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foto: net Ary dos Santos 1937 ~ 1984 “E ei-lo poeta todo mãos abertas para apanhar
foto: net Ary dos Santos 1937 ~ 1984 “E ei-lo poeta todo mãos abertas para apanhar
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Ary dos Santos
1937 ~ 1984
“E ei-lo poeta todo mãos abertas para apanhar tudo o que a
vida dá.” Natália Correia

Poeta português, natural de Lisboa. Saiu de casa aos 16 anos, exercendo várias actividades como meio de subsistência.

Revelando-se como poeta com a obra Asas (1953), publicou, em 1963, o livro Liturgia de Sangue, a que se seguiram Azul Existe, Tempo de Lenda das Amendoeiras e Adereços, Endereços (todos de 1965). Em 1969, colaborou na campanha da Comissão Democrática Eleitoral e, mais tarde, filiou-se no Partido Comunista Português, tendo tido uma intervenção politizada, mas muito pessoal. Ficou sobretudo conhecido como autor de poemas para canções do Concurso da Canção da RTP. Os seus temas «Desfolhada» e «Tourada» saíram ambos vencedores. Em 1971, foi atribuído a «Meu Amor, Meu Amor», também da sua autoria, o grande prémio da Canção Discográfica. Declamador, gravou os discos «Ary Por Si Próprio» (1970), «Poesia Política» (1974), «Bandeira Comunista» (1977) e «Ary por Ary» (1979), entre outros. Publicou ainda os volumes Insofrimento In Sofrimento (1969), Fotos-Grafias (1971), Resumo (1973), As Portas que Abril Abriu (1975), O Sangue das Palavras (1979) e 20 Anos de Poesia (1983). Em 1994, foi editada Obra Poética, uma colectânea das suas obras.

Personalidade entusiasta e irreverente, muitos dos seus textos têm um forte tom satírico e até panfletário, anticonvencional, contribuindo decisivamente para a abertura de novas possibilidades para a música popular portuguesa. Deixou cerca de 600 textos destinados a canções.

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Auto-Retrato Poeta é certo mas de cetineta fulgurante de mais para alguns olhos bom artesão na
Auto-Retrato
Poeta
é certo
mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.
Cozido à portuguesa
mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento
ambas partes
do meu caldo entornado
na infância.
Nos olhos uma folha de hortelã
Que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.
Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.
José Carlos Ary dos Santos, Fotos-Grafias,
1970. Obra Poética
imagem: net No dizer de José Jorge Letria, Ary dos Santos  foi um homem do

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No dizer de José Jorge Letria, Ary dos Santos

  • foi um homem do excesso e da transgressão

  • foi

um poeta que esteve presente nas

canções, na

publicidade, na política, que escrevia para revista, mas acima de tudo um grande poeta que usou as palavras de modo único e inimitável

  • foi

um

homem

teve

que

sempre

uma

atitude

desmedida, de coragem,

força,

generosidade

e

solidariedade, cuja

obra

poética

é

muitas

vezes

abafada pelas letras de canções que escreveu.

Nos 25

anos

da

morte de Ary

dos

Santos,

galeria da

Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em Lisboa, na exposição "Ary dos Santos - A força da poesia".

imagem: net Hoje, à distância de décadas, poderíamos reservar para ele as palavras de todos aqueles

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Hoje, à distância de décadas, poderíamos reservar para ele as palavras de todos aqueles que, durante 50 anos, lutaram contra o obscurantismo em nome da liberdade.

Maria Barroso em “Rua da Saudade – Livreto – Testemunhos”

O POEMA ORIGINAL

Original é o poeta que se origina a si mesmo que numa sílaba é seta noutro
Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutro pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse um abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever um sismo.
Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte faz
devorar um jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.
Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.
Original é o poeta
que chegar ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.
Esse que despe a poesia
como se fosse uma mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.
José Carlos Ary dos Santos, Resumo. Obra Poética
imagem: net CANTIGA DE AMIGO Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso

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CANTIGA DE AMIGO

Nem um poema nem um verso nem um canto tudo raso de ausência tudo liso de espanto e nem Camões Virgílio Shelley Dante o meu amigo está longe e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai tudo calado todos sem mãe nem pai Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!

o meu amigo está longe e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso que faz do amor sozinho o amor imenso. Calai Camões Virgílio Shelley Dante:

o meu amigo está longe e a saudade é bastante!

