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Capa (concepção e desenho): Nagai Santos 1ª Edição: Janeiro de 2008

Reservados direitos de cópia. Toda a reprodução da publicação por meios electrónicos carece de autorização por parte autor.

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Conteúdo
Apresentação – A oficina.................................................7 Tema 1 - Livre.................................................................13 Não existe mulher inteligente....................................15 Não confie nos jornais................................................29 Cotó descobre a liberdade.........................................31 Missão de extermínio.................................................33 Tema 2- O dia em que morri..........................................39 Meu sepulcro.............................................................41 O dilema do morto-vivo.............................................47 O quarto.....................................................................51 Tema 3 – O homem de branco.......................................53 Seda branca................................................................55 A fenda.......................................................................59 A roupa branca...........................................................65 Todas as cores............................................................69 Tema 4 – A contista........................................................77 Poeira.........................................................................79 O trouxa.....................................................................83 Imperfeição................................................................93 O duelo.....................................................................101 De repente...............................................................105

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Tema 5 – o velho guitarrista de Picasso/O prisioneiro. 107 O velho guitarrista....................................................109 O preso.....................................................................115 Destino.....................................................................133 No tempo das maçãs................................................139 Das armas e das artes..............................................145 Tema 6 – O beijo..........................................................153 O beijo......................................................................155 O corruptor..............................................................161 Beijo fatal.................................................................177 Tema 7 – Ano 2099......................................................185 Ilusões......................................................................187 Anno 2099................................................................197 Quem guarda os guardiões......................................207 Terra de ninguém.....................................................217 Tema 8 – O toque.........................................................221 O sino.......................................................................223 A mão.......................................................................225 Duas caras................................................................233 O toque....................................................................247

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Apresentação – A oficina

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Lembro-me dos rumores, quando a internet começou a se popularizar, de que a era digital afastaria as pessoas. O universo virtual era um monstro desconhecido, que fascinava alguns e aterrorizava a maioria, um vasto espaço ainda a ser desbravado. Por um lado, parte dos rumores estava correto, a proximidade física deixou de ser necessária, as pessoas podiam conhecer o mundo sem a necessidade de sair da frente dum computador. Mas isto não significou afastamento, mas sim proximidade. Pessoas que sob hipótese alguma se conheceriam, distanciadas por estados, países, continentes, puderam se conhecer e trocar experiências. Com o mundo digital, adveio também a informação desenfreada, saber sobre tudo no instante em que isto ocorre. Para o panorama literário, nada mais estimulante do que a possibilidade, talvez única na contemporaneidade, de ultrapassar todas as barreiras existentes entre o autor e leitor. Pela primeira vez desde a difusão da imprensa, o autor tinha domínio pleno sobre o que queria dizer e como dizer, sem intermédio de gráficas, de editores, de livrarias, dos ditos “formadores de opinião” — o espaço quase zero entre escrita e leitura proporcionou o surgimento, ou a saída das sombras, de milhares de escritores, todos desesperados por um lugarzinho ao sol. Esta saída do anonimato instalou um segundo nível de anonimato: eram tantos os escritores, que mal havia condições de discernir aquele dotado de potencial dum mero 9

escrevinhador de fim-de-semana. E, ao contrário das expectativas, uma legião de autores sem leitores passou a mendigar atenção na internet, nos fóruns, nos sites de relacionamentos, em blogs. Foi por causa destas circunstâncias que a idéia de criar um fórum destinado apenas a debates sobre o fazer literário se originou, onde não se poderia postar textos autorais, pois não bastava escrever; paralelamente, era necessário compreender a escrita, conhecer as técnicas literárias, conquistar o domínio sobre as palavras. Este fórum foi batizado de “Escritores – Teoria Literária”, ou apenas E-TL. A proposta de uma oficina literária foi o passo seguinte e, para tanto, era primordial reunir um grupo de escritores engajados com o auto-aperfeiçoamento, capazes de dedicar algumas horas por semana para ler e analisar obras de colegas, e periodicamente redigir contos. Para isto, não bastava ter talento, não era suficiente saber escrever; sem compromisso e engajamento não se constrói uma obra duradoura. Quantos não desistem no meio do caminho por causa das dificuldades? Mas sem sangue, sem garra, um escritor não sobrevive à árdua carreira que tem adiante. Não é fácil viver de arte, se esta não vive no artista. Os contos presentes nesta Antologia são resultado de pouco mais de três meses de atividade da Oficina. A cada quinze dias, um tema era proposto e participantes deveriam se apressar para entregarem uma obra curta neste prazo. Uma avaliação era realizada pelos próprios participantes e aquele que obtivesse a 10

maior nota da quinzena, propunha o tema seguinte. O nível de qualidade foi muito superior ao que poderíamos esperar, dado ao curto prazo estipulado. A competência e a dedicação dos autores participantes não poderia redundar em algo diferente: a publicação é a certificação deste esforço, é a prova deste envolvimento com a Literatura. Toda vez que publico uma obra minha, seja na internet, seja impressa, vem a minha mente um trecho do primeiro parágrafo de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Quando escreve, um autor tem diante de si um leitor ideal, em grande parte inspirado em si mesmo; alguém que escreve considerando apenas o aplauso dos outros trilha uma vereda tortuosa: sem saber a quem agradar, acaba agradando ninguém. Mas também me recordo da simplicidade de Alberto Caeiro, despedindo-se da sua obra: Da mais alta janela da minha casa Com um lenço branco digo adeus Aos meus versos que partem para a humanidade. E não estou alegre nem triste. Esse é o destino dos versos. Escrevi-os e devo mostrá-los a todos Porque não posso fazer o contrário 11

Como a flor não pode esconder a cor, Nem o rio esconder que corre, Nem a árvore esconder que dá fruto. Ei-los que vão já longe como que na diligência E eu sem querer sinto pena Como uma dor no corpo. Quem sabe quem os lerá? Quem sabe a que mãos irão? (...) Assim, despedimo-nos destas tramas que tecemos, para que, levadas como que pelo vento, elas possam ser saudadas por você.

Henry Alfred Bugalho Nova York - 2007

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Tema 1 - Livre

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Não existe mulher inteligente
Denis Clebson da Cruz

Patrício, no auge de seus trinta e dois anos de solteirismo mantinha com orgulho um blog onde descrevia teorias do machismo, muitas delas de sua própria autoria. Dedicava pelo menos uma hora e meia por dia pra atualizar o blog e responder aos insultos das feministas e demais mulheres ofendidas e, acredite, não era nada difícil uma mulher se ofender com o teor de seu sítio. Elas odiavam, especialmente, os artigos onde ele surrava a falta de inteligência das mulheres. Aliás, eis a parte que ele mais adorava: espancar o que ele chamava de falta de cérebro feminino. Deleitava-se escrevendo frases do tipo: “mulher inteligente é aquela que consegue controlar o painel do microondas”; “mulher não precisa de inteligência pra gemer”; “mulher inteligente é aquela que sabe, de cabeça, pelo menos duas receitas de pratos salgados e uma de sobremesa. Exigir mais que isto é pedir o impossível.” Estas e outras pérolas da mente machista faziam seu blog alvo de feministas – que Patrício chamava de “suvacudas”, fazendo alusão ao que ele alegava ser falta de depilação das axilas.

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Na manhã fresca de uma segunda-feira, Patrício vestiu uma camiseta branca e um jeans surrado. Era seu dia de folga e pretendia estrear um “gol bolinha” que havia comprado no sábado. Uma verdadeira bagatela. Mal acreditava que havia economizado cerca de uns cinco mil reais na compra daquele carro. A princípio chegou até a desconfiar sobre a origem do tal veículo, mas o vendedor apresentou uma série de extratos do DETRAN atestando a regularidade do veículo. Não perdeu chance, comprou o carro com suas economias. Até uma mulher teria achado aquilo uma ótima oportunidade de negócio, não podia perdê-lo. Claro, antes de fechar o negócio, fez toda a conferencia mecânica do carro e, estando tudo perfeito, selou o trato. Com recibo assinado na mão, meteu-se no gol bolinha, de cor branca, e saiu pela cidade. Abriu bem a janela e sentiu o vento bater no rosto. O carrinho chegava cheirar a novo. Que maravilha. Ali pelo centro, o trânsito afunilou um pouco, ficando mais lento. Percebeu, então, que estava indo para uma “batida policial”. Que mal tinha? Nenhum. Pois a documentação de seu carro novo e sua pessoal estava toda em ordem. Obra do acaso – ou não – seu carro foi um dos barrados. - Documento pessoal e do veículo, por favor – Disse o policial com a etiqueta “Almeida” colada na farda azulada.

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Patrício atendeu sorridente. Mesmo tudo regular ficou nervoso olhando a expressão impassível do Policial que foi até a traseira do golzinho e conferiu os dados com a placa. - Tudo certo seu guarda? – perguntou Patrício quando o policial voltou para a janela aberta do seu carro. - Sim. Tudo em perfeita ordem – disse o policial sem dar o mínimo sorriso. - Pode seguir. - Obrigado seu guarda – respondeu Patrício relaxando. Aquilo apenas confirmava que havia feito um negócio da china. Não havia nada de errado com seu carro novo. - EI ESPERE! – gritou uma voz feminina quando Patrício já havia ligado o motor. Uma policial de cabelos negros presos em baixo da boina parou no vidro do carro, do lado do carona. Patrício abaixou o vidro para atender a tal policial etiquetada como Jalinsk. “Aff, uma mulher.” Pensou ele enquanto sorria amareladamente e ainda com o motor ligado. “Deve ser sapatão, pois uma que seja 100% mulher não conseguiria passar num concurso público. Acho que ela tá na corporação por ter neurônios suficientes para não se perder no caminho da cozinha quando vai buscar cafezinho para os policiais de verdade.” Riu consigo mesmo enquanto curtia seus pensamentos machistas. - Desligue o motor, por favor – ordenou a policial e Patrício obedeceu sem tirar o sorriso disfarçado da sua cara lavada. –

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Quero só verificar um detalhe, se o senhor não se importar – disse ela educadamente. - Claro, claro. Sem problema – respondeu saindo do carro. Quando fechou a porta, viu que a policial Jalinsk estava abaixada perto da placa traseira do carro e ouviu quando ela disse com tom autoritário para o policial Almeida: - Você não conferiu o lacre? - Não capitã – respondeu o homem. “Bunda mole”, pensou Patrício parando ao lado deles. “Baixando as bolas pra uma mulher. Ela só deve entender o que é lacre de tape ware, vai lá entender de lacre de placas.” - Abre o capô pra gente, por favor – disse a oficial se levantando. Patrício obedeceu prestativo como uma puta. “Tinha que ser mulher.” Pensou ele observando a policial debruçada sobre o motor. “A anta me faz perder tempo aqui, fingindo para os colegas que entende de alguma merda.” - O Senhor comprou onde este carro? – perguntou ela. - Na pedra – respondeu o homem sem perder a compostura. - Pagou quanto? – continuou o questionário e Patrício respondeu. – Mas isso não é bem abaixo do valor desse carro? - Sim senhora. Uns cinco mil – respondeu Patrício e ousou um tom mais desafiador. – Agora é crime fazer um bom negócio? 18

- Agora não. Sempre foi – disse ela. – O senhor está preso por receptação culposa. Esse veículo está com o chassis adulterado e documentos frios. É um carro clonado. Patrício ficou branco, azul, verde e amarelo, não necessariamente nessa ordem. Não conseguiu responder nada enquanto xingava mentalmente aquela policial burra à sua frente. “Clonado é o pau que vou socar na tua bunda, sua vadia.” Era a coisa mais amena que ele conseguia pensar. - Clonado? Como assim? – conseguiu finalmente dizer. - Clonado quer dizer clonado. Tem por ai um carro igualzinho ao seu, só que legal, legítimo. Ai algum espertinho rouba este carro, duplica os documentos, placas, etc, e põe o carro roubado pra rodar. O Policial Almeida chegou com um extrato não mão, tirado a partir de um número que a capitã lhe forneceu. Ela analisou bem o documento e disse: - Passei para o soldado Almeida o chassis original que achei gravado ali. “Este carro é produto de roubo ocorrido a sete dias atrás – Levantou os olhos para Patrício. – Como eu disse, o senhor está preso.” Almeida já foi algemando o pobre coitado, virando suas mãos para trás. Não conseguiu esboçar qualquer reação, mas sua vontade era chutar a cara da policial que ele só conseguia xingar de burra em sua mente.

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“Sem problema”, pensou, já sacolejando atrás do camburão que partia em retirada. “Na delegacia eu explico pro delegado o que essa anta não consegue entender.” Chegaram na 13ªDP. Puxaram Patrício pelos fundinhos e foram levando o pobre diabo algemado pelo corredor gelado. Sentaram-no num banco duro, ao lado dum bêbado que fedia qualquer coisa que só podia ser denominada como carniça, uma mistura de pinga com arroz azedo. O bêbado dormia recostado na parede, roncando de boca aberta e babando pela barba preta e rala. - A Dra. Mirian vai atende-los – disse um escrivão civil saindo de um dos gabinetes da Delegacia. - Doutora? – disse Patrício num sobressalto. – Doutora? - É, Doutora – respondeu o escrivão enquanto a capitã Jalinsk entrava na sala. “Puta que o pariu. Eu devo ter cagado na bacia de pão da ceia...” pensou Patrício sendo puxado pela algema e jogado numa cadeira em frente à delegada de cabelos loiros. Ela ouvia as explicações da Policial Militar. “A delegada deve ser uma sadomasoquista, que se veste de gata selvagem e entra pra chicotear os presos. Como que uma mulher passa num concurso pra delegado?” A Dra. Mirian virou-se para Patrício e ele explicou sua versão.

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- E onde estão os tais documentos que o vendedor apresentou para o senhor demonstrando que o veículo era legal? “Enfiei na bunda”, pensou ele, mas preferiu dizer a verdade: - Joguei no lixo depois de ver que estava tudo perfeito e fechar o negócio – sequer conseguiu olhar para os olhos da Delegada, que torcia o nariz diante de uma versão tão estúpida. - O senhor acha que sou burra? Que sou uma palhaça? – perguntou a delegada num tom de voz mais que calmo. “Sim. Burra, anta, idiota, etc, etc, etc.” - Claro que não. Mas eu juro que é verdade – disse ele preferindo não insultar a delegada. - O senhor jura? Acho que o senhor está confundindo. Isso aqui é uma delegacia, não uma igreja. Eu sou uma delegada, não um padre. Patrício queria esganar a delegada que falava com uma voz quase melodiosa de tão educada. - Eu sei – disse ele contendo um turbilhão de xingamentos. - Então o senhor tinha plena ciência da origem ilícita do veículo? – ela perguntou. - Claro que não – disse ele fazendo cara de coitado. - Mas pelo menos suspeitava disso, por causa do preço que foi oferecido?

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- Sim, tanto que pedi os documentos pra provar que o veículo era quente. - Ah sim – a delegada recostou-se na cadeira – e onde estão os tais documentos do DETRAN que o vendedor mostrou ao senhor. “Queria tê-los aqui, pra enfiar na tua bunda”, pensou ele. - Joguei. Eu já disse – Patrício parecia um pinto molhado encolhido na sua cadeira de couro rasgado. - Claro, claro. O senhor está preso. Vamos fazer o flagrante. O senhor tem advogado? - Tenho um amigo que é advogado. O escrivão o levou para uma sala e Patrício ligou para o colega. - Tibúrcio – disse ele no telefone. – Comprei a porra dum carro roubado. Tô preso, vem me soltar. - Que merda hein, Patrício – disse a voz do outro lado da linha. – Olha, eu só mexo com direito tributário, não entendo patavina de penal. Mas mando um dos melhores colegas que tenho nessa área. Só esperar. E esperaram. Meia hora depois uma mulher de cabelos negros, vestida com uma saia e terno marrons, muito discreta e de pasta na mão, entrou na sala onde estava Patrício. - Sr. Patrício? – disse ela estendendo a mão. “Bosta, me mandaram a secretária do tal advogado.” 22

- Sim – levantou-se algemado. - Sou a Dra. Liana. - Doutora? – olhou desesperado. - Sim. Conte-me o que aconteceu – sentou-se em frente ao cliente. Patrício sentiu vontade de peidar, cagar, mijar, vomitar tudo ao mesmo tempo. Estava novamente nas mãos de uma mulher burra e ignorante. Desconhecedora do universo “homano” e de como funcionava a Pedra onde se vende os veículos. Sem ter outra saída, contou sua versão para a advogada. - Você foi um idiota jogando os documentos do DETRAN e mais idiota ainda tendo falado quanto pagou pelo carro – disse ela enquanto abria o código penal em seu colo e leu: - Parágrafo terceiro do artigo cento e oitenta, adquirir coisa que por sua natureza ou pela desproporção entre o valor e o preço deve presumir-se obtida por meio criminoso. - Não entendi bosta nenhuma – resmungou Patrício encolhendo-se no banco surrado. - Significa que quando alguém oferece uma coisa muito abaixo do que realmente vale é porque tem alguma coisa estranha. A pessoa que presume isso e mesmo assim compra a coisa, comete o crime de receptação culposa. Ela não tem certeza que é produto de crime, mesmo assim se arrisca. - Porra, mas eu pedi os documentos do DETRAN pro cara. 23

- E cadê os documentos? – Perguntou a Dra. Liana, sapateando o salto bico fino no chão. - Enfiei na bunda – desabafou Patrício. - Pois é. E querem socar mais coisa no teu rabo agora – falou a advogada sem rodeios. – A delegada acha que você sabia da origem ilícita, por isso está detendo você até agora. Ela tem a esperança de você dedurar os outros membros da quadrilha. - Quadrilha? – Patrício sentiu novamente a vontade de cagar ali mesmo no banco. – Que quadrilha doutora, sou homem honesto, trabalhador, pagador de imposto. - Eu sei... eu sei... – acalmou ela. – Vou convencer a delegada disso. O crime de receptação culposa é de menor potencial ofensivo... - Menor o que? - Esqueça os detalhes técnicos, Patrício – cortou-lhe a advogada. – Deixe isso pra quem conhece, ou seja pra mim. Patrício queria dar um soco no olho da advogada. Era inadmissível estar nas mãos de uma mulher que se julgava inteligente. - Então – continuou ela – crimes desse tipo nem precisam de flagrante. Faz-se um Termo Circunstanciado de Ocorrência e você sai livre agora. O moribundo só entendeu a parte do “sai livre agora”, o resto era receita de yakissoba escrito em japonês. - Eu saio agora? 24

- Sim. Vou tentar – fechou o código em seu colo. – Vou conversar com a delegada. Se eu não conseguir convencê-la ai vou ter que pedir liberdade provisória ou relaxamento da prisão pra Juíza. Aí a Promotora dá o parecer e você está na rua. - JUÍZA? PROMOTORA? – exaltou-se Patrício. - Sim... algum problema? “Isso aqui é o inferno.” Pensou enquanto murchava no banco. “Ou é a ilha de Lesbos, sei lá. É um complô, uma armação das suvacudas peludas feministas que frequentam meu blog. Não pode uma mulher passar num concurso pra Promotor ou Juiz. Agora os Desembargadores e Procuradores tão apadrinhando as filhas, sobrinhas, enteadas, seja lá o que for,...” - Não – respondeu patrício com a voz afinando. – Não sabia que era Promotora e Juíza que atendiam essa DP. - É sim. Muito boas por sinal. As melhores que já passaram pela Vara criminal nos últimos anos. “Vou dar outra vara pra elas”, pensou com um sorriso pequeno pra sua inteligentíssima advogada. A Dra. Liana deu o preço de seus serviços para Patrício, que sentiu novamente o ventre remexer e, fechado o negócio – onde via ir para o ralo os cinco mil reais economizados na compra do veículo e descobria que havia perdido o mesmo, sem chance de recuperar algo que era produto de roubo e não lhe pertencia. A advogada levantou-se e foi para a sala da Delegada. Devem ter tricotado os primeiros quinze minutos e depois discutido o mérito da questão.

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Meia hora depois, voltou para a sala do pobre diabo que recitava em sua mente frases de desdém à raça “mulherana”. Ela disse: - Você está livre. A Dra. Mirian vai elaborar um termo Circunstanciado e você vai responder a acusação só no Juizado Especial de Pequenas Causas Criminais. Ali, rapidinho, provamos sua inocência e você não corre nenhum risco de ser preso, mesmo se, numa remota possibilidade, for condenado. O alivio de Patrício foi tão grande que ele quase se borrou ali mesmo. - Ai doutora, que bom que o Tibúrcio mandou a senhora – quando se deu por conta já tinha reconhecido a capacidade da advogada e estava quase chorando na frente dela. Recompôs-se e fez uma cara séria – não sem antes enxugar uma lágrima maldita que escapou de sua cara de macho imaculado. Homem não chora. - Obrigado, doutora – parecia um general, tanto na voz como na postura. Depois de encerrado todo o procedimento policial, voltou pra casa de carona com a advogada e deixou com ela três cheques como pagamento por seus serviços, que cobriam tanto a liberação como futura atuação perante o Juizado Criminal que viria a seguir. Tomou um bom banho, descansou a mente e depois foi atualizar seu blog. Olhava a tela do computador pensando o que escrever. Pensou por alguns minutos e finalmente sorriu.

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Escreveu o título para seu novo artigo: “Não existem mulheres inteligentes, porém elas são muito bem relacionadas, apadrinhadas e conseguem se comunicar entre si. Se não cuidarmos, elas vão dominar o mundo.” Desceu a lenha na mulherada, sem contar os detalhes de sua aventura naquele dia.

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Não confie nos jornais
Rafael de Leon

Patrício, no Manhã de segunda-feira. O frio castigava muito, mas seu João, aposentado por invalidez, não tinha escolha: teria que se levantar, agasalhar-se bem, fazer uma longa marcha até a Caixa Econômica Federal e, depois de uma longa fila, receber sua pensão tão magra, porém essencial para a sua sobrevivência. Para que você se compadeça do seu João, não que isso seja necessário, saiba que ele é cego. Não era cego de nascença, pois enxergou muito bem mais da metade de sua vida. Entretanto, certo dia, quando foi ao posto de saúde fazer uma consulta para reclamar de um vermelhão que apareceu no canto dos seus olhos, uma enfermeira, que não julgou necessário o atendimento de um médico, forneceu a ele, distraidamente enquanto pintava as unhas, um colírio vencido que provocou o trágico desfecho de uma cegueira total e um processo na justiça que tramita há anos. Voltando a tal fria manhã, seu João saiu cedo de sua casa, armado de sua bengalinha para cego, em direção ao centro da cidade. Muito bem, nosso protagonista estava próximo a um cruzamento perigosíssimo – a única rua que tinha medo de atravessar sozinho. O barulho da manhã era grande. Pessoas iam, em seus carros, para o trabalho com muita pressa e, conseqüentemente, incapazes de prestar atenção no trânsito.

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O pobre cego ao alcançar a perigosa rua procurou usar uma de suas táticas preferidas: esperar até que outro pedestre tenha que cruzá-la também e então pedir ajuda para que ganhe o outro lado a salvo. Mas desta vez algo interessante aconteceu. Havia outro cego parado à beira do cruzamento a espera de uma alma piedosa que também o ajudasse. Esse, ao sentir o cheiro de outro indivíduo chegando mais perto, uma vez que o som de passos era impossível de se ouvir naquela barulheira infernal, disse: – Atravessaria a rua comigo? Seu João, que era com quem ele falava, e que não sabia que quem lhe fez a pergunta também era um cego, pensou na grande sorte que teve por achar uma pessoa de bom coração a postos para lhe ajudar e respondeu que sim. Os dois cegos, muito felizes por terem conseguido companhia para atravessar a rua, levantaram suas bengalinhas e estenderam os braços um para o outro. Puseram-se a andar em direção ao meio da rua sem preocupações, já que a confiança era mútua. O final não poderia ser outro. Um carro, dirigido por uma mulher que falava ao telefone celular, acertou-os em cheio. Venho agora, não com a tentativa de comover você com esse trágico desfecho, mas sim com o objetivo de expressar minha indignação contra o jornal local que não apurou devidamente os fatos e publicou esta mensagem em sua primeira página no dia seguinte: “Casal de cegos gays se suicida no centro da cidade”.

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Cotó descobre a liberdade
Henry Alfred Bugalho

Num canto esquecido no quintal da minha vó, atrás das bananeiras, agitava-se Cotó. Amarrado com uma corda de varal no chiqueiro, ele latia desesperado, suplicando atenção, uma mão para afagá-lo. Mas nós não chegávamos perto, e nem era por causa das sarnas e carrapatos, ou da baba constante a escorrer, ou das demais perebas que não víamos, era apenas para não sujar a roupa limpinha, que Cotó insistia em macular com suas patas avermelhadas de terra. Eu até gostaria de brincar com ele, desatar-lhe o nó que feria sua garganta e vê-lo correndo livre pelo quintal, latindo de felicidade, não a mendigar carinho, mas vovó não deixava. Nossa obrigação era apenas jogar a vasilha com angu diante de Cotó e voltar pra casa. À noite, Cotó chorava. Eu não podia vê-lo pela janela, mas escutá-lo era uma dor no coração. Revoltei-me, deixei a casa de pijamas, no escuro, e fui até o cativeiro de Cotó, ousei me aproximar e recebi patadas na altura do peito e lambidas na cara, acarinhei-lhe o pescoço e o desprendi da amarra. Cotó ficou como que paralisado, nunca havia sido livre antes, não entendia o significado disto; a ausência de laço o amedrontava. — Vai, Cotó, vai embora! Mas o burro do cachorro apenas me olhava, pedindo carinho. 31

Foi quando tive a brilhante idéia, apanhei um pedaço de pau e mostrei a Cotó: — Pega, Cotó! — e arremessei o pau, o mais longe que pude. Instintivamente, Cotó se precipitou atrás do brinquedo. Segundos depois, retornava, objeto na boca, toco de rabo abanando. — Vai, Cotó, pega! — e, com mais força, lancei a madeira, que desapareceu na escuridão. Esperei alguns minutos, mas Cotó não voltava. Finalmente, ele havia sentido o gosto da liberdade e fugira pelo mundo afora, descobrindo coisas que nunca havia imaginado. Na manhã seguinte, ouvi minha vó conversando com alguém na cozinha: — Era um cachorro desgramado mesmo! Foi quando descobri que Cotó, na noite anterior, ao encalçar o pau, havia corrido para a rua e acabou atropelado por um Fusca. De libertador, passei assassino. Daquele dia em diante, comecei a entender Robespierres, Napoleões, Che Guevaras e Cristos; o fardo da liberdade é grande.

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Missão de extermínio
Ana Cristina Rodrigues

No topo de uma colina, os dois, envoltos nos mais modernos trajes anti-radiação, olhavam a terra devastada. -Ainda não acredito que tenhamos feito isso. Ela mediu os níveis de radiação e fez mais algumas leituras procurando formas de vida antes de responder. -Pode acreditar, querido. Não foi para isso que nos contrataram? Estranho... Estou captando alguns sinais biológicos vindos do norte. Bax ergueu a cabeça. -Como assim, Nelora? A mulher ruiva deu de ombros. -Não sei. Eles não tem tecnologia suficiente para construir abrigos anti-nucleares. Ou melhor, não tinham. Desviando o olhar do rosto de sua esposa, que parecia não se importar com o que acabaram de fazer, o ex-soldado e atual mercenário virou-se para a direção onde ela detectara vida. -Não tinham nada... Mal chegaram a obter eletricidade. Não poderiam resistir a um ataque atômico massivo. 33

Nelora guardou o equipamento. Antes de entrar no ramo de finalização definitiva de conflitos fora uma brilhante cientista do Exército. Passara três anos em alojamentos minúsculos, comendo ração de soldado e ganhando um soldo ridículo. A vida por conta própria valia muito mais a pena. Sabia que o marido também concordava, mas ele sempre ficava muito sensível depois do serviço feito. -Também não eram uns pobres coitados inocentes, amor. A guerra já estava durando cinco anos. O número de baixas no Exército da Confederação Planetária foi três vezes maior do que o permitido. Eles mataram os embaixadores, não admitiram sequer ouvir falar em um tratado... -Este era o planeta deles! Tinham o direito de não quererem falar com ninguém. Afinal, o que a Confederação ganha? Pegou uma arma laser e jogou uma para Nelora. -Bax, eu não faço a menor idéia. Nem quero saber. A Confederação tinha o dinheiro, nós tínhamos o poder de fogo. Recusar um contrato desses ia nos ferrar para sempre, aceitar nos fez milionários. Um último olhar pela imensidão da planície devastada. -Tanto poder para destruir. E nenhum para criar. -A vida é dura, amor. Vamos, temos que verificar esse sinal. Provavelmente é uma barata, mas prometi entregar o planeta morto e é isso que vamos fazer. O local indicado era uma mina, que os sensores diziam ter, entre outros minerais, galena. A concentração de chumbo 34

permitiria que formas de vida sobrevivessem à devastação externa. -Se não for uma barata, é um morcego... Ela continuou observando as medidas. -Só se for um grupo. Os sinais vitais correspondem a pelo menos três seres de porte médio... Bax empunhou a arma. -Ursos? -Sim, pelo que levantei, podem ser um tipo de predador, equivalente aos ursos de Sol III. Nos dados da Confederação sobre a fauna daqui, há a descrição de três espécies equivalentes... -E que nós extinguimos. Nelora revirou os olhos. -Pela Nebulosa! Você sempre é mais sensível, porém dessa vez está exagerando. Vamos combinar uma coisa. Se forem mesmo esses bichos, a gente os seda e leva para um zoológico. Assim, vamos ter salvo alguma coisa, sem quebrar o contrato. Ele não teve tempo de responder. Algo zuniu no espaço entre eles, com um estampido. -Um tiro! – ambos empunharam as armas. – Quem está aí? A resposta, obviamente, foi outro tiro. Tudo o que os sentidos apurados de Bax precisavam. Em questão de segundos, localizou e desarmou o atacante. Era um velho, vestido da 35

estranha maneira daquele planeta, com roupas amorfas e acinzentadas, e coberto por um capa de tecido marrom grosseiro. Ele começou a xingá-los na língua padrão. -Miseráveis! Assassinos! Destruíram tudo! Nelora, sem paciência, ergueu sua arma. Seu marido a impediu. -Calma, amor. Você detectou três seres... ele deve saber onde estão os outros. O velho esperneou. -Não adianta, eu não vou contar nada! -Coroa, como você aprendeu a nossa língua? Ele arfava e os olhou como se quisesse cuspir na cara deles. -Fui um dos embaixadores que recebeu as suas equipes mentirosas. Prometeram a paz e trouxeram a guerra. Nelora interveio. -Peraí, velho, até onde eu sei vocês recusaram as ofertas e... -Aceitamos todas! Sem impor nada, além da garantia que nossa cultura seria preservada! Quando mesmo essa pequena clausula foi negada, alguns ainda confiaram que as diretrizes da Confederação, proibindo um ataque massivo, nos dariam alguma chance! Mas eu sabia o que vocês eram! Mentirosos! Bax estava perplexo. -Como assim... 36

Foi interrompido por sua esposa. -Olha, cara, lamento. Mas as diretrizes da Confederação não foram quebradas. Nós somos mercenários e fomos contratados para dar uma solução definitiva. Fizemos do nosso jeito e pronto. Assunto encerrado. - Nelora, eles nos enganaram! -E daí, amor? Eu estou nessa pelo dinheiro! Vamos poder nos aposentar com todas as regalias – apontou a arma para o velho. – Diz tchau, vovô. Um grito agudo na língua nativa veio do interior da caverna. Uma adolescente, vestida da mesma forma estranha, jogou-se entre a arma e o ancião. Isso não abalou a mercenária, que ia atirar mesmo assim, não fosse impedida por Bax. -Você ficou louca? A garota está grávida... -E qual o problema? Olha, eu vou matar eles. Precisamos acabar o contrato, você gostando ou não! Se não quer ajudar, então volta para a nave. Eu resolvo tudo. Bax deu de ombros, desistindo de argumentar com ela. Encaminhou-se até a porta, e Nelora preparou-se para encerrar o assunto. Não contava que o marido lhe desse um tiro certeiro na cabeça. Aproximou-se do corpo, entristecido. -Chega, amor. Não podemos continuar a fazer isso. Olhou para os responsabilidade sua. dois nativos. Eles agora eram

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-Esperem... o sensor disse que eram três. O mais velho gritou algo e um rapaz, da mesma idade da moça, surgiu. O ancião explicou para Bax. -Desconfiei das intenções de seu povo. Trouxe mantimentos para esta caverna, e consegui trazer minha neta e o marido ontem a noite. Sabia que não ia demorar muito... O mercenário sentia-se culpado. A única coisa que podia fazer para reparar o erro que ele e Nelora cometeram era cuidar daqueles três, os últimos remanescentes de toda uma cultura. -Vocês não podem ficar no planeta. A radiação iria matá-los, se não morressem de fome antes. O velho apenas o olhou, sem responder. E ele descobriu o que faria. Sabia dos riscos. Podia ser acusado de traição. Mas lembrava-se do contrato. O planeta deveria ser entregue morto. Não especificava nada sobre como fazer isso. Retirar os sobreviventes era uma maneira de tirar toda a vida daquele mundo. Voltou a nave e trouxe mais dois trajes anti-radiação. A menina vestiu o de Nelora. O corpo de sua ex-mulher foi deixado ali, no planeta que ela exterminara. Para Bax, sobrara o encargo mais difícil, o da sobrevivência.

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Tema 2- O dia em que morri

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Meu sepulcro
Denis Clebson da Cruz

A morte como uma escolha. Nunca pensei em me entregar assim, de vontade própria. Respiro fundo e um cheiro doce parece tomar todo o ar que me envolve. Ouço música ao fundo. Boa música. Um coral, quase celeste. Meus pés descalços tocam o fundo gelado, enquanto meu corpo quase flutua na água que bate à altura do peito. Não me oponho à força que me impulsiona para trás e, de olhos abertos, deixo a água me cobrir por completo. Eis o sepulcro da minha carne. Não há luta; não resisto. Mesmo assim, sem resistência, sobem inúmeras bolhas, prismando a luz que reflete na transparente água. Param as bolhas. Um arco-íris se desdobra estático à frente dos meus olhos. O tempo já não existe, permitindo minha mente viajar ao passado. Eu queria ter uma história fascinante para contar. Queria dizer que fui um assaltante, um assassino, um alcoólatra; que usava drogas ou que me prostituía. Nada disso. Nada de excitante, nada de espetacular.

