ASPECTUALIZAÇÃO DO ATOR DA ENUNCIAÇÃO NO DISCURSO DE DIVULGAÇÃO RELIGIOSA

RAMOS-SILVA, Sueli Maria
PG – DL/ Universidade de São Paulo – CNPq
sueliramos@usp.br

Resumo: Este trabalho tem como fundamentação teórica a Semiótica Greimasiana de linha francesa
e a Análise do Discurso (AD) francesa. Tomamos para nosso estudo, de modo amplo, a divulgação
religiosa, a fim de identificarmos o éthos característico desse discurso. O objetivo específico deste
trabalho é depreender mecanismos de construção do sentido do gênero compêndio, presente no
campo religioso instrucional católico. A fim de determinamos como os textos que materializam a
divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa,
estabelecemos como recorte textual a análise do capítulo terceiro: “A vida de oração”, extraído do
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica. A escolha da problemática aqui proposta justifica-se
também pelo fato de que os conceitos ora escolhidos como determinantes dessa análise: a noção de
afeto, aspecto, ritmo e presença, encontrarem-se longe de estar completamente definidos dentro da
teoria semiótica. Assim, com apoio nos estudos sobre presença de Fontanille e Zilberberg (2001) e
dos desenvolvimentos efetuados por Discini (2005a, 2005b), buscamos articular a noção de estilo à
aspectualização do ator da enunciação, a fim de procurarmos estabelecer com mais profundidade as
diretrizes dos mecanismos de construção do sentido que constroem os enunciados caracterizados
pelo discurso de divulgação religiosa.
Palavras-Chave: divulgação religiosa; aspectualização do ator da enunciação; ritmo; presença.

0. Introdução
Este trabalho tem como fundamentação teórica a semiótica greimasiana de linha
francesa; a Análise do Discurso (AD) francesa, incorporada à semiótica por meio dos
trabalhos de Maingueneau e os desenvolvimentos recentes da semiótica tensiva.
Ao considerar o projeto de reformulação do modelo semiótico, realizado por Greimas
e Fontanille, com a associação dos aprimoramentos epistemológicos e técnicos introduzidos
ao modelo por Zilberberg, buscamos realizar, inicialmente, uma breve incursão no que diz
respeito à análise da categoria tensiva. Assim, com apoio nos estudos sobre presença de
Fontanille e Zilberberg (2001, p. 123-151) e dos desenvolvimentos efetuados por Discini
(2005a, 2005b) e Fiorin (1989), buscamos articular a noção de estilo à aspectualização do
ator da enunciação. Em linguística, tradicionalmente, o aspecto aparece ligado à categoria
temporal, definido como “um ponto de vista sobre o processo” (BERTRAND, 2003, p. 415).

qualquer que seja o seu gênero discursivo. Ao tratar o modo pelo qual se dá o investimento temático e figurativo dos textos em análise. o observador não apenas como o sujeito cognitivo que se emparelha ao narrador do nível discursivo. Ao pressupormos o simulacro de um sujeito enunciador que estaria operando a escolha de valores.Consideraremos a aspectualização. A tensividade fórica será examinada como uma espécie de proto-sintaxe responsável pelas modulações tensivas e fóricas. como o espaço é dado pelo olhar do sujeito que constrói esse espaço. aspecto. buscamos o estabelecimento do modo de presença compatível ao sistema de restrições da totalidade discursiva do discurso de divulgação religiosa. sujeito da cognição. Remetermos assim à percepção mais ou menos acelerada de um modo de presença na percepção de um mundo discursivizado. mas falamos de um aquém do percurso gerativo. como a “disposição. ao ser controlada pelas noções de tempo e de andamento. dado como efeito de sentido. uma instância profunda e pressuposta às demais etapas do modelo gerativo. e. A escolha da problemática aqui proposta justifica-se também pelo fato de que os conceitos ora escolhidos como determinantes dessa análise: a noção de afeto. p. ao tomar o actante observador como sujeito cognitivo. Dessa forma. mas o observador que apreende o mundo segundo um ritmo. corresponde a uma percepção mais ou menos acelerada. segundo Greimas e Courtés (1986. pensa-se na aspectualização do ator. Conceberemos um sujeito que apresenta um mundo segundo um ritmo e que. contribui para a fundamentação do éthos: o ritmo dos textos determinado por meio da percepção de um corpo que percebe e sente. busca reproduzir o imaginário social. ao imprimir um ritmo aos seus discursos. estabeleceremos com mais profundidade as diretrizes dos mecanismos de construção do sentido que constroem os enunciados enfeixados pelo discurso de divulgação religiosa. Determinaremos como os textos que materializam a divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa. no momento da discursivização. como sujeito da percepção. Com base nesses pressupostos. devemos remeter ao conceito de presença. A noção de ritmo será relacionada à noção do observador correlacionado por Discini (2005d) aos processos discursivos de antropomorfização do sujeito enunciador. observaremos o sujeito da percepção. a que se relacionam a tonicidade ou atonia das percepções. na medida em que o texto. mediante as noções teóricas esboçadas. 28). A percepção. de um dispositivo de categorias aspectuais mediante as quais se revela a presença implícita de um actante observador”. desde as etapas mais profundas que as já consideradas do modelo gerativo. deveremos levar em conta o éthos e a ideologia subjacentes. 2 . Dessa forma. podemos delinear o modo de presença característico dos enunciados pertencentes ao espaço discursivo de divulgação religiosa. Deste modo. ao que remetemos à noção de éthos. Ainda para entender o éthos. está nessa articulação do tempo visto como andamento. O observador. portanto.

