"Naquela mesma noite, comecei a folhear os dois livrds^
seus com que ele me presenteara. E que surpresa tive! Não
consegui largá-los até terminar os dois. O Embaixador M e i r a
P e n n a . . . ê um homem de grande cultura, que já leu todos^ os
grandes clássicos e modernos do pensamento liberal,re que
fez do liberalismo uma doutrina viva.
É tambéín^Num
formidável polemista é, em A Ideologia do Século Vinte, ele
dinamita, um a um, todos os fetiches do populismo.; . Mas foi
sobretudo o outro livro de Meira Penna, Opção Preferencial
pela Riqueza, que me pareceu mais avassalador... Nem todos
são capazes, como o Embaixador, de enxergar claramente,
desde o princípio, no complexo e conflitivo campo de idéias
políticas, dos sistemas filosóficos e das teorias econômicas."
Mário Vargas Llosa
Folha de São Paulo. 12 fev, 1995
é um expoente da pequena ala de intelectuais
do Itamaraty que não se deixaram contaminar pelas ideologias
coletivistas... Como liberal engajado,
sempre sofreàs
discriminação por parte da mesquinha igrejinha no Butanta
da Rua Larga... Meira Penna se entrega à tarefa crespa,
porém urgente, de desmitificar mitos..."
"Meira

Penna

R o b e r t o C ampos
O Estado de São Paulo e O Globo. 26 jul, 1992
"O ilustre Embaixador J. O. de Meira Penna, no seu livro
Quando Mudam as Capitais, publicado dois anos antes da
inauguração de Brasília..., revelou, em bases realistas,
a motivação da ciclópica tarefa. Na sua definição das
razões de mudança, não se esqueceu mesmo de acrescentar
dois aspectos que sempre considerei de relevância: a
necessidade que o país tinha de sentir as suas fronteiras,
e a integração nacional."
JUSCELINO

K u BITSCHEK

Por que Construí Brasília

o

ex-embaixador do Brasil na

Nigéria, na Noruega, em Israel e na
Polônia, José Osvaldo de Meira
Penna, escreveu o melhor livro de
psicologia social brasileira (Psicologia

do Subdesenvolvimento) e a melhor
defesa da economia liberal que
existe

em

português

(Opção

Preferencial pela Riqueza), além de
uma notável análise da nossa
burocracia estatal (O Dinossauro),
de um esplêndido

painel

Ideologias do Século XX

das
e de

muitos outros livros que não ficam
abaixo desses. Com essa folha de
realizações, sacramentada pelos
elogios enfáticos de Mário Vargas
Llosa e Roberto Campos, ele
obteve

uina

dupla

c

honrosa

consagração: ser excluído da dieta
intelectual do nosso establishinent
acadêmico e solenemente ignorado
pela nossa imprensa “cultural”,
malgrado o fato de ser também
jornalista,

com

uma

vibrante

coluna quinzenal no J o r n a l da
Tarde de São Paulo. Quando digo
que

o

panorama

intelectual

brasileiro tem algo de anormal, de
aberrante, é a esse tipo de coisas que
me refiro: ct nosso embaixador está
completando oitenta anos de idade,
e há pelo menos cinqüenta vê seus
adversários se refugiarem por trás
de um silêncio covarde, fingindo
desprezo por aquele que temem.

Repito: isso é coisa de país doente,
de

país

maluco. A noção

de

“intelectual” , de “pensador” que
estamos transmitindo às jovens
gerações, é a de um sujeito que tem
como obrigação primeira repetir o
discurso político da moda, e como
obrigação segunda ser um “bom
sujeito”, que desfila em escolas de
saniba e fala pelos cotovelos sobre
sua vida sexual. Nesta definição,
Meira Penna não cabe. O que ele
tem a oferecer, decididamente, não
é “cultural”, no sentido brasileiro
do termo. Seu legado, que neste
livro

encontra

sua

mais

alta

expressão, constitui-se de erudição,
lógica, sinceridade e boa-fé. E
quem precisa disso, num ambiente
onde imperam o populisnio mais
demagógico e a ojeriza pedante a
toda argumentação razoável, sus­
tentando, juntos, o trono inabalável
de uma opção preferencial pelo
absurdo? Quem mais precisa disso
— respondo — são aqueles mesmos
que, diante da superior inteligência
de quem lhes desagrada pelo teor
de

suas

convicções

políticas,

empinam os narizinhos e viram a
cara, para não se exporem ao risco
de descobrir que há mais coisas
entre o céu e a terra do que imagina
a sua vã ideologia.
O lavo d e C a rva lh o

J. O .

de

M e ir a P en n a

OBRAS DO AUTOR
Shangai — Aspectos Históricos da China Moderna. Rio,
Americ-Edit, 1944.
O Sonho de Sarumoto — o Romance da História Japonesa.
Rio, Borsoi, 1948.
Quando Mudam as Capitais. Rio, IBGE, 1958.
Politica Externa, Segurança e Desenvolvimento. Rio, Agir,
1967.
Psicologia do Subdesenvolvimento. Prefácio de Roberto
Campos. Rio, APEC, 1972 (duas edições).
Em Berço Esplêndido — Ensaios de Psicologia Coletiva Brasi­
leira. Rio, José Olympio/INL, 1974.
Elogio do Burro. Rio, Agir, 1980.
O Brasil na Idade da Razão. São Paulo, Forense
Univ./INL, 1980.
O Evangelho segundo Marx. São Paulo, Convívio, 1982.
A Utopia Brasileira. Belo Horizonte, Itatiaia, 1988.
O Dinossauro — Uma Pesquisa sobre o Estado, o Patrimonialismo Selvagem e a Nova Classe de Burocratas e Intelec­
tuais. São Paulo, T. A. Queiroz, 1988.
Opção Preferencial pela Riqueza. Rio, Instituto Liberal,
1991.
Decência já . Rio, Instituto Liberal e Editora Nórdica,
1992.
A Ideologia do Século XX. 2a edição, Rio, Instituto Liberal
c Editora Nórdica, 1994.

José Osvaldo de M e ir a P e n n a

O Espírito das Revoluções
D a R e v o l u ç ã o G l o r io s a à R e v o l u ç ã o L ib e r a l

P refácio de ANTÔNIO PALM

F a c u l d a d e d a C id a d e E d i t o r a

1997

P459e
Penna, José Osvaldo de Meira, 1917
O espírito das revoluções: da revolução gloriosa a
revolução liberal / José Osvaldo Penna; prefácio de Antonio
Paim. * Rio de Janeiro: Faculdade da Cidade Ed., 1997
583p.
Inclui bibliografia
1. Revoluções - História. I. Título.
CDD 321.09
CDU 323.27

97-0713

E

D

I

T

O

R

A

Rua do Equador 716 - RJ - Tel.: (021) 253-8412 Fax: (021) 263-7147

O E spír it o

das

7

R evo luçõ es

Í n d ic e

A p r e s e n t a ç a o ( A n t ó n i o P a im )

11

I N T R Ó I T O : P O R U M O R Á C U L O B ÍB L IC O

19

PARTE

I

__________ ______ 2 9

1. R E V O L U Ç Ã O — D E F IN IÇ Õ E S E T E O R IA S
31
2. P A T R IA R C A L IS M O E A B S O L U T IS M O
60
Prelúdio histórico. O Absolutismo
65
3. H E G E L E A D IA L É T IC A D O S E N H O R E D O
ESC RA V O
82
4 . O B R E A K D O W N R E V O L U C IO N Á R IO N O
H IS T O R IC IS M O D E S P E N G L E R E T O Y N B E E
110
5. R E V O L U Ç Ã O — O C A P ÍT U L O Q U E W E B E R N Ã O
ESC REV EU
131
6. A N A T O M IA D A R E V O L U Ç Ã O : E L L U L ,
M O N N E R O T , B R IN T O N , M O O R E , A R O N ,
JO U V E N E L , L IP S E T
138
7. H A N N A H A R E N D T , SO BR E A R E V O L U Ç Ã O
159
8. F IL O S O F IA D A R E V O L U Ç Ã O M U N D IA L
178
M arx
180
Lênine
186
Trotsky
187
M ao D zedong
189
Lukács
193
Fanon e o AnticoUmialismo
195
A Revolução na Revolução — G uevara e D ebm y
197
A utopia concreta neom arxista — Block
200

8

J. O. »E M e ir a P en n a

Antonio Gramsci
A Escola de Frankfurt
Hiroshima, mon Amour

204
207
210

PARTE II________________________________________________2 1 7
9. D E L O C K E A T O C Q U E V IL L E
A Prim eira Revolução Liberal
Locke, A dam Smith e M adison
Alexis de Tocqueville
Racionalismo, Tradicionalismo e Romantismo
10. A O B SE SSÃ O IG U A L IT Á R IA
Conceito de Isonomia
O Democratismo e o R etom o do Absolutismo
O Contrato Social. Rousseau e os Iguais
B abeu f
Trabalho, Ocio, Desemprego, Privilégio
Igualdade de oportunidades na A m érica
D iferenças e Desigualdades perante o Liberalism o
Igualdade e Hom ogeneidade étnica
Inteligência desigual — A Bell Curve
11. U T IL IT A R IS M O , P R A G M A T IS M O E
L IB E R A L IS M O
12. A S E G U N D A R E V O L U Ç Ã O G L O R IO S A
Friedrich H ayek
f

219
221
227
243
252
260
260
266
273
278
289
297
303
310
319
344
378
391

A Segunda Revolução Gloriosa: Precedência inglesa
398
Liberais, Conservadores e Libertários n a A m érica
418
13. O N E O L IB E R A L IS M O N A E U R O P A E N O
MUNDO
438
N a A m érica L atin a
457
1 4. O L IB E R A L IS M O N O B R A S IL E S U A S T R Ê S
V E R T E N T E S - D O IM P É R IO À N O V A R E P Ú B L IC A 4 7 2
15. C O N C LU SÕ ES

535

O E spírito

das

B IB L IO G R A F IA

R ev o l u ç õ e s

9

551

Autores estrangeiros
Autores brasileiros e portugueses

551
562

ÍN D IC E O N O M Á ST IC O

567

fixados com clareza os grandes ciclos (fundação e consolidação. de M eir a P enna APRESENTAÇÃO An tô n io P aim novo livro do embaixador M eira Penna aprofunda os vínculos que temos procurado estabelecer com os principais centros onde ocorre a evolução e a experimentação do liberalismo. O processo de sua reconstituição começa mais ou menos nos anos sessenta. que vai de Gladstone/Tocqueville aos anos O . desde Locke aos meados do século passado. variando apenas os níveis de tolerância da oposição. esmagados pela ascensão do positi­ vismo. notadamente através de Silvestre Pinheiro Ferreira (1769/1846). por pensadores isolados na Universidade. os governos militares tratavam de convencer a todos que o sistema liberal estava falido (os militares e os positivistas bateram insistentemente nessa tecla desde a República). sistema cooptativo que era o vigente nos regimes autoritários e totalitá­ rios. de aproximadamente um século. conseguimos mudar substancialmente esse quadro. processo de democratização da idéia liberal. até Rui Barbosa (1849/1923). Ajudados naturalmente pela conjuntura mundial. participamos ativamente do debate dos grandes temas que empolgaram o liberalismo ao longo daquele período. O . os liberais adotaram uma espécie de pauta mínima (manter as institui­ ções do sistema representativo) e perderam sucessivamente os vínculos com os centros do pensamento liberal. contudo. Nessa época.10 J. Desde a década de vinte. Desde o nosso contato inicial com esse ideário. A quem se interessar pelo assunto é acessível boje bibliografia relativamente ordenada. cabendo-nos constituir o que denominavam sistema consensual. Na verdade.

ao qual tem dado inestimáveis contribuições. É um processo de 1 A esse propósito registro aqui a feliz observarão de Meira Pcnna. ao contestar » tese tte autor americano (Barrington Moore) segundo a qual o fascismo dc Muvsohm seria rcacio* nário e viria “do alto". do qual não saímos embora se haja conseguido estabelecer que deve ser encarada nos marcos do capitalismo. trata-se. que. desde que a alternativa socialista não vingou). além disso. por­ quanto o enraizamento do liberalismo na nossa cultura pressupõe que fixemos a nossa própria Agenda Teórica. num primeiro momento. Essa visão ampla está sustentada numa avaliação do percurso histórico da época moderna. K convém. Assim. talvez se tenha esgotado neste século.1 O mito da revolução corresponde ao arquétipo dinâmico da transformação violenta. Assim. sobretudo. feição política. Supera­ mos também a fase em que a obra de Rousseau e seguidores guardava vínculos com a proposta liberal. de evidenciar como surge e st expressa o novo mito. do tipo dc um Joseph de Maistre e dc um Dc Bonald" (Cap. sobretudo.O EsríRiTO das R ev o lu çõ es 11 vinte. 6 — Autópsia d» reiviufã o — Kllul. sendo enriquecida pelos fatos. Meira Penna quer. Pro­ cede também de um fundo psicológico obscuro. por pensadores “reacionários" que talavam em nome dc um romantismo medwvalista. num certo sentido ou numa certa linha. Brinton e Barrinuton Moore). O método é esgotar cada um dos aspectos considerados para sobrepor-lhe o subseqüente. repassar a história do liberalismo e explicitar o que lhe parece seriam os seus verdadeiros contornos. lembrar que essa retórica antiburguesa c antieapitaíista foi inaugurada. A síntese está na parte fin al quando enfatiza a prevalência das componentes culturais. que adiante transcrevo: "A retórica annburguesa e ami-ànglosaxônica era tão intensa no fascismo como e hoje entre as esquerdas. ainda que acoimando-a de radical. Como se verá. . neste O Espírito das Revolu­ ções. Mas tem. Atento a esse segundo aspecto. Cranc. O ca­ minho percorrido não nos autoriza dar por cumprido o nosso compromisso. em meio ao conturbado processo que a hu­ manidade ocidental viveu nos três últimos séculos. Toma como ponto de partida a idéia central de Revolução. a exposição não é meramente teórica. justamente quando atingiu verdadeiro paroxismo através das expressões totalitárias nazista e stalinista. a verdadeira revolução só se configura como tal na medida em que responde a alterações subs­ tanciais na base moral da sociedade. No fundo. no século XIX preci­ samente. Hoje estão fixadas com clareza as grandes diferenças entre o liberalismo e o democratismo. este conceito é tomado com amplitude pouco habitual. gestando-se em seu seio o novo ciclo dominado pela questão social. ambas originárias do mesmo tronco revolucionário e de idêntica feição socialista.

De sorte que. Em consonância com semelhante propósito estão estudados os momentos mais destacados do aludido processo exemplarmente ilustrados por autores como Hegel. De certa form a pode dizer-se que. . simbolizado pela Revolução Gloriosa de 1688. Spengler e Toynbee. inquestionavelmente uma aspiração da cultura judaicacristã (perante Deus todos são iguais) degenera no igualitarismo que. Com o cristianismo aparece o dualismo Igreja/Estado. Nosso autor quer compreender e. estabelecerá uma espécie de simbiose com o filho bastardo da democracia: o democratismo. na presente obra de M eira Penna. nesse aja. os primórdios do ciclo que ora se esgota. facultando even­ tualmente a dessacralização do segundo e a emergência da democracia. A luta pela igualdade. esclarecida pela profundidade do antagonismo entre liberdade e igualdade. No entendimento de M eira Penna a questão tem igualmente outra dimensão de fundo psicológico: a revolta contra o Pai. por sua vez.12 J. Analisa também os estudos que merece­ ram o fènómeno revolucionário. busca reencontrar as raízes daquela condenação ao Estado. com a Revolução Protestante. O. não se trata de uma análise fria e impessoal. situando Meira Penna. Como verá o leitor. a Revolução não se cir­ cunscreve à época Moderna e. d e M e i r a P e n n a l&rfia gestação e desenvolvimento no seio da comunidade cristã. A partir do capítulo oitavo o interesse cifra-se na última dimen­ são. com sua ascendência neste século indo desembocar na Escola de Frankjurt. nesta. onde o analista distante quer sobretudo julgar. produziu páginas magníficas como as que escreveu a propósito da dialética do Senhor e do Escravo em Hegel. a religiosidade. A Revolução pode dar-se igualmente para restaurar uma ordem antiga e não simplesmente para impor uma nova ordem. no século XVI. vale dizer. tomada a questão no plano do pensamento (sabendo todos nós que as idéias. expressa na mensagem de Cristo. notadamente aqueles devidos a Hannah Arendt. entre outros. um ato de fé. dando-se igualmente o aparecimento do liberalismo. não se atém a emergência da vertente que desemboca nos totalitarismos do século XX. Adota a tese de Otávio Paz segundo a qual seria parte de fenô­ meno mais amplo. mesmo as voltadas para a ação e a transformação acabam por acomodar-se a circunstâncias existenciais insuperáveis). a origem do movimento moderno. ocorrida na Inglaterra. Esta será a oportunidade de que se vale M eira Penna para exa­ m inar mais detidamente o conteúdo da mensagem de cunho marxista.

Embora aceite a premissa da Revolução Americana segundo a qual seria uma quimera “supor que qualquer form a de governo possa assegurar a liber­ dade ou a felicidade do povo. circunstância que deve ter aproveitado para debruçar-se seriamente sobre o tema. A partir dos meados do século passado. segundo M eira Penna. as construções teoréticas de natureza ideológica que tão funestos resultados tiveram em nosso século”. Sem aderir aos postulados filosóficos dessa escola. segundo M eira Penna.O E s p ír it o d as R ev o lu çõ es 13 A Revolução Gloriosa deu origem à primeira expressão do liberalismo Se este não logrou nos três séculos seguintes uma vitória plena e inconteste. o papel dos liberais é complementar a horizontalidade da dimensão ideológica com a verticalidade da coordenada ética. . principalmente concorre para combater. E deveras interessante a maneira original como focaliza o pragmatismo. nos países católicos. “ajuda-nos com uma certa dose de ceticismo diante de todo argumento dogmático e. capitalista e democrática. vigorou “movimento de opi­ nião no sentido de um retomo ao coletivismo. talvez cm decorrência do fato de que haja servido como diplomata naquela parte do mun­ do. sem a existência de qualquer virtude nesse pow v. nosso autor parece acreditar na vitória universal do sistema representativo e do capitalismo. Por isto mesmo. na Alemanha. tendências que. o autor reconhece que ao chamar a atenção para o caráter subjetivo de toda investigação cienti­ fica ou filosófica. graças ao bom senso. liberal. E certo que M eira Penna distingue-se do comum dos intelectuais ocidentais pelo profundo conhecimento que tem da cultura oriental. Parece-lhe ter sido a visão pragmática das coisas que vacinou os anglo-saxões contra as ideologias coletivistas que tanto sucesso alcan­ çaram alhures. econô­ mica e cultural”. foram rejbrçadas pelo luteranismo e. A crise pela qual passou o liberalismo tem raízes profundas. como é de seu feitio. Essas tendências coletivistas o Ocidente as “herdou da Igreja católica medieval. invocado nos lemas de Igualdade e Fraternidade”. A vitória do sistema capitalista resulta. permitindo-lhes justamente tomar-se o baluarte em defesa da sociedade aberta. pela truculência inquisitorial da Contra-Reforma0. elaborou um corpo doutrinário altamente consistente que permitiu à sociedade ocuiental sobrepor-se e finalmente derrotar o socialismo. Do que precede conclui M eira Penna que “a política é o terreno preferido da tentação satânica”. do “pragmatismo de sua ação política.

Além de que as escolhas radicais têm sempre uma componente irracional. parece-me. não consegue escapar do parentesco). posto que o fizeram em condições extrema­ mente desfavoráveis. mesmo os analistas políticos americanos que recusavam qual­ quer consideração relativa à cultura política — por considerá-la de difícil mensuração reconhecem hoje que são escassas as possibilidades de existência de democracia e economia de mercado nos países islâmicos ou na Africa Negra. Não terá sido decisiva a presença do vetor supranacional? Se for assim. ao desenvol­ ver a responsabilidade pessoal. Uma palavra fin al sobre a escolha de uma ou outra das vertentes do libera­ lismo. no que naturalmente devemos nos empenhar de todos os modos) ou apostar no su­ cesso do surto de expansão das igrejas evangélicas. muito provavelmente. caberia ainda decidir se o mais importante seria recuperar­ mos o ensino fundamental (concebendo-o como educação para a cidadania. não creio que deveríamos nos preocupar em proclamar juízos finais. Se a alter­ nativa tiver que cifrar-se nos marcos internos (não estou dizendo que devemos perdê-los de vista). A experiência internacional sugere que o protestantismo. acho que devemos desconfiar da virulência com que os nossos meios de comunicação atacam esse fenómeno. A par disto. De sorte que. cria invariavelmente condições mais adequadas ao funcionamento do sistema representativo e do próprio capitalismo. O . Teríamos que averiguar que cir­ cunstâncias favoreceram a transição para aquele sistema da Itália e da Espa­ nha. isto é. todas as pessoas que sustentaram a bandeira do liberalismo neste século deveri­ am merecer a nossa compreensão. levando em conta que desde o início os partidários do sistema representativo dividiram-se em conserva­ dores e liberais. esta última até hoje ajògada em conflitos tribais de f erocidade inimaginável e aque­ les sonhando com teocracia capaz de impor pela força o que considera seria a pureza dos costumes. Se o fizermos. conceber o Mercosul e sua expansão como etapa prévia a junção com a Nafta. ganharíamos ao circunscrever a discussão aos limites da cultura ocidental. de M e ir a P en n a Sem embargo. a própria doutrina há de exigir a consideração dos aspectos que uma ou outra das vertentes enfatiza talvez em demasia. veremos que o capita­ lismo e o sistema representativo aparecem como invenção dos países protestantes (a França não chega a consistir exceção porquanto esteve a beira de aderir ao protestantismo e mesmo o que. o jansenismo. O certo é que todos . Afinal. A propósito. na área católica produziu de inovador. a estratégia liberal deveria consistir em levar o Brasil a empenhar-se decidida­ mente na constituição do Mercado Comum das Américas.14 J.

curiosidade intelec­ tual. certamente recomenda-se como exemplo a ser seguido por nossa juventude. De minha parte. entendo que nossas energias deveriam concentrar-se no encontro daquela Agenda Teórica que nos permita. que.O E sp ír it o das Revo luçõ es 15 estão no mesmo barco1. . “a noção de uma economia planificada pela autoridade governamental parecia consen­ sual ao invés de ideológica”. abril de 1996. Irving Kristol opina. Por sua combatividade. No próximo ano M eira Penna completa oitenta anos que espera saibamos festejar com a magnitude devida. sucessivas crises. ao contrário. cujo nome está associado não só ao encontro de uma saída para a Grande Depressão de 29 como ter conseguido que na Segunda Guerra não se impuzessem reparações aos vencidos (ajudando-os. capacidade de cultivar a amizade e extraordinária devoção ao seu país. São Paulo. exorcizando de vez as guerras na Europa Ocidental. 2 Objetivamente não vejo que vantagem poderia advir para os liberais brasileiros cm rene­ garmos uma personalidade como Keynes. na melhor tradição do liberalismo brasileiro do século passado. diante da devastação provocada pela crisc dc 29. Em seu último livro. a recuperar-se). desde o século passado. No esquema da Escola Austríaca é como se o capitalismo não tivesse experimentado. discutir os aspectos essenciais da doutrina a que aderimos à luz de nossas circunstâncias. A n t ô n io P a im .

.

os povos da raça latina.. sobre cuja cabeça ainda se não ergueu o ver­ dadeiro sol da liberdade. a anarquia ao despo­ tismo.O Espírito das Revoluções O Estado é a grande ficção através da qual Todo Mundo se esforça por viver às custas de Todo Mun­ do. Eterno círculo vi­ cioso a que parecem condenados.. T avares B astos . F r é d é r ic B astiat A revolução leva à anarquia. e o despotismo à revolução...

. Gravura de William Blake ( do Livro deJ ó ). de M eir a P en n a Behemot e Leviathan. O .18 J.

dragão. “gentio” ou “não judeu”. uma coletivi­ dade. com sete diademas na cabeça (Apo. representam forças obscuras e primordi­ ais do Inconsciente Coletivo que estariam sob o domínio do Senhor Deus. no Livro de Jó (40:15). O termo jjoy ( pl. Um hipopótamo talvez. baleia ou serpente marinha. A . mas nos Salmos 74:14 e 104:26. Os dois dinos­ sauros obviamente possuem raízes mitológicas pré-israelitas. identificando-se às forças anárquicas que. é citado não só em Jó (41:1). de uma tropa. que é morto por Baal na lenda canaanita e reaparece no Apocalipse como Satanás. ou do dragão de sete cabeças. o Iahvé Onipotente. Behemoth é um animal da terra.INTRÓITO: POR UM ORÁCULO BÍBLICO s figuras de Behemoth e Leviathan no Velho Testamento. Thiamat. 12:3). o Verbo ou Ijigos como é designada no intróito do quarto Evangelho. Criador do Universo. no Gênese. que o poeta místico e pintor inglês William Blake associou na gravura que apresentamos na página anterior. Essas etimologias sugerem que são entidades expressivas do caos. com o sentido de rebanho. Espécie de crocodilo. O termo é formado pelo plural da palavra animal ou gado. Lotan. imperou para ordenar o Universo (em grego Kosmos Ordem). O termo é plural e portanto sinônimo de bestas ou rebanho de animais. De qualquer forma é um monstro — uma única vez mencionado na Bíblia. ocasional­ mente utilizado pelos judeus para designar os cristãos. Mais conhecido é Leviathan. uma multidão. ou um elefante. Behemoth teria origem semelhante na mitologia ca­ naanita. são designadas como o tobu-bohu das sombrias águas primordiais sobre as quais a Luz do Espírito de Deus. Leviathan provavelmente procede da lenda babilónica do dragão primordial. assim como em Isaías 27:1. goyim ). ou seja. possui o sentido primitivo de “gado”.

Deus sabe que. d e M e ira P en n a A supressão de Behemoth e Leviathan representa o próprio ato lumi­ noso de criação. na sociedade. e isso ocorre em Isaías. no dia em que dele . insistiu: “. posteriormente elaborado como doutrina pela teologia judaica e cristã. ao norte da Síria. quando o Povo de Deus se liberta do Império faraônico totalitário para. Dian­ te das hesitações de Eva. e matará a baleia que está no mar”. No Salmo 74.. As feras selvagens que devoram o mons­ tro sugerem uma multidão inebriada pela revolta. O que dizem os versículos 3 a 7 deste primeiro Livro da Bíblia? A serpente. matá-los. ou no In­ consciente Coletivo humano. É no capítulo 3 de Genesis (cm hebraico Bereshith) que figura. que “era o mais astuto de todos os animais dos campos que Iahvé tinha feito”. principiando com este volume? Volvemos um pouco atrás no re­ lato vétero-testamentário. armado com sua espada dura. impedir a passagem do Mar Vermelho pelos hebreus em êxodo. visitará Leviathan. que contem uma lamentação após o saque do Templo de Jerusalém pelo monarca grego Antíocos Epifanes. Atentemos com prudência e de­ tenhamo-nos sobre este trecho central de toda a filosofia ética sobre a qual se assenta nossa civilização. descoberto em Ras-Shamra. inutilmente. o mito da Queda e do Pecado Original. na solidão e sofrimento do deserto. grande e forte. São potencialidades sempre presentes na natureza. O . Dragão e Hipopótamo sobrevivem. de fato. onde restos da antiqiiíssima cidade de Ugarit foram escavados. A punição insinua a lembrança da sorte do faraó egípcio que tentou. filosofia da história e ética que me atrevo a empre­ ender. no entanto. essa serpente robusta. aconselhou a mulher a comer do fruto proibido. O Senhor promete puni-los. O valor simbólico desse episódio é do arquétipo da rebelião. procurar realizar livremente seu destino. “Naquele dia Adonai. Vamos ao capítulo 3 de Genesis em que a ser­ pente de Iahvé figura pela primeira vez. Mas qual seria o sentido desses mitos arcaicos na série de ensaios sobre filosofia política. particularmente em Santo Agosti­ nho. o TodoPoderoso Elohim-Sabaoth é novamente invocado para punir o dragão: “Esmagarás a cabeça do Leviathan”..20 J.500 anos. essa serpente tortuosa. Sabe-se que o texto c influ­ enciado por um poema velho de 3.

o momento de procurar analisar seu significado arquetípico. na tradição dita Elohista.. começou a se tornar tabu e não ser pronunciado. católicas e protestantes. tercei­ ro e segundo século antes de Cristo. o considera um simples símbolo fálico. transformando o mito da Queda e Pecado Original numa imagem infantil da descoberta do segredo do sexo.. Parccc-mc evidente que. no capítulo 1 de Genesis. encontramos os versículos 25 e 26. o famoso tetragrammaton.. em que é descrita a Criação. versados no Bem e no Mal”3. que personagem a serpente representa? De que símbolo se trata? Não é aqui.. da tradição dita Jahwista. como se companheiros fossem do próprio Deus Único. Ora. e todos os répteis do solo segundo sua espécie”. os animais domésticos. Donde concluo que a tradução correta das palavras da serpente em Gênesis 3 :5 é “sereis como Deus. o mistério luciferiano da serpente sapientíssima começa quando a interpretação cristã. na Bíblia hebraica.. Essa ambiguidade da tradução e repetida no versículo 22 desse mesmo capítulo 3 onde e n co n tram os a seguinte frase atribuída ao Senhor Deus: “. certamente. o nome mais sagrado e secreto de Deus. Ora. as quatro consoantes YHWH da palavra hebraica Yahweh. em ocasiões solenes. versados no Bem e no Mal”. Supõe-se que Deus o use para designar-se a si próprio pelos mesmos motivos pelos quais os monarcas ainda hoje usam o nós. mas com a única exceção de uma Bíblia traduzida para o português e publicada em Lisboa cm 1917. nem simplesmente pelo método freudiano que. a palavra Elohim é um plural. o termo mais usado para Deus é Elohim. que. inclusive a mais recente.. Basta lembrar que. assim como o termo Adonai.. associado ao nome Sabaoth.. já seguindo a hermenêutica judaica. Elohim. que enriquece o sím­ bolo com todas as suas inúmeras conotações mitológicas. nem tampouco pelo método junguiano. traduzida para o grego na Scptuttginta. a partir do Exílio em Babilônia. vossos olhos se abrirão e sereis como Deus. substituem normalmente. . Ora. e nós memos ocasionalmente na palavra escrita. a redação e “sereis como deuses” — “deuses” no plural em vez de “Deus”. identi­ 3 Cabe aqui salientar que. se o homem já é como um de nós versado no Bem c no Mal". incoerente c até mesmo sacrílego qualquer referência a “deuses". seria anacrônico. a 2* pessoa do plural.O E s pír it o das R ev o lu çõ es 21 comerdes. Em todas as Bíbliàs que possuo. se a serpente é uma criação de Deus da qual Ele se conside­ rou satisfeito. Senhor. numa religião tão ferozmente mono teísta. Importantes consequências filosóficas podem ser deduzidas dessa sentença. redutivamente. Adonai Elohim Sabaodi não pode equiparar-se aos “deuses" pagãos cujo culto o Judaísmo se dedicou com afinco a destruir. a Bíblia de Jerusalém elaborada pelo Instituto Bíblico Pontifício de Jerusalém. O versículo 26 termina com a observação final: “e Deus viu que isso era bom”. os quais nos informam que “Deus fez as feras.

associada à figura de Satã. na evolução do Mito. seduziu para a desobediência e a rebelião nossos primeiros Pais. Convenha­ mos de qualquer forma e sem nos querer envolver. mas sustentada apenas nas palavras que Cristo pronuncia (em Lucas 10:18) relativas a haver visto “Satã caindo do céu como um relâmpago” — a figura demoníaca que. DE MEIRA PENNA fica o réptil com uma força maligna. como Fazedor de Luz. transforma-se ulteriormente. “enviado do Senhor” ou ins­ trumento dos testes a que Iahvé-Elohim pretende. em grego Phosphoros. O. Satã que. é também um símbolo de Lúcifer. o que quer dizer. E se é verdade que a primeira manifestação dessa consciência — no mito bíblico que. aquele. de tempos em tempos. que é Lúcifer. em arcanjo rebelde. Compreendemos facilmente o empe­ nho de Eva e. submeter sua Criação. o réptil passa a ter o rabo escondido sob a capa da hipocrisia. ou seja.. Nas figuras várias do demônio. Podemos desde logo apontar o fato que. implica uma autenticidade . na tradição ocidental posterior. é um simples mensageiro. desde logo. uma consciência livre que significa o conhecimento do Bem e do Mal (Genesis 3:7). em episódio momentoso. de fonte agostiniana. passou a representar na teologia cristã — sem qualquer base escriturai. que concede a Adão e Eva. a consciência do Pecado. facultando assim ao puritanismo católico. “aquela serpente tortuosa” de contornos medonhos. Lúcifer. em seguida. não nos esqueçamos. aquele que “abre os olhos”. particularmente na de Mefistófeles. o mesmo do versículo 3 do capítulo primeiro: “Deus disse: Haja luz e houve luz”. a princípio. em deba­ tes hermenêuticos. Dissemos que em Jó e Isaías a serpente recebe o nome de Leviathan. travestida em ser­ pente. que seduziu Eva e Adão. Todos nós. Todos nós preferimos antes ter nossos olhos abertos para a luz do que caminharmos como cegos. e ao esprit m al toum é de Freud a idéia que se trata do despertar da concupiscência ou libido sexual — a interpretação mais profunda nos leva para o terreno da autenticidade da existência que igualmente comporta morte e reprodução. desejamos adquirir discernimento. é semítico e não grego — consiste em Adão e Eva se darem conta que estavam nus. isto é. necessariamente. na verdade. precisamente.. o de Adão de comerem uma fruta que lhes garantia a possibilidade de suas mentes se abrirem para o conhecimento da realidade terrena que. o “Fazedor da Luz”. inconscientes.22 J.

uma rebelião. No contexto deste nosso primeiro volume de ensaios em que cobri­ remos os aspectos políticos da Liberdade. Simone Weil. inconsciente. E o pri­ meiro teste a que à criatura submete o Deus justiceiro. em virtude da qual o homem se pretende elevar à onipotência e onisciência divinas. Está aí colocado o problema central da ética. Ela nos torna potencialmente semelhantes a Deus. a consciência. toda moral. um ser enfermo e egoísta. assim introduzindo um elemento estocástico ou um quantum de indeterminação que revoluciona a própria estrutura mais íntima do Universo. com a missão de proporcionar àquele que à Sua própria imagem fora criado a liberdade suprema de escolha entre o Bem e o Mal.. O alto preço cruel da responsabilidade moral é a onerosa condição mortal que Iahvé-Elohim impõe à liberdade da criatura. para quem . em primeiro lugar. o animal político de Aristóteles que coexiste com seus semelhantes e é capaz de amá-los e se reproduzir. como constatava Nietzsche. Ou a intuição proftmda dessa estranha pensadora francesa.O E spírtto das R ev o lu çõ es 23 existencial e a discriminação lógica do Bem e do Mal. um “Ser-para-a-morte'\ como o define Heidegger. versados no Bem e no Mal”. O drama político entre o individual e o cole­ tivo lembra o apotegma iraniano: A Sombra de Deus é o Homem. A luz da liberdade é isso mes­ mo. uma ruptura traumática com nossa Inconsciência primordial no ventre materno — um protesto. a inteligência. A serpente lhes prometera: “Vossos olhos se abrirão e sereis como Deus. os homens. é. uma revolu­ ção contra uma autoridade suprema que. o conhecimento. Mas ela possui um preço. em benefício de uma nova vivência de liberdade consciente cujo fim ou propósito não é perceptível. zoon pohtikon. primordialmente. Toda ética. um indivíduo solitário. sob a forma de um astucioso e sábio réptil. a sombra do Homem. toda consciência profunda discriminatória implica. Lúcifer de fato proporciona ao homem o principal dom de sua espécie.. socialista e depois mística quase cristã. Certo: é o próprio Adonai-Elohim. nos prefere conservar submissos. nessa Inconsciência. em seguida. um ser social. E a reação positiva implica uma rebelião contra a ordem constituída de obediência cega. O homem é. a razão. salientemos a ambivalência dos símbolos. o próprio Deus que envia uma de suas criaturas. Isso quer dizer que. uma desobediência. a figura ofídica luciferiana.

cresce e se transmuda no Leviathan. é a presença de Behemoth e Leviathan ao final do Lm v de Jó . foi o mito ilustrado. justamente. no sentido de preve­ nir o summurn malum que é a anarquia. “Deus mortal” que. de M eira P enna “o reino do social pertence ao demônio. Não esqueçamos. aliás. Deus está contestando as dúvidas e objeções hetero­ doxas do pobre velho sofredor. O livro é apócrifo. por Thomas Hobbes que. maliciosamente. nem da cristã. Mas vejamos a evolução da idéia a partir da Bíblia hebraica. no entanto. Ao fazê-lo.. totalitário. que o Enoque mencionado em 4:17 é filho de Caim e o cons­ trutor da primeira cidade — conseqüentemente o primeiro homem civili­ zado. Leviathan re­ presenta uma força perversa.. carcerário e genocida. o utilizou como título de sua obra principal. porém imprescindível. por sua referência constante ao Filho do Homem. sob o peso da osten­ tação cruel de Sua onipotência que compreende. no século XVII. ausente no Velho Testamento. Os dois monstros reaparecem no Livro de Enoque. a capacidade de submeter tanto Behemoth. neste século. esses textos. contudo. que é uma coleção de textos datados provavelmente do último século antes de Cristo e atri­ buídos ao patriarca citado em Gênese 5:18 e 22:24. aí. esmagando-o. a “guerra de todos contra todos” (bellum omtiium contra omnes) e a morte violenta. Por intermédio de Hobbes. uma no­ ção que. Eles são mencionados no discurso de Iahvé-Elohim que. A essa altura. O. para designar o poder absoluto dos Reis que antecipava o moderno Esta­ do soberano. nem da he­ braica. envergonhando-o e humilhando-o ao final de seus inacreditáveis sofrimentos.”. Q importante. a noção dessa serpente tenebrosa transferiu-se. astuta como sempre. o primeiro homem vivendo numa sociedade política. O significado simbólico dos dois animais começa a se esclarecer sob esse novo prisma sócio-teológico. Não é canônico e não consta da Bíblia ortodoxa. ao responder ao desafio de Jó. mesmo súdito do Deus eterno e verda­ deiro — sobre o qual. exerceu indubitável influência . quanto Leviathan — coisa que Jó está muito distante de pretender. É aí que a serpente. proclama “do meio da tempestade” seu poder absoluto e incontrastável e domínio ambivalente sobre as forças do Bem e do Mal. Hobbes pouco se estende —. um dos mais dramáticos e filosoficamente profundos do Livro Sagrado.24 J. para o Estado burocrático. De suma importância se configuram.

É a promessa da divinização futura do homem livre e consciente o que emerge. Se onipotente e misericordioso é Deus. das intuições magníficas contidas nesses Livros eminentes de filosofia moral. um dos mais conhecidos comentaristas ame­ ricanos. em certo sentido. A atribuição do título de Filho do Homem a Enoque é relacio­ nada por Jung com a idéia de Justiça que Jó constantemente reivindica em seu áspero debate com o Eterno. João. de certo modo. Nem mesmo Platão. Dos autores de Jó e Enoque teria Cristo herdado a missão de justificar a Humanidade e salvá-la dos iníquos sofrimentos a que tói submetida pelo Pai Criador. consciente de que o próprio Deus Pai não somente não é “humano” mas. abordou a personalidade do que qualificou de “o primeiro dissidente”. Mas por que figuram as duas bestas que. sob outras formas. menos do que humano: é inconsciente.. subliminarmente. Jó. o personagem bíblico que mais tem intrigado os comentaristas.O E s p ír it o das R ev o luçõ es 25 sobre a expressão messiânica que usa Jesus nos Evangelhos. em seu torturante enfrentamento com Iahvé. de acordo com Jung. como se explica que tolere o Mal c aceite seja o Filho do Homem constantemente perseguido pelas forças de Leviathan e Behemoth? Como é passível tenha o Sabaoth aprovado a . as respostas evan­ gélicas. Refere-se Jung extensamente ao Livro de Enoque em seu ensaio Resposta a J ó — um dos mais polêmicos e relevantes da filosofia religiosa do psicólogo de Zurique. o “Filho do Homem” ter-se-ia tornado. William Safire. Jó é de fato o primeiro pensador na história a levan­ tar a questão política por excelência: a da conciliação entre a liberdade. Aristóteles e os trágicas gregas o fizeram com a clareza e o vigor dramático do autor anônimo dessa obra exemplar que eleva o problema a um nível teológico transcendental. reapare­ cem no Apocalipse de S. como o próprio Cristo. pois as questões que levantou. como condição exis­ tencial de sua presença na Cidade Terrena. o poder e a ética. passivelmente. Num livro de 1992.. O Iahvé-Sabaoth mais se assemelharia àquilo que Ele próprio atribui a Leviathan quando o acusa de contemplar com desprezo tudo que é elevado e ser o rei de todos os filhos da soberba (Jó 41:25). Ora. é paradigma dessa condição humana. constituem um desafio e determinam. exatamente em Jó? Jó é. Podemos assim conceber o esforço histórico do Liberalismo como o de Jonas tentando escapar do estômago de Levia­ than.

26 J. do Livro. final. Satã e o instrumento do Altíssimo para tal prova. a perplexidade. um teste. simul­ taneamente. o monstruoso Mal necessário da instituição política? Ao debater esses temas. justo e temente a Deus. Como quer que seja. personificado nos homens que detêm as instituições soberanas. ele e sua família. ou “não nos faça passar por um ordálio”..” Deixam uma dúvida que nos cabe solucionar. psicanalítica. inclusive. costumes. subseqüentemente. e da opressão tenebrosa que sofre por parte de Leviathan. Os autores dos Livros de Jó e Enoque são os primeiros filósofos que. A ambivalência. Ora. de toda revolução. nem era hebreu.. presumivelmente. ao “tentar” Hva c Adão. diríamos que Jó se pergunta como se livrar. . Uma tradução possível da “oração que o Senhor nos ensinou”. começam seus relatos. poderia ser então “não nos submeta a provas”.. colocam a questão primordial da Justiça — uma questão transcendental relativa à legitimidade do poder patriarcal arquetípico. poderoso. mas com a duplicidade da expressão “foi uma vez e não foi. DE ME í RA PENNA sugestão de Satã de tentar e. a partir da raiz N-S-H. abusos e preconceitos ortodoxos. Os contadores de estórias na ilha de Majorca. É ela que exprime aquela reação psicológica coletiva ao Mal do poder abso­ luto. nas Baleares.. um ordálio. “experimentar”). rico. a angústia e o incoercível sentimento de revolta contra o poder que se exerce perversa­ mente estão na raiz temática dos dois livros. de sua imersão no coletivo primordial selvagem e bestial de Behemoth. essas questões levanta­ das são exatamente as da filosofia existencial em seu núcleo essencial de liberdade. o Padre-Nosso. muito embora tenha sido um homem repleto de virtudes. do mesmo modo como a serpente o foi no jardim edênico. atormentar o mais fiel e virtuoso entre os homens de fé? Questão crucial! Pois é ela. o mistério. na própria expressão mais aguda da condição humana4. uma prova (em hebraico nisayon. que muitos dos exegetas bíblicos recusam-se a aceitar a conclusão do capítulo 42. E por esse motivo. sabemos hoje. reve­ lando uma atitude de franca rebeldia contra os dogmas. não com o usual “era uma vez. Em termos de interpretação moderna. evoca Safire os mistérios da própria persona­ lidade de Jó que.”. em que 4 Jó c submetido a uma cxpericncia. “tentar”. ao invés de “não nos deixeis cair em tentação”. Jó subverteu a ordem institucio­ nal da autoridade ao colocar questões indiscretas no esforço de compre­ ender a calamidade terrível que o atingiu. O. que está na raiz de todo movimento de revolta.

precisamente. Para um e para o outro. ad­ mite sua insignificância diante da majestade divina e. na idade da “morte de Deus”. O escravo rebelde afirma que há algo em si próprio que não aceita a maneira como é tratado por seu dono. Em ^4 Peste.. se possível. encontramos um julgamento de valor em nome do qual o revoltado recusa sua aprovação à condição que é a sua própria”. Camus compreendia. Em alguns de seus romances. procura melhor esclarecer sua visão da problemática da condição humana.. abordar esses difíceis problemas em obras subse­ qüentes em torno dos aspectos filosóficos. é então recompen­ sado com sete vezes tudo que havia perdido no ordálio. não se trata apenas de uma negação pura e sim­ ples. O escravo protesta contra a condição que lhe é forçada no interior de seu estado. o revoltado metafísico se declara frustrado pela criação. confessa im­ perdoável arrogância no atrevimento de suas perguntas indiscretas. Vamos. o revoltado meta­ físico contra a condição que lhe é dada como homem. Depois de constatar que o homem é a única criatura que se recusa a ser aquilo que ela é — uma criatura enferma como pensava Nietzsche — Camus assim define a Revolta Metafísica: ela “é o movimento pelo qual o homem se rebela contra sua condição e a toda a criação. no mais profundo sentido do termo. levanta admiravelmente a questão da justiça divina no debate entre o médico e o padre em torno da morte de uma criança ino­ cente. tomando-se no­ vamente o personagem mais rico e poderoso do mundo. psicológicos c bio­ . por exemplo. como parte integrante e prêmio terrível de sua liberdade. históricos. liberta o homem de seus fantasmas opressores e o eleva à consciência do Bem e do Mal. E a revolução metafísica o que. Ela é metafísica porque contesta os fins do homem e da criação. intuitivamente. Sua obra UHommc Révolté lhe mereceu com justiça o Prêmio Nobel. a tese destes meus ensaios: a revolução política a nada con­ duz. Jó morre aos 140 anos de idade! Em outras palavras. com efeito. Albert Camus parece haver sido o pensador que mais corajosamente tocou na ferida causada em nossa consciência moderna pelo sentimento de desamparo de Jó.. deixa-se corromper.O E s p ír it o das R ev o lu çõ es 27 Jó indigna e humilhantemente se submete ao Onipotente.. Camus talvez não seja muito claro quanto às conclusões a que filosoficamente deseja chegar. aquilo de que só hoje nos damos conta e que constitui. Nos dois casos.

A reconstrução de uma Nova Ordem mais esclare­ cida. com segurança e na justiça: eis o sentido exato do termo Revolução. se dará. na Justiça. contra uma ordem mais obscura­ mente inconsciente. necessariamente. na alma do homem livre. na esfera de ciência política. invocando Jó e Enoque. Reconhecemos que cabe ao Filho do Homem revoltar-se contra toda iniqüidade e libertar-se. maio de 1996 . DE MEIRA PENNA lógicos do sentimento luciferiano de rebeldia. que permita alcançar um novo patamar de justiça e liberdade. das forças tenebrosas do Leviathan e do Behemoth — do Au­ tocrata e das Massas anárquicas contra as quais combate desde a origem da história. após a consolidação de instituições que ao homem responsável facultem um nível mais amplo de liberdade. Contanto que. Brasília. Toda mudança comporta uma violência contra a Ordem antiga. Mas podemos aqui concluir o oráculo que introduz o argumento. O.28 J. na liberdade conquistada. tenha consciência de sua responsabilidade para o Bem e para o Mal.

Suas paixões forjam suas próprias algemas. e quanto menos houver dentro de nós. Pois está ordenado na eterna constituição das coisas que os homens de mente destemperada não podem ser livres. E dmund Burke . tanto mais ha­ verá fora de nós. A sociedade só pode existir se um poder de controle sobre a vontade e os apetites for colocado em algum lugar..O E spír it o das R ev oluções PARTE 29 I Os homens estão preparados para a liberdade civil na propor­ ção exdta de sua disposição a controlar seus próprios apetites com cadeias morais..

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adquiriu o mito romântico da revolta um sentido transcendente. nenhum se tem talvez revelado tão impressionante e historicamente ativo quanto o Mito da Revolução. Outros se debruçaram sobre os conflitos religiosos. REVOLUÇÃO — DEFINIÇÕES E TEORIAS ntre todos mitos políticos do século XX. Fo­ . Muitos autores estenderam-se sobre as Revoluções ingle­ sas. Poucos. ou como acontecimento histórico determinado em lugar e época. Estaríamos no meio de uma “revolução mundial” — idéia que é familiar aos espíritos mais avançados. e do ponto de vista psicológico. a Revolução que assegurou a Independência dos EUA. o processo revolucioná­ rio do ponto de vista sociológico e de filosofia política.1. Entretanto. Salientou Romain Rolland que a palavra Revo­ lução “sempre exerceu uma influência prestigiosa sobre a jovem geração”. Em nossa época ou. desde o período entre as duas guerras. a Revolução chinesa e as outras muitas. a Revolução francesa. ora oposto ao do Progresso. que de tumulto e sangue encheram os séculos XIX e XX. nacionais ou de classes que conduziram a esta ou aquela transformação de base. na época imediatamente passada. porém. como a forma mais violenta e radical de transformação do mundo. a evolução e o progresso. independentemente de seu conteúdo ideológico. peio menos. a Revolução russa. em países menos importantes. que inspira a civilização ocidental desde o século XVIII. no impulso humano universal pelo desenvolvimento. so­ cial ou econômico. o Mito da Revolução existe como arquétipo dinâmico de transformação violenta. Como bem acentua Raymond Aron ao apreciar o tema em seu relevante L'Opium des Intellectuels. as Revoluções não têm sido suficien­ temente estudadas. Como fenômeno social. investigaram o fenômeno em si. Ser da esquerda revolucionária sempre constituiu um motivo de glória para o intelectual. possui o mito um significado ora complementar. quaisquer que sejam os objetivos políticos ou sociais dos revolucionários. um imperativo de bon ton para o artista cabotino e uma ânsia libidinosa para o jovem.

todo o mundo revolucionário romântico se sente arrebatado sem nenhum senso crítico em relação ao evento. logo em seguida. logo que uma baderna rebenta em qualquer lugar. fazem arvorar bandeiras rubras. O ímpeto desagregador alcançou certas alas da Igreja. acentua ele: “todos os revo­ lucionários românticos queixam-se de que todas as revoluções que fize­ ram foram sempre para o benefício de outras pessoas. que proclamaram essa situação — uma revolução cujos fins não podemos. Isso é facilmente explicável: é porque sempre se sentiram impressionados com a frase 'revo­ lução'. Nossa idade é revolucionária. ou o que hoje chamaríamos os Latinos. e. vilões e traidores. correndo a esmo sob o tremular de bandeiras vermelhas ou marchando. é cortar o pescoço de um Rei. já não se tenha integralmente realizado há mil novecentos e tantos anos. E no entanto. como promessa. escreve Friedrich Engels com ironia sobre a mania revolucionária dos “povos românticos”. cerrar os punhos zangados e levantar horrendos monumentos de pedra.. Numa carta a Bernstein de agosto de 1882. vislumbrar nos programas e receitas ofere­ cidas à nossa perplexa consideração. o propósi­ to da Revolução é criar heróis e mártires. re­ construir os campos de concentração e forçar mais estreitas correntes policialescas em inimigos reais ou supostos.32 J. Fazer revolução é pregar teses contra o Papa no portão da igreja de Wittemberg. atrás de agitadores histéri­ cos. como ordenou Cromwell em 1649. O . Fruto da rebordosa liberal-romântica de origem jacobina. entretanto. multidões embriagadas de ódio e de entusiasmo. de M eir a P en n a ram dois dos mais prestigiosos filósofos da história em sua época. arcos de triunfo e placas de bronze. para derrubar bastilhas e quebrar algemas. tão poderosa que domina o século XX como a mística da evolução dominou o século XIX — embora haja indícios de que tenha entrado em declínio a partir da década de 80. A mística da Revolução é de fato po­ derosa. barricadas e hinos marciais.. como fez Lutero em 1517. Estranho. terroristas da bomba e da pistola. consubs­ tanciando a transmutação e ambivalência de todos os valores anunciada por Nietzsche. Os episódios enchem textos escolares. Spengler e Toynbee. sem que se consiga exatamente entender o que se esconderia nessa “revolução cristã” que. . É toda uma legenda épica e lírica. disciplinadamente. que tem perturbado a alma do Ocidente com sua ideologia contraditória e violenta e se estendido por todo o mundo africano e oriental.

e recomeçaram o exercício nas Trois Glorimses de 1830. à custa de um milhão de mortos. substituindo-a pela própria. tendo seu comandante fechado as portas da Casa com palavras de desprezo. o domínio imperialista francês sobre toda a Europa. a Revolução? Prossigamos na tentativa de definir o termo. mas foi substituído pela ditadura de Cromwell em que o exército dispensou Lordes e Comuns. Acabaram guilhotinando-se uns aos outros. revoluções econômicas. entre nós e no Terceiro Mundo. É um mito edipiano. as barricadas da Co­ muna foram seguidas pelos paredões de fuzilamento do Père Lachaise. o maior número foi trabalhar e morrer no Arquipélago GuIag. A mística da Revolu­ ção. é colocar a cabeça decapitada da princesa de Lamballe numa ponta de lança e passear. revoluções científicas e tecnológicas. Os franceses. os que aplaudiram o jovem estudante metamorfoseado em guerrilheiro nas florestas de Cuba. Isso. Os exaltados jacobinos de 1793 decapita­ ram a família real. revoluções espirituais. Sempre implica o mito revolucionário em liquidar com a autoridade tradicional constituída. revoluções culturais. entre os que mais contribuíram para a vulgariza­ ção do mito.. não se sentiram satisfeitos com a carnificina de 1789 a 94. A expressão pode ser malbaratada.O E spírito das Rev o lu çõ es 33 é derramar no mar o chá importado da Inglaterra. emigram em massa graças a balsas improvisadas em direção à península da Flórida. O que é então. Insistamos no caráter simbólico decisivo de tais eventos.. exatamente. Hoje. Iremos percorrer. esse tema arquetípico até seu final teológico em nossa própria época. muito embora tais movimentos revolucionários sempre hajam conduzido a uma forma de tirania mais opressiva do que a do regime anterior. como os americanos no Boston Tea Party de 1773. Há revoluções internas e revoluções contra opres­ sores externos. Há revoluções políticas. Os événements de maio de 1968 em Paris talvez tenham sido a derradeira e absurda manifestação histérica dessa tensão juvenil incontida na furia jrancese. com o troféu. e os que sobraram foram arregimentados no Grande Exército de Napoleão para tentar impor. em outra oportunidade. neste último caso. Quanto aos russas das jornadas heróicas de Petrogrado. O Absolutismo de Carlos Io sempre tinha o Parlamento com quem se dispu­ tar. Trata-se de matar o Pai. e novamente em 1848 e 1851 e 1871 — só que. há revoluções sociais. representa em geral a herança rc> . diante da janela da rainha.

e rara a sucessão presidencial que também não comporte uma revolução. a Revolução transfor­ mou-se num “rito de passagem” essencial à vida política. dali para o integralismo e as simpatias nazistas. ora contra. desordeiro. motim de rua ou mani­ festação de “caras pintadas” é logo batizado com o título augusto. católico praticante e com a perspectiva de uma bela carreira. O. considerava inevitáveis e inerentes à própria condição existencial que o Deus Pai nos impôs. na América Latina. Faz-se “bagunça” na infância. anárquico. Ela configura a exaltação mórbida do ímpeto utópico. Conheci um senhor respei­ tável. Sobre o mito revolucionário na Amé­ rica Latina uma das melhores obras é a de Carlos Rangel. a aceleração frenética da noção de progresso e a expressão do protesto antinômico — de dissidência e de contestação — que. Ora a favor. quase que invari- . tem que necessariamente passar pela excitação revolucionária da virilidade descoberta. Fomos. depois para o udenismo antigetulista. romântico. pronunciamento. DE MEIRA PENNA mântica da Revolução francesa que a Revolução russa reviveu. ao sair da autoridade patriarcal familiar. Em nosso continente de adolescentes nervosos cuja passagem normal para a idade adulta. golpes e conspirações dos anos 30. estamos subjugados por essa mitologia espúria. Na Revolução. ainda mais tarde para o brizolismo. quase carnavalesco do termo. Sem qualquer consistência ideológica. O nosso austero Imperador Pedro II comparou certa vez a América Latina a um relógio de precisão que faz duas revoluções por dia.34 J. golpe de estado. Qualquer quar­ telada. revoluções na idade adulta: é prova de machismo. Indo do socialismo para o monarquismo. de que tratei em meu próprio livro A Ideobgia do século XX. No âmbito político. pai de família. arruaças na adolescência. levante. nos últimos séculos. que se empenhou em todas as revoluções. particularmente sensíveis ao conteúdo épico. outrora mais paciente e resignada. 50 e 60. A Revolução deverá suprimir definitivamente os males deste mundo imperfeito que nossa sociedade. O mesmo se pode dizer das que provocaram os “ventos da mudança” nas antigas colônias européias da Ásia e da África onde. na base exclusiva do espanholismo: Hay gobiemo? Soy contra! Pelo simples prazer da baderna. a mente utópico-progressista descobre a panacéia universal para suas expec­ tativas mais alvissareiras: a Salvação pela política. tão bem define nossa civilização ocidental: o triunfo do espírito rebelde de Lúcifer.

Ou então para a substituições de franceses. final­ mente. Ao agradecer o prêmio da Fundação Tocqucville que o distinguiu.. Isso lhe permitiu legitimar-se. se deram conta da impossibilidade de continuar no jogo da corrupção e da incompetência e. pois anunciava o próximo triunfo da mais negra tirania — tanto assim que duas terças partes da humanidade.. Mas foi todo o mundo moderno que se embalou no Viva à Revolu­ ção! Viva la Muerte! Allons Enfants de la Patrie! “A Internacional será o gênero humano e nossas primeiras balas para nossos próprios generais”! Os terroristas viraram vedetes internacionais e não se passa um mês que uma revolução qualquer não derrube um governo qualquer.O E spír ito das R ev o l u ç õ es 35 avclmente. finalmente. O fenômeno é efetivamente cíclico e obedece a uma espécie de padrão arquetípico. ingleses. E uma . belgas ou portugueses. a “libertação” do jugo estrangeiro abriu-se para uma ditadura indígena. no México. que usou a mística revolucionária para efeito externo e praticou a tirania institucionalizada para efeito interno. em 1989. o notável intelectual mexicano Octavio Paz observou que: “O sinal de nascimento da idade moderna é a idéia de Revolução. três bilhões de indivíduos já viviam sob regimes totalitários. Talvez seja esse o segredo do sucesso da oligarquia mexicana. por russos e cubanos. indicar uma mudança de expectativas. se conseguiu esse prodígio lógico de “institucionalizar” a Revolução: o país é governado há 70 anos por um partido único. o PRI. O termo “revolução” é tão altamente apreciado pelas almas líricas e agitadas que. granjeando simpatia e admiração dos meios supostamente bem informados da mtelligentzia ocidental. Uma barretada para esses farsan­ tes! Uma barretada sobretudo à lucidez e sabedoria de seus chefes que. O annus mirabilis de 1989 parece. tiveram o talento de levar ao poder de la Madrid e Salinas de Gortari que tentaram abrir e privatizar a economia mexicana e condu­ zir seu país ao acelerado desenvolvimento que o integrará à comunidade norte-americana. da Ásia ou da América Central: um sintoma que parecia grandemente ominoso antes da queda do Muro de Berlim. “Partido Revolucionário Institucional”. depois do governo do supercorrupto Lopez Portillo. em algum vago e desconhecido estado da África. Chegou mesmo a apa­ recer como um fator esclarecido e progressista entre os países anárquicos da área.

Desde o momento em que aparece no hori­ zonte histórico. quedas de dinastias. a Revolução o é do tempo linear. A natureza da Revolução é dual mas não podemos pensá-la a não ser separando seus dois elementos e descar­ tando o mítico como um corpo estranho. a vivemos como um mistério. melhor dizendo: ao destruir. história e mito. hipno­ tizou muitas consciências e várias gerações. a Revolução é um ato emi­ nentemente histórico e. ao marcar os limites de um pedaço de terra. É uma idéia que. O descenso da razão à terra foi uma verdadeira epifania e como tal foi vivida por seus protagonistas e. Filha da his­ tória e da razão. Neste enigma reside o segredo de seu fascínio. isto é. pois é herdeira da Grécia e do cristianismo. “é a volta ao tempo de origem. Pensamos a Revolução como um fenômeno que res­ ponde às previsões da razão. A idade moderna rompeu o antigo vín­ culo que unia a poesia ao mito apenas para. Em nenhum outro período histórico a idéia de Revolução teve esse poder de atração magnética. antes da injustiça. filha do mito. por seus intérpretes. sucessivo e irreversível. determinação racional e ação milagrosa. guerras fratricidas.36 J. Foi a Estrela Polar que guiou nossas peregrinações e o sol secreto que iluminou e acalentou vigílias de muitos solitários. com ela. cria. ü . imediatamente depois. Nela se conjugaram as certezas da razão e as esperanças dos movimentos religiosos. Filha da razão em sua forma mais rigorosa e lúcida: a crítica. mas somente as grandes mutações religiosas podem ser comparadas a este nosso fascínio ante a Revolução. a Revolução foi dupla: razão feita ato e ato providencial. diz Rousseau. um ho­ mem disse: isto é meu. Em suma. Vivida e não pensada”. As outras civilizações e sociedades passaram por imensas mu­ danças. a imagem dela é a um tem­ po criadora e destruidora. a discórdia e a opressão: a história. e não podemos vivê-la a não ser enlaçando-os. A Revolução é esse momento em que a crítica se transforma em utopia e a utopia se encarna em alguns homens e em uma ação. tumultos. da filosofia e do anseio de redenção. um ato negador da história: o tem­ po novo que instaura é uma restauração do tempo original. Nesse dia começou a desigualdade e. pros­ segue Octavio Paz nessa peça admirável como síntese de todo o tema. antes desse momento em que. uni-la . não obstante. DE MEIRA PENNA idéia que só podia surgir em nossa época.. depois. como o giro dos astros e a ronda das estações. A Revolução. a Revolução é um momento do tempo cíclico. durante mais de dois séculos..

para indicar uma teoria científica que reconstituiu toda a visão cosmológica do homem moderno. adotada pelos economistas. legitimamente. em suas contra­ dições. conversão religiosa. quando as brutalidades e morticínios inéditos na história despertam os espíritos mais lúcidos ou místicos para a realidade da “opressão e liberdade”. Fala-se na Revolução darwiniana cm biologia: obvia­ mente. no entanto. a figura do naturalista inglês.O E spír ito das R ev o lu çõ es 37 à idéia de Revolução. não como uma . na cultura e no espírito do homem. enantiodromia. nós também. ou como francesa. a revolução liberal “modernizante” em seu mais alto estágio. Mas talaremos. no desafio da “Teologia da Morte de Deus”. como na obra dessa estranha pensadora que foi Simone Weil. sobretudo ao final da i r Guerra Mundial. Mas a Revolução pode também constituir um ténômeno histórico de profundas conseqüências políticas.solução aos problemas colocados pela idade atual. a revolução capitalista. podemos de fato fazer é saber se a Revolução industrial e científica. cia significa transformação rápida. conseguirá sobreviver às perplexidades que. culminou recentemente na obra majestosa de Friedrich Hayek. E a pergunta que. como o psicólogo suíço C. Vamos sugerir que. é relevantíssima por haver lançado as bases filosóficas de uma concepção do mundo que. pode-se esconder a progressiva iluminação da consciência humana para o conhecimento do bem e do mal — na responsabilidade de sua autonomia moral. por toda a parte. Fala-se na Revolução copemicana. A idéia surge aqui e ali. na Revolução luciferiana. os desafios da idade moderna em que “as coletividades não pen­ sam” mas. Como exprimiu Octavio Paz no texto acima. Neste sen­ tido. ou como socialista. acumula na vida. Esta idéia proclamou o fim dos mitos — c assim sc converteu no mito central da modernidade. Jung emprega o termo de Heráclito. . mas como um milagre que dispensa de solucionar os problemas”. sociais e econômicas — sem que haja necessariamente violência e subversão de toda a autoridade. o problema do mundo moderno é precisamente este. mudança na Visão do Mundo.-G. “pensam na revolução. Sem se admitir como judia. que lançou a teoria evolucionista através do processo de seleção natural ao sugerir a metáfora da “luta pela vida” ou “concorrência vital”. ou como católica — ela sentia profundamente.

No Webster. em 1543. um eterno retorno.38 J. à Revolução verde. A isso chamava Harrington de “rotação”. irresistí- . desordem. isto é. De tato. O. ou uma mudança fundamental na organização política. como para Marx e Lcnin. à Revolução sexual. “/« révolution est une transition entre un ordre ancien qui tombe en ruine et u n ordre nouveau qui se fonde". O fato é que vulgarmente nos referimos a uma Revolução científica. mas de determinar uma verdadeira mudança na cosmovisão cristã. a Revolta é uma mera insurreição. de periodicidade da suprema magistratura — o que hoje constitui um lugar comum do regime democrático. um jornalista do século XVII fortemente envolvido na revolução cromwelliana. Copérnico publicou o seu célebre De Revolutimibus orbium calestium. dava ao termo o sentido de simples sucessão rápida de governo. Os termos. são copernicanos. a Revolta é a subversão contra a autoridade estabelecida (no Pe­ queno Dicionário de Aurélio é uma “sublevação. como se vé. Hoje em dia. etc. que derrubou os Stuart. configuravam um ritmo regular. Tudo começou com uma Revolução filosófica. Mas é só com a “Revolução Gloriosa” de 1689. uma mutação rápida nas institui­ ções. ao passo que a Revolução seria uma mudança total ou radical em qualquer série de acontecimentos. Quando. o impacto que sua hipó­ tese causou não deve ser atribuído apenas ao fato de violar o que era considerado um artigo de fé. à Revolução industrial e. Para Littré. Pode-se ademais discutir se a Revolução é sempre política. nas instituições sociais. indignação”). E uma “volta ao redor” como a do Sol. nas crenças. nos léxicos. A idéia sugere um movimento cíclico. DE MErRA PENNA Origina-se a palavra revolução no latim re-volvere que significa “rolar”. cabe res­ saltar que as "revoluções” de Copérnico possuíam o sentido científico estrito do original latino. Ela repre­ senta a quebra de uma allegiance. ou se pode ser de caráter geral. mais recentemente. Marchamont Nedham. grande pertur­ bação moral. Numa primeira apreciação do problema. um movimento de forte desacordo com uma realidade estabelecida. “dar uma volta”. ao passo que a Revolução é uma mudança brusca e violenta na política e no Governo. consolidou o parlamentarismo e entronizou a idéia do Contrato Social de John Lockc que passa a palavra a ser usada no sentido que hoje possui.

finita como uma esfera. eternamente circular. Desse modo negava Parmcnides. “parmenideana” mais do que ptolomaica. E de fato a Igreja.O E spír it o das R ev o lu çõ es vel e sujeito a leis matemáticas que se nota no movimento dos astros. Parmênides havia negado a possibilidade de mudanças. De um modo geral. adianta que upara mim é o mesmo onde principio. Sua condenação veio mais tarde. poderíamos acentuar. cm vez da Terra. a repetição cíclica que se nota nos negócios dos homens. relativa à evolução do pensamento ocidental de uma concepção cíclica do desenvolvimento histórico para uma concep­ ção linear irreversível — evolução que. permanente e eterno — a teoria conservadora de Parmênides dominou a metafísica e a cosmologia durante dois milênios. Como fundador da metafísica. aceitou a obra dc Copérnico sem pestanejar. A realidade é estática. usado metaforicamente por Políbio para indicar o eterno retorno. como devemos acentuar. Constitui uma tradução correta do grego anakuklosis. A cosmologia aceita pela Igreja era estática e. O problema do em­ prego do termo ‘'''Revolução” está assim relacionado com a questão que abordaremos em outra obra. invariável. O mundo é imperccívcl. a realidade empírica comprovada pelos sentidos. imóvel. enfa­ ticamente. O mundo do Devir é um mundo de mera aparência e o mun­ do do Ser o único verdadeiro. está ligada à cosmovisão judeu-cristã. Através de Aristóteles. Foi posterior ao Concílio de Trento. como que refletindo o que se passa na esfera astronômica. Não creio contudo que a colo­ cação do Sol. É portanto uma expressão usada na astronomia e diz respeito às leis que presidem o espaço celeste. pois lá voltarei de novo com o tempo”. Um dos poucos frag­ mentos de sua obra salvos do tempo. Seu postulado esti — “c” — constitui uma filosofia completa do Ser. que postulava só este nosso mundo sublunar estar sujeito a mudanças e declínio — sendo o cosmos estável. num primeiro impulso e na pessoa do Papa a quem havia sido o livro dedica* do. como centro do universo. a chamada “revolução copernicana” é interpre­ tada como representando um “descenso” do homem da estatura cósmica central que detinha na teologia ortodoxa. e foi necessário derrubá-la com vigor a fim de empreender a revolução científica. à Contra-Reforma c à punição de Galilcu que se fizera o principal defensor da teoria do monge . poderia em si parecer escandalosa do ponto de vista da fé cristã.

e negou que a autoridade de Copérnico pudesse prevalecer sobre a do Espírito Santo. os planetas e as estrelas.40 J. E importante notar que tanto Lutero quanto Calvino também se escandalizaram com as teorias de Copérnico. O importante. abalava os alicerces veneráveis do passado que a Igreja procurava defender. o problema é bem mais complexo. O. Copérnico é colocado com Darwin e Freud como um dos grandes derrubadores do antropocentrismo medieval. no De Revolutionibus. lembrou que Josué havia feito parar o Sol e não a Terra. necessariamente. Também mencionou o Salmo (94/93). E Calvino citou as Escrituras. muito embora sempre tivesse o clérigo polaco manifestado a maior obediência e o maior empenho em se manter dentro dos limites estritos dos ensinamentos eclesiásticos. É assim fácil de compreender que a “revolução” copernicana. Copérnico foi o precursor de Descartes. Ao inaugurar a nova visão científica que punha a observação empírica e o método expe­ rimental (Galileu e Roger Bacon) à frente da tradição. pois essa não era antropocêntrica mas teocêntrica. Copérnico desestabilizava a estrutura absolutamente rígida da ortodoxia — e isso no mo­ mento em que a Igreja procurava. Se o que é verdadeiro não é. Copémico não estava subvertendo a visão do mundo medieval. mas apenas o que pode ser demonstrado pela cuidadosa observação dos fatos (o método empírico) — então a concepção do mundo deve entrar num processo de mudança e de fluxo heraclitiano de conseqüências imprevisíveis. Nesse sentido. . Parmênides deve ser substituído por Heráclito. DE MBIRA PENNA polonês. No meu entender. o que nos é transmitido do passado. um astrólogo que queria apenas mudar toda a ciência da astronomia por amor da novidade. Lutero cha­ mou-o de tolo. a Revolução científica. considerado o fundador do pensamento filosófico moderno. com a energia do desespero. equiparando Copérnico a Lutero. é que a obra exercia um efeito subversivo sobre a concepção da estabili­ dade cósmica do sistema medieval — sistema cuja rigidez social se refletia no universo em que a terra detinha uma posição central. conter a maré rebelde da Reforma protestante que inundava a Europa do Norte. por sua coincidência com a Reforma. Desmentindo o antropocentrismo inerente à velha teoria de Ptolomeu. segundo a qual a Terra se encontra no centro do Universo e à sua volta se movem o sol. acentuando que o mundo está estabelecido e não pode ser mudado. isto é.

Como processo histórico desenvolvendo-se lentamente no seio da comunidade ocidental cristã. podemos propor a tese que a idéia moderna de Revolução. desde então. Galileu ( + 1642) acelerou o processo de mudança na concepção do mundo com suas descobertas no campo da dinâmica e suas pesquisas sobre o fenômeno da aceleração. todo o planeta. Logo em seguida. violenta e irreversível. como por exemplo a existência de satélites em Júpiter. única e definitiva — a Revolução socialista que determinaria o Fim da História. inclusive no domínio do pensamento puro que abalava a orto­ doxia em seus fundamentos. Pois as revoluções cíclicas e infinitamente repetidas dos planetas e dos astros ao redor uns dos outros é uma coisa que se dis­ tingue fundamentalmente do sentido da Revolução: uma transformação metastática. Subitamente tudo entrou em fluxo. A “revolução” científica. Podemos assim conceber em que sentido o De Revolutionibus deter­ minou o processo de mudança que. Marx imaginaria que só pode haver uma Revolução. Tudo parecia se transformar. Tudo entrava em processo de revolução. em vez de círculos. Além disso. anunciava outras “revoluções” bem mais perigosas. única. surgiu no século XVI. Newton estabe­ leceu as leis do movimento. Na geração seguinte. seu telescópio revelava “novidades” ou “imperfeições” nos planetas. coinci­ dindo com a revolução religiosa. de um estado de coisas imperfeito para um estado de perfeição ideal. encetou o ciclo que. Mais precisamente. Muito embora os . Tudo perdeu sua estabilidade e permanência. Kepler propôs elipses. já aparecia a ambigüidade do termo “revolução”. no título da obra de Copérnico. afeta o mundo ocidental — e. deviam os planetas desenhar círcu­ los perfeitos à volta do Sol. ainda que não consciente de si mesma. através dele. E é interessan­ te notar que. com a Reforma protestante. sendo o círculo a forma perfeita.O E s p ír it o das Rev o luçõ es 41 As revoluções de Copérnico tornaram-se progressivamente mais revo­ lucionárias quando Kepler ( + 1630) abalou a concepção pitagórica e platônica (e no fundo bem mais estética do que filosófica) segundo a qual. rompendo as cadeias conservadoras da tradição do pensamento medieval.

In­ cendiar um cinema que está exibindo um filme americano — em que (“ato obsceno!”) um homem beija uma mulher — e queimar vivos 300 . Para não falar no conteúdo espiri­ tual. Sendo o objetivo principalmente político da Reforma um fator histórico tão ponderável quanto as mudanças de caráter litúrgico.42 J. As ilusões da Esquerda romântica e mesmo da assim chamada “extrema-direita” fascista. Teria ali ocorrido uma revolução “branca” como sugerem certos sociólogos. o país que melhor se transformou nesse sentido. consagrou a semântica revolucionária. jamais conheceu uma Revolução no sentido banal da palavra.. sociais e culturais. DE MEIRA 1’ ENNA prosélitos da rebelião contra Roma considerassem. embora se haja empenhado numa terrível e desastrosa guerra mundial. Embora a Es­ querda masoquista de todo o mundo tenha aplaudido com entusiasmo apressado a derrubada do regime do Xá. Ora. magistralmente imposta. que todos os países afro-asiáticos estão sofrendo o impacto da civilização ocidental e.. Ora o Japão. o que se lhe substituiu. O. até a simples ruptura com a soberania de Roma como no anglicanismo de Hooker. em seguida. A ela nos submetemos sem o exercício da função crítica e sem atentar para o verda­ deiro conteúdo histórico do fenômeno. é bem certo que se tra­ tava de uma subversão radical da autoridade do papa e da hierarquia epis­ copal. a título de “democracia islâmica”. Thomas Miinzer e John Knox. Karlstadt. primeiro pela autoridade paternalista dos estadistas da era Meiji e. Vale observar. por exemplo. por exemplo — desavença mais política do que teológica. O Irã está passando por um outro tipo de revolução. com homens como João Huss. uma “revolução pelo alto”. foi uma teocracia reacionária da pior espécie que pretende restaurar valores de uma fé medieval. por bem ou por mal. o seu movimento como uma reforma dentro da Igreja. políticas. a redu­ ção do papel do clero na sociedade e a complexa polêmica teológica que colore o movimento — estendia-se esta numa extensa gama que vai desde o radicalismo das seitas anabatistas e não-conformistas. realizando as mais profundas reformas econômicas. estritamente. foi o Japão. se estão revolucionariamente adaptando a uma sociedade “moderna” que é hoje ecumênica. pela ditadura do general MacArthur — algo diferente do que se quer geralmente indicar com o termo. orientada por princí­ pios primários concebidos para a mentalidade de beduínos incultos.

retomará o povo. sempre existiu uma corrente que chamaríamos de “liberai” e que encontrou apoio sobretudo nos meios artísticos da cultura chim: é o taoísmo. ficará o povo livre de malícia. com Deng Xiaoping. no entanto. Lao Tzê. será isso um belo feito revolucionário? Pois assim se iniciou a “revolução islâmica”. não constitui uma propos­ ta racional e foi a Revolução do bom senso chinês. Se interferir excessivamente. assim como de seu sustentáculo. como diria Hegel! Na raiz das acontecimentos extra­ ordinários do annus mirabilis de 1989 vamos encontrar as contrachoques do chienlit de Paris contra De Gaulle e da “segunda revolução americana” 5 Eis o que pontificava Lao Tzê. Se estiver livre de dcsejixs.. está precisamente no fato que a “revolução cultural” estudantil de 1968/69 provocou conseqüências imprevisíveis no próprio Ocidente ao abalar os fundamentos ideológicos da autoridade do Estado sacralizado. mais infratores haverá. tanto quanto da Europa. No sexto século antes de Cristo. mesmo de um país que possui a quarta parte da população do planeta.. afirma o sábio: desde que eu não interfira. quanto à conveniência do Estado não interferir demasiadamente nos processos naturais da sociedades. Portanto. “não-ação”. há 2500 anos: “As restrições e proibições sào multiplicadas pelos governos. Se o governo for compreensivo c honesto. desenvolverá o povo sua potencialida­ de e se enriquecerá. Quanto maior o número de leis c decrctus. na China. Astúcia da história. O paradoxo. que pretendeu ela colocar em seu lugar senão os pensamentos infantis do Grande Timoneiro Mao Dzedong? O isolamento. junta e paralelamente ao domínio da filosofia autoritária e patriarcal do confucionismo no correr da história da China. \ simplici­ dade e moderação. “deixe como está para ver como fica”. Cabe todavia observar que. tonumse cada vez mais pobres. repudiando as virtudes mais tradicionais da própria China. A Revolução cultural.. provocou terremotos cujas ondas sísmicas desestabilizaram o Ocidente nos últimos anos da década dos sessenta. a burocracia política. Governem uma grande nação como se cozinha um pequeno peixe: não exagerem’'! . aquela que afinal predominou. o maior pensador taoísta.. naturalmente. Mas que benefício trouxe ela para o País Central? Além de con­ denar Bcethoven e Confúcio ao limbo do esquecimento. Quando os povas estão excessivamente submetidus aos governos. Seu princípio fundamental é re­ presentado pelo princípio do wu wei. formulou uma doutrina que seria hoje válida. que pode ser traduzido como “não interferência”.O E s p ír it o das R evo luçõ es 43 espectadores. haverá constantes violações da lei.

para justificar suas intervenções imperialistas nas nações do Ter­ ceiro Mundo que procuravam superar estruturas feudais arcaicas no es­ forço de modernização. O. por uma nova sociedade industrial. Ainda quando seu significado seja o de um mero episódio de violên­ cia política. como o fez a URSS. um “processo revolucioná­ rio” de transformação da sociedade. Os críticos do Marxismo já descobriram que o Mito da Revolução representa apenas uma racionalização. de M eir a P enna que derrubou Johnson e Nixon. em 1964. como império universal. essa sim. as tenentistas. a Revolução de S. destinado a impedir a absorção do país pela esfera de influência soviética e colocar em bases mais racionais e or­ deiras o processo acelerado de modernização e desenvolvimento em que se empenhava no que. também chamamos o levante militar de Revolução. Paulo que. do projeto totalitário do Estado todo-poderoso. processo que deverá finalmente — assim o esperamos! — substituir as velhas estruturas patriarcais e patrimonialistas dos tempos da colônia. desde 1930. constituiu um modesto ensaio de contra-revolução. sem resultados duradouros. na verdade. pode ser corretamente denominada de Revolução industrial. com conseqüências elas também . Uma vez a “passagem” concluída. No Brasil também. abertura ao exterior e estrutura mental . determinou o fracasso no Vietnam e apressou o processo de integração racial nos Estados Unidos. imprevisíveis. supostamente capitalista. para o reino da Liberdade atribuído ao comunismo. o Rito de Passagem terminou no renascimento do Libera­ lismo que marca este final de século. Ou então apenas utilizado. O Mito da Revolução apenas aí serviu para cobrir sua absorção pura e simples pelo Leviatã soviético. o Mito revolucionário a tal ponto fascina que não se pode resistir à tentação de usar o conceito. Tivemos inúmeras “revoluções”. em benefício de seus interesses nacionais egoístas. c. o mito é violentamente reprimido. pelo método dialético. E eis o paradoxo: sem qualquer intenção consciente. a de Independência.44 J. Estamos sofrendo no Brasil. com economia de mercado livre. as separa­ tistas da época da Regência. a positivista republicana. embora mais correto houvesse sido considerá-lo um movi­ mento restaurador da autoridade. O mito é invocado para dar cobertura ideológica a um Rito de Passagem — a pas­ sagem do reino da Necessidade.

Hoje. dentro dela. visando a corrigir os excessos da organização tecnológica. Locke. estimulou o desencadeamento da Revolução industrial capitalista. prossegue a Revolução mundial que atinge os mais longínquos recantos do planeta. cujas traças finais é ainda cedo para vislumbrar. atrapalhou antes do que acelerou a Revolução brasileira. Nessa época foram também lançadas as bases filosóficas da democracia moderna — Hobbes. Ora. se teve o mérito indiscu­ tível de preservar-nos de compromissos ideológicos radicais. A extensão dos regimes militares em muitos países do assim chamado Ter­ ceiro Mundo pode ser apreciada. Mas quantas pseudo-revoluções interromperam esse longo caminhar e quantas personalidades nefastas o mal compreenderam? O próprio Getúlio Vargas. que notamos alguns dos sinais mais claros de uma tentativa de reação dissidente. servindo como modelo que se pretende universal. Foi a Revolução religiosa dirigida con­ tra a Igreja de Roma o marco inicial do momentoso desenvolvimento. em muitos sentidos. O que é tipicamente ocidental está sendo contestado e modificado — e do vasto processo de amálgama surgirá uma sociedade ecumênica. Harrington e outros. a sociedade americana.O EsríRrro d a s R e v o l u ç õ e s 45 legitimadora no Liberalismo moderno. no momento mais agudo do embate mundial entre os totalitarismos da década dos 30. De Harrington se esquece às vezes que sua “utopia”. E. Os séculos XVII e XVIII registram um profundo processo psicológico que. a Revolução puritana inglesa do século XVII. na Espanha. Oceana. Por outro lado. como uma solução cromwelliana: o caráter autoritário. há indícios de que tenda a re­ pudiar os próprios fundamentos mentais do processo iniciado. antecipa características fundamentais da Constituição americana que também os países latino-americanos adotaram. A única sociedade verdadeiramente revolucionária é a sociedade libe­ ral do Ocidente. de tais regimes constitui como que um recurso artificial / . E na prenhez da crise ocidental que está nascendo o mundo de amanhã — na tentativa de definição exata do Liberalismo. freqüen* temente puritano. indubitavelmente. o produto mais expressivo dessa imensa transformação histórica. no século XVI. curiosamente se encontra ela numa etapa em que. é nos próprias Estadas Unidos. na Coréia por exemplo. Seu episódio mais saliente é. com a Reforma protestante. Shaftesbury. no Chile. através do Racionalismo filosófico e do método científico.

com autoridade suficiente para enfrentar as porfias da crise mundial. Essa superação representará o canto do cisne revolucionário. de um novo M ito da Alma. essencialmente nacional-socialista. algo poderá ocorrer que corresponda ao estágio de maturidade alcançado. Afinal de contas. do mesmo modo como o socialismo. de M eir a P enna para a concessão de legitimidade a uma autoridade racional e eficiente na conduta do desenvolvimento. Cessando o processo revolucionário. no verdadeiro sentido da palavra. pelo mun­ do antigo. Esta pode ser nossa antecipação intuitiva. a culminação ideal e correta de qualquer processo revo­ lucionário é o de institucionalização das conquistas alcançadas — novus ordo saclorum — em consonância com a nova situação criada. o problema que se recoloca em esca­ la universal será o da liberdade face à construção de uma ordem política ecumênica. cada vez mais complexo e pluralista. o qual se acentuou em 1989/91. E tal conso­ lidação só se poderá assegurar em escala mundial — do mesmo modo como só se poderá consagrar através de uma nova visão do mundo. O . O século XXI poderá conhecer. A superação do nacional-socialismo. de refluxo do socialismo e de consolidação e humanização das conquistas da Revolução industrial (na anunciada era pós-industrial. constituem ideologias cujo arcaísmo não tardará a ser percebido. ao mesmo tempo.46 J. nos últimos séculos antes e primeiro século depois de Cristo. uma reorganização em escala mun­ dial do Estado de Direito liberal. A Revolução mundial é hoje. que o ponto mais exacerbado da Revolução mundial já foi alcançado. tal como existia idealmente no período anterior. novas revoluções e catástrofes ecológicas — o princípio da reconstrução da ordem internacional. Nesse estágio de superação do nacionalismo. de uma nova Aliança ou comunhão interior com a Transcendência. Será sobretudo o problema da reconstrução de uma nova ordem ética e espiritual em âmbito universal. no sentido de uma concepção mais condizente com as ásperas condições de um mundo cada vez mais solidário e. de fato. aurora de uma nova rçiade). é exigida pela necessidade de con­ senso e cooperação diante dos desafios que enfrenta a humanidade. O ano de 1968 talvez haja constituído um divisor de águas: desde então assistimos ao progressivo refluxo da maré. Esta é nossa Utopia. após calamidades imprevisíveis — guerras. Acredito. . no Terceiro Mundo. Mas o nacionalismo ele pró­ prio.

que caía do céu. Podemos descrever a riqueza da literatura sobre o assunto. Infelizmente. que lhe tocou nos dentes de marfim. não pode de fato ser explicado. planando horizontalmente. Na verdade. muito embora nos passam esclarecer sobre este ou aquele aspecto. Na verdade. abanando continuamente. Podemos fazer nossas as conclusões de Cohan {opus cit. A. insistindo que a contextura do objeto era extraordinariamente macia e dura. Efetiva­ mente. a americana. Nenhum deles foi capaz de observar o fenômeno “elefante” como um todo. variável e aleatória. a russa ou a chinesa. se as pessoas se encontram . pensou que se tratava de uma tromba. 185): “A menos que se seja marxista. o traço principal que se detecta em grande parte da análise teórica das revoluções é a sua falta de consistência e banalidade. foram solici­ tados a descrever um elefante. Só perceberam as partes. um imenso balão. tudo o que nos dizem as teorias é que. contrariou com violência a opinião dos demais. também rugosa. as “explicações” que foram tentadas são em geral tautológicas e não contribuem para aprofundar o nosso entendimento do fenômeno da Revolução. O se­ gundo. Q quinto. quase todas essas teorias me trazem à memória a velha história oriental dos homens que. Em Teorias da Revolução. por parte dos estudiosos de língua inglesa. mas se acha mais associada à análise minuciosas de revoluções como a francesa. a teoria definitiva da revolução ainda terá de ser escrita. Cohan passa em revista as várias con­ cepções a respeito. nem facilmente se submete a fórmulas abstratas. numa noite muito escura. p. O primeiro visualizou o animal como se­ melhante a um edifício de quatro colunas cilíndricas e rugosas. O quarto. apontou para o fato de que mais parecia um leque enorme. O quinto.O E s p ír it o das R evo luçõ es 47 A maior parte dos pensadores modernos da Revolução não oterece explicações verdadeiramente originais para o fenômeno — provavelmente porque sendo este de natureza irracional. S. O terceiro. do que à descrição das características comuns que poderiam constituir a base de todos os casos. e sua forma pontiaguda. uma corda que se mexia continuamente. que con­ firmam essa insuficiência.

abran­ gendo transferências de poder e autoridade extralegal imperativa. os que estudam a Revolução em sentido amplo. quase que invariavelmente. como sucedeu no caso da sociedade russa durante o período que se seguiu à emancipação dos servos. o movimento de libertação foi adequadamente batizado com o título de “revolução de veludo”. talvez. retiramos profundos ensinamentos sobre o Espírito revolucionário e sobre os verdadeiros valores implícitos no con­ ceito de Libertação. Na República tcheca. para ter sentido. onde os acontecimentos de 1989 se aceleraram. sem tomarem a iniciativa de uma ação vio­ lenta. O. aparentemente. de outro. tais como Crane Brinton e Sigmund Neumann.. mas nunca teve uma justificação teórica satisfatória. A exceção só ocorre quando. como ocorreu com a doutrina de Marx. e.. Toma-se evidente que a maior parte das formulações propostas pelos sociólogos e cientistas políticos padecem dos defeitos apontados. Somos deixados na incerteza do que lhes provoca a cólera — ou por que alguns grupos se revoltam. De estudos como os de Hannah Arendt.48 J. esta­ mos diante não mais de uma teoria “científica”. de uma fé absolutamente cega. Divide Cohan. em 1861”. Jouvenel ou Kolakowski. Topamos. abstrato. DE MEIRA PENNA encolerizadas. sustentada pelos impulsos da emoção e do ressentimento. de um lado. A Revolução russa foi um fato gigantesco. poderíamos acentuar que nem todas as teses são vulneráveis a essa opinião negativa de Cohan. ou por que outros grupos da sociedade toleram grande dose de injustiça e de sofrimento. sobre raciocínios cícli­ cos e teses tautológicas que não resistem à prova empírica da história. ou sugerida pelos ditados do mcubo ideológico repetidos sob forma de propaganda. Acrescentemos a essas pala­ vras que os russos também suportaram pacientemente setenta anos de um dos regimes mais opressivos e homicidas que registra a história e deram um basta: o império soviético veio abaixo quando ninguém parecia esperá-lo e a “revolução liberal” se está processando de maneira relativamente tão suave que nem mereceu o título. os teóricos que definem as grandes revo­ luções históricas. não estarem sujeitos a grandes pro­ vocações. apesar de. Ora. mas de um simples Mito que exige. e procu­ ram desse estudo extrair reguiaridades suscetíveis de justificar a formula­ . podem apresentar tendência a rebelar-se. como sucedeu. com os colonos durante a Revolução Americana.

Na época em que escreveu. dita “burguesa”. transformando o próprio Cristo num santo guerrilheiro. como quando atribui a violência revolucionária ao subdesenvolvimento econômico. E diria mesmo os Estados Unidos. e não sei mais que tipo de Revolução. nos estender sobre os longos debates entre professores no sentido de dar uma definição exata do que seja a Revolução. prefiro análises sustentadas no exame dos fatos contemporâneos e no estudo da história. Revolução de nosso pensamento. no uso comumente aceito. Às tentativas ociosas de formular definições e “leis” supastamente aplicáveis ao fenômeno revolucionário. nos últi­ mos 20. diz Brinton. que a palavra Revolução é uma das mais impre­ cisas que há. Houve certamente muito menos violência no país.. E a violência resultante de terríveis Guerras Mundiais imperou. Pensou-se em Revolução dos Animais e Revolução das Crian­ ças. Lamentavelmente. ao qual mais adiante nos referiremos. 30 ou 60 anos.O E s p ír it o das R evo luçõ es 49 ção de leis sociológicas. Political Order in Changing Societies. Libertação dos Gay homossexuais. armado de bomba e metralhadora. E assim mesmo! Huntington comete o que me parece erro grave no caso brasi­ leiro. nada mais do que um enfático sinônimo-de mudança.. a respeito do qual possuo firmes convicções (pelo menos de caráter negativo. no Brasil. “A lista pode ser infindável”. sabemos exatamente do que se trata: a história é que consagra o termo. Revolução do negro americano. boas informações. nes­ sas condições. Revolução no comércio de modas femininas. revolução vem a ser. Seus erros devem ser atribuídos a preconceitos característicos do pensamento anglo-saxâo. inédita e incomparável. o Chile e a Argentina. e “realmente. ainda nos encontramos nessa fase primitiva do pensamento político e existiram. com a sugestão que é brusca ou de ruptura”. nas décadas dos 50 e 60. no final dessa variedade de significados. Woman's Liberation. Quando eta ocorre na história. e empenhado em liquidar com todo e qualquer tipo de autoridade. no continente mais civiiiiado . Não cabe. Com razão observa Crane Brinton. a pala­ vra foi inacreditavelmente inflacionada e passou-se a falar em Revolução sexual. do género da obra de Samuel Huntington. agitadores e até mesmo padres que tudo queriam subverter. segundo espero. Revolução verde. do que em outras nações mais desenvolvidas do que a nossa.) e. como o Uruguai. soberana.

Huntington considera a Revolução como “uma mudança interna brusca. em certo mo­ mento. “imoralidade” e “violência”. O debate sobre a ilegalidade”. Rússia. Consolidada embora. nada sofreram nesse terreno por mais de cem anos depois de haverem sido contaminadas pelo vírus revolucionário francês. ou de ser descrito como “direitista” e mesmo como “conservador”. passou rapidamente para as formas extralegais de imposição. Segundo tal conceito.50 J. em suma. então. A Revolução francesa e o cataclismo bélico provocado por Napoleão ocorreram no que era então a mais pode­ rosa e mais rica nação da Europa. fundamental e violenta dos valores dominantes e mitos de uma sociedade”. embora sua presença seja inquestionável. O regime era tido como legal. a França. de M eira P enna e desenvolvido de todos. e uma das mais san­ grentas e bestiais explosões de atrocidade de que há memória histórica. aliado aos junkers prussianos. O . rela­ tivamente ordeiro. parece-me escapar do ponto principal. ou como uma mudança “no mito predominante da ordem social”. Espanha. negar-lhe a augusta qualidade revolucionária. a Europa. inicialmente. O fracasso horrendo não é motivo suficiente para lhe negar o qualificativo. criando um mito bárbaro de agressividade guerreira e racista. a Revolução nazista foi realmente uma revolução. como indicadores da existência ou não da Revolução. sob estrutura legal. Portugal. o nazismo conspurca o ideal e preferem. utilizado a violência excessiva. O regime de Stálin foi um período de consolidação e não de subversão. que eram relativamente subdesenvolvidas. O fato de Hitler ter subido ao poder por meios legais e de não haver. da tirania de Stálin. Como não se pode saber exatamente o que é um Mito e qual seu conteúdo simbólico. podemos aceitar essa definição do ilustre professor de ciência política da Universi­ dade de Harvard. Para os intelectuais ainda seduzidos pelos aspectos românticos e idealistas do Mito da Revolução. mais durante o período pretensamente . Stálin esmerou-se mesmo em mandar redigir uma Constituição. inicialmente. aos industriais do Ruhr ou aos ve­ lhos burocratas do Império bismarckiano — não impede que o nazismo tenha sido uma das mais brutais e sangrentas revoluções do século. A própria Revolução russa causou um número de vítimas insignificante quando comparado as dezenas de milhões que faleceram durante o período. A brutalidade do poder exerceu-se. ou de se haver.

tão ordeira que. ritualista e conformista da sociedade japonesa. da própria Revolução francesa. era um ditador militar que usurpara o direito divino dos imperadores resi­ dentes em Kyoto. póde este autor classificá-lo como uma “Revolução pelo Alto”. A “revolução pelo alto" nipônica culminou na catástrofe de 1941-45. mas englobando também os nobres da corte de Kyoto e. constitui não apenas uma Restauração do poder imperial. como veremos mais adiante na obra dc Barrington M<x>re. É também exato que o reinado de Meiji. O reinado de Mutsuhitô (Meiji) implicou a subida ao poder de uma nova classe burguesa. em geral. realmente revolucionária. do bolchevismo. Milhões de homens foram vitimados por uma guerra que se pode relacionar. quando comparadas às da repressão dos camponeses da Vendéia e às que Napoleão ia determinar. até então man­ tido como uma mera tradição religiosa e ritual. modernização e mudança no “mito predominante” do Japão. contradição entre o elemento modernizante e o elemento nacionalista . As Guerras Napoleônicas não são geralmente classificadas como Revolu­ cionárias. se integravam fatores de nacionalismo belicoso os quais só iriam explodir setenta ou oitenta anos depois. o campesinato. mas uma verdadeira Re­ volução no sentido de imensa transformação. indi­ reta mas necessária. arregimentada por trezentos anos de disciplina militar.O E s p ír it o das R ev o lu ç õ es 51 “legal” do comunismo staliniano do que durante a fase inicial. embora certo seja que representaram uma conseqüência. progressivamente. muito embora governasse havia séculos. Donde se conclui que havia. no Mito nipônico do Xintoísmo. O problema da legalidade no período Meiji também é subal­ terno. no Japão do século XIX. Assim também as vítimas do “Terror'” durante a Revolução francesa foram poucas. logicamente. em Meiji. Se essa imensa trans­ formação se processou dentro de uma ordem e paz relativas. nas décadas dos 30 c 40 de nosso século. por força da estrutura fortemente hierarquizada. Os rebeldes “imperialistas” que derrubaram o poder do Xogunato cm benefício do Mikado podiam argumentar que o Xogun ou Generalís­ simo. descendente dos comerciantes que se haviam estabelecido em Yedo (Tóquio). em aliança matrimonial com a velha casta militar dos samurais. também é certo que. residente em Tóquio. com r espírito da Revolução Meiji. um. Causou pequenas guerras civis mas se manteve.

Os concei­ tos marxistas não se aplicam realmente ao fenômeno chinês. contradição só resolvida após a derrota.. quando relacionada com o fenômeno de Revolução. Não explica coisa alguma. Nem todas as Revoluções são violentas. teoricamente. um ato violento pelo qual uma classe der­ ruba uma outra” — uma tal definição. nem uma paisagem pintada sobre seda. que melhor sc enquadraria na noção de “Despotismo Oriental” ou da Sociedade Hi­ dráulica. e a insignificância relativa da grande propriedade rural. nem pode ser uma coisa tão requintada. Entretanto. constituir a derrubada de uma classe por outra. E isso graças à derrota e à intervenção estrangeira. sem relacioná-lo com seu contexto histórico? Eis a insuficiência de uma proposição qual a de Chalmcrs Johnson (Revolutionary Cbange) para quem deve o conceito de Re­ volução ser forçosamente examinado como uma modalidade de violência. Há também violência. O.. como considerar um fenômeno social e político da amplitude do movimento Taiping. de M eira P enna belicoso. tão sossegada. Não obstante seus exageros c aberrações. Um de seus pontos relevan­ tes reiaciona-sc com a existência de uma burocracia estatal patrimonialista. a tese de Wittfogel sobre o Despotismo Oriental constitui um indiscutível aprofundamento de certas características dos grandes Impérios asiáticos. nem um ensaio ideológico. A fracassada Revolta dos Taiping. nem o mesmo do que escrever um ensaio ou pintar um qua­ dro. mas não deu em nada. constituída de comer­ ciantes designados pelo termo português de compradores. toda a pro- . na China dos meados do século dezenove.. dizíamos. desenvolvido por Karl Wittfogel a partir de uma idéia de Marx. nos portos dependentes do comércio de exportação e importação com o Ocidente. mas esteve longe de. dc grande poder político e econômico. é perfeitamente retórica. não obstante sua profundidade. sem haver revolução. A definição de Mao Dzedong para o qual “uma Revolução não é um banquete. talvez tenha causado relativamente maior número de mortes (trinta milhões) do que a Revolução comunista deste século. meramente.. era uma pequena minoria pouco representativa de uma classe. Na China imperial. Concluiremos que a ambigüidade cerca a noção de violência.. a alegada “burguesia” chinesa. Uma Revolução é uma insurreição. Para começar. Precisamente na China estamos diante de uma Revolução de inquestionável profundidade e que não foi nenhum ban­ quete.52 J.

nem cm subversão da estrutura social. Mao Dzedong está mais próximo de Pedro o Grande da Rússia. do Imperador Meiji e de Kcinal Atatürk. Em que pesem as alegações dos comunistas chineses. a pesada c terrível herança do Oci­ dente. foi derrubada não porque oprimisse e explo­ rasse o povo. No fundo. A Revolução americana. Representou um conflito exclusi­ vamente político entre povos da mesma língua c cultura. desse modo. Não havia. Além disso. mas externo: a Revolução chinesa se encaixa no processo geral de reação das antigas civilizações e velhas estados orientais ao impacto universal da civilização ocidental moderna. à qual se aliara e da qual dependia Chiang Kaichek. mais do que o socialismo marxista.O E s p ír it o d as R ev o lu çõ es 53 pricdade territorial era do Filho do Céu. na China do Kuomintang. Seria assim mais condizente com a realidade histórica acentuar que a Revolução chinesa deste século configurou ape­ nas uma tàse de renovação da velha aristocracia burocrática dos Manda­ rins que. A classe burguesa dos “compradores”. Foi uma mera guerra de libertação contra a Inglaterra. a esterilidade do debate sobre as caracteres da Revolução deve ser evitada. du­ rante milhares de anos. para o emergente nacionalismo chincs. mas porque. por exemplo. foi fun­ dado o Império Chinês. Robespierre ou Lcnin. por Ch'in Shih Huangti. semelhante àqueles que. durante dois mil anos. O fator que determinou decisivamente esse processo não foi apenas interno. Ela representou um processo de mera mudança “’dinástica”. Isso não lhe diminui a força representativa mas. É igualmente evidente que a Abolição da Escravidão e o esforço da Uniào contra a autonomia dos Estadas federados configuraram uma seqüela . repre­ sentava os interesses e a cultura do Ocidente cujo espectro possessivo era preciso eliminar. tem governado a China. menos uma transformação social do que um fenômeno negativo e ambivalente de aculturação. tem afetado de modo cíclico a longa história do Império Central. da Turquia. o nacionalismo. o feudalismo territorial desapareceu nos quarto e terceiro séculos antes de Cristo quando. A Revolução maoísta constitui. antes lhe reforça a natureza de modelo arquetípico da Revolução ocidental. do que estaria de Cromwcll. não implicou cm violência brutal. como acentuou Hannah Arendt. foi a ideologia que converteu os chineses. uma burguesia capita­ lista industrial. dona dos meios de produção no sentido exato das teses de Marx.

registou várias etapas violentas posteriores (1932. acompanhadas de purgas san­ grentas. nos distúrbios da integração racial e da eliminação da discriminação culminaria o ama­ durecimento final desse processo socialmente revolucionário.ibcral” dc 1930. noventa anos depois da Constituição. Houve. genocídios — como em Ruanda. uma Revolução pode registrar várias etapas e se estender por muitos anos e mesmo por vários séculos6. Contudo. 1935. Era uma seqüela da Revolução republicana. fuzilamentos. no momento exato em que escrevo — sem que se possa afirmar esteja realmente ocorrendo uma Revolução. de quedas violentas de governo. libertação ou descolonização e reação ambivalente ao impacto cultural da modernização ocidental. Os Rebeldes do Sul foram “contra-revolucionários” e o resultado social prático. foi a eventual liberta­ ção das pessoas de cor na comunidade americana. devemos estudar as Revoluções na sua complexidade e no contexto his­ tórico geral da nação. como dantes no Quartel de Abrantes. Mas será que alguma das cem ou duzentas “revoluções” boli­ vianas constitui uma Revolução? Tudo sempre pareceu continuar. Oitenta ou noventa anos mais tarde.IRA PENNA necessária dos acontecimentos de 1776. arruaças. violência e transformação social. Em suma. praticamente. no Altiplano.. Houve sempre. 1938). O.54 J. o conflito político mais sangren­ to dc nossa história. a Revolta da Armada e a Guerra civil no Sul causaram entre dez a vinte mil mortos. A “Revolução l. . se considerarmos os acontecimentos de 1861 como consecutivos. o que quer dizer em nossos dias. particularmente no Terceiro Mundo afroasiático. portanto. Quatro anos depois. necessári­ as e inerentes aos princípios que orientaram os Pais da Pátria — Foundinq Fatbers. relacionadas algumas vezes com ten­ tativas desesperadas de fazer artificialmente ressurgir alguma velha tradi­ ção nativa. Pelo que se verifica. No golpe militar dc 15 dc novembro não se registou. isso sim. guerras civis. Repleto está o século XX. em meados do Século XIX. DE MF. o que provocou. a chamada Guerra de Secessão. de acordo com os princípios constitucionais relativos aos Direitos do Homem. a transforma­ ção originariamente encetada pelo Movimento Nacionalista Revolucioná­ É o caso do Brasil cm fim do século passado. dc modo similar. A Guerra Civil entre os Estados faz forçosamente parte de um processo revolucionário lentamente amadurecido na alma do povo ameri­ cano. até culminar na pasmaceira ditatorial do “Estado Novo”.. assassinatos. violência alguma. um dos mais sangrentos conflitos civis da história.

exceto quando o regime antecedente. Dunn adverte que “não podem existir revoluções.) propõe um en­ foque dito “tuncionalista”. que “as analistas dc sistemas de revolução são freqüentemente culpadas ao argumentar que o desequilíbrio constitui um pré-requisito para a Revolução. O sociólogo americano Chalmers Johnson (opus cit. seja peia . desenvolveram esquemas de derrocadas de regimes que se encontram associados a sinais de violência na sociedade” — sem. De que outra maneira iremos saber qual é o segmento da população que deixou dc ter relevância política? As críticas que se podem levantar contra as teorias dc um outro cien­ tista político. John Dunn são do mesmo estilo. seja pela fraqueza. de fato. Acentua Cohan. na base da fórmula seguinte: disfunção múltipla + in­ transigência dc elite + x = Revolução. ficamos na mesma. o que é absolutamente válido para seu próprio sistema. para seu modelo revolucionário. não parece esclarecido com muita precisão. O fator*. Depois de meditarmos longa­ mente cm torno dessa brilhante sugestão circular. O próprio Cohan observa que se um regime ruiu é porque a parcela politicamente relevante da população lhe retirou o apoio. mas só sabe­ mos que um sistema se encontra desequilibrado quando ocorre uma Re­ volução” (Cohan 117). p. por Cohan. com razão (p. considerado por Johnson como “acelerador”. contudo. atingir qualquer conclusão relevante ante a variedade extraordinária da história. que “a maioria dos teóricos e construtores de modelos de quem nos ocupamos no presente estudo. Em vez disso. determinando o processo de modernização e desen­ volvimento que se observa no momento. não está na verdade preocupada com a mudança revolucionária tal como é definida por Marx e Arendt. A proposta pode ser descrita. combinadas com <> fator x de “aceleração” do movimento.O E s p ír it o das R evo lu çõ es 55 rio acabou. A conclu­ são geral que se pode sacar desse modelo é que a Revolução se declara quando surgem condições propícias à Revolução. A maneira através da qual podemos saber se essa parcela efetiva­ mente retirou apoio ao governo é quando este é derrubado. Em seu M odem Revolutions. Johnson acrescenta. 114). embora malogra­ das. Aliás o próprio Johnson parece que acaba concluindo que “a elaboração dc definições e princípios é o balanço estéril e freqüentemente tautológico de muitas dessas teorias” (cit. 29).

de maneira definitiva. duas posições ou facções que se enfrentavam. que considerava o governo de Goulart fraco. de M e ir a P e n n a corrupção. Não havia. c flagrantemente subserviente aos elementos comunistas que o procuravam controlar. perdeu o direito de governar”. Cohan faz ainda uma crítica de outra escola. A tese de Tocqueville é geralmente admirada como uma análise brilhante — talvez a mais brilhan- . a priori. maneira objetiva de declarar que esta ou aquela opinião correspondia à realidade do momen­ to. ineficiente c corrupto. a outra. O que em França ocorria. que o governo de Gou­ lart era realmente fraco. O resultado do movimento militar demonstrou. não era capaz de atender. quando pretende forne­ cer formulas ou modelos estritos. era um distanciamento que se agravava entre os desejos da população. O resultado é sempre estéril. A Revolução foi bem sucedida em virtude de um surgimento gigantesco de esperanças populares que o regime abúlico. demográfica e expec­ tativas crescentes. desejando “reformas de base” destinadas a corrigir. ou leis suscetíveis de serem invariavel­ mente aplicadas para a análise de uma situação tida como revolucionária. Tocqucville pretendeu que a Fran­ ça de Luiz XV c Luiz XVI não se encontrava em estado de decadência mas. A resposta só foi dada a 31 de março pelo recurso à força. Mas ficamos nós por ventura mais cientes das condições que provocaram a derrubada do regime ante­ rior. naquela época. em rápida expansão econômica. presidido pela Corte dc Versalhes. desejoso de recorrer a medidas ilegais e anticonstitucionais para subverter a ordem política e social. uma para a qual o governo de Goulart era legítimo. a posteriori. corrupto. os males da estrutura social do país. representava a maciça vontade do povo brasileiro. pela fraqueza e a corrupção.56 J. a satisfação esperada das necessidades e a satisfação real proporcionada pelo regime. A escola é assim denominada a das “expectativas cres­ centes”. em nosso país. decai para a tautologia. que se prende à obra do ilustre Alexis de Tcx'qucville (L'Ancien Régime et la Révolution) c que séria valida para a França do Século XVIII. ao contrario. O . através de dados empíricos a priori? Tornemos por exemplo o próprio caso brasileiro de março de 1964: havia então. Podemos assim sustentar a tese de que o modelo fimcionalista destes autores citados e de outros da mesma escola é inade­ quado. Ele limita-se ao relato de uma seqüência de acontecimentos que / podem ou não levar à mudança revolucionária e.

por exempk) à índia contemporânea. em grau suficiente. Após examinarmos cm que sentido a moderna psicologia das pro­ fundidades aborda a questão da rebeldia. A teoria é incapaz de nas oferecer uma resposta satisfatória a essas nossas naturais indagações. do protesto contra o superego. a Coréia. A imensa população indiana. A índia poderia também olhar para o Brasil onde des­ cobriria que o clima tropical não constitui obstáculo à industrialização. de cerca de no­ vecentos milhões de almas. Essa população possui. preten­ deu representar. por que não se revoltam os párias contra as outras castas que monopolizam o poder e a riqueza da índia? Incidentalmcntc o caráter passivo da população indiana é comprovado pelo fato que. do famaso Com­ plexo de Édipo. Após examinar essas várias Teorias surgidas para explicar o fenômeno que nos interessa. da antinomia. cm nosso próprio approacb ao problema. Formosa. sendo Calcutá uma das maiores metrópoles do mundo e a mais pobre — e também a que. a população indiana e não a conduzam à revolta? Especialmente.O E s p ír it o das R ev o lu ç õ es 57 te que já tenha sido realizada das condições que determinaram a Revolu­ ção francesa. ora comunistas. o Japão. contra o Pai — passare­ mos para a problemática transcendente da Filasofia da História. ora capita­ listas. registra os índices mais baixos de criminalidade. a Tailândia estão hoje em franco progresso. registra um lento crescimento na satisfação de suas necessidades de alimento e bem-estar. mantida por preconceitos religiosos. para . Mas tentemos aplicar. não mais se justifica à luz dos ideais modernos de democracia e igualdade que o pró­ prio partido dominante na índia. o Congresso da família Nehru. o exemplo de outras nações da própria Ásia que conseguiram superar um estágio semelhante de subde­ senvolvimento e de dependência em relação a potências coloniais euro­ péias. Os cento e tantos milhões de párias poderiam considerar que sua situação social de inferioridade. diremos em conclusão que. a China. surpreendendo os entendidas. Como se explica então que essas expectativas crescentes de melhora não infectem. para passar para o âmbito psicológi­ co. pretendemos criticar o que se tem dito cm matéria de Revo­ lução no âmbito da ciência política. a partir de uma situação geral de incrível miséria. a teoria das expectativas crescentes. Através da escolha de regimes diversos.

entre os escombros brota a tribo dos fantasmas: aparecem primeiro como idéias radiantes mas logo são endeusadas e convertidas em ídolos espantadores. O . psi­ cológicas. Nisto a fé revolucionária se parece com a religiosa: nem as matanças de setembro de 1792. Uma fé que nasce do vazio que deixaram as crenças antigas c que se alimenta. A crítica do tempo é irrefutável porque é a crítica da realidade: mostra sem demonstrar. há uma diferença: as crenças revolucio­ nárias estão sujeitas à prova do tempo enquanto as religiosas se inscrevem num além intocado pelo tempo c suas mudanças. é claro que significam o fim do mito do socialismo autoritário. nem os campos de concentração de Stálin fizeram vacilar as convicções dos fiéis. justamente. pela necessidade que sentimos de remediar e pôr fim à nossa desditosa condição. isto é. envilecidas pelo fanatis­ mo e corroídas pela crítica. carcomidas pela superstição. Em todos os movimentos revolucio­ nários o tempo sagrado do mito se transforma inexoravelmente no tempo profano da história. c coriácea e resistente. Embora encontre­ mos outras explicações do fenômeno revolucionário — econômicas. dependem essencialmente deste fato básico. em primeiro termo. políticas — todas elas. sem ser falsas. nem a carnificina da SaintBarthélemy. Qualquer que seja o alcance destas reformas. se dissipa cm agitações frenéticas e se congela cm ditaduras sangrentas que sãt» a negação do impulso que a inflamou ao nascer. No entanto. Por isso. As antigas divindades. Mas para encerrar esta Introdução ao tema principal de nossa disquisição volto a uma citação de Octavio Paz — longa citação porque merece — no discurso perante a Fundação Tocqueville: “Os movimentos de adesão que suscitam todas as revoluções podem explicar-se. de M eir a P enna terminar com algumas tentativas de incursão nas camadas estratosféricas da Teologia7. Há épocas em que essa necessidade de redenção se faz mais viva e urgente pelo desvanecimento das crenças tradicionais. cerra os olhos com tei­ mosia tanto ante as incoerências de sua doutrina quanto ante as atrocida­ des de seus chefes. Estas mudanças são uma autocrítica e equivalem a uma confissão. . temporais. E o que mostra é que a Revolução começa como uma promessa. As revoluções são fe­ nômenos históricos.58 ]. da consciência de nossa miséria e das geometrias da razão.úcifer-Sabaoth. desmoronam. falo do fim de 7 N o volume que a este se segue: I.

Ignoramos o que nos reserva o porvir: nacionalismos virulentos. Não o mata uma Santa Aliança: morre de morte natural”. o mito revolucionário está morrendo. a versão bolchevista. É uma idéia que sobrevive apenas em algumas regiões da periferia e entre seitas enlouque­ cidas como a dos terroristas peruanos.O E sp ír it o das R evo luçõ es 59 uma era: presenciamos o crepúsculo das idéias da Revolução em sua úl­ tima e desventurada encarnação. Ressuscitará? Creio que não. Tampouco' sabemos se os povos da União Soviética conhecerão novas formas de opressão ou uma versão original e eslava da democracia. renascimento de mitologias enterradas. novos fanatismos. . Em todo caso. catástrofes ecológicas. mas também descobrimentos e criações: a história e seu cortejo de horrores e maravilhas.