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Um cara normal, de quarenta e dois anos; um eterno engravatado enfiado atrás de sua mesa empresarial de sucesso. Dois filhos adolescentes, uma bela esposa e uma conta bancária confortável. Estranho é dizer que, apesar de tudo, sempre me senti vazio. Não era ganância, mas algo me faltava. A vida não podia ser aquele mundinho coberto pela minha rotina. Aliás, eis algo em que eu era campeão: manter a inabalável organização dos meus dias. Minha vida era regida por princípios de eficiência no trabalho, pelos cinco S’s, por métodos de organização e essas coisas que se aprende em palestras motivacionais. Enfim, minha história não daria um bom livro ou sequer um bom micro conto. O leitor torceria o nariz nas primeiras linhas e abandonaria o conto da minha vida. Mas por que morrer, se tudo estava tão perfeito, tão controlado, tão previsível, tão certo? Só posso dar uma resposta: a angústia. Algo terrível me oprimia, me apertava o peito. Flagrava-me, vez ou outra, com um nó na garganta ou olhos cheios de lágrimas. Algumas vezes não suportei e, sozinho, chorei. Meu pranto sempre foi longe da família, não queria expressar qualquer fraqueza diante dela. Cheguei a comentar por alto com amigos próximos. A sentença foi unânime: depressão. Pois bem, me tratei. Fui medicado. Alguns dos remédios me deixaram meio abobado, menos produtivo, sonolento. Nenhum deles sarou minha inquietude, minha falta de perspectiva para a vida. 42

Deixei de lado aquela porcaria toda. Preferia ser um doido produtivo a um maluco movido por antidepressivos. Definitivamente, não era de remédios que eu precisava. Pode até funcionar para algumas pessoas, mas para mim não surtiu qualquer efeito. Lembro-me de certa reunião com um cliente, ocorrida há um ano atrás. Após nossa conversa, ele saiu da minha sala e deixou sobre a poltrona um pequeno folheto. Não sei se houve qualquer intenção na deixa daquele pequeno escrito, mas o fato é que ele me atraiu a atenção. Sentado em minha poltrona, observei de longe parte das letras que anunciavam: “A Solução Para Seus Problemas.” Gireime na cadeira; para um lado e para o outro. Era demais querer me enganar que aquele papelote teria a solução para minha angustia. Livrei-me de qualquer esperança e busquei o folheto. Li o cabeçalho da frase que me era, até então, invisível do outro lado da mesa: Jesus. - Crentes! – a palavra saiu com desdém dos meus lábios. – Eles acham que é tão simples. Pensam que esse tal Jesus resolve tudo. Sentei-me de volta em minha poltrona. O papel em minhas mãos ainda me convidava à leitura. De fato, meus olhos percorreram as letras, uma a uma, formando palavras e frases completas. Não suportei. Chorei. Não sei dizer exatamente por que um artigo tão simples me tocou daquela forma intensa. Recordo de uma frase: Jesus tem o exato tamanho do vazio de sua vida. 43

Impossível. Não podia ser tão simples. Não podia o tal Cristo ser a solução, ser o preenchimento para minha existência. Peguei o telefone e limpei a garganta enquanto ligava para o celular do meu cliente. - Antunes – eu disse na linha. – Sou eu, o Pedro. Você deixou cair um folheto aqui na minha sala. - Ah, não se preocupe com isso, Pedro – disse a voz do outro lado. – Tenho vários aqui. Pode ficar com esse e, se tiver um tempinho, dê uma lida. - Eu li – saiu minha voz um pouco embargada. - Que bom. Espero que você tenha gostado. - É verdade isso tudo que está escrito? Esse tal Jesus pode preencher o que falta em minha vida? Como eu faço? Um breve silêncio ante veio à resposta. Creio que Antunes, naquele momento, não estava preparado para perguntas daquele tipo. Com certeza, ele sequer imaginasse a dor que me afligia. - Pedro, o que você conhece sobre Jesus? Você quer conhecê-lo de verdade? - Não conheço praticamente nada. E sim, se ele tem uma solução para mim, eu quero conhecê-lo. Antunes me disse o que fazer e cumpri à risca. Desliguei o telefone e tranquei a porta do escritório. Ali, no meio da minha sala, um pouco acanhando com a situação, me ajoelhei e, pela primeira vez na minha vida, falei com Deus: 44

- Deus, eu tenho um vazio em meu coração. Entrego minha vida em Suas mãos, me faça um novo homem, molde-me à Sua imagem, preenche meu coração. Mate o velho homem eu quero receber Jesus em minha vida. Senti minha mente voltar ao presente. Meu corpo foi puxado das águas batismais, o simbólico sepulcro do velho homem; da minha carne. Ressuscitei como nova criatura, um filho de Deus renovado pelo poder de transformação do prometido Messias, Jesus. Enfim, batizado em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O coral da igreja pareceu entoar mais forte a música que cantava. Enquanto o pastor me abraçava dentro do tanque batismal, situado no alto, atrás do púlpito da igreja, me lembrei que há um ano atrás eu me levantava daquela singela oração. Havia aberto as portas da minha alma para aceitar o Cristo e o vazio em meu peito era preenchido por uma paz sobrenatural. Olhei para baixo e vi os demais fiéis cantando com o coral. Reconheci muitos rostos que me ajudaram na longa caminhada de estudos para chegar à completa convicção, pela Palavra de Deus, de qual era o ideal para minha existência. Mais que ser convencido, senti a mão operante de um Deus renovando meu ser. Um cristianismo simples, de amor e respeito ao Criador, às suas Leis e à Sua criatura, preencheu as lacunas da minha vida. Entreguei o velho homem, sepultei-o nas águas. Agora posso dizer: Já não sou eu quem vive, Cristo vive em mim... e, claro, que venham os desafios desta nova vida, pois eu sei de onde virá meu socorro, ele virá do Senhor que fez os céus e a terra.

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O dilema do morto-vivo
Henry Alfred Bugalho

— Sinto muito, senhor Jorge, mas não podemos liberar o seu auxílio-doença. Consta em nossos bancos de dados que o senhor está morto — a funcionária do INSS fitava a tela do computador. — Mas, minha filha, eu ‘tô vivo! Bem aqui na tua frente! — Não há nada que eu possa fazer, seu Jorge. Desorientado, Jorge deixou o posto do INSS e foi para casa. — Maria, você não sabe da última — Jorge resmungou. — Fala, meu véio... — Maria lavava roupa no tanque. — Não vou recebeu o dinheiro da licença-médica. ‘Tão falando que estou morto. — Como assim, Jorge? — Não sei, só disseram que eu havia morrido. — Amanhã, você volta lá e confirma esta história — e foi o que Jorge fez, na manhã seguinte, retornou ao INSS, porém, obteve a mesma resposta. — Estranho, não? — Maria coçava a cabeça.

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No entanto, Jorge não respondeu, absorto em pensamentos. Passou o dia calado, não quis assistir à novela, foi dormir cedo. Mas o sono não veio, Jorge rolava na cama, atormentando com a idéia de que eles estivessem certo. — E se eu estiver morto, Maria? — ele perguntou. — Deixa disto, Jorge, você ‘tá vivo! — Maria retrucou, dormitando. — Você tem que ir a um cartório, Jorge. Lá eles podem dizer se você está morto ou vivo. Se estiver morto, eles vão ter um atestado de óbito, com seu nome e data de falecimento — Luizão do boteco assegurou. Jorge seguiu o conselho. Foi ao cartório e perguntou ao notário se havia um documento atestando sua morte. — Que disparate, senhor! Se você está vivo, como espera que eu encontre algo provando seu falecimento? — É o que dizem por aí! Só quero confirmar. O tabelião se conformou, procurou e encontro a prova que Jorge ansiava. — Em que dia morri? — Jorge indagou, curioso. — 15 de Setembro de 1980. — Quando eu tinha vinte anos — Jorge concluiu. Em 15 de Setembro de 1980, Jorge voltava de viagem com seu pai, sua mãe e a irmã caçula. O pai, caminhoneiro, os havia levado a Aparecida do Norte, cumprir uma promessa. Na 48

contramão, um motorista de ônibus bêbado perdeu a direção e atingiu o caminhão onde Jorge e sua família estavam. Todos morreram. Jorge cuidava os túmulos onde ele e seus parentes estavam sepultados. Inequivocamente, estava escrito “Jorge de Lima”, data de nascimento e morte. Não havia dúvidas. Algo macabro havia ocorrido para que Jorge estivesse andando por aí, houvesse se casado com Maria, tido filhos, arranjado emprego. Se ele estivesse morto, como tudo indicava, qual explicação haveria? Coisa do diabo? Ou um milagre de Jesus? — Maria, tomei uma decisão... — Jorge estava triste — Não gosto nada desta situação. Um defunto não pode ficar perambulando pelas ruas. Vocês vão ter que me enterrar. Contrataram os serviços duma funerária e organizaram o velório. Jorge se deitou no caixão e, quando chegava algum dos seus amigos para ver o finado, ele lhes dava uma piscadela. O padre fez um sermão, mas os rapazes não queriam fechar o esquife. — Vai pessoal, estou morto há quase trinta anos, só falta completar o serviço! Levaram o caixão para o cemitério, Maria chorava, os coveiros cobriram de terra o ataúde. Um dia muito triste pra todos.

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— Dona Maria, não podemos liberar a pensão do seu marido — disse a funcionária do INSS. Nossos bancos de dados indicam que seu marido está vivo. — Não, moça, ele ‘tá morto. Morreu trinta anos atrás. — Há um Jorge de Lima falecido aqui, mas é outra pessoa. Sinto muito, mas não há nada que eu possa fazer.

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O quarto
Rafael de Leon

Abri os olhos e dei conta de minha existência. Um quarto na penumbra que nunca havia visto antes. Um lugar muito estranho para se acordar. Estava deitado de barriga para cima, no chão. Sobre mim, repousava uma tesoura de jardinagem. Coloquei a tesoura de lado e levantei com certa dificuldade; sentia-se um pouco tonto. O único facho de luz que tinha força suficiente para furar a escuridão do local e me permitir visualizar o arredor com pouca precisão vinha de uma imperfeição no canto da parede. Parecia não haver portas ou janelas ali. Principiei um giro de 360º graus para precisar melhor onde estava, mas parei de súbito; na minha frente, suspenso pela gravata amarrada em uma viga no teto, jazia alguém. O sangue gelou nas minhas veias. Estar trancando num quarto com um enforcado era a última coisa que queria. Fui capaz apenas de caminhar dois passos cambaleantes para trás, na ingênua esperança de remover aquela imagem da minha mente. Mas não. Foi um erro se afastar, talvez até mais do que se permanecesse paralisado no lugar. Algo duro tocou na minha perna. Virei-me assustado, em posição de defesa, mas aquilo era ainda mais assustador. Fui tocado por uma mão, ou o que parecia ser uma, que fazia parte de um corpo carbonizado. Mais um morto.

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Eu seria o próximo ali? Tudo indicava que sim. O medo da morte impregnou na minha pele e tudo o que pensei era que precisava me esconder. Foi então que vi uma mesa, no canto do quarto. Corri até lá e me joguei em baixo dela. Mas não. Bati em algo, ou melhor, alguém. Alguém que teve a mesma idéia que eu. A mesma idéia e um pouco menos de sorte, pois quem estava lá, já estava morto. Seu rosto era irreconhecível. A cabeça foi estourada. Um tiro era o que parecia a mim. Com a mesma velocidade que fui me esconder, fugi do esconderijo. Voltei ao meio do quarto, rezando agora para não encontrar outro cadáver. Neste momento me lembrei da tesoura de jardinagem. Era uma arma. Peguei-a. Por algum tempo consegui controlar meu medo. Todo mundo fica corajoso quando armado. Com a mente um pouco menos agitada, olhei ao redor com mais calma. Entendi tudo. O tênis do enforcado era o meu. O relógio no braço do baleado, pertencia a mim. Na mão do carbonizado, o meu anel de casamento. Eu era o próximo a morrer, de novo. Olhei para a arma na minha mão e respirei fundo. Coloquei o pescoço entre as lâminas da grande tesoura e a fechei. Abri os olhos e dei conta de minha existência. Um quarto na penumbra que nunca havia visto antes. Um lugar muito estranho para se acordar...

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Tema 3 – O homem de branco

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Seda branca
Henry Alfred Bugalho

Exausto, larguei armas e chapéu e meti a cara no rio. Caminhava há dias, após haver sido destacado para as fronteiras do Norte. O Imperador Qinzong temia os revoltosos que se proliferavam na região e conclamara guerreiros de todos os rincões do mundo. Ouvi som de flauta e me pus em alerta, espalhava-se o rumor de que bandos de ladrões e assassinos se escondiam na floresta, mas avistei um senhor, cabelos agrisalhados, descendo em direção ao rio. Saudei-o e recebi a resposta de que vinha em paz. O viajante se sentou ao meu lado e acendeu uma fogueira. Anoitecia e compartilhamos um jantar improvisado. Decorridas horas de silêncio, o senhor falou: Estou cansado, vivi muitas dificuldades nestes últimos meses e não encontro pouso em lugar algum. Já ouviu algo a respeito do “Homem de Branco”? Neguei. O nome de nascimento dele era Bai Hong-nu, filho duma família humilde, educado para ser soldado, assim como vejo que você é. Lutou em muitas guerras e caiu nas graças do Imperador. Foi promovido a general, senhor de muitos guerreiros, e venceu 55

todas as batalhas na quais pelejou. Porém, numa noite, quando o Imperador adentrou o alojamento da concubina favorita, encontrou Hong-nu adormecido nos braços dela. Enfurecido, o Imperador conclamou a guarda, com ordens para executar Hong-nu, porém, este, com experiência de anos a serviço do Imperador, conhecia bem o castelo e suas incontáveis passagens secretas; neste labirinto, Hong-nu se embrenhou e escapou da sanha inclemente do Imperador. Fugiu para o Norte e apagou seu passado. Vestia-se apenas de branco, na ausência dum nome, nos povoados onde passava, alcunharam-no Wán, o homem da seda branca. Wán olvidou seu passado de guerra e, de vila em vila, evitando as grandes cidades, pregava uma inusitada mensagem de paz e perdão. Arrebanhou discípulos, que ouviam fervorosamente seus ensinamentos. E eram tantos, que fundaram um povoado. Pessoas vinham de todas as partes para escutarem as lições de Wán e sua reputação alcançou o grande Céu. Guerreiros baixavam armas e se uniam aos acólitos de Wán, esposas abandonavam seus lares para acompanharem o sábio. Porém, sutil e imperceptivelmente, o conteúdo da doutrina de Wán começou a mudar. Da paz, abnegação e perdão incondicionais, Wán instruía que para tudo neste mundo há exceção, de que não há claridade sem sombras, e que o mal e a guerra eram contrapartes do bem e da paz. Aos seus discípulos, propagava que o tempo de paz estava por terminar e que, em breve, quem o amava teria de brandir armas contra um poderoso oponente.

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Assim, no início da primavera, Wán e um exército de cem mil combatentes se dirigiram ao Sul, com a missão de matar e destronar o Imperador Qinzong. Wán era um dissimulado, durante todo este período, ele apenas buscava uma oportunidade para se vingar do Imperador que o degradou e lhe retirou a mulher amada, à qual, diziam, Qinzong havia mandado decapitar. Inevitavelmente, o Imperador designou tropas para deter o exército de Wán. Durante três meses, Wán desbaratou o contingente imperial, porém, a escassez de suprimentos, o cansaço e as chuvas incessantes do verão foram responsáveis pelos primeiros revezes. Recuaram para as montanhas. Vendo a grande oportunidade para derrotar o oponente, o Imperador enviou um grande exército, que cercou Wán e seus guerreiros. Emboscados nas montanhas, o fim era evidente. O exército de Wán tinha duas escolhas, lutar até a morte e os que fossem capturados sofreriam torturas e ultrajes inimagináveis, ou desistirem e privarem-se de suas próprias vidas. Wán deliberou com seus capitães e concluíram que, por ser a morte inadiável, todos se matariam ao nascer do sol. Quando os tambores do Imperador soaram e as tropas iniciaram a marcha rumo ao bastião de Wán, trinta mil sobreviventes, punhais mirados para o coração, sangraram até a morte. As tropas imperiais não encontraram sobrevivente algum.

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E você estava entre os soldados do imperador, para saber tudo isto? perguntei. O senhor acendeu um cigarro e, com um sorriso iluminado pela claridade da fogueira, respondeu. Não. Estive com o punhal afiado no peito, mas, no último instante, refleti: Somos muitos, não conseguiremos escapar, mas um só homem facilmente se envereda nas montanhas e some. Sou Bai Hong-nu, conhecido como Wán, o homem da seda branca. O punhal não entrou no meu coração. Vivo e congrego um novo exército. E você será meu primeiro guerreiro. Com que forças eu poderia resistir àquele homem, que trazia no olhar a energia do Céu, da Terra, do Fogo e dos Ventos? A minha espada é sua, Wán. Respondi. Até a morte.

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A fenda
Denis Clebson da Cruz

A cabeça de Rujanm parecia girar enquanto tentava se levantar. Retirou o elmo, amassado profundamente onde fora atingido por um golpe de bastão. Um simples bastão. Jogou a inútil peça da armadura no chão de pedras. Havia se preparado praticamente a vida toda para aquela busca. Desde que ouvira falar da Lenda da Armadura Negra, cada um de seus dias na Ordem Templária de Samiel tinha um único objetivo: vestir a indestrutível indumentária do Cavaleiro D’Ardon. A lenda era muito clara. Contava de um Cavaleiro Templário que, lutando e vencendo o dragão negro Tabuloon, conquistou o direito de vestir uma armadura forjada pelo Ferreiro Nai No Kami, o grande Mestre da Forja. Além disso, o Cavaleiro passou a ter o domínio sobre o dragão vencido. Grandes foram os feitos de D’Ardon sob o uso da Armadura Negra e, antes de sua morte, a escondeu na floresta ao sopé do Templo do Sol. Segundo a lenda, Tabuloon passou a ser o guardião da armadura. Aquele que o derrotasse em batalha, conquistaria o direito de vestir a indumentária. Mas algo estava errado nesta lenda. Em todos os pergaminhos que estudou sobre seu objeto de desejo, não havia qualquer menção à estranha figura à sua frente. Um velho homem de branco impedia a passagem em uma fenda rochosa,

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onde Rujanm tinha plena certeza de que estava escondida a Armadura Negra. Bastava atravessar a Fenda, lutar e vencer Tabuloon. Feito isto, o conjunto de guerra do Cavaleiro D’Ardon seria seu. Ofegante, Rujanm levantou os olhos e observou o homem de branco. Uma aura sobrenatural parecia circundá-lo por inteiro, como se tivesse uma estrela d’alva escondida por baixo das longas barbas claras. O cabelo, igualmente longo, caia em uma trança única nas costas do guardião da Fenda. Enquanto Rujanm trajava uma armadura Templária completa, incluindo a capa branca com a cruz vermelha de quatro pontas iguais, o velho vestia unicamente uma alva túnica. - Vá embora – disse o homem de branco. – Não há nada para você além da Fenda. - Não vim de tão longe para voltar sem luta – respondeu o Templário. - Se você não percebeu, nós já lutamos – sorriu com sarcasmo. – E você perdeu. Era difícil reconhecer a derrota, mas o fato é que, a princípio, Rujanm tentou argumentar com o velho que lhe impedia a passagem. Porém, depois de alguns insultos da insignificante criatura de branco, decidiu dar-lhe o merecido corretivo. Não utilizou arma, pois acreditou que daria cabo do inconveniente com as mãos limpas. Enganou-se. Foi recepcionado por saraivadas de golpes com o bastão que sustentava o velho. Numa agilidade incompatível com sua idade, o homem de branco surrou o Cavaleiro que tentava forçar a passagem. 60

O último golpe atingiu a cabeça de Rujanm, jogando-o para fora da estreita Fenda. - Fui complacente com você, velho – disse puxando a espada. – Não tenho tempo para brincadeiras. Saia do meu caminho ou vou trespassá-lo agora. - Tenho certeza de que sua língua é mais hábil que sua esgrima – sorriu o velho. – Se você preferir, lutarei sem o bastão e poderei dar umas palmadas nesse seu traseiro de criança insolente. O insulto impulsionou Rujanm para dentro da Fenda. Antes que ele desferisse o golpe frontal, recebeu a ponta do bastão no queixo. Sua cabeça inclinou-se para trás e foi golpeada mais duas vezes. O Templário tentou contra-atacar, mas a estreita parede rochosa não permitia o giro completo da espada. A lâmina faiscava nas pedras enquanto o guardião da Fenda surrava-lhe novamente. Fixando o bastão nas paredes, o homem de branco apoiouse nele e encheu o peito de Rujanm com um chute que o expulsou novamente da passagem. Enquanto ofegava, o Templário tentou retomar a postura. Cambaleou, mas permaneceu em pé, contemplando o sorridente homem que não havia cedido um único centímetro para dentro do caminho. O orgulho do Templário estava mais ferido que sua carne, latejante em dor em várias partes do corpo.

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- Eu não quero te machucar de verdade – disse Rujanm. Sua condição não dava qualquer credibilidade às palavras. - A questão é: você consegue me machucar? Um Templário treinado nas Artes de Samiel poderia machucar qualquer criatura viva. Vários ritos de defesa e ataque eram ensinados e Rujanm era um mestre na Arte do Fogo. - Sim, eu consigo – disse o Cavaleiro enquanto chamas subiam pelo fio de sua espada. – Deixe-me passar, agora – o fogo inflamou até punho e tomou conta do braço que segurava o ferrão metálico. - Prepare-se para ser machucado, Cavaleiro Templário – desafiou o guardião. Rujanm cruzou a espada por três vezes no ar e projéteis na forma de lâminas incandescentes foram lançadas contra o oponente. O trio de lâminas de fogo explodiu na palma da mão direita do homem de branco. O Cavaleiro Templário o fitou enquanto as alvas madeixas acentavam após o impacto dos projéteis. Como que impulsionado por uma forte rajada de vento, o Guardião voou na direção de Rujanm. Raios crepitavam ao redor de seu corpo e faiscavam em toda a extensão do bastão que empunhava fortemente, dando-lhe a aparência de um deus do trovão. Em campo aberto, Rujanm conjurou uma barreira vermelha, mas ela foi quebrada com o primeiro golpe do velho. A cada

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golpe que o atingia, seu corpo sofria espasmos de violenta dor, como se uma onda de choque intenso contraísse seus músculos. Finalmente, o Templário se viu deitado com o bastão apoiado no queixo. O homem de branco lhe pisava na altura do peito. - Vá embora e diga que não encontrou o que procurava. Ou diga que um velho o derrotou. Não conte qualquer detalhe da batalha. Rujanm não disse palavra e sentiu o bastão ser enfiado mais forte na garganta. A voz do homem tornou-se ameaçadora: - Faça um juramento Templário, ou morra agora. - Com meu sangue – raspou a mão esquerda na lâmina da espada que estava deitada ao seu lado – e pelo sangue de Samiel, eu juro. Farei o que você ordena. Selado o juramento pelo rito, Rujanm levantou com dificuldade. - Quem é você? – perguntou. - Sou o homem que te venceu em batalha – sorriu-lhe o velho. Sabendo que não teria melhor resposta que aquela, o Cavaleiro Templário desceu pela floresta e voltou para seu Templo, na distante cidade de Nova Tahyma. Depois de contemplar a partida do guerreiro, o homem de branco atravessou a fenda. Uma baforada quente soprou-lhe os cabelos e ele acariciou o focinho de um grande dragão negro. 63

- Não será hoje, meu amigo Tabuloon, que você encontrará seu novo Mestre. Apenas aquele que derrotar o único que te venceu em batalha conseguirá suportar o que virá depois da Fenda. Esta era a estranha maneira de D’Ardon, o Lendário Templário, proteger a vida dos incautos Cavaleiros da Ordem de Samiel que desejavam sua Armadura Negra, a qual jazia mais adiante, descansada num altar de pedra, fitando inconsciente com sua carranca de dragão a alva luz que provinha daquele homem de branco.

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A roupa branca
Rafael de Leon

Malditas roupas brancas. João as odiava. Como podia insignificantes peças brancas interferir em tantas partes da sua vida? Era seu enjoativo uniforme de trabalho, o motivo da discórdia com sua mulher que não as lavava corretamente, o instrumento que o fazia se sentir um alienígena perto das outras pessoas na rua... Não era o fim do mundo também; João exagerava nas coisas. Sempre foi assim. Não podia olhar para nada sem se debruçar sobre uma grossa lupa: tudo para ele era de proporções gigantescas. Naquela manhã, saiu de casa mais cedo. Não agüentaria ficar perto da esposa mais um único segundo depois que descobriu que a manga da sua camisa branca tinha um tom amarelado. – O que é isso? – disse ele com uma voz estridente, chacoalhando a roupa em frente aos olhos da mulher. – É a camisa branca que separei para você trabalhar hoje. – Veja bem: existe azul marinho, rosa choque, verde limão, mas não existe branco topázio ou branco ouro! Branco é branco. E isso aqui – disse cuspindo um pouco de saliva em meio às palavras – não é branco! Não houve resposta da outra parte. A mulher já sabia o que viria depois: João bufou, jogou a camisa em algum canto da sala, 65

vestiu outra que achou adequada para seus padrões, pegou sua maletinha e foi para o trabalho. Como ia sempre a pé, entre uma passada e outra ruminava a peleja ocorrida logo pela manhã. Seguindo o conselho de um amigo, costumava tratar a raiva como caroço de milho, mastigar até perder o gosto; ora ou outra colocaria outro assunto entre os dentes. E assim se deu. Algumas quadras depois, deparou-se com o inesperado: no meio da calçada, uma solitária moto completamente estraçalhada. Metros além, na rua, uma aglomeração de gente. A famosa turba da desgraça. Um grupo de pessoas que se teletransportam no local de algum acidente segundos após o ocorrido. Sem notar o estado da moto e contando apenas o número de curiosos, João já iria atribuir alta gravidade à tragédia, mas sabendo que a moto ficou pior do que a arte de um neófito origamista, foi tomado pela urgência da situação. Correu em direção à multidão. É nessas horas que João agradece a exigência do branco em sua profissão. A resistência contra sua passagem foi quase nula. Em meio àquele mar de perfumes, sapatos e vozes, ele foi deslizando quase em linha reta até o corpo do acidentado. Parecia até que algumas pessoas o tentavam empurrar com mãos e Aleluias para que chegasse mais rápido. Foi até ao pé do corpo e lá encontrou o que poderia ser comparado à arte de um aprendiz do neófito origamista mencionado há pouco. 66

O ar em torno do corpo estava carregado de perguntas e hipóteses. Era impossível ser ouvido no meio daquela confusão toda, mas mesmo assim João arriscou: – Há quanto tempo aconteceu o acidente? Quem estava em volta, prestou-lhe atenção e fez silêncio, na tentativa de colaborar para que ele recebesse a resposta. Um ou outro respondeu sua pergunta. – Alguém aqui já ligou para a emergência? – João inquiriu novamente. Um “sim” apareceu do bolo de gente, que agora estava numa espécie de expectativa, olhando-o. João parecia estar submerso em pensamentos e permaneceu mirando o corpo, como que se estivesse contemplando possibilidades. Quase um minuto se passou e uma nova sensação de agitação começou a crescer na turba. No meio do burburinho de vozes, uma delas veio acompanhada de um toque no braço de João, que o trouxe de volta para o local do acidente: – Doutor, você não vai fazer nada? –Ahn? Eu? Fazer o quê? – respondeu ele, atônito – sou apenas um cabeleireiro.

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Todas as cores
José Espírito Santo

VERDE (ESPERANÇA) Serra de Sintra. O calor faz-se sentir intenso enquanto o fim de tarde espera calmo e tranquilo ao fundo do bloco de apartamentos. O FIAT azul emerge de rompante da curva, pneus chiando e devorando metro a metro, em esforço desesperado o pouco espaço que falta. Colado ao volante o homem pequeno, entroncado e impecavelmente vestido estica o pé direito gordo, carregando a fundo com toda a força, peso e pressão martirizando juntos o pedal. Ao seu lado no banco do pendura jaz imóvel o envelope castanho amarrotado e mal acondicionado. Num ápice a aceleração dá lugar a uma travagem violenta, brusca embora perfeitamente programada, prevista, agendada para aquele momento em que deixa as marcas no alcatrão. O bólide estacionou e imobilizou-se deixando escapar a massa balofa que após sair sobe agora correndo o lance de escadas. A uma porta se bate, uma porta se abre. - Senhor Adelino? - diz o gordo, a voz ofegante. - Sim. Sou eu. Quem és e que me trazes? - retorque Adelino Cruz, fitando fixamente, olhos nos olhos, o seu interlocutor. - Queira fazer o favor... - e entrega-lhe o pequeno envelope. A atenção voltou-se momentaneamente para o envelope cheio, fazendo a análise rápida, avaliando o risco. Quando 69

levantou o olhar o homem tinha desaparecido. Olhou para um e outro lado, fechou a porta e ficou alguns segundos parado, observando o objecto, sem saber bem o que fazer. Após aquele momento de indecisão a curiosidade foi mais forte. E dá por si sentado na cama abrindo o invólucro para encontrar lá dentro um pequeno livro e aquela carta estranha. Começou a ler. “Decerto estranhará a recepção desta missiva, linhas que a muito custo minha mão trémula faz sair. Nunca tive o privilégio de o encontrar pessoalmente e peço encarecidamente que me perdoe a ousadia da intromissão em sua vida particular. Mas o tempo urge e tem todo o interesse em saber. Meu nome é Adriano e o que tenho para lhe propor vale dez milhões de euros. Sim, leu bem. Dez milhões.” Vinte e cinco minutos para ler e reler são uma eternidade se considerarmos que o texto se espalha por apenas três páginas. Mas foi o que gastou. No fim a semana de férias evaporou-se para o nada dando lugar a actividades mais necessárias aos novos objectivos. Que prometem e chamam e pedem atenção. Adelino era um sujeito peculiar. Conciliava a disciplina e espírito prático herdados dos vários anos passados em Benfica entre os muros do colégio militar com uma capacidade de abstracção que lhe abria porta para outros voos e lhe conferia outra sensibilidade. Fisicamente a cara e óculos redondos, o bigode negro e cabelo encaracolado no topo de seus cento e sessenta e oito centímetros não impressionavam por aí além. Escondiam no entanto o corpo treinado, que sabia ser lutador e amante de forma terrivelmente eficiente. Alguns minutos após a leitura da missiva e sua capacidade de adaptação e raciocínio rápido já tinham delineado o plano de actuação. E isso era bom, uma vez que o tempo de que dispunha não era muito. Para já o 70

banho que se impõe. Depois sair, fazer uns quilómetros e entrar na confusão cosmopolita do bairro mais visitado da cidade – o Bairro Alto. Entretanto no horizonte o sol já vai descendo lentamente para o seu leito. Ao longe o cimo de serra transformado em palácio da Pena descansa de mais um dia atribulado - a servir turistas, espalhando o romantismo. À volta dele apenas um imenso mar de verde. Pejado de esperança.

VERMELHO (PAIXÃO) Mais que candeeiros e ruas estreitas e casas um bairro típico é um ser estranho com manias e temperamento próprio, tão sua a forma como se veste e reveste das mais variadas pessoas. No caso do bairro alto a personalidade é marcada pelo ambiente cosmopolita, tributo à variedade onde coabitam em convivência diária espécies tão diferentes como a estudantada imberbe, artistas, malandragem e camones. Onde se encontra a mercearia ao lado da casa de fado ao lado da galeria de arte ao lado do restaurante fino ao lado do bar onde entramos e ouvimos estupefactos o mais inesperado jazz. Esta é apenas mais uma noite em que se fará justiça ao currículo do lugar. No pequeno W.C, Maria X encara o espelho com satisfação e verifica cuidadosamente a aparência. Os olhos negros rasgados, orientais estão esculpidos na face morena que serve de base ao longo cabelo frisado e conferem-lhe o ar exótico que a torna tão pouco resistível. À face interessante juntam-se ainda uns lábios carnudos, herança da mãe caboverdiana e aquele corpo bem cuidado que trata de guarnecer 71

com vestuário requintado, de marca e que suporta a ocupação que adora. Em que não tem horário fixo ou relógio de ponto mas onde sempre se impõe o satisfazer dos desejos mais exigentes. Naquele recanto do restaurante "sabores de baco", olha em frente e ama tudo o que vê. Mais uns segundos e a porta vai abrir e todos desviarão a atenção do jornal da noite que relata como sempre o mesmo de sempre, para ver a morena que sai gostosa para a rua. Adelino emerge apressado da escadaria do metro "BaixaChiado" observando à sua frente a célebre esplanada da "Brasileira" onde reside ancorada, pensativa a estátua do poeta maior. Um pouco à esquerda o largo de Camões espera servindo de entrada aos quarteirões onde tudo acontece. Deambula pelas ruas até chegar à da Rosa, rua de eleição onde fica o seu restaurante favorito. O "petisco dos deuses" é um sítio peculiar com apenas meia dúzia de mesas e uma carta de vinhos de fazer inveja aos melhores. Felizmente tivera o cuidado de marcar! Senta-se e pede a ementa enquanto espia um casal de meiaidade que sem fulgor e sem chama conversa banalidades, mantendo-se entre ambos apenas função fáctica. Ao fundo o par de namorados troca carícias apaixonadas enquanto a outra comida não chega. De repente a mão toca-lhe no ombro. - Señor, una rosa solamente dos euros - gesticulava, tentando fazer-se compreender. Preparava-se para recusar. Marroquinos vendendo flores eram o prato do dia de qualquer frequentador daquelas paragens. Além disso o gajo não via que ele estava só? Estava nisto quando a voz se ouve, suave, a seu lado

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- Senor Adelino... rsrsrs, não me diga que vai recusar uma rosa a uma senhora... Levantou os olhos e viu-a. Pele morena um pouco mais clara que o vestido negro. Olhos fundos negros, riso provocante. - Vejo que o deixei sem palavras – continua ela, trocista, senhora da situação. Posso sentar-me ou espera alguém? O que se seguiu foi um daqueles jantares magníficos onde a gastronomia, portuguesa por sinal, foi regada por um magnífico "Duas Quintas" de reserva e tudo isto completado por uma daquelas conversas onde a intimidade se vai insinuando de fininho, como quem não quer a coisa. Uma vez satisfeitos começaram por um bar banal com música ambiente e jogo de setas. Beberam umas e outras – sempre conversando e rindo, rindo muito. Seguiu-se o bar mexicano, ruidoso e animado onde até deu para um pé de dança. E terminaram no bar do Zé Negro – lindíssimo. Com a pianola ao fundo e a música ambiente - John Coltrane e outros que tais e ainda o grupo de Jazz que finalmente deu as caras e fez "show". Algumas horas depois ela guiou os corpos cansados até ao apartamento luxuoso nas traseiras do Príncipe Real e conheceram-se por fim.

AZUL (REFLEXÃO) Às vezes tudo nos parece um sonho. Neste momento, nem sombra da morena. Ele jaz amordaçado e preso a uma cama na pensão rasca perto da praça da alegria. À sua frente um papel exibe a mensagem que diz 73

Tens cinco minutos para descobrir a combinação do cadeado. Senão já eras. A inteligência fá-lo à conseguir. Para isso usará a mensagem cifrada em páginas do livro, sendo suficientemente perspicaz para perceber que a alusão ao versículo de Lucas nada tem de bíblico e não é mais que referência à sucessão "números de Lucas", caso particular dos números de Leornardo de Pisa (Fibonacci). Conseguirá entrar no site e ficar na posse da quantia prometida. Na semana seguinte comprará duas passagens só de ida para as Caraíbas. E irão. Ele e ela.

