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OLHAR MAES EXPOSIÇÃO DIONÍSIO DEL SANTO

SERIGRAFIAS

2 GOVERNO DO ESTADO Governador do Estado Paulo César Hartung Gomes Vice-Governador do Estado Ricardo Ferraço Secretária de Estado da Cultura Dayse Maria Oslegher Lemos SubSecretário de Cultura Erlon José Paschoal SubSecretária de Patrimônio Anna Luzia Lemos Saiter Gerente de Ação Cultural Mauricio José da Silva INSTITUTO SINCADES Presidente Idalberto Moro Gerente Executivo Dorval Uliana Gerente de Relacionamento Domingos Gomes de Azevedo Gerente de Projetos Rosalvo Marcos Trazzi MUSEU DE ARTE DO ESPÍRITO SANTO “DIONÍSIO DEL SANTO” Diretora Leila Horta Setor De Arte Educação Ana Luiza de Oliveira Bringuente Setor Administrativo Joaquim Galdino de Oliveira Curadoria Educativa Priscila Chisté e Ana Luiza Bringuente EXPOSIÇÃO DIONÍSIO DEL SANTO: SERIGRAFIAS Curadoria Priscila Chisté Colaboração Maria Helena Lindenberg Museografia e Projeto Gráfico Studio Ronaldo Barbosa Iluminação Antônio Mendel Museologia Flávia Figueiredo Montagem Equipe Tuca Sarmento MATERIAL EDUCATIVO - OLHAR MAES EXPOSIÇÃO DIONÍSIO DEL SANTO: SERIGRAFIAS Texto Érika Sabino de Macêdo Priscila Chisté Design do Livreto Studio Ronaldo Barbosa Produção Executiva Casa do Lago

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O Governo do Estado do Espírito Santo, por meio da Secretaria de Cultura e o Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo, em parceria com o Instituto Sincades, tem a grata satisfação de apresentar pela primeira vez ao público capixaba a exposição “Beatriz Milhazes: Gravuras”. A seleção criteriosa desta mostra, foi elaborada por Ivo Mesquita, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A presença de Mesquita no projeto desta exposição é fruto de laços cooperativos estabelecidos entre o MAES e a Pinacoteca a partir da exposição “Vistas do Brasil”, em 2008. A exposição “Beatriz Milhazes: Gravuras” acontece no MAES, instituição que possui o nome do gravurista que muito contribuiu para a pesquisa e difusão desta técnica: o capixaba Dionísio Del Santo. Beatriz Milhazes e Dionísio Del Santo conheceram-se na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Sobre a ocasião a artista relembra: “Ele deu à serigrafia uma nobreza que ela não tinha. Passou sua técnica aos alunos e fez com que a impressão deixasse de ser vista como coisa menor.” Buscando aprofundar o diálogo entre as obras de Milhazes e de Del Santo, o MAES colocará em exposição parte do acervo de serigrafias de Dionísio, propondo uma grata homenagem a este artista, o grande mestre da serigrafia. Dayse Maria Oslegher Lemos Secretária de Estado da Cultura Leila Horta Diretora do MAES

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Introdução
A elaboração deste material insere-se no Projeto de Curadoria Educativa para as exposições “Beatriz Milhazes: gravuras” e “Exposição Dionísio Del Santo: serigrafias” elaborado pela equipe propositora representada pela Profª. Ms. Priscila Chisté e pela coordenadora do Setor de Arte/Educação do MAES, Ana Luiza Bringuente. Este projeto propõe ações capazes de potencializar a fruição e a compreensão das obras pertencentes às exposições. A criação e a elaboração do Olhar MAES Dionísio Del Santo: Serigrafias, está entre as propostas dessa curadoria educativa, que tem como objetivo principal dinamizar as relações entre a instituição museológica e o público.

A estrutura desse material foi elaborada visando apresentar o trabalho artístico de Dionísio Del Santo através de três aspectos que acreditamos ser importantes para promover a aproximação entre público e a obra, são eles: a vida do artista, seu processo de criação e suas obras e, finalmente, a técnica utilizada. No texto a seguir abordaremos esses assuntos e esperamos assim divulgar, colocar em discussão e estimular outras pesquisas e questionamentos sobre a obra desse artista capixaba.

