Antes do Baile Verde

Lygia Fagundes Telles

O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís xv e sua portaestandarte
de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido
de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda
reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de
três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor. — Ele gostou de você — disse a jovem
voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. — O cumprimento foi na sua direção, viu que
chique? A preta deu uma risadinha. — Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na
minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso,
ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada. A jovem tomou-a pelo braço e
arrastou-a até a mesa de cabeceira. O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse
passado por ali e despejado caixas e gavetas. — Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo…
Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho. — Mas você ainda não acabou?
Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias
rendadas também verdes. — Acabei o quê! Falta pregar tudo isso ainda, olha aí… Fui inventar
um raio de pierrete dificílima! A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda
brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel crepom vermelho. Sentou-se
ao lado da moça. — O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A
gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos. — Tem tempo, sossega — atalhou a jovem.
Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. —
Não sei como fui me atrasar desse jeito. — Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo,
menos perder o desfile! — E quem está dizendo que você vai perder? A mulher enfiou o dedo
no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o
saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. Colheu uma
lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote,
fixando-a com pequenos movimentos circulares. — Mas se tiver que pregar as lantejoulas em
todo o saiote… — Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a
coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que
tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?… Que tal? — Ficou bonito, Tatisa. Com
o cabelo assim verde você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse
verde na unha, fica esquisito. Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para
respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada. — Mas as unhas é que dão a nota,
sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar
me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu! —
Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos. — Não faz mal — disse a jovem
limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorreu pelo dedo. — Vá grudando de qualquer
jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beça. O que está me endoidando é este
calor, não aguento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente?
Calor bárbaro! A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a
testa e baixou o tom de voz. — Estive lá. — E daí? — Ele está morrendo. Um carro passou na
rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseramse a cantar aos gritos, o compasso
marcado pelas batidas numa panela: A coroa do rei não é de ouro nem de prata… — Parece
que estou num forno — gemeu a jovem dilatando as narinas porejadas de suor. — Se
soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve. — Mais leve do que isso? Você está quase

lembra? Disse que ele ia morrer. Lu? — Acha o quê? — Que ele está morrendo? — Ah. A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. podre de gripe. — E eu não aguento mais de sede — resmungou a empregada arregaçando as mangas do quimono. minha lindura!”. Puxou com força as meias presas aos elásticos do biquíni. — Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo. Ele não passa desta noite. “Minha lindura. Faça o que bem entender. não é isso que você quer? Quer que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando. eu disse que ele estava ruim. — Radiante? — espantou-se a empregada. está sim. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos. No ano passado ele ficou de porre os três dias. — E seu pai? Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. — Estou transpirando feito um cavalo. Soprou o fundo cheio de pó de arroz e bebeu em largos goles. É outra coisa. — Aquilo não é sono. esguichando água um na cara do outro. nem precisei entrar para ver que ele está morrendo. sem fixar-se em nenhum. radiante. Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa. representava um mar. Respirou de boca aberta. Ela assistia à cena com indiferença.nua. ele é seu pai. que estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longínquo. . Conheço bem isso. Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. — Ai! uma cerveja bem geladinha. sinto o sangue ferver. eu não disse não senhora que ele ia morrer. Falou num tom sombrio: — Você acha. — Está nada! Também espiei. Imagine você então… Com a ponta da unha. Foi até a mesa. Dirigiu-se à preta. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei. — Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou… Nunca transpirei tanto. Tomou um gole de uísque. Tatisa. E o pior é que não posso caprichar. Foi deixando no saiote o dedal cintilante. — Você quer que eu fique aqui chorando. um bando de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana. tinha polvo. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. Lu. — Então não está. tinha pirata. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher. Achou-o debaixo da esponja de arminho. — Mas você já se enganou uma vez. tinha tudo! Bem lá em cima. — E eu na cama. foi o que eu disse. que culpa tenho eu? — Não estou dizendo que você é culpada. não meu. gritou o moleque maior. Gosto mesmo é de cerveja. mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. vem comigo. ele está dormindo. as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. mas o Raimundo prefere cachaça. Eu ia com a minha havaiana. besteira a gente se pintar antes. Na calçada. Tinha pescador. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando… — No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. Não tenho nada com isso. Juro que se não tivesse me pintado. fui sozinha no desfile. Você precisava ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. — Que é que eu posso fazer? Não sou Deus. Vagava o olhar pelos objetos. já vi um monte de gente morrer. — Quer? — Tomei muita cerveja. não. se misturo dá ânsia. a jovem levantou-se. sou? Então? Se ele está pior. agora já sei como é. pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. correndo atrás do homem. Tatisa. — Mas você começa a dizer que ele está morrendo! — Pois está mesmo. A jovem despejou mais uísque no copo. me metia agora num chuveiro. — E depois. não é isso que você está querendo? — Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. Voltou a afundar o dedo no pote. lembra? Neste quero me esbaldar. Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos. E nessa correria… Também não sei por que essa invenção de saiote bordado. Tatisa. taque-taquetaque-taque! Esse cara não pode esperar um pouco? A mulher não respondeu. — Você está bebendo demais. Mas hoje é diferente. Espiei da porta. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. ninguém morre dormindo daquele jeito. apertando os maxilares. pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. com o pensamento no Raimundo lá na esquina… — Você é chata.

Chorou só daquele lado. — E se você desse um pulo lá só para ver? — Mas você quer ou não que eu acabe isto? — a mulher gemeu exasperada. por que ele não ficou no hospital?! Estava tão bem no hospital… — Hospital de graça é assim mesmo. Mandou fazer um pierrô verde. Apressou-se: — Eu te daria meu vestido . Também estive lá antes de você. — Falta só um pedaço. tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. Ela baixou o olhar. Tudo culpa daquela bicha. Ficou com a mão parada no ar. gorda? Mas você é só osso. Seu namorado não tem onde pegar. merda! Pare de bancar o corvo. perguntei e ele não respondeu mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse. só hoje — começou ela num tom manso. a rainha do mar coberta de joias… — Você já se enganou uma vez — atalhou a jovem. Nunca vi ele chorar daquele lado. você não vê que… — Passou ansiosamente a mão no pescoço. Fungou.dentro de uma concha abrindo e fechando. Tatisa. Beliscou a cintura. Puxou um pé de sapato. olhou em redor. as mãos indo e vindo do pote de cola ao pires e do pires ao saiote. por quê? — Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. — Também já me fantasiei de pierrô. Levantou-se. uma chata que não quer saber de nada. vermelho. depressa. hoje ainda apanho! A jovem levantou-se. até que ajudo muito sim senhora. roçando os cabelos verdes no chão. como? — Sabe que você tem o seu baile. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa. — Você não ouviu? A jovem demorou para responder. — Escuta. — Ele não pode estar morrendo. andando rápido num andar de bicho na jaula. Mas tenha a santa paciência. E foi-se ajoelhando devagarinho diante da preta. — Você. escuta — começou ela. não preciso dos seus. Tatisa. coitado. Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado. Ou tem? Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. nós duas pregando vai num instante. não tenho jeito. Tatisa. abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola. não tenho nada com isso. atirando no chão as roupas amontoadas na cama. — Foi na rua. hoje não! Já estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na rua. curvo como uma asa verde pesada de lantejoulas. — O quê? — Parece que ouvi um gemido. — O Raimundo tem ódio de esperar. — Você pegou meu cigarro? — Tenho minha marca. — Lá vem você de novo. — Há meses que venho pensando nesse baile. Com um gesto fatigado. ele estava dormindo tão sossegado. — Escuta. Lu. Por que tem que repetir isso. a jovem abriu a porta do armário. Você está bem papai?. menina. Mas não fique aí me olhando. — Engordei. Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur. Abriu-o de novo no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas. Olhou-se no espelho. — Eu não estou inventando. — Ih. ele não é meu pai. Os olhos animaram-se: — Lu. — Vem num Tufão. Revistou os bolsos de uma calça comprida. — Um dia mais… — Vem me ajudar. — De forte. — Ele se fez de forte. E hoje cedo até me reconheceu. eu disse que não sei tratar de doente. tem doente esperando até na calçada. Acho que nessa hora sentiu alguma dor porque uma lágrima foi escorrendo daquele lado paralisado. mas você não passa de uma egoísta. não pode. — Aquele médico miserável. como não? Todos esses meses quem é que tem aguentado o tranco? Não me queixo porque ele é muito bom. A jovem espiou debaixo da cama. Riu. Chutou o sapato que encontrou no caminho. Lu. Lu. Sua egoísta! — Mas. pelo amor de Deus. se você pudesse ficar hoje. Mas faz tempo. viu que chique? — Que é isso? — É um carro muito bacana. Tatisa. Luzinha. uma lágrima tão escura… — Ele estava se despedindo. nunca. não posso! Se você fosse boazinha. Apanhou o pote de cola. ficou me olhando. Passou o dorso da mão na testa molhada. Agachou-se mais. grudando as lantejoulas meio ao acaso. Lu. Lu. Não vou mentir. me olhando e depois sorriu. — Hoje o Raimundo me mata — recomeçou a mulher. acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar. coitado. como é difícil conversar com gente ignorante — explodiu a jovem. não quer atrapalhar. — Lu. ajeitando a flor na carapinha da mulher. Não podia viver mais um dia? A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Eles não podem ficar a vida inteira com um doente que não resolve. Ele viveu sessenta e seis anos. você me ajudava. até parece que você quer que seja hoje.

Lu. — Brrrr! Esse uísque é uma bomba — resmungou. Olharam na mesma direção: a porta estava fechada. hoje não. — Tenho que ir. — Perder esse desfile? Nunca! Já fiz muito — acrescentou sacudindo o saiote. venha aqui me abotoar. sim. Lu. Sua chata. ficou de me pegar às dez na esquina. Bagas de suor escorriam pelas têmporas verdes da jovem. — Estou atrasadíssima. olha aí… Fui inventar . vamos descer juntas. Quando bateu a porta atrás de si. mas você vai me ajudar um pouquinho. faz uma hora que está com esses colchetes! — Pronto — disse a outra. Está um serviço porco mas ninguém vai reparar. A jovem ficou diante do espelho. as duas mulheres ficaram ouvindo o relógio da sala. já vou indo! E apoiando-se ao corrimão. Tatisa? Nem com meu pai. — Ele gostou de você — disse a jovem voltando-se para a mulher que ainda aplaudia. Desde o começo eu já estava esperando. como se quisessem alcançá-la. não sai mais nada. viu que chique? A preta deu uma risadinha. — Só vou pegar a bolsa… — Você vai deixar a luz acesa? — Melhor. Lu. Lu… Trocaram um rápido olhar. Tatisa. não é? — Espera! — ordenou a moça perfumando-se rapidamente. Foi a preta quem primeiro se moveu. ele estava dormindo. custou. — Eu podia te dar o casaco azul — murmurou a jovem. mas hoje nem que me matasse eu ficava. não precisa ficar aí com essa cara. você sabe que eles estão novos. não estava? Então não viu direito. mas pelo amor de Deus. Subiu poderoso o som do relógio. colada a ele. O som prolongado de uma buzina foi-se fragmentando lá fora. enxugando na manga do quimono o suor do queixo. — Não acho os colchetes. a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. fazendo rodar a capa encharcada de suor. — Pronto. não? A casa fica mais alegre assim. enquanto recuava até a porta. Tatisa! — Espera. Você estava sem os óculos quando entrou no quarto. aproximando-se do espelho. estão novos ainda. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. — Anda.branco. já disse que estou pronta — repetiu. Lu! Essa fantasia é fogo… Tenha paciência. — Mas você ainda não acabou? Sentando-se na cama. ele começa a encher a caveira e pronto. — Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava. triunfante. Foi descendo a escada na ponta dos pés. A mulher tateou os dedos por entre o tule. rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção. — Espera aí. Brandamente a empregada desprendeu-se da mão da jovem. limpando os dedos no lençol. desceu precipitadamente. as pernas abertas. — Pode ser que me enganasse mesmo. baixando a voz. a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos fechados mais alguns goles. pode vestir. — Claro que se enganou! Ele estava dormindo. No topo da escada ficaram mais juntas. Ah. ouviu isso. — O crisântemo caiu enquanto ela sacudia a cabeça. — Custou. um suor turvo como o sumo de uma casca de limão. A mulher franziu a testa. fica hoje! A empregada sorriu. a cabeça levantada. Usava biquíni e meias rendadas também verdes. Você pode sair amanhã. — Depressa. Antes do Baile Verde O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís xv e sua portaestandarte de peruca prateada em forma de pirâmide. sabe qual é? E também os sapatos. a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Se me atraso. Levantando-se de um salto. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga. O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas. A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa de cabeceira. atirou o pincel ao lado do vidro destapado. A voz era um sopro: — Quer ir dar uma espiada. pelo menos na minha opinião. você pode sair todos os dias. os cachos desabados na testa. Continha-se para não gritar. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos. baixinho. Vestiu o saiote. Olhou para a mulher através do espelho: — Morrendo coisa nenhuma. Tatisa? — Vá você. Retocou os lábios. — Acabei o quê! Falta pregar tudo isso ainda. — Lu! Lu! — a jovem chamou num sobressalto. — Não precisa mais de mim. — Meu homem é mil vezes mais bonito. hoje não. Repetiu como um eco: — Estava dormindo. — Já estou pronta. E já deve estar chegando. Abriu a porta da rua. aquele meu branco. — O cumprimento foi na sua direção.

A jovem despejou mais uísque no copo. Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. Não gosto é desse verde na unha. — Não faz mal — disse a jovem limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorreu pelo dedo. fica esquisito. Tatisa. Ele não passa desta noite. Tatisa. Dirigiu-se à preta. a jovem levantou-se. É outra coisa. sem fixar-se em nenhum. — E depois. Com o cabelo assim verde você está parecendo uma alcachofra. eu disse que ele estava ruim. Em seguida. sinto o sangue ferver. Espiei da porta. Um carro passou na rua. que tal minha cara? Você nem disse nada. sossega — atalhou a jovem. A gente vai ver os ranchos. — Tem tempo. Falta mais da metade. vê se entende! Você ajudando vai num instante. alisando com as mãos o quimono de seda brilhante. a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. já me pintei. radiante. Lu. vai ter gente à beça. tão gozado. — Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo. — O Raimundo já deve estar chegando. Alguns meninos puseramse a cantar aos gritos. foi o que eu disse. vamos. menos perder o desfile! — E quem está dizendo que você vai perder? A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. O que está me endoidando é este calor. Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos. não enxergo direito sem os óculos. — Você está . Tatisa? Tudo. Mas não precisa ficar me olhando. olha aí. ele fica uma onça se me atraso. Lu! — Estou sem óculos. — Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote… — Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade. — E daí? — Ele está morrendo. levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada. as fantasias têm que ser verdes. — Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou… Nunca transpirei tanto. está sim. Foi até a mesa. se misturo dá ânsia. sua tonta. Falou num tom sombrio: — Você acha. Levantou o abajur que tombou na mesinha. viu. pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. tudo verde. você não sente? Calor bárbaro! A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. mas vá trabalhando. Tatisa. — Mas as unhas é que dão a nota. Franziu a testa e baixou o tom de voz. Depositou-a no saiote. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho-violeta. teria inventado uma fantasia mais leve. mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. fixando-a com pequenos movimentos circulares. Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Vagava o olhar pelos objetos. já vi um monte de gente morrer.um raio de pierrete dificílima! A preta aproximou-se. não pare. — Não sei como fui me atrasar desse jeito. agora já sei como é. — Mas não posso perder o desfile. pode falar. — Quer? — Tomei muita cerveja. Deixou-a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. que estava nas últimas… E no dia seguinte ele já pedia leite. nem precisei entrar para ver que ele está morrendo. Num movimento brusco. Lu? — Acha o quê? — Que ele está morrendo? — Ah. — Mais leve do que isso? Você está quase nua. Sentou-se ao lado da moça. lembra? Disse que ele ia morrer. Conheço bem isso. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel crepom vermelho. É um baile verde. — Estive lá. tenho a impressão de que estou me derretendo. — Se soubesse. — Mas você já se enganou uma vez. hoje quero ver todos. Eu ia com a minha havaiana. Soprou o fundo cheio de pó de arroz e bebeu em largos goles. — Radiante? — espantou-se a empregada. — Aquilo não é sono. — Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai reparar. Mas hoje é diferente. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Imagine você então… Com a ponta da unha. não aguento mais. eu não disse não senhora que ele ia morrer. o compasso marcado pelas batidas numa panela: A coroa do rei não é de ouro nem de prata… — Parece que estou num forno — gemeu a jovem dilatando as narinas porejadas de suor. apertando os maxilares. buzinando freneticamente. Passou o dorso da mão na face afogueada. sua bruxa! Hein?… Que tal? — Ficou bonito. Respirou de boca aberta. Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela na cola.

