mais evidências da
mulher perfeita.
- Não há realmente nenhuma necessidade - disse George.

- Uma torção no tornozelo é qualificada como uma ferida de
guerra, - disse Ben - e um clube estagna se não aumenta a sua
adesão. Vamos expandir para incluir a senhora, Lady Muir, pelo
menos por este ano. Considere-se um membro honorário.
Ela riu.
- Obrigada - disse. - Estou honrada. Na verdade, sinto
algum desconforto, mesmo não chegando a ter dor. Estarei mais
confortável deitada na minha cama.
- Vou chamar um lacaio, então - disse George, mas Hugo já
estava de pé.
- Não há necessidade - disse ele. - Vou levar Lady Muir ao
andar de cima.
Ele se ressentia mais, porque ela o perturbava. Não
desgostava dela, como tinha acontecido na véspera. Mas ela era
de um outro mundo. Era bonita, elegante e bem vestida, senhora
de si e encantadora. Ela era tudo o que uma senhora deveria ser.
E o atraía, um fato que o aborrecia. Ele sempre fora capaz de
olhar para as senhoras, por vezes mesmo apreciando seus olhares
e fascínio, sem nunca as desejar. Não deveria desejar espécies
exóticas, não importa o quanto eram bonitas.
Era totalmente néscio?
Até lhe dissera nessa tarde - infelizmente, não havia
nenhuma possibilidade de que sua memória estivesse brincando
com ele, - que gostaria de dormir com ela.
Se perguntou se deveria pedir desculpas. Mas um pedido de
desculpas só iria fazer reviver o que acontecera no jardim. Era,
talvez, melhor esquecer ou, pelo menos, deixar que permanecesse
adormecido.
Além disso, como poderia pedir desculpas por beijar uma
mulher duas vezes? Uma vez pode ser explicada como um

impulso acidental. Duas vezes sugeria intenção ou uma grave
falta de controle.
Seu pé estava no topo da escada antes de qualquer um deles
falar.
- O senhor tem estado muito silencioso esta noite, Lorde
Trentham -, disse ela.
- No momento, preciso de todo meu alento para carregá-la disse a ela.
Ele fez uma pausa fora do seu quarto enquanto ela rodou a
maçaneta da porta. Entrou com ela e a colocou sobre a cama.
A apoiou em alguns dos muitos travesseiros atrás das
costas e posicionou outro embaixo de seu pé direito. Endireitou-se
e cruzou as mãos atrás das costas. Alguém já acendera as velas,
ele percebeu.
Gostaria de virar as costas e sair do quarto sem dizer uma
palavra ou olhar para trás, mas isso o faria parecer um idiota ou
um rematado grosseiro.
- Obrigada - disse ela. E logo em seguida: - Sinto muito.
Ele ergueu as sobrancelhas.
- A senhora está arrependida?
- Deve ser um divertimento muito ambicionado para voltar
aqui a cada ano - disse ela. - Mas o senhor esteve desconfortável
esta noite, e só posso concluir que sou a causa. Escrevi para meu
irmão e pedi-lhe para enviar a carruagem o mais rápido possível,
mas vai levar alguns dias antes que chegue para me levar para
casa. Nesse meio tempo, vou tentar ficar fora do seu caminho.
Qualquer envolvimento sério entre nós está fora de questão por
todos os tipos de razões. Está fora de questão para nós dois. E eu
nunca fui de flertes sem sentido ou comportamentos frívolos. Meu
palpite é que você também não o é.

- Veio para cima cedo esta noite por minha causa? perguntou a ela.
- O senhor é membro de um grupo - disse ela. - Vim por
causa do grupo. E realmente estou um pouco cansada. Estar
sentada o dia todo me deixa sonolenta.
Qualquer envolvimento sério entre nós está fora de questão
por todos os tipos de razões.
Somente uma razão veio à mente. Ela era da aristocracia;
ele era de uma classe baixa, apesar de seu título. Foi a única
razão. Ela estava sendo desonesta consigo mesma. Mas era uma
enorme razão. De ambas as partes, como ela havia dito. Ele
precisava de uma esposa que trataria da horta com ele, ajudaria
a alimentar os cordeiros que não podiam mamar, enxotaria
galinhas com seus cacarejos a bater as asas para fora do
caminho, a fim de recuperar os seus ovos. Precisava de alguém
que conhecesse o mundo social da classe média para que, então,
pudesse encontrar um marido para Constance.
Curvou-se
supérfluas.

rigidamente.

Palavras

eram

claramente

- Boa noite, milady - disse e saiu do quarto sem esperar pela
sua resposta.
Pensou ter ouvido um suspiro quando fechou a porta.
Naquela noite era a vez de Vincent.
De manhã ele acordara com um ataque de pânico e tinha-o
combatido durante todo o dia. Tais episódios vinham sendo
menos frequentes, relatou ele, mas quando aconteciam, eram tão
intensos como jamais tinham sido.
Quando Vincent veio pela primeira vez para Penderris, ele
estava quase surdo, bem como totalmente cego, em consequência
da explosão de um canhão perto o suficiente para tê-lo enviado de

volta para Inglaterra em um milhão de pedaços. Por algum
milagre havia escapado, tanto ao desmembramento como à
morte. Ele ainda tinha ficado um pouco selvagem, e apenas
George tinha sido capaz de o acalmar. George tinha agarrado
frequentemente o moço em seus braços e o abraçado, às vezes por
horas a fio, cantando para ele como um bebê até que ele dormia.
Vincent tinha dezessete anos no momento.
A surdez tinha desaparecido, mas a cegueira não e nunca o
faria. Vincent perdera a esperança bastante cedo e tinha ajustado
a sua vida à nova condição, com notável determinação e
resiliência. Mas a esperança, profundamente enterrada em vez de
banida completamente, surgia ocasionalmente, quando suas
defesas estavam baixas, geralmente enquanto ele dormia. E
despertava esperando ver, ficando aterrorizado quando descobria
que não podia, e, em seguida, era catapultado para as
profundezas de um inferno escuro quando percebia que nunca o
faria.
- Me rouba a respiração - disse ele - e acho que vou morrer
por falta de ar. Parte da minha mente me diz para parar de lutar,
aceitar a morte como um dom misericordioso. Mas o instinto de
sobrevivência é mais poderoso do que qualquer outro e eu respiro
de novo.
- E que coisa boa isso é - disse George. - Apesar de tudo o
que pode ser dito em contrário, esta vida vale a pena ser vivida
até ao último suspiro com que a natureza nos concede.
O silêncio bastante pesado que conseguiram suas palavras,
testemunhou o fato de que nem sempre era uma filosofia fácil de
adotar.
- Eu posso imaginar algumas coisas e algumas pessoas
muito claramente na minha cabeça - disse Vincent. - Mas não o
posso fazer com as outras. Esta manhã isso me golpeou, por
apenas um milésimos de segundo - de que nunca vi qualquer um
dos vossos rostos, que nunca os verei. No entanto, toda vez que

tenho esse pensamento, é tão cruel como foi na primeira vez que
pensei nisso.
- No caso do rosto feio de Hugo, - Flavian disse - isso é um
sinal de misericórdia, Vincent. Temos de olhar para ele todos os
dias. E, no caso do meu rosto ... Bem, se você fosse vê-lo, ficaria
desolado, pois você nunca foi tão bonito.
Vincent riu, e todos eles sorriram.
Hugo notou Flavian enquanto enxugava as lágrimas.
Imogen acariciou a mão de Vincent.
- Diga-me, Hugo, - Vincent disse - estava beijando Lady
Muir quando fui buscá-lo para o chá? Não ouvi nenhuma
conversa quando me aproximei do jardim de flores, embora Ralph
tivesse me assegurado que vocês estavam lá. Ele, provavelmente,
me enviou deliberadamente, para que a senhora não ficasse
constrangida com o que eu poderia ver.
- Se você acha que vou responder à essa pergunta, - disse
Hugo - deve ter perdido o juízo.
- E essa é a única resposta que preciso, - Vincent disse,
balançando as sobrancelhas.
- E os meus lábios estão selados - disse Ralph. - Não vou
confirmar nem negar o que vi pela janela da sala da manhã,
embora tenha que dizer que fiquei profundamente abalado.
- Imogen, - George disse - você vai atender à nossa preguiça
masculina coletiva e servir o chá?
Na manhã seguinte o duque de Stanbrook arranjou um par
de muletas para Gwen, explicando que elas tinham sido
necessárias quando a casa fora um hospital, mas tinham ficado
intocadas e esquecidas por vários anos desde então. Tinha-as
testado por segurança, garantira a ela. Mediu-lhes o
comprimento e cortara alguns centímetros a mais. As havia

lixado e polido. Então, Gwen conseguia se mover em um grau
limitado.
- A senhora tem que me prometer, porém, Lady Muir, disse ele, - não fazer a ira do Dr. Jones cair sobre a minha cabeça.
Não deve correr pela casa, subir e descer escadas, por dezoito de
cada vinte e quatro horas. Deve continuar a descansar o pé e
mantê-lo elevado na maioria das vezes. Mas, pelo menos agora,
pode mover-se por um aposento e até mesmo de sala em sala, sem
ter que esperar por alguém para a transportar.
- Oh, obrigada - disse ela. - Não pode saber o quanto isso
significa para mim.
Ela deu uma volta pela sala de estar, se acostumando com
as muletas, antes de se reclinar na espreguiçadeira novamente.
Sentiu-se muito menos confinada pelo resto do dia, apesar
de não se mover por um grande pedaço. Vera passou a maior
parte da manhã com ela, como tinha feito no dia anterior, e
permaneceu até depois do almoço.
Seus amigos, ela relatou alegremente, quase a odiavam por
se encontrar em termos de visita íntima do Duque de Stanbrook.
Sua carruagem com coroa tinha sido vista a parar na porta de
sua casa várias vezes. O ciúme certamente os levaria a cortar
suas relações, se não encontrassem mais vantagem em aproveitar
a sua glória refletida e se vangloriar, a seus vizinhos menos
privilegiados, de serem seus amigos. Ela também se queixou do
fato de Sua Graça não enviar ninguém no carro para lhe fazer
companhia e que, novamente, não fora convidada a almoçar na
sala de jantar com o duque e seus convidados.
- Eu ouso dizer, Vera, - Gwen disse a ela - que o duque está
tocado por sua devoção e considera que você iria encontrar
ofensivo se afastar de mim quando não posso sentar-me na sala
de jantar com você.

Ela se perguntava por que se preocupava em tentar
acalmar as águas, que nunca ficariam lisas por muito tempo.
- É claro que você está certa -, disse Vera a contragosto. - Eu
ficaria ofendida se Sua Graça me afastasse de você para uma
mera refeição, quando reservo uma grande parte do meu dia
apenas para lhe oferecer o conforto da minha companhia. Mas
podia pelo menos me dar a oportunidade de recusar o convite.
Estou surpresa que seu chef sirva apenas três pratos para o
almoço. Pelo menos, ele serve apenas três aqui na sala de estar.
Ouso dizer que eles desfrutam de um maior número de pratos na
sala de jantar.
- Mas a comida é abundante e deliciosa -, disse Gwen.
As visitas de Vera eram um severa prova para ela.
Depois que o Duque de Stanbrook levou sua amiga para a
carruagem que estava esperando, Gwen se sentiu um pouco
agitada. E se Lord Trentham viesse novamente como ontem? O
clima estava tão adorável. Ela não podia suportar encontrar-se
tête-à-tête com ele novamente. Não tinha nada que encontrar-se
atraída por ele, ou ele por ela. Não tinha nada que permitir que
ele a beijasse, e ele não tinha nada que lhe pedir isso.
Se ele viesse de novo esta tarde, pensou, poderia fingir estar
dormindo e permanecer dormindo. Ele não teria escolha a não ser
ir embora. Mas ela não estava com sono.
Foi salv,a de qualquer maneira, de ter que praticar tal
subterfugio. Houve uma batida na porta, não muito tempo depois
de Vera a deixar, e esta se abriu para revelar o Visconde
Ponsonby.
- Estou a meu caminho da bi-biblioteca - disse ele em sua
voz lânguida e com sua leve gagueira. - Todo mundo está lá fora
desfrutando o sol, mas tenho uma pilha tal de cartas não
respondidas que estou em grave perigo de ser enterrado sob ela,

ou me perder atrás dela, ou alguma coisa terrível. Devo,
infelizmente, assentar a caneta no pa-papel. Ocorreu-me que a
senhora pode querer experimentar as suas novas muletas e vir
escolher um livro.
- Estaria mais do que encantada -, disse ela, e ele ficou na
porta observando enquanto ela se ergueu sobre suas muletas e
caminhou para ele.
Seu tornozelo ainda estava inchado e dolorido ao toque.
Ainda não havia possibilidade de caber em um sapato ou colocar
qualquer peso sobre ele. Estava um pouco menos dolorido hoje, no
entanto. E o corte em seu joelho era agora não mais do que uma
crosta.
Lord Ponsonby caminhava ao lado dela para a biblioteca e
virou um sofá que estava junto à lareira para que a luz da janela
caísse sobre ele.
- A senhora pode ficar aqui e ler, ou assistir-me tratrabalhando, - disse ele - ou pode retornar para a sala de estar
depois de escolher um livro. Ou pode subir e descer escadas, se
lhe convier. Eu não sou seu carcereiro. Se precisar de um volume
de uma prateleira alta, m-me avise.
E ele se retirou para trás da grande mesa de carvalho que
ficava perto da janela.
Gwen se perguntou sobre sua gagueira. Era a única
imperfeição que poderia detectar em sua pessoa. Talvez, também
ele tivesse passado pela guerra fisicamente ileso, mas mal de sua
cabeça, como Lord Trentham o expressara. Ela não tinha pensado
muito, antes desta semana, sobre a tensão mental de ser um
militar. E, contudo, mostrou uma lamentável falta de
sensibilidade da parte dela, não ter pensado.
Ela leu por um tempo e, então, Lady Barclay a encontrou e
convidou-a para a estufa, para ver as plantas. Havia algumas

cadeiras de vime há muito tempo lá, ela explicou, em que Lady
Muir poderia descansar o pé. Sentaram-se lá e conversaram por
uma hora inteira. Mais tarde, eles foram para o chá na sala de
estar.
Foi Lady Barclay que jantou com ela naquela noite.
Ela queria abordar o assunto da perda de Lady Barclay e
assegurá-la de que entendia, que ela também tinha perdido um
marido sob circunstâncias terríveis de violência, que também se
sentia culpada por sua morte e duvidava que jamais iria libertarse do sentimento. E talvez fosse mais do que apenas um
sentimento. Talvez realmente fosse culpada.
Mas não disse nada. Não havia nada nas maneiras de Lady
Barclay para sugerir que gostaria de receber tal intimidade. De
qualquer forma, Gwen nunca falou sobre os acontecimentos que
envolveram a morte de Vernon ou a queda que havia causado.
Suspeitava que nunca o faria.
Nunca sequer pensara sobre esses eventos. No entanto, em
alguns aspectos, nunca pensara em outra coisa.
Mais tarde na noite, ela concordou quando pediram que ela
tocasse piano, embora não com qualquer particular gosto ou
talento. Não importava. Ela fora persuadida a cruzar a sala de
estar em suas muletas, a fim de sentar-se no instrumento e tocar,
dedos enferrujados e tudo. Felizmente, ela saiu-se razoavelmente
bem. E, então, se convenceu a permanecer lá, a fim de
acompanhar Lord Darleigh enquanto ele tocava seu violino. Ela
se mudou para a harpa com ele depois disso, enquanto ele lhe
explicava como estava aprendendo a identificar as cordas sem as
ver.
- E o seu próximo truque, Lady Muir, - o conde de Berwick
disse - é tocar as cordas uma vez que as identifique.

- O céu nos defenda - Lord Ponsonby acrescentou. - Vincent
era muito me-menos perigoso quando via e as únicas armas de
que dispunha eram uma espada e um canhão gigante. Ele está
ameaçando começar a bordar, Lady Muir. O Senhor sabe onde
sua agulha vai acabar. E nós todos temos ouvido histórias de
horror sobre laços de seda.
Gwen riu com todos eles, inclusive o próprio Lord Darleigh.
Quando ela se retirou para seu quarto, logo depois, não foi
autorizada a subir as escadas com suas muletas. Um lacaio foi
convocado para levá-la para cima.
Lord Trentham não se ofereceu.
Ela não o tinha visto durante todo o dia. Mal tinha ouvido a
sua voz toda a noite.
Odiava a idéia de que tinha muito possivelmente arruinado
sua estadia em Penderris. Só podia esperar que Neville não se
demorasse em enviar a carruagem, assim que recebesse a carta.
Se sentiu deprimida depois de ter sido deixada sozinha em
seu quarto. Não estava cansada. Ainda era muito cedo. Também
estava bastante inquieta. As muletas lhe tinham dado um sabor
de liberdade, mas não estava livre realmente. Desejou poder
olhar em frente, para uma longa caminhada no início da manhã
ou, melhor ainda, um passeio rápido.
Não sentia vontade de ler.
Oh Deus, Lord Trentham era tão terrivelmente atraente.
Estivera consciente da presença dele, com todas as terminações
nervosas de seu corpo, durante toda a noite. Se fosse
rigorosamente honesta consigo mesma, seria forçada a admitir
que tinha escolhido seu vestido de noite favorito, damasco, com
ele em mente. Tinha tocado o piano consciente apenas dele na
pequena plateia. Tinha olhado em todos os lugares da sala, exceto
para ele. Sua conversa parecia muito brilhante, muito trivial,

porque sabia que ele estava ouvindo. Sua risada parecia
demasiado alta e muito forçada. Era tão pouco comum dela estar
auto-consciente quando acompanhada.
Odiara cada momento de uma noite que, na superfície,
tinha sido muito agradável. Tinha-se comportado como uma
menina muito jovem lidando com sua primeira paixão, sua
primeira paixão muito tola.
Não podia estar apaixonada por Lord Trentham. Alguns
beijos e uma atração física não se equiparavam ao amor, ou
mesmo a estar apaixonada. Meu Deus, supunha ser uma mulher
madura.
Raramente tinha passado uma noite mais desconfortável
em sua vida.
E mesmo agora, sozinha em seu próprio quarto, não estava
imune, pelo menos da atração física.
Qual seria a sensação, encontrou-se perguntando, de ir para
a cama com ele?
Afastou o pensamento e pegou o livro que tinha trazido da
biblioteca. Talvez se sentisse com mais vontade de ler uma vez
que começasse.
Se apenas a carruagem de Neville aparecesse, como um
milagre, amanhã. Cedo.
Ela se sentiu de repente quase doente com saudade.

Capítulo 8
Os últimos dois dias tinham sido ensolarado e primaveris
em todos, exceto pela temperatura. Hoje a deficiência tinha sido
corrigida. O céu era de um azul claro, o sol brilhava, o ar estava
quente e, - o mais raro de todos os fenômenos meteorológicos no
litoral - quase não havia vento.
Parecia mais verão que primavera.
Hugo ficou sozinho do lado de fora das portas da frente,
indeciso sobre o que fazer à tarde. George, Ralph, e Flavian
tinham saído a cavalo. Ele decidiu não os acompanhar. Embora
ele pudesse montar, é claro, não era algo que ele fizesse por
prazer. Imogen e Vincent tinha saído para um passeio no
parque. Por nenhuma razão específica, Hugo tinha declinado o
convite para se juntar a eles. Ben estava na antiga sala de aula
no andar de cima, um espaço que George tinha reservado para
que ele submetesse seu corpo aos exercícios punitivos várias
vezes por semana.
Ben tinha assegurado a George que olharia Lady Muir
quando acabasse, para se certificar de que ela não fosse deixada
sozinha por muito tempo após a saída de sua amiga.
Hugo tinha concordado em cuidar para que a Sra.
Parkinson tomasse seu caminho na carruagem de George, e isso
era o que ele acabara de fazer. Ela o tinha olhado
maliciosamente, sorrido de forma afetada e comentado que
qualquer senhora que tivesse a sorte de tê-lo em uma carruagem,
nunca se sentiria nervosa, não sobre os perigos da estrada, ao
menos, ela acrescentara. Hugo não se dera conta de que era uma
sugestão para se oferecer cortesmente a acompanhá-la até a vila.
Em vez disso, voltara sua atenção ao cocheiro corpulento na
boleia e assegurou-lhe de que nunca tinha ouvido falar de
nenhum salteador ativo nesta parte do país.

O que ele realmente deveria fazer, pensou, desde que tinha
quase deliberadamente se isolado para a tarde, era descer para a
praia, o seu velho refúgio favorito. A maré estava a caminho. Ele
gostava de estar perto da água, e gostava de ficar sozinho.
Ele não tinha visto Lady Muir desde quando entrara na
sala de estar para escoltar a amiga dela até a carruagem. Apenas
inclinara a cabeça vagamente na direção dela.
Era realmente muito desconcertante o fato de que dois
beijos, razoavelmente castos, poderiam descompor um homem. E,
provavelmente, uma mulher também. Ela não tinha falado com
ele antes que ele saísse escoltando sua amiga do quarto e, embora
ele não tivesse olhado para ela, era quase certo que ela não tinha
olhado para ele também.
Ach, isso era ridículo. Eles estavam se comportando como
duas crianças tímidas em idade escolar.
Ele virou-se e caminhou de volta para a casa. Bateu na
porta da sala de estar, abriu-a e entrou sem esperar por um
convite. Ela estava em pé na janela, apoiada em suas muletas,
olhando para fora. Pelo menos, ele assumiu que ela tinha estado
olhando para fora. Ela o estava olhando agora sobre o ombro, as
sobrancelhas levantadas.
- Vera já foi? - Perguntou ela.
- Foi. - Ele deu alguns passos para mais perto dela. - Como
está o tornozelo?
- O inchaço diminuiu consideravelmente hoje, - disse ela - e
está muito menos dolorido do que antes. Mesmo assim, eu não
posso apoiar o pé no chão e, provavelmente, seria imprudente até
mesmo tentar. O Dr. Jones foi muito específico em suas
instruções. Eu fico irritada comigo mesma por ter permitido que o
acidente acontecesse e por ser tão impaciente para me curar. E
fico zangada comigo mesma por estar de mal humor.

Ela sorriu de repente.
- Está um lindo dia - disse ele.
- Eu reparei. - Ela olhou para trás, para fora, pela janela. –
Estou aqui em pé aqui tentando decidir se levo meu livro e sentome no jardim de flores por um tempo. Posso andar essa distância
sem ajuda. "
- Quando a maré está subindo, - disse ele - isola uma parte
da longa praia do resto, formando uma pitoresca enseada. Eu já
estive lá muitas vezes quando simplesmente quero sentar e
pensar ou sonhar, ou, às vezes, quando quero nadar. Fica a um
par de milhas ao longo da costa, mas ainda faz parte das terras
de George. É bastante particular. Eu pensei em ir lá esta tarde. "
Na verdade, ele não tinha dedicado um só pensamento para
a enseada até que começara a falar com ela.
- Pode ser abordada por uma charrete, - ele acrescentou - o
penhasco não é muito alto lá. É muito fácil chegar às
areias. Gostaria de vir comigo?
Ela manobrou as muletas e voltou-se para encará-lo. Ela
era miúda, pensou. Duvidava que o topo da cabeça dela atingisse
seu ombro. Ela ia dizer não, ele pensou, meio aliviado.
Que diabo o tinha levado a fazer tal oferta, de qualquer
maneira?
- Oh, eu adoraria - disse ela baixinho.
- Em meia hora? Sugeriu. – Acho que a senhora terá que
subir para se aprontar.
- Eu posso ir sozinha - disse ela. - Tenho as minhas
muletas."
Mas ele caminhou para a frente, soltou as muletas e
ergueu-a em seus braços antes de tomar o caminho em direção à

escada. Ele esperou por um discurso que não veio. Embora ela
soltasse um suspiro.
Ele voltou até ela meia hora mais tarde, depois de informar
a Ben que a estava levando para um passeio e recolher as coisas
que eles precisavam levar com eles - um cobertor para ela se
sentar, almofadas para suas costas e seu pé, e, como
complemento, uma grande toalha. Também tinha ido aos
estábulos e à cocheira, engatado um cavalo na charrete, trazendoo até as portas da frente.
Essa, ele pensou, não era uma boa ideia. Mas ele se
comprometera. E não podia se sentir culpado, como sabia que
deveria. Fazia um dia lindo. Um homem precisava de companhia,
quando o sol brilhava e o ar estava quente. Não que ele jamais
tivesse formulado um pensamento tão idiota. Por que um dia
ensolarado faria um homem se sentir mais solitário do que se
sentia em um dia nublado?
Carregou Lady Muir de volta ao térreo e sentou-a na
charrete antes de tomar seu lugar ao lado dela. Enlaçou as
rédeas em suas mãos e deu o cavalo o sinal para partir.
A primavera era sua estação favorita, ela havia dito a ele
dias atrás, cheia de novidade e esperança.
De alguma forma, hoje ele podia entender o que ela queria
dizer.

Era um daqueles dias perfeitos no início da primavera em
que se sentia mais como verão, exceto por uma certa qualidade
indefinível de luz que prenunciava uma temporada. E o verde da
grama e das folhas ainda detinha todo o frescor de um novo ano.
Era o tipo de dia para se alegrar apenas por estar vivo.

E era o tipo de dia em que não poderia desejar nada melhor
do que estar passeando com um homem atraente ao seu lado. Por
alguma razão que ela não conseguia entender, e apesar do
incômodo de seu tornozelo dolorido, Gwen se sentia dez anos mais
jovem esta tarde.
Ela não deveria estar sentindo qualquer coisa
semelhante. Mas, por outro lado, por que não? Ela era uma viúva
e não devia lealdade a nenhum homem. Lorde Trentham era
solteiro e, neste momento, pelo menos, descompromissado. Por
que eles não deveriam passar à tarde na companhia um do
outro? Quem eles poderiam prejudicar?
Não havia nada de errado com um pouco de romance.
Se ela tivesse trazido uma sombrinha com ela, a teria
girado exuberantemente acima de sua cabeça.
Em vez disso, ela interpretou uma alegre melodia em um
teclado invisível sobre de suas coxas, antes de fechar mãos mais
tranquilamente em seu colo.
A charrete percorreu um curto caminho ao longo da estrada
em direção da aldeia, mas depois girou de volta para trás da casa,
ao longo de uma faixa estreita, que então corria paralelo ao
penhasco, em direção oposta à aldeia. De um lado, avistaram
uma colcha de retalhos de prados e campos marrons, amarelos e
verdes e, do outro, o parque cultivado de Penderris. O mar, vários
tons de azul mais profundo do que o céu, era visível para além do
parque. O ar estava perfumado com o cheiro do solo e da nova
vegetação e trazia o forte gosto salgado do mar.
E o odor almiscarado do sabão ou colônia de Lorde
Trentham.
Gwen descobriu que era impossível impedir seu ombro de
roçar no braço dele por conta do assento estreito da charrete. Era
impossível, a cada momento, não estar ciente de suas poderosas

coxas ao lado dela, envoltas em calças apertadas, e de suas mãos
grandes que manipulavam as rédeas.
Ele estava usando um chapéu alto hoje. Escondeu a maior
parte de seu cabelo e protegera os olhos. Parecia menos feroz,
menos militar. Parecia mais atraente do que nunca.
Sua resposta física à sua presença era um pouco enervante,
já que ela, realmente, nunca havia experimentado isso com
qualquer outro homem. Nem mesmo com Vernon. Ela o achara
maravilhosamente bonito e maravilhosamente encantador
quando eles se conheceram, e ela caiu rapidamente e
voluntariamente de amores por ele. Ela tinha gostado de seus
beijos antes de se casarem e, depois do casamento, de tê-lo na
cama.
Mas ela nunca me sentira assim com Vernon ou qualquer
outra pessoa.
Sem fôlego.
Cheia de uma energia exuberante.
Seus sentidos cientes de cada pequeno detalhe. Consciente
de que ele estava ciente, embora nenhum deles falasse durante a
viagem. No início, ela não conseguira pensar em nada para
falar. Então percebeu que, realmente, não precisava falar nada, o
silêncio entre eles não importava. Não era desconfortável.
Depois de uma ou duas milhas de pista inclinada para
baixo, quase na base de uma alta colina, eles viraram em uma
faixa ainda mais estreita em direção do mar. Logo, a trilha
desapareceu, e a charrete percorreu o caminho sobre a grama
grossa até a borda do penhasco baixo.
Lorde Trentham desceu para desatrelar o cavalo e amarrálo a um arbusto resistente nas proximidades. Deixou corda
suficiente para que pudesse pastar enquanto eles estavam fora.

Colocou um cobertor sobre seu braço e entregou-lhe
algumas almofadas, como tinha feito quando a levara para o
jardim há dois dias. Ele a tomou e levou-a até a enseada abaixo
ao longo de um caminho estreito em zigue-zague, através de uma
suave encosta de seixos fina areia dourada. Grandes
afloramentos de rocha se estendiam para o mar em ambos os
lados da pequena praia. Era, de fato, um pequeno paraíso
privado.
- O litoral constantemente nos surpreende, não é? - Ela
disse, finalmente quebrando o longo silêncio. - Há incríveis praias
de longos trechos. E, às vezes, há pequenos pedaços de paraíso,
como este. E eles são igualmente belos.
Ele não respondeu. Ela esperava que ele o fizesse?
Carregou-a na direção de uma grande rocha firmemente
plantada no meio da pequena praia. Levou-a para o lado mais
próximo do mar e colocou-a sobre o pé bom, com as costas
apoiadas contra a rocha, enquanto ele espalhava o cobertor sobre
a areia. Pegou as almofadas dos braços dela e as jogou para baixo
antes de ajudá-la a se sentar-se sobre o cobertor. Apoiou uma
almofada atrás das costas dela, outra embaixo de seu tornozelo
direito, e a última sob seu joelho. Ele franziu a testa todo o
tempo, como se sua tarefa exigisse grande concentração.
Ele estava arrependido? Seu convite tinha sido impulsivo?
- Obrigada - disse ela, sorrindo para ele. O senhor é um
excelente enfermeiro.
Ele olhou nos olhos dela brevemente, antes de se levantar e
olhar para o mar.
Não havia um sopro de vento aqui em baixo, ela notou. E a
rocha atraía o calor do sol.
Sentia-se mais do que nunca como em um dia de verão. Ela
desfez o fecho de sua capa e empurrou-a para trás sobre seus

ombros. Usava apenas um vestido de musselina sob ela, mas o ar
estava agradavelmente quente contra seus braços nus.
Lorde Trentham hesitou por alguns instantes e, em
seguida, sentou-se ao lado dela, as costas contra a pedra, uma
perna esticada à frente, a outra flexionada no joelho, o pé calçado
sobre o cobertor, um braço apoiado sobre o joelho. Seu ombro
estava, cuidadosamente, a algumas polegadas de distância dela,
mas ela podia sentir o calor do corpo dele, de qualquer maneira.
- A senhora toca bem - disse ele, abruptamente.
Por um momento ela não entendeu o que ele estava falando.
- O piano? - Ela virou a cabeça para olhar para ele. Seu
chapéu tinha caído ligeiramente para a frente de sua
cabeça. Quase escondia seus olhos e o fez parecer
inexplicavelmente lindo. - Obrigada. Sou competente, acredito,
mas não tenho nenhum talento real. E, com isso, não estou
querendo mais elogios. Ouvi talentosos pianistas e sei que eu
poderia praticar dez horas por dia durante dez anos e não
chegaria perto de poder me comparar a eles.
- Suponho - disse ele – que a senhora é competente em tudo
que faz. As damas geralmente são, não são?
- Está insinuando que somos competentes em muitas coisas,
mas verdadeiramente realizadas em poucas e talentosas em
ainda menos? - Ela riu. O senhor está certo, sem dúvida, em
nove de cada dez casos, Lorde Trentham. Mas melhor isso do que
ser totalmente impotente e inútil em tudo, exceto, talvez, em
manter uma aparência decorativa.
- Hmm - disse ele.
Ela esperou que ele voltasse a falar.
- O que a senhora faz para se divertir? - Perguntou.

- Para me divertir? - Essa era uma palavra estranha para
uma mulher adulta. - Eu faço todas as coisas habituais. Visito
membros da família e brinco com seus filhos. Participo de
jantares, chás, festas em jardins e noites sociais. Danço. Caminho
e passeio. Eu ...
- Você monta? - Perguntou. - Depois do acidente que você
sofreu?
- Oh, - ela disse – deixei de fazê-lo por um longo tempo
depois do acidente. Mas eu sempre gostei, e não fazê-lo me
impediu de interagir com meus colegas e me privou de muito
prazer pessoal. Além disso, odeio não fazer algo simplesmente
porque eu não tenho coragem. Eventualmente, eu me obriguei a
voltar à sela e, mais recentemente, me forcei a incentivar minha
montaria a um ritmo mais rápido do que um rastejamento. Um
dia desses, realmente devo permitir que ele galope. O medo deve
ser desafiado, eu aprendi. Ele é uma besta poderosa se o
permitimos nos dominar.
Ele estava olhando, com os olhos semicerrados, a beira da
praia. O sol estava brilhando sobre sua superfície.
- O que você faz para se divertir? - Ela perguntou.
Ele pensou sobre isso por um tempo.
- Alimento cordeiros e bezerros quando suas mães não
podem - disse ele. - Trabalho nos campos da minha fazenda,
particularmente na horta atrás da casa. Assisto e, de alguma
forma, participo de todos os milagres da vida, tanto animal como
vegetal. Alguma vez já alisou o solo descoberto sobre as sementes
e duvidou de que iria vê-las de novo? E então, depois de alguns
dias, se pode ver finas hastes, frágeis brotos empurrando acima
do solo e nos perguntamos se eles vão ter a força e resistência
para sobreviver. E antes que se perceba, temos uma cenoura ou
uma batata resistente, do tamanho do meu punho, ou um repolho
que precisa de duas mãos para segurar.

Ela riu novamente.
- E isso é divertido? - Ela perguntou.
Ele virou a cabeça e seus olhos se encontraram. Os dele
estavam muito escuros sob a aba de seu chapéu.
- Sim - disse ele. - Fortalecer a vida em vez de tomar é
divertido. Faz um homem se sentir bem aqui. – Ele roçou
levemente um punho fechado contra o peito esquerdo do casaco.
Ele recebera um título. Era muito rico. No entanto,
trabalhava em sua própria fazenda e em sua própria
horta. Porque ele gostava de fazê-lo. Também porque lhe oferecia
absolvição por ter passado seus anos como oficial matando
homens e permitindo que seus próprios homens fossem mortos.
Não era o ex-oficial militar duro, frio, como ela o tinha
julgado quando se conheceram. Ele era … um homem.
Foi um pensamento que a fez tremer ligeiramente, embora
não pelo frio.
- Como o senhor vai fazer para encontrar uma esposa? Perguntou ela.
Ele franziu os lábios e desviou o olhar novamente.
- O homem que gerencia o império dos negócios do meu pai disse ele - ou o meu, eu deveria dizer, tem uma filha. Eu a
conheci quando estive em Londres para o funeral do meu pai. Ela
é muito linda, muito bem-educada em todas as habilidades que
uma mulher precisa ter para ser a esposa de um rico empresário
de sucesso, muito disposto - como são a mãe e o pai - e muito
jovem.
- Ela parece ideal - disse Gwen.
- E morre de medo de mim - ele acrescentou.

- Quantos anos ela tem? - Perguntou ela.
- Dezenove.
- O senhor fez alguma coisa para fazê-la ter menos medo? Ela perguntou. – Sorriu para ela, por exemplo? Ou, pelo menos,
não franziu a testa? Ou fez cara feia?
Ele virou seus olhos sobre ela novamente.
- Ela estava me cortejando - disse ele. - Seus pais estavam
me cortejando. Por que eu deveria sorrir?
Gwen riu suavemente.
- Pobre menina - disse ela. Vai se casar com ela?
- Provavelmente não - disse ele. - Sem dúvida não, na
verdade. Ela não seria vigorosa o suficiente para mim. E minha
própria luxúria se congelaria rapidamente se ela se encolhesse
longe de mim na cama. "
Oh! Ele estava deliberadamente tentando chocá-la. Gwen
podia vê-lo na dureza de seus olhos. Ele pensou que ela estava
zombando dele.
- Então, ela terá um destino feliz, - disse ela - mesmo que
ela não perceba isso. O senhor precisa de alguém mais velho,
alguém que não seja facilmente intimidada, alguém que não vá
fugir na hora de fazer amor.
Ela olhava deliberadamente para seus olhos enquanto
falava, embora fizesse um grande esforço.
Não tinha qualquer experiência neste tipo de conversa.
- Tenho parentes em Londres - disse a ela. - Prósperos. O
sucesso nos negócios parece ser comum na família, embora
ninguém seja tão bom como meu pai. Ficarão felizes o suficiente,

eu diria, para me apresentar às mulheres elegíveis de minha
própria espécie.
- Sua própria espécie sendo as mulheres de classe média,
que podem, eventualmente, achar divertido ficar com terra sob as
unhas - disse ela.
- Na minha experiência, Lady Muir - ele disse, seus olhos se
estreitando novamente, - mulheres de classe média podem ser tão
exigentes como as damas. Muitas vezes mais, porque, por razões
que eu acho difícil de entender, muitas delas aspiram ser
damas. Não planejo colocar a minha esposa para trabalhar depois
de me casar com ela. Não para trabalhar nos campos ou no
celeiro, enfim. A não ser que ela escolha envolver-se. Uma vez,
comandei homens. Não desejo agora comandar mulheres.
Ah. Isso não estava se transformando na tarde relaxante,
talvez um pouco romântica, que ela tinha antecipado.
- Eu o ofendi - disse ela. - Sinto muito. Haverá muitas
mulheres elegíveis ansiosas para serem apresentadas ao senhor,
Lorde Trentham. O senhor tem um título, é rico, e tem a
reputação de herói. Será considerado um grande prêmio. E
algumas mulheres podem se assustar se você fizer cara feia para
elas.
- A senhora claramente não está assustada - disse ele.
- Não, - ela disse - mas o senhor não está me cortejando, não
é?
As palavras pareciam pairar no ar entre eles. Gwen estava
muito consciente do som da maré, dos gritos das gaivotas lá no
alto, do olhar intenso dos olhos dele. Do calor do sol.
- Não. - Disse ele, se levantando de repente, encostando-se
na rocha e cruzando os braços sobre o peito. - Não, eu não estou
cortejando a senhora, Lady Muir.

Ele só queria dormir com ela.
E ela queria ir para a cama dele. Tudo em seus olhos e as
linhas tensas de seu corpo lhe diziam isso, embora ela certamente
iria negá-lo, até para si mesma, se ele a confrontasse com o fato.
O que ele não estava prestes a fazer.

Ele tinha algum senso de auto-preservação.
Trazê-la aqui tinha sido um erro medonho. Ele o soube
desde o primeiro momento, antes mesmo que a tivesse levado da
sala de estar para se preparar para o passeio.
Para alguém que tinha algum senso de autopreservação, ele
parecia ter uma tendência maior ainda para a autodestruição.
Uma contradição intrigante.
Ela não quebrou o silêncio. Ele não podia. Ele não conseguia
pensar em uma coisa mortal para dizer. E então ele pensou em
uma coisa que poderia fazer, pelo menos. E esse pensamento lhe
deu algo a dizer.
- Vou dar um mergulho - disse ele.
- O que? - Ela virou a cabeça bruscamente e olhou para
ele. Olhou-a assustada e, então, seu rosto se iluminou com o
riso. – O senhor congelaria. É março.
- Mesmo assim - ele se afastou da rocha e jogou seu chapéu
sobre o cobertor.
- Além disso, - ela disse – o senhor não trouxe uma muda de
roupa.
- Não visto roupas no mar – disse a ela.

O sorriso se congelou em seu rosto e sentiu subir uma cor
flamejante às suas faces. Mas ela riu novamente quando ele
levantou o pé direito para tirar a bota de Hessian.
- Oh, - ela disse - o senhor não ousaria. Não, ignore isso, por
favor. O senhor certamente não seria capaz de resistir a um
desafio, seria? Nenhum homem respeitável de meu conhecimento
o faria. Remover suas botas e meias e, então, chapinhar na borda
da água. Vou sentar aqui e olhar com inveja para o senhor.
Mas depois de remover suas botas e meias, ele tirou o
casaco, o que não era uma coisa fácil de fazer sem a ajuda de seu
criado. O colete veio em seguida. Ela lambeu os lábios e olhou,
ligeiramente alarmada.
Ele desfez o nó de sua gravata e atirou-a para baixo, na
pilha de roupas que estava começando a acumular. Livrou a
camisa da cintura de suas calças e a puxou sobre sua cabeça.
O ar estava, talvez, não tão morno como ele o sentira
quando estava totalmente vestido, mas ele estava quente por
dentro. De qualquer forma, já era tarde demais para mudar de
ideia agora.
- Oh, Lorde Trentham. - Ela estava rindo de novo. - Poupe
meus rubores.
Ele hesitou por um momento. Mas seria um completo idiota
se simplesmente molhasse os pés depois de tudo isso.
E calças encharcadas seriam terrivelmente desconfortáveis
durante a viagem de volta para a casa na charrete.
Ele realmente não tinha escolha.
Tirou as calças e ficou de pé apenas com suas ceroulas. Não
as retiraria, decidiu com alguma relutância, mesmo que ele só
tivesse nadado nu antes.
Caminhou até a praia sem olhar para ela.

A água em seus pés e, em seguida, sobre seus tornozelos,
joelhos e coxas parecia como se tivesse acabado de fluir de sob a
calota de gelo no Polo Norte. Ele prendeu a respiração antes
mesmo de ficar totalmente imerso. Mas havia um consolo. Seria o
antídoto perfeito para um relutante e bastante inadequado ardor.
Ele mergulhou em uma onda, pensou que tinha morrido
com o choque, descobriu que não morrera e nadou para o exterior
até chegar além da espuma das ondas mais fortes. Então, nadou
com poderosos golpes dos braços para a praia, até que podia
sentir seus braços e pernas novamente, sua respiração
estabilizada e a sensação da água apenas fria.
Virou-se e nadou de volta, pelo mesmo caminho por onde
viera.
Tentou se lembrar quanto tempo passara desde que ele
tinha tido uma mulher. Já que não obteve uma resposta
satisfatória, era obviamente muito tempo.

Capítulo 9
Gwen esqueceu completamente de seu tornozelo por um
tempo. Ela estava sentada com os joelhos para cima, os braços
envoltos sobre eles, com os pés apoiados no cobertor.
Seu coração parecia um ser independente dentro de seu
peito, batendo para sair. Ela não conseguia acalmá-lo ou
controlar sua respiração. E apesar das mangas curtas de seu
vestido, ela ainda se sentia mais como em julho do que em março.
Ela nunca tinha visto um homem nu, nu mesmo com a
exceção de suas ceroulas. Era um fato estranho, talvez, depois de
estar casada por vários anos. Mas Vernon era muito meticuloso
sobre respeitabilidade. Durante o dia ele não tinha gostava que
ela o visse nem mesmo em mangas de camisa. À noite, ele sempre
chegava até ela vestido com sua camisa de dormir.
Oh, ela tinha visto Neville e seus primos em suas ceroulas
quando eles nadavam durante os verões de infância, ela supôs, da
mesma forma que eles a tinham visto também. Mas todos eles
eram apenas crianças na época.
Ela estava chocada por, inegavelmente, Lorde Trentham ter
se despido bem na sua frente. Era... bem, era bárbaro. Nenhum
cavalheiro teria removido nem mesmo o casaco sem pedir sua
permissão primeiro, a maioria não teria sequer perguntado,
simplesmente porque não seria apropriado.
Mas seu choque se devia menos ao pudor e indignação, ela
teve que admitir ao vê-lo nadar, do que à reação com a visão de
seu corpo quase nu. Era a própria perfeição, na verdade era
magnífico. Ela não tinha nada com que compará-lo, era verdade,
ninguém com quem compará-lo. Mas achou que nenhum homem
poderia se comparar. Seus ombros eram largos, o peito largo.
Seus quadris eram estreitos, suas pernas longas e poderosas.
Quando ele parou, parecia tal qual uma escultura finamente

esculpida, Deus! - Não que ela já tivesse visto. Quando se moveu,
ondulando seus músculos, parecia um deus guerreiro que saltara
para a vida vibrante.
Ela poderia ser culpada por encontrar-se como os joelhos
fracos e o coração batendo desesperadamente? De estar
encontrando dificuldades para respirar normalmente? E até
esquecer-se de algo tão simples como um tornozelo dolorido?
Poderia ela ser culpada por querer uma repetição de seus
beijos? Por querer, na verdade, muito mais do que apenas beijos?
Por estar sentindo algo tão básico e grosseiro como ... luxúria?
Foi uma boa coisa, talvez, que ele tivesse dado um
mergulho, que ele estivesse usando a energia que ela sabia que
ele queria usar sobre ela, que sua ausência lhe desse tempo para
ter tanto o seu corpo como suas emoções sob controle. Na
verdade, foi, sem dúvida, uma coisa boa.
Mas como ela poderia manter-se sob controle quando ele
nadava com tanta facilidade, graça e poder; quando, até mesmo a
esta distância, ela podia ver os músculos poderosos de seus
braços, ombros e pernas, a água e a luz solar fazendo a sua carne
brilhar como se fosse oleada? Ela poderia desviar o olhar, é claro.
Mas como fazer isso quando dentro de poucos dias, ela teria ido
de Penderris e nunca iria vê-lo novamente?
Ela agarrou as pernas com mais força e sentiu a dor crua de
lágrimas não derramadas em sua garganta e atrás de seu nariz.
E também sentiu a dor surda de um tornozelo machucado. Deulhe toda a sua atenção e esticou a perna para frente outra vez. E
reposicionou as almofadas cuidadosamente debaixo de seu joelho
e pé. Ela não olhou para o mar ou, mais especificamente, para o
homem quase nu a nadar nele.
Seria justo, se suas extremidades congelassem e caíssem!

Ele fora deliberadamente exibido diante dela. Um pavão
usando as cores deslumbrantes e o tamanho extravagante de sua
plumagem para atrair a fêmea. Ele estava usando o seu corpo
quase nu.
E se ele tivesse se despojado e corrido para a água para se
refrescar? Ou ele tinha feito isso para subir sua temperatura na
direção oposta?
Gwen inclinou a cabeça para trás contra a rocha atrás dela,
sentiu a obstrução de seu chapéu, e puxou com impaciência as
fitas para que pudesse lançá-lo de lado. Colocou a cabeça para
trás novamente e fechou os olhos. A luz do sol era brilhante. O
interior de suas pálpebras estava laranja.
Não importava por que ele estava nadando. Ele não
importava. Na verdade, não. Ou, pelo menos, seus sentimentos
por ele, não. Eles estavam aqui para relaxar, para tirar proveito
de um dia excepcionalmente lindo em belos cenários.
Mas o senhor não está me cortejando, não é? Ela tinha dito
a ele. Ela realmente não tinha feito uma pergunta, mas ele tinha
respondido, de qualquer maneira. Não, eu não estou cortejando a
senhora, Lady Muir. E, de alguma forma, foi à pergunta e a
resposta que tinha acendido tudo o que tinha seguido. E ela
começou. Foi culpa dela, então.
Ela tinha trinta e dois anos de idade. Tinha tido namorados
quando em sua primeira temporada e, em seguida, um marido.
Ela tinha tido uma longa viuvez intercalada com mais namoros.
Não era sem experiência, não era uma menina ingênua, inocente.
Mas, de repente ela se sentiu como uma, não havia nada em sua
experiência para ajudá-la a compreender o puro desejo que ela e
Lorde Trentham sentiam um pelo outro. Como ela podia entendêlo quando ele não era o tipo de homem que poderia atraí-la, quer
como um flerte ou como um possível marido? Isto, ela supôs, este
novo sentimento inesperado, era o que levava as pessoas a terem
casos.

Ela devia correr de volta para a segurança da casa antes
que ele saísse da água, pensou, até que abriu os olhos e lembrouse de que estava a poucas milhas da casa e que ainda não
conseguia colocar peso sobre o pé direito. Não tinha trazido suas
muletas. Além disso, era tarde demais. Ele estava nadando em
direção à praia, e já estava de pé na água rasa e depois, na praia.
A água escorria pelo seu corpo e gotas brilhavam a luz do
sol quando ele se aproximou. Seu cabelo curto estava colado à
cabeça. Suas ceroulas se agarrando a ele como uma segunda pele.
Gwen nem sequer tentava evitar olhar.
Ele inclinou-se, pegou a toalha que tinha trazido e secou seu
peito, ombros, braços e, em seguida, seu rosto. Ele olhou para ela.
Seu mergulho não tinha feito nada para aliviar seu humor,
parecia. Ele estava franzindo a testa, talvez até mesmo
carrancudo.
- A senhora disse que iria me assistir com inveja - disse ele.
Ela disse isso?
- Oh, o que o senhor está fazendo? - Ela gritou, de repente.
Ele estava debruçado sobre ela e pegando-a em seus braços.
Sua pele estava fria e tinha cheiro de sal e masculinidade. E
muito... nua. Ela podia sentir a umidade de suas ceroulas contra
seu lado antes que ele a içasse para cima. Ela envolveu ambos os
braços em volta de seu pescoço.
- Não.
Mas ele estava caminhando pela praia de novo, e a maré
estava mais cheia agora do que tinha estado quando ele fora pela
primeira vez.
- Por que vir a uma praia, - disse ele - para apenas sentar-se
e observar? Poderia muito bem ficar em casa e ler.

- Oh, por favor! Ela implorou - ele entrou na água e ela pôde
sentir alguns salpicos de água fria contra os braços nus. - Por
favor, Lorde Trentham, não me solte. Eu não tenho nenhuma
muda de roupa. E deve estar frio como o ártico.
- Está - ele disse.
Ela se agarrou com mais força e, em seguida, pressionou o
rosto em seu pescoço e riu sem poder fazer nada.
- Eu posso parecer divertida, - disse ela - mas não sou. Por
favor. Oh, por favor, Hugo.
Ele a apertou mais ainda em seus braços, ela percebeu. E
ele estava segurando-a com força. Um truque? Para acalmá-la em
uma falsa sensação de segurança?
- Eu não vou deixá-la cair - disse ele em voz baixa contra
sua orelha. - Eu não seria tão cruel. Mas não há nada como estar
aqui fora, vendo a luz criar muitas cores e máscaras sobre a
água, e ouvi-la e cheirá-la.
Girou à direita com ela. Ela levantou a cabeça e, em seguida
ele a girou cerca de duas vezes mais, e ela riu com a exuberância
do feito. Estava mais frio aqui fora, mas não muito frio, embora,
talvez, o calor do corpo tivesse algo a ver com isso. Ela nunca
tinha realmente gostado da água. Mas eles pareciam estar em
um vasto e cintilante mundo líquido, que era pura beleza e não
ameaça. Sentia-se perfeitamente segura nos braços fortes e
quentes, de um homem que não iria deixá-la - que nunca iria
deixá-la cair.
Ela o havia chamado de Hugo, ela percebeu. Oh, Deus!
Será que ele tinha notado?
- Gwendoline - ele disse e parou de girar.
Ele tinha notado.

Seus olhos se encontravam apenas a polegadas de distância
dos seus próprios. Mas ela não podia suportar a intensidade do
que viu ali. Ela abaixou a cabeça para descansar contra seu
pescoço novamente e fechou os olhos. Será que ela se lembraria
da maravilha pungente deste momento para todo o resto de sua
vida? Ou era uma fantasia tola imaginar que iria?
Ela pensava que isso poderia ser mais do que apenas
atração física. O que ela estava sentindo não era apenas luxúria,
embora fosse, sem dúvida, isso também. Havia também ... Oh,
Deus! Por que não havia palavras para descrever os sentimentos
de forma adequada? Talvez ela estivesse se apaixonando por ele,
e tudo o que isso significava. Mas ela não pensaria nisso agora.
Ela iria trabalhar com isso em outro momento.
Ele suspirou então, profundamente e de forma audível.
- Eu esperava desprezá-la - disse ele. – Ou, pelo menos,
estar irritado com você.
Ela abriu a boca para responder e fechou-a novamente. Ela
não queria começar qualquer conversa. Ela queria simplesmente
desfrutar. Levantou a cabeça e encostou contra sua face. Eles
olharam para a água juntos, e ela sabia que iria se lembrar.
Sempre e para sempre.
Depois de alguns minutos ele se virou, sem uma palavra e
saiu do mar com ela, até a areia, em direção ao cobertor, onde a
colocou no chão. Ele tirou suas ceroulas molhadas, pegou a toalha
e enxugou-se novamente sem virar de costas.
Gwen não desviava o olhar. Ou talvez ela não pudesse. Ela
nem estava chocada.
- Você pode dizer não - disse ele, olhando para ela quando
deixou cair à toalha. - Seria melhor dizer isso agora, se for
preciso, no entanto. Mas você pode dizer que não a qualquer

momento antes de eu entrar em seu corpo. Eu não vou me forçar
em cima de você.
Ah, sempre o homem do discurso direto.
Gwen percebeu que estava prendendo a respiração. Tinha
que chegar a isso, então?
Pergunta tola.
Ela sabia que muitas mulheres eram da opinião de que as
viúvas eram para serem invejadas, desde que tinham os meios
com os quais viver de forma independente, como Gwen tinha. As
viúvas estavam livres para tomar amantes enquanto fossem
discretas sobre isso. Em alguns círculos, era quase esperado que
fizessem, de fato.
Gwen nunca tinha sido tentada.
Até agora.
Quem saberia?
Ela saberia. E Hugo saberia.
Quem iria se machucar?
Ela poderia. Ele, quase certamente, não o seria. Ninguém
mais o faria. Ela não tinha marido, nenhum noivo, sem namorado
firme. Ele não tinha esposa.
Ela iria se arrepender depois. Iria se arrepender de
qualquer maneira. Se dissesse que não, sempre se perguntaria o
que teria sido e como. Para sempre lamentar o que não tinha
descoberto. Se não dissesse não, iria para sempre ser
atormentada pela culpa.
Possivelmente. Talvez não.
Os pensamentos caíram em sua mente em um emaranhado
confuso.

