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Diálogos da Loucura - Diálogo IV

Diálogos da Loucura - Diálogo IV

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Quarto "diálogo". "A Razão" de sermos, de ser o mundo e ser a acção que nos liga ao mundo... ou só mais um bêbado a delirar.
Quarto "diálogo". "A Razão" de sermos, de ser o mundo e ser a acção que nos liga ao mundo... ou só mais um bêbado a delirar.

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Published by: António Marcos Coelho on Aug 19, 2010
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"Diálogos da Loucura

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António Marcos N. F. Coelho 2010/08/19 Diálogo IV – a razão Os passos são sempre os mesmos, o caminho nunca muda, a curva, a descida, a subida logo em seguida. Nada muda. O mundo parece constante, excepto, o caminho, a curva, a descida, a subida… Porque não percebia antes isto? A vontade que não tenho de saltar ao passado e esbofetear-me, estúpido, porque não soube ver? Passos móveis, no caminho firme, tão simples. Mas, ao mesmo tempo, tão estranho. Não, simples! Esbofeteava-me se pudesse. O murmúrio ouvia-se ao longo da pequena rua, o velho caminhava ritmadamente enquanto falava para si mesmo. Não havia preocupações nele, apenas o desejo de se esbofetear. Sem que ninguém o compreendesse, raramente se silenciava. O pensamento e a fala pareciam ter formado uma única construção sólida naquele homem. Tal edifício não ruiria, mas ele… Ele já só queria esbofetear-se, por culpa, por responsabilidade, por nada, apenas esbofetear-se. Um impedimento e uma ideia, duas ideias, então. Um desejo e uma vontade. Mas se é vontade, não é um desejo meu. Se é um desejo meu, é uma necessidade. Então porquê esbofetear-me? Porquê pensar nisto? O caminho, a terra firme… Não gosto, não me agrada. O pensamento, fugidio, o sentido da terra firme. Antes tempo, antes vazio. Mas tal já não é possível. Como o caminho, longo, constante mas variável. Não posso, não posso. Eu, talvez, não o caminho. O homem estava confuso, tonteava, perdia o ritmo dos passos, tropeçava e quase caia. Na valeta, sentado, tentava orientar o sentido que não tinha. A ordem nas suas ideias estava em greve, a firmeza do caminho que via alterar-se pelo seu próprio movimento, a natureza firme do chão, impediam-no de retomar o rumo. Esperou, sentado, de olhos fechados, que o mundo se transformasse. Uma vontade, apenas uma vontade e alguma dedicação. Não é apenas isto, não o sei explicar. O mundo transforma-se. Sim, transforma-se e… e… Os campos não são tão firmes, as plantas, a floresta, é por aí que devo seguir. O caminho já não existe, ou exista, não é o meu. Não suportaria o chão firme novamente. Há! Há! Há! Dissesse isto a alguém e quem me

sei disso. ou não fosse. hoje e amanhã. Trocadilhos. Sei que tal coisa não é realmente possível mas se fosse… Dir-me-iam louco. os desejos também. nada era firme. O mundo é vontade. não poderia então. Parecia seguir em direcção a uma verdade que não existe. Gritava o bêbado. sei-o. devaneio ou razão alucinada. E o que diriam disto? Há! Há! Há! Belo poeta alucinado! Levantou-se. Porquê desejar que as ideias o sejam? Tão errados! Tão certos… A firmeza é ilusão. via-o ao longe através da névoa da sua embriagues. qual criança. a essência que nos sustenta não o é. não apenas isso. sou-o também. que vontade de gritar! O mundo é desejo. talvez a morte e nada mais. e avançou calmamente na sua caminhada. ou porque não compreendia. O mundo é o que os meus desejos são. Desfez-se mas ainda me perturba. porque não o é. Sem sentido e sem receio. mesmo que pudesse. quem sabe se loucura? O caminho não é firme agora. porquê procurar um significado? Para quê? Questionava-se. a um lugar onde tudo está porque ninguém lá chegou realmente. não há pecado. agora. Dir-me-iam mentiroso. Já não vale a pena esbofetear-me. E o que é o mundo senão o eu mesmo? Não. Trocadilhos e nada mais. Palavras. Talvez o vinho ajude. Talvez alguém as possa ver. Parecia conhece-lo mas o velho já não caminhava na terra firme. A firmeza. a perfeição dos desejos.compreenderia? Há! Há! Há! Não somos firmes. vontade… Os desejos são o que eu sou e a vontade que me provocam e o mundo que a vontade cria e sou eu. o bêbado despertou e seguiu o seu rumo pela terra firme até casa. . nada mais do que trocadilhos. o velho. meias verdades e meias mentiras. O velho seguia o seu rumo sem responder. pelos campos. o tempo. talvez alguém ainda tenha perfeição em si também. Quem poderia dizer que não somos outra coisa? Que vontade. Partes. Dir-me-iam perverso. o velho. Sempre era o caminho. Os campos. Ou porque não ouvia. senil. continuava. Calmo. cada vez mais alto a chamá-lo. Num derradeiro grito de chamamento. Não poderia dizer-lhes isto. Estava louco e. um bêbado resmungava com o velho. já não faz parte de mim. o que o mundo é. com o seu delírio mais brando depois do grito. Caminho novo. os arvoredos. O que seria de mim se não tivesse desejado esbofetear-me? Os desejos… Sempre os desejos. havendoo seria essa a nossa essência… Deitado numa valeta. sabia-o. O pensamento acalmava-se e os passos ganhavam um novo ritmo. nada mais do que isso. O espaço.

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