ENTRE PALAVRAS 10

O que é?
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António Vilas-Boas
Manuel Vieira

ISBN 978-989-23-3234-5

Índice
O que é?
A. EDUCAÇÃO LITERÁRIA

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1. Poesia trovadoresca
Cantigas de amigo
Cantigas de amor
Cantigas de escárnio e maldizer

2
2
3
3

2. Fernão Lopes, Crónicas de D. João I

4

3. Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira
Caracterização de personagens
Relações entre as personagens
A representação do quotidiano
Linguagem, estilo, estrutura

4
4
5
5
6

4. Luís de Camões, Rimas
Contextualização histórico-literária
A poesia lírica de Camões: os temas
A poesia lírica de Camões: linguagem, estilo e estrutura

6
7
8

5. Luís de Camões, Os Lusíadas
B. GRAMÁTICA

6

8
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FONÉTICA E FONOLOGIA

1.

Processos fonológicos de inserção, supressão
e alteração

10

ETIMOLOGIA

2. Étimo
3. Palavras convergentes e divergentes

12
12

GEOGRAFIA DO PORTUGUÊS NO MUNDO

4. Português europeu e não europeu
e crioulos de base portuguesa

12

SINTAXE

5. Funções sintáticas
6. A frase complexa: coordenação e subordinação

13
18

LEXICOLOGIA

7. Arcaísmos e neologismos
8. Campo lexical e campo semântico
9. Processos irregulares de formação de palavras

20
20
21

Auto da Feira

22

O que é?

Educação literária
1. Poesia trovadoresca
1.1 Quando se desenvolveu esta poesia?
A partir do final do século XII e até meados do século XIV.
1.2 Onde se desenvolveu?
No noroeste da Península Ibérica, na região que corresponde atualmente ao Minho e à Galiza.
1.3 Que géneros de cantigas a constituem?
Cantigas de amigo, cantigas de amor, cantigas de escárnio e maldizer.
1.4 Quem eram os trovadores e os jograis?
Os trovadores eram os autores desta poesia, as cantigas, nos seus vários géneros. Normalmente
eram nobres; escreviam a letra, por vezes a música; as cantigas eram cantadas pelos jograis,
homens de condição social mais baixa.

Cantigas de amigo
1.5 O que é uma cantiga de amigo?
É uma composição poética dirigida a um amigo por um sujeito lírico ou poético feminino, a amiga.
1.6 Quais são os temas mais frequentes?
Os temas mais frequentes são os seguintes: a saudade, pois o amigo está longe; o sofrimento
por ciúme; as queixas por promessas não cumpridas; a felicidade e a certeza de se saber amada;
o encontro amoroso junto à fonte; o baile; a espera angustiada pelo regresso do amigo; a ida à
romaria para encontrar um namorado; a confissão destes amores à mãe, ou às amigas, ou à Natureza, etc.
1.7 Como é representado o sentimento amoroso?
O sentimento amoroso é representado de modo muito variado. Toda a gama deste sentimento
surge nas cantigas de amigo, desde o início da paixão, com as suas esperanças e incertezas, até
aos encontros com o amigo, ao ciúme, à reconciliação, etc.
1.8 O que é a confidência amorosa?
É a confissão dos estados amorosos, quer felizes quer infelizes, pelo sujeito poético (a amiga
apaixonada) à sua mãe, às suas amigas e, até, à Natureza. A amiga conta, confessa, para desabafar, para se libertar dos seus receios ou para partilhar as suas alegrias.
1.9 Qual é a relação da mulher com a Natureza?
A Natureza surge frequentemente nas cantigas de amigo como confidente da amiga apaixonada
que com ela desabafa sobre os seus problemas amorosos. Também pode ser local de encontro
com o «amigo».
1.10 O que é o paralelismo?
É a técnica de elaboração das cantigas de amigo que consiste, em primeiro lugar, na relação evidente entre versos que se repetem, quer pelas mesmas palavras quer por palavras de sentido
idêntico, – e assim se relacionam entre si. A cantiga de amigo apresenta, por isso, uma estrutura
fortemente repetitiva. Em segundo lugar, o paralelismo implica a presença de um refrão.
O paralelismo pode ser perfeito ou imperfeito. Consulta o esquema do manual na página 58.

2

A.
1.11 O que é o refrão?
É um verso ou um conjunto variável de versos que se repete no final de cada estrofe ou cobla.
1.12 Qual é a função do paralelismo?
Intensifica a expressão das emoções através das repetições.

Cantigas de amor
1.13 O que é uma cantiga de amor?
É uma composição poética dirigida a uma senhor, dama de condição superior, por um sujeito
lírico ou poético masculino.
1.14 Quais são os temas mais frequentes?
A coita de amor e o elogio de amor cortês.
1.15 O que é a coita de amor?
É a expressão de um sentimento amoroso doloroso provocado pela não correspondência, por
parte da senhor, ao amor confessado pelo homem apaixonado. Está, frequentemente, associada à morte por amor.
1.16 O que é o elogio de amor cortês?
É um louvor de natureza física e psicológica à senhor: ela é uma mulher única, a mais perfeita
de todas em tudo.

Cantigas de escárnio e maldizer
1.17 O que é uma cantiga de escárnio?
É uma cantiga de motivo satírico cuja crítica é feita indiretamente.
1.18 O que é uma cantiga de maldizer?
É uma cantiga de motivo satírico cuja crítica
é direta e clara.
1.19 Quais são os temas mais frequentes?
Parodiam o amor cortês, criticando as suas
convenções poéticas e criticam os costumes
– sempre através do riso. Relativamente à
paródia do amor cortês, encontramos a crítica à expressão exagerada da coita de amor,
ao ridículo da morte de amor, ao ataque às
mulheres que, sendo velhas, querem ver a
sua beleza cantada… Costumes criticados
são muito variados: a infidelidade conjugal,
o mau trato dado aos animais, as mentiras
dos que pretendiam ter ido em peregrinação
à Terra Santa, freiras e frades que não cumpriam os seus deveres, astrólogos mentirosos, etc.
Missal Antigo do Lorvão,
século XV

3

a ambiciosa Leonor Teles. Como todas as mães. filho bastardo do rei D. 3. nomeadamente quanto ao tipo de casamento que pretende e ao comportamento que uma moça ajuizada deve ter.4 O que são atores coletivos? Atores coletivos são as multidões. Invadiu Portugal e cercou Lisboa – 1384. Pero Marques. João I. que agem como um corpo só. antes do cerco. 2. é uma mulher arrependida pela prisão a que o marido – o escudeiro galante e discreto com que sempre sonhara – a submete de novo.1 Qual é o contexto histórico dos acontecimentos narrados na Crónica de D. mas também lhe dá diversos conselhos. Este entendeu ter. o por vezes excessivamente hesitante D.) 2. D. Farsa de Inês Pereira Caracterização de personagens 3. em apoio ao Mestre de Avis. João I 2. devido à morte pouco gloriosa do Escudeiro. casada com o rei de Castela. 2. sem outro sucessor que a sua filha. principalmente na capital. repreende a filha por não ser tão diligente quanto devia nas tarefas domésticas. Fernão Lopes. psicologicamente: o manhoso Álvaro Pais. acima de tudo. através da solidariedade entre todos nos momentos difíceis que atravessavam. Fernando faleceu em 1383. socia b) enquanto casada. A cidade era defendida por outro pretendente ao trono. Pedro I. 4 . mas. aceita casar com o antigo pretendente. que lhe permite todas as liberdades. seja no movimento coletivo para levar ao poder o Mestre de Avis e protegê-lo de qualquer perigo seja na união demonstrada pelo povo durante o cerco de Lisboa. D. durante o cerco. Mestre de Avis. principalmente. direito ao trono português. entre outros. enquanto parte para a guerra. 2. 2. Crónica de D. por isso.2 De que modo se verifica nesta crónica a afirmação da consciência coletiva? Através de grandes movimentos de multidões. 3.3 Quais são os dois grandes tipos de personagens nela presentes? Personagens coletivas e personagens individuais.2 Como é caracterizada a Mãe de Inês Pereira? A Mãe é a voz da experiência e da sensatez. é uma burguesinha fantesiosa. Gil Vicente. Dona Beatriz.5 O que são atores individuais? Atores individuais são personalidades bem caracterizadas por Fernão Lopes fisicamente. João.O que é? Educação literária (cont. João I. que deseja sair do «cativeiro» materno m através de um casamento que a faça ascender na escala social. c) enquanto novamente livre.1 Como é caracterizada Inês Pereira? Podemos considerar três momentos na caracterização de Inês: a) enquanto solteira. João I de Fernão Lopes? D.

além disso. que se exprime numa linguagem antiquada e que desconhece as mais elementares regras de convívio social – como prova o facto de não se saber sentar numa cadeira. tangedor de viola. forte com ela mas fraco com o mouro pastor que o matou quando se escapulia da batalha em que participava. avisado. mas ingénuo e rude. já casado com Inês. 3. mas rapidamente muda de atitude ao ver-se de novo presa em casa pelo marido. aceita este «manso marido» porque lhe dá toda a liberdade que pretende. logo após o casamento. Inês queixa-se de falta de liberdade). mas que dissimula .4 Como é caracterizado o Escudeiro? Brás da Mata. 3. nomeadamente a ascensão social da mulher através do casamento e o adultério feminino.A. que obriga Inês a obedecer-lhe e a fecha em casa).3 Como é caracterizado Pero Marques? Pero Marques é um lavrador rico. O comportamento de Inês Pereira exemplifica ambas as situações. é o típico escudeiro bem falante e de boas maneiras que vê em Inês uma forma de escapar à pobreza em que vive. que a obriga a permanecer em casa «como panela sem asa que sempre está num lugar». Relações entre as personagens 3. que a viria libertar do cativeiro materno.6 Como evolui a relação entre Inês e o Escudeiro? Inicialmente. um covarde pois foi morto ao fugir de uma batalha.8 Que representações da vida quotidiana se encontram na Farsa de Inês Pereira? Na Farsa de Inês Pereira. Inês vê-o como um pretendente rude. d) vida conjugal (a prepotência do marido escudeiro. 3. ingénuo e sem maneiras.9 O que pretende satirizar Gil Vicente com a Farsa de Inês Pereira? Nesta farsa. Aí passa a vê-lo como um marido covarde e «rascão». 3. a filha queixa-se da tirania da Mãe.7 Como evolui a relação entre Inês e Pero Marques? Inicialmente. ao mesmo tempo que ignora os seus conselhos. Mais tarde. Uma vez casado. A representação do quotidiano 3. de seu nome. Posteriormente. em tudo oposto ao tipo de homem que tinha idealizado para marido.5 Qual é a relação entre Inês e a Mãe? A relação entre Inês e a Mãe exemplifica o típico conflito de gerações: a Mãe queixa-se da preguiça da filha. após a viuvez. revela-se um tirano no modo como trata Inês. Inês vê-o como o homem dos seus sonhos – discreto. de se aproveitar da sua ingenuidade para o trair com o Ermitão («ermitano de cupido») – um antigo pretendente. de que zomba sem piedade. b) conselhos maternos (sobre a escolha dos namorados. no entanto. Gil Vicente satiriza comportamentos morais e sociais. a sua ingenuidade é visível quando carrega a mulher às costas para a levar a um encontro galante com um Ermitão – um antigo pretendente. fechando-a em casa. c) a festa do casamento de Inês. sobre o casamento…). sem deixar. e. 3. e) traição conjugal (Inês trai Pero Marques com o Ermitão). 5 . podemos encontrar: a) cenas da vida doméstica (a Mãe censura Inês pelo seu desleixo nas tarefas domésticas.

provoca o riso na plateia acentuando ainda mais a fraqueza de caráter desta personagem – cómico de caráter. expondo assim ao ridículo esses comportamentos e costumes. estilo.12 Quais são as características da linguagem na Farsa de Inês Pereira? Na Farsa de Inês Pereira.2 Qual é o contexto literário da sua obra? A sua obra surge num contexto cultural marcado por três grandes movimentos – Renascimento.) 3. que tanto podem ser agressivas. de situação e de linguagem) de forma a provocar o riso nos espetadores. etc. mas que Pedro Marques entende com o significado de defecar (que também possuia) – o que provoca o riso nos espetadores. 4. estrutura 3. Ética e Literatura. a maioria das personagens apresenta um registo linguístico característico da fala quotidiana do século XVI. 6 . devido ao cómico hilariante. «muitieramá». «chentar». por exemplo. ou em situações como a que ocorre entre os versos 78 e 81 (da página 157 do Manual) quando Inês utiliza o verbo «sair» no seu sentido habitual. Por exemplo. especialmente através de provérbios e de palavras entretanto caídas em desuso – arcaísmos – como «asinha». etc. cuja natureza se interpenetra e funde em História. O cómico de situação está presente. 3. quando Pero Marques se senta ao contrário numa cadeira. devido à sátira contundente que apresenta. 4. Classicismo e Humanismo –.). «rebentinha». em que se anuncia a morte do Escudeiro às mãos de um mouro pastor ao fugir do campo de batalha «pera a vila». e) a crença no Homem como motor do seu destino. Nela se representam cenas da vida profana. b) a vontade de experimentar e de construir o conhecimento com base na experiência.1 Em que contexto histórico surge a obra de Luís de Camões? No contexto histórico marcado principalmente pela Expansão Portuguesa em terras e mares do Oriente – século XVI. Rimas Contextualização histórico-literária 4.3 O que é o Renascimento? Movimento cultural marcado por características como: a) a busca das fontes ou modelos culturais e literários greco-romanos – a partir de meados do século XV.11 O que é a farsa? Trata-se de um género pertencente ao modo dramático que apresenta normalmente o tema do engano.O que é? Educação literária (cont. d) o interesse por tudo o que é próprio do Homem e da sua natureza – em detrimento do divino. 4. c) a dúvida em relação ao conhecimento fundado em textos de natureza religiosa.. «siquaes».10 De que processo se serve Gil Vicente para criticar costumes e comportamentos morais e sociais? Serve-se do cómico (de caráter. encontram-se também marcas da linguagem popular. a leitura da carta. Linguagem. Neste texto. objeto que desconhece. Estética. como festivas. «geitar». e outras que constam sobretudo da linguagem antiquada de Pero Marques («pardelhas». Luís de Camões. Já o cómico de linguagem transparece na fala antiquada e rústica de Pedro Marques.

