DOM CASMURRO

Machado de Assis

CAPÍTULO I
Do Título
Uma noite destas, vindo da cidade para o Engenho Novo, encontrei no trem da Central um rapaz
aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da
lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não
fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que, como eu estava cansado, fechei os olhos três ou quatro
vezes; tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso.
– Continue, disse eu acordando.
– Já acabei, murmurou ele.
– São muito bonitos.
Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso, mas não passou do gesto; estava amuado.
No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios, e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Os
vizinhos, que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados, deram curso à alcunha, que afinal pegou.
Nem por isso me zanguei. Contei a anedota aos amigos da cidade, e eles, por graça, chamam-me assim,
alguns em bilhetes: “Dom Casmurro, domingo vou jantar com você.” – “Vou para Petrópolis, Dom
Casmurro; a casa é a mesma da Renânia; vê se deixas essa caverna do Engenho Novo, e vai lá passar uns
quinze dias comigo.” – “Meu caro Dom Casmurro, não cuide que o dispenso do teatro amanhã; venha e
dormirá aqui na cidade; dou-lhe camarote, dou-lhe chá, dou-lhe cama; só não lhe dou moça.”

Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão,
mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Dom veio por ironia,
para atribuir-me fumos de fidalgo. Tudo por estar cochilando! Também não achei
melhor título para a minha narração; se não tiver outro daqui até o fim do livro, vai este
mesmo. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. E com pequeno
esforço, sendo o título seu, poderá cuidar que a obra é sua. Há livros que apenas terão
isso dos seus autores; alguns nem tanto.
CAPÍTULO II
Do Livro

Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém,
digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Vivo só, com um criado. A casa em que moro é própria; fi-la construir de
propósito, levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo, mas vá lá. Um
dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei
na antiga Rua de Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra,
que desapareceu. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o
mesmo prédio assobradado, três janelas de frente, varanda ao fundo, as mesmas alcovas
e salas. Na principal destas, a pintura do teto e das paredes é mais ou menos igual, umas
grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos bicos, de espaço a
espaço. Nos quatro cantos do teto as figuras das estações, e ao centro das paredes os
medalhões de César, Augusto, Nero e Massinissa, com os nomes por baixo... Não
alcanço a razão de tais personagens. Quando fomos para a casa de Matacavalos, já ela
estava assim decorada; vinha do decênio anterior. Naturalmente era gosto do tempo
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meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. O mais é também
análogo e parecido. Tenho chacarinha, flores, legume, uma casuarina, um poço e
lavadouro. Uso louça velha e mobília velha. Enfim, agora, como outrora, há aqui o
mesmo contraste da vida interior, que é pacata, com a exterior, que é ruidosa.
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em tudo, se
o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem
consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é
tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à pintura que se põe na barba e
nos cabelos, e que apenas conserva o hábito externo, como se diz nas autópsias; o
interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia
enganar os estranhos, como todos os documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que
me restam são de data recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos
santos. Quanto às amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase
todas crêem na mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que
falam obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa.
Entretanto, vida diferente não quer dizer vida pior; é outra coisa. A certos
respeitos, aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei; mas
é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta, e, de memória, conservo
alguma recordação doce e feiticeira. Em verdade, pouco apareço e menos falo.
Distrações raras. O mais do tempo é gasto em hortar, jardinar e ler; como bem e não
durmo mal.
Ora, como tudo cansa, esta monotonia acabou por exaurir-me também. Quis
variar, e lembrou-me escrever um livro. Jurisprudência, filosofia e política acudiramme, mas não me acudiram as forças necessárias. Depois, pensei em fazer uma História
dos Subúrbios, menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos,
relativas à cidade; era obra modesta, mas exigia documentos e datas, como preliminares,
tudo árido e longo. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a
dizer-me que, uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos, pegasse
da pena e contasse alguns. Talvez a narração me desse a ilusão, e as sombras viessem
perpassar ligeiras, como ao poeta, não o do trem, mas o do Fausto: Aí vindes outra vez,
inquietas sombras...?
Fiquei tão alegre com esta idéia, que ainda agora me treme a pena na mão. Sim,
Nero, Augusto, Massinissa, e tu, grande César, que me incitas a fazer os meus
comentários, agradeço-vos o conselho, e vou deitar ao papel as reminiscências que me
vierem vindo. Deste modo, viverei o que vivi, e assentarei a mão para alguma obra de
maior tomo. Eia, comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro, que nunca
me esqueceu. Tive outras muitas, melhores, e piores, mas aquela nunca se me apagou do
espírito. É o que vais entender, lendo.
CAPÍTULO III
A Denúncia

Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me
atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos, o mês de novembro, o ano é que é
um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às
pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.
– D. Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário?
É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

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– Que dificuldade?
– Uma grande dificuldade.
Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de
concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e,
abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.
– A gente do Pádua?
– Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece
bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é
a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para
separá-los.
– Não acho. Metidos nos cantos?
– É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não
sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas
corressem de maneira que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais
cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida...
– Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que
faça desconfiar. Basta a idade; Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à
semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde
aquela grande enchente, há dez anos, em que a família Pádua perdeu tanta coisa; daí
vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha?
Tio Cosme repondeu com um “Ora!” que, traduzido em vulgar, queria dizer:
“São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o
gamão?”
– Sim, creio que o senhor está enganado.
– Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão
depois de muito examinar...
– Em todo caso, vai sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de metê-lo
no seminário quanto antes.
– Bem, uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre, tem-se ganho o
principal. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a igreja brasileira
tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o Padre
Feijó governou o império...
– Governou como a cara dele! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores
políticos.
– Perdão, doutor, não estou defendendo ninguém, estou citando. O que eu quero
é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil.
– Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se
tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas.
Mas olhe cá, mana Glória, há mesmo necessidade de fazê-lo padre?
– É promessa, há de cumprir-se.
– Sei que você fez promessa.. mas, uma promessa assim... não sei... Creio que,
bem pensado... Você que acha, prima Justina?
– Eu?
– Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que
sabe de todos. Contudo, uma promessa de tantos anos... Mas, que é isso, mana Glória?
Está chorando? Ora esta! Pois isto é coisa de lágrimas?
Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi
ter com ela. Seguiu-se um alto silêncio, durante o qual estive a pique de entrar na sala,
mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou
a dizer. Prima Justina exortava: “Prima Glória! prima Glória!” José Dias desculpava-se:

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todo o mundo pareciam rir nele. servia a prolongar as frases. e. meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí. porém. se era preciso. – Mas. de um grande riso sem vontade. toda a cara. não aquele vagar arrastado dos preguiçosos. a dor que o pungiu foi enorme. aceitou casa e comida sem outro estipêndio. Levantou-se com o passo vagaroso do costume. e não o fez sem estudar muito e muito. – Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser. imobilizava-lhe o pescoço. pela estima. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo. disseram-me. a conseqüência antes da conclusão.. José Dias recusou. com um aro de aço por dentro. Cosi-me muito à parede. gravíssimo. mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes. Havia então um andaço de febres. mas é tempo de restabelecer tudo. parecia nele uma casaca de cerimônia. com pequeno ordenado. a homeopatia é a verdade. menti. Era um modo de dar feição monumental às idéias. disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre. sim. os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos. e talvez neste mundo. tão natural nesta como naquela maneira. rodaque e gravata de mola. um silogismo completo. Levantou-se para ir buscar o gamão. que estava no interior da casa. Nos lances graves. chupado. Um dia. mas um vagar calculado e deduzido. José Dias curou o feitor e uma escrava. você curou das outras vezes. e teve o seu quarto ao fundo da chácara. e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas. a premissa antes da conseqüência. pelo afeto. reinando outra vez febres em Itaguaí. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário. Não foi despedido. Eles. não as havendo. Um dever amaríssimo! CAPÍTULO V O Agregado Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. salvo o que quisessem dar por festas. ria largo. Outrossim. A gravata de cetim preto. para servir à verdade. suspirou e acabou confessando que não era médico. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata.. com um princípio de calva. – Creio que sim. presilhas.. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola. Era nosso agregado desde muitos anos. Era magro. 4 . mais acertado. teria os seus cinqüenta e cinco anos. toda a pessoa. eles abaixo de Deus. Não negue. Voltou dali a duas semanas. como de pessoa da família.“Se soubesse. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro. a tal ponto as bochechas. ele veio também. meu pai já não podia dispensá-lo. – Voltarei daqui a três meses. Também se descompunha em acionados. e eu acabava de nascer.. Quando meu pai morreu. não me lembra. mas falei pela veneração. para cumprir um dever amargo.” CAPÍTULO IV Um Dever Amaríssimo! José Dias amava os superlativos. dava-se por falta dele. Eu era um charlatão. mas fique morando conosco. era então moda. e não quis receber nenhuma remuneração. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família. não teria falado. veste caseira e leve. os dentes. mas comunicativo. os olhos. como pedia então. é dizer que foram os remédios indicados nos livros. era muita vez rápido e lépido nos movimentos. O rodaque de chita. levava um Manual e uma botica. um dever amaríssimo. José Dias deixou-se estar calado.

por cima da cama. mas não subia. Tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais. não abusava. confiava-lhe a cópia de papéis de autos. ao sétimo dia. adquiriu certa autoridade na família. cerzido. as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole. José Dias agradeceu de cabeça. “Esta é a melhor apólice”. por mais modesto que quisesse ser. com muitos cumprimentos no fim. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. uma apólice e quatro palavras de louvor. ele trazia o velho escovado e liso. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. e confessava que a não sermos nós. depois da missa.Minha mãe ficou-lhe muito grata. A roupa durava-lhe muito. eu não sabia montar. era a casa dos três viúvos. – Fique. O preto que a tinha ido buscar à cocheira. dava o último surto da terra. e sorriu aprovando. tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. e desta vez caía em cima do selim. era tudo. Era lido. – Abaixo. o chão lá embaixo. ou explicar algum fenômeno. Tio Cosme. tinha amigos em Lisboa. dizia ele. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. desde que ela enviuvou. dizia ele muita vez. e tinha medo ao cavalo. que era advogado. 5 . segundo impulso. Em casa. como prima Justina. após alguns instantes largos. posto que de atropelo. e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara. repetiu José Dias cheio de veneração. que era no extinto Aljube. perto do júri. Tinha o escritório na antiga Rua das Violas. que era religiosa. dava um impulso. ele foi despedir-se dela. enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo. certa audiência. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa. sorria de persuasão. Trabalhava no Crime. encaixilhou-as e pendurou-as no quarto. referia os debates. mas a nossa família. José Dias. Com o tempo. Enfim. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. já teria voltado para lá. Quando me vi no alto (tinha nove anos). CAPÍTULO VI Tio Cosme Tio Cosme vivia com minha mãe. Era quem lhe vestia e despia a toga. – Obedeço. segurava o freio. ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo. abotoado. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. o bastante para divertir ao serão e à sobremesa. falar dos efeitos do calor e do frio. Ao cabo. Já então era viúvo. igual efeito. Teve um pequeno legado no testamento. Copiou as palavras. Era gordo e pesado. o corpo ameaçava subir. minha senhora. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório. não direi ótimo. gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar. Depois. mas nem tudo é ótimo neste mundo. e a besta partia a trote. Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. dos pólos e de Robespierre. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo. a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. sozinho e desamparado. Tio Cosme acomodava as carnes. E minha mãe. Formado para as serenas funções do capitalismo. – Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia. ao menos. tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. era amigo. o primeiro. abaixo de Deus. Tio Cosme. de uma elegância pobre e modesta. e sabia opinar obedecendo. E não lhe suponhas alma subalterna.

afagou-me. por lhe ter ficado a esperança no fundo. sem adornos. aqui mesmo. Não me lembra nada dele. tais quais na outra casa. preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. como ninguém tachou de má a boceta de Pandora. o retrato mostra uns olhos redondos. é preciso que monte a cavalo. Padre que seja. foi aceito de muitas damas. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. medo! A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde. No painel parece oferecer a flor ao marido. em alguma parte há de ela ficar. naquele ano da graça de 1857. vendo e guiando os serviços todos da casa inteira. Glória Minha mãe era boa criatura. e deixou-se estar na casa de Matacavalos. em bandós. e tinha uma flor entre os dedos. Pedro de Albuquerque Santiago. com um xale preto. em rapaz. Quando lhe morreu o marido. se quiser florear como os outros rapazes. Uma ou outra vez dizia pilhérias. contava trinta e um anos de idade. dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. Aqui os tenho aos dois bem 6 . eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade. certo número de apólices. e podia voltar para Itaguaí. Concluo que não se devem abolir as loterias. e. Contam que. mas ainda dá idéia de ambos. e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. há de queixar-se de você. pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa? – Não está acostumado. Contava então vinte anos. uma dúzia de prédios. Era filha de uma senhora mineira. D. ao lado do do marido. Agora só cumpria as obrigações do ofício e um amor. ainda não sendo padre. Nele era velho costume e necessidade. Tenho ali na parede o retrato dela. Ora. a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande. a cara é toda rapada. se for vigário na roça. CAPÍTULO VII D. por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande. Já não dava para namoros. eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. – Pois que se queixe. tenho medo. descendente de outra paulista. Vivia metida em um eterno vestido escuro. Lidava assim. mana Glória. Era ainda bonita e moça. O de minha mãe mostra que era linda. Vendeu a fazendola e os escravos. enquanto o irmão perguntava: – Mana Glória. comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou. Os cabelos. mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual. cuidou que me estivessem matando. a um lado e outro. – Deve acostumar-se. desde manhã até a noite. além de partidário exaltado. e não souber. que me acompanham para todos os lados. com os seus sapatos de cordavão rasos e surdos. – Medo! Ora. “Agora é que ele vai namorar deveras”. O que se lê na cara de ambos é que. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais. A pintura escureceu muito. Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. Não quis. Não se diria o mesmo de tio Cosme. onde vivera os dois últimos anos de casada. mas teimava em esconder os saldos da juventude. a família Fernandes.entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula. disseram quando eu comecei as lições. salvo um trechozinho pegado às orelhas. pois. alguma vez trazia touca branca de folhos. apeou-me. efeito da pintura que me assombrava em pequeno.

. o preparo das rabecas. São retratos que valem por originais. sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão.. estendendo a flor ao marido.. Talvez valha a pena dá-la. Deus é o poeta. cantarolava. CAPÍTULO IX A Ópera Já não tinha voz. CAPÍTULO VIII É Tempo Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro. A música é de Satanás. Há coros numerosos. quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor. continuar um sonho provavelmente. São como fotografias instantâneas da felicidade. em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimários. O de minha mãe. repetiu-me a definição do costume. – Mas. apesar de velho. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo. tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena.. depois de beber um gole de licor.casados de outrora. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. mas aqui estão os retratos de ambos. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. é só um capítulo. meu caro Marcolini. abanou a cabeça e replicou: – A vida é uma ópera e uma grande ópera. e a orquestração é excelente. os bem-aventurados. o acender das luzes. “A vida é uma ópera”.. não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. Quando a loteria e Pandora me aborrecem. Às vezes. meu guapo cavalheiro!” O de meu pai. Tudo se teria passado sem mais nada. ia ao empresário e expunha-lhe toda as injustiças da terra e do céu.. não sei. e expôs-me a história da criação. parecia cortejar uma princesa de Babilônia. “O desuso é que me faz mal”. o empresário cometia mais uma. O tenor e o barítono lutam pelo soprano. Uma noite. algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto..” Se padeceram moléstias. e ele expulso do conservatório. ergo os olhos para eles. – Quê?. olhando para a gente. a sinfonia.. dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu.. Rival de Miguel. mas teimava em dizer que a tinha. os bem-amados. E explicou-me um dia a definição. vozes assim abafadas são sempre possíveis. Agora é que eu ia começar a minha ópera. e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. jovem maestro de muito futuro. acrescentava. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa. se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera. e ele saía a bradar contra a iniqüidade. Depois da morte dele.. como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. E. pousou o cálix. que aprendeu no conservatório do céu.. Quando andava. que se foram desta para a outra vida. e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera como uma viagem de mar ou uma batalha. faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer. do qual abrira mão. Rafael e Gabriel. em presença do baixo e dos comprimários.. sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. em tal maneira que me fez crer nela. parece dizer: “Sou toda sua. com palavras que vou resumir. depois de muito Chianti. sem abrir a boca. por entender que tal gênero de recreio era 7 . muitos bailados. uma tarde clara e fresca. lembra-me que ela chorou muito.

pode ser que tenor.. e o dó fez-se ré etc. quando todos os livros forem queimados por inúteis. Este 8 .. Basta-me haver composto o libreto. dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado. este planeta. que parece ele próprio o autor da composição. – Tem graça. e inventou uma companhia inteira. não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. Um dia. Já não dizem o mesmo os amigos deste. há lugares em que o verso vai para a direita e a música para a esquerda. O grotesco. por exemplo. eu tenho horror à graça. concluiu o velho tenor. Graça? bradou ele com fúria. que a partitura corrompeu o sentido da letra. os coros da guilhotina e da escravidão. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera. e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa achar obra tão bem acabada. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam. não quero saber de ensaios. – Ouvi agora alguns ensaios! – Não. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. Dizem eles que. – Nada! nada! Satanás suplicou ainda. não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. e talvez italiano. – Esta peça. e replicou: – Caro Santiago. não quero ouvir nada. ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera. coros e bailarinos. fazei-a executar. até que Deus. – Mas. Com efeito. e aquelas desapareçam inteiramente.. nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros – e acaso para reconciliar-se com o céu –. é absolutamente diversa e até contrária ao drama. primárias e comprimárias. mas aquietou-se logo. escutai-a. admiti-me com ela a vossos pés.impróprio da sua eternidade. eu não tenho graça. poucos os escolhidos”. Deus recebe em ouro. O êxito é crescente. Satanás em papel. estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. que não são os mesmos. mas fora do céu. não está no texto do poeta. encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. Não falta quem diga que nisso mesmo está a beleza da composição. consentiu em que a ópera fosse executada. e trabalhada com arte em outros. Criou um teatro especial. fugindo à monotonia. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais. meu amigo. Também há obscuridades. evidentemente. – Senhor. No princípio era o dó. Foi talvez um mal esta recusa. sem melhor fortuna. porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados. com todas as partes. mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas. emendai-a. cansado e cheio de misericórdia. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. é um plagiário. Aqui tendes a partitura. e se a achardes digna das alturas.. é uma excrescência para imitar as Mulheres patuscas de Windsor. e assim explicam o terceto do Éden. que ensine esta verdade aos homens. retorquiu o Senhor. Tal é a opinião dos imparciais. sem razão suficiente. senhor. disse-lhe. a ária de Abel. Isto que digo é a verdade pura e última. posto seja bonita em alguns lugares.. e. mas. durará enquanto durar o teatro. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. não desaprendi as lições recebidas. compôs a partitura. Juram que o libreto foi sacrificado. Certos motivos cansam à força de repetição. há de haver alguém. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas. o maestro abusa das massas corais. Tudo é música.. – Não. com tal arte e fidelidade.

. Em casa. livros devotos. para que nos separássemos o mais tarde possível. Não disse nada a meu pai. – um tanto às escondidas. a hóstia era sempre um doce. a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos. sentiu o terror de separar-se de mim. tenores desempregados. por ser já então história velha. nem antes. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho. não havendo vocação. latim e doutrina. em que eu vim a saber que já cantava. tal era a gulodice do padre e do sacristão. que é muita vez toda a verdade. porque a denúncia de José Dias. depois um trio. tudo convergia para o altar. Capitu e eu. mas enviuvou antes disso. nem depois de me dar à luz. Ultimamente não me falavam já do seminário. Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. imagens de santo.. Cantei um duo terníssimo.cálix (e enchia-o novamente). A mim é que ele me denunciou. Arranjávamos um altar. mas era tão devota. foi dada principalmente a mim. em resumo. prometendo. era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer. não tínhamos o primeiro. Viúva. aceito a teoria do meu velho Marcolini. que buscou testemunhas da obrigação. non sum dignus. não tirasse os olhos do padre. mas porque a minha vida se casa bem à definição. minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse. velho amigo do tio Cosme. deixei o esconderijo. Prazos largos são fáceis de subscrever. ia-me afeiçoando à idéia da Igreja.. este cálix é um breve estribilho. e há filósofos que são. e a ocasião destes é a que vou dizer. confiando a promessa a parentes e familiares. Dominus. brincava de missa. porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. Ela servia de sacristão. mas tudo cabe na mesma ópera. e corri à varanda do fundo. penso que só dizia uma. tão temente a Deus. brincos de criança. no sentido de dividirmos a hóstia entre nós. CAPÍTULO X Aceito a Teoria Que é demasiada metafísica para um só tenor. mas a perda da voz explica tudo. Talvez esperasse uma menina. Unicamente. meu caro leitor. e alterávamos o ritual. vamos à primeira parte. datava de dezesseis anos. conversações de casa. Quando íamos à missa. a imaginação os faz infinitos. Não bebíamos vinho nem água. Quinze anos. se fosse varão.. que ia lá jogar às noites. não só pela verossimilhança. contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola. que eu devia dizer três vezes. metê-lo na Igreja.. não há dúvida. pediam antes o seminário do mundo 9 . CAPÍTULO XI A Promessa Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor. e que reparasse no padre. dizia-me sempre que era para aprender a ser padre. Entretanto. Mas não adiantemos. fez-me aprender em casa primeiras letras. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. leitor amigo. Voltava com ela. arranjávamos o altar. engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo.. e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. Eu. No tempo em que brincávamos assim. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra. por aquele Padre Cabral. depois um quatuor. respondia afirmativamente. e ia pedir hóstia por outro nome. Isto.

que desmentia a abominação do meu pecado. ia tonto. estacando para amparar-me. e no último ano era completa.” Um coqueiro. colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda. e me trazia arrepios.” Tijolos que pisei e repisei naquela tarde. o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos. Era um coqueiro velho... Capitu um dia notou a diferença.que o de S. Entretanto.. os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício... nem os cantos outra utilidade. sorrindo.. para apertá-la muito. E as vozes repetiam-se confusas: “Em segredinhos. uma flor. Também eu os contava.” “Se eles pegam de namoro.. e andava outra vez e estacava. Fez-se cor de pitanga. CAPÍTULO XII Na Varanda Parei na varanda. eram tudo travessuras de criança.. as pernas bambas. eu.. tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis. disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava. e eu dizia que não. Capitu chamava-me às vezes bonito. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: “Sempre juntos. uma cigarra que ensaiava o estio. outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. alguma frase. dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. atordoado. e eram aventuras extraordinárias. andava cosido às saias dela. Os que eu tinha com ela não eram assim. segundo eu ia ou vinha. é certo que não restabelecemos logo a antiga intimidade. ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes. Antes dela ir para o colégio. e eu cria nos coqueiros velhos. mocetão. mas eu retorquia chamando-lhe maluca. e me derramava não sei que bálsamo interior. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim.. a pretexto de nada.” “Se eles pegam de namoro. depois que saiu do colégio. 10 . vendo-me inquieto e adivinhando a causa. mais ainda que nos velhos livros. e Capitu a mim? Realmente. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera. e logo me dispersava. apenas reproduziam a nossa familiaridade. mas esta voltou pouco a pouco. Com que então eu amava Capitu. sem fazer o mesmo aos dela. mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto.” “Sempre juntos. em vós me ficou a melhor parte da crise. ou pegava-me na mão. algum gesto. e muita vez não passavam da simples repetição do dia. a matéria das nossas conversações era a de sempre... Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. e passar ao quintal vizinho. Eu. ouvia-lhe contar que sonhara comigo. ao contrário. dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus. como alma perdida. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras. Comecei a andar de um lado para outro. borboletas. murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze. toda a gente viva do ar era da mesma opinião. que dançávamos na lua. que me envolvia em mim mesmo. um ar de riso de satisfação.. Pássaros. a sensação de um gozo novo. Às vezes dava por mim. depois de certa hesitação.. dizendo que os achava lindíssimos. Não me atrevia a descer à chácara. que subíamos ao Corcovado pelo ar.” “Em segredinhos. José. a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer.

essa revelação da consciência a si própria. Se se falava nela. agora os sentia como sinais de alguma coisa. e pedia-lhe que mostrasse a língua. Em crianças. segundo era louvor ou crítica. Quando as bonecas de Capitu adoeciam. vem cá. e escutá-la de memória. as respostas vagas. há pouco tão andarilhas. nem a eterna Bondade. e assim as meias palavras. nem as demais Virtudes eternas. em minha casa. que me denunciara a mim mesmo. nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias. prestava mais atenção que dantes. mas as pernas. francamente. só agora entendia a emoção que me davam essas e outras confidências. e caminharam para o quintal vizinho. tomava o pulso à doente. é verdade. Quis passar ao quintal. – Capitu. Também adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. mas com exclusivismo também. e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês. estacavam. Naturalmente também por ser a primeira. os cuidados. Então eu coçava o queixo. A porta não tinha chave nem taramela. nunca mais me esqueceu. A emoção era doce e nova. CAPÍTULO XIII Capitu De repente. assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora. “É surda. Que as pernas também são pessoas. e às manhãs também. abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro. As minhas chegaram ao pé do muro. João da Costa. o mal que dissera. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe. e estremecer quando lhe ouvia os passos. como se viesse já da porta dos fundos. sem que eu a buscasse nem suspeitasse. as perguntas curiosas. que me não descobriam nada. o mal que fizera. com intervalos. trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Era quase que exclusivamente nossa. e valem de si mesmas. Era costume delas. pareciam agora presas ao 11 . apenas inferiores aos braços. para imitar o bengalão do Dr. Naturalmente por ser minha. Naquele instante. e a quem eu perdoava tudo. exclamava Capitu. mas a causa dela fugia-me. a eterna Verdade não valeria mais que ele. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam. às tardes. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. A voz da mãe era agora mais perto. quando Capitu e eu éramos pequenos. desandavam. e o que pudesse vir de um e de outro. coitada!”. quando éramos somente companheiros de travessuras. Esse primeiro palpitar da seiva. quando a cabeça não as rege por meio de idéias. Os silêncios dos últimos dias. e. ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: – Capitu! E no quintal: – Mamãe! E outra vez na casa: – Vem cá! Não me pude ter. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço. o gosto de recordar a infância. e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico. o médico era eu. fazíamos visita batendo de um lado e sendo recebidos do outro com muitas mesuras.Pois. como o doutor. – Mamãe! – Deixa de estar esburacando o muro.

mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. mas quero ser poupado. – Não é nada. não falamos nada. – Nada.. porque ela veio a mim. todas quatro. é que não gostava.. pegandose.. como dissera a mãe. Não nos movemos. você tem alguma coisa. encostou-se ao muro. mas. CAPÍTULO XIV A Inscrição Tudo o que contei no fim do outro capítulo foi obra de um instante. Confissão de crianças.chão. Capitu agarrou-me. Então quis vê-los de perto. correu adiante e apagou o escrito. desciam-lhe pelas costas. apertando-se. fundindo-se. mas não traria nenhum. Quis insistir que nada. balbuciei finalmente. voltada para ele. Todo eu era olhos e coração. tu valias bem duas ou três páginas. Dei um pulo. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos. O rumor da porta fê-la olhar para trás.. Vi uns riscos abertos. Não marquei a hora exata daquele gesto. pela boca fora. eram curadas com amor. Em verdade. não. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido. tinha agora a vista não sei como. meio desbotado. empurrei a porta. ao dar comigo. naturalmente levava o gesto mudado. Afinal fiz um esforço. a despeito de alguns ofícios rudes. e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los.. Se a consternasse é que realmente gostava de mim.. o lugar em que ela estivera riscando. li estes dois nomes. e antes que ela raspasse o muro. forte e cheia. e perguntou-me inquieta: – Que é que você tem? – Eu? Nada. a que ela mesma dera alguns pontos. à moda do tempo. rasos e velhos. devagar. o muro falou por nós. escrevendo ou esburacando. Calçava sapatos de duraque. ou por negar de outra maneira. apertada em um vestido de chita. – Notícia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador. riscando com um prego. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era. mas não achei língua. E emendei logo: – É uma notícia. senti que não poderia falar claramente. – Então? – Você sabe. – Que é que você tem? repetiu. tinha a boca fina e o queixo largo. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido. Ergueu-os logo. tal era a diferença entre o 12 . As mãos. como se quisesse esconder alguma coisa. e ficamos a olhar um para o outro. Os cabelos grossos. Nisto olhei para o muro. entrei. e assim dispostos: BENTO CAPITOLINA Voltei-me para ela. nariz reto e comprido. Capitu tinha os olhos no chão. com as pontas atadas uma à outra. feitos em duas tranças. alta. e dei um passo. as mãos é que se estenderam pouco a pouco. ou por temer que eu acabasse fugindo. um coração que desta vez ia sair. olhos claros e grandes. Morena. Devia tê-la marcado. com certeza. Caminhei para ela. se não. Capitu estava ao pé do muro fronteiro. abertos ao prego. sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite. e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse.

Não soltamos as mãos. apagou os nossos nomes escritos.estudante e o adolescente. e é a língua católica dos homens. cheio de ternura: – Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. para legitimar a resposta de Capitu. Não me tenhas por sacrílego. sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. Há coisas que só se aprendem tarde. para apagar bem o escrito. Estávamos ali com o céu em nós. ele chegou sem cólera. sim. deixando-nos a mim e ao pai encantados dela. Capitu. mas não tenho podido. foi ter com a mãe. Esta. todo meigo. Papai quer ver? E séria. que José Dias lhe pôs. que disse ser o retrato dele.. um perfil. e ficamos atrapalhados. De resto. os lábios a pátena. – Está. E nem assim ri. Capitu foi ao muro. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se. que estava à porta dos fundos. costas abauladas. com o prego. as palavras de boca é que nem tentavam sair. não agüenta. – Há muitos dias que não a vejo. – Capitu! – Papai! – Não me estragues o reboco do muro. senhor. não ria. O susto é naturalmente sério. tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.. CAPÍTULO XV Outra Voz Repentina Outra voz repentina. dizia-me. e depois de vagarem ao perto. convidando-me ao jogo. era o essencial. e não fui capaz de rir. disfarçadamente. estava assim diante dela como de um altar. olhando para ela e para mim. ao pé da mulher. Estou com vontade de dar um capote ao doutor.. que continuava à porta da casa. ando com trabalhos da repartição em casa. As mãos. não pode. mas Bentinho ri logo. tornavam ao coração caladas como vinham. – Vocês estavam jogando o siso? perguntou. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim. desviou o rosto. nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. eu estava ainda sob a ação do que trouxe a entrada de Pádua. fê-lo rir. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. tornavam a meter-se uns pelos outros. e. mas desta vez uma voz de homem: – Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu. leitora minha devota. dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. fitou em mim os olhos. por um latim que ninguém aprende. Pádua saiu ao quintal. – Estávamos. A boca podia ser o cálix. – Já tinha rido das outras vezes. Faltava dizer a missa nova. mas já a filha tinha começado outra coisa. sem suspeitar as do amar. e tanto podia ser dele como da mãe. Ninguém lhe chamava assim lá em casa. Conhecia as regras do escrever. Capitu riscava sobre o riscado. donde lhe veio a alcunha de Tartaruga. a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. Soltamos as mãos depressa. pernas e braços curtos. a ver o que era. Era um homem baixo e grosso.. apesar do gesto duvidoso ou menos que duvidoso em que nos apanhou. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. – Quando eu cheguei à porta. por mais que devesse fazê-lo. é mister nascer com elas para fazêlas cedo. o pai. após duas voltas. Capitu respondeu por ambos. era só o agregado. faziam das duas criaturas uma só. Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto. cansada de esperar. unindo os nervos. escrevo todas as 13 . Padre futuro. mas uma só criatura seráfica.

Sr. um adereço de brilhantes para a mulher. mas a mulher. porque chegara o efetivo naquela manhã. fechado na alcova. matavase. e 14 . chegou aos sapatos de verniz. você é criança? Mas. negócio de relatório. Pádua? Deixe-se disso. a casa em que morava.. não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a família. Trocava pássaros com outros amadores.. etc. e a vida era barata. Já disse. atirou-se às despesas supérfluas. assobradada como a nossa. falando à filha. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria. um dia chegou a salvar a vida ao Pádua.. A primeira idéia do Pádua. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o público? – Que público. e demais amava particularmente os passarinhos. no próprio quintal. Pediu à minha mãe que velasse pelas infelizes que deixava. Pádua hesitou muito. ou por especial designação. minha senhora. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem. era propriedade dele. Ia agora mesmo buscar a gaiola. ande ver. uma sepultura perpétua de família. se adoeciam. D. O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao Norte. dez contos de réis. afinal teve de ceder aos conselhos de minha mãe. cor e tamanho. mudo. Tinha-os de vária espécie. Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa. a anedota é curta. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava. que faziam cantando um barulho de todos os diabos. era visto em teatros. não podia sofrer a desgraça. apanhava alguns. ande. Fortunata pediu auxílio. e que há de fazer? Pois um homem. em pé. forte. CAPÍTULO XVI O Administrador Interino Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. Escutai. a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa. Viveu assim vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. os mesmos olhos claros. quando lhe saiu o prêmio. e um dia correu a pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido que se queria matar.noites que é um desespero. Fortunata ralhava: – Joãozinho. a mesma cabeça. Pádua. comprava-os. Demais.. deu jóias à mulher. como se a idéia da morte teimasse nele. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. era antes dos dez contos. Uma tarde entrou em nossa casa. mato-me! Não hei de confessar à minha gente esta miséria. Não se contentou de reformar a roupa e a copa. alta. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu. aflito e desvairado. mandar vir da Europa alguns pássaros. mas ele não atendia a coisa nenhuma. tornar atrás. armando alçapões. Que o meu desejo era nenhum. Pádua enxugou os olhos e foi para casa. cheia... onde viveu prostrado alguns dias. Minha mãe foi achá-lo à beira do poço. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. Também. Não ganhava muito. em comissão. mas o pai era o pai. crê-se facilmente. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraçado. Lembre-se que sua mulher não tem outra pessoa. nos dias de festa matava um leitão. ficou substituindo o administrador com os respectivos honorários. a quem D. e intimou-lhe que vivesse.. mas a mulher gastava pouco. tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo. Seja homem. foi comprar um cavalo do Cabo. ou por ordem regulamentar. tratava deles como se fossem gente. – ou então no quintal. – Não. ao pé do poço. esta D. e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. posto que menor. sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. por causa de uma gratificação menos. como a filha. ia perder o lugar. Minha mãe falou-lhe com bondade. seja homem.

. mas até com desvanecimento e orgulho. É isto. a tentos. A serenidade regressou. mês e meio antes.. Pádua começou a falar da administração interina. risonho.. não... foi antes da minha administração. respondeu-me um longo verme gordo. Catei os próprios vermes dos livros. – No tempo em que eu era administrador. José Dias bradava que era a vaidade sobrevivente. imitar a mulher e a filha. atrás dela veio a alegria.. tinha o ar do costume. Ou ainda: – Justamente. senhor. como se houvessem passado palavra. um domingo. Talvez esse discreto silêncio sobre os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído. repetiam a mesma cantilena.. nem escolhemos o que roemos. para que me dissessem o que havia nos textos roídos por eles. a dormir tranqüilo as noites e as tardes. Nos dias seguintes. tive tais ou quais veleidades de escrever uma dissertação a este propósito. a minha administração começou. continuou a entrar e sair de casa.perder um emprego interino? Não. Já ele ria.. cosido à parede. havia já seis meses que eu administrava. nós roemos. CAPÍTULO XVIII Um Plano 15 . a ferida foi sarando. vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma ferida que fez. Ora. a ferida sarou de todo. Não lhe arranquei mais nada. não foi mais. a conversar e dar notícias da rua. lembra-me. que levava tudo para a Escritura. antes mesmo da administração interina. dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó: “Não desprezes a correção do Senhor: Ele fere e cura. devia ser homem. a abri-los. a compará-los. Ou então: – Ah! Sim.” CAPÍTULO XVII Os Vermes “Ele fere e cura!” Quando. Cheguei a pegar em livros velhos. não desconheço que é assim mesmo. um ou dois meses antes. mas o Padre Cabral. Pádua obedeceu. Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. olhos no ar. catando o texto e o sentido. A administração ficou sendo a héjira. a cuidar dos passarinhos. donde ele contava para diante e para trás.. nem amamos ou detestamos o que roemos. Vieram as semanas. livros mortos. já brincava.. nem o vexame da perda. mais tarde. que iam jogar o solo. para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento israelita. – Pois seja obrigação. foi mês e meio antes. na figura de dois amigos. Os outros todos. nós não sabemos absolutamente nada dos textos que roemos. pai de família. – Meu senhor. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a vizinhança. livros enterrados. cara no chão. é obrigação sua. Pádua começou a interessar-se pelos negócios domésticos. Com o tempo veio um fenômeno interessante. confessou que acharia forças para cumprir a vontade de minha mãe. espere. – Vontade minha. não somente sem as saudades dos honorários.

cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. comecei a jurar que não seria padre. – Chorou por quê? – Não sei. Capitu gostava tanto de minha mãe. não era ainda a Capitu do costume. e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou. que ele me paga! Disse isto fechando o punho. sacudi-la. abanava a cabeça. como entender que lhe chamasse nomes tão feios. era uma figura de pau. em voz tão alta que tive medo fosse ouvida dos pais. mas faltou-me ânimo. fez-se cor de cera. deixava-me agora com os braços atados e medrosos. tornou a si. não quero entrar em seminários. mas Capitu não me deixou. mas quase. meteu-os em si e deixouse estar com as pupilas vagas e surdas. ouvi só dizer que ela não chorasse. creio até que dormira comigo. não entro. – José Dias? – Não. é escusado teimarem comigo. Enfim. na nossa velha sege. Capitu. Cerrava os dentes. Aos quinze anos. entraria no seminário. Mamãe é boa demais. e proferi outras ameaças. há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada. sem aflição. Ao relembrá-las.. Estava séria. eu contei-lhe toda. Jurei pela hora da morte. – Você? Você entra. Parece até que chorou. e principalmente para deprimir costumes religiosos. e rompeu nestas palavras furiosas: – Beata! carola! papa-missas! Fiquei aturdido. Capitu queria saber que notícia era a que me afligia tanto. deixe estar que me há de pagar. Também lhe dera um rosário. eu então. para não ser apanhado. Que a luz me faltasse na hora da morte se fosse para o seminário. falávamos do seminário. não parecia sequer ouvir. Quis chamá-la. repetia os juramentos. deixei o canto e corri para a varanda.. coisa bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação. a princípio. e naturalmente mais. parecia disposta a dizer tudo a todos. ou melhor. foi só para fazer mal.. assustado. não disse nada. Quis defendê-la. tinha mudado. menos a parte que lhe dizia respeito. Quando lhe disse o que era. Este mal ou este perigo começa na mocidade.. dá-lhe atenção demais. mas tinha a cara lívida. continuou a chamar-lhe beata e carola. não me acho ridículo. acudi logo. Calou-se outra vez. você verá. quem vai para a rua é ele. mas. toda parada. Então eu. – Acho que nenhum. Capitu não parecia crer nem descrer. É verdade que também gostava de mim. ridículas. quando Capitu e eu. é um dos seus privilégios. Essa criatura que brincara comigo. mas os impropérios. que pulara. por nada neste mundo. pela vida e pela morte.Pai nem mãe foram ter conosco. Naquele tempo jurava muito e rijo. e saiu. Quando tornou a falar.. Ele chegou a mostrar-se arrependido. Eu. – Não entro. neste ponto. Mas. – Você verá se entra ou não. e minha mãe dela. não entro. 16 . não sabia que fizesse. Recolheu os olhos. que eu não podia entender tamanha explosão. que eram os seus? Que ela também ia à missa. não me fica um instante. mamãe. Quando eu for dono da casa. que não era coisa de choro. Com os olhos em mim. uma cruz de ouro e um livro de Horas. Nunca a vi tão irritada como então. a boca entreaberta. para dar força às afirmações. na sala de visitas. falava baixo. – Mas eu não quero. prometia ir naquela mesma noite declarar em casa que. deixe estar.. É um sujeito muito ruim. ou de outra maneira. Quis saber a conversação da minha casa. dançara. a adolescência e a infância não são. – E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim.