Ary dos Santos, Resumo. Obra Poética

[Ary dos Santos] morava na Rua da Saudade, na encosta do Castelo de São Jorge, rés-do-chão de um prédio onde, em épocas distintas, havia sido residência de José Rodrigues Miguéis, o imenso romancista

deploravelmente esquecido; de Alexandre O‟Neill e de Fernando Tordo.

Eu habitava mais abaixo, na Rua Norberto de Araújo, húmida e estreita, encostada à antiga muralha fernandina.

Baptista Bastos, Jornal de Negócios

[Ary dos Santos] morava na Rua da Saudade, na encosta do Castelo de São Jorge, rés-do-chãoJornal de Negócios imagem: net " id="pdf-obj-7-12" src="pdf-obj-7-12.jpg">

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Vista da casa onde morou Ary dos Santos. Imagens – <a href=aqui . " id="pdf-obj-8-2" src="pdf-obj-8-2.jpg">

Vista da casa onde morou Ary dos Santos. Imagens aqui.

Vista da casa onde morou Ary dos Santos. Imagens – <a href=aqui . " id="pdf-obj-8-10" src="pdf-obj-8-10.jpg">

ESTRELA DA TARDE

Era a tarde mais longa de todas as tardes Que me acontecia Eu esperava por ti, tu não vinhas Tardavas e eu entardecia Era tarde, tão tarde, que a boca, Tardando-lhe o beijo, mordia Quando à boca da noite surgiste Na tarde tal rosa tardia Quando nós nos olhamos tardamos no beijo Que a boca pedia E na tarde ficámos unidos ardendo na luz Que morria Em nós dois nessa tarde em que tanto Tardaste o sol amanhecia Era tarde de mais para haver outra noite Para haver outro dia.

Meu amor, meu amor Minha estrela da tarde

Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde Meu amor, meu amor Eu não tenho a certeza

Se tu és a alegria ou Meu amor, meu amor

se és a tristeza.

Eu não tenho a certeza.

Foi a mais bela de todas as noites Que me aconteceram Dos nocturnos silêncios que à noite De aromas e beijos se encheram Foi a noite em que os nossos dois Corpos cansados não adormeceram E da estrada mais linda da noite uma festa De fogo fizeram. Foram noites e noites que numa só noite Nos aconteceram Era o dia da noite de todas as noites Que nos precederam Era a noite mais clara daqueles Que à noite amando se deram E entre os braços da noite de tanto Se amarem, vivendo morreram.

Eu não sei, meu amor, se o que digo É ternura, se é riso, se é pranto É por ti que adormeço e acordo E acordado recordo no canto Essa tarde em que tarde surgiste Dum triste e profundo recanto Essa noite em que cedo nasceste despida De mágoa e de espanto. Meu amor, nunca é tarde nem cedo Para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos

foto: net As Portas que Abril abriu Era uma vez um país onde entre o marVoz de Ary dos Santos  Texto integral " id="pdf-obj-11-2" src="pdf-obj-11-2.jpg">
foto: net As Portas que Abril abriu
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As Portas que Abril abriu

Era uma vez um país onde entre o mar e a guerra vivia o mais infeliz dos povos à beira-terra.

[…]

Foi então que Abril abriu as portas da claridade e a nossa gente invadiu a sua própria cidade. Disse a primeira palavra na madrugada serena um poeta que cantava o povo é quem mais ordena.

[…]

Foi esta força viril de antes de quebrar que torcer que em vinte e cinco de Abril fez Portugal renascer. E em Lisboa capital dos novos mestres de Aviz o povo de Portugal deu o poder a quem quis.