- Eu não estou dizendo que não - disse ela. - Eu não vou
dizer não. Eu não sou uma provocadora.
E assim foram tomadas decisões de grandes momentos, ela
pensou. Impulsivamente, sem a devida consideração. Mais a
partir do coração do que da cabeça. Por impulso, em vez de uma
vida inteira de experiência e moralidade.
Ele baixou ao seu lado e mudou a almofada para que ela
apoiasse a cabeça sobre ele. Jogou de lado sua capa e as duas
almofadas sob a perna direita. Deslizou seus grandes dedos
grossos em seu cabelo, levantou seu rosto e beijou sua boca
aberta. Sua língua pressionou fundo e retirou-se novamente.
Ajoelhou-se ao lado dela, puxou o vestido de seus ombros e
para baixo sobre os seios, que foram levantados ao soltarem-se.
Ele olhou para ela enquanto ela resistia ao desejo tolo de se
cobrir com as mãos. Mas ele fez isso para ela quando estendeu
uma mão sobre um de seus seios e baixou a cabeça para o outro.
Ela abriu os dedos sobre o cobertor, em cada lado dela, quando
ele tomou seu mamilo em sua boca e o chupou, esfregando a
língua sobre a ponta. Com o polegar e o indicador rodando o
mamilo do outro peito, apertando quase, mas não completamente,
a ponto de doer.
Uma dor crua, quase insuportável, se espalhou para cima,
para a garganta, e para baixo, através de seu útero, para
lubrificar entre as coxas. Ela levantou as mãos e colocou uma
sobre seu pulso e a outra contra a parte de trás de sua cabeça.
Seu cabelo estava úmido e quente.
Ele a beijou novamente, em seguida, sua língua simulando
o ato nupcial com cursos longos, profundos em sua boca.
Ele era, ela percebeu ao longo dos próximos minutos, dez
vezes, talvez uma centena de vezes, mais experientes do que ela.
Ela sabia apenas sobre beijos nos lábios e do ato em si.

Ele não a despiu completamente, mas suas mãos
encontraram seu caminho infalivelmente sob suas roupas para
desamarrar suas roupas íntimas e encontrar lugares que lhe
davam prazer e estavam em doce agonia. Eram mãos grandes,
dedos suaves, cuja delicadeza ela tinha descoberto antes. Mas
eles eram mais do que apenas suave. Havia sedução erótica
neles. Eles podiam tocá-la como um instrumento musical e não
apenas com competência, pensou com humor irônico, mas com
puro talento também.
E, finalmente, quando o corpo dela cantarolou com desejo e
necessidade, quase ao ponto de dor, ele usou uma daquelas mãos
sobre o coração dela. Encontrou-a sob a musselina de seu vestido
e da seda de suas anáguas, e seus dedos fizeram amor com ela,
separando, acariciando, brincando, até mesmo roçando. Um dedo
deslizou, longo e rígido dentro dela, ela apertou seus músculos
sobre ele e ambos ouviram e sentiram sua própria umidade. O
dedo foi removido e substituído por dois, e, em seguida, foram
removidos e substituídos por três. Penetraram-na enquanto ela
tentava capturá-los com seus músculos, conduzindo-a para perto
da loucura. Ela agarrou seus ombros e os apertou com os dedos.
Ao mesmo tempo, a ponta de seu polegar estava fazendo algo que
ela era não conscientemente, mas a qual reagiu abalando-se
sobre seus dedos e mãos, gritando. Como ele fez isso?
Ele estava diretamente sobre ela, em seguida, bloqueando a
luz solar, os joelhos empurrando as pernas para abri-las, seu peso
em seus antebraços, seus olhos olhando fixamente para dentro
dos dela.
- Podemos nos satisfazer com isso, se você quiser - disse ele,
sua voz grave. - Ainda não é tarde demais para dizer não.
Um arremedo de sua virtude permaneceria intacta.
- Eu não vou dizer não - ela disse a ele.

E ela sentiu-o contra a área sensível que ele tinha acabado
de acariciar, encontrou-a, posicionou-se em seguida, penetrou
duro e firme nela até que estava profundamente enraizado.
Ela percebeu que tinha inalado lentamente e estava
segurando a respiração. Ele era realmente grande. Mas não a
estava machucando. Pelo contrário. Ele tinha se assegurado de
que ela estivesse molhada o suficiente para recebê-lo sem
desconforto. Ela exalou o ar, relaxou e, então, apertou seus
músculos internos ao redor dele.
Ela estava feliz. Oh, ela estava feliz. Ela nunca iria se
arrepender.
Ele havia esperado por ela, ela percebeu. Ele ainda estava
olhando-a nos olhos, embora seu olhar tivesse perdido um pouco
de sua intensidade habitual e suas pálpebras estavam pesadas e
nuas de desejo. Mas não esperaria. Ele lhe dera um prazer
delicioso, mesmo antes de entrar. Agora era a vez dele. E ele
entendeu. Ele abaixou a cabeça até que sua testa tocou em seu
ombro, e penetrou-a com golpes profundos e rápidos, poderosos,
metade de seu peso sobre ela, a outra metade ainda apoiado nos
antebraços. Ela podia ouvir a aspereza de sua respiração.
Ela levantou as pernas do cobertor e entrelaçou-as sobre as
coxas dele. Sentiu uma pontada momentânea em seu tornozelo
direito, mas ignorou. Inclinou sua pélvis para que ele pudesse vir
ainda mais profundamente. Ouviu a sucção molhada de seus
saques e sentiu a profunda satisfação da penetração de suas
investidas. Embora soubesse que isso não era principalmente
para ela - ele estava no auge de sua própria necessidade - sentiu
outra vez a sensação de paixão, renovada e aumentada,
pressionando-se contra ele, igualando o seu ritmo com o abrir e
fechar de seus músculos, movendo os quadris em um movimento
circular e rítmico.

Ela não tinha nenhuma experiência real. Ah, era incrível
que ela não tivesse quase nenhuma. Ela acasalou com ele por
puro instinto.
Mas ela, certamente, não tinha feito nada para amortecer o
seu ardor. Ele a penetrava com a mesma potência até que se
acalmou de repente, rígido em todos os músculos, se esticando
para se aprofundar mais, quente e escorregadio com o suor, e ela
sentiu o jorro quente de sua libertação no mesmo momento,
enquanto falava baixo contra seu ouvido.
- Gwendoline - disse ele. E relaxou seu peso considerável
totalmente para baixo, em cima dela.
Não havia colchão sob suas costas, somente a areia debaixo
do cobertor. Quem teria adivinhado que a areia era tão dura e
inflexível? Mas ela não se importava.
Ela não se importava.
Ela provavelmente o faria. Talvez, mas não rapidamente.
Agora não. Ainda não.
Ele murmurou alguma coisa, depois de um minuto ou dois,
e rolou de cima dela para se deitar ao seu lado, um braço sobre os
olhos, com uma perna flexionada no joelho.
- Eu sinto muito - disse ele. Devo ter esmagado você.
Ela inclinou a cabeça para um lado para descansar em seu
ombro. Seria possível que sentir o cheiro de suor fosse bom? Ela
pensou que seu vestido estava sobre os seios e a saia empurrada
para baixo, sobre suas pernas, mas não fez nenhuma concessão à
modéstia.
Ela deslizou para um estado relaxado a meio caminho entre
o sono e a vigília. O sol brilhou calorosamente sobre eles. As
gaivotas
estavam
chamando
novamente.
Chamando

eternamente. Soando duro e triste. O som do mar também estava
lá, tão estável e tão inevitável como um piscar de olhos.
Ela não acreditava que nunca iria se arrepender.
Mas é claro que ela faria.
O ciclo eterno da vida. O equilíbrio dos opostos.
Ela voltou à plena consciência quando ele se levantou e,
sem uma palavra para ela, caminhou a curta distância até a
água. Ele entrou nela um pouco e se inclinou para lavar-se.
Lavando o suor?
Lavando-se dela?
Sentou-se e arrumou seu vestido corretamente e depois, de
alguma forma, refez seus laços. Colocou a capa sobre os ombros e
apertou-a no pescoço. De repente, sentiu um pouco de frio.

Voltaram para a casa quase em silêncio.
O sexo tinha sido bom. Realmente muito bom, na verdade.
E tanto mais porque ele tinha passado fome dela por muito
tempo.
Mas tinha sido um erro de qualquer maneira.
Um eufemismo colossal.
O que se deve fazer quando se tinha feito amor com uma
dama? E quando, talvez, fosse possível que a tivesse
engravidado?
Dizer obrigado e deixá-la?
Não dizer nada?
Pedir desculpas?

Oferecer casamento?
Ele não queria se casar com ela. O casamento não era sobre
deveres. Não exclusivamente sobre eles, de qualquer maneira. E
as partes do casamento que não eram os deveres eram tão
importantes quanto eles. Um casamento com Gwendoline era
impossível. E, para ser justo, isso se aplicava a ambos.
Ele se perguntou se ela esperava uma oferta.
E se ela aceitaria, se ele fizesse uma.
Seu palpite era que a resposta a ambas seria um rotundo
não. O que o tornou seguro para oferecer, ele supôs, e, de alguma
forma, apaziguar a sua consciência.
Tolo pensamento.
Ele tomou a decisão de não dizer nada.
- Como está o tornozelo? - Perguntou.
Idiota. Conversador brilhante.
- Ele está bem - disse ela. - Eu vou ter bastante cuidado
para não fazer nada imprudente novamente.
Se ela tivesse sido mais cuidadosa alguns dias atrás, ela
teria subido com segurança ao seu esconderijo, sem saber que ele
estava lá, e ele não teria destinado a ela um só pensamento desde
então. Sua vida seria diferente.
E se seu pai não tivesse morrido, ele pensou com alguma
exasperação, ele ainda estaria vivo.
- O seu irmão vai enviar uma carruagem para a senhora em
breve? - Perguntou.
Ocorreu-lhe, de repente, que ele poderia ter se oferecido
para levá-la para Newbury Abbey ele mesmo e salvá-la de alguns
dias em Penderris.

Não. Má ideia.
- Ele não demorará em enviá-la - disse ela. – E como tenho
certeza que ele não demorará, então ela pode chegar no dia
depois de amanhã. Ou, certamente, o dia depois disso.
- A senhora terá o prazer de ser capaz de se recuperar em
casa, com sua família ao seu redor - disse ele.
- Oh, - ela disse - eu vou.
Eles estavam falando como um par de estranhos educados
que não tinham um cérebro inteiro entre os dois.
- A senhora vai para Londres depois da Páscoa? Perguntou. - Para a temporada?
- Espero que sim - disse ela. - Meu tornozelo estará curado
até então. E o senhor? Vai para Londres também?
- Vou - disse ele. - É onde eu cresci, como sabe. A casa do
meu pai está lá. A minha casa agora. Minha irmã está lá.
- E o senhor vai querer buscar uma esposa lá - disse ela.
- Sim.
Bom Deus! Tinham realmente sido íntimos um com o outro
na praia da enseada menos de uma hora atrás?
Ele limpou a garganta.
- Gwendoline - ele começou.
- Por favor - disse ela, interrompendo-o. - Não diga nada.
Vamos apenas aceitá-lo pelo que foi. Foi ... agradável. Oh, o que é
uma palavra ridícula para escolher. Foi muito mais do que
agradável. Mas não é nada para ser comentado, nem desculpado,
nem justificado, ou qualquer outra coisa. Eu não me arrependo e
espero que você também não. Vamos deixar por isso mesmo.

- E se você estiver grávida? - Perguntou ele.
Ela virou a cabeça bruscamente e olhou para ele,
claramente assustada. Ele manteve os olhos na pista ante eles,
olhando de forma constante entre as orelhas de cavalo que
trotava a frente do caminho. Certamente ela tinha pensado
nisso? Ela tinha mais a perder, afinal.
- Eu não estou - disse ela. - Não posso ter filhos.
- De acordo com um charlatão - disse ele.
- Eu não estou grávida - ela disse, soando teimosa e um
pouco chateada.
Ele olhou para ela brevemente.
- Se você estiver, - disse ele - você deve me escrever
imediatamente.
Ele disse a ela onde ele morava em Londres.
Ela não respondeu, mas apenas continuou a olhar para
frente.
George, Ralph e Flavian deviam ter tido uma longa viagem.
Estavam saindo do estábulo e se aproximavam. Todos se viraram
para vê-los chegar.
- Fomos para a enseada - disse Hugo quando ele fez o cavalo
parar. - É sempre mais pitoresca na maré alta.
- O ar fresco estava adorável - disse Lady Muir. - É
realmente muito quente embaixo nessa pequena praia protegida.
Meu Deus, até mesmo para seus próprios ouvidos soavam
como um par de conspiradores sendo tão enfáticos em sua
simulação entusiasta de inocência, que eles próprios se
proclamavam culpados como o inferno.

- Eu imagino, - Ralph disse – que as conversas de salão,
hoje, serão adornadas com as previsões do sofrimento terrível que
certamente enfrentamos como punição pelo glorioso tempo de
hoje.
- Sem dúvida, - Flavian disse - vai nevar amanhã. Com um
forte vento norte. E nós nunca mais seremos tão tolos a ponto de
pensar em não desfrutar de um tal dia excepcionalmente belo.
Todos riram.
- A senhora não levou suas muletas, Lady Muir? Perguntou George.
- Muletas não são recomendadas para caminhos de
penhasco, seixos e areia - disse Hugo. - Vou levá-la até a porta e,
depois, para dentro.
- Pode ir, então - disse George, dando a Hugo um olhar
penetrante. Ele não tinha sido enganado, pelo menos, e não seria
nada menos que um milagre se Flavian tivesse sido. Ou Ralph,
sobre o assunto. - Ouso dizer que Imogen viu todos nós
chegarmos e ordenou a bandeja de chá lá para cima.
Hugo passou a caminho de casa, com uma silenciosa Lady
Muir ao lado dele.

Capítulo 10
O sol brilhava tão intensamente no dia seguinte, embora
Gwen poderia ver, quando parou em frente da janela da sala de
estar antes de Vera chegar, que os galhos da árvore estavam
balançando. Deveria estar ventando muito. E também estava um
pouco mais frio, o Duque de Stanbrook tinha dito depois de um
passeio a cavalo mais cedo.
Quando Vera chegou, informou sombriamente que todos os
amigos haviam concordado que eles sofreriam por este tempo não
corresponder ao verão em nada.
- Guarde minhas palavras - disse ela. – Apenas não é
natural ter todo esse tempo bom neste início do ano. Estou muito
determinada a não apreciá-lo. Vou simplesmente me desanimar
quando a chuva começar, como ela inevitavelmente fará,
trazendo o frio. E não é da minha natureza me desanimar, como
você muito bem sabe, Gwen. Eu vim para animá-la. Não havia
ninguém para me cumprimentar quando eu cheguei cinco
minutos atrás, exceto o mordomo. Eu não estou reclamando, mas
acho descortês de Sua Graça, negligenciar a cunhada de Sir
Roger Parkinson tão descaradamente. Mas o que se deve
esperar?
- Talvez a carruagem tenha voltado com você, mais cedo do
que ele previa - disse Gwen. - Ele não a negligenciou para enviar
a carruagem, depois de tudo, e isso é o mais importante. Teria
sido um longo caminho para você. E aqui vem a bandeja com café
e biscoitos para duas pessoas. Eu lhe agradeço por ter vindo,
Vera. É muito gentil da sua parte."
- Bem, - Vera disse enquanto olhava atentamente para o
prato de biscoitos na bandeja que um lacaio depositava sobre a
mesa - não é de a minha natureza negligenciar os meus amigos,
Gwen, como você bem sabe. Vejo que não somos importantes o

suficiente para nos serem oferecidos os biscoitos de passas que
tivemos ontem. Hoje temos simplesmente os de aveia.
- Mas seria muito tedioso, - disse Gwen - nos oferecerem os
mesmos alimentos dia após dia. Você fará a gentileza de nos
servir, Vera?
Um pouco mais de três horas mais tarde, Vera estava a
caminho de casa, apesar de sua sugestão de que Gwen deveria
estar se entregando ao desânimo se ainda precisava de um
descanso à tarde, como consequência de seu pequeno acidente.
Gwen, é claro, não precisava dormir. Tinha dormido muito
na noite passada, ou, pelo menos, tinha ficado em sua cama por
muito tempo. Havia tomado o caminho da covardia e enviara
suas desculpas quando o lacaio habitual havia chegado a seu
quarto para levá-la até a sala de jantar. O passeio a deixara
cansada, ela tinha alegado, e implorara à Sua Graça para
desculpá-la pelo resto da à noite.
Ela tinha dormido. Tinha tido longos períodos de vigília
também, nos quais tinha revivido os eventos na praia e se
perguntado o que Lorde Trentham teria dito se ela tivesse
permitido que ele continuasse o que tinha começado a dizer no
caminho de volta para a casa.
Gwendoline,
profundamente.

ele

tinha

dito

depois

de

respirar

E ela o tinha interrompido.
Iria sempre se perguntar o que ele teria dito.
Mas teve que pará-lo. Estava se sentindo emocionalmente
abalada e completamente incapaz de lidar com mais
nada. Precisava de um tempo sozinha.
Ela não o tinha visto desde que ele a tinha levado até o
quarto após tomarem o chá no desenho com todos os outros. Ele

não tinha falado uma palavra. Nem ela. Ele tinha apenas a
colocado no chão em frente à cama, e se afastado. Olhou para ela
com aqueles intensos olhos escuros, inclinou a cabeça
rigidamente, e saiu do quarto, fechando a porta silenciosamente
atrás dele.
Ela abriu o livro, mas era inútil tentar ler, percebeu depois
de alguns minutos, durante os quais seus olhos tinham
percorrido a mesma página pelo menos uma dúzia de vezes, sem
uma só vez captar seu significado.
O inchaço de seu tornozelo parecia ter desaparecido
completamente hoje, e a maior parte da dor tinha ido com
ele. Mas quando o Dr. Jones viera pela manhã, enquanto Vera
estava lá, ele tinha enfaixado o tornozelo novamente e a
aconselhado a continuar a manter seu peso fora do pé e ter
paciência.
Era muito difícil ser paciente.
A carruagem para Newbury, eventualmente, chegaria
amanhã. Mais provavelmente, depois de amanhã. Era uma
espera interminável. Ela queria ir embora agora.
Desistiu de qualquer pretensão de leitura e colocou o livro
de barriga para baixo sobre o colo. Deitou a cabeça sobre uma
almofada e fechou os olhos. Se pudesse ao menos dar um passeio
lá fora.
Se não estivesse apaixonada por ele, pensou, não sabia que
palavras usaria para descrever o estado de seu coração. Era mais
do que apenas a luxúria ou a memória do que eles tinham feito
na enseada. Era, certamente, mais do que simples atração e
muito mais do que apenas gostar. Oh, ela o amava. Que tolice!
Não era nenhuma menina ingênua. Não era uma romântica
incurável. Era um amor que não poderia trazer nada além de
desgosto se tentasse se agarrar a ele ou persegui-lo. De qualquer

modo, provavelmente não poderia prosseguir. Eram necessários
dois. Ela estaria partindo em breve. Embora tanto ela como
Lorde Trentham estariam em Londres mais tarde, na primavera,
era improvável seus caminhos se cruzarem. Eles se moviam em
diferentes círculos. Ela não iria se contentar com um
caso. Duvidou que ele o fizesse. E ambos haviam concordado que
o casamento estava fora de questão.
Oh, por que a carruagem de Neville não podia chegar hoje?
E então, enquanto pensava, houve um leve toque na porta
da sala de estar e essa se abriu calmamente. Gwen olhou
assustada - e esperançosamente? - sobre o ombro e viu o Duque
de Stanbrook em pé.
Ela não estava desapontada, disse a si mesma quando
sorriu para ele.
- Ah, a senhora está acordada - disse ele, empurrando a
porta. - Eu lhe trouxe um visitante, Lady Muir. E não é a Sra.
Parkinson desta vez.
Ele deu um passo para um lado e outro cavalheiro passou
por ele.
Gwen sentou-se no sofá.
- Neville! - Ela gritou.
- Gwen.
Seus olhos não a enganavam. Realmente era seu irmão, o
rosto preocupado. Ansiosamente ele se apressou até o outro lado
da sala de estar e se inclinou sobre ela para tomá-la em um
grande abraço de urso.
- O que você fez a si mesma, enquanto eu estava longe? –
Perguntou a ela.

- Foi um acidente bobo - disse ela, devolvendo-lhe o abraço. Mas foi minha perna ruim que torci, Nev, e ainda não posso
colocar qualquer peso sobre meu pé. Sinto-me terrivelmente
estúpida e um pouco farsante, pois é apenas uma torção no
tornozelo, ainda que tenha causado um problema sem fim para
muitas outras pessoas. Mas que surpresa maravilhosa! Eu não
esperava a carruagem até amanhã de manhã e, certamente, não
esperava que você viesse com ele. Oh, pobre Lily e as crianças,
tendo que ficar sem você por vários dias por minha causa. Não
devem estar contentes comigo, eu diria. Mas, querido, parece que
se passou um ano em vez de menos de um mês desde que eu saí
de casa.
Ele se sentou na ponta do sofá e apertou-lhe as
mãos. Parecia muito familiar.
- Foi Lily quem sugeriu que eu viesse - disse ele. - Na
verdade, ela insistiu, e não há pior tirana do que Lily quando
coloca uma ideia em sua cabeça. Aparentemente, Devon e a
Cornualha são invadidas por assaltantes cruéis, todos prontos
para livrá-la de suas joias e de seu sangue, não necessariamente
nessa ordem, se eu não estiver com você na viagem, mas todos,
certamente, virarão as costas e correrão para se esconder se eu
estiver.
Ele sorriu para ela.
- Querida Lily - disse ela.
- Mas por que você não está na casa da Sra. Parkinson? Perguntou.
- Isso é uma longa história - disse ela, fazendo uma careta. Mas, Neville, o Duque de Stanbrook tem sido extremamente
gentil e hospitaleiro. E tem seus hóspedes.
- Tem sido um prazer - disse o duque conforme Neville
olhava para ele. - Minha empregada aprontará um quarto para

você, Kilbourne, enquanto você e Lady Muir se juntam a mim no
escritório para um chá. Lady Muir tem muletas.
Neville levantou uma mão. - Eu agradeço a oferta de
hospitalidade, Stanbrook - disse ele. - Mas ainda estamos no
início da tarde, e o clima está perfeito para viagens. Se Gwen
sentir-se bem para viajar com o pé elevado no assento da
carruagem, partiremos assim que suas malas forem embaladas e
trazidas para baixo. Isto é, a menos que isso cause incômodos
desnecessários.
- Será como você deseja - disse o duque, inclinando a cabeça
para Neville e olhando interrogativamente para Gwen.
- Eu devo estar pronta para partir assim que colocar roupas
de viagem - Gwen assegurou a ambos.
Onde estava Lorde Trentham?
Ela estava fazendo a mesma pergunta silenciosa menos de
uma hora mais tarde, depois de se trocar e ser trazida de volta
para baixo. O lacaio a colocou no chão no corredor, onde Lady
Barclay a esperava com as muletas. O duque de Stanbrook e seus
outros convidados estavam todos reunidos, conversando com
Neville. Gwen apertou a mão de todos calorosamente se
despedindo.
Mas onde estava Lorde Trentham?
Era como se Lady Barclay tivesse ouvido seu pensamento.
- Hugo caminhou ao longo do promontório comigo e Vincent
depois do almoço - disse ela. - Mas quando voltamos, ele desceu
para a praia. Ele muitas vezes passa horas lá em baixo antes de
retornar.
Todos os seus colegas voltaram os olhos para Gwen.
- Não vou vê-lo novamente, então - disse ela. – Sinto sobre
isso. Teria gostado de lhe agradecer pessoalmente por tudo que

ele tem feito por mim. Talvez você pudesse transmitir meu adeus
e agradecê-lo, Lady Barclay? "
Ela não ia mais vê-lo.
Talvez nunca.
O pânico a ameaçou. Mas Gwen sorriu educadamente e
virou-se para a porta.
Antes que Lady Barclay pudesse responder, o próprio Lorde
Trentham apareceu na porta, respirando pesadamente, corado
com os olhos grandes e ferozes. Ele olhou ao redor de todos e,
então, seus olhos a focaram.
- A senhora está indo embora? - Perguntou.
O alívio a inundou. Ao mesmo tempo, desejava que ele
tivesse ficado afastado um pouco mais.
As velhas contradições.
- Meu irmão veio me buscar - disse ela. - O conde de
Kilbourne. Neville, este é Lorde Trentham, quem me encontrou
quando me machuquei e me trouxe até aqui.
Os dois homens se entreolharam. Medindo-se mutuamente,
em uma milenar forma masculina.
- Lorde Trentham - disse Neville. - Gwen mencionou seu
nome em sua carta. Ele soava familiar e agora que vejo você,
entendo o porquê. Você era capitão o Emes? Você levou o Forlorn
Hope em Badajoz. Estou honrado. E em dívida com você. Você
tem sido extraordinariamente gentil com a minha irmã.
Ele ofereceu sua mão direita, e Lorde Trentham apertou-a.
Gwen virou decididamente para o Duque de Stanbrook.
- O senhor foi à gentileza e cortesia em pessoa - disse ela. As palavras não são suficientes para expressar minha gratidão.

- Nosso clube está perdendo seu membro honorário - disse
ele, sorrindo em seu jeito austero. - Vamos perdê-la Lady
Muir. Talvez eu a veja na cidade no final do ano? Eu pretendo
estar lá por um tempo curto.
E então todas as despedidas foram ditas, e não havia mais
nada a fazer senão sair. Era algo para o qual ela ansiava apenas
uma hora atrás. Agora, seu coração estava pesado, e ela não
ousava olhar para onde todo seu coração ansiava.
Neville deu um passo mais perto dela, com a clara intenção
de levá-la até a carruagem, e ela virou-se para entregar as
muletas a um lacaio que estava nas proximidades.
Mas Lorde Trentham se moveu mais rápido que seu irmão e
pegou-a em seus próprios braços sem um pedido de licença.
- Eu a carreguei até aqui, milady, - disse ele - e eu vou levála para fora.
E ele saiu pelas portas apressadamente, descendo os
degraus com ela, bem à frente de Neville ou qualquer outra
pessoa.
- Então é isso - disse ele.
- Sim.
Havia um milhão de coisas que ela queria dizer certamente muitas. Mas não conseguia pensar em uma
única. Era melhor assim. Realmente, não havia nada a dizer.
A porta da carruagem estava aberta. Lorde Trentham
inclinou-se para dentro com ela e a depositou com cuidado sobre o
banco voltado para os cavalos. Ele pegou uma das almofadas de
trás do assento oposto, fixou-a no banco e levantou o pé
machucado até ela. Então, ele olhou nos olhos dela. Seu próprio
olhar escuro e ardente. Sua boca expunha uma linha
implacável. Sua mandíbula parecia mais como um granito do que

nunca. Ele parecia ter endurecido, como um oficial militar
perigoso novamente.
- Tenha uma boa viagem - disse ele, antes de retirar a
cabeça de dentro da carruagem transporte e endireitar-se.
- Obrigada - disse ela.
Ela sorriu. Ele não o fez.
Ontem, nessa mesma hora, eles estavam fazendo amor na
praia, ele nu, tanto quanto ela.
Neville entrou no carro e sentou-se ao lado dela, a porta foi
fechada e eles partiram.
Gwen se inclinou para frente e para os lados, para acenar
pela janela. Eles estavam todos lá fora, o duque e seus
convidados, incluindo Lorde Trentham, que estava um pouco
além dos outros, seu rosto ferozmente inexpressivo, com as mãos
cruzadas atrás das costas.
- Eu me pergunto se você não morreu de susto, Gwen - disse
Neville, rindo baixinho. - Ouso dizer que foi o rosto do capitão
Emes que rompeu as paredes de Badajoz. Embora ele mereça
todos os elogios que se seguiram. Todos concordam que não havia
outro homem em todo o exército que poderia ter feito o que ele fez
naquele dia. É justo que ele deva se sentir orgulhoso de si
mesmo.
Ah, Hugo.
- Sim - ela disse, descansando a cabeça contra as almofadas
e fechando os olhos. - Neville, eu apenas estou feliz por você ter
vindo. Estou tão feliz.
O que não explicava por que, um momento depois, as
lágrimas correram pelo seu rosto e ela começou a soluçar. Em
uma vã tentativa de silenciar seus soluços, Neville passou um

braço por seus ombros, fazendo sons suaves e tirando um grande
lenço de linho do bolso de seu casaco.
- Pobre Gwen - disse ele. - Você passou por uma provação
desagradável. Mas em breve você estará de volta em casa, onde
mamãe pode cuidar de você e aliviar seu coração - e Lily também,
não tenho dúvidas. E ambas as crianças mais velhas pediam a tia
Gwen, quase que a partir do momento que você os deixou, e
exigiam saber quando você voltaria. Eles ficaram encantados em
me ver partir quando souberam que eu levaria você volta
comigo. O bebê, é claro, esteve indiferente à coisa toda. Desde que
tenha Lily por perto, ela é perfeitamente feliz, pequena criatura
sábia. Ah, e antes que comece a pensar o contrário, eu vou estar
bastante feliz por ter você de volta em casa também.
Ele sorriu para ela.
Gwen soluçou mais uma vez e lhe ofereceu um sorriso
aguado.
- E em breve você vai ter muito mais para manter sua
mente fora de seu tornozelo - disse Neville. – A família estará
caindo sobre nós para a Páscoa. Você tivesse lembrado?
- Claro - disse ela, embora na verdade ele tinha sua mente
desligada ultimamente. Lady Phoebe Wyatt, a mais recente
adição à família de Neville e Lily, seria batizada, e um grande
número de seus parentes estavam vindo à abadia para ajudar a
celebrar a ocasião. Estavam incluídos dois primos favoritos de
Gwen, Lauren e Joseph.
Ah, sentia-se bem por estar voltando para casa. Voltando
para seu próprio mundo familiar e às pessoas que ela amava, às
pessoas que a amavam.
Virou a cabeça para olhar para fora, através da janela da
carruagem.
Tenha uma viagem agradável, ele tinha dito.

O que ela esperava? O lamento de um amante? De Lorde
Trentham?
- Seria bom pararmos na aldeia - disse ela. - É melhor eu
dizer adeus à Vera.

Hugo foi direto para Londres depois de deixar
Penderris. Ele desejava ir para casa, para Crosslands, ficar
tranquilo lá por um tempo, ver os novos cordeiros e bezerros,
falar sobre o plantio de primavera com seu administrador,
planejar o seu jardim de flores melhor do que ele tinha feito no
ano passado, para ... bem, para lamber suas feridas.
Ele sentia-se ferido.
Mas, se fosse para Crosslands em primeiro lugar, poderia
inventar desculpas para ficar lá por tempo indeterminado, e
poderia, de fato, tornar-se o recluso que alguns de seus amigos do
Clube dos Sobreviventes o haviam acusado de ser. Não havia
nada de errado em ser um recluso se gostava de viver em sua
própria companhia, como Hugo fizera, mesmo que seus amigos
insistissem que não era o seu estado natural e que ele estava em
perigo de explodir de alguma forma, um dia, como fogos de
artifício à espera de uma faísca para inflamá-los.
Mas havia algo de errado em ser um recluso, ou até mesmo
um agricultor feliz e jardineiro, quando se tinha
responsabilidades em outros lugares. Seu pai tinha morrido há
mais de um ano agora, e desde aquela época Hugo não tinha feito
nada mais do que olhar para os relatórios meticulosamente
detalhados que William Richardson enviara a cada mês. Seu pai
tinha escolhido seu gerente com cuidado e tinha confiado nele
totalmente. Mas ele tinha dito a Hugo, durante essas últimas
horas de sua vida, que Richardson era apenas um gerente, não
um visionário. Os olhos de Hugo por várias vezes haviam parado
em cima de algum detalhe nos relatórios, e ele sentira uma

coceira para fazer alguma mudança, para forçar uma nova
direção, para se envolver. Mas era uma coceira que ele tinha
teimosamente reduzido a zero. Ele não queria ser envolvido.
Era uma atitude que não podia continuar mantendo.
E Constance estava ficando mais velha a cada
dia. Dezenove ainda era muito jovem, é claro, mesmo que ela, por
vezes, houvesse insinuado em suas cartas que estava velha. Mas
ele sabia que muitas meninas eram consideradas solteironas se
não estivessem casadas antes de completar vinte. Apesar de que,
no entanto, todas as meninas de dezoito ou dezenove anos
deveriam divertir-se com outros jovens de sua própria idade. Elas
deveriam estar observando potenciais parceiros, testando as
águas, fazendo escolhas.
Fiona estava muito doente para acompanhar Constance a
qualquer lugar, e também estava muito doente para permitir que
alguém tirasse Constance de perto dela. Como ela se arranjaria
sem sua filha ao seu lado a cada segundo de seu dia?
Não havia ninguém mais egoísta do que a sua madrasta. Só
ele poderia enfrentá-la. E era algo que ele deveria fazer
novamente, pois era o guardião de Constance.
Ele resistiu à tentação de ir para Crosslands e, em vez
disso, foi direto para Londres. A hora tinha chegado.
Ele se armou de coragem.
Constance ficou mais do que satisfeita em vê-lo. Gritou alto
e veio correndo através da sala de estar da mãe quando ele foi
anunciado, e lançou-se em seus braços.
- Hugo! - Ela gritou. - Ah, Hugo. Você veio. Finalmente. E
sem nos dar qualquer aviso, seu patife. Você vai ficar? Oh, diga
que vai. Hugo. Ah, Hugo.

Ele a abraçou com força para deixar o amor e culpa o
lavassem, na mesma medida. Ela era jovem, esguia, loura,
bonita, com ávidos olhos verdes. Ela parecia muito com a mãe e o
fez entender por que seu sóbrio, estável pai, tinha feito algo tão
atípico como casar com a assistente de uma modista, dezoito anos
mais jovem, depois de conhecê-la há apenas duas semanas.
- Eu vou ficar - disse ele. - Prometi que viria na primavera
deste ano, não foi? Você me parece muito bem, Connie.
Ele a segurou ao longo do braço e olhou para ela. Havia um
brilho em seus olhos e as faces estavam coradas, embora achasse
que ela precisava obter mais luz do sol em sua pele. Ele veria o
que poderia fazer para corrigir isso.
Sua madrasta parecia igualmente feliz em vê-lo. Não que
ele, muitas vezes, considerasse Fiona como sua madrasta. Ela era
apenas cinco anos mais velha do que ele. Ele já era um rapaz
crescido quando ela se casara com seu pai, muito mais velho do
que ela. Ela o tinha festejado, lhe coberto de carinho, mostrado
orgulho dele, o elogiado para seu pai e, em última análise, lhe
ajudado em seu caminho. Ele não teria insistido para seu pai lhe
comprar a comissão, se não tivesse sido por Fiona. Ele não tinha
crescido querendo ser um soldado, depois de tudo. Pensamento
estranho esse. Como sua vida poderia ter sido diferente.
Era um pensamento para adicionar a todos os outros “se” de
sua existência.
Ela estendeu a mão para ele, um lenço a envolvendo. Ela
ainda era linda, de uma forma abatida, debilitada. Era tão
esbelta como Constance. Não havia cinza em seu cabelo e nem
linhas em seu rosto. No entanto, havia uma palidez doentia de
sua pele, que poderia ter sido causada pela verdadeira falta de
saúde ou por doenças imaginárias que a mantinham
constantemente em casa e inativa. Ela sempre tivera essas
doenças. Ela as tinha usado para manter seu pai atencioso,
embora, provavelmente, não tivesse precisado usar quaisquer

artimanhas para atingir esse objetivo. Seu pai a tinha adorado
até o fim, mesmo que seu entendimento de sua índole o tivesse
entristecido.
- Hugo!”- Ela disse quando ele se inclinou sobre sua mão e
levou-a aos lábios. - Você veio para casa. Seu pai estaria
satisfeito. Ele pretendia que você cuidasse de mim. E de
Constance também.
- Fiona. - Ele soltou a mão dela e deu um passo para trás. Eu confio em que suas necessidades tenham sido integralmente
cumpridas durante o ano passado, mesmo na minha ausência. Se
eles não foram, alguém vai responder a mim.
- Um homem magistral. - Ela deu um sorriso pálido. Sempre gostei disso em você. Sinto falta de companhia,
Hugo. Nós sentimos falta de companhia, não é, Constance?
- Mas você está aqui agora - disse Constance felizmente,
tomando-o pelo braço. - E você vai ficar. Ah, vai me levar para ver
nossos primos? Ou convidá-los para vir aqui? E você vai me
levar...
- Constance - disse a mãe em tom de queixa.
Hugo sentou-se e colocou uma mão sobre a pequena e macia
mão de sua irmã após sentá-la ao seu lado.

Ele ficou por quase duas semanas. Não convidou nenhum de
seus parentes para sua casa. A saúde de Fiona não permitiria
isso. Foi visitar seus tios e primos, no entanto, levando Constance
com ele, apesar dos protestos de sua madrasta por ter sido
deixada sozinha. E ele percebeu algo muito rapidamente. A
maioria de seus parentes eram seres sociáveis e bem conectados
em seu mundo de classe média. Eles todos ficaram encantados
em vê-lo e igualmente felizes em ver Constance. Alguns dos
primos mais novos estavam em seu grupo de idade. Qualquer um,

ou todos eles, estavam perfeitamente dispostos a ter Constance
com eles. Ela faria amigos em poucos momentos. Provavelmente
teria um grande círculo de admiradores dentro de dias ou
semanas. Poderia se casar antes do verão acabar.
Tudo o que ela realmente precisava era que alguém –ele batesse o pé com sua mãe para que ela não a prendesse em casa,
como uma acompanhante não remunerado. Ele não seria
obrigado a se casar.
Não por causa de Constance, de qualquer forma. E não
estava ansioso para apressar-se a casar por um outro motivo.
Ele ficaria em Londres por um tempo. Poderia satisfazer
suas necessidades de outras maneiras, sem ter que casar.
Era um pensamento um pouco deprimente, realmente, mas
era isso ou o casamento.
No entanto, cumprir sua obrigação com sua meia-irmã não
era assim tão fácil. Ela tinha firmes ideias próprias sobre o que a
faria feliz, e eles iam além de mover-se no mundo de seus primos,
apesar de que ela os amava e apreciava estar entre eles.
- Você é um lorde, Hugo - disse ela quando eles estavam
passeando no Hyde Park uma manhã antes de Fiona cair mesmo
de cama. - E você é um herói. Deve ser possível para você se
mover em círculos que papai jamais poderia. Uma vez que as
pessoas saibam que você está na cidade, certamente irão enviarlhe convites. Como absolutamente maravilhoso que seria assistir
a um baile em uma das grandes mansões de Mayfair. Para
dançar. Você consegue imaginar uma coisa assim?
Ele olhou de soslaio para ela. Preferia, realmente, não
imaginar tal coisa.
- Tenho certeza que você vai atrair toda uma série de
admiradores do nosso próprio mundo, se nossos primos a levarem

sob suas asas - disse ele. - Como não faria, Connie? Você é tão
bonita!
Ela sorriu para ele e, então, franziu o nariz.
- Mas eles são tão maçantes, Hugo - disse ela. - Tão sérios.
- Nossos primos, você quer dizer? - Disse. - E tão bemsucedidos.
- Aborrecidos, bem-sucedidos e muito queridos como primos
- disse ela. - Mas todos os homens que eles conhecem são
limitados da mesma forma. Não gostaria de um marido apenas
distinto, do tipo deles. Eu não quero monotonia, Hugo. Ou mesmo
que ele tenha sucesso limitado, respeitabilidade, sobriedade. Eu
quero um pouco ... ah, algum traço... alguma aventura.
- Estou errada?
Ela não estava errada, ele pensou com um suspiro
interior. Ele supôs que todas as meninas sonhavam em se casar
com um príncipe antes que realmente se casassem com alguém
bem mais comum, que poderia apoiá-las e cuidar de suas
necessidades diárias. A diferença entre Constance e as outras
meninas era que ela vira uma maneira de realizar seu sonho ou,
pelo menos, de chegar perto o suficiente para um príncipe olhar
para ela.
- E você acha que senhores de classe alta podem lhe oferecer
aventura, respeitabilidade e felicidade? - Perguntou.
Ela riu para ele.
- Uma menina pode sonhar, - disse ela - e é seu trabalho
cuidar para que nenhum libertino escandaloso fuja comigo por
minha fortuna.
- Gostaria de achatar seu nariz junto ao resto do seu rosto
se esse pensamento cruzar sua mente - ele disse.

Ela riu alegremente, e apertou seu braço.
- Você deve conhecer alguns cavalheiros - disse ela. - Até
outros cavalheiros com título. É possível obter um convite? Ah,
deve ser.
- Se você me levar a um baile da sociedade, Hugo, vou te
amar para sempre. Não que eu não vá fazer isso de qualquer
maneira. Pode tratar disso?
Era hora de bater o pé com bastante firmeza.
- Ouso dizer que seria possível - disse ele.
Ela parou abruptamente no caminho, gritou com
exuberância, e atirou os braços em volta do pescoço dele. Foi bom
que houvessem apenas árvores e grama orvalhada vendo-os.
- Ah, vai ser - ela gritou. - Você pode fazer qualquer coisa,
Hugo. Ah, obrigada, obrigada. Eu sabia que tudo sairia bem uma
vez que você chegasse em casa. Eu te amo! Eu te amo!
- Puro amor de armário - resmungou, acariciando suas
costas. Ele se perguntou que palavras seus lábios poderiam ter
emitido se ele tivesse decidido não bater o pé firmemente.
O que ele tinha prometido - ou como tinha
prometido? Enquanto continuava o passeio, sentiu como se ele
tivesse sido tomado por um suor frio.
E sua mente foi novamente assaltada por toda a questão
sombria de se casar. Ele provavelmente poderia obter um convite
se fizesse um pouco de esforço, e provavelmente poderia levar
Constance com ele e esperar que alguns cavalheiros se
oferecessem para ser seu parceiro na pista de dança. Ele
provavelmente poderia passar por isso toda uma noite, apesar de
saber que odiaria cada momento. Mas ela estaria satisfeita com
um baile, ou será que apenas aguçaria o apetite para mais? E se
ela conhecesse alguém que mostrasse mais que um interesse

passageiro em dançar com ela? Ele não saberia o que fazer sobre
isso além de plantar a mão na cara dele, o que não seria sábio
nem uma coisa sensata a fazer.
Uma esposa poderia ajudá-lo a fazer tudo certo.
Não uma de classe média, entretanto.
Ele não se casaria com uma mulher de classe alta apenas
por causa de uma irmã que ainda não estava disposta a se
contentar com o seu legítimo lugar na sociedade.
Faria isso?
Podia sentir uma dor de cabeça chegando. Não que ele
sofresse de dores de cabeça. Mas esta era uma ocasião
excepcional.
Permitiu que Constance tagarelasse alegremente ao seu
lado durante o resto da caminhada. Estava vagamente consciente
de ouvir que ela simplesmente não tinha nada para vestir.
Ele esperara a correspondência impacientemente todas as
manhãs, durante essas duas semanas, e vasculhara tudo duas
vezes, como se achasse que, a cada dia, que a carta que ele
esperava, de alguma forma, se tivesse perdido na pilha.
Temia vê-la e ficava decepcionado cada vez que não a via.
Não tinha dito nada a ela depois de fazerem sexo na
praia. E como um tímido colegial, tinha a evitado no dia seguinte
e quase perdera a oportunidade de dizer adeus a ela. E quando
tinha dito adeus, havia dito algo verdadeiramente profundo,
como “tenha uma boa viagem”, ou qualquer coisa assim.
Ele começara a dizer alguma coisa para ela no caminho de
volta da enseada, era verdade, mas ela o tinha parado e o
convencido de que tudo tinha sido bastante agradável, agradeceulhe, mas deveriam deixar por isso mesmo.

Será ela quisera dizer isso mesmo? Ele tinha pensado assim
no momento, mas realmente, poderiam as mulheres - damas serem tão indiferentes sobre encontros sexuais? Homens
podiam. Mas as mulheres? Ele estivera muito disposto a
acreditar nas palavras dela?
E se ela estava grávida e não escrevesse para ele?
E por que não podia parar de pensar nela, dia ou noite, não
importando se estava ocupado com outras coisas e outras
pessoas? Ele andava ocupado. Estava gastando parte de cada dia
com Richardson, estava começando a entender seus negócios
mais plenamente. As ideias estavam começando a brotar em sua
cabeça e até mesmo excitá-lo.
Mas ela estava sempre lá no fundo de sua mente e, às vezes,
não tão no fundo.
Gwendoline.
Ele seria um idiota se casasse com ela.
Mas ela iria salvá-lo da idiotice. Ela não se casaria com ele,
mesmo se ele pedisse. Ela tinha deixado muito claro que ela não
queria que ele pedisse.
Mas, e se ela não quisera dizer isso?
Ele desejou compreender melhor as mulheres. Era um fato
bem conhecido que o que elas diziam não significava a metade do
que queriam dizer.
Mas qual a metade que elas querem dizer?
Ele seria um idiota.
A Páscoa estava quase chegando. Era um pouco tardia este
ano. Depois da Páscoa ela estaria em Londres para a temporada.
Ele não queria esperar tanto tempo.

Ela não tinha escrito, mas e se ...
Ele seria um idiota. Ele era um idiota.
- Eu tenho que ir para o campo - anunciou no café da
manhã.
Constance pousou a torrada e olhou para ele com notada
consternação. Fiona ainda estava na cama.
- Só por alguns dias - disse ele. - Vou estar de volta dentro
de uma semana. E a temporada não começará até depois da
Páscoa, você sabe. Não há nenhuma chance de um baile ou
qualquer outra festa antes disso.
Ela se animou um pouco.
- Vai me levar, então? - Perguntou ela. - Para um baile?
- É uma promessa - disse ele precipitadamente.
Ao meio-dia, ele estava em seu caminho para
Dorsetshire. Para Newbury Abbey em Dorsetshire, para ser mais
preciso.

Capítulo 11
Hugo chegou à Upper Newbury no meio de uma cinza tarde
tempestuosa e alugou um quarto na estalagem da aldeia. Ele não
tinha certeza que iria precisar dele. Era completamente possível
que antes do anoitecer, ele ficasse feliz em colocar a maior
distância entre Newbury e ele mesmo, como fosse humanamente
possível. Mas ele não queria dar a impressão de que esperava ser
oferecida hospitalidade em Newbury Abbey.
Andou até a abadia esperando, a cada momento, ser pego
pela chuva, embora as nuvens se apegassem à sua umidade o
suficiente para salvá-lo de se molhar. Logo depois de passar pelos
portões do parque, viu o que pensou ser a casa da viúva, à sua
direita, entre as árvores. Era um edifício considerável, mais uma
pequena mansão do que uma mera casa. Ele hesitou por um
momento, tentando decidir-se a ir lá primeiro. Era onde ela
morava. Mas ele tentou pensar como um cavalheiro. Um
cavalheiro iria para a casa principal primeiro, a fim de ter uma
palavra com seu irmão. Era uma desnecessária cortesia,
claro. Ela tinha trinta e dois anos de idade. Mas as pessoas das
classes superiores se importavam com as sutilezas de cortesia,
necessárias ou não.
Foi uma decisão que lamentou logo depois que chegou à
abadia em si, uma mansão tão grande e imponente como
Penderris, mas sem o conforto de ser possuída por um de seus
amigos mais próximos. O mordomo tomou seu nome e dirigiu-se
no andar de cima para ver se seu mestre estava em casa - a
afetação tola do campo.
Hugo não foi deixado esperando por muito tempo. O
mordomo voltou a convidar Lorde Trentham a segui-lo, e eles
caminharam até o que acabou por ser a sala de visitas.
E estava... - maldição! - lotada de pessoas, nenhuma das
quais era Lady Muir. Era tarde demais para virar as costas e

correr, no entanto. Kilbourne estava na porta esperando para
cumprimentá-lo, um sorriso no rosto, uma mão estendida. Uma
senhora consideravelmente pequena estava ao seu lado, também
sorrindo.
- Trentham - Kilbourne disse, cumprimentando-o
amigavelmente. - Que bom que você tenha vindo. Está a caminho
de sua casa vindo da Cornualha, não é?
Hugo não queria desiludi-lo.
- Eu pensei que pudesse vir - disse ele – para ver se Lady
Muir se recuperou totalmente de seu acidente.
- Ela se recuperou - disse Kilbourne. - Na verdade, ela está
fazendo uma caminhada e é possível que se encharque se não
encontrar um abrigo em breve. Permita-me apresentá-lo à minha
condessa. Lily, meu amor, este é Lorde Trentham, que resgatou
Gwen na Cornualha.
- Lorde Trentham - Lady Kilbourne disse, também
estendendo a mão para a dele. - Neville contou-nos tudo sobre o
senhor, e eu não vou envergonhá-lo mencionando seus feitos. Mas
é um prazer conhecê-lo.
- Entre e conheça nossa família. Todos vieram para a
Páscoa e para o batismo do nosso mais novo bebê.
E os dois o levaram pela sala, exibindo-o como um cobiçado
troféu, apresentando-o como o homem que tinha salvado sua
irmã de ficar presa às pedras com uma entorse no tornozelo,
acima de uma praia deserta na Cornualha. E como o famoso herói
que havia liderado o ataque Forlorn Hope em Badajoz.
Hugo, alegremente, poderia ter morrido de aflição - se o
conjunto contradições tivesse sido possível. Ele foi apresentado à
condessa viúva de Kilbourne, que sorriu gentilmente para ele e o
agradeceu pelo que tinha feito para sua filha. E foi apresentado
ao duque e à duquesa de Portfrey - George não dissera que o

duque tinha sido seu amigo? E ao duque e à duquesa de
Anburey; seu filho, o marquês de Attingsborough, e sua esposa; e
sua filha, a Condessa de Sutton, e seu marido. E ao Visconde
Ravensberg e sua esposa, Visconde Stern e sua esposa e uma ou
duas outras pessoas. Todas as pessoas reunidas lá tinham um
título.
Formavam um grupo bastante amável. Todos os homens
apertaram sua mão calorosamente. As mulheres estavam todas
muito satisfeitas por ele ter estado lá naquela praia deserta
quando Lady Muir precisou dele. Todas sorriram e acenaram
graciosamente. Perguntaram sobre sua viagem, comentaram
sobre o clima sombrio que tinham tido durante os últimos dias e
disseram o quão satisfeito estavam por finalmente conhecer o
herói que parecera desaparecer da face da terra depois de sua
grande façanha em Badajoz, embora, simplesmente, todos
esperavam encontrá-lo.
Hugo acenou com a cabeça, cruzou as mãos atrás das costas,
e compreendeu a enormidade de sua presunção em vir aqui. Ele
era um herói, talvez, aos seus olhos. E ganhara seu título – uma
coisa vazia, já que todos sabiam que tinha vindo como um troféu
de guerra e não tinha nada a ver com nascimento ou herança. E
ele tinha chegado a sugerir, a si mesmo, que talvez ela pudesse
considerar unir forças com ele pelo matrimônio.
Seu melhor curso de ação, decidiu, era partir sem mais
delongas. Não precisava esperar para vê-la. Tinha vindo,
supostamente, da Cornualha, partindo de Penderris a caminho
de casa, e fez um desvio, por educação, para saber se Lady Muir
tinha se recuperado do acidente.
Tendo sido informado de que ela havia se recuperado,
poderia sair agora sem que ninguém achasse peculiar que não a
esperasse.
Ou será que eles achariam peculiar?

Para o diabo com eles. Será que ele se importava com o que
eles pensavam?
Ele não estava muito longe da janela da sala de estar,
falando, ou melhor, sendo falado por alguém, - ele já havia
esquecido a maioria dos nomes - quando a condessa de Kilbourne
falou ao seu lado.
- Lá está ela! - Exclamou. - E está chovendo
pesadamente. Ah, pobre Gwen. Ela vai ficar encharcada. Devo
me apressar para baixo, interceptá-la e levá-la até o meu quarto
de vestir para secar um pouco.
E ela virou-se para apressar-se, enquanto vários de seus
convidados, incluindo o próprio Hugo, olhava para a chuva e via
Lady Muir oscilando em seu caminho na diagonal do gramado
abaixo – seu coxear realmente estava pronunciado – o casaco
batendo nela com o vento e parecendo como se estivesse saturado
com água, um grande guarda-chuva agarrado com as duas mãos
e inclinado para o lado, tentando proteger tanto de seu corpo
como fosse possível.
Hugo inalou lentamente.
Kilbourne estava ao seu lado, rindo baixinho.
- Pobre Gwen - disse ele.
- Se não for uma hora inconveniente, - disse Hugo baixinho eu gostaria de ter uma conversa particular com você, Kilbourne.
Com essas palavras, pensou, tinha acabado de queimar
algumas pontes.

Gwen tinha se recuperado totalmente do tornozelo torcido,
mas o mesmo não poderia ser dito de seu desânimo.

No início, ela havia dito a si mesma que, uma vez que ela
estivesse de pé novamente, tudo em sua vida voltaria ao
normal. Era mortalmente entediante ser confinada a um sofá a
maior parte do dia, embora muitas de suas atividades favoritas
poderiam ser feitas lá - ler, bordar, fazer crochê, escrever cartas.
E ela tinha tido sua mãe como companhia. Lily e Neville
tinha vindo todos os dias, às vezes juntos, por vezes,
separadamente. Os filhos, incluindo o bebê, muitas vezes vieram
com eles. Vizinhos tinham vindo.
E então, quando ela já estava de pé e seu ânimo ainda
estava em baixa, ela havia se convencido de que uma vez que a
família chegasse para a Páscoa, tudo estaria bem. Lauren estava
vindo, assim como Elizabeth e Joseph e ... ah, todos. Ela tinha
aguardado a chegada com impaciência, ansiosa.
Mas agora não havia nenhuma outra explicação razoável
para a depressão da qual não podia se liberar. Ela estava
perfeitamente móvel novamente, e todos estavam na abadia há
dois dias. Embora o clima estivesse rigoroso e todos começassem
a se perguntar se podiam lembrar como o sol se parecia, havia
muita companhia e atividade dentro de casa.
Gwen tinha descoberto, com alguma consternação, que ela
não poderia aproveitar essa companhia tanto como sempre
fizera. Todos faziam parte de um casal. Exceto sua mãe, é
claro. E ela. Soava como autocompaixão. Ela era solteira por
opção. De nenhuma mulher que ficara viúva com a idade de vinte
e cinco se podia esperar que continuasse a ser uma viúva para o
resto de sua vida. E ela teve inúmeras chances de se casar
novamente.
Ela não contara a ninguém sobre Hugo.
Não à sua mãe, não à Lily - e nem à Lauren. Ela tinha
escrito uma longa carta para Lauren no dia em que descobriu que
não estava grávida. Tinha contado tudo à sua prima, incluindo o

fato de que ela tinha caído de amores e ainda não conseguira
convencer-se a cair novamente, embora o faria. E incluindo o fato
sórdido que tinha ficado com ele e só agora descobrira que não
haviam consequências desastrosas. Mas ela tinha rasgado a carta
e escrito outra. Ela iria contar à Lauren quando a visse
pessoalmente, havia decidido. Não esperaria muito tempo.
Mas agora já tinha visto Lauren, e ainda não tinha dito
nada, embora Lauren soubesse que havia algo a dizer, tivesse
perguntado a ela sobre isso, e houvesse tentado, algumas vezes,
ficar sozinha com ela para que pudessem ter uma de suas longas
conversas de coração para coração. Sempre foram melhores
amigas e confidentes. Gwen tinha resistido a cada vez, e Lauren
estava preocupada.
Gwen estava andando sozinha esta tarde, em vez de
acompanhar a mãe à abadia para passar o resto do dia. Ela
seguiria depois, havia dito. Apesar das nuvens pesadas, do vento
tempestuoso e a promessa de chuva a qualquer momento, quase
qualquer um de seus primos na abadia teria vindo andando com
ela se tivesse pedido. Eles poderiam ter saído em um grupo
alegre.
Lauren se magoaria por ela ter escolhido a solidão. Joseph
ficaria um pouco carrancudo e a olharia um pouco intrigado –
sim, a forma como Lily, Neville e sua mãe estavam olhando para
ela ultimamente, na verdade.
Era tão diferente dela não ser sempre sociável, alegre, com
uma índole radiante. Tinha tentado ser pelo menos alegre desde
que voltara para casa. Até pensara que tinha conseguido. Mas,
obviamente, não tinha.
Tinha chorado o dia em que soube que não estava
grávida. O que era uma reação absurda. Deveria ter ficado
extremamente aliviada. Tinha ficado aliviada. Apenas não
extremamente. Além do mais, tinha sido mais um lembrete de
que ela não poderia conceber.