O Amor é fonte de desenganos. apresentavam um programa ético: aconselhavam os poderosos no sentido de reformas. o Amor não lhe dá as alegrias que gostaria de receber. 4. A imitação passou pela arquitetura. mas também assumindo os erros pessoais e queixando-se da má sorte. loura e branca. por causa da indiferença da amada. a écloga.9 Que tipo de reflexão faz sobre o Amor? Tendencialmente negativa. 4. 4. desilusões. como polo de comparação relativamente à amada – que a vence sempre. pela escultura. principalmente quando ama verdadeiramente. Os humanistas acreditavam fortemente no progresso humano com o Homem como seu motor. pois o Poeta verifica que frequentemente quem é mau é recompensado e quem é bom é castigado. o Poeta é marcado por este desconcerto. 4. A Natureza apresenta-se também. O Poeta é um ser desiludido com a vida. queixa-se da sua indiferença.A. por um lado. Normalmente assume um modelo «clássico». o Poeta apaixona-se. o Poeta projeta nela os seus estados de espírito. por vezes. revolta contra esta situação. etc. Também na sua vida. 4.10 Como reflete sobre a vida pessoal? Desde logo lamentando-se por não ter experimentado mais do que «breves enganos» no Amor.6 Como é representada a amada? Sempre como bela. recuperam-se o gosto pela perfeição formal e por composições como a tragédia. 7 . que vai envelhecendo já sem esperança. de olhos e cabelos pretos – sempre – mais bela do que a Natureza. de lhe estar «destinado». 4. estavam muito marcados por uma conceção ética da vida: censuravam os males da sociedade. frequentemente. sofrimento. vencendo-os sempre. por outro. 4. Apesar disso. os maus governantes. enredado pelos olhos da amada. numa desistência contínua. Mas pode ser consolo do Poeta também a mulher de pele escura. possuído de amor «puro e limpo». «presença suave» – o modelo petrarquista.11 O que é o tema do desconcerto? O tema do desconcerto consiste na constatação de que o mundo não é um local justo. sendo comparada com elementos da Natureza. Exprime. a elegia.7 Como é representada a Natureza? Frequentemente a Natureza é apresentada de modo subjetivo. pela literatura… Literariamente. a epopeia. Apesar de não poder fugir-lhe.5 O que é o Humanismo? Movimento cultural caracterizado pelo grande interesse pela Antiguidade greco-romana. na tradição das cantigas de amor. isto é. A Natureza pode ainda assumir a condição de testemunha da infelicidade do Poeta. de belos olhos. A poesia lírica de Camões: os temas 4.4 O que é o Classicismo? Movimento cultural centrado principalmente na imitação / recuperação da arte em geral e da literatura em particular das duas grandes civilizações da Antiguidade: a grega e a romana. amorosa até. apesar da certeza do seu amor.8 Que experiências amorosas confessa o Poeta? Quase sempre a experiência amorosa se apresenta como negativa: o Poeta é um conhecedor profundo da dor de amar.

normalmente. 4. fundindo-se deste modo o interior subjetivo e o exterior objetivo. Os versos são de dez sílabas métricas. O verso usado é o decassílabo. vindo de Itália.12 O que é o tema da mudança? O tema da mudança é um tema clássico e filosófico por excelência: tudo muda continuamente.13 O que é a lírica tradicional? É a lírica em que Camões segue a tradição poética peninsular que vem da Idade Média.14 O que é a lírica de inspiração clássica? É a lírica de versos decassílabos em que Camões adota formas poéticas recuperadas da Antiguidade.1 O que é um poema épico? É uma narrativa em verso com origem na Antiguidade Clássica greco-romana na qual se exaltavam os feitos gloriosos de um herói mitológico. abba abba cde edc / cdc dcd / cde cde. Durante o Renascimento. como a epopeia. 5. As estâncias são oitavas. estilo e estrutura 4.3 Qual é a estrutura externa de Os Lusíadas? A obra está dividida em dez cantos.) 4. simboliza o seu povo. ou novas formas poéticas. Luís de Camões.O que é? Educação literária (cont. contudo. É composto por catorze versos divididos em duas quadras e dois tercetos.2 Qual é a matéria épica de Os Lusíadas? A matéria épica de Os Lusíadas é a narrativa da viagem de Vasco da Gama e da História de Portugal. Os Lusíadas 5. cada um com um número variável de estâncias ou estrofes. O herói. 5. a écloga. com versos de redondilha maior ou menor – sete e cinco sílabas métricas. no século XVI.16 Quais são as características formais do soneto? O soneto é uma composição poética de origem italiana. 4. entre os quais se destaca Os Lusíadas de Camões. tudo se renova ciclicamente. respetivamente. adequado à sublimidade do assunto. projetando-se nela. A poesia lírica de Camões: linguagem. esta mudança não atinge o Poeta – que caminha inexoravelmente para o fim. com formas poéticas como o vilancete ou as trovas.15 Quais são as principais marcas do discurso pessoal/subjetivo presentes na lírica camoniana? A presença forte da subjetividade marca as composições poéticas de Camões: os seus estados de alma podem influenciar a visão da paisagem. O assunto tem interesse universal. 8 . O estilo é elevado. como Aquiles. apresentando o esquema rimático abababcc. da tradição trovadoresca. e Ulisses. 5. O seu esquema rimático é. na Odisseia – ambas de Homero – e Eneias. um ano sucede ao outro. embora individual. como o soneto. vários poemas épicos foram criados na Europa à semelhança dos Antigos. na Eneida de Virgílio. uma primavera virá depois da atual. rima cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos. introduzida em Portugal por Sá de Miranda. 4. Este género literário exalta feitos excecionais e imortaliza heróis. na Ilíada. acentuados na sexta e na décima sílabas: versos decassilábicos heroicos.

9 . a nobreza guerreira e os homens ilustres que se notabilizaram pela grandiosidade dos seus feitos. A mitificação do herói está anunciada logo no início do poema. estâncias 6-18 O Poeta dedica o poema a D. a condição humana. que reinava em Portugal no ano da sua publicação – 1572. Vasco da Gama. no meio da viagem. um canto marcado pela sublimidade. um canto sublime. pois Camões censura.7 O que são as «reflexões do Poeta»? São reflexões que surgem principalmente nos finais dos cantos. a ignorância da nobreza. estâncias 4-5 O Poeta pede inspiração a musas nacionais. 5. os modelos das epopeias da Antiguidade Clássica e das renascentistas: Proposição Canto I. pelos seus feitos. Invocação Canto I.4 Qual é a estrutura interna de Os Lusíadas? O poema divide-se em quatro partes. é mitificado pois supera. 5. Sebastião. o seu desinteresse pela cultura em geral e pela Poesia em particular. de modo geral. o Poeta reflete sobre assuntos tão variados como a fragilidade da vida humana. seguindo. 5. isto é. estâncias 1-3 O Poeta indica o assunto que vai cantar: «o peito ilustre Lusitano». o da História de Portugal e o das reflexões ou considerações do Poeta. Frequentemente estes planos são interdependentes: numa mesma estância. estas reflexões apresentam vincado caráter humanista. ninfas do Tejo.6 Em que consiste a «sublimidade do canto» em Os Lusíadas? Camões pede às Tágides. Nelas. Momento fulcral dessa mitificação ocorre quando Tethys desvenda a Vasco da Gama a Máquina do Mundo. 5. Dedicatória Canto I. para cantar os feitos do «peito ilustre Lusitano». na Ilha dos Amores: através desta união eles transcendem. as Tágides. Por vezes. o dos deuses.A. os heróis Portugueses. fazendo-o assumir o conhecimento total. na estância 3. 5. e aconselha a mudança de atitudes.8 Como se concretiza a mitificação do herói em Os Lusíadas? O herói. estâncias 19 e seguintes. pois os feitos dos Portugueses são também grandiosos. a ganância.5 Quais são os quatro planos de Os Lusíadas? O plano da viagem. quando a armada se encontrava já no oceano Índico. um canto de estilo grandioso. Narração Canto I. na Invocação. pode-se encontrar mais do que um. isto é. Inicia-se in medias res. estância 3. por outro. o mau governo. verso 5. aproximando-se dos deuses. a condição humana. quando Camões apresenta os Portugueses como tendo superado a Antiguidade – os heróis gregos e romanos. A mitificação ocorre também aquando da união dos Portugueses com as Ninfas. por um lado. etc. simbolicamente. o poder corruptor do dinheiro.

a assimilação e a dissimilação. ANTE > antes 1. CLAVE > chave . a síncope e a apócope. Ex. a sinérese. a redução vocálica. 10 O que é a sonorização? A sonorização consiste na passagem de uma consoante surda. a metátese. /̍/(<ch>) ou /t̍/. Processos fonológicos de inserção. Ex. Ex.: FILIU > filho. /Ӷ/(<lh>). a vocalização. O que é a aférese? A aférese consiste na queda de uma unidade fónica ou de um conjunto de unidades fónicas no início de uma palavra.> obra O que é a apócope? A apócope consiste na queda de uma unidade fónica ou de um grupo de unidades fónicas no final de uma palavra.: AMARE > amar 1.> fogo O que é a palatalização? A palatalização consiste na passagem de sequências latinas como li. Ex. pl.3 Quais são os processos fonológico de alteração (– ˜ )? Os processo fonológicos de alteração são a sonorização. a palatalização.: ACUME.> gume O que é a síncope? A síncope consiste na queda de uma unidade fónica ou de um grupo de unidades fónicas no interior de uma palavra. a uma consoante sonora. ni.: OPERA. a epêntese e a paragoge. Ex.: SPIRITU. fl às consoantes palatais /̒/(<lh>).2 Quais são os processos fonológicos de supressão (–)? Os processo fonológicos de supressão são a aférese. SENIORE > senhor. Ex. supressão e alteração 1.> espírito O que é a epêntese? A epêntese consiste na adição de uma ou mais unidades fónicas no interior de uma palavra. Ex.: HUMILE > humilde O que é a paragoge? A paragoge consiste na adição de uma ou mais unidades fónicas no final de uma palavra.1 Quais são os processos fonológicos de inserção (+)? Os processo fonológicos de inserção são a prótese.: FOCU. a crase. O que é a prótese? A prótese consiste na adição de uma unidade fónica ou de um conjunto de unidades fónicas no início de uma palavra. normalmente em posição intervocálica. cl.O que é? Gramática FONÉTICA E FONOLOGIA 1.

dão lugar a um ditongo. na língua que falamos (sincronia)? Verificam-se em ambas as situações: através do tempo.> lee > lei O que é a vocalização? A vocalização consiste na passagem de uma consoante a vogal. e na atualidade.: SEMPER > sempre O que é a assimilação? A assimilação é um processo fonológico de alteração em que uma unidade fónica torna igual ou mais semelhante a si um outro segmento contíguo ou não.4 Os processos fonológicos verificam-se apenas na evolução da língua ao longo do tempo (diacronia) ou também se verificam na atualidade. Ex. 11 . Ex.: ACTU.: PE(D)E.: IPSE > esse O que é a dissimilação? A dissimilação é um processo fonológico de alteração em que duas unidades fónicas iguais se tornam diferentes.> auto O que é a metátese? A metátese consiste na transposição de segmentos ou sílabas no interior de uma palavra. Ex. Ex. Ex.: CALAMELLU. na atualidade.: Tanto encontramos uma metátese na evolução de CONTRARIU para contrairo (português antigo) como na variação social. Ex.: casa > casinha O que é a crase? A crase consiste na contração de duas vogais numa só. Ex. em hiato. O que é a redução vocálica? A redução vocálica consiste no enfraquecimento de uma unidade vocálica em posição átona. por semivocalização de uma delas.> caramelo 1.> pee > pé O que é a sinérese? A sinérese ocorre quando duas vogais contíguas. Ex.B. entre parteleira e prateleira.: LE(G)E. na evolução da língua.

isto é.2 O que são palavras divergentes? Palavras divergentes são as que provêm do mesmo étimo.2 O que é o português não europeu? O português não europeu é a língua falada fora da Europa.: SANU- são (adjetivo) são (verbo) SUNT 3. onde também se falam crioulos. dando origem a mais do que uma palavra portuguesa. Palavras convergentes e divergentes 3.1 O que é o étimo de uma palavra? O étimo de uma palavra é a forma mais antiga de que essa palavra provém. Português europeu e não europeu e crioulos de base portuguesa 4. 2.) ETIMOLOGIA 2.1 O que são palavras convergentes? Palavras convergentes são as que provêm de étimos diferentes aos quais corresponde apenas uma palavra portuguesa. que compreende as variedades sul-americana (brasileira) e africana (antigas colónias portuguesas).O que é? Gramática (cont. 4. 3. que tem origem no latim. 12 . Por exemplo. mas a grande maioria tem origem em étimos latinos. umas por via erudita e outras por via popular.1 O que é e onde se fala o português europeu? O português europeu é a língua falada em Portugal continental e nos arquipélagos dos Açores e da Madeira.2 As palavras portuguesas provêm de que étimos? As palavras portuguesas provêm de étimos de várias línguas. Ex. visto que o português é uma língua românica ou novilatina.: solitário (forma erudita) SOLITARIU- solteiro (forma popular) GEOGRAFIA DO PORTUGUÊS NO MUNDO 4. Étimo 2. o étimo da palavra portuguesa filho é a forma do latim vulgar FILIU-. nos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP). Ex.

: o Kriolu ou Kauberdianu de Cabo Verde.B. encontramos os crioulos indo-portugueses (Língua da Casa. no Suriname. • Ir ao mar nesta altura é muito perigoso. Exs.: c) O Pedro disse que [eles/elas] iam ao cinema.1. b) Os cães e os gatos são animais domésticos. de S.3 O que é um crioulo? Um crioulo é uma língua que se forma em comunidades onde se falam várias línguas a partir do contacto de uma língua autóctone com uma língua dominante (de colonização) devido à necessidade de comunicação. as palavras utilizadas na comunicação. b) Na Ásia. é portuguesa. em Timor Leste) e sino-portugueses (o macaísta ou patuá de Macau. o sujeito pode ser subentendido c) – quando pode ser recuperado através da conjugação verbal – e indeterminado d) – quando é substituível por «alguém». Funções sintáticas 5. 4. em vias de desaparecimento). na Índia).5 Qual é a distribuição geográfica dos principais crioulos de base portuguesa? a) Em África. isto é. e o português de Bidau.: • Maçãs não faltarão. Ex. 13 . malaio-portugueses (Papiá Kristang. na próxima primavera. em Damão. existem o papiamento nas Antilhas e o Saramancano. / Alguém compra casas na baixa da cidade. na Malásia. 5. d) Compra-se casas na baixa da cidade. c) Na América. Exs.4 O que são crioulos de base portuguesa? São crioulos em que a base lexical. 4.: a) Os cães protegem os donos.1 O que é o sujeito? É uma função sintática desempenhada por palavra (nome).Tomé). na próxima semana.1 Quais são os tipos de sujeito? O sujeito pode ser simples a) ou composto b). expressão. de Cabo Verde) e os crioulos do Golfo da Guiné (Forro ou Santomense. Quando não está expresso. Exs. oração que concordam com o verbo da frase em que se encontram. SINTAXE 5. existem os crioulos da Alta Guiné (Kuaberdianu. 4. • Os meus primos ingleses visitam-nos.

Exs.4 O que é o complemento direto? É uma função sintática de um verbo transitivo direto e/ou transitivo direto e indireto. não sabes o que perdeste. Exs. • pronomes pessoais (-me. Sempre que se encontrar junto do sujeito. -os. 2) Inês Pereira recusa o primeiro namorado. -nos. -te. meu amigo. – Inês Pereira recusa-o.) 6) O António canta. -a. expressando o que se diz acerca do sujeito. podem incluir-se outras funções sintáticas. / Hoje comi-o ao almoço. -a. Exs. • uma expressão substituível pelos pronomes pessoais átonos -o. No predicado. porque não concorda com o verbo da frase em que se encontra. 5. Pedro. -vos. Podem ainda existir funções sintáticas não selecionadas pelos verbos (modificadores). (O predicado inclui um complemento e um predicativo do complemento direto. -te.: 1) João. -as. / A alcoviteira falou-lhe de Pero Marques. -lhes).) 2) O Pedro almoça na cantina ao meio-dia.3 O que é o predicado? É uma função sintática desempenhada pelo verbo.5 O que é o complemento indireto? É uma função sintática selecionada por verbos transitivos indiretos e transitivos diretos e indiretos. -os. de manhã. substituíveis pelo pronome pessoal átono -lhe. -o.2 O que é o vocativo? É uma função sintática desempenhada por uma palavra ou expressão e que serve para chamar ou interpelar o interlocutor. -a.) 4) O Francisco está doente. • uma oração subordinada substantiva relativa. traz-me aquele livro. já viste bem este exercício? 5.) 3) O João deu um presente ao irmão. O vocativo distingue-se do sujeito. • pronomes pessoais (-me.O que é? Gramática (cont. 2) O meu pai ofereceu-me um livro de poesia. 2) Tu. • uma oração subordinada substantiva completiva. (O predicado inclui dois complementos. É desempenhada por: • expressões iniciadas pela preposição a. que pode ser desempenhada por: • uma palavra substituível pelos pronomes pessoais átonos -o. -vos. Exs. 3) A minha prima deu o presente a quem o merecia.) 5. -nos. o vocativo é isolado por vírgulas.) 5) O Manuel acha este filme um espanto.: 1) A alcoviteira falou a Inês de Pero Marques. (O predicado inclui um predicativo do sujeito. consoante as propriedades de seleção dos verbos principais e copulativos (complementos). hoje. -lhe. 14 . por favor. -as). 4) Inês Pereira afirma que só casará com um homem educado. (O predicado inclui dois complementos e dois modificadores.: 1) Hoje comi marisco ao almoço. -os.: 1) O João deu um presente ao irmão. (O predicado é apenas constituído pelo verbo. -as.) 5. junto do qual se encontra normalmente. 3) Tu. (O predicado inclui dois modificadores. 3) Ela viu-nos no cinema.