[…] Lisboa, Julho-Agosto de 1975 José Carlos Ary dos Santos, Obra Poética

NONA SINFONIA

É por dentro de um homem que se ouve o tom mais alto que tiver a vida a glória de cantar que tudo move a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves que seguram o tecto da alegria pedras que são ao mesmo tempo as aves mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas hieráticas sagradas impolutas dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas as humanas palavras resolutas. Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

Ary dos Santos, Sonetos de Amor e Luta. Obra Poética.

NONA SINFONIA É por dentro de um homem que se ouve o tom mais alto que
NONA SINFONIA É por dentro de um homem que se ouve o tom mais alto que

Luís Costa, da turma D, do 11.º ano, respondendo a um repto lançado na aula de português, seleccionou “Nona Sinfonia”, de Ary dos Santos, porque o Poeta “Enaltece nestes versos o valor do interior do Homem, o sentimento e a palavra como fluxos de uma revolução, força interior. Algo monumental é salientado, o fulgor da vida associado à alegria e ao prazer de ser-se. É uma revolução, forte e vivida, é a sinfonia do Homem.

E esta foi a génese do presente caderno digital.

CAVALO À SOLTA

Minha laranja amarga e doce meu poema feito de gomos de saudade minha pena pesada e leve secreta e pura minha passagem para o breve breve instante da loucura.

Minha ousadia meu galope minha rédea meu potro doido minha chama minha réstia de luz intensa de voz aberta minha denúncia do que pensa do que sente a gente certa.

Em ti respiro em ti eu provo por ti consigo esta força que de novo em ti persigo em ti percorro cavalo à solta pela margem do teu corpo.

Minha alegria minha amargura minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo canção castigo amêndoa travo corpo alma amante amigo por isso canto por isso digo alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio minha aventura minha coragem de correr contra a ternura.

José Carlos Ary dos Santos

Franz Marc, Cheval Bleu II , 1911  <a href=Voz de Fernando Tordo Festival RTP - 1971 " id="pdf-obj-14-2" src="pdf-obj-14-2.jpg">

Franz Marc, Cheval Bleu II, 1911

Paul Klee, Sauteur , 1930  <a href=Na voz de Carlos do Carmo  Na voz de Adélia Pedrosa " id="pdf-obj-15-2" src="pdf-obj-15-2.jpg">

Paul Klee, Sauteur, 1930

OS PUTOS

Uma bola de pano, num charco Um sorriso traquina, um chuto Na ladeira a correr, um arco O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança Um pardal de calções, astuto E a força de ser criança Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta Os putos, os putos São como índios, capitães da malta Os putos, os putos Mas quando a tarde cai Vai-se a revolta Sentam-se ao colo do pai É a ternura que volta E ouvem-no a falar do homem novo São os putos deste povo A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão A vontade que salta ao eixo Um puto que diz que não Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola Um pião na algibeira sem cor Um puto que pede esmola Porque a fome lhe abafa a dor.

José Carlos Ary dos Santos

Dali, Cristo de São João da Cruz , 1951

Dali, Cristo de São João da Cruz, 1951

KYRIE

Em nome dos que choram, Dos que sofrem, Dos que acendem na noite o facho da revolta E que de noite morrem, Com a esperança nos olhos e arames em volta. Em nome dos que sonham com palavras De amor e paz que nunca foram ditas, Em nome dos que rezam em silêncio E falam em silêncio E estendem em silêncio as duas mãos aflitas. Em nome dos que pedem em segredo A esmola que os humilha e os destrói E devoram as lágrimas e e o medo

Quando a fome lhes dói. Em nome dos que dormem ao relento Numa cama de chuva com lençóis de vento O sono da miséria, terrível e profundo. Em nome dos teus filhos que esqueceste. Filho de Deus que nunca mais nasceste, Volta outra vez ao mundo!

Ary dos Santos, Kyrie, Obra Poética

Chagall ~ mère et enfant au bouquet À saudade de minha Mãe, os meus primeiros versos,

Chagall ~ mère et enfant au bouquet

À saudade de minha Mãe,

os meus primeiros versos,

que nasceram da infinita

dor de a ter perdido

Dedicatória de José Carlos Ary dos Santos em Asas, publicado em 1952, tendo o Poeta 15 anos.

INFÂNCIA

Não minha mãe. Não era ali que estava.

Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.

Talvez dentro de mim que me apertava

contra as paredes do teu sexo-parto.

A porta que entretanto atravessava

talhada no teu ventre de alabastro

abria-se fechava dilatava.

Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala

nem nenhum dos retratos de família

nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala…

… o meu berço enfeitado a buganvília…

Tenho tantas saudades, minha mãe!

José Carlos Ary dos Santos, em Obra Poética

Poeta Castrado, Não!

Serei tudo o que disserem

por inveja ou negação:

cabeçudo dromedário

fogueira de exibição

teorema corolário

poema de mão em mão

lãzudo publicitário

malabarista cabrão.

Serei tudo o que disserem:

Poeta castrado não!

Poeta Castrado, Não! Serei tudo o que disserem por inveja ou negação: cabeçudo dromedário fogueira de

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Os que entendem como eu

as linhas com que me escrevo

reconhecem o que é meu

em tudo quanto lhes devo:

ternura como já disse

sempre que faço um poema;

saudade que se partisse

me alagaria de pena;

e também uma alegria

uma coragem serena

em renegada poesia

quando ela nos envenena.

 

Os que entendem como eu

 

a força que tem um verso

reconhecem o que é seu

quando lhes mostro o reverso:

De fome já não se fala

  • - é tão vulgar que nos cansa -

mas que dizer de uma bala

num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história

  • - a morte é branda e letal -

mas que dizer da memória

de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser

o poema dia a dia?

  • - um bisturi a crescer

nas coxas de uma judia;

um filho que vai nascer

parido por asfixia?!

 

José Carlos Ary dos Santos, Resumo. Obra

Poética

 

- Ah não me venham dizer

que é fonética a poesia !

Serei tudo o que disserem

por temor ou negação:

Demagogo mau profeta

falso médico ladrão

prostituta proxeneta

espoleta televisão.

Poeta castrado, não!

Pode-se dizer terem sido poucos os poetas a se auto-definirem tão bem como o fez aqui Ary dos Santos. Esse poema é não só uma declaração do que para o poeta representava ser poeta, mas também quase que uma auto-confissão de como ele era e do que dele poder-se-ia esperar enquanto ser humano. Na primeira estrofe, Ary dos Santos começa já de forma direta uma das suas características pessoais mais marcantes e por vezes mesmo agressiva a relatar que para ele pouco importa o que os outros dele venham a dizer, desde que isso não afete a sua liberdade de dizer o que pensa. Reconhecendo mesmo alguns dos aspectos que o caracterizavam e que muitos criticavam nele (“cabeçudo”, exibido e outros), e até mesmo reconhecendo-se como publicitário de profissão, Ary dos Santos proclama que tudo isso pode-se dele afirmar, mas não o fato de que por alguma razão tenha visto a sua liberdade de expressão “castrada”.Continua compactuando com os que o “entendem” e “reconhecem”, aqueles que sabem ver nele tanto o lado terno, o lado sentimental com que expressa saudade e alegria, mas também a necessidade de ser e negar tudo isso para se cumprir uma função enquanto poeta revolucionário, a de expôr a verdade, por mais dura que seja. Passa, então, o poeta, a listar o que deveria estar num poema que expusesse a verdade, mas que se encontrava ausente na grande maioria da poesia que se fazia então. E Ary dos Santos faz suas afirmações de uma forma direta, procurando a um só tempo chocar e motivar a procura da verdade em seus leitores, em essência um poeta revolucionário. Assim sendo, afirma que se esquece da fome, mas será que se pode esquecer “de uma bala num esqueleto de criança”? Procura-se não falar da dureza da morte, mesmo quando há tanto horror em volta lembremos que este poema foi escrito não só ainda em meio das guerras coloniais na África, mas também da Guerra do Vietnã. O poeta passa das guerras ao seu redor para os horrores do holocausto na Segunda Guerra Mundial, convergindo para uma crítica aos que procuram apagar da memória o acontecido e acabam por entrar em novos conflitos do mesmo gênero.