Às vezes, muitas vezes, na verdade, ela tentara imaginar a
criança que ela tinha perdido, como ele ou ela seria agora com a
idade de quase oito. Imaginações tolas. Não existia a criança. E
tais imaginações apenas a deixavam infeliz, com tristeza e culpa.
Quando iria livrar-se desse enorme e abrangente
tédio? Estava completamente irritada consigo mesma. Se não
fosse cuidadosa, se transformaria em uma chorona e atrairia
apenas companheiros chorões como amigos.
Ela estava caminhando ao longo do trajeto da floresta
isolada que corria paralelo ao perímetro do parque e paralelo aos
penhascos, uma curta distância até atingir a descida íngreme
para o vale gramíneo abaixo e a ponte de pedra sobre a praia
mais à frente. Sempre gostara deste caminho. Podia andar em
linha reta para ele desde a casa da viúva, e balançar com os
galhos de árvores baixas, que escondiam os penhascos e o
mar. Era tranquilo e rural. Não estava completamente
enlameado hoje. Não estava muito perfeito para caminhar
também, e poderia ainda se transformar em pura lama se
chovesse de novo - quando começou a chover novamente.
Talvez seu humor melhorasse, uma vez que todos se
mudassem para Londres depois da Páscoa e toda a miríade de
entretenimentos da temporada começasse.
Hugo estaria em Londres também.
À procura de uma esposa - de sua própria classe.
Gwen tinha tomado uma decisão em segredo, dentro de seu
coração. Consideraria seriamente quaisquer senhores que
parecessem interessados em cortejá-la este ano, e geralmente
havia alguns. Ela iria, finalmente, entreter o pensamento de se
casar novamente. Buscaria um tipo de homem de boa índole,
embora tivesse que ser inteligente e sensível também. Um
homem mais velho poderia ser melhor do que um mais
jovem. Talvez um viúvo que, como ela, estaria procurando o

conforto de um silencioso companheirismo, em lugar de qualquer
coisa mais emocionante. Não procuraria paixão. Tivera paixão
muito recentemente e não queria isso nunca mais. Era muito
cruel e muito doloroso.
Talvez, por esta altura no próximo ano, se casasse
novamente. Talvez ela até mesmo..., mas, não. Ela não pensaria
em ser terrivelmente decepcionada novamente. E ela não iria
procurar a opinião de um médico que pudesse ser capaz de darlhe uma opinião fundamentada sobre a sua fertilidade. Se ele lhe
dissesse não, mesmo a mais fraca de suas esperanças seria
frustrada para sempre. E se ele dissesse sim, então ela deveria se
preparar para um desapontamento pior se nada acontecesse
depois de tudo.
Ela poderia viver sem seus próprios filhos. É claro que
poderia. Estava fazendo isso agora.
Tinha chegado ao fim do caminho e estava no topo da
descida íngreme para o vale. Este foi o mais distante que ela
tinha caminhado desde o retorno da Cornualha.
Raramente descia para o vale, embora fosse muito
pitoresca, com a cachoeira que caía do penhasco, formando uma
profunda piscina rodeada de samambaias. Seu avô havia
construído uma pequena casa de campo ao lado da piscina para
sua avó, que gostava de desenhar lá. Não desceria hoje também.
Não teria feito isso mesmo que a chuva não tivesse
começado. Mas, de repente, começou, e não era um chuvisco,
como tinha sido no início da manhã e durante todo o dia de
ontem. Os céus se abriram em um dilúvio tamanho que até
mesmo seu guarda-chuva não estava fornecendo muita proteção.
Virou-se para voltar para casa. Mas a casa da viúva ficava a
uma grande distância, e ela sabia que seria imprudente correr
tão longe com seu tornozelo enfraquecido, sobre um caminho
escorregadio. A abadia estava longe, mas mais perto se cortasse

diagonalmente pelo gramado inclinado em um dos lados do
caminho. E tinha planejado ir até lá mais tarde, de qualquer
maneira.
Tomou sua decisão rapidamente e apressou-se até a grama,
a cabeça baixa, uma mão segurando a bainha de seu vestido e
casaco em uma vã tentativa de não deixar que ficassem
encharcados e lamacentos; a outra mão segurando o guardachuva em um ângulo melhor projetado para manter pelo menos
parte de si mesma seca. Antes que chegasse a casa, precisava de
ambas as mãos no cabo do guarda-chuva para evitar que o vento
o levasse.
Chegou molhado e sem fôlego.
Lily deve tê-la visto através da janela da sala de estar. Ela
já estava lá embaixo na sala de espera para cumprimentá-la, e
um lacaio estava segurando a porta.
- Gwen! - Exclamou Lily. - Você parece quase afogada,
coitadinha. É melhor você vir até meu quarto de vestir e se
secar. Vou emprestar-lhe algo bonito para vestir. Todos estão na
sala de estar, e há também um visitante.
Gwen não perguntou quem era o visitante. Algum vizinho,
supôs. Mas seguiu Lily com gratidão ao subir as escadas. Mal
podia aparecer na sala de estar como estava.
A porta da sala de estar se abriu, no entanto, quando
chegaram ao topo do primeiro lance de escadas, e Neville
saiu. Gwen deu um meio sorriso, metade uma careta para ele e
então congelou, quando outro homem apareceu na porta atrás
dele, enchendo-o com sua presença maciça. Seus olhos escuros
queimados nos dela.
Ah, meu Deus, o visitante.

- Lady Muir – Lorde Trentham disse, inclinando a cabeça,
sem retirar o olhar do dela. Ele parecia feroz, sisudo e meio como
uma mola tensa.
O que ele estava fazendo aqui?
- Ah, - Gwen disse estupidamente - pareço um rato afogado.
Seus olhos se moveram sobre ela, da cabeça aos pés, e de
volta novamente.
- Sim, - ele concordou - embora eu teria sido educado demais
para dizer isso, se você não o tivesse dito em primeiro lugar.
Ele foi tão contundente, como sempre.
Lily escolheu se divertir e riu. Gwen apenas olhou e lambeu
os lábios, certamente a única parte seca de sua pessoa.
Oh, céus, Hugo estava aqui. Em Newbury.
- Eu estava prestes a levar Gwen ao andar de cima para se
secar e mudar de roupa, - disse Lily - antes que ela morra de frio.
- Faça isso, meu amor - disse Neville. Lorde Trentham
esperará, não duvido."
- Esperarei - disse Hugo, e Gwen cedeu à pressão da mão de
Lily puxando-a na direção das escadas.
O que ele estava fazendo aqui?
Gwen vestiu um vestido de lã azul pálido de Lily que era
um pouco longo demais para ela, mas se ajustava bem o
suficiente. Seu cabelo estava úmido e mais armado do que o
normal, mas não estava muito ingovernável. Ela estava se
sentindo ofegante e atordoada enquanto se preparava para voltar
a descer para a sala de estar.
Lily sabia o porquê Lorde Trentham estava aqui. Ele estava
a caminho de casa vindo da Cornualha, e Newbury Abbey não

ficava muito fora de seu caminho. Ele tinha vindo para ver que
Gwen tinha se recuperado totalmente do acidente.
- É muito simpático da parte dele - disse Lily enquanto
tomava as roupas encharcadas de Gwen e colocava-as em uma
pilha perto da porta do quarto. - E é uma honra conhecê-lo. Todo
mundo está feliz em vê-lo, finalmente. E ele não decepciona, não
é? Ele é tão grande e ... forte. Ele parece um herói.
Pobre Hugo, Gwen pensava. Como deve estar odiando cada
momento. E ele não teria imaginado, coitado, que vários de seus
parentes estivessem aqui. Todos aristocratas. Nenhum do mundo
dele.
Por que ele realmente viera? Certamente ele não tinha
estado em Penderris todo esse tempo. Mas não razão para
especular. Iria descobrir.
- E eu me atrevo a dizer, - Lily disse, quando estavam
saindo do quarto, - que ele fez o desvio para fazer um pequeno
carinho a você, Gwen. Não seria de todo surpreendente, não é? E
não seria surpreendente estivesse interessada nele. Ele é forte,
mas também é ... hmm. Qual é a palavra? Lindo? Sim ele é lindo.
- Oh, Deus, Lily, - disse Gwen conforme percorriam o
caminho, descendo as escadas, - não deveria permitir que sua
imaginação a capturasse, às vezes.
Lily riu. - É uma pena - disse ela - que a sua mente esteja
irrevogavelmente definida contra se casar novamente.
- Ou não está?
Gwen não respondeu. Seu estômago tinha se amarrado em
nós.
Um súbito silêncio desceu sobre a sala de estar quando elas
entraram. Neville estava mais da janela, franzindo a testa. Todos
estavam presentes. Exceto Hugo.

Lily notou sua ausência também.

- Ah, Lorde Trentham se foi? - Perguntou ela. - Mas fomos
tão rápidas quanto poderíamos ser. A pobre Gwen estava
encharcada até os ossos.
Ele havia ido? Depois de vir de tão longe para obter
informações sobre seu tornozelo?
- Ele está na biblioteca - disse Neville. – Deixei-o só lá. Ele
quer ter uma conversa privada com Gwen.
O silêncio parecia se intensificar.
- É realmente muito extraordinário - disse sua mãe,
quebrando-o. - Lorde Trentham é o tipo de homem cujas atenções
você jamais iria sonhar em encorajar, Gwen. Mas ele veio para
oferecer casamento a você, no entanto.
- Eu considero bastante presunçoso da parte dele, Gwen Wilma, condessa de Sutton, disse. - Mesmo que ele lhe tenha feito
um serviço considerável quando você estava na Cornualha. Ouso
dizer que o título e os elogios que se seguiram sobre seu ato
heroico, sem dúvida, lhe subiram à cabeça e lhe deram ideias
acima de sua posição.
Wilma nunca tinha sido a prima favorito de Gwen. Às vezes
era difícil acreditar que ela era a irmã de Joseph.
- Eu achei que não tinha o direito de falar por você, sinto
muito, Gwen - disse Neville. - Você tem trinta e dois anos de
idade. Eu não acredito que a oferta seja tão impertinente como
Wilma sugere, no entanto. Trentham tem o título, depois de tudo,
e é muito rico. E ele certamente é um grande herói, talvez o
maior das guerras recentes. Ele provavelmente poderia ser o
queridinho da sociedade educada, se ele assim escolhesse - como
poderia atestar nossa reação ao encontrá-lo aqui. É, talvez, a seu

crédito, que ele nunca procurou a fama ou adulação e que ele
parecia um pouco desconfortável com isso esta tarde.
Mas sua vinda aqui para oferecer-lhe casamento é um pouco
embaraçoso para você. Achei que não podia simplesmente
mandá-lo embora. Eu, entretanto, alertei-o de que você tem
usado o luto por Muir constantemente, por sete anos e,
provavelmente, ele não obterá a resposta que espera.
- Ainda bem que você não tentou falar por Gwen, Neville Joseph, Marquês de Attingsborough, disse, sorrindo para Gwen. As mulheres não gostam disso, você sabe. Digo isso com a
autorização de Cláudia, que elas são capazes de falar por si
mesmas.
Claudia era sua esposa.
- Isso está muito bem, Joseph, - disse Wilma - quando um
cavalheiro faz o pedido a ela mesma.
- Oh, vamos, Wilma - Lauren disse. – Lorde Trentham
parece um cavalheiro perfeito para mim.
- O pobre Lorde Trentham deve estar criando raízes no
tapete biblioteca, - disse Lily - ou então cavando um caminho por
toda ela. É melhor deixar Gwen ir falar com ele. Vá, Gwen.
- Eu vou fazê-lo - disse Gwen. - Você não deve preocupar-se,
porém, Mama. Ou você, Nev. Ou qualquer um de vocês. Eu não
vou me casar com um soldado grosseiro, das classes mais baixas,
mesmo que ele seja um herói.
Ela ficou surpresa ao ouvir alguma amargura em sua voz.
Ninguém respondeu, embora Elizabeth, duquesa de
Portfrey, sua tia, estivesse sorrindo para ela e Claudia estivesse
balançando a cabeça rapidamente em sua direção. Sua mãe
estava olhando para as mãos no colo.

Neville estava olhando com um pouco de reprovação. Lily a
olhava preocupada. Lauren tinha uma expressão fixa em seu
rosto.
Gwen deixou a sala e fez seu caminho, descendo as escadas,
segurando a saia com cuidado para não tropeçar na bainha.
Ela ainda não tinha testado totalmente sua reação ao
encontrar Hugo aqui. Agora sabia por que tinha vindo.
Mas por que? O fato de que eles nunca poderiam se casar
sempre foi algo sobre o qual ambos concordavam.
Por que ele mudara de ideia?
Ela iria, naturalmente, dizer não. Estar amando um homem
era uma coisa: mesmo fazer amor com ele. Casar-se com ele era
outra coisa, completamente diferente. O casamento era muito
mais do que apenas amar e fazer amor.
Ela acenou para o lacaio que esperava para abrir a porta da
biblioteca para ela.

Capítulo 12
Após cada milha de sua viagem para Newbury Abbey, Hugo
perguntou a si próprio o que ele pensava que estava fazendo.
Após cada milha ele tentou se convencer a voltar atrás, antes de
fazer uma completa figura de idiota de si próprio.
Mas e se ela estivesse grávida?
Ele tinha de continuar.
Era o maior dos tolos. Houve aqueles quinze minutos, mais
ou menos, de excruciante embaraço na sala de estar. E que foi
seguido igualmente pela entrevista embaraçosa com Kilbourne
na biblioteca.
Kilbourne foi perfeitamente educado, amistoso mesmo. Mas
ele claramente pensou que Hugo não estaria bom da cabeça para
ir até lá e esperar que Lady Muir ouvisse favoravelmente a sua
proposta de casamento. Ela tinha amado ternamente o seu
primeiro marido, ele explicou, e ainda se sentia inconsolável com
a sua morte. Ela prometera que não voltaria a casar e ainda não
mostrara sinais de ter mudado de ideia. Hugo não deveria tomar
isso como pessoal se ela recusasse. Ele quase disse "quando". Os
seus lábios formaram a palavra, mas se corrigiram para dizer
"se".
Hugo ainda estava na biblioteca - sozinho. Kilbourne tinha
voltado para a sala de estar, prometendo que enviaria a sua irmã
assim que ela se apresentasse.
Talvez ela não viesse. Talvez ela enviasse Kilbourne com a
resposta. Talvez ele estivesse prestes a enfrentar a maior
humilhação de sua vida.
E que lhe servisse de lição. O que diabos ele estava fazendo
ali?

Ele nada fez para se ajudar a si mesmo, recordou com um
esgar do rosto. A única coisa que ela dissera quando se
encontraram mais cedo, foi que ela parecia um rato afogado. E
ele, como o perfeito cavalheiro que era, concordara com ela.
Poderia ter dito que ela estava linda do mesmo jeito, mas nada
disse e agora era tarde demais.
Um rato afogado. Excelente coisa para dizer à mulher a
quem fora propor casamento.
Ele pensou que a porta da biblioteca não se abriria
novamente, que iria ser deixado ali para viver o resto dos seus
dias, enraizado naquele ponto do carpete da biblioteca, com receio
de mover um músculo e a casa cair em seus ombros.
Deliberadamente deu de ombros e mexeu os pés para provar a si
mesmo que poderia ser feito.
E, então, a porta se abriu quando ele menos esperava e ela
entrou. Uma mão invisível fechou a porta por trás, mas ela se
recostou contra a porta, as suas mãos às costas, provavelmente
tensas. Como se ela se estivesse se preparando para fugir ao
primeiro sinal de ameaça.
Hugo franziu o nariz.
O seu vestido emprestado era enorme para ela. Tapava
completamente os seus pés e estava folgado na cintura e na anca.
Mas a cor ficava-lhe bem, assim como a simplicidade do modelo.
Enfatizando sua figura à perfeição. O seu cabelo loiro estava
mais encaracolado que o normal. A umidade contribuía para isso,
apesar do gorro que usava e do chapéu de chuva que trazia ao
atravessar o gramado. As suas faces estavam coradas, os seus
olhos azuis bem abertos e os lábios ligeiramente apartados.
Como um rapazola, ele cruzou todos os dedos das mãos
atrás das costas, assim como os polegares.
- Eu vim - ele disse.

Santo Deus! Se houvesse um prêmio para o orador do ano,
ele corria o risco de ganhá-lo.
Ela nada disse, o que não era de admirar.
Ele clareou a garganta.
- Você não escreveu - ele disse
- Não.
Ele esperou
- Não - ela disse novamente. - Não havia necessidade. Eu
lhe disse que não seria necessário.
Ele ficou ridiculamente desapontado.
- Bom - disse ele secamente.
O silêncio oprimiu. Porque é que se sente o silêncio, por
vezes, como algo físico, com um peso próprio? Não que houvesse
um silêncio real. Ele poderia ouvir a chuva a bater nos vidros das
janelas.
- A minha irmã tem dezenove anos - ele disse. - Ela nunca
teve muita vida social. O meu pai com frequência a levava a
visitar parentes quando ainda era vivo, mas, desde então, ela se
mantém essencialmente em casa com a sua mãe, que está sempre
doente e gosta de manter Constance por perto. Eu agora sou o
seu tutor - de minha irmã, claro. E ela precisa de uma vida social
e não meramente familiar.
- Eu sei - ela disse. O senhor me explicou isso em Penderris.
Essa foi uma das razões para querer se casar com uma mulher de
sua classe. Uma mulher prática e capaz, penso que foi isso que
disse.
- Mas ela - Constance - não está nada contente em conhecer
alguém de sua classe - ele disse. - Se ela estivesse, tudo estaria

bem. Os nossos familiares a levariam para ficar com eles, a
apresentariam a todos os homens elegíveis e eu não teria que me
casar. Não por essa razão, de qualquer maneira.
- Mas...? - Ela questionou.
- Ela deseja, de coração, comparecer a pelo menos um baile
na sociedade - ele disse. - Ela acredita que o meu título pode
tornar isso possível. E eu lhe prometi que iria tornar isso
possível.
- O senhor é Lord Trenhtham, - ela disse - e um herói de
Badajoz. Claro que pode tornar isso possível. O senhor tem
contatos.
- Todos eles homens - ele replicou com uma careta. - E se
um baile não for suficiente? E se ela for convidada para outro
baile após este primeiro? E se ela encontrar um admirador?
- Tudo isso é possível de acontecer - ela disse. - Seu pai era
um homem abastado, o senhor me disse. Ela é bonita?
- Sim - ele disse. Ele molhou os lábios. - Eu preciso de uma
esposa. Uma mulher que esteja acostumada a esta vida
mundana. Uma Lady.
Houve um curto silêncio novamente e Hugo desejou ter
ensaiado melhor o que deveria dizer. Teve o pressentimento de
que tinha entrado pela via errada. Mas era tarde demais para
recomeçar. Ele só poderia seguir em frente.
- Lady Muir, - ele disse, apertando os dedos cruzados quase
ao ponto de dor - quer casar comigo?
Seguir em frente, sem olhar para onde estava indo, poderia
ser desastroso. Ele sabia disso por experiência. Ele soube isso
agora mesmo. Todas as palavras que falou, pareciam que tinham
sido dispostas à sua frente, como se tivessem sido impressas em
papel e ele notou, com desagrado, o quanto soavam erradas.

E mesmo sem ver essa página imaginada, via o rosto dela.
Pareceu como no primeiro dia, quando ela machucou a
perna.
Com uma frieza arrogante.
- Muito obrigada, Lorde Trentham, - ela disse - mas vou ter
de recusar.
Ela o recusou, não importava como ele tinha expressado sua
proposta. Mas ele realmente não precisava tornar isso uma
grande falha.
Ele olhou para ela, inconscientemente endurecendo o seu
maxilar e carregando o seu semblante.
- Claro - ele disse. - Não esperava algo diferente.
Ela o olhou fixamente, com aquele olhar arrogante
gradualmente relaxando para um olhar perplexo.
- Estava mesmo a espera de que eu fosse casar consigo só
porque a sua irmã deseja estar presente num baile da sociedade?
- Ela perguntou.
- Não - disse ele.
- Então porque veio aqui? - Questionou
Porque estava com a esperança que estivesse grávida. Mas
não era necessariamente verdade. Ele não estava com esperança.
Porque não tenho conseguido tirá-la do meu pensamento.
Mas o orgulho impediu que ele dissesse semelhante coisa.
Porque nós fizemos bom sexo. Não. Era verdade, mas não foi
por essa razão que ele fora até ali. Não foi por essa única razão,
de qualquer modo.

Então porque estava ele ali? Ficou alarmado porque ele
próprio não sabia a resposta à sua própria pergunta.
- Não há nenhuma razão, além dessa, não é mesmo? - Ela
questionou suavemente após algum tempo de silêncio.
Ele descruzou os dedos e deixou cair os braços. Flexionou os
dedos para se libertar da dormência.
- Eu fiz sexo com você - ele disse
- E não houve consequências - ela disse. - Você não me
forçou. Eu espontaneamente consenti, e foi muito… agradável.
Mas foi tudo, Hugo. Já está esquecido.
Ela o chamou de Hugo. Seus olhos se estreitaram sobre ela.
- Você disse, na época, - ele frisou - que tinha sido mais que
agradável.
As suas faces coraram.
- Não me lembro - ela disse. - Provavelmente você tem
razão.
Ela não poderia ter esquecido. Ele não estava convencido de
sua própria façanha, mas ela tinha sido uma viúva celibatária
nos últimos sete anos. Ela não poderia ter esquecido mesmo que o
seu desempenho tivesse sido miserável.
Não tinha importância – pensou - tinha? Ela não iria casar
com ele mesmo que se arrastasse pelo chão aos seus pés,
choramingando e recitando má poesia. Ela era Lady Muir e ele
era um novo-rico.
Ele se curvou abruptamente.
- Muito obrigado, milady, - ele disse - por me conceder esta
audiência. Não a vou reter por mais tempo.

Ela se voltou para sair, mas parou com a mão no puxador
da porta.
- Lorde Trentham, - ela disse, sem se voltar. - Foi a sua
irmã a única razão para vir aqui?
Era melhor não responder. Ou responder com uma mentira.
Era melhor acabar com esta farsa o mais rápido possível, para
assim poder sair e poder começar a lamber as suas próprias
feridas novamente.
Mas ele falou a verdade.
- Não - ele disse
Gwen estava se sentindo tão zangada e tão triste que mal
conseguia respirar. Ela se sentia insultada e magoada. Ansiava
por escapar da biblioteca e da casa, atravessando a chuva até
chegar à sua própria casa, com o seu vestido enorme e o seu
tornozelo frágil.
Mas sua casa não era longe o suficiente. O fim do mundo
não seria.
Ele parecia austero, um militar sisudo, quando ela entrou
na biblioteca. Como um estranho frio que estivesse ali contra sua
vontade. Era quase impossível acreditar que, numa tarde
gloriosa, ele tinha sido seu amante.
Impossível para o seu corpo e a sua mente racional, de
qualquer maneira.
As suas emoções eram um caso diferente.
E então ele mencionou que veio - como se ela estivesse
esperando por ele, desejando-o, se fixando nele. Como se ele
estivesse conferindo um grande favor a ela.
E então... bem, ele nem ao menos fizera uma tentativa de
esconder o motivo pelo qual lhe propôs casamento. Era porque ela

poderia usar a sua influência para introduzir a sua preciosa irmã
na sociedade, e encontrar um homem de bom berço para casar
com ela.
Ele poderia estar com esperança de que ela estivesse
grávida, para que a sua tarefa fosse mais fácil.
Ela ficou ainda com a sua mão no puxador da porta, mesmo
depois de ele a ter dispensado - ele a tinha dispensado da
biblioteca de Neville. Assim, ela estava muito perto da liberdade,
do que ela sabia que seria um disparate e um coração partido.
Para que ela não mais se sentisse atraída por ele e que as suas
memórias dele ficassem eternamente manchadas.
E então lhe ocorreu.
Ele, com certeza, não fora ali unicamente com a intenção de
lhe dizer que a sua irmã precisava de um convite para um baile
da sociedade e que, para isso, ela deveria casar com ele. Era
completamente absurdo.
Era inteiramente possível que ele olhasse para trás, para a
situação e para as palavras humildemente ditas. Ela adivinhou
que ele tivesse ensaiado o que iria dizer, a totalidade do discurso
voou da sua mente assim que ela entrou na sala. Era
inteiramente possível que o seu porte militar rígido, seu maxilar
duro e seu semblante fechado escondessem seu embaraço e
insegurança.
Foi preciso, ela supôs, alguma coragem para vir a Newbury.
Ela poderia estar totalmente errada, claro.
- Lorde Trentham, - questionou, com a porta em frente ao
seu rosto - foi a sua irmã a sua única razão para vir aqui?
Ela pensou que ele não iria responder. Fechou os olhos e a
sua mão direita começou a abrir a porta. A chuva batia contra a
janela da biblioteca com particular intensidade.

- Não - disse ele, e ela relaxou a sua espera no puxador da
porta, abriu os olhos, soltou um suspiro lento e voltou-se.
Ele parecia igual à antes. Tinha-se algo diferente, era seu
semblante ainda mais carregado. Ele parecia perigoso - mas ela
sabia que ele não era. Ele não era um homem perigoso, pensou
que deveria haver centenas de homens, vivos ou mortos, que não
concordariam com ela se pudessem.
- Eu fiz sexo com você - disse ele.
Ele já tinha mencionado isso, e então eles ficaram
distraídos com uma discussão sobre se ela tinha achado
agradável ou mais que agradável.
- E isso quer dizer que sente obrigação de casar comigo? Disse ela.
- Sim. - Ele a olhou fixamente.
- Essa é a atitude da classe média? - Ela questionou. - Mas
você teve outras mulheres. Você mesmo admitiu isso em
Penderris. Também se sentiu obrigado a propor-lhes casamento?
- Isso é diferente - disse ele.
- Como?
- Sexo com elas era um acordo - disse ele. Eu pagava, elas
proporcionavam.
Oh, Deus. Gwen se sentiu zonza por um momento. O seu
irmão e seus primos teriam um ataque se estivessem escutando.
- Se me tivesse pagado, - disse ela - você não se sentiria
obrigado a me propor casamento?
- Isso é loucura - disse ele.

Gwen acenou e olhou diretamente para a lareira. Estava a
queimar bem, mas precisava de mais carvão. Ela estremeceu
ligeiramente. Deveria pedir a Lily um xale para se agasalhar.
- Você tem frio - Lorde Trentham disse, e ele também
olhava para a lareira antes de caminhar e se debruçar sobre o
balde de carvão.
Gwen caminhou através da sala enquanto ele estava
ocupado, e se sentou na borda da cadeira de pele, perto do fogo.
- Eu nunca senti a necessidade de me casar - ele disse. - Eu
senti menos ainda após os meus anos em Penderris. Eu queria...
Eu precisava estar sozinho. Foi somente neste último ano que
cheguei à conclusão de que deveria me casar - com alguém do
meu nível, alguém que satisfizesse as minhas necessidades
básicas, alguém que poderia cuidar da casa e que me ajudasse, de
alguma maneira, com a fazenda e o jardim, alguém que me
ajudasse com Constance até que ela esteja perfeitamente
encaminhada. Alguém adequada, mas que não se intrometesse.
Alguém em cuja vida privada eu não me intrometesse. Uma
companheira confortável.
- Mas também uma fogosa companheira de cama - ela disse.
Ela olhou de relance para ele, desviando o olhar novamente para
a lareira.
- E isso também - ele concordou. - Todos os homens
precisam de uma vigorosa e satisfatória vida sexual. Não vou
pedir desculpa por querer isso num casamento em vez de fora
dele.
Gwen levantou as sobrancelhas. Bem, ela tinha começado.
- Quando eu a conheci, - disse ele - eu a quis na minha cama
desde o início, mesmo sabendo o quanto você me irritava com o
seu arrogante orgulho e sua insistência que a colocasse no chão
quando a estava carregando da praia. E eu tinha esperanças,

apesar de você me dizer o que tinha acontecido com seu marido e
das consequências. Mas todos fazemos coisas na nossa vida que
são contra nosso melhor julgamento, coisa das quais podemos nos
arrepender amargamente depois. Todos nós sofremos. Eu a quis,
e eu a tive naquela enseada. Mas nunca foi uma questão de
casamento. Nós dois concordamos. Eu nunca irei me adequar à
sua vida nem você à minha.
- Mas você mudou de opinião - disse ela. - Você veio aqui.
- De algum modo, tinha esperança de que você estivesse
grávida. Ou, mesmo que eu não tivesse esperança, eu moldei a
minha mente nessa direção, para que estivesse preparado. E
quando nunca mais tive notícias suas, pensei que, talvez,
estivesse escondendo essa verdade de mim, que teria um filho
bastardo que não iria me permitir conhecer. Isso me atormentou.
Eu não viria mesmo assim, pensei. Se é assim tão contra a se
casar comigo que, inclusive, pudesse esconder um filho bastardo,
vir aqui e lhe propor casamento não iria fazer qualquer diferença.
Mas, então, Constance contou-me os seus sonhos. Sonhos juvenis
são preciosos. Eles não podem ser ignorados, considerados
ridículos ou pouco realistas só porque são sonhos juvenis. A
inocência não deveria ser destruída por convicções insensíveis de
que um pretenso cinismo realista é melhor.
Foi isso que aconteceu consigo?
Ela não fez a pergunta em voz alta.
- Uma esposa de classe média, não seria capaz de me ajudar
- disse ele.
- Mas eu seria?
Ele hesitou.
- Sim - disse ele.

- Essa não foi à única razão para desejar casar comigo,
todavia? - Ela questionou.
Ele voltou a hesitar.
- Não - disse ele. - Eu fiz sexo com você. E a coloquei em
perigo de conceber sem a promessa de casamento. Não existe
mais ninguém com quem eu queira me casar - não no presente,
pelo menos. Existirá paixão no nosso leito. De ambos os lados.
- E não será importante que sejamos incompatíveis em
qualquer outro aspecto? - Disse ela.
Novamente ele hesitou.
- Penso que poderíamos tentar - disse ele.
Ela olhou para cima e encontrou o seu olhar.
- Ah Hugo - disse ela. - Um pode considerar pintar enquanto
o outro segura o pincel. Ou subir a montanha enquanto o outro
tem medo de alturas, ou comer um alimento estranho enquanto o
outro nem considera olhar para esse alimento. Se um gostar, do
que quer que seja o outro pode seguir em frente. Se um não
quiser, o outro pode parar e experimentar algo diferente. Mas um
só não pode considerar casamento. Uma vez feito, não há
possibilidade de sair.
- Você saberia - disse ele. - Você já tentou uma vez. Vou
seguir o meu caminho, então, milady. Espero que não apanhe um
resfriado por ter estado aqui com o seu vestido molhado, que é
mais adequado para o verão do que para um início de primavera.
Ele fez uma vênia rígida.
Ele a chamava de milady, ela o chamava de Hugo.
- Mas um pode tentar cortejar - disse ela e novamente
baixou o seu olhar. Fechou os olhos. Isto era uma loucura. Mas
talvez ele continuasse no seu caminho para fora de sua vida.

Ele não foi. Ele se empertigou e se manteve onde estava.
Ficou um silêncio no qual Gwen podia ouvir que não houve
qualquer diminuição na força da chuva.
- Cortejo? - Disse ele.
- Eu posso de fato, ajudar a sua irmã - disse ela, abrindo os
olhos e examinando as suas mãos, enquanto elas se mantinham
em seu colo. - Se ela for bonita e tiver modos gentis, que eu
acredito que tenha, e sendo rica, então ela irá ser bem-sucedida
na sociedade, e até mesmo no mais alto escalão. Ela terá sucesso,
se eu a apadrinhar.
- Estaria disposta a fazer isso, - ele a questionou - mesmo
sem a ter conhecido?
- Claro que a teria de a conhecer primeiro - disse ela
O silêncio caiu novamente
- Acredito que, se gostarmos uma da outra, eu a
apadrinharei - disse ela, olhando-o novamente. - Mas será
rapidamente conhecido quem Miss Emes é, quem é o seu irmão.
Você, provavelmente, poderá ficar surpreendido com a fama que
vai ter, Lorde Trentham. Não são muitos os militares,
especialmente aqueles que não são os de classe alta, que são
reconhecidos por seu serviço militar com um título. E quando as
pessoas tomarem conhecimento de quem é Miss Emes, quem você
é e quem é a madrinha, não demorará muito para que o nosso
encontro na Cornualha chegue ao conhecimento público.
Comentários serão lançados mesmo antes de terem algo para
comentar.
- Eu não a terei como assunto de conversa fútil - disse ele.
- Ah, não de conversa fútil, Lorde Trentham - disse ela. Especulação. A sociedade adora, mais que tudo, durante a
temporada, se fazer de casamenteira ou até mesmo especular

sobre quem está cortejando a quem, e qual será o resultado final.
Comentários serão feitos de que está me cortejando.
- E que eu sou um diabo presunçoso, - disse - que deveria
ser pendurado na árvore mais próxima pelos polegares.
Ela sorriu.
- Claro que haverá aqueles que se sentirão insultados, disse ela - por si, por sua presunção, por mim por o encorajar. E
haverá aqueles que se sentirão encantados por todo o romance.
Apostas serão feitas.
Tanto o seu maxilar como os seus olhos ficaram tensos.
- Se você deseja mesmo casar comigo, - ela disse - você terá
de me cortejar durante a próxima temporada, Lorde Trentham.
Haverá, certamente, ampla oportunidade - prevendo, claro, que a
sua irmã me agrade que e eu a agrade também.
- E você se casará comigo, então? - Questionou, franzindo o
semblante.
- Muito provavelmente, não - disse ela. - Mas uma proposta
de casamento é feita após o cortejo, não antes. Corteje-me, então,
e convença-me a mudar de ideia, se você não alterar a sua
primeiro.
- Diabos, - ele perguntou - como é que eu vou fazer isso? Eu
não tenho nenhuma ideia de como cortejar.
Ela sorriu, com o primeiro divertimento genuíno sentido há
um longo tempo.
- Você está nos seus trinta - ela disse. - Está na altura de
aprender.
Se ele já parecia ter o maxilar tenso antes, agora parecia
que o tinha de pedra. Ele olhou firmemente para ela.

Ele se curvou novamente.
- Você se importaria de me informar assim que chegar a
Londres? - Ele disse, - Eu a estarei esperando com a minha irmã,
milady.
- Estarei ansiosa por isso - disse ela.
Transpôs em passos largos a sala, fechando a porta atrás
dele.
Gwen sentou-se olhando a lareira, suas mãos tensas no colo.
O que ela tinha feito?
Não estava arrependia, ela se certificou. Poderia ser…
divertido lançar uma jovem na sociedade, especialmente uma
jovem que não fazia parte desse meio. Iria alegrar a temporada
para ela, fazer a diferença do tédio das anteriores. Faria com que
se livrasse dos espíritos negativos que a perseguiam. Seria um
desafio.
E Hugo iria cortejá-la.
Talvez.
Oh, isto era mesmo um erro colossal.
Mas o seu coração batia, com alguma coisa parecida à
excitação. E à antecipação. Ela sentia-se viva pela primeira vez
em um longo, longo tempo.

Capítulo 13
Lauren se juntou a Gwen na biblioteca dez minutos mais
tarde. Fechou a porta silenciosamente e sentou-se em uma
cadeira perto de Gwen.
- Vimos Lorde Trentham partindo para longe da casa, na
chuva - disse ela. - Esperávamos que você voltasse lá para cima,
mas não o fez. Você o recusou, Gwen?
- Eu fiz, é claro - disse Gwen, espalhando os dedos no colo. É tudo o que você esperava, não é? E queria?
Houve uma ligeira pausa.
- Gwen, sou eu - disse Lauren.
Gwen olhou para ela.
- Sinto muito - disse ela. - Sim, eu o recusei.
Sua prima procurou seus olhos.
- Não, há mais - disse ela. -Ele tem sido o motivo de sua
depressão?
- Eu não estou deprimida - protestou Gwen. Mas Lauren
apenas continuou a olhar fixamente para ela.
- Ah, eu suponho que esteja. Comecei a perceber que a vida
está passando por mim. I tenho trinta e dois anos de idade e
estou sozinha em um mundo onde não é confortável estar
sozinha. Não para uma mulher, de qualquer maneira. Eu estive
pensando em procurar um marido em Londres este ano. Ou, pelo
menos, considerar quem mostrar um interesse em mim. Todos na
família ficarão satisfeitos, não?

- Você sabe que ficaremos - disse Lauren. - Mas como é que
esta decisão te deixou tão desanimada que você não precisa, nem
quer conversar?
Ela definitivamente parecia magoada, Gwen pensou. Ela
suspirou.
- Eu me apaixonei por Lorde Trentham quando estive na
Cornualha - disse ela. – Aí está. Era isso que você queria
ouvir? Eu ... me apaixonei por ele. Descobri, há apenas dez dias,
ou algo assim, que não levava o filho dele. Fiquei imensamente
aliviada e mortalmente triste. E ... Ah, Lauren, o que vou fazer?
Não consigo tirá-lo da minha cabeça. Ou do meu coração.
Lauren estava olhando para ela com espanto silencioso.
- Havia uma chance - disse ela – de que você estivesse
grávida? Gwen?
- Não de verdade - disse Gwen. - O médico me disse, depois
que abortei há oito anos, que eu nunca poderia ter filhos. E isso
aconteceu apenas uma vez na Cornualha. Mas essa não é
realmente a sua pergunta, é? A resposta à sua pergunta real é
sim. Eu menti a ele.
Lauren se inclinou para frente em sua cadeira e estendeu a
mão para tocar as costas da mão de Gwen com a ponta dos
dedos. Ela acariciou-a antes de se sentar novamente.
- Diga-me - disse ela. - Diga tudo. Comece pelo começo e
termina aqui, com seu motivo para ter rejeitado sua proposta de
casamento.
- Eu o convidei a me cortejar durante a temporada, - disse
Gwen - com nenhuma garantia de que vou dizer sim se ele
renovar seu pedido no final da mesma. Isso não é muito justo da
minha parte, não é?
Lauren suspirou e depois riu.

- Como típico de você começar do final - disse ela. - Comece
pelo começo.
Gwen riu também.
- Ah, Lauren, - disse ela - como eu pude ter resistido ao
amor todos esses anos apenas para me apaixonar por uma
impossibilidade no final de tudo isso?
- Se eu pude me apaixonar por Kit, considerando o meu
estado de espírito quando o vi pela primeira vez, - disse Lauren considerando o fato de que ele estava se comportando mais do
que escandalosamente, despido até a cintura no meio do Hyde
Park para todo o mundo para ver, enquanto ele lutava com dois
trabalhadores ao mesmo tempo e usando uma linguagem que me
chocou até a alma, e eu pude me apaixonar por ele apesar disso,
Gwen, então por que você não pode se apaixonar por Lorde
Trentham?
- Mas isso é uma impossibilidade - disse Gwen. - Ele não
aprecia as classes mais altas, embora alguns de seus amigos mais
queridos sejam aristocratas. Ele nos considera muito ociosos,
frívolos. Ele é da classe média e se orgulha disso. E por que não?
Não há nada inerentemente superior a nosso respeito, há? Mas
eu não tenho certeza de que poderia ser a esposa de um homem
de negócios, até mesmo de um rico e bem-sucedido. Além disso,
há uma escuridão em sua alma, e eu não quero ter que viver com
isso de novo.
- Outra vez? - Lauren repetiu suavemente.
Gwen olhou para suas mãos mais uma vez e não disse nada.
- Eu não vou dizer mais nada, - disse Lauren - até que você
comece no início e me conte toda a história.
Gwen disse-lhe tudo.

E, estranhamente, elas acabaram caindo na gargalhada
sobre a maneira como ele tinha estragado sua proposta de
casamento anterior, dando a impressão de que sua única razão
para pedi-la foi para que sua irmã pudesse assistir a um baile da
sociedade.
- Eu suponho, - disse Lauren, secando os olhos – que você
vai levá-la a um baile?
- Vou - disse Gwen.
- É uma coisa boa que eu esteja fortemente apaixonada por
Kit - disse Lauren. - Se não estivesse, acredito que eu mesma
poderia me apaixonar por Lorde Trentham.
- É melhor voltar lá para cima, para a sala de estar - disse
Gwen, ficando em pé. Suponho que todos tinham muito mais a
dizer depois que eu saí. Wilma, por exemplo.
- Bem, - disse Lauren, seguindo-a para fora do quarto - você
conhece a Wilma. Cada família tem alguma cruz para carregar.
Elas riram novamente e Lauren tomou Gwen pelo braço.

A carta chegou mais de duas semanas depois.
Tinha sido uma quinzena sem fim.
Hugo tinha se jogado de cabeça no trabalho. E ele se
lembrou de como nunca tinha sido capaz de fazer as coisas pela
metade. Quando era um menino, tinha passado cada momento
livre com seu pai, possivelmente para aprender tudo o que ele
poderia sobre os negócios e desenvolver ideias próprias, algumas
das quais seu pai tinha realmente implementado. E quando
assumira sua comissão, havia trabalhado incansavelmente para
alcançar seu objetivo de se tornar um general - talvez o mais
jovem do exército. Ele poderia ter chegado lá também, se não
tivesse perdido a cabeça antes.

Agora, era proprietário das empresas, e estava imerso na
gestão delas, embora parte dele ansiasse estar de volta a
Crosslands, onde tinha vivido um tipo totalmente diferente de
vida, não impulsionada pelas exigências do trabalho ou pelas
exigências da ambição.
Ele saíra com Constance para caminhar, ou passear na
carruagem, ou fazer compras, ou para a biblioteca, quase todos os
dias. Continuou a levá-la para visitar seus familiares
também. Levou-a para uma festa na casa de um de um primo em
uma noite, e ela prontamente adquiriu dois potenciais
pretendentes, ambos respeitáveis e bem apessoados o suficiente,
embora Constance, a caminho de casa, houvesse pronunciado que
um era um entediante prosaico e o outro um aborrecido
prepotente. Foi tão bom que ela não os tivesse incentivado, pois
Hugo tinha passado a noite com os dedos de vontade de lhes
quebrar a cara.
Ele não contara a ela sobre sua visita a Abbey Newbury ou
seu resultado. Ele não queria criar expectativas apenas para se
frustrar novamente se nenhuma carta chegasse. Embora, mesmo
que Lady Muir não cumprisse sua promessa, é claro, ele teria que
cumprir a dele. Ele tinha prometido levar sua irmã para um baile
da sociedade.
Ele devia conhecer alguns ex-oficiais que não eram hostis a
ele e que também estavam em Londres. E George tinha dito que
estaria vindo à cidade em breve. Flaviano e Ralph às vezes
vinham durante a primavera. Devia haver alguma forma de obter
um convite, mesmo que fosse só para um dos bailes da sociedade
menos populares da temporada, ao qual a anfitriã estivesse
disposta a de receber alguém disposto a participar da limpeza das
chaminés.
Ele manteve a distância de Fiona tanto quanto poderia
durante essas duas semanas. Ela ficou muito infeliz por ser
deixada sozinha tantas vezes, mas se recusou a sair com sua filha

e seu enteado. Ela, há muito tempo, interrompera todas as
comunicações com sua própria família, embora Hugo soubesse
que seu pai tinha se dado ao trabalho de tirar seus pais, seu
irmão e sua irmã da pobreza extrema. Ele tinha comprado uma
pequena casa para eles e montado uma mercearia na parte de
baixo. Eles tinham conseguido trabalhar bem e tinham uma vida
decente desde então. Mas Fiona não queria ter nada a ver com
eles. Nem queria se aproximar dos parentes de seu marido, que a
olhavam de cima a baixo e a tratavam com desprezo, ela alegava,
embora Hugo nunca tivesse visto qualquer evidência disso.
Ela optou por permanecer em casa agora e chafurdar em
suas doenças imaginárias. Ou talvez algumas delas fossem
reais. Era impossível saber com certeza.
Ela o bajulava quando Constance estava presente. E
resmungava nas poucas ocasiões em que eles estavam
sozinhos. Ela era solitária, negligenciada e ele a odiava,
alegava. Fora uma história diferente quando ela era jovem e
bonita. Ele não a tinha odiado então.
Ele tinha.
Mas, na época, ele era um menino inteligente em seus
trabalhos escolares e astuto nos negócios, mas ingênuo e tímido
quando se tratava de assuntos mais pessoais. Fiona, insatisfeita
com o marido que a adorava, rico, ambicioso, que trabalhava
longas horas e era muitos anos mais velho que ela, tinha
fantasiado sobre seu jovem enteado conforme ele atingia sua
masculinidade e partira para seduzi-lo. Ela tinha quase
conseguido também, pouco antes de seu aniversário de dezoito
anos. Isso já havia acontecido em uma noite, quando seu pai
estava fora e ela se sentara ao lado de Hugo no aconchegante sofá
da sala e esfregara a mão sobre seu peito enquanto lhe contava
uma história que ele nem conseguia ouvir. E a mão tinha
deslizado para baixo até que não tinha mais para onde descer.

Ele tinha endurecido em plena excitação. Ela rira baixinho
e fechara a mão sobre a sua ereção por sobre sua roupa.
Ele subira a seu quarto menos de um minuto depois,
lidando com a ereção por si mesmo e chorando ao mesmo tempo.
Na manhã seguinte ele estava no escritório de seu pai cedo,
exigindo que este lhe comprasse uma comissão em um regimento
de infantaria. Nada mudaria sua mente, ele havia
declarado. Essa era sua ambição ao longo da vida, ir para o
serviço militar, e ele não poderia suprimi-la por mais tempo. Se
seu pai se recusasse a fazer a compra, em seguida, Hugo se
alistaria nas fileiras de soldados rasos.
Tinha quebrado o coração de seu pai. O seu próprio
também, na verdade.
Ele não era mais um garoto ingênuo e tímido.
- É claro que você está sozinha, Fiona - disse ele. - Meu pai
se foi há mais de um ano. E é claro que você se sente
negligenciada. Ele está morto. Mas o seu ano de luto acabou, você
sabe, e por mais difícil que possa ser, você precisa sair para o
mundo novamente. Você ainda é jovem. Você ainda tem a sua
aparência. Você é rica. Você pode ficar aqui, chafurdar na auto
piedade e fazer de suas pílulas e seus remédios suas
companhias. Ou você pode começar uma nova vida.
Ela chorava em silêncio, não fazendo nenhuma tentativa
para secar suas lágrimas ou cobrir o rosto.
- Você tem o coração duro, Hugo - disse ela. - Você não era
assim. Você me amou uma vez, até que seu pai descobriu e o
mandou para longe.
- Eu me afastei por vontade própria - disse ele,
brutalmente. - Eu nunca te amei, Fiona. Você foi e é a minha
madrasta. A esposa do meu pai. Eu teria gostado de você, se você
tivesse permitido. Você não o fez.

Ele virou-se e saiu da sala.
Como sua vida teria sido diferente se ela tivesse se
contentado com o seu afeto após o casamento com seu pai. Mas
não havia nenhum ponto em tais pensamentos ou em imaginar o
que essa outra vida poderia ter sido. Poderia ter sido pior. Ou
melhor. Mas ela não existira. Essa outra vida nunca fora vivida.
A vida era feita de escolhas, todas as quais, mesmo a
menor, fazia toda a diferença para o resto da vida de alguém.

A carta chegou um pouco depois de duas semanas após seu
retorno a Londres desde Dorsetshire.
Lady Muir estava na mansão Kilbourne, em Grosvenor
Square, anunciava a carta, e ficaria satisfeita se Lorde Trentham
e a senhorita Emes fossem visitá-la às duas horas da tarde, dali a
dois dias.
Hugo tolamente virou a página para garantir que não havia
mais nada escrito no verso da mesma.
Era apenas uma pequena nota formal, sem nenhum sopro
pessoal nela.
O que ele esperava? Uma declaração de paixão eterna?
Ela o tinha convidado a cortejá-la.
Isso era um pensamento que precisava ser examinado. Ele
iria cortejá-la. Sem garantia de sucesso. Ele poderia tentar se
esforçar ao máximo por toda a primavera e, em seguida, se
ajoelhar e oferecer-lhe uma perfeita rosa vermelha e uma
proposta florida de casamento, apenas para ser rejeitado.
Mais uma vez.

Ele estava disposto a gastar tanta energia apenas para
acabar fazendo papel de idiota? Será que ele realmente queria
que ela se casasse com ele? Havia muito mais no casamento e na
vida do que o que acontecia entre os lençóis. E, como ela mesma
tinha apontado, uma só pessoa não bastava para um
casamento. Um se casava e o outro não. De qualquer maneira,
um viveria com as consequências.
Seria, provavelmente, ... Não, seria, sem dúvida, melhor
errar do lado da cautela e não cortejá-la. Ou nunca voltar a lhe
oferecer casamento. Mas ele alguma vez tinha sido um homem
cauteloso? Quando teria ele resistido a um desafio simplesmente
porque poderia falhar? Quando ele já tinha considerado a
possibilidade de fracasso?
Ele não deveria se casar com ela, mesmo assumindo que ela
lhe dera uma chance. E se ela ajudasse Constance durante a
primavera e a levasse a um par de bailes, e, se por algum
milagre, sua irmã conhecesse alguém com quem pudesse estar
feliz e segura, então ele não precisaria se casar com Gwendoline,
ou com qualquer outra. Ele poderia ir para casa no verão, com a
consciência limpa, para seus três quartos em funcionamento em
uma grande mansão, seu estéril e espaçoso parque, e sua própria
companhia cintilante.
Só que ele tinha mais ou menos prometido a seu pai que,
quando chegasse o momento, ele passaria o império de negócios
para um filho próprio. Ele precisava casar se quisesse que o filho
viesse a ser mais do que um produto de sua imaginação.
Arrgghh!
Constance tinha se juntado a ele à mesa do café. Ela beijou
sua face, desejou um bom dia a ele, e sentou-se em seu lugar.
Ele colocou a carta, aberta, ao lado de seu prato.

- Recebi de uma amiga - disse ele. - Ela acabou de chegar a
Londres e me convidou para visitá-la e levar você comigo.
- Ela? - Constance olhou por cima de sua torrada, sobre a
qual ela estava espalhando marmelada, e sorriu maliciosamente
para ele.
- Lady Muir, - ele disse - irmã do conde de Kilbourne. Eu a
conheci no início do ano, quando estava na Cornualha. Ela está
na mansão Kilbourne, em Grosvenor Square.
Ela estava olhando para ele, de olhos arregalados.
- Lady Muir? - Ela disse. – Grosvenor Square? E ela quer
que eu vá lá com você?
- Isso é o que ela diz - disse ele, pegando a carta e
entregando a ela.
Ela leu, sua torrada esquecida, a boca ligeiramente aberta,
os olhos ainda arregalados de espanto. Ela releu. E olhou para
ele.
- Ah, Hugo - disse ela, com a voz quase um sussurro. - Ah,
Hugo.
Ele imaginou que ela quisesse ir.

Lauren estava na mansão Kilbourne na tarde em que Gwen
convidara Lorde Trentham para visitá-la com sua irmã. Ela
havia implorado para que a deixasse estar lá para a ocasião. A
mãe de Gwen e Lily estavam em casa também. Elas queriam que
Gwen as acompanhasse a uma visita a Isabel, duquesa de
Portfrey, e ela se vira obrigada a admitir que estava esperando
visitas. Ela mal podia, então, lembrar os nomes dos visitantes.
Seria muito melhor ter só Lauren como companhia. Ah, e,
talvez, Lily também - Lily tinha ficado absurdamente

desapontada ao saber que Gwen tinha recusado Lorde Trentham
e ele tinha ido embora sem outra palavra. Ela o tinha visto como
uma figura romântica, bem como heroica e esperava que ele fosse
o único capaz de arrebatá-la.
A mãe de Gwen parecia confusa e um pouco perturbada
quando soube que os visitantes viriam. Lily, por outro lado,
desconfiara, como uma cunhada faria, com brilhantes olhos
especulativos, mas não fez nenhum comentário.
- Foi apenas uma cortesia convidá-los para uma visita,
Mama - explicou Gwen. - Lorde Trentham me salvou do que
poderia ter sido um destino muito desagradável quando eu estava
hospedado com Vera na Cornualha, depois de tudo.
As quatro de se sentaram na sala de estar quando a hora
marcada se aproximava, olhando para os brilhantes raios de sol,
e Gwen se perguntava se seus visitantes viriam ou não, e se ela
queria que eles viessem.
Eles vieram, quase exatamente às duas horas.
- Lorde Trentham e a senhorita Emes - o mordomo
anunciou, e eles entraram na sala.
A senhorita Emes era tão diferente de seu irmão como era
possível ser. Era de estatura média, mas muito delgada. Era
loira, de pele clara e tinha olhos azuis, que estavam tão
arregalados como um pires agora. Pobre menina, deve ser um
choque horrível para ela encontrar-se enfrentando quatro
senhoras, quando esperava uma. Ela ficou muito próxima ao lado
de seu irmão e olhava como se fosse se esconder atrás dele, se ele
não tivesse o braço dela firmemente aninhada sob o seu próprio.
Os olhos de Gwen moveram-se involuntariamente para
ele. Para Hugo. Ele estava bem vestido, como de costume. Mas
ainda parecia um feroz guerreiro bárbaro disfarçado de
cavalheiro. E estava mais carrancudo, franzindo a testa. Ele deve

ter ficado igualmente chocado ao descobrir que isso não seria
uma audiência privada, apenas com ela.
Bem, ela pensou, se quisessem se mover em círculos da alta
sociedade, deveriam se acostumar a estar em uma sala com mais
do que um membro da sociedade de cada vez, e com mais do que
um título.
Embora Hugo tivesse, é claro, experimentado isso em
Newbury Abbey.
Seu coração estava batendo desconfortavelmente.
- Senhorita Emes, disse ela, levantando-se e dando um
passo adiante – como é bom que tenha vindo. Eu sou Lady Muir.
- Milady. - A menina livrou seu braço de seu irmão e se
inclinou em uma reverência, sem tirar os olhos arregalados de
Gwen.
- Esta é a minha mãe, a condessa viúva de Kilbourne, Gwen disse - e a condessa, minha cunhada. E Lady Ravensberg,
minha prima. Lorde Trentham, o senhor se encontrou com todas
antes.
A menina fez uma reverência de novo, e Lorde Trentham
inclinou a cabeça rigidamente.
- Sentem-se, - disse Gwen. - A bandeja de chá estará aqui
em um momento.
- Lorde Trentham sentou-se em um sofá, e sua irmã sentou
ao seu lado, tão perto que tocava seu ombro e seu quadril. Suas
faces enrubesceram. Se ela fosse uma criança, Gwen pensou, ela
certamente teria virado a cabeça para esconder o rosto contra a
manga do irmão. Ela não tinha tirado seus olhos de Gwen.
Ela era razoavelmente bonita, Gwen decidiu, mesmo que
não fosse uma beleza delirante. E ela estava vestida bem o
suficiente, mas sem talento.

