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Microbiologia

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  • 1.1 Posição dos microrganismos no mundo vivo
  • 1.2 Distribuição dos Microrganismos na Natureza
  • 1.3 Áreas de aplicação da Microbiologia
  • 1.4 A Evolução da Microbiologia
  • 1.4.2 Teoria Microbiana das Doenças
  • 1.5 Caracterização e Classificação dos Microrganismos
  • 2 BACTÉRIAS
  • 2.1 Morfologia e Ultra-Estrutura das Bactérias
  • 2.1.1 Estruturas Bacterianas
  • 2.2 Cultivo das Bactérias
  • 2.2.1 Tipos Nutritivos das Bactérias
  • 2.2.2 Meios Bacteriológicos
  • 2.2.3 Condições Físicas Necessárias ao Crescimento
  • 2.3 Reprodução e Crescimento
  • 2.3.2 Crescimento
  • 2.4 Principais Grupos de Bactérias
  • 2.4.1 Bactérias Patogênicas
  • 3 FUNGOS
  • 3.2 Características próprias dos fungos
  • 3.2.1 Reprodução nos Fungos
  • 3.2.2 Fisiologia e Nutrição dos Fungos
  • 3.3 Classificação dos Fungos
  • 3.3.1 Zygomycetes
  • 3.3.2 Ascomycetes
  • 3.3.3 Basidiomycetes
  • 3.3.4 Deuteromycetes
  • 3.4 Fungos e suas associações com outros organismos
  • 3.4.1 Liquens
  • 3.4.2 Micorrizas
  • 3.4.3 Trufas
  • 3.5 Fungos economicamente importantes
  • 3.5.1 Fungos Patogênicos
  • 4 VÍRUS
  • 4.3 Estrutura dos Vírus
  • 4.8 Agentes infecciosos semelhantes a vírus
  • 5 CONTROLE DOS MICRORGANISMOS
  • 5.1 Fundamentos
  • 5.2 Condições que influenciam a ação antimicrobiana
  • 5.3 Modo de ação dos agentes antimicrobianos
  • 5.4 Controle pelos agentes físicos
  • 5.4.1 Aplicação das altas temperaturas
  • 5.4.2 Aplicação de baixas temperaturas
  • 5.5 Controle pelos agentes químicos
  • 5.5.1 Escolha do agente químico antimicrobiano
  • 5.5.2 Principais grupos de desinfetantes e anti-sépticos
  • 5.6 Antibióticos e outros agentes quimioterápicos

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO INSTITUTO DE FÍSICA DE SÃO CARLOS LICENCIATURA EM CIÊNCIAS EXATAS

DISCIPLINA BIOLOGIA 3

INTRODUÇÃO À MICROBIOLOGIA

Nelma R. Segnini Bossolan

2002

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO 1.1 POSIÇÃO DOS MICRORGANISMOS NO MUNDO VIVO 1.2 DISTRIBUIÇÃO DOS MICRORGANISMOS NA NATUREZA 1.3 ÁREAS DE APLICAÇÃO DA MICROBIOLOGIA 1.4 A EVOLUÇÃO DA MICROBIOLOGIA 1.4.1 GERAÇÃO ESPONTÂNEA VERSUS BIOGÊNESE 1.4.2 TEORIA MICROBIANA DAS DOENÇAS 1.5 CARACTERIZAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DOS MICRORGANISMOS 2 BACTÉRIAS 2.1 MORFOLOGIA E ULTRA-ESTRUTURA DAS BACTÉRIAS 2.1.1 ESTRUTURAS BACTERIANAS 2.2 CULTIVO DAS BACTÉRIAS 2.2.1 TIPOS NUTRITIVOS DAS BACTÉRIAS 2.2.2 MEIOS BACTERIOLÓGICOS 2.2.3 CONDIÇÕES FÍSICAS NECESSÁRIAS AO CRESCIMENTO 2.3 REPRODUÇÃO E CRESCIMENTO 2.3.1 REPRODUÇÃO 2.3.2 CRESCIMENTO 2.4 PRINCIPAIS GRUPOS DE BACTÉRIAS 2.4.1 BACTÉRIAS PATOGÊNICAS 3 FUNGOS 3.1 INTRODUÇÃO 3.2 CARACTERÍSTICAS PRÓPRIAS DOS FUNGOS 3.2.1 REPRODUÇÃO NOS FUNGOS 3.2.2 FISIOLOGIA E NUTRIÇÃO DOS FUNGOS 3.3 CLASSIFICAÇÃO DOS FUNGOS 3.3.1 ZYGOMYCETES 3.3.2 ASCOMYCETES 3.3.3 BASIDIOMYCETES 3.3.4 DEUTEROMYCETES 3.4 FUNGOS E SUAS ASSOCIAÇÕES COM OUTROS ORGANISMOS 3.4.1 LIQUENS 3.4.2 MICORRIZAS 3.4.3 TRUFAS 3.5 FUNGOS ECONOMICAMENTE IMPORTANTES 3.5.1 FUNGOS PATOGÊNICOS 4 VÍRUS 4.1 INTRODUÇÃO 4.2 HISTÓRICO 4.3 ESTRUTURA DOS VÍRUS

1 2 3 4 5 5 7 8 10 10 13 17 17 19 20 21 21 23 24 25 28 28 28 30 31 32 33 34 36 37 38 38 39 39 39 40 43 43 43 44