gritou o moleque maior. Revistou os bolsos de uma calça comprida. dentro de uma concha abrindo e fechando. — Você quer que eu fique aqui chorando. ele é seu pai. Tomou um gole de uísque. Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa. — Está nada! Também espiei. representava um mar. Puxou um pé de sapato. taque-taquetaque-taque! Esse cara não pode esperar um pouco? A mulher não respondeu. Faça o que bem entender. podre de gripe. com o pensamento no Raimundo lá na esquina… — Você é chata. Tatisa. Cantarolou em falsete: Acabou chorando… acabou chorando… — No outro carnaval entrei num bloco de sujos e me diverti à grande. não preciso dos seus. Apanhou o pote de cola. — Ele não pode estar morrendo. as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. tinha tudo! Bem lá em cima. Luzinha. ficou me olhando. até parece que você quer que seja hoje.bebendo demais. Tinha pescador. ninguém morre dormindo daquele jeito. Foi deixando no saiote o dedal cintilante. Meu sapato até desmanchou de tanto que dancei. E o pior é que não posso caprichar. um bando de meninos brincava com bisnagas de plástico em formato de banana. esguichando água um na cara do outro. — E eu não aguento mais de sede — resmungou a empregada arregaçando as mangas do quimono. — E eu na cama. Tinha um carro que foi o mais bonito de todos. — E seu pai? Lentamente a jovem foi limpando no lenço as pontas dos dedos esbranquiçados de cola. lembra? Neste quero me esbaldar. E hoje cedo até me reconheceu. — Ele se fez de forte. Puxou com força as meias presas aos elásticos do biquíni. fui sozinha no desfile. E nessa correria… Também não sei por que essa invenção de saiote bordado. mas o Raimundo prefere cachaça. olhou em redor. me metia agora num chuveiro. uma lágrima tão escura… — Ele estava se despedindo. correndo atrás do homem. roçando os cabelos verdes no chão. — Mas você começa a dizer que ele está morrendo! — Pois está mesmo. vem comigo. ele está dormindo. Juro que se não tivesse me pintado. . Voltou a afundar o dedo no pote. coitado. não. Agachou-se mais. — Ih. me olhando e depois sorriu. pisando para fora nos sapatos de saltos altíssimos. Não tenho nada com isso. Interromperam a brincadeira para vaiar um homem que passou vestido de mulher. “Minha lindura. — Ai! uma cerveja bem geladinha. não quer atrapalhar. — E se você desse um pulo lá só para ver? — Mas você quer ou não que eu acabe isto? — a mulher gemeu exasperada. Acho que nessa hora sentiu alguma dor porque uma lágrima foi escorrendo daquele lado paralisado. — Você pegou meu cigarro? — Tenho minha marca. Não vou mentir. Gosto mesmo é de cerveja. merda! Pare de bancar o corvo. Você precisava ver aquele monte de sereias enroladas em pérolas. — Estou transpirando feito um cavalo. tinha polvo. não é isso que você quer? Quer que eu cubra a cabeça com cinza e fique de joelhos rezando. Chorou só daquele lado. minha lindura!”