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Maria Teresa Maia Gonzalez - O Guarda Da Praia[Pt]

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O GUARDA DA PRAIA Maria Teresa Maia Gonzalez

Para a minha mãe e também para o Luís, poeta e bicho do mar Índice Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo Capítulo I - CARTA DE DESPEDIDA ......... 7 II - O PRIMEIRO ENCONTRO ...... 11 III - A CONCHA ................ 17 IV - O CONVITE ................ 23 V - A AULA DE MERGULHO ........ 27 VI - UM CESTO DE MAÇÃS ........ 32 VII - UMA GAIVOTA NA NOITE .... 37 VIII - NO POSTO MÉDICO ........ 43 IX BICHOS DO MAR .............. 49 X - O VELHO DA MATA ........... 57 XI - A TROCA .................. 67 XII - NA ESQUADRA ............. 73 XIII - PALAVRAS æ BEIRA-MAR ... 81 XIV - A VISITA ................ 87 XV - UMA FOGUEIRA NA PRAIA ... 101 XVI - A DUNA SECRETA ......... 108 XVII - PASSADO E FUTURO ...... 117 XVIII - O INCÊNDIO ........... 123 XIX - CONTANDO ESTRELAS ...... 127 XX - LIÇÃO DE GEOGRAFIA ...... 137 XXI - NO FUNDO DO MAR ........ 141

Capítulo I CARTA DE DESPEDIDA Foi hoje, À hora mais pesada do dia, quando o Sol mergulhava inteiro na linha recta do mar, de olhos a fecharem-se para a Terra, que eu soube a verdade. O Dunas foi-se embora. Partiu finalmente para a América, como ele próprio previra há um ano atrás. E eu fiquei sem o meu sol. * * * Quando cheguei À casinha branca entre as palmeiras, um pescador de rosto sulcado pelas marés arrastava as redes para o quintal, com o pouco À-vontade de proprietário recente. Viu-me passar o portão branco e parou a olhar-me, como se tivesse sido apanhado em flagrante. - Vinha para a Dona Sara? Olhe que já cá não mora, senhora, foi-se no primeiro de Julho. Deu-lhe as febres, sabe.... 7 - E o rapaz? - perguntei, já quase sem esperança. - O neto teve de se ir daqui. Já se vê, um garoto sozinho

não se governa. A avó tinha-o criado, agora o ppai que o acabe, lá nas Américas. Que ele parece que até vingou por aquelas terras, casou com uma amaricana, o garoto é que não sei como se haverá com a língua de trapos que aquela gente fala. Senti o coração descer-me aos pés. Encostei-me ao portão até recuperar o alento para perguntar: - E a mãe? - Essa continua na cidade. Com ela não me ralo eu, que sempre soube governar-se. Dizem que trabalha no turismo, naquelas coisas das viagens e dos hotéis, mas... Olhe que nem veio ao enterro da velhota que Deus tenha. Bem sei que já não lhe era nada, mas, c'os diabos, tomou-lhe conta do filho estes anos todos. C'os diabos! A velha tinha lá as suas manias, mas curou muita gente da aldeia. Muita gente! O cemitério estava À cunha, só visto! - Depois, antes de entrar em casa, olhou-me longamente e inquiriu: - A senhora não lhe era nada. - Não. Nada... - Então, com sua licença, vou fazer a janta. Até depois. entrou, fechando a porta atrás de si. Eu continuei estupidamente parada, colada ao portão, como se esperasse a todo o momento uma rectificação qualquer. Pus-me a olhar de longe as paredes da casa, À procura dum sinal, um aviso, e foi então que me lembrei de ir ao sítio. 8 * * * O local secreto do Dunas, segundo me recordava de uma expedição que ambos fizéramos, ficava atrás da duna grande, na ponta mais distante da ilhota. Corri para lá, de sapatos na mão, com uma certeza súbita de que algo me aguardaria. A correria cansou-me e deixei-me cair pesadamente na areia seca. O Sol estava a pôr-se, trémulo e triste como nunca. Ajoelhei-me atrás da duna e desatei a escavar desenfreadamente no lugar dos picos, as plantas agrestes que sinalizavam o esconderijo. De vez em quando, parava e olhava o Sol. Parecia que teria de estar tudo acabado antes do fim do dia. Como uma sina. Uma maldição. Voltei a desgrenhar a areia até as mãos me doerem. Por fim, senti uma dureza uniforme e lisa de madeira. Mergulhei ambas as mãos e icei o cofre. Soprei os grãozinhos da tampa e vi que tinha a chave na fechadura. O coração voltou a descer-me aos pés gelados. Então, levantei-me e aproximei-me da beira-mar com a caixa nas mãos. Do Sol apenas se via uma nesga laranja a tracejado, um aceno. Respirei fundo e abri a caixa. Uma folha de caderno dobrada, sem envelope, um búzio, duas penas de galo-da-Índia, uma lupa e uma perna de estrela-do-mar. Pousei o cofre e sentei-me na areia fria e húmida. Desdobrei a folha e li: Querida concha, Não posso avisar-te e tenho de ir, não dá para esperar que chegues. Vou voar para a América! Ter com o meu pai. Amanhã, apanho a camioneta para a cidade e depois vou ver os aviões, no aeroporto.

9 O homem que veio buscar-me disse que eu vou num dos grandes, com dois andares, cinema e coca-cola que não se paga. Deixo aqui o cofre, que agora é para ti. As coisas que aqui estão também são para ti. Levo a tua concha comigo. Sei que vai dar sorte. Agora, vou conhecer a América. Depois, hei-de voltar e contar-te tudo. Prometo. Não te esqueças de mim e acaba o teu livro depressa para eu o ler quando voltar. Um beijo do Luís Voltei a dobrar a folha e guardei-a no cofre, que fechei À chave. O mar chamou-me bem perto dos pés. Olhei em frente até me perder na linha azul ao fundo, À procura do sol que se escondera. Definitivamente. 10 Capítulo II O PRIMEIRO ENCONTRO Quando aqui cheguei, faz hoje precisamente um ano e um mês, o meu único propósito era o de encontrar a paz e o sossego de que precisava para acabar o meu romance. Uns amigos haviam-me falado da aldeia com as casinhas brancas a espreitar o mar, e a ilhota onde só se chega de barco. Pareceu-me ideal, sobretudo por se tratar de um local ainda pouco invadido por turistas estrangeiros, sempre tão estridentes e volumosos, a tirar-nos as vistas e os lugares nos restaurantes. Por sorte, a casa que aluguei era praticamente isolada, com um terraço generoso a poucos metros da praia dos pescadores, que eu frequentava bem mais do que a própria casa. Pouco ventoso no Verão, o quadrado branco murado era uma varanda sobre o mar; uma varanda donde não se vislumbravam vizinhos, e os poucos transeuntes que passavam na estradinha empedrada ficavam atrás do muro, incógnitos, como eu queria ser. 11 Neste alheamento total do resto da aldeia, depois de contemplar as vistas do terraço, pus a chave À porta, entrei e pousei a mala e a máquina de escrever no vestíbulo. A casa, quase nua, tinha uma frescura que me arrepiou. Na cozinha, apenas o essencial, bem como no quarto e na sala. Tive a sensação estranha de que aquelas paredes rugosas e brancas me conheciam já; de facto, por um momento, senti-as coladas À minha roupa, como se o pequeno corredor se estreitasse para me dar um abraço de boas-vindas, uma manifestação de apreço pelo meu regresso. O silêncio era húmido e experimentei um assobio. A casa, receptiva, devolveu-me o gracejo. Foi nesse momento que percebi que não poderia ser outra casa. Nunca resisti a um eco, desde os tempos mais recuados da infância e logo me imaginei a trinar árias famosas pela manhã, sem ter de me conter por qualquer

razão. Nesse primeiro dia, fui eu e a casa. Um reconhecimento mútuo, uma troca de olhares fácil como quem revê um velho amigo que sempre nos acompanhou dentro da memória. Deitei-me sem jantar, sem sequer desfazer a mala. Retirei as cortinas da janela do quarto e estendi-me sobre a cama de madeira pintada, de cor consumida pelo sopro ácido do mar. * * * Na manhã seguinte, já perto do meio-dia, levantei-me com o bem-estar de um recém-nascido feliz. O Sol entrava branco pela janela despida, e o terraço amplo e vazio chamava-me. Saí descalça e respirei a brisa salgada. Uma fome que há muito não sentia lembrou-me que não tinha o que comer em casa. Meia hora depois, estava na aldeia, À procura de uma mercearia. Soube então que a praça, o sítio ideal para todas as compras, já nada tinha para vender Àquela hora e tive de contentar-me com meia-dúzia de latas e pacotes que o merceeiro, de olhar crítico, me colocou no saco. Depois de pagar, perguntei-lhe timidamente onde poderia alugar uma bicicleta. Riu-se. - Vai ficar por muito tempo? - perguntou, de testa franzida. - Ainda não sei. - Bom, então, se quer mesmo uma bicicleta - e voltou a rir-se -, tem mas é de ir À cidade. A cidade ficava a cinquenta quilómetros, e a minha fome reclamava um almoço com a maior brevidade. Assim, voltei a pé para casa, cozinhei À pressa uma sopa instantânea, esverdeada, dessas que sabem a comida de astronauta, comi um pacote inteiro de batatas fritas (que já estavam fora do prazo) e saí para apanhar a camioneta que me levaria À civilização. Ao fim da tarde, cheguei finalmente a casa, mais morta que viva, depois de pedalar desde a estrada poeirenta onde a camioneta me deixara. Deixei a bicicleta na varanda e entrei em casa, pronta para desfazer a mala e tomar um duche. Depois do banho, uma moleza quente apoderou-se de mim e fui deitar-me para descansar um pouco. * * * Só acordei na manhã seguinte, com os primeiros raios de Sol a entrarem-me sem filtro pelo quarto. 12 13 Subitamente, ouvi um ruído na varanda e levantei-me de um salto. Da janela vi então, para meu espanto, um rapaz loiro, magro, de pele doirada, que montava a minha bicicleta em grande euforia, fazendo manobras de circo. Na minha indignação, não fui capaz de sair para a varanda e ralhar-lhe. A sua descontracção era visível. Pedalava de peito aberto para o vento, ziguezagueando pelo terraço como se o mundo inteiro lhe pertencesse. Em dado momento, a velocidade que atingiu impossibilitou-o de travar a tempo e saltou o muro, deixando a bicicleta caída no terraço, de rodas a girar em falso. Saí a correr do quarto, descalça e de coração apertado. Espreitei por cima do muro branco e vi-o lá em baixo, já em pé, a

sacudir a poeira das calças de ganga. Dando finalmente pela minha presença, olhou-me de baixo e, ao contrário do que eu imaginava, não deu mostras da menor perturbação. Contudo, vendo que ele sangrava do braço esquerdo, rapidamente me esqueci da minha indignação perfeitamente justificável e perguntei-lhe, debruçada no muro: - Está a doer muito? - Não - respondeu a sorrir, mas acenando afirmativamente com a cabeça. - Vem cá para eu ver isso melhor - ordenei-lhe. Quando o vi entrar em casa, percebi imediatamente que já ali tinha estado, mas preferi não fazer perguntas. Fui ao armário buscar o estojo de primeiros-socorros, lavei-lhe o braço ferido, desinfectei-lho com álcool e coloquei-lhe um penso com mercurocromo. - Au! Arde! - O que arde cura. - Eu vou tirar isto. A minha avó depois põe-me aqui uma pomada que ela faz - explicou. - Não senhor. Deixa-te estar com o penso. Estás vacinado contra o tétano? Riu-se. O riso mais lindo que eu alguma vez tinha visto. Branco. Inteiro. - Uma vez tomei uma injecção no posto. Fui com os outros lá da escola. Mas a minha avó não achou bem, porque disse que eu não estava doente e proibiu-me de ir outra vez levar injecções ao posto. Fiquei perplexa. - A tua avó é... médica? - É - respondeu sem hesitar. Depois, reflectiu um pouco e acrescentou: - Quero dizer, ela sabe curar as doenças todas. Uma vez até curou a professora, que andava sempre com dores de cabeça e tinha uns ataques. - Ataques?... - Sim, ficava com muito calor assim de repente e tinha de se sentar, senão caía. - E a tua avó curou-a como? - Não sei, mas a professora ficou boa. Até deixou de gritar e tudo! O Sol já ia alto no céu e eu ainda de pijama. - Tenho de ir arranjar-me - disse-lhe. - Se quiseres, podes esperar-me para tomarmos o pequeno-almoço. Voltou a rir-se, fitando-me os pés descalços. - Eu não tenho fome. Dito isto, saiu para o terraço e só voltei a vê-lo dois dias mais tarde. 14 15 Capítulo III A CONCHA Tinha acabado de tomar o indispensável café depois do almoço e preparava-me para retomar a escrita. Sentada no terraço, coloquei a folha na máquina de escrever e, talvez porque o calor me toldava as ideias e o café ainda não fizera efeito,

recostei-me na cadeira de lona e fechei os olhos, inspirando a brisa salgada. De repente, uma sombra arrefeceu-me a cara e, quando abri os olhos, ali estava de novo o invasor de propriedade alheia, descontraído como sempre. - Que é que vais escrever ali? - perguntou-me, apontando a máquina. Endireitei-me na cadeira, franzi o sobrolho e respondi: - Uma história, ou melhor, a continuação de uma história que comecei há muito tempo. - Uma história sobre quê? Não tive vontade de contar-lhe, afinal, ainda mal nos conhecíamos. 17 - A história de uma mulher que vivia sozinha num prédio alto de uma cidade escura. Torceu o nariz em total desaprovação. - Porque é que não escreves antes sobre o mar ou sobre uma viagem? - Ouve,... como é o teu nome? - Tenho dois: Luís é o que está no bilhete, Dunas é como todos me chamam. - Ouve, Dunas... - Se preferes esse é lá contigo. Eu também não me importava de me chamar Homero. Sorri. - Conheces a história de Homero? - Foi a minha avó quem ma contou. Ela sabe muitas histórias. Se quiseres, podes ir pedir-lhe para te contar uma e depois escreve-la na tua máquina. - Obrigada, mas eu costumo escrever apenas as histórias que me saem da cabeça, percebes? - Só que Às vezes não saem, não é? Era perspicaz, aquele Homero improvisado. E atrevido também. - Olha, Dunas, eu tenho mesmo de trabalhar. Não estou de férias. Preciso de sossego, não me leves a mal. - Eu fico só a ver. Não pedia nada. Não se desculpava. Apenas participava. Comecei então a olhar o imenso branco entalado no rolo negro e, por mais que tentasse, não conseguia que os dedos acertassem nas teclas empedernidas da imaginação. - Era melhor escreveres sobre o mar - insistiu, descarado. - Eu não sei quase nada sobre o mar, Dunas. Nem sequer gosto especialmente de ondas, peixes e praia, entendes? - retorqui num tom de voz zangado. - Então que vieste aqui fazer? - perguntou, olhando-me com a maior estranheza. - Vim procurar paz e sossego, mas, pelos vistos, não estou com sorte nenhuma... Afastou-se em silêncio e saltou o muro sem olhar para trás. Quis chamá-lo, pedir-Lhe desculpas pelos maus modos, mas a moleza que o calor me emprestava deixou-me num mutismo parado de cacto. Decididamente, aquela não era a hora ideal para a escrita. O ar estava carregado de luz que banhava a folha de papel e me encandeava as ideias. Levantei-me e fui À cozinha fazer uma limonada. Quando regressei ao terraço, aproximei-me

do muro, de copo na mão, e pus-me a olhar a praia. Sozinho no mar, o Dunas era um peixe amarelo a deslizar veloz pelas águas, furando as ondas intrepidamente. Pareceu-me até impossível que estivesse a respirar, pois a cabeça mantinha-se submersa por tempos infindáveis que me faziam suster a respiração. Os rochedos ali tão perto e ele debaixo de água, avançando sem hesitações. O coração apertou-se-me de angústia e resolvi ir sentar-me para não me afligir mais. Cerca de uma hora mais tarde, ao levantar a cabeça do teclado, estremeci. O meu visitante aparecera novamente sem se fazer notar, saído do nada, de cabelo a pingar na pedra do terraço. - Ainda só escreveste isso?! - indignou-se. Confesso que corei. - Hoje não estou muito inspirada. Há dias assim... 18 19 Então, sem pedir licença, dirigiu-se À porta da casa, entrou e, pouco depois, estava de volta com um copo de água na mão. Achei que era altura de pôr cobro Àquela falta de cerimónia. - Ouve lá, não te ensinaram a pedir antes de fazer? - De fazer o quê? - inquiriu com o ar mais calmo do mundo. - Por exemplo, antes de entrar numa casa que não é tua. - Mas esta casa já foi minha. Só que foi há muito tempo... E sentou-se no chão, ao lado da minha cadeira, a beber o resto da água. Os olhos voltaram-se para baixo e eu tive a sensação de ter tocado num assunto proibido. Contudo, a curiosidade foi mais forte do que eu: - Foi tua quando? - Quando eu vivia com a minha mãe e o meu pai. Ainda era pequenino - respondeu sem tirar os olhos do chão. Olhei-o então com uma ternura acabada de nascer. Tive vontade de fazer-lhe uma festa nos cabelos molhados, mas contive-me por algum receio estúpido. Foi nesse momento que reparei numa concha que ele trazia presa aos calções por um cordel cor de nada. - Essa concha aí foste tu que a apanhaste? - Fui, uma vez que andava com o meu pai a passear na praia. Algo despertou a minha atenção naquela concha que me parecia tão familiar. Levantei-me de um salto, corri a casa, entrei no quarto e retirei da gaveta da mesa-de-cabeceira o meu fio de prata com a concha que a minha mãe me dera quando eu tinha dez anos. Voltei com o fio para o terraço, mas encontrei-o vazio. Procurei o Dunas por todo o lado, chamei-o repetidas vezes, mas em vão. Desanimada, voltei a sentar-me em frente da máquina e, inesperadamente, comecei a escrever com a alma na ponta dos dedos. 20 21 Capítulo IV O CONVITE A terceira aparição deu-se quase uma semana mais tarde, quando eu chegava a casa, vinda das compras que fizera na

aldeia. O Dunas estava sentado no parapeito da janela do meu quarto, de pernas a balouçar. Viu-me chegar e deixou-se ficar onde estava, sem nada dizer. Pousei o garrafão de água mineral e o saco da mercearia na cozinha e dirigi-me ao quarto. - Essa tua mania de entrares sem pedir licença está a começar a irritar-me - disse-lhe em tom crítico. Ignorando as minhas palavras e sem tirar os olhos do terraço, observou: - Já é a terceira que aqui passa. E esta é das gordas. Aproximei-me da janela e espreitei o terraço. Uma lagartixa enorme repousava colada ao muro branco. Arrepiei-me. - Há muitas por aqui, há? 23 - É o que cá não falta - respondeu, orgulhoso. - E osgas e louva-a-deus e salamandras, centopeias... - Estou a ver. Mas não costumam entrar nas casas, pois não? - balbuciei a medo. - Só Às vezes - disse, parecendo lamentar o facto. - No ano passado, consegui apanhar uma aranha de cruz, nas costas da minha cama! Deu-me imensa sorte! Há muito tempo que não via nenhuma. Pode ser que este ano apareça outra. Depois trago-ta. Senti o coração gelar-me no peito. - Bom, agora salta daí e vem ajudar-me a arrumar as compras que fiz. Seguiu-me até À cozinha e juntos colocámos tudo no armário de madeira. Depois, ofereci-lhe um chocolate que tinha trazido e fomos para o terraço. - Tu também gostas de chocolate?! - estranhou. - Muito. Como um por dia, pelo menos... - E a tua história? - Vai andando - retorqui, colocando a máquina sobre a mesa. - Eu cá gosto é de histórias do mar - lembrou-me. - Já sei, já me tinhas dito, Dunas. Mas o meu livro não trata do mar. - É pena... Nesse caso, não vou lê-lo. Olhei-o sem saber que pensar daquela admoestação. Foi então que reparei novamente na concha presa À presilha dos calções por um cordel. Puxei do fio que trazia e mostrei-lhe a minha concha de prata. - É igual À minha - comentou sem dar importância À constatação. - Deixa ver. E, tirando o fio, encostei a concha À dele. Eram impressionantemente iguais. O mesmo tamanho, a mesma forma. Só o material era diferente. Sobressaltei-me: - É espantoso! - Não. Não é - foi tudo o que disse. Eu, que sempre me ri das coincidências contadas tão entusiasticamente pelos outros, não conseguia deixar de me surpreender, confirmando vezes sem conta a total semelhança entre as duas conchas. - É incrível! O Dunas, porém, já estava absorto, olhando o mar. - Queres ir dar um mergulho das rochas? - desafiou-me. - Hoje, não. Desculpa.