É substituível por o ou a? Sim. É substituível por por lhe? Não. / Ela mora lá. os. Ex.a pessoa (me/nos) ou de 2. Pode ser desempenhada por: a) uma palavra. Exs. a.: 1) O meu primo mora longe. os. Podemos. Se a frase ficar correta pela substituição com o. Exs.: Ela viu-me no cinema. a. 5.7 Como sei se um pronome pessoal átono de 1.6 Como distingo o complemento direto do complemento indireto? a) Um complemento direto é selecionado por verbos transitivos diretos e por verbos transitivos diretos e indiretos.: O Pedro telefonou à irmã.a pessoa (te/vos) desempenha a função sintática de complemento direto ou de complemento indireto? É simples: basta substituí-los pelos pronomes de 3. / O Pedro deu um livro à irmã. 3) Ela mora em Lisboa. a. as. / O Pedro viu-o. ficar correta ao ser substituída por lhe ou lhes. / Inês gosta dele. te. d) uma oração subordinada substantiva relativa.a pessoa (o. os. as. concluir que o pronome me na frase Ela viu-me no cinema desempenha a função sintática de complemento direto. 5. pelo contrário. então desempenhará a função sintática de complemento indireto. / O Pedro deu um livro à irmã.: A Joana telefonou à mãe. 4) Inês Pereira gosta de quem é educado e bem falante. portanto. as [complemento direto] e lhe. porque Ela viu-lhe no cinema é uma frase incorreta. / O Pedro telefonou-lhe. Se.: O João viu um ovni. d) Um complemento indireto é sempre desempenhado por uma palavra ou uma expressão iniciada pela preposição a substituível pelos pronomes pessoais átonos lhe/lhes. 15 . vos desempenhará a função sintática de complemento direto. porque Ela viu-o(a) no cinema é uma frase correta. c) Um complemento direto é sempre desempenhado por palavra ou expressão substituível pelos pronomes pessoais átonos o.8 O que é o complemento oblíquo? É uma função sintática selecionada por verbos transitivos indiretos e transitivos diretos e indiretos. o pronome me. Exs. lhes [complemento indireto]).B. c) uma expressão substituível por um advérbio. Ex. Exs. nos. 2) Inês Pereira gosta do Escudeiro. 5.: O Pedro viu um ovni. b) Um complemento indireto é selecionado por verbos transitivos indiretos e por verbos transitivos diretos e indiretos. b) uma expressão substituível por um pronome pessoal precedido de preposição.

: 1) Inês não estava interessada em Pero Marques. 16 . a expressão destacada desempenha a função sintática de complemento oblíquo porque não pode ser substituída por o. Se a frase ficar correta com o. 2) O Pedro vai a Lisboa. (frase correta) 5. 2) A polícia procedeu à identificação do suspeito. uma expressão iniciada por uma preposição ou por uma oração. a.11 O que é o complemento do nome? É uma função sintática selecionada por um nome. • O João mora-a. a. as nem por lhe ou lhes. a. se ficar incorreta com direto e indireto. um complemento oblíquo é substituível por um advérbio ou por um pronome precedido de preposição.12 O que é o complemento do adjetivo? É uma função sintática selecionada por um adjetivo. então o complemento é direto.10 Tanto o complemento oblíquo como o complemento indireto podem ser desempenhados por uma expressão iniciada pela preposição a. a.: 1) Na frase O Pedro leu um livro. como os distingo? Procedendo à substituição dessa expressão por lhe ou lhes. estaremos na presença de um complemento oblíquo. / A Joana telefonou-lhe. estaremos na presença de um complemento indireto. (frase gramaticalmente incorreta) • O João mora-lhe. os. Exs.: 1) A pesca desportiva faz-se sempre à linha. as. (frase incorreta – «a Lisboa» é complemento oblíquo). substitui-o por o. por um pronome pessoal lhe ou lhes. Exs. 2) Inês estava interessada em casar com o Escudeiro. Se a frase ficar correta. um complemento indireto e um complemento oblíquo? a) O complemento direto é sempre substituível por um pronome pessoal átono o. Exs. um complemento indireto. os. 5. os. (frase correta – «à mãe» é complemento indireto). mas pode ser substituída por um advérbio. O complemento do nome pode ser desempenhado por um adjetivo.9 Como distingo um complemento direto. / O Pedro vai-lhe. então o complemento é oblíquo. 5. Pode ser desempenhada por uma expressão iniciada por uma preposição ou por uma oração. Assim. (frase gramaticalmente incorreta) • O João mora lá. os. as e por lhe ou lhes. as. 3) A suposição de que os alunos não estudam é abusiva.) 5. 2) Na frase O João mora em Lisboa. se ficar incorreta. para identificar o complemento presente numa frase. a expressão destacada desempenha a função de complemento direto porque pode ser substituída pelo pronome átono o: O Pedro leu-o.: 1) A Joana telefonou à mãe.O que é? Gramática (cont. se ficar correta com lhe ou lhes é indireto. Nesse caso. Exs.

Ele vendeu o livro ao primo. 5. 3) Ele não é quem se pensa.14 Como distingo um predicativo do sujeito de um complemento direto? Basta saber que o predicativo do sujeito é desempenhado por verbos copulativos e que não é substituível pelos pronomes pessoais átonos o. Ele acha a Maria bonita.: a) O Pedro ficou em casa. Exs. 2) Eles consideram aquele aluno muito estudioso. os. de verbos transitivos diretos e indiretos e de verbos transitivos-predicativos.: Ele achou o livro. uma localização). a. considerar. A expressão «um lobo» é complemento direto porque pode ser substituído pelo pronome pessoal átono o.: Ele achou um livro. Eles elegeram o Pedro deputado. Ele acha a Maria bonita. Um predicativo do complemento direto nunca se pode substituir por estes pronomes. Exs. c) Um complemento direto é sempre substituível pelos pronomes pessoais átonos o. chamar.16 Como distingo numa frase o complemento direto do predicativo do complemento direto? a) Um complemento direto é sempre função sintática de verbos transitivos diretos. (frase correta – «a» [complemento direto]. A expressão «em casa» é predicativo do sujeito porque o verbo da frase é copulativo e não pode ser substituído pelos pronomes pessoais átonos o. 2) Brás da Mata é um escudeiro pouco escrupuloso.15 O que é o predicativo do complemento direto? É uma função sintática desempenhada por uma palavra. considerar. as. as. 3) Elas consideram que fumar é prejudicial.: 1) Os meus amigos estão descontentes. b) Um predicativo do complemento direto é função sintática apenas de verbos transitivo-predicativos (achar. Exs. Exs. a. as.: Ele acha a Maria bonita. uma expressão ou uma oração que indicam algo acerca do sujeito (uma qualidade. / Ele achou-o. um estado. 5.B. os.: 1) Ele acha a Inês bonita. a. Repara nas expressões destacadas nas frases dos exemplos. Exs. julgar. uma expressão ou uma oração selecionadas por um verbo transitivo-predicativo (achar. (frase incompleta – Ele acha-a o quê?) Ele acha-a bonita. Exs.13 O que é o predicativo do sujeito? É uma função sintática de uma palavra. / Ele acha-a. «bonita» [predicativo do complemento direto]. b) O Pedro viu um lobo. tratar.) 17 . 5. nomear…) que indicam algo acerca do complemento direto. 5. os. eleger…).

18 O que é um modificador do nome? É uma função sintática desempenhada por uma palavra. 1 São restritivos quando restringem ou limitam a referência do nome que modificam. por isso. mas não o li ainda. Exs. 3) Eles fazem surf sempre que podem. c) disjuntivas Ex. uma expressão ou uma oração subordinada adjetiva relativa restritiva. voou para longe. uma expressão ou uma oração não selecionadas pelo verbo e que podem. são independentes uma da outra. Podem ser desempenhados por uma palavra.) 5. uma expressão ou uma oração não selecionados pelo nome. Exs. que são mamíferos.17 O que é um modificador de grupo verbal? É uma função sintática desempenhada por uma palavra.: Comprei o livro.: 1) Vivo numa casa arrendada. 2) Vivo numa casa bastante espaçosa. d) conclusivas Ex.: Estou muito cansado. 3) A casa que os meus primos compraram situa-se numa colina.: Entrego-te o livro.: Eu brinco e tu lês. Podem ser desempenhados por uma palavra.O que é? Gramática (cont. Exs. livre. escreveu diversos autos e farsas. 2) Eles trabalham em Paris. 2 São apositivos quando não restringem nem limitam a referência do nome que modificam. 6.: 1) Eles almoçam calmamente.: 1) A ave.1 O que são orações coordenadas? São orações quase sempre ligadas por conjunções ou locuções coordenativas. 6. b) adversativas Ex. São sempre separados por vírgulas do nome que modificam. ser omitidas sem que a frase fique gramaticalmente incorreta. uma expressão ou uma oração subordinada adjetiva relativa explicativa. 18 . A frase complexa: coordenação e subordinação Coordenação 6.1. pois não consigo ler mais esta história tenebrosa. 5. Os modificadores do nome podem ser restritivos1 ou apositivos2. logo tenho de parar o trabalho.: Ou vou a Paris ou vou a Londres. 3) Os golfinhos. abundam na baía do Sado. 2) Gil Vicente.1 Que tipos de orações coordenadas existem? As orações coordenadas são as seguintes: a) copulativas Ex. o maior dramaturgo português. d) explicativas Ex.

6.2 O que são orações subordinadas? São orações quase sempre iniciadas por conjunções ou locuções subordinativas e dependem de uma oração subordinante ou de um elemento subordinante.: É um país tão bonito que regressarei para o ano. eu confio nele.: Ele ontem afirmou perante todos que ia para França brevemente).B. (modificador de frase) 19 . que lhe tínhamos oferecido. 3) Quem estudar tirará boas notas. f) concessivas (Ex. 6. Ex. ficarei contente.: Vou almoçar porque tenho fome. Ex.).: Esta cidade é mais bonita do que aquela [é].). • As adjetivas dependem de um nome.).: A minha prima faz os deveres quando chega a casa. d) comparativas (Ex.). b) explicativas (Ex.: Falei alto para que me ouvisses.: Nós vimos ontem na estrada o carro que teve o acidente. Exs. • As adjetivas podem ser: a) relativas restritivas (Ex.: Eles ouviram o barulho que fizemos. farei grandes viagens.2 De que dependem as orações subordinadas? As orações subordinadas ou dependem de uma oração subordinante ou de um elemento subordinante. adjetivas e substantivas.). 6. • As adverbiais podem ser: a) causais (Ex.: 1) Ela disse ontem no tribunal que desconhecia essa pessoa.: Nós fomos ver o filme porque o gabavam muito. • As substantivas dependem de um verbo.: Se vieres.: Eles leram esses livros.). e) consecutivas (Ex.2.: Vou ao cinema sempre que o filme é recomendado pela crítica. Ex.2. 2) Eu sei bem quem escreveu esse livro. c) finais (Ex.2. g) condicionais (Ex. Subordinação 6. b) completivas (Ex. b) temporais (Ex. A subordinada só depende do elemento subordinante sublinhado.: Quem jogar pode ganhar esse prémio.: Embora ele tenha esses defeitos. • As adverbiais dependem das orações subordinantes.: Caso me saia a lotaria.).3 Quais são as funções sintáticas das orações subordinadas? As orações subordinadas desempenham funções sintáticas – em relação à subordinante ou a um elemento subordinante.).).1 Que tipos de orações subordinadas existem? Existem três tipos de orações subordinadas: adverbiais.). (modificador de grupo verbal) Ex. • As substantivas podem ser: a) relativas sem antecedente (Ex. Alguns exemplos: • As adverbiais desempenham a função de modificador (de grupo verbal ou de frase).

adjetivos. Exs. sendo substituído por vocês. Ex. oblíquo) e modificador. Arcaísmos e neologismos 7. uma expressão ou uma construção sintática que entrou em desuso na língua. ensinar. (sujeito) (= isso é evidente. indireto e oblíquo). aprovado. (modificador do nome apositivo) • As substantivas completivas podem desempenhar as funções sintáticas de sujeito e de complemento (direto.: campo lexical de escola: aula. 8. não aparecem na nossa costa.) 2) O João disse que vai brevemente a Londres. se cria através de mecanismos já existentes na língua.1 O que é um campo lexical? Um campo lexical consiste num conjunto de palavras de categorias lexicais diferentes (nomes.) LEXICOLOGIA 7. (complemento indireto) (= Dei os livros ao Pedro.1 O que é um arcaísmo? Um arcaísmo é uma palavra.O que é? Gramática (cont. aprender. 20 . Ex.) 2) Ela sabe quem escreveu esse livro.) • As substantivas relativas podem desempenhar as funções sintáticas de sujeito. O pronome vós (segunda pessoa do plural) já quase não se usa na comunicação atual. complemento (direto. do inglês). nomeadamente os processos morfológicos e os processos irregulares de formação de palavras. verbos) que se podem associar pelo sentido a uma mesma área da realidade. professor. Campo lexical e campo semântico 8.) • As adjetivas desempenham a função sintática de modificador do nome (restritivo e apositivo).: 1) É evidente que este preço é absurdo.: O advérbio asinha (depressa) deixou de se usar no século XVI.: O livro que ele leu foi escrito por José Saramago.) 3) Dei os livros a quem mos pediu. (complemento direto) (= O João disse isso. (complemento direto) (= Ela sabe isso. Exs.: 1) Quem tudo quer tudo perde.2 O que é um neologismo? Um neologismo é uma palavra nova que. por empréstimo. (sujeito) (= Ele tudo perde. Exs. Exs. indireto. 7. bullying (palavra nova proveniente. aluno.: deslocalizar (palavra nova formada por derivação por prefixação). (modificador do nome restritivo) As baleias. num determinado momento. reprovado. que são mamíferos.