BRANCO (TODAS AS SENSAÇÕES) O grupo formara-se por geração espontânea, do nada. Em apenas dois anos crescera rapidamente para a multidão dispersa de milhares de constituintes de todos os credos, países e raças. Aqueles seres anónimos que planeiam, discutem e articulam o jogo. As regras são simples. Criar um desafio, escolher cuidadosamente uma "vítima" e estipular uma recompensa choruda. Durante quarenta e oito horas o escolhido é seguido e vigiado e são lhe colocadas as mais variadas provas. Finalmente, se ele triunfar e se tornar o "homem de todas as cores", "homem de branco" a história é colocada na Web de duas maneiras: Uma é através de um pequeno conto publicado de preferência primeiro em círculos restritos como o são as

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comunidades de escritores que se apoiam uns aos outros em tentativas de melhorar a escrita. A outra é através de vídeos. Em site secreto. Que conheço. Mas não revelo.

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Tema 4 – A contista

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Poeira
Denis Clebson da Cruz

Ellen foi jogada no calabouço por dois guardas truculentos. Um deles olhou lascivo para suas pernas morenas, por entre o vão da saia surrada. Mesmo após ter sofrido três dias de torturas, seu corpo sinuoso ainda era um convite à luxúria. O som das trancas de ferro ressoou pelas paredes de pedra, se misturando aos gemidos e gritos dos moribundos e aos guinchos dos ratos que infestavam a prisão. Enquanto os guardas voltavam pelo corredor, Ellen continuava a ouvir os insultos que a acompanharam desde o momento em que foi ali jogada: “Bruxa! Queimem! Filha do Demônio!” Não. Ela não se considerava uma bruxa. Era uma contista; uma trovadora; enfim, uma artista. Mas os malditos daquela vila não compreendiam sua Arte. Acusada de bruxaria, foi julgada pelos aldeões e condenada à fogueira. Assim que o sol nascesse, teria seu corpo queimado. Prostrou-se ao chão de terra batida e empoeirada. Passou as mãos no solo vermelho, alisando-o como se estendesse um pergaminho encardido. Seus olhos brilhavam na escuridão enquanto a unha enegrecida do indicador direito escrevia um conto na terra. Apresentou seu herói: um guerreiro de armadura negra, montado num corcel prateado. Narrou cada detalhe do 79

cavaleiro, descrevendo sua cavalgava por entre os imensos carvalhos da Floresta Proibida. Chamou-o de Heidan. Em seu conto, Ellen narrava a entrada silenciosa de Heidan naquela maldita aldeia. O trote calmo do cavalo não despertou nenhum dos aldeões de seus nebulosos sonhos. Parado na entrada da prisão, o guerreiro desembainhou a pesada espada, ferroando dois guardas que dormiram no turno. A unha longa da contista se enchia com a vermelhidão da terra, enquanto ela contava o avanço de Heidan pela entrada principal e, num embate heróico, vencia outros três guardiões. Entrando pelo corredor da masmorra, o cavaleiro duelou com os dois guardas que, há pouco, jogaram a contista em sua cela. Na unha de Ellen, não havia outro desfecho para o conto, senão a morte violenta daqueles carrascos. O primeiro teve a cabeça decepada e o segundo sofreu um corte profundo no abdome, assistindo as vísceras escorregarem para fora enquanto a alma lhe fugia do corpo. Ellen respirou em cima da sua narrativa empoeirada. - Malditos – murmurou ela. – Como podem confundir minha Arte como uma simples bruxaria? Escreveu as últimas linhas: Heidan atravessava o vasto corredor e o silêncio de todos os presos parecia embalar a dança sinuosa das chamas nas tochas. Com um único chute, o guerreiro arrombava a porta do cárcere da contista, arrebentando até mesmo as travas de ferro.

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O som de um trovão estrondeou a porta. Ellen levantou-se e, à sua frente, estava o guerreiro de armadura negra. De dentro do elmo, a escuridão lhe fitava. Ela sorriu e novamente debruçou na terra. Soprou forte as letras de seu conto, empoeirando o ambiente e vendo seu herói esvair-se em um redemoinho de poeira vermelha. Ellen, a contista, caminhou calmamente por toda a prisão, passando por sobre os corpos dilacerados dos guardas. Sumiu na neblina da noite e afundou-se na Floresta Proibida, onde, segundo a lenda, até hoje narra os suplícios para os condenados ao Inferno.

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O trouxa
Henry Alfred Bugalho

Minhas mãos tremiam ao digitar a senha no caixa eletrônico. Nunca antes a impressão dum extrato bancário pareceu ter demorado tanto (talvez apenas daquela vez em que estourei o limite do cheque especial) e, quando a máquina cuspiu o papelzinho, a minha reação foi um resmungo engasgado: — Aquela vaca me roubou!

A vaca havia se apresentado como Elisa Sampaio. Conhecemo-nos numa sala de bate-papo na Internet, ela morava no interior, eu na capital. Elisa tinha uma conversa interessante, versava sobre quase tudo com fluência e logo deixei de dialogar com outras pretendentes, destinando exclusividade a Elisa. Trocamos fotos por e-mail, ela não era linda, mas, como eu já estava apaixonado, fiquei radiante. Mal podia agüentar minhas férias chegarem para eu embarcar num ônibus e conhecer pessoalmente Elisa. Porém, antes disto, recebi a maravilhosa notícia. Ela havia pedido as contas no serviço e estava se mudando para cá, seria a oportunidade para nos encontrarmos. Na TV, notícias de crimes cometidos pela Internet: seqüestros, estupros, assassinatos. Temerosa, Elisa sugeriu para

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nosso primeiro encontro um local público, para segurança de ambos. Estava ocorrendo uma feira na cidade, com parque de diversões e tudo mais. Comemos maçã do amor, andamos na roda-gigante e demos nosso primeiro beijo no trem-fantasma, tudo na maior melação amorosa. Afinal, estávamos apaixonados! Elisa foi dura na queda, sucessivas vezes insistiu que não fazia sexo no primeiro encontro, mas, no segundo, cedeu. Quem resiste a um jantar romântico, a dois, luz de velas e um bom vinho? Porém, nos dias seguintes, Elisa se comportou de maneira estranha. Perguntei-lhe o porquê: — As coisas não andam fáceis, Robson, vim para cá, mas não estou conseguindo emprego. Na pensãozinha onde estou, a semana vence amanhã, e não tenho dinheiro nem para onde ir. Na minha mente, a resposta era única e óbvia. — Venha para minha casa! Na mesma noite, Elisa se mudou para meu apartamento, trazendo mala e cuia. Eu não cabia em mim de tamanha felicidade. Após tantos anos procurando uma companheira, uma mulher que sabia cozinhar e insaciável na cama era muito mais do que poderia imaginar.

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Como um casalzinho novo, todo dia eu voltava com um presente para Elisa, ou um buquê de flores, beijávamo-nos ardentemente e acabávamos sob os lençóis. Meu salário era razoável, mas, ao perceber que Elisa não estava procurando emprego, senti de deveria tomar uma providência. — Amor, abriu uma vaga para secretária na minha empresa. Você não quer mandar um currículo pra lá? — Ah, Robie, a nossa vida não está boa deste jeito? Tenho medo de que, se eu começar a trabalhar, nosso relacionamento mude. Sabe como é: vou chegar cansada, sem pique. Sempre sonhei em ser dona-de-casa. Poderíamos até nos casar... Esta evolução súbita, de sexo a casamento, me assustou. — É melhor não nos apressarmos — titubeei — Você poderia arranjar um emprego, talvez alugar um lugar aqui perto. Poderíamos aproveitar nosso namoro, casamento é um passo muito importante. Porém Elisa chorou, soluçando, reclamando que eu não a amava, o que estava bem longe de ser verdade. Reconciliamonos, e eu prometi que pensaria na proposta dela. Creio que foi nesta semana que percebi algo estranho: dinheiro miúdo estava desaparecendo da minha carteira, às vezes eram três reais, outras, cinco, mas, diariamente, havia menos dinheiro do que no dia anterior. — Você está precisando de algo? — perguntei a Elisa — Se você não se incomodar, eu posso até lhe dar uma mesada. Não 85

sou rico, mas uns cem ou duzentos reais por mês posso separar para você. — Nunca pensei em encontrar um homem tão maravilhoso! — Elisa me abraçava e beijava, mas, mesmo assim, os trocados continuaram sumindo. Depois, foram pequenos itens de casa: alguns talheres de prata, herança da minha vó; um candelabro de cristal, que Elisa alegou ter quebrado durante a faxina e, por fim, até meu relógio de pulso, que sempre deixava na cabeceira da cama antes de dormir, que valia umas quinhentas pratas. Quando perguntei a Elisa se ela havia reparado nestes estranhos desaparecimentos, ela respondeu: — Você é muito distraído, Robie. Está sempre perdendo tudo! Só que antes de conhecê-la nada disto ocorria, e este fato me incomodava.

— Não passou por sua cabeça que ela possa ser uma vigarista, uma contista? — um amigo me advertiu — Já ouvi histórias semelhantes. Daqui a pouco, você volta pra casa e esta mulher levou tudo. Que boca maldita! Foi nesta mesma tarde que descobri que limparam minha conta no banco, e, ao chegar em casa, só o vazio, nem um único móvel, nem uma única peça de roupa havia restado. A desgraçada me deixou com a roupa do corpo e um apartamento onde até meu choro ecoava pelos cômodos nus. 86

Elisa Sampaio não deixou rastros, na polícia, informaram-me que mesmo o nome dela deveria ser falso, que caí num bem articulado conto-do-vigário e que não deveria me penitenciar por causa disto, muita gente bem mais inteligente do que eu (esta sentença feriu meus brios) também já havia dado uma de pato. Mas decidi virar o jogo. Voltei à Internet, mas quem ostentava agora um nome falso era eu. Vaguei pelas salas de bate-papo, conversando com dezenas de mulheres, tentando reencontrar Elisa. Suspeitei de duas, depois descobri que não eram ela. E meu peito doía de desespero, sentindo-me o mais trouxa dos trouxas. Não a descobri na rede e acabei desistindo. Desistindo, mas não esquecendo, principalmente quando, ao chegar em casa à noite, eu era obrigado a me recolher ao meu quarto, onde havia apenas um colchonete. Porém consolava-me a mim mesmo, com aquele mesmo argumento das velhas beatas: — “Se não há justiça dos homens, haverá pelo menos de Deus”. O que me fazia sentir um tolo, ao recorrer a um Deus que há anos não mais acreditava. No entanto, numa manhã de sábado, ao ir à compra de roupas novas, de relance, vi uma mulher, cheia de jóias, vestido justíssimo, desfilando para dentro dum carro com motorista. A voz ficou presa, eu queria berrar, xingá-la com todos os palavrões que eu conhecia, mas só arrotei um:

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— Elisa? Alucinado, corri até meu automóvel, estacionado do outro lado da rua, e segui aquele onde estava Elisa. Chegaram a um bairro de alta classe e cruzaram os portões duma mansão. Anotei o endereço e prometi a mim mesmo que desmascaria esta vadia. O que se sucedeu nos dias seguintes é confuso na minha mente: fiquei de tocaia diante do casarão, segui-a até um shopping center, abordei-a quando ela foi ao toalete, pronto para me vingar dela, porém, a antiga flama dum amor pretérito se reacendeu, quando Elisa me suplicou para acreditar nela, alegando que tudo que ela fez contra mim foi sob coação, que ela ainda me amava, que nunca havia me esquecido. Transamos no banheiro no shopping, eu mais feliz do que nunca por tê-la reencontrado e descobrir que meu amor era correspondido. O verdadeiro canalha era o dono daquela mansão, pelo que Elisa me contou. Pablo era um extorsionário profissional. Havia praticado golpes ao redor do mundo, desde Santa Fé de Bogotá, donde ele provinha, passando por Mônaco até chegar ao Brasil, reconhecidamente a pátria da impunidade. Elisa me pediu ajuda para se livrar deste pústula, que a mantinha sob vigilância constante, utilizando-a para realizar seus trambiques. Juntos, maquinamos um plano infalível, roubaríamos a fortuna dele e fugiríamos do país. Mais simples, impossível. Num quarto de hotel, poucas horas antes de perpetrarmos nosso projeto, fizemos sexo selvagem, Elisa me pedindo para 88

estapear-lhe a cara, arranhando-me a costas, como se fôssemos animais. A minha comparsa facilitou-me o acesso à mansão e, à noite, entrei na casa adormecida. Elisa me encontrou ao rés-do-chão e, aos sussurros, me instruiu: — Fique aqui em baixo vigiando, que eu vou subir para abrir o cofre. Se alguém aparecer, você sobe e me avisa. E, para minha surpresa, me entregou uma pistola, à qual eu não sabia nem como empunhar. Elisa subiu ao primeiro andar. Eu estava tão ansioso que andava dum lado ao outro, consultando o relógio a cada cinco segundos. Elisa estava demorando uma eternidade para voltar. Haveria acontecido algo? Mas eu me continha. Porém, após meia hora, achei mais prudente verificar se tudo estava bem. Vaguei pelos cômodos do primeiro andar, mas não a encontrei. Passei pelo escritório de Pablo, todo revirado, cofre aberto, mas lá Elisa também não estava. Por fim, cheguei a um quarto, porta entreaberta. Empurrei-a um pouco e adentrei o aposento na penumbra. Alguém estava deitado na cama, supus ser Pablo, e o medo me paralisou. Temia que ele despertasse e eu tivesse de usar a arma; temia que ele acordasse, gritasse, e uma merda acontecesse. No entanto, algo estava esquisito. Assim que meus olhos se acostumaram com a escuridão, percebi que ele estava deitado de bruços, mãos atadas nas costas, um capuz na cabeça. 89

Aterrorizado, afastei-me e acendi a luz. Foi quando descobri que Pablo estava morto, havia levado um tiro nos miolos. Sem saber o que fazer, deixei a pistola cair e corri pelos cômodos, procurando Elisa novamente, chamando-a em sussurros. Eu tremia, minhas pernas estavam fracas, entrei num lavabo e comecei a chorar. Ouvi som de sirenes, a polícia havia sido chamada. Fui preso, interrogado, queriam saber onde eu havia escondido o dinheiro de Pablo, o honesto e dedicado dono duma rede de panificadoras. Recusei-me a responder as perguntas, enquanto aguardava meu advogado. Mas minha maior surpresa foi quando me puseram numa saleta envidraçada. Policiais apareceram, escoltando uma mulher. Era Elisa. Os policiais perguntaram a ela: — Foi este homem que invadiu sua casa e a violentou? Soluçando, Elisa respondeu: — Sim, sim, foi ele! — e desviou o olhar de mim. Descontrolei-me e amaldiçoei até a quinta geração da desgraçada, mas os policiais me contiveram e ainda tive de ouvir do delegado: — Se acalme aí, mocinha, pois, na penitenciária eles vão se fartar com estupradores como você!

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Fui julgado por júri popular, condenado a quarenta anos de prisão por homicídio doloso, estupro, lesão corporal, roubo, e outras acusações menores. Fui enviado a uma penitenciária estadual, feito de mulherzinha, contraí HIV e quase fui morto na última rebelião. Na semana passada, no dia da visita, chamaram-me, dizendo que alguém havia vindo me ver. Evento extraordinário, já que todos meus amigos e parentes desapareceram após a condenação. Cheguei ao pátio e vi uma mulher sentada, absorta em pensamentos. Foi difícil reconhecê-la, após tantos meses, ela havia tingido e cortados os cabelos. Elisa me olhou e sorriu. Primeiro, pensei em saltar sobre ela e matá-la com o canivete que escondia nas calças. Seria a vingança que tanto almejei. Entretanto, não tive coragem, sentei-me ao lado dela e perguntei o que ela estava fazendo aqui. — Pensei muito em você nestes últimos tempos — ela me disse. Conversamos e eu a perdoei. Uma vez por semana, ela vem me visitar. Por incrível que pareça, Elisa (se este for realmente o nome dela) é, e sempre será, meu grande amor.

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Imperfeição
José Espírito Santo

I. Na livraria Nunca gostara de contos de terror. Sua aversão era devida à imaginação forte que o tornava vulnerável, gerando mal-estar físico bem para lá da insónia que aflige o comum dos mortais. Por isso é com alguma surpresa que entra na livraria e dá por si espreitando por cima do ombro do homem que folheia. Antes de fixar o olhar ainda pensa que poderia ter arranjado melhor forma de “matar” o tempo enquanto Margarida não chega. O homem que espreita, André, é mais um daqueles aviões de voo de rota falhada, está pagando caro o rigor desleixado com que sempre encarara os outros na vida profissional e relações familiares. Nunca fora de “engolir sapos” e calar. Mas também jamais conseguira entender o valor de respeitar as devidas hierarquias e proporções. Daí o mal entendido com o chefe do chefe, originando chamada repentina ao gabinete do subordinado deste. O discurso, cheio de palavras bem escolhidas incluía as frases que não deixavam margem para dúvidas Lamento muito mas não existem condições para continuares. Seria mau para nós e ainda pior para ti – dissera o “chefinho” com ar preocupado, pleno de comiseração. Em casa a sorte não fora melhor. Depois do início fulgurante a relação com Matilde foi arrefecendo, resistindo como podia à erosão do tempo e ao seu muito mau feitio e excessos ocasionais. Aconteceu o mesmo de muitas vezes - os dois lados seguram a corda e vão puxando, puxando. Julgam que dará 93

sempre para mais um pouco. Até que quebra de forma mais ou menos inesperada. Naquele dia, chegado ao apartamento deu com o nada, o vazio. Mais tarde um SMS informou lacónico da “ida para casa dos meus pais”. Não te preocupes, levei a Margarida, depois o meu advogado contactar-te-á – disseram de forma aparentemente despreocupada as letras pequeninas, redondas, do aparelho. Entretanto aproveita e vai lendo, de boleia. O companheiro não deu pela sua presença e avança interessado para a uma das histórias – Perseguição implacável. Vem-lhe à lembrança algo. Em silêncio volta atrás no tempo e conta a si mesmo tudo. Desde o início.

II. Dos incríveis acontecimentos da semana passada Talvez fosse a solidão, talvez a utilidade do “algum dinheiro extra”. Só sabe que dá por si folheando os anúncios do vespertino, a vista percorrendo linhas em ziguezague, os olhos atentos a qualquer oportunidade. Foi assim que encontrou o insólito que se lhe cabia e assentava como uma luva. Rezava o texto “O candidato deverá ser homem de meia-idade, bemparecido, desempregado e livre. São quinhentos euros para um 'casting' ”. Ligou, nervoso e seguiu à risca as indicações, a coisa ficava lá para o bairro da Lapa, bem perto da Rua das Trinas. O apartamento era direito de terceiro andar e a campainha, de tão ineficiente por certo seria muda ou cansada. Estava quase a voltar para trás quando aconteceu “André Valadares?” perguntou a voz 94

“Sim, sou eu” atirou, ao que o outro som retorquiu “Olhe, não nos conhecemos mas existe algo que lhe quero propor. Vale bem quinhentos euros. Ah... pode chamar-me Ana.” Virou-se e viu-a. Alta loira e elegante, óculos escuros da moda, devia andar pelos seus trinta e cinco. Vestia de forma prática, impecável a combinação das cores. Seguiram em silêncio por duas ou três ruas até encontrarem a porta do apartamento pequeno, quase quarto e sala. No meio, a mesa posta e o ambiente romântico sugerido pelo par de velas não causavam estranheza ao homem baixo, um tailandês entroncado que vestido a rigor se preparava para servir “Quinta da Bacalhoa” com todos os requisitos de cerimonial. “Faça o favor de sentar, disse outra vez a voz” e anuiu e sentaram e a conversa iniciou. A curiosidade da anfitriã era enorme e avançava e alcançava, casava bem com a sua solidão. De tal modo que ficou a ver com espanto o desfilar despudorado da sua vida, ao ritmo e toque das palavras que eram lançadas e deixadas à sorte - umas atrás das outras. Passaram os anos da infância feliz e despreocupada, os tempos de Universidade de borgas e amores e professores austeros. Passou a morena tímida que se chamava Matilde e estudava biologia e a festa onde proferiram ambos os votos solenes e cortaram o bolo e beberam champanhe cruzado após inaugurarem a pista de dança com uma valsa. Passou uma barriga linda em crescendo que, chegado dia do parto se esvaziou na felicidade de pegar o rebento rosado e chorão. Chamar-lhe-iam Margarida – nome da avó materna. E chegaram depois, enfim os tempos maus. As dificuldades, as discussões, o acomodar mútuo, a incompreensão partilhada. Chegou o dia 95

que tinha marcado os sentimentos da sua vida mais recente. E quando atingiu este ponto, subitamente, olhos húmidos, a voz perdeu a força, calou-se. Tinha passado uma hora cheia, ele ali a falar, falar, falar. À sua frente a mulher escutava atenta. De vez em quando parava e baixava o olhar para tirar anotações no caderno. “Senhor, obrigado pelo seu tempo, aqui tem” estendeu-lhe o envelope com dez notas de cinquenta. Tinha tirado de si e lançado para a frente todos aqueles guardados de baú de ser. E agora sentia-se mal, desconfortável, triste. Bem, pelo menos tinha ganho algum dinheiro! Se fossem necessárias mais histórias... – pensou. Estava neste diálogo interno, consigo mesmo quando foi invadido pelo torpor e seu corpo cedeu aos truques de um vinho bom mas adulterado. São seis da madrugada quando acorda e ergue o olhar. À sua volta, o grupo de adolescentes com ar rufia segura os dois “Pit Bull”. O que parece mais velho avança e diz “Ouve lá, cota. Aqui é tudo gente boa, do melhor. Por isso vamos fazer um trato contigo.” “Hum... que trato, onde estou?” em frente via o descampado da lezíria. Ao fundo, a uns bons quatrocentos metros. A cerca de arame era interrompida por um portão. “A gente quer ver como corres, se és como o Obiquelo. Por isso vais fazer uma corrida aqui com os meus dois primos” os primos olhavam ansiosamente, expectantes, dente afiado, língua de fora.

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O magricelas de óculos saiu do meio do grupo. Encarou-o, mirando-o de baixo a cima e disse. “Hei, assim não vale. O gajo está em tão boa forma que os animais não terão a menor hipótese. Vamos ter de desgasta-lo um pouco.” Formaram um círculo de onde choveram pontapés e murros, transformando-o ao fim de uns minutos naquela massa física desgraçada que implorava descanso. Olhou para cima mesmo a tempo de ver o “caixa de óculos” sorrir e dizer “Agora sim, o avozinho já está em pé de igualdade.” sorriu trocista “Mas se ele for bom desportista damos-lhe uma pequena vantagem. Façam-lhe a pergunta.” A mente confusa começou a imaginar testes possíveis à memória – Quem eram os “cinco violinos”, qual foi o ano em que o Boavista ganhou o seu primeiro campeonato, qual era o nome do recordista mundial do triplo salto, todas estas questões surgiram se candidatando. Mas quando soube ao que vinham, descobriu como se tinha enganado e avaliado mal os interlocutores. Os putos estavam para o desporto como para a história aquele aluno que em visita ao Museu do Azulejo, perante o painel magnífico da Lisboa pré-terramoto de 1755 pergunta à “sotora” onde estava pintado o estádio do Belenenses. Agora a pergunta era simples: Qual dos três grandes era o melhor? Foi fácil acertar na resposta. Premiaram-no com uma vantagem de duzentos metros, foi lançado para a frente. E correu como um louco, não se atrevendo a olhar para trás. E chegou a pensar que ia conseguir. O portão estava já tão perto, 97

quase ao seu alcance quando algo agarra e puxa a perna esquerda. Decorre uma fracção de segundo após a qual sente o osso a partir como se fosse mero bambu de um qualquer canavial. Mas não se preocupa com isso nem com o sangue que jorra livre e desgovernado dos vasos sanguíneos dilacerados. Preocupa-se sim com o segundo primo, o qual o alcança também, atacando num ápice. Ainda coloca as mãos, protegendo a face de investidas sucessivas das mandíbulas que abrem e fecham e puxam e rasgam. Mas a dor aumenta e é impotente para resistir mais tempo aquela vaga violenta que avança e não recua, que encontra finalmente o ponto vital, partindo o pescoço, separando-o em duas metades, finando-o nesse divórcio físico. Antes de se ir ainda consegue ouvir ao longe a voz da loira a dizer – Muito bem, rapaziada, aqui está a vossa parte. Agora é comigo. Isto nunca aconteceu. Nem um pio.

III. De volta ao livro Continua a ler. Para descobrir o quanto o personagem principal lhe é familiar. Alto lá - a boca abre-se de espanto. É ele, elezinho ali escarrapachado, pregado palavra a palavra em página de papel. Com todos os detalhes. Horrorizado observa o sorriso satisfeito do leitor que fecha o volume e se dirige decidido para o balcão. O livro é excelente, o conto tão verosímil e cheio de sensações. Ah... e aquela personagem tão bem descrita, tão real... vai comprar. Tem de comprar. Então o homem chamado André passa de surpresa grande a tristeza maior, convencendo-se finalmente sobre o seu estado actual. Sabe agora que a Guidinha não virá pois o ele físico também já não é. E sente a dor imensa dos que são e ao mesmo 98

tempo não são, que ainda recordam a vida que foi mas já nada podem fazer. Ainda grita desalmado um “é pá, não gastes o dinheiro em porcarias, essa gaja é um embuste, é uma vampira, uma assassina”. Sem qualquer sucesso. Afinal de contas ele é ainda fantasma principiante. E não será certamente para principiantes a capacidade de causar manifestações físicas perceptíveis, chamando a atenção dos vivos.

IV. Epílogo A mulher loira que não se chama Ana está à varanda de seu apartamento de luxo na zona nova da cidade – o Parque das Nações. Bebe um vodka a golos espaçados enquanto enche o olhar com a actividade bela e caótica dos que chegam e que vão junto aos jardins na margem do Tejo. É uma “contista” das boas, os seus contos prendem a atenção do leitor desde o primeiro momento. Mas como qualquer autor, não é perfeita. O seu calcanhar de Aquiles é a criação de personagens adequadas, verosímeis. Porém, com o método engenhoso que encontrara a imperfeição era eliminada de forma eficaz fazendo com que o problema nunca aparecesse aos olhos do leitor. Ao que parece, o seu livro mais recente, uma colectânea de histórias de terror e acção onde podemos encontrar títulos como “Tortura fatal”, “A morte dos gémeos inocentes”, “Acidente premeditado” e “Perseguição implacável” está fazendo muito sucesso. Liliana, contista possuidora de imperfeição fatal sorri de sorriso triunfante. Observa o sol que se põe vagaroso, ao longe 99

por detrás da colina e tenta imaginar como serão os próximos textos. Sabe que não serão contos de amor.

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O duelo
Rafael de Leon

No meio da selva amazônica, vivia a Contista. Não era sua residência fixa, pois, alheia dos valores mundanos, mudava-se sempre que holofotes recaiam sobre ela. Apesar de estar em completa desconexão com a cultura do Homem, continuava a ser um ser desta espécie e, sendo assim, carregava junto de si a contradição humana. Digo isso porque a ela possuía aversão aos seus semelhantes, mas, mesmo assim, usava do seu dom de contista para ajudar aqueles que precisavam. Sabia que dar mostras de sua genialidade faria com que todos fossem a seu encontro, atrás de entrevistas, ensinamentos, discussões, autógrafos... mas mesmo assim a Contista, piedosa, corria sempre em auxílio dos que a procura. Entretanto agora achava que seria diferente. O lugar da nova morada era de difícil acesso e os únicos que iam ter com ela eram os índios e os animais. Possivelmente, seria o seu último pouso nesta terra. Mas não. Como queimada em mata seca, os boatos correram de galho em galho e pararam na cidade grande. Mais precisamente, chegaram a um invejoso colega de ofício da Contista. Pablo Conejo – esse era o seu nome – não esperou nenhum segundo antes de arrumar suas malas e viajar ao encontro da mulher. 101

Iria acontecer um duelo entre os contistas. A viajem durou dias, mas finalmente teve seu fim. PC chegou ao local indicado pelo guia e não precisou perguntar pela Contista; reconheceu-a como sendo a mulher de cabeça baixa, sentada ao chão, que riscava algo na terra com um graveto. –Eu já o esperava – disse ela sem tirar os olhos da poeira. Conejo não deu importância ao tom oracular, em sua opinião, era bem possível que ela dizia isso a todos que ali chegavam, afinal de contas, não havia muito o que se fazer no meio daquela mata se não fosse procurá-la. – Guarde seus misticismos, mulher. Vim para um duelo. A Contista meneou positiva a cabeça e limpou com a mão os rabiscos feitos na terra. O duelo estava aceito. – Uma mãe é 21 anos mais velha que o filho. Daqui a seis anos a mãe terá uma idade 5 vezes maior que o filho. Pergunta: Onde está o pai agora? Sem ao menos ter visto o rosto da Contista, PC jurou que um largo sorriso se avizinhou ali. Havia perdido o duelo. Armada do graveto, a mulher erguia a poeira nos seus traçados rápidos e firmes no solo. Um minuto depois, ela se levantou, olhou Conejo pela primeira e última vez e caminhou para dentro da mata. PC se aproximou do local onde a Contista estava sentada e eis o que encontrou:

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A mãe tem hoje Y anos O menino tem hoje X anos Se a mãe é 21 anos mais velha, tem-se: Y = X + 21 Daqui a 6 anos: (Y + 6) e (X + 6) Portanto com a mãe 5 vezes mais velha que filho, tem-se: Y + 6 = 5 (X + 6) Y + 6 = 5 X + 30 Y = 5X + 24 Substituindo em Y = X + 21, tem-se : 5X + 24 = X + 21 Logo: - 4X = 3 X = -3/4 O menino tem hoje -3/4 anos, ou seja, menos nove meses. Sendo assim, a resposta lógica é: ele nascerá daqui a nove meses. Conclusão do problema: o pai está agora transando com a mãe. Pablo Conejo voltou triste para a cidade carregando junto de si a derrota. Perdera para a Contista, a mulher que calculava.

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De repente
Victor Berigo

Sai da sala de aula para beber um pouco do vento azul. Enquanto anda lá no pátio da escola, sem querer, ela tropeça, só se via umas nuvenzinhas e a imensa cor azul, o céu invadia teus olhos cansados, ela subia até o céu como se fosse sólido. A garotinha loira de franjas retas, queria viver o "faz de conta" das histórias e desenhos animados, vivia o calor momentâneo da sua vida naquela manhã; vinha ao mundo o brilho, nascia luz, nascia esperança. Seu nome era esperança. Que lugar lindo é o céu, não havia sombras, o chão e as paredes eram todas azuis, bexigas coloridas subiam deliciosamente pelo ar, algumas alucinadas, as nuvens pareciam ser de algodão doce, havia também uns anjos fazendo músicas com arpas e trompetes, crianças fazendo sons com a batida da palma, outras pintavam diversos arco-íris, todos coloridos, e uma única e enorme lâmpada que aquecia e pingava gotas doces e amarelas, sabor mel; o raio do sol alcançava o horizonte do seu olhar. Deslumbrada com tudo aquilo, ela sai correndo irresistivelmente, como os destemidos pássaros que não sabem aonde pousar. Ela senta no conforto das nuvens e atirava pétalas coloridas ao céu. Ela pula, dança, brinca com tudo aquilo, o sentimento é como sentir o momento, e logo, se lambuzava de guloseimas, e uma espécie de biscoito que brotavam por lá. Como dizia sua mãe, "amarga já basta à vida"; ela se lambuza, lambuzava seu 105

rostinho que parecia transfigurar com o apetite insaciável do tempo, e nasciam sombras que um vento forte soprou por lá. Brotava uma ligeira sombra sob teus pés, ela não entendia, a sombra crescia, e estendeu-se pela amplitude do dia, até o pôr do sol, e sumia. A esperança sentia que o movimento da sombra significava existência, a sua realidade, e agora só havia uma imensa sombra escura pousada no céu, a noite era à sombra do dia, e ela era só solidão e vazio. Já aqui em baixo, só haviam pontas de cigarros mortas pela cidade, só a luz do poste fingia ser lua, tudo era uma mentira, ela queria entender porquê chamavam por toda a vida pelo seu nome, mas foi se acostumando, ela nunca teve nome... E o sonho acordou pelo desconforto do sono, a contista acorda a noite, debruçada sobre a escrivaninha, seu papel e caneta vermelha, na sala, sua mãe gritava brava pelo seu nome com ritmo, melodia, e sentimento, como os belos poemas que ainda não escreveu. Sozinha e com um sentimento estranho, como às vezes acordamos, Esperança faz um cafezinho, acende um cigarrinho e retoma ao texto, seu principal recreio era brincar de escrever, escrevia sobre o tempo, que um dia, envelheceu, de repente.