- Porquê? - Porque tenho de continuar o meu livro e porque ainda não fiz a digestão do almoço e ainda porque... - Porque tens medo. Morres de medo de mergulhar - concluiu sem dó nem piedade. - Também por isso - retorqui com um certo embaraço. - Mas não foi isso que eu te perguntei. Eu disse Porquê, porque tu disseste Desculpa. Desculpo o quê? Confundiu-me por um instante. - Pedi desculpa para que não ficasses ofendido comigo, entendes? No outro dia... - Está bem. Noutro dia eu ensino-te. - A mergulhar?! - exclamei, quase em pânico. - É fácil, vais ver. Toda a gente sabe. Na minha escola até os mais novos sabem dar mergulhos. Só que alguns não chegam ao pé das rochas... 24 25 - Ouve lá, Dunas, a propósito, tu gostas de ir À escola? - De ir e de vir. De ficar lá é que nem por isso. Ri-me. - Castigam-te? Ergueu o sobrolho. - Só a minha avó, Às vezes. Mas não dói nada, porque ela já tem pouca força. - Mas, mesmo assim, tu gostas mesmo muito dela, não é? Levantou-se devagar e foi até ao muro, encher o peito de vento. Dispus-me então a retomar a escrita, porém, subitamente, o Dunas aproximou-se e inquiriu: - E tu? De quem é que gostas mesmo muito? Levantei a cabeça na sua direcção, respirei fundo, pensei um pouco e, quando ia finalmente responder-lhe, o meu esquivo visitante afastou-se e saltou o muro. 26 Capítulo V A AULA DE MERGULHO Levantara-me cedo, na esperança de poder aproveitar as primeiras horas da manhã para escrever. Quando cheguei perto da minha mesa de trabalho, no terraço, encontrei uma folha presa no rolo da máquina. Estava escrita. Tirei-a e li: Estou na praia. Se vieres, ensino-te a mergulhar. Parei a olhar a folha que ainda segurava nas mãos. Depois, aproximei-me do muro e espreitei o mar. O Dunas estava sentado numa rocha, de costas para o areal, fitando sabe-se lá que nuvem. Uma brisa mais ácida fez-me arrepiar. Por um lado, morria de medo, como ele tão rapidamente percebera, por outro, não queria decepcioná-lo nem deixá-lo a pensar que eu era covarde. Olhei a máquina de escrever e achei que a escrita poderia ficar para depois da aula de mergulho, se conseguisse sobreviver... 27

Fui vestir o fato de banho e desci para a praia. Quando lá cheguei, não vi ninguém. Olhei em todas as direcções e, quando estava quase a vir-me embora, vislumbrei uma cabeça a flutuar lá longe, atrás da formação das ondas. Acenei-lhe na esperança de ser vista. O Dunas reparou em mim e nadou em direcção À beira-mar. Deslizava com uma rapidez olímpica, um À-vontade que me deixava sem fôlego. - Anda! - gritou-me, de braço no ar, perto da rocha que parecia um vulcão. Um arrepio invadiu-me novamente, mas não era o momento de recuar. Entrei lentamente na água, tentando adaptar-me À temperatura (gélida, Àquela hora), esforçando-me por acalmar o coração, que desvairava de indignação. Quando perdi o pé, comecei a nadar bruços (o estilo em que melhor me desenvencilhava) e fui-me aproximando da rocha, tentando a todo o custo evitar a rebentação forte, que me assustava cada vez mais. O Dunas sentou-se sobre o vulcão e esperou-me, com cara de troça. - Mais depressa! Pareces uma alforreca... - E ria a bandeiras despregadas. Lá cheguei por fim ao rochedo e agarrei-me o melhor que pude, embora os limos o tornassem escorregadio como pele viscosa. - E agora? - inquiri, temendo o pior. - Agora, vês-me mergulhar duas vezes com atenção. A seguir, sobes para aqui e atiras-te - declarou, como se se tratasse da coisa mais simples do mundo. O coração começou a bater novamente num ritmo alucinante. O Dunas levantou-se e, sem vacilar, assumiu a posição correcta para um mergulho de cabeça - esticou os braços, elevou-se nos ares entre a névoa da manhã e fendeu o azul a pique, como um golfinho, sem fazer saltar uma única gota de água. Observei-o, impassível, tentando registar todos os seus movimentos, para não fazer má figura quando chegasse a minha vez. O segundo mergulho foi idêntico ao primeiro, mas tão rápido que quase não pude seguir-lhe a trajectória. No fim da sessão de demonstração, colocou-se ao lado da rocha e incitou-me: - Vá, sobe! Viste como se faz, não viste? Acenei-lhe afirmativamente, embora estivesse consciente de que iria ser um autêntico desastre. Contudo, subi a custo para o rochedo, apoiei os pés com toda a força para não escorregar e, quando me senti finalmente direita, parei, sustendo a respiração. Aquilo era uma perfeita loucura. Eu só podia estar demente. Não havia sequer um banheiro que pudesse vir salvar-me, caso tudo desse para o torto, como era de prever. O Dunas, sempre vigilante, leu-me os pensamentos e quis tranquilizar-me: - Vá lá! Eu estou aqui! Fechei os olhos, respirei o mais fundo que pude, tão fundo que senti o mar inteiro invadir-me a alma. Recordo que rezei mentalmente uma oração curta que inventei na altura e estiquei os braços. No instante seguinte, estava debaixo de água, lutando para voltar À superfície. Quando consegui abrir os olhos, senti um ardor intenso no peito e na barriga. - Que grande chapão! - riu-se o meu instrutor. - Entraste mal. Agora tens de repetir.

Estava demasiado atordoada para falar e nem ousei contrariá-lo ou ralhar-lhe pela falta de cortesia. 28 29 Nadei até À rocha, subi com uma força nova (nascida toda do despeito que acabara de sentir), coloquei-me em posição e saltei. Sem preparação psicológica. Sem me dar tempo a qualquer arrependimento. - Foi um bocado melhor - disse-me, quando me viu irromper das profundezas. - Mas os pés não estavam juntos. Irritei-me: - Olha lá, Dunas, não achas que já chega de críticas?! Eu não sou como tu. Nunca fiz isto na vida! Só saltei de pranchas em piscinas municipais e foi há muito tempo, tanto que já nem me lembro. Porém, o Dunas já não ouviu a última frase, mergulhou novamente e aproximou-se de mim por baixo de água. Depois, ergueu-se como um peixe voador e deu uma gargalhada: - Grande cagaço, hã? Nem abriste os olhos nem nada... Era verdade, mas eu tinha esperanças de que ele não tivesse reparado. - Nunca abro os olhos debaixo de água. Faz-me impressão expliquei. Resolvemos então regressar À praia, mas, quando olhei o mar, sobressaltei-me. As ondas tinham aumentado consideravelmente e era preciso passá-las para chegar À areia. - Dunas! - chamei-o, em pânico. - Que foi? - perguntou, sem parar de nadar. - Tu já viste aquelas ondas?... - Que é que têm? Perante aquela desfaçatez, dispus-me a segui-lo, agora em crawl para ver se não o deixava afastar-se demasiado. A passagem pelo Bojador foi um autêntico pesadelo. Engoli tanta água que me doía a garganta. Chapadas de espuma varriam-me os cabelos, e eu sem tempo para parar e poder exprimir todo o horror que me congelava as ideias. Cheguei À praia exausta. Atirei-me para a areia molhada e deixei-me ficar, como um náufrago. De todos os meus sentidos só funcionava a audição. Ouvia o chiar das ondas e o riso gostoso do meu instrutor, numa tal mistura de vozes que se tornava impossível distingui-las. Talvez fosse apenas o próprio mar a rir-se de mim. Quando finalmente consegui levantar-me, vi o Dunas ao longe, a vasculhar na areia seca. Foi então que olhei o mar que eu havia heroicamente atravessado. Pareceu-me estranhamente calmo. Talvez a turbulência que eu sentira tivesse sido somente fruto do meu medo. E, subitamente, senti-me vencedora ao olhar o rochedo em forma de vulcão. No momento seguinte, uma mão quente poisou no meu ombro molhado. - Pega, é para ti - disse, entregando-me um búzio. - Não foste lá grande coisa, mas, pelo menos, tentaste. Amanhã ensino-te outro salto. Da rocha do pontão. Peguei no búzio e, instintivamente, colei-o À orelha. - É mudo este búzio - reclamei, provavelmente para me vingar dos risos que ouvira. - Os búzios não falam, ora!

- Claro que falam. Conheço búzios que falam pelos cotovelos - retorqui, olhando-o a sorrir. - Este é que deve ter apanhado tal susto que perdeu a voz... 30 31 Rimo-nos ambos e deitámo-nos sobre a areia a aquecer o corpo. - Já não tens medo? - perguntou-me em voz baixa, de rosto quieto, paralelo ao céu. - Que te parece? - Que sim, mas que não vais confessar... 32 Capítulo VI UM CESTO DE MAÇÃS Tinha acertado nos condimentos, as amêijoas estavam uma delícia. Como a noite caía quente e sem pressas, resolvi jantar no terraço, saboreando tranquilamente o meu petisco (que me levara horas a preparar), regado com um vinho branco que trouxera da aldeia. De repente, uma mão atrevida puxou-me os cabelos presos com um elástico. - Já jantaste, Dunas? - Já. Lá em casa janta-se cedo. - Depois, fitando o meu prato, exclamou, profundamente indignado: - Tu comes amêijoas! - Sim, onde é que está o mal? Não há cá nenhuma lei contra o consumo de amêijoas, ou há? - Não, infelizmente, não há... - Infelizmente porquê? São óptimas! Não queres provar? - Não! Eu nunca comeria os meus amigos! 33 Pousei o garfo e a faca. - Os teus amigos?! - Sim, os seres do mar são meus amigos. Nado todos os dias ao pé deles. Eles não me comem. Achas que poderia comê-los?! Estava realmente chocado. Senti-me embaraçada. - Nunca tinha pensado nisso, Dunas. Na cidade onde vivo come-se de tudo, percebes? Até carne de minhoca, em hamburgers. Ninguém pensa assim como tu. - É pena. - Por outro lado - continuei, arranjando coragem para acabar o meu pitéu -, temos de comer alguma coisa, não é? - Mas não os bichos do mar! Falou com tal autoridade que comecei a sentir-me enjoada. Afastei o prato para um canto da mesa e peguei numa maçã. Quando ia a perguntar-lhe se também queria, já o Dunas estava a dar uma dentada ruidosa na maçã mais verde da taça. - Fazes sempre isso! É de propósito, não é? - O quê? - Antecipas-te sempre. Nunca pedes nada. Afastou-se lentamente e foi encostar-se ao muro, roendo a maçã, de olhos postos no mar. Os cabelos loiríssimos

voavam-lhe sobre a testa. - Está mar-chão. A Lua deitou-se na água. Nem se mexe! Está aqui está a dormir. Chiu... * * * Na manhã seguinte, quando entrei na cozinha para fazer o pequeno-almoço, encontrei, sobre o parapeito da janela, um cesto cheio de maçãs bravo-de-esmolfe, as minhas preferidas, que só raramente apareciam na cidade. Aproximei-me e descobri, debaixo do cesto, um desenho a lápis de cera que representava a nossa praia, com o farol ao fundo, a escarpa e os rochedos; sobre as águas, um Sol imenso e alaranjado esborrachava-se no azul, encharcado de mar e luz. Procurei o Dunas, descalça, pelo terraço, mas em vão. Tive vontade de pedir-Lhe desculpas pela minha atitude quando o vira, na véspera, tirar uma maçã da minha mesa sem pedir licença. Senti-me minúscula perante aquela prova de generosidade. O Dunas não parava de dar-me lições e eu, bicho urbano e individualista, tinha muito que aprender. Ele era, tive a certeza naquele momento, a pessoa indicada para me ensinar as coisas mais importantes da vida; as coisas que eu desaprendera com o passar dos anos e com a falta de solidariedade tão comum entre os que vivem nas grandes cidades. Naquele dia, não voltei a vê-lo. Não queria, por certo, que eu lhe agradecesse, ou talvez tivesse previsto que eu me sentiria encabulada. De qualquer forma, foi melhor assim, pois não saberia mesmo que dizer de um gesto que me reduzia À pequenez de um micróbio. Um micróbio absolutamente anónimo. 34 35 Capítulo VII UMA GAIVOTA NA NOITE Dois dias após ter recebido a oferta das maçãs e do desenho, o Dunas visitou-me pela tardinha. Apareceu silencioso, como sempre, trazendo os calções do costume e a concha presa na presilha por um cordel cor de nada. Eu estava a escrever o meu romance e acabei a frase sem que ele me interrompesse. Depois, olhei-o com um sorriso e agradeci: - As maçãs são óptimas e o desenho já está pendurado no meu quarto. Gostei muito. Obrigada... - Ainda falta muito para acabares o teu livro? - Sim, falta bastante. - E pensas ganhar muito dinheiro? - Com a venda do livro? - Pois. - Não sei, Dunas. Mas não escrevo só por isso, embora o dinheiro faça falta a toda a gente. 37 - O meu pai, uma vez, mandou dinheiro da América, dentro de um envelope, com uma carta para a minha avó. E depois ainda

escreveu outra vez, há um ano, e também mandou dinheiro, só que a minha avó achou que o melhor era pô-lo no banco, na vila. É dinheiro americano, vale muito! Mas eu não preciso, a minha avó dá-me tudo. - E tu, costumas escrever ao teu pai? - Não... Só escrevi uma vez, no Natal. Mandei-lhe uns versos, só que não rimavam e acho que ele não deve ter gostado porque não disse nada quando escreveu À minha avó. Olhei-o com vontade de abraçá-lo, aquela mesma vontade que já sentira e ainda não conseguira concretizar. Limitei-me a sorrir e perguntei-lhe: - Tu tens irmãos, Dunas? - Tenho uma meia... - Riu-se. - Meia-irmã. Vive com a minha mãe. - E acrescentou, erguendo o sobrolho: - Ainda é uma criança. - Ah... - E tu? - Eu tenho quatro irmãos, mas também nenhum vive perto de mim. Olha lá, Dunas, tu tens amigos, assim... da tua idade? - Tenho de todas as idades. Uns são verdes e um bocado moles, outros são duros e redondos, outros têm escamas, outros... - Referia-me a rapazes e raparigas. - Ah, esses andam lá na escola comigo. Jogamos À bola nos recreios. - E não há assim nenhum especial? - Especial? - Sim, com quem converses mais. Reflectiu por um instante e retorquiu: - Não. Espera... havia um, o Filipe, mas foi-se embora para outra terra quando ainda estávamos na primária. Às vezes almoçávamos os dois na cantina. - E nunca tens saudades dele? - Saudades? Não. Já não é importante. E agora tu estás aqui... Sorrimos. Quanto a amigos tudo estava dito. O presente, para o Dunas, era muito mais importante do que o passado. Então, olhou a folha que estava na máquina de escrever e comentou: - Essa máquina não é lá muito tua amiga, não. - Porque é que dizes isso? - Porque não escreve as coisas importantes. Olhei a folha meia escrita e, franzindo a testa, inquiri: - Que coisas?! - Então tu não viste o que deu na televisão? - Sabes que não há nenhuma nesta casa, Dunas, e eu não vou ao café só para ver televisão. - Mais uma maré negra... Aquilo do petróleo que fica no mar quando um navio vai ao fundo. E não foi longe daqui! Qualquer dia... De facto, era importante. Envergonhei-me de nunca ter tocado no assunto em nenhum dos meus livros, tal a expressão séria do meu interlocutor. - Isso é um problema grave, Dunas. Mas pode ser que nunca chegue À tua praia. Esperemos que não! - Não, que eu vou estar lá todos os dias, como sempre, e, se vir algum petroleiro a afundar-se, chamo logo a polícia para mandar apanhar tudo o que sujar a água. Eles que levem o

petróleo pelo ar, por avião. 38 39 Não levam gente e bombas para as guerras? Então! Metam lá também os garrafões de petróleo, debaixo dos assentos, ou noutro sítio qualquer, que os peixes não têm culpa nenhuma de os homens andarem de automóvel! A indignação subia-lhe ao rosto pelas veias claras e crispava-lhe a pele lisa. - Nada disso é tão fácil como te parece, Dunas. - Não me interessa! Eles que se arranjem, lá os árabes e os outros que andam por aí a sujar o mar. Cá na minha praia é que eles não pôem os pés, isso é limpinho. Eu até já pensei no que vou fazer se vir algum petroleiro perto da costa, mas é segredo, não vou dizer-te, porque tu, sem querer, podes descair-te e contar por aí a alguém. Mas já está decidido. Barco que se ponha para aí a deitar petróleo está feito comigo! Que eu tramo-os, e bem tramados! * * * Quando a noite caiu, sentei-me na cadeira de lona no terraço a apanhar banhos de luar com cheiro a maresia. O único ruído que se ouvia era o suavíssimo murmúrio das ondas e um ou outro trinado de cigarra ou grilo, escondidos entre os tufos de relva junto ao muro branco. Fechei os olhos e deixei-me adormecer, apesar da brisa fresca que corria. Ao sentir um aconchego de lã sobre os ombros e um forte aroma a mar, acordei. Sobressaltei-me. Ao meu lado, o Dunas espiava as estrelas, sorrindo. - Que estás aqui a fazer? - perguntei-lhe. - Estavas com frio... Não soube que dizer. Sentia um certo desconforto por perceber que o Dunas lia tão fundo dentro de mim. Sempre! - Que horas serão? - perguntei-me. - Esta noite há muitas estrelas! Repara! - É... E está lua cheia. - Os peixes devem estar assustados - continuou o meu visitante, olhando o mar ao longe. - Ficam sempre agitados quando é lua cheia. É por causa daquela luz toda que fica sobre o mar. Eles querem dormir e não conseguem... Tu dormes de luz acesa? Fiquei surpreendida com a pergunta. - Não, Dunas, não durmo de luz acesa. Por acaso, nunca tive medo do escuro, nem mesmo quando era muito pequena. Os meus medos são outros... - Eu tenho um bocado de medo do escuro, mas só no Inverno, quando me levanto para ir para a escola e ainda não há luz nenhuma. Sabes, quando está muito escuro há muito mais barulho. Se soubesses a quantidade de sons diferentes que eu ouço a caminho da escola no Inverno! É que eu venho pela mata, para ser mais rápido, e na mata há muitos bichos e, claro, o velho... Tive logo vontade de perguntar-lhe pelo tal velho que, ao que parecia, tanto o assustava, mas pressenti de imediato que ele não iria responder-me.

- E que velho é esse? - Está a ficar tarde, ainda tenho de passar pela praia. Adeus. Ia dizer-lhe qualquer coisa, mas, como sempre, não me deu tempo. Saltou o muro e seguiu em frente até ao areal. Fui espreitá-lo À beira do terraço. 40 41 Vi-o então encaminhar-se para o lado direito e parar junto da rocha grande que aí se encontrava. Depois, vi-o acocorar-se, tirar qualquer coisa do bolso e foi nesse momento que distingui o corpo claro de uma gaivota deitada na areia húmida, junto À rocha. O Dunas ficou alguns minutos perto dela; em seguida, levantou-se, julgo que lhe fez uma festa e ela voou. Espantada, verifiquei que voava sobre a cabeça loira do rapaz, em voos baixos e circulares, como um aviãozinho de papel. O Dunas afastou-se, e a gaivota dirigiu-se ao mar. No instante seguinte, deixei de a ver. E a ele também... Chamei-o vezes sem conta, queria por força fazer-lhe perguntas sobre a gaivota, mas não voltei a vê-lo nessa noite. Decidi também retirar-me e fui para casa a pensar naquele miúdo extraordinário que tinha encontros secretos com uma gaivota e desaparecia tão repentinamente que parecia volatilizar-se. Talvez fosse isso, talvez o meu jovem companheiro fosse uma espécie de ser fantasmagórico que se evaporasse ou se transformasse em espuma do mar... 42 Capítulo VIII NO POSTO MÉDICO Os dias que se seguiram foram quase exclusivamente dedicados À escrita. Aproveitando uma nova - e tão esperada - onda de inspiração, colei-me À máquina de escrever e consegui um enorme avanço no meu romance. Lembro-me que senti pouca fome durante esses dias de entrega total ao meu trabalho. Bebia copos de leite e comia fruta, para não ter de perder tempo na cozinha. As bolachas, minhas eternas companheiras de escrita, tinham acabado, facto de que apenas me apercebi ao cabo de cinco dias, quando senti vontade de trincar qualquer coisa doce e estaladiça. Resolvi então montar na minha bicicleta e ir À aldeia. Parei em frente da mercearia e, mal desmontei da bicicleta, avistei o meu amigo misterioso, que bebia água no chafariz do Largo. Acenei-lhe de longe, mas pareceu não ligar. Depois, vi-o correr em direcção a um grupo de rapazes que jogava desenfreadamente À bola, e resolvi entrar na mercearia. 43 Após pagar a conta, ouvi um enorme alarido vindo de fora e vi o merceeiro a esbracejar À porta do pequeno estabelecimento. Acerquei-me dele para me inteirar do que se estava a passar e foi então que vi um círculo apertado de

rapazes que faziam gestos e gritavam sugestões. Instintivamente, larguei o saco das compras À porta da mercearia e corri para o lugar onde a miudagem se encontrava em peso. - Deixem-me passar! - pedi, furando por entre a maralha. - É o Dunas - explicou um garoto de calções esfarrapados. Teve outro ataque. Estremeci, mas continuei a furar até me encontrar no centro do círculo humano, onde encontrei o Dunas, sentado no chão, sem forças para se levantar. Num ápice, mandei dispersar, ajudei-o a levantar-se e foi nesse momento que reparei como os seus olhos estavam congestionados do esforço imenso para respirar. Então, vendo que ele não conseguia andar, peguei-lhe ao colo e corri para o merceeiro: - Por favor, telefone a chamar uma ambulância. O rapaz está com uma crise de asma. - Isso é o cabo dos trabalhos - replicou o merceeiro. - Depressa! Não vê que ele não está bem?! - O melhor é levá-lo À avó, que ela trata-o. Foi assim das outras vezes. Até porque as ambulâncias demoram muito a chegar aqui. Só há bombeiros na vila. Quase À beira do desespero, lembrei-me de pedir ao merceeiro que me chamasse um carro de aluguer que pagaria a qualquer preço, conforme esclareci. Enquanto esperávamos, sentei o Dunas no banquito da mercearia e acocorei-me junto dele, tentando acalmá-lo. - O carro já vem. Tenta respirar o mais devagar que conseguires, está bem? Contudo, o Dunas parecia ir desfalecer a qualquer momento e nem forças teve para dizer uma palavra que me tranquilizasse. À porta da mercearia, os colegas da bola esperavam também, agora em silêncio absoluto, um pouco assustados. - Foi da poeira que a gente alevantou da terra - explicou o que me pareceu mais velho. - Ele é alérgico ao pó, por isso é que a avó não quer que ele jogue com a gente. Subitamente, contendo uma vez mais a vontade de abraçá-lo por me parecer que talvez isso o embaraçasse um pouco em frente dos amigos, agarrei com força na concha que ele trazia pendurada no cordel atado À presilha dos calções. Então, para minha surpresa, senti a mão do Dunas cair pesadamente sobre o meu pescoço e depois segurar uma madeixa do meu cabelo, em sinal de reconhecimento pela minha presença. Os minutos que se seguiram pareceram-me intermináveis e quando, finalmente, o carro de aluguer parou em frente da mercearia, peguei novamente no Dunas e sentei-o ao meu lado no banco de trás. A viagem até ao posto médico da vila foi rápida e, À chegada, tive a agradável surpresa de ver o Dunas ser imediatamente atendido por uma enfermeira simpática a quem contei o que se tinha passado. O Dunas foi levado para a enfermaria, e eu fiquei ao guichet, onde me pediram que preenchesse uma papelada para a qual eu não tinha praticamente dado algum. Foi quando mencionei o facto de o Dunas (do qual sabia apenas o nome 44 45 próprio) viver com a avó na ilhota, que a recepcionista fez um

longo Ah... e me dispensou de mais informações. Depois, adiantou, de sobrolho erguido: - Essa senhora é um problema, sabe? Teima que não quer que o neto leve as vacinas... Até da escola já lhe escreveram a explicar que é obrigatório, mas qual quê! Enfim, sabe como é esta gente. Não, não sabia exactamente como era aquela gente, mas, por aquilo que já me fora dado conhecer pelo Dunas, podia calcular que se tratava de uma família muito especial. - Ele já aqui apareceu com um ataque de asma?perguntei. - Só quando era muito pequeno - contou a recepcionista. - No tempo em que vivia com os pais. Tinha várias crises nessa altura. Recordo-me de uma vez em que foi o cabo dos trabalhos para o reanimar. Não havia oxigénio que lhe valesse. Nem sei como aguentou! - E não voltou a ter crises dessas? - Que nós saibamos, não. Mas parece que a avó é que quer tratar dele, diz que tem maneira de o curar sem precisar de recorrer a médicos... Sei lá, há quem diga aqui nas redondezas que a velhota tem poderes, sei lá, ouvi dizer que faz umas mezinhas quaisquer e, Às vezes, tem dado resultado. Não que eu acredite nessas coisas, longe de mim, mas há quem acredite e só vá ter com ela para tratar os achaques. Ele há coisas! Fiquei parada a olhar o vazio da salinha de espera. Como poderia a avó do Dunas fornecer-lhe oxigénio num caso como aquele que ali me trouxera?! Que lhe faria ela? - E não há um médico que vá lá a casa do rapaz e explique À avó que ele sofre de asma e que precisa de tratamente clínico especial? - perguntei ainda. - Oh... E de que serviria? Tempo perdido, era o que era. E, além do mais, o senhor doutor tem sempre muito que fazer. Só vem Às terças e quintas, nos outros dias está de serviço no hospital da cidade. Só faz domicílios quando se trata de casos sérios, percebe? Indignei-me, mas não disse mais nada. Tudo aquilo me parecia demasiado burlesco para ser verdade. Desde quando a asma não era um caso sério?! - Mas a senhora não se rale - continuou a recepcionista. Não é da família, pois não? Deixe, que eles lá se entendem. O melhor é a gente não se meter. Calei-me, mais indignada do que nunca e, para não ter de ouvir mais, fui sentar-me no sofá de napa escura, junto a uma mesa com uma jarra cheia de flores de plástico. Que acharia o Dunas daquelas flores?, pensei, sorrindo para dentro. Uma hora mais tarde, a enfermeira apareceu na sala de espera trazendo o doente, já com melhor cara. - Aqui o tem. Já está fino. - Depois, virando-se para o Dunas: - E nada de correrias nem futeboladas, ouviste? Olha que tu e o pó não se dão nada bem, como já viste... Senti uma pena imensa. Que poderia então o rapaz fazer?! A praia, claro... Era das poucas coisas que não lhe estavam vedadas. Dei-Lhe a mão e saímos do posto muito mais unidos do que antes. - Já estás bem, não estás, Dunas? - Já. Mas... queria pedir-te uma coisa. 46 47

- O quê? - quis saber, desejosa de poder ser-lhe útil. - Se alguma vez vires a minha avó, não lhe contes. - Que viemos aqui ao posto? - Sim. - Fica descansado, Dunas. É um segredo só nosso - respondi, com a cumplicidade de um criminoso que acaba de se envolver num delito grave. - Prometes? - Claro. Só então sorriu, devolvendo aos olhos aquele brilho de água que só uma criatura marinha poderia ter. 48 Capítulo IX BICHOS DO MAR Dois dias volvidos, o meu companheiro apareceu no terraço, depois do almoço. Vinha de tronco nu e cabelo a pingar. - Estiveste na praia? - perguntei-lhe. - Hum-hum. - Depois, deu uma gargalhada espantosamente bonita e exclamou: - Apanhaste um cagaço, hein?! Não sabia exactamente a que se referia, por isso franzi o sobrolho e inquiri: - Que cagaço? - No outro dia. Quando eu tive aquilo... - Ah, bem, não me assustei assim tanto como isso, pelo menos depois de ver que foste bem atendido no posto. - Pensaste que eu ia morrer? Arrepiei-me. - Que ideia, Dunas! Não era caso para isso. 49 Voltou a rir-se. Inexplicavelmente. - Eu vi que estavas com medo. É normal. A professora da primária também ficava, quando eu começava a tossir muito lá na aula. - Bem, claro que, a princípio, fiquei um pouco preocupada. - Pois foi. Eu, quando era mais pequeno, também apanhei grandes cagaços, mas agora já sei como é. Depois passa. Passa sempre, foi a minha avó que me disse, e ela sabe. Ela diz que eu só vou morrer quando for muito velho, mais ainda do que o velho da mata. De facto, a relação do Dunas com a avó era muito mais forte do que eu podia imaginar. A confiança era total, como se de uma autoridade em medicina se tratasse. - Evidentemente que não vais morrer, Dunas. A asma é uma doença muito vulgar. - Não é uma doença. É que eu sou alérgico ao pó. A minha avó diz que é um micróbio da terra que me vem para a garganta e é por isso que começo a tossir muito, assim de repente, como se fosse vomitar as tripas, mas não vomito. Depois daquela explicação tão cabal, fiquei estranhamente tranquila.

- Que sorte teres uma avó que percebe tanto dessas coisas, Dunas! Ainda bem. - Tu tens alguma avó? - Não. Já faleceram as duas. - Quê? - Eram muito velhinhas. - Essa palavra que disseste... - Faleceram? - Pois... Quer dizer que morreram, é? - Sim, Dunas. - É uma palavra gira, faleceram... Gosto! Acabei por sorrir. - Geralmente, os escritores conhecem muitas palavras, Dunas. Elas são o nosso material de trabalho. - Eu gostava que me ensinasses algumas palavras bonitas assim como faleceram. - Está bem. Mas então tens de estar muito atento para as fixares e perceberes o seu significado. Depois, vai ser bom poderes usá-las, quando falares ou escreveres. - Eu Às vezes escrevo. Escrevi um poema ao meu pai. - Já me contaste. Eu gostaria bem de ler um poema teu. Tenho muita curiosidade! - Só que dou alguns erros... - Toda a gente dá erros, Dunas. Sorriu, agradecido, mas não convencido. - Tu não. Uma escritora não pode dar erros, pois não? - Se der, tem de aprender a corrigi-los, como toda a gente. - Queres vir À praia? - Agora? Acabei de almoçar. - E que é que isso tem? - Bom, tenho de dar tempo para fazer a digestão, não é? Nova gargalhada estrondosamente bonita. As gargalhadas, que sempre me haviam parecido descaradas e grosseiras, tornavam-se agora uma maravilha. O Dunas sabia rir como ninguém. - Então eu espero, mas só dez minutos - disse ele por fim, troçando do meu ritual de digestões. 50 51 - Dez minutos não chegam! - Ora! Eu cá vou para o mar sempre que me apetece, e apetece-me sempre! - Mas eu não estou habituada a tomar banhos a seguir ao almoço, percebes? Poderia sentir-me mal. Não quero arriscar. Riu-se outra vez. - Os peixes comem e continuam na água... - Mas eu não sou peixe, Dunas. - Pois, mas gostava que fosses... - Porquê? Não me respondeu. Afastou-se da minha mesa e foi encostar-se ao muro do terraço a olhar o mar. - Se quiseres, vai andando - gritei-Lhe. Ele, no entanto, pareceu não me ouvir. Subitamente, acocorou-se e pôs-se a mirar qualquer coisa parada no chão. - Uma lagartixa! - E, sem me dar tempo a fugir, veio a correr com o animal na mão para mo mostrar. - Olha! Ainda é bebé.

Afastei um pouco a cadeira, discretamente, para ver se ele não notava, mas em vão... - Que engraçada... - Então por que é que puxaste a cadeira para trás? - Puxei? Pois foi! Sabes, é que eu não estou muito acostumada a animais desses. Na cidade, felizmente, há poucos. - Deve ser chato viver na tua cidade. Olha, ontem À noite encontrei uma osga enorme colada À janela do teu quarto, pelo lado de fora. - Estiveste aqui ontem e não me disseste?! - Já estavas a dormir, foi por iso que não te mostrei a osga. As osgas são muito simpáticas, ficam quietinhas ao pé da luz. Não são como as lagartixas, que fogem mais depressa que sei lá o quê. Agradeci mentalmente o ter estado a dormir quando o Dunas encontrou a osga e disse apenas: - Ouve lá, tu deitas-te muito tarde, não deitas? A tua avó não diz nada? Riu-se. - Ela deita-se cedo, como tu... Só que depois levanta-se ainda de noite e tu não... Tu és um bocado dorminhoca! Corei um pouco. - Só no Verão! - No Verão é que é bom levantar cedo! Tinha lógica o meu bicho do mar. - Isso é verdade, Dunas, mas, quando está calor, fico preguiçosa. - Como as osgas... Não gostei da comparação, mas ele não iria compreender o meu desagrado. Foi outra vez colar-se ao muro, e eu fui À cozinha para beber água. A conversa das osgas e lagartixas tinha-me deixado levemente nauseada. Quando regressei ao terraço, o Dunas já lá não estava. Aproximei-me do muro e espreitei a praia. Lá estava ele , a nadar em direcção aos rochedos maiores, a uma velocidade de golfinho. Então, sem eu o ter chamado, ele virou-se para o areal, ergueu a cabeça e acenou-me , chamando-me com a mão. Não pude resistir. Ignorei a digestão, fui vestir o fato de banho e desci até À praia. Se me acontecesse alguma coisa, 52 53 o Dunas lá estaria para impedir que eu morresse estupidamente de indigestão ou de cagaço. * * * Nessa noite, eram já horas de descansar o corpo e as ideias, preparava-me para arrumar a máquina de escrever, quando recebi outra visita do meu mais recente amigo, que vinha de cabelo molhado e cabisbaixo. - Que aconteceu? - perguntei-lhe, amontoando as folhas de papel já escritas. - Vieram cá esta tarde e sujaram tudo! - Quem? - Os turistas!

Como depois me explicou, havia tardes em que aparecia uma camioneta cheia de estrangeiros que vinham de um aldeamento próximo refrescar-se no mar. - Não são nada civilizados esses turistas, Dunas. - Eles são é uns porcos! Deixaram sacos de plástico no chão e tudo. Logo, a minha gaivota não vai poder descansar nem nada! Seguidamente, contou-me a história da gaivota que vinha todas as noites poisar junto da rocha no areal. Segundo o Dunas, a gaivota era já muito velha e não aguentava a pedalada das suas irmãs, de maneira que ia para ali repousar um pouco e falar com ele, mas nunca aparecia nos dias em que a praia era invadida pelos ditos turistas do aldeamento que havia sido construído havia pouco mais de um ano. - Dantes é que era bom. Não vinha para aqui ninguém. Só os pescadores, claro. Mas, desde o Verão passado, a meio da semana, zás! É sempre a mesma porcaria. O que vale é que é só uma vez por semana e só À tarde. É que eles têm lá piscina no hotel. Eu cá é que não punha os pés numa piscina! - Porquê? - Ora! Aquela água deve estar toda suja com aqueles rabos todos lá dentro e sempre a mesma água! Soltei uma gargalhada. - Mas as piscinas têm um filtro, um sistema de limpeza da água, Dunas. - Qual quê! É uma porcaria! Ainda por cima, os turistas usam aqueles cremes para queimar e deixam óleo na água, nhac! São uns porcos. Não conseguindo demovê-lo, mudei de assunto: - Ouve lá, e essa tal gaivota, que sabes sobre ela? - Oh... tanta coisa! Depois, foi até ao muro olhar o mar. Segui-o em silêncio e, mesmo atrás dele, segredei-lhe: - Deixa lá, Dunas, a tua gaivota não se vai importar. É só uma vez por semana. Tem os outros dias todinhos para te ver. Com uma voz de imensa tristeza, respondeu sem se voltar para mim: - Tu não percebes. Ela tem de vir todas as noites! Ela precisa de vir! Não vês que assim não come?! Finalmente compreendi. A gaivota não tinha forças para lutar pela sobrevivência no meio das outras que se juntavam em grande alarido sobre os barcos dos pescadores. E era o Dunas quem lhe levava alimento que ele próprio colhia do mar para lhe dar. 54 55 Sem saber que mais dizer-lhe, coloquei-lhe a mão no ombro e ficámos por muito tempo a olhar a rocha onde, de facto, nenhuma gaivota poisou nessa noite. 56 Capítulo X O VELHO DA MATA

No dia seguinte, não vi o Dunas e confesso que senti a sua falta, embora nunca soubesse ao certo se ele viria ou a hora a que chegaria. Levantei-me mais cedo do que o costume, preenchi a manhã com a escrita e, depois do almoço, pedalei até À aldeia, pois, pela primeira vez desde que ali chegara, tive saudades de um cafezinho antes de voltar ao trabalho. Havia apenas um café na aldeia, que tinha uma televisão estrategicamente colocada numa prateleira pouco abaixo do tecto para que todos pudessem ver. O som estava altíssimo e foi difícil encontrar uma mesa vaga, mas o cafezinho soube-me bem, muito melhor do que os instantâneos que eu fazia em casa. Quando chamei o empregado para pagar, ele sorriu como se me conhecesse e, porque ficou tempo de mais a olhar-me, tive de perguntar-lhe se queria saber alguma coisa. 57 - Nada, não senhora. É que... bem, a senhora é que levou o miúdo da ilhota ao posto, não foi? - Sim, fui eu - respondi, sem compreender aquele interesse do empregado. - É que aqui na aldeia sabe-se tudo, não leve a mal. - Não, não levo a mal. Por que haveria de levar a mal que se soubesse uma coisa tão simples? - Simples?... Vê-se que a senhora não conhece a avó do miúdo. É fogo! - E o senhor acha que alguém vai contar-Lhe que o levei ao posto médico? - Não. Ninguém quer problemas com a velhota. Ela até é boa pessoa, só que tem lá as manias dela. Julga que sabe tudo, que pode curar toda a gente. - E cura? - Bem, há quem diga que ela consegue fazer remédios que não se vendem na farmácia... - Já me tinham dito. - Mas olhe que é muito ligada ao neto. Não tem mais ninguém, desde que o filho emigrou para a América. - Também já sabia. - Depois, achando que o falatório estava a avançar demasiado, abreviei: - Se não se importa, faça-me a conta. Estou com alguma pressa. É o café, a água mineral e um pacote daquelas pastilhas verdes que estão ao lado da máquina registadora. O empregado fez a conta um pouco contrafeito. Queria esticar a conversa, pelo que percebi pela lentidão com que fez o troco e que me permitiu contar-lhe as nódoas da camisa. Chegada a casa, sentei-me na cadeirinha do terraço, descalcei as sapatilhas de lona e fiquei a saborear o sol da tarde, respirando o perfume que vinha do mar e me lembrava o Dunas. 58 Acabei por adormecer no terraço, contrariando os meus planos de escrita. Acordei muito perto da hora do jantar, já o Sol estava a pôr-se, embora muito devagar. Cozinhei qualquer coisa que não me soube a nada e voltei depressa ao terraço, na

esperança de que o meu visitante aparecesse. Na realidade, habituara-me Às suas visitas inesperadas e Àquelas gargalhadas gostosíssimas que me invadiam a alma como onda em dia de turbulência. E fiquei a pensar naqueles risos todos que o Dunas sabia fazer. E sorrisos, também. Era, sem dúvida, a criatura mais expressiva que eu jamais conhecera. Tudo no seu rosto falava e, no entanto, só dizia as palavras que queria dizer, nunca se deixava pressionar para revelar o que quer que fosse. Senhor de si, controlava o rio perigoso das palavras da mesma forma que controlava a respiração quando nadava, veloz, mar adentro. E era esse controlo que faltava À maioria das pessoas que eu conhecia, a mim inclusivamente. O Dunas tinha uma relação profunda e, ao mesmo tempo, estranha com a natureza e com as pessoas (Às vezes tão pouco naturais). Era íntegro, incorruptível, vadio mas enraizado em qualquer lugar que eu ainda não descobrira, talvez na casa onde vivia com a avó, talvez naquela que eu viera ocupar e que dantes lhe pertencera, na primeira infância, ou talvez a sua casa fosse mesmo o mar, onde se movimentava com um À-vontade de animal. Como poderiam os pais tê-lo abandonado e deixado aos cuidados de uma avó que não acreditava em vacinas?! Quantos não dariam tudo para ter um filho assim, exactamente assim? Como seria a mãe dele? Porque não vinha vê-lo, saber notícias, ainda por cima sofrendo o filho de asma! 59 Estas e outras perguntas deram-me volta À cabeça naquela tarde, e uma enorme vontade de conhecer a verdade começou a apoderar-se de mim, como Às vezes acontecia quando, a meio de um romance empolgante, tinha de ir espreitar as últimas páginas para ficar tranquila. Onde estariam as páginas que me revelariam os segredos da vida daquele rapazinho a quem me sentia já tão intimamente ligada? E por que razão teria ele uma concha precisamente igual À que me dera a minha mãe quando eu era criança? Enervava-me um pouco pensar que talvez nunca viesse a obter respostas para as minhas perguntas. De facto, começava a sentir uma certa ansiedade que me entusiasmava e, simultaneamente, me apertava o coração. Foi então que resolvi ir procurar o velho, o tal ser misterioso que vivia na mata e que, pelo que eu percebera, assustava o Dunas quando vinha a caminho da escola. Era isso mesmo! O velho deveria saber alguma coisa importante sobre o Dunas ou sobre a sua estranha família. * * * Deitara-me muito cedo na véspera e praticamente não pregara olho a noite inteira a pensar no encontro com o homem da mata. Levantei-me mal vi os primeiros sinais de luz e tomei o pequeno-almoço À pressa, como se estivesse atrasada para o emprego. Na realidade, cheguei a sorrir da velocidade que imprimi a todos os movimentos nessa manhã, eu que detestava apressar-me de manhã! Antes de sair de casa, fui espreitar a praia, do terraço. O Dunas ainda não aparecera ou então estaria a dar os

bons-dias Às algas e aos búzios ou, quem sabe, atrás de um rochedo a contar mexilhões. Montei na bicicleta e dirigi-me para sul, rumo À mata. Lembro-me do frio desusado que fazia nessa manhã, ou talvez fosse a minha ansiedade que me dava arrepios e me crispava a pele da cara. A concha de prata que trazia pendurada no fio batia-me no peito ao ritmo da pedalada frenética que, curiosamente, não me cansava. De facto, só quando parei, junto das primeiras árvores, compreendi que já nem sentia as pernas, contudo, a respiração não estava ofegante - na verdade, não me ouvia respirar, apenas sentia o rumorejar embalador da mata na qual entrava agora, pedalando suavemente. Um pássaro minúsculo e semelhante a um pardal veio poisar sobre a parte central do guiador e depois, tranquilamente , levantou voo e desapareceu entre a copa de um pinheiro bravo. A certa altura, deixou de haver caminho, pelo que tive de me embrenhar na mata, ziguezagueando entre as árvores e os arbustos, afastando o rosto para os cabelos não se emaranharem nas ramagens. Depois, cansada daquela luta, parei,. atei o cabelo atrás com um lenço que trazia ao pescoço e continuei a pedalar, sem saber aonde aquela viagem me levaria. Chegada a uma pequena clareira estaquei. Agora, podia ouvir claramente a minha respiração e o batimento do coração, descompassado e confuso. E, antes de poder reflectir, vi-me de pé, ao lado da bicicleta e comecei a caminhar como se os meus pés soubessem exactamente para onde se dirigiam. 60 61 Deixei-me assim levar sem me importar com mais nada a não ser encontrar o velho, que, sabia-o agora, estava perto com certeza. Após uma caminhada que não sei quanto tempo durou, senti qualquer coisa junto dos pés e, olhando para baixo, vi um esquilo. Baixei-me para o ver mais de perto, mas o bichinho logo desapareceu entre a folhagem e, mal voltei a erguer-me, ainda sem olhar em frente, pressenti que estava a ser observada. Quando finalmente levantei a cara, senti o coração parar e as pernas a tremer. Quando abri os olhos novamente, estava deitada num colchão velho, provavelmente recheado de palha, dentro de uma espécie de estrebaria. Olhei em volta, muito devagar, receando encontrar qualquer coisa demasiado estranha que me assustasse ainda mais. As paredes, de tijolos À mostra, eram quase negras. No chão havia lenha empilhada em dois cantos, uma panela de ferro e, junto do colchão, uma manta cinzenta e vermelha, comida pelas traças e pelo tempo. Antes de me levantar, reparei ainda num coto de vela, colado a um pires desbotado, sobre um banco tosco. Não sabia o que fazia naquele lugar, mas tinha a certeza de que fora o velho que ali me trouxera. Mal consegui levantar-me, senti uma forte dor nas pernas e um ardor no braço direito, que estava arranhado, talvez da queda de que eu não conseguia lembrar-me. Arrastei o corpo queixoso até À porta aberta e olhei em redor. Foi então que ele apareceu, vindo das traseiras da casita, arrastando os pés. Vestia umas calças cor de nuvem e uma camisa de flanela

aos quadrados que, em tempos, tivera certamente um colorido atraente. Sobre a camisa, um colete largo e esgaçado, sem cor. Aproximou-se lentamente e entrou na casa, passando por mim sem nada me dizer. Segui-o então em silêncio e sentei-me no colchão. O velho, por seu turno, retirou cuidadosamente a vela do banquito de madeira e sentou-se. Foi então que pude observá-lo melhor, pois a porta continuava aberta e a luz da manhã era agora mais brilhante, iluminando-lhe o rosto, de lado. Não era tão velho como eu pensara, teria talvez setenta anos, mas era difícil distinguir-lhe as linhas do rosto moreno escondido pela barba acinzentada que crescia em ponta. Os pés, metidos em sandálias de couro estalado, eram enormes, como convinha a um homem daquela estatura. Por fim, um pouco constrangida por estar a olhá-lo com tão pouca discrição, baixei a cabeça e tentei quebrar o silêncio, forçando duas tossidelas que, no entanto, em nada me ajudaram. Subitamente, ouvi-lhe estas palavras: - Podia ter partido o braço... A voz não era de um velho, mais parecia a de um jovem cheio de vigor e personalidade. - Devo ter... caído? Riu-se. - Foi o susto. Consegui finalmente levantar a cara e enfrentá-lo. - Que foi que me aconteceu? Desmaiei? Voltou a rir-se, mas de forma mais sóbria. - Grande estafa, hein? De facto, ainda mal sentia as pernas do esforço a que as tinha obrigado. - Acho que vinha depressa de mais... - expliquei. - Devo ter tido uma quebra de tensão. Esperava nova gargalhada, mas, em vez disso, o velho fez uma cara muito séria, levantou-se e foi buscar um pacote de tabaco. 62 63 Depois, voltou a sentar-se, acendeu um cachimbo que retirou do bolso da camisa e inquiriu: - É turista, vê-se bem. Mas ainda nenhuma se tinha aventurado por estas bandas. Na verdade, nunca aqui vem ninguém. - Ninguém mesmo? - Ninguém. Por que razão estaria a mentir-me? Insisti: - Há um rapaz que vive na ilhota com a avó... - Ninguém! - interrompeu-me resolutamente e levantou-se para ir buscar mais tabaco. Mudei de táctica. O melhor seria começar por outro lado. - Vive aqui há muito tempo? Sorriu vagarosamente, com um sorriso que me pareceu já ter visto. E, de repente, comecei a ver nele alguém que eu conhecia. Aquele sorriso trouxe-me uma imagem que não conseguia descortinar, mas que estava no lugar bom da memória. Voltei a perguntar: - Nunca viveu noutro lugar? - Claro. Ninguém vive sempre no mesmo lugar.

Começava a desesperar-me aquele velho que teimava em fugir sempre Às minhas perguntas. - E família? Sorriu muito amargamente. Um sorriso que eu nunca tinha visto em parte alguma. Era absolutamente incolor, como o seu colete. Mais triste do que amargo. Depois, franziu o sobrolho e eu compreendi que aquele era um assunto para mais tarde, se tivesse sorte... - Bem, vou andando - disse-lhe, ao mesmo tempo que me levantava preguiçosamente do colchão. 64 Obrigada por me ter trazido para sua casa. Se não tivesse aparecido, acho que morreria de susto ao acordar na mata, rodeada de bicharada que não conheço! Sorriu e levantou-se para me acompanhar até À saída e dar-me algumas instruções: - Agora vá sempre por aquele carreiro da esquerda e, quando vir uma árvore alta que tem uma trepadeira enrolada ao tronco, a bailarina, siga pela direita. Deve levar uma meia hora até À praia. Agradeci e vim-me embora, seguindo as orientações do homem cujo nome não chegara a saber, mas com a convicção de que viria a conhecer mais tarde. Chegada À marginal, parei a olhar o mar. Não se via vivalma na praia, e os barcos dos pescadores descansavam sobre as águas mansas, paralelamente À linha dourada do areal. Em casa, corri para o duche desejosa de um banho que me reconfortasse da manhã atribulada que passara. Então, para meu espanto, quando desabotoei a blusa, vi uma nódoa negra no lugar onde a minha concha batera desenfreadamente durante o percurso até À mata. Uma nódoa sobre o coração. 65 Capítulo XI A TROCA Chovia serenamente naquela manhã. Não estava frio nem corria ponta de vento. O mar, estranhamente calmo, empurrava até À praia umas ondinhas que se desfaziam mansamente na areia, sem força para arrastar alga ou concha. Passeei por muito tempo À beira-mar, sob a chuva miudinha, respirando iodo e sal que se colava À pele, emprestando-me aquele cheiro de ser marinho, como o Dunas. Cansada da caminhada, acocorei-me na fronteira entre a areia seca e a molhada e pus-me a mirar pedras polidas pelas águas, semienterradas no chão castanho e fofo. De repente, umas pernas bronzeadíssimas e esguias chegaram perto das minhas mãos e pararam. Levantei a cara e vi-o, de cabelo a pingar, como sempre, e olhos de nevoeiro. - Até que enfim! - exclamei. - Pensei que nunca mais aparecesses... 67

Sorriu, com um dos sorrisos que eu já lhe conhecia e que poderá descrever-se como uma das maravilhas do Universo. - Ainda não mergulhaste? - Com este tempo?! - Que é que tem?! - Mas eu nem trago fato de banho, Dunas. - Vai pô-lo e volta aqui! A voz era autoritária, sem me deixar margem para um não. Deveria ter-lhe dado uma desculpa convincente, mas não fui capaz de lhe mentir. Corri a casa, vesti-me e voltei À praia, onde o avistei ao longe, no meio do mar, sentado numa daquelas rochas mais escorregadias do que gelo. Mal me viu, acenou-me para que fosse ter com ele. Respirei fundo, olhei o céu, que começara a escurecer, e meti-me na água. Ao chegar perto da rocha, o Dunas desceu e começou a nadar em meu redor, gritando que era um tubarão. Depois, agarrou-me um braço e abriu muito os olhos de pestanas coladas pela água salgada. - Caíste? Referia-se aos arranhões que eu fizera na mata. - Caí, vê lá tu. Mas já não dói. - Onde? - Hã? - Onde é que caíste? - Bem, foi uma coisa sem importância. - Onde?! - Na mata... Ficou calado por momentos, depois, mergulhou e ficou submerso por tanto tempo que me assustou. No entanto, contive-me e não gritei ao chamá-lo: - Dunas! Voltei a chamá-lo vezes sem conta, olhando À minha volta. Quando estava praticamente em pânico, avistei a sua figura esguia ao longe, a nadar crawl já perto do areal. Barafustei sem ser ouvida e nadei para o alcançar, mas em vão. Já na areia, encontrei-o sentado À beira-mar a desenterrar um búzio de cor rosada. Enfureci-me. - Ouve lá, afinal que é que tu queres?! - Perguntei. Desapareces de um momento para o outro, não dás uma notícia sequer, desafias-me para ir nadar contigo e evaporas-te! Deixaste-me sozinha longíssimo da costa! Julguei que éramos amigos, Dunas. AMIGOS, estás aperceber. Será que também é uma palavra nova para ti?! Deixei-me cair na areia, exausta da natação e do discurso. O braço arranhado começara a arder-me do sal, o vento acordou furioso e desatou a varrer o areal, e o céu ameaçava desabar sobre as nossas cabeças. Contudo, faltaram-me as forças para me levantar e correr para casa. - Não tenhas medo - disse-me por fim, enrolando uma alga finíssima no meu braço ferido, como se de uma ligadura se tratasse. - Tu Estás a apertar-me com isso, Dunas! - refilei , afastando o braço. Ele levantou-se, farejou os ares e voltou a sentar-se ao meu lado. - Agora vai começar a chover a sério - avisou. Mal acabou de falar, as nuvens, em perfeita sintonia com as suas palavras, despejaram uma carga de água que caía em gotas

grossas e pesadas. No entanto, sabia bem receber aquela água que tirava o sal dos corpos e lavava o espírito. Levantei-me e olhei o céu, sentindo a chuva picar-me a cara. Depois, veio uma sensação de bem-estar. 68 69 O corpo estava leve e morno, exactamente À mesma temperatura do ar, como se fizesse parte do ar. Foi então que me apercebi de que o braço já não ardia e, quando o olhei, aconteceu a coisa mais incrível: dos arranhões nem rasto. A pele, novamente lisa, não deixava adivinhar a mais pequena arranhadela! - Foi da... alga? - arrisquei. - Não. Foi da chuva - disse o Dunas rindo. Fiquei perplexa. Numa fracção de segundo passaram-me pela cabeça as ideias mais disparatadas na tentativa de arranjar uma explicação para o sucedido: talvez a avó do Dunas Lhe tivesse ensinado a curar feridas com certas algas e plantas raras; talvez fosse da maneira de colocar a alga sobre os arranhões; talvez o próprio sal do mar, talvez aquela chuva morna e doce... - Desisto - desabafei. - Não sei o que fizeste, mas gostava que me explicasses, Dunas. Por favor... Eu destesto ficar sem compreender o que se passa, sobretudo o que me diz respeito! Sorriu, de troça ou de pena da minha desorientação. - Os arranhões passam num instante. - Depois, acrescentou em voz baixa: - Quando são na pele... A chuva abrandava, e o mar, mais calmo, espelhava agora asas de gaivotas. Sentei-me outra vez junto dele e respirei fundo. - Gostava de entender, Dunas, mas já vi que há muitas coisas que preferes não contar. É pena. Devemos confiar nos amigos... - Então porque não confias? - perguntou, levantando-se e virando-se para a marginal. 70 Fiquei sem palavras. Mecanicamente, levantei-me também e segui com ele para minha casa, num silêncio que fazia eco - um ruído surdo de búzio adormecido. Chegados ao terraço, preparava-me para entrar em casa quando ele me estendeu a mão onde pusera a concha que trazia sempre presa aos calções. - Toma. Esta não vai fazer-te nódoas negras. Fechei a concha na minha mão. Devagar. Como se ali estivesse a alma daquele rapaz que eu não supunha existir em parte alguma do planeta. Depois, tirei a concha de prata do meu fio e dei-lha, sem a solenidade que gostaria de ter imprimido Àquele gesto. Ele fez passar a argola no cordel que trazia atado À presilha dos calções e olhou para mim, como se nada de especial tivesse acontecido. Foi então que coloquei a sua concha no meu fio e, felicíssima, corri para casa, adivinhando que ele iria sumir uma vez mais sem dizer palavra. Não suportaria vê-lo ir-se embora uma vez mais sem me prometer que voltaria em breve. 71

Capítulo XII NA ESQUADRA Como o tempo continuava chuvoso, passei a manhã em casa, em frente da máquina de escrever, À procura das palavras que não vinham. Perto da hora do almoço, ouvi um burburinho na praia, mas não fui ao terraço. O céu tinha aberto e o barulho vinha certamente dos turistas do aldeamento novo que apareciam uma vez por semana. Não tive vontade de ir À praia. O Dunas devia estar longe, para não ver a sua praia ser uma vez mais invadida e conspurcada. E era bom que não tivesse vindo mesmo, porque a barulheira naquela manhã foi invulgarmente descarada. A seguir ao almoço, coloquei a minha máquina na mesinha branca do terraço e fui espreitar a praia. Já todos tinham partido e deixado no areal montes de lixo que pareciam ali ter sido colocados de propósito. Indignei-me. Não era normal uma sujeira daquelas. Dir-se-ia que os invasores tinham querido deixar a sua marca bem visível na praia, 73 e o mais curioso é que o lixo (latas vazias, pacotes, garrafas e lenços de papel) estava estranhamente organizado em montinhos aqui e ali como se o serviço de limpeza (que ali não existia) tivesse começado o trabalho e parasse sem o ter concluído. Que diria o Dunas quando visse aquele espectáculo? Tive até vontade de ir eu própria apanhar todos aqueles resíduos de uma civilização incivilizada e estúpida, só para evitar outro desgosto ao Dunas. No entanto, o sol começou a brilhar intensamente e achei melhor deixar a tarefa para o fim da tarde. Assim, arrumei a máquina e peguei na bicicleta para ir À aldeia tomar um cafezinho. Quando me sentei À mesa, o empregado apareceu todo agitado a perguntar-me se eu sabia do sucedido. - Não. Não sei de nada - respondi, imaginando que se seguiria uma coscovilhice qualquer. - O garoto! Aquele que a senhora levou ao posto no outro dia... Sobressaltei-me. - Aconteceu alguma coisa ao Luís? - Se aconteceu! A esta hora ainda deve estar na esquadra. Devia haver qualquer equívoco. - Não pode ser! - disse, levantando-me imediatamente. - Então vá lá ver! Parece que houve bronca na praia. Disseram que o miúdo fez para lá das boas aos turistas. Armou uma cena dos diabos e dizem que foi um estrangeiro que o trouxe pelas orelhas À polícia. Não quis ouvir mais. Perguntei qual era o caminho mais curto para a esquadra e dirigi-me para lá com o coração reduzido a um grão de areia. 74 Larguei a bicicleta e entrei esbaforida no posto da polícia. A esquadra era húmida e escura, um cenário de Dickens.

Um bêbado ruminava uma lengalenga para a parede leprosa, sentado num banco corrido de madeira carunchosa. Pus-me atrás da cigana que era agora atendida ao guichet e, chegada a minha vez, pedi esclarecimentos sobre o que se tinha passado com o Dunas. O polícia respondeu-me laconicamente, dizendo que, se eu não era da família, não podia dizer-me nada. Insisti então veementemente para o ver nem que fosse por cinco minutos, alegando que conhecia a avó e os familiares mais próximos. O homem não acreditou, mas, vendo o meu ar aflito, mandou chamar o rapaz, advertindo-me, porém, de que não poderia levá-lo dali sem a avó aparecer e mandou-me aguardar no banco onde o bêbado estava agora praticamente deitado. Encostei-me À parede e fiquei À espera, numa ansiedade crescente. Meia hora mais tarde vieram chamar-me. Entrei para uma sala onde havia apenas uma mesa, duas cadeiras velhas e um candeeiro frágil suspenso do tecto. Olhei em volta sem conseguir pensar no que quer que fosse. A espera tornou-se longa, mas não fui capaz de me sentar. Passou mais meia hora até que, pela segunda porta da sala, vi entrar o meu amigo acompanhado por um guarda que mo entregou, dizendo: - Tenho ordens para o vir buscar dentro de dez minutos. Já mandámos chamar a avó. quando ia a sair, o polícia voltou-se para mim e depois acrescentou: - Esse garoto é maluco. Não sei se lhe é alguma coisa , mas, se o conhece, aconselhe-o a tomar juízo para o bem dele. voltou a virar-se para a porta, mas não quis deixar de avisar: 75 - E olhe, prepare-se, o que ele lhe vai contar é mentira. Essa miudagem dá-nos cabo da cabeça e depois mentem como cães, a dizer que a gente lhes bate. Quando finalmente vi sair o guarda, agarrei com força na mão do Dunas e depois, ainda em silêncio, abracei-o demoradamente. A seguir ao abraço, reparei então na cara dele onde podia claramente ver-se um inchaço junto À orelha direita e uma vermelhidão escura sob um dos olhos. Abracei-o novamente e pedi-lhe depois que se sentasse ao meu lado e me contasse tudo. Ao contrário do que eu calculara, o Dunas tinha estado na praia nesse dia e, vendo o lixo que os turistas estavam a fazer na sua praia, resolvera dar-lhes uma lição, recolhendo tudo num saco, como quem se dispõe a uma limpeza séria e depois, para comunicar de forma mais eloquente a sua mensagem, despejara pequenos montes de lixo sobre os veraneantes que estavam deitados a apanhar banhos de sol... Um deles, enfurecido, segurara-o com força pelo braço e trouxera-o À esquadra para lhe darem uma lição de civismo. - O que é civismo? - perguntou-me então, com a voz mais serena do mundo. Suspirei longamente e voltei a abraçá-lo. Quando me recompus, apenas lhe disse: - Deixa lá, Dunas. Já passou. Vais ver que não voltam a sujar a tua praia. Eu vou ter mais atenção e vou vê-los do terraço. Não te preocupes mais. A tua avó deve estar a chegar e vai levar-te para casa. Tenho a certeza de que vai dizer ao guarda que te fez isso na cara que ele não tinha esse direito,

e podes crer que eu vou também dizer-lhe umas verdades! 76 - Não faz mal. Já não dói. A sério! Só doeu foi ter de sair da praia com o outro, o gigante alemão ou lá o que era, a agarrar-me o braço. Ele nem me aleijou, só que eu queria dar-lhe um pontapé e não consegui. Ele era mais alto do que o meu pai! - Já passou, Dunas. E daqui para a frente vai tudo correr bem, tenho a certeza - disse-Lhe, passando a mão sobre os seus cabelos loiríssimos e lisos como fios de seda doirada. - Agora é melhor ires-te embora. A minha avó já deve estar quase aí... - Está bem, Dunas, eu vou. Mas promete que, assim que puderes, vais visitar-me. - Promete-me também uma coisa. - É só dizeres - pedi-Lhe, esforçando-me por lhe mostrar que qualquer coisa que eu pudesse fazer por ele me daria o maior gosto. - É a gaivota... - Aquela que já não consegue procurar alimento e que vai ter contigo atrás da rocha grande? - Hum-hum... - Que posso fazer, Dunas? Diz! - É que os guardas vão dizer À minha avó para me pôr de castigo em casa, não sei quantos dias, percebes? Engoli em seco. - Percebo, Dunas, mas talvez a tua avó não faça isso. Talvez não. - Bom, ela come qualquer peixe, estás a ver? Carapau, sardinha, chicharro... Partes aos bocados e pões lá ao pé, mas não te chegues muito perto, que ela pode morder... Não é por mal, mas as gaivotas têm aqueles bicos muito duros e, sem querer, a brincar, percebes? 77 - Fica descansado. Eu vou tratar da tua gaivota. Prometo. - Todos os dias até eu poder lá ir? - Todos os dias, Dunas. Já prometi... - Tens de ter cuidado por causa do cão amarelo, que aparece À mesma hora, mesmo ao fim da tarde, para roubar o peixe. - Eu tomo cuidado. Eu afasto o cão, se ele aparecer. Ficou mais tranquilo. Depois, levantei-me assim que o guarda apareceu na sala. O Dunas despediu-se de mim com um sorriso que recompensava tudo o que me tinha pedido para fazer e muito mais. E saiu, sacudindo o ombro sob a mão possante do guarda. Antes de abandonar a esquadra, não pude deixar de manifestar toda a minha indignação pelos maus tratos que tinham infligido ao meu extraordinário amigo. De facto, exaltei-me e fui longe de mais, de tal forma que o polícia que me atendera me pediu que me retirasse e me acalmasse. Cheguei a casa desfeita. Estendi-me sobre a cama e foi então que comecei a sentir um ardor intenso sobre o rosto, no mesmo lado em que tinham batido ao Dunas. Fui ver-me ao espelho do guarda-fatos mas não notei qualquer marca. Então, sem saber

porquê, sorri tranquila e feliz. Subitamente, olhei para o relógio e vi que eram horas de ir ao encontro da gaivota. Sobressaltei-me: não tinha peixe fresco em casa! Sem pensar duas vezes, meti duas notas no bolso dos calções, corri para a bicicleta e voei para a aldeia. Tinha de chegar À praia a tempo, para não desiludir o meu amigo. Na aldeia, a peixaria já tinha fechado, mas disseram-me que fosse bater a uma das casas dos pescadores, que lá haveriam de arranjar-me qualquer coisa. Voltei a voar na bicicleta e tive sorte, porque logo na primeira casa onde bati me disseram que podiam dispensar-me algum peixe. - É para cozer ou assar? - perguntou a mulher do pescador. - É para... Eu como cru... Habituei-me com um japonês meu amigo - expliquei, tentando ser o mais discreta possível. A mulher franziu a testa e inquiriu: - Pescada ou carapau? - O carapau serve. - Então, como ela me olhasse com a mais sincera expressão de nojo e estranheza acrescentei: - Eu tempero-o, claro, com azeite e vinagre... A mulher encolheu os ombros, eu paguei e saí À velocidade da luz para chegar a tempo À praia. 78 79 Capítulo XIII PALAVRAS À BEIRA-MAR Tal como havia previsto, o Dunas ficara de castigo três dias em casa, e nesses três dias não faltei ao prometido com a gaivota velha a quem o meu fantástico amigo teimava em prolongar a existência. Ao quarto dia, quando cheguei ao terraço depois do almoço para continuar a trabalhar no meu romance, encontrei uma folha escrita entalada no rolo da máquina. Retirei-a cuidadosamente, com um receio parvo de a rasgar sem querer, e li: Querida concha: No mar existem muitas conchas. Umas bonitas e boas, e outras más e feias. Procurei as conchas boas, mas não as encontrei. Estavam partidas ou riscadas. Cortavam. Até que, um dia, a maré trouxe até mim uma concha. 81 Colorida e transparente. Essa concha abriu-se e eu sentei-me lá dentro. Para sempre. A gaivota continua bem. Vi-a da minha casa a voar em direcção aos penhascos. Li outra vez e mais outra até decorar todo o texto. Depois, sentei-me À mesa e tive vontade, pela primeira vez há muito tempo, de escrever um poema. Fechei os olhos sob o sol generoso da tarde e escrevi mentalmente o que sentia naquele momento. Não sei já exactamente que palavras acalentei no coração para responder Àquela carta - a mais bonita que alguma

vez recebi. Mas sei o que senti: medo. Um medo terrível de não saber o que fazer com aquele sentimento grande que se tornava maior do que eu. Medo de não estar À altura, de o desapontar. Medo de tudo não passar de um dos meus sonhos com coisas improváveis. E, sobretudo, medo de o perder, embora tivesse agora a certeza do que aquele Para sempre significava. Levantei-me e aproximei-me do muro. Recordo claramente que, naquele momento, preferi fechar os olhos para não o ver lá em baixo na praia, onde calculei que estivesse. Na verdade não sabia que dizer-lhe. E fiquei assim por muito tempo, apoiada no muro, de cabeça escondida entre os braços. Quando por fim abri os olhos, vi o Dunas no mar, deslizando suavemente em direcção À praia. Ao ver-me, acenou-me atrás de uma onda. E eu chorei. Não sei se de alegria ou de pena de não ser mesmo essa concha transparente que ele pudesse transportar consigo nas fantásticas viagens através das ondas, 82 entre algas e estrelas-do-mar. Na verdade, tive uma vontade súbita de pertencer-lhe como objecto querido que trazemos connosco em todas as ocasiões. Mas... como transformar um corpo grande e humano numa concha pequenina que se leva presa À cintura por um cordel cor de nada? Quando dei por mim, estava na praia. Tirei os sapatos e corri para a beira-mar. A água fria insistiu em acordar-me e eu não queria. - Está quentinha! - disse o Dunas, saindo do mar e borrifando-me os cabelos com gotas salgadas. - Está um gelo! Riu-se. - Senta-te aqui - pediu-me, puxando a dobra dos meus calções. - Sabes, Dunas... - Encontrei um braço de lula gigante lá ao fundo - contou, eufórico, apontando a linha do horizonte. - Eu queria dizer-te que... - Deve ter havido luta com um tubarão. - Credo! Há tubarões por aqui! Gargalhada estrondosa. - Foi só para ver a tua cara! - E riu-se outra vez. - Olha, Dunas, eu... - Mas há raias gigantes. E lulas. E polvos de todos os tamanhos, lá ao fundo, claro. - Está bem, mas... - Eu encontro alguns, quando mergulho do barco de um amigo do Pedro, que também é pescador. - Estou a ver. Agora, o que eu queria dizer-te era... - Corais é que não há, e é pena. 83 Impacientei-me: - Chiu! Importas-te de me deixar falar? Riu-se descaradamente, a desafiar-me. - Estás zangada?!

- Por enquanto não, mas vou ficar, se não me deixares falar! Detesto que me interrompam. - Já sei tudo - atalhou com o maior descaramento. - Sabes o quê, afinal, hein?! - Ora, que gostaste do meu poema e que até o sabes de cor. Levantou-se para sacudir a areia dos calções ruços. Eu fiquei boquiaberta, mas não me dei por vencida: - Por acaso enganaste-te. Não era isso que eu ia dizer-te, embora seja verdade... Com a ponta do pé atirou-me areia para o colo e voltou a enfrentar-me: - Era isso que me ias dizer, sim senhora. Eu sei. - Então não vale a pena dizer-te o resto, pronto. E, nesse caso, posso voltar para casa, não é? Novo pontapé de areia, desta vez para a blusa. - Se queres ir-te embora, vai. Não me importo. Irritou-me aquela desfaçatez e foi a minha vez de lhe atirar areia, mas, por azar, acertei-lhe em cheio na cara e nos olhos. O Dunas correu para o mar e eu fui atrás para lhe pedir desculpa. Como ele mergulhou, mergulhei também e fui apanhá-lo um pouco antes da rebentação. - Mostra os olhos! - pedi, receando tê-lo magoado com a areia. - Não faz mal... - Desculpa - disse em voz baixa, tremendo de frio. - Só se me disseres o que ias contar há bocado... 84 Olhei para trás. As ondas começavam a aumentar de tamanho e tive medo. - Podemos conversar antes na praia? - gritei-lhe, por causa do barulho do mar. - Não! Aqui! - ordenou. Mergulhei para ganhar coragem e, quando vim À superfície, procurei-o, mas já se tinha evaporado. Depois, quando vinha a nadar em direcção ao areal, uma mão gelada agarrou-me pelo ombro, imobilizando-me. - Ah-ha! Apanhei-te! Virei-me para ele. Os olhos, cheios de água, eram ecrãs enormes que me olhavam agora com a maior curiosidade. - O que eu ia dizer-te, Dunas, é que hoje compreendi... - Que gostas muito mais de mim do que dantes. Eu também gosto mais de ti. Baixei a cabeça, desolada. - Por que é que nunca me deixas acabar as frases?! Porquê! - Porque não é preciso. Viemos os dois a nadar até À praia. Depois, deixámo-nos cair sobre a primeira faixa de areia seca. Em seguida, o Dunas levantou-se bruscamente e deitou-se noutra posição, de cabeça em frente da minha, cabelos colados aos meus, e murmurou: - É tudo verdade. - O quê? - Aquilo que eu escrevi. 85

Capítulo XIV A VISITA Os dias que se seguiram foram inteiramente dedicados ao trabalho que, afinal, me trouxera ali. O Dunas apareceu diariamente, mas só para dizer olá, visto que entendeu perfeitamente a minha necessidade de acabar o livro. Um dia, porém, não apareceu e eu estranhei e senti a sua falta. No dia seguinte, a mesma coisa, até que, no quarto dia de ausência, preocupada e saudosa, resolvi montar na bicicleta e dirigir-me À ilhota. Um barquito a remos, ancorado na pequena baía, convidou-me a entrar e eu lá fui, manejando os remos o melhor que podia até atracar do outro lado, onde se via uma alvíssima orla de areia e, mais adiante, inúmeras dunas donde despontavam plantas verde-seco. Ao fundo, entre pinheiros magros, uma casinha branca, perfeitamente enquadrada na paisagem, fez-me sentir a proximidade do meu amigo. 87 Bati À porta, de coração nas mãos. Uma figura alta e esguia de mulher, espreitou por entre as cortinas de renda e veio abrir-me a porta. - Boa tarde. Eu... - Faça o favor de entrar. - Obrigada. Eu, bem, ultimamente, tenho sofrido de insónias e, como me disseram na aldeia que a senhora vendia uns chás excelentes... - Insónias, é? - perguntou, fazendo sinal para que me sentasse a uma mesa de pinho, junto da lareira extinta. Depois, virou-se para a prateleira que havia na parede do lado direito, tirou de lá dois boiões de vidro e colocou-os sobre a mesa. Então, devagar, começou a escolher algumas ervas de um e outro frasco, que ia colocando sobre uma folha de papel vegetal. Sem me conter, perguntei: - A senhora é a avó do Luís, não é? O rosto manteve-se atento À tarefa de preparação das ervas e nem para mim olhou quando, pouco depois, retorquiu: - Foi você que deu a concha de prata ao rapaz? - Foi uma troca... - respondi, sem querer dar mais explicações sobre um dos mais bonitos momentos que tinha vivido com o Dunas. - Tem filhos? - Como? - Pergunto se tem filhos. - Não. - Então sugiro-Lhe que arranje um - replicou, com alguma agressividade. - O Du..., o Luís está em casa? - perguntei, assim que arranjei coragem. - Tem estado adoentado. Nada de grave. Sobressaltei-me. - Que aconteceu? - Uma febre. Já está a passar. - Não seria melhor chamar...

- Um médico? - inquiriu com desprezo. - Só servem para assustar as pessoas e levar-lhes couro e cabelo. Não sabia que argumentar. A personalidade dela era fortíssima, via-se bem até pelas rugas finas e fundas em locais do rosto onde só o mau génio pode fazer rugas. De resto, tudo nela era peculiar: o cabelo, de um cinzento que não vinha em nenhum catálogo, o vestido de ramagens preto e branco, cujo feitio complicado não consegui descortinar, as mãos muito brancas e pigmentadas, invulgarmente bem tratadas para quem não tem empregada, e o anel no dedo médio da mão direita , de ouro finamente trabalhado donde sobressaía uma pedra oval amarela. Sentia-me intimidada, como se perto dela eu não passasse de uma criança com receio de fazer má figura. No entanto, tinha de arriscar: - Eu... gostaria muito de vê-lo, se não se importar, claro. Não demoro nada, era só para lhe desejar as melhoras - pedi a medo. Foi nesse momento que se sentou À minha frente, do outro lado da mesa, a dobrar cuidadosamente o pacotinho onde colocara as ervas. Respirei fundo para tentar sentir-me um pouco mais À-vontade. Um aroma intenso a plantas e a terra húmida invadia a sala e contribuía para me estontear. - O meu neto tem tudo o que precisa, compreende? Tinha sérias dúvidas, mas respondi um sim atrofiado. Ela prosseguiu: 88 89 - O meu único filho deixou-o aos meus cuidados, e sou eu que o tenho criado desde que o pai foi para a América. - Eu sei que ele está muito ligado a si. Sorriu, como se as minhas palavras fossem absolutamente escusadas. - Quem foi que lhe indicou aquela casa? - A que eu aluguei na praia? - Sim. - Uma amiga que lá passou férias há uns anos. - O meu filho morou lá antes de se separar da mulher. - O Du..., quero dizer, o Luís contou-me que viveu lá em criança, com os pais. Sorriu novamente, desta feita com ironia. - Ela não é a mãe dele. - Não?! - Viveu com ele três anitos e quis até ficar com a criança, depois do divórcio, mas eu não deixei, claro. Não percebi aquela lógica, mas, para não a contrariar, acenei cumplicemente com a cabeça. Depois, já mais descontraída, perguntei: - E a mãe dele onde está? - Morreu ainda o meu neto era bebé de colo. Pneumonia... - Ah... E o Luís sabe essa história? - O pai contou-lhe, contra a minha vontade, bem entendido. O meu filho era louco por essa rapariga. Conheceram-se um Verão na praia. Ela veio de fora, era bonita... Enfeitiçou-o. - Deve ter sido uma tragédia a morte dela. - O meu filho nunca mais foi o mesmo. Tornou-se caprichoso e agressivo, ele que era um paz-de-alma... Foi ela que o pôs

assim! Até o obrigou a prometer-lhe que a enterraria na praia! Ela adorava praia... Arrepiei-me. - Na praia?! Na praia dos pescadores? - Pois! - E ele... cumpriu a promessa? - Tal e qual. No dia em que ela morreu, eu não deixei e ele obedeceu-me. Fez-se um funeral a sério, com missa e tudo antes de a levarmos para o cemitério da vila. - E então? - inquiri, sem compreender o que poderia ter sucedido. - Então, louco como estava, coitado, foi de noite buscá-la À campa, embrulhou-a numa manta e trouxe-a para a praia, onde a enterrou sozinho num lugar que não revelou a ninguém, nem a mim! Depois, ficou estendido na areia até amanhecer... Senti-me sufocar. O cheiro a ervas era agora praticamente insuportável. - O Luís não sabe isso, pois não? - Infelizmente... Não pudemos evitar que lhe contassem. Tive uma enorme vontade de chorar mas, em vez disso, desatei a tossir desalmadamente. - É alergia. Eu trago-lhe um copo de água - disse ela, com uma doçura inesperada que me reconfortou por um instante. Bebi a água (que me soube a uma fruta que não consegui identificar) e levantei-me. - Por isso ele não sai daquela praia... - murmurei junto da janela. 90 91 - É impossível evitar que ele vá para lá! Só se eu andasse atrás dele, bem vê que não posso. Aquele diabrete anda-me sempre em correrias! E o meu reumatismo não me deixa em paz! Já vê que não posso impedi-lo de andar por aí, todo o dia metido na água como um peixe. Não posso fazer nada... - Claro que não. - O meu neto é muito teimoso... - Eu sei - respondi-lhe sorrindo. Depois, voltei a arriscar: - Será que posso ir vê-lo num instante? Ela suspirou, encolheu os ombros e apontou-me a porta que dava para o quarto do neto. Entrei sem fazer barulho. O Dunas dormia o sono dos justos, e eu fiz por não o acordar, mas, mal me aproximei - em pontas dos pés - da cama de ferro branca, abriu os olhos e não pareceu muito surpreendido por me ver ali. - Vieste no barco? - Hum-hum. - Sabes remar?! - Não, mas desenrasquei-me. Neste momento, a avó entrou no quarto, e ele, sentando-se na cama, pediu imediatamente: - Sai, avó, por favor. Não me dói nada. Podes sair? Contrafeita, ela saiu, olhando-me de soslaio. - Estiveste tempo de mais dentro de água, aposto disse-lhe, forçando um sorriso para tapar a minha aflição de não poder abraçá-lo por uma eternidade. - Morreu...