Tornar-se público ou conhecido. [. A própria concepção de ritmo apresenta. publicar. em oposição ao privilégio concedido à narratividade oriunda de Propp..: devulgar. A semiótica tem apresentado um relativo desinteresse com relação a essas categorias. diante da escassez de trabalhos que já teriam versado sobre esse tema. I. referente a textos específicos do domínio religioso. 2004) Tomamos de Ramos-Silva (2007) a designação discurso de “divulgação religiosa”. inicialmente. que. encontrarem-se longe de estar completamente definidos dentro da teoria semiótica. largar. não encontrando reservas no arsenal mesmo das categorias como tempo. p. [Var. Aliada a essa problemática teórica. ant. Maingueneau (2005. religioso dever Tomemos. Em virtude das interpretações suscitadas pela Bíblia. entendemos como discurso fundador. 1986. a própria concepção de divulgação: Divulgar [Do lat. “se entendemos por isso enunciados cuja finalidade é menos especulativa do 3 . vulgarizar. relegadas a um segundo plano. propagar. de acordo com Orlandi (2003). na maioria das vezes. caracterizar o discurso de divulgação religiosa sob a designação de discursocomentário. vem se acrescentar a justificativa de análise do corpus religioso ora delimitado aos propósitos desse estudo. Segundo a autora. pode ser definido como um discurso segundo “produzido a partir de um primeiro discurso. ao caracterizar-se como um texto de interpretação do relato bíblico. difundir.] 2. e que se apresenta como equivalente do ponto de vista do sentido” (PANIER. 29) se utiliza da nomenclatura de “discurso devoto” para se referir a esse tipo de texto. somada à presença cada vez mais constante do discurso religioso em todos os tipos de mídias atuais. modo etc. Caracteriza-o por apresentar uma propriedade doutrinária específica. divulgare. os discursos de divulgação religiosa caracterizam-se pela sua constituição como um fazer interpretativo sobre um discurso primeiro. de acordo com Zilberberg (1990). Conjug.. difundir-se. 267). considerada como discurso fundador do discurso de divulgação religiosa podemos. de acordo com as afirmações de Panier (1986).ritmo e presença. propagar-se.Tornar público ou notório. Esse discurso.: v. uma presença tênue na reflexão semiótica.] 1.] (FERREIRA. aspecto. Discurso religioso de divulgação religiosa (1) S1  S2 Ov “graça divina”    agente fiel poder. p.