Processos irregulares de formação de palavras 9. Exs.: A palavra informática resulta da junção dos elementos destacados das palavras informação+automática. 21 . Essas iniciais são pronunciadas separadamente.5 O que é o acrónimo? É um processo que dá origem a uma palavra formada por letra ou letras iniciais de um conjunto de palavras.2 O que é um campo semântico de uma palavra? Um campo semântico de uma palavra consiste no conjunto de significados que ela pode ter em diversos contextos. 9. (pensamento) 4) Na compra da casa.: campo semântico da palavra cabeça: 1) O ciclista vai na cabeça do pelotão.: as palavras inglesas online e marketing foram adotadas pelos falantes do português e utilizadas na comunicação.3 O que é a amálgama? É um processo através do qual se forma uma nova palavra pela junção de partes de palavras diferentes. Exs.: 1) rato (animal roedor) / rato (periférico de computador) 2) janela (de uma casa) / janela (caixa de diálogo / informativa) de programa informático 9. Ex.: 1) PSP 2) GNR 9. Ex. (à frente.: 1) SIDA (Síndroma da Imuno-Deficiência Adquirida) 2) FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) 9.6 O que é a truncação? É um processo que consiste na redução de palavras mais extensas delas resultando outras de menor extensão. 8.4 O que é a sigla? É uma palavra que resulta das letras iniciais de um grupo de palavras.2 O que é o empréstimo? É um processo em que uma palavra de uma língua é adotada por outra.1 O que é a extensão semântica? É um processo irregular de palavras em que se atribui um significado diferente a palavras já existentes na língua. (capacidade) 3) Concentra-te: estás sempre com a cabeça noutro lado. Exs. Exs. exigiram-me os juros à cabeça.: A palavra metro formou-se pela redução da palavra metropolitano. e que se pronuncia como uma palavra. na dianteira) 2) Já não tenho cabeça para decorar todos estes números.B. (de cor/de memória) 9. Ex. 9. (adiantados) 5) Não sei esses números de cabeça.

o Papado foi marcado por grandes escândalos de natureza política. que provocaram a reação de alguns teólogos contra essa situação. aproximadamente. o anúncio da Reforma A leitura do Auto da Feira pressupõe que conheças alguns factos relativos à história do cristianismo. 2. apresentamos-te as seguintes informações: 1. Mas com outras também: escândalos muito fortes. no Auto da Feira. A partir daqui o caminho estava aberto para a cisão entre os cristãos. por exemplo – são referidos no auto. para melhor compreenderes a luta alegórica nele presente. e que terminaram com o famoso saque de Roma. o que aconteceria pouco depois com o aparecimento de vários movimentos reformistas e de protesto contra Roma. o que marcou negativamente de forma indelével a cristandade desses tempos. Assim.. etc. em 1527: Roma foi invadida e saqueada por cristãos. como os luteranos.: a Reforma Protestante. como referido em 1. os anglicanos. os calvinistas. nas admoestações e fortes censuras a ela dirigidas pelo Tempo e por Mercúrio. No século XVI. a Reforma estava perto… 22 . por certo. 3. o público reconhece-a como a personagem alegórica que é pecadora. a questão das indulgências. Quando Roma entra em cena. o Papado envolveu-se em várias guerras. mas mais grave ainda era o facto de vários Papas terem uma vida escandalosa em nada condizente com os votos de castidade. principalmente nas três primeiras décadas. basicamente. no facto de o Papado perdoar pecados a quem os podia remir com dinheiro. nomeadamente no século XVI. 6. pobreza e humildade a que se tinham submetido. E o público reconhecer-se-ia também. que consistia. etc. Afinal. Esta situação era intolerável para Lutero e outros teólogos: consideravam que o Papado pecava fortemente com estas práticas. que veio a perder. militar. abalavam o Papado. 4.. habitual cliente do Diabo – como ela própria admite. Devido ao seu poder político e militar. Os seus erros – as indulgências. de natureza vária. com o apoio de Lutero. Auto da Feira A crise do Papado: o saque de Roma.Gil Vicente. O mais famoso foi Martinho Lutero. Uma das críticas mais contundentes que se fazia ao Papado romano tinha a ver com a chamada questão das indulgências. financeira. 5. de natureza religiosa ou teológica.

. casada com Amâncio. Caracterização das personagens e relações entre as personagens Mercúrio Define-se como «senhor / de muitas sabedorias. espelhos. cantam em coro à Virgem. Amâncio lamenta-se da mulher desajeitada que tem. Branca. procurar amores… a ignorância religiosa/teológica das camadas populares. «a mansa». 2. a indicação de mercadorias procuradas por determinadas pessoas ou grupos sociais nas feiras: cartas de jogar. a outra feira. vêm juntas à feira. como diz. quem lhe compra fá-lo por livre vontade: ele não força ninguém. desinteresse pela transcendência religiosa. não tem dúvidas de que não terá rival nas vendas. Serafim É o anjo enviado por Deus a pedido do Tempo para o assessorar nas trocas dos «remédios» que se encontram na tenda. queixa-se de maus hábitos do marido. unguentos – não só para tratar da saúde. Denis queixa-se dos maus tratos que ela lhe dá e. De facto. o temor de Deus. mas também para falar com os amigos. como. o que faz dele um hábil negociador – como também se define. os remédios contra as adversidades e a Fortuna. É.Gil Vicente. por isso. Ofende-se quando o Serafim pretende expulsá-lo da feira porque. Ambas demonstram. referindo os vários signos do Zodíaco e a sua inutilidade: em nada influenciam a vida das pessoas. a feira como lugar de encontro para negociar. vestuário. na qual põe à disposição dos compradores toda a espécie de coisas vis e. mas ainda com pretensos poderes mágicos –. mas falta-lhe «santa vida» para dar em troca. por exemplo: a crença generalizada na astrologia – denunciada por Mercúrio no seu monólogo inicial. um comportamento coletivo. Auto da Feira 1. por isso. A representação do quotidiano O Auto da Feira permite o conhecimento de aspetos da vida quotidiana do povo no século XVI. Branca Anes e Marta Dias Mulheres dos anteriores. as virtudes – tudo se achará na tenda do Tempo. desabafar. falar do trabalho rural. Roma Personagem alegórica. Casado com Marta Dias. Nove moças e três mancebos Evidenciam. centrando-se nos seus interesses materiais. Desenvolvem com elas diálogos equívocos cheios de sugestões eróticas.». Denis e Amâncio Vêm juntos à feira. «a brava». da vida familiar. resistem aos avanços dos «compradores» Mateus e Vicente. recusam em coro comprar «virtudes» porque não proporcionam bons casamentos. vv. Por isso se dirigem à Ribeira. o mensageiro dos deuses e o deus do comércio. Ainda tenta comprá-las com «perdões». etc. A representação do quotidiano passa ainda pelo facto de o Auto da Feira mostrar como as tensões religiosas de índole teológica que grassavam na Europa e conduziram à Reforma estavam bem presentes em Portugal. Vicente e Mateus Interessam-se por aquilo que as moças do lugar têm para «vender». Casado com Branca Anes. vêm a «amores» e não às compras. em geral. vem à feira comprar «paz. Diabo Aparece com uma tendinha de vendedor ambulante. verdade e fé». nomeadamente no público cortesão – nobreza e clero – que assistia ao auto naquele dia de Natal de 1527… 23 . / e das moedas reitor. pretende vendê-la na feira. joias. atormentada pela falta de respeito de que é vítima. 162-164 (página 29). na medida em que atuam como grupo: organizam-se para enganar o Serafim através da informação de Gilberto (vêm «folgar» e não feirar). mas é severamente repreendida pelo Serafim e por Mercúrio. falando com o Serafim. Tempo O que o Tempo troca precisa de tempo para ser trocado: a paz. Ridiculariza a astrologia. «estações» e «jubileus». na mitologia romana.

do dinheiro que tudo redime. Contudo. figura que se apresenta ligada ao Mal e a quem o Tempo e Mercúrio avisam que tem de mudar em direção ao Bem. o «poder primeiro»: a ele deve regressar. Mercúrio acusa Roma de ser pecaminosa. A representação alegórica A representação no Auto da Feira é alegórica no sentido em que se trata de uma representação do mundo apresentada através de uma série de figuras alegóricas relacionadas entre si. A dimensão religiosa Apesar da ignorância de natureza teológica que se verifica nos elementos populares presentes no Auto da Feira. este revela modos de viver a prática religiosa por parte do povo: a crença e o medo ao Diabo e ao Inferno. do castigo divino – típica da mentalidade medieval. o Serafim convoca para a feira os «papas adormidos». a dimensão religiosa acentua-se quando: o Serafim adverte Roma de que não respeita o «poder profundo» de Deus – daí as guerras em que se envolveu e que perdeu. de conversão por parte do cristianismo está bem presente no Auto da Feira quando: Mercúrio ataca «clérigos e frades» que só pensam em enriquecer. Este tipo de representação. Mas o auto é ainda. isto é. o temor de Deus. e principalmente. usando as vestes simples dos primeiros «pastores» – modo metafórico de apelar à reforma. Essa necessidade de reforma. o Serafim insta a hierarquia cristã a mudar de roupa.erro esse que consiste em ter-se esquecido de Deus. apresentando Nossa Senhora como exemplo de virtude a seguir. Mercúrio aconselha Roma a mudar de vida. No diálogo com o Serafim. o Tempo lembra que por todo o lado se perdeu o «temor de Deus». Roma apresenta-se como querendo trocar a mentira e o engano outrora adquiridos ao Diabo. 24 . típico do teatro medieval. o Tempo denuncia as dissensões e as guerras entre cristãos. é com a entrada em cena de Roma que a dimensão religiosa ocupa verdadeiramente o lugar central no espetáculo – desde logo numa perspetiva de reforma. Mercúrio insta Roma a fazer um exame de consciência para verificar que o erro está nela e que não deve ser a outrem atribuído. No Auto da Feira lutam o Bem (alegorizado no Tempo e no Anjo que o acompanha. deixando de ter «ao céu respeito». da «ira do senhor dos céus». e em que tem vivido por «paz. 4. verdade e fé» – num projeto de conversão. o Serafim) e o Mal (alegorizado no Diabo). lugar de crítica ao clero e ao Papado num tempo em que na Europa se anunciava a Reforma. referindo-se ao escandaloso pagamento dos pecados através das indulgências. de mudança. consiste em apresentar figuras ou personagens cuja natureza é simbólica ou metafórica: o espetador reconhecia imediatamente a presença do Mal em palco logo que o Diabo entrava. Auto da Feira 3.Gil Vicente. A crise em que vivia o Papado está alegorizada em Roma.

cuja ação aparece disposta em forma de políptico1. vêm a seguir dois compadres e duas comadres. não necessitam de comprar mercadorias e. passava diante de si. V. através dela. Para a representação alegórica desta luta são figuras centrais o Tempo e o Serafim (alegorias do Bem). Dicionário de literatura. colunas 816 e 817. da sua extensão e da sua estrutura. As outras personagens (maridos e mulheres queixosos dos respetivos cônjuges. 25 . O auto acaba com uma cantiga entoada pelas camponesas em louvor da Natividade. satiriza a astrologia e. Mercúrio Monólogo de Mercúrio: • crítica satírica à astrologia e à presunção humana. 2005. em adequação à circunstância natalícia do auto: estes. é primeiro visitada por Roma. Essa luta é transmitida através de um espetáculo de figuras alegóricas. A violência do ataque vicentino à cúria romana surpreende-nos. cerca de 1527. mas subordinados a um só tema Auto da Feira – Estrutura II 1. mas também não lhes interessam os produtos do Serafim. vol. tendo em atenção a data aproximada do auto. campónios e camponesas. p. a presunção humana. figuras que se podem considerar uma espécie de metáforas ou mesmo de símbolos. O espetador entendia deste modo o espetáculo do mundo que. 76. José Augusto Cardoso Bernardes. Figueirinhas. in Biblos – Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa. nomeadamente. 1987. «VICENTE (Gil)». independentemente do seu tema. um auto alegórico O Auto da Feira é uma alegoria (ou seja. (Texto adaptado) Moralidade composta por Gil Vicente «nas matinas do Natal». E vem depois um grupo de pastores (rapazes e raparigas). coluna 455. na disposição vã de se livrarem dos respetivos consortes. construído a partir da alegoria de uma feira de virtudes. I. Lisboa / São Paulo. onde pontificam os convencionais mercadores do Bem (o Anjo) e do Mal (o Diabo). Auto da Feira – Natureza da obra (um auto alegórico) Auto Auto da Feira Em Gil Vicente. mas só a troco de «santa vida» (que não tem) esta lhe poderá ser dada. Verbo.2 Os dois casais • dois casais visitam a feira com a intenção de se libertarem dos respetivos cônjuges. porém. a feira. Verbo. 2. de forma artística. O primeiro freguês é nem mais nem menos que Roma. • anúncio de abertura de uma feira em dia de Natal.1 Roma 2. símbolo do Papado. metafórica.. «Auto». Porto.Auto da Feira – Estrutura I […] Auto da Feira. (Texto adaptado) Auto da Feira – uma alegoria. vol. 2. «Auto da Feira». a designação de Auto aplica-se indiscriminadamente a qualquer tipo de composição dramática. Lisboa / São Paulo. o Diabo (alegoria do Mal) e Roma (alegoria do Papado em forte crise – dominado pelo Mal). em geral. simbólica. casados entre si. 2. indireta. uma vez que tudo aquilo de que necessitam lhes é gratuitamente disponibilizado pela Virgem (patrona da feira). as quais oferecem as suas mercadorias a dois compradores que lhes fazem a corte) exprimem igual desprezo pelas virtudes que o Serafim vende. alegórica. o Serafim vem ajudá-lo. vol. que a ela acorre em busca da «paz dos céus». representação simbólica) do mundo e da luta incessante que nele ocorre entre o Bem e o Mal. in Jacinto do Prado Coelho (Dir. José Augusto Cardoso Bernardes. instalada em noite de Natal. S. A Feira • o Tempo monta a sua tenda e anuncia os muitos produtos que vende. revelam-se imunes aos oferecimentos que lhes fazem na tenda do Diabo. in Biblos – Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa.). Temos primeiro Mercúrio («reitor das moedas») que. • Roma visita a Feira e é avisada de que tem de mudar de vida. num dos monólogos mais desenvolvido das moralidades vicentinas. R. • o Diabo anuncia os produtos à venda na sua «tendinha». O autor representa o mundo sob a forma duma feira em que os principais vendedores são um Serafim e o Diabo. por isso. 1 conjunto de quatro ou mais quadros independentes entre si. I. I. isto é.3 Os pastores • um grupo de pastores visita a feira com intenção de se divertir em dia de Nossa Senhora. 1995.

todos quantos aqui estais afinai bem os sentidos. Roma. Amâncio Vaz. 7 anda na moda. Serafim. diz verdade. 9 o dia de Natal. Gilberto. 3 enviou. pois no céo nasci com elas. Lindley Cintra). a ironia está neles bem presente. e o que há-de acontecer aos anjos e a Deos. «Auto da Feira». 1989. Tempo. que sabe ciência avondo17. o que per curso d’estrelas se poderá adivinhar. e não sabem cujo é12. E eles todos em cabo terão um cão polo rabo11. Monólogo de Mercúrio. (Apresentação e leitura de António José Saraiva) 4 Figuras: Mercúrio1. E cada um sabe o que monta13 nas estrelas que olhou. Dinalivro. 15 por isso. e despois vos direi qual. 12 de quem é. . e posto em seu assento. 10 pretendem. mas fundamentalmente na função de deus do comércio. 2 intenções. E porque a estronomia6 anda agora mui maneira7. Gil Vicente. (Introdução e edição interpretativa do Professor Luís F. e quem me cá descendeo3. Lisboa. como era comum na época. não lhe sabe tomar conta d’um vintém que lh’entregou14. Lisboa. Tesaura. e o sol sobre amarelo. mal sabida e lisonjeira. hábil negociador. 1988. Juliana. e ao moço que mandou. Denis Lourenço. 25 30 35 40 e ao mundo e ao diabo. Justina. 13 o que interessa. e a quê 4. mas a astrologia. Marta Dias. 17 sabe muita ciência 26 15 20 Mer. 11 terão um cão atrás deles. E se Francisco de Melo16. Diabo. No auto. vos direi a verdadeira. Mateus. deus dos comerciantes (ou feirantes) 4 Entra primeiramente Mercúrio. Dorotea. 265 a 299. Móneca. 16 matemático e astrólogo muito conceituado que se dedicava à astrologia. foram retiradas da edição referida. Auto da Feira Auto da Feira Nota As informações sobre o vocabulário e outros aspetos essenciais à compreensão do texto. 5 e tudo o resto. 14 estes versos constituem uma crítica aos que pretendem ter conhecimentos de astrologia e que acreditam nesta crença. 4 e com que fim. e entendais meus partidos2. 8 em honra. Eu sou estrela do céo. Vicente. sem mentiras nem cautelas. uma ciência.e todo o al5 que me a mi aconteceo. pp. que aparecem em notas. E que o sabem têm por fé. e ainda de Auto da Feira de Gil Vicente. e que morte hão-de morrer. eu. não lh’o escondo. à honra8 deste dia9. diz que o céo é redondo. Leonarda. como nos que se lhes seguem. mais que nunca. o astro mensageiro por excelência. uma crença sem bases científicas. Porém15 quero-vos pregar. fez descer do Céu. 6 deve ler-se aqui não a astronomia. muito mais. Branca Anes.Gil Vicente. Nabor. Publicações Dom Quixote. Muitos presumem10 saber as operações dos céos. in Teatro de Gil Vicente. diz: 5 10 1 Mercúrio é o astro da mediação. é enviado por Deus à Terra. Pera que me conheçais. Teodora e Giralda. como mensageiro. Merenciana.