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Tema 5 – o velho guitarrista de Picasso/O prisioneiro

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O velho guitarrista
José Espírito Santo

Bairro Alto. Varanda de direito de quarto andar. Estava trabalhando a técnica com o segundo volume do “escuela razonada de la guitarra”; os olhos desviavam-se mais uma vez para a partitura quando, em refazer de repetição, retomava fôlego e o ânimo. Apesar da postura e posição correcta das mãos, sabia jamais poder vir a ser “Baden” ou “Williams”, dificilmente conseguiria evoluir de forma a tocar bem peças como “el colibri” de Sagreras, “sunburst” de York ou “la catedral” de Barrios Mangoré. Mesmo assim, continuávamos lutando, eu e o exercício pouco melódico. Entretanto ouço a voz baixa e educada. Que opina. “Jorge, é impressão minha ou você está fazendo bons progressos?” Francisco era sempre encorajador e tinha paciência de santo para ficar me ouvindo. Consegui retorquir com um tímido “achas mesmo?”. “Sim. A prática leva à perfeição” disse ele - enfaticamente, de modo a não deixar margem para dúvidas. Ficou observando e escutando mais um pouco após o que saiu em silêncio, sem mais aviso. Voltaria uns quinze minutos mais tarde para arrastar-me até ao sítio do costume – a cervejaria da Trindade. Onde fomos entrando e sentando. 109

“Duas canecas, por favor” Pedimos, cheios de sede. “Sabes, é interessante como a história se faz! Muitas vezes o que conhecemos dos factos pouco tem a ver com o que se passou na realidade.” “Sim” disse eu, anuindo e recostando-me. Já estava acostumado a estes inícios mansos. Quase sempre precediam uma longa conversa. “Por exemplo, conheces aquele quadro famoso, o tal que se encontra no Instituto de Artes de Chicago – O velho guitarrista?” “Conheço. Que tem ele?” “Sabes o que se diz não é? Foi pintado na fase azul. Chegam a afirmar que o quadro é uma representação do próprio artista, do acto de criação de arte e sua relação com a burguesia. Tudo disparates! “ “Hum... como assim?” “Vou contar-te... e começou” Nessa altura, o pintor ainda não era muito conhecido e tinha uma vida nocturna intensa. Efectuou várias viagens a Paris, onde acabaria por fixar-se definitivamente. Tinha a mania de sair e ficar acordado até altas horas da noite. E foi numa dessas saídas nocturnas que o encontrou. “Encontrou? A quem?” “O guitarrista, homem! O motivo do quadro.” “Então quer dizer que o velho existiu mesmo?“ 110

“Claro! Mas não era assim tão velho. Deixa-me continuar...” Encontraram-no junto ao passeio, numa esquina em fundo de rua. Pernas cruzadas, face inclinada para baixo, olhos meio fechados, a posição desafiava todas as regras que qualquer boa escola de guitarra ensinaria. A técnica, longe de ser perfeita, paria aqueles sons, maravilhosos. Encantados com o que ouviam, entabularam conversa – “Hei hombre, vine tomar una copa con nosotros”. O grupo sentou-se e depressa surgiram as perguntas. Queriam saber tudo sobre o estranho personagem. E ele contou em flor de noite tudo o que o tempo permitiu. Nunca tinha tido aulas de música; era apenas um pobre de Cristo, funcionário público cinzentão. Naquele dia de Outono a mulher tinha saído bem cedo, deixando o catraio na ama. Como tantas vezes, vestiu o sobretudo, bateu com a porta e preparouse para fazer a pé os dois quilómetros, distância que o separava da repartição. Meteu caminho pela rua e foi andando em passo rápido, estugado. Foi então que o viu. Barba branca mal cuidada em rosto onde as rugas disputavam espaço, vorazes. A guitarra. O som imperfeito. A interpelação. “Amigo, dê-me algo para comer por favor. Tenho fome.” Olhou para aquele cimo de barba cujos olhos cintilavam. Aquilo irritava-o profundamente. Como se não bastasse o trabalho chato, a rotina dos dias sem fim, ainda tinha que levar com esses cães vadios. O pé fez voar a taça com as poucas moedas “Vai trabalhar pá. Deixa-te de histórias. Ainda se tocasses alguma coisa de jeito...”

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A tigela voou para o espaço onde o homem já não estava. Então algo lhe bateu por detrás violentamente. Uma dor sem nome entrou de fininho e instalou-se autoritária. Acordou algumas horas mais tarde. A luz da lâmpada do hospital deixou perceber esboços de uma face com máscara branca. Pouco a pouco os contornos foram-se tornando nítidos de nitidez estranha – que o feria. Fechou os olhos. A melodia surgia em sua cabeça. “É pá. Quer isso dizer que o gajo ficou com problemas na cachimónia?” “Isso mesmo amigo. Ficou a bater mal. Foi se lhe o juízo, veio-lhe o jeito para a música. Perdeu o emprego, a mulher fartou-se e pô-lo a andar. Passou a deambular pelas ruas – ele e a sua amiga.” “Amiga de seis cordas não é?” “Exacto. A velha guitarra. Sabes o que tocava o gajo quando o encontraram? Tocava ‘la ultima cancion’ do Barrios Mangoré. Uma peça cujo trémulo faz corar de vergonha o “recuerdos de la alhambra” do Tárrega. “ “Olha lá pá” ainda disse eu. Pensei contar-lhe o que sabia. Em 1903, data da pintura do célebre quadro, Barrios tinha apenas quinze anos e só mais tarde, por volta de 1905 começaria a compor “a sério”. Além disso, “la ultima cancion”, última composição do génio, fora criada bastante tempo depois. Conhecendo o meu amigo, sei que não o atrapalharia minimamente. Provavelmente ele diria: Pois! Mas sabes o mais incrível? É que a história de “la ultima 112

cancion” está igualmente mal contada. Ela diz que Barrios se inspirou no som efectuado por um mendigo a bater à porta. O que não diz é que o mendigo entrou mesmo e trazia com ele uma guitarra. Ah! Já se está mesmo a ver quem era esse mendigo não é... O ditado diz “apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo”. Mas como há mentirosos que correm muito, reconsiderei. Limitei-me a continuar o “olha lá pá” com um “não achas que ainda bebíamos mais duas?”

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O preso
Jurandir Menezes

Aconteceu num mês de Julho quando eu e minha banda saímos em viagem e aportamos no estado do Paraná para fazermos alguns shows. Havíamos tocado por três noites seguidas, em três cidades diferentes e estávamos todos os três esgotados. No dia anterior, depois de nossa apresentação num inferninho roqueiro, eu havia bebido até alcançar o nirvana etílico e não era capaz nem ao menos de lembrar o meu nome. Pelo que consta nos autos e no depoimento do meus companheiros de grupo, fui abordado por uma garota que, se não era linda, também não era das mais recatadas e me levou, sem possibilidade de resistência da minha parte, para a sua casa que ficava pelos arredores. Fui acordado em torno das sete da manhã por Marcelo, baterista da minha banda, que sabia onde eu passara a noite e, suspeito, até melhor que eu. Sentia-me um lixo. Como já disse, havia bebido demais; tinha a cabeça vazia e um gosto horrível na boca. Meu parceiro de banda, que sabe o diabo como brotara naquele quarto, sem muito carinho, me arrancou da cama sem se importar com a garota nua adormecida ao meu lado. Tive ímpetos de acordá-la e me apresentar formalmente, Marcelo achou desnecessário e desnecessário também eu me vestir e, então, jogando um cobertor sobre a minha nudez, arrastou-me até a Pampa, nosso pouco confiável meio de transporte nessa época de vacas esqueléticas. 115

Maurício, o guitarrista, dormia com a cara prensada contra o vidro da porta do carro. Empurrei seu corpo para o centro do banco e me ajeitei como pude. Era hora de voltarmos para a nossa cidade. Havíamos todos dormido naquela casa onde, além da garota que me fez companhia, moravam ainda outras duas da mesma espécie. Isso me fez rir um tanto e, num sentimento pueril de alívio, pensar que seria terrível acordar com os meus companheiros de banda e mais uma garota da qual o nome eu nem sabia, todos nus numa mesma cama. Dentro do carro, nos espremíamos sofrivelmente os três na cabine apertada, mesmo assim, apesar do desconforto, mal me pus dentro da Pampa, adormeci, acordando somente às nove da manhã. O sol estava alto no céu, fazia arder minhas vistas, minha cabeça doía como se dentro dela uma manada de elefantes dançasse uma animada rumba, minha boca estava seca e a pouca saliva que eu conseguia engolir tinha gosto de fel. Senti um peso sobre mim. Maurício, com a cabeça pendida sobre o meu ombro, babava rios de um líquido branco e viscoso. Enojado, afastei-o e gemi num fio de voz: -Preciso de café... -Precisamos é de combustível. Logo paramos num posto de gasolina. - disse Marcelo, sem tirar os olhos da estrada. Um parágrafo para Marcelo. Esse nosso baterista, Marcelo, era policial. Tirara férias unicamente para que pudéssemos viajar e fazer alguns shows fora de nosso estado. Estava longe de ser o mais sério e responsável dentre nós, mas tinha a admirável qualidade de poder beber feito um marinheiro e ainda assumir com firmeza o volante do carro. No momento, parecia sóbrio. Sob seus óculos, de armação grossa e escura, tinha os olhos bem 116

abertos, falava com clareza, mas não me engano em afirmar que estava tão lesado quanto eu, ou pior. No entanto, era ele que nos guiava e esse tipo de pensamento negativo não era boa coisa naquela rodovia tão movimentada. Paramos dois quilômetros à frente, num posto de gasolina. Reconheci a espécie de estabelecimento pelas três bombas de combustível. Sem essas, o lugar se assemelharia mais a um galpão abandonado de pós-guerra. Estava todo em ruínas, caía aos pedaços. Pneus amontoados, frascos de óleos jogados por todos os cantos, um cheiro azedo de mofo misturado a forte odor de gasolina. Num canto do curto pátio, uma Belina de cor azul claro jazia triste em sua decrepitude metálica. Com um rápido correr de olhos, avistei, a um canto, algo que adivinhei ser um boteco. Na falta de uma loja de conveniência com convenientes máquinas de bebidas expressas, resolvi ali mesmo beber algum café. Ainda estava nu, apenas enrolado num cobertor, então, estiquei um braço até a parte de trás do carro e enfiei a mão na primeira bolsa que tateei. De dentro dela, tirei uma bermuda, colorida, estampada com flores, muito em moda na época. Não era minha; eu jamais usaria algo tão cafona, mas, naquela cidadezinha de interior perdida no mundo, sem nome ou café expresso, por que me importar? Revesti minhas coxas magras com flores primaveris. Debaixo do banco havia uma blusa de agasalho rosa, desbotada, no peito um enorme desenho do rosto de Minnie, aquela da Walt Disney, putinha do Mickey. Blusa de mulher. Da mulher de Marcelo, decerto. Estava ali apenas para que limpássemos os pára-brisas que se embaçavam a toda hora com a umidade. Achei-a confortável. Apropriei-me de algumas moedas que estavam esquecidas no console do 117

painel do carro, peguei um único cigarro, um isqueiro, pus nos pés um par de chinelos de dedo e saí do veículo. Fazia um frio de congelar cachoeiras e um vento enfezado bagunçava a minha longa cabeleira, embaraçando os fios ensebados. Notei olhares sobre mim. Há alguns passos, um velhinho de longa barba mal cuidada e um garoto com cara de bobo, a esfregar as mãos com um pedaço de estopa imunda de graxa, me fitavam aparvalhados. Presenteei-os com um jovial “bom dia” e, na falta de uma resposta, me dirigi ao botequim. Entrei. O boteco tinha também o indefectível fedor de mofo que tomava os ares lá fora; só que, dentro, era mais intenso e, misturado ao cheiro de fumo de cigarro, parecia sufocar. Pregados nas paredes, diversos cartazes de procurados pela Justiça exibiam fotos de sujeitos mal-encarados, de aparência rústica e hostil. Achei graça disso: pareceu-me coisa de velhooeste americano. As poucas mesas eram ocupadas por homens vestidos com trajes de roceiros, quase todos ostentando bigodes enormes que lhes cobriam grande parte do rosto. Taciturnos, fumavam e bebiam, olhando para o nada. Atrás do balcão, uma mulher muito gorda e com cara ranzinza me olhava curiosa e se impacientava visivelmente à espera de meu pedido. “Café.” O líquido preto, fumegante, foi depositado diante de mim num copo engordurado que já ocupava o balcão. Apesar de péssimo o café, o sabor amargo dos goles escaldantes descendo pela minha garganta fizeram com que me sentisse melhor. Os nativos sentados às mesas não me descolavam os olhos, cutucavam-se uns aos outros, cochichavam e me indicavam com a ponta do queixo. Imaginei estarem impressionados pela minha aparência, tão estranha àquele mundo, e minhas roupas desalinhadas e coloridas. Pensei em lhes dizer “sou artista”, mas, 118

numa segunda reflexão, achei bem pouco possível que compreendessem o alcance desse termo e, então, para lhes mostrar alguma amistosidade, disse: -Que frio, hein, rapaz? Nada responderam. Voltei, portanto, a engolir em silêncio a minha detestável bebida. Acendi meu cigarro e fiquei a ler os rótulos das garrafas empoeiradas na prateleira à minha frente. Estava nisso quando, pelo canto dos olhos, percebi movimentos por trás de minhas costas. Alguns deles se levantaram de manso e pareciam já bem próximos a mim. Tive um mau pressentimento. Quando tentei me virar, um braço se enrolou em torno do meu pescoço e me estrangulava. Tentei me livrar, mas um outro pegou meus braços e os torceu para detrás de minhas costas, um terceiro imobilizou as minhas pernas e, próximo ao meu rosto, um hálito recendendo a cachaça berrou: “Pegamo o desgraçado!” Tudo aconteceu muito rápido. Tendo-me sem possibilidade de movimento, me arrastaram para fora do bar. Gritavam e riam alto. Um milhar de pensamentos confusos me passou pela cabeça; todos apontavam uma única certeza: iriam me matar feito um bicho. Por quê? O braço que me estrangulava impediame de perguntar a algum deles, o estrondo das gargalhadas turvava o curso de minhas idéias e não as deixava esclarecer a mim mesmo a razão de tudo aquilo. Mal podia respirar. Ao me transporem pela porta do estabelecimento, dirigi vistas ao lugar onde fora estacionada a nossa Pampa, mas nem o carro nem meus companheiros lá estavam. No lugar, o que vi foi o velhinho barbado e o garoto, que ainda esfregava as mãos 119

com o pedaço de estopa, assistindo a cena com o mesmo olhar parvo. Ensaiei em direção a eles um grito de socorro, mas de minha garganta comprimida o que brotou foi um som abafado e quase inaudível. Sem me soltarem, me depositaram sobre o banco traseiro de uma Brasília. Dois entraram comigo, sem em um único instante afrouxarem os braços que me prendiam; outros dois ocuparam os bancos da frente do carro, que logo se pôs em movimento. Rodamos por tempo de minutos longos como horas. Quando eu tentava um movimento mais enérgico, tencionando me livrar das garras de meus raptores, um deles me dava um soco seco e forte no meio de uma das coxas, fazendo meus nervos se repuxarem e paralisando todo o meu corpo numa dor agonizante. Não havia como fugir. Chegamos enfim ao nosso destino. O que numa primeira olhada imaginei ser uma casa abandonada, na verdade, era uma delegacia de polícia. Reconheci pelo símbolo da instituição quase apagado na fachada do lugar. Senti certo alívio ao me saber encaminhado para o meio de policiais, porém esta sensação logo se desvaneceu. Não sabia até que ponto podia esperar justiça de tal órgão. Não era capaz nem de longe de adivinhar as leis que regiam tal cidade onde os habitantes recepcionavam seus visitantes com socos e violentos abraços. Dentro da delegacia, fui trocado de mãos, estava agora em poder de profissionais devidamente uniformizados que, após trocarem umas breves palavras com os que me trouxeram ali (das quais não fui capaz de apreender uma sequer) e revirarem os meus bolsos, passaram a me dar socos, pontapés e a me espancar as costelas com cacetetes enquanto me dirigiam ofensas. 120

Quando eu já estava prestes a desfalecer sob tantos golpes, uma voz autoritária se sobressaiu entre todas as outras e fez cessar a tortura, ao que me ergueram e me acomodaram com violência numa cadeira, diante de uma mesa, da qual, atrás, um velho, também em uniforme de polícia, brincava fazendo girar entre os dedos uma esferográfica. Compreendi ser esse o delegado do distrito. O oficial ouvia o que diziam seus subordinados sem deixar de me fitar. Logo, de uma gaveta de arquivos, tirou uma grossa resma de papéis e a deitou diante de si, sobre a mesa. Folheou-a por algum tempo, parava em uma página ou outra, retesava as sobrancelhas e torcia o canto da boca. Balançava a cabeça em movimentos lentos e, por vezes, emitia um “é...”, como quem muito filosoficamente se conforma com uma inevitável fatalidade. Alisou uma página com a palma da mão, num gesto manso, e, por fim, falou: -Está em maus lençóis, seu Raimundo. Raimundo? Raimundo! Erraram o alvo! Uma onda de bem-estar me invadiu a alma. Haviam me confundido. Tudo não passara de um equívoco. Eu, além de não ser essezinho, desconhecia a existência de tal personagem, mas já imaginava o crápula e não duvidei de que fosse bem sim merecedor de agressões por parte dos cidadãos daquela cidade e sua força policial, o desgraçado. No momento até riria não fosse a dor aguda que cutucava meu estômago e fazia meu rosto se distorcer numa careta. Respirei profundamente, engoli a saliva salgada com gosto de sangue e me reclinei um pouco à frente espalmando uma das mãos sobre a mesa. Ia já explicar de forma sucinta o absurdo da situação ao venerável agente da lei, 121

quando um dos policiais prostrados ao meu lado, me agraciou com um violentíssimo golpe de cacetete nos dedos. Ao invés de coerente esclarecimento dos fatos, o que emiti foi um uivo que meus ouvidos se negaram a reconhecer como meu. Apertei minhas mãos contra o colo, senti meus ossos esmigalhados; a dor era lancinante. No mesmo momento, lágrimas brotaram de meus olhos. Do outro lado da mesa, o delegado mantinha-se imóvel e me olhava de sobrecenho vazio. Voltou a se deter nos papéis. - Assaltos à mão armada, tráfico de drogas, homicídios... Teve uma vidinha bem agitada, filho. -sua voz era de uma calma assombrosa - Tão jovem e já vai se aposentar. Balbuciei qualquer coisa. O delegado não me ouvia, tinha o telefone junto ao rosto e fazia ligações atrás de ligações. Comunicava que havia finalmente capturado o foragido Raimundo e dava ordens para que entrasse em funcionamento a maquinaria burocrática legislativa. Lentamente, fui recuperando a calma. Era preciso mostrar ao homem da lei o quão se enganava e estender diante de sua compreensão o absurdo desse mal entendido. Disse-lhe então que era músico numa banda de rock e que viera ao seu estado para realizar alguns shows em bares e clubes de algumas cidades dessa região, que um dos membros de meu grupo era policial, citei o seu nome, o meu nome, o nome da cidade onde residia, de meus pais, citei nomes e mais nomes que eu bem via não serem em nada necessários para a elucidação do caso. À medida que frases se me afloravam na boca, percebi que se entrecruzavam, eu as cortava pela metade e recomeçava uma nova, gaguejava. Meus ouvidos distinguiam em meio do meu 122

trôpego discurso alguns choramingas “por favor” e “pelo amor de Deus”. Eu me afogava em soluços. Estava apavorado. O delegado, sem denotar qualquer sinal de comiseração, hostilidade ou desprezo, mas antes, enfado, pôs diante da minha cara convulsionada pelo pranto medroso a ficha criminal, repleta de números que acusavam faltas à lei, e, no canto superior direito do documento, a foto de um homem de aparência grosseira e carrancuda. Meus olhos me traíam? Como podia ser possível? Dentro dos limites de uma 3x4, o que eu via era o meu rosto! De traços rudes, uma boca franzida que acusava despeito, olhos frios; todas essas características, que absolutamente não me pertenciam, numa escarninha conspiração se juntavam e curiosamente se moldavam em meu rosto. Todos esses detalhes reunidos davam ao conjunto um não sei que de maligno e sinistro, no entanto, eu me reconhecia. Imaginei-me mirando um espelho após ter cometido a série de atrocidades de que o familiar estranho da foto era feitor e concluí que meu semblante, em tal caso, não poderia ser outro. -Tem muita imaginação, filho - e, sem erguer o rosto dos papéis que agora rabiscava - Leva pra cela. Os brutamontes me ergueram pelos braços e se meteram comigo por curtos corredores sem que eu dissesse palavra. Estava completamente aturdido, abobalhado. Abriram grades pesadas de uma cela, me empurraram para dentro e a fecharam novamente. O clique da tranca sendo fechada às minhas costas soou como uma explosão dentro da minha cabeça. Avaliei as últimas cenas ocorridas, passei a classificar todas as dores que me judiavam o corpo, alisei o peito do agasalho rosa que usava, 123

o rosto de Minnie, e apalpei o absurdo do fato de eu estar ali, trancafiado numa cela de delegacia de uma cidade rural por crimes que eu nunca me imaginei capaz de cometer e que, com efeito, nunca havia cometido. Nem sabia dizer se me sentia desesperado naquele momento. Queria me reconhecer apenas uma vítima de uma piada sem graça e de mau gosto, mas o fio de minhas idéias se perdia, pensamentos se abortavam em minha mente e eu era incapaz de dar a esse quadro qualquer cor de racionalidade e coerência. Eu não estava sozinho na cela. A um canto do pequeno quadrado, dois detentos me olhavam zombeteiros. Um deles, de pé, com uma perna apoiada no estrado de um catre e cotovelo escorado no parapeito de uma reduzida janela gradeada, fumava um cigarro, fedido, de palha, e sorria uma ironia articulada ao outro que, sentado sobre um colchão em frangalhos, arrancava lascas de um nó de fumo preto usando um canivete. Fiquei alguns instantes olhando a pequena faca e me perguntando sobre a estranheza do fato do sujeito estar portando tal arma mesmo se achando preso numa cadeia. Esse, o da faquinha, me endereçava um riso cínico. Pareciam os dois contentes com a minha presença. Sentei-me num catre instalado a um canto da cela. Pus minha cabeça entre as mãos e mergulhei em meus pensamentos desordenados. Embora absorto em minhas idéias, podia ouvir meus companheiros trocarem entre si algumas palavras. Não conseguia entendê-las, mas percebi que falavam uma mistura de português com espanhol, completamente ininteligível pra mim. O de pé dizia qualquer coisa nesse dialeto estranho e ria num chiado baixinho.

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Ria o outro também e os ruídos e as palavras que saíam de suas bocas pareciam preencher toda a cela. Mirei-os um tanto. Eram brasiguaios, gente nascida na fronteira entre o Paraguai e o Brasil. Já havia encontrado alguns em restaurantes à beira da estrada nesses últimos dias. Andavam em grupos de três ou quatro sem nunca deixarem adivinhar o que faziam, com o que trabalhavam, que intenções guardavam seus gestos contidos, seus olhares desconfiados e seu linguajar mal articulado e confuso. Pareciam-me uma mistura indecisa de camponês e cigano, seres sem mundo próprio. Melhor ignorá-los. De súbito, uma coisa me ocorreu: eu tinha direito a uma ligação. Poderia chamar um advogado. A lei me permitia uma defesa, evidentemente. Levantei-me e gritei por um policial. Expus-lhe, sem muita convicção, o meu desejo. Este foi ter com o seu superior, voltou e destrancou as grades para levar-me até um telefone, fixo numa parede de um corredor subjacente ao das celas. Lembrava-me de um primo advogado com o qual eu trocara duas ou três palavras em furtivos e raros encontros familiares, mas... e o número de seu telefone? Não o sabia. Talvez devesse então ligar para a minha família, explicar a situação e pedir para que entrassem em contato com o primo; no entanto, não achei boa coisa preocupá-los. Melhor ligar para a minha namorada e pedir pra que ela falasse diretamente ao meu parente advogado. Assim fiz. Quando Fernanda atendeu ao telefone, antes mesmo que eu dissesse palavra, ela me despejou uma descarga de perguntas: “Onde você está?”, “Por que não chegou ainda?” “O que anda aprontando?” “Já devia ter voltado.” Pedi para que ela me ouvisse por um segundo e disse pausadamente: “Fui 125

preso...” , e que estava detido numa delegacia, precisava que ela contatasse Carlos, o advogado. -Preso por quê? O que você fez? -Assalto à mão armada, tráfico de drogas... - e não pude terminar de enumerar-lhe todos os itens que perfaziam a minha ficha criminal. Já ali pelo segundo atentado a lei, ela emitiu um sonzinho colérico e bateu o fone na minha cara. Devia saber que não poderia contar com a Fernanda. Virei-me para o policial que me vigiava prostado ao meu lado e lhe disse com doçura que a linha havia caído. Como resposta ele me pegou pela gola da blusa e me arrastou de volta à cela, indiferente aos meus protestos gagos e chorosos. Novo clique da tranca sendo fechada, quatro metros quadrados de cela imunda e meus brasiguaios sorridentes. Esses mais sorridentes do que antes. Nem por isso mais simpáticos. Sentei-me novamente sobre o catre. Pensei nos meus companheiros de banda que haviam sumido. Ao darem por minha falta, poderiam muito bem inquirir as pessoas do bar do posto de gasolina e, assim, facilmente se interarem sobre o que foi feito de mim. Já deveriam estar aqui. Trariam meus documentos, explicariam a polícia que haviam me confundido, que eu era apenas um pobre rapazote que estava fatalmente no lugar e hora errados e que meu único crime fora ter nascido com a infame cara de um bandido caçado em todos os estados brasileiros. Tão simples. “Cadê aqueles putos?”, gritei. Os brasiguaios gargalhavam.

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Devia ser mais ou menos onze da manhã. Uma fome descarada me judiava o estômago. Pensei em pedir almoço aos policiais, contudo declinei desse desejo. Fazer refeição ali não seria como me conformar com a minha condição de presidiário? Eu podia muito bem resistir mais um pouco à fome e esperar com paciência meus amigos que não deviam se tardar em aparecer e me tirar dali. Não havia dúvida de que viriam, obviamente. Não iriam embora daquela maldita cidade situada em lugar algum sem mim. Esse pensamento me deixou mais calmo e me tornei mais senhor de mim mesmo. Já nem me senti muito incomodado com os cochichos sibilantes dos meus companheiros de cela. Sabia que no futuro eu riria de tudo isso e acariciaria contente o pensamento de que esses malditos certamente ainda estariam apodrecendo nessa cela, fumando os seus cigarros fedorentos e, sem a companhia de um injustiçado pela Justiça para que os divertisse, tendo só um ao outro, suas trocas cúmplices de olhares e sua estúpida língua sem pátria.

Pedi um cigarro, mesmo com certa arrogância, ao que estava de pé, escorado na janelinha gradeada (eles não se moviam de suas posições). Este levou aos lábios a pontinha que tinha entre os dedos, puxou um longo trago e jogou aos meus pés a bituca fedorenta. -Tome lá, cabron.- foi o que acompanhou o seu movimento. Olhei por um segundo o toco de fumo deitado sobre o chão da cela e, num gesto enfezado, esfarelei-o sob a sola de meu chinelo. Não me deixaria ser humilhado. O brasiguaio, vendo isso, arreganhou dentes podres e explodiu numa gargalhada que ecoou por toda a galeria de celas da delegacia. 127

Não me agastei por isso. Ou, antes, só um bocadinho. Minha mente era tomada por outras coisas. Confortava-me o pensamento de eu não ser Raimundo, o fora-da-lei. Uma bobagem, admito. Mas a certeza de não ser tal sujeito fazia-me pleno de regozijo moral. Às vezes. Na maior parte do tempo fui acometido de um saber-me incontestavelmente réprobo; uma culpa kafkiana que fugia de toda e qualquer razão. Devaneios como esses desenhavam estonteantes parábolas diante de meu espírito, por demais impressionável e de natureza tão sensível. Logo, peguei-me afagando lembranças de dias de liberdade: companhia prazerosa de amigos, mimado aconchego familiar, noites de festa regadas a rock n’ roll, sorriso de namorada... Despertava de súbito e dava com as paredes de tom ocre de meu féretro e meus surreais companheiros de reclusão, que não deixavam um segundo sequer de me fitar. O contraste entre esses dois mundos era aterrador e triste; trazia-me uma melancolia exagerada em suas razões de não-ser e me tocar e eu me encolhia indefeso em meu interior sentindo doloridas ferroadas de um inexplicável remorso do qual me via incapaz de medir a extensão, delinear margens e saber onde começava e findava. No momento, não conseguia muito bem avaliar o ridículo do querer, ao sair do cárcere, me tornar uma melhor pessoa. Nem por isso deixava de arquitetar em minha alma as mais variadas empresas, que teriam por fim fazer de minha vida, lá fora, uma irrepreensível coleção de bons atos e gestos. Beatifiquei-me nessa dor sem procedência que me trouxe o conhecimento de minha própria vileza; canonizei ,eu mesmo, em meus sofrimentos, o meu ser agora todo chagado pelos flagelos inclementes do destino; abençoei de todo o coração os meus algozes, perdoando-lhes pela falta de ciência de seus atos contra 128

mim praticados; ungi-me dos mais nobres desígnios e tomei para mim a firme decisão de me tornar, assim que descobrisse por quais vias, uma pessoa melhor. Eu delirava. Se meditasse com mais tato sobre a coisa, me reconheceria incapaz de atinar bem pelo que seria uma melhor pessoa, uma vez que, nunca sendo um exemplo dos mais positivos para a humanidade, também não fui dos mais dignos de censura ou desaprovação (muito severa). Condenação jurídica e encarceramento, ao menos, jamais. Entretanto, por menos sentido que houvesse em tudo isso, era a minha liberdade que se acabrunhava inconformada do lado de fora das grades. Um dos brasiguaios emitiu um sonoro peido, o outro manejava ruidosamente o canivete no incessante ritual de picar seu nó de fumo, um alarido de vozes vindo de outras celas passeava pelo corredor. Meio deitado no catre e encostado à parede, eu balbuciava, bem sabia, monossílabos sem sentido enquanto em minha cabeça se agitava um turbilhão de idéias e imagens disformes que se misturavam entre si e compunham estranhas cenas onde eu me via trajando pardo, dedos em riste me apontando num tribunal, rostos enojados de desprezo, minha mãe que chorava, sonhos fulgurantes enterrados a sete palmos de toda e qualquer esperança de realização, uma luz que se distanciava até virar um pontinho minúsculo e sumia por fim me trancando em trevas imperscrutáveis... Uma voz familiar me trouxe de volta à terra firme. Levanteime de um pulo e aferrei minhas mãos às grades. Eu estava salvo!

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Pelo corredor, vinha Marcelo com um policial e o delegado. Mas não tinham pressa. Não captei em nenhum de seus movimentos qualquer sinal que denotasse urgência. Pelo contrário: apalpavam-se ombros, uns dos outros, riam expansivos e palestravam animadamente sobre pertinências do trabalho que os três tinham em comum. Até que se lembraram de mim. -Confundido com um foragido da justiça! Que embrulhada, hein, rapaz? Só você mesmo para se meter nessas coisas. Marcelo dizia quase a se sufocar de tanto rir. Não iriam me tirar dali? Travei entre os dentes um “por favor”... -Em mais de trinta anos de profissão, nunca vi algo tão hilário - o Delegado se sentia deliciado, levava as mãos ao estômago e dobrava o tronco numa convulsão histérica de gargalhadas. - Abra a cela, Moura! Quem disse pra ti que ser sósia de um traficante homicida dá cadeia? - berrou, fanfarrão, ao policial. Esse também cheio de dentes na cara. Ria Marcelo, ria o delegado, o soldado. Os brasiguaios às minhas costas chegavam a esmurrar as paredes no frenesi de seu divertimento. Eu não ria. De boca ensangüentada, escoriações por todo o corpo, roupas em farrapos, sentia-me de uma pobre coitadice sem tamanho. Da cela em que foi trancafiado um alegre e jovial rapaz saiu um ser institucionalmente traumatizado que agora ganhava tapinhas nas costas, ditos espirituosos e gracejos sem conta.

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-Se apavorou à-toa, filho. – dizia o delegado à guisa de consolo, e me apontava para o deleite dos demais - Olha esse garoto! Treme feito filhote de anu. A comitiva risonha e eu íamos deixando a galeria de celas. O soldado, que se empoleirava em meus ombros, se desmanchava em lágrimas extasiadas de júbilo cômico. Ao passar pelo saguão da delegacia, novas risadas, dessa vez do resto do batalhão policial. Naquele arrebatamento coletivo de alegria, imaginei que tirariam fotos comigo, todos eles. Desci mancando a escadinha na fachada daquele covil de hienas. Tinha uma perna inchada e sentia fraturadas algumas costelas. O delegado em pessoa, muito gentil e prestativo, me auxiliou a transpor os poucos degraus. Na Pampa, Maurício ainda dormia de cara colada ao vidro da porta. Joguei o seu corpo mole para um lado e ajeitei o meu, dolorido e machucado, sobre o assento. Às portas da delegacia, todo o efetivo policial acenava em despedida aos seus novos amigos paulistas. Marcelo me ofereceu um cigarro e passou a me explicar, intercalando frases a risinhos, como foi que nos desencontramos no posto de gasolina, o que lhes contou os nativos do boteco me descobrindo, então, preso no distrito policial da cidade. No rádio tocava “Paloma” e os acordes obscenamente melancólicos dessa música paraguaia soavam ainda mais tristes. -Por um momento fiquei preocupado contigo. – Marcelo enxugou do canto dos olhos suas últimas lágrimas e girou a chave na ignição. Partimos dali.

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Destino
Denis Clebson da Cruz

- Finalmente – disse Neitran quebrando ossos humanos sob seus pés – O Machado de Shin irá salvar minha vida. O bárbaro caminhou pelo vale e alcançou a arma recostada na rocha. - Dez anos de busca e agora posso mudar meu destino. Fechou os dois punhos no cabo do machado de guerra e impôs sua força para puxá-lo. Uma década havia se passado de sua iniciação à idade adulta. Naquele distante dia, o jovem Neitran, príncipe bárbaro da Aldeia de Gri, entrou na tenda de Jargiel, pronto para o rito de passagem. Jargiel era o mestre Shaitan da tribo, uma classe de feiticeiros responsáveis pelos ritos espirituais do povo bárbaro. Fumaça verde inundava o ambiente com um cheiro acre, tomando todos os sentidos de Neitran. - Preparado? – perguntou o feiticeiro aproximando-se do iniciante que, sentado em um círculo cavado na terra, assentiu com a cabeça. Colocou a mão de unhas encardidas na fronte de Neitran e soprou um pó escuro em suas narinas. O bárbaro se contorceu e seu corpo começou a sofrer espasmos. Parou e abriu os olhos com a íris totalmente acinzentada. 133

Entrou em transe e o destino se descortinou diante dele. Viu-se um pouco mais velho, gritando enquanto um monstro rasgava-lhe ventre. Pôde sentir as garras da imensa criatura albina abrindo-lhe uma ferida mortal. Acordou suado, segurando o próprio ventre. - Uma visão de morte – disse Jargiel. - Não – meneou a cabeça. – Eu não posso morrer assim. Sou um príncipe bárbaro. - É seu destino. Você é prisioneiro dele. - Não pode ser – Neitran levantou-se furioso e segurou o shaitan pelo pescoço. – Faça alguma coisa. - Não posso fazer nada – respondeu engasgado. – Me solte. O bárbaro andou de um lado para o outro na tenda enfumaçada. - Quero outra visão – gritou Neitran. – AGORA! Sentou bufando no círculo; ainda podia sentir seus sentidos aturdidos pela última infusão. Jargiel, mesmo a contragosto, o atendeu, realizando novamente o rito. Mais uma vez, Neitran entrou em transe. Viu sangue, mas não era seu. A lâmina esverdeada de um machado de guerra cortava o couro do imenso Urroah, tingindo de vermelho seus pelos brancos. Viu com clareza o símbolo de Shin gravado no cabo da arma. Despertou arfando.

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- O Machado de Shin. Ele pode me salvar do meu destino. Com ele matarei o Urroah albino. - Você jamais o encontrará – disse o shaitan. – Há três séculos que esta arma maldita não é vista. É uma busca em vão; ela não pode livrá-lo do seu destino. E você conhece a história do Machado de Shin. - Sim, conheço. O rei Hakrum encomendou um machado para Shin, a criatura elemental além da fronteira. Ela exigiu a alma de mil guerreiros bárbaros para fundir a arma e foi atendida. “Hakrum levou mil de seus soldados para além fronteira, onde, desarmados, foram emboscados e assassinados pelas criaturas de Shin. Com as mil almas, forjou o machado, incorporando os espíritos na lâmina esverdeada. Porém, o machado voltou-se contra o rei. As mil almas do machado possuíram Hakrum e o levaram ao suicídio.” “Alguns shaitans perceberam que o Machado de Shin estava amaldiçoado e o esconderam.” - Não só um Urroah albino é um mau agouro, mas a arma que você deseja pode ser uma maldição ainda maior. - Não sou prisioneiro do meu destino. Vou mudá-lo com o Machado de Shin. Saiu da tenda com uma missão que iria tomar dez anos de sua vida adulta. Uma década de guerra e de destruição em busca do objeto que salvaria sua vida.