Antes de voltar a reiterar-se como um poeta de livre expressão, Ary dos Santos termina sua descrição do que deve relatar um poeta revolucionário, criticando aos poetas puristas com um verso a um só tempo coloquial e acadêmico: “– Ah não me venham dizer que é fonética a poesia!”.

Para concluir sua auto-definição como poeta, Ary dos Santos volta a reconhecer as críticas que

fazem a ele, seja enquanto homossexual (“prostituta”, “proxeneta”), quer seja pelo fato da sua popularidade adquirida sobretudo graças às inúmeras participações nos Festivais RTP

(“demagogo”, “televisão”). E por fim, novamente reforça sua posição de ser um pouco de tudo o que dizem, mas nunca um poeta longe da verdade que lhe cabe dizer como poeta revolucionário.

Mauro Neves Jr., Bulletin of the Faculty of Foreign Studies, Sophia University, No.402005, Ary dos Santos: Poeta da Revolução, Poeta do Fado

Meu amor, meu amor

Meu amor meu amor

meu corpo em movimento

minha voz à procura

do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever

nós parámos o tempo não sabemos morrer

e nascemos nascemos

do nosso entristecer.

Meu amor meu amor

meu nó e sofrimento

minha mó de ternura

minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar

nós parámos o vento não sabemos nadar

e morremos morremos

devagar devagar.

Ary dos Santos, As Palavras das Cantigas (organização, coordenação e notas de Ruben de Carvalho)

foto: eli  <a href=A cidade é um chão de palavras pisadas " id="pdf-obj-25-2" src="pdf-obj-25-2.jpg">

foto: eli

1.

A cidade é um chão de palavras pisadas a palavra criança a palavra segredo.

A cidade é um céu de palavras paradas

a palavra distância

e

a palavra medo.

A cidade é um saco pela palavra água A cidade é um poro pela palavra sangue

um pulmão que respira pela palavra brisa um corpo que transpira pela palavra ira.

A cidade tem praças de como estátuas mandadas

palavras abertas apear.

A cidade tem ruas de palavras desertas

como jardins

mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra duma luz que não há.

José Carlos Ary dos Santos In Sofrimento. Obra Poética

Adriano ~ caricatura de Roberto Machado

Adriano ~ caricatura de Roberto Machado

MEMÓRIA DE ADRIANO

Nas tuas mãos tomaste uma guitarra

copo de vinho de alegria sã

sangria do suor e de cigarra

que à noite canta a festa da manhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra

o que à terra chamou amante e irmã

mas também português que investe e marra

voz de alaúde e rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro

num barco de vindimas de cantigas

tão generosas como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro

a jóia com as pedras mais antigas

não é saudade, não! É amizade.

José Carlos Ary dos Santos, em Obra Poética

Camille Claudel , Les Bavardes ou Les Causeuses ou La Confidence , 1893-1905

Camille Claudel, Les Bavardes ou Les Causeuses ou La Confidence, 1893-1905

RETRATO DE AMIGO

Por ti falo.

E ninguém sabe.

Mas

eu digo

meu irmão minha amêndoa meu amigo

meu tropel de ternura minha casa

meu jardim de carência minha asa.

Por ti morro e ninguém pensa. Mas eu sigo

um caminho de nardos empestados

uma intensa e terrífica ternura

rodeada de cardos por muitíssimos lados.

Meu perfume de tudo

minha essência

meu lume

minha lava

meu labéu

como é possível não chegar ao cume

de tão lavado céu?

Jpsé Carlos Ary dos Santos, Foto-Grafias. Obra Poética.