E porque está governado per seus cursos naturais. moeda. 24 também. não corre por isso mais18. o autor. «do primeiro ataque direto do autor ao clero corrupto da época». o «proveito». 19 signos do Zodíaco – a astrologia. está o céo pera isso. primeiro fostes gerados. quando o talhante as apresenta para venda. são tão maus d’haver agora. Capricórnio chamado. mingua-lhes as santidades. 32 recua. 21 dá. 105 - E quanto ao Touro e Carneiro. e não fora assi dourado. se for manco e corcovado. não consegue dinheiro. neste mundo onde morais nenhum homem aleijado. invoca o sino do Bode. e retrograda32 em seu cargo. é muito difícil conseguir comprar carne de touro e de carneiro. desses temporais e disso. cantá de seu próprio moto25. se quer chover. que já mais fazer não pode. os olhos são por demais27. 27 estes e outros versos de cariz irónico estão ao serviço da denúncia jocosa da astrologia. rainha da música. 80 85 - Et quantum ad stella Mars. estabelece associações de natureza astrológica entre movimentos dos astros e acontecimentos terrestres – sempre com intenção crítica e de denúncia nos últimos. 20 a vacuidade da astrologia está bem presente nestes versos. c’os barretes fora34. secundum Joannes Monteregio29: 90 95 - 65 70 - E porque Saturno a nenhum influi21 vida contina22. por associação. continua aqui a chacota a propósito das crenças astrológicas – na referência às carnes de animais que deram nome a constelações que os astrólogos queriam influir sobre as pessoas. no seu movimento. que às vezes causa perigo. e crece-lhes o proveito28. pobre. o povo tira o barrete em sinal de respeito. nas palavras de Lindley Cintra. Caranguejo e Capricórnio. 33 e quanto ao Touro. não fora redondo. apresentada como chacota: quem é cego nada vê… 28 trata-se. Et quantum ad Taurus et Aries. [quatro importantes constelações para os astrólogos] postos no firmamento do céu. neste e noutros versos. e a Vénus. que morrem de homens barbados mais que mulheres barbudas. E se o sol fora azulado. faz fazer ao morto voto de não bulir mais consigo. um célebre astrónomo alemão. E quando Vénus declina31. para comprar a carne do «bode». planeta dos soldados. 30 guerras contínuas. Capricornius positus in firmamento coeli33: 100 - - E que mais quereis saber. senão que. a morte de cada um é aquela de que se fina23. 29 e quanto à estrela Marte [o planeta brilhante era considerado uma estrela]. faz nas guerras conteúdas30. e não d’outro mal nenhum. em que os reis são ocupados. segundo João Monterregio. mas antes per tempo largo. neste caso concreto podem significar uma verdade evidente. speculum belli. note-se a antítese entre o que lhe falta. 23 de que morre. et Venus. 25 de notar o tom jocoso destes versos [Lindley Cintra]: o cadáver enterrado move-se se houver um terramoto e promete a si mesmo não se mexer mais… 26 a luz dos astros. nome de uma constelação. se nacestes e crecestes. Carneiro. Vocabulário 18 note-se a ironia presente em todos estes versos. E que fazem os poderes dos sinos19 resplandecentes? Fazem que todalas gentes ou são homens ou mulheres ou crianças inocentes20. que quando os põe no madeiro. e o que lhe sobra. d’azul fora a sua cor. senhor. sobre o seu destino… 35 a irrisão sobre as crenças astrológicas continua nestes versos: o povo «agravado». 75 - E a claridade encendida dos raios piramidais26 causa sempre nesta vida que quando a vista é perdida.45 50 - 55 60 - Que se o céo fora quadrado. a santidade. espelho da guerra [Marte era o deus da guerra]. 31 quando o planeta Vénus desce. não se paga o desembargo no dia que s’ele assina. 22 eterna. chama o povo ao carniceiro «senhor». porque Libra não lhe acode35. 34 o conjunto dos versos 97 a 101 pode ser lido deste modo [Lindley Cintra]: como atualmente. «Libra». chamado Capricórnio – nome de outra constelação 27 . Outrossi24 o terremoto. Regina musicae. «agora». E assi os corpos celestes vos trazem tão compassados. Cancer. que todos quantos nacestes. Mars. a riqueza. e a terra pera a receber? A lua tem este jeito: vê que clérigos e frades já não têm ao Céo respeito. Depois do povo agravado.

sequitur declaratio operationem suam45. e o que venho buscar. não preste sem pregadura44. E pois vos disse até ’qui o que se pode alcançar. 47 signos. 42 seguem-se as maravilhas de Júpiter. e faz o que lhe mandaram. é tão alto seu reinado. porque um corregedor manda enforcar um ladrão? Não. não durmais. 38 signo (do Zodíaco). come peixe. foi que a estrela que olharam. e serás remediado36. Auto da Feira 110 115 - E se este não hás tomado. carneiro assi. e Lepus. Ribatejo. porque as constelações não alcançam mais poderes. porque pode não no haver. 40 signo representado por um caranguejo. nem touro. E aqui quero acabar. sabereis per conjeituras que os corpos celestiais não são menos nem são mais que suas mesmas granduras48. de a ridicularizar: se não consegues comer touro ou comer carneiro. e os mesmos50 pais varões51. onde os sinos47 estão no inverno e no verão. Vocabulário 36 estes versos continuam a «jogar» com nomes de constelações. 39 signo (do Zodíaco). 43 note-se a jocosidade na referência a Júpiter e a quem acredita na astrologia – que diz ser ele poderosíssimo: o que o poder dele consegue é que um cruzado. E cuidam que Ursa maior. rei das estrelas. 46 doze casas feitas de palha: regressa a chacota – sugestiva da vacuidade da crença astrológica. 50 os seus – dos ladrões. 120 125 - 130 - Júpiter. 44 não preste sem que os pregos preguem a madeira. 135 140 Sequuntur mirabilia Jupiter. 49 têm pena. mui mais precioso qu’elas. 51 as constelações mais não podem do que fazer que os ladrões sejam filhos de homens e de mulheres: sempre a crítica à crença astrológica 28 . 48 grandezas. de palha…. quero-vos dizer de mi. através de trocadilhos entre esses nomes e determinados alimentos – tudo como forma de criticar a astrologia. E se piscis não tem ensejo37. - 145 150 - 155 160 - No Zodíaco acharão doze moradas palhaças46. Rex regum. influência e senhoria. que está ali a quem no quer41. Et quantum ad duodecim domus Zodiacus. e seja de cedro a madeira. vai-te ao sino do pescado. que faz per curso ordenado que tanto val um cruzado de noite como de dia43. dando a Deos infindas graças. E os que se desvelaram. valha o mesmo de dia e de noite! A referência à influência de Júpiter está na expressão «faz percurso ordenado»: o curso de Júpiter influenciaria os humanos – para os astrólogos. a forma da constelação. Escutai bem. vai-te ao sino38 do Cranguejo. 41 e se não conseguir peixe. encontra-o no Ribatejo. Ursa minor e o Dragão. deos das pedras preciosas. uma moeda. muito segura. 37 se não consegues matar a fome com peixe. que inda que o mar não queira. dominus dominantium42. que fazer que os ladrões sejam filhos de mulheres. rosa mais fermosa delas. senhor das dominações. chamado Piscis em latim. pintor de todalas rosas. Signum39 Cancer40. se das estrelas souberam. está onde a puseram.Gil Vicente. rei dos reis. 45 e quanto às doze casas do Zodíaco segue-se a declaração/explicação da sua forma de trabalhar. que tem paixão49. ~ nao veleira E faz que ua mui forte. coma caranguejo.

carestias e baratos. justificando. 52 sou governador 54 negócios 55 pagamentos 53 Educação literária 1.1 Identifica quem é criticado. ministro suas pretenças. 3. 16-20. v. e das moedas reitor53. deos das pedras preciosas.1 Explica a sua função. mui mais precioso qu’elas.  pintor de todas as rosas. Tem em atenção os seguintes vv. através dos seus atributos metaforizados. 3. 1. senhor de muitas sabedorias. a quem se refere Mercúrio entre os vv. ~ feira aqui ordeno ua pera todos em geral.  rosa mais formosa do que qualquer rosa. avenças55. Tem em atenção a pergunta que Mercúrio faz nos vv. porque o Tempo tudo tem. 21-40 – essas pessoas. 120. v. Esta sucessão metáforas constitui um recurso expressivo chamado alegoria: Júpiter é representado alegoricamente.2 Explicita os motivos da crítica. 117. 175 180 - E porquanto nunca vi na corte de Portugal feira em dia de Natal. 1. 119. 118. rosa mais fermosa delas.165 170 - Eu são52 Mercúrio. Faço mercador-mor ao Tempo.1 Indica. 121. v. 3. Tem em atenção os vv. rei das estrelas. 117-121: «Júpiter. Todos tratos54 e contratos. 2. v. Atenta no início do monólogo de Mercúrio. e assi o hei por bem.  deus das pedras preciosas. 82-86. até as compras dos sapatos. preços. 29 .  pedra mais preciosa do que qualquer pedra preciosa. v. pintor de todalas rosas. 57-58. 2. valias. e deos das mercadorias: nestas tenho meu vigor. E não falte comprador. que aqui vem.» Apresentam uma sucessão de atributos do planeta Júpiter sob a forma de metáforas:  rei das estrelas.2 Explica de que modo ele ridiculariza seguidamente – vv.

E mais achareis soma8 de contas. Auto da Feira ~ tenda com muitas cousas. nunca dinheiro para adquirir algum bem. e arma ua e diz: 20 - 5 - Tem. senhor Deos. os dois versos são perífrase de Mercúrio. Todas virtudes qu’ houverem mister4. das quais o mais famoso e traumatizante episódio foi o saque de Roma. 9 as «contas» referidas nestes versos são as contas a dar a Deus à hora da morte – pelos muitos pecados cometidos. 4 necessidade. Vocabulário 1 em Anvers (Antuérpia. começa-se a feira chamada das Graças. Senhor. Flandres) e Medina del Campo (Castela) tinham lugar feiras muito importantes. qu’eu não hei-de vender3. em maio de 1527. muito bem guarnecidas em cordões dourados.Gil Vicente. à honra da Virgem parida em Belém2. Em nome daquele que rege nas praças d’ Anvers e Medina as feiras que têm1. 6 os cristãos europeus andam em contínua guerra. 16 os aconselham. Quem quiser feirar. no mesmo ano da primeira representação deste auto. 35 - Aqui achareis o temor de Deos7. 12 lembra ao teu anjo. E porque as virtudes. com a vontade que deste ò Messias11 memoria o teu anjo12 que ande comigo13. que é já perdido em todos estados. aqui achareis as chaves dos Céos. 7 temor ao castigo de Deus. 10 as virtudes que indiquei antes. conselhos maduros de sãs calidades. porque a Cristandade é toda gastada só em serviço da openião6. para salvação do género humano. 3 o Tempo diz que só aceita trocas de bens. 15 próprios. a troco de cousas que hão-de trazer. e mais contareis as contas sem conto qu’estão por contar9. porque agora os mais sabedores fazem as compras na feira do Demo14. aos «mais sabedores» 30 . 5 trata-se de uma «alusão direta» [Lindley Cintra] às guerras várias que iam decorrendo na Europa entre reinos cristãos. o Messias. que enviou o seu filho Jesus. a paz desejada5. justiça e verdade. 25 - 30 10 15 - Todos remédios especialmente contra fortunas ou adversidades aqui se vendem na tenda presente. todas de contar quão poucas e poucos haveis de lograr as feiras mundanas. e os mesmos15 diabos são seus corretores16. nesta minha tenda as podem achar. o Tempo dirige-se a Deus. 13 que me proteja. venha trocar. 2 o auto representou-se no dia de Natal de 1527. 11 com a mesma vontade com que enviaste o Messias à Terra. 8 muitas. se foram perdendo de dias em dias. 14 diabo. porque temo ser esta feira de maos compradores. que digo10. Entra o Tempo. Aqui se acharão a mercadoria d’amor e rezão.

isto é. porque sei bem o que entendo. modo metafórico de lhes dizer que deveriam recuperar as virtudes dos primeiros cristãos. o «crucificado» é Jesus Cristo. que na feira onde eu entrar sempre tenho que vender . mudai os vestidos. num tempo em que os cristãos se preparavam para a divisão entre católicos e protestantes. guardai-vos22 da ira do Senhor dos Céos! Comprai grande soma23 do temor de Deos na feira da Virgem. o papado que não cumpria o seu dever. Vocabulário 17 o anjo pedido («a petição») pelo Tempo a Deus. 26 quem me queira comprar do que vendo. Tem. 29 quero-me apresentar. e mais verei quem m’estrova30 de ser eu o maior dela. o Serafim invetiva os «papas adormidos». e cada vez que quiser. À feira da Virgem. 40 45 À feira. igrejas. E mais vendo muito bem. donas e donzelas. Verei os que vêm a ela. pastores das almas. à feira. exemplo da paz. Papas adormidos! Comprai aqui panos. tu diabo me pareces. ó presidentes do Crucificado20! Lembrai-vos da vida dos santos pastores do tempo passado. permite-me que te diga 31 . Eu não sei se me conheces?… Tem. porque este mercador sabei que aqui traz as cousas mais belas! 50 - 65 70 - Dia. 22 temei. e acho quem me comprar26. 31 falando com tua licença. e de tudo quanto vendo não pago sisa27 a ninguém por tratos28 que ande fazendo. Quero-me fazer à vela29 nesta santa feira nova. 25 gabar. isto é. 18 neste verso e nos quatro anteriores. e pede que se vistam como os «antecessores». Falando com salvanor31. os antecessores18. Feirai o carão que trazeis dourado19. que a tal feira t’ofereces? Dia. Eu bem me posso gavar25. mosteiros. pastora dos anjos. luz das estrelas. fundador do cristianismo. 30 impede. 19 mudai a vida de luxo em que viveis. És tu também mercador. Senhora do mundo. o tempo da Reforma.~ tendinha diante de si. buscai as çamarras dos outros primeiros. 23 quantidade. 28 negócios. e diz: - Ser. 27 imposto. Gil Vicente faz uma forte crítica à igreja. 55 60 - Ó Príncipes altos. 20 os Papas. império facundo21. Entra um Diabo com ua como bofolinheiro24. 24 vendedor ambulante. e diz: Entra um Serafim17 enviado por Deos a petição do Tempo. 21 poderoso.