A atenção de Capitu estava agora particularmente nas lágrimas de minha mãe. Em meio disto. chora. deixando minha mãe na praia. eu conservava um canto para as cocadas. e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. replicou ela sem rispidez. foi que a enojou agora. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa. não era capaz de dar um passo para suspendê-la. tinha já idéias atrevidas. surdas. parecendo ir à fortaleza da Laje em ponte movediça. fiquemos em que a minha amiga. o pregão que o preto foi cantando. – Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. e gostava muito de doce. não lhe pude dar toda a significação. – Vá-se embora. rindo. Capitu deixouse ir. não admira que. o que tanto pode ser perfeição como imperfeição. Tínhamos chegado à janela. Chora. porque não tem Vintém. não me faria embarcar no paquete e fugir. menina. o pregão das velhas tardes. ou só agradeceram a boa intenção. Creio que a letra. o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da aventura. as próprias palavras de uns e de outros. um preto. combatendo os meus projetos de resistência franca. Capitu. da persuasão lenta e diuturna. em meio da crise. da palavra. ela a sabia de cor e de longe.Capitu refletia. sinuosas. vinha apregoando cocadas. que. qué cocada hoje? – Não. saltando. era a promessa antiga. Capitu. iria realmente até Bordéus. Como vês. e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. muito menos que outras que lhe vieram depois. Vi que. mas o momento não é para definições tais. à espera. que era ela mesma. Pediu-me algumas circunstâncias mais. fosse antes pelos meios brandos. rindo. depois a conversa entrou a cochilar e dormir. Capitu recusou. pelo que. Com efeito. Da toada não era. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. pela ação do empenho. apesar de equilibrada e lúcida. Rejeitou tio Cosme. metia-se no paquete e ia para a Europa. Prima Justina era melhor 17 . Tal era a feição particular do caráter da minha amiga. mas creio que eles não lhe disseram nada. usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia. estenderia uma fila de canoas daqui até lá. parou em frente e perguntou: – Sinhazinha. aos quatorze anos. ora comprando um doce ausente. espreitou-me os olhos. que peguei da mão dela e apertei-a muito. e o tom delas. A reflexão não era coisa rara nela. temente a Deus. Ao contrário. trocando os papéis comigo. você fugia. confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre. destinada a picar a vaidade das crianças. por onde eu. e alcançavam o fim proposto. – Cocadinha tá boa. se pudesse cumpri-lo. Assim. não podia deixar de cumprir. Não sei se me explico bem. Dito isto. não de salto. porque logo depois me disse: – Se eu fosse rica. não acabava de entendê-las. tão sabido do bairro e da nossa infância: Chora. desde algum tempo. que ela. mas eram só atrevidas em si. se não aprovava a minha ordenação. a modo que lhe deixara uma impressão aborrecida. Comprei-as. mas aos saltinhos. respondeu Capitu. na prática faziam-se hábeis. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito. para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. não quis saber de doce. era um “boa-vida”. pouco antes. ora vendendo. mas tive de as comer sozinho.

antes de entrar em casa. e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia. há dois meses? D. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. sim. – Não importa. para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe. francamente. se não trocara uns por outros. Vim depressa. Ele gosta muito de você.. Repeti-as ainda. ele gosta muito de ser elogiado. faça o que lhe digo. um meio-termo. onde se fizeram sucessivamente sete. não tanto. Dê-lhe bem a entender que não é favor. – Mas se foi ele mesmo que falou.. mostre que quer e que pode. como principais. repetindo-as novamente.. Capitu. escolha o lugar e diga-me. Formulei o pedido de cabeça. e então achei-as secas demais. pela autoridade. repeti-as comigo. – Isso não. só se eu lhe confessasse que não tinha vocação. e. Capitu repetiu-os. tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. E insistia em que pedisse com boa cara. continuou Capitu. mas seria aparecer francamente. São Paulo era um frágil biombo. tendo de servir a você. Conto estas minúcias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga.. mas o principal não é isso. mas o padre não havia de trabalhar contra a Igreja. “E Capitu tem razão. E a prova é que. – Mas que se perde em experimentar? Experimentemos. disse que o teatro era uma escola de costumes. quase ríspidas. impróprias de um criançola para um homem maduro. Estremeci de prazer. e melhor que os dois seria o Padre Cabral. e pagou a entrada aos dois. peça. destinado a ser arredado um dia.” Proferi-as lentamente. saíram-me quase súplices. e bastava isso para que José Dias não teimasse. – Justo. nem adoçar muito. e o melhor é outra coisa. D. e parei. D. – Posso confessar? – Pois. logo virá a tarde. que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. mostre que há de vir a ser dono da casa.. em vez da grossa parede espiritual e eterna. acentuando alguns. Na chácara. amanhã. Cuidei de escolher outras. Faça-lhe também elogios. José Dias. CAPÍTULO XIX Sem Falta Quando voltei a casa era noite. 18 . Glória pode ser que mude de resolução. dirá agora outra coisa. como no Gênesis. e mais lentamente ainda as palavras sem falta.. e inquiria-me depois sobre eles. lembra-se? – Lembra-me. Tudo é que você não tenha medo. Ande. mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer. depois em voz alta. mande. se não mudar. Bastava não carregar tanto. diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo.. Glória não queria. mas ele queria ir.. escolhendo as palavras que diria e o tom delas. a ver se entendera bem. faz-se outra coisa. como para sublinhá-las. – Que tem José Dias? – Pode ser um bom empenho. falará com muito mais calor que outra pessoa. Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez. – Não acho. Olhe. entre seco e benévolo. – Então vá para o seminário. não. porém.que ele. Glória presta-lhe atenção. e fez um discurso. Afinal disse comigo que as palavras podiam servir. tanto falou que sua mãe acabou consentindo. é que ele. Não lhe fale acanhado. mete-se então o Padre Cabral. sem falta.

Era muito duro subir uma ladeira de joelhos. a casa é minha. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera. tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. Sublimes não eram. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor. se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. mediante a intenção. não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. Não é que prima Justina fosse de biocos. Entrei nas centenas e agora no milhar. mil. E então disse de mim para mim: – Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias. Não achava outra espécie em que. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias. é possível que estas agitações de menino te enfadem. Não choveu. ir à Terra Santa. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma. se é que não as achas ridículas.pensei. A Terra Santa ficava muito longe. Homem grave. repeti comigo. Era um modo de peitar a vontade divina pela quantia das orações. se eles viessem. Jeitoso é. Afinal perdi-me nas contas. ou subir de joelhos a Ladeira da Glória para ouvir uma. eu adiava a paga. ao meu amigo. mil. conversando com D. além disso. trinta. mas eu não rezei as orações. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. cinqüenta. Deus podia muito bem. mil. não é? Mamãe perguntou por mim? – Perguntou. cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Mandar dizer cem missas. e a Paulo o que pensava de Pedro. Fortunata. mediante orações que diria. era ao meu refúgio. As missas eram numerosas. mas confessar que mentira é que me pareceu novidade. tudo se cumprisse. devia feri-los por força. – Mil. mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto.. dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo. – Estive aqui ao pé. podiam empenhar-me outra vez a alma. passeando de um lado para outro.” CAPÍTULO XX Mil Padre-Nossos e Mil Ave-Marias Levantei os olhos ao céu. e desfazer o plano de mamãe. irritado com os esquecimentos. as outras foram adiadas. Realmente. ele é um simples agregado. e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos. A soma era enorme. se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário. Assim cheguei aos números vinte.. tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. não menos que a franqueza da notícia. A mentira espantou-me. boca fina e olhos curiosos. mas eu disse que você já tinha vindo. É tarde. e distraí-me. magra e pálida. Disse as primeiras.. a matéria do benefício era agora imensa. Vivia conosco por favor 19 . A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. pode muito bem trabalhar por mim. Era quadragenária. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores. negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro.. que começava a embruscar-se. CAPÍTULO XXI Prima Justina Na varanda achei prima Justina. Mil.

Passeamos alguns minutos na varanda. – José Dias? concluí. minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si. não peço. se ele gosta de ser padre. falando do seminário? E os discursos que ele faz.” É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. e aquela afetação. e dizendo-lhe eu que não. porque ele é tão religioso como este lampião. a ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha. Agora. como eu quisesse ir para dentro. disse: – Prima Justina. tudo com aquelas palavras que só ele conhece. Você ainda era pequenino. – Mas falou à toa? perguntei.. bem. e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução.. eu penso que.. ou só conhecidas. mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre. – Naturalmente. há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça. você que acha?”. fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer. e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu.de minha mãe. que não se importa com isso. pode ir. Não contou. Hoje de tarde falou como você não imagina. como se não soubesse nada. se não gosta. falando do calor 20 . vá esquecendo a promessa. passados alguns instantes. um intrigante. ainda hoje. Respondi esquivo: – Vida de padre é muito bonita. e a vida de padre é isto e aquilo. não faço. Pois é verdade.. quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é. mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre. ir falar-lhe sem ser chamada. Enruguei a testa interrogativamente. Note que é só para fazer mal. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. e antes parenta que estranha. Novamente me recomendou que não me desse por achado. – Prima Glória deseja muito que você se ordene.. Eu. eu também não. só o tempo. Então. a minha resposta era: “Prima Glória. o melhor é ficar. prima Justina reteve-me alguns minutos. não.. apesar da casca de polidez. e não era pouco.. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe. Se ela me consultasse. Suponha que eu não gostasse de ser padre. inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de padre. – Sim... os elogios da Igreja. – Prima Glória pode ser que. a senhora podia pedir a mamãe. pedir outra coisa. e. um bajulador. – Isso não.. em passando os dias. a senhora era capaz de uma coisa? – De quê? – Era capaz de.. – Eu gosto do que mamãe quiser. mas ainda que não desejasse. mas também. e também por interesse. Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga. se ela me dissesse: “Prima Justina. é bonita. explicou rindo. prima Glória tem este negócio firme na cabeça. mas. nos ouvidos. Lá avivar-lhe a memória. e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias. atalhou prontamente. CAPÍTULO XXII Sensações Alheias Não alcancei mais nada. – Quem é? – Ora. Você não se dê por achado. alumiada por um lampião. zás que darás.. um grosseirão. um especulador. já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade.

Lia cantado e compassado. dos meus velhos oratórios. na varanda. a gravidade. escolha o lugar e diga-me. cheirar-me. que eram levemente grossas ou finas. Mais tarde. meio sério para dar autoridade à lição. Também se goza por influição dos lábios que narram. É certo que. disse-me ele: – Amanhã. afirmo desde já que é matéria grave e pura. creio isto. Quando não era com palavra. CAPÍTULO XXIII Prazo Dado – Preciso falar-lhe amanhã. sim. perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem 21 . CAPÍTULO XXIV De Mãe e de Servo José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. doutrina e história sagrada.. Aos oito anos os meus plurais careciam. você pode ir comigo. Entretanto. conforme o sexo dos interlocutores. no fim. dos meus sapatos. Não lhe pergunto o que é. pareciam apalpar-me. Só pensei nisso na cama. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias. disse-me José Dias. era com gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra. fazia reflexões eclesiásticas. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. que já a achava lindíssima. pedirei a mamãe. os costumes. ao contrário. insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. Creio antes.e da próxima festa da Conceição. Só então senti que os olhos de prima Justina. não creio que fossem ciúmes. disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. à porta de casa. e. na sala de visitas. quando o Padre Cabral me ensinava latim. gostar-me. mas as palavras o eram. meio risonho para obter o perdão da emenda.. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele. ele assistia às lições. sim. na rua. Não disse mal dela. fez-se pajem. e finalmente de Capitu. da desinência exata. da minha higiene e da minha prosódia. Ciúmes não podiam ser. Foi no corredor. Nos diálogos. tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. sem falta. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. e o não interrogar. Ao despedir-se de mim. não pedir.. Eu. modificou os elogios a Capitu. podemos apear-nos à porta do Passeio Público. e até lhe fez algumas críticas. alguma vez. quando eu falava. – Perfeitamente. se o receio me não fizesse discreto. Houve só uma alteração: minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé. Cuidava dos meus arranjos em casa. como era próprio da criança e do meu estilo habitual. não hesitar. Tenho umas compras que fazer. o trabalho para os seus. após algum tempo. e reproduziam com moderação a ternura e a cólera. José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava. ele a corrigia. A primeira coisa que conseguiu logo que comecei a andar fora foi dispensar-me o pajem. quando íamos para o chá.. Fez-se tudo o melhor possível. mas ainda assim. certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma nova situação. bradaria que era a mais bela criatura do mundo. dos meus livros. senhor. fazer o ofício de todos os sentidos. É dia de lição? – A lição foi hoje. – Até amanhã. Não importa. entramos no ônibus. os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. ia comigo à rua. Creio que José Dias achou desusado este meu falar. ouvir-me. alternava o som das vozes. ouvida por ela. como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos. o amor que tinha a minha mãe. – Sim. à tarde. e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. se é que também ela não desconfiava já.

disse eu depois de alguns instantes. me têm feito o favor de juízos altos. há dias. outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim. apesar daqueles olhos que o diabo lhe deu.. posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. como se riu. dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes. e ele tomando confiança. Durante algum tempo não pude dizer o resto. não é bonito que você ande com o Pádua na rua. ordene. CAPÍTULO XXV No Passeio Público Entramos no Passeio Público. apesar deles. Eu. possui a casa em que mora. – Pois que outra coisa.amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”. 22 . Não digo isto por ódio. disse finalmente. peço-lhe um favor. pelo contrário.. mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto. – Um favor? Mande. Tínhamos outra vez andado. como a prima Justina na véspera. mas eu não posso ser padre. José Dias tornou a perguntar o que era. não se lembra? – É verdade. para me dar ânimo. Pois. e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda.. mas ouça-me.. sacudia-me com brandura. era criança. afinal. falei do jardim: – Há muito tempo que não venho aqui. – Quando era mais jovem. subimos ao terraço.. Seguimos para o terraço. não há muito tempo. que é? – Mamãe. um dia... José Dias sorriu deliciosamente. que era pouco. Oh! a adulação! D. – Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo. mas que eu excedia a todos esses. Capitu. era um elogio. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo. nunca ouvi que falasse mal do senhor. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. disse ele a um sujeito.. para a minha idade. – Perdão. atalhou ele.. tem um bom emprego. Outros. ansioso também. ele podia passar por criado. Bentinho? – Neste caso. – Perdoe-me. Fortunata merece estima. – Mas eu andei algumas vezes. em minha presença. de melhor sangue. poderia passar. dos meus sapatos acalcanhados. nem porque ele fale mal de mim e se ria. e olhamos para o mar. era natural. – Mamãe quê? Que é que tem mamãe? – Mamãe quer que eu seja padre. – Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício. Andando. talvez um ano. mas foi tão de passagem. interrompi suspendendo o passo. não pode gostar disto. se não fosse a vaidade e a adulação.. possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Mas você está ficando moço. depois replicou: – Não lhe agradeço nada. A gente Pádua não é de todo má. e ela. sem contar que. D. não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua. mas honestidade e estima não bastam. que o senhor era “um homem de capacidade e sabia falar como um deputado nas câmaras”. Glória. que é boa como a mãe de Deus. e vinha de cor. já que falamos nisto. Algumas caras velhas. Pádua tem uma tendência para gente reles. e ele não nego que seja honesto. consentiu. gostava do elogio.

não. vou para São Paulo. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias: – Mas que posso eu fazer? perguntou. não quer ser 23 . Olhe. – Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu. trabalharei com alma. Realmente.. O senhor sabe que. Não prometo vencer. atrás da porta. como pode parecer do texto. José Dias ouvira-o espantado. Não obstante. Quando pudesse. Estou por tudo o que ela quiser. como parece. CAPÍTULO XXVI As Leis São Belas Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia. nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. Padre. mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda. por mais acanhada que fosse. Calou-se alguns instantes. até cocheiro de ônibus. mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão: – Conto com o senhor para salvar-me. ainda é tempo. rompesse a chamar-lhe mentiroso. continuei eu.” Timidez não é tão ruim moeda. e uma ação valia outra. Não contava certamente com a resistência. não posso ser padre. – Em que lhe posso valer.José Dias endireitou-se pasmado. Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais. preciso meter Bentinho no seminário.. não menos pasmado que ele. seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo.. Toda a cara dele era pouca para a estupefação. Tenho conhecido famílias distintas. – São bondades.. a ambição e o sonho de longos anos. Se eu fosse destemido. a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova. eu próprio não me conhecia. enfiado naturalmente. ele voltara os seus para o lado da barra. para lhe provar que não há falta de vontade. estou pronto a ser o que for do seu agrado. anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é. Todo esse discurso não me saiu assim. se o senhor quiser. – uma idéia que o alegrou extraordinariamente. em nossa casa. mas aos pedaços.. José Dias ficou aturdido. todos o apreciam. é tarde. Como insistisse: – É tarde. não tenho jeito. como eu. que merecem tudo. Estou pronto para tudo. – é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço. Sua mãe é uma santa. – Pode muito. por quê? porque são ilustres e virtuosas. mas é só um. peremptório. Mamãe pede muita vez os seus conselhos. irei falar a sua mãe. em voz um pouco surda e tímida. A carreira é bonita mas não é para mim. não é por vadiação. São favores de pessoas dignas. se ela quiser que eu estude leis. não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento. mas lutar. – Há de ter também o de proteger os amigos. e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. Contentei-me de responder que não era tarde. se não servi-lo? Que desejo. se não que seja feliz. com a indignação que experimentei. Deveras. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. mas. é provável que. – Não posso. Os olhos do agregado escancararam-se. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho. mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta. eu tinha os olhos nele. disse ele. além de promessa. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias. retorquiu lisonjeado. – Não é tarde. as sobrancelhas arquearam-se. não gosto da vida de padre. de vez. como merece? – Pois ainda é tempo. mastigado..

fale também a seu tio. – Hei de falar. Peça-lhe a sua felicidade. pelo homem dobradiço e inquieto. que eu não faço outra coisa. a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus desejos. meu devoto! – Chamo-me Bento... No ar. estamos a bordo. – Pegue-se também com Deus.. Depois de lhe responder que sim. por mais que louvasse os ares e as belezas. Deus é dono de tudo. ele é. ou ainda mais longe. sem desfazer da teologia.. recitava monólogos em verso. como a vida eclesiástica é a mais santa. Mexia-se todo. a Pernambuco. se tal é a sua vocação. eu pedi-lhe que rogasse a Deus por mim. e andar com você de um lado para outro. meu querido. Bentinho.. mas pedir não é alcançar. e desciam a roçar os pés na água. Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo. não quererá guiar os negócios. concluiu apontando para o céu. Uma vez que você não pode ser padre. – Estamos a bordo. oh! a Europa.. – com Deus e a Virgem Santíssima. As leis são belas. só por si. José Dias passou adiante. pede a mamãe que me não meta no seminário? – Pedir. Não contava com esta possibilidade de ir comigo. ainda que possa e vá. ouviremos inglês. – Não blasfeme. matrículas. se vontade de servir é poder de mandar.. mas eu pensei em Capitu e no seminário. peço. viaja.. CAPÍTULO XXVIII Na Rua José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves. Há boas universidades por esse mundo fora. – Sim. falava dela muitas vezes... Oh! as leis são belíssimas! – Está dito.. francês. mas não conte só comigo. avoaçando ou pairando.padre? As leis são belas. Levantou a perna e fez uma pirueta. D. que é melhor que tudo. sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme. perto da praia. fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz de teatro. estamos a bordo! CAPÍTULO XXVII Ao Portão Ao portão do Passeio. o passado. nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor. espanhol. e prefere as leis. Ah! você não imagina o que é a Europa.. e cuidar de hospedarias. como era na rua. acrescentei para esclarecê-lo. o presente e o futuro. Anjo do meu coração. russo e até sueco. O céu estava meio enfarruscado. estamos aqui. papéis. Vou falar a D. Uma das suas ambições era tornar à Europa. tirei dois vinténs do bolso e dei-os ao mendigo. e tornavam a erguer-se para descer novamente. Vá para as leis. Podemos ir juntos. Fez os recados todos. Glória... pagou contas. um mendigo estendeu-nos a mão. a terra e o céu. italiano. grandes pássaros negros faziam giros. Este beijou a moeda. Contava-me o enredo de algumas peças. emendei-me: – Deus fará o que o senhor quiser. Mas nem as sombras do céu. falava de tudo. Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade. 24 . e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos. Pode ir a São Paulo. veremos as terras estrangeiras. e ao mesmo tempo que estuda.

os sonhos são muita vez confusos. é o Imperador! é o Imperador! Toda a gente chegava às janelas para vê-lo passar. que vinha da Escola de Medicina. nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Quando tornei ao meu lugar. – pedia a minha mãe que me não fizesse padre. Glória! Que será? Que não será?” A nossa família saía a recebê-lo. CAPÍTULO XXIX O Imperador Em caminho. eu beijava-lhe a mão. mande-o para a nossa Escola. minha mãe era a primeira que lhe beijava a mão. Tudo isso vi e ouvi. todo risonho. Faça isso por mim. o homem teso rendeu o flexível. e passou a falar pausado. digamos minutos. – e ela.. para si comprou um vigésimo de loteria. mamãe cede”. encontramos o Imperador. conhecer as moléstias. CAPÍTULO XXX O Santíssimo 25 .. é uma bonita carreira. com superlativos. e saía. Sua Majestade manda.. até que o coche imperial passasse. como todos os veículos. com lágrimas. e entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos. a rua cheia de gente. dizendo ainda: “A medicina. – Quero. combatê-las. “Sua Majestade pedindo. – por que lhe não manda ensinar medicina? – Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade. prometia que não. pensei comigo. que podem ombrear com os melhores de outras terras. meu filho. mas não passava. É uma bonita carreira. Afinal.. O ônibus em que íamos parou. – A medicina. Bentinho? – Mamãe querendo. os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu. Não vi que a mudança era natural. o Imperador entrava no coche. a idéia de ir ter com o Imperador.recebeu aluguéis de casa. – Mande ensinar-lhe medicina. Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar.. até entrarmos no ônibus. Vi então o Imperador escutando-me. o Imperador apeava-se e entrava. A medicina é uma grande ciência. e ele não tinha cuidado em si. basta só isto de dar a saúde aos outros. e nós temos aqui bons professores.” E o coche partia entre invejas e agradecimentos. acompanhado de todos nós. que iria falar a minha mãe. inclinava-se e fazia um gesto de adeus. Grande alvoroço na vizinhança: “O Imperador entrou em casa de D. a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados.. a nossa Escola. Não confiaria esta idéia a Capitu. temi que houvesse mudado a resolução assentada. até que ouvi os batedores e o piquete de cavalaria. sem entrar na sala ou entrando. Não. Consolei-me por instantes. – não me lembra bem.. o coche parava à nossa porta. mas a doença era fatal. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. à espera. as janelas atopetadas. E logo me achei em casa. Então o Imperador. contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Seu marido morreu. vencê-las. A senhora mesma há de ter visto milagres. Já temos médicos de primeira ordem. refletindo e acabando por dizer que sim. sim? Você quer. um silêncio de assombro. até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros. trazia uma idéia fantástica. lisonjeada e obediente..

outra vez a interinidade interrompida. Leve uma tocha. Já havia algumas pessoas na sacristia. como José Dias. com as duas varas da frente. que se ajoelhavam. Deu conosco. Quando me vi com uma das varas. que me conhecia de me ver ali com minha mãe. Era a primeira vez que me achava em momento tão grave. que.. o sacristão de hissope e campainha nas mãos. veio cumprimentar-nos. Ouço um sino. muito mar e muito tempo. mas a Europa. Assim fez. Era muito longe. passando pelos fiéis. para tocha qualquer pessoa servia. teimava em querer a vara. era o meu vizinho Pádua. que também ia acompanhar o Santíssimo. e o homem desceu. É uma metáfora. Depois. tochas distribuídas e acesas. mas vai sê-lo. tudo isto em voz baixa e surda. como as tochas. Pádua solicitava ao sacristão uma das varas do pálio. quis ceder-lhe a vara. – Bem. disse alguém no ônibus. cedo ao nosso Bentinho. Era pôr à prova o coração de um pai. saiu o préstito à rua. E nada! E tornava à tocha comum. pedia-a para mim. eu já cá estava. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja. Pádua. o agregado tolheu-me esse ato de generosidade. mas José Dias transtornou ainda esta combinação. tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que cedesse a vara ao Pádua. fiquei comovido. conhecido na paróquia. o ônibus parou. aos domingos. baixinho. fiquei zangado. disse o sacristão. apesar do aviso.. olhando para o padre. eu fiz a mesma coisa. A distinção especial do pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento. mas logo depois satisfeito. creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu. lembrou-me que ele costumava acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos. suspirou o pai de Capitu. rompendo a marcha do pálio.. “jovem seminarista”. e apenas lhe respondeu com uma palavra seca. Não. O sacristão. Quis ceder-lhe a vara. tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. apesar do medo que tinha ao outro. Pare. padre e cibório prontos. mas que a última vez conseguira uma vara do pálio. Quando o sacristão começou a distribuir as opas. Pádua roía a tocha amargamente. José Dias fez um gesto de aborrecido. tecem-se pelo desenho das nossas inclinações e das nossas recordações.Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de Janeiro. – Pois essa. Pádua ficou pálido. – Há só uma disponível. menos pela caridade do serviço que por me dar um ofício de homem. aventurou Pádua. Iríamos também acompanhar o Santíssimo. obedeci. que lavava as mãos. a quem esta distinção cabia mais diretamente. levando uma tocha. Opas enfiadas. – Pediu primeiro. senhor recebedor! O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do cocheiro. não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a 26 . aproximou-se dele. respondeu José Dias. – Ainda não. é. José Dias deu duas voltas rápidas à cabeça. disse José Dias. Vá que fosse para São Paulo. o administrador regressava ao antigo cargo. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto. o sino chamava os fiéis àquele serviço da última hora. entrou um sujeito esbaforido. perguntou de curioso se eu era deveras seminarista. era a segunda vez do pálio. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos. piscando o olho esquerdo para mim. retorquiu José Dias. pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Efetivamente. a princípio constrangido. a ele e a mim. – Parece que vai sair o Santíssimo. como Pádua falasse ao sacristão. mas entrou tarde. Pela minha parte. cheio de uma glória pia e risonha. – Mas eu tinha pedido primeiro. José Dias pediu uma para si.. O sacristão achou meio de conciliar a rivalidade. e pediu ao sacristão que nos pusesse. uma vez que tínhamos outra vara disponível.

erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. CAPÍTULO XXXI Curiosidades de Capitu Capitu preferia tudo ao seminário. doeu-me mais. complicada da lembrança de minha mãe. deixemos o Imperador sossegado. Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação. rotulava e pregava na memória a minha exposição. falar-me. tísica. não acabava de se consolar da tocha. A enferma era uma senhora viúva. mostrou-se satisfeita. e a minha imaginação. na Rua do Senado. senti um ímpeto de soluçar também. talvez nem tivesse graça. felizmente a casa era perto. a narração e o diálogo. Apesar de substituído por mim. Via-se que caminhavam com honra. enfiei pelo corredor. Pedia o som das palavras. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. Demais. não pude mirá-lo por muito tempo. ia mais humilhado. Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? – Não marcou dia. de uma doçura que me embriagou. prometeu que ia ver. Capitu era Capitu. tudo parecia remoer consigo. quando enfim pensei em Capitu. com os braços no ar. E contudo havia outros que também traziam tocha. os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja. ao contrário. mas também não iam tristes. e. Também se pode dizer que conferia. não iam garridos. senti-me cansado. tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos. assim como lhe atribuía lágrimas. ouvi distintamente o meu nome. o sol cá fora. Era o momento da saída. da miserável tocha. os braços caíam-me. Pádua. uma criatura mui particular. era alguma coisa contrária à morte. Bentinho. há pouco. e não vejo outra mais que bodas. em voz baixa: – Não ria assim! Fiquei sério depressa. paralelamente a mim. e apenas mostravam a compostura do ato. fiquemos por ora com a promessa de José Dias. as alterações do gesto e até a pirueta.. Era minuciosa e atenta. Vim para perto de uma janela. O vigário confessou a doente. De resto. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial: – Não. que.. Com pouco. tinham-me ares de um lustre nupcial. nem ao agregado. e me disse ao ouvido. as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. 27 . o total falava e cativava o coração. – o peso da vara era mui pequeno. o que fazia a distância menor. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim. que apenas lhe contara. tão lúgubres na ocasião. Peguei da minha vara. via-a escrever no muro. e agora voltávamos para a igreja.humilhação do meu vizinho. e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. Se ainda o não disse. Esta imagem é porventura melhor que a outra. assim lhe encheu a boca de riso agora. deu-lhe a comunhão e os santos óleos. mas a ótima delas é nenhuma. se vingasse a idéia da Europa. e ouvi alguém dizer-me: – Não chore assim! A imagem de Capitu ia comigo. como já conhecia a distância. a animação da rua. que estava chorando à porta do quarto. replicou. tudo me enchia a alma de lepidez nova. e a voz dela. As tochas acesas. e. e que me pegasse com Deus. Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado. Não obstante. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma. Que era lustre nupcial? Não sei. aí fica. andar à volta. isto é. os cabelos caíam despenteados. mais mulher do que eu era homem. que falaria logo que pudesse. A moça não era formosa.

não aprendeu. umas graves. escrever e contar. não sei se diga com amor. estou que aprenderia facilmente pintura. O agregado disse-lho sumariamente. como aprendeu música mais tarde. Brute? Capitu não achava bonito o perfil de César. assim úteis como inúteis. disseram-lho. onde. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade. das pessoas. copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora está comigo. Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. demorando-se um pouco mais em César. e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Nascera muito depois daquelas festas célebres. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. Um dia. mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas. A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo. mas não foi adiante. quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo. à força de repetição. um diadema e brincos. francês. Já então namorava o piano da nossa casa. Ainda assim. Mas. com atenção. depois de lho propor gracejando.Se disse. doutrina e obras de agulha. com o de meu pai. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões dos bailes. Era também mais curiosa. folheava os nossos livros de gravuras. velho traste inútil. fica também. mobílias 28 . Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Em compensação. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre. Lia os nossos romances. o lugar. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as jóias do retrato. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de erudito. tinha um grande colar. Era o de meu pai. como eu. não tendo ela rudimento algum da arte. Capitu. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércios! – E quanto valia cada sestércio? José Dias. e havendo feito aquilo de memória em poucos minutos. das campanhas. ao contrário. com exclamações e latins: – César! Júlio César! Grande homem! Tu quoque. – Oh! conte-me as festas da Coroação! Sabia já o que os pais lhe haviam dito. achei que era obra de muito merecimento. mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. aprendera a ler. não tendo presente o valor do sestércio. – Quando é que botou estas? – Foi pelas festas da Coroação. Capitu. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor. acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Perfeição não era. referia-se ao que estava na sala. apenas de estimação. e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. dizia-lhe ele. e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. a fazer renda. descontai-me a idade e a simpatia. por exemplo. quis que prima Justina lho ensinasse. dava os últimos rasgos. – Anda apanhar um capotinho. a história. respondeu entusiasmado: – É o maior homem da história! A pérola de César acendia os olhos de Capitu. os olhos saíram esbugalhados. outras frívolas. Eram de vária espécie. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato. Capitu obedecia e jogava com facilidade. explicáveis e inexplicáveis. – São jóias viúvas. gostava de saber tudo. desde os sete anos. Tio Cosme ensinou-lhe gamão. As curiosidades de Capitu dão para um capítulo. teimou um dia em saber o que fora este acontecimento. No colégio. por isso mesmo. querendo saber das ruínas. o nome.

– Mas então quando fala? – Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto. como a vaga que se retira da praia. – Que tem. nos dias de ressaca. aos cabelos espalhados pelos ombros. CAPÍTULO XXXII Olhos de Ressaca Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. eu nada achei extraordinário.. se nunca os vira.. Tinham-me lembrado a definição que José Dias dera deles. penteando o cabelo. É o que contarei no outro capítulo. que estava no quintal. dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu.. argolinha de latão. – Está na sala. Olhos de ressaca? Vá. um toque.. Depois. pente. Se não foi ele. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento. – Você jura? – Juro! Deixe ver os olhos. no qual não sei se aprendeu ou ensinou. Capitu deixou-se fitar e examinar. cabelos. respondi. É o que me dá idéia daquela feição nova. José Dias ainda não falou? – Parece que não. alfaias velhas. acho que fará tudo. crescidos e sombrios. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita. Eu não sabia o que era oblíqua. Retórica dos namorados.. 29 . nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha. entre as duas janelas. porém. agarrei-me às outras partes vizinhas.. imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto. a verdade é que.. ou se fez ambas as coisas. uma força que arrastava para dentro. de ressaca. Como passou a noite? – Eu bem. e queria ver se se podiam chamar assim. Fui devagar. fui ver a minha amiga. mas tão depressa buscava as pupilas. Ele é atendido. não vai logo de pancada. não se lhe falaria. notícias de Itaguaí. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto. passados alguns dias do ajuste com o agregado. “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Neste direi somente que. moldura tosca.. o que eles foram e me fizeram. foi o pé. enfiados neles. Um ou outro. a cor e a doçura eram minhas conhecidas. vá devagarzinho para lhe pregar um susto. um dito aqui. se sentir que você realmente não quer ser padre.. sem quebra da dignidade do estilo.antigas. Só me perguntava o que era. falará assim por alto e por longe. porém. aos braços. e de todo. constantes. com tal expressão que.. pendente da parede. uma lembrança dali. disse-me. D. – Teimo. com os meus olhos longos. apenas entrei na sala. a infância e a mocidade de minha mãe. mas poderá alcançar?. era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza). entrará em matéria. um adágio dacolá. Fortunata. E se não fosse preciso alguém para vencer já. É um inferno isto! Você teime com ele. comprado a um mascate italiano. e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos. tem. Bentinho. mas dissimulada sabia. hoje mesmo ele há de falar. mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Caso houve. Para não ser arrastado. Não me acode imagem capaz de dizer. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. se. toda ela voou pelos ares. e só lhe ouvi esta pergunta: – Há alguma coisa? – Não há nada. eram dez horas da manhã. como eu. costumes. às orelhas. interrompeu Capitu. vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. Capitu. Este pode ser que não fosse.

desgraçado leitor. achatando ali. mas ainda que fosse da mesma altura. uni-as por um laço. mas então com as mãos. mas. Peguei-lhe dos cabelos. acabei as duas tranças. que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era uma nadinha mais alta que eu. Juntei as pontas das tranças.a onda que saía delas vinha crescendo. digamos somente uma criatura amada. CAPÍTULO XXXIII Penteado Capitu deu-me as costas. de costas para mim. mas devagar. um triste pedaço de fita enxovalhada. O trabalho era atrapalhado. colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente. até que exclamei: – Pronto! – Estará bom? – Veja no espelho. e dividi-os em duas porções iguais. você desembaraça depois. a tal ponto que me foi 30 . Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa. Enfim. mas eu não estou aqui para emendar poetas.. Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. para compor as duas tranças. outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos. devagarinho. voltando-se para o espelhinho. A eternidade tem as suas pêndulas. Capitu derreou a cabeça. e disse-lhe. risquei Tétis. – Vamos ver. – para dizer alguma coisa. porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita. falando dos seus olhos de ressaca. assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. – que era capaz de os pentear. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos. Se isto vos parecer enfático. e a sensação era um deleite. retoquei a obra alargando aqui. ameaçando envolver-me. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. Continuei a alisar os cabelos. nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa. – Vai embaraçar-me o cabelo todo. às vezes por desazo. risquemos ninfa. – Senta aqui. cava e escura. enfim. saboreando pelo tato aqueles fios grossos. Sentou-se. por mais que eu os quisesse intermináveis. Estou para contar que. Ainda há pouco.. nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Pedi-lhe que se sentasse. com muito cuidado. é que nunca penteastes uma pequena. que eram parte dela. desde a testa até as últimas pontas. isso sim. agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu. os cabelos iam acabando. tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. – Se embaraçar. nem assim depressa. Este outro suplício escapou ao divino Dante. cheguei a escrever Tétis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora. como podem supor os cabeleireiros de ofício. palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Não as fiz logo. ao cabo de um tempo não marcado. é melhor. Mas. – Você? – Eu mesmo. “Vamos ver o grande cabeleireiro”. puxarme e tragar-me. se quisesse. Em vez de ir ao espelho. disse-me rindo. que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada.

