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A perspectiva do feminismo negro sobre

violências históricas e simbólicas
Posted on 04/08/2015 // 4 Comments

Crédito da fotografia: Bruno Santana
Por Djamila Ribeiro.
Este artigo foi escrito como texto-base para participação no debate de
lançamento do livro Bala perdida: a violência policial no Brasil e os desafios
para sua superação, em 29 de julho de 2015: “Violência policial: causas, efeitos
e soluções”.
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É fundamental explicitar as grandes distâncias que ainda separam homens e
mulheres e negros e brancos no Brasil. O retrato das desigualdades no Brasil

Segundo o Dossiê “Mulheres negras: retrato das condições de vida das mulheres negras no Brasil”. abordagens teóricas e perspectivas políticas passaram a considerar a interseccionalidade em seus estudos (DAVIS. classe. raça. gênero e classe se interseccionam e geram diferentes formas de opressão. para analisar como raça. ao longo dos anos 1980 e 1990. (CRENSHAW. “Collins (2000) argumenta também que o tema central do pensamento feminista negro é o legado da luta.mostra como racismo e sexismo são elementos estruturantes que mantém as violências históricas contra a população negra. etnias. a opressão de classe e outros sistemas discriminatórios criam desigualdades básicas que estruturam as posições relativas de mulheres. Mcall (2005) afirma que trata-se do conceito mais importante para a perspectiva dos women’s studies. Ainda segundo o Dossiê. Em sua análise. Patricia Hill Collins é uma das principais autoras do que é denominado de feminist standpoint (ponto de vista feminista). publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em 2013. Collins (1990) lança mão do conceito de matriz de dominação para pensar a intersecção das desigualdades. Assim. o elemento representativo das experiências das diferentes formas de ser mulher estaria assentado no entrecruzamento entre gênero. classes e outras”. raças. Esse conceito vem sendo desenvolvido por mulheres negras ativistas há mais de um século e recebeu maior atenção quando a crítica e teórica estadunidense Kimberlé Crenshaw o utilizou como centro de uma tese. a depender de suas características. na qual a mesma pessoa pode se encontrar em diferentes posições. “A interseccionalidade é uma conceituação do problema que busca capturar as conseqüências estruturais e dinâmicas da interação entre dois ou mais eixos da subordinação. “O foco do feminismo negro é salientar a diversidade de experiências tanto de mulheres quanto de homens e os diferentes pontos de vista possíveis de análise de um fenômeno. geração. 2008). sem predominância de algum elemento sobre outro”. Ela trata especificamente da forma pela qual o racismo. Para a compreensão desses fenômenos é necessário evidenciar a relevância de um conceito muito pouco discutido e disseminado no Brasil: a interseccionalidade. Não por acaso pesquisadoras feministas de diferentes disciplinas. em 1989. uma contínua apropriação do conceito de interseccionalidade por feministas dos mais diferentes matizes. bem como marcar o lugar de fala de quem a propõe. visto que todas as mulheres negras compartilham a comum experiência de comporem uma sociedade que as . Cristiano Rodrigues no artigo “Atualidade do Conceito de Interseccionalidade para a pesquisa e prática feminista no Brasil” explica que no contexto anglosaxão houve. 2002: 177). o patriarcalismo.

não somente em termos de produção e análise.desprivilegiam. a realidade também é violenta para as mulheres negras. O pensamento feminista negro coloca a mulher negra no centro do debate. Estima-se que ocorreram. a forma como os estereótipos vinculados à representação social são fontes inesgotáveis de violência contra as mulheres negras e também confinadores sociais”. 472 a cada mês. Grada Kilomba.52 a cada dia. Angela Davis. além das já citadas. Jurema Werneck. à exceção da Sul. mulheres brancas. 61% dos óbitos foram de mulheres negras (61%). as vozes das mulheres negras. Norte (83%) e Centro-Oeste (68%).6%. A autora aborda. adotou o nome de sua avó. que foram as principais vítimas em todas as regiões.82 óbitos por 100. em minúsculo). 15. Merece destaque a elevada proporção de óbitos de mulheres negras nas regiões Nordeste (87%). mas no sentido de privilegiar o lugar que a mulher negra ocupa na estrutura social. Para além da compreensão de que as desigualdades devem ser objetos de produção de conhecimento reflexivo e crítico dá espaço às vozes que foram historicamente silenciadas. como bell hooks (nascida Gloria Watkins.8% das mortes decorrentes de gravidez atingem mulheres negras e 35. ou uma a cada hora e meia. entre outras. ainda. De acordo com dados do último Relatório Socioeconômico da Mulher. No Brasil. Audre Lorde. Esta experiência sugere que certos temas característicos sejam proeminentes do ponto de vista destas mulheres. Lélia Gonzalez.000 mulheres no período de 2009 a 2011. escrito assim mesmo. 5. 2013). em média. a taxa corrigida de feminicídios no Brasil foi de 5. Quando se fala de aborto. Parte do retrato das desigualdades Segundo a pesquisa “Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil” (IPEA.664 mortes de mulheres por causas violentas a cada ano. Sueli Carneiro. elaborado pelo Governo Federal. 62. Atualmente no Brasil ocorrem cerca de 1 milhão de abortos e 250 mil internações anualmente por complicações nos procedimentos realizados . Há importantes e diversas intelectuais e militantes negras.