Gwen sorriu para ela.
- Ouso dizer, senhorita Emes, - ela disse - que você está feliz
em ter o seu irmão, em Londres.
- Estou, milady - disse a menina, e houve uma pausa
durante a qual Gwen pensou que manter uma conversa poderia,
muito bem, revelar-se muito difícil. Como ela poderia ajudar uma
garota que não ajudaria a si mesma? Mas ela não tinha
terminado. - Ele é um grande herói. Meu pai estava cheio de
orgulho antes de morrer no ano passado, e eu também. Mas, mais
do que isso, tenho adorado Hugo toda a minha vida. Me disseram
que eu chorei por três dias seguidos depois que ele foi para a
guerra, quando eu ainda era muito jovem. Eu desejava e ansiava
que ele voltasse para casa desde então. E agora, finalmente, ele
veio, e vai ficar ao menos até o verão.
Ela tinha uma voz clara, bonita. Ficara um pouco sem
fôlego, o que era compreensível sob as circunstâncias. Mas suas
palavras iluminaram seu rosto e fez com que ficasse mais bonita
do que Gwen tinha achado no início. E, finalmente, a menina
olhou para longe de Gwen, a fim de olhar para o adorado irmão.
Ele olhou para ela com carinho óbvio.
- Suas palavras têm seu mérito, senhorita Emes - disse
Lauren. - Mas os homens vão para a guerra, você sabe, e deixam
suas sensíveis mulheres para trás, para se preocuparem.
Todos riram e a tensão foi um pouco aliviado. A mãe de
Gwen perguntou pela saúde da Sra. Emes, e Lily disse para a
menina que nem todas as mulheres foram sensíveis o suficiente
para ficar em casa na guerra, que ela tinha crescido no rastro de
um exército e tinha até passado alguns anos na Península antes
de vir para a Inglaterra.
- A Inglaterra é que foi o país estrangeiro para mim, - ela
disse - mesmo que eu fosse inglesa por nascimento.

Confidenciou Lily, em vez de simplesmente fazer
perguntas. Ela tinha deixado a garota mais à vontade, Gwen
notara.
A bandeja de chá tinha sido trazida, e Lily estava servindo.
Isto não era apenas uma visita social, Gwen lembrou a si
mesma, apesar do que sua mãe e Lily deveriam pensar. Ela
trocou um olhar com Lauren.
- Senhorita Emes, - disse ela - entendo que ele é o seu sonho
assistir a um baila da sociedade durante a temporada.
Os olhos da garota se arregalaram de novo, e ela corou.
- Ah, é, milady - disse ela. - Eu pensei que talvez Hugo...
bem, ele é um Lorde. Mas suponho que eu esteja sendo
boba. Embora ele tenha prometido que vai consegui-lo antes que
a temporada acabe, e Hugo sempre cumpre suas promessas. Mas

Ela parou de falar e lançou um olhar de desculpas para o
irmão.
Ele não tinha dito a ela, então, Gwen pensou. Talvez ele não
acreditasse que ela manteria sua promessa e não queria
decepcionar sua irmã.
- Senhorita Emes, - disse Lauren - meu marido e eu,
juntamente com seus pais, ofereceremos um baile em Redfield
House no final da próxima semana. Será cedo o suficiente na
temporada para eu ousar dizer que todos virão. Será um grande
aperto, e eu me cobrir com o triunfo. Ficaria muito satisfeita se
você participasse com Lorde Trentham.
A menina ficou boquiaberta e, em seguida, fechou a boca
com um clique audível de seus dentes.
Querida Lauren. Ela não tinha sido preparada com
antecedência. Gwen tinha pensado em levar a menina para um

evento menor, pelo menos em sua primeira aparição. Mas talvez
um abarrotado e grande baile - e o de Lauren era obrigado a ser
assim - fosse melhor. Não haveria multidões maiores e, portanto,
menos razão para a insegurança.
- Isso, - Lorde Trentham disse, falando por quase a primeira
vez desde que entrara na sala – é extremamente gentil de sua
parte, milady. Mas eu não tenho certeza...
- Você pode vir sob o meu apadrinhamento, senhorita Emes
- disse Gwen, olhando para Lorde Trentha enquanto falava. Mas, com o seu irmão como acompanhante, é claro. Uma jovem
senhora deveria ter um apadrinhamento feminino em vez de
apenas o seu irmão, e eu ficaria encantado em assumir esse
papel.
Sua mãe, ela estava consciente, estava muito silenciosa.
- Ah! - A senhorita Emes disse, as mãos cruzadas com tanta
força no colo que Gwen que podia ver o branco dos nós dos
dedos. – A senhora faria isso, milady? Por mim?
- Eu faria, de fato - disse Gwen. – Pode ser divertido.
Diversão?
O que você faz para se divertir? Lorde Trentham
perguntara a ela uma vez em Penderris, e ela se perguntou se a
palavra fazia sentido para uma mulher adulta.
- Ah, Hugo. - A garota virou a cabeça e olhou para ele,
implorando. - Posso?
A mão dele cobriu as dela em seu colo.
- Se desejar, Connie - disse ele. - Você pode experimentar,
de qualquer modo.
Eu pensei que poderia proporcionar-lhe uma tentativa. Ele
havia dito aquelas palavras em Newbury, quando oferecera

casamento a Gwen. Ele se encontrou com os olhos dela
brevemente, e ela poderia dizer que ele estava se lembrando
também.
- Obrigada - disse a menina, olhando primeiro para ele,
depois para Lauren e depois a Gwen. - Ah, obrigada a todos
vocês. Mas eu não tenho nada para vestir.
- Veremos isso - Lorde Trentham disse.
- Nem eu. - Gwen riu. - O que não é rigorosamente a
verdade, é claro, como eu diria que não é para você, senhorita
Emes. Mas esta é uma nova primavera e uma nova temporada, e
há toda a necessidade de ter novas roupas da moda com que
surpreender a sociedade. Vamos sair em busca de juntas?
- Amanhã de manhã, talvez?
- Ah, Hugo, - a menina disse, olhando suplicante para ele
novamente - eu posso? Eu ainda tenho todo o dinheiro que você
me deu no ano passado.
- Você pode ir - ele disse - e envie as contas a mim, é claro. Ele olhou para Gwen. – Carta branca, Lady Muir. Constance
deve ter tudo o que precisa para o baile.
- E para outras ocasiões também? - Perguntou Gwen. - Um
baile não vai satisfazer tanto a sua irmã ou a mim, você
sabe. Tenho quase certeza disso.
- Carta branca - disse ele de novo, mantendo seu olhar.
Ela sorriu de volta para ele. Ah, esta temporada prometia
ser muito diferente das que a precederam. Pela primeira vez em
muitos anos na cidade, ela se sentia viva, cheia de esperança e
otimismo. Mas esperança de que? Ela não sabia, e ela não se
importava neste momento. Gostava de Constance Emes. Pelo
menos, pensou que iria gostar quando a conhecesse um pouco
melhor.

Lorde Trentham se levantou para partir assim que tinha
terminado o chá, e sua irmã levantou também. Ele surpreendeu
Gwen então, antes que saísse da sala. Ele virou-se para a porta e
disse a ela, não fazendo nenhuma tentativa de baixar a voz.
- Faz um dia ensolarado, milady, - disse ele - sem qualquer
vento perceptível. Gostaria de vir passear no parque comigo mais
tarde?
Ah. Gwen estava muito consciente de sua mãe, Lily e
Lauren atrás dela na sala. A senhorita Emes olhou para ela com
os olhos brilhantes.
- Obrigada, Lorde Trentham - disse Gwen. - Isso seria
agradável.
E eles tinham ido embora. A porta se fechou atrás deles.
- Gwen, - disse sua mãe depois de uma breve pausa – isso
foi certamente desnecessário. Você está mostrando uma bondade
extraordinária para a irmã, mas você deve ser vista concedendo
favores ao irmão? Você recusou sua oferta de casamento há
apenas algumas semanas atrás.
- Ele realmente é bastante lindo, embora a seu próprio
modo, mãe - disse Lily, rindo.
- Será que você não concorda, Lauren?
- Ele é ... distinto - disse Lauren. - E é claro que ele não foi
dissuadido pela rejeição de Gwen à sua oferta. Isso o faz parecer
tolamente obstinado ou persistentemente ardente. O tempo dirá.
- E ela riu também.
- Mama, - Gwen disse - eu convidei Lorde Trentham para
nos visitar esta tarde com a senhorita Emes. Me ofereci para
apadrinhá-la em alguns eventos da sociedade. Me ofereci para
ajudar a vesti-la adequadamente na moda. Então, se Lorde

Trentham me convida para passear no parque com ele, não é tão
surpreendente que eu aceitasse.
Sua mãe olhou para ela, franzindo a testa e balançando a
cabeça ligeiramente.
Lily e Lauren
significativos.

estavam

ocupadas

trocando

olhares

Capítulo 14
Não tinha nada além do que uma simples e modesta
carruagem que normalmente estava parada na casa de
Crosslands e, por vezes, ficava semanas sem ser utilizada, uma
carroça somente para o negócio agrícola.
Hugo nunca tinha possuído um veículo.
Sempre que necessitava percorrer grandes distâncias
servia-se de um cavalo.
Mas durante a semana passada decidira comprar um
cabriolé que ostentava nada menos que um assento alto e bem
arqueado, com rodas pintadas em amarelo. Também adquiriu
uma parelha de cor castanha para combinar e conduzi-lo.
Sentia-se como um dândi.
Deu um suspiro alongando as costas, calçou as luvas e,
usando uma bengala como suporte, dirigiu-se para as calçadas de
Londres, enquanto ia admirando as senhoras através de um
monóculo.
Flavian, que estava na cidade por algumas semanas, tinha
insistido em que o cabriolé com rodas amarelas era muito
superior a todos os que Hugo olhara, e os cavalos também tinham
precedência sobre todos os outros que Hugo preferisse, pois eles
combinavam, enquanto os outros não.
- Se pretende ir à ca-caça, Hugo, - ele disse, enquanto
estavam juntos no pátio do Tattersall - e porque você estaria na
cidade em busca de uma esposa se não tem a intenção de
arrumar uma, deve ter talento para rechaçá-las. Vai atrair dez
potenciais noivas na primeira vez que descer a rua atrás dessas
belezas.

- E aí eu paro, explico a elas que tenho um título nobiliário e
sou rico, e pergunto-lhes se se importariam de se casar comigo? Disse Hugo, perguntando-se o que seu pai pensaria da compra de
dois cavalos que eram duas vezes mais caros que os outros,
simplesmente porque eles combinavam.
- Meu caro amigo. - Flavian estremeceu teatralmente. - É
preciso manter-se mais misterioso. Cabe às ladies descobrirem
esses fatos por si mesmas e despertar-lhe a atenção. Ladies são
brilhantes em tais manobras.
- Devo dirigir pela a rua, então, - disse Hugo - e esperar que
as ladies me ataquem.
- Elas irão fazê-lo, sem dúvida, com mais sutileza do que
suas palavras sugerem - disse Flavian. - Mas, sim, Hugo. Nós
vamos fazer de você um cavalheiro notável. Vai comprar a
parelha castanha antes que alguém o faça?
Hugo os comprou.
Assim tinha sido capaz de se oferecer para conduzir, ao
convidar Lady Muir para passear no parque, ao invés de pedirlhe para caminharem a pé.
Ele sentia-se como um idiota frívolo, empoleirado sobre a
carruagem para todo o mundo o ver. Era como se o estivessem
olhando, e descobriu-se meio constrangido. Embora tenha
passado por certo números de outros veículos elegantes e
modernos a caminho de Grosvenor Square, apenas um pouco
mais de duas horas depois de passar por ali com Constance, sua
carruagem atraiu sua parcela de olhares de admiração e até
mesmo um assovio de apreciação. Pelo menos os cavalos eram
manejáveis, apesar de Flavian os descrevesse como um tanto
alarmantes para um principiante.
Lady Muir já estava pronta. Na verdade, ele nem sequer
teve tempo de tocar no batente de porta. No momento em que

chegava à entrada, a porta se abriu e ela saiu para o exterior. A
reclamação à Constance ao dizer que não tinha nada para vestir,
era claramente uma mentira descarada.
Ela estava extremamente deslumbrante num vestido verde
pálido, luvas de pelica e com um chapéu de palha combinando.
Aparatado com flores prímulas e folhas verdes artificiais, devia
ser a mais recente moda, supôs.
Ela desceu os degraus da casa sem ajuda e se aproximou
dele na calçada, enquanto ele estendia a mão para ajudá-la a
subir até o assento elevado. Percebeu seu coxear novamente. Ele
dificilmente poderia ignorá-lo, de fato. Não era um ligeiro coxear.
- Obrigada. - Ela sorriu para ele enquanto colocava a mão
enluvada na sua e montava em seu assento, sem qualquer
problema.
Ele endireitou-se e reuniu as rédeas em suas mãos
novamente.
Não sabia por que diabo estava fazendo aquilo. Ela não era,
efetivamente, a pessoa que mais gostava no mundo. Ela tinha
recusado sua proposta de casamento, o que, é claro, tinha o
perfeito direito de fazer, o que não lhe surpreendia, quando se
lembrava exatamente com que brilhantismo verbal havia
proposto. Mas ela não tinha se contentado com a recusa. Ela se
ofereceu para ajudar Constance, de qualquer maneira, e o
convidara a cortejá-la - sem nenhuma garantia de que
consideraria mais favoravelmente a proposta se ele a renovasse
no final da temporada.
Como se atirava uma mão cheia de sementes secas a um
pássaro. Como se jogava um osso seco para um cão.
Mas ele estava ali, de qualquer forma, mesmo que fosse
completamente desnecessário. Ela e sua prima, Lady
Ravensberg, já haviam arranjado para Constance fazer uma

espécie de estreia na sociedade, e Connie estava além de
animada. Então, não havia necessidade de fazer este convite.
Nem precisava ter comprado este brinquedo extravagante e
espalhafatoso que estava dirigindo. Teria comprado isto com ela
em mente? Era uma pergunta cuja resposta ele não queria saber.
Nesse meio tempo, estava ficando desconfortavelmente
consciente de que o assento de um cabriolé era estreito e
realmente concebido para acomodar apenas uma pessoa,
especialmente quando essa pessoa era grande. Ela estava quente
e suave, era toda feminilidade, como, é claro, descobrira em uma
determinada praia na Cornualha. E estava usando aquele
perfume caro.
- Este é um cabriolé muito elegante, Lorde Trentham - disse
ela. - É nova?
- É - confirmou, guiando seus cavalos ao passar ao lado de
uma grande carroça de legumes empilhados, principalmente
repolhos, que não pareciam nem um pouco frescos.
Um pouco mais tarde, virou para o parque. Precisava se
juntar ao passeio da moda, supôs, embora nunca em sua vida
tivesse feito isso. Era onde começava a chegar grande quantidade
de nobres ao final da tarde, para exibirem suas melhores roupas
uns aos outros, trocarem fofocas e, por vezes, talvez até alguma
notícia real.
- Lorde Trentham, - disse ela - desde que deixamos
Grosvenor Square, só falou duas palavras. E parece um tormento
para o senhor quando há uma questão que exija um pouco mais
que uma resposta afirmativa ou negativa. E o senhor está de cara
amarrada.
- Possilvemente esteja - disse ele, olhando para a frente. - A
senhora prefere ser levada para casa, ao invés de continuar?

Ele desejou que não a tivesse convidado. Tinha sido uma
coisa impulsiva, mesmo que tenha comprado a carruagem para
tal ocasião. Bom Deus, ele estava confuso. Sentia-se muito fora de
sua personalidade e em perigo iminente de um afogamento.
A cabeça dela estava voltada para ele. Ela o estava
estudando atentamente, ele poderia sentir sem virar a cabeça.
- Eu não gostaria disso - disse ela calmamente. - Sua irmã
está feliz, Lorde Trentham?
- Eufórica - disse ele. - Mas eu não estou convencido de que
esteja fazendo a coisa certa por ela. Ela não sabe o que está
diante dela. Pensa que sabe, mas não imagina. Pois jamais será
um deles - um de vocês.
- Se for assim - disse ela - ela perceberá e, então, nenhum
dano terá sido feito. Ela vai seguir em frente com sua vida e
encontrar a felicidade em um mundo que lhe é mais familiar.
Mas você talvez esteja enganado. Somos uma classe diferente,
mas somos todos da mesma espécie.
- Por vezes, - disse ele - eu tenho minhas dúvidas sobre isso.
- E, no entanto, - ela disse - alguns dos seus amigos mais
próximos são da minha classe. E você é um de seus amigos mais
próximos.
- Isso é diferente - disse ele.
Mas não houve tempo para mais conversa. Eles foram em
direção à arraia-miúda e forçosamente juntaram-se a um passeio
de veículos em movimento lento, desfilando sobre o enorme oval
vazio. A maioria dos veículos estava descoberta para que os
ocupantes pudessem cumprimentar e conversar com os
conhecidos com facilidade. Cavalos entravam e saíam entre eles,
e também paravam com frequência para que seus cavaleiros
trocassem sutilezas sociais. As pessoas caminhavam nas
proximidades, longe o suficiente para não serem pisadas, mas

perto o suficiente para verem e serem vistas, e para saudarem e
serem saudadas.
Lady Muir conhecia todo mundo, e todo mundo a conhecia.
Ela sorriu, acenou e conversou com todos que pararam ao lado da
carruagem. Se fosse um breve intercâmbio, ela não o
apresentava. Ocasionalmente fazia-o, e Hugo sentia os olhos
sobre ele, de forma indiscreta, avaliando e especulando.
Ele se encontrou assentindo ou acenando a cabeça
bruscamente para as pessoas cujos nomes, ou até mesmo rostos,
ele nunca iria se lembrar ou esquecer. Se não fosse por
Constance, estaria consolando-se com a promessa interior de que
nunca faria algo assim novamente. Mas havia Constance, a
promessa que fizera e o convite para o baile de Lady Ravensberg
na próxima semana, que já tinha sido planejado e aceito.
Ele estava comprometido agora.
Mas não para cortejar Lady Muir, por Deus! Ele não era
um fantoche na mão de ninguém. Apenas na noite passada ele
tinha jantado com a família de um de seus primos, e o outro
hóspede na mesa era uma mulher bastante jovem que
recentemente perdera a mãe, viúva, com quem tinha ficado em
casa, obedientemente, muito depois de seus irmãos e irmãs terem
se casado . Ela estava perto da idade dele, Hugo tinha
conjecturado, era encantadora e sensata, tinha uma figura
atraente, um rosto natural. Teve uma boa conversa com ela e
acompanhou-a à casa. Seus primos tinham sido contidos para
com ele, é claro. Mas pensou que poderia se interessar. Ou, pelo
menos, ele pensou que deveria estar interessado.
Em seguida, sua mente, que seguia distraída, voltou ao
presente. Dois cavalheiros passavam a cavalo e pararam ao lado
da carruagem. Hugo, parou olhando o mais próximo, não os
reconhecendo. Não era surpreendente, pois
não conhecia
ninguém.

O outro foi que falou com Lady Muir.
- Gwen, minha menina querida! - Ele exclamou com uma
voz que era tão familiar que o estômago de Hugo imediatamente
ficou com náuseas.
- Jason - disse ela.
O tenente-coronel Grayson, não estava com o uniforme hoje,
estava friamente bonito e tão arrogante e desdenhoso como
sempre. Ele era um dos poucos oficiais militares que Hugo
conhecia e que realmente odiava. Grayson tinha feito de sua vida
um inferno desde o primeiro dia até o último, e tinha o poder de
fazê-lo com grande prazer. Por duas vezes ele tinha conseguido
impedir as promoções que Hugo tinha ganhado, tanto por
categoria superior como por proezas. Subir na graduação tinha
sido um processo lento, enquanto os olhos de Grayson estavam
sempre nele, olhando com desprezo ao longo do comprimento do
seu nariz aristocrático.
Seus olhos estavam observando Hugo agora.
- O herói de Badajoz - disse ele, fazendo com que as suas
palavras soassem de forma grosseira. – Lorde Trentham? Tem
certeza de que sabe o que está fazendo, Gwen? Está certa de que
não concedeu o favor de sua companhia à uma miragem?
- Acho que, Jason, - Lady Muir disse enquanto Hugo olhava
fixamente de volta para ele, com a sua mandíbula apertada - você
conhece Lorde Trentham? Ele foi, de fato, o comandante mais
brilhantemente bem sucedido no Forlorn Hope em Badajoz? O
senhor já o conheceu, Sir Isaac? Sir Isaac Bartlett, Lorde
Trentham.
Ela estava se referindo ao outro cavaleiro. Hugo mudou o
seu olhar e inclinou a cabeça.
- Bartlett - disse ele.

- Eu não sabia que estava na cidade, Gwen - disse Grayson.
- Vai dar-me a honra de me convidar a … Kilbourne House?
- Sim - disse ela.
- Ao que parece, - ele disse - Kilbourne é demasiado
indulgente. Você precisa de aconselhamento e orientação do chefe
da família do seu falecido marido, já que você não está recebendo
isso da sua própria.
Ele acenou com a cbeça e montou. Sir Isaac Bartlett sorriu
para os dois, tirou o chapéu para Lady Muir, e o seguiu.
O ódio era inútil, Hugo decidiu mover a carruagem para a
frente. O que tinha acontecido durante seus anos no serviço
militar ficara no passado e permaneceria lá. Mas ele estava
muito preocupado em reprimir o ódio que sentia, de qualquer
maneira, para concentrar toda a atenção sobre Lady Muir, que
estava ao lado dele conforme completavam o circuito e chamava
alegremente a uma série de conhecidos. Ele ficou surpreso, então,
quando virou a cabeça para perguntar se ela queria fazer o
circuito mais uma vez, como a maioria das pessoas parecia estar
fazendo, e descobriu que seu rosto estava pálido e cansado. Até
mesmo os lábios estavam sem cor.
- Leve-me para casa - disse ela.
Ele retirou a carruagem longe da multidão sem demora.
- A senhora está bem? - Ele perguntou.
- Só um pouco ... fraca - disse ela. - Vou ficar bem depois de
tomar uma xícara de chá.
Virou-se para olhá-la novamente. E ouviu o eco das
palavras que ela tinha trocado com Grayson, ou, mais
especificamente, as palavras que ele tinha falado para ela.
- O tenente-coronel Grayson aborreceu-a? - Perguntou.
Provavelmente, o homem tinha um grau mais elevado agora.

- Visconde Muir? - Ela disse.
Ele franziu a testa em incompreensão.
- Ele é Visconde Muir agora - disse ela. - Era primo e
herdeiro de Vernon.
Ah. Que mundo pequeno. Mas as últimas palavras do
homem agora foram explicadas.
- Tem perturbado você? - Ele disse.
- Ele matou Vernon - disse ela. - Ele e eu juntos.
Virou a cabeça para não o olhar diretamente, como se a
carruagem mudasse de direção. Apenas a aba do seu chapéu com
as prímulas e folhas eram visíveis para ele.
Ela não olhou para ele novamente, ou disse qualquer outra
coisa. Não ofereceu nenhuma explicação.
E Hugo não conseguia pensar em outra coisa abençoada
para dizer.

Surpreendentemente, Gwen não tinha visto Jason, Visconde
Muir, uma vez que ele conseguira o título, pelo menos não desde
o funeral de Vernon.
Ou talvez não fosse tão surpreendente. Ele não tinha
desistido de sua carreira, quando herdara o título. E ainda não
desistira, até onde Gwen sabia. Ele era um general agora. Ele
era, presumivelmente, um homem muito importante no exército.
Provavelmente, estivera longe da Inglaterra durante muito
tempo, ou, então, em partes do país longe de Londres. Se ele já
tinha passado algum tempo na cidade, devia ter sido quando ela
não estava aqui. Ela tinha prendido a respiração a cada ano, com
medo de vê-lo.

Ele era dois anos mais velho que Vernon, e tinha dominado
seu primo mais jovem de todas as maneiras imagináveis, exceto,
possivelmente, na aparência e na hierarquia social. Ele era
maior, mais forte, mais bem sucedido na escola, mais atlético,
mais popular com seus colegas, mais firme no caráter. Sempre
que tinha uma folga prolongada de seu regimento, passava muito
tempo com eles. Ele tinha necessidade de manter um olho em sua
herança, sempre dizia com uma gargalhada, como se estivesse
fazendo uma piada. Vernon sempre tinha rido com ele, com
alegria genuína. A risada de Gwen tinha sido mais reservada.
Vernon adorava Jason, e Jason parecia gostar dele. Ele
havia tentado alegrar Vernon, tirando-o de seu lado sombrio
sempre que encontrava-o mal humorado, advertindo-o de que ele
tinha um título para preservar, tinha que ser mais homem e um
bom marido para sua esposa bonita. Ele sempre fora brincalhão
com Gwen, dizendo que ela devia apressar-se a produzir um
herdeiro, bem como um reserva para que ele pudesse relaxar e
concentrar-se em sua carreira. Sempre ria alto de sua própria
piada, e Vernon tinha rido com ele. Uma vez ou outra tinha
colocado um braço sobre os ombros de Gwen e abraçado seu lado,
embora nunca tivesse feito qualquer avanço mais evidente para
ela. Ela sempre se encolhera com repulsa, de qualquer maneira.
Aparentemente, tinha sido o primeiro a chegar ao seu lado
quando ela caíra de seu cavalo. Ele tinha estado com eles naquela
ocasião, montando a uma curta distância atrás dela - uma
distância muito curta, quando ela tinha saltado, quase como se
ele sentisse que precisava incitar seu cavalo para saltar alto o
suficiente.
Tinha chorado inconsolávelmente com a morte de Vernon e
novamente em seu funeral.
Gwen nunca tinha sabido o quanto ele era sincero e o
quanto era artifício. Ela nunca soube se ele amava Vernon ou
odiava-o, se cobiçava o título ou era indiferente a ele, se ficara

realmente triste com o aborto espontâneo ou estava secretamente
feliz.

E, é claro que ele não tinha, literalmente, matado Vernon,
mais do que ela tinha.
Ela sempre o havia odiado com paixão e sentia-se culpada
porque ele nunca fizera nada para merecer isso ostensivamente e
poderia ter vindo a fazer uma injustiça terrível. Que outro
militar, afinal, iria chorar publicamente sobre a morte de um
primo? Ele fora um dos poucos parentes sobreviventes de Vernon
e o único que tinha sido, de alguma forma, atento a ele. O pai de
Vernon tinha morrido jovem e sua mãe não tinha vivido muito
mais tempo. Vernon tinha herdado seu título com a idade de
quatorze anos e tinha sido governado por um par de guardiões
competentes até que atingisse a maioridade. Ele não tinha
irmãos ou irmãs.
Agora ela tinha visto Jason novamente, após sete anos. E
ele estava ameaçando ir a Kilbourne House. Neville, ele teve o
descaramento de dizer, era demasiado indulgente com ela. Ele
queria dar-lhe conselhos como chefe da família de seu falecido
marido. Como se ele fosse chefe de sua família. O que ela sentia
por ele não era melhor agora do que ela sentia nos anos passados.
Irritou-se interiormente, mas não disse nada em casa.
Visitou Lorde Trentham pela manhã, apresentando-se à sua
lânguida madrasta, que se parecia com sua filha num grau
notável. Gwen levou a senhorita Emes à sua própria costureira.
O passeio às compras animou-a muito, por mais cansativo
que fosse. Sempre gostou de fazer compras, e ter uma jovem
bonita para vestir da cabeça aos pés, para quaisquer futuras
eventualidades ou ocasiões, foi tão divertido como ela esperava
que fosse. Especialmente quando o irmão da jovem lhes tinha
dado carta branca para gastar tanto quanto quisessem.

Ela tinha perdido a visita de Jason enquanto estava fora.
Assim como sua mãe e Lily, que tinham ido passar o dia com
Cláudia, a esposa de Joseph, que estava sofrendo de enjôos
devido à sua segunda gravidez. Mas Neville tinha estado em
casa.
- Disse algo sobre sentir-se responsável por você como chefe
da família - disse Neville a Gwen enquanto estavam sentados em
um almoço tardio. - Fui obrigado fazer cara de desentendido e
peguntar-lhe exatamente a que família estava se referindo. Sem
querer ofender, Gwen, mas os Grayson não vêm lutando para
cuidar de você desde o falecimento de Vernon, têm?
- Suponho que - disse Gwen - ele pensou que deveria estar
abaixo da dignidade de um Grayson, até mesmo a viúva de um
Grayson, ser vista no Hyde Park com um ex-oficial militar cujo
heroísmo era tão extraordinário que o próprio rei o recompensou
com um título.
- Ele insinuou - disse Neville - que o Capitão Emes - é a
forma como ele se referiu a Trentham - talvez não fosse tão
heroico nessa ocasião, como o rei e entre outros foram levados a
acreditar. Eu não o incitei a estender a visita. Lamento, Gwen.
Deveria ter feito? Você nunca falou muito sobre o primo e
sucessor de Vernon. Se você gosta, está disposta a seguir os
conselhos dele?
- Nenhum, - disse Gwen - e eu nunca gostei dele, embora
deva admitir que ele nunca me deu um motivo em particular.
Espero que o informe, Nev, que já atingi a maioridade anos atrás
e já não tenho um marido a quem devo obediência. Espero que
você lhe diga que sou bem capaz de escolher meus próprios
amigos e acompanhantes.
- É quase exatamente o que lhe disse - disse Neville. - Eu
até me diverti com a ideia de usar um monóculo, mas decidi que
seria muito afetação. Você está lamentando ter recusado a oferta
de Trentham em Newbury?

- Não. - Ela fez uma pausa ao comer e olhou para ele.
Estava feliz de que sua mãe não estivesse presente. - Mas tinha
concordado em introduzir sua irmã na alta sociedade, Neville,
portanto, vou vê-lo. E eu gosto dele. Você desaprova?
Ele colocou os cotovelos sobre a mesa e juntou os dedos
contra sua boca.
- Porque ele não é um cavalheiro? - Disse. - Não, eu não
desaprovo, Gwen. Eu não sou a Wilma, deve ficar feliz em saber.
Eu confio em seu julgamento. Eu me casei com Lily na Península,
lembra-se, quando eu achava que ela era a filha do meu sargento.
Mesmo assim a amava, e só mais tarde descobri que ela era
realmente filha de um duque. A aparente mudança em seu status
não fez diferença alguma nos meus sentimentos por ela.
Trentham apenas parece ... rabugento.
- Ele é - disse ela. - Ou melhor, é mal-humorado e usa uma
máscara na qual se sente mais confortável.
Gwen sorriu e nada mais foi dito sobre o assunto.
Jason não visitou de novo Kilbourne House.

Capítulo 15
Fiona sucumbira a uma doença misteriosa, que a mantinha
confinada à cama num quarto escuro. Ninguém, além de
Constance, conseguia trazer algum consolo a ela. Seu médico, a
quem Hugo chamara a seu pedido, não poderia dar um
diagnóstico sobre o que a afligia, mas afirmou que sua paciente
era de uma constituição frágil e deveria ser protegida de
quaisquer grandes mudanças em sua vida. De acordo com ele, ela
ainda não recuperara a saúde após a morte prematura de seu
marido há pouco mais de um ano.
Constance estava disposta a devotar seu tempo para cuidar
de sua mãe, ou sacrificar-se, Hugo pensou.
Ele foi ver sua madrasta em seu quarto.
- Fiona, disse ele, sentando-se na cadeira ao lado da cama,
que sua irmã tinha ocupado com muita frequência nos últimos
dias - Lamento que você esteja doente. Sua família lamenta
também. Na verdade, eles estão bastante preocupados.
Ela abriu os olhos e virou a cabeça no travesseiro para olhálo.
- Eu fui à sua loja visitá-los ontem, disse ele. -Eles estão
progredindo e felizes. Me receberam muito bem. A única tristeza
deles é nunca vê-la, nem receber notícias suas. Sua mãe, irmã e
cunhada ficariam muito felizes se você as chamasse aqui para
passar um tempo com você, para ajudar sua enfermeira a trazer
de volta a sua saúde e alegria.
Ele não sabia se a alegria era mesmo possível para Fiona.
Ele suspeitara, por mais doloroso que fosse para ele, uma vez que
fora seu pai quem ele pensou que tinha sacrificado tudo na real
esperança de felicidade quando lhe oferecera a chance de se casar
com um homem tão rico que fora impossível recusá-lo.

Ela olhou para ele com olhos cansados e avermelhados.
- Os lojistas! - Ela disse.
- Lojistas prósperos e felizes, disse ele. - O negócio está bem
o bastante para sustentar a todos, isto inclui os seus dois
sobrinhos, filhos do seu irmão. Sua irmã está prometida em
casamento a um advogado, filho mais novo de um cavalheiro de
meios modestos. Eles estão bem, Fiona. E eles te amam. Anseiam
para ajudar Constance.
Ela puxou o lençol que a cobria.
- Eles não teriam nada - disse ela, - se eu não tivesse casado
com o seu pai e se ele não tivesse gasto uma pequena fortuna com
eles.
- Eles estão bem conscientes disso - ele disse - e não sentem
nada menos que gratidão a você e ao meu pai. Mas o dinheiro é
mal gasto apenas quando é desperdiçado. A ajuda financeira que
meu pai lhes prestou por serem seus parentes e ele a adorava, foi
usada bem e com sabedoria. Eles nunca pediram a ele mais, pois
nunca precisaram. Deixe a sua mãe vir para te ver. Ela me
perguntou se você ainda era tão deslumbrantemente linda como
costumava ser e eu lhe disse que sim, ou que você ficará quando
estiver bem novamente. Ela virou a cabeça para ele mais uma
vez.
- Você é o senhor da casa agora, Hugo - disse ela
amargamente. - Se você optar por trazer minha mãe aqui, eu não
posso impedi-lo.
Ele abriu a boca para dizer mais, porém, em seguida, a
fechou novamente. Ela não sentia que podia concordar com ele
sem, de alguma forma, perder a dignidade. Então ela tinha
colocado a responsabilidade da decisão sobre seus ombros. Bem,
eles eram largos o bastante.

- É hora do medicamento - disse ele, levantando-se. - Vou
trazer a Constance para você.
Todas as pessoas, ele suspirava, enquanto saia do quarto,
tinham seus próprios demônios para combater, ou não. Talvez
isso durasse a vida toda. Talvez a vida fosse um teste para ver
como lidamos com nossos demônios particulares e, com muita
compaixão, mostrar aos outros como trilhar seu próprio caminho
pela da vida. Como alguém dissera uma vez, isso estava na
Bíblia? Era fácil o suficiente ver um cisco nos olhos de outra
pessoa enquanto permanece inconsciente do seu próprio.
- Sua mãe está pronta para seu medicamento, disse à
Constance, que estava pálida, abatida e com os olhos bastante
aborrecidos. Ele colocou um braço sobre os ombros dela. - Eu vou
trazer sua avó, para vê-la, Connie. Talvez amanhã. Já está na
hora. No entanto, você irá ao baile de Lady Ravensberg ou a
quaisquer outros eventos em que Lady Muir esteja disposta a
levá-la e você deseje participar. Terá uma chance de ter o seu
próprio “felizes para sempre” depois. Eu prometi que o faria e eu
não quebro minhas promessas.
Seus olhos brilharam.
- Minha avó? - Ela perguntou.
- Você nem sabia que ela existia? - Ele a abraçou um pouco
mais firmemente a seu lado.
Mas parte de sua mente estava sempre em outro lugar.
Como Grayson matara o marido de Lady Muir?
Ou teria sido ela?
As perguntas zumbiam dentro de sua cabeça como abelhas
presas, desde aquele passeio no parque há três dias.
Ela quisera dizer as palavras literalmente? Bem, é claro
que ela não. Ele a conhecia bem para acreditar que fosse capaz de

um assassinato a sangue frio. Mas ela também não estava
brincando. Ninguém brincaria com uma coisa dessas.
Então, qual o sentido dela matar seu marido? Ou por que se
sentia responsável por sua morte?
E por que ela juntava o seu próprio nome com o de Grayson?
Ele estaria bastante satisfeito em considerar Grayson capaz de
matar.
Se ele queria respostas, pensou ele, teria que descobrir por
seus meios. Ele ia ter que perguntar.

A noite do baile Ravensberg inevitavelmente chegou, apesar
das tentativas de Hugo de pensar nisso como uma coisa
confortável, bem longe no futuro. Enquanto o baile se
aproximava, sentia que não era tão diferente do que sentira
quando se aproximava de uma grande e sangrenta batalha, só
que na batalha ele poderia, pelo menos, olhar para frente e agir,
sabendo que, uma vez que começasse, ele se esqueceria de tudo,
até mesmo de seus medos.
Ele teve a sensação terrível de que o medo o paralisaria
enquanto caminhava em direção ao baile.
Ele poderia simplesmente ir embora, supôs, desde que Lady
Muir concordara em apoiar Constance e sua presença não seria
necessária. Isso não seria justo, no entanto, com Lady Muir, que
estava sendo gentil com Constance só por causa dele. E não era
justo com Connie, a quem ele havia prometido levar a um baile.
Seria bom se ele soubesse dançar. Ah, ele podia mover-se
com o tempo aproximado da música, assim como a maioria das
outras pessoas, supôs. Ele assistira algumas reuniões sociais nos
últimos anos e nunca se humilhara, exceto, talvez, com a valsa.
Mas dançar em um baile em Londres durante a temporada? Era
uma combinação tripla para enchê-lo de terror. Ele preferia

oferecer-se para outra Forlorn Hope. Ele estava ali para
acompanhar sua irmã até a casa de Redfield, em Hanover, o local
do baile e Lady Muir os encontraria lá. Hugo se vestiu com
cuidado, Connie não era a única que tinha roupas novas para a
ocasião, e esperou no andar de baixo, na sala de estar com Fiona,
sua mãe e irmã. As duas últimas haviam chegado pela primeira
vez no dia anterior. Hugo não testemunhara o encontro com
Fiona em seu quarto. Mas quando saíam, elas o tinham
informado que iriam retornar nesta noite para fazerem
companhia, enquanto Constance e ele estivessem no baile.
Fiona tinha descido pela primeira vez em uma semana e se
sentara, largada e pouco comunicativa, perto da lareira. Sua
mãe, gorda, de faces rosadas e pálidas, sentara-se ao seu lado,
segurando uma de suas mãos flácidas e acariciando-a. A irmã de
Fiona, doze anos mais jovem do que ela, sentara-se em frente a
elas, trabalhando em silêncio em algum crochê que trouxera. Ela
se parecia com sua mãe mais do que a sua irmã, que ainda tinha
a magreza da juventude.
Era uma situação promissora, Hugo pensou.
- Eu irei à cozinha eu mesma, Fee, assim que Constance e
Hugo saírem, e vou fazer um pouco de sopa, - a mãe de Fiona
estava dizendo quando Hugo entrou no quarto. - Não há nada
melhor para melhorar a sua saúde do que uma boa sopa quente.
Ah meu Deus!
Ela tinha avistado Hugo.
Ele conversou com ela apenas por alguns minutos.
Constance não estava disposta a se atrasar para seu primeiro
baile. Ela surgira próxima a eles, olhando como se estivesse,
literalmente, prestes a explodir, e depois ficara perto da porta da
sala de estar, corando e insegura, mordiscando o lábio inferior.
- Ah, meu Deus! - Disse a avó novamente.

Como uma noiva, ela não tinha permitido que ninguém
visse o vestido que usaria esta noite, nem mesmo soubesse nada
sobre isso. Ela estava toda de branco, da cabeça aos pés. Mas não
havia nada suave em sua aparência, Hugo concluiu, apesar do
fato de seu cabelo ser loiro. Ela brilhava como a luz da lâmpada.
Ele não era um especialista em moda, especialmente das
mulheres, mas podia ver que havia duas camadas para seu
vestido, a interior de seda, a exterior de renda. Era de cintura
alta, logo abaixo dos seios, e ela estava jovem, bonita e perfeita.
Ela calçava sapatos brancos, luvas brancas, um leque de prata, e
as fitas brancas enroscadas através de seus cachos.
- Você parece tão bonita como uma imagem, Connie - disse
ele, sem originalidade alguma.
Ela virou a cabeça em direção a ele e sua avó chorou e
enxugou as lágrimas em seus olhos com um grande lenço de
algodão.
- Ah - ela gritou - você se parece com sua mãe, Constance.
Você está como uma princesa. Não é, Hilda, meu amor?
Sua filha mais jovem concordou com um sorriso, após deixar
seu crochê no colo.
- Constance. - Sua mãe estendeu a mão pálida em sua
direção. - Seu pai iria aconselhá-la a não esquecer suas raízes. Eu
a aconselharia a fazer o que a fará feliz.
Era um pronunciamento notável vindo de Fiona. Constance
pegou sua mão e segurou-a perto de seu rosto por um momento.
- Você não se importa se eu for, mamãe? - Ela perguntou.
- Sua avó me fará uma sopa - disse Fiona. - Ela sempre fez a
melhor sopa do mundo.
Cinco minutos depois, Hugo e sua irmã estavam em sua
carruagem a caminho de Hanover.

-Hugo, - ela disse, colocando a mão enluvada na dele - você é
como uma rocha de estabilidade. Estou tão assustada que tenho
certeza que meus dentes estarão batendo a ponto de abafar o som
da orquestra quando eu chegar lá, todo mundo franzir a testa
para mim e Lady Ravensberg me acusar de arruinar seu baile.
Claro, você não tem que ter medo. Você é o Lorde Trentham.
Meus avós são lojistas. Embora seja uma doce avó, não é? E a tia
Hilda tem olhos que cintilam gentilmente quando fala. Eu gosto
dela. E eu ainda tenho o meu avô, tio, tia e primos para conhecer,
e o Sr. Crane, noivo da tia Hilda. Eu tenho outra família inteira,
assim como familiares da mamãe e você e todos do papai, mesmo
que eles sejam apenas lojistas. Isso não importa, não é? Papai
costumava dizer que ninguém, nem mesmo o mais humilde
varredor de rua deveria ser humilhado por quem ele é. Ou ela. Eu
sempre costumava dizer "ele ou ela" papai, e ele ria e dizia
novamente para mim. Acho que mamãe está feliz em ver a vovó,
não é? E acho que ela está ficando melhor novamente. Você
acha... Ah, eu estou tagarelando. Eu nunca tagarelo. Mas estou
apavorada. - Ela riu suavemente.
Ele apertou a sua mão e concentrou-se em ser como uma
rocha de estabilidade. Se ela soubesse!
Eles não foram capazes de conduzir até a grande mansão
iluminada na Rua Hanover e desaparecem lá dentro para
encontrar algum canto escondido no qual pudessem se esconder.
Havia uma fila de carruagens e eles tiveram que aguardar sua
vez. E, quando chegou à vez deles, tiveram que permitir que um
lacaio, perfeitamente uniformizado, abrisse a porta da
carruagem, e eles desceram num tapete vermelho, que se
estendia desde a borda do pavimento até os degraus da casa.
E, quando entraram na casa, finalmente, encontraram-se
em um grande salão, com pé-direito alto, iluminado sob as luzes
brilhantes de um grande candelabro e, no meio de uma multidão
de damas e cavalheiros tagarelas, maravilhosamente vestidos.
Hugo, olhando em volta, descobriu sem surpresa alguma que ele

não conhecia nenhum deles. Mas, pelo menos, Grayson não
estava entre eles.
- Então, vamos ir lá em cima, Connie - ele disse à sua irmã
silenciosa, sua voz soando a seus próprios ouvidos notavelmente
como a do Capitão Emes ordenando a seus oficiais subordinados
para formarem as linhas de batalha.
Mas a ampla escadaria, que, presumivelmente, levava até o
salão de baile, não estava melhor que o salão. Era tão bem
iluminado, e estava lotada com o tagarelar e os risos das pessoas
que estavam aguardando sua vez. Hugo logo percebeu que seria
anunciado antes de passar ao longo da linha de recepção.
Oh, meu Deus, dê-me duas Forlorn Hopes.
- Não falta muito tempo agora - disse ele, com a jovialidade
saudável, dando um tapinha e agarrando a fria mão de sua irmã.
- Hugo - ela sussurrou. - Eu estou aqui. Eu estou realmente
aqui.
E ele olhou para ela, percebendo que estava cheia de
emoção e felicidade que realmente sentia. E ele tinha brincado
com a vergonhosa ideia de sugerir que eles fugissem.
- Eu acredito que você esteja certa - disse ele, sorrindo para
ela.
E, então, eles chegaram ao topo das escadas e um mordomo
rigidamente formal, que o lembrou do mordomo de Stanbrook,
inclinou o ouvido para escutar suas identidades, e anunciou-lhes
em voz alta, num tom firme.
- Lorde Trentham e Senhorita Emes.
A linha de recepção era composta de quatro pessoas,
visconde e viscondessa de Ravensberg, a quem Hugo lembrou-se
da sala de estar em Newbury Abbey, e o conde e a condessa de
Redford, que deviam ser os pais de Ravensberg. Ele curvou-se.

Constance fez uma reverência. Saudações e brincadeiras foram
trocadas. Lady Ravensberg tinha admirado o vestido de
Constance e realmente piscou para ela. Ela olhou para ele e
achou melhor não piscar. Era tudo surpreendentemente fácil.
Mas a aristocracia era hábil em fazer tais ocasiões fáceis. Eles
sabiam como transformar uma simples conversa na conversa
mais difícil do mundo, na experiência de Hugo.
Eles entraram no salão de baile. Hugo teve uma impressão
rápida do grande salão, das centenas de velas acesas no lustre
central e em arandelas de parede em torno do perímetro, dos
bancos de flores e do piso de madeira brilhante, dos espelhos e
colunas, da flor da sociedade vestida em toda a sua elegância e
usando todas as suas joias mais preciosas. Para Constance, a
impressão foi mais do que momentâneo. Hugo ouviu seu grito e a
viu virar a cabeça de lado a lado e de cima e para baixo, como se
ela nunca pudesse obter o suficiente de uma olhada em seu
primeiro baile.
Mas foi um pequeno pedaço da cena que logo atraiu
atenção de Hugo. Lady Muir vinha vindo encontrá-los.
Ela estava vestida com um primaveril verde pálido
novamente. O tecido de seu vestido - seda? cetim? - brilhava a luz
das velas. Ele roçava as curvas de seu corpo, revelando uma
deliciosa quantidade de seios e uma sugestão tentadora de pernas
bem torneadas, mesmo que uma fosse mais curta do que a outra.
Suas luvas e sapatos eram de um ouro fosco. Ela usava uma
corrente de ouro simples com um pequeno pingente de diamante
em torno do pescoço, e ouro e diamantes piscavam dos lóbulos de
suas orelhas sob os cabelos. Um leque de marfim pendia de um
de seus pulsos.
Ela era tudo o que era belo, desejável e inatingível. Como
ele poderia ter tido o descaramento de fazer-lhe uma proposta de
casamento não muito tempo atrás? No entanto, ele tinha

possuído uma vez aquele corpo elegantemente lindo. E, após ter
recusado sua oferta, ela o convidara a cortejá-la.
Será que ele se atreveria? Será que ele queria mesmo? E,
exatamente, quantas vezes ele fez a si mesmo aquelas perguntas?
Ela estava sorrindo - para sua irmã.
- Senhorita Emes - Constance, disse ela – você está
absolutamente encantadora. Ah, eu não ficaria nada surpresa se
você dançasse todas as músicas e, até mesmo, tivesse que afastar
potenciais parceiros. Felizmente, ninguém está se apresentando
no baile, por isso o foco da atenção não estará sobre nenhuma
outra jovem em particular. Venha. - E estendeu o braço para
Constance segurar.
Ela olhou para Hugo, após Constance tomar seu braço. E
Hugo teve a satisfação de ver suas faces corarem. Então, ela não
era completamente indiferente a ele.
- Lorde Trentham, - ela disse – o senhor pode se misturar
com os outros convidados, se preferir, ou mesmo retirar-se para a
sala de jogos. Sua irmã estará segura comigo.
Seria excluído. Para se misturar. Essa simples atividade.
Mas com quem conversaria? No entanto, seria um pouco ridículo
entrar em pânico. Ela tinha mencionado uma sala de jogos. Ele
poderia se esconder lá dentro. Mas antes de ir, queria ver
Constance dançar pela primeira vez em um baile. Poderia confiar
em Lady Muir para fazer com que ela dançasse e que fosse com
alguém respeitável.
Ele falou, antes que ela levasse Constance para longe entre
a multidão.
- Espero, Lady Muir, - disse ele – que a senhora vá dançar
esta noite. E que guarde uma dança para mim.

Ela dançava, apesar de sua claudicação. Ela lhe dissera
isso em Penderris.
- Obrigada - disse ela, e ele estava interessado em observar
que ela parecia quase sem fôlego. - A quarta dança será uma
valsa. É a dança da ceia.
Oh senhor. Uma valsa. A esposa do vigário e algumas das
outras senhoras da aldeia haviam empreendido a tarefa
gigantesca de ensinar-lhe os passos em uma reunião, há cerca de
dezoito meses, ou mais, em meio a muitas risadas provocadas
neles e em todos os outros mortais ali reunidos para a ocasião. Ao
final, ele acabara dançando com a mulher do boticário, com
muitos aplausos e risadas. O melhor que se poderia dizer era que
ele não tinha nenhuma vez pisado nos dedos da boa senhora.
Ele havia prometido a si mesmo nunca dançar novamente.
- Eu ficarei grato, então, milady, - disse ele - se a senhora
reservá-la para mim.
Ela assentiu com a cabeça, fitando-o por um momento, e
depois se afastou com Constance.
Hugo foi salvo de se sentir terrivelmente em evidência e
constrangido, talvez carrancudo, em um baile, quando o conde de
Kilbourne e o Marquês de Attingsborough juntaram-se a ele e
iniciaram uma pequena conversa, do tipo que sua classe era tão
talentosa. Outros homens se uniram a eles em breves diálogos ou
foram apresentados ou reapresentados. Alguns deles estavam
naquela sala em Newbury Abbey. Em seguida, Hugo viu Ralph.
Na verdade, ele conhecia alguém.
Constance, brilhando visivelmente com a felicidade, dançou
a primeira valsa com um jovem cavalheiro ruivo que parecia
bem-humorado e que podia ou não ser considerado bonito para
um jovem, apesar de suas sardas. Ele estava sorrindo para ela,

conversando e dançando os passos intricados de uma dança
facilmente praticada.
Lady Muir estava dançando com um de seus primos. Seu
coxear era completamente menos perceptível enquanto dançava.
Seus olhos encontraram os de Hugo e permaneceram com eles por
alguns momentos.
Prendeu a respiração e ouviu seu batimento cardíaco
batucando em seus ouvidos.

Capítulo 16
Gwen dançou as duas primeiras peças com os primos. Foi
capaz de relaxar e conversar com eles, mantendo um olho em
Constance Emes. Mas não havia nada com que se preocupar
ali. Ela era bonita e animada o bastante para atrair mais do que
parceiros suficientes, mesmo que não tivesse mais nada para
recomendá-la. Mas, na verdade havia muito mais. Ela tinha Lady
Muir como patrocinadora, e era a irmã de Lorde Trentham, o
famoso herói de Badajoz. Esse fato agitou rapidamente o salão de
baile, após ter sido sussurrado em poucos ouvidos,
provavelmente, Gwen adivinhou, pelos próprios parentes. E,
talvez o mais importante de tudo, havia rumores de a senhorita
Emes ser tão rica quanto qualquer uma das herdeiras mais
ansiosamente cortejadas da alta sociedade.
A tarefa de Gwen para o resto da noite seria composta por
nada mais árduo do que fazer a triagem dos senhores que
disputariam dançar um conjunto com a menina, de modo que não
fosse concedido o favor a cafajestes óbvios ou caçadores de
fortuna. Constance dançou a primeira dança com Allan Grattin,
filho mais novo de Sir James Grattin, a segunda com David
Rigby, sobrinho através da mãe do Visconde Cawdor, e a terceira
com Matthew Everly, herdeiro de uma propriedade decente e
fortuna de linhagem antiga, embora não houvesse título na
família. Eram
todos
jovens
cavalheiros
perfeitamente
respeitáveis. O Conde de Berwick, um dos membros do Clube dos
Sobreviventes, ficou com a dança anterior a ceia embora estivesse
ciente do fato de que ela não poderia valsar até que fosse
permitido fazê-lo por uma das patrocinadoras do Almack. Ainda
que ser vista na companhia dele para essa dança e durante o
jantar, faria nada mais que bem a garota.
Gwen dançou a terceira peça com Lorde Merlock, com quem
manteve termos amigáveis nos últimos dois ou três anos e a
quem ela dera permissão para beijá-la em Vauxhall no ano

passado. Eles sorriam calorosamente um para o outro e ele a
elogiou por sua aparência.
- A senhora é a única mulher que conheço, - disse ele - que
realmente fica mais jovem a cada ano. Certamente chegará ao
ponto em que serei acusado de tentar lhe roubar do berço.
- Que absurdo - disse Gwen, rindo enquanto os outros pares
se afastavam deles por alguns momentos.
Depois de beijá-la, ele a pedira em casamento. Ela havia
dito não sem hesitação, e ele aceitou a rejeição muito bem. Até
mesmo riu da sua previsão, de que ele provavelmente ficaria
imensamente aliviado pela manhã.
Ela se perguntava agora se ele ficara aliviado. Ela poderia
tê-lo encorajado a renovar a paquera este ano, se já não tivesse
convidado Lorde Trentham para fazer a mesma coisa. Desejou
não ter feito isso. Embora não conhecesse Lorde Merlock muito
bem, estava bastante confiante de que ele seria um marido
agradável. Ele era bem-educado, bem-humorado e comportava-se
bem e - bem, sem complicações. Se havia algum esqueleto no
armário, ela não sabia. Embora ninguém nunca realmente
soubesse, não é?
De qualquer forma, tinha feito o convite a Lorde Trentham,
e definitivamente não iria complicar a própria vida se amarrando
a dois pretendentes ao mesmo tempo.
O senhor Trentham deixou o salão de baile dez minutos
depois que a primeira dança começou. Gwen sabia o momento da
saída dele, mesmo que não estivesse a observá-lo
diretamente. Ela se perguntava se ele não voltaria. Mas é claro
que o faria. Ele havia pedido a ela uma dança. Além disso, ele
gostaria de manter um olho sobre a irmã.
Ele voltou. Claro que sim. E ele nem sequer esperou até o
último momento antes da quarta dança começar. Ficou ao lado

dela, logo que terminou a terceira dança, e então a ignorou
completamente. Ao invés disso ele falou com a irmã, que estava
ansiosa para lhe dar um relato exaustivo de cada momento do
baile. Ela transbordava de emoção enquanto falava. A menina
não sabia nada sobre a moda de demonstrar tédio, Gwen pensou graças a Deus. Não havia nada mais ridículo do que uma jovem,
recém-saída da sala de aula e do interior, enfeitada de branco
virginal, parecer entediada e cansada do mundo em mais um
baile, e ainda um outro parceiro.
O Conde de Berwick se juntou a eles, e a senhorita Emes
olhou para a cicatriz na face dele.
- O senhor era um oficial, milorde? - Perguntou ela. - E
conheceu Hugo na Península?
- Ai de mim, não, senhorita Emes, - disse ele - embora eu o
conhecesse. Não havia um soldado nos exércitos aliados, dos
generais até o mais novo recruta nas fileiras, que não
conhecessem o Capitão Emes, mais tarde major Lorde
Trentham. Ele era o que todos nós aspirávamos ser e não
conseguimos nos tornar. Poderíamos odiá-lo com paixão se ele
não fosse tão malditamente modesto. Eu o conheci em Penderris
Hall, Cornualha, enquanto ambos estávamos nos recuperando de
nossas experiências de guerra, e fiquei impressionado, sem
palavras até que ele me pediu para não ser tão estúpido. Ele
mencionou a existência de uma irmã. Tenho certeza que sim. Mas
ele não mencionou, o malandro, o fato de que ela era - e é - uma
das damas mais bonitas na face da terra.
Ele tinha atingido o tom certo com ela. Ela olhou com
adoração o irmão por alguns instantes e, em seguida - ruborizada
- para Lord Berwick. Como era maravilhoso ser ainda tão
inocente, Gwen pensou. Ele falou de tal forma, que a bajulação
pareceu mais amável do que uma paquera. Sua maneira era
quase paternal, de fato, embora certamente estivesse apenas em
seus vinte e poucos anos.