Fortunata chamou-lhe tonta. chamei algumas palavras cá de dentro. e ficamos assim a olhar um para o outro. Andando. Ora. o espaldar da cadeira era baixo.. rápida. E todas as palavras recolheram-se ao coração. mas nem esta razão a moveu. era D. despedi-me e enfiei pelo corredor.. CAPÍTULO XXXIV Sou Homem! Ouvimos passos no corredor..preciso acudir com as mãos e ampará-la. não era nada. por menos que as emoções o dominem. mas de atropelo. ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. um simples artigo. Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado. não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas. por mais que investissem com força. maluquices da filha. o Padre Cabral estava à minha espera. mamãe? Isto? redargüiu Capitu. E tornava a mim. Depois. Era uma saída. ouvia algum som de fora. e elas acudiram de pronto.. peguei dos livros. pediu-me para acabar o penteado. mas trocados. Quando eles me clarearam. tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas que me rodeavam. – O que. Uma exclamação. olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. Nenhum laivo amarelo. leitor precoce. sentei-me na cama. Tinha estremeções. e. Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos. Veja que tranças! – Que tem? acudiu a mãe. Vendo-me calado. Pedi-lhe que levantasse a cabeça. Olhava com ternura para mim e para ela. ela abanava a cabeça e ria. pegou do pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear. atordoado. enfiado. – Levanta. um riso espontâneo e claro. murmurando: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo. podia ficar tonta. e fez isto. os olhos escuros. quando a mãe apontou à porta. Capitu! Não quis. apanhados pela mãe. Não me atrevi a dizer nada. até que ela abrochou os lábios. Inclinei-me depois sobre ela. eu desci os meus. vi que Capitu tinha os seus no chão. éramos dois e contrários. não levantou a cabeça. faltava-me língua. e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. Está muito bem. e sorriu por dissimulação. Preso. achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado. tão depressa que. D. e logo perdia tudo para sentir somente os 31 . transbordando de benevolência.. Cheguei a dizer-lhe que estava feia. ouvi que a mãe censurava as maneiras da filha. parece-me que desconfiou. cosido à parede.. Corri ao meu quarto. desfazendo as tranças. Grande foi a sensação do beijo. Fortunata tirou-me daquela hesitação. Não mofes dos meus quinze anos. rosto a rosto. ainda que quisesse.. Fortunata. e disse-me que não fizesse caso. machucar o pescoço.” Assim. não logravam romper de dentro. vago. D. que ela explicou por estas palavras alegres: – Mamãe. próximo ou remoto. Com dezessete. eu recuei até a parede com uma espécie de vertigem. Capitu ergueu-se. mamãe! E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim. para viver não sei onde nem como. e via a cama. Capitu compôs-se depressa. os olhos de um na linha da boca do outro. recordando o penteado e o resto. nenhuma contração de acanhamento. o chão. as paredes.. mas não passei à sala da lição. os livros. sem fala. mas a filha não dizia nada.

bispos. não eram a carne e o sangue dela. apertadas. como que fundidas. há em cada adolescente um mundo encoberto. De repente. ouvi vozes alegres. acostumados a cônegos.. e corri à porta da alcova. sem querer. é o passar e repassar das memórias antigas. de vária espécie. ninguém ralhou comigo. a mais compreensiva. com efeito. mas as honras dele. foi ter com ele. repeti que era homem. outra promessa em aberto e outro favor pendente. Não corri precisamente. advertindo que devia ser muito tarde. era demasiado comprido. a recordação era menor que esta. O gosto que isto me deu foi enorme. Podiam ser mentira ou ilusão. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares. Cabral ouvia com gosto a repetição do título. Grande homem que fosse.. um pesadelo extinto. todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. a que inteiramente me revelou a mim mesmo. Outras tenho. Sendo verdade. um mal abortado. eram os ossos da verdade. O sangue era da mesma opinião. e unindo-se uns aos outros. igualmente esticados para os dela. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência. fui andando. nada disso valeu a sensação do beijo. alegar uma vertigem que me houvesse deitado ao chão. Voltei para dentro e. Sentia-os estirados. Bentinho. núncios. Estava em pé. pensei no seminário. muitas intelectuais. – Sou homem! Quando repeti isto. por decreto pontifício. e repetia: – Protonotário apostólico! E voltando-se para mim: – Prepara-te. Esta distinção do Papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. saiu-me da boca esta palavra de orgulho: – Sou homem! Supus que me tivessem ouvido. Colombo não o teve maior. monsenhores. Fiz outros achados mais tarde. tu podes vir a ser protonotário apostólico. vastas e numerosas. peguei dos livros e corri à lição. As próprias mãos. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. Ora. esta segunda 32 . e internúncios. e perdoai a banalidade em favor do cabimento. Não. era a primeira vez que ele soava aos nossos ouvidos. como vistes. conversavam ruidosamente. porque a palavra saiu em voz alta. CAPÍTULO XXXV Protonotário Apostólico Enfim. mas como se pensa em perigo que passou. tocadas. sorria ou tamborilava na tampa da boceta. a vista dos nossos nomes abertos por ela no muro do quintal deu-me grande abalo. porém. baixinho. de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta. acabava de ser nomeado protonotário apostólico. doces também. mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. sem pensar. a mais nova. nenhum me deslumbrou tanto. a lição do velho coqueiro também. vamos ver. O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio. posto que. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos. descobrindo a América. igualmente intensas. Tive idéia de mentir.. A denúncia de José Dias alvoroçara-me. Quando entrei na sala. um almirante e um sol de outubro.beiços de Capitu. mas a saudade é isto mesmo. pela terceira vez. a meio caminho parei. tinha. embaixo dos meus. não podiam dizer tudo. e podiam ler-me no semblante alguma coisa.. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltareta. dava alguns passos. e soube que. para ligá-lo ao nome. mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria. Não havia ninguém fora. Outra vez senti os beiços de Capitu.

e até com latim. que continuava a refletir. a fim de se lhe fazer uma saúde. como para acostumar os ouvidos da família. não sei bem. se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. senhor protonotário. grandes esperanças da Itália. Era o que melhor podia fazer. ainda que não venha a ser padre. mas estimava o fino e o raro. Protonotário Cabral. Era muita felicidade para uma só hora. – Justamente. Mas a vontade aqui foi antes uma idéia. a semente lançada à terra. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da própria glória. uma idéia sem língua. atos públicos. Eu. tal como daí a pouco outras idéias. – Não. era menos pobre que a dele.. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou algum tempo da minha ordenação eclesiástica. sacudindo a barriga. basta protonotário. Assim. Era um velho magro. Minha mãe sorriu para mim. Era a primeira palavra. tudo marchetado do “Protonotário Santiago”. acentuou Cabral. os olhos com que aceitou seriam de protonotário. e acabou dando-me férias. – Agora. e fui-me outra vez a pensar na aventura da manhã. aplaudiu a distinção.reflexão foi tio Cosme que a fez. – não impede que nos casos de maior formalidade. mas era esta que o deslumbrava na ocasião. assentiram todos. mana Glória. sereno. chamou-me peralta. se era simples. ainda que sem grande interesse. CAPÍTULO XXXVI Idéia sem Pernas e Idéia sem Braços Deixei-os. Bateu-me na bochecha paternalmente. não propriamente glutão. mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe. dotado de qualidades boas. a propósito. tem razão. que se deixou ficar quieta e muda. mas respondeu logo: – Há de ser padre. No uso comum. comia pouco. Mas essas pedem um capítulo especial. que entrou pouco depois de mim. – Protonotário Santiago. – acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título. Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo. – isto o obriga a ir a Roma? – Não. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo. mas José Dias corrigiu a alegria: – Não tem que festejar a vadiação. – Sim. mas ninguém pegou do assunto. – Protonotário Cabral. Justina. são só as honras. e a nossa cozinha. o latim sempre lhe há de ser preciso. cartas de cerimônia. cheia de amor e de tristeza. o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a tal título. – Não se esqueça. Subentendia-se apostólico.. e recordou. José Dias. o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. assim de passagem. os primeiros atos políticos de Pio IX. e protonotário também. etc. novamente pegou em mim. Protonotário apostólico. deu-me vontade de dizer um desaforo. Alguns defeitos tinha. sem latim. e oferecia-se a falar ao “senhor bispo”. entendi que devia cumprimentá-lo também. quando minha mãe lhe disse que viesse jantar. e queria saber se ia para o seminário agora. Ao cabo de cinco 33 . – Mas. observou minha mãe.. descrevendo o meu futuro eclesiástico. e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. Conheci aqui o meu homem. voltando a mim do receio. porque tio Cosme. a pretexto de brincar. não impede – disse Cabral. no ano próximo. e padre bonito. D. bastava que lhe chamassem o Protonotário Cabral. o mais excelso deles era ser guloso.

Contei-lhe também que o Padre Cabral falara da minha entrada no seminário. Peguei-lhe levemente na mão direita. nem é só nisso que os lances diferiam. mas ainda agora a ação não respondeu à intenção. Não imitava ninguém. que me ensinassem anedotas de amor. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma.. puxá-la. – Pode. Era ocasião de pegá-la. Penso que ameacei puxá-la a mim. bastaria cumprir o vers. mas para quê? – Papai naturalmente há de querer ir também. respondeu-me que não. oblíqua e dissimulada.. vamos. como eu era homem.º do cap. As mãos pararam. Muito depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. e fiquei assim pasmado e trêmulo. até que ela deixou inteiramente a costura. Então obedeceria ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios. ergueu-se e esperou-me. mas é melhor que ele vá à casa do padre. mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. Quando ali cheguei. Expliquei-lhe o motivo das férias. mas concluo que sim. sentada na marquesa. Era a idéia com mãos. mas ainda que eu conhecesse o texto. CAPÍTULO XXXVII A Alma É Cheia de Mistérios – Padre Cabral estava esperando há muito tempo? – Hoje não dei lição. depois de encravada a agulha no pano. agora fugia-me. II: “A sua mão esquerda se pôs já debaixo da minha cabeça. Certo é que Capitu recuou um pouco. Não conhecia a violação de Lucrécia. na mesma sala. é mais bonito. Era só executá-la. Idéia só! idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. que me tirou daquela situação. O riso animou-me. em minha casa. e outra vez me fugiram as palavras que trazia. ela derreou a cabeça.. Eu não. Não me olhou de rosto. desde manhã. entretanto. e acabou perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre. refazê-las e concluí-las daquela maneira particular. Quis puxar as de Capitu. à tarde. que não sei se não continuaria parado. que tinha inertes. Não juro. desfazer-lhe as tranças. para obrigá-la a vir atrás delas. Capitu refletiu algum tempo. em outro ponto. dando-me o ósculo da sua boca.” Vedes aí a cronologia dos gestos. lembrou-me ir correndo à casa vizinha. e a sua mão direita me abraçará depois. era mulher. uma vez que. houve contraste. e disse dele coisas feias e duras. Não conhecia nada da Escritura. Fui ter com ela. não sabia que fizesse. achei-me forte e atrevido. agarrar Capitu. porque ela 34 . quis provar-lhe que era moça inteira. do lado oposto da mesa. É isto. cosendo em paz. dei com ela na sala. que já sou meia moça. Contudo. beijá-la. Não nego que o final do penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação amorosa. para dizer tudo. Achei-lhe graça e. começava a estar tão alvoroçado. e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa. mas a furto e a medo. depois na esquerda. não vivia com rapazes. Idéia só! idéia sem braços! Os meus ficaram caídos e mortos. é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar à língua mística do Cântico um sentido direto e natural. De manhã. A boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de aproximação. Assim gastamos alguns minutos compridos. 6. Foi ela.minutos. apoiando a resolução de minha mãe. Eu. tive férias. que não pude ter toda a consciência dos meus atos.. concluiu rindo. as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas. é isto.” E pelo que respeita aos braços. almofada no regaço. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. parecendo haver repetição. ou. se preferes a fraseologia do agregado. boca sobre boca. Se conhecesse.

não perdíamos a cautela necessária para não sermos ouvidos lá de dentro. em pé. porque apesar do ataque e da defesa. mas então foi a vez da boca. os dois lances de há quarenta anos. mas a cabeça não quis ceder também. Alegou susto. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim. colocou um dos pés adiante e o outro atrás. mas Capitu. Agora lutávamos com as mãos presas. fez um gesto inesperado. jantar. E coligindo os petrechos da costura. usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. inutilizava todos os meus esforços. é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe. quando a mãe deu conosco. e bastaria um pouco mais. vi que era mentira e fiquei com inveja. perguntava em voz alta: – Mas. Ficamos naquela luta. até que cansou. papai chegou! CAPÍTULO XXXIX A Vocação 35 . e quis saber por que a filha falava em protonotário apostólico. como a recolhê-la. enfiou pelo corredor. que sabia tudo. entrou na sala de visitas.recuou e quis tirar as mãos das minhas. Bentinho. O busto afinal cansou e cedeu. vivam! exclamou o pai. e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o padre em casa dele. cheguei a tentá-lo. demais. sem estrépito. Foi logo falar ao pai. CAPÍTULO XXXVIII Que Susto. talvez por não poder recuar mais. de costas para mim. a cabeça continuou a recuar. vindo pelo interior. era outro. e deu à cara um ar meio enfiado. A minha persuasão é que o coração não lhe batia mais nem menos. a alma é cheia de mistérios. indo para um lado. Agora sei que a puxava. que apertou a minha mão. uma vez que confesso tudo. Não conhecendo a lição do Cântico. mas eu. pensei nisso. que me resistia agora. bradando infantilmente: – Mamãe. como usava às vezes: “Abre. meu Deus! Agora é que o lance é o mesmo. e. inclinada sobre a costura. Capitu. e Capitu. a alma é cheia de mistérios. quando eu a buscava do outro oposto. digo aqui que não tive tempo de soltar as mãos da minha amiga. porque eu já fazia esforços. que voltava da repartição um pouco mais cedo.. antes que o pai acabasse de entrar. depois. em verdade. e o passo de D. Eu. Foi este gesto que me obrigou a reter-lhe as mãos com força. Repito. abre!” Aparentemente era o mesmo lance da manhã. No meio de uma situação que me atava a língua. Fortunata foi um aviso para que nos compuséssemos. ela iria à minha. Era o pai de Capitu. pousou a boca na minha boca. caída para trás. o pai não lhe meteu mais medo. mas se conto aqui. este gesto supõe um acordo de vontades.. Naquele desencontro estivemos. relativamente à minha. que é protonotário apostólico? – Ora. leitor amigo. Considerai que de manhã tudo estava acabado. Nanata! Capitu. aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão e fugir-me inteiramente. e fugiu com o busto. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso. mas só aparentemente. Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. e deu de vontade o que estava a recusar à força. Meu Deus! Quando Pádua. sem que ousasse um pouco mais. e nada estava sequer começado. era a mãe que abria. tais quais. – Que susto. não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da cabeça dela. Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno.

Como desse a este. pode-se ou não se pode? – Pode-se. tudo é que Deus o determine. essa cara é mesmo de quem vende saúde. olhando em volta de si. Um homem pode não ter gosto à Igreja e até persegui-la. A prova não provava. um parabém da flora universal. e que eu não mudava de vocação. todas as crianças do meu tempo eram devotas. para se desforrar da concorrência. veja São Paulo. Sem vocação é que não há bom padre. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta. suponha que não acontecia assim. traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. Mas. falou da minha vocação. quando ele acabou. Algumas matérias que é bom saber.Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. e em qualquer profissão liberal se serve a Deus. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado. mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina. cá fora. fez um pequeno discurso em honra “ao coração paternal e augustíssimo de Pio IX”. Capitu ia respondendo prontamente e bem. voltando-se para mim. mas o poder de Deus é soberano. – Homem. Não havendo vocação. e ele sai apóstolo. contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. e são sempre melhor ensinadas naquelas casas. muito obrigado. a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe. O alvoroço da primeira hora é melhor. disse tio Cosme. antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. teimou com meu pai para que eu me metesse no seminário. que acabei ordenandome. ele era da mesma 36 . o título de protonotário. – Não contesto. Padre Cabral retorquia: – A vocação é muito. E. cara morta. é a melhor. – Obrigado. Não me quero dar por modelo. deteve-se um instante à porta da sala. senhor. – Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre. esse estado de alma que vê na inclinação do arbusto. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre. o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário. José. que era manifesta. que se podia. O estado eclesiástico é perfeitíssimo. falo de vocação sincera e real. um jovem pode muito bem estudar as letras humanas. ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princípio dos tempos. – Você é um grande prosa. Trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. que também são úteis e honradas. Não entrou com a familiaridade do costume. – Perfeitamente. estimo que você goste também. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual. sem os seus superlativos. tocado do vento. Cabral acrescentou que o reitor de S. concluiu: – A vocação é tudo. Capitu. meu pai cedeu. e um dia a voz de Deus lhe fala. sem agradecimentos. mas vocação não é só do berço que se traz. E como vamos de rezas? A todas as perguntas. duas vezes em cinco minutos. e eu adorava os ofícios divinos. José Dias sorriu sem vexame. que era coadjutor de Santa Rita. Pois. e. – Pois então! exclamou José Dias triunfalmente. mas o que eu digo é outra coisa. tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos padres. meu padrinho. tinha o meu nascimento por milagre. Prima Justina interveio: – Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre? Padre Cabral respondeu que sim. José Dias. como todos devemos. os meus brinquedos foram sempre de igreja. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer. piscando-me o olho.

mas. que saía logo cavalo de Alexandre. se ela duvidar. foi noutro autor antigo. disse minha mãe. alguma coisa que não entendi bem nem mal. despediu-se. agarrado ao chão. D. também não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas conseqüências. e enfiei pelo corredor. é claro que o meu dever. Bentinho. Capitu. Não deixou minha mãe. e. mas Capitu não me apareceu. e confesso o nosso namoro. Capitu segredou-me que a escrava desconfiara. e ficássemos à vontade. – Não venha. disse-vos a desta casa do Engenho Novo. aliás. e preparou-se logo o voltarete do costume. chegueime a ela. a minha imaginação era uma grande égua ibera. Adeus... Neste particular. 37 . conto-lhe o que se passou outro dia. cosida às saias de minha mãe. e. – Mas eu queria dizer a você. Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala. Não obedeci. CAPÍTULO XL Uma Égua Ficando só. sozinhos. vou dizer a mamãe que não tenho vocação. Não me importou a recusa.opinião. dando comigo. abria-me uma porta de saída.. as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas. se acabasse. pregado. estacou e fez-me sinal que voltasse. “Sim. Capitu. refleti algum tempo. que cuidei simulada. rápida. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento.. e pôs o dedo na boca. em tom que ouvíssemos. senhor protonotário. eu sei o caminho. Uma preta. A imaginação foi a companheira de toda a minha existência. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica. – Adeus. todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo. é isto. esperando que ela fosse também. alguma vez tímida e amiga de empacar. entrar no quintal. Capitu que ia depressa. mas deixemos de metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. – Vai com ela.. Duas vezes fui à janela. decorou o principal. e. João da Costa. – Escuta! – Fica! Falava baixinho. eu deixei-me estar parado. até acabar o mundo. A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira. senão para ir embora. Minha mãe saiu da sala.. vendo-nos naquela atitude quase às escuras. o penteado e o resto. e despedir-me. pensei. não. que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. inquieta. Glória. descer à chácara. reproduzindo a de Matacavalos. amanhã falaremos. – Amanhã. Conteivos a da visita imperial. como vim a saber depois. no corredor. não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava. se não foi nele. e tive uma fantasia. Já conheceis as minhas fantasias. ao passo que me assustava. dar-lhe terceiro beijo. Vi entrar o Dr. riu de simpatia e murmurou. Novamente me intimou que ficasse e retirou-se. – Não precisa. seguir a vizinha corredor fora. não.. a menor brisa lhe dava um potro. o meu gosto. viva. perguntou se acompanhara Capitu. correndo. Eram ave-marias. pegou-me na mão. que veio de dentro acender o lampião do corredor. Digamos o caso simplesmente.” CAPÍTULO XLI A Audiência Secreta O resto fez-me ficar mais algum tempo.. pensando. e ia talvez contar às outras. acudiu ela rindo.

levou-me ao quarto dela. E quase investindo para ela: – Mamãe. se o estômago. José. e acabaria gostando de viver com eles. vens morar comigo. Vocação? Mas a vocação vem com o costume. Bentinho. numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é. – Vou. Nem por isso permitiu adiar a confidência. era só alguma ausência. muita vez. é melhor. mamãe assusta-se por tudo. não. quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las. e que eu confessei não sentir em mim. olhe. Como eu buscasse contestá-la. Quando te ordenares padre. depois quis repreender-me. quando José Dias te chamava Reverendíssimo. E depois. Enxuguei os olhos e o nariz. depois das férias.. mas estimei dizê-la. senhora. para mostrar que não tinha nada. conhece-se pela voz. depois replicou-me sem imposição nem autoridade. se a cabeça. e apalpava-me a testa para ver se tinha febre. não é coisa de cuidado. e eu tornei ao filho submisso que era. desviava as suspeitas de cima de Capitu. – Que é? Toda assustada. quando é que ia para o seminário. repreendeu-me sem aspereza. logo. Negou que fosse separação. é melhor depois do chá. senhora. como lhe dissera José Dias.– Não. – Não é moléstia? – Não. nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu.. mamãe.. quis saber o que é que me doía. para ficar? – Como ficar? – Não volto para casa? – Voltas aos sábados e pelas férias. – É. por fazer crer que ela era a minha única afeição. tu rias com tanto gosto! Como é que agora?. – Mas então que é? – É uma coisa. senhora.. por causa dos estudos. Então eu perguntei-lhe. para principiar. a meio caminho. Tentei rir. se o peito. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela tarde. não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu. mas creio que a voz lhe tremia. continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim. Não houve cálculo nesta palavra. mas tu estás constipado. – Eu só gosto de mamãe. com as suas batinas? Em casa.. escute. Depois. tão involuntária como a transpiração. nem por simples intuição era capaz de deduzir uma coisa de outra. – Não tenho nada. isso é volta de constipação. leitor amigo. – Mas tu gostavas tanto de ser padre.. Calou-se durante alguns instantes. Disfarças para não tomar suadouro. não. Ela afagou-me. mas com alguma força.. acendeu vela. ela foi só.. eu queria dizer-lhe uma coisa.. pegou em mim. Não creio. Por outro lado. Mas. e pareceu-me que tinha os olhos úmidos. ainda falou gravemente e lon- 38 . mas as contradições são deste mundo.. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres. o que me veio animando à resistência. e ordenou-me que lhe dissesse tudo. isto é. – Agora só para o ano. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora. Quantas intenções viciosas há assim que embarcam. Disse-lhe que também sentia a nossa separação. só os primeiros dias. disse ela. não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de S. anterior ao primeiro pecado. Não é nada mau.

você conhece muitos. – Se eu acendesse vela. mas não recuava dos seus propósitos. Paula e Sancha.. mamãe zangava-se. Vamos. saímos ambos. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando. Já estou boa. dizem. Antes de sair. Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava? – Talvez em sonho. não lhe hei de mentir nem faltar. esta de dezessete anos. a segunda de um comerciante de objetos americanos. que a havia de cumprir. não. Afirmou o principal. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem. em benefício dela e para bem da minha alma. – Também eu.. que ela emendou logo a palavra. Ficamos sós na sala. são coisas que não se fazem sem pecado. e aventurei-me a perguntar-lhe: – E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa? – Não. um tio meu também foi padre. logo que pude. respirava a custo. eu sei que seria castigada e bem castigada. Também eu lhe contei o que se dera comigo. e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse. que valesse tanto ou mais. a mãe contou-me que fora excesso de leitura na véspera. como prestes a estalar de cólera. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco atropeladamente. que vive tão feliz com a irmã. irás para o seminário. não me disse as circunstâncias. Vi que a emoção dela era outra vez grande. e escapou de ser bispo. quando acabei. as lágrimas dela. sabia muito bem que eu era amigo dela. Que faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega. mas é inútil. depois sombria. isto é. No seminário há interesse em conhecer-te. voltou-se para mim. Quisera um modo de pagar a dívida contraída.. antes e depois do chá. como o Padre Cabral.gamente sobre a promessa que fizera. Capitu confirmou a narração da mãe. nem os motivos dela. e por fim as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses iria para o seminário. e Deus que é grande e poderoso. e não achava nenhuma. salvando a tua existência.. não podia ser manha. é tarde. não me deixaria assim. não peço. mas conteve-se. trazia um lenço atado na cabeça. não. acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. não só para ti. meu filho.. que me deixasse de moleza. a entrevista com minha mãe. eu sonho às vezes com anjos e santos. – Nosso Senhor me acudiu. Capitu despedia-se de duas amigas que tinham ido visitá-la. na sala e na cama. companheiras de colégio. a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo. mas velada e esganada. manha. em pagamento a Deus. Bentinho. nem a ocasião. e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não seria padre. a primeira filha de um médico. vamos para a sala. e a voz não lhe saía clara. que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria. Este era já o seu desejo íntimo. Ser padre é bom e santo. Caminhou para a porta. Estás tonto. estava boa. à proporção que se aproximava o tempo. CAPÍTULO XLII Capitu Refletindo No dia seguinte fui à casa vizinha. as minhas súplicas. coisas que só vim a saber mais tarde. e com lamparina. Moleza é o que queria dizer. mas Capitu respondeu que não era preciso. outra moeda.. Bentinho. porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo. 39 . até muito depois da meia-noite. como para o Padre Cabral. aquela de quinze. Deixa de manha. Bentinho. é bonito. E como desatasse o lenço. Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos. Estava abatida.

é certo que receava perder Capitu. vi que não se mexia. enquanto que eu fitava deveras o chão. vaga e solta. Vendo-lhe o gesto. não pude atinar o que era. Caímos no canapé. e. pergunto se você tem medo. de brigar.. entenderia. cuido que os enxugou somente. para não amofiná-la. Sem saber de mim. Capitu.. a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Capitu tornou ao que era.. Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma. e por que. e não querendo interrogá-la novamente. nesta ocasião. e também por que é que seria preso. – Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitu fez um gesto de impaciência. – Medo de quê? – Medo de apanhar. ainda que demorado. Pois quem é que há de dar pancada ou prender você? Desculpe. entrei a cogitar donde me viriam pancadas. Quando tornei a olhar para Capitu. examinando bem. Capitu tornou cá fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha mãe. Minto. não entendo. – Não. e disse: – Medroso! – Eu? Mas. fitou em mim os olhos de ressaca. duas moscas andando e um pé de cadeira lascado. mas distraía-me da aflição. Capitu refletia. Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério. Não entendi. não precisava afligir-me. em todo caso. de andar. a verdade última. sorrindo. logo que a vi assim. mas doía-me vê-la padecer. CAPÍTULO XLIII Você Tem Medo? De repente. disse-me que estava brincando.. e perguntoume se tinha medo... atenuando o texto desta vez. o roído das fendas. a verdade das verdades. é que já me arrependia de haver falado a minha mãe. mas também eu precisava ser animado. ou se somente enxugou os olhos. e quem é que me havia de prender. De apanhar? – Sim. antes diminuir até as dimensões normais. refletia. e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. Se ela tem dito simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não.Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras. peguei-lhe na mão para animá-la. – Medo? – Sim. antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José Dias. se lhe morressem as esperanças todas. ela olhava para o chão. sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente. nenhum de nós tem vontade de brincar.. e ficamos a olhar para o ar. Também vi a presiganga. Agora.. e. quero brincar. de trabalhar.. Satisfi-la. cessando a reflexão. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube. você não está brincando.. bateu-me na cara. Não me chames dissimulado... refletia. de ser preso. Mas aquela pergunta assim. – Não é nada. e dar-lhes o movimento do costume. Fiz o mesmo. não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo. 40 . que eu hoje estou meia maluca. uma casa escura e infecta. chama-me compassivo. Era pouco. o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. Bentinho. – Mas. com um gesto cheio de graça.

Capitu. Ventava. deixa tudo.. com a mesma taquara. há de responder com o coração na mão. Não atinava com a razão do escrito. narizes e perfis. Quem. vozes vagas e confusas.. Desde que se metera a desenhar. não quero disfarce. sem levantar os olhos. levantou o olhar. – Contra a ordem de sua mãe? – Contra a ordem de mamãe. ninguém mais. deixa sua mãe. A solidão era completa. você vem? – Venho. a quem é que escolhia? – Eu? Fez-me sinal que sim. se você não vier logo. Fez o que disse. Capitu! Capitu teve um risinho descorado e incrédulo. mas entrou logo depois. Fortunata chegara uma vez à porta da casa. Como me lembrassem.. perguntou-me: – Diga-me uma coisa. ou somente este fenômeno 41 .. e atou o lenço outra vez na testa. na rua um tropel de bestas. mas eu pergunto. Ou que me mato de saudades. para me ver morrer? – Não fale em morrer. oblíquo e dissimulado. Nada mais. quando não falava. um tanto sumida.. – Não diga isso! – . tudo lhe servia de papel e lápis. mas. e sua mãe não quiser que você venha. Capitu olhou para mim. Era tão estranho tudo aquilo. deixe escrever uma coisa. foi só maluquice. mas não me lembrava nada. por mais que eu. mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias. se éramos sós? D. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer. era uma das suas diversões. acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena. do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Ao longe. como de um fato certo e definitivo. buscasse agora razões para animá-la. CAPÍTULO XLIV O Primeiro Filho – Dê cá. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. quis fazer o mesmo no chão. mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso. Tinha a cabeça vazia. que não achei resposta. como não atinava com a do falado. ainda aí nos detivemos por alguns minutos. e com a taquara escreveu uma palavra no chão.. inclinei-me e li: mentiroso. Não me ouviu ou não me atendeu. é possível que a escrevesse também. e pedi-lhe a taquara. com um pedaço de taquara. o céu estava coberto. – Pois sim. – Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe. os nossos nomes abertos por ela no muro. Capitu falou novamente da nossa separação. receoso disso mesmo. sentados sobre a borda do poço. – Que é? Diga. riscava no chão. – Como até logo? – Está-me voltando a dor de cabeça. – Eu escolhia. A voz. mas fale verdade. diga-me. Em seguida.– Tem razão. vou botar uma rodela de limão nas fontes. – Você deixa seminário. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. até logo.

prometo outra coisa. Ah! como eu sinto não ser poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela. saia-balão e babados grandes. uma moça que morou na Rua de Matacavalos. Carmo ou S. mas até me pareceu que repercutia no ar. para eu lhe dar a penitência e a absolvição. com a capa de ouro por cima.... continuei eu. disse. afinal de contas. Pensando bem. e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos. depois virão as roxas. CAPÍTULO XLV Abane a Cabeça.. – Não sabendo o que é. Francisco. cantando. a vida de padre não era má.” – Que morou? Você vai mudar-se? – Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia. – Ou Candelária. Hei de fazer um figurão. não há dúvida. tornando logo ao sarcasmo: E você no altar..Não. não ouviria o que ouvi... e o sangue correndo. é melhor cônego. e o furor na alma.. mas com uma condição. era pueril. contanto que eu ouça a missa nova. disse-lhe que. e antes não me chegasse a sair da boca. mas. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?” – “Aquela é D. e eu podia aceitá-la sem grande pena. O roxo é cor muito bonita. – Bem. metido na alva. Capitu. sim.curioso. – Olhe. mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas.. Logo depois fez descair os lábios. – A segunda.. até ao meu golpe final que foi este: – Pois. Tive então uma idéia ruim. e acrescentou que esperava a segunda. – Candelária também. – A falar verdade são duas coisas. A segunda é que. Pater noster. Promete-me que seja eu o padre que case você? – Que me case? disse ela um tanto comovida. Leitor 42 . e acabou por dizer: – Padre é bom. – A primeira é que só se há de confessar comigo. O que eu não quero perder é sua missa nova. a graça de um e a prontidão de outro.. – Duas? Diga quais são. leva muitos anos. que o nome escrito por ela não só me espiava do chão com gesto escarninho. disse ela vendo-me hesitar.. Como desforço. – Promete uma coisa? – Que é? – Diga se promete. disse-lhe eu mordendo os beiços. Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. – Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre. A igreja há de ser grande.. você ouvirá a minha missa nova. Qualquer serve. avise-me a tempo para fazer um vestido à moda. Capitolina. comece pelas meias pretas. – A primeira está prometida. seria esperar muito tempo... melhor que padre só cônego. Palavra que me custou. você não vai ser padre já amanhã. por haver-me acudido outra idéia. não prometo. Bentinho. por causa das meias roxas. sim.. Ao que ela respondeu: – Vossa Reverendíssima pode falar.. prometo que há de batizar o meu primeiro filho. e abanou a cabeça. é que. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos..

Capitu alegava a insônia. ela abaixou também a cabeça. como penso. A explicação agradou-me. Foi por causa do seminário? – Foi. e foi assim que nos pacificamos. sem devoção. sem crer por isso na veracidade do autor. disse eu finalmente. Outra vez D. Aquela ameaça de um primeiro filho. a não ser que fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia. a separação absoluta. mas nem me levantei. não tinha outra. portanto. e finalmente “os seus calundus”. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si. Foi assim mesmo que Capitu falou. a dor de cabeça. quando a senhora não quer falar a ninguém. que se dizem de tropel. CAPÍTULO XLVII “A Senhora Saiu” – Está bom. ela pegou-me na ponta dos dedos.. o abatimento do espírito. Percorreu-me um fluido. tudo isso produzia um tal efeito. se também foi grande. se nem me deixou tempo de puxar o braço. Capitu sorria. Não? Eu também não creio. mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus. depois de alguma hesitação. o casamento dela com outro. Se. que me deixei ficar. Para que bulir nisso? – Diga sempre. veio de mistura com uma sensação esquisita. o meu braço continuou a apertar a cintura da filha. mas.. se o tédio já o não obrigou a isso antes. não há nada mais exato.. CAPÍTULO XLVI As Pazes As pazes fizeram-se como a guerra. se o não fez antes e só agora. era a ternura da reconciliação... foi ela que as iniciou. Mas. que não achei palavra nem gesto.. Era amor puro.Abane a cabeça. Todavia. fiquei estúpido.. Buscasse eu neste livro a minha glória. Fortunata apareceu à porta da casa.. e diria que as negociações partiram de mim. faça todos os gestos de incredulidade. e a posição os fazia tão súplices. que era muito chorão por esse tempo. Podia ser um simples descargo de consciência. explique-me só uma coisa.. Há nessa cumplicidade um gosto particular. Capitu fitou-me uns olhos tão ternos. nem sei se iria. como as rezas de obrigação. depressa. o primeiro filho de Capitu. eu via o primeiro filho brincando no chão. como tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho. Alguns instantes depois. acabou. não sei para que. mas não. Chegue a deitar fora este livro. com se fosse a primeira boneca.. leitor. ouvi dizer que lá dão pancada. desapareceu logo.. por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? – Não foi por nada. uma cerimônia. Fiz-me de rogado. como eu estivesse cabisbaixo. sentia os olhos molhados. e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que “a senhora saiu”. fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página. Quanto ao meu espanto. o pecado em comum 43 . força é reconhecer que não podia dizê-la. tudo é possível. era efeito dos padecimentos da amiguinha.. Fosse o que fosse. e pedíamos reciprocamente perdão. a aniquilação. e. respondeu Capitu. a perda. Eu. Capitu não disse a verdade. depois quis levantar-me para ir embora. passei-lhe o braço pela cintura.

Realmente. não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas. mas dela. CAPÍTULO XLVIII Juramento do Poço – Não! exclamei de repente. no coração de Capitu. cumprirei o meu juramento. após tantas canseiras. melhor que a ama. Você pode achar outra moça que lhe queira. Eu nem já temia o seminário. Não afligíamos minha mãe. – Que eu case com outra? – Tudo pode ser. Capitu temia a nossa separação. Esta fórmula era melhor. foi tão alto que espantou a minha vizinha. Mas juremos por outro modo. CAPÍTULO XLIX Uma Vela aos Sábados Eis aqui como. Dizem que não estamos em idade de casar.. Éramos religiosos. disse ela. criançolas. mas dois ou três anos passam depressa. Não nos censures. ali ficamos. mas faço de conta que é um colégio qualquer. Bem. Podíamos acabar solteirões. Compreendeis a diferença. Esta reflexão não foi minha.. Basta isto? – Devia bastar. A verdade não saiu. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. não casando nunca. era mais que a eleição do cônjuge. começamos já a somar as nossas saudades. Capitu. juremos que nos havemos de casar um com outro. Ao contrário. juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. a fórmula anterior era limitada. Bentinho. As andorinhas vinham agora em sentido contrário. e até lhe vi as faces vermelhas de prazer. irei. E eu não desci triste nem zangado. não tomo ordens. tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. ficou em casa. – Se teimarem muito. e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. Jurou duas vezes e uma terceira: – Ainda que você case com outra. eu não me atrevo a pedir mais. e as costas com que elas descem. cochilando o seu arrependimento. e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. ou não seriam as mesmas. haja o que houver. Você jura uma coisa? Jura que só há de casar comigo? Capitu não hesitou em jurar. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião? – Mas eu também juro! Juro. – Não quê? Tinha havido alguns minutos de silêncio. Juramos pela segunda fórmula. Nós é que éramos os mesmos. que era o melhor. Sim. porém. o tom da exclamação. apaixonar-se por ela e casar. 44 . era a afirmação do matrimônio. como o sol e a lua. continuei. sem mentir ao juramento do poço.. e tinha a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. tínhamos o céu por testemunha.iguala por instantes a condição das pessoas. – já ouvi dizer criançolas. apenas exclusiva. mas acabou aceitando este alvitre. durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia. piloto de má morte. achei a criada galante.. qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. que somos crianças. os nossos temores. você jura. – Não há de ser assim. apetecível. somando as nossas ilusões. não se navegam corações como os outros mares deste mundo.

