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Organização e Gestão de Museus - Estudo e Análise para um Modelo Sustentavel - Tese

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O modelo de gestão dos museus nacionais enquadra-se numa gestão centralizada. São

museus que dependem do Instituto de Museus e da Conservação, I.P., enquadram-se na

orgânica do Ministério da Cultura (MC) e são denominados serviços administrativos

simples, estando-lhes garantida pelo Orçamento Geral do Estado uma dotação

financeira e de quadro de pessoal. No entanto, a sua autonomia está à partida

condicionada precisamente pela sua condição orgânica meramente administrativa.

Tal como os restantes casos da administração central, os museus do Instituto de Museus

e da Conservação, I.P., executam actos administrativos, gerem serviços e orçamentos,

mas não detêm uma verdadeira liberdade de decisão e de execução. A gestão de cada

museu depende do IMC, I.P. que, por sua vez, também depende do Ministério da

Cultura que é quem detém a “fatia” do orçamento proveniente do Orçamento do Estado.

Assim sendo, cada museu apresenta um plano ao IMC, I.P., este remete-o ao Ministério

da Cultura para ser apresentado ao Governo, sendo-lhe então atribuído o valor

orçamental correspondente ao plano apresentado. Quem decide o valor orçamental para

cada museu é o Ministério da Cultura através do IMC, I.P. Este orçamento serve apenas

para a gestão corrente, ou seja: despesas de pessoal e despesas mínimas de

funcionamento: água, luz e telefone, entre outras.

ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DE MUSEUS: Estudo e análise para um

MODELO SUSTENTÁVEL

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Para além deste orçamento anual, existem ainda outras fontes de financiamento, o Plano

de Investimento e Despesas de Desenvolvimento da Administração Central (PIDDAC)

e os provenientes do Plano Operacional da Cultura (POC).

Relativamente ao financiamento através do PIDDAC, as verbas disponibilizadas só

podem ser aplicadas em actividades “mais relevantes” dos museus sob apresentação e

aprovação de um plano anual, onde se descrevem actividades culturais, educativas e

formativas, nomeadamente, exposições, catálogos e conferências, ou, acções de

formação. Os financiamentos obtidos através do POC destinam-se apenas para projectos

de requalificação dos museus.

Ao orçamento anual e a estes dois programas de financiamento acima referenciados,

acresce ainda um “orçamento” que o Instituto de Museus e da Conservação, I.P.,

distribui equitativamente e individualmente pelos restantes museus, proveniente do

orçamento de compensação resultante das receitas dos ingressos de todos os museus e

de algumas criações comerciais.

Perante este quadro orçamental descrito, os museus que apresentam uma boa

planificação e se candidatem ao PIDDAC e POC parecem ter um financiamento

assegurado para o seu normal funcionamento. Mas, a questão não é apenas o normal

funcionamento, mas tão só, exigir um serviço cada vez mais arrojado e categorizado e,

ajuizando o salto qualitativo que cada museu desenvolve, é no mínimo justo valorizar o

museu e a sua direcção confiando-lhe, para além da autonomia administrativa, também

a financeira.

ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DE MUSEUS: Estudo e análise para um

MODELO SUSTENTÁVEL

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Não estando prevista na lei esta atribuição, já que o museu nacional é caracterizado

como Serviço dependente do Instituto de Museus e da Conservação, I.P. e este Instituto

denominado de Serviço Integrado na administração directa do Estado, rege-se pelos

princípios e regras estabelecidos na Lei de Enquadramento Orçamental, ou seja,

princípio da não compensação21

e da não consignação22
.

Compreende-se a forma legal que obriga a este modelo, sendo a atribuição de

autonomia financeira concedida apenas às organizações com uma receita de 70% face às

despesas mas, considera-se que, num futuro próximo, a lei poderia ser alterada.

Importa pois analisar neste trabalho, até que ponto os museus deviam ou não ter

autonomia financeira? Quais as vantagens e desvantagens? Esta questão parece agora

suscitar algumas reflexões, tal como aconteceu, no encontro do ICOM de 2007 que se

realizou no Museu Nacional Soares dos Reis – Porto, subordinado ao tema, Museus e

Gestão.