José Carlos Ary dos Santos ~ 1937-1984

Poeta. Oriundo de uma família tradicional da alta-burguesia, com a qual rompeu, frequentou as Faculdades de Direito e de Letras de Lisboa, mas depressa trocou os hipotéticos cursos pelo universo da publicidade (ramo em que foi um criativo notável), como aconteceu com tantos dos seus pares. As duas primeiras colectâneas, Asas (1952) e Nós, os Loucos (1953), passaram despercebidas. Teriam de passar dez anos até o seu nome chamar a atenção do público e da crítica especializada, o que veio a acontecer com a publicação de A Liturgia do Sangue (1963). António Ramos Rosa destacou então a "agilidade da sua linguagem, a irreverência e irrequietude vital que nela pulsam". Popularizado como letrista (devem-se-lhe alguns dos maiores êxitos da música ligeira portuguesa, para cuja renovação deu o empurrão decisivo),tornou-se rapidamente um poeta best-seller. É um dos autores seleccionados por Natália Correia para a Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (1966), tristemente celebrizada pelo veredicto do Tribunal Plenário. Declamador passional de mérito indiscutível, frequentes vezes comparado a Villaret, gravou vários discos de poesia e participou de inúmeros recitais.

Escritor engagé, autor de uma poesia violentamente sarcástica, personalidade "fulgurante de mais para alguns olhos" (palavras
Escritor engagé, autor de uma poesia violentamente sarcástica,
personalidade "fulgurante de mais para alguns olhos" (palavras do
seu "Auto-Retrato"), acabou por ser uma vítima da normalização
democrática. Com efeito, a militância no PCP (a despeito do
indisfarçável "embaraço" que a sua assumida homossexualidade
provocava no aparelho partidário) contribuiu para obnubilar o
fulgor de uma obra injustamente subestimada pelas gerações
mais novas. David Mourão-Ferreira nunca confundiu as coisas:
"mesmo quando francamente ao serviço de um ideário e de uma
praxis cívica que não recusam assumir-se como tais,
rarissimamente renuncia, no entanto, àqueles pendores da
invenção metafórica e da recriação vocabular que constituem
outra vertente da modernidade". Terá sido certa propensão
iconoclasta (mesmo ao nível dos formalismos literários) o óbice
maior de uma poesia desde sempre vocacionada para o "tumulto"
e a desobediência normativa, apostada como poucas na denúncia
das múltiplas hipocrisias de regra. Pouco antes da sua morte
prematura (aos 46 anos), reuniu a obra canónica em 20 Anos de
Poesia (1983). Em 1989,Ruben de Carvalho organizou o volume
que colige o essencial da sua produção de letrista, As Palavras
das Cantigas. Está representado em diversas antologias de
poesia.
in
Dicionário
Cronológico
de
Autores
Portugueses,
Vol.
VI,
Lisboa, 1999
foto: eli A MÁQUINA DE COSTURA Para o Mendes de Carvalho Talhem-se as palavras justas ao

foto: eli

A MÁQUINA DE COSTURA

Para o Mendes de Carvalho

Talhem-se as palavras justas ao corpo do sofrimento as imagens serão curtas amplos os ombros do tempo soltos os panos dos olhos bordados os do talento cosidos os dos ouvidos ao forro do pensamento.

Tome-se o têxtil do tema e corte-se o que é preciso com a tesoura do riso. Mas na orla do poema depois da obra acabada deixe-se ao menos um dedo da tristeza embainhada.

José Carlos Ary dos Santos, Adereços. Obra Poética

José Carlos Ary dos Santos morreu […] de desespero e de solidão. Tudo isso foi por ele procurado em êxtase, em euforia, em excesso. Tinha 46 anos e uma existência que, de certo modo, correspondeu às exigências e às lutas da época que lhe coube viver. E Ary nunca desistiu, nunca contornou obstáculos, cara a cara, frente a frente, pegou o toiro pelos cornos, como escreveu numa canção célebre. De facto, a "Tourada", mais do que uma metáfora, era a grande analogia da sua vida.

Baptista Bastos, “Ary dos Santos ou a voz indomada e indomável”, in Jornal de Negócios

José Carlos Ary dos Santos morreu […] de desespero e de solidão. Tudo isso foi porJornal de Negócios  T O U R A D A 1 9 7 3 F e r n a n d o T o r d o foto: net  DESFOLHADA - 1969 - Simone de Oliveira " id="pdf-obj-34-11" src="pdf-obj-34-11.jpg">

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[Carlos Castro conta]

como foi: Ary dos Santos

A sua genialidade ultrapassou toda a forma de dizer, de cantar as palavras. Foi o poeta grandioso que partiu há 25 anos ...