Minha mãe era de natural simpática. Não foi ainda a nossa despedida. Há nisto alguma exageração. Capitu deu-me igual conselho. no fim de um ano as coisas estariam mudadas. mais tarde. é que Deus não quer. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela.. seria longe. padeci muito. e apoiou o “alvitre do senhor protonotário”.. mas é bom ser enfático. um ano passa depressa. A senhora não podia pôr em seu filho. depois de algumas hesitações. tudo é infinito. o melhor remédio é a Europa. beijou-lhe a mão. feita aos vinte e cinco anos e. quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário: – Minha filha. é que a vontade divina é outra. Há de dar um padre de mão-cheia. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho. em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas. e igualmente sensível. Era uma concessão do padre.. entramos a falar do futuro. você vai perder o seu companheiro de criança. com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. ela ia prendendo minha mãe. mas a boca disse que não. meu amiguinho. fazendo vir do credor a revelação da dívida. que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. mas sofria com alma e coração. na roça ou fora da cidade. Dava a minha mãe um perdão antecipado.. Viríamos aqui uma vez por ano.. CAPÍTULO L Um Meio-Termo Meses depois fui para o seminário de S. mas tinha uma miniatura. O que unicamente digo aqui é que. Não consentiu em fotografar-se. como a pequena lhe pedia. aos quinze anos. Os olhos de 45 . deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. agarrou-se ao mais próximo.Estávamos contentes. plantei-lhe flores. Entretanto.. Minha mãe também padeceu. por mais preparado que estivesse. Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha mãe lho dava) que nem teve tempo de ficar triste. Realmente. E a mim. – As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. em particular: – Vá por um ano. Havíamos de acender uma vela aos sábados. tanto se doía como se aprazia de qualquer coisa. Também. se no fim de dois anos eu não revelasse vocação eclesiástica. não devia ser grande nem pequena. disse ele. somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã. ao passo que nos prendíamos um ao outro. não tendo alcançado ir comigo para a Europa. e um ano andava depressa. mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a proteção do céu. em parte porque éramos religiosos. – Estou certo. e nesse caso. e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. antes de nascido. o Padre Cabral achara um meiotermo: experimentar-me a vocação. Se não sentir gosto nenhum. Os olhos dela brilharam.. demais. escolhi móveis. seguiria outra carreira. uma ou outra vez. de dotes finos e raros. piscando-me o olho. fez-se mais assídua e terna. onde ninguém nos fosse aborrecer. se não vier em um ano. por um modo que pede capítulo especial. José. esta fez-se na véspera. havíamos de ter um oratório bonito. uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou. para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. só lhe parecia que um ano era bastante. para lhe dar um retrato. Se fosse em arrabalde. e que o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim. com os olhos nela. resolveu dar-lha. Sim. como diz o padre. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas. Em particular animou-me a suportar tudo com paciência. Demorei-me mais nisto que no resto. vivia ao pé dela. de jacarandá. na minha opinião. A casa. um meiotermo. alto. se eu me ativer só à lembrança da sensação. uma sege e um oratório. José Dias.. não fico longe da verdade.

Capitu. fui vítima de intrigas. Padre que seja. Suspirou e continuou: – Não esqueça o seu velho Pádua. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos. vindos de fora para desunião das famílias. e puro fiquei. porque são boas pessoas.. se tem algum trapinho que me deixe em lembrança. se até lá não pensar de outra maneira. Logo cedo veio à nossa casa. e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes. não esqueça o velho Pádua. não acredite. excelentes pessoas. CAPÍTULO LI Entre Luz e Fusco Entre luz e fusco. quando recebeu o mimo. O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. como fez as mãos limpas. antes do acender das velas. por esta luz que me alumia. eu sou de outra espécie. – Mas. O valor é a lembrança. Beijou o retrato com paixão. Deus é grande e descobre a verdade. Oh! minha doce companheira da meninice. Mas a vocação eras tu. tudo há de ser breve como esse instante. Se algum dia perder sua mãe e seu tio. quando me casei. em verdade.. Nem durou muito a nossa despedida.. eram direitos.. qualquer coisa. CAPÍTULO LII O Velho Pádua Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. eu era puro. mas a afeição é imensa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto. nem de ressaca. um caderno latino. E desde já fica. aí é que nos despedimos de uma vez. minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. São intrigas. Quanto ao selo. não se descrevem. na sala de visitas. a investidura eras tu.. não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia. se algum dia perder os seus parentes.. não desejo. aduladores baixos. em casa dela. creia. são os mais felizes! – Por que falará assim? pensei. é a nossa defesa. tão grandes e tão bonitos. e antes dela a vocação. claros. – Seja feliz! disse-me. como merece. Tive um sobressalto. porque. – coisa que eu. e não foi só o aperto de mão que selou o contrato. coisa que já lhe não preste para nada. Se lhe disserem outra coisa. não. Deus. um botão de colete. cortados na véspera. Fui apertar-lhe a mão. e puro entrei na aula de S. Também eu. Não é suficiente em importância. como no quintal. Todos nós estimamos muito o senhor. Enfim. Talvez risque isto na impressão. desfizeram-se. 46 . e eu sou grato às finezas recebidas. uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. se pensar.. Juramos novamente que havíamos de casar um com o outro. Eu não ia mentir ao seminário. assim fez os lábios limpos. a buscar de aparência a investidura sacerdotal. foi a conjunção das nossas bocas amorosas. fica. A intenção era levá-los a Capitu.. – Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta. e. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele. pode contar com a nossa companhia. ele abraçou-me com ternura. a nossa casa está às suas ordens.. Tudo isto me lembra a nossa despedida. Não. Quero só que me não esqueça. eu não sou como outros. não eram oblíquos. como ia dizendo. foi o mais que pôde. certos parasitas. lúcidos. José..

e vê sair branco o maldito número. nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua.ao sair. até lá tudo estará arranjado. a podridão alopata. ou à pequena. e vai morrer. composto e grave. disse-me rindo: – Anda lá. mas é melhor aprender logo tudo de uma vez. guarde. Como eu achasse muito breve. Tio Cosme. no quarto dele. até que formalmente rejeitou o alvitre.” Quando minha mãe deu o último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele. dando ordens. emendando os descuidos de minha mãe. mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. diz-se que padecem mais que as outras. – Posso estudar medicina aqui mesmo. Fisiologia. disse ele. Peguei do embrulho e dei-lho. Prima Justina suspirava. patologia não são alopáticas nem homeopáticas. José Dias insistiu nas esperanças: – Agüente um ano. fazendo-me recomendações. exclusivamente. as escravas tomavam a bênção: “Benção. anatomia. para guardá-lo. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ciência comum a todos os sistemas. Agora não dizia nada. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos íntimos. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca. – Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. Poupa-me as outras despedidas. rapaz. onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário. – Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlântico. Era manhã de um lindo dia. – Não duvidaria aprovar a idéia. Já não era. Minha mãe apertava-me ao peito. Assim falara na véspera e no quarto. apertou os beiços. explicou-se. a alopatia é erro na terapêutica. Talvez chorasse mal ou nada. Antes de um ano estaríamos a bordo. mas tive idéia de dá-lo ao pai. é verdade. ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família. lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo. se não for.. – um número tão bonito! CAPÍTULO LIII A Caminho! Fui para o seminário. não dizia nada a princípio. Os moleques cochichavam. se na Escola de Medicina não ensinassem. iremos em março ou abril. A alopatia é o erro dos séculos. tínhamos falado na véspera. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha. é a mentira. vou indagar.. José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência. – Aqui está. CAPÍTULO LIV Panegírico de Santa Mônica 47 . é o assassinato. levava a cara dos desenganados. a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. que é mais cuidadosa que a mãe. é a ilusão. quando eu lhe beijei a mão em despedida. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus! Tinha os olhos úmidos deveras. volta-me papa! José Dias. por livros e por língua de homens cultores da verdade.

deixara letras. e os daqui tomaram vigairarias fora. E como me visse folhear o opúsculo: 48 . é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi. baste o caso. fui pedir-lhas. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. senhor meu amigo. deu-me tudo. perguntou-me: – Conservou o meu Panegírico? Não achei nada que dizer.. coçou-se. e rimos juntos. manchado do tempo... certo. – É o penúltimo exemplar. com uma dedicatória manuscrita e respeitosa. e dedicou-o a Santo Agostinho. o que é mais moço é que um dia. e suspiramos de companhia.. casos de estudo.. casara e esquecera tudo. claro. disse-me. sem ir mais longe.. Não me lembrou logo.fessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário. Chamava-se. Deixara seminário. mas as mudanças. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia. em 1882. – Também eu.. não apareceu agora. tentei mover os beiços. as viagens. feito chefe de uma seção administrativa. as recordações traziam tal poder de felicidade que. de todo o resto. Ele con. Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira. afinal. Alcançou licença de imprimi-lo. mas sem lacuna. e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte. – Os seus.No seminário. Na mocidade é possível curar-se um homem dela. sim. um mote. Tudo isso é história velha. das pessoas que tratei. Pois não se lembra que no seminário. elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. Ordenou-se. cujo livro de frade-poeta era recente. Foram cócegas da mocidade. se alguma sombra contrária houve então. toda a velha palhada saiu cá fora. Esta sarna de escrever. Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa. Ah! não vou contar o seminário. Sorriu. E. um verbo. Ou porque eram dele. e depois de alguns instantes de pesquisa mental.. Não é preciso dizer o nome. nem me bastaria a isso um capítulo. ali dei com este meu colega. memórias pessoais. umas vinte e nove páginas. à maneira dos de Junqueira Freire.. quase todos... uma vez ordenados. incidentes de nada. Como eu precisasse de algumas informações. Naturalmente conversamos do passado. Não. estava bom.. – Ah! sorriu ele. que veio distribuindo pela vida fora.. não despega mais. anos depois encontrei-o no coro de São Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos. algum dia. – Que versos? perguntou meio espantado. um velho folheto de vinte e seis anos. fitando em mim uns olhos murchos e teimosos. agora só me resta um. quando pega aos cinqüenta anos. ou porque éramos então moços. aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos. uma vigairaria mineira. – Bom tempo! suspirou ele. copioso. menos o Panegírico de Santa Mônica. um livro. indo ver certo negócio em repartição da Marinha. a vida cara. com o folheto. voltaram naturalmente às suas províncias. passou. encardido. que não posso dar a ninguém. perguntei: – Panegírico? Que panegírico? – O meu Panegírico de Santa Mônica. e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade. respondi que por muito tempo o conservara. mas a explicação devia bastar. mas não tinha palavra. – Hei de levar-lhe um exemplar. um sermão do Padre X. confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica. dos costumes. após alguma reflexão. e.

e então na moda. saiu este: Perde-se a vida. mas só me disse uma palavra. Ia ser poeta. o primeiro verso não era ainda uma idéia. saindo cronologicamente dos treze anteriores. Concordou que fossem belas. a poesia. mas nem assim vinha mais nada. e repetia-o em voz baixa. os nossos recreios. e eu coçava-me com alma. e. afinal deixei-me estar de costas. meu caro colega. Não escolhi logo. mas podia ser a virtude. Assim foi que me determinei a compor o último verso do soneto e. Quanto à idéia. qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor.. um soneto. porém. como uma exclamação solta. recolhendo os olhos e um suspiro! – Tem agradado muito este meu Panegírico! CAPÍTULO LV Um Soneto Dita a palavra. oh! o Padre Lopes. com os olhos no ar. e o primeiro filho. um desses versos capitais no sentido e na forma. estando eu na cama. e naturalmente ouvia. A insônia. Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas. logo. e tanto de rima como de verso solto. aos lençóis. apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento. despediu-se e saiu. na cama. nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência. Pois. Era um poema breve e prestadio. Panegírico de Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário. Era no tempo do seminário. – Recorda-se bem? – Perfeitamente. as cócegas pediam-me unhas. pensei em compor com ele alguma coisa. com dificuldade traria a perfeição louvada. mas afinal ative-me ao soneto. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho. disse-me. mas era cortesia. achava-o bonito. Decorei bem o verso. e o primeiro verso é o que ides ler: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Como e por que me saiu este verso da cabeça. Antes. seminarista. mas preferia outras. e flor do céu. como ele dissera as suas no claustro. eu. recitando sempre o verso. os padres. ia competir com aquele monge da Bahia.. saiu assim. lembra-se? o Padre Lopes. envolvido no lençol. considerando que o verso final. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro. e deitado ora sobre o lado direito. era quase caridade recordar alguma lauda. as lições. e apontou-as. creia. e porque também eu tive o meu Panegírico. Ele. os acontecimentos vêm uns sobre outros. e vieram amizades novas... que também se foram depois. naturalmente. diria em verso as minhas tristezas.– Veja se lhe lembra algum pedaço.. como é lei da vida. o soneto.. a religião. não sei. Assim. ganha-se a batalha! 49 . era uma exclamação. e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu. não me deixou dormir uma hora ou duas. pouco antes revelado. isto é. tratei de poetar. e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um capítulo ou mais. contarei a história de um soneto que nunca fiz. depois de muito suar. os recreios. Pensei em forjar uma de tais chaves. com os olhos no teto. a idéia viria depois. Os anos passam. e ainda assim depois de algum tempo de silêncio. musa de olhos arregalados. e as sensações também. acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam eco em minha memória. Fiquei só com o Panegírico. francamente. devia estar ouvindo. a princípio cuidei de outra forma. ao notar que tinha a medida de verso. Aguardei o resto. imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. li uma delas. ora sobre o esquerdo.

era um verso magnífico. se tivesse. e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. que está de vigário em Meia-Ponte. à vista do último verso. não vinha nenhum. que se não acabava de crer se ela é que os fizera. pode-se ganhar a vida. se não morreu já. pensamento alevantado e nobre. e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel. com a idéia em si. Também me ocorreu aceitar a batalha. Que não fosse novidade.. e as demais obras de arte. Luís Borges. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta. Cansado de esperar. mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. não seriam para mim como rimas das estrelas. como as odes e os dramas. senhores. pode ser que. e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. mas a batalha ficava ganha. podia não caber tanto como a primeira. evoquei alguns sonetos célebres. bem ou mal. pode tentar ver se o soneto sai. Então tornava ao meu soneto. busquei. não achando maior dificuldade que escrever. mas perde-se a batalha do céu. Criei forças novas e esperei. um dos quais é cônego na Bahia. luzindo cá embaixo. Vi o Bastos. no sentido natural. o segundo não vinha. por exemplo. lembrou-me alterar o sentido do último verso. se eles é que a suscitavam. dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. e fazer dela a luta pela pátria. e falando como se fosse de outro. enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um específico contra a febre amarela. era uma ironia: não exercendo a caridade. ou na roça. Não tinha janela. CAPÍTULO LVI Um Seminarista Tudo me ia repetindo o diabo do opúsculo. Começar bem e acabar bem não era pouco. é possível. por exemplo. A idéia agora. pareceu-me melhor não ser Capitu. um languidamente: Oh! flor do céu! Oh! flor cândida e pura! e o outro com grande brio: Perde-se a vida. Esta acepção.. a caridade. nada me consola daquele soneto que não fiz. se perderia acaso a vida. cada um a seu modo. e agora estou compondo esta narração. seria a justiça. e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo. Neste caso. Achei melhor a justiça. ou se estiver chovendo. E tinha um pensamento. por uma razão de ordem metafísica. e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos. Recitei uma e muitas vezes a chave de ouro. como eu creio que os sonetos existem feitos. Tive alguns ímpetos de raiva.Sem vaidade. esperei. apesar de 50 . mas. catei. com as suas letras velhas e citações latinas. na pugna pela justiça. Ao domingo. os versos saíam uns dos outros. não vieram os versos. nesse caso a flor do céu seria a liberdade. não há dúvida. e recitei os dois versos. nem terceiro. com os seus consoantes e sentidos próprios? Trabalhei em vão. E quem sabe se os vaga-lumes. mas também não era vulgar. Era mais próprio dizer que. e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. perde-se a batalha! O sentido vinha a ser justamente o contrário. Sonoro. Mas. escrevendo. ganha-se a batalha! A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. tão naturalmente. porém. Pois. mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas: os irmãos Albuquerques. um magricela. nem quarto. Naquela ocasião achei-o sublime. e notei que os mais deles eram facílimos. assim: Ganha-se a vida. com a simples transposição de duas palavras. sendo o poeta um seminarista. em qualquer ocasião de lazer. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa. a vitória ganha à custa da própria vida. é possível que fosse pedir uma idéia à noite. depois repeti os dois versos seguidamente. Para me dar um banho de inspiração. os versos acudissem.

Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. muita vez. Escobar contava-me histórias dela.. ou então que recordava a lição da véspera. quisera 51 . não sabendo por onde lhe pegasse. a minha história. ainda que mais breve.. – Não é só na beleza que é um anjo. olhos enfiados em si. capelas e bazares. não raro com janelas para todos os lados. é uma casa assim disposta. se não fosse Capitu. fazia o seu ofício. não eram frias. que tão depressa estavam aqui como lá. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual. que servia de correspondente ao pai. acostumada a ajudá-los. De fato. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas. A princípio fui tímido. Uma coisa não seria tão fugitiva como o resto. nem Dom Casmurro. as mãos não apertavam as outras. Eu não era ainda casmurro. e Escobar empurrou-as e entrou. e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. Escobar tinha uma irmã. Este era homem de fortes sentimentos católicos. cogitando. Aqueles modos fugitivos cessavam quando ele queria. cheias de carícias e conselhos. à semelhança de conventos e prisões. o calor do passado. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal. a reflexão. sendo delgados e curtos. Também as há fechadas e escuras. Quantas outras caras me fitavam das páginas frias do Panegírico! Não. Elas me trouxeram também sensações passadas.. interessantes. mas ele fez-se entrado na minha confiança. até as palavras. mas também na bondade. às vezes. Não sei o que era a minha. creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da página.padre.. como os pés. já não tinha nada. Não imagina que boa criatura que ela é. o meu próprio calor. simples alpendres ou paços suntuosos. até que. estive quase a contar-lhe logo. Era um rapaz esbelto. eram simples e afetuosas. como sabes. e acabou senador do império. filho de um advogado de Curitiba. Não fitava de rosto. como tudo. CAPÍTULO LVII De Preparação Ah! mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Panegírico. traziam o calor da juventude nascente. olhos claros. ou com poucas e gradeadas. Eis aqui outro seminarista. desde a porta da rua até ao fundo do quintal. e lograva entender algum texto. tão recente como no primeiro dia. sem janelas. O mesmo digo dos pés. muita luz e ar puro. tais e tantas que eu não poderia dizê-las todas. bastava empurrá-las. quando a gente cuidava tê-los entre os seus. que era um anjo. dizia ele. como a fala. A alma da gente. dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade. e a mão.. mas também ria folgado e largo. fez-se político. Era mais velho que eu três anos. nem se deixavam apertar delas. Queria lê-las outra vez. Escreve-me muita vez. O sorriso era instantâneo. aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro. o receio é que me tolhia a franqueza. hei de mostrar-lhe as cartas dela. Uma dessas. sem tirar espaço ao resto. Cá o achei dentro. porque os dedos. Eu. inconscientemente.. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar. Morreu pouco depois. mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras. tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela. um pouco fugitivos. Esta dificuldade em pousar foi o maior obstáculo que achou para tomar os costumes do seminário. todas as quais vinham a dar na bondade e no espírito daquela criatura. seduzido pelas palavras dele. íamos dar com ele. logo. cá ficou. e tinha memória para guardá-las todas. Era um encanto ir por ele. como as mãos. não falava claro nem seguido. e das primeiras. Escobar veio abrindo a alma toda. Outrossim.

Quando chegamos à esquina. – Parece que não se machucou. sonhei com elas. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim. a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas. levava ligas de seda. que pede umas linhas de repouso e preparação. No seminário. como diria o meu finado José Dias. – Tanto melhor para ela. é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe. outras grossas. 52 . e credos. a quem não desejasse uma queda. e não este tique-tique afrancesado. porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas. e sendo este livro a verdade pura. que ia no mesmo passo... voltando eu para o seminário. Ou então.. e não as perdeu. Já agora meto a história em outro capítulo. e enfiou pela rua próxima. até o seminário. erguiam-se e iam-se embora. as proporções dos acontecimentos e a cópia deles. E aqui verás tal ou qual esperteza minha. sacudiu-se. podeis ler o capítulo até ao fim. disse eu.. é evidentemente um erro. e o mal é menor mal. Sirva este de preparação. ou.. Já não era uma só que eu via cair. não fica nunca. com certeza não dou nada. a distância. trepadas no ar. Várias pessoas acudiram. mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos. eram azuis.contá-la aqui em latim. e. em tal caso. e vi. Eu mal podia ouvi-lo. devia ser de pena ou de riso. uma segunda-feira. se não fica então. que é casta para os castos. Por mais composto que este me saia. Também. a nossa desastrada. a primeira hora foi insuportável. não foi uma nem outra coisa. Sim. e não as sujou. ao ler o que vais ler. Assim fui até madrugada. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim.. todas as que eu encontrara na rua mostravam-me agora de relance as ligas azuis. choviam pés e pernas sobre a minha cabeça. Eram belas. rezei padre-nossos. todas ágeis como o diabo.. Dali em diante. quando examina a possibilidade do que há de vir. A cabeça ia-me quente... Não é que a matéria não ache termos honestos em nossa língua. vi cair na rua uma senhora. o coração. Vou esgarçando isto com reticências. CAPÍTULO LVIII O Tratado Foi o caso que. As nossas moças devem andar como sempre andaram. As batinas traziam ar de saias. tique-tique. e andavam. De noite. leitora castíssima. e o andar não era seguro.... ela ergueu-se muito vexada. fica robusto e disposto. com seu vagar e paciência.. olhei para a outra rua. – Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor.. tique-tique. mas tão depressa dormi como tornaram. não vi mulher na rua. faziam um vasto círculo de saias.. eu fiquei “nos joelhos arranhados”. E isto é muito. leitor meu amigo. busquei afugentá-las com esconjuros e outros métodos. mas não tiveram tempo de a levantar. Também é possível. com as mãos presas em volta de mim. e lembravam-me a queda da senhora. é provável que o aches menos cru do que esperavas. Tal haveria que nem levasse meias. aquela presteza é manha. como pode ser torpe para os torpes. dizia-me José Dias andando e comentando a queda. porquanto (e é isto que eu quisera dizer em latim).. Mas eu as via com elas. há sempre no assunto alguma coisa menos austera. tique-tique. agradeceu. que eram assim difusas e confusas. O meu primeiro gesto. tique-tique. porquanto. caíam. Não dormi mais. ave-marias.. umas finas. Creio que foi “manha” que ele disse. Acordei. sem susto nem vexame. para dar uma idéia das minhas idéias..

Nada se emenda bem nos livros confusos. as igrejas que não vi nas folhas lidas. de cansadas. E antes seja olvido que confusão.tique-tique. tentei vencê-lo. Vindo o mal pela manhã adiante. ao entrar nela. não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã. não. leitor amigo. CAPÍTULO LIX Convivas de Boa Memória Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique.. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem. mas certamente não unia a frase nova à antiga. mas tudo se pode meter nos livros omissos. as suas árvores. pessoas e afeições. porque as chinelas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés. e eu sou acaso um deles. Pegava depressa na oração. Gastas e rotas. recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação. era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios. CAPÍTULO LX Querido Opúsculo Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica. é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias. e somente raras circunstâncias. sempre no meio para concertá-la bem. e basta. mas por um modo que o não perdesse de todo. Não. aqui estão 53 .. e fiz mais: pus-lhe não só o que faltava da santa. e os clarins soltam as notas que dormiam no metal. como se não tivesse havido interrupção. as ligas. explico-me. os seus altares. senão quando elas mesmas. se iam embora. as montanhas. E se a comparação não vale. há muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dois pés. em chegando ao fim. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios. ou as descalçava à noite. Não formulei isto por palavras. o seminarista Escobar e vários outros. não me aflijo nunca. mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. Sábios da Escritura. Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor. e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha. Ao contrário. tu não prestavas para nada. com os seus eternos móveis e costumes. ao erguer da cama. é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. e não as rejeitava. Eu. O que faço. é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. sem guardar delas nem caras nem nomes. as meias. mas fez-se. mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto. a minha memória não é boa. Foi isto. Assim preencho as lacunas alheias. A vida é cheia de tais convivas. E por alguns dias. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida. mas era um antigo. todas me aparecem agora com as suas águas. Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas do opúsculo. com alguma repugnância. assim podes também preencher as minhas. Querido opúsculo. Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros. Viste o soneto. e por isso mesmo contempláveis. e tudo marcha com uma alma imprevista. adivinhai o que podia ser. É que tudo se acha fora de um livro falho. nem foi preciso. mas ainda coisas que não eram dela. o contrato fez-se tacitamente. A quem passe a vida na mesma casa de família. quando leio algum desta outra casta. conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo.

XVIII. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero. já por acanhamento. um assobio particular. e a minha saída daqui? – Isso é negócio meu. Tio Cosme também se enternecia muito. José Dias apertou-me as mãos com alvoroço. Como a aprovasse sempre. – lembra-me como se fosse hoje. como que embebidos em alguma coisa. – Ontem até se deu um caso interessante. acudi eu.. Justamente. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo! – Mas. a quem mostrei. é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo. Não é preciso dizer que D. disse-me este. sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas. As pálpebras caíram depois. em 1859 ou 1860. andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. – Todos estão saudosos. como a pedra da rua. o doutor ficou tão comovido que não achou modo de vencer o choro senão fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe. um pregão de quitanda. e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia. – os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto. e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera. como os opúsculos de seminário. sem o que tudo é calado e incolor. trazidas por José Dias ao seminário. – Tão tarde! – Era melhor que fosse este mesmo ano. Neste ponto. e os olhos fixaram-se na parede do pátio. se não era em si mesmos. mas demos tempo ao tempo.. depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo. e as de minha mãe e tio Cosme. José Dias. CAPÍTULO LXI A Vaca de Homero O mais foi muito.. – Mamãe. como aquele das cocadas que contei no cap. Tenha paciência. demais. o 54 . fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever por um amigo. e assim ficaram por alguns instantes. mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. nem ponho. Vês que não pus nada. e logo pintou a tristeza de minha mãe.outras lembranças. Não lhe perguntei o que é que tinha. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem. Se depois jarretei o capítulo. a vida do seminário é útil. vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas. Mas. o desvanecimento de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. duros e opacos. vá estudando. e grudá-lo às pernas do capítulo. Glória enxugou furtivamente uma lágrima. mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos. encerrem casos. foi porque outro músico. mas um anjo do céu. e qual é ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos. quase a todas as horas. não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa. já porque dois lentes. um deles de teologia. mestre de música.. não um filho. Sr. que falava de mim todos os dias. me confessou ingenuamente não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. ainda não acabando padre. e. A viagem à Europa é o que é preciso. quando contei o pregão das cocadas. e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. vinham caminhando na nossa direção. pessoas e sensações. a porta da casa. até que novamente se ergueram. Já agora creio que não basta que os pregões de rua. melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. Vi saírem os primeiros dias da separação. Tendo eu dito a Excelentíssima que Deus lhe dera. Ao passarem por nós.

irá ungido com os santos óleos da teologia. – Mas. aos poucos. mas parece que dará conta da mão. e pediu-lhes notícias minhas. – Daqui a três meses? – Ou seis.. não. todo ele era atenção e interrogação. o melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. mas ainda que não chegue a ordenar-se. – Duvido que mamãe embarque. quando muito.. desejo sair daqui o mais cedo que puder. Glória. Passou tudo. irmão dos “santos óleos da teologia”. e algum fastio. mas. cortejou-os com as deferências devidas. Paciência é que é preciso. Desta vez a fulguração dos olhos foi menor. O lente de teologia gostou da metáfora. Mãe é capaz de tudo. não escrevia nem orava. deixe estar. melhor é apressá-la. Não ouviu o elogio do lente? É que você se tem portado bem. eu irei preparando a Excelentíssima. eu aviso. meu anjo. com ela ou sem ela.. Para a viagem da existência. – Por ora nada se pode afiançar.. Conto ouvir-lhe a missa nova. E não faça nada que dê lugar a censuras ou queixas. Mas não dei tempo à ternura materna. disse um deles. quando for preciso. Ao contrário. ou já. Eu é que não gostei nada. mas eu hei de avisar você para tossir. Pareceu-me outra vez a vaca de Homero. Não digo que já seja o mal. – ou para que vá mais depressa. e penso já nas palavras com que hei de expô-lo a D. porque. – É o que eu lhe dizia agora mesmo. já.. estou certo que ela cederá e irá conosco. um sorriso claro e amigo lhe errava nos lábios. acudiu José Dias.. Numa hora cai a casa. mas há dias em que está mais descorado. fosse outro bezerro. três meses. e disse-lho. não é? José Dias hesitou um pouco. – Veremos. que os conhecia. explicando que eram idéias que lhe escapavam no correr da conversação. que me parece melhor que outro qualquer. como deve ser servida. Bentinho. Se a tosse há de vir de verdade... depois explicou-se: – Mostrar a verdade. não pode ser. Você por que não tosse? – Por que não tusso? – Já. não pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. – Será este ano. 1859 ou 1860 é muito tarde. Em pequeno. eu há meses que desconfio do seu peito. se aquela santa senhora não quiser ir conosco. sacudi a cabeça: – Não quero saber dos santos óleos da teologia. Por isso. mas o mal pode vir depressa. e logo que os lentes se foram. acho que uma boa tosse.. Você não anda bom do peito.. 55 . e repliquei: – Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar.agregado. Oh! tudo isto é em benefício dela... Pois continue. – Não. e não haverá esforço que eu não empregue. Uma vez que o filho não pode servir à Igreja. Deixe estar. concluiu demorando mais as palavras. O mundo também é igreja para os bons. muita docilidade e toda a aparente satisfação.. replicou José Dias. tenho por certa a nossa ida. – Já. as pálpebras não lhe caíram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade de mudar de ares. teve umas febres e uma ronqueira. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito. como se este “mundo também é igreja para os bons”. uma tossezinha seca. francamente.. mas pode suceder que muito antes do que imaginamos. ele agradeceu. Tenho agora um plano... – Pois sim.

depois cuidaremos do embarque. Outra idéia. Tal foi o que me mordeu. mas nem soube como. escusado é ler o resto do capítulo e do livro. – um sentimento cruel e desconhecido. E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta. quantos. A minha memória ouve ainda agora as pancadas do coração naquele instante. Em verdade. naqueles três ou quatro minutos. Estou que empalideci. Por outro lado. Primeiro deixo o seminário.– Bem. Mas se o achaste. quê? Sabes o que é que trocariam mais. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria de Capitu. e fazer crer improvável a viagem. mas certo. A notícia de que ela vivia alegre. o mal aparecia-me agora. correr. produziu-me aquele efeito. nunca pensara em tal desastre. e quis perguntar-lho. uma confusão.. – Tem andado alegre. mas em saindo daqui não há de ser para embarcar logo. como o desenho truncado e torto. saio primeiro. daqui a dois meses. grandes passeadores das tardes. falar-lhe-ia à janela. Vivia tão nela. Não fiz nada. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha repulsa ao seminário era Capitu. se entendermos que a audiência aqui não é das orelhas. chegar à casa do Pádua. o puro ciúme. não só possível.. pelo menos. quis emendar-me. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita. senão da memória. se o não achas por ti mesmo. Aquilo. agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos. não acharás mais nada. compreenderás que eu. descer o resto da ladeira. um turbilhão.. trocariam flores e. quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. Compreendi isto depois que falei. um simples dever de admiração e de inveja. o que é que ela fazia. quando eu chorava todas as noites. se ela vivia alegre é que já namorava a outro. Agora lembrava-me que alguns olhavam para Capitu. cujo princípio não ouvi. leitor das minhas entranhas.. depois de estremecer. acompanhá-lo-ia com os olhos na rua.. Não dizem que o melhor tempo é abril ou maio? Pois seja maio. se vivia rindo.. dei uma volta rápida. ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. cantando ou pulando.. na ocasião em que eu cuidava de transferir o embarque. mas o discurso humano é assim mesmo. Eram soltos. nem ele me deu tempo.. ajustando-se. vária idade e feitio. tivesse um ímpeto de atirar-me pelo portão fora. – e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim. como sempre. e depois outra idéia. e perguntei-lhe à queima-roupa: – Capitu como vai? CAPÍTULO LXII Uma Ponta de Iago A pergunta era imprudente. mas a vontade morreu ao nascer. acompanhado de um bater de coração. às ave-marias.. ao repetir comigo as palavras de José Dias: “Algum peralta da vizinhança”. José Dias concluía uma frase. Separados um do outro pelo espaço e pelo destino. Os mesmos sonhos que ora conto não tiveram. e o mesmo fim era vago: “A conta que dará de si. um composto de partes excessivas e partes diminutas. Quando tornei a mim. que a intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade. senti correr um frio pelo corpo todo. que case com ela. chegaremos à exata verdade. que me cegava e ensurdecia. Não esqueças que era a emoção do primeiro amor. dela e para ela. não. mas retive-me a tempo. esta lógica de movimentos e pensamentos. nunca me acudiu que havia peraltas na vizinhança.” Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava ainda de Capitu. Há alguma exageração nisto.. emendados e mal emendados. E. o embarque é que pode ficar para o ano. é uma tontinha. tão violento. enquanto não pegar algum peralta da vizinhança. como 56 . que se compensam. que ainda agora cuido ouvilo.

tantas outras gerações delas. Limitei-me a inquirir do agregado quando é que iria a casa
ver minha mãe.
– Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
– Vai sábado.
– Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sábado!

– Sábado! Este sábado, não? Que me mande buscar, sem falta.
CAPÍTULO LXIII
Metades de um Sonho
Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda acordado, e
não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só ponho, e no menor número
de palavras, ou antes porei dois, porque um nasceu do outro, a não ser que ambos
formem duas metades de um só. Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do
vosso sexo, que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista. Não fosse
ele, e este livro seria talvez uma simples prática paroquial, se eu fosse padre, ou uma
pastoral, se bispo, ou uma encíclica, se papa, como me recomendara tio Cosme: “Anda
lá, meu rapaz, volta-me papa!” Ah! por que não cumpri esse desejo? Depois de
Napoleão, tenente e imperador, todos os destinos estão neste século.
Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança, vi
um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. Corri ao lugar, ele fugiu;
avancei para Capitu, mas não estava só, tinha o pai ao pé de si, enxugando os olhos e
mirando um triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação,
quando ele de si mesmo a deu; o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria, e o
bilhete saíra branco. Tinha o número 4004. Disse-me que esta simetria de algarismo era
misteriosa e bela, e provavelmente a roda andara mal; era impossível que não devesse
ter a sorte grande. Enquanto ele falava, Capitu dava-me com os olhos todas as sortes
grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a boca. E aqui entra a segunda
parte do sonho. Pádua desapareceu, como as suas esperanças do bilhete. Capitu
inclinou-se para fora, eu relanceei os olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas
mãos, resmunguei não sei que palavras, e acordei sozinho no dormitório.
O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho, mas nos esforços
que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. Nunca dos nuncas
poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos, apertá-los bem,
esquecer tudo para dormir, mas não dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono
até a madrugada. Sobre a madrugada, consegui conciliá-lo, mas então nem peraltas, nem
bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas, – nada dos nadas veio ter comigo.
Não sonhei mais aquela noite, e dei mal as lições daquele dia.
CAPÍTULO LXIV
Uma Idéia e um Escrúpulo
Relendo o capítulo passado, acode-me uma idéia e um escrúpulo. O escrúpulo é
justamente de escrever a idéia, não a havendo mais banal na terra, posto que daquela
banalidade do sol e da lua, que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. Deixei o
manuscrito, e olhei para as paredes. Sabes que esta casa do Engenho Novo, nas
dimensões, disposições e pinturas, é reprodução da minha antiga casa de Matacavalos.
Outrossim, como te disse no capítulo II, o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas
pontas da vida, o que aliás não alcancei. Pois o mesmo sucedeu àquele sonho do

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seminário, por mais que tentasse dormir e dormisse. Donde concluo que um dos ofícios
do homem é fechar e apertar muito os olhos, e ver se continua pela noite velha o sonho
truncado na noite moça. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui, e só
provisoriamente a escrevo.
Antes de concluir este capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os
sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar
de corpo, e não continuam mais. A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente
bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse,
declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição. Quando eles moravam na
ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com suas
caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo.
Os sonhos antigos foram aposentados, e os modernos moram no cérebro da pessoa.
Estes, ainda que quisessem imitar os outros, não poderiam fazê-lo; a ilha dos sonhos,
como a dos amores, como todas as ilhas de todos os mares, são agora objeto da ambição
e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos.
Era uma alusão às Filipinas. Pois que não amo a política, e ainda menos a
política internacional, fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. Não
peço agora os sonhos de Luciano, nem outros, filhos da memória ou da digestão; bastame um sono quieto e apagado. De manhã, com a fresca, irei dizendo o mais da minha
história e suas pessoas.
CAPÍTULO LXV

A Dissimulação
Chegou o sábado, chegaram outros sábados, e eu acabei afeiçoando-me à vida nova. Ia
alternando a casa e o seminário. Os padres gostavam de mim, os rapazes também, e Escobar mais que os
rapazes e os padres. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperanças;
Capitu refreou-me.

– Escobar é muito meu amigo, Capitu!
– Mas não é meu amigo.
– Pode vir a ser; ele já me disse que há de vir cá para conhecer mamãe.
– Não importa; você não tem direito de contar um segredo que não é só seu, mas
também meu, e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma.
Era justo, calei-me e obedeci. Outra coisa em que obedeci às suas reflexões foi
logo no primeiro sábado, quando eu fui à casa dela, e, após alguns minutos de conversa,
me aconselhou a ir embora.
– Hoje não fique aqui mais tempo; vá para casa, que eu lá vou logo. É natural
que D. Glória queira estar com você muito tempo, ou todo, se puder.
Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de
citar um terceiro exemplo, mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados, e
este é tão bom que a omissão seria um crime. Foi à minha terceira ou quarta vinda a
casa. Minha mãe, depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o
tratamento que me davam, os estudos, as relações, a disciplina, e se me doía alguma
coisa, e se dormia bem, tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de
um filho, concluiu voltando-se para José Dias.
– Sr. José Dias, ainda duvida que saia daqui um bom padre?
– Excelentíssima...
– E você, Capitu, interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que
estava na sala, com ela, – você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre?
– Acho que sim, senhora, respondeu Capitu cheia de convicção.