4.4 CLASSIFICAÇÃO DOS VÍRUS ANIMAIS E DE PLANTAS 4.5 REPLICAÇÃO DO VÍRUS 4.6 BACTERIÓFAGOS 4.7 ISOLAMENTO E IDENTIFICAÇÃO DO VÍRUS 4.8 AGENTES INFECCIOSOS SEMELHANTES A VÍRUS 5 CONTROLE DOS MICRORGANISMOS 5.1 FUNDAMENTOS 5.2 CONDIÇÕES QUE INFLUENCIAM A AÇÃO ANTIMICROBIANA 5.3 MODO DE AÇÃO DOS AGENTES ANTIMICROBIANOS 5.4 CONTROLE PELOS AGENTES FÍSICOS 5.4.1 APLICAÇÃO DAS ALTAS TEMPERATURAS 5.4.2 APLICAÇÃO DE BAIXAS TEMPERATURAS 5.4.3 RADIAÇÕES 5.5 CONTROLE PELOS AGENTES QUÍMICOS 5.5.1 ESCOLHA DO AGENTE QUÍMICO ANTIMICROBIANO 5.5.2 PRINCIPAIS GRUPOS DE DESINFETANTES E ANTI-SÉPTICOS 5.6 ANTIBIÓTICOS E OUTROS AGENTES QUIMIOTERÁPICOS 6 BIBLIOGRAFIA

45 47 50 51 51 53 53 54 54 54 54 55 56 57 57 58 59 64

3) habilidade de excreção de produtos de escória. Os principais grupos de microrganismos são os protozoários. todos os processos vitais são realizados numa única célula. seus efeitos benéficos e prejudiciais sobre os homens e as alterações físicas e químicas que provocam em seu meio ambiente. Todos os sistemas biológicos têm as seguintes características comuns: 1) habilidade de reprodução. tudo sem causar a destruição do microrganismo. bios (“vida”) e logos (“ciência”)] é o estudo dos organismos microscópicos e de suas atividades. Nas assim chamadas formas superiores de vida. Além disso. assim. Conforme já foi visto. menos espaço e cuidados de manutenção do que as plantas superiores e os animais. basicamente do mesmo modo que as células dos tecidos de mamíferos. Eles podem crescer. Preocupa-se com a forma. o conjunto é circundado por membranas limitantes ou parede celular. Independentemente da complexidade de um organismo. Inclui o estudo da sua distribuição natural. Nos indivíduos unicelulares. elas compõem-se de protoplasma (do grego: a primeira substância formada). fungos. os organismos são compostos de muitas células. a célula é. regular o crescimento e. a reprodução. por exemplo. Os processos metabólicos dos microrganismos seguem os padrões que ocorrem nos vegetais superiores e nos animais. a fisiologia. é possível alterar as atividades metabólicas. utilizam a glicose. Os microrganismos fornecem sistemas específicos para a investigação das reações fisiológicas. Os vírus. que constituem tecidos altamente especializados e órgãos destinados a exercer funções específicas. Os princípios da Biologia podem ser demonstrados através do estudo da Microbiologia. suas relações recíprocas e com outros seres vivos. Em Microbiologia pode-se estudar os organismos em grande detalhe e observar seus processos vitais durante o crescimento. e todos contêm um núcleo ou uma substância nuclear equivalente. algumas espécies bacterianas demonstram quase 100 gerações num período de 24 horas. lipídeos e ácidos nucleicos. que são a base da vida. até alterar alguns detalhes do padrão genético. e 5) suscetibilidade à mutação. Todas as células vivas são basicamente semelhantes. Modificando-se a composição do meio ambiente. algas e bactérias. exigindo. o metabolismo e a identificação dos seres microscópicos. o envelhecimento e a morte. genéticas e bioquímicas. crescem rapidamente e se reproduzem num ritmo muito alto. na realidade. de maneira conveniente. a unidade básica da vida. a Microbiologia trata com organismos microscópicos unicelulares. em tubos de ensaio ou frascos. Este texto irá abordar . Em sua maior parte. revelando que o mesmo sistema enzimático está presente nestes organismos tão diversos. metabolizando-as para suas necessidades de energia e de crescimento. têm algumas características de células vivas e por isso são estudados como microrganismos. pois os microrganismos têm muitas características que os tornam instrumentos ideais para a pesquisa dos fenômenos biológicos. a estrutura. 2) capacidade de ingestão ou assimilação de substâncias alimentares.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 1 _____________________________________________________________________________________________ 1 Introdução A ciência da Microbiologia [do grego: mikros (“pequeno”). um complexo orgânico coloidal constituído principalmente de proteínas. a reprodução. As leveduras. apesar de não serem considerados vivos. 4) capacidade de reagir a alterações do meio ambiente (algumas vezes chamada de "irritabilidade").