É ela a vaca que produz o leite e é o rebanho”. n. o Tin se coloca como elemento pri­ mordial no dualismo Tin-Tang. 3 7 7 . Na parte mais profunda da psique inconsciente. O arquétipo materno cor­ responderia. Agosto. durante alguns anos. “A Mente e a Terra”. A Mae “é o campo providencial e seu filho o grão divino. 3 8 1 . n. à Matéria (a etimologia latina de m atéria sendo próxima estreitamente de m ater... um cmtinuum da atmosfe­ ra psíquica da mãe e.2. por assim dizer e por muito tempo. na criança. como se sabe. daquela entidade. “a relação mãe-criança é certa­ mente a mais profunda e penetrante que conhecemos. Para a criança ainda no colo e no berço. que os pais proporci­ onam. à Economia. Mãe). tudo que é. a criança é de fato. Como escreve Jung num ensaio em que procura definir seu conceito de arquétipo. a força benfazeja. em que Jung se refere ao “Inconsciente Coletivo”. ao Todo natural (holon) ou Cosmos concreto em que vivemos. essencial e absoluta. E isso é verdade não apenas no caso individual. à categoria Tm da filosofia taoísta chinesa. 9 D c 1 9 2 7 . A C m íizaçâo em Transição. uma parte do corpo materno! Mais tarde toma-se realmente. mas ainda mais num A sentido histórico”. * Parte do texto deste capítulo serviu para três conferências pronunciadas no Conselho Técnico da Confederação Nacional do Comércio. e publicadas na Carta Mensal. primordial. vol. à Natureza-Mae. . PATRIARCALISMO E ABSOLUTISMO8 idéia da autoridade nasce da experiência do poder de nossos pais. dessa maneira. Dezembro 1 9 8 6 . representa a Mãe. associado à Casa. O desejo elementar é o de alimento e segurança. Janeiro de 1 987. no vol. 3 8 2 . à Terra.1 0 das Obras Com pletas. cm 1 9 8 6 . em primeiro lugar. e n. Nela. 3 2 . encontra-se por assim dizer indissoluvelmente fundido na imagem da Mãe. da qual depende para seu sustento e própria vida. domina portanto o arquétipo materno. como também acentua Jung.

fala com outros homens. o dever. uma imagem divina. em suma.” E prossegue o psicólogo suíço afirmando que “dessa maneira. Do mesmo modo como atrasou-se o homem na descoberta da natureza. portanto a lei e o Estado. viaja. faz a guerra. como é freqüentemente sugerido pelos junguianos. atm an. a experiência.O E s p ír it o das R ev o luçõ es 61 Entretanto. a responsabilidade. modifica subi* tamente a situação como se tora um ciclone. caça. cm suma. a punição. O Pai é Poder. como o vento. O lugar do Pai é tomado pela sociedade dos homens. que “o Pai vai de um lado para o outro. oposta à da Mãe. Poderíamos chamá-lo o arquétipo do Logos. a justiça. O Pai é o Verbo. o espírito. “o Pai é autor e autoridade. a repressão. A imagem paterna desenvolve. e o lugar da Mãe pela família1". da ordem ou mandamento que implica autoridade c moral — donde o Esta­ do. Ao se referir ao papel do Pai na psique original do homem. um arquétipo cuja natureza é. o ensinamento. em muitt» sentidos. benfazejas ou maléficos". sob o impulso de pensamentos invisíveis. a importância da personalidade parental se vai reduzindo. um princípio dinâmico. se c o arquétipo materno o mais imediato e influente. Ele é o sopro cria­ dor do vento — pneuma. a sabedoria. é o Pai também um arquétipo poderoso que reside na psique da criança. O Pai é eminen­ temente o princípio Tang no Tao da política. É. com o desen­ volvimento da consciência. surge a figura do Pai no campo de visão infantil ativando. a força. o elemento imprevisível e dinâmico. no mesmo ensaio. É ele a guerra e a arma. demasiadamente humana. todo seu potencial significativo. E tal como a consciência nascente se torna mais capaz de compreensão. Ele corresponde ao que se move no mundo. a imagem de todos as poderes elementares. só gradual­ mente descobriu a lei. aquilo que cria e guia com pensamentos invisíveis — as fantasias. é o touro que é provocado para a ação vio­ lenta ou se torna mais levado à apatia da preguiça. do Verbo. o Estado. a causa de todas as mudanças. Toda* essas . desata seu mau humor como tempestades c. acrescenta Jung. spiritus. O Pai. Como ainda escreve Jung. mas também o estímulo para o crescimento e a aventura. personifica a categoria arquctípica do Ix>gos. A princípio é ele simplesmente o Pai. a Razão. No decurso da vida a hnago autoritária recua para o fundo: o Pai se torna uma personalidade limitada e freqüentemente humana. no mesmo ensaio. por outro lado. a lei.

o Senhor e o Pai e criador do Universo. o Papa. oni­ potente. sem dúvida herética ou gnóstica. supremo c eterno. Devemos a Freud. no âmbito da ontogênese. que constitui o tema principal de suas últimas obras. como foram os hebreus os primeiros a proclamá-lo: Adonai Elobennu. todo monarca é pai de seus súditos. Depois de haver sido deus. ao que o PaternaJismo ou Patriarcalismo representam no âmbito da filogênese. A Freud reverte outra dívida importante. mais ainda. Na transmutação do religioso para o meramente político. sem a qual dificilmente compreenderíamos os problemas que nos afetam como adultos. Zeus-pitar ou Ju-piter é o Rei do Olimpo. O Superego freudiano se reflete na simbologia paterna. Ao saltarmos do indivíduo para a coletividade político-religiosa. Ele é um só. surge o princípio de ordem e autoridade. em outras palavras. a sugestão para uma espécie de “nova teolo­ gia”. o Senhor é Um”.62 J. Sendo fundamental na estrutura da psique. O Senhor. o Deus Pai. necessariamente. O . E. o mo­ . antes de mdo do Pai. na figura do vigário de Deus na terra. ou filho da divindade. Adonai echad — “o Senhor é nosso Deus. d e M e i r a P en n a coisas impingem e são imediatas na vida da criança. Adonai. Foi a de haver associado à figura do Pai — a figura “arquetípica”. tanto Freud quanto Jung notaram que corresponde o complexo paterno. onisciente e eterna a que damos o nome de Deus. Rei c. poderia servir de paradigma de todo movi­ mento revolucionário — a autoridade do Eu só sc firmando pela supres­ são da autoridade do Pai. é Iahvé. embora ele nunca tenha utiliza­ do esse termo — a imagem que temos dessa entidade transcendente. Como já percebia Nietzsche. No politeísmo clássico greco-romano. Che­ fe. do Patrão. monarca supremo. a psicologia tornar-se-á a primeira ciên­ cia a ser considerada em toda filosofia profunda do destino humano. recorrer à psicologia para seu melhor entendimen­ to. cujo componente negativo é a morte do Pai pelo Filho. e seu representante na terra também merece o tratamento de Santo Padre. nas figuras do Mestre. Elas são decisivas na existência do homem adulto e foi um dos maiores méritos da psicanálise haver realizado essa espécie de arqueologia da mente humana. No Cristianismo. a situação nuclear em que Freud coloca o Complexo de Edipo na psique do homem. Por esse motivo é que toda antropologia e toda sociologia de­ vem. Explicita-se em suas expres­ sões progressivamente mais altas.

como ainda vemos na figura barbuda de Fidel Castro. progressivamente substituída pela do irmão mais velho. o animal alpha é quem dirige a caça e determina as migrações. sociólogos e cientistas políticos modernos debruçado. para o esclarecimento dessas questões. caso existam. quer de uma matilha de leões ou um rebanho de cervos. sobre os dadas que nas oferecem a biologia c a psicologia arquetípica das profundezas. Quer sc trate de um grupo de gorilas ou bugios. nesse contexto. à luz das modernas pesquisas de antropo- . no desenvolvimento que Weber descreve como “desencantamento” (Entzauberung) ou racionalização. poder e opressão do mais velho. mais fraca. do tio ou outro parente próximo. até alcançar eventualmente. não se tenham os antropólogos. A autoridade do Pai vai sendo. porém. Stálin. do arquétipo da figura daquele que possui mais torça. diretor. há sempre animais alpha. policial. ao contrário das clássicos. O patriarca configuraria. Do mesmo modo. do amigo mais velho e mais sábio que apóia e aconselha — e de todos os membros dos escalões superiores da sociedade na inflexível hierarquia social em que vivemos. É por isso de lamentar que. sendo lícito fazer a autoridade derivar. o ogro do Kremlin. pela do mestre. do professor ou do patrão. para os russos. para afastá-la da comida disponível. Entre certas pássa­ ros c mamíferos sociais. O bicho mais jovem e mais fraco invariavelmente se submete à autoridade. do burocrata.O E spír it o das R evo luçõ es 63 narca sc torna “rei pela graça de Deus”. no Chefe máximo em tunção da posição polí­ tica no Estado. oficial do exército de mais alta hierarquia. eventualmente. Entre as pássaras c a hierarquia estabelecida pelo que se chama a ordem da bicada — pcckinjf order. e em seguida. o Tzar era popularmente tratado como o Papaizinho. com a necessária atenção. todos os dcspotas e tiranos em sua velhice são patriarcas no outono. a personificação do princí­ pio abstrato de Lei e ordem autoritária na escala hierárquica que sc con­ substancia. Na Rússia pré-revolucionária. mais forte e mais experimentado no bando. O que se pode. inteligência ou experiência resultante da idade ou simples paternidade. o modelo já total­ mente abstrato do Estado e da Lei que apenas se personaliza nas figuras do governante. Paizinho bigodudo também foi. na base da biologia c da antropologia. do juiz. O direito que tem um galo ou uma galinha de dar uma bicada cm outra. Os animais já nos oferecem o padrão dessa hierarquia. dono e gerente da empresa.

Na perplexidade do homem diante da vida. também. em uma de suas obras mais famosas c aquela que. A lei da luta e da concorrência. falava cm L'Homme Kévolté. no terreno da filosofia política. A solidariedade domi­ nava no interior do grupo. solidariedade. que parece esquizofrênica pela necessidade que tem de ser livre e. d e M e i r a P e n n a logia e zoologia. Os hominídeos primitivos (bomo erectus ou bomo habilis que seriam formas de transição para o bomo sapiens) coabitavam. manifestava-se. dentro do próprio grupo pelos concorrentes à posição máxima. em pequenos grupas sociais consanguíneos. dentro de cujo âmbito restrito vigoravam regras elementares de matrimônio. o fez merecer o Prêmio Nobcl. freqüente ou esporadicamente. diretor cultural do Conselho dos Insti­ tutos Liberais. como de novo sustenta Ortega. comuns e individuais. inicia seu argumento no pequeno ensaio Entre os Cupins e os Homens. alienar parte dessa liberdade ao se dispor a viver em sociedade. Mas o homem é. pela necessidade que enfrenta de conciliar o ser solitário — para ser livre — com o ser solidá­ rio. ela se manifesta pela oposição irrefragável entre dois .64 J. sino que tiene h is t o r ia Camus. para viver em sociedade — somos levados a colocar a origem do drama humano. é considerar que. à procura de sua liberdade. simultaneamente. se é o homem um zoon politikon. no momento de transição de uma espécie de primata para nossa própria espécie bomo sapicns — já não vivia o homem isolado e solitário. O . Certamente. a guerra de todos contra todos de Hobbes. Acredito que. presumivelmente. como assinala o Og Leme ao citar Ortega y Gasset. Sugeri mesmo o termo grego enantiosis para cobrir esse princípio filosófico essencial. Tenho eu também consistentcmente argumentado com essas contradições essenciais da vida humana. ainda que sempre se deva admitir espasmos de violência possível entre seus membros. e um animal político nascido numa sociedade polêmica e hierárqui­ ca. observando que o homem é um ser tão social como é anti­ social. mas não nos é dada pronta” porque. na peculiaridade dessa contradição. isto e. entre grupos rivais. no estado de natureza — isto é. conforme arbitrariamente avançado nas hipóteses de Hobbes e Rousseau. Seus interesses são. provavelmente. solitário e individualista. “A vida nos é dada. ao mesmo tempo. a tensão criadora que surge da contradição dos opostos. a famosa bellum omnium contra omnes. “£/ bombre no tiene naturaleza. autoridade e convivên­ cia hierárquica. O professor Og Leme.

num retrospecto histórico um pouco mais distante! A história das Idéias constitui a manei­ ra primária de abordar questões de filosofia política e ciência social. Hegel registrou a prece­ dência histórica do Despotismo Oriental. em que religião e política estavam indissoluvelmente associadas. que se processará a Revolução — objeto da presente série de ensaio. como postura filosófica existencial. para o esclarecimento da matéria. Os reis e imperadores da Antiguidade eram. E é contra essa autorida­ de. que c dc 1988. que viveu o homem. na Mesopotámia. Como resultado dc haver enfatizado a contradição entre Ordem c Liberdade — ambas essenciais à vida humana — tenho sido denunciado. No Despotismo primitivo. considero que o mérito do Liberalismo. dirigente e repressi­ vo. que ambivalentemente respeita. o patnmmúUismo selvagem e a nova classe de intelectuais e burocrata. o de ordem e segurança do outro — oposição em virtude da qual surge o Estado10. como prelúdio ao argumento. no Egito e nos impérios asteca e incaico — o Estado é personalizado no Rei. Ora. na verdade. Prelúdio histórico. na índia. cujos traços essenciais emergem da pré-história na China. corporificada no Estado e na noção de Deus Pai. 111Discuto esse tema na obra O Dinossauro — Uma pesquisa sobre o Estudo. pelos que se alinham com posições absolutistas dc um lado oti tki outro. sob regimes que chamaríamos de “holísticos” (para agradar nosso amigo Alberto Oliva). ora como libertário enragé e quase como anarquista. Nessa base empírica se fundamenta a noção de uma entidade patriarcal.O E s p ír it o das R ev o lu çõ es 65 imperativos de nossa ação: o desejo de liberdade de um lado. patriarcas despóticos cultuados como deuses ou filhos dos deuses locais. O Absolutismo Empenhemo-nos. É preciso admitir. ora como conservador. teme e odeia. Donde se pode intuir que o homem é um ser eminentemente rebelde. reacio­ nário e talvez mesmo fascista. consiste fundamentalmente no reconhecimento consciente de tais contradições que tecem o dramático emaranhado da história política da humanidade. conflitivo e dominado pela autoridade de um Chefe. . do súdito exigindo absoluta dedicação e lealdade total. inicialmente e durante milhares de anos.

eis que o Todo é necessariamente anterior à parte”. E na filosofia dc Sócrates. é o Estado. absoluta lealdade e serviço constante. claramente anterior à família e aos indivíduos.66 J.. Acontece que Sócrates estava com a razão e apolis dc Atenas sem ela. 11 O ideal dc homonoia pregado por Platão c Aristóteles implica a crença que <í a sociedade composta de cidadãos vivendo em concórdia e absoluta unidade dc peasamenro. do ponto de vista da religião de estado dominante. Como tal. por sua própria natureza. Poderíamos. corresponde à que faz toda Inquisição na defesa das convicções dogmáticas tradicionais que configuram as ideologias coletivistas dc índo­ le autoritária11. freqüentemente mal interpretada. de filósofos — acima de seus limites terrenos. E como tal postulava que “. pela democracia ateniense condenado a beber a cicuta porque suas idéias não eram “politicamente corretas”. Estava ads­ trita. tal como transparece nos diálogos dc Platão. ou seja.. A acusação de corruptor da juventude. no entanto. os magistrados escolhidos por sorteio — sendo essa a razão. zoon politikon. O. Ele criticava seus heróis guerreiros e políticos. que o levou à morte. que se vislumbra pela primeira vez a ideia transcendente de um homem dc consciência livre e moralmente responsável. imaginar uma melhor expressão do espírito do totalitarismo coletivista do que esse famoso axioma do Estagirita? Foi Sócrates. plural poleis). porém. pre­ gando uma comunidade universal de homens sábios. por ventura. os polîtes das Cidadesestados (polis. a polis configurava uma entidade holística que dos cidadão reclamava completa obediência. pela qual Platão propôs um método diferente de escolha dos seus “guardiães”. DE METRA PENNA A idéia dc liberdade individual surgiu na Grécia clássica. A democracia ateniense era direta. Escravos e estrangeiros eram excluídos dos privilégios da cidadania porque não cul­ tuavam os deuses da polis. Mesmo em Atenas. e não obstante respeitador das leis de sua nação. ou seja. de “amantes da sabedoria”. de apenas cinqüenta mil era o número dos cidadãos “isonômicos” numa população que pode haver alcançado meio milhão. a um número diminuto dc cidadãos. Sócrates parecia despre­ zar os deuses da polis. Quaisquer que tenham sido as condições de liberdade democrática cm cidades como Atenas ou na Roma republicana. 2) definia o homem como um animal político. Aristóteles em sua Política (Livro I. cap. . que foi a maior cidade da época.

correto ou verdadeiro. . foi editada em 1680. que o criticou e sobre ele abun­ dantemente derramou seu impiedoso sarcasmo. acusado de desejar restabelecer o Absolutismo monár­ quico no Reino Unido e o predomínio da Igreja Católica. dita “Gloriosa”. o que implica a solida c inflexível estrutu­ ra do dogma ortodoxo (do grego orthos. c bem verdade. Sua obra principal. O livro de Filmer passou despercebido ate ser abordado por Locke. de legislação c opiniões. já falara Jean Bodin em seus Seis Livros da Republica (1576) na monarquia senhorial onde o governante é pai de seus súditos e dono de todos seus bens. chegando a ser preso pelos partidários de Cromwell. encontramos freqüentemente. o “ideólogo” dessa Revolução liberal parlamentarista. implícita nesse projeto. nos impérios da Antiguidade. uma plurali­ dade étnica que se traduz por diferenças de ftf. mas nesse caso uma casta militar ou religiosa dominante monopoliza o poder político. A publicação coinci­ diu com o período de agitação e polêmica em torno do Catolicismo do rei Jaime II que. cosrumes e comportamentos. em parte para contestar os argumentos de Filmer. achou Locke conveniente dirigir a polemica contra o empedernido absolutista cuja obra descreveu e debicou com a crítica de que “nunca tanta tolice escorregadia foi comptxsta em inglês tão pomposo”. Sem dúvida. acabou final­ mente deposto pela Revolução. em termos de uma Cidade ideal. Um regi­ me só e verdadeiramente totalitário quando. opinião) que "liga" os cidadãos uns aos outros. Piarão falava. Influenciado por Aristóteles e pelos clássicos acreditando uniformemente nas mesmas coisas. Patriarch. impõe um sistema universal de pensamento do qual se deduz a conformidade religiosa universal da “moral e bons costumes”.O E spír ito das R ev o lu ç õ es 67 Membro da pequena nobreza e tendo recebido um título do rei Car­ los Io por se haver colocado do lado da monarquia durante a Guerra Civil inglesa. c doxa. Antes de Filmer. de 1688/89. Um dos sentidos possíveis do tcrnn» “religião” seria o da etimologia latina de rc-ligare. repudiando a pluralidade de crenças e compor­ tamentos. exigia contudo que os hereges fossem exilados ou condenados à morte quando não concor­ dassem com a postura dos elementos que controlavam a ccclcsia (a Assembleia). é Sir Robert Filmer ( + 1653) um pensador político ora quase totalmente esquecido. A ortodoxia legitima o poder político ou a autoridade c«>crcitiva. apenas permitindo a sobrevivência dc classes ou etnias interiores mediante paga­ mento de tributo ou prestação dc trabalho servil. O problema que se colo­ cava era o do Absolutismo monárquico contra o Parlamentarismo liberal. Ao compor òs famosos Dois Tratados do Governo Civil (1690). A conformidade geral com a ideologia dominante. Sua “‘República" representava um paradigma educacional sem aplicação prática imediata.

Bo­ din. do tipo das que escarmentavam a França em sua época. e de ori­ gem carismática como propôs Weber) não tão facilmente se retrai ante o . teria sido aplaudido. E fato que podemos atribuir à força do patri­ arca dominante. Q . aliás. Relevante é igualmente a tese de Bodin que a formação da estru­ tura política da sociedade resulta da força. Se suas idéias foram derrotadas na Inglaterra posterior a Cromwell. A épo­ ca barroca foi a do chamado Despotismo Esclarecido. isso já na escala animal. um dos pensadores que mais contribuiu para a transição da idade da Igreja dominante para nossa própria de predomínio do Estado leigo: preparou. estava extremamente interessado em manter a ordem política estável e prevenir guerras civis e revoluções. então. nesse sentido. Hoje. Na Inglaterra. d e M e ir a P en n a latinos. Pelo menos melancolicamente se reconhece que o princípio do poder pessoal absoluto (ditatorial ou totalitário. de todos os Pais aos quais devem os filhos obediência absoluta — reunidos esses veneráveis anciãos na insti­ tuição hegemônica do Senado (de senex. Nesse sentido. Seu argumento era. Foi. o Absolutismo francês que se consolidaria com os Bourbons a partir do reinado de Henrique IV” (1589/1610). como agora dizemos. com aposentos em Versalhes. ou do uso do poder. cujas convicções religiosas eram fracas e tolerantes numa época de terríveis conflitos entre católicos e protestantes. seu Senhorio sobre a tribo. se deve levar mais a sério sua obra. Btxiin concebera a origem do Estado na tradição romana do po­ der extremo do pater fam ilias: o governo é formado pela associação de todos os velhos chefes de família. interessante é o pormenor que também escreveu Filmer antes que os princípios do paternalismo autocrático fossem utili­ zados por Carlos I para combater o exército do Parlamento. defendiam os vários autocratas coroados. reinantes na Europa. em toda a Europa.68 J. o filósofo oficial da Corte de Luís XIV. por força da evolu­ ção do Constitucionalismo liberal — o fato é que as idéias monárquicas absolutistas estavam triunfando. conforme a etimologia latina). Em outras palavras. o que defende Filmer é o princípio do Absolutismo da autoridade tradi­ cional hereditária do patriarca. praticamente. presumivelmente. Vale notar que Filmer defendera o poder naturai e absoluto dos reis antes mesmo de Hobbes publicar o Leviathan. velho. em suma. enobrecido e se tornaria. antecipa Hobbes. Se tivesse trabalhado em França. comum entre os publicistas de maior ou menor mérito que.

entre eles reconhe­ cer o primogênito? Na verdade. Como. procurarem estender a área de seu domínio coletivo sobre vastos territórios. ainda hoje presente no mundo com seu carisma ou mística especial. Locke reparava ironicamente que.O E spírito das R ev o lu çõ es 69 ímpeto do ideal liberal. o que postulava Filmer correspondia às crenças da época e representava uma formulação. do que mais tarde iria Max Weber denominar a autoridade ou “domínio” (Herrscbaft) tradicional patrimonialista. pelo menos desde a época cm que. não houvesse Filmer se desacreditado com o recurso absurdo de argumentar com o poder real de Adão... sete ou dez mil anos. Na pré-história do Immo sapiems vamos encontrar pequenas grupas familiares sob o comando de uni macho ou cacique mais velho c mais forte.. tal argu­ mento não pega e o autor foi considerado um mitômano. alegava Filmer. c como a maior parte dos homens que só são nossos conhecidos por aquilo que deles seus críticas afirmaram. só poderia haver um rei legítimo: todos seus primos seriam usurpadores. que faz legitimar a autoridade dos gover­ nantes pela descendência a partir de Adão no Paraíso. surgiu a agricultura e os homens se congregaram em fribm e cidades para. segundo o princí­ pio de primogenitura então em vigor. porém. Filmer poderia retorquir que atribuir ao “povo” a origem de toda autoridade não passa tampouco de um mito. Pois que é o “povo”? Não será uma simples “multidão sem cabeça”? Uma pura abstração? Uma entidade sem signifi­ cado concreto nessa escolástica nominalista cuja “vontade geral”. O argumento de Filmer é que “os reis atuais são herdeiros. nem por isso o podemos desprezar. Locke e Sidney.. Em outra ocasião abordaremos essa cir­ . constitui uma das mais tene­ brosas superstições da ciência política? Em sua A History ofPolitical Theory. Para racionalistas e empiristas como Hobbes. H. Mesmo se nos podemos espantar com o tipo de argumento fabuloso de Filmer. é um dos fenômenos mais característicos da história da humanidade. de con­ formidade com a postulação de Rousseau. ou devem ser considerados herdeiros de Adão'”. observa G. A autoridade dos chefes tradicionais. há seis. a partir delas. “se poderia haver convertido num crítico formidável. bastante lógica. Todo grupo social precisa de um chefe. O ridículo que sobre ele derramaram Locke e o republicano Algernon Sidney dirige-se particularmente à expressão “devem ser considerados'". Sabine que. não era de maneira alguma o tolo que parece”.

não intermediada por um Filho-deus. Elisabeth da Inglaterra.70 J. africano ou latino-americano. a partir de um certo momento de sua evolução. Filmer tentou provar que a autoridade dos reis é natural: natural como é a auto­ ridade do Pai dentro da família. A concentração do poder em uma só pessoa humana pode acarretar as mais deploráveis conseqüências. Carlos V Habsburgo. Frederico II Hohenstaufen (o primeiro Europeu. os homens personalizam a autoridade daquilo que um dia seria o poder abstrato do Estado num indivíduo determinado. DE MEIRA PENNA cunstância. Obviamente. a selvageria dos déspotas é proverbial. O patriarcado é primário. experiência. no entanto. segundo o gosto de Nietzsche. um Ivan o Terrí­ vel. Um admirável exemplo no princípio de nosso século foi Mustafá Kemal Atatürk. A Realeza c natural e primitiva. Outros foram monstros. Pedro o Grande da Rússia ou Frederico da Prússia. No Oriente. se pode tecer louvo­ res e compreender a reverência com que sua memória é cultuada pela posteridade. Os primeiros líderes foram patriarcas. um Domiciano. guerreiros e sábios prestigiosos na luta contra os inimigos.).. César. ou como a de um presidente ou primeiro-ministro moderno. reestruturá-la e encaminhá-la num sentido de liberdade e progresso. natural como a de um caudilho ou ditador árabe. que construíram impérios. homens como Alexandre. escolhido por sua força. ambivalente. Foram condu­ tores de caça. De grandes monarcas e imperadores. morubixaba ou obá africano entre tribos primitivas. . Constantino. especialmente na área submetida ao Islam. tuxaua. idade e ascendência carismática sobre outros chefes igual­ mente aquinhoados. uma “Mãe de Deus” e uma coorte de anjos e santos. O Pai é o pri­ meiro Senhor na dialética hegeliana do Senhor e do Escravo que tece o emaranhado da história humana. O. que Freud utilizou para sua hipótese de Totem e Tabu. Carlos Magno. natural como a de um Rei ou Imperador no período clássico da história da Eu­ ropa e do Oriente. o criador da Turquia moderna. A história do Absolutismo patriarcal é. Provavelmente porque a religião de Maomé atribui a Allah uma onipotência e autoridade absoluta. Os cronistas conservaram-nos o relato das barbaridades cometidas por um Nero. transformaram seus paí­ ses ou marcaram sua época com o apogeu de cultura. natural como é a presença de um cacique.. Atatürk soube coibir seu poder para modernizar uma nação decadente.

Elias Canetti estabelece um relacionamento direto entre as Massas e o Poder. a ausência na índia de uma estrutura política tradicional e a coexistência dos muçulmanos com a população nativa que conservara seu exuberante politeísmo explica a fe­ rocidade de déspotas como Tughlak e Timur-lenk (Tamerláo). não mais aos milhares. antepassado de Tamerláo e ainda maior conquista­ dor.O E s pír it o das R evo luçõ es 71 aqueles príncipes ambiciosos que se alçam ao poder como “comendadores dos fiéis” ou imagens do Onipotente na terra tendem a se tornar tiranos imensamente cruéis. assim facultando de maneira decisiva a futura abertura do planeta a uma cultura ecumênica. o filósofo alemão assimila o pater­ nalismo tradicional da monarquia com o novo despotismo socialdcmocrático que nos habituamos a conhecer. é o maior despotismo concebível”. Batu. que “ninguém me pode compelir a ser feliz à sua maneira”. Hitler e Mao a capacidade de matar. Nesse trecho. fala-nos Immanuel Kant no governo que “pode ser fundado no princípio da benevolência em relação ao povo. Genghiz-khan. Em Masse und MachtT que é de 1960. Os sultões de Delhi se notabilizaram por suas san­ grentas e espaventosas tropelias. como a de um pai em relação a seus filhos”. Considera Kant.. con­ seguiram atingir o Adriático e o que é hoje a Polônia) sobrepujado a distância e os obstáculos naturais que separavam a Europa da civilização chinesa. Irã e Oriente Médio. onde a consciência individual ainda não se desracou.. sob seus filhos e netos. eis pre­ cisamente o mistério da história — que tenha por suas expedições ao Ocidente (onde um neto seu. mas aos milhões. um dos maiores conquistadores da história. se conta que levantava pirâmides de crânios das centenas de milhares de inimigos vencidos em suas bata­ lhas. Creio que é necessário distinguir . As devastações por ele causadas não têm paralelo. Mas íoi justamente o crescimento da tecnologia e o gigantesco poder adquirido pelo homem moderno o que facultou a monstros como Stálin. E. no entanto. e um de seus generais. entretanto. o que é hoje toda a extensão da antiga URSS. Numa de suas peças políticas. Nesse caso talvez. Subotai. sugerindo que e a massificação do homem (o Behemoth) em grandes aglomerados políticos. o que leva às formas primitivas de dominação e terror. Deste. China. de modo cjue o paternalismo ou “governo paternal (imperium patcm aie). era um chefete mongol que cresceu em poder nas estepes do Gobi e acabou edificando um império que englobou.

Cuba é dominada há mais de trinta anas pelo mais poderoso de todos as patriarcas. Acredito que Filmer se deli­ ciaria. Os Somoza na Nicarágua. Me­ lhor teria apontado para a Opressão das Massas pelos Cirandes Simplificadorcs. viúvas ou outro parente: o caso de Kim Sungil na Cüorcia do Norte é exemplar. de história do Oriente antigo e de ar­ queologia demonstram que o estágio de autoridade monárquica patriar­ cal. as Solano Lopcz no Paraguai. se vivesse cm nassa época c observasse a fre­ qüência com que ditadores carismáticos. A história da América Latina regista uma sucessão interminável de caudilhas. como as chamava Burckhardt. mesmo em países socialistas e comunistas. contemporaneamente. inédito e frágil é.. é um fenômeno de âmbito obviamente universal. pasteriormente o filho desta. republicanos.. Durante quase trinta anas dominou na Romênia o ditador Ceausescu c sua família. O . Rajiv).72 I. Há 150 anos. Na de­ mocracia populista que conhecemos o Estado e sua burocracia sc substi­ tuem ao Rei e à aristocracia na opressão dos cidadãos. do novo despotis­ mo populista que melhor corresponde ao sentido clássico. inclusive no chama­ do “despotismo oriental” da Ásia (Marx c Wittfôgel). o pandit Jawaharlal. Ortega falou na ReMüm iir Im Masas. o contrário: o regime liberal. tal como sc apresenta nas sociedades modernas de grandes massas. cogitando sobre a Democracia americana e sobre a Revolução Francesa. sua filha Indira Gandhi c. Os estudas de antropologia. às custas de Locke. que iriam escarmentar nosso sécu­ lo. fimdador do partido do Congresso. e de cunho mais ou menos religioso. precisamente. cujas . os Duvalicr no Haiti. platônico c aristotelico do termo tirano. parentes ou amigas mais chegadas. deixam sua “coroa" para filhos. Fidel Castro — hoje cm seu outono. OK MRIRA PENNA o paternalismo dos regimes monárquicos absolutas. O grande sociólo­ go francês procurou destacar o contraste entre as rcsultadas da Indepen­ dência dos Estadas Unidos e os da “Grande Revolução” francesa. Aléxis de Tocqucville analisaria a transformação do Absolutismo tradicional do ancien regime no despotismo paternalista. A índia foi governada por quatro gerações da família Nchru (o pandit Motilal. primeiro ministro na Independência. muitos das quais transmitem sua autoridade máxima para filhas. O que é novo. tradicional e hereditária. A tendência para a sucessão monárquica hereditária se manifestou.

Mas renascia o poder pa­ triarcal sob a forma da autoridade estatal que recuperava meios de ação c coerção desconhecidos nas próprias antigas monarquias. americano nato. havia sido substituído por um Presidente.v o l u ç ô e s 73 efeitos diretos ainda sc faziam sentir sobre seu país.atina recentemente libertas do domínio das metrópoles coloniais ibéricas. cm suma. Ptxlcmos atribuir a Filmcr a melhor defesa elaborada do princípio patriarcal ou dc autoridade paternalista imperial — segundo m 11 /V ln IW m txm ht tu A m M q u t. Esse poder é absoluto. Ele se referiu ao fenômeno que notava por toda a parte. sobre toda a Europa c sobre as nações da América I. talhara. escritas há mais dc 150 anus. providente e suave.O E s pír it o das R f. contanto que não pense em outra coisa senão divertimento. minucioso. Na América. mantê-los em perpétua infância: contenta-se com que o povo sc divirta. para considerá-las como bens”. as predispôs para suportá-las c. o Estado paternalista e a economia patrimonialista persistem.. Assim. ao contrário. pode fazer.ip. Não devemos deixar de considerar as palavras dc advertência de Tocqueville. mas deseja ser o agente único e árbitro exclusivo dessa felicidade. c. O patriarcalismo autoritário. como da maior rvlcvància para a avaliação do papel do Estado moderno cm países como o nosso onde o patriarcalismo estatal sc revela profundamente enraizado na men­ talidade coletiva. No caso da França o havia mesmo guilhotinado. . A Revolução. o rei inglês Gcorge III. na Ásia.. cada dia torna menos útil e menos freqüente o exercício da livre capacidade do homem. de si mesmo.f». cm suma. tosse seu propósi­ to preparar os homens para a idade adulta. II. eleito pelos seus concidadãos. vol. circunscreve a vontade num âmbito cada vez mais estreito e gradualmente o priva de todos o s usos que. freqüentemente. Oriente Médio. mas ele procura. Eis o que escreveu Tocqueville no capítulo que intitu­ lou “Que espécie de despotismo devem as nações democráticas temer”1*: "Sobre essa raça de homens impera um poder imenso e tutelar que sc atribui a obrigação exclüsiva de gratificá-los c presidir sobre seu destino. o último aliás que ousou sc intrometer cm questões de política externa indepen­ dentemente de seu Parlamento. como essa autoridade. O princípio da igualdade preparou os homens para essas coisas. Para sua felicidade tal governo trabalha com prazer. A Revolução havia deposto os reis. África e Amé­ rica Latina. regular. Seria como uma autoridade de pai sc.

procede da égide do superego sobre a consciência individual. e não uma criação humana. somos livres c iguais em direitos. a estrutura espiritual dessas sociedades foi descrita por Eric Vocgelin como uma ordem “cosmológica”. extraíram a simbologia política cie sua associação à ordem cíclica da natureza. Em Order and History. Implícita nessas opiniões está a idéia que caberia ao Estado a educação moral do povo ou. O. pela primeira vez. Por conseguinte. Na Grécia c cm Roma as poleis são todas. os reis são depostos e o poder passa a ser assegurado por uma democracia senatória. Foram os hebreus que. a plebe. originariamente. criando a simbologia histórica da ordem humana secularizada. em princípios do século XIX. a própria capacidade humana de falar e pensar. Adonai echad. O povo hebraico se sentia existencialmentc como uma comunidade dc irmãos sob a autoridade transcendente de um pai celestial invisível. Kingship and the Gods. Hcnri Frankfort estudou a religião do Oriente próximo (Egito c Babilônia) onde se processou a integração da sociedade com a natureza e da autoridade monárquica com a autoridade paternal das deuses. A experiência democrática e . Para Israel. conseqüen­ temente. o que quer di­ zer. governa­ das por reis. ou por toda a massa de homens livres. a imposição da “justiça social”. o patriciado. eis que não se pode pensar sem o pré-requisito da palavra. a saber que a autoridade de um modo geral procede do Pai e da instância paterna no âmago do Inconsciente. Filmer também avança naquilo que a psicologia analítica freudiana e junguiana elabora. outros absolutistas como Joseph de Maistrc e Louis Gabriel dc Bonald defenderam posições semelhantes. Havia um só Deus que era rei c um só rei que era o Senhor. o que privava a autoridade política terrena dc toda santificação. O que poderíamos chamar a ideologia da ética estatal. A idéia de fraternidade surge em contraposição à dc submissão ao pater potestatis soberano.74 J. os reis não eram deuses. DE MEIRA PENNA fundamentas do “domínio tradicional” weberiano. Iahvc-Adonai — Adonai elohennu. Dc Bonald acreditava que a própria linguagem seria uma revelação divina. É esse o fundamento original da noção de democracia e sustentáculo do liberalismo moderno: somos to­ dos irmãos. Numa fase posterior. No período da Res­ tauração em França. Da criação paterna procede. porém. como sc diz hoje. Em obra de grande relevância no assunto sobre o qual nos estamos debruçan­ do.

é uma autoridade cuja legitimidade se sustenta na tradição imemorial de respeito ao Pai. pontifex maximus e pantocrator na terra. e levará a nacionalidade a seu justo destino. efêmera. toda ouvidos e toda olhos. tornando-se vigário do Cristo. Reaparece a autori­ dade monárquica absoluta na pessoa dos diádocos. ler o livro de Cassiano Nunes. A concepção de império é transmitida à Europa feudal quando os vários chefes das tribos germâni­ cas vão. ao chefe patrimonial sobre sua clientela e ao Senhor da Casa Grande sobre seus escravas. generalizado e dura­ douro tipo de domínio político. Como acentuou Max Webcr.O E s p ír it o das R ev o lu ç õ es 75 republicana na idade clássica é. consolidando e centralizando o poder político nas suas respectivas “'nações”. à espera que ele diga o que ela. nesse sentido. Getúlio Vargas recebeu mesmo o título sebastianista específico dc Pai das Pobres. reacendem-se as esperanças: “A nação inteira fica atenta. a Nação. E a herança sotcriológica do velho Sebastianismo português. e ainda que seja eletivo no supremo pontificado romano. Isso porque não c ela baseada em relações “funcionais”. precisa para a sua salva­ ção e prosperidade”. nessas circunstâncias. Nessa concep­ ção. o mais importante. No Brasil. ao ancião. um número considerável de estudiosas hão salientado nosso hábito de esperar o salvador providencial. pouco a pouco. de tipo abstrato c 1. entretanto. aos príncipes sobre seus vassalos. o Papa absorve as prerrogativas do patriarcado divino. dos césares. O Patriarcalismo. aos lordes sobre seus servas do­ mésticos. Na Igreja cató­ lica do mesmo modo. e reivindicando para si e para suas dinastias os privilégios do imperium temporal. a partir da Reforma. a autoridade estatal se prende às suas mais longínquas raízes hierár­ quicas.1 Vale a pena. junto com suas formas paternalistas atenuadas. Weber considera “irracional” a autoridade patriarcal tradicional. constitui. O bispo de Roma se transforma em Santo Padre. com muitos exemplos realmente impagáveis. Brw títtrt m . aos avós. embora a oposição mais corretamente considerasse que era ele a Mác das Ricos13. o novo Messias que fará isso ou aquilo. mas com um pendor fortemente patriarcal. num grande si­ lêncio. ao marido. Oliveira Vianna foi um dos que notou há mais dc sessenta anos que. a cada novo Presidente. Os símbolos messiânicas então proliferam. dos impe­ radores e dos basilei constantinopolitanos. Curttu do Presidente.

A autoridade patriarcal mergulha. por extensão. a educa e pune em suas desobediências. DE MEIRA PENNA burocrático. Ele presidia à harmonia das coisas terrenas com as coisas celestes e dele de­ pendiam as chuvas e as condições climáticas. uma espécie de axis mundi em torno do qual girava o Universo e o nome da China. Quando a autoridade do Pai é assim santificada e identificada à do Padre eterno. Na China. ainda é Tchung Guó. O rei é literalmente um Manda-Chuva14. (/ Ching). sendo considerada sagrada. Do mesmo modo como a criança se vai progressivamente tornando consciente da presença dominante que sobre ela detém um homem forte. o ideo­ grama Wang -2. nesse sentido. e um traço mediano curto. Em sua obra. Falaría­ mos também no “processo de individuação” de Jung. 14 Nó livro oracular da velha filosotu chinesa. um que especialmente nos interessa. psicologicamente. O processo de libertação da consciência individual é um processo de indivi­ duação e racionalização. o Imperador era o Filho do Céu. é desenhado por um eixo vertical que une dois traços horizontais longos.76 J. Seu poder correspondia ao de um Cosmocrator. vamos encontrar. sabichão e mais velho que a protege. no sentido da Entzauberung de Weber. no Inconsciente coletivo. Sua residência. Ko. recordando essa origem. cuja popularidade foi alcançada graças à reinterpretação psicológica que sofreu nas garras do pensamento de jung. mas em relações “pessoais” de natureza afetiva. pai e filhos. o I D jing. entre os 64 hexagramas oferecidos à sorte da escolha. se vai transformando numa eternidade sagrada. represen­ tando o homem.. o poder mágico que emana do Céu se transmite ao repre­ sentante do Ser Supremo na terra. Trata-se do 49" hexagrama. o Céu e a Terra. de origem mágica e associada à autoridade dos deuses. mutuamente. transcendendo metafisicamcnte qualquer contingência do mundo atual. Isso quer dizer que o paternalismo se fundamenta. do mesmo tipo daquele que liga. “país central”. O. num relacio­ namento afetivo puro ou de ordem emocional. . assim também o patriarca firma seu domínio sobre o povo a partir de um tempo imemo­ rial que. O símbolo de Rei.

O hexagrama torna-se associado ao 38". acreditarão em ti. sugere uma simples diferença de temperamento. o “alegre”. Mesmo antes de consultar o oráculo. que significa Oposição — salvo que. Kis por que surge a idéia de Revolução ou de transmutação dos valores hierárquicos. entre outras coisas. Nele se acredita. O sentido filosófico do hexagrama. um yin entre dois Tanjj. O Comentário sobre a Decisão. conservador. o que dinge o hexagrama c o nove na quinta posição e. o fogo. a mais moça. de um imperativo imediato.O E spír it o das Rev oluções 77 Kstc designa a Revolução ou. «infirmando o grande chefe militar c fundador de dinastia cm sua decisão revolucionária. Formado de dois Tang e um yin. é que as revoluções constituem assunto dc suma gravidade e só devem ser encetadas sob o impacto dc uma necessidade urgente. tão grave c prenhe de conseqüências imprevisíveis. Promovendo atraves da perseverança. Kuci. a muda das penas dc pássaro de acordo com as estações do ano). Tui. Na vida dos povos. quando realmente não há outra solução satisfatória c a violência se impõe. mudar a forma de governo sem necessidade de esperar pelo oráculo. destruidor — que inevitavelmente se desenvolve a Revolução. recorda que. acentuam os Comentários que: O Grande Homem muda come um tigrt. há ciclos como em toda a natureza: há primavera e outono. Mas nem todos são chamados à tarefa de dirigi-las. . Segundo outra tradição. O julgamento oracular c o seguinte: “Em teu próprio dia. fogo cm baixo. está acima dc Li. Tui. derrubando a dinastia Shang por volta do ano 1120 antes dc Cristo. a sugestão dc um lago. O líder revolucio­ nário deve considerar o amadurecimento do tempo propício a uma iniciativa desse gênero. O remorso desaparece”. Além disso. uma vez que Li é mais velha do que Tui e está naturalmente colocada acima. O hexagrama contém assim recordações históricas do tempo da dinastia Chou (XII” a IVo scculos antes de Cristo). diz a tradi­ ção que os auspícios se revelavam desfavoráveis quando o rei Wu se empenhou na batalha decisiva que. o que indica claramente uma subversão dessa hierarquia. a Mudança (no caso figurado. Estabelecendo que é salutar. mais concretamente. Tui. inver­ no e verão — o que forçosamente exige certas transformações sociais. se eleva acima dc Li. na hierarquia natural da família — ao passo que. o oráculo tora propício à batalha. em K uei. Li c Tui. é o trigrama superior. Sucesso supremo. O trigrama inferior. Dc qualquer forma. os reis das dinastias Tang e Wu provocaram revoluções políticas porque eram submissos aos decretos do Céu e obedeciam aos costumes dos homens. ou aquilo que agarra. a oposição das duas “filhas jo­ vens”. donde também é água. Os tempos mudam e mudam as esta­ ções. que é um lago. nesse caso. cm tal momento. lhe deu o domínio da China e garantiu o sucesso de sua Casa pelos 900 anos seguintes. ainda segundo a tradução dc Wilhelm. segundo Richard Wilhclm. o que representa nova subversão da ordem segundo a natureza. no hexagrama. é Li. o fogo. E da oposição na influência dos dois trigramas primários — lago em cima.

presidindo à vida econômica. sob um sistema de paternalismo presidencialista. Não c também o patrimonialismo.78 J. o monarca. Hegel foi um dos primeiros pensadores a assim interpretar a monarquia absoluta clássica. o homem mais rico do mundo. Tennó Heika. d e M e i r a P en n a A Razão na História. A simbologia solar da monarquia patriarcal constitui uma das mais univer­ sais e permanentes características da autoridade política. produz petróleo. é dona de toda a Ará­ bia Saudita. como característica da antiga mentalidade oriental — o que talvez o hinduísmo e o budismo tenham agravado por sua mística holística de absorção no Todo. Ele logi/ camente afirmava: “L'Etat. dos deuses criadores do Universo e do arquipélago. segundo o modelo chinês15. mas também que é dono do poder e de todos os bens existentes na terra. ou como o sultão de Brunei. c'est moi”. também dono de seu país que. Muito embora secularizado e mesmo adaptado às idéias marxistas. por muitos autores. e descendente direto. constante e irrefragável que toda a retórica liberal-democrática não conseguiu ainda su- 15 “O Império chinês é o do Despotismo teocrático.. através de uma multiplicidade de escalões hierárquicos. o Filho do Céu. eu sou o Estado. A China continua a scr governado por uma corporação de mandarins — políticos e burocra- .". numa dinastia que se gaba de 2. como igualmente ocorre.. o Estado da “China popular" ainda não muito se afastou dessa idéia. Amaterasú ô-mi-Kamí. em volta dele gravitando toda a família. praticamente..600 anos de duração ininterrupta. uma realidade poderosa. um Pai que reina também sobre a consciência individual”. no Oriente antigo. eis que o Rei governa o universo humano do mesmo modo como o Sol preside ao universo estelar. só um. Essa falta ou debilidade de uma autêntica consciência da personalidade individual tem sido alegada. No Japão o Imperador é. “O indivíduo é moralmente desprovido de per­ sonalidade própria”. um governo sistematicamente organizado. não é só que a autoridade exerce seu poder “paternalista”. Para Hegel. Ele prosseguia: “ Esse tirano dirige. “só um era livre”. no culto popular xintô. O . O Estado patriarcal consótui o seu fundamento — à cabeça. possuía consciência livre.. No Patrimonialismo. Luís XIV fazia-se por isso chamar de Roi Soleil. particularmente da deusa do Sol. Alguns exemplos característicos ainda persistem no Oriente como o da família de Ibn-Saud que. em nosso país.

igualitárias e submissas à lei. do Ministro de Estado ao lixeiro do DF. o qual apenas emerge das tradições rudemente sedimentadas do tempo da colônia. como resultado dos episódios de nosso des­ envolvimento histórico e da heteronomia de nossa cultura colonial.O E spír it o das R ev o lu çõ es 79 pcrar? Poderíamos aqui exemplificar com a transmissão do carisma da “Ditadura Republicana” positivista de Getúlio Vargas para seu “filho” (adotivo ou natural) João Goulart. precisamente. da coexistência de uma dupla “simbolização” ou “legitimação” da autoridade. chefes políticos. nesse sentido. Por força. Longe. representa uma imposição cultural sobre nossa persona da “sociedade exemplar” européia e norte-americana. em ensaio com esse título. e deste para o cunhado Brizola. inerentes à estrutura racional-legal da democracia. ministras e “políticos” em geral. desde o mais opulento marajá ao mais miserável contínuo e varredor de rua. A concepção paternalista do Estado está tão pro­ fundamente enraizada no próprio corpo político da sociedade brasileira. a verdade é que o Paterna­ lismo patrimonialista continua sendo concreto e autêntico. durante vinte anos. íntima e autêntica associada ao estágio ainda primá­ rio de nossa evolução como nação “jovem”. ex­ pressa na “máscara” ou persona ocidental moderna que exibimos perante o mundo. São paradigmas ainda mal adaptados a nosso meio inculto e com traços cla­ ramente artificiais. ainda estamos do espírito de uma organiza- . governadores de estados. que não podemos esperar uma rápida superação dessa mentali­ dade. com uma face endógena. dos coronéis sertanejos. Na nossa hierarquia social. Pa­ ternalista é pois o Estado brasileiro ao qual se aplica perfeitamente a figu­ ra do Ogro Filantrópico. e uma face “exógena”. com raízes afetivas profundas. Grande parte do poder de Getúlio Vargas se pode explicar pelo fàto de. abstratas. proposta por Octavio Paz para o México. que mantêm a imensa clientela oligárquica de fúncionáriós. grandes proprietário rurais. prefeitos. haver assinado todos os decretos de nomeação e promoção do funcionalismo público federal. O regime democrático de relações “fraternas”. segundo o modelo da Sociedade Exemplar — o Paternalismo patrimonialista coexiste com a democracia mas contamina toda a estrutu­ ra mais íntima de nossa vida política. Ele se exerce através dos donos do poder. O funcionário assim a ele se tornava ligado por uma espé­ cie de contrato de vassalagem feudal.

o governo. entretanto. um morto. E esse o principal desafio que encontra o liberalismo no Brasil . devemos forçosa'* Quero lembrar um epi. se não me engano. responsável por terremotos e pelo reerguimento das casas após esse fenómeno natural. a autoridade se des­ centralizou. só um relacionamento concreto com a figura paternal de um chefe — pai. apelava para o governo: “O governo. favelados cariocas e uma burguesia de modos de vida tão variados quanto sua origem étnica — pode ocorrer que um único fator de coalescência seja capaz. colonos alemães. Eis uma intuição que está lentamente emergindo a partir da obra dos pensadores que pro­ curam enriquecer a ciência política com elementos extraídos da psicologia das profundidades inconscientes. com uma fisionomia de horror e em tom de desespero. psicologica­ mente.80 J. Numa democracia. DE MEIRA PENNA ção racionai moderna. A televisão entrevistou as vítimas. E apareceu na telinha um homem que. umbandistas. A iniciativa individual espontânea não c ainda entendida: o filho ainda depende do Pai. padrinho. nas grandes crises. houve feridos e. porque me parece bastante expressivo desse estágio primitivo em que ainda se encontra nossa cultura popular. . A hierarquia se dissolveu suficientemente para permitir a emergência dos “filhos” — considerados todos como irmãos. naturalmente. um vilarejo do Rio Grande do Norte foi abalado por um ligeiro tremor de terra.. numa estrutura legal abstrata sob um regime eco­ nômico verdadeiramente liberal. Na “ordem emocional e afetiva” que mantém a solidariedade de um grupo numa população tão notoriamente desprovida de julgamento raci­ onal e respeito à lei abstrata. O. Há poucos anos.. o governo tem que fazer alguma coisa!”. que num pais de extrema heterogeneidade social e cultural. de or­ denar o caos: a autoridade carismática e pessoal de um caudilho paterna­ lista. a superação consciente do Complexo paterno. Muitas casas foram derrubadas. Acredito. iguais em direitos c deveres. num país de em­ presários paulistas. num país de massas católicas. Este pois é o fato que o liberalismo moderno implica. espíri­ tas. pretos baianos. patrono e patrão ao mesmo tempo / — seria susceptível de fazer coagular a massa informe. animistas e seguidoras de seitas orientais exóticas. caboclos nordestinos. Irmãos “órfãos”. O símbolo do “pai” é absorvido na imagem abstrata da lei sob um “Estado de direito” (r u le o f lawy na terminologia anglo-saxônica). fazendeiros goianos e gaúchos.vidio que ficou fortemente registrado em minha mente. O pobre homem ainda interpreta o governo com» uma entidade paternalista transcendente. protestantes. Na fraternidade.

Para nós. soberanos e responsáveis.O E s p ír it o d as R ev o lu ç õ es 81 mente configurar o laço afetivo essencial de simpatia entre os membros de uma politéia democrática — quanto se desintegrou o relacionamento ambíguo e ambivalente de medo e obediência. não reconhecemos qualquer Pai. Na verdade. Numa sociedade que atingiu a esse estágio de independência cm relação ao paternalismo somos. É só nesses casos que. não devemos obede­ cer a qualquer personalidade concreta mas respeitamos apenas funcioná­ rios que exercem uma “função”. irmãos e órfãos. e servidores que “servem” ao público na razão direta em que exercem a função estabelecida por lei. numa democracia somos todos. Numa demo­ cracia liberal não temos pai. diríamos que o domínio au­ toritário tradicional/carismático da figura arquetípica do Pai passa para um tipo de regime contratual e “racional-legal”. livremente concluído entre os filhos. as circunstâncias em que os filhos rebelados avançam. a doutrina dc Filmer seria considerada profundamente reacionária — mas nem por isso é seu alicerce lógico abalado. em suma. numa época revolucionária e edipiana como a nossa. e não um todo onde nos devemos imergir. Nesta série de ensaios nos esforçaremos por examinar as diversos aspectos da “revolução” contra o Pai — ou seja. eventualmente. Diríamos. Patrão ou Patrono político. em teoria. E como cidadãos responsáveis. o Estado é um meio. Padrinho. em seu processo dc individuação e firmam um contrato de coexistência social. no mecanismo político. em conclusão à tese com que iniciamos este argumento que. indivíduos livres. rebeldia e respeito. continuando na linha de Weber. Em tal tipo de sociedade. nem a força empírica de suas constatações desmentida. . não reconhecemos senão a autoridade abstra­ ta da lei e das instituições impessoais que estabelecemos por contrato. nosso meio. sub­ serviência e veneração que associam os “filhos” ao patriarca.

no momento da transição de sua herança símia para a forma proto-humana e humana dos “hominídeos”. entre os quais duas americanas que estudaram esses macacos antropóides. em relembrança antropológica inicial. acentuado a herança agressiva de nossa linhagem. segundo se pòde crer. se empe­ nhar em luta entre os grupos e dentro dos grupos. espanta­ ram-se com o fato de que eles costumam. A sensação que a teoria da agressividade humana causou.3. . A guerra já existia portanto. ainda que raramente. assim como o antropólogo austrí­ aco Konrad Lorenz. HEGEL E A DIALÉTICA DO SENHOR E DO ESCRAVO 17 P odemos iniciar nossa disquisição quanto aos aspectos filosóficos do problema do poder político no Estado moderno. ganharam seu Prêmio Nobel por haverem. com uma curta abordagem do pensamento de Hegel. resultante talvez do trauma provocado pela inédita brutalidade da IIa Guerra Mundial. Mas. 3 6 . mencionemos que o ho­ mem primitivo. v d . agosto de 1990. vivia presumivelmente em pequenos grupos familiares. teve o efeito de contribuir para desmanchar as teses românticas de Rousseau sobre a bondade natural do homem. reproduzindo conferência pronunciada no Conselho Técnico daquela entidade cm julho do mesmo ano. n*425. que ainda dominavam a sociologia e a filo­ 17 Parte do texto deste capítulo foi publicado na Carta Mensal da Confederação Nacional do Comércio. semelhantes aos de seus outros primos primatas. entre outros. chimpanzés e gorilas. no mo­ mento em que surgiu a espécie Honto sapiens. O escritor inglês William Golding. chegando à morte e ao canibalismo. quando ameaçado por uma Revolução. Os antropólogos e zoólogos.

os grupos humanos primitivos costuma­ vam matar e comer os inimigos. raptando suas mulheres. com indivíduos alpha e indivíduos inferiores. O pensamento original de Hegel não era propriamente revolucioná­ rio ou revolucionarista. já estão plenamente estabelecidos a ordem monárquica. como corolário da tese do Pecado Original. só numa etapa muito posterior e relativamente recente da evolu­ ção de nossa espécie. quanto no Apocalip­ se revolucionário dos ativistas totalitários da esquerda e da direita. como se sabe. Como salienta Eliadc em O Mito do Eterno Retomo. A afirmação mitológica da maldade inata na natureza hu­ mana encontra-se. Ao se aplicarem à luta violenta com seus semelhantes. A sociedade de clãs e tribos se formava nes­ sas condições de violência e estruturação hierárquica. E de crer que. Ele pretende alcançar a síntese final no processo dialético das contradições — e nisso jaz. que tanto impressionou Freud. e foi filosoficamente elaborada por Santo Agostinho. tenhamos considerado a vantagem de escravizar. Hegel é absolutista. em vez de eliminar o adversário. precisamente. A filosofia hegeliana posterior tanto se traduziu no Eterno Retomo dos historicistas da linha de Spengler. “Nada há de novo sob o sol”. Toynbee e outras. da luta c da procura da liberdade como justificação do Estado. todo o prodigioso edifício filosófico que construía num sólido alicerce de dialética do poder e da violência. Já teria sido instituído o costume da exogamia. na linhagem aliás de Hobbes. Quando principia a história com as primeiras civilizações urbanas. o efeito perverso que teve seu “sistema”. a estratificação hierárquica e o vezo opressor e guerreiro da sociedade humana. Ela está explicitada no episó­ dio de Caim e Abel. a postura de Hegel não se distingue claramente da visão do mundo do primitivo ou do homem antigo. Retomando a linha das concepções pré- . ao fato de haver sido o primeiro pensador a sustentar. O papel que Hegel desempenhou na história da filosofia se deve sem dúvida.O E s pír it o das R ev o lu çõ es 83 sofia política. entre outras coisas. ao nível das tribos selvagens das florestas ou das savanas africanas. Ainda hoje. Para o jovem Georg Wilhelm Friedrich a natureza sempre se repete. na Bíblia. descobrimos esse tipo de comporta­ mento. que viam a realidade terrena sob a forma de um eterno fluir do padrão arquetípico representado pelo acontecimento cosmogònico exemplar. A idéia de revolução reverte à concepção copernicana original de cicias eternamente repetidos.

a dialética estará traba­ lhando". O . do algo de inédito e original. I. segundo Hcgel. E por isso se interessava ardentemente pelos acontecimentas contemporâneas. após ter sido “inventada” por Zcnão de Eléia c mani­ pulada pelas sofistas — há uma tendência empírica c realista. onde quer que haja vida. de um movimento inevitável e presidido por Leis independentes da vontade humana. acontece que cia possui. que a Filasofia da História de Hegel determinou o surgimento do Historicismo moderno. Essa leitura deveria orientá-lo cm suas relações com o mundo c com Deus. Ela constituía a própria expressão do Geist no dia a dia univer­ sal. ao contrário da natureza. de tão perniciosas conseqüências sobre a liberda­ de. E é também. Gmhecemas o impacto que lhe causou a Revolução francesa. É na sua Fenomenolojjia do Fspiritv que Hegel submete os planas da Providência a esse padrão exemplar que dirige a História. E afirmava coerentemente que a leitura diária dos jornais representava uma espécie de “bênção realística da ma­ nhã”. DF. G>loca-sc Hcgel na vertente absolutamente aposta à dos grandes ** Uma possível influência da »cita Zervanista do antigo Iran nobre o Arqudripo do Terceiro Kst<%io será mencionada no volume posterior desta obra de filosofia. posteriormente. do movimento cíclico. Mas a contaminação gnóstico-profética arruinou seu empirismo rea­ lista. “Onde quer que haja movimento. no momento.84 J. retirada das ciências naturais. E a história que introduz a liberdade do sempre novo. nesse sentido profundamente contraditó­ rio. Na lógica paradoxal do filósofo. a aplicou no sentido da verdadeira filasofia. Mais de dois mil anus de história e de progresso no pensamento humano se viram atiradas levianamente no caixão de lixo da filosofia. não se repete. a que soberanamente concedeu o título geral de “dialética” — muito embora haja sido Sócrates quem. um mecanismo uniforme de tese. o historicismo revolucionário adotou a casmovisão.. (Considerava Hcgel necessária a observação da história tal como ela ocorre. o imperialismo napoleònico e. quanto no domínio do pensamento e da história da cul­ tura.. rotativo. pela primeira vez c através dos diálogos de Platão. . antítese e síntese — o que constitui a própria essência dialética da Mente ou Espírito humano — G eistIH. A dialética ocorre assim tanto no domínio da natureza ou da história natural. Sc a história. a restauração do poder prussiano.úciftr-Sabaoth. MFtRA PííNNA cristãs do eterno'retorno.

Seu gnosticismo arrogante e supremamente temerário abolia aquilo mesmo que antes postulara. que sabia o que era necessário na história. no» termas de Cioethe.S 85 empiristas. arvo­ rado às alturas de um acontecimento na intimidade do Ser divino. Cíeorg Wilhelm Friedrich. presidido pelo (. ações e reações. se transformou na imanência do Historicismo. c! essa famosa dialética da Liberdade e da Necessidade — Li­ berdade e Necessidade que só coincidem na mente doentia das revolucio­ nários. como o paradoxo mais insuportável no corpo do pensamento moderno. Desse modo. exerceu profunda influência sobre os revolu­ cionários dos séculos XIX c XX.leist de que c Hegel o profe­ ta. Hegel contemplava admirativamente o trabalho do Kspírito Universal que se manifestava dialcticamente. revo­ luções e contra-revoluções que Hegel e seu maior discípulo. . Knquanto vivendo ainda sob a influência do “signo das contradições" do pensamen­ to clássico c cristão. nas termas de Kant. na mão dos hegelianos de Hsquerda. como o resul­ tado dc “acasos melancólicos". Hm todo momento histórico. desco­ briram nos acontecimentos. Mas a partir dc Hegel. Marx. ou. se ia transformar na dialética da Necessidade revolucionária. a liberdade humana agindo na história. Só ele. para os quais todo acontecimento histórico c irrever­ sível e fatal porque determinado pela vontade de Deus. ainda. a teologia histórica dos profetas hebraicos.UÇÔF. Foi o Idealismo ro­ mântico dc lima intuição desarvorada c]uc levou o filósofo prussiano a propor a doutrina da Necessidade histórica. sequer. pragmáticos c radicais anglo-saxõnicos. do ponto de vista humano. Bssa liberdade era substituída por sua própria afirmação subjetiva daquilo que a história necessariamente traria. ou.O KSPÍRITO DAS Rl-VOI. mesmo quando nunca hajam lido Marx ou chegado. como “uma mistura dc violência c falta dc sentido”. a Diamat comunista. doutrina que. comungava secretamente com os desejos profundos do(»Yúf. Kssc aspecto de marchas e contramarchas. Diríamos também. essa coincidência insustentável entre o Real e o Racional. a entender as teses primárias dc Hegel. como produto incompreensível tios desíg­ nios inescrutáveis da Providência. as homens consideraram a história. intelecto privilegiado. Ora. O aspecto dos ensinamentos de Hegel que Hannah Arendt — em sua obra Ori Rcvolution — aponta como o mais terrível e. com suas terríveis antinomias e irracionalidades. era só ele. a saber.

Quando as chamadas “condições objetivas”. descambam para a guerra e o terrorismo.86 J. os mais exaltados. privados como estão das escapatórias do duelo. por ele ade­ quadamente interpretada e racionalizada. correlaciona-se ou é a tradução intelectual direta da dialética da Revolução e da contrarevolução. Chamberlain. Eisenhower e MacArthur que mudaram a metafísica e a antropologia de nosso tempo. a dialética da Necessidade e da Liberdade. paradoxalmente. O paradoxo orwelliano que faz da Liberdade o fruto da Necessidade é um corolário dessa reconciliação dialética do divino e do terreno. Se Hitler houvesse vencido. os grandes Profetas de nossa época seriam Hegel. por exemplo. a pobreza dessa concepção historicista teve as mais deploráveis conseqüências. Essa concepção da Revolução como implícita e necessária na História — a concepção fundamentalmente historicista — já se encontra na fórmu- . durante 70 anos. Foram os exércitos de Zhukov. o Estado”. em muitos países subdesenvolvidos e para uma grande parte dos intelectuais dos mais avançados. Marx vulgarizou a idéia de uma Necessidade revolucionária que se inscreve na “marcha inexorável da História”. ou no desembarque da Normandia — no sentido de Hitler. O . que se transformaria em dogma sobre os quais se fundaria uma nova ciência do homem. todos os povos e os ideólogos repe­ tiriam a metafísica racista. DE MEIRA PENNA passou a História a ser o resultado da Necessidade absoluta. na sociedade moderna. Ardentemente criti­ cada entre outros por Popper. o efeito de lhe esti­ mular o ímpeto. como o grande promotor da Justiça e da Liberdade. “constituem a única realidade positiva e a única satisfação da liberdade”. Ionesco escreveu com ironia que se a história hou­ vesse marchado — em Stalingrado. “O direito. da aventura exploratória e outras saídas para a energia juvenil. o próprio Hegel descreveu o ano de 1789 como o momento em que o Céu e a Terra se tornaram reconcilia­ dos. Em Hegel. não parecem comprovar a iminência do movimento. S. Com seu gosto pelas declara­ ções apocalípticas espalhafatosas. Gobineau e H. A proclamação e a crença fanática na necessidade revolucionária tiveram. acentuava Hegel em sua Filosofia da História. ao invés de serem Marx e Freud. Podemos acrescentar que essa proposição não é mais arbitrá­ ria do que o fato de o mais sombrio despotismo jamais registrado na história da humanidade ter sido considerado. a ordem ética.

Mesmo na América Latina. O resultado foi o que se viu na Rússia: a tirania leninista e estaliniana. por exemplo. o venerável Dr. ora que a Rússia soviética era muito mais tzarista do que marxista. Os pró­ prios teólogos ditos “progressistas” ou “da Libertação” não negam seu desejo de inaugurar. ao passo que. e o Estado burocrático de Brejhnev. Toda a obra de Arcndt . não sou eu mas a história. Isso a tal ponto que as próprias ame­ ricanas são inclinadas hoje a interpretar a sua Revolução à luz de 1789 c a criticar o fato de que ela não se teria conformado às lições da Revolução francesa. Hannah Arcndt comentou. que a triste verdade é que a Revolução americana. Apa­ rece então o que Ellul chama o conceito da “revolução traída”. onde as revoluções sempre foram fenômenos cíclicos. Nós mesmos no Brasil chegamos a assistir. combinada com a necessidade imediata. a Revolução francesa tornou-se na história mun­ dial o arquétipo de toda revolução. tão favorecida pelos professores universitários. E desenterram explica­ ções para o crescimento monstruoso do Leviatã dinossáurico quando a Vulgata prometia seu definhamento. havendo terminado em desastre. com certa melancolia. O uso moderno do termo im­ plica que a Revolução possui agora um caráter final e definitivo. inédito e apocalípti­ co que tomou a Revolução no século XX. imposta pela praxis segundo Lênin. permane­ ceu como um acontecimento de importância local. meros golpes de estado ou pronunciamentos eternamente recor­ rentes.. Amoroso Lima sair de seus confortos burgueses e católicos para explicar. O fato é que a teoria da “condição objetiva” foi desmentida em 1989. conduz a aproveitar a ocasião quando as “condições ob­ jetivas” ainda não estão maduras. cada uma delas se proclama a si mesma final e definitiva. Os intelec­ tuais começam a procurar álibis para o fracasso.O E spír it o das R evo luçõ es 87 la arrogante de Hegel quando afirma: “quanto à prova. espécie de badernas de punks adolescentes cm madrugada de be­ bedeira. Surge a “doutrina das explicações”. por não haver abordado a questão social. agora mesmo. E uma pena. que a administrará”. no seu término. A crença na fatalidade da Revolução.. de resultados tão positivas e duradouras. o Reino absoluto de Deus na terra. ora que stalinismo não e socialismo. pela situação de fato — em Berlim. mas é isso mes­ mo! A ambigüidade da dialética da concepção cíclica pagã c da concepção linear judeo-cristã se resolve nesse caráter tremendo.

que insistia: “Adake the Revolution a parent o f settlement.88 J. Permaneceu pragmática. e século XX. todos trabalhando “objetivamente” para deturpar em massacre mútuo o sentido supremo da Revolução. os SA proletários. e do terror. gerado por Hegel. Mas talvez correta seja sua formula­ ção no sentido que a Revolução americana não se submeteu. que só a dupla compulsão da ideologia. do outro os Hébert. Isso se tor­ nou parte integrante da compulsão que se impõem a si mesmos pelo peasamento ideológico de nossos dias. ainda mais melancolicamente. de um lado. do outro Rohm. a grande tese da pensadora política teuto-judaico-americana. reformista. mais do que a francesa. O. do outro os enragés. De um lado. Arendt comenta. Eles se tornaram inimigos uns dos outros. De um lado os Danton. senão o mais audacioso empreendi­ mento da humanidade européia. serviu de modelo para os movimentos de libertação nacional anticolonialistas do século XIX. DE MEIRA PENNA constitui uma tentativa hercúJea de provar que o Governo republicano na América constitui um dos maiores. a Revolução americana. do outro os leninistas e trotskistas. A Revolução foi sempre salva pelo homem do meio que. moderada. na África. Afinai de contas. Sobretudo institucionalizou-se. instrumentos de “forças ocultas” que resistiam ao ímpeto revolucionário. em inimigos desconhecidos. muito Jonge de ser um moderado. quase pacífica. explica a passivida­ de masoquista com que os revolucionários de todos os países que sofre­ ram a influencia das Revoluções francesa e russa se encaminharam para seu destino trágico e se reconciliaram com a sorte desastrosa. vindo de fora. not a nursery offuture revolutions”. os indulgentes. na América Latina. E os que sobraram. Na linha aliás de Burke. Ásia e na própria Europa. essencialmente. vinda de dentro. ganhou prestígio universal com a Revolução bolchevista. os mencheviques e Piekhanov. É verdade que talvez tenha ela sido de­ masiadamente pessimista. Himmler e os SS robotizados. em “suspeitos”. de linha dura. O fascínio mágico do Mito historicista da Revolução. nem criou o mito da Revolução. devia atuar com a maior violência . de um lado os Schleicher e os junkers prussianos. E essa. Há algo de tragicamente burlesco na maneira como as intelectuais da Esquerda aceitaram o papel que lhes era determinado pela “história” c se entredevoraram de acordo com o princípio de que a Revolução necessariamente canibaliza seus filhos.

graças à filo­ sofia dialética e histórica de Hegel. Esses homens. “e. Torna-se este a unidade singular de significado histórico.O E sp ír it o das R evoluções 89 contra a esquerda e contra a direita. naquela cidade. liquidando a oposição de um lado e do outro. que a essência do Cristianismo é a negação dialética da política. contanto que não permanecessem fora da peça”. resultar dessa simples descoberta. Hegel levou às suas últimas conseqüências a definição de Aristóteles do homem como animai político. ao arvorar o con­ flito entre amor e poder como centro dinâmico da Consciência humana — podemos avaliar o grau de contaminação da obra de Hegel pelo espíri­ to luciferiano que domina a modernidade. Política e História: é a Vontade de Poder que ambas determina — este o horizonte do pensamento hegeliano — e cabe prioridade a Nietzsche por essa compreensão! Se levarmos em conta.política. foi o que mais claramente proclamou a hegemonia do político como expressão — como dizia ele — do Espírito Absoluto. é o homem. contudo. realmente. Stálin foi o protótipo. “foram burlados pela história como tolos e se tornaram os bufôes da história” I9. conclui. para Hegel. E o fato que ele. Imperador dos Franceses e filho da Re­ volução — ia agora o mesmo Weltyeist triunfar na. Hegel é essencialmente o filósofo da política. A importância de Hegel para nosso século não me parece. Retomando nisso o conceito clássico dos sofistas gregas. A polis integra totalmente as cidadãas. entre todos os pensadores modernos. estruturado coletivamente numa sociedade política. escreve Arendt. vencendo a batalha de Iena e destruindo o exército prussiano — aquela famosa má­ quina de guerra tão cuidadosamente fabricada por Frederico IIo — no momento mesmo em que Hegel. cm toda sua glória. Se ele vislumbra o Espírito do Mundo montado num cavalo branco. a política como reino específico do Anticristo. concluía a Fenomotolo£ia\ se esse Espírito do Mundo se manifesta. “Eles tinham ad­ quirido a capacidade de desempenhar qualquer papel que o grande drama da história lhes pudesse impor”. sentiam-se mais do que dispostos a aceitar esse papel. no Estado. Georg Wilhelm Friedrich. . sob a espécie de Napoleão Bonaparte. É uma Ganzheit. Pelo Terror em suma. se nenhum papel sobrasse senão o de vilão. isto é. além disso. O homem seria. um ser por essência |g They werefooled by history and they have become thefoots o f history. um holismo.

Nesse sentido. que se apresenta como natural c necessária para a constitu­ ição das sociedades.90 J. sobre as massas. com ardor. um ser luciferiano. do Espírito. o Espírito Absoluto de Hegel gera um Holismo. Explica-se como tal seja a filosofia que emergiu de Hegel um historicismo. de tal modo que a luta contra o Hegelianismo configura a própria essên­ cia do Kultwrkcmpf em que se devem empenhar. Publicada cm 1807. Grotius e Rousseau por exemplo. se encarnou em nossa época. na guerra. o vencedor tem direito de matar o vencido. Marxismo. O hegelianismo não pode ser examinado fria e objetivamente. como o principal inimigo moderno da Sociedade Aberta. Sê-lo-á sempre emocionalmente. servindo de introdução a todo o resto. Racismo.. Segundo esses pensadores anterio­ res. é porque nosso sécuio brutal é o século da polêmica políticoideológica. Mas este se pode permitir resgatar a vida em troca da liberdade. Está sujeito ao tumulto das preconceitos político-ideológicas de quem o aborda. uma pluralidade. A convenção é . Por essa razão é o hegelianismo descrito como o Velho Testamento do totalitarismo o que levou Popper a colocar Hegel. em Hobbes. O. se a filosofia do maitre à penser de Iena é polêmica e se presta às mais variadas e contraditórias interpretações num debate que até hoje não cessou. um ser que maneja o poder. uma imersão do indivíduo na totalidade do coletivo que. que a idéia já fora debatida antes de Hegel. O cerne do complexo e passavelmente ininteligível filosofar de Hegel encontra-se no célebre episódio da dialética do Senhor e do Escravo — “Dominação e Servidão” — na IVa Parte da Fmomcnologia. DE MEIRA PENNA político. Através do Socialismo. aqueles que postulam a preeminência. do Fas­ cismo. Nacionalismo. E recordemos..”. é esta a primeira das grandes obras do filósofo ale­ mão. do Totalitarismo em suma. para expli­ car o “direito” da escravidão e a postura escandalosa de Aristóteles que justificara a instituição como natural. antes de tudo. juntamente com seu discípulo Marx. A mente coletiva toma-se uma realidade concreta no momento em que a Razão ( Vemunft) alcança a intersubjetividade e se torna Espírito.. Detenhamo-nos na análise do cenário. do indivíduo livre e singular. cruelmente. “A experiência do que é Espírito (Geist) é o Ego que é o nós.

é favorável aos interesses de ambos. A sociedade re­ presenta a aurora da consciência de Si-mesmo. A sociedade. talvez. Marx também partiu da análise do relacionamento de domínio e servidão entre os homens para uma reflexão sobre o surgi­ mento. de certo modo. Foi ela que determinou.. Eles sugerem uma interpreta­ ção econômica relativista da posição social. é que Hegel a concebe como um processo de criação de si-mesmo pelo homem. Desse impacto. e que desse modo percebe a essência do trabalho e com­ preende o homem objetivo. o relaci­ onamento ambivalente de Marx com a escola de Hegel.O E s p ír it o das R ev o lu çõ es 91 tanto mais legítima quanto. constituem o germe da teoria de Marx concernente à ideologia. ou mais propri­ amente a cultura. A idéia culmina não ape­ nas em Marx e no fascismo mas em toda a moderna psicologia social c antropologia cultural.. que concebe a objetivação como perda do objeto. acentua George H. como o resultado do próprio trabalho do homem”. onde a respeito afirma que se trata da “verdadeira fonte e segredo da filosofia hegeliana” — acrescentando: “a realização extraordinária da Fenomenologia de Hegel e seu resultado final. de 1941 — uma época em que Marcusc ainda não se salientara como o guru da agitação crótico-estudantil dos anos sessenta e setenta. Em sua A History ofPolitical Theory. assinala ainda Sabine. das comunidades históricas e das classes. constituiria uma categoria indispensável para a explica­ ção do comportamento humano. de um ponto de vista racional. como alienação e como transcendência dessa alienação. .. invocar para a tarefa de análise da dialética do Senhor e do Escravo se prende ao impacto que causou no jovem Marx. Sabinc ser a filosofia de Hegel mais efetiva quando propriamente entendida como um pensamento que “aponta para o fato importante de estar a estrutura psi­ cológica da personalidade individual intimamente relacionada com a es­ trutura da sociedade em que vive a pessoa e à sua posição nessa socieda­ de”. Os argumentos de Hegel. nos revela Marx suas impressões nos Manuscritos Económicos c Filosóficos de 1844. O principal motivo que devemos. A história dessa fase do pensamento de Hegel está desenvolvida preconccbidamente na obra de Herbert Marcuse Razão c Revolução: Hegel e o sur­ gimento da Teoria Social. por conquista brutal. coletivamente egoísta..

cm seu egoísmo radical. mas ainda que somente constitui esta a verdade daquela”. permitiram as versões mais desencontradas do famoso cenário. A Consciência de Si projeta-se sobre o Outro pelo desejo que. inicialmente. da mera aparência fenomenal da realidade. Referindo-se à Dominação. em Kant. Disso possui ele “certeza sensível”. W. A consciência de si não é apenas o ato de simplesmente pensar. Consciência de Si. de uma consci­ ência cuja essência cabe ser sintetizada com o ser independente ou a rcifi- . até esse momento. Eis o que ele escreve em seu estilo peculi­ armente labiríntico: “A consciência de um outro é ela própria. Há dois momentos na coasciência — um é a consciência independente para a qual o Ser-para-si é essencial. evoca a coasciência de um Outro (Anderes). e não apenas a consciência dessa consciência. exprime exatamente isso. escreve Hegel que “o Senhor é a Consciência que é para si. inscrindo-se no seu esforço para des­ crever psicologicamente a formação da mente subjetiva. necessari­ amente. parasitas e cipós do filosofar de G. insatisfatória. ou da Consciên­ cia de Si-mesmo. Consciência de Si no seu ser outro. Essa postura primária.. O outro. da Consciência atenta. DE MErRA PENNA O fato é que a dialética do Senhor e do Escravo sempre se firmou no âmago das matutações hegelianas. O que (xorre é que a obscuridade peculiar e o caráter deliberadamente pesado. a do Escravo. Procuremos entender estas frases obscuras. a consciência dependente que possui como essência a vida ou o ser para o outro. que fornece a certeza de si-mesmo ao Eu. no mundo objetivo/. Encontra-se o sujeito. ou seja.. O ser refletido em si.« et nunc do mero Dasein. que não somente a consci­ ência da coisa é possível unicamente para a Consciência de Si. A outra.92 O. O progresso necessário das figuras da consciência. manifeste a identidade do Eu. Selbstbewusstsein. mas a reflexão a partir do mundo sensível que é o Outro. Uma é a do Se­ nhor. corresponde à do Cogito cartesiano. F. Senão vejamos. de um objeto da própria consciência que se reflete sobre si mesma. Mas é uma consciência-para-si que está agora em rela­ ção consigo mesma pela mediação de outra consciência. Mas a Consciência de Si (Selbstbewusstsein). A Consciência de Si alcança a plena satisfação somente ao projetar-se sobre uma outra Consciência de Si. o Obscuro. à do Subjetivismo de Berkeley ou à experiência imedia­ ta do “mundo como fenômeno”. o Mato Grosso estilístico inextricável de lianas.

o que não é executado pelo desejo é executado pelo gozo do Senhor. em seu livro e na contri­ buição à obra Hegel. certeza da própria posição — essa segurança a ponto da arrogância que caracteriza toda a filosofia idealista germânica.O E spír it o das R ev o l u ç õ e s 93 cação em geral”. tema pessimista da concor­ rência vital que afetará. O Outro é o adversário. aliás. para o Senhor. poderosamente influenciado pelos alemães. Quer preservá-lo dos “mitos” malévo­ los que alega haverem comprometido sua reputação. Em inglês. Inver­ samente. enfatiza inicialmente o sentido do termo Consciência de Si — Selbstbewusstsein. contudo. a Reinterpretation. o escravo a transforma somente por seu trabalho. por seu ato de negar. E cada um tenta destruir o outro. implica segurança e orgulho. a Collection o f Criticai Essays. está muito empenhado mesmo em detender nosso filósofo. No primeiro dos livros acima citados. su­ primir a coisa. em antagonismo insupe­ rável. “consciente de seu próprio embara­ ço”. Como Consciência de Si em geral. A arrogância intelectual. um conhecido especialista de Hegel e Nietzsche. Nietzsche seguirá Hegel ao descrever . terminar com a coisa: saci­ ar no gozo”. todo o pensamento europeu no seu moderno e polêmico luciferianismo. E sempre o inimigo. outro egoísmo orgulhoso e seguro. no embate. Cada qual arrisca a vida para provocar a morte do outro. a fim de crescer em consciência própria c segurança egocêntrica. Hegel inaugura a filosofia do confronto dialético e do antagonismo básico. doravante. através de mal­ entendidos ou interpretações errôneas. Como descreve a peça. a pura negação dessa mesma coisa. ao contrário. Walter Kaufrnann. Em alemão. “tímido”. toca Kaufrnann no ponto central do episódio que nos interessa: para Hegel o enredo da Consciência de Si na dialética do Senhor e do Escravo é dramático: uma Consciência de Si enfrenta outra Consciência de Si. o gozo. a expressão self-conscious comporta um sentido de “inseguro”. Kaufrnann está empenhado. a relação imediata torna-se. A Sociedade Aberta e seus Inimigos. comporta-se o escravo negativamente em relação à coisa e a suprime. “O Senhor se relaciona medianamente à coisa por inter­ médio do Escravo. um egoísmo orgulhoso e seguro arrasta. que comprometeu o pensamento ocidental. esclarecendo o que foi dito acima em sua obra Hegel. mas é ao mesmo tempo independente para ele e não pode pois. ou seja. por essa mediação. particularmente sérias na obra de Popper.

slavus. desde as mais cruéis e primitivas. donde eslavo. o vencedor prefere o reconhecimento de sua própria superioridade. e se converteu uns vinte anos depois de sua morte na idéia central da biologia evolucionista de Darwin. é que o enfrentamento de uma Consciência de Si com outra Consciência de Si sempre determina uma relação de antagonismo dialético. com conseqüências filasóficas que repercutiram de vários modos sobre toda a Concepção do Mundo moderna. da violência. DE MEIRA PENNA a oposição primária entre a “moral dos Senhores” (Herrenmoral) e a “moral do rebanho” (Herdenmoral). ou morre. em concorrência vital com outros Esta­ das. até as mais refinadas — como por exemplo o caso de escravas circassianas. Submete-se. de grande beleza. indivi­ dualmente ou em grupos. O . que designa uma etnia da Europa oriental20. Nietzsche se tornará o profeta da noção positiva de desigualdade que se contrapõe à obsessão igualitarista do “liberalismo social” e do socialismo. Com isso. da prepotência. A luta pela vida na seleção natural seria apenas a forma biológica primordial do confron­ to. Do mesmo modo. Escraviza-se. iria Hegel colocar-se do lado da realidade da força. E apresenta um grande número de exemplos dos mais diversos da instituição no correr da história. O resultado do conflito é que o perdedor. ele próprio descendente de escravos africanos. Não há amor. mães dos poderasos monarcas da Subli­ me Porta — para provar a universalidade do fenômeno da escravização. O mais fraco rende-se ao mais for­ te. com variadas for­ mas de uma cultura para outra. Em sua obra Ruce and Culture. . Hegel elaborou cm tomo da racionalidade do comportamento que de­ termina o surgimento da instituição. O que ele de certo modo antecipou. lembra que a pró­ pria palavra “escravo” está associada à palavra “eslavo”. pelo latim sklavus. que se traasformavam em concubinas dos Sültões da Tur­ quia otomana c. o sociólogo americano Thomas Sowell. Não há solidariedade. com o domínio utilitário 20 A etimologia do termo escravo (cm inglês ilavc) vem do grego sklabos. iria salientar o desabrochar das «xiedades e do Estado na conquista e na dominação. ou à morte prefere a servidão. Essa relação seria a expressão psicológi­ ca do conflito primário da existência — o Eu e o Outro. Os homens lutam entre si. Não há harmonia. Ao correr do desen­ volvimento de seu pensamento. e iria divinizar o Estado como grupo hegemônico. nessa condição.94 J.

Do mesmo modo. como costumavam praticar os grupos pré-históricos e nossos índios para lhe ingerir as virtudes pessoais secretas. publicado cm princípios dc 1964. e vendidos aos traficantes nas feitorias dos europeus. triunfantes nas perenes guerrilhas da Nigéria. Os negros que foram importados da Costa para virem traba­ lhar no Brasil-colônia eram. à vergonha da rendição. efetivamente. proclamando que “a aliança militar-tecnocrática blo­ queia. assinala Lima Vaz que “a luta de vida ou de morte na qual 21 E orientador da Juventude Universitária Católica.O E s ríR rro das R evo luçõ es 95 de um servo. o csfalfante caminho intelectual jesuíta não deixa de ser original. o prisioneiro de guerra é reduzido à escravidão. Sabemos. que usa se necessário d» violência e marca a passagem da história para as estruturas dc uma civilizaçio socialista". na maioria dos países da América Latina. na luta contra “m centros dc racionalidade c poder do mundo moderno" deveria ser igual ao do irl do auftrfá Khomeini. que se tornou uma entidade marxista subversiva. descreve a relação Senhor# Escravo como uma parábo­ la da Cultura ocidental. Na revista Síntese. os prisioneiros dos japoneses — ingleses. americanos ou australianos — foram reduzidos a um estado dc escravidão ignominiosa: punidos como covardes porque.. o mais culto c um dos mais influentes comunistas brasileiros ao tempo do regime militar. durante a IIa Guerra Mundial. Comentando o texto em seu estilo peculiarmente hegeliano. De Hegel ao aiatolá Khomcini. quase que invariavelmente. percomdo pcfci . Seria uma visão complementar do modo como se concluiria o Contrato Social. do que a demonstração gratuita de sua força perante um cadáver. nesse sentido. O padre foi. deixando aos jovens discípulas o cuidado de arriscarem a vida na guerrilha do Aragu­ aia. Voltou à atividade após 1977. Eles eram transformados em simples mercadoria pelos régulos africanos. o Padre Henrique Lima Vaz SJ.. O cenário hegeliano serve de base “sociológica” para a compreensão da formação da sociedade. que ao invés de ser executado e comido. os caminhos possíveis de uma libertação política/social dc conteúdo popular” e sugerindo que o caminho a seguir. o conhecido hege­ liano brasileiro 2I. Em qualquer contrato social haverá sempre senhores e escra­ vos. não haviam preferido a morte. vítimas das guer­ ras tribais. Dahomey e An­ gola. resultante da solução racional da luta de todos contra todos concebida por Hobbes.. o agitado sacerdote define messianicamentc “a marcha da aventura humana para um triunfo final” como um processo revolucionário. No período da linha-dura militar Lima Vaz se retirou discretamente a seus pagos sacerdo­ tais.. No doeu mento-base da Ação Católica.

1:7). é a própria Cultura. Após considerar as formas de servidão como epifenômenos das relações de . Ou seja. Lima Vax mostra. fôra essa a intenção de Hegel. incidentalmente. a consciência servil entra agora para a escola da sabedoria”.. Uma o Senhor. o dos gregos. com o risco da vida. mas de maneira ainda desigual: num dos termos da relação temos a Consciência de Si como liberdade que se empenhou a fundo no risco da própria vida e surgiu vencedora. cm que um só sabe que é livre — e rodos os outros são escravos. que descobriram que alguns são livres e os outros escravos. “Tendo experimentado o medo e o tremor diante do Senhor absolu­ to — a Morte — e conservando assim o seu ser. cm seguida... mostra que as consciências de si ultrapassam a figura imediata da vida. a Consciência para a qual a vida foi conser­ vada na forma da coisidade. finalmente. O .. como graça de um outro diante do qual re­ cuou do risco total.96 J. O filósofo dá às formas de mediação que unem dialeticamente a consciência servil ao Se­ nhor e ao mundo a denominação geral de “ação de formar-se”. Na verdade.. outra o Escravo. ou afirmar sua transcendência sobre a imediatez da vida.. Para Alexandre Kojèvc. sobre Francis Fukuyama. e. cujas aulas sobre Hegel na Sorbone em 1933/39 exerceram tão tremenda influencia sobre o jovem Sartre e sobre toda a esquerda intelectual francesa da época — e. mostrando-as. noutra. “O temor do Senhor é o início da sa­ bedoria” lembra Hcgel. O único desenlace da luta que guarda uma significação para o problema do reconhecimento.”. Uma é a Consciência de Si na sua independência. DE MEIRA PENNA vemos empenhadas as Consciências de Si. como a articulação do Senhor e do Escravo abre caminho para a formação da sociedade onde funciona o trabalho e o ser­ viço. como liberdade em face da própria vida. outra na sua dependência.. O grande e triste paradoxo do hegelianismo é que essa dialética da liberdade haja servido para justificar o despotismo totalitário das massas no mundo moderno descristianizado. o dos “germânicos” (ou protestantes nórdicos modernos) que sabem que todos são livres. o americano do “Fim da História” — a dialética deve ser principalmente apreciada para esclarecer o progresso da liberdade na história humana. citando a Bíblia (Prov. Hegel iria descrever a evolução histórica em três estágios: o do despotismo orientai. tem por fim elevar à (noção de) verdade a certeza de que elas são para si mesmas.

conseqüentemente. Desse confronto supremo emergiu o filho de Isaac. Esta aliás é a que mais me fascina. “dominação”. contudo. é a que surgiu do próprio Marx como parábola econômica. trôpego porém vitorioso. “senhorio” não possuem. Segundo tal versão. Kojève enfatiza a dimensão antropológica e sociológica do discurso hegeliano. Evidentemente.O E s p ír it o das Revoluções 97 produção. Há a teológica. com Deus e com o mundo. O drama adquire um sentido. a mais vulgar. o homem aos poucos luciferianamente se liberta de sua servidão natural e metafísica ante o Absoluto divi­ no de modo a provocar. A interpretação mais comum. arquetípico. a progressiva Consciência de Si-mesmo que se lhe impõe ao capricho. conforme pela primeira tez “conscientizado” no episódio da luta noturna de Jacó com o anjo do Se­ nhor (Gen. No antagonismo existencial. Afir­ ma. Os termos “servidão". 32:25 e ss. porém. sem perecer. mas de tal forma que o escravo revoltado acaba sendo o mais tortc.). significação específica em Hegel. A imprecisão. Só ele é capaz de transformar o mundo que o formou e criar um mundo novo — o mundo dele próprio onde será livre. por assim dizer. Ela seria talvez indicada se a Fenomeneb- . Irão adquirir esse significado propriamente político. Observa o padre Lima Vaz que a célebre dialética tornou-se uma das encruzilhadas do pensamento poshcgeliano desde quando. E é isso o que constitui a projeção da dialética do Senhor e do Escravo sobre a sociologia. como limitação à Sua onipotente crueldade. a dialéti­ ca do Senhor e do Escravo configura uma metáfora do relacionamento conflitivo entre o homem e Deus. uma interpretação metafísica é também admissível. que só o Escravo é capaz de transcender o mun­ do como ele é. no próprio Pai e pela encarnação do Filho. uma dimensão no sentido de uma economia política no relacionamento entre o superior dominante e o inferior dominado. incoerência e complexidade dos textos herméticos de Hegel c que permitiram o conflito das interpretações. dessas páginas de Hegel fez Marx a chave para a leitura esclarecida da história universal. no cerne da problemática política em nossa época revolucio­ nária. Descreve a consciência que adquire o homem ide seu próprio destino em confronto consigo mesmo. econômi­ co e sociológico na teoria e na praxis de Marx e de seus seguidores. com o título de Israel (“foi tortc contra Deus”). por exemplo.

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J. O . DE MEIRA PENNA

jfia do Espirito for compreendida como obra introdutória de toda a filoso­
fia hegeliana que prosseguiria com a Propedêutica, com a Enciclopédia,
com a Filosofia do Direito e aFilosofia da História. Neste caso, a dialética se
reduziria ao confronto antitético entre a Consciência subjetiva e o objeto
da consciência — relacionamento que se concretizaria sinteticamente no
que chama Hegel, com grandiloqüência, o Conhecimento Absoluto. O
seu conhecimento absoluto...
Plamenatz levanta, contudo, questões sobre o trabalho intelectual em
relação ao trabalho manual que nem Marx, nem Kojève, nem em geral os
intelectuais de esquerda costumam abordar, provavelmente por inibição,
quando é sabido que Hegel sempre pensou e nunca deixou de pensar
senão em termos de trabalho mental abstrato. O Escravo hegeliano não é
/
o proletário petista ou metalúrgico metido a político. E o Papai aqui que
labuta sobre seu computador para exercer este mais estafante labor de
pensar e compreender Hegel. Na verdade, se levarmos em consideração
as óbvias implicações do trabalho intelectual em face do trabalho manual,
veremos que o conceito de Escravo muda totalmente de perspectiva.
O Senhorio e a Servidão constituem um momento da Selbstbewusstsein
e anunciam a formação da Sociedade. Este argumento procede com ra­
mificações históricas. Seria, porém, errôneo e unilateral se terminasse da
forma como é realizado em nossas plagas tão distantes da germânica me­
tafísica, quando se reduz o cenário a seu aspecto puramente social ou
político. George Armstrong Kelly, na obra Hegel, A Collection o f Criticai
Essays, pensa que outra perspectiva mais correta implicaria o exame dos
padrões psicológicos de domínio c servidão no Eu individual, o que quer
dizer do confronto entre o Si-mesmo e o Outro, uma polêmica que prin­
cipiou na luta pelo Reconhecimento (Kam pf der Anerkennens). Nesse
sentido, a luta de Jacó/Israel com o Anjo foi lembrada pelo próprio Hegel
— a luta peio reconhecimento do homem perante Deus, a qual acarreta o
reconhecimento de Deus-Pai na pessoa de seu Filho. A mais notável ex­
pressão moderna dessa dialética, que é psicológica e teológica, seria, a
meu ver, encontrada no diálogo Eu x Tu, de Martin Buber. Não sei se
Jung se teria inspirado em Hegel ao propor a tese revolucionária que o
Deus Pai criador estava inconsciente no momento do Fiat, sendo a cons­
ciência trazida ao Universo pelo Filho — o que parece estar implícito,

O E spír ito

das

R ev o lu çõ es

99

aliás, nos versículos iniciais do Evangelho de S. João, quando o Verbo ou
o Logos é identificado ao Filho, e nâo ao Pai.
O diálogo buberiano é devedor do subjetivismo angustiado de Kierkegaard e não da temerária tentativa de Hegel de fundir o subjetivo e o
objetivo num Conhecimento Absoluto que seria o dele próprio, Georg
Wilhelm Friedrich. Aceitando embora o caráter “primário'’ da combina­
ção verbal Eu x Tu, como relação íntima e substancial no cerne da alma
humana — o que sempre constituiria uma dívida à filosofia de Hegel —
Buber acentua com ardor a natureza transcendente e misteriosa do diálo­
go. E uma comunicação concreta com uma realidade existencial concreta,
ainda que transcendente, e não com uma mera abstração metafísica acoi­
mada de Espírito ou Razão. O pensador e místico israelense denuncia em
Hegel o mecanismo intelectual pelo qual o próprio Deus pessoal e único
é carregado de roldão no processo dialético abstrato, do qual se converte
em componente abstrato que enfrenta a sua própria contradição. Nesse
seguimento de diálogo com uma Verdade que não é mais “revelada”
(offenbarte), porém apenas “manifestada” (offenbare) na história, nada
mais sobra de misterioso a respeito de Deus. Fácil assim se torna explicar
por que motivo em 1802, antes de Nietzsche, anunciou Hegel 22 a
“morte de Deus” (Gott ist tot!). Um Deus que apenas modestamente dese­
jou “ressuscitar” como uma espécie de Filho postiço do seu próprio Es­
pírito Absoluto, na imanência transformadora da história, A uffmtehen
kann und muss, “ressuscitar pode e deve”, gritou Hegel ao final de seus
ensaios teológicos de 1801/1803, como se estivesse falando de simesmo... Deus morreu, viva Hegel!
O Reconhecimento do Eu e do Outro é assim articulado na relação
do Senhor e do Escravo. A civilização ocidental, que Hegel tanto admira­
va em contraste com a oriental — por ser a ocidental a que absolutizou a
expressão universal da liberdade do Espírito — é também aquela que,
pela primeira vez, postula o problema da racionalidade do ethos c, como
tal, introverte a problemática do Senhor e do Escravo. O processo de
submissão e escravidão seria o próprio processo puramente abstrato da
Lógica. Como explica Lima Vaz, citando S. P. Labarrière (Introductim à
une lecture de la Phénomenologie de FEsprit) e Stanley Rosen (G. W. F. Htgel,
í2 Em sua obra Glaubt» und Wissen — “Acreditar c Saber”.

100

J. O .

de

M eir a P en n a

an Introduction to the Science ofW isdom), “a parábola filosófica ou evoca­
ção, na forma de uma história exemplar, do percurso dialético que vai da
imediata adesão à vida do indivíduo submetido à pulsão do desejo, à
liberdade do indivíduo que se universaliza pela reciprocidade do consenso
racional: eis a significação da figura do Senhorio e da Servidão na estru­
tura da Fenomenologia. A partir daí, o longo caminho para o saber pros­
segue com o momento da liberdade como pura universalidade do pensa­
mento, figurada no Estoicismo antigo, e que irá igualar abstratamente,
nesse espaço do Logos universal, o Senhor e o Servo, o Imperador e o
Escravo, Marco Aurélio e Epicteto. Tecem, portanto, Senhorio e Servi­
dão, uma relação que é anterior ao indivíduo que se forma para o Saber
absoluto — ou para a filosofia — e, como tal, se faz presente no discurso
do filósofo que rememora os passos dessa formação”.
Na verdade, desde Sócrates e Platão e desde os últimos Profetas he­
braicos e S. Paulo, a Consciência de Si-mesmo, clássica e ocidental, reco­
nhece que o Senhor é o Eu. O Senhor sou eu. Eu quando moralmente
consciente e responsável. O Escravo é o desejo, a inclinação, a concupis­
cência, a libido, o impulso a que não consigo resistir. O Escravo, são as
paixões da alma, são as Pulsões inconscientes, é o Id, são os instintos que
devem ser amestrados, disciplinados, contidos, reprimidos. A filosofia da
Idade das Luzes ia perfeitamente compreender esse confronto. Ela o co­
locou na vanguarda de suas cogitações: cabia à Razão,, como Senhor,
comandar os caprichos e destemperos das paixões, variáveis e extravagan­
tes, pois do contrário delas o sujeito se tornaria escravo. A filosofia ia
meditar e percorrer todo o caminho desde o conceito do Servo Arbítrio
de Lutero, através do Traité des Passions de l'Âme de Descartes, e da Ética
de Spinoza — que distingue a liberdade (libertas) das emoções racionais
ativas e a servidão (servitus) das emoções irracionais passivas, sendo a
alma humana o resultado do jogo entre os apetites e desejos, de um lado,
e a mente que racionalmente procura sua maior utilidade.
Como interpretar o seguinte trecho aristotélico de Hegel: “A parte e
o todo, assim como o corpo e a alma, possuem um interesse idêntico; e o
Escravo é parte do Senhor, no sentido de ser uma parte sua, porém sepa­
rada de seu corpo”? A consciência cristã sempre considerou os impulsos
do corpo (soma) como opostos aos anseios da alma (psyche). É nessa opo­

O E spír ito

das

R ev o luçõ es

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sição que se coloca a famosa dialética da luta interior de S. Paulo, no
Capítulo 9 da Epístola aos Romanos, onde descreve o conflito, perene e
terrível e insuperável entre aquilo que ele deseja e não faz, e aquilo que
não deseja e faz, movido por uma espécie de vontade estranha e sempre
rebelde. O corpo e suas ações não passam de escravos rebeldes. São escra­
vos que a alma senhoril não consegue dominar. Mas terá a filosofia de
Hegel, e com ela a de Marx, jamais alcançado à compreensão desse tema
central da meditação ética no Cristianismo? Explica Kelly (opus cit.) que,
“no interior da consciência, cada homem possui faculdades de escravidão
e de domínio a seu próprio respeito, que luta no sentido de harmonizar;
a questão se levanta então sempre que a vontade se depara com uma 'alteridade' que vá além da mera resistência física à sua atividade. E, por sua
vez, as oposições sociais e pessoais são mediadas pelo fato de que possui o
homem a capacidade de escravizar outros e por eles ser escravizado”. A
contribuição de Hegel se reduziria então a haver salientado e explicitado,
politicamente, que as tensões éticas do seu próprio Ser, os conflitos inso­
lúveis dentro de sua própria consciência — diríamos seus “complexos” —
é que levam o homem a projetá-los sobre o conjunto dos outros seres
humanos. Com o que, no processo, é transformado. É esse relacionamen­
to problemático da Consciência de Si com os Outros que fornece o ma­
terial para a construção da ponte entre a psicologia e a política. Nas suas
leituras sobre a Filosofia da Religião, em que descreve, metaforicamente,
a luta para a compreensão do infinito e do finito, com excepcional clareza
proclama Hegel: “Eu sou a luta, porque essa luta é um conflito definido,
não pela indiferença dos dois lados em suas distinção, mas por sua aliança
em uma única entidade. Não sou um dos combatentes empenhados na
batalha, mas ambos. E sou também o próprio conflito. Sou fogo e
/
ys
agua ...
A psicologia de Hegel é moral e não analítica. Por esse motivo é que
é ela, no sentido mais profundo, uma psicologia histórica, uma psicologia
do desenvolvimento social, um Bildunjjsromtm. Em certo sentido é uma
Paideia. Acrescentemos que, nos símbolos da Transformação
( WatuUung), marcantes do chamado Processo de Individuação, reconhece
Jung o caráter dialético do esforço da psique à procura do Si-mesmo — e
esse esforço foi, cuidadosamente, analisado por membros da escola de

102

J. O . d e M e ír a P e n n a

Jung, cientes de que as manifestações arquetípicas ao limiar da consciên­
cia são também condicionadas por fatores históricos. E que desse modo
se pode falar numa “evolução” da consciência. É o que, aliás, pensou
Erich Neumann, o discípulo israelense de Jung, ao nos oferecer sua Ori­
gens e História da Consciência. O mal da filosofia hegeliana consiste, con­
tudo, em haver tentado obscurecer este fato inicial: a Consciência de Si
mesmo, o mundo como Senhorio, e o Outro, como Escravo, vivem antes
de mais nada dentro de cada homem. A dialética inicia-se na própria
alma. Teria Hegel ignorado o famoso grito de desespero do Fausto de
Goethe? Esse mesmo Goethe que ele tanto admirava — quando leva o
seu Fausto a exclamar no tormento:
23

Zwei Seelen wohnen, ach, in meinem Brust .
O monismo panteísta, absolutista e totalitário da Razão de Hegel é o
que o impediu de perceber o caráter inerentemente conflitivo, contradi­
tório e irracional do Espírito humano. A dicotomia do Ser e do DeverSer, em Kant, foi o que se empenhou Hegel por superar, propondo a
apoteose holística do Espírito Absoluto que supera as contradições na
metafísica, na história e na política. Ora, quer seja o Escravo, o Outro,
considerado como um impulso inconsciente determinado pela genética,
ou como um estranho inimigo que se escraviza ou se mata nos processos
agônicos da vida social — o fato é a que a dialética não pode ser trans­
cendida. Não é essa a constatação existencial da Filosofia Perene? Mais
próximo estaria Hegel de seus amados gregos se com eles — com Heráclito e Empédocles, com Sófocles, Aristóteles e sobretudo Platão — hou­
vesse compreendido a realidade profunda do paralelismo entre as lutas
intestinas dentro das poleis, patrícios e plebeus, e os conflitos emocionais
no interior da alma. O paralelismo é real. Aquilo em que consiste a filo­
sofia, como escola de sabedoria, é precisamente aceitar este fato irremovível da condição humana. A tentativa de, através de prodígios verbais e
acrobacias especulativas, quais as de saltimbanco em circo universitário,
forçar magicamente a união da psicologia e da história é imprudente e

23 uEm meu coração, ah!, duas almas coabitam”.

O E spír ito

das

R evo luçõ es

103

louca. O mundo da subjetividade psíquica é singular e irredutível. É isso
o que Kierkegaard iria salientar no seu combate ao “sistema* de Hegcl.
É na síntese de Hegel, com sua palavra crucial, essencial, aufheben, em
que ele explicita seu conceito de integração dos opostos contraditórios —
um “cancelamento”, “anulação” ou “superação” da antítese no processo
dialético — que descobrimos a tentação luciferiana do supremo orgulho
da inteligência racional. É na aufhebung que se encontra, muito precisa­
mente, o traço demoníaco de sua filosofia dialética. É nessa síntese, que
procura superar as contradições existenciais num Pleroma atual e imedia­
to, que devemos colocar o Maligno. Foi o Absolutismo da Razão, manti­
do obstinadamente por Hegel contra Kant, de serem os parcos recursos
de nossa inteligência racional suscetíveis de sobrepujar a enantíosis, ou
contradição fundamental do mundo e da condição humana, o que com­
promete todo o arrazoado hegeliano. Nosso Geist pessoal e o Gcist coleti­
vo e histórico não são expressões integrais do Espírito Santo, porém ape­
nas pálidos reflexos perplexos do Logos divino. Dessa forma, ao procla­
mar o Fim da História em si-mesmo, e a transcendência final das antíteses
em seu próprio sistema prussiano — com o determinismo racional do
Espírito Absoluto de que ele pretendia inspirar-se — Hegel provocou
reações que continuam comprometendo sua obra gigantesca. E não só a
cisão imediata entre sua esquerda marxista e sua direita nacional-socialista
— mas nas escolas filosóficas que a ele se sucederam, o existencialismo de
Kierkegaard, o pessimismo irracionalista de Schopenhauer, o superhumanismo demente de Nietzsche, o positivismo lógico dc Camap e
Bertrand Russell, a análise lingüística de Wittgenstein, e o transcendentalismo histórico de Voegelin. Este equaciona todo o sistema de Hegel a
umgrimoire, uma gramática de magia negra. O jargão hegeliano é de fato
uma obra satânica: descobre-se isso por seus efeitos. Mas a quem estaria
Hegel se endereçando, a Deus ou ao diabo, quando em sua cama de
morte murmurou: “Só vós me compreendeste, mas mal interpretaste”...?
A psicologia certamente se deve preocupar com o Outro. O Outro i a
presença divina e a presença luciferiana na vida da alma — mas toda ten­
tativa insensata de fundir sujeito e objeto, fundindo Consciência e Histó­
ria, assim como de equiparar o real e o racional, só pode scr levada a
efeito pela redução de todos os Eus singulares ao comum denominador

104

J. O . DE MEIRA PENNA

da Servidão. Foi essa cama de Procusto do totalitarismo que Hegel pre­
parou. Lembremos aqui o dito célebre de Burke que, criticando a Revo­
lução francesa, afirmava que a autoridade deve existir em qualquer parte,
para assegurar a ordem, e quanto menos existe dentro de cada cidadão,
tanto mais se imporá de fora... “pois está na ordem eterna das coisas que
os homens destemperados não podem ser livres: suas paixões forjam suas
próprias algemas”. Burke prevenia, com razão, que “até mesmo a liberda­
de deve ser limitada para poder ser usufruída”.
Talvez haja Hegel finalmente reconhecido o que o bom senso desde o
princípio indica ser a verdade — esse bom senso que ele tanto desprezava
— a saber: os homens nascem com talentos desiguais, crescem com tem­
peramentos diversos, revelam crescentes variações de caráter, são impo­
tentes perante o Absoluto, por mais geniais que sejam. A Totalidade hu­
mana é uma ficção metafísica. Essas desigualdades se concretizam pelo
jogo aleatório das peripécias da vida com o efeito contraditório da educa­
ção, de tal modo que a vocação de alguns para o domínio de si-próprio
ou para a soberania sobre os outros, e a vocação de outros para a submis­
são e a subserviência, assim como para uma fraca reação diante de seus
próprios vícios, debilidades de caráter, covardia, inércia, preguiça e inferioridades inatas, tecem uma inextricável trama de destinos onde surgem
e surgirão sempre Senhores e Servos, em complexo inter-relacionamento.
Expressa nas leis e instituições, a Razão política está aí para controlar,
reduzir e com justiça redistribuir os efeitos das diferenças e desigualdades
entre Senhores e Escravos, sem possibilidade, porém, de superá-las intei­
ramente. Esta seria a constatação essencial da fenomenologia democrática
que a especulação pós-hegeliana nada mais fez do que obscurecer.
“Servidão e tirania são coisas necessárias na história dos povos, mas
somente se os Escravos forem libertados poderão os Senhores serem
completamente livres” — eis o que quer Hegel concluir. Conclusão que
as democracias ocidentais e particularmente a democracia americana nun­
ca deixaram de demonstrar ser perfeitamente possível e correto em ter­
mos legais. Hegel intuiu o arrazoado de Lincoln quando este postulou
que “uma casa dividida contra si mesma não pode permanecer de pé”, de
modo que “acredito não possa este governo durar permanentemente,
enquanto uma metade for livre e outra escrava” (“7 belicve thisgovcmmcnt

O E sp ír it o

das

R evo luçõ es

105

cannot endure permanently, h aif slave and h alf free”). A escravidão não
pode ser o substrato da constituição de uma comunidade política. A An­
tiguidade clássica foi provavelmente corrompida pela instituição, quando
ela a tal ponto se estendeu sob o ímpeto avassalador do Império romano
em crescimento que desequilibrou a estrutura social da Roma republicana
e trouxe como conseqüência seu descalabro. Do mesmo modo, os Esta­
dos Unidos estão até hoje empenhados no esforço de superar as seqüelas
discriminatórias da estrutura escravista, não obstante a campanha dos
direitos civis. Entre nós, no Brasil, embora menos conscientes, não são
por isso menos consideráveis os persistentes vícios gerados em nossa
estrutura social e psicológica coletiva, pelo fato da escravidão haver histo­
ricamente permanecido como a mais duradoura e englobante de todas as
nossas instituições. O papel paternalístico do Estado brasileiro não teria
outra explicação: o povo continua a considerar-se servidor do Estado,
enquanto dele espera dialeticamente, como da Mamãe e do Papai, a satis­
fação de seus desejos e a proteção para suas necessidades.
As imensas conotações históricas da metáfora hegeiiana do Senhor e
do Escravo não podem pois ser esquecidas. Na linha do pensamento de
suas escola, uma tendência — a mais influente — ia encontrar acolhida
em Marx e no imenso desenvolvimento do movimento socialista. Nessa
linha do romantismo revolucionário, o futuro pertence aos escravos ‘por­
que constituem a maioria maciça. Eles triunfarão um dia. Sua revolta é
inevitável. Obedece as leis férreas do materialismo histórico, pela dialética
das forças de produção. Em Esquilo, Prometeu se libertará das cadeias a
que Zeus o submeteu, acorrentado no rochedo do Cáucaso, quando em
virtude de sua inclinação filantrópica (philantbropos tropos), o que quer
dizer, por força de seu amor por nós, homens, roubará o fogo divino em
benefício do nosso desenvolvimento técnico e nossa cultura. Em nome da
Justiça (dike), realmente o rei olímpico se comportou como um miserável
tirano. A revolta de Prometeu promete ao homem, como paradigma,
uma libertação final da sua escravidão e das injustiças que sofre por parte
do déspota divino. E, ao explicar a conduta de seu perseguidor, exclama
Prometeu: “Odeio todos os deuses, os quais de mim só receberam o Bem
e, maldosamente, retribuíram com o Mal”. Cabe aqui registrar, incidentalmente, que esses versos do trágico grego profundamente impressiona-

106

J. O . d e M e i r a P b n n a

ram Marx que elevou a citação de Esquilo como princípio de toda filoso­
fia — de todo ímpeto filosófico de rebelião.
O conteúdo revolucionário na filosofia da liberdade de Hegel — em
contraste com os aspectos conservadores de sua exaltação do Estado
prussiano — é o que a “esquerda” hegeliana sobretudo aprecia. Mas o
triunfo teórico dos escravos, na realidade empírica da história, conduziu à
imposição de uma tirania mais sombria do que todos os domínios opres­
sores da história, o que poderíamos considerar como a mais sarcástica
resposta da “astúcia da Razão”. O proletário continuou escravo, enquanto
o burocrata do Partido se converteu em seu novo Senhor. O igualitarismo é o slogan que todos cultuam e todos se empenham em circunscrever,
o que seria mais outra “astúcia da Razão”. Mas deixemos essa linha de
pensamento para outra seção desta obra.
Na outra vertente do hegelianismo, as virtudes do Senhor foram
glorificadas. E o próprio Hegel não desdenhou de segui-la quando se
converteu em catedrático conservador a serviço da burocracia prussiana;
quando defendeu os méritos viris da guerra e da conquista e quando
opinou, em sua Filosofia do Direito, contra a postura submissa do escra­
vo, que “mais vale arriscar a vida do que meramente temer a morte”. Não
obstante, a polêmica que tem sido travada a este respeito, e em que pesem
as objeções de Walter Kaufmann e especialmente as de Herbert Marcuse
(Reason and Revolutwn) assim como as do próprio filósofo nazista Rosenberg, o Herrenvolk em Hegel reconheceu um de seus primeiros profe­
tas. “Se o homem é um escravo”, asseverou Hegel na sua Filosofia do D i­
reito, “sua própria vontade é responsável por sua escravidão, do mesmo
modo como é a própria vontade coletiva responsável se um povo é subju­
gado. Conseqüentemente, o mal da escravidão jaz à porta não apenas dos
escravizadores e conquistadores, mas dos próprios escravos e conquista­
dos”
E possível que melhor tenha Hegel compreendido seu próprio her­
mético raciocínio do que seus intérpretes. Afinal, não é ele, como o qua­
lificou Schopenhauer, um dos três grandes sofistas da filosofia póskantiana, juntamente com Schelling e Fichte? Já no fim da vida, em sua
Enciclopédia, afirma que a sujeição do escravo representa um momento
necessário na educação (Rildung) de cada homem. Sem essa disciplina

O EsríRJTO

das

R ev o lu çõ es

107

que submete a vontade, ninguém pode tornar-se livre e capaz de coman­
dar. Essa é aliás a conhecida concepção das virtudes militares: o subalter­
no é sempre escravo dos comandos de seus superiores, antes de se habili­
tar, um dia, a galgar a autoridade de um comandante.
Perseguindo uma outra linha de raciocínio mais condizente com este
aspecto, dito elitista, do pensamento de Hegel, Nietzsche constataria que
os que possuem uma mentalidade de Escravos (Herdenmoral) jamais se
libertarão, por mais considerável que seja seu número. Sempre seguirão a
liderança de novos Senhores. Quando passam os burgueses capitalistas,
obedecem aos burocratas do Politbureau. A ética proposta por Nietzsche,
a ética do Super-homem, é a de um Senhor que inexoravelmente domina
a massa dos carneiros porque em si próprio montou a férrea estrutura do
Senhorio (Herrenmoml). O Senhorio, o conquistamos em nós mesmos!