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Não gostei da convicção. Assim lho disse, na manhã seguinte, no quintal dela,
recordando as palavras da véspera, e lançando-lhe em rosto, pela primeira vez, a alegria
que ela mostrara desde a minha entrada no seminário, quando eu vivia curtido de
saudades. Capitu fez-se muito séria, e perguntou-me como é que queria que se portasse,
uma vez que suspeitavam de nós; também tivera noites desconsoladas, e os dias, em
casa dela, foram tão tristes como os meus; podia indagá-lo do pai e da mãe. A mãe
chegou a dizer-lhe, por palavras encobertas, que não pensasse mais em mim.
– Com D. Glória e D. Justina mostro-me naturalmente alegre, para que não
pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. Se parecesse, elas tratariam de separarnos mais, e talvez acabassem não me recebendo... Para mim, basta o nosso juramento de
que nos havemos de casar um com outro.
Era isto mesmo; devíamos dissimular para matar qualquer suspeita, e ao mesmo
tempo gozar toda a liberdade anterior, e construir tranqüilos o nosso futuro. Mas o
exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte, ao almoço; minha mãe, dizendo
tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa,
contou que, dias antes, estando a falar de moças que se casam cedo, Capitu lhe dissera:
“Pois a mim quem me há de casar há de ser o Padre Bentinho; eu espero que ele se
ordene!” Tio Cosme riu da graça, José Dias não dessorriu, só prima Justina é que
franziu a testa, e olhou para mim interrogativamente. Eu, que havia olhado para todos,
não pude resistir ao gesto da prima, e tratei de comer. Mas comi mal; estava tão
contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada, e, logo que
almocei, corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. Capitu sorriu de
agradecida.
– Você tem razão, Capitu, concluí eu; vamos enganar toda esta gente.
– Não é? disse ela com ingenuidade.

CAPÍTULO LXVI
Intimidade
Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. Viviam o mais do tempo juntas,
falando de mim, a propósito do sol e da chuva, ou de nada; Capitu ia lá coser, às
manhãs; alguma vez ficava para jantar.
Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas, mas não tratava de
todo mal a minha amiga. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém, e não
sentia bem de pessoa alguma. Talvez do marido, mas o marido era morto; em todo o
caso, não existira homem capaz de competir com ele na afeição, no trabalho e na
honestidade, nas maneiras e na agudeza de espírito. Esta opinião, segundo tio Cosme,
era póstuma, pois em vida andavam às brigas, e os últimos seis meses acabaram
separados. Tanto melhor para a justiça dela; o louvor dos mortos é um modo de orar por
eles. Também gostaria de minha mãe, ou se algum mal pensou dela foi entre si e o
travesseiro. Compreende-se que, de aparência, lhe desse a estima devida. Não penso que
ela aspirasse a algum legado; as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais,
fazem-se mais risonhas, mais assíduas, multiplicam os cuidados, precedem os fâmulos.
Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina, feita de azedume e de implicância.
Como vivesse de favor na casa, explica-se que não desestimasse a dona e calasse os
seus ressentimentos, ou só dissesse mal dela a Deus e ao diabo.
Caso tivesse ressentimentos de minha mãe, não era uma razão mais para detestar
Capitu, nem ela precisava de razões suplementares. Contudo, a intimidade de Capitu fêla mais aborrecível à minha parenta. Se a princípio não a tratava mal, com o tempo

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entrei na Rua de Matacavalos. Capitu. e recebi licença para ir a casa. – Vamos assustá-lo. – a premissa antes da conseqüência. mais de uma vez cuidei cair. Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. soltou-lhe este epigrama: “Não precisa correr tanto. Um dia.. Fui. Prima Justina. parecia fugir-me debaixo dos pés. de ver um corpo defunto. como uma necessidade da obra humana. desde que a não via. sem ousar abrir a boca. e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final.. Em vão tio Cosme: – Mana Glória. Ao cabo de cinco dias. não se demorem. aceitando o pior. já. se Bentinho não estiver ao pé de mim. a febre passa. como se esvaiu. me encarava com os olhos furados e escuros. por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. com a perspectiva da liberdade certa. íamos calados. ainda que azedo. Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos.. eu temendo ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. prima Justina acabava sorrindo. como negócio simples. me envolvia. O coração batia-me com força. mas vão buscá-lo. Só me falara na doença. mas muito além da dos Inválidos. José Dias foi incumbido do recado. não perdoou à minha amiga a intervenção. quisera interrogar o meu companheiro. que a pôs às portas da morte. Ia só andando. de entrar.” Leitor. os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. você assusta-se sem motivo. cheguei aos Arcos. pelo desaparecimento da dívida e do devedor. Cuidaram fosse delírio. as pernas bambeavam-me. A casa não era logo ali. Demais. as casas voavam de um e outro lado. e a minha alma não se salva. atenta. Prima Justina tolerava esses cuidados. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre. o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir. e a escuridão fez-se mais cerrada.” CAPÍTULO LXVII Um Pecado Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. posto que isto a aliviasse de cuidados penosos. perto da do Senado. – mas cabisbaixo e suspirando.trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. ele não alterando o passo do costume. o silêncio. pois nada articulou parecido com palavras. – Pois não lhe digam nada. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. a conseqüência antes da conclusão.. para combater o Terror. rindo. Na rua. mais me aterrava a idéia de chegar a casa. mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina. foi um relâmpago. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos. por mais que José Dias andasse superlativamente devagar. – Não! Não! mandem buscá-lo! Posso morrer. mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta. menos 60 . indagava dela e ia procurá-la. quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. A piedade filial desmaiou um instante. O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. já nem tinha tal desejo. me segredou ao coração. Capitu usava certa magia que cativa. pelo efeito do remorso que me ficou. já. e foi então que a Esperança. Três ou quatro vezes. acaba o seminário. mas agora. mas. não custando nada trazer-me.. foi um instante. Contou particularmente ao reitor o que havia. Tão depressa alumiou a noite. Entrou tão atordoado que me assustou. Como minha mãe adoecesse de uma febre.. minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. como um gesto do destino. A rua. outro dia. de ouvir os prantos. não estas palavras. mas o chamado. perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa.

Tal faço eu.. ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso. assim também se vão embora. foi a última vez que o empreguei. Nem perderás em esperar. levado ao remorso. chorei de uma vez.. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado. perdoa este recurso. mas o uso do superlativo faz a boca longa. agora que contei um pecado. Ora. ansioso agora por chegar a casa.. – Que é. mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição. era uma veleidade pura. avisa-me. José Dias fez crescer a minha tristeza. As febres. logo que ela ficasse boa. Eu confessarei tudo o que importar à minha história.. e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. para que o emende na segunda edição. o centésimo de um instante. entramos. assim como dão com força. e não pude mais. Enfim. Então. mas então era sempre a morte de minha mãe. mas como este era alto. debruçado sobre a cama. pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes.. toda ela parecia consumida por um vulcão interno. o bem e o mal. c’est moi. diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea.. repito. não. acode-me agora que. onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros. uma ação que eu não faria nunca. Vi depois que ele só queria dizer grave. meu amigo. levanta. e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém. usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais. não menos que o costume e a fé. meu filho.. fica transferida a melhor oportunidade. levanta! Capitu. fiquei longe das suas carícias: – Não. – Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo. chamando-me seu filho. que eu ia castigar-me. que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe.. gostou de ver a minha entrada.. chegamos. e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive. Mas a pena trazia tanto amor. e Deus pode tudo. Entrando no meu quarto. Se achares neste livro algum caso da mesma família.que um instante. foi aquele gravíssimo. ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos. é contá-la toda. José Dias suspirava. mas não é mal de morte. Padre que me lês. à medida que me vai lembrando e convindo à construção ou reconstrução de mim mesmo. subi trêmulo os seis degraus da escada. que não podia ser pesar do meu pecado. Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião. Senti uma angústia grande. Estava queimando. ao contrário. os meus gestos. posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração. segundo me disse depois. mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária – ainda que o devedor as não pague. Eram mais dois mil. que estava na alcova. mas não me lembra. os olhos ardiam nos meus. por amor do período. etc. há só um modo de escrever a própria essência. leitor. onde está o lenço? Enxuguei os olhos. um nó na garganta. mas esta idéia não me mordia. valem a soma que dizem. Não há de ser nada. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’ecris. CAPÍTULO LXVIII Adiemos a Virtude Poucos teriam ânimo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Matacavalos. nada há mais feio que dar pernas longuíssimas a idéias brevíssimas.. por mais que o pecado me doesse. Enxuguei os olhos. não menos simples que 61 . se me lembrasse. pensei em dizer tudo a minha mãe. Por exemplo. Enxugue os olhos. e daí a pouco. Bentinho? – Mamãe?. explica tudo. Com os dedos. e. c’est mon essence. Ajoelhei-me ao pé do leito. uma febre. palavras e lágrimas. A crise em que me achava. e fui andando. como são também possíveis e prováveis.

Já me sucedeu. O agregado quis ir comigo. sedas e chitas. ele só guia o indivíduo. sem que este. por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. Reduz-se a isto: que cada pessoa nasce com certo número deles e delas. que saíam da igreja e pararam. aliados por matrimônio para se compensarem na vida. Jeová. e era reconciliarme com Deus. é certo que nasci com alguns daqueles casais. fechei o livro de missa e caminhei para a porta. logo. Antônio dos Pobres. onde se fez claro. e. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado. desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas. e não faz moratórias. No fim. CAPÍTULO LXIX A Missa Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. depois do que se passou no capítulo LXVII. e principiou a vestir-se. e a moça olhava para mim falando ao homem. Vi então uma moça e um homem. agradeci a vida e saúde de minha mãe. Ia na direção da porta. mas a regra é dar-se à prática simultânea dos dois. Havia homens e mulheres. e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada. velhos e moços. com vantagem do portador de ambos. mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas. por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado. e recebi a bênção final do oficiante como um ato solene de reconciliação. É pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos. depois pedi perdão do pecado e relevação da dívida. perdoa as dívidas integralmente. eu queria estar só. visto que digo tudo. No adro. persignei-me. lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro. ainda que morresse alguém. e provavelmente olhos feios e belos. Ora. ouvindo as saudações e os cochichos. Voilà mes gestes. e pagaria logo as que fizesse. Pelo que me toca. e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. e o homem olhava para mim. E chegaram-me estas palavras: 62 . fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. ao levantar a Deus. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia. posto que divino. receei não achar palavra com que dizer ao confessor o meu segredo. mas eu não vi uns nem outros. aqui no Engenho Novo. mas a igreja também não é grande. uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. Demais. Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. por estar uma noite com muita dor de cabeça. CAPÍTULO LXX Depois da Missa Rezei ainda. era também agradecer o restabelecimento de minha mãe. Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro.clara. falta-me tempo. Ouvi missa. e naturalmente ainda os possuo. que não pude esperar por ele. A gente não era muita. parei e olhei para todos. com a onda. eu não queria outra coisa. ouvindo a moça. e não pude sair logo. é um Rothschild muito mais humano. mas devagar. se possa dizer isento de um ou de outro. ou por isso mesmo. dali em diante não faria promessas que não pudesse pagar. voilà mon essence.

– Mas que queres?
– Queria saber dela, papai; pergunte.
Era sinhazinha Sancha, a companheira de colégio de Capitu, que queria notícias
de minha mãe. O pai veio a mim; disse-lhe que estava restabelecida. Depois saímos,
mostrou-me a casa dele, e, como eu vinha na mesma direção, viemos juntos. Gurgel era
homem de quarenta anos ou pouco mais, com propensão a engrossar o ventre; era muito
obsequioso; chegando à porta da casa, quis por força que eu fosse almoçar com ele.
– Obrigado; mamãe espera-me.
– Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando, e irá mais tarde.
– Venho outro dia.
Sinhazinha Sancha, voltada para o pai, ouvia e esperava. Não era feia; só se lhe
podia notar a semelhança do nariz, que também acabava grosso, mas há feições que
tiram a graça de uns para dá-la a outros. Vestia simples. Gurgel era viúvo e morria pela
filha. Como eu recusasse o almoço, quis que descansasse alguns minutos. Não pude
recusar e subi. Quis saber a minha idade, os meus estudos, a minha fé, e dava-me
conselhos para o caso de vir a ser padre; disse-me o número do armazém, Rua da
Quitanda. Enfim, despedi-me, veio ao patamar da escada; a filha deu-me
recomendações para Capitu e para minha mãe. Da rua olhei para cima; o pai estava à
janela e fez-me um gesto largo de despedida.
CAPÍTULO LXXI
Visita de Escobar
Em casa, tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava
mudando de roupa.
“A missa das oito já há de ter acabado... Bentinho devia estar de volta... Teria
acontecido alguma coisa, mano Cosme?... Mandem ver...” Assim falava ela, de minuto a
minuto, mas eu entrei e comigo a tranqüilidade.
Era o dia das boas sensações. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha
mãe. Nunca me visitara até ali, nem as nossas relações estavam já tão estreitas, como
vieram a ser depois; mas, sabendo a razão da minha saída, três dias antes, aproveitou o
domingo para ir ter comigo e perguntou se continuava o perigo ou não. Quando lhe
disse que não, respirou.
– Tive receio, disse ele.
– Os outros souberam?
– Parece que sim: alguns souberam.
Tio Cosme e José Dias gostaram do moço; o agregado disse-lhe que vira uma
vez o pai no Rio de Janeiro. Escobar era muito polido; e, conquanto falasse mais do que
veio a falar depois, ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade; naquele
dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. Tio Cosme quis que jantasse
conosco. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai
esperava por ele. Eu, lembrando-me das palavras do Gurgel, repeti-as:
– Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui, e irá depois.
– Tanto incômodo!
– Incômodo nenhum, interveio tio Cosme.
Escobar aceitou, e jantou. Notei que os movimentos rápidos que tinha e
dominava na aula, também os dominava agora, na sala como na mesa. A hora que
passou comigo foi de franca amizade. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. Gostou

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muito do retrato de meu pai; depois de alguns instante de contemplação, virou-se e
disse-me:
– Vê-se que era um coração puro!
Os olhos de Escobar, claros como já disse, eram dulcíssimos: assim os definiu
José Dias, depois que ele saiu, e mantenho esta palavra, apesar dos quarenta anos que
trás em cima de si. Nisto não houve exageração do agregado. A cara rapada mostrava
uma pele alva e lisa. A testa é que era um pouco baixa, vindo a risca do cabelo quase em
cima da sobrancelha esquerda; mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as
outras feições, nem diminuir a graça delas. Realmente, era interessante de rosto, a boca
fina e chocarreira, o nariz curvo e delgado. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito, de
quando em quando, e veio a perdê-lo, desde que um de nós lho notou, um dia, no
seminário; primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos
defeitos miúdos.
Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos
agradassem a todos. Em casa, ficaram querendo bem a Escobar; a mesma prima Justina
achou que era um moço muito apreciável, apesar... Apesar de quê? perguntou-lhe José
Dias, vendo que ela não acabava a frase. Não teve resposta, nem podia tê-la; prima
Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede; o apesar
era uma espécie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia; ou então foi
obra de uso velho, que a levou a restringir, onde não achara restrição.
Escobar despediu-se logo depois de jantar; fui levá-lo à porta, onde esperamos a
passagem de um ônibus. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos
Pescadores, e ficava aberto até as nove horas: ele é que se não queria demorar fora.
Separamo-nos com muito afeto: ele, de dentro do ônibus, ainda me disse adeus, com a
mão. Conservei-me à porta, a ver se, ao longe, ainda olharia para trás, mas não olhou.
– Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém de uma janela ao pé.
Não é preciso dizer que era Capitu. São coisas que se adivinham na vida, como
nos livros, sejam romances, sejam histórias verdadeiras. Era Capitu, que nos espreitava
desde algum tempo, por dentro da veneziana, e agora abrira inteiramente a janela, e
aparecera. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas, e quis saber quem era que
me merecia tanto.
– É o Escobar, disse eu indo pôr-me embaixo da janela, a olhar para cima.

CAPÍTULO LXXII
Uma Reforma Dramática
Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais, tão
certo é que o destino, como todos os dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles
chegam a seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores vão dormir. Nesse gênero
há porventura alguma coisa que reformar, e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim.
Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato, os três seguintes seriam dados à ação lenta e
decrescente do ciúme, e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos, as explicações de
Otelo e Desdêmona, e o bom conselho do fino Iago: “Mete dinheiro na bolsa.” Desta maneira, o
espectador, por um lado, acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão, porque os últimos
atos explicariam o desfecho do primeiro, espécie de conceito, e, por outro lado, ia para a cama com uma
boa impressão de ternura e de amor:

Ela amou o que me afligira,
Eu amei a piedade dela.
CAPÍTULO LXXIII

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O Contra-Regra
O destino não é só dramaturgo, é também o seu próprio contra-regra, isto é,
designa a entrada dos personagens em cena, dá-lhes as cartas e outros objetos, e executa
dentro os sinais correspondentes ao diálogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando
eu era moço, representou-se aí, em não sei que teatro, um drama que acabava pelo juízo
final. O principal personagem era Ashaverus, que no último quadro concluía um
monólogo por esta exclamação: “Ouço a trombeta do arcanjo!” Não se ouviu trombeta
nenhuma. Ashaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o
contra-regra, mas ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçadamente trágico,
mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda: “O pistão! o
pistão! o pistão!” O público ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, quando a
trombeta soou deveras, e Ashaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo, um
gaiato da platéia corrigiu cá de baixo: “Não, senhor, é o pistão do arcanjo!”
Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de
um cavaleiro, um dândi, como então dizíamos. Montava um belo cavalo alazão, firme
na sela, rédea na mão esquerda, a direita à cinta, botas de verniz, figura e postura
esbeltas: a cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam
atrás; todos iam às suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavalo. Relê Alencar:
“Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de teatro de 1858) não pode estar
sem estas duas coisas, um cavalo e uma namorada.” Relê Álvares de Azevedo. Uma
das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Catumbi, e, para ver a
namorada no Catete, alugara um cavalo por três mil-réis... Três mil-réis! tudo se perde
na noite dos tempos!
Ora, o dândi do cavalo baio não passou como os outros; era a trombeta do juízo final e soou a
tempo; assim faz o Destino, que é o seu próprio contra-regra. O cavaleiro não se contentou de ir andando,
mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitu, e olhou para Capitu, e Capitu para ele; o cavalo
andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. Tal foi o segundo dente de ciúme que me
mordeu. A rigor, era natural admirar as belas figuras; mas aquele sujeito costumava passar ali, às tardes;
morava no antigo Campo da Aclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar com um coração de
brasa, como era o meu! Nem disse nada a Capitu; saí da rua à pressa, enfiei pelo meu corredor, e, quando
dei por mim, estava na sala de visitas.

CAPÍTULO LXXIV
A Presilha
Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado, outro
andando e parando. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário:
“Aquilo, enquanto não pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...” Era
certamente alusão ao cavaleiro. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da
rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispôs a crer na
malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, levá-lo
ao corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese; mas José Dias, que
parara ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar. Eu impaciente, queria ir à casa ao
pé, imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não tardasse a aparecer, para
indagar e explicar... E os dois falavam, até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente,
e José Dias veio ter comigo, ao vão da outra janela.
Há um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os
peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente dizer-mo, fiquei com medo
de ouvi-lo. Quis tapar-lhe a boca. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da
expressão habitual, e perguntou-me com interesse:
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e abafava os soluços com a ponta do lençol. eu saí correndo. por maior que fosse o abalo que me deu. Chamava-lhe perversa. e. não me fez sair do quarto. Da cama ouvi a voz dela. Se olhara para ele. estava sossegado. senão como os outros que ali passavam às tardes. Eu falava-me. era natural dissimular. como ele insistisse em saber o que é que eu tinha. eu atirava-me à cama. podia ser que tivesse defesa e explicação. caindo. eu perseguia-me. Os olhos. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes. nem nunca mais. depois abanou a cabeça. eu os beijei de novo. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha. e fez um gesto de separação. simulei maior incômodo. estava diferente. Enxugou os olhos com os dedos. estaria aflita com a minha reclusão. era prova exatamente de não haver nada entre ambos. disse-me que era grande injúria que lhe fazia. CAPÍTULO LXXV O Desespero Escapei ao agregado. como se a tivesse entre eles. viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada. que viera passar o resto da tarde com minha mãe. deixando de examinar o negócio. respondi apontando com o dedo: – Olhe a presilha. Quis resolver tudo. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço.– Que é.. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera. Corri ao meu quarto. Podia estar zangada comigo. – E que poderia haver. mas. e fazer-me padre de uma vez. a sós comigo e o meu desprezo. tão leviana a julgasse que pudesse crer. ouvi-la e julgá-la. e chorava. frio e sereno. mas não escapei a mim mesmo. com os olhos no teto. voltava-lhe as costas. com o fim de não ir ao seminário e falar a Capitu. muito desprezo. a cavalo ou a pé. Via-me já ordenado. lembrou-me a recomendação que minha mãe fazia de me não deitar depois do jantar para evitar alguma congestão. mas abatido. abotoe a presilha. enterrá-las bem. por eles e pelas lágrimas.. não teria mais que desprezo. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde. Na manhã seguinte não estava melhor. mas eu acudi de pronto. e naturalmente comigo. que choraria de arrependimento e me pediria perdão. Confessou-me que não conhecia o rapaz. mas eu. Capitu ria alto.. deixei cair os olhos. mas não saí do quarto. até ver-lhe sair a vida com o sangue. Capitu ria agora menos e falava mais baixo. Posto que a cabeça me doesse um pouco. escapei a minha mãe não indo ao quarto dela. mas nem isso me abalou. e rolava comigo.. se ele vai casar? concluiu. Tinha ambas as coisas. se houvesse. podia não querer-me agora e preferir o cavaleiro. CAPÍTULO LXXVI Explicação Ao fim de algum tempo. Ergui-me de golpe. – Vai casar? 66 . José Dias inclinou-se. como das outras vezes. falava alto. Bentinho? Para não fitá-lo. Como me achasse estirado na cama. como se me avisasse. Não ceei e dormi mal. depois suspirou. não podia crer que depois da nossa troca de juramentos. E aqui romperam-lhe lágrimas. diante dela. peguei-lhe das mãos e beijei-as com tanta alma e calor que as senti estremecer. eu continuava surdo. e entrei atrás de mim.

é um modo de falar. e ela o sentiu no meu gesto.. e faço de conta que me confesso a um padre. com uma moça da Rua dos Barbonos. – Se precisa de absolvição. CAPÍTULO LXXVIII Segredo por Segredo De resto. Não é claro isto. mas buscava ficar atento. está absolvido. e jurei que nunca a haveria de cumprir: era a primeira suspeita e a última. Não referi tudo mas só uma parte. não tenho propriamente um amigo. senti que a voz se me precipitava da garganta. você é o primeiro e creio que já notaram. quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada. e foi que à primeira suspeita da minha parte. – Escobar. Esta razão quadrou-me mais que tudo. Quando voltei ao seminário. – Escobar. deixaria de ir mais à janela. ninguém se distrai à toa. aqui no seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração. disfarce. Perguntavame com interesse o que é que tivera. que chegam a diluir-se no prazer. espetando-me os olhos. na quarta-feira. você é meu amigo. – Então parece-lhe?... 67 . era bom disfarçar o mais que pudesse. perde a graça. você às vezes está que não ouve nada.. à sua parte. – Não! não! não! não lhe peço isto! Consentiu em retirar a promessa. tinha razões para andar distraído também. nem por isso deixou de dizer que. se eu me demorasse mais um dia em casa. CAPÍTULO LXXVII Prazer das Dores Velhas Contando aquela crise do meu amor adolescente. A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento. Comovido. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém. – Estou. Aceitei a ameaça. se estava bom de todo.. mas nem tudo é claro na vida ou nos livros. – Tenho motivos. achei-o inquieto. você é capaz de guardar um segredo? – Você que pergunta é porque duvida. para evitar nova equivocação. disse-me com quem. – Desculpe. ele esperou. e nesse caso. Hesitei. a tal ponto se espiritualizaram com o tempo. retorquiu ele sorrindo. mas eu não me importo com isso.. parece que estou repetindo. Ele. tudo estaria dissolvido entre nós. – Sim. disse-me que era sua intenção ir ver-me. eu sou seu amigo também... Três dias depois disse que me estavam achando muito distraído. olhando para ontem. e é que as dores daquela quadra. Santiago.Ia casar. Ouvia. mas fez outra. e lá fora. – Que é? – Escobar. sinto uma coisa que não sei se explico bem. e foi Escobar que a recebeu. – Se eu disser a mesma coisa. Eu sei que é moço sério. a não ser a gente da família. – Creio. naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu.

ao voltar de casa. – Agora não é possível.– Escobar. Ao contrário. tão escassa e surda. Nem cuides que pasmou de me ver enamorado. Uma só bastava a penetrar-lhe a essência íntima. Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria. também eu tenho o propósito de não acabar o curso. fica só entre nós. achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. como uma santa. Ainda agora. – Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você. mas pode ir antes. eu louvava as qualidades morais de Capitu. Nota que eu não lhe disse tudo. no fim da nossa conversação. acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade.. 68 . Era como que uma felicidade mais. Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. não é preciso dizê-lo. por que não foi ontem jantar comigo? – Você não me convidou. por exemplo. eu não posso ser padre. aí me cumpria ficar. você irá lá. nem outros assim. não lhe referi o capítulo do penteado. a simpleza. mas se é possível fazer distinção. uma vez que eu só podia servi-lo no mundo. que não a ouvi eu mesmo. trazia a este mundo um aspecto extraordinário. Não calculas o prazer que me deu a confidência que lhe fiz. e eu nem mais nem menos um mimoso do céu. eis a minha sensação.. absolutamente nada. a modéstia. seria um mau padre. minha mãe era adorável. Quando ela vier. mas o contado era muito. o amor do trabalho. mas eu não posso ser padre. – Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço. – Também eu fiquei gostando de todos. matéria adequada à admiração de um seminarista. confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável. mas o comércio é a minha paixão. que apenas trocara com ela quatro palavras. – Só isso? – Que mais há de ser? Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. Não lhe tocava nas graças físicas nem ele me perguntava por elas. não podia deixar de sentir que era adorável. declarou-me que era segredo enterrado em cemitério. Aquele coração moço que me ouvia e me dava razão. – Nem eu.. nem o melhor. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar. e os costumes religiosos. Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. sou religioso. Então contei-lhe por alto o que podia. Que voltamos ao assunto. Uma pessoa?. depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende na parede. mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto. Não foi preciso mais para que ele entendesse. Santiago. Voltamos uma e muitas vezes. – Nem você? – Segredo por segredo. os meus acreditam. gostei de ouvi-lo falar assim. apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista. Uma pessoa devia ser uma moça. Era um grande e belo mundo. a vida uma carreira excelente.. nem seria padre. disse-lhe na primeira semana. sei porém que disse “uma pessoa. sim. CAPÍTULO LXXIX Vamos ao Capítulo Com efeito. meu desejo é o comércio. Estou aqui. sim. E não é que eu não seja religioso. pode ir sempre. Deus protegia os sinceros. Deu-me de conselho que não me fizesse padre.” com reticência. mas da terra. Escobar escutava com interesse. mas não diga nada. e esperam. Não podia levar para a Igreja um coração que não era do céu.

é provável que me encaminhasse somente à política. não as entendi mais que eles. uma troca de promessa. que enxugou sem explicar. sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. que estava atrás da porta. mas. – e pode ser também (é o princípio do ponto). e consentiu nas transferências de pagamento. Por que é que Deus a puniria. para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adorável. falou da necessidade de entregar o preço ajustado. Era um raciocínio tardio. É grave e complexo. mas toda a verdade. Católica e devota sentia muito bem que as promessas se cumprem. confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. como tinha vocação da política. para quem tem de pagar na Páscoa. nem tio Cosme. se vivesse. vê-se que eram saudades prévias. fora do clero. sabes que. Meu pai. não dependia daquela quantia para comer. começou a adiar a minha entrada no seminário. CAPÍTULO LXXX Venhamos ao Capítulo Venhamos ao capítulo. nesse mesmo capítulo. um destes em que o autor tem de atender ao filho. sem necessidade de lha dedicar ab ovo. Ora. José. é possível que alterasse os planos. delicado e sutil. tudo se manteve. porém. e naturalmente inclinava-se à negativa. nem prima Justina. pode ser que arrependimento da promessa. se pudesse. eu. e minha mãe. Minha mãe era temente a Deus. foi guardada por ela. embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis. Outrossim. a questão é se é oportuno e adequado fazê-las todas. casado e pai. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras. Mas meu pai morrera sem saber nada. que esperei viesse depois. Um dia. negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida. devia ter sido feito no dia em que fui gerado. não bastando concluir para destruir. era uma conclusão primeira. Em todo caso. vamos ao capítulo. está num dos capítulos primeiros. apesar da distância. é o 69 . como única devedora. mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos.E porventura era certo que me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto. Minha mãe faria. só a verdade. verteu ela umas lágrimas. e eu fui para o seminário. no mais íntimo do coração. A promessa. um dos familiares que serviam de endossantes da letra. Tudo está contado oportunamente. dando parte dos seus anos para conservar-me consigo. não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir. feita com fervor. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. uma vez que toquei no ponto. para que um e outro digam a verdade. e que nenhum dos presentes. nem o agregado José Dias entendeu absolutamente. Bem examinados. O credor era arquimilionário. reformar uma letra. e ela ficou diante do contrato. posto me mandasse ensinar latim e doutrina. Realmente. e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. a mágoa da separação. sem sequer agravar a taxa do juro. tanto que já pesquisava em que altura lhe daria um capítulo. sabes disto. Um cochilo de fé teria resolvido a questão a meu favor. comercialmente falando. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. Um dos aforismos de Franklin é que. a Quaresma é curta. com alegria. É o que se chama. Basta de prefácio ao capítulo. e. aceita com misericórdia. e o filho há de ouvir o autor. e de fé pura que as animava. mas. e das suas práticas religiosas. melhor é acabar com ele.

Prima Justina escapou aos meus. tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor. tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. o sol das manhãs. e no domingo. no primeiro sábado. Neste caso. insinuou prima Justina. Minha mãe apalpava-lhe o coração. e. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. assim como suponho que rejeitou tal idéia. haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra. para desnortear a justiça. Na vida comum. teriam suprido tudo. a lua das noites. lá vivia horas e horas. A verdade é que minha mãe não podia tê-la agora longe de si. a esperança de que o nosso amor. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. – Talvez ficassem namorando. minha mãe levou o filho ao monte da Visão. Então (é o final do ponto anunciá-lo). nem punhal. e as pernas como armas de fuga ou de defesa. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes. – Pois então? Mas é se queres. ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: “Não faças mal algum a teu filho. e soube que Capitu estava na Rua dos Inválidos. E atou Isaac em cima do feixe de lenha. com este acréscimo que.que presumo. se pudessem matar. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. falando e cantando. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. às onze horas. No momento de fazê-lo cair. e mais a lenha para o holocausto. ouvindo. mas os olhos que lhe deitei. o ato de terceiro não desobriga o contratante. esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. corri à Rua dos Inválidos. por modo idêntico ou análogo. Agora se entenderá que ela me dissesse. Era como se.” Tal seria a esperança secreta de minha mãe. quando eu cheguei a casa. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. o fogo e o cutelo. eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. pegou do cutelo e levantou-o ao alto. por lhe parecer uma deslealdade. conheci que temes a Deus. o frescor das tardes. CAPÍTULO LXXXI Uma Palavra Assim contado o que descobri mais tarde. os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos. com sinhazinha Gurgel: – Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa? – Ofereceu. 70 . Capitu passou a ser a flor da casa. tornando-me absolutamente incompatível com o seminário. eles são quase irmãos gêmeos. O céu e a terra acabam conciliando-se. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo. como armas de ataque. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura. exerceriam vingança pronta. A afeição crescente era manifestada por atos extraordinários. o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. pistola. me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo diabo. revolvia-lhe os olhos. Como Abraão. posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. e correriam a chorar a vítima. se és religioso. Não a matei por não ter à mão ferro nem corda. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse. mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá. eu é que não escapei ao efeito da insinuação.

71 . e mostra a casa toda sem sair da sala. a conselho de minha mãe. elas que têm ouvidos. mas. e duas mulheres a graça de um vestido. que se ia agravando. que não quer outra. estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. observou Gurgel olhando também para ela. mortes. suicídios e assassinatos. com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos. voltou-se para mim. – Não. – Fique aqui um bocadinho.. que brilhavam extraordinariamente: – Seremos felizes! Repeti estas palavras. senhor. Eu levanteime depressa e não achei compostura. e voltando-se para mim: É a enfermeira de Sancha. Capitu e eu. não menos que espantada. E acrescentou com os olhos. nenhum ar de mistério da parte de Capitu. Ao contrário. e efetivamente conversamos por alguns minutos. Todas as minhas invejas foram com ela. apertando os dela. mas quer falar-lhe. visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha. e que até breve. um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos. nada entenderam. com a pura verdade. Falou-me. Foi Capitu que os trouxe à porta da sala. quer visse ou não. só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral. Custou-lhe a crer que fosse eu.. eu já volto. A filha estava enferma. Nem sobressalto nem nada. fresca e lépida. CAPÍTULO LXXXIII O Retrato Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. a mocinha de sempre.. Data daí a opinião particular que tenho do canapé.. e anunciou-me que se mataria também. Eis aqui um capítulo fúnebre como um cemitério. vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar. Foi o que fizemos. que lhe expliquei a minha visita à Rua dos Inválidos. metia os olhos pelas cadeiras. que estavam tão tristes como o dono. pensava já vê-la morta. vagamente. Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentara. O canapé. – Está pior? perguntou Gurgel assustado. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande. caíra na véspera com uma febre. Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império. mas tão depressa me viu. a febre parece que cede. continuou a prestar os seus serviços às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas. – Não. isto é.. De resto. mas. disse ele. Capitu trazia sinais de fadiga e comoção. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? – Está uma moça. mas tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram. Também me lembra. CAPÍTULO LXXXII O Canapé Deles. – Conselho dela? murmurou Capitu.O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. se elas ouviram algo. – Não sei.. com os simples dedos. Ele faz aliar a intimidade e o decoro. quis que lhe falasse. ficou toda outra. e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina. Como ele queria muito à filha. nem elas nem os móveis. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. disse-lhe ele.