43 os homens maus. - 105 110 - Tempo (ao Serafim): 85 Tem. 42 os homens maus são muito mais do que os bons. Vocabulário 32 a expressão «salvos rabos» está relacionada com «salvanor»: é uma espécie de trocadilho. quem quiser ser rico tem de ser mau. como bem sabeis. Isto não releva nada. não têm dinheiro para gastar. em toda maneira acudi a este ladrão. 49 deve: uma vez que a grande «glória» da vida é ter dinheiro e que os maus o têm. à derradeira52. – «ruim borcado». 35 têm parentesco comigo. Ladrão? Pois haj’eu perdão. e quem muito quiser ter cumpre-lhe49 de ser primeiro o mais ruim que puder. 48 como os bons são pobres. 52 quando as contas finais da feira se fizerem. nunca me tolhe ninguém que não ganhe minha vida. que eu não tenho nem ceitil33. que tem dívedo35 comigo. 39 condenar. e às vezes grãos torrados. inda que me tens por vil. I há de homens ruins mais mil vezes que não bôs. 46 enquanto mercador esperto. como cousa perdida. 41 mercadoria. e eu por este respeito nunca trato em cousas boas. Toda a glória de viver das gentes é ter dinheiro. porque não trazem proveito48. Pois36 não me tolhas37 a venda. Senhor. como quem vida não tem40. 90 - 95 100 - Ser. E estes43 hão-de comprar disto que trago a vender. 50 a mentalidade. 44 porque. leva como mercadoria o que sabe que venderá. acharás homens cem mil honrados. e cousas pera esquecer o que deviam lembrar. Vendo dessa marmelada. anjo de bem: eu. Muito bem sabemos nós que vendes tu cousas vis… - 115 120 - 125 - Dia. portanto não tenho vida. que são artes de enganar. o Diabo nada de bom leva para a feira. Auto da Feira 75 Dia. te digo. 80 - Falando com salvos rabos32. Que44 o sages mercador45 há-de levar ao mercado o que lhe compram milhor. ver-se-á que foi o Diabo quem mais vendeu 32 . e homens de muita renda34. dada a qualidade da clientela: patifarias. como vós mui bem sentis42. - Dia. E pois são desta maneira os contratos50 dos mortais. E mais47 as boas pessoas são todas pobres a eito. 36 portanto. que são diabos. que há-de danar39 a feira. não me lanceis51 vós da feira onde eu hei-de vender mais que todos. quem não tem vida por ser assim pobre [Lindley Cintra]. sou «cousa perdida». 33 moeda de fraco valor. 47 além disso. como ninguém impede quem é muito pobre de o fazer. 34 muito dinheiro. o Diabo. etc. se vos meter em canseira! Olhai cá. sabendo que os maus são muito mais do que os bons. 51 expulseis. porque a ruim comprador levar-lhe ruim borcado46. 45 o mercador habilidoso. 38 não tenho nada a ver contigo. ninguém me impede nunca de ganhar a minha vida.Gil Vicente. 37 impeças. 40 o sentido destes versos e dos anteriores é o seguinte: sou um diabo. que não hei nada contigo38. e em todolos mercados entra a minha quintalada41. E bem honrados.

protesta contra ela. 55 tipo de flecha curta – por associação. para o facto de o Tempo proclamar que na sua tenda essa mercadoria não pode ser comprada. 58 já. senhor. Eu vendo prefumaduras54. Às vezes vendo virotes55. 66 para.130 Ser. que lhe hei-de fazer62? Mer. tendo eu tanta em perfia65. 68 para escapar ao convento. 155 160 135 140 Ser. ou frade falsas manhas de viver. e com ela quer caçar. 71 preparar. e trago d’Andaluzia naipes56 com que os sacerdotes arreneguem cada dia. 70 Mercúrio diz ao tempo para se preparar pois Roma vem à feira. mas somente trocada. - Dia. Senhor. 1. 1.1 Identifica a primeira mercadoria que o Tempo anuncia ter na sua tenda de feirante. a guerra. O Tempo começa por anunciar determinado tipo de mercadoria na sua tenda. porque eu não forço ninguém. 63 ser bispo. 2. E se o que quer bispar63 há mister hipocresia64. era isso muito bem. que. mas cada um veja o que faz. 69 hei de satisfazê-la. - Dia. 60 o Diabo apela da decisão do Serafim. logo58. 64 necessita de ser hipócrita. muito por sua vontade. 17. 62 neste verso e nos anteriores são apresentadas várias críticas a clientes do Diabo – eclesiásticos e leigos. 56 cartas de jogar. 65 em concorrência com ele: tanto tem hipocrisia o Diabo como que que quer chegar a bispo. da parte59 de Deos. o Diabo diz que está habituado a negociar com Roma: crítica ao Papado Educação literária 1. Tempo! aparelhar70. porque lh’a hei-de negar? E se ~ua doce freira vem à feira por66 comprar um inguento67. com que voe do convento68. e joguem até os pelotes. que fizesse força61 a alguém. 59 por ordem de Deus. Atenta na referência à «Cristandade» presente no v. inda que eu não queira lhe hei-de dar aviamento69. 57 abismo. - Venderás muito perigo. 61 que obrigasse. se salvam as criaturas. Quero-me eu concertar71.1 Explicita-a. tendo em conta o sentido geral do auto. Não venderás tu aqui isso. porque lhe sei a maneira de seu vender e comprar… Vocabulário 53 referências aos pecados e ao Inferno. Dia. isto é. porque Roma vem à feira. Se me vem comprar qualquer clérigo. 67 unguento. o Diabo refere o vício do jogo por parte de sacerdotes que chegam ao ponto de perder até a roupa («pelotes») no jogo e de blasfemarem contra Deus enquanto jogam («arreneguem»). «aparelhar» tem valor imperativo – «Preparai-vos» [Lindley Cintra]. ou leigo. tendo em consideração o ambiente de controvérsia religiosa presente na Europa da época. o Inferno. que esta feira é dos céos: vai lá vender ao abisso57. 2. que tens nas trevas escuras53. Alto. pondo-as no embigo. apelo60 eu disso! 165 170 145 150 - Se eu fosse tão mao rapaz. espécie de remédio – aqui associado a bruxaria. senhor.2 Apresenta uma justificação plausível. 54 perfumes. imediatamente. 33 . nestes versos.

Seleciona a opção correta.2 Explicita o seu pedido. Atenta na entrada do Diabo – vv. O seu conjunto forma uma alegoria. o Bem e o Mal que sempre – no Tempo – coexistiram e entre si lutaram – na natureza humana. 7. para se referir aos perigos do Diabo.3 Justifica-o. Tem em atenção as palavras do Diabo nos vv. o Auto da Feira revela-se como um espetáculo no qual a representação alegórica assume especial significado. As duas últimas representam.1 Identifica-as. respetivamente. 3. 4. Nesta secção do auto verificaste que as personagens são o Tempo. O Serafim.1 Apresenta uma opinião pessoal sobre a atualidade destas palavras. 3. O Serafim entra em cena e convoca para a feira determinadas pessoas. 8. 6. 6. 131. 28-36. Deste modo.1 Indica a quem se dirige neles o Tempo. 120-121: «Toda a glória de viver / das gentes é ter dinheiro. 4. 135-165. 5. 55-64. o Serafim e o Diabo. Auto da Feira 3. explicitando a sua expressividade literária. justificando. 5.». mas sim metáforas do mundo.1 Justifica. no v. 4. uma anáfora. 7. c. a. b. personagens alegóricas. uma representação simbólica do mundo – na eterna luta entre o Bem e o Mal. «que tens nas trevas escuras. 3. uma personificação. justificando. Atenta nos vv. uma hipérbole. usa.2 Explica por que motivo é que o Serafim as chama. Identifica.Gil Vicente. Estas não são personagens que correspondam a pessoas ou a classes sociais.». 34 . d. os alvos de crítica do Diabo apresentados entre os vv.1 Explica por que razão ele entra em cena autoelogiando-se. um pleonasmo.

15 porque. que todos me desacatam8? 10 15 50 55 - 20 25 Pois s’eu aqui não achar a paz firme e de verdade na santa feira a comprar. E aconselho-vos mui bem. A verdade pera quê? Cousa que não aproveita18. Vender-vos-ei nesta feira mentiras vinta três mil. e parvoíce à vergonha. 13 nisso. isso nada de mau significa. que me livre da canseira em que a fortuna me traz. Não pareces tu azado11 pera trazer a vender o que eu trago no cuidado. 10 conselho. peitai24 a quem vo-la ponha. Senhora. 1 lutavam por minha causa. 12 o Diabo devia estar vestido de cor vermelha. faltam-me ao respeito. eu vos darei bom recado10… Rom. o que o Diabo está a dizer é que em tempos de mentira não vale a pena comprar a verdade. esperteza. Dia. 7 os próprios cristãos. mentiras pera os amores. chama-se à «vergonha» «parvoíce». porque quem bondade tem nunca o mundo será seu. 17 diretamente. 25 subtil. isto é. Vocabulário - Dia. cada ~ua tão sutil25. E como formos avindos26 nos preços disto que digo. preocupações. ca15 dizem que sob mao pano está o bom bebedor16: nem vós digais mal do ano. 22 cuidados. os estados italianos e Carlos V. 19 incomoda – a verdade. pera saberdes viver. 27 infinitos 35 . veneno. 14 está. Verdade e Fé. digo eu. que não vivais em canseira: mentiras pera senhores. 6 destroem. de tal modo é maltratada pelos cristãos. 4 lutam por minha causa. mentiras pera senhoras. se vos prouver. Se os meus5 me desbaratam6. Sobre mi armavam guerra1. 20 bons motivos. Roma como que ameaça mudar de religião. e avorrece19. 11 apropriado. 26 logo que cheguemos a acordo nos preços. cantando: - Rom. 5 45 - Fala - Vejamos se nesta feira. ver quero eu quem a mi leva2. 5 os cristãos: os «três amigos» eram todos cristãos. 23 nestes tempos. a vida quem m’a dará. que se guerrearam entre si em lutas que incluíram o saque de Roma.Entra Roma. 30 Não julgueis vós pola cor12. que Mercúrio aqui faz. - Rom. isto é. chama-se à «verdade» «peçonha». e a segundo são os tempos. todas de nova maneira. assi hão-de ser os tentos22. e mil canseiras lhe vêm. cant’a mi dá-me a vontade que mourisco hei-de falar9. o meu socorro onde está? Se os Cristãos mesmos7 me matam. isto é. apesar de estar vestido de vermelho. Eu venho à feira dereita17 35 40 Dia. e aviso à ruindade23. acharei a vender paz. que aqui trago comigo. chama-se à ruindade «aviso». ver quero eu quem a mi leva. 24 pagai. 9 Roma ameaça passar a «falar» «mourisco» caso não consiga encontrar à venda a paz na feira. a cor a ele associada. 8 tratam mal. mentiras que a todas horas vos naçam delas favores. 3 provavelmente os «três amigos» eram a França. 21 para aquilo de que necessitais. porque em al13 vai14 o engano. sobre mi armam prefia4. 60 65 E pois agora à Verdade chamam Maria Peçonha. a ruindade. pera que é? Não trazeis bôs fundamentos20 pera o que haveis mister21. podendo até associar-se aos muçulmanos. comprar Paz. 2 quero ver quem vence. vender-vos-ei como amigo muitos enganos infindos27. 18 não serve para nada – a verdade. 16 equivalente ao ditado popular «o hábito não faz o monge»: o Diabo quer dizer que. Três amigos que eu havia3.

41 não te afastes. pois tenho o poder36 na terra! Senhora. e diz: - - Rom. 37 o Serafim lembra a Roma que Deus não erra: por isso. 85 - e tudo isso feirei28. e leixas viver os teus40. Dá-lhe. A troco das estações não fareis algum partido. nem vês que te vás ao fundo. Auto da Feira - Rom. - E pois já sei o teu jeito. 43 referência às absolvições dos pecados por dinheiro. me deste o seu desamor. vede como O estimais. vede bem se O temeis… Atentai com quem lutais. 35 este verso e os quatro anteriores revelam uma situação muito criticada na época e que foi um dos motivos que conduziu à Reforma protestante: quem podia pagava. Ó Mercúrio. Ó Roma. momentos em que se perdoavam os pecados a troco de generosas esmolas. remia os seus pecados com dinheiro e assim era absolvido. sempre vi lá que matas pecados cá. tratando-a por tu. Rom. sereis servida. e não te lembras de ti. lhe levou a guerra da ofensa. o que. 40 Mercúrio ataca Roma sem respeito. que é certo que Deos não erra37. E quantas virtudes tinha te troquei polas maldades. se Deus lhe levou a guerra. de visitar igrejas («estações») e de obter indulgências («perdões»). para isso. quero ir ver que vai cá31. no passado. tendo. 39 Roma começa a perceber («assim» = portanto) que se quer a paz. com as remissões de pecados pagas em dinheiro. Vede vós que Lhe fazeis. que é tesouro concedido pera quaisquer remissões35? Oh! vendei-me a paz dos céos. de perdoar os pecados dos outros pecando ela mesma. a quem Deos dá guerra. e pois vós sois a primeira. queremos ver que feirais segundo vossa maneira. Ser. enganos. As cousas que vendem lá são de bem pouco proveito a quem quer que as comprará… - Ser. 44 maus presságios 120 28 125 130 135 36 Sinal é de boa feira virem a ela as donas tais33. 110 - Vai-se Roma ao Tempo e Mercúrio. Senhora. que temo que caireis38. tanto que inda venderei. isto é. 31 o que mais se vende na feira. senhores. 30 maldades. etc. Tudo isso tu vendias.Gil Vicente. ao Diabo. Mas não sei se a trazeis… Porque. se vós a paz quereis. e a troco de perdões. que até tem para vender. me deste mil torpidades30. 33 senhoras tais como Roma.. Tu não te corras41 de mi: mas com teu poder facundo42 assolves a todo o mundo43. 70 75 80 - Dia. 29 Roma admite ter comprado tantas mentiras. te comprei mentira. eu me fundo34 que quem tem guerra com Deos. 115 - Vocabulário comprei. - Porque a troco do amor de Deos. a essa Senhora o cofre dos meus conselhos: e podes-te ir muito embora. o poder de perdoar os pecados recebendo dinheiro – de quem podia pagar…. 38 porque temo que sereis vencida – por Deus. para Mercúrio. é porque Roma ofendeu a Deus. acusando-a de matar pecados. não pode continuar com práticas como os «jubileus». Rom. E a troco da fama minha e santas prosperidades. daquele poder profundo. porque tudo vem dos céos. 36 neste caso. 42 enorme. 95 Ca. não pode ter paz c’o mundo. Assi que a paz não se dá a troco de jubileus39? Mer. que vejo maus aparelhos44! Mer. e a troco do temor que tinha da sua ira. Tempo. grande guerra faz a Deos. por exemplo. 34 baseio-me no facto de. senhora. crimes. e quanto eu houver mister deveis vós de ter. e outras sujas mercancias. 100 105 Rom. . e logo a levareis a troco de santa vida. dada por Deus. 90 Tão honrados mercadores não podem leixar32 de ter cousas de grandes primores. valei-me ora. «sujas mercancias». é um pecado – conferir versos seguintes. que por meu mal te comprei29. 32 deixar.

que foi da Virgem sagrada. 3. 8. justificando. que não quer guerra consigo: tenha sempre paz com Deos. refletindo sobre a sua relação com a cristandade. interroga para acentuar a má relação que tem com ela. Roma faz uma autocrítica entre os vv. 150 155 - Dia. 4. E também o digo a vós. 6. Acabas de identificar um recurso expressivo designado por interrogação retórica. - Não culpes aos reis do mundo. 46 o modo de viver. 7. 1. Explicita as advertências que o Serafim faz a Roma. 48 o Diabo. porque tu serás perdida. Co’ele te toucarás. diz lá o exempro velho: «dá-me tu a mi dinheiro. a ter uma vida santa como a de Nossa Senhora. 5. se resulta o mal segundo47.1 Escolhe a opção correta. e a qualquer meu amigo.1 Identifica o recurso expressivo que usa para o fazer. justificando. 2. espera efetivamente que lhe seja dada uma resposta. 3. deve começar por deixar de ofender Deus («a causa prima» – «prima» = primeira). Este tipo de interrogação formula-se para causar um efeito retórico. O Diabo propõe-se vender a Roma determinado tipo de mercadoria. 8. um efeito persuasivo. A relação entre Roma. Prepósito. e não sintes como estás45: e acharás a maneira como emendes a vida. 47 Mercúrio adverte Roma no sentido de não culpar outros («aos reis do mundo») pelo seu estado: se quer a paz. Explicita. nomeadamente a que apresenta entre os vv.1 Explica porquê. ofendendo a causa prima. e não temerá perigo. se não mudas a carreira46. Com estas interrogações. 5. Frei Sueiro. Roma é uma personagem alegórica.140 145 Um espelho i acharás. a. e dá ao demo o conselho48». 66-80. o Diabo e o Serafim configura uma representação alegórica.1 Explica porquê.1 Justifica esta afirmação recorrendo a elementos textuais pertinentes. E não digas mal da feira. que tudo te vem de cima. Roma. 56-60. Roma deve ver-se ao espelho como Nossa Senhora se via. 11-16. polo que fazes cá em fundo: que. interroga sabendo já a resposta. 1-20. pede a Roma que não atenda aos conselhos de Mercúrio e lhe compre a ele mercadoria. a crítica que Roma faz entre os vv. isto é. 131. 4.2 Explica a sua expressividade literária. 45 Mercúrio aconselha Roma. 4. Explica que tipo de relação se estabelece entre Roma e Mercúrio a partir do v. porque vives mal toucada. b. Atenta na série de perguntas ou interrogações feita por Roma entre os vv. isto é. baseando-se num ditado popular («exempro velho»). a Igreja. Educação literária 1. 37 .