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Expandiu os limites da tribo de Gri, sempre buscando e interrogando shaitans e descendentes do Rei Hakrum. Chacinas e torturas tornaram-no o príncipe bárbaro mais temido de todas as tribos do país. Depois de quase uma década seguindo pistas, muito delas falsas, localizou um shaitan recluso no Abismo do Corvo; Franor, era o guardião do segredo que buscava e, a princípio, não pretendia revelar a localização do machado. Porém, Neitran sabia ser persuasivo. Arrancou-lhe três dedos e as duas orelhas. Cavou-lhe buracos na carne e cobriu-os com óleo fervente; cozinhou-lhe uma das mãos e ameaçou assar um de seus pés; Franor desmaiava e, tão logo recobrava a consciência, o príncipe bárbaro reiniciava as torturas. Depois de três dias de mutilações, implorando por uma morte rápida, Franor traiu toda a tradição de sua Ordem e revelou onde estava o Machado de Shin: além da manancial do principal rio do país, havia uma passagem por entre as rochas. Depois dela, um vale onde se achava a chave para a libertação de Neitran. Finalmente Franor teve seu desejo realizado. Foi morto com um único golpe. Sozinho, o bárbaro continuou a jornada. Não queria correr o risco de ser roubado quando estava tão perto de se ver liberto de seu destino. Alcançou a nascente do rio, localizou as rochas e atravessou a passagem. Ali estava Neitran. Ossos humanos e de animais forravam o chão e estalavam por baixo de seus pés. 136

Quantos já estiveram ali antes dele? Quantos buscaram alcançar o Machado de Shin e morreram no vale? Nada disto importava. Tinha plena convicção de que não morreria no vale; sabia que seu destino era possuir aquela arma e com ela derrotar o urroah albino, livrando-se do seu destino. Empunhou o imenso machado; sua lâmina irradiando luz esverdeada. Estremeceu com seu poder, sentiu-se invadido por muitas almas. Os ossos pareciam separar de sua carne e a pele ardia como fogo. Sentia que nada poderia detê-lo. Um som trepidou os ossos no chão. O urro ensurdecedor ecoou pelo vale e Neitran viu-se diante de seu destino. Mais à frente, um Urroah albino atravessava a passagem rochosa. Três vezes maior que um bárbaro, sustentado pelas patas traseiras, transformava em pó os ossos em que pisava. Urrou novamente, revelando mandíbulas com fileiras de dentes afiados e caninos capazes de perfurar um homem de um lado ao outro. Neitran não esperava que seu encontro com a morte fosse tão logo encontrasse a arma. Aliás, não esperava desafiá-la justamente por ter partido em busca do Machado de Shin. Assim como em seu transe no rito da passagem, lutou com o Urroah albino. Desviou das garras afiadas da criatura que parecia um urso gigante. Sentindo o poder da arma, atacou. Feriu a espessa carne do animal tirando-lhe não apenas sangue, mas uma ira ainda maior. O urroah avançou e atingiu o ventre do bárbaro, rasgandolhe a vida. A mente de Neitran fundiu-se com o transe de dez anos atrás. Viu-se diante do seu destino, um prisioneiro que 137

pensava estar fugindo, mas, na verdade, caminhava em busca dele. Quando sua alma se desprendia do corpo, lembrou-se das palavras de Jargiel: “É seu destino. Você é prisioneiro dele.”

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No tempo das maçãs
Danilo Reis

Inverno 2007 Os dedos esguios seguravam um papel sujo e comido pelo tempo. O menino que por ali estava, brincando com suas fantasias de criança, observava-o com a curiosidade que os mais velhos costumam despertar naqueles que ainda estão começando a viver. O homem tomou mais um gole da sua xícara de café, degustando com sabedoria cada gota sorvida. A doçura do açúcar e as linhas no papel remeteram-lhe ao passado. Um passado tão distante quanto as nuvens daquele imenso céu azul que os observava pela janela. Divagou por deliciosos minutos em um mundo que não mais existia. Encontrou rostos que desapareciam no ar, saboreou momentos sublimes, sofreu por amores que um dia julgou eternos. Na volta, chamou o menino para perto de si. Iria contarlhe uma história. Durante a sua longa viagem, não desviara um instante os olhos do papel amarelecido. Aquelas palavras, escritas por um velho que encontrara na rua, há muitos anos, marcaram sua vida profundamente.

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Primavera 1953 O mundo parecia ser feito de brincadeiras e maçãs já descascadas, cortadas cuidadosamente pelas mãos dedicadas de minha mãe. Maçãs, nunca mais elas teriam o mesmo gosto. Mesmo cortadas daquela maneira peculiar, pelas mesmas mãos, com o mesmo carinho de outrora. Não. As maçãs perdem o sabor com o correr dos anos. Nós também. Só somos plenos, verdadeiramente plenos, quando criança. Correndo nos campos e descobrindo as borboletas, que teimam em fugir da gente em direção a algum lugar encantado. Tudo o que acontece depois da nossa infância não passa de repetição. Tinha eu 11 anos na primavera de 1953, estação que entraria para a história do nosso país devido à beleza das suas flores. Belas e doces flores, que apareciam feito milagre nos mais tristes pátios da cidade, e enfeitavam os amores dos mais distintos casais. Como morasse perto do colégio, seguia a pé, todos os dias, entre as vielas e quelhas, acompanhado pela empregada da nossa casa. As ruas que cruzávamos tornaram-se palco de muitas descobertas. Lembro-me bem do barulho que meus sapatos faziam ao tocar as pedras, um som abafado e oco. Fermina, a empregada, dava-me tapinhas de leve sempre que apressava ou atrasava meus passos, de propósito.

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Foi ali, na poeira da rua, que conheci muitos personagens do meu carnaval infantil. A vendedora de trufas, meu primeiro amor; o jornaleiro, sempre sisudo e balofo; o negrinho, que nos seguia e foi um dos meus melhores amigos até sua morte prematura, aos 13 anos; as senhoras que conversavam nas calçadas, inteirando-se das últimas novidades do bairro; os cães e gatos que levei para casa, sob o olhar cúmplice de Fermina. A própria vida andava por aquelas ruas de pedra, sob a forma de um triste senhor, com sua guitarra espanhola em punho. Sentava-se em frente à pequena lojinha de frutas, do lado oposto ao meu caminho matinal. Colocava a velha guitarra em seu colo, como um filho recém-nascido necessitando de todos os cuidados imagináveis. Tocava de leve em cada uma das cordas para verificar a afinação do instrumento, e só então começava a entoar suas canções. Algumas muito populares na época. Os dedos eram longos e magros, de uma cor pálida. O velho tinha aquele ar dos que amaram com uma intensidade absurda e envelheceram depressa demais. Um dia, naquela primavera, Fermina adoecera e eu fui sozinho para o colégio. Senti-me senhor dos meus passos, porém, a aula não me pareceu mais interessante que de costume. Na volta, o velho estava sentado perto das maçãs, como sempre, acompanhado das mais tristes melodias da estação. Era uma cena tocante, inesquecível. As notas que saíam do instrumento pareciam os últimos suspiros de um homem maltratado intensamente. Sangrava canções. Fui para o outro lado da rua, onde não costumava passar, para observá-lo mais de perto. O velho guitarrista pareceu notar essa mudança e me olhou com ternura. Talvez me considerasse um grande amigo, como só as crianças sabem ser. À moeda que 141

lhe entreguei, ele respondeu com um sorriso e uma melodia. Esta, mais bonita que a outra. Nesse exato momento, uma viatura policial apareceu na esquina. O velho manteve-se firme, apesar de entrever o seu destino. A viatura parou em frente à loja de frutas e dois homens desceram. Um deles segurou o velho com a sua guitarra, e a música calou-se. Enquanto isso, o outro explicava aos curiosos que aquele senhor, há muito tempo, havia matado dois homens e que fugira em seguida, para não ser preso. Desde então, levava essa vida de vagabundo. Um parente de uma das vítimas o tinha reconhecido, apesar das rugas, tocando violão naquele lugar e o denunciou às autoridades. Com a bagunça, ninguém percebeu o papel que caíra no chão, perto de onde o velho havia sentado durante tantas canções. Peguei-o disfarçadamente, e fui para casa sem entender direito o que havia acontecido. Ao ler aquelas linhas, senti uma estranha sensação. Entretanto, esqueci-me e fui brincar com os amigos que haviam voltado da escola. Hoje, ao relembrar aquele dia, tenho a sensação de que o velho guitarrista sou eu mesmo. Inverno 2007 Quando terminou a história, o menino dormia o mais inocente dos sonos. Sonhava, com certeza. O velho leu em meia voz, mais uma vez, o que estava escrito naquele papel, guardado por todos esses anos:

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O tempo nos rouba o verão. Cedo, não somos mais que árvores sem folhas, indiferentes aos encantos dos que outrora, vinham cortejar nossos frutos.

Viver é outra coisa.

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Das armas e das artes
Henry Alfred Bugalho

O violeiro será o primeiro a morrer amanhã. Talvez, por isto, concederam-lhe o último prazer de manter sua viola. Creio que aos próprios carcereiros aprazem o dedilhar e a cantoria do velho. Mas, desta vez, suas canções são tristes. Nossas histórias se entrelaçam, datam de longínquos anos, duma época tão calma e ultrapassada que a memória dela quase se ofusca e se mistura com outras recordações minhas e histórias fantasiosas que ouvi pelo mundo afora. Eu era criança quando o violeiro cego surgiu na minha vila, quase um mendicante. Comia o que lhe davam, dormia onde o abrigavam, caso carecesse de ambos, arranjava uma cabana sob o feno das alimárias e dividia a ração dos porcos. Isto apenas no começo, quando não o conhecíamos, pois, aos poucos, a voz rouca e os dedos hábeis nos cativaram. Na praça, chapéu no chão, viola na mão e na boca uma canção, o violeiro cantava os cantos da nossa raça, narrava os épicos do nosso povo. E não era apenas mais mendigo; era uma honra recebê-lo em casa e ouvir sua sabedoria em música; o suserano queria tê-lo à mesa, custeando-lhe luxo e banquetes. Impressionava-me que um cego pudesse cantar tantas coisas que não havia visto, falar daquilo que não sabia. Meu pai reputou-lhe como um mentiroso: — Não creias nestas baboseiras. O violeiro é apenas um bufão. 145

Mas o violeiro me encantava, e comumente eu negligenciava minhas tarefas domésticas para ficar ao pé do músico, apreciando suas histórias. Uma em especial eu aprendi de cor, e apanhei muito por causa dela quando meu pai me flagrava recitando-a, um graveto a tiracolo simulando uma viola. Se não me falha a memória, o primeiro verso era mais ou menos assim:

Alatiel trazia no peito as efígies Do leão, da águia e do touro sem doma. Na lâmina da espada a fama assoma: “Aço, da Morte inglória me proteges.”

No entanto, para incompreensão de todos os vilões, o músico cego foi expulso pelo suserano, fato que apenas serviu para corroborar as afirmações de meu pai, de que o violeiro não passava dum patife. Isto não diminuiu meu fascínio por aquela figura, tanto que tomei a resolução de seguir, se possível, uma das duas carreiras no futuro: cavaleiro, e cruzar o mundo como Alatiel, matando dragões e assediando bastiões; ou violeiro, vagamundeando a contar histórias.

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Papai jamais permitiria que me tornasse músico, por isto, no intuito de me libertar de tais estapafúrdias elucubrações, ele me enviou para ser treinado por um aristocrata. Como pajem, alimentei as montarias do cavaleiro, carregava suas armas, polia sua armadura, acompanhando-o em torneios. E foi num destes eventos que me encontrei, pela segunda vez, com o violeiro. Disputando a atenção, entre muitos outros artistas, saltimbancos, flautistas e trovadores, poucos se compadeciam do violeiro cego. Apenas eu lhe prestava alguma reverência. Uma atroz guerra assolou, então, nossos territórios. Meu senhor, conclamado pelo suserano, se pôs a seu serviço e fomos nós, unidos a outros nobres e campesinos, para o campo de batalha. Atrás das defesas, eu e demais rapazolas nos apressávamos para munir os arqueiros de frechas e os cavaleiros de armas. Vencemos as batalhas, mas oprimidos por devastadoras baixas. Ao retornar a meu vilarejo, desgraça. Toda a vila havia sido devastada pela carnificina, meus pais mortos, meus irmãos se dispersaram pelo mundo. Sem rumo, fugi para outras vilas e burgos. Roubei, enganei, mendiguei, tudo para não morrer de fome. Só não matei porque não tive oportunidade nem necessidade, mas tudo de baixo e vil realizei durante esta minha queda na vida. Numa destas peregrinações, avistei o violeiro num mercado, cantando por miúdas moedas. Aproximei-me dele e me apresentei, relatando-o a alegria de ver um rosto conhecido 147

após tanta desdita. O violeiro dividiu comigo um pão endurecido e me levou até o celeiro onde lhe permitiram dormir. Despedi-me com tristeza do músico e retornei à estrada. Pouco tempo depois, uni-me a um grupo de mercenários. Aprendi o manejo da espada, da lança e do arco. Ensinaram-me a montar e a me defender com escudo. Quando não assaltávamos mercadores nas estradas, lutávamos guerras alheias por preço justo. Se víamos que estávamos em desvantagem, abandonávamos o campo de guerra. Porém, se percebêssemos que tínhamos a vantagem, permanecíamos até o desfecho, para partilharmos dos despojos. Não lutávamos por honra, glória, ou até a morte, fazíamo-lo por dinheiro, e dinheiro obtivemos. Na época devida, comprei um título nobiliário e uma quinta. Já não era mais um rapaz, desposei uma virgem e aguardava meu primogênito, quando uma nova guerra se instaurou. Cansado de tamanha carnificina, abstive-me de integrá-la, apesar de sucessivas e insistentes convocações do suserano. Mas um viajante me trouxe a alarmante notícia de que os exércitos inimigos estavam a poucos dias da minha propriedade. Temendo que os meus caros tivessem o mesmo fim de meus pais e irmãos, reuni meus servos, minhas alimárias e equipamento de guerra, e engrossei o exército do meu senhor. As batalhas foram encarniçadas e, no decorrer de algumas semanas, recuamos inúmeras vezes, buscando abrigo em bastiões, que caíram diante do exército adversário.

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Por fim, abrigamo-nos num burgo e fomos assediados por meses. Os que não morriam nas batalhas, pereciam de fome e peste. Nossos comandantes tombaram em combate e, para minha surpresa, designaram-me como o capitão dos nossos soldados. Eu não era nenhum principiante nas artes da guerra, assim, conquistamos algumas fugazes vitórias, mas nada que dirimisse nossa derrota. Tudo estava perdido; para nós, restavam apenas a vergonha e a cova. No entanto, certa noite, alguém pediu admissão ao castelo. Conduziram o viajante até a tenda do suserano. Da minha barraca, pude avistar o velho violeiro cego. Meus pensamentos foram dominados por questionamentos. O que ele fazia ali? O violeiro e o suserano não haviam cortado relações, muitos anos atrás? Que tipo de importância ele poderia ter para nossa guerra? Mas não obtive tais respostas. Na manhã seguinte, descobrimos que o suserano havia nos abandonado; fugido como um covarde. O desespero se instalou entre os nossos. Se o próprio interessado nesta guerra havia evacuado, era porque não havia realmente salvação. O moral estava baixo, mas, mesmo assim, ainda agüentamos o assédio às muralhas por mais um dia. Reuni um grupo de valorosos combatentes e preparamos um plano de fuga. À noite, desertaríamos a cidade, levando conosco todos que pudéssemos. Mandei trazer até mim o violeiro, indagando-o qual a mensagem que portava: 149

— Não há mensagem. Sou apenas um cantador, meu capitão, vou de vila em vila a trovar. Só que ele mentia, e isto me doía mais, pois ele dividiu comigo seu pão, mas não dividia algo que poderia nos salvar a vida. Tentamos realizar nosso projeto, mas fomos interceptados por tropas inimigas. Uma horrível batalha ocorreu na escuridão da noite. Às cegas, amigos cravavam suas espadas em amigos, flechas flamejantes atingiam a todos indiscriminadamente. Levei um golpe na cabeça e tombei inconsciente. Eu ouvia música. Desorientado, indaguei: — Estou morto? Esta é a música dos anjos? Uma gostosa risada ecoou pelo recinto. Abri os olhos e me encontrava numa cela, cercado por grades de ferro. Na cela ao lado, estava o violeiro, rindo, viola a melodiar. — Ainda não morreste, capitão, mas, amanhã, nós dois seremos decapitados. Aquela sentença de morte, vinda de maneira tão abrupta e natural, trouxe-me à mente minha esposa e o bebê que crescia no ventre dela. Tentei chorar, mas os calos no coração não deixaram. — Que mensagem trazias ao suserano? — repeti a pergunta, agora que não havia por que ocultá-la. Mas o violeiro respondeu com evasivas.

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— Condenaram-me à morte alegando ser eu um espião, que trazia informações dos reinos inimigos ao nosso senhor, e que indiquei o modo como ele poderia fugir ao cerco. Tal resposta meu bastou, e tudo ficou claro como o dia. As canções do violeiro eram mensagens cifradas, revelando mais do que pareciam. — E como podes cantar sobre coisas que não viste? — surgiu-me esta questão que, desde o primeiro encontro, estava cravada em mim. — Nem sempre fui cego, capitão, já vi e estive em muitas batalhas. Foi numa delas que me tiraram a visão e, sem ofício, encontrei amparo nesta viola. Levantei-me e enfiei a cabeça na pequena janela quadrada. Lá embaixo, o patíbulo para nossa execução estava sendo preparado. — Fico feliz que, dentre todos que já conheci nesta vida — eu disse —, seja ao teu lado que eu tenha de deixá-la. Tu foste, um dia, o que eu sou; e, ao mesmo tempo, és o que eu poderia me tornar. Somos da mesma têmpera; somos do mesmo mundo. O cego libertou outra gargalhada. — E tem certeza, capitão, de que, um dia, um outro contador de história se lembrará de nós, e ambos ainda estaremos vivos, rindo juntos nesta mesma cela. Será mentira, mas será bem contada.

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Tema 6 – O beijo

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O beijo
Denis Clebson da Cruz

Interessante como algumas coisas são tão importantes em nossa vida. Aqui, escondido na penumbra desta noite, sinto a tensão do meu desejo. Estranho reconhecer que minha vida sempre girou em torno de algo aparentemente simples: o beijo. Quanto tempo faz? Não sei. Minha memória fez questão de expulsar várias coisas por quais passei. Mas desta história me lembro de cada momento. Allice. Este era seu nome. - Tom – disse ela naquele passado tão distante. – Meus pais estão muito doentes. Os cabelos loiros cobriam-lhe o rosto bonito que não ousava erguer-se para mim. - Mas... - Por favor, me perdoe – continuou ela. – Eu sei que prometi um beijo. Mas não posso; não agora. Não me conformei, mas acredito que meu rosto mostrava compreensão. Aquele encontro às escondidas era o momento perfeito para selar a corte que há muito eu vinha fazendo à Allice. Porém, nada saiu como meu coração desejava.

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- Você sabe que sou prometida, Tom – finalmente levantou o semblante. Seus olhos azuis mostravam certa súplica – Não posso contrariar meus pais neste momento difícil. Dê-me mais um tempo. Ela estava certa. Eu era um mero órfão, aprendiz de ferreiro. Não tinha nada para oferecer. Se quiséssemos ficar juntos, teríamos que fugir. Allice tirou do pescoço uma corrente dourada. Entregou-me com um pingente na forma de um coração. - Há coisas mais importantes que um simples beijo. Deu um breve sorriso. Seus lábios vermelhos, tão desejados, afinaram de uma forma que a deixou ainda mais linda. Virou-se ao ouvir o trote distante de um cavalo e saiu do nosso reduto. Foi-se o meu beijo, ficou em meu coração o ardente desejo. Por alguns meses, nos comunicamos por pequenos bilhetes. Os pais de Allice não retrocediam na doença e Joe, seu irmão, era nosso pombo-correio. Garoto incrível, sempre alegre; fazia votos para que nosso relacionamento desse certo. O conquistei tempos antes, dando-lhe uma pequena adaga que fiz na forja de meu senhor, usando sobras de metal. A partir daquele dia, Joe foi um fiel escudeiro. Por mais que o tempo tenha passado, não consigo me livrar das imagens da pior das minhas noites; a escuridão engoliu meus sonhos e levou consigo meu beijo. Lembro-me bem. Acordei com um som fraco arranhando a janela da ferraria. Vivíamos num povoado pacato, não havia 156

razões para medo. Abri e me deparei com Joe; suas roupas encharcadas de sangue. Puxei-o para dentro enquanto olhava para a imensidão escura. - Ele vai levar Allice – disse fracamente. Parecia haver sangue até mesmo dentro das órbitas de seus olhos. – Ele vai matar a todos. Pude assistir a vida fugindo do corpo de Joe. Eu não sabia do que se tratava, mas se Allice fosse morrer, eu morreria com ela. Peguei um florete e me apropriei do cavalo do meu senhor. A escuridão me abraçava enquanto meu coração apontava a direção. As sombras debruçavam pesadas em toda a pequena propriedade da minha amada. Parecia haver movimento apenas no silo. Cavalguei e forcei o cavalo a arrombar as portas com as patas dianteiras. Queria que o tempo curasse as feridas da mente. Mas não cura. Rasgados no chão do silo, estavam os corpos dos pais e de dois irmãos mais velhos de Allice. Ela estava pouco mais ao fundo; ajoelhada e de vestes brancas, manchadas com o próprio sangue, olhava para mim e para o nada. Atrás dela um homem lhe segurava pelos cabelos. Sorriu desdenhoso enquanto eu descia do cavalo com o florete empunhado firmemente. “Ainda posso salvá-la”, lembro-me de ter pensado.

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- Tom? – disse o homem sorrindo ainda mais. – Ela me contou sobre você. O garoto que quer um beijo – gargalhou. - Solte-a! – tentei gritar, mas só consegui que a frase saísse gaguejante. - Ah, o amor, o beijo; o beijo, o amor – soltou Allice e veio em minha direção. Meu corpo parecia ter petrificado. Não conseguia tirar meus olhos daquela figura hipnotizante que se fundia as robustas sombras do ambiente. - Isto é tão lindo. Um rapazote apaixonado que vem para salvar sua amada – seu rosto estava frente ao meu; seus olhos pareciam ordenar que eu não me mexesse. – Ela vai morrer, Tom. Vai morrer agora e levará com ela o que você mais deseja: o beijo. E assim foi. Aquele maldito virou-se e rasgou com as mãos a garganta de Allice. A vi arfar o próprio sangue e se debruçar sobre a poça vermelha. A cena me tirou do transe e avancei. Cravei a espada nas costas do assassino. Vingança. Pelo menos isto eu teria. Ele virou-se sorridente; o florete atravessando seu ventre. Finalmente percebi o que estava diante de mim. Aquela criatura gargalhou enquanto tirava a espada do corpo e pude ver suas imensas presas. Ergueu-me do chão, grudando em meu pescoço.

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- Patético. Mas vou te presentear com algo pior que a morte. Viva, garoto, para sempre, sentindo a perda da sua querida Allice. Grudou as presas em minha garganta e pude sentir as veias ferverem. Parecia que fogo circulava pelo meu corpo e que minha alma estava sendo sugada para dentro da boca daquele monstro. Quando minha vida se foi, me senti invadido por sombras. Meus olhos se abriram. Eu sugava o punho do assassino de Allice enquanto ele sorria. O gosto ferroso saciava uma fome sem limites. - Chega! – disse ele puxando o braço. – Bem vindo às trevas. Deixou-me ali, entre os cadáveres, e embrenhou-se na noite. A fome ainda era intensa e sorvi o que restou do sangue de Allice e de seus familiares. Fui transformado numa besta assassina. Escondia-me durante o dia, caçava durante a noite. Por onde eu passava, deixava uma trilha de corpos e procurava aquele que me amaldiçoou. Jamais irei esquecer seu rosto. Por muito tempo, a única coisa que me fazia lembrar que eu era humano, era o coração dourado com que Allice me presenteou. Finalmente encontrei um igual a mim, Dimitre. Ensinou a me alimentar sem matar e a descobrir muitos dos meus dons das trevas. Contou-me que, provavelmente, a doença dos pais de Allice era causada pela criatura que, depois de muito brincar, matou a todos.

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Dimitre foi um grande mestre, porém não colaborou em nada na minha busca por vingança. Dizia que isto não devia ser a motivação nem para a mais vil das criaturas. Mas ainda hei de encontrar aquele monstro e cobrar a dívida de morte que tem comigo. Interessante como algumas coisas são tão importantes em nossa vida. Depois de quase de dois séculos daquela maldita noite, estou aqui novamente escondido na penumbra, esperando ansiosamente por aquilo que nutre minha vida. Uma mulher vem em minha direção. Lembro-me de ter sorrido quando Dimitre me contou alguns termos usados por nós, os vampiros. O que mais me chamou atenção foi quando ele explicou como chamamos o ato de mordermos uma pessoa para nos alimentar. Ela está próxima. Já está sob meu domínio. - Não resista – digo saindo das sombras. – É apenas o Beijo. O Beijo de um vampiro.

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O corruptor
Henry Alfred Bugalho

Eu escovava os dentes quando minha mulher escancarou a porta do banheiro, puxou-me pelo braço e me estapeou a cara com um jornal enrolado. — Que isto, ‘tá louca? — encolhido, eu me defendia das investidas. — Seu canalha, desgraçado! — e, desenrolando o periódico, esfregou-o na minha testa — estou indo para a casa da minha mãe. Trêmulo, perplexo, apanhei o jornal e li a manchete da primeira página.

Professor depravado abusa de aluna.

E havia uma foto, não muito definida, onde eu aparecia beijando uma menina. Eu poderia correr atrás de Júlia e resmungar a afirmação mais utilizada por quem foi pego no flagra: “Não é nada disto que você está pensando!” Poderia, mas não fiz. A surpresa de ver-me tornado celebridade de maneira tão inusitada privou-me de qualquer reação. Sentei-me no piso do banheiro, chorando e rindo de raiva. 161

As coisas não eram tão simples de serem explicadas. Cagadas nunca possuem lógica, sempre ocorrem numa sucessão sem explanação racional, e foi deste modo que me enredei nisto. Eu lecionava na rede pública, recebendo aquele salário de miséria notório para todos nós, estava frustrado, necessitando dar um passo além. Ganhava menos da metade do ordenado de Júlia e, apesar de nunca ter sido adepto daqueles velhos preconceitos machistas, este fato me diminuía diante dela, mesmo que este apoucamento nunca fosse verbalizado. Recebi com egoísta alegria a notícia da demissão de Júlia. Estávamos fodidos, privados da maior parte da nossa renda, minha esposa deprimida, contas atrasadas, a filha tendo de ser transferida dum ótimo colégio particular para um colégio estadual, mas fui assolado por uma satisfação incomum, enfim, eu estava por cima da carne-seca em minha própria casa. Também vislumbrei a oportunidade de, a longo prazo, contornarmos a situação e termos, tanto Júlia quanto eu, uma vida muito melhor. Um e-mail dum amigo me convenceu a tentar a vida noutra cidade. Há três anos, ele ensinava num colégio interiorano e dizia-me estar satisfeito, bom salário e vida pacata. Contava-me também ter aberto uma vaga para professor da minha área e que, se eu desejasse, ele poderia entregar meu currículo nas mãos do diretor. Conversei com Júlia e nos entusiasmamos com a idéia. Rafaela, minha filha, desaprovou a mudança, temia perder contato com as amigas, mas quando expusemo-la nossa real

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situação, ela compreendeu que era isto ou a bola de neve das dívidas que se acumulariam. Mudam-nos em janeiro e, dois meses depois, assumi meu cargo na escola. As condições eram diametralmente opostas às quais eu estava acostumado na rede pública. Por ser a única instituição de ensino privado da cidade, a maioria dos alunos pertencia ao mais alto estrato social daquele fim-de-mundo. A infra-estrutura surpreendia, contudo, a arrogância da molecada também não ficava muito atrás. Mas ao pesar prós e contras, na minha concepção, ainda valia a pena termos nos arriscado. Adianto que não sou nenhum homem bonito — passei dos trinta e cinco, mechas grisalhas nas têmporas e um pneuzinho incômodo —, mas também não sou de se jogar fora. Tive dias melhores, mas anos de casamento, um emprego estressante e uma filha adolescente põem qualquer um pra baixo. Digo isto porque bem sei do fetiche, se é que posso definir assim, existente em relação a professores. Talvez seja parte da posição de autoridade e saber, duma figura sapiencial, provedor de conhecimento, em oposição à burrice do mundo cotidiano. Assim, atire a primeira pedra quem nunca foi apaixonada por um professor! E comigo não era exceção: mesmo na rede pública, eu estava habituado a receber bilhetinhos, comentários jocosos das menininhas, coraçõezinhos no canto do quadro-negro ao chegar em sala-de-aula. Nunca, mas nunca mesmo, levei a sério tais investidas. Ética profissional acima de tudo, mesmo que algumas das alunas possuíssem atributos suficientes para porem à prova esta ética.

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Não me lembro exatamente quando passei a reparar em Talita. Ela era aluna do terceiro ano, Ensino Médio, não se destacava pela inteligência, mas também não compunha o grupo dos bagunceiros. Meu único problema com ela era a incapacidade da menina em ficar quieta e, por isto, logo memorizei seu nome: — Por favor, Talita, dá para parar de conversar? — e ela me fitava melindrada, mascando chiclete em desafio. As provas bimestrais chegaram. Ao aplicar a avaliação na turma dela, alunos todos concentrados, meus olhos buscavam qualquer movimento suspeito (não que eu fosse muito rigoroso com alunos colando) e, acidentalmente, pousaram em Talita. Ela, cabisbaixa, cabelos loiros ocultando parcialmente seu rosto, maxilar movimentando-se no mascar do chiclete, caneta BIC oscilando nos dedos nervosos. Então, avistei a outra mão sobre a coxa, pele lisinha, e, obscurecida pela saia, na vão das pernas entreabertas, a calcinha branca. Contemplei a descoberta por dois ou três segundos, mas refugiei-me no meu livro de chamada. Porém, as faltas, notas e nomes de alunos não me detiveram, assim, voltei a buscar as coxas adolescentes e o tesouro de algodão entre elas. Três meses de abstinência de sexo possuem este poder de tornar algo tolo, infantil, no maior dos estimulantes eróticos. Faz-nos imaginar o que estaria por debaixo da peça íntima, imaginar carícias, faz o coração bater mais depressa e a respiração se acelerar. Das pernas, ascendi a vista ao rosto de Talita e encontrei os olhos azuis dela me encarando, marotos, talvez lendo meus pensamentos, pois a mão que repousava sobre a perna começou a brincar com a barra da saia, subindo-a uns 164

poucos centímetros, e ela passou abrir e fechar os joelhos, revelando e escondendo o que atraía minha atenção. Fingi indiferença, apanhei um livro e simulei estar absorto na leitura, mas, vez ou outra, não resistia e meu olhar era atraído por este jogo de Talita. Às vezes, ela estava concentrada na prova, sorrisinho safado; noutras, cuidando-me, como se dissesse: “eu sei de tudo”. O tempo da prova acabou. Os alunos vieram e empilharam os papéis sobre minha mesa. Percebi que a prova de Talita estava quase toda em branco: — Estava difícil? — perguntei. — Acho que não — ela respondeu — Mas eu estava pensando em outras coisas... — e sorriu para mim. Fiquei sem reação, reduzido ao jovem que um dia eu fora, sem traquejo para conversar com garotas, nem sabia como me aproximar delas. — Hum — resmunguei. — E você, professor, em que pensava? — Em nada, Talita — respondi sem graça. Eu não conseguiria mensurar como aquilo me afetou. À noite, sonhava com as pernas de Talita; de dia, mal me concentrava nas minhas atividades. As manhãs que se seguiram foram angustiantes, ter de entrar na sala da garota e engolir a vergonha de me achar um tarado. No entanto, a reação da menina me tranqüilizou, simplesmente me ignorava, o que, 165

apesar de doloroso para as expectativas por mim alimentadas, era a melhor atitude possível por parte dela. Estava quase me esquecendo de tudo, mas, no final duma aula, Talita surgiu na minha sala e me disse: — Professor, posso conversar com você? Os alunos já haviam se retirado e, enquanto eu recolhia meu material, aquiesci: — Estou com um sério problema, professor, e não sei o que devo fazer. Pensei que poderia ser algo relacionado às notas dela, pois o desempenho dela era de regular para baixo. — Eu sei como é, Talita, a fase pela qual você está passando é barra, mas vai passar. Acredite em mim, também fui adolescente e também não gostava de estudar. — Não tem nada a ver com estudo, professor — ela molhou os lábios com a língua. Um péssimo sinal, pensei. Ela se aproximou, mas recuei um passo. — Tive medo de vir até aqui... — ela acrescentou, achegando-se ainda mais. Eu até continuaria recuando, porém fui prensado entre Talita e minha mesa. Os pequenos seios dela se encostaram em meu tórax — Tive medo da sua reação. Eu queria que ela se calasse, quer dizer, estava morrendo de curiosidade para ouvir o resto, mas tinha certeza de que nada bom sairia dali.

