Como tornar-se maníaco-depressivo – J.L.

Pio Abreu

(…) Se for para começar com uma depressão, aconselho o fim da primavera, quando todas as outras pessoas começam a renascer com o sol, a olhar para si próprios e para os outros. Nessa altura, e contra a corrente, é a ocasião de você se declarar inimigo do sol.Tranque-se em casa e feche todas as janelas e persianas. Se tiver de se levantar de manhã, faça o mais tardiamente possível essa tentativa derradeira, mas reconhecendo que a sua disposição para se levantar não é grande. Para isso arranje qualquer pretexto menor, alguém que não o tratou como merecia, que não o cumprimentou, qualquer contratempo assim (…) Além de evitar os encontros banais, comece a faltar aos compromissos importantes. Esteja-se nas tintas para tudo, que alguém cuidará de si. (…) Ao sentir-se assim, já se encontra tão dessincronizado que o seu organismo reage com a hibernação. (…) O seu relógio corporal está agora caótico e você merece o diagnóstico de depressão major com melancolia. Para acrescentar o máximo da graduação (com componente psicótico), basta sair um pouco da realidade e supor, por exemplo, que apodreceu, que está mesmo morto e esperando pelo enterro (os especialistas chamam a isto delírio de Cotard) (…) Toma as decisões mais temerárias no que respeita ao amor, profissão ou aos negócios. Até é natural que as coisas lhe corram bem. Se correrem mal, você nem tem tempo para pensar nisso, uma vez que está sempre a passar de uma iniciativa para outra. Fala sem parar, de tal modo que, apesar de uma boa memória, já não se consegue lembrar do que disse antes. Tudo isto sem dormir (…) a sua energia, que esteve adormecida na depressão, é agora cada vez maior (…) A sexualidade, também em roda livre, não conhece quaisquer freios. È a altura das grandes realizações, de pôr em acção as mais escondidas fantasias. Pode fazer discursos às massas atónitas debaixo da sua janela, exibir-se como espontâneo num espectáculo de ópera ou tentar roubar um submarino da Marinha. (…) O resto da sua carreira depende do modo como vai lidar com estes medicamentos. Imagine que existem pessoas que, tratadas adequadamente e aceitando o tratamento, apenas têm uma destas fases durante toda a vida que, em todos os aspectos, se torna normal ou bem sucedida. Não foi certamente para isso que leu este livro e, portanto, vamos ao resto.

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