. ajeitando a flor na carapinha da mulher. por quê? — Você mesmo pergunta e não quer que eu responda. Ela assistia à cena com indiferença. Nunca vi ele chorar daquele lado. Levantou-se. tenho certeza de que ainda hoje cedo ele me reconheceu. A jovem foi até a janela e ofereceu a face ao céu roxo. — Escuta. nunca. E foi-se ajoelhando devagarinho diante da preta. Você está bem papai?. — De forte. abrindo e fechando os dedos ressequidos de cola. Por que tem que repetir isso. Também estive lá antes de você. A jovem espiou debaixo da cama. ele estava dormindo tão sossegado. besteira a gente se pintar antes. sou? Então? Se ele está pior. tinha pirata. Tatisa. como é difícil conversar com gente ignorante — explodiu a jovem. No ano passado ele ficou de porre os três dias. perguntei e ele não respondeu mas vi que entendeu perfeitamente o que eu disse. Na calçada. a rainha do mar coberta de joias… — Você já se enganou uma vez — atalhou a jovem. — Então não está. escuta — começou ela. — Eu não estou inventando. — Lá vem você de novo. — Que é que eu posso fazer? Não sou Deus. não meu. não pode. como? — Sabe que você tem o seu baile. atirando no chão as roupas amontoadas na cama. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longínquo. não é isso que você está querendo? — Ficou olhando para a ponta do dedo coberto de lantejoulas. que culpa tenho eu? — Não estou dizendo que você é culpada.

enquanto recuava até a porta. a jovem abriu a porta do armário. não tenho nada com isso. Inclinaram as cabeças irmanadas sob a luz amarela do abajur. Mas faz tempo. Vestiu o saiote. triunfante. hoje não. — Não . eu disse que não sei tratar de doente. você sabe que eles estão novos. mas hoje nem que me matasse eu ficava. — O crisântemo caiu enquanto ela sacudia a cabeça. Lu. Tatisa. as pernas abertas. — Não acho os colchetes. custou. hoje não. menina. Agora ambas trabalhavam num ritmo acelerado. Lu. tem doente esperando até na calçada. Tatisa. hoje ainda apanho! A jovem levantou-se. Ela baixou o olhar. Beliscou a cintura. — Você não ouviu? A jovem demorou para responder. a moça foi até a garrafa e bebeu de olhos fechados mais alguns goles. Tatisa? Nem com meu pai. pelo amor de Deus. como não? Todos esses meses quem é que tem aguentado o tranco? Não me queixo porque ele é muito bom. — O quê? — Parece que ouvi um gemido. acabe logo que à meia-noite ele vem me buscar. — Brrrr! Esse uísque é uma bomba — resmungou. Tatisa. A mulher franziu a testa. você não vê que… — Passou ansiosamente a mão no pescoço. — Lu. aquele meu branco. Tatisa. Está um serviço porco mas ninguém vai reparar. Lu. as mãos indo e vindo do pote de cola ao pires e do pires ao saiote. — Perder esse desfile? Nunca! Já fiz muito — acrescentou sacudindo o saiote. limpando os dedos no lençol. você pode sair todos os dias. não precisa ficar aí com essa cara. — Pode ser que me enganasse mesmo. Sua chata. Ficou com a mão parada no ar. Abriu-o de novo no colo e inclinou-se para o pires de lantejoulas. Você pode sair amanhã. hoje não! Já estou fazendo demais aqui plantada quando devia estar na rua. mas pelo amor de Deus. viu que chique? — Que é isso? — É um carro muito bacana. ele não é meu pai. grudando as lantejoulas meio ao acaso. Sua egoísta! — Mas. — Há meses que venho pensando nesse baile. você me ajudava. Lu. — Vem num Tufão. — Custou. A jovem ficou diante do espelho. — Aquele médico miserável. não tenho jeito. sabe qual é? E também os sapatos. vermelho. mas você não passa de uma egoísta. só hoje — começou ela num tom manso. faz uma hora que está com esses colchetes! — Pronto — disse a outra. fica hoje! A empregada sorriu. Eles não podem ficar a vida inteira com um doente que