José Carlos Ary dos Santos. Assumiu-se sempre como 'nascido na alta burguesia'. De vasta cultura, era um perfeccionista em tudo que sabia fazer. Ele driblava as palavras. Como que as reinventava. Do corpo de linho trazia Agosto. Da menina do alto da serra com cheiro a feno pela manhã. Do cavalo à solta com poema e gomos de saudade.

E na tourada daquele tempo como no tempo que hoje passa. Que toureamos ombro a ombro as feras. E não se pegou no mundo, depois de tanto tempo, pelos cornos da desgraça. Foi cantado maravilhosamente por Simone, Tonicha, Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos do Carmo e Amália.

Com 16 anos de idade publica poemas e é aclamado como a revelação. E sai de casa como todos os inconformados. Faz de tudo. Vendedor de pastilhas elásticas. Até publicitário, onde cria os melhores anúncios da época. O seu livro A Liturgia do Sangue é uma pedrada no charco.

É em 1969 que se torna membro do PCP, e os seus poemas galvanizantes fazem a ditadura temer a sua voz. Quando participa no Festival da Canção RTP vence em

absoluto com „Desfolhada‟ (um

cantou/arrebatou.

dos

seus

mais

belos

poemas)

que

Simone

E foi Tonicha com „Menina‟, uma outra jóia da canção portuguesa. Ainda Fernando Tordo tem a vitória com „Tourada‟, numa crítica social tremenda. É Nuno Nazareth Fernandes o compositor que ao lado de Ary cria as canções de sucesso.

Escreveu centenas de poemas. Publicou livros. Gravou discos onde declamava com paixão as suas palavras. Aos 47 anos de idade (18 Janeiro 1984), o poeta de „As portas que Abril abriu‟ continua vivo.

ARY E A SUA REVOLTA COM O PAÍS

Ary (conheci-o bem) não era uma pessoa fácil. Difícil até no trato. Mas um coração do tamanho do mundo quando era preciso. E como era vaidoso. Fazia gala disso. As palavras dos seus poemas podem dizer tudo. Da sua forte personalidade. Dos seus erros e das suas grandes virtudes. Da revolta que sentia porque não compreendia o seu país tantas e tantas vezes. Ary dos Santos era um lutador.

INESQUECÍVEL EM TUDO

Estive várias vezes em sua casa na rua da Saudade. Ouvi-o muitas vezes ralhar. Tentar ajudar. E perceber naquele grande homem uma solidão tremenda. As recordações de sua querida mãe, de seu irmão, que se suicidou aos 21 anos de idade. Uma outra dor. Teve amigos. Grandes nomes da cultura. Como era de Amália. Idolatrava-a. Fez teatro no seu tempo de juventude. No teatro de revista, assinou peças inesquecíveis. E o que foi que ele não fez?

Carlos Castro, “Vidas”, Correio da Manhã, em 24-1-2010

ARY E A SUA REVOLTA COM O PAÍS Ary (conheci-o bem) não era uma pessoa fácil.Correio da Manhã, em 24-1-2010  Ary dos Santos Poemas - MúsicaRetrato de Amália - José Carlos Ary dos Santos foto: net " id="pdf-obj-36-14" src="pdf-obj-36-14.jpg">

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Poema de Ary sobre foto (pormenor) de eli

Poema de Ary sobre foto (pormenor) de eli

Poema de Ary sobre pintura (pormenor) de carlos peres feio

Poema de Ary sobre pintura (pormenor) de carlos peres feio

foto: eli
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ESQUECIMENTO

Quando eu morrer, Sem o cansaço inútil da jornada

  • - Porque nunca senti

Sem o manto sublime da amargura

  • - Porque nunca chorei

Sem a réstia de fogo da alegria

  • - Porque nunca me ri

Aqueles que me odiaram, Os poucos que me acolheram E os muitos que nunca vi, Hão-de chorar por convenção Ou sorrir por teimosia. Mas nunca mais ninguém se lembrará Do pobre que nunca riu Nem chorou Nem sentiu.

José Carlos Ary dos Santos, Infância. Obra Poética

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