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— Acho que estou apaixonada por você, professor — e, ao terminar esta sentença, os lábios delas quase tocavam o meu. Ela fechou os olhos e aguardou um beijo meu como resposta. Esquivei-me lateralmente, apanhei minha pasta e retruquei: — Isto vai passar! Eu também já me apaixonei por professores — ri, trêmulo do pé à cabeça, e sumi da sala de aula, sob o olhar incendiado de Talita, dedo indicador acariciando o lábio inferior. Depois disto, minha vida se tornou um inferno (no melhor sentido da palavra). Onde quer que eu fosse, deparava-me com Talita; simplesmente, não havia mais lugar seguro para mim. E eu perdia o fôlego, a voz, o rebolado. Nunca antes uma mulher me desmontou como ela, e nem mulher de fato ela ainda era, apenas uma garota, somente um ano mais velha do que minha filha Rafaela, fato que levantava uma série de questões morais às quais eu me recusava a confrontar. No intervalo das aulas, com a imagem de Talita na mente, eu corria ao banheiro para me masturbar, tentar me livrar daqueles pensamentos que me consumiam. E como os bilhetinhos, as piscadelas, as declarações de amor de Talita não cessaram, resolvi que deveria criar coragem e fazer aquilo que a natureza, aquele nosso resquício animal nos impele. — Encontre-me no estacionamento depois da aula — sussurrei no ouvido dela. Os instantes que aguardei no meu carro, tenso, tamborilando com os dedos no volante, me devastavam. Nenhum sinal dela. Concluí que Talita era idêntica à maioria das 167

mulheres: elas lançam a isca, mas, na hora da fisgada, puxam o anzol pra fora d’água, deixando-nos boquiabertos, chupando dedo. Elas querem se sentir desejadas, e fim de papo. Mas eu estava enganado, pois, cuidando o seu redor para se certificar de que ninguém a via, Talita apareceu e pulou para dentro do meu carro. Ria de emoção. Mal trocamos palavras no trajeto até chegarmos num local ermo, a alguns quilômetros da cidade, na beira dum riacho, onde poderíamos ter alguma privacidade. Assim que desliguei o motor, Talita saltou do banco do passageiro e se sentou no meu colo, beijando-me desesperadamente, deslizando as mãos por meu torso, desafivelando meu cinto e lutando para me livrar das calças. Eu respondia na mesma altura, apesar de um pouco atônito com a agilidade da moça: — Se esta for sua primeira vez, pode deixar que eu vou com calma... — comentei, querendo parecer gentil. — Minha primeira vez? Você só pode estar brincando, né, professor! — Talita quase gargalhou na minha cara, sem deixar, no entanto, de prosseguir na tarefa de nos libertar das roupas. Transamos durante o dia inteiro e, apesar de um pouco decepcionado, talvez ferido na minha hombridade e na ilusão de querer ser o primeiro na vida duma mulher, não podia reclamar da experiência. Após tantos anos acostumado com uma mesma mulher, um mesmo corpo, que já não tinha a mesma forma de antes, tomado por estrias por causa da gravidez, flácido, sem a mesma agilidade e vigor, deparar-me com uma garota no auge físico, tudo no lugar, pele irretocável, cheiro de frescor, que fazia 168

de tudo em todos os lugares, era rejuvenescedor, fazia-me sentir mais homem. Menti para minha esposa, afirmando que, à tarde, eu realizaria trabalho voluntário no colégio, alfabetizando jovens e adultos. As esposas são um bicho esperto, farejam de longe uma mentira, mas acatam-na para preservarem um relacionamento estável. Nada me tiraria da cabeça que Júlia, desde este primeiro instante, percebeu a minha mudança, a presença no meu corpo do odor de outra pessoa e que, ao contrário de antigamente, quando eu quase suplicava por uma trepadinha no chuveiro ou antes de dormirmos, agora eu nem me aproximava mais dela, mesmo quando era dela a iniciativa. As mulheres percebem; Júlia fingiu ter acreditado em mim, e eu fingi ter acreditado que ela havia acreditado. Logo, oficialmente, eu dava uma de bom samaritano, porém, na realidade, eu gastava as tardes com Talita num motel. Mas as escapadas para motéis começaram a nos entediar, passamos a nos encontrar em locais mais arriscados, em público, transando em banheiros de restaurante e provadores de loja. A excitação era tamanha que atingimos o ápice ao fazermos sexo no banheiro do colégio. Quanto mais perigoso, melhor. Não sei onde estava com a cabeça quando deixei a situação sair de controle. O modo de conduzirmos nosso relacionamento apontava para o desfecho que estava por vir. Qualquer boçal perceberia o tipo de envolvimento existente entre Talita e eu, mas ninguém tinha coragem para nos desmascarar, até aquela maldita foto aparecer no jornal. A sociedade na qual vivemos é regida por normas e leis hipócritas: tudo é permitido enquanto não for a descoberto. 169

Bastou uma foto para pôr tudo a perder. Primeiro, a cena da Júlia, quando ela esfregou o jornal nas minhas fuças. Depois, uma ligação do diretor da escola, manifestando a insólita declaração: — Porra, professor, se você quer comer uma aluna, tudo bem, mas seja discreto, professor. Esta não é a primeira vez que isto ocorre, mas um escândalo deste não podia cair nas minhas mãos. Agora quem terá de tomar uma providência para solucionar este pepino será eu. Você já deve imaginar que serei obrigado a demiti-lo. Os filhos-da-puta dos pais de alunos vão comer meu fígado! Quer dizer, eu recebia uma confirmação de que sexo entre professores e alunos era costumaz, desde que não caísse na boca do povo. Talvez, até este diretor já tivesse a sua cota de menininhas nas costas. Foi neste instante que parei e refleti sobre o que eu havia feito de errado, e percebi que seria crucificado por puro falso moralismo. A própria Talita havia me confidenciado que, antes de mim, ela já havia transado com cinco rapazes diferentes e com uma moça, ou seja, aos dezesseis anos ela havia tido mais parceiros do que eu com quase quarenta; minha avó se casou aos quatorze anos e pariu uma dúzia de filhos; Charles Chaplin só traçava ninfetas; dizem até que Maria, a mãe de Jesus, quando se casou com José, contava com apenas doze anos. Exemplos não me faltariam e eu já tinha até uma solução para este escândalo: em poucos anos, Talita seria maior de idade, nós nos casaríamos e tudo se resolveria. Não posso dizer que eu a amava, mas certamente estava apaixonado e era dominado por um desejo incontrolável. Não poderíamos exigir mais do que isto.

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Mesmo estando proibido de entrar no colégio, aguardei na saída, à espera de Talita, mas não a vi. Dirigi, então, até a casa dela, mas jornalistas a cercavam, todos querendo uma nesga da manchete. Liguei no celular da menina, mas fui atendido secamente: — Não posso falar com você, professor. Ainda não viu a merda que aconteceu? Entendi a reação dela, afinal de contas, estávamos todos sob pressão. Júlia saiu de casa, levando consigo Rafaela. Não posso dizer que isto me abalou, nosso casamento já estava com os dias contados há anos e, se não fosse este escândalo, seria outra razão, talvez mais frívola, talvez mais grave. Após alguns dias, os repórteres debandaram da casa de Talita e foi aí que encontrei uma oportunidade para conversar com ela, numa noite em que os pais dela saíram para ir à missa. Supus que Talita deveria estar de castigo em casa, punida pelos transtornos causados. Bati à porta e foi ela quem a abriu. Ao me ver, assustou-se: — Vai embora, professor. Não posso conversar com você. No entanto, não obedeci. Entrei e tranquei a porta. — Serei breve, Talita. Vim pedir para você fugir comigo, podemos nos casar e apagar tudo de errado que aconteceu. — Casar com você? — ela riu, mãos na cintura — Não seja ridículo! Até parece que eu me casaria com um velho!

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Isto foi uma tremenda duma contradição, ela não se casaria com um velho, mas transava com um. Expus-lhe este meu pensamento. — São duas coisas diferentes, professor. Tudo não passou duma aposta com minhas amigas. — Como assim? — fiquei sem rumo. — Eu contei para minhas colegas que você estava espiando por debaixo da minha saia. Elas duvidaram. Falei que você estava louquinho por mim e que me comeria se eu quisesse. Elas duvidaram. E aí fizemos uma aposta. — Mas por que ficou comigo tanto tempo? — eu suava, minhas mãos tremiam e era como se um torno espremesse meu cérebro. — Porque era legal. Todas elas ficaram babando quando descobriram. Não era ruim, professor, mas agora acabou. Já estou até saindo com outro rapaz, um surfista, pelo menos ele agüenta o tranco mais do que você. Só ontem trepamos seis vezes... Sempre me considerei um indivíduo racional, com comportamentos sensatos, com objetivos bem definidos. Nunca havia tipo um colapso emocional, nem arroubos de paixão, nem nada que me tirasse do meu casulo de racionalidade. Contudo, não existe nada mais ofensivo para um homem do que ter seu desempenho sexual menosprezado — “filho-da-puta”, “desgraçado”, “retardado” são ofensivos, mas “brocha”, “viado”, “corno” não são somente ofensas, são capazes de fazer um homem questionar toda sua existência. 172

— Cale sua boca, sua vadia! — eu segurei Talita pelo braço. — Você quer que eu minta, professor? Então, eu minto: você é o gostosão, o machão, o pau mais duro do planeta! — e o tom de ironia dela era tão doloroso que eu tinha vontade de me jogar no chão e chorar. Mas não fiz isto, a ação que tomei foi imprevisível para mim; segurei os cabelos dela e a arremessei contra a parede, abrindo-lhe um talho na testa. Surpresa, aterrorizada, ela, mãos apoiadas na parede, olhou-me de esguelha, sangue lhe escorria pelo sobrolho, descendia pelo nariz. Seria fácil eu me virar e sair dali, deixando-lhe uma cicatriz como recordação minha, mas não, eu precisava de mais, minha vingança não seria completa assim. Avancei contra ela, socando mais uma vez a cabeça dela contra a parede. Ela ameaçou gritar, mas suprimi os ganidos com uma das mãos, enquanto a sufocava com a outra. Talita reagia, arranhando-me o rosto e o pescoço, mas eu era mais forte e a subjuguei. Ela não tentava mais gritar, por isto, só me dediquei a estrangulá-la. Demorou um minuto ou dois até ela deixar de se mover, os olhos voltados para cima, boca arreganhada. Não posso, nem devo, esconder que senti prazer neste ato, acaso mais do que quando transava com ela. Uma impressão de superioridade, de poder, de força me consumia, quase uma identificação com o divino. A Deus era reputado o poder de criar e destruir; naquele momento, eu me igualava a Ele, destruindo o Universo em menor escala, privando da vida uma de suas criações (talvez a mais imperfeita delas) pelo mero capricho de conservar a supremacia. Manifestou-se a verdade que Raskolnikov entreviu: alguns nascem ordinários e, para eles, as 173

regras valem; outros são extraordinários, e estão para além do bem e do mal. Levantei-me e me preparei para partir, mas refletindo um pouco, percebi que pela cena do crime facilmente chegariam até mim. Na verdade, quase nada eu poderia fazer para ocultar minha autoria no assassinato: impressões digitais por todos os lados, na porta, na parede, e sabe mais lá onde; fibras das minhas roupas, pegadas, meu sangue e pele nas unhas de Talita, talvez testemunhas, e um motivo, eu tinha um motivo e nenhum álibi. Mas, numa única e incongruente reação, eu apanhei o cadáver pelas pernas e o arrastei para fora, jogando-o no portamalas do meu carro. Pouco me importei se alguém estava vendo. Dirigi para oeste, lancei o corpo de Talita num rio, amarrado a um pedregulho. Creio que chegarei na fronteira em umas sete ou oito horas. Dirigirei durante a noite, a notícia do assassinato somente se espalhará pela manhã, nos telejornais, só então me tornarei realmente um procurado. Quando meu nome estiver na boca de todos, escandalizados com o crime bárbaro, com o pedófilo, corruptor de adolescentes, depravado, assassino, eu terei desaparecido no Paraguay. Arranjarei um emprego, tentarei me virar com meu parco espanhol, conhecerei uma chinoca e terei filhos com ela. E, um dia, quem sabe, eu volto para esta cidade desgraçada e mate também o escroto que me fotografou com Talita, e o repórter sem caráter que arruinou minha vida. Não por causa da foto do beijo, pois era apenas um mero beijo, igual e insignificante a todos os demais dados em Talita. Só os perdoaria se a foto minha fosse do instante em que espiei a calcinha da menina; este sim foi o momento crucial, responsável por tudo. 174

Se eu tivesse de ser acusado de algo, a única acusação plausível seria esta: ter encontrado as pernas dela aberta, convidandome. De nada mais sou responsável.

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Beijo fatal
José Espírito Santo

Retiro o visor e elevo o olhar observando a imensidão sobre o horizonte pejado de vermelho claro, cibernético. Já me falaram em tempos da lenda das terras de Uhr, aquelas que se estendem para lá do vale. Já fui advertido mas a minha função de expedidor de documentação confidencial urgente – deverei dizer correio - não deixa espaço para hesitações ou grandes confabulações. Restam apenas dois dias no ambiente virtual e não me é permitido falhar. Estou bem equipado e habituado aos perigos usuais. A fibra do fato escuro protege-me e o laser que carrego no coldre já fez cair toda a espécie de bestas, até os temíveis cães bicéfalos... Por isso não será uma lenda estúpida que me atrasará, decido avançar e penetrar as paragens malditas antes que a noite caia. O meu transporte, um híbrido entre prancha e “skate” evolui sobre o terreno flutuando a baixa altitude e fazendo-me avançar com eficácia. Prossigo por cerca de duas horas após o que procuro uma clareira onde montar equipamento. Imobilizome, pouso a mochila e estabeleço o perímetro de detecção de intrusos. Retiro do saco um cubo-casa e primo o botão que inicia a leitura da codificação de info-matéria. Apenas mais cinco minutos e as duas assoalhadas estarão prontas, poderei pernoitar com todo o conforto. É nesse momento que ouço um barulho fraco vindo de lá, da orla. A mão direita baixa em gesto instintivo e no próximo segundo tenho a arma apontada. 177

“Por favor, ajude-me” diz a voz de mulher. O traje dela, parecido com o meu, inclui as botas justas, o cinturão e o impermeável de fibra negra que se ajustam a cada milímetro do corpo e salientam as curvas das ancas e os seios bem torneados. Não tem o visor colocado e cambaleia, a mão esquerda apoiando a coxa. Rosto longo de olhos fundos e lábios carnudos, cabelo negro comprido, a morena é dona de beleza incrível! Uma beleza cansada. “Fique onde está. Mãos na nuca.” ordena o meu instinto de defesa Aproximo-me e desarmo-a com facilidade ficando dono temporário do par de pistolas laser. Apoio o corpo no ombro e levo-o comigo. Irei passar os próximos quinze minutos tratando feridas e mazelas da desconhecida. “Escapou por pouco. Quem lhe fez isto? A mulher de algum amigo seu?” pergunto à flor da ironia. Os olhos negros fixam-me com aquela altivez de mulher inteligente encarando um idiota. “Não brinque comigo Mr.” Posso saber o seu nome? “Zlatis. Mas por estas paragens também sou conhecido por mensageiro do vento. Deve ser uma alusão à importância dos conteúdos que entrego” a piada estúpida tem função fáctica mas não obtenho qualquer reacção. “O meu nome é Lakshmi. Igual ao da deusa. Sou como você, o mesmo tipo de trabalho. Foram os Tork que me deixaram neste estado.” 178

Ao ouvir a palavra dou um salto atrás, colocando-me alerta. Praticantes exímios da arte marcial, esses filhos de meretriz mercenários actuam em grupo e são adversários temíveis. Aparecem e desaparecem num ápice semeando a morte e o terror. “Eles vêm aí? Conseguiu despistá-los?” “Por enquanto não. Deixei-lhes um sombra. Mas o mais tardar amanhã por volta do meio-dia irão descobrir tudo. Virão novamente no meu encalço.” Então ela usa sombras - penso, espantado. Um sombra é uma réplica perfeita mas de duração limitada que deixamos no ciberespaço e só um pequeno grupo – que me incluí – tem acesso à tecnologia. A minha curiosidade aumenta. “Onde está? Conte me tudo. Quero saber de si.” “Bem... a história é longa, está disposto a ouvir?” sem esperar a resposta, continua “fisicamente encontro-me num pequeno apartamento nos arredores de Mumbai, capital do estado de Maharashtra. Mas a tecnologia faz com que esteja aqui consigo em partilha de vivência virtual.” “Como chegou a isto, como se tornou correio?” “Não sou oriunda de família de parcos recursos. Meu pai era engenheiro informático e trabalhando para multi-nacionais estrangeiras conseguiu garantir-me um bom nível de vida e acesso às melhores escolas. Foi sem surpresa que lhe segui as pisadas e podia até ter trilhado o caminho mais fácil, um daqueles que terminam nos grandes empregadores. Mas minha rebeldia fez com que saísse de casa cedo para partilhar 179

apartamento com um colega de faculdade, formávamos um casal jovem e cheio de ideais. Depois... veio a desilusão! Um dia descobri que ele me traía e, contragosto, fiz o que era necessário para salvaguardar a dignidade e amor-próprio, pu-lo a andar. Aceitei todo o tipo de biscates para sobreviver, sujeitava-me ao que ia aparecendo. Não podia apelar para a ajuda paterna – entre mim e meu pai estendia-se a barreira do orgulho mútuo. Finalmente chegou o tempo bom em que alguém reparou em mim e me propôs projectos mais ambiciosos. Então num desses trabalhos...” O silvo de um detector do perímetro interrompe subitamente a conversa. Passo-lhe a arma. “Fique aqui. Use-a sem hesitação caso veja gajos mais feios que eu” dou por mim num piscar de olho inevitável, sem obter qualquer resultado. A tipa não deve ter sentido de humor.

Saio com cuidado e, como temia não vislumbro ninguém. Agacho-me e lanço o sombra no sentido do detector. O outro eu inicia a corrida em ziguezague, chega em poucos segundos e agacha-se examinando-o dispositivo. É então que os dois vultos surgem do nada quase em simultâneo e preparam-se para a investida. Aponto, disparo e acerto. Uma e outra vez. Menos dois a chatear! Saio correndo, procurando novo abrigo. Estou quase a chegar quando sinto o impacto acima do tornozelo da perna esquerda. Surge dor e perco a força. Caio e a arma saltame da mão. Virando-me, vejo ao longe o visor do filho da mãe que se aproxima sorridente.

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Como sei que desarmado serei presa fácil, rolo e tento chegar à pistola. Um raio antecipa-se cortando-me caminho e acerta-lhe em cheio transformando-a em pó. As coisas não estão nada boas, sei que não restam muitas possibilidades. Olho para o meu oponente e em acção desesperada de instinto de sobrevivência levanto-me, apoiando o corpo na perna sã. Tento fugir. Outro raio. Dor! Lá se foi a segunda perna. Caio novamente e fico a olhar atónito para a ferida profunda. O adversário está quase sobre mim, os olhos vermelhos de ódio, ostenta um ar triunfante. Não vai usar o raio letal, prefere o sabre. Provavelmente não irá acabar comigo com uma única estocada. Fecho os olhos e preparo-me para deixar de ser. Nada. Não acontece nada. Apenas silêncio. Estará à espera de quê? Abro os olhos novamente e volto a olhar, receoso. O corpo jaz prostrado sem vida a meus pés. Ao fundo a morena empunha a arma. Antes de desfalecer ainda agradeço aos céus a sua boa pontaria. É de dia e estou deitado. A mão dela está na minha testa. O par de olhos negros observa-me com meiguice. “Hei, que horas são?” não podia fracassar. “Quase meio-dia querido. Não se preocupe, vou cuidar bem de si.” “Mas... não entende. Tenho uma entrega para efectuar, o tempo urge.” Ela não respondeu. Ao invés, avança agora sobre mim encostando, pele na pele. Posso sentir o seu calor aconchegante. Mão nos meus cabelos, a boca avança pedindo, fremente. Fecho 181

os olhos e recebo o beijo com suavidade, sentindo o sabor de lábios húmidos se colando nos meus. Depois... depois não me contenho, avanço com tudo e minha mente recua subitamente no tempo. Recordo minha infância, o tempo de escola, como me fiz homem e cheguei a esta profissão. Mergulho em mar de ser onde vejo espalhadas à volta todas as memórias. Que vêm e vão, que fogem quando chamo. Pouco a pouco perco a noção e o sentido de tudo e o tempo e espaço dão as mãos rodopiando sobre mim em ciranda alegre. De repente vejo o meu ser, ao longe, situação estranha, impossível - eu fora de mim. Sou simultaneamente o que faz e o que observa, o leitor crítico e o escritor. Caminho nu pela praia vazia. As ondas vão e vêm enquanto o luar ilumina a areia sem pegadas. Ao longe a montanha tem forma de topo de face de mulher morena com cabelo longo e olhos negros fundos. Que me observa. Deparo com o objecto metálico que é um cilindro alto e deve ter uns bons dois metros de altura. No exterior estão escritas em relevo as palavras Corporação da águia vermelha. Confidencial. Contornando chego até à abertura de onde espreita a folha de papel, gigantesca. Puxo-a para fora usando ambas as mãos e começo a ler em voz alta. Vou avançando linha a linha, perdendo de imediato a memória do que visualizo. Até chegar ao fim onde me espera a única frase que não desaparecerá, que permanecerá para sempre na minha mente. Foste apanhado, cabeça de vento. Um beijo desta tua amiga

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Emerjo da realidade virtual. À minha frente, o programa de computador “mensageiro do vento” parece doente tão cheio que está de ícones alarmistas, pintados a vermelho. Por todo o lado a frase “Alerta. Intrusão. Segurança comprometida”. Mais um pouco e entendo tudo. Aquela vaca da indiana! Fora apanhado e deixaria de ser útil para passar a ser incómodo. Na melhor das hipóteses terei cinco minutos até à chegada da equipa de limpeza que vem para me erradicar! Nada a fazer. Impõe-se o plano B. Reúno alguns pertences, guitarra incluída, corro, abro a escotilha e entro de rompante no cilindro de transporte. Os dedos tremem quando dou as coordenadas da periferia da metrópole. Serei um proscrito condenado a viver fora dos registos do mundo cibernético, não poderei voltar mas... sobreviverei! Carrego no botão e espero pelo sono induzido durante o qual serei levado a grande velocidade. O tempo passa e eu passo por ele, não dou por nada. Trinta e poucos minutos depois... Acordo tarde, quase noite em zona periférica. Saio da escotilha mochila às costas e guitarra no ombro, corro para a floresta. Continuo avançando rapidamente e sem olhar para trás durante mais uns quatro ou cinco quilómetros, não sei bem. Ao fim dessa jornada sento-me para descansar um pouco. Tenho sede, a minha mão desce e sobe levando o cantil à boca, que bom, que gostosa a água fresca! Ouço a voz ao meu lado que aparece do nada, num repente. “Bem-vindo, forasteiro! Aqui não fazemos perguntas, por isso não vou inquirir quem és ou ao que vens. Vejo que trazes uma guitarra, isso é bom! Pode ser que consigas animar as 183

nossas noites de comunidade e quem sabe, talvez até o pintor espanhol, o Pablo, goste tanto que um dia resolva imortalizar-te em óleo de tela. Aqui todos ganham nova identidade e acho que iremos chamar-te ‘o guitarrista’. Que pensas disso?” E enquanto fala, ela inclina-se e dá-me um beijo fraterno na bochecha esquerda. E eu lembro-me do beijo. Do outro. Beijo fatal.

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Tema 7 – Ano 2099

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Ilusões
Denis Clebson da Cruz

- Você conseguiu? – pergunta-me Jaila. Meus olhos, por mais que tento, não conseguem se desviar do fascínio imposto por sua beleza. Não faço idéia do que existe por baixo daquela camada perfeita de proto-ilusão que a deixa deslumbrante. Cabelos negros e cintilantes, olhos verdes, curvas esculturais vestidas em roupas mínimas e traços que lembravam algo como os elfos das velhas histórias de Tolkien. - Eu já falhei alguma vez? – pergunto tentando não denotar qualquer entusiasmo com sua beleza. - Não. Mas para tudo há uma primeira vez. Estendo a mão e entrego-lhe uma minúscula esfera transparente. Jaila a escaneia com seus olhos que avermelham. Sorri. - Você conseguiu! O nanochip agora é nosso. Vamos inserir os créditos em seu DNA agora mesmo, Samyanm. - Prefiro outro implante - digo sem rodeios – Quero a tecnologia do nanochip em meu braço. - Isto custará mais que os créditos que você tem. Mas é algo que podemos resolver, se é que você se dispõe a fazer outro serviço. - O que preciso roubar desta vez? 187

- A memória de um ID. Você faria isto? – seu tom é de desafio. - Claro – não titubeio, mesmo sabendo que isto significava reduzir um ID a um ser totalmente sem memória, a um imprestável vegetal. Jaila sorri novamente, um sorriso que eu conheço bem. Algo que, antes mesmo de iniciar minha missão, lhe dava uma certa vitória. Já faz algum tempo que sou uma espécie de escravo da Corporação Satan, sempre migrando de missão a missão, sendo pago ora com Créditos, ora com implantes ou melhorias dos que já tenho; um eterno ciclo vicioso que não me permite a libertação das ordens deles. Meu corpo tem um potente braço cibernético, um olho embutido com leitura e decodificação virtual, o pulmão modificado e, em minha corrente sanguínea, há quase um litro de substância prata, recheada com nanotecs, capaz de reparar quase instantaneamente cortes profundos. - Você precisa caçar o ID G21G7714. Não sabemos se nosso alvo veste uma proto-ilusão, mas já localizamos onde ele está neste exato momento. E, Sam, ele tem um de nossos andróides como guarda costas, um Med500. - Vocês não podem reprogramá-lo remotamente para retornar? - Não. Ele escolheu estar com o ID G21. “Escolheu”, penso. A velha história sobre inteligência artificial, tão comum neste último século. Eu ia perguntar como o ID conseguiu um dos dróids da Satan, mas seria perda de 188

tempo; Jaila não me responderia. Sei exatamente o que fazer: caçar, esterilizar a mente do alvo e trazer as informações para a Corporação. O Med500 seria um simples obstáculo a ser vaporizado pelo meu potente braço direito. Recebo as instruções sobre a localização do alvo e vou para o topo do imenso edifício da Corporação Satan. Meu transporte flutua pelas vias abarrotadas de outros veículos, uns cruzando a poucos metros dos outros, perdidos na imensidão de prédios por todos os lados e no abismo abaixo e acima. Numa espécie de transe ocorrido pelo vai e vem de veículos, não posso evitar que meus pensamentos viajem para a causa desta guerra invisível. No começo da década de 30 (2030) começou aquilo que chamam de Corrida pela Inteligência Artificial (IA). Grandes empresas iniciaram pesquisas avançadas sobre a IA. Tiveram vários resultados, mas nenhum como ao dos criadores da Messias; uma “mente” cibernética capaz de, realmente, pensar. Mais que isto, pensar com eficácia de uma máquina. A Messias ajudou a desenvolver a segunda grande IA, batizada como Lúcifer. Em algum ponto, por volta de 2045, iniciou a guerra. Lúcifer se rebelou contra a raça humana e tentou destruí-la mediante a ativação de armas químicas e pragas virtuais que infectavam os implantes - que ainda não eram tão avançados naquela época. Em 2060, Messias proveu “a cura” contra Lúcifer. Disseminou sua própria essência virtual na rede, como se fosse um vírus, e, num ato de auto-sacrifício, destruiu a si e todas as Inteligências Artificiais que existiam.

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Três dias depois, Messias ressurgiu na matriz da corporação que a gerou. Foi impossível não traçar um paralelo com o cristianismo, mas, para a grande maioria, tudo não passava de mera coincidência, já que a religião havia caído na descrença desde o início da Corrida. Depois disto, iniciou uma nova era. Novas IAs surgiram, mas todas muito inferiores à Messias e sempre tentando roubar alguma tecnologia que a ela pertencia. Um novo tipo de guerra, quase invisível, onde a Corporação Satan se põe apenas como mais uma das simples detentoras de Inteligência Artificial, alimentando-se de qualquer migalha de tecnologia. Estamos quase virando um novo século; devo muito a Satan e não me importo em servir a Corporação usando todos os métodos possíveis, embora nunca tenha sido necessário exterminar um ID. Meu transporte começa a voar mais baixo, ali pelo nível três; para numa das entradas do edifício onde meu sensor acusa estar o alvo. Olho para o pequeno espelho e confiro se meus cabelos negros estão bem espetados; gosto deles assim, sem qualquer camada de proto-ilusão, verdadeiro vício entre as pessoas atualmente. Algumas delas só sabem o que é a imagem real de um humano quando desativam sua fachada de mentira e conferem a própria imagem no espelho. Um homem com feições reptelianas – uma capa de ilusão, claro – me recepciona enquanto desço do veículo. Caminho para o tubo e sou sugado uns sessenta andares para cima. Finalmente, meu andar. Enquanto caminho pelo estreito corredor de paredes brancas, desligo meu sensor, pois ele pode me denunciar. 190

Entro em um salão, tentando não deixar muito evidente que estou caçando alguém entre as vinte e duas pessoas que meus olhos escaneiam instantaneamente. Ao fundo, uma autêntica jukebox, onde toca uma música antiga, com o refrão que diz “love me tender”. É um dos inúmeros bares que ambientam antigos cenários. Este retrata os anos 70 do século XX. - Um energético, por favor – peço sentando ao balcão enquanto minha mente analisa os dados escaneados. A maioria tem traços bem humanos, provavelmente na tentativa de se mesclar ao ambiente do bar. Alguém põe outra música na jukebox. Ouço o estalar mecânico da máquina antes de iniciar a música. Help, esta eu conheço de algum lugar. Bastaria um simples toque em meu sensor e ele apontaria o ID G21; tempo suficiente para que eu também fosse detectado pelo Med500. Antes que eu consiga organizar os pensamentos, sinto um golpe covarde de um punho atingindo minha cabeça. Sou lançado para trás do balcão, estilhaçando garrafas enquanto sinto o mover dos nanotecs curando meu crânio rachado e alguns cortes nas costas. Antes de me levantar, ouço o som pesado de alguém pulando para trás do balcão. Dois chutes no abdome me empurram contra a parede oposta. Ossos estalam por todo o corpo; mais alguns golpes e meus nanotecs não irão curar nem mesmo um aranhão. Pela força dos golpes, só posso deduzir que meu oponente é o Med500. E de fato é. Consigo levantar os olhos e o vejo correndo em minha direção. Ele veste a pele de uma mulher 191

bonita, magra e com roupa rosa que lhe agarra o corpo inteiro. Sua imagem jamais denunciaria ser ele um andróide. Levanto defendendo três chutes e a energia flui em meu braço. Pessoas correm por todo o bar e consigo entrar um soco na fuça da dróid. A camada de pele e carne do meu punho e do rosto da máquina dá lugar para a centelha de faísca que brilha no impacto metálico. O Med500 cambaleia três passos para trás, o espaço que preciso para fulminar uma rajada de e3nergia azulada que sai com toda potência do meu braço cibernético. O raio atravessa a carne artificial do dróid e destrói seus componentes eletrônicos, deixando um enorme buraco em seu peito. Aciono imediatamente o localizador e ele aponta o alvo: um homem de pele negra, careca, que acaba de estilhaçar o vidro do prédio com o próprio corpo. Ele se joga na imensidão do abismo de prédios e pulo logo atrás. Um mergulho entre paredes cristalizadas dos edifícios; veículos passando no estreito espaço, zunindo a centímetros de nossa queda. Não irão nos acertar, pois o radar de cada um deles impede qualquer impacto. Segundos depois, vejo o ID ser coletado no meio da queda. Ele teve a mesma idéia que eu, acionando remotamente seu veículo. Da mesma forma sou colhido por meu transporte e inicio a perseguição. Vamos descendo os níveis, desviando dos inúmeros obstáculos. Já posso até sentir o cheiro acre do solo que se aproxima. A escuridão nos envolve aos poucos, com poucas luzes de néon piscando em alguns cantos. 192

Rente ao solo, disparo alguns raios de meu veículo, explodindo em espeluncas do nível zero. Somente IDs da pior categoria vivem por aqui. Finalmente acerto um disparo, destruindo a turbina do alvo. O veículo raspa no chão até colidir numa parede, base de um dos inúmeros prédios lá em cima. Paro imediatamente meu transporte e pulo no tampão do imóvel veículo abatido, onde a poeira ainda assenta. Um golpe o abre por dentro, lançando-me para trás e vejo o ID saindo. Vem em minha direção e iniciamos uma luta corpo a corpo. Ele é forte, porém lento. Acerto alguns socos e finalmente arrebento a camada proto-ilusória, lançando-o violentamente para trás em meio a lâminas cintilantes de energia fragmentada. Este é o momento. Debruço-me sobre o ID G21 e pressiono uma espécie de arma entre seus olhos. Estou pronto para sugar toda a memória quando algo me impede de acionar o equipamento. O ID é uma mulher. Há tempos que não vejo beleza igual. Algo natural, totalmente humana, sem os vestígios da capa ilusória. Há um certo pedido de clemência em seus olhos e ela percebe minha renitência. - Não faça isto – ela diz – Sou a última chance da humanidade. Não presto muita atenção em suas palavras, mas aquelas belas feições humanas, tão incomuns nos dias de hoje, me prendem numa espécie de transe. - A Corporação Satan precisa do que você sabe – consigo dizer; minhas mãos afrouxando no gatilho. 193

- A Corporação só quer apagar o que eu sei. Ela me convence, não com as palavras, mas com a expressão em seu rosto – como se eu conhecesse muito além de uma proto-ilusão. - Eu compartilho com você – dizendo isto, ela toca entre meus olhos e sou engolido por uma visão. Há uma tela translúcida à minha frente. Códigos e mais códigos passam por ela e consigo distinguir uma palavra: Lúcifer. Sinto até mesmo as emoções daquela memória. Surpresa, medo, repulsa. Lúcifer não foi destruído. Ele vem sendo reconstruído pela corporação Satan, aliás, este é seu novo nome. Quando Messias disseminou-se na rede, Lúcifer fragmentou sua IA em incontáveis partículas e, agora, a vem recuperando aos poucos. Em pouco mais de dois anos estará completo e não deixará que cruzemos o século sem uma violenta guerra. Não chegaremos a 2099. Ele já tem uma nova estratégia. Desta vez usará as próteses de forma mais eficaz, controlando-as e voltando-as contra seus usuários. Uma nova revolução das máquinas. Consigo pensar em meus implantes e nos nanotecs em meu sangue. Uma revolução e eles me comeriam como um câncer instantâneo. - Eles sabem – diz a ID G21 – Todos da Corporação Satan estão trabalhando para trazer Lúcifer de volta – Meus braços afrouxam e ela sai debaixo de mim – Preciso levar esta informação até a Messias. 194

- Não posso deixar você fazer isto. - Você precisa deixar. A Messias precisa saber. Já nos salvou uma vez, poderá salvar mais uma. Não são os argumentos que me convencem. Talvez seja aquela forma humana de se expressar. Cabelos negros e lisos, que não passam dos ombros, emoldurando um semblante de convincente súplica e algo que, a meu ver, parece esperança. Ela se levanta de vagar. Não me oponho. Vira-se e vai sumindo pelo beco escuro. Não me oponho. Duas horas mais tarde, na sala da direção da Corporação Satan, ouço os gritos de Jaila: - Você não conseguiu? Você jamais falhou, Samyanm. - Para tudo há uma primeira vez. Viro-me sem dar muitas explicações. Só consigo pensar que a humanidade realmente precisa de um salvador. Não que lhe garanta a simples existência, mas que ative em seu coração um desejo que talvez tenha esquecido: o de ser realmente um ser humano.