o comentário opera com a transmissão de um saber que se pretende como a verdade (fazer-saber). Esse discurso. O sujeito. uma em que o /crer/ sobredetermina um /dever-fazer/ e outra em que ele sobredetermina um /poder fazer/” (GREIMAS. b) fazer interpretativo . 268). Os discursos de divulgação religiosa operacionalizam duas categorias de perfórmance: a) fazer comunicativo ou persuasivo . 143). deonticamente modalizado. na enunciação dos diversos gêneros de divulgação religiosa. portanto. PANIER. Desse modo. p. ou melhor. 4 . uma função de reescritura e interpretação do relato bíblico. o sujeito adquire um crer dever fazer (engajamento) e um crer poder fazer (competência). servindo como mediador entre um destinador divino superior e aqueles destinatários a quem ele busca atingir. religioso dever O discurso religioso de divulgação. o discurso de divulgação religiosa constitui-se por meio de um procedimento parafrástico de função essencialmente citativa que.o “comentário interpreta a narrativa que toma por objeto” (Cf. Esse julgamento se refere às estruturas modais éticas que sobredeterminam os enunciados deônticos. apresenta ao homem um programa de ação por meio da execução de um fazer persuasivo. ao aceitar ser deonticamente modalizado por esse discurso. Após o julgamento ético efetuado. queira aprender os fundamentos bíblicos em conformidade com a ideologia que o fundamenta. Apóia-se em uma manipulação enunciativa para que o leitor (actante coletivo). pautado pela construção de simulacros apresenta. Temos assim. 1986. constrói-se por meio de um texto instrucional e propagador da doutrina das Sagradas Escrituras. um sistema de modalidades deônticas com a instalação de prescrições (dever-fazer) e de interdições (dever não fazer). apresenta um julgamento ético sobre os enunciados deônticos. tendo sido persuadido e aderido ao objeto modal “saber”. (2) S1  S2 Ov “graça divina”    agente fiel poder. p.que prática: ensinar aos fiéis quais são os comportamentos que eles devem adotar para viver cristãmente em uma sociedade determinada” (MAINGUENEAU. p. “Compreende-se que haveria duas estruturas modais éticas. 29). ao operacionalizar a dimensão cognitiva. 2005. ou seja. por meio da proposição de um dever-fazer ao destinatário. COURTÉS. O fazer interpretativo exercido pela narrativa de comentário deve ser considerado como efeito de sentido produzido por esse discurso. 1986. “dever-saber” e.

portanto. Dessa forma. portanto. onipotente e onisciente. dado como objeto desejável e possível. organizada ao redor da instância do aqui. um sujeito determinado segundo a expansão. do mestre (destinador mediador e. A irreversibilidade de posições enunciativas é definidora dessa tipologia de discursos. tendo como preocupação encadear injunções e ensinamentos. Essa expansão se verifica pela explicitação do enredamento do 5 . há no discurso de divulgação religiosa. O caráter de ensinamento. divulgador da palavra Divina absoluta) e do discípulo (destinatário e receptor do saber religioso).Definimos. à lentidão e desaceleração características. ao se apropriar da palavra divina. os textos do espaço discursivo considerado se agrupam segundo elementos extensos. nos discursos de divulgação religiosa. de tal modo que não se admitem questionamentos. Desse modo. corresponde à preocupação com a previsibilidade apresentada por esses discursos. uma espacialização característica dos discursos de divulgação religiosa. próprio aos discursos de divulgação. O representante de Deus. por meio da ilusão de reversibilidade. assim como o estilo. a dimensão da doação de um objeto de valor cognitivo. pautado por um do sujeito determinado segundo a concentração. uma espacialização determinada pela direção superativa no eixo da verticalidade. a apresentar marcas de desaceleração. o andamento tende em princípio. portanto. cujo enunciado. Nesse discurso. portanto. o efeito de sentido de paroxismo autoritário chega ao limite. um tom de “orientação” determinado por uma voz que define o estabelecimento de dois lugares enunciativos: o mestre (aquele que sabe e deve transmitir o conhecimento) e o discípulo (aquele que deve aprender). A voz de Deus se coloca como a voz do enunciador primeiro. A lentidão. ao lembrar os atributos divinos. Contrariamente ao discurso fundador. pode ser associado. que é o “saber das coisas de Deus”. Teremos. direta ou indiretamente. Para isso. uma proxêmica da ordem da estabilidade com a definição hierárquica de lugares enunciativos do arquidestinador (Deus). O enunciado divulgador constrói. Vemos emergir. devido à ausência de quaisquer elementos modais que possam levantar incerteza (não crer ser). o faz sem autonomia alguma. ou seja. podemos concluir que os textos que materializam a divulgação religiosa. própria aos discursos de divulgação religiosa de caráter instrucional. Os discursos do espaço discursivo de divulgação religiosa pertencem a uma esfera de circulação do sentido. alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa. configura-se por meio da modalidade epistêmica da certeza (crer-ser). a que se pressupõe o “fazer-saber”. para fundar uma práxis semiótica da divulgação da fé religiosa. constrói o simulacro da cena de doação de saber. e que. portanto. a fim de que o destinatário (fiel) estabeleça o “alto” como categoria para que assim seja possível retomar o seu encontro com Deus.