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Dionísio - o artista professor
Dionísio Del Santo é um artista que possui um papel fundamental no percurso da arte no Espírito Santo. Em primeiro lugar porque ele foi professor e portanto responsável pela formação de artistas que atuam hoje no cenário da arte em nosso estado e fora dele. Em segundo lugar porque sua formação no Rio de Janeiro e sua posterior volta para Vitória, permitiram que as idéias dos novos movimentos que ocorriam fora de nosso Estado chegassem à capital capixaba, movimentando e renovando as propostas estéticas em vigor. Por tudo isso, o Museu de Arte do Espírito Santo acoplou ao seu nome, o nome de Dionísio Del Santo, passando a chamar-se Museu de Arte do Espírito Santo Dionísio Del Santo, tendo como um de seus objetivos homenagear, preservar e divulgar o nome e o trabalho deste artista. Um grande número das obras de Del Santo faz parte do acervo desta instituição que, sempre que possível as expõe ao público capixaba. Um desses momentos foi em 2009, nas comemorações dos 10 anos de criação do museu, quando foi organizada uma grande retrospectiva do artista. Em 2010, nove obras do artista voltam a ser apresentadas na exposição “Dionísio Del Santo: Serigrafias”. Esta exposição mostra obras do artista mantidas na reserva técnica do Museu, com o intuito de recepcionar a exposição “Beatriz Milhazes: gravuras”.

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O artista em formação
Nascido em Colatina em 1925, Dionísio Del Santo iniciou sua formação no Seminário São Francisco de Assis, no município de Santa Tereza. Como era costume na maioria das famílias brasileiras da época, um dos filhos deveria seguir a carreira do sacerdócio e o escolhido da família Del Santo foi Dionísio. Mas, o artista tinha outros planos. Ainda no seminário Dionísio descobriu o desenho e a arte e acabou por fazer, assim, suas próprias escolhas. De volta a Colatina, estudou geometria, perspectiva exata e desenho, trabalhando com a elaboração de desenhos arquitetônicos. Em 1947, mudou-se para o Rio de Janeiro com o intuito de aprofundar seus estudos artísticos na Escola de Belas Artes. Não atingiu este objetivo por problemas de equivalência entre os currículos Seminário e do Ensino Médio, mas, ao perceber que não poderia se matricular formalmente na Escola de Belas Artes, o artista optou por inscrever-se em cursos livres, que ofereciam práticas mais de acordo com as idéias modernistas, com as quais o artista se identificava. Matriculou-se, então, no curso de desenho de modelo vivo, na ABD, Associação Brasileira de Desenho, e participou também do curso de Teoria das Cores, ministrado por Portinari, no Liceu de Artes e Ofícios. Os primeiros anos de Dionísio no Rio de Janeiro foram marcados por muito trabalho e algumas privações. Seu primeiro emprego foi de professor de latim, português e matemática. Como sua situação financeira não lhe permitia ainda ter um local para morar, ele dormia no porão da escola onde lecionava. Sendo assim, quando essa instituição fechou, Dionísio perdeu não somente seu emprego, mas também sua moradia. A despeito dessas dificuldades, o artista não desistiu e obteve um emprego de vendedor em uma livraria. Esta função ainda estava distante daquela de um artista, mas permitiu que Dionísio aprofundasse seus conhecimentos através de leituras que fazia nos momentos de folga na livraria. Através dessas leituras ele entrou em contato com Nietzsche e Goethe, que passaram a ser suas referências filosóficas. Através dos livros, Dionísio teve a oportunidade também de ver reproduções de obras dos artistas que admirava como: Van Gogh, Matisse, Picasso e Portinari.