Murmurei que sim.. – Finalmente. ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer. Que vida que ele teve!. examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma coisa. e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro. Bentinho! Só depois que a voz cresceu e o dono dela chegou à porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. até a amizade que ela tem a Sanchinha. nenhuma nota 72 . disse-me ele chorando. e ela fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão. e eu. com a alegria de Capitu. Capitu ia crescendo às carreiras.. enterra-se amanhã. Se eu passasse antes ou depois. para mim. pareciam irmãs. fui respondendo que sim. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor. mas apesar de tudo sempre dói. Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. Ia satisfeito com a visita. Estava já na Rua de Matacavalos. de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia. mulher por todos os lados. deixei ao corpo fazer o que pudesse. Quer vê-lo? Entre.. Bentinho. As minhas idéias de ouro perderam todas a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia. moralmente. coitado. mas antes peque por excessivo que por diminuto. ande vê-lo. mas achei que não e pus-me a andar. onde pendia um retrato de moça. e não distingui mais nada. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa. que não queria ver o Manduca. Quanto ao gênio. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato. Custa-me dizer isto. e perguntou se estava no seminário. Gurgel. a coisa mais importante era Capitu. Não culpo ao homem. era um. Quis responder que não.. e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido... abria-me espaço com o gesto. Também achava que as feições eram semelhantes. e desde os pés até a cabeça. Bentinho! Sr. A casa era uma loja de louça. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. a testa principalmente e os olhos. porque ele. e o corpo acabou entrando. os olhos pareciam ter outra reflexão. voltando-se para a parede da sala. a mãe não era mais amiga dela. a mesma coisa. encostado ao portal. Há coisas que se não ajustam nem combinam. a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava: – Sr.. Esse arvorecer era mais apressado. mas provavelmente não falei por palavras claras. sem alma para entrar nem fugir. CAPÍTULO LXXXIV Chamado No saguão e na rua. Meu pobre filho! Tinha de morrer. Não era medo. aborrece ou impõe. sabe que meu filho Manduca morreu? – Morreu? – Morreu há meia hora. mas agora ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada.. escassa e pobre. – Sr. Era mulher por dentro e por fora. desde que a matéria não me agrava. e fiz até um gesto para fugir. mulher à direita e à esquerda. Eis o mal todo. O mal foi que os dois casos se conjugassem na mesma tarde. para ele. agora que eu a via de dias a dias. com os louvores de Gurgel. tinha as portas meio cerradas. Mas também não me culpem a mim. nem sequer humanas... e foi bom que morresse. Na verdade. noutra ocasião pode ser até que entrasse com facilidade e curiosidade. Um dia destes ainda se lembrou do senhor. Mandei recado a sua mãe agora mesmo. e a boca outro império. A simples notícia era já uma turvação grande. a coisa mais importante do momento era o filho. perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade.

antes a escondia nas dobras da. rapazes! CAPÍTULO LXXXVII A Sege Chegara ao último degrau.. CAPÍTULO LXXXVI Amai. Realmente. Tudo arredei da vista. disse que era esperado em casa. e despedi-me. assobia. os seus parentes são mortos. Tudo o que vejo lá fora respira vida. ainda que de fugida. podia ir ao enterro. atravessei a loja. rapazes! e... morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde. apesar de não ter músculos nem folhagem. pouco mais velho. Diga-se tudo. buscava esquecer o defunto. com o dedo na boca. Eu cuidei de sair. sim. Refleti um instante. elas dão remédio ao mal.. entre as grades da cancela. que antes de três minutos me achei em casa. o quadro era feio. agora que as janelas da área estavam cerradas. trocam a morte pela vida. O cadáver jazia na cama. a galinha que marisca no chão da rua. mas tanto lhe darias quinze como vinte e dois.. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando. pediria a minha mãe que me alugasse um carro. E rápido saí. a cabra que rumina ao pé de uma carroça. Isto aqui. já pela morte. morto pareceu-me horrível.. aroma ao infecto. principalmente. Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. a tomar fôlego. Amai. – Coitado de Manduca! soluçava a mãe. Vá. Rapazes! Era tão perto. já pelo defunto.. em poucos segundos. à porta da alcova duas crianças olhavam espantadas para dentro. que ali no beco empina um papagaio de papel. A loja era escura. e finalmente aquela torre de igreja. Amai. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito. fumega e passa. Teria dezoito ou dezenove anos. 73 . olhei. Suspendamos a pena e vamos à janela espairecer a memória. sim. e o mais que não disse para não dar a estas páginas um aspecto repugnante..aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. e uma idéia me entrou no cérebro. Manduca padecia de uma cruel enfermidade. fiquei apavorado e desviei os olhos. o triste corpo daquele meu vizinho. O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro. se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. Vivo era feio. é morto. a cara não permitia trazer a idade à vista. Parei no corredor. a palmeira que investe para o céu. nada menos que a lepra. bastou-me pensar na outra casa. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez. Verdade é que o outro Manduca era mais velho que este. e o interior da casa menos luz tinha.. faria o que minha mãe quisesse. pálido e disforme. tornei a olhar. respondi com a verdade.. Quando eu vi. é outra coisa. – Padeceu muito! suspirou o pai. CAPÍTULO LXXXV O Defunto Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça.. que era horrível. e saltei à rua.. Um rapaz. Parei no degrau. a cama. que não sabia. amai moças lindas e graciosas. como se estivesse a esperar por mim. e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu. posto também se chame Manduca. cedi. diga-se tudo. mas podes imaginá-lo. não morreu nem morre. estendido na cama. até que recuei de todo e saí do quarto. o trem da Estrada Central que bufa.

não alcançava tudo o que queria. com grandes pernadas ou passos miúdos. – Senta. mamãe! E em pé. por mais que tivesse o gosto da condução. mas a principal e imediata foi aquela. na mão levava o chicote grosso e comprido.. – Mas demora! Fica entendido que era para saborear a sege. vai devagar. que ela conservou o mais que pôde. mas ele gostava e eu também. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: “É aquela senhora da Rua de Matacavalos. acompanhando o enterro no dia seguinte. mas já deixei dito que. dizia-me rindo: – Pai João vai levar nhonhô! E era raro que eu não lhe recomendasse: – João. metia a cara no vidro. porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro. vestido. as pessoas paradas na calçada ou à porta das casas. Em pequeno. neste ponto. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos. e então o espetáculo era particularmente interessante. velhas maneiras. Quando havia impedimento de gente ou de animais. e era conhecida na rua e no bairro pela “sege antiga”.. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele.. abertas ou fechadas. era a lembrança do marido.. estreita e curta. e. esperando minha mãe. que tem um filho. continuamos a andar nela. Tudo incômodo. tão velho como a sege. e via o cocheiro com as suas grandes botas.. escanchado na mula da esquerda.Não cuides que era o desejo de andar de carro. e podia fazer outra visita a Capitu. não iria ao seminário. não pela vaidade.. 74 . e na rua as pessoas que iam e vinham. lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia. com duas cortinas de couro na frente. Afinal minha mãe consentiu em deixá-la. umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825. e à missa. lojas ou não. a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras. esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. – Vou pedir a mamãe. um resto da pessoa. – Nhá Glória não gosta. Bentinho! – Deixa espiar. que quando já não havia nenhuma outra. Voltaria à Rua dos Inválidos. demora muito as bestas. o penteado. por onde eu gostava de espiar para fora. Era uma velha sege de meu pai. com gente ou sem ela. Bentinho. a sege parava. velhas idéias. as mãos presas. para que tudo fosse antigo. Capitu comigo no canapé. Era uma velha sege obsoleta. Cada cortina tinha um óculo de vidro. sem a vender logo. Mas o uso. CAPÍTULO LXXXVIII Um Pretexto Honesto Não. olhavam para a sege e falavam entre si. quando me via à porta. só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. o chicote e as mulas. quando era mais pequeno. a si mesma se queria fazer velha. se chovia. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental. velhas modas. um trecho de mantilha. Tinha o seu museu de relíquias. Eis aí o que era.” A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe. naturalmente sobre quem iria dentro. Contava que tudo me saísse como naquele dia. pentes desusados. que era nosso escravo. Dos lados via passar as casas. de duas rodas. e segurando a rédea da outra. A origem era outra: era porque. as botas. O cocheiro. que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois. um tanto mais demorada. a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. ou atravessavam diante da sege. Gurgel aflito. a mesma alma integral e pura.

no dia seguinte. pensando no motivo. Foi a guerra da Criméia. entre nós. passei pela casa do defunto. íamos com o que nos diziam os jornais da cidade. lendo por desfastio. o pai enfiava-lhe uma camisola escura. que então ardia e andava nos jornais. dois anos antes. a doença ia-lhe comendo parte das carnes.. disse. Prima Justina opinou pela negativa. – Perder um dia de seminário. mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. tornou ele. deitado na cama.. os dedos queriam apartar-se. decerto. CAPÍTULO XC A Polêmica No dia seguinte. Mal podeis crer a que propósito foi. Intimidade.. – Não. Defendi o direito da Rússia. Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito. Que amizade é essa que eu nunca vi? Prima Justina venceu. e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel 75 . Antes de transpô-la. Se me não engano. e a justiça está com os aliados. Ao domingo. mais tarde achei-lhe um sabor particular. e não fiquei pouco espantado. e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. Reduziam-se todas a uma polêmica. como falássemos da guerra da Criméia. antes longe que próximo. Fosse o que fosse. Manduca fez o mesmo ao dos aliados. o que é impossível. este sorriu. transcrevendo os de fora. Só se a justiça não vencer neste mundo. e repeti a meia voz: – Coitado de Manduca! CAPÍTULO LXXXIX A Recusa Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro. e eu respondi que não. senhor. sem entrar nem parar. Manduca disse que os aliados haviam de vencer. Fui pensando nelas. – ou. Era todo o seu recreio. Tudo o que me lembrou dizer. fiquei amuado. a razão é dos russos. Quando referi o caso ao agregado. Foi ali que o vi uma vez. sobre a tarde. ainda mais breve que este em que vo-lo digo. receando que me chamassem como na véspera. recordando algumas. e depois era gente pobre. nem nos conhecíamos de muito. que intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Tivemos relações breves e distantes. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias. Naturalmente. e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro “o lustre da minha pessoa”.. andei até mais depressa. o aspecto não atraía. – Pois veremos. Fui andando e pensando no pobrediabo. e trazia-o para o fundo da loja. Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha.. ouvi agora a da mãe. se parei. Manduca vivia no interior da casa. Uma vez que não ia ao enterro. assim como ouvira da memória a palavra do pai do morto. não me desagradou. Tinha eu de treze para quatorze anos. – Acho que não. a propósito..Abri a cancela. foi só um instante. – Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe. donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Da segunda vez que o vi ali. Não éramos amigos.

a questão é saber. atira-se a lê-los. Tinha já papel. Comecei a demorar as respostas. não era exaltada. não tinha gestos. A última. por fadiga também ou por não aborrecer. dizia-me o dono da loja. Fizeram-me entrar na alcova. mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. Enquanto espera. uma vez. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei. pela sua parte.. assunto da cidade e do mundo. tanto que eu queria pedir-lhe uma coisa. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam. tão certo é que a natureza.contendo a exposição e defesa do direito dos aliados. Manduca era mais longo e pronto que eu. que me chamava a outros exercícios.. O acaso dera-lhe em mim um adversário. Dias depois recebi a réplica. nem a moléstia os permitiria. que tinha gosto à escrita. não era ruidosa. ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu silêncio. e começa logo a escrever a resposta. mal coberto por uma colcha de retalhos. agora que o século está a expirar. Morreu afinal. em que nenhum de nós cedia. não se a Turquia morrerá. como a um remédio novo e radical. profunda. como a primeira. a família. à porta da rua. entra a indagar da resposta. concluindo por esta frase profética: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Li-a e meti-me a refutá-la. como a história. quando passar. não me lembra se trazia coisas novas ou não. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade. era simples. como os Estados morrem. Fui eu que cansei primeiro. como todas. porque a morte não poupa a ninguém. antes de saber os meus argumentos. nem talvez interesse conhecê-los. e a própria saúde. mas que ninguém ia tratar com ele. o sorriso que a acendeu dissimulou o mal físico. os recreios. e que pergunte ao moleque. nem até agora. nem depois. A vida dele resistiu como a Turquia. depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis. defendendo cada um os seus clientes com força e brio. salvo o palmo de rua ao domingo de tarde. não se faz brincando. Senti essa mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe. Manduca. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. O próprio Manduca. os olhos desaprenderam de chorar. mas não recebendo contestação alguma. e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. o calor é que crescia. Mas também. no nosso caso particular. pena e tinta ao pé da cama. Há ocasiões em que não come ou come mal. é que não os mande à hora do almoço ou do jantar. apenas recebe os seus papéis. e da integridade da Turquia. relê jornais e toma notas. não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa. nem então. e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente. e o final era o mesmo: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Trepliquei. onde ele jazia estirado na cama. um gozo infinito de vitória. até que não dei mais nenhuma. por mais nojosa que tivesse então a cara. tinha só esta guerra. deitou-se ao debate. grande. afirmava a mesma predição eterna: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Não entraram. Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. gastou três anos de dissolução. se porventura choravam antes. o estudo. ele. acabou de todo com as suas apologias. Mas a predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele. e se demorará muito. para entrar na sepultura. não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente. – Não imagina como ele anda agora. efetivamente. mas se os russos entrarão algum dia em 76 . Manduca. Fala e ri muito.

Constantinopla.. Nem foi só ele. veio ter a Matacavalos. Quero dizer que o meu vizinho de Matacavalos. CAPÍTULO XCII O Diabo não É tão Feio Como se Pinta Manduca enterrou-se sem mim. se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar. Quanto ao Manduca. não fiz propriamente nenhuma. esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. pensando melhor. É alguma coisa na liquidação da minha vida. em resumo. não contando o gosto do carro. Quero dizer. E talvez saia assim a flor mais bela. duas pessoas vieram ajudá-lo: Capitu. temperando o mal com a opinião anti-russa. – Você janta comigo. mas este caso afligiu-me particularmente pela razão já dita.. e ele respondeu com muita polidez. sem opinar coisa nenhuma. mas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. para terem um cheiro superior. nem podia 77 . não creio que fosse pecado opinar contra a Rússia. O que ele disse. dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. Já viste que não era assim. A muitos outros aconteceu a mesma coisa. a palavra obedecia-lhe. mas agora. ainda que um tanto atado. O resto deste capítulo é só para pedir que. Se há no outro mundo tal ou qual prêmio para as virtudes sem intenção. como se me não visse desde longos meses. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polêmica da vida. Então. o meu jardineiro afirma que as violetas. a caminho do seminário. rota e infecta colcha de retalhos. mas. e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. e outra que direi no capítulo que vem. CAPÍTULO XCI Achado que Consola É claro que as reflexões que aí deixo não foram feitas então. Há consolações maiores. hão mister de estrume de porco. CAPÍTULO XCIII Um Amigo por um Defunto Quanto à outra pessoa que teve a força obliterativa. mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. no gabinete do Engenho Novo. Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurreições. mas até lhe dei felicidade. antes do meio-dia. no seminário todos me queriam bem.. Um amigo supria assim um defunto. a não ser esta: que servi de alívio um dia ao meu vizinho Manduca. decerto. como se carecesse de palavra pronta. acho que não só servi de alívio. foi o meu colega Escobar que no domingo. fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. mas deve ser verdade. Não examinei. e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algum.. se era. Escobar? – Vim para isto mesmo.. debaixo da triste. cuja imagem dormiu comigo na mesma noite. já agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo. não deixe de concluir que o diabo não é tão feio como se pinta. sem que eu sentisse nada. foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação. o gosto com que ele recebia os meus papéis e se propunha a refutá-los. E o achado consola-me. Hoje. Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha. e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas. essa era a questão para o meu vizinho leproso. ele estará purgando há quarenta anos a felicidade que alcançou em dois ou três meses – donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido somente..

a maior parte ficou lá. e ainda outro. pode ser que a Sr. muito moça. Enviuvou há muitos anos? Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. senhora grave. Justina tenha alguma razão. vá-se embora. e prima Justina não achou tacha que lhe pôr. como João Fulo. e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natural. no segundo ou terceiro domingo. ou da pessoa. a de lá é naturalmente grande.. apontei ainda outros escravos. agora não voltamos mais. aquele José. e só então reparei nisto.. 78 . Tomás! – Nhonhô! Estávamos na horta de minha casa. onde tudo é apertado. – Você ainda se lembra da roça. sim. naturalmente). – É casado.. contou-me duas ou três reminiscências dos seus três anos de idade. tão pequenino viera. acrescentou. – Não é possível! exclamou Escobar.. ainda agora frescas. entretanto. isso parece. e o preto andava em serviço.deixar de ser assim. – Justamente! confirmou José Dias para não discordar dela. outros estão alugados. – A mim parece-me um mocinho muito sério. distinta e moça. interrompeu Escobar. Parece curioso. – Bem. expliquei. e elogiou também minha mãe. Insistia na educação. distinguindo-se por um apelido.. acudiu José Dias. Maria onde está? – Está socando milho. perguntando mais. Glória se acostumasse logo a viver em casa da cidade. tio Cosme dois capotes.. que o céu me deu. Também a alguém há de você sair. Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. – Nem eu digo que sejam de outro. respondi eu vagamente por vaidade. com esses olhos que Deus lhe deu. – O que me admira é que D. E não contávamos voltar à roça? – Não. A verdade é que uma coisa não impede outra. veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. ou de nação como Pedro Benguela. senhor. – Todas as letras do alfabeto. disse minha mãe. Maria Gorda. Agradeceu.. Que idade teria? – Já fez quarenta. eram diferentes letras. é de lá. mais outro. dizendo que eram bondades. Mostrei outro. Todos ficaram gostando dele.. chegou-se a nós e esperou. disse eu para Escobar. vi que o prazer dele foi extraordinário. “na doce e rara mãe”. está muito moça e bonita. depois. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. nos bons exemplos..ª D. Tomás? – Alembra. – São olhos refletidos. são exatamente os dela. Antônio Moçambique. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça. Com efeito. alguns andam ganhando na rua. sim. Nem são todos os da roça. – Não.. mas. Olhe. aquele preto que ali vai passando. Não era possível ter todos em casa. este Pedro. Quarenta anos! Nem parece trinta. – São os olhos dele. – Seguramente. – E estão todos aqui em casa? perguntou ele. alguns com os mesmos nomes. aquele outro Damião. senhor. sim. José Dias desfechou-lhe dois superlativos. Quando eu referi a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras. opinou tio Cosme. Escobar escutava atento.

dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes. São assim as boas horas deste mundo. lembra-me só que as achei engenhosas. e 7 é 7. Agora dobre 11 e terá 22. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. é 500. é bonita. – Conheço essa. mas parece. mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio. 79 . do c e do z. tornou a falar de minha mãe. 4 é 4. Caminhamos para o fundo. dizia ele. Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito. e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. O valor do zero é. que a natureza parecia rir também conosco. sendo poucos. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). São trapalhices caligráficas. Assim que. A minha alegria acordava a dele. – Não lhe hão de faltar tetos. o mesmo do k e do g. vinte algarismos. voltados para cima. Nem ele sabia só elogiar e pensar. em um minuto. uma no Catete. em meio minuto bradava-me: – Dá tudo 1:070$000 mensais.. pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp. Contudo. CAPÍTULO XCIV Idéias Aritméticas Não digo o mais. passou-os pelos olhos a fim de os decorar. depois.. etc. na Cidade-Nova.. e acrescentou que as idéias aritméticas podiam ir ao infinito. Passamos o lavadouro. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. proferi algumas palavras de defesa. por palavras tão finas e altas que me comoveram. ele parou um instante aí. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo. cerrava as pálpebras. e enquanto eu fitava o relógio. treze. – Por exemplo. e sussurrava. e o céu estava tão azul.. e ri. que foi muito. como a da Rua da Quitanda. Assim. Algumas são bem grandes. eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou lingüístico. mas não ousava refutá-lo. e tinha esta opinião que os algarismos. concluiu ele sorrindo com simpatia. Criado na ortografia de meus pais. A divisão. enforque-me! Aceitei a aposta. multiplique por igual número. nada.. ele riu também. a propósito da beleza moral que se ajusta à física. o que não vale nada faz valer muito. e assim por diante. olhe. ao passo que ele podia somar.. dá 484. ele erguia as pupilas.. e o ar tão claro. com a vantagem que eram mais fáceis de menear. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. um dia. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício. mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. coisa que não fazem as letras dobradas. ponha-lhe dois 00. em três minutos. e se eu não disser a soma total em dois. Escobar pegou no papel. era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos. Quais foram as reflexões não me lembra agora. dê-me um caso. que foi sempre uma das operações difíceis para mim. o mesmo do s. custava-me a ouvir tais blasfêmias. em si mesmo.. diz porém que há de morrer aqui.. – Tem também no Rio Comprido. Um 5 sozinho é um 5.. – Há letras inúteis e letras dispensáveis. sabia também calcular depressa e bem. O mesmo digo do b e do p. Isto com sete. quaisquer quantias. disse ele. ao que ele respondeu que era um preconceito. “um anjo dobrado”. As outras estão alugadas. Mamãe tem outras casas maiores que esta. eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto. depois continuamos.– Não sei.

Na primeira semana disse-me este em casa: – Agora é certo que você vai sair já do seminário. eram duas pessoas. e portanto mais naturais. mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente.. o reitor? Não era natural que lhe 80 . decerto. E que pessoa. respondi depois de alguns segundos de reflexão. com tal força que ainda me doem os dedos.. Vou jogar com eles que me chamaram. Eu.. – Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples. – fê-lo Escobar de cor. A natureza é simples.. só por lhe mostrar que sim. Considera que eram não menos de nove casas. se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Glória.. – Mas é coisa certa? – Certíssima! No dia seguinte revelou-me o mistério. – e havia de ser no papel. A idéia é tão santa que não está mal no santuário. a de José Dias não lhe quis ficar atrás. e perguntava se não era exato. brincando. lá no quarto. Que me parecia? – Parece-me bem. Cumpria rompê-lo. estava arrependida do que fizera.Fiquei pasmado. ou na rua. – Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. Amanhã. com o poder de desligar dado aos apóstolos. Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. e desejaria ver-me cá fora.. Ao primeiro aspecto. disse-nos. Pode ser um bom remédio. A arte é atrapalhada. era aquilo mesmo. Rigorosamente. e podemos partir daqui a dois meses. Escobar apertou-me a mão às escondidas. indo de 70$000 a 180$000. Bentinho. CAPÍTULO XCV O Papa A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda. ao parecer dele. e mostrei-lho. Era no pátio. podem estimar-se com moderação. se era inveja.. – Quebremos-lhe a castanha na boca! – Mas. e para tanto valia a Escritura. conto-lhe o que há. – Melhor é falar domingo que vem. Minha mãe. mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém. nem um erro: 1:070$000... ou antes. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que falava aos meus olhos de seminarista. ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do Papa. – Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.. confesso que fiquei deslumbrado. Assim que. é o único! Vou já hoje conversar com D. Era não menos que isto. expondo-lhe tudo. Interrompi-o dizendo que não... Capitu e Escobar. deixe-me pensar primeiro. Digo? Não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. Bentinho. no quintal. – É o único. um padre que estava com eles não gostou. Suspendamos a pena por alguns instantes. Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo. Pois tudo isto em que eu gastaria três ou quatro minutos. outros seminaristas notaram a nossa efusão. Olhando-me triunfalmente. Pensar em quê? Você o que quer. amanhã. É ilusão. – A modéstia. – Como? – Espere até amanhã. indo à missa. e que os aluguéis variavam de uma para outra. que não pude deixar de abraçá-lo. tanto pior para eles. não consente esses gestos excessivos. tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total.

– Nunca! – Esquece. jurasse que no fim de seis meses estaria de volta. – Não? – Não. CAPÍTULO XCVI Um Substituto Expus a Capitu a idéia de José Dias. – Não se vai a Roma brincando. no domingo daria a resposta. nem acabava de adotar esta. você beijando o pé ao príncipe dos apóstolos. Ouviu-me atentamente. vi a alma feliz de Capitu. e eu com elas. Glória está morta para que você saia do seminário. a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seu desejos. mas julga-se presa pela promessa. dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe. espiritualmente. nem reitor. e não achei logo que lhe replicasse. Se Capitu achasse longe. Sua Santidade. Serei como São Paulo. nem ninguém. e boca no nosso caso é a moeda.confiasse tal assunto. cartas de capuchinhos. que me daria um bom conselho. Vi a alma aliviada de minha mãe. porque é preciso acabar o capítulo. disse ela. Pois eu vou. e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu. o levita prometido. – Por Deus? – Por Deus. e acabou triste. também. – Juro. ia ver se não haveria outra coisa. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. e prostrar-se aos pés do papa o próprio objeto do favor. não. não preciso mais. Não digo mais. além do mais que não digo basta refletir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano.. pediume que. por tudo. com o sorriso evangélico. e eu que visse também por meu lado. você pode muito bem gastar consigo. – Você indo.. que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus. ouve. era só o tempo de refletir uma semana. cartas para nosso ministro. nem professor. rindo e chamando-me disfarçado. e ele não acabou o discurso. – Sim. que eu só geograficamente sabia onde ficava. ambas em casa. A Europa dizem que é tão bonita. e ele conosco. se acaso fosse a Roma. – Quem tem boca vai a Roma. mas era preciso ouvi-la. Capitu não achava outra idéia. sejam santificados. inclina-se. Eis o ponto essencial. mas a distância que estaria da vontade de Capitu é que não. interroga. não pregá-la. um par de calças. Comigo. 81 . Considere o quadro. Depois. e assim também a Escobar. Os anjos o contemplam. mas ainda assim não consentiu logo. – Pois resolvamos hoje mesmo.. Bem sei a objeção que se pode opor a esta idéia. tudo mediante uma pequena viagem a Roma. Capitu meteu o negócio à bulha. Levaremos cartas do internúncio e do bispo. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me. E não haverá outro meio? D. não iria. que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina.. Ora.. Não. – E se você mentir? Esta palavra doeu-me muito.. Juro que no fim de seis meses estarei de volta. três camisas e o pão diário. Bentinho. declarou crer que eu cumpriria o juramento. De caminho. esquece-me inteiramente. mas. absolve e abençoa. Bentinho. – Mas se o Papa não tiver ainda soltado a você? – Mando dizer isso mesmo. mas buscá-la. e a Itália principalmente. e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má.

Posto que filho do seminário e de minha mãe. CAPÍTULO XCVII A Saída Tudo se fez por esse teor. Já esta página vale por meses. a questão era fácil. sem cair no erro que acabo de condenar. Consulte sobre isto o protonotário. se quer. deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. – Não há outra coisa. e diziam-mo. que podia ser. Escobar observou que. sem que você. quando tornei de longe. diria o meu agregado José Dias. Bentinho. entendo. está dado um padre ao altar. a religião e a liberdade fazem boa companhia. no comércio? – In hoc signo vinces. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. e assim chegaremos ao fim.. mas a inexperiência fezme ir atrás da pena. Escobar ouviu-me contentíssimo. – não digo melhor. Saí do seminário no fim do ano. a análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano. – E saímos juntos. Achavam-me lindo. parecendo gostar da resposta. tendo consultado o bispo. – Ainda uma vez. Há melhor. Sentia-me pilhérico. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas. vi-lhe no rosto um clarão. Oh! como a esperança alegra tudo. ou eu mesmo consulto. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão. Escobar sorriu. quase me comeram de contemplação. e chego quase ao fim do papel. Citou a soma dos aluguéis das casas. cada um com os seus olhos perdidos. O próprio latim não é preciso. que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. De repente. minha mãe gastaria o mesmo que comigo. voltou a dizer-lhe que sim. capítulo sobre capítulo. – Entendo. E ouvi-lhe dizer com volubilidade: – Não. outras valerão por anos. eram do sangue. Os olhos. fala-se ao senhor bispo. fazê-lo ordenar à sua custa. disse ele gravemente. provavelmente. porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. Minha mãe hesitou um pouco. Depois ficamos a cuidar de nós mesmos. dê-lhe um sacerdote. Eu era um curiosíssimo. – Que é? – Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote. depois que o Padre Cabral. 1:070$000. Os dele estavam assim. mas eram também das moças que na rua ou da janela não me deixavam viver sossegado. – mas há coisa que produz o mesmo efeito. algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza. a promessa cumpre-se. 82 . sentia já debaixo do recolhimento casto uns assomos de petulância e de atrevimento. além dos escravos.Quando voltei ao seminário. pelo lado econômico. não podia havê-lo melhor. e se ele hesitar. O que essa qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca dizê-lo aqui. Aqui devia ser o meio do livro. Vou melhorar o meu latim e saio.. que não seja você. ele lhe dirá se não é a mesma coisa. – Você também? – Também eu. e não diria mal. não é? Pois bem. parece que é isso. Tinha então pouco mais de dezessete. mas acabou cedendo. para que. contei tudo ao meu amigo Escobar. não é preciso isso. um reflexo de idéia. Se sim. refletindo: – Sim. pouca reflexão. Eu. não se perdendo o padre. nem dou teologia. pouca emenda. e um órfão não precisaria grandes comodidades. é isto mesmo.. Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. e a vaidade é um princípio de corrupção. de costume fugidios. realmente... – Não acha? continuou ele. disse eu rindo. com o melhor da narração por dizer. disse eu. tudo em resumo.. e agradeci de novo o plano lembrado.

Hás de ir ver a ordenação. lembrando o evangelho de São João. Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. quase irmã dela. A prima Justina apenas estava mais idosa. eu também se o meu senhor coração consentir. Sempre achei que te parecias com ele. Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus primeiros tentames comerciais. Passei os dezoito anos. agora é muito mais. quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade. – casou com a boa Sancha. mas. Já não andaria tanto de um lado para outro. lépido e viçoso. como se o bacharel fosse ele.. José Dias também.. Assim se formam as afeições e os parentescos. é a cara do pai. – Sim. Tudo mudara em volta de mim. escrevendo-me. respondeu tio Cosme. e dizendo ao ver-nos abraçados: – Mulher.. O bigode é que desfaz um pouco. fui-me aos estudos. os dezenove. minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros. aos vinte e dois era bacharel em Direito. É bom que te sintas na alma do outro. os vinte e um. logo que pôde. – Como vai o meu substituto? – Vai indo. e fê-lo servir a ambos nós. não foi melhor que ele não teimasse em ser padre? Veja se este peralta daria um padre capaz. eis aí a tua mãe! Minha mãe.CAPÍTULO XCVIII Cinco Anos Venceu a razão. preferia José Dias. Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Capitu entregou-lhe a primeira carta. que foi mãe e avó das outras. e de fato. a touca. os vestidos. custou-lhe a ela aceitá-lo. entre lágrimas: – Mano Cosme. eis aí o teu filho! Filho. veja se não é a figura do meu defunto. concluiu por chalaça. as aventuras e os livros. E diga-me agora. mana Glória. não sem este remoque: “D. adivinha com quem. ordena-se para o ano. posto que vexada. os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. não é? – Sim. ainda assim os cabelos brancos vinham de má vontade. olha bem para mim. – Justamente! exclamou minha mãe. Bentinho.. mano Cosme. como se recebesses em ti mesmo a sagração. o bigode realmente. tem alguma coisa.. mas é muito parecido. Era opinião de prima Justina que ele afagara a idéia de convidar minha mãe a segundas núpcias. 83 . Ainda ouço a voz de José Dias. CAPÍTULO XCIX O Filho é a Cara do Pai Minha mãe. a disposição do rosto. Que ele casou. Minha mãe resolvera-se a envelhecer. que ele lhe restituiu. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. um pouco mais moderno. se tal idéia houve.” A separação não nos esfriou. A princípio. não tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir à minha graduação. tanto que alguma vez. os olhos. mana Glória. É o pai. Venceu Escobar. como amigo. Glória é medrosa e não tem ambição. descer comigo a serra. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu. Olha. A mãe de Capitu falecera.. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio. os vinte. a pedido meu. cumpre não esquecer a grande diferença de idade. o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demissão da vida. Mas veja bem. Tio Cosme padecia do coração e ia descansar. chama a esta a “sua cunhadinha”. mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. a amiga de Capitu. aos poucos e espalhadamente.

Depois da morte da mãe. é a mesma predição. e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. já lhe contei que ouvi da boca dos lentes. ia pensando na felicidade e na glória. como merece.Há de ser feliz.. melhor que ninguém.. e marido de truz. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si. boa. confundi os modos de criança com expressões de caráter. e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce. e trabalhador.. José Dias também. Por que é que não me contou também o que outros sabem. meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora.... a prima. espantado. que é verdadeiramente uma bênção do céu. ouvi o resto do discurso de José Dias: – . perguntelhe. é um anjíssimo. em particular. Esta. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos.. desceu ali e me disse em voz igualmente macia e cálida: “Tu serás feliz. desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata. – Ouviu o quê? – Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? – É boa! Você mesmo é que está dizendo. assim como mereceu esse diploma que ali está.. Bentinho. tomou conta de tudo.. e uma dona de casa.. para as contas. endireitando o tronco e fitandome. a felicidade não é só a glória. discreta. calado e zeloso. os Escobares. – Mas que é? – Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?. que não lhe digo nada. Tio Cosme. Bentinho!” No quarto. e ela mesma repetiam-me o título. – Mas. porque ela é um anjo... a filha. outrora. luz. deveras. foi um modo de acentuar a perfeição daquela moça. você já a viu o ano passado.. Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto. prendada. pela mesma toada universal e eterna. velho também sabe amar. roupa. e todos em casa. agora que se aposentou. – Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também. Uma fada invisível. Cuidei o contrário. Macbeth!” – “Tu serás feliz.. não vale nada. e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? – Mamãe aprova deveras? – Pois então? Temos falado sobre isto. mantimento. os maiores elogios. as visitas. que não é favor de ninguém. Não lhe nego que é moço muito distinto. agora são os novos. Perdoe a cincada. Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada. tu vais ser feliz. amiga da gente... Demais. mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? 84 .. Quando voltei do meu espanto. CAPÍTULO C “Tu Serás Feliz. para alegrá-la. é também outra coisa. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso. enquanto José Dias me ajudava. Via o casamento e a carreira ilustre. enfim... mas. chamava-me doutor. os escravos. Bentinho. Bentinho!” Ao cabo. Pádua. expulsas dos contos e dos versos.. não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: “Tu serás rei. cuida de tudo. E quanto à formosura você sabe. A filha é que distribui o dinheiro. faz o rol das despesas. Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto. por exemplo. muita vez a ouvi clara e distinta.E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever.” – E por que não seria feliz? perguntou José Dias. naturalmente as fadas. é caju chupado. Pádua.

mas era no céu. maridos... naturalmente. comentou rindo. casando-se. disse-me no dia seguinte que estava por tudo. – Mamãe sempre que me escrevia.. e eles entoaram um trecho do Cântico. Há de ver que não há nada. Glória não negou e até deu um ar de riso. mas já então sem palavras: “Tu serás feliz. recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos. fez-nos entrar. É verdade que Capitu. os quais ambos me confirmaram a notícia de José Dias pela sua própria impressão. fez sinal aos anjos. quando lhe fui pedir licença para casar. falava de Capitu. como se houvessem nascido juntos. Quando chegamos ao alto da Tijuca. CAPÍTULO CII 85 . meu filho!” CAPÍTULO CI No Céu Pois sejamos felizes de uma vez. Do mesmo modo.– Positivamente. minha mãe. Descansa que não farei descrição alguma.. entre si. e herdeiras convosco da graça da vida. e vá espairecer a outra parte. Ouvia só a voz da minha fada interior. Talvez agora case mais depressa. que desmentiram a hipótese do tenor italiano. tratando-as com honra. coabitai com elas.. A música ia com o texto. o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas. na resposta.” Quanto às de S. mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos. e assim também a de Escobar. e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. casemo-nos. Só se ela é um cemitério. Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro. Não ouvi o resto. uma tarde de março. que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si. vós. salva a redação própria de mãe: “Tu serás feliz. pode ser que tudo fosse um sonho. que tem as chaves do céu. fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa. não. D. Depois. mas o homem que está escondido no coração. com termos diversos. tão concertadamente. antes que o leitor peque em si. abriu-nos as portas dele. algumas semanas depois. e logo sério: Digo isto por gracejo. Ao cabo. visitamos uma parte daquele lugar infinito. mas não é fora de propósito.. nada mais natural a um exseminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. morto de esperar. como estas. Pedro.. mas enfim. falei em nora. que me repetia. conquanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos. deu-me igual profecia. por sinal chovia. por exemplo: “Senteime à sombra daquele que tanto havia desejado. o Dr. – Prima Justina? – Não sabe? São contos. e depois de tocar-nos com o báculo. Foi em 1865. onde era o nosso ninho de noivos. decorou algumas palavras. João da Costa enviuvou há poucos meses.” Em seguida. que não sabia Escritura nem latim. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo. – Você sabe que elas se dão muito.. São Pedro. e dizem (não sei. eu é que. não só as já conhecidas.. Bentinho!” E a voz de Capitu me disse a mesma coisa. se a execução fosse na terra.. além do consentimento. Foi grande fineza e não foi única. Enfim. nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. como a vasos mais fracos. o protonotário é que me contou). dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez. à maneira de uma ópera de Wagner.

sem mostrador. as aves emplumando as asas e subindo ao céu. Na rua. A felicidade tem boa alma. e o céu agora mais largo para poder contê-las também. olhando. Tal foi aquela semana da Tijuca. que teimava em não vir. pisando as ruas com ela. depois de uma longa paixão de crianças. – Pois vamos amanhã.” E ambos os dois: “É uma mocetona!” CAPÍTULO CIII A Felicidade Tem Boa Alma Mocetona é vulgar. mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. levando abraços dos nossos e palavras suas. a ponto que nos arrufamos um pouco. as famílias residem em Matacavalos. me confirmassem e me invejassem. ambos escutávamos comovidos e convencidos. – Você há de ser sempre criança. pela minha parte. da falta de notícias nossas. e descemos com sol. falando. os anos de adolescência. de maneira que não se vissem as horas escritas. Imagina o resto. digo isto porque é realmente assim. e acabou festejando o nosso consórcio. redargüiu rindo. a denúncia que está nos primeiros capítulos. falávamos em descer. mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol.De Casada Imagina um relógio que só tivesse pêndulo. precisava do resto do mundo. creio que eles podem estar desejosos de ver-nos e imaginar alguma doença. disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades. e confesso. também. Bentinho. muitos voltavam a cabeça curiosos. mas a impaciência continuou. mas palavras que eram músicas verdadeiras. – Eu? – Parece. que queria ver papai. D. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores. há de ser com tempo encoberto. – Não.. outros paravam. desde a tarde de 1858. O pêndulo iria de um lado para outro. e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião. Nenhum de nós riu. esquecendo tudo. Santiago. E quando eu me vi embaixo. e o braço para andar na rua. Inventava passeios para que me vissem. Não obstante. Uma ou outra vez. disto e daquilo. CAPÍTULO CIV As Pirâmides 86 . e nós esperávamos um dia encoberto. mas ia falando do pai e de minha mãe. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados. alguns perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Dr. senti a mesma coisa. De quando em quando. Um dia. e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não. mas foram deliciosas. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na Tijuca. comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhado contíguos.. Peguei-lhe no riso e na palavra. parando. Concordava em ficar. achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. A alegria com que pôs o seu chapéu de casada. José Dias achou melhor. Capitolina. moram na Glória. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim. que casou há dias com aquela moça. tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. não as ponho aqui para ir poupando papel.

Eles moravam em Andaraí.. a sombra das montanhas e dos navios. não podendo ser tantas como desejávamos. e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais nenhuma. replicou-me: – Homem. e o tio Cosme estava por pouco. um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. como os aluguéis da casa. e melhor será que fiquem no céu. Interveio com um advogado célebre para que me admitisse à sua banca. e arranjou-me algumas procurações. Capitu pedia-o em suas orações. Escobar e a mulher viviam felizes. os braços é que. Embora gostasse de jóias. logo depois do almoço. e só nos separávamos às nove. mas a saúde de minha mãe era boa. como as outras moças. Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola. salvo o desgosto grande de não ter um filho. outras dava-lhe notícias de astronomia. ou a gente que passava na praia. – Virá. o marido trabalhador. um filho é o complemento natural da vida. a nossa excelente. Na Glória era uma das nossas recreações. De dançar gostava. e se não der nenhum é que os quer para si.José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe.. se for necessário. tinham uma filhinha. Escobar e eu a do seminário. e os processos vinham chegando. nem os seus. nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. mas pouco e raro. para gozarmos o dia compridamente. Arranjava-se com graça e modéstia. eu contava a Capitu a história da cidade. é verdade. não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. Jantar é pouco. também cantava. e. Já não era como em criança. Às vezes. leitora. nos primeiros tempos. era como um pássaro que saísse da gaiola. mirando o mar e o céu. mas se foi certo. Capitu gostava de rir e divertir-se. Os braços merecem um período. agora pagava antecipadamente. as nossas relações de família estavam previamente feitas. e depressa. e. quando não podia ser mais. não sei que atriz ou bailarina. tudo corria bem. eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedilo. Demais. dez e onze horas. Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. Íamos sempre muito cedo. quando íamos a passeios ou espetáculos. mas provavelmente estariam ainda no mármore. Deus os dará quando quiser. que eram então de menina. mas foi só por pouco tempo. – Uma criança. A nossa vida era mais ou menos plácida. Eram belos. íamos lá jantar alguns domingos. e daí a pouco tocava nas casas de amizade. negócio de teatro. tudo espontaneamente. Eu era advogado de algumas casas ricas. tudo corria bem. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido. Quando não estávamos com a família ou com amigos. alternando os jantares da Glória com os almoços de Matacavalos. por não ter voz. Não vinha. passávamos as noites à nossa janela da Glória. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho. e na primeira noite que os levou nus a um baile. Tudo corria bem. donde vieram. sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides. aprendeu depois de casada. Perdera meu sogro. ou nas mãos 87 . Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. deixe lá. não deu escândalo. Não sabendo piano. não creio que houvesse iguais na cidade. CAPÍTULO CV Os Braços No mais. e enfeitava-se com amor quando ia a um baile. ou eles vinham fazê-lo conosco. se eram nascidos. ou se não íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros). notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa. Sancha era modesta. aonde queriam que fôssemos muitas vezes. Ao fim de dois anos de casado.