Ele deveria ter deixado à juventude para trás em um campo
de batalha na Espanha ou Portugal.
Lorde Trentham era um membro silencioso do grupo, e
ainda não tinha sequer lançado um olhar a Gwen. Ela poderia ter
ficado exasperada se não tivesse começado a compreendê-lo muito
bem. Feroz e sisudo enquanto observava - e ele parecia ambos
neste momento, apesar do carinho nos olhos quando os pousava
sobre a irmã -, ele se sentia muito inseguro em uma situação
social. Em um evento da sociedade, em todo caso. Ele poderia
protestar que era de classe média e se orgulhava disso, e até
poderia ser verdade. Provavelmente fosse, de fato. Mas também
era verdade que ele se sentia intimidado pela sociedade.
Até mesmo por ela.
Ela tinha lembranças espontâneas dele sair do mar com
uma graça inconsciente naquela enseada em Penderris, a água
escorrendo do corpo quase nu, a roupa intima agarrada aos
quadris e coxas. E dele tirando aquela roupa mais tarde, depois
de a carregar para o mar. Ele não tinha sido intimidado por ela
então.
Casais estavam se reunindo no salão para a valsa. Lorde
Berwick fez uma reverência para Constance e estendeu a mão
para ela.
- Devemos ir em busca de um copo de limonada e um sofá
confortável a partir do qual poderemos observar a dança? Sugeriu. - Embora seja provável que teria olhos apenas para uma
determinada pessoa.
- Bobo - Constance disse com uma risada, enquanto colocava
a própria mão sobre a dele.
Gwen os observou fazer o caminho para a sala de descanso e
esperou. Sentiu-se um pouco divertida - e ficou quase sem fôlego
de antecipação.

- Eu valsei em apenas uma ocasião em minha vida, - Lorde
Trentham disse abruptamente, com os olhos sobre a partida da
irmã. - Não esmaguei os dedos da minha parceira e não balancei
em uma direção enquanto ela flutuava graciosamente para
outra. Mas o meu desempenho incitou o riso, assim como
aplausos de escárnio, de todos os outros presentes naquela
reunião particular.
Oh, Deus. Gwen riu e abriu o leque.
- Eles devem ter gostado muito de você - disse ela.
Fixou os olhos nos dela e franziu a testa em incompreensão.
- Pessoas educadas - disse ela - não dão risadas de alguém
ou aplaudem ironicamente, a menos que saibam que esse alguém
vai entender o afeto deles e participar das risadas. Você riu?
Ele continuou a franzir a testa para ela.
- Acredito que sim - disse ele. - Sim, devo ter. O que
mais eu poderia fazer?
Ela abanou o rosto e se apaixonou um pouco mais
profundamente por ele. Como gostaria de ter visto isso.
- E assim, - disse ela - você está cheio de medo agora.
- Se você olhasse para baixo, - disse ele - veria que os meus
joelhos estão batendo. Se não houvesse tanto barulho no salão,
iria ouvi-los também.
Ela riu novamente.
- Dancei três quadrilhas vigorosas em seguida - disse ela - e
embora meu tornozelo não esteja doendo, doerá se eu não usar de
algum bom senso e descansá-lo. Confio no conde de Berwick. E
você?

- Com a minha vida - disse ele. - E com a vida e a virtude da
minha irmã.
- Há uma varanda além das janelas francesas - ela disse - e
um belo jardim abaixo. Não está uma noite muito fria. Caminha
comigo lá fora?
- Eu, provavelmente, estou privando você do prazer de sua
dança favorita - disse ele.
Ele estava.
- Eu acredito, - disse ela – que vou desfrutar de um passeio
com o senhor mais do que valsar com outra pessoa, Lorde
Trentham.
Palavras imprudentes, de fato. Ela não as tinha
planejado. Não era uma namoradeira. Ou nunca tinha sido, de
qualquer maneira. Falou a simples verdade. Mas, às vezes,
verdades, mesmo as mais simples, eram mais bem guardadas
para si mesmo.
Ele ofereceu o braço e ela o tomou. Ele a conduziu, saíram
para a varanda deserta e desceram os degraus íngremes para o
jardim igualmente deserto. Não estava totalmente escuro, no
entanto. Pequenas lanternas coloridas oscilavam dos galhos das
árvores e iluminavam os caminhos de cascalho que serpenteavam
através de canteiros cercados por sebes baixas.
A partir do salão de baile vinha à melodia de uma valsa
cadenciada.
- Devo agradecê-la, - disse ele com firmeza - pelo que fez e
está fazendo por Constance. Não acho que ela poderia estar mais
feliz do que está hoje à noite.
- Mas tenho sido, pelo menos parcialmente egoísta - disse
ela. - Apresentá-la me deu grande prazer. E receio que nós
tenhamos gastado uma grande parte de seu dinheiro.

- Dinheiro do meu pai - disse ele. - O dinheiro do pai
dela. Mas ela será tão infeliz em um futuro próximo como está
feliz agora? Ela certamente não pode esperar muitos mais
convites para bailes ou outros eventos, e certamente não pode
esperar que qualquer um dos cavalheiros que dançam com ela
esta noite, dancem com ela novamente. A mãe dela, Lady Muir,
está sentada em casa com a mãe e a irmã. Elas vivem uma vida
modesta a partir de uma pequena mercearia e dificilmente se
qualificam como pessoas de classe média.
- E ela é a irmã de Lorde Trentham de Badajoz - disse ela.
Ele virou a cabeça para fitá-la na escuridão.
- O senhor, provavelmente, nem sequer percebeu que o
salão está zumbindo com a sua fama - disse ela. - Durante anos,
as pessoas esperaram por algum vislumbre seu e, de repente,
aqui está o senhor. Alguns fatores transcendem linhas de classe,
Lorde Trentham, e este é um deles. O senhor é um herói de
proporções quase míticas, e Constance é sua irmã.
- Essa é a coisa mais maluca que já ouvi na minha vida disse ele. - Isso é aquela sala de estar em Newbury Abbey
novamente.
- E, de sua parte, - disse ela - suponho que seria o suficiente
para fazê-lo correr de volta para o interior, aos seus cordeiros e
repolhos. Mas não pode fazer isso, pois tem a felicidade de sua
irmã a considerar. E a felicidade dela é mais importante para
você do que a sua própria.
- Quem disse isso? - Perguntou ele, franzindo a testa.
- O senhor disse isso com suas ações - disse ela. - Nunca
precisou colocar em palavras, como sabe, apesar de ter chegado
perto de vez em quando.
- Maldição - disse ele. - Deus amaldiçoe tudo.

Gwen sorriu e esperou por um pedido de desculpas para a
linguagem chocante. Não veio nenhum.
- Além disso, - disse ela - mesmo para além da sua fama, há
rumores também rondando de que a senhorita Emes é
fabulosamente rica. Uma jovem dama bonita e gentil que está
devidamente acompanhada, irá despertar o interesse em
qualquer lugar, Lorde Trentham. Quando também é ricamente
dotada, é bastante irresistível.
Ele suspirou.
Havia um banco de madeira na extremidade do jardim à
sombra de um velho carvalho. Ficava entre os canteiros de flores,
de frente para a casa iluminada. Sentaram-se lado a lado, e por
alguns instantes houve silêncio novamente. Ela não seria a única
a quebrá-lo, Gwen decidiu.
- Eu deveria estar cortejando-a - disse ele abruptamente.
Ela virou a cabeça para olhar para ele, mas seu rosto estava
na sombra.
- Não deveria, - disse ela - só se desejar fazê-lo. E com
nenhuma promessa de que seu cortejo será recebido
favoravelmente.
- Não tenho certeza de que desejo - disse ele.
Bem. Bruscamente falado, como de costume. Ela deveria
estar aliviada, Gwen pensou. Mas seu coração parecia ter
afundado até as solas das sapatilhas de dança.
- Não acho que quero cortejar uma assassina, - disse ele - se
é isso que você é. Embora eu não devesse objetar, eu não sei, pois
eu mesmo poderia ser acusado de assassinatos múltiplos, sem
torcer muito a verdade. E confiei minha irmã ao seu cuidado.

Bem. Tanto romance e conversa esclarecedora eram
adequados para a ocasião festiva de um baile durante a
temporada.
Ele não tinha mais a dizer. Houve mais alguns instantes de
silêncio entre eles. Desta vez, ela teria de quebrá-lo.
- Eu não matei, literalmente, Vernon - disse ela. - Nem
Jason. Mas sinto como se nós dois o tivéssemos feito. Sinto que
causamos sua morte, de qualquer maneira. Ou que eu fiz. E
minha consciência ficará sempre pesada com a culpa. Realmente
faz bem em não me cortejar, Lorde Trentham. O senhor carrega
culpa o suficiente sem ter sua alma escurecida com a minha. Nós
dois precisamos de alguém para nos livrar desse peso.
- Ninguém pode fazer isso por você - disse ele. - Nunca se
case com essa esperança. Ficará frustrada antes que se passem
quinze dias.
Gwen engoliu em seco e alisou o leque sobre o colo. Ela
podia ver as sombras dos dançarinos através das janelas
francesas na distância. Podia ouvir música e risos. Pessoas sem
nenhuma preocupação no mundo.
A ingênua suposição. Todos tinham alguma preocupação no
mundo.
- Jason estava nos visitando, como sempre fazia quando
tinha folga - disse ela. - Eu odiava essas visitas, tanto quanto
Vernon amava. Eu o odiava, embora nunca poderia explicar bem
o porquê. Ele parecia gostar bastante do meu marido e se
preocupar com ele. Embora ele tenha ido longe demais no
final. Uma noite, Vernon estava nas profundezas de um de seus
humores mais sombrios e tinha ido para a cama cedo. Se
desculpou na mesa de jantar, deixando Jason e eu juntos. Como
nós acabamos conversando no corredor em vez de estar ainda na
sala de jantar, não me lembro, mas era onde estávamos.

Era um salão em mármore, frio, duro, ecoando, bonito em
um sentido puramente arquitetônico.
- Jason pensava que Vernon deveria ser levado a algum tipo
de instituição - disse ela. – Conhecia um lugar onde ele iria ter
um bom atendimento e onde, com um pouco de companhia e
tratamento especializado, iria aprender a se recompor e superar
a perda de uma criança que nunca sequer nasceu. Vernon sempre
tinha sido um pouco fraco emocionalmente, ele disse, mas poderia
ser fortalecido com o tratamento adequado. Enquanto isso, Jason
iria tirar uma licença mais longa e gerenciar a propriedade para
que Vernon ficasse livre de preocupações enquanto recuperava o
ânimo e aprendia a fortalecer a mente. O exército teria sido bom
para ele, ele disse, mas sempre esteve fora de questão porque
Vernon havia herdado o título quando tinha quatorze
anos. Mesmo assim, seus guardiões não deveriam ter sido tão
suaves com ele.
Gwen abriu o leque no colo, mas na escuridão ela não podia
ver as flores delicadas pintadas ali.
- Eu disse a ele - disse ela - que ninguém colocaria meu
marido em qualquer instituição. Ele estava doente, mas não era
louco. Ninguém iria lidar com ele, com firmeza ou habilmente ou
de qualquer outra forma. E ninguém iria reforçar seu caráter.
Ele estava doente e era sensível, e gostaria de cuidá-lo e
convencê-lo a ter pensamentos mais alegres. E se ele nunca
viesse a melhorar, então que assim fosse.
Ela fechou o leque com um piscar de olhos.
- Ele não tinha ido para a cama - disse ela. -Estava em pé
na galeria, sem luz, olhando para nós e ouvindo cada
palavra. Nós só soubemos que ele estava lá quando ele
falou. Lembro-me de cada palavra. Meu Deus, ele disse, não sou
insano, Jason. Você não pode acreditar que esteja louco. Jason
olhou para ele e disse-lhe muito claramente que ele estava. E
Vernon olhou para mim e disse, eu não estou doente, Gwen. Ou

fraco. Você não pode pensar isso. Você não pode pensar que
preciso de cuidados ou adaptação. E foi assim que eu o matei.
O leque tremia em seu colo. Ela percebeu que eram as mãos
dela que tremiam somente quando uma mão grande e quente
cobriu as suas fortemente.
- Não agora, Vernon - eu disse a ele. Estou cansada. Estou
mortalmente cansada. E eu virei para ir à biblioteca. Eu
precisava ficar sozinha. Fiquei muito chateada com o que Jason
tinha sugerido, e fiquei ainda mais chateada que Vernon tivesse
ouvido. Senti que um ponto de crise tinha sido alcançado, e eu
não estava em estado de espírito para lidar com isso. Eu tinha a
mão na maçaneta da porta quando ele chamou meu nome. Ah, a
angústia em sua voz, o sentimento de traição. Tudo em uma
palavra, o meu nome. Eu estava me virando para ele quando ele
se atirou sobre a balaustrada, e então eu vi tudo, do início ao
fim. Suponho que durou um segundo, embora parecesse uma
eternidade. Jason tinha os braços erguidos em direção a ele como
se para pegá-lo, mas não poderia ser feito, é claro. Vernon estava
morto antes que eu pudesse abrir a boca ou Jason pudesse se
mover. Não acredito que ainda gritava.
Houve um silêncio bastante longo. Gwen franziu a testa,
lembrando-se,
algo
que
quase
nunca
se
permitia
fazer. Lembrando que havia algo enigmático, algo... que não
combinava. Mesmo na época, sua mente não tinha sido capaz de
entender o que era. Era impossível fazê-lo agora.
- Você não o matou - disse Lorde Trentham. - Sabe muito
bem que não. Embora Muir estivesse deprimido, ele tomou a
decisão deliberada de se jogar para a morte. Nem mesmo
Grayson o matou. No entanto, entendo por que você se sente
culpada, por que você sempre se sentirá. Compreendo.
Isso a tocou estranhamente, como uma bênção.

- Sim, - ela disse – você, entre todas as pessoas, sabe como a
culpa, onde não há culpa real, pode ser quase pior que a culpa
onde há. Não há expiação a ser feita.
- Stanbrook me disse uma vez, - disse ele - que o suicídio é o
pior tipo de egoísmo, bem como muitas vezes é um apelo a
pessoas específicas que são deixadas encalhadas na terra dos
viventes, incapazes, por toda a eternidade, de responder a este
fundamento. Seu caso é semelhante, em muitos aspectos, ao
dele. Por um momento você foi incapaz de lidar com a tarefa
constante e gigantesca de cuidar das necessidades do seu marido
e, por esse lapso momentâneo, ele a puniu por todos os tempos.
- Você coloca a culpa nele? - Ela disse.
- Dificilmente - disse ele. - Acredito que ele estava doente,
que não poderia simplesmente ficar livre de seus maus humores,
como Grayson parecia pensar que podia, especialmente com um
pouco de manipulação firme. Também acredito que você se deu
toda, exceto quando seu todo drenou e secou, e por um momento
você decidiu que precisava de um pouco de tempo para pensar e
recuperar um pouco de força, de modo que pudesse se dar a ele
novamente. Não estou surpreso que por sete anos você ainda não
pensou em outro casamento.
Ela tinha virado uma de suas mãos, percebeu, de modo que
foi apertada na dele. Seus dedos estavam entrelaçados. Sua
própria mão foi ofuscada. Sentia-se curiosamente segura.
- Diga meu nome - disse ela, quase num sussurro.
- Gwendoline? - Disse. - Gwendoline.
Ela fechou os olhos.
- Muitas vezes, - disse ela - eu ouço só outro nome, falado
repetidas vezes em sua voz. Gwen, Gwen, Gwen.

- Gwendoline - disse ele novamente. - Você já contou essa
história para alguém?
- Não - ela disse. - E você não pode dizer, neste momento,
que é a casa que tem atraído tais confidências de mim. Não
estamos em Penderris. Deve ser você.
- Você sabe, instintivamente, - disse ele - que vou entender,
não acusá-la ou esfregar seus sentimentos de culpa. De quem
você se sente mais perto do que qualquer outra pessoa no mundo?
Você, ela quase disse. Mas isso não podia ser verdade. A
mãe dela? Neville? Lily? Lauren?
- Lauren - disse ela.
- Será que ela sofreu? - Ele perguntou a ela.
- Oh, mais do que quase qualquer um que eu sei- ela disse a
ele. - Ela cresceu com a gente porque a mãe se casou com meu tio
e partiu em uma viagem de casamento da qual nunca mais
voltaram. Os parentes do pai dela não queriam nada com ela, e o
avô materno não iria levá-la. Ela cresceu esperando casar com
Neville, e ela o amava muito. Mas quando ele foi para a guerra,
se casou secretamente com Lily, considerou que ela foi morta em
uma emboscada no dia seguinte, e voltou para casa sem dizer
uma palavra a qualquer um de nós sobre ela. Seu casamento com
Lauren foi planejado. Eles estavam na igreja de Newbury, cheia
de convidados. Ela estava prestes a caminhar pelo corredor em
direção a ele e seu felizes para sempre, quando Lily chegou,
parecendo uma mendiga. E assim todos os sonhos de Lauren,
toda a sua sensação de segurança, tudo o que ela era foram
destruídos novamente. Foi um milagre enorme que ela
conhecesse Kit. Sim, ela sofreu.
- Então ela é a pessoa ideal para você - disse ele. - Diga a
ela.
- Sobre... o que aconteceu? - Ela franziu a testa.

- Diga-lhe tudo - disse ele. - Seu sentimento de culpa vai
continuar. Sempre será parte de você. Mas compartilhá-lo,
permitindo que as pessoas a amem mesmo assim, vai lhe fazer
muito bem. Segredos precisam de uma saída, senão eles
apodrecem e tornam-se um fardo insuportável.
- Eu não gostaria de sobrecarregá-la - disse ela.
- Ela não vai se sentir sobrecarregada. - Ele apertou os
dedos sobre os dela. - Você acha que ela imagina que seu
casamento
foi
perfeito,
mas
marcado
por
tragédias. Ela provavelmente acredita que, como os outros fazem,
que você era vítima de abuso. Você foi uma vítima, mas não
exatamente de abuso. Ela ficará aliviada ao saber a verdade. Ela
será capaz de oferecer o conforto que, eu ouso dizer, você deu a
ela durante o sofrimento muito mais público dela.
- Clube dos sobreviventes - disse ela baixinho. - Isso é o que
eles fizeram por você.
- O que temos feito um para o outro - disse ele. - Nós todos
precisamos
ser
amados,
Gwendoline,
total
e
incondicionalmente. Mesmo quando o ônus da culpa e a crença
em nos mesmos são totalmente indignos. O ponto é que ninguém
é digno. Eu não sou um homem religioso, mas acredito que é
sobre isso que as religiões falam. Ninguém merece, ainda somos
todos, de alguma forma, dignos de amor.
Gwen ergueu o olhar para o salão de baile
distante. Incrivelmente, todo mundo ainda estava dançando. A
peça ainda não tinha terminado.
- Perdão - disse ela. - Esta é uma ocasião social. Eu deveria
estar ajudando você a se divertir, porque você não gostou de vir
aqui e não teria feito isso se não fosse por sua irmã. Eu deveria
estar fazendo você relaxar e rir. Eu deveria ser...

Ela parou abruptamente. O braço livre dele estava sobre
seus ombros, e a mão que estava segurando a dela estava
vagamente abraçando seu pescoço, o queixo mantido firmemente
na fenda entre o polegar e o indicador. Ele ergueu o queixo e
virou a cabeça.
Ela não podia vê-lo claramente.
- Às vezes, - disse ele - você diz as coisas mais tolas. Deve
ser a aristocrata em você.
E ele a beijou, a boca firme na dela, quente, aberta. A
língua invadindo sua boca. Ela agarrou seu pulso e beijou-o de
volta.
Não era um breve abraço. Nem era lascivo ou mesmo
particularmente ardente. Mas era algo que sentia a raiz do seu
ser. Pois, por mais físico que fosse, não era sobre o físico. Era
sobre... eles. Ele a estava beijando, porque ela era Gwendoline, e
ele se preocupava com ela, apesar de tudo. Ela o estava beijando
porque ele era Hugo e ela se preocupava com ele.
Depois que terminou, quando ele retirou a mão de seu
queixo, a fim de segurar a mão dela em seu colo novamente, e ela
inclinou a cabeça de lado para descansar em seu ombro, ela
sentiu a dor de lágrimas não derramadas na garganta. Ela,
estava claro, estava apaixonada por ele. Ou simplesmente o
amando, enfim.
Quando ele tinha se tornado o sol e a lua para ela, o próprio
ar que respirava?
E quando a impossibilidade se tornara apenas uma
improbabilidade?
Ela não deveria ser influenciada pelo romance. E, talvez,
era só o que era.
E as consequências de seu desabafo.

Quando ele tinha ficado tão sábio, tão compreensivo, tão
gentil?
Depois que sofreu?
Era isso o sofrimento? Era isso o fazia para uma pessoa?
Ele moveu a cabeça e beijou sua testa, seu rosto.
- Não chore - ele murmurou. - A dança deve estar quase no
fim. E olhe, há um outro casal na varanda e eles estão pairando
no topo da escadaria. É melhor irmos para que eu possa me
sentar com Constance e Berwick na ceia. Para que possamos
sentar com eles.
Ela levantou a cabeça, secou o rosto com as palmas das
mãos, e ficou de pé.
- Eu ainda tenho que decidir, - disse ele enquanto ela
tomava seu braço - se eu quero cortejá-la ou não. Vou deixar você
saber. Não tenho certeza de que posso cortejar uma mulher que
manca.
Eles estavam debaixo da árvore, e a luz da lâmpada
iluminava seu rosto quando ela olhou para ele, surpresa.
Ele não estava olhando para ela. Mas havia um brilho de
algo em seus olhos que podia, eventualmente, ser um sorriso.

Capítulo 17
O condenável era que Lady Muir estava certa. O salão de
baile realmente se movimentou com a notícia de sua fama. Uma
dúzia ou mais homens queria apertar a mão dele durante o
jantar, e onde quer que olhasse, tinha interceptado as cabeças e
plumas acenando e olhares de admiração. Ele estava
tremendamente embaraçado e acabou olhando para seu prato
mais do que qualquer outro lugar, sentindo-se desajeitado e
muito em exposição. Passou o resto da noite esquivando-se de um
canto sombreado para outro, mas não parecia ajudar muito. E ele
tinha sido incapaz de sair mais cedo, pois Constance dançou até o
último acorde final ser tocado.
Agora, esta manhã houve um verdadeiro dilúvio de notas,
quase todas convites para vários entretenimentos: festas no
jardim, concertos privados, saraus, café da manhã Veneziano,
seja o diabo que isso for, noites musicais. – como podiam ser
diferentes de concertos? E como poderia ser um café da manhã
programado para começar durante a tarde? Não era uma
contradição? Ou será que isso significava que a sociedade dormia
durante toda a manhã na temporada, algo que faria sentido, na
verdade, uma vez que, obviamente, embriagaram-se a noite toda?
Quase todos os convites que lhe foram dirigidos incluíam
Constance, fato que dificultou simplesmente ignorá-los ou enviálos de volta com uma recusa firme.
Houve alguns convites endereçados apenas para Constance,
bem como três buquês - de Ralph, do jovem Everly, e alguém que
tinha assinado o seu cartão com um floreio tão extravagante que
seu nome era ilegível.
Hugo saiu para passar a manhã com William Richardson,
seu gerente, deixando Constance com sua mãe e avó e dois
meninos pequenos que esta última tinha trazido com ela esta
manhã. Estranhamente, Fiona não pareceu excessivamente
angustiada por sua energia e perguntas incessantes, e Constance

estava em êxtase com a oportunidade de conversar e brincar com
estes novos primos. Ela estava se dirigindo para o Hyde Park no
final da tarde com Gregory Hind, um dos parceiros da noite
passada, aquele com a voz alta, que ria zurrando e tinha a
tendência para achar tudo engraçado. Ele tinha passado em um
escrutínio rigoroso de Lady Muir, no entanto, e Connie gostava
dele. E, aparentemente, a irmã de Hind e seu noivo iam
acompanhá-los, então tudo era perfeitamente respeitável.
Hugo mergulhou em um longo trabalho para o campo.
Ele não tinha certeza se queria cortejar Lady Muir. Ela
mancava. Realmente, muito sensivelmente. Mas quando ele riu
baixinho com a lembrança de dizer isso a ela, ele ganhou para si
um olhar perplexo de Richardson e depois uma risada de
resposta, como se o homem pensasse que devia ter perdido uma
piada, mas fingia que não.
Não, não tinha certeza se queria a cortejá-la. Ele não seria
bom para ela. Ela precisava de alguém para estimá-la, mimá-la e
fazê-la rir. Ela precisava de alguém de seu próprio mundo. E ele
precisava de alguém... Mas ele realmente precisava de alguém
depois de tudo? Ele precisava de alguém para gerar um filho,
para que seu pai pudesse descansar em paz. Ele precisava de
alguém para o sexo. O filho podia esperar, no entanto, e sexo
poderia ser apreciado em outros lugares sem ser no casamento.
Um pensamento deprimente.
Ele não precisava de Gwendoline, Lady Muir. Só que ela o
tinha levado, ontem à noite, a mais escura profundidade de sua
alma e ele se sentiu curiosamente agradado. E ela o havia beijado
como se ... Bem, como se, de alguma forma, ele importasse. E
quando ele tinha dito que ela era manca, ela havia jogado a
cabeça para trás e rido com pura alegria. E sem esquecer de que
ele a tinha possuído na enseada em Penderris e ela o acolhera.
Sim, ela tinha. Ela tinha, e ele, que sempre teve só prostitutas

antes dela, tinha conhecido a diferença, embora a ela tivesse
faltado à maioria dos conhecimentos delas.
Ele sentiu-se desejado, querido, amado.
Amado?
Bem, talvez tivesse ido um pouco longe demais.
Mas ele ansiava por mais dela? Era ela o que desejava? Ou
mais do mesmo.
Ou era o amor que ele ansiava?
Mas ele tinha negligenciado por muito tempo a coleta de lã
e voltou sua atenção para o trabalho com determinação.
No final da tarde, foi bater à porta da mansão Kilbourne,
em Grosvenor Square e pediu ao mordomo que descobrisse se
Lady Muir estava em casa e disposta a recebê-lo. Ele esperava
que ela tivesse saído. Era o momento em que todos estavam fora,
caminhando ou dirigindo no parque e estava um dia bastante
decente, mesmo que o sol não estivesse brilhando
constantemente. Hind estava fora com Constance, zurrando de
rir com algo que ela tivesse dito. Talvez por isso ele tivesse vindo
agora, porque ele podia ter bastante certeza de que ela não
estaria.
Se ele amadurecesse o bastante para compreender a si
mesmo, Hugo decidiu, seria um milagre de primeira ordem.
Não só ela estava em casa, como ia recebê-lo. Desceu as
escadas em pessoa, logo à frente do mordomo. Ela estava
parecendo pálida e apática, e com os olhos um pouco pesados.
- Vamos para a biblioteca - disse ela. - Neville e Lily estão
fora, e minha mãe está descansando.
Ele a seguiu e fechou a porta.

- O que está errado? - Perguntou.
Ela virou-se para olhar para ele e sorriu levemente.
- Nada, na verdade - disse ela. - Acabo de passar à tarde
com Lauren.
Ela franziu o cenho e estendeu as mãos para ele.
- Eu sinto muito - disse ela.
- Eu estava certo? - Perguntou ele.
Bom Deus, e se ele não estivesse?
- Sim - ela disse, abaixando suas mãos, seus músculos
faciais sob controle novamente. - Sim, você estava certo.
Passamos quase uma tarde inteira chorando como idiotas.
Começo a entender que eu sou o maior ovo de ganso que já
nasceu para manter tudo preso dentro de mim por tanto tempo.
- Não, - ele disse - você não é um ovo de ganso. Ela estava
errada. Quando nos sentimos como ovos podres, preferimos que
ninguém rache nossas cascas.
- Eu sou um ovo podre, então. - Ela riu trêmula. - Sua irmã
está feliz hoje? Tenho a intenção de visitá-la amanhã de manhã.
- Ela está passeando com Hind e sua irmã - disse ele. - A
sala de estar da casa parece e cheira como um jardim de flores.
Ela recebeu cinco convites, sem contar os treze que eu recebi e
que a incluíam. Sim, ela está feliz.
- Mas você, nem tanto assim? - Perguntou ela. - Ah, venha e
sente-se, Hugo. Vou ter um torcicolo de tanto olhar para cima.
Ele se sentou em um divã, enquanto ela se sentou na
cadeira de couro velho em frente a ele.

- Eu ficaria muito feliz em fazer uma fogueira com todos
esses convites, - ele disse - mas eu tenho que pensar em Connie.
Eu vim para pedir o seu conselho sobre quais convites aceitar.
- Desses? - Ela acenou para o maço de papéis que ele tinha
na mão.
- Sim - disse ele, segurando-os em sua direção. - Os de
Constance estão em cima, os meus embaixo. Quais devemos ir?
Uma temporada na sociedade foi o que prometi, depois de tudo, e
não quero criar expectativas pouco razoáveis nela.
- Ela pode encontrar a felicidade só entre sua própria classe,
é o que você acha? - Ela perguntou, pegando a pilha de convites
dele e colocando sobre seu colo.
- Não necessariamente. - Ele podia sentir sua mandíbula
endurecer. Ela estava tirando sarro dele. - Mas, provavelmente.
Ela levou alguns minutos para olhar os convites, um por
um. Ele olhou para ela e estava irritado. Ele queria dar um passo
para pegá-la em seus braços como tinha feito em Penderris
quando tinha todas as desculpas para fazê-lo, e levá-la de volta
para o seu colo. Ela ainda estava pálida. Mas ele não era o seu
guardião. Ele não era de forma alguma responsável por tê-la
confortável ou qualquer outra coisa. Suas costas estavam eretas.
Não, isso era injusto. Estavam em linha reta, mas sua postura
era relaxada, graciosa. Sua coluna não tocava o encosto da
cadeira, no entanto. Seu pescoço arqueou como de um cisne. Ela
era uma dama do topo da cabeça até a ponta dos dedos dos seus
bem cuidados pés delicadamente calçados.
E ele a queria ferozmente.
- Recebi a maioria destes convites eu mesma - disse ela. Não me atreveria a dizer-lhe quais deve aceitar ou recusar, Lorde
Trentham. Mas há alguns que seriam mais sensatos para
Constance recusar e alguns que seriam muito vantajosos para ela

aceitar. Na verdade, existem três eventos aos quais eu estava
com muita esperança de que ela fosse convidada, para que eu não
tivesse que me esforçar para assegurar-lhe um convite.
Ela riu baixinho e olhou para ele.
- Você não deve se sentir obrigado a ir com ela - disse ela. Eu terei prazer de levá-la comigo e ser uma acompanhante
atenciosa. No entanto, a sociedade ficará desapontada se o herói
de Badajoz desaparecer da face da terra novamente depois de
ontem à noite, quando muitos deles não tiveram a oportunidade
de falar com você e apertar sua mão ou, então, nem sequer
estavam presentes. A sociedade é uma entidade inconstante,
apesar de tudo. Depois de um tempo a novidade de vê-lo
finalmente será substituída por outra coisa e você não será mais
o foco da atenção onde quer que vá. Mas todo mundo vai querer a
chance de vê-lo um bom número de vezes antes que isso aconteça.
Ele suspirou.
- Vou acompanhar Constance a esses três eventos - disse
ele. - Diga-me quais são, e eu vou enviar uma aceitação.
Ela colocou os três por cima e entregou o pacote de volta
para ele.
- Como eu adoraria um pouco de ar fresco - disse ela. - Vai
me levar para caminhar, Lorde Trentham, ou será muito
embaraçoso que eu manque junto a você?
Ela sorriu quando disse isso, mas havia algo de melancólico
em seus olhos.
Ele se levantou e empurrou a pilha de convites no bolso do
casaco, puxando a roupa da moda horrivelmente fora de forma.
- Você sabe que eu estava brincando na noite passada disse ele. - Ser manca é parte de você, Gwendoline, embora eu
desejasse, para o seu bem, que não fosse. Você é linda, para mim,

como você é. - Ele estendeu a mão para ela. - Mas eu ainda não
decidi se quero cortejá-la. Um desses três convites é para uma
festa no jardim?
Ela riu e, finalmente, houve um pouco de cor em suas faces.
- É - disse ela. - Você vai sair-se bem o suficiente, Hugo, se
lembrar de uma coisa pequena. Quando você bebe chá, segure a
alça da xícara com o polegar e três dedos, mas não com o seu dedo
mindinho.
Ela estremeceu teatralmente.
- Vá buscar a sua capa - ele disse a ela.
- Eu decidi não cortejá-la - disse ele.
Eles foram andando pela calçada na direção do Hyde Park,
o braço de Gwen enfiado através de seu. Estava se sentindo
cansada até a medula dos seus ossos, apenas há pouco tempo
depois de voltar de Lauren. Ela provavelmente teria ficado em
sua cama se Hugo não tivesse chegado. E estava feliz que ele
tivesse vindo. Ainda estava se sentindo cansada, mas estava
relaxada também. Quase feliz.
Eles não tinham falado. Parecia desnecessário fazê-lo.
Ela estava se sentindo... segura.
- Ah? - Ela disse. Por que, desta vez?
- Eu sou muito importante para você - disse ele. - Eu sou o
herói de Badajoz.
Ela sorriu. Foi a primeira vez que ele tinha falado
voluntariamente sobre esse episódio em sua vida. E ele tinha
feito uma piada sobre isso.
- Ai de mim, - disse ela - é um argumento muito verdadeiro.
Mas eu me consolo pelo fato de que você é muito importante para

qualquer pessoa. Você deve se casar com alguém, no entanto.
Você é um homem vigoroso, mas muito importante para
frequente...
Oh, Deus, ela não foi feita para esse tipo de brincadeira.
- Bordéis? - ele disse.
- Bem, - disse ela - você é muito importante. E se você deve
se casar, supõe-se que você também deva cortejar a dama de sua
escolha.
- Não - disse ele. - Eu sou muito importante para isso. Eu
apenas tenho que estalar meus dedos e ela virá correndo.
- A fama não lhe deixou vaidoso, por acaso? - Perguntou ela.
- Nem um pouco - disse ele. - Não há nada pretensioso sobre
reconhecer a verdade.
Ela riu suavemente, e quando o olhou, viu o que poderia ser
um sorriso espreitando sobre os cantos dos lábios dele. Ele estava
tentando fazê-la rir.
- Você planeja - ela perguntou - estalar os dedos para mim?
Houve uma longa pausa antes de sua resposta enquanto
eles atravessavam a rua e ele jogava uma moeda para o jovem
varredor que tinha tirado uma pilha fumegante de estrume para
fora do seu caminho.
- Eu não decidi - disse ele. - "Eu vou lhe avisar.
Gwen sorriu novamente, e eles entraram no parque.
Passaram a área de moda, onde as multidões ainda
estavam dirigindo ou andando a pé, embora eles não se
demorassem lá. Mesmo assim, sua chegada foi notada com muito
mais interesse do que se ela estivesse só, Gwen pensou, e
inúmeras pessoas acenaram ou mesmo pararam para uma breve

troca de cumprimentos. Ambos ficaram satisfeitos por ver o
duque de Stanbrook a cavalo com o Visconde Ponsonby. O duque
os convidou para tomar chá com ele na tarde seguinte. Constance
Emes acenou alegremente da carruagem do Sr. Hind a alguma
distância.
Mas eles passaram adiante, em vez de andar no circuito
como todo mundo, onde passavam muito menos veículos e
pedestres.
- Conte-me sobre sua madrasta - disse ela.
- Fiona? - Ele olhou para ela com alguma surpresa. - Meu
pai se casou com ela quando eu tinha treze anos. Ela estava
trabalhando na loja de uma modista na ocasião. Ela era
extremamente bela. Ele se casou com ela dentro de uma semana
ou duas depois de conhecê-la. Eu nem sabia sobre ela até que ele
abruptamente anunciou, um dia, que iria se casar no próximo.
Foi um choque desagradável. Suponho que a maioria dos rapazes,
imagine que seus pais viúvos amavam suas mães tanto que
poderiam nunca mais sequer olhar para outra mulher com desejo.
Eu estava totalmente preparado para odiá-la.
- E depois? - Ela disse, apontando para um trio de
cavaleiros que passaram, tiraram seus chapéus para ela e
olharam para Hugo com temor aberto. Ele parecia nem saber de
sua existência.
- Eu gosto de pensar que teria recuperado algum senso
comum - disse ele. - Eu tinha meu pai e o adorava, mas tinha
treze anos e já sabia que a minha vida não giraria em torno dele.
Logo ficou óbvio que ela estava terrivelmente aborrecida. Era
óbvio por que ela se casara com ele, é claro. Acho que não há
nada de mais terrivelmente errado em se casar com um homem
por seu dinheiro. É feito o tempo todo. E acho que ela nunca foi
infiel, mas teria estado comigo alguns anos mais tarde, se eu
tivesse permitido. Então, ao invés disso, eu fui para a guerra.

- Esse foi o seu motivo para ir? - Ela olhou para ele, os olhos
arregalados.
- O engraçado foi - disse ele - que eu nunca poderia suportar
matar até mesmo a menor e mais feia criatura. Eu estava sempre
levando aranhas e besourinhos para fora de casa para deixá-los
na porta. Estava sempre resgatando ratos de armadilhas, nas
raras ocasiões em que eles ainda estavam vivos. E sempre
trazendo aves domésticas com asas quebradas, e cães e gatos
vadios. Por um tempo, meus primos costumavam me irritar me
chamando o gigante gentil. E eu acabei matando homens.
Muito foi explicado, Gwen pensava. Ah, muito.
- E a sua madrasta não se relacionava com seus tios, tias e
primos? - Ela perguntou.
- Ela se sentia inferior a eles - disse ele - e,
consequentemente, acreditava que a desprezavam. Eu não
acredito que eles o fizessem. Eles a teriam amado e recebido se
lhes tivesse sido dada a oportunidade. Todos eles vieram de
origens humildes, afinal. Ela parou de ver sua própria família, na
crença, suponho, que eles iriam arrastá-la para baixo do nível
que tinha atingido ao se casar com meu pai. Eu fui visitá-los há
uma semana. Eles nunca deixaram de amá-la e desejá-la.
Incrivelmente, eles não parecem ressentir-se dela. Sua mãe e sua
irmã tem passado algum tempo com ela, e esta manhã sua mãe
trouxe seus dois netos, sobrinhos de Fiona. Há ainda o pai, o
irmão e a cunhada por conhecer, mas eu estou esperançoso de
que isso vá acontecer. Talvez Fiona vá ter sua vida de volta. Ela é
relativamente jovem, e ainda tem boa aparência.
- Você ainda a odeia? - Ela perguntou. Ele moveu-a para o
lado do caminho para uma carruagem aberta que estava vindo na
direção deles.
- Não é fácil odiar, - disse ele - quando se tem vivido o
suficiente para saber que todo mundo tem um caminho difícil a

caminhar pela vida e nem sempre fazem escolhas sábias ou
admiráveis. Há muito poucos vilões reais, talvez nenhum.
Embora existam alguns que chegam muito perto.
Eles olharam para os ocupantes do carro que estava para
ultrapassá-los.
Eram a Viscondessa Wragley com seu filho mais novo e a
nora. Gwen sempre sentiu pena pelo o Sr. Carstairs, que era
magro, pálido e aparentemente doente. E pela Sra. Carstairs, que
sempre parecia descontente com a sua sorte na vida, mas estava
sempre ao lado de seu marido. Gwen não sabia bem, uma vez que
eles evitavam a maioria dos entretenimentos mais vigorosos da
temporada.
Ela sorriu para eles e desejou-lhes uma boa tarde.
A viscondessa inclinou a cabeça regiamente.
A Sra.
Carstairs voltou à saudação de Gwen com uma voz apática. O Sr.
Carstairs não falou. Nem Lorde Trentham. Mas Gwen, de
repente, tornou-se ciente de que os dois homens estavam olhando
um para o outro e que a atmosfera se tornara inexplicavelmente
tensa.
E então o Sr. Carstairs se inclinou para o lado da
carruagem.
- O herói de Badajoz - ele chiou, sua voz cheia de desprezo.
E cuspiu no chão, bem longe deles.
- Francis! - Exclamou a viscondessa, sua voz friamente
chocada.
- Frank! - A Sra. Carstairs lamentou.
- Vá em frente, cocheiro - disse o Sr. Carstairs, e o cocheiro
obedeceu.
Gwen ficou congelada no lugar.

- A última vez que o vi, - Lorde Trentham disse - ele cuspiu
diretamente em mim.
Ela virou a cabeça bruscamente e olhou para o rosto dele.
- O Sr. Carstairs era o tenente que você me falou? - Ela
perguntou. - O que queria abortar o ataque à fortaleza?
- Não era esperado que ele sobrevivesse - disse ele. - Ele
obviamente teve ferimentos internos, bem como uma abundância
de externos. Estava tossindo um monte de sangue. Foi enviado
para casa para morrer. Mas, de alguma forma, ele viveu.
- Ah, Hugo - disse ela.
- Sua vida está arruinada - disse ele. - É óbvio. Deve ser
duplamente difícil para ele para saber que eu estou aqui e que
estou sendo saudado como um grande herói. Ele é tão grande
herói como eu, se essa palavra se aplica a qualquer um de nós.
Ele queria abortar o comando, mas ele seguiu quando eu fui em
frente.
- Ah, Hugo - disse ela novamente e, por um momento, ela
descansava o lado da capa contra a manga dele.
Ele não se moveu de volta para o caminho, mas a levou
através de uma extensão de grama em direção a uma linha de
árvores antigas e, entre elas, ao longo de um caminho muito mais
limitado que estava bastante deserto.
- Lamento que você tenha sido exposta a isso - disse ele. Vou levá-la para casa se quiser e ficar longe de você no futuro.
Você pode levar Constance para a festa no jardim e os outros dois
lugares, se for bom ou não, você escolhe. Você já fez uma grande
coisa por ela pela bondade de seu coração.
- Será que isso significa - ela perguntou-lhe - que você
nunca vai estalar seus dedos para mim?

Ele virou a cabeça e olhou para ela, como o soldado sombrio
que ela já conhecia.
- É o que significa - ele disse.
- Isso é uma pena - disse ela. - Eu estava começando a
pensar que eu poderia, só poderia, ver com bons olhos o seu
namoro. Embora o orgulho, reconhecidamente, pudesse me
impedir de ir correndo em direção a um dedo torto.
- Não posso, nunca, expô-la a qualquer coisa desse tipo de
novo - disse ele.
- Devo ser protegida contra a vida, então? - Ela disse. - Não
pode ser feito, Hugo.
- Eu não sei absolutamente nada sobre namoro - disse ele
depois de um breve silêncio. - Eu não li o manual.
- Você dança com a mulher em questão - disse ela. - Ou, se é
uma valsa e você está com medo de tropeçar nos pés ou pisar no
dela, então você pode passear ao ar livre com ela e ouvi-la deitar
fora todos os seus mais profundos e obscuros segredos sem
qualquer olhar entediado ou de julgamento. E então você pode
beijá-la e fazê-la se sentir de alguma forma ... perdoada. Você
pode visitá-la quando ela está se sentindo cansada até os ossos e
levá-la para passear a pé. Você não deixaria de levá-la ao longo
de um caminho obscuro e deserto de modo que você pudesse beijála.
- Um beijo a cada dia? - Perguntou. - Isso é um requisito?
- Sempre que possível - disse ela. - É preciso engenho em
alguns dias.
- Eu posso ser engenhoso - disse ele.
- Eu não duvido - ela disse a ele.
Caminharam lentamente para a frente.

- Gwendoline, - ele disse - eu posso parecer um grande e
duro indivíduo, mas não tenho certeza se sou.
- Ah - ela disse suavemente. - Eu tenho muita certeza de
que não é, Hugo. Não em todas as maneiras que importam, de
qualquer forma.
Eu não sou dura também. Ou tentadora.
Pelo menos ela não achava que ele era uma tentação.
Ela precisava desesperadamente parar para pensar. Ela
ainda estava muito cansada. Tinha dormido apenas um sono
inquieto na noite passada, e hoje houve a tarde dolorosamente
emocional com Lauren e agora ... isto.
- Um beijo a cada dia - disse ele. - Mas não necessariamente
como um sinal de corte. Um beijo, simplesmente porque as
condições são favoráveis e desejamos.
- Soa como uma razão boa o suficiente - disse ela, rindo. Beije-me, então, Hugo, e me resgate hoje de algum lugar... triste.
Galhos de árvores carregadas de seu casaco de folhas verde
claro de primavera acenavam acima de suas cabeças. O ar era
perfumado com o cheiro delas. Um coro de aves invisíveis estava
ocupado com suas misteriosas, comunicações em doce sonoridade.
Ao longe, um cão latiu e uma criança deu uma risada alta.
Ele virou as costas para um tronco de árvore e inclinou seu
corpo contra o dela. Seus dedos empurraram os lados do chapéu
em seu cabelo enquanto as palmas das mãos em concha
envolviam suas faces. Seus olhos, olhando para os dela, à sombra
das árvores, estavam muito escuros.
- Todos os dias - disse ele. - É um pensamento inebriante.
- Sim. - Ela sorriu.

- Jogos de cama todas as noites - disse ele. - Várias vezes
por noite. E muitas vezes durante o dia também. Seria o
resultado natural do namoro.
- Sim - disse ela.
- Se eu estivesse cortejando você - disse ele.
- Sim - disse ela. - E se eu visse esse namoro com bons olhos.
- Gwendoline - ele murmurou.
- Hugo.
E seus lábios tocaram os dela, escovaram-nos levemente, e
recuaram.
- Da próxima vez, - disse ele - se houver uma próxima vez,
eu quero você nua.
- Sim - disse ela. - Se existir uma próxima vez.
Quais eram as razões pelas quais tudo isso era uma
improbabilidade, mesmo que não seja uma impossibilidade? O
que era uma dessas razões? Mesmo uma.
Ele a beijou novamente, envolvendo ambos os braços sobre a
cintura dela e puxando-a para longe da árvore em seu corpo,
enquanto os braços dela se enroscavam em seu pescoço.
Foi um beijo firme, quente, suas bocas abertas pressionadas
juntas, as suas línguas duelando, acariciando-se, na sua boca, na
dela, e de volta novamente. Eles respiravam pesadamente contra
a face um do outro. E, finalmente, eles se beijaram suavemente e
calorosamente e com os lábios somente, murmurando palavras
ininteligíveis.
- Eu acho - disse ele quando terminou - que é melhor eu te
levar para casa.

- Eu também penso assim - disse ela. - E então é melhor
você puxar esses convites do seu bolso antes que ele adquira uma
protuberância permanente.
- Não seria bom andar por aí parecendo um cavalheiro
imperfeito - disse ele.
- Não, na verdade. - Ela riu e pegou o braço dele.
E ela, imprudentemente, foi atualizando suas chances de
um futuro com ele todo o caminho, do improvável ao possível.
Embora ainda não fosse provável.
Ela não era tão imprudente.

Capítulo 18
Constance, parecia a Hugo, que estava tendo o melhor
momento de sua vida. Ela foi às compras com Lady Muir, sua
prima e a cunhada, pela manhã e terminou em uma loja de chá,
com um admirador e a mãe dele. Ela passou uma outra tarde em
uma rodada de visitas, com as mesmas três damas e foi escoltada
para casa pelo filho, no final, com uma criada que seguia logo
atrás, e que foi enviada por insistência da avó dele. Ela foi
caminhar no parque em outras duas tardes com diferentes
escoltas. E todas as manhãs traziam um fluxo de convites,
embora até agora ela tinha assistido apenas a um baile.
Ela fora bem lançada na sociedade e, ao que parecia, estava
feliz. Não apenas consigo mesma, no entanto.
- Todos os cavalheiros, que procuram a minha atenção,
querem falar sobre você, Hugo - ela disse a ele durante o café da
manhã. - É muito gratificante.
- Sobre mim? - Ele franziu a testa. - E ainda assim eles
estão cortejando você?
- Bem, - disse ela - eu suponho que é bom para o prestígio
deles ser visto com a irmã do herói de Badajoz.
Hugo estava terrivelmente cansado de ouvir esta frase
ridícula.
- Mas, eles estão cortejando você? - Disse ele.
- Ah, você não deve se preocupar, Hugo - ela disse. - Eu não
vou me casar com nenhum deles.
- Você não vai? - Perguntou Hugo, suas sobrancelhas se
juntando.
- Não, claro que não - disse ela. - Eles são todos muito doces,
divertidos e muito...bem muito bobos, mas não, isso é cruel. Eu

gosto de todos eles. Eles são muito amáveis, e todos têm um
terrível respeito por você. Eu duvido, que qualquer um deles
tenha coragem até de pedir minha mão, caso quisesse fazê-lo.
Você tem uma carranca feroz, você sabe.
Constance, talvez, fosse mais sensata do que ele tinha
percebido. Ela não estava depositando suas esperanças
matrimoniais sobre qualquer um dos cavalheiros que conhecera
até então. Era surpreendente, é claro. Seu primeiro baile tinha
sido há menos de uma semana. Talvez ele tenha confundido seus
motivos para querer assistir ao baile. Talvez não fosse mesmo tão
importante para ela subir na escala social ao se casar.
Era uma ideia que parecia ser confirmada por outras coisas
acontecendo na vida dela.
Ela foi até a mercearia uma tarde, com sua avó, e encontrou
outros parentes lá. Ela os adorou imediatamente e foi adorada
em troca. Após essa primeira visita, ela passou a ir todos os dias
para vê-los, isto é, quando eles não estavam em sua casa dando
toda atenção à Fiona. E ela falou deles, da loja e dos vizinhos,
com tanto entusiasmo como o que ela demonstrou ao descrever
suas relações com a aristocracia.
Havia uma loja de ferragens ao lado da mercearia. O antigo
dono tinha morrido recentemente, mas seu filho tinha prometido
a todos os seus clientes que a manteria aberta e não mudaria
nada. Era, de acordo com Constance, um verdadeiro esconderijo
de Aladim, com corredores estreitos que torciam e viravam tanto,
que era perigoso alguém ficar perdido. Eles eram tão estreitos
que, as vezes, era difícil de se virar. E ele tinha absolutamente de
tudo na loja. Assim como seu pai, antes dele, ele sabia
exatamente onde pegar até mesmo o menor e mais obscuro item
que acontecesse de alguém precisar. E havia vassouras, escadas
penduradas nas paredes, pás, forcados no teto e...
A história continuou e continuou.

E Constance ia lá todos os dias, sempre com um ou outro de
seus parentes, especialmente aqueles que eram amigos do
Sr.Tucker. De fato, sua avó tinha quase o adotado como filho
extra, agora que seu pai tinha falecido. Ele era da mesma idade
que Hilda, de acordo com Constance, talvez um ou dois anos mais
jovem. Talvez três. Ele era engraçado. Ele brincava com
Constance sobre seu sotaque refinado, embora ela não falasse de
modo muito diferente de todos os outros, seu sotaque não era
demasiado cockney. Ela podia entendê-lo perfeitamente bem. Ele
brincava com ela sobre suas bonitas toucas. Ele deixava Colin e
Thomas, os dois meninos, correrem em sua querida loja, embora,
quando eles derrubaram duas caixas de pregos diferentes e tendo
misturados todos no chão, fez com que eles os pegassem e, em
seguida, sentassem no balcão para classificá-los novamente. Eles
levaram quase uma hora, e ele trouxera-lhes leite e biscoitos,
para tornar seus dedos mais ágeis. E então, quando terminaram,
ele bagunçou seus cabelos, disse que eles eram bom rapazes, deulhes um penny cada, na condição de que eles deixassem a loja
imediatamente e não voltassem por pelo menos uma hora.
Ele contava a Constance histórias engraçadas de seus
clientes. Em uma tarde que chovia, ele insistiu em caminhar com
ela todo o caminho de casa, mantendo sobre sua cabeça um
guarda-chuva, que ele encontrou nos fundos da loja. Ele disse que
não poderia dormir aquela noite, se a deixasse ir para casa sem
ele e assim, causar a perda de sua touca.
Hugo ouviu as longas histórias com entusiasmo e interesse.
Havia um certo brilho em sua irmã quando ela falava do ferreiro,
que não estava lá quando ela falava de qualquer um dos
cavalheiros com quem dançara em sua apresentação.
Tudo sugeria que Hugo poderia ter evitado todo esse
negócio com a sociedade. Ele não precisaria ter ido ao baile de
Redfield, e não estar lá na próxima festa no jardim. E não
precisaria ter tido qualquer renovação de amizade com Lady
Muir.