As fontes principais de que o gênero catequético se utiliza são: a palavra da Sagrada Escritura. de forma concisa. constitui-se como um mecanismo de divulgação para que o Catecismo da Igreja Católica: Edição Típica Vaticana seja mais conhecido e aprofundado.preenchimento de lacunas semânticas. O catecismo configura-se como um instrumento autorizado para a realização da catequese. que o discurso religioso de divulgação. 10). vivendo num mundo dispersivo e de mensagens múltiplas. com o estabelecimento de fronteiras traçadas para o fiel. e que entendemos como cenas enunciativas complementares. Podemos concluir. Por meio dessa lentidão é que se espera encontrar a imagem do sujeito determinada nos textos que materializam a divulgação religiosa. ao se caracterizar como síntese da versão típica. portanto. dessa forma. Análise de gênero de divulgação religiosa: Compêndio do Catecismo da Igreja Católica O objetivo deste capítulo é depreender mecanismos de construção do sentido de um gênero de divulgação religiosa. O Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (doravante compêndio divulgador) confirma o gênero catecismo ao se oferecer como um manual que realiza a exposição completa e integral da doutrina católica acerca da fé e dos costumes. Não 6 . para que a previsibilidade sustente com segurança o fiel. a Verdade confiada por Deus à Igreja do seu Filho” (BENTO XVI. seu público-alvo é formado por: “cada pessoa que. o catecismo para adultos da Igreja Católica. A descrição dos mecanismos de construção do sentido nos enunciados enfeixados pelo discurso religioso e pelo discurso de divulgação. p. 2005. tanto de jovens. nos permite compreender a instituição de um pacto fiduciário diferenciado no que corresponde à socialização do conhecimento que se refere a esses dois discursos. O compêndio caracteriza-se como uma versão sintética do conteúdo do Catecismo da Igreja Católica: Edição Típica Vaticana (doravante catecismo de Roma). tem por função divulgar e disseminar os elementos da fé católica e. II. designado Compêndio. de maneira distinta ao discurso religioso fundador. O fiel tem de ser orientado e ensinado: é necessário que se privilegie o contínuo. dos Santos Padres. O compêndio divulgador apresenta como temática a exposição. institui a veridicção e a fidúcia segundo o proselitismo. O compêndio. de todos os elementos essenciais em matéria de fé e moral da Igreja Católica. quanto de adultos. Desse modo. da Liturgia e do Magistério da Igreja. deseja conhecer o Caminho da Vida.

p. Estas são as quatro partes referidas: a) “A profissão de fé”. c) “A vida em Cristo”. p. p. os Sacramentos. “em correspondência com as leis fundamentais da vida em Cristo” (BENTO XVI. porque se vive como se reza. liturgia das Horas. 2005. o Pai-nosso. os Mandamentos. santo Rosário. 7 . o compêndio divulgador também se estrutura em quatro partes. o ambiente e sobretudo contra o Tentador. Quais momentos são mais indicados para a oração? Todos os momentos são indicados para a oração. O Combate da Oração 572. festas do ano litúrgico. 17). Análise de uma unidade “Capítulo Terceiro: A vida de oração” Recortamos os seguintes trechos para análise: Capítulo terceiro A vida de oração 567. Eucaristia dominical. Assim como o catecismo de Roma. que faz de tudo para o distrair da oração. d) “A oração cristã”. porque aquele que reza combate contra si mesmo. 2005. antes e depois das refeições. tal como postula Tatit (1997. Cada parte corresponde a cada um dos quatro dos pilares da fé católica: o Credo. Essa articulação do conteúdo em quatro partes retoma a antiga ordem tradicional seguida pelo gênero catequético introduzida pelo Catecismo de São Pio V. como recurso ao nível missivo “onde os valores remissivos e emissivos articulam-se sintática e ritmicamente gerando as matrizes das descontinuidades e das continuidades que estruturam os discursos verbais e não-verbais”. converter. Reza-se como se vive.171. 2725 (BENTO XVI. 170. 14). O combate da oração é inseparável do progresso da vida espiritual. ou seja. mas pressupõe sempre uma resposta decidida de nossa parte. grifos nossos) A caracterização de uma instância de “tensividade fórica” será configurada.esqueçamos que estes “elementos essenciais” serão considerados efeito de sentido e serão analisados como um modo próprio de argumentar de uma enunciação que quer fazer-crer e fazer-fazer. mas a Igreja propõe aos fiéis ritmos destinados a alimentar a oração contínua: orações da manhã e da noite. III. 2697-2698 2720 “É preciso lembrar-se de Deus com mais freqüência do que se respira” (São Gregório Nazianzeno). Por que a oração é um combate? A oração é um dom da graça. b) “A celebração do mistério cristão”.