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O artista e seu percurso
Além de ampliar seus conhecimentos sobre a história e a crítica da arte através dos livros que lia, Dionísio era um assíduo frequentador de exposições de arte. Uma delas, do gravurista Oswaldo Goeldi foi de grande influência para o direcionamento de sua carreira. Impressionado pelo trabalho desse artista, Del Santo iniciou em 1950, trabalhos artísticos utilizando a técnica da xilogravura. Segundo Almerinda Lopes 1 (2009) os trabalhos de Dionísio com esta linguagem tinham como principal elemento a linha e ao contrário de Goeldi, valorizavam a claridade. Os temas desta fase eram ligados a sua infância no interior do Espírito Santo, com cenas, por vezes violentas de animais: onças, galinhas, vacas, matadouros e boiadeiros. Nota-se nestas gravuras e, paralelamente, em sua pintura, uma forte tendência à simplificação, à sintetização e à estilização. Fruto de sua experiência com desenho arquitetônico, as linhas paralelas e precisas de Dionísio, aproximam essas imagens da geometria e se apresentam como início de um processo de abstração que o levaria a sua maturidade profissional.

DEL SANTO, Dionísio. A fera e a vítima, 1959. Xilogravura sobre papel. 22,5x30cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

1 LOPES, Almerinda. Dionísio Del Santo. Vitória: Artviva, 2008.

8 O encontro com a abstração ocorreu em 1951 por ocasião da Primeira Bienal de São Paulo, na qual o artista entrou em contato com as mais recentes propostas artísticas européias. Alguns nomes foram de grande impacto para Del Santo: Sofia Tauber-Arp, Max Bill, Joaquim Torres Garcia e Léger. Mas, segundo Reynaldo Roels Jr.2 (1989), o artista, mesmo sensibilizado pelas obras, algumas de tendência geométrica, não abandonou imediatamente o expressionismo ao qual se dedicava. Somente no final dos anos 50, Dionísio irá se dedicar à produção de obras com uma proposta concretista. Ao atuar como desenhista da Gráfica Tupy, seu terceiro emprego, Del Santo aproximou-se finalmente do ofício pelo qual viria a ser reconhecido futuramente: a serigrafia. Nessa gráfica, Dionísio fazia desenhos de letras e imprimia cartazes e flâmulas. O artista trabalhou em outras empresas da área e também para empresas de publicidade, aprimorando assim seu diálogo com as artes gráficas. O domínio técnico que adquiriu nesta área ampliou suas possibilidades profissionais. Dionísio passou a fazer impressões para outros artistas. Quanto a isso, Cildo Meireles relatou que se orgulha em conservar adesivos impressos por Dionísio Del Santo entre 1969 e 1970, para as garrafas de Coca-Cola de sua instalação “Inserções em circuitos ideológicos3”. Segundo Cildo “Dionísio era um sujeito muito tranqüilo, avesso as badalações. Tinha um jeito de monge. Guardo os adesivos como relíquias”4.

MEIRELES, Cildo. Inserções em circuitos ideológicos, 1970

2 ROELS JR. Reynaldo. Retrospectiva Dionísio Del Santo. Paço Imperial. Ministério da Cultura/ SPHAN/Prómemória. Rio de Janeiro, 1989. 3 Sobre esta série de Cildo Meireles leia o depoimento do artista disponível em http://passantes.redezero.org/reportagens/cildo/inserc.htm 4 Cildo Meireles em depoimento a Daniela Name. In.: Dionísio Del Santo tem sua obra analisada em livro com texto de Frederico Morais. O globo, Rio de Janeiro, 5 de mar. 1999.