Sua vida seria mais tranquila se ele não a tivesse visto
novamente após Penderris.
Eles estavam começando a se apaixonar um pelo outro. Não,
na verdade, eles estavam mais que apenas começando.
E era mútuo. Ele tinha até começado a pensar que tudo era
possível entre eles. Ela também. Mas a paixão não duraria para
sempre. Não que ele tivesse alguma experiência pessoal com a
paixão, mas todas as suas observações da vida tinham ensinado
isso a ele. O importante era o que restava de um relacionamento
enfraquecido, após passada a primeira euforia da paixão. O que
seria deixado para ele e Gwendoline, Lady Muir? Duas vidas que
eram tão diferentes, quanto à noite e o dia? Alguns filhos, talvez
se ela pudesse tê-los? E decisões a tomar sobre onde eles seriam
educados. Ela sem dúvida, gostaria de enviá-los a escolas
chiques, logo que tivessem passado a fase de andar. Ele gostaria
de mantê-los em casa para desfrutar. Haveria alguma coisa
restante de amor quando a paixão enfraquecesse? Ou toda
energia seria usada e gasta com a tentativa de unir duas vidas
que não poderiam ser unidas?
- O que acontece com o amor, quando a paixão se acaba,
George? - Ele perguntou ao Duque de Stanbrook, na tarde em que
ele e Lady Muir tinham ido para o chá como convidados. O Duque
e a Duquesa de Portfrey também estavam lá, mas choveu de
forma inesperada, na mesma tarde que Tucker caminhou com
Constance da loja para casa. O Duque e a Duquesa tinham
levado Lady Muir para casa em sua carruagem, uma vez que
Hugo não tinha trazido a sua.
- É uma boa pergunta - disse o amigo com um sorriso
irônico. - Quando jovem, eu fui ensinado por todos os que tinham
influência e autoridade sobre mim, que os dois nunca devem se
misturar, não alguém da minha posição social, de qualquer
maneira. Paixão era para amantes. Amor, embora nunca tenha
sido determinado, era para esposas. Eu amei Miriam, de

qualquer modo. Eu desfrutei de algumas aventuras amorosas,
nos primeiros anos de casamento, embora eu lamente agora. Eu
devia a ela o melhor. Se eu fosse jovem agora Hugo, acredito que
procuraria o amor, a paixão e o casamento tudo no mesmo lugar,
e mandaria ao diabo quem me dissesse que a paixão nos torna
fracos e o amor mais fracos ainda. Lamento por isso na minha
vida, mas não adianta, não é? Neste momento estamos, ambos,
exatamente no ponto em que trouxemos nós mesmo, através do
nascimento e nossas experiências de vida, através das inúmeras
escolhas que fizemos ao longo do caminho. A única coisa sobre a
qual temos controle é a seguinte decisão que tomamos. Mas, me
perdoe. Você fez uma pergunta. Eu não sei a resposta, lamento
dizer e suspeito que não haja nenhuma. Cada relacionamento é
único. Você está apaixonado por Lady Muir, não está?
- Suponho que sim - disse Hugo.
- E ela está apaixonada por você. - Era uma afirmação, não
uma pergunta.
- É impossível. - Hugo disse. - Não há nada além de um
romance.
- Isso não é assim - disse o duque. - Há mais Hugo. Conheço
você muito bem, então, eu sei o que está por debaixo do escudo de
granito quase taciturno com que você se camufla a vista do
público. Eu não conheço Lady Muir de todo, mas eu sinto
algo...Hum. Eu não encontro a palavra apropriada. Sinto
profundidades em seu caráter que podem se igualar a você
mesmo. Solidez é talvez a palavra que venha a minha mente.
- Ainda é impossível. - Hugo disse.
- Talvez. - O duque concordou. - Mas aqueles que são mais
parecidos obviamente no amor e bem adaptados um ao outro,
muitas vezes não suportam o primeiro teste que a vida lança no
caminho. E a vida sempre faz isso, mais cedo ou mais tarde.
Pense no caso do pobre Flavian e sua antiga noiva. Quando duas

pessoas não são adequadas e sabem, mas estão apaixonadas de
qualquer jeito, então, talvez estejam melhor preparados para
enfrentar e combater todos os obstáculos em seu caminho com
todas as armas à sua disposição. Eles não esperam que a vida
seja fácil e, claro, nunca é. Eles têm a chance de fazê-la ser, de
qualquer maneira. Tudo isso é pura suposição Hugo. Eu
realmente não sei.
Não havia mais ninguém para perguntar. Hugo sabia o que
diria Flavian; Ralph não tinha experiência. Ele não iria pedir a
qualquer um de seus primos. Eles iriam querer saber por que ele
perguntara e, em seguida, todos saberiam e todos estariam em
êxtase, porque Hugo por fim se apaixonara. E quereriam saber
quem ela era e conhecê-la. Ele não suportava nem o pensamento.
Além disso, como tinha dito George, ninguém poderia dizerlhe sobre amor e paixão ou o que aconteceria se você se casasse e
a paixão acabasse por desaparecer. Você só poderia descobrir por
si mesmo, ou não descobrir.
Você poderia enfrentar o desafio ou se afastar dele.
Você poderia ser um herói ou um covarde.
Você poderia ser sábio ou um tolo.
Um homem cauteloso ou um imprudente.
Havia alguma resposta a qualquer coisa na vida?
A vida era como caminhar em uma fina e desgastada corda
bamba, sobre um abismo profundo com pedras irregulares e
alguns animais selvagens esperando embaixo. Era tão perigosa e
excitante.
Arrgghh!

O dia estava perfeito para uma festa no jardim. Aquilo foi à
primeira coisa que Hugo percebeu, quando saiu da cama pela
manhã e abriu as janelas de seu quarto. Mas, pela primeira vez,
a luz do sol não lhe trouxe alegria. Talvez nuvens chegassem
mais tarde. Talvez, pela tarde, poderia chover.
Seria muito tarde, porém, para cancelar a festa no jardim.
Provavelmente seria tarde demais, mesmo que já tivesse
começado a chover muito lá fora. Sem dúvida os anfitriões teriam
um plano alternativo. Eles provavelmente tinham um ou dois
salões de baile escondidos em sua mansão, apenas esperando
receber e acomodar a nata da sociedade, bem como a ele e
Constance. E eles estariam todos suntuosamente decorados para
parecerem jardins internos.
Não, não havia como evitar isso. Além disso, Constance
estava muito animada e tinha declarado, na última noite, que ela
duvidava que pudesse dormir. E ele não tinha visto Lady Muir
por três dias. Desde que ela tinha saído da casa de George com os
Portfreys e ele teve que se contentar com um simples roçar de
lábios sobre o dorso de sua mão enluvada.
Muito para um beijo a luz do dia. Mas ele não estava
realmente a cortejando, estava?
A tarde estava tão perfeita como a manhã e Constance,
depois de tudo, devia ter dormido, uma vez que ela se via bonita,
os olhos brilhantes e com vigorosa energia hoje. A coisa toda não
podia ser evitada. A carruagem de Hugo estava na porta cinco
minutos mais cedo, Hilda e seu noivo Paul Crane chegaram no
mesmo momento e acenaram-lhes no caminho. Eles tinham vindo
buscar Fiona para uma caminhada, sua primeira aparição em um
longo tempo.
Constance segurou a mão de Hugo, assim que se
aproximaram de seu destino.

- Eu não estou tão assustada, quanto eu estava indo para o
baile de Ravensberg - disse ela. - Agora que conheço as pessoas,
eles são realmente muito gentis, não são? É claro, ninguém vai
ter olhos para mim, quando estou com você, por isso não vou
estar consciente de todos. Você está apaixonado por Lady Muir?
Ele ergueu as sobrancelhas e limpou a garganta.
- Isso seria tolo, não é?
- Não, tolo seria eu me apaixonar pelo Sr. Hind, Sr. Rigby
ou Sr. Everley, ou qualquer um dos outros - ela disse.
- Você está apaixonada por ele? - Perguntou a ela. - Ou por
qualquer um deles?
- Não, claro que não - disse ela. - Nenhum deles faz
qualquer coisa Hugo. Eles vivem com dinheiro que lhes é dado.
Que é o que eu faço, suponho, mas é diferente para uma mulher,
não é? Espera-se que um homem trabalhe para viver.
- Essa é uma ideia muito de classe média - disse ele
sorrindo para ela.
- Parece mais viril trabalhar - disse ela.
Ele sorriu para si mesmo.
- Oh - ela disse. - Eu não posso esperar para ver os jardins e
como todos estão vestidos. Você gosta do meu chapéu? Eu sei, o
avô diria que é absurdo, mas seus olhos brilham quando diz isso.
E o Sr. Tucker concordaria com ele e balançaria a cabeça daquela
maneira que ele faz, quando ele realmente não quer dizer o que
ele diz.
- É um espetáculo de se ver - disse ele. - Muito esplêndido,
na verdade.
E então eles chegaram.

Os jardins ao redor da mansão Brittling em Richmond eram
cerca de um décimo do tamanho do parque de Crosslands. Eram
cerca de cem vezes menos áridos. Havia gramados aparados,
canteiros de flores exuberantes e árvores que pareciam ter sido
colocadas todas juntas para dar o máximo de efeito pitoresco.
Havia um caramanchão, um laranjal, um coreto, uma casa de
veraneio, uma pista gramada ladeada de árvores tão retas como
soldados, estátuas, fonte, um terraço com três fileiras descendo
da casa com flores em vasos de pedra.
Devia ter parecido desesperadamente confuso. Não devia
ter sido deixado nenhum espaço às pessoas.
Mas parecia magnífico e fez Hugo pensar com insatisfação
em seu próprio parque. E com vontade de estar lá. Teriam todos
os cordeiros sobrevivido? Estavam todas as sementes plantadas?
Teriam crescido ervas daninhas em seu canteiro de flores?
Excepcional, canteiro de flores?
Lady Muir tinha vindo com sua família e chegara lá antes
deles. Ela veio correndo na direção deles, assim que eles
chegaram, as mãos estendidas para Constance.
- Aí está você - disse ela. - Você preferiu colocar o chapéu
rosa ao invés de um de palha. Eu acho que você fez a escolha
certa. Este tem um considerável movimento. Vou apresentá-la às
pessoas que você não tenha conhecido antes, a pedido deles, na
maioria dos casos. Você tem um irmão famoso, você vê, embora
eles vão querer sua companhia por você mesma, depois que a
tiverem conhecido.
Ela olhou para Hugo quando o mencionou e a cor em suas
faces se acentuou.
Ela combinou o céu azul com seu vestido azul e chapéu
amarelo com flores azuis.

- Venha conosco, Lorde Trentham - disse ela, enquanto
tomava Constance pelo braço. - Caso contrário, vai ficar
parecendo como um peixe fora d’água e franzindo o cenho a todos
que desejem apertar sua mão.
- Oh - disse Constance, olhando com surpresa de um para o
outro. - Você não tem medo de falar assim com Hugo?
- Eu o tenho em alto conceito, - Lady Muir disse - depois que
ele carregou aranhas suavemente para fora da casa, quando era
um menino, em vez de esmagá-las sob seus pés.
- Oh. - Constance riu. - Ele ainda faz isso. Ele fez isso
ontem, quando mama gritou enquanto um enorme inseto de
pernas longas corria através do tapete. Ela queria alguém para
pisar nele.
Hugo caminhava com elas, as mãos cruzadas nas costas.
Que ridículo era essa coisa de fama, ele pensou, como as pessoas
de fato se curvavam e tocavam nele e olhavam com reverência
que muitas vezes pareciam deixá-los sem palavras. Para ele,
Hugo Emes. Não havia ninguém mais comum. Não havia
ninguém que fosse mais que ninguém.
E então ele viu Frank Cartairs sentado no caramanchão,
uma manta sobre os joelhos, xícara e pires na mão, sua esposa
olhando descontente ao seu lado. E Cartairs o viu, franziu seus
lábios e olhando claramente à distância.
Cartairs tinha causado algumas noites perturbadoras na
semana passada. Ele tinha sido um tenente valente, sério,
trabalhador e respeitado por ambos, soldados e colegas oficiais.
No entanto, espalhou-se a história de que seu avô tinha jogado
fora toda a fortuna da família e ele tinha ficado pobre como rato
de igreja, além de ser apenas um filho mais novo. Daí sua
necessidade de ganhar sua promoção e vez de comprá-la.

Constance foi logo arrebatada por um grupo de jovens de
ambos os sexos. Eles estavam indo caminhar até o rio, o que
poderia ser alcançado ao longo de um caminho privado, alinhado
com convidativas árvores e flores.
- O rio fica a pelo menos um quarto de milha de distância Lady Muir disse a Hugo. - Eu acho que ficarei aqui. Meu
tornozelo estava um pouco inchado ontem e eu tive que mantê-lo
para cima. Às vezes me esqueço que não sou inteiramente
normal.
- Agora eu sei, - disse Hugo - o que tem em você que me
incomodava. Você é anormal. Tudo está explicado.
Ela riu.
- Eu estou indo me sentar na casa de veraneio - disse ela. “Mas você não deve se sentir obrigado a me fazer companhia.
Ele lhe ofereceu o braço.
Eles sentaram e conversaram por quase uma hora, embora
eles não estivessem sozinhos todo esse tempo. Um grande
número de seus primos ia e vinha. Ralph fez uma breve aparição.
O Duque e a Duquesa de Bewcastle e o Marquês e Marquesa de
Halmere pararam para uma apresentação. A Marquesa era irmã
de Bewcastle e Bewcastle era vizinho de Ravensberg no campo.
Era tudo muito atordoante, tentar descobrir quem era quem na
aristocracia.
- Como você se lembra quem é quem? - Hugo perguntou
quando ele e Lady Muir ficaram sozinhos novamente.
Ela riu.
- Da mesma forma que você se lembra quem é quem em seu
mundo, eu suponho - ela disse. - Eu tive uma vida toda de
prática. Eu estou com fome e sede. Devemos ir até o terraço?

Hugo realmente não queria ir lá, mesmo que a ideia de ter
um pouco de chá fosse tentadora. Carstairs tinha deixado o
caramanchão e estava sentado no segundo terraço, não muito
longe das mesas de comida. No entanto, ficar ali não era uma
opção, como de repente ele percebeu. Grayson, o Visconde Muir,
havia aparecido do nada e estava caminhando na direção deles,
apesar de ter sido parado no momento por uma grande matrona
sob o que parecia ser um chapéu ainda maior.
Hugo se levantou e ofereceu o braço.
- Vou tentar me lembrar de estender o dedo mindinho
quando eu segurar minha xícara de chá.
- Ah - ela disse. - Você é um bom aluno. Estou orgulhosa de
você.
E ela riu para ele, enquanto eles cruzavam o gramado em
direção aos terraços.
- Gwen - uma voz imperiosa chamou quando eles chegaram
ao pé do menor terraço.
Ela se virou, as sobrancelhas levantadas.
- Gwen - disse Grayson novamente. Ele estava de pé a uma
curta distância, mas longe o suficiente para ter que levantar um
pouco a voz e manter suas palavras longe de serem privadas. - Eu
vou ter a honra de caminhar com você ou escoltá-la até seu
irmão. Estou surpreso que ele permita que você deixe esse sujeito
se pendurar em seu braço. Eu certamente não permitiria.
Eles foram cercados, de repente, por uma pequena poça de
silêncio..., uma poça que incluía alguns hóspedes atentos.
Ela tinha empalidecido, Hugo viu.
- Obrigada, Jason, - ela disse com voz firme, mas um pouco
sem fôlego - mas eu escolho minhas próprias companhias.

- Não quando você é um membro da minha família, - disse
ele - mesmo que apenas pelo casamento. Eu tenho que honrar
meu velho primo, seu marido, bem como defender o nome
Grayson que você ainda carrega. Esse sujeito é um covarde e uma
fraude, além de ser da ralé. Ele é uma vergonha para os militares
britânicos.
Hugo soltou o braço dela e apertou as mãos às costas. Ele
afastou os pés, se manteve ereto e em silêncio, enquanto olhava
diretamente para seu adversário, muito consciente de que a poça
de silêncio em torno deles havia se tornado mais do tamanho de
um lago.
- Oh, eu disse - alguém comentou e foi imediatamente
silenciado.
- Que absurdo você fala - disse Lady Muir. - Como você se
atreve, Jason? Como você ousa?
- Pergunte a ele como ele sobreviveu ao Forlorn Hope sem
um arranhão, - Grayson disse - quando quase trezentos homens
morreram e poucos os que não foram gravemente feridos.
Pergunte a ele. Não que ele vá responder com sinceridade. Essa é
a verdade. Capitão Emes liderou por trás, bem atrás. Ele enviou
seus homens a caminho da morte e seguindo apenas depois que
eles abriram uma brecha que permitiu o resto das forças
atravessar o outro lado. E então ele correu e reivindicou a vitória.
Não havia sobrado muitos homens para contradizê-lo.
Houve suspiros de quebrar o silêncio.
- Que vergonha! - Disse alguém antes de ser silenciado. Mas
não estava claro se ele se dirigiu a Grayson ou a Hugo.
Hugo podia sentir todos os olhos sobre ele, mesmo sem
olhar a lugar nenhum, mas mantinha os seus em Grayson.
- É a sua palavra contra a minha, Grayson - ele disse. - Eu
não pretendo brigar com você.

Pelo canto do olho, ele pode ver Constance. Dane-se tudo,
ela estava de volta do rio e já estava entre o círculo de ouvintes.
Ele virou-se para Lady Muir e inclinou a cabeça
rigidamente.
- Eu peço licença, minha senhora, - disse ele – mas levarei
minha irmã para casa.
E então uma voz fraca, e um pouco débil, mas perfeitamente
audível falou atrás dele.
- Há um sobrevivente aqui para contradizer você, Muir disse Frank Cartairs. - Eu não tenho nenhuma razão para gostar
de Emes. Ele tomou o comando que deveria ter sido meu naquele
dia. E, em seguida, sua bravura mostrou a minha covardia e tem
roubado minha consciência a cada momento e a cada dia desde
então. Eu queria abortar o ataque quando os homens começaram
a morrer em grande número, mas ele nos obrigou a seguir. Não,
melhor, ele seguiu a frente, sem olhar para trás para ver se o
seguíamos. E ele estava certo. Em um arranque inteiro, nós
estávamos em Forlon Hope. Nos voluntariamos para a morte.
Fomos à bucha de canhão que permitiria o verdadeiro ataque
romper atrás de nós. Capitão Emes liderou a frente e ele ganhou
todos os elogios desde então.
Hugo não se virou. Nem se moveu. Sentia-se preso no meio
do pior momento de sua vida, certamente ainda pior que no dia
que ele saíra de sua cabeça. Embora não, talvez não pior que isso.
Nada poderia ser pior do que isso.
- Meu Deus - disse uma voz lânguida. - Eu estou indo para
meu chá. Lady Muir, Trentham, se juntem a mim e Cristine em
nossa mesa. Tem a vantagem de estar na sombra.
Era um homem que tinha acabado de conhecer, Hugo viu
quando finalmente olhou para longe de Grayson. Ele tinha um ar
aristocrático, os olhos pratas e o monóculo, que estavam focados

agora sobre a figura, de repente, acuada de Grayson. O Duque de
Bewcastle.
- Obrigada - Lady Muir pegou o braço de Hugo. - Teremos o
maior prazer, Sua Graça. E a sombra será realmente bem-vinda.
O sol torna-se desconfortavelmente quente quando se está fora
por um tempo, não é?
E, de repente, todo mundo estava andando novamente,
conversando e rindo de novo, como se nada de desagradável
tivesse acontecido. Carstairs não estava olhando em sua direção,
Hugo viu quando olhou diretamente para ele, mas ele estava
falando bastante enfaticamente com sua esposa. Era à maneira
da alta sociedade, Hugo logo percebeu.
Mas, sem dúvida, trocariam cumprimentos educados nas
salas de estar e clubes em Londres nos dias que viriam.

Capítulo 19
- Eu decidi, - Lorde Trentham disse – que eu não vou
cortejá-la.
Gwen pegou seu bordado, sem realmente perceber o que
estava fazendo, e começou a bordar.
Ela estava prestes a perguntar: Tem certeza desta vez? Mas
não havia nada em seu rosto que sugeria que ele pudesse estar
convidando-a para uma disputa verbal.
Ele tinha chegado quando ela estava prestes a sair com Lily
e sua mãe. Elas iriam fazer uma rodada de visitas com
Lauren. Neville estava na Câmara dos Lordes.
- Muito bem - disse ela.
Ele estava de pé no meio da sala de estar, em sua postura
militar de costume, embora o tivesse convidado a sentar. Ele
estava carrancudo. Ela sabia que estava. Não tinha que levantar
a cabeça para confirmar o fato.
- Se você tiver a gentileza de escoltar Constance para os
entretenimentos restantes nos quais ela concordou em participar,
- disse ele - eu ficaria muito grato a você. Mas não importa se não
puder fazê-lo. Ela começou a entender que o mundo da alta
sociedade não é necessariamente a terra prometida.
- Eu certamente vou fazer isso - disse ela. - E ela pode
aceitar mais convites também, se desejar. Eu terei prazer em
continuar a apadrinhá-la. Não há nenhum lugar como a terra
prometida, mas seria tolo rejeitar até mesmo uma terra não
prometida sem primeiro inspecioná-la completamente. Ela tem se
dado bem com a sociedade e pode-se esperar que ela combine
perfeitamente com um cavalheiro respeitável de sua escolha, se
ela assim o desejar.

Ele ficou lá olhando para ela, e ela desejava não ter pego
seu bordado. Ela teve de se concentrar firmemente para manter a
mão firme. E seu fio de seda verde, ela percebeu, estava
preenchendo a ampla pétala de uma rosa, em vez da folha no seu
caule. As outras pétalas eram de um rosa profundo.
Ela decidiu que não seria a única a quebrar o silêncio.
- Eu ouso dizer, - disse ele – que a sua família teve uma ou
duas coisas a dizer sobre você se permitir a ser apanhada nessa
cena indecente ontem.
- Deixe-me ver. - Ela segurou o fio acima de seu trabalho
por um momento. - Meu irmão era a favor de bater uma luva no
rosto de Jason, chamá-lo para fora e tratar do fato dele ter me
insultado publicamente - e a ele mesmo. Mas Lily o convenceu de
que seria um castigo muito pior para um homem como Jason, ser
tranquilamente ignorado. Meu primo Joseph também queria
chamá-lo para fora, mas Neville disse que ele deveria ficar na
fila. Lily sugeriu que adicionássemos a Sra. Carstairs à nossa
lista de senhoras a serem visitadas esta tarde, já que seu marido
fez algo extraordinário ontem e a senhora sempre parece tão
desesperadamente só, de qualquer maneira. Mamãe disse que ela
nunca ficara mais orgulhosa de mim do que quando eu disse a
Jason que eu escolhia minhas próprias companhias, e quando eu
tomei seu braço e o duque de Bewcastle nos convidou a participar
de sua mesa, junto à duquesa, para o chá. Ela acrescentou que,
tanto quanto ela podia ver, eu escolhia minhas companhias muito
bem e sabiamente. Lauren me disse que, depois de assistir você
tomar essa agressão verbal com tal dignidade estoica, ela
suspeitava que toda mulher solteira dentro da faixa de audição e
algumas casadas também, cairiam de amores sobre
você. Elizabeth, minha tia, pensa que deve ter sido muito
doloroso para mim, ver o Visconde Muir, o homem que sucedeu ao
título do meu marido, se comportar tão mal em público. Ao
mesmo tempo, ela pensa que eu deva estar orgulhosa de como
meu companheiro escolhido, conduziu-se com tal dignidade e

contenção. Ela o considera um verdadeiro herói britânico. O
duque, seu marido, acredita que, em vez de manchar a sua
reputação, as mentiras cruéis de Jason e sua exposição pelo Sr.
Carstairs, realmente a melhoraram. Devo continuar?
Ela atacou seu bordado com vigor renovado.
- Seu nome vai estar na boca de toda a Londres hoje - disse
ele. - Vai ser acoplado ao meu. Sinto muito por isso. Mas não vai
acontecer novamente. Vou ficar na cidade por mais algum tempo
por causa de Constance, mas vou permanecer no meu próprio
ambiente, entre os da minha classe. Fofoca da sociedade, já ouvi
falar, logo morre sufocada quando não há nada novo para
alimentá-la.
- Sim, - ela disse - você está muito certo sobre isso.
- Sua mãe vai ficar aliviada - disse ele - apesar do que ela
disse para você ontem. O mesmo acontecerá com o resto de sua
família.
Ela tinha acabado de bordar a verde pétala da rosa. Não
iria continuar. Seria mais fácil desfazer mais tarde, se não o
fizesse. Enfiou a agulha através do tecido de linho e o colocou de
lado.
- Suponho que em algum lugar no mundo, - disse ela - haja
alguém com tão grande senso de inferioridade como você possui,
Lorde Trentham, embora, certamente, deve ser impossível que
haja alguém com um sentido maior.
- Eu não me sinto inferior - disse ele. - Só diferente e
realista sobre isso.
- Bobagem - disse ela, deselegantemente.
Ela olhou para ele. Ele fez uma careta de volta.

- Se você realmente me quisesse, Hugo, - disse ela - se você
realmente me amasse, você lutaria por mim mesmo que eu fosse
a rainha da Inglaterra.
Ele olhou para ela. Sua linha da mandíbula era de granito
de novo, seus lábios uma marcada linha fina, seus olhos escuros e
ferozes. Ela se perguntou, por um momento, como ela podia amálo.
- Isso seria idiota - disse ele.
Idiota. Uma de suas palavras favoritas.
- Sim - disse ela. - É idiota acreditar que você poderia me
querer. É idiota imaginar que você poderia me amar.
Ele se parecia com nada mais do que uma estátua de
mármore.
- Vá embora, Hugo - disse ela. - Vá e nunca mais
volte. Nunca mais quero vê-lo novamente. Vá.
Ele foi - até a porta. E ficou com a mão na maçaneta, de
costas para ela.
Ela olhou para suas costas, impulsionada pelo ódio e
determinação. Mas ele deve ir em breve. Ele deve ir agora.
Por favor, deixe-o ir agora.
Ele não iria.
Ele baixou a mão da maçaneta e virou-se para encará-la.
- Deixe-me mostrar o que eu quero dizer - disse ele.
Ela olhou para ele, sem compreender. Em suas mãos
estavam todos os alfinetes e agulhas, percebeu. Ela devia tê-los
apertado firmemente.

- Tem sido uma via de mão única - disse ele. – Desde o
início. Em Penderris você estava em seu próprio mundo, mesmo
se você se sentir estranha ao chegar lá sem ser convidada. Em
Newbury Abbey você estava em seu próprio mundo e entre a sua
própria família, nem um único dos quais, eu notei, deixava de
ostentar um título. Aqui você está bem no centro do seu mundo em casa, no circuito da moda no Hyde Park, no baile em Redfield
House, no jardim da festa de ontem. Em cada uma dessas vezes,
esperava-se que eu entrasse em um mundo que não é meu e me
provasse digno de estar lá para que eu possa aspirar à sua
mão. Eu tenho feito isso - repetidamente. E você me critica por eu
não me sentir em casa.
- Por se sentir inferior - disse ela.
- Por me sentir diferente - ele insistiu. – Tudo isso não
parece um pouco injusto?
- Injusto? - Ela suspirou. Talvez ele estivesse certo. Ela só
queria que ele se fosse. Ele iria, eventualmente, de qualquer
maneira. Ele poderia muito bem ir agora. Seu coração não ficaria
menos quebrado em uma semana ou um mês.
- Venha ao meu mundo - disse ele.
- Estive em sua casa e me encontrei com sua irmã e sua
madrasta - ela lembrou.
Ele olhou fixamente para ela, sem qualquer relaxamento de
sua expressão.
- Venha ao meu mundo - disse ele novamente.
- Como? - Ela franziu a testa para ele.
- Se você me quer, Gwendoline, - disse ele - se você imaginar
que me ama e acha que pode passar sua vida comigo, venha ao
meu mundo. Você vai descobrir que querer, mesmo amando, não
é suficiente.

Seus olhos vacilaram e ela olhou para suas mãos. Ela
esticou os dedos em um esforço de se livrar dos alfinetes e
agulhas. Era verdade. Ele tinha sido o único a fazer de tudo para
se adaptar. E ele o fizera bem. Exceto que ele se sentia
desconfortável, inseguro de si mesmo e infeliz em um mundo que
não era o seu.
Ela não iria perguntar “como” de novo. Ela não sabia
como. Provavelmente, ele também não.
- Muito bem. - disse ela, olhando para cima novamente,
olhando para ele desafiante, quase com desagrado. Ela não
queria que seu mundo confortável ruísse, mais do que já tinha
sido, por conhecê-lo e amá-lo.
Seus olhos continuaram a batalha por alguns momentos,
em silêncio. Então ele se inclinou abruptamente para ela, e sua
mão descansou na maçaneta da porta novamente.
- Você terá notícias minhas - disse ele.
E se foi.

Quando Gwen e Lily passeavam na Bond Street, esta
manhã, encontraram Lorde Merlock e ficaram conversando com
ele por um tempo, antes que ele se oferecesse para levá-las a uma
casa de chá nas proximidades para se refrescarem. Lily fora
incapaz de aceitar. Ela havia prometido a seus filhos que estaria
em casa a tempo para um almoço antecipado, antes que todos
eles fossem para a Torre de Londres com Neville. Mas Gwen
aceitara. Ela também havia aceitado um convite para partilhar a
seu camarote no teatro esta noite com seus outros quatro
convidados.
Ela iria. E iria fazer o seu melhor para se apaixonar por ele.

Oh, era absolutamente absurdo. Como se alguém pudesse se
apaixonar por vontade. E como seria injusto com Lorde Merlock
se ela flertasse com ele como uma espécie de bálsamo para seu
próprio desgosto, sem qualquer consideração para com seus
sentimentos. Ela iria como sua convidada, sorriria e seria
amável. Só isso, nada mais.
Como desejava, desejava, desejava não ter feito aquela
caminhada ao longo da praia de pedrinhas depois de brigar com
Vera. E como desejava que, tendo feito isso, tivesse escolhido
voltar pela mesma rota. Ou que tivesse subido a ladeira com
maior cuidado. Ou que Hugo não tivesse escolhido aquela manhã
para descer à praia sozinho e, em seguida, sentar-se na borda do
penhasco, apenas esperando que ela subisse e torcesse o
tornozelo.
Mas esses desejos eram tão inúteis como desejar que o sol
não tivesse despontado esta manhã, ou que ela não tivesse
nascido.
Na verdade, ela odiaria não ter nascido.
Oh, Hugo, ela pensou quando pegou seu bordado de novo e
olhou em desespero à encantadora pétala verde de seda de sua
rosa.
Oh, Hugo.
Gwen não vira nem ouvira falar de Hugo por uma
semana. Parecia um ano, embora ela enchesse todos os momentos
de cada dia com atividades movimentadas e risse com suas
brilhantes companhias, mais do que tinha feito em anos.
Ela adquirira um novo flerte - Lorde Ruffles, que fora um
libertino desde a juventude até o início da meia-idade, e tinha
chegado a uma fase da vida perigosamente perto de velhice antes
de decidir que era hora de se tornar respeitável e cortejar a dama
mais bela da face da terra. Essa foi à história que ele contou a

Gwen, de qualquer maneira, quando dançou com ela no baile
Rosthorn. E quando ela riu e disse a ele que era melhor que não
perdesse mais tempo, então, em procurar a dama, ele colocou
uma mão ligeiramente artrítica sobre o coração, olhou
comoventemente em seus olhos, e informou-a de que já havia
feito. Ele era seu devotado escravo.
Ele era espirituoso, divertido e ainda tinha traços de sua
boa aparência jovem, e não tinha mais interesse em se
estabelecer, Gwen supunha, do que ele tinha em voar para a
lua. Ela permitiu que ele flertasse escandalosamente com ela
onde quer que se encontrassem durante essa semana, e ela
flertara de volta, sabendo que não seria levada a sério. Ela se
divertiu muito.
Ela levara Constance Emes com ela a quase todos os
lugares em que estivera. Gostava realmente da menina, e foi
refrescante vê-la desfrutar dos eventos da temporada com tal
prazer inocente. Ela adquirido uma corte considerável de
admiradores, aos quais tratava com cortesia e gentileza. No
entanto, ela surpreendeu Gwen um dia.
- O Sr. Rigby me visitou esta manhã - disse ela, no baile
Rosthorn. - Ele veio se oferecer para mim.
- E? - Gwen olhou para ela com interesse e abanou o rosto
contra o calor do salão de baile.
- Oh, o recusei - disse Constance, como se fosse uma
conclusão precipitada. - Espero que não o tenha magoado. Eu não
acredito que tenha, embora ele tenha ficado compreensivelmente
desapontado.
Ela dissera aquilo, sem qualquer presunção.
- Eu acredito, - a garota acrescentou – que seus bolsos vão
agradecer, pobre cavalheiro.

- Ele teria sido um muito bom par para você, no entanto disse Gwen. - Seu avô, pelo lado de sua mãe, era um visconde. Ele
é bonito e gentil. Ele teria lhe tratado bem, eu acredito. Mas, se
você não sentir qualquer profunda afeição por ele, então
nenhuma dessas coisas importa e eu posso ser a única a felicitála por ter tido a coragem de recusar a sua primeira oferta.
- Se ele não tem dinheiro, - Constance disse - pode ter
algum parente que compre uma comissão no exército para ele, ou
pode se tornar um clérigo. Ambas são consideradas carreiras
irrepreensíveis nas classes mais altas. Ele pode ser mordomo ou
secretário de alguém, se apenas reduzir um pouco de seu orgulho.
Casar com uma mulher rica não é a sua única opção.
- E isso é o que ele estava tentando fazer com você? Perguntou Gwen. – Ele admitiu isso?
- Ele fez quando eu o pressionei - disse Constance. - E ele
estava quase envergonhado em tudo. Assegurou-me que
tínhamos ativos iguais para trazer a um casamento, dinheiro da
minha parte e linhagem social da parte dele. E me garantiu, creio
que sinceramente, que tinha afeição por mim.
- Mas você não estava convencida de que era uma troca
igual? - Perguntou Gwen.
A menina franziu a testa e abriu seu próprio leque.
- Oh, eu suponho que era - ela admitiu. - Mas o que ele iria
fazer para o resto de sua vida, Lady Muir? Ele teria todo o meu
dinheiro para ser ocioso, mas ... por quê? Por que qualquer
homem escolher ser ocioso?
Gwen riu.
- O Sr. Grattin está chegando para reclamar sua dança com
você - disse ela.

A menina abriu um grande sorriso ao seu parceiro que se
aproximava.
Ela não tinha mencionado Hugo. Ela não o mencionara por
toda a semana, e Gwen não perguntou.
Você terá notícias minhas, ele dissera na última vez em que
o tinha visto. E ela esperava ouvi-las no dia seguinte, ou no
próximo.
Mas que estúpida.
E então ela ouviu. Ele enviou uma carta, que estava ao lado
de seu prato no café da manhã, junto a um pacote de convites.
- Os avós de Constance estarão celebrando o quadragésimo
aniversário de seu casamento daqui a duas semanas - escreveu
ele. - São os pais da minha madrasta, os donos de uma
mercearia. Um primo, do lado de meu pai, e sua esposa, estarão
comemorando seu vigésimo, alguns dias mais tarde. Ambos os
lados da família concordaram em passar cinco dias comigo em
Crosslands Park, em Hampshire, a fim de celebrar as
ocasiões. Se você não se importar de se juntar a nós, você pode
viajar no carro com minha madrasta e irmã.
Não havia saudação de abertura, nenhuma mensagem
pessoal, não havia datas específicas, e nenhuma dedicatória na
qual se declarava seu devoto servo ou qualquer tipo de
cortesia. Apenas a sua assinatura, corajosamente rabiscada, mas
sem qualquer afetação. Era perfeitamente legível.
"Trentham."
Gwen sorriu tristemente para a folha de papel.
Venha ao meu mundo.
- É uma piada que você é capaz de compartilhar, Gwen? Perguntou Neville de seu lugar na cabeceira da mesa.

- Recebi um convite para uma festa de cinco dias no campo,
no meio da temporada – ela disse.
- Oh, que adorável - disse Lily. – De quem?
- De Lorde Trentham - disse ela. - É em comemoração a dois
aniversários de casamento, um do lado da família do pai e outro
da sua madrasta de. Ambas as famílias serão lá, em Crosslands
Park, que fica em Hampshire. Me pergunta se eu me importo de
ir.
Todos olharam para ela, um inquérito silencioso por alguns
momentos, enquanto dobrava a nota cuidadosamente e devolvia-a
ao lado do prato.
- Ele deseja apresentá-la à sua família - disse Lily. - Isso é
significativo, Gwen. Ele é sério sobre você.
- Mas é um pouco estranho - disse a mãe de Gwen - que ele
tenha convidado somente Gwen. Ele está prestes a renovar seu
pedido, Gwen?
- Pelo contrário - disse ela. - Quando veio aqui na semana
passada, foi para me informar que ele tinha decidido não me
cortejar. Ele foi terrivelmente envergonhado por essa cena no
jardim da festa Brittling, você sabe, e temia que tivesse me
envergonhado demais.
- No entanto, ele convidou-a para uma festa no campo? Disse a mãe. - E você deve ser a única convidada que não é um
membro da família dele ou da irmã? E por que ele veio aqui para
dizer-lhe que ele não cortejaria você?
- Eu o convidei a me cortejar, - disse Gwen com um suspiro quando ele esteve em Newbury Abbey.
- Não! - Exclamou Lily. - Eu tenho estado certa o tempo
todo. Admita-o, Neville. Gwen e Lorde Trentham estão
apaixonados um pelo outro.

- Quem são as pessoas da família da Sra. Emes? Perguntou
a mãe de Gwen.
- Eles são pequenos comerciantes - disse Gwen com um
sorriso triste. – A família dele é de bem-sucedidos
empresários. Assim como ele. Ele também é um fazendeiro em
pequena escala. Sua cabeça, creio eu, está com suas empresas,
mas seu coração está firme com seus cordeiros, galinhas e gado. E
com suas culturas e seu jardim.
- E assim, - disse Neville - tendo cortejado você na primeira
parte da temporada, agora Trentham a está convidando a cortejálo na segunda parte, não é Gwen? Faz algum sentido. Você deve
saber o que irá enfrentar ao se casar com ele.
- Não se trata de me casar com ele - disse ela.
- Não? – Disse ele. - Então você vai recusar o convite? Por
que submeter-se à companhia de lojistas e empresários, afinal de
contas, se não existe nenhum sério propósito para isso?
- Gwen não deve ser empurrada, Neville - sua mãe
surpreendeu ao dizer. - Claramente ela tem ternos sentimentos
por Lorde Trentham, como ele tem por ela. Mas a união deles não
seria fácil ou comum - para qualquer um deles. Ele se saiu bem
nos encontros da sociedade, especialmente durante esse episódio
sórdido no jardim da festa, no qual ele não teve nenhuma
culpa. Mas ele nunca pareceu bastante confortável, apesar de
toda sua fama bem merecida. Gwen ainda não sabe o quão
confortável ela estaria em um encontro de sua classe,
especialmente um que está destinado a durar cinco dias. Como
ele foi inteligente em pensar nisso. Apenas os mais românticos
seriam tolos o suficiente para acreditar que um casamento não
diz respeito a ninguém, exceto às duas pessoas envolvidas. Tratase de algo muito além disso, não menos que suas famílias e a
sociedade com a qual eles estão acostumados a se misturar.

- Tem toda a razão, Mãe - disse Lily, olhando ao longo da
mesa para Neville. - Mas, mesmo assim, são as duas pessoas em
questão que mais importam. Não me atrevo a pensar o que
minha vida seria agora se Neville não tivesse lutado por mim
quando eu acreditava que um casamento viável entre nós era
uma impossibilidade.
- Não se trata de casamento entre mim e Lorde Trentham disse Gwen novamente.
O que era uma coisa ridícula de dizer, é claro. Por que mais
ele a tinha convidado?
Se você me quer, Gwendoline, se você imaginar que me ama
e acha que pode passar sua vida comigo, venha ao meu
mundo. Você vai descobrir que querer, mesmo amando, não é o
suficiente.
E por que ela estava pensando em aceitar? Não, ela deveria
ser honesta consigo mesma. Por que ela aceitaria? Porque ela o
queria? Porque ela imaginava que o amava? Porque ela queria
passar o resto de sua vida com ele? Porque ela estava
determinada a provar que ele estava errado?
Ela não imaginava que o amava.
- Então não vá - disse Neville.
- Oh, eu vou - disse ela.
Neville balançou a cabeça e deu um meio sorriso. Lily
apertou suas mãos sobre o peito e seus olhos brilharam com
prazer. A mãe de Gwen estendeu a mão e acariciou a mão dela,
sem nenhum comentário adicional.
- Eu vou levar Sylvie e Leo para o parque esta manhã,
enquanto Neville está na Câmara - disse Lily. - Vem conosco? Eu
posso levar o bebê também, se você for. Você pode fazê-los correr

atrás das bolas. Parece que eles nunca vão aprender a pegá-las. Ela riu.
- Claro que eu vou - disse Gwen, ficando de pé. - Talvez eles
não possam pegar, coitadinhos, porque sua mãe não pode
atirar. Tia Gwen vai salvá-los.

Durante três anos, Hugo tinha guardado zelosamente sua
vida privada no campo, pela primeira vez em seu chalé e, em
seguida, em Crosslands. Era seu próprio domínio, seu refúgio do
mundo tumultuado. Ele nunca tinha convidado ninguém a ficar,
nem mesmo seus colegas do Clube dos Sobreviventes, e apenas
raramente tinha convidado vizinhos para jantar e jogar cartas.
Mas as coisas tinham mudado.
Na verdade, tudo tinha mudado.
Venha ao meu mundo, ele tinha dito à Gwendoline. E, de
repente, lhe doía à necessidade de dar a ela a chance de fazer
exatamente isso, e não por uma mera tarde de chá e conversa ou
uma noite de chá e cartas, mas para ... bem, para um período
suficiente para que ela soubesse qual era a sensação de estar fora
de seu próprio domínio confortável.
Você vai descobrir que querer, mesmo amando, não é o
suficiente.
E ele sentiu uma expectativa desesperada, uma necessidade
de provar que estava errado.
Ele poderia e iria misturar-se com o mundo dela sempre que
fosse necessário fazê-lo, desde que pudesse manter as rédeas de
suas empresas em suas próprias mãos e retirar-se para o campo
por vários meses a cada ano. Mas ela poderia misturar-se com o
seu mundo? Mais importante, ela iria? Ou, como Fiona, ela iria
ignorá-los se eles se casassem, fingiria que eles não existiam?

Ele não seria capaz de suportar isso.
Sua família era importante para ele, apesar do fato de que
ele a tinha negligenciado por anos. Ele os tinha redescoberto
recentemente e ele iria deixá-los novamente. Ou se casar com
uma mulher que o faria ignorá-los. E tinha descoberto a família
de Fiona e gostado deles, mesmo que não fossem relacionados
com ele. De qualquer forma, eles eram a família de Constance.
Ele sabia sobre os próximos aniversários há algum tempo. E
tinha brincado com a ideia de convidar ambas as famílias para
Crosslands por um curto período de tempo durante o verão. Não
poderia ser mais que isso. Eram pessoas que trabalhavam e não
podiam se dar ao luxo de tirar férias longas.
Mas por que não convidar a todos à Crosslands para os
aniversários? Por que esperar até o verão?
A possibilidade surgiu em sua mente durante a semana
após sua última visita a Gwendoline. Quando ele tinha dito que
ela teria notícias suas, não sabia quais seriam. E quando a tinha
convidado para vir ao seu mundo, não sabia muito bem como
poderia ser feito.
Mas então ele soube.
E tudo tinha funcionado maravilhosamente bem. Apesar do
curto prazo, todos foram capazes de fazer arranjos para estar
longe do trabalho por uma semana. E todos estavam animados
com a perspectiva de ver sua grande propriedade rural e estarem
juntos lá, celebrando esses dois grandes eventos.
A única coisa que restava para ser vista, era se Gwendoline
seria capaz de deixar Londres no meio de todas as atividades da
temporada. E se ela desejaria. E se ela iria.
Não importava, de qualquer maneira, ele disse a si
mesmo. Ele queria ir para o bem de sua família. Já era tempo de

abrir toda a sua vida a eles. E Crosslands, com tudo o que ele
tinha lá, era uma grande e significativa parte de sua vida.
Se Gwendoline não pudesse ir ou não quisesse, então, seria
o fim de tudo. Não tentaria vê-la novamente. Iria juntar os
pedaços de seu coração e seguir em frente com sua vida.
Se ela fosse, por outro lado ...
Mas não podia, não iria pensar além disso. Tinha dito a ela
que querer, mesmo amando, não seria o suficiente para eles. Ele
não tinha certeza se acreditava nisso. Mas não acreditava nisso
também.
E então recebera uma breve nota dela, aceitando o convite.
Sua casa, lembrou-se então, era como um celeiro. Apesar de
ter sido totalmente mobiliada, ele tinha sempre utilizado apenas
três cômodos dela. Os outros foram fechadas permanentemente e
coberto de camadas de poeira. Seus servos poderiam facilmente
gerenciar esses três cômodos e atender às suas necessidades
quando ele estava lá, mas eles seriam completamente esmagados
por uma festa na casa. Seus estábulos e cocheira foram bem
gerido por um preparador e seu jovem ajudante. Eles iriam
precisar de mais ajuda, porém, quando todo um desfile de
carruagens e seus respectivos cavalos baixassem sobre
Crosslands. Seu parque era estéril, seu jardim de flores, desnudo.
Havia roupa de cama suficiente? Houve suficientes toalhas?
Suficientes pratos e talheres?
De onde viria toda a comida extra? E quem iria cozinhar
para todos?
Mas Hugo não era filho de seu pai por nada. Anunciou que
procurava um mordomo e escolheu com cuidado entre os sete
candidatos. Depois disso, tudo foi tirado de suas mãos e ele teve
que compreender que qualquer interferência de sua parte não era

necessária nem bem-vinda. Seu novo mordomo era um homem
que seguiria sua vontade.
Mesmo assim, foi para o campo vários dias antes da data
que seus convidados deveriam chegar. Queria ver como sua casa
parecia sem as camadas de poeira. Queria ver o que os
jardineiros, que o mordomo havia contratado, tinham feito com o
parque em um prazo tão curto. Queria ter certeza de que o quarto
de hóspedes com a melhor vista havia sido designado para
Gwendoline.
Tudo parecia bastante respeitável. Estava aliviado e
impressionado com o que encontrara. O mordomo tinha se
transformado em um eficiente tirano, que exigia trabalho duro e
perfeição de todos, e tinha ambos - bem como total devoção,
mesmo dos membros da equipe que estiveram com Hugo por mais
de um ano e poderiam ter se ressentido com o recém-chegado.
O dia em que todos chegaram foi bom embora não
ensolarado. E todos fizeram boa viagem. Mas isso era de se
esperar de pessoas que madrugavam todos os dias para trabalhar
em vez de dormir até o meio-dia pelos excessos da noite anterior.
Hugo cumprimentou a todos conforme chegaram e os
entregou aos cuidados de sua governanta.
E, finalmente, viu seu próprio carro se aproximando da casa
e sentiu um incômodo vazio em seu estômago. E se ela tivesse
decidido não vir, depois de tudo? E se não tivesse gostado da
companhia de Fiona, Constance e Philip Germane, seu tio por
parte de mãe, e insistisse em voltar para a cidade, sem mais
delongas?
Não, ela não faria isso. Ela tinha os modos de uma dama
perfeita.
A carruagem se deteve diante da casa, ele abriu a porta e se
aproximou. Fiona veio primeiro, parecendo muito menos pálida

do
que
Hugo
esperava. Na
verdade,
ela
parecia
consideravelmente mais jovem do que aparentava quando ele
chegara pela primeira vez a Londres.
Então veio Gwendoline, vestida em vários tons de azul,
parecendo tão fresca como se ela tivesse acabado de sair de seu
toucador. Ela olhou em seus olhos enquanto colocava a mão
enluvada na sua.
- Lorde Trentham - disse ela.
- Lady Muir.
Ela desceu os degraus. Ele sempre se esquecia de que ela
mancava quando não estava com ela. Ela não sorriu. Nem o olhou
furiosa.
E, em seguida, Constance estava fora do carro, ajudada por
seu tio, e exigia saber se todos tinham chegado e onde estavam.
- Vamos todos nos reunir na sala de estar para o chá em
meia hora ou menos - disse Hugo. - Fiona e Connie, a governanta
vai mostrar seus quartos. O seu também, Philip.
Ele apertou a mão de seu tio calorosamente.
E então ele se virou para Gwendoline e estendeu um braço
para ela.
- Permita-me mostrar-lhe o seu quarto - disse ele.
- Mereço um tratamento especial? - Ela levantou as
sobrancelhas quando tomou seu braço.
- Sim - disse ele.
Seu coração batia em seu peito como um tambor.

Capítulo 20
Gwen não sabia o que esperar de Crosslands Park. Deveria
ser grande, porém, ela concluiu, se era para abrigar um número
considerável de membros da sua família por quase uma semana,
além dela.
Era grande, mesmo que não o bastante na escala de
Newbury Abbey ou Penderris Hall. A casa quadrada de pedra
cinzenta era do estilo georgiano. Não era muito velha. O parque
circundante era muito quadrado e deveria abranger vários
acres. Era possível que a casa estivesse no centro dela. A calçada
que atravessava o parque até a casa era tão reta como uma
flecha. Havia árvores, algumas em bosques ou florestas. E havia
gramados, que tinham sido recém-cortados. Havia estábulos e
uma cocheira em um lado da casa principal e uma grande praça
de terra nua do outro lado.
Havia algo potencialmente magnífico sobre o lugar, ainda
que tudo parecesse curiosamente ... estéril. Ou subdesenvolvido
era talvez uma palavra melhor.
Enquanto os outros ocupantes da carruagem contemplavam
seus aposentos e Constance fazia alguns comentários animados,
Gwen se perguntava sobre os proprietários originais. Se tinham
falta de imaginação ou ... o quê? Ela sabia, porém, por que a
propriedade tinha atraído Hugo. Era grande e sólida, sem
nenhuma bobagem, assim como ele.
Ela sorriu com o pensamento e juntou as mãos um pouco
mais firmemente em seu colo.
Este foi o seu exame - o exame de seus olhos e de seu
íntimo.
Venha ao meu mundo.

Ela não sabia como iria funcionar. Mas ela tinha apreciado
a viagem de carruagem. Constance, que surpreendentemente
nunca deixara Londres antes, era exuberante em sua apreciação
do campo, de cada pousada e pedágio em que eles haviam
parado. Sua mãe era tranquila, mas razoavelmente alegre. Mr.
Germane tinha uma conversa interessante. Ele trabalhara para
uma empresa de chá e tinha viajado extensivamente no Extremo
Oriente. Ele era tio de Hugo, porém, não parecia ser muito mais
velho.
Como seria passar vários dias aqui? Quão diferente seria de
seu próprio mundo e rodeada por sua própria gente? Quão bem
eles a receberiam? Será que ela seria vista como uma
estranha? Será que ela se ressentiria? Será que ela se sente como
uma estranha?
Lily sentara-se com ela na noite antes de sair. Ela contou a
Gwen da luta que tinha atravessado para transformar-se da filha
selvagem de um sargento, errante analfabeta de uma infantaria,
vagando pelo mundo no trem de um exército em guerra, para
uma dama inglesa, sob a supervisão de Elizabeth, que ainda era
solteira na época.
- Havia apenas uma maneira de torná-lo possível, - ela disse
em um ponto. - Eu tive que querer fazê-lo. Não porque eu
precisasse provar algo a todos. Não porque eu sentisse que devia
algo à Elizabeth, embora eu devesse. Não para ganhar Neville de
volta - Eu nem sequer queria fazer isso depois que descobri que
não estávamos casados legalmente depois de tudo. Ele era de um
mundo alienígena, e eu não queria nada disso. Não, só foi
possível, Gwen, porque eu queria isso para mim. Todo o resto
fluiu daí. As pessoas, especialmente algumas pessoas religiosas,
querem nos fazer acreditar que é errado, mesmo um pecado,
amar a si mesmo. Não é. Isto é o amor básico, essencial. Se você
não amar a si mesma, não pode amar mais ninguém. Não plena e
verdadeiramente.

Gwen sabia da transformação de Lily, é claro, e de seu novo
e definitivo casamento com Neville. Ela não sabia os detalhes
internos das lutas de Lily. Tinha a escutado, encantada. E
percebera por que Lily havia escolhido aquela noite especial para
compartilhar sua história. Ela tinha dito a Gwen que, claro, era
possível se ajustar a um mundo diferente do qual se tinha
conhecido a vida toda, mas que havia uma única razão que
poderia fazer a mudança valer a pena.
Ela tinha que querer. Para ela mesma.
No entanto, a mudança, no caso dela, certamente não seria
tão grande. Hugo era rico. Ele era dono de tudo isto. Ele era
titulado.
Esta era apenas uma festa, ela dissera a si mesma conforme
a carruagem parava nas etapas antes de chegar a casa. Mas ela
estava nervosa. Que estranho. Ela era sempre confiante e cheia
de antecipação prazerosa ao chegar a uma festa. Ela adorava
festas.
Hugo estava no pé da escadaria. Mestre de seu próprio
domínio. Ele não esperara o cocheiro saltar para abrir a porta da
carruagem. Ele mesmo se adiantara e fizera isso, se dispondo a
ajudar a Sra. Emes descer.
E, em seguida, foi à vez dela.
Seus olhos se encontraram com os dela enquanto ele
estendia
a
mão
para
ela. Olhos
escuros
e
inescrutáveis. Mandíbula dura. Não sorriu.
Ela esperava algo diferente?
Oh, Hugo.
- Lorde Trentham - disse ela.
- Lady Muir. - Sua mão se fechou sobre a dela e ela desceu
para o terraço.