Teremos. TATIT. obter a seguinte correlação: ao fazer remissivo temos como correspondente a parada. quer entre os próprios sujeitos. 26). Pietroforte (2004). portanto. a escolha de valores intensos revela a tendência do texto para a aceleração e a concentração. apresenta seus desenvolvimentos efetuados por meio dos trabalhos de Zilberberg. 2006). p. pouco abordada no âmbito semiótico. Dessa forma. De maneira inversa. Partiremos do princípio de homologia proposto por Hjelmslev (1975. SAUSSURE. p. A noção de ritmo. de acordo com Zilberberg (Cf. quanto no plano de expressão dos enunciados recortados para análise. quer seja da relação entre o sujeito e o objeto. portanto. 1996. 1997. Tatit (1997. e do modelo hjelmsleviano que lhe deu continuidade. 1990. 386). A escolha de valores pertencentes à dimensão da extensidade contribui para os efeitos de sentido de desaceleração e restituição da duração. 2004. p.64). o que corresponde. actanciais ou temático-figurativas (Cf. 2001). Com base nesses pressupostos e nas definições de Tatit (1997) nos será possível homologar a noção de tempo com o andamento (aceleração/desaceleração). 1999). Entenderemos o ritmo. A reflexão sobre o ritmo proposta por Zilberberg é oriunda da proposição de Saussure sobre silabação. portanto. 8 . às modulações de velocidade na percepção que o sujeito tem do mundo discursivizado. vista como um arranjo particular do plano da expressão. optamos pela noção de ritmo vista como uma forma significante. mediante a consecução de implosões e de explosões na cadeia fônica. antes mesmo da operacionalização de configurações modais. a implosão relacionada ao fechamento e a explosão relacionada à abertura (Cf. tal como propõe Valéry (1988). o anti-programa. observado tanto no plano do conteúdo. ao se valer das concepções de Valéry em seus Cahiers. ou seja. p. 53-64) entre os dois funtivos (expressão e conteúdo) que contraem a função semiótica e das considerações sobre ritmo propostas por Greimas e Courtés (1986). será possível entrever um sujeito operando a escolha de valores de continuidade (euforia) ou descontinuidade (disforia). Tomaremos a noção de ritmo na perspectiva de uma semiótica tensiva. Valéry (1988) e Zilberberg (1979. a partir de determinadas predominâncias tensivas ou missivas. com apoio em Greimas e Courtés (1986. ao fazer emissivo (continuativo) relacionamos a parada da parada. uma lei de sucessão reconhecida como uma percepção mais ou menos acelerada.Ao relacionar a função (fazer missivo) com seus dois funtivos (fazer remissivo e emissivo) podemos. associada tanto ao plano do conteúdo quanto ao plano da expressão. A noção de ritmo será posta em dependência do andamento como medida de velocidade. Contrariamente a uma acepção de ritmo puramente estética. como manifestação de uma periodicidade.