Refletindo sobre as lucubrações de Hegel e Nietzsche, cabe lembrar o
nome de Albert Camus e uma de suas obras principais, L'Homme Révolté.
Camus nunca pretendeu oferecer uma doutrina da revolta política. Os
ataques brutais de extrema má fé que sofreu por parte de Jean-Paul Sartre
c seus outros amigosgauchistes, que o levaram a uma excomunhão prática
no meio intelectual francês da época, resultam de sua corajosa negativa
em se deixar comprometer pela propaganda comunista no sentido de
favorecer a independência da Argélia. Na época, Sartre, com sua visão
particularmente caolha do mundo e acompanhado pelos Robbe-Grillet,
os Barthes, os Lévi-Strauss, os Foucault e os outros maîtres à penser da
banda de música dogauchisme francês, atacaram Camus por transformar a
noção política de Revolta ou Revolução num conceito metafísico. O que
mais os encolerizava era a natural angústia do pied-noir Camus, diante da
sangrenta guerra de independência dos árabes argelinos, sustentadas pela
URSS e os comunistas franceses. Como pied-m ir, francês nascido na
Argélia de pais pobres, ele se negava a tomar partido num conflito que o
dilacerava interiormente. O que é central em sua obra é que não acaricia­
va qualquer convicção ideológica concreta. Ele mesmo confessava que
suas fontes eram “a miséria e o sol em que vivi por tanto tempo, cuja

108

J. O .

d e M e ir a

P en n a

memória ainda me salvam de dois perigos opostos que ameaçam todo
artista, o ressentimento e a auto-satisfação”... Condenando a ação política
que mata em nome de ideologias espúrias, o imperialismo ou o naciona­
lismo como no caso do conflito na Argélia, ele argumentava que “quando
as palavras conduzem os homens a dispor das vidas de outros homens
sem traço de remorso, o silêncio não é uma atitude negativa”. Em poucas
palavras, a revolta do homem é um problema filosófico. Não é um pro­
blema político. Em O Homem Revoltado, Camus inicia seu discurso afir­
mando que il-y-a des crimes de passion et des crimes de logique'. Procura de­
fender a tese que a revolta deve ser metafísica, corresponder aos sentimen­
tos mais profundos do homem em seu destino e não pode tender para
uma violência justificada, apenas, por projetos políticos específicos.
É nesse sentido que não nos pode caber levantar o problema do cha­
mado protesto “existencial” de Camus nesta ocasião. Seguindo assim
como que na resposta de Camus a Hegel diríamos, em conclusão, que
todo homem como Consciência de Si, Selbstbewusstsein, é ao mesmo tem­
po um Senhor angustiado e um Escravo rebelde nas duras circunstâncias
de sua existência e peripécias da concorrência vital. Senhor luciferiano e
Escravo tanto na intimidade mais secreta de seu Ego, quando na postura
perante o Social, o Político, o Coletivo. Perante o Outro. Ele é um Se­
nhor no sentido que relativamente livre de determinar seu comportamen/
to e conduzir a vida. E Escravo, na medida que irremediavelmente vítima
do irracional na negatividade do mundo, comandado pelas circunstâncias
de nascimento, educação, saúde e meio físico e mental que o formou —
balouçando como é pelas ondas revoltas da existência em sociedade. Todo
homem é servo de sua condição humana, mergulhado na multidão baru­
lhenta e imunda do Behemoth, e revoltado contra essa condição.
Ao nível do universo terreno, a seleção natural também se processa
dentro de cada mente: a melhor idéia, a melhor ação deve triunfar. O
homem é escravo de uma condição de “luta de vida e de morte”, tão estri­
tamente pessoal quanto comum a todas seus semelhantes. Mora, simulta­
neamente, na Casa Grande e na Senzala. Na transitoriedade, limitação e
evanescência da vida, não é escravo apenas de seus vícios, pulsões ou
instintos de poder e sexo, de fome e medo. Não é só que, ao querer sem­
pre mais e ambicionar mais possuir e sempre lutar por mais poder — a

Os filhos são escravos da educação que seus pais lhes proporcionam. Enquanto na relação suprema do homem com o Outro. na demanda de necessidades ou puerili­ dades. Sofre também a terrível servidão de suas imperfeições. senão em face de Sua própria criatura. as frustra­ ções abrumadoras do combate e trabalho de cada dia. Sofre naquilo que Hegel descrevia como a “luta de vida e de morte”. a avareza e a prodigalidade. caprichosos e exigentes. assim como seus escravos. por sua vez. A luta de que a dialética que foi objeto deste estudo é o desenlace — sendo a morte o terceiro e derradeiro e inevitável termo problemático. as humilhações da vaidade. E desempenha simultaneamente. o fracasso. a inveja. do mesmo modo como patrões. um papel de superior e um papel de inferior. Dominus Deus Sabaoth. Afinal. o sentimento do poder do negativo. na sofreguidão da concorrência vital com seus semelhantes pelos recursos escassos e pelas vagas sempre limita­ das. segundo seu status na sociedade ou na hierarquia política. . as desprezí­ veis mesquinharias de suas próprias ações e dos outros — o ressentimen­ to. mesmo na relação primordial da existência. não é Aquele que é. os pais são senhores de seus filhos. a rotina servil do cotidiano.O E s p ír it o das R ev o lu ç õ es 109 pleonexia dos gregos — se escraviza ao seu próprio destino de poder e não poder. os ciúmes. a ambição desregrada. ele é um servo do Pai onisciente o qual. à disposição de todos. a falência.

respectivamente. Um exemplo clássico de luta de classes na Grécia antiga nos é ofereci­ do por Tucídides. embora possa ser agra- .4. Em tempo de paz. nem o desejo de apelar para os estrangeiros. even­ tualmente. promover uma aliança que implicasse o descalabro de seus opositores e um reforço correspondente de sua própria facção. mas agora havia guerra e fácil era para qualquer espírito revolucionário. escreveu o historiador. Esse aces­ so de luta de classes trouxe uma calamidade em cima de outra sobre os países da Hellas — calamidades que ocorrem e continuarão a ocorrer enquanto a natureza humana permanecer o que é. O BREAKDOWN REVOLUCIONÁRIO NO HISTORICISMO DE SPENGLER E TOYNBEE m problema sobre o qual se tem dirigido a atenção dos filósofos e dos cientistas políticos é a de um possível relacionamento entre o fenômeno revolucionário da época moderna e as antigas revoluções que abalaram a Grécia e Roma. no Terceiro Livro de sua História: “Tal foi a selvageriá da stusis em Corcyra quando ocorreu”. em qualquer dos campos. não teriam tido a oportunidade. nos últimos séculos pré-cristãos. “que dei­ xou funda impressão por ter sido a primeiro desse tipo — embora. o transtorno se estendesse por quase todo o mundo helénico. Toynbee acentua aquilo que descreve como sua “visão binocular” da história. Sabemos que tanto Spengler quanto Toynbee reconhecem a existência de um certo paralelismo entre o período revolucionário greco-romano (na época que Toynbee chama breakdonm da civilização clássica) e aquele que a nossa sociedade ocidental atravessa há duzentos anos. Em todos os países houve conflitos entre os líderes do proletariado e os reacionários. em seu esforço para promover a intervenção dos Atenienses e dos Lacedemônios.

à qual estamos todos nós.O E s p ír it o das R evo luçõ es 111 vada ou mitigada ou modificada por mudanças sucessivas de circunstânci­ as”. a eterna recorrência preside os negócios humanos. A atenção dos estudiosos se dirige para a politeion anakuklosis de Políbio — o ciclo determinado de recorrência dos regimes políticos — e para o metabolai platônico (metabole politeion) que seria a transformação quase natural de uma forma de governo em outra. também a que os hebreus cultivavam no que diz respeito aos negócios deste mundo (em contraste com o reino eterno de Deus). A intuição judeocristã está perfeitamente expressa nessa famosa imagem do gigante no sonho do rei da Babilônia. a história se repete. suce­ dem-se uns aos outros e. Foi o desconhecimento dessa distinção entre a Histó­ ria pragmática e a História paradigmática — a História da Salvação que corresponde à História da Humanidade — o que. São idéias que contém em germe os grandes ciclos históricos daqueles dois filósofos modernos. definham e morrem segundo uma regra invariável que exprime a própria lei da vida e da morte. irrevogavelmente adstritos. irremediavelmente. Os reinos deste mundo são transitórios. A anakuklosis é em certa medida correta. Os impérios nascem. Sabemos que essa concepção de Políbio e dos gregos era também a dos indianos e chineses. presu­ . porém. constitui um coro­ lário dessa atitude. que não será jamais destruído e que permanecerá pelos séculos dos séculos. A indiferença dos verdadeiros cristãos pelas coisas deste mundo e pela história pragmática que se reflete na reação fria e tranqüila de Santo Agostinho. Para Spengler. Detrás e por cima do gigante de pés de barro existe. e a mutatio rerwn da história romana. o Reino de Deus. comprometeu a postura historicista perante o problema da Revolução. perante a notícia inimaginável e inaceitável da queda de Roma. A questão levantada por essa citação consiste em identificar ou não a Revolução moderna com a stasis que perturbou as poleis gregas. tanto quanto podemos depreender de sua Decadência do Ocidente. um outro reino. Na concepção antiga da anakuklosis. nesse sentido. crescem. De certo modo. um período de revoluções ocorre na cultura clássica que ele chama de “apolínea”. humanos. tanto quanto na ocidental "fáustica” — ou. conforme nos revela a interpretação do sonho de Nabuchadrezzar no segundo capítulo do Livro de Daniel.

são irremediáveis. Spengler acentua (1-304) que o que chama “símbolo primário” da cultura russa. quando esperava que fosse alemão e conduzisse a Alemanha ao domínio global. in statu nascendi. e o BasiUus. em sua cultura. bem como o Cesarismo que o precede. Careceriam por isso os russos de toda verticalidade. Jesus Cristo. O que quer dizer. encarnando simultaneamente o poder sacerdotal do Pontífice Máximo. logicamente. é a planície infinita. O. e como suas teorias não são muito coerentes. porém. em Constantinopla. Toda sua concepção historicista da fatalidade e do destino consiste em aceitar o fenômeno histórico como inevitável. o poder temporal do Imperador Roma­ no. Do mesmo modo como Lênin. irremediável. A Revolução representa simples­ mente um processo de transição da “Cultura” para a “Civilização”. pelos exemplos antecedentes no desenvolvimento fatal das altas civiliza­ ções anteriores. a transição de uma forma dinâmica e criadora. à imposição do imperium mundi. d e M e ira P e n n a mivelmente. Ele insiste repeti­ damente nesse destino irremediável. para uma for­ ma estática e esclerosada. mas em outro sentido diametralmente oposto. pensa Spengler. Spengler considerava o Imperialismo. o qual irradia por toda a parte na planície humana. ser suscetível de correção. o “período tardio” da civilização burguesa cosmopolita. Seu ethos não consistiria em amor filial. se transformou em Pai. mas cm amor fraternal. O absurdo lógico do argumento. Os es­ tágios de transição. por sua vez. também. é que o DeusFilho. passou a representar na terra esse Cos- . as idéias russas sobre o Estado e a propriedade careceriam. E se pode ser estudada e prevista deveria. En­ tretanto. Em uma de suas brilhantes intuições. e o poder profético da Igreja. Essa concepção spengleriana é interessante como explicação do fundamento espiritual da revolução bolchevista. nas outras que examina. como sinais da caducidade da civilização. Carecendo da verticalidade do espírito ocidental. Entretanto. a velha civilização bizantina onde dificilmente poderíamos descobrir essa ausência de verticalidade e de relacionamento com o Pai. de toda verticalidade. em Pantocrator e senhor do Universo.112 J. dava ao imperia­ lismo um valor positivo. em seus rasgos essenciais. é que a inevitabilidade pode ser estudada e prevista. Os russos tratam Cristo como irmão. Não pussuem relação autêntica com Deus-Pai. O que ocorreu de fato. é mister acentuar que os russos pro­ longam.

devendo terminar. Nas “correspondências” de Spengler. com a invasão dos Hyksos. Na verdade. a essência do pensamento spengleriano é essa antecipação da substituição do período revolucionário que detesta (burguês. quando Moscou se pretendeu transformar na Terceira e última Roma. relativas aos vários períodos ou etapas de desenvolvimento das Culturas como seres vivos. com C. um século antes. a grande “revolução” se desen­ volve entre os anos 1780 e 1580 antes de nossa era. Na antiga China. O Tzar converteu-se em herdeiro do Basileus. Ch’in Shih Huang-ti (221 antes de Cristo). termi­ nando com a consolidação do Império de César-Augusto. Na cultura antiga. com um rufar de tambores soturnos e toque de agudas trombetas wagnerianas. pelo Cesarismo que ele anuncia. a Revolução se encaixa no período iniciado em 1789. que é sucedida pelo chamado Novo Império. o período “revolucionário” — idêntico ao que chama Toynbee age o f trouble — co­ incide com a passagem do estágio de “Cultura” ao estágio de “Civilização”.O E sp ír it o das R ev o lu çõ es 113 mocrator Triuno. o tzar ainda era o “Paizinho” de seu povo — e sua eliminação pelos bolchevistas possui conteúdos edipianos que um freudismo político não teria dificuldade em psicanalisar. a fase em apreço se coloca no período que se inicia. com a imposição sobre todo o planeta de um novo Cesarismo imperial.C. E em nossa própria Cultura Fáustica. que Spengler chama de “apolínea”. Ela continua até a batalha de Actium. Em princípios do século. socialista. deduz o filósofo o seu princípio de que “a história humana carece de sentido. em fins deste século ou prin­ cípios do próximo. corresponderia ao período dito dos “Reinos Combatentes” que precedeu a imposição da unidade chinesa e a fundação do império pelo “Primeiro Imperador”. preocupado com o dinheiro e produzindo a anarquia e a decadência da verdadeira Cultura). triunfalmente. Mas só nos ciclos vitais das culturas particulares existe um significado profundo”. Spengler foi um pouco mais específico no que diz respeito ao pro­ blema da Revolução em seu livro Anos Decisivos (Jahre der Entscheulung. Dessas correspondências. afirma Spengler. capitalista. No antigo Egito. 1933) — obra publicada posteriormente à conquista do poder pelos n*- . Flaminius e a lei agrária de 232 a. A concepção foi herdada pelos grão-duques de Moscou no momento da queda de Constantinopla. não com os Gracos mas. César e Autocrata — uma figura eminentemente paterna.

a revolta daquilo que chamaríamos hoje os povos do Terceiro Mundo. Desprezava o comunismo que considerava fenômeno de decadência ocidentaL. uma “crise na estrutura orgânica dos povos de cultura”. Essa “chave” de correspondência poderia levar-nos a acreditar que. O primeiro elemento importante que descobre Spengler no horizonte de nosso século é o de que se trata de um período de “grandes guerras e grandes potências”. Deve surgir um novo imperium mundi. num momento que. ele acrescenta o “prussianismo” entre as qualidades do novo Império. e não vejo muito bem a aplicação desse adjetivo aos Estados Unidos. isto é.114 J. Mas. pelo que se espera — para a antecipação de nossa própria história ocidental. De acordo com essa correspon­ dência. para ele os americanos são os novos romanos. se não encontrássemos bastante rele­ vância atual em algumas de suas formulações. O propósito desse seu último trabalho é colocar a Alemanha no desenvolvimento histórico do mundo. O terceiro elemento é a “Revolução mundial dos povos de cor” — o que quer dizer. do mesmo modo como a Grécia decaiu. considera “decisivo” — supostamente o do embate final. para a conquista do imperium mundi. que cruza a luta horizontal entre estados pela “luta vertical entre as classes dirigentes dos povos brancos e os outros”. disciplinado. Spengler des­ creve o gênio romano como “bárbaro. fundado por uma potência ocidental. Haveria uma identidade entre nosso período atual e o período de transição do helenismo para o domínio de Roma que ocorreu nos últimos séculos antes da era cristã. Gregos e romanos ofereceriam a chave para a compreensão — e. prático. uma nova Roma. a Europa está decadente. e o destino que ago­ ra se vai cumprir”. com grande entusiasmo e inspira­ ção profética. Spengler esperava e mesmo previa. como revela no título. O segundo é a “Revolução mundial dos povos bran­ cos”. A Revolu­ ção é descrita em tons de Götterdämmerung como uma crise intrínseca. para nós. infelizmente. É verdade que sua atitude quanto às possibilidades imperiais da União Soviética não é muito clara. O . revolucionário. mas acreditava na capacidade russa em matéria de imperialis­ . protestante”. Assim “diferencia-se o destino que já se cumpriu. DE WEIRA PENNA zistas na Alemanha. o triunfo próximo de um novo cesarismo e de um novo imperium mundi. Não nos atre­ veríamos a dar uma tal importância a um pensador que muitos conside­ ram como totalmente ultrapassado.

provavelmente. a sorte do globo terrestre”. Corresponde a esses dois séculos terríveis que vão da batalha de Cannes até a de Actium. como um povo de “felás”. O historiador — e Spengler não era um verdadeiro historiador mas um filósofo de estilo nietzscheano. Spengler considera a raça germânica a mais enérgica da história. por tempo desconhecido. na falta da Alemanha. e desti­ nadas a conduzir a última luta pelo domínio do planeta: entre essas po­ tências.O E s p ir it o das R ev o luçõ es 115 mo. E mais adiante: “Há potências em formação. Entretanto. A Revolução se define pela odocrad* — a ditadu­ ra da plebe. Começou no século XIX e vai durar este século inteiro e. uma única poderá dar o seu nome ao Imperium mundi. destinado não a agir sobre a história. ignorou totalmente os chineses que descrevia. como armas de luta ideológica. em termos críticos e pessimistas. contanto que se não abalasse o edifício teórico. potências novas por sua situação e por sua forma. Do mesmo modo como teve este. tomar-se-á o outro. Isso significa a passagem dos Estados separados do século XVIII para o Imperium mundi. Essa última frase demonstra que. A Alemanha seria a nova Roma do Ocidente. estava Spengler prepa­ rado para aceitar uma outra qualquer candidatura imperial de potência extra-européia. dos Césares. e o fàrá a menos que um destino terrível a destrua antes que esteja terminado”. des­ creve então. mas a sofrê-la. o fascismo e o nazismo seriam movimentos de estilo “cesariano”. Seguindo a mesma linha de pensamento da Decadência do Ocidente (VI Parte). Marcos Antonios e Augustos que deverão. é isso o que se deduz de Anos Decisivos. como campo de ação. doravante. do populacho conduzido pelos grandes demagogos e líderes militares cesaristas. proliferar. Ele também prevê essa ditadura para o Ocidente. as características da Revolu­ ção que se processará. do qual transcrevemos o seguinte trecho: “Eis-nos na época das grandes guerras. a área da civilização antiga e suas irradiações e. simultaneamente com o processo de estabelecimen­ to do Império mundial. Hitler e Mussolini protótipos dos Pompeus. portanto todo o mundo mediterrâneo. o próximo. interessado nas fotos históricos con­ cretos exclusivamente na medida em que podiam servir para ilustrar as suas intuições e teses a priori. Lança por conseguinte a candida­ tura alemã ao domínio do mundo. juntamen­ te com os egípcios. Nacionalista alemão. torcendo os . Pdo menos. das massas incultas.

aristocrática. O ponto de vista econômico. Não possui em si conteúdo algum. o homem culto. representa um mero sintoma de queda. A Revolução é um fenômeno natural de desagregação e declínio. um “burguês” ou um ser meramente urba­ no. O. como verdadeiras plantas. As “classes econômicas” consti­ tuem o resultado da concepção inglesa. materialista e decadente. no momento em que o homem da terra. gótica ou medievalista de Spengler. Nas mãos de Spengler. Essa opini­ ão depreciativa convive. A Revolução. tendo aplaudido. Considera-o apenas como um elemento fatal e necessário de esfacelamento de uma cultura. não obstante . A Sociedade ainda jovem e cheia de energia vital é naturalmente hierárquica. A Revolução constitui simplesmente um sintoma de anarquia e decadência. seu “fundo” tanto quanto sua expressão. Spengler revela suas convicções profundamente tradicio­ nalistas. d e M eira P enna demais num verdadeiro leito de Procusto — o historiador. é a grande cidade cosmopolita com seu domínio opressivo do dinheiro. o aristocrata. se toma um homem econômico. o teatro da Revolução da vida. convicções de estilo hegeliano e “prussiano” que. O dinheiro ergue-se contra “o sangue e a terra'”. com uma admiração beata pela figura de César. em traços largos. dizíamos. como plantas. Nas Culturas. a hierarquia das classes sociais constitui uma forma também natural de vida. primitivista. após haver a dita Cultura alcançado o seu apogeu no desen­ volvimento biológico.116 J. que é o líder revolucionário por excelência porque desti­ nado a conduzir o povo na edificação do Império mundial. paradoxalmente. a história torna-se uma espécie de botâ­ nica. Na posição conservadora. não contribui com nenhum esclarecimento novo em sua interpretação do fenômeno revolucionário. como o fez no início de Anos Decisivos. não apenas metaforicamente. desen­ volvida por Adam Smith — concepção que Marx transformou num “sistema chato e cínico”. “que repudia o solo e o sangue”. o triunfo da “Revolução nacional” na Alemanha foi repudiado pelos nazis­ tas e morreu deprimido pouco tempo depois do início da guerra. seria o processo “decadente” de transformação de Cultura em Civilização. Isso ocorre na “baixa época” de todas as civilizações. seres vivos enraizados na terra. uma crise fatal no des­ envolvimento biológico das Culturas — culturas que ele descrevia. Tal ambigui­ dade no seu pensamento de Spengler se refletiu em seu próprio destino particular pois. Em toda essa argumentação.

Durará além da metade. Ele prega um novo Socialismo em oposição àquele. da plebe da ralé. Revelando um entusiasmo quase infantil pelos gran­ des acontecimentos da história.. não o fim do processo revolucionário. mas sem explicar exatamente o que entende com essa expressão. anuncia «o . Ela avança irresistivelmente em direção a seus últimos acontecimentos decisivos. para Spengler. na corrente de pensamento ‘"reacionário” de um tipo de extrema direita européia dos princípios do século que. as classes dirigentes e a elite. e a defensiva que vem do alto é fraca e desprovida da cons­ ciência de sua necessidade. O bolchevismo seria apenas o ponto culminante. e que submete à sua ne­ cessidade todos os povos brancos do tempo presente”. Enquadra-se de qualquer forma. o capitalismo das classes inferiores. Nesse contexto. o socialismo e o totalitarismo. e ninguém percebe isso. O fim só se tomará visível quando essa relação se inverter e o momento em que deve isso ocorrer está próximo. Spengler mistura numa mesma ojeriza cega a democracia libe­ ral. da massa citadina. A Revolução é. é a versão TFP. Tudo isso é um mesmo produto de decadência. foi levada a apoiar o nazismo — e que renasce hoje em França com a classificação de Nouvelle Droite. e as catástrofes. realmente a figura de estadista mais extraordinária da história. Proclamando em brados dramáticos a figura de César. o capitalismo burguês. No Brasil. uma ofensiva que vem de baixo. as grandes guerras e bata­ lhas.. talvez mesmo além do fim do século. cafajeste e brutal dos nazistas. Spengler pertence à corrente hegeliana da direita e usa a dialética da Liberdade e da Necessidade da mesma maneira como o fàz Marx. salvo que para exaltar os Senhores. os opressores. o iriam finalmente pôr em conflito com a vulgaridade plebéia. nas década dos 30 e 40. com a implacabilidade de um grande destino histórico ao qual nenhuma civilização do passado pode escapar.O E s pír ito das R ev o l u ç õ e s 117 seu nacionalismo guerreiro pangermanista. pelos heróis. E continua nesse tom profético trágico-heróico e entusiástico. por enquanto. “A Revolução mundial ainda não terminou. escreve: “Vivemos numa das grandes épocas de toda a história humana. O socialismo é. os conquistadores. ninguém compreende! O que nos acontece é uma erupção vulcânica sem igual”. os dominadores. um socialismo que iden­ tifica ao espírito prussiano. A diatribe revela-se mais substancial quando agride o jacobinismo de todos os matizes e épo­ cas.

já se estudava a possibilidade de utilização da energia nuclear na manufatura de uma bomba de poder descomunal. “o primeiro servidor do Estado”. e não aquilo a que se pertence. apoiados por um número diminuto de políticos e de sacerdotes cristãos. A Revolução mundial. . desejamos insistir em sua relevância atual — não obstante os erros evidentes de fato c o estardalhaço dc uma postura wagneriana. na antiga Faculdade de Direito da Universidade do Brasil. as únicos a tentarem evitar o cataclismo que se abateu sobre a Alemanha sob a inspiração do pscudo-César que foi Hitler. Ao concluirmos esta análise do pensamento do Spengler. não conseguiu nem mesmo prever que a ciência física teria um desenvolvimento fantástico e que. dc haver assistido a uma brilhante conferência de Gilberto Amado num então prestigioso “Centro Oswald Spengler”. comparando-a a Cartago. A obra a meu ver permane34 Para um homem que pretendia ser um profeta da história. o Grande. A Revolução será vencida pelos “homens de raça” — mas a raça. d e M e ir a Penna mundo um novo Cisar. Nem imaginou o tri­ unfo da nação que. O . ou previu tarde demais (imediatamente antes de sua morte em 1936). da elite de “raça” como conceito ético. Lcmbro-me por volta de 1936. o culto do herói numa linha tradicional que vinha do ro­ mantismo do século XIX sob influência napoleônica — tudo isso configu­ ra uma filosofia moral destinada a superar o elemento desintegrador que descobre no processo revolucionário moderno. O Ocidente aguarda um novo líder que tomará a espada e o preservará. tese de um racismo de tipo a não muito agradar a Hitler. Mas ele infelizmente não previu. da revolução mundial dos povos de cor. Spengler foi o filósofo da direita. julgara à beira da desinte­ gração. hierárquico e disciplinador do tipo do oficial alemão.118 J. cm suma. os Estados Unidos. Nem previu que seriam alguns poucos oficiais prussianas de velha estirpe. A exaltação do indivi­ dualismo voluntarioso. é aquilo que se é. será sobrepujada pelo “prussianismo”. por haver »p itad o suas possibilidades de avanço. tal como era concebida nos anos que precederam a Segunda Guerra Mundial. O paradigma oferecido à nossa admiração é o do rei Frederico 11°. para Spengler. Spengler acreditava que a física ia praticamente desaparecer. naquela mesma época... simultaneamente. do espírito aristocrático. que o nazismo não correspondia a suas fantasias quanto à mística aristo­ crática das Cavaleiros teutônicas. Não previu tampouco o colapso alemão24.

Temos de um lado o que chama o “proletariado interno”. agora ressentida como opressora. Na concepção cídico-biológica do historicismo de Toynbee. no mundo moderno uma “revolução mundial dos povos branco«* e uma “revolução mundial dos povos de cor”. se a considerarmos apenas em seu aspecto político. . O “proletariado externo” é o que. E. lutas civis e revolu­ ções no qual. Toynbee demora-se bastante no exame do estágio de desenvolvimen­ to histórico que denomina “rompimento” ou “queda” (brtakdown) das civilizações por ele apreciadas. acaba degenerando. Suas apreciações sobre o fenômeno ocorrem incidentalmente no correr do discurso. especificamente. com o problema teó­ rico da Revolução. Essa mudança no caráter dos elementos go­ vernantes e das elites aristocráticas provoca a Secessão do Proletariado que deixa de admirar e imitar tais elites. o “proletariado externo”. Nesse ponto não está Toynbee longe da concepção de Spengler que diaringue. pela força. e se transforma depois numa “minoria dominante” que tenta reter. TSl Tampouco ocupa-se Toynbee. do ou­ tro. além das fronteiras da civilização. cm nossa própria civili­ zação. em Roma. em nossa própria sociedade ocidental. e se revolta contra sua servidão. o tempo das perturbações e desordens que invariavelmente afetam as sociedades. chamávamos antigamente de colônias e hoje de “Terceiro Mundo*. ao abordar casos particulares ocorridos na Grécia antiga. Ele ocorre após o que chama o time o f trouble. prostrado e recalcitrante. uma posição privi­ legiada não mais merecida. ao atingirem o momento em que começam a desintegrar-se.O E spír ito das R ev o luçõ es 119 cc porque foi ele o único que formulou exatamente os resultados implíci­ tos na Revolução mundial. que passa a resistir com gradual violência à sua incorporação no âmbito da dvilizaçáo em apreço. O mecanismo descrito é o seguinte: A chamada “minoria criadora" que fundou a civilização em questão e que a governa. perde sua capacidade de renovação e construção. esse breakdown é sempre fatal. Toynbee divide o proletariado em dois setores. na França ou na Inglaterra. tempo calamitoso de guerras. nos encontramos.

apreciada pelo historiador inglês em termos positivos e otimistas. a lei de Deus. raciais. Ou refle­ te a lei de que fala S. um determinismo estrito nesse particular. ecológicas e demo­ gráficas do breakdown. políticas. de Shakespeare. e o que cresceu deve enve­ lhecer”. A Revolução não é. sociais. A Revolução é uma “senescência cósmica”. Não há causas. Cipriano: “a sentença que foi passada sobre o mun­ do. Citando o poeta Meredit^i: We are betrayed by what isfalse within e o King John. para Roma (Toynbee não é muito claro na colocação res­ pectiva desses dois fenômenos. Em que consiste. após afastar as várias hipó­ tese explicativas. nessas circuns­ tâncias. DE MEIRA PENNA Os três pontos que. . O . que o que foi deve morrer. guerras de classe. realmente. ele prefere deter-se no que chama a “falha na auto­ determinação”. ou o período das guerras sociais dos dois últimos séculos antes de nossa era. que ele cita. para os gregos. em resposta àquela ruptura. econômicas.. com o desen­ cadear da Primeira Guerra Mundial. definem o breakdown são os seguintes: 1) uma quebra ou ruptura no poder criador da minoria domi­ nante. facilmente discerníveis. Assim. é para nós a época que principiou em 1914.120 J. ditaduras e anarquia constituem sintomas indisfarçáveis do bre­ akdown. revoltas. . detém-se Toynbee para debater extensamente as possíveis causas. às quais atribuir o processo de ruptura e. do ponto de vista do breakdown da civili­ zação clássica). 2) uma retirada da mímese por parte da maioria. quando ocorre. segundo Toynbee.nought shatt make us rue. O fermento catastrófico de guerras intestinas. conforme foi descrita pelo profeta pessimista e filósofo romano Lucrécio. Não nos interessa aqui repetir seus argumentos e discussões. o que seria a Guerra do Peloponeso. Toynbee acaba reconhecendo que não existe.. não é fácil dizer. e 3) uma perda da unidade social da civilização como um todo. Toynbee é demasiadamente anglo-saxão e conservador para se entusias­ mar romanticamente por essa exacerbação destruidora do ímpeto de re­ beldia. IfEngland to itselfdo rest but true. No entanto.

a “secessão do proletariado” acontece quando a minoria criadora se transforma em “minoria dominante”. em determinado momento. o ponto em que toca Toynbee no problema crudai da Revolução. quando Jesus afirma que é do coração do homem que procedem os maus pensa­ mentos. depois de avançar a hipótese. e somente aí. É aí. um esgotamento misterioso de sua energia renovadora e poder de evocar a mímese das classes dominadas e influenciar o comportamento da maioria. a divisão de classes torna-se consciente.O E sp ír it o das R ev o lu ç õ e s 121 bem como o trecho do Evangelho de São Mateus (25:18 a 20). não explica por que. uma quebra inexplicável em sua própria capacidade criadora. Em outros termos: o breakdown ocorre quando as elites dominan­ tes perderam a sua capacidade criadora. No caso da Revolução francesa. no desenvolvimento das sodedades estu­ dadas. e a autoridade da classe dominante deixa de ser reconhecida como legítima pelas classes dominadas. A perda de “auto-determinação” constitui o critério último do breakdown. a inspira­ ção teria vindo do exemplo da Independênda americana e das Revoluções inglesas que duas gerações de phtlosophes haviam popularizado e glorifica­ do. As revoluções são violentas e brutais porque representam triunfos atrasados de novas e poderosas forças sodais sobre velhas instituições esclerosadas. Isso se pode deduzir do feto que o progresso para a auto-determinação configura o critério supino do crescimento e do progresso. invariavelmente. que se mantém tenazmente resistentes às novas expressões de vida. Em Atenas.. trata-se de um raciocínio de certo modo circular ou tautológico — pois o pensador. retardados e proporcionalmente violentos”.. e a prova que tais minorias per­ deram essa capacidade é que ocorreu o breakdown. Nesse momento. Como é característico de todo o argumento de Toynbee em seu Estudo da História. ou em que condições a perda de autono­ mia e a incapacidade das elites de evocarem uma reação mimética do povo ocorrem. os pecados. verificamos o processo de stasis — a luta de dasses revo­ lucionária — em virtude da qual a monarquia mítica foi sucedida por um . Ele a define como “atos violentos de mímese. os crimes — chega Toynbce à conclu­ são final que. Em outras palavras. a elite dominante literalmente suicida-se. por uma falha de caráter em si própria. as blasfêmias.

em seu esforço de ascensão. antecipa em nossa própria civilização um acontecimento semelhante que se segui­ ria à sucessão de revoluções em nossas próprias nações-estados. A primeira revolução romana ocorre do quinto século ao ano 287 antes de Cristo. Da monarquia semi-estrangeira ou etrusca dos Tarquínios. não . Assim como as revoluções e tiranias determinaram o surgimento do império macedônico. O tirano sempre foi o produto da democracia em seu estado terminal de dissolu­ ção. Após alguns séculos de funcionamento mais ou menos suave. Quase todas as poleis gre­ gas registraram fenômenos de stasis. assim também podemos ante­ cipar um fenômeno da mesma índole. sucedida por uma tirania. este por um regime democrático. quando por Alexandre foi criado o primeiro arremedo de Estado Universal. e ambos. A ditadu­ ra é o produto finai da democracia totalitária — diríamos hoje. confir­ mando a regra. de onde nosso “ditador”. Platão construiu o imenso e imperecível edifício de sua filosofia política na condenação das condições que geraram a tirania e na formula­ ção de uma solução filosófica ao problema da República ideal. oferece Toynbee um esquema que se encaixa na sua “visão binocular” da história. Transfor­ mou-se no paradigma das constituições democráticas modernas — espe­ cialmente através do modelo das revoluções americana e francesa. como Platão repetidamente teve oportunidade de acentuar. DE MEIRA PENNA regime aristocrático ou oligárquico. finalmente. surge a República após uma revolta pela independência promovida. Obcecado com a sorte de seu mestre Sócrates. Do mesmo modo como Spengler. pela tirania — o termo tyrannos tendo o mesmo senti­ do do latino dictator. e as revoluções e tiranias em Roma seguiram um curso para­ lelo ao crescimento do impenum de César. porém. criou seus próprios instrumentos de pressão. seus tribunos e instituições populares. O . Podemos acompanhar sua evolução com bastan­ te nitidez. Analisando a concatenação de acontecimentos históricos em virtude das quais as revoluções nas poleis helénicas determinaram o breakdown de sua civilização. O modus vivendi. A plebe. surgiram os conflitos entre a aristocracia dos patrícios e a massa da plebe.122 J . por Junius Brutus e o partido do Senado. A República aristocrática é um exemplo extraordinário de constituição que jamais deixou de profundamente impressionar a posteridade. na stasis deAtenas. no ano 509 antes de Cristo. O processo de stasis é muito mais claro na história romana.

que tentou restabelecer a autoridade senatorial. em alemão e em eslavo (Kaiser. como por exemplo Sertório. as revo­ luções e guerras civis são constantes e vão num crescendo de destruição e agressividade sangrenta que coincide com as lutas externas pela conquista do Império.). C zar). Entra Roma em novo período de agitação que se estende por cem anos — de 131 a 30 antes de Cristo.). vencendo Pompeu. a constitui­ ção do império universal da sociedade clássica. passaram a enfrentar-se. mesmo a classe mais baixa. notando porém que nem todas as sociedades seguem essa norma arquetípica. valendo-se do apoio demagógico das multidões. um termo de dignidade. Alguns senadores não hesitaram em trair seus interesses de classe e liderar rebeliões popula­ res. Em certo mo­ mento. sinônimo de Imperador. os Césares invariavelmente receberam o apoio da plebe romana. aparece em cena para ser logo em segui­ da novamente recalcada. Durante esse período. este último ardentemente denunciado por Cícero. o famoso Senatus Populusque Romanus SPQR. Toynbee considera o exemplo clássico — greco-romano — de desen­ volvimento histórico. No correr dos séculos do Império romano. das cidades da província ou de seus próprios exércitos. A* . O que seria a forma romana da democracia totalitária. o primeiro deles.O E s p ír it o das R evo luçõ es 123 dura muito. O Senado e o povo. Sendo ele próprio de origem aristocrática e pertencendo a uma das mais ilustres das gentes romanas. esforçam-se por reduzir a patrum auctoritas das famílias patrícias representadas no Senado. a dos escravos e gladiadores que nunca havia desempenhado qualquer papel político sensível.C. constitui a coroação e término do movimento dertjww. Júlio César. Foram os grandes generais populares que asse­ guraram o triunfo final da plebe.C. em sua luta sempre renovada contra o poder aristocrático do Senado. mar­ cando simultaneamente. O próprio nome de César torna-se. como o padrão normal (standardpattem ). a partir do tempo dos Gracos (113 a. César é o paradigma supremo da evolução — monarquia-aristocracia-democracia — que termina na dita­ dura imperial. Marius. recrutados na plebe. enfrentou-se a Sulla. Os tribunos do povo. e na pessoa de seu sucessor Augusto. o Cesarismo. substitui a auctoritas senatorial pelo imperium militar. no episódio da revolta de Spartacus (91-82 a. Era agora o poder do dinheiro e do número que se erguia contra a autoridade da tradição e do nasci­ mento. Sexto Pompeu e Catilina. após atravessar o Rubicão.

entre sociedades geograficamente misturadas mas socialmente segregadas. por força de diferenças de classe. como um sintoma de ruptura e degenerescência ocasionais. Uma parte considerável de seu estudo é tomado com o tema (os livros VI e VII). o fenômeno não aparece. DE MEIRA PENNA sociedades egípcia e chinesa são oferecidas como casos de sociedades que se renovam e rompem o padrão normal. como a maya. Em vez de Revolução. Diríamos então que a minoria dominante perdeu sua “legitimidade”. O Livro V trata mais diretamente do pro­ blema da Desintegração ou “cisma no corpo social”. não possuem histórias conhecidas. 2) a Igreja universal e. Com o hábito assaz irritante que cultiva de saltar de uma postura deter­ minista ou historicista. na sociedade siriaca que inclui os antigos judeus. para uma postura de “livre arbítrio” ou indeterminação na história — entre “lei” e “liberdade” e vice-versa (parte XI de seu Estudo) insiste Toynbee no standard pattem de desintegração que tende a confluir na formação de três instituições chaves: 1) um estado universal (o Imperium mundi). como a de Huang Tchao. ele usa os termos “secessão” ou “cisma” do proletariado. entre os Hititas. no fim da dinastia Tang (século nono) e a do reformador “socialista” Wang . horizontalmente. O cisma numa sociedade. em suma. nas sociedade em causa. O historiador procura a natureza do breakdovm e desintegração das civilizações em duas diferentes dimensões: o cisma do proletariado pode ocorrer entre comunidades segregadas ou pode ocorrer. 3) os bandos de guerreiros bárbaros. Com mais forte razão nada sabemos sobre sua realidade em civi­ lizações que. é peculiar à civilização e um fenômeno que surge no momento de ruptura e desinte­ gração. Toynbee procura exemplos de revoltas do “proletariado interno” em todas as sociedades que analisa. A Revolução é provocada. a luta de classes aparece para Toynbee. pelo fato de que a minoria dominante perdeu sua faculdade criadora e também a capacida­ de de atrair a maioria pelo encanto de sua cultura (ou mímese). mas nem sempre é feliz. que Toynbee considera apenas uma forma violenta. para designar o fenômeno. Mesmo no Japão o caso não é bastante claro.124 J. mais correta­ mente. O . Na sociedade minuana. Ao invés de ser uma característica de toda a história. como é con­ cebido por Marx. a mexicana e a peruana pré-colombianas. E eu direi que tampouco na China onde alguns casos registrados de iutas sociais e de experiências comunistas.

Um hctppy end em suma. na verdade desenha acuradamente o roteiro do curso da luta de classes”. zoroastrianos. Eles teriam uma existência permanente no Inconsciente coletivo. a civilização clássica e a civilização ocidental moderna. na Turquia 1944/47 e de novo na China ao final da guerra civil (1947/49) —. pelo menos na área que engloba o Irã. judaicos e cristãos — ao desvendarem. a visão de um epílogo suave e feliz. c preocu­ . A impressão que nos deixa é a de que o fenô­ meno de Revolução é próprio da civilização ocidental. o medo com ódio. “O interesse da escatologia marxista”. não ocorrem segundo o esquema rígido da stan­ dard pattem de Toynbee.O E spír ito das Rev o luçõ es 125 Anshih (século onze). Seria uma linha de pensamento de âmbito quase universal. mas já com alguns anos de experiência na car­ reira diplomática e de vivência da IIa Guerra Mundial. Em minha juventude. reside “no fato sur­ preendente que essa sombra política persistente de uma crença religiosa desaparecida. escreve Toynbee. Toynbee acentua que o sucesso da fórmula marxista se explica pela sua conformidade com os padrões apocalípticos tradicionais. independentes das várias civilizações estudadas. por conseguinte. Tais conteúdos seriam. Israel. Nessa dialética usa Toynbee de novo as categorias metafísi­ cas chinesas de Tin e Tang — a minoria dominante procura manter pela força a posição privilegiada que cessou de merecer. numa sociedade em processo de ruptura (breakdown) como a nossa. para além de um clímax vio­ lento. pois servi na China em 1940/42. A invocação que faz Toynbee dos padrões mágicos oriundos do Zoroastrianismo iraniano. li muito sobre a história da Europa e Àsia. e a violência institucio­ nalizada com violência revolucionária. inclusive em seus casos clássicos. da apocalíptica judaica e do Cristianismo primitivo prova que — contrariando o seu postulado da existência de “civilizações” autônomas que se desenvolvem como que em compartimentos estanques ou como objetos adequados e independentes de Estudo histórico — ele admite a transmissão de com­ ponentes arquetípicos do pensamento político-religioso de uma civiliza­ ção para outra. e o proletariado paga a injustiça com ressentimento.

seus mistérios e o sentido que podiam ter os acontecimentos contemporâneos à luz daquela disciplina. que não era nova aliás. provavelmente como eu traumatizados pelo conflito mundial e as ameaças que sobre o planeta surgiam com o início da Guerra Fria — historiadores. Imaginei. visaria explicar a Guerra Fria e justificar a aliança democrática oci­ dental. porém. que fundam os Estados e os controlam. MacKinder. etc. Spykman e os orientalistas e sinólogos como Grousset — procuravam colocar os acontecimento globais que se desenvolviam dentro de um es­ quema de filosofia da história. como aristocracias dominantes. A cuca fervia.126 J. Abordei também outros autores que. então. que me impressionara antes da guerra. . nessa concepção. A tendência natural era para me alinhar a um tipo qualquer de historicismo. mais civilizadas e já estabelecidas ao longo do» mares quentes meridionais. em confronto com a resistência das sociedades livres e civilizadas do Sul. mongóis. filósofos e geopolíticos como Jaspers. hunos. é intelectualmente pobre. Minha tese. e a população local mais longamente urbanizada constituiria a própria dinâmica da his­ tória.) se descobre preocupação com o papel que desempe­ nharia a União Soviética. Meinecke. grandemente inspirado em leituras sobre a dinâmica do continente eurasiático (arianos. compor um vasto quadro histórico/geopolítico que compreenderia a história do mundo como um embate gigantesco entre as tribos de nômades semi-bárbaros. O . DE MEIRA PENNA pei-me extraordinariamente com os problemas da História universal. Parecia-me que a URSS seria representativa das forças agressivas do Norte. E. É evidente que. O empenho destas em defender seu patrimônio político e cultural configuraria. por detrás do esquema. mas deixou um rastro permanente em minha ojeriza ao totalitarismo. militarmente poderosas e oriundas das estepes nórdicas. tur­ cos. A tensão entre os invasores. Minha ambição juvenil seria desenvolver um tal estudo de filosofia da história — que seria ao mesmo tempo geopolítico — de modo a abar­ car o desenvolvimento histórico até a modernização. o próprio sentido da história como história da cultura universal. Lõwith. Além de Splengler. siberianas ou mongóis — e as sociedades sedentárias. sedutor. como assinalou Karl Popper. andei durante algum tempo entusiasmado com Toynbee. O historicismo. Essa primeira idéia não durou muito. Era superficial e incompleta.

a curva da estrutura de ordem. A curva configuraria. A tese em si não tardou em ceder o lugar a um outro esquema. todas. desde então. de modo que. a hierarquia social. e outra vertical (a/c). uma horizontal. D e M eira P enna 127 transparecendo em tudo que. em outras palavras. as forças populares e telúricas que permanecem invariáveis ao correr da histórica. no interior das sociedades. O . ao aproximar-se dessa base ou Gtvund de toda energia histórica. por conseguinte. um fenômeno de queda do princípio vertical. O ciclo revolucionário desenharia. fenômeno que seria representado por uma curva descendente em direção ao ponto b.J. se fundiria com os . A coordenada a/b representaria. igualmente. temporal ou histórica (a/b na figura 1). menos spengleriano e mais toynbeano. Fig. figuravam duas coordenadas. designando a ordem. a autoridade ou a estrutura de dominação. hierarquia e autoridade readquiriria suficiente impulso para novamente inverter sua direção e dirigir-se para o alto. o fenômeno revolucionário. tenho escrito. As sociedades ou nações registrariam. Nessa nova esquematização do processo político. 1 A idéia incluía a figuração da dinâmica mencionada. um paradigma ideal de transformação de uma velha estrutura de ordem para uma nova e revigorada ordenação social (ponto d). ou seja: a classe/etnia dominante que havia fundado o estado-naçào e pendera seu poder por força do processo revolucionário de queda.

. conseqüentemente. Para recuperar o tempo perdido. Na Inglaterra. levado por seu próprio impulso. o processo se radicaliza e. b) revolução que se acelera e radicaliza (Mirabeau. por reação. nota-se uma variedade de perturbações (fig. de maneira a reformular a estrutura de ordem social sobre uma base mais ampla. d) restauração monárquica (Luís XVIII em França e Monck/Carlos IIo na Inglaterra). Os estágios do processo são os seguintes: a) congelamento absolutista (Luís XV e Luís XVI. traumática e irregularmente. c) reação termidoriana e bonapartista (o Diretório e Napoleão em França. os Jacobinos em França e os Levellers na Inglaterra). congelando-se. O ritmo cíclico retoma então seu andamento normal. A curva ascendente a/d representa a reconstrução de uma ordem liberal a partir do Ground popular. um único processo revolucionário desse tipo se registrou — o da revolução cromwelliana. escapa ao ritmo normal do paradigma e provoca. como a francesa por exemplo. Em certas sociedades ou nações.O E spírito im s R ev o luçõ es elementos do Ground popular. Carlos Io). um retorno ao nível anterior de ordenação ideal. Cromwell na Inglaterra. As revoluções ocorrem então. o processo de evolução dos acontecimentos não é assim tão simples e suave. Essa perturbação pode ocorrer várias vezes na história das nações. esclerosando-se ou arcaizandose. pelo menos. A curva descendente c/b desenha. Robespierre. porém. 2). em que se exprime a afirmação da autonomia do indivíduo moralmente responsável. um paradigma ideal do ciclo revolucionário de destruição da ordem. O caso mais característico é o da França que registrou. quando a estrutura de ordem hierárquica se consolida excessivamente. Na realidade pragmática da história das nações. esquematicamente. dois ciclos intermediários bastante claros: o de 1789/1815 e o de 1848/1870.

Seriam os movimentos revolucionários dos Gracos. posterior ao primeiro século e marcado pelo Édito de Caracalla. que concedeu a cidadania romana a todos os habitantes livres do Império. tal como concebida na visào da Cosmópolis dos estóicos. também registra algumas perturbações no traçado normal. Os dois primeiros foram seguidos de reação: Sulla restabeleceu o predomínio do Senado e os privilégios da aristocracia fazendo cessar. Cassius e Cícero foi de pouca duração. de Marius e de Júlio César. i. herdeiro de César. Poderíamos considerar que. a curva ascendente da nova ordem liberal e de responsabilidade individual.2 Acrescentemos que o paradigma da história romana.J.. as “guerras sociais”. que serve para esta expressão da “visão binocular da história” proposta por Toynbee. No caso de César. O . nos últimos séculos da história da Antiguidade Clássica. seu assassinato e a reação promovida por Pompeu. pela filosofia estóica. seria expressiva de um vasto movimento de reordenação espiritual. . sendo o Império cesarista consolidado por Augusto. Romana e Universal.é. na história revolucionária romana. a partir do Ground popular. com Marco Aurélio e Epicteto. que conciliou as forças populares (horizontais) e as senatoriais ou aristocráticas (verticais). sendo fundada a Igreja Católica. com uma ditadura conservadora. e pelo Cristianismo. D e M eir a P en n a 129 Fig.

possui raízes populares ou democráticas. elaborado sob influência do historicismo de Spengler.. Todavia. Seu objetivo é desconhecido.. Atrevo-me a propôla como esquema visual de um movimento universal de revolução na história do espírito humano. Os ciclos históricos das sociedades segundo os esquemas historicistas desenhariam. se fundem num eixo único. e concebe uma autoridade moral dentro de cada cidadão. Possui uma direção aberta. Nela está implícita a presunção de que a evolução histórica se caracteriza pela substituição de uma ordem autoritária vinda de cima — caída como se fora do alto — por uma ordem espontânea que surge de baixo. Toynbee e outros filósofos da história então na moda. sua idéia essencial não pode ser totalmente abandonada. Posso representar essa última idéia na fig. Tudo que podemos esperar é que se eleve para algo que nos transcenda e dê sentido ao longo trajeto da humanidade. o qual designamos com o termo grego anakuklosis. 2. simbolizando a história paradigmática dos teólogos. .130 O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s Entenda-se que o esquema supra consistiu num mero exercício especulativo de juventude. eventualmente confundindo-se numa hélice de âmbito universal. helicóides de abertura progressivamente mais ampla. Nunca abandonei essa idéia. universal. Seu fim indeterminado. Essas formas helicoidais giram em torno de eixos que. similarmente. na realidade. O eixo hegemônico se dirige para o alto. Entrariam assim em contato uns com os outros.

A Religião Civil do Estado Moderou. representando justamen­ te uma invasão do político pelo religioso ou. quer em qualquer outra de suas obras publicadas.Vide minha obra cspccífica sobre o tema. c a dc Nelson Lehmann da Silva. assinala Talcott Parsons que Weber se esquivou de oferecer um tratamento siste­ mático do fenômeno revolucionário. Nessa base. traduzida. Ao editar parte da obra. Duas análises das revoluções russas de 1905 e 1917. O líder carismático é um personagem que incorpora temas políticos e conteúdos religiosos. 1985.5. num primeiro tempo. teria incluído em sua obra máxima Wirtschaft und Gesellscbaft. presumivelmente. Esse interesse se prende à sua preocupa­ ção pela sociologia da religião. A grande ênfase que deu ao estudo do Ca­ risma — palavra que inventou e que se popularizou. em The Theory of Social and Economic Organization. através da ação. 1994. 2* cdiçâo.^4 Idtolqgia do Século XX. personifi­ cando uma pseudo-religião civil. de certo modo. carismádca e radonal-legal. de uma liderança carismática. REVOLUÇÃO — O CAPÍTULO QUE W EBER NÃO ESCREVEU25 ão chegou Weber a escrever o capítulo geral sobre a teoria da Revolução que anunciou e. poderemos supor que Weber considera a Revolução como um fenômeno de transferência da autoridade de um regime tradici­ onal para um regime racional-legal. quer na Economia e Sociedade. Ily Editorial Nórdica. . sendo talvez uma de suas maiores contribuições à sociologia — prova que o tema grandemente o interessava e mesmo fascinava. e alemã de 1918-19. induzem a crer que teria tratado do assunto no contexto das categorias de “autoridade legítima” (Herrschaft) que postulara — os domínios tradicional. É com essa sua contribuição para a so2S.

O . Possuindo uma dose intensa de preocupação quanto à Liberdade. Era aliás pessimista. preocupação que se intensificou após o golpe de estado bolchevista e o princípio da ditadura de Lênin. Sem prever de modo al­ gum o poder sombrio da ditadura totalitária que se iria ali instalar. Se é verdade que atentava para as garantias de sobrevi­ vência da Liberdade no mundo moderno e sua acentuação no processo de racionalização. do outro.132 J. em termos puramente sociológicos. na verdade um autêntico profeta dos fenômenos do século vinte — que tem sido o grande século de afirmação das personalidades caris­ máticas e dos movimentos pseudo-religiosos de contexto revolucionário. não . precedendo por poucos anos a sua morte cm 1920. é também certo que sua análise da racionalização e burocratização das estruturas econômicas e políticas manifesta uma certa dose de angústia quanto às possibilidades que tal processo de Entzauberunpf der Welt (“desmagificaçâo”. Na Revolução segundo Weber. uma maior penetração formal nos processos revolucionários de grande complexidade. inclusive de ceticismo quanto às perspectivas de um regime ver­ dadeiramente dem<xrático e liberal na Rússia. e o movimento irracional de resistência. de um lado. de um modo geral. o grande sociólo­ go era um angustiado. contraditório c ansioso — como sua vida no-lo revela. É possível que tenha con­ cebido a contradição catastrófica entre dois processos divergentes: o de burocratização que conduz à tecnocracia e à organização extremamente complexa e rígida do mundo industrial contemporâneo. Sua reação foi pessimista. invariavelmente. a preocupação de Weber foi portanto imaginar quais seriam as perspectivas da Liberdade. depressivo. porém. Isso ocorre graças ao aparecimento de uma liderança carismática que reúna à sua volta grupos de seguidores fanáticos. Previsões e análises revelam uma grande dose de intuição correta. Não empreende Weber. Ao assistir às revoluções russas do princípio do século. “desencantamento” ou “desmitologização do mundo”) poderia acarretar para a Liberdade. protesto e rebelião que promove o aparecimento da liderança carismática a qual. conduz à tirania. DE MEIRA PENNA ciologia e a ciência política que Weber se firma como um grande antecipador. deve ocorrer a substituição de uma autoridade tradicional por uma autoridade que se pretende mais racional. ao considerar as tendências que emergiam do capita­ lismo no estado “avançado” (os marxistas diriam “tardio”) em que se encontrava.

no esta­ do da sociedade burguesa (russa). Em relação à revolução alemã de 1918-19. juntamente com as do próprio Marx. foram por água abaixo. uma espécie de narcótico que não permitia con­ templar os verdadeiros problemas da Alemanha. todas as profecias de Weber. em breve. De certo modo. ou conter a inflação. em virtude de sua morte prematura — de sentir txs primei­ ros sinais da grande convulsão patológica por que ia passar sua pátria. com sua ênfase no 'caráter criador do pensamento humano’”. toda a Europa — num paroxismo sem precedentes de ferocidade e destruição. representado pelo Partido comunista.O E spírito das R ev o lu ç õ es 133 acreditava no sucesso dos elementos democráticos. O desapontamento. comunistas e espartakistas — os “bandos loucos” de Liebknecht e Rosa Luxemburgo — constituí­ am. não é apenas absurdo. A fé pode mover monta­ nhas. mas um ultraje ao dogma marxista”. conforme pensava. É interessante notar que. O “êxtase da revolução” dos ativistas socialistas. Weber parece simpatizar com a posição daqueles. e entre os Mencheviques e os Bolchevistas. Não pode salvar as finanças em ruínas e a falta de capital. O que aconte­ ceu. é que o “hegelianismo” triunfou na pessoa de Lênin e de sua doutrina da iniciativa histórica da “vanguarda do proletariado”. que essa incapacidade de ver a realidade iria provocar. Dificilmente se pode qualificar o movimento nazista de “reação” conservadora. mas os “bandos loucos” espartakistas foram baderneiras insignificantes se comparadas com os mais loucos Schutzstafitln da cruz gamada que iriam. ocidentalizantcs c inclusive socialistas (mencheviques) que concorreram com os leninistas nos anos terríveis em que o destino da Rússia esteve na balança (19171922). “conduziria à bancarrota e à reação”. Quanto à história da Rússia. o ceticismo e pessimismo de Weber revelam-se também notórias — muito embora não tenha tido oportunidade. Não sc pode assim concluir que Weber tenha verdadeiramente pressentido o cataclis­ . ele argumentava paradoxalmente com o Marxismo ortodoxo (defendido por Plekhanov). quando considerava que “o experimento bolchevista de superimpor uma ordem socialista de cima para baixo. contra o Leninismo que sugeria a “tradição hegeliana da social democracia russa. em seguida. entrando no debate entre Plekhanov e Lênin. percorrer a passo de ganso a Alemanha e. em termos desse posicionamento de Weber.

também. sobretudo. no chamado Terceiro M undo. o caráter religioso da grande efervescência intelectual que precedeu a revolução russa. se acrescentarmos o qualificativo pseudo aos movimentos revolucionários deste século. O movimento revolucionário sob dire­ ção de um líder carismático possui.134 J. seduziu Nietzsche e Max Schelcr. E muito ca­ racterística do que ele chama um “povo pária” ou um povo de párias — . não possuía sensibilidade suficiente para as grandes correntes emocionais que se movimentavam no Inconsciente coletivo germânico e que iam explodir na paranóia agressiva do hitierismo. em questões fundamentais. acadêmicos ou membros da café society (o que chamaríamos de “Esquerda Festiva”). do palavreado e palra­ ria de intelectuais que a moda torna popular.. concebe Weber casos em que uma de­ terminada fé acarreta a crença e a expectativa de uma “revolução” em termos históricos ou políticos. somos obrigados a considerar improcedente o ceticismo de W eber. Analisando a dialética desse fenômeno. Em sua Sociologia da Religião . jamais surgirá uma nova religião. O sociólogo considerava a intelligcntzia revolucionária com o possuidora. Foi um veneno cozinhado nos debates logorrêicos dos intelectuais c requentado hoje. entre outros. entretanto. deixar de considerar o Marxismo com o um substitutivo dessa religião cuja ausência Weber notava — de modo que. E difícil. de M eir a P en na mo. no sentido de incluir sentimentos religiosos no inventário de suas impressões e sensa­ ções. aspectos pseudo-religiosos sobre os quais foi o grande mérito do pensador germânico haver atraído nossa atenção. ele acentua que a motivação psicológica para a esperança revolucionária e o m ovimento violento de rebelião se prende ao Ressentimento. inquestionavelmente. era Weber absolutamente cético no que diz respei­ to às necessidades de intelectuais. Entre seus tópicos de discussão assinala que.. literatos. O estudo da Utopia religiosa ou pseudorcligiosa no contexto do totalitarismo deste século lhe deve uma profunda inspiração. Nesse ponto nos oferece uma das grandes formulações do problema do Ressen­ tim ento que. O ressenti­ m ento seria concomitante de uma ética religiosa particular. particularmente nos meados do século XIX. de elementos de fé para simular o caráter de uma religião. Estudou Weber. Entretanto. Demasiadamente humanista c positivista. O . O fato é que o totalitarismo representa a “religião leiga” de nossa época.

por ideólogos revolucionáricxs principalmente alemães. mas para qma posição de prestígio. serviria o episódio do Êxodo dc arquétipo dc toda luta nacional de libertação — dc um povo oprimido contra seu opressor. consciente ou inconsciente. A utopia revolucionária nutrese de tais ressentimentos. segundo Weber. Não obstante. não para uma posição de pária. Mais cedo ou mais tarde. Nos séculos da Diáspora. de vingança. A parte mais relevante da obra de Weber reside em sua análise da lideránça carismática — e que até hoje não foi provavelmente ultrapassa­ do. a luta dos hebreus sob a liderança carismática de Moisés. E quando um imperativo divino requer das fracas e oprimidas criaturas humanas a sujeição incondicional . usurpação e estado pecamino­ so das classes. O povo teria sido escolhido ou chamado por Deus. Seria antes uma luta dc indepen­ dência contra a opressão externa. a procura moralística serve dc pretexto para compensar e satisfazer a inveja e um desejo. da classe ou seita oprimida. como se ve. no período tardio de secularização das promessas judeo-cristãs — o que quer dizer. para se livrarem do cativeiro fa­ raônico. os judeus. sua salvação pessoal da estratificação social existente c. dentro de uma mesma nação com o no sentido original do termo grego stasis. o judeu anteciparia assim. a cólera e justiça onipotente de Deus os puniria. mas cobre o fundamento psicológico do ímpeto de rebelião no ressentimento c na forma especial dc teodicéia do povo. Na sua Sociologia da Religião ele destaca o papel do asceta com o protótipo do profeta revolucionário. Mas não se aplicaria a uma subversão interna. A análise dc Weber não se estende.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 135 no caso. segundo os padrões terceiromundistas. O asceta é um introvertido. ele estabeleceu dentro de si mesmo uma estrutura de ordem ética racional. Convém desde logo salientar que um paradigma eterno da Revolução se encontra no livro bíblico do Êxodo. a salva­ ção coletiva de seu povo. não apenas na elaboração dos elementos apocalípticos c utópicos do Cristianismo primitivo mas. Essa análise psicológica é admirável e explicaria o papel desempenhado pelos judeus e pelo judaís­ mo. povos ou nações dominantes. desde Marx. por extensão. ao fenômeno da Revolução em si. em nosso próprio século. da raça. Por disciplina interior metódica e áspera. através da subversão revolucionária. Essa ética ensinaria que a distribuição desigual dos bens mundanos é causada pela ilegalidade. Na teodicéia dos nãoprivilegiados.

Transforma-se em líder de ação revo­ lucionária. de movimento social ou de partido político. um Mao Dzedong. Num primeiro caso. como líder em oposição ao mundo. onisci­ ente e misericordiosa com as contingências e imperfeições reais deste mundo configura uma face do problema. Essa solução. do mundo e de seus fiéis. “metastática”) do mundo.em conclusão. pode tornar-se um fundador de seita religiosa. um Che Guevara ou um Fidel Castro. implica que surja mais cedo ou mais tarde um herói extraordinário. o asceta pode extraverter-se na ação. a qual se converte num programa para a transfor­ mação política c social do mundo. pensa Weber. um semideus ou mesmo um deus que elevará seus fiéis e os colocará na posição que. tirano ou terrorista. um Pol Pot. Tal padrão de comportamento pode ser perce­ bido em personalidades como as de Cromwell. ou seja. O . Isso inevitavelmente o conduz. A dificuldade em reconciliar a idéia de uma Providência onipotente. com a Tcodicéia: o problema da origem do Mal e de sua incompatibilidade com a misericórdia e onipotência divina. enquanto é a outra a promessa messiânica existencial. em virtude do conflito que gera com um mundo rebelde às suas injunções. como predicador de doutri­ nas mais ou menos quiliasticamente irracionais. merecem no mundo e na hierarquia social. A preocupação com a descendência . verdadeiramente. o asceta carismático assim chamado a participar dos conflitos do mundo. exigindo sempre. Seu propósito seria então a transformação revolucionária (ou como diz Voegelin. um grau de ordem racional e disciplina que corresponderia à sua própria ordem e disciplina interior. Podemos asseverar.136 J. Mas. poderíamos considerar que as promessas messiânicas feitas aos primeiros cristãos foram projetadas sobre seus filhos c filhos de seus filhos. o asceta é chamado de sua cela (ou do gabinete de trabalho). Extrapolando essas idéias do sociólogo. do “incorruptível” Robespierre. a fim de tomar um assento soberbo de potíer no mundo. num segundo caso. ou mesmo de um Lênin. DE MEIRA PENNA do mundo às normas ideais de justiça e de virtude. que a importante e decisiva contri­ buição de Weber ao problema da Revolução consistiu em haver percebi­ do a conexão íntima do ímpeto revolucionário com um problema de moral religiosa. a metamorfosear-se em dita­ dor. afim de alcançar aquele ideal que se impôs a si próprio em sua solidão meditativa.

O desejo de participar pessoalmente das delicias e beatitudes do Reino messiânico gera uma excitação tremenda quando a inauguração desse Reino parece iminente ou próxima. por prorrogações sucessivas — a primeira reação seria de transformar a expectativa numa esperança genuí­ na de consolo e recompensa ultramundana.. no capitulo reservado à “Revolução Liberal” de nossos dias. numa obra prima de ficção semi-histórica. Na utopia con­ creta. o que quer dizer. tarda cada vez mais a despontar.. com o fanatismo político gerado por uma Ideologia igualmente mes­ siânica. frustra­ dos. Se. a expectativa se transmuda num ardente ímpeto revolucionário: queremos o Reino neste mundo! Mário Vargas Llosa exprime. é assim que podemas conceber o que ocorreu na alma do homem ocidental após 1 7 0 0 . se pretendêssemos bosquejar uma “psicologia” da Revolução. começam a sentir a sua própria força comunitária e a sua própria capacidade física — ilusória embora — de concretizar a Promessa aqui mesmo e agora mesmo. porém. então a promessa se transfigura. Nova menção de Weber será feita. 1 8 0 0 ou 1900 anos de espera frustrada — com o muitos antecedentes na Idade Média e no período atormentado da Reforma protestante. Foram o Antônio Conselheiro e o coronel Moreira César as grandes intérpretes desse conflito que bem definido foi por Euclides da Cunha com o “o maior crime da nacionalidade”.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 137 levaria a ideia messianica a ser transmitida hereditariamente e a acentuar suas exigencias. contudo. iluminado pela Utopia transmundana. E a época em que falam os grandes profetas e os líderes paracléticos. o em­ bate do fanatismo pseudo-religioso. a medida que o Reino prometido se distancia no futuro. Mas quando essa realização da plenitude de justiça e de felici­ dade parece indevidamente afastar-se. Em traços largos. . o Reino continua a afastar-se nas brumas espessas do futuro enquanto os homens. Nessa constatação se baseia nassa hipótese. A Guerra do Fim do Mundo.

numa retórica que lembra a dos nossos pró­ prios padres extremistas. BRINTON. porém sem grande profundidade filosófica. segundo confessa. no princípio de seu estudo. Esses constituíam uma espécie de Lumpenproletariat num período particularmente atormentado da famosa República italiana. ANATOMIA DA REVOLUÇÃO: ELLU L. Ellul pertence à Igreja reformada da França e procura responder à pergunta sobre a qual tipo de Revolução deve o cristão aderir diante da objurgação do padre comunista e guerri­ lheiro colombiano Camilo Torres: “O dever de todo cristão é ser revolu­ cionário”. numa situação extrema. de Jacques Ellul. Contenta-se em menci­ onar. como entre nós. JOUVENEL. LIPSET ma análise bastante diversificada do problema da Revolução. Insiste Ellul que o protesto violento. nem tampouco uma história geral da Revolução. o temor da fome e da prisão.6. Qualificavamse como “povo de Deus” e. Ele apenas se situa no debate do problema em relação ao nosso tempo conturbado.. onde poderia encontrar exem­ plos de movimentos nitidamente revolucionários. não se identifica com o desejo de mudar as instituições. não é empreender uma sociologia. acentuavam que “por toda a parte onde existe. O objetivo de Ellul. a revolta dos Ciompi de Florença em 1378. MOORE. MONNEROT. encontra-se no livro Au­ topsie de la Révolution. o do inferno não tem vez” Os “revoltados” contra a condição humana não são os mesmos do que os “revoltosos”.. L'Homme Révolté de Camus não é a mesma coisa do que o terrorista marxista. Pois o fato é que centenas de autores importantes já discutiram a Revolu­ ção e falaram praticamente tudo que haveria a dizer a respeito. É verdade que Ellul não recua até a Grécia e Roma. ARON. .

Alemanha e Irlanda. podiam ser escravos alforriados. a luta contra os Ming na China. XVII e XVIII não são feitas nem pelos mais po­ bres. Às vezes é encabeçada pelos nobres. Contrariamente a Marx. anarquia e desespero. cxs plebeus em revolta contra os patrícias não eram necessariamente os mais pobres. na Irlanda em 1679. Exemplos . no século XVII. O segundo pólo da revolta é a Acusação — declara-nos Ellul. mas sem terminar cm Revolução. e sobretudo as duas grandes Revoluções inglesas. O pri­ meiro capítulo de seu livro se intitula “A Revolução contra a História”. a dos Croquants em França (1 6 3 6 ).O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 139 em sua essência constitucional. os “Tempos perturbados” na Rússia. Aliás. A Fronda foi dirigida contra Mazarin. Uma autêntica Revolução camponesa seria a que. pro­ movida pelos próprios colonos brasileiros. A exploração escandalosa só raramente ocasionou revoltas. a revolta contra a ocupação holandesa. a de Portugal contra a Es­ panha para reconquistar a sua independência. as revoltas camponesas na Suíça. A Revolução manifesta-se. os príncipes e o Parlamento de Paris. os sociólogos modernos consta­ tam que as desigualdades e injustiças não são habitualmente a causa pri­ mária das revoltas tradicionais. nem pelos mais deserdados. com pouca ajuda da metrópo­ le. provocando a queda da dinastia. Recordemos. fome. não houve luta d<' classes. Nas perturbações campone­ sas e urbanas do século XIV é fácil descobrir a ação das fatores de misé­ ria. durante a Reforma na Alemanha. como um desejo de retomo ao passado. a de Stenka Razin de novo na Rússia. o Brasil registraria um número importante de movimentos revo­ lucionários em seu período colonial. provocadas por graves perturbações como a Guerra dos Cem Anos e a Peste Negra. a da Bretanha e de Bordeaux na França. Em Roma também. inicialmente. 1610. a revol­ ta no Nordeste da China em 1673. regente do jovem rei Luiz XIV . como uma restauração de antigos direitas violados. a revolta dos Stkbs na índia. tais com o as Jacquenes dos camponeses medievais. As re­ voltas dos séculos XV I. Ele acentua a freqüência dos movimentos revolucionários e menciona. A Revolta é simplesmente contra. foi promovida por Thomas Münzer. e seu objetivo reacionário era lutar contra o crescente poder da monarquia centralizadora. Nesses casos. Às vezes os nouveaux-ricbts di­ nâmicos são os que conduzem o movimento. em nosso país.

O fato é que. necessariamente.. Bodin e Hobbes por exemplo — o objeto do discurso filosófico sobre a Revolução se concentra exclusivamente sobre a maneira de evitá-la. conduzindo o movimento contra os dominado­ res do Estado. O . de que “as revoluções são a locomotiva da história”. um programa. De qualquer forma. visceral.. DE M e i r a P e n n a disparates são as revoluções aristocráticas francesas do século XVII. a dos burgueses americanos na Guerra de Independência de 1776 e a dos cam­ poneses alemães já mencionada.. para quem a Revolução é “o único acontecimento político que nos coloca. E a idéia de um início. Harrington. com palavras exaltadas: uCejour-ld tout était possible.. O fator econômico. quando existe. panfletário radical inglês. é a inserção da idéia na experiência histórica. Valeria aqui citar Decouflé (Sociologie de la Révoluti­ on). que discutiremos mais adiante. como assinala Ellul. A tese de Arendt. contra os Haussás que ali detêm o poder político.. vale contestar o postulado de Marx. Trata-se de conformar a realidade política à reali­ dade econômica. coin­ cide com um desequilíbrio entre a situação jurídica e a situação material. Como impedir que a emoção popular. tem a mesma explicação. já insistira nessa motivação social. até o século XVII — em Maquiavel. direta e inelutavelmente. c'est a dire plus de temps. para a Constituição. Acrescento que a Revolução marxista também se fez contra a História. Confirmando a tese de Hannah Arendt. O Liberalis­ mo não.. espontânea — e a Revolução que implica um projeto. L'avenir fu t présent. em sua História da Revolução Francesa. A Teoria e a Instituição são os dois elementos totalmente novos que distin­ guem a Revolução da mera rebeldia. diante do problema do começo”. até o século XIX a Revolução se fazia contra a História. uma doutrina.140 J. de um primeiro passo decisivo para a Utopia que Michelet exprimiu. un éclair déternité”. enfatiza tender a Revolução. o estabelecimento de novas insti­ tuições fundamentais. em carta a John Cartwright. dos hoi poloi . A revolta fracassada da etnia dos Igbôs da Nigéria na dé­ cada dos 70. o grande pensador inglês da época cromwelliana. as “paixões” da multidão. do mero grito de subversão violenta. Ellul distingue assim a Re­ volta imediata. A classe que detém o poder do dinheiro deseja também possuir o poder político. “A Revolução começa a partir de uma idéia”. Donde se pode observar que.

Alguns analistas. o totalitarismo e o individualismo. supinamente. la réssurrection du droit. que primeiro instituíram um regime demo­ crático constitucional. No capítulo II de sua obra. como subversão total e definitiva. se desencadeiem catastroficamente? Como conservar o poder. como desmascaramento. para o qual não elegiam representantes. realmente. la réaction de la justice”. O que concordaria também com o caráter dos revolucionários americanos cujo objetivo inicial não era derrubar as instituições inglesas. na obra de Hegel. Monnerot. De mistério da Revo­ lução contra a história. ao contrário. a partir do século XIX. A Revolução como novidade histórica — tema que. em Vergnaud. A ausência das Revoluções inglesas já seria lamentável — pois foram elas. A filosofia também: Nietzsche! O novo sentido romântico do Mito revolucionário surge então — o Mito no sentido de Sorcl — a Revolução sugerindo o mesmo mysterium tremendum que Rudolf Otto postula como característica do sentimento religioso. responder ao protesto? Para Michelet. a ordem. especialmente. a ideologia. aliás um dos mais radicalmente subversivos da ordem morai do . cm França. se não fosse ainda o esquecimento da Revoluçio nazista. como acusação de hipocrisia. considerada revolucionária. tranqüilizar a agita­ ção. se transmuda radicalmente para a história. Toda a literatura do sécu­ lo XIX e grande parte do século XX pode ser. estuda EIlul a Revolução na história. Essa transmutação é efetuada. Ele diria: “Je définis la Révolution: Favènement de la Ici. a Revolução. 1939) um certo con­ senso de pensadores conservadores ao acusar a Revolução francesa de haver trazido muitos males: o racionalismo. Mounier refletiria (L'Esprit. francês e russo. pela primeira vez. nesse sentido.O E spír ito das R ev o l u ç õ e s 141 inexpressivos. a lei? Como apaziguar a desordem. fundam sua sociologia da Revolução nos três exemplos americano. A Revolução france­ sa acaba assim aparecendo mais como uma contra-revolução do que como um movimento verdadeiramente antinômico. a revolução pos­ sui um conteúdo místico. como Crâne Brinton nos EUA c. mas reformar os abusos do governo colonial e a impertinência do Parlamento de Londres. apa­ rece com os Jacobinos e. A ausência de um critério de valor provoca a exdusáo do título de nobreza revolucionária ao hitlerismo — um fenômeno que o foi obvia­ mente. A Revolução é então concebida como denúncia.

a existência de forças mais radicais que procuram se transformar no centro da legitimidade revolucionária.. N o princípio da revolução. fran­ cesa e russa. Como escrevia George Sand.142 J. E nesse momento que os extremis­ tas sc apossam do poder e instituem “o reino do terror e da virtude”. segundo ele. em si mesmo. necessariamente passa o processo. o extremismo fanático e a agressividade externa vale insistir. em todo movimento revo­ lucionário. A Paidéia não se processa em um dia. Num primeiro estágio o velho regime é derrubado e uma ala moderada toma conta do que resta da estrutura do governo. Os modera­ dos. aquilo que aparece com o um “acontecimento”. o terrorismo. não se penetra no âma­ go do processo de Revolução se se abstrai o componente demoníaco. uma fonte de fraqueza / para aqueles que detêm tal controle”. referindo-se à Revolução francesa. Há uma tendência popular no sentido de crer que o mais explosivo. o mais jornalístico. porém. os homens que mais fizeram derramar o sangue foram aqueles que possuíam o mais forte desejo de conduzir seus semelhantes para a Idade de Ouro de que sonhavam. tanto mais impiedosos se mostraram”. O . a estatização. nem mesmo cm dezenas ou centenas de anos! . Em outras palavras. isto e. Quanto maior era sua sede de felicidade universal. e que revelavam a maior simpa­ tia pela miséria do homem . O que Brinton propõe é a fatalidade da evolução. é mais importante do que as lentas reformas que trazem uma modificação duradoura da Cultura. enfrentam imediatamente o problema da “soberania dual”.. Também atrai EUul nossa curiosidade com suas observações sobre o elemento “espetacular” do mito revolucionário moderno. “durante o Terror. o mais sensacional e sádico. DE MEfRA PENNA Ocidente em toda a história. refere-se Brinton às Revoluções inglesas. de um estágio moderado para o triunfo do extremismo terrorístico. “o controle da máquina de governo é. Em 1938. Em sua The Anatomy o f Rcvolution. Do espetáculo de G rand G uignol. Sobre a questão da evolução fatal de todo movimente) revolucionário para o autoritarismo. o componente luciferiano cm que brilham as figuras de Rousseau e de Hegel. A revolução seria uma ilusão provocada pelo amor do espetáculo e da novidade no homem moderno. o historiador Crane Brinton escreveu uma obra em que procurou estabelecer a constância dos estágios por que.

de que tipo de Revolução se trata e se foi uma “revolução branca” ou uma “revolução pelo alto”. especialmente na índia. mas sem cair em generalizações arbitrárias com o certas outros autores. a burguesia não foi capaz de dominar inteiramente a situação. tanto quanto possível. ora no sentido da demo­ cracia. pesquisando em que medida ocorreu ou não uma Revolução. a revolução dos camponeses na Rússia e na China que foi encampada por uma burocracia de origem burguesa e ter­ minou na ditadura comunista. E também pragmático e cético. o trabalho quando Moore examina. no sentido que possui esse termo nos Estado Unidos. dentro da experiência empírica. Barrington Moore é um liberal americano. ora no sentido da ditadura. os casos da Inglaterra. porém. 2 ) a revolução “pelo alto” quando. A Revolução não é seu tema. cultivando com isso certas simpatias esquerdizantes. sucessivamente. Sua explicação das revoluções alemã e japonesa com o “revoluções pelo alto” é muito rica e contribui para o esclarecimento de certos aspec­ . América do Norte. segundo alega. França. Alemanha. M oore a qualifica de “fascista”). Esses três tipas são: I) a revo­ lução burguesa capitalista. tal com o acabou triunfando na Europa ociden­ tal e Estados Unidos. China e Japão. sendo que a partir desse esquema elabora toda a sua longa pesquisa de 5 0 0 páginas.O EsríR iT o d a s R e v o l u ç õ e s 143 Uma importante contribuição ao tema é o longo trabalho de Barrington Moore sobre As Origens Sociais da D itadura e da Democracia. e 3) finalmente. China. O ponto importante do trabalho é o papel que desempenha a aristocracia territorial e os camponeses na construção do mundo m oderno — com pa­ rando interessantemente o que sc passou no Ocidente com o que exorreu no Oriente. Limita-se a oferecer uma classificação de três tipos de Revolução. mantém-se Barrington M oore. Seu objetivo precípuo é examinar o papel dos Senhores e dos camponeses na construção do mundo moderno. Japão c ín ­ dia. nem propõe qualquer teoria con­ creta para explicar o processo das revoluções. conforme os dados concretos da história interpretados a seu m odo. Seu argumento perde consistência e não conduz a nenhuma conclusão definida. Ela pervadc. N ão obstante esse esquema. tendo que aceitar a participação do que ainda restava da nobreza c do campesinato (foi a que ocorreu na Alemanha e no Japão. Devemos levar em conta que escreveu na agi­ tada década dos 6 0 .

O Partido Socialdemocrático alemão de antes de . os que se congregaram em torno do general Araki. por exemplo. sem o que não se pode falar em “fascismo”. d e M e ir a P e n n a tos da história recente desses países. é o nacio­ nalismo — um nacionalismo militar bastante expurgado dos condimentos populistas que caracterizaram tanto o movimento de Hitler. Mas a ideologia essencial da Revolução japonesa. “conservador”. Admito. o que quer dizer. Mesmo aí. assim como pela nobreza da corte de Kyoto e ricos mercadores de Yedo/Tóquio. cultivavam idéias “esquerdistas” e vagamente socialistas. pelos descenden­ tes dos antigos samurais e nobres feudais. que a “Revolução” nipônica. usa com certa arbitrarie­ dade os termos “reacionário”. “fascista”. por exemplo. o ingrediente socialista é autêntico. o ingredien­ te de populismo e liderança carismática. mesmo no período radical que levou o general Tojo ao poder. quanto o de Mussolini. nos distúrbios. O. Parece-me que Moore não compreendeu suficientemente que a polarização “esquerda x direita” ou “comunismo x fascismo” é secundá­ ria. que vai do período Meiji ao período de ocupação americana após 1945. Mas será legítimo chamar de “fascista” o regime japonês que desencadeou a Guerra da Chi­ na e Pearl-Harbor? Faltava aos militares jingoístas japoneses como. Já na Alemanha. Foi esse confronto que me levou a descrever a “Ideologia do Século XX” como sendo. empreendida basi­ camente pelas “classes conservadoras”. Moeller van den Bruck (que bolou o termo “Terceiro Reich”). tenha constituído uma “Revolução pelo alto”. Emst Jünger. seria legítimo o julgamento das profundas transfor­ mações sociais que ocorreram durante o Império wilhelmino — o Segun­ do Reich de Bismarck — como havendo constituído uma Revolução pelo alto. “esquerda” e “direita”. Ela se teria prolongado em nosso século com autores como Spenglcr. “radical”. no entanto. as­ sassinatos e golpes sangrentos por eles promovidos em 1932 e em feve­ reiro de 1935. quando posta em confronto com o componente ideológico naciona­ lista que colore toda a maré revolucionária a partir dos anos trinta. Alguns elementos da oficialidade jovem. essencialmente. Muitos autores efetivamente se referem à “Revolução Conservadora” alemã. o jurista Karl Schmitt e o filósofo Martin Heidegger — estes dois últimos convertidos ao nazismo. de natureza nacional-socialista. Consideravam a burguesia demasiadamente subserviente ao odiado mo­ delo anglo-saxônico.144 J. Entretanto.

os nazistas subiram ao poder. O Hitlerismo continuou sendo um movimento de índole franca­ mente populista e niilista. mas dos círculos aristocráticos. quando se iniciou a Primeira Grande Guerra. a Alemanha era socialmente uma democracia mais avançada do que a própria França. considerar o fenômeno nazista como um “revolução pelo alto” ou “capitalista e reacio­ nária”. O partido hitlerista era composto de ele­ mentos marginais. fruto de preconceitos gerados pela exacerbação da guerra. Se é verdade que os subversivos mais esquerdistas. os velhos catedráticos da Kultur ger­ mânica — e os elementos que vieram a constituir a liderança nazista. os industriais do Ruhr. Seus líderes eram na maior parte plebeus. uma estrutura racista e neo-pagã. o Grande-Estado-Maior prussiano. com o fuzilamento de Rohm e o desmantelamento dos SA. Ele pode ser definido pela frase atribuída a Goering de que. O fato é que. em 1932. fo­ ram eliminados na “Noite dos Longos Punhais”. Mas essa aliança nunca foi perfeita. Quando. Parece-me uma apreciação errônea. A única resistência que enfrentou Hitler não veio da “esquerda”. cada vez que ouvia falar em uKtdtur'\ punha a mão na cintura para apanhar a pistola. da ralé. Em agosto de 1914. foi assassinado ao mesmo tempo. A conspiração de 1944 (a bomba no bunker de Hitler) foi conduzida por militares. na mesma época. Queriam subverter a velha ordem prussiana e criar. não obstante a prussianização autoritária de toda a nação. Certamente não se pode negar uma coincidência de interesses entre os meios ditos conservadores e capitalista alemães — os Junkers. os representan­ tes da antiga burocracia imperial.O E spírito das Rev o lu çõ es 145 1914 foi o mais poderoso dc toda a Europa e proporcionou à classe ope­ rária condições econômicas superiores àquelas de que. Isso. a 30 de Junho dc 1934. o mesmo acontecendo em França: Jean Jaurès. que tinha querido prevenir a subi» da de Hitler ao poder por uma ditadura militar. gozavam seus camaradas franceses e ingleses. com seus elementos absorvidos. o líder socialista pró-alemão. foi assassinado por um ultranacionalista. é verdade também que o general von Schleicher. Parece-me assim o resultado dc uma retórica ideo­ lógica desprovida dc fundamento considerar o hitlerismo como um mo* . nada menos do que burguesa. agitadores vulgares com fortes convicções socialistas. já a grande maioria dos ativistas do Partido Comunista (KPD) sc havia inscrito nos SA. lá se foram os socialistas alemães carregados pelo entusiasmo guerreiro.

E convém lembrar que essa retórica antiburguesa e anticapitalista foi inaugurada. aderiu aos pensadores revolucio­ nários dessas décadas de exacerbação paranóica. assim como a origem de sua carreira política na dema­ gogia socialista. objetivou suprimir inter­ namente a luta de classes — mas isso. . a meu ver. Outrossim. O populismo carismático do Duce é inquestionável. à imposição 26 É na parte final do esplêndido livrinho com que José Guilherme Merquior nos introduz à História do Liberalismo Antigo e Moderno que o jovem escritor brasileiro. porque a intenção era transferir a luta populista ao exterior: tratava-se de empreender a guerra de classes contra os países “ricos” França. Se fosse verda­ deiro esse conceito. DE MEIRA PENNA vimento reacionário: foi. pg 188). que tentou pòr termo à "anarquia da produção”. e o fascismo ou nazismo. a concepção de que o fascismo constituiu um esforço supremo da burguesia capitalista para se salvar é. isso sim. tanto na Alemanha como na Itália e nos outros países europeus. a inglesa e a americana encabeçaram a luta contra Hider.146 J. Na Itália. entre as Guerras Mundiais de 1914 e 1939. popularizada pela propaganda estalinista. na Itália. A tese revelaria a falta de verdadeira compreensão que teve nosso vivo diplomata e erudito ensaísta quanto à essência da idéia liberal. houve duas principais reações à “ameaça de hegemonia inshtucionar da democracia liberal: o socialismo. senão inteiramente errônea. coroa e coincide com o descalabro do comunismo. perigosa. Ora. Ele descreve o fascismo como “uma tentativa de atrelar o capitalismo ao fascínio do nacionalismo ou racismo” (opus cit. O elemento nacionalista que. Assinala Merquior que. Esse sucesso merece uma expli­ cação mais convincente do que atribuí-lo. após 1945. a partir de 1989. Inglaterra e Estados Unidos. simplesmente. Merquior não se imuniza contra a contaminação por preconceitos da Vulgata marxista. precisamente. tão prematu­ ramente desaparecido. um dos mais grosseiramente subversi­ vos de toda ordem moral e toda cultura que se registrou neste século26. aborda a obra dos grandes pensadores liberais modernos cujo triun­ fo. precisamente por pensadores “reacionários” que falavam em nome de um romantismo medievalista. não é tampouco fácil qualificar o fascismo de Mussolini como reacionário ou vindo do “alto”. do tipo de um Joseph de Maistre e um De Bonald. a francesa. vale assinalar que a democracia capitalista de tipo ociden­ tal estabeleceu-se com sucesso na RFA e no Japão e também. embora com menor sucesso. O . A retórica antiburguesa e anti-anglo-saxônica era tão intensa no fascismo quanto é hoje entre as esquerdas. no século XIX. No confronto com o totalitarismo. não entenderíamos por que motivo as três principais burguesias capita­ listas do planeta. que entraram para o vocabulário normal e a interpretação convenci­ onal da história moderna.

Na Alemanha. Se assim fosse. o Titoísmo na Iugoslávia. c'est la guerre". atrevo-me a considerar essa parte da tese de Barrington Moore como comprometida por seus preconceitos quanto ao caráter substancial da dicotomia “esquerda x direita”. A noção do nacionalismo belicoso que impulsionou o “fascismo* alemão. como os alemães. não haveria como entender por que motivo o “Protetorado” de Cromwell foi igual­ mente guerreiro e agressivo.. o Cm* trismo em Cuba. italiano e japonês a desencadear a Segunda Guerra Mundial. é defeituosa. Na Itália. o Peronismo na Argentina. As características nacionais própria» dc cada um desses movimentas c seu maior ou menor empenho em se­ . a Primeira Guerra Mundial não foi causada exclusivamente por reacionários de direita. mas por democratas radicais como os franceses. finalmente. o Maoísmo na China. Mussolini foi derrubado em 1943 pelos próprios italianos. oferecida cm ccm receitas diversas. Muito menos seria inteligível a rebordosa imperialista de Napoleão. e assim por diante. Na Espanha. sob inspira­ ção do Rei João Carlos. escarmentados com a derrota e encabeçados pelo Rei e pelo Marechal Badoglio. No presente século é o nacional-socialismo a única e ex­ clusiva ideologia totalitária e revolucionária atuante. esse sim. e tampouco poderíamos explicar o belicismo e imperialismo soviético no período da Guerra Fria. Em suma. relacionado com o ímpeto revolucionário.O E spírito das R ev o l u ç õ e s 147 arbitrária desse regime pelas tropas aliadas vencedoras da Guerra Mundi­ al. o Hitlerismo na Alemanha. foram os elementos burgueses democráticos anteriores ao nazismo (Adenauer por exemplo) que reestruturaram a democracia apenas com um pequeno estímulo de parte dos americanos. pode ser descrito como um movimento “conservador” e “reacionário”) foi arrancada por iniciativa da própria liderança governamental. Há muita base real para a acusação dos monarquistas franceses do princípio deste século de que “la démocratie. o “filho da Revolução” francesa. explicado como uma conseqüência lógica da “revolução pelo alto” bur­ guesa. Foi o Marxismo-leninismo na Rússia. a máscara “fascista” do franquismo (o qual. E.. É mal* entender o fenômeno nacionalista dos últimos duzentos anos se lhe der­ mos um conteúdo ideológico-social qualquer. capitalista e reacionária. com variações políticas e econômicas conforme os capri­ chos dos líderes que as estabeleceram. obcecados com a idéia de revan­ che. o Nasserismo no Egito.

Ele reconhece. Parece-me.148 J. como as que vigoram nos países de língua inglesa. em conclusão. e nas revoluções campo­ nesas propriamente ditas que trouxeram o comunismo. que o principal valor da obra de Barrin­ gton Moore é seu saudável ceticismo. é realmente o estabelecedor da democracia. Ele discute entretanto. que uma aristocracia esclarecida e in­ dependente constituiu um ingrediente invariável e essencial ao crescimen­ to da democracia. numa época em que a retórica de esquerda tende a nos querer convencer que só o intelectual subversivo. alcançada dentro de um sistema parlamentar. nos Estados Unidos. no Japão e mesmo na Alemanha. é a comum exaltação pseudoreligiosa das suas respectivas pátrias e o culto da violência guerreira inter­ na e externa. que a transformação pacífica nos séculos posteriores à Revolução de Cromwell. Outro ponto crítico na obra de Barrington Moore é o papel que con­ cede ao campesinato no processo revolucionário histórico — contrarian­ do meritoriamente os preconceitos do marxismo ortodoxo que considera a classe agrária básica e invariavelmente conservadora. finalmente. nas “revoluções burguesas abortadas” que levaram ao fascismo. realmente. nas revolu­ ções burguesas que conduziram à democracia capitalista. sustentadas na ética protestan­ te. e não por métodos de violência revolucionária. Escandinávia e Suíça. liderando massas de operários e camponeses. nos Países Baixos. Moore reconhece. Colhemos um efeito refres­ cante ao ouvir acentuado esse princípio. Como resume o autor. contu­ do. seu esforço é no sentido de compreender o papel das classes supe­ riores de base rural. as que alcançaram seus fins através da conquista progressiva de reformas políticas e sociais. O autor concorda com Marx: sem burguês. o valor respectivo da Revolução e da Reforma na conquista do pro­ gresso social c da modernização. Isso é válido na Grã-Bretanha. de maneira ambí­ gua. Ele adverte que as explicações que . Luta de classes e guerra externa confundem-se. DE MEIRA 1’ ENNA guir a cartilha das reformas sociais não nos devem fazer perder de vista que o que neles importa. não há democracia. O . Creio que não enfatiza suficientemente haverem sido as democracias mais longa e solidamente estabelecidas. em aliança ou não com os camponeses. mais contribuiu para a consolidação de uma sociedade livre do que o período da Com­ monwealth puritana.

esbofeteados. Há muitas variáveis em cada fenômeno e a Cultura consiste. ninguém me­ lhor do que Che Guevara definiu o que se passou: “A Revolução toma-se discursos. Podemos agora asseverar. O título de sua obra é suges­ tivo: Terrorismo e Comunismo. o marxista “ortodoxo”. Há. As Revoluções ocorrem em períodos de miséria. Curiosamente. porém. que há uma constante cm todas as Revoluções que vão de 1789 a 1989. Cresce o controle sobre os cidadãos. comitês. corrompidos. Também ninguém melhor do que Kautsky. transformados em heróis. E conclui: “Para manter e transmitir um sistema de valores. seduzidos. o Estado saiu invariavelmente fortaleci­ do. aprisio­ nados. em períodos de prosperidade e desenvolvimento econômico.. paradas. postos em campos de concentração. O esforço de pesquisa não deve ser interrompido e Moore considera o estrito behaviorismo determinista como fàlso. precisamente em proporcionar um “filtro” entre as reações subjetivas das pessoas en­ volvidas e a situação “objetiva”. Adverte que “os esforços materialistas para exorcizar o fantasma do idealismo nas explicações culturais estão cantando na freguesia errada”. mais interven­ tor em assuntos econômicos e na patrulha do pensamento. Detenhamo-nos por um momento sobre esse aspecto do processo revolucionário que é o papel nele desempenhado pelo Estado. soube descobrir que “a razão do sucesso de Lênin é o fracasso do socialismo marxista”. mais poderoso do que nunca. .O E spír ito das R ev o luçõ es 149 salientam as causas econômicas das Revoluções não são mais positivas do que aquelas que acentuam as causas morais. Cada uma das explicações mate­ rialistas ou morais tem sua porção de verdade. e em todas as sociedades de mas­ sas: durante esses duzentos anos. burocracia”. e às vezes mesmo obrigados a aprender socio­ logia”. o conflito interno e a opres­ são.. sem susto. intrigas. os seres humanos são punidos. Donde a pergunta sobre se um regime político verdadeiramente livre e racional seria uma quimera. administração. que relacionálas para evitar o caos. porventura para sempre irrealizável. desfiles. descamba o ímpeto revolucionário para a guerra externa. mas também pla­ nos. mais belicoso e opressor. partidos. Napoleão é verdadeiramente filho da Revolução e o paradigma napo* leônico tem seguido seu curso. Frustrado nas lutas intesdnas. encorajados a lerem jornais. e em períodos de recessão. colocados diante de um paredón e fuzilados. Cresce a buro­ cracia.

d e M etra P e n n a Uma interpretação do fenômeno revolucionário nos três casos da França. A Revolução não se explicaria assim. o descalabro de um certo tipo de Estado semiburocrático o qual. Theda Skocpol é original no sentido de que desconhece a relevância da aristocracia e da burguesia. russa e chinesa. de ma­ . É um “estado imperial” ineficiente. mas a classe rural. foi oferecida de modo muito original por uma jovem professora de Harvard. mais perto de nós. Ela segue a longínqua inspiração de . nem em termos de classes sociais. a Revolução teve como con­ seqüência infalível o reforço do poder do Estado burocrático — não obs­ tante as ideologias responsáveis pelo movimento não haverem. A postura de Skocpol é fundamen­ talmente política e não social. nem de ideologia — pois evidentemente não é esta a mesma na França de 1788 e na China de 1949. Sua obra States and Social Revolutions parte de um ponto de vista em nada obediente aos preconcei­ tos tradicionais sobre a Revolução. O . se desmorona ante os golpes de cam­ poneses insatisfeitos. no confronto social que determina a Revo­ lução para. Ela se explica pela incapacidade da nobreza rural de manter seu controle tanto sobre os camponeses. essencialmente. industrialmente mais desenvolvidos — é incapaz de conter um movimento de rebeldia das massas agrárias. enfatizar a do campesinato. e em geral das classes urbanas. A variada independente é pois o tipo de Estado que se revela incapaz de enfrentar o desafio. e acuado pela derrota militar na frente externa que. nos três casos. em vias de burocratização. A universitária americana insiste assim na semelhança das Revoluções francesa. quanto sobre o Estado em vias de burocratização. nas condições históricas de uma derrota frente a uma potência estrangeira ou de inferioridade em relação a adversários externos. O elemento dinâmico do processo não é nem a burguesia. nos três casos. A Revolu­ ção constitui. nem o proletariado. Tocqueville. de Max Weber e. O interesse dessa reinterpretação da Revolução é que ela nos permiti­ ria entender por que motivo. Rússia e China. Theda Skocpol. de Barrington Moore em Social Orijjins o f Dictatorship and Democracy. não obstante a disparidade do tipo de luta social que afetava a França dos fins do século XVIII. surpreendentemente. salientando a identidade de condições internas e externas que determina­ ram o sucesso dos três movimentos. a Rússia dos princípios e a China dos meados deste século.150 J.

Nesse sentido. em França. derrotado nas cidades em 1924-27. assinala Aron. O que não o impede. portanto. ao contrário da Rússia. o “Despotismo Oriental” de Marx. sustentado sobre uma classe burocrática tradicional. No caso da Rússia. possui o trabalho de Theda Skocpol o mérito de procurar compreender o traço comum que associa Jacobinos. um dos mais lúcidos analistas políticos de meados do século e o homem que. cria uma aliança especial com o campesinato e com ele se alça ao poder após a segunda guerra civil. o Estado comunista chinês é. é a revolução o próprio homem. a cientista política oferece uma solução para o problema paradoxal do crescimento do Estado totalitário.. Na China. o partido comunista. Bolchevistas e Maoístas numa base de ciência política. Integrado à estrutura rural. procede à coletivização forçada dos campos à custa de milhões de mortos. A soci­ edade humana.O E spír ito das R ev o lu ç õ es 151 neira alguma. o mandarinato. por exemplo. Em outras palavras. desempenham as classes urbanas o seu papel decisivo. Por mais controvertido e. No prosseguimento de nossas meditações desta seção sobre o fenô­ meno revolucionário. A Rcvoiuçào é a . inicialmente... Valendo-se dos estudos mais recentes sobre o fenômeno das burocracias civis e militares. é a nova burocra­ cia estatal soviética que. no meu entender. reacendeu o pensamento de Tocqueville — de quem teria sido uma espécie de reencamação moderna. incoerente que possa ser. de se conformar com o modelo do velho patrimonialismo despótico. Na reconstrução e reforço do Es­ tado que emerge da Revolução.. podemos lembrar as memoráveis palavras de Raymond Aron. pósrevolucionário. “é fundada sobre essa violência criadora que fez nascer a consciência pessoal. isso sim. ao mesmo tempo do que a ordem social. É uma bela solução para o emaranhado da dialética. às vezes. a destruição desse Estado. diferente e incompatível com o Estado comunista russo. quando as ideologias dos respectivos movimentos se pro­ punham. objetivado tal resultado. dona do poder.

é a progressiva eliminação da própria idéias do Estado-nação soberano. O que desde logo se impõe. como acentua Ellul. la révolution est Fhomme m im e. finalmente derrubar o poder do Estado interventor e eliminar a obsessão política da esfera da existência coletiva do homem — somos muitos que acreditamos ser ainda prematuro postu­ lar. a revolução desejável. O Comunismo. O grito revolucionário e libertário de nossos dias deveria ser: “Abaixo o Nacionalismo! Abaixo o Estado-nação sobe­ rano!”. outrora. resume nossas ponderadas cogitações sobre o sentido espiritual do tema. DE MEIRA PENNA emancipação da personalidade humana”27. Tal seria.. dependente e esquerdista é o país. seriam o éclatement do tipo de cultura ideológica que pôs a téc­ nica a serviço das paixões tribais mais primitivas da humanidade. longe de extinguir o nacionalismo conforme prometia na época em que lutava contra o fascismo e denunciava o “imperialismo”. como o fiz em outras ocasiões: a ideologia nacional-socialista é o que mais se destaca como legitimação ideológica quanto mais subdesen­ volvido. En ce sens. como os melhores dentre os philosophes do século XVIII pensaram — não obstante sua ilusões iluministas. se vangloriava de seu alto internacionaiismo humanista. de que nos fala Ellul. e essa visão soberba de Aron de uma Revolução que conduza à emancipação da personalidade humana. . liberal ou outra. Mas nada há a fazer. 27 “La société humaine estfondée sur cette violence créatrice que a fa it naître la conscience person­ nelle. a Revolução deveria ser um combate pela Razão.152 J. nesta época de extrema relevância para a Revolução liberal em progresso e o Liberalismo em ascensão. L a Révolution est rémancipation de la pcrsm alité humaine”.. O propósito da “Revolução necessária”. na verdade o reforçou. Pouco teríamos a acrescentar a essa noção que. As conseqüências calamitosas do delírio são escabrosas. O . O colapso da União Soviética e da Iugoslávia está demonstrando a virulência dos ódios nacionais de fun­ do étnico. mesmo após décadas de domínio de uma ideologia que. Se a Revolução. Insistamos. en mime temps que tordre social. Em última análise. a “Revolução Necessária”. a revolução que se apresenta como um imperativo moral. a revolução provável. como exigência pragmática da situação de nosso mundo conturbado. de certa forma.

porém o termo fatal ao qual toda a convulsão condu­ zia de maneira necessária. de um enfarte fulminante. “era a autoridade de Carlos I. resume Jouvenel. dos Bourbon ou dos RomanofF”. procurou explicitar muitas das idéias que foram lançadas por pensadores clássicos desde o tempo de Tocqueville. acidentes ocorridos durante a tempestade social. O Terceiro Estado restaura a monarquia na pessoa de um plebeu que se torna imperador. A interpretação se posiciona. continua ele. longe de ser interrompida. Há um certo sentido simbólico no fato de que tenha Aron falecido. A continuidade do Poder absoluto. O eminente liberal francês. tagarela e me­ díocre Kaiser Guilherme II sucedeu. é a de Cromwell. mais opressivos e autoritários do que os anteri­ ores. o ciclo só se abriu pelo abalo de um Poder insuficiente para fechar-se pelo endurecimento de um Poder absoluto”. aos 78 anos de idade. a francesa e a russa. por exem­ plo. depois de um curto intervalo na indecisão de Weimar. “os Cromwell ou os Stálin não são conseqüências fortuitas. que é de 1972. a meu ver.O EsrÍRiTO das R evo lu çõ es 153 Colocaremos na mesma linha a obra Du Pouvoir de Bertrand de Jouvenel. “A obra revolucionária é a restauração da monarquia absoluta”. É fácil de argumentar em favor desse ponto de vista com os exemplos históricos em outras países. se prolonga e reforça. acabava de depor num processo por difamação dirigido contra Jouvenel. Antes. Ao inábil. pela inaudita violência e tirania da revolução nazista. no sentido que a Revoluçáo constitui. publicando num perío­ do em que o maior pessimismo oprimia os verdadeiros inimigos do to­ talitarismo na Europa. em suma. O ponto mais importante que este salienta é. o fato que “as revoluções liqui­ dam as fraquezas” dos regimes que derrubam e “dão à luz a força” de novos sistemas de poder. Luís XVI e Nicolau II. o regime prussiano do império dos Hohenzolem foi derrubado e seguido. não um esfacelamento mas um robustecimento do Poder cen­ tralizado. Tais são os Senhores aos quais são sub­ metidos os povos que se rebelaram contra a 'tirania' dos Stuart. “Não”. após quinze anos instáveis« o pintor . Napoleão e Stálin. Na Alemanha de 1918. ditador carismático ou Lorde Protetor sem peias e meias medidas. diz o jornalista. A queda de um poder fraco e a edificação de um poder forte é o que ocorreu nas três revoluções que Jouvenel exa­ mina: a inglesa. Depois. no momento em que. comentarista diplomático e escritor francês.

a monarquia e seu Protetor militar. observa Jouvenel que a soberania da lei acaba na soberania do Parlamento. na proporção que infectou o sistema judiciário francês após 1793. Na “revolução” de 1964. Tocqueviile nota que. após uma das mais sangrentas guerras civis do século. nos casos da Segunda Revo­ lução inglesa. Citando Tocqueviile e Emile Faguet. segundo as . que dispõe de meios cada vez mais amplos. Na Espanha. da Revolução holandesa e da Revolução americana as quais. noAncien Regime. a República Velha dos “carcomidos” de 1930 que. que não é senão uma forma de venali­ dade e a pior”. um caudilho cuja mão de ferro fez pesar sobre a Espanha a autoridade de um Poder quase abso­ luto. com a revolução. Outros exemplos podem ser acrescentados. Mesmo em nosso país. Goulart era um políti­ co provinciano e demagogo insignificante que foi sucedido por uma série de profissionais do Poder militar. afinal de contas. O . ao institucionalizar a liberdade e coibir o abuso do Poder pelos governan­ tes. Chamando o Estado de Minotauro. geraram o sistema democrático liberal como hoje o conhecemos. foram derrubados para que no seu lugar surgisse. nunca se descobria “o servilismo em relação ao poder. Na parte final de nosso capítulo sobre Spengler e Toynbee tentamos representar graficamente essa “queda” da autoridade antiga enfraquecida que. por exemplo. Ele é comando e deseja ser o princípio organizador da Sociedade. tolera cada vez me­ nos poderes que existam fora de si mesmo. ele assinala que. “ao longo da histó­ ria. contudo. provoca uma nova subida do Poder autoritário refortalecido. a mesma história se repetiu. sempre entregavam o governo a sucessores eleitos (ainda que em eleições falsas) após quatro anos de governo. Assim. monopolizando sempre cada vez mais completamente esse papel”. a figura mais prestigiosa da 3a República francesa. E recorda as palavras de Clemeneeau. Primo de Rivera. o autor do Du Pouvoir adverte para as áreas cada vez mais extensas que o poder revolucionário arregi­ mentado e burocratizado procura conquistar. que se tornou um Führer genocida e conquistador psicopata. reivindica sobre a comunidade direitos cada vez mais extensos. No caso da Justiça. DE MEIRA PENNA de janelas e cabo austríaco Hitler. o Estado.154 J. Jouvenel não se detém. se cria uma concentração de poderes em benefício de um persona­ gem. foi substituída por um “Governo Provisó­ rio” de quatro anos e um “Estado Novo” ditatorial de mais oito anos.

nada teríamos feito senão mudar de tira­ nia”. Antigo professor de Harvard e Stanford. Quero aqui simplesmente insistir num ponto que me parece bastante importante.. Nesse sentido. Marx afirmou que “o país mais desenvolvido industrialmente apenas mostra ao menos desenvolvido a imagem de seu próprio futuro”. para nós. muito tem a dizer.. A tese é bastante conhecida e basicamente sempre foi sobre ela que tenho sustentado meu arrazoado. A obra cobre os países industrializados como os EUA e o Canadá. “se esperávamos dessas maiorias de um dia o exercício do poder que foi o de nossos antigos reis.O E spír ito das R ev o lu çõ es 155 quais. No Das Kapital. Sobre o nosso. e entre Ordem e Protetorado social. reeditada em 1988. é no sentido de nos integrarmos na esfera de desenvolvimento encabeçada pelos Estados . é no cerne dos “valores” que influenciam as estruturas institucionais das nações. tanto em política quanto em econo­ mia. a tensão inevitável entre Liberdade e Segu­ rança. de assegurar o triunfo da liberdade. na linha de Montesquieu e Tocqueville a Hannah Arendt. a única forma. em suma. nosso futuro será criado à imagem dos Estados Unidos. A América constitui. insiste na descen­ tralização do poder. e os “países em desenvolvimento” como a Argentina e o Brasil. e atualmente lecionando na George Mason. A revolução democrática. para necessitar um debate mai­ or. Os dois últimos capítulos Du Pouvoir representam um esforço bem concatenado para definir. Lipset salienta as dife­ renças no esforço pioneiro que expandiu as fronteiras do Brasil e da Amé­ rica do Norte. A ênfase de seu estudo. uma “sociedade exem­ plar”. numa perspectiva francamente weberiana. Citando Charles Wagley e Vianna Moog. Quaisquer que sejam as reações desesperadas dos tupiniquins. de onde deduz a evolução subseqüente comparativa de nossos países. em ter­ mos exclusivamente liberais. a “Universidade liberal” da Virginia. Seymour Martin Lipset é um sociólogo americano respeitável que tratou da mudança e persistência nas estruturas sociais em sua obra Revolution and Counterrevo­ lution. tanto os da “direita” quando os da hoje dominante “esquerda”. conduz à “democracia totalitá­ ria”. Jouvenel foi um dos primeiros autores a utilizar essa expressão e.

O culturalismo de Harri­ son. O. presidido por Samuel Hundngton. um paralelo entre a Nicarágua e a Costa Rica.F. embora de poucos recursos naturais possa dispor. Em sua pesquisa segue Harrison um método comparativo bastante efkaz. comportamentos tradicionais e traços culturais. No novo livro. Tratava-se de discutir o livro de Harrison. uma atitude mental. por exem­ plo. forçosamente. ele fala 2g 29 Em Psicolqffia do Sub-Desenvohnmento e Em Berço Esplêndido. bem como uma decisão coletiva na liberdade. Não obstante um novo con­ senso ideológico que começa a unir as classes anteriormente conflitantes — um consenso que já podemos diagnosticar como liberal democrático — a lacuna entre os mundo industrial e o mundo subdesenvolvido não será facilmente transposto. uma característica psicossocial. animando nossos povos. a guerra civil.156 J. Em meados da dccada passada. Who Prospers?. explicariam o contraste entre o acelerado progresso da América do Norte e o atraso em que permanecemos na América do Sul. um dos melhores modelos de democracia nas Américas. o professor Lipset debruça-se sobre a Argentina e o Brasil para pesquisar as diferenças entre os valores que. Dois estudos recentes. no entanto. infensa a qualquer espécie de materialismo econômico. Seria possível compreender do seguinte modo o sucesso da experiência costarriquense: os camponeses espanhóis pobres que colonizaram a . participei dc um pequeno seminário na Universidade de Harvard. racial ou histórico. O movimento de nossas sociedades ocidentais mo­ dernas. muito mais sociais e culturais do que mera­ mente econômicos. pressupõe um estado dc espírito. Harrison começou sua pesquisa com um livro de título “O subdesenvolvimento é um estado de espírito”. a anarquia e a ditadura — c a segunda. então diretor da Escola dc Governo j.Kennedy. está na direção da burocracia industrial em que os conflitos de classe tendem a ser reduzidos. afirma Lipset. do americano Lawrence Harrison e da brasileira Maria Lúcia Victor Bar­ bosa. Ele se baseia na experiência direta dos povos examinados. exploram detidamente a área. antigo funcionário da Agência Internacional para o Desenvolvimento americana (AID). de dirigir nossos passos. DE MEIRA PENNA Unidos que teremos. Na tradição da sociologia de Weber. Explica os motivos históricos presumí­ veis do contraste entre a primeira dessas nações centro-americanas — trágica e permanen­ temente afetada pela pobreza. Undcr-Development is a State ofM ind29. a violência. Os alicerces desse futuro são. obra posteriormente aqui traduzi­ da. Minha presença no debate se prendia a um convite do autor. Traça. uma realidade psicológica. G>sta Rica goza de um dos mais altos índices dc renda percapita e nível social e cultural do continente. geográfico. nos EUA. A análise é interessante e cobre a esfera da psicologia 2S * social em que também tenho ousado penetrar .

O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s

157

no “sucesso” do Brasil, Espanha, Taiwan, Coréia e Japão — no desejo de
substituir as explicações economicistas na linha de Marx, pelas culturalistas na linha de Weber.
A falha que encontro nessas teses nada tem a ver com o debate Marx
x Weber, mas com a abordagem do problema empreendida pelo conheci­
do diretor do Departamento de Governo de Harvard, o professor Samuel
Huntington. Em sua obra A Ordem Política nas Sociedades em Mudança,
tradução da Edit. da USP, 1975, assim como no novo livro The Third
Wave (1991), sobre a democratização no final do século XX, Huntington
dá prioridade ao político. E famosa a frase com que conclui aquele
primeiro livro: “No mundo em modernização, quem controla o futuro é
quem organiza sua política”. Acontece que a decisão política que pode
determinar o futuro de uma nação está, para a coletividade, como a von­
tade consciente está para um indivíduo.

Meseta permaneceram isolados e marginalizados pelo império castelhano — muito embora
se chamasse o território de Costa Rica. Sem recursos para comprar escravos, foram obriga­
dos, a duras penas, a trabalhar e concluir um “contrato social” democrático, independente
do opressivo domínio burocrático tradicional. As autoridades hispânicas do México e da
Guatemala achavam a região longínqua e demasiadamente intispita: deixaram-na em paz e
não a perturbaram com a pata brutal do Estado patrimonialista. Posteriormer.vC, teve Costa
Rica a sorte de se valer de um Presidente e de um Ministro da Educação que lhe proporcio­
naram um alto nível de alfabetização e cultura. Todo o segredo do sucesso do país está aí.
Na comparação entre Haiti e Barbados, Harrison salienta as semelhanças de clima, forma­
ção étnica, produção econômica e origem escravagista das duas ilhas. Como explicar, então,
os flagrantes contrastes? Barbados goza de uma renda percapita superior a 6.000 dólares, a
mais alta do continente depois dos EUA e Canadá, um índice de 99% de alfabetização,
condições s(X'iais que superam as cifras propagandísticas veiculadas pela ditadura cubana e
um regime de democracia parlamentar estável, sob um Estado de Direito. Os Westindians
que emigraram para os EEUU desfrutam de um nível econômico que cxccde o da média
americana e é quase o dobro da dos Afroamericans nativos. No meu entender, Hamson
atribui corretamente o sucesso dos pretos de Barbadas ao fato de haverem absorvido a
cultura inglesa com seu substrato moral e religioso, sua ênfase na responsabilidade indivi­
dual, o respeito religioso aos principias do Estado de Direito e o incentivo para o sclf*
govcrnmenr. O colonialismo britânico durou eni Barbadas cem anos mais do que o francês
em Haiti. Haiti se tornou independente cm princípios do século XIX, ao resistir a uma
investida de tropas de Napoleáo, com uma tradição francesa de estado bunxrácico, mágico,
paternalista, opressivo e centralizador.