são encontrados em três dos cinco reinos: reino Monera (bactérias e cianobactérias). agora. como mostra a figura 1. Os vírus. ou seja. naturalmente. Estes pesquisadores utilizaram uma técnica que compara o arranjo nucleotídico do RNAr entre diferentes organismos. a relação entre ambos é muito distante. Os eucariotos possuem um tipo geral de sequência e os . Mediante os progressos do conhecimento da ultra-estrutura celular. fungos e vírus. o sistema dos cinco reinos. a nenhum destes dois reinos. Esses organismos foram chamados de protistas e colocados no reino Protista. Com as pesquisas de Carl Woese e seus colaboradores. Um outro sistema de classificação. um terceiro grupo que tem características aos animais e vegetais. genéticos e ultraestruturais. outros que são similares aos animais e. constituído unicamente por seres unicelulares. algas. amplamente aceito porque considera relações evolutivas e é compatível com os recentes estudos bioquímicos. tipicamente não poderiam ser classificados como vegetais ou animais.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 2 _____________________________________________________________________________________________ temas sobre bactérias. os organismos estão intimamente relacionados e têm um ancestral comum relativamente recente. um no interior do outro) hereditária levou até a célula eucariótica. 1. desenvolvendo-se desde um ancestral procariótico comum. Os microrganismos. a idéia prevalecente era de que os organismos procariotos. Por exemplo. se as sequências de ribonucleotídeos de 2 tipos de organismos diferem em grande extensão. Assim. os microrganismos puderam ser divididos em duas categorias: procariotos e eucariotos. a partir de uma variedade de unidades procarióticas. Esta divisão baseia-se nas diferenças de organização da maquinaria celular. Até 1977. já vistas neste curso. os organismos divergiram há muito tempo de um ancestral comum. portanto. os fungos e as demais algas (as células animais e vegetais são. os quais sugerem que a endossimbiose (viver junto. foi proposto por Robert H.1 Posição dos microrganismos no mundo vivo A Microbiologia estuda alguns organismos que são predominantemente semelhantes ao vegetais . As algas azuis (cianofíceas) e as bactérias são organismos procariotos. tal como ela é conhecida. compreendem-se bactérias. Porém. excluindo-se os vírus que não são organismos celulares. também eucarióticas). fungos e protozoários. H. por causa da sua simplicidade estrutural. Haeckel. Whittaker (1969). ficou comprovado que os procariotos e eucariotos evoluíram por vias completamente diferentes a partir de uma forma ancestral comum. são deixados de lado neste esquema de organização celular. Este autor sugeriu que um terceiro reino incluísse os microrganismos que. eram os ancestrais de eucariotos mais complexos. Uma dessas primeiras proposições foi feita em 1866 pelo zoólogo alemão E. foi proposta a criação de novos reinos que os pudessem incluir. reino Protista (algas microscópicas e protozoários) e reino Fungi (leveduras e bolores). Este sistema é. se as sequências mostram mais similaridades. isolados entre os microrganismos. Entre os microrganismos eucariotos estão os protozoários. Visto que não existem organismos que não pertencem. ao se falar de modo geral em protistas. uma vez que algas e protozoários já foram vistos em etapa anterior. baseado no modo pelo qual o organismo obtém nutrientes de sua alimentação.

Figura 1: Representação das vias pelas quais os organismos vivos evoluíram. designadas de arqueobactérias e eubactérias. Dentre os procariotos. parecem ter evoluído de maneira similar. e. a partir de uma cianobactéria. (fonte: Pelczar et al. No caso dos eucariotos. Cloroplastos. há evidências de que certas eubactérias Gram-negativas invadiram células eucarióticas primitivas e evoluíram como organelas intracelulares chamadas mitocôndrias. As três maiores ramificações evolucionárias são mostradas como arqueobactrérias.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 3 _____________________________________________________________________________________________ procariotos. pelo menos três.2 Distribuição dos Microrganismos na Natureza Os microrganismos se encontram em praticamente todos os lugares da natureza. Os microrganismos ocorrem mais abundantemente onde puderem encontrar alimentos. que difere dos anteriores. no alto de montanhas. 1996) 1. A figura 1 mostra um esquema das vias pelas quais os organismos vivos evoluíram. São transportados por correntes aéreas desde a superfície da Terra até as camadas superiores da atmosfera. em grandes profundidades. a doença pode disseminar-se de um lugar para outro. Entre as eubactérias pelo menos dez linhas de descendentes distintos ocorrem. São encontrados em sedimentos no fundo do mar.. como deduzido através de estudos comparativos e RNA ribossômico. nas arqueobactérias. se dejetos humanos contendo bactérias patogênicas forem despejados em correntes de água. . as organelas fotossintéticas de células de plantas. como deduzido através de estudos comparativos de RNA ribossômico. Com isso. um segunto tipo. alguns têm um terceiro tipo de sequência. eubactérias e eucariotos. São carregados por correntes fluviais e até mares. concluiu-se que há 2 tipos principais de bactérias. Mesmo os microrganismos típicos dos oceanos podem ser achados a muitos quilômetros de distância.

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umidade e temperatura adequadas para seu crescimento e multiplicação. Uma vez que as condições que favorecem a sobrevivência e o crescimento de muitos microrganismos são as mesmas sob as quais vivem as populações humanas, é inevitável que vivamos entre grande quantidade de microrganismos. Eles estão no ar que respiramos e no alimento que ingerimos. Estão na superfície de nosso corpo, em nosso trato digestivo, na boca, no nariz e em outros orifícios naturais. Felizmente, a maioria dos microrganismos é inócua para o homem, e este tem meios de resistir à invasão daqueles que são potencialmente patogênicos.

1.3 Áreas de aplicação da Microbiologia Existem numerosos aspectos no estudo da Microbiologia, que são divididos em duas áreas principais: a microbiologia básica e a microbiologia aplicada. A microbiologia básica estuda a natureza fundamental e as propriedades dos microrganismos. Preocupa-se com assuntos relacionados aos seguintes temas: ! características morfológicas (forma e tamanho das células, composição química, etc.); ! características fisiológicas (necessidades nutricionais específicas e condições necessárias ao crescimento e reprodução); ! atividades bioquímicas (modo de obtenção de energia pelos microrganismos); ! características genéticas (hereditariedade e variabilidade das características); ! características ecológicas (ocorrência natural dos microrganismos no ambiente e sua relação com outros organismos); ! potencial de patogenicidade dos microrganismos e ! classificação (relação taxonômica entre os grupos do mundo microbiano). Na microbiologia aplicada estuda-se como os microrganismos podem ser usados ou controlados para várias finalidades práticas. Os pricipais campos de aplicação da microbiologia incluem: medicina, alimentos e laticínios, agricultura, indústria e ambiente. Na área industrial, por exemplo, os microrganismos são utilizados na síntese de uma variedade de substâncias químicas, desde o ácido cítrico até antibióticos mais complexos e enzimas. Certos microrganismos são capazes de fermentar material orgânico animal e humano, produzindo gás metano que pode ser coletado e usado como combustível. A biometalurgia explora as atividades químicas de bactérias para extrair minerais, como cobre e ferro de minérios de baixa qualidade. A indústria do petróleo têm utilizado bactérias e seus produtos, como os exopolissacarídeos presentes externamente à célula bacteriana, para aumentar a extração do petróleo de rochas reservatório. Na área ambiental, estuda-se a utilização de microrganismos que podem degradar poluentes específicos, como herbicidas e inseticidas.