são aquelas responsáveis por suas famílias. Por conta das violências pelas quais passam. Mulheres negras precisam ser fortes porque o Estado é omisso. realizada por Debora Diniz e Marcelo Medeiros. inegavelmente os jovens negros são mais atingidos. O que também atinge mulheres negras. é necessário se fazer os recortes porque mulheres negras também estão morrendo. Essa denominação. Em relação à violência policial. sobretudo negros e pobres . Como diz Grada Kilomba. das teorias biologizantes racistas do século XIX que legitimou a dominação europeia nas Américas. além de encobrir a omissão e ilegalidade do Estado. guerreira. o movimento de mulheres negras é protagonista no combate ao genocídio da população negra e à usurpação da liberdade das mulheres. A CPI da esterilização. filhas perdendo pais. nos colocando numa sub-categoria. Não podemos esquecer da teoria do branqueamento que visava “limpar” a sociedade brasileira. o que cria uma hierarquização de humanidade. a construção de feminilidade das mulheres negras é diferente da das mulheres brancas. maioria de mulheres negras. constatou que houve essa prática. Mulheres negras não foram aquelas que ficavam em casa enquanto o marido trabalhava: desde o pós-abolição. Essa luta resulta na criação da Comissão Parlamentar de Inquérito em 1991. que enfrenta tudo. Quando se fala em genocídio da população negra. como ficou conhecida.em clínicas clandestinas. Esses dados mostram que mulheres negras também são vítimas do Estado. Na verdade. mulheres negras são o outro do outro por serem a dupla de antítese de branquititude e masculinidade. É importante salientar que as violências contra a população negra não são factuais ou temporárias. Na década de 1980. a Lei da Vadiagem de 1941 desempregados. Os procedimentos são realizados em locais com pouca ou nenhuma higiene e por pessoas não capacitadas para auxiliar as mulheres que procuram essa saída. iniciando a luta sob a forma de denúncia. criou-se o mito da mulher negra forte. irmãs perdendo irmãos. principalmente nas regiões mais pobres do país. Violência não letal às mulheres negras que se vêem sozinhas para cuidar das famílias. seja na prestação inadequada dos serviços oferecidos pelas instituições privadas financiadoras de métodos contraceptivos. São mães perdendo filhos. Segundo pesquisa de Jurema Werneck (2004). também é desumana no sentido de não reconhecer suas fragilidades próprias da condição humana. em sua maioria. que prendia sujeitos. seja nas medidas contraceptivas irreversíveis. mulheres negras eram esterilizadas forçadamente. Informações podem ser encontradas na pesquisa Itinerários e Métodos do Aborto Ilegal em cinco capitais brasileiras.

Racismos Contemporâneos. o feminismo negro aponta com um arcabouço teórico crítico muito importante para se analisar a sociedade. Nova York: Routledge. consciousness and the polittics of empowerment. Conforme Audre Lorde. no meio da rua. COLLINS. Tirar essas pautas da invisibilidade é muito importante. University of Chicago Legal Forum. A história tem nos mostrado que a invisibilidade mata. Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine. K. 2000. Nós. Rio de Janeiro: Takano. Feminist Theory. (Dissertação de mestrado). Bell. Estrelas com luz própria in : Revista História Viva. 2003. . *** Bibliografia BARRETO. 2006. HOOKS. 1989. outros não. Vocês. 2000. Edição Especial Temática n. que nossa luta tem como mote a interseccionalidade. um olhar interseccional é fundamental para que fujamos de análises simplistas ou para se romper com essa tentação de universalidade que exclui. Feminism is for everybody: Passionate politics. Enegrecendo o Feminismo ou Feminizando a Raça: Narrativas de libertação em Angela Davis e Lélia Gonzalez. brancas. Pluto Express.H. enquanto vocês dão as costas para as razões pelas quais eles estão morrendo”. 3. como nos ensina Angela Davis. Temas Brasileiros. CARNEIRO. Raquel de Andrade. “como mulheres. P. Empreendedores Socias e TAKANO Cidadania (org). alguns de nossos problemas são comuns. e mais. tememos que tirem os nossos filhos de um carro e disparem contra eles a queima roupa. Sueli. São Paulo: Duetto Editorial. Black Feminist Thought: knowledge. Essa citação de Audre evidencia que mulheres negras possuem realidades diferentes. 14. temem que seus filhos ao crescer se juntem ao patriarcado e testemunhem contra vocês. and Antiracist Politics.Esses temas são importantes para as feministas negras – se não pode haver primazia de uma opressão sobre outras. In: ASHOKA. ___________Enegrecer o Feminismo: A situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. 2005. Pontifpicia Universidade Católica do Rio de Janeiro. CRENSHAW. em contrapartida.

Textos escolhidos. Luis Eduardo Soares. Disponível em: <difusionfeminista@riseup. mar-jun 2010. 1. com artigos. Jurema. Revista da ABPN. Nossos passos vêm de longe! Movimentos de mulheres negras e estratégias políticas contra o sexismo e o racismo. Marcos Barreira. Slavoj Žižek. Christian Dunker. n. 1. Maurilio Lima Botelho. Grada. Antonio Candido. José de Jesus . Plantations memories: episodes of everyday racism.KILOMBA. resenhas e vídeos de Ruy Braga. Gabriel Feltran. Audre. reflexões. no Blog da Boitempo. WERNECK.net> Acessos em 10 de janeiro de 2012. Edson Teles. 2012 LORDE. Mauro Iasi. Confira o dossiê especial “Violência policial: uso e abuso“. vol.

*** Djamila Ribeiro é mestranda em Filosofia Política na Unifesp. Colunista daCartaCapital e do coletivo Blogueiras Negras. David Harvey. Raça e Sexualidades e feminista negra. Vera Malaguti Batista. Maria Orlanda Pinassi. Laurindo dias Minhoto e Loïc Wacquant. . Guaracy Mingardi. uma das criadoras do Núcleo Interdisciplinar de Estudos de Gênero.Filho. entre outros.