158

J. O . d e M e i r a P e n n a

Mas o relacionamento entre o eu consciente e o inconsciente coletivo
continua sendo um dos mistérios mais insondáveis da alma humana.
Nunca poderemos antecipar, nessa dialética consciente X inconsciente, qual
será a decisão que tomaremos diante da pressão de nossas paixões, afetos,
costumes adquiridos, nossa experiência e memória — tudo aquilo que de
meu passado, inclusive genético, se esconde na parte inacessível de minha
psique. A incidência dos fatores do acaso e intervenção estocástica das
grandes personalidades é outra correspondência, na esfera das coletivida­
des, equivalente aos saltos imprevisíveis do destino na esfera de nossa
existência individual. A sorte, ou o que os antigos, nesse ponto mais sá­
bios do que nós respeitavam como a fortuna, é um elemento ponderabilíssimo na história das nações. Por que a Argentina, que no princípio do
século se colocava entre as nações mais prósperas do planeta, avançando
rapidamente para sua integração no Primeiro Mundo ocidental, se deixou
submergir, a partir dos meados desta centúria, nas convulsões do pero­
nismo e da anarquia militar? Qual o segredo desse “enigma” argentino de
que tanto se fala? E por que, com igual surpresa de todos os observado­
res, do marasmo promete agora emergir sob a liderança de um homem
em relação ao qual ninguém de bom senso ousaria, há seis anos, pôr a
mão no fogo? Por que teve a Argentina um Perón, que a desgraçou, e o
Chile um Pinochet que o colocou no caminho de uma rápida integração
no Primeiro Mundo? E por que o Brasil, que sob Kubitschek e os primei­
ros presidentes militares conheceu um verdadeiro “milagre” econômico,
se deixou escorregar, em seguida, para a “década perdida” através de uma
sucessão infeliz de cinco presidentes nefastos ou medíocres? São esses
mistérios das sociedades que, sem desmentir Huntington, colocam um
ponto de interrogação em sua tese: como nos podemos certificar que, na
base de um determinado complexo deontológico, um povo organizará
corretamente sua política e tomará decisões acertadas quanto a seu futu­
ro?

7. HANNAH ARENDT, SOBRE A REVOLUÇÃO

ensando nisso que veio a chamar-se Revolução, Maquiavel ainda se
referia à mutatio rerum de Cícero. Para ele mutazione dei State signi­
fica a derrubada sangrenta de um governante ou a substituição violenta
de uma forma de governo por outra que não segue, necessariamente, o
programa daquela que é derrubada. Durante a Renascença, rivoluzione
possui o mesmo sentido de ricorso — um novo giro na roda imprevisível,
irracional e deprimente da Fortuna. Segundo esse ponto de vista, as mutazioni ou variazioni permanecem relacionadas com a concepção clássica
da anakuklosis, eterna recorrência das coisas. A Revolução é apenas um
ciclo do Eterno Retorno. Na história do pensamento político, entretanto,
a importância de Maquiavel resulta do fato de haver sido um dos profetas
da noção moderna.de Revolução pois, pela primeira vez, concebeu a
possibilidade de uma nova e permanente forma de governo, escapando da
rigidez estritamente conservadora da política medieval. O novo cesarismo
maquiavélico é personificado pelos condottieri. O pensador florentino
admirava César Borgia, talvez imaginasse que o filho do Papa Borgia,
Alexandre UI, poderia unificar a Itália. Ele foi o primeiro a visualizar um
reino puramente secular, livre dos padrões morais impostos pela religião.
Embora reconhecendo que a idéia central de rinovazione nacional cra o
que conscientemente defendia Maquiavel, Arendt insiste não ser possível
negar seja ele o pai espiritual da Revolução moderna, em seu sentido de
violência bruta, fria e total que transcende o imperativo ético.
É no primeiro capítulo de sua obra On Révolution que Hannah
Arendt discute o “significado de Revolução”. Acentua ela que o anseio
revolucionário, o ímpeto e desejo de um novus ordo sdculorum é algo re­
cente na história humana, algo que surgiu há pouco mais de 200 anos sob

160

J. O.

de

M eir a P en na

o impacto das revoluções americana e francesa. “O enormepathos de uma
nova era que encontramos em termos quase idênticos e em infinitas varia­
ções, pronunciados pelos atores tanto da Revolução americana como da
francesa, só surgiu no primeiro plano quando, muito a contragosto, al­
cançou um ponto do qual não era mais possível recuar (point o f no retum)”. Em sua obra muito relevante, Arendt não estudou a Revolução
como um fenômeno sociológico ou histórico, ou como o objeto abstrato
de pesquisa de ciência política. Compreensivelmente obcecada com o
tema do poder, da violência e da agressividade humana, a pensadora judia
lembra que, assim como Caim matou Abel e Rômulo matou Remo, as
lendas demonstram que toda espécie de organização política ou social se
inicia com um crime. No princípio era o crime. Na violência se sustenta
toda história humana. O homem descende de pitecantropos carnívoros e o
estado de natureza é apenas uma paráfrase purificada dessa realidade
ofuscante. Entretanto, Arendt afihna que o objetivo da Revolução foi e
sempre será a Liberdade — o que quer que possa hoje representar o es­
forço de desvalorizá-la pela ideologia, a psicologia e a sociologia. Como a
autora limita suas considerações ao aspecto puramente político da ques­
tão, c compreensível que seja levada a reduzir o âmbito de seu estudo aos
últimas duzentos anos, concentrando o debate em torno das duas grandes
revoluções das fins do século XVIII.
Arendt é certamente uma das grandes pensadoras políticas do século.
Ultimamente, um número considerável de obras têm circulado em inglês
procurando limitar-se a um aspecto único, sentimental, de sua vida: o
relacionamento amoroso que, na mocidade, teve com seu Mestre Martin
Heidegger — que posteriormente aderiu ao nazismo. Arendt é clara,
embora às vezes incoerente. Não revela talvez a profundidade de seus
outros colegas alemães imigrados, Leo Strauss, também de origem israe­
lita, e Eric Voegelin, de origem católica. Ela demonstra, no entanto, uma
consciência existencial que se sustenta, não em Heidegger e seu “Ser para
a morte...”, mas em Santo Agostinho. Há nela a postura clara que carac­
teriza o edifício agostiniano, quando distingue o aspecto religioso da
caminhada do indivíduo em direção a seu Deus, do aspecto terreno da
criação de um mundo de sociedade e de cultura, aquecido embora pelos
eflúvios transcendentes da caritas e do amor Dei. Ora, como consiste nos­

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

161

so propósito, precisamente, em transcender a perspectiva política do
problema, torna-se árdua a aceitação da tese reducionista da grande pen­
sadora. Assim, não nos parece correto negar que o fenômeno pelo qual as
polis gregas sofreram um longo processo de transformação, com marchas
e contra-marchas desde a monarquia aristocrática primitiva, através da
democracia da época clássica de Péricles e da crítica socrática, para termi­
nar na tirania dos diádocos pós-alexandrinos, haja constituído uma ver­
dadeira revolução. E assim também revolucionário foi o longo processo
ocorrido na história romana, desde a queda dos Tarquínios, através da
República dos patrícios e das revoltas da plebe, até o surgimento do Cesarismo. Esses fenômenos foram políticos e sociais. Não terminaram na
conquista da liberdade. Os tiranos gregos transformaram-se em reis e os
Césares romanos em imperadores. E o ciclo recomeçou. Eterna
anakuklosis. A vontade de poder é o que alimentou o processo, não a
procura da transcendência.
Poderíamos assim considerar que a Revolução, na sociedade clássica
greco-romana, foi uma pseudo-revolução ou uma revolução abortada.
Mas um novo patamar foi alcançado com a abolição da escravatura e a
dignificação do homem pelo Cristianismo. Ora, Arendt registra a alega­
ção freqüente de autores importantes, segundo a qual todas as revoluções
modernas são essencialmente cristãs em sua origem, mesmo que areístas.
O argumento desses autores é tirado da natureza rebelde das seitas cristãs
primitivas que sustentavam a iguaidade das almas diante de Deus, seu
desprezo pelos poderes públicos e pelos bens deste mundo, sua exaltação
da pobreza e, freqüentemente, da castidade, e a expectativa do cnmprimento imediato das Promessas do Reino. Essas características tomavam
tais seitas forçosamente revolucionárias. A crença religiosa provoca, na
verdade, a intervenção repressora do Estado. Arendt refuta essa alegação,
mas com argumentos que não me parecem procedentes. De qualquer
forma, nosso propósito é atacar o problema da Revolução a partir da
Revelação da autonomia moral do homem livre no Cristianismo: parecenos, assim, que a abordagem do fenômeno revolucionário é inseparável
de uma consideração religiosa. Seria o grande socialista francês, Jean
Jaurès, quem afirmaria na mais pura linha do pensamento cristão: II ne
peut y-avoir révolution que là ouil y a conscience. E sem querer adiantar o

162

J. O .

de

M

e ir a

Penna

desenvolvimento de nosso próprio argumento, diremos desde logo que
ocorreu, na Civilização clássica, uma revolução política e social abortada
cujo resultado histórico, nos primeiros séculos de nossa era, foi o Cristi­
anismo. E, com o Cristianismo, o aparecimento do dualismo da Igreja e
do Estado, facultando eventualmente a dessacralização do segundo e a
emergência da democracia. Vou mais além. Acredito que a doutrina de
Cristo — sintetizada nesse particular pelo Vade Retro, Satana, do episódio
da tentação no deserto — consubstancia essencialmente uma condenação
da política de poder e uma demonização do Estado. Cristo é condenado e
executado pela conjunção demoníaca do poder clerical e do poder político-militar. Isso quer dizer que, pela primeira vez na história, perde o
Estado seu caráter de entidade sacra para, ao contrário, ser lançado à
condenação moral como algo que em Lúcifér encontra sua fonte de inspi­
ração e de Lúcifér recebe o estímulo para a ação.
O mesmo quadro de conflito entre ética e política se encontra in statu
nascendi no episódio paralelo da condenação de Sócrates. Mas acontece
que Sócrates ainda aceita, em princípio, a soberania de sua polis, ao passo
que Cristo deliberadamente repudia o poder temporal que atribui a César
— enquanto o seu próprio é o que organiza o reino “que não é deste
mundo”. A Igreja de Cristo teve portanto o mérito de, num período his­
tórico de inviabilidade de uma sociedade sem autoridade política estabe­
lecida, assegurar, pelo menos, a dicotomia do poder espiritual e do poder
temporal, as duas espadas que a controlariam durante a Idade Média. A
descentralização do poder principiava. Chegamos hoje a um novo pata­
mar em que a liberdade do homem exige a própria redução do poder
estatal a um nível mínimo.
Mas atenhamo-nos, por enquanto, à tese de Arendt de que o conceito
de Revolução é essencialmente moderno. E aceitemos, provisoriamente, a
idéia de estar esse conceito inextricavelmente ligado à noção de que o
curso da história recomeça, de súbito, para uma nova história. Adotemos,
como hipótese de trabalho, a idéia de que nasce a concepção revolucio­
nária com as duas grandes Revoluções do final do século XVIII. Medi­
tando sur le sens du mot révolutionnaire, Condorcet insistira no ponto de
vista que o termo revolucionário só pode ser aplicado à revoluções cujo
objetivo é a liberdade. É essa também a opinião de Arendt. Trata-se de

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

163

uma tese ambígua. Basta lembrar que a idéia de Libertação ocorre no
A
A
acontecimento central do Judaísmo, o Exodo. E que se o Èxodo configu­
ra uma libertação coletiva, a libertação individual, em termos espirituais, é
assegurada pela promessa cristã. Recordemos também o que disse Hegel
sobre o fato de que os antigos orientais descobriram que um só homem é
livre (o Rei); que os gregos estenderam essa noção, concluindo que al­
guns homens são livres (os cidadãos da polis de tipo ateniense). Mas
então a idéia revolucionária da universalidade da liberdade na isonomia
ocorre, precisamente, no momento em que se funda e estabiliza o Impé­
rio Romano, o que quer dizer, no pensamento de um judeu e cidadão
romano que foi também o maior apóstolo cristão: ocorre na Epistola de
São Paulo aos Romanos: “não há distinção entre judeu e grego (10:12)”;
tese repetida em Gálatas 3:28: “Não há judeu nem grego, não há escravo
nem livre; não há homem, nem mulher — pois todos vós sois um só em
Cristo”- e, de novo, em I Coríntios 12:13: “pois fomos todos batizados
num Espírito para ser um só corpo, judeus e gregos, escravos e livres, c
todos bebemos de um só espírito”.
Sem nos adiantar em nosso discurso, limitemos, no momento, a dis­
cussão ao que nos tem a ensinar Hannah Arendt na obra acima citada.

Robespierre falaria no “despotismo da liberdade”. Estava seguindo
Rousseau, que propusera a necessidade de “forçar os homens a serem
livres”. Todas as revoluções exaltaram a Libertação e a Liberdade, mas o
sentido em que aplicaram esses conceitos é variável e contraditório. A
Revolução nazista objetivou libertar a Alemanha do Tratado de Versa­
lhes, da ocupação da Renânia por tropas de senegaleses do Exército fran­
cês, do suposto domínio das judeus sobre as finanças internacionais e
sobre a cultura alemã, e da pressão corruptora que, sobre a pura raça
ariana, predestinada, exerceriam as raças mestiças circunvizinhas. A Revo­
lução bolchevista também proclamou seu propósito de libertar o proleta­
riado europeu. O que se propunham era a liberdade e a fraternidade de
um grupo de iguais, uns “poucos escolhidas” — quites a dominar pela
força outras nações, raças ou classes. A Revolução francesa também foi

164

J. O . d e M e ir a P e n n a

francesa e, em seu nome, Napoleão agrediu e oprimiu todas as nações da
Europa. A ambigüidade dos termos “liberdade” e “libertação” mantém-se
integral.
Arendt discute essa diferença entre libertação e liberdade. A libertação
implica um esforço coletivo que não conduz, necessariamente, à liberdade
individual. Tem a Libertação, freqüentemente, efeitos diametralmente
opostos. Mencionemos de novo o caso do Êxodo. O primeiro exemplo
histórico e, por assim dizer, arquetípico de libertação, conduziu logica­
mente à conquista de Canaã com o massacre de seus habitantes. A Revo­
lução americana foi uma guerra de libertação, sem conseqüências sociais
imediatas, que assegurou o triunfo da liberdade, implícita na condição
social dos colonos da América. Mas se limitou, inicialmente, a esses colo­
nos brancos, preferentemente protestantes. A extensão dos princípios
isonômicos da Revolução americana à gente de cor, índios nativos e imi­
grantes de outras procedências representa um fenômeno de nossos dias e,
nesse sentido, contrariando Arendt, poderíamos afirmar que a Revolução
americana ainda não terminou As revoltas das colônias européias na
América Latina, em princípios do século passado, foram também
“libertações” do jugo colonial ibérico. Estamos, contudo, penosamente
conscientes, no Brasil como entre nossos vizinhos continentais, quão
distantes ainda nos encontramos das condições que permitem o floresci­
mento de um regime de ordem legal na liberdade. Os fortes contrastes
sociais e econômicos ainda refletem as condições coloniais da escravidão
africana ou indígena.
A análise que faz Arendt do termo Revolução, em seu sentido mo­
derno, nos conduz irremediavelmente à constatação de que o processo
pelo qual se assiste ao fim definitivo de uma velha ordem, com o nasci­
mento de algo inteiramente novo nas dores do parto, seria incompreensí­
vel se não fizermos referência à expectativa judeo-cristã de uma nova
ordem na liberdade, transcendente e irreversível, a ser inaugurada com o
Reino de Deus. Na ambigüidade do termo “Revolução”, que pode ser
encontrado nas definições dos dicionários e dos vocabulários da ciência
política, temos assim a contrapartida exata da transição da anakukbsis
antiga para a história linear, cujo fim e propósito é a inauguração de um
novo Reino de Justiça e Liberdade, indestrutível e eterno. O significado

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

165

moderno da palavra Revolução só pode ser entendido nesse sentido. É
efeito de uma secularização radical da cosmovisão judeo-cristã. Isso quer
dizer que a expectativa da inauguração do Reino foi transferida para o
terreno da política mundana, decaindo da esfera espiritual para a tempo­
ral. A tragédia da história moderna se situa assim no processo desse con­
fronto entre o propósito utópico, espiritual, e a realidade empírica, mate­
rial. Aceitemos, entretanto, o que escreve Arendt sobre as circunstâncias
em que, pela primeira vez, foi o termo utilizado no moderno contexto
político e social, tal qual o conhecemos. O que a pensadora política pro­
cura ressaltar é que, de início, o processo era considerado estritamente
como um retorno ao passado, comp uma restauração da ordem primitiva,
justa e perfeita, a qual fora corrompida pelo regime deposto. É o mesmo
que salienta Ellul, quando nos fala inicialmente das Revoluções contra a
história.
Tocqueville tornou bastante claro que, nos primórdios da Revolução
francesa, “não se queria a destruição do antigo regime, mas sua restaura­
ção” — já qu& se argumentava ser o regime monárquico, da época, uma
traição ao passado feliz da Realeza. É também certo que, para Maquiavel,
a Revolução é antes de tudo uma Rinovazione. Os homens não procuram
a novidade utópica mas a Idade de Ouro passadista. Essa idéia do filósofo
político florentino pode ser comprovada pelo movimento da indepen­
dência e unificação da península, no século passado, que adquiriu o título
de Risorgimento.
O termo exato de Revolução surge, pela primeira vez na Inglaterra,
em 1660. O objetivo que, caracteristicamente, postula é restaurar a mo­
narquia. A Revolução não era entendida como definição do movimento
encabeçado por Cromwell mas, pelo contrário, do movimento do general
Monck que visava derrubar o Protetorado do chefe do exército puritano
para conduzir de volta os Stuarts ao trono. Em suma, o propósito inicial
é protestar contra as novidades, afirmar o passado, restaurar a tradição,
recolocar a coroa na cabeça do Rei e deter o curso normal da história.
Uma inscrição de 1651, durante a primeira Revolução inglesa, proclama
“a Liberdade restaurada pela bênção de Deus”. O mito retrospectivo da
Idade de Ouro não foi facilmente sobrepujado e mencionemos o debate
sobre a ambivalência da visão utópica entre o retrospectivo e o prospccti-

166

J. O . DE MEIRA PENNA

vo. Um outro exemplo admirável que poderíamos oferecer desse aspecto
do problema é o que se passou no Japão no período 1875-77. As revol­
tas, desordens, manifestações e guerras civis da época Meiji receberam o
título de Restauração: tratava-se de reerguer o poder da monarquia de
direito divino, o Mikado, derrubando o regime militar feudal do Xogunato
que governara o país nos três ou quatro séculos anteriores.
Essa ambigüidade do termo, como é salientado por Arendt, é especi­
almente relevante no contexto da Revolução americana, pois os Pais da
Pátria, das treze colônias que se uniam (E pluribus unum), não se entredevoraram como soem fazer os revolucionários, mas pretenderam apenas
restaurar, na ordem, os direitos e liberdade que consideravam inerentes à
sua condição de súditos conforme a velha constituição britânica — a que
procedia da Magna Carta e dos Tudors, e dos Parlamentaristas das duas
revoluções contra os Stuarts. E assim impossível definir a posição daque­
les Pais da Pátria ou como revolucionária ou como conservadora. Com­
pletando seu pensamento, Arendt aponta para a circunstância de que a
concepção de "'direitos humanos”, nascida na França e popularizada na
Inglaterra e Estados Unidos por Thomas Paine,/’podia ainda parecer aos
pensadores políticos mais moderados como uma aberração, ou mesmo
uma contradição nos termos. A autenticidade e legitimação de tais direi­
tas podiam ser referidos a Deus ou aos deuses da polis — como o era em
Roma, por exemplo. “Direitos” cabiam a um cidadão e só a um cidadão.
Do mesmo modo, na universalização provocada pelo Cristianismo, os
homens possuem tais direitos na medida em que são filhos iguais do
Deus único. O homem, porém, é corrompido. Nasce com uma mancha
original e com a tara de Caim — e salvo pelo recurso sobrenatural da
Graça, pode ser levado a perder todos os seus direitos, a ponto de ser
condenado a penas eternas. A concepção de “direitos” não se coaduna,
em suma, com a crença no inferno e com o postulado da autonomia mo­
ral.
Thomas Paine, o grande liberal, um homem que hoje não podería­
mos deixar de considerar de “esquerda”, fiel porém ao espírito dos tem­
pos, podia propor para o episódio americano o termo “contra-revolução”.
Obviamente, naquela época o mito da revolução não havia ainda adquiri­
do o conteúdo emocional e pseudo-religioso que hoje possui. Paine era

O E s p ír it o da s R e v o l u ç õ e s

167

revolucionário. Era também um produto perfeito da Iluminação na Idade
da Razão. A idéia essencial que defendia era a dos direitos do indivíduo
contra o Estado — que, segundo o hábito anglo-saxão, chamava sim­
plesmente de “governo”. No ensaio Common Sense, tão influente sobre a
Revolução americana, ele pontifica “O governo, mesmo em seu melhor
estado (ou expressão), é um mal necessário; no pior caso, intolerável”30.
Voltaremos a essa idéia do Estado como “mal necessário”, que tão auten­
ticamente define o Liberalismo clássico, quando discutirmos as várias
vertentes do Liberalismo moderno.
Cabe citar inteiramente o seguinte trecho, particularmente relevante,
da obra fundamental de Arendt:
Se os casos das revoluções modernas fossem tão claros como uma definição de
livro de texto, a escolha da palavra revolução seria ainda mais intrincada do
que é na realidade. Quando a palavra desceu, pela primeira vez, dos céus e foi
introduzida para descrever o que ocorre na terra entre os homens mortais, apa­
receu claramente como uma metáfora, carregando a noção de algo eterno, ir­
resistível, que sempre toma a voltar, aos movimentos aleatórios, aos altos e baixos
do destino humano — o que foi equiparado ao levantar e pôr do sol, da lua e das
estrelas desde os tempos imemoriais. No século XVII, quando pela primeira vez
encontramo-la como um termo político, o conteúdo metafórico estava ainda mais
próximo do sentido original da palavra, pois era usado para um movimento de
retomo a um ponto qualquer preestabelecido e, tacitamente, como um desvio de
volta a uma ordem pré-ordenada. Assim, a palavra foi usada primeiramente
não quando o que chamamos uma revolução estourou na Inglaterra e Cromwell
subiu ao poder na primeira ditadura revolucionária mas, pelo contrário, em
1660, após a derrubada do Rump Parliament e por ocasião da restauração da
monarquia. Precisamente, no mesmo sentido, foi a palavra usada em 1688, com
os Stuarts expulsos e o poder real transferido para os reis William e Mary. A
Revolução Gloriosa, o acontecimento através do qual, paradoxalmente, o termo
encontrou seu lugar definitivo na linguagem política e histórica, não foi consi­
derada de modo algum uma revolução, mas uma restauração do poder monár­
quico a suaglória e justiça anteriores.
i’0“Government, even in ia best smte, is but a necessary evil; tn ics wwst state, *n intulemble mu".
A citação sc encontra num artigo dc Roberto Campos, na tolha dc 27 X.95.

ao contrário. Descobrimos essa idéia nas palavras de Robespierre: “Tout a changé dans l'ordre physi­ que. Isso quer dizer que o acontecimento não representava apenas uma rebeli­ ão. é sim­ plesmente instrumento. um motim.NNA A idéia absolutamente nova de direitos que são inalienáveis surgiria então. de que é tragado pela inelutabilidade de acontecimentos incontrolávcis. Nesta. Essa nova conotação de algo irresistível. os observadores tiveram a sensação perfeita de que o homem é senhor de seu destino. outro elemento conspícuo aparece na noção moderna de Revolução: é o de irresistibilidade. senão da Providência divina. regular. à derrota e à restauração dos Bourbons convenceu a todos que o homem é joguete dos acontecimentos — como também pensava Tolstoi. Além da novidade e da violência do ineditismo que Proudhon ia entender como revolution en permanence (idéia que Trotsky faria ressurgir com sua tese de “revolução permanente”). O . pré-ordenado. conforme acentua Arcndt. DE M EIR A 1’ F. et tout doit changer dans l'ordre moral et politique”. às guerras napolcônicas. mas algo irrevogável — algo de fato contra o qual era impotente a vontade do Rei. é registrada na noite momentosa de 14 de julho de 1789 quando. pelo menos de algo misterioso que se chama a História. c'est une révolution!”. com a Revolução francesa. funcionan­ do como as estrelas de maneira completamente independente da influên­ cia humana. nesse particular. A novidade revolu­ cionária está aí relacionada com as imensas transformações ocorridas na concepção filosófica do mundo. no caráter religioso que adquire o fenômeno revolucionário — associado ao mistério da história e ao mistério do des­ tino humano. Esse elemento está também ligado à astronomia. o duque de La Rochefoucauld-Liancourt respondeu: “Sire. mecânico. provocadas pela ‘"revolução” científica.168 J. sua tese de uma diferença essencial entre a Revolução americana e a revolução francesa. . A constatação nos leva a insistir. uma subversão da ordem. Naquela. contra a postura de Arendt. embora servido por suas tropas. produto autentico da Aufltldrung. Sempre acentua Arendt. O choque da desilusão que levou ao bonapartismo. em resposta à pergunta angustiada de Luís XVI sobre o que havia ocorrido na Bastilha. subordinado à noção de movimento fatal num universo newtoniano. imposto pelo “trem da história” e independente da vontade humana.

cujo poder supera nossos humildes dese­ jos. O que transparece nos escritos de Hegel e Marx já está com bastante clareza expresso nos pronunciamentos dos revolucionários franceses. ia ter sobre nosso próprio século. se julgam habilitados a descobrir o segredo desse destino e a prever a rota ferroviária que tomará o trem da história. a ex­ periência mais nova e mais real dos novos tempas inaugurados pela Revo­ lução. Deus das batalhas c da história alimenta seus desígnios que não são apenas inescrutáveis. Sabemos. e o velho Sabaoth do Antigo Testamento. . A partir dc 1848/51. Algo que e a expressão da onipotência de um ccrto deus da história. 150 anos de autoritarismo estatal. e essa nova instância onipotente. inauguram-se. mágicos ou profetas. a força da necessidade histórica. c cujo plano constitui uma metáfora do Ap<x~alipse em que é o homem tragado em sangrento holocausto. qual o efeito calamitoso que a noção de uma transcendência revolucionária irrevogável e. paradigmática”. apenas no sentido que alguns intelectuais. o que anuncia a filosofia de Hegel é um novo Absoluto: do Bon Plaisir do rei ao Ukase inelutável da lei histórica — um processo imanente e irrevogável que os novos profetas procuram interpretar e predizer como autênticos sacerdotes do mistério divino. como augúrios. conceptualmcnte.O E s p ír it o das R k v o l u ç õ e s O “torrent révolutionnaire” de Camille Desmoulins c a *marche de la Révolution” de Robespierre seriam conceptualizados. dores e esperanças. que se levanta para determinar o curso dos acontecimentos. É a partir de 1789 que o Mito da Revolução adquire esse caráter pseudo-religioso de algo que paira acima da própria vontade dos homens. pelas teorias filosóficas historicistas com a noção de “necessidade histórica" — uma noção que é diferente do antigo mito pagão de Destino e de Fatali­ dade. No século XIX não c mais o poder despótico dos reis que tem que ser derrubado. chamado Geist. mas terríveis e opressores. o efeito de liquidar com o pri­ meiro Liberalismo. ou de uma História que é convertida em “história divina. paradoxalmente imanente na história. Contrariando a idéia humanista da Iluminação que postulava o poder glorioso da Razão humana. desde essa época. pela deturpação do conceito de isonomia. no século XIX. O Senhor Deus do Universo. Não foi o Idealismo alemão que influenci­ ou o século XX mas essa filosofia que exprimiu. incidentalmente. em suma. O processo teve. O que ressurge.

com as ditaduras despóticas e opressivas que se estabeleceram na França e na Rússia após seus respectivos movimentos revolucionários. DE M EIR A PENNA A falácia da nova forma. de filosofar é a descri­ ção e compreensão de toda a esfera de ação humana não em termos do homem como ser livre. ditaduras e regimes totalitários. Dir-se-ia que o pêndulo. cujos desastres sangrentos . O . Donde. As Revoluções absolutas deram então início a governos republicanos absolutos. Só o espectador. tipicamente moderna. o que permitiu às Tre­ ze Colônias em revolta escapar das “revoluções nacionais” ou dos “nacionalismos revolucionários” igualitaristas. Arendt enfatiza perfeitamente a interconexão entre a monarquia absoluta francesa. Nesse enredo. incorporando-se no famoso Geist de Hegel — que Hegel pretendeu localizar em seu próprio cérebro paranóico. A história passa a ser um meio de revelação da Verdade. mas como espectador passivo e vítima inocente das leis universais. assinalemos que ela argu­ menta ser a Revolução predeterminada pela natureza do governo que derruba. tal como interpretada por profetas auto-designados — e isso exigiu que as “histórias” parciais se transformassem em “História mundial” ou na “verdadeira História” de Marx. Discutindo esse velho problema que já abordamos no capítulo anterior. A Verdade que se revela progressivamente tinha que se metamorfosear em “espírito do mundo”. balança para o outro extremo como por fatalidade oscilatória. Em França e na Rússia.170 J . A grande pensadora estabelece uma interessante comparação. a problemática do Absoluto não se colocou durante a Revolução americana porque o Absolutismo já havia sido anteriormente derrubado na Inglaterra. a tradição era de monarquia limitada e já existia uma longa prá­ tica de governo democrático local e parlamentar. nesse particular. conclui Arendt. ator e agente. Continuando a análise da obra de Arendt. a Verdade se transforma numa substância histó­ rica. estando levantado num extremo. que é historicista como assinalou Popper. dominavam monarquias absolutas. no final do ato. entre a Revolução americana e a Revolução francesa. Na América. com­ preenderia exatamente o que se passou. bem como a autocracia absoluta dos Tzares.

conside­ rássemos o contraste entre os Absolutistas teóricos e os empiristas práti­ cos. na realidade. é que as revoluções ocorreram dentro de uma tradição que estava fundamentada num acon­ tecimento central — o do aparecimento de Cristo — isto é. Em última análise. o problema elementar de todos os organismos políticos. c'est moi de Luiz XIV) e o Estado na chama­ da democracia totalitária. Num raciocínio que.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 171 enchem a história dos dois últimos séculos. Melhor entendería­ mos o fenômeno do totalitarismo moderno se levássemos em considera­ ção a identidade de essência que existe entre o Estado patrimonialista na monarquia absoluta (L'Etat. descobrimos com surpresa que. um substitutivo plenamente satisfatório para a autoridade secular da pessoa soberana do rei. o Leviatã hobbesiano permanece intangível. não se afasta muito do de Kolakowski — Arendt atribui a origem do mal político. Outra idéia de Arendt que não podemos senáo salientar como indis­ pensável à compreensão de nosso próprio argumento. nesse mesmo reino. durante alguns séculos. lentamente elaborada pelo sólido pragmatismo dos anglo-saxões. da instituição monárquica. a filósofa política aponta para o Absolutismo que cobriu de perplexidades o reino político porque acreditava haver encontrado. ou antes. em sua natureza profunda. É contra esse Absolutismo que o que podería­ mos chamar a democracia liberal empírica e relativa. Mas essa solução do Absolutismo monárquico que as Revoluções não tardariam em desmasca­ rar como uma pseudo-solução só serviram para encobrir. melhor conseguiríamos entender. se er­ gueu. e sofrendo as imperfeições e vio­ lências da terra. Quando examinamos a história da Europa nos últimos séculos e ob­ servamos a fissura causada pelo movimento revolucionário iniciado em fins do século XVIII e que se prolonga até nossos dias. sua profunda instabilidade que é o resultado de alguma falta elementar de autoridade ou de legitimidade na autoridade. entre “direita” e “esquerda”. Sc ao invés de nos atermos à classificação ideológica artificial pro­ movida pelos intelectuais franceses. suíços e neerlandeses. nesse sentido. na nature- . embora possa mudar de cor. a monarquia absoluta e os reis de direito divino não estão tão longe de nós. a dialé­ tica política na tessitura da história do Ocidente moderno. num Absolu­ to que apareceu no tempo histórico como uma realidade mundana sujeita às contingências e relativismos da vida. Com muita finura.

sob o impacto da tradição que procede de Constantino e Carlos Magno. de M eir a P en na za mundana da autoridade absoluta. na forma do cesaropapismo. O. após a Reforma e a ContraReforma. o báculo do Bispo e a espa­ da do Rei perderam de vista foi que Cristo. A separação dos poderes — temporal e espiritual — que surgiu com a desintegração do Império romano após Constantino. à circunstância que essa autoridade como tal se tornara impensável e incxeqüível sem uma espécie qualquer de sanção religiosa. justamente. mas da fonte da lei. O cisma do Oriente reflete. O dualismo foi filosoficamente pensado pelos Santos Padres da Igreja. os aspectos perversos dessa exigência: enquanto o Basileus constantinopolitano assumiu. o Papa romano passou a reivindicar as próprias prerrogativas de César. Tal foi a autoridade “temporal” que. O pro­ blema da ideologia no totalitarismo nacional-socialista do Estado-nação soberano de nossos dias ainda resulta dessa contaminação envenenadora do corpo político. muito clara e especificamente. Entrou assim em con­ flito com o Imperador do Santo Império até o momento em que entraria diretamente em rota de colisão com o Estado leigo. Fonte e origem também do Carisma que deveria conceder legitimidade aos poderes exis­ tentes. Satana. Esse descaminho encheu toda a história da Idade Média e. ao ser tentado pelo diabo no deserto. O que ambos. obrigando também a Igreja a assumir ou tentar assumir poderes políticos. implícita na Epístola aos Romanos de S. em outras palavras. teve como resultado a santificação do poder temporal (os “reis pela Graça de Deus”. E uma vez que era tarefa da Revolução estabelecer uma nova autoridade secular. durante mil c quinhentos anos.172 J. a simbologia do Cristo pantocrator. com agudeza sem paralelo. . arrebentou como o tumor maligno da Idade moderna. não podia senão pôr em relevo. o velho problema não da lei e do poder em si. Papado e Monarquia. transformando-se em Pontifex Maximus. Agostinho. Paulo) em franca contradição coni o espírito do Cristianismo. O Absolutismo monárquico foi. da origem transcendente da autori­ dade que deveria consagrar a legalidade de leis positivas. gritara vade retro. Preeminentemente por Sto. teve sua legitimação e governou o Ocidente até o século XVIII. legitimado pelo absolutismo do poder espiritual que a Igreja a si própria atribuía.

embora tenham fe­ rozmente lutado por sua independência em conexão com a conquista das liberdades democráticas. em suas raízes municipais. a Bélgica. não registram Revoluções no sentido estrito da palavra. foi o que Harrington. alimento e a reprodução da espécie. proposta pelos historicistas hegelianos. como a Suíça. esses países são ainda hoje monarquias. As nações certamente mais democráticas do continente. em nossa tristeza. A Questão Social apareceu na mente de Robespierre quando le* vantou o problema do mais irrefragável de todos os títulos: as Necessida­ des dos sans-culottes de roupa. no governo da comunidade a partir do município (township). com exceção da Suíça. no contexto do fenômeno revolucionário. da deliberação e de tomar decisões. encontrou uma contrapartida adequada na Necessidade a que toda vida humana está sujeita. como ocorreu na América. do que naqueles em que as revoluções foram vitoriosas. quaisquer que tenham sido as circunstâncias ultrajantes dos poderes exis­ tentes. A transformação dos direitos do homem — noção abstrata — cm direitos concretos dos sans-culottes constituiu o ponto culminante da Revolução. o que assegurou o sucesso da democracia em suasgrass roots. Essa atenção política pragmática na participação popular contrasta fortemente com o caráter puramente teorético dos philosophes e hotnmes de lettres centralizadores que fizeram a Revolução francesa. o filósofo político da época cromwelliana. Esse ponto de vista da pensadora americana pode ser empiricamente comprovado na Europa ocidental. chamava “o mundo e o interesse público da liberdade”. Cabe notar que. A Necessidade do pro* cesso histórico. Insiste ainda a autora que foi a participação das homens nos negócios públicos. No segundo capítulo de sua obra.O E s p ír it o das R h v o l u ç ó e s 173 Ora. E era essa transformação que seria filosoficamente conceptualizada por Kari . O que ali trouxe os homens uns para junto dos outros. adverte-nos Arendt que também sabemos. trata Hannah Arendt da Questão Social. e que existem mais liberdades civis mesmo nos países onde a Revolução jòi vencida. os Países Baixos e as nações escandinavas. movidos não apenas por seu interes­ se mas pelo prazer da discussão. que a liberdade tem sido melhor preservada nos países onde nunca houve uma revolu­ ção.

Não se referia à ordem social. O que ela quer dizer é que. A importância do Marxismo foi haver proposto a tese de que a pobreza ela própria é política. ao passo que a população branca americana era composta quase que exclusivamente de classe média. permito-me fazer referência às minhas próprias obras. O postulado de Arendt é tanto mais notável quanto sabemos que havia escravidão nas . Essa idéia não havia ocorrido antes senão na última fase da ditadura de Robespierre e no pensamento de Gracchus Babeuf. politicamente. O problema então colocado. St. “Les maIheurtux sont la puissance de la tem ”. Não é um fenômeno natural mas o resultado da violência. A fórmula fez fortu­ na. O . no apelo de rebeldia frenética das mi­ norias discriminadas: Debout les damnés de la tem ! Sobre esse tema. permaneciam fortíssimos contrastes entre o modo de vida dos aristocratas e o do povo miúdo de Paris. a qual levantou a Questão So­ cial (Robespierre. A Ideologia do Século XX e Opção Preferencial pela Riqueza. Babeuf). era puramente político. ou seja. embora fosse a França então o país mais rico do mundo. Just. a questão social não perturbou os revolucionários america­ nos. como o resultado da pobreza das massas necessitadas que se rebelam em nome de sua própria Liberdade. Marx foi o teorizador da Liberdade (coletiva) diante das ditados da Necessidade. Se a pobreza e a liberdade são incompatíveis. trato da incidência do conceito de Necessidade sobre as posturas da Igreja atual. gritara St. a causa da Revolução passou a ser interpretada. Just. Livrar-se da Necessidade (jreedomfrom want) seria a expressão dessa nova perspectiva social e política. não era social. É cia que daria tão tremendo impacto ao movimento revolucioná­ rio de nosso século. mas à forma de governo. d e M e ir a P e n n a Marx. Arendt chega à conclusão definitiva de que o motivo do sucesso da Revolução americana e do fracasso da Revolução francesa reside na circunstância de que a condição lamentável de miséria popular estava ausente do cenário americano. Discutindo então a dialética da Liberdade e da Necessida­ de a partir da Revolução dos sans-culottes. Nessa última. da opressão e da exploração. mas não do fran­ cês. Ela renasceu em nosso século. Por isso.174 J.

permanentemente sofremos do fãto de serem as classes abastadas fortemente minoritárias. A massa dos homens remediados excedia. Essa situação da América do Norte é totalmente diferente da que. fez sua revolução política e entrou na Revolução industrial em condições de relativo equilíbrio sócio-econômico.850. Sc ela lembra a abjeta e degradante miséria dos negros. reinava no Brasil.000 brancos. aliás. a Suíça e os Países Baixos por exemplo. conquis­ tou a independência. de muito. O sucesso da experiência se pode atribuir ao predomínio numérico constante das ricos ou remediados sobre os pobres. os Estados Unidos foram a única nação que. Podemos acrescentar. Caribe e Ásia oriental. é preciso reconhecer que mesmo os escravos tinham o que comer. O fato real que a Revolução americana não constituiu uma revolução social.u çô k s 175 Treze Colónias. c hoje universalmente reconhecido. possuí­ am “casa. não tbi uma stasis no sentido grego da palavra. no momento da Independência. uns quatnxentas mil escra­ vos para uma população de. . Eram todos países relativamente homogêneas onde a Questão Social não perturbou a política. l")esdc então. todos eles protestantes. no momento da Independência.O K sríR rro d a s R k v o i . No caso dos Estados Unidos. principalmente os da Espanha — luta áspera em que se notabilizaram os príncipes da casa de QrangeNassau. nas lutas contra as Casas d'Áustria e de Borgonha. mais tarde (depois da Abolição). por circunstâncias especiais que não é o caso de discutir. 1. onde o número de escra­ vas era superior ao de homens livres. que em condições semelhantes vingaram os pequenos países da Europa ocidental. roupa e o direito à reprodução de sua espécie”. a daqueles que. mais recentemente. aproximadamente. simultaneamente. o que lhes permitiu conceder os recursos educacionais e de assis­ tência social para facilitar sua mobilidade vertical num ambiente de livre concorrência. o paradoxo da tese de Hannah Arendt é que havia. iam constituir as classes pobres americanas — classes que seriam reforçadas por imigrantes pobres procedentes da Irlan­ da. da América Central. que também são hoje ricas democracias e não conhece­ ram “revoluções’'’ em sua história. Os Países Baixos fizeram a sua “revolução” na luta contra os Habsburgos católicos. A independência c democratização dos cantões helvéticos datam dos séculos XIII e XIV. da Europa meridional e oriental c. Em outras palavras.

justiça. podemos salientar que o impacto da tese de Arendt resulta de sua postura crítica em relação ideia de que a abun­ dância — ou seja o Desenvolvimento — possa ser o objetivo da Revolu­ ção. que rompe com o sentimento de comunhão com o grupo. Podemos associar o nome de Hannah Arendt aos modernos teorizadores do que se chama a “sociedade de massa”. E conclui magistralmente: “K possível hoje afirmar que nada pode ser mais obsoleto do que tentar libertar a humanidade da mi­ séria por meios políticos. Essas desigualdades levam à . Não so pode conceber uma dermxracia que assegure a liberdade tora de uma ordem legal e sóli­ da disciplina social. HK M h tR A 1‘ lNN A sendo difícil corrigir a situação cm face da explosão demográfica. extraída dos Pais de Pátria americanos e de Tocqueville. Na terceira fase. Na segunda. inclusive França. A aceitação do pluralismo implica o reconhecimento das desigualdades inatas entre os homens. pluralista e tolerante. A posição é fundamentalmente conservadora. cm conseqüência da atomização. Na primeira. segurança. nada pode ser mais fútil e perigoso". igualdade perante a lei. Ela insiste: este objetivo deve ser a institucionalização política da Liberdade. A análise de Arendt sobre o Behemoth na sociedade de massas pressupõe uma evolução cm trés táscs. onde o equilíbrio econômico so foi alcançado neste século. O indivíduo sc perde na comunhão nacional e social. A Revolução deverá terminar. Diga-se ainda que o privilegio americano e também notável em confronto com a estrutura social nas grandes nações européias. que propõe a aceitação da variedade de opiniões livremente expressas como condição da democracia estável. ocorre uma crescente “atomização” do indivíduo. H essa busca de nova comunidade harmônica que provoca a sedução pelas lideranças populistas c carismáti­ cas. Arendt é um dos pensa­ dores que obedecem i filosofia realista. poder. registra-se a ascensão do totalitarismo. etc. o indivíduo sc sente disponível para abraçar novas ideologias que lhe prometem uma comunhão renovada num ideal mais alto de glória. O . Inglaterra e Alemanha. como terminou a Americana. No final deste argumento. na Constituição.176 I. submctcndo-sc de bom grado ao líder c à dite do partido totalitário.

típicos da vida fora d i polis. ordenar ao invés dc persuadir. sáo sobretudo os membros socialmen­ te desenraizados e desligados. Arcndt dc certo modo antecipou a maneira como o neoliberalismo tem triunfado nestes últimas anas. num trecho dc sua obra sobre A Condição Humana em que reverentemente evoca o conceito antigo c eterno de liberdade: “O ser político.O E-SflRITO DAS RHVOUIÇÒBS 177 formação dc grupos. pertencendo a todas as classes.. assim como por sua defesa intransigente da tole­ rância c do pluralismo dc opinião. Stálinc. não obstante suas ambigüidades mas por haver feito elaramente a distinção entre o reino do que é público e o reino do que é privado. caracte­ rísticos do lar e da vida cm família. na qual o chcfe da casa imperava com poderes incontcstes c despóticos”31. aqueles que Marx definia como constituindo o Lumpen. É cia ao mesmo tempo. Lêninc. Himmlcr. Entre os grandes analistas da conversão da sociedade dc massa em democracia totalitária podemos assim colocar Hannah Arcndt cm posição dc destaque. assim como expressão dc opiniões divergentes quanto «t organização política da s<xiedadc.. . um dos mais relevantes pensadores liberais do século.. que apoiam primei­ ro e em maior número os movimentos totalitários. Como escreveu Kornhauscn. . graças à “revolução dc veludo” dc 1989. uns mais influentes e poderosos do que outros.. c não através da violência. num Estado nacional-socialista. significava que tudo cra decidido mediante palavras c persuasão. A fim dc evitar a queda no igualitarismo artificial c na uniformização violenta das opiniões. Como intclcctuais marginais que se transformaram cm Hderes ativistas c terroristas c converteram a sociedade dc massa cm massacres em massa. é necessário organizar dc forma legal c hierárquica as divergências e desi­ gualdades. eram modos pré-políticas dc lidar com as pessoas. podemos citar Hitlcr.. *' Arcndt infelitmente enquecc •«>rte de Sdcrtte*. Mao Dzedong e Polpot. Para cxs gregas. Isso pressupõe que os intelec­ tuais sem raizes os membros marginais da classe média. o viver numa polis. forçar alguém mediante violência. os trabalhadores indus­ triais e agrícolas isolados são aqueles que constituem os tipos sociaissignificativos em movimentos totalitários.

de um ponto de vista histórico. a exercer influência sobre o pensamento revolucionário? Quais as idéias que exprimiram a tensão mórbida. Marx. do colonialismo. na Segunda Parte desta obra. os Estados Unidos e as pequenas nações ocidentais de um ominoso comprometimento no coletivismo totalitário que as desafiava. o fenômeno cultural conhecido como Iluminação — o 32 Parte do texto deste capítulo constou de uma publicação da Escola Superior de Guerra. triunfaram pouco a pouco nos países mais avançados da Europa. na política. Receitas maniqueístas. FILOSOFIA DA REVOLUÇÃO MUNDIAL32 S ob influência dos filósofos absolutistas e autoritários. A análise desse recuo e posterior renas­ cimento será abordada. O Espírito da Revolução se reacendeu com virulência feroz. Quais as tendências que vieram. a agitação esquizofrênica da alma moderna? Atravessamos. os tempos de universali­ zação da Revolução industrial. Comte e uma pletora de epígonos contaminados por essa magia negra da política que é a Ideologia — o Liberalismo recuou a partir da segunda metade do século XIX. de 1966. do desenvolvimento científico e tecnológi­ co acelerado. Estan­ cou. sob o título A Revolução Aím utial.8. imperialismo e descolonização — tudo contribuía para deter o otimismo liberal que surgira em fins do século XVIII. . então. Hegel. A sociedade carcerária estava em vias de ser inaugurada. estendendose ao terreno das relações internacionais e provocando as guerras mais sangrentas e destruidoras da história. dos conflitos bélicos mundiais entre Estados-nação sobera­ nos. mal preservando a Grã-Bretanha. em nosso século. crescentemente nacionalistas e socializantes.

numa comunhão essencial. com as universitários de Berkeley e Columbia. partindo do cogito cartesiano. na Rússia. por conver­ são dialética. Nessa situação. que exerceu sua ação sobre o impulso revolucionário mundial e válida será uma tentativa de orientação sobre seu embasamento filosófico. brasileiros e o que for. Façamos pois uma análise metódica das tendências espirituais de subversão no mundo. mar­ chou com os Guardas Vermelhos da Revolução Cultural maoísta. japoneses. peruanos. se con­ substanciaram no “totalitarismo da Razão” de Hegel o qual. desencadeou as forças mais irracionais que o mundo jamais conheceu. vieram terminar nos fenômenos anárquicos que se manifestaram particularmente entre a juventude — a que se lançou patriótica e entusiasticamente. em nosso próprio século. transformadas nas expectativas da “utopia concreta” de todos os movimentos milenaristas de nossa época. através do gnosticismo erótico e romântico de Rousseau. As heresias da Fé que. turcos. da ameaça da guerra nuclear. argentinos. cabe-nos examinar o pensamento multiforme. com as da Sorbonne no cbicnlit de maio de 68 na rive gauebe parisiense. As heresias do Amor que. ao tempo do Gulag. dinamarqueses. quase todo pseudo-religioso e absolutista. ao massacre mútuo nas trincheiras. alemães. da massificação do homem e dos contrastes aberrantes de luxo e miséria que deram um tom apocalíptico aos dias que correm. as heresias da Esperança. em agosto de 1914. Com isso atingimos. com outras centenas de milhões dc vítimas. e a que. em 1968/70. E. mexicanos. c nos movimentas fascistas das décadas dc 20 c 30 em toda a Europa. do Estado to­ talitário. . considerado na perspectiva de uma secularização radical da mensagem cristã. e com as guerrilheiros e terroristas árabes. finalmente. cubanos.O E spírito das R ev o l u ç õ e s 179 Siècle des Lumières ou Aufklärung. Nunca Leviatã e Behemoth se arvoraram em monstros tão ameaçadores para a própria sobrevivência da sociedade ocidental e da liberdade no mundo. consteladas em torno de três grupos principais dc “heresias”. sob qualquer tbrma ou ideo­ logia — inscrevendo-se com ardor incomparável no espasmo revolucio­ nário de 1917.

nos será facultado o privilégio de transcender o determinismo e alcançar a uma compreensão “real” da necessidade histórica. com enorme energia e paciência. onde procuro analisar o mecanismo de convicção mágica. é de uma Gnose. . tinha conhecimento perfeito — e aquilo que considerava a mera “aparência de existência”. Ela se refere à “superestrutura” mental gerada pela base econômica e classista da sociedade. A nossa consciência é falsa. edição. O mais ilustre desses pa* * w Vide minha obra A Ideologia do Século XX. evidentemente.180 J. 2a. Há um absoluto relarivismo da verdade. no Brasil. DE MEIRA PENNA Marx Com o intuito de realizar a sua grande façanha de alquimia filosófica. em qual caso. Marx. O de que se necessita. mas só pela leitura das Escrituras marxistas (a Vulgata. em suma. 1994. durou até Jânio e Goulart. mas não explicava como ele próprio. IL/Nórdica Editora. de cujo deplorávd reflexo foi. de Marx. evidentemente. Dessa grande intuição marxista derivou a teoria da Ideologia33 . Ela é determinada por aquelas forças de produção — a não ser. o trabalho dos intelectuais do ISEB34. Engels afirmava que a liberdade consiste em reconhe­ cer a necessidade. recorrera Marx à mesma distinção estabelecida por Hegel entre “realidade”. Foi fechado pelos militares em 1964. Engels e seus epígonos — tem as opi­ niões de sua classe. Marx construiu assim uma psicologia muito especial. presidido pelos interes­ ses econômicos de tal maneira que só o intelectual de esquerda é capaz de transcender esse relativismo pelo conhecimento direto e imediato das “realidades” (Wirklichkeiten) dialéticas subjacentes. para nossa sublime felicidade. W irklichkeit — ou seja. Uma conhecida ex­ pressão da teoria da ideologia encontra-se na “sociologia do conhecimen­ to”. como as chamava Raymond Aron) em atitude reverenciai. que nos tenhamos abalado. Engels. 34 Instituto Superior de Estudos Brasileiros. podia ser ao mesmo tempo industrial capitalista e reconhecer a necessidade do so­ cialismo. O . fundado na cpoca de Kubitschek. obra aliás muito interessante de Karl Manheim. as forças de produção de cujo íntimo funcionamento só ele. alienada. Entre estes. A intuição reveladora será concedida. desprovida de qual­ quer significado profundo. o professor Álvaro Vieira Pinto. Cada qual — com exceção. Dasein. a ler as duas mil páginas de Das Kapital. ilusória. notadamente.

Mário Vieira de Mello des­ creveu pitorescamente o que ocorre. Em sua obra Desenvolvimento e Cultura. e. lógico e moral. Ele compara o debate com marxistas com as tentativas patéticas de nossa parte de promover contatos imediatos do IIo grau com marcianos — os quais se comportarão como se fôssemos mentecaptos incapazes até mesmo de formularmos idéias. a lava­ gem craniana ou a manipulação da verdade histórica ou da verdade dos fatos segundo as conveniências circunstanciais e maquiavélicas do Parti­ do. o jogo dia­ lético que estabelece uma confusão inextricável entre a teoria e apraxis — tudo isso é o mais poderoso instrumento de controvérsia e convicção hipnótica que o despotismo jamais inventou para submeter a alma humana. E interessante notar que a Esco­ la Superior de Guerra. K. de acordo com a qual os propósitos da revolução são mais importantes do que quaisquer normas cticas ou . A técnica do double-think. das mesmas deturpações.O E spírito das R ev o l u ç õ e s 181 redros. a gigantesca tessitura invisível da propaganda. aliciando a lealdade dos ingênuos e inocentes úteis. adotou o binômio “Segurança e Desenvolvimento”. Vieira Pinto estava empenhado em criar. ou seja. Devemos considerar que a teoria de que existe mais de um padrão de verdade e de que os leitores de Das Kapital atingiram a um nível mais alto para o conhecimento da verdadeira realidade requer exame segundo um método de psiquiatria aplicada. A ideologia fornece os meios psicológicos graças aos quais o tirano e o líder dema­ gógico são capazes de cindir a consciência coletiva — no que Arthur Koestler chamou de “esquizofrenia controlada”. acima de tudo. uma “ideologia do desenvolvimento” destinada a resis­ tir e superar o “imperialismo americano”. no princípio do período militar. pela “inexorabilidade das leis históricas”. a formação de imagens adrede preparadas com a repetição monótona... do duplo-pensar na NoviUngua. das mesmas inverdades. em benefício do Piano de Metas de }. ao mundo terrível que George Orwell descreveu na grande novela 1984. ou pen­ samento segundo um duplo critério contraditório. Embora não seja aqui o lugar para considerar a psicopatologia da controvérsia ideológica nos regimes ditatoriais. ad nauseam. O mundo do pensamento que o marxis­ mo gerou conduz de fato.. dos mesmos slogans. devemos salientar o fàio de que a teoria marxista da ideologia.

Durante cinqüenta anos fomos condicionados por esse processo e não é de admirar que. estendem-se como uma epidemia — pseudodoxia epidêmica — tanto mais convincente e consistente quando age nas camadas abissais do Inconsciente coletivo. E uma espécie de demô­ nio intelectual que empolga e possui o paciente. graças a essa dis­ creta falta de precisão semântica. uma grande porção. É fácil de compreender como. um complexo do Ego que lê e compreende corretamente a verdade objetiva de um acontecimen­ to particular. pouco a pouco. estudada entre outros por Jung. na Rússia. pode a mentira insinuar-se insidiosa­ mente entre a realidade objetiva percebida pelos sentidos e a verdade subjetiva do preconceito ideológico. A dialética marxista de controle do pensamento encontrou aparente­ mente. A fraude e a impostura principiam conscientemente mas depois. Em outras palavras. aquilo que é verdadeiro e aquilo que deveria ser verdadeiro de conformidade com um critério de valor. Cria-se um outro complexo que segue. Temos o exemplo espantoso de Cuba onde há quase quarenta anos Fidel Castro está sodomizando a população inteira da ilha. simultaneamente. Uma ilustração interes­ sante dessa menor capacidade de resistência ao erro induzido encontra-se na palavra pravda. seus próprios pensamentos. Pmvda quer dizer. um terreno de predisposição. refere-se o termo. sob efeito da sugestão induzida pela propaganda. à realidade e à justiça de um fato — duas perspectivas que não são. O manipulador torna-se um “incubo ideológico”. O . Mas eis o supremo prodígio. A mentira patológica que resultou dessa técnica é bem conhecida da psiquiatria.182 J. E a pseudologia fantástica dos histéricos. particularmente suges­ tionáveis de nossa opinião pública continue manobrada como títeres pelos provedores dos slogans ideológicos. mesmo neste final de século. neces­ sariamente. o povo russo se deu conta. Cria-se. A sombra é. compatíveis. na consciência cindida. inconscientemente. DE MEIRA PENNA quaisquer critérios absolutos de lógica e verdade. Após setenta anos de constante e permanente “indoutrinação” subliminar. que havia vivido todo esse tempo . subitamente. Kafka anunciou que a mentira se tornou a ordem universal. estabeleceu a base teóri­ ca para as técnicas notórias de controle mental em que o mundo moderno se tem notabilizado. alimentada do lado de fora por quem quer que esteja manipulando os cordões. autonomamente. ao mesmo tempo.

o Estado como Estado”. Marx escrevia. Ao fazê-lo. o que sem­ pre ocorreu até agora. inexoravelmente. os conflitos e excessos que disso resultavam. para começar. O respeito supersticioso ao E$tado é atacado sob todos seus matizes. o amigo. o prodigioso edifício mental de falácia enganosa desabou. um Estado deixa de ser necessário”.O E spír ito das R ev o l u ç õ e s 183 sob uma superestrutura intelectual mentirosa. cit. o triunfo do proletariado e este o fim da luta de classes. A dialética da luta de classes traria. a propósito da Comuna parisiense. antes de tudo. o domínio cm que a verdade eterna e a justiça se realizam”. Na verdade. e sendo assim nada mais há a reprimir e um poder especial de repressão. ao mesmo tempo. como tal. convicto: “Afirmo que a revolução em França deve. Já no fim da vida. ele se destrói a si próprio como proletariado. Engels postulou que “o proletariado conquista o poder do Estado e. mas esfacelá-la”. Em seu Prefácio de 1891 à obra de Marx A Guerra Civil em França (a revolta da “Comuna” em 1871). e “tornando-se o representante efetivo da sociedade inteira. o reino de Deus na terra em sua linguagem filosófica. vencendo a Revolução dos proletários que suprimem com sua vitória a luta de classes. em uma carta de 1871 a um amigo. transforma os meios de produção em propriedade do Estado. Marx gerou a dinamite contraditória quando prometeu para muito breve o desaparecimento do Estado. uma obra fundamental para todos os marxistas. Bertrand de Jouvenel (op. não fazer passar a máquina burocrática e militar para outras mãos. extingue os antagonismos de classe e. Kugelman. Comentando esse trecho.) considera que ele bem merece sua celebridade pelo vigor do pensamento e a clareza de expressão. donde o fim do Estado que só existe como instrumento da opressão de uma classe por outra. Mas de tal modo que. padrinho e colaborador de Marx explica que o Es­ tado é a síntese ou representação oficial da sociedade inteira mas. ele próprio (o proletariado) se torna supérfluo. depois de sua querela de . Da noite para o dia. uma organização de classe destinada a sustentar os opressores contra os oprimidos e explorados. E continuando com o mesmo argumento. Engels também se dedica à crítica irônica e raivosa dc Hegel no que diz respeito à sua deificação do Estado como “a realização da Idéia. Mais pormenorizada e claramente e sem qualquer possibilidade de má interpretação em seu Anti-Dühring. do mesmo modo como a soberania da antiga anarquia de produção.

já macróbio pois nasci no ano em que se encerrava a mais sangrenta batalha (Verdun) e se iniciava a mais tenebrosa experiência revolucionária da história (a revolução bolchevista). O . Com grande mágoa dos reacionários. e que assisti in-loco. Eu. segundo se sabe. preciso e lógico. na adolescência.. injusta e desumana” que já houve. 35 Dois deputados do PT abriram recentemente (maio 1996) polêmica em torno do pro­ blema da Globalização. se estabelece um intercâmbio universal. se estejam processando como se fosse uma “revolução de veludo” (nas palavras do presidente Havei). admira-me que a líder de um Partido que nunca negou suas origens marxistas. argumentou incoerentemente. As antigas indústrias nacionais foram destruídas. ao mesmo tempo. mas. na Asia e Europa da década dos 40. para sua satisfação. por indústrias que já não empregam matérias-primas oriundas das regiões mais lon­ gínquas do mundo. quando se defrontaram em embate mortal as duas mais hodientas ideologias despóticas que hajam flagelado a humanidade. acompanhei os acontecimento dos anos terrí­ veis da década dos 30. Marx se tornou um internacionalista ferrenho e um dos primeiros antecipadores do que hoje se chama a “globalização”35. uma interdependência univer­ sal das nações”. o que me parece realmente extraordinário é que transformações tão consideráveis em benefício da pacificação do mundo e do triunfo da Liberdade. A líder do PT na Câmara. que é uma ameaça apocalíptica aos interesses do povo e um desastre real pelas suas consequências já sensíveis: o desemprego e a miséria. Essa ilustre parlamentar é pouco conhecedora aliás das teses de Marx que inspi­ ram o partido. uma perspectiva errônea. teriam causado milhões de mortes e a ameaça da destruição nuclear do planeta — acho completa­ mente irrealista a monstruosa afirmação sibilina que “nossa época é a mais conturbada. Quero ainda citar trechos relevantes de um artigo de Marx para o jornal . uma ilusão falsa. A verdade é que. acusou seu colega José Genoíno de estar mergulhado no que ela descreveu como “o mito da direita” que é a Glo­ balização. Além disso. No lugar das antigas necessidades. a burguesia tem dado um caráter cosmopolita à produção e ao consumo de todos os países. São suplantadas por outras indústrias cuja introdução se converte em questão vital para todas as nações civiliza­ das. No lugar do antigo isolamento e da autarquia das regiões c nações. em seu sentido político e económico. no princípio de sua tirada colérica. satisfeitas com produtos nacionais. episódios das guerras e revoluções que. no final da mesma. que. no emaranhado das florestas matogrossenses. indústrias cujos produtos não só se consomem no próprio país mas em todas as partes do mundo. DE MEIRA PENNA mocidade com o economista alemão nacionalista Friedrich List. quando constatou a já então inexorável globali­ zação econômica e cultural do mundo: “Mediante a exploração do mercado mundial..184 J. que a Globalização é um “mito”. talvez mesmo adolescente. Acredito também que a Senhora Starling deve ser muito moça. produtos dos países mais afastados e clientes mais diversos. Sandra Starling. surgem necessidades novas que reclamam. ignore as seguintes palavras de Marx M anifesto Comunista de 1848. Pelo contrário. ninguém é obrigado a ler Descartes e manter um argumento claro. ela puxou de sob os pés da indústria a base nacional onde se sustentava. pois sua experiência da história é eviden­ temente curta.

que proclama enfaticamente a irreversibilidade do fenômeno dc globalização na “economia burguesa". muito próxima na sua postura dos ultra-nacionalistas da ltnha-dura militar. sociais. dc 8/8/1853: “O período burguês da história é que deve criar a base material para o novo mundo — de um lado. que se firma cm agosto de 1914. na parte enfatizada. e do outro lado. No início do desenvolvi­ mento dessa nova concepção do mundo. pela primeira vez. arregimentados no que se considerava a “direita”. Apenas acentuo que essas palavras que consideram a globalização uma realizade irreversível foram escritas há 150 anos! Obviamente. A indústria e o comércio burgueses criaram essas condições materiais de um novo mundo. o nacionalismo à direita e o socialismo à esquerda entram num relacionamento ambíguo e contraditório que provoca duas guerras mundiais e um inacreditável massacre. . mais apropriadamente.vsc tema escrevi um livro. restaurar o culto dos heróis da história russa c estender extraordinariamente o império. o desenvolvimento dos poderes produtivos do homem e a transformação da produção mate­ rial num domínio científico das agências da natureza. políticos. Sobre c. A Ideologia do Século XX. culturais e econômi­ cos do fenômeno. do mesmo modo como revoluções geológicas criaram a superfície da terra”. Marx c um intemacioiulista.O E spír ito das Re v o l u ç õ e s 185 americano Daily Tribune. absolutistas e nacionalistas. da contradição tampouco escapam os comunistas. Clara também a suspeita que a deputada petista. o intercâmbio universal fundado na dependência mútua da humanidade. se deveria qualificar como “nacKWial-socialismo”. e a constituição d'xs Estados Uni­ dos da América firmou a idéia de uma sociedade livre e aberta ao mundo. Se na Alemanha c cm outros países o “fascismo” procura fundir internamente as duas ideologias colcnvistas naquilo que. com o propósito de criticar o mercantilismo então dominante. Histo­ ricamente. a “globalização” constitui uma problemática que já se desenvolve há mais de 200 ou 300 anos quando Locke. desejo chamar a atenção para a evolução “dialética” que a semân­ tica ideológica sofreu desde o fim da Guerra Fria e derrubada do Império Soviético. em que procurei colocar num esquema tcónvo essa evolução que cobre todos os aspectos fikxsóticos. com sua indignada e ressentida pedra de estilin­ gue contra Genoino e o indigitado “neoliberalismo”. falou em tolerância religiosa c liberdade aplicada ao sistema político. Chamo aqui a atenção. No segundo estágio da evolução. e os meios daquele intercâmbio. foi considerado de esquerda e contra ele resistiram os conservadores. José Gcnoino melhor leu seu Marx que Sandra Starling. “liberalismo antigo”. Adam Smith estendeu a idéia ao campo econômico. se está exprimindo como uma “reacionária”. o liberalismo. Stáline é quem gerou c» “nacmnalsocialismo” soviético ao propor a tese da “primeira pátria do proletariado”. Não quero prosseguir. As citações e os fatos são claros. para o elogio implícito do fenômeno de “dependência”. com a absorção de homens de todas as raças e procedências — e pluribus unum. Ao levantar essa questão. tido como necessário à emergência de um “novo mundo”. “clássico” ou “primeiro liberalismo” como é chamado. enquanto Trotski entra em conflito com seus colegas bolchcvistas porque prega a “revolução permanente” do proletariado internacional.

no atual confronto ideológico. pro­ vocando o fim da organização estatal. d f . da qual seus conselheiros Yakovlev. Hm suma. Aleksandr Prokhanov. repete e ainda mais enfatiza a idéia marxista que a Revolução será o apocalipse da luta de classes. O. e mais particularmente o ideólogo de seu novo partido. O Leninismo ao Marxismo adicio­ nou o elemento de “tecnologia revolucionária”. segue a tradicional preferência brasileira pelo método “jeito” e o “mais ou menos”. . o anti-semitismo. o horror à idéia de uma “nova ordem mundial” e outros elcmcntos caracteristicamcnte “fascistas”. Yegor Gaidar e Andrei Kozyrev são os principais promotores. a xenofobia. as categorias tradicionais de “esquerda” c “direita” não são aplicáveis porque foram subvertidas por uma nova polaridade.. de conformidade com o princípio orwelliano do duplo-pensar. na história. como Na atual conjuntura.M e ir a P e n n a Lênine Wladimir Ilitch Oulianov. uma espécie de soberania autárquica não bem definida. Lênine considerava a ditadura revolucionária.186 J. tanto quanto possível. Todos eles desejam preservar os monopólios e a burocracia estatal. Zyuganov é uma figura interessante porque reune na salada russa de seu programa de governo o nacionalismo. Explica-se por que os elementos mais reacio­ nários da linha-dura militar defendem posições muito próximas dos xiitas do PT. Gennady Zyuganov. cm se adere à tese da globalização liberal irreversível do mundo. Lênine concebeu a frase “ditadura revolucionária democrática” — uma contradição nos termos. A Ditadura do proletariado não significa o poder baseado na lei ou nas eleições. vulgo Lênine. Quanto ao governo do charmoso presidente FHC. o antiamericanismo. o candidato “comunista” nas eleições russas. Explica-se assim a polêmica entre Genoino c Sandra Starling. dita “democrática”. é quem representa a tendência conservadora para o “fechamento” na tradição antiga dos “eslavófilos”. mas na aplicação direta da violên­ cia arbitrária para a solução dos problemas políticos.. dizia Vladimir Ilitch. Em última análise. exceto pela violência”. Yeltsin favorece não somente a solução liberal. ou se é a favor da manutenção da autarquia sob um Estado-nação soberano c interventor na economia. o sistema econômico mercanti­ lista e. Hoje. pendendo para a abertura e o reconhe­ cimento da globalização inevitável. mas a abertura para o Ocidente e a globalização. Outro ele­ mento essencial do Leninismo foi seu apelo à violência: “nem um só problema na luta de classes foi jamais resolvido.

A teoria de Lênine sobre o imperialismo teve o efeito adicional de permitir a conservação do Império tzarista — o último e maior de todos os impérios coloniais. E so­ breviveu enquanto funcionaram o entusiasmo patriótico e o terror policialesco. Do mesmo modo. o mais inteligente e mais violento dos líderes bolchevistas. em sua carreira de revolucionário. Não se preocupava com os problemas legais. uma vez que a Re­ volução devia conduzir. constitucionais ou econômicos. O oportunismo era absoluto. inferior à da Coréia do Sul! Trotsky Lev Davidovitch (Leon Bronstein) Trotsky foi. a crença ingênua de Lênine que qualquer empresa industrial po­ deria ser dirigida pelos operários. deu como resultado a prodigiosa ineficiência do regime.O E spírito das R ev o l u ç õ e s 187 um sistema de “transição”. em vida mesmo do líder. à supressão de todo e qualquer go­ verno. Esperava que seu governo bolchevista fosse apenas um instrumento da Revolução mundial em todo o Ocidente. no momento. quando no exílio. Trotsky herdou-lhe o projeto com sua teoria da “revolução permanente”. um por um. fê-lo perdoar e admirar por muitos intelectuais incautos. mas sua disputa mortal com Stáline e morte em condições dramáticas no México. eis que nada mais seria necessário para sua administração do que o conhecimento das quatro operações. Inici­ almente. A Rússia possui hoje uma população e um PIB menores do que os do Brasil. Quando isso não ocorreu. o slogan “todo o poder aos Soviets” (Soviet = governo de conselho) transformou-se. finalmente. Também permitiu a transição para as teses maoístas. como veremos a seguir. Sua capacidade produtora é também. num governo de um pequeno número de membros do politbureau — antes de cair nas mãos absolutistas de Stáline o qual elimi­ nou meticulosamente. Este só funcionou na manufatura em grande escala de bens de produção e armamento. a ponto de reintroduzir um arremedo de capitalismo em sua Nova Política Econômica (NEP). todos os velhos bolchevistas. manifestou simpatias pela . provavelmente. Final­ mente.

Já em 1904 profetizara que “o grupo de liderança substitui o partido. peio russo Dmitri Volkogonov. propõe um tipo de regime totalitário exatamente igual àquele que. da qual participou ativamente. não se submetiam facilmente ao argumento de que era ne­ cessário. no entanto. foi tam­ bém no cargo de Comissário para os Negócios Militares o virtual organi­ zador do Exército Vermelho e principal responsável pela vitória dos Vermelhos na Guerra Civil dos anos 1918/21. ia dominar a Rússia. que lhe dava preeminência sobre o nacionalismo russosoviético. Pouco afeito às intrigas internas do Partido. Volkogonov o considera “um dos arqui­ tetos do sistema soviético. O . DE MEIRA PENNA socialdemocracia dos menchevistas e interesses literários. sustentar os interesses da Rússia soviética. finalmente. o ditador se substitui ao Comitê Central”. possuía presumivelmen­ te menos laços emocionais com a Rússia e o nacionalismo eslavófilo. O livro que publicou em 1921. inicialmente. por motivos nacionalistas. que se aproveita dos arquivos do Kremlin. A doutrina da “Revolução permanente” internacional. Maupassant e Tolstoy. e. sua perspectiva era mais universalista e. Na verdade ele alimentava dú­ vidas quanto às possibilidades democráticas da “ditadura do proletariado’' proposta por Lênine. Basicamente. escrevendo so­ bre Nietzsche. como fica demonstrado nos três volumes da obra apologética de Isaac Deutscher a seu respeito e na biografia mais recente. Bom orador. possuía uma visão mais larga do mundo e do fenômeno revolucionário. A Defesa do Terrorismo. depois o Comitê Central substitui o grupo de lideran­ ça.188 J. Mas como conhecia bem a Europa e viveu alguns meses nos Estados Unidos. antes de pensar em aventuras externas. Converteuse. Gradualmente forçado a aban­ . Bukharin e Stáline o afastou da sucessão. Kamenev. inteiramente à idéia de ditadura pessoal do proletariado depois da Revolução de 1917. Trotsky foi acusado de simpatias socialdemocratas e vocação menchevista. antes de mais nada. Obviamente. perdendo a parada depois da morte de Lênine em 1924: uma aliança de Zinoviev. sua tese era que devia a Rússia servir de instrumento para a Revolução Mundial — o que iria contrariar a doutrina mais correta de seu rival Stáline de que se devia. sob a liderança homicida de Stáline. como judeu. edificar a “primeira pátria do proletariado”. tomou-se assim o fundamento do trotskismo — angariando naturalmente as simpatias daqueles revolucionários que. totalitário/burocrático”. Ibsen.

Na esparrela dessa identificarão trotskista do movimento da Solidariedade polaca com o PT caiu nosso próprio SNI: ocu­ pando então a embaixada em Varsóvia. ao dirigir o Departamento Cultural do Itamaraty. No fundo. terminou melancolicamente a vida com uma picareta no crânio.. quando este partido se organizou. Walensa nada tinha de trotskista. pespegada por um agente de Stálinc que sc introduzira em sua intimidade (1940). sustentado por aqueles a quem repugnava a idéia de receber ordens de uma potência estrangeira. tive enfãticamcntc de repudiar um relatório do Itamaraty a respeito da situação polonesa. Não duvido. Nos anos 80. que muitos dos métodos ilegais e violentos de ação da CUT e do Movimento das Sem Terra parecem obedecer às doutrinas terroristas propugnadas por Trotsky. Nos anas 50. a luta de clas­ 16 Sempre me admirei com a seriedade com que muitxxs brasileiros de esquerda levaram a serio essas divergências ideológicas bizantinas. Qual não foi minha surpresa ao tomar conhecimento de que o motivo era apenas sef Afonso trotskista e Oscar estalinista. atribuindo-a à natural rivalidade profissional. Moo Dzedorig Na concepção marxista-leninista das relações internacionais.. dizia-se que era trotskista e se alegava. Foi o caso de nosso PT. a querela mortal pelo poder entre os dois principais discípulos de Lênine sempre foi mais relevante do que quaisquer divergências doutrinárias. mas foi repudiado pelo mesmo. Católico. nacionalista. antirusso c anti-comunista.O E s p ír it o das R evo luçõ es 189 donar suas posições de poder e exilar-se. parcialmente inspirado em inf'orma<. oriunda da teoria do Imperialismo que prosperou a partir de 1945. Na década dos 80. entretanto. Na farsa de Orwell sobre a Revolução dos Bichos. O trotskismo sobreviveu até nossos dias. erroneamente. Na obra monumental e definitiva de Kolakowski sobre as Prin­ cipais Correntes do Marxismo podemos encontrar uma análise pormeno­ rizada dessa forma revolucionárias mais radical. Luís Ignácio Lula da Silva pensou identificar seu partido com a Solidmmósti do líder operário polonês Walensa. me intrigava a inimizade entre dois dos mais notáveis arquitetos brasileiros. a briga dos dois porcos parodia esse episódio central na história da revolução comunista.'ões errónea* fornecidas por aquela agência governamental . que mantinha relacionamento com o Movimento de Solidariedade na Polônia36.

do outro lado. nações da Europa (Kidental c America do Norte vivendo num estado de parasitismo internacional — que repre­ sentam a classe burguesa exploradora. “o poder político é gerado no cano de um fuzil”. iMas na aplicação da tese pelo marxismo-Ieninismo adaptado ao ambiente chinés. representada pelos terroristas e guerrilheiros da Ação Popular ou do MR-8. e tomara atitudes suspeitas de entendimento com o imperialismo euro-americano. o mundo moderno é contemplado sob a forma de um conflito dc proporções gi­ gantescas entre o Ocidente industrializado. de um lado. A .. O . para os quais.190 J. uma vez que a Rússia soviética já se enriquecera e industriali­ zara o suficiente. anterior á Guerra. A linha chinesa colocou-se então.. tendentes a resolver o conflito por meios pacíficos e Irgak — até a posição radical da esquerda revolucionária. Essa. inicialmente capitaneada pela URSS. Eram chamadas as nações que “possuem”: have nations. e a massa imensa das nações dos três continentes — o Terceiro Mundo — que se deveria unir sob liderança marxista. já germinara na teoria do Lebensraum do fascismo e do nazismo. nações pobres que representam o proletariado internacional: have not. serviu posteriormente a Mao Dzedong para seus vôos de ambição paranóica. a partir da Conferência de Bandung e da Conferência Tricontinental de Havana. a tese que. citando Mao. d e M e ir a P e n n a ses foi transferida para a esfera planetária. encontra­ mos desde as posições amenas de um socialismo democrático pseudocristão (como na Teologia da Libertação da nossa CNB do B ou de Dom Helder Câmara). em sua essência. As concepções adocicadas e alaranjadas relativas ao “conflito Norte-Sul” constituem hoje o resquício dessa teoria que. conforme podemos consta­ tar. E haveria. na teoria de um conflito mundial de classes transferido para o domínio das relações internacionais. desenvolvidas e capitalistas. A idéia. Acrescente-se que. aliás. se enquadra nas velhas teses de Spengler sobre a “revolução mundial dos povos dc cor” e de Toynbee sobre a “revolução mundial do proletari­ ado externo”. como alternativa válida para os mais exaltados. Haveria. nações ricas. para levar adiante a revolução mundial e impor a Nova Ordem económica socialista. para perder a fidelidade de uma parcela radical crescente do Movimento Comunista mundial. As nações são as diferentes classes em conflito.

a população urbana já era maior do que a rural. deveria esse tipo de guerra revolucionária ter como resultado a ruína económica. Acontece que o próprio mare­ chal Lin morreu misteriosamente. Brasil c vários outros países latinoamericanos. tidas como “independentes da vontade dos homens”. relativa ao “cerco das cidades pelas áreas rurais”. Para Lin Piao. vak recordar a doutrina que encontrou sua mais perfeita formulação cm arti­ go. na Argentina. excede qualquer combinação possível de potências “rurais" subdesenvolvidas. de muito. pelo então Ministro da Defesa e herdeiro presuntivo do camarada Mao Dzedong. Para co­ meçar. A Revolução mundial contemporânea apresentaria. ou executado. escrevia Lin Piao. dominante nas décadas de sessenta c setenta. quando tentava fugir para a URSS após o fracasso de uma conspiração para derrubar o Grande Timoneiro. política e militar do Ocidente em virtude da “inexorabilidade das leis históricas”. mas por sua própria opinião pública. Em seguida. O plano era. o marechal Lin Piao. de qualquer forma. a solução dos conflitos através da guerra é a tarefa central c a mais alta forma de expres­ são da Revolução”. Tomando o globo em sua totalidade.. África e América Latina as áreas rurais do mundo”. ou num desastre de avião de natureza suspeita. “a tomada do poder pela força armada. Uruguai. as “cidades” industrializadas possuem uma superioridade técnica militar que. vulnetabílizada pela propaganda — uma vez que o conflito tomara o aspecto de tuna campanha colonial. A doutrina antecipava a extensão ao âmbito planetá­ rio da teoria. Como exposição mais clara dos princípios gerais da guerra revolucio­ nária de tipo maoísta. originada no Livrinho Vermelho dos pensamentos de Mao. completamente irrealista. injustificada — isso fez crer à “nova esquer­ . conseqüentemente.O E s p ír it o das R ev o lu çõ es 191 tese hegclíana do Senhor e do Escravo é reconstruída de cabeça para bai­ xo: o escravo sc rebela c mata o senhor. Quando os americanos foram derrotados na Guerra do Vietnam. o quadro de um cerco das metrópoles industriais do Ocidente pela áreas rurais do mundo subdesenvolvido tricontinental.. não pelo Vietcong. e segundo os princípios do próprio Mao c de seu discí­ pulo argentino Che Guevara. Conduzida sob a forma de terro­ rismo e guerrilha. “se a América do Norte e a Europa ocidental podem ser chamadas as cidades do mundo. publicado em setembro de 1965. então constituem a Ásia.

Em caso de conflito nuclear. e no pró­ prio Brasil com a patética aventura do pateta capitão Lamarca. Os partidos comunistas de linha chinesa. Moçambique e na Etiópia sob o regime do sanguinário coro­ nel Mcngistu Haile Mariam. No momento em que escrevo. a guerrilha zapatista no estado me­ ridional de Chiapas. na Nica­ rágua com seus Sandinistas e seus padres promotores do Cristomarxismo da Teologia da Libertação.192 J. um intelectual que se formara em Paris — que em certo momento ameaçou a própria sobrevivência do povo Khmer — mas outros do mesmo estilo na África. provocado por Pol Pot. Na América Latina também conhecemos tentativas semelhantes de revolução guerrilheira aqui c acolá — na Gua­ temala. também financiada por organizações católicas européias. de M e ir a P en n a da” maoísta que era fácil eliminar seus adversários pela guerrilha e o ter­ rorismo. a Miserere e a Caritas alemãs. A suposição também não era válida. Ao suceder a Mao. e dirigida pelo bispo marxista Samuel Ruiz. no Peru com seu sanguinário Sendero Luminoso. poderia a China perder algumas centenas de milhões de seus cidadãos e ainda sairia mais populo­ sa do que seus possíveis inimigos. logo sufo­ cada. O . maoísta. o novo hierarca Dcng Xiaoping acolheu uma visão mais realista e mais aberta da situação internacional. no Salvador (onde outro quase genocídio foi praticado). no México. Mas a dou­ trina do comunismo rural foi responsável não só pelo horroroso genocí­ dio na Camboja. foram abandonados à própria sorte. na Colômbia com o padre Camilo Torres. nem por Marx. logo fuzilado. A contradição resultava de uma circunstância do mundo moderno que não fora prevista. particularmente em Angola. nem muito menos por Lêninc: o empate nuclear. resolvendo ao mesmo tempo seu pro­ blema demográfico — uma teoria obviamente absurda. . Mao Dzedong havia declarado que a bomba atômica era um “tigre de papel”. Os americanos só haviam empenhado uma fração diminuta de seu poder real de fogo. constitui outro exemplo da ação.

por mais que sejamos levados por nossas imagina­ ção. os neerlandeses e os suíços. percebida pelos sentidos e a razão — é inteiramente subver­ tido no processo de fusão entre theoria e praxis. Lukács manda às favas a . desejos e julgamentos (o wishful-thmking dos anglo-saxõcs). costu­ mamos dobrar-nos aos fatos. cujo pragmatismo pode ser posto em dúvida. provavelmente o maior filósofo marxista deste século e fiel estalinista. Os que não o fazem. Hegel postulou que o atual e o racional coincidem. objetiva. Possuem um extraordinário respeito pela realidade empírica. como os anglo-saxões. O conceito tradicional de Verdade — o nosso conceito de senso comum que define a Verdade como uma correspondência lógica do julgamento com a realidade empíri­ ca. Rousseau. Em sua já citada obra sobre Aí Principais Correntes do Marxismo. Rousseau. o pensador húngaro traduziu em termos abstrusos de filosofia moderna o credo quta absurdum da fé escolástica — criando uma metafísica mais espessa do que a gororo­ ba cozinhada durante a decadência do Tomismo. objetiva. A dialética foi elaborada por Marx e por seus sucessores de tal modo que se tornou pos­ sível a completa confusão de categorias. que construíram sua prosperidade sobre o pragmatismo responsável. e reconhe­ cem que aquilo que os psicólogos franceses denominam la jònction du récl representa uma necessidade existencial.O E spírito das R ev o l u ç õ e s 193 Lukács Na vida comum. uma postura de grande ambigüidade no relacionamento entre teoria e realidade fatual ou prática de ação — o que teve as mais lastimáveis conseqüências sobre a história mundial. Kolakowski encabeça o capitulo sobre Lukács com o título “A Razão a serviço do Dogma”. são considerados alie­ nados. Hegel e Marx poderiam ser classificados como filósofos ro­ mânticos — aqueles em que a emoção afeta o raciocínio. para a vida coletiva. Há povos. Hegel e Marx trouxe­ ram no entanto. Acredito que isso explicaria o sucesso do Marxismo em nosso meio intelectual. A confusão atingiu o máximo de obscuridade metafísica no pensamento de Jorge Lukács. Na verdade. tão decisivamente distinguidas por Kant quando separou o Sein e o Sollen — aquilo que é e aquilo que deveria ser.

a Verdade é que a agricultura socialista é eficiente. mas argumenta que o significado de “diferentes verdades” só se torna aparente no processo social. Os fatos constatados na perspectiva da consciência de classe burguesa é. que pareciam bem alimentadas pois bebem vodea e comem muita batata. não decla­ ra ser a Verdade relativa. mas não o pode transformar dialeticamente — ao mesmo tempo em que se vale de argumentos pragmáti­ cos para chegar a tais conclusões. O . Lukács fora discípulo de Dilthey e Wilhelm Windelbrand. Acontece que nem Lukács.. afirma Lukács. curvamo-nos à palavra dos líderes operários. A “unidade do sujeito e do objeto” no processo de conhecimento segundo Kant — que constitui o cerne do discurso hegeliano-marxista de Lukács — cor­ . O pensamento é um fator do progresso da História. Lukács ter­ mina afirmando que a verdade é aquilo que Stáline diz ser a verdade. todos eles oriundos da classe média.. não obstante sustentada por 40 ou 50 milhões de camponeses. fundador da Escola de Baden. não conseguia alimentar seus respectivos povos. Tornava-se necessária a importação maciça de cercais produzidos por apenas oito ou dez milhões de agricultores capita­ listas da Austrália. que era filho de um rico banqueiro judeu de Budapeste. no entanto. Os fatos podem ir ao diabo.194 J. vaga e ambígua. A posição do filho de banqueiro húngaro é. lingüiça c chucrute. inclusive os nossos intelectuários brasileiros. que a agricultura socialista. DE MEIRA PENNA correspondência. O que é que isso quer exatamente dizer não nos parece de modo algum preciso e claro para nós. Se nada é verdadeiro . alegando que o pragmatismo torna o homem a medida de todas as coisas. nem os outros marxistas. Ele nega a concepção pragmática da Verdade. Mas a ortodoxia estaliniana tardia obviamente com­ prometeu o que de neokantismo podia haver em seu filosofar. Canadá e Estados Unidos. Os fascistas italianos também gritavam: “Mussolini tem sempre razão”. nesse ponto. Argentina. burgueses formados no método cartesiano. Ocorre que essa “Verdade” também afeta muito intelectual brasileiro. A História é o desenvolvimento de "'formas de objetividade”. A Verdade não é mais aquilo que a maioria de bom senso admite ser verdadeiro: torna-se relativa à classe social. O Marxismo. explicam como podem os intelectuais ideológicos escapar do condicionamento de classe. Podemos exemplificar: para as classes trabalhadoras russas ou polonesas.

Condenando a dialética da natureza de Engels e a teoria da “reflexão” de Lênine — pelo que. aderiu à revolta. e o objetivo natural. Fanon juntou Freud a Marx. Fanon e oAnticolonialismo As teses do neomarxismo de estilo erótico foram aplicados ao Tercei­ ro Mundo subdesenvolvido e a seu anticolonialismo por Franz Fanon. Mas. Foi um dos poucos que escaparam com vida do dilema. já então Kruschev. Em sua obra História e Consciência de Classe.. Enquanto nos mantemos numa postura empírica. Sicofanta da pior espécie.. quando os fatos não correspondem à teoria..O E spírito das R ev o l u ç õ e s 195 responde à “unidade da teoria e da praxis” (idéia que também entusias­ mou nossos “teólogos da libertação”). e como o PC é o partido que interpreta a vontade do proletariado. posteriormente teve de retratar-se — o “filósofo” chega à conclusão que. Desde então preferiu dedicar-se à filosofia estética. não soube colocar-se corretamente diante da totalidade da História em sua própria pátria. como associou sua profissão à de participante do movimento de libertação daquela antiga colónia francesa. “os fatos que se da­ nem”. nãohumano. Lukács sempre conseguiu manter-se. o húngaro não esclarece os limites entre o objeto coletivo social ou humano. não podemos entender a totalidade da História. nas boas graças do Secretário Geral do Partidão.. Lukács criticou o empirismo. que se confunde com o subjetivo. sendo o Secretário Ge­ ral do partido a sua personificação — conclui-se que a verdade seria aquilo que Stáline afirma ser verdadeiro. Por ocasião do levante de Budapeste de 1956. Se o proletariado está sempre com a razão — uma vez que está de posse da “totalidade” histórica na teoria e na prática. O empirismo seria apenas sinal de imaturidade da consciência humana. Com seu peculiar desprezo pela lógica. físico ou cósmico. e a de diplomata. negro da Martinique estabelecido na Argélia no período da luta pela independência. até morrer. Mas a resposta não é fácil de encontrar. com acrobacias de circo. A combina­ . quando Stáline morreu. Psiquiatra que estudou em França. A alternativa era entre a classe ope­ rária húngara e o SG soviético.

. em política transformou o mundo num hospital psiquiátrico em que os Senhores brancos. após haver servido ao novo governo argelino como Embaixador em Gana. e onde os militares enfrentam hoje a rebeli­ ão dos Fundamentalistas islâmicos. ou dos negros cristianizados do Sudão — para não falar no genocídio realizado pelos Khmers Rouges na Kampuchea democrática? É também característico que Fanon não se refira ao m. Mas foi feliz no sentido de não haver vivido o suficiente para assistir às lutas fratricidas que comprometeram os países recém-independizados. com a guerra do Vietnam na Ásia e a Revolução Cultural chinesa. Camus era um deles. foi na época comparado a um Lênine de pele escura. fustigam os seus escravos e pacientes de cor. O . qual mé­ dicos sadistas. inclusive a Argélia adotiva onde seu amigo e herói. Ben Bella.196 J. d e M e ir a P e n n a ção do Marxismo com anti-racismo e psiquiatria coincidiu. Nessas circunstâncias. a um filósofo revolucionário da categoria de Rousseau e a um poeta do calibre de Victor Hugo. especialmente o primeiro desses países onde a tirania assassina de um Amin Dadá coincidiu com o racismo antiasiático e foi sucedido por um verdadeiro genocídio? Que diria da sorte dos Watutsi de Ruanda. empenhou-se nas conseqüências mórbidas do domínio do Pai sobre os filhos. Ela seria uma luta de independência nacional contra a França e uma rebe­ lião dos povos de cor contra a civilização ocidental branca. numa guerra civil que já causou 40. Zaire. Que teria ele pensado da triste sorte de Uganda. Altamente apreciado pela Nova Esquerda que lia Reich e Marcuse. Tanzânia. acabou deposto e preso pelo ditador militar Boumedienne. com o movimento pelos direitos civis dos negros americanos e as bader­ nas estudantis de 1968. Burundi. de câncer. com os “ventos de mudança” que sopraram sobre a África. Hoje está esquecido. de Ru­ anda. em 1961.000 mortes. A relação entre o Senhor e o Escravo foi um tema de suas meditações labirínticas: assim como em psiquiatria. A rebelião anticolonialista é equiparada à luta de Édipo que comete o parricídio.aior 37 O apelido püd-notr se refere à população francesa estabelecida na Argélia desde a época da conquista em princípios do século XIX. Fanon entretanto morreu moço. na agitada década dos Sessenta. Fanon interpretou a guerra da Argélia como uma luta de classes contra os pieds-noirs37 dominantes.

concluía. está ele hoje absolutamente aburguesado e esquecido. antes do que pela sua substância. quando reconheceu o triunfo do anticomunismo na Polônia c na . do que ao tempo do colonialismo e luta pela indepen­ dência. Colocamo-la aqui pelo seu valor representativo. em Paris especialmente. A obra mais conhecida de Fanon éLesDamnés de la Terre. no entanto.. expôs Debray apraxis revolucionária neomarxista e castrista da guerra de guerrilha. Ele. que foi o da União Soviética. inclusive Argel. não revela muita originali­ dade. A causa é a conseqüência. matando o patrão numa explosão de violência sanguinária. os árabes fazem explodir bom­ bas terroristas em Tel Aviv. A obra é filosoficamente fraca. a saber. o livro é uma sucessão um tanto ou quanto monótona de argumentos e imagens inspiradas no res­ sentimento. Em seu livrinho A Revolução na Revolução. acrescenta uma idéia nova e pouco ortodoxa ao Marxismo oficial. A Revolução na Revolução — Guevara e Debray Ainda na linha romântica da juventude. Buenos Aires e Nova York. com uma posição bem remunerada na burocracia de conformidade com o ideal de todo intelectuário que se preze. Ouvi uma conferência sua na Universidade de Brasília. Vinte e cinco anos depois. nas colônias. Um número muito maior de árabes está morrendo em conseqüência do terrorismo árabe. A violência estava entrando nos costu­ mes da época. desejo de vingança e indignação do inferior e escra­ vo oprimido que sonha com seu dia de triunfo. e em toda a área do Mediterrâneo.O E spírito das R ev o lu ç õ es 197 colonialismo c imperialismo moderno.. Assessor do ex-presidente Mitterand.. vale citar o nome de Régis Debray.. na Europa. Influenciada pelo romantismo dos Misérables de Victor Hugo. no ódio. Você é rico porque é branco e Você é branco porque é rico. Mas fora disso. tal como poderia ser aplicada à América Latina. ao final da década dos 80. que. a infra-estrutura econômica é também a superestrutura. “E por isso que a análise marxista sempre deve ser um pouco violentada cada vez que se aborda um pro­ blema colonial”.

o poder de pressão política e moral da opinião pública nas sociedades abertas do Ocidente. que é der­ rubado pelo jovem líder revolucionário (no caso. O que caracteriza o pensamento de Debray. e o protesto do machismo na puber­ dade e luta contra a autoridade patriarcal: “Hay jjobiemo? Soy contrai”. eventualmente. pais dos pobres e mães dos ricos. e América Latina em particular. Foi patético. o qual. O . igualmente. embora possua uma inegável conteúdo per­ suasivo de natureza emocional. Esquecerá naturalmente que a dialética revolucionária latino-americana não é hegeliana. a partir de um Foco. dar à sua liderança.. em geral. que refletia o de Fidcl Castro e Che Guevara na prática. como o de Althusser e Marcuse na teo­ ria. demonstrado por mais de 150 anos de história de nosso continente — caudilhos cujo prestígio divinatório e mágico (o maná dos antropólogos) independe do conteúdo ideológico que possam. o aventureirismo donjuanesco essenci­ almente ibérico: “Viva la muertel”. não compreende por que homens como Getúlio Vargas ou Perón sejam. é seu extremado romantismo. um sargento). por sua vez. sucessivamente. na aplicação da teoria do foco guerrilhei­ ro. Sendo assim. Ignora também a influência decisiva do nacionalis­ mo como principal dinâmica popular no mundo subdesenvolvido. é cíclica e psicanalítica: o jovem combatente contra o domínio colo­ nial espanhol se torna um velho tirano patriarcal (Machado). ignora as realidades da política internacional: o potencial americano e soviético. se torna um velho tirano reacionário (Batista). Daí. fascistas e pro­ gressistas. o qual se transformará em velho tirano patriarcal que. tais confissões não caíram bem. A “guerra de guerri­ lha”. Não compreende o fator misterioso que dará a vitória a Fidel Castro em Cuba (Fidel Castro que se tomou comunista depois de tomar o poder) e conduzirá Che Guevara (o ideólogo convicto) ao fim dramático no Altiplano boliviano. silenciando sobre tudo que antes escrevera. Num ambiente petista como o de seu auditório. o ignorar o papel absolutamente determinante das personalidades carismáticas na política latino-americana. por ventu­ ra. as exigências de uma economia moderna numa sociedade industrial.. daqui a um certo número de . O livro não faz sentido lógico. a bomba atômica e o equilíbrio do ter­ ror. Guevara pagou com a morte a ilusão da doutrina. o qual é der­ ruba pelo jovem líder revolucionário (Fidel).198 J. DE MEIRA PENNA França. Sua expressão mais romântica foi a aven­ tura de Che Guevara na Bolívia.

O Partido. na linha de Hayek. legalmente eleito. desen­ cadeando a guerra subversiva nas florestas e nas serras. o foco guerrilheiro rural. o seu prin­ cípio básico da Revolução na Revolução: que a força guerrilheira. Em nome do “Contrato Social”. que se possa imaginar. De­ bray apelou para as emoções da juventude mais ingênua do Sul subdesen­ volvido. particularmente. Na Guatemala. Ama ou odeia as pessoas. Em nome da superioridade . . Isso confirma a tese de que a falsidade de uma doutrina nada tem a ver com sua influência. o embrião do Partido que conduz a Revolução. o mito é que vale. o foco. está pondo em prática um dos programas liberais mais radicais. el Salvador e Guatemala. já causou cem mil vítimas. será derrubado por um jovem líder revolucionário. um milhão de pessoas foram sacrificadas durante a Revolução francesa e as guerras napoleônicas. o impulso precede o pensamento. ser atribuído ao mito romântico.. depois de uma sangria de 70. Hoje. Trepar e rebe­ lar-se. em suma. o Foco guerrilheiro provocou sangrentas guerras civis na Nicarágua. e assim por diante ad infinitum. iniciado em 1960. O sucesso fenomenal alcançado por Debray deve.. o Ato precede a Pala­ vra. na América Latina.. Assim.s Na América Central c.000 mortos. em seus países mais pobres. o governo liberal da ARENA do Presidente Armando Calderón. O caso mais paradoxal é o de Hl Salvador onde 20% da população emigrou. Em princípios de 1996. dois candidatos tidos como “de direita’' se enfrentaram nas umas e ganhou aquele que promete uma abertura mais liberal e o fim da guerra civil. O mito é dominante.O EsríRiTo das R e v o lu ç õ e s 199 anos. Se falava Marcuse para a juventude sofisticada das grandes metrópoles tentaculares do Norte industrial. Nos dois casos. contrato que os latinos infelizmente nunca aprenderam a concluir.. é a fonte. principalmente para os ÜUA. com a reação violenta dos “esquadrões da morte" militares. O pensamento político latino sempre foi medíocre: a última obra importante por ele produzida ainda é o Contrato Social de Rousscau. A economia cresce ao ritmo acelerado de 7% ao ano e a abertura inclui a inclusão dos grupos de esquerda na vida política e econômica. se forma em torno do Chefe.38 Personalismo e romantismo são sinônimos. a Revolução precede a Ideologia. sendo a descarga emocional da rebeldia na puberdade a “atividade política número um”. O Eros despreza as idéi/ as. portanto. o continente eróti­ co por excelência. E esse personalismo carismático da política latino-americana que explica a grande descoberta de Debray.

200 J. Outros tantos estão morrendo há cinqüenta anos para atingir o paraíso proletário (onde os trabalhadores deixarão de sê-lo. a Igreja deve estar na vanguarda da revolução. É natural que sinta uma atração jeanjacquiana pela floresta tropical sul-americana. crítica que a ele próprio tão bem se aplica: “esses guardiões da espontaneidade das mas­ sas. os mais ousados. são freqüentemente militantes de países vizinhos ou do estrangeiro. DE MEIRA PENNA racial dos “arianas” germânicos. como foi o caso.). tor­ 39 Hm recente viagem à França (maio de 1996). na América Latina. Debray é umpetit-bourpieois típico. Estranha espon­ taneidade: não é nascida no local. Apelou para sua mãe e noiva que foram a La Paz derramar ainda maiores potes de lágrimas de crocodilo. O . o ópio do povo.. tortura ou prisão de ninguém. é importada”. A utopia concreta neomarxista — Bloch Estamos vivendo no tempo do “Eclipse de Deus”. mas até hoje o livro não causou a morte. Sendo assim.. a única coisa realmen­ te sensata que escreve no livro é a crítica dos trotskistas. de “Revolução na Revolução”. quarenta milhões pereceram durante a Segunda Guerra Mundial.. contra epistídios de vio­ lência individual em nosso país. Preso pelos militares bolivianos.. no fundo. Mas conseguiu o que queria39. para Marx. Mas. e da teologia ateísta. frondosa e exótica. Para alguns. mas para con­ trolá-lo pelo uso de suas fraquezas. inclusive Debray. Respondendo aos elogios hipócritas do calhorda a um livro seu. ou da “Morte de Deus”. . se no século passado a religião era.. para salvá-lo do que se denunciava como torturas e ameaça de fuzilamento. encabeçados por intelectuais de esquerda. Debray desencadeou uma campanha de protestos e choramin­ gas na imprensa francesa e na América Latina.. o Presidente FH Cardoso recebeu protes­ tos. É por experiência íntima que considera as cidades “incubadeiras tépidas que tornam o homem infantil e burguês”. Estamos também na época em que a Igreja se seculariza e uma teologia da libertação é construída. FH C respondeu: “Obrigado. um intelectual da rivejjauche em frenesi histérico. Mas já se disse que. E não vêm para participar num movimento de libertação. o que é outra coisa.

. Bloch acreditava. do que com o velho profeta barbudo. trazê-lo a este pobre planeta perdido na imensidão dos espaços estelares num ato imediato e cataclísmico de revolução. é assim fácil de explicar. é o ipadu da intelectuária. os dogmáticos e os poderosos da Nomenklatura. Definhou em seguida a seu próprio sucesso. manifestadas sobretudo sob a forma parti­ dária que está torturando a Humanidade há um século. muito mais tem a ver com as lucubraçõcs espe­ ciais do Quartier Latin. disse já por volta de 1970. infelizmente. já desapareceram. pela TV. que procurar outras fontes filosóficas para explicar os profundos fenôme­ nos mentais que se processam detrás de acontecimentos ruidosos ou aber­ rantes que lemos todas as manhãs nos jornais ou assistimos. Temos. Os grandes filósofos marxistas do século como Marcuse. No Brasil. com Roger Garaudy. poderá responder como o fez certa vez Mark Twain: “A notícia de minha morte é bastante exagerada.. “Marx morreu”. A Igreja seria o Partido. o líder anabatista que foi contemporâneo e rival de Lutero. Fukuyama refere-se mesmo ao “Fim da História”. A simpatia de Bloch por Thomas Müntzer. A ideologia. já por si mesmos. após os triunfos militares e políticos espetaculares pós-Yalta.O E spírjto das R ev o lu çõ es 201 nou-se hoje o marxismo a vitamina da religião. . portanto. enterrado num cemitério londrino. O que se pretendia era.. o nouveau philosopbe francês Jean-Marie Benoist. Elas têm sua origem principal no idealismo germânico. Entre as heresias marxistas. Lukács e Ernst Bloch. Fala-se no fim das ideologias. Sem dúvida a ideologia se transforma. Lukács partici­ pou da revolução húngara de 1956 e Bloch fugiu da Alemanha Oriental: esses dois fatos. O que de mais moderno ainda sobrevive nessa matéria enfadonha. da Sorbonne e de Berkeley. Em Ernst Bloch encontramos um dos mais impressionantes pensado­ res da teologia política secularizada moderna. Esclerosou-sc. E a esse grupo de doutrinas poderíamos dar o nome de heresias do Espírito Santo pois são elas que secularizam a Esperança.”.. “estender a mão” ao Reino de Deus proletário. como o fanático reformador do século XVI. que o Reino de Deus pode. à noite. deparamos por conseguinte com as grandes utopias milenaristas. testemunham as contradições em que caíra o pensamento marxista. Bloch também pretendeu arvorar-se numa espécie de “teólogo da revolução” — repudiado pelos doutrinários. deve e.

és tão formoso”41. cita mais freqüentemente a Bíblia do que Das Kapital. assim como sobre a Teologia Política do Jesuíta Johannes Metz e sobre a ideologia da “Libertação” do esquerdismo eclesiástico na América Latina40. DE MEIRA PENNA na verdade. esse acting out frenético do líder camponês. . Pierre Furter. O . em virtude da eliminação progressiva do elemento de transcendência corresponde ao pseudocristianismo sem Deus de Bloch e seu humanismo integral. por volta dos anas setenta. tanto foi difícil para o próprio Bloch dar forma concreta à sua esperança pessoal 40 Conheci no Rio dc Janeiro. será o Reich do Espírito Santo. a morte e o futuro. Contudo. a conciliação. Preocupado com o fracasso. É esse ativismo demente. examina a questão da existência de uma esperança real sem a garantia da Revela­ ção. sem uma concepção tradicional da Transcendência. O movimento faz passar um “circuito de corrente calorífera” pelo marxismo. Bloch ostentou ares de profeta judaico. 41 “ Verweile doch. c da realização progressiva do Ser num processo transcendente. meiopadre. Furter também publicou no Rio. ato V.202 J. de um ins­ tante no qual se possa dizer “detém-te. publicada em 1959 — às vezes dificilmente se distingue daque­ la virtude cristã. a humildade. Bloch sustentava que a fé de Müntzer deve trabalhar até o ponto da exacerbação demoníaca no sentido da realização do Terceiro Reich que. Através de prodígios metafísicos tipicamente germânicos (e como tal impenetráveis) seu marxismo esotérico procurou abrir o cami­ nho que vai da utopia à praxis. já está prestes a surgir neste mundo. um pequeno ernaio: A Dialética da Esperança: uma Introdução à Obra de Bloch. Sua meta foi o “vermelho caloroso” (W arme Rot) de um futuro ainda não logrado mas esperado. para “aquilo-que-ainda-não-é”. provocador de uma das mais pavo­ rosas jaequeries da história européia — que. A sua “esperança concreta” constituiria a união. um suíço. em 1974. Talvez por isso o pensamento de Bloch se tenha projeta­ do sobre a Teologia da Esperança dos teólogos protestantes Jürgen Moltmann e Wolfhart Pannemberg. Nesse trabalho. O Princípio da Esperança de Bloch — o título sugestivo de sua obra principal Daí Prinzip Hoffitung. após o Reino do Pai e do Filho. Furter contribuiu para uma coletânea sobre Utopia e Marxismo segundo Bloch. meio-intelcctual revolucionário. aqui e agora. que foi a primeira pessoa a me chamar a atenção para o papel de Emst Bloch no movimento da Ação Popular e da Teologia da Libertação. a ponte que conduz “aquilo-que-é”. du bist so schönt” de Goethe. no Segundo Fausto.

culmina num calvinismo jacobino terrorístico de que o próprio Lukács deu provas pessoais em Budapeste. pela ação das virtudes cardeais de paciência.. por conversão dialética. ao con­ trário. E o que Georg Lukács denominava de “ativismo gnóstico”. não se vendo. Porque a verdadeira Esperança é aquela de que fala S. o crítico dissidente soviético cuja prisão. Paulo na Epístola aos Romanos. 1919 — quando Ministro no efêmero governo bolchevista de Bela Kuhn. promete concretamente. Pois qual foi o resultado da cxpectativa utópica concreta? Ouçamos o que nos diz um dos heróis de Abram Tertz (aliás Andrei Siniavski. quando se realiza. / procura nele penetrar tão rapidamente quanto possível. pela segunda vez em sua vida. teve repercussões mundiais). Quando a utopia avança para a sua realização concreta sob a forma do messianismo revolucionário. coragem. demonstra ser um produto satânico. a consciência é inundada pelos conteúdos arquetípicos e pode mesmo descambar para a loucura criminosa. como já se viu nos estados carcerários modernos. O ato justifica o gnósticismo o qual. Vejamos como registra o . por sua vez. pela ação construtiva numa situação concreta. porém. na base de preconceitos ideológicos e segundo um “plano” político totalmente abstrato. de transformação total do mundo. O ato e o tempo são os fundamentos dessa visão cósmica. Mas assim o Princípio Esperança se anuncia melancolicamente torturador. a Esperança por aquilo que não se vê e que.O E spírito das R ev o lu ç õ es 203 e conciliá-la com a nova classe de burocratas doutrinários e farisaicos que governavam a forma oficial da utopia marxista no território alemão ocu­ pado pelo Exercito Vermelho que. O conhecimento é transfor­ mado em ação. se espera com paciência. Quando o revolucionário utópi­ co é um ativista. E por isso que duas atitudes em contraste se defrontam peran­ te o futuro: a Esperança transcendente num mundo melhor que o ho­ mem. com sua Fé e Amor saberá talvez um dia construir. algo que. E a expectativa utópica de uma solução final pelo cataclismo revolucionário. na época. preferiu “escolher a liberdade”: fugiu de Berlim e foi lecionar na Alemanha Fede­ ral onde morreu. a gnose do futuro. nada pode prometer. Estamos numa época de tremendas transformações e terríveis dese­ quilíbrios. possuído pelo conhecimento especial.. A expectativa utópica. temperança c prudência. A esperança.

Gramsci foi no entanto um homem excepcionalmente inteligente que. 2a edição. trato mais extensamente de sua personalidade e obra no livro A Ideologia do Século XX. uma das regiões mais atrasadas e esquecidas da Itália. fundador do Partido comunista italiano que morreu em 1934 num hospital.. A referência é sumária. 1994. derrubando o regime e o império: “Ao nosso novo Deus sacrificamos não somente nossas vidas. revertemos aos meios que nossos inimigos usavam: glorificamos a Rússia imperial. pelos intelectuais do PT. corcunda {gobbo). matamos e matamos e matamos. Em nome do grande Propósito. orientadora de nossa diplomacia oficial nos últimos vinte anos. introduzimos o Trabalho Forçado. depois de haver passado vários anos numa prisão de Mussolini onde escreveu seus famosos Q uadem i dei Cár­ cere. pela sim­ ples força de sua paixão. cercamo-nos de uma Muralha da China. de­ pois de a havermos manchado com toda a podridão do mundo.. graças à sua . feio. de M eir a P en n a seu desencanto com a Utopia depois que ela se realiza. construímos novas prisões. O . a meu ver. A fim de que caíssem todas as fronteiras.”.. trotskismo e jingoísmo nacionalista que foi elaborada pelos getulistas e. A importância que ali atribuo a Gramsci se explica pelo papel. ressentido e complexado. refletindo os sen­ timentos de frustração da nova intelligentzm russa que acabou. A fim de que todas as prisões desaparecessem para sempre. A fim de que o trabalho se transformasse em lazer e prazer. baixo. considerável que desempenhou e ainda desempenha na elaboração da Ideologia Brasi­ leira de “esquerda”. dragonas e torturas. A fim de que nenhuma gota de sangue fosse derramado. Antonio Gramsci O último dos filósofos da Revolução marxista ortodoxa a que me quero referir é Antonio Gramsci. dando origem à Teoria da Dependên­ cia. estabele­ cemos um novo Tzar no trono vacante e introduzimos oficiais.. essa gororoba condimentada de marxismo. escrevemos mentiras no Pravda.204 J. Originário da Sardenha. nosso sangue e nossos corpos. Sacrificamo-lhe também nossa alma tão pura quanto a neve. posteri­ ormente.

luta. mata. Exemplo desse deserto de conhecimentos são os textos de Historia. rouba. Voltou a Hegel. não interessa. o elemento revolucionário por excelência não é o proletariado ou o campesinato. que por essência é quebra arquctípica do anonimato da coletividade. ao proletariado e os negativos à odiada burguesia". Chamo atenção para um pequeno livro do jornalista e professor de filosofia carioca Olavo de Carvalho. fatos. de 42 Ricardo Vclez Rodriguez. oprime. de onde controlam os movimentos de opinião popular42. o herói. o mal e o bem. controla a “dialética” histórica. À maneira das antigas cosmogonias. processos. toma consciência de classe. A burguesia. o nada e o ser. É o que também pensa Leszek Kolakowski na obra já alu­ dida sobre as Principais Correntes dessa ideologia. só a burguesia c o proletariado. escritores. em primeiro lugar. Como espécie de Prometeu renascentista e “arquiteto de uma nova política”. em outras palavras. Voltou à afirmação correta de que o espírito é que. xotre. elaborou uma das variantes mais curiosas e “verdadeiras” do Marxismo. instituições e pessoas são arrumados. A sombra do cosmogônico confronto opressor-oprimido. “Na trilha do marxismo caboclo (ou positivismo marxista). São esses bacharéis. Vale mais a versão ideológica do que a intricada complexidade da vida. Q>mo no seio da luta de classes não há lugar para a dimensão pessoal nem para a cxistencul. salva us outros. que tomou conta do ensino básico e das universidades. que os nossos adoles­ centes e jovens vêm-se obrigados a engolir nos colégios e nos cursos superiores. de forma a comprovar a validade da teoria escolástico-marxista. contradisse a tese de Marx de que é a infra-estrutura de produ­ ção o que determina o pensamento ideológico. igualmente coisiticado. tomada substância na miraculosa reificação da crítica marxista. O proletariado. como sc os acontecimentos históricos globais de 1989/91 não houvessem ocorrido. faz a revolução. Os atributus posinvos correspondem. nos países latinos pelo menos. Anires.95 no Jornal da Tarde. se revolta. arrota. ogobbo perce­ beu que. no caso. E pratica­ mente impossível encontrar manuais que não deformem a História do Brasil. descreve de modo incisivo o fenômeno tal como se manifesta neste momento cm nossa terra. . jornalistas e artistas que adquirem uma posição dominante ou “hegemônica” na sociedade e na cultura.A Nova Era e a Revolução Cultural. É a classe intelectual. Gramsci. sc liberta.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 205 ausência de preconceitos. tudo passou a ser reinterpretado à luz da surrada dialética da luu de classes. tolerância com opiniões divergentes e isolamen­ to numa masmorra fascista que lhe facultou tempo para escrever e mate­ rial de leitura. em artigo de 14.X. A realidade que sc dane. os dois atores primordiais contrapõem-se como a ixntc c o dia.