Em forma de resumo, da mesa dos palestrantes, um dos oradores23

apresentou um

estudo um pouco nesta mesma linha, referindo os problemas das burocracias e da falta

de autonomia financeira a que os museus estão sujeitos, bem como das receitas que os

museus produzem serem enviadas ao IMC para posterior distribuição equitativa pelos

restantes museus, alertando para o desincentivo de alguns profissionais dos museus, ao

verem o resultado de um trabalho mais ou menos empenhado não ficar para o próprio

museu.

21

As despesas e as receitas devem estar inscritas no Orçamento pela sua totalidade, isto é, devem ser
inscritas de uma forma bruta.

22

Não afectação do produto de quaisquer receitas à cobertura de determinadas despesas.

23

Alberto Guerreiro

ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DE MUSEUS: Estudo e análise para um

MODELO SUSTENTÁVEL

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Ainda sobre este aspecto, referiu uma técnica do museu anfitrião que, provavelmente

alguns museus desenvolveriam mais estratégias tendo em vista, arrecadar mais receitas

para fazerem face aos projectos que muitas vezes não avançam por falta de autonomia e

de verbas.

O Director do Instituto de Museus e da Conservação, I.P., Manuel Oleiro, referiu que a

autonomia financeira não é promissora, tendo demonstrado alguma firmeza nesta

posição, não avançou com esclarecimentos.

Sendo certo que só há enquadramento legal para a autonomia financeira apenas para as

organizações públicas que apresentam uma receita de 70% e que a redistribuição

equitativa das receitas provenientes de alguns museus tem que obedecer ao princípio da

não consignação, tal não significa que não devam ser pensadas e estudadas fórmulas

mais adequadas e que as mesmas possam fundamentar uma alteração da lei, evoluindo-

se para um modelo de gestão mais exigente. Deste modo, cada museu teria um desafio

mais exigente, evitando o comodismo de uns e o esforço de outros.

Parece-nos razoável que um director que apresente um projecto anual com serviços e

valores e que é aprovado pela tutela, obtenha autonomia para gerir o orçamento que lhe

é atribuído e desenvolva estratégias de captação de públicos ou outras de valor

considerável, capazes de garantirem a sustentabilidade do museu.

Seria mais importante e talvez estimulante que cada museu obtivesse uma verba do

Estado mediante as características do seu Plano de Actividades e pudesse desenvolver

actividades esporádicas, tendo em vista arrecadar verbas para fazer face a novos

projectos. Certamente que este novo modelo de gestão daria mais responsabilidade a

ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DE MUSEUS: Estudo e análise para um

MODELO SUSTENTÁVEL

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cada director e este passaria a ter, certamente, que desenvolver um espírito cada vez

mais competitivo e diligente.

Mesmo perante circunstâncias naturais a que alguns museus estão sujeitos, e até mesmo

pela sua vocação que por diversas razões não lhes permite arrecadar receitas para

fazerem face às suas despesas, cada projecto tem e deve corresponder ao

desenvolvimento da sua política museológica, quer na grandeza, quer na exigência

científica, importando pois que cada museu descubra o que é mais relevante e apresente

respostas às solicitações da comunidade onde está inserido e ao seu público em geral.

Por isso, cada director ou conservador de museu deve ser um conhecedor das políticas

museológicas e, fundamentalmente, das necessidades, culturais, patrimoniais e

territoriais que envolvem o museu.

Não se pretende defender apenas a autonomia financeira, mas sim a sua filosofia, a sua

fórmula. Isto é, o financiamento de cada museu deve ser uma competência do Estado, já

que se trata de um serviço público, devendo cada director ou conservador administrar os

serviços, prestando contas que validem o respectivo financiamento público.

Em suma, cada museu deveria administrar o seu orçamento, proveniente do Estado, e

parte das suas receitas deveriam permanecer no próprio museu. Sendo a outra parte

distribuída a museus com menos recursos, mediante projectos adequados.

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