ao agir conforme as prescrições estabelecidas. Assim. O sujeito. Teremos assim. p. duração e apreensão do percurso de busca do Ov “graça divina” empreendido pelo sujeito 9 . sendo esta regida pela velocidade. “intervalos”. ao apresentar a doutrina católica com a exposição da prática da oração apresentada em seu enunciado. 361-370). Com essa noção obtêm-se a caracterização distinta dos comportamentos humanos. Desse modo. As temáticas do combate.realizaremos a análise dos funtivos do andamento que perpassam o discurso do catecismo considerado.A experiência do espaço é regida pelo tempo. BENVENISTE. duração e apreensão do percurso. no que diz respeito a: a) durações e sucessões que regulam esses comportamentos humanos. que devem ser realizados pelo sujeito para que ele possa se manter em conjunção com o objeto-valor “graça divina”. A noção de ritmo é de interesse a ampla porção das atividades humanas. que corresponde à presença de velocidades maiores ou menores na percepção que o sujeito tem do mundo feito discurso. b) ritmo nas coisas e nos acontecimentos. Ao se constituir por meio da modalidade do dever-ser e dever agir de acordo com o modo de vida. “repetições semelhantes”) (Cf. responsável pelas experiências conjuntivas pautadas pela extensão. na medida em que uma relação de conjunção ou disjunção somente é experienciada por um actante sujeito. o andamento se coloca como medida de velocidade. A experiência do sujeito vai se alongando à medida que o andamento decresce. para que o sujeito permaneça conjunto com tais valores corresponde ao fazer emissivo. individuais e coletivos. cuja receita é dada no próprio enunciado. O gênero compêndio. caso a conjuntividade estabeleça alguma duração. ao tomarmos como base as definições de Zilberberg (1992) em Présence de Wölfflin. sem a experiência do percurso e sem duração que apresente uma continuidade possível. 2005. da defesa da vida Divina e da Santa Igreja se verificam nesse enunciado e figurativizam-se no “Combate da Oração”. o catecismo apresenta uma percepção orientada pelo pólo do sagrado. por nele privilegiarmos a dominância da temporalidade emissiva (parada da parada). que também poderíamos denominar continuativo. ou experiências construídas por mediação do instante. c) unificação do homem e da natureza (“tempo”. receberá o Om “poder ter o poder e força para resistir aos assaltos da tentação”. tendo essas concepções em mente e. permanecerá conjunto com tais valores. já conjunto com o Ov “dom da graça divina”. experiências conjuntivas pautadas pela extensão. O PN estabelecido pelo destinador-manipulador. prescreve uma série de comportamentos regrados e recorrentes. o que pode remeter à práxis semiótica apreendida em suas duas dimensões: a intensidade (sensível) e a extensidade (inteligível). Constrói-se a imagem de um sujeito que. Essa é uma maneira de compreender as relações juntivas. pautadas pela transição imediata.

realizados pela instância pressuposta do sujeito da enunciação desde as etapas mais profundas do modelo. para isso o crer faz uso do nível emissivo. constitui a presença de práticas para que o sujeito. corresponde ao fazer remissivo. extraído do 10 . tenha as suas expectativas cumpridas. à parada. a fratura do sistema de valores representado pela ideologia religiosa católica. As atividades míticas ou religiosas. com apoio na noção de ritmo. o destinador-manipulador tenta assegurar a diretividade da direção estabelecida pelo âmbito contratual da fé. que poderia ocasionar a cisão do próprio sujeito e dos laços que o ligam ao sistema de valores considerado. para evitar a fratura da identidade entre sujeito e objeto e. Desse modo. responsável pela ruptura da relação contratual entre destinador e destinatário e pela interrupção do fluxo fórico. O anti-programa. desacelerado diante do mundo. pressupõem também a escolha de modulações de velocidade.(progresso da vida espiritual). Toda ruptura pressupõe como coeficiente tensivo a alta velocidade. que o sujeito siga seu curso de restabelecimento da cisão original. IV. configura-se nesse discurso a opção pela parada da parada que visa segurar o tempo e fazer com que ele não se mova tão rápido. Esse momento. o ambiente e o Tentador). ao qual remetemos ao conceito de surpresa. ao se sentir o “senhor de seu próprio tempo”. o enunciador procede ao estabelecimento do prolongamento da relação conjuntiva ao que nos remete a uma experiência conjuntiva pautada pelo andamento desacelerado. delinear a noção do observador que apresenta um mundo segundo um ritmo e que. nos transportamos ao domínio do andamento. devido a sua função pragmática. depreendemos os mecanismos de construção de sentido do texto “A vida de oração”. contribui para a fundamentação do éthos: o ritmo dos textos de divulgação religiosa. Como o rito não pode ter como pressuposto a categoria surpresa. A (discursiva) e B (tensiva) associar as noções de éthos ao conceito de presença da semiótica tensiva e dessa forma. A fim de determinamos como os textos que materializam a divulgação religiosa alcançam certa especificidade rítmica para que se defina a cena enunciativa. ao imprimir um ritmo aos seus discursos. realizado de modo implícito pelo antidestinador (si mesmo. Temos ao longo do texto a presença do destinador-manipulador tentando fazer com que o sujeito não pare. O domínio da religião não deseja que o objeto seja partido. conseqüentemente. e para isso faz uso de modulações de velocidade. Assim. Ao tomarmos como base que as escolhas dos valores tensivos. CONCLUSÃO Propomos. por meio da conexão entre duas “semióticas”. constituem-se como atividades desaceleradas e dessemantizadas.

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