Fundamentos de Biofísica: Conceitos e Métodos de Física e Química Biológica

Introdução
A Biofísica estuda os sistemas vivos do ponto de vista físico e físico-químico, incluindo a natureza molecular dos sistemas biológicos, os processos dinâmicos de transporte e transformação da matéria biológica, as transformações de energia, a sinalização e a comunicação celular; além da organização dos processos biológicos tanto no nível fisiológico de cada indivíduo, como nas relações entre os indivíduos, as espécies e o meio ambiente. Embora a Biofísica envolva temas amplos e complexos, neste curso pretendemos focalizar alguns aspetos básicos, principalmente aqueles relacionados com a natureza molecular dos sistemas biológicos, o estudo de suas propriedades físico-químicas e as leis que regem as transformações químicas e energéticas destes sistemas. Com tais objetivos, teremos que abordar conceitos básicos de física molecular, de química e da termodinâmica. A biologia moderna baseia-se cada vez mais nos conceitos de estrutura e organização molecular relacionados às funções biológicas. O desenvolvimento de métodos físicos sofisticados, que permitem uma determinação cada vez mais precisa das estruturas moleculares biológicas, aliados a métodos de manipulação e engenharia genética, que possibilitam modificações moleculares específicas, têm permitido um enorme avanço desta ciência nos últimos anos. De fato, um biocientista moderno deverá conhecer igualmente bem tanto os sistemas e funções biológicas como a estrutura e a organização molecular destes processos. Embora considerando que não existam diferenças fundamentais nas leis que regem o comportamento dos sistemas vivos e inertes, a complexidade e diversidade dos sistemas biológicos nem sempre tem permitido a aplicação pura e simples de conceitos e métodos que foram desenvolvidos para o estudo dos sistemas inertes. Entretanto, como veremos durante o curso, alguns conceitos da física molecular, da química e da físico-química, assim como da termodinâmica, se revelaram extremamente úteis no estudo de propriedades fundamentais dos sistemas biológicos.

Composição e Estrutura Molecular dos Sistemas Biológicos.
Na química moderna, átomos e moléculas são componentes fundamentais tanto da matéria inerte como dos sistemas vivos. A maior diferença reside na forma de organização, essencialmente dinâmica e complexa dos sistemas biológicos, em contraste com a organização quase sempre estática e muitas vezes relativamente simples dos sistemas inertes. Entretanto, não existem razões para que as leis básicas da física e da química não sejam igualmente válidas em ambos sistemas.

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Podemos encarar as células e os organismos vivos como complexas usinas, onde se desenrolam continuamente reações químicas e transformações energéticas, mantendo através de seu metabolismo uma permanente troca de matéria e energia com a vizinhança circundante. Apesar da complexidade e heterogeneidade dos sistemas biológicos, como veremos adiante, as principais substâncias e as reações bioquímicas envolvidas são basicamente as mesmas em todos os organismos vivos. Vamos inicialmente rever alguns conceitos básicos de física molecular, com intuito de conhecer melhor a natureza química dos sistemas biológicos. 1. Conceitos de ligação química: átomos e moléculas. Os átomos são as unidades fundamentais dos sistemas moleculares. Embora durante muito tempo o átomo tenha sido considerado como sendo a unidade última e indivisível da matéria, sabe-se hoje em dia que o átomo é constituído por prótons e nêutrons, formando um núcleo, e por uma nuvem eletrônica que circunda este núcleo. Sabe-se ainda da física moderna que prótons e neutrons, por exemplo, são formados por outras partículas, mais elementares ainda. Entretanto, do ponto de vista da física molecular, o essencial é reconhecer que os átomos são formados por um núcleo com cargas positivas, envolto em uma nuvem eletrônica negativa. A carga elétrica do conjunto atômico e a disponibilidade de alguns elétrons para trocas ou compartilhamento por diferentes átomos, são as características fundamentais que definem as propriedades químicas da matéria. Abaixo apresentamos a tabela periódica (sem as séries dos lantanídeos e actinídeos). O fundo cinza indica os metais. Os elementos com borda vermelha são os mais abundantes no ser humano. Os elementos com borda azul são elementos importantes para o metabolismo humano, mas existindo em baixa concentração. Os gases nobres estão em itálico.

H Li Na K Rb Cs Fr

Be Mg Ca Sr Ba Ra

Se Y La Ac

Ti Zr Hf

V Nb Ta

Cr Mn Fe Mo Tc Ru W Re Os

Co Rh Ir

Ni Pd Pt

Cuu Zn Ag Cd Au Hg

B Al Ga In Tl

C Si Ge Sn Pb

N P As Sb Bi

O S Se Te Po

F Cl Br I At

He Ne Ar Kr Xe Rn

Uma ligação química covalente é definida como sendo a ligação em que pelo menos um elétron é compartilhado entre dois átomos vizinhos. Interações iônicas são possíveis quando um átomo, inicialmente neutro, cede um ou mais elétrons a outro átomo, tornando-se eletricamente positivo enquanto o átomo aceitador torna-se eletricamente negativo. Outras interações de origem elétrica e magnética são possíveis entre átomos vizinhos ou próximos. Uma ligação entre dois átomos será covalente ou

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iônica dependendo do caráter dos átomos em questão. Dois átomos não-metálicos irão formar, em geral, uma ligação covalente. Um metal e um não-metal irão formar, em geral, uma ligação iônica. O átomo de hidrogênio deve ser visto como um caso particular, e forma, por exemplo, ligações covalentes com o carbono e o oxigênio. As moléculas são formadas por átomos unidos por ligações químicas covalentes. Nestas ligações os elétrons compartilhados são capazes de percorrer órbitas envolvendo os átomos ligados, estas órbitas compartilhadas são denominadas de orbitais moleculares. É interessante notar que os orbitais moleculares são direcionados no espaço definindo uma orientação precisa das ligações químicas no espaço tridimensional. Embora pequenas moléculas, como a água (H2O), e íons inorgânicos, como o Sódio (Na+), o Cloro (Cl-), o Potássio (K+) e o Cálcio (Ca++), sejam abundantes e mesmo essenciais nos sistema biológicos, um papel fundamental é desempenhado por diferentes tipos de macromoléculas, tais como as proteínas, o DNA e o RNA, envolvendo centenas ou mesmo milhares de átomos ligados uns aos outros covalentemente. A funcionalidade biológica destas macromoléculas depende não só da seqüência de suas ligações químicas, mas também da sua conformação espacial e da associação com outras macromoléculas. De fato, as unidades funcionais biológicas são estruturas macromoleculares complexas envolvendo uma ou mais moléculas. Nas figuras a seguir são apresentadas algumas representações para as moléculas de H2 e H2O e seus orbitais. Nestas figuras o envólucro cinza externo marca um “limite” para estas moléculas definido a partir de cáculos sobre a densidade eletrônica. Regiões sucessivamente mais azuis indicam um adensamento eletrônico. A linha amarela representa a ligação química. H2 H2O

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2. Composição química dos sistemas Biológicos. As moléculas biológicas são formadas por átomos leves da tabela periódica (C, H, O, N, P, S). Alguns metais, em geral na forma de íons, estão invariavelmente presentes nas células (Na, K, Ca, Mg). Outros metais mais pesados (Fe, Zn, etc.), embora em pequenas quantidades, desempenham um papel importante para muitos organismos. Os átomos de oxigênio e hidrogênio, principalmente devido ao alto conteúdo de água nas células, são os mais abundantes nos sistemas biológicos. Nos sistemas biológicos os elementos mais abundantes são encontrados na forma de moléculas, o hidrogênio e o oxigênio essencialmente formando moléculas de água (H2O), mas também junto com o carbono, o nitogênio, o fósforo e o enxofre, fazem parte das estruturas macromoleculares e de outras pequenas moléculas com importante atividade biológica. A seguir apresentamos a participação percentual dos elementos citados acima na composição química do corpo humano, bem como a quantidade dos principais metais:
Composição do Corpo Humano (sem água) Elemento Peso (%)

C N O H Ca P K S Cl Na Mg

61.7 11.0 9.3 5.7 5.0 3.3 1.3 1.0 0.7 0.7 0.3

14 Metais Essenciais ao Corpo Humano
Metal Quantidade (g)

Ca K Na Mg Fe Zn Cu Sn V Cr Mn Mo Co Ni

1000 140 100 25 4.2 2.3 0,072 0,02 0,02 0,014 0,012 0,005 0,003 0,001

As macromoléculas, ou polímeros biológicos, são formados por alguns poucos grupos químicos que são os tijolos básicos da estrutura molecular biológica.

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Aminoácidos: Todas as proteínas são constituídas, basicamente, por até 20 tipos diferentes de aminoácidos, cuja a estrutura química fundamental é a seguinte:

Onde R representa o grupo específico de cada aminoácido. Note que na fórmula acima, embora a molécula seja globalmente neutra, os grupos NM3+ e COO- exibem cargas opostas formando o que se denomina um zwiterion. Os resíduos de amino ácidos podem se apresentar em formas iônicas ou não, assumindo diferentes comportamentos físico-químicos, como veremos adiante. Os polímeros proteicos são formados por ligações peptídicas, através da reação do grupo COO- de um aminoácido com o grupo NM3+ do aminoácido subseqüente. As estruturas específicas que cada proteína pode assumir dependem das propriedades químicas e eletroquímicas de cada um dos seus resíduos e de sua seqüência na cadeia proteica. Em princípio, a sequência primária, dirigida pelo código genético durante a síntese da proteína, define inteiramente a sua função e portanto a estrutura necessária para exercer esta função, isto é, supomos que a seqüência primária defina de uma maneira unívoca e completa a estrutura que a proteína deve assumir em condições fisiológicas. As inúmeras combinações possíveis entre os 20 amino-ácidos, em seqüências de 100 ou mais resíduos, possibilitam enorme variedade de formas e funções para as proteínas. Ácidos Nucleicos Os ácidos nucleicos são componentes essenciais dos sistemas biológicos formando as estruturas poliméricas associadas ao código genético. A cadeia principal destes polímeros é constituida de unidades sucessivas de ácido fosfórico e dos açucares carbohidrato ribose ( RNA) e desoxiribose ( DNA). Os carbohidratos são ligadas a uma das quatro bases nitrogenadas: adenina, guanina, citosina e timina, no DNA, ou adenina, guanina, citosina e uracila, no RNA. Estas quatro bases constituem o alfabeto de quatro letras em que é escrito o código genético. Algumas formas monoméricas de nucleotídeos fosforilados são fundamentais nos processos bioquímicos. Por exemplo, as adenosinas mono-, di- e tri-fosfato (AMP, ADP e ATP) são essenciais nos processos bioenergéticos das células.

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Carbohidratos Monossacarídeos têm um papel importante no metabolismo de plantas e animais, em particular a glicose participa de vários processos bioenergéticos, as formas diméricas de sacarídeos também são importantes em vários processos bioquímicos. Polissacarídeos também são estruturas macromoleculares que, em geral, estão associadas a funções estruturais e defensivas das células. Alguns polissacarídeos são encontrados em membranas e paredes celulares associados a proteínas e lipídios. Lipídios Embora desempenhem um importante papel como reservas energéticas, na forma de gorduras animais e de óleos vegetais, os lipídios tem um papel mais fundamental como elementos básicos de todas as membranas biológicas. Estas substâncias são constituintes indispensáveis na estrutura das membranas das células, das mais primitivas até as dos complexos organismos evoluídos. Os principais componentes da membrana pertencem a classe dos fosfolipídios. Estas substâncias possuem um forte caráter anfífílico em relação a água, apresentando grupos polares, com grande afinidade pela água, ligados a longas cadeias de hidrocarbonetos, que dificilmente se dissolvem em meio aquoso. Este caráter ambíguo confere propriedades estruturais específicas às moléculas lipídicas em meio aquoso. Para evitar o contato das caudas hidrofóbicas com a água, elas se organizam em forma de bicamadas, fornecendo a base estrutural da membrana biológica. Outras pequenas moléculas e grupos funcionais Algumas pequenas moléculas, pertencentes a diferentes categorias de compostos orgânicos, desempenham um papel regulador da atividade biológica. Dependendo da função desempenhada no sistema biológico, são classificadas como vitaminas, hormônios e cofatores. Alguns grupos químicos são parte integrante de proteínas com atividades específicas, como por exemplo o grupo heme, um complexo ferro-porfirina, encontrado em mioglobinas e hemoglobinas, cuja a funcão específica é capturar o oxigênio necessário para a combustão celular. É importante ressaltar algumas características químicas gerais dos sistemas biológicos: • A multiplicidade e diversidade de indivíduos e espécies biológicas não implica em uma grande variedade química. De fato, mesmo em espécies completamente diferentes, as substâncias químicas e os processos bioquímicos são essencialmente os mesmos. Por exemplo, as proteínas, independente de sua forma, tamanho ou função, são formadas a partir da combinação de 20 amino-ácidos, e os polímeros de ácidos nucleicos são formados por apenas 4 nucleotídeos. Da mesma forma, os processos de transformações bioquímicas são basicamente os mesmos em todos os organismos. O que de fato define a grande variedade de espécies e organismos são as inúmeras combinações possíveis destes elementos e processos.

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• Existe uma clara hierarquia dos processos bioquímicos. As cadeias de ácidos nucleicos (DNA e RNA) regulam a síntese das proteínas necessárias ao funcionamento biológico. Por sua vez as proteínas, em forma de enzimas, promovem e controlam todos os outros processos químicos realizados na célula, e assim por diante. • Outro fato importante é reconhecer que os mecanismos bioquímicos e as próprias moléculas biológicas são produtos de um processo evolucionário. A evolução biológica foi precedida de uma evolução puramente química, tornando-se mais tarde um processo único.e inseparável. Neste sentido, o estudo da química biológica deve necessariamente levar em conta a evolução biológica. • As moléculas biológicas não se caracterizam somente pelos átomos de que são constituídas, mas também pela sequência e a forma precisa em que são formadas suas ligações químicas. Pequenas modificações estruturais das moléculas biológicas podem levar a consequências drásticas, desvirtuando-as completamente de suas funções. Notese que pequenos “erros genéticos podem causar grandes disfunções, que tanto podem levar a consequências negativas, como podem representar alguma vantagem biológica. “ • A divisão em compartimentos dos sistemas biológicos, devido à presença de membranas celulares e intracelulares, permite a realização de processos químicos simultâneos mas separados espacialmente, possibilitando um maior controle e regulação destes processos. Entretanto a presença de membranas semi-permeáveis induz uma maior complexidade nos processos químicos realizados nas células. 3. Interações moleculares A energia envolvida nas ligações químicas covalentes entre os átomos que formam as moléculas biológicas são relativamente elevadas, quando comparada, por exemplo, a energia térmica disponível a temperatura ambiente, levando por isso a estruturas moleculares relativamente estáveis. Tipicamente a energia de uma ligação covalente C-C ou C-N é superior a 300 kJ/mol, portanto muito maior do que a energia térmica disponível à temperatura ambiente que é da ordem de 2,5 kJ/mol. Entretanto existem interações entre átomos não ligados covalentemente que, embora com energias muito menores (da ordem de 10 kJ/mol), mas ainda acima da energia térmica, são de extrema importância para a formação das estruturas macromoleulares biológicas. As ligações químicas, a todo rigor, só podem ser descritas pela Mecânica Quântica. Porém, alguns de seus aspectos podem ser entendidos usando-se conceitos da eletrostática. No estabelecimento de uma ligação química e na formação dos orbitais moleculares, muitas vezes o elétron envolvido na ligação em vez de permanecer igualmente compartilhado entre os dois átomos é atraido muito mais por um que pelo outro, criando localmente na molécula um desbalanço de cargas. Um exemplo típico é a ligação dupla entre o carbono e o oxigênio (C=O). O oxigênio é capaz de atrair sobre si uma grande parcela da nuvem eletrônica da ligação tornando-se parcialmente negativo. Outro exemplo importante é a molécula de água (H-O-H), onde novamente o oxigênio tem um grande poder de atrair a nuvem eletrônica tornando-se negativo e deixando os hidrogênios parcialmente positivos. Embora globalmente neutras, as moléculas que apresentam ligações polares, formam localmente um dipolo elétrico e são capazes de interagir eletricamente com

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outras moléculas polares ou com íons. A formação de íons é um exemplo extremo do mecanismo citado acima, o elétron é atraído completamente por um átomo, assumindo interiamente sua carga, e deixando o átomo doador exatamente com a carga oposta. Neste caso, entre os íons assim formados não existe uma ligação covalente, mas sim uma forte interação eletrostática. Em um meio líquido polar os íons não precisam necessariamente permanecer a curta distância uns dos outros, as moléculas polares do meio podem interagir com os íons substuindo a interação que estes teriam com íons de carga oposta. Este é o mecanismo responsável pela dissolução de sais em água.

Na verdade, nenhuma ligação é totalmente covalente ou totalmente iônica. O mais correto é pensarmos no caráter iônico ou covalente das ligações. Na figura abaixo mostramos o caráter iônico de uma ligação em função da diferença de eletronegatividade dos átomos envolvidos. O caráter covalente (C) pode ser calculado como sendo 1 (um) menos o caráter iônico (I), isto é: C = 1 – I

As ligações químicas em que existe um completo balanço local de cargas em cada átomo são denominadas apolares. Um exemplo típico é o das ligações

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estabelecidas entre o carbono e o hidrogênio (hidrocarbonos). Embora estas ligações sejam eletricamente neutras, a presença de íons ou de moléculas polares no meio, ou ainda um campo elétrico aplicado, podem induzir um desbalanço de cargas, atraindo ou repelindo a nuvem eletrônica envolvida na ligação, criando interações elétricas mesmo em um meio completamente neutro e apolar. Este comportamento, do ponto de vista elétrico, é denominado dielétrico. Através das interações elétricas, as moléculas polares podem induzir dipolos elétricos em moléculas completamente apolares. Mesmo entre moléculas com ligações completamente apolares existe uma interação elétrica devido ao fato de que elétrons negativamente carregados em torno de um núcleo com carga positiva formam um dipolo elétrico. Isolado este dipolo é nulo. Entretanto, em outra molécula vizinha um outro dipolo existe. Os dois dipolos são capazes de interagir um com o outro. De fato eles tendem a se alinhar mutuamente no campo criado pelo outro, resultando em uma atração mútua entre os dois átomos. Estas forças, denominadas forças de dispersão ou forças de London, ocorrem entre todos os tipos de átomos e moléculas, mesmo entre os elementos inertes da tabela periódica. Elas estão presentes em sólidos, líquidos e gases e a sua importância depende da comparação com as outras forças presentes no sistema molecular considerado. Em particular, as forças de dispersão são essenciais para explicar a coesão dos líquidos apolares.

4. O papel peculiar da água. Como vimos anteriormente, em muitas ligações químicas, os elétrons que participam não são igualmente compartilhados. Isto ocorre com frequência em ligações envolvendo o átomo de hidrogênio, como, por exemplo, nas ligações O-H e N-H, de especial interesse para os sistemas biológicos. Nestas ligações, o hidrogênio fica com uma carga positiva atraindo grupos com cargas opostas, especialmente o oxigênio que tem uma forte tendência a atrair os elétrons nas ligações em que participa. Embora a formação das ligações-hidrogênio tenha sua origem na atração eletrostática entre as cargas não balanceadas das moléculas, suas características particulares imprimem um caráter semelhante às ligações covalentes, pode-se dizer que neste tipo de ligação o próton do hidrogênio é compartilhado entre os dois átomos negativos que participam da ponte. A água (H2O) possui diversas propriedades peculiares. Entre estas temos : • • • • • Volume negativo de fusão Máximo de densidade na fase líquida a 4 oC Inúmeras formas cristalinas alotrópicas Alto ponto de fusão e ebulição para uma substância com baixo peso molecular, não-iônica e não-metálica Αlta mobilidade de transporte para íons H+ e OH-

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Várias destas propriedades estão em graus maiores ou menores relacionadas à capacidade da água em formar ligações-hidrogênio, quatro por molécula na fase sólida, gerando uma estrutura tridimensional deste elemento. A energia associada a estas ligações é estimada em, aproximadamente, 20 kJ/mol. Como comparação temos para as ligações covalentes uma ordem de grandeza de centenas de kJ/mol. A estrutura do gelo é formada a partir de ligações-hidrogênio entre as diversas moléculas de H2O. Estudos cristalográficos sobre o gelo foram realizados permitindo que se saiba que cada átomo de oxigênio está no centro de um tetraedro em cujos vértices se encontram os átomos de oxigênio vizinhos. A distância entre os átomos de oxigênio é igual a 0.276 nm.

Os líquidos são, talvez, os menos compreendidos dentre os estados da matéria. Estudos experimentais a partir de técnicas diferentes são necessários para que se possa entender o comportamento desta fase em diversas escalas de tempo. Para a água, uma estrutura semelhante a do gelo se conserva em temperaturas próximas a temperatura de fusão. De fato, muito da rede tridimensional formada a partir das ligações-hidrogênio é conservada, embora tais ligações passem a sofrer torções e dobramentos significativos. Entretanto, algumas diferenças são significativas. A água é mais densa do que o gelo, e isto se reflete em um número médio de vizinhos maior para o caso da água (4,4 segundo dados recentes). Além disto, as ligações-hidrogênio na água possuem caráter transitório devido ao movimento mais significativo das moléculas neste estado. Entre as características fundamentais das cadeias e anéis de carbono e hidrogênio está a sua baixa solubilidade na água, donde tais substâncias são chamadas de “hidrofóbicas”, (do grego : hydro = água; phóbos = inimigo). Como veremos, o nome está mal aplicado visto não apresentarem as substâncias hidrofóbicas nenhuma aversão à água. As substâncias hidrofóbicas determinam fortemente o comportamento de substâncias biologicamente importantes. Para entendermos bem tais substâncias devemos iniciar entendendo melhor o meio no qual elas manifestam tais aspectos : a água. As membranas biológicas são constituídas de uma bicamada lipídica na qual estão inseridas ou adsorvidas outras biomoléculas, notadamente proteínas. Embora exista uma grande variedade de composição entre as diversas biomembranas, todas possuem uma bicamada lipídica. Quase sempre os lipídios das membranas apresentam uma “cabeça” polar, ou seja, eletricamente polarizada, e, em geral, duas “caudas” de hidrocarbonetos apolares. A bicamada se forma de maneira que a cabeça polar fique

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voltada para o meio aquoso. Desta maneira, as caudas de hidrocarbonetos apolares ficam ocluidas. As proteínas são formadas pelo encadeamento linear de uma seqüência de aminoácidos. Esta cadeia se enovela gerando uma estrutura espacial cuja forma tanto quanto a constituição química é importante para as funções exercidas por estas macromoléculas. Este processo de enovelamento é tão importante quanto complexo e mal compreendido. Neste curso uma força cujo peso parece ser importante está relacionada à oclusão dos resíduos dos aminoácidos constituídos de anéis ou árvores de carbono e hidrogênio, ou seja, partes com propriedades químicas semelhantes às caudas dos lipídios. Existem diversas conseqüências decorrentes da baixa solubilidade de certas substâncias na água. O nome “efeito hidrofóbico” é dado por diferentes autores para cada uma destas propriedades. Vamos começar listando alguns destes aspectos e posteriormente descrever brevemente modelos propostos para explicar tal efeito. i) Baixa solubilidade de gases e substâncias apolares na água quando comparada com aquela em líquidos orgânicos. ii) Agregação de substâncias hidrofóbicas. iii) Ligação entre substâncias com composição diferente (p.e., proteínas e lipídios de membranas) a partir de suas porções hidrofóbicas. iv) Preferência por parte de algumas substâncias pelas membranas, em relação ao meio aquoso. v) Transições conformacionais espiral-glóbulo em biopolímeros. Os ítens ii), iii), iv) e v) podem ser discutidos a partir do i). Vamos discutir então este ítem em mais detalhe. As substâncias apolares, como o nome diz, possuem uma distribuição dos elétrons de tal modo a não haver resíduo de carga sobre nenhum dos átomos. Assim, estes compostos não formam ligações-hidrogênio com a água, ou outro composto. A única interação possível para esta substância é através da força de Van der Waals (cuja ordem de grandeza é estimada em 1 kJ/mol). Assim, ao se dissolver na água, uma molécula apolar estará rompendo ou distorcendo fortemente ligações-hidrogênio previamente presentes, sem que haja uma compensadora formação de ligações entre a água e o soluto, como ocorre, por exemplo, ao se dissolver um sal na água. As moléculas de água vizinhas ao soluto estarão em um estado de maior energia. Elas se rearranjam de modo a refazer o número máximo possível de ligaçõeshidrogênio, mas neste processo geram uma estrutura mais ordenada em torno do soluto. Para gerar esta estrutura ordenada é gasta uma certa quantidade de energia. Em resumo, esta teoria, a mais antiga a respeito do efeito hidrofóbico, prediz a formação de estruturas em torno dos solutos. Estas estruturas possuem uma maior proximidade com a estrutura do gelo do que a água comum, donde tais estruturas são chamadas de “icebergs”.

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Algumas críticas a esta teoria são : − Quando a temperatura aumenta a solubilidade diminui, o que seria difícil absorver dentro de uma “teoria do iceberg” pura. − Existem argumentos mostrando que a energia gasta na formação do “iceberg” seria compensada por uma energia ganha por formação de ligaçõeshidrogênio mais estáveis. Assim, a baixa solubilidade deveria possuir uma outra origem. Uma teoria mais recente parte da idéia de formação de cavidades nos líquidos necessárias para solubilizar uma mólecula de um certo tamanho. Neste modelo, a energia de solubilização é separada em duas partes uma das quais dá conta da formação de cavidades e outra diz respeito às interações entre soluto e solvente. Este modelo tem fornecido estimativas numéricas muito boas para solubilidade de gases, e mesmo moléculas maiores, em diversos líquidos. Pode ser mostrado que moléculas menores irão gerar com menos facilidade cavidades de tamanhos maiores, o que pode ser intuitivamente compreendido. Neste modelo, a baixa solubilidade da água é explicada pelo fato de a água ser uma molécula pequena, formando, como discutido no parágrafo anterior, cavidades de tamanho menor. Assim, como a parte relativa à energia de interação entre água e as chamadas substâncias hidrofóbicas é pequena, predomina a parte da energia de formação de cavidades. Críticas a esta teoria são: − Fora a idéia de cavidades, considera a água como um líquido homogêneo, quando se sabe não ser assim na presença de solutos. − Torna a agregação entre compostos hidrofóbicos dependente apenas de interações eletrostáticas ou da força de Van der Waals. − Os cálculos feitos pelos que propugnam esta teoria possuem algumas deficiências importantes, reconhecida pelos mesmos. Muito provavelmente, uma teoria futura tratará de englobar aspectos destas duas hipóteses mais populares. Existem ainda outros modelos e nuances, os quais não serão considerados nestas notas. A agregação entre as substâncias hidrofóbicas, dentro do contexto da formação de “icebergs” passa a ser decorrência da necessidade de se eliminar a máxima quantidade possível de água no estado mais organizado. Assim, ao se formar uma bicamada lipídica, por exemplo, toda a água em torno das cadeias de hidrocarbonetos desaparece, dando lugar a uma interação água-lipídio basicamente através das cabeças “polares”. Note-se que continua a haver água na região das caudas hidrofóbicas, tendo a água “livre passagem” por este meio.