X. impropriamente. Essa unanimidade.95. sua influência. os Tupamaros. DE MEIRA PENNA 1994. chamar dc 'neoliberalismo' c que as publicações liberais. depois da Revolu­ ção russa de 1917 e da Revolução chinesa de 1949. a censura ou patrulhamento ideológico pela esquerda que controla os media de comu­ nicação de massa43.. possui o Brasil o grande destino de realizar a terceira revolução do século.. quando sc verifica que um acontecimento como o 5" Congresso Brasileiro de Filosofia. também.. pelo menos... Roque Spenccr termina assinalando que. Posso acrescentar às observações do professor Roque Spenccr que a grande maioria dos livros marxistas foram publicados no período do regime militar... Estaríamos nesse sentido. que é a garantia das posições de tantos críticos c colunistas”. que haja um amplo coro de críticas contra uma suposta unanimidade em torno do que se convencionou. os quais estão todos presentes na Bibliogiafia que termina esta obra. Depois de relacio­ nar os livros mais recentes de autores liberais. O . De seu artigo extraímos os seguintes trechos: “E curioso.... a fim de assegurar-se que continuem ignorados pelo público c não venham a derrubar dc vez as fragilizadas muralhas dc um pensamento obsoleto. nem a Cuba fidelista. com raríssimas exceções (como a do livro de Roberto Campos. o Sendero Luminoso peruano. Ele cita Luís Mir. por força do poder intrínseco do país. o professor Roque Spcncer denuncia a conspira­ ção do silêncio que persegue todos os liberais. a que se referia o vetusto e empedernido Nelson Wcmcck Sodré. Pois os livros publicados por intelectuais liberais são cuidadosamente escondidos pelos meios dc comunicação. “desses trabalhos — e dc outros semelhantes — apenas um ou outro foi noticiado e raros examinados. ao “Mito da Revolução Brasileira” como um componente ativo dopathos esquerdista desde a década de 30. O que acaba sendo comprceasível. foi inteiramente ignora­ do pelos nossos meios de comunicação.. sempre solícitt» para enaltecer qualquer manifesta­ ção marxista ou assemelhada”.... sob a direção do professor Miguel Rcale... portanto.. Montoneros e ou­ 43 Em suelto no Jornal da Tarde de 5. um regime tido como ditatorial e responsável pela ccnsura intelectual . A situação atual comporta. a que estabelece­ rá a República Democrática Popular do Brasil. Olavo de Carvalho refere-se. é uma espantosa balela. consciente ou inconsciente da intelectualidade de esquerda à estraté­ gia de Antonio Gramsci é o fato mais relevante da História nacional dos últimos trinta anos”.206 J.. fadados a empreender aquilo que nem o Vietnam de Ho Chimin ou a Kampuchea de Pol Pot. Olavo de Carvalho argumenta que “a conversão formal ou infor­ mal. para quem os fanáticos da Revo­ lução (que chamo “nacional-socialista”) acreditam que. envoltas por uma conspiração do silencio que inviabiliza sua circulação e. Lanterna na Popa — c isso pelo prestígio do autor) continuem ocultas do público leitor.

escapou da guerra pela fuga (deixando algumas vítimas trágicas como Walter Benjamin que. em 1923. Bloch. Olavo de Carvalho argumenta ainda que os intelectuais influenciados por Gramsci. na crítica.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 207 tros movimentos conseguiram44. se presta a essas extravagâncias pedstas. com sarcasmo. mantiveram-se ao serviço específico dos inte­ resses políticos da União Soviética. Em Brasília. 44 Olavo de Carvalho estende-se também.. Todos os seus membros. em parte. se suicidou ao não conseguir atravessar a fronteira espanhola) e. retornando à Alemanha após 1945. tanto do holismo de Capra quanto de Gramsci é discípulo o governador e ex-reitor da UnB Christnvam Buarque. abriram o caminho para uma tentativa de conciliação entre o Liberalismo e o Comunismo. um intelec­ tual simpático e completamente biruta que já proclamou seu governo da capital como “popular democrático”. fingir-se de morta para assaltar o coveiro”. O criminoso se transforma assim num heróico Robin Hood. ser atribuída a essa ‘'evangelização” ideológica marxista. porém.. A Escola de Frankfurt Além de Gramsci e. o Instituí fiir Sozialjòrschung. com sua “teoria crítica”. sede principal da burocracia patrimonialista corrupta e ineficaz. promoveu alguns trabalhos interessantes que. para círculos limitados. alguns dos quais estiveram presos na ilha Grande ao tempo do regime militar. O Brasil teria uma proposta messiânica a oferecer ao mundo! Observa Olavo de Carvalho que “é o derradeiro tru­ que da mais histriónica das ideologias. o grupo fundou. persegui­ do pela Gestapo em França. Brasília. As provocações justiceiras foram ten­ denciosa e exclusivamente dirigidas contra o mundo livre que os abrigava. Formado de inte­ lectuais de origem israelita relativamente moderados e fugindo um pouco ao dogmatismo da Vulgata exclusivamente marxista. teriam convertido assaltantes e criminosos comuns a suas idéias. Reich e Marcuse — a grande influência filosófica que sofre a intelectuária brasileira é a da chamada Escola de Frankfurt. . A criminalidade patológica hoje existente no Rio de Janeiro poderia. transformando-os em terroristas. cm tomo do movimento “holístico” encabeçado por Fritjof Capra.

abstendo-se sempre. Adorno refere-se longamente ao Holocausto. direi mesmo.208 J. Alguns dos paredros de Frankfurt como Wittfogel. A projeção que esse movimento veio a alcançar decorre da circunstância de que se tenha colocado ao serviço do expansionismo soviético”. posta a serviço do prussianismo. O . Erich Fromm. Para ser convincente. Bloch e Marcuse. sem ja­ mais mencionar o Gulag. praticamente se afastaram da Teoria Crítica c oferece­ ram algumas raras contribuições à pesquisa social autêntica. Theodor Adorno e Jürgen Habermas. sua obra principal. Marcuse é principalmente rele­ vante pelo impacto de um de seus livros sobre a “Revolução Sexual” dos anos 60/70. A tese do “Despotismo Oriental” de Wittfogel tem servido para caracterizar o re­ gime patrimonialista. D E M H I R A 1’ ENNA Como tal. descrevendo-a como um modelo de bombástica protêsso- ** Em sua obra Problem ática do Culturalism o (nota 122). toda filosofia exige sinceridade. religiosamente. Trata-se de uma pesquisa sobre os traços psico­ lógicas pessoais daqueles que parecem mais inclinados a seguirem os líderes carismáticos autoritários — em termos das variáveis sociais como classe. de ofender suas divin­ dades totalitárias. não merecem fé4‘\ Uma filosofia de má fé perde sua legitimi­ dade — como ocorreu com a obra de Hegel.. A crítica ao temperamento autoritário. não deixa de ser uma interessante contribuição para as teses liberais. baixo ins­ trumento da propaganda estalinista. a de Heidegger. sofrimento. no quadro do relacionamento entre o Se­ nhor e o Escravo. tal como sobrevive entre nós por influência possível dos árabes nos longos séculos em que dominaram a península ibérica: c essa a tese de Ricardo Vélez Rodriguez. angústia. Os principais graúdos da Escola como Max Horkheimer. à luz dos pressupostos marxistas. que acatou o nazismo. Antonio Paim assinala: “deixo dc mencionar a Escola dc Frankfurt tendo cm vista que a sua característica básica í a flutuação eclética a serviço do objeto ciosamente perseguido de associar ao capitalismo tudo quanto dc negativo foi capaz de produzir a cultura alemã. Kolakowski estende-se em torno da D ialética Negativa. num trabalho publicado em 1969. Ele dirigiu a publicação de The Authoritarian Personality quando se exilou nos EUA c coordenou o trabalho na New Schoolfor Social Research. Adorno colaborou com pensadores liberais como Popper e Dahrendorf. educação e religião. exige dúvida.. a desenvolver uma crítica da civiliza­ ção moderna. ou a de Sartre. este último ainda vivo. limitaramse. .

Continuam os frankfurtianos. Eu por mim. para quem toda essa literatura filosófica é uma espécie de^nmoire. como se o niilismo tivesse o obje­ tivo de recriar uma filosofia abstrata só compreensível aos gnósticos her­ méticos da Elite de Sábios que Adorno pretende organizar. contudo. empreendida por Schopenhauer que também viveu em Frankfurt. concluindo que poucos traba­ lhos de filosofia deixam uma impressão tão pesada de esterilidade. a merecer eruditas páginas inteiras nos suplementos culturais dos principais jornais do país. Acusa o “filósofo” de usar argumentos tirados por empréstimo mas sem sentido crítico a Marx. resumida em Macbeth: 46 A influência do pensamento intransponível de Frankfurt mc fax lembrar a anedota atribuida a Carlos de Laet. Hegel.. Fico. respondeu Laet com um sorriso sarcástico. pela Editora Vozes. a crítica existencial de Shakespeare. Nietzsche.. admirado: “Você entende alemão? . Ou. Passeava este uma vez pela rua do Ouvidor.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 209 ral que esconde a indigência de pensamento. Barbara Freitag. em oposição à detestada burguesia. Ou a crítica da política prática dos pragmáticos anglo-americanos. talvez com proveito. Lukács.. com a opinião de Voegelin.. O cartola da Escola de Frankfurt conseguiu. Um amigo o deteve e perguntou. ser traduzido para o português. Não tenho mais tempo de aprender uma nova língua46. por isso. ainda prefiro a mais completa crítica filosófica pessimista. o embaixador Sérgio Rouanet. A filo­ sofia desaparece no ceticismo absoluto. naturalmen­ te. Quem dese­ jar melhor enfronhar-se nos meandros da hermética confraria e sua lin­ guagem enigmática poderá. segundo a Escola Austríaca. À crítica firankfurtiana da sociedade capitalista. a crítica da econo­ mia. Rouanet. Ou ainda.. e com a de Kolakowski: é muito fácil criticar a sociedade moderna em linguagem críptica e impermeável e menos fácil indicar novos caminhos para a hu­ manidade sofredora. ler as obras desse nosso simpático e ilustrado patrício. Bergson e Bloch. no en­ tanto. após conquistar o Ministério da Cultura e a Academia Brasileira de Letras à época da presi­ dência Collor.. finalmente. um termo francês para a gramática de magia negra. “Não”. “mas conheço meu povo". Graças a esse eminente apoio filosófico e à assistência de sua operosa esposa alemã. estou velho. contribuiu para a difusão das teses da Escola. com um livro de fikMotia em alemão debaixo do braço. . Conse­ guiram mesmo gerar um importante intérprete brasileiro.

os japoneses principiaram negociações para sua rendição. fitll o f sound and fitry. E nada significa *7. . era lançada sobre a cidade japonesa de Hi­ roshima. A 6 de agosto. depois sobre Nagasaki. aceita.210 J. Muito se tem especulado em tomo desses eventos. explodiu a primeira bomba atômica. cheia de ruído e ftíria. Uma sombra andante. no palco. Os observadores do evento descreve­ ram-no na angustia e em termos dignos do Apocalipse — com a impres­ são profunda que lhes causaram o clarão de mil sóis. That struts and frets bis hour upon the stagt. lançar um aviso a Stáline. 50 anos depois. Mais de cem mil pessoas morreram mas. 2) apressar o fim da guerra e. no Japão. Ao contrário dos alemães. o trovão e o furacão de calor desencadeados. mon Amour Na madrugada de 16 de julho de 1945. out b ritfcandle! Life's but a walking shadtm. se empertiga e agita E dele então não mais sefa la . O . USA. os japoneses nunca manifestaram 47 Out. uma segunda bomba. a conservação do Imperador. no sítio de Alamogordo. Discussões apai­ xonadas prosseguem. cujos técnicos também pesquisavam o problema da energia nuclear. a arma confirmava as expectativas dos estrategistas e cientistas que a haviam desenvolvido tendo em vista: 1) prevenir uma iniciativa semelhante dos nazistas. uma estória Contada por um idiota. um canastrão Que. simultanea­ mente. impondo como condição única. a poor player. Hiroshima. StffnifYin# nothing (M aebeth V 16). despertando na América o conheci­ do ímpeto suicida do pecador arrependido que bate no peito enquanto. A nd then is heard no more. estado de New Mexico. DE MEIRA PENNA A vida é apenas uma vela breve. it is a tale Told by an idiot. na verdade. a 10 do mesmo mês. Uma terceira. De caráter experimental. acentua-se a tentativa de se imunizar contra a responsabilidade de haver iniciado o conflito e fazer esquecer as barbaridades cometidas. carregada por um bombardeiro B-29. três dias.

e uma verdadeira hecatombe da população civil. .000 mortos. se tivesse sido pro­ pósito dos americanos estabelecer um Império mundial. Previam-se cifras enormes de perdas. com pombas brancas pintadas por Picasso. juntamente com o terror atômico. Ao final dos anos 50 já estava instalada a Guerra Fria. in­ clusive seu comandante. mas apenas vergonha por haverem perdido a guerra. os japoneses mais de cem mil.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 211 um sentimento de culpa pelo que fizeram em termos de agressão bélica. o fanatismo da população e o ímpeto suicida dos militares nipônicos. os Rosenberg c os famosos "cinco” agentes da British Inteliyftnu a serviço dc Mos­ cou. Na realidade. uma “campanha de paz” foi promovida pelos comunis­ tas. como preparativo para a invasão do arqui­ pélago nipônico. a bomba atômica soviética foi apressada pck> trabalho de espiões ingleses c americantxs a serviço do comunismo. restabelecer um certo equilíbrio no julgamento do que ocorreu e no libelo das esquerdas contra a bomba. sinfonias compostas por Santoro. facilmente o teriam feito pois dispuseram. O planejamen­ to da invasão do Japão levava em consideração essas perdas. O objeti­ vo era neutralizar psicologicamente a superioridade militar americana. baseado numa novela de Catherine Duras. na ilha de Okinawa. Stáline assegurava sua posse de metade da Europa. A última e mais mortífera batalha da IIa Guerra Mundial ocorreu de fins de abril a junho de 1945. o general Buckner. uma superbomba de fusão do hidrogênio (agosto de 1953). durante dez anos. no entanto. com o episódio tétrico do suicídio em massa de civis. Os americanos ali perderam quase 15. Manifestos de Estocolmo e o filme de Alain Resnais. As mulheres e as crianças esta­ vam sendo treinadas para se lançarem contra os tanques americanos com 4H Desenvolvida rapidamente a partir de 1945 por uma plêiade dc físicos que conseguiram se livrar das suspeitas paranóicas do ditador. entre os quais Klaua Fuchs. alegando que a bomba soviética visava apenas resguardar a URSS do imperialismo do adversário48. Cabe. Entrementes. escritora comunista francesa. a existência de 12. garantia o triunfo de Mao na China e mandava invadir a Coréia do Sul como desafio. pelo menos duzentos mil soldados americanos e aliados. No período inicial da Guerra Fria e até 1953 quando morreu Stáline e a URSS detonou seu próprio engenho nuclear.000 aviões kamikase ainda em reserva. do monopólio da arma absoluta e de 50% da produção industrial global.

argumentavam contra qual­ quer atitude de complacência em relação ao inimigo. O . teve o mérito singular de assegurar a defesa da democracia ocidental. Tais considerações determinaram o Presidente Truman a usar a bomba. como se diz. provar a superioridade política. no annus mirabilis de 1989. 3) nem Hiroshima. parece-me que o armamento nuclear. Singapura e a Indonésia holandesa. Em outras pala­ vras. 7) numa ampla perspectiva histórica. atacando a China e ocupando posteriormente a Indochina francesa e um país neutro. causaram maior número de víti­ mas). Indonésia e outros locais. porém. d e M e ir a P e n n a bananas de dinamite atadas aos corpos. Permitiu-lhe. 2) a 7/8 de dezembro 1941 sur­ preenderam os americanos em Pearl Harbor e. quando este país já estava praticamente vencido.212 J. 4) o saque de Nanking (Nandjing). em que pese seu horror. de ameaçar sua própria so­ brevivência como civilização. em relação à população civil e prisioneiros europeus. as Fili­ pinas. . a longo prazo. simultaneamente. com o propósito deliberado de aterrorizar a po­ pulação e provocar a rendição da China. social e eco­ nômica do seu sistema e assim provocar. e. Filipinas. Calcula-se em duzentos mil os civis massacrados em uma semana pela soldadesca nipônica desembestada. Menguele parecem as de um aprendiz. o colapso do comunismo. Hong-Kong. Malásia. 5) o comportamento do Exérci­ to japonês na China. o “equilíbrio do terror” e a possibilidade de destruição mútua (o que os americanos chamavam de MAD — M utual Assured Destruction) terminou por criar as condições estratégicas para o triunfo do Liberalis­ mo. em princípios de 1938. 6) a destruição nu­ clear das duas cidades teve o efeito estratégico desejado de provocar a rendição do Japão e servir de aviso à Humanidade quanto aos ominosos perigos da nova arma — capaz. consti­ tuiu provavelmente o mais horrendo ato individual da guerra. Qualquer julgamento moral em torno da tragédia tem que levar em consideração os seguintes fatores: 1) os japoneses haviam iniciado a guer­ ra em 1937. a Tailândia. comparadas com as quais as do Dr. juntamente com atos hediondos como experiências médicas. nem Nagasaki constituíram as piores carnificinas da guerra (o bom­ bardeiro incendiário de Tóquio e o de Dresden na Alemanha. sempre tendo constituído a ultima rntio de todos os enfrentamentos políticos no período da Guerra Fria.

ocorreram antes mesmo do término da Guerra Mundial49. combatiam o inimigo comum mas. pela URSS. com a tentativa soviética de colocar mísseis em Cuba. A Europa foi salva pelo 49 Servindo então cm Ankara. prova material do apoio americano. o general MacArthur ter-se-ia manifestado a favor do uso tático da bomba atômica para impedir a tra­ vessia do rio Yalu. pelas massas inumerá­ veis de soldados chineses. os coreanos do Norte deram início à Guerra da Coréia que. Outros desafios comunistas ocorre­ ram. Do outono de 1947 a 1949. o mais sério de todos. provocaram uma rebelião e se tornaram praticamente donos de quase toda a Grécia no momento da retirada da Wehrmacht. os comunistas gregos da ELAS. Na China. freqüentemente. Naquela ocasião. apoiados pelos comunistas iugoslavos de Tito. em certo momento. Naquela ocasião. guerrilhas sustentadas. no verão de 1947. que venceu em fins de 1949. . estive em Istambul para assistir à visita do encouraçado Missouri. na China e em outras áreas. ao norte da península coreana. onde ainda se encontra. assim como o controle dos Estreitos. como na Iu­ goslávia. se enfrentavam umas às outras. como os golpes que forçaram governos comunistas na Polônia e na Checoslováquia. Esse episódio foi posteriormente des­ critos por alguns analistas como a primeira batalha da 3a Guerra Mundial. após a rendição da Itália. visitei a Grécia em 1946 e.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 213 Assisti in loco às primeiras escaramuças que. Vários outros perigosos entreveros ocorreram. na verdade. foi a superioridade nuclear americana o que forçou Khrushev a abandonar seu atrevido bluff. Foi então que o Presidente Truman formulou a Política de Contenção do seu nome. Mas a URSS desafiava os Aliados ocidentais também na Turquia: Stáline exigiu a entrega das províncias orientais de Kars e Ardahan. provocou um enfrentamento bélico entre chineses e americanos. do outro. os ingleses intervieram a favor dos elementos democráticos do país e conseguiram expulsar os comunistas de Atenas. A sugestão não encontrou receptividade por parte de Truman que acabou demitindo o famoso general. de um lado. Mao Dzedong reencetou a Guerra Civil. o bloqueio de Berlim c. Em dezembro de 1944. Desde setembro de 1943. em 1962. fui Encarregado de Negócios na nossa Embaixada cm Nanking c aí testemunhei o final do regime do Kuomintang e sua tnmstcrèncu par» Taiwan. pelos Aliados ocidentais e. Em 1950. Na Grécia.

com a conivência da intelectualidade de esquerda nos EUA e na Europa. 51 O professor Richard Pipes. a propaganda comunista. e gol­ pes militares (como o da Revolução dos Cravos em Portugal e em muitos países pequenos do Terceiro Mundo). descrito como o “Império do Mal”. Naquela época. na época. A propaganda de esquerda insistia brutalmente na responsabilidade dos EUA em matéria de armamento nuclear. A verdade é que. que é o mais prestigioso sovietólogo americano. Tenho sido acoimado dc “direitista”. para cerca de 7. também no caso. por haver prevenido a transformação do Brasil numa imensa Cuba. especializa­ do em história da Rússia. também considera o aumento dos orçamentos dc Defesa dc Reagan.Império americano”. pretendeu assegurar o triunfo do Marxismo-leninismo através dos métodos de agitprop. O . a meu ver. que lhe atribuiu o designativo irônico de “Guerra nas Estrelas” (Star W ar).57% do PIB americano. num avançado sistema infor­ matizado destinado a destruir em vôo os mísseis de longo alcance. que. a partir de uma tese para a Escola Superior de Guerra onde lhe segui o curso cm 1965. comprometeram o regime. A Iniciativa incorreu no sarcasmo generalizado da própria imprensa esquerdista americana. enfrentando a OTAN e o potencial de reta50 Coloquci-mc francamente ao lado da “revolução” dc 1964. desinformação. por haver consistentcmente combatido a tentação totalitária que então se apossou do país. guerrilha urbana e rural. DE MEIRA PENNA Plano Marshall e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO). No Brasil. Mas p golpe mortal às pretensões soviéticas de hegemonia mundial foi desferido pelo Presidente Reagan. Seria assim prevenido um ataque de surpresa (First Strike) — um tipo de peri­ go que traumatizou permanentemente os americanos após o ataque a Pearl Harbor. como se fosse uma fantasia de ficção científica51. especialmente os de Costa e Silva c Geisel. como um dos principais motivos do . essencialmente. “ultra-coascrvador” e até “fascista”. em “Finlandização da Europa” e “Declínio do. Eram as teses de Gramsci que estavam sendo postas em prática. Durante a Guerra do Vietnam e na década dos 70.214 J. na década dos oitenta: reconhecen­ do a vulnerabilidade econômica e tecnológica do adversário. ao tempo do governo CasteHo Branco. o desafio aberto da Esquerda militante foi contido. cscrcvi a obra Política Externa — Segurança e Desenvolvimento. Chegou-se a falar. Reagan desenvolveu a “Iniciativa de Defesa Estratégica” que consistia. Argentina e Chile. Foram os governos militares subsequen­ tes. pelo recurso a regimes militares repressivos50.

O desastre de Chernobyl evidenciou seu atraso tecnológico. a URSS deparou-se com uma posição insusten­ tável..O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 215 liação atômica americano. tornara-se patente: Revolução Mundial e Bomba de Hidrogênio são incompatíveis. como teoria e como prática. A fraqueza inerente do socialis­ mo. A quantia astronômica levtni a economia russa ao colapso. . colapso do Império soviético: Moscou foi obrigado a dedicar cerca de 35% de seu PIB para Defesa. a fim de manter paridade com os EEUU.. A eco­ nomia centralizada entrou em depressão.

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a não ser que sejam seguidas pela constituição da Uberdade recentemente conquistada.PARTE II Nada há de maisfiítil do que rebelião e libertação. 1963) . H annah Aren dt (em On Revolution.

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que se inicia em 1568. proto-socialista. DE LOCKE A TOCQUEVILLE ste o tema específico da presente seção — introdutória ao exame do desenvolvimento histórico da Revolução Liberal e da ContraRevolução socialista. bur­ guesia que incluía o artesanato e se aliava ao campesinato. não só políticos como eco­ nômicos: não pagavam impostos e possuíam jurisdições especiais. Gracchus Babeuf quis converter esse princípio de isonomia legal num igualitarismo econômico forçado. Na Grã-Bretanha a estrutura social era mais matizada e complexa. quatro “Revoluções” marcaram a transição histórica do privilégio e Absolutismo opressivo para a isonomia e a liberdade: a Guerra de Independência dos Países Baixos. A estrutura social francesa no século XVIII comportava três classes ou estados-. quanto o da igualdade de direitos. Em 1789. Além disso. expondo as rcivindi* cações igualitárias da massa da população. Na época moderna. Em princípios do sécu- . a Revolução de 1688 na Inglaterra. Notese que os phibsophes do Iluminismo. Os dois pri­ meiros estamentos gozavam de privilégios. o problema não era tanto o da liberdade. o clero e o “terceiro estado”. a Guerra da Inde­ pendência dos Estados Unidos e a Revolução Francesa. isto é. Acontece que. Tal foi o mérito da Revolução em 1688. sua “Conspiração dos Iguais” foi suprimida pela força e ele próprio guilhotinado. Qu'est-ce que le Tiers Etat?. seis anos depois. existia um Parlamento: reformas estruturais podiam ser realizadas sem comoçáo violenta.9. Voltaire por exemplo. o abbé de Sieyès publi­ cou seu famoso panfleto. Quando. preocupavamse sobretudo com a necessidade de supressão dos privilégios iníquos que favoreciam as duas classes dominantes. a aristocracia ou nobreza heredi­ tária tradicional “de espada”. nesta última. A movimentação vertical mais flexível do que na França.

O . e. no entanto. as ideologias de “direita” exacerbadas no racismo. descreve um tipo de dominação ou autoridade (Herrschaft) tradicional em que o Estado é mais forte do que a sociedade. através da ética utilitarista de Bentham. o Socialismo que aparece como extrapolação da tese de Ricardo quanto ao valor baseado no trabalho. na América já estavam as classes na população de origem européia suficientemente “democratizadas” num sistema de isonomia para não exigir um processo revolucionário de conteúdo “social”.220 J. as três principais correntes ideológicas que iriam dividir nosso século se abrem a partir de um ponto comum. a filosofia de Nietzsche. do outro. um período de transição que. a um verda­ deiro entendimento dessa noção de isonomia. . um industrial geralmente classificado como “socialista utópico”. através de sua influência sobre Darwin e Spencer. Tocqueville foi o autor que melhor compreendeu e estudou esse aspecto da Revolução americana em sua obra famosa De la Démocratie en Amérique. É o problema que desejo preferencialmente abordar neste ensaio. que. as três correntes evoluíram em direções diferentes. que o termo “socialista” começa a ser aplicado aos partidários de Robert Owen. no fascismo e no na­ zismo. Curiosamente. Pondo de parte a permanência da Escravidão. num vasto movimento de idéias. É em 1827. o princípio da população de Malthus que. ou igualitarismo de renda com a propriedade comum dos meios de produção. sobre as quais voltaremos. O termo Patrimonialismo. James e Stuart Mill. Nos cem anos seguintes. Fácil é compreender por quê. Acrescentemos a estas obser­ vações. Na Revolução americana — anterior á francesa em duas décadas — o princípio da liberdade domina o de igualdade. vinte anos portanto antes de Marx. eventualmente. vai originar. infelizmente. não registou violência considerável. mesmo no Reino Unido e em toda a Europa oci­ dental. levam para o terreno político/social as teses econômicas de Ricardo. uma Nova Classe ou Nomenklatum privilegiada de burocratas em virtude da qual são uns orwellianamente mais iguais do que outros. cunha­ do por Max Weber. ao promover a “revolução prole­ tária” em nome de uma fictícia igualdade econômica. O que ocorre é que ainda não alcançamos. d e M e ir a P enn a lo XIX a Inglaterra conheceu. o socialismo acabou regenerando. De um lado o Libe­ ralismo que. o chamado “darwinismo social” e. em terceiro lugar. com seus filósofos ditos “radicais”.

conseguir equiparação sucessivas com os mais bem pagos e conquistar postos e promoções que lhes permitam elevação na pirâmide hierárquica. a única nação cujas liberdades populares começavam a ser assegu­ radas por pactos. Afogado nas des­ pesas de custeio do pessoal. juizes e congressistas. No que é hoje a Suíça. estaduais e municipais. A partir desse momento. O resultado é que. como denuncia Ney Prado em Virtudes e Vícios da Constituição. A Isonomia tem sido invariavelmente invocada por funcionários públicos federais. O poder político e econômico é realmente detido por uma oli­ garquia político-burocrática inteiramente dependente da estrutura estatal.. A primeira reunião de um legislativo (Ijtndsjjfemeinde) data de 1294. e por todo o imenso pessoal das estatais (de oito a dez..milhões de pessoas. recordando a Magna Carta de 1215. A Primeira Revolução Liberal na Holanda e na Inglaterra Surgiu o movimento constitucionalista de que somos herdeiros nos séculos XVII e XVIII. Schwyz. segundo cálculos conserva­ dores) e políticos em geral para manter privilégios. Unidos. aumentar salários.O EsríR iTo das R e v o l u ç õ e s 221 Nesse regime patrício. ela própria de origem suíça. desde 1988 a máquina burocrática do Estado aumentou as despesas de custeio da União de 8% do PIB para 16%. veneráveis direitos e franquias dos camponeses das montanhas helvéticas. Leviatã e Behemoth parecem imbatíveis. por militares. Uri e Unterwalden — o primeiro dos quais ia dar seu nome ao país. porém. Com ele. Sempre pensamos na priorida­ de britânica. não se faz distinção entre o que é público e o que é privado. habituadas ao isolamento. tratados. Não era a Inglaterra. constituições ou “contratos sociais" democráti­ cos desse estilo. outros cantões . O tratado era dirigido contra o domínio da família de Habsburgo. o Estado caminha rapidamente para a falên­ cia. com o intuito específico de limitar o poder absolu­ to dos monarcas. nativos ou estrangeiros. foram consolidados pelo pacto de 1291 entre as “cantões da floresta” (Vtcrwaldstattcn). por empregados do legislativo e do judiciário. também o país.

Publicado em 1976. Alain Peyrefitte dedica dois capítulos ao primeiro “milagre” da história ocidental. Conta-se que. na área de que trato. DE M EIR A PENNA vão acedendo à Confederação que.222 J. o Parlamento. Com sua conhecida retórica e verve apimentada de sense o f humour. os franceses. durante a II* Guerra Mundial. havendo escapado por milagre de um ato terrorista. no contexto cultural francês que determinou a decadência relativa daquela que. Mas a importância da tese defendida é que. a obra principal de Peyrefitte. .100 anos da primeiro ocupação da ilha por Vikings noruegueses (que já lá encontraram monges irlandeses). os duques de Borgonha. é Le M al Français. gaullista fiel. Foi uma espécie de imensa quermesse no magnífico sítio de Thingvellir. o da Holanda. infelizmente. a obra. todas nações de língua inglesá. A Confederação Helvética pode ser assim considerada um paradigma da Europa futura. S3 Não obstante os esforçai que desenvolvi. E exemplo mais relevan­ te é o dos Países Baixos. compareci em 1975 às cerimônias comemorativas dos 1. escritor de quem me orgulho de ser amigo. do lado alemão. Nele. eventualmen­ te. depois. prefeito de Provins e membro da Academia Francesa. oito vezes Ministro desde 1962. A comemoração celebrava também a primeira reunião do Althing. Grande político. O . do lado francês. cuja formação vulcânica desenha um anfiteatro natural. Em sua obra recente Du M iracle en Economie. No italiano e espanhol recebeu o título de M al Latino . para constituir o que parece ser hoje o mais perfeito modelo de um Estado democrático e liberal plurinacional. inclusive da Justiça (no gabinete Barre). acaba expulsando os Habsburgos austríacos e. em sessão solene. Uma referência especial devo fazer a Peyrefitte. nunca interessou editores brasileiros. Seu propósito é. especializado em assuntos políticos e culturais e particularmente interessado na China sobre a qual já escreveu meia dúzia de livros. até princípios do sécuSI Como embaixador do Brasil. o livro foi traduzido em várias lín53 guas. Churchill principiou o discurso confessando que vinha da chamada “Mãe dos Parlamento*” para prestar homenagem “à Avó” daquela instituição. em particular. não reservam bom acolhimento. e mil anos da iastalação da República. A Islândia é outro caso notável na Europa52. fazer um estudo comparativo entre os males do patrimonialismo que atrasaram o desenvolvimento dos países latinos. atira-se Peyrefitte à árdua tarefa de analisar a alma de seu pró­ prio povo — prova corajosa para a qual os latinos e. a Inglaterra e. e o liberalismo que favo­ receu a Holanda. Churchill visitou Rcykjavik onde foi recebido pck) Althing.

Em sua meditação. a comen­ tar suas teses sobre a burocracia latina. assevera que “uma boa idéia de natureza econômica ou tecnológica. o Estado se considera rei absoluto. hoje. O grande escritor e político acentua que os primeiros sintomas desse centralismo estatal absolutista se caracterizam justamente no século XVII. c'est moi. era a maior. hierarquizada e dogmática. estreito. no Absolutismo monárquico e no autoritarismo avassalador da estrutura social hierárquica que domina nossos países.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 223 Io XIX. se referindo à França. a mentalidade autoritária. na Contra-Reforma. na origem comum em Roma. Peyrefitte se revela discípulo leal de Max Weber a quem cita repetidas vezes. cabe um papel negativo especial ao Estado centralizador e burocrático. a oscilação entre a ditadura e a confusão. mais adiante nesta obra. ao golpe da Reforma e da ContraReforma — uma crise profunda que lançou uma parte do Ocidente no caminho do desenvolvimento. O pensamento é tocquevilleano. Ele é igualmente sustentado pelo histori­ ador inglês Lord Hugh Thomas que. constitui outro exagero ou hipertrofia das funções de teledireção aberrante dos latinos em geral. na tradição autoritária romana. resultantes do espírito administrativo rígido. como trauma na história da Europa. compulsivo que a França teria herda­ do da tradição católica romana. No momento. Peyrefitte é um liberal. de­ vemos procurar a tendência ao Cesarismo. bloqueado. o que nos interessa . o rei se tomava como o Estado. retendo a outra parte no que ele descreve como uma sociedade pouco flexível. Peyrefitte alega. este também estudado com determinação por um outro francês. Voltaremos. Muito antes de outros analistas e vendo o problema de den­ tro. os preconceitos anti-econômicos. Trechos substanciais do livro são constituídas pela crítica acerba das “estruturas sociais doentias”. o fascínio pelo enfrentamento político e a guerra civil. mais rica e mais ativa potência da Europa. não que sejamos vítimas de uma enfermidade específica mas que. Lembrando ironicamente a frase famosa atribuída a Luís XIV. na maioria dos estadas europeus. O autor empresta ênfase particular. observa Peyrefitte que. mas o mal se vai acentuando à medida que mudam os regimes. desconfiado. Michel Crozier. ele diagnosticou as origens do Mal Francês. O fenômeno buro­ crático. arcaizante. outrora. O mesmo aliás ocorria. só poderia prospe­ rar se tivesse o suporte do Estado”. paralelo ao Mal Latino. L'Etat. na mesma época.

O país era suficien­ temente poderoso para pensar na conquista do Brasil. teria sido. estadista eminente que recebeu o título de Grande Pensionáno e foi assassinado numa arruaça provocada pelos partidário de Guilherme de Orange. no dizer de Peyrefitte. E também a sociedade mais moderna e mais liberal. Excepcional. a esta legou a herança borgonhesa. é que os oitenta anos de revolução religiosa. na época com uma popula­ ção pouco superior a um milhão. Spinoza e Grotius. França. na redcscobcrta da famosa coleção de mais dc 800 desenhos. de onde vinha o açúcar. é a administração do Príncipe João Maurício de Nassau em Pernambuco. herdeiro simultanea­ mente das coroas da Áustria. realizados por aqueles sábias holandeses servindo ao Príncipe de Nassau. a violência bélica prolonga-se até a paz de Münster de 1648. no caso.000 navios. consoli­ daram seu regime democrático com a presença paralela da dinastia de Orange-Nassau. tornaram-se indepen­ dentes. aquarelas e pinturas da obra cm sete volumes. mais do que a Inglaterra.224 J. O . Não obstante. o primeiro tcóri54 Tive a honra de colaborar. os holandeses sofreram as agruras mais ferozes da invasão e do governo repressivo do terrível duque de Alba. por exemplo.000 homens. realizaram sua Reforma protestante. sob o título Theatrum Rerum NaturaUum Brusiliae. quando embaixador cm Varsóvia. DE M E IR A PENNA é a análise da precedência holandesa. Portugal e Espanha combinados. quando o Imperador Carlos Vo. onde alguns dos naturalistas que trouxe em missão realizaram as primeiras pesquisas de botânica e zoologia no continente americano54. É a época áurea de Rembrandt. Johan de Witt. Habsburgo. do ponto de vista cultural. Vermeer. os Países Baixos armaram 16. revolução política e guerra de independência coincidem num movimento libertário que se inicia em 1568. O interessante. dominava nas artes. Interrompida pela Trégua de 1609. Entrementes. Simultaneamente. Pequeno país praticamente conquis­ tado ao mar pelo esforço de seus habitantes. Borgonha e Espanha. . No período da Trégua. e se tornaram uma das maiores e mais ricas potências da Europa. adotaram um regime econômico capitalista e conquistaram seu império colonial num período de menos de cem anos que se inicia em 1551. que hoje por vias travessas se encontra na Biblioteca da Universidade dc Cracóvia. na literatura e no pensa­ mento. Polonia. com tripulação total de 160. as Províncias Unidas dos Países Baixos se formaram. que lhes fornecia os chefes militares.

e o aumento de seus bens. como escravos malditos e. As grandes nações européias estavam então governadas pelo que se chama o regime dos Déspotas Esclarecidos. E contrariando as teses de determinismo econômico de seu conterrâneo Fernand Braudel em La Dynamique du Capitalisme. c a decisão negativa e fatalista da comissão castelhana encarregada do projeto de canalização do Tejo e do Matuanares. império comercial contra império territo­ rial. e explicita seu programa político com pensamentos memoráveis por sua atualidade55. um inferno na terra. se forem priva­ dos de sua liberdade natural e constrangidas de todos os lados. explicando que o Estado deve interessar-se pela economia mas a economia não deve estar a serviço do Estado. . combate o patrimonialismo.. encontrarão um paraíso no país mais carente do mundo. insiste na necessidade de separar o poder econômico do poder político — isto é. Seria atentatório aos direito* da Providência arrumar aqmk> que Ela desejou manter imperfeito. Precedendo em mais de cem anos as teorias de Adam Smith. “seria muito necessário facultar a todos os habitantes toda a liberdade possível para a conservação de seus corpos e almas. e apreço pelo lucro contra recusa aristocrática de derrogação56... os holandeses defenderam a liberdade de comércio e um sistema de livre iniciativa que lhes garantiu. mesmo em relação ao catolicismo. um sôfiat teria sido necessário. Numa espécie de “Memórias” que escreveu. inovação contra arcaísmo. de Witt refere-se aos fundamentos institucionais da prosperidade holandesa. cujo sistema econômico era mercantilista. que é into­ lerante e exclusivista. escolha do mar contra escolha continental.. não estariam habitando senão uma prisão. por conseguinte.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 225 co da liberdade do comércio e da influência da mentalidade sobre o pro­ gresso econômico. Pois.. como os habitantes do mais belo e rico país do mundo. através do sistema de peUm. assim também. direitos individuais contra hierarquia autoritária. pois Seus caminhas são impenetráveis". ao concluir que “se Deus houvesse desejado que esses dois rios fanem navcgávrà. democracia contra mo­ narquia absoluta. insiste Peyrefitte nas condições mentais ou culturais que favoreceram os Países Baixos em contraste com a Espanha: voluntarismo contra fatalis­ mo. liberdade de pensamento contra dogmática inflexível. critica o aperto fiscal que atribui aos regimes monárquicos. possuindo a liberdade de empregar seus direitos naturais tendo em vista sua conservação. escreve ele. 56 Peyrefitte exemplifica com o contraste entre a iniciativa técnica dos holandeses dc con­ quistar seu território contra o mar. 55 “Em todos os países do mundo”. pois a vrmtade de uma pessoa é sua vida e seu paraíso”. de­ fende a tolerância religiosa.

Comparem simplesmente o sucesso dos Países Bai­ xos. Roraima. Presidente do Senado quando . no correr da evolução política dos séculos XVII e XVIII. vinte vezes superior ao voto de um paulista. burgueses. artesãos e. o que não daria nem para levar um vereador ao legislativo municipal do Rio ou dc S. onde o constituci­ onalismo se manifestou em primeiro lugar. cm toda a Europa. à aberração de conceder franquia eleitoral a uma massa de analfabetos e menores dc idade — privilegiando. A aberração pode ser aquilatada pelo fato de deputados desses pequenos estados serem eleitos às vezes com menos dc dois mil votos. campone­ ses e operários57. alem disso. porém. a Islândia e a Holanda. O . ameaçados pela centralização crescente da autoridade soberana que os Reis e outros príncipes da época empreendiam em seus respectivos Estados: erguia-se o Absolutismo! A fórmula dominante de sacralização do Estado era o princípio cujus regio. por exemplo. depois do enfrentamento com o poder absolutista do Papado e graças à Reforma protestante. cujo voto adquiriu uin peso eleitoral às vezes dez. e a religiosa das seitas de Puritanos calvinistas.226 J. Na Holanda e Inglaterra. foi a Grã-Bretanha o primeiro grande país a se encaminhar para um regime liberal parlamentarista. com o triste declínio de Portugal. os direitos e privilégios da aristocracia foram aos poucos estendi­ das a todos os cidadãos. sofrendo de uma burocracia tapada. os eleitores dos estados mais atrasados c miseráveis da União. Acre. estavam esses direitos e privilégios sendo. da censura religiosa do pensamento e do mercantilis­ mo obsoleto como sistema econômico. uma indiscutível hegemonia econômica. a da aristocracia feudal aliada à burguesia mercante de Londres. Sucedeu-lhes como paradigma liberal a Inglaterra. Contribuem com a idéia de direitos naturais para o movimento europeu em que sur­ gem nomes como dos teólogos espanhóis Vitoria e Suárez. Chegamos ao final do scculo XX com a capacidade total dc voto c mesmo.Paulo. Passando por duas Revolu­ ções no século XVII — a de Cromwell e a cognominada “Revolução Gloriosa” de 1688/89 — o ímpeto de transformação política sofreu uma dupla influência. um mineiro ou um carioca. ejus religio. d e M e ir a P e n n a no século XVII. Se abstraímos a Suíça. A intenção original dos primeiros grandes constitucionalistas era as­ segurar as direitos e privilégios da nobreza feudal. como no caso brasileiro. Tocantins. Amapá. naquela época. Consolidados no Me­ dievo. posteriormente. junto com Pufcndorf e Grotius.

na Inglaterra. construíra como uma detesa radical do Absolutismo monárquico dos Stuart. alegando que a seleção escrevo. Desde então. Este. Lockc pregou a Revolução liberal parlamentarista ao derramar seu sarcasmo contra a tese de Filmer. Na Primeira Revolução Inglesa.000 votos! Maior desatino do que se chama dem acratim a poderia dificilmente ser encontrado! . e na Segunda. Quando Carlos I foi decapitado e Jaime II deposto. Isso ocorreu não obstante o fato dos ingleses jamais haverem considerado necessário consolidar num único documento escrito todos seus textos constitucionais e sua legislação costumeira. pela Magna Carta de 1215. ao rei João SemTerra. que Thomas Hobbes transformara numa tese de filosofia política c Sir Robert Filmer. senão com o próprio Catolicismo sob a autoridade papal que a maioria da população repudiava. o Absolutismo fora identificado com o Anglicanismo de Henrique VIII e de sua filha Elisabeth. Adam Smith e Madison O primeiro e mais famoso documento da evolução referida é repre­ sentado. que derrubou os Stuarts e cujo ideólogo foi John Locke. Outro autor que merece ser lembrado é Algemon Sidncy (1683) que escreveu seu Discourses Conceming Government tam­ bém para combater as teses absolutistas de Filmer.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 227 Locke. John Lackland Plantagenet. pelos lordes rebeldes. No caso. o atrevido Ri­ cardo Coração de Leão que fora seqüestrado pelo duque da Áustria ao regressar das Cruzadas. Foi imposta. normandos e saxões. foi transferida do rei para o Parlamento. Sarncy foi eleito Senador por 12. em seu Patriarcb. em Runnymede. os britânicos asseguraram o fim do Absolutismo que lhes fora imposto pelas dinastias dos Tudor e Stuart. A noção de soberania absoluta do Estado monárquico. o processo de evolução constitucio­ nal para um Estado de Direito nunca se deteve. a de Cromwell. necessitava de recursos para prosseguir na guerra contra a França e resgatar o irmão. o que os ingleses temiam era um relacionamento mais íntimo com a High Churcb anglicana. sabiamente elaborados ao longo de séculos tumul­ tuosos e atormentados.

no entanto. acusado de participar de uma conspiração contra Carlos II. liber­ dade. DE M E IR A PENNA dos governantes por mérito. O poder resulta da natureza pecaminosa do homem. embora tenham os indivíduos progressivamente conquistado contra o Estado. Em teoria. Partidário assim de Cromwell.12). absoluto. pelo menos em tese. a famosa “Vontade de Poder” de Nietzsche constituem punições pelo Pecado Original. Agostinho afirmou claramente que o Estado é um mal necessário. configuram a soberania nacional. O . pelo Bill o f Rights de 1690. como se fosse cie próprio Deus. foi Thomas Hobbes o primeiro grande filósofo político a postular a preemi­ nência do indivíduo sobre a sociedade e a considerar o Estado como um mal necessário — eis que a este concedeu o título de um monstro perver­ so do antigo Testamento.228 J . o instinto de domí­ nio. mas imposta segundo suas próprias condições. do mesmo modo . Já foi notado que Agostinho. este incluindo os Lordes. Menos de cem anos depois. opinião e expressão. foi execu­ tado no período da Restauração dos Stuart. todos os homens desejam a paz em sua própria sociedade. como ocorre nas Repúblicas. 19. Na verdade. não é incompatível com um sistema de monarquia constitucional parlamentarista. “Pelas leis da natureza o homem é de certo modo forçado aos relacionamentos sociais c à paz (societatem pacemque) com outros homens”. Mas como resultado do pecado. é melhor do que pelos acasos do nascimento. O poder do Parlamento é. O domínio de um homem sobre o outro. os Co­ muns e os juizes das Altas Cortes. gosta de impor sua própria soberania sobre os outros homens” {opus cit. A escravidão e mesmo a submissão do ho­ mem à autoridade do Estado é penal em sua característica. Na realidade. Adam Smith ia pregar a extensão desses direitos e liberdades ao plano econômico. “só poderia haver surgido como resultado do pecado” (Civitas Dei. propriedade. Tanto o instinto sexual quanto o egoísmo. são hoje as 600 deputados “comuns” quem a detêm. uma margem cada vez mais larga de liberdade e assegurado seus direitos de vida. essa idéia já se encontrava na De Civitate Dei de Sto. “o Rei no Parlamento”. Em suma: “o homem pecador odeia a igualdade de todos os homens abaixo de Deus e. como por exemplo na escravidão. Agostinho. Sua obra.1). O Leviatã hobbesiano teoricamente persistiu. 15. Embora geralmente considerado um promotor do Absolutismo.

Agostinho é que a civitas terrena. na verdade. Como fórmula de protesto contra o poder arbitrário do Rei. com ele. / E a partir dessa visão negativa do Estado pelo pessimismo de Hobbes que se chega à concepção mais optimista de Locke. A vida. de origem não confessadamente diabólica. Insisto nesse ponto pois a fórmula básica do dualismo de Sto. anterior tanto a Leviatã quanto a Behemoth. O ponto é importante. cuja influência é fundamental na criação da democracia liberal moderna. ao reco­ nhecer agostinianamente a natureza pecaminosa da política e do poder estatal. quando no gozo de sua inteira liberdade os homens concluem o Contrato Social e renunciam a essa autonomia absoluta para fundar a autoridade pública.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 229 como S. Mas no seu Essay on Civil Government. Como tais ilustres predecessores. Justino Mártir. precisamente porque fundamentada no egoísmo (amor sui) e na maldade do homem. Locke postula a independência e responsabilidade moral do indivíduo no estado de natureza primitivo. especificando a vida. o Parlamentarismo não comportou. com esses direitos. a liberdade e a propriedade são . a partir do Todo coletivo que precederia as partes individuais. E a partir do indivíduo. socialistas e marxistas — e o contraste desse coletivismo com os princípios liberais que partem do indivíduo em primeiro lugar. conseqüentemente. Hobbes. que se conclui o Contrato Social e não. como pensavam Aristóteles e. sustenta sua tese num pressuposto de “direito natural”. o que então seriam os reinos senão grandes grupos de bandi­ dos? Pois o que são os bandos de ladrões senão pequenos reinos?”. necessariamente. a segu­ rança. repete uma imagem que o próprio imperador Marco Aurélio havia utilizado em suas Meditações e tomou famosa: “Sem a Justiça. eles só abdicam em benefício do poder estatal daquela porção dc sua independência original e natural que seria incompatível com a exis­ tência de uma ordem social. a redu­ ção do poder coercitivo e interventor do governo. no Céu como modelo ideal de organização na base do amor Dei e do Altruísmo. Sem ele não poderíamos compreender a comunidade de pensamento entre católicos conservadores tridentinos. fascistas. Para o filósofo inglês. muitos dos Santos Padres da Igreja. platoni­ camente. está contaminada pelo mal — em contraste com a Cidade de Deus paradigmática que existe. a propriedade e a liberdade como condições mínimas para a so­ brevivência do homem. O homem livre é.

por conseguinte. é moralmente substancial. originalmente contratantes. Esclarece Locke que a propriedade “existe sem qualquer contrato expresso da comunidade”' . ou seja. 59 O tema será objeto de outra série de ensaios relativos à Ética social — já em preparação.230 J. o que tem sido. na fundamentação da sociedade sobre o interesse egoísta do indiví­ duo. Locke é censurado peias autoridades portuguesas. como se sabe. Livro II. o alvo predileto das críticas ao capita­ lismo por parte de católicos e marxistas59. recapitulado na Declaração de Independência americana em 1776. como a de Hobbes e Adam Smith. Se considerarmos que o regime democrático moderno encontra suas raízes na Inglaterra e nos EUA. na opini­ ão de John Adams. como mostra Antonio Paim em sua monumental História das Idéias filosóficas no Brasil. seção 25. Como Descartes. a obra de Locke foi passada em silêncio durante todo o século XVIII. segundo Presidente dos Estados Unidos. usa o termo propriedade (ou um termo equivalente. Contrariando Hobbes. temos por aí uma idéia da relevância daquele filósofo britânico. . ele insiste nessa parcela inalienável de nossos privi­ légios individuais mas é preciso admitir que. Não entramos aqui na cogitação de outro aspecto da filosofia de Lo­ cke que. A importância universal de Locke resulta da circunstância de seu Segundo Tratado sobre o Governo ter sido. Os pensadores liberais modernos têm compreendido que a ênfase no direito de propriedade e no interesse individual é imprescindível ao combate contra o coletivismo e o despotismo estatal que nos conduzem no “caminho da servidão” (Hayek). anteriores à constituição de qualquer soberania. O . A soberania absoluta do “Rei no Parlamento” é uma ficção criada pelos próprios súditos. Locke não perdera a crença na realidade do “direito natural” e também sustenta a rendição do indivíduo ao Bem Comum por um imperativo racional de harmonia é simpatia. Um pensador impor­ tante como Luís Antonio Vemey (1713/1792) não o menciona muito embora se apoie em seu Ensaio sobre o Entendimento Humano ao propor uma nova teoria do conhecimento. Mas acabou sendo 58 “jvithout any cxpress compact rfa llth e commonm”. Em Portugal e no Brasil contudo. DE M EIR A PENNA direitos naturais e fundamentais: “O governo não tem outro propósito a não ser o de preservar a propriedade”. estate) num sentido tão amplo que parece englobar todos os demais direitos. Tais direitos são. muitas vezes.

Adam Smith60. Harrington. Wells e Bernard Shaw. sob inspiração de Locke. Pela ação obstinada dos trabalhistas e socialistas fabianos. no século XVII. polí­ 60 Logicamente predizia Smith que a América Latina. jornalistas. o Partido Trabalhista modificou profundamente a estrutura social e eco­ nômica da Grã-Bretanha. hoje conhecido como “Liberalismo clássico” pelos economistas americanos para distingui-lo do detestado “liberalismo” de esquerda vigente entre muitos intelectuais. Os países de língua inglesa conseguiram. Burke. sem nunca abandonar uma estrutura “democrática” parlamentarista. ia acabar na pobreza e na tirania porque sua tradição visava a reconstitu­ ir a velha ordem romana. poderia a Inglaterra haver evoluído para um regime totalitário do tipo Ingsoc. A tolerância religiosa seguiu-se à cessação das guerras de religião que. sustentada na visáo mercantilista da riqueza como ouro e prata. Cultura (moral). em contraste com as “cokmias" da América do Norte. Rompendo com o rígido controle dogmático exercido pela Igreja. à Cultura e ao Mercado. Preservou-a dessa triste sorte a Dama de Ferro Lady Thatcher. juntamente com o esfacela­ mento do Império. os Pais Fundadores americanos e os filósofos “radicais” do século XIX. clérigos e demagogos do Partido Democrático. a ditadura sindical e o cansaço provocado pelo esforço de guerra. sem dúvida. O Primeiro Libera­ lismo é aquele que. conceber um regime de governo que. a li­ berdade de pensamento. o que acarretou. Bentham e Stuart Mill — iria assegurar as mais amplas liberdades até então alcançadas pelo homem no terreno político e econômico. universitários. Hume. de reunião e expressão é o componente cultural do Liberalismo que permitiu a extraordinária expansão da ciência e da tecnologia. O nevm ordo proposto por Smith repudiava precisamente esses três sustentáculos do absolutismo. como imaginou Orwell em seu 1984. assim facultando o sucesso do que poderíamos denominar o “Primeiro Liberalismo”.O E s ríR rro das R e v o l u ç õ e s 2 31 abusada na época moderna. haviam ensangüentado a Europa. desencadeando a Revolução industrial. A partir do fim da II Guerra Mundial. inspirados por intelectu­ ais como os Webb. o aparecimento de sinais evidentes de decadência. Muitos se têm por isso perguntado: “Why was England first?” (Tor que foi a Inglaterra a primeira?). abrindo o caminho para o renascimento do Liberalismo. . se estendeu à Religião. numa economia produtiva de grandes latifúndios e na união da Igreja e do Estado.

foi a extensão que pretendeu realizar do laissez faire ao âmbito internacional. como teórico da Revolução Gloriosa de 1688. do ponto de vista histórico. necessidades e propriedade. assim superando o mercantilismo vigente em sua época. DE M E IR A PENNA tica e economia representam. ou seja o liberalismo econômico. O indivíduo no mercado só possui dois atributos. não obstante respeitar os 61 Esta mesma idade que <>s reacionários da Esquerda teimosa pretendem agora anular com a noção insossa dc "pm-moderno”. sob a ação de uma ordem espontânea: a famosa “Mão Invisível”. o marco mais significativo do início da Idade Moderna61. decisiva­ mente. Ora. da represen­ tação parlamentar e do direito de propriedade — no campo econômico o herói é Adam Smith. Sua visão abarcava o mundo como um todo. E mais importante ainda. as três colunas mestras sobre as quais repousa o edifício portentoso da sociedade liberal moderna. Smith falou no “sistema ób­ vio e simples de liberdade natural”: assim definia a economia de mercado. usa o termo ao propor um Otn) Sendero para a solução de nossos problemas. Thomas Jefterson. Acontece que. em termos econômicos. Wealth ofN atwns. A obra foi simples e poderosa justamente em sua simplicidade. 62 Na coletânea de ensaios reunidos sob o título Freedom and Rejbrm . como veio a dizer Hayek. Hcrnan dc Soto. pode ser qualificada dc Mercantilista. sistema esse que não passava de um nacionalismo econômico sob a hegemonia do soberano absolutista . Acredito nesse sentido que é a data de 1776. se no campo político. ainda regidos por sistemas de intervencionismo estatal dc cunho nacionalista. a da Declaração da Independência dos Estados Unidos e a da publicação do Inquérito sobre as Causas da Riqueza das Nações. Inspirado no mecanicismo de Newton que englobava prati­ camente toda a filosofia da época. a vontade c o poder. A Revolução industrial encontrou em Smith a legi­ timação filosófica de que necessitava para o grande salto que ia. assevera Frank Knight que “nacionalismo econômico’' é uma designação mais apropriada para o sistema do que Mercantilismo. . assim. Nesse sentido. afetar a história da humanidade. O . Partindo de tordre naturel dos economistas franceses. por exemplo. ou seja. ao contribuir com James Madison para a feitura da Constituição americana. a mentalidade dominante em países subdesenvolvidos como o nosso. o mérito cabe a John Locke que condicionou a liberdade sob um Estado de Direito aos princípios da tolerância das opiniões.232 J . ele estabelecia que a economia também devia funcionar da mesma maneira automática ou.

de Smith. E a “mão invisível” de Smith e a “ordem espontânea” de Hayek que permi­ tem que. surja o progresso e o bem-estar das sociedades. no Reino Unido. Hume e Malthus. Locke. preliminarmente. Na obra dos autores anglo-saxônicos. Visava esta conceder aos cidadãos das Treze Colonias rebeldes os mesmos direitos de representação de que já gozavam. e na de Hobbes. aconselhava seios conterrâneos: ttnão ouçamos mais faiar sobre a bondade do homem. com eleições periódicas. sem que estes gozassem de representação adequada no Parlamento que votava o tributo. os súditos de Sua Majestade. objetivava. O regime municipal permitia aos cidadãos não só defender seus interesses locais imediatos. que se tornou um dos pontas básicos da disputa constitucional após a Independência. inclusive em Bernard de Mandeville. Era evitar o esfacelamento da União c coibir a arbitrariedade do Poder executivo. o huguenote holandês estabelecido na Inglaterra que escreveu sua Fábula das Abelhas para sarcasticamente provar que os “os vícios privados geram virtudes públicas”. mas educá-los para o self-govemment. Era o princípio básico da democracia econômica: no taxation mthout representation (“não pode haver imposição fiscal sem representação dos contribuin­ tes”). se consolidou o princípio que o homem é um ser basicamente egoísta que possui interesses vitais (princípio aliás implícito na formulação filosófica do amor sui em Sto Agostinho). A preocupação obsessiva dos Pais Fundadores náo era dc reduzir o papel do Governo federal. prote­ ger os interesses e a liberdade das minorias regionais contra a possível tirania da maioria no Estado nacional. A motivação inicial era impedir que o Rei impingisse impostos a seus súditos das colonias. do jogo racional dos interesses egoístas sob um Estado de Direi­ to. JefFerson reconheceu que o melhor livro de economia política era o Wealth o f Nations. Na dúvida sobre se escolhiam ou não um rei constitucional. Estabeleceram para isso a divisão dos poderes funcionais segundo a fórmula cara a Montesquieu (Executivo. que como salientamos foi publicado no mesmo ano da Proclama­ ção da Independência.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 233 grandes teóricos do Direito Natural. optaram pela instituição do Presidencialis­ mo. Uma faculdade . mas o tolhamos com as cadeias da lei e da constituição”. O sistema federal. Legislativo e Judiciário). Foi concedido ao Presidente poderes de que os próprios monarcas britânicos já nío mais gozavam.

Hume. A maior parte dos ensaios foi redigido por Hamilton que argumentava: “As causas latentes do facciosismo encontram-se im­ plantadas na natureza do homem. Soli­ damente realista e racional. de Richard Matthews. Nele Madison defende o pluralismo econômico. se deve o décimo paper — talvez o mais importante. da justiça. The Sacred Fire q f Liberty. o pensamento de Madison representa a quinta-essência do Libe­ ralismo clássico. esse aristocrata da Virginia que hoje é por alguns reconhecido como um dos mais astutos e mais profundos entre os Founding Fathers da República americana63. A idéia está expressa nos chamados Ensaios Federalistas (Federalist Papers) que constituem uma série de trabalhos. Madison conservou sua atenção adstrita ao problema da desi­ 63 Vide a obra de Lance Banning. religioso e cultural (e conseqüentemente político) numa República das proporções territoriais e demográficas consideráveis em que já prometia se transformar os Estados Unidos. rever a própria Constituição. principal inspirador ou “Pai da Constituição” e sem haver adquirido o prestígio e merecer o culto que cercam Washington. . O . em alguns casos. Criou-se o sistema de checks a n d b a la n c e . favorável a Madison. um acadêmico “politicamente correto” e fortemente crítico do pensamento madisoniano. porém. escritos em 1787/88 por Madison. da multidão democrática cujos instintos não são domados.234 J. Se. preocuparam-se os três autores dos Federalist Papers com o problema da liberdade. o quarto Presidente. distinguia-se de seu amigo Jefferson pelo pessimismo. d e M e i r a P e n n a especial foi igualmente atribuída à Côrte Suprema para interpretar e. Uma menção especial deve ser feita ao papel decisivo desempenhado por James Madison. assim como I f M en were A ngels. Jefferson e mesmo Franklin. Elas resultam da diversidade das facul­ dades inerentes a cada homem”. direitos do homem e proteção das minorias. O individualismo americano fez o resto. 85 em número. A Madison. isto é. Hutcheson e Smith. Amigo íntimo de Jefferson. no reconhecimento da maldade e violência inata do Behemoth. sustentado em Locke. como Tratado de Governo. Alexandre Hamilton e John Jay com o propósito de convencer o eleitorado americano dos méritos da Constituição que então se discutia. distribuindo e equilibrando os antagonismos suscetíveis de surgir entre as várias instâncias funcionais e territoriais do Estado. social.

O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 235 gualdade natural e diversidade de opiniões e interesses. e de como.. um sistema racional de checks & balance.. escreveram na carta n. traduzido para o inglês e me­ lhor conhecido. e suscetível de submissão catastrófica a ímpetos irracionais. a natureza do homem é boa e.. ainda muito longe do feliz império da sabedoria perfeita e perfeita virtude?”. uma vez que se descubra a organização social e política adequada. Hamilton e Madison eram realistas. ao dar à liberdade um fundamento filosófico e moral. na medida do possível. através de uma ordem legal bem concebida e soberana. E completemos esse quadro com a menção de Kant: o imenso pensador dc Koenigberg estava sendo. Não ali­ mentavam ilusões quanto à natureza humana64. Eram eles. o egoísmo e a irracionalidade eram condições a priori do real. Esperar uma contínua harmonia. do mesmo modo como <m demais habitantes do globo. a existência do mal e da injustiça social. filhos do Século das Luzes. O que convinha era or­ ganizar.. que deviam ser enfrentadas. cidadãos da Idade da Razão. Para Madison e seus colegas. "Não í por ventura a hora dc despertar do sonho enganoso de uma idade de ouro c adotar como divisa prática para orientar nossa ação política o fato que estamos. os Federalistas consideravam o homem como fundamentalmente egoísta. dentro da liberdade. Fiéis à tradição do empirismo anglo-saxônico. Hamil­ ton era outro que contestava “as especulações utópicas”. pouco a pouco. 6. 64 “Por acaso já não constatamos suficientemente a falácia c extravagância das teorias ocio­ sas que nos entretém com promessas de libertar-nos da imperfeição. ao contrário. nessa situação. seria despre­ zar o curso uniforme dos acontecimentos humanos”. promover e assegurar uma certa ordem social. a violência e a dis­ cordância de interesses iriam ipso facto desaparecer. Para os românticos. o facciosismo. dc equilíbrios e controles que deviam permitir a expressão de opiniões e interesses contraditórios. Madison contrariava a interpretação de Rousseau (seria a de Marx) que atribuía a certos fatores existentes na sociedade. . acentuando na linha de Hobbes que nunca se devia esquecer serem “os homens ambicio­ sos. sempre pronto a perseguir seus próprios interesses. vingativos e rapaces. e não no homem. conciliando-os. verdadeira­ mente. das debilidadcs e males próprios da sociedade em qualquer dc suas formas?”. Nos Federalist Papers. em detrimento dos alheios. Sem sucumbir à tentação romântica.

solitário. d e M e ir a P e n n a Madison era. como escreveria mais tarde Tocqueville. Madison desconfiava da democracia. “toda As­ sembléia ateniense não deixaria de ser um populacho (mob)”. Acima de tudo. de evitar os maiores estragos da política é montar sistemas bem arquitetados de controle mútuo entre os poderes e limitar. enfatiza a nobreza do homem livre. de fato. Tratava-se também. seria “hostil ao espírito revoluci­ onário e às paixões irrefletidas da multidão”. Essa tirania podia manifestar-se pela “política do pecado. convinha combater tanto a ditadura da maio­ . cinismo e sus­ peita”. A insistência sobre a importância do direito de propriedade. temperado com as luzes do Enlightenment. sem nos dar conta de que a única maneira. imagi­ nando que eles devem ser uns santos ou arcanjos. Essa tradição e espe­ ranças se corporificam e se transmitem pela Constituição — em teoria una e eterna. Por mais entusiastas da Liberdade que fossem. a ênfase de Madison no individualismo responsável e racional é. Notai o contraste com a postura mais comum entre nós.23 6 J. ao ga­ rantir o governo da maioria. o desgosto que lhe causavam as divagações dos socialistas utópicos como Owen e Robert Godwin. a presciência que o fez 'antecipar-se a Malthus no temor de um futuro de demografia explosiva e falta de recursos são o que o tomam pouco simpáticos aos “socialliberais” ou “social-democratas” de esquerda. filhos que somos do espírito da Contra-Reforma e do Romantismo francês: invaria­ velmente protestamos contra os vícios e corrupções dos políticos. de proteger as opiniões e interesses de mi­ norias. acima de tudo. que o acusam de desconhe­ cer a compaixão. “Se mesmo todos os cidadãos de Atenas fossem Sócrates”. “uma ilusão de tolos”. a simpatia e o cuidados com os outros. inclusive na economia. sua frieza e racionalidade. A Constituição é a cúpula do sistema tradicional de leis que. Nesse senti­ do. Em outras palavras. escrevia ele no The Federalist Papers. a área intervencionista de tais poderes na vida do setor privado da população. no fundo. de um modo geral. temia a tirania da maioria sobre os direitos individuais de minorias. relativa. hobbesiano. através dos laços de tradição que representam a soberania do povo do passado e as esperanças do povo do Juturo. Mas como calvinista. esses pensadores ame­ ricanos reconheciam a necessidade de restrições à soberania do povo do presente. interessante do ponto de vista do Liberalismo moderno que. a amizade. trabalhador e responsável. O .

em O» Liberty. em 1958. que se manifestou por volta de 1780. à garantia efetiva de entrada e saída de qualquer indústria. no Brasil. assim como garantidor da tolerância pelas opiniões divergentes em termos religiosos. e “procurar a felicidade” (pursuit o f happiness) — salvo que não pode ofender igual liberdade do outro. Madison. do respeito absoluto aos contratos voluntariamente concluí­ dos. . defender seus interesses e os de sua fa­ mília. segundo a qual a opini­ ão minoritária. Tb* P*túm t f M m Society. John Stuart Mill ia insistir. em contraste com a liberdade positi­ 6S Sobre a problemática da sociedade de massas que estimulou alguas a tentar rcsolve-lt através do totalitarismo. bem como o livro de C. Foi Isaiah Berlin quem. agir. que è de 1930. O papel de simples mantenedor da lei e da ordem constitucional. políticos e ideológicos. Kornhausen. iniciou medidas enérgicas para prevenir um princípio de inflação. limita-se à proteção da vida e da propriedade. aliás. “O htnômeno Totalitárw" de Roque Spencer Maciel de Barms.J. à prevenção da fraude no intercâmbio econômico e ao estabelecimento de um padrão monetário que assegurasse o valor sempre previsível do dinheiro. rapidamente desenvolveu-se o princípio filosófico da Li­ berdade negativa. comércio ou profissão. Fora disso. Friedrich e Z. sempre excederam os limites constitucionalmente autorizados para sua autoridade emissora. a idéia de que todo homem tem direito à sua inteira liberdade de pensar.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 237 ria. à livre movimentação pelo território. que cabe ao Estado na visão do Liberalismo realista de Madison e Hamilton. Mas aí. quanto os arroubos de minorias ativistas de temperamento jacobino ‘. no princípio da liberdade de pensamento. propôs os “dois conceitos de liberdade”. como observa Buchanan. e. o clássico de Ortega y Gasset La ReMién de las Musas. podemos consultar com proveito a obra de Roberto Dahl. Phtrakst Democracy in the United States: conflict and consent. com a emissão de papel-moeda. Mas devemos sobretudo ler Hannah Arendt Oh Revolution e The Oryms t f Totali­ tarianism. antecipando os perigos do que veio a ser chamado de “democracia totalitária”. mesmo a opinião de um só que poderosamente se contra­ ponha à opinião da massa — como seriam os casos históricos de Sócrates e de Jesus Cristo — não pode ser coibida. todos os governos. definindo a liberdade negativa como ausência de coerção. através da história. Brzeszinki Totalitarian Dictatorship & Autocracy e o de W. isto é.

Mill e Berlin. Cabe­ ria. deixar que a própria distinção tenda a criar um fosso entre os dois tipos de liberdade. José Guilherme Merquior. Nota Merquior. em nosso entender. a “escola inglesa da teoria da liberdade. equivalente à autonomia ou desejo de governar-se a si próprio. Con­ tudo. Não podemos. DE M E IR A PENNA va. para se referir à liberdade eco­ nômica. O termo liberalismo. a econômica e a moral ou cultural. se­ gundo Merquior. contudo. na Holanda e nos países anglo-saxônicos onde se iniciou a Revolução industrial e se consolidou o Liberalismo tout court67. Essa harmonia que mantem estável o edifício do liberalismo se caracterizou desde o princípio. A ideia de um “liberalismo antigo” e um “liberalismo moderno” aparece cm Benjamin Constant — mas é evidente que o autor franco-suiço. desde logo. que de Hobbcs a Locke. ao qual nos referi­ remos num capítulo ulterior. capitalismo ou economia de mercado. 66 Merquior nos oferece um esquema mais claro e preciso dos dois liberalismos e dos dois conceitos de liberdade. falecido em 1830 quando suas idéias iam influenciar o primeiro regime realmente liberal em França. vê a liberdade como ausência de coerção ou (na famosa opinião de Hobbes) a ausência de obstáculos externos” à ação individual. em seu precioso livrinho O Liberalismo Antigo e Moderno66. . em função de confusões semânticas e serias deturpações que sofreu sob influência do coletivismo “nacional-socialista. a política.238 J. reexaminar o conceito de liberdade positiva que me parece um tanto ou quanto desprezado pelos liberais clássicos e modernos. não encontro muita coerência na sustentação exclusiva da liberdade negativa por Berlin e uma postura a tal ponto favorável ao Welfare que o promove a legítimo social-democrata ou social-liberal. adota o termo liberismo. deveria ser empregado apenas no sentido ético e políti­ co. Ubiratan Macedo contribui com uma obra que muito bem completa a de Merquior na configuração da doutrina triunfante neste final de século. como temos tentado demonstrar. a “Monarquia de Julho” orleanista. 67 Um exemplo do descaminho a que pode conduzir a pretendida incompatibilidade ou distinção entre “liberismo” económico (capitalismo) e “liberalismo” político se encontra no livro recente de Ubiratan Borges de Macedo Liberalismo e Justiça Social. Bentham. no entanto. que estaria na obra de Benedetto Croce Elementi di Politica (1925).. O. interpreta o Liberalismo antigo como o dos clássicos grcco-romant». gerando um álibi para a inter­ venção do Estado na economia de maneira a justificar os socialdemocratas ou social-liberais atuais que se recusam a reconhecer a neces­ sária solidariedade entre as três colunas mestras da democracia liberal moderna..

sou eu”. diversa foi a evolução constitucional no continente europeu. como a das demais nações latinas. firmando em bases sólidas a centralização absolutista política e econômica que se ia processar em torno de Paris (e na capital anexa. ao elevar ao . Diz-se que um negociante. ou seja. Vauban. o burocrata-tipo àoA ncien Regime. do poder temporal. que se tornaram sua marca característica. reforçou o Rei-Sol o poder intervencionista do Estado. os Alpes. o Mediterrâneo. laissez-nous fa ire!”. O conceito de soberania do Estado. O esforço secular da monarquia francesa sob os reis Capétiens consistiu em defender a integridade do “hexágono” territorial místi­ co desenhado pelo Reno. Luís XIV conseguiu seu propósito. Sustentado fortemente na burguesia. foi a Revolução Francesa que afetou pre­ eminentemente nossa própria história constitucional. A burguesia. no entanto. consolidando o regime patrimonialista e mercantilista do Reino. Os grandes pensadores franceses do século XVIII admiraram a Inglaterra. e reduzir o poder centrífugo da nobreza feudal. Ao proclamar o princípio de que “o Estado. com sua sombra econômica que c o mercantilismo.. deparou-se com a intransigente recusa de Colbert em permitir a transação sem a presença do governo. Condé. o Rei-Sol pretendia solucio­ nar a equação política. os Pirineus e o Atlântico. Louvois e so­ bretudo Colbert. O princípio constitui a pró­ pria definição do sistema patrimonialista. Mais do que a ameri­ cana ou a inglesa. Turenne.. Suas Lettres Phibsophiques se referem à nação inglesa e explicitam a ideia de tolerância. o ceticismo criador e a inimizade com a crueldade e o fanatismo. Ela fez a Revolução de 1789 — mas só em 1830.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 239 Ora. Ele admirava Newton e Locke. Montesquieu edificou sua teoria dos Três Poderes por uma interpretação defeituosa da constituição britânica. o ho­ mem gritou: “Mais Monsieur. e seus Ministros. opor-se à soberania do poder espiritual do Papa em seu pró­ prio território (galicanismo). Voltaire escreveu um hino às liber­ dades inglesas quando ali se encontrou no exílio. desejava o poder para si própria. empenhado em concluir um vultuoso negócio. Ver­ salhes). O apogeu do processo ocorreu sob o reinado de Luís XIV. entretanto. A expressão laissez-Jmre ficou. Com seus Gene­ rais. foi desenvolvido por Jean Bodin em sua obra sobre a Republique de 1576. Exasperado. Séguier.

por um lado. meu livro “A Ideologia do Século XX” (1L/1994). Em seu Dtscoun sur FÉconomie PoUtique. Vide também sobre o nacionalismo de Rousseau. possuidor de vontade. a Constituição devia garantir a soberania absoluta do Estado-nação por seus representantes eleitos. sob o lema de igualdade e fraternidade. a regra do que é justo e injusto”. Em sua ótica. Cabia a esse Estado ser forte. Isso signifi­ cava o povo como coletividade holística que controlaria o Estado através de seus porta-vozes.240 J. em nosso des­ graçado século. Rousseau seria üm esquizóide ideológico: “um iniciador do individualis­ mo na cultura. consolidar a nação como uma coletividade una e indivisível. à direita e à esquerda — Nacionalismo e Socialismo — do verdadeiro Liberalismo. 68 Rousseau introduziu a noção de Vontade Geral . e essa vontade geral tende sempre à preservação e bem-estar do Todo e das partes. Merquior salienta que a “escola francesa” de liberdade. os políticos. . como modelo teórico.. Smith e Hume) e redireciona o conceito de liberdade para a esfera cívica. O . d e M e ir a P enn a trono Luís Felipe de Orléans. com sua Grande Arm ée. um príncipe regi­ cida. Rousseau e seus discípulos. Foi então que surgiram as duas Ideologias legitimadoras que. os intelectuais. A idéia de serviço militar obrigatório e conscrição geral iria conceder a esse novo Estado republicano um poder descomunal que Napoleão aperfeiçoou. e seus representantes profissionais. inclusive e preferenci­ almente a guerra. 68 Vide o capítulo que dediquei a Hobbes e Rousseau em minha obra O Dinossauro.. O novo soberano abso­ luto era o povo. centralizador e promotor da mobili­ zação de todos os cidadãos para seus fins comuns.. conseguiu alcançar a sua meta na liberdade. e utilizou como instru­ mento para o projeto tresloucado de hegemonia sobre a Europa. Rousseau proclama esta doutrina totali­ tária abominável: “O corpo político é também um ser moral. prefere Rousseau a Montesquieu (e evidentemente a Locke. Robespierre e Saint-Just. provocaram os mais funestos movimentos políticos con­ flitantes. e um precursor do totalitarismo por outro”. c constitui para todos os membros do Estado. cuja Vontade Geral deve orientar o governo. nunca pensaram em termos de liberdade individual como au­ sência de coerção por parte do Estado. filho de Philippe Égalité. Os jacobinos compreenderam a nova situação e estabeleceram a ditadura em nome do povo. Toda a literatura originada em Rousseau e tão impreg­ nada de romantismo utópico não pretendia outra coisa senão..

no artigo relevante da Enciclopédia Britânica. Na Espanha e em Portugal. um político e historiador protestante. Spinoza e Descartes. como no Brasil durante o reinado de Pedro II. que deviam ser solidárias. na política e na cultura. um curto tempo ensolarado entre ventanias. Am­ bos. o Liberalismo clássico enfrenta o democratismo igualitarista de ten­ dências antinômicas à sua esquerda e o conservadorismo obstinado à sua direita. tempestades e um sombrio in­ verno. e o catolicismo. por um certo paradoxo. As três colunas do Liberalismo. o Liberalismo terá que esperar a época contemporânea para vencer o tenebroso atavismo cíclico autoritário/anárquico que caracteriza nossas nações. porém. O que principalmente os caracteriza é o anti-dericalismo. após a expulsão dos exércitos napoleônicos no início do século XIX e a tentativa de derrubar o Absolutismo monár­ quico/clerical. época em que escreveram Benjamin Constant. inimigo de Napoie* .O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 241 Se o Liberalismo está implícito no grande movimento de idéias do Iluminismo e Aufklärung do século XVIII. no segundo caso. que existem até hoje. no primeiro caso. e através de curtos ensaios mal sucedidos. Em Portugal e alhu­ res. Como nota o professor e colunista americano Max Lemer. às vezes fanádeo. porém. na Espanha. que defendiam a manutenção dos privilégios absolutistas dos Borbones. com suas raízes no século anterior em Milton. com idéias pouco claras em termos de democracia constitu­ cional e liberdade de comércio. Liberal e Conservador. Na Constituição de Cádiz de 1812. contra a resistência dos Serviles. pode-se dizer que o Liberalismo clássico só co­ nheceu um curto desabrochar sob a monarquia orleanista do rei Luís Felipe (1830-1848). Foi. Na própria França. o nome propriamente só apare­ ce. Bastiat e Tocqueville. pela primeira vez surgem partidos intitulados. em aparecer. A confusão em torno do termo “liberal” não tarda. paradigmas para o resto da América Lati­ na. a confusão reina até hoje. É na Colombia. nos anos 1830. os Liberales consegui­ ram temporariamente impor seus modelos calcados nas Revoluções ingle­ sa. americana e francesa. na economia. dificilmente revelam equilíbrio e harmonia em nossa área lati­ na. que. respectivamente. no partido que pela primeira vez ostenta a etiqueta “liberal”. tal como teremos ocasião de notar no correr destes capítulos. da nobreza e do clero. A figura mais distinta desse período é a de François Pierre Guillaume Gulzot.

eram a única solução para as pro­ fundos ódios e divergências que afetavam a França. Constata-se então o crescimento acelerado das duas ideologias que se transformaram na nova “religião civil” do Estado-nação soberano. Do lado do liberalismo. como assinala Antonio Paim em sua H istória das Idéias Filosóficas no Brasil. Esse período orleanista coincidiu com o prestígio da filosofia de “ecletismo espiritualista” de Victor Cousin (1792/1867) — filosofia que. d e M e ir a P e n n a ão c adversário dos “Ultra” reacionários absolutistas da Restauração. Égalité. Da trilogia Liberté. Ele tomou-se a personalidade mais influente no governo surgido com a Re­ volução de Julho (1830). entre a direita reacionária dos “legitimistas” e a esquerda republicana dos jacobinos. E também a época em que. Fratem ité.242 J. pela primeira vez. escrevia Frédéric Bastiat. Tomou-se célebre a frase que pronunciou no período em que praticamente dirigiu a França (1840-48): Enrichissez-vouspar le travail et par tépargne — o que em termos modernos se poderia traduzir pela idéia que só o desenvolvimento econômico pelo trabalho e a poupança pode assegurar uma democracia livre e estável. o Primeiro Liberalismo entrou em recessão. ambos ainda em estado embrionário no continente euro­ peu. um de cujos episódios mais omino­ sos se registou com a publicação do Manifesto Comunista de Karl Marx. proposta por Rousseau. obteve enorme influência ao tempo do Império. depois de haver sido discípulo de Adam Smith. alinhou argumentos hu­ manitários para criticar o laissez-jhire em sua obra Princípios de Economia Política. foi a primeira aos poucos posta de lado. não só em França mas em toda a Europa. Sua obra Du Gouvernement Représentatif é de 1816 e os estudos históricos sobre as revoluções inglesas insistiam na superioridade da solução britânica aos problemas da época. revelando grande fecun­ didade quando interpretada por seus discípulos brasileiros. A partir das Revoluções de 1848. Em 1819. se acentua o debate entre o capitalismo e o socialismo. O . enfati­ . Liberal erudito e moderado. o economista e ensaísta suiço Jean-Charles Sismondi. menos no Reino Unido. que usava de bom-senso juntamente com um maravilhoso estilo humorístico ao tentar se opor à onda socialista que se levantava. Guizot foi o único a então compreender que a prosperidade promovida por uma economia de mercado e o regime democrático que se equilibrasse no juste milieu. de uma dignidade a toda prova.

podemos salientar que esses “novos liberais”.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 243 zando-se a segunda e a terceira coluna do edifício ideológico. não o triunfo definitivo da Liberdade. convictos de que o indivi­ dualismo já não era válido no contexto social da industrialização capitalis­ ta. ao fio histórico de nosso discurso sobre a primeira Revolução liberal. pelo menos na Europa. facilmente solúvel. ele notou que a velha aristocracia estava sendo substituída por uma nova oligarquia . entretanto. no momento exato em que o Liberalismo Antigo alcança­ va seu triunfo na Inglaterra e em França (com a “Revolução de Julho” de Luís Felipe de Orléans. no sentido de governo do povo por inter­ médio de seus representantes. E salientemos a importância central de Alexis de Tocqueville. sem necessidade de criação de uma intolerável superestrutura burocrática. 1830) e ia entrar em declínio. promoveram uma verdadeira “revolta contra a liberdade negativa”. passou o Estado a ser venerado como solução de todos os problemas sociais e patrono de nossa própria condição existencial. que a miséria rejeita. por força das mesmas tendências revoluci­ onárias jacobinas que haviam determinado a queda da monarquia e a supressão da hierarquia aristocrática. pelo menos. Alexis de Tocqueville Retornemos. Até mesmo um libertário empeder­ nido como Milton Friedman reconhece que a parcela intratável da popu­ lação. infelizmente. Assim ressacralizado. nas circunstâncias criadas pela fartura das socie­ dades capitalistas avançadas. aderir a essa interpretação com a introdução. em nosso país. do conceito de Liberalismo Social. Fico na dú­ vida se reconheceu que. Citan­ do Francis Charles Montague em seu livro The Limits o f Individual Liberty. Em seus famosos estudos sobre A Democracia na América e sobre O Antigo Regime e a Revolução. mas apenas o da Democracia. o problema da indigência deixou de existir ou é. O próprio Merquior parece. a Revolução havia assegurado. E preveniu que essa democracia. os políticos — poderia conduzir a um re­ torno do Absolutismo estatal. Tocqueville clara­ mente previu que. pode ser socorrida por uma espécie de subsí­ dio ou “imposto de renda negativo”.

“Pois as mentes dos homens estavam em fermento. em suma. “se trata de um fato singular que. essa prosperidade invariavelmente crescente promoveu por toda a parte um espírito de inquietação. E esse descontentamento amargo o tomava simultaneamente impaciente e ferozmente hostil ao passado. Tocqueville argumenta que as três décadas anteriores à Bastilha registaram um crescimento inédito da riqueza nacional. um século mais tarde. em nome da igualdade e um paterna­ lismo mal entendido. também na Rússia do princí­ pio do século. e nada o contentaria senão um mundo novo totalmente diferente do mundo à sua volta”. porque sempre alguns alimentariam maiores expectati­ vas do que outros. cap. uns se enriqueceriam mais rapidamente do que outros e uns se conside­ rariam empobrecidos e humilhados por outros. No cap. objetivavam privar a massa dos cidadãos de sua liberdade de iniciativa. 69 Vide a citação no capítulo II" acima. II. O público em geral tor­ nou-se cada vez mais hostil a todas as antigas instituições. A tese de Tocqueville. iv. que desconfia­ vam da capacidade de iniciativa e responsabilidade dos cidadãos comuns. frente ao espetáculo da inoperância do regime tzarista. cada vez mais descontente. mesmo num processo de desen­ volvimento econômico indefinido. De fundo inconscientemente religioso (luterano e tridentino). como uma “revolução de expectati­ vas”. DE M E IR A PENNA de políticos e burocratas os quais. . todo francês estava insatisfeito com sua sorte e francamente decidido a melhorá-la. essa mesma prosperidade apressou o início da Revolução”. Julien Benda iria denunciar como traidores em seu La Trahison des Clercs.. Note-se que. exatamente. 4 da IIIa parte de sua obra sobre o Antigo Regime. O . originais e profundas para explicar a gênese do espírito revolucionário. Esse se definiria. longe de tranquilizar a população. o desenvolvimento industrial já se iniciara e foi a expectativa de maior exten­ são de seus benefícios. continua TocqueviHc. “paralelamente a tais mudanças na mentalidade dos governantes c dos governados havia um avanço tão rápido quanto sem precedentes na prosperidade da nação.24 4 J. O fermento revolucionário persistiria. Depois de apresentar uma vasta documentação para provar que a França sofrera barbaramente no período final do reinado de Luís XIV. previne o sociólogo contra que “espécie de despotismo devem as nações democráticas temer’* 9.”. 6 daquele primeiro livro extraordinário. e que as dificuldades econômicas se agravaram no período de Luís XV. E isso tomou as formas usuais de aumento da população e de um aumento ainda mais espetacular na rique­ za dos indivíduos’’.. São aqueles que. a atitude desses novos “clérigos” moralizantes. se prendia à tradição da antiga classe eclesiástica (o segundo état) de con­ trolar as convicções e o comportamento do “povo de Deus”. é que. No vol. “conquanto tenha sido o reinado de Luís XVI o período mais próspero da monarquia. o grande Rei Sol. o que fez desencadear a revolução de 1917. Ele oferece assim uma das teses mais sólidas. E. Tocqueville explica como ocorreu que.

receasse a emergência. o raciocínio incisivo e a profundidade . o russo centraliza toda a autoridade social num único braço..O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 245 Aristocrata por nascimento e por temperamento. Talvez inspirado na experiência napoleônica. Seu ponto de partida é diferente e o caminho não é o mesmo. Ao final do primeiro volume de sua obra fundamental. do próprio bojo da democracia liberal. Temia o filósofo. o ímpeto dominava particular­ mente os povos dos Estados Unidos e da França pós-revolucionária. filósofo político e historiador. o brilho de sua mente. o despotismo tão luci­ damente previsto por Tocqueville foi. do contrário. Instigando o ódio às desigualdades econômicas e o anseio utópico de uniformização.. Estou aludindo aos russos e aos americanos”. porém. esse indivíduo ficaria a tal ponto dela dependente que atribuiria ao Estado “uma tarefa a qual estaria incapacitado de cumprir”. insistia no sentido que a sociedade não exa­ gerasse seus cuidados pelo indivíduo pois. cada um parece marcado pela von­ tade divina para dirigir a metade do globo”. nos meios da filosofia política mais esclarecida. a qualidade de cujas intuições de sociólogo. do segundo. Entretanto. a escravidão. assim como pelo Oriente sovietizado e Terceiro Mundo. Por pensamentos como esses é que cresce hoje.. aquele que se esten­ deu no próprio âmago da sociedade ocidental. as dos russos pela espada. de um despotismo ainda mais absolu­ to do que aquele que conspurcou as monarquias dos séculos XVII e XVIII.. a consciência da relevância da obra ímpar desse ensaísta. Como acreditasse que “cada indivíduo é administrador mais com­ petente dos seus interesses”. O instrumento do primeiro é a liberdade. aquilo que se concretiza sob nossos olhos: a emergência de uma sociedade de massas. Sob formas distintas. “As conquistas dos ameri­ canos foram feitas pelo arado. e governada por um Estado leviatânico que impõe a tirania de uma maioria demagógica. O angloamericano confia no interesse pessoal para alcançar seus propósitos e se abre ao livre jogo da força e bem-comum do povo. De la Démocratie en Amérique. aceitava Tocqueville o ímpeto das tendências igualitárias que se caracterizavam em todo o mundo civilizado. precisamente. antecipou Tocqueville profe­ ticamente: “Há presentemente duas grandes nações no mundo que parti­ cipam de diferentes posturas mas parecem tender para o mesmo fim. manipulada por uma nova classe de ideólogos destemperados e burocratas ambiciosos.

os percalços em que caía a democracia nascente na tentativa de conciliar os ideais revolucionários de liberdade. Selvino Malfata. Paulo Mercadante. foi ele quem primei­ ro antecipou a Guerra Fria e as dificuldades com que. Francisco Martins de Souza. em 1986. nos conduzem no caminho da servidão. há mais de cem anos. Reconhe­ cia Tocqueville. em suma.24 6 J. no terreno da política externa e defesa militar. isolacionistas e hostis uns aos outros. Ubiratan Macedo. A igualdade nas massas só pode ser obtida pela submissão abjeta ao des­ potismo burocrático. foi fundada. a de que a democracia se encontra em estado de inferioridade e vulnerabilidade perante os Estados despóticos. por iniciativa de Antonio Paim. a partir de 1914. O ideal de liberdade abre as portas àqueles que desejam. Renato Barro« Pimentel. como se sabe. com 150 anos de antecedência. Luís Carlos Lisboa. a Sociedade Tocqueville. John Stuart Mill considerou o empreendimento triunfal de Tocqueville o de haver escrito uo primeiro livro filosófico sobre a democracia. . O . DE M E ÍR A PENNA das análises constituem inspiração para aqueles que procuram restaurar o ideal de Liberdade contra os poderes sinistros do coletivismo revolucio­ nário que. Um resultado. Nicolau Boer. no Rio de Janeiro. é altamente relevante para aqueles que procu­ raram reagir ao desafio totalitário-socializante de nossos dias70. igualdade e fraternidade. suprimir a liberdade: eis seu paradoxo — o para­ doxo que o desejo de liberdade e de respeito aos direitos do homem aca­ be gerando uma forma corrupta a que podemos dar o nome de democratismo. Sem dúvida. Temos hoje consciência de que a obra desse grande pensador francês. se depararam as nações ocidentais para se defenderem do expansionismo 70 Foi cm consideração ao valor simbólico do nome de Tocqueville que. Aroido Rodrigues. Boanerges Ribeiro. Ricardo Vélez Rodriguez. A Carta de Princípios e Programa de Ação da Sociedade estio publicados como anexo a meu livro O Dinossauro. que constituiu a grande calamidade das guerras nacionais e revolucionárias que atormenta­ ram nosso século. Paulo Pimenta de Mello. O ímpeto incoercível de igualdade conduz ao socialismo. Victor Mircio Konder e eu próprio. Nelson Lehmann da Sitva. Entre as grandes intuições de Tocqueville destaca-se. que é adotado nos Estados Unidos quase como um americano. assim. precisamente. e o próprio sublime sentimento de fraternidade provoque a coales­ cência dos grupos sociais em Estados-Nações agressivos. tal como se manifesta na sociedade moderna”.

Em 1914. com maior cuidado e pormenor. então sob a batuta de Breshnev. que a democracia liberal possui virtudes insuperáveis para assegurar o desenvolvimento. a vasta manobra estratégica de envolvimento pelo qual o Kremlim. Entraremcxs nos próximos capítulos. grupo inicialmente (1939-41) associado à União Soviética pelo pacto MolotovRibbentrop. e penetrando com suas esquadras no Atlântico Sul onde procurou assegurar-se de bases aeronavais importantes. mais prósperas. assistimos à lenta e aparentemente inexorável erosão do poder das democracias ante a persistente. as mais ricas. demonstraram também ser grande­ mente vulneráveis na conduta de sua política externa. com indisfarçável angústia. Se a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Nato) conseguiu sustar um possível avanço do Exército Vermelho na frente central européia. a justiça c o bem-estar dos povos. Tocqueville notou com 150 anos de avanço sobre os eventos decisivos do século XX. aliados. foi necessária a aliança inicial da Inglaterra e da França com o despótico Absolutismo tzarista e a assistência final da democracia americana para que. chegamos a contemplar em contraposição. na discussão desses temas. mais livres e mais poderosas do mundo. A vulnerabilidade do Liberalismo democrático agravou-se após Yalta: de 1945 a 1989. São hoje as nações democráticas que vivem sob um regime de economia de mercado. agressiva e maquia­ vélica diplomacia. resistissem com sucesso ao poder avassalador da Alemanha imperial. tentou romper o cerco geopolítico da “Ilha Mundial” de Mackinder. . Suas igrejas e universidades são ainda caldos de cultu­ ra para o marxismo. Se novamente não rece­ besse o socorro dos Estados Unidos. expandindo seu poder por grande parte do Ter­ ceiro Mundo afro-asiático e latino-americano. Infelizmente.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 247 guerreiro dos grandes impérios autocráticos. Em suma. Grande parte de sua imprensa veiculava a campanha de dezinformatsiya do KGB. propaganda e ação subversiva do Império comunista. Não dispunham de meios para enfrentar a permanente guerra psicológica conduzida por seus inimigos. o derrotismo e o masoquismo político. tão importantes do ponto de vista da defesa do regime de democracia liberal representativa. E em 1939-45 a mesma grave situação se repetiu. a subversão. o coletivismo socialista. o Ocidente democrático teria su­ cumbido aos ataques devastadores do eixo Berlim-Roma-Tóquio.

ao estudar a democracia americana e ao pesquisar as causas que determinaram a queda do Ancien Régime sob os golpes da Revolução francesa — foi Tocqueville naturalmente levado a apreciar as contradições fundamentais que surgiram após esses dois grandes episódios dos fins do século XVIII. em seu Tocqueville et les Deux Démocraties. em suas obras On Liberty (1859) e Considerations on Rxpresentative Government (1861). de estrutura legal e — retornemos ao termo: isonomia — se distinguia como o contraponto da aristocracia. que devia originalmente secularizar e estender a todo o gru­ po social o mandamento cristão de amor. de Hilaire Belloc. Estava envolvido na questão da ideo­ logia nacionalista. John Stuart Mill. de Ortega y Gasset. de George Santayana. que se manifestava a partir do fortalecimento dos laços tribais xenófobos no tipo de organização do Estado-nação moderno. O . de índole tradicional. Mais recentemente. de Julien Benda. tal 71 Várias outras obras são relevantes nesse contexto da reflexão tocqueviileana: La Rebeliàn de laM mcu. promete-nos Ricardo Vélez Rodrigues uma obra de fôlego sobre o pensador francês. tal como parecia ficar demonstrado na estrutura da democracia americana. mais atentamente se debruçou Tocqueville sobre a antítese entre Liberdade e Igualdade. de raça e de nações. Em nosso próprio país. . Jean-CIaude Lamberti. Poucos anos depois de Tocqueville. reforçou o argumento e preveniu contra os perigos da tirania da opinião e do controle do pensamento por minorias ideológicas que estimulam as reações emocionais das turbas. abordou com ênfase a problemática do individualismo tal como desenvolvido pelo sociólogo. Mill defendia a necessidade de preservar a tolerância contra os “antagonismos de opinião”. Tais contradições são as que opõem os três princípios bási­ cos de todo ímpeto revolucionário: a liberdade. a igualdade e a fraterni­ dade. A fraternidade. Essa democra­ cia igualitária. DE M EIR A PENNA Em suma. Pelos motivos que se tornarão evidentes nas próximas seções. Em seu argumento. acabou gerando a justificação ideológica para os mais veementes ódios coletivos da História: ódios de classe.248 J . The SernU State. e La Trahison des Clercs. Dominations and Power. o grande intérprete francês de Tocqueville. vemo-lo repetidamente equacionar a democracia com o conceito de igualdade. do tipo que me apraz classificar como nacional-socialistas7X. que descobriu no nivelamento das massas sob regime dito “democrático” a fonte de futuros despotismos. insisti­ mos. O Trinômio não era sólido.

com maior clareza e simplicidade. Nos outros países europeus.O E s p ír jt o das R e v o l u ç õ e s 249 qual preponderando em sua época na maior parte da Europa. ncssc hori­ zonte tocquevilleano. pode a mesma evo­ lução ser observada.. Mas desde os trabalhe» semi­ . As sociedades democráticas podem. regulamentar o comportamento das massas e mobilizá-las para a guerra. Em sua obra The Ethics o f Redistribution. poderiam todos os povos gozar de um bem-estar e qualidade de vida jamais sonhado nos mais ardentes vôos da imaginação utópica. Preferia nosso pensador asso­ ciá-la ao que chamava de regime republicano. as Constituições francesas e as que delas fize­ ram seu modelo foram afastando de modo crescente os direitos de liber­ dade individual. Menos ainda percebem que o livre jogo da economia de mercado permitia um tal progresso econômi­ co que. entre Democracia e Liberda­ de. denunciou as novas atribuições a que. em breve. A meta da Nova Ciência Política que pretendia fundar deveria consistir. encaminhar-se para a liberdade como para o despo­ tismo. O papel do Estado fica absorvido pelo Mercantilis­ mo e o expansionismo agressivo. conforme previra. Ora. Sendo um sociólogo objetivo. o pensador francês Bertrand de Jouvenel foi um dos que. providenciar a uniformidade de pensamento. especialmente o de propriedade. julgado iminente. a título de “justiça social”. O colonialismo e a guerra vão ser as principais preocupações dos governos. a si mesmo concedia o poder governamental centralizado nas democracias modernas. o termo “democracia” como aplicável somente ao tipo de sociedade livre e aberta do Ocidente: o regime pluripartidário com eleições periódicas. não um teorizador e fabricante de sistemas. como se o Estado dese­ jasse se substituir à antiga Igreja hegemônica. em propor uma solução ao conflito. essencialmente.. pragmático e por excelência compara­ tivo. para a paz como para a guerra. A liberdade não constituiria a essência da democracia. vulgarmente. Consideramos hoje. imprensa livre. Os políticos republicanos não se dão conta de como a Revolução industrial capitalista e os avanços da ciência e da tecnologia subvertiam radicalmente as condições de vida dos povos civilizados. com suas funções interven­ cionistas no sentido de redistribuir a fortuna nacional. Tocqueville determinou empiricamente as diferenças que poderiam surgir entre tipos de demo­ cracia em nações diversas. etc. sistema representativo. na nova ecúmene planetária.

250

J. O.

d h M e ira P en n a

nais de Hannah Arendt, Karl Popper, J. L. TaJmon e Friedrich Hayek
reconhecemos também a existência de “democracias totalitárias”. A Suécia
e o México, por exemplo, cada um a seu jeito, são democracias. Ambas,
porém, revelaram traços indiscutíveis de restrição socialista à liberdade
econômica e cultural que associamos ao termo totalitarismo. A verdadeira
democracia é aquela que, na sociedade aberta do Ocidente, dá preemi­
nência ao princípio da liberdade no terreno político, econômico e cultu­
ral, enquanto proporciona uma alta dose de mobilidade vertical e hori­
zontal. A democracia totalitária seria aquela que, ao contrário, restringe
em nome de um princípio inflexível de igualdade econômica e uniformi­
dade ideológica a expressão e o movimento das idéias e dos indivíduos,
transformando-se numa “sociedade fechada”.
Raymond Aron considerou Tocqueville não somente um dos funda­
dores da sociologia72, mas o primeiro sociólogo que deu prioridade em
sua ciência a essa ominosa realidade democrática. Sob tal perspectiva,
Tocqueville se distingue de Montesquieu, Marx, Comte e mesmo Weber
que, examinando o relacionamento entre economia e política numa soci­
edade que atravessa a revolução industrial, não privilegiaram a problemá­
tica do conflito da igualdade. Sendo assim, é Tocqueville o primeiro que
proclamou o avanço irresistível do mundo moderno para a democracia
industrial, com toda a ambivalência que comporta essa ominosa constata­
ção. Havendo nascido sob o império napoleônico (1805), como filho de
uma família da pequena nobreza, e vivido sob as dinastias dos Bourbons,
Orléans e Bonaparte, ele compreendeu nitidamente que o avanço da de­
mocracia comporta, precisamente, um conflito inevitável entre as exigên­
cias contraditórias consubstanciadas no Trinômio revolucionário. Ou
seja, entre o regime liberal e as ideologias coletivistas.
Para chegarmos a tal conclusão, é necessário levar em conta as pecu­
liaridades semânticas do arrazoado tocquevilleano. Só assim podemos
apreciar a força admirável do argumento quando aplicado à defesa do
ideal liberal na época moderna. Na coleção de notas que acumulou para o
segundo volume do livro sobre oAncicn Regime e a Revolução, o próprio
Tocqueville acentua que “muita confusão é causada pelo emprego das
72 Aron inchii Tocqueville em sua obra As Etapas do Pensamento Sociológico. Brasília, Editora
UNB, 1985.

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

251

palavras democracia, instituições democráticas, governo democrático. A não ser
que sejam claramente definidas e a não ser que haja acordo sobre sua
definição, viveremos numa inextricável confusão de idéias, para maior
proveito dos demagogos e déspotas”. Ele define então democracia como
"um governo em que o povo participa mais ou menos de seu governo.
Seu sentido está intimamente associado à idéia de liberdade política".
Entretanto, como Aron observa, a definição é peculiar. Não é particularamente consistente com a maneira pela qual o autor geralmente usa o
termo. Ora, essa ambigüidade do uso da palavra democracia tem sido,
como sabemos, a fonte das maiores e mais sangrentas controvérsias de
nosso século. Os nazistas invocavam a liberdade do povo alemão e argu­
mentavam, com razão, que o partido hitlerista, levado legalmente do
poder, consubstanciava a vontade maciça da nação. Era seu slogan: Ein
Volk, ein Reich, ein Führer. Hoje, acreditamos que democrático só pode
ser um regime pluralista, um regime aberto, realmente aberto em termos
não apenas políticos, mas culturais, sociais e econômicos. Democrático,
só é um sistema que ofereça “liberdade política, econômica e cultural”
para todos. Mas então, como prevenir as tendências anti-democráticas de
uma maioria popular? Como lutar contra os dois monstros que nos ame­
açam dos dois lados? Tocqueville notou que a insistência no conceito de
igualdade acarreta, sobretudo se levado para o terreno da economia, a
criação de um poderoso organismo centralizador numa sociedade dc
massas que acaba se fechando, e oprimindo e liquidando com as minorias
dissidentes. E esse tipo de socialismo que foi praticamente realizado em
quase toda a Europa desde os principias deste século e para o qual nós
mesmos, desde 1930, nos fomos encaminhando a passos dc gigante, sem
quase nunca nos darmos conta do que ocorria. O mesmo caveat é hoje
relevante quando ouvimos as palavras liberalismo, liberal e social.
Nessas condições, concluímos que extremamente pertinentes são os
conceitos tocquevilleanos. Se somos todos diferentes e desiguais por natureza, uns mais inteligentes do que outros, uns com melhor Q.I. ‘ do
que outros, uns mais laboriosos e outros mais preguiçosas, uns enérgicos
c outros boêmios, uns aquinhoados com saúde e uma herança familiar
positiva, outros prejudicadas desde o nascimento pela circunstância de
Quociente de Inteligência. Hm inglês l. Q., Intelli/fence Quocient.

2 52

J. O . d e M híra P e n n a

um meio adverso, é evidente que a igualdade só pode ser imposta pelo
Estado, coercitivamente. A primeira igualdade é de natureza legal, a
igualdade perante a lei, isonomia. A segunda igualdade é a de oportunida­
de, que pode ser relativamente concedida pela educação primária, a partir
de uma iniciativa estatal, e a ausência de discriminações de índole social
ou racial. Isso desde logo importa restrições à instituição familiar que é,
por natureza, criadora de privilégios e discriminações. A terceira igualda­
de, a igualdade econômica, o que quer dizer o socialismo, só pode ser
realizada por baixo e num comum denominador de escassez, com a des­
truição da instituição familiar. O socialismo seria, então, definido como
uma receita de emagrecimento, as virtudes altruístas impostas coercitiva­
mente pela polícia e a opção preferencial pela pobreza!

Racionalismo, Tradicionalismo e Romantismo
Alguns autores americanos e franceses — entre eles Peter A. Lawler,
Edward Gargans, Pierre Manent e James Ceaser, procuraram apreciar a
obra de Tocqueville como uma resposta ao debate que se desenhava,
desde o século XVIII entre duas outras escolas do pensamento francês, a
racionalista, que era liberal, e a tradicionalista, de tendências pronuncia­
damente autoritárias e aristocráticas. Parece-me que, nessa perspectiva, a
polêmica perde de vista o impacto de duas escolas que igualmente influ­
enciaram, de modo ainda mais poderoso, a segunda metade do século
XVIII e a primeira do século XIX: o Empirismo britânico e o Romantis­
mo.
O Romantismo invadira a área da filosofia política com Rousseau,
que Tocqueville aliás, paradoxalmente, admirava. Como escreve o ensaísta
e sociólogo cubano Armando de la Torre, um dissidente liberal estabele­
cido na Guatemala, foi monumental a mudança de clima intelectual no
século XIX: “Ao racionalismo da Ilustração seguiu-se o voluntarismo do
Romantismo; à filosofia do Direito Natural, a filosofia dos direitos posi­
tivos; às leis descobertas pelos Juizes, os estatutos concebidos pela vonta­
de dos legisladores”. O positivismo jurídico que acompanhou o declínio

O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s

253

do Liberalismo clássico afirmava que não se pode detectar, nem a priori,
nem a posteriori, provas da Justiça de um ato. Essa crença abria as portas
às incursões do totalitarismo. Miguel Reale, com sua teoria da origem
tríplice do Direito, bem compreendeu a gravidade do unilateralismo po­
sitivista. Junto com seu aparente oposto, o positivismo, o fenômeno ro­
mântico ia causar graves aberrações e contaminar a filosofia do Idealismo
alemão a partir de Fichte, Schelling e Hegel.
O tradicionalismo a que Tocqueville se refere, em sua época, é o ro­
mantismo católico de ultra-conservadores como Chateaubriand, Joseph
de Maistre e De Bonald. As críticas de Tocqueville ao pensamento ideo­
lógico francês — o qual, contrastava com a reflexão inglesa e americana,
baseada na experiência e no bom senso, e inimigas das fórmulas teoréticas
privadas de contato com a realidade — dirigem-se obviamente contra o
romantismo do ésprit littéraire de sua época. A dialética do racionalismo e
do romantismo, com seu produto mais notável nas elucubrações grandio­
sas dos filósofos idealistas alemães, já é evidente em Rousseau74. “A pai­
xão pelas generalidades” é o que Tocqueville descobre nessa condenável
violação do verdadeiro espírito, cartesianamente claro e preciso, da Idade
das Luzes. Nesse sentido, interessante é sua observação, logo ao princípio
do cap. I do IIo volume do De la Démocratie en Amcrique, quando assinala
que os americanos “muito embora não leiam as obras de Descartes...
seguem suas máximas porque as condições sociais naturalmente dispõem
suas mentes no sentido de adotá-las”. E, em seguida, passa a destacar,
elogiosamente, o caráter não-sistemático e fortemente empírico da reação
dos americanos perante o fenômeno político. Eles eram, naquela época,
essencialmente não-ideológicos. Esse caráter avesso a toda formulação de
ideologia se manteve, grosso modo até hoje, nos dois Partidos, o Repu­
blicano e o Democrático. O que não impediu que a intelectualidade do
país se haja posteriormente dividido entre “liberais" de esquerda e
“conservadores” de direita, sem falar nos “libertários”. São os primeiros
que, no controle dos meios universitários e da maior parte das meios de
comunicação de massa, impõem sua fórmula peculiar de Inquisição, des­
crita como aquilo que é politicaüy correct em termos de raça, feminismo e
74

Tratei do problema da tcrwào entre o Racionalismo e o Romantismo em meu livro O

Dinossauro, 1988 .

254

J. O . DE M EIRA PENNA

costumes sexuais... É, de fato, ominoso que, mesmo nos Estados Unidos,
a sociedade pluralista por excelência, esse fenômeno atual do
“politicamente correto” se manifeste nas Universidades, na imprensa e
nas artes. Ele revela a presença sempre sensível da tentação totalitária. A
obra de Frcderick Turner em defesa do renascimento do Espírito Clássi­
co, The Culture o f Hope, constitui uma denúncia apaixonada a essa pro­
pensão da avant-garde. Não nos cabe aqui indigitar o “patrulhamento
ideológico” de que somos todos nós, liberais, penosamente conscientes:
fi-lo em outros livros.
Na obra sobre o Antigo Regime e a Revolução Francesa, acentuou Tocqueville que “o caráter da filosofia do século XVIII era uma espécie de
adoração do intelecto humano, uma confiança ilimitada em seu poder de
transformar, à vontade, as leis, as instituições e os costumes”. Ele qualifi­
cou de “panteísmo filosófico” o hábito impertinente e arrogante de gene­
ralizações, como base de projetos de transformação do mundo sem qual­
quer consideração à dura realidade empírica. Em Hegel, Marx, SaintSimon, Comte e numa série enorme de ideólogos socialistas, nacionalistas
e racistas descobrimos formas de panteísmo filosófico que confluíram na
ideologia do século XX. A partir sobretudo da França e da Alemanha,
esse tipo de filosofia exerceu uma influência deletéria sobre o mundo
latino e, particularmente, em nosso meio provinciano.
Tocqueville notou, similarmente, que o programa racionalista, com
mania generalizadora e o triunfalismo da razão, tendia a apoiar as unida­
des mais largas de autoridade — o que quer dizer, os impérios e governos
centralizadores. Isso contribuía para a atmosfera guerreira que se criava.
A Monarquia despótica mas esclarecida ou a República centralizadora,
intervencionista, seriam as formas superiores de governo. O resultado
seria sempre o fortalecimento do Estado Leviatânico. De Hobbes para o
despotismo esclarecido e de Marx para o totalitarismo socialista moderno,
uma enorme linhagem de racionalistas, generalizadores e centralizadores,
os “simplificadores” e “construtivistas” denunciados, respectivamente, por
Burckhardt e Hayek, dominaram o peasamento político europeu. Interes­
sante, nesse contexto, é lembrar uma das idéias de Tocqueville ': “Forçar
os homens em direção a um mesmo objetivo, eis uma idéia humana. En­
7S No II" volume do De la Démocratie.

O E s p í r jt o d a s R e v o l u ç õ e s

255

corajar uma variedade infinita de ações, mas realizá-las de modo que dc
mil modos diferentes tendam para um grande plano — eis uma idéia
emanada de Deus. A idéia humana de unidade é quase sempre estéril, a
de Deus quase sempre frutífera. Os homens crêem provar suas grandezas
ao simplificar os meios. O propósito de Deus é simples mas seus meios
infinitamente diversos”. Em suma, ele atribuía ao racionalismo esse vício
característico da mente moderna que consiste na falta de condescendência
e intolerância — justamente com um impulso impaciente de impor planos
e projetos sobre os indivíduos, ao invés de deixá-los agir por si próprios.
Os philosophes preferiam forçar seus projetos e suas opiniões sobre as mas­
sas. Ao invés de deixar que as pessoas fossem aos poucos adquirindo os
hábitos mentais, lentamente inculcados pela filosofia, pretendiam conce­
ber grandes Projetos. Antecipa-se a crítica de Tocqueville à de Hayek e
dos modernos liberais ao “construtivismo” obsessivo dos socialestatizantes, à “engenharia social” dos racionalistas e à mania de “mudar a
sociedade por decreto” de todos os intelectuais de esquerda. Donde sua
preocupação com os problemas da liberdade numa época de crescente
estatismo interventor, sua consciência dos riscos impostos à liberdade e
insistência na necessidade de eterna vigilância para preservá-la. E porque é
uma influência tão ponderável sobre os pensadores liberal-conservadores
modernos (Bergson, Aron, Nisbet, Peter Berger, Kristol, etc.), coasideramos que o conhecimento da obra de Tocqueville se revela essencial para
aqueles que procuram evitar a marcha forçada de nosso país para formas
cada vez mais opressoras de burocratização e xenofobia nacionalista.
É o ponto para insistir aqui no que me parece uma das principais, se­
não a mais relevante das intuições de Tocqueville no que diz respeito à
perspectiva em que nos podemos colocar no Brasil. Refiro-mc à idéia de
que a determinante essencial do caráter de uma sociedade é sua cultura
política e seus costumes morais (em francês, les moeurs). Nisso Tocquevi­
lle seguia a Montçsquieu, a quem muito admirava. Para Montçsquieu,
seria a virtude a característica essencial da democracia, como a honra o é
çja aristocracia e o medo do despotismo. A cultura política de um povo é
íspecífica desse povo. Ela é condicionada pelos aspectos sociológicos e
éticos que lhe são próprios, assim como pelas leis determinantes dc sua
vivência. Com muitas restrições, chegava Tocqueville a acreditar na te*e

256

J. O .

de

M e ir a P en n a

romântica, que se revelou autoritária e tradicionalista, de que o governo
de um povo configura uma espécie de criação orgânica a partir de sua
natureza própria — dos hábitos, temperamentos, mitos, anseios incons­
cientes, traumas históricos e impulsos coletivos. A tese não contradiz, no
entanto, a que nos propõe Hayek. Hayek fala na ordem espontânea que se
cria graças a um mercado livre de coisas e idéias.
Mas aceitando com menores restrições a proposta racionalista segun­
do a qual é a vontade consciente e deliberada que imprime à força política
o traço característico, acentuava Tocqueville o papel dos intelectuais na
formulação dos projetos da coletividade. Na verdade, foi ele um dos pri­
meiros a notar e criticar o papel crescente que as teorias mais estapafúr­
dias, fundidas na cuca dos philosophes e inspiradas em baixos sentimentos
de inveja e ressentimento, iam desempenhar no desenvolvimento da de­
mocracia moderna. Numa época em que assistimos à perversão final das
ideologias, podemos melhor entender sua angústia diante do fenômeno.
A admiração de Tocqueville pela América do Norte se prende em grande
parte à circunstância de encontrar-se, precisamente para todos efeitos
políticas, privada de uma classe distinta de intelectuais atuantes. Foi assim
que conseguiu conciliar a liberdade e a democracia.
Quero recordar que, em sua obra famosa sobre a Revolução, também
Hannah Arendt insistiu no sucesso da “revolução” americana ao estabele­
cer um novus ordo saeclorum fundamentado na liberdade, ou, na efetiva
institucionalizafão da liberdade. Recordemos que seria essa, segundo
Arendt, a razão da superioridade da experiência americana sobre a experi­
ência francesa. A Revolução francesa, uma epopéia sangrenta, teatral,
dramática e romântica por excelência, na realidade nada mais realizou do
que elaborar ideologicamente o seu próprio princípio antinômico — o
mito do democratismo igualitário na libertinagem, em convivência com o
bclicismo e centralismo de índole bonapartista.
De todo modo, a moral social está, para Tocqueville, no topo da hie­
rarquia das causas que condicionam uma boa sociedade — uma sociedade
livre. í moral social, seguem-se as leis. E, em terceiro lugar, aparecem as
circunstâncias geográficas e históricas como categorias explicativas da
perfeição de uma organização política. Disso deduzimos que a defesa da
liberdade democrática se coloca, em primeiro lugar, no fortalecimento da

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

257

moral social — de acordo com o velho princípio: “o preço da liberdade é
a eterna vigilância”...76. De tal perspectiva atribuía Tocqueville à moral
social estrita das comunidades religiosas protestantes, que constituem a
maioria silenciosa e exemplar da América do Norte, o sucesso indiscutível
da democracia americana. A cultura política é um bem que não pode ser
imposto pelas leis. Nem produto espontâneo das condições raciais, geo­
gráficas ou históricas. A moral social, os moeurs são o próprio sustentácu*
lo a priori de uma sociedade democrática bem constituída. O fator decisi­
vo nessa liberdade responsável do cidadão é de caráter religioso, tomando
o termo “religião” em seu sentido mais amplo. A sociedade americana
era, aos olhos de Tocqueville, a mais capaz de combinar o espirito da reli­
gião e o espírito da liberdade. Aron observa que, se procurássemos tocquevilleanamente a razão mais forte dos motivos pelos quais a sobrevi­
vência da liberdade parecia-lhe provável nos países anglo-saxões, enquan­
to precária era em França, diríamos que a sociedade americana combinava
o espírito da religião com o espírito da liberdade, ao passo que a socieda­
de francesa estava dilacerada pela oposição entre a Igreja e a República,
entre religião e liberdade, entre o clero e o Estado leigo, entre a droite
conservadora/autoritária, e o gauchisme crítico, anarquizante c tendente,
em última análise, a um retomo ao Absolutismo jacobino.
Poderíamos transpor essa observação para o nosso próprio país. A
religião dentro da qual se formou o povo brasileiro descurou dos aspectos
cívicos ou políticos da estrutura social nascente em nossa terra, temendo e
denunciando a liberdade. A igreja católica sempre foi entre nós autoritária
e conservadora, em política, enquanto ao mesmo tempo intelectualmente
pouco destacada e moralmente laxista. E mesmo quando, na atualidade,
se entusiasmou pela política social e proclamou sua “opção pelos pobres”,
manteve a mesma atitude geral autoritária, romântica, estatizante e de
76 A frase exata do político irlandês John Philpot Curran, pronunciada cm 1790, é a seguin­
te: “The cmdition upott which God hathgtven liberty to tmn is eternal v\gümtce: whtch condtttm

ifhe break, servitude is at once the consequence o f bis crime, and the punisbment ofin s jfuih". Há
quem diga que teria também sido a divisa de um dos grandes oradores e pnWcrcs da Inde­
pendência americana, Patrick Henry. De Patrick Hcnry mais conhecida é a célebre invoca­
ção: “Give me Liberty orgtve me Dmth”, que pode ter sido a inspiração de nosso grien do
Ipiranga, “Independência ou Morte!” “O preço da Liberdade é a eterna vigilância" tomouse o slogan da UDN na sua luta contra o getulismo após a II* Guerra Mundial.

