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CONTO PREMIADO PELA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA NUM CONCURSO DE REDAÇÃO

Missa do Galo
"Rio de Janeiro, 24 de Dezembro de 1860. Meu Querido Diário Hoje é um dia muito especial, o Sr. Nogueira confirmou através de telegrama a sua presença para a Ceia de Natal que ocorrerá logo mais à noite, como todos os anos ele faz. Nogueira virá de Mangaratiba especialmente para a ocasião. Não sei porque estou sentindo uma certa ansiedade pela sua chegada. Acho que é porque esta casa está precisando da alegria e vivacidade de um jovem de dezessete anos como ele. No telegrama Nogueira avisa que chegará aproximadamente às quatorze horas. Isto me lembra que eu tenho pouco tempo para preparar a ceia e arrumar a casa. Todos iremos juntos, após a ceia, assistir à Missa do Galo na corte que se iniciará às vinte e quatro horas. Há tanto o que fazer. Quero preparar também sem a ajuda das escravas o bolo de fubá que Nogueira gosta tanto...." - Abra a porta, Conceição! - Menezes !? - Não. É sua Mãe. Não reconhece mais a minha voz!? - Um momento, por favor. Disse Conceição enquanto escondia novamente o diário em algum lugar de seu quarto no qual também dorme seu marido o escrivão Menezes. - Pronto. O que deseja mamãe? - Vim chamá-la para que nós possamos organizar a ceia e os últimos preparativos para a chegada do Sr. Nogueira. As escravas estão fazendo uma faxina na casa. - Onde está Menezes? - Saiu logo cedo. Nem tomou café direito. Saiu sem falar com ninguém. - Toda quinta-feira é a mesma rotina. Ainda vou segui-lo qualquer dia para descobrir com que tipo de mulheres ele anda me traindo. - Conceição! Você não deve ter tais pensamentos . É preciso que você se conforme com a vida que Deus lhe deu. Esta deve ser a postura de uma esposa honrada. - Desculpe, mamãe. Mas, esta situação é muito sórdida e humilhante. Se não consigo conter o meu sofrimento e a minha mágoa como vou conformar-me. - Minha filha, para tudo se dá um jeito. Basta querer e ter força de vontade. Mamãe é uma pessoa que leva a moral e os bons costumes às últimas conseqüências. Mesmo que isso passe por cima dos sentimentos das pessoas esmagando-os. Não quero mais pensar sobre isso. Hoje é dia de oração e alegria... Mamãe e eu passamos o dia ocupadas com os preparativos para o evento de logo mais e, enfim, terminamos. São aproximadamente dez horas e meia da noite. O Sr. Nogueira já está instalado e se aprontando no quarto de hóspedes. Menezes ainda não voltou da rua. Nem para receber o nosso ilustre convidado. Isto é uma gafe imperdoável. Dona Inácia, minha mãe, também se encontra em seus aposentos terminando de se aprontar. Ela não quer fazer feio perante as elegantes senhoras e as fofoqueiras da Corte. Quanto à mim prefiro me demorar mais um instante neste banho. Pois, o dia de hoje foi muito exaustivo. Mereço alguns minutos para cuidar somente de mim. Quero ficar muito bonita hoje. Irresistível. Se mamãe me escutasse falar desta forma certamente me obrigaria a fazer uma penitência, agora mesmo, rezando algumas Ave-Marias. Além do sermão que eu teria que ouvir. - Conceição!? - Mãe!? - Não, sou eu senhora seu Marido Menezes. - Ah, é você?! Finalmente resolveu aparecer será que eu poderia perguntar por onde meu marido andou durante o dia de hoje!? - Você sabe que, toda a quinta-feira, saio bem cedo, para caçar com alguns amigos e colegas. O Sr. Nogueira já chegou? - É lógico. Faz horas. Respondeu rispidamente Conceição. - Vou cumprimentá-lo. Com licença!!! - A vontade. Enquanto Menezes conversava com o Sr. Nogueira me vesti para a ceia... Após uma hora já estávamos todos à sala de visitas enfeitada anteriormente com motivos natalinos. Notei que só uma pessoa não se encontrava ali naquele recinto. Era Nogueira. Escutei um barulho no escritório de Menezes e me dirigi para lá levando, além da minha, mais uma taça de Champanhe.