Den. Bofá1. compadre. Isso te quero contar. por não dizer sape18 a um gato. 40 - 45 - 20 25 - 38 Qu’eu quando casei com ela diziam-me: – étega9 é. que nunca dá peneirada14.Gil Vicente. desbocada. e oito. E não põe cousa a guardar. compadre. e por mais que homem se mata. e diz: - - 5 - - Ama. vamos. zanga-se facilmente. mansa é ela: dei-me logo conta disso! Ama. 6 além disso. S’ela casara contigo. pois sim. desajeitada. Den. sem lhe lembrar o que fez. e ela anda inda em pé. Auto da Feira Depois de ida Roma. 30 ora vamos eu e ti ò longo desta ribeira. Ama. que a tope15 quando a cata16. e dá-la-ei por quase nada. um per nome Amâncio Vaz. 17 do monte. 14 movimento para peneirar o grão moído. 3 por. vás tu à feira? Den. que não derrame a farinha. ou esperas de comprar? - - 35 - 10 15 - Ama. e outro Denis Lourenço. Den. Compadre. 4 encontrar. e eu cuidei pola abofé10 que mais cedo morresse ela. 13 preguiçosa. entram dous lavradores. 15 encontre. e dixeras o que eu digo. é tão mole e desatada13. nem tão-pouco o que fará. Vás tu lá buscar alguém. de birra não quer falar. se Deos quiser. 7 minha. enha7 mulher é muito destemperada8. 50 - 1 Tens boa mulher de teu! Não sei que tu hás. e dez. Ama. 12 a criticaras. e er6 também aguardando polas moças do lugar. Quant’a mansa. 5 falando. Pois. 18 interjeição para enxotar gatos 8 . Compadre. 9 tuberculosa. Assi. 11 tanto. faço conta de a vender. lamentar-te-ias. À feira. Trás d’~ua pulga andará três dias. e crua a leixou levar. e agora. amigo… Ama. Folgo bem2 de3 te vir aqui achar4! Den. Juro-t’eu que mais val isso cinquenta vezes qu’ela. e iremos patorneando5. 10 em boa fé. E porque era étega assim foi o que m’a mim danou: avonda11 qu’ela engordou e fez-me étego a mim. 16 procura. renegaras12 tu com’eu. 2 estou contente. cant’à minha. Pera que t’hei de falar? Quando ontem cheguei do mato17 pôs ~ua enguia a assar.

36 dar tornas. mansa. 23 pensei que era mansa mas é brava. diz que lhe dói a moleira39. 24 qualquer coisita que lhe diga. e tornou-se-me bombarda23. ei-las cá vêm. comerás sardinha assada. Pois casei má hora. uma compensação. - - Vem Branca Anes a brava. qu’elas ambas vêm à feira. 38 ela come a panela toda. Isso é de coraçuda28! Não cures29 de a vender: que se alguém te mal fizer já sequer tens quem te acuda. 42 deita. que te castigue de sorte que não ouses de falar. 43 goelas. Então geme. 19 muito zangada. compadre. 35 troque. Já siquer terá esprito22… Mas renega da mulher que ò tempo do mester não é cabra nem cabrito. Ama. Comprarei cá ua par’ò ter debaixo dela. - Ama. Amâncio Vaz. Mas antes m’hás-de tornar36. 32 fazeis mal. 40 vejamos o que elas vêm buscar («catar») à feira. 39 cabeça. e vem dizendo a brava: 110 115 80 - 85 90 - Pardeos! Tanto me farás. Eu faria por maneira que esperasse ela por mi. e ela nego dar-me em xeco27. - Bra. Ama. Den. anda o diabo à solta. e nela. 29 trates. porque a minha é tal perigo. a que eu queria. 20 que tem demónio. na crença popular. eu o sei bem… Ama. Porque vai-se-me às figueiras. 33 ficaria quieta. - Ama. 55 - 65 - 70 75 - 95 100 - A minha tinh’eu em guarda pera bem de minha prol. 37 do trabalho no campo. 25 bate-me.32» Mas antes s’assentaria33 a olhar como eu bradava34. 21 São Bartolomeu – santo que se festeja a 24 de agosto. vejamos que me darás. 105 Então tanto punho seco me chimpa nestes focinhos26! Eu chamo pelos vezinhos. qu’eu daqui hei-de espreitar. e um grão penedo em cima. 30 sossegada. 34 gritava. e com tal marido. Que lhe havias de fazer? Den. Todavia a mulher brava é. dia em que. Denis Lourenço. e Marta Dias a mansa. que feire35 a minha contêgo… Den. porqu’ela jenta a panela38. nem no mato. 28 corajosa. nem na corte. 22 se calhar tem o diabo no corpo. e come verde e maduro. que por nada que lhe digo24 logo me salta nas grenhas25. si. Bertolameu21! Den. 27 e ela não para de me bater. 31 patife. 26 dá-me tantos murros. Den. 44 monte de lixo 39 . Se queres feirar comêgo.60 A minha te digo eu que se a visses assanhada19… parece demoninhada20… ante S. cuidando que era ourinol. vejamos que vêm catar40. e quantas uvas penduro jeita42 nas gorgomeleiras43: parece negro monturo44. engole. não diria: – «Mal fazês. - Mas a minha é tão cortês30 que se viesse ora à mão que m’espancasse um rascão31. Vamo-nos nós esconder. - Outro bem terás com ela: quando vieres da arada37. prima41… ~ gamela. Folga tu que ess’outra tenhas. Mete-te nessa silveira. pardeus. 41 forma de tratamento carinhosa. pois te dou mulher tão forte.

que o veja eu ir à vela pera donde nunca vem. 56 queres. e à santa Gerjalém50. nô mais. nem pensar. - Ama. e não sei que faz das uvas. Ele quebra as cereijeiras. e à asninha51 de Belém. que o leve em fatiota. Quejandos64? De que feição? Mar. Não é ele pau de boa lenha. Den. e sempre me diz que há fome! 120 125 - - Den. ele todo dia come. D’uns que fazem de latão. Ele não vai à lavrada. 55 não a queres vender (entenda-se: se a quer vender. 66 pois ouviu o nome de Jesus. 165 - Jesu! Jesu! Posso-te dizer. 59 provavelmente: desejemos-lhes infelicidades. e voto60 que nos tornemos. Tu dizes que qués56 feirar… Den. e as cousas que vendeis. Dia. Aquela é a minha froxa47. nô mais sofrer52! Sai de lá desse silvado. e jurar e tresjurar. Dia. que não pera maridar45. e provar e reprovar. Oh que couces que me dá. 145 150 que homem há i da puxa48! Ò diabo que o eu dou. 50 Jerusalém. nem lenha de bom madeiro… Mar. Pera as mãos. E er61 depois tornaremos com as cachopas d’aldea Entonces concertaremos. e Marta diz: - Vocabulário - 45 casar. 63 negociais. Tendes vós aqui anéis? Dia. 61 outra vez. crê tu que. Deu-t’ele a fraldilha roxa? Bra. 54 era só o que me faltava. O demo que o fez marido! Que assi seco como é beberá a torre da Sé: então arma um arruído46 assi debaixo do pé!… 130 135 140 - Mar. . 53 batido. Pois bom homem parece ele. 64 de que tipo. 49 prisão (por associação). e òs choros da Madanela. ele toda a noite dorme. ele não faz nunca nada. era este o diabo inteiro! Bra. 57 se ficar comigo. quando me colhe sob si! Den. e o ladrão que mo gabou! E o frade que me casou inda o veja na picota49! - 170 - [Diabo para as mulheres] 175 - 180 - 155 - 40 E rogo à Virgem da Estrela. Mar. 48 forma eufemística para prostituta. 47 mansa. Isso me parece a mi muito milhor que eu ir lá. 46 quando bebe em demasia faz muito barulho. 60 proponho. que é milhor pera beber.Gil Vicente. 65 para os pés não. dará62… Ama. Pera eu ser arrepelado53 não havi’eu mais mester54! 160 - Den. 67 tão depressa ir embora. tem de sair de onde está escondido). 52 não sofras mais. agredido. o «mu» é a cavalgadura do negociante 190 - Nunca eu vi bofalinheiro tão prestes tomar o mu67! Branc’Anes. leixar-m’-á58 quando quiser! Mas dêmo-las à má estrea59. ou pera os péis? Mar. 185 Mulheres. mana. vós que quereis? Nesta feira que buscais? Mar. 51 burrinha do presépio. 58 deixar-me-á. E não n’hás tu de vender55? Ama. ele vendima as parreiras. e andar e revolver. Cant’àquela si. Queremo-la ver. fazer vida de marido. Não qu’ela se me tomar57. Não65… Jesu! Nome de Jesu! Deus e homem verdadeiro! Foge o diabo66. 62 quanto aquela dará com certeza. Milhor lh’esfole eu a pele. Compadre. como Jesu é Jesu. pera ver em que tratais63. antes que sejam maduras. Marta responde deste modo à pergunta trocista do Diabo. Auto da Feira Vai-se-me às ameixieiras.

Mar. - Vão-se ao Tempo. Oh piadoso Deos eterno! Não comprareis pera os céos um pouco d’amor de Deos que vos livre do inferno? Bra. Não sabemos nós qu’é isso. 81 isso é linguagem que não entendo. e o toucado e o vestido. - - Ser. Senhores de bem. 80 quereis trocar («feirar») por cevada quatro pares de sapatos. 77 escuro. 240 - 245 - Porque. Esta feira não se fez para as cousas que quereis. e quanto tenho lhe dera. Porque neste sigro82 em fundo todos somos negligentes: foi ar que deu polas gentes. de que vistais vossa alma? Mar. e diz Marta: 255 - 215 Mar. 71 ao marido. - Ser. e viera-me dos céos. Ser. de que as almas são83 doentes. que já não é tempo disso. Marta. Pasmada estou eu de Deos - fazer o demo merchante ! Mana. Isso é falar per pincéos. à carreira. 210 - 250 - Bra. de lã meirinha78? - E se o84 hão de correger85 quando for todo danado. do pardo77. Pois cant’a essas que vendeis. Inda que mais não levara desta feira. daqui por diante não caminhemos nós sós. 79 negócios. 76 tipo de tecido. muito cedo se há-de ver que já ele não pode ser mais torto nem aleijado. - - nesta tenda que vendeis? Esta tenda tudo tem. e a mi mercê em cabo. que tudo se fará bem. daqui afirmo outra vez que nunca as vendereis. e que nunca mais tornara72. que vos leve ao paraíso. Vamo-nos. 72 regressasse. 70 enfim. Viagem de João Moleiro. Bra. Bra. far-me-ia um serviço tão natural – ao levar-me o marido – como é natural que apareçam flores nas plantas. fizera-lhe bom partido69: que me levara o marido.- Mar. Quereis feirar a cevada quatro pares de sapatos80? Ser.81 - - 200 Bra. Que estes não sabem ganhar. 84 ao mundo. 75 diabo. 74 Marta pergunta se há para venda chapéus de palma apropriados para proteger do calor («calma» durante as ceifas («segar»). - Mar. em extremo70 me alegrara e descansara. 78 tipo de lã. 82 neste mundo. 86 uma pessoa 73 41 . Dai-o ò decho75 por seu. Esta feira é chamada das Virtudes em seus tratos79. nem têm cousa que homem86 queira. 83 estão. Dizei. 69 boa proposta. Conciência digo eu. foi ar que deu polo mundo. 220 225 - - Tendes vós aqui burel76. inda que era diabo. neste século. como vem a frol ao nabo73. nunqu’ele cá venha! Bra. 260 - - Conciência quereis comprar. que as moças do lugar virão cá fazer a feira. se o71 vira levar o demo. 85 corrigir. fizera serviço a Deos. 235 68 - - - que foi pola cal da azenha! 195 ~ pucarinha Eu queria ua pequenina pera mel. 230 Mar. Tendes sombreiros de palma muito bons pera segar. e tapados pera a calma74? Ser. 205 - S’eu soubera quem ele era. Das virtudes? E há ’qui patos? Bra. Vocabulário 68 negociante. Vede vós o que quereis. Bofá. neste tempo.

2. 92 não teria vindo 88 Educação literária 1. 90 ainda por cima. Comprova. como sabes. justificando. através de um exemplo significativo. nem gaita. nas palavras dos respetivos maridos. que nas feiras soem d’estar89. 4.1 Explicita. ao regresso do trabalho no campo. a metonímia através da qual ela acusa o marido de ser preguiçoso. divertimentos. Auto da Feira 265 270 - Eu não vejo aqui cantar. e mais de Nossa Senhora. Indica os vários defeitos que Amâncio aponta à sua mulher.1 Justifica esta afirmação. 91 sendo festa de Natal e estar aqui toda a corte portuguesa – que assistia. justificando. não estivera eu cá agora92. 4. nem tamboril87. lavrador. nas palavras posteriores de Branca. 6. e estar todo Portugal91… Bra. a relação de ambas com a religião cristã tendo em consideração a conversa que têm com o Tempo e com o Serafim.2 Identifica ainda. Relê agora as palavras de Branca Anes.1 Identifica duas metonímias que ocorrem no mesmo verso. 5. trabalhava com o arado lavrando as terras.Gil Vicente. S’eu soubera qu’ era tal. através de uma antítese.1 Explica de que modo ela configura a vida quotidiana. justificando. A comparação entre as duas mulheres constrói-se. 3. Atenta no v.». Mar. 4. Este verso refere-se. vv. E mais90 feira de Natal. 5. Amâncio usa aqui um recurso expressivo chamado metonímia. Tem em atenção toda esta secção do texto que inclui os diálogos entre maridos e entre mulheres. 89 costuma haver. 95 e na palavra nele destacada: «quando vieres da arada. onde Denis. que consiste numa associação entre duas realidades – sem que uma seja parte da outra. 3. 110-119. Associamos regresso da «arada» a regresso do trabalho. Finalmente. «arada» a trabalho. 42 . 6. as duas mulheres dirigem-se à tenda do Tempo. que as palavras de Amâncio provocavam o riso nos espetadores com base num contraste de ordem física que ele refere. arava os campos. e outros folgares88 mil. Vocabulário 87 tipo de instrumento musical de percussão.

qualquer de vós outros três. Tesaura. Responde-lhe. 2 dará atenção ao que responderás. Conhecei-lo? Mat. tu Justina. quêdo12. e diz-lhe o - Ser. Tes. samica. - Jul. Menina. ou Denisio. Dor. 3 já que. - Pois vindes vender à feira. 14 gorda 43 . Mer. 4 mora próximo do juiz da aldeia – portanto terá experiência em saber falar bem. Móneca responderá. 6 a não ser divertir-se. má ora. Gil. Responda-lhe Dorotea. Mas pois. Lá vêm ò redor das vinhas - compradores a comprar. - 40 - 15 20 - Responde-lhe. - - [Gilberto para o Serafim] Gil. E que léguas haverá daqui à porta do Paraíso. um per nome Vicente. 7 talvez. roubando a gente estrangeira. E há lá boas ladeiras. emborilhadas11! Jus. Mon. que as trago pera dar. 12 quieto. quanto ao que entendo. E os Santos de saúde todos. Teodora. e três mancebos. ou Merenciana. Gil. mana. sabei que é feira dos céos. a Deos louvores8? Si. Gil. 13 tenhais. todas com cestos nas cabeças cobertos cantando. Tenho vosso avô marmelo10. samica7. 5 - Tes. e trazem de merendar nesses cestos que i têm. que ficava Ele fazendo? Ficava vendo o seu gado. porque é certo que bem vos entendereis. Vocabulário 1 quando. e diz a Justina: - 55 - Gil. somente a divertir-se. Não lh’hei-de vender as minhas. 10 expressão de desprezo para com Mateus. - 10 Ser.Vêm à feira nove moças dos montes. Nabor. ou Juliana. ou Gilberto. 11 embrulhadas. Ser. se assentam por ordem a vender. Dor. que falou já com senhor. por tal vendei de maneira que não ofendais a Deos. 45 - Nab. contigo s’entenderá. onde São Pedro está? Vós rosa do amarelo. e como1 chegam. E a Virgem que fazia ela? A Virgem olha as cordeiras. Leonarda. Mas responda-lhe Giralda. como na serra d’Estrela? Si. pois que3 mora junto c’o Juiz d’aldea4. 9 tipo de doce. 5 não vos atrapalheis. pela vossa negra vida! Mat. não hajais13 medo… Vós sois mais engrandecida14 que Branca de Figueiredo. Mat. ovos e galinhas. sois. 8 os santos estão todos de saúde graças a Deus. pois ouve o juiz muitas vezes. 60 30 35 Ser. anjo de Deos. 25 - Estas cachopas não vêm à feira nego a folgar6. e as cordeiras a ela. Responde-lhe tu. e não vos embaraceis nem torveis5. Santa Maria! Gado há lá? Oh Jesu! como o terá O Senhor gordo e guardado! Ser. Mateus deve ter tocado em Justina. quando partistes dos céos. Aqui estão. porque creo que a ti crea2. Estade. 50 Vem dous compradores. e outro Mateus. tendes i queijadas9? Jus.