9 Como impressor, o entanto, as funções de Dionísio extrapolavam a função simplesmente mecânicas de um impressor, pois muitas vezes era também responsável pela escolha das cores e até mesmo por algumas alterações necessárias durante os processos de impressão. Notando sua enorme responsabilidade na criação de algumas obras, Dionísio propôs aos artistas para quem fazia impressões que ele assinasse conjuntamente alguns trabalhos. Essa proposta não foi aceita pelos artistas e diante desta resposta, Dionísio resolveu fazer suas próprias obras. O reconhecimento profissional nesta área pôde ser comprovado quando Del Santo foi convidado pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage a ministrar cursos serigrafia, compartilhando seus conhecimentos com várias gerações de artistas. Dentre os colegas que tinha nesta instituição, destaca-se a artista Beatriz Milhazes que sobre o trabalho de Dionísio diz: “Ele deu à serigrafia uma nobreza que ela não tinha. Passou a sua técnica aos alunos e fez com que a impressão deixasse de ser vista como coisa menor5”. O fato de ter trabalhado para um grande número de artistas, ajudou Del Santo na comercialização de suas gravuras e, como conseqüência, uma melhora considerável em sua situação financeira. Pode, até mesmo adquirir um imóvel em Santa Teresa, bairro carioca repleto de artistas e ateliês, tradicionalmente conhecido por sua intensa produção artística. Foi lá que Dionísio montou seu estúdio de gravura produzindo intensa e disciplinadamente grande parte de sua obra. Introvertido, Dionísio nunca gostou de expor. Sua produção era intensa, mas a vontade de mostrála era inversamente proporcional. Este fato talvez tenha sido responsável pela pouca projeção de seu trabalho na época. Soma-se a esse aspecto uma outra característica de Del Santo: ele era avesso a participar de movimentos e grupos, pois acreditava que isso limitaria sua produção e sua liberdade de criação. Por este motivo, mesmo tendo trabalhado com a proposta do concretismo e do neoconcretismo na década de 60, sua participação nestes movimentos não ocorreu de forma efetiva. Ele era amigo de Lygia Clak, Ligia Pape, Ivan Serpa e Amílcar de Castro mas, ao receber um convite para participar do movimento, Del Santo não aceitou. Este fato prejudicou a circulação e a exposição de suas obras e por conseqüência seu trabalho ficou à margem da História da Arte brasileira. Isto não o preocupava, pois ele não se deixava ser seduzido facilmente pelos modismos artísticos e demonstrou um interesse primordial em sua escolha profissional: a preservação de sua liberdade criativa. “Optei por um estilo de vida austera, lutando para sobreviver, ao invés de desenvolver relações sociais” 6
5 Beatriz Milhazes em depoimento a Daniela Name. In.: Dionísio Del Santo tem sua obra analisada em livro com texto de Frederico Morais. O globo, Rio de Janeiro, 5 de mar. 1999. 6 ROELS JR. Reynaldo. Retrospectiva Dionísio Del Santo. Paço Imperial. Ministério da Cultura/ SPHAN/Pró-

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DEL SANTO, Dionísio. O lenhador, 1987. Têmpera óleo sobre tela. 75x100cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

Um outro aspecto que demonstra esse desejo de liberdade é o fato de Dionísio misturar tendências em seu percurso artístico. Do final da década de 50 até 1962, Del Santo produziu obras geométricas com predominância de ângulos retos, com retângulos e losângulos, de cores chapadas dominadas pelo vermelho, preto, branco e azul. Ainda no terreno da abstração, dedicou-se, nas décadas de 1960 e 1970, à criação de serigrafias que dialogavam com a Optical Art, chamando-as de Fragmentos Rítmicos. Nos anos 70, trabalhou também com a série “Cordéis”, barbantes coloridos colocados sobre telas monocromáticas que interagiam cineticamente com o espectador. No entanto, ao mesmo tempo que dialogava com essas propostas, Del Santo produzia neste mesmo período, obras geométricas de tendência figurativa, onde representava casais, animais e crianças. A figuração é retomada de forma efetiva em sua pintura nas décadas de 80 e 90. Contrariando a opinião da crítica e o mercado artístico da época, Dionísio volta a pintar e a serigrafia deixa de ser o foco principal de sua produção artística. Novamente o artista insiste em preservar suas escolhas estéticas e sua liberdade de criação. Segundo Reynaldo Roels Jr. (1989), os críticos não
memória. Rio de Janeiro, 1989.

1 interpretaram adequadamente as opções profissionais de Del Santo e as analisaram como reflexos de uma inconstância ou como um conflito profissional vivenciada pelo artista. Não perceberam que ele lutava para preservar seu ofício de tendências artísticas ou comerciais que poderiam diminuir a autenticidade de sua produção e o prazer que encontrava em seu trabalho. Não observaram também como, em seu processo de criação, Del Santo trabalhou com tendências antagônicas como o figurativismo e a abstração, promovendo o diálogo entre elas. Sobre este aspecto Roels Jr. diz: “No caso do Dionísio, como acontece com a maior parte dos bons artistas, o trabalho anterior sempre serve de alimento ao que se segue, é fruto de um diálogo interno que basta a si mesmo.”7

7 ROELS JR. Reynaldo. Retrospectiva Dionísio Del Santo. Paço Imperial. Ministério da Cultura/ SPHAN/Prómemória. Rio de Janeiro, 1989.