não resolve. — Engordei. Fungou. Mandou fazer um pierrô verde. sim. Eu bem disse que não podia ficar com ele aqui em casa. pode vestir. depressa. Olhou-se no espelho. Com um gesto fatigado. Chutou o sapato que encontrou no caminho. por que ele não ficou no hospital?! Estava tão bem no hospital… — Hospital de graça é assim mesmo. ele estava dormindo. gorda? Mas você é só osso. — Foi na rua. até que ajudo muito sim senhora. — Também já me fantasiei de pierrô. andando rápido num andar de bicho na jaula. Ele viveu sessenta e seis anos. enxugando na manga do quimono o suor do queixo. Mas tenha a santa paciência. nós duas pregando vai num instante. — Nem que fosse para ficar com meu pai eu ficava. — Pronto. — Você. Não podia viver mais um dia? A preta sacudiu o saiote e examinou-o a uma certa distância. Lu. — Um dia mais… — Vem me ajudar. não estava? Então não viu direito. Você estava sem os óculos quando entrou no quarto. — Claro que se enganou! Ele estava dormindo. Mas não fique aí me olhando. — Hoje o Raimundo me mata — recomeçou a mulher. não posso! Se você fosse boazinha. — Falta só um pedaço. — Anda. estão novos ainda. venha aqui me abotoar. coitado. A mulher tateou os dedos por entre o tule. — Eu podia te dar o casaco azul — murmurou a jovem. Levantando-se de um salto. baixinho. se você pudesse ficar hoje. Repetiu como um eco: — Estava dormindo. — Escuta. Ah. Passou o dorso da mão na testa molhada. ouviu isso. Desde o começo eu já estava esperando. Lu. a cabeça levantada. aproximando-se do espelho. Os olhos animaram-se: — Lu. Ou tem? Ela ensaiou com os quadris um movimento lascivo. Prendeu-o com um grampo que abriu entre os dentes. Apressou-se: — Eu te daria meu vestido branco.— O Raimundo tem ódio de esperar. — Depressa. Seu namorado não tem onde pegar. curvo como uma asa verde pesada de lantejoulas. Lu. Olhou para a mulher através do espelho: — Morrendo coisa nenhuma. Lu. Tudo culpa daquela bicha. uma chata que não quer saber de nada. Riu.

No topo da escada ficaram mais juntas. baixando a voz. . Tatisa! — Espera. — Espera aí. as duas mulheres ficaram ouvindo o relógio da sala. não é? — Espera! — ordenou a moça perfumando-se rapidamente. Abriu a porta da rua. Foi descendo a escada na ponta dos pés. desceu precipitadamente. vamos descer juntas.precisa mais de mim. Subiu poderoso o som do relógio. — Só vou pegar a bolsa… — Você vai deixar a luz acesa? — Melhor. atirou o pincel ao lado do vidro destapado. colada a ele. um suor turvo como o sumo de uma casca de limão. Bagas de suor escorriam pelas têmporas verdes da jovem. Retocou os lábios. Foi a preta quem primeiro se moveu. Olharam na mesma direção: a porta estava fechada. A voz era um sopro: — Quer ir dar uma espiada. Tatisa? — Vá você. — Lu! Lu! — a jovem chamou num sobressalto. Quando bateu a porta atrás de si. como se quisessem alcançá-la. Brandamente a empregada desprendeu-se da mão da jovem. rolaram pela escada algumas lantejoulas verdes na mesma direção. não? A casa fica mais alegre assim. Lu… Trocaram um rápido olhar. — Já estou pronta. O som prolongado de uma buzina foi-se fragmentando lá fora. Continha-se para não gritar. — Tenho que ir. já disse que estou pronta — repetiu. já vou indo! E apoiando-se ao corrimão. Imóveis como se tivessem sido petrificadas na fuga.