25«

J. C), !)1íM |-IRA

1’ 1-NNA

pendor totalitário. Por força dessa atitude, os verdadeiros liberais latinos
foram quase invariavelmente conduzidos a tomar uma postura anticlerical. Grande parte perdeu simplesmente a fé. Ora, a verdade acentuada
por Tocqueville é que: “a liberdade considera a religião comi» sua compa­
nheira cm todas suas batalhas c triunfos, como o berço de sua infância e a
fonte divina de seus reclamos. Considera a religião como a salvaguarda da
moralidade; e a moralidade como a melhor segurança da lei e o mais
firme penhor da duração da liberdade”. Uma outra citação de De la Démoeratu traduz o mesmo pensamento: “Como seria possível que uma
sociedade escape da destruição se os laços morais não são fortalecidos, na
mesma proporção em que são relaxadas os laços políticos? K o que se
poderia fazer com um povo que é o seu próprio senhor se não se submete
à Divindade?”.
Aron considera esse último trecho admirável. Seria típico de um
“terceiro partido” (na França mas também, acrescentaria eu, nos demais
países latinos) — o partido que nunca será suficientemente forte para
exercer o poder porque, ao mesmo tempo, democrático, favorável ou
resignado à vigência das instituições representativas, c hostil aos senti­
mentos anti-religiosos. Tocqueville seria um liberal de índole rara nos
países católicos: um liberal que gastaria de ver os democratas capazes de
reconhecer a dependência necessária entre as instituições livres c as cren­
ças religiosas, estas também independentes de dogmas c encíclicas cega­
mente aceitos. Nessa confiança quanto ao papel da disciplina moral, seria
Tocqueville um verdadeiro discípulo de Montesquieu e um antccipador
de lord Acton — o Acton que proclamou “» liberdade... é, em si mesma, o
mais alto fim político”.
Como fica provado no contexto em que escreveram Lcxke, Adam
Smith, Hume, Montesquieu e Tocqueville, o conceito utilitarista de inte­
resse e o de virtude possuem elementos em comum. Não são contraditó­
rios. A virtude consistiria, simplesmente, na perseguição do interesse
utilitário, tendo cm vista um Bem Comum a longo prazo c sempre de
conformidade com os rígidos critérios da ética. Smith escrevera, cm apli­
cação do princípio de Hobbes, que “ordem e bom governo, c, com este, a
liberdade e segurança dos indivíduos, fazendo cessar a violência dos anti­
gos ocupadores das terras, foram as causas da indústria e riqueza nas

O Ks p ír it o das R e v o l u ç õ e s

259

grandes monarquias da Europa. Enquanto sc achem em um estado sem
defesa de governo protetor, os homens naturalmente se contentam com
sua necessária subsistência; visto que o adquirir mais, só serviria para
tentar a injustiça dos seus opressores. Ao contrário, quando estão seguros
de gozar dos frutos da sua indústria, naturalmente se esforçam por me­
lhorar a própria condição e adquirir não somente as coisas necessárias
mas também as conveniências c elegâncias da vida”. Sem cair numa moral
utilitarista, diríamos com Kant que interesse e virtude, num âmbito soci­
al, pertencem à esfera transcendente da Razão prática. Aron comenta a
esse propósito que “só pode .o Estado sobreviver através da influência que
a própria sociedade exerce sobre seus membros. Em ambos os casos, a
estabilidade do Estado está baseada na disciplina de seus cidadãos e na
influência predominante que os costumes e as crenças exercem sobre o
comportamento dos indivíduos”. No liberalismo de Kant, se reconhece a
contradição entre a tendência do homem em isolar-se em seu interesse
egoísta, e a inclinação a formar sociedades — eis que somente num estado
s<KÍal sc pode sentir verdadeiramente humano.
A solução preliminar a que poderíamos então chegar, como resposta
às questões aqui levantadas, é a seguinte: na concepção liberal não cabe
ao Estado impor a moral social, porque essa moral deve ser ensinada no
seio da família, na escola e no próprio ambiente social impregnado de
religiosidade — de uma religiosidade não ritualista, sacramentalista e
supersticiosa, nem necessariamente organizada em determinada eccUsia,
mas fundamentada nos imperativos racionais da ética kantiana da respon­
sabilidade. O Estado, como também salientou Kant, não tem poder legí­
timo para ameaçar a dignidade do homem. Nem tampouco para lhe indi­
car o caminho da felicidade: “Ninguém, dizia Kant, poderá obrigar-me a
ser feliz à sua maneira”... A ausência de uma tal religiosidade de natureza
individual é o que nos levou a desenvolver a noção esdrúxula, de origem
entre nós tridentina, dc uma moralidade, de uma Justiça, de uma procura
da felicidade — ou dc um Imperativo Categórico — impostos pelo Esta­
do — o que redunda na sacralização do monstro satânico, o “monstrengo
retardado” como também o define Roberto Campos.

10. A OBSESSÃO IGUALITÁRIA77

Conceito de Isonomia

N

um trecho famoso do IIIo Livro da História de Heródoto, são pela
primeira vez especificadas as formas de governo possíveis — tema
que Platão, Aristóteles e Políbio posteriormente retomariam. Heródoto
fala no governo de um, no governo de poucos e no governo de muitos.
Segundo nossa compreensão atual, a democracia consiste na terceira des­
sas alternativas. Na realidade, mais corretamente corresponderia o sistema
liberal democrático a um governo de natureza mista. Na sua forma insti­
tucional moderna é o Chefe de Estado um monarca constitucional ou um
Presidente eleito e temporário, a elite política nos outros dois poderes
representa um estamento aristocrático e o voto popular configura a ver­
dadeira expressão do poder do demos, o povo.
No episódio relatado por Heródoto e citado por Norberto Bobbio78,
o debate transcorre perante Dario, o Xá-in-Xá: partidário de um e parti­
dário do outro regime. Uma objeção é levantada pelo persa Megabyzus
que critica o governo de muitos, ou seja a democracia de multidões
(plethos). Este é o regime que hoje chamaríamos de democratismo popu­
lista ou demagógico, a oclocracia — “o império odioso das turbas” a que
sc referia nosso João Ribeiro, tema levantado, nos anos trinta, por Ortega
y Gasset em sua célebre tese sobre La Rebelión de las Musas. Contra a

77 Parte do texto deste capítulo constou de uma conferência pronunciada no Conselho
Técnico da Confederação Nacional do Comércio a 5.3.1992, e publicado na Carta Mensal
daquela entidade, vol. 37, n° 444, Março 1992.
78 Norberto Bobbio coloca o episódio no princípio de sua obra, A Teoria das Formas de
Governo, cap. 1 (trad. Edit UnB)

do grego isos. uma figura suspeita que levanta o problema da natural e concreta desigualdade entre oç homens. Se levarmos em conta que a multidão era de lato privada de poder. sobre o direito do mais forte. fácil é compreender quão árduo se apresenta o proble­ ma ora levantado. como em nton-arquia). A complexidade do termo pode ser aqui­ latada se levarmos em conta que. na idéia de isonomia estaria contida a ausência de governo. se arregimentada por líderes populares suficientemente competentes. porém. No entender de muitos críticos. foi Platão o primeiro a avaliar perfeitamente a extensão dessa problemática de filosofia política. pode facilmente vir a dominar uma minoria de fortes. isonomia. em suma. o . contido no Gorgias de Platão. No raciocínio poderoso de Cállicles resta a dúvida. com a saúde e harmonia das formas. Estritamente. os patrícios. Excluídos da cidadania permanecia a massa majoritária de escravos. já levantada por Thrasymachus em outro diálogo de Platão. “regra ou norma”. continha ele também o sentido de equilíbrio perfeito entre as partes. o Estado de Direito. uma multidão de fracos. ou de poder (de kratein. Pois de fato. Por extensão. “igual”. de autoridade (de archein. estrangeiros. em inglês the Rule ofLaw . nem ser governado”: o homem inde­ pendente. na filosofia grega. todo kosmos ou ordem espontânea segundo a concepção de Friedrich Hayek. o porta-voz da democracia ateniense. sentido tão representativo da mentalidade essencialmente plástica e apolínea dos nossos mestres helenos. a idéia de isonomia é criticada pragmaticamente por Cállicles. A expressão usada é de grande ambigüidade: isonomia. “o mais belo dos nomes”. bár­ baros e hilotas. Constituíam necessariamente uma minoria. pobres ou inferiores. Titula­ res da isonomia eram apenas os cidadãos de uma polis bem organizada. quer dizer a igualdade de direitos. Sobre esse princípio se sustenta toda Ordem liberal. o termo democracia. Ele declara que o ideal é o do cidadão que “não quer governar. ricos e aristocratas. É a igualdade de todos peran­ te a lei. Segundo o argumento de Megabyzus perante o Rei da Pérsia. em contraste com sua igualdade meramente abstrata. e nomos.O E s p ír jt o das R e v o l u ç õ e s 261 opinião de Megabyzus. É o princípio básico de Justiça democrática que equipara os cidadãos conside­ rados legalmente “iguais” — em grego homoioi. não pronuncia. como em aristo­ cracia e dcmo-cracia). Otanes. entretanto. Em outro debate famoso.

primeiramente nisso pensou e preveniu a posteridade. do plethos ou do demos. tendo a experiência imediata do Cesarismo em mente. Cícero também caiu sob a espada. a proteção do serviço público é concedida e é continuamente reno­ vada. tal liberdade reduz a nação à escravidão.262 J. Em sua obra On Revolution. Tudo em excesso se transforma em seu oposto. que nos ensinou a pensar”! O que em De Republica Cícero assinalou é o seguinte: “Platão disse que. De imediato. Com ele morreu a liberdade.. não é a democracia um regime inteiramente satisfatório. Em Roma foi Cícero que... Pois é no meio de tal populacho ingovernável que geralmente é escolhido como líder. se deram conta. com forte conteúdo emocional.. O . de M eir a P en n a que explica o motivo pelo qual. para superar o que considera os percalços da democracia atual. ser totalmente desconhecida. minhas e do professor Celso Lafer. esteja implícita na crença em filiação divina e fraternidade universal que já se configura no Velho Testamento e recebe confirmação mais explícita nas palavras de . da licença exagerada que muita gente chama de liberdade. finalmente. da multi­ dão ou do povo. os tiranos surgem como de uma raiz. a idéia de que todas as pessoas nascem iguais e que a igualdade é um direito de nascença. Hayek por isso propôs uma nova forma de governo que denomina demarquia. O fato é que da democracia pode nascer a servidão de que muitos. e que. observa Hannah Arendt. depois de atravessar o Rubicon e derrubar a República. no entanto. isto é. que procura os favores do povo. foi assassinado pelos amigos do primeiro... não me parece fácil aceitar esse ponto de vista da ilustre cientis­ ta política que tantas homenagens recebe. para os estritos partidários da liberdade. antes da idade moderna. na época moderna. A democracia comporta o governo da maioria. deixando o indivíduo indefeso perante a massa. algum homem audacioso e inescrupuloso. Prefiro acreditar que a noção abstrata e formal de igualdade essen­ cial entre os homens. Ele se cerca de uma guarda armada e emerge como um tirano sobre esse mesmo povo que o elevou ao poder”. desde Burke e Tocqueville a Hayek. Cícero estava evidentemente pensando em Júlio César que.. dando-lhe a propriedade de outros homens. A um tal personagem. Bem disse Voltaire: “honremos Cícero. por­ que tenha muitas causas para temer se permanece como um cidadão pri­ vado. substituída pelo regime de servidão imperial..

não há ho­ mem. As desigualdades são aceitas numa hierarquia de valores legitimada pela tradição.. os homens são desiguais em virtude do valor moral inato de sua alma. considerado justo. A estrutura social da índia é. escravo ou livre. sustentada pelo regime de castas. se viveu nobremente. pois somos todos um na Graça de Cristo” (Gtd. É o bem ou o mal que praticam nesta vida o que irá determinar seu karma. incircunciso. É isso é certamente o que sugere São Paulo quando. Somos obrigados a uma igualdade de tratamento. uma diferença intransponí­ vel de natureza — e portanto de estatuto social entre os indivíduos — forçada pelas condições das vidas anteriores (karm a). baseado no amor fraterno. A Justiça existencial como que se exerce automaticamente. nem judeu. como um pária se foi moralmente desprezível. Somos solidários. não há senhor. o Budismo. declara que “não há grego. gregos e roma­ nos. Ressaltemos ainda que a idéia de igualdade entre os homens não pa­ rece figurar em outras religiões. estóicos e juristas.. Você renasce como um aristocrata.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 263 Cristo. É. em suas epístolas. legítimo e correspondente à própria estrutura do Universo que um filho de pária continue sendo pária . A subida ou descida na hierarquia animal ou humana é função dos méritos ou deméritos morais. No Hinduísmo e em seu broto. somos forçosamente iguais em dignidade. 12:13). se se comportou como um porco. pois a Justiça sempre se restabelece através do processo de metempsicose: Você renasce como um porco. na índia. da teologia judeo-cristã. Col. sem intervenção da divindade. Se somos irmãos. Mas isso não afeta a desigualdade de origem e destino que nos é imposta pela própria vontade do Deus Omnipotente. surgiu a consciência crescente da igualdade como noção transcendente e ardeu o sentimento de revolta contra as desigualdades por força. assim como sob influência dos sofistas. 3:28. por força da crença na Transmigração. 3:11 JC o r . como já assinalamos. Essa idéia destaca-se da concepção presente no Hinduísmo e no Budismo que pos­ tulam. Na história do Ocidente e ao contrário do que ocorreu no Oriente. E não adianta protestar: se o fizer. Você será punido na próxima recncamação. nem sírio. cm cada uma das quais a gente nasce por força do karma que carrega de vidas anteriores. nem circunciso. por esse motivo. bárbaro. nem mulher. ou seja o destino que lhes está reservado quan­ do transmigrar sua alma para outros corpos.

é periodicamente pesado em seu equivalente em ouro. a repelir com um rebenque qualquer pária que. provoca os movimentos reivindicatórios. finalmente. por força do choque da modernidade. sempre mantermos em mente que. o contami­ nasse e obrigasse a complicado ritual de purificação. A perda de legitimidade de tais desigualdades hierárquicas. a mais terrível tirania foi imposta à metade oriental da Europa e grande . A desigualdade é admitida porque. lixeiro. inclasive Japão e Coréia. revo­ lucionários e socialistas que. caracterizam uma época de instabilidade social como a nossa. O pandit Nehru era ao mesmo tempo brâmane e socialista. a sociedade é fortemente discipli­ nada e hierarquizada em tomo do respeito à figura do Pai e de todos aqueles que representam uma autoridade paterna. o Aga Khan. compelido.264 J. No Islam. proclamava-se marxista. Em nome da igualdade econômica. como membro da casta superior. A democracia moderna parece pouco adaptável aos países muçulmanos. no entanto. Pelo contrário. A relação de obediên­ cia. o fato é que a ausência de uma aplicação prática da base religiosa a uma filosofia política adequada pro­ vocou uma extrema instabilidade. coveiro e açougueiro — ao passo que o chefe da seita ismaelita. Convém. avô do falecido Rajiv Gandhi e pai de Indira Gandhi. Estatizava socialisticamente a economia mas se sentia. con­ forme acentuou Tocqueville. O prestigioso fundador da República indiana e Primeiro Ministro. O . raros dos quais vivem sob essa forma de governo. da qual emergiram as formas estatais mais despóticas que regista a história. Na ética confuciana sob a qual vive a maior parte da população da Ásia oriental. liberdade e igualdade não são ideais neces­ sariamente solidários. em que pese o fato de ser uma religião de ori­ gem bíblica em que todos são iguais por natureza e igualmente submissos à obediência de Allah todo-poderoso. por conseguinte. é o que. lealdade e responsabilidade sempre se restabelece entre inferiores e superiores. de M eir a P en n a e se ocupe de profissões inferiores como as dc lavador de latrinas. no fatalismo intei­ ramente passivo — de “submissão” (islam) diante da omnipotência divina — não se permite nem mesmo a discussão do problema teodicéico ou da justificação moral quanto aos desígnios misteriosos àoA llabuA kbar. levando a sério ambas as categorias contraditórias. profundamente enraizadas na mentalidade do povo. tocando-o com a mão. no Terceiro Mundo.

Existirá talvez um dia. no sentido de seu desenvolvimento e na proteção de sua segurança? Serão os intelectuais. não é viável a democracia direta proposta por Rousseau. Mas. quan­ do é esta instituída coercitivamente. entre os cidadãos iguais. pela força. um sistema de consulta direta piebiscitáría aos cidadãos. quem representa o povo? Serão os políticos profissionais. professores. dadas as diferenças inatas da natureza humana. acreditam esses autores liberais que.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 265 parte do Terceiro Mundo afro-asiático. mas apenas salientar os obstáculos a serem encontrados em nossa penosa caminhada. isto é. centralizador c interventor. jornalistas. como hoje para Hayek e para os liberais de nossa corrente. Ao levantarmos então a proble­ mática no contexto de um possível debate sobre Liberdade e Justiça. se for possível instituir graças aos meios eletrônicos computadorizados. civis e militares. Para TocqueviUe. pela circunstância de que os regimes que nos governam são representativos e presidencialistas. com seus interesses paroquiais inidôneos no jogo sujo das combinações partidárias? Serão os tecnocratas. em Equality. Por razões práticas. Democracia direta não existe. a igualdade social e eco­ nômica só pode ser forçada por um Estado poderoso. Contrariando Tawney que. escritores e mesmo o clero. revela seus pendores socializantes. não é nossa intenção oferecer soluções. A dificuldade é agravada. a li­ berdade é incompatível com a igualdade. ou polites de uma cidade grega ou de uma democracia moderna. Ora. mas acabam acolhendo e apoiando a servidão totalitária? . partindo de TocqueviUe. dita social ou econômica. a não ser em âmbito munidpal limitado. o que quer dizer. como para Lord Acton. em nossas nações-estados de enorme proporção territorial e demográfica. em­ preende Hannah Arendt quanto à interação da liberdade e da isonomia entre os pares. tendente a lançar alguma luz sobre tão polêmica e complicada questão. que se julgam mais preparados para dirigir o país. por enquanto dependemos de nossos representantes. a qual conduz às ideo­ logias utópicas destemperadas que proclamam a opção pelos pobres. todos mais ou menos comprometidos com uma “ética da convicção absoluta” (Wcber). profissionais liberais. se excetuarmos a que vigora em algumas aldeias perdidas nos cantões dos Alpes da Suíça e geleiras da Islândia. Grande é o interesse da discussão que. o que quer dizer.

naturalmente. Mas acontece que. deve vigorar na condição de isonomia recém-conquistada. seguiu outros caminhos. o que “institucionalizou a liberdade”. em nome de uma Justiça que passa a ser qualificada como “social”. são os “irmãos” rebeldes — os sans-culottes. de uniformização. Uma de rebelião contra o passado. O . a lei. igualização e distribuição “eqüitativa” dos bens materiais. sempre vale repetir a observação de Hannah Arendt. os cidadãos. O igualitarismo fraterno sempre é o objetivo almejado pelos que se levantam contra a autoridade . Outra. tudo que possa sustentar o poder dominante — o aristocrata. o esquema típico. As duas faces representam duas etapas. o governante do momento. Assim fecha-se o ciclo dialético. na derrubada da autoridade estabelecida. na primeira fase a revolução ataca o cstablishment de origem patriarcal: Deus. o burocrata. descamisa­ dos. sindicato ou partido — tratam de organizar e firmar um novo regime igualitário que. o burguês.26 6 J. Imperador ou Príncipe. massificação. certamente. iniciais e sucessivas. Não foi. no correr da luta revolucionária e para alcançar sua meta. o Rei. bem como da Revolução americana. o capitalista. a hierarquia e os mandamentos morais. A evolução anunciada pelos revolucioná­ rios da Europa e seus sucessores em outros continentes. o “Pai”. proletários. o privilegiado de um modo geral — tudo é eliminado. doravante. o patrão. o modelo an­ glo-saxão que. companheiros de movimento e camaradas de trabalho. assegurou o sucesso da democracia liberai tal como hoje a conhecemos. Este. os “irmãos” da fraternidade rebelde restabelecem a tirania no que configura a terceira etapa do movimento. Ou seja. como seu pro­ pósito e programa. o rico. d e M e ir a P enn a O Democmtismo e o Retomo doAbsolutismo No ímpeto de rebeldia e revolução que atormentou o século e sobre cujas teorias discorremos nestes últimos capítulos. Não será sempre o padrão in­ variável do processo revolucionário. o policial. a ordem. Na segunda fase. contra todos e tudo que representariam o absolutismo. por definição. o militar. a autoridade. Foi o modelo anglo-saxão. através da “Revolução Gloriosa” e dos movimentos re­ formistas subsequentes. os “filhos” que. descobrimos duas faces aparentemente contraditórias.

) que os deverá conduzir à vitória. da massa dos rebeldes. Seu programa comportava a conquis­ ta da “liberdade” da Itália e da Alemanha. Duce. É simples. Conducator. Chefe. Against Equality. conquistar o poder e receber títulos como o de Marechal.. É sobre o tema que falaremos agora. Acentuemos. “possui a Igualdade todos os requisitos para tornar-se uma idéia religiosa e providencial em nossa época. we happyfew . . que passa então a se confundir com a exigência de demo­ cracia. em franca hostilidade contra os demais. os companheiros da luta reconhecem um Grande Irmão (o Big Brother de Orwell. o Segundo e Terceiro Princípios do trinômio revolucioná­ rio Liberté. para alcançar a vitória Wefew. é capaz de aplicação ao conjunto da população e. pela isonomia. foi sendo promovido a partir de suas ousadas aventuras como assaltante de trans­ portes do Tesouro tzarista. Em todos esses casos. como assinala o sociólogo americano Robert Nisbet num ensaio sob o título The Pursuit o f EquaU79 ty . Mesmo nos movimentos fascistas da década dos trinta. ele também é um “homem do povo”. e dos mesmos direitos à posse de recursos coloniais de que gozavam a Grã-Bretanha e a França. o pressu­ posto libertário e igualitário era essencial ao Grande Propósito revolucio­ nário dos coletivistas. iv. pelo menos em sua concepção imediata. 1983. we band ofbrothers. iii). relacionado especificamente com a “Obsessão igualitária”. Ele deve conduzir a grande empreitada e derrubar a tirania. Seus companheiros de empreitada são todos. Comandante ou Secretário Geral do partido. ingressando no movimento. do 79 Na coletânea dc William Letwin. Stáline foi um antigo seminarista que. uns poucos felizardos reunidos como um bando de irmãos. e a fraternidade dos companheiros que vêm a constituir um grupo privilegiado de “iguais”. Em suma. 5. Egalité. antes de mais nada.. como no verso de Shakespeare (no King Henvy V. Caudillo. O líder surge de baixo. Generalíssimo. Führer. etc.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 267 estabelecida e se recusam a aceitar a idéia de propriedade privada. O abso­ lutismo tirânico do líder carismático sempre o resultado final do processo cíclico. Mussolini e Hitler começaram sua carreira como nacionalistas de esquerda e lutaram contra as elites aristocráticas que dominavam seus respectivos países. que. Gerado no ventre de Behemoth. Fratem ité são isso mesmo: a insistência pela igualdade.

menciona as idéias de Phaleas de Calcedônia o qual “foi o primeiro a propor que as fortunas dos cidadãos deviam ser iguais. em segundo lugar. como via cnatrix dos mais importantes movimentos sociais contem­ porâneos no sentido de Tocqueville. Encontra-se. Discutindo ainda. 215. nesse texto. . Ora. exatamente a idéia de que o ímpeto igualitário constitui uma secularização radical de uma idéia religiosa. a toda a humanidade. interrompendo o desenvolvimento do Liberalismo e causando transtornos mundiais de tal monta que. finalmente. o segundo do Trinômio Revolucionário. e na verdade um objetivo contido na própria essência da história mundial. o Estagirita observa que este. Paim cm Liberalismo Contemporâneo. o islamismo e o budismo no momento de sua fundação — na medida em que se contraon põem às tradições e leis do meio circundante” . de como o lema Igualdade. Não devemos. se traduz em fenômeno revolucio­ nário. mas já haviam sido suprimidos em 1649. na idéia de igualdade aquele impulso demoníaco para a revo­ lução permanente existente em numerosos valores religiosos — pelo me­ nos. contudo. no Livro II de sua Política. os “niveladores” do exército republicano. se de um lado encontramos em 80 Citado por A. Igualdade e Fraternidade manifestaram-se como o espírito da Revo­ lução no que. nesta seção. se devemos acreditar em Aristóteles que. pelo Jacobinismo revolucionário francês de 1793. Caracteriza Nisbet. só neste final de século. pelos Levellers. O . Vamos tratar mais especificamente. pode-se apresentar como sendo o maior propósito da moderna experiência social e política. pg. ao tempo da Revolução Puritana de Cromwell. em primeiro avatar. mas que cidadão algum deveria possuir mais do que cinco vezes o nível mais baixo do censo”. se classifica como “esquerda”. de um modo geral. e. as teses de Platão. esquecer que o impulso igualitário já se manifestara na Grécia antiga. em suasLw. DE M EIRA PENNA mesmo modo. naquelas religiões universais como o cristianismo. achava que “as diferen­ ças de circunstâncias deviam ser permitidas até certo ponto. o que ele pensava não ser difícil de conseguir quando uma comu­ nidade era fundada” (1266b). deu origem ao marxismo e a todo o movi­ mento socialista. cristã — secularização que. no caso. Sua ideo­ logia legitimadora foi gerada.268 J . longamente. estamos chegando a um patamar filosófico suficientemente largo para lhe analisar as brutais conseqüências.

Estavam desprovidas de recursos. Vale insistir. nesse esforço. aliadas de agosto de 1939 a junho de 1941 à União Soviética. é intervencionista. maio/junho 1995. cujo império "onde o sol nunca se põe" incluía a índia. no livro A Ideologia do Século XX. n° 372. Digesto Econômico. soberano e agressi­ vo. Japão. como assinala John Roemer em seu recente y4 Future for Socialismu . Sobre o terceiro lema. . em por­ menor. a esse propósito. e que. a identificação de “esquerda” com igualitarismo é hoje a esperança dos socialistas democráticos que ainda não perderam sua fé. com quase 9 milhões de km2 e já o maior patrimônio econômico do planeta. e. com mais de 33 milhões de km1 e quase um bilhão dc habitantes. Veneza 1991. para o qual solicito a atenção do leitor interessado. inicialmente dissociada maniqueisdeamente numa "direita” nacio­ nalista c numa “esquerda” socialista. a nacionalista. Lebensraum. produziu um retorno ao absolutismo estatal quando o entusiasmo patriótico de 1793 se metamorfoseou numa segunda obsessão. reclamavam “isonomia” cm termas de poder cerritorài e recursos econômicas. 83 Dei-lhe o nome de nacional-socialista. o de Fraternidade. Bobbio também acentuou que. como a Grã-Bretanha. terri­ tório. acabou fundindo-se num totalitarismo terrorístico e genocida cujo ominoso alastramento.1 Citado por Antonio Delfim Netto. que a IIa Guerra Mundial foi provocada pelas três nações do Eixo — a Alemanha. a França. o Japão e a Itália — que. Discuto esse fenômeno.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 269 Norberto Bobbio (Destra e Sinistra) a opinião que “dizer-se de esquerda é hoje uma das expressões menos verificáveis do vocabulário político”. grande parte da ãfrica.. A Ideologia coletivista é aquela que. quando comparadas àquelas que tudo nnham. etc.. 1994. 82 em Giancarlo Bossetti. Japão e Itália reclamavam. Des&vnreci* dos e alegadamente discriminados. e os Estados Unido». que ia igualmente afetar toda a Europa. cm nosso século. II Legno Torto. o que quer dizer que se inclina a servir-se dos poderes públicos”82. cabe apenas registar que ele levou à criação da religião civil do Estado Nacional moderno. também promovido pelos Jacobinos da Revolução francesa. Alemanha. sobretudo. associado ao outro sob o título de “nacional-socialismo”. com 10 milhões dc km2 na ãfrica e mais de cem milhões de súditos. porque tentou pôr em prática os princípios filosófi­ cos originalmente concebidos para a conquista da Liberdade e. a esquerda sempre se caracterizou por sua preferência mais pela igualdade do que pela liberda­ de.. não esteve longe dc interromper catastroficamente a marcha ascendente da Humanidade. “no que diz respeito aos valores. Alemanha. de­ sencadeou uma série de sangrentas operações guerreiras de âmbito mun­ dial e de cujo desenlace catastrófico apenas escapamos como por mila- 1. Itália e Rússia soviética se consideravam nações have-not. com respeito à ação política.

pelo coletivismo “nacional-socialista” de “esquerda” e de “direita”84. consta­ tou. . Por volta de duzentos milhões foram vitimados. predisse. de partículas in­ finitesimais. DE M EIR A PENNA Foi em agosto de 1914 que a evolução da Humanidade para a Liber­ dade. ia ser mais gravemen­ te interrompida durante 75 anos. em nosso século. Naquele momento fatal para a civiliza­ ção do Ocidente. Lembremos que Solshenitzyn calcula em sessenta milhões o número de vítimas causadas pela Revolução russa.. Rummel. deveríamos nos re­ ferir à “opressão das massas” na fase saturnina. que é o resultado terminal M Urri cientista político americano.270 J. com a guerra civil. o ano da Segunda Revolução Gloriosa! O poderoso apelo do igualitarismo em nosso século é estranho. O . Alguns pensadores já acentuaram que. Gustave LeBon estudou os aspectos mentais do fenômeno das massas revolucionárias em sua Psychologie des Foules. melancolicamente. tem o igualita­ rismo socialista — que consubstancia. o Grande Salto para a Frente. ao invés de falar numa “rebelião das massas”. Juntamente com o nacionalismo. Mas talvez. sob o golpe da ideologia coletivista agressiva. í um pouco mais conservador e calcula cm 170 milhões os que “pereceram pela ação dos governos”. Seu livro intitula-se Death by Government. o Poder absoluto mata absolutamente”. naquela data. Parafraseando Acton..J. que as luzes da Europa se estavam apagando e. anão mais brilharão durante nossas vidas”. Lord Grey. em termos gerais. O igualitarismo é o produto dessa Rebelión de la Masas de que falava Ortega y Gasset — o Behemoth que perdeu sua identidade indivi­ dual para converter-se num monstruoso corpo amorfo. a própria história do mundo se deteve. interpretado como a essência da Justiça distributiva.. ele propõe a tese: O Poder mata. pode provocar no quadro do reclamo universal de Justiça em seu sentido lato.. R. mis­ terioso. A Guerra provocada por Hitler matou 50 milhões. o Secretário do Exterior britânico. a coletivização da agricultura e a Revolução Cultural carregaram com 50 milhões de chineses. as correntes ditas de “esquerda” (em italiano sinistra) — constituído a motivação para al­ guns das episódios de violência mais ferozes que a história regista. todas iguais. algo paradoxal. ascendente. no annus mirabilis de 1989. Ela apenas retomaria seu curso normal. Isso provaria a intensidade das paixões que o desejo de igualdade. A Revolução de Mao.

O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s 271 do processo revolucionário quando ultrapassa o estágio de “institucionalização da liberdade”. res­ sentidos e covardes. como estava ocorrendo em França no final do século XVIII. E também en­ tusiástico e cruel. ressentido e rebelde. mas por auto-educação e valor moral. Podemos compreender todo o movimento socialista como gerado por aqueles que. em geral. aconteceu na época contemporânea. D ifference engen­ dre haine. notou em uma de suas observações geniais. afastando por mais de meio século o ideal de Li­ berdade. o resulta­ do indireto. justamente. filhos de famílias ricas: a fartura parecia aguçar o niilis- . não por nascimento. que a pobreza parece suscetível de ser eliminada como já o foram o canibalis­ mo. é arregimenta/ do e alienado. o acompanhamento na morte das viúvas e a varíola. proporcionado pela modernidade? Certo: é a primeira vez. Mas também. Os desfavorecidos e atrasados num período de rápido progresso econômico e social sentem-se abandonados. E isso o que. os hippies e baderneiros eram. imediatamente. na “nova ciência política” por ele imaginada. O Behemoth massificado é igualitário e uniformizado. equiparado em termos de prestígio cultural. ao exaltar o “instinto de hierar­ quia” e reverência do verdadeiro aristocrata. a diferença gera o ódio — é Nietzsche que cita esse ditado fran­ cês em sua obra Além do Bem e do M al. de uma reação intuitiva à perspectiva geral de bem-estar e enriquecimento. nos movimentos estudantis de 1968/69. o paradoxo: quando diminuem as diferenças sociais. cinzento e passivo. contra o qual se erguem as inferiores. na história da humanidade. as que permanecem se tornam particularmente odiosas e podem / determinar as explosões coletivas. emocional e irracional. Os negros americanos se tornaram muito mais ressenti­ dos. poder político e bem-estar econômico. Será isso um efeito inevitável das primeiras fases da Revolução industrial — técnico científica — pela qual estamos dramaticamente passando? Será. ressentidos. violento e guerreiro. a escravidão. se consideravam imediatamen­ te discriminados perante as expectativas crescentes que a Revolução in­ dustrial oferecia. Foi Tocqueville que. talvez psicologicamente explicável. discriminados. desprestigia­ dos. Eles criam ressentimentos que conduzem à revolta. rebeldes e violentos após a Campanha pelos Direitos civis: não per­ doam aos brancos não se terem a eles.

272

J. O .

d e M e ir a P enna

mo! Qualquer que seja a explicação, o problema da igualdade dominou a
idade das revoluções.
Ora, o melhor é o inimigo do bem, conforme já nos ensinava Voltaire. Podemos salientar que no século passado, efetivamente, tão pobres e
famintas eram a Irlanda e a Escandinávia que milhões de seus filhos emi­
graram para a América do Norte à procura de uma nova vida. Foi isso o
que, possivelmente, preservou essas duas áreas de fenômenos revolucio­
nários agudos. Habitam hoje mais noruegueses nos EUA do que na No­
ruega. Há cento e tantos anos morria-se, literalmente, de fome no inver­
no da Islândia e em muitos vales perdidos da Noruega, Suécia e na pró­
pria Suiça. Com seu livro Sult ( A Fome ), publicado em 1890, o roman­
cista norueguês e Prêmio Nobel Knut Hamsun (1952) tornou-se famoso
ao descrever as condições precárias da vida em sua própria infância. Mas,
influenciado por Strindberg e Nietzsche, Hamsun acabou criticando a
obsessão igualitária de seus conterrâneos e foi isso o que, provavelmente,
o levou na velhice a colaborar com os invasores nazistas de sua pátria. Na
Islândia, outro Prêmio Nobel de literatura, Halddor Laxness, descreve em
outro poderoso romance, traduzido para o inglês e publicado em 1946,
Independent People, uma verdadeira saga da luta de uma família de criado­
res de ovelhas num vale perdido da ilha. A miséria, o isolamento e a deso­
lação são as companheiras perenes do herói, Bjartur. Seus vizinhos
“morrem sem nunca haver realizado um negócio que envolvesse mais do
que alguns dólares de cada vez”... As duas Guerras Mundiais e a Guerra
Fria, que salientaram a posição estratégica do país, abriram-na para o
mundo, enquanto a lã, a pesca e, mais recentemente, a energia barata que
permitiu o desenvolvimento de uma indústria de alumínio, elevaram o
bem-estar econômico para um nível invejável: o PIB da Islândia, com
uma população de um quarto de milhão, se encontra hoje acima de 5
bilhões de dólares. Esse sucesso se vem adicionar ao que seria talvez o
mais alto nível cultural do planeta. Colocam-se assim a Islândia e a Es­
candinávia entre as regiões mais ricas e civilizadas do mundo e entre as
socialmente mais equilibradas. Mas sendo o que é melhor o inimigo do
que é bom, só cabe parcialmente tal sucesso à socialdemocracia que, por
muitos anos, governou esses países. Com isso o coletivismo reduziu,
antes do que acelerou, a sua entrada numa utopia de bem-estar e liberda-

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

273

dc. Em poucas palavras, como assinala Antonio Paim cm seu ensaio sobre
o Liberalismo Contemporâneo, “a experiência histórica... ensina que o
princípio socialista da igualdade de resultados é o caminho mais curto da
abolição da liberdade, no plano político, e da perspectiva de progresso
material no plano social”. Durante 200 anos, entre 1789 e 1989, a Revo­
lução industrial teve que carregar esse gigantesco fardo ideológico.

O Contrato Social. Rousseau e osIguais
Referimo-nos à Isonomia como essencial ao processo democrático,
proposto na teoria do Contrato Social. O Contrato é, inicialmente, um
acordo virtual entre os irmãos rebeldes que pode, ou não, ser concretiza­
do num texto constitucional. O esquema intelectual que se desenvolveu
nos séculos XVII e XVIII, graças ao Contratualismo de Hobbes, Pufendorf, Locke, Rousseau e Kant, afirma que o homem abre deliberadamen­
te mão de uma parcela de sua liberdade em favor do Estado, como socie­
dade organizada, no propósito racional de se assegurar, com garantia de
vida e em condições de igualdade com seus pares, a liberdade, a coopera­
ção econômica e segurança, o conforto e a propriedade que lhe permita a
“procura da felicidade”. Em seu De Jure Naturae et Gentium libri octo
(1672), por exemplo, e, no ano seguinte, no De Officio hominis et civis,
“Deveres do Homem e do Cidadão”, o barão alemão Samuel von Pufendorf seguiu, ainda que mais moderadamente, a tese de Hobbes de que o
Estado é constituído contratualmente — nullum império sine pacto — para
manter a ordem, a segurança e a propriedade dos cidadãos que, dc outro
modo, se engalfinhariam. No seu Contrat Social, J.-J. Rousseau postulou
que o homem nasceu livre. No entanto, ele está oprimido c continuará
oprimido até que seja concluído um contrato social democrático, tendo
como modelo a sociedade primitiva e única natural que é família85. A
partir do pacto social primário, os indivíduos, iguais entre si perante a lei
HS

“L'Homme est né libre, et partout il est dans lesfors. Tel se cn it m aitn des autres, qiu me
pas d'être plus esclave qu'eux. Comment ce chatyenunt s'est-faitf Je tignore. Qu'est-ce fu t peut U
rendre légitime ?Je crois pouvoir résoudre cette question ”,

274

J.

O . DE M EIR A PENNA

e a autoridade, perdem numa distribuição eqüitativa aquela liberdade
absoluta a que, em situação de perfeito isolamento como a de Robinson
Crusoé em sua ilha, poderiam teoricamente gozar. O princípio da liber­
dade igual na igualdade natural se torna assim estabelecido: “Tout homme
étant né libre et maître de lui-même, nul ne peut, sous qualque pretexte que ce
puisse être, l'assujettir sans son aveu” (IV.ii).
É a partir dessas considerações que Rousseau levanta argumentos a
favor e contra o direito de propriedade, lançando as sementes da idéia de
uma fraternidade econômica absoluta de onde irá, estupenda e deploravelmente, brotar o socialismo. As contradições dos argumentos na obra
do genebrino são notórias. A conclusão “socialista”, porém, é bem clara e
antecipada profeticamente: “C'est précisément parce que la force des choses
tend toujours à détruire Pénalité, que la force de la législation doit toujours
tendre a la m ain ten irEis aí: a igualdade só pode ser imposta e mantida
pela força coercitiva do Estado legislador. Aparece o princípio básico do
intervencionismo estatal no uso legítimo da violência. Sob pretexto de
opção preferencial pelos pobres, o programa contratualista de Rousseau
objetiva a entrega ao governo do Estado-nacional soberano, ou seja a
uma Nova Classe burocrática dominante, da tarefa de controlar a produ­
ção para fins redistributivistas. A distinção entre Maioria e Vontade Geral
abre as portas à arbitrariedade totalitária, uma vez que a Vontade Geral
não se explicita através de eleições pluripartidárias, com a tolerância do
pluralismo de opiniões, mas consolida o domínio de uma elite de
“vanguarda” que se pretende verdadeiramente representar o povo. Eis o
democratismo populista. Duzentos anos de polêmica e furor se inici86
am...
Pobres x ricos... A obra de Jean-Jacques Rousseau revelar-se-ia um
protesto ressentido contra a indiferença dos nobres e afortunados burgue­
ses que, nos salões de Paris, o haviam esnobado. No Discurso sobre a Ori­
gem da Desigualdade, ele alega que os ricos e os nobres, à vista da miséria
e da desgraça dos outros, dirão: “perecei se quiserdes, eu estou seguro”...
Não obstante, isso não quer dizer que o próprio Rousseau não haja hipo­
critamente preferido a companhia dos pedantes abastados à dos miserá­
86 O terru é tratado cm minha obra O Dinossauro, 1988, cm que, no capítulo I, traço um
paralelo entre o Estado racional de Hobbes e o Estado romântico de Rouueau.

O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s

275

veis, e a sociedade dos nobres grã-finos à dos plebeus de sua classe, nem
tampouco que não se haja tornado gigolô de uma velha aristocrata ou
haja abandonado, num asilo de órfãos, os seis filhos que gerou numa
criada doméstica. As belas palavras de compaixão não se traduzem, neces­
sariamente, em atos virtuosos...
Acentuava Jean-Jacques que o indivíduo isolado é livre e igual a qual­
quer outro. Trata-se da noção de igualdade teórica. A tese do genebrino
se combinava com a tradição de igualdade prática entre os homens livres
das tribos de bárbaros germânicos que invadiram a Europa, na alta Idade
Média. O barão ou Freiherr germânico era o homem livre, um Senhor.
Era igual a qualquer outro de sua tribo. Esses barões vieram a formar a
nobreza feudal no período anterior à consolidação do Absolutismo mo­
nárquico — o que, no âmbito político, explicaria a obsessão igualitária
que surgiu, precisamente, quando se tratou de reduzir o poder do monar­
ca absoluto. Na história da democracia encontramos o desejo de, pro­
gressivamente, estender a toda a população os privilégios e títulos da
aristocracia feudal . O orgulhoso nobre espanhol, que se dirigia ao Rei
afirmando: “nosotros que, cada um solo, somos iguales a Ustedy, juntos, más
que UstecF, estava expressando o princípio que dá origem à democracia
moderna. Uma tese levantada entre outros pelo abade Sieyès, durante a
Revolução Francesa, atribuía a diferença de classes a uma diferença de
raças. Os nobres seriam descendentes dos Francos invasores, o Tiers État
das Galo-romanos da antiga província das Gálias invadida, e haviam
constituído classes separadas e adversárias que cabia agora, graças à revo­
lução republicana, fundir num todo de cidadãos iguais perante a lei. O
argumento era usado tanto para justificar a revolução quanto, pelos con­
servadores racistas, para defender a reação. A tese não pode ser cientifi­
camente sustentada88.
87 O termo Senhor (Monsieur cm francês, Sir cm inglês, Herr em akmàa, também o Dm
espanhol que permaneceu em português em sua forma feminina, Dom» — do latim tkm m m ,
domina) é democratizado no tratamento usual relativamente cerimonioso.
88 Sieyès no entanto, em um Ensaio sobrt os Privilegias, analisava exatamente aquilo que iria
acontecer: a criação de uma nova oligarquia parasitária do Estado c manòda peio seu cor­
porativismo, seu esprit dt corps. “O falso sentimento de uma superioridade pessoal é ds tal
maneira caro aos privilegiados, que eles desejam estendê-lo a todas suas relações com o
resto das pessoas”, escrevia. A vaidade que, ordinariamente, i individual c *e comprai nn

276

J. O .

de

M e ir a P enna

Mas Rousseau se havia rebelado contra a frialdade sem compaixão da
Idade da Razão. Era um emotivo. Intelectualmente era incoerente e con­
traditório. Sem qualquer prova histórica ou científica, ele supunha que o
homem primitivo nascera livre, inocente e igual. “Commençons donc par
écarter tous lesfaits, car ils ne touchent point à la question”, assim iniciou seu
Discurso sobre a Desigualdade. “É fácil de verificar que é nessas mudanças
sucessivas da constituição humana que é preciso procurar a origem pri­
meira das diferenças que distinguem os homens; os quais, de um ponto
de vista comum, são naturalmente tão iguais entre si quanto eram os
animais de cada espécie antes que várias causas físicas introduzissem em
algumas delas as variedades que constatamos”. A idéia de que se deve
começar um argumento “afastando todos os fatos” é, pelo menos, origi­
nal. De um ponto de vista filosófico e biológico é um absurdo ululante!
Ela bem revela a impossibilidade empírica de provar a igualdade dos ho­
mens.
Acontece que, se a Revolução francesa se realizara sob o esplêndido
signo triunfante de Liberdade, Igualdade, Fraternidade, não tardaram os
Jacobinos a se encarregar, em sua atuação terrorista, de prová-lo utópico
e ilusório. Em sua obra sobre As Origens do Totalitarismo, Hannah Arendt
observa que, “embora constitua o requisito básico da Justiça, a igualdade
de condições é uma das mais infaustas especulações da humanidade mo­
derna. Quanto mais tendam as condições para a igualdade, tanto mais
difícil se torna explicar as diferenças que realmente existem entre as pesso­
as”... “Os indivíduos que de fato se julgam iguais entre si formam grupos
que se tornam mais fechados com relação aos outros e, conseqüentemen­
te, diferentes”... O argumento da socióloga é provado pelo exemplo de
muitas nações democráticas onde são notáveis as condições de equilíbrio
e homogeneidade econômica mas que se tornam arrogantes e discrimina­
tórias em relação a outros povos, considerados inferiores. Nas poleis helé­
nicas, também os cidadãos se proclamavam patrícios, todos iguais entre
si. No entanto, draconianas eram as discriminações em relação às mulhe­
res, escravos, estrangeiros e hilotas. O aparecimento do socialismo no
isolamento, acrescentava, “se transforma prontamente num esprít de corps indompatable". O
corporativismo da classe política dominante, de cujo terror Sieyès milagrosamente escapou,
explicando simplesmente “/ ai vccu...” — seria a herança da República.

O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s

277

século XIX c os embates ideológicos do século XX entre Estados-nação
soberanos, motivados pelo seu próprio ímpeto nacionalista, demonstram
não apenas que a fraternidade igualitária universal configura um ideal de
natureza mística e religiosa, dificilmente atingível em sua forma civil secularizada, mas ainda que uma antítese muito clara opõe a igualdade e a
liberdade — se considerarmos essa liberdade como devendo conduzir à
cidadania universal. Alguns dos espíritos mais lúcidos que a humanidade
produziu tiveram a perfeita intuição da inanidade e perigo dos reclamos
de igualdade que ultrapassem as exigências da ordem social. Tocqueville,
que como salientamos prevenia contra a ameaça que o igualitarismo le­
vantava contra a liberdade, advertia corretamente que “a igualdade pro­
duz duas tendências; uma empurra diretamente os homens à indepen­
dência e pode subitamente levá-los à anarquia; a outra os conduz, por um
caminho mais longo, mais secreto, porém mais seguro, à servidão” (E me
pergunto se não foi a leitura dessa frase o que levou Hayek a dar à sua
obra o título O Caminho da Servidão). Nietzsche assegurava que a distân*
cia que separa Platão de um homem comum é maior do que a que separa
esse homem comum de um macaco. Num pensamento paralelo, Flaubert
observara que o cretino menos difere do homem comum do que este de
um gênio.
As diferenças de status e fortuna têm causas várias, de caráter princi­
palmente mentais. Os homens nascem com herança genética e em condi­
ções ambientais diversas. Sofrem, na infância, influências educacionais
contrastantes — que se acentuam por efeito do ambiente cultural em que
vivem. Dentro de uma mesma família, assistimos a curiosa e, muitas ve­
zes, alarmante diversidade de talento entre irmãos. As diferenças no tra­
tamento da criança começam a manifestar-se a partir mesmo do nasci­
mento. O destino é doloroso e caprichoso: este aqui, cheio de energia e
promissora vocação, morre moço, atropelado; este aí, assassinado ou
carregado por um câncer; enquanto aquele ali, medíocre e sem-vergonha,
sobrevive até os noventa anos e morre suavemente enquanto dorme. Mas
quem somos nós para entender ou criticar os misteriosos desígnios da
Providência? Desde sempre, a Teodicéia tem procurado arduamente jus­
tificar o sofrimento do justo e o sucesso do perverso, na tentativa deses­
perada de conciliar a omnipotência divina com a misericórdia infinita.

278

J . O . DE M E í RA PENNA

atribuída ao Senhor. Leibnitz e seu panglossiano Princípio da Razão
Suficiente foi, com razão, debicado por Voltaire. Raramente há razão
suficiente para justificar as desigualdades. No Eclesiastes (9:11), o Koelet,
filho de Davi, depois de pronunciar-se sobre a “vaidade das vaidades,
tudo é vaidade”, assinala que “outra coisa observei debaixo do sol: a cor­
rida não depende dos ágeis; nem a batalha dos valentes; nem o ganha-pão
dos sábios; nem a riqueza dos entendidos; nem a estima dos que sabem;
mas o tempo e o acaso ocorrem a todos eles”... “O homem não pode
adivinhar seu tempo... nem quando o tempo nefasto lhe cai em cima de
repente”. Por isso acentua Roberto Campos, sarcasticamente, que as dife­
renças de nascimento e destino provam que Deus não é socialista...

Babeuf
No entanto, o desejo de igualdade entre os homens sempre foi um
fator ativo de perturbação e instabilidade social. A coisa se agravou com a
Revolução Francesa. Lord Acton explicou o que estava ocorrendo no
desenrolar psicopático dessa crise: “Havia... duas opiniões no partido
revolucionário”, acentua o filósofo católico inglês. “Os Girondinos dese­
javam preservar a liberdade, a educação e a propriedade; os Jacobinos,
que sustentavam uma igualdade absoluta devia ser mantida mediante o
despotismo do governo sobre o povo, interpretavam mais corretamente
os princípios democráticos que eram comuns a ambos os partidos”. De­
pois de descrever como os Jacobinos ao acreditar, com Robespierre à
frente, que assim procediam pela inflexível lógica da história, derrubaram
seus adversários que foram acabar no patíbulo, apresentaram uma nova
Constituição (1793) que devia instituir uma democracia absolutamente
ideal e se proclamaram os defensores da virtude, defendendo a igualdade
absoluta pelas idéias de Rousseau e o exercício prático da violência —
Acton conclui: “O Reinado do Terror não foi senão o reinado dos que
acreditam que liberdade e igualdade podem coexistir”.
Uma figura exótica escapou à reação de Thermidor que eliminou os
Jacobinos. Discípulo de Rousseau, a personalidade de “Gracchus” Babeuf

O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s

279

c interessante como a de um revolucionário profissional e pró-homem do
socialismo, o primeiro que, no episódio, parece haver deliberada mas
inoportunamente imaginado uma sociedade comunista. Ele escreveu
quando o problema do confronto antitético entre liberdade e igualdade já
principiava a se tornar consciente na mente dos pensadores. Na Inglater­
ra, contemporaneamente, o clérigo William Godwin publicava sua obra
verborrágica, Political Justice, em que propunha uma sociedade sem go­
verno e sem propriedade privada. Tentando refutar o contratualismo de
Locke e Rousseau, Godwin invocava o direito natural igualitário de todos
os homens. De um cunho utópico e romântico, a doutrina encontrou
apoio em poetas similarmente inclinados, inclusive em Byron e Shelley, o
qual se tornou seu genro. Deparou-se, porém, com furiosa contradição na
obra de Malthus. Com idéias oriundas da ala radical da revolução
cromwelliana, Godwin pre-anunciou o anarquismo de Proudhon, Kropótkine, Bakúnine e Stirner. O pensamento filosófico de Stimer é interes­
sante no sentido que se assemelha, às vezes, ao de Nietzsche. Este, em sua
campanha contra o coletivismo e o estatismo, chegou a admirar o anar­
quista, afirmando que suas idéias “eram o que de mais audacioso e mais
lógico surgira desde Hobbes”.
Só para ilustrar a evolução sutil que se processava: na famosa Déclaration des Droits de 1'Homme et du Citoyen, proclamada a 26 de agosto de
1789, e que se inscreveria como preâmbulo da Constituição de 1791, se
declara, no artigo Io, que “os homens nascem e permanecem livres e
iguais em direitos. As distinções sociais só podem ser fundamentadas
sobre a utilidade comum”. Depois da derrota e eliminação de quase todos
os Girondinos, mais sábios e moderados, foi imposta a ditadura dos Ja­
cobinos os quais, na Convenção de 24 de junho de 1793, votaram uma
nova Constituição, nunca implementada e inteiramente esquecida após a
reação de Thermidor. O artigo 2° da nova Declaração modificava o esta­
belecido no documento original, afirmando que “esses direitos são a
igualdade, a liberdade, a segurança e a propriedade”. A igualdade aparece
então, de modo inédito, como o primeiro dos direitos humanos. Mais ainda: nos
artigos 21 e 22 a nova Carta também postula, por vez primeira, princípi­
os nitidamente socialistas quando declara: “Os socorros públicos são uma
dívida sagrada. A sociedade deve dar meios de subsistência aos cidadãos

280

J. O . DE M E íR A PENNA

infelizes (citoyens malheureux), quer lhes proporcionando trabalho, quer
assegurando meios de existência àqueles que não estão em situação de
trabalhar”. Com esses dispositivos populistas, inauguravam os Jacobinos
o hábito dos demagogos de esquerda de atrair as simpatias dos sansculottes e proletários descamisados do futuro. A reação do Diretório, mais
burguês e liberal, foi, poucos anos mais tarde, desafiada por Gracchus
Babeuf. O episódio do jacobinismo e do babouvismo, que realça o papel
de Jean-Jacques na gênese do democratismo socialista, marca o início da
ideologia totalitária cuja hegemonia se coloca em meados de nosso pró­
prio século.
Tipo introvertido, ansioso, tolo, febril, compulsivo, egocêntrico, Ba­
beuf se levou demasiado a sério. Na verdade, quis “posar” para a história.
Suas idéias foram vagas, a doutrina incoerente, a organização do golpe de
estado, dito “Conspiração dos Iguais” para a implantação do regime co­
munista em França, um exemplo espantoso de incompetência e confusão.
Minos, Licurgo, Platão, os irmãos Gracos em Roma e “o legislador dos
cristãos, o judeu Jesus Cristo”, além de Thomas More, Montesquieu e os
utopistas Mably, Morelly e Godwin eram seus heróis. Uma salada bastan­
te eclética... Como os outros grandes revolucionários, Babeuf também
invocou o nome augusto de Rousseau. De si próprio, escreveu vaidosa­
mente: U
J 'ai le caractère philosophe... Je réfléchis, je médite autant qu'a pu le
fa ire dans son temps Rousseau. Comme lui, la recherche des moyens d'opérer le
bonheurfu t ma constante étude”. Mas como Rousseau, para operar a felici­
dade do povo, também sem remorsos abandonou mulher e filhos. À es­
posa que, desesperada, lhe pedia algo para o sustento das crianças famin­
tas, respondeu simplesmente: “Morre, desgraçada, se assim desejas”... Em
nome da Revolução, estava disposto a tudo.
O iguaiitarismo de Babeuf foi obsessivo. Baseando-se no Discours sur
P'Inégalité de Rousseau e no socialismo ascético de Mably, sustentava que
todo o mal no mundo resulta da cupidez, da avareza e desejo de dinheiro
e riquezas. A posição é puramente moral. O argumento é abstrato e filo­
sófico. Nada há em comum, no babouvismo, com as teses econômicas
supostamente “científicas” de Marx sobre as relações de trabalho e produ­
ção. A riqueza nunca é o resultado do trabalho, do mérito empresarial ou
da poupança mas, simplesmente, uma perversa combinação de egoísmo e

O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s

281

sorte. Babeuf acreditava, simplesmente, que “les plus sots, les plus vicieux, les
plusfaibles et les moins nombreux sont parvenus à surcharger de pénibles devoirs
et à priver de la liberte naturelle la masse des plus forts, des plus vertueux et des
plus in stru itsÉ realmente um paradoxo muito primário acreditar que
sejam justamente os “mais fracos” e “mais estúpidos” os que se enrique­
cem, em detrimento dos mais fortes, inteligentes e numerosos. Nem ele,
nem seus discípulos, jamais parecem haver notado a completa irracionali­
dade do argumento.
De qualquer maneira, o igualitarismo jacobino levantaria periodica­
mente a cabeça e provocaria crises sangrentas como as de 1848 e 1871,
com a Comuna. Um escritor e dramaturgo, de fins do século, Henry
Becque, comentaria que o único fato aborrecido com a igualdade é que só
a concebemos com nossos superiores. De Gaulle lamentaria que todo
francês exige ruidosamente tratamento igual aos outros, quando está por
baixo, mas logo que pode invoca o privilégio — comentário que também
se poderia aplicar a nosso país. Mas o sociólogo Gustave LeBon, autor de
uma pertinente Psicologia da Revolução, já havia feito a mesma observação,
acentuando que “quanto mais as leis proclamam a igualdade, mais se
desenvolve a necessidade dos sinais exteriores de desigualdade”.
No correr do século XIX, o princípio da igualdade prosperou junta­
mente com o da Liberdade, como estamos observando no correr deste
ensaio, mas acabou tomando preeminência e adubando o solo que ia ser
ensangüentado nas grandes guerras e revoluções de nossa própria centú­
ria. Nas figuras de Shigaliev e Verkhovensky de sua novela Os Possessos,
Dostoievsky, que além de grande romancista foi um dos gigantescos tes­
temunhos da verdade de nossa época, personifica a psicopatia igualitarista
tenebrosa das revoluções jacobinas e comunistas. Proto-bolchevistas, os
dois personagens assim descrevem o mundo que imaginam: “Todo
membro da sociedade espiona os outros, e contra eles é seu dever infor­
mar. Todos pertencem a todos e cada um aos outros. Todos são escravos
e iguais cm sua servidão. Em casos extremos se advoga a calúnia e o as­
sassinato, mas a coisa importante sobre isso é a igualdade. Os escravos
são forçados a serem iguais. Nunca houve, quer liberdade, quer igualdade
sem despotismo”. O que o romancista russo antecipava com o poder
descomunal de sua intuição profética, ia ser por Marx transformado numa

282

J. O .

de

M e ir a P e n n a

teoria que se pretendeu científica. Quase contemporaneamente, Nietzsche
escrevia em uma de suas maiores obras, Além do Bem e do M al , a respei­
to da possibilidade tenebrosa da “degenerescência coletiva do homem ao
que os tolos e mentecaptos socialistas vêem como seu ' homem do futuro'
— como seu ideal! — essa degenerescência e diminuição do homem ao
nível de um perfeito animal gregário... e redução brutal do homem a um
pigmeu com direitos iguais e iguais pretensões”. A referência era à cate­
goria da Herdenmoral que ele abominava.
O pensamento de Marx era diametralmente oposto. Sendo o socia­
lismo um estágio intermediário de preparação para o comunismo, como
Marx descrevia em sua Crítica do Programa de Gotha, as pessoas ainda
trabalham de acordo com sua capacidade e recebem mercadorias em pro­
porção ao valor do trabalho executado90. A desigualdade, entretanto, seria
eliminada na segundo fase da sociedade revolucionária, a sociedade co­
munista perfeita. E como, pela primeira vez na história da humanidade,
não haverá antagonismos entre as forças de produção e os produtores, o
desenvolvimento do comunismo se realizará suave e gradualmente. Triun­
fará o princípio “a cada um segundo suas necessidades”... Acrescentemos
que, no socialismo real, melhor antecipado por Dostoievsky e Nietzsche
do que por Marx, as “necessidades” da classe dirigente burocrática se
revelariam imensamente mais exigentes do que as da massa do rebanho
gregário... e seriam por conseguinte satisfeitas. O intelectual liberal russo
Andranik Migranian, membro da Academia de Ciências da Rússia e do
Conselho do Presidente Boris Yeltsin, estabelece um interessante parale-

m Jcnseits von Gut und Bine. 1886. Aforismo 203.
MO
/
E assim, “o operário socialista rccebc da sociedade um comprovante de que contribuiu
com tal ou qual quantidade dc trabalho e, graças a esse certificado, recolhe do armazém
social tanto dos meios dc consumo quanto a mesma quantidade de trabalho custa. A mes­
ma quantidade de trabalho que forneceu de uma forma, ele recebe de volta de outra for­
ma”. Esse sistema de Marx que, como se verifica, visa prescindir do dinheiro c ser baseado
num valor abstrato, jamais definido, que e a “quantidade de trabalho" — ainda segue os
padrões burgueses e é “injusto’' pois reconhece doas individuais desiguais c, sendo assim,
capacidades de produção com privilégios naturais — dons e capacidades que definem a
economia de mercado. “É assim,” conclui Marx, “um direito dc desigualdade em seu conte­
údo, como é em geral todo direito”.

A suposição que o igualitarismo é o ideal adequado. Como observa o sociólogo americano Charles Murray. o Weljare State americano representaram maneiras diferentes de conduzir ao ideal iguali­ tário. ‘Todos nossos mitos so­ ciais”.. Marvin Hm artigo na revista Commentaire. “a resposta do século XX (às desigualdades) tem sido que cabe ao governo criar a igualdade de condições que. Bradford. E esse caráter de igualitarismo jacobino. disse Bradford. sobre cuja obra The Bell Curve nos estenderemos mais adiante. A frase Justiça social tornou-se. Um outro estudioso do assunto. . de moto próprio. dessa homonoia proposta pela filosofia de Aristóteles que a Igreja católica transformou num sentido de comunidade e “Bem Comum”. em tomo dessa organização da vida política e social em nome de uma Justiça “social” entendida como igualdade na escravidão.. traduzido e reproduzido Jonutl d« Trnnit 23 3. capaz de se realizar apenas dentro da asso­ ciação natural construída sobre uma experiência comum. como preveniu Bradford. Um tradicionalista do Sul dos Estados Unidos. secularizado pelo totalitarismo deste século. qualquer que seja a dificuldade em alcançá-lo na prática. todo princípio moral e prescrição her­ dada”. a sociedade negligenciou produzir. o Comunismo. A paixão pela igualdade nesse holismo coletivista ameaça. custa caro. implica a “liberdade igual” dos que encontram segurança e a felicidade da pasma­ ceira dentro de uma gaiola dourada. inunda a teoria política contemporâ­ nea. O Socialismo. Mel E. Ele salienta que To­ cqueville insistia: “Revistai todos os anais da história e não encontrareis uma só revolução política que haja tido o mesmo caráter (da Revolução Francesa): não o encontrareis senão em certas revoluções religiosas”. tão semelhante ao descrito por Ivan Karamazov na visão do Grande Inquisidor. a Democracia Social. de cunho místico. sobre laços de sangue e amizade”. toda responsabilidade de caráter. “pressupõem alguma versão da vida corporativa — que o homem é um ser social.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 283 lo*1 entre as intuições de Tocqueville e as de Dostoievsky (em Os Possessos e na Legenda do Grande Inquisidor de Os Irmãos Karatnazov). um sinônimo de igualdade econômica”. “engolir toda nossa reverência pela lei. virtualmente. Além disso. traduziu a idéia coletivista em termos claros num discurso na Heritage Foundation de 1986.96. O problema da igualdade é que é ele inseparável do coletivismo.

um modelo no qual as pessoas são dirigidas pela autoridade paternalista. numa estrutura de igual submissão ao Estado de Direito. o que in­ terrompeu. confia-se seja a riqueza estimulada pela concorrência de todos os cidadãos responsáveis. como escreve Hayek em sua obra famosa O Caminho da Servidão: “Logo que o Estado toma a si a tarefa de planejar toda a vida econômica. Goethe. toda a humanidade seria genial. A alegada justificação de uma economia planificada — tal como já previsto. graças ao comunismo. a fonte principal da Ideologia coletivista que provocou os cataclis­ mos bélicos e revolucionários de nosso século. escreveu um livro. Os socialistas e socialdemocratas propõem. ao contrário. d e M e ir a Penna Olasky. dos Jacobinos franceses — é ser a única que poderia promover a extensão da riqueza e de uma renda “mais igual” para toda a população. faria uma “opção preferencial pelos pobres”. em que alega a “indústria da pobreza” consome 50 bilhões de dólares anualmente. o problema do estatuto correto dos diferentes indivíduos e grupos tem que se tornar. inclusive a de Trotsky.... verdadeira e inevi­ tavelmente. Podemos atribuir ao Igualitarismo. na Constituição abortada de 1793. de Washington. conforme se esboça. até o dia em que Stáline declarou o iguali­ tarismo (Uravnüovka) uma noção pequeno-burguesa e o pesadelo carre­ gou com sessenta milhões de vítimas. o comunismo no sentido próprio da palavra. A Utopia alcançara seu sonho supremo quando Trotsky imaginou que. a primeira Revolução liberal. Na tese liberal da prosperidade geral pela economia de mercado. como vimos. Ora. em vez de o serem por regras gerais abstratas de comportamento moral.. todo homem igual em inteligência a Marx.284 J. a absorção do indivíduo no todo social — e é contra tal tendência ominosa que se levantam os libe­ rais. Os planificadores e os políticos . O . segundo acredito. não em assistência aos pobres mas em iniciativas que enriquecem os burocratas e despreparam os necessitados para enfrentar sua situação. Foi a problemática do coletivismo igualitário — determinada pelo ímpeto revolucionário da modernidade em seu estágio inicial. The Traqedy o f American Compassion. em que a igual­ dade econômica não é deliberadamente procurada. O Plano socialista. No fundo do reclamo de igualdade se encontra de fato o coletivismo. Shakespeare. num contexto de comunidade nacional absor­ vente. o problema político central”.

. Mas como o Produto Nacional possui um teto — as reivindicações contraditórias de “salário justo” entram cm conflito umas com as outras. sem jamais especificar exatamente as proporções exatas do que seria uma renda “justa” ou um salário “justo”.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 285 socialistas não procuram só redistribuir a renda segundo princípios teoréticos mal assimilados e mal aplicados. redução das horas de trabalho semanal. O governo é Papai Nocl. sempre necessitam um aumento constante do pessoal burocrático e dos impostos destinados a pagá-lo. pela intelectuária botocuda. Trabalhando então de parceria e apoiados. O grevismo generalizado no funcionalismo público e nas estatais é apenas o sintoma do colapso final da ordem social que a glorifi­ cada “igualdade social” acarreta. aposentadoria rápida por tempo de serviço. E dono de um extenso poder mágico.. Eles pensam que o Estado funciona como uma galinha de ovos de ouro. em estrita obediência ao antigo adágio: “quem não chora. “salários justos”. nem. O pior é quando é gerada.. sob um imenso cartaz de “Esquerda”. extensão dos direitos da mulher grávida (e do marido “grávido”). com um jogo de puxa daqui. como aqui. Para alcançar seus propósitos centralizadores. no bojo do patrimonialismo dientelista tradicional.”. Todos reivindicam direitos. Essa tendência coincide com o empreguismo fisiológico dos políticos sem convicções. educação gerai gratuita e outras vantagens e beneficiências para os “trabalhadores”. aumento do salário mínimo. “que em . Os planificadores se vêm confrontados. puxa dali. não mama. estabilidade no emprego. medicina socializada para todos. Acontece que todo grupo social deseja receber sempre mais. Todos se consideram credores da Justi­ ça social. aquela que Napoleão havia classificado como “baixo clero”. sob a forma da inflação. sendo o resultado final um déficit público incontrolável que. determinar como o Estado deve arcar com o peso econômico crescente do redistributivismo alucinado. Todos reclamam isonomia. Hayek explica claramente que a democracia. E berram muito. relativamente aos de outras categorias. Todos choram. como explica Hayek. recai sobre as mais pobres e vulneráveis.. muito menos. Todos se queixam de haver sido esquecidos ou injustiçados na divisão do bolo. — socialistas e demagogos pro­ pugnam a revolução em ordem a alcançar redistribuição da fortuna. sem que seja alcançado um critério “justo” de proporcionalidade que não seja absolu­ tamente arbitrário.

é jogar com as palavras. e acreditar que todas suas decisões são legítimas por mais discriminatórias que possam ser... Nas chamados “monopólios naturais” — quando é difícil criar uma concorrência espontânea.. DE M EIR A PENNA si mesma não passa de um método geral de atingir decisões políticas sob um consenso amplo. que certamente é.. O distributivismo e a supressão gene­ ralizada da concorrência. invariavelmente. não passa de uma brincadeira. acarretam po­ rém. ou seja. O problema se complica quando apreciamos o Socialismo em termos de produtividade da economia. conseqüentemen­ te. Não somente o grau de capacidade administrativa está cm jogo mas. sobretudo na educação primária. Argumentar que o que quer que os representantes da maioria desejem seja a lei. por exemplo. acentuava com ironia que os que são res­ ponsáveis pela redistribuição jamais se esquecerão de si próprios. no caso.. A melhor descrição de como funciona uma eco­ nomia socialista está expressa no famoso rifao polonês: os operários fin­ gem que tcâbalham. A opressão arbi­ trária. de uma estrada de ferro entre dois importantes mercados.286 J .. saúde pública e infra-estrutura. contribuem para a racionalização do funcionamento e. ou o fornecimento de serviço telefônico dentro de uma vasta área rural — pode se considerar aconselhável a intervenção estatal. a relação entre pro­ dutividade e consumo. a favor ou contra certos grupos ou pessoas. podemos admitir que o planejamento e a intervenção estatal em determinados setores de valor social. nesse terreno. Ar­ gumentar que quando qualquer ação do governo que seja aprovada por uma maioria se torna legítima. para seu dinamismo. a ineficiência e a estagnação. Em princípio. O . um autor insuspeito. E Trotsky. o Estado finge que paga e a fábrica finge que pro­ duz . a experiência internacional não deixa qualquer dúvida sobre a eficiência relativa dos sistemas. Variada embora. implícitos na receita estatizante. a coerção sem qualquer referência a normas aplicadas pelos representantes da maioria não é mais justificada do que as ações arbitrári­ as de qualquer grupo particular”. o que é extremamente importante. se tornou um pretexto para a persecução de princí­ pios substancialmente igualitários.

míni­ ma e máxima. de diminuir os contrastes salariais. Foi essa escolha o que lhes assegurou a superioridade no mundo moderno. ao ruir a Cor­ tina de Ferro. Roberto Campns chamou. em conjunção inextricável com a cultura geral. qualquer que tenha sido o esforço da “fraternidade socialista” para igualar as rendas nacionais. Romênia c Albânia. Cabe notar que o longo domínio de governas socializantcs em muitos países e. Suécia. o desempenho econômico. uma verdadeira mantra de efeitos supostamente mágicos42 que alimenta todos os discursos do democratismo demagógico. quando apreciamos as níveis de renda. suave e eficiente de economia de mercado. tema que procurei analisar cm minha obra Em Btrço Esplêndido.. que basta pronunciar a palavra mágica e seus efeitos imediatamente sc farão sentir.. A relevância hegemônica desses fatores pode ser medida. a Alemanha Oriental (DDR) e a Tchecoslováquia. o fenômeno da revolução social pelo previdencialismo c o sindicalismo teve o efeito. a Polônia e a Hungria. educação e contenção demográfica. Parece evidente que certos fatores de natureza psicossocial ou cultural exercem uma influência que costuma ser ignorada pelos posicionamentos estritamente dogmáticos diante do problema. certa vez. também. acreditamos. a URSS. sem entretanto atingir as fortunas. Os efeitos do tantrismo político no Brasil se prendem. em quarto. a Iugoslávia e. a ser exatamente a mesma do que era antes da guerra quando dominava o acapitalismo”. esse hábito dc “sistema Coué”: desenvolvimento por auto-sugestão. nas países bem organizados e pragmáticos. Em 1989.O E s p ír jt o d a s R e v o l u ç õ e s 287 A mitologia política em torno do termo “social” gerou. O desenvolvimento da democracia no decurso de décadas de progres­ so e aperfeiçoamento atingiu resultados muitas vezes surpreendentes no confronto entre os salários. como bons meridionais que somos. . quarenta anos depois de sua socialização. em segundo lugar. certamente. en­ tretanto. ficou empiricamente provado que as nações mais avançadas do mundo trilharam. Contra a Utopia. um caminho mais reto. De um modo geral. ao caráter dc bnjxan* que damos às palavras. em primeiro lugar. na rabadilha. de um modo geral. Um exemplo: a ordem de colocação em termos de PIB percapita das economias da Europa oriental continuou. sobressaiam. o pro­ gresso industrial/científico e o florescimento do liberalismo. com isso. Piorou. de um lado e do outro da antiga Cortina de Ferro. Na Grã-Bretanha. Bulgária. Nenhuma variação desde 1945. reforma progressiva. em terceiro. pluralismo de cren­ ças.

aliás. etc. e ainda certas áreas dos Estados Unidos. As discrepâncias de salário entre um operário manual e um diretor de companhia ou ministro de estado são inferiores. às então vigorantes na ex-URSS. haspitais privilegiados. bangalôs ou datchas no campo. dos empresários da Philips ou Shell holandesas.288 J. Foram. É assim possível que um motorista de taxi chegue a sofrer uma taxação de 50% em sua renda. com retórica empola­ da e hipócrita. O. enquanto um grande armador ou indus­ trial pode reinvestir a poupança de sua empresa a níveis extraordinários. e dos opulentos proprietários rurais na Inglaterra. DE M EIR A PENNA Noruega. dada a escandalosa hipocrisia da doutrina oficial igualitarista em contraste com o “socialismo real”.. certos políticos. e outras vantagens. Compensam a diferença — e justificam-se moralmente perante si-próprios com a permissão de reivindicar os votos dos eleitores pobres — ingressando no PT. que é considerada um das países mais igualitários do mundo — conforme nos informa ainda Peyrefitte — a desigualdade é de um para dezesseis entre um ajudante de pedreiro e um cirurgião ou estrela da ópera de Pequim. No Brasil.. duzentas vezes superiores ao salário mínimo. Em nações de educação calvinista como a Suíça. gritam muito alto o termo “justiça social”. Mesmo na China. os hábitos ascéticos herdados dos antigos Puritanos resistem às tentações da sociedade afluen­ . para comparação. PMDB ou PSDB enquanto. nos países socialdemocráticos da Europa. Na Escandinávia. “tudo pelo social”. nações que durante muitos anos foram dirigidas por partidos empenhados em nivelar as rendas. a dispa­ ridade entre o salário mínimo de um pedreiro e o máximo de um minis­ tro (antes do imposto) é da ordem de um para doze. os Países Baixos e o Canadá. Holanda. pagos em dólar. em França. o uso de lojas especiais de artigos estrangeiros. Em sua obra intitulada Le M al Français. continuam a sobreviver fortu­ nas colossais como a dos grandes armadores da Noruega. Na União Soviética era da ordem de um para trinta — sem mencionar as outras mordomias não contabilizáveis como a posse de automóveis com motorista. esses privilégios da Nomenklatura o que poderosamente contribuiu para o colapso do comunismo. o imposto de renda atingia ferozmente as pessoas físicas mas só levemente as pessoas jurídicas que reinvestem seus lucras. nota AJain Peyrefitte que. juizes e burocratas das esta­ tais recebem proventos cem vezes.

Foi o caso dc Marx. senão os contrastes das fortunas. Economista e filósofo de imensa influência histónea. ao passo que ao rico repugna o consumo conspí­ cuo e a ostentação da fortuna. Ao examinar a problemática da Justiça e a questão da pobreza não se pode deixar de notar esse aspecto essencialmente “temporal” do tema. Na consideração do problema da igualdade temos. pelo menos do gozo da mesma. Trabalho. etc. As estatísticas sobre as desigualdades econômicas são imprecisas e de difícil manuseio. Desemprego. por exemplo. Viverão toda a vida “apertados". A Suíça é mesmo um exemplo estupendo de país franca e declaradamente capitalista que conseguiu conquistar uma das mais altas rendas percapita do mundo.O E s r í R iT o d a s R e v o l u ç õ e s 289 te a ponto de atenuar. Muitas vezes as comparações são injustificáveis como quando se abstrai a classificação etária e se coteja. qualquer profissional liberal qualifica­ do inicia sua carreira com uma remuneração equivalente a alguns poucos salários mínimos. senão de riqueza. a disparidade de salários de jovens é muito reduzida. o salário de um ajudante de pedreiro de 16 anos e o de um velho engenheiro em fim de carreira. Privilégio Retornemos.). uma criatura refinada dc origem nobre. Ócio. por exemplo. rico industrial burguês. só sobreviveu materialmente graças ao estipêndio regular que lhe conce­ dia o amigo Engels. entretanto. De um modo geral. hospital. automóvel. Mesmo no Brasil. Verificamos que a própria vocação para fazer dinheiro é extremamen­ te aleatória. à nossa disquisição sobre o problema da Igualdade. status social. Entrementes. Uns são brilhantes e aquinhoados com inúmeras talentos mas também boémias e simplesmente pouco interessadas no trabalho. renda e propriedade. atormentava a mulher. recreios. de levar em conta o fator histórico na avaliação do privilégio. com a cncalacraçio per- . conseqüentemente. juntamente com um equilíbrio ideal. escola. neles já alcança o operário todos os confortos comuns (casa. pelo menos os sinais exteriores de riqueza. o co­ mércio ou a poupança. Sendo países de triunfante classe média.

China e Peru. DE M EIR A PF. Encontramos por outro lado.290 J . Richard Arkwright (1769) e Samuel Crompton (1779). o que quer dizer. Reparei certa vez em Salvador que. num dia da semana.. bem no início da Revolução Industrial que principiava na Inglaterra. “A Bahia é boa terra. por excepcional acaso. à atividade rotineira de um trabalho enriquecedor em usina ou escritório se pretere os enlevos do dolce fam iente e as rixas da camorra. o tipo do self-made-man de origem modesta. proletário ou camponês. O sul da Itália é pobre. substituía o trabalho artesanal dos tecelões. deveriam eliminar uma centena de mi­ lhões de vacas sagradas improdutivas as quais. cuja personalidade é pouco conhecida. Assim permaneceu durante milênios. em 1733. por John Kay. quando compa­ rado ao norte. explicou-me uma amiga baiana. um líder trabalhista chamado Ned Ludd. sem qualquer progresso técnico até a invenção da lançadeira de tecelão (shuttle).. é o único lugar do Brasil”.. do sol e do mar. Os “ludditas”. como eram chamados. A tecedura é uma das mais antigas indústrias humanas. Se os indianos desejassem sobrepujar seu subdesenvolvimento com determinação consistente. Em 1811. A mesma incongruência entre as nações.. senão gozar das delícias estupendas da música. eis que se conhece vestuário egípcio de mais de 7000 anos e um pouco mais recentes na índia. 35 anos após a publicação do Inquérito sobre a W ealtb ofN ations. carna­ val. a não ser que. Mas provavelmente morará em favela. No mezzogiomo. no Brasil como na América.NNA manente cm que deixava a família. que se torna um bilionário. faça a quina da loto ou venda cocaína sem ser preso. se assim determina a Dama Fortuna. se apinhavam nas praias multidões de homens ociosas. consomem um terço ou a metade de todos os cereais e legumes postos à disposição da população. juntamente com bilhões de ratos. futebol e jogo do bicho à disposição. O . aos poucos. no Reino Uni­ . Quem somente aprecia a praia. Um problema relacionado com a vocação para o trabalho ou para o ócio e levantado pela questão do desemprego. como se nada tivessem a fazer. à região de Milão e Turino.” Cada um dispõe daquilo que deseja ou daquilo que merece. “onde os brancos traba­ lham para as pretos. o carnaval. reclamavam do desemprego provocado pela introdução de maquinário têxtil que. o futebol e o jogo do bicho terá sempre praia. provocou distúrbios que constituem o primeiro exemplo histórico de um movimento operário.

O Luddismo é interessante porque regista o primeiro caso de violên­ cia relacionada com o fenômeno do desemprego. no entanto. longe de venerar Lord Keynes como um grande eco­ nomista e salvador do “sistema natural de economia”. Centenas de mi­ lhões de mulheres deixaram seus afazeres domésticas nestes últimos trinta anos. mercê da revolução sexual/feminista. Naturalmente. etc.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 291 do. Só durante a Grande Depressão de 1930/39 encontramos novamente o problema como desafio sério à economia de mercado. o desemprego um dos motivos principais no desastre ideológico gerado pelo nazismo e o comunismo. a pilotagem de aviões^ a dire' ção de empresas. Vigorosas medidas repressivas foram toma­ das. os governos de Hoover e Roosevelt aumentaram os impastos. de que resultou o enforcamento de vários ludditas e de seu chefe. decisivos nas grandes nações industriais e também cm países em desenvolvimento como o Brasil. a entrada do belo sexo no mercado de trabalho. Dirigidos por “King Ludd”. deve-se registar como causas da Crise a manutenção artificial dos salários e do valor da moeda. A análise econômica moderna já provou. a condução de caminhões. os operários proto-petistas prin­ cipiaram a destruir os teares em atos vandálicos que provocaram a reação do governo conservador de lord Liverpool. Noto. que. Contrariando o bom senso. Em primeiro lugar. em França. e Joseph Marie Jacquard. desenvolveram as primeiros teares mecânicos. as profissões liberais. Pela primeira vez ficou demonstrado. muitos tecelões artesanais perderam seu emprego. mas a lição não foi suficiente para provar que quanto maior a intervenção estatal maiores os riscos de desastre. Repetidas artigos têm sido publicados sobre o problema. de qualquer forma. bem como as políticas protecionistas mantidas pelos governos dos países principalmente afetados. O desemprego reaparece agora como um dos argumentos principais das glasnostálgicas viúvas da Praça Vermelha para criticar a grande revo­ lução liberal que triunfa em todo o mundo. contra a oposição do famoso poeta romântico lord Byron. a ausência de men­ ção de três de seus fatores. também. Foi. invariavelmente. — sem falar naquelas em que . inclusive algu­ mas que pareciam outrora reservadas exclusivamente ao “sexo forte” — o serviço militar. que decisões econômicas têm a maior importân­ cia na área política. ainda por cima. passando a concorrer com maridos c irmãos na procura de toda sorte de ocupações.

devemos mencionar Alber­ to Fujimori. Oriente Médio e Europa oriental — no primeiro caso — e da América Latina c Ásia oriental. O ponto dc visa desse economista 6 que. provocando fortes movimentos de urbani­ zação e migração pelo excesso populacional. E se milhões de nordestinos fazem o mesmo para S. dc Jcrcmy Rifkin. daqui a 30 anos. Os desequilíbrios que a explosão demográfica tem causado se reflete no terceiro fator a ser mencionado: a pesada imigração de pobres subdesenvolvidos nas grandes nações industriais da Europa e América do Norte. entre estes. se exerce sobre a procu­ ra de emprego daqueles cidadãos nativos que não desejam se sujeitar a atividades consideradas inferiores. do Peru. É evidente que a pres­ são causada por meio milhão de imigrantes anuais que os EUA recebem.Paulo é porque também esperam prosperar na paulicéia. no Jornal da Tarde de 20.292 J. Poucos líderes mundiais têm tido consciência do problema mas. só 2% da força de traba­ lho será composta de operários. porém qua­ se nunca mencionado. mais um número indeterminado de clandestinos. Mas afinal de contas. que tem tomado medidas drásticas de controle da natalidade. operam ou utilizam informações ou trabalham com tecnologias dc informática7’ já constituem. de Gilles Lapouge. clandestinamente ou não. E notável. e outro no Newsweek dc 24. 50% da força dc trabalho. 10% pelos serviços e apenas 5% pela agricultura. já agora “as ocupações que criam. o fato que a taxa de desemprego na União Euro­ péia e nos EUA se aproxima do número de imigrantes procedentes da África. é porque lá encontram onde trabalhar. A revolução da informática eliminará os trabalhadores menos tecnicamente treinados.1995. Com uma massa de gente sem . d e M e ir a P enn a sua presença já é mais antiga como a enfermagem e o secretariado em escritórios. Na verdade. Ambos enfatizam o impacto da tecnologia sobre o desemprego — Rifkin cm seu livro The End o f Work. O .4. Em segundo lugar. segundo a N ational Science Foundation dos EUA. Quero chamar a atenção para um artigo dc página inteira. domésticos. relativamente preguiçosos. se um milhão de brasileiros já emigraram para a América do Norte. A legislação do W elfare contribui para o resultado: muitos. a permanência de altos índices de aumento demográfico em países pobres. minei­ ros ou engraxates. nem o trabalho feminino. no segundo caso.5. 35% c absorvida pela indústria. em oposição ao medievalismo eclesiástico. preferem viver com suas alocações de desemprego a trabalharem como lixeiros. Nenhum dos dois menciona a imigração de subdesenvolvidos. ao invés de permanecerem numa região cuja única indústria próspera é a reprodu93 tora .

é a constituição de classes privilegiadas que circulam à volta do Estado e dele se locupletam. se mantém pela força das laços afetivos. que lecionou muitos anos nos EUA. A mãe privilegia o filho. segundo njgcrt Rifkin. à lei. conjuntamente com o de serviços. ao procurarem atribuir ao capitalismo o desagradável fenômeno do desemprego. Outro problema. O anseio de privilégio em nosso país é facilmente explicável: resulta da estrutura ori­ ginariamente aristocrática. O setor da Informa­ ção ocupa hoje perto de 50% da mão de obra e. Constitui mesmo uma de suas características essenciais. vamos por natural reação exigir o privilégio. impetuosamente. A multidão exige o respeito geral. passando à frente dos que esperam há mais tempo. O amigo privilegia o protegido. os protestos serão gerais e imediatos: “Quem você pensa que é?” (Who doyou tbinkyou are}).. Não pode haver exceções.O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s 293 Mas. de modo espontâneo. os pessimistas sempre se esquecem que o mercado tem. O reclamo desse tipo está pro­ fundamente entranhado na sociedade democrática americana.. bem mais grave nas democracias. há duzentos anos. iguali­ tário. por qualquer motivo de privilégio. as crises cíclicas provocadas pelo progresso tecnológico. O ter o que fazer. romper a fila. numa fila de espera. um sistema de vouchers para substituir o welfkrr. O pai privilegia o herdeiro. No Brasil. patriarcal e patrimonial de nossa sociedade — uma sociedade de fundo tradicional cujo princípio de autoridade seria classificada por Weber como personalista e patrimonialista. O tema é interessante. mas deve ser igual para todos e por todos igualmente obedecida. invariavelmente corrigido. se cha­ mado à ordem por alguma autoridade. sed lex). certamente se adaptará às condições registadas acima. a maneira de impedir o alastramento da criminalidade será. ao ordenamento. . uma observação pertinente sobre as reações opostas do americano e do brasileiro numa situação determinada — digamos. norma ou regra de precedência. São os parasitas. um indivíduo que. os Vira-Bostas a que se refere Emil Farhat. procure escapar da rotina da lei e do regulamento imposto ao comum dos mortais. necessariamente. A lei é dura (dura lex. Encontrei em uma obra do antropólogo Roberto da Matta. logo retrucará com a clássica per­ gunta prepotente: “Você sabe com quem está falando?”. Se nos Estados Unidos alguém desejar. ao contrário. Se a Grande Família constitui a unidade primária de nossa sociedade e se a família é uma organização que.

competem pelos favores através do processo político decisório. Nesse contexto. cientista político (e bem sucedido empresário) Anthony de Jasay. de M e ir a P e n n a patrão privilegia o cliente. por exem­ plo. chama de “estado de Revolução” a essa situação. No “estado de Revolução”. Eis um aspecto da estrutura social brasileira que. burocratas. Se um contato pessoal domina os fatores de coração. que são extremas as disparidades entre os altos salários da Nomenklatura dirigente e a reduzida remuneração dos colocadas na base da pirâmide hierárquica. entre si. paga a outros grupos ou corporações privilegiados. Diz-se que a grandeza de Roma foi assegurada pela capacidade dos velhos cidadãos da República de recalcarem seus interesses particula­ res e sentimentos familiares em obediência à lei. durante décadas. uniforme e igualitária. no momento. um comentário especial merece a questão do corpo­ rativismo em nosso país. fatores “cordiais” de simpatia ou antipatia — temperado nessa estrutura emocio­ nal de relações pessoais de dívida e crédito — o homem afetivo encontra­ rá dificuldade em se adaptar à frígida rigidez. Cria-se uma vasta tessitura clientelista c familiar que mantém sua coesão pela discriminação privilegiada entre seus membros. certamente. para distribuí-lo entre as coalizões privilegiadas. todos se privilegiam uns aos outros em detri­ mento da sociedade em geral. tanta resistência oferece à política de abertura. o governo simplesmente toma o dinheiro dos impostos de alguns grupos sociais e. através do imposto indireto representado pela infla­ ção. das classes mais mo­ destas da população. de ori­ gem húngara. o governo tomou o dinheiro. naturalmente. Dentro da corporação pode existir uma certa isonomia — salvo. Nas corporações. diz ele. empregados das estatais c empresários dependentes de contratos com o Estado. Tal grandeza não é. O ensaísta. As virtudes republicanas exigiam que um Junius Brutus ou um Manlius Torquatus mandassem executar seus filhos porque se haviam tornado culpados de crime contra o Estado. O . E isso na proporção das relações de poder político entre as coalizões que.294 J. moderniza­ ção e privatização conduzida pelo atual governo. O político privilegia os colegas de partido e os eleitores. notadamente os políticos. encontradiça entre nós. com esse numerário. da isonomia. Em nosso país. A CUT fiinciona como grupo de pressão para . O corporativismo patrimonialista consiste na procura obsessiva do privilégio pelos grupos sociais diretamente associados ao Estado.

Conforme observa o economista americano Gcorge Stigler (1992). Na distribuição de renda defini­ tiva não ocorre um deslocamento em direção às pessoas em piores condi­ ções de vida. em suma. gratuitamente. funcionários públicos c empregados de estatais — todas remuneradas segundo critéri­ os que nada tem a ver com uma norma justa de isonomia salarial ou meritocracia hierárquica. as estudan­ tes em Universidades (como os que freqüentam. não precisa apresentar. os que enriqueceram graças à Lei da Informática. as uni­ versidades federais) e seus docentes. Pode até mesmo provocar exatamente o oposto. E exatamente a situação que definimos weberianamente como a de Patrimonialismo. A distribuição real da renda nacional. os produtores protegidos por “reservas de mercado” ou pela política de “substituição de importações” (como. em benefício dos mais pobres que a retórica dema­ gógica aprecia em nome da “justiça sociar. prêmio Nobel e ex-presidente da Sociedade do Mont Pèlerin. Como adverte De Jasay. os usuários de meicxs de transporte municipais.O E s p ír it o das R evo luçõ es 295 a defesa dos interesses setoriais dos grupos de funcionários das estatais. como na época da prefeita Erundina. Stigler dedicou-se a estudar a maneira pela qual as regulamentações econômicas promovidas pelo Estado beneficiam grupas específico» da . Como nota o ensaísta liberal. c. o “Estado de Revolução” da tese de Jasay funciona segundo um princípio que poderia ser designado como Lei da Distribuição do Dire­ tor. pela luta de interesses concorrentes entre as corporações e os grupos sociais / influentes no processo político. ou seja. que recebem passagens pagas pelo erário. nesses casos não é necessário que haja qualquer relação entre os resultados líquidos dos pagamentos de transferência efe­ tuados e quaisquer diretrizes geralmente reconhecidas em favor do bemestar de todos os membros da sociedade. juizes e procuradores. os passageiros de avião. A “justiça social” nada tem a ver com isso. o esquema de transfe­ rencia no “Estado de Revolução” é determinado. se são congressistas e funcioná­ rios públicos de alta categoria. absolutamente. os políticos. em detrimento de todos os consumidores de computadores). exclusivamente. que estabeleceu gratui­ dade nos ônibus. por exemplo. Podemos exemplificar: os agricultores ou “interesses rurais” (muito sali­ entes na Europa da CEE e nos EEUU). de um modo geral. qualquer que seja este. qualquer relação com uma redistribui­ rão orientada por um ponto de vista normativo.

os tecnocratas das grandes autarquias estabele­ cem seus próprios privilégios feudais e seus próprios salários fenomenais. cujas imunidades raramente lhe serão retiradas em caso de contravenção.. supostamente “justos”. abuso. será julgado por seu pares e naturalmente absolvido. se­ gundo a qual aquele a quem está afeta a distribuição jamais se esquecerá de sipróprio. Pois é o político e o burocrata dirigente quem determina os critérios. Vejam como o pendor para a exceção privilegiada se estende a todas as classes da população: o motorista de chapa branca se considera imune às leis do tráfego. O funcionário se locu­ pleta com o bem do Estado. que se anistiam uns aos outros pelas irregularida­ des cometidas — a começar pelo Presidente da augusta instituição que viola. DE M E IR A PENNA sociedade. Poucas instâncias existem para controlar qualquer abuso astronômico dos “marajás”.. encontramos alguma dificuldade em nos extrair do espírito patri­ arcal. roubo ou outra transgressão penal — não dando exemplo de submissão à lei emanada do próprio Congresso.296 J. A con­ fusão entre o público e o privado é uma das características mais ofuscan­ tes do regime patrimonialista. ou uma incapacidade de distinguir o que é seu do que é público. o juiz detesta o controle externo de sua instituição e rei­ vindica salários obscenos e o privilégio do tribunal especial — se cometer um crime. privilegi­ ado é o congressista. a lei eleitoral que ele próprio tam­ bém votou. privi­ legiados as Senadores. circunstân<ja essa que é a fonte mais comum de corrupção. O esforço de supressão do privilégio exige um longo processo educativo dentro da lógica fria do método cartesiano. clientelista e personalista.. do tipo da que foi mencionada por Hume. Ocorre aí uma tendência muito normal. Como não passamos ainda pela Idade da Razão. da distribuição — o que me traz nova­ mente à memória a observação de Trotsky. de confundir o cargo com a propriedade.. Falava Weber no processo de racionalização ou desencantamento (Entzauberunjf) do mundo. O. . que sempre vale repetir. privilegiados as membros da corte palaciana. que gozarão de impunidade pelas falcatruas que cometeram no exercício de seus cargos. Os barões da burocracia. pensando que é legitimamente seu. com o uso indevido da Gráfica.

Acentuemos: uma das fontes originais das desavenças que iam surgir na opinião pública americana — como# origem dos fatores de corrupção — está relacionada com essa realidade que Alexis de Tocqueville foi o primeiro a observar. numa economia livre e com um Estado mínimo — insistem os liberais. Isonomia. serviu de modelo para a democracia liberal. a partir de meados do século XIX. e tanto quanto possível na igualdade de oportunidades. tal como se manifestou napoliteia ame­ ricana — a qual. Tocqueville — e Hannah Arendt iria repetir a mesma coisa — insistiu corretamente no contraste entre a ênfase igualitarista dos jacobinos da Revolução francesa c a ^n^ase tíbenú dos Pais da Pátria da Revolução de Independência doa Estados Unidos. Resolvese nos alicerces de uma moral social igualmente estrita — acentuam os conservadores. . afeta­ do esse quadro a partir de 1933. O conflito se resolve através de uma rígida estrutura democrática legal — afirmam os constitucionalistas americanos. Na presente seção pre­ tendo analisar rapidamente o problema das tensões provocadas pelo con­ fronto entre esses dois princípios. herdada da Europa. Ora. presidencialista e federal moderna. que adota­ mos em nossa terra. de índole socializante. No período inicial da formação dos Estados Unidos. a isonomia que superou a velha idiossincrasia hierár­ quica e aristocrática. que um conflito se delineou claramente. social-democratas e “sociais liberais”. mesmo quando tenha o “liberalismo” intervencionista rooseveltiano. o modelo constitucional americano é pré-socialista. Justiça social e igualdade econômica — reclamam as so­ cialistas. Foi o con­ fronto com a ilusão socialista de uma absoluta igualdade econômica e uniformização no seio da comunidade de massa o que configurou o desa­ fio da sociedade americana — desafio relevante. insistindo na isonomia.O E s p ír it o das R evo luçõ es 297 Igualdade de oportunidades na América Vimos no capítulo sobre a Primeira Revolução Liberal em que trata­ mos das teses de Alexis de Tocqueville sobre a democracia americana e sobre as conseqüências sociais da Revolução francesa. ou igualdade perante a lei. donde igualdade de oportunidades. Era a oposição entre o princípio de liberdade e o de igualdade.

o e M fir a P en n a quando os Padres Peregrinos primeiro se estabeleceram na Nova Inglater­ ra qual tribo perdida de Israel em demanda de Canaã. Nos Estados Unidos. dois milhões de indivíduos.000. Na Inglaterra. Negá-lo seria mal compreender as condições especiais cm que se formaram os Estados Unidos. enérgicos e capazes de exercer todas as profissões. acremente discrimi­ natórias cm relação a negros. c desenvolvendo-se em uma sociedade heterogênea e multirracial ao con­ trário do que era ao tempo da Independência e da elaboração da Consti­ tuição de 1787. de modo radical. Uma série de fato­ res não econômicos entram aí cm linha de conta. Há duas dúzias dc bilionários. Os austeros pioneiros pertenciam principalmente a seitas não-conformistas inglesas e escocesas. que controlam ape­ nas 18% da renda nacional. culturais c religiosas. com vinte milhões de imigrantes pobres dos quais a metade talvez formada por clan­ destinos. a sociedade americana manifestou forte tendência à di­ versificação . . são milionários. índios e sectários de outras denominações.298 J. a questão ainda não se colocara. aliás. O que desde o início garantiu a estabilidade da Constituição — con­ quanto não imediatamente aplicado — toi o princípio de igualdade de oportunidades de todos os incluídos na cidadania. No Sul. contudo. inclusive as manuais mais humildes. nação muito mais homogênea c de economia cm crescimento lento. formou-se um grupo social aristocrático que se susten­ tava na escravidão. nota-se que a desigualdade de renda pode estar cm proporção direta * com o dinamismo econômico. os mais ricos representam meio milhão dc pessoas. Posteriormente à Conquista do Oeste e à Imigração. certo paralelismo com as nassas próprias. Os mais ricos. cuja população c hoje muito heterogê­ nea. Fatores raciais. Tenazmente empenhadas em self-govemment. além dos meramente familiares — traduzindo-se todos cm grande movimentação vertical e facilidade de ingresso e avanço nas Uni94 De um modo geral. Essas condições revelam. entre os Levellers — os “niveladores” do período mais violento da Primeira Revo­ lução de Cromwell. um por cento detêm 40% da fortuna nacional. c 20% gozam de uma renda anual superior a USS 180. É uma forma simplista mas segura de aquilatar o sentimento democrático de uma sociedade o respeito ao conceito de “igualdade de oportunidades”. As comunidades da Nova Inglaterra eram de classe média. O . sobretudo no Maryland (de origem católica) e Virginia (de origem anglicana). seus membros eram trabalhadores individualistas. Eles estavam fortemente imbuídos do puritanismo igualitarista que se manifestara.

igual e notoriamente desfavorecidas pelos preconceitos e as discriminações. serve para julgamentos imparciais no que diz respeito às condições de sucesso na vida. antecipando-se assim a qualquer íutura questão agrária e a uma estrutura latifundiária como no Nordeste brasileiro. Quem primeiro chegasse ao lote dispo­ nível. O símbolo dessa igualdade democrática se encontra por exemplo. nas grandes corridas que partiam para os novos territórias do Oeste Longínquo (o Far West). como aliás também no Brasil. . então abertos à colonização: a cavalo ou em carroças. esse sistema garantia. o “salto exis­ tencial” consistiu na capacidade de abstração racional da igualdade peran­ te o princípio constitucional da nacionalidade: todos podiam enriquecerse legitimamente (the pursuit o f happiness). A comparação entre os resultados obtidos por essas duas etnias. com potencial para a Presidência. incidentalmente. é uma exceção notória na alta hierarquia — o primeiro caso evidente de ascensão social de um black (na realidade. já na época de Lincoln. sozinhos ou com suas famílias. não obstante suas tremendas conquistas em direitos civis nestes últimos anos. automaticamente. É evidente que. o grande passo cultural. O único Presidente não-Wasp que tiveram os EUA foi Kennedy.O E spír ito das R ev o luçõ es 299 versidadcs e nas profissões. dos bancos e da grande indústria continuam reservados aos WASPs — os White AngloSaxon Protestants — embora a maioria da população já tenha hoje outras procedências. toma* va-se. Na época da Independência. chefe do Estado-Maior Conjunto ao tempo da Guerra do Golfo. um mulato claro). os pioneiros partiam juntamente do mesmo ponto de partida. a cada família a propriedade da terra que iria cultivar. O general Colin Powell. Sustentado no princípio das leis de homestead propostas por Lincoln. Por outro lado. a um tiro de canhão. com a conseqüente prosperidade econômica. ali se estabelecesse e reclamasse passe legal (stick one's claim). pois os mais altos estamentos da política. contanto que o ponto de parti­ da fosse o mesmo e os contratos obedecidas. ainda estão os pretos americanos e imigrantes “hispânicos” longe de alcançarem as mesmas oportunidades de membros de outras raças. nas profissões liberais e na economia excede de muito a participação relativa de israelitas no cômputo geral da população. proprietário. é sabido que nos Estados Unidos. a proporção de judeus nas universidades.

única c univer­ sal. Para escapar da míngua. Afinal de contas.300 J. difícil seria encontrarmos uma sociedade que melhor tenha conseguido substituir o princípio hierárquico da seleção genética. Em outras palavras. as superioridades que o mundo reconhece parecem qual imensas vagas do mar. devem entrar na prisão. mais simpático. os prêmios Nobel de ciência. mais bondoso. essas diferenças não impor­ tam. Ou Você é capaz de sentir isso ou não é. 1961). necessariamente. Lippmann acentuava que “os programas de reforma estão por toda a parte em conflito com a tradição liberal. lamber as botas dos tiranos”. Você é obviamente um homem superior a ele. Pedc-sc aos homens que escolham entre segurança e liberdade. é mais rico ou mais forte. Walter Lippmann assim descreve o sentimento de igualdade fraterna. Você é melhor nascido do que ele. virtude ou utilidade. nenhuma sociedade hoje em dia mais exalta o méri­ to e mais favorece a formação de uma meritocracia. Quando Você não sente. Para exaltar sua dignidade.ira P e n n a É mister atentar para os conflitos que. Para regularizar o trabalho. pela seleção individual do que poderíamos qualificar como princípio do eli­ tismo democrático. por absurdo que possa isso parecer. tal com vigora na linhagem familiar da nobreza européia e de nossa oligarquia patrimonialista. . The Good Society. Citado por Daniel Jenkins em Equality and Excellerice. devem ser arregimentados. os aventureiros da conquista do espaço. surgiram ao oferecer aos 70 ou 80 milhões de imigrantes que formaram a America condições de liberdade. mais bonito ou elegante (handsome). Numa obra de impacto. tal como se manifestou na tradição americana: “Você aí está e ali está seu próximo. ou do que seja. pois a melhor parte dele é intocável e incomparável. a partir de uma estrita igualdade de oportunida­ des. são apenas leves ondas impermanentes sobre um vasto oceano”95. os vencedores dos desportes.. mais sábio. Por força de qualquer tipo de teste de inteligência. No entanto. cm momento cm que os totalitarismos sc enfrentavam mortalmente c o liberalismo era posto de lado. r>E M f. quem sabe Você é mesmo melhor. devem gozar dc menos liberdade. Voltaremos em breve ao tema. devem oprimir os dissidentes. Ao lado dos empre­ sários e bilionários da fortuna. distingue com especial prestígio as estrelas das artes e do cinema. dizem-lhes que deveni renunciar a seus direitos. Para obter solidariedade nacional. Para obter maior igualdade. O . os autores de bestsellers. c quando Você sente. Você mais deu a seus companheiros e deles menos recebeu. Para melhorar sua sorte.. 1937. os heróis da guerra.

Jackson c Webster. na América. o de Your Honor. que a América é uma das mais antigas politeias do planeta. a premissa da democracia americana. Sustenta Samuel Huntington por exemplo. Convencido que “a causa da América era. a causa de toda a Humanidade”. sentir. Partindo das idéias de Tocqueville em seu insuperável De la Démocratie em Amérique. estudiosos modernos de incli­ nação conservadora aproximam-se desse ponto de vista. simplesmente. Presidentl Ao contrário do sistema de privilégio profundamente enraizado em nossa cultura ibérica. Paine considerava as liberdades americanas como resultado do “senso comum”. procurando raivosamente distinguir o interesse privado do interesse público e preservando o primeiro. O juiz é o único persona­ gem que. Para Crozier. A isonomia ou igualdade perante a lei é. Esse conformismo refletiria uma secularização da ética calvinista. Mr. na uniformização do comportamento e obediência passiva acxs mores da massa. Teria sido essa idéia o que atraiu a atenção das europeus. o juiz nela é personagem mais relevan­ te do que o próprio businessman. na subserviência à moda. em segundo lugar. o igualitarismo americano revela-se tipicamente pequeno burguês. . novas influências se fize­ ram. Os Estados Unidos sofreram o impacto do liuminismo racionalista c do romantismo igualitarista de Rousseau.O E s p ír it o das R evo luçõ es 30 1 O princípio democrático formador dos Estados Unidos foi. Na época crucial da Independência. o igualitarismo se exprime no conformismo generalizado do Babbitt. Na obra Le M al Américain. a con­ cepção do Estado Legal de Locke e Montesquieu. eis que sua formação constitucional legalista procede da Inglaterra dos Tudors — de Henrique VIII c Elisabeth I. a estrutura religiosa calvinista e. em pri­ meiro lugar. Jeflerson. o eminente professor em Harvard. edificado sobre um sólido fundamento pragmático. contudo. acentua o sociólo­ go francês Michel Crozier o caráter essencialmente legal da ordem da sociedade americana. tem direito a um título. cm grande medida. Nem o Presidente da República goza desse privilégio. Na área social. Ele é. Formou-se uma corrente liberal populista com homens como Paine. As idéias do Enlightenment contribuíram com o siste­ ma de equilíbrio do poder (cbecks and balance) a partir de uma infraestrutura de governo local. Donde a obsessão com o conflito de interesses por parte do político. de fato.

boêmios e imorais são vencidos e condenados à pobreza. os alcoólatras. O . A exalta­ ção da eficiência. os heróis do caráter. a América começou a receber imensas correntes imigratórias de variada procedência.. os estóicos. Embora brutal. que pouco semelhança revela com a velha sociedade puritana. os inflexíveis. moralista e fechada da Nova Inglaterra. do Texas à Califórnia. os Rockefeller. uma vez assegurada a ordem legal (o símbolo do sheriff) e a igualdade de todos perante a lei. vencem. os virtuo­ sos. Não é de estranhar que tenha sido na América que o darwinismo social haja encon­ trado seus principais defensores. configuram uma cosmovisão da qual o darwinismo seria apenas a expressão científica. os Pierpont Morgan.. sempre se submetia aos represen­ tantes da Lei. reflete uma atitude existencial que não es­ conde suas origens na velha ética puritana: a vida é um combate moral cm que os bons. luxuriosos. os trabalhadores. E isto a Seleção natural. Celebrava-se o triunfo dos robber barons. os ascetas. Uma face diferente da América se apresenta então. essa idéia que inspirou os pioneiros individualistas e rebeldes. os pre­ guiçosos. E. o progresso e o sucesso são prêmios da luta pela vida em que os inferiores são eliminados. perdulários. Triunfavam homens como os Astor. A evolução. A conquista do Oeste estimulava os não-conformistas aventu­ reiros. o que quer dizer. O darwinismo é produto do empirismo utilitarista inglês e.3 02 J . os eficientes. Ao invés de representar virtude evan­ gélica. O princípio da liberdade destacou-se como idéia-símbolo. e o florescimento do empreendimento privado na competição universal que é a vida em sociedade. são salvos c enriquecem. A sociedade tornou-se pluralista e complexa. A liberdade de competição na economia capitalista ia permitir o sur­ gimento de extremas desigualdades econômicas. sedentos de liberdade e novidades. A estátua gigantesca à entrada da baía de Nova York traduz. o capitalismo americano foi um capitalismo verdadeiramente “selvagem”. o homem estava livre para se empenhar na concorrência mais deslavada e na mais árdua luta competitiva que o levaria ao sucesso. materialmente. da performance. os Vanderbilt. Ao passo que os maus. os Mellon. o policial e o Juiz. No período de grande expansão após a Guerra Civil. no fundo. os ímpios. DE M E IR A PENNA Logo em seguida. é a pobreza sintoma de pecado. Nada há de igualitário ou socialista em tais .

Constata simplesmente Lord Bauer. não facilmente curáveis por mitos. Isso é um bem ou um mal. Bauer. Thatcher (de quem recebeu o título nobiliárquico).. no entanto. Os homens são tremendamente diferentes em seu temperamento e dotes econômicos. A combater os preconceitos igualitários no relacionamento entre as nações se lançou P. T. eliminariam as condições de seu próprio progresso e bem-estar.O E srÍR rro das R ev o luçõ es 303 idéias. É como se a aceitação de uma certa dose atual de injustiça e desigualdade fosse condição inevitável para o alcance da demo­ cracia econômica. como quiserem. Diferenças e Desigualdadesperante o Liberalismo O mesmo critério de eficiência. culturais. Se as sociedades democráticas livres fossem deliberadamente procurar suprimir as diferenças econômicas. poções ideológicas e panaceias políticas. O professor John Rawls.. intelectuais e espirituais. tal como pode e deve existir numa situação de capita­ lismo maduro. teriam que adotar tais métodos de coer­ ção e erguer tão extensos aparelhos de repressão que cessariam de ser sociedades livres. competição e poder vigora na esfera internacional. Por esses motivos. o grande teorizador da Justiça. qual cavaleiro do rei Arthur na procura do Santo Graal. abolindo a pobreza por decreto. critérios de apoio aos menos favorecidas que podem ser considerados de . É uma injustiça imposta por qualquer entidade transcendente — se assim julgarem — que nenhum inefável teólogo da libertação será jamais capaz de explicar em termos religiosos. prefere Bauer o termo “diferenças” econômicas ao termo “desigualdades”. Rawls sugere. A natureza também não é socialista! Não existe nenhuma mamãezada para o filhinho privilegiado da família. que as diferenças de renda e fortuna têm causas complexas e variadas. também usa essa terminologia diferencial. um inglês de origem húngara e economista muito ligado a Mrs.. Com isso.. para evitar talvez o teor emocional da pala­ vra “desigualdade” — uma palavra que cria calafrios e ressentimentos no pessoal da “esquerda”. ou corrigir em termos racionais.

aliás. neces­ sariamente. em toda a história do homem. 97 Vide meu livro Decência J á . Celso Furtado. os casos de gêmeos idênticos que ocorrem de 3. como outrora a bur­ guesia utilizou esse mesmo slogan para retirar o poder da aristocracia. Conseqüentemente.000 pares de genes. o professor Antonio Brito da Cunha. jamais como concreta.304 J. uma quantidade infinita.. Nelson Werneck Sodré e muitos outros do mesmo estilo — para monopolizar o poder da sociedade burguesa. 2607 X 102017 tipos de gametas. excetuando-se. 100. de M e ir a P en n a índole social-democrática96. Isso significa que cada homem e cada mulher tem a possibilidade de formar. 1993 onde abordo o problema.8 a 5. Um biólogo brasileiro. São números praticamente infinitos. ex-trotskista convertido. Se essas diferenças genéticas são aceitas como uma tese científica rotineira.5 vezes por 1. naturalmente. A verdade é que a “opção preferencial pelos pobres” serve a muito intelec­ tual remediado como instrumento de opção preferencial pelo próprio enriquecimento e a muito clérigo da Igreja católica para promover-se em prestígio nos cenáculos da CNB do B. pelo menos. ou é policial — não há outra alternativa. Ela só pode ser considerada como teórica. Ela só pode determinar o nosso compor­ tamento como produto de um imperativo ético. Acentua Irving Kristol. não compreendo por que tanta indignação acompanha a simples sugestão de que a igual­ dade não constitui senão um conceito artificial que só pode ter uma base de aplicação de natureza religiosa e jurídica — não sendò válido em qual­ quer outro ramo da cultura e da ação humanas. o que torna improvável que. tenham sido produzidos dois indiví­ duos com o mesmo genótipo. . uma imposição artificial. Nórdica/IL. que a igualdade se transformou num slogan utilizado por intelectuais alienados — do tipo representado em nosso país por Hélio Jaguaribe. como assinala Brito da Cunha. 96 Sobre a Teoria da Justiça de Rawls trataremos cm outro volume desta série. brilhante e prestigioso filósofo neoconservador americano. é a igualdade.. Francisco WefFort. Os conflitos resultantes das desigualdades são inelutáveis. De igual modo. Florestan Fernandes. Leonardo Boíf. As cifras mencionadas ultrapassam de muito o número total de partículas existentes no universo e constituem por conseguinte. A injunção igualitária ou c ética.000 nascimen­ tos”97. escreve: “Estima-se que o homem tem. pelo menos. Otávio Ianni. O .

é uma anti­ nomia existencial. Assinala o grande economista austría­ co. as reações oficiais. c da idéia da exclusividade da persona­ lidade. a moda que é volúvel como uma mulher. Como escreve o professor de economia da Universidade Roosevelt Walter Weisskopf. E um instrumento de luta ideológica. A igualdade do Behemoth num comum denominador dc massa representa uma utopia apavorante. integra-se no meio ambiente e essa parti­ cipação sublinha idéias como somos todosfilhos de Deus e membros da irman­ dade dos homens. E uma distopia infernal. hon­ rarias c poder. por esse motivo. em leilão. Os resultados de qualquer trabalho envolvem a sorte. pintando mulheres disformes e corpos cubistas. Relacionada com a antinomia da individuação e participação. da uniformização de todas os resultados em termas de renda. quando alcançam hoje suas obras. emocional e colorido de fanatismo. Hayek tem insistido que “até mesmo os mais pobres de hoje devem seu bem-estar relativo aos resulta­ dos das desigualdades do passado”. Mas sofremos simultaneamente a experiência da indivi­ duação. en­ quanto van Gogh se tenha suicidado de desespero e penúria. Tal a tonte existencial da incomparabilidade e desigualdade. autor de livros sobre psicologia da economia. exclusivamente. da separação. confortei. “a dicotomia igualdade X desigualdade constitui uma das muitas antinomias que afetam a condição humana”. um peso da condição humana. Será justo que o comunista Picasso tenha realizado uma obra que o tornou bilionário. Não é tema de debate objetivo. um . Essa é a raiz da experiência do ser Eu versus Você. entendido ainda por cima como trabalho manual. que “a redistribuição da renda não se baseia em qualquer argumento científico. o da igualdade. O homem participa do mundo. Nem do nivelamento. Envolvem só parcial­ mente a intensidade real do esforço despendido — e. mas deve ser reconhecida como um postulado francamente político”. as preças mais altos de qualquer pintura — 60 milhões de dólares para um único quadro vendido a um japonês? Não estou certo que o caminho de nassa sociedade pósindustrial seja. a compe­ tência particular. os caprichos da opinião pública. é tão falsa e perversa a tese de Marx relativa ao Valor como dependendo.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 305 Em sua obra Constitution o f Liberty. uma categoria da vida. necessariamente. do trabalho. o gênio. da distinção: o ser Si-mesmo e não ser Outro.