18 em hora má. 125 - 90 Vic. insulta-o mesmo chamando-lhe «rasca-piolhos». o seu desagrado pelas tentativas de aproximação de Mateus. 80 85 - Se trazeis ovos. Auto da Feira - Jus. de porca. eu que vos faço. pera caçardes ratinhos? Quero. não viríeis cá em vão… Vocabulário 15 Justina mostra. entonces23 os venderei: comereis vós estorninhos? - Mat. minha estrela. Andar em burra e ter bem! Ouvide ora o rasca-piolhos azeite no micho. peço-vos que me faleis discreta palenciana24. Senhor Vicente: quisera ora trazer três. - Vic. Jul. e dizei-me que vendeis. porém bem vos vimos nós guardar bois no Alqueidão. 19 aborreceis. meus olhos. através de algumas expressões cujo sentido é hoje difícil de entender. 26 de coelho não. porque não vale a vintém. 20 tão depressa. Leo.Gil Vicente. eu achar-vos-ei dous pares de passarinhos? Gir. 100 105 - - Não me façais descortês. minha canseira? ~ galinha? Trazeis algua Teo. Mat. como dama do paço real. - Leo. Juro à santa cruz de palha que hei-de ver o que aqui está! Mon. Jul. Giralda. em que vem15! Minha vida Leonarda. Nem coelhos26? Quereis comprar dous francelhos27. 23 então. Tendes alguns laparinhos25? Si. minha alma. Senhora. nem queirais ser tão garrida! Mon. que não trago nemigalha22! - Vic. não mos vendais a ninguém. 70 - Vic. Vic. Teodora. 24 como palaciana educada. - 130 Jul. traz caça pera vender? Vossa vida negra e parda! Não lhe abastará comer da vaca com da mostarda16? E a mesa de meu senhor irá sem ave de pena? Quem? E vós sois comprador? Pois nem grande nem pequena não matou o caçador. de que vós foreis contente. que vos agastais19 tão prestes20? Dizei-me vós. Vic. 22 nada. Vós fazeis de mim rascão… Pàção17 vos fizestes vós. e traz mau micho consigo. - - Vic. Não revolvais21 aramá. 16 o mesmo se passa com Leonarda perante os avanços («Minha vida Leonarda») de Vicente. Pois digo-vo-la verdade: pássaros hei-de vender? Olhai aquela piedade! Senhora minha Juliana. - Leo. 21 mexais (no cesto). 65 - Vic. 27 ave de rapina 44 . Som voss’alma galinheira? Vic. Que vindes vender à feira. trazeis algum cabrito recente? Mon. trazeis vós tal cousa e tal deste jeito. Teodora. - Leo. 110 115 - 120 95 - Que má ora18 cá viestes pera quem vos pôs no paço! Mat. - Senhora Móneca. Não bofé. alma minha. - Mat. Vic. 17 frequentador do Paço. Pola vossa negra vida! Olhade como é cortês! Oh! que lhe saia má saída! Mat. Irei por eles aos ninhos. - Respondeis como mulher muito de sua vontade. Vendo favas de Viana. Matais-me vós logo bem com dous olhinhos qu’eu digo… Mais vos mata a vós o trigo. 75 - Vic. muit’embora? Mas lá dessoutro metal não falam à lavradora… Gir. polos Evangelhos! Vós Tesaura. 25 crias do coelho.

Mer. 31 de me mexer. Tes. e casemo-nos. sô. casar má-ora! Tes. Mas como isso é de donzela! Porém vá já como vai. casai… Casar má-ora. E quanto dareis por ele? Hui! e ele revolve o fato28! Olho mau29 se meta nele! Mat. Mer. Mer. ouvis? Não sejais vós descortês. que me fareis? Mer. Não trazeis vós o qu’eu cato30. 32 mexeis 45 . Vic. Um «aque-delrei». Pois casai co’ele. Porém trazeis algum pato? Tes. vossa estrela vos er’ela… como aquilo é de rascão! Mat. procuro. - 160 - Não quero senão amores. o da ilha dos Açores… Andar. Se vós no cesto bulis32… Vic. Mat. pois vosso. Merenciana deve ter neste cesto algum cabrito. senhora. Não m’haveis de revolver31. Eu hei-de ver que trazeis. Vocabulário 28 30 remexe a roupa. que haveis de ver. Amores de vosso avô. Senhora. 29 mau olhado. meu pai. senhora. Vic.135 140 - 145 150 - 155 - Pois si. aramá vós só! Vic. senão pardeos que dê grito tamanho.

se vós outros as vendeis. Deus e homem natural: Virgem sagrada. com que se despediram. nós vimos com devação ~ folia36. Vamo-nos daqui. Vic. Em Belém vila do amor da rosa naceu a flor: Virgem sagrada. Ser. Porque no nosso lugar não dão33 por virtudes pão. Primeiro coro 200 - Segundo coro - E porque a graça e alegria a madre da consolação35 deu ao mundo neste dia. que anda lá a cousa mais quente. 190 195 - Blanca estais colorada. moças. - 170 175 Ser. Virgem sagrada. 35 Nossa Senhora. Dor. Segundo coro 210 Naceo a rosa do rosal. Saibamos por que rezão. Alevantam-se todas. Auto da Feira - 165 Mat. CANTIGA 180 185 - Pois porque viestes ora34 cansar à feira de pé? Teo. - Vão-se os compradores. Nunca vi tal feira. (a fazer-lhe uma festa). 36 cantiga. sem isso casará bem. Em Belém vila do amor naceo a rosa do rosal: Virgem sagrada. demos fim a esta feira. e ordenadas em folia cantaram a cantiga seguinte. primeiro que37 nos partamos. Bofá vamos. Vic. Mat. Vamos comprar à ribeira. a cantar-lhe ua E pois que já descansamos assi em boa maneira. Vocabulário 33 46 trocam. a Virgem as dá de graça aos bons.Gil Vicente. Porque nos dizem que é feira de Nossa Senhora: e vedes aqui porquê. - Ser. pera nosso Salvador: Virgem sagrada. Primeiro coro 205 - Da rosa naceo a flor. 37 antes que . Vicente. e tão bons olhos com’eu. assi como estamos. E as graças que dizeis que tendes aqui na praça. Nem casar não vejo eu por virtudes a ninguém… Quem tiver muito de seu. e diz o Serafim às moças: - Vós outras quereis comprar das virtudes? Todas Senhor não. como sabeis. 34 agora (porque vieram a pé à feira cansar-se?).

4. 3. 167. 47 . uma personagem coletiva. Na tua resposta. pelos seus comportamentos. 3. deves referir as perguntas que o Serafim faz a partir do v. e três mancebos» que vem à feira pode ser considerado.1 Explicita os motivos que permitem afirmar que as suas atitudes e palavras configuram comportamentos típicos do quotidiano das feiras. O conjunto de nove «moças dos montes. Tem em atenção a entrada em cena dos dois compradores Vicente e Mateus. o que lhe é respondido e a cantiga final. Apresenta uma explicação plausível para o facto de ninguém querer responder às palavras do Serafim. 1.Educação literária 1. Explicita o tipo de religiosidade presente nas camadas populares representadas pelo variado conjunto de personagens presente nesta secção final do auto. 2.1 Justifica esta afirmação.

trata-se de uma alegoria da luta entre forças maléficas e benéficas.2 Ele não quer vender as «virtudes». 2. referindo-se a elas. ambas as palavras respetivamente a fruta verde e a fruta madura. de honestidade e de virtude. por isso. que se diz tão magro que está tuberculoso. O Serafim adverte Roma no sentido de mudar de vida – vv. 3.1 Nestes versos. 113 e seguintes. 155-165.1 Trata-se da anáfora «mentiras». noutros tempos. de comer demasiado. 3.1 São palavras muito atuais num mundo como o nosso que dá muito valor ao dinheiro: valoriza-se quem é rico. 33-36. p.Soluções Educação literária p. 3. 59-61) mostra a vacuidade da astrologia. antes personifica. grassa a corrupção. 2. 17. 3. 7. 84). 2. 2. 6.1 Este conjunto é. digladiando-se entre si e provocando. 86).1 Trata-se de um espetáculo alegórico no qual estas figuras são alegorias respetivamente da corrupção reinante no Papado. 52. ocorrem duas metonímias: através da referência à cor e ao estado.1 As duas mulheres demonstraram grande ignorância e desinteresse relativamente a questões religiosas.1 O Tempo dirige-se a Deus – «senhor Deos». 1. eram fonte de muita divisão. pois ofende a Deus com o seu comportamento. 5. 4. pode combinar-se ainda com a ocorrência de «mentiras». ao subterrâneo. ruim. 3. 56-59. Roma passa a ser cliente de Mercúrio. «mosteiros». E. Por exemplo.». nas conversas que ocorrem sobre a vida de cada um. Roma pede-lhe auxílio para mudar. 6. desaforada. para o espetador do auto. 3. 3.1 Trata-se de um recurso expressivo que reforça a ideia da escuridão. muito gorda. . pois assume uma mesma preocupação geral: divertir-se na feira. Ninguém responde ao Serafim pois ele apregoa mercadorias religiosas e o que todos querem é divertir-se. os maus hábitos da Igreja. 38-39.1 Roma admite ter sido compradora habitual das mercadorias diabólicas. v. 33-34 1. 8. 2. violenta. que não se comportam como deveriam. como a imprensa nos mostra diariamente.1 A primeira mercadoria que o Tempo apregoa são as «virtudes». o recurso é expressivo pois aponta no sentido do mal que emana do Demónio. e até os próprios «papas». uma vez que os compradores só estão interessados nos produtos vendidos pelo Diabo – vv. 5. v. de facto. 85) e por viver na riqueza (v. 4.».1 Quando o Tempo refere a «Cristandade» designa-a por «toda gastada / só em serviço da openião.1 A vida quotidiana está aqui representada na ida dos populares à feira. 3. vv. que reinavam no mundo: a corrupção. aponta candidatos a bispo como seu fregueses – vv. 4. 8. vive da e pela mentira. o que era um dos motivos para frequentar as feiras. 3. ou metaforiza – alegoricamente – a Cristandade em crise. basicamente. alegoria do Papado. ao confessar. 42 1. 6. 1. 5. de muitas opiniões diferentes – que desembocariam na Reforma protestante. 2. padres e bispos («pastores de almas»). 1. mas também leigos – vv. 29 1. Trata-se de um cómico de situação. mais escandalosamente ainda. 67. os próprios cristãos. eles rejeitam tal possibilidade. a referir-se às questões teológicas que abalavam os cristãos europeus.3 Ele faz este pedido pois teme nada vender. que tinham levado uma vida de simplicidade. 4. Nestes versos. Mercúrio refere-se a quem acredita na astrologia. do Mal e do Bem. 7. por não levar uma vida santa (v. isto é. o contraste entre ele próprio.1 Ambos estão interessados somente em divertir-se com as moças. na nossa cultura. o vício.2 Ridiculariza-as através da apresentação de uma série de verdades evidentes pretensamente descobertas com a ajuda da astrologia. Apesar de o Serafim perguntar aos frequentadores de origem popular da feira se querem comprar «virtudes».2 Esta anáfora contribui poderosamente para a crítica que recai sobre Roma: esta cidade. e ainda freiras que querem fugir do convento. para que o seu comércio de venda de virtudes corra bem. vv. 3. para se converter. Mais uma vez se reforça aqui a denúncia desta crença através de um efeito cómico. O Diabo identifica alguns dos seus melhores fregueses: escandalosamente. pp. em nome do dinheiro.». 7. que lhe vende várias mercadorias que lhe permitirão mudar de vida.2 «Ele não vai à lavrada. 3. 4. ou simboliza.2 É criticado por não respeitar Deus (v. 4. Roma critica.1 No verso «e come verde e maduro. como a cor preta está associada. p. O que ele quer é uma transformação do mal para o bem. Ele está.2 O Serafim chama-os porque vivem uma vida nada consentânea com o exemplo dos primeiros cristãos. 17-18. 28. 41. mas sim trocá-las pelos seus opostos. ele diz a Roma que a sua vida não é exemplar. Amâncio acusa a mulher de ser «destemperada». p. 4.1 É criticado o clero. por contiguidade. os que pensam poder adivinhar o futuro a partir «dos céos». 116.) 7. 2. ao inferno. 6. enfim. por isso pretende uma troca – quer uma mudança de comportamentos. v. para elas o que conta é o clima de festa que a ida à romaria proporciona. v.1 A antítese é de natureza psicológica: a mulher de Amâncio é má. uma personagem coletiva.1 O Serafim convoca para a feira elementos da Igreja institucional: «igrejas». «mansa». com esta expressão. v.2 Pede a Deus que lembre ao seu anjo da guarda para o proteger. no v. sendo gorda. 3. 8. 37 1. por outro lado. a mulher de Denis é pacífica.1 É uma pergunta cuja resposta (vv. 5. 5. vv. (Outras opiniões são possíveis. 47 1. 4.1 Roma é uma personagem alegórica na medida em que. 4.1 O Diabo entra em cena vangloriando-se. nos encontros que essa ida proporciona. sofrimento a Roma. b). são membros da Igreja – clérigos e frades. 3. 4. 6. não se interessam nem compreendem esses assuntos de índole teológica. v. este verso configura uma metonímia do trabalho devido à palavra «lavrada». criando assim um forte efeito cómico. «os antecessores». isto é. o quadro geral de comportamentos negativos daquele momento da história da Cristandade europeia.1 b). «étego». 1. «tudo isso feirei. 1. 125. 110 e seguintes. v. 5. 48 Roma não corresponde a nenhuma personagem real. E é com cantigas populares em louvor da Virgem que o auto termina. afirmando – implicitamente – que não precisam de tal e comprazendo-se na prática de uma religiosidade popular simples – vieram à feira em louvor de Nossa Senhora. Mercúrio aconselha-a a mudar de vida não culpando os outros pelo seu mal.». 1. associamos. saber que o «céo é redondo» e que «o sol» é «amarelo». gabando-se de vender tudo o que quer: tem sempre quem se interesse pela sua mercadoria pecaminosa. e a mulher. simboliza o Papado com todos os seus defeitos. mas verificando que a culpa reside nela própria.