- Senhor Nogueira, aceita uma taça de Champanhe. Ofereceu Dona Conceição. - Sim, obrigado. - Por que o senhor está aí sozinho no escritório? Venha juntar-se a nós. O escrevente juramentado do meu marido Joaquim Fontainha Távora também já chegou. - Eu adoro ler. Estava aqui me deleitando com o romance "Os três Mosqueteiros." Neste instante não consegui resistir ao ímpeto de entrar e conversar um pouco ali com ele. Sentamos os dois no sofá que se encontrava no lado oposto à escrivaninha e a estante de livros. Dirigiu-me alguns elogios, principalmente ao meu vestido. Não entendo porque razão fiquei ruborizada. Talvez fosse melhor voltar para o quarto e trocar o vestido por um menos extravagante. Mas, ao mesmo tempo, me sentia feliz por estar recebendo aqueles elogios. Naquele momento, percebi que ainda era uma mulher atraente e não devia continuar me anulando por causa de um marido que não vê as minhas qualidades. Menezes ás vezes me fazia sentir como uma pessoa insignificante e medíocre. Ao contrário de Nogueira que sempre me tratou com atenção, carinho e simpatia. Ele é tão jovem e bonito e está muito elegante... Conceição, você é uma mulher casada e não deve ter tais pensamentos. Ele é apenas um menino... - Também adoro romances. Ler um romance e como participar da vida das personagens e dos acontecimentos narrados. É realizar na imaginação o que não conseguimos ou não podemos fazer na realidade. É viver outra vida emprestada por algum momento. Um momento que vale por uma vida inteira. Você já leu o livro "O vermelho e o negro" de Stendhal? - Já. Concordo com você. É emocionante viajar por ambientes tão alheios ao nosso e conhecer personalidades fictícias tão interessantes dentro do enredo de uma narrativa. Como a personagem da gravura que está em cima do canapé. Cleópatra. Durante muito tempo ficamos ali conversando com os olhos de um compenetrados nos olhos do outro. Os assuntos foram variadíssimos. Em compensação houveram alguns momentos em que o silêncio entrecortava aquela conversa. Perdi a noção do tempo. Só ele para me fazer esquecer um pouco da vida infeliz e da suposta traição de meu marido. Esqueci -me até da festa que ocorria naquele momento enquanto conversávamos. As pessoas já deviam até estar comentando e sentindo a nossa falta. - Nogueira... Desculpe... Sr. Nogueira devemos voltar para a sala de visitas todos devem estar nos esperando para a ceia e à nossa procura. - Não precisa pedir desculpas. A senhora pode chamar-me apenas de Nogueira. - Entre quatro paredes talvez, mas em público não fica bem. Um silêncio transpasse entre os dois. Às onze e meia todos dirigiram-se à sala de jantar onde cearam tranqüilamente. O tilintar das taças de Champanhe ao se tocarem soa anunciando a alegria e o bom humor das pessoas. Transcorreu meia hora antes que todos se preparassem para ir à Missa do Galo... Saímos apressados para não perder o inicio do evento. A igreja onde se realizaria a missa não ficava longe dali, da Rua do Senado como era conhecida. No caminho todos nós comentávamos como costumavam ser estas missas. Neste ínterim, observei como aquele paletó caia bem no Sr. Nogueira valorizando a sua masculinidade, como ele articulava as mãos e as feições do seu rosto. Observei ao mesmo tempo que ele lançava alguns olhares em minha direção. Será que amanhã de manhã, no café, tudo continuaria tão mágico ou ele me trataria com indiferença em respeito ao meu Marido. Ao final da missa, voltamos para casa. Assim que chegamos nos dirigimos aos nossos aposentos. Durante a madrugada Nogueira foi embora deixando um bilhete de despedida. Após este dia nunca mais o vi. Contudo, seis meses após a morte de Menezes, causada pela Apoplexia, ele reapareceu... Eu havia me casado com o escrevente juramentado de Menezes. Porém, nunca vou esquecê-lo e muito menos o tempo em que passamos juntos e da conversa que tivemos. (Adaptação feita por ileitura do conto Missa do Galo de Machado de Assis) voltar | home | avançar Publicidade

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