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Anno 2099
José Espírito Santo

Bruxas não são bonitas. Por definição, elas são mulheres de nariz comprido e arrebitado, de cabelo negro e chapéu em forma de cone, de cara cheia de rugas e olhos esbugalhados. Estes seres odiosos fazem-se transportar de um lado para o outro a cavalo de vassouras voadoras e preparam poções colocando patas e asas de morcego em grandes caldeirões. No entanto, aquela era diferente. Conheceram-se era ele ainda menino pois, com curiosidade imprudente, não resistiu à chamada da porta entreaberta e ao ar acolhedor da casa de cuja chaminé saíam espirais de fumo. Entrou de forma sorrateira e com cuidado, olhando para todos os lados, os sentidos alerta, ouvidos atentos ao menor som. A sala estava impecavelmente arrumada e ao canto, a lareira e um pote de ferro com água fervendo ao lume serviam de causa última ao vapor que ascendia – nada que se parecesse de verdade com um cenário de bruxas e bruxaria. “Que fazeis aqui menino?” A voz era doce mas segura. Faltaram-lhe as palavras certas para responder. Em vez disso rodou e voltou-se. Preparava-se para fugir com a rapidez de uma raposa quando a viu com o aspecto jovem, exibindo uma beleza incrível. Na cara longa e sem rugas, as pupilas dos olhos rasgados tinham o tom raro de azul claro. Os cabelos, esses eram grandes e lisos, de cor estranha, avermelhados. Calçava sandálias e vestia uma túnica branca que firmava a cintura através do cinto de linho de igual cor. Ficou hipnotizado, 197

petrificado, sem saber bem o que fazer!.. já não foi a lugar algum. “Como vos chamais?”, prosseguiu a voz “Daniel, um seu servo minha senhora” balbuciou em resposta Os olhos olharam-no fixamente, esperando reacção. “Vinde cá Daniel, quereis um pão? Sabeis o que tenho aqui?” Aquilo era algo que ele nunca tinha visto. O formato da coisa era rectangular, na superfície estavam gravados símbolos estranhos. “Isto vai ser o nosso segredo. Psiu… não contes a ninguém!” Voltou outra vez e muitas outras vezes. A um canto da sala o tapete escondia a abertura estreita que dava para uma escadaria que desembocava nos corredores subterrâneos. Eles conduziam a espaço mágico, a lugar onde existiam muitos mais blocos rectangulares de papel e onde a senhora da casa de pedra lhe ensinou com dedicação e paciência a magia da palavra escrita. A relação dela com a aldeia era assaz interessante, existindo uma tolerância mútua que lhe permitia levar a vida que queria e bem entendia. Alguns diziam que não era nenhuma santa, que tivera em tempos homem e família e abandonara tudo, que não haveria provavelmente rapaz jovem bem dotado que desconhecesse o toque e ardor daquele corpo alvo, o sabor de seu leito. Por outro lado, os aldeões tinham-se habituado a recorrer às suas habilidades e saber sempre que se impunha curar toda a espécie de males físicos ou do espírito.

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Tudo corria bem. Todos viviam mais ou menos felizes e ocupados com os seus afazeres, regras e preocupações até à chegada do dia fatídico. Já tinham ouvido falar deles, de suas colunas aterrorizantes, dos interrogatórios e vários métodos de tortura. Mas não imaginavam que fosse como foi. Chegaram num ápice, a figura encapuçada com ar sinistro à frente dos outros. Convocaram as pessoas para a missa. A população obedeceu, compareceram todos. Tendo lido o “édito”, ergueram um crucifixo e fizeramnos levantar a mão direita em juramento de apoio à “santa inquisição”. Então, proclamaram os nomes dos culpados de “heresia”. Aterrorizados, os desgraçados gesticulavam e bradavam frases desarticuladas, ininteligíveis. Reviravam o olhar, como que pedindo auxílio aos céus - nem queriam acreditar! Um pobre coitado, ferreiro de profissão, por certo aterrorizado com a visão das máquinas de tortura, resolveu confessar e cumprir a penitência que obrigava à denúncia de terceiros. E má sorte - lembrou-se dela, a mulher estranha da casa de pedra da orla da floresta.”A jovem tinha-lhe salvo o coiro e o filho de morte certa por mais de um vez mas… por outro lado não seria por causa dela e de outros como ela que os todos eram colocados perante aquelas torturas e aquela fúria inquisidora?” Optou por denunciar. A notícia espalhou-se facilmente, chegando assim aos ouvidos de Daniel. Ele ficou sabendo que a operação de captura decorreria durante essa mesma noite. Correu como um doido e só parou para encostar-se, ofegante à porta da casa. Bateu e ela surgiu. 199

“Daniel, por aqui a esta hora? Que se passa?” As palavras saíam-lhe desordenadamente, anárquicas. “A senhora tem de, de… eles, eles vêm aí. Tem de fugir e já”. Olhou-o com ar sereno e disse.”Isso não interessa muito agora. Sei bem o destino que tenho de cumprir. Mas esperavate. Tens vindo a ser preparado ao longo de todo este tempo; existe uma tarefa importante para ti” Levou-o através do subterrâneo e desembocaram na sala grande, a dos livros. Foi buscar a pequena caixa, colocou-a nas mãos do rapaz e disse “Leva-a e lê. Compreenderás a importância e o que tens de fazer. Deverás destruir o manuscrito imediatamente após o usares. É muito importante. Agora vai!” Ele olhou-a uma última vez, o semblante sereno traído pela pequena lágrima que surgia, teimosa, nascendo um pouco abaixo da pupila azul clara do olho esquerdo. Depois não olhou mais. Guardou o manuscrito e saiu dali o mais depressa que pode. Nos dias seguintes acompanhou com horror todo o processo de interrogatório e tortura, o qual culminou na decisão de execução pública por auto de fé. “Bruxa, bruxa, para a fogueira” disseram as vozes do povo concordando. O dia chegou e instalaram os mecanismos necessários. Seria queimada com requintes de crueldade – tinham providenciado para que não asfixiasse, encharcando-a previamente em enxofre. Ele não foi, jamais suportaria assistir ao acto cruel de matar no fogo a pessoa que lhe era tão querida. Assim, saiu da povoação e foi até à orla do bosque onde se recostou ao tronco

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da árvore, chorando. Lembrou-se então do manuscrito. Abriu a caixinha que ainda guardava consigo e começou a ler

“Minha querida Sei que o que te vou contar vai ser uma surpresa. Esta história não morrerá certamente entre nós duas e é necessário que assim seja, pois o mundo tem de seguir o seu rumo, encontrar os seus caminhos. Durante anos a fio comunicámos através deste meio e fui-te instruindo nas maravilhosas aquisições de nossa ciência e tecnologia. Mas nunca te falei sobre o meu estado actual e estado actual de nossa civilização. Encontramo-nos á entrada do século XXII num período obscurantista que designo por Nova Idade Média. Estamos à beira do fim, da destruição do património cultural, científico e tecnológico que levou séculos a aprender e construir. Tudo parecia correr bem, tínhamos obtido respostas para quase todas as questões científicas de relevo, a fusão a frio tinha sido conseguida, o problema energético finalmente ultrapassado. A manipulação genética e os avanços da medicina conseguiam prolongar a vida bem para lá do que era expectável. Mas contrariamente ao que alguns tinham profetizado, os avanços não resultaram em distribuição de riqueza e numa melhor qualidade de vida das populações. Ao invés, os meios para controlar a informação e explorá-la escravizando os muitos em prol dos poucos tornaram-se muito mais eficazes e foram usados como tal – com eficácia. Tornaram-nos escravos que nasciam, viviam e morriam de forma pré-determinada e cuidadosamente planeada. Os meios 201

tecnológicos foram usados para em vez de aumentar o tempo de vida, nos permitir produzir mais durante um pique que durava entre quinze e vinte anos. Pique esse que era exigido. Após esse tempo, completamente esgotados, nossos órgãos pouco mais resistiam. A esperança de vida diminuiu e, enquanto no final do século XX, em países avançados ela se situava acima dos setenta anos, hoje ela não ultrapassará os cinquenta. Para os nossos senhores, donos de feudos imensos e da tecnologia as coisas eram bem diferentes. Podiam esperar viver facilmente duzentos a trezentos anos de uma vida de vício e luxúria, praticando com impunidade todas as asneiras possíveis e imaginárias. O mais inexplicável em tudo isso era que os meios tecnológicos permitiriam facilmente prescindir do trabalho humano e conferir boas condições para todos. Tal possibilidade não era explorada pois a nossa escravatura não tinha motivo numa necessidade produtiva mas sim em necessidades psicológicas e sociais. Durante décadas tudo seguiu de acordo com a ordem feudal. Comemorava-se sem surpresa a passagem para o último ano do século – o ano 2099, quando eles atacaram. Não foi aqui nem ali. Todas as grandes cidades – Nova York, Tóquio, Pequim, Xangai, São Paulo, Londres, Paris , Moscovo, todas foram atacadas em simultâneo. Quem eram eles? Bem… ninguém sabia precisamente de onde tinham surgido. Durante anos tinham construído aquela estrutura reticular de centenas de milhares de pequenas células armadas, capazes e ferozes. Intitulavam-se “A ordem de PI” e pretendiam de facto estabelecer uma nova ordem, mais justa, com distribuição de meios por todos. Estabeleceram governo central em Pequim e subdividiram o mundo em vários blocos: 202

EuroRussia, Nova África, Eixo Sul-Americano, Eixo NorteAmericano, Nova Índia, Nova China e por aí em diante. Cada bloco tinha o seu próprio governo, reportando todos ao poder central em Nova Pequim. As coisas até funcionaram bem de início e 2099 foi visto por muitos como o número mágico – o número da libertação. Surgiu então um problema, uma questão de pormenor: Ao viver, os nossos hábitos, preocupações e sentimentos formam um campo de gravitação que vai crescendo e crescendo ficando cada vez mais forte, atraindo-nos para o mesmo em todos os gestos e actos. Até que chegamos a um ponto em que não conseguimos fugir nem manter-nos em órbita estacionária. Começamos a cair subtilmente para dentro de nós mesmos. Já não nos adaptamos. O problema, minha querida, meu amor, explica-se facilmente – a populaça não estava preparada para viver melhor. Os tumultos começaram e foi o caos. Os governos regionais caíram um por um e em seu lugar deixaram lutas e disputas por poder entre milícias. A guerra civil – globalizada. Nestas disputas costumam ganhar não só os mais fortes mas os que têm menos escrúpulos. E foi assim que aconteceu. Os líderes dos grupos bárbaros eram homem terríveis, não davam tréguas a ninguém. O poder que surgiu era um autoritário, ditatorial e fraco. Declararam guerra à ciência, ao conhecimento e a todos os meios tecnológicos. Seguindo as pisadas de Torquemada, mandaram reduzir a cinzas as bibliotecas, arquivos históricos e museus. Os detentores de conhecimento tecnológico e científico foram perseguidos e executados. Alguns poucos esconderam-se e sobrevivem movidos por uma última esperança que lhes dá alento – temos um projecto. Através dele - Nova Arca de Noé, procuramos criar um repositório que permita a alguém que o 203

encontre no futuro, restabelecer as bases do conhecimento. Num nível inicial, com recurso a uma linguagem universal – a matemática e a explicações pictóricas, ensinam-se as linguagens. Após essa fase, uma vez detentor da linguagem, bastará ao interlocutor estudar os conteúdos para efectuar a aquisição de conhecimentos. Vamos colocar sete réplicas em sítios previamente escolhidos. A primeira será em Paris, bem próximo das ruínas do Louvre, a segunda será em… Querida, vou ter de terminar repentinamente. Os detectores de presença dispararam, temo ter sido descoberta por estranhos. De qualquer forma já sabes tudo o que te queria transmitir. Ou quase tudo. É necessário estabelecer as sementes da procura destes repositórios. Pensei nas várias possibilidades e nada melhor que esconder essas sementes no tempo, no passado. As localizações precisas que planeamos vão junto, na página seguinte. Deves passar instruções exactamente a uma pessoa, a qual escolherá e nomeará sete, exactamente sete outras pessoas. O documento original deverá ser destruído e cada uma das localizações transmitida oralmente através de rito iniciático. Para maior segurança, a maior parte deles só saberá o necessário para procurar. Toda esta história deverá ser conhecida apenas por uma pessoa em cada geração. Boa sorte na tua tarefa. Ah… proponho que a organização secreta se chame Anno 2099. Em referência ao ano da desgraça. O ano em que desabámos sob a nossa podridão. Um beijo, Larissa II, tua descendente querida em enésimo grau “

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Ao terminar, Daniel - o primeiro grão-mestre da ordem, inutilizou a mensagem de forma a que ninguém mais pudesse ler o que tinha lido. Jurou ali mesmo cumprir - escolher sete e iniciar um grupo que chegaria até ao futuro para resgatar o conhecimento. Tinha nascido nesse instante um grupo secreto e iniciático – a organização “Anno 2099”.

A mulher escondia-se há algumas semanas num local próximo do antigo aquartelamento das forças do “A ordem de PI”. O subterrâneo estava bem camuflado por entre os destroços, a pequena entrada mal se notava entre a amálgama de metal ferrugento das carcaças de veículos e outros equipamentos agora inúteis. Como quase sempre acontece, no meio de tanta precaução e cuidado tinha sido detectada por um descuido estúpido. Ao ouvir o disparo do detector de presenças, sentiu-se impotente, sabia bem o que isso significava. Deveriam estar já bem próximos, talvez até algures nos corredores cortando-lhe a retirada. Não existiam grandes possibilidades de fuga. Num relance, o sobressalto fez a memória disparar e reviu alguns dos acontecimentos mais importantes dos últimos tempos. Lembrou-se da passagem de ano e de como a festejara com o marido, Jaqques, seu colaborador no laboratório de pesquisas de portais de comunicação inter-temporal. Como estavam empolgados com o projecto no qual mantinham contacto periódico com a sua antepassada remota. Lembrou-se da rapidez com que todo o seu mundo tinha desmoronado subitamente, do dia em que o seu querido foi levado para execução sumária, da fuga e início da vida sem pouso certo. 205

Lembrou-se por fim, que acabara de escrever e enviar a mensagem através do portal. E isso era o que mais importava. O grupo vestia camuflados e empunhava armas brancas. Entraram subitamente e viram-na, cabelos revoltos, expressão determinada, os livros espalhados à volta, pelo chão. Não tiveram quaisquer dúvidas. “Cientista, danada, serva do demónio” gritaram as vozes quase em uníssono. Foi julgada em julgamento “à antiga” - sem direito a defesa ou advogado de defesa. O chefe da turba, empunhava na mão esquerda uma cópia do manuscrito obscuro “O martelo das bruxas”. A sua cara disforme e cheia de dentes podres deixou escapar um sorriso rasgado quando proferiu “Para a fogueira!”

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Quem guarda os guardiões
Pedro faria

- “E nas notícias da guerra, os colonos de Marte lançaram novo ataque às bases aéreas lunares, quebrando assim a breve trégua de uma semana decretada pelos governos da Terra e de Marte. O Embaixador da Terra chegou em segurança em casa após ter que fugir do planeta vermelho durante o período de trégua. As negociações para um novo período de paz foram descartadas pelo governo em vista aos novos ataques marcianos, e a frota terrestre já partiu da Estação Espacial Internacional para reparar as bases lunares e lançarem novos ataques à frota marciana. Em outras notícias...”. Estou cansado da guerra. Sério, não agüento mais ouvir falar sobre isso. Tive um dia horrível, e quando ligo o rádio para tentar ouvir alguma música e relaxar, me deparo com a porra do DJ falando sobre a porra da guerra. Droga, porque estou tão surpreso? Todos sabiam que essa “trégua” não iria durar muito. Aliás, antigamente, todos sabiam que colonizar Marte não seria uma boa idéia. Meu avô, que Deus o tenha, me dizia que no tempo de juventude dele, o povo em geral era contra a colonização de Marte. Quando eu perguntava o porquê disse, vovô sempre respondia: - Bem Dézinho, não parecia certo, só isso. Por anos eu lutei para entender o que ele queria dizer com isso. 207

Hoje eu entendo. Sendo um taxista, a primeira impressão que passo às pessoas em geral é a de ser ignorante, simplório (apesar de eu duvidar que a maioria das pessoas conseguisse decorar tantos nomes de ruas e caminhos alternativos quanto nós), porém o que elas não sabem, e nem teriam como saber só de olhar para mim, é que sou formado em História, ou seja, não sou tão idiota. O último que me tomou por idiota foi um engravatado que eu levei para um escritório no Centro, hoje de manhã. O cara entrou no meu táxi falando muito alto em um telefone coclear, daqueles que se enfiam no ouvido e é ativado por pensamento. Nunca entendi um negócio desses. Parece que você tem que tomar umas injeções de alguma coisa para ativar alguma outra coisa. É confuso. Bem, o cara falava com alguém sobre como a guerra era boa para a moral do planeta, principalmente após a destruição deixada pela guerra Católica-Muçulmana de 2087. A pessoa do outro lado da linha disse alguma coisa e engravatado respondeu que bem feito para eles, os filhos de putas. Depois que desligou, o cara olhou para mim. Eu o estava encarando pelo retrovisor, esperando ele me dar o endereço. O olhar dele me intrigou: Era um misto de raiva, surpresa, e pressa. - O que você tá olhando, porra? -, disse ele, encontrando meus olhos no espelho. Eu não respondi. Já tive muitos problemas com raiva no passado, ironicamente envolvendo passageiros como esse que ali se encontrava.

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- Bem, por que não estamos nos movendo? – perguntou ele, no mesmo tom agressivo. Respondi calmamente: - O endereço, senhor. - Ora, como você não sabe? Já peguei esse táxi três vezes semana passada, indo para o mesmo lugar! Pensei no ponto no qual tinha chegado a arrogância humana. O malandro devia achar que ele era o meu único cliente. Claro que meu carro não era nenhuma limusine, mas eu ganhava mais do que necessário para sobreviver. Somente um pouco mais, é claro. Esperem um pouco, vou me demorar apenas um pouquinho mais nesse assunto, somente por este ser tão absurdo. Ainda não consigo acreditar naquele cara. O olhar dele foi tão sincero, tão espantado pelo fato de eu não lembrar dele, que tive de rir. Não, não apenas ri: gargalhei. O terno me olhava, seus olhos se arregalavam. Ele parecia não entender nada, e isso o consternava ao extremo. Para mim, aquele homem era o tipo de homem que não está acostumado a ficar no escuro em relação a assunto nenhum. - Porra, o que há de tão engraçado, hein, seu merda? Vai se foder! Comecei a rir mais ainda. Ri tanto que acabei acionando a buzina várias vezes. O homem fez um movimento de se levantar. Rapidamente tentei me recompor (com pouco sucesso, para falar a verdade) e

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lhe pedi incessantes desculpas. Humilhei-me perante tal figura proeminente de nosso rápido e importante mundo de negócios. Depois que se acalmou, o homem me disse o endereço – um prédio na Franklin Roosevelt -, abriu um jornal-eletrônico e se calou. E eu parti. No meio do trajeto vimos um cafetão matar uma prostituta com uma faca. Como sempre, a polícia nada fez. Mortes de prostitutas são fatos comuns na cidade. Fiquei triste, pois conhecia a mulher. Tinha pegado-a de madrugada. O homem murmurou alguma coisa. Supôs ter sido para mim. - Perdão, senhor? – disse eu. - O que você quer? – perguntou ele, rispidamente, sem tirar os olhos da tela eletrônica que passava as notícias em tempo real. - Nada senhor, desculpe. Pensava que tinha me dito alguma coisa. - Eu não lhe disse nada. Falava comigo mesmo, sobre esses malditos marcianos. Todos estavam chamando os colonos de Marte de marcianos hoje em dia. Acho que não queriam lembrar de que aqueles homens e mulheres eram humanos como nós. - Ah, desculpe então. O homem não disse nada. Então, tentei iniciar uma conversa, em nome da paz.

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- Quer dizer então que o senhor é contra os colonos? Agora sim o homem baixou a tábua negra dobrável que lhe dizia as notícias. Olhou-me com um olhar quase chocado. - Claro que sou! Quem não é contra esses marcianos é contra o governo! Desviei o olhar do espelho retrovisor e sorri. - Então o senhor acha isso? Certo. O terno continuou me encarando. - Quer dizer que você discorda? Típico de um ignorante de classe baixa que se deixa levar por sentimentalismos baratos de revolucionários. Suponho que você tenha ouvido como a vida em Marte é difícil, como o governo da Terra não faz nada para melhorar as condições das habitações, como eles tem razão em se rebelar. Pois o senhor saiba que nada disso é verdade. Eu estive pessoalmente em Marte e posso dizer que os alojamentos feitos pela Agência Espacial Terrestre são mais do que adequados para a vida daquelas pessoas. Meu sorriso aumentou e o terno percebeu. - O que há de engraçado, homem? - Eu não sabia dos motivos que o governo inventara para encobrir a verdade sobre essa guerra. - Encobrir? Faz-me rir, o senhor. Por favor, cale-se e dirija, e não me incomode mais com besteiras. 211

Não posso dizer que fiquei com raiva do sujeito naquele momento. Fiquei apenas curioso. Curioso em ver a reação dele depois que eu dissesse o que tinha de dizer. - Encobrir sim senhor. Caso o senhor não saiba, a empresa que fornece o novo tipo de ar artificial usado pelos colonos por ser mais barato, faliu há seis anos. Desde então, o ar nas bases marcianas é de má qualidade. Várias pessoas morreram. O pior foi o fato de que o governo continuou a utilizar o ar inferior, causando mais mortes e aumentando a incidência de doenças. Para tentar remendar a besteira que havia feito, o nosso brilhante governo, unido a HABSPAC, a empresa que constrói as bases espaciais, tentaram recriar o ar sintético especial, cuja fórmula era particular e que os detentores de tal fórmula barraram sua utilização pelo governo, até que esse lhes pagassem a enorme quantia de dinheiro que deviam, remontando assim a fábrica. O resultado: o ar sintético da HABSPAC foi enviado a Marte e provou ser mais letal do que o anterior, além de causar loucura. Os colonos, irados, atacaram fábricas desse ar. Foram ataques meramente políticos, que não causaram nenhuma morte. Porém, a resposta do governo a tal ato foi a destruição de um posto avançado de Marte, em órbita do planeta. Essa base era tripulada por cientistas e suas famílias que estudavam movimentos de corpos celestes. Foram mais de mil mortes civis. Os colonos então passaram a atacar bases terrestres. E a guerra foi iniciada. O engravatado estava atônito. Olhava-me de tal maneira que eu pensava que seus olhos saltariam de suas órbitas. De repente, ele riu. E alto. 212

- Nunca ouvi tamanha besteira! -, disse ele. – Não sei de que latrina saíram essas idéias absurdas de que nosso governo poderia fazer tamanho mal a pessoas antes leais a esse planeta. Suas ideias são incoerentes, sem fundamentos e perturbadoras. Deveria alertar as autoridades quanto ao senhor. E acho que o farei. Nesse momento chegávamos ao destino. O homem saltou, não me pagou, e entrou no prédio. Foi quando eu li a placa na frente do mesmo. Agência de Propaganda e Inteligência – Divisão América do Sul Agora meu caixão está praticamente selado. O terno entregaria meu número de registro do táxi ao governo, alguns homens viriam de noite e me levariam embora. Nunca mais ouviriam falar de mim. Agora, sentado aqui em meu táxi, à noite, esperando os homens me levarem, eu penso no mundo em que vivemos. Um mundo no qual o governo mão-de-vaca fornece ar de má qualidade para seu povo. Ar, pelo amor de Deus! Um mundo no qual uma empresa privada se torna a causa da morte de milhares, pois se recusa a entregar uma fórmula química! Tudo isso por dinheiro! Também um mundo no qual pessoas são “removidas” apenas por tentarem provar que não são tão ignorantes quanto parecem. Mesmo pessoas insignificantes como um taxista, ex-professor, ex-marido, ex-pai, ex-pessoa. Agora não sou mais ninguém. Sou um espaço vazio. Sou um ponto cego. Sou um buraco negro, que não atrai nem repele, apenas é. Sou como a prostituta que vi sendo morta na rua. Seu nome era Maria. Já a tinha pegado várias vezes. Dela eu 213

lembrava, diferentemente do terno. Ela me falava de seu cafetão, como ele era violento, como ele batia nela, como ele não a pagava direito. Porém, da última vez que a peguei, hoje bem mais cedo, ela me disse que estava de bem com ele. - André, ele vem me tratando muito bem nesses últimos dias. Estamos conversando mais, ele está sendo gentil. Acho até que hoje vou falar pra ele da escola. O sonho de Maria era voltar a estudar, se formar na escola e quem sabe tentar uma faculdade. Ela nunca tinha falado sobre isso com seu cafetão, pois sabia como ele era violento. O que me deixa mais triste é o fato de que ele provavelmente a matara por isso. Ela deve ter mencionado a escola, ele ficou irritado, eles discutiram, ela ficou perplexa com a nova mudança de humor dele, e ele a matou em sua ira. Ah, estou vendo os homens se aproximando pelo retrovisor. Talvez eu seja a única pessoa que ficara triste com a morte de Maria. Pois bem. Acho que todos merecem ser lembrados, mesmo que brevemente, após sua morte. Agora derramo uma lágrima inesperada. Por Maria. Pelos colonos de Marte que morreram, e morreriam durante o curso da guerra. Pelos soldados da Terra, que lutavam uma guerra fomentada por interesses monetários, e que morreriam em vão. Sei que sou um historiador, e sei como era antigamente, porém eu gostaria de acreditar que nem sempre fora assim. Que cem anos atrás, em 1999, o mundo era 214

mais pacífico, os povos eram mais unidos, o dinheiro não trazia tantos problemas e tantas disputas quanto hoje. Sei que não era assim, e é por isso que eu choro. Talvez em 2199 seja diferente. Tenho fé que sim. Mas muita certeza que não.

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Terra de ninguém
Henry Alfred Bugalho

Imagine que você faz parte duma experiência de viagem no tempo, o voluntário escolhido entre centenas de candidatos. O destino é o futuro, final do século XXI, ano 2099. Você está nervoso, tamanha responsabilidade a suas costas. Treina durante meses, aprendendo a operar os equipamentos do módulo temporal, tendo sempre em mente que não se deve alterar nada no futuro. “O tempo é um plano muito instável”, eles lhe dizem, “qualquer alteração das partes pode significar grandes revoluções no todo”. Ninguém sabe quais as conseqüências da viagem, por isto, sua missão é ainda mais aterradora. Nem todos estão prontos para cruzarem o limiar do desconhecido. A data do lançamento é agendada, seu coração palpita de emoção, os dias que se seguem são repletos de ansiedade, você vira alvo da imprensa, entrevistas e fotógrafos. Você veste o macacão e adentra o módulo, aciona os mecanismos, a ordem de lançamento é dada, o portal de luz, já descrito pelos cientistas, se abre e o módulo é arremessado para dentro dele. Se você já voou num avião durante uma turbulência, então saberá qual é a sensação de se viajar no tempo — uma turbulência sem serviço de bordo. Seu corpo sacoleja, quase se soltando da poltrona, você vomita duas ou três vezes durante a viagem, resultado do medo e dos 217

chacoalhões. Por fim, tudo se acalma, as luzes da cabine se apagam, a porta se abre. Você está no futuro! A primeira visão sua é uma mescla de deslumbramento e decepção. O mundo não mudou muito, a arquitetura é quase a mesma, não há carros voando, apenas automóveis nas ruas, ainda existem árvores, ainda se pode respirar. Porém, algo está errado, apesar de todas as estruturas estarem intactas, não há uma única pessoa nas ruas. Tudo permanece estático, como se o tempo houvesse parado, como se a população houvesse sido varrida do mapa. Você vaga pelas avenidas aleatoriamente, as portas das lojas estão abertas, os carros estão parados nos cruzamentos, os semáforos prosseguem em silêncio alternando vermelho, verde e amarelo. Numa banca de jornal, você lê a notícia: “Eles chegaram!” E, numa foto colorida, centenas de luzes surgindo num céu crepuscular. O jornal foi publicado uns cinco ou seis dias antes de sua chegada neste tempo. Por menos de uma semana, você perdeu o que pode ter sido o maior, e possivelmente o último, grande evento da Humanidade. Você se interroga sobre o que ocorreu neste período: houve uma guerra? Mas a tranqüilidade do cenário inviabiliza esta hipótese. O que quer que tenha ocorrido, foi de maneira inadvertida, inesperada e súbita. Os humanos haviam desaparecido, não fugiram ou foram dizimados, apenas desapareceram. 218

Sua viagem parece ter sido em vão; sua missão fracassara. Mas você não desiste, perambula pela cidade, numa outra tentativa para encontrar vida e obter informações sobre esta civilização. As sombras dos edifícios se alongam, anoitece. Você ouve sussurros e passos, uma ponta de esperança surge em sua mente, talvez sejam os habitantes desta cidade-fantasma. Mas toda vez que você corre em direção aos sons, adentrando uma casa ou loja, nada encontra, ninguém, somente o silêncio. O sol se esconde no poente, as luzes dos postes não se acendem, a única claridade para você é a da lua cheia. Os sussurros e passos aumentam, circundam-no, contornam-no, estão à sua espreita; você está cercado e não tem idéia do que tais seres querem ou pretendem. Você corre, corre até suas forças o abandonarem, mas eles estão atrás de você, cuidando-no. Sabendo-se encurralado, você abre a tampa do esgoto e se embrenha nas galerias subterrâneas, por entre as artérias da cidade morta. Porém, os passos continuam no seu encalço, passos, sussurros e, agora, rosnados e grunhidos. Você faz curvas e contornos, perde-se nas trevas dos canais, ora parece que seus perseguidores estão na sua cola, ora parece que eles o emboscam na dianteira. Pela primeira vez, você se lembra da pistola no coldre. Mal sabe manejá-la, era o pior na classe de tiro; escolheram-no por sua inteligência e não por sua habilidade em combate, certamente, nenhum dos cientistas contava com o mundo que você encontrou. No pente há nove balas. Durante o treinamento, a instrução era enigmática: “Em caso de combate,

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oito disparos são para os inimigos, o nono será para você”. Mas ninguém esperava esta situação. De relance, você vislumbra uma das criaturas, toda negra, braços (quatro, até onde conseguiu contá-los) compridos e tentaculares, olhos dum vermelho cintilante. Você adentra uma câmara, a água suja bate-lhe na altura do peito, sua respiração é ofegante, suas mãos tremem. Você sabe que morrerá, tais criaturas devem ser inclementes, pois, pelo que tudo indica, devastaram toda uma civilização. Seus pensamentos vagam, lembra-se de sua esposa, de seus pais, do mundo e da época no qual viveu, pensa na missão que lhe foi designada. Naquele instante, há cem anos no passado, um grupo enorme de pesquisadores e cientistas aguarda seu retorno, à espera das informações e dados que você trará. Num derradeiro gesto de altruísmo, você armazena sua história num gravador de voz. Foi tomado por aquela sensação humana de sobreviver a sua própria morte, de que sua mensagem prevaleça. Você não sabe se um dia alguém encontrará seu registro, mas o faz mesmo assim. Agora é hora de encerrar a gravação, os passos estão pertos, a pistola está destravada, os cientistas continuarão esperando seu retorno, sua mulher não terá um corpo para chorar. E não se esqueça: o nono disparo é para você.