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A microbiologia médica trata dos microrganismos causadores de doenças humanas (patogênicos, além de estar relacionada com a prevenção e o controle das doenças. Juntamente com a engenharia genética, têm pesquisado a produção de enzimas bacterianas que dissolvam coágulos sangüíneos, vacinas humanas utilizando vírus de insetos e testes laboratoriais rápidos para diagnóstico de infecção viral, entre tantas outras aplicações possíveis nesta área. A microbiologia dos alimentos está relacionada com as doenças que podem ser transmitidas pelos alimentos, como por exemplo, infecções causadas por salmonelas, intoxicações causadas por estafilococos e clostrídios. Relaciona-se também com aspectos positivos, com a utilização de microrganismos na produção de alimentos/bebidas (queijos, pães, cervejas, etc.).

1.4 A Evolução da Microbiologia A Microbiologia começou quando se aprendeu a polir lentes, feitas a partir de peças de vidro, e a combiná-las até produzir aumentos suficientemente grandes que possibilitassem a visualização dos microrganismos. Durante o século XIII, Roger Bacon postulou que a doença era produzida por seres vivos invisíveis. A sugestão foi novamente feita por Fracastoro de Verona (1483-1553) e por Von Plenciz, em 1762, mas estes autores não dispunham de provas. No início de 1658, um monge chamado Kircher se referiu a "vermes" invisíveis a olho desarmado nos corpos em decomposição, no pão, no leite e em excreções diarréicas. Em 1665, Robert Hooke viu e descreveu células em um pedaço de cortiça. Estabeleceu o fato de que os organismos de "animais e plantas, complexos que sejam, são compostos de algumas partes elementares que se repetem freqüentemente" - citação não devida a Hooke, mas originada da descrição de Aristóteles sobre a estrutura celular das coisas vivas, datadas do século IV a.C. Embora não tenha sido, provavelmente, o primeiro a ver as bactérias e os protozoários, o holandês Antony Van Leeuwenhoek (1632-1723), foi o primeiro a relatar suas observações, com descrições precisas e desenhos. A palavra bactéria vem do termo bacterium, que foi introduzido pelo alemão C.G. Ehrenberg, em 1828, como uma denominação genérica para certos tipos bacterianos representativos. Deriva da palavra grega que significa "pequeno bastão". A palavra micróbio foi introduzida em 1878 pelo cirurgião francês, Charles-Emmanuel Sedillot. 1.4.1 Geração Espontânea versus Biogênese A descoberta dos microrganismos focalizou o interesse científico sobre a origem dos seres vivos. No que se refere às formas superiores de vida, Aristóteles (384-322 a.C.) pensava que os animais podiam se originar, espontaneamente, do solo, de plantas e de outros animais diferentes, e sua influência ainda atingiu o século XVII. Era aceito como fato, por exemplo, que as larvas podiam ser produzidas pela exposição da carne a o calor e ao ar, embora Francesco Redi (1626-1697) duvidasse do mesmo. Ele realizou uma experiência na qual colocou carne numa jarra coberta com gaze. Atraídas pelo odor da carne, as moscas puseram seus ovos sobre a cobertura e, destes, emergiram as larvas. Esta experiência e outras parecem ter resolvido o assunto,

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ao menos no que se referia a tais formas vivas. Com os microrganismos, contudo, era diferente; seguramente eles não tinham pais. Em 1749, John Needham (1713-1781), trabalhando com carne exposta a cinzas quentes, observou o aparecimento de microrganismos que não existiam no início da experiência, concluindo que as bactérias tinham se originado da carne. Quase que ao mesmo tempo, Spallanzani (1729-1799) ferveu caldo de carne durante uma hora, fechando logo a seguir os frascos. Nenhum microrganismo apareceu, mas seus resultados, ainda que repetidos, não convenceram Needham. Este insistia em que o ar era essencial para a produção espontânea dos seres microscópicos, e este ar tinha sido excluído dos frascos pelo fechamento. 60 a 70 anos mais tarde dois pesquisadores responderam a este argumento. Franz Schulze (1815-1873) aerava infusões fervidas, fazendo o ar atravessar soluções fortemente ácidas, enquanto Theodor Schwann (18101882) forçava o ar através de tubos aquecidos ao rubro. Em nenhum dos casos surgiram os micróbios. Os adeptos da geração espontânea não se convenceram, dizendo que o ácido e o calor é que não permitiram o crescimento dos micróbios. Por volta de 1850, Schröder e Von Dush realizaram uma experiência mais convincente, fazendo o ar passar através do algodão para frascos que continham o caldo aquecido. Assim, as bactérias foram retidas pelas fibras de algodão, tanto que não houve seu desenvolvimento. O conceito de geração espontânea foi revivido, pela última vez, por Pouchet, que publicou em 1859, um relatório, provando sua ocorrência. Pouchet foi rebatido por Louis Pasteur (1822-1895). Este preparou um frasco com colo longo, estreito, em pescoço de cisne . As soluções nutritivas foram aquecidas no frasco e o ar - não-tratado e não-filtrado - podia passar para dentro ou para fora. Os micróbios, porém, depositavam-se no pescoço de cisne e não apareciam na solução. Finalmente, John Tyndall (1820-1893) efetuou experiências numa caixa especialmente desenhada para provar que a poeira carrega os micróbios . Se não houver poeira, o caldo estéril ficará livre de crescimento microbiano por períodos de tempo indefinidos. Os aparelhos utilizados nas experiências acima descritas estão ilustrados na figura 2.