Temos uma cons­ ciência natural das diferenças. em parte. Reconhecemos a supe­ rioridade natural das pessoas de raça africana em certas categorias atléticas . pela mentira fundamental — pravda? — do Marxismo. Não sofremos de inveja ou ressentimentos quando as diferenças. As diferenças podem provocar contrastes entre certos grupos humanos sem que sejam ofensivas. Que somos diferentes uns dos outros. dito “social”. d f . na Evolução das espécies. que a superioridade dos mais “aptos” se coloca. “e. A ideia igualitarista só teria corno conseqüência a criação de uma classe privilegiada de Alpbas com altos Q. à revolta causada nas populações afetadas pela discrepância entre o Igualitarismo teórico do regime e a desigualdade real resultante dos privilégios da Nova Classe. relacionado com o sucesso do Capitalismo. Eu. muito pelo contrário: toda a biologia depõe contra essa superstição.. A doutrina científica hoje dominante na biologia. Insistamos cm nosso argumento. pois nunca imaginei me distinguir como jogador de futebol. O . não tenho a mínima inveja do sucesso de Pclé. O colapso de 1989/91 se deve. eis que a luta pela vida. de natureza seletiva. Homosapicns certamente venceu por sua inteligência racional! O que é certo é que somos diferentes uns dos outros.I.s que controlariam a evolução em seu próprio proveito.. Esse o motivo pelo qual foi o Darwinismo. é a teoria da Evolução de Darwin a qual postula a desigualdade genética como condição essencial de progres­ so. da chamada Nomenklatura.M e i r a P e n n a pesadelo tal como foi antecipada por Huxley em seu Admirável Novo Mundo. à estagnação. em parte alguma. A uni­ formidade implícita na igualdade genética absoluta conduziria. em áreas diversas de atividade. Bacon acentuava que há pouca amizade neste mundo. quase como um dogma inviolável. Começo a ter inveja e sou obrigado a conter-me mo­ ralmente quando constato o sucesso literário de autores que julgo tolos. Não tenho inveja da Xuxa que se tornou milionária com sua beleza física e seu jeitinho inocente. conduzem a resulta­ dos desiguais. E percebemos hoje. entre seres desigualmente eficientes e adaptados (jit) lhe constitui o mecanismo essencial. inevita­ velmente. por exemplo. sobretudo nos valores da inteli­ gência. A igualdade não constitui um postulado científico. menos do que entre iguais”.J. Foi aliás o que aconteceu com o Comunismo russo. vulgares e medíocres. pelo menos entre os animais superiores. A igualdade não é condição necessária de felicidade e amor. ninguém o nega.

dona Fortuna. junto à sua rede dc fi*r. frotn her wheel. suas dádivas ser igualmente concedidas". procurou Max Weber provar que a doutrina da Predestinação propunha a tese de que cada um cra escolhido e salvo pela Graça inescrutável da divindade. Os japoneses são grandes nadado­ res. do mesmo modo como aceitamos a idéia de uma vocação natural desses mesmos africanos para o canto. em uma de suas mais famosas parábolas. convida-nos a apreciar esses capri­ chos: Let us sit and mock the good bousewife Fortune. E Shakespeare. K não há por que deixar de admitir a valorização relativa do estético e do intelectual. todo puritano calvinista procurou a si mesmo pmV8 <■ Meridionais que. numa de suas peças." Uma sociedade pluralista e livre aceita a convivência dos talentos dife­ rentes. . inclusive dos afri­ canos em termos de talento estético98. a dança e a música rítmica — vocação certamente superior à minha. cm que pesem as veleidades igualitárias da intclectuária dc esquerda. a corrida dos ccm metros e o basquete.. As You Like It. jthat her jjtfis may benceforth be bestowed equally. Todos eram iguais. científica c tecnológica. Detestamos a / uniformização. por conversão paradoxal cujo mecanismo misteriaso o próprio Weber não consegue claramente exorcizar. A salvação era um dom absolutamente gra­ tuito. em que pesem as reivindicações feministas. Em seu célebre ensaio sobre a Ética Protestante. Iguais porque igualmente insignificantes peran­ te a majestade ofuscante da Soberania divina. independentemen­ te de seus méritos e virtudes. as susceptibilidades de um igualitarista ferrenho. Ele distribui desigualmente a sorte. sobremodo. juntamente com as desigualdades dos resultados. “Sentemo-nos c zombemos da boa dona de casa. Estou certo da superioridade dos meridionais. sendo o intelectualismo predominante o que assegura a superioridade do que chamo dc “sociedades lógicas” na moderna civilização industrial. a fazer o melhor uso de nossos “talentos”. doravante. injusto é o destino. a felicidade.. que entre homens e mulheres vive la différence! Em suma. Entretanto. classifico como “sociedades eróticas”. o que de novo confirmaria certa “especialização” de origem racial para certas categorias físicas — sem que uma tal tese possa parecer de cunho racista ou ofender./ Que possam. E uma ojeriza particularmente ferrenha em nassa terra. a fortuna.O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s 307 como o boxe. E. cm meu livro Em Berço Esplêndido. Cristo aconselha-nos.

como para os trabalhistas e socialis­ tas da época. desde logo visível neste mundo de luta desigual. sendo o pecado e a pobreza o sinal exterior da indignidade. a lei do inquilinato e todas as outras medidas de Welfare serviriam de contraponto às regras cruéis da competi­ ção capitalista. o sociólogo Karl Polanyi propôs o conceito de protecionismo social. Em sua obra The Great Transformation. a reconhecer que tais instru­ mentos corretivos da “má sorte” podem facilmente e com mais eficiência serem desenvolvidos pela iniciativa privada. Seus méritos pessoais se refletiam no sucesso na vida material e esse sucesso era medido em termos de prosperidade econômi­ ca. método de vida. jamais poderia ser questionado — aos poucos se transformou numa rígida lógica meritocrática. os “justicialistas” de Peron na Argentina e a esquerda social-democrática de nossos dias. lúdicos. A certitudo salutis seria alcançada pelo exercício das virtudes de traba­ lho. DE M E IR A PENNA var. para os getulistas no Brasil. na época de apogeu do igualitarismo socialista que se se­ guiu ao fim da IIa Guerra Mundial. frugalidade e temperança ascética. poder e riqueza constituem testemunhos do favorecimento divino e de escolha transcendente. uma extraordi­ nária boa consciência no exercício do poder e da riqueza. e repugnância aos aspectos suntuários. sob a forma de seguro de . auto-controle emocional. O que inicialmente teria com­ portado uma teodicéia de submissão fatalista ao inteiro capricho de Deus omnipotente — capricho que. Surgiu uma nova aristocracia da virtude e. sensuais e luxuriosos da existência. com ela. evidentemente. honestidade. Recusam-se. o controle dos preços. a medicina socializada. do seio de uma sociedade teoricamente igualitária e sem classes como a soviética. por outro lado.308 J . de qualquer forma. Anos atrás. ele sugeriu essa medida como corretivo ao darwinismo e como meio de suprimir as desigualdades forçosamente geradas pela concorrência numa economia de mercado. que havia adquirido a superior certeza de sua própria salvação. Sendo prova de virtude — inteligência. poupança. os quais deviam ser virtuosamente aproveitados. e aos outros convencer. em que os inimigos derrotados havi­ am exaltado o princípio darwinista da desigualdade racial e do triunfo do mais forte. A justiça do Céu impõe que os burros e indignos sejam condenados. o fenômeno do apare­ cimento. O marxista Polanyi não reconhecia. O . de camadas privilegiadas que se congregavam na Nomenklatura dominante. Para Polanyi.

num mercado livre. criada ainda ao tempo de Getúlio Vargas. para o trabalho produtivo. em nosso país. Não serve para eliminar a pobreza mas para manter a recessão econômica.O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s 309 livre escolha. sim. da LBA no Brasil. estadual e municipal. Empregar oito a dez milhões de ociosos ou semi-ociosos na burocracia das três níveis. Não reduz a miséria mas redistribui o atraso. numa economia centralmente administrada por polí­ ticos. Karl Polanyi pretendeu. O tipo mencionado de protecionismo social se salientou na Inglaterra quando era governada pelos Tories de Disraeli. na Alemanha de Bismarck e supinamente nos EUA. Esrá comprovado que essa entidade bencficientc. não elimina a pobreza mas estimula a pre­ guiça. Citado admirativamente. Ao Estado cabe. por exemplo. a ação governamental deve exercer-se no sentido de. por Vicente Barretto. Promovida por sentimentos de solidariedade religiosa. Ludwig von Mises derramou-se em sarcasmos quanto ao projeto. ensinar os cidadãos menos favorecidos a se ajudarem a si próprios. constitui a filantropia americana. descobrir a mágica de investir a eficiência do jogo de preços. estimular o menor desde a educação primária e o excepcional em sua própria defesa. federal. A concepção socialista é aquela que concebe e promove um altruísmo administrado por burocratas — consumindo no processo a maior parte dos recursos arrecadados100. não comportam paralela intervenção governamental de igual valor. lá pelos idos de 1930. Não contribui para o desenvolvimento mas espalha os fatores da estagnação. E mister salientar que se os impulsos filantropicos se justificam ao nível da iniciativa individual ou dos grupos privados. gasta a maior parte de seus recursos assistcnciais no atendimento aos próprios funcionários da Legião: o Altruísmo <f absolutamente corporativo c burocrático.” Ulysses e seus “miseráveis” que elaboram Coastituições ineptas e acreditam ser o emprego público o meio adequado de alivi­ ar as tensões sociais e evitar o desemprego — o país se manterá no estágio do subdesenvolvimento. opendant natural do sucesso capitalista. no apogeu cultural do Marxismo. o que seria amplamente suficiente para principiar a resolver o problema da miséria insuperável em nosso país. Igualdade perante a lei e igualdade de oportunidades são as dois únicos princípios legítimos 100 O caso. Enquanto em nosso país pontificarem po­ líticos como o “Dr.. grosso modo. Segundo cálculos publicados em 1993 e 1994. as fraudes e roubos na Previdência alcançariam USS 50 bilhões.. Se medida como seguridade social. . da falta de cultura e da pobreza.

frequentemente invocada. me pergunto se toda Justiça não é por vennira “social”? A Justiça. mesmo aqueles que. geralmente recebida com indignação e protesto moral. A pergunta natural que se pode então fazer é a seguinte: 1) devem os contrastes aberrantes. constitui um princípio de relacionamento social entre os indivíduos. Igualdade e Homogeneidade étnica A afirmativa de Hayek quanto ao fato de que as desigualdades do passado deram como resultado o bem-estar mtxterno para os pobres c intelectualmente menos aquinhoados é amplamente d(xumentada pela história da Kuropa ocidental. como o antigo PSD da era getuliana. em confronto com a aceitação teórica das princípios igualitários na Constituição brasileira. América do Norte e Ásia oriental.. reacionário c "coronelista” existia na vida política brasileira. a texios redu­ ziria a um comum denominador de miséria. Não existe Justiça na ilha de Robinson Crusoé. por definição. São também os únicos que se coadu­ nam com a idéia de Justiça. sociais e regionais. Para os filisteus apresenta-se qual cínica manifestação de uma filosofia burguesa. Os filisteus ficam indignados c apelam para o slogan da M Justiça s o c i a lTodos os partidos são scxial-dermxráticos. da estrutura brasileira ser atribu­ ídas a uma fatalidade histórica. representavam o que de mais patrimonialista. Não pode haver uma Justiça individual. desestabilizado o país. A realidade de enorme disparidade de renda e consumo entre ricos c pobres.. não obstante. por reflexo. 2) seria o resul­ tado de um projeto errôneo c verdadeiramente injusto no desenvolvimen­ to do país? Qual a culpa pelas extremas discrepâncias de fortuna que ca­ beria às política-s seguidas por esse ou aquele governo. dificilmente removível ou. Uma tal constatação objetiva é. esse ou aquele .310 J. A Teoria da Justiça de Rawls. se imposta aqui c agora sem levar cm conta as exigências de eficiência. d e M e ira P e n n a de isonomia sob um sistema liberal. O . fria e egoísta. também parece coUxar-se do lado de um&fatmess. de uma eqüidade ideal que. Ora. levanta gra­ ves questões morais que tem gravemente afetado a consciência ética das elites intelectuais c.

Jntitelctçfen como dizem eles. Teoricamente. afri­ canos e sul-asiáticos cujo padrão de vida cultural e econômico é heterogê­ neo — a tendência histórica tem sido no sentido da redução das desigual­ dades. como as da Amé­ rica do Norte. imigrantes “hispânicos”. entre os chamados “Tigres” econômicos. durante anos. . herdeiras de uma velha cultura. confúciana ou budista. lhes permitiu sobrepujar a situação de extremo subdesen­ volvimento. Na Ásia oriental por outro lado ou mais especificamente. Nas nações da Europa ocidental ou naquelas. em que uma população majoritária de origem européia com fartos recursos econômicos. criando uma situação de crise c elevando ao poder personalidades de espírito mais “conservador”. Pondo de lado o fato que muitas famílias suecas continuaram conservando suas fortunas monumentais. A maneira prática de alcançar a meta utópica con­ sistiu em igualizar completamente os resultados educacionais. possuí capacidade notável de absorção da massa “terceiromundista” representada por pessoas de cor. como revela­ ram alguns observadores imparciais. nível cultural invejável e talento de auto­ governo. País de grande homoge­ neidade étnica. as sociedades são bastante homogêneas. do nome da cidade mítica de Jante onde todos devem agir e pensar de tal modo que ninguém deva aspirar a ser melhor do que qualquer outro. Um caso interessante é o da Suécia. que os suecos se impuseram um “Novo Totalitarismo”. todos deviam crescer. c uma vez que superaram os problemas políticos oriundos dos efeitos do imperialismo e da aculturação no âmbito da civilização ecumênica. como por exemplo os Wallemberg que detêm uma parte considerável da indústria pesada sueca. conseguiram assegu­ rar a estabilidade governamental e conduzir uma política educacional que. todos alcançar resultados eco­ nomicamente iguais cm suas carreiras.O KSPÍRITO DAS R i V()i U(. O resultado foi claramente.()KS 311 regime? Essas são questões — convenhamos — que não ocorrem em países racial e culturalmente homogêneos e de velha tradição de bom governo. rapidamente. a Suécia sofreu. o efeito prático de tal política foi — depois do misterioso assassinato do Primeiro Ministro Oiof Palme — abortar o crescimento do país. de maneira que jamais pudesse o menos inteligente ou mais preguiçoso ser reprova­ do. os efeitos de uma mentali­ dade socialista que pretendeu transformar a nação numa verdadeira Utopia.

A sociologia brasi­ leira sempre observou essa permanência do interior do país em estágios relativamente atrasados do desenvolvimento político. enfermidade c abandono. que alcançaram 7% ao ano c ultrapassaram mesmo os 10% durante a presidência Médici. outro componente ainda mais numeroso carregava uma ascendência ameríndia. Nosso país c. no Brasil. mal saída da idade da pedra. vive ainda como vivia no século XVIII. Seu único meio dc transporte era o bonde “taioba”. cm casa dc meus Pais. Os inferiores andavam descalços c não gozavam de qualquer proteção social. Quando ad<icciam. nesse sentido. Os desequilíbrios regionais que tanto caracterizam esta nação tòram analisados por muitos cientistas sociais. d k M h ira P e n n a Mas. são de tato extremos os contrastes de fundo étnico. Anteriormente à construção do 101 Na minha infância. . no perío­ do da Ia Guerra Mundial). só nas últimas décadas começou a popu­ lação brasileira a ser submetida a pressões culturalmente unificadoras. rádio c outros media de comunicação. praticamente isolados na vastidão do sertão. Embora desde sempre nos tenhamos tentado iludir. massificantes e modernizantes. sem assentos. Até poucas décadas. entre os quais nunca deve ser esquecido o francês Jacques Lambert e seu trabalho clássico sobre Os Dois Brasis. os pequenos núcleos populacio­ nais. dependiam da caridade dos patrões. disseminada num vasto território com índices de densi­ dade demográfica muito baixos. mas positiva. Acresce que.312 J. antes da Independência. Certamente não nos damos conta da evolução que se processou cm 60 anos — a partir da Revolução dc 30 — demasiadamente lenta talvez. Uma aldeia do agreste do Piauí. Esses meios certamen­ te contribuíram para as taxas “históricas” de crescimento da economia. vegetavam numa atmastera imutável de miséria. um dos mais heterogêneos do mundo — o que explicaria as desigualdades verticais c horizontais exis­ tentes101. O estorço de aculturação dessas massas tem sido enorme — agravado pela explosão demográfica. que não eram particularmente ricos (meu Pai fizera pequena fortuna com uma drogaria que fabricava remédios homeopáticos. na área rural. há pouco mais de cem anos. social c econômico. chegamos a nos valer de uma dúzia dc empregados domésticos. O . é impossível deixar de levar em consideração o tato histórico que. no nível de vida das ciasses mais modestas. por exemplo. Não se pode menosprezar o forte impacto da televisão. uma parte ponderável da população brasileira litorânea era compos­ ta de escravos africanos ainda mal assimilados à civilização européia en­ quanto.

porque supõem alterações gerais nos hábitos dus indivíduos que compõem a coletividade. A cultura de um povo não evolui por um f i a t 102. a hierarquia de base racial. Goiás e Nord­ este. percorreu a região do Planalto Central. estagnavam em condições que pouco haviam cambiado desde a época das Bandeiras. cm excursões como as da expedição Cruls que. de dificí­ lima modificação. Hstas as razões da chamada "lentidão da história". povoações como Luziânia. E mais adiante. cujas efeitos determinam a sorte das populações? Os hábitos. Bcncdicto Ferri dc Barrus. 2) daí que o gradualismo cm tudo seja o modelo de desen­ volvimento e evolução mais conforme à estrutura bio-neurológica do homem. Seria possível conceber um regime liberal igualitário em tais cir­ cunstâncias? E o que fazer de condições históricas. Eram condições oriundas da es­ trutura da sociedade colonial primitiva. a expli­ cação do fracasso das “revoluções". mesmo os mais simples. sua repugnância pelas mudanças radicais. Segucm-sc dois corolários: 1) as mudanças radicais de todo um compor­ tamento coletivo são inviáveis. para ter uma idéia de como ainda inteiramen­ te marginalizada dos centros vibrantes da civilização ocidental — mais democrática e igualitária — se encontrava a vasta extensão de nosso terri­ tório. o paternalismo da autoridade política sustentada pelo sistema rural patrimonialista. Era preciso realmente sair do Rio e São Paulo. a economia de natureza mercantilista. quando foram fundadas. Planaltina ou For­ mosa. irreversíveis. limitações e inércia provocadas pela ignorância e o analfabetismo. há quarenta anos. reações coletivas csclcrosadas são de lenta c difícil transformação. cm comuni­ cação pessoal. ohscrva. retomando o ponto hisrórioo-culniral t‘ni que a população e a sociedade se encontravam quando das foram deflagradas. são estruturas infinitamente com­ plexas. mal alcança­ vam esses grandes horizontes imensos do sertão de Minas.ido . nos arredores do Distrito Federal. Klcs se inserem nus diferentes órgãos e/ou funções neurológicas do indivíduo. que se esgotam. de difícil c penosa mudança c erradicação. outros formam estruturas ou complexos neurológicos de funcionamento automático ou reflexo. Qtu. tradições passadistas. em 1922. modelando seu conteúdo c comportamento. das Entradas c ciclo do ouro.O E s p ír it o das R evo luçõ es 313 Brasília. no Mato Grosso. a existência comunitária organizada em torno da Grande Família prolífica e todas as superstições. que “os hábitos. O atraso refletia o domínio da Igreja. as tribos de índios bravios sobre­ viviam na idade da pedra. As influências modernizantes. emana­ das da civilização em florescimento na área litorânea do país. Alguns desses hábitos culturais residem cm funções e órgãos mais flexíveis. I0* Meu amigo paulista c obstinado liberal.

Não ocorreu a freqiientação do mesmo espaço físico imagina­ do pelos arquitetos mas. diplomatas na SQS 114 e 214. inclusive Os­ car Niemeyer. Sua existência. cuidadosamente. virou pelo avesso o planejamento social ao se transformar no escárnio de uma das maiores favelas do Brasil. O pesquisador americano James Holston. Jaguaribe se abstém. ao contrário. Comissão para a Erradicação das Invasões). a obra do Presidente Juscelino Kubitschek foi bem sucedida no seu objetivo fundamental de estimular o desenvolvimento do interior do país. O símbolo mais explícito do malogro foi o crescimento das chamadas Cidades Satélites. composto de parceria com outros autores da mesma inclinação. Con­ tinuo acreditando que. de definir melhor o que entende aí como “igualdade sociaT. Em seu livro Brasil. como eixo central de sua evolução”. entre o afortunado mencionamos a resistência das “instituições” estamos usando uma linguagem sociológica para exprimir um fenômeno macro. que deviam proporcionar a convivência das classes. na realidade sustentaram o corporativismo patrimonialista petrificado: juizes aqui. Concordo inteiramente com o argumento: o grandioso e delirante projeto de criar uma cidade mais socialmente igualitária por meios literalmente “construtivistas” resultou em seu oposto. militares ali. DE M e ir a P en n a O caso típico é precisamente o de Brasília. Imaginava que a retirada do governo do ambiente lúdico e afrodisíaco do Rio de Janeiro poderia tor­ nar mais séria e eficiente a ação de uma burocracia oficial reduzida.314 J. Confesso uma grande simpatia pela idéia da transferência da Capital. e assim por diante. As famosas “Superquadras”. Sociedade Democrática. Como projeto de democratização igualitarista foi um fracasso monumental. a Ceilândia (de CEI. que empiricamente globaliza o comportamento micro dos indivíduos estruturados em grupos". onde resido e à qual dedi­ quei um livro ao tempo de sua construção. se empenha em desmontar a esperança utópica dos urbanistas e arquitetos planejadores. digamos. desmente pelo absurdo o ideal socialista dos planeja­ dores construtivistas da Novacap. Uma delas. Como descrever exatamente igualdade social? Qual é a igualdade social que existe. por si só. . O ... escreveu o professor Hélio Jaguaribe que ua busca da igualdade social atravessa a história. a segregação perversa das profis­ sões e classes. ao contrário do que acentuam seus críticos. bancários acolá. em obra traduzida A Cidade Mo­ dernista: uma Crítica de Brasília e sua Utopia.

hospi­ tais. De um desses desperdí­ cios e escândalos fiii testemunha direto e impotente. Podemos ante­ cipar as consequências dessa igualdade social quando um ex-Ministro do Planejamento de Sarney.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 315 professor Jaguaribe quando. Ora. mulatos e descendentes de índios. por simples decoro. uma lista de des­ perdícios. uma experiência crítica suficiente para o diagnóstico da prioridade da decisão política na solução das anonrailüc . nessa ocasião. acredito que a mobilidade existente seja do mesmo nível. começou a organizar. descreve como o caos que se aproxima. ou talvez superior à dos Estados Unidos. inclusive no austero cenáculo da ESG. tal uma nova Cassandra. residente em favela. O que quer então dizer justiça social. outras obras interrompidas no setor de traasportes como o metrô de Belo Horizonte e as Ferrovias do Aço e Nortc-Sul (S7 bilhões). e o molequinho analfabeto. o mesmo não se pode afirmar no que diz respeito ao Sul do país. no Rio de Janeiro. obras inacabadas de metrôs. inspirado em tais utopias visionárias. é o direito de todas as crianças ao acesso ao leite proporcionado pelo Estado. o das Pokinetas — quatro bilhões dc dólares postos fora cm créditos comerciais a um regime comunista inepto c falido! Adquiri. se seria ainda restrita a mobilidade verti­ cal nas áreas do “Brasil arcaico”. a armazenagem de alimentos que apodrecem. fácil e alinhar. com gastos anuais de 1. em seu próprio proveito eleitoral. um programa de distribui­ ção de leite às crianças pobres. nestes últimos quinze anos. o escân­ dalo da dívida polaca (ou “polonetas". não me estende103 rei Mas podemos salientar que. e Presidentes da República filhos de imigrantes. às seis horas da tarde. fraudes e falcatruas cinco ou seis vezes superior à soma toral mencionada. que uma soma da ordem de vinte bilhões de dólares em investimentos sociais urgentes seriam suficientes para prevenir o que ele. e a incapacidade da Petrobrás de abastecer o mercado brasileiro — o que determinou importa­ ções de mais de 90 bilhões de dólares desde a segunda crise do petróleo — seriam mais do que suficientes não apenas para pagar roda a dívida externa.2 bilhões só cm manutenção). barragens e hidroelétricas (23 ao todo que já consumiram 15 bilhões. mas atender à prevenção do caos que tanto angustia o brilhante e preclaro professor Jaguaribe. Só as quantias gastas com o projeto nuclear fracassado (cerca de 20 bilhões de dólares). vai tomar seu delicioso wisky escocês no Country Club do Leblon. Nessa região. as fraudes da Previdência (50 bilhões talvez). 4 bilhões). Já tivemos um forte candidato à Presidência da República que era um metalúrgico de origem nordestina. O “Tudo pelo Social” possuía outras cono­ tações deploráveis sobre as quais. que lhe guarda o automóvel de luxo? A igualdade social de Jaguaribe. ■ lw O brilhante cientista político tem repetidamente insistido. assim presumo.

entre outras o próprio Roberto Campos e o professor Eduardo Giannetti da Fonseca. Campos se permite criticar Fernando Henrique Cardoso. Num de seus melhores artigos de domingo. quando desempenhava as funções de embaixador em Londres. O socialismo em suma. convidou Hayek para almoçar.316 J . meios que foram. utilizados em grande escala pelos “Tigres” da Ásia oriental. desenvolvimento social. .”. Dona Ruth Cardoso.Paulo. escrevendo a respeito — que viáveis só me parecem dois meios de elevação.Paulo. “A Geléia Filantrópica”104. Roberto Campos nos conta que. educa­ ção profissional — e eu próprio falo também. O .95. e o arcebispo de S. a longo prazo. juntamente com Eugênio Gudin e lord Robbins. liberalismo social? Digamos francamente. Ludwig von Mises e Friedrich Hayek já demonstra­ ram cabalmente que esse modelo construtivista é catastrófico. corrupta ou corruptível. e caberia aos ' justiceiros’ como Dom Evaristo mobilizar-se politicamente para corrigir os erras divinos. fala-se em educação em todos os níveis — educação política das massas. precisamente.. daquelas camadas ditas carentes da população. a igualdade social é a idéia da igualdade econômica.4. educação de primeiro grau. Deus não foi suficientemente socialista. fabricando Caim e Abel. pois são todos filhos do Criador.. pois atribui todas as injustiças sociais ao neoliberalismo ou ao capitalismo. equiva­ lência de bens e renda a ser alcançada pela manipulação institucional do sistema de produção e distribuição com uma “mudança de estruturas” tendente a colocar toda a economia do país nas mãos centralizadas de uma única Nomenklatura burocrática. tirânica. São eles: o controle da natalidade e a educação. de índole patrimo104 Na Folha de S. Einstein e Al Capone. esquecido de que Deus criou os homens desiguais. dc 23. DE M EIR A PENNA igualdade social. acompanhando outros eminentes educadores. Com sua imbatível ironia. ele salienta que o cardeal Arns “parece-me um ateu. Quando se fala em educação. a primeira dama. Devo acentuar — de acordo aliás com a postura de quase todas as pessoas mais lúcidas que compartilham de minhas convicções liberais. Após seus comentários sobre os méritos desses economistas. na supressão de uma das mais escandalosas desi­ gualdades que são mantidas por pura demagogia: o ensino superior gra­ tuito para os filhos da oligarquia político/burocrática. Em outras palavras.

Já três governadores de estados são mula­ tos. As Forças Ar­ madas estariam refletindo aí um fenômeno de velocidade de integração vertical que se processa em todas as classes da nação. Um país notório por sua mobilidade horizontal estaria. E todavia prematuro pensarmos em democracia liberal e igualitária nas condições de extrema pobreza. pouco a pouco. com a correspondente baixa do padrão de qualidade. realmente interessadas em melhorar o padrão educacio­ nal deste povo. ven­ cendo as barreiras sociais oriundas da cor da pele. em nosso país de população majoritariamente mestiça e tão notórias diferen­ ças de nível educacional e cultural? Interessantes observações foram feitas por Alfred Stepan. ignorância. as estatísticas educacionais explosivas demonstram a multiplicação por dez no número de estudantes universitários nestes úl­ timos trinta ano. mas em proporções quase inéditas no cenário contemporâneo. forçar artificialmente a modernidade democrática nessas condições de extrema heterogeneidade. paternalismo político. A concessão de direitos políticos a menores e analfabetos apenas agrava a . no processo de integração racial e social. agora também. que demonstram o recrutamento de nossas forças armadas em níveis médios da sociedade. Elas testemunham uma verdadeira democratização do ensino. O caráter “aristocrático” da sociedade brasileira se está dissolvendo. como o professor e ex-Reitor José Carlos Azevedo. o que não ocorria há 20 ou 30 anos atrás. pois já encontramos filhos de operários e muitos negros entre os cadetes da AMAN. nas Universidades federais. Stepan aponta para o crescimento sensível do recru­ tamento em camadas cada vez mais pobres da população. em seus estudos sobre os militares na política brasilei­ ra. Senadores e deputados pretos se encontram hoje no Congresso. atraso cultural. Seria então possível adotarmos princípios europeus e americanos.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 317 nialista. Por outro lado. paganismo religioso e economia pré-capitalista ainda vigentes no que Lambert apropriadamente chamou o “Brasil arcai­ co”. regis­ tando fortes índices de mobilidade vertical que vão. Como antigo professor da Universi­ dade de Brasília fui testemunha direta desse aberrante privilégio que tanto compromete o esforço de pessoas. apesar de tudo. Constitui uma ilusão romântica perniciosa e que tem comprometido todos nossos esforços de consolidação política. Isso quer dizer que estamos lentamente avançando.

Ambos obrigatórios para os dois sexos. d e M e ira P en n a famosa discrepância entre país real e país legal. criminalidade. Integrado por judeus da Europa oriental e Alemanha — os ashkenazim — assim como sefarditas procedentes da Inglaterra e Países Baixos. de fermento integrador numa população heterogênea que nem mesmo possuía uma língua em comum: os judeus da Europa oriental falavam iidiche e eram miseráveis. viviam ainda em plena Idade Mé­ dia — totalmente distanciados das correntes mais esclarecidas. o Canadá ou a Austrália por exemplo. mau governo e estagnação eco­ nômica que (até o momento em que escrevo) nos oprime. Países melhor organiza­ dos. o caso de Israel. social. especialmente.318 ). com seus sonhos de utopia selva­ gem nessas farras periódicas de democratismo. injustiças. novamente. cultas e modernas da Diáspora. Israel absorveu um número equivalente ao de sua po­ pulação inicial. há quase 50 anos. a curto prazo. Avançarmos como bêbados atrás da flauta mágica de Darcy Ribeiro. Desde sua fundação e independência. Num país de estrutura racial. os da Europa ocidental se entendiam nas línguas dos respectivos países. e eventual elevação de nível das camadas mais desfavorecidas e marginalizadas da população. O núcleo formador do Sionismo é de origem européia. a confusão entre utopia e realidade exacerba as frustrações populares. Esses pa­ drões se universalizaram graças a dois poderosos fatores de integração: a educação universal e o serviço militar. de judeus oriundos de áreas extremamente atrasadas do Oriente Médio. como os Estados Unidos. refinamento e capacidade técnica impostos à nação. Foram os chamados judeus sefarditas (s'faradi). suportam esses desequilíbrios porque foram mais prudentes e confiam na absorção. Europa balcânica e África do Norte. Denunciada por Oliveira Viana e tantos outros ensaístas mais lúcidos de princípios do século. como os procedentes do Yemen e os judeus “pretos” ou Falacha da Etiópia. É pertinente e ilustrativo citar. sem que surjam transitórios desequilíbrios nos primeiros estágios da revolução industrial. Christovam Buarque e o Senador Bisol. Alguns. foi esse núcleo de elite que fixou os padrões culturais de alta so­ fisticação. cultural e econômica tão hetero­ gênea quanto o nosso — o “país dos contrastes” de Roger Bastide — é extremamente difícil permitir o livre jogo da iniciativa privada em regime de liberdades democráticas. O. Serviu a educação. os ori­ . só pode terminar na crise de desordem.

certa vez. linda. A característica universal não é apenas viril. uma das piores. Infelizmente. Inteligência desigual — A Bell Curve A verdade é que a inteligência é o único de nossos raras privilégios humanos com que todo homem e mesmo toda mulher. Aceitamos sermos feios. mas nenhum de nós assume sua própria burrice. Podemos nos julgar premidos por muitos bandicapa. As mulheres também. Acredito que seja uma velha herança colonial. embora menos ainda possam concordar com a idéia que sejam feias. fracos. Conta-se uma famosa gafe de Napoleão que se sentara. po­ . inibições. Assinalemos ainda que a elevada densidade demográfica e o exíguo terri­ tório do país aceleram enormemente a integração — o que nos leva mais facilmente a aquilatar os obstáculos consideráveis que se levantam a um processo cultural semelhante em nosso país. No dia em que um Presidente da República prometer realizar. entre Madame de Staél. qualquer que seja. uma mulher extremamente talentasa porém privada de dotes excepcionais de estética feminina. pecados e falhas. secretamente. domina até hoje a polí­ tica autoritária governamental que favorece a elite patrimonialista dos “donos do poder”. em cinco.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 319 entais tinham sido absorvidos pela língua e cultura medieval dos árabes. cinquenta anos de educação. insuficiên­ cias. e Madame Recamier. muitas fraquezas. desonestos. devassas ou covardes. nem as elites. se sentirá sempre suficientemente aquinhoado. enfermos. se resignam a serem pouco inteligentes. Sustentada no pre­ conceito que não se deve fornecer educação às classes servis para que idéias subversivas não penetrem em suas mentes. nem os governos brasileiros jamais se convenceram do papel primário e fundamental da educação no desenvol­ vimento de uma sociedade liberal mais econômica e culturalmente equili­ brada — e nenhum Presidente jamais se empenhou em favor da educação com o mesmo entusiasmo que dedicou a outras metas nacionais. vergonhas. homossexuais. raramente. a meta poderá ser alcan­ çada e a redenção dos miseráveis se tornará possível. Confessamo-nos. Podemos admitir muitas inferioridades.

. Mme. pela primeira vez. Como observou com ironia outro sociólogo da mesma linha crítica... o Impe­ rador dos franceses proclamou: “Estou sentado entre a inteligência e a beleza”. com a beleza dela. d e M e ir a P e n n a rém tida como não necessariamente genial. Dada a universal pretensão de inteligência da espécie hotno sapiens. explosivamente. A grande dançarina americana Isadora Duncan lhe teria sugerido gerarem um filho. alegando que o rebento poderia nascer com a beleza dele e a inteligência dela. colaboran­ do com o sociólogo e publicista Charles Murray. Isadora. se deve a esse dote cerebrino excepcional. não sabia que era bela!.. Herrnstein já sofrera ataques violentos em 1971 quando. de Staêl. não apenas não realizaram as metas grandiosas a que se haviam proposto mas. vaidosa. O resultado negativo advinha de privar os favorecidos do estímulo necessário a seu próprio esforço de superação das inferioridades. falecido em 1993.. por sinal . até Carter) em favor das minorias discriminadas. Mme. mas com reação diferente. Murray registou a dete­ rioração do Programa e o efeito contraproducente desse enorme projeto previdenciário sobre aqueles a quem era dirigido. é a piada atribuída a Bernard Shaw. O .. de negros principalmente e visando alcançar a utópica “Grande Sociedade”. publicou na revista Atlantic um artigo em que discutia a base genética da inteligência. criador de quase todas as vaidades. Do mesmo estilo. Kennedy e Johnson. Murray já se tornara igualmente conhecido e contencioso com uma áspera crítica aos programas “sociais” dos governos do Partido Democrático.320 J. o famoso teatrólogo. e a inteligência dele. tomaram as coisas piores do que eram. que todos os ambiciosos pro­ gramas sociais de “ação afirmativa” entre 1950 e 1980 (de Eisenhower. em termos de “luta pela vida” darwinista. Thomas Sowell. Querendo agradá-las. cuja superioridade no reino animal. Recamier sorriu.”. imediatamente retrucou com um sorriso irônico: “Sire. sob o título Losing Ground. A in­ dignação procedia do grupo de esquerda radical constituído pelos Studentsjbr a Democratic Society. tocada no seu pundonor. Shaw recusou-se à aventura. sobretudo em nossos países latinos sub-desertvolvidos. freqüentemente. do psicólogo de Harvard Richard Herrnstein. Juntamente com alguns críticos e observadores mais recentes e mais radicais. em Losing Ground Murray alegara. é expli­ cável o escândalo e a indignação que causou a obra The Bell Curve.

“a guerra contra a pobreza pode não haver trazido proveito aos pobres. outras obras já haviam ousado penetrar no terreno minado. De outra parte.. Numa sessão em 1978 da Ame­ rican Association for the Advancement o f Science. Falando na Escola de Comunicação e Artes da USP. que o esforço integracionista de burocratas em favor dos africanos teria como resultado criar uma elite de pretos altamente educados e qualificados. foram acolhidas com indignados brados de protesto anti-racista — pois ~*oderiam conduzir à teoria de uma inferioridade intelectual inata das pessoas de cor. No princípio dos anos setenta.C. Mas alguém reparou. Jensen demonstrara que os Q. estar prepa­ rando os fornos de Auschwitz.” Antes. Não é uma tese P. dessa alentada pesquisa. aos gritos de “racista” c “nazista” — como para demonstrar o apreço de tais cientistas com o princípio da tolerância e liberdade de pensamento e investigação. que corresponde à nossa própria SBPC. uma tesepolitically correct.I. um professor alemão. enquanto o coeficiente dos pretos cairia para 85. na Califórnia.I. Se por ventura comprovados. o professor Frank comparou a inteligência ao hardware de um computador. Tais conclusões.s dos estudan­ tes brancos seriam. selecionados na vasta massa medíocre de seus irmãos de cor. um psicólogo de Berkeley.O E srÍR rro d a s R e v o l u ç õ e s 321 negro.. em média. mas certamente enriqueceu muito intelectual. Sociedade Brasileira pelo Retrocesso da Ciência.. Um profes­ sor de Connecticut chegou a acusar Jensen de. levariam apenas à conclusão que são necessários ainda maiores esforços do Estado no sentido de corrigir os defeitos do ambiente social. como Hitler. na Europa. de 100.. um biólogo de Harvard que se tornaria famoso com a elaboração de uma nova ciência denominada Sociobiologia. Muitos esquerdistas argumenta­ ram que os testes de Q. Helmar Frank. foram “provavelmente falsificados”. Wilson foi fisicamente agredido com uma lata de urina. A cruzada contra os estudos de genética atingiu do mesmo modo Edward Wilson. a mais vio­ lenta controvérsia acolhera as pesquisas de Arthur Jensen. a nível experimental. com razão. de­ fendeu a tese que a herança genética seria responsável por 80% da capaci­ dade intelectual.. em contraposição ao software que é o programa que faz funcionar a má­ . de maneira a compensar os fatores genéticos. porém.

Estes hispânicos constituem hoje o elemento mais pobre da sociedade americana . O professor não proclamava qualquer doutrina aristocrática. O estudo chama-se Inecjuality — a Rcassessment ofthe Ejfect o f Family and Schooling in America.. ora de africanos. cubanos da Flórida e outros “latinos” — em sua maior parte mestiços. Christopher Jencks. sob a forma de um imposto negativo diretamente atribuído às famílias pobres.). de 12. ou seja entre nature and nurture . Só a assistência finan­ . que o fator genético representaria entre 70 a 80% dos traços de caráter. porém. um outro professor americano. cabendo apenas de 20 a 30% aos adquiridos pela educação cm sentido lato. de um debate em torno do problema da desigualdade econômica e social.3. Já há vários multimilionários na comunidade que também já elegeu o prefeito da cidade. publicou em 1972 o resultado de uma pesquisa de vários anos sobre as causas das desigualdades econômicas e sociais. DE M EIR A PENNA quina105. assim como sobre os efeitos corretivos que. eugenista. pela família e pela escola primária. a população estaria di­ vidida em três grupos. podia exercer a educa­ ção igual para todos. ora de índios. pode­ ria terminar com a miséria na América — como havia aliás pretendido o presidente Johnson em seu projeto da Great Society. A divisão se processaria segundo a capacidade que têm os homens de processar com rapidez e memorizar as informações fornecidas. por ventura. Segundo testes que teria empreendido. conforme é afetado. uma iniciativa de índole radicalmente socialista. O . no famoso debate entre geneticistas e culturalistas (eu me coloco preferencialmente entre estes. A tese é geralmente accita nos meios científicos espe­ cializados. os setores minoritários “hispânicos” — mexicanos do Texas e Califórnia.. nos primeiros anos de vida da criança. sendo o grupo de privilegiados composto apenas por 5% de super-dotados. de Skinner. Tratavase. na infância c adolescên­ cia. 106 O que não impede que os cubanos de Miami estejam se distinguindo por seu sucesso empresarial. Combatendo as teses do determinismo comportamental absurdo. Atingia.322 J . Um certo consenso existe. ele argumentava apenas que só uma redistribuição direta da renda. Seu objeto era principalmente a comunidade negra. Assessorado por alguns colegas. racista ou fascista. natureza e educação. .os H o Jornal da Tarde. evidentemente. As conclusões de Jencks foram consideradas surpreendentes e chocantes. porto-riquenhos de Nova York.92. não discriminatória. darwiniana. isto é.

editado por D. Explique-se a direção dos ataques e contraataques: desde 1965. maciçamente. a suntuasidade do Vice-Rei nado do Peru. quando se iniciou a “Guerra à Pobreza” pelo presi­ dente Lyndon Johnson já foram desembolsados pelo governo americano US$ 5 trilhões. O fato é que 75% desse dispêndio fabuloso foi absorvido pela burocracia que administrou o pro­ grama. ao que. para uma avaliação mais objetiva do relacio­ namento de tais pesquisas com a política previdenciária e igualitarista dos governos do Partido democrático americano. mas o número dos favorecidos não diminuiu. Curiasamente. a prata de Potosi. Já falamos nisso. a Justiça é mesmo em alto grau afetada pela influência familiar. julgando que tal recurso seria mais econômico do que o gigantesco Welfare burocratizado e “orçamentívoro” que nada resolve. Levine e M. Mas . Na obra The Inequality Controversy.J. que o problema da pobreza era normal na América à época da Independência. Rawis não nega a incidência do fator familiar no problema da igualdade — no­ ção que já figura entre nós na obra Raízes do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda. para melhorar a situação econômi­ ca das pessoas oficialmente tidas como pobres — as quais se recrutam. as grandezas do México. um dos gurus mais prestigiosos do movimento neoliberaJ e conhecido Prêmio Nobel de economia. tende a aumentar. o ouro da Vila Rica de Ouro Preto. mencionava-se a riqueza das colonias ibéricas. em princípios do século XVIII. Milton Friedman. é de notar que a definição de “pobre” corresponde.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 323 ceira direta do Estado aos pobres seria bem capaz de assegurar a vitória na “guerra contra a pobreza” (War on Poverty). Irlanda. nos EUA. península ibérica. John Rawls e sua Teoria da Justiça também entram na discussão. especialmente esta última que é hoje uma das regiões mais ricas c adiantadas do planeta. é mister recordar. Bane. Na teoria de Rawls. A controvérsia e o escândalo acompanharam as revelações daqueles universitárias. entre pretos e mestiços. o tema é amplamente debatido. Era normal. Que se recorde. em favor dos realmente indigentes. a miséria das áreas rurais da Itália meridional. cm toda a Europa. Ora. Islândia e Escandi­ návia. no Terceiro Mundo. dez vezes o PIB brasileiro. é franca­ mente estimado como classe média abastada. a fortuna de Buenos Aires. no século passado. já também sugeriu a luta contra a miséria através de um Imposto de Renda Negativo. aliás. com opiniões divergentes. Ora.

Steinbeck. Sinclair Lewis. O . Parece-me. A Curva do Sino. Liberal no sentido clássico. O tom frio. Os Estados Unidos começaram a enriquecer ao albor do século XIX. no entanto. a “curva de Gauss”107. Sowell e outros. Murray enfureceu a Esquerda principalmente por suas ligações com a administração Reagan/Bush. gênero New Deal de Roosevelt e Great Society de Johnson. Hemingway). o que quer dizer. que as percentagens estatísticas entre os dois patamares inferiores configuram em relação à grande média geral de frequência maior. Rothbard. objetivo c deli­ beradamente científico das pesquisas ofendeu o impulso emocional que se quer humanista. os hillbillies. filantrópico e moralmente superior dos propugnadores 107 Do nome do matemático alemão Carl Friedrich Gaus» (1855). .324 J . e do outro lado aque­ les que. contrário aos projetos dos socialistas incrustados no Par­ tido Democrático. sendo conside­ rada normal para os pretos antes e depois da Guerra de Secessão. que passou a denunciar o biß business e acabou. Continuou a pobreza. O fantasma do desemprego contaminou toda a vida urbana. Surgiram os que propunham e até hoje propõem soluções de tipo socialista. assim como para imigrantes re­ cém-chegados. seguindo as teses “libertárias” de Hayek. Era o mesmo para os brancos isolados nas montanhas das Carolinas e do Ten­ nessee. Largos setores da classe média foram atirados ao nível do proleta­ riado. argumentam que foi o próprio Estado quem. em alguns casos. Cruelmente padeceram os camponeses (farmers). À época da Grande Depressão. que eram donos de suas terras desde as reformas agrárias da época de Lincoln. John dos Passos. Murray. pro­ tecionista e nacionalista. O título. interessante elaborar com algum porme­ nor o exame crítico do livro de Charles Murray — obra considerável publicada em fins de 1994. repudiando o próprio capitalismo. se refere ao dese­ nho em forma de um sino. DE M EIR A PENNA das Treze Colonias inglesas da América do Norte ninguém se lembraria de lhes mencionar a fartura. por conseguinte. que estudou as freqüên cias. se tomou responsável pelo agravamento da ca­ tástrofe econômica. com suas intervenções intempestivas e ineptas. de origem escocesa. o sonho da Boa Vida (the Pursuit o f Happiness) que embala a sociedade americana sofreu um rude golpe. dando nascimento a uma literatura de índole esquerdizante (Faulkner. de caráter restritivo. Friedman.

. A distorção quanto aos propósitos do livro começa nessa altura: Murray..I. que não está mais aqui para defender-se. Um fenômeno universal que. possivelmente.. O sociólogo serve-se. em seus Essais. o desgosto com o intervencionismo estatal é o que alimenta as soluções.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 325 do Welfare. o futuro Presidente republi­ cano dos EUA não tardarão a examinar com mais interesse as conclusões c propostas de Murray e Gingrich. poderíamos citar Rober­ to Campos para quem estatística é como um biquíni de gatinha de Ipa­ nema: revela muito mas esconde o essencial. para ilustrar o ponto a que deseja chegar. não é esse o ponto central do arrazoado de Murray. ditas neoliberais.é. efetuados por Hcrrnstein e outros pesquisado­ res de outras instituições. que é um estudioso sério dos problemas UwQuocicnrc de Inteligência. Mises atribui o preconceito originariamente a Montaigne. A tese constante é devida exclusivamente ao falecido Herrnstein. . alguns já mencionados acima. abolir a legislação previdencialista. i. privatização de empresas estatais e redução do intervencio­ nismo. Como também entre nós.. o que mais sensação causou na “curva do sino” foi a a 108 constante referência ao I. Ora. da quantidade de estudos sobre os Q. O autor começou logo a ser denunciado como racista — pois o que propõe é. a respeito desse tipo de argumentação de base matemática. Naturalmente. embora nos encontre como sempre na rabadilha da modernidade. É verdade que. Ele já pode ser descoberto nas divagações de Rousseau. atinge Murray no seu próprio coração a utopia mais cara da esquerda. a saber que a pobreza resulta de instituições defeituosas e pode ser corrigida pela legislação e a intervenção estatal. Sabemos hoje que esse mito tem mais de 300 anos. seu desmantelamento total! Quantos milhares de funcionários se considerariam ameaçados! Ao atacála. Imagi­ nem o que aconteceria se alguém se atrevesse a sugerir. mas é sustentado numa profusão gigantesca de dados estatísticos. simplesmente. como receita para a nossa própria corrupta e inepta Previdência.Q. que os brancos sejam mais inteligen­ tes do que os pretos. comprova sua potência ao aparentemente converter personalidades tão vinculadas à social-democracia como nosso charmoso e inteligente Presidente Fernando Henrique.. de redução do tamanho da burocracia. simplesmente. Tudo indica que o atual Congresso americano e. Sem dúvida o argumento contem algumas incoerências.

“Quando se deixou de acreditar na justiça divina. por força de sua condição de nascença. DE M E IR A PENNA sociais. não escreveu para provar que os brancos sejam mais inteligentes do que os pretos (e os asiáticos orientais mais inteligentes do que os brancos). na estrutura social aristocrática de todo o Ocidente antes da revolução democrática. Sendo assim. que as diferenças de renda e fortuna resultam de muitas causas arbitrárias. Vale assinalar que esse tipo de estrutura social foi aquela que se populari­ zou em nossa terra com as teses dos positivistas do século passado e dos marxistas do nosso: ambas as ideologias imaginavam uma sociedade “científica”. é apropriado que as sociedades arranquem das ricos para dar aos pobres”. Murray insiste no que todos nós sabemos. mesmo sc geniais. impõe um sistema paternalista e tirânico de base científica. de uma sociedade futura dominada por uma classe de Alphas. Os filhos de famílias nobres. intelectualmente capazes e supremamente educados e informados. as diferenças eram mantidas pela herança familiar. outrora. passou-se a arguir que a distribuição da renda é inerentemente injusta. Na primeira fase do capitalismo também: os filhos de pais . Murray procura traduzir em termos científicos a tese crítica de Huxley. não com aprovação mas com perplexi­ dade. A maior parte das pessoas ricas não ' merece’ sua riqueza. O fosso que Murray antecipa. malandros ou honestos. além das diferenças intelectuais constatadas. dirigida por uma elite intelectual de cérebros puritanos ex­ cepcionais que impunham a Justiça pela força. a renda ou fortuna de uma pessoa era atribuída a um julgamento de Deus sobre essa pessoa. o Caliban e o Behemoth.326 J. em seu famoso “O Admirável Novo Mundo” (Brave New World). Ele explica de modo interessante que. mas para prevenir o público que um grave fosso social se está criando entre a parte mais culta e inteligente da população americana — a elite que ele qualifica de aquinhoada com maior “capacidade cognitiva” — e a parte menos dotada cerebralmente. Mas “a relação estatística que documen­ tamos entre um baixo teor cognitivo (low cognitive ability) e a renda constitui nova evidência que o mundo não é justo (fair)”. tinham. antes de ler seu livro. que ao comum dos mortais mais estúpidos. O. privilégios de que os plebeus não gozavam. Seria esse o argumento básico do socialismo. Antigamente. quer fossem burros ou inteligentes. nem os pobres merecem sua pobreza. poderá provocar perigosos desequilíbrios.

administradores. o que hoje acontece — e é esse o cerne do argumento da Bell Curve — é que a aristocracia de título ou de fortuna herdada. cientistas. A observação da realidade social nos países mais avançados e naqueles que estão em desenvolvimento rápido. que cada um deve receber de acordo com suas necessidades e com seu trabalho (com prerrogativas especiais para o trabalho braçal sobre o trabalho intelectual) — admite-se agora. O que teme Murray são as conse­ quências sociais dessa dicotomia social. inerente 4 sociedade. . os grandes bancos e indústrias. Bill Gates. A meritocracia da inteligência de que fala Murray é simplesmente essa. poderá registar um crescimento explosivo do fosso. está sendo progressivamente substituída por uma meritocracia fundamental. A tendência mundial é favorecer cada vez mais o segundo tipo de afortu­ nado. Vejam o contraste entre os dois homens tidos como os mais ricos do mundo: um. o Sultão de Brunei. Substituindo o antigo princípio socialista. é o fundador e dono da Microsoft. como é convicção dos esquerdistas. políticos. em que só conta a capacidade intelectual. que aquele que exerce uma função intelectualmente mais complexa e difícil (empresários. como o nosso. seria atribuível a qualquer condição externa. mesma nas empresas capitalistas. o que parti­ cularmente irritava o sentimento de justiça de Marx e dos socialistas “utópicos”. em detrimento do primeiro. é pratica­ mente dono de seu pequeno país e sua fortuna é de origem puramente patrimonialista. o outro. mas por execu­ tivos formados em Faculdades de administração que podem ser de ori­ gem muito modesta. vulgari­ zado inicialmente por Marx. mais comumente. empresa de informática que desenvolveu graças a seu gênio tecnológico. a criminalidade que estaria indiscutivelmente vinculada à menor capacidade de discernimento do criminoso — e não. executivos. artistas e escrito­ res) merece uma retribuição maior. não são mais admi­ nistrados pelos familiares de seus respectivos fundadores. que julga crescente: entre outras coisas. Era esse tipo de injusti­ ça dos rentiers — preguiçosos que viviam da herança paterna. intelectuais dos mídia. Ora. As grandes corporações. profissionais liberais.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 327 ricos herdavam uma fortuna que lhes garantia privilégios econômicos independentemente de sua capacidade intelectual.

o que quer dizer. existe entre a intelectuária de esquerda uma igualmente obsessiva repugnância ao conceito de elitismo. A palavra elite vem. Há uma elite de gênios no pensamento humano. o conjunto dos melhores. Preferimos os escritores que se encontram entre a elite das letras àqueles que são considerados medíocres. é mais forte do que Você ou eu. quão tolos podem ser esses mortais!” — Sonho de uma Noite de Verão. III. o seremos também em inteligência e valor morai. Não há por que duvidar desse fato. ou um Mike Tyson. ou se a beleza de Sharon Stone é mais esplêndida do que a de sua namorada. de campe­ ões. coloca tolos como Celso Furtado. a fina flor ou escol dos concorrentes. e a “filósofa morena” da USP Marilena Chauí? Esses dois me fazem lembrar Shakespeare: Lord. I Ora. eleger. Nessas condições. numa vasta maioria cinzenta e não-seletiva. branco (não obstante o nome). a elite dos cantores popülares. pelo francês élire. nesse caso. Do mesmo modo. whatfools these mortais be!m " w “Senhor. em qualquer tipo de atividade. O sentimento é curioso. os melhores. escolhe ou pretere o melhor. elege­ mos as políticos que julgamos serem os mais capazes de nos governar ainda que. a elite do futebol. O povo tem perfeita consciência disso ao cultuar. a elite dos pilotos de Fórmula 1. com por exemplo. aberrante e contra-producente e só pode ser explicada à luz de uma mentalidade cafajeste e massificada que deseja igualar todo mundo por baixo. Se um Schwarznegger. negro. DE M EIR A PENNA Em correlação com o igualitarismo obsessivo. de santos. o planejador-mor da seca nordestina. e assim por diante. diferentes nas condições gené­ ticas fisiologicamente mais evidentes. toda condenação de elitismo é ca­ prichosa. em qualquer setor.328 J . O . de modelos e “estrelas” das artes. Mas quem se resigna a aceitar a tese espantosa de Gilberto de Mello Kujawski que. por um defeito secreto no método de seleção. Com isso se cria a elite que con­ figura. . se os homens são diferentes entre si. Qualquer pessoa normal e de bom senso elege. dificilmente podemos qualificar o nosso atual es­ tamento governamental de constituir uma elite. ao lado de notórias homeas inteligentes como Roberto Campos c Fernando Henrique Cardoso. mulher ou irmã — nós todos acabamos nos resignando. como há uma elite de heróis. do latim eligere. E triste mas é óbvio: somos uns mais inteligentes do que outros.

alegando ainda que “a ciência fornece ao ódio uma face respeitável”. The Bell Curve Debate. estão justamente aqueles que se recusam a levar em conta os frios argumentos dc Murray. entre outros. Paulo Francis'( 18.11. os contrastes econômicos c culturais. Ruanda ou a Libéria onde o problema poderia ser empiricamente observado.. dc autoria dc Tom Morganthau.12. não debate o lado científico do arrazoado. como prova da alta inteligência dos africanos.. nobre os conceitos dc raça e de cor. Newsweek acrescentou uma nova edição com uma reportagem dc capa (13.95). invoca o gencricista italiano Luca (lavaliiSforza. parecem acusar seus adversários de responsabilidade pelas “injustiças". Sharon Begley. contem oitenta longos artigos a favor e contra. para .Paulo. saíram a respeito do livro nas grandes revistas e jornais americanos e aqui também. Um editoríalista do Jornal da Tarde limita-se a lançar contra Herrnstein e Murray uma serie de injúrias e obscenidades. Uma leitura menos apaixonada do trabalho demonstrará que. publicou quarro páginas a respeito. lá como no Brasil. “Vicentinho” oferece o terrorista Malcolm X. insinuando o racismo do sociólogo. c o biólogo Richard Ixwontin.94. Fátima de Oliveira.. 110 No Brasil.O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s 329 Uma enxurrada de artigos.10. Uganda. com a “perversidade de alguns conceitos” racistas que lhes atribui. acredita apenas que “a historia sugere que eles (os autores) estão errados”. Ate o erudito e verboso Vicente Paulo da Silva se atreveu a acusar os autores da obra dc se colo­ carem “na contramão da história”. idem.. no vasro espectro de opiniões que circularam em torno da obra1lü. contudo. obviamente. Ivan Martins. dc Harvard. acusa simplesmente Herrnstcin e Murray de procurarem inaugurar uma “política nacionalista e eugenista semelhante à de Hidcr”.12.. também no Estado. o fato que cxs contrastes discriminatórios entre "have" e “bttve not" eram c continuam sendo bem mais graves cm regimes onde o governo controla a economia. que também escrcvc nesse número da Newsweek. o Zaire. josé Castello. invariavelmen­ te.. A demonstração dos contrastes de riqueza e pobreza é um conhecido gambito dos socialistas que. arrogante.94) é o único comentarista brasileiro (dos que eu tomei conhecimen­ to) que percorre o livro com um exame objetivo e lúcido. N lo modifica a situação a circunstância que a América é o país mais poderoso c rico da terra. da Universidade de Stanford. O objetivo dessa nova critica era. Para contrariar a Curva do Sino. Não menciona.2. editado por Russell Jacoby no Times Books.. sendo que os dois professores “pregam uma verdadeira caça aos idiotas”.94. e ensandecida”. de domingo 18. destacando o aspcctw polírico que tomou a controvérsia. A revista Newsweek.. na contramão da história. da ciência. os que possuem algo e os que nada possuem”. compusto dc etnias extremamente heterogéneas o que explicaria. de 24. sempre silencian­ do. apresentou um artigo dc capa sobre “os Have e os Have-not. em sua grande maioria críticos. em Exame dc 9. entretanto. continu­ ar o contra-ataque às teses dc Murray. como exemplos de “sociedades baseadas na desigualdade e na exploração”. a Etiópia. para só citar alguns: O Estado de S. Ela c também um país multirracial. mas fala na “ideologia totalitária.

William Safire. Krauthammer.1. com contribuição dc conhecidos intelectuais como Nathan Glazer. O anti-racismo do tipo CavalliSforza me parece ocioso e não menos contestável do que o racismo fantástico de Gobineau. uma pletora dc provas históricas de tais diferenças que. no entanto. publicado na revista Dtojfène. os méritos de nossa solução ao probkma racial — pela não-conscientização das diferenças de raça — no capítulo 3. se encai­ xam precisamente nas teses darwinianas hoje geralmente aceitas pela ciência. se existem “genes" de inteligência. Em poucas palavras. da UNESCO. 1. acaba dc publicar (Julho 1995) uin livro sob o título The Bell Curve Wars. Our/Dez 1980. Foi isso. O Basic Books. o qual com muito bom senso salienta que devemos eliminar a “conscientização” das raças e das cores. III. se levarmos cm conta o grau predominante dos fatores culturais sobre o nível intelectual de uma população. Cxiin todo respeito ao eminente antropólogo italiano. segundo a revista VEJA (de 18. com brilhante resultado. e outro com o título Le Masque et le Duuble.330 J. tendo como editor Steven Fraser. o que fizemos no Brasil111. Editora Forense. O pluralismo étnico é um valor positivo para a criação da sociedade ecumênica e fraterna do futuro. dc meu livro O Brasil na Idade da Razão. pode-se contes­ tar que não existe tampouco base científica conhecida para a afirmação contrária. enriquecendo o potencial criador da hu­ manidade. no Jornal do Brasil. . A ausência de “consciência” racial é imprescindível às sociedades pluralistas moder­ nas. devem ser igualmente distribuídos por todos os grupos étnicos. de maneira a perpetuar uma classe inferior (under class)”. um argumento que parece realmente absurdo se levarmos em conta a prova histórica e a prova empírica atual das desigualdades entre as populações. discutindo os problemas de Raça. sustentado nos estudos dc Gilberto Freyre.1 Sugeri. nem por isso podemos negar a existência dos genéticos: a responsabilidade científica para provar o contrário compete àqueles que argumentam com a “igualdade genética” das raças. de M e ir a P en n a No meio do conflito. que “não há base cientifica conhecida para a afirmação de que uma população é intelectual ou fisicamen­ te supenor a outra". Ele reproduz c amplia dois artigos publicados em maio de 1972. devemos selecionar a opinião de outro crítico americano. O capítulo tem como título “Preto no Branco”. No International Herald Tribune de 21. isso sim. acredita que “o que desagrada é o argumento scholarly que a poiítica governamental não deve encorajar a procriação entre os menos inteligentes. Ora. Inteligência e o Futu­ ro da América. Rio 1980. cm seu livro Black into White. conhecido comentarista.X.95). Mas existem. O tema e rítulo foram também utilizados pelo “brazilianista” americano Thomas Skidmorc. Entre as contribuições está a de Martin Peretz que se preocupa com a “erosão dc nossa fé nacional na igualdade” — assim revelando os motivos secretos pelos quais a obra de Hcrmstein e Murray causou tamanha controvérsia.94. seja dito. Stephcn Jay Gould e Thomas Sowell. parece-me que Safire alcançou o cerne alegar que. O . Cavalli-Sforza declara.

The Mismeasure of Man (1981). Sheldon. . nos EUA. co­ nhecido pela divulgação de seus livros. com o tom irônico c <Jc ceti­ cismo olímpico que gasta de demonstrar. obviamente. 22. por exemplo.1.H. o caráter quase que exclusivamente política das criticas feitas à obra. que “Charles Murray e o ZeitGcist fazem uma tremenda combi­ nação”. pretendeu usar a mesma técnica de fotografar corpos nus para es­ tabelecer o grau de inteligência das pessoas. As críticas assassinas foram. um primo de Darwin que é considerado um das iniciadores do darwinismo social radical. 112 A prestigiosa revista inglesa The Economista dc 22. sua luta contra a sociobiologia do outro biólogo de Harvard. segundo a revista. dos quais 80% nas favelas e só 22% dc pais brancos. e uma obra. de 1869. Ele chegou a propor ao governo britânico a organização de um arquivo de fotografias de pessoas inteligentes. acrescento eu) não conseguem engolir. ao tentar explicar por que o livro causou tamanha discórdia. Edward Wilson. ao do eugenismo de Sir Francis Galton (1911). observa apenas. Tão eminente quanto Safire. Dados que registam o fato dc que 68% dus nascimentos cm 1991. de modo algum. retratadas nuas. o biólogo de Harvard Stephen Jay Gould. a fim de selecionar as que mais mereciam reproduzir para criar uma elite genial. é sobrt a influência da m teiifincia na estru­ tura de classes. feitas praticamcntc sem qualquer leitura da evidência objetiva apresentada pelos aurores ou comprccnsào dc seu arrazoado. deveria comprometer a tese de Murray. Um artigo de Ron Rosenbaum no The New York Times Magazine (Estado de S. As “fotas de pastura” consti­ tuem uma aberração do eugenismo radical que. em sua obraHereditary Genius.94. Paulo. assinala Jim Powcll.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 331 da questão. mais antigo ainda. W. o problema social gira centralmente em torno da expansão demográfica das classes pobres da população. Do outro lado da ccrca c escrevendo duas resenhas para a revista do Laissez-Fairt Books. O livro de Murray não i sobre raças.10. são dc crianças ilegítimas — o que leva os autores a identificar pobreza com baixo teor de inteligência — é o que. Galton alegou. com muita propriedade. <w precon­ ceituosos sociólogos (dc inspiração marxista. No Brasil também. elaborada num nível absolutamente di­ verso de investigação científica112. de ataque sarcástico às tentativas de sábios racistas de relacionar a superioridade de certas raças através de medições antropométricas — combate indiretamente as teses de Herrnstein e Murrav ao for­ temente enfatizar os fatores ambientais sobre os genéticos. que a inteligência é hereditária.95) prova que grande parte do repúdio à obra de Murray c Herrnstein se deve à presença contínua do espectro do Terceiro Reich e.

pela primeira vez com grande dose de objetividade. que os pesquisadores têm sido relutantes em examinar mais aprofundadamente os Q. mantenho a importância e valor social extra­ ordinário de uma pesquisa que demonstra. no capítulo 13 do Bell Curve. Pergunto: que equivalência intelectual existe entre o eminente protéssor Jaguaribe c o molequinho analfabeto que mencionei mais acima.332 J. por exemplo (a páginas 289. Devemos acentuar no entanto.000 yovens de 14 a 22 anos. 48% dos pobres se recrutavam entre os 20% de menor “capacidade cognitiva”.s de africanos na África porque. que numa pesquisa nacional nos EUA entre 12. os autores debatem pormenorizada­ mente as diferenças étnicas na capacidade cognitiva (Cognitive Ability). não haveria exames nas Universidades. Na verdade. Se tal anti-elitismo radical fosse verdadeiro. O . cego. não haveria nem mesmo eleições democráticas: se todos são iguais em inteligência.). não haveria competições atléticas e desportivas. e que 62% dos que foram entrevistados nas prisões e penitenciárias procediam. E para isso recorrem à alegação absurda que “todo o mundo possui exatamente o mesmo grau de inteligência” ou. opus cit. d e M e ira P e n n a O preconceito igualitarista é. por exemplo. E Gilberto Amado já anun­ ciou outrora. o que os críticos objetam no raciocínio de Murray são suas propostas dirigidas contra o sistema de Welfare americano. que “a inteligência não é uma característica humana sensível” sobre a qual estabelecer critérios seletivos. No Brasil. o que se constata é que.I. Eduardo Giannetti da Fonseca já demonstrou suficiente­ mente a relação mútua entre pobreza e expansão demográfica. não haveria seleção de execu­ tivos nas empresas. não haveria concursos para ingresso no serviço público. em comentário às críticas aludidas. ainda. “povo pobre é povo burro”. por que não colocar o lixeiro da esquina na Presidência da República? Recorro a meu velho exemplo do professor Hélio Jaguaribe. o relacionamento negativo entre inteligência e po­ breza113. em frase antológica. guarda de seu automóvel de luxo diante do Country Club? Contrariando esses pontos de vista irracionais. . num pano de fundo de anti-racismo emocional. defensor entusiasta do igualitarismo social absoluto. a média tem registado um índice 10% mais Murray assinala. que. do estamento dos 20% de menor inteligência. Eles notam. igualmente... Os pobres são prolíficos e os prolíficos são pobres. nos raros casos de testes de inteligência efetu­ ados naquele continente. absorvente e fanático. no entanto.

Professor na Universidade de Stanford. Refere-se Sowell às origens exatas da escravidão africana nos EUA. Como. sofreu combate e supressão. de­ sumana. continua-se afirmando que “o Brasil foi o último país do mundo a abolir a Escravidão” — o que é. transtrirmou milhões de seus súditos em vítimas de trabalhos forçados no arquipélago Gulag. No século passado. e ele próprio preto. potência que.s dos pretos subiram uns 10% desde a época em que principiaram a ser coligidos. Com extraordinária coragem mostra a podridão dos pratos que os intelec114 Nos anus 50. por outro lado. atiia. . nos EUA. quando servi na Missão brasileira junto à ONU. observando que número muito maior de escravas pretos se dirigiram ao Oriente Médio muçulmano do que à América nos trezentos anos em que durou o tráfico. deduzse. Tudo era. a escravidão africana notoriamente perdurava. No caso brasilei­ ro. Sowell arregimenta um volume enorme de argumentos para demonstrar o efeito do pluralismo cultural sobre o de­ sempenho das nações e das comunidades étnicas dentro de cada nação. através dos anos — os Q. a intelectuária de es­ querda se dedicou com afinco a denunciar o Ocidente como se exclusi­ vamente responsável pelo tráfico e por sua manutenção.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 333 baixo do que entre os pretos americanos. na Califórnia. passando a declinar na última década. obviamente. que a escravidão sem­ pre existiu no passado e. Cari­ be e Brasil. de Thomas Sowell. No entanto. Sowell dedica-se a derrubar os ídolos da esquerda e denunciar a indigna­ ção seletiva e o duplo padrão de julgamento moral que compromete a argumentação nesse contexto. manobrado pela propaganda da URSS. porém. Nos capítulos “Raça e Política” e “Raça e Escravidão”. participei de vi rios deba­ tes cm torno do tema que ainda constituía um item na agenda da Assembléia Geral. em todas as culturas. Foi no Oci­ dente. que ela. a Arábia Saudita. pela primeira vez. foram os ingleses e americanos que tomaram a iniciativa de acabar com a instituição. são culturalistas e evolucionistas. primitiva e anti-econômica. contrariando o que alegam os inimigos do livro.I. eles tambcm registam variações nos resultados dos testes. Um dos mais terozes porta-vozes das denúncias contra o Ocidente era um delegado árabe cm cujo país. considerada na época como “peculiar”. Um outro bom trabalho destinado a desfazer os preconceitos e dis­ torções ideológicas se encontra em Race and Culture. uma mentira histórica114. na época de Stáline. que Murray e Herrnstein não são racistas. praticamente. o sociólogo demonstra. por exemplo.

Q. Mas elas só fazem sucesso estrondoso quando são dirigidas contra as nações democráticas ocidentais. O .000 dólares! E. A renda média individual em Bar­ bados ultrapassa as US$7. . Sc a mesti­ çagem afeta obviamente o genoma individual. que são hoje nações independentes. basta ter uma gota de sangue europeu para tornar-se branco. O professor Davis discute longamente a obra de Smith nesse contexto. um mulato claro excepcionalmente capaz cuja ascendência inclui também 1 Um exemplo dc distorção absurda da verdade histórica c apresentado por Sowcll que cita a obra The t>n>blem o f Slarrry in the A/je o f Revolutio» na qual o autor. sem prc-julgamento. Verifica-se. cambi­ ante. mas em relação aos próprios pretos america­ nos. ao serem avaliados. aliás. argumentando que o grande economista escocês era porta-vo/. por hipótese inflexível. acusa o Movimento antiescravagista que sc desenvolveu na Inglaterra cm fias do século XVIII de refletir as necessi­ dades c valores da nova ordem capitalista. como se deve então classi­ ficar um mulato em termas de I. Barbados. no entanto. no Brasil. etc. como Caio Prado )r.334 I. Jamaica. inclusive o Brasil. figura cm livros dc historiadores brasileiros da economia. Já foi dito. verdadeiro que uma parte pelo menos da confusão cri­ ada pelo arrazoado da Curva do Sino parece oriunda do fato que Herrnstein/Murray não fazem diferença entre africanos puros e mestiços.. essas ilhas da América Central. que nos Estados Unidos basta ter uma gota dc sangue africano para ser qualificado de preto enquanto. com muita pertinência. A afirmação c monstruosa para qualquer pessoa que ler. maior grau de inteligência média não só em relação aos africanas e pretos do Haiti. DK M EIR A PENNA tuários “politicamente corretos” oferecem ao paladar mal condicionado do público ignaro115. Incidentalmente. de inteligência? Não caberia uma classificação especial? Vejam um exemplo: o general Collin Powell. Trinidad-Tobago. As mentiras históricas abundam por toda a parte. por exemplo. a obra dc Smith. revelando perfeita ignorância e preconceituaçâo ideológica. A mesma caluniosa tolice. se combina inextricavelmente com o fator genético. David Brion Davis. revelam. gozam de um PIB percapita superior ao de qualquer país ibérico da América. dc que a economia política de Adam Smith seria também reflexo. O que se conclui de ambos os trabalhos é que o fator cultural. dos interesses dos latifundi­ ários. nos testes efetuados entre imigrantes africanos de nacionalidades diversas: os pretos das antigas colonias britâ­ nicas do Caribe.

que quali­ ficam os dois autores de racistas. médio dos italianos nos EUA evoluiu de 92 para 100.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 335 sangue de índio e de judeu. depende exclusivamente das melhores condições de saúde e alimentação. ele observa. aliás. por exemplo. assim como de políticas mais sábias de educação.I. A acusação de racismo é hoje levantada com a maior semcerimônia1 6. que chutou na tela da TV Record uma imagem da Virgem dc Aparecida. desde 1920 quando tais resultados de grupos começaram a ser constatados. que foi Chefe do Estado Maior Conjunto e tem sido constantemente mencionado como possível candidato à Presi­ dência dos EUA.I. empírica e não-emocionalmente. a dc que o dito pastor (que ainda por cima usa a partícula iw». Nesse ponto. . em sua pesquisa. na obra. que “as difc1lft No escândalo causado cm fins dc 1995 por um “pastor" da “Igreja Universal do Reino dc Deus” do “bispo” Macedo. cognominado Flynn Ejfect. Sowell denuncia o vocabulário ideológico que compromete 0 debate. esposa de José c mãe dc Jesus dc Nazarcth. registado na faixa dos brancos ou na faixa dos pretos? Para contrariar as acusações histéricas dos críticos do livro. Sowcll dedica um capítulo inteiro ao problema da “Raça e Inteligência”. destaquei no meio da extraordinária quantidade dc argumentos cafajestes c absurdos que os contendores do fanatismo religioso se lançaram mutuamente. o Q. supostamente. o debate ridículo entra na raia da cmpulhaçio total. que demonstraria o lento crescimento dos resultados dos testes de Q. e mais ainda nas sociedades modernas com populações geneticamente misturadas. deve ter seu Q. como acentuam. e como seu livro foi publicado no mesmo ano do de Herrnstein e Murray. é de crer que sua elaboração seja independente. Destacando a dificuldade de discutir a questão racional. logica. Outro fato relevante é que Murray e Herrnstcin se reterem constantemente.). Acresce que o conceito de raça é impreciso e ardilaso. representa Maria. O dos soldados americanos testadas na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais subiu 12 a 14 pontos. seria suficiente assinalar que o capítulo 17 do Bell Curve tem como título “Elevação da Capacidade Cognitiva” (pgs. de conotações nazistas) era racista c atacou a imagem porque esta é preta. Não há menção de Murray. 389 e ss. ao trabalho do psicólogo James Flynn e seu teste. que tanto quanto se sabe eram todos brancos.. o dos poloneses de 91 para 109. No período desta geração. A imagem de fato pode ser preta mas. Para colocar os pontos nos ii e dissolver a fraude. Essa elevação.I.

como entre nações — mas temos sempre que levar em consideração a quase impos­ sibilidade de separar. . o sociólogo adverte para as diferenças entre o abstrato.”. nas abstrações que não requerem um vocabulário ou informação de elasse-média”. as influências hereditárias e as ambientais 117 A ironia é que os políticos de esquerda. A verdade. particularmente quando c a socie­ dade ocidental”. M eir a P en n a renças de comportamento entre os grupos raciais e étnicos são ideologi­ camente embaraçosos para aqueles que desejam apresentar as diferenças de renda e ocupação entre tais grupos como refletindo diferenças de tra­ tamento dos grupos pela 'sociedade'. .. Ora. um estudo das diferenças inter-grupais c internacionais nos testes de performance mental deve levar em consideração não apenas os preconceitos seletivos. Sowell oferece o exemplo dos jogadores de basketball. “O tabu contra a discussão do relacionamento entre raça c Q . no correr da história e em proporções exatas. os negros e os intelectuais ideologizados tomaram-se partidários da supressão da evidência. geralmente pretos. Os dados dos testes de Q. A demonstração pode ser feita cm grande quantidade de testes de grupos mesmo europeus. “os grupos inferiorizados nos testes se revelam mais fracos nas questões não-verbais. que tem de tomar decisões cm milésimos de segundo. Outra forma de distorção é culpar os colonizadores (por exemplo. os ingleses na Malásia e na índia) de favorecerem um grupo em detrimento de outro — quando o que geralmente ocorre é que nas socie­ dades primitivas. como acentua Sowell. são significativos. do mesmo modo como nas modernas. é que “ninguém acredita que uma compreensão da ciência seja hereditária. revelando nessa velocidade dc comportamento uma rapidez mental que não encontraríamos cm atividades intelectuais consideradas superiores. o matemática. a fim de crer que seja econômica c socialmente significativa”. mas uma série tão grande de outros fatores que sua elaboração pode se tornar inexequível. qualquer que possa ser a variedade de interpretações resultantes. salienta Sowell.336 J."tem o efeito perverso dc congelar uma maioria de especia­ listas cm testes dc inteligência cm favor da crença que as diferenças são influenciadas (exclusivamente) pela genética”. mesmo no caso dc testes dc capacidade meramente física. O . nenhuma crença pode scr desfeita se não for discuti­ da. impe­ f * 117 Ni complexa controvérsia gencrica X ambiente. Quase que invariavelmente. grupos sociais se colocam sempre hierarquicamente acima de outros grupos. Pode-se fazer compa­ rações não só entre grupos dentro de uma mesma sociedade.. Na seleção de testes. DF. como em desportistas e atletas. o verbal c o concreto. Por outro lado.I.I. e impos­ sível abstrair a dimensão mental.

o meio social e cultural afeta predominantemente os testes de inteligência. comparado com 1200 pretas. O que. geralmente superiores aos homens nos testes verbais de I. E o resultado da combinação de fatores genéticos. um vasto espectro de fatores de habilidade. “Num clima de opinião em que a sub-representação é equacionada com discriminação. Mas parece quase impossível que uma questão tão complexa e de tão variadas facetas quanto o conhe­ cimento inato do homem e sua inteligência (rapidez de compreensão. Do mes­ mo modo. SAT) para ingresso nas grandes Universidades de elite. O que é importante. não se pode forçar o ingresso de mulheres no MIT. em relação a pretos e hispânicos118. culturais e aleatóri­ os. o famoso Instituto de Tecnologia do Massachussets. pela ausência de um número suficiente de pretos diplomados para se submeter aos restes. Sowell também ataca vigorosamente o resultado de tais preconceitos e das medidas artifi­ ciais. conclui Sowell. Se as grandes Universidades (a chamada Ivy League) recruta um número desproporcionadamente maior de brancos e asiáticos.. isto é. Numa obra que escreveu com um famoso pesqui­ sador do cérebro. MH Por exemplo: cm 1983. em suma. nenhuma in­ tervenção governamental para corrigir essa desproporção tem cabimento. é a capacidade de predição dos resultados obtidos com os testes no que diz respeito à futura carreira dos jovens.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 337 dindo com isso um melhor esclarecimento da disputa. John Eccles. com tudo isso fica demonstrado é que a cultura. criatividade e intuição que parecem ser independentes da pura “capacidade cognitiva”. Esta não pode ser considerada apenas com um dom hereditário dos indivídu/ os. Não adiantaria forçar a entrada dos mesmos pois a sub-representaçio continuaria. e que tem como título The Sclf and Its Brain. cada nível de escolas superiores será forçada a admitir estudantes de minorias étnicas que sabe perfeitamente não poder conservar academicamente”. Existe. destinadas a favorecer o recrutamento das minorias raciais inferiori­ zadas nas instituições de ensino superior. sessenta mil brancos passaram nos testes dificílimos (SchaUutit Aptitude Test. perdem nos testes abstratos e matemáticos.Q. . Sir Karl Popper acentua muito claramente que “parece provável que haja diferenças inatas de inteligência. tanto no discurso político quanto no legal. que é uma das mais importan­ tes instituições de ensino de engenharia e ciências abstratas — sabendo-se que as mulheres. na mente humana.

evidentemente. por hipótese. Popper. de um Aleijadinho. digamos. seriam reprovados em seu Q. no entanto. já tivemos loucos na suprema magistratura do país e recentemente. sobre o destino dos grupas étnicos pode ser oferecida pelo que aconteceu com os judeus ashkenazim cm Nova York.. de maneira alguma. que era um idiota. com razão. Às vezes. insiste que a criatividade deveria ser investigada..338 J . por um desses inacredi­ táveis caprichos do destino na política deste país tido como pouco sério. e que uma criança extrema­ mente talentosa possa sofrer de dislexia. provavelmente.I. de uma intclligence du coeur. Quando começaram a chegar em fins do século passado. ser avaliada nos testes. etc. a sorte ajuda. como imigrantes pobres procedentes de áreas atrasadas da Europa orien­ 119 Sowell oferece um exemplo curioso: o fracasso das tentativas do barão Hirsch dc estabe­ lecer judeus dc alto nível intelectual como lavradores na América Latina. Na estória do filme Forrest Gump temos o exemplo edificante de um inocente mentalmente carente que. tenha necessariamente tido.I.. Premidos no entanto pelas circunstânci­ as. O fracasso corres­ pondeu ao dos alemães que pretenderam tomar-se fazendeiros nos EUA no século passado c foram jocosamente qualificados por seus vizinhos americanos dc “fazendeiros latinos”. um débil mental. OE M E IR A PENNA profundidade de entendimento. Afinal de contas. criatividade. Ele admite que um gigante intelectual como Einstein possa ter tido um Q. de caráter cultural e histórico. O Idiota de Dostoievsky explora tema semelhante: o personagem é um paradigma de Cristo. um alto Q. faz o bem e se torna um cidadão altamente produtivo e bem sucedido. Esta não pode. Os franceses falam. ser medidos por métodos quantitati­ vos abstratos119.. relativamente baixo. cuja obra é de 1977. E afirma ter conhecido um gênio de Q. É verdade que os dons da inteligência intui­ tiva não podem. O . Há gênios nas artes e na literatura que. . Qual seria a inteligência. Uma das provas mais ciaras do predomínio das fatores circunstanci­ ais. claridade na exposição. nosso maior artista? Duvido mesmo que se possa defender a teoria de que Leonardo da Vinci. sendo igualmente com­ plexa e variada. porque sabiam falar latim mas não cultivar a terra.I. esses mesmos judeus alemães se adaptaram aos desertos da Palestina em cuj<is kibutzim criaram um milagre de agricultura neste século.) possa ser medido por uma função tão unidimensional quanto o “Quociente de Inteligência”.I. um gênio universal tanto nas artes quanto na técnica.

Ora. nas finanças. Os prodígios nas áreas agrícola e militar realizados pelos israelenses adicionaram uma nova dimensão ao que se apresenta como um grupo humano absolutamente excepcional. em Alexandria por exemplo. por hipótese. finalmente. cem anos de­ pois. na época da conquista muçulmana da Espanha. Ukrânia c Rússia — muitos americanos influentes tenta­ ram deter esse movimento.I. que é. Os altos e baixos da comunidade judaica da Diáspora desde o primeiro século de nossa era são extremamente curiosos: houve períodos. parece sustentar as que argumentam com a hegemonia dos fatores culturais e históricas. como o helenístico. na literatura e no empresariado de um modo geral. Tanto Murray quanto Sowell registam enfaticamente essa constatação em suas obras. racialmente. de dez pontos acima da população branca em geral. na filosofia. dos judeus nos EUA è de fato tanto mais notável quanto os setarditas (sphamdhim ou “espanhóis”). de aproximadamente seis milhões de pessoas. no inventário de suas realizações em termos intelectuais e materiais. Na nossa própria centúria. não somente a mais culta e mais rica de todas. Afinal de contas. . e. é hoje. que sáo as judeus orientais.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 339 tal — Polônia. por exemplo). convencer que eram então menas “inteligentes” do que os selvagens da Europa nórdica? Um bom exemplo 120 A diferença dramática dos Q. Que diriam esses monarcas pretos ou mulatos escuros se lhe fôssemos. grupo.I. a partir do fim do século XVII na Eu­ ropa120. A história deve ser levada em linha de conta nessa estimativa da inte­ ligência coletiva de uma etnia particular. de extrema heterogeneidade. em Córdoba e Toledo. O caso particular do sucesso singular do povo judeu. inferiores aos dos judeus askkken*zimt quando foram os primeiros que de longe mais se notabilizaram na Idade Média e na Humpa ocidental dos séculos XVI e XVII (Spinoza. argumentando com o baixo padrão intelectual demonstrado pelos recém-chegados. possuem hoje cm Israel índices de Q. os judeus se têm distinguido de uma maneira surpreendente na ciência. houve uma dinastia de faraós da Núbia. de grande florescimento cultural. no entanto. mas regista nos testes de inteligência um nível médio de Q. a comunidade israelita ameri­ cana.I. que reinaram sobre a alta civilização do Egito numa época em que os antepassados das “•arianos” das ilhas britânicas ou das florestas germânicas não se haviam ainda desvencilhado da barbárie da Idade da Pedra.

no apogeu de Atenas — 50. Ele assinala que “o edifício legal se tornou um labirinto em que só os ricos e os espertos podem navegar”. de tal maneira que a estes pareciam supinamente pouco inteligentes. como a Viena do século passado e princípios do atual por exemplo. Péricles e tantos outros que para sempre honram a humanidade — a Hellas refulgiu com um dos maiores brilhos na história da cultura. Heródoto. criminalidade e baixo Q. sem que essa verdadeira explosão cultural possa ser de qualquer modo confir­ mada por qualquer teste coletivo de Q. supostamente humanitária.340 J. na atual população austríaca? Mas outra prova que Murray privilegia esses inexplicáveis fatores culturais em comparação com os genéticos se encontra na observação das pgs. A inteligência. Sua preocupação com os efeitos negativos da legislação.000 cidadãos entre os quais encontramos seres excepcionais como Sócrates. ao multiplicarem as “famílias” de mães solteiras. os bretões ou celtas das ilhas britânicas eram. DE M EIR A PENNA de distorção histórica é a acusação de racismo que foi levantada contra Cícero por haver. em franco contraste com a mediocridade de seus descendentes nos dois mil anos seguintes. Platão. origi­ nada nas políticas governamentais de inspiração esquerdista. cm termos étnicos. pobreza e criminalidade nas camadas mais pobres da população. Na verdade. produziu um número tão fenomenal de gênios. Fídias. O reparo — digamos com pesar — se aplica integralmente ao que também está ocorrendo em nosso país. 544 a 546 a respeito do casamento. Eurípedes. muito inferiores aos romanos. O sociólogo acentua os efeitos perversos da Revolução sexual sobre a desintegração da família — fenô­ meno que afeta sobretudo os pretos e “hispânicos”. especialmente. Tucídides. teve o resultado catastrófico de estimular as uniões informais que. Murray enfatiza o relacionamento entre po­ breza. Reforçando a obra de Murray. A legislação previdcnciária. O . há dois mil anos.I. prevenido os antigos romanos contra a compra de escravos bretões. foi publicado em meados de 1995 um livro de repercussão igualmente considerável escrito por um indiano . que considerava estúpidos. culturalmente. no empenho de proteger os filhos ilegítimos. Por que certas cidades.. Praxíteles. Esquilo. acabaram provocando uma expansão desas­ trosa dos índices de ignorância.I. Em duzentos anos do “milagre grego” e. Sófbcles. é muito clara. a genialidade são qualidades misteriosas cujos fundamentos explicativos desconhecemos.

acentuar o caráter heredi­ tário da homossexualidade. enquanto parece “politicamente incorreto” falar em qualquer tipo de hereditariedade ou nos fatores gené­ ticos em matéria de inteligência. que sustentam a igualdade absoluta de todas as culturas. Em nosso país também. tido como científico. o livro tem como título The End o f Racism: Principies for a Multiracial Society. era tido como “pecado nefando”. Ele ataca por isso mesmo essa outra forma de igualitarismo obsessivo surgido ao final da IIa Guerra Mundial — como na obra de Levi-Strauss e dos antropólogos de sua escola. Podemos. D'Souza ataca exatamente os mesmos temas de Murray. sua posição é que os problemas enfrentados pelos negros americanos nada tem a ver com o racismo.. é ao contrário eminentemente aconse­ lhável. se está criando uma espécie de racismo às avessas com a exaltação fantasmagórica do rei Zumbi — subitamente transformado em herói da Independência nacional mais importante do que Tiradentes ou Dom Pedro I. por exemplo. chamar a atenção para um paradoxo que salienta o caráter artificial e político da polêmica contra Murray. aliás. O Multiculturalismo tornou-se a mania “politicamente correta” de certas Universidades americanas. e The Science o f Desire: the Search for the Gay Gene and the . e reduzindo o papel da civilização européia na América ao mesmo nível que a africana ou a indígena.. Com uma tira­ gem inicial de 100. outrora. A herança genética serve admiravelmente para justificar o que. Apelando para a racionalidade. que chegam aos limites do absurdo ao equipararem a “cultura” da Nigéria com a cultura grega clássica. Dois livros publicados nos dois últimos anos sobre esse tema procuram atribuir a tendência de certos homens ao homossexualismo pelo argumento. Hermstein e Di­ nesh D'Souza. aos que procuram popularidade barata.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 341 (presumivelmente originário de Goa). do determinismo genético — The Sexual fírtun. Dinesh D'Souza. A ênfase do pensador indiano é culturalista. de Simon LeVay. Isso é uma realidade inevitável em qualquer sociedade e quanto mais cedo for retirada a obsessão com a questão racial e o igualitarismo cultural da polêmica sociológica melhor será para a nação americana — hoje mais do que nunca mergulhada num paroxismo ideológico em tomo dessa polê­ mica. E divertido assinalar que.000 exemplares. Os grupos sociais estão estruturados hierarquicamente. dando à primeira tantas horas de estudo quanto à segunda.

Detrás de pesquisas como as que os autores relatam está. cuja variabilidade é confirmada pela constatação de diferenças entre irmãos. Quando Ortega se referia a “Eu e minhas circunstâncias!”. ten­ dências. Tudo que disseram — e se pode discutir a validade dessa alegação — é que grande parte do comportamento social do homem possui um componente genético. em conclusão.342 J. em sua obra The Grawth q f Biological Thought que é de 1982. Atrevo-me. uma mesma família121. o que os antigos chamavam a Fortuna. professor emérito de zoologia em Harvard. que a acusação de pregarem um determinismo genético no comportamento é injusta: “Isso não representa corretamente seus pontos de vista. a responsabilidade não lhe cabe mas à sua constituição genética. O resulta­ do de tais álibis é a elaboração de uma legislação a tal ponto favorável à proteção dos “direitos” dos marginais que o cidadão comum e normal acaba inteiramente desprotegido contra o alastramento absolutamente catastrófico da violência e da psicopatologia nas grandes cidades de na­ ções onde vicejam tais posturas. criados sob as mesmas condições. acentua em seu comentário sobre a Sociobioiogia de Edward Wilson e de outros biólogos. Um esforço extraordinário de “pesquisa” tendenciosa é desenvolvido para provar que o assassino violen­ to é movido por um defeito na estrutura do seu DNA. 2) a influên­ cia do meio modifica a herança genética em grau sensível e começa a se fazer sentir no momento mesmo do nascimento. a explicitar a posição que me parece mais correta nesse debate: 1) nasce o homem com certas características. um mesmo teto. E isso não é o mesmo do que o determinismo genético”. processando-se pratica­ mente por toda a vida naquilo que chamaríamos educação em sentido lato. . o empenho em des­ cobrir um álibi moral para o comportamento de bichas tgays. estava certamente pensando na ação desses três fatores em relação dialética com a Vontade consciente de cada um. talentos. evidentemente. Conclusão: é ocioso querer medir os pesos relativos de cada um dos fato­ res individuais em relação à formação da personalidade total. combater a discriminação que os prejudica e promover seus programas políticos. DE M E IR A PENNA Btoloffy ofBehavior. disposições e grau de inteligência. Se crime houve. um dos biólogos mais considerados da atualidade. O. 3) um terceiro fator resulta da ação dos elementos aleatórios da sorte. de Dean Hamer e Peter Copeland. O que se 121 Ernst Mayr. o que seria válido para Murray e Hermstein. O mesmo se dá com a criminalidade.

O último capítulo de sua obra resume o propósito da pesqui­ sa: intitula-se “Um lugar para todos”.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 343 constata. E assim conclui: “Chegou o momento na América de tentar. Relembra que todos aqueles que visitaram os EUA desde o tempo de Tocqueville notaram que. e a massa de po­ bres com baixos Q. a mais preciosa é um lugar de valor entre nossos concidadãos”. Murray acentua que o critério de sucesso de qual­ quer governo é permitir que todos vivam com dignidade e nela encon­ trem seu lugar adequado. enfim. é que somos diferentes. Contrariamente ao que opinam seus críticos. qualidades que admiramos e qualidades que desprezamos.I. e que de todas as recompensas que nos podemos conferir. como é a vida vivida: compreender que cada ser humano possui forças e fraquezas. sobretudo na­ queles que dela estão privados. o sociólogo ame­ ricano é um humanista. Ele prega um retorno ao individualismo da tradição americana. Revelando ansiedade diante da perspectiva de uma divisão irremediável da sociedade entre as camadas intelectuais dirigentes. . Somos diferentes fisicamen­ te e somos diferentes intelectualmente. conviver com a desigualdade. mais uma vez. que o sucesso de cada ser hu­ mano não é medido externamente mas em seu interior. Sabe que a inteligência revela aspectos luciferianos. contem gente que é a mais amiga.s. essa que é uma das nações mais individualísticas do mundo. A inteligência tende a criar um abismo crescente de poder e riqueza entre os “bem dotados e informados” e os ignorantes. Ele está ple­ namente consciente do temor que a inteligência desperta. preocupado com a sorte de todos. capazes de abusar de seu poder. créditos e débitos. competências e incompetências. simplesmente. a mais generosa e a mais capaz de boa vizinhança. sobretudo quando reforçada pela tecnologia moderna da informática e das comunicações. E nesse sentido que a conclusão de Murray me parece extremamente relevante. qualquer que seja o respectivo nível de inteli­ gência. uns aos outros.

Atacamos aquelas que. por novo paradoxo. Liderado pelos anglo-saxões e europeus ocidentais. durante cinqüenta anos.11. ou ao assim chamado neoliberalismo. e mais se fundamenta num base cívica e moral do que o idealismo romântico vigente entre os povos latinos que reclamam a postura privilegiada de sua tradição E . final­ mente. E o “utilitarismo” anglosaxônico e americano. é muito menos egoísta. capitalista e democrática. pela boca de intelectuais alienados e políticos indiferentes ou dema­ gógicos. se compraz com maior generosidade e filantropia. precisamente. ameaçou e desafiou a sociedade aberta do Ocidente. com recursos tão abstratos quanto o de uma Mão Invisível. liberal. O que. a qual. Foi a prova empírica do sucesso da sociedade aberta. venceu o desafio não foi uma ideologia contrária mas igualmente absolutista. econômica e cultural. repudiaram o determinismo do fenômeno econômico num mercado livre. Há alguns paradoxos nessas circunstâncias. largamente sustentado sobre a economia e revela uma oposição essencial ao pensamento utópico das ideocracias desafian­ tes. de pensamento e ação pragmática que assegurou a superioridade desta nossa sociedade livre. Afinal de contas. no pragmatismo de sua ação política. PRAGMATISMO E LIBERALISMO m capítulo anterior abordamos as doutrinas que legitimaram filoso­ ficamente a ideologia totalitária. procedamos a uma breve análise do método de filosofia. se infiltraram no próprio âmago dessa sociedade. Mas o que a história provou é que a ciência econômica fez progres­ sos fenomenais graças a pensadores que. UTILITARISMO. Antes de desenvolvermos a parte relativa à Segunda Revolução Liberal. o pensamento pragmático é utilitário. foi Marx quem postulou a hegemonia do económico a partir da infra-estrutura material e sua doutrina recebeu mesmo o título de “materialismo históri­ co”.

ela apenas substituiu como mais importante princípio norteador da ordem pública o antigo direito divino dos reis absolutistas. em idades mais rccentes. como observa o grande economista liberal americano Frank Knight. que lhe atribuem a responsabilidade ao clero ou ao Rei. afastou o princí­ pio da hegemonia eclesiástica. por essência individualista. a concorrência. promoveram as mais grosseiras expres­ sões do economicismo materialista que tamanho desgosto causam às almas pretensamente nobres do conservadorismo tradicionalista. Um místico também poderá ser acusado de utilitário se considerarmos seu método como útil . reconhecer as bases matériais da vida em sociedade. o utilitarismo pragmático dos anglo-saxões. a tolerância das opiniões alheias e a liberdade geral. A santidade da propriedade privada não constitui uma manifestação detestável do egoísmo humano mas. o progresso. A concepção de Vontade Geral que encontramos tanto entre os católicos mais conservadores. A liberdade e responsabilidade individuais são valores espirituais positivos. a vio­ lência e a guerra. Seu conteúdo moral merece destaque. como entre os românticos coletivistas e idealistas da linhagem de Rousseau. por sua vez. tanto no sentido da aprovação. muito mais distintamente do que na parte desen­ volvida do Ocidente. melhor conviveu. Colocam-se entre os mais nobres da espécie humana e são melhor assegurados pelo respeito à propriedade privada. a nada conduz. No fundo. Respei­ tar as condições onerosas da existência. não teve mérito algum no sentido de evitar a opressão. a exploração e o peso do trabalho são realidades inarredáveis da vida social — tudo isso contribui para uma avaliação mais correta do mundo em que vive o homem.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 345 “espiritualista”. egoísmo utilitário e baixas preocupações materiais. Radicalizar o utilitarismo pragmático. menos culto ou menos generoso. na verdade. O Utilitarismo tem que ser levado em conta dentro dos limites exatos em que se propõe orientar o comportamento humano: no da eco­ nomia política. Quem quer que percorra aquela parte do Oriente que se vangloria de sua espiritualidade e misticismo transcendente ali encontrará a manifestação brutal de instintos usurários. São as teorias idealistas nefelibáticas as que. Ora. Utilitarismo e pragmatismo não implicam materia­ lismo. o qual direito. com a paz. quanto no da negação. não há qualquer prova concreta que essa substituição tenha tornado o homem menos “espiritual”. ser consciente do fato que o lucro.

não se tendo nada a perder. anglo-saxônica. outro redator de “Ensaios”. Só Kant combateu ferozmente o utilitarismo. incidentalmente. ao princípio do século XVII. Chanceler do rei James I. como capaz de controlar as paixões irracionais agressi­ vas que conduzem ao homicídio. ao duelo. já nos deparamos com uma filosofia pragmática que enfatiza o caráter utilitário do conhecimento. Vide também. Esse conhecimento. apoiado posteriormente por muitos sólidos filósofos. ao assalto e às outras violências destrutivas da civilização humana. Para o lord Verulam. um dos primeiros pensadores em matéria de ciência econômica.346 T. The Passions and the Interests. argumentando com o poder formidável de sua lógica que o Dever moral nada vale se é apenas o instrumento de um interesse ulterior. O próprio Pascal ousou mencionar a utilida­ de de sua famosa Aposta (lepari): vale apostar nas vantagens da fé tendo em vista o Céu. positivamente. O . à Inglaterra uma prioridade de que se valeria na revolução tecnológica. simplesmente. preconcei­ tos. particularmente no campo da política e da economia. graças à noção utili­ tária de interesse. não impor­ ta. sua origem é. Conce­ deu. Peirce e William James. ao passo que o ateu nada tem a ganhar com seu agnosticismo. Como atitude mental. na mesma época em França. foi o Pragmatismo criado pelos pensadores americanos Charles S. Esse autor ex­ plora o desenvolvimento do espírito capitalista que. Que se considere que. “conhecimento é poder”. de M e ir a P en n a para a Salvação e a obtenção do supremo benefício da contemplação be­ atífica. ao mesmo tempo. Bacon inaugurou uma tendência que o toma um dos maiores profetas do mundo moderno e. Com a idéia da organização e disciplina do pensa­ mento para o progresso da ciência. dogmas e do que chamava os “ídolos” — tudo aquilo que impede o livre raciocínio sobre a realidade do mundo em consequência de hábitos mentais defeituosos. Montaigne. vai aos poucos sendo proposta pelos filósofos e os mo­ ralistas europeus. nesse particular a obra de Albert Hirschman. Pode ser útil morrer como um herói se o propósito supremo for a conquista da Cruz de Ferro. Como escola filosófica específica. Em Francis Bacon. implica o abandono das superstições. à guerra. Num sentido banal. material ou espiritualmente. o homem procura o que lhe é útil. estava defendendo a tese nada pragmática de que o lucro de uma pessoa constitui o prejuízo de outra — tese hoje conheci­ . que se adquire pelo método científico.

122. de certo modo. surgiu pela primeira vez a idéia que a fortuna e o poder de uma nação se podiam erguer na base. Em 1941/45. a coragem da tropa ou a capacidade estratégica da oficialidade do estado-maior. ela própria associada ao pendor pelo mar. O pragmatismo e o utilitarismo percorrem o pensamento britânico e americano através dos séculos. 122 “W e hold these truths to be self-evident. os japoneses ainda acreditavam que enfrentariam favoravelmente os ame­ ricanos com a tática suicida dos kamikase. O comércio era desprezado e os comerciantes colocados nos escalões mais baixos da pirâmide social. na definição clássica.O E s p í r it o d a s R e v o l u ç õ e s 347 da como o zero-sum gam e. O próprio Adam Smith desconfiava dos meti o f business.. A menção é importante e. mas da atividade comercial. como preferiam os Habsburgos). eram chudras.. a etiqueta liberal da grande República Comercial prosperou de modo esplêndido. que. Levada para os Estados Unidos. os adversários dos USA não avaliavam em sua devida proporção o fato que é hoje a superioridade industrial e técnica que decide da vitória e não apenas a eficiência de uma máquina de guerra. that all men art created equal. Na tradição whig do Novus Ordo Seclorum. Liberty and the pursuit o f H a p p in essAo que parece. O ideal chega a figurar no preâmbulo da Declaração da Independência dos Estados Uni­ dos quando os “Pais Fundadores” incluem entre os direitos fundamentais o da “procura da felicidade”. Os latinos. desmentida pela nova ciência do mercado. ao mesmo tempo do que sempre admiraram o espirito prático dos ameri- . Está esse pragmatismo relacionado com a tradição comercial inglesa. define um modo de vida. casta inferior. Bentham. the American way o flifi. that among these «re Life. formulou o famo­ so princípio: “a maior felicidade para o maior número”. muito embora o sucesso da República Comercial tenha encontrado expressão concreta já no início do século XIX. that they a n endomtd by their Creator with certain unalienable Rights. Não nos esqueçamos. “a política por outros meios”. porém. seguindo o italiano Beccaria. Como na índia. sendo a “felicidade” escolhida ao final para explicitar um direito utili­ tário. A desconfian­ ça perdurou nos próprios EUA até nossos dias. sendo a guerra. a intenção inicial era colocar a propriedade entre i * direitos inalienáveis. até a IIa Guerra Mundial. As outras nações européias exaltavam em geral a atividade política e guerrei­ ra. não da simples conquista brutal (ou dos casamentos dinásticos. o jogo da soma zero.

em todos os determinismos. O . se descobre no entanto. sem dúvida. pela primeira vez. que vai para a cozi­ nha preparar-Lhe a ceia. também tiveram tendência a desprezar o que consideram seu materialismo e vulgaridade. e Marta. o princípio da indeterminação de Heisemberg. Peirce alimentava uma idéia absolutamente relativista do que fosse a Verdade: seria aquilo que é “a opinião destinada. No idealismo romântico encontramos a maneira de compensar o complexo de inferioridade em nós gerado pela incapacidade pragmática. o sacerdócio ou a política é digno dc sua nobreza. Foi no entanto um dos fundadores da cor­ rente de pensamento cujas qualidades muito explicam seu sucesso neste que é. Há um elemento fortuito. Mas Moog salienta a superioridade do espírito pragmático dos Pioneiros da América do Norte sobre o aventureirismo pouco prático de nossos Bandeirantes. . O caos passou a ser hoje um objeto de exame científico e avaliação filosófica. e o Darwinismo epistemológico de Popper. Era um tipo um tanto ou quanto excêntrico e mor­ reu desconhecido. Não somos regidos por leis inflexíveis..348 J . na miséria. Há um óbvio relaci­ onamento entre o Pragmatismo de Peirce e James. Kant sustentou a ética como razão prática. pensava ele. São duas maneiras de ver o mundo c a vida. em todos os relógios. DE M E IR A PENNA O termo pragmatisch fòra introduzido por Kant. gerando o que Gil­ berto Freyre chamava o “complexo do gendeman”. se ligara de amizade intelectual com William James. a receber a concordância de todos os que estão investigando”. o “século americano”. nos escritos de Peirce — um professor em Harvard que. assim como as teses de Mises e Hayek sobre o mercado. Popper atribui a Peirce o méri­ to maior de haver sido o primeiro a conjecturar que há imperfeições e irregularidades em todos os mecanismos. dc onde provem sua riqueza e poder. na própria mecânica de Newton. a contemplativa que fica aos pés do Senhor. Peirce antecipou. leis estatísticas e elas estão presentes mesmo na estrutura molecular dos objetos aparente­ mente mais rigidamente determinados. Existem. em última análise. Como fundamento de uma filosofia específica. Bertrand Russell comenta com certa ironia canos. um elemento de ação aleatória no mundo. desde 1878. Vianna Moog não foi o único que estabeleceu a comparação entre Marta e Maria — Maria. de certo modo. O preconceito do fidalgo ibérico é que só as carreiras das armas. por conseguinte. Em sua His­ tória da Filosofia Ocidental. Existem também leis do acaso ou da desor­ dem. de jogo e improbabilidade.

concorre para combater. moral e religioso. válida em termos de ciências humanas em que o subjetivismo do investigador predomina. principalmente. sem porém jamais deixar de considerar seu aspecto psicológico. Foi James aquele que. em relação ao hegelianismo. é para Peirce algo a ser definido democraticamente pela maioria. também afirma que toda verdade científica só é válida enquanto possa ser falsificável — qual mera hipótese de traba­ lho. sem entrar em argumento circular. sendo investigado — pois de outro modo. Não me parece que possa ser reduzi­ . se rebelando contra a introdução na América das idéias metafísicas abstratas. pedantes e obscuras dos filósofos idealistas germânicos — às quais preferia a clareza e precisão cartesiana dos franceses — passou a insistir no que é real e imediato em nossa experiência existencial. como corretamente acentua Russell. mais moderno do que Peirce. A tese parece absurda. propor uma doutrina de relativismo da verdade. ajuda-nos com uma certa dose de ceticismo diante de todo argumento dogmático e. Disso se pode concluir que devemos refugar doutrinas infalsificáveis e absolutistas como o marxismo ou o freudismo. controlando a entrada de imigrantes infecta­ dos.. inclusive cm nosso país. Sua filosofia suspeitava de toda rigidez.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 349 essa concepção que nos deixaria no escuro sobre o que estaria. Mas seria. realmente. Sem querer entrar em controvérsia em tomo desse tipo de doutrina filosófica que. graças ao bom senso. William James iria mais longe e proporia uma doutrina quase que puramente utilitarista: “uma idéia é ' verdadeira’ enquanto acreditamos que seja proveitosa para nossas vidas”. Popper. Will Durant observa jocosa­ mente que. William James agiu como um agente do serviço de saúde. de certo modo. as construções teoréticas de natureza ideológica que tão funestos resultados tiveram em nosso século. O pragmatismo é antes de tudo uma técnica para a avaliação dos aconte­ cimentos. em outras palavras. A Verdade. não podemos dizer o que é que os investigadores estão procu­ rando certificar-se que é verdadeiro. toda estrutura sistemáti­ ca — inclinando-se por uma atitude mais tolerante que deixava as ques­ tões em aberto.. levanta “grandes difi­ culdades intelectuais” — acredito que devemos ratificar o valor do prag­ matismo porque se sustenta no elemento subjetivo da investigação cientí­ fica e filosófica. Ao fazer esta afirmação não desejo. para reexame. de maneira alguma.

é mister sermos suficientemente humildes para nunca pretender dela sermos donos e únicos amantes monopolizadores. após refletir por alguns segundos. à propriedade e à procura da felici­ dade fazem parte de um desígnio transcendente. o que é a verdade? Acredito. Alfred North Whitehead talvez tenha colocado as coisas corretamente em seus lugares quando.”.. à liberdade. que é a virtude de fidelidade à verdade. Mas. ao mesmo tempo. que sempre furtivamente se esquiva a nossas transas mais temerárias. Não obstante um certo ceticismo que alimento quanto à doutrina pura dos Direitos Naturais.350 J ... acabou degenerando ao gerar formas excessi­ vas do que eles chamam M liberalismB — um coletivismo romântico de . sendo condição absoluta do progresso humano. o direito à vida. respondeu simplesmente.. O . os fatos ou as idéi­ as?”. Em última análise.. E a hegemonia da opinião pluralista levada a seu extremo absoluto. O verdadeiro é o nome do que quer que seja que prove ser bom no caminho da crença. Devemos adorar a bela e sedutora Aletheia. acredito que. dependeria da fé. um processo: o processo de verificação. é a versão. Parece aquele nosso político mineiro que insistia: o impor­ tante não é o fato. Pôncio Pilatos também perguntava. Sua validade é o processo de sua valid-ação. Ela toma-se verdadeira. empirica e pragmati­ camente. A Verdade nesse sentido americano seria democrática: aquilo que a maioria da população crê ser verdadeiro. A racio­ nalidade lógica e o pragmatismo devem ser os critérios graças aos quais podemos cortejar essa deusa pudica e discreta. An Ideal Husband. ou o que o próprio James chamava de “praticalismo”. algo cético. em obediência aos ditames socráticos. É certo que o pragmatismo americano. por força de acontecimentos: sua verdade é de fato um acontecimento. Em matéria de filosofia política ou política prática talvez ele tenha razão.. explicar que “a verdade é uma coisa muito complexa”. faz um de seus personagens ridícu­ los.. que a Verdade é um valor ideal absoluto. no princípio de uma de suas peças de sucesso. A verdade ocorre a uma idéia. à pergunta de um leviano: “O que é mais importante.. “idéias sobre fatos”. Oscar Wilde. Prestar-lhe respeitosas home­ nagens de amor e fidelidade. no entanto... D E M E IR A PEN N A da da maneira que James procede quando declara: “A verdade de uma idéia não é a propriedade estagnada que lhe é inerente... um ministro no governo.