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Série Permutações
Avançando em seu processo de criação, o artista produziu a série Permutações, nas décadas de 1970 e 1980. Criando repetições de formas e variando somente as cores, Dionísio conferiu a esta série sentidos múltiplos. São variações cromáticas realizadas utilizando uma mesma matriz. As tiragens únicas das Permutas contradizem o caráter reprodutivo da gravura, fomentando novos pensamentos sobre esta técnica. Sobre a série, Almerinda Lopes comenta que “A permutação consistia em fazer tiragens de obras únicas, mantendo a mesma composição e modificando de uma para a outra o espectro de cores. A impressão de setenta a cem cópias distintas, isto é, com sensíveis alterações no registro de cores, atestava, por si só, a sua competência e cumplicidade criativa e técnica que não se descolam do exímio colorista que ele foi”8. Dessa forma, Dionísio chegava a fazer setenta a cem cópias distintas, distorcendo e anulando assim duas características da gravura: a reprodutibilidade e a seriação.

DEL SANTO, Dionísio. Espaços - Planos (Permuta XXXIII), 1977. Serigrafia sobre papel. 55,7x41,7cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

8 LOPES, Almerinda. Dionísio Del Santo. Vitória: Artviva, 2008.

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DEL SANTO, Dionísio. Fragmentos Lineares (Permuta XLVI), 1975. Serigrafia sobre papel, 70x50cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

DEL SANTO, Dionísio. Sem Titulo, 1982. Serigrafia – Permuta LXIII (2x2), 45 cm x 45 cm

DEL SANTO, Dionísio. Sem Titulo, 1982. Serigrafia – Permuta XXIX (1x1), 45 cm x 45 cm

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DEL SANTO, Dionísio. Sem título, 1970. Serigrafia sobre papel, 44,5x44,5cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

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A Matriz Espontânea

No final da década de 1970 Dionísio Del Santo começou a fazer experiências com a serigrafia de matriz espontânea. Esta técnica consiste em colocar pedaços de papéis rasgados, fragmentos de papel, folhas secas etc. sobre o papel a ser impresso. As possibilidades criativas são inúmeras, pois uma única matriz de área chapada e retangular suporta o trabalho de vários meses de impressão, desde que se tenha o cuidado de deixar a tela completamente limpa ao interromper o trabalho diário. Dionísio Del Santo chamou esta técnica de espontânea, porque no ato da primeira impressão os elementos gráficos ou formais se prendem automaticamente à tela de nylon, dando origem a uma matriz instantaneamente9. Segundo Reynaldo Roels a matriz espontânea utilizada por Dionísio irá quebrar alguns paradigmas. Os "(...) fragmentos de papel jogados no ato da impressão provocaram um distanciamento da rigidez defendida pelo concretismo, pois adicionavam a serigrafia aspectos pouco trabalhados: liberdade e menos controle sobre o resultado final. Pois ao jogar folhas secas, pó de grafite e papel picado o resultado era único a cada impressão, novamente, Dionísio rompe com o caráter da reprodutibilidade e transforma suas serigrafias em obras únicas”.

DEL SANTO, Dionísio. Sem Título, 1990. Serigrafia sobre papel. 44,7x44,5cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