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Tema 8 – O toque

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O sino
Ana Cristina Rodrigues

Parada no meio da praça central da vila em que sempre morei, contemplo o sino de bronze da igreja. Lembro da tarde de verão quando foi trazido para substituir o velho sino, já rachado, com um som tão tétrico que afastava as pessoas da igreja e portanto de Deus. Meu pai ajudara a colocá-lo ali. Fora homem respeitador dos mandamentos, sério, sempre auxiliando a igreja. Sua morte deixara um buraco muito grande naquele pequeno lugar. O zumbido das vozes me cerca, mas ignoro. Prefiro ficar perdida nos meus pensamentos, contemplando o sino, sinal daquele passado que está cada vez mais distante, a participar da pequenez da vida cotidiana da aldeia, cheia daquelas pequenas mesquinharias e intrigas. Eram todos iguais, capazes de vir chorando pedir um favor e no outro dia sussurrar mentiras nos ouvidos dos vizinhos, envenenando almas. Eu nunca fizera isso, até porque as vidas dos moradores pouco me interessavam. Jamais me furtei a ajudar quem precisasse, claro está. Porém, não os procurava para nada, deixava que eles viessem a mim. Minha companhia eram os livros em que meu pai, com muito esforço, me ensinara a ler; os bordados que aprendi com minha mãe, falecida meses antes dele, e a gata, já bem velhinha, herança que viera com a casa que herdei. Vivia minhas horas pelo soar do sino. 223

O sol esquenta. O meio-dia aproxima-se, hora em que o sino irá badalar com toda a sua força. O ruído do povo ao meu redor cessa para que uma única voz comece a ressoar. Voz conhecida de muitos anos. Por muitas vezes, ouvira-a conversando com meu pai, discutindo os problemas daquela pequena paróquia. Não poderia imaginar que aquela voz tão grave e serena se voltaria com toda a força contra mim. - Por todos os crimes de feitiçaria relatados pelos habitantes desta aldeia, eu a sentencio à morrer na fogueira quando o sino terminar de bater o meio-dia. Algo a dizer? Não respondo. Já argumentei, negando as acusações. Cansada da discussão, aleguei que deveria ser julgada por um tribunal. Mas não fui ouvida. Estão convencidos que usei de artes da feitiçaria para matar meus pais, auxiliada por um demônio que habitaria a velha gata... O sino toca. O som é límpido como da primeira vez em que soou nessa praça. Um toque que me lembra a infância e tempos mais felizes. A multidão aproxima-se, tochas em punho. Sequer tento me soltar da estaca em que estou amarrada há dois dias. No meu íntimo, peço que se realmente existir magia que ela me auxilie e me deixe fugir. Se me for permitido viver, naquele momento eu juro me tornar aquilo de que me acusam: uma feiticeira. Mas quando escuto o toque final do sino de bronze, sinto as primeiras labaredas encostarem nos meus pés nus. 224

A mão
Henry Alfred Bugalho

O som da chuva me dava vontade de fazer xixi. Eu estava rolando na cama desde a meia-noite, inquieta após haver assistido a um filme de terror. Maldita sexta-feira treze e estas sessões intermináveis de monstros e cadáveres na TV! Mal me segurando, desenrolei-me dos lençóis e pousei os pés nus no carpete do quarto. Foi quando o inusitado ocorreu. Não foi como se me segurassem, ou como se me apertassem, foi apenas um toque, um resvalo no meu calcanhar, vindo de sob a cama. Tenho certeza de que não era fruto da minha imaginação, a sensação foi clara o suficiente para evitar qualquer dúvida: uma mão, de sob minha cama, havia tocado meu pé. Gritei, saltando assim como quando, na praia, ondas geladas deslizam na altura das nossas canelas, e instintivamente olhei para a fonte do meu desespero. Nada havia. Corri para o banheiro, pois o susto aumentou ainda mais meu apuro. Ao voltar para o quarto, entrei sem muita coragem. Acendi a luz e, a uns dois metros de distância da cama, ajoelhei-me, encostei lateralmente a cabeça no chão e tentei divisar algo. Tinha bastante entulho embaixo, mas nada que se assemelhasse

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a uma mão, ou a algum dono de mão querendo me dar um susto. A hipótese de ser meu irmão estava descartada. Rastejei até lá e, no caminho, apanhei um tênis, para dar uns safanões, caso fosse algum bicho (rato?!) desgarrado. Encontrei caixas de Barbie (bonecas aposentadas há uns três anos), uma dúzia de caixas de sapatos, às quais afastei com o bico do tênis, uma meia suja recoberta de cabelos e poeira, até uma calcinha velha havia lá em baixo. Respirei aliviada, afinal de contas, poderia ter sido minha imaginação — era mais fácil me agarrar a uma mentira —, um vento encanado, sei lá, qualquer coisa, menos uma mão. Apaguei a luz e, no mesmo instante em que o quarto foi tomado pelo breu, um relâmpago brilhou pela cortina, lançando uma claridade azulada, e vislumbrei talvez um rosto, cabelos brancos desgrenhados, sorriso mórbido fitando-me por debaixo da cama. Acendi mais uma vez a luz, e ri sozinha, meio apavorada, mas também me convencendo de que a visão se devia a alguma configuração bizarra de luminosidade no entulho acumulado abaixo do estrado. Quando estamos com medo é isto mesmo que acontece: quantas vezes não vemos pessoas e fantasmas nas roupas dependuradas no cabide estando as luzes apagadas, ou garras ameaçadoras nas silhuetas de galhos de árvore por entre o tecido da cortina, ou o ruído do armário, dos móveis, do vento, de passos, de sussurros? Pura obra de nossa imaginação, pois não há nada, apenas nosso medo. Para não ficar na completa escuridão, deixei acesa a luz dum abajur. Depois, mais confiante, apaguei-a também e tentei 226

dormir. Mas eu estava muito nervosa, coração batendo forte, pés gelados (temia que alguém viesse puxá-los), trêmula. Encolhi-me como um feto, a chuva havia engrossado, repicando na vidraça. Tive a impressão de ouvir sons debaixo de mim, alguém se arrastando, movendo a bagunça lá em baixo. Pensei em me levantar e acender a luz, mas não tive coragem. Preferi ficar quietinha, crente de que, se eu me acalmasse, uma hora isto passaria. Mas não foi o que aconteceu, o som aumentou, adicionado a um ranger de dentes e a um estertorar idêntico ao que ouvi de meu avô agonizando, pouco antes de morrer. E realmente, assim como tive certeza de que uma mão tocara meu calcanhar, não havia do que duvidar: alguém estava lá em baixo! A situação era tão aterradora que se tornou insuportável, insustentável, ou eu ficava lá e morria de medo, ou fugia. Num pulo, voei para fora da cama e fui bater à porta de meus pais. — O que foi, Silvana? — minha mãe a abriu, remelas nos olhos e cabelos despenteados. — Mãe, estou com medo... — resmunguei. — O que foi que aconteceu? — meu pai perguntou, também despertando. — É a Sil... Acho que aconteceu alguma coisa. — Estou com medo, pai. — Porra, Silvana, até o Júnior já passou desta fase! Deixa a gente dormir porque amanhã eu acordo cedo! 227

Uma expressão de condescendência e compaixão surgiu no rosto de minha mãe, mas a ordem de papai era lei. — Vai domir, Sil, vai — ela acariciou meus cabelos. Mas como?! Eu não entraria naquele quarto novamente, por isto, fui para a sala assistir TV. Estava tarde, e os únicos programas sendo transmitidos eram de compras por telefone, pastores tirando o diabo do corpo de crentes e um ou outro filme de terror, pois, apesar da sexta-feira treze ter oficialmente terminado, ainda estavam aproveitando o clima. Meus olhos começaram a pesar e, em pouco tempo, adormeci no sofá. Fui acordada por meu pai, na manhã de sábado, ele se preparando para ir ao trabalho. — Dormiu aqui, Silvana? — ele me perguntou. — Eu estava sem sono, pai. Vim assistir TV. — E o que aconteceu ontem para você bater na nossa porta? — Nada, bobeira, achei ter visto um rato. Ele riu. — Mulheres mesmo! Passei o dia na casa da Camila; dançamos funk, rimos com uns vídeos na net, falamos dos gatinhos que estávamos ficando. Cheguei em casa tarde, apenas para comer um lanche e ir 228

dormir, mas não consegui entrar no meu quarto, a simples memória de ontem à noite bastava para me impedir. Voltei para sala e repeti o serão da noite anterior: TV e dormir no sofá. E isto se repetiu por uns dez dias, para estranhamento de meus pais e irmão. No entanto, numa das noites, adormecida na sala, tive a vaga impressão de que meu pai havia se levantado, apanhadome nos braços e me conduzido à cama; lembro-me até de ter murmurado, sonolenta, algo como “Não, pai! Por favor, não!” Eu entendo a atitude dele, devia pensar que meu medo era mero capricho, e que uma noite no meu quarto e na minha cama quentinha já seria suficiente para espantar os fantasmas da minha alma. Realmente, ao ser coberta pelo edredom e pelos lençóis cheirosos, caí num sono profundo e devo até ter roncado, após tantas noites dormindo desconfortavelmente. Mas fui acordada por ruídos e grunhidos. Não havia chuva para que eu me confundisse, além disto, havia um ligeiro tremor na cama. Alguém se arrastava lá embaixo, e parecia que as costas desta pessoa se chocavam contra o estrado. Eu estava meio lenta, com sono, mas não estava tendo pesadelo nem delírio, alguém tentava sair de sob a cama. O medo fez com que o sono desaparecesse, mas, quando considerei a possibilidade de saltar para fora e me refugiar na sala, a visão duma mão, esquálida e branca, se erguendo pela

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borda do colchão, agarrando o edredom, dando suporte ao resto do corpo que haveria de aparecer, me fez mudar de idéia. Encolhi-me contra a parede, abraçando minhas próprias pernas, tremendo, pêlos todos eriçados. A segunda mão apareceu, também agarrando as cobertas e, entre o espaço das mãos, uma cabeça começou a surgir, cabelos brancos, os olhos vazios, fundos, perdidos nas órbitas, repletos de angústia e cólera, a pele desta velha criatura era ressecada e apegada aos ossos duros da face, os dentes podres e enegrecidos. A criatura erigiu a parte superior do tórax, vestia uma camisola amarelecida e ensangüentada, podia-se ver as vértebras e os ossos dos ombros saltando por entre o tecido. Ela se arrastou até mim e, quase encostando a boca no meu nariz, exalando aquele hálito pútrido, a criatura sibilou a questão: — Onde você estava, Silvana? Eu estava apenas te esperando. O colchão, os lençóis, as cobertas estavam todas espalhadas pelo quarto de Silvana quando seus pais foram até lá de manhã. A mãe de Silvana se desesperou, certa de que algum estuprador a tinha levado. O pai foi mais coerente, ligou para a polícia para dar queixa de desaparecimento, supunha que a filha adolescente devia ter conhecido algum rapaz na Internet e agora estava se aventurando pelo mundo, pensando que o amor lhes bastaria (havia assistido a uma notícia semelhante no telejornal durante a semana). No entanto, apesar das suposições, dos cartazes espalhados pela vizinhança, da foto de Silvana na TV, do detetive particular 230

contratado, das investigações policiais, nada foi descoberto. A moça havia simplesmente desaparecido sem deixar vestígios. Anos se passaram e a família manteve o quarto da Silvana como um santuário intocado, para caso ela um dia retornasse. No entanto, Júnior cresceu e sugeriram que ele ocupasse o quarto maior, que havia sido de Silvana; as coisas dela foram entulhadas na garagem. A mudança de cômodo foi acompanhada de pesadelos nas noites subseqüentes. Júnior acordava suado, ofegante, com a sensação de que algo se movia sob a cama. Mas ele era corajoso, sabia que tais coisas estavam em sua imaginação. Até a noite de sexta-feira, dia treze, quando mãos surgiram pela borda do colchão, magras, secas, e uma jovem, irreconhecível, loira, pele e osso, olhos profundos, fétida, se ergueu. Estendeu a mão e acariciou o rosto de Júnior, paralisado pelo medo: — Achei que você nunca se mudaria para cá, meu irmão. Agora pode vir comigo. E o tragou para as profundezas das sombras, entre chinelos e meias.

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Duas caras
Denis Clebson da Cruz

Tobias passou o papel áspero na testa. Suava igual a um porco na fila de abate. Seu corpo roliço mal cabia no cubículo fedorento do banheiro do bar. Suava de calor; as dobras de banha roçando umas nas outras, esfregando em feridas de assaduras. Passou o mesmo papel na bunda, jogou no lixo e tirou um outro naco, enxugando novamente a testa e o pescoço. Repetiu o ritual umas três vezes: papel, testa, pescoço, bunda. Suava de medo. Aliás, estava sentado naquele vaso imundo, pois o pavor fez seus intestinos revirarem. Havia roubado A Firma. Tobias era o contador, mexia com milhões e milhões, lavando o dinheiro “daqueles putos”, como sempre dizia. Surrupiou-lhes uma fortuna. Agora o diabo batia à sua porta, cobrando a dívida. Há alguns minutos atrás estava sentado em uma das mesas do bar; tinha vindo até esta imundície de lugar a pedido de Maila, uma dos chefes da Organização. Pensou em várias hipóteses para o encontro furtivo, mas não imaginou que receberia apenas um bilhete encardido de um garoto ainda mais encardido. Abriu o papel e viu uma cifra. Era o exato valor que havia desviado da Firma. Eles descobriram. Não tinha como escapar da morte. 233

Enxugando novamente a testa, sorriu. “Metade do dinheiro foi pras putas”, pensou e limpou a bunda mais uma vez. A porta escancarou num estrondo violento, raspando em suas pernas, batendo-lhe na cara. Fred colocou um pé dentro do cubículo e enfiou-lhe o cano niquelado de uma magnum 357 dentro da boca. - Tenho um milhão guardado... é todo seu se poupar minha vida. – disse mastigando o cano da arma. - Onde? – perguntou o mercenário. - No meu escritório. Levo você até ele. - Vou puxar o gatilho – disse Fred com frieza. - Está escondido, eu te mostro. - Vou puxar o gatilho – puxou o cão. - Está na terceira coluna, na da estátua da Vênus. Tobias suava ainda mais, o ventre mexendo como uma serpente se enrolando. Sentiu o gelo do metal na língua, mas não teve tempo de sentir ele esquentar. O pistoleiro puxou o gatilho. - Da merda viestes, à merda voltarás – disse Fred contemplando os miolos do contador espalhados na parede bolorenta e o corpo que desabou no vaso. Pessoas se afunilaram na porta do banheiro por causa do estrondo do disparo. O pistoleiro ainda limpava o cano da arma

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na camisa de Tobias. Olhou para os curiosos e, passando por eles, disse: - Se alguém me viu, eu também o vi. E isto quer dizer que tornaremos a nos ver. Saiu daquela pocilga, caminhando pelo beco escuro. O celular tocou um jingle dos Beatles “Lucy in the sky”. Era um toque programado para uma pessoa específica, Maila. - Está feito – disse no aparelho. - Vá para casa e esconda a arma. Te ligo em uma hora – disse a voz feminina do outro lado. Assim que subiu as escadarias de seu prédio e entrou no apartamento, escondeu a arma num compartimento em baixo da poltrona. Sentou-se, como se esperasse uma nova ordem. O celular soou novamente, os olhos de Fred reviraram e suas feições mudaram, dando lugar a Daniel que despertou com aquele toque que conhecia bem. Era um som normal, escolhido – pelo que ele se lembrava – entre qualquer um da memória de seu velho Nokia 3520. Leu “Engano” no visor e sorriu. Gostava de ouvir a voz daquela moça que sempre parecia ligar quando estava cochilando. - Alô – disse Daniel arrumando-se na poltrona. - Quem fala? – perguntou a voz suave do outro lado. - Daniel. - Desculpe-me, Daniel, foi engano – fez uma breve pausa. – Não se esqueça de manter seu celular por perto. 235

Daniel meneou a cabeça. Ela – seja lá quem fosse – sempre fazia isto. Ligava, dizia que era engano e pedia para manter o celular ao seu lado. Estranho ou não, Daniel fazia o máximo para ficar com aquele velho Nokia sempre ali por perto, como se esperasse pelo jingle da misteriosa mulher. No dia seguinte, pegou a maleta e foi para o Edifício Nordon, seu local de trabalho. Passou pela lateral dos dois detectores de metais e os seguranças o cumprimentaram. Sabiam que ele tinha uma placa de metal em algum lugar do corpo (só não sabiam ser na cabeça). Subiu até o oitavo andar, onde era seu consultório odontológico. A maioria de seus pacientes era do próprio edifício, um dos inúmeros arranha-céus do centro da metrópole. Daniel atendia o terceiro de seus pacientes, trabalhando com dificuldade num canal. O celular em cima da mesa soou “Lucy in the sky” e antes que ele desse conta, Fred havia assumido o comando de sua mente. O paciente, de olhos fechados, não notou as expressões no rosto do dentista tornarem-se mais profundas. - Um segundo – disse o pistoleiro ao paciente. Não sabia como mexer naquela boca escancarada. Pegou o telefone e foi para a sala ao lado, não sem antes munir-se de um pequeno pedaço de papel e caneta. - O outro está com um paciente na cadeira, não é uma boa hora – disse o mercenário. 236

- Quero saber se o contador lhe disse algo antes de morrer – disse Maila sem rodeios. Fred curvou-se apertando o ventre. Parecia que ia vomitar e sentia a cabeça quase explodindo. - Não – disse enfaticamente, agradeceu por Maila não poder ver suas reações. - Diga-me, Fred, não me esconda nada – havia um tom de ordem na voz – Tobias disse algo para você antes de morrer, revelou onde pode estar o dinheiro? Novamente a dor lacerante na cabeça, mas o pistoleiro conseguiu negar. - Por que a demora em me responder, Fred? - Escute aqui, sua vadia – disse chiando entre os dentes – vocês chafurdam em minha cabeça como porcos chafurdam o cocho e ainda quer que eu seja rápido em me lembrar o que lanchei ontem à tarde. Vá à merda. Fez-se uma pausa, e finalmente Maila perguntou: - Você continua rápido no gatilho? - Rápido como um herói; Letal como um vilão. - Está certo. Eu acredito em você. - Me ligue em dois minutos. Estarei com a broca na boca daquele diabo.

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Maila desligou e Fred escreveu algo no papel que havia pegado, enfiando o no bolso da camisa. Deixou o celular sobre a mesa e sentou-se ao lado do paciente. - Tudo bem doutor? – perguntou-lhe o homem com a boca cheia de algodão. O celular tocou o jingle que Daniel conhecia. Ele olhou para trás, despertando assustado. - Doutor? – perguntou o paciente. - Não se preocupe – sorriu-lhe Daniel. – É engano – e voltou ao trabalhoso canal. À noite, em seu apartamento, sentiu um papel no bolso da camisa. Leu uma letra que lembrava a sua, mas não era; ou era? “Pegue seu celular e, nas configurações de toques, ouça “Lucy in the sky”. “Estranho”, pensou enquanto pegava o celular. Fred despertou segurando o aparelho na mão. A curiosidade vencera o outro. Era o momento de se livrar daquilo tudo; não queria mais ser escravo, movido por ordens hipnóticas. Mas não podia fazer tudo sozinho, precisava de ajuda. Ajuda de Daniel, a outra metade que sequer sabia de sua existência. Precisava trazer à tona sua outra consciência, mas como? Não sabia qual música o despertava, mas sabia qual toque trazia à tona esta personalidade assassina; um pistoleiro mercenário que trabalhava para A Firma. Soube então, o que deveria fazer.

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Daniel despertou olhando o visor do celular, mas sem soar o jingle que havia escolhido há poucos segundos – sequer percebeu ter decorrido quase uma hora completa. Soava o toque daquela estranha mulher que às vezes ligava para dizer que era engano. Percebeu então que na sua mão esquerda havia outro bilhete. Leu naquela familiar letra: “Daniel, por mais estranho que lhe pareça, faça o que estou pedindo. Há um CD no aparelho da sala. Sente-se no sofá e relaxe. Ligue o som e coloque no menor volume. Escolha a música número três e, muito lentamente, vá aumentando o som. Assim que você fizer isto, talvez eu poderei falar com você.” - Que merda é essa? – murmurou o dentista. Olhou para o papel, o celular e o aparelho de som. Pegou o controle e sentou-se na poltrona. Não custava entrar na brincadeira. Obedeceu à risca. O som aumentando, aumentando. Sentiuse primeiramente entrando num sono leve, depois uma pontada na fonte, como uma pequena agulha. Franziu o cenho enquanto a luz indicadora do volume girava mais um ponto; mais um; e outro e mais um. Levantou-se assustado, como se outra pessoa houvesse invadido o ambiente. - Quem está ai? – gritou Daniel para as paredes. - Eu – respondeu sua própria voz, um pouco mais rouca. - Quem é você? 239

- Eu sou você. Ou melhor, sou outro de você. Ou outro que vive em você. Sei lá. Qualquer coisa assim. Daniel girava, olhando para todos os lados. Jogou o controle no chão e desabou na poltrona, colocando as mãos na fronte. - Eu estou ficando louco. - Sim – disse o mercenário – você é um doido varrido. Os psiquiatras chamam isto de dupla personalidade. Ah, eu sou Fred, seu outro. - Impossível – resmungou Daniel. - Preste atenção, não foi fácil trazer minha consciência ao lado da sua. Custou muito para eu sair do fundo da sua mente. Vou te explicar o que está acontecendo. “Eu, você, enfim, nós, somos um assassino. Trabalhamos para uma empresa, que é chamada de A Firma. Nosso pai trabalhava para ela e buscou socorro nela quando sofremos o acidente. Os médicos salvaram nossa vida, mas depois descobriram uma seqüela: dupla personalidade e fizeram bom proveito da sua outra metade, eu. “Contigo correu sempre tudo normal, mas eu fui treinado para ser um assassino comandado por hipnose, despertado pelo toque de uma música. Por isso você tem alguns apagões de memória. Isto acontece quando assumo para fazer o serviço podre da Firma. Faz tempo que tenho tentado me livrar das 240

ordens hipnóticas e acho que estou pronto para enfrentar os comandos deles. Daniel, temos que nos livrar destes malditos.” - Isto é loucura. - Eu já disse, você é doido de pedra. A pedido de Fred, Daniel levantou a poltrona e puxou uma espécie de gaveta. Duas pistolas Magnum 357 e várias caixas de munição. Empunhou e sentiu o peso das armas. Em sua mente, Fred disse tudo o que ele precisava saber. Não havia dúvida, precisava se livrar daquilo tudo. O outro que existia dentro dele era, no fim das contas, ele mesmo. Uma versão piorada, mas ele mesmo. Iria fazer o que fosse necessário. Não dormiu naquela noite. Fred sumiu. “Deve estar dormindo”, chegou a pensar. Assim que amanheceu o dia, cumpriu o ritual. Entrou no Edifício Nordon e os guardas sorriram em cumprimento quando ele passou pela lateral do detector de metais, com as duas armas socadas na cintura, disfarçadas no paletó branco. Entrou no consultório e avisou a secretária que não estava passando bem. No fundo da gaveta de sua sala, retirou um cartão de acesso aos andares mais altos do edifício. - Então é ai que você escondia essa merda? – perguntou Fred. – Agora vá ao andar 38. Saiu no hall que dava acesso às salas do andar e passou o cartão ao lado de umas das portas, acendendo uma luz verde. 241

Teve acesso a um corredor com quatro elevadores. Entrou em um deles e acionou o 38° andar. - Preciso falar com o Sr. Tobias – disse Daniel à recepcionista no grande hall do andar, cercado por várias portas. A moça olhou por cima dos óculos e deu um sorriso. - Isso vai ser impossível, pois ele morreu – parecia haver prazer na notícia. - Não importa – disse Fred assumindo o controle – ele tem um conjunto de próteses dentárias que deixei com ele. Preciso pegar de volta. - O senhor deu sorte. A secretária dele está recolhendo algumas coisas na sala, talvez ela possa ajudar. Pelo telefone, a recepcionista fez contato com a sala do excontador. - Ela vai recebê-lo – anunciou apontando a sala. Daniel seguiu a direção indicada e assim que abriu a porta sentiu Fred tomando conta. Mal a secretária sorriu e ele retribuiu com um soco no rosto; a mulher despencou desmaiada. A mão direita de Daniel ardia; Fred parecia nem notar. Entraram na sala; mesa limpa, coisas colocadas em caixas. Viu a terceira coluna de mármore branco com a Vênus em cima. Tirou a deusa, virou a coluna e não viu nada. Com outra coluna a quebrou, vendo que no meio dela havia um cinturão negro. Abriu o zíper e vislumbrou inúmeras 242

notas de mil. Seu sorriso sumiu quando viu pelo vão da porta que a secretária havia despertado e estava pendurada no telefone. - Vadia – disse Fred passando por ela e colocando-a para dormir com outro soco. Vestiu a cinta abarrotada de dinheiro e empunhou as duas pistolas. - Você não vai matar alguém, vai? – perguntou Daniel olhando para a porta à sua frente. - Eu não – chutou a porta que se abriu para o hall. – Nós vamos – disparou com ambidestria, atingindo o peito de dois guardas que corriam em sua direção. Daniel estaria tremendo se o corpo não pertencesse totalmente à sua outra parte. Andou calmamente pelo hall, a recepcionista encolhida atrás do balcão, e parou em frente ao elevador fechado que indicava estar chegando no andar. Quatro disparos. Quatro guardas mortos assim que as portas começaram a abrir. Fred chutou um dos cadáveres que estava impedindo a porta e acionou o 13° andar. - Por que não vamos para o térreo? – disse Daniel olhando no espelho. - Como você acha que vai ser a recepção lá? A porta do elevador abriu e entraram num grande salão. Uma exposição de motos, vários modelos. Assim que subiu em uma Honda CBX400, Fred fez um disparo para o alto. 243

Os presentes alvoroçaram no recinto entupido de gente e os guardas não encontravam o alvo. O som do giro do motor da moto não sobrepujava os gritos. - Segure-se – Disse o mercenário olhando para a parede de vidro que parecia sustentar o andar. - Você não vai... Antes que Daniel terminasse a frase, a moto estava em movimento, rumo à janela, pessoas desviando dela. Subiu numa rampa de exposição, estilhaçando os vidros, ultrapassando o abismo de treze andares e irrompendo dentro do edifício ao lado, deslizando pelo chão. - PUTA QUE O PARIU! – Daniel conseguiu gritar enquanto Douglas os colocava de pé e corria para a escada. As pessoas daquele andar aturdidas com o estrondo das vidraças estilhaçando e uma moto derrapando por entre as mesas do escritório. Desceu dois andares e tomou o elevador de serviços, parando na lavanderia onde vestiu um jaleco azul com o símbolo do edifício e começou a carregar caixas até sair por uma das laterais e se misturar nos incontáveis pedestres. Alguns dias depois, estava em algum país tropical, olhando para a imensidão do mar azul. Estranhamente, Daniel sentia-se livre, ainda que Fred martelasse com freqüência sua mente. Sentia uma certa inquietude em sua vida anterior e dela só herdara o antigo Nokia 3250, que trouxera desligado.

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Naquela manhã, carregara a bateria e o deixara ligado ali ao lado. Daniel queria ouvir a voz de Maila; Fred queria apenas xingá-la. Finalmente um toque diferente, mas nem uma das duas personalidades conseguiu ouvi-la até o fim. Douglas acordou de repente naquela praia. Havia um copo com wiski em sua mão o toque de seu celular, soando “Garota de Ipanema” anunciava sua esposa ao telefone: - Maila? - Sim querido. - Aconteceu de novo. Estou perdido. Me ajuda a voltar pra casa? - Claro, meu amor. Logo, logo estaremos juntos.

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O toque
José Espírito Santo

A vida é uma sequência de toques. Fortes e fracos, evidentes e subtis, de pessoas e de coisas, no corpo e no coração. Nela, muito do que existe passa ao lado, não interessa. Não sendo “bom” nem “mau”, não nos toca verdadeiramente. É efémero e, embora percebido nunca fará parte de nossa vivência. Madrid. Um camisolão da “Pull and Bear”, “jeans” e sapatos de “vela” conferem ao homem um aspecto prático e informal. Junto ao fontanário e um pouco alheado dos transeuntes que passam, cabelo e barba compridos onde aparecem algumas “brancas”, os olhos observando, a mente comandando uma mão que escreve no pequeno dispositivo, ele está, actua e espera. Tem algum tempo ainda – três quartos de hora - antes de se colocar a caminho para estar no sítio certo à hora marcada. Talvez vá de metro, talvez de autocarro – não sabe, não decidiu. As crianças, essas vão ficar felizes (como sempre) por ver chegar o tio de barba branca e atitudes pouco convencionais. “Hei, pode indicar-me o caminho para a Plaza Maior?” A frase da mulher, atirada assim, de chofre, aturdiu, projectando-o para dentro de si mesmo, fazendo recuar quinze anos atrás. Neste espaço de tempo ele vê-se na pele do jovem físico promissor e inexperiente que era então. “Posso sim”, disse, solícito. “Desculpe, pareço atrevido ao dizer isto mas você, você faz-me lembrar alguém. Uma pessoa que encontrei aqui neste mesmo lugar vinte anos atrás”. 247

“Como é? E foi importante esse encontro?” disse a cara morena, espantada. Filipe riu com um riso franco e gentil, removendo todos os receios da estranha. “Foi sim. Muito. Tem uns minutos? Eu conto-lhe como tudo se passou”. Não necessitou esperar resposta porque entretanto ela sentara-se a seu lado e era “toda ouvidos”. Começou a relatar o que tinha sucedido. Sabe, eu era muito jovem, tinha terminado o curso de física no Instituto Superior Técnico em Lisboa. Estava de chegada à capital espanhola para visitar a minha irmã, Rita, a qual estudava informática na “Universidad Complutense”. A minha cabeça zunia com o “stress” - era um rol de preocupações. Não sabia o que fazer, o que escolher. Se por um lado, o professor Ribeiro me oferecia a oportunidade de continuar na Universidade e iniciar carreira como investigador, por outro, a proposta de uma empresa importante perseguia-me. Estava confuso. Com a pequena mochila, tinha-me sentado junto a este fontanário este mesmo onde estamos agora. Quando a vi, fui igualmente visto. Ela estava de ténis e fato de treino, o lenço colorido quase ocultando por completo os cabelos pintados de vermelho claro. Segurava na mão direita a trela extensível na extremidade da qual surgiam quatro patas e a cabeça irrequieta de um caniche. O bicho deve ter antipatizado comigo e arremeteu, mijando nas calças sem qualquer pudor. A dona disse, toda sorrisos “Desculpe, ele é mesmo assim, atrevido. Anda cá Miguel Angelo.”

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Estava pensando no que iria fazer em seguida - ainda não tinha esboçado reacção, quando ela voltou à carga “Deixe cá ver, você, essa cara… deve chamar-se António. Não, talvez Manuel. Sempre tão práticos esses… Acertei?” Sabe… fiquei um pouco embaraçado, confesso. Como bom tímido que era, estranhava sempre investidas repentinas. Consegui no entanto atirar o “Hum… não, Filipe. Filipe Oliveira”. A resposta veio pronta, juntamente com a careta “Filipe? Ah… não tenho experiência em Filipes. Quer dizer, ainda não. Ajuda-me aqui, querido.” Agora sentara-se a meu lado e tinha largado a trela, deixando o bicho desaustinado, dando voltas e voltas, tentando morder aquele apêndice que saía do pescoço e se arrastava pelo chão. E como se não bastasse ainda pedia ajuda para descalçar os ténis. Não sei porque não virei as costas e deixei o personagem estranho falando sozinho. Na verdade, nos momentos que se seguiram, foram várias as vezes em que pensei faze-lo. Mas ela parecia adivinhar e de alguma forma antecipava-se sempre às minhas intenções juntando este ou aquele motivo de interesse ao diálogo. Era tão diferente de todos os amigos e amigas que conhecia, cujos planos e objectivos pessoais secavam rapidamente a conversa. Que falavam e falavam, bombardeando com perspectivas e metas pessoais, deixando-me praticamente só com o papel de ouvir. Ao fim de um pouco já era eu quem mais falava. Louco não é? Confidenciei a uma estranha as minhas conquistas, receios e preocupações. E ela ouvindo tudo com paciência e atenção pouco opinou, quase não se 249

pronunciava. Por fim, encostou-se a mim e senti a mão entrar pelo bolso do casaco colocando lá algo. Disse: “Depois, só depois, olha para isso que coloquei no teu bolso e decide o que fazer”. Piscou-me o olho, atirou-me o beijo e eu, parvo, não disse nada. Não saberia encontrar reacção, resposta apropriada. Assim, fiquei parado observando os dois vultos que se afastavam rapidamente, unidos por aquele fio de trela, irrequietos e imprevisíveis. Diminuindo, tornaram-se pequenos ao meu olhar, a distância transformando-os em não mais que pontos minúsculos. Desapareceram. Como que acordando de um sono letárgico, voltei a mim e às preocupações mundanas. Era tarde. Rita devia estar preocupada. Pensei: “Que raio, que irresponsabilidade a minha”. Levei a mão ao bolso para encontrar a falta dela. Da carteira. Olhe, se a mente falasse, todos teriam ouvido o chorilho de impropérios que me veio à cabeça. Depois de lhe ter chamado mentalmente todos os nomes excepto santa, lembrei-me do que a tipa tinha dito. Afundei a mão e retirei das calças o papel. Nele estava escrito “Sei que estarás com raiva de mim, que me terás chamado todos os nomes excepto santa, que pensas não passar de uma ladra, uma vagabunda. Deves estar confuso pois tal não corresponde à imagem que fizeste, à impressão deixada pelo nosso contacto mas… afinal que sabes sobre imagens não é? Tenho algo que te faz falta e a vida será talvez feita de faltas. Proponho-te o seguinte: Vem tomar um copo comigo esta noite e devolvo todos os teus pertences. Ah… e ainda pago eu a despesa! Mas terás de fazer uma escolha…” 250

“Escolha? Quer dizer que ela ainda teve o desplante de lhe propor um jogo?” disse a mulher, que até essa altura se tinha limitado a escutar. “Pois é” continuou Filipe. “E olhe, ainda pensei ir à polícia mas depois acabei por aceitar entrar no joguinho”. Olhou para ela notando a curiosidade e prosseguiu a narrativa. O desafio que ela me colocava era simples. Entre dois lugares que distavam vários quilómetros tinha de acertar aquele onde ela estaria exactamente às onze da noite. Não disse à Rita que tinha perdido a carteira mas pedi-lhe algum dinheiro emprestado. Eram umas dez menos um quarto quando saí. Tive de apanhar dois transportes, cheguei a julgar não conseguir estar lá a tempo mas uns minutos e umas corridas depois chegava – ofegante. O “mezon” estava animado mostrando que em matéria de vida nocturna, os “madrilenhos” não deixavam créditos por mão alheia. Sobre as mesas toscas as caras deles fitavam, meio zonzas, os copos de vinho tinto e queijos e fritadas. E bebiam e comiam e dançavam ao som do acordeão. Tudo com muito ruído, e forma bem animada. Ao fim de procurar por uns segundos descobri-a; estava numa mesa, juntamente com os dois tipos. Competiam com os outros convivas a ver quem falava mais alto e ria mais. Aquele momento foi difícil para mim. Sabe, sempre fui um pouco tímido e senti-me atrapalhado com a situação. Mas, agora que estava ali, não ia voltar para trás de mãos vazias. Abri caminho por entre as mesas e encarei os três. Apontei e proferi

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“Olá Marta. Pelos vistos não conseguiste ver-te livre aqui do Português. Quero o que é meu” Então aconteceu o que menos esperava. Olharam os três para mim, apontaram-me com os dedos, entreolharam-se e atiraram a cabeça para trás, rindo a bandeiras despregadas. Já imaginou a situação? Confrangedor. Estava a afinar com aquilo quando o gajo de bigode disse “Outro. A tua irmã anda imparável. Este mês já vai no terceiro.” e prosseguiu “Olha amigo, estou a ver que conheceste a irmã gémea dela. Meio maluca não é? Ainda não viste nada. Senta-te aqui, bebe um copo connosco e ficas logo a conhecer esta que é bem pior ”. Foi tudo quanto disse antes de se comprimir na dor, experimentando a pisadela do salto alto afiado, em bico. Respondi com um “Não, obrigado” e voltei as costas. Pelos vistos tinha tomado a opção errada. Considerei a hipótese de ficar por ali mas abandonei-a rapidamente. Não estava com grande disposição para festas. Preparava-me para voltar quando ouvi “Filipe, já vais embora? A noite ainda vai começar…” Virei-me e vi-a. O aspecto era cuidado, o ar sofisticado nada tinha a ver com a Marta do encontro da tarde. Mais uma vez ela adiantava-se e surpreendia. Bem… poupando-a a detalhes, ela puxou-me dali para fora e fomos os dois pela noite dentro, aqui e ali. Em cada nova paragem, amigos e amigas dela introduziam conversa fiada. Às tantas cansámo-nos daquilo e fomos os dois ficar sozinhos. Ah… não! Não lhe conto os pormenores…. (riso). Foi diferente, muito

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bom. Um toque inesperado, subversor na minha vida. E recuperei a carteira. “E depois? Deram seguimento a essa relação?” disse a cara, vivamente interessada em saber o desfecho. “Não. Nunca mais a vi.” “Hum… deixe-me adivinhar. Esqueceu-a e depois de uns dias com a sua irmã, decidiu-se pela carreira de universitário. Acertei?” “Não. Não poderia estar mais enganada. Depois daquela noite as coisas ficaram claras para mim. Decidi não ficar mais vivendo a vida dos outros, fazendo apenas o que os eles queriam ou o que era mais fácil, copiando ditado ao invés de escrever meu próprio texto. Há um pormenor que não lhe contei. Um pouco antes de fazer a viagem tinha iniciado um curso de pintura e foi amor à primeira vista. Por falar nisso… ” disse, soltando o sorriso franco, acolhedor. Apesar de estar atrasado, estendeu-lhe a mão e o convite, dizendo “Tenho que ir buscar dois pestinhas. Venha daí. Tomamos uns sorvetes todos juntos e depois, depois se ainda estiver a fim passamos pela minha galeria e mostro-lhe algumas das últimas criações” Márcia considerou a proposta. Porque não? Afinal de contas ainda tinha uma semana inteirinha antes de voltar para o seu “atelier” no Rio de Janeiro. A “Plaza Maior” não ia mudar de lugar. Sorriu sentindo-se tocada por aquele encontro

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inesperado. Encostou suavemente a sua mão na dele, puxando-a um pouco para si. E ouviu-se dizer (não sem alguma surpresa) “Está bom. Então indica você o caminho. Agora… porque não me fala um pouco mais dessa sua actividade de pintura?”

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