Dewey foi. A deturpação do sentido do termo “liberal” que acabou sendo identificado com a ala intervencionista e esquerdista do Partido Demo­ crático americano está aí patenteada. Quem o aprecia é sobretudo a “esquerda”. Skinner. he has never been a M arxisf' (“embora muito liberal em todas as questões econômicas. Dewey acentuava.820): ao assinalar que está geralmente de acordo com as teses de Dewey e salientar que seu colega americano. Vejam esta frase monstruosa na obra de Bertrand Russellvl History of Western Philosophy (pg. que tão negati­ vamente tem afetada a sociedade americana e. fala muito em “totalidades unifica­ das” (unified wboles) que seriam espécies de organismos sociais aos quais só a elas concede o direito à liberdade — Russell escreve que “altbough very liberal in ali economic questions. e de todo conceito abso­ luto de verdade. ele nunca foi um Marxis­ ta”). e muito menos inteligência inata. na área penal. vingou exuberantemente em nossas universi­ dades onde o ensino de psicologia acabou definhando de modo lamentá­ vel. além disso. algo que se aplica perfeitamente ao Marxismo: “Uma idéia que é boa em teo­ ria mas não na prática. se sustenta no naturalismo otimista de Rousseau e deu nascimento ao behavioristno de John Watson e B. não é boa em teoria”. professor na Universidade da Virginia. Richard Rorty. o que é totalmente inaceitável de um ponto de vista éti­ . Rorty leva o pragmatismo para o lado de um relativismo absoluto. Não esqueçamos que o grande educador brasileiro Anísio Teixeira era discípulo de Dewey. A crença do filósofo americano numa psicologia de tábula rasa. no entanto. Outro seguidor de Dewey. ha­ vendo sofrido influências hegelianas.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 351 esquerda mal inspirado e personificado por um pensador como John Dewey. não costuma ser muito apreciado pelos verdadeiros liberais (conservadores) americanas. mas apenas instintos que representam a “matéria prima” da psique. a nossa pró­ pria. a qual seria inteiramente formada pelos me­ canismos culturais. Esse tipo de redutivismo e ambientalismo radical em matéria de biologia. com a rejeição de toda norma objetiva e transcendente. por mimese. próprio para limpar e adubar um terreno favorável ao florescimento das idéias iguaiitaristas e intervencionistas. segundo a qual não existem arquétipos ou “idéias inatas”. um dos principais responsáveis pelo tipo de educação permissiva e legislação tolerante.

atribuir essa circunstância feliz ao individualismo pragmático do temperamento dos americanos de velha estirpe? No Brasil sempre houve espaço aberto à aventura individual e. Existe uma incompatibilidade fundamental entre aAmerican Way o f Life. reeditado após os aconteci­ mentos de 1989/91. de qualquer forma. permitiram aos ingleses e americanos superar. Não devemos. com a ideologia estatizante que iria co­ . pensadores como Popper. Foi. To­ dos detestavam os dogmas. d e M e i r a P e n n a co. o poder do pragmatismo na mentalidade anglo-saxônica o que preservou os EEUU e a Inglaterra de uma contami­ nação mais grave pelas ideologias totalitárias do século XX. Wemer Sombart é um dos que. chama­ ram a atenção para o fato de que o socialismo praticamente nunca me­ drou na América. Adam Smith. Bastiat. em primeiro lugar. antes. Burke também condenou os excessos da Revolução francesa pelos mesmos motivos. Nesse sentido.352 J. Paul Johnson. as ortodoxias religiosas que estavam sendo trans­ feridas para a área da política e se secularizando a passos largos numa religião civil. Essa preferência pela tolerância e as soluções práticas. no entanto. Malthus. e aqueles pensadores que conceberam a economia moderna. Eles admi­ tem a existência de uma “natureza humana” que carregaria as sementes da cultura espiritual. Ricardo. e outros europeus orientais que sofreram sob a bota totalitária. destroça as veleidades pseudo-científicas do democratismo e do marxismo em seu livro extremamente influente Modem Times. O . O historiador e crítico inglês. Stuart Mill. Locke e Hume. Hayek e Thomas Moinar insistem nos aspectos positivos do evolucionismo darwiniano — qualquer que seja seu ceticismo no que diz respeito ao determinismo estreito muitas vezes presente entre os biólogos darwinistas. aos mais atrevidos. antes de outros povos. Rorty entrou em polêmica com Vaclav Klaus. Todos tentaram evitar os preconceitos e as construções teoréticas de índole dogmática. e adotadas cum grano salis. o Pri­ meiro Ministro Tcheco. nas suas origens constitucionais. Os grandes filósofos britânicos como Bacon. adaptadas ao meio e ao momento. Sombart acredita que o motivo era a vastidão da Oeste longínquo que. eram essencialmente empiristas que tomavam uma atitude pragmática e utilitarista diante das grandes questões sociais. sempre oferecia espaço aberto para suas frustrações. sempre também tivemos partidários de doutrinas coletivistas. Entretanto.

em quase todo o mundo.. em sua época. Morgan. O esquerdismo manifesta-se. Rockefeller. no “instinto” que leva naturalmente os governos a regular os fenômenos sociais. em 1881. Foi esse “liberalismo” sui-generis o que determinou o crescimento do papel do Estado na vida americana. sociólogos e pensadores políticos do período que vai do fim da Guerra Civil à IIa Guerra Mundial. Gom exceções pouco relevantes. Detém-se demoradamente sobre o impacto do Pragmatismo de William James e nos aspectos paradoxais da filosofia de Santayana. nas reações de americanos como John Fiske ao pensamen­ to do inglês Herbert Spencer — um ultra-liberal que é responsável pela introdução do evolucionismo ha sociologia e a elaboração do que veio a ser chamado de “darwinismo social” (e que também. devia-se por uma questão de lógica proibir também as que fossem cometidas pela mente. Num livro de 1950. filósofos. cem anos depois não é bem a idéia de “pecado social” o que parece de­ terminar os povos. a desejar menos regulamen­ tação pelos governos dos fenômenos sociais. Sua idéia é que. um dos mais influentes autores que inspiraram a transmutação do Estado de mero mantenedor da Lei a Estado produtor. foi bastante lido em nosso país). porém. Henry Steele Commager reflete o posicionamento do “liberalismo” de esquerda através da análise de romancistas. primeiramente. . os empresários audaciosos do que vul­ garmente se define como “capitalismo selvagem” — muito embora Commager só de leve mencione os gigantes da Revolução industrial como Ford. do mesmo modo como se regula e pune as injus­ tiças cometidas “com os músculos”. Astor ou Vanderbilt. os ricaços.. Commager simpatiza com a obra de Lester Ward. Ele se demo­ ra. contra o big business. Ward falava. ao darwinista William Graham Sumner que atualmente está sendo recuperado pelos “libertários” mais exaltados. The American Aíind. no entanto. no período da Grande Depressão e na crise “revolucionária” de 1963 a 1975. as Ideo­ logias coletivistas de fato só exerceram influência diminuta no desenvol­ vimento da vida americana. no final do século XIX. J. Ao invés.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 353 meçar a predominar na França e no resto do mundo já no século XIX. um papel que teria escandalizado os Pais Fun­ dadores da Constituição. Como ele pensava na malevolência da nova ordem industrial.P. Instinto ou não. Parece pouco favorável.

mas suas cominações tiveram o efeito de contribuir para o cresci­ mento monstruoso do papel do Estado na economia. como sabemos. um economista de origem escandinava. direitista ou fascista desse ou daquele escrito. Veblen pode ser importante como moralista e psicólogo da eco­ nomia. é outro que criticou as falhas na “economia pecuniária” das “classes ociosas” que alardeavam suas pretensões. ou em torno da procedência do Espírito Santo do Pai e também do Filho (filioque). A idéia que partidos bizantinos se digladiassem em torno do “t da questão” (em tomo. Mas sua tese que a depressão é inerente ao sistema de preços e que “as virtudes aristocráticas e burguesas. leninista. com seus traços destrutivos e pecuniários. titoista. sobre o arianismo ou semitismo de um ser humano. sobre o grau de pigmentação com melanina na pele de um indivíduo. DE M e IRA PENNA Thomstein Veblen. esquerdista. Absurdo e inadmissível. que ocorreu justo quando ele morria. é a morte de dezenas e centenas de mi­ lhões em nosso próprio século em torno de debates sobre a existência de uma mais-valia no valor/trabalho do proletário. Ela não foi provocada pelo sistema de preços mas precisamente porque esse sistema não foi respeitado. e que “as virtudes industriais estão nas classes dedica­ das à indústria mecânica”. desmentiu Veblen. Para os liberais tomou-se ridículo . O. nem tampouco as regras do mercado livre da moeda. nos parecem hoje de um esquerdismo comple­ tamente obsoleto. com o vinho. por exemplo. Sua Theory o f the Leisure Class causou sensa­ ção como crítica populista mordaz ao luxo ostentoso dos milionários e seus herdeiros. Veblen distinguia o engenheiro do businessman. além disso (utraque). inquisi­ ções e guerras civis com dezenas de milhares de mortes e as mais incríveis atrocidades — tudo isso foi considerado absurdo e inadmissível. alienado. ou quanto à questão de comun­ gar só com o pão ou. do qual nossa idade está hoje tentando se livrar. ou sobre o caráter trotskista. reacionário. provocaram infindáveis cruzadas.354 J. A Grande Depressão. revisionista. conservador. do mesmo modo. triunfantes numa idade que não perdera a lembrança do famoso ascetismo calvinista dos velhos Puritanos. dos salários e do comércio interna­ cional. dos termos homoousia ou bomoiousia quanto à natureza do Filho). seriam encontradiças principalmente nas classes superiores”. ou reconhecer ou não a presença real de Cristo na hóstia consagrada pelo sacerdote — questões que.

Creio que. no século seguinte. “o discurso ético que dá primazia à liberdade não acalenta a ambição catequética de submeter os pretensamente desorientados habitantes . à velha e agressiva libido dominandi. Os excessos das guerras de religião levaram os ingleses. O fato é que a luta em tomo de termos abstra­ tos continua a ser um jogo predileto da intelectuária patrícia. mas era sempre apenas uma prostituta a quem seduziam. descaradamente. ao exercício da vontade de poder. fo­ ram os povos latinos especialmente vulneráveis à sedução das disputas semânticas. especialmente essa alma danada de inveterado masturbador intelectual que foi Rousseau. a procurarem a tolerância fora das disputas dogmáticas. reintroduziram as disputas teoréticas irracionais que vieram. Liberalismo social e Liberismo. A ideologia se transformou numa calamidade em nosso próprio século. procuro evitar envolver-me em controvérsia sobre as definições exatas de termos como Liberalismo. a partir de Locke. O ridículo chega ao máximo quando se procura definir quem é “conservador reacio­ nário” e quem é da “esquerda” politicamente correta. Que importa? Deixemos aos glasnostálgicos mais criativos esse afazer. devemos tomar uma atitude pragmática123.. O termo social faculta às “viúvas da Praça Vermelha” adaptarem-se às condições que resultaram do coJapso do socialismo. na Apresentação do magnífico livrinho de Márk> Guerreiro Ética mínima p»m Homtns prdticos.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 355 pensar que disputas verbais abstratas possam degenerar em sangue. Perverso é o socialismo não 123 Como bem observa Alberto Oliva. uma verdadeira tragédia por­ que serviu. e não obstante o horror que causavam no cético e tolerante Voltaire. para julgar o melhor regime e o sistema que nos convém. quem é socialista e quem é progressista. a contaminar as Ideologias.. Libertarianismo. Neoliberalismo. Em virtude de seu culto das palavras que adquirem poder mágico. O que deseja­ mos é preservar nossa liberdade e autonomia econômica ante as incursões paternalistas do Dinossauro filantrópico. No momento em que escrevo por exemplo. Pensavam haver conquistado donjuanescamente a sublime Aletheia. O dem ier cri é o liberalismo “social” — que seria um libera­ lismo preocupado com justiça “social”. quem é capitalista selvagem e quem é socialdemocrata. alcançando ou conservando o poder que há décadas de­ têm. Mas alguns dos philosophes franceses de fins do século XVIII.

Engels. Criou uma Nova Classe burocrática corrupta e opresso­ ra. não apenas em termos de eficiência. tragédias inéditas como a tirania de Stáline.. O critério adotado é negativo no sentido dc que a norma universal de justa conduta é a que estatui os poucos tipos de ação que não devem ser feitos tendo em vista o poder que têm de causar danos à vida alheia”. a Revolução Cultural de Mao e o genocídio praticado pelos Khmer Rouges. tem demonstrado sua eficiência no enriquecimento e progresso dos pou­ cos países avançados que adotaram ou começaram a adotar a economia de mercado. Lênine. a Alemanha. por exemplo. A prova empírica é o que vale. Inspirou alguns dos mais terríveis massacres de nosso século. Trinidad-Tobago. sociais e políticos em todos os países onde foi seriamente aplicado. mas em termos de bem-estar do senso comum às normas modelares forjadas pelo Rei-filósofo. Fanon ou Habermas tenham escrito algo que. sou monarquista. muito simples­ mente. . o socialismo se revelou desastroso em termos econômicos. A vantagem das privatizações está empiricamente compro­ vada. sem impedir que nosso agir se devote à busca de suas melhores potencialidades. Pretendc-se tão-somente identificar o tipo de norma que. o norte da Itá­ lia. O socialismo não funciona. d e M e i r a P e n n a porque Proudhon. Trotsky. Kautsky. o Chile. Saint-Simon. O . Gramsci. O mesmo povo pode.. não as suposições teoréticas de índole ideológica. Levou à ditadura. A comparação permite deter­ minar empiricamente qual de dois regimes contraditórios melhor funcio­ na. Os países mais ricos e bem organizados do mundo são monarquias parlamentaristas. a Coréia. na atual conjuntura. Hong-Kong. a El Salvador. A prova atual são os Estados Unidos. não que vá panglossianamente resolver todos os problemas mas porque. a Bélgica. E o liberalismo é vantajoso. Singapura.. Fourier. em teoria.356 J. Uma economia controlada pelos burocratas não funciona. proíba apenas as ações que produzem malefícios aos que fazem parte de nosso círculo de convivência. Barbados. Pelos mesmos motivos pragmáticos e não porque acredite que os reis o sejam pela graça de Deus. E o me­ lhor regime político porque evita a peste dos presidentes carismáticos. recolher benefícios dife­ rentes conforme o regime a que é sujeito.. e organizou uma centralização das decisões econômicas que conduziu à falência da economia. Tito. seja falso e insuportável. Organizou um arquipélago Gulag. o Japão. o Peru. Marx. e sim porque. Costa Rica. Lukács. até mesmo a Espanha.

goza de uma renda pouco acima dos mil dólares (em 1991. o choque eficiente para seu desenvolvimento a partir da es­ tabilidade política. quando era de cerca de US$70 ao terminar a guerra de 1950/53. Possuem os chineses. de milenar talento prático artesanal e comercial. o contraste com a Coréia. com a monstruosa aberração do Muro de Berlim para ilustrar o que se passava aos mais céticos ou inocentes. desde 1952. Hoje. e a um povo inteligente e operoso. Vejam também o caso das duas Coréias. ao passo que a de Taiwan ultrapassa os 8. . A República da Coréia.000 (PIB de 150 bilhões em 1990. o Norte comunista. Em Hong-Kong. para uma popu­ lação de 22 milhões). muito embora quase inexistam recursos naturais. Assim mesmo. já atingiu a uma renda percapita de US$ 7.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 357 geral para a população. Seu PIB. um dos mais altos do mundo e superior ao que nos orgu­ lhamos de haver alcançado ao tempo do “milagre brasileiro”. Mais clamoroso ainda é o contraste entre as duas Chinas.000 (PIB de 300 bilhões para uma população de 43 milhões em 1991). inicialmente. etc. o que pode ser avaliado também pelo exemplo de Singapura e de outras comunidades chinesas da Ásia sul-oriental. Partindo de um mesmo patamar em 1950 quando. homogênea e com velha tradição políti­ ca. já teria hoje ultrapassado o da Rússia e em breve passará na frente do nosso. para uma população de 20 milhões) — havendo dobrado de sete em sete anos. obviamente. fornecer a uma nação numerosa. uma grande vocação comercial e produtora. o Norte da península coreana era mais industrializado do que o Sul. Ao terminar a II Guerra Mundial e conquistar a Indepen­ dência. que concentrou quase que exclusivamente seus esforços ao fortalecimento bélico.000 dólares. Malásia. o socialismo totalitário parecia. o Kuomintang se refugiou em Taiwan — a China (continental) teria atin­ gido uma renda percapita’ de 2. Foi a experiência do socialismo nos países da Europa oriental e em outros em desenvolvimento o que diretamente provocou o colapso de 1989/91. com o triunfo maoísta em Beidjing. Taiwan. a renda percapita da população chinesa já atingiu a uma das mais elevadas cifras do mundo. colonia britânica onde o governo foi reduzido ao mínimo e onde os ingleses se limitam a manter o Estado de Direito e o controle da polícia. ao Sul. O caso exemplar foi o da Alemanha dividida. Na China. PIB de 30 bilhões de dólares. depois de um crescimento médio espantoso de 9% ao ano. Indonésia.

d e M e ir a P enn a Hong-Kong e Singapura é espantoso. O . Deixem de lado os preconceitos. E poderá sempre ser indefinidamente debatido se o Brasil teria ou não progredido mais rapidamente. por exemplo. os edifícios dialéticos para provar. O absoluto controle dos meios de produção industrial pode ser con­ siderado eficiente nos casos de take o ff econômico. ou que . O Marxismo foi posto de lado. que o Brasil é “feudal”. o terceiro no mundo: teria ultrapassado os dois trilhões de dólares para uma população de 1. a não ser por deliberada cegueira ideológica. ou “capitalista selvagem”. as estruturas ideológicas. ao que consta. E tido como obsoleto. me alinho com o que expõe Roberto Campos nas memoráveis e monumentais memórias de seu Lanterna na Popa. Os chineses que habitam a Asia sul-oriental prosperaram tremendamente sob o estímulo capitalista. A URSS alcançou nos anos 50/60 o posto de segunda potência industrial do mundo: sua produção de petróleo e aço ultrapas­ sou a americana. até o momento em que a experi­ ência modernizante de Deng Xiaoping lhes indicou uma momentosa mudança de rumo. sendo inferior à da população paulista. com melhor distribuição de renda. que a renda percapita da Rússia pouco excede hoje a brasileira. em favor da abertura para o capital priva­ do como parcialmente ocorreu durante o governo de Juscelino Kubitschek. caso houvesse abandonado o modelo da substituição de importações através da estatização industrial de grande porte. Mas ninguém poderá ignorar tampouco. ainda que oficialmente conservado como ideologia legitimadora. ou “colonial dependente”. pessoalmente. mas distribui imparcialmente críticas e elogios às políticas estatizantes seguidas pelos diferentes governos — de 1945 até hoje. Isso. Seu PIB já é.2 bilhão. que causaram calamidades tão incontestáveis ao ritmo de nosso desenvolvimento. Sobretudo em matéria de indústria pesada e de infra-estrutura energética (mormente nuclear) e de transportes. ou “burguês marginal”. Com palavras fortes e implacá­ veis ele dirige as suas mais incisivas análises às políticas obtusas. de natu­ reza nacional-socialista. Eu. A China regista hoje um dos mais rápidos crescimentos econômicos do planeta. foi Presidente do BNDE e Ministro do Planejamento no governo Castello Branco.358 J. en­ quanto os do continente conseguiram apenas resolver seus problemas milenares de fome e sobrevivência. Campos fez carreira no planejamento estatal.

provisória e sujeita a mudanças com o avanço do conhecimento. temporariamente. Quando as hipóteses de trabalho come­ çarem a enfrentar fatos empíricos intratáveis. unicamente. explorado e oprimido pelo “Norte”. O Instrumentalismo de Popper é definido como a doutrina em que as teo­ rias “devem ser interpretadas como um instrumento e nada mais do que um instrumento. O “falseacionismo” é o corolário da filosofia de Popper. o resultado provável de determinada iniciativa. que toda teoria é. para a dedução de predições de eventos futuros (especialmente a sua mensuração) e para outras aplicações práticas. que é o que geralmente queremos dizer de forma um tanto inexata. Capitalismo e Imperia­ lismo são estéreis. Sir Karl Popper propôs. deixar de desmenti-la. Mais especificamente.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 359 pertence ao “Sul”. e outras tolices infantis no gênero e examinem a realidade complexa como ela é. Como benemérito sintoma de certa humil­ dade por parte do cientista. o abandono das teorias. ou sobre os três estágios Feudalismo. dentro dos limites mais prováveis. O que se privilegia não é a explicação teórica mas a capacidade prática de predizer. devem ser descartadas. na própria ciência. na medida do possí­ vel. A virtude do ceticismo e uma espécie dcdocta ignorantia sáo virtudes preciosas para combater o dogmatismo ideológico. em suma. uma teoria científica não deve ser interpretada como uma tentativa genuína de descrever certos aspectos do nosso mundo”. o Instrumentalismo tal como adotado metodologicamente na ciên­ cia econômica por Milton Friedman visa a predizer. pode. As famo­ sas discussões escolásticas sobre o sexo dos anjos. nessa nova . Os termos e definições só são válidos como fórmulas que sirvam. mas pode ser vítima de uma experiência que demonstre ser ela falsa. Acrescentado assim ao empirismo britânico e ao pragmatismo ameri­ cano. o método popperiano afirma. para alcançar um consenso dentro do im­ perativo supremo do bom-senso. Friedman postula: “A evi­ dência empírica nunca pode provar uma hipótese. no sentido que uma teoria científica só é válida na medida em que não é uma tautologia. ou sobre Nominalismo e Realismo. quando afirmamos que a hipótese foi ‘confirmada’ peia experiência”. necessariamente. o que vai acontecer no futuro com determinado fenômeno.

ouvindo a voz da experiência pragmática de economistas mais ortodoxos. não haveria “'verdade definitiva” — muito menos no terreno da filosofia política. chegou finalmente um que. E o Darwinismo das idéias! Sobretudo o que combate Popper é o historicismo. semelhantes às que governam o mundo da física. DE M EIR A PENNA “escolástica” hermética e inquisitorial que se apossou de nossa época124. Tautologia« do gênero: os pobres sáo pobres porque são explorados pelos ricos e a prova que os ricos exploram os pobres é que esses são pobres e os ricos são ricos. conduzindo o país ao vestíbulo do caos infla­ cionário e colapso econômico. partiu da hi­ pótese de que o crescimento da moeda. Três livros relativamente recentes abordaram a questão da democracia na perspectiva da crítica de Karl Popper a Platão — de maneira a tormu124 Sobretudo para lutar contra o dogmatismo ccgo c burro que caracteriza os marxistas. O . Ou então: os países sub-desenvolvtdos são pobres porque estão na dependência dos países industrializa­ dos do Norte c a prova que os cruéis países industrializados do Norte exploram os coitadi­ nhos dos países dependentes do Sul é que estes são dependentes e pobres e aqueles ricos c imperialistas.360 J. depois de que vários Ministros da Fazenda. Assim. lançada à circulação. A hipótese. Embora mantenha fortes objeções à interpretação que Popper ofe­ rece da filosofia de Platão. Popper acentua que “somos / os perseguidores da verdade. Qualquer caipira ignorante com um pouco de bom-senso sabe que não se deve gastar muito mais do que se ganha. Conseqüentemente. cujas teorias nunca podem ser “faUificáveis” porque nunca deixam de scr tautológicas. porque obe­ deceria a leis deterministas.. pois senão se acaba na rua da miséria.. com o incentivo e patrocínio de Presidentes cada um mais incompetente do que o outro. Secretários do Plane­ jamento e Presidentes do Banco Central aplicaram. No Instrumentalismo de Popper. no sentido que as emissões não têm sido descontroladas: o Plano Real está aí. pelo menos até o momento em que escrevo. não somos seus possuidores”. não deve exceder de muito o nível de crescimento da economia. Uma lógica sempre admirável! . ou seja a crença que possa a história ser conhecida e antecipada. a única maneira de corrigir essa situação é tornar-se marxista. está se mostrando relativamente correta. que julgo injusta e incoerente porque procura separar Platão das idéias de seu mestre Sócrates — as quais só conhece­ mos por intermédio do próprio Platão — é mister reconhecer sua imensa contribuição ao pensamento liberal moderno. várias teorias heterodoxas.

Oliva constata aquilo que é. não só a negatividade como embasamento cpistemológico do liberalismo moderno. c um sistema é de fato testado por tentativas de produzir esses confim«. particu­ larmente no momento cm que vivemos neste país. Popper publicou. criticando o Darwinismo moderno por seus aspectos dogmáticos c tautológicos.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 361 lar a doutrina liberal em sólidas bases filosóficas. nesse sentido uma pequena obra-prima12S. entre 1965 e 1989. ceticismo. Popper também adora uma postura darwinista em matéria dc teoria do conhecimento científico: as hipóteses da ciências lutam entre si. “The Poverty of Historicism". “Objective Knowltdge: an Evolutiotutry Approtuh" e "C^mjecturts and Refutations". sckcionam-sc no esforço dc se adaptar à verdade empírica e. visando à criação de uma tpisttmoloflia modesta. por tentati­ vas dc refutá-lo”. de modo claro e esplêndido. dc evidente simplicidade. realmente. a coerção c o abuso do poder são constantcmente exercidos pelo Estado e por seus representantes. mas a relação dessa postura com as demais concepções negativas da liberdade no terreno da política. "The Open SocUty and its Ennmts". fundamen­ tal na visão do mundo liberal. ele discorre sobre a Gwv ccpção Negativa da Liberdade e. Daí não poder existir liberdade onde nio há lei". da teoria do Estado e das noções de felicidade. testá-la! G>m essas teses. O autor. “Um sistema deve ser considerado científico". sustentada numa postura empirista. através dessa seleção. É interessante observar que. estag­ l2S O jovem pensador brasileiro estabelece. aprecia a negatividade como embasamento epistemológico do liberalismo moderno e argumenta. Popper na verdade enfatiza as refutações. cinco obras capitais: “The Logic of Scientific Discavtry”. a ela preterindo uma reação crítica. ao passo que a lei só é superficialmente respeitada: ela* “pegam” ou “não pegam”. Dc fato. a descoberta científica mais eficiente avança ou evolui. segundo os caprichas dos governantes e os interesse* da ('lasse . de onde passa para Popper e a teoria da Confirinabilidadc. Donde se pode concluir que: “A crença nunca é racional. O primeiro é de Alberto Oliva. a negatividade. com Popper. “apenas se faz asserções que possam conflitar com observações. os argumentos ncgativtxt e os contra-exemplos cm qualquer teoria científica. No segundo capítulo. combatendo ttida restrição dogmática. isto é. Racional é suspender a crença". Pois Oliva discute o embasamento cpistemológico do Liberalismo a partir de Locke e Humc. tendo como título Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Céti­ co. Trata-se de uma abordagem filosófica do arrazoado negativo que me parece original e da mais alta importância. O livro é. professor de filosofia na UFRJ. ou seja. que a questão principal não é o “quem deve governar?” platôni­ co. mas “como podemos organizar as instituições políticas de tal modo que governantes maus ou incompetentes possam ser impedidos de pro­ duzir muitos danos?”. No momento de perplexidade. afirma o pensador austro-britânico. sc pode desde k)go verificar por que nào deve scr ainda o Brasil considerado um país onde impera a liberdade (embora seja uma democracia). Desse princípio. recorre a Locke: “Liberdade significa ser livre de restrições c violências perpetradas por terceiros. de novo. da filosofia da Lei e Justiça.

Quero salientar. a idéia de uma ditadura dassista e os alegados “sonhos secretos” e planos mirabolantes de . É por esse motivo que Oliva prefere o conceito de liberdade negativa à idéia de uma liberdade positiva. ao Holismo de Platão. Pois as duas questões levantadas. sob o título Razão e Racionalidade. dileto amigo. contraposto a Kant126. é tão importante que toda a filosofia ocidental não passaria de notas de rodapé à sua obra. constitui uma Introdução à filosofia de Karl Popper com o título Epistemologia e Liberalismo. logo ao terminar a guerra. uma introdução curta. que domina o Estado. com profundidade. em torno do problema do pensamento míti­ co em face do pensamento crítico. Júlio Cesar R. “como nos livrarmos pacifi­ camente de governantes corruptos e incompetentes?”. sucessivamente.Il da obra The Philosophy o f K arl Popper. uma penetrante análise do problema epistemológico da negativida­ de. “quem deve governar?”. no segundo. reconheço o maior fikSsofo liberal brasileiro. Wild liquida. sua defesa da propaganda mentirosa. John Wild que figura no vol. a seu suposto Racismo. no primeiro. com as alegações de Popper quanto à incompatibilidade de Platão e Sócra­ tes. Nessa época. das de Roque Spencer. Pereira. Isso explicaria a injusta acusação ao pensador que. Seria a forma de pressão que ouso qualificar de taoísta. do professor da PUC do Rio Grande do Sul. de M eir a P en n a nação econômica e desordem administrativa em que vivemos. Limito-me a apontar para a crítica do prof. e a de Popper. Pereira. estende-se Roque Spencer.36 2 J. Voltando à acusação popperiana quanto ao totalitarismo do filósofo grego. clara e bastante completa da filosofia de Popper como bastião do Liberalismo. são da maior atualidade. Oliva e J. e no terceiro. que sem querer penetrar na complexa questão de saber se era ou não Platão um totalitário ambicioso. Recorde-sc que The Open Society and Its Enemies foi publica­ do em Londres em 1945. assim como sobre a concepção de mo­ ralidade em Platão. Júlio César penetra mais a fundo na crítica de Popper a Platão. a de Platão. por extensão. O segundo livro. desde logo. 126 Recomendo a leitura das três obras a quantos estejam interessadas na aplicabilidade do debate filosófico específico à situação de fato existente no Brasil. O. para Whitehead. Baseando-se na obra que fez a fama do filósofo anglo-vienense. traumatizado pek> exílio e o horrendo conflito bélico. A Sociedade Aberta e seus Inimigos. racista e reacionário. a obra de Oliva proporia uma atitude de negatividade contra toda a realidade política do país.C. O terceiro livro é o que o professor Roque Spencer Maciel de Barros publi­ cou em 1994. como Popper alega — discordo da interpretação popperiana e. ele endossa a tese de que Platão tenha retornado à Sociedade Fechada e ao tribalismo primitivo que a democracia ateniense da época de Péricles superara. ainda se sentia Popper. presumivelmente. Sobretudo se abordamos a questão num ângulo eminentemente pragmático. K o faço com grande perplexidade pois.

eis que é demonstrado pelo fato de havermos tido. Presidentes loucos e Presidentes escolhi­ dos por acaso. combinando democracia. Pune-se os anões morais. Em todos os casos de abusos e escândalos que alimentam as páginas dos jor­ nais sempre foi a burocracia estatal responsável pelos esbanjamentos que. quando são eles mesma« que decretam as regras do jogo? E perguntaríamos a Popper: como nos livrarmos de tais governantes. The Ideais o f Greek Culture. contra Popper. é pertinente. Perguntaríamos a Platão: como escolher melhores governantes. con­ correm para empobrecer os pobres.. pragmaticamente. Reforça-se a polícia e a legislação penal. Platão e seu sucessor Aristóteles defendiam. polêmica em que me alinhei com o segundo.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 363 A partir de uma postura como aquela em que se coloca Popper. Tudo isso é reclamado pelo Pragmatismo. Enxuga-se o funcionalismo público. anterior à guerra. um sistema político misto. Insistamos no fãto que a ojeriza de Platão à democracia ateniense se prende ao método de escolha de seus governan­ tes: por sorteio. fornece sinais escabrosos de arrogância. Elimina-se definitivamente o controle cambial. julgando em causa própria e arbitrando seus próprios privilégios e vencimentos excessivos. cm virtu­ de das aberrações dos coeficientes eleitorais e aos quais dificilmente podemas atribuir o qualificativo aristocrático de “elite”. Derruba-se o monopólio do monstro que é a Petrossauro. Abre-se a economia para a globalização. um Congresso desprestigiado por políticos pouco representativos. das mais influentes — de modo algum corroboram os preconceitos anti-platônicos de Popper. e um poder judiciário que. além disso. o exemplo do Brasil atual é relevante. Suprime-se o Senado. cepalinas. Liquida-se com as estatais. Re­ lembro igualmente a polêmica que. sobre esse mesmo tema. Torna-se autônomo o Banco Central. em nome da “justiça social” legitimada pelas teorias socialistas. Sejamos francos e pragmáticos. keynesianas. Donde deduzo. amiúde. que as obras de Emst Jaeger. e de Eric Voegelin. que o que é preciso para prevenir o caos é reduzir o tamanho do Estado. de uma elite de poliria» e de um Chefe de Estado/Presidente da República. P aideia. aristocracia c monarquia — que é exatamente o governo moderno em que dispomos do voto popular. sem o recurso a tanques e fuzis? . Acolhe-se o capital estrangeiro. Acredito. na realidade. Isso se faz através de métodos de liberalismo e privatização. sociais-democráticas e outras mais tolas. For­ nece-se informações maciças à população jovem e de baixa renda sobre os métodos de controle da natalidade. mantiveram Merquior e Mário Vieira de Mello. Presidentes débeis mentais. nacionalis­ tas. no Brasil. Mas que a pergunta de Platão. nem atingem minha admiração por Popper. Nada disso tem a ver tomar-se Rei-filósofo absoluto de Atenas. Presidentes total­ mente incompetente.. Order and History — para só citar algumas. Reduz-se o número de deputa­ dos.

admira­ dor de Edmund Burke e conferencista em mais de 400 campus universi­ tários. é Russell Kirk um dos fundadores do movimento dito neoconservador nos Estados Unidos. quem pela primeira vez sugeriu deve a história (pragmatike histo­ ria). nos cinqüenta anos que vão de -220 a -170 antes de Cristo. E também um dos que. divagações mitológicas. O método prag­ mático de Políbio procura a verdade na realidade de fatos comprovados. com maior ardor. a qual está intimamente relacionada com a tradição do empirismo e utilitarismo anglo-escocês. reitor da Universidade. historiador. Analisando suas concatenações e interpretando objetivamente o desen­ volvimento dramático dos acontecimentos. Tal conselho é imprescindível aos estadistas prudentes e sábios que desejam formular grandes projetos políticos e. d e M e ir a P e n n a com teorias pedantes. Kirk cita Burke que afirmava “preciso ver as coisas.. preconceitos ou o relato emocional de episódios vários. de tendência keynesiana ou socialista. O caráter flexível e empírico da estrutura jurídica anglo-saxônica. não contaminada pelo sensacionalismo. categorias ideologicamente preconceituosas e esquemas de análise marxista que seduzem clérigos inibidos por seu voto de castidade. autor de vinte e tantos livros entre os quais o influente The Conservative M ind. Mas insistamos sobre o pensamento de Burke. possui pelo me­ nos essa superioridade sobre a latina. Em suas Refle- . ser escrita. concretamente. ba­ seada no Direito consuetudinário de origem germânica. O pragmatismo do filósofo grego se manifestou. O respeito aos costumes e à tradição é também o que re­ força o edifício teórico da economia hayekiana sobre a economia política dos economistas meramente doutrinários. acrobacias semânticas. na filosofia de Peirce e William James. preciso ver os homens”. Políbio. Foi o grande historiador grego do segundo século antes de Cristo. redigir ou reformar constituições. Famoso educador. sustenta a necessidade de uma postura pragmática na apreciação histórica e na análise objetiva dos acontecimentos contemporâneos.. O . antes de tomar uma posição. essen­ cialmente como uma austera disciplina de bom-senso. baseada no Direito romano. Políbio tinha como propósito explicar os motivos da conquista de todo o mundo antigo na área do Mediterrâneo por Roma.36 4 J. de ser mais flexível e mais adaptável às rápidas transformações provocadas pela modernidade. especialmente.

O mesmo se poderia dizer dos Pais Fundadores americanos sobre os quais o historiador Arthur Schlesinger reparou que foram “homens de visão. Vejam o contraste do pragmatismo anglo-americano com o abstracionismo romântico de um Rousseau ou um Mably. os ingleses fundamentavam sua Petition ofRJghts. John Selden e outros redatores da Petition ofRights. considerados falsos e quanto mais verdadeiros na abstração teórica. O que. Rousseau e Mably. contrariamente às idéias abstratas dos franceses sobre Direitos do Homem e do Cidadão. Os princípios gerais são. O de que se precisa é dc “Justiça social”. para ele. corrigidos. sem serem visionários”. Trata-se.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 365 xões sobre a Revolução Francesa. pode até projetar novos . caracteriza o pensamento de Burke é seu bom-senso empírico. Não há pecados individuais: só há pecados sociais.. Basta corrigir as instituições e seremos. acabam sempre evocandc um salvador pessoal. de estudar o comportamento político das pessoas — dos líderes e das mas­ sas. sua ausência de preconceitos ideológicos e sua preocupação cuidadosa com o aspecto ético de cada problema. por princípio. abstendo-se de se estender em ociosas especula­ ções de índole teorética. Burke acredi­ ta que as doutrinas que fundamentam todas suas esperanças sobre prin­ cípios abstratos e ignoram as particularidades concretas dos homens. Mably insiste que “nada é impossível a um legislador. ao tempo da Primeira Revolução Inglesa. suas reivindicações quanto a direitos. também sustentavam seus argumentos jurídicos na experiência e na tradição. já que em suas mãos possui nosso coração e espírito. em suma. mais errôneos na realidade concre­ ta da vida. duas almas danadas de fariseus — pois só fizeram o mal. observou Burke que. Contrariando Rousseau que concebe o legislador ideal da constituição ideal como uma espécie de supremo demiurgo. Seria esse o motivo pelo qual a Grã-Bretanha só excepcionalmente produziu grandes líderes caris­ máticos. pensando que eram ótimos e faziam o bem — acreditavam que as únicas falhas e virtu­ des que deveriam ser imputadas aos homens são de natureza social. mas nos direitos dos ingleses e no patrimônio herdado de seus antepassados”. automaticamente.. “não em princípios abstratos como os direitos dos homens. ao passo que fértil foi a França em sua gestação — e quase todos se revelaram calamitosos.

pelas terríveis contradições da sociedade inglesa” — sociedade que. rejeitam o empirismo de Montesquieu e dos ingleses. os que discor­ davam da Constituição não foram guilhotinados como acabou aconte­ cendo com o próprio pescoço de Condorcet. Robespierre. mas a sociedade o torna depravado e miserável”128. si Fhomme est corrompu. Numa série de três conferências reunidas num livrinho Ordem e Lei. Todos. A idéia que se pode projetar novos homens está na medula da obra de Marx: representa a própria essência da Utopia socialista. Ralf Dahrendorf também se dedica a analisar meticulosamente as teses de Rousseau e de seus seguidores. Teria sido seu temperamento messiânico a fonte dessas tendências: “O disciplinador foi o sonho invejoso do paranóico atormentado”. só querem a religião do coração. Quiconque nie ce principe ne doit point songer à instituer Fhomme. Para Rousseau. c'est donc aux vices des institutions sociales qu'ilfa u t im puter ce désordre”. Da anomia que resulta de tais premissas teoréticas chegamos. O barão D’Holbach se confessa “aterrorizado. O . evoluía pacificamente e tolerava as diver­ gências de opinião — isso porque não era uma sociedade teorética como a Utopia que D’Holbach pretendia criar. Algo como será 127 Em De ta Législation.L Talmon atribui a Rousseau uma das principais culpas pela origem do totalitaris­ mo. d e M e i r a P e n n a homens”127. É um deus ex-machina. . o legislador é responsável de tudo. o terrorista sanguinário que foi o mais famoso discípulo de Rousseau. Ele queria a liberdade mas tam­ bém pregava a pena de morte para os que não acreditassem na sua versão pessoal da Religião civil. inexoravelmente. inclusive o marquês de Condorcet. Condorcet chega a criticar a Revolução americana porque concilia a oligarquia dos ricos e os caprichos dos pobres — mas acontece que. J. como Rousseau. m ais ta société le déprave et le rend misérable".. no entanto. Mably exila os que. à tirania muito prá­ tica e muito real do soberano Leviatã. concluindo que todos aqueles que procu­ ram Rousseau acabam encontrando Hobbes.366 J.. O teísmo de Rousseau era político. na Revolução americana. como para os outros edificadores da Cidade Ideal do Racionalismo desarvorado. Foi Rousseau que proclamou mais diretamente o grande princípio da libertinagem romântica: “A natureza fez o homem feliz e bom. iria repetir: “L'homme est bon sortant des m ains de la nature. 128 “L* nature a ja it [homme heureux et bon.

mais quant à l'homme. que pretendeu representar o novo César e o novo Augusto do cesarismo imperial francês. o triunfo da teoria sobre a vida. como observa Talmon. corporativistas e patrimonialistas. durante os duzentos anos seguintes. “ fa i vu des Français. perver­ so e anti-social. que nossa inepta Constituição de 1988foi redigida segundo os ditames secretos do fantasma de Rousseau? A tarefa do legislador. determinar o democratismo romântico e idiota dos povos latinos e outros que lhe seguiram as instruções. des Italiens. de um ponto de vista ultraconservador. nos projetos de constituição para a Córsega e a Polonia. Joseph de Maistre já criticara. e em outros escritos — que ia.. Só os ignorantes e os imbecis podem ser viciosos. do amor de si (amour de soi). na verdade. então em seus primórdios. Rousseau distinguia o amor-próprio “egoísta” (amour-propre). escrevia ele. des Russes. não gostaram. as . Não eram partidários do laissez-faire. etc. Quem poderia negar. Tem razão Talmon e outros críticos ao verem em Rous­ seau o primeiro promotor do Totalitarismo moderno — que representa. a tendência dos constituintes france­ ses de elaborar leis para um homem abstrato que não existia. a religião. asseve­ rava ele. legítimo e natural. Não compreenderam tam­ pouco a energia produtiva do capitalismo. Afirmavam que “rien n'est plus destructeur pour les moeurs d'un peuple que l'esprit de finance”. c'est bien à mon insu".... “Não há homens no mundo”. e a partir dessa abstração sofismática sem sentido construiu o seu monumento po­ lítico — consubstanciado no Contrat Social. uma incompreensão total das forças extraordinárias que haviam sido liberadas com a Revolu­ ção industrial. je déclare ne lavoir rencontré de ma vie. Em suas Considérations sur la France. Todos esses philoso­ phes arrogantes revelavam. a liberdade de empreendimento econômico e comércio só poderia contrari­ ar a estrutura tirânica de seus modelos políticos feudais. por exemplo. a situação geográfica. é reconciliar o bem pessoal e o bien commun. e pergunta: “Que é uma Constituição? Não consiste por ventura na solução do se­ guinte problema: dada a população. Naturalmente. s'il existe.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 367 Napoleão. O inimigo figadal do pensamento revolucio­ nário continua com uma crítica irônica de constituições construídas na base de abstrações teóricas sem aplicação em casos concretos. porque são aqueles que não leram seus livros e. que principiara na Inglaterra. podem ser méchants. se leram.

como que inspirado cm teorias psicatulíticas. tlmt constitutts our pltnmrt" — é a açáo.. aliás. Austcrlitz. que constitui nosso prazer. as riquezas. postulava o Presidente )ohn Adams. () grande whyj descrevia os intelectuais jacobinos como “cabalístico» literários e (ilósotos intrigantes. pat a descobrir uma espécie dc "complexo de Édipo" no “ódio de geraçáo” que “explica . e o espanhol. dc (ato.. encontrar as leis que lhe convem?".1 ferocidade de suas açôes". Borodino — senáo diretamente a Waterl<x>? O contraste é considerável entre todos esses excessos em ocion ais c a mentalidade calma c equilibrada (sem complexos) dos que governavam o Reino Unido e concebiam a Guistituiçáo americana. a forma ideal da felicidade. “homem de açâo". de «. que pensava cm seu proprio país e nâo nu Cd. movidos por ímpeto assassino contra os respectivos pais c tudo que representa a autoridade paterna”. herdado pelos americanos. fxrusrs tiú pru! o que nâo é dizer poucn! Posteriormente AConvenção Constituinte que redigiu a ('..«» americano. nâo o descanso.\o obstante o extremo nominalismo dessa tomiulaçáo. . ainda escrevia Rurkc que nada poderia ser mais perverso do que o coraçao de um meta tísico abstrato que tentasse governar as naçoes através daquelas teses es peculativas. um dos Pais Fundadores. estava certo na crítica de um hábito.í no país vizinho os homicidas guilhotinadores do Cirande Terror e genocidas da Veiuléc se esbaldavam. grande simplificador de idéias c general dc cem batalhas sangrentas. c Bonapartc se preparava para emergir do caos revolucioná­ rio como um caudilho. loseph de Maistrc.onccbcr solu çóes utópicas simplórias pata problemas complexos.lo. desde I78l>.onstituiçáo dc 1787 dos Kstados Unidos c quatulo já principi avam a manifestar se ns horrores da Revolução em França. Vale lembrar que a (''rança. O pragmatismo inglês tbi. K enquanto escrevia. Iena. "lt is lution. as l*>as e más qualidades de cada naç. para os americanos. Um Madison por exemplo. Wagram. Hat rnt. com o francês. Madariaga. N. sem duvida emanado viu romantismo de Iihío intelectual teoietico. contrastou o inglês. A açào tornou-se. Mas a que conduziram todas elas — Marengo. 1>K MttlKA 1’ liNNA relações |*>líticas. Klcs iam mesmo criar uma filosofia especificamen­ te pragmática.m I. sem recurso aos dadtts empíricos da realidade. "homem de razAo". j. Fricdland. já elaborou quinze constituiçóes mais tio que o Hrasil. O . K raciocina­ va.. littrmti fanáticos. políticos teólogos e teólo­ gos políticos.

|Atu'iio l^HK. em 1786 no Massachussets. acentua que o propósito dos baundinq bathrrs nao consistia cm cons­ truir um Paraíso Terrenal mas arquitetar um plano prático geral dc go­ verno que assegurasse a uniao dos estados confederados contra a Inglater­ ra e procurasse prevenir os abusos do potier tios governantes. conheciam perfeitamente o que se escrevia na Huntpa c. W4*hÍM|tnu\. N o 369 Urtiry VIII. que optou então por uma totte Constituição Federal. excitava os revolucionários franceses. Como observou Madison. 'lis a ktnri ofjfooU drrd lo say m il: And yrl mnl\ nrr no drtds (ii.ockc. um projeto. num quadro dc crise económica c social ptvsterior ã guerra de Inde­ pendência. Burke tamWm afirma que o governo é apenas um esquema. modelado cm Rousseau. claramente. Montesquieu c Adam Smith. Todm o s stxióUtgm e lív T kf WorM /. O Kstado é. A tese é evidentemente exagerada: on Pais Fundadores nào eram filisteus aiulfabcuw. podemos lembrar Daniel Hoorstin que. se inspiraram na leitura pelo menus de Hobbes. Kra um simples "plano dc sobrevivência”.. já acima citad»). para eles... cm suas obras l'hr (irtiius ttf American Volities e Tht Amrrieans (The Colonial Exprim er).s jKnsadorcs que também se detiveram sobre a questão do pragmatismo naquela época. Num artigo da revista iltr World and Iu<\ Russell Kirk. Hoorstin opitu no sentido que náo Hm a Carta Magna o resultado tia erudição livresca (bookùh) da Idade da Ilumi­ nação.\o são anjos. pji <S7? . insiste na experiência prática do perúxio colonial como ori­ gem da Constituição de 1787. um Mal necessário. Mas náo deixa dc scr correto contrastar seu espírito prático c realista com o espírito literário tcorético do Iluminismo que. llarrington. a facilidade da repressão demonstrou o temperamento essen­ cialmente prático c conservador da população dos Kstados Umdtw. 15 2 ). um artifício (con/rimtur/) da sabedoria para suprir as necessidades luimanas.O I v S H K r i t ) DAS R H V O I UÇO U S “hom em de paix Ao". nada mais. Kntrc o. o governo só existe |torque os homens n. Além da Bíblia.. o p ró p rio Shakespeare opin a que açõcn mais valem d o ijue palavras: . certamente. l. Por ocasião da “rebelião" do capitão Shays.

acrescento. sustentam que em 1776 não ocorreu uma verdadeira revolução no sentido social da expressão. a grande mácula do Ocidente desde que ambas. estabelecendo em caráter definitivo um dos aspectos fundamentais de uma sociedade jovem que. que negavam o princípio da bondade natural do homem. filosofia e política. DE M EIR A PENNA historiadores. é cm parte responsável pela entrega a Stáline. E por esse motivo que Kirk conside­ ra a sociedade americana como aristocrática — pelo menos até o momen­ to da eleição do general Jackson. O assessor mais íntimo de Roosevelt ao final da guerra. insiste Hannah Arendt no realismo pragmático dos america­ nos e. de outro modo. Ela acentua repetidamente o preconceito anti-teorético desses homens e o realismo de estadistas. teve repercussões desastrosas de política externa e de segurança. Essa tese sobre o papel da 130 £ . assim como dos segredos da bomba atômica por intermédio de espiões e físicos comunistas infiltrados nos organismos ingleses e americanos encarregados dc manufaturar o engenho. mas apenas a transferência para a América das velhas garantias de direitos respeitadas na Inglaterra. segundo Arendt. de meta­ de da Europa. que Kirk não menciona mas que foram ominosas: as simpatias comunistas de alguns dos mais in­ fluentes conselheiros de Roosevelt em poiídca internacional. especialmente. O . Jefferson manifestou ceti­ cismo quanto ao nonsense de Platão. até hoje considerável. Enfim. talvez inspirados pela teologia calvinista. na conferência de Yalta. inclusive do traidor e espião Aiger Hiss. dos heróis de 1776. John Adams acusava os filósofos de “não levarem em consideração a natureza humana como fundamento” de suas teorias. em 1825. de saber se o New D eal de Roosevelt preservou os Estados Unidos de uma revolução. do Hillsdale College no Michigan. sempre foi considerada como originariamente democrática e igualitária. se divorciaram no momento da morte de Sócrates. Foi a animadversão pelos dogmas e sistemas o que os teria levado a criticar os filósofos do passado. inclusive Hannah Arendt como vimos acima. Falando numa conferência para o Center for Constructive Altematives. A hostilidade entre a filosofia e a política — superficialmente recoberta pela filosofia da política — seria. o mesmo Kirk abordou o problema. com isso salvando o sistema capitalista e a própria constituição democrática do país130. Uma aristocracia de Virginianos e yankees da Nova Inglaterra governou nos 50 anos que vão da Inde­ pendência a 1825. Harry .37 0 J . com a emergência da URSS como super-potóneia empenhada na conquista da hegemonia mundial.

Em 1932. O Partido Republicano ainda conservara a áurea aboli­ cionista e lineolniana da Guerra Civil. não existiam intelectuais influentes na política. como ele próprio teste­ munhou. como tampouco realizou qualquer reforma revolucionária. o único grupo étnico que. Scott Fitzgerald. uma grande cidade industrial. O paralelismo que se pretendeu traçar entre a Amé­ rica dos anos 30 e a Europa não possui qualquer fundamento. Inclui também. o New Deal de Roosevelt não só não evitou qualquer revolução. foi uma figura suspeita sobre cuja influência nefasta em Yalta e Pocsdam pesam graves acusações. tinham adquirido o que se chama hoje uma “consciência social”. econômica e social entre 1929 e 1939. votou pelos Republicanos. Com argumentos de bom senso tirados de uma avaliação realista da situação política. John dos Passos (filho de portugueses). Para Kirk. Apenas al­ guns. Kirk demonstra que os sindicatos operários da época não eram socializantes. talvez.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 371 revolução rooseveltiana inclui a de que foi Lord Keynes quem regenerou o capitalismo e. A esquerda americana se embeveceu com o projeto. foi o de • / negros 131 . e o corpo discente nas Universidades. uma região de extrema pobreza que serviu para uma série de obras que deram emprego e proporcionaram eletricidade — algo como a SUDENE entre nós. estado na iminência de uma revolução socia­ lista ou até mesmo de um golpe militar reacionário (sob as ordens. por influência européia. com ele. 131 Pelo motivo muito simples que no Partido Democrático se alinhavam os racistas reacio­ nários do Sul dos Estados Unidos. a democracia. Menos ainda escri­ tores ressentidos com teorias dogmáticas de cunho marxista. Além disso. . Faulkner. como Sinclair Lewis. a não ser dar início a um processo de burocratização e intervenção estatal na economia de que Hopkins. Hemingway. do general MacArthur). cm Detroit. Kirk ridicula­ riza os que acreditam tenha a América do Norte. incidentalmente. O grande teste da nova idéia sobre o papel do Estado foi o enorme proje­ to do rio Tennessee. não era de modo algum radical e combatia a baderna. a transformação da imagem do presidente Hoover (1928-1932) em vilão. no momento mais som­ brio da Grande Depressão. Não existia nos EUA um proletariado industrial politizado que pudesse servir de massa de manobra para ideólogos agitadores de tipo petista. Steinbeck e outros mais que.

A análise hayekiana é que o desastre ocorreu porque as nações se trancaram. São suas as seguintes palavras: “Não é função do governo fazer um pouco pior ou um pouco melhor o que podem os outros fazer. não é belo. E sabido que sua Teoria Geral e as controvérsias provocadas por As Conseqüências Econômicas da Guerra tiveram grande influência sobre os teóricos do New D eal. partidário da entrada do governo no setor produtivo. em plena Depressão. não é virtuoso — e não proporciona o que dele se espera (it doesn't deliver the goods)” — palavras que dificilmente fazem dele um “salvador” do capitalismo. está a vanguarda do pensamento ameri­ cano sob um Congresso republicano tentando reverter a tendência. para impedir a queda dos salários. desde fins de 1994. isto é. Em vez disso. Sua tese é que a Grande Depressão não confirmou a ne­ cessidade da intervenção do Estado na economia. Em 1933. Hayek combateu Keynes desde essa época. abstrato.372 T. Ora. pesada e estupidamente. quando começa a ocorrer uma recessão. teorético e não empírico do keynesianistno. contudo. O remédio é reduzir os salários. DE M E IR A PENNA finalmente. foi restaurar a esperança dos americanos e. afirma Kirk. Quando nos anos 70 e 80 nova crise afetou o mundo indus­ . os governos principiaram loucamente a manter o valor da moeda e forçar uma política salarial estapafúrdia. O Estado interveio. com­ bateu as doutrinas de Keynes sobre intervenção do Estado no campo da macro-economia. nesse senti­ do. O que a presidência Roosevelt conse­ guiu. precisamente pelo caráter “construtivista”. é Friedrich Hayek outro que. Nessa mesma linha. inutilizando o New Deal. ao intercâmbio comercial. no protecionismo. A guerra de 1941/45 e a própria evolução das coisas iam acabar com a De­ pressão. Keynes declarou que o capitalismo “não é inteligen­ te. O . o consumo cai. ferozmente. não é justo. e sim fazer o que ninguém pode”. a redução da capacidade produtiva e o aumento proporcional do desemprego. Lord Keynes não era. quando da Grande Depressão e desemprego. serviu a uma função conservadora de natureza emocional. decai então a produção e diminuem os lucros. con­ servando-os altos e assim provocando a falência dos empresários mais fracos. num funcionamento normal e racionai do mercado capitalista.

e a cidade terrena. Um dos que mais assiduamente combateram as teses keynesianas foi o professor Robert Lucas. pragmática e luciferiana.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 373 trializado. o fato é que esse discípulo de Friedman na Universidade de Chicago teria sido um obstinado crítico do lorde inglês. que suas teses sobre o uso de emissão monetária para estimular a produção e combater o de­ semprego são falsas e podem criar o que então passou a chamar-se “estagflação”. segundo julgo. O racio­ cínio de Lucas é simples: se um Banco Central começa. um recente (1995) Prémio Nobel de Economia. nesse sentido. Friedman. ao demonstrar. contrariando o espírito do Uuminismo europeu. sem qualquer estímulo para a economia. que continuou não obstante as medidas intervencionistas do Presidente Roosevelt. James Buchanan. discordar de meu amigo Antonio Paim. matematicamente. com a alta do petróleo e a “estagflação” renitente. mas políti­ co/psicológica. diplomáticos e políticos. o fato é que tais fatores políticos e psicossociais eminentemente irracionais influenciam a economia de tal modo que nunca é possível antecipar. as “expectativas racionais'' dos empresários produtores os induz a imediatamente aumentarem seus preços — já na previ­ são da inflação que vai ocorrer. o fosso tenebroso que se apresenta entre as promessas mirabolantes do socialismo teórico dos marxistas e o socialismo real em descalabro em nossos dias. o que vai acontecer. um fator de natureza não econômica. E a inflação de fato ocorre. Podemos considerar que a discrepância anotada por Arendt se prende à intranspo­ nível distância que separa a Cidade de Deus. automaticamente. a emitir mais moeda para combater o desemprego e estimular a economia. como paradigma ideal. O divórcio entre teoria e prática que. A tensão entre os dois reinos ou as duas “cidades” (na metaxy133 ). se acentua no decurso das revoluções modernas com a resistência crescente dos anglosaxões ao poder político legitimado por ideologias espúrias. Seria essa a perspectiva filosófica de um embate que tem outros parâmetros econômi­ cos. continua respeitando Keynes como o grande economista que salvou o Ocidente do socia­ lismo. Assinale-se. que. Sc parece exagerada a alegação da Academia de Ciência sueca que julga Lucas “o economista que exerceu maior influência” nos úldmos 25 anos (o elogio melhor caberia a Hayek. por exemplo. já surge em fins do século XVIII. em que viceja a política. Assim. em que pesem as “expectativas racionais”. 133Metaxy ■ no tntrt um t outro da filosofia de Piatío que Voegclin retoma como principio básico. Keynes ficou desmoralizado132. longe de consti­ 132 Lamento. Ninguém se deu conta desse fenômeno de feed-back nas décadas ckxs trinca por­ que a Grande Depressão. . só foi finalmente eliminada pelo rearmamento e a expectativa da entrada dos EUA na Guerra. já cm 1970. Stigler ou Becker).

374 J. logo ao princípio do Livro II. entre elas.. Na realidade. a fonte da tensão criadora que explica o esforço gigantesco da ação hu­ mana para. construir uma ponte. de modo a.. encontra­ ram em si mesmos os padrões de julgamento. Sua posição verdadeira se coloca em termos de tensão com o aspec . racismo e democratismo tão penosamente presentes em nosso próprio século. por exemplo. ao pensamento alemão. em parte. é claramente um fenômeno de rebordosa romântica cujas raízes teóricas mais profundas estão.. chatos de galochas abso­ lutas. ao contrário. O. Tocqueville acentua “não existir no mundo civilizado país onde menos atenção se presta à filosofia do que os Estados Unidos”. Os idealistas ale­ mães foram construtores de sistemas metafísicos. tender para o resultado sem se deixar prender aos meios e visar o fundo através da forma”. Os postkantianos foram essencialmente românticos e é ao romantismo alemão. originado no século anterior. E assim prossegue o sociólogo francês até assina­ lar o temperamento pragmático dos americanos que “não tiveram que procurar nos livros o seu método filosófico mas. capítulo I de sua A Democracia na América. o milenarismo e anti-semitismo medieval por exemplo. Uma ponte a que damos simplesmente o nome de cultura.. os filósofos idealistas alemães conservavam-se no âmbito do conflito entre o Racionalismo e o Romantismo. “cada americano só apela para o esforço individual da sua razão”. como o prussianismo. socialismo. E continua assinalando que os prin­ cipais traços do que ele chamaria “o método filosófico dos americanos” são a fuga ao espírito de sistema. DE M EIR A PENNA tuir uma maldição como pensa Arendt. marxismo. poderia representar. procurar sozinho e em si mesmo a razão das coisas.. O paradoxo foi notado por alguns mais argutos: o hiderismo. no terreno fertilizado por Hegel — muito embora seja também verdadeiro que o hiderismo se confunde com estruturas mentais de outra índole. A mesma crítica que dirigiu Burke aos phüosophes franceses poderia ser endereçada. “só aceitar a tradição como informação e os fetos presentes como uma útil lição para fazer de outra e melhor forma. Podemos concluir esta seção lembrando que. mormente no campo da política”. que se prende uma linha de pen­ samento que iria gerar as formas modernas de nacionalismo. Acima de tudo. em conflito com a fria razão cartesiana. no século seguinte. na liberdade..

O Estado entra em cena por um ato de violência que “só pode terminar por outros atos de violência” (Genealogia da M oral) e Nietzsche completa seu pensamento falando no “caráter de uma horrível tirania. Coube à Ale­ manha a primeira legislação social da Europa. Concebemos direitos constitucionais dignos da civilizada Suécia. Foi também Bismarck que inventou o Welfare previdencialista. As Grandes Guerras da primeira metade de nosso século resultaram. quase absolutista e sustentada no exército. cientistas políticos. industrializá-lo e. como aristocracia dominante. homem de pulso e de grande lucidez que conseguiu unificar a Alemanha. Tocqueville. na burocracia.. Kirk e Hayek é. O que esses alemães estavam preparando era o repúdio às idéias que haviam dado nascimento à primeira Revolução liberal. em grande parte.. mas suas posturas idealista e messiânica se opõe radicalmente ao empirismo e pragmatismo liberal da tradição anglosaxônica. pelos invasores germânicos da alta Idade-Média. o Príncipe Oto von Bismarck. o recurso ao idea­ lismo nefelibático que constrói na base de preconceitos ideológicos pri­ mários. no presente contexto. na grande indústria nacional e na autoritária e disciplinada Kultur acadêmica. Arendt. Burke. os Pais Fundadores ameri­ canos. relevante. para com isso reforçar o Estado. . legisladores e educadores brasileiros tem sido invariavelmente. assegurar um período de paz na Europa que duraria mais de quarenta anos. fundar o Segundo Reich. A besta danada do “mais frio dos monstros frios” fôra correta­ mente antecipada por Nietzsche. se transformou num monstro nas mãos de homens menos capazes ou mentalmente desequilibrados como o Kaiser Guilherme II e Adolf Hitler. eis que o vício essencial de nossos sociólogos. totalmente diferente daquele poder hegemônico que fôra imposto. A última terça parte do século XIX ia ser dominada pelo Chanceler de Ferro. das matutações dos homens da Kultur. A estrutura sólida que assim criara. um mecanismo mortífero e implacável”. numa democracia imper­ feita como a nossa e atrelada ao patrimonialismo real. A referência a Políbio. porém pouco adaptáveis a uma massa inculta mais próxima da Somália.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 375 to racionalista da Aufklärung.

fruto em sua maior parte do libe­ ralismo pragmático anglo-saxão. Foi ele um dos sociólo­ gos que mais insistiu na necessidade de uma postura condizente com as reclamações do país. simplesmente. e a economia de livre mercado conforme foi inicialmente concebida por Adam Smith. Devemos salientar o seguinte ponto. com o juramento de fidelidade ao método de ver com clareza “as coisas e os homens”.376 J . após o argumento que desen­ volvemos. Mas quem. Adams e os demais constitucionalistas americanos. DE M EIR A PENNA Há mais de sessenta anos. se sentiram diretamente influenciados ou associados ao ambiente anglo-saxão. entre nossos constituintes da “sistematização” na Constituição cidadã dos miseráveis do “Dr. A tradição latina e germânica.. neste final de século. Kirk. não . seguidos pelos chamados Filósofos Radicais britânicos e Pragmatistas americanos. Madison. O . de Liberalismo que é o regime enfatizando a liberdade contra o excessivo dirigismo e intervencionismo estatal?). afinal de contas. Foram suas idéias que inspiraram posteriormente JefFerson. Quando nos tornarmos mais pragmáticos e de nos afastarmos do romantismo ideológico. Hume. Os pensadores que melhor elaboraram essas teses foram Hobbes. Burke. A postura pragmática de Políbio. Oliveira Viana já reparava no contraste entre o “‘Idealismo da Constituição” e a realidade do país. trabalho e idéias. a divisão e controle mútuo do poder pelos órgãos do Estado. o presidencialismo promovido pelos Pais Fundadores americanos. sustentada nas condições desconhecidas do mercado de coi­ sas. Burke e o próprio Adam Smith. Seus modelos são a idéia do Estado de Direito. verdadeiramente pensou nesses termos? Nossos ideólogos são de fato absolutamente opacos a qualquer raciocínio empírico e a qualquer decisão pragmática. não os comove. o parlamentarismo tal como se constituiu após a “Revolução Gloriosa” de 1688. Locke. No debate que se intensifica em torno do assim chamado “neoliberalismo” (por que não chamá-lo. As instituições políticas. Arendt ou Hayek. Os outros europeus que também determinaram a estrutura político-econômica do mundo em que vivemos.. sociais e econômicas sob as quais vivemos são. consti­ tui certamente uma atitude que não cultivamos. exacer­ bado no calor dos trópicos. A própria “transparência” (Glasnost) adotada por um de seus gurus mais recentes. Tocqueville. repetimos que um papel relevante cabe à tra­ dição filosófica inglesa. talvez possa o Brasil melhor funcionar.” Ulysses.

pelo menos a impasses que atrasam — e certamente atrasaram em cinquenta anos! — a nossa emer­ gência para a modernidade. pára sobrepu­ jar o emocionalismo romântico que nos leva. Carecemos de um sentido prático. teve ao contrário um efeito deplorável sobre o desenvolvimento da sociedade moderna. obrigou-a pelo menos a melhor explicitar seus princípios norteadores. Desafiando aquela. assim dissolvendo preconceitos. . uma “ciência horrenda” como o inglês Carlyle chamou a economia. senão no “caminho da servidão”. erros e fraudes mais clamorosas. como o positivismo e o marxismo. o que nos tem faltado é um certo senti­ do pragmático das realidades nessa dismal Science. Falta-nos um maior sentido das realidades coletivas. Em conclusão a este capítulo. junto com o idealismo e dogmatismo de falsas teorias compensatórias.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 377 vinculada à do Liberalismo inglês.

ainda nostálgica como também a de Marx. todas frustradas. houve excessos que revoltaram as boas almas compulsivas. a ponto de rejei­ tarem o papel da coletividade/governo no estabelecimento dos parâme­ tros da interação econômica”. é que não interpretamos o termo Liberdade como comportando. escolheríamos 1848. Assinala Buchanan134 que a deturpação do sentido de Liberdade em mera libertinagem se prende '‘ao zelo dos seus advogados que estenderam os preceitos do laissez-faire com demasiado entusiasmo. Mas. das supostas “condições idílicas” do Medievalismo europeu. 1993. egoístas e viciosos.12. que ocorreram naquele ano — foi o movimento de opinião no sentido de um retorno ao coletivismo. o respeito a uma Ordem — a Ordem espontânea do Kosnws como deseja Hayek — e ao Estado de Direito que sustenta a autoridade racional-legal (Weber) no relacionamento entre os homens num mercado de coisas e idéias. a que damos o nome de democratismo. da crise do Liberalismo antigo que se manifestou a partir de meados do século passado — se quiser­ mos estabelecer uma data exata. invocado nos lemas de Igualdade e Fraternidade. as coisas não progrediam. . a meu juízo. por causa das Revo­ luções liberais européias. No princípio da Revolução industrial na Inglaterra e após a Guerra Civil nos EUA. com a grande e tumultuosa expansão para o Oeste. A SEGUNDA REVOLUÇÃO GLORIOSA principal motivo. simultaneamente. no Rio dc janeiro. Sob a autoridade paternal do Bispo e do Tríncipe. se tinha a ilusão de uma justiça transcendente que no Inferno puniria os malvados. pelo menos. A falsa interpretação do sentido do termo ’** Em sua intervenção durante a conferência da Sociedade do Mont Pèlerin. Uma das razões dessa tendência.

é bem verdade. na Irlanda. Uma 135 Na Escandinávia. Na realidade. os Robber Barons. A primeira Favela foi um morro. o trabalho incessante. É interessante lembrar. ao se transferirem para os slums de Londres ou Manchester. A miséria.. cm outras partes da Europa. os mi­ grantes abandonavam áreas rurais onde sua condição era tudo menos “idílica”. . identificado a libertinismo. A emigração para as EUA era a única solução salvadora. com a concomitante explosão demográfica. de Paris ou Nova York. que o governo de Prudente de Morais concedeu aos veteranas da campanha contra Canudos. os romancistas (Dickens e Victor Hugo entre outros) e os primeiros socialis­ tas utópicos muito exageraram as agruras do proletariado nascente nas favelas das novas cidades industriais. a solidão. os poetas. O nome lembrava a elevação a partir da qual a artilharia republicana bombardeara os rebeldes fanáticos. literalmente se morria de fome no inverno. os promotores também do imperialismo colonial na África e na Ásia. o próprio grande Leão XIII assim considera “o vício capital do Liberalismo” como recusa a “se submeter à soberania de Deus” — como se coubesse ao Omnipotente a regulamentação da lei da Oferta e da Procura! Segundo a Igreja da época. Em sua En­ cíclica Sobre a Liberdade Humana. no Brasil a esse propósito. os bidm vülts de Paris e o Hmrkm de Nova York. Foi a Revolução industrial que principiou em 1945. cerca do cais do porto no Rio. Do mesmo modo como nossos favelados que deixam as áreas flageladas do sertão.Paulo aquela imensa migração rural que procedia do Nordeste e de Minas. os “tubarões” do em­ presariado. na segunda parte de sua obra sobre As Origens do Totalitarismo. como hoje os nordestinos e mineiros para as favelas do Rio ou de S. o que derramou em todos os morros do Rio e de S. Não havia verdadeiramente “favela” no Rio daquela época: a miséria geral da população era estável c morava normal­ mente no meio da cidade.. o novo proletariado industrial voluntariamente melhorava de situação na indústria ao se ur­ banizar135. as máfias políticas. que é de 1888.Paulo. Apareceram. Exatamente como aconteceu com os slums de Londres.O E s p ír jt o da s R e v o l u ç õ e s 379 Liberdade. a enfermidade e a fome era o que ali os escarmentavam. os lordes do comércio e da construção das estradas-de-ferro. não haveria ética social possível fora dela própria. explicaria as estrituras dos Papas de fins do século XIX contra o modernismo e o liberalismo. Foram estes amplamente criticados por Hannah Arendt. a origem do termo fitvelu. Hayek e outros tentaram provar que os historiadores.

Proudhon. Como assinalou Julien Benda. os “clérigos” se indig­ naram e ainda se escandalizam. sopra­ vam sobre o Ocidente. mas contra as distorções aberrantes provo­ cadas por décadas de socialismo que arrebentaram com a moral social e comprometeram a vocação dos homens honestos para a competição eco­ nômica. evocar a crítica “iluminista” à alegada falta de racionalidade do Mercado. As desordens finan­ ceiras. como já registamos acima. comprometida por um outro preconceito. Renasceu a crença antiga de que os modelos do intervencionismo. Saint-Simon. uma descoberta relativamente recente da filosofia ocidental. A questão da liberdade na problemática constitucional é. desvalidos. Mas o paternalismo governamental. levantou uma resistência feroz aos ventos de liberdade que. senhor moralmente consciente dos riscos de suas ações. dé proteção aos indi­ gentes. A definição clássica afirma a liberdade negativa. proporcionada pela Igreja e pelo Estado. ou o que Otávio Paz chama de Ogro Filantrópico.380 J. de que é difícil aos políticos se descartarem. d e M e ir a P en n a situação semelhante afeta hoje a Europa oriental. viúvas e órfãos. obstinado. além disso. repercutindo nas outras partes do mundo. sendo a noção de um indiví­ duo livre e responsável. de que foi Marx o grande arauto. sem ser coibido.. Marx. Diz respeito. Owen. A nostalgia da homonoia paternalista. a que se referia Tocqueville. igualmente. Os donos do Estado paternal. Fourier. O . desempregados. na difícil transição do Socialismo para um novo regime liberal capitalista. Ela comporta o direito de fazer o que se deseja. desempenhariam o papel anteriormente representado pelas instituições caritativas da Santa Madre Igreja. na verdade vem de longe: mergulha suas raízes na pré-história tribal. de toda parte. ao pró­ prio sentido do termo Liberdade. Com esse espetáculo. com a restrição kantiana de que não se interfira com igual liberdade con­ . dirigismo e “construtivismo” estatal envolviam uma presumida omnisciência e bene­ volência do soberano Leviatã: é esse o fa ta l conceit a que se refere Hayek. Mas devemos. a corrupção. às vezes deplorável. Esti­ mularam os socialismos utópicos que medraram em princípios do século XIX. E uma idéia que ainda hoje mobiliza apenas uma reduzida elite de pensadores.. a criação de máfias tenebrosas pelos antigos membros da Nomenklatura que se apossam dos novos meios de produção não depõem contra o Liberalismo. eles passa­ ram a trair sua missão pedagógica em nome de ideologias espúrias.

Encontramos o seguinte trecho. já analisamos uma legislação permissiva que protege o criminoso mas deixa indefesa a vitima — a qual se esconde. Foi isso o que 136 li cssc o ponto csscncial que gostaríamos de desenvolver em outra ocasião. Infelizmente. muitos procuram preservar os direitos do criminoso.. diz o marquês d'Argenson.21. ninguém se pode expressar de maneira mais exata”. sem peias. . a liberdade constitui uma verdadeira contradição”. cada pessoa é perfeitamente livre naquilo que não provoque dano a outrem. sempre impunes. afinal de contas. nin­ guém tem o direito de fazer aquilo que lhe proíbe a liberdade de outrem. E em suas Lettres de la Montagne Rousseau é ainda mais específico: “Na liberdade comum. Ninguém fala em deveres cívicos.15). Não existe liberdade fora de um Estado de Direito. na Confederação Nacional do Comércio. escre­ veu Locke que “a liberdade. mais ou menos equivalente. em todos os níveis. Do mesmo modo. eram classificados como libertinos.. Numa confe­ rência sobre “A Idade do ãlibi”. Sem a justiça. de acordo com que tenha ou não a ação a preferência de sua mente. herdeiros da Contra-Reforma e do Absolutismo monárqui­ co. Esta é a limitação invariável. no Contrat Social de Jean-Jacques Rousseau: “Na República. é o poder que tem um homem de fazer ou deixar de fazer qualquer ação em particular. Estamos saindo da Idade das Guerras para a Idade do Crime. a vida e as posses do cidadão. se prende ao movimento romântico do século XVIII quando aqueles que pregavam a liberdade. o que é o mesmo que dizer con­ forme o queira ou não” (11. Na libertinagem sob a qual vivemos só se cogita de direitos humanos. c a criação de máfías internacionais poderosas e grupos terroristas de âmbito universal v*t. presumivelmente. e a verdadeira liberdade não é jamais destruidora de si própria. entre a maioria silenciosa das cidadãos comuas.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 381 cedida aos outros. A falta de sentimento cívico. a interpretação que mais vulgarmente se adotou nos países latinos. Nosso democratismo tornou-se desarvorado . liberdade e propriedade. assim como as cláusulas dos contratos livremente concluídos. de justiça e de solidariedade efetiva entre cidadãos civilizados é agravada pela proteção legal aos violadores da lei de colarinho branco. constituir a maior ameaça futura à paz c segurança das nações e povo*. Esquecemos que uma forte estrutura ética é essencial ao funcionamento perfeito da democracia. mas poucos defendem os direitos da vítima à sua vida. Os princípios liberais clássicos enfatizam a prote­ ção da propriedade e o Estado de Direito (rule o f law em inglês) para fazer respeitar. A proteção ao menor assaltante e homicida está na mesma linha: a saída hipócrita é classitká-lo como “criança abandonada”. Em seu Essay cmceming Human Understandmg.

Costumo definir o socialismo como “o Altruísmo imposto pela polícia”. pela truculência inquisitorial da Contra-Reforma. a mente de pessoas em todas as sociedades desenvolvidas. restrição e regulamentação da atividade econômica por parte do Estado. com a extensão e aprofundamento da libertinagem. uniformemente ortodoxa — numa dialéti­ ca de anarquia e despotismo que. o posicionamento uniforme e dogmático perante as grandes questões políticas. coesa. sustentada no medo.. com especial virulência na Alemanha e na França. sociais. como uma tentativa de impor a Or­ dem “justa” de cima para baixo. em vários graus de entusiasmo. intervencionista. ou seja. “a visão de uma ordem socialista emergiu de modo a capturar. liberdade e proprie­ . é forçada tene­ brosamente sobre as mentes para que aceitem as decisões arbitrárias dos governantes. Acredito. Tal a definição filosófica do que seja o Nacional-socialismo. até naquelas sociedades onde o Marxismo. foram reforçadas pelo Luteranismo e.. O totali­ tarismo se constituiu. movimenta os povos e as culturas. O . na Alemanha.382 J . a reação compensatória dedicou-se à detestável tarefa de impor um sistema de crescente intervenção. como tal. que o movimento romântico utópico que surgiu na Europa no século XIX. tendências que. Trata-se de reconstituir a sociedade medieval absolutista. nos países católicos. autoritária. centralizada. draconiana. Desse movimento de reação anti-liberal na economia. O culto socialista do Estado-nacional ressacralizado rejeitou categoricamente o conceito liberal clássico de uma sociedade que opera dentro de um conjunto de limites constitucionais impostos pelo governo — sendo este. aliou-se àquelas tendências coletivistas e patrimonialistas que o Ocidente herdou da Igreja católica medieval. culturais e religiosas. da permissividade e impunidade ge­ rada pela ingênua poética libertária. perenemente. quando fortes eram ainda os laços da ética religiosa que cimentava a sociedade. O que os nazistas chamavam a Gleichshaltung. transferindo-se posteriormente para todos os países latinos. restrito ao papel de garantidor da obediência às leis e segurança da vida. por conseguinte. precisamente. DE M EIR A PENNA parecia assegurado pelo Primeiro Liberalismo. Uma ordem externa. Mas. só obtivera um apoio direto rela­ tivamente pequeno” (Buchanan). O exemplo mais perfeito hoje em dia é o que predomina nas nações subor­ dinadas ao Fundamentalismo islâmico. a partir dos meados do século XIX. por sua vez.

A simples expressão conquista social implica uma relação adversária. assim se refere aos constitucionalistas de 1988: “Duas coisas me irritavam profundamente durante o debate constitucional. uma ação escandalosa como o seqüestro da poupança da classe média. contra intrusões na liberdade das transações econômicas e comerciais em geral. e nenhum dtvtr. nus países desenvolvidos. A cultura que permeia o texto constitucional é nitidamente antiempresaríai. mesmo nos serviços públicos. pois é praticamente irrestrito o direito de greve. 137 Sobre o tema vide. a redução do déficit público e a “justiça social” — quites a sempre promover o enriquecimento da Nomenklatura estatal patrimoniaIista138. entre os “direito» fundamentais”. promovido pela dupla arrogante Collor-Zélia em março 1990. Nem sequer o dever de trabalhar. pôde ser impunemente levada a cabo. não pode haver garantia constitu­ cional alguma oferecida aos atores econômicos. geradas por motivações políticas. ninguém teve coragem para incluir. a nos prometer. Decretam-se conquistas sociais que. Inconscientemente ficamos todas impregnados ds ideologia dy conflito de classes. No programa socialista. ad nauseam. quer sejam firmas ou pessoas físicas individuais. se auto-intitulavam pryfressisttu. 1985. mas a maior parte de suas antecessoras!). . Buchanan e Gordon Tullock calcularam os gastos que a intervenção governamental acarreta quando grupos específicos da sociedade procuram tirar proveito. através da ação de grupos de pressão. em suma. Uma era que os retrógrados que propugnavam um modelo nacionalestatizante. Lanterna na Popa. e não comple­ mentar. de Nelson Lehmann da Silva. resultam de negociações con­ cretas no mercado. Obviamente. du­ rante quarenta anos de inflação. 138 Roberto Canipos. A Religião C ivil do Estado M odrm*. sem comprometer seus promotores em crime de responsabilidade — enquanto os sucessivos e patéticos Ministros da Fazenda heterodoxos continuaram. a contenção das despesas. o direito do empresário de administrar livremente sua empresa". em sua obra monumental de memórias e crítica à polítka econômica desenvolvida por sucessivos governos brasileiros. do gigantismo estatal. absolutamente anacrônico. A outra era o dis­ curso sobre as conquistas sociais. Brasília. o equilíbrio do orçamento. refletindo o avanço da produtividade e o ritmo do crescimento econô­ mico. entre a empresa e o trabalhador. ou uma fraude eleitoral monumental como o Plano Cruzado da funesta du­ pla Sarney-Funaro tenha podido assegurar o sucesso do partido govemista nas eleições que lhe sucederam. Elencam-se 34 direitos para o trabalhador.O E spír it o das R e v o l u ç õ e s 383 dade dos cidadãos137. que se tomou na Constituinte um fenómeno de autosugestão. E porque é socialista nossa Constituição “dos miseráveis” (e não apenas ela.

Eliot. Dudley Willard. São todas. inspiradora do trabalhismo britânico.. A ligeira introdução histórica sobre o “neoliberalismo”.. referiu-se o Professor James Buchanan às carências constitucionais no mundo de hoje. consideravam-nos em breve extinto. particularmente sobre suas atividades econômicas. Os que se pretendiam os mais argutos pensadores. a “Constituição dos miseráveis” que nos legou o “Dr. a que possuo. Keynes falava nas “convulsões horrendas de uma civiliza­ ção em agonia”. Interessante era a tese no momento em que nos preparávamos para a revisão da detestável “publicação periódica” de 1988. Não existe uma Constituição liberal propriamente dita. de triste memória. do mesmo modo com os brilhantes intelectuais do Bloomsbury Circle. anuncia que a URSS .. exortava a “deindividuaiizar-nos todos”. Schumpeter falava no inevitável triunfo do socialismo. O . o professor de economia americano responsável pek> item sobre Capitalismo. Em 1961.384 J .. Prêmio Nobel e pro­ fessor na Universidade James Mason. que vamos empreender. O grande jurista áustroamericano Hans Kelsen. e todos seus resultados institucionais foram influenciados pelapresunção fata l139 de que a direção política mais facilita do que retarda o progresso econômico”. fracassos. DE M EIRA PENNA Por ocasião da reunião da Sociedade do Mont Pèlerin no Rio de Ja­ neiro. da Virginia — “contém restrições ou limites suficientes à autoridade das agências do Governo sobre as ati­ vidades dos indivíduos ou grupos. melhor permitirá compreender o arrazoado do mestre americano. Spengler e Toynbee colocavam-no no Age ofTrouble que anunciava o próximo triun­ fo dos Césares. E a sindicalista Beatrice Webb.. em 1929: “.a liberdade impossível do indivíduo retrocede pouco a pouco para ceder o lugar à liberdade da coletividade que ocupa o primeiro posto no cenário”. Bell se espantava com as “contradições culturais do capitalismo”. pelo pouco que conheço e entendo suas teorias ambíguas. Bertrand Russell e T. afirmava. Na primeira metade de nosso século o Liberalismo e o Capitalismo pareciam condenados ao desaparecimento.. O coletivismo triunfava à direita e à esquerda. qualificavam-no de imoral. O que 189 O Fatal Conuit de Hayek.. 140 Na Enciclopédia Britânica de 1968. nesse sentido.. “Nenhuma Constituição política exis­ tente” — afirmou o ilustre economista americano. em 1993.superaria . Khrushev anunciava aos americanos: “Vamos enterrá-los”140.S.” Ulysses.

para referência ao comunismo. e “países dc economia dc mercado”. E. raízes impor­ tantes mergulham em outras terras do Velho e do Novo Mundo — em primeiro lugar na Áustria. da autoridade externa prepotente.O E sp ír jt o das R e v o l u ç õ e s 385 havia de melhor na literatura européia estava apenas começando a se desi­ ludir com as maravilhas anunciados da Utopia soviética — mas a vitória de 1945. Bascava-se numa “pesquisa” empreendida pelo Itamaraty! . em 1970. apontou para as americanos. na linhagem de Platão e Agosti­ nho. sobre o qual sempre vale insistir. no entanto. para o socialismo. a palavra “capitalismo" era considerada insultuosa. Em 1959. a produção soviética superaria a americana. quando dirigi o Departamento da Ásia e Europa oriental no Itamaraty. hoje triunfante no mundo desenvolvido. procuravamos utilizar eufemismos e falávamos em "países de economia centralizada”. que mal transitava de um regime monárquico quase absolutista à época de Francisco José. Knight. Por mais importantes que possam ter sido Bergson. Hayek e Rõpke meditavam sobre como reconstituir a Europa nos escombros dei­ em breve o PIB dos EEUU. Ortega. por ocasiáo da famosa Operação Pan-Americana. Embaixador A. Sabemos também que. prevenindo-os que. um quarto dc século depois. Antes do final da IIa Guerra Mundial. é o lugar de honra que concedem à economia. Berlin. do Presidente Juscclino Kubitpchek. vislumbram-se os albores do Liberalismo moderno. o PIB da Rússia é inferior ao do Brasil e da Coréia! Nos anos 60. realizada com “nossos valentes aliados russos”.. virtualmente. e a sociedade ideal. Schmidt. Henri Bergson publica Les Deux Sources de la Morale et de la Religion. ninguém melhor do que o grupo de pensadores austríacos edificou os alicerces deste sistema. A ironia c que. Lippmanrt. Rõpke. distingue claramente a sociedade fechada. F. se a iniciativa da Revo­ lução neoliberal se localizou principalmente na Inglaterra. Antes mesmo de terminar o conflito. para evitar qualquer malestar cm nossas negociações com os soviéticos. Sobre sua influência universal agora falaremos. o fascismo de Dolfuss e o nazismo.. E o ceme de seu arrazoado. Aron. aberta para a liberdade e sustentada no imperativo moral interior. para designar os capitalistas. o delegado do Brasil. reacendeu com todo brilho a chama da perversa ideologia. uma obra clássica em que. de manei­ ra que. no período entre as duas guerras. É na Áustria que nasceram os grandes teóricos do que veio a ser chamada de Escola Austríaca de economia — talvez por reação ao regime imperante no país. Jouvenel. Kelsen. Dahrendorf e tantos outros que costumam ser mencionados como antecessores do neoliberalismo.

Em Studies in Philosophy. E sobre essas bases que. outro ju­ deu naturalizado britânico e um dos maiores filósofos do século. e. é que podemos citar a seguinte frase em que descreve suas convicções igualitárias e socialistas iniciais como um “belo sonho” rapidamente dissipado: “Durou algum tempo antes que eu reconhecesse. Hayek adverte que o con­ ceito central é que.. De Popper. acen­ tua o professor John Gray que “a propriedade privada é a corporificação da liberdade individual em sua forma primária. quer como sufixo — devemos o sus­ tentáculo teórico que determinou o surgimento do Segundo Liberalismo. contudo. d e M e jr a P e n n a xados pela Guerra. Devemos.. como acentua o pensador conservador americano Kristol. falecido em 1994. uma ordem espontânea de atividades humanas se formará. um liberal. que a tentativa de realizar a igualdade põe em perigo a liber­ . protegendo um domínio privado reconhecível dos indivíduos. O . que a liberdade é mais importante do que a igualdade. atento como o próprio marxismo aos aspectos econômicos da “infraestrutura” social. de complexidade muito maior do que poderia ser produzida por arranjos deliberados. especificamente. enquanto os socialistas são coletivistas. o individualismo destaca os neoliberais. Acontece que. no seu Unended Quest. Ao exame pragmático da vida social e ao repúdio ao socialismo sob todas suas formas. Mas seu papel não pode ser ignorado no contexto e de modo algum se declarasse. conseqüentemente. as liberdades do mercado são componentes indivisíveis das liberdades básicas da pessoa (humana)”. “Hayek quase que por si só derrubou os fundamentos econômicos do socialismo tradicional. inclusive a qualquer uso indevido do termo social — quer como prefixo. A Sociedade Aberta e seus Ini­ migos. as atividades coercitivas do governo devem ser limita­ das à proteção forçada (enforcement) de tais regras”. de tal maneira que todo o edifício do socialismo está agora caindo aos pedaços sob nossos olhos”. Politics and Economics. Historiador do Liberalismo.386 J. “sob a imposição de regras universais de conduta justa. acrescentar o nome de Sir Karl Popper. como sustentáculo das novas tendências. A obra de Popper cobre temas que largamente escapam dos limites da mera economia polí­ tica. publicada logo após a IIa Guerra Mundial. O que desempenhou na filoso­ fia política contemporânea resulta principalmente da obra de impacto.

a obra de Bõhm-Bawerk ia justificar a teoria do valor utilitário marginal e a teoria dos juros. who hear voices in the air. científica e oriunda dos grandes descobrimentos da época do Renascimento. O primeiro grande nome que se distingue é o de Ludwig von Mises. ou seja o “sistema natural de economia” como era chamado por Adam Smith.. Uma idéia paralela foi transmitida pelo economistas Paul Samuelson quando manifestou “não me importa quem escreve as leis de uma nação — ou organiza seus tratados mais avançados — se pu­ der escrever seus textos de economia”. Mas a qucm estaria Keynes se rcferindo. é mesmo quase certo que a preeminência ou precedência da ciência eco­ nômica na “Revolução” liberal se explique pelas circunstâncias históricas que a Humanidade enfrenta as conseqüências da Revolução industrial e tecnológica. ela própria um efeito da nova visão do mundo. se perdida é a liberdade. insistiu na relevância das idéias que repercutem universalmente e trazem conse­ qüências políticas e sociais relevantes. Richard Weaver. Na verdade. são as idéias e não os interesses consolidados que são perigosas para o bem e para o mal”. os austríacos. Numa época totalmente dominada pelo intervencionismo do Estado-nação soberano. Cari Menger (1921) e Bõhm-Bawerk (1914). que ouvem vozes no ar. Seus ilustres predecessores de Viena. não haverá nem mesmo igualdade entre os não-livres”. É provável. Acontece que. estão destilando seu frenesi inspirados por algum escrevinha­ dor acadêmico de alguns anos atrás141. um grande “liberal-conservador” americano. num livro com o título Ideas have Consequences. em 1948. Foi Lord Keynes quem sustentou esta verdade incontestável: “As idéias dos economistas e filósofos políti­ cos. válidas em qualquer cálculo econômico racional. portanto. é o mundo conduzido por pouco mais do que isso.. tanto quando estão com a razão como quando errados. Estou seguro que o poder dos interesses adquiridos é grandemente exagerado. e que. ou Stiline e Marx? . Mais cedo ou mais tar­ de. são mais poderosas do que é geralmente aceito. art distilling t^etr frenzy from somt academic scribbler o fa few years back". Hitler e Gobine­ au.. Ponderáveis e eminentes são.O E s p ír it o das R e v o l u ç õ e s 387 dade. criticaram o marxismo antes mesmo da Primeira Guerra Mundial ao ten­ tarem revitalizar a teoria do capitalismo. Loucos que detêm a autoridade. O ponto importante destacado 141 “Madmen in authority..

. mas da consta­ tação feita por Locke e Adam Smith que não pode haver liberdade verda­ deira senão na base do respeito ao direito de propriedade e à liberdade de comércio em sentido lato. O . DE MEIRA PENNA por Keynes — cuja influência. que pertence aos empresários e capitalistas”. ou seja. também segundo outro preceito: primum vivere. recebendo o nome de HumanAction. a não ser que nos transformemos em asceta hindu nas faldas do Himalaia.. A ênfase vem a se colocar não no produtor ou intermediário. como ciência da ação humana. como frequentemente se alega. nem sempre positiva. também foi gigan­ tesca no meado do século e ainda domina o pensamento da maior parte de nossos estadistas/economistas estatizantes — e por Samuelson. Inventada pelo economis­ ta Whately em 1831. Atrasadas como possam alcançar nossas plagas as teses neoliberais. mas no consumidor.388 J. por exemplo. Esta passou a ocupar uma posição hegemônica nas atenções da opinião públi­ ca. é o papel predominante e básico desempenhado pela ciência econômica. preside soberanamente às trocas. Nele Mises introduz o termo praxeolojjia.. De Ludwig von Mises (1972) a obra principal é um tratado monu­ mental sobre economia. “O poder de dispor dos meios de produção. industrializado ou não.. o feto é que as eleições de 1994. este sim. ninguém pode ser acusado de materialista por simplesmente se preocupar com suas necessidades materiais: todos nós nos preocupamos. deindephilosophari. a cataláctica seria a ciência das trocas — sendo a troca o mecanismo essencial do mercado livre. resultaria. explica Mises em sua obra Socialism. não tanto das objurgações de Marx contra o capitalismo sobre o fundamento econômico de sua teoria da ideologia. “só pode ser adquirido por meio do voto dos consumidores... publicado pela primeira vez em 1949 e recente­ mente traduzido pelo Instituto Liberal do Rio. Usa também a palavra catallactic. A base material de uma Humanidade em acelerada expansão tem que ser previamente garantida. A sociedade capitalista é uma “democracia do consumidor” que. A preocupação com a economia não é sintoma de materialismo. efetua­ . Não obstante a sentença evangélica de que “não só de pão vive o homem”. A importância da economia no mundo moderno. a liberdade de toda transação econômi­ ca. foram determinadas sobera­ namente por considerações da ordem que atinge o bolso da maioria dos eleitores: o Plano Real realizou uma espécie de milagre. no meu entender.

Voltaire teria repetido: “É claro que um país só pode ganhar se outro perde” 142. Mises chama essa falácia de dogma de Montaigne. o Mito de Montaigne gerou a ideologia dominante em nosso século. ' Mesmo o eminente presidente Médici. “ensinando que um conflito irre­ conciliável se mantem. 30. fácil era deduzir que o amontoamento do metal precioso nas mãos de alguém resultaria na redução desses metais na posse dos outros. Rousseau acendeu toda sua emoção neurótica para forjar o mito do empobre­ cimento dos que não dispõem de metais preciosos.. Mises acentua que os fenômenos catalácticos. além disso. escreve Mises. em todas suas raízes. proteção e objetos sexuais. procurem seu interesse egoísta. racional e livremente. entre os interesses de qualquer nação e os interesses das demais”. se origi­ nam não apenas na procura pelo homem de alimento. Mas não se pode atribuí-la unicamente ao ensaísta francês do século XVI.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 389 do diariamente na praça do mercado”. Senna em Os P*rcttros do R ei. entre os interesses das várias classes sociais de uma nação e. pg.. consagrou a balela: “o país está ficando mais rico. Mises com­ bateu áspera e obstinadamente a tese mercantilista segundo a qual oganho de um homem é o prejuízo de outro homem. Restabelecendo a verdade da tese de Mandeville e Adam Smith sobre os efeitos benéficos de um mercado consumidor em que todos os ho­ mens. Combinada com o nacionalismo jacobino. cm momento mal inspirado. Ela se transformou em dogma universal sob a pena de Marx. ninguém pode lucrar senão pelo que perde um outro. ramificações e conseqüências. mas também de todas as coisas “ideais” que por ventura deseja. inclusive em nosso país onde continua prevalecendo como convicção hegemônica143 das elites políticas e intelectuais mal informadas ou que falam de má fé. e uma vez que a quantidade de ouro ou prata é finita. mas o povo mais pobre". Os Mercantilistas do séculos XVII e XVIII também defendiam e agiam na base desse ponto de vista defeituoso: como toda troca se efetuava na base do ouro ou da prata. . Os socialistas se apossaram e desenvolveram a idéia..J. “Ela está no fundo de todas as doutrinas modernas”. dentro da estrutura da economia de mercado. Não seria demais afirmar que a Constituição de 1988 foi redigida como um instrumento de combate e sustentáculo da falácia — 142 Citado por Fernand Braudel. concebendo o Contra­ to Social a fim de superá-lo. Com­ preendemos hoje o mal que esse perverso sistema causou ao mundo. segundo J.

DE MEIRA PENNA uma Constituição inspirada pelo fantasma do grande masturbador genebrino Rousseau. O único propósito do governo. Também gritara Jeremy Bentham.390 J. e. e os homens inferiores e menos eficientes são benéficas para os dois grupos. com sua noção dos Direitos Naturais do homem e igualdade de todos como “verdades evidentes por si mesmas”. o filósofo radical: “Os Direitos Naturais não fazem sentido: os direitos naturais e impres­ critíveis constituem apenas um nonsense de retórica”. Elas também evitam os mal-entendidos do Darwinismo social e recomendam o governo popular. os homens são naturalmente diferen­ tes. a concorrência entre os indivíduos e os grupos humanos é cruel e inexorável. Analisando a sociedade humana na segunda parte de sua obra. Mises preten­ de. O cerne da filosofia de Ricardo era a demonstração que a coo­ peração social e a divisão do trabalho entre os homens mais ativos. talen­ tosos e eficientes. a natureza é insensível à nossa procura da felicidade. . e a doutri­ na dos “direitos naturais” não representa senão uma simples ilusão de retórica romântica. a tolerância e a liberdade simplesmente porque são racionais e benéficas. As teses de Mises se prendem ao desenvolvimento posterior do Darwinismo. o economista austríaco acentua o conflito entre o liberalismo do século XVIII de um lado. a propriedade privada. era simplesmente assegu­ rar ua maiorfelicidade para o maior n ú m ero Nada mais. sem base alguma na realidade empírica. porém. Na linha da filosofia utilitarista. mas de ima rejeição quase universal da filosofia utilitária e da teoria econômica”. para Bentham como para Beccaria. separar a sua posição tanto de um ponto de vista quanto do outro. A filosofia utilitarista e a economia clássica nada têm a ver com a doutrina dos direitos naturais. Mises conclui que nenhuma doutrina biológica poderá jamais tornar inválida o que a filosofia utilitarista afirma a respeito da conveniência social do governo democrático. como verificamos em capítulos anteriores. as alegações dos Darwinistas sociais do século XIX para os quais. Ele alega que “a prevalência atual de doutrinas que aprovam a desintegração social e o conflito violento não é o resultado de uma adaptação proposta da filosofia social às descobertas da biologia. da propriedade privada e da igualdade perante a lei. do outro lado. O . Mises aborda as más interpretações que foram empreendidas a partir da ciência natural moderna.

São essas as suas armas principais na luta pela vida. adotada por Darwin a partir de uma leitura de Malthus e aplicada à sua teoria de seleção natural. conduzem à escravização do homem.O E s p ír jt o das R e v o l u ç õ e s 391 Para Mises. . como uma solução para sua sobrevivência ante animais mais fortes e mais rápidos. que intro­ duziu na economia. É também um fenômeno biológico. reporto-me a outro livro desta série de ensaios. ainda que a cooperação em grupos implique. A existência em sociedade revelou-sc desde logo. deve ser compreendida em sentido meramente metafórico. Friedrich Augustus von Hayek. a j guerra dos grupos entre si*144 . tomou-se súdito britânico e fez carreira em Londres e nos Estados Unidos. para o homem primitivo. Não é nem mais. o altruísta e o racional. A Razão humana prova que pode o homem. necessariamente. Seu significado é limitado. irresistivelmente. Nascido em 1899. não obstante a con­ corrência com seus semelhantes. Havendo se exilado de sua pátria austríaca. como formas eco­ nômicas que. Seu livro de maior repercussão inicial. nem menos natural do que os outros aspectos da espécie homo sapiens. a noção de luta pela existência. e combinada com a do evolucionismo. alcançar uma melhor condição de exis­ tência pela cooperação social e a divisão do trabalho. Consiste apenas em afirmar que todo organismo vivo resiste ativamente às forças que possam ser prejudiciais à sua própria sobrevi­ vência. em plena guerra — obra momentosa em que denunciou tanto o socialismo de es­ querda — representado então pela Rússia soviética que era aliada da In­ glaterra — quanto o nazismo e o fascismo inimigos. A Razão inteligente é a principal carac­ terística do homem. versando sobre Ética. As ações que correspondem a esses três comportamentos são: tomar. data de 1944. Hayek foi certamente o maior economista e um dos maiores pensadores do século. em que pretendo desdobrar a tese do relacionamento dialético entre os très tipos de compor­ tamento humano básicos — o egoísta. A 144 Sobre o tema. dar e trocar. O Caminho da Servidão. Friedricb Hayek A noção de cataláctica foi adotada pelo discípulo de Mises. absorvida pela Alemanha nazista.

de natureza panglossiana. Hayek acentuou que o intenso horror às teorias oriundas do Darwinismo Social resulta dos preconceitos gerados pelo que denominou o Fatal Conceit. graças a Deus. simplesmente. O conceito ou pretensão fatal consiste em imaginar. DE MEIRA PENNA Esquerda não lhe quis perdoar essa equiparação. que o progresso possa resultar de vastos desígnios e projetos racionais coletivos e não. Ao reconhecer a grande confusão reinante na matéria. A influência de Malthus c dos economistas escoceses sobre Darwin. é que que­ riam ser anti-fascistas sem ser anti-totalitários”. a teoria da evolução e o desenvolvimento da cultura. Darwin leu a Teoria dos Sentimentos M orais de Adam Smith. da ação criativa e competitiva do homem individual. que seria um arranjo construtivista intencional e sustentado em qualquer uma das utopias racionalistas. a partir de 1933. Como no mesmo mo­ mento explicava um outro intelectual similarmente posicionado. Sua obra fôra precedida por décadas de pesquisas concernentes ao surgimento. Hayek argumenta que Darwin obteve suas intuições fundamentais a partir da economia. na natureza. Quarenta anos depois lhe iam os acontecimentos históricos dar. toda razão contra o senso comum “socializante”. como já notara Mises. “o pecado de todos os esquerdistas. através de um processo de diferenciação e evolução seletiva. Mas o mundo intelectual desconheceu a obra — salvo em alguns res­ tritos meios “conservadores” americanos e ingleses. pare­ cem entrar em fatal declínio. que se desenvolveram nestes últimos séculos e que hoje. cabalmente. Assim como na natureza funciona a seleção intra e extra-específica. Georgc Orwell. Hayek seguia Burke que atacara raivosamente a Revolução jacobina. mas se havia manifestado tanto a favor dos anseios de liberdade dos colonos da América. particularmente das idéias de Malthus. Hayek insistia que o ca­ minho da servidão valia para todo totalitarismo. o título de um de seus últimos livros (1988). quanto dos irlandeses católicos. O . então imperante em todo o planeta. esse proporci­ ona uma “ordem espontânea” a longo prazo. mas é sempre imprevisível pela ação de fatores irracionais de origem emocional. assim também na esfera humana funciona o mercado. se­ . É um cosmos — em contraste com a taxis. Sempre insistiu Hayek quanto à relação íntima entre a economia.392 J. Ora. O mercado configura uma ordem criativa. de esquerda ou de direi­ ta. de ordens espontâneas altamen­ te complexas.

Em sua obra The Descent o f Man. de 1978. E conclui: “Parece-me que. um na biologia. “nunca foi estudada sistematicamente. cm suma. iniciou”. escreve Hayek em New Studies. Marx teria deixado cada vez mais de lado a dialética hegeliana para interpretá-la em termos darwinianos. mas a evolução cultural através da aquisição de conhecimento — o que conduz. assinalando que. o outro nas ciênci­ as humanas. O pensador previne. um fe­ nómeno de seleção sempre ocorre: “Prevalecem as formas de comporta­ mento que conduzem à formação de uma ordem mais eficiente para todo o grupo. às vezes a conflitos com instintos naturais próximos dos animais”. O que é progresso na esfera humana é evolução na esfera vegetal e animal. Hayek observa que. depois de seu encontro com a obra de Darwin. porque tais grupos prevalecem sobre os demais”. Embora admi­ ta que a idéia de ordem espontânea pressupõe um certo finalismo tal como muitos sugeriram. sobre as diferenças fundamentais entre a evolução cultural e a evolução biológica. sustentando aliás a opinião de Julian Huxley no mesmo senti­ do. certamente. “não é a evolução genética de qualidades inatas. mais do que qualquer outro homem. Darwin se coloca no final de um desenvolvimento que Mandeville. cm muitos casos. Assim como o Mercado é ordenado por uma espécie de Mão Invisível (Adam Smith). a emergência dos dois conceitos gêmeos de evolução seletiva c formação dc . “Meu problema”. muito tempo antes de Darwin. Hayek combate outros erros do construtivismo. Engcls equiparava Darwin a Marx no mesmo sentido. como desco­ bridores das leis do desenvolvimento. Ele salienta. inclusive Jercmy Bentham — Hayek observa que a ordem espontânea extensa que propõe contrasta com o construtivismo animista do socialismo cm suas múltiplas formas. Creio que tal estudo mostraria que a maior parte do aparato conceituai empregado por Darwin já estava pronto para ser usado”. no processo de transmissão cultural das regras sociais através do qual os modos de comportamento são passados de geração em geração. Em seus Novos Estudos. assim também a natureza estabelece um equilíbrio ecológico que funciona evolutivamente através da concorrência e seleção entre os indivíduos c as espécies co-existentes. contudo.O E spír it o das R e v o l u ç õ e s 393 gundo alega Hayek. os teóricos da sociedade e particularmente os da linguagem haviam afirmado que. Darwin de­ monstra já ter adquirido perfeita consciência disso.

quer sob sua forma radical marxista. Smith e Adam Ferguson. como marco histórico do verdadeiro início da Idade Moderna. Hayek salienta a importância fundamental do trabalho dos escoceses na análise dos processos que se auto-ordenam. d e M e ir a P enn a uma ordem espontânea em Hume. acentuou que toda a civilização. ano da Independência americana e da publicação do W ealth o f Nations. justamente no domínio das idéias. ele ape­ nas multiplica as interrupções e as causas de queixas”. consideram o ano de 1776. contra a prova empírica. Motivados por suas convicções de justiça. um filósofo escocês que também muito influenciou Hayek. a família. Adam Smith teria sido o último dos moralistas e o primeiro dos biólogos e sociólogos. O . considerando esta a tarefa principal da ciência da Ordem do Mercado — a ela acrescen­ tando o “elemento genético” que o economista austríaco Cari Menger já afirmara ser inseparável da ciência teórica. desenvolveu-se através de indivíduos livres: “Quando um refinado político oferece sua mão ativa para ajudar. insiste Hayek que. Em conclusão. E acrescenta que “a obra de Smith marcou o breakthrough de uma inicia­ tiva evolucionária sistemática que. O que está ocorrendo é que. com a linguagem. mas por seu valor moral. substituiu o ponto de vista estacionário de Aristóteles”. os sistemas socio-econômicos contraditórios que se enfrentaram raivosamen­ te ao tempo da Guerra Fria estão sendo agora debatidos não mais na base de preconceitos ideológicos. Ferguson. como o das nações da vanguarda. se devemos temer as implicações do Darwinismo social. nem excessivamente exagerado o entusi­ asmo daqueles que. Mandeville.394 J. Nesse sentido não é ridículo. Durante mais de cem anos. O debate sobre os “valores” da sociedade moderna é o tema que fascina o público americano. Ele construiu uma ponte do Enlightenment para o esforço científico do século XIX. eram considerações éticas que lhes impunham essa versão corrup- . Num ensaio de 1767 sobre a História da Sociedade Civil. o mercado e as artes. quer em sua expressão liberal e democrática romântica. como nas especulações dos Fabianos ingleses e dos atuais “liberal-socialistas” ou “social-liberais” — sempre manteve o socialismo o monopólio da atenção dos intelectuais. não se pode tampouco negar as virtudes da seleção competitiva das instituições cultu­ rais. como eu aiiás. quer combinado com o nacionalismo à direita. do ponto de vista do progresso humano. progressivamente.

foi provavelmente Nietzsche o primeiro filósofo que. Mas além dos critérios de Justiça e Liberdade. Não é somente que os grandes economistas “austríacos”.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 395 ta do Cristianismo. no Ocidente. vigorosamente. Becker. Maritain. o empréstimo a juros. numa linhagem procedente de velha tradição de teólogos milenaristas franceses e alemães entre os quais poderíamos colocar pensadores de tão alto gabarito moral quanto Lamennais. segundo se pode descobrir cm um deles. forma secularizada e corrupta de um Cristianismo em declí­ nio. Teilhard — essa conversão está também sendo batida em brecha. Mounier. É o que acontecia na Europa e na América há 50. como definiu Raymond Aron. Mises. o fenômeno da livre concorrência. Para nossa tristeza e prejuízo. ou Milton Friedman. Buchanan. Ora. Criam-se novos padrões ideais. Knight. a globalização da economia.. senão uma manifestação dessa mais profunda. O foco da Esquerdigreja hoje não é mais a Europa. Sempre atrasa­ dos em matéria de pensamento. a idéia de lucro145. a iniciativa privada de empre­ sários ambiciosos e a procura do interesse próprio — condenar tudo isso como imoral e pecaminoso. A conversão de grande parte da Esquerdigreja popular ao marxismo. afirma: “o objetivo da educação i combater a idéia dc lucro”. Mas isso apenas representa sub-desenvolvimento cultural. Em alguns casos. voltam a salientar o caráter inseparável do capitalismo e da democracia.. Novak ou Bauer. vulgar e desprezível dc l4S Descobri que a grande maioria dos 80 milhões de livros que são vendidos ou distribuí­ dos aos educandários brasileiros são de inspiração “xiita” e originados em fontes petistas cujo lema.. o debate sobre os regimes. pode-se ainda no Brasil condenar o capi­ talismo. 100. Em fins do século passado. é a América Latina.. Imaginem no que daria uma economia da qual fosse expurga­ da a idéia de lucro! . Bernanos. 300 anos atrás. são precisamente considerações de Justiça e de Ética que novamente reforçam. Péguy. A própria noção de Justiça é repensada à luz da história recente. a ideologia se tornava uma espécie de “ópio dos intelectuais”. outros padrões éticos estão sendo utilizados no confronto dos sistemas ou numa “disputa das escolas” que teria entusiasmado Kant. Para ele nada significa o socialismo. Surgem novas normas de ética perante as quais devem os regimes sócio-políticos e sócio-econômicos serem retestados. Hayek. agrediu o socialismo justamente no terreno da ética. Kierzner.

de santificar a inveja e o ressentimento do pobre con­ tra o rico ou. Um novo pragma­ tismo se debruça sobre o conteúdo ético dos comportamentos individu­ ais: esses irão determinar o valor do sistema coletivamente adotado como mais justo. pela ação da Mão Invisível. tout est perdu”). Hume. Lord Peter Bauer acusa a própria Igreja. Entretanto. não é mais possível negar que a inveja e o ressentimento das massas. contudo. Trata-se de uma nova reinterpretação da famo­ sa ética protestante. O socialismo séria a perfeita racionalização da Herdenmorcü. a moral do rebanho. Nietzsche repetia um pensamento de Voltaire: “Quando o populacho pretende raciocinar. Essa nova posição retoma à postura muitas vezes paradoxal dos gran­ des radicais anglo-saxônicos que pensaram o capitalismo democrático moderno: Locke. Max Scheler iria explorar as formas que pode o ressentimento tomar.396 T. é porque não é a análise formal dos sistemas o problema relevante. Malthus. em suas encíclicas (as de Paulo VI especialmente). Se o socialismo entra em declínio na prefe­ rência dos moralistas. A letra mata. mais especificamente. Hoje. habilmente explorados e conduzidos por intelectuais alienados. o espírito vivifica. Todo esse esforço do pensamento filosófico sobre a matéria tende para a constatação de que não são asformas dos sistemas políticos e eco­ nômicos que mais importam. que justificou o capitalismo como contrapé da inveja. os novos filósofos da economia estão agora passando da defesa ao contra-ataque. Stuart Mill e Isaiah Berlin. Adam Smith. a favorecer a nossa própria. Ricardo. Foi ela. E é ela que explica o imenso sucesso material das grandes democracias ocidentais. das nações subdesenvolvidas contra os países industrializados. agitadores ambiciosos e demagogos populistas. não constitui uma idéia facilmente assimilável pela maioria dos homens. que ele tanto detestava. DE MEIRA PENNA todas as reações humanas: a inveja e o ressentimento. Inveja e ressentimento que justificam a violência e servem de álibi para a vontade de poder e a agressividade em suas formas mais cruas. Alguns observam que a crença segundo a qual a fortuna dos outros deve um dia chegar. O novo sentimento que surge nas nações mais adiantadas da . enriquecidas pela revolução industri­ al. tudo está perdido” (“Quand la populace se mêle de raisonner. Bentham. está na medula do ímpeto revolucionário totalitário que desgraçou nosso século. O .

o fracasso generalizado das economias planificadas. os problemas demográficos e ecológicos apresentam-se como os grandes desafios que os governos liberais terão de enfrentar no próximo século. a reunificação da Ale­ manha. preocupandose com sua própria liberdade! Após o sucesso global da “revolução de veludo” nos anos admiráveis de 1989/91. O liberalismo postula uma nova ética individual no compor­ tamento político e econômico. precisamente. Buchanan nos previne. O terrorismo. durante a crise dos anos 73/82. o fraco desempenho. talvez porque. de modo geral. É isso. com toda razão: “O socialismo morreu mas o (espírito do) Leviatã continua vivo”. Seu propósi­ to é forçar a redução do papel englobante do Estado. a libertação da Europa oriental. de partidos de índole conservadora ou liberal. de 26. por outra. Essa nova atitude implica.3. surge agora uma nova visão. Como quer que seja. mais otimista. Tal constatação não implica. ostensiva ou veladamente paternalista.O E s p ír it o d a s R e v o l u ç õ e s 397 Europa e nos Estados Unidos — atitude erroneamente classificada como neo-conservadora ou como nouvelle droite constitui na verdade um retor­ no aos princípios morais do liberalismo clássico tal como foi concebida nos séculos do Enlightenment. das Ideologias ou. o descalabro do ' socialismo real’. essencialmente. em suma. se esteja o homem tornando mais consciente de suas contradições espirituais. 146 Como escreve Roberto Campos na Folha de S. o descalabro dos regimes comunistas na África e a subida ao po­ der. . o mal-chamado “neoliberalismò” estende-se hoje por todo o mundo. O triunfo liberal marca o fim. a criminalidade.Paulo. a valorização da autonomia moral do indivíduo responsável no mercado capitalista. a crença em um problemático Fim da História. como sustentáculo da justiça. contudo. que registaram o colapso do Império do Mal. da chamada 'sintonia fina' da economia e. resumindo o ocorrido: “Por volta do começo dos anos 80. do que poderá ser o século XXI. ao invés de decisões de burocratas. tantas vezes anunciado. os conflitos étnico/religiosos.95. seu último adversário continua sendo o nacionalismo146. nos países avançados do Primeiro Mundo. que se chama de neoliberalismo". do intervencionismo macroeco­ nômico inspirado em Keynes levaram a uma revalorização dos mecanismos automáticos dc ajuste do mercado. as máfias internacionais.

nacionalistas e social-democratas defende-se detrás de uma fortaleza considerada moralmente providencial. o annus mirabilis.. o Estado intervenci­ onista dos socialistas. um dos mais antigos. em homenagem a um dos seus principais teorizadores. lady Margaret Thatcher acentuou que não se devia comemorar o bi-centenário da Revolução Francesa mas a Revolução Inglesa ocorrida cem anos antes daquela — a Revolução Gloriosa! Não deveria então este capítulo intitular-se “A Segunda Revolução Gloriosa”? Não é ela que está derrubando o Leviathan e tentando controlar o Behemoth? Ou não ca­ beria. Mesmo se ao mercado. obediente embora às “modernizações” de Deng Xiaoping. em seu livrinho Entre os Cupins e os Homens que constitui uma síntese perfeita do pensamento liberal moderno: “Há um ressurgimento do libe­ ralismo no mundo. E abençoado como portador de virtudes transcendentais: fora do Estado não haveria salvação. especialmente do liberalismo econômico. proclama que “o mercado regula a economia e o Estado regula o mercado”. O . hoje Diretor Executivo do Conselho Nacional dos Institutos Liberais do Bra­ sil.. os raciocínios absolu­ tistas que deformam o pensamento liberal e o tornam de tão difícil com­ preensão — às vezes por aqueles mesmos que se dizem liberais. e em que. Nessa data. no período entre as duas Guerras Mundiais. firmes e autênticos liberais brasileiros. merece agora um tratamento mais pormenorizado. encabeçá-lo com o título “A Revolução de Hayek”? Como escreve o professor Og Leme. ou tolices no gênero dos economistas da Esquerda patrícia: .398 J. por eles. logo de entrada. é permitido movimentar-se em vastas áreas de opção. a partir de 1989. se desenvolveu a Revolução liberal no mundo. de M e ir a P en n a A Segunda Revolução Gloriosa: Precedência inglesa Um breve retrospecto histórico das condições em que surgiu o cha­ mado neolibcmlismo. A tese de Og Leme tem o mérito particular de desmanchar. qualificado de “Mal Necessário”. Donde a possibilidade de se ouvir pronunciamentos abstrusos como o do Primei­ ro-Ministro chinês que. E o que está em gestação talvez renasça das cinzas de seu predecessor com mais cons­ ciência de si mesmo e com mais determinação”. Tal Estado não é. como meio de organização econômica.

capitais e mercadorias é nossa esperança. o antagonismo do Partido Trabalhista. informações. com o gover­ no de Margaret Thatcher. Permitam-me. o obstinado corporativismo dos sindicatos associados ao Labour Party. Isso.. o Labour subira ao . Olavo de Carvalho fala numa “espécie de pseudo-heroismo do nonsense” que atinge esse pessoal. em pleno conflito. de modo a implantar governos coibidos em sua ação e abertos em suas iniciativas. Ao recordar as Musions Perdues de Balzac. tanto no terreno teórico com o pensamento de economistas e filóso­ fos associados à London School o f Economics (LSE) — Lionel Robbins. ex-candidato presidencial. dando início a uma nova era histórica. Montaner e Alvaro Vargas Llosa nos ofere­ cem MmM anual do Perfeito Idiota Latino-Americano. três anos depois. Num outro livro de sarcasmo incomparável. ou a proposta glasnostálgica do eminente Neanderthal do PT. na práti­ ca e simultaneamente. que cobre todas essas posturas burras. suas raízes Fabianas. um tratamento um pouco mais pormenorizado desses anos decisivos. idéi­ as. Ele nascera. do céle­ bre Beveridge Report (1941) produzido por William Beveridge.O E sp ír it o das R e v o l u ç õ e s 399 “sou a favor do mercado mas contra o capitalismo” (Paul Singer). Tratava-se de combater. Plinio Apuleyo Mendoza. completou seu ponto de vista com um trabalho Full Employmmt in a Free Society. que admite “rediscutir o mercado”. entre outros — quanto no político. Carlos A. Hayek. Coase. contanto que sejam con­ servadas as estatais e tornadas mais eficientes através da “transparência da administração popular”. que se dissolva “essa grande ficção através da qual cada um procura ga­ nhar sua vida a expensas dos outros”. A abertura ecumênica dos mercados ao livre trânsito de pessoas.. conforme ainda assinalou Bastiat há mais de 150 anos. O Trabaihismo do pós-guerra tivera um programa longamente matutado de instalação do welfare. Antes mesmo de terminada a guerra.. um eco­ nomista e político fortemente influenciado por Keynes que. E confiar também. o Estado previdencialista. heg