9 SENAC, DN. Oficinas: gravura. Rio de Janeiro: Ed. SENAC Nacional, 1999. p.98-99.

1 O trabalho de Del Santo como professor de serigrafia e artista repercutiu em sua terra natal e, em 1977, foi convidado pela Galeria e Arte e Pesquisa da UFES para expor suas obras e ministrar aulas no curso de Serigrafia – Matriz Espontânea no Centro de Artes da UFES. Um de seus alunos de então, o artista e professor Raphael Samú, declara: “O curso que ele ministrou aqui foi tão bom que passei a incluir a técnica da matriz espontânea no programa da disciplina de serigrafia dos cursos do Centro de Artes. Além disso, repeti o curso de matriz espontânea nos Estados Unidos em um projeto de intercâmbio da Universidade West Virginia e a UFES”. Sobre o curso Samú recorda que “no princípio os alunos americanos ficaram meio desconfiados, estranhando o uso de uma única matriz para todas as cores. Usamos papel recortado e rasgado, talco, folhas de plantas sobre as superfícies, e a cada vez que entintávamos e fazíamos a sobreposição eles achavam fantástico. Terminamos a oficina e muitos alunos ficaram na sala até a madrugada olhando as serigrafias. Expusemos os trabalhos e depois disso eles passaram a divulgar, em muitos estados americanos, a técnica da matriz espontânea do Dionísio10”.

DEL SANTO, Dionísio. Fragmentos, 1978. Serigrafia sobre papel. 46,5x46cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo 10 SAMÚ, Raphael. Entrevista concedida a Priscila Chisté, 12-05-2010.

1 Em 1993, Dionísio voltou ao Espírito Santo convidado para ministrar uma oficina de serigrafia no Festival de Verão de Nova Almeida. O escultor e professor da UFES José Carlos Vilar relembra a ocasião dizendo que “o Festival visava concentrar artistas, estudantes e críticos para refletir sobre a Arte Contemporânea. O convite a Dionísio foi feito pensando no trabalho dele com a serigrafia e o status a que ele elevou esta técnica, muitas vezes tida como arte menor. No curso ele trabalhou com a matriz espontânea. Era muito silencioso, era calado, introspectivo e meticuloso, mas ao mesmo tempo era um professor atencioso com os alunos11”. A técnica e a poética de Dionísio Del Santo influenciaram muitos artistas, fomentando novos pensamentos sobre a serigrafia. Ele obteve em vida o reconhecimento da crítica, que lhe atribuiu o título de principal artista modernista capixaba. Seu trabalho é visto como um dos mais coerentes com o concretismo brasileiro. O artista e professor Dionísio fez-se inesquecível nos lugares por onde passou deixando sempre a sua marca: simplicidade pessoal, refinamento técnico e atenção a todos com quem conviveu.

11 VILAR, José Carlos. Entrevista concedida a Priscila Chisté, 12-05-2010.

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Uma pausa para o olhar
Depois desta breve apresentação sobre a vida e a obra de Dionísio, acreditamos que o leitor já esteja nutrido de informações e análises que permitam uma aproximação com o trabalho do artista. O processo de entendimento e reflexão a partir da obra de arte é um processo contínuo. São as recorrentes visitas às imagens originais que dão continuidade a um ciclo de vivências estéticas e que participam do aprofundamento dos sentidos humanos. Neste processo o sentido da obra de arte é, em grande parte, dado pela experiência de vida e pelos conhecimentos que o observador traz consigo, pois o olhar de cada um está impregnado de experiências anteriores, associações, lembranças, fantasias e interpretações. Por esta razão, sugerimos uma pausa, uma pausa para que o olhar possa examinar profunda e criticamente as imagens criadas por Del Santo apresentadas nesta exposição.

Del Santo, Dionísio. Sem título, 1982 e Sem título, 1984. Ambas serigrafia sobre papel, 70x50cm. Coleção Museu de Arte do Espírito Santo

Observe as imagens. O que enxergamos? São somente linhas? As figuras se formam por qual motivo? Mudança de cor? Mudança de padrão? O que provoca a sensação de movimento? O que é figura e o que é fundo? Como é elaborado o uso da cor nesta imagem? Que efeitos ela provoca? Quais as semelhanças entre as imagens? Quais as diferenças? Existem outras obras de arte que dialoguem com estas?

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DEL SANTO, Dionísio. Sem Título, 1990. Serigrafia sobre papel. 44,7x44,5cm. Coleção Museu de Arte

do Espírito Santo O que você vê? Quais elementos compõe esta imagem? Quais as cores? Que efeito produz essa composição? Como você acha que o artista fez essa imagem? Você conhece outros artistas que trabalharam com esta técnica? Como são suas obras?