Figura 2: Aparelhos utilizados nos experimentos que derrubaram a teoria da geração espontânea (fonte: Pelczar et al., 1980).

Observou que. em cultura pura. causada por um germe transmitido de uma mãe para outra por intermédio das parteiras e dos médicos. porém é a indústria dos derivados do leite que está mais familiarizada com este método. Von Plenciz.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 7 _____________________________________________________________________________________________ 1. provavelmente. . 3) A cultura pura produzirá a doença quando inoculada em animal sensível. A partir destes animais experimentais. Este processo tornou-se conhecido como pasteurização e hoje é amplamente utilizado nas indústrias de fermentação. Fracastoro de Verona sugeriu que as doenças podiam ser devidas a organismos invisíveis. examinou-as ao microscópio para estar seguro de que apenas uma espécie tinha se desenvolvido e injetou-as em outros animais para verificar se estes se tornavam doentes e desenvolviam os sintomas clínicos do carbúnculo hemático. Inoculou as bactérias em meios de cultura.4. Pasteur sugeriu que os tipos indesejáveis de microrganismos deveriam ser eliminados pelo calor. o médico Robert Koch (1843-1910) estudou o problema do carbúculo hemático. mantendo os sucos a uma temperatura de 62-63 º C. era efetuada por micróbios. Louis Pasteur estudou os métodos e processos envolvidos na fabricação de vinhos e cervejas. Observou que a fermentação das frutas e dos grãos. o médico húngaro Ignaz P. A partir disto foram estabelecidos os postulados de Koch: 1) Um microrganismo específico pode sempre ser encontrado em associação com uma dada doença. isolou micróbios de espécies diferentes. nos produtos pobres. Porém os micróbios já estavam nos sucos. no laboratório. não apenas estabeleceu que seres vivos eram causas de doenças. Quase na mesma época. Na França. Holmes (1809-1894) insistia que a febre puerperal era contagiosa e. dos animais experimentalmente infectados.2 Teoria Microbiana das Doenças Antes de Pasteur ter provado experimentalmente que as bactérias são a causa de algumas doenças. 2) O organismo pode ser isolado e cultivado. durante uma hora e meia. caprino e. em seu laboratório. que é uma doença do gado bovino. 4) É possível recuperar o microrganismo. mas suficiente para tornar inócuo os germes. Na Alemanha. às vezes. resultando em álcool. em cultura pura. no sangue de animais mortos pela infecção carbunculosa. do homem. Em 1762. Nos bons lotes. presentes no leite. transmitidos de uma pessoa para outra. Ele descobriu os bacilos típicos com extremidades cortadas em ângulos retos. Selecionando adequadamente o microrganismo. deviam ser removidos e fermentação iniciada com uma cultura proveniente de um tonel que tinha sido satisfatório. visando a destruição dos microrganismos patogênicos. Examinando muitas amostras de "fermentos". muitos observadores já argumentavam a favor desta teoria. obtinha o resultado desejado. o fabricante podia estar seguro de conseguir produtos bons e uniformes. como também suspeitou que microrganismos diferentes eram responsáveis por enfermidades diferentes. Esta foi a primeira vez que uma bactéria foi comprovada como causa de uma doença animal. O médico Oliver W. Semmelweis (1818-1865) introduzia o uso de antissépticos na prática obstétrica. outro tipo estava presente. predominava um tipo. de Viena. Koch isolou micróbios iguais aos que tinha encontrado originalmente nos carneiros infectados. não tão intenso que prejudicasse o gosto do suco de fruta.

IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 8 _____________________________________________________________________________________________ 1. 6. que é considerado como uma espécie e recebe um nome específico. 2. que contêm milhares. que incluem o uso de diferentes meios e diferentes reações químicas. o microrganismo adquire um nome. 5. eventualmente. isto é. Características morfológicas: as dimensões das células. Os microbiologistas usualmente se referem a tais culturas como culturas puras. Características da composição química: a identificação dos principais e típicos constituintes químicos da célula. a diferenciação e a identificação de suas estruturas. é chamada de cultura axênica. um dos instrumentos mais poderosos na investigação é o microscópio. suas características devem ser determinadas com detalhes adequados. Características culturais: os nutrientes exigidos para o crescimento e as condições físicas do ambiente que favorecem o desenvolvimento. 3. Por serem individualmente tão pequenos que não podem ser visualizados sem ajuda de um microscópio. Uma cultura que consiste em uma única espécie de microrganismo (uma espécie viva). seus arranjos. Características genéticas: a análise da composição do ácido desoxirribonucleico (DNA). num ambiente livre de outros organismos vivos. como normalmente ocorre na natureza. .5 Caracterização e Classificação dos Microrganismos A caracterização e a classificação dos organismos vivos são o principal objetivo em todos os ramos da Ciência Biológica. Antes de identificar e classificar um microrganismo. A maioria das características acima citadas é determinada através de testes laboratoriais. assim como a determinação das relações entre o DNA isolado de diferentes microrganismos. independentemente do número de indivíduos. Características antigênicas: a detecção de componentes especiais da célula (químicos) que fornecem evidências de semelhança entre as espécies. não é prático trabalhar com um único indivíduo. Por fim. No entanto. num sistema de agrupamento das espécies semelhantes. A partir do momento em que um organismo é completamente conhecido. Por esta razão estudam-se culturas. passam a constituir uma cultura mista. 4. determinando semelhanças e diferenças. embora. Se dois ou mais tipos (espécies) crescem juntos. As principais incluem as seguintes: 1. A tabela 1 resume as características essenciais e aplicações dos diferentes tipos de microscopia. no sentido técnico estrito. As comparações das características de grande número de microrganismos resultam. Características metabólicas: a maneira pela qual os microrganismos desenvolvem os processos químicos vitais. cria-se um grupo com características muito semelhantes. milhões e até mesmo bilhões de indivíduos. torna-se possível fazer comparações com outros. a cultura pura seja aquela que se origina do crescimento de uma única célula.

algas e protozoários Microrganismos que exibem algumas características morfológicas especiais quando vivos e em suspensão fluida. leveduras. aparecem com a cor do corante Geralmente descorados. aparecem brilhantes ou iluminados” sobre um campo escuro Aplicações Características morfológicas grosseiras de bactérias.1996). Tipo de Ampliação máxima Observação do espécime útil microscópio Campo claro 1..000 Observado em tela fluorescente . cor do Técnica de diagnóstico em que o corante fluorescente corante fluorescente fixado ao organismo revela a sua identidade Graus variáveis de iluminação Exame de estruturas celulares em microrganismos maiores e vivos. protozoários e algumas bactérias Exame de vírus e das ultraestruturas das células microbianas Contraste de fase 1.000 Luminoso e corado. leveduras.000 – 2. por exemplo.000 – 2.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 9 _____________________________________________________________________________________________ Tabela 1 : Comparação de diferentes tipos de microscópios (fonte: Pelczar et al. os espiroquetas Campo escuro 1. por exemplo.000 – 2. geralmente coradas.000 Espécimes corados ou descorados.000 – 2. algas. bolores.000 Fluorescência 1. as bactérias.000 Eletrônico 200.000 – 400.

As células bacterianas cilíndricas ou em bastonetes (bacilos) comumente apresentam-se isoladas e ocasionalmente ocorrem aos pares (diplobacilos) ou em cadeias (estreptobacilos) (figura 5). os organismos isolados apresentam uma das três formas gerais: elipsoidal ou esférica. As formas cilíndricas. entre 0. cilíndrica ou em bastonete e espiralada. de modo característico.0 µm. nítidas diferenças no comprimento. . 1996). forma. Estes elementos constituem a morfologia da célula (figura 3). As células individuais de espécies diferentes exibem. Figura 3: Principais estruturas celulares que ocorrem em células bacterianas. não são comuns a todas as células bacterianas (fonte: Pelczar et al.0 µm e um comprimento de 2 a 3 µm. apresentam uma largura de 0. As bactérias mais freqüentemente estudadas em laboratório medem. predominantemente.1 Morfologia e Ultra-Estrutura das Bactérias Entre as principais características das células bacterianas estão suas dimensões. 0. Os estafilococos e estreptococos. plural = spirilla) ocorrem. A figura 7 mostra o tamanho comparativo de uma célula de uma bactéria.5 a 1. número e amplitude das espirais e na rigidez das paredes celulares.75 e 1. por exemplo. têm diâmetros variáveis entre 0. As células bacterianas esféricas ou elipsoidais são chamadas de cocos e podem apresentar os arranjos vistos na figura 4. As bactérias espiraladas (singular = spirillum.0 µm. mas seu diâmetro está.5 a 1. um vírus e um protozoário. como por exemplo.5 e 1. como células isoladas. Algumas formas filamentosas podem exceder os 100 µm de comprimento.25 µm. Certas estruturas. Embora existam milhares de espécies bacterianas diferentes. tais como o bacilo da febre tifóide e da disenteria. contudo.0 a 5.0 µm por 2. As bactérias curtas com espiras incompletas são conhecidas como bactérias comma ou vibriões (figura 6). que equivale a 10-³ mm. estrutura e arranjo. aproximadamente.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 10 _____________________________________________________________________________________________ 2 BACTÉRIAS 2. A unidade de medida das bactérias é o micrômetro. grânulos ou inclusões.

As espécimes mostradas são Staphylococcus aureus. formando um arranjo cúbico de células (fonte: Pelczar et al. (A) Clostridium sporogenes. . com ilustrações esquemáticas dos padrões de multiplicação. [A] Diplococos: as células se dividem em um plano e permanecem acopladas predominantemente em pares (escaneamento por micrografia eletrônica de varredura).. As espécimes mostradas são Gaffkya tetragena. (B) Pseudomonas sp. 1980). em um padrão irregular.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 11 _____________________________________________________________________________________________ Figura 4: Arranjos característicos dos cocos. [C] Tetracocos: as células se dividem em dois planos e caracteristicamente formam grupos de quatro células. (D) Salmonella typhi (fonte: Pelczar et al. 1996). Figura 5: Bactérias tipicamente cilíndricas (bacilos). (C) Bacillus megaterium. formando cachos de cocos. Observar as variações de comprimento e de largura. [E] Sarcinas: as células se dividem em três planos. [B] Estreptococus: as células se dividem em um plano e permanecem acopladas para formar cadeias (micrografia eletrônica de varredura).. [D] Estafilococos: as células se dividem em três planos. em um padrão regular.

001 10-3 0.0000001 10-7 Micrômetro (µm) µ 1 0.1 10-1 Figura 7: [A] Uma comparação de tamanhos de microrganismos selecionados. x 33. 1980) [A] Unidades de comprimento Micrômetro (µm) Nanômetro (nm) Angström (Å) Metro (m) 0. Micrografia eletrônica. (D) Spirochaeta stenostrepta.000001 10-6 0.000..001 10-3 0.00000001 10-8 Milímetro (mm) 0..0001 10-4 0.0001 10-4 Nanômetro (nm) 1. O quadro acima mostra a equivalência no sistema métrico para as unidades usadas para expressar dimensões das células microbianas (modificado de Pelczar et al. (E) Methanospirillum hungatii. (C) Rhodospirillum rubrum.000000001 10-9 0.0000000001 10-10 Centímetro (cm) 0.526. (A) célula de Leptospira mostrando o filamento axial típico.220.000 103 1 0. x 23. 1996). (fonte: Pelczar et al. uma nova espécie da bactéria gram-negativa que ocorre em filamentos de até 100µm de comprimento. x 1. (B) Spirillum itersonii visto ao microscópio eletrônico. .0000001 10-7 0.000001 10-6 0. x 71.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 12 _____________________________________________________________________________________________ Figura 6: Bactérias espiraladas.600.

São encontrados tanto nas espécies móveis como nas imóveis e portanto. não desempenham papel relativo à mobilidade. semelhantes a cabelos. Nas eubactérias. também. Seguem-se breves descrições das estruturas bacterianas de fácil identificação: Flagelos: apêndices muito finos. Esta membrana externa é cosnstituída por fosfolipídeos. ele pode evitar o dessecamento das bactérias. como reservatório de alimentos. evita ainda a evasão de certas enzimas.e. recebe o nome de camada limosa. ou "colete".e.e. Algumas bactérias se movimentam por outros meios. A parede celular das bactérias Gram-positivas é constituída por ácido teicóico. . que corresponde à uma fração maior que a encontrada na parede das bactérias Gram-negativas (figura 11). fornece um envoltório protetor e pode servir. que suporta e protege as estruturas protoplasmáticas mais lábeis. O flagelo apresenta três partes: uma estrutura basal. o peptideoglicano (ou mureína). glicana. assim como o influxo de certas substâncias que poderiam causar dano à célula. como o deslizamento provocado pelo fluxo protoplasmático ou pela resposta táxica (p. mas seu diâmetro é uma pequena fração do diâmetro celular (p.1 Estruturas Bacterianas O exame da célula bacteriana revela certas estruturas definidas por dentro e por fora da parede celular. que se exteriorizam através da parede celular e se originam de uma estrutura granular (corpo basal) imediatamente abaixo da membrana citoplasmática. etc. Se o glicocálice estiver organizado de maneira definida e estiver acoplado firmemente à parede celular.. Parede Celular: dá forma à célula e situa-se abaixo das substâncias extracelulares (glicocálice) e externamente à membrana que está em contato imediato com o citoplasma. mais curtos e mais numerosos que os flagelos e que não formam ondas regulares. A principal função do glicocálice é a aderência sobre superfícies. se estiver desorganizado e sem qualquer forma e anda estiver frouxamente acoplado à parede celular. O glicocálice pode ter natureza polissacarídica (um ou vários tipos de açúcares como p. em média. é o componente da parede celular que determina sua forma. Sua espessura é calculada. em face das possíveis lesões osmóticas.. usualmente. Glicocálice: formado de uma substância viscosa. ramnose. Podem funcionar como sítios de adsorção de vírus bacterianos.. ácido glutâmico). uma estrutura semelhante a um gancho e um longo filamento externo à parede celular (figura 8). fototaxia. como mecanismo de aderência à superfícies e como porta de entrada de material genético durante a conjugação bacteriana [(pêlo sexual) (figura 9)]. além do peptideoglicano.1. Pêlos (fímbrias): apêndices filamentosos menores. recebe o nome de cápsula.e. um composto polimérico. além de evitar a adsorção e lise da células por bacteriófagos (figura 10). A parede das bactérias Gram-negativas é mais complexa que a parede das Gram-positivas pois possui uma membrana externa cobrindo uma camada fina de peptideoglicano (figura 12). de 10 a 25 nm. quimiotaxia). 10 a 20 nm).IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 13 _____________________________________________________________________________________________ 2. proteínas e lipopolissacarídeos (LPSs).) ou polipeptídica (p. que forma uma camada de cobertura ou envelope ao redor da célula. galactose. A função da parede celular é a de proporcionar uma moldura rígida. no citoplasma. O seu comprimento é. diversos da atividade flagelar. Estão presentes em muitas bactérias gram-negativas.. várias vezes o da célula.

Figura 9: Bactérias fimbriadas. . x 12. (A) Shigella flexneri: bacilos em divisão com numerosas fímbrias ao redor das células (x 20.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 14 _____________________________________________________________________________________________ Figura 8: Desenho de um corpo basal ilustrando sua estrutura e a fixação a bactérias Gram-negativas. 1996)... O flagelo de bactérias Gram-positivas tem somente dois anéis (um par) que fixam o flagelo à membrana celular (fonte: Pelczar et al. (B) Salmonella typhi: bacilos em divisão com numerosas fímbrias e alguns poucos flagelos (apêndices mais longos). 1980).500 (fonte: Pelczar et al.000).

isolada em uma fábrica de papel. 1980). ao redor de cada uma das células. . Notar as cápsulas extremamente grandes (áreas claras). (A) Klebsiella pneumoniae. 1996). (fonte: Pelczar et al.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 15 _____________________________________________________________________________________________ Figura 10: Bactérias capsuladas. (B) Bactéria capsulada formadora de limo. Figura 11: Parede celular de bactérias Gram-positivas (fonte: Prescott et al...

glicogênio). chamados de grânulos. Citoplasma: o material celular pode ser dividido em: área citoplasmática. insolúveis. que é a porção fluida contendo substâncias dissolvidas e partículas tais como ribossomos. A membrana é o sítio da atividade enzimática específica e do transporte de moléculas para dentro e para fora da célula. e material nuclear ou nucleóide. nucleóide. com as penicilinases) e da replicação celular (na formação do septo durante o processo de divisão celular). de protoplasto.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 16 _____________________________________________________________________________________________ Figura 12: Parede celular de bactérias Gram-negativas (fonte: Prescott et al. equivalente nuclear ou cromossoma bacteriano. então. à infecções por bacteriófagos. a membrana se estende no citoplasma para formar o mesossomo. que participa do metabolismo (através da secreção de certas enzimas. Inclusões citoplasmáticas: depósitos concentrados de certas substâncias. O material nuclear consiste de um cromossomo único e circular e ocupa uma posição próxima do centro da célula. Pode ser chamado de corpo cromatínico.5 nm e é composta de fosfolipídeos (20 a 30%). Os grânulos podem ser constituídos de polissacarídeos (amido. como é o caso das bactérias sulforosas. Estruturas internas à parede celular: Protoplastos: quando remove-se a parede celular de uma bactéria. Em alguns casos. lipídeos.. e que podem servir como fonte de material nutritivo de reserva. esta torna-se um corpo arredondado. que formam uma bicamada que envolve as proteínas (50 a 70%). Membrana citoplasmática: fina membrana situada abaixo da parede celular (figura 13). rico em DNA. esférico. Material nuclear: as células bacterianas não contêm o núcleo típico das células animais e vegetais. não se divide. . que pode ser caracterizado como: imóvel. fosfatos e até enxofre. justamente por não contar com a rígida limitação da parede. não forma nova parede celular e não é suscetível. de modo geral. A bactéria recebe o nome. que assume a forma esférica. Sua espessura é da ordem de 7. 1996).

♦ Fototróficos: existem bactérias que utilizam o CO2 como principal fonte de carbono..2. enxofre) para obtenção da fonte de energia . 2. são as fotolitotróficas. dependem da oxidação de compostos químicos para a obtenção de energia) (tabela 2). Os esporos representam uma fase latente (repouso) da célula bacteriana. em condições laboratoriais.1 Tipos Nutritivos das Bactérias As bactérias podem ser divididas em grupos com base em suas exigências nutritivas. nitritos) ou elementos químicos (p. é necessário o conhecimento de suas exigências nutritivas e das condições físicas requeridas. Para que isto possa ser realizado.são chamadas quimiolitotróficas. ácidos graxos. As que utilizam compostos orgânicos para obter energia. Os fosfolipídeos estão arranjados em uma bicamada de tal forma que as partes polares (esferas) estão voltadas para a face externa e as partes não-polares (filamentos) estão voltadas para a face interna. A principal separação corresponde aos grupos fototróficos (organismos que utilizam a energia radiante como fonte de energia) e quimiotróficos (organismos incapazes de utilizar a energia radiante. são extremamente resistentes aos agentes físicos e químicos adversos. São como um corpo oval de parede espessa (um por célula).IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 17 _____________________________________________________________________________________________ Endósporos: esporos que se formam dentro da célula. Também são mostrados os componentes protéicos (fonte: Pelczar et al. altamente resistente e refráteis. Outras exigem um composto orgânico (álcoois.e. é um pré-requisito para seu estudo adequado. comparados com as células vegetativas. Todas bactérias dos gêneros Bacillus e Clostridium produzem endósporos.. As bactérias fotolitotróficas e quimiolitotróficas são conhecidas. como autotróficas. demonstrando uma estratégia de sobrevivência (figura 14). 2.2 Cultivo das Bactérias O cultivo dos microrganismos.e. comumente. São constituídos de ácido dipicolínico e por grande quantidade de cálcio. . Figura 13: Interpretação esquemática da estrutura da membrana citoplasmática. 1996). aminoácidos) e são ditas fotorganotróficas. são chamadas quimiorganotróficas.. ao passo que as espécies fotorganotróficas e quimiorganotróficas são designadas heterotróficas. ♦ Quimiotróficos: bactérias que utilizam o CO2 como fonte de carbono e oxidam compostos inorgânicos (p.

ou seja. Outras podem ser simbiontes. quanto aos nutrientes específicos exigidos para o crescimento (tabela 3). variam.. As bactérias heterotróficas foram estudadas mais profundamente porque. assim como a maior parte da população microbiana do ambiente humano. O fato de um organismo poder crescer e se reproduzir numa mistura de compostos químicos simples indica que ele possui uma grande capacidade de síntese. demonstram um interesse mais imediato. alimentando-se de outros organismos vivos. para outros animais e para os vegetais. Neste grupo se encontram todas as bactérias patogênicas para o homem. As bactérias heterotróficas. sob certo aspecto. mantém uma relação estreita com um organismo de espécie diferente. embora constituam o principal grupo nutritivo. As heterotróficas podem ser consumidoras.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 18 _____________________________________________________________________________________________ Figura 14: [A] Localização. [B] Alterações estruturais na célula bacteriana durante a esporulