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História e loucura

História e loucura

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História e Loucura: saberes, práticas e narrativas
História e Loucura: saberes, práticas e narrativas

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a ordeM psiquiátrica e a Máquina de
curar: o hospício nossa senhora da
luz entre saberes, práticas e discursos
sobre a loucura (paraná, final do
século xix e início do século xx)1

Maurício Noboru Ouyama2

“O asylo bem organizado é o mais poderoso instru-
mento contra as doenças mentais.”
Rodolfo Pereira Lemos,
médico do Hospício Nossa Senhora da Luz, 1912.

“Se existe classe que mereça uma vigilância esclareci-
da, benévola e ativa é a dos doidos”.
Sigaud, Reflexões acerca do livre trânsito dos doidos
pelas ruas do Rio de Janeiro
, 1835.

1

Este trabalho foi escrito como resultado parcial das pesquisas feitas para
a confecção de minha tese de doutorado apresentada ao curso de Pós-
Graduação em História da Universidade Federal do Paraná em março de
2006.

2

Doutor em História – Universidade Federal do Paraná.

144 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Figura 1 – Edifício André de Barros3

Um espaço, um jardim patológico:
o mundo dos loucos

Quem entra no Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora

da Luz4

tem a sensação de que a liberdade foi deixada para

trás.5

Logo na entrada, a imponência do edifício André de

Barros assusta.6

Mas, um pouco depois, a natureza se des-
taca do concreto no amplo jardim central em que se dis-
tribuem os pavilhões de internamento. E o que os olhos
registram é a passagem para um outro cenário, que muitas
vezes não tem volta.

3

CASTRO, E. A arquitetura do isolamento em Curitiba na República Velha.
Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 2004. p. 36.

4

Agradeço a Elisabeth A. de Castro pela autorização das imagens referen-
tes ao Hospício Nossa Senhora da Luz. Cf. CASTRO, 2004.

5

Visitei o Hospício Nossa Senhora da Luz pela primeira vez em 2001 na
época do meu mestrado. Foram várias visitas no período entre 2001 e
2005 em que alternei minha pesquisa entre a documentação existen-
te no Hospício Nossa Senhora da Luz, nos arquivos da Santa Casa de
Misericórdia, na Casa da Memória e Arquivo Público do Paraná.

6

O edifício André de Barros abriga o setor administrativo e a capela do
Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz.

Figura 1 –Edifício André de Barros

onte: Castro (2004, p. 36).

F

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 145

Quem quer que visite um hospital moderno tem a
sensação de que dentro do asilo, nos confins da cidade, uma
estranha e perturbadora fauna e flora hospitalar emergem,
desencadeando velhos gestos do passado, toda uma maqui-
naria do asilamento.7

A rotina do hospital parece inalterada há mais de cem
anos. Fotografias tiradas por ocasião do seu cinquentená-
rio assemelham-se a realidade que conheci por ocasião de
minhas pesquisas no hospital em 2001. Entrar no hospício
Nossa Senhora da Luz e deparar-se cara a cara com a lou-
cura contemporânea – drogada, medicalizada, classificada
– é uma experiência perturbadora. Exemplos de abandono
familiar são comuns naquele lugar: pessoas que por suas
atitudes diferentes ou por algum outro motivo são levadas
para lá. Rostos solitários de indivíduos sem identidade, que
não se lembram do sobrenome e que não tem para onde ir.
Lembranças expressas na fala balbuciante e no gesto desco-
nexo de uns ou no silêncio guardado a sete chaves de ou-
tros. Em cada rosto, quase sempre a mesma característica:
olhar parado, curioso, que fica imóvel em frente à televisão.
Às vezes, um grunhido incompreensível é acompanhado de
um dedo em riste, outras vezes, acompanhado de urina calça
abaixo. Uma confusão reinante que chamamos de loucura.
Criado em março de 1903 pelo monsenhor Alberto
Gonçalves, provedor da Santa Casa de Misericórdia, o
Hospício Nossa Senhora da Luz foi idealizado para ser
referência no Paraná,8

tendo como modelo o hospício do

Juquery em São Paulo.9

O Hospício Nossa Senhora da Luz

7

Cf. os grandes rituais da maquinaria asilar ou do Tratamento Moral dos
loucos estão descritos em FREMVILLE, B. La Raison du plus fort: traiter
ou maltraiter les fous? Paris: Seuil, 1987.

8

MUNHOZ VAN ERVEN, H. Breve histórico do Hospital Psiquiátrico
Nossa Senhora da Luz.
Curitiba: Mundial, 1944.

9

CUNHA, M. C. O espelho do mundo: Juquery, a história de um asilo. São
Paulo: Paz e Terra, 1988.

146 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

teve duas sedes. Primeiramente, funcionou no terreno cons-
truído no bairro do Ahú. Quatro anos após sua inaugura-
ção, o hospício foi transferido para sua sede atual no outro
lado da cidade, na Rua Marechal Deodoro da Fonseca, bair-
ro do Prado Velho.

Atualmente, o hospital é administrado pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná. São 130.000 m2

de área
construída, cinco pavilhões na ala masculina e três pavi-
lhões na ala feminina. Uma instituição mais que centenária,
é, ainda hoje, um dos hospitais psiquiátricos do Paraná. Sua
história confunde-se com a própria história da Psiquiatria
paranaense. As jaulas dos quartos de confinamento do
passado sumiram, mas a solidão continua a rondar o espa-
ço.10

Diante dos mil rostos da desordem, perceber o espaço
hospitalar como uma experiência histórica requer a exigên-
cia de ultrapassar a esta questão urgente para os Direitos
Humanos: o que fazer com os loucos? – e perceber o hospício
como uma instituição social, como objeto privilegiado para
o campo da análise histórica.

Hospital e história social

Durante muito tempo, o hospital e, sobretudo, o hos-
pital psiquiátrico, manicômio ou hospício, não era objeto
de investigação nos círculos acadêmicos por ser conside-
rado um tema inferior ou secundário. Domínio exclusivo

10

Num ensaio sobre Win Wenders, Peter Pál Pelbart comenta que o
Hospital-Dia, forma em que os pacientes não são internados, mas vol-
tam para casa no final do dia, é como a Nau dos Loucos descrita por
Michel Foucault em História da Loucura. “[...] mas que ao invés de va-
gar à deriva das águas, como na Renascença, aportou em solo urbano”.
A explicação nos pareceu oportuna, pois o Hospital-Dia, forma ado-
tada pelo Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Luz, também pode
despontar como um dispositivo a mais de homogeneização social. Cf.
PELBART, P. P. A Nau do Tempo-Rei: sete ensaios sobre a loucura. Rio
de Janeiro: Imago, 1993. p. 22.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 147

da doença e da morte, da técnica e do sobrenatural num
mesmo gesto, o hospital não era digno de discussão pelos
estudiosos. Mas os tempos mudaram. Agora, o hospital e as
políticas de saúde pública são objetos dos cálculos econô-
micos, como demonstrou Michel Foucault em seus cursos
Em defesa da Sociedade e Nascimento da Biopolítica.11

O
campo social se alargou imensamente. Deste modo, o hos-
pital tornou-se objeto da historiografia recente, inspirada
nos trabalhos de Robert Castel e Michel Foucault,12

Pois o
estudo da instituição asilar tornou-se um terreno fértil para
engendrar discussões a respeito do papel político e social
dos saberes.

Efetivamente, o meio médico tem tentado revestir o
discurso sobre o hospital de modo hegemônico, do ponto
de vista da evolução da técnica, recobrindo as críticas de
seus opositores. Mas a complexidade das relações do espa-
ço hospitalar não deve limitar-se ao foco da sua gestão e
das constantes evoluções técnicas. O hospital, o hospício,
o asilo de alienados, não pode ser visto como simples téc-
nica de gerenciamento, nem pode ser entendido como algo
descolado de seu campo social. Mesmo o estabelecimento
hospitalar não é administrado da mesma forma que o orga-
nismo público. Médicos e psiquiatras estão imbuídos numa
teia complexa de relações de poder. Nem tudo na vida deve
ser revestido da sacralidade com que alguns pretendem cir-
cundar o ato médico ou sua criação maior, o hospital. Para
transformar o hospital (e suas variações: o leprosário, o

11

Michel Foucault realizou os cursos “É preciso defender a sociedade”
(1975-1976) e “Nascimento da Biopolítica” (1978-1979) no Collège de
France, cujos resumos encontram-se disponíveis em FOUCAULT, M.
Resumo dos cursos do Collège de France. 1970-1982. Rio de Janeiro: Zahar,
1997.

12

FOUCAULT, M. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo:
Perspectiva, 1999a; CASTEL, R. A ordem psiquiátrica: a Idade de Ouro
do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.

148 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

hospício, a casa de internamento, o lazareto), é preciso ir
além da técnica e explicar suas razões e seus conflitos den-
tro do campo social.

Foi dentro destas discussões que este trabalho sur-
giu, tendo como referência os estudos seminais de Michel
Foucault em História da Loucura. Tendo iniciado minha pes-
quisa em 1999, este trabalho resultou na feitura de uma tese
de doutorado, em 2006, com o título de Uma máquina de
curar: o Hospício Nossa Senhora da Luz e a formação da tecno-
logia asilar
13

cujo teor evoco brevemente nas linhas a seguir.

“(Re)construindo o cenário”:
Curitiba no final do século XIX e início do XX

A velha vila enfezada marcha para um novo

desenvolvimento”.14

Estas palavras do viajante Ave-
Lallemant definem bem o período de transformações pelo
qual Curitiba passou nas últimas décadas do século XIX.
Para entender o surgimento do Hospício Nossa Senhora
da Luz em Curitiba é preciso conhecer a Curitiba de um
século de mudanças que significou, entre outras coisas, na
transformação da cidade em capital da Província do Paraná.
O Paraná Província, independente de São Paulo desde 1853,
teve de se adaptar a partir da segunda metade do sécu-
lo XIX a uma série de exigências político-administrativas
do Império para sua transformação à condição de capital.
Nesta época, como nos demonstrou o historiador curitiba-
no Romário Martins em seu livro Curitiba de outr´ora e de
hoje
, a cidade era

13

Agradeço imensamente a minha orientadora Ana Paula Vosne Martins e
igualmente a banca examinadora composta por Yonissa Wadi (Unioeste),
Luiz Otávio Ferreira (Fiocruz), Ana Maria Oda (Unicamp) e Ana Maria
Burmester (UFPR) pelas sugestões pertinentes.

14

AVÉ-LALLEMANT, R. Viagens pelas Províncias de Santa Catarina,
Paraná e São Paulo
. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 149

uma insignificância, que de cidade só tinha o predicamen-
to official. Possuía 27 quarteirões, com 308 casas, 52 em
construção, 38 estabelecimentos comerciais de fazendas e
35 secos e molhados.15

Da mesma forma que cidades como Paris, Viena,
Londres e Rio de Janeiro passaram por grandes transfor-
mações urbanas no fin-de-siècle, Curitiba também atraves-
sava um momento de transformação, palco de construções
públicas, bulevares, avenidas, casebres, praças e jardins, lo-
gradouros e macadam. A cidade outrora descrita como um
acampamento militar, agora ganhava novos traços.
Não se pretenderia dizer que Curitiba oitocentista,
pacata e provinciana, imprimiu um mesmo ritmo de mu-
danças das grandes metrópoles do mundo. Mas também
nesta cidade, as transformações se fizeram presentes. Foi
necessário que uma nova concepção de cidade surgisse.
Como capital de Província, Curitiba deveria passar a ser um
exemplo de civilização, de morigeração,16

como diziam as
elites paranaenses. A partir daí, a cidade passaria a ser cons-
truída como uma cidade idealizada, ideal, determinando o
modus vivendi da população urbana.
Curitiba já teve seu primeiro plano urbanístico em
1857, que ficou sob a responsabilidade engenheiro francês

15

MARTINS, R. Curityba de outr´ora e de hoje. Curitiba: Ed da Prefeitura
Municipal de Curitiba, [19--]. p.170-171.

16

Morigerar ou morigerado eram termos frequentemente usados na docu-
mentação oitocentista do Paraná. Atualmente em desuso, o termo morige-
rar correspondia à ida de “comportar-se de acordo com os costumes”, de
portar-se segundo regras socialmente aceitas pela elite. Naquela sociedade,
eram considerados não morigerados os escravos, as prostitutas, os andari-
lhos, os vadios, os mendigos, jogadores, trapaceiros etc. que se opunham a
ordem e aos bons costumes impostos pela elite paranaense. Cf. PEREIRA,
M. Perigosos, imorais e não-morigerados. In: ______. Semeando iras rumo
ao progresso
: ordenamento jurídico e econômico da Sociedade Paranaense
(1829-1889). Curitiba: Ed. da UFPR, 1996. p. 89.

150 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Pierre Taulois.17

Uma das concepções adotadas pelo enge-
nheiro era o paralelismo das ruas, apontando para o modelo
de cidade com forma regular, quadrilátera, com quadras per-
feitamente adensadas, tendo o cruzamento em ângulos retos
e bem definidos. Demonstrava-se com o plano urbanístico
de Taulois a preocupação com a circulação dentro da malha
urbana, trazendo os princípios científicos da engenharia fran-
cesa, em que o gerenciamento da circulação espacial já estava
sendo encarado como uma necessidade, desde as reformas
do Barão de Haussman em Paris, para a construção de uma
sociedade homogeneizada e disciplinada.
Na mesma época, por volta de 1858, o viajante alemão
Robert Avé-Lallemant passou por Curitiba e a descreveu da
seguinte forma:

Chegara eu a cidade de Curitiba. Por isso talvez é que
me surpreendeu muito agradavelmente a cidade de uns
cinco mil habitantes. Naturalmente nela nada se encon-
tra de grande ou grandioso. Em tudo, nas ruas e nas ca-
sas, mesmo nos homens, se reconhece uma dupla na-
tureza. Uma é a da velha Curitiba, quando esta ainda
não era uma capital de província, mas um modesto lugar
central, a quinta comarca de São Paulo [...]. Na segunda
natureza, ao contrário, se expressa decisiva regeneração,
embora não apareça nenhum grandioso estilo renascen-
ça. Em resumo, a velha vila marcha enfezada rumo ao
um novo desenvolvimento.18

17

Pierre Taulois, engenheiro francês, foi um dos fundadores da Colônia
Thereza (1847) situada próximo a Guarapuava-PR. Logo após a sua
chegada a Província do Paraná, foi contratado como Inspetor Geral de
Medição e Demolição das Terras Públicas. Cf. OS FRANCESES em
Curitiba. Boletim Informativo da Casa Romário Martins, Curitiba, v. 16,
n. 84, p. 13-15, jul. 1989.

18

AVÉ-LALLEMANT, 1980, p. 274.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 151

Ave-Lallemant descreveu Curitiba de meados dos
oitocentos como uma velha vila enfezada que marcha para
o novo desenvolvimento. Porém, outros viajantes europeus
que passaram pela cidade na mesma época, acostumados
com as grandes metrópoles, emitiram pareceres diferentes,
como é o caso do inglês Thomas Bigg-Wither, que esteve
em Curitiba em 1872:

A falta de agulhas de terrores ou de edifícios altos ou
mesmo das usuais chaminés dá a Curitiba, vista de lon-
ge, aspecto muito diferente de uma cidade inglesa. Quase
se podia classificá-la de aglomerado de tendas e cabanas,
formando o campo de um exército na expectativa de re-
ceber ordens de partir para outra localidade. O costume,
quase universal, de pintar as casas de branco fortalece esta
semelhança.19

A cidade doente: o discurso dos médicos sanitaristas

Apesar das descrições do engenheiro Thomas Bigg-
Wither, ao longo do século XIX, encontram-se diversos do-
cumentos como Relatórios dos Presidentes de Província e
nas Posturas Municipais, e escritos dos médicos sanitaristas
como Trajano dos Reis e seu filho Jayme dos Reis, preocu-
pações sobretudo com a questão da salubridade, tema cor-
rente no século XIX, que se faz presente por meio das leis
e decretos emitidos pela Câmara Municipal. Já que a cidade
começava a se adensar, transformando-se em local de aglo-
meração de pessoas de diferentes classes sociais e costumes,
o meio urbano se transformava em local favorável a trans-
missão de doenças e epidemias.

19

BIGG-WITHER, T. Novo caminho no Brasil Meridional: a província do
Paraná. Três anos de vida em suas florestas e campos 1872-1875. Rio de
Janeiro: J. Olympio, 1974. p. 51.

152 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

A segunda metade do século XIX demonstrou uma
necessidade de transformar estes espaços em um local de
ordem e urbanização. O combate à insalubridade que se de-
sencadeou na capital paranaense nas últimas décadas do sé-
culo XIX originou um processo de planejamento de novas
formas de organização, base da urbanística moderna, e uma
formulação de leis e decretos no que tange a questão da saú-
de e salubridade pública nas posturas municipais. O médi-
co Trajano Reis escreveu seu trabalho intitulado Elementos
de Hygiene Social,
em 1894, apontando para a necessidade
de trazer à população hábitos de higiene e asseio.20

Seu fi-
lho, quatro anos mais tarde, publicou no Rio de Janeiro,
sua tese de medicina, na cadeira de Higiene, intitulada Das
Principais Epidemias e Endemias de Curitiba
.21

O projeto de
civilização e morigeração abraçado pela elite paranaense na
segunda metade do século XIX, que supunha implementar
a riqueza, o progresso, a modernização e a civilização na ca-
pital da Província, esbarrava-se com o temor das epidemias
e da insalubridade urbana, território também dos conflitos,
do não morigerado, do escravo, das classes perigosas.22

O
meio urbano tinha esta outra face, hostil, ameaçadora, peri-
gosa. Dentro desta experiência da nova estética e ideologia
burguesa, a oposição estava clara entre a intensidade da po-
breza e o deslumbramento do mundo burguês.23

Oposição
irreconciliável que levava ao desejo de domesticação ou vi-
gilância do homem pobre nos espaços públicos.
A partir daí o meio urbano passou a ser à medida que

20

REIS, T. dos. Elementos de hygiene social. Curitiba: Typ. Paranaense,
1894.

21

REIS, J dos. Dissertação das principais endemias e epidemias de Curityba.
Rio de Janeiro: Typ Ribeiro Macedo, 1898.

22

DE BONI, M. I. M. O espetáculo visto do alto: vigilância e punição em
Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998.

23

RAGO, M. Do cabaré ao lar: a utopia da cidade disciplinar. São Paulo: Paz
e Terra, 1985.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 153

dá a esse homem pobre a conotação patológica, conforme
seu odor, sua habitação, seu vestuário, enfim, seu modus
vivendi
. A imprensa local alardeava a existência incômoda
de uma “romaria de cegos, aleijados, tísicos, etc. com seus
farrapos, com suas chagas, com sua pugentíssima miséria”24
nas ruas da capital paranaense. A estratégia das elites para-
naenses no final do século XIX provoca a distinção entre o
burguês desodorizado e o pobre infecto,25

induzindo a estra-
tégia higienista de Trajano e Jayme dos Reis que assimila a
desinfecção do espaço público a submissão e docilização do
homem pobre.

Foi neste cenário, que reconstruímos brevemente,
que se desenvolveram as primeiras estratégias de medica-
lização
da loucura em Curitiba. Nos anos finais do século
XIX e início do século XX a loucura passou a ser tratada com
outro olhar. O louco que emerge desta discussão como um
problema social, vai se ver dotado de um completo status de
alienado: medicalizado, classificado, confinado em cubícu-
los, excluído do convívio social. Transformação da loucura
em doença, em fenômeno patológico, mas doença diferente,
exigindo, por este motivo, um tipo específico de medicina
para tratá-la: justamente a Psiquiatria. Um saber de tipo mé-
dico que torna a loucura objeto, que a considera como uma
doença e uma prática com finalidade de curá-la por meio de
um tratamento físico e moral só se consolida em Curitiba
nas décadas finais do século XIX. Donde a tese principal des-
ta pesquisa, considerando que é impossível compreender a
constituição da Psiquiatria no Paraná sem elucidar as práti-
cas e discursos sobre a loucura que levaram a construção do
primeiro asilo de alienados em Curitiba, o Hospício Nossa
Senhora da Luz. Situada à margem das grandes metrópoles,

24

Diário da Tarde, 05 jun. 1909.

25

Cf. CORBIN, A. Saberes e odores: o olfato e o imaginário social nos sé-
culos dezoito e dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

154 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

a Psiquiatria no Paraná desenvolveu estratégias semelhantes
de consolidação de seu poder (consolidação de um espaço
institucional, extensão geográfica e político-administrativa
dos médicos rumo ao cargo de médico-chefe, desenvolvimen-
to do papel de perito atribuído ao médico, desqualificação de
outros discursos leigos sobre a loucura etc.). Se no Paraná, o
atraso em relação ao surgimento da primeira instituição psi-
quiátrica se explica pela falta de um espaço adequado, a emer-
gência do discurso sobre a necessidade de um hospício em
terras paranaenses demarca as primeiras conquistas de um
saber em formação. O objetivo deste trabalho é mapear as
origens das primeiras práticas em que o tratamento destinado
aos loucos começa a se distanciar dos demais desajustados ou
excluídos da sociedade. A loucura é retirada da universalida-
de abstrata da miséria e ganha um estatuto médico. Mapear
este deslocamento decisivo nos ajuda a entender o processo
de medicalização da loucura no Paraná e o desenvolvimen-
to de uma tecnologia alienista em que o hospício se tornaria
uma máquina de curar loucos.

Aos loucos, o hospício!

A emergência do discurso sobre a necessidade de
construção de um hospital psiquiátrico em Curitiba se dá
quase 50 anos após a criação do primeiro hospício no Brasil,
o D. Pedro II.26

Se no Rio de Janeiro, o surgimento do pri-
meiro hospício brasileiro foi fruto de um movimento desen-
cadeado pelos médicos da Academia Imperial de Medicina
como Francisco Xavier Sigaud, Luiz Vicente de Simoni, José
Martins Cruz Jobim, Jean Maurice Faivre,27

entre outros,

26

Cf. MACHADO, R. et al. Da(n)ação da norma: medicina social e consti-
tuição da Psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1978. p. 365 et seq.

27

ENGEL, M. Delírios da razão: médicos, loucos e hospícios. Rio de
Janeiro: Ed. da Fiocruz, 2001.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 155

que utilizavam periódicos médicos O Semanário de Saúde
Pública
, Diário de Saúde e a Revista Médica Fluminense,
para veicular o movimento em defesa da construção do hos-
pício, em Curitiba não há nenhum movimento organizado
da classe médica. O movimento desencadeado para a cons-
trução do hospital psiquiátrico, ou como era chamado na
época asilo de alienados, foi desencadeado primeiro na im-
prensa e na fala dos Secretários dos Negócios do Interior,
Justiça e Instrução Pública. É significativo que o discurso
sobre a necessidade da construção de um estabelecimento
especial para os loucos não tenha sido motivado pela clas-
se médica.28

Outros atores, os filantropos, os políticos, a
Santa Casa de Misericórdia, os Chefes de Polícia, dão vo-
zes aos ecos dos primeiros discursos sobre a necessidade de
um espaço diferenciado. Este trabalho mapeia a emergência
do discurso sobre a loucura no Paraná usando como base
dois cenários distintos. O primeiro é o da Santa Casa de
Misericórdia
, cenário em que se deram as primeiras reivin-
dicações sobre a construção de um asilo de alienados no
Paraná. O segundo cenário é o do próprio Hospício Nossa
Senhora da Luz
, neste cenário mapeamos as falas dos médi-
cos, seus argumentos, seus conflitos com a administração
e a mesa diretora da Santa Casa de Misericórdia, a luta pela
consolidação do discurso médico para se tornarem os legí-
timos
detentores do discurso sobre a loucura, mas não sem
lutas e desafios.

28

Este argumento já foi desenvolvido por Yonissa Wadi quanto a institucio-
nalização da loucura no Rio Grande do Sul. Parece-me que também em
Curitiba como em Porto Alegre, a classe médica ainda não era suficien-
temente forte para impor esta hegemonia. O discurso pela necessidade
do hospício surge, nas duas cidades, dentro da fala dos filantropos da
Santa Casa de Misericórdia. Sobre o Hospício São Pedro em Porto Alegre
vide WADI, Y. M. Palácio para guardar doidos: uma história das lutas pela
construção do hospital de alienados e da psiquiatria no Rio Grande do
Sul. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 2002.

156 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

O primeiro cenário:
a Santa Casa de Misericórdia de Curitiba


A liberdade das ruas

As primeiras referências aos loucos em Curitiba apa-
recem na documentação do século XIX por meio dos rela-
tórios dos chefes de polícia e dos secretários dos Negócios
do Interior, Justiça e Instrução Pública. Se bem que os lou-
cos não passavam de algumas dezenas de alienados vagando
pelas ruas da capital paranaense ou detidos na cadeia civil
situada na praça Tiradentes em meio aos gatunos, prosti-
tutas, desordeiros, embriagados, mendigos. Durante o sé-
culo XIX, a maioria das prisões efetuadas na cadeia civil de
Curitiba aparecia sob a rubrica de embriaguez e desordem.
Os alienados eram classificados entre tranquilos e furiosos.
Até a década de 1880, os alienados sequer tinham um espa-
ço diferenciado para enclausurá-los, sendo trancafiados nas
enxovias da Cadeia Civil com outros contraventores e indi-
víduos que eram retidos por perturbarem a ordem pública.
Quando não eram trancafiados na cadeia civil de
Curitiba, os loucos perambulavam livremente pelas ruas da
capital paranaense. Perambulando pelas ruas, vagando li-
vremente, estes tipos de rua acabavam tornando-se pessoas
estimadas e queridas pela população urbana. Presentes nas
ruas movimentadas da cidade, nas praças, nos jardins, na
igreja do Rosário e na Matriz, não há dúvida de que os lou-
cos já fizessem parte da paisagem urbana, com seus guizos
e vesânias, faziam parte da alma da cidade. Uns faziam rir
com suas extravagâncias outros provocavam pena. Muitos
deles chegaram até mesmo a ser caricaturados no periódico
Olho d’Água, que fazia crônicas sobre o cotidiano da cidade
na virado do século.29

29

Cf. KARVAT, E. A sociedade do trabalho: discursos e práticas sobre a
mendicidade em Curitiba. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1998.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 157

Reais ou lendárias, as histórias destes personagens fo-
ram registradas pelas crônicas da cidade, que apesar de re-
produzidas e recolhidas por cronistas e memorialistas, nos
dão pistas de que havia uma outra modalidade da loucura
nas ruas. Muitos deles recebiam donativos, alimentos e até
mesmo um teto para se abrigarem nas casas de famílias vizi-
nhas e amigas. Outros sobreviviam da venda de bilhetes de
loteria, de esmolas, e dependiam da simpatia dos transeun-
tes. Frequentemente eram alvo de chacotas dos moleques e
das agressões físicas de outros, mas também eram objeto
de piedade e compaixão. Alguns eram até mesmo respei-
tados pelo seu profundo conhecimento ou por serem seres
mistificados, eram estimados e admirados. Neste aspecto, a
loucura se assemelha a um espetáculo das ruas. Pobres ou
miseráveis, tendo ou não relações familiares, maltrapilhos
ou vestidos a rigor, o fato é que estes personagens circula-
vam pelas ruas, Neste sentido, é correto afirmar que existia
certa tolerância com a loucura. Trata-se da possibilidade de
sublinhar a existência de várias modalidades de experiência
da loucura. O saber médico, com sua aparente vitória, não
conseguiu abolir das ruas a existência destes típicos perso-
nagens do espaço urbano.
Na alvorada do século XX, para contragosto daque-
les que desesperadamente queriam transformar a capital pa-
ranaense em um espaço homogeneizado, civilizado, mori-
gerado, havia estes personagem exóticos que com sua extra-
vagância tornavam o delírio um espetáculo. Sendo confun-
didos com os vadios e mendigos que perambulavam nas ruas
com seus andrajos, com seus farrapos, com suas chagas, com
sua pungentíssima miséria, os loucos eram associados aos
perturbadores da ordem pública, inseriam-se no universo
do não trabalho, nas fronteiras da legalidade e da liberdade.
O que tornava a loucura um problema social. Por um lado,
o louco era visto como um perigoso, figura generalizada de

158 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

associabilidade e da desordem. Ele não transgredia explici-
tamente nenhuma lei, portanto, não podia ser qualificado
como criminoso. Mas ao mesmo tempo, ele não podia ser
contido por nenhuma lei que preside a sociedade e certa-
mente ele transgredia todas as leis que presidem a organi-
zação social, tornando-se, por isso, um problema de ordem
pública. A figura do louco estava associada ao do nômade,
ao animal selvagem, aos sem pátria, que por não estar preso
a nenhum mecanismo de controle social, vagueia livremente
sem direção, ameaçando, pela sua própria existência, o con-
junto da sociedade. Vaguear pelas ruas tornava-se então, um
problema de ordem pública, e cada vez mais se evidenciava
a necessidade de criar um estabelecimento especial para os
loucos.

Quando não estavam vagueando pela cidade ou
trancafiados nas enxovias da cadeia civil, os loucos eram
enviados para a Santa Casa de Misericórdia. Muitos re-
gistros de loucos que eram enviados para o pio estabe-
lecimento estavam sob guia da chefatura de polícia, que
os recolhia das ruas quando estes representavam algum
problema para a ordem pública. É provável que a livre
circulação dos loucos em espaço público provocasse
problemas de conduta, levando-os a serem enquadra-
dos nas contravenções previstas pelo Departamento de
Identificação da Polícia (embriaguez, desordem, prosti-
tuição, vadiagem e mendicância). Particularmente os cri-
mes de ofensa à moral, bem como a vadiagem, podiam
eventualmente levá-los a cadeia.
Além disso, muitas vezes os loucos eram man-
tidos sob a responsabilidade de sua família, tornando-
se uma vizinhança incômoda e, às vezes, insuportável.
Pelos cuidados que exigiam e pelos problemas que po-
diam criar, esses loucos acabavam tornando-se um far-
do penoso para as famílias. Enviá-los para a Santa Casa

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 159

de Misericórdia parecia ser, enfim, uma alternativa tanto
para os loucos que circulavam pela cidade quanto uma al-
ternativa para as famílias que quisessem se livrar do fardo
penoso
da loucura.

Foi dentro da Santa Casa de Misericórdia, institui-
ção criada para consolar, assistir e abrigar30

o sofrimento
dos pobres e inválidos na doença e na morte, que surgiram
as primeiras críticas em relação à necessidade de criação
de um hospício no Paraná. Curitiba contava então apenas
com cerca de 12 leitos ou cellulas especiaes para os loucos
dentro da Santa Casa. Estes eram um número reduzido de
cubículos que já estavam cada vez mais lotados pelo cons-
tante envio de alienados de cidades de Santa Catarina e do
interior do Paraná. A crítica à falta de espaço adequado na
Santa Casa de Misericórdia é parte central da argumen-
tação pela necessidade de um hospício. A ideia básica é
que o hospital de Misericórdia, onde se encontravam os
loucos, não oferece condições para abrigar medicamente
e tampouco para recuperar o louco. As condições em que
se encontram os loucos estavam em desarmonia com os
preceitos da ciência, das luzes e do sentimento de humani-
dade dos homens
. Delineava-se claramente a oposição en-

30

A Santa Casa de Misericórdia era a instituição de benemerência por
excelência da Província do Paraná. Durante o século XIX ela desempe-
nhou um papel fundamental no cuidados dos pobres e inválidos atuan-
do diretamente nas políticas de amparo aos necessitados. Esta vocação
já está implícita nos discursos dos filantropos da Santa Casa e aparece
textualmente no documento firmado pela Irmandade de Misericórdia
em 1864. No capitulo III do Compromisso da Irmandade da Santa Casa
de Misericórdia
, afirma-se que: “Serão recebidos no hospital, e trata-
dos com desvelo e caridade: 1º Os irmãos pobres; 2º Todos os pobres e
mendigos; 3º Todas as mais pessoas que quiserem ser tratadas pela Santa
Casa de Misericórdia. Estas serão admittidas havendo proporções para
isto, e entre ellas serão preferidas os escravos que pertencem a família
dos irmãos, pegando por dia o que for estabelecido no regimento”. Cf.
IRMANDADE DE MISERICÓRDIA. Compromisso da Santa Casa de
Misericórdia
. Curitiba: Typ. de Lopes, 1864. p. 10-11.

160 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

tre hospital de caridade e hospício. O hospital de caridade
tem células especiais para o louco, mas não o trata nem
o recupera, assemelhando-se a gaiolas humanas em que o
louco encontra-se numa espécie de antecâmara da morte,
ali não há tratamento nem esperança.
Curiosamente, este discurso não emana da classe mé-
dica. Em meados do século XIX os médicos ainda encon-
tram-se à margem para impor esta hegemonia. A principal
crítica emana dos discursos públicos e se direciona para a
crítica em relação aos loucos no Hospital de Caridade e
nos espaços públicos. Paradoxo que não se pode resolver
simplesmente isolando o louco, privando-o de sua liberda-
de. Para estes, o lugar do louco não é a cadeia, nem a rua,
nem o hospital de caridade, mas o hospício. A loucura não
se trata com liberdade, nem com repressão, mas com dis-
ciplina e autoridade médica. O hospício então é o grande
pilar da Psiquiatria nascente e atesta o nascimento de uma
especialidade.

A ofensiva do discurso dos filantropos da Santa
Casa de Misericórdia e dos Secretários do Interior, Justiça
e Instrução Pública, os principais enunciadores desta pro-
posta configura-se na medida em relação ao louco que
prevê a criação de um estabelecimento especial, uma ins-
tituição capaz de medicalizá-la. Para combater a loucura
o modelo escolhido foi o hospício, instituição criada pela
Psiquiatria francesa no século XVIII por Pinel e Esquirol.
Um espaço próprio em que o louco é retirado do seu
meio natural e tratado segundo os preceitos da Ciência e
da Humanidade, meio capaz não só de dominá-lo em um
ambiente fechado, mas também de destruir seus efeitos,
subjugar sua ameaça, integrá-lo a vida urbana por um pro-
cesso de recuperação e reinserção nos círculos produtivos
da sociedade.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 161

O segundo cenário:
o Hospício Nossa Senhora da Luz

O eco das reivindicações começa a sair do discurso
para a prática quando assume a provedoria da Santa Casa de
Misericórdia, o monsenhor Alberto Gonçalves. A luta pela
criação de um estabelecimento especial em Curitiba, portan-
to, não é isolada nem quixotesca. Articula-se com perfeição
aos projetos de dom Alberto Gonçalves. A luta pela criação
de um hospício em Curitiba encarna-se, portanto, na figu-
ra adequada. Além de circular nos altos postos políticos,31
dom Alberto é o elemento mais importante da instituição
possuidora dos meios materiais para elevar um hospício.
Desde a década de 1890, portanto, dom Alberto Gonçalves
encabeça o movimento pela construção do asilo de aliena-
dos
na capital paranaense. A Santa Casa de Misericórdia
aparece como naturalmente capacitada a elaborar a tarefa de
construção e administração do um novo tipo de estabeleci-
mento destinado a cuidar dos loucos. Tendo o precedente
do encargo dos necessitados, dos pobres e dos inválidos. O
saber médico instrumentaliza-se na figura do provedor para
promover a filantropia.
Nos relatórios de sua gestão, apresentados à Mesa
Diretora da Irmandade de Misericórdia, o provedor expõe
as deficiências do Hospital de Caridade e propõe mudanças
na administração do hospital mantido pela Santa Casa de
Misericórdia e a criação de um novo estabelecimento desti-
nado exclusivamente aos alienados, já que nos últimos anos,
o provedor vinha recebendo diversas críticas dos secretários
dos Negócios do Interior, Justiça e Instrução Pública e dos
chefes de polícia quanto à falta de um local adequado para en-
viar os loucos. Tendo num mesmo ambiente os pobres invá-

31

Cf. CARNEIRO, D. Galeria de ontem e de hoje. Curitiba: Vanguarda,
1963. p. 314-315.

162 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

lidos, os doentes contagiosos e as mulheres grávidas, os alie-
nados não podiam receber os cuidados necessários. Vivem
encarcerados nos quartos que lhes são destinados sem ter ar
e liberdade. Faltam-lhe meios e um lugar mais espaçoso com
um amplo jardim para que possam ser realizados os passeios.
Capacitado pela função de provedor e membro da
Irmandade de Misericórdia, d. Alberto Gonçalves tomou
medidas no sentido de lançar as primeiras atividades con-
cretas para a criação do hospício: a formação de uma comis-
são
32

encarregada de levar a construção do hospício a cabo e
da arrecadação de fundos, que foi feita por meio da organi-
zação de uma loteria autorizada pelo governo do Estado.
Apesar da morosidade do processo e dos constantes
atrasos e paralisações, enfim o Hospício Nossa Senhora da Luz
é inaugurado em 25 de março de 1903, no distante bairro do
Ahú, tendo seu acesso principal pela Avenida Anita Garibaldi.
Um edifício de arquitetura eclética, contendo dois pavimentos
de paredes grossas, espaçoso e amplo, que recebeu elogios de
Ermelino de Leão em seu Dicionário Histórico e Geográfico
do Paraná
como um marco da filantropia paranaense.33

E o
historiador do Instituto Geográfico e Histórico do Paraná,
Herberth Munhoz van Erven, exclama em seu Contribuição
ao Histórico do Hospital de Nossa Senhora da Luz
“São João de
Deus ou Pinel não exigiriam, para o meio e para a época, cousa
melhor”.34

Em 4 e 5 de abril, o hospital começava a receber os
primeiros pacientes matriculados enviados da Santa Casa de
Misericórdia. Segundo Van Erven, o primeiro matriculado do
hospício era um homem chamado Antônio Ângelo K., de 35
anos de idade, cor branca, filiação ignorada, natural da Polônia,

32

A Comissão Especial foi formada em meados da década de 1890 por
Joaquim Monteiro, José Loureiro, Manoel Martins de Abreu e encabeçada
por D. Alberto Gonçalves.

33

LEÃO, E. Dicionário histórico e geográfico do Paraná. [S.l.: s.n.], 1926.

34

MUNHOZ VAN ERVEN, 1944, p. 9.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 163

lavrador, analfabeto, residente de Ferraria, foi internado com
guia da chefatura de polícia. A primeira mulher registrada foi
Vitória M., de quem o autor não faz maiores menções. Várias
outras pessoas, como a enfermeira Marcolina, após sua recupe-
ração, sem ter para onde ir, continuaram no hospício, efetuan-
do pequenos serviços em troca de moradia e alimento.35
Em 25 de março de 1903 o jornal Diário da Tarde
saúda a criação do Hospício Nossa Senhora da Luz como
um verdadeiro marco filantrópico no Paraná, um suntuoso
palácio de guardar doidos:

Com a inauguração do Hospício Nossa Senhora da Luz, o
Estado do Paraná deu hoje um dos mais brilhantes passos
no caminho do Progresso e da Civilização. Aquele soberbo
palácio da desventura que assoma o campo verde, como
atalaia do bem, é o attestado mais convincente do senti-
mento altruístico do povo paranaense.36

O hospício era dividido em duas partes: uma ala para os
pensionistas e outra para as enfermarias gerais, destinadas aos
loucos pobres e sem família. O hospital era financiado pelo di-
nheiro arrecadado com as pensões e por uma subvenção vinda
do governo do Estado, além de contribuições da Sociedade de
Socorro aos Necessitados e de donativos eventuais.
O primeiro médico-chefe foi o diretor Rodolfo Pereira
Lemos. Faziam parte do serviço clínico também os médicos
Cláudio Lemos, seu filho; José Guilherme Loyola o único com
titulação em Psiquiatria, com uma tese apresentada no Rio de
Janeiro sobre o Livre-Arbítrio e Simulação da Loucura;37

e João
Evangelista Espíndola, um dos mais respeitados cirurgiões

35

Boletim Informativo da Casa Romário Martins, n. 62, p. 22, fev. 1982.

36

Diário da Tarde, 25 mar. 1903.

37

LOYOLA, J. G. Livre arbítrio e simulação da loucura. 1900. Tese –
Faculdade de Medicina, Rio de Janeiro, 1900.

164 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

curitibanos na época, editor da revista Paraná Médico.
O serviço de atendimento do Hospício Nossa Senhora
da Luz também ficava a cargo das irmãs de caridade. Desde a
criação da diocese de Curitiba, as irmãs de caridade francesas
de São José de Chambery atuavam como enfermeiras e ca-
ridosas na Santa Casa de Misericórdia. No Hospício Nossa
Senhora da Luz o serviço foi incumbido a um grupo de reli-
giosas: irmã Maria Lúcia (Jeanne Marie Rolland), irmã Flávia
(Virginie Borlet) e irmã Maria Francisca (Victoire Michel),
entre outras.38

O hospital ainda possuía uma capela dirigida
por quinze anos pelo padre francês Maurice Dunard, e tam-
bém pelos padres cordimarianos Germano Beroud, Alphonse
Lebrut e Geronimo Mazzaroto. Como não havia igrejas nas
redondezas do Ahú a capela servia como local para batizado,
casamentos e missas, sendo também local de encontro de co-
munidades católicas (marianos, vicentinos etc.).39
O Hospício Nossa Senhora da Luz funcionou qua-
tro anos no recém-inaugurado casarão eclético próximo da
Avenida Anita Garibaldi. Porém, na mesma época o governo
do Estado necessitava começar a construção de um sistema
penitenciário, já que a Cadeia Civil não comportava o núme-
ro de prisioneiros. Os sentenciados cumpriam prisão provi-
sória no quartel do Regimento de Segurança. Em janeiro de
1905, o governador do Estado do Paraná, Francisco Xavier da
Silva, entrou em contato com a Mesa Ordinária da Irmandade
de Misericórdia, presidida por dom Alberto Gonçalves, e
firmou um acordo em que o Estado ficava com o edifício
do Ahú onde funcionava o hospício Nossa Senhora da Luz
para ali construir uma penitenciária do Estado. Em troca, o
Estado ofereceu à Santa Casa de Misericórdia, os subsídios

38

Cf. PIZANI, M. A. O cuidar na atuação das irmãs de São José na Santa
Casa de Misericórdia
de Curitiba (1986-1937). 2005. Tese (Doutorado) –
Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2005.

39

PIZANI, 2005.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 165

necessários para a construção de um outro estabelecimento
em local escolhido pela Santa Casa de Misericórdia.40
Firmado o contrato entre o governo do Estado e a
Santa Casa de Misericórdia, iniciaram-se as construções da
nova sede do Hospício Nossa Senhora da Luz. Se o casa-
rão do Ahú, prédio suntuoso e monobloco, assemelhava-se
a outras construções típicas da segunda metade do século
XIX como o Hospício São Pedro em Porto Alegre ou o
Asilo São João de Deus na Bahia, que tinham como referên-
cia a grande instituição da época, o Hospício D. Pedro II, a
nova sede do Hospício Nossa Senhora da Luz, construída
no bairro do Prado Velho, começava tomar como referência
uma nova instituição: o Juquery em São Paulo.
Criado por Franco da Rocha e projetado pelo arqui-
teto Ramos de Azevedo em São Paulo, o Juquery começava
a transformar-se numa grande referência em fins do século
XIX e início do século XX. Ao invés de um prédio mono-
bloco (característica do principal hospício até então, o d.
Pedro II no Rio de Janeiro) o Juquery se dividia em um pa-
vilhão administrativo, cercado por um jardim central onde
se distribuíam os pavilhões de internamento.41
O cronista da História da Santa Casa de Misericórdia
de Curitiba
, Francisco Negrão, afirma que a proposta de
construir uma nova sede para o Hospício Nossa Senhora da
Luz se mostrava vantajosa, pois

uma vez que a prática faz ver que a construção de um novo
estabelecimento deve ser feita de accordo com as regras da
sciencia e hygiene, que manda ser em pavilhões separados,
a exemplo do que foi construído em São Paulo.42

40

Cf. NEGRAO, F. Memória da Santa Casa de Misericórdia de Curityba.
Curitiba: Imprensa Gráfica Paranaense, 1933. p. 23.

41

CUNHA, 1988.

42

NEGRÃO, 1933, p. 25.

166 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

Ou seja, os princípios de higiene e ciência determina-
vam que a nova sede deveria ser construída com base em
pavilhões separados.

Este foi o modelo adotado na segunda sede do
Hospício Nossa Senhora da Luz, inspirado nitidamente no
Juquery.43

A característica deste modelo é a simetria, com a
implantação de pavilhões isolados. Os edifícios de alvenaria
possuíam dois pavimentos.44

A teoria médica que funda-
mentava esta distribuição era a de entremear pavilhões por
áreas de lazer, em torno de um jardim central, de forma a di-
vidir os pacientes em grupos mais reduzidos com separação
por sexo, classe social e conduta. Cada pavilhão possui uma
área aproximada de 1.500 a 1.900 m2
.

Além dos pavilhões de
internamento, onde funcionavam o serviço e o refeitório,
foram construídos pavilhões de apoio, destinado a abrigar
a cozinha, a lavanderia e a usina elétrica, destruídas em um
incêndio em 1916 e logo reconstruídas.45

A construção do
edifício administrativo foi iniciada em 1923 e recebeu o
nome de André de Barros em homenagem ao antigo prove-
dor da Santa Casa de Misericórdia

Os médicos em cena:
discursos e práticas sobre a loucura no Paraná

Até a virada do século XIX para o XX não percebemos
em Curitiba um discurso médico coerente acerca das práticas
da loucura. A fala dos médicos está ausente no discurso sobre
a necessidade de construção de um Asilo de Alienados que
se delineia nas décadas finais do século XIX. Como vimos,
os enunciadores desta fala são os filantropos da Santa Casa
de Misericórdia e as autoridades públicas como os chefes de

43

CASTRO, 2004, p. 40

44

CASTRO, 2004, p. 46.

45

MUNHOZ VAN ERVEN, 1944, p. 10-11.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 167

polícia e os secretários dos Negócios do Interior, Justiça e
Instrução Pública. Domínio da discussão sobre a ordem pú-
blica e a piedade, a loucura não era essencialmente encarada
como uma doença especial, sendo objeto de uma medicina
que a dispunha tratar de acordo com um tratamento físico
e moral herdada do saber científico francês. Se o hospício
existia nos moldes da instituição criada por Philippe Pinel na
França, dentro da instituição, o médico ainda não tinha poder
suficiente. O surgimento destes novos agentes no cenário da
loucura
, como operadores práticos na lida com a doença men-
tal, demarca, a nosso ver, a emergência das práticas psiquiá-
tricas no Paraná. Daí a importância de analisar o Hospício
Nossa Senhora da Luz como o próprio palco em que se de-
senvolveram as lutas e estratégias da Psiquiatria nascente,
sendo importante para entender a constituição da institucio-
nalização da loucura no Paraná.
A primeira linha de expansão do movimento alienista
é em direção ao controle das funções administrativas den-
tro do hospital. Na fundação da Psiquiatria, o hospício é
considerado o lugar de exercício da ação terapêutica, o tra-
tamento moral
. Tendo por objetivo destruir a loucura, ca-
racterizando-se por uma ação que não se dá como negativa,
mas dedicada a impedir, afastar, tolher e neutralizar os seus
efeitos, a Psiquiatria precisa ser instrumentalizada de uma
série de dispositivos que possibilitem sua máxima eficácia
de intervenção.

Daí o hospício ser um espaço criado especialmente
para o louco, que não é acidental ou exterior ao núcleo bá-
sico da ação psiquiátrica, mas que, obedecendo aos requisi-
tos básicos postulados pela medicina mental, deve canalizar
a ação do espaço para possibilitar a máxima eficácia. Assim,
ao contrário de outras formas de isolamento, no hospício, o
que cura é o próprio hospício
. O asilo, diziam os alienistas, é o

168 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

instrumento mais poderoso contra as doenças mentais.46

Entre
o hospício e a Psiquiatria, portanto, não há relação de exte-
rioridade. A prática psiquiátrica tem como núcleo a ação hos-
pitalar, a organização do espaço e o controle. Ele é mais que
um espaço utilizado a favor da ação médica, é a própria ação
médica. O hospício é uma instituição concebida medicamen-
te. Mas se analisarmos mais de perto o espaço em questão,
o Hospício Nossa Senhora da Luz, percebemos que mesmo
em sua seara, o médico do Hospício acabava tendo que com-
partilhar a autoridade sobre a loucura com outros poderes.
Subordinação que se percebe na estrutura administrativa da
instituição, que continua a ser ligada a Mesa Diretora da Santa
Casa de Misericórdia de Curitiba, assim como o Hospital de
Caridade. Além do serviço sanitário, composto pelos médi-
cos, o Hospício ainda contava com o governo das irmãs de
caridade de São José e um serviço religioso. Instâncias que
escapavam ao controle imediato do médico.
Mas uma das questões que denota a maior falta de
poder dos médicos na cena hospitalar é a inscrição dos alie-
nados. Domínio exclusivo da administração da Irmandade,
a seleção dos loucos não é feita segundo o critério médico.
Cabe ao provedor da Santa Casa efetuar a matrícula me-
diante a requisição oficial do Juiz de Órfãos ou do Chefe
de Polícia ou delegado do distrito de residência do alienado,
ou do lugar onde foi encontrado circulando livremente; ou

46

A tese de que o hospício é o núcleo central da ação psiquiátrica é um
consenso no meio alienista francês do final do século XVIII e início do
XIX. Transformar o espaço hospitalar em um instrumento de curar é
parte integrante da chamada Grande Reforma dos Hospitais, da qual fize-
ram parte Pinel, Tenon, Esquirol, Cabanis, Poyet, entre outros. Ao longo
de vários textos como os de Pinel, Esquirol, Marc, Briere de Boismont,
Lasegue, Voisin, Falret, Leuret e outros alienistas do chamado “Grupo
da Salpêtrière
” aparece essa defesa generalizada do hospício como locus
da ação terapêutica. A literatura sobre este axioma alienista é vasta e ina-
barcável para os limites deste estudo. Para maiores informações sobre o
contexto europeu. Cf. CASTEL, 1978, p. 85-95.