Mr. Germane veio em seguida, e se virara para ajudar
Constance descer. A menina era toda conversa e excitação.
Serviriam o chá na sala de estar em meia hora. A
governanta iria mostrar-lhes seus quartos para que pudessem
refrescar-se. Mas não, não foi bem assim. Hugo ia mostrar-lhe o
seu quarto.
- Eu mereço um tratamento especial? - Ela disse, conforme
tomava o braço dele.
- Sim - disse ele.
E isso foi tudo o que disse. Ela se perguntou se ele se
arrependera de tê-la convidado. Ele poderia relaxar agora com
sua família, se não o tinha feito. Havia dois aniversários de
casamento para comemorar.
O hall de entrada, não de forma inesperada, era grande e
quadrado, as paredes creme cobertas por grandes paisagens de
mérito artístico medíocres emolduradas em dourado. Uma ampla
escadaria à frente deles subia até um patamar, antes de se
desdobrar em dois ramos para alcançar o piso superior.
A governanta e seu grupo tomaram o ramo direito,
enquanto Hugo e Gwen tomaram o esquerdo. E, em seguida, os
outros desapareceram por um longo corredor à esquerda,
enquanto Hugo levava Gwen para a direita.
O arquiteto, Gwen pensou, deve ter tido um problema para
criar curvas. E ainda havia um certo esplendor sobre a casa. Ela
brilhava com a limpeza e um leve cheiro de polimento. Pinturas
semelhantes às do hall cobriam as paredes. Era tudo, de alguma
forma, bastante impessoal, como um hotel.
O som de vozes, algumas tranquila, poucas mais animadas,
vinham de trás das portas fechadas.

Hugo parou e abriu a porta no final do corredor. Liberou seu
braço do dela e ficou para trás para ela entrar. Ele não tinha
falado uma palavra durante todo o caminho. Não tinha sequer
perguntado sobre sua viagem. Parecia bastante sombrio.
- Obrigada - disse ela.
Então ele a surpreendeu ao entrar no quarto atrás dela e
fechar a porta.
Será que ele não percebia ...?
Não, provavelmente não.
Além disso, ele estar aqui com ela não era tão
impróprio. Outra porta, conduzindo presumivelmente a um
quarto de vestir, estava entreaberta, e ela podia ouvir sua
empregada dentro.
- Espero que você goste do quarto - disse ele. - Eu o escolhi
para você por causa da vista, mas depois percebi que realmente a
vista é bastante sombria. Não houve oportunidade de plantar as
flores. No ano passado todas floresceram, mas não este ano. Vou
arrumá-las direito no próximo ano, mas isso só será possível
enquanto estiver hospedado aqui. Eu deveria tê-la colocado em
outro lugar, com uma vista sobre a casa, talvez.
Ele tinha cruzado o quarto enquanto estava falando e
olhava pela janela.
Mesmo agora, pensou Gwen enquanto ela colocava o
chapéu, as luvas e a bolsa na cama, ela poderia se iludir
pensando que os olhares sombrios de Hugo denotavam um humor
melancólico. No entanto, o tempo todo, enquanto a carruagem se
aproximava, enquanto ela descia, enquanto ele a tinha escoltado
até aqui, ele tinha, provavelmente, sido consumido pela
ansiedade.
Ela caminhou até ele.

Sua janela dava para o grande quadrado de terra nua que
tinha visto da entrada de carruagens. Dali de cima ela podia ver
que o solo havia sido revirado e capinado nos últimos dias. Além
dele, havia um gramado até as árvores mais ao longe. Ela teria
rido se não temesse machucá-lo.
- Eu pensei que você não viesse - disse ele. - Eu esperava
abrir a porta da carruagem e descobrir apenas Fiona, Constance
e Philip dentro.
- Mas eu disse que viria - disse ela.
- Eu pensei que você fosse mudar de ideia.
- Se eu tivesse feito isso, - ela disse a ele - eu teria que
deixá-lo saber. Eu sou uma – dama, ela estava prestes a
dizer. Mas ele teria interpretado mal a palavra.
- Sim, - disse ele - você é uma dama.
Seus dedos estavam espalhados ao longo da janela. Ele
estava olhando para fora, não para ela.
- Hugo, - ela disse, colocando a mão levemente em seu
braço, - não faça disso uma questão de classe. Se alguém de sua
família tivesse mudado de opinião, por algum motivo, eles teriam
feito com que você soubesse. É simples cortesia.
- Eu pensei que você não viria - disse ele. - Eu me preparei
para não vê-la.
O que ele estava dizendo? Na verdade, era bastante óbvio o
que ele estava dizendo e Gwen deslizou sua mão de seu
braço. Seu coração parecia estar batendo em sua garganta mais
do que em seu peito.
Ela olhou de volta através da janela.
- Há muito potencial lá - disse ela.

- No jardim? - Ele virou a cabeça brevemente para olhar
para ela.
- O parque é essencialmente plano, tanto quanto eu pude
ver, quando estávamos subindo à calçada - disse ela.
"Mas veja, há uma queda além do seu canteiro de
flores. Você poderia ter um pequeno lago lá embaixo, se
desejar. Não, isso seria demais. Uma grande lagoa de lírios seria
melhor, com samambaias altas e juncos crescendo além dela,
entre ela e as árvores. E os jardins de flores poderiam ser
reformulados seguindo a curva para baixo, em direção à lagoa,
com arbustos e flores mais altas para os lados e flores mais
curtas cobrindo o solo formando um caminho sinuoso através
dele, e alguns lugares para apreciar a vista. Poderia serEla parou abruptamente e se sentiu envergonhada.
- Eu imploro seu perdão - disse ela. - As flores serão
adoráveis quando você plantá-las. E a vista não é muito ruim. É
uma visão do país. Não há mar à vista e nem sal no ar. Eu prefiro
a paisagem do interior do país. Aqui é mais bonito do que
Newbury.
Estranhamente, ela não estava mentindo ou simplesmente
sendo educada.
- A lagoa de lírios - disse ele, apoiando os cotovelos no
peitoril e olhando para fora, os olhos apertados. - Seria
bonita. Sempre pensei nessa queda da terra como uma
inconveniência. Eu não tenho imaginação, você sabe. Não para
decoração, de qualquer maneira. Eu posso desfrutar ou criticar
quando a vejo, mas não posso imaginar. Posso ver todas aquelas
pinturas nas paredes, por exemplo, e saber que são lixo, mas não
posso imaginar os tipos de pinturas com as quais eu iria
substituí-las se as removesse todas e as jogasse ao monte de
lixo. Eu teria que vagar por galerias nos próximos dez anos,
escolher e escolher, e, em seguida, talvez nada combinasse com

qualquer outra coisa, ou então pareceriam erradas nos quartos
onde eu tinha decidido coloca-las”.
- Às vezes, - disse ela - ter tudo combinado e simétrico não é
mais agradável aos olhos ou à mente do que a falta disso. Às
vezes você tem que confiar em sua intuição e agir com o que você
tem.
- Isso é fácil para você dizer - disse ele. - Você pode olhar
pela janela e ver uma lagoa de lírios e um curvado jardim de
flores e plantas, de diferentes tipos e alturas, e lugares para
desfrutar da paisagem. Tudo o que vejo é um bom quadrado de
terra apenas esperando por flores, se eu só soubesse que flores
plantar. E uma queda problemática de gramado para além dela e
as árvores na distância. Eu não podia sequer pensar em um
caminho no meu próprio jardim. No ano passado, quando todas
as flores estavam florescendo, eu tinha que andar por toda a
borda da cama para vê-las ou vir até aqui para olhar para baixo
sobre elas.
- Mas que visão gloriosa que deve ter sido! - Ela colocou a
mão em seu braço novamente. – E, às vezes, um respingo breve e
glorioso de cor e beleza é suficiente para a alma, Hugo. Pense em
um disparo de um fogo de artifício. Não há nada mais breve e
nada mais esplêndido.
Ele virou a cabeça finalmente e olhou para ela.
Foi um longo olhar, que ela retornou. Ela não podia ler seus
olhos.
- Bem-vinda à minha casa, Gwendoline - ele disse
suavemente, finalmente.
Ela engoliu em seco e piscou várias vezes. Ela sorriu para
ele.
E maravilhosamente, milagrosamente, ele sorriu de volta.

- Eu devo descer, - disse ele, endireitando-se, - e conhecer
todos na sala de estar. Você irá descer quando estiver pronta?
- Vou - disse ela. - Como você vai explicar a minha
presença?
- Você tem tido Constance sob sua asa, - disse ele - e a
capacitou para atender alguns entretenimentos da sociedade,
como convém a seu status como minha irmã. Meus parentes se
divertem e se impressionam com meu título, você sabe. Mas eles
não são pessoas pouco inteligentes. Eles vão entender logo, se os
rumores não chegaram a seus ouvidos, que você está aqui porque
eu estou cortejando você.
- Você está? - Ela perguntou a ele. - A última vez que te vi,
você disse muito claramente que você não estava. Eu pensei que
fui convidado para cortejá-lo ou, pelo menos, para descobrir por
mim mesma por que é impossível para você me cortejar.
Ele hesitou antes de responder.
- Meus parentes vão concluir que eu estou cortejando você disse ele. - Todo mundo ama o que parece ser um romance
desabrochando, especialmente quando um membro da família
está envolvido. Se eles estão certos ou errados, se verá.
Mas, talvez, seus parentes não amariam este particular
romance desabrochando, Gwen pensava. Eles bem poderiam
ressentir-se. Ela não disse isso em voz alta, no entanto. Ela
sorriu novamente.
- Eu descerei em breve - disse ela.
Ele inclinou a cabeça e saiu do quarto. Fechou a porta
silenciosamente atrás dele.
Gwen ficou onde estava por um tempo curto. Voltou seu
pensamento para o dia na praia da Cornualha quando sentiu
uma onda de solidão. Se não tivesse sentido naquele dia, teria

sentido alguma vez? E, se não tivesse, teria ficado encapsulada
em segurança na tristeza e culpa que tinham crescido tão
abafados que não tinha sequer percebido como haviam paralisado
sua vida? Estranhamente, tinha sido um casulo confortável. Ela
meio que desejava que ainda estivesse dentro dele, ou que, se
tivesse sido forçada a sair, então encontrasse um silencioso,
confortável, simples cavalheiro com o qual ela havia sonhado,
como se essa pessoa realmente existisse.
Mas ela conheceu Hugo em seu lugar.
Ela balançou a cabeça um pouco e caminhou para o quarto
de vestir para que pudesse se lavar, mudar de roupa e ter seu
cabelo bem penteado antes de entrar totalmente no mundo de
Hugo.
Os pais de Fiona estavam se sentindo um pouco oprimidos,
Hugo logo percebeu, sentados em uma espécie de grupo com os
membros de sua própria família. Mesmo os parentes políticos de
Fiona deviam lhes parecer grandes pessoas, e ele sabia que eles o
encaravam com algum temor.
Demasiado tarde ele percebeu que deveria ter instruído seu
mordomo, sempre engenhoso, para encontrar alguém que ficasse
atrás dos dois meninos durante a festa. Eles estavam sentados
em um sofá com seus pais, o mais jovem esmagado entre os dois,
o mais velho no outro lado de seu pai.
Os parentes de Hugo eram barulhentos, como geralmente
eram em companhia uns dos outros. Mas talvez houvesse um
pouco de bom-senso adicionado hoje, por estarem em um lugar
estranho e haviam outras pessoas presentes, uns virtuais
estranhos.
Fiona sentou-se junto à lareira com Philip. Sua mãe estava
olhando melancolicamente para ela.

Constance estava voando entre os grupos, de braços dados
com Gwendoline. Ela a apresentava a todos como a dama que a
tinha apresentado à sociedade, a dama que a apadrinhara. Era
Hugo que deveria estar fazendo as apresentações, mas ele estava
feliz por Constance estar fazendo isso por ele e,
involuntariamente, deixando claro o fato de Gwendoline ter sido
convidada por causa dela.
Ned Tucker estava em pé, atrás do grupo de seus amigos da
mercearia e parecia bem-humorado. Hugo queria convidá-lo
apenas para descobrir o que, se alguma coisa, existiu entre ele e
Constance. E sua avó tinha tornado mais fácil para ele. Quando
ele tinha ido à mercearia emitir o convite, Tucker estava com
eles, e avó de Constance tinha colocado a mão em sua manga e
dito a Hugo que ele era como um membro da família. Hugo o
tinha incluído prontamente no convite.
E Hugo, observando os grupos à sua volta, percebeu que ele
era parte da cena também. Ele estava ali em pé, no meio de tudo
isso, como um soldado em desfile. Desejou ter algumas virtudes
sociais.
Deveria ter aprendido mais enquanto estava em
Penderris. Mas nunca tinha precisado graças sociais para
misturar-se com sua família. Nunca tinha conhecido um
momento de autoconsciência ou autodúvida, quando estava
crescendo entre eles. E ele não precisava de graças sociais para
reunir-se com a família de Fiona. Ele apenas precisava mostrar a
eles que era humano, que, na realidade, não era diferente deles
apesar de seu título e sua riqueza. Ou talvez isso era o que graças
sociais eram. Lá estava Gwendoline, ainda com o braço de
Constance através do dela, falando com Tucker, e todos os três
riam, como Hugo podia ver. Gwendoline não levava seu nariz
empinado, como tinha com ele algumas vezes, e Tucker não
estava balançando a cabeça e puxando seu topete. Hilda e Paul
Crane levantaram-se de seus assentos e se juntaram a eles e,
logo, estavam todos rindo.

Hugo tinha a sensação de que poderia estar
carrancudo. Como ele podia manter esses grupos distintos juntos,
fazer uma festa em casa e relaxar com isso? Realmente, tinha
sido uma ideia louca.
Ele foi resgatado pela chegada da bandeja de chá e outra,
maior, tendo todos os tipos de suntuosas guloseimas. Ele virou-se
para sua madrasta.
- Você faria a gentileza de servir, Fiona? - Perguntou.
- Claro, Hugo - disse ela.
E ele percebeu que ela estava se divertindo como uma
pessoa de importância para todos na sala, desde que sua
madrasta se sentia a anfitriã. Não lhe havia ocorrido que
precisaria de uma. Mas, é claro, que precisava. Alguém tinha de
servir o chá, sentar-se à cabeceira de sua mesa de jantar e estar
ao seu lado para cumprimentar os convidados quando chegassem
para as festas de aniversário em um alguns dias.
- Obrigado - disse ele, e começou a circular entre os
convidados, distribuindo pratos e guardanapos antes de circular
com a bandeja de guloseimas, convencendo todos a tomar um ou
dois.
Enquanto isso, a prima Theodora Palmer, recentemente
casada com um banqueiro próspero, entregava uma xícara de chá
para todos conforme Fiona servia, e sua cunhada, Bernadine
Emes, esposa do primo Bradley, cruzava a sala e falava com os
meninos. Seus próprios filhos, ela disse a eles, juntamente com
alguns dos seus primos, estavam tomando chá em uma adorável
sala no sótão. E depois de terem terminado, sua tutora iria leválos para fora para brincar. Talvez Colin e Thomas gostassem de
ir com eles?

Thomas se escondeu atrás de manga de seu pai e espiou
com um olho. O rosto de Colin se iluminou com ânsia, e ele olhou
para seu pai para pedir permissão.
- Não temos férias, muitas vezes, não é? - Hugo ouviu
Bernadine dizendo para Mavis e Harold. - Nem nossos filhos. Nós
também podemos todos desfrutar isso completamente enquanto
pudermos. Há duas tutoras, ambas completamente confiáveis. As
crianças as obedecem e as adoram. Seus meninos estarão
bastante seguros com elas.
- Tenho certeza de que estarão - disse Mavis. - Não temos
uma tutora. Gostamos de manter os nossos filhos conosco.
- Oh, eu também! - Disse Bernadine. - Eles crescem tão
rápido. Quando eu tive meu primeiro ...
Hugo abriu a porta da sala de estar, chamou um dos novos
servos, que pairava lá fora e disse-lhe para informar à tutora da
Sra. Bradley Emes que ela precisava parar ali quanto estivesse a
caminho do lado de fora, a fim de coletar mais duas crianças.
Gwendoline estava falando com tia Rose e tio Frederick
Emes, e o primo Emily, de quatorze anos, estava olhando para
ela com admiração. Constance estava conduzindo seus avós em
direção à tia Henrietta Lowry, viúva, irmã mais velha de seu pai,
matriarca da família.
Roma não foi construída em um dia, Hugo pensou sem
grande originalidade. Mas foi construído. E, talvez, sua festa não
fosse um desastre absoluto. Ele provavelmente estava se sentindo
estranho e ansioso só porque Gwendoline estava ali e ele queria
que tudo fosse perfeito. Ele não estaria preocupado se ela não
estivesse, estaria?
Ele foi falar com Filipe, que não tomava parte de nenhum
grupo, mas parecia perfeitamente confortável, de qualquer

maneira, enquanto olhava para Fiona que servia as segundas
xícaras de chá.
Eles formavam um belo casal, Hugo pensou com alguma
surpresa. Philip e Fiona. Agora havia um pensamento. Talvez ele
se transformasse em um casamenteiro em sua velhice.
Eles devem ser muito próximos em idade também.
E, em seguida, o chá tinha acabado, as bandejas foram
removidas e Hugo explicou que todos estavam livres para
permanecerem onde estavam, ou para se removerem aos seus
aposentos para descansar, ou passear ao ar livre para um pouco
de ar fresco.
A maioria das pessoas se dispersou. A mãe e o pai de Fiona
circulavam lentamente pela sala com a tia Henrietta, admirando
as pinturas. Constance saiu ao ar livre com um grande grupo de
jovens que incluía vários dos primos Emes, Hilda e Paul, e Ned
Tucker. Gwendoline estava conversando com Bernadine e
Bradley. Hugo se juntou a eles.
- Vou levar todas as crianças para ver os novos cordeiros,
bezerros e potros amanhã de manhã - disse ele para Bernadine. Há alguns gatinhos e cachorrinhos também. Acho que eu teria
pensado que tinha morrido e ido para o céu, se alguém tivesse
feito isso para mim quando eu era uma criança.
- Todos nos lembramos seus vira-latas, Hugo - disse
Bradley, rindo. - O tio costumava suspirar quando você voltava
para casa com mais um gato vesgo enlameado ou um esquelético
cachorro de três pernas.
- As crianças vão adorar - disse Bernadine. - Só não
permita, eu imploro, Hugo, que qualquer um deles, especialmente
uma das meninas, o convença a permitir que levem um filhote de
cachorro, ou um gatinho, ou um cordeiro ou dois, para casa com
eles quando partirem.

Hugo riu e chamou a atenção de Gwendoline.
- Talvez vocês gostassem de ver os cordeiros agora - disse
ele. - Eles ainda estão no pasto.
- Oh, Hugo! - Bernadine disse com um suspiro. - A viagem
foi longa e o ar do campo está me matando – de uma forma
completamente boa, apresso-me a acrescentar. E nossos filhos
estão brincando lá fora. Vou para minha cama até a hora de me
vestir para o jantar.
- Brad? - Disse Hugo.
- Outra vez, talvez - disse Bradley. - Eu deveria gastar os
bolinhos de creme extras que não pude resistir, mas a cama em
nosso quarto está chamando insistentemente agora.
- Lady Muir? - Hugo parecia educado para ela.
- Eu vou ver os cordeiros - disse ela.
- Ah, - disse Bernardine - Lady Muir está sendo
educada. Você logo aprenderá a ser mais egoísta se passar mais
tempo com a gente, Lady Muir.
Mas ela riu enquanto tomava o braço de Brad, afastando-se
com ele sem esperar por uma resposta.
- Às vezes, - disse Gwendoline, olhando para Hugo, - eu
acho que já sou a mais egoísta dos mortais.
- Você não tem que vir - disse ele.
- Não comece. - Ela riu e tomou seu braço ainda que ele não
tivesse sequer oferecido.

Capítulo 21
Caminhando à sala de estar para o chá, tinha tomado uma
quantidade surpreendente de coragem, Gwen achava. Ela não
sabia muito o que esperar. Temia que todos olhassem para ela
com temor excessivo ou com hostilidade ressentida, cada um dos
quais a isolaria e teria se tornado difícil se comportar com
qualquer grau de facilidade.
Constance tinha deixado mais fácil, mesmo que,
provavelmente, tivesse feito isso inconscientemente. Embora
houvesse algum sinal de temor conforme a garota a apresentava,
Gwen não tinha detectado nenhuma hostilidade. E até mesmo o
pouco temor, ela acreditava, havia se dissipado durante o
chá. Talvez, depois de tudo, ia ser um pouco mais viável do que
ela temia.
Ela não se importava de qualquer maneira. Estava quase
ferozmente feliz por ter vindo. Mesmo a hostilidade aberta de
cada um de seus familiares valeria a pena ser enfrentado apenas
para isso.
E isso era a visão de Hugo alimentando um cordeiro, o
menor do rebanho. Sua mãe tinha morrido dando à luz a ele, e as
ovelhas para as quais tinha sido dado, apesar de terem perdido
seu próprio filhote, nem sempre estavam dispostas a deixá-lo
mamar. Hoje era um daqueles dias, e por isso lá estava Hugo,
sentado de pernas cruzadas no pasto, a metade cordeiro no colo
dele sugando avidamente garrafa com algum tipo de mamilo.
Ele estava falando com o bichinho. Gwen podia ouvir sua
voz, embora não conseguisse distinguir as palavras exatas. Ela se
inclinou contra a parte exterior da cerca, os braços apoiaram-se
na parte superior, observando-os, embora acreditasse que ele
tinha esquecido tudo sobre ela. Havia tanta ternura em sua voz e
em seus gestos, que ela poderia ter chorado.

Ele não tinha esquecido, no entanto. Mesmo enquanto ela
pensava isso, ele olhou para cima e sorriu para ela. Não, não era
apenas um sorriso. Foi mais como um sorriso de menino.
- Me desculpe - disse ele. - Eu deveria ter levado você de
volta para a casa primeiro.
- Não comece - disse ela novamente.
E ele riu e voltou sua atenção para o cordeiro, que foi
finalmente mostrando sinais de ter mamado o suficiente.
- Ou eu deveria ter chamado alguém para fazer a
alimentação - disse ele um pouco mais tarde, conforme deixava o
pasto. - Existem alguns trabalhadores. É melhor não te oferecer
meu braço. Devo estar cheirando ovelhas.
Ela tomou seu braço, mesmo assim. - Eu cresci no campo ela lembrou.
Ele cheirava fracamente à ovelha. E ainda estava usando as
roupas muito elegantes que tinha usado para o chá.
Ele não tomou o caminho que conduzia aos limites do pasto
diretamente para os estábulos. Em vez disso, ele a levou ao
perímetro do parque, onde havia mais árvores. Elas não eram
amplamente espaçadas, porém, o suficiente para caminhar entre
elas.
- Eu posso entender - disse ela - por que você se fechou aqui
no campo há alguns anos atrás e não queria mais nada a ver com
o mundo exterior.
- Você pode? - Disse. - Isso não pode ser feito
indefinidamente, no entanto. A morte do meu pai me arrastou
para fora mais uma vez. De modo geral, eu não tenho desculpas.
- Nem eu - disse ela.

Ele virou a cabeça para olhar para ela, mas não fez nenhum
comentário.
- Eu percebi uma coisa, - disse ele - quando eu estava
alimentando esse cordeiro e você estava ali de pé assim,
pacientemente, observando. Eu mantenho as minhas ovelhas
pela lã, não sua carne. Eu mantenho minhas vacas para o seu
leite e queijo, não por sua carne. Eu mantenho frangos por seus
ovos. Eu me senti muito orgulhoso disso. Mas eu como
carne. Concordo na morte de outros animais desconhecidos para
que eu possa ser alimentado. E quase todas as criaturas caçam
para se alimentar. É tudo muito cruel. Um pode se impor sobre o
outro e tornar tudo muito triste. Mas essa é a lei da vida é. É um
equilíbrio contínuo de opostos. Há ódio e violência, por exemplo, e
há bondade e gentileza. E às vezes a violência é necessária. Eu
tento imaginar Bonaparte tendo sido autorizados a chegar às
nossas costas com seus exércitos. Invadindo nossas cidades e a
zona rural. Pilhando alimentos e outros bens. Atacando a minha
família e a sua. Atacando você. Se nada disso tivesse acontecido,
eu nunca poderia ter notado a santidade da vida humana e a
ternura da minha consciência.
- Você se perdoou, então? - Perguntou ela.
Ele tinha parado de andar e estava de pé com as costas
contra uma árvore, com os braços cruzados sobre o peito.
- É engraçado, não é? - Disse. - Carstairs tem vivido com a
culpa todos esses anos, embora tenha ordenado o recuo, o que
teria economizado pelo menos algumas das vidas de seus
homens. E mesmo ele tendo sido gravemente ferido no ataque e
sofrido as consequências desde então. Ele se sente culpado
porque acredita que seu instinto foi covarde e minhas ações
estavam certas. Ele me odeia, mas acredita que eu estava certo.
- Você estava certo - disse ela. - Você sempre soube disso.
Ele balançou a cabeça lentamente.

- Eu não acredito que há certo ou errado - disse ele. - Não é
só fazer o que se deve fazer sob as circunstâncias e viver com as
consequências e tecer cada experiência, boa e má, no tecido da
vida de um modo que, finalmente, pode-se ver o padrão de tudo e
aceitar as lições que a vida ensinou. Nós nunca podemos esperar
atingir a perfeição em uma só vida, Gwendoline. Pessoas
religiosas pessoas diriam que é o que se necessita para ir ao
céu. Eu acho que seria uma vergonha. É muito fácil e muito
preguiçoso. Eu prefiro pensar que, talvez, nos seja dada uma
segunda chance - e uma terceira e uma trigésima terceira - até
obter tudo certo.
- Reencarnação? - Ela disse.
- É assim que chamam? - Ele deixou cair os braços para os
lados e olhou para ela. - Eu me pergunto se eu encontraria a
mesma mulher em cada vida e descobriria, a cada vez, que havia
um problema. E a solução que me ocorreria seria imprudente ou
corajosa? Para resistir ou abraçar? Errada ou certa? Você vê o
que eu quero dizer?
Ela deu um passo adiante, se inclinou contra ele, estendeu
as mãos sobre seu peito e descansou a testa entre elas. Ela sentiu
seu batimento cardíaco e seu calor e inalou a estranhamente
sedutora mistura do cheiro de água de colônia, de homem e de
ovelhas.
- Oh, Hugo - disse ela.
Os dedos de uma mão acariciavam o pescoço dela.
- Sim, - ele disse baixinho - eu me perdoei por estar vivo.
- Eu te amo - disse ela no tecido da sua gravata.
Por um momento ela ficou horrorizada. Ela tinha realmente
falado em voz alta? Ele não respondeu. Mas inclinou a cabeça e
beijou suavemente e breve oco entre o ombro e o pescoço.

E assim que as palavras tinham sido ditas em voz alta – por
ela, pelo menos. E realmente não importava. Ele deveria saber,
de qualquer maneira. Assim como ela sabia que ele a amava.
Será que ela sabia disso?
É claro que ela sabia. Ele tinha acabado de dizer isso em
outras palavras. Gostaria de saber se eu iria encontrar a mesma
mulher em cada vida ...
O amor pode não ser suficiente. Ele havia dito em Londres,
quando viera dizer-lhe que ele não ia cortejá-la.
E então, novamente, pode ser.
Talvez o amor fosse tudo. Talvez isso fosse o que eles iriam
aprender se tivessem trinta e três vidas juntos.
- Algumas pessoas têm áreas silvestres em suas
propriedades - disse ele. - Eu pensei que talvez devesse ter uma
também. Mas eles geralmente têm colinas, maciços de árvores,
pontos de vista e perspectivas, e todos os tipos de outras
atrações. Eu não tenho nenhuma dessas coisas. Uma área
silvestre aqui seria apenas isso: uma área silvestre. Seria idiota.
- Idiota? - Ela disse, levantando a cabeça e olhando para ele.
Ele inclinou a cabeça para um lado.
- Isso não é uma palavra muito elegante para uma dama
usar - disse ele.
Ela riu.
- Um caminho sinuoso definido pela floresta seria agradável
- disse ela. - E há espaço aqui para mais árvores, talvez alguns
rododendros, outras árvores floridas ou arbustos. Talvez algumas
flores que crescem bem na sombra e não são demasiado
berrantes. Bluebells
na
primavera,
por
exemplo.
Narcisos. Poderia haver alguns bancos, especialmente em lugares

onde há algo para se ver ao longe. Notei, alguns momentos atrás,
que eu podia ver a torre da igreja da aldeia. Eu ouso dizer mais
longe, por aqui, podemos ver a casa. Poderia haver um pequeno
pavilhão de verão, um lugar para sentar-se, mesmo quando está
chovendo. Algum lugar para ficar quieto e relaxar. Ou ler. É tudo
o que Crosslands é, depois de tudo, e por que você se sentiu
atraído por ele. Não é um lugar espetacular por sua beleza
pitoresca e suas perspectivas, mas apenas uma declaração
simples de algo bom - da paz e alegria que vêm com o comum,
talvez.
Ele estava olhando-a nos olhos.
- Ele não precisaria fontes, estátuas, jardins de topiaria,
roseiras, lagos com barcos, vielas, labirintos e Deus sabe o que
mais? - Disse. - O parque, quero dizer.
Ela balançou a cabeça.
- Ele poderia ter alguns toques delicados aqui e ali, - disse
ela - mas não muito. É adorável como é.
- Mas um pouco no lado estéril? - Disse.
- Apenas um pouco.
- E a casa? - Disse.
- As pinturas precisam sair. - Ela sorriu para ele. - A casa
estava totalmente mobiliada quando você a comprou?
- Estava - disse ele. - Ela foi construída por um homem que,
como meu pai, fez o seu dinheiro no comércio. Ele a construiu
com todos os melhores materiais, decorou com os melhores
móveis e nunca realmente viveu nela. Ele a deixou para seu filho
quando morreu. Mas seu filho não a queria. Foi para a América,
para fazer sua própria fortuna, eu suponho, e deixou a casa com
um agente para ser vendida.
Triste, ela pensou.

- Assim como eu fui para a guerra e deixei o meu próprio pai
- disse ele.
- Mas você voltou, - ela lembrou a ele - e o viu antes dele
morrer. Você foi capaz de assegurar a ele que você assumiria os
cuidados com seus negócios, sua esposa e filha.
- E eu percebi outra coisa - disse ele. - Ele teria quebrado
seu coração se eu tivesse sido morto. Então eu me alegro, por ele,
de não ter morrido.
- E por minha causa? - Ela disse.
Ele emoldurou seu rosto com suas grandes mãos e seguroua inclinada para cima, sob o dele.
- Eu tenho certeza que eu seja muito como um presente disse ele. - O que você acha da minha família e da Connie?
- Eles são pessoas - disse ela. - Estranhos que se tornarão
conhecidos, talvez até mesmo amigos durante os próximos
dias. Eles não são tão diferentes de mim, Hugo, e talvez eles
descubram que eu não sou muito diferente deles. Estou ansiosa
para conhecer a todos.
- Uma resposta diplomática - disse ele.
E talvez um pouco ingênua, sua expressão parecia
dizer. Talvez fosse. Sua vida era tão diferente como poderia ser,
possivelmente, da de Mavis Rowlands, por exemplo. Mas isso não
significava que eles não poderiam desfrutar a companhia uma da
outra, encontrar um terreno comum sobre o qual conversar. Ou
era uma crença ingênua?
- A resposta verdadeira - disse ela. - E quanto a Mr. Tucker?
- O que tem ele? - Perguntou.
- Ele não é um parente - disse ela. - Há algo entre
Constance e ele?

- Eu acho que pode haver - disse ele. - Ele é dono de loja de
ferragens ao lado da mercearia de seus avós. Ele é sensível,
inteligente e amável.
- Eu gosto dele - disse ela. - Constance vai ter uma grande
variedade de escolhas, não é?
- A coisa é, - ele disse - que ela acha que seus meninos,
aqueles que você apresenta a ela em bailes e festas, são doces,
para usar sua palavra, mas um pouco bobos. Eles não fazem nada
com suas vidas.
- Oh, querida. - Ela riu.
- Ela lhe disse isso também, não disse? Mas ela é
enormemente grata a você - disse ele. - E mesmo se ela se casar
com Tucker ou alguém de fora da sociedade, ela sempre vai se
lembrar qual era a sensação de dançar em um baile da sociedade
e passear no jardim de um aristocrata. E ela vai se lembrar de
que ela poderia ter se casado com um deles, mas escolheu o amor
e felicidade em seu lugar.
- E ela não podia encontrar isso com um cavalheiro? perguntou a ele.
- Podia. - Ele suspirou. - E, de fato, ainda pode. Como você
diz, ela tem escolhas. Ela é uma garota sensata. Vai escolher, eu
acredito, tanto com sua cabeça como com seu coração, mas não
um à exclusão do outro.
E você? Ela queria perguntar-lhe. Você vai escolher com sua
cabeça e seu coração? Ela não disse nada, mas deu um tapinha
com as mãos contra o peito.
- Eu vou ter que levá-la de volta para casa em breve, - disse
ele - se você quiser descansar antes do jantar. Por que estamos
perdendo nosso tempo falando?
Ela olhou-o nos olhos.

Ele abaixou a cabeça e beijou-a com a boca aberta. Ela
deslizou as mãos em seus ombros e se agarrou a ele. Uma onda
de intenso anseio, tanto físico como emocional, tomou conta
dela. Esta era a sua casa. Este era o lugar onde ele iria passar a
maior parte do resto de sua vida. Será que ela estaria aqui com
ele? Ou esta prova seria apenas um episódio de uma semana e
nada mais? Nem mesmo uma semana, na verdade.
Ele levantou a cabeça e roçou seu nariz através dela.
- Devo dizer-lhe o meu mais profundo e escuro sonho? Perguntou a ela.
- É apropriado para os ouvidos de uma dama? - Perguntou
ela em troca.
- Não é, de forma alguma - disse ele.
- Então me diga.
- Eu quero ter você em meu quarto de dormir, na minha
própria casa - disse ele. - Na minha cama. Quero despir você um
ponto de cada vez e amar cada polegada de você, e fazer amor
com você uma e outra vez até que ambos estejam muito cansados
para continuar. Eu quero dormir com você, então, até que
tenhamos a nossa energia de volta para começar tudo de novo.
- Oh, querido, - disse ela - isso é realmente impróprio para
meus ouvidos. Eu me sinto muito fraca nos joelhos.
- Eu vou fazer - disse ele - um dia destes. Vamos fazêlo. Ainda não, embora. Não na casa, de qualquer maneira. Não
enquanto eu tenho convidados. Não seria apropriado.
Não na casa, de qualquer maneira.
- Não faremos - ela concordou. - E Hugo? Eu não posso ter
filhos.

Agora, por que ela teve de introduzir a realidade na
fantasia?
- Você não sabe - disse ele.
- Eu não concebi na enseada em Penderris - disse ela.
- Fizemos amos uma vez - disse ele. - E eu não estava
mesmo tentando.
- Mas o que se-?
Ele a beijou novamente e levou o seu tempo sobre isso
também. Ela passou os braços em volta do seu pescoço.
- Essa é a emoção da vida - disse ele quando acabaram. - O
não saber. Muitas vezes, é melhor não saber. Nós sabemos que
não vamos realmente fazer amor à noite toda na minha cama na
casa aqui, não é? Mas podemos sonhar com isso. E eu acho que
isso vai acontecer. Chegará o tempo, Gwendoline, quando você
vai ser encharcada com a minha semente. E eu acho que pelo
menos uma delas vai enraizar. E se isso não acontecer, pelo
menos vamos ter nos divertido ao tentar.
Ela sentia falta de ar novamente e consideravelmente mais
fraca sobre os joelhos. E ela podia ouvir o som das vozes das
crianças que se aproximam à distância. Tipicamente das
crianças, todos eles pareciam estar falando, ou melhor, gritando
de uma vez.
- Exploradores, - disse ele - vindo para cá.
- Sim - ela disse, e deu um passo para trás.
Ele ofereceu seu braço e ela o tomou. E o mundo estava no
mesmo lugar.
E para sempre diferente.

Hugo tinha trabalhado muito durante seus anos como
oficial militar, provavelmente mais do que a maioria, pois ele
tinha muito a provar-lhes, e para si mesmo. Ele havia trabalhado
duro durante as semanas anteriores, aprendendo sobre as
empresas de novo, tomando as rédeas do controle em suas
próprias mãos, tornando-se todo seu.
No entanto, parecia a ele, durante o curso da estada no
campo, que ele nunca tinha trabalhado mais do que fazia agora.
Ser sociável era trabalho duro. Ser sociável quando tinha
toda a responsabilidade de ser anfitrião era infinitamente mais
difícil. Cuidar para que todos se divertissem. E não era sempre
fácil.
Ele duvidava que já tivesse se divertido tanto em qualquer
semana.
Proporcionar entretenimento não era realmente nenhum
problema. Mesmo um parque estéril era como um pedaço do céu
para as pessoas que viveram suas vidas em Londres, e numa
pequena parte de Londres, como foi o caso com parentes de
Fiona. E até mesmo para seus próprios parentes, a maioria dos
quais tinham viajado um pouco mais, a chance de caminhar sobre
um parque privado por quase uma semana inteira, sem a pressão
de trabalho e os ruídos contínuos de uma grande cidade, era uma
coisa maravilhosa. E a casa encantara a todos, mesmo aqueles
que poderiam ver suas deficiências. Hugo, que nunca tinha sido
capaz de explicar a si mesmo o que estava exatamente errado
com a casa, agora sabia. Seu antecessor tinha mobilhado e
decorado tudo, provavelmente usando os serviços de um designer
profissional. Isso foi caro, elegante e impessoal. Ela nunca tinha
sido habitada até que ele se mudara no ano passado. Aqueles de
seus hóspedes que podiam ver os problemas por si mesmos
enquanto vagavam interminavelmente, faziam sugestões. Seus
parentes nunca tinham sido tímidos.

Havia uma sala com uma mesa de bilhar que provou ser
popular. Não havia instrumentos musicais. Havia uma biblioteca,
suas paredes forradas do chão ao teto com prateleiras, todas
cheias com grandes blocos de livros que Hugo estava quase certo
de que ninguém tinha lido ou mesmo aberto. Ele tinha lido
alguns preciosos, não sendo particularmente inclinado aos livros
de sermões, ou livros das leis da antiga Grécia, ou livros de
poesia de poetas latinos que ele nunca tinha ouvido falar - e em
latim também. Mas mesmo aqueles livros divertiam alguns de
seus parentes, e todas as crianças adoraram as escadas e corriam
para cima e para baixo e se juntavam para empurrar de locais
diferentes, fazendo carruagens e imaginários balões de ar quente
lá fora, e até mesmo uma torre da qual gritavam por socorro para
algum príncipe que estivesse passando embaixo.
A família de Fiona tendia a se amontoar para trocar
confidências, no primeiro dia, pelo menos. Mas com a ajuda de
Hugo, Mavis e Harold descobriram um terreno comum com os
outros pais jovens entre os seus primos, e Hilda e Paul foram logo
atraídos para a companhia daqueles dos primos que não estavam
casados ou que ainda não tinha filhos. Hugo se certificou de que a
Sra. Rowlands conhecesse todas as suas tias e ela desenvolveu
uma espécie de amizade com a tia Barbara, cinco anos mais
jovem do que a tia Henrietta e um pouco menos que uma
matriarca real. O Sr. Rowlands se aproximou de alguns dos tios e
parecia razoavelmente confortável com eles.
Fiona não mencionou uma única vez a sua saúde na
presença de Hugo. Deve ter ficado claro para ela, depois o
primeiro dia, que o lado Emes da família não a estava olhando
com desprezo, mas, na verdade, olhavam para ela como sua
anfitriã. E, obviamente, ela era a grande, a adorada em sua
própria família. Ela floresceu diante dos olhos de Hugo,
restaurada sua saúde e beleza madura.
E ele ficaria muito surpreso se um romance de não estivesse
se desenvolvendo entre ela e seu tio.

Quanto a Tucker, ele era um jovem que estaria confortável
em quase qualquer ambiente social, Hugo suspeitou. Misturou-se
facilmente com todos e parecia particularmente popular entre os
primos mais jovens, tanto homens como mulheres.
Constance voava por toda parte, transbordando de
exuberância. Se ela fantasiava com Tucker, e se ele gostava dela,
eles certamente não ficavam agarrados um ao outro, tornando
isso óbvio. E, no entanto, Hugo estaria disposto a apostar, que
eles fantasiavam um com o outro.
E Gwendoline, com a graça tranquila, ajustando-se onde
quer que estivesse. Tias que meio congelaram com apreensão no
início, logo relaxaram em sua empresa. Tios congratulavam-se
com a conversa. Primos logo a incluíram em seus convites para
caminhar ou jogar bilhar. Meninas que subiam em seu colo para
admirar seus vestidos, embora ela se vestisse com simplicidade
deliberada
durante
esses
poucos
dias,
Hugo
suspeitava. Constance conversava com ela e passeavam de braços
dados. E ela fez um esforço deliberado para conhecer a Sra.
Rowlands, que a olhou com terror quase aberto num primeiro
momento. Hugo as encontrou uma manhã no final de um
corredor no andar de cima, de braços dados, discutindo uma das
pinturas.
- Temos apenas passado uma meia hora agradável Gwendoline explicou - indo de um lado do corredor e para o outro,
olhando para todas as pinturas e decidindo qual é a nossa
favorita. Eu acho que um com as vacas bebendo na lagoa é meu.
- Oh, - disse a Sra. Rowlands - o meu é o da rua da aldeia
com a menina e o filhote de cachorro latindo em seus
calcanhares. Com seu perdão, milady. Parece que o céu, não é,
aquela aldeia? Não que eu gostaria de viver nele. Na verdade,
não. Eu sinto falta da minha loja. E de todo o povo.

- Essa é a maravilha das pinturas - disse Hugo. - Elas
oferecem uma janela para um mundo que nos seduz, mesmo que
nós não quiséssemos entrar nele se pudéssemos.
- Como você tem, Hugo, - disse a Sra. Rowlands com um
suspiro – de poder olhar para estas pinturas todos os dias de sua
vida. Quando você está no país, de qualquer maneira.
- Eu sou afortunado - disse ele, olhando para Gwendoline.
E ele era. Como ele poderia ter previsto tudo isso até poucos
meses atrás? Ele tinha ido até Penderris, sabendo que seu ano de
luto estava no fim e com ele a sua vida no campo como um
ermitão. Ele esperava que seus amigos pudessem oferecer alguns
conselhos sobre como ele poderia encontrar uma mulher para
casar, alguém que o iria servir sem interferir demais com sua
vida ou, de qualquer forma, desarranjando suas emoções. Em vez
disso, ele conheceu Gwendoline. E depois, tinha ido a Londres
para arrancar Constance das garras de Fiona e lhe encontrar um
marido, logo que possível, mesmo que isso significasse ter que se
casar com uma mulher escolhida às pressas. E ele tinha
encontrado uma Fiona que não era exatamente a vilã que ele
lembrava de sua juventude, e Constance com firmes ideias
próprias sobre o que ela queria para além das portas de sua
casa. E ele tinha proposto casamento a Gwendoline, foi rejeitado
e, então, foi convidado a cortejá-la.
O resto foi tudo um pouco vertiginoso e era prova suficiente
de que não era sempre uma boa ideia tentar planejar o
futuro. Ele nunca poderia ter previsto isso.
Sua casa sem todas as capas de poeira parecia muito
diferente. Era elegante, mas sem coração. Ainda que, de alguma
forma, seus visitantes fizessem o lugar alegre e habitável, e ele
sabia que iria passar os próximos anos adicionando o coração que
estava faltando. Seu parque parecia nu, mas cheio de potencial e
realmente não muito ruim como achava. Com uma lagoa de lírios,
um curvo canteiro de flores, alguns caminhos e lugares, e uma

área silvestre com mais árvores e bancos e um pavilhão, seria
transformada. E talvez ele plantasse alguns olmos altos ou limes
em ambos os lados da calçada. Se alguém deve ter uma unidade
em linha reta, esse alguém pode também acentuar o fato.
Sua fazenda era o caloroso coração pulsante de sua
propriedade.
Ele estava feliz, descobriu com alguma surpresa durante
esses dias. Ele realmente não tinha pensado sobre felicidade com
referência a si mesmo desde ... oh, desde que seu pai se casou com
Fiona.
Agora, ele estava feliz novamente. Ou, pelo menos, ele
ficaria feliz se ... Ou melhor quando ...
Eu te amo, ela havia dito.
Era suficientemente fácil dizer. Não, não era. Era a coisa
mais difícil do mundo para dizer. Pelo menos para um
homem. Para ele. Era mais fácil para uma mulher?
Que pensamento idiota.
Ela era uma mulher que não conhecia a verdadeira
felicidade, ele suspeitava, por anos e anos - provavelmente não
desde o começo de seu casamento. E agora …
Ele poderia fazê-la feliz?
Não, claro que não podia. Era impossível fazer alguém
feliz. Felicidade tinha de vir de dentro.
Ela poderia ser feliz com ele?
Eu te amo, ela havia dito.
Não, essas palavras não teriam chegado facilmente a
Gwendoline, Lady Muir. O amor a tinha decepcionado em sua

juventude. Ela tinha tido medo, desde então, de dar seu coração
novamente. Mas ela tinha dado agora.
A ele.
Isto é, se ela realmente quis dizer as palavras.
Ela lhe tinha dito.
Sua língua tinha ficado presa no céu da boca, ou tinha se
amarrado em um nó, ou feito alguma coisa para tornar
impossível para ele responder.
Isso era algo que ele deveria consertar antes do final da sua
estadia aqui. Normalmente, ele tinha falado muito livremente
sobre fazer amor com ela. Ele até gostava de ser muito
ultrajante. Mas ele não tinha sido capaz de dizer o que realmente
importava.
Ele diria.
Ele ofereceu os braços a ambas as senhoras.
- Há uma ninhada de cachorros em uma baia dos estábulos
quase pronta para ser liberada a um mundo desprevenido - disse
ele. - Gostariam de vê-los?
- Oh, - disse a Sra. Rowlands - assim como a da pintura,
Hugo?
- Border Collies, na verdade - disse ele. - Eles são bons com
as ovelhas. Ou, pelo menos, um ou dois serão. Vou ter que
encontrar lares para o resto.
- Casas? - Ela disse enquanto eles desciam. - Você quer
dizer que está disposto a vendê-los?
- Eu estava pensando mais em termos de dá-los - disse ele.
- Oh, - ela disse - podemos ter um, Hugo? Temos o gato para
manter os ratos para fora da loja, é claro, mas toda a minha vida

eu quis um cachorro. Podemos ter um? É muito atrevido de
minha parte perguntar?
- É melhor vê-los primeiro - disse ele, rindo e girando a
cabeça para olhar para Gwendoline.
- Hugo, - disse ela suavemente - você realmente deve rir
mais vezes.
- Isso é uma ordem? - Perguntou a ela.
- Certamente é - disse ela severamente, e ele riu de novo.

Capítulo 22
As celebrações dos aniversários tinham sido planejadas
para dois dias antes do retorno a Londres. Isso poderia ser
melhor assim, Hugo tinha decidido, de modo que todos teriam um
dia para relaxar antes da viagem. Além disso, era a data real do
aniversário do Sr. e da Sra. Rowlands.
Era para ser um banquete familiar no início da noite. Então
vizinhos da aldeia e das propriedades vizinhas – pessoas de todas
as classes sociais – viriam para algumas danças no pequeno salão
de baile, que Hugo esperava nunca usar. Ele contratou os
mesmos músicos que sempre tocavam nas assembleias locais.
- Não espere muito - avisou a Gwendoline quando estava
mostrando o salão de baile a ela e a alguns de seus primos mais
novos na manhã de celebrações. - Os músicos são mais famosos
por seu entusiasmo do que por sua musicalidade. Não haverá
bancos de flores. E eu convidei meu administrador e sua
esposa. E o açougueiro e o estalajadeiro. E algumas outras
pessoas comuns, incluindo as pessoas que moravam nas
redondezas, quando estive em meu chalé.
Ela ficou de pé em frente a ele e falou apenas para seus
ouvidos.
- Hugo, - disse ela - você acharia irritante se cada vez que
você participasse de um evento da sociedade, eu falasse em tom
de desculpa para você, sobre o fato de que havia três duquesas
presentes, uma exposição de flores suficientes para esvaziar
várias estufas e uma orquestra que tinha tocado para a realeza
europeia em Viena apenas um mês antes?
Ele olhou para ela e não disse nada.
- Eu acredito que você ficaria irritado - disse ela. - Você me
disse para vir ao seu mundo. Eu acredito que consigo me lembrar
suas palavras exatas: Se você me quer, se você imagina que me

ama e acha que pode passar sua vida comigo, venha ao meu
mundo. Eu vim, e você não tem que pedir desculpas pelo que eu
vou encontrar aqui. Se eu não gosto, se eu não posso viver com
isso, vou dizer-lhe isso quando voltar para Londres. Mas tenho
estado ansiosa para este dia, e você não deve estragá-lo para
mim.
Foi uma explosão tranquila. Tudo ao redor de seus primos
eram risadas, exclamações e explorações. Hugo suspirou.
- Eu sou apenas um homem comum, Gwendoline - disse
ele. - Talvez isso seja o que eu tenho tentado dizer a você todo
esse tempo.
- Você é um homem extraordinário - disse ela. - Mas eu sei o
que você quer dizer. Eu nunca esperei que você fosse mais do que
você é, Hugo. Ou menos. E não espere isso de mim também.
- Você é perfeita - disse ele.
- Mesmo que eu manque? - Ela perguntou.
- Quase perfeita - disse ele.
Ele sorriu lentamente para ela, e ela sorriu de volta.
Ele nunca tinha tido um relacionamento com qualquer
mulher - ou qualquer tipo de relacionamento que importasse. Era
tudo novo e estranho para ele. E maravilhoso.
- Gwen, - a prima Gillian chamou de uma curta distância, venha ver a vista das janelas francesas. Você não concorda que
deve haver um jardim de flores lá fora? Talvez até mesmo alguns
lugares formais para os convidados do baile passearem? Oh, eu
poderia me acostumar com muita facilidade a viver no campo.
Ela se aproximou, tomou o braço de Gwendoline e a levou
para dar sua opinião.

- Haverá convidados a bailes aqui talvez uma vez a cada
cinco anos, Gill - Hugo disse atrás delas.
Ela olhou atrevidamente por cima do ombro e falou-lhe com
voz alta o suficiente para todo mundo ouvir.
- Eu ouso dizer que Gwen terá algo a dizer sobre isso, Hugo
- disse ela.
Oh, sim, sua família não tinha sido lenta para perceber que
ela estava aqui, não só porque tinha introduzido Constança na
sociedade.
Foi um dia agitado, embora olhando para trás mais tarde,
Hugo percebeu que ele poderia muito bem ter ficado em sua cama
durante todo o dia, os tornozelos cruzados, as mãos cruzadas
atrás da cabeça, examinando o projeto do dossel sobre a
cabeça. Seu mordomo tinha tudo totalmente sob controle e, na
verdade, teve o descaramento para olhar irritado em uma
maneira completamente bem-educada, é claro, toda vez que Hugo
ficou sob os pés dele.
Ele tinha até conseguido flores de algum lugar para decorar
a mesa de jantar. E quando Hugo olhou para o salão de baile de
novo, pouco antes do jantar, para garantir que o chão estava
brilhando novamente depois de ser pisado durante a manhã - por
ele - ficou surpreso ao ver que foi decorado com flores também, e
muitas delas.
Quanto ele estava pagando ao seu mordomo? Teve a
consciência de que iria ter que dobrar o salário.
O jantar foi excelente, e todos estavam em espíritos
exuberantes. Houve conversa e riso. Houve discursos e brindes. O
Sr. Rowlands, que se levantou para agradecer a todos,
impulsivamente se inclinou e beijou a Sra. Rowlands nos lábios, o
que criou um elogio efusivo em torno da mesa. Então, é claro, o
primo Sebastian, para não ficar atrás, teve de ficar de pé para

agradecer a todos suas felicitações por seu aniversário que se
aproximava, e teve que dobrar-se para beijar sua esposa nos
lábios e criar outro rugido de apreciação. Hugo perguntou
fugazmente se qualquer jantar da sociedade incluiria tais
demonstrações estridentes e fixou o pensamento em sua
mente. Gwendoline estava inclinada à frente em sua cadeira,
batendo palmas e sorrindo calorosamente para Sebastian e
Olga. E então ela foi virando a cabeça para falar animadamente
com Ned Tucker à sua direita.
Dois pequenos bolos, primorosamente decorados foram
servidos, um para cada casal, e as duas senhoras os fatiaram,
para o aplauso de todos os outros, e os dois homens serviram os
pratos para todos ao redor. E todos pareciam concordar, quando a
refeição terminou e era hora de passar ao salão de baile para a
chegada dos convidados de fora, que não seriam capazes de
engolir um outro pedaço de comida, pelo menos até amanhã.
- Eu ouso dizer que todas as guloseimas da ceia terão de ser
consumidas pelos meus vizinhos, então - disse Hugo.
- Não vamos ter pressa, rapaz - disse seu tio Frederick. –
Vamos dançar, não vamos? Isso vai gerar um novo apetite em
breve, especialmente se as músicas forem animadas.
E, finalmente, era hora de ficar na porta do salão,
cumprimentando
os
convidados
de
fora
conforme
chegavam. Hugo tinha Fiona ao lado dele e Constance ao lado
dela e só desejava que seu pai pudesse estar aqui agora para vêlos. Ele teria ficado feliz.
Ele olhou ao redor do salão, vendo todos os rostos
familiares, sabendo que ele tinha feito uma boa coisa trazendo
todos aqui por alguns dias. A coisa certa para eles e,
definitivamente, a coisa certa para ele mesmo. Talvez haveria
sempre um pouco de escuridão em sua alma quando se lembrasse
da brutalidade da guerra. Agora ele preferia nutrir a vida do que
a tomá-la. Mas, como ele havia explicado a Gwendoline em

palavras diferentes, a vida não era composta de negros puros e
brancos, mas de um vasto turbilhão de vários tons de cinza. Ele
deixaria de abater-se sobre o que tinha feito. Talvez, ao fazê-lo,
tivesse evitado um mal maior. E talvez não. Quem saberia? Ele
poderia só continuar sua jornada pela vida, esperando que,
juntamente com a experiência, estivesse adquirindo alguma
sabedoria.
Se havia alguma escuridão em sua alma, então havia
também uma quantidade considerável de luz. Um raio brilhante
que estava no outro lado do salão de baile, vestida lindamente,
mas simples em um sedoso vestido de seda limão pálido, com
bainhas recortadas, mangas curtas bufantes, um modesto decote
e uma corrente de ouro simples como seu único
ornamento. Gwendoline. Ela estava conversando com Ned Tucker
e Philip Germane e olhando de volta para ele com um sorriso no
rosto.
Ele piscou para ela. Piscou. Ele não conseguia se lembrar de
ter piscado antes em sua vida.
Mas seu administrador estava entrando no salão com sua
esposa, e o vigário, sua esposa, filho e filha estavam vindo atrás
deles. Hugo voltou sua atenção para os seus hóspedes.
Foi tudo realmente muito delicioso, Gwen decidiu durante a
próxima hora. Ela fez uma pausa para examinar seu
pensamento, mas não houve condescendência nele. As pessoas
eram pessoas, e essas pessoas estavam desfrutando a ocasião com
prazer ousado. Não havia nada contido e nem o educado tédio que
encontrava, muitas vezes, em sociedade, muitos de cujos
membros pareciam acreditar que era simplório ou vulgar
desfrutar de tudo com grande exuberância.
A orquestra tinha em entusiasmo o
habilidade. A maioria dos conjuntos eram
rurais. Gwen dançou todas, tendo assegurado
que ousaram o suficiente para perguntar se

que faltava em
vigorosas danças
às poucas pessoas
seu coxear não a

impedia de dançar. E em todos os momentos se via que ela estava
corada e rindo.
A Sra. Lowry, a tia Henrietta de Hugo, puxou-a de lado
entre a segunda e a terceira dança e perguntou a ela, sem
preâmbulos, se ela ia se casar com Hugo.
- Foi-me pedido uma vez e disse que não - Gwen disse a
ela. - Mas isso foi há muito tempo atrás, e se eu fosse ser
indagada novamente, eu poderia dar uma resposta diferente.
Sra. Lowry assentiu.
- Seu pai foi meu irmão favorito - disse ela - e Hugo sempre
foi o meu sobrinho favorito, mesmo eu não tendo posto os olhos
nele por anos. Ele nunca deveria ter ido embora, mas ele o fez, e
sofreu, e agora está de volta, assim como de coração terno como
sempre, parece-me. Eu não quero ver o seu coração partido.
Gwen sorriu para ela.
- Nem eu - disse ela.
A Sra. Lowry assentiu com a cabeça novamente assim como
umas poucas tias à volta delas.
O próximo conjunto era para ser uma valsa. A notícia
movimentou o salão de baile. Alguns dos vizinhos de Hugo de
tinham solicitado e ele tinha dado a ordem para o líder de
orquestra e agora havia um coro de risadas dos mesmos vizinhos
que, em voz alta, pediam a Hugo para dançar.
Ele, curiosamente, estava rindo muito e, em seguida,
levantou às duas mãos, com as palmas para fora. Por um
momento, ao vê-lo, algo se prendeu nas bordas da mente de
Gwen, mas ela se recusou a deixar vir ao foco e deixou passar.
- Eu vou dançar valsa, - disse ele - mas só se a minha
parceira escolhida entender claramente que, na pior das
hipóteses, ela pode estar lidando com dedos esmagados ao final

da mesma e, na melhor das hipóteses, ela pode ter se colocado em
uma situação ridícula.
Houve alguns elogios, algumas vaias, e mais risadas - de
todos, desta vez.
- Vamos, Hugo - Mark, um de seus primos, chamou. Mostre-nos como se faz, então.
- Lady Muir, - Hugo disse, voltando-se e olhando totalmente
para ela, - vai me dar a honra?
- Sim, vá em frente, Gwen! - Bernardine Emes insistiu. Nós não vamos rir de você. Apenas de Hugo.
Gwen deu um passo adiante e caminhou em direção a ele
conforme ele caminhava em direção a ela. Eles se encontraram no
meio da pista de dança brilhando, sorrindo um para o outro.
- Os meus olhos me enganando? - Ele perguntou a ela
quando eles se encontrar. - Ninguém mais vai dançar conosco?
- Todos estão, provavelmente, dando atenção ao seu aviso
sobre dedos esmagados - disse ela.
- O inferno e danação - ele murmurou e não se desculpou.
Gwen riu e colocou a mão esquerda em seu ombro. Ela
estendeu a outra mão e ele a apertou. Sua mão direita veio para
descansar na parte de trás de sua cintura.
E a música começou.
Levou alguns momentos para ele coordenar seus pés ao som
da música aos seus ouvidos e o ritmo da dança em seu corpo,
mas, em seguida, ele realizou todos os três e dançou com ela,
segurando-a com firmeza na cintura para que ela se sentisse
como se seus pés flutuassem sobre o piso e não havia nenhum
desconforto pelo fato de que suas pernas não tinham igual
comprimento.

