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Texto II

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Lê atentamente o texto.

Durante três dias e três noites, fiquei sem querer nada. Só a
febre me devorando e o vómito que me atacava quando
tentavam me dar para comer ou beber.Ia definhando,
definhando. Ficava de olhos espiando a parede sem me mexer
horas e horas.
Ouvia o que falavam a meu redor. Entendia tudo, mas não
queria responder. Não queria falar. Só pensava em ir para o
céu.
Glória mudou de quarto e passava as noites a meu lado.
Não deixava nem apagar a luz. Todo o mundo só usou doçura.
Até Dindinha veio passar uns dias com a gente.
Totoca ficava horas e horas com os olhos arregalados, me
falando, de vez em quando.
– Foi mentira, Zezé. Pode me acreditar. Foi tudo maldade.
Não vão aumentar nem a rua nem nada...
A casa foi-se vestindo de silêncio como se a morte tivesse
passos de seda. Não faziam barulho. Todo o mundo falava
baixo. Mamãe ficava quase toda a noite perto de mim. E eu
não me esquecia dele. Das suas risadas. Da sua fala diferente.
(...) Não podia deixar de pensar nele. Agora sabia mesmo o
que era a dor. Dor não era apanhar de desmaiar. Não era
cortar o pé com caco de vidro e levar pontos na farmácia. Dor
era aquilo, que doía o coração todinho, que a gente tinha de
morrer com ela, sem poder contar para ninguém o segredo.
Dor que dava desânimo nos braços, na cabeça, até na
vontade de virar a cabeça no travesseiro.
E a coisa piorava. Meus ossos estavam saltando da pele.
Chamaram o médico. Dr. Faulhaber veio e me examinou. Não
demorou muito a descobrir.
– Foi um choque. Um trauma muito forte. Ele só viverá se
conseguir vencer esse choque.
Glória levou o médico para fora e contou.
– Foi choque mesmo, doutor. Desde que ele soube que iam
cortar o pé de Laranja Lima, ficou assim.
– Então precisam convencê-lo de que não é verdade.

Observa a frase do texto: «Ia definhando. definhando. Todos estavam convencidos de que se tratava de um caso de sofrimento psicológico – no que estavam certos . «Não vão aumentar a rua nem nada…» para aumentar a rua teriam de cortar a planta. Prova. O Meu Pé de 5. Explica. 8. a que é que os familiares e amigos do narrador atribuíam o seu sofrimento. .1 Identifica outra que lhe seja idêntica pelo sentido.3 «Meus ossos estavam saltando da pele. 1995. mas ele não acredita. É um menino muito estranho. «Só a febre me devorando». Para ele o pezinho de laranja é gente. por palavras tuas. Identifica a frase que. «Meus ossos estavam saltando da pele.» Toda a gente foi simpática e gentil.» Os ossos notavam-se cada vez mais. Melhoramentos. devido ao emagrecimento. 7. com base no texto.» 6. Vê-se que o «segredo» dele tinha que ver com a ausência de uma pessoa de quem muito gostava . do seu modo de falar «diferente». Identifica a figura de estilo presente em ambas as frases: a. «A casa foi-se vestindo de silêncio». Eu ouvia tudo e continuava desinteressado de viver.2 Observa agora a frase «Desde que ele soube que iam cortar o pé de Laranja Lima». Laranja Lima. Em ambas ocorrem metáforas. Explicita o sentido que atribuis a cada uma das seguintes frases: 5. 5. 6.– Já tentamos de todas as maneiras. b. Queria ir prò céu e ninguém vivo ia para lá.devido ao desgosto sentido pelo narrador ao saber que iam cortar uma planta da qual gostava muito – no que estavam errados.» 6. Estavam equivocados. no texto. nas «risadas» dessa pessoa. esclarecendo se se trata de um sofrimento físico ou psicológico. que estavam equivocados. 5. Justifica a tua escolha. Muito sensível e precoce.1 «Todo o mundo só usou doçura. se relaciona com esse possível acontecimento. porque o narrador diz que não podia deixar de pensar «nele». São Paulo. 9.2 «A casa foi-se vestindo de silêncio» O silêncio foi-se instalando lentamente na casa. José Mauro de Vasconcelos.

O facto de a forma verbal se encontrar no gerúndio “vestindo” traduz o modo como o silêncio se foi instalando na casa. como acontece.9. normalmente.1 Explica em que consiste a expressividade do segundo exemplo. quando alguém se veste. lentamente. .