- Hã? Quem? - A minha gaivota... Então era isso... - Como foi? 92 - Ia dar-Lhe comida, mas ela não conseguiu... Nem me reconheceu. Foi nesse momento que reparei no penso, certamente feito pela avó, que ele tinha no braço esquerdo. - E isso? Escorregaste em alguma rocha, está visto. Riu-se. - Está visto que tu vês mal. Foi o cão. - O amarelo? - Chegou-se perto de mais, para roubar o peixe que eu levava... Peguei-lhe no braço e fiz-lhe uma festa demorada. Depois senti o coração descompassado ao pensar que o cão, vadio, não devia estar vacinado (nem o Dunas...). Lendo-me uma vez mais os pensamentos, tranquilizou-me: - A febre foi do sol. O cão não mordeu muito fundo. Estava mais interessado no carapau. Foi depois destas palavras que reparei numa ponta de cordel escondida sob a almofada e, sem pedir, puxei-o. Ele, porém, impediu-me de tocar na concha que vinha presa ao cordel e fechou-a logo na mão. - Desculpa o meu atrevimento - pedi. Ele voltou a esconder a concha e o cordel debaixo da almofada e rematou: - Agora podes ir. Amanhã já vou ter contigo. Quero dormir. Tenho um sonho para acabar. * * * Mal saí da casa do Dunas, dei uma corrida até ao areal e fiz uma cova onde enterrei o saco das ervas. 93 Só depois me meti novamente no barco e remei até À outra margem, onde a minha bicicleta estava no local em que a deixara. Montei e, quando pus os pés nos pedais, uma sombra agigantada surgiu ao meu lado, fazendo-me dar um salto que quase me desequilibrava. Olhei. Era o velho da mata. Que faria ali? - Ah, é o senhor... Assustei-me... Sorriu com o tal sorriso que eu já vira em alguém, meio disfarçado pela barba hirsuta. - Vou À pesca. Quer vir? Não sabia que fazer. - Agora? - É uma boa hora. Melhor só À noite. - Para dizer a verdade, nunca pesquei. - Então há que aprender. O convite era simpático de mais para recusar, por outro lado, talvez fosse uma oportunidade de ouvir a história que eu

sabia que o velho guardava. Assim, desmontei da bicicleta e caminhei ao seu lado em silêncio até À extremidade esquerda do areal. Lá, ambos nos sentámos numa rocha polida e o velho colocou o isco no anzol e lançou a cana com mestria de profissional. - Foi pescador? - perguntei olhando o manto azul quieto aos meus pés. - Como todos os da aldeia. Agora só pesco para mim... Fez-se silêncio e eu pude distinguir mil ruídos diferentes que vinham do céu, da terra e do mar. Depois, saiu-me uma pergunta estúpida: - Não se sente sozinho Às vezes? 94 Em vez de responder-me, passou-me a cana e acendeu o cachimbo que retirou do bolso da camisa aos quadrados. De cana na mão, pareceu-me ficar mais perto dele, quase íntima, como se tivéssemos finalmente passado a barreira da cerimónia inicial. - Vim visitar o rapaz que vive na ilhota - contei-lhe. - Tem estado doente. Franziu a testa e, parecendo levemente consternado com a notícia, perguntou sem olhar para mim: - Coisa grave? - Parece que não. A avó disse que ele só tem tido febre e que está a passar. A consternação deu lugar a uma perturbação maior que eu não tinha dados para compreender. - A Sara ainda me deixa morrer o miúdo, com as manias dela... Percebi que conhecia bem a avó do Dunas e tive o pressentimento de que a revelação que eu esperava devia estar a rebentar. - Não sabia que a avó do rapaz se chama Sara. Achei-a... interessante. - Casmurra como uma mula... Não contive o riso. - Mas o neto gosta dela - continuei. - De quem é que ele haveria de gostar?! - O senhor... Como vive por estes lados conhece-os bem? - Bem de mais - respondeu tão baixo que, por um momento, me pareceu que a voz vinha do fundo do mar. Era difícil prosseguir a partir dali. A cana mexeu e eu sobressaltei-me: - E agora! Que faço? 95 - Puxe devagar e vá enrolando aí. Com força! Segui as instruções do velho e, para meu espanto, vi elevar-se e contorcer-se sobre as águas um peixe cujo nome desconhecia. - E agora? - tornei a perguntar, muito entusiasmada. - Pegue-o com cuidado e volte a deitá-lo À água. Vá, deite-o! - Como?!

- Deite-o ao mar! Sem compreender, fiz o que ele me mandara, sentindo o peixe dançar-me entre as mãos. - Não percebo. Porque é que não ficámos com o peixe?! - O primeiro que se pesca na vida deve ser devolvido Às origens - foi tudo o que ele me disse, sem explicar a razão daquele ritual. Devolvi-lhe a cana, meio amuada, e ele passou-me o cachimbo. - E disso, já fumou? - Já. O meu avô também fumava cachimbo e uma vez experimentei, Às escondidas. E sabe? Gostei, mas não tive coragem de experimentar outra vez, porque rapidamente me viciaria e isso seria bizarro demais... - Agora pode voltar a experimentar, se quiser - disse, apontando o cachimbo com a maior delicadeza. - Olhe que vontade não me falta! Pegou no cachimbo, limpou-o com uma ponta da camisa e colocou-mo na boca, sem dizer nada. Depois, tirou outra minhoca de dentro do saquito transparente, colocou a contorcionista no anzol e lançou a cana À água. - Por enquanto há cá peixe que chegue. Daqui a uns tempos, não se sabe... Com as coisas que eles andam a derramar nos mares, por esse mundo fora... Hão-de dar cabo de tudo, de tudo... Uma lufada fresca de vento fez voar o meu chapéu de palha que caiu como folha de Outono sobre a água e logo começou a afastar-se rapidamente, levado pela corrente. Então, sem me dar tempo a impedi-lo, o velho passou-me a cana, tirou o colete e a camisa, arregaçou mais as calças e atirou-se ao mar. Levantei-me em sobressalto. Contudo, para meu espanto, vi-o nadar como um atleta até alcançar o chapéu e regressar, já mais lentamente, até À rocha. - Ponha-o aí de lado e deixe-o secar. - Obrigada. O senhor... Onde aprendeu a nadar assim? Riu-se, com um certo orgulho. - Desculpe o meu comentário, mas pensei que a maioria dos pescadores não sabia nadar. Provavelmente é uma ideia errada... - Não, não é. Só que eu sempre gostei de mais do mar para não o abraçar em toda a sua grandeza. - Fez um curto silêncio e prosseguiu: - Dantes nadava muito , sempre À noitinha, até a pele se me enrugar e os ossos estalarem de frio. Agora... - O Du..., o neto da sua vizinha também passa a vida dentro de água. Sorriu, saboreando o sorriso. - O garoto não saiu À avó, teve sorte... - Saiu ao pai, talvez... - Ou ao avô. Calámo-nos. O que eu suspeitava, afinal, era verdade. Precisava de saber mais: - E porque não convive com ele? Encolheu os ombros. 96 97 - É a vida. - Não entendo.

- A velha é osso duro de roer. - Bem sei, mas o Luís havia de gostar de passar algum tempo consigo. - Mal me conhece. Além de tudo, acho que tem medo de mim... Devem ter sido as patranhas que a avó Lhe contou. Aquela nunca me perdoou. Sabia que estávamos a pisar terreno escorregadio, mas senti-me suficientemente À-vontade para continuar o meu inquérito. - O senhor fez-lhe alguma... - Um filho... - De quem ela parece gostar muito. - O rapaz ficou maluco com a morte da estrangeira. - Não tem tido notícias dele? - Sei que está lá para as Américas. Parece que tem um restaurante, onde vende esparguete... Pf! Esparguete!... - E a segunda mulher do seu filho? - Não tem muito que se lhe diga. Deixou-o. Compreende-se. O rapaz andava doido de todo. Aquele casamento não lhe serviu para nada. A outra sim, fazia-o feliz. - Olhou longamente para mim e, observando-me seriamente, rematou: - Já lhe disseram que faz lembrar a estrangeira? Parei de respirar. - Como? - Só que ela tinha o cabelo muito escuro e mais comprido. Mas o rosto, os olhos, essa tristeza que vem de dentro, são iguais. A Sara não lhe disse isso? 98 Comecei a arrepender-me seriamente de ter começado aquela conversa que acendera cá dentro uma chama incómoda, a queimar a pele do coração. - Está a ficar tarde. Tenho de ir. - Não diga ao garoto que estivemos a conversar disto. A velha não pode nem ver-me e arranja sempre maneira de saber de tudo. * * * Em casa, corri para o espelho do guarda-fatos e fiquei a olhar-me, como se me visse pela primeira vez. Antes não tivesse falado com o velho da mata! Antes não tivesse ido ver o Dunas naquele dia. De repente, uma esperança reconfortou-me: talvez o velho tivesse feito confusão, tivesse confundido tudo. A mãe do Dunas morrera havia quase doze anos, como poderia ele lembrar-se da cara dela? E depois, certamente bebia muito, percebia-se isso pelos olhos, o que teria sido a razão mais provável de Sara não o querer e o deixar viver assim, abandonado À sua sorte, no meio da mata. Não, o velho só podia ter feito uma enorme confusão, até porque para coincidências já bastava a das conchas! Nessa noite deitei-me sem jantar. O vento soprou com força, varrendo o terraço como vassoura enraivecida, e o mar chicoteava lá em baixo, ameaçando desfazer a praia. Encolhida sob o lençol, recordo que adormeci a rezar para que o Dunas não visualizasse nunca em mim qualquer parecença com a mãe que

ele mal conhecera. 99 Capítulo XV UMA FOGUEIRA NA PRAIA Como prometera, o Dunas veio visitar-me assim que a febre o largou e, como habitualmente, apareceu no terraço de cabelo a pingar. Porque o tempo mudara, vinha com uma camisa Às riscas, azul e branca, de mangas arregaçadas. - Não me digas que já foste mergulhar, Dunas! Olha que podes ter uma recaída. - Calei-me. A minha voz soava a protecção e isso incomodou-me e a ele também. - Tão cedo não me apanham na cama! Fiquei farto! Até já podia ter saído ontem, se não fosse a exagerada da minha avó. - Ela sabe o que é melhor para ti. - Não, não sabe, mas não faz mal, porque, um dia, vou viver sozinho numa casa que eu vou construir ao pé da duna grande. É um sítio muito bom para ter uma casa. Quando calhar levo-te lá. - Fica-te bem essa camisa! 101 Riu-se. - Também gosto. Foi a minha mãe que ma deu quando fiz anos. - A tua mãe? - inquiri, para logo de seguida me arrepender. - Pois teve bom gosto. - Não é a minha mãe verdadeira, sabes? Quis mudar de assunto, mas já não fui a tempo. - Quando será que vamos ter sol outra vez? Diz lá, tu que sabes tudo! - A minha mãe verdadeira tinha um vestido azul, que ficou lá em casa. Engoli em seco. Como desviar o rumo da conversa? - Ainda não te contei: estou quase a acabar o meu livro! - Tu devias ficar bem com o vestido dela. Uma vez, há muito tempo, tirei-o Às escondidas da arca e peguei nele com as duas mãos. Depois, levantei-o no ar e fui pôr-me À frente do espelho que a minha avó tem no quarto dela. E foi fácil! - Que é que foi fácil, Dunas? - balbuciei. - Imaginá-la dentro dele, ali mesmo À minha frente, no espelho. - E repetiu o gesto que fizera com o vestido. Comecei a sentir outra vez um nó na garganta que queria À viva força desfazer-se e desfazer-me em seguida. - Tu tens é muita imaginação, Dunas - respondi, desviando a cara e forçando um sorriso. Ele, porém, continuou o seu discurso, alheio Às minhas intervenções: - As mulheres ficam quase todas melhor de vestido. - Achas? - voltei a encará-lo, um pouco mais tranquila. 102 - Hum-hum. Mas eu disse quase...

- Pois disseste... Suponho que te referias a mim. Acertei? - Hum-hum. Gosto de te ver de calças de ganga e mais ainda quando pões os calções de explorador! - Riu-se. - São uns calções velhíssimos de que nunca fui capaz de separar-me, Dunas. E sabes a melhor? Eram do meu irmão mais velho. Um dia, enchi-me de coragem e pedi-lhos. Ele achou uma parvoíce da minha parte, mas deu-mos. Então, para meu completo alívio, acrescentou: - Tu não ficarias bem de vestido, não. - Nem com o que pertenceu À tua mãe? - arrisquei. - Só com esse, porque esse ficaria bem a toda a gente. Respirei fundo. Aquele receio estranho que me assaltara após a conversa com o velho da mata começava a desvanecer-se. - E que dizes da novidade sobre o meu livro, hein? - Não foi para isso que cá vieste? - perguntou com o ar mais natural do mundo. - Ora, Dunas, claro que foi, mas não estás contente por eu ter conseguido finalmente avançar? Sabes como foi difícil ao princípio... Riu-se com gosto. E eu mergulhei inteira naquele riso que lhe iluminava os enormes olhos castanhos. - No princípio não estavas com inspiração nenhuma! Nem um bocadinho! Parecias uma aluna na escola a tentar fazer uma redacção e a coçar a cabeça para as ideias saírem! Corei como se tivesse nove anos e estivesse na presença da professora primária. 103 - Também não é preciso fazeres troça. Sou uma pessoa normal. Não estou sempre inspirada! Riu-se outra vez, para me arreliar. - Um dia vou ler um livro teu, quando tiver tempo e pachorra. - É preciso ter lata! - indignei-me a sério. - Não. É preciso ter coragem para pegar num monte de folhas e ler tudo do princípio ao fim. Eu não costumo ler muito, percebes? - Fazes mal. Podias aprender coisas importantes. - Como o quê? - Olha, por exemplo, coisas sobre o mar de que tu tanto gostas. Sobre peixes, algas, gaivotas, barcos. Há livros sobre tudo, Dunas. Sobre tudo! - Não, não há - retorquiu, tristemente. Pressenti que não devia explorar aquela questão, mas, sem saber porquê, inquiri: - Porque é que dizes isso? Foi só para me contrariares? - Não há livros sobre uma coisa que eu gostava mesmo de saber. Olhei-o expectante. Depois, como não obtive resposta, insisti: - Sobre o quê? Posso saber? - Não. Dizendo isto, virou-se e correu para o muro do terraço. No instante seguinte, voltou atrás, montou na minha bicicleta sem pedir nada e gritou, já junto do portão.

- Vou dar uma volta. Depois trago-ta. 104 * * * Fui deitar-me sem que o Dunas tivesse vindo devolver-me a bicicleta. Adormeci muito cedo, contra o que tinha sido habitual nos últimos dias. Contudo, poucas horas depois, estava de novo desperta. Um aroma estranho entrara pela janela do meu quarto e tive de levantar-me para ver o que era. Pus o roupão sobre os ombros e debrucei-me no peitoril da janela. O aroma intenso era afinal o cheiro a lenha queimada. Olhei para o lado direito e vi um fumozinho ténue que vinha da praia. Sem hesitar, vesti o roupão e saí para o terraço. Do muro espreitei lá para baixo e foi então que se me deparou um espectáculo simpático: o Dunas e quatro ou cinco pescadores confraternizavam À volta de uma pequena fogueira na praia. Um deles que não tomava parte da animada conversa, cantava uma canção triste numa voz pastosa e quente. A seu lado, um vulto magro de cão rafeiro abanava a cauda ao ritmo da música indolente. Não consegui distinguir as palavras dos outros, mas, de quando em quando, ouvia-os rir - um riso demorado embebido no vinho que iam bebendo da mesma garrafa. O Dunas parecia escutá-los com atenção e, em certos momentos, fixava-se no mar escuro perdendo-se no vaivém das ondas quase adormecidas. A dada altura, o cão ladrou virado para a Lua redonda, e todos se calaram e olharam o céu pejado de estrelas. Tive vontade de me juntar a eles, mas a preguiça impediu-me de me ir vestir para sair de casa. Por esta razão, fiquei a vê-los do muro até o último homem partir em busca da sua sorte. O Dunas ficou um pouco mais na praia, até a fogueira se extinguir completamente. 105 Depois, como havia um luar generoso, consegui distinguir a cabeça loura do meu amigo, em frente do mar. Subitamente, veio-me À ideia o pensamento macabro de que, sabendo o Dunas do destino que fora dado À mãe, talvez se pusesse a procurá-la sozinho, nas noites enluaradas como aquela. Senti as pernas fraquejar e, sem me dar conta do que estava a fazer, desci até À praia. Mal pisei o areal fofo e frio, uma sensação desagradável colou-se-me À alma e, por uns segundos, não consegui mexer-me. Para a maioria das pessoas, todas as praias têm um fascínio especial À noite. Para mim, estar ali Àquela hora era praticamente tenebroso. Quando consegui respirar fundo, olhei em volta e, sem compreender porquê, não encontrei o Dunas em canto algum da praia. Então, pensando ter descoberto o seu esconderijo, dirigi-me À rocha grande, aquela onde ele se encontrava com a gaivota. Apenas dei com a minha bicicleta deitada na areia ao lado da rocha... A humidade caía, gelando o tecido fino do meu pijama. Não havia vento, só se ouvia o ruído suave das ondas. Ao longe, a presença reconfortante dos barquinhos dos pescadores com as suas minúsculas luzinhas fez-me sentir mais calma. Porém, numa fracção de segundo, uma

mão vinda do nada agarrou-me os cabelos soltos e ouvi, numa voz arrastada, absolutamente do outro mundo: - Esta é a praia pro-i-bi-da... Quem és tu, mulher, que te atreves a vir aqui de nooooooite?... Virei-me, assustada como um coelho. - Que maldade, Dunas! E se eu tivesse aqui um ataque de coração? Eras tu que apanhavas um valente cagaço, como tu dizes. Riu-se descaradamente. - Vieste ver os barcos? - Não, foi a ti que vim ver. Não acho bem que andes por aqui a estas horas, palavra que não acho. É tardíssimo. E está um frio de rachar! Ainda atrás de mim, abraçou-me carinhosamente como se eu fosse uma criança e ele o pai. E, sem me largar, explicou: - Não há problema nenhum. Posso vir aqui a qualquer hora. Esta é a minha praia, lembras-te? Então Não vês que não há razão nenhuma para ter medo? Falara novamente como se fosse adulto, o que quase me enervou. - Ouve láagora a sério: não te parece que já devias estar a dormir. - E tu? Não pensas escrever amanhã? Não? Se não escreveres diz já, que podemos ir dar um grande passeio. Posso levar-te ao sítio... Prometia mistério, mas voltei À carga: - Talvez não escreva amanhã, mas hás-de concordar que não é boa ideia comparares-te comigo no que se refere a horas de deitar, Dunas... - Nem no estilo dos mergulhos... - troçou, voltando a puxar-me alegremente os cabelos. - Porque é que hás-de sempre ser tu a ganhar quando estamos a falar?! Isso irrita-me um bocado, Dunas. Qualquer dia, deixo de conversar contigo, acabou-se! - E então como é que fazes? Escreves-me cartas na tua máquina, é? Virei-me para trás, para o ver. A doçura que o envolvia acalmou todos os meus receios e até o mar deixou de se fazer sentir. 106 107 Coloquei o seu rosto entre as minhas mãos, soprei-lhe os cabelos da testa e disse: - Vou para casa. Estou a ficar com sono. Faz-me a vontade e vai também... - Só depois de dar um mergulho. A água deve estar quentinha! - Dunas! 108 Capítulo XVI A DUNA SECRETA Tal como havíamos combinado na véspera, depois do

pequeno-almoço parti com o Dunas rumo ao sítio. Eu conduzi a bicicleta e ele foi sentado entre mim e o guiador, em silêncio. Chegados ao lugar onde a terra mergulhava na lagoa, desmontámos, encostámos a bicicleta a uma árvore e metemo-nos no barquito que nos levou À outra margem. O Dunas insistiu em remar sozinho, o que fez com toda a perícia. Já do outro lado, vi-o sentar-se no areal branco. - Cansado, não? Remaste depressa de mais. - Estás sempre a enganar-te - disse-me, abanando a cabeça loira. - É que eu não sei se sempre hei-de levar-te ao sítio, percebes? - Esta agora! - reclamei. - Porquê? - Porque é o lugar mais bonito e importante do mundo para mim. Amuei. 109 - E achas que eu não mereço ir lá contigo, é isso?! Calou-se. Depois, lentamente, levantou-se, deu alguns passos em frente e, sem se virar para mim, declarou: - Podes seguír-me. Franzi o sobrolho e lá fui, atrás dele, porque percebi que ele era o líder incontestável daquela expedição. Avistámos a casa onde ele morava, mas não fizemos qualquer comentário. Depois de mais alguns minutos de caminhada, o Dunas mandou-me parar e correu para a duna grande, desaparecendo atrás dela. Fiquei À espera, em pé, sob um sol que começava a queimar. Quando vi a mão dele acenar-me para que me aproximasse, prendi o cabelo atrás com o lenço e fui ter com ele. - É aqui - disse, como se estivesse a mostrar-me um local histórico. Olhei a duna, dei a volta devagar, mas não encontrei nada que me chamasse a atenção. No entanto, não quis desapontá-lo: - É um lugar realmente... interessante, Dunas. Sorriu. - Venho cá muitas vezes, quando acordo de manhã com um pesadelo. - Tens assim tantos pesadelos? - Hum-hum. Mas já me habituei. É sempre o mesmo. A curiosidade subiu-me À garganta: - E... como é esse pesadelo que costumas ter? Não respondeu. Ajoelhou-se sobre a areia e começou a tocar nas plantas secas que despontavam da duna e a alisar a areia, como quem arruma a casa. - Só eu é que aqui venho - contou, com uma pontinha de orgulho na voz. - Dantes, vinha também o meu pai... 110 - Vinha contigo, era? - Não. Também vinha sempre sozinho. Acho que era para pensar no futuro. - Estou a ver... - Eu ficava a vê-lo de longe. Seguia-o sem ele dar por nada. Nunca percebeu que eu estava a vigiá-lo. - E tu querias que ele percebesse?

Calou-se. - Isto aqui é, de facto, muito sossegado. Bom para pensar... no futuro - disse-Lhe, só para quebrar o silêncio. - E no passado. - Também, claro. Mas creio que não é muito bom pensar de mais no passado, não achas, Dunas? Já lá vai não é? - É pena... - O teu pai há-de voltar um dia, tenho a certeza. E há-de conversar muito contigo e há-de descobrir o rapaz fantástico que tu és. É só uma questão de tempo, vais ver. Sorriu, como se não acreditasse em nada do que eu acabara de dizer. - Sabes o mais estúpido? - perguntou, com o mesmo sorriso do velho da mata. - É que a América não pode ser mais bonita do que isto aqui. Não pode! - Concordo. Mas as pessoas nem sempre procuram o que é mais bonito, Dunas. Às vezes não sabem sequer o que é mais bonito, compreendes? Aquilo que para ti é extremamente simples pode não ser visível para outros. - Mas tu também achas que este é o sítio melhor do mundo, não achas? 111 - As pessoas são todas diferentes. O teu pai é capaz de não pensar como nós, de não gostar das mesmas coisas de que gostamos. E tem esse direito. - Porquê?... Calei-me. Um albatroz sobrevoou a duna em voos circulares e depois seguiu rumo Às nuvens altas. Seguimos-lhe a trajectória em silêncio, virados para o céu. Então, cansada daquela posição que me incomodava o pescoço, deixei-me descair e encostei-me À duna. - Aí não! - gritou-me. Rapidamente mudei de lugar, sem fazer perguntas. - E aqui, posso? - Sim - respondeu, um pouco embaraçado. Depois, resolveu explicar: - Onde tu estavas há umas coisas minhas, que eu guardo há muito tempo. - Uma espécie de esconderijo? - Pois. - Está bem, Dunas, não é preciso contares-me nada sobre isso. - Eu sei, mas e se eu quiser contar? Sorri-lhe. - Gostava... - É ali que eu guardo algumas coisas que encontro e que são só minhas. - Entendo. Obrigada por me teres contado. Acho que ficámos ainda mais amigos, não te parece? - Parece-me que não importa o que eu guardo ali debaixo, para ti não faz diferença, o importante era que eu te dissesse alguma coisa. E se fosse... uma caveira? Assustei-me a valer. - Que disparate, Dunas! 112

- Porquê? Uma caveira não tem nada de especial. É feita de ossos feios. Toda a gente tem caveiras. Tu, eu, todas as pessoas. Não há quem escape. Arrepiei-me, ao mesmo tempo que me deu alguma vontade de rir o sem-cerimónia com que o Dunas falava da nossa condição de mortais. - Uma caveira não é coisa que valha a pena esconder, por isso mesmo que tu disseste. Não tem nada de especial. - Então porque foi que tiveste medo? Até te arrepiaste... - Medo? Eu? Ora, Dunas, apenas achei a ideia... bizarra respondi, sabendo que ele iria mudar o rumo da conversa para aquela palavra, certamente nova para ele. - Bizarra quer dizer esquisita, não é? Pois mas, como eu estava a dizer, eu sei que tu tens medo dos mortos, e eles não fazem mal nenhum. Comecei a sentir-me um pouco agoniada. E o calor apertava. - E se fôssemos dar um mergulho, Dunas, hein? Está um bocado abafado, não concordas? Levantou-se e, sempre a sorrir com algum sarcasmo , deu-me a mão e levou-me até À beira-mar. Aí, tirámos a roupa e, em fato de banho, entrámos depressa na água, onde nadámos até não termos mais forças. De regresso À praia, sentámo-nos na areia a secar o corpo. - Soube-me muito bem este banho, Dunas. Melhor do que nenhum outro até hoje! - Passou-te? - O quê? - inquiri, fingindo não perceber a que se referia o meu perspicaz interlocutor. 113 - O cagaço, que é que havia de ser?! - Fica sabendo que eu não tenho medo nenhum dos mortos, palerma. Não acredito em fantasmas nem em coisas ligadas a espiritismos, estás a ouvir? - Estou a ouvir, mas sei que tens medo. - És muito teimoso! Fez uma cara séria e depois ficou pensativo por um instante. - Sabes, eu também não acredito em fantasmas, apesar de nunca ter pensado muito nisso, nem conheço ninguém que acredite. - Não? Pois eu conheço... Quero dizer, há fantasmas e fantasmas - disse, achando que ele não veria o fundo da questão. - Pois há. Os teus fantasmas são pouco espertos, não têm inspiração nem querem que tu tenhas, Às vezes. Por isso apagam a folha de papel que tens na cabeça, cada palavra que tu ias escrever desaparece e deixam a folha toda branca, como eles são. Olhei-o estupefacta. - De onde é que tiraste essa ideia? - Ora, de onde é que havia de ser?! E não tocou mais no assunto. O sol depressa nos secou os corpos, deixando aparecer manchas de sal na nossa pele. - Devia ter posto creme antes de sair de casa - lembrei-me.

- Estou a ver que hoje o sol pegou-me. Deu uma gargalhada. - Estás preocupada com aquilo do ozono? - Se sabes dessa tragédia, também tu devias preocupar-te, Dunas. É um assunto sério. - Pois é, mas a mim não me afecta. Eu e o sol somos amigos de longa data, como diz a minha avó. Nunca fiquei com queimaduras. Isso dos cremes é mais para as pessoas que vêm das cidades. Eu não preciso. Nasci aqui... - Tens sorte... Mas, mesmo assim, deves ter cuidado. A tua pele, por baixo desse bronzeado invejável, é com certeza muito branca. - Por acaso até é - disse, rindo-se. - Vê-se onde os calções tapam. Gostei de ter razão, pelo menos uma vez. - Foi na escola que te falaram do buraco na camada de ozono? - Foi e estou farto de olhar lá para cima a tentar descobrir esse tal buraco, que eu vejo muito bem até de noite! Mas... nada. O céu continua liso para mim. - Nem tudo se vê só com os olhos, Dunas. - Pois, mas eu não sou cientista. Não tenho, como é que se chama, microscópios para ver o que se passa no cé u. - Telescópios! - corrigi. Ele, contudo, não pareceu ligar importância À minha correcção e levantou-se de repente. Depois, mansamente concluiu: - Se eu tivesse esses tais telescópios, ficava À espera de noite, o tempo que fosse preciso! - Preciso para quê? - Para ver Deus a deitar-se. 114 115 Capítulo XVII PASSADO E FUTURO Dois ou três dias mais tarde, ouvi uma tosse aflitiva vinda do terraço. Era manhã. Levantei-me de um salto e fui ver, temendo o pior. Virado para o muro, o Dunas esforçava-se para respirar e, sem qualquer cerimónia, mal me sentiu aproximar, parou de tossir, fez uma cara muito séria e depois largou uma gargalhada estridente. - Indecente, Dunas! Isso não se faz! Acreditei mesmo que estavas com um ataque! - indignei-me, falando tão alto como onda em dia de tormenta. - E achas que eu teria um ataque ao pé do mar?! Ainda exaltada, retorqui: - Não sabia disso, mas não devias ter feito uma coisa daquelas. Pensei que... - Eu morria? - troçou. - Deixa lá, quando eu morrer, podes ficar com a minha caveira - acrescentou brincando novamente com a morte. - Credo! Que obsessão! 117

- Quê? - Essa tua mania de falares de coisas que magoam! Ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, como quem está a reflectir, concluiu: - Morrer não dói nada. Eu sei... Já morri uma vez e vou morrer outra vez quando te fores embora. Calei-me, compreendendo que a primeira vez se deveria ter dado aquando da partida do pai para a América. - Sabes perfeitamente que um dia vou ter de voltar para minha casa, Dunas - disse-lhe com a maior serenidade de que fui capaz. - Ora! Só voltas se quiseres. Tu és crescida, por isso não tens quem mande em ti. - Não é bem assim... - Não?! Então quem é que manda em ti? - inquiriu muito surpreendido. - Não se trata de haver ou não quem mande em mim. Precisamente porque sou crescida, como tu disseste, assumi certas responsabilidades, compromissos, percebes? São coisas a que não posso virar as costas definitivamente. - Tretas... - Não, não são tretas, Dunas. São coisas sérias. É a minha vida! Retirou-se para o outro extremo do terraço e eu fui para dentro. Tomei um duche, vesti-me e voltei ao terraço com um copo de leite frio na mão. - Queres comer alguma coisa? - perguntei-lhe, encostando-me ao muro, junto dele. - Espero que não te vás embora já... - murmurou, sem me olhar. 118 - Não, ainda fico por mais algum tempo. - Até acabares o livro? - Hum-hum - respondi, sorrindo. - Então espero que não acabes nunca! - riu-se. Passei-lhe a mão sobre os cabelos e olhei-o atentamente. - Sabes, Dunas, para mim também não vai ser fácil ir-me embora, como para o teu pai não deve ter sido. - Ora! Para o meu pai foi a coisa mais fácil do mundo. Foi de camioneta até À cidade e apanhou um avião, pronto. - O que eu quis dizer foi que lhe deve ter custado muito separar-se de ti. Tenho mesmo a certeza disso. - Não. Quando ele escreveu À minha avó até disse que não estava preocupado porque me tinha deixado bem entregue... O meu pai não gosta de se preocupar. Acho que não aguenta certas coisas... Baixei os olhos, perante aquela perspicácia toda. - Bom, falando de outro assunto, hoje tenho de ir À vila, aos correios. Preciso de fazer um telefonema para a minha editora. Queres vir? - Que é que vais dizer ao telefone? - Vou dar notícias do meu livro. - Que notícias? - Mas que interrogatório! Afinal, queres vir comigo ou não? Pensou um pouco e declarou:

- Hoje tenho de ir À mata, buscar umas ervas para a minha avó. Não posso ir contigo. Achei que mentia, mas não quis contradizê-lo. - Então vemo-nos amanhã, pode ser? Ia a saltar o muro, mas recuou. 119 - Quanto é que falta para acabares o teu livro? - Hã? - Quantas páginas é que ainda te falta escrever? Não contive um sorriso. - Não sei, Dunas. - Não sabes?! - Quando se começa uma história, mesmo que se saiba como vai acabar, é difícil prever quanto tempo e quantas páginas vamos ocupar. É assim... Torceu o nariz. - Quer dizer que ainda pode demorar, não pode? Voltei a sorrir-Lhe, para o tranquilizar. Depois, saltou então o muro e dirigiu-se À praia. Lá de baixo, gritou-me: - Hoje não vale a pena escreveres. Já vi que não estás muito inspirada. * * * Depois de sair dos correios, resolvi ir tomar um café antes de fazer algumas compras para a casa. Então, ao atravessar a rua, cruzei-me com o velho da mata, que vinha com uma garrafa de vinho tinto entalada no braço, certamente comprada na taberna que ficava ao lado da mercearia. Cumprimentei-o, mas não obtive resposta. Acho que nem me ouviu, entretido como ia nos seus pensamentos. Quem não deixou de reparar foi o empregado do café, que logo quis meter a sua colherada: - Já conhece o velho?! Quase nunca sai da toca. Não gostei do desrespeito com que ele falara. - Já conheço, sim senhor. E não vive em nenhuma toca. É um homem muito gentil até. 120 O empregado franziu o sobrolho e perguntou: - É só o cafezinho? - Só - respondi secamente. Depois, quando trouxe o café, voltou À carga: - Ele não é homem para se meter em alhadas, não, mas... - Como? - perguntei, levantando os olhos do jornal que comprara À porta do café. - O velho, estava a falar do velho. Só é pena beber tanto, sabe... - Não, por acaso não sabia - retorqui, tentando mostrar o maior desinteresse em prolongar aquela conversa. - Pois é, se não fosse o álcool, a velhota até era bem capaz de lhe lavar as meias... Não me contive: - O senhor parece saber tudo de toda a gente! É fantástico! Porém, o empregado entendeu as minhas palavras como o maior

elogio que poderia receber e apressou-se a dar razão ao meu comentário: - Sempre cá vivi, compreende... Mas, voltando ao velho, dizem que ele ficou pior desde que o filho se foi embora. Também não é para admirar. Dizem que gostava muito dele. Subitamente, a conversa começou a interessar-me. - E o filho? Também gostava dele? - Ná. Aquele só gostava era da estrangeira. Mais nada. Foi isso que deu cabo dele. Endoideceu de todo. Parecia um lobo. Andava por aí a vaguear pelas ruas sem olhar para nada que se visse, de olhos muito abertos... 121 Virou do juízo, compreende? Agora, parece que já lhe passou. Dizem que arranjou outra lá na América, mas eu só acredito quando vir com estes que a terra há-de comer. Um homem que faz o que ele fez nunca mais pode regular bem! É o que eu acho. Coitada da mãe dele... Não é que essa também tenha os parafusos todos, mas aquilo foi do desgosto, que ela dantes até era simpática. Vinha muitas vezes cá À vila e tudo, até À escola ela ia saber notícias do neto, para ver como ele ia nos estudos. - E agora já não vai? - Ná. Também já tem muita idade, não é? E o reumático é o diabo, eu sei, que o meu pai também sofre como um cão, desgraçado... - E que é que o senhor acha que vai acontecer depois de ela morrer? - A velhota? Oh, sabe-se lá. Talvez a segunda mulher do filho venha buscar o miúdo, sabe-se lá. Aquela gente é um bocado esquisita, compreende? Não é gente normal, como nós. Apaguei a custo o sorriso que me invadiu a cara sem me avisar. - Compreendo... Bem, queria pagar. Voltei para casa na minha bicicleta, sempre a pensar no que o futuro reservaria ao Dunas. E tudo era realmente muito incerto, como o empregado dissera. De facto, tudo poderia acontecer, no entanto, acalentei uma esperança de que o pai viesse buscá-lo quando chegasse o momento e o levasse finalmente para viver com ele. Depois, uma angústia veio afogar-me os pensamentos: que faria o Dunas longe da sua praia, do seu mar?!... 122 Capítulo XVIII O INCëNDIO A minha curiosidade em relação ao velho da mata tinha crescido após a conversa com o empregado do café. E depois havia também aquela história de ele me achar parecida com a mãe do Dunas. Era uma ideia que me incomodava e que eu precisava de apagar. Assim, naquela tarde acabei a escrita mais cedo e fui de bicicleta até À mata. Podia ser que tudo

não passasse de confusão do velho ou da influência da bebida. De qualquer forma, ao penetrar pelos caminhos estreitos entre os pinheiros , fui invadida por um mal-estar, um arrepio. Depois, À medida que me fui aproximando, comecei a sentir um cheiro a queimado. Com o coração cada vez mais pequeno, pedalei energicamente até chegar À clareira. De lá, pude distinguir as chamas e a fumarada intensa que pairava no ar, trazendo a notícia que logo adivinhei. Avancei um pouco mais, depois desmontei da bicicleta e fui a correr até À casa do velho pescador. 123 As chamas iam altas e não pude conter uma tosse que mal me deixava respirar. Chamei, gritei, mas, na verdade, nem sabia o nome dele. Despi o casaco de malha, coloquei-o sobre a cabeça e, com muito custo, entrei pela porta já escuríssima do fogo. O velho estava deitado, junto a uma das paredes, encolhido como um feto, e foi difícil chegar até ele por entre as chamas e o fumo. Então, convocando todas as minhas forças, arrastei-o até À porta e depois para fora da casa. Estava ainda vivo, mas, de tão bêbado, não conseguia mexer-se nem falar. Tinha a cara e as mãos queimadas, e a roupa chamuscada e negra. Era urgente que alguém aparecesse e me ajudasse a levá-lo até ao posto, mas, por mais que eu gritasse por socorro, só os pássaros, assustados com o fumo, emitiam uns trinados aflitivos, cruzando-se com o som da madeira que estalava aos poucos. Tentei pela milionésima vez levantá-lo, mas em vão. O corpo era pesado e ele não estava em condições de ajudar. Desesperada, corri até À lagoa, deixando o homem estendido na terra. Ao ver o barco a remos, pensei se valeria a pena atravessar para o outro lado, no intuito de chamar o Dunas ou a avó. Acabei por entrar no barquito e remar o mais depressa que pude até À outra margem. Chegada À casa branca, bati À porta. Ele não estava, e a avó veio atender-me. Rapidamente, expliquei-lhe o que estava a passar-se e ela, para meu espanto, prontificou-se a ajudar-me. Regressámos ambas no barco, que ela fez questão de remar, com uma mestria invejável. Depois, quando chegámo junto do velho, ela aproximou-se, ajoelhou-se ao lado dele e ficou a observá-lo, tentando tomar-lhe o pulso. No entanto, como os braços estavam demasiado queimados, não foi possível sentir-lhe a pulsação e foi então que Sara se curvou sobre o rosto do pescador, para ver se ele respirava. Durante este tempo, mantive-me de pé, sem saber que fazer. Quando, por fim, sugeri que ela ficasse ali enquanto eu ia de bicicleta pedir ajuda, Sara abanou a cabeça e respondeu, quase sem mexer os lábios: - Não vale a pena... Ajoelhei ao seu lado, sobre a terra quente. Só então olhei para a casa, em completo estado de ruína. O fogo estava extinto, mas o ar era ainda uma fornalha. Quando voltei a virar-me, percebi que ela rezava baixinho. Depois, suavemente, como quem acaricia o rosto de uma criança, fechou os olhos do pescador. - Deve ter adormecido e deixado a vela ou o candeeiro aceso... - opinei, olhando para o velho.

- Eu sabia que o vinho ia dar cabo dele - disse ela, levantando-se devagar. - Graças a Deus que as chamas não chegaram Às árvores! - Depois, virando-se para o corpo, acrescentou: - Tantas vezes lhe pedi... Tantas vezes... Falava com uma sinceridade e uma ternura que me comoveram. - Ele tem família, quero dizer, para além do filho?... perguntei, limpando a cara da fuligem que se colava a todos os poros. - Família? Não... Era só ele e um irmão que morreu no mar. Respirei fundo, tentando controlar a tosse. - Nesse caso, será melhor ir À aldeia pedir que telefonem aos bombeiros para que venham buscá-lo - sugeri. Ela, contudo, encolheu os ombros. Depois, limpando uma lágrima imprevista, anuiu: 124 125 - Vá lá então, que eu fico aqui... O Sol estava a pôr-se. As pernas doíam-me do esforço que fizera e não me deixaram pedalar tão depressa quanto eu desejava. Na minha cabeça começava a formar-se com nitidez a imagem do velho, do seu sorriso, no dia em que estivéramos a pescar na lagoa. Depois, aquela imagem foi dando lugar ao rosto do Dunas, iluminado pelo mesmo sorriso. Que fazer se me cruzasse com ele a caminho da aldeia? Porém, não o vi nem quando passei pela praia. Talvez tivesse ido nadar para longe ou andasse a mergulhar em busca daquelas coisas bonitas que depois guardava no sítio. Os bombeiros lá foram buscar o velho e levá-lo para a vila. Não se surpreenderam com a notícia do incêndio, sabendo como ele bebia. De facto, foram até de uma frieza que me magoou. Eu assisti a tudo, como se a minha presença se tivesse, de súbito, tornado inevitável. Na verdade, percebi que tinha de estar ali até ao fim. Era como se as escassas horas que passara com o velho da mata me tivessem ligado a ele para sempre, mas, no fundo, eu sabia que tudo partira daquele sorriso familiar que jamais me sairia da memória. 126 Capítulo XIX CONTANDO ESTRELAS No fim-de-semana que se seguiu ao enterro do velho (ao qual quase ninguém assistiu), um bando vermelhuço de turistas nórdicos invadiram novamente a praia dos pescadores. Sentada no terraço em frente da minha velha máquina, pude ver nitidamente a presença loira do meu amigo, sentado À beira-mar como quem guarda a praia. Chamei-o duas ou três vezes, mas fez que não me ouvira , só para não largar o posto de vigia. Desconfiado e atento , seguia os passos de cada turista, de rosto sobranceiro e incómodo. Só quando o grupo arrumou a tralha e partiu no autocarro de dois andares, ele se levantou. Depois, olhando a praia toda, começou a recolher o lixo deixado no areal. Então, como já não pudesse ficar por mais tempo a vê-lo sem nada fazer, desci até À praia e, em

silêncio, ajudei-o na recolha dos papéis, pacotes e frascos vazios. - O velho morreu - disse-me ao cabo de muito tempo. 127 - Eu sei. - Estive a pensar numa coisa - murmurou, sentando-se ao meu lado depois de ter despejado os últimos detritos no caixote. Era capaz de reconstruir a casa da mata... - A que ardeu? - Sim. Aquilo não é de ninguém... - Mas para quê, Dunas? - Ora, para ir para lá quando me apetecesse. - Olha que não há-de ser fácil. Ficou tudo em ruínas. - Eu fazia aos poucos. Talvez o Miguel e o Pedro me ajudassem. O pai deles tem uma carpintaria. - Ouve lá, Dunas, tu sabias quem era o velho, não sabias? - Toda a gente sabe isso - replicou, encolhendo os ombros. Mas a mim ele não me era nada. Nunca falou comigo... - Talvez não tenha tido oportunidade... - Não interessa. Os olhos estavam húmidos e a voz vinha não sei donde. - Nunca tiveste vontade, curiosidade de falar com ele? Era um homem interessante, sabes? - O meu pai e ele não se davam. E a minha avó não o gramava. - E... tu? - Eu quê? - Tu também não gostavas dele? - Sei lá. Acho que uma vez estive com ele, quando era pequeno, tinha aí uns cinco ou seis anos. Foi um dia em que o meu pai me deixou lá com ele, não me lembro porquê. 128 - E então? - Então o quê? - Ele foi simpático contigo? - Acho que sim, sei lá. Deu-me uma cana de pesca e um chapéu velho, tão velho que já não tinha cor. Um chapéu todo enrugado, que cheirava a sal. - Eu gostava dele, Dunas. Conversámos algumas vezes e, uma ocasião, ajudou-me muito. Era um homem simples e muito só. - Tens pena? - Não, não tenho pena dos mortos, Dunas. Seria uma estupidez. - Quem é que o mandou beber assim como ele bebia! A culpa era dele. - Talvez não fosse só dele, talvez... - Agora não importa. Já morreu. - Quer dizer que nunca pensas nos que... já morreram? arrisquei. Pôs os olhos na areia molhada. Do Sol apenas já se via uma risca intermitente e brilhante. - Vou dar um mergulho - anunciou, levantando-se de repente. - Mas antes vais responder À minha pergunta, não vais? insisti.

- Não, não vou. Dizendo isto, com a cara subitamente serena, caminhou em frente e entrou no mar. Fiquei a vê-lo mergulhar como um golfinho sedoso entre as pequenas ondas que a maré formava. Depois, cansado e feliz, voltou a sentar-se ao meu lado, sacudindo os cabelos para me molhar. - Dunas! 129 Riu-se, voltando a sacudir-se para me fazer zangar. - Hoje vou jantar a tua casa - comunicou-me com a maior descontracção. - Ai sim?... - Hum-hum. - E porquê? Posso saber? - perguntei, forçando um ar refilão. - Porque quero que me faças aquela mousse de chocolate que estavas a comer no outro dia. Dito isto, levantou-se, vestiu as calças e a camisa de riscas e, puxando-me por um braço, levou-me para casa. * * * Depois do jantar, sentou-se comodamente no parapeito da cozinha, de pernas a abanar sobre o terraço, enquanto eu lavava os pratos. - Cento e vinte e seis - ouvi-o dizer. - É o teu número da sorte? - perguntei-lhe. Riu-se. Depois, ficou em silêncio até eu arrumar tudo no armário e juntar-me a ele no parapeito. - Que é que tu estavas a contar, diz lá! - As estrelas que se vêem daqui quando não há nuvens. São cento e vinte e seis. Parei a olhá-lo. Um raio fugido do lado mais branco da Lua pousava-lhe sobre o cabelo, dourando-o. - Tu vinhas aqui muitas vezes, quero dizer, antes de eu cá chegar, não era? - Antes e depois - respondeu sorrindo, sempre sem tirar os olhos do azul-escuro. - Contar estrelas não deve ser tarefa fácil... 130 - Daqui vêem-se bem. Os meus olhos vêem muito melhor de noite, sabes, para mim, é fácil. - Como os gatos... - brinquei. As pernas continuavam a balançar num ritmo cadenciado, como se estivesse a seguir o compasso de uma música. - Este lugar é o melhor do mundo para se verem estrelas comentou, absolutamente convicto. - Eu sei que há um lugar na América, que até apareceu na televisão, onde puseram um tubo gigante com uma lente especial para ver as estrelas por dentro e por fora, mas , como eu não posso lá ir, tenho de treinar os olhos. Treinar-me para ver muito longe, percebes? E, como comecei muito pequeno, já consigo até contar os bicos das estrelas.

- Parece-me uma tarefa bastante solitária, essa de te pores a observar as luzinhas que há no céu... - É que eu nunca tenho muito sono e, além disso, a olhar lá para cima podem-se imaginar muitas coisas. Por exemplo, uma vez imaginei que havia uma mulher muito branca naquela estrela ali À direita da maior, estás a ver? - perguntou, esticando o indicador. - Hum-hum. - E pus-me a pensar que essa mulher branca me ia convidar a subir para a estrela onde ela mora e depois era tudo muito mais simples. Não percebi de que falava. - O que é que era mais simples, Dunas? - Ora, vigiar a minha praia. Lá de cima era canja. Via tudo, como aqueles pássaros enormes que têm unhas em forma de bico. 131 - As águias? - Pois. - Tu sabes que a praia não é só tua, não é, Dunas? Também pertence aos pescadores. - Sim, mas eles só lá vão para trabalhar - disse, com um certo desdém. - E tu?... - arrisquei. - Ora, eu vou lá para fazer coisas muito mais importantes. - Nadar?... Olhou-me como se achasse que eu estava a troçar do que ele acabara de dizer. Depois, enraivecido, saltou do parapeito e atravessou o terraço até ao muro que dava para a praia. Segui-o, hesitante. Talvez o tivesse magoado. Quando finalmente o alcancei, coloquei-lhe uma mão sobre o ombro e, com a outra mão, virei-lhe o rosto para mim. Os olhos estavam prestes a explodir, mas continha-se o mais que podia. - Desculpa, não quis ofender-te. Julguei que era para ti muito claro que entre amigos não há nunca a vontade de fazer sofrer, Dunas. E eu sou tua amiga, tu sabes isso, não sabes? - E tu sabes muito bem porque é que eu tenho de ir sempre À praia - murmurou, quase amuado. - Não, Dunas. na verdade, não sei muito bem o que vais lá fazer assim de tão especial - avancei, com o coração nas mãos, mas com uma vontade imperiosa de tocar no assunto proibido. Quero dizer, eu percebo que tu gostes muito de mergulhar e nadar e essas manobras todas que tu fazes como um golfinho. Também já percebi que não gostas que poluam a areia nem a água. Só acho que... é um bocado de mais. 132 Não há dia nenhum que não vás lá. É assim... como é que eu hei-de dizer... é um certo exagero, não concordas? E depois há outra coisa: quando se vai demasiadas vezes a um lugar, esse lugar acaba por perder o seu encanto e podemos até deixar de tentar ir conhecer outros sítios, estás a entender? - Estou, mas não me interessa ir a outros sítios. Estava difícil arrancar-lhe a verdade. No entanto, havia que prosseguir.

- Essa tua teimosia... Não me deixou acabar a frase. Gritou: - Eu tenho de guardar a praia, percebes ou não?! É lá que está a... - E desabou num choro convulsivo que abafou por completo o rugir das ondas contra o pontão. Passei os dedos sobre aqueles cabelos feitos de luz e seda, cabelos de anjo. E chorei baixinho, com ele, a sua perda. Depois, para o consolar, disse-lhe palavras pequeninas, vindas da minha infância palavras que queriam enxugar-lhe as lágrimas e preencher o vazio redondo que Lhe perfurava a alma. - Pronto, Luís, não chores mais. Eu só queria que soubesses que admiro muito o teu amor pela tua mãe. É muito bonito. É muito mais do que bonito... É maior do que as estrelas maiores que vês no céu, é... Subitamente, respirou fundo e ergueu a cabeça do meu ombro. Depois, olhou a praia e suspirou: - Se eu soubesse onde ela está mesmo... - Não faz mal, Du... - Faz, sim senhora! Não vês que alguém pode descobrir?! Alguém pode até sujar esse lugar!! Mesmo um cão... 133 Compreendi o seu horror. - Já foi há muito tempo, Dunas. Sabes que todos, um dia, nos transformamos em pó, não é?... Olhou para mim como se eu tivesse acabado de dizer uma loucura. - pó?! pó?! - É. Pó. O corpo não vale grande coisa. Um dia, deixa de ter importância, meu amigo. Repara no que acontece Às conchas, por exemplo. - Que é que têm? - Quando passa muito tempo, acabam por transformar-se em fósseis e, mais tarde, desfazem-se e misturam-se com os grãos de areia, como esses milhões de grãozinhos que ali estão em baixo. Um sorriso de esperança inundou-lhe a cara. - E depois vão para o mar? - Suponho que sim. - Então quer dizer que tudo o que está enterrado na areia acaba por ir parar ao fundo do mar, não é? - continuou, visivelmente feliz. - Claro - respondi sem hesitar. Contudo, uma sombra voltou a toldar-lhe o pensamento e a crispar-lhe a testa lisa: - E se não for, que é que pode acontecer? - Mas vai, Dunas, estou certa disso. - Como é que podes ter a certeza? Leste nalgum livro? - Li, evidentemente que li. Eu leio imenso, Dunas. Voltou a olhar-me com uma certa esperança. - Então posso ficar mais descansado? - Podes. Descansadíssimo. - E esses tais sítios que eu devia ir conhecer, quais são? - Bem, há muitos lugares bonitos para ver por esse mundo fora, Dunas. E pessoas também! Amanhã, se quiseres, vamos até À cidade e vou levar-te À biblioteca para tu veres alguns

desses lugares maravilhosos que há na Terra, queres? Vamos os dois abrir um atlas e fazer uma viagem muito grande até ao fim do mundo, queres? - Mesmo até ao Japão? - Até ao Japão! E sorriu. Aquele sorriso que eu queria ver nascer havia tanto tempo. O sorriso que faltava À enorme colecção que ele tinha para oferecer. 134 135 Capítulo XX LIÇÃO DE GEOGRAFIA A bibliotecária era uma mulher enrugada e zangada com a vida, dessas mulheres de cara azeda que murmuram pequenos insultos, porque não se atrevem nunca a levantar a voz. Deu-nos o atlas, arqueando as sobrancelhas cinzentas e fez um trejeito suspeito com os lábios. - Não se pode falar alto - recomendou-nos. O meu amigo e eu sorrimos cumplicemente e fomos sentar-nos a uma das longas mesas de cerejeira. Apenas dois senhores de idade se encontravam na biblioteca, um folheando um livro de capa muito deteriorada, e outro que lia um jornal, como se estivesse numa esplanada. Ao fundo, atrás do balcão austero, a vigilante olhava-nos, À espera de poder a todo o momento repreender-nos por qualquer motivo. - Isto é que é um atlas? - perguntou o Dunas. - Hum-hum. - Deixa-me abri-lo. 137 - Tens de falar mais baixo ou então somos corridos expliquei-lhe com um sorriso. - É só mapas! - exclamou, parecendo um pouco desapontado. - E é por aí que vamos. Ora fecha-o lá - pedi-lhe. - Agora, abre-o num sítio ao calhar. - Assim fez. - Pronto. Fecha os olhos e deixa cair o dedo num lugar qualquer, Dunas. - Onde é que estamos? - perguntou mais entusiasmado. - Deixa cá ver... Nem imaginas! Na Grécia! - Chui - sentenciou a bibliotecária, olhando-me de soslaio. - Na Grécia? Como é? - Não sei muito bem, Dunas, nunca lá fui, mas posso contar-te uma história muito interessante de um grego que tinha um grande problema com um calcanhar... - Estás a brincar... - riu-se. - Qual quê! Ora ouve só... O Dunas ouviu com a maior atenção do mundo a tragédia de Aquiles, que lhe contei com o mesmo prazer com que o meu pai contava as suas histórias depois do jantar. Depois, falei-lhe do Olimpo, dos jogos, dos argonautas... - Quero ir para outra terra. Já sei tudo da Grécia. Posso abrir noutra página? - perguntou o meu amigo, curioso por conhecer novos mundos.

- Podes, Dunas, mas só mais uma, porque temos de apanhar a camioneta das cinco. A seguir, o indicador foi pousar sobre a Suíça, e falámos de chocolate, relógios, banqueiros e montanhas cobertas de neve. 138 Imaginámo-nos a subir num teleférico , olhando de cima os picos gelados e as pistas de esqui, onde, no instante seguinte, já estávamos a deslizar velozmente, de gorro na cabeça e mãos enluvadas contra o frio. A tarde passou a correr, alheia aos chius da bibliotecária e ao cheiro a pó e a papel. Foram horas inesquecíveis, de aventura e prazer. Por uma tarde, o Dunas e eu viajámos juntos, numa biblioteca mal iluminada. E descobrimos como é bom saber que tantos lugares na Terra esperam por nós. E aprendemos a outra Geografia, a que não nos deixam explorar na escola... 139 Capítulo XXI NO FUNDO DO MAR O tempo estava a chegar ao fim. Eu sabia-o e o Dunas pressentia, como sempre. Quando finalmente acabei o último capítulo do meu romance, guardei todas as folhas sem as reler, arrumei a máquina e fui ao terraço ver se o descobria lá em baixo na praia. E lá estava ele, sentado À beira-mar, de costas para o areal branco. Havia ondas pequeninas que desenhavam bainhas de espuma sobre a areia molhada. O Sol riscava o céu de cor de laranja e preparava-se, como eu, para a despedida. Desci até ao areal. Pé ante pé, aproximei-me sem que o Dunas virasse a cabeça para trás. Porém, quando me sentei ao seu lado, falou-me como se soubesse há muito da minha presença; como se soubesse há muito de tudo o que eu tinha para lhe dizer. - E agora? - perguntou. - Agora, tenho de voltar - respondi-lhe, olhando a linha azul molhada lá ao fundo. 141 - Tens a certeza de que acabaste mesmo? - O livro? - Hum-hum. - Tenho, Dunas. Levantou-se num ápice e correu para a água, sem sequer tirar a camisola de manga curta. Sem pensar, segui-o também mesmo vestida e mergulhei atrás dele, receando nunca mais o ver, perdê-lo para sempre ali no mar. Quando voltei À superfície, olhei em frente e vi-o já bem longe, a nadar rumo ao céu que descia, agora mais escuro, sobre as águas. Nadei desenfreadamente para o apanhar e, não fosse o seu cansaço, tê-lo-ia perdido no meio do azul. Então, a menos de dois

palmos de distância, estendi-lhe a mão e mergulhámos ambos até ao fundo, ao mais fundo do mar e de nós mesmos. Não sei descrever as inúmeras sensações que se apoderaram do meu corpo, recordo apenas que não tive medo. Nem frio. Nem vontade de voltar À superfície. Mas voltei. Voltámos. Ao mesmo tempo. E tinham já passado muitas vidas. Era como se ambos tivéssemos acabado de chegar de uma viagem pelo tempo, em que tudo nos tinha sido revelado. Todos os segredos do Universo, todos os mistérios da vida e da morte. E tudo o que havia na nossa memória era agora apenas uma luz branca que saía pelos nossos olhos e faiscava em cada gota de água sobre a pele do nosso rosto, que era um só. Olhámo-nos em silêncio. Acho que chorámos, mas não tenho a certeza. Se o fizemos, foi porque toda a água de que éramos feitos, se evaporou de nós, À passagem do último raio de Sol. E permanecemos assim por muito tempo, de corpo enraizado no mar e cabeça À flor da água, a boiar como plantas aquáticas. Tudo se havia desprendido de nós, como se a água em que havíamos mergulhado não fosse apenas água mas um filtro absorvente, com o poder de tudo reter que fosse supérfluo, como as palavras. Depois, vazios de tudo o que fôramos antes, nadámos em silêncio até à praia. Suavemente. Sem pressas. Sabíamos que, ao chegar, a praia nos receberia como sempre, mas nada seria como dantes. Nada. De pé, olhámos então a praia e o muro da casa que fora nossa. Duas ou três gaivotas acompanhavam o voo guerreiro de um albatroz. O ar cheirava já a Outono. Era o fim do Verão. Soubemo-lo ali mesmo, naquela hora de nudez total. A casa esperava-me para o ritual de esvaziar gavetas e prateleiras. Tudo ficaria vazio de novo, como eu. E a casa chamou-me, apressando os meus passos, encurtando a despedida. Subi ao terraço, sem olhar para trás. Lembro-me claramente de que não senti o coração. Não apenas o bater, mas todo o coração. E percebi que o tinha deixado ficar na praia onde aportara, de alma nova, vinda de uma viagem muito longa com o meu companheiro de sempre. E soube que ele o guardaria na praia imensa e generosa do seu peito. Para sempre. FIM Scannerização e Arranjo Amadora, Janeiro de 2000

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