Houve aplausos de toda sua família e convidados se
reuniram em torno do perímetro da sala, alguns comentários em
voz alta, um pouco de riso, um assobio cortante. Gwen sorriu
para o rosto dele, e ele sorriu de volta.
- Não me incentive a relaxar - disse ele. - É quando o
desastre vai atacar.
Ela riu e de repente sentiu um grande bem-estar de
felicidade. Ele foi, pelo menos, igual à onda de solidão que sentira
na praia de Penderris pouco antes de conhecer Hugo.
- Eu gosto do seu mundo, Hugo - disse ela. "Eu amo isso.
- Não é realmente tão diferente do seu, não é? - Disse.
Ela balançou a cabeça. Não era muito diferente. Era
diferente o suficiente, é claro, essas mudanças entre eles não
seriam sempre fáceis, se era isso o que ia acontecer.
Mas ela estava muito feliz para especular neste momento
preciso.
- Ah! - Disse ele, e ela olhou ao redor para ver que os outros
estavam tomando a pista e começando a valsa, e o foco da atenção
já não estava exclusivamente neles.
Ele girou sobre um canto da pista e apertou a mão contra a
parte de trás de sua cintura.
Eles não estavam se tocando, mas estavam definitivamente
mais perto do que deveriam estar.
Deveriam estar de acordo com quem?
- Hugo, - disse ela, olhando em seus olhos, seus adoráveis,
escuros, intensos olhos, sorrindo. E ela esqueceu o que estava
prestes a dizer.

Eles dançaram em silêncio por alguns minutos. Gwen
estava muito consciente de que estes minutos estavam entre os
muito felizes de sua vida. E então, antes que a música
terminasse, ele inclinou a cabeça para murmurar em seu ouvido.
- Você notou - disse ele - que há um loft na ponta dos
estábulos? Onde os filhotes estão?
- Percebi - disse ela. - Eu subi lá com a Sra. Rowlands, não
disse? Quando ela escolheu seu filhote?
- Eu não posso ter você em minha cama aqui, - disse ele enquanto eu tenho família e convidados em minha casa. Mas
depois de todos terem ido para casa e para a cama, eu vou levá-la
lá para fora. Nenhum dos cavalariços dorme lá. Eu limpei o loft,
espalhei palha fresca esta manhã e tirei cobertores e
travesseiros. Vou fazer amor com você para o que resta da noite.
- De verdade? - Ela disse.
- A menos que você diga não - disse ele.
Ela devia. Assim como deveria ter dito na enseada em
Penderris.
- Eu não vou dizer não - disse ela quando a música chegou
ao fim e ele lançou-a em mais uma pirueta.
- Mais tarde, então - disse ele.
- Sim. Mais tarde.
Ela não sentiu nenhum dilema de consciência.
E aquela pequena vibração na borda da sua consciência que
ela sentira quando ele ergueu as mãos espalmadas para abordar
os fundamentos sobre a valsa, se abriu como uma cortina à frente
de uma janela, e ela podia ver o que estava dentro.

Gwen não queria que a noite terminasse e, ainda assim,
terminou. Havia a grandeza de um baile aristocrático que ela
sempre desfrutara, mas não havia o calor humano que fez deste,
pelo menos, igualmente agradável.
Ela adorava a maneira como todos os convidados na casa a
tinham chamado pelo seu primeiro nome, logo que ela os tinha
convidado a fazê-lo no segundo dia aqui. E ela amava o jeito
informal, afetuoso em que os vizinhos de Hugo o tratavam. Ele
era um anjo disfarçado, a esposa do açougueiro disse a Gwen em
um ponto à noite, sempre consertando as pernas de cadeiras, ou
limpando bloqueios nas chaminés, ou serrando os ramos das
árvores que estavam em perigo de cair em um telhado se o vento
já soprava com força suficiente, ou trabalhando ao longo de um
jardim para alguém que estava ficando muito idosos para fazê-lo
sem um grande esforço doloroso.
- E é Lorde Trentham - disse a mulher. Você poderia ter nos
derrubado a todos com uma pena quando descobrimos no ano
passado, milady. Mas ele ainda continuou a fazer, como se fosse
um simples homem qualquer. Não que muitos homens comuns
fariam o que ele faz, veja, mas sabe o que quero dizer.
Gwen sabia.
E, finalmente, a noite chegou ao fim e todos os convidados
de fora partiram ou andaram na direção da aldeia, segurando
lanternas no alto e balançando na brisa. Parecia uma eternidade
antes que o último dos convidados fosse para a cama, mas era
apenas um pouco depois da meia-noite, Gwen descobriu quando
chegou ao seu próprio quarto. Mas, claro, todas essas pessoas
trabalhavam, e mesmo quando eles estavam de férias eles não
desviavam muito de seu início da manhã e início da noite.
Gwen dispensou sua empregada para a noite e colocou
roupas diferentes. Ela colocou o manto sobre a cama - o vermelho,
que ela estava usando quando torceu o tornozelo. E se sentou na
beirada da cama, esperando.

Esperando seu amante, ela pensou, fechando os olhos e
apertando as mãos no colo.
Ela não iria começar a considerar se isso era certo ou
errado, se ela deveria ou não.
Ela ia passar o resto da noite com seu amante e era isso.
E, finalmente, houve uma leve batida na porta e virou a
maçaneta calmamente. Ele também tinha se trocado, Gwen viu
quando ele chegou a seus pés, atirou sua capa sobre seus ombros,
apagou as velas e a puxou do quarto junto a ele para o corredor
longo e escuro. Ele estava segurando uma vela em um
suporte. Ele pegou sua mão e se inclinou para beijá-la na boca.
Eles não falaram enquanto passavam pelo corredor e
desciam as escadas em frente ao hall. Ele entregou-lhe a vela
enquanto soltava a tramela da porta e abriu-a. Então, ele tomou
a vela de volta, soprou-a e a colocou sobre uma mesa perto da
porta. Seria desnecessária do lado de fora. As nuvens, que
tinham escurecido a noite quando os convidados estavam saindo,
deviam ter se afastado, e uma lua quase cheia e milhões de
estrelas faziam uma lâmpada ser completamente desnecessária.
Ele tomou sua mão novamente e virou-se na direção dos
estábulos. Ainda assim eles não falaram. O som de vozes era
elevado muito durante a noite, e algumas pessoas não teriam ido
à cama há mais do que meia hora.
Os estábulos estavam nas trevas até que Hugo tirou uma
lanterna de um gancho no interior da porta grande e os
iluminou. Cavalos relinchavam sonolentos. O cheiro familiar de
feno e couro não era desagradável.
Eles andaram o comprimento da passagem estreita entre as
baias, lado a lado, seus dedos entrelaçados.
E então ele soltou sua mão para iluminar seu caminho até a
escada íngreme para o loft antes de seguir atrás dela. Dois ou

três dos filhotes estavam guinchando em sua grande caixa de
madeira, e um tranquilo latido indicou que a sua mãe estava com
eles.
Hugo pendurou a lanterna em um gancho por baixo de uma
viga de madeira inclinou-se para espalhar um cobertor sobre a
palha fresca. Ele jogou algumas almofadas sobre o cobertor e se
virou para olhar para Gwen. Ele tinha que se inclinar um pouco
para que a cabeça não batesse contra o teto.
- É melhor eu dizer uma coisa em primeiro lugar, - ele disse
secamente - e tirá-lo do caminho. Caso contrário, eu não vou ter
um momento de paz.
Ele estava franzindo a testa e olhando realmente muito
rabugento.
- Eu te amo - disse ele.
Ele olhou para ela com a mandíbula firme e os olhos ferozes.
Rir seria absolutamente a coisa errada a fazer, Gwen
decidiu, reprimindo a vontade de fazer exatamente aquilo.
- Obrigada - ela disse e deu um passo adiante para colocar a
ponta dos dedos contra seu peito e levantar o rosto para seu beijo.
- Eu não fiz isso muito bem, não é? - Ele disse e sorriu.
E em vez de rir, ela se encontrou piscando para conter as
lágrimas.
- Diga isso de novo - disse ela.
- Você poderia me torturar, não é? - Perguntou a ela.
- Diga isso de novo.
- Eu te amo, Gwendoline - disse ele. - Na verdade, é um
pouco mais fácil a segunda vez. Eu te amo, eu amo você, eu te
amo.

E seus braços vieram sobre ela e ele a abraçou com força
suficiente para deixá-la sem respiração. Gwen riu com o fôlego
que lhe restava.
Ele a dominou, olhou em seus olhos, e abriu o fecho no
pescoço de sua capa.
- É tempo de agir, em vez de apenas palavras - disse ele.
- Sim - ela concordou conforme a capa caiu para a palha em
seus pés.
Só uma coisa havia mantido sua vida amorosa na enseada
em Penderris longe de ser perfeita na memória de Hugo. Ele a
tinha tocado, naquela ocasião, e ele a tinha penetrado longa e
profundamente, mas ele não a tinha tido nua. Ele não conhecia a
sensação de pele contra pele, como um homem deve conhecer a
mulher que ama. Conhecer, no sentido bíblico, que foi.
Hoje à noite os dois estariam nus, e eles conheceriam um ao
outro sem nenhuma barreira, nenhum artifício, nenhuma
máscara.
- Não - ele murmurou quando ela ameaçou ajudá-lo a despila. Não, ele não ficaria privado disto. E não havia pressa
real. Deve ser pelo menos uma hora já, e os cavalariços estariam
aqui por volta das seis. Mas isso ainda deixava muito tempo para
fazer amor e, talvez, um pouco de sono entre uma vez e outra. Ele
nunca tinha dormido com uma mulher. Ele queria dormir com
Gwendoline quase tanto quanto ele queria ter relações sexuais
com ela. Bem, talvez não tanto.
Ele a despiu lentamente, seu vestido primeiro - ela não
estava usando roupa íntima - e embaixo de seu corpo até que
apenas as meias de seda permaneceram. Ele se afastou para
olhá-la à luz do lampião. Ela era linda, perfeitamente em
forma. Ela tinha o corpo de uma mulher, em vez de uma
menina. O corpo da mulher para combinar ao corpo de seu

homem. Ele passou as mãos levemente para baixo sobre os seios,
em sua cintura e sobre o alargamento de seus quadris. Ela
estremeceu, embora não com o frio, ele adivinhou.
- Eu ainda tenho um pouco de consciência - disse ela. - Eu
nunca fiz isso antes. Sem roupa, quero dizer.
O que? Que raio de homem tinha sido Muir?
- Você está vestindo roupas - disse ele. - Ainda tem suas
meias.
Ela sorriu.
- Venha - disse ele, tomando-lhe a mão. - Deite-se no
cobertor. Eu vou tirar minhas próprias roupas e, em seguida,
cobri-la com o meu corpo, e assim restaurar a sua modéstia.
- Oh, Hugo - disse ela, rindo baixinho.
Deitou-se, e ele caiu de joelhos para retirar suas meias, uma
de cada vez. Beijou o interior de suas coxas, joelhos, panturrilhas,
tornozelos, o arco de seus pés conforme as tirava. E depois,
naturalmente, ele queria libertar-se e levá-la ali mesmo. Ele
estava pronto. Ela estava pronta. Mas ele havia se prometido que
seria pele contra pele neste momento.
Ajoelhou-se sobre os calcanhares e tirou seu casaco.
- Você quer minha ajuda? - Perguntou ela.
- Uma outra vez - disse ele. - Agora não.
Ela observou-o, assim como ela tinha visto na praia, quando
ele tirou suas cuecas molhadas.
- Eu sou um grande brutamontes, eu temo - disse ele
quando estava nu. - Desejava ser mais elegante para você.
Ela olhou nos olhos dele quando ele se ajoelhou entre suas
pernas novamente e abriu os joelhos sob suas coxas.

- Não pode haver qualquer outro homem modesto como
você, Hugo - disse ela. - Eu não mudaria nada sobre sua
aparência. Você é perfeitamente belo.
Ele riu suavemente quando ele se inclinou sobre ela, as
mãos apoiando-se em ambos os lados de seus ombros, e abaixouse para que pudesse sentir seus seios escovando levemente o
peito.
- Mesmo quando eu olho feio? - Disse.
- Mesmo assim - disse ela, levantando as mãos para seu
pescoço. - Sua carranca não me engana nem por um
momento. Nem por um único momento.
Ele a beijou suavemente enquanto sua pele queimava com
um calor urgente.
- Eu queria que isso fosse perfeito - disse ele contra seus
lábios. - A primeira noite de amor. Eu queria jogar
interminavelmente antes de levar você para as alturas de êxtase
e saltar para o vazio com você.
Ela riu novamente.
- Acho que podemos dispensar o jogo - disse ela - e guardá-lo
para outra altura.
- Podemos? - Perguntou. - Você tem certeza?
Ela apertou seus lábios contra os dele, levantou os seios
contra seu peito e entrelaçou as pernas sobre seus quadris, e ele
se esqueceu de que o jogo de palavra sequer existia. Encontrou-a
e mergulhou nela. E se ele temia que ela não estivesse totalmente
pronta para ele, ele foi logo desmentido. Ela estava quente e lisa,
e seus músculos internos se apertaram sobre ele e o convidaram a
penetrar profundamente.
Ele retirou-se e mergulhou novamente e estabeleceu um
ritmo que os levaria ao clímax dentro de momentos. A pressa não

importava. Não se tratava de resistência ou de bravura. E a
memória veio inundando-o, não uma memória que nunca tinha
sido posto em palavras, mas que ele tinha sentido no centro de
seu coração - Gwendoline era a única mulher em sua vida com a
qual o sexo era subordinado a fazer amor. Ela era a única mulher
com a qual o sexo tinha sido uma coisa compartilhada e não
apenas algo para satisfazer sua própria vontade e prazer físico.
Ele diminuiu o ritmo por um momento, levantou a cabeça e
olhou em seus olhos. Ela o olhou de volta, seus olhos meio
fechados. Ela parecia quase em dor. Seus dentes fechados sobre
seu lábio inferior.
- Gwendoline - disse ele.
- Hugo.
- Meu amor.
- Sim.
Ele se perguntou brevemente se qualquer um deles poderia
recordar as palavras. Sem dizer nada e dizendo tudo.
Ele abaixou a testa em seu ombro e dirigiu a ambos à beira
do pináculo e mais além, em uma descida gloriosa para o
nada. Para tudo.
Ele a ouviu gritar.
Ouviu-se gritar.
Ele ouviu um gemido de cachorro e, em seguida, um sugar.
E ele suspirou em voz alta contra seu pescoço e se permitiu
o luxo de relaxar brevemente todo seu peso sobre seu quente e
úmido, requintadamente belo corpo.

Ela suspirou também, mas não em protesto. Era um suspiro
de satisfação perfeito, de perfeito contentamento. Ele tinha
certeza disso.
Ele afastou-se dela, estendeu a mão para o outro cobertor
que tinha trazido ontem - ou pela manhã, ele supôs - e espalhou-o
sobre eles. Ele levantou sua cabeça em seu braço e descansou a
face contra o topo de sua cabeça.
- Quando eu tiver mais energia, - disse ele – vou me oferecer
para fazer de você uma mulher honesta. E quando você tiver
mais energia, vai dizer sim.
- Vou? - Ela perguntou. - Com um muito obrigada, senhor?
- Sim, será suficiente - disse ele e prontamente adormeceu.

Capítulo 23
- Hugo - ela sussurrou.
Ele estava dormindo há algum tempo, mas vinha fazendo
sons de agitação nos últimos minutos. Ela observou a luz fraca da
lamparina tremeluzir em seu rosto.
- Humm - disse ele.
- Hugo, - disse ela - eu lembrei de algo.
- Humm - disse ele novamente e então inalou alto. - Eu
também. Tenho apenas a lembrança deste momento, e se você me
der alguns instantes, estarei pronto para criar mais lembranças.
- Sobre... sobre o dia em que Vernon morreu - disse ela, e ele
abriu os olhos.
Eles olharam um para o outro.
- Sempre me esforcei para não lembrar daqueles poucos
minutos - disse ela. - Mas é claro que me lembrei. Nada pode
apagar as imagens.
Ele estendeu a mão sobre o lado do rosto dela e a beijou.
- Eu sei - disse ele. - Eu sei.
- E algo sempre ficou flutuando - disse ela. - Algo que não se
encaixava de alguma forma. Nunca tentei muito descobrir o que
era, porque não queria lembrar de tudo. Eu ainda não sei. Ainda
gostaria de poder esquecer por completo.
- Você se lembrou do que não se encaixava? - Perguntou.
- Foi o que aconteceu na noite passada, - disse ela - quando
todos os seus vizinhos estavam tentando persuadi-lo a valsar e
todo mundo estava rindo e levantou as mãos para que pudesse
dar uma resposta.

Ele usou o polegar para acariciá-la na bochecha.
- Você levantou as mãos com as palmas para fora - disse
ela. -É o que as pessoas fazem, não é, quando querem dizer algo
ou parar alguma coisa.
Ele não disse nada.
- Quando eu... - ela começou e engoliu em seco. - Quando me
virei ... quando Vernon caiu da galeria, Jason estava virado para
ele já, e ele estava segurando as mãos acima da cabeça para detêlo. Foi um gesto fútil, é claro, mas um compreensível sob as
circunstâncias. Exceto aquilo...
Ela franziu a testa, mesmo agora tentando imaginar o que
ela dizia. Mas ela estava certa.
- As palmas das mãos dele estavam voltadas para dentro? ele perguntou. - Empurrando ao invés de parar?
- Talvez eu tenha me enganado - disse ela. Embora ela
soubesse que não tinha.
- Não - disse ele. - Memórias como essa são indeléveis,
mesmo se a mente não as admitir durante sete anos ou mais.
- Ele não teria sido capaz de fazer isso, - disse ela - se eu
não tivesse virado as costas, se eu tivesse ido até Vernon, em vez
de ir à biblioteca.
- Gwendoline, - disse ele - se nada tivesse acontecido,
quanto tempo você permaneceu na biblioteca?
Ela pensou sobre isso.
- Não muito tempo - disse ela. - Não mais do que cinco
minutos. Provavelmente menos. Ele precisava de mim. Ele tinha
acabado de ouvir algo muito perturbador. Eu entendi isso assim
que entrei na sala. Eu teria dado algumas respirações profundas,
como fiz em outras ocasiões, e ido para ele.

- Como ele recebeu a perda do filho? - Perguntou.
- Ele culpou a si mesmo - disse ela.
- E ele precisava de conforto - disse ele. - Ele lhe deu
conforto?
- Ele estava doente - disse ela.
- Sim, - ele concordou - ele estava. E se vocês tivessem
vivido por mais de cinquenta anos, ele teria continuado doente e
você teria continuado a amá-lo e confortá-lo.
- Eu prometi para melhor ou pior, na doença ou na saúde disse ela. - Mas o deixei para baixo no final.
- Não - disse ele. - Você não era a carcereira dele,
Gwendoline. Você não poderia estar de pé o vigiando durante as
vinte e quatro horas de todos os dias. E doente ou não, ele não
estava sem juízo, estava? Você tinha perdido um filho tanto
quanto ele. Mais. Mas ele tomou a carga de culpa sobre si mesmo
e no processo, roubou de você o conforto que você tão
desesperadamente necessitava. Mesmo nas profundezas do seu
desespero, ele deveria saber que estava colocando um fardo
insuportável em cima de você e não fez nada para cumprir o que
havia prometido a você. Doença, a menos que seja loucura total,
não é uma desculpa para um grande egoísmo. Você precisava de
amor tanto quanto ele. Ele caiu. Ninguém o empurrou. Ele
acenou e provocou. Mas ele foi o único que caiu deliberadamente, ao que parece. Eu entendo porque você se
culpa. Eu melhor do que ninguém, talvez, posso entender
isso. Mas eu absolutamente a absolvo de toda a culpa. Deixe-o ir,
meu amor. Grayson realmente não pode ser acusado de
assassinato, não pode, mesmo que sua intenção fosse, sem
dúvida, assassina. Deixe-o à consciência dele, embora duvido que
ele tenha uma. Deixe-o à sua maldade. E se deixe ser
amada. Deixe-me amar você.

- Ele estava conosco quando eu caí, - ela disse - quando o
meu cavalo não pulou a cerca. Ele nunca tinha falhado um salto
antes e não foi a mais alta das cercas que ele tinha saltado. Jason
estava conosco. Ele estava atrás de mim, me empurrando,
tentando incentivar o meu cavalo a dar o salto, eu sempre
pensei. Ele não poderia ter ... podia?
Ela o ouviu inalar lentamente.
- É possível - disse ela - que eu não tenha matado o meu
próprio filho? Ou isso é a ânsia se manifestando, porque percebi
que ele queria Vernon fora do caminho? Até mesmo morto? Será
que ele queria nossa criança morta também? Será que ele
me queria morta?
- Ah, Gwendoline - disse ele. - Ah, meu amor.
Ela fechou os olhos, mas não conseguia parar as lágrimas
quentes, escaldantes derramadas sobre suas bochechas e que
escorreriam para o cobertor e faziam uma poça ao lado de seu
nariz.
Ele a tomou nos braços, espalhando uma grande mão atrás
de sua cabeça, e beijou seu rosto molhado, as pálpebras, a fonte,
os lábios molhados.
- Silêncio - ele sussurrou. - Silêncio agora. Deixe tudo
ir. Deixe-me
amar
você. Você
tem
amado
errado,
Gwendoline. Não é tudo dar, dar, dar. É tomar também. É
permitir que o outro tenha o prazer e a alegria de dar. Deixe-me
amar você.
Ela pensou que seu coração certamente quebraria. Toda a
vida, ao que parecia, ou desde o casamento, de qualquer maneira,
se segurou, tentando sempre estar alegre, tentando não ser
negativa ou amarga. Ela já havia tentado amar, e tinha aceitado
amor em troca, desde que fosse o tranquilo e constante amor de
sua mãe ou do irmão, ou Lauren ou Lily ou o resto de sua família.

Mas…
- Seria como saltar para fora da borda do mundo - disse ela.
- Sim- disse ele. - Eu estarei lá para pegar você.
- E você? - Ela disse.
- Você pode me pegar quando eu saltar - ele disse a ela.
- Você vai me esmagar - disse ela.
E ambos estavam rindo, abraçados juntos nos braços um do
outro, um tanto úmidos de lágrimas.
- Gwendoline, - disse ele quando estavam finalmente em
silêncio de novo - vai casar comigo?
Ela o segurou, os olhos fechados, e inalou os aromas
misturados de colônia, suor e masculinidade. E o algo indefinível
maravilhoso que era o próprio Hugo.
- Você acha que posso ter filhos? - Ela perguntou. - Acha que
mereço outra chance? E se eu não puder?
Ele estalou a língua.
- Ninguém sabe ao certo - disse ele. - Nós vamos descobrir
como o passar do tempo. E sim, você merece ter filhos de seu
próprio corpo. Quanto a mim, não se preocupe. Gostaria de casar
com você mil vezes e não ter filhos do que casar com qualquer
outra mulher no mundo e ter uma dúzia. Na verdade, eu acho
que não vou casar com ninguém, se você não me quiser. Terei que
começar a ir a bordéis.
Eles estavam bufando de rir novamente depois.
- Bem, nesse caso... - disse ela.
- Sim? - Ele recuou a cabeça e olhou para ela à luz do
lampião.

- Vou me casar com você - ela disse, preocupada. - Oh, Hugo,
não me importo quantos mundos diferentes temos de atravessar,
a fim de encontrar o nosso próprio pequeno mundo. Não me
importo. Vou fazer o que tem de ser feito.
- Eu também - disse ele.
E eles sorriram um para o outro até que ambos tinham
lágrimas nos olhos.
Ele sentou-se e remexeu na pilha de roupa até que
encontrou o relógio. Ele o segurou contra a luz da lâmpada.
- Duas e meia - disse ele. - É melhor estar fora daqui por
volta das 5:30. Três horas. O que podemos fazer em três
horas? Alguma sugestão?
Ele se virou para olhar para ela.
Ela abriu os braços para ele.
- Ah, sim - disse ele. - Uma excelente sugestão. E três horas
dá muito tempo para jogar, bem como festejar.
- Hugo - disse ela enquanto ele fechava os braços sobre ela
de novo e se deitava de costas, trazendo-a para cima dele. - Oh,
Hugo, eu te amo, eu te amo.
- Mmm- disse ele contra seus lábios.

Hugo fez o anúncio durante um café da manhã tardio, que
todos participaram. Ele deveria talvez ter falado com o irmão de
Gwendoline primeiro, mas já tinha feito isso uma vez. E, talvez, o
anúncio deveria ter sido feito para a família em primeiro lugar,
mas... por quê? A família dela seria informada logo que eles
retornassem a Londres.

- Ah, - disse Constance, olhando em volta da mesa e soando
melancólica - toda a emoção acabou, e amanhã vamos voltar para
Londres.
- Mas cada momento da nossa estadia foi maravilhoso,
Constance - disse Fiona, a voz quente e animada de uma forma
que Hugo nunca a ouvira falar antes desta semana. - E ainda há
hoje para desfrutar.
- E a emoção não acabou totalmente - disse Hugo a partir da
cabeceira da mesa. - Pelo menos, para mim não acabou. E
para Gwendoline também não. Para nós que ficamos noivos
recentemente e pretendemos passar o dia desfrutando o nosso
novo status.
Ela lhe disse ontem à noite que ele poderia fazer o anúncio
hoje se quisesse. Ela sorriu agora e mordeu o lábio enquanto a
sala se encheu com os sons de exclamações e gritos e aplausos e
todos falando de uma só vez e cadeiras raspando no chão. Hugo
encontrou sua mão sendo apertada, recebendo tapinhas nas
costas, as bochechas sendo beijadas. Gwendoline, ele viu, estava
sendo abraçada e beijada também.
Ele se perguntou se os membros da família dela reagiriam
com tal entusiasmo desenfreado, e ocorreu-lhe que muito
possivelmente o fariam.
- Você me deve dez guines, creio eu, Mark, - o primo Claude
disse do outro lado da mesa. - Eu disse até o final da
semana. E havia testemunhas.
- Você não poderia ter esperado mais um dia ou dois, Hugo?
- Perguntou Mark.
- E quando ocorrerão
Henrietta. -E onde?

as

núpcias?

-

Perguntou

tia

- Em Londres - disse Hugo. - Provavelmente em St. George,
na Hanover Square. Assim que os proclamas forem
lidos. Queremos estar casados e de volta para o verão.
Eles tinham discutido outras possibilidades, - Newbury
Abbey, Crosslands Park, mesmo Penderris Hall - mas eles
queriam que ambas as famílias participassem, e em qualquer
lugar fora de Londres parecia impraticável, em parte por causa
do número de pessoas que deviam ser acomodadas, e em parte
porque os membros de sua própria família já tinham tirado férias
de vários dias. Além disso, a estação ainda estaria em pleno
andamento e o Parlamento ainda em sessão. Eles realmente não
queriam esperar até o verão.
- St. George - disse tia Rose. - Grande! Espero que todos nós
sejamos convidados.
- Nós não poderíamos nos casar, - disse Gwendoline
precipitadamente - se vocês todos não estivessem lá, bem
como toda a minha família.
- Mas não tenho nada para vestir - disse Constance e riu
alegremente. - Oh, estou tão feliz que poderia estourar.
- Não toda a comida, por favor Con - disse o primo Claude.
Hugo estava cansado. Ele tinha dormido por talvez uma
hora após o segundo, vigoroso ato sexual, mas tinha usado toda a
energia renovada em uma terceira vez, que acabou
perigosamente perto de 05:30, o tempo pelo qual ele decidiu que
deveriam deixar os estábulos. Teria sido uma vergonha medonha
serem descobertos lá por um cavalariço.
Gwendoline tinha ido para cama quando voltaram para
casa. Ele não. Ele estava muito animado - como um colegial.
Estava cansado agora, mas agradavelmente. Seu corpo foi
saciado e relaxado, a mente centrada na felicidade. E ele não
iria permitir a entrada de quaisquer avisos mentais sobre a

felicidade ser um estado precariamente temporário ou sobre o
romance ser ainda mais frágil. Ele não estava apenas apaixonado
pela noiva. Ele a amava. E não tinha ilusões sobre felizes para
sempre depois. Ele sabia que a felicidade era algo que tinha de
ser trabalhada tão duramente e tão diligentemente quanto ele
trabalhou quando menino em seguir os passos do pai e mais
tarde em ser o melhor oficial militar no exército britânico.
Ele não tinha medo do fracasso.
Fiona passeou ao ar livre com ele por um tempo, depois do
café, de braços dados. Era uma tardia manhã fria e muito
nublada.
- Isso tudo é tão bonito, Hugo - disse ela. - Todo o tempo que
estivemos aqui, as pessoas têm vindo dizer o que acham que se
deve fazer para desenvolver o parque, e você disse a si mesmo
que fará algumas mudanças. Não faça muitas. Às vezes a
natureza simplesmente basta.
Ele olhou para ela e ficou surpreso com a quantidade de
afeto que sentia por ela, esta mulher a quem seu pai havia amado
e com quem ele havia gerado uma filha - Constance.
- Eu não vou mudar muita coisa - disse ele. - Não vou fazer
uma grande, chamativa atração daqui. Constance e eu fomos a
uma festa em um jardim em Richmond, há pouco tempo, você
pode recordar. O jardim era bastante impressionante em sua
magnificência. Mas eu não trocaria meu parque aqui por aquilo
de maneira nenhuma no mundo.
- Bom. - Ela caminhou em silêncio ao lado dele por um
tempo. - Hugo, eu sei o que fiz. Eu sei que o guiei a uma vida
para a qual você não se adequava, apesar do fato de você ter se
distinguido tão brilhantemente. Se você tivesse morrido, eu...
Ele colocou a mão sobre a dela.

- Fiona, - disse ele, - ninguém me levou a nada. Eu escolhi
ir. E se eu não tivesse feito isso, você sabe, eu seria um homem
diferente hoje. Talvez melhor, talvez pior, talvez a mesma
coisa. No entanto, é, eu não gostaria de ser diferente. Eu não
gostaria de ficar sem as experiências que me trouxeram até onde
estou neste momento. Se eu não tivesse ido, eu nunca teria
conhecido Gwendoline. E eu não morri, não é?
- Você é generoso - disse ela. - Você está dizendo que me
perdoa. Obrigada. Talvez eu acabe por me perdoar. Seu pai era
um homem bom. Mais do que bom. Ele merecia alguém melhor do
que eu.
- Ele escolheu você - disse ele. - Ele escolheu você, porque
ele a amou.
- Eu queria perguntar...- ela disse. - A razão pela qual
procurei você esta manhã foi para perguntar a você...
Ele inclinou a cabeça em direção a ela.
- Philip, o senhor Germane, - disse ela - tem perguntado se
pode me visitar em Londres. Ele quer me mostrar os jardins
botânicos de Kew e o pagode que há lá. Ele quer me levar ao
teatro, porque eu não estive lá há anos, e aos jardins de Vauxhall,
porque eu nunca estive lá. Será que isso... irá irritar você,
Hugo? Seria desrespeitoso com seu pai? Seria desagradável para
você, uma vez que ele é irmão de sua falecida mãe?
Hugo tinha assistido à predileção que Fiona e Philip tinham
mostrado um para o outro durante toda a semana. Tinha visto
com um certo prazer.
Philip se casou há anos quando era um homem muito
jovem, pouco antes de Hugo partir para a guerra, mas a esposa
dele morreu no parto menos de um ano depois. Ele permaneceu
sozinho desde então. E Fiona, apesar de sua recente depressão e
problemas de saúde e do apego egoísta de Constance, de repente

floresceu em um prazo maior. Ela tinha carregado um pesado
fardo de infelicidade e culpa, mas parecia estar fazendo um
grande esforço para arrumar sua vida novamente.
Quem sabia se um encontro entre os dois, se era para isso
ocorrer, lhes traria felicidade duradoura? Era uma pergunta que
Hugo não tinha como responder. Mas podia desejar-lhes
felicidade.
Ele acariciou a mão dela.
- Certifique-se de que ele a leve a Vauxhall em uma noite
quando há fogos de artifício - disse ele. - Ouvi dizer que essas são
as melhores noites.
Ela suspirou profundamente.
- Estou muito feliz por você, Hugo - disse ela. - Quando
Lady Muir veio pela primeira vez a casa para buscar Constance
para comprar roupas, eu estava preparada para odiá-la. Mas não
consegui mesmo assim. E esta semana vi como completamente
afetada suas maneiras são e como ela não é condescendente com
ninguém, mas parece genuinamente desfrutar a companhia de
todos, mesmo da Mama. E eu vi o quanto ela o ama. Vocês
pareciam tão lindos juntos quando estavam dançando na noite
passada, apesar do coxear. Seu anúncio no café da manhã não foi
realmente uma surpresa para ninguém, você sabe.
Ele riu, lembrando-se de como ele havia se preparado para
isso.
As primeiras gotas de chuva os levou de volta para dentro
de casa.
Ele fez uma visita à sala de bilhar um pouco mais tarde e
assistiu a um jogo em andamento. Quando saiu, Ned Tucker o
seguiu.
- Você está ocupado? - Perguntou. - Posso ter uma palavra?

Hugo levou-o para a biblioteca, lembrando-se de que teria
que encontrar algum lugar para doar a maioria dos livros
horríveis. A ausência deles iria deixar as prateleiras meio vazias,
mas ele preferiria isso que do que o que enfrentava agora toda
vez que entrava na sala. Iria substituí-los gradualmente com
livros de sua própria escolha e de Gwendoline. Talvez ela tivesse
algumas sugestões sobre o que fazer com as prateleiras vazias no
entretanto.
- Foi ruim da minha parte, - disse Tucker - aceitar seu
convite para vir aqui quando você ofereceu apenas porque eu
estava lá quando você convidou a família da senhorita Emes, e a
Senhora Rowlands disse que eu era como um filho para ela. Você
realmente não teve uma escolha, não foi? Mas eu deveria ter dito
não. Eu disse que sim porque eu queria vir, e me diverti muito e
muito obrigado.
- Fiquei mais do que feliz em recebê-lo -, disse Hugo,
servindo a cada um deles uma bebida da garrafa do canto da
mesa e duas cadeiras, indicando a mais de perto da janela.
Ainda estava chovendo, ele podia ver, embora fosse garoa
em vez de chuva absoluta. As estradas não devem ser muito
afetadas para a jornada de amanhã.
- Sua irmã está aproveitando a primavera imensamente disse Tucker, olhando para o copo enquanto ele rodava
lentamente seu porto. - Ela esteve pranteando o pai no ano
passado, e antes disso, ela era apenas uma garota.
Hugo esperou.
- Ela se associou mais com os primos do lado do pai e seus
amigos - disse Tucker. - Com sua própria espécie. E ela foi
misturando-se à sociedade, andando e passeando com um número
de cavalheiros. Estou certo de que todos eles são dignos dela, ou
você ou Lady Muir ou ambos iriam acabar com a associação. Ela é
muito jovem e também, nova à vida para fazer escolhas

ainda. Não que isso impeça um monte de gente. Mas ela é
extraordinariamente sensível para a sua idade, ou assim pareceme. E depois há...
Ele parou para tomar a bebida do copo, os movimentos um
pouco irregulares.
- Você? - Hugo sugeriu.
- Eu sou quem sou - disse Tucker. - Posso ler e escrever e
calcular. Possuo minha própria pequena casa e a loja. A loja traz
em uma renda estável embora nunca me trará fortuna. Mas as
pessoas sempre vão precisar de equipamentos. Ouso dizer que
vou manter a loja toda a minha vida e entregá-la ao meu filho
quando eu morrer, assim como meu pai fez comigo. Eu me
aventuro em algumas coisas na parte de trás, alguma coisa de
carpintaria e serralharia. Fiz algumas casas de bonecas e casas
de cachorro e os vendi com um bom lucro. Não me importaria de
tentar algo um pouco maior. Um galpão, talvez, embora gostaria
de ser capaz de usar um pouco de imaginação.
- Uma casa de verão? - Hugo sugeriu. - Um pavilhão no
jardim?
Tucker considerou.
- Isso seria grande, - disse ele - embora não sei quem precisa
de nada disso.
- Você está olhando para uma pessoa - disse Hugo.
Tucker olhou para ele e depois sorriu.
- Sério? - Disse.
- Realmente - disse Hugo. - Falaremos sobre isso em algum
momento.
- Certo - disse Tucker e voltou sua atenção para o conteúdo
dificilmente empobrecido de seu copo.

- Não estou pedindo pela mão dela - disse ele. - Nada como
isso. Não estou sequer pedindo permissão para cortejá-la. Não
acho que ela esteja pronta para a corte de ninguém. O que estou
pedindo... - Ele fez uma pausa e respirou fundo. - Quando chegar
o tempo que ela estiver pronta, e se ela estiver inclinada a gostar
de mim, sabendo muito bem que poderia conseguir melhor, quer
com o seu próprio pessoal ou com as classes mais altas, seria
melhor se eu fingisse não estar interessado, talvez até mesmo se
eu fingir que há outra pessoa?
Este era um assunto delicado.
Ou talvez não tão muito complicado, afinal.
- Você a ama? - Perguntou Hugo.
Tucker encontrou seus olhos.
- Espantosamente - disse ele.
- Então vou confiar em você para fazer o que é certo - disse
Hugo. -E vou confiar em Constance. Eu já confio. A decisão deve
ser sua e dela. E da mãe dela também se vier a ocorrer. Não
fingiria nada, porém, se fosse você. É melhor ser honesto e
confiar nela para tomar uma decisão sábia.
- Obrigado - disse Tucker, e ergueu o copo e bebeu o porto. Obrigado. Agora, onde você quer esse caramanchão? E quão
grande você está pensando?
Hugo olhou para a janela. Parecia que a chuva tinha parado
no momento, embora as nuvens ainda pairassem baixas.
- Venha - disse ele. - Vou mostrar a você. Melhor ainda, vou
procurar Gwendoline para ir conosco também. Talvez Constance
queira ir conosco.
Na verdade, ele não podia esperar para ver Gwendoline
novamente, para ter uma desculpa para passar mais tempo com
ela. Era só que como o anfitrião de uma festa, mesmo que fosse

apenas um grupo de membros da família, ele se sentia obrigado a
passar tempo com todos, exceto sua recém-noiva.
Às vezes a vida era um negócio tolo.
E às vezes era mais maravilhosa do que ele jamais poderia
sonhar.

Capítulo 24
Estava chovendo na manhã do dia do casamento. Muito
fortemente.
Hugo, que não acreditava em presságios, no entanto,
pensou que a luz do sol, ou, pelo menos, o bom tempo, teria sido
mais conveniente para todos os interessados, quando havia um
casamento para assistir. Mas quando o sol saiu, exatamente
quando ele estava saindo de casa, e as ruas e calçadas
começaram quase instantaneamente a secar, pensou que, talvez,
ele acreditasse em presságios apenas um pouco, afinal.
Ele havia pedido a Flavian para ser seu padrinho,
esperando não ofender ao menos meia dúzia de primos. Mas
Flavian ainda se sentia quase tão perto dele como seu próprio
coração. E ele tinha aceitado depois de apenas um atraso de
tempo suficiente para levantar as sobrancelhas, suspirar
profundamente e entregar-se a um discurso curto, lânguido.
- Hugo, meu querido velho amigo, - disse ele - o mundo iria
dar uma olhada em você e concluiria que você deveria ser o
último homem na Terra a sucumbir a algo tão frágil como o amor
romântico. Mas qualquer um dos sobreviventes teria sido capaz
de dizer ao mundo, há muito tempo, que se alguém fosse provável
a cair, seria você. E isso apesar de toda sua conversa muito
sensível no início do ano sobre encontrar uma adequada
companheira. Sim, sim, eu vou ser seu padrinho. E eu seria capaz
de apostar que você ainda vai estar olhando para sua noiva com
os olhos do romance quando ela tiver oitenta e você alguns anos
mais. E ela vai estar olhando de volta para você da mesma
forma. É quase o suficiente para restaurar a fé abalada no felizes
para sempre.

- Um simples sim teria bastado, Flave - Hugo disse a ele.
- Isso mesmo - concordou Flavian.
Todos os membros da família de Hugo foram assistir ao
casamento, é claro. Assim como George e Ralph. Imogen tinha
surpreendido Hugo ao aceitar seu convite. Ela viria a Londres por
alguns dias e ficaria com George, havia dito em sua carta. Ben
estava no norte da Inglaterra, visitando sua irmã. Vincent não
estava em casa, e sua família não sabia para onde ele tinha
ido. Mas ele tinha levado suas roupas e seu criado com ele, e o
homem que sempre tinha se mostrado bastante capaz de cuidar
de todas as suas necessidades. Ninguém estava preocupado ainda.
A família de Gwendoline tinha sido convidada também, bem
como alguns amigos. Mas não era para ser um casamento típico
da sociedade durante a temporada. A igreja não estaria
transbordando com o crème-de-la-crème da sociedade
inglesa. Embora a lista de convidados fosse inevitavelmente
grande, os dois queriam uma atmosfera íntima, com apenas
aqueles mais próximos a eles para testemunhar a ocasião.
- Eu acho - disse Hugo, quando ele chegou à igreja e foi
recebido por uma pequena multidão de curiosos que
inevitavelmente cresceria dentro da próxima hora – que eu
preferiria estar diante de outro Forlorn Hope.
- Se você tivesse acabado de comer o café da manhã, como
me aconselhou, - disse Flavian - você estaria se sentindo muito
melhor, meu velho.
- Um parecer emitido da voz da experiência? - Perguntou
Hugo.
- Nem um pouco - disse Flavian. - Eu nunca cheguei ao altar
e nem mesmo tenho isso em vista.
Hugo fez uma careta. Isso tinha sido insensível.

- Por essa bênção eu serei eternamente grato - disse
Flavian. - Seria uma decepção, você não acha, descobrir, depois
de um casamento, que quando a noiva prometeu que o amaria
para o melhor ou para o pior, o que ela realmente quis dizer é que
poderia lhe amar para o melhor, mas correria como o inferno, se
alguma vez fosse confrontada com a pior?
Sim, Hugo pensou, seria. E lembrou-se de que, quando
Gwendoline tinha dito essas palavras para seu primeiro marido,
ela cumprira sua promessa. Ele estendeu a mão e apertou o braço
de seu amigo conforme entravam na igreja.
- Não, eu lhe peço, Hugo, - Flavian disse com um
estremecimento – não se torne sentimental comigo. Eu estou
começando a me perguntar se eu mesmo não preferiria o Forlorn
Hope do que ver seu melhor homem com uma alma romântica.
Hugo riu.
No momento em que sua noiva chegou, algum tempo depois,
mas nenhum um minuto atrasada, ele estava se sentindo muito
mais relaxado. E animado. E ansioso para começar a sua nova
vida. Para viverem felizes para sempre. Oh, sim, embora ele não
acreditasse nisso, às vezes se esquecia de ser cético. E certamente
isso poderia ser dispensado no dia do seu casamento.
Ela havia chegado. O órgão tinha começado a tocar, e o
clérigo tinha tomado seu lugar. Hugo não podia decidir se deveria
ficar rigidamente voltado para o altar, ou se deveria se virar e vêla avançando para ele. Tinha esquecido de perguntar o que era a
coisa certa a fazer.
Ele se decidiu. Se virou e ficou rigidamente a observá-la vir,
no braço de seu irmão. Ela estava vestindo um rico rosa choque e
parecia... Bem, às vezes o inglês era uma língua miserável pela
falta de palavras. Os olhos dela estavam nos dele, e ele podia ver
que por trás do véu de luz que cobria seu rosto, estava sorrindo.

Ele fez uma verificação mental de sua própria
expressão. Seus dentes estavam bem presos juntas. Isso
significava que sua mandíbula estava dura. Suas sobrancelhas
estavam tensas. Ele quase podia sentir a ruga entre elas. Suas
mãos estavam em suas costas. Meu Deus, ele deveria parecer
como se estivesse em uma parada. Ou participando do funeral de
alguém. Por quê? Ele estava com medo de sorrir?
Ele estava, percebeu. Não seria capaz de manter tudo o que
estava dentro dele no lugar se ele sorrisse. Iria se sentir
malditamente vulnerável, para dizer a verdade. Vulnerável ao
que, embora? Ao amor?
Ele já tinha saltado fora da extremidade da terra e fora
pego com segurança nos braços de amor.
O que mais havia a temer?
Que depois de tudo ela não viesse?
Ela estava aqui.
Que ela não diria “sim”, ou “eu aceito”, ou seja lá o que o
diabo diria quando chegasse o momento?
Ela diria.
Que ele não seria capaz de amá-la para todo o sempre?
Ele o faria, e até mais do que isso.
Ele deixou as mãos caírem para os lados.
E ele sorriu quando sua noiva se aproximou dele.
Será que ele imaginava uma espécie de suspiro coletivo da
congregação reunida lá?
Que estranha à vida era, pensou Gwen. Se ela não tivesse
lido aquela carta de sua mãe em voz alta para Vera naquele dia
no início de março e Vera não a tivesse atacado, se ela não tivesse

caminhado ao longo da praia rochosa e parado para olhar o mar
distante, ela poderia até não ter percebido o quão profundamente
solitária ela estava. Poderia ter negado a realidade por muito
mais tempo.
E se ela não tivesse subido a encosta íngreme e torcido o
tornozelo, ela não teria conhecido Hugo.
Ela nunca tinha acreditado no destino. Ela ainda não
acreditava. Era tudo uma total liberdade de escolha, e era
através dessa liberdade que trabalhávamos nosso caminho
através da vida e aprendíamos o que precisávamos
aprender. Mas, às vezes, parecia-lhe que havia algo, algum sinal,
para nos cutucar a seguir em uma determinada direção. O que se
escolhia fazer com a cutucada dependia da pessoa.
Seu acidente, a presença de Hugo nas proximidades, ambos
caminhando tão cedo depois de sua percepção de que era
solitária, era certamente mais do que apenas coincidência. E
talvez fosse realmente certo que não existisse tal coisa como a
coincidência.
As chances contra seu encontro com Hugo, o conhecer
profundamente, penetrar sob sua fachada de militar sisudo e
chegar até amá-lo, era maciça. Mas tinha acontecido.
Ela o amava mais do que pensava que era possível amar.
Sua família toda aprovava o casal, com a possível exceção
de Wilma, cuja opinião não contava. Todos eles pareciam
entender que o que sentia por Hugo era extraordinário, que se ela
estava preparada para amar e se casar com um homem
aparentemente tão errado para ela, então ele deveria realmente
ser certo para ela. E, claro, todos eles ficaram aliviados por
finalmente ela ter saído do casulo no qual ela tinha residido com
segurança desde a morte de Vernon e estivesse pronta para viver
novamente.

Sua mãe derramou lágrimas por ela.
Então tinha Lauren.
Lily a tinha levado para comprar roupas de noiva.
E agora estava acontecendo. Finalmente. Um mês para os
proclamas serem lidos, por vezes, poderia parecer como um
ano. Mas a espera acabou, e ela estava dentro de St. George em
Hanover Square, e ela sabia que toda a sua família e a dele
estavam reunidos lá, embora realmente não olhasse para
ver. Agarrou-se ao braço de Neville e viu apenas Hugo.
Ele lhe parecia muito bonito, tanto quanto tinha parecido
naquela encosta acima da praia, exceto que, na ocasião, ele
estava usando um sobretudo e agora estava vestido
elegantemente para um casamento.
Ele estava de cara feia para ela.
Ela sorriu.
E, em seguida, maravilhosamente, incrivelmente, apesar do
fato de que ele estava em evidência em uma igreja cheia de
pessoas, ele sorriu de volta para ela, um sorriso quente que
iluminou seu rosto e o deixou incrivelmente bonito.
Um murmúrio em toda a igreja sugeriu que todos também
tinham notado.
Ela tomou seu lugar ao lado dele, o órgão parou de tocar, e o
serviço de casamento começou.
Era como se o tempo abrandou. Ela ouviu cada palavra,
ouviu cada resposta, incluindo a sua própria, sentiu a frieza lisa
do ouro quando seu anel deslizou para o dedo, parando por
apenas um momento em sua junta antes de encaixar.
E então, muito breve, mas, oh, por fim, o serviço nupcial
tinha acabado e eles eram marido e mulher e nenhum ser

humano iria separá-los. Ele apertou sua mão e sorriu para ela,
olhando quase como um garotinho transbordando de emoção,
levantou o véu e arranjou-o sobre a copa do chapéu.
Ela olhou para ele.
Seu marido.
Seu marido.
E depois o resto do serviço procedeu, o registro foi assinado
e eles estavam deixando a igreja, sorrindo agora para ambos os
lados para fazer contato visual com o maior número de seus
parentes e amigos. Seus braços se entrelaçavam e suas mãos
estavam firmemente unidas.
A luz do sol os cumprimentou atrás das portas da igreja.
E um elogio caloroso da pequena multidão reunida à frente.
Hugo olhou para ela.
- Bem, esposa - disse ele.
- Bem, marido.
- Isso soa bem? - Perguntou a ela. - Ou soa ótimo?
- Umm - disse ela. - Ótimo, eu acho.
- Eu também, Lady Trentham - disse ele. - Vamos fugir
para a carruagem antes de todos os cumprimentos fora da igreja
atrás de nós?
- Estamos muito atrasados, eu acredito - disse ela.
E com certeza, a carruagem aberta que era iria levá-los até
Kilbourne House para o café da manhã de casamento estava
enfeitada com fitas, arcos, botas velhas e até mesmo uma
chaleira de ferro. E havia Kit, Joseph e Mark Emes e o conde de
Berwick em uma emboscada com punhados de pétalas de flores

que eles atiraram quando Hugo e Gwen corriam para a
carruagem, rindo.
- Eu espero - disse Hugo, ao dar ao cocheiro o sinal de
partida e a carruagem cambalear em um bem arqueado
movimento e sacudir para fora da praça – que ninguém tenha a
intenção de usar essa chaleira nunca mais.
- Todo mundo vai nos ouvir chegar por, pelo menos, cinco
milhas - disse Gwen.
- Há duas coisas que podemos fazer, amor - disse Hugo. Podemos nos encolher no chão do veículo - e essa alternativa
realmente tem muito a ser dito em seu favor. Ou podemos nos
atrever e ajudar as pessoas a esquecerem do barulho.
- Como? - Perguntou ela, rindo.
- Assim - ele disse, virando-se para ela, segurando seu
queixo em sua mão grande, e abaixando a cabeça para beijá-la
com a boca aberta.
Em algum lugar alguém estava aplaudindo. Alguém mais
assobiou estridentemente, o suficiente para ser ouvido acima do
barulho da chaleira.
A segunda alternativa, por favor, Gwen teria dito se tivesse
sua boca para si mesma.
Mas ela não o fez.