é o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar. concluiu fazendo tinir o ouro na mão.. o contrário pareceme indecente. – Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim. – O que é que eu dizia? – Você. fiquei vexado e aborrecido. como o cendal de Camões. Uns sapatos. Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. quase de os pedir. ao percebê-lo. por exemplo. Capitu. trouxe-os para casa. já então com papel e lápis. mas levou-os meio vestidos de escumilha ou não sei que. os últimos que usou antes de calçar botinas. sobre o joelho. só para vê-los. com outras velharias. com tal força e concentração. Capitu já me chamou assim. Capitu fitou-me rindo. você falava de Sírio. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram malfeitos. era de Marte. dizendo-me que eram pedaços de criança. – Tudo isto? – Não é muito. mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também. a outros foi. e o ímpeto que me deu foi deixar a sala. foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas. isto é. confessou-me que estivera contando. e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda. que nem cobria nem descobria inteiramente. que me deu ciúmes. e dava a diferença que ela buscava. Eram os mais belos da noite. ou fica dito agora. uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna. CAPÍTULO CVI Dez Libras Esterlinas Já disse que era poupada. por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. à praia da Glória. Minha mãe. e não foi ao baile. – Falava de. e não só de dinheiro mas também de coisas usadas. hão de chamar-nos seminaristas. não o sentido. – Sanchinha também não vai. e aqui tive o apoio de Escobar. Fiquei sério. Há vinte minutos que eu falei de Sírio. a quem confiei candidamente os meus tédios. Ao terceiro não fui. 88 . direi um caso. Conversava mal com as outras pessoas. – Qual Sírio. dessas que se guardam por tradição. Quanto às puras economias de dinheiro. quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles. a ponto que me encheram de desvanecimento. em alguns meses. – Você não me ouve. e que roçavam por eles as mangas pretas.. A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me. ou irá de mangas compridas.. gostava de ouvir falar e fazer assim. Ergueu-se. concordou logo comigo. falava de Marte. fez-se a mais mimosa das criaturas.. que tinha o mesmo gênio. Capitu. mas é claro que só apanhara o som da palavra. e basta. somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava. eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas. na mão. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro. por lembrança ou por saudade. mas cedeu depressa. Realmente. de os buscar. nesse. dez libras só. – Eu? Ouço perfeitamente.do divino escultor. pegou-me na mão. emendou ela apressada. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia. Já não foi assim no segundo baile. Capitu. Uma noite perdeu-se em fitar o mar. – Não é? Mas não diga o motivo.

orgulho ou consolação. meu amigo. mas curtos. – Quando contei isto a Sanchinha. nem papel trocado. Sanchinha não é gastadeira. 89 . Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo. emendou. concluiu ele.. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasião de nossa última visita a Andaraí. mas a astronomia tem dessas confusões. Eu. É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas. eu não disse para que você não desconfiasse. mas só chega. Dez minutos depois. um terço. consultou-me sobre o que havíamos de fazer daquelas libras. estaria eu outra vez na sala. No dia seguinte. depois de alguns instantes de reflexão: – Capitu é um anjo! Escobar concordou de cabeça. o que lhe dou chega. aceno. Deus sabe quando. mas Capitu deteve-me. ao piano ou à janela. – Como é que ele não me disse nada? – Foi hoje mesmo.– Quem foi o corretor? – O seu amigo Escobar. mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu. calar e querer fugir da sala para voltar. dez minutos depois. Não é mister pecado efetivo e mortal. pois que em matéria de culpa a graduação é infinita. CAPÍTULO CVII Ciúmes do Mar Se não fosse a astronomia. com pouco derrubaria tudo. continuando a lição interrompida: – Marte está a distância de. – Ele esteve cá? – Pouco antes de você chegar. e disse-lhe a razão do segredo. é para que não cuide que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. um décimo de culpadas. Tão pouco tempo? Sim. – São suas. suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. Ao contrário. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírio dentro de Marte.. agora que tudo está tão caro?” – “Não sei. mas sem entusiasmo. um quinto. filha. Os meus ciúmes eram intensos. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles. simples palavra. – São nossas. a terra e as estrelas. não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitu. fui ter com Escobar ao armazém.” – Vê se ela aprende também. leitor. mas não é por isso que torno a ela. sei que arranjou dez libras. a diferença que há de um a outro na distância e no tamanho. como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo. metade culpadas. tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão tal ou qual vaidade. dez minutos. Foi isto que me fez empalidecer. e ri-me do segredo de ambos. respondi. ficou espantada: “Como é que Capitu pode economizar. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher. e tu sabes. mas também não é poupada. – Não creio. Não. Assim pensarias tu também. provavelmente. – Pois você guarde-as. tão pouco tempo. não fora ou acima dela.

e várias outras tolices sem palavras. a perguntar-lhe donde vinha. com os olhos. um triste menino que fosse. e ia-se à noite. Fora. e por que é que eu estava tão inteiramente nele. fazendo ele os seus cálculos. a mirá-lo. e não tardou que viesse ao mundo o fruto delas. Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe. Também não caía. as esperanças nasceram. onde está a segunda? Usávamos então estas graças em família. ela ainda mais meiga. e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada. Escobar também se me fez mais pegado ao coração. do nosso passado e do nosso futuro.. quando não olhávamos para o nosso filho. o ar mais brando. ficávamos cheios de invejas. mas deve haver.. nunca a tive igual. como os outros pais. e. e receio que o que dissesse me saísse escuro. mas que o nosso destino afirmou que seria. e está tudo passado. mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. ou que de longe ou de perto se pareça com ela. A minha alegria quando ele nasceu. e as nossas conversações mais íntimas. Eu via o meu filho 90 . positivamente não me lembra. a observá-lo.As invejas morreram. jantava conosco. mas um rapagão robusto e lindo.. A pequena era graciosa e gorducha. Quis rejeitar o obséquio de Sancha. – Não se lembra que o senhor foi lá vê-la? – Lembra-me. também Capitu. mas pensadas ou deliradas a cada instante. como eu já pedia.. em casa. em solteira. eu os meus sonhos.. mas um filho. ficava que não sei dizer nem digo. quando voltávamos à noite para a Glória. nem creio que a possa haver idêntica. contavam as travessuras e agudezas da menina. Bem se vê que você é pai de primeira viagem. e pedindo mentalmente ao céu que no-las matassem. Dávamos as mãos um ao outro. não sei dizê-la. as noites mais claras. que me recolhi à minha casmurrice. Talvez perdi algumas causas no foro por descuido. Escusai minúcias. nem em casa para não afligir Capitu convalescente. Hoje. Foi uma vertigem e uma loucura. não sei se ainda há tal linguagem. e a nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. Sobretarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público. Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha. por diferençá-la de minha mulher. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas. visto que lhe deram o mesmo nome à pia. – Também você.A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu. – Eu virei jantar com vocês. Capitu não era menos terna para ele e para mim. conversávamos de nós. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto. respondeu-me que eu não tinha nada com isso. e às noites sigo para Andaraí. Não era escasso nem feio. se era possível. e Deus mais Deus. familiarmente Capituzinha. CAPÍTULO CVIII Um Filho Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho. e nós. porque há um deus para os pais novos. oito dias. faladeira e curiosa. vivia com o espírito no menino. . Não cantava na rua por natural vergonha. amarelo e magro. Os pais. mas Escobar.. nem o sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia. vínhamos suspirando as nossas invejas. um filho próprio da minha pessoa. fora tratá-la à Rua dos Inválidos. As horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação. que também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. não é preciso contar a dedicação de minha mãe e de Sancha. Escobar cumpriu o que disse. Assim que.

redargüia Escobar. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. Escobar. talvez fosse convidar 91 . negociante. onde se lhe deu o nome de Ezequiel. toma a bênção a teu padrinho. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme. e foi. Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno. meti-o em várias universidades e bancos. a menor febrícula. Assim também. um só e único. era o de Escobar. – Anda. os sonos que nos tirou. com os seus olhos claros. e nisto fazia lembrar a mãe. Não houve remédio senão levar o menino à pia. imaginarás os cuidados que nos deu. Aceitei a lembrança. antes que a minha doença me leve de vez. Contei discretamente a anedota a Escobar. Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da praia da Glória. e até aceitei a hipótese de ser poeta.médico. ninguém diria o que veio a ser Demóstenes. estas vieram depois. que. a madrinha devia ser e seria minha mãe. que nenhum outro veio. que nada entendem. – Pode ser. riu-se e não se magoou. Aos cinco e seis anos. e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto. que batia com grande força. metia-se às vezes consigo. Vadio é aqui posto no bom sentido. e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio. e cri que me saísse orador. mas há leitores tão obtusos. CAPÍTULO CX Rasgos da Infância O resto come-me ainda muitos capítulos. Vamos ao resto. ou quase todas. mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. não era ainda gerado. CAPÍTULO CIX Um Filho Único Ezequiel. A amizade existe. pela infância unida e correta. e fazem-se ainda assim completas e acabadas. também interrogava o futuro. mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. segundo cumpria e urgia. toda a existência comum das crianças. bom negociante. coisa que não era necessário dizer. agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras. ao ouvir-lhe isto. Fez mais. e grande orador. como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança. no sentido de homem que pensa e cala. quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele. e propus que os encaminhássemos a este fim. velhaco. para que ele me compreendesse e desculpasse. não o fazia antes de farto deles. Eu ainda tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença. esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar. há vidas que os têm menos. afinadas pelo coração. A tudo acudíamos. um rapagão bonito. e há de ser depressa o batizado. e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras. pela educação igual e comum. ao ver a criança. quando acabou era cristão e católico. se considerares que ele foi único. Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices. morto nem vivo. adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos. voltando-se para mim: – Não desisto do favor. ao contrário. A possibilidade de político foi consultada. se se lhes não relata tudo e o resto. desde vadio até apóstolo. advogado. disse-lhe entre outros carinhos. opinava que a causa principal desta outra inclinação. Agora. de atropelo. E. já inquietos. quando começou o capítulo anterior. certo nem incerto. desde pequena.

– Nem das palavras? – Nem das palavras. A única circunstância particular era estar o rato vivo. e eu disse a Capitu que lhe tirasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos. não menos que de doce.. o que ela não esperava. que é o diabo. – Mas então por que é que ele se pintou? Ri-me do engano e expliquei que não era o soldado que se tinha pintado no papel. e assim o cantava e teclava. Ezequiel não disse nada. e anunciava-me que o faria seu sócio. dei-lhe uma cornetinha de metal. Ezequiel aproveitou a música para pedirme que desmentisse o texto. ficará espantada de tamanho esquecimento. O 92 . Em S. era um gato e um rato. e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu. quase delicioso. Expliquei-lho. Em nenhuma vi as ânsias de gosto com que assistia à passagem da tropa e ouvia a marcha dos tambores. papai! olha! – Estou vendo. pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do pregão. é porque é pintado. e ria-se da própria graça. Fiz. Daí a pouco interrompi um romance que ela tocava. Capitu achou à toada um sabor particular. ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lho de memória). quando os pais lhe trouxessem doces. gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo. ela teclou as dezesseis notas. Tais são os principais rasgos da infância: mais um e acabo o capítulo. papai. porém. haverá olvidado algumas. – A leitora. Um dia (ingênua idade!) perguntou-me impaciente: – Mas. O gato nem deixava a presa. contou ao filho a história do pregão. de ator e bailarino. todas as crianças o fazem. mas nem tudo fica na cabeça. e eu guardei o papelinho. acompanhei-os. Gostava de música. Capitu quis também ver o filho. e ficou olhando. Nunca lhe dei oratórios. em suma. – Não me lembra. e que ele corria a ver... deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca. O que nem todos fazem é ter os olhos que esta tinha. e não achei tréplica.implicitamente as vizinhas a igual apostolado. fui procurá-lo. que ainda se lembrará das palavras. meu filho! – Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados! Um dia amanheceu tocando corneta com a mão. perguntamos-lhe de longe o que era. e o meu pequeno enlevado. e todos os seus amores iam para o de espada alçada. mas cavalos de pau e espada à cinta eram com ele. Já não falo dos batalhões que passavam na rua. com o pedacinho de papel na mão. Paulo. tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e adolescência. por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez? – Meu filho. sem interesse nem graça. querendo que lhe explicasse uma peça de artilharia. lance banal. Assim me replicou Capitu. Escobar concluiu: – Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. Os ratos continuam a infestar-se a casa. você não se lembra daquele preto que vendia doce. Ao vê-lo assim atento. Vamos ver. outro de espada alçada. mas não sei mais da toada. corri aos meus papéis velhos. esperneando. na chácara de Escobar. – Não diga isso. mas o gravador. acocorou-se. um soldado caído. dando-lhe algum dinheiro. quando estudante. nem via por onde fugisse. fêz-nos sinal que nos calássemos. De resto. o instante foi curto. Efetivamente. deteve-se. Um dia. de militar.. Lembro-me de um preto que vendia doce. às tardes. dado que me tenha lido com atenção. – Olha. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo. Fazia de médico.

não acham nela nada inferior. não sairá maricas. aliás frouxíssimos.gato. nem a enfermeira podiam dormir. e foi como se procurasse o leitor. mas não é muito que eu lhes perdoe. até onde lhe dessem as pernas. que é o seu modo de rir deles. Então resolvi matá-los. Sancha vivia ao pé dela. disse-me ela um dia. não só por significar a totalidade do silêncio. eu tinha já na mão as bolas envenenadas. e não lha nego ainda agora. e ia deitar-lhe uma delas. as atitudes. os que amam a natureza como ela quer ser amada. foi-se calando. e o gato fugiu. gosta de imitar os outros. e disse afinal que era preciso emendá-lo. CAPÍTULO CXII As Imitações de Ezequiel Tal não faria Ezequiel. De noite. não desamo o gato. Os dois riram-se. um ficou a curta distância. imita prima Justina. e entregou-se-me. confiança ou o que quer que seja. iria a pau. mas aqui a ponho outra vez. mamãe é que contava. e eu mesmo inseri nelas a droga.. me atou a vontade. e três cães na rua latiam toda a noite. – Sim. Não digo que não. outro o queijo. Não comporia bolas envenenadas. assobiando e dando estalinhos com os dedos. as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. CAPÍTULO CXI Contado Depressa Achei-lhe graça. carinho. repliquei. quando aquele riso especial. até que se calou de todo. eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto. saí. Foi quando nasceu Ezequiel. mas parecia-lhe que 93 . fiquei assim não sei como. Ia dizer religioso. mas papai em moço era assim também. – Pois sim. Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim. se já perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstâncias.. – Não sai a nós. que gostamos da paz. mexendo a cauda. O que faria com certeza era ir atrás dos cães. – Imitar como? – Imitar os gestos. mas vi que são incompatíveis. Não me pesa dizê-lo. risquei a palavra. com a bulha dos cães. a mãe estava com febre. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o cão ao silêncio. Um tanto aborrecido. Capitu morria por aquele batalhador futuro. um róime os livros. nem a doente. fez-nos outro sinal de silêncio. devagar. – Ora. Agora reparava que realmente era vezo do filho. comprei veneno. à pedrada. logo que sentiu mais gente. mas não as recusaria também. dos sucessos ocorridos e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim. era uma hora. dois desceram para o lado da praia do Flamengo. O único rumor eram os últimos guinchos do rato. sem repúdio parcial nem exclusões injustas. mandei fazer três bolas de carne. Em verdade. Procurei o fiscal. apesar do tempo passado. ele veio a mim. E se tivesse um pau. os modos. tocado de pena e guardei as bolas no bolso. papai!! – Que foi? A esta hora o rato está comido. Quando eles me viram. o menino. mas fiado nos sinais de amizade. Já pensei em os fazer viver juntos. A conclusão é que se livrou. mas eu queria ver. imita José Dias. afastaram-se. mas também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. dispôs-se a correr. Os outros nem tiveram tempo de atalhar-me. já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos. Fui-me a ele. como que esperando. e o silêncio não podia ser maior. sem tirar-lhes os olhos de cima. eu mesmo achei-lhe graça. O diabo ainda latiu. Amo o rato. suponho. bati palmas para que o gato fugisse. eu só lhe descubro um defeitozino. Ezequiel ficou abatido. Contarei o caso depressa. teve graça. que só agora sabe disto. Como eu continuasse.

vingança de menino.. me enchia de terror ou desconfiança. Expliquei que tinha saído para o teatro donde voltara receoso de Capitu. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. mas da obra. é certo. ocorrera um incidente importante. mas voltei no fim do primeiro ato. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada. depois estirou os braços e atirou-os sobre os ombros. – Também não vamos mortificá-lo. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem. um desses risos que não se descrevem.. falemos já. Não falava 94 . desces.. um par de valsa. que tomam as maneiras dos outros. mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. e apenas se pintarão. não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. Encontrei Escobar à porta do corredor.. Ao teatro íamos juntos. – Sim. Sim. – Então. e não há ver sem mostrar que se vê. ninguém quer saber do modelo. Só brilharia o artista. sobe. é natural que me perguntes se.. Outros olhos me procuravam também. Naquele tempo. – Não. tendo aliás confessado a princípio as minhas aventuras vindouras. Um vizinho. Sempre há tempo de corrigi-lo. Capitu estava melhor e até boa.era só imitar por imitar. disse-me ele. Se estiver pior. não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela. e foi naturalmente por não achar da minha parte correspondência aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. – Quando me zangava. como sucede a muitas pessoas grandes. muita vez só a indiferença bastava. e uma estréia de ópera. nós saberíamos que éramos nós. saí.. um dia) é ver também. Eram uns embargos de terceiros. Capitu era tudo e mais que tudo. moço ou maduro. um benefício de ator.. CAPÍTULO CXIII Embargos de Terceiro Por falar nisto. A minha própria mãe não queria mais que metade. Era tarde para mandar o camarote a Escobar.. não quis ir para casa sem dizer-me o que era. Não importa. e. vou-me embora. – Queixava-se da cabeça e do estômago. mas eu não gosto de imitações em casa. Você também não era assim. mas eram ainda vindouras. continuei. ela pode estar melhor. nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu. A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim. a mais ínfima palavra. e para que não fosse mais longe. vou ver. só me lembra que fosse duas vezes sem ela. sendo antes tão cioso dela. não muitos. concordo. Vinha para aquele negócio dos embargos. Continuei a tal ponto que o menor gesto me afligia. a que ela não foi por ter adoecido. mas já agora falaria depois. quando se zangava com alguém. que ficara doente. – Doente de quê? perguntou Escobar. É certo que Capitu gostava de ser vista. tendo ele jantado na cidade. e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore. e a obra é que fica. – E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face. uma insistência qualquer. senhor. e não digo nada sobre eles. por mais mulheres bonitas que achasse. – Vinha falar-te. e o meio mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora. mas quis por força que eu fosse. A resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio. Eu fiz o mesmo aos meus. qualquer homem. – Há.

querendo um dia relembrar a toada. mas não bem explicado. isto é. disse ela estendendo tragicamente o braço. CX) a um professor de música de S. – Nada? – Quase nada. 95 . Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão. foi em momento de grande ternura. e não vale a pena de um capítulo. CAPÍTULO CXV Dúvidas sobre Dúvidas Vamos agora aos embargos. Acabou com um pecado terrível. Durante ele. Escobar olhava para mim desconfiado. como se cuidasse que recusava a circunstância nova por forrar-me a escrevê-la. – Você jura? – Juro. é profundamente moral. mas tal suspeita não ia com a nossa amizade. mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes. – Então vale alguma coisa. Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão. mas jurou que era a verdade pura. que é o eterno naufrágio. que me fez o obséquio de a escrever no pedacinho de papel. E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevê-los. Escobar sorriu e disse: – A cunhadinha está tão doente como você ou eu. Quando fui para S. que não valia nada. – É tarde para tomar chá. quando corri aos papéis velhos. a matéria é chocha.. qualquer esquece. mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir. expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado. ninguém sabe se há de manter ou não um juramento.. – Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você vai tomar comigo. uma vez ou outra. Expliquemos o explicado. ele que as registra nos livros eternos. Em si. e o tabelião divino sabe as coisas que se juram em tais momentos. consegui recordá-la e corri ao professor. Vamos aos embargos. Tomamos depressa. que empresta sobre todas as virtudes. transferindo o juramento à afirmação simples. Ao certo. quanto mais dois. e este é que foi o meu pecado. Purgatório é uma casa de penhores. – Tomaremos depressa. Não confundam purgatório com inferno. CAPÍTULO CXIV Em que se Explica o Explicado Antes de ir aos embargos. quanto mais contá-los. Paulo. o que me fez desconfiar que mentia. naquela noite da Glória. esquecer. desde que não mete a alma no purgatório. até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam os pecados grandes e pequenos. Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Matacavalos. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. a nossa constituição política. Mas hás de crer que. Da circunstância nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então. Mas os prazos renovam-se. também me não lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento. Viste que eu pedi (cap. se não agradáveis. estava ainda no seminário.alegre. vi que a ia perdendo inteiramente. para me não meter medo. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade. a juro alto e prazo curto. Coisas futuras! Portanto.

posto que os seus cabelos brancos não o fossem todos nem totalmente. falei outras dúvidas. Não. nós o havíamos acostumado a ver o ósculo da chegada e da saída. enquanto não nos conhecíamos. e ele enchia-me a cara de beijos. – Seria o negócio dos embargos. como eu.. mamãe não lhe faz as mesmas graças. a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. Capitu novamente me aconselhou que esperássemos. CAPÍTULO CXVI Filho do Homem Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe. Mas nada de melancolias. sim. capaz de dissipar as mesmas tristezas de Olímpio. não quero falar dos olhos molhados. coisas de sogra. senhor. para não espertar-me os ciúmes. à escolha. falando das minhas dúvidas. ela torna a ser o que era. – Perfeitamente! – Mas. – Quem sabe se não anda doente? – Vamos nós jantar com ela amanhã? – Vamos. Fomos jantar com a minha velha. à entrada e à saída.. da política. mas quando eu subia. Pouco entrou na conversação. Quando voltamos. por que é que não nos visita há tanto tempo? 96 . não me ia esperar à janela. Quando ele vai comigo. concluiu. tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia “à bela e virtuosa Capitu”. coaxavam dentro de mim. a cara deliciosa da minha amiga e esposa. nem podia haver coisa nenhuma. entro também no coro. Pois vamos. e o rosto estivesse comparativamente fresco. era uma espécie de mocidade qüinquagenária ou de ancianidade viçosa. quando D. lá vinha um dia e mudavam. Glória elogia a sua nora e comadre. tio Cosme das suas moléstias. Dali em diante foi cada vez mais doce comigo. ficou espantado. referi as minhas dúvidas a Capitu. Ezequiel às vezes estava com ela. ou de José Dias.. Sogras eram todas assim. era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu. um jeito. entre as grades da cancela. e ele que veio até aqui. Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Matacavalos! O pai é que nos separou um pouco. Também não era diferente da costumada. Para quem chegou. – Então mamãe?. Mamãezinha tem ciúmes de você. Pois. como verdadeiras rãs. da Europa e da homeopatia. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu! – Já disse a você o que é. mas tudo acabou em bem.... ela as desfez com a arte fina que possuía.. a arrenegar deste casamento. Já lhe podia chamar assim. Palavra puxa palavra.. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. quando os ouço. a esta hora. mas a princípio ficava envergonhadíssimo. à noite. uma graça toda sua.Quando ele saiu. José Dias falou do casamento e suas belezas. via no alto da escada. Ao passo que me falava. prima Justina da vizinhança. viemos por ali a pé.. – Agora.. – Tens razão... risonha como toda a nossa infância. quando este saía da sala. recrudescia de ternura. é que está impressionado com a demanda. Em lhe faltando o neto. Não havia nada. Eu era então um poço delas. – Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel. logo que eles passem e as saudades aumentem.

. Eu falava assim para variar. como soube depois) e perguntava-lhe: “Como vai isso. Tu como vais. – Tem razão. e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos. quando ria. meu anjo? Meu anjo. Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva. Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas. onde estão os teus brinquedos?” “Queres comer doce. a mim. ele na minha. parece-me que sou eu mesmo. que lá tem o seu mal. agora é obrigada a estar quieta. tinha subido pela Rua da Princesa. casa que ainda ali vi.– Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. – Mas tem muita graça. Fazia-me pensar nas duas casas de Matacavalos. Capitu. disse eu. como é que eu ando na rua? – Não. já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros. tão bem que ela lhe deu um beijo em paga.. como o das mãos e pés de Escobar. com o seu muro de permeio. saltou ao meio da sala. Eu mesmo achava feio tal sestro.. mas pode ser que fosse do mar. uma vez que estávamos tão próximos. Imagine a aflição dela. ultimamente. há dias. atalhou Capitu. filho do homem. que andava o dia inteiro. – Pois eu não gosto deles. concordou o agregado. uma rua antiga. Não digo que número é para não irem indagar e cavar a história. não posso dizê-lo bem. como é que eu ando? – Não. – Não quero isso. Glória. replicou ela com aspereza. quando falava. quando ele copia os meus gestos. confundem vivos e defuntos. Desta vez falou ao modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel.. Vamos. Velha é a casa. Este ano tem feito muito frio. – São os modos de dizer da Bíblia. e não a frieza quando íamos nós a Matacavalos. Não pudemos deixar de rir. ouviu? CAPÍTULO CXVII Amigos Próximos Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo. apenas começávamos a falar de outra coisa. mas não estendi tão longe a intimidade do agregado. Capitu ralhava. ao pé do irmão.. a não ser a respiração. A primeira pessoa que fechou a cara. por um modo que hei de contar. e dei por mim no Catete. Eu respirava um pouco. Enquanto viveu. porque os sonos quando são pesados. meio agitado. Não sei até se ainda tem o mesmo número.. tínhamos por assim dizer uma só casa. Ezequiel. eu vivia na dele. passei. no sentido de velho e acabado. quando me deu na gana experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou dormiam só. filho do homem?” “Dize-me. e o de deixá-la cair. José Dias pediu para ver o nosso “profetazinho” (assim chamava o Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. Outro dia chegou a fazer um gesto de D. Enfim. que o repreendeu e chamou a si foi Capitu. mas não lhe alteraram nada. até apanhara o modo de voltar a cabeça deste. eu mais que ninguém. como o diabo. Ó ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos.. acendi um charuto. mamãe não quer. Mas o menino era travesso. 97 . pequenino. dizendo a José Dias: – O senhor anda assim.. filho do homem?” – Que filho do homem é esse? perguntou Capitu agastada. e não é preciso dizer que no mau sentido. morreu pouco depois.

Eu expliquei: – Não. e não tardou que se afastassem da janela. A noite era clara. onde eu fiquei olhando para o mar. Perguntou-me de que é que faláramos. Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu. Agora que a comparação seja verdadeira é que não. quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao pé uma fortaleza. – Não. disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse. Entretanto. um projeto para os quatro. leitor. ora no Flamengo. mas também há amigos de perto e do peito. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu. diziam outra coisa. O mar batia com grande força na praia. é bonita. Tudo podia ser. realmente. falando-me à janela. para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. havia ressaca. – Vamos todos? perguntei por fim. dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros. é um velho truísmo. Vem amanhã. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros.. O certo é que eles se queriam muito. e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dois anos. não se me daria beijá-la na testa. e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo. não só os dois casais inseparáveis. para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas. e podiam acabar casados. encontrei-os em caminho. é porque Ezequiel imita os gestos dos outros.Um historiador da nossa língua. graças às relações dela e Capitu. Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa. pensativo. se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira. Seguramente há inimigos contíguos. e é bom que seja assim. ora na Glória. ao canto da janela. precisávamos falar de um projeto em família. uns esperando que os 98 . Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo. a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito. veio ter comigo. Os dois pequenos passavam dias. jogando ou mirando o mar. mas um domingo. quase suspirando. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha. Escobar concordou comigo. esquecia o adágio: longe dos olhos. acharam todos que sim. põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. Nós não podíamos ter os corações agora mais perto. dificilmente se despegará da cabeça. O nosso castelo era sólido. Que a sombra do escritor me perdoe. e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. disse-me que fossemos lá jantar no dia seguinte. – Para os quatro? Uma contradança. Disse isto de costas para dentro. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto. ao contrário. não perto. porque é bonita. Eu creio que o mar então batia na pedra. longe do coração. a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura dura muito tempo.. Foi então que Escobar. e não fez mal. como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. Esta segunda parte não acha crentes fáceis. CAPÍTULO CXVIII A Mão de Sancha Tudo acaba. – Vamos. E o escritor esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo). ela pediu-me segredo. nós passávamos as noites cá ou lá conversando. Quando o marido saiu. os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraternais. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. como ainda o agregado e prima Justina. mas não acabaram casados. desde Ulisses e antes. pareciam quentes e intimativos. como é seu costume. Não és capaz de adivinhar o que seja. Opinei de cabeça. ao pé do piano. creio que João de Barros. nem eu digo.

Não só os apalpei com essa idéia. ao pé do de minha mãe. Passou depressa no relógio do tempo. acresce que sabiam nadar.. Quando saímos. e demorou-se mais que de costume. muito maiores. que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. que eu tinha ali. que iam adiante. e agora por um movimento invencível. Os instantes do diabo intercalavam-se nos minutos de Deus. mas eu conversava mal. tornei a falar com os olhos à dona da casa. – como já se ouvia de casa. quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Demais. Eu recolhi-me ao meu gabinete. agora aquilo. como eu. apalpa. iria embora. que a gente recebe e repete em si mesma. emendando-me: Realmente. – O mar amanhã está de desafiar a gente. mas um fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo. escute. cá fora o mar está zangado. que moderei logo. e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada. e fomos conversando os quatro. e ter estes pulmões. onde me demorei mais que de costume. disse ele batendo no peito. quando cheguei o relógio ao ouvido trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. Ouvia-se o mar forte. – Deliciosíssima! repeti com algum ardor.. Senti ainda os dedos de Sancha entre os meus. rejeitei a figura da mulher do meu amigo. e chamei-me desleal. esta palavra foi como uma bênção de padre à missa. Cá fora.. ao pé de mim. Apalpei-lhe os braços. concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo. É preciso nadar bem. e fiquei incerto. Agora achava-lhes isto. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. mas ainda senti outra coisa: achei-os mais grossos e fortes que os meus. quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. disse-me a voz de Escobar. como se pensa na bela desconhecida que passa. Custa-me esta confissão.. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão. como agora. é que um dia pensei nela.outros passassem. mas então dar-se-ia que ela adivinhando. no dia seguinte. A modéstia pedia então.. destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado. – Você entra no mar amanhã? – Tenho entrado com mares maiores.Uma senhora deliciosíssima. Capitu e prima Justina. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de 99 . A cautela desligou-nos. era jarretar a verdade. como se fosse os de Sancha. Quando houvesse alguma intenção sexual. não. A mão dela apertou muito a minha. a distância. Assim devia ser. depois do almoço e da missa. mas não posso suprimi-la. e tive-lhes inveja.. falou-me como se fosse a própria pessoa. nem têm maior duração. Prima Justina dormiu em nossa casa. eu tornei a voltar-me para fora. continuou o agregado. mas nenhuns passavam. uma bela noite! – Como devem ser todas as daquela casa. Tive uma certeza só. viam-se crescer as ondas. e o relógio foi assim marchando alternativamente a minha perdição e a minha salvação. Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora. apertando uns aos outros. e estes braços. José Dias despediu-se de nós à porta. Foi um instante de vertigem e de pecado. – a ressaca era grande e. Tal se dá na rua entre dois teimosos. invencível. detiveramse numa das voltas da praia. O retrato de Escobar. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. – .

Era um escravo da casa de Sancha que me chamava: – Para ir lá. Naquele tempo a minha vista era boa. o mesmo sangue celestial. soaram palmas. quente e demorada..Sancha. e espancaram de todo as recordações da véspera. inteiramente nada. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise. a direita metida ao peito. Vesti-me. CAPÍTULO CXXII 100 . CAPÍTULO CXX Os Autos Na manhã seguinte acordei livre das abominações da véspera. tomei café. sinhô nadando. sobrecasaca abotoada. Não disse mais nada. foi enrolado e morreu. ouvi passos precipitados na escada. sinhô morrendo. eu achava-me mal entre um amigo e a atração. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver. Entretanto. o olhar ao longe para a esquerda do espectador. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. alegações falsas. que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar a cavatina de ontem para a valsa de hoje. vozes. filha dela. não contando o acaso. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove. CAPÍTULO CXIX Não Faça Isso. Em caminho. a mão esquerda no dorso de uma cadeira. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória. apertada e apertando. sem apoio na lei nem nas praxes. O retrato de Escobar pareceu falar-me.. Tinha garbo e naturalidade. escrita embaixo. apesar do mar bravio. CAPÍTULO CXXI A Catástrofe No melhor deles. nem inclinação. não é só o céu que dá as nossas virtudes. mas o acaso é um mero acidente. ou eu não lhe ouvi o resto. Estava de pé.. sacudi a cabeça e fui deitar-me. a campainha soou. chamei-lhes alucinações. vi-lhe a atitude franca e simples. é. se pudesse. Sinceramente. querida. Não faça isso. Capricho seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada. Pereira e Sousa. eu mudo de rumo. mas a princípio vaguei à toa. Vi que era fácil ganhar a demanda. quer fechá-lo às pressas. percorri os jornais e fui estudar uns autos.. não nas costas do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar. inadmissíveis. que eu ia lendo nos autos. eu podia lê-las do lugar em que estava. acudiram todos. que eu sentia de memória dentro da minha mão. a virtude. como usava fazer. deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. fui adivinhando a verdade. ao ver que beiramos um abismo. genealogicamente. como a timidez vem do céu. consultei Dalloz. que nos dá a compleição. Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. arriscouse um pouco mais fora que de costume. acudi eu mesmo.” Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manhã. 20-4-70... golpes na cancela. a timidez também. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte adversa. Assim refletiria. Querida! A leitora. Escobar meteu-se a nadar. na Lapa. Tornei aos autos. Paixão não era. a melhor origem delas é o céu.

Quis que o enterro fosse pomposo. uma com o parecer abatido e estúpido. Praça da Glória. queria arrancá-la dali. continuada e nunca interrompida. escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias. Poucas mais seriam. que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. tal seria o discurso. amparando a viúva. as nossas simpatias. Capitu enxugou-as depressa. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. começada. Fiquei a ver as dela. ouvindo referir a chegada do morto. Pediu-me o papel. Redobrou de carícias para a amiga.. as mulheres todas. – Vão fazer companhia à pobre Sanchinha. Praia. quais os da viúva. e eu peguei numa das argolas. estávamos em março de 1871. Elogiavam as qualidades de Escobar. não podiam lá caber todos. as relações de Escobar. Muitos homens choravam também. rompeu o alarido final. tudo eram carros. vamos ouvi-lo? – Quatro palavras. Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa. chegou a hora da encomendação e da partida. No tílburi em que andei uma ou duas horas. mas o cadáver parece que a retinha também.. Sancha quis despedir-se do marido. e a afluência dos amigos foi numerosa. Como eu houvesse resolvido falar no cemitério.. como se quisesse tragar também o nadador da manhã. muitos deles particulares. não fizera mais que recordar o tempo do seminário. No meio dela. Assim fizemos. no Flamengo espalhou a notícia. deitei aquelas emoções ao papel... CAPÍTULO CXXIII Olhos de Ressaca Enfim. vi o sol 101 . continuou o seu ofício. Saí de lá cerca de onze horas. que as achou realmente dignas do morto e de mim. e o desespero daquele lance consternou a todos. como a vaga do mar lá fora. outra enfastiada apenas. muitos estavam na praia. apontando o lugar em que Escobar falecera.. pesando as palavras. não me arrancando nada. tão apaixonadamente fixa. quando cheguei à porta. são horas. A confusão era geral. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto. Só Capitu. A casa não sendo grande.O Enterro A viúva. Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. falando do desastre. ruas. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado. Fechamo-lo. as minhas. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: – Então. eu vou cuidar do enterro. divergindo alguns na avaliação dos bens. Palavra que. e quis levá-la. olhando a furto para a gente que estava na sala. até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. As minhas cessaram logo. De quando em quando enxugava os olhos. Poupo-vos as lágrimas da viúva. e confirmou a primeira opinião. as da outra gente. Um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco. Chegando a casa. Capitu e prima Justina esperavam-me. parecia vencer-se a si mesma. CAPÍTULO CXXIV O Discurso – Vamos. mas grandes e abertos. Consolava a outra. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral. sem o pranto nem palavras desta. recitou lentamente o discurso. a nossa amizade.

algumas vozes interrogativas. fica já destruído de uma vez. mas o gesto geral foi de compreensão e de aprovação. Creio que poucos me ouviram. Queriam o discurso. ou qualquer outro estranho.claro. No Catete mandei parar o carro. e por último fez o panegírico do morto. 102 . disse a José Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa.. saquei o papel e li-o aos trambolhões. No carro disse a José Dias que se calasse. Tinham jus ao discurso anunciado. – Mas. aqueles olhos. CAPÍTULO CXXV Uma Comparação Príamo julga-se o mais infeliz dos homens. um sussurro vago.. amigo. e até mau verso.. Um homem. CAPÍTULO CXXVI Cismando Pouco depois de sair do cemitério. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa. – Não presta para nada. O que isto me custou imagina. não vale nada. pela causa apontada em Camões. para que as caras apareçam limpas e serenas. senhor. não obstante contá-lo em verso. coração reto. – Vou fazer uma visita. mas há narrações exatas em verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha. sem embargo dos esforços de José Dias para impedi-lo.. ao cabo de alguns instantes de total silêncio. espírito ativo. era o próprio texto. digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera. disse-lhe eu. se as têm. defunto. pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. forcejava por escondê-la bem. que me dizia ao ouvido: – Então. As lágrimas. os discursos são antes de alegria que de melancolia. os pés quietos. Não era só a emoção nova que me fazia assim. Descido o cadáver à cova. José Dias. igual. e alguém. rasguei o discurso e deitei os pedaços pela portinhola fora. e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor. desatar as correias. as orelhas atentas. depois elogiou o enterro. Era o discurso. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade. mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. Não presta. a voz parecia-me entrar em vez de sair. que me pareceu jornalista. terás ido a mais de um enterro. é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim. as memórias do amigo. e. tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. Neste ponto do discurso. e ajudar a levar o féretro à cova. meti a mão no bolso. as cabeças descobertas. por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar pé. ou quando menos. alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! magnífico!” José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. Maquinalmente. sabes disto. deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo. não. eu iria a pé. eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera. as mãos tremiam-me. José Dias demonstrou longamente o contrário.. as saudades confessadas. e como posso ter a tentação de dá-lo a imprimir. leitor. É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito. nem claro. e é um bom autor. fale. faltam-nos. tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão. sinais. nem seguido. é certo. uma grande alma. temendo que me adivinhassem a verdade. são enxugadas atrás da porta. defunto e tudo. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. tudo gente e carros. Nem digas que nos faltam Homeros. os louvores à pessoa e aos seus méritos. mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos. Ao mesmo tempo. trouxeram a cal e a pá. Homero é que relata isto. não todo.. bom amigo.