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 169

sendo militar ou religioso, mediante a requisição de seu su-
perior; ou ainda, petição oficial do pai, marido, mulher ou
senhor (se escravo) do alienado. Os alienados internados
deveriam passar um período de aproximadamente quinze
dias de avaliação da autenticidade e julgamento da sua de-
mência. Após este tempo o administrador era obrigado a
notificar sua admissão ao Juiz de Órfãos da cidade.
Assim, se de acordo com a perspectiva médica, a en-
trada, permanência e saída dos loucos no hospício deveria
ser um assunto estritamente do âmbito médico, no caso do
Hospício Nossa Senhora da Luz, tratava-se de uma decisão
compartilhada por várias instâncias do poder: o provedor da
Santa Casa, o Juiz de Órfãos do distrito, o chefe ou delega-
do de polícia, os familiares, tutores, curadores ou senhores
de alienados etc., cabendo ao médico apenas a tarefa de vali-
dar a petição mediante um certificado de atestado de loucura
apresentada ao Juiz de Órfãos.
Portanto, desde meados do século XIX emerge um
discurso em favor da construção de um hospício no Paraná.
A criação do Hospício Nossa Senhora da Luz representou o
primeiro passo concreto na implementação deste projeto, as-
sinalando não apenas a intenção de excluir a loucura, mas de
tratá-la e até mesmo curá-la. Entretanto é preciso considerar
que, embora tendo representado uma conquista importante
para a apropriação médica sobre a loucura, a criação deste esta-
belecimento não assegurou, na prática, a consolidação do pre-
domínio médico sobre a loucura. Como foi visto, mesmo den-
tro das fronteiras que isolavam o mundo do asilo, a autoridade
médica em relação ao louco era bastante cerceada. Este tinha
que dividi-la com outros poderes, familiar, jurídico, policial
etc. No funcionamento cotidiano, o poder médico estava su-
bordinado a administração leiga da Santa Casa de Misericórdia,
inclusive no que se referia às decisões do âmbito clínico. O
pequeno número de médicos existentes no estabelecimento

170 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

também impunha limites a medicalização da loucura.
Por todos os aspectos assinalados aqui, pode-se con-
cluir que a função de medicalização do hospício foi uma ta-
refa cumprida de forma precária, mas apresentou um marco
importante na constituição das práticas médicas no Paraná.
Ao longo das primeiras décadas do século XIX, os direto-
res do serviço clínico do Hospício Nossa Senhora da Luz,
como Rodolfo Lemos, Cláudio Lemos e José Guilherme
Loyola, revelariam uma crescente consciência da fragilidade
e dos limites do poder alienista dentro e fora da instituição.
Admissões indiscrimidas de pobres e necessitados envia-
dos pela Sociedade de Socorro aos Necessitados ou reco-
lhidos das ruas transformavam o hospício em um depósito
de mendigos, comprometendo não apenas o papel curativo
do estabelecimento, mas também a intenção de o hospício
se tornar um laboratório da loucura, de observação clínica
exata. Caracterizadas, entre outras coisas, pelo problema
da superlotação, as primeiras décadas do século XX foram
marcadas pelas críticas ao hospital.
Curiosamente, as críticas que surgem nos anos de 1920
e 1930 não são críticas externas, protestos, desconfianças, de-
núncias de quem se sentiu prejudicado pelo arbítrio médico,
mas as críticas partem dos próprios médicos e mesmo dos
diretores do serviço clínico. Delineiam-se assim os primei-
ros sintomas da insatisfação médica quanto aos resultados
concretos de sua primeira conquista, o hospício. Embora
tímidas, feitas no âmbito dos relatórios institucionais apre-
sentados na mesa da Santa Casa de Misericórdia, as críticas e
lamentações não cessam de crescer: críticas quanto à super-
lotação, críticas quanto à mistura e promiscuidade dos lou-
cos e indigentes, críticas às deficiências materiais do estabe-
lecimento (como falta de água). O tom áspero das queixas,
as denúncias, fundamentadas em argumentos cada vez mais
rebuscados, revelam algumas mudanças intimamente ligadas

a ordem PsiqUiátrica e a máqUina de cUrar • 171

ao surgimento formal da Psiquiatria no Paraná. Assim, pode-
mos perceber que a emergência dos discursos dos médicos
diretores do hospício demarcam uma tripla estratégia de con-
quista: conquista do espaço hospitalar, conquista das funções
de médicos-chefes e conquista dos saberes privilegiados e
dos discursos sobre a loucura. Incursão difícil, mas também
rica em desenvolvimentos futuros.
Inegavelmente, as estratégias elaboradas pelos médi-
cos alienistas no final do século XIX e, sobretudo nos anos
iniciais do século XX, foram conduzidas até o seu termo.
No final deste processo, a loucura, que emergiu como um
problema social, um problema de ordem pública, vai se ver
dotada de um extenso aparato clínico: o definido como do-
ente mental receberá um local apropriado para o seu trata-
mento e o surgimento de um saber especializado para tratá-
lo. Tripla dimensão que define até hoje as bases da síntese
psiquiátrica: o hospício, a doença, o médico.

***

Recentemente, por ocasião do Centenário do Hospício
Nossa Senhora da Luz
(março de 2003), a instituição promo-
veu uma verdadeira reforma psiquiátrica ao abolir os muros que
circundavam o hospital (foram substituídos por grades), alu-
dindo ao gesto fundador da Psiquiatria, a libertação dos loucos
por Philippe Pinel em 1793
. Mais de trezentos anos separam
estes dois gestos, mas a estrutura que rege os dois momentos
pode ser qualificada como a mesma. Por trás dos muros, es-
boça-se toda uma maquinaria do isolamento que não cessa de
crescer: mudam suas roupagem, suas linguagens, efetua-se ag-
giornamentos,
mas a ordem psiquiátrica resiste. Não necessita-
mos dos muros do asilo para romper os diques desta estranha
vizinhança entre os loucos e sãos. Ao borrarmos as fronteiras
simbólicas
entre os sãos e os loucos, sob o pretexto de acolher

172 • hisTória e loucura: saberes, práTicas e narraTivas

a vizinhança não estaremos domesticando-a? Será que a estra-
tégia da libertação simbólica do louco (abolir os muros) não é
de fato uma homogeneização do social? Quando os loucos se
tornarem estes vizinhos pacíficos o que restará da loucura? Ou
melhor, desta dimensão desarrazoada que até hoje insiste em
ser patrimônio da própria loucura?

Figura 2 – Pavilhão de Internamento47

Figura 3 – Pavilhão de Internamento48

47

Fonte: CASTRO, 2004, p. 42.

48

Fonte: CASTRO, 2004, p. 42.

Figura 2 –Pavilhão de Internamento

onte: Castro (2004, p. 42).

F

Figura 3 – Pavilhão de Internamento

Fonte: Castro (2004, p. 42).

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a loUcUra entre dois mUndos • 177

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