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ITINERÂNCIAS POÉTICAS COM AFONSO DIAS

No passado dia 21 de Abril, com Afonso Dias, a biblioteca da EB2,3 Dr. Francisco
Cabrita, em Albufeira, vestiu-se de Itinerâncias Poéticas, que nos envolveram num sonho de
palavras que testemunham a vertente multicultural da nossa lusa língua, repartida por
diferentes continentes.
Em duas sessões, com aproximadamente cento e cinquenta olhares, entre alunos e
professores, ávidos de curiosidade e sedentos de se deixarem seduzir pela melodia musical dos
poemas, a escola converteu-se num palco onde, em crescendo, se fez ouvir, na lusa forma, um
“Bolero de Ravel” feito de diásporas e itinerâncias poéticas, que imortalizaram a língua
portuguesa.

A nossa viagem poética começou com a cabeça na lua, expressa nos “Contos do
Nascer da Terra” de Mia Couto, o autor da reinvenção poética e tropical do verbo, que nos
agarrou com as raízes da poesia e que nos envolveu num misto de fantasia e misticismo de
uma prosa poética, tão sabiamente inventada por esse génio da língua portuguesa das costas
do Índico, que já deu volta ao mundo.
De imediato, este itinerante percurso possibilitou destruir a geometria de duas linhas
paralelas que, finalmente, se encontraram no cadinho inventivo da obra poética de José
Fanha.
Mergulhados, então, nos oceanos da poesia, como um tropical bailado, como “A
menina que quer ser bailarina”, de Cecília Meireles, fomos aportar às ocidentais costas do
Atlântico Sul, com sabores nordestinos do Trem de Ferro, de Manuel Bandeira, que nos
seduziu pelos aromas e cores do sertão, com aquele ritmo musical de magia que o Nordeste
do Brasil é capaz de envolver todos os falantes da língua de Camões, uma língua forjada de
diásporas e de multiculturalidade.
Retornados às terras lusitanas, seguimos “no comboio descendente …” de Fernando
Pessoa, porque genialmente a poesia “aquela cativa que me cativa”, como povo diverso de
sonho e fantasia pelas sete partidas do mundo português, na voz de Zeca Afonso, envolveu-
nos naquele “Amor é fogo que arde sem se ver”, mas que se sente e convida a namoriscar com
as palavras dos livros e dos poetas.

Então, com “A Pedra Filosofal”, de António Gedeão, a poesia tornou-se num mar de
sonhos e de pensamentos, que comandam a vida e cujas raízes não se deixam cortar por
qualquer machado, pois a poesia é liberdade, é música, numa barca que nos embala a todos
nestes encontros de poesia, cujo timoneiro – Afonso Dias – nos levou por espaços e horizontes
longínquos da poesia, disseminada pela geografia da nossa língua, esse instrumento que nos
ajuda a dimensionar e a compreender o cosmos.
Fastidioso seria estar aqui a mencionar outros poetas cantados e ritmados pela voz e
os acordes da viola de Afonso Dias, pois a poesia é infinita. Porém, também infinita foi a
plenitude deste encontro com os poetas da lusofonia que deixaram partir prenhes de sonho e
de fantasia todos os presentes nesta alquimia de encontros com a identidade de uma língua
universal, como o português, tão sabiamente cantado por Afonso Dias.
A poesia foi, afinal, uma brisa de encanto por mundos distantes e próximos de nós,
mais um dia.

Texto de Joaquim José Veiga,


Professor bibliotecário do
Agrupamento Vertical de Escolas
Dr. Francisco Cabrita

Albufeira, 25 de Abril de 2010.