Era a mulher dele. ficava à porta a ouvi-lo e a namorar-lhe a mulher. Capitu censurou a imprudência de Escobar. vi apontar uma moça trigueira. Divina arte! Ia-se formando um grupo. que eram o pão do dia seguinte. estas iriam pausadas ou não. e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. então é que ele. Divina arte! CAPÍTULO CXXVIII Punhado de Sucessos Como ia dizendo. arrepiar caminho. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. que estava apenas encostada. até que me senti sossegar. Não seria o mesmo caso de Capitu? Cuidei de recompor-lhe os olhos. que ali foram a despeito da hora e de ser domingo. todo arco. ia tocando para mim. e dei com prima Justina e José Dias jogando cartas na saleta próxima. Batiam oito horas numa padaria. todo rabeca. havia um barbeiro. Agora. eram inconciliáveis. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica.A razão disto era acabar de cismar. O carro andaria mais depressa que as pernas. Fui andando e cismando. podiam afrouxar o passo. chegava também à porta de casa. chegou a dizê-lo com os olhos. que me conhecia de vista. Os outros suspenderam o jogo. confiar-lhe as caras à navalha. e subi outra vez a Rua do Catete. vestido claro. e verdadeiramente não as esquece nunca. e tocava. e logo a outro. Perdeu-os sem perder uma nota. que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. Se me não engano. executava não sei que peça. tocaria desesperadamente. Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia. O rosto dela era agora sereno e puro. o ajuntamento de pessoas que devia naturalmente impor-lhe a dissimulação. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja. raciocinava e evocava claro e bem. e escolher uma resolução que fosse adequada ao momento. Perguntei-lhe por que não ficara com Sancha aquela noite. graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias. grudava a face ao instrumento. ou por estar ligado a um momento grave da minha vida. tudo para ser ouvido de um transeunte. deixei a porta da loja e vim andando para casa. sem ver a mulher. 103 . a posição em que a vi. em vez de ir-se embora. flor no cabelo. parar. creio que me descobriu de dentro. porém. ou por esta máxima. CAPÍTULO CXXVII O Barbeiro Perto de casa. Não atendeu a um freguês. ele viu-me. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado). mas voltei para trás. A viúva era realmente amantíssima. e endireitei para a casa. tocava.. se houvesse algo que dissimular. tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações. enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva. levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa. Quanto ao marido. e continuou a tocar. Quando cheguei a esta conclusão final. e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido.. andei largo espaço. passava a alma ao arco. Na ocasião em que ia passando. tocava agora com mais calor. amava a rabeca e não tocava inteiramente mal. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro. Capitu levantou-se do canapé e veio a mim. Ao fundo. empurrei a cancela. Supõe agora que este. subi as escadas sem estrépito. Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas. como eu fui. sem ver fregueses. e todos falamos do desastre e da viúva. e deixar que a cabeça cismasse à vontade. Pobre barbeiro! Perdeu duas barbas naquela noite. voltado para ele.

uma vez que os acontecimentos. Capitu desta vez chorou muito. e eu com eles. que uma vez juntas não tinham sentido. tudo andou quase tão depressa como aqui vai dito. ao mirar o filho dormindo. uma bengala de marfim. e na aflição da viúva. onde nos encontraremos renovados. livros. Vieram os jornais do dia: davam notícia do desastre e da morte de Escobar. esse é indelével. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados à rua. não leia mais. a simpatia do comércio. um tinteiro de bronze. pensara na filhinha de Sancha. mas só achei frases soltas. Ao cabo de pouco tempo. Vivemos assim a trocar memórias e regalos. sem marido nem filha. Não me deixava nada. disse-nos que. Capitu saiu para ver se o filho dormia. como as plantas novas. mas compôs-se depressa. amiga minha. a vista do mar há de ser-lhe penosa. Inventariei as lembranças de Escobar. ora em dia de anos. Também pensei em fazer outro. o primeiro lugar cabia à mulher. sem se lhe dar das visitas. E. ponderou José Dias. Ao passar pelo espelho. nem reparar se havia algum criado. mas era já difícil. Testamento. desmentimos a minha ilusão.. que me nomeava segundo testamenteiro. Pense em recompô-lo. não respondo pelo mal que receber. inventário. O resto em Dante. – Mas passa.. Também lhe disse que era melhor vir para cá. mas era lembrança do finado.. Um dia. iremos daqui até a porta do céu. que eu faço a mesma coisa. todas as manhãs. e também falavam dos bens deixados. Também ele as possuía de minha mão. quiser ir até o fim. Vá envelhecendo. ainda assim ofereci-me. começássemos uma troca de palavras. as qualidades pessoais. da mulher e da filha. e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemitério. duas paisagens do Paraná e outras. Sancha D. arrependi-me de haver rasgado o discurso.– Tem lá muita gente. se o houver lido até aqui. abraçou-me e disse-me que. o álbum de Capitu. e assim a noite. e passar aqui uns dias conosco. E como em torno desta idéia. estariam já varridos. peço-lhe que não leia este livro. ou. e não sei como poderá. CAPÍTULO CXXIX A D. abandone o resto.. era tarde. Tentei meter o caso à bulha. o que é que não passa? atalhou prima Justina. um pássaro. Quando tornou trazia os olhos vermelhos. melhor será queimá-lo. era preciso pensar primeiro na minha vida. apesar do aviso. Não. contando os gestos daquele sábado. mas não quis. Na terça-feira foi aberto o testamento. – Também não quis? – Também não. mas as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. não que quisesse dálo a imprimir. O que já lhe tiver feito. e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. Sancha. a culpa é sua. Se. se não soubéssemos que ela era muito amiga de si. mas o que agora a alcançar. CAPÍTULO CXXX 104 . concertou os cabelos tão demoradamente que pareceria afetação. José Dias achou a frase “líndíssima”. Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná. – Entretanto. No dia seguinte. para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez. os estudos e os negócios deste. Tudo isso me empanava os olhos. Tudo isso foi na segunda-feira. Rinovellate di novelle fronde. Basta fechá-lo. se quisesse pensar nela. ora sem razão particular. esse acabou. come piante novelle. e perguntou a Capitu por que é que não fazia versos.

antes de mandar o livro ao prelo. ou um com outro. um amigo de papai e o defunto Escobar. depois tornaríamos à tona da água. eram os olhos de Escobar. um passeio a pé. CAPÍTULO CXXXII O Debuxo e o Colorido 105 . Ezequiel.Um Dia. Vou escrevê-lo. Ezequiel não entendeu nada. CAPÍTULO CXXXI Anterior ao Anterior Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida. assim. Porquanto um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. Aquele entrou-me pela alma dentro. é curto. fitava agora a outra borda da mesa. Capitu. achei que Capitu tinha razão. e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. queriam-se muito. Capitu estava mais bela. olhou espantado para ela e para mim. Eu não sabia que lhe respondesse. dizendo-lhe eu que. podia antepô-lo a este. – Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? perguntou-me Capitu. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. e começou a tocar. não precisa revirar os olhos. eu aproveitei a ausência. abriu o piano. e iríamos residir em algum beco. a banca do advogado rendia-me bastante. mas não me pareceram esquisitos por isso. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo. Começava o ano de 1872. ocorrido poucas semanas antes. estávamos ainda à mesa. e muitas semelhanças se dariam naturalmente. . Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada. peguei do chapéu e saí. os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem. Como insistisse. Viveríamos sossegados e esquecidos. Olha. Era depois de jantar. como eu não aceitasse nada. papai? – Logo. na beleza. em que contasse um incidente. e. olha firme. Petrópolis. fiquemos nos olhos de Ezequiel. vira para o lado de papai. os objetos de algum valor seriam vendidos. Demais. mas. Só vi duas pessoas assim. alheia a ambos. Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe enchesse a cara de beijos. provavelmente porque não gostei tanto das outras. repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. foi para a sala..Perdão. mas custa muito alterar o número das páginas.. vai assim mesmo. dois meses depois da partida de Sancha. uma visita a Matacavalos. Capitu sorriu. mil desses remédios aconselhados aos melancólicos.. Ezequiel ia crescendo. Minas. mas este capítulo devia ser precedido de outro. ou ele com ela. porque. uma série de bailes. e até lá as jóias. e afinal saltou-me ao colo: – Vamos passear. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras. mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros. abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma. em verdade. Deixei-me estar calado e aborrecido. Capitu brincava com o filho. mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim. Ela propôs-me jogar cartas ou damas. Pois nem assim. E propôs-me a Europa. depois a narração seguirá até o fim. As pessoas valem o que vale a afeição da gente. assim.. Capitu sorriu para animar-me.. meu filho.. recusei as diversões. assim. Aproximei-me de Ezequiel.

Fugia-lhe. – Pois juro. até que a família pendura o quadro na parede. se voltaria para casa. e nós. sem abrir as janelas. fechava-me. palpitar. o corpo. do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa. próxima e firme. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo. Escobar vinha assim surgindo da sepultura. não se notará aqui. pela mão. e se eu iria vê-lo. porém. Era no antigo Largo da Lapa. tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. depois fui lendo melhor. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. papai! – Pois sim. no gabinete. e a figura entra a ver. posto sempre fosse homem de terra. ora devagar. Assim. Li a carta. Mas o principal irá. eu tolerava-as e praticava-as. ou pedirme à noite a bênção do costume. 106 . Todas essas ações eram repulsivas. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos. tivemos outros de pouca dura.. e eu jurava matá-los a ambos. perto da nossa casa. mas as restantes feições. e quando. antes total. o sol claro e o mar chão. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande. falar quase. mal a princípio e não toda. Releva-me estas metáforas. iamse apurando com o tempo. Capitu propôs metê-lo em um colégio. Quando novamente abria os olhos e a carta. ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. – Papai não vai! – Vou sim. beijar-me no gabinete de manhã. depois lê-se a carta na rua. postos à capa. a letra era clara e a notícia claríssima. Levei-o a pé. chegava a fechar os olhos. donde só viesse aos sábados. a pessoa inteira. nós a líamos. por ser tão miúdo e repetido. ora de golpe. custou muito ao menino aceitar esta situação. esperávamos outra bonança. fez-se como a manhã que aponta vagarosa. Quando. Mas o que pudesse dissimular ao mundo. e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. até que outro pé de vento desbaratava tudo. como levara o ataúde do outro. – Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele. O costume valeu muito contra o efeito da mudança. porém. não à maneira de teatro. nos olhos um do outro. vibrante e decisiva.Nem só os olhos. não abria as vidraças. Antes de descoberta aquela má terra da verdade. cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. e a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. receber-me na escada. – Papai não diz que jura. que não era tardia nem dúbia. em memória do que foi e já não pode ser. conto aquela parte da minha vida. sorrir. – Jura. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios. primeiro que se possa ler uma carta. não tardava que o céu se fizesse azul. uma segunda-feira.. a cara. é certo. mas a mudança fezse. e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaraçada e agoniada. Aqui podia ser e era. por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo. – Vou. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã. metia o papel no bolso. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. que vivia mais perto de mim que ninguém. corria a casa. em casa. não podia fazê-lo a mim. Já entre nós só faltava dizer a palavra última. como um marujo contaria o seu naufrágio.

quando que me achava entre jornais e autos.. e a morte não se gasta. já me parecia a mesma. lê agora outro capítulo. a título de visita. nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. com o fim de despedir-me. e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar. ou prender aquela hora a mim mesmo. Ou de verdade ou por ilusão. ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. Fui à casa de minha mãe. Ezequiel entrava turbulento. CAPÍTULO CXXXIII Uma Idéia Um dia. Cheguei a abrir mão do projeto.E lá o levei e deixei. Cá fora tinha a mesma cor escura. eu sentia-me cada vez pior. o dono fez-se banqueiro. ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança. Entretanto. para não despertar o desejo de prová-la. A farmácia faliu. antes de se ver cumprida. é provável que a idéia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. no gabinete. cuidava de me não fazer encontradiço com ele. mas também pode ter sido propósito. ao fim das semanas. dentro de pouco. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande. vindas da roça e da antiga metrópole. prima Justina. A ausência temporária não atalhou o mal. Era noite. – era uma sexta-feira. Passei uma hora em paz. a falar verdade. e o banco prospera. expansivo. não havendo almanaques no cérebro. comprei uma substância. minha mãe menos triste. porque o prêmio da loteria gasta-se. e posto avoasse com elas. ouvi cantar baladas em casa. era como se fosse fixa. e não pude dormir. CAPÍTULO CXXXIV O Dia de Sábado A idéia saiu finalmente do cérebro. que negrejava em mim. Aos sábados. cheio de riso e de amor. sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar. buscava não jantar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. Até a voz. com a cor mais pálida que de costume. A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela. Saí. é verdade. foi como se não fosse. Também nenhuma noite me passou tão curta. fui educado no terror daquele dia. Amanheceu. quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. não que me encobrisse as coisas externas. como fazem as idéias que querem sair. O ser sexta-feira creio que foi acaso. as mesmas asas trépidas. CAPÍTULO CXXXV 107 . Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral. ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. mas via-as através dela. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista. mas a volta dele. abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro. era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso.. Sei que escrevi algumas cartas. da língua. Não me lembra bem o resto do dia. ou pelo descostume em que eu ficava. ou só o menos que pudesse. tanto a ela como aos outros. por mais que a sacudisse de mim. que não digo. – não pude mais. tudo ali me pareceu melhor nesse dia. A mesma situação nova agravou a minha paixão. Já me vais entendendo. porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. supondo deixar a idéia em casa. ao menos. e sem se demorarem nada. tio Cosme esquecido do coração. eu a levava na retina. ou ainda maior. Certa idéia. Eu. ela veio comigo. mas não escapava ao domingo.

e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. era preciso sangue e fogo. não tendo esquecido de todo a minha história romana. bastou-me a ocupar aquele pouco tempo. e o pó seria lançado ao vento. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes. eu é que não repetiria mais nada.. Nenhuma das outras era para ela. nem a Fortaleza de Santa-Cruz e as outras. enquanto os homens iam fumar. para em tudo imitá-lo. e Iago destilava a sua calúnia. Os lenços perderam-se. Vaguei pelas ruas o resto da noite. tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. Há muita gente que se mata sem ele. à medida que o mouro rolava convulso. assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo para intrepidamente morrer. lembrou-me que Catão. mas era já numerosa e ia a algum trabalho. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. vinha eu dizendo rua abaixo: – que faria o público. como eterna extinção. um quase nada. subi pé ante pé. Vi as grandes raivas do mouro. Nem era só imitá-lo nisso. falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. leu e releu um livro de Platão. Ouvi as súplicas de Desdêmona. dissolver nele a droga e ingeri-la. – E era inocente. Ceei. alguma vez nem lençóis há. um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. De noite fui ao teatro. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça. que a consumisse de todo. iam dar seis horas. e meti-me no gabinete. um fogo intenso e vasto. mas um tomo truncado de Plutarco. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. e a reduzisse a pó. que repetiria depois. não queria expor-me a encontrar algum conhecido. CAPÍTULO CXXXVI A Xícara de Café O meu plano foi esperar o café. por causa de um lenço. nem a serra dos Órgãos. A gente que passava não era tanta. os primeiros albores. mas Capitu devia morrer. até que o pano subia e continuava a peça. vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores. Não tornaria a contemplar o mar da Glória. Cheguei a casa. antes de se matar. Tirei o veneno do bolso. se ela deveras fosse culpada. claro e breve. que eu não vira nem lera nunca. Não lhe lembrava o nosso passado. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério. os primeiros ruídos. O último ato mostrou-me que não eu. como nos dias comuns da semana. e nobremente 108 . As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. fiquei em mangas de camisa. hoje são precisos os próprios lençóis. e estimei a coincidência. mas o bastante para ir até à manhã. Nos intervalos não me levantava da cadeira. é verdade. – um simples lenço! – e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros Continentes. Escrevi dois textos. dirigida a Capitu. pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. e. em que era narrada a vida do célebre romano. O segundo continha só o necessário. e vinham outras incoerências. e escrevi ainda uma carta. as suas palavras amorosas e puras. Não tinha Platão comigo. as primeiras carroças. abri a porta devagarinho. nem alegria alguma. vagas e turvas. Até lá. sabia apenas o assunto. a última. senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. nem as lutas havidas. e a fúria do mouro. e valem só as camisas.Otelo Jantei fora. Representava-se justamente Otelo. estirei-me no canapé.. tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele.

porque o café estava frio. esticou-se na ponta dos pés.. Mas não sei que senti que me fez recuar. caso o sabor lhe repugnasse. guardei o livro. Efetivamente.. Chamemme embora assassino. o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. antes de beber o veneno. nem ser dada a notícia nas gazetas com a cor das calças que eu então vestia. se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. Eis aí outro lance. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga embrulhada. lembra-me bem que. papai. e dei por mim a beijar doidamente a cabeça do menino. não. lá estava ele. é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. O copeiro trouxe o café. e a vista dele. mas crê que foi belo e trágico. Cheguei a pegar na xícara. eu não sou teu pai! CAPÍTULO CXXXVIII Capitu que Entra Quando levantei a cabeça. houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido. Ergui-me. – Não. era melhor. cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor. e fui para a mesa onde ficara a xícara. ou a temperatura. como querendo subir e dar-me o beijo do costume. – Já. a memória em Desdêmona inocente. pensei. mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo. – Acabemos com isto. puxando-me: – Papai! papai! CAPÍTULO CXXXVII Segundo Impulso Se eu não olhasse para Ezequiel. – E papai? – Eu mando vir mais. Quando ia beber. Mas a fotografia de Escobar deu-me o ânimo que me ia faltando. uma vez que a mãe e o 109 . Já a casa estava em rumores. deu-me outro impulso que me custa dizer aqui. era tempo de acabar comigo. mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias. Pus a xícara em cima da mesa. e é tão natural como o primeiro. a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. diga-se tudo. Ainda assim tive ânimo de despejar a substância na xícara. o meu segundo impulso foi criminoso. querendo fugir a qualquer suspeita de imitação. mas vá lá. dei com a figura de Capitu diante de mim. Entretanto. vou à missa com mamãe. como o gesto. – Toma outra xícara. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café. como de costume. e repetia. porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo. para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco. os olhos vagos. mas o pequeno beijava-me a mão. papai! Leitor. – Papai! papai! exclamava Ezequiel.expira. tão trêmulo que quase a entornei. e comecei a mexer o café. não serei eu que os desdiga ou contradiga. beberia depois.. bebe! Ezequiel abriu a boca. vi-o entrar e correr a mim bradando: – Papai. meia xícara só. entrei a passear no gabinete. anda. a olhar ao longe. com mão nas costas da cadeira. que parecerá de teatro. Assim disposto. Ezequiel abraçou-me os joelhos.. assenti de pô-lo novamente no seu lugar. Cheguei-lhe a xícara.

. não sei se era dos meus olhos.. Eu creio que ouvira tudo claramente. repeti-lhe as palavras do final do capítulo. não nos fica bem dizer mais nada. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse. não acredita em Deus. Era já um falar seco e breve. mas diga tudo primeiro. depois do que ouvi. enquanto eu. posso ouvir o resto. mas Capitu pareceume lívida. eu nem olhava para ela. se você acha que tenho defesa. tal é a extensão do tempo nas grandes crises. depois. – Há coisas que se não dizem. a mor parte das vezes. porém.. Sem lhe contar o episódio do café. – Não. que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela.. creio que suspirou. aos seus gestos. aqui vai o que lhe posso dizer. diga tudo. por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. tanto mais que a pessoa que me contou isso acabava de perder uma demanda. Bentinho. mas já que disse metade. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande. o porte não era de acusada. é a casualidade da semelhança. Suspirou. Mas não falemos nisto. Mas. Não disse tudo. sem atender à linguagem de Capitu. sem mentir. disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. haja ou não testemunhas alugadas. ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais! – A separação é coisa decidida. se podem chamar de um século.. Ela olhava sempre. Que houve entre vocês? – Não ouviu o que lhe disse? Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Segui-se um daqueles silêncios. – O quê? perguntou ela como se ouvira mal. entretanto. Desta vez. não pode ser muito. tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. que a senhora insiste. disse ao filho que se fosse embora. fale! fale! Despeça-me daqui. redargüi. – Que não é meu filho. eu não creio. repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Que é que lhe deu tal idéia? Diga. – Há tudo. a que. de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui. esperando. e pediu-me que lhe explicasse. ou conte o resto. e não menor a indignação que lhe sucedeu.. mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação. questão de preço. Capitu recompôs-se. Após alguns instantes. nunca revelou a menor sombra de desconfiança. Capitu olhou para mim com desdém.. A vontade de Deus explicará tudo. eu creio. – Que se não dizem só metade. Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio. a coisa nenhuma. não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. cada um iria com a sua ferida.filho iam à missa. e é tudo. Já ouvi que as há para vários casos. Podia estar um tanto confusa. CAPÍTULO CXXXIX 110 . mal pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome. Ri-se? É natural. para que eu me defenda. e murmurou: – Sei a razão disto. Uma vez. e eu não queria duvidar dela. – Não há que explicar. você que era tão cioso dos menores gestos. Capitu não pôde deixar de rir. a minha era verdadeira. em um tom juntamente irônico e melancólico: – Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! Concertou a capinha e ergueu-se. Assim que. à dor que a retorcia. – diga tudo. apesar do seminário. a própria natureza jurava por si. Bentinho.. Grande foi a estupefação de Capitu. disse eu. e Capitu não saía sem falar-me. ao dar com ela. disse-me ela: – Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. – continuou vendo que eu não respondia nada. pegando-lhe na proposta.

. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora. se os chins os inventaram. um segredo que me fez rir. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados. ficou de companhia a Capitu. A morte era uma solução.” E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles. e deixava a porta aberta à reparação. e nos outros dias. estivessem à mesa do jantar. para ele. ou eu ia atentando mais nelas. em vez de trepadas no fio de arame. encontros e incidentes. Não disse perdão. Pelo dia adiante. palavras. repetiu as últimas palavras. lembravam-me episódios vagos e remotos. ensinando a língua materna a Ezequiel. paramos na Suíça. uma palavra dela sonhando. Assim regulada a vida. tornei ao Brasil. não confessou nada. quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher.A Fotografia Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão. mas falhou tudo. foi a outros cuidados. Os olhos com que me disse isto eram embuçados. por não me lembrar já qual seja. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. enquanto Capitu. era natural pegar do café e bebê-lo. ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável. tudo em que a minha cegueira não pôs malícia. dizendo-me uma palavra amiga e alegre. Capitu e eu. continuou. gritando: – “Mamãe! mamãe! é hora da missa!” restituiume à consciência da realidade.. Respondi-lhe que ia pensar. e esperei o regresso de Capitu. se devesse havê-la. todas essas reminiscências vieram vindo agora. e a que faltou o meu velho ciúme. e acharam-lhe graça. Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada. Pegamos em nós e fomos para a Europa. eu acabava de achar outra. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis. senhor. cheguei a temer que ela houvesse ido à casa de minha mãe. Este foi mais demorado que de costume. que aprenderia o resto nas escolas do país. porém. disse-me Capitu ao voltar da igreja. Acaso haveria em mim um homem novo. se não. mas reparação. os olhos enfiados nos olhos.. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. em tal atropelo que me atordoaram. evocara as palavras do finado Gurgel. CAPÍTULO CXLI A Solução Aqui está o que fizemos. Pois. mas tão cautelosos que se desenfiaram logo. e estou às suas ordens. – Confiei a Deus todas as minhas amarguras. e depois um para o outro. involuntariamente.. nem ver nada. desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. relê o capítulo. Uma professora do Rio Grande. cujo número não ponho aqui. De boca. não passear. “Nunca comi os ninhos delas. rejeitei a morte. Ezequiel ia ter comigo ao gabinete. e as feições do pequeno davam idéia clara das do outro. as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar. CAPÍTULO CXL Volta da Igreja Ficando só. E por que os não enganei um dia. isto é. confessando que a aborrecíamos. tinha perdido o gosto à morte. como espreitando um gesto de recusa ou de espera. não. parecido com Capitu. mas não fica longe. uma fantasmagoria de alucinado. que foi conosco. novo nem velho. puxou do filho e saíram para a missa. seria melhor se as andorinhas. um que aparecia agora. olhamos para a fotografia de Escobar. Escobar declarou que. quando desviei os olhos da rua onde estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico? Dentro. justiça. mas devem ser bons. havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. cozidas. Contava com a minha debilidade com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. tanto melhor quanto que não era definitiva. De envolta. Este era aquele. mas a entrada repentina de Ezequiel. Hás de lembrar-te delas. 111 . Qualquer que fosse a razão do ato. e faríamos o que eu pensasse. mas não foi. No intervalo.

disse eu. Na volta. É aí. No fim. não? – Justamente. e as palavras que me dizia. eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada. acaso afetuosas. e para o fim saudosas. pedia-me que a fosse ver. – Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigário. hesito só na fórmula. queriam notícias. Era um padre-modelo. – Bom canonista. sendo a modéstia uma delas.... – Todavia. o administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia... se nas viagens que fiz à Europa. Um dado de mestre! – Então. Um dia. não lhe escrevendo o nome. José Dias não foi comigo. disse mal do padre. atalhei. não posso. filiação.. As dela eram submissas. adeus. o nome.Ao cabo de alguns meses. – Venha. A minha idéia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. Agora. pio e caridoso. admitese. O escultor achou-a esquisita. com esta única indicação: Uma santa. finalmente. Fiz fazer essa inscrição com alguma dificuldade. – Não posso. senhor. A última vez não foi a bordo. CAPÍTULO CXLII Uma Santa Entenda-se que.. a que respondi com brevidade e sequidão. e repeti a viagem com o mesmo resultado. perdão. se a conhecessem mandariam esculpir santíssima. Bentinho. quase inválido. chamou-lhe meticuloso. que envelheceu depressa. – Nem eu contesto a verdade. naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo. lá em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gamão. nem ele nem os outros homens do cemitério. João Batista uma sepultura sem nome. nem poderia havê-lo. este ponderou-me que as santas estão no altar e no céu. sem ódio. quando saímos. a eterna. ficava de companhia a tio Cosme. parece-lhe?. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe. José Dias assistiu a estas diligências com grande melancolia. O Protonotário Cabral. não é que lhe faltasse vontade. Tanto é assim que. – Está com medo? – Não. Embarquei um ano depois. posto que rijo. CAPÍTULO CXLIII 112 . sim. Também ele estava velho. – Não a conheceram. continuou o vigário.. Conheceu então o protonotário? – Conheci-o. bom latinista.. – Mas. – E possuía algumas prendas de sociedade. Ia a bordo despedir-se de mim. – Quem se importará com datas. e enganar a opinião. Procura no cemitério de S. os que se lembravam dela.. as datas. mas não a procurei. minha mãe embarcou primeiro. creio que vou para a outra Europa... Capitu começara a escrever-me cartas. e eu dava-lhas. não sei se me verá mais. e a minha mãe. desejo conservá-la póstuma. como se acabasse de viver com ela. depois que eu acabar? – Quer dizer que era uma santa senhora. os gestos de lenço. a filiação. – Uma vez que não há outro sentido.. nem nomes. Não foi logo. os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também. se fosse vivo. confirmaria aqui o que lhe digo..

Deixei que demolissem a casa. ouvi também o grunhir dos porcos. e parece que era a cantiga das manhãs novas. A alopatia é o catolicismo da medicina. estava um céu azul e claro. mas não é provável. Esta casa do Engenho Novo. Já disse isto mesmo. deixou cair a cabeça. a quem pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. e. apenas me lembra aquela. mais tarde. Mandei chamar um médico homeopata. Realmente. e toda a casa me desconheceu. Ao pé dessa música sonora e jovial. conquanto reproduza a de Matacavalos. A pergunta devia ser feita a princípio. Bentinho. logo que minha mãe morreu. mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio. CAPÍTULO CXLV 113 . não se separaria de mim. pedi-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô. lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto. o que lhe fez da morte um pedaço de vida. Abrimos a janela. na mesma rua antiga. o mais doce. Corri os olhos pelo ar. que o tempo levou. em vez de reto. Outros teve que não vale a pena escrever aqui. Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. Tenho-me feito esquecer. como outrora. após alguns instantes. “destinado pelo céu a amar o mesmo sangue”. – Não. Já então morava comigo. o poço. – Que mal? Ar é vida. nada sabia de mim. – Não. A razão é que. foram idéias da mocidade. a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. buscando algum pensamento que ali deixasse. tinha agora um ar de ponto de interrogação.O Último Superlativo Não foi o último superlativo de José Dias. em todas as escolas se morre. mas a morte veio antes de Ezequiel. Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração. querendo ir para lá. quando vim para o Engenho Novo. A doença foi rápida. após uma agonia curta. tendo a própria casa velha. espécie de troça concentrada e filosófica. murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo.. Correspondia-se com Capitu. e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento. o ar pode fazer-lhe mal. a caçamba velha e o lavadouro. De mais. Morreu sereno. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. segundo contei em tempo. até que veio o último. José Dias soergueu-se e olhou para fora. Hão de perguntar-me por que razão. Pouco antes ouviu que o céu estava lindo. Ao contrário. não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. e não achei nenhum. Tudo me era estranho e adverso. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. converto-me à fé de meus pais. com legado ou sem ele. disse ele. fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias. mas o tronco. veio dizer-me que. Moro longe e saio pouco. e pediu que abríssemos a janela. até que ele não pediu mais nada. naturalmente pasmava do intruso. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? CAPÍTULO CXLIV Uma Pergunta Tardia Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo. mas aqui vai a resposta. No quintal a aroeira e a pitangueira. posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança. basta um alopata. o melhor deles.. a não ser o coração do jovem estudante.

e o defunto falava e ria por ele. Ao entrar na sala. o mesmo obséquio e a mesma graça.. A voz era a mesma de Escobar.. estando a vestir-me para almoçar. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. e não fiz rumor. os estudos. A mãe falava muito em mim. – Pois não hei de lembrar-me? – Era na Lapa. um pouco mais baixo. evocava a meninice. Estava. Não me mexi. menos cheio de corpo e. e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. e voltou-se depressa. eu acabava crendo tudo.. mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. Era o meu comborço. louvando-me extraordinariamente. DE SANTIAGO – A pessoa está aí? perguntei ao criado. abraçá-lo. senhor. que me não completasse e continuasse. falar-lhe na mãe. o exato. – Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo. fiz-me pai deveras. cenas e palavras. Escobar comia assim também. salvo as cores. mas o diabrete falava e ria. a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho. – Vamos almoçar. logo. pintado na parede. Às vezes. Falava da antigüidade com amor. Teve seus minutos de aborrecimento. – Sim. o mais digno de ser querido. bebeu um gole. Quando saí do quarto. aceito. que era a sua paixão. tomei ares de pai. Era o próprio. que Capitu por descuido levasse 114 . com a cara metida no prato. dava-me cada puxão. recebi um cartão com este nome: EZEQUIEL A. como o homem mais puro do mundo. eu também estava de preto. total. Se pensas que o almoço foi amargo.. diante de mim. tinha a cabeça aritmética do pai. Não fui logo. a ida para o colégio. eu ia desesperado. Ei-lo aqui. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. particularmente os de arqueologia. Contou-me a vida na Europa. ouviu-me os passos. Acabei de vestir-me às pressas. e continuou a comer. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr. contava o Egito e os seus milhares de séculos. sem se perder nos algarismos. Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia. foi já nesta casa que um dia. – Morreu bonita. de costas. o verdadeiro Escobar.O Regresso Ora. Sim. disse-me ele. ficou esperando. – Papai não faz diferença dos últimos retratos. senhor. que eram vivas. não gostava da ressurreição. Sentamo-nos. e papai não parava. Eu. mirando o busto de Massinissa. era o filho de seu pai. concluiu. Ansiava por ver-me. um pai entre manso e crespo. naturalmente. Não havendo remédio senão ficar com ele. Vestia de luto pela mãe. – creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. com igual riso e maior respeito. metade Dom Casmurro. fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. tanto mais facilmente quanto que ele parecia haver-me deixado na véspera. o mesmo rosto do meu amigo. e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. o sotaque era afrancesado. fechava os olhos para não ver gestos nem nada. Vim cauteloso. dei com um rapaz. Não obstante. posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar. A mãe. A idéia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar. Se o rapaz tem saído à mãe. José. e as maneiras eram diferentes. lá repousa na velha Suíça. é verdade. era nem mais nem menos o meu antigo e jovem companheiro do seminário de S. e eu com as perninhas. enganas-te. Trajava à moderna. Conheceu-me pelos retratos e correu para mim.

iam-lhe lembrando uma porção de coisas. alguma torre. Apesar de tudo. não me acudiu. Assim acontecia sempre que voltava para casa. disse eu a Ezequiel que queria ir vê-la. os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos. Eram dois colegas da universidade. o desenho da sepultura. persistiria. e era todo alegria. “Tu eras perfeito nos teus caminhos. Uma só dessas visitas 115 .consigo.. tirada do profeta Ezequiel. como se faz a um filho de verdade. – Está muito mal. atalhei-o a tempo. Iremos vê-la. onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição. ao Egito. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. ao fim do dia. ou a luz da sala esmorece. promessa feita a alguns amigos. Seria um regalo último. Prima Justina quis vê-lo. e achei que era exato. alguma rua. a morte levou-a dentro de poucos dias. senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz. por mais lacerada que tenha sido. contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. CAPÍTULO CXLVI Não Houve Lepra Não houve lepra. e à Palestina. Prometi-lhe recursos. acharia nele a minha própria pessoa. tão outra a fizeram os anos e a morte. Mandaram-me ambos os textos. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva. como na mãe. sejam velhas ou novas. antes lhe pagasse a lepra. Não lhe dei essa cor ou descor. Como quisesse verificar o texto. Vivi o melhor que pude sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. se acudisse. quando ficar melhor. pediu-me que o levasse lá. Conhecia aquela parenta. mas há febres por todas essas terras humanas. como se as casas morressem meninas. e quis apertá-lo ao coração. mas tinha ainda um completo. Não fomos. Quando esta idéia me atravessou o cérebro. mas. em grego. um trecho de praia. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu. é verdade. Se fosse vivo José Dias. encarei-o depois. qualquer emoção pode trazer-lhe a morte. jantei bem e fui ao teatro. nem. a conta de despesas e o resto do dinheiro que ele levava. Caprichos de pouca dura.. nem podia. Ezequiel morreu de febre tifóide. viagem científica. “Tu eras perfeito nos teus caminhos”. Ezequiel cria em mim. e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos. e. Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia. desde o dia da tua criação. Onze meses depois. CAPÍTULO CXLVII A Exposição Retrospectiva Já sabes que a minha alma. pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária. – De que sexo? perguntei rindo. Comigo disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho.” Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu. Creio que o desejo de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que porventura houvesse achado no menino. mas recuei. Sorriu vexado. consultei a minha Vulgata. ou se fartam de vê-la. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara. Ao cabo de seis meses. grego e latino. No caminho para o cemitério. estando enferma. e foi enterrado nas imediações de Jerusalém. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo.

ou o resto dos restos. ia até a esquina. e ia embora com o catálogo na mão. Então.. e. uma aquarela. vers. como no seu cap. uma gouache.tinha carro à porta e cocheiro de libré. e é a suma das sumas. davalhe o braço. se chovia. – Até amanhã. e maiores recomendações. com grandes despedidas. 116 . As outras iam modestamente. se aparecia outra visita. os quadros históricos ou de gênero. e também esta cansava. dir-me-ia. Mas não é este propriamente o resto do livro. consultava o relógio. hás de reconhecer que uma estava dentro da outra. espiava. se te lembras bem da Capitu menina. Eu ficava à porta. como a fruta dentro da casca. Jesus. tão extremosos ambos e tão queridos também.. nem os de cigana oblíqua e dissimulada. qualquer que seja a solução. um pastel.. calcante pede. A terra lhes seja leve! Vamos à História dos Subúrbios. por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca. entrávamos. mostrava-lhe as paisagens. esperando. se soubesse dos meus primeiros ciúmes. O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos. I: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti. CAPÍTULO CXLVIII E Bem. e não via nada nem ninguém. a saber. ou se foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente.. quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me. e tu concordarás comigo.” Mas eu creio que não. até amanhã. eu é que ia buscar um carro de praça. Não voltavam mais. que a minha primeira amiga e o meu maior amigo. IX. filho de Sirach. – Levas o catálogo? – Levo. uma coisa fica. e o Resto? Agora. e as metia dentro. E bem.

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