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História e loucura

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História e Loucura: saberes, práticas e narrativas
História e Loucura: saberes, práticas e narrativas

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MisticisMo e doença Mental
eM xavier de oliveira

Artur Cesar Isaia1

Na primeira metade do século XX uma tendência
bastante clara passou a caracterizar a atuação dos médicos
psiquiatras brasileiros: ao mesmo tempo em que aprofun-
davam a tendência à medicalização da loucura, passaram
a arvorar-se legítimos intérpretes da realidade social. Por
um lado os psiquiatras aprofundaram uma produção cien-
tífica com explícitas interfaces com as ciências sociais, por
outro, passaram a credenciar a Psiquiatria como disciplina
capaz de uma intervenção preventiva na sociedade, auxi-
liando o estado no afã de construir uma sociedade sã e um
homem apto ao trabalho e à cidadania. Essa valorização
do médico psiquiatra fazia-se, ao mesmo tempo, com ten-
sões e acomodações. Tensões frente a outros profissionais
como os juristas, que conflitavam nesses propósitos e aco-
modações com os mesmos, acordando todos na necessi-

1

Professor associado, Universidade Federal de Santa Catarina,
Departamento de História, Programa de Pós-Graduação em História.

86 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

dade de extirpar a anormalidade e instaurar a tão almejada
norma no meio urbano. Engel2

mostra como médicos e
juristas, ao mesmo tempo em que disputavam a priorida-
de da disciplinarização da sociedade, partiam para alianças
estratégicas
, quando o mais importante era livrar o espaço
urbano de indivíduos indesejáveis, internando o considera-
do delinquente no hospício e não na prisão.
Entre os médicos brasileiros que desenvolveram uma
obra reveladora de um olhar interventor e com interfaces
com as ciências sociais sobre os dramas urbanos e rurais bra-
sileiros, salienta-se o nome de Antônio Xavier de Oliveira.3
Formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro,
esse cearense de Juazeiro preocupou-se com as manifes-
tações do que detectava como misticismo. Sua percepção
do que nomeia como fenômenos místicos está relacionada,
tanto com a formação médica por ele recebida, quanto com
sua condição de católico e com os preconceitos sociais que
impregnavam o discurso médico-psiquiátrico brasileiro da
época. Os místicos urbanos e rurais aparecem em sua obra
como evidências de um Brasil ainda não civilizado, de um
país que necessitava da intervenção da ciência médica a fim
de libertar-se do atraso, da superstição e de toda a sorte de
patologias físicas e mentais.

A periculosidade dos místicos

O olhar de Xavier de Oliveira sobre os fenômenos
místicos não pode ser analisado desconhecendo-se a forma-
ção por ele recebida na Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro. No primeiro quartel do século XX a influência do

2

ENGEL, M. G. Os delírios da razão. Médicos, loucos e hospícios (Rio de
Janeiro, 1830-1930). 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da Fiocruz, 2001. p. 98.

3

Até o presente momento não possuímos informações mais detalhadas
sobre a biografia de Xavier de Oliveira.

misticismo e doença mental • 87

baiano Juliano Moreira se fez sentir na formação de toda
uma geração de médicos psiquiatras. Juliano Moreira trouxe
da Alemanha as análises de Emil Kraepelin. Fiel ao modelo
de Kraepelin, Juliano Moreira insistia em um trabalho clas-
sificador da doença mental, ao mesmo tempo em que bus-
cava relações entre as mesmas e as patologias físicas. Juliano
Moreira ao trazer o modelo de Kraepelin, longe estava de
reduzir a etiologia da doença mental a causas simplesmente
físicas. A partir do modelo alemão, Juliano Moreira batia-
se pela interação entre causas fisiológicas e psicológicas na
explicação e classificação dos considerados anormais. O
psiquiatra deveria, então, conhecer, tanto as especificidades
fisiológicas do paciente, quanto a dimensão moral e social
do mesmo. Especificidades fisiológicas e conhecimento de
todo um em torno sócio-cultural informariam ao psiquiatra
os dados fundamentais para o diagnóstico. Essa nova leitura
do doente e da doença mental possuía interfaces políticas
bem claras em uma sociedade de gritantes desigualdades
físicas e sociais. Fatores como raça e hereditariedade dei-
xavam de aparecer como o fundamento determinante da
doença mental e da chamada anormalidade. Ao contrário
do pessimismo racista, a contribuição de Juliano Moreira
mostrava a viabilidade do povo brasileiro, não condenado
ao atraso por suas especificidades genéticas. Ao contrário
do que afirmava Raimundo Nina Rodrigues não pairava no
Brasil uma anormalidade constitucional, nem a raça apre-
sentava-se como chave explicativa para o homem e a so-
ciedade. Comentando a obra de Juliano Moreira e Afrânio
Peixoto, escrevem Venâncio e Carvalhal:

não tínhamos com certeza o mesmo grau de civilização das
sociedades européias. Mas isso não devia significar que es-
taríamos atrelados a condições da ordem da natureza, irre-
versíveis, que nos tornassem irredutivelmente mais afeito

88 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

às doenças mentais do que outros povos. Bastaria inves-
tirmos na higiene e na educação da população brasileira, a
fim de alcançarmos os mesmos padrões civilizatórios: um
indivíduo com condições de vida higiênicas e profiláticas,
bem-educado, em nada ficaria a dever a seus pares euro-
peus, independente da raça a que pertencesse.4

Contudo, a contribuição de Juliano Moreira não
conseguiu apagar totalmente a presença da raça como im-
portante fator explicativo da doença mental na Faculdade
de Medicina do Rio de Janeiro. Integrante de um círculo
próximo a Juliano de Moreira, o catedrático de Psiquiatria
da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Henrique
Belford Roxo, ainda vai apresentar uma produção científica
na qual a raça aparecia, se não como fator determinante da
anormalidade, pelo menos com um peso ainda considerável.
Professor de Xavier de Oliveira, Roxo apresenta ainda os
ecos de uma visão racista. Para Roxo, os negros, se não apa-
recem como naturalmente predispostos a patologias físicas
e mentais, se não trazem a marca genética da degeneração,
aparecem como retardatários no processo de evolução men-
tal, física e cultural. Roxo remetia a condição negra, tanto
para inferioridade física quanto cultural. Herdando um cé-
rebro não desenvolvido, carecia aos negros, condições de
credenciarem-se à plena vivência da cidadania, presos às ori-
gens atávicas, às doenças oportunistas, a uma herança cul-
tural eivada de superstição e incultura. Para chegarem ao es-
tágio do branco seria necessário não apenas transformações
mesológicas, conducentes à extirpação do atraso cultural,
mas também transformações físicas, advindas da evolução:

4

VENANCIO, A. T. A.; CARVALHAL, L. A classificação psiquiátrica de
1910: ciência e civilização para a sociedade brasileira. In: JACÓ-VILELA,
A. M. et al. (Org.). Clio-Psyché. Fazeres e dizeres psi na história do Brasil.
1. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: FAPERJ, 2001. p. 154.

misticismo e doença mental • 89

Suponhamos, porém, que um negro, com esta má tara
hereditária, se transportasse para um centro adiantado e
com sua congênere viesse a ter descendência. Imaginemos,
demais, que esta fosse pouco a pouco progredindo e que
de pai a filho se fosse legando, cada vez mais um cérebro
exercitado, ativo. Dentro de um certo número de descen-
dentes, chegaria, finalmente um com o cérebro tão evoluí-
do quanto de um branco. Seria tão inteligente quanto este.
Vê-se que o meio é o agente por excelência. Vai aprimoran-
do pouco a pouco a raça e o indivíduo e consegue nivelar,
após progressão crescente, lenta e laboriosa, os extremos
da série.5

As ideias de inferioridade racial serão criticadas por
Xavier de Oliveira ao desenvolver estudos sobre a presen-
ça do misticismo no meio rural e urbano brasileiro. Nessas
ocasiões vai romper com a tradição de Nina Rodrigues, ain-
da claramente referenciada na explicação racial desses fenô-
menos. Um dos momentos mais explícitos dessa oposição
à Nina Rodrigues aparece na crítica que faz ao diagnóstico
deste sobre a morte de Antônio Conselheiro. Ao lado de re-
afirmar sua filiação às ideias de Kraepelin, Xavier de Oliveira
rechaçava a relação apresentada por Nina Rodrigues entre
misticismo e mestiçagem. Assim, criticava o diagnóstico
de Nina Rodrigues, para o qual o misticismo de Antonio
Conselheiro aparecia como delírio crônico de evolução siste-
mática
, caracterizado pela involução contínua na capacidade
de perceber lucidamente a realidade, terminando por embar-
car em alucinações místicas, que o apartavam totalmente do
meio circundante. Xavier de Oliveira contestava totalmente
este diagnóstico, mostrando que o Conselheiro enquadra-

5

ROXO, H. B. Moléstias mentais e nervosas. Aulas professadas durante o
ano letivo de 1905 pelo dr. Henrique de Brito Belford Roxo. 1. ed. Rio de
Janeiro: [s.n.], 1906. p. 190.

90 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

va-se como um típico paranoico, na noção de Kraepelin. O
Conselheiro não era um alucinado, totalmente fora de reali-
dade. Ao contrário, seus delírios mantinham uma certa co-
erência, unidos em um contexto lógico, capaz de tornar ve-
rossímil sua pregação.6

Por outro lado, sua misticopatia não
encontrava fundamento, conforme queria Nina Rodrigues,
na sua condição de mestiço. Para corroborar esse posicio-
namento Xavier de Oliveira socorria-se de Jean Finot, que
havia negado estatuto de veracidade à raça como critério de
análise social.7

Xavier de Oliveira compara a descrição de
Finot sobre os chamados irmãos da boa morte, que chegam
ao suicídio coletivo na Rússia do final do século XIX, leva-
dos por um misticismo exacerbado, com a narrativa de Nina
Rodrigues sobre a Hecatombe de Pedra Bonita, ocorrida em
Pernambuco, na primeira metade do mesmo século e que,
igualmente, acabou em uma sucessão de mortes por suicí-
dio. Por outro lado, comparando o Conselheiro a Rasputin,
escreve Xavier de Oliveira:

se compararmos o que se passa nos sertões nordestinos,
habitados por mestiços, com o que sucede na Rússia dos
brancos eslavos, nenhuma diferença encontraremos. Não
há inverter os fatores de uma questão, que, em matéria de
Psiquiatria comparada, deve ter por termos a cultura, a ci-
vilização e o meio, e não a cor branca, preta ou parda da
pele dos indivíduos. Visto o Conselheiro, tal como no-lo
descreve o sábio mestre brasileiro,8

e vista a sua cultura e o
seu meio, comparemo-lo com Rasputin, a sua com a cultu-
ra e o meio onde agiu o monge russo, e nenhuma diferença
fundamental se pode notar num ou noutro, além da que,

6

KRAEPELIN, E. Introduction à la psychiatrie clinique. Paris: Vigot-
Frères, 1907. (1905).

7

FINOT, J. Le préjugé des races. 1.ed. Paris: Alcan, 1905.

8

Refere-se a Nina Rodrigues.

misticismo e doença mental • 91

naturalmente, existia entre o arraial de Canudos e a corte
de São Petersburgo.9

A análise de Xavier de Oliveira sobre os fenômenos
místicos estava estribada no reconhecimento de uma opo-
sição abissal entre os últimos e a religião. O que chama de
misticismo aparecia em sua obra com um sentido restriti-
vo, de deturpação da vivência da religião. É mister que se
diga que o termo misticismo está intimamente relacionado
à possibilidade de uma união direta entre o homem e a
divindade. Nesse sentido, começou a ser usado a partir do
século V por Dionísio, o Aeropagita, tendo o neoplato-
nismo como ponto de referência básico. No sentido em
que o cristianismo entendeu o termo, o mesmo opõe-se
totalmente a ideias ocultistas, ou com práticas mágicas,
que refletem um diferente uso do termo.10

Em Xavier de
Oliveira, o termo foi usado sempre com o sentido de uma
busca do transcendente, da divindade, totalmente fora da
igreja,11

da sua hierarquia, do seu magistério. Nesta acep-
ção, o termo místico refere-se em sua obra, tanto a um ser
carente da verdade ensinada pela igreja, quanto a um dese-
quilibrado, portador de um primitivismo mental, passível
de tratamento adequado. Incluía-se nesta categoria, tan-
to os profetas que estudou no Pavilhão da Assistência aos
Psicopatas da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro
ou os beatos do sertão nordestino, os quais biografou.
Católico convicto (uma de suas obras é dedicada à me-
mória de Jackson de Figueiredo), Xavier de Oliveira via

9

XAVIER DE OLIVEIRA. Espiritismo e loucura. 1. ed. [S.l.]: GEEM,
1930. p. 50.

10

ABBABNANO, N. Dicionário de filosofia. 4. ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2000; GRENA, S. J. et al. Dicionário de teologia. São Paulo: Vida,
2000.

11

O IV Concílio de Latrão, no século XIII firmou o ensinamento agosti-
niano sobre a impossibilidade de salvação fora da igreja.

92 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

o sucesso dos místicos e do misticismo no Brasil direta-
mente vinculado à situação de miserabilidade e incultu-
ra do povo brasileiro. A essa situação somava-se a pouca
presença do estado no esforço civilizador das populações.
Notadamente no nordeste brasileiro, a ausência do estado
contrastava, na sua visão, com a presença da igreja católica.
A igreja aparecia como instituição, cujo trabalho civiliza-
dor
deveria ser seguido pelo estado brasileiro:

A Igreja brasileira, em todos os tempos há trazido um
grande contingente de benefícios à nossa civilização. Seja
nas selvas, aos indígenas dos ínvios sertões brasileiros,
naquelas paragens onde, a não ser o missionário evange-
lizador, só chegam a coragem indômita e o patriotismo
ardente de Cândido Rondon; seja na zona rural do Brasil,
semi-civilizada e semi-bárbara ainda, lá vai ela, carinho-
sa e audaz na sua nobre missão evangelizadora, levar um
pouco de luz ao espírito rude da humilde e boa gente
sertaneja. Sejamos coerentes: no Nordeste, ainda foi a
Igreja que chegou primeiro, precedendo do Estado. Na
região dos tormentos já ela ergueu, corajosa as fortalezas
da fé, nos pontos estratégicos do campo a conquistar [...]
Cumpre, pois, que os governos, ao menos, secundem a
ação do clero, neste de ponto de vista. E com os elemen-
tos deste, que lá estão espalhados por toda parte, fundem
Colégios, para instrução secundária dos moços, e Escolas
Normais oficializadas, onde a mulher sertaneja se pos-
sa habilitar para exercer com proveito a nobre missão de
dar a instrução e educação primárias à infância desvalida e
desprezada daquelas regiões.12

12

XAVIER DE OLIVEIRA. Beatos e cangaceiros. História real, observação
pessoal e impressão psicológica de alguns dos mais célebres cangaceiros
do Nordeste. 1. ed. Rio de Janeiro: [s.n.], 1920. p. 20.

misticismo e doença mental • 93

A impossibilidade de a igreja atuar mais efetivamente,
somada ao descaso do estado estava para Xavier de Oliveira
na raiz social do problema da proliferação do misticismo e
dos místicos:

Lá onde a justiça e a Lei primam pela ausência, quando falta
a Igreja verdadeira, começa o perigo. À falta desta, certa-
mente, é que o Conselheiro edificou a sua em Canudos.
Tipo de fanático, astucioso e audaz, revoltado e egoísta,
delirante e paranóico, formou sectários. No sertão nada
mais natural. Esses fanáticos são, comumente, do mesmo
nível intelectual e moral que o povo, em geral, e, por isso,
as suas idéias e as usas palavras estão ao alcance de todos.
Ademais, a sua vida simples, de fingida humildade, a en-
cobrir o seu egoísmo doentio; as aparentes penitências
que fingem fazer, a bondade calculada com que procuram
reviver a vida do Cristo, que todos conhecem através da
bíblia, tudo isso impressiona as multidões de uma maneira
estonteante. Um “milagre”, quase sempre a cura de uma
histérica, é o selo de santidade do psicopata.13

Tanto Antônio Conselheiro quanto os beatos nor-
destinos e os místicos urbanos que estudou eram portado-
res, para Xavier de Oliveira, da chamada misticopatia. Esta
seria caracterizada como uma psicose de feitio religioso e
de caráter claramente contagioso quando desenvolvidas em
um caldo de cultura próprio, como o sertão nordestino. As
misticopatias não são, para Xavier de Oliveira, caracteriza-
das simplesmente como loucuras religiosas. Como católico
convicto, o autor não aceitava que a vivência da verdadeira
religião pudesse levar à patologia. Encarando a religião ca-
tólica como portadora da verdade, esta não poderia levar

13

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 62.

94 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

ao erro e à doença. Havia, isto sim, vivências mórbidas da
religião, em tudo opostas à verdade revelada e à tradição da
igreja:

Se não há uma loucura religiosa, sintomatologicamente
individualizada, na patologia mental, existem, entretanto,
psicoses de feitio religioso, que se podem generalizar como
uma verdadeira epidemia em certas coletividades, muitas
vezes, acarretando, nesses casos, as mais funestas conse-
quências.14

As epidemias místicas deveriam levar à ações preven-
tivas do estado, capitaneadas, obviamente, pela autoridade
médica, nunca à pura e simples repressão:

É um crime pretender dominar pelas armas, indivíduos
ou coletividades atacados dessas modalidades clínicas da
Psiquiatria; devem ser tratados como doentes, que são,
e, uma vez comprovado o seu mal, o quanto antes, in-
ternados num Asilo-Colônia de Alienados, onde fiquem
em tratamento e em segurança, para o seu próprio bem,
para resguardo da sociedade, e, até, pra tranquilidade
dos governos.15

Afrânio Peixoto (a quem Xavier de Oliveira dedica
Beatos e Cangaceiros) tinha a mesma opinião. Na introdução
do seu romance Maria Bonita, refere-se a um personagem,
um velho de longas barbas brancas, um santão do sertão, nas
suas palavras, que à maneira de Antônio Conselheiro e Padre
Cícero, contagiava as multidões de todo o Brasil, levando-as
ao fanatismo coletivo. Ao contestar o diagnóstico de Nina
Rodrigues sobre o Conselheiro, Afrânio Peixoto reafirma-

14

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 185.

15

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930.

misticismo e doença mental • 95

va a necessidade de combater essas manifestações, não pela
repressão, mas pela educação e condução das populações in-
cultas. Nesse trabalho educador e condutor, logicamente, a
medicina credenciava-se como elemento de proa:

Talvez o diagnóstico de loucura que lhe fez Nina Rodrigues,
ou de crime, a que aludiu Euclides da Cunha, seja indevido
e injusto, salvo transpondo os termos: loucos e criminosos
serão aqueles, representantes de uma civilização incapaz,
que não souberam ou não puderam esclarecer e governar
essas rudes massas populares, largadas pela ignorância a
todos os impulsos, e no momento do perigo destroem,
brutalmente, o que não conseguiram educar e conduzir,
quando não transigem, vergonhosamente à força maior
deles. Canudos e Juazeiro são as duas soluções, que ambas
depõem contra nós.16

Na sua análise dos casos de misticopatias, Xavier de
Oliveira permanece fiel ao modelo classificatório propos-
to por Juliano Moreira. Este, a partir de Kraepelin, buscava
classificar os doentes mentais, chegando mesmo ao consi-
derado inclassificável pela ciência médica do século XIX: os
anormais. Para Portocarrerro,17

a concepção de anormalida-
de
como psicopatologia é a grande novidade da Psiquiatria
do século XX, manifestando-se o comportamento anormal
nas chamadas personalidades psicopáticas, incluídos nesta
categoria os criminosos, instáveis, querelantes. Os mistico-
patas estudados por Xavier de Oliveira, enquadravam-se
totalmente na noção de anormalidade enquanto psicopa-
tologia. A partir do seu diagnóstico, só restava aos misti-

16

PEIXOTO, Afrânio. Maria Bonita. 1. ed. [S.l: s.n.], 1914.

17

PORTOCARRERO, V. Arquivos da loucura. Juliano Moreira e a des-
continuidade histórica da Psiquiatria. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora da
Fiocruz, 2002. p. 39.

96 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

copatas submeterem-se à autoridade do médico, capaz de
submetê-los à disciplina. Daí o porquê do autor justificar a
internação dos mesmos, invocando o resguardo da sociedade
e a tranquilidade dos governos. É interessante que a análise
de Xavier de Oliveira sobre as misticopatias, se contestava
as teses de Nina Rodrigues, coincidia com as mesmas em
um ponto: no reconhecimento da periculosidade e no reco-
nhecimento do caráter subversor dos místicos. Os mesmos
eram encarados como anormais, portadores de um com-
portamento antissocial e extremamente contagioso quan-
do tinham como cenário um meio sócio-cultural atrasado.
Faziam parte de todo um repertório de reivindicadores,
querelantes, que infestavam o meio rural e urbano brasilei-
ro. Esses reivindicadores apresentavam um comportamen-
to com explícitas interfaces com a negação da república e
da cidadania. Os misticopatas apresentavam, para Xavier
de Oliveira, delírios no qual imaginavam, interpretavam e
reivindicavam. Imaginavam coisas relacionadas à religião,
ao sobrenatural, interpretavam a seu modo, portanto, he-
terodoxamente, os ensinamentos religiosos que receberam
e reivindicavam um lugar proeminente para o divino numa
ordem política a ser constituída, já que a atual era julgada
oposta à vontade de Deus. Nina Rodrigues, anteriormente,
já admitia um comportamento político totalmente anti-re-
publicano em Antônio Conselheiro e seus seguidores. Com
isso, Nina Rodrigues propunha uma explicação do com-
portamento dos povos considerados primitivos baseado
no estágio de evolução mental apresentado pelos mesmos.
Endossava uma linearidade universal entre o primitivo e o
civilizado, no qual o primeiro movia-se por um horizon-
te intelectual claramente apartado dos códigos lógicos que
norteavam os últimos. Daí por que Nina Rodrigues referir-
se aos alienados como primitivos institucionalizados e ante-
cipar, para Marisa Correa, o conceito de mentalidade pré-

misticismo e doença mental • 97

lógica de Levy-Bruhl.18

A Vendéia brasileira que Euclides da
Cunha propalava no início de sua cobertura jornalística a
Canudos coincidia com a narrativa de Nina Rodrigues. Para
ele as provas da psicose progressiva de Antônio Conselheiro
tornavam-se mais consistentes à medida que as terras sob
a sua autoridade passavam a representar a alternativa mo-
nárquica à república que condenava. As leis eram as da mo-
narquia, a moeda aceita somente a que ostentasse a esfinge
de D. Pedro II, o povo era incitado contra o pagamento de
impostos ao governo republicano e não reconhecia validade
nos atos de um estado que julgava opressor e usurpador do
poder religioso. Todas essas evidências corroboravam o pri-
mitivismo mental do Conselheiro e seus seguidores:

Para acreditar que pudesse ser outro o sentimento político do
sertanejo, era preciso negar a evolução política e admitir que
os povos mais atrasados e incultos podem, sem maior pre-
paro, compreender, aceitar e praticar as formas de governos
mais liberais e complicadas. A população sertaneja é e será
monarquista por muito tempo, porque no estágio inferior da
evolução social em que se acha, falece-lhe a precisa capacidade
mental para compreender e aceitar a substituição do repre-
sentante concreto do poder pela abstração que ele encarna,
– pela lei. Ela carece instintivamente de um rei, de um chefe,
de um homem que a dirija, que a conduza, e por muito tempo
ainda o presidente da República, os presidentes dos Estados,
os chefes políticos locais serão o seu rei, como, na sua inferio-
ridade religiosa, o sacerdote e as imagens continuam a ser os
seus deuses. Serão monarquistas como são fetichistas, menos
por ignorância, do que por um desenvolvimento intelectual,
ético e religioso, insuficiente ou incompleto.19

18

CORREA, M. As ilusões da liberdade. A escola de Nina Rodrigues e a
antropologia no Brasil. 1. ed. Bragança Paulista: Edusf, 1998.

19

NINA RODRIGUES, R. A loucura epidêmica de Canudos. Antônio

98 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Por outro lado, no relato de Nina Rodrigues sobre
a Hecatombe da Pedra Bonita, referenciado por Xavier de
Oliveira, aparece a figura de João Santos, que consegue le-
var a população de Flores, situada no centro de Pernambuco
a cultuá-lo como rei. O rei João Santos pregava que naquele
lugar existia um país encantado, fabulosamente rico, onde
um outro rei, d. Sebastião, viria trazendo fortuna e felicida-
de aos seus seguidores: “os negros e os mestiços se torna-
riam brancos, os velhos rejuvenesceriam, os pobres ficariam
imediatamente milionários poderosos e imortais”.20
Os ecos do posicionamento de Nina Rodrigues apa-
recem, sem dúvida, em Xavier de Oliveira, ao coincidirem
ambos quanto à periculosidade e subversão dos místicos
frente às instituições republicanas. Os místicos aparecem,
não apenas como à margem da civilização, como em íntima
conexão com o crime. Assim, o autor via um círculo vicio-
so, que unia o jagunço de Canudos ao romeiro de Juazeiro
em uma comum galeria terrorista. Na introdução de Beatos
e Cangaceiros
, escrevia Xavier de Oliveira, fazendo menção
a duas figuras emblemáticas deste círculo vicioso, marcado
pela ausência de civilização e descaso do estado: Pedro Pilé
e o Beato Vicente.

desde a figura macabra de Pedro Pilé, o jagunço baiano que
defendeu, do princípio ao fim, o reduto do Conselheiro,
seu Bom Jesus de Canudos, até a individualidade, essen-
cialmente fanática do Beato Vicente, o pernambucano de
origem holandesa, que, de quando o conheço, só deixou
o machado de lenhador, para pegar no bacamarte boca de
sino, com que defendeu heroicamente o lugar santo de seu
“padrinho” Cícero de “sua Mãe das Dores! Sem o querer,

Conselheiro e os Jagunços. In: RAMOS, A. (Org.). As coletividades
Anormais.
1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1939. p. 70.

20

NINA RODRIGUES, 1939 apud XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 55.

misticismo e doença mental • 99

caí num círculo vicioso: vim do jagunço de Canudos ao
romeiro de Juazeiro. Mas, é nesses dois extremos que se
acha a galeria terrorista, que me proponho movimentar.21

Os delirantes do sertão nordestino não esgotavam,
para Xavier de Oliveira, as possibilidades de desenvol-
vimento das chamadas misticopatias. Ele relata casos de
pacientes diagnosticados como misticopatas, entrados na
Clínica Psiquiátrica da Faculdade de Medicina do Rio de
Janeiro (Instituto Teixeira Brandão). O que diferia de um
caso a outro era o meio social, capaz, o sertão, de represen-
tar o caldo de cultura ideal para a contaminação da patolo-
gia e a cidade, de dificultar a ação contagiosa dos místicos.
Assim, comparando o Conselheiro com Teófilo Conceição,
um interno que se dizia amante de Deus e profeta de Santo
Inácio
, escreve:

Estou que o Conselheiro não lhe levaria vantagem ponde-
rável como fanatizador de gente inculta, crédula e belicosa
dos sertões. E assim, bem se compreende o perigo de uma
incursão sua àqueles lugares de onde veio e para onde, aca-
so, volte... Atualmente, seu campo de ação é o subúrbio de
Inhaúma, a cujo cemitério chama “Vale de Josafá, Terra da
Promissão” para onde hão de vir todos os povos do mundo
a escutar a palavra de Deus por sua voz.22

Na descrição que fez de Teófilo Conceição e sua se-
guidora, a italiana Cecília Paniche, tida como profetisa e
capaz de manter contato direto com Santo Inácio, Xavier
de Oliveira mostrava o colorido monárquico dos delírios à
dois
por eles revelados. Por intermédio de Cecília Paniche,

21

XAVIER DE OLIVEIRA. O magnicida Manço de Paiva. Rio de Janeiro:
Benedito de Souza, 1928. p. 14.

22

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 105.

100 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Santo Inácio teria previsto o assassinato do rei D. Carlos de
Portugal, tendo, inclusive a profetisa escrito à rainha dona
Amélia, relatando o aviso.23

Por outro lado, na descrição
do comportamento de outro interno, Laureano Ojeda, o
Profeta da Gávea, Xavier de Oliveira relata que o mesmo
dizia-se pertencer a uma família privilegiada com contatos
com a divindade. Seus irmãos, já falecidos estariam, atual-
mente, na corte celeste, à sua espera.24
Os místicos figuravam, para Xavier de Oliveira, en-
tre os reivindicadores que poderiam chegar aos compor-
tamentos mais radicais e antissociais, podendo suas ideias
fixas de missão, eleição, contato com o sobrenatural, trans-
formá-los em lideranças perniciosas, difusoras da doença
mental. Imersos em uma estrutura de pensamento primiti-
va (a aproximação com Nina Rodrigues é evidente, apesar
da contestação a suas teses), Xavier de Oliveira associava
sempre a presença da monarquia nos delírios megaloma-
níacos dos místicos. Assim, sempre haveria uma tendência
a aparecer delírios com associações monárquicas, girando
em torno, não só de reis, rainhas, como de símbolos reais,
como coroas, cetros. Xavier de Oliveira cita como exemplo
de magnicidas místicos, Aimée-Cecile Renault, acusada de
conspirar contra a vida de Robespierre e o monge Jacques
Clément, assassino de Henrique III. A primeira, apresen-
tada como uma fanática, capaz de expor sua vida pela vol-
ta da monarquia e o segundo, como um regicida, mas que,
apesar disso, apresentava visões noturnas reveladoras de
delírios de colorido explicitamente monárquicos. Nessas
visões, um anjo lhe apresentava uma clava, prometendo-lhe
atributos reais em troca da morte do rei: “pensa, pois em
ti, como te irá bem a coroa do martírio que te está sendo

23

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 109.

24

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 164.

misticismo e doença mental • 101

preparada”.25

Como em todos os reivindicadores místicos,
Xavier de Oliveira identifica nos atos de Jacques Clément
um conteúdo claramente avesso à noção de cidadania repu-
blicana: “há sempre uma aproximação entre os místicos e os
monarquistas”.26

Na atualidade, o médico via persistir o caráter pa-
tológico e primitivo desses “reivindicadores místicos”, no
espiritismo, “visto como uma nova epidemia de loucura re-
ligiosa, igual a tantas outras que a tem castigado em épocas
diversas de sua evolução, e no só domínio do sentimento
religioso”. O mesmo primitivismo mental dos sertanejos, a
mesma periculosidade social, o mesmo caráter contagioso
a exigir uma pronta ação do estado. O sucesso do espiritis-
mo no século XX é visto como prova da sobrevivência, da
“mesma mentalidade do totem e do tabu”.27
O olhar de Xavier de Oliveira é típico de uma nova fase
da Psiquiatria, voltada para a classificação social e ação pre-
ventiva frente aos considerados perigosos. Esquadrinhando
a população, a Psiquiatria classificava, não só o desvio da
norma, como passava a prever o próprio comportamento
anormal. A obra de Xavier de Oliveira integra, com a de
outros psiquiatras do período, uma tendência ao alarga-
mento na ação da Psiquiatria, que passa a ocupar-se com a
medicalização da sociedade como um todo. Nesse sentido,
é importante atentarmos para medidas como a criação da
Liga Brasileira de Higiene Mental, com funções claramente
preventivas e interventoras. Assim, ao denunciar os místi-
cos e detectar a misticopatia, ao avaliar a periculosidade e o
caráter subversor dos mesmos, Xavier de Oliveira cumpria
as funções interventoras e preventivas, com as quais se ar-
mou a Psiquiatria a serviço da disciplina.

25

XAVIER DE OLIVEIRA, 1928, p. 70.

26

XAVIER DE OLIVEIRA, 1928, p. 66.

27

XAVIER DE OLIVEIRA, 1930, p. 12.

102 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

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a loUcUra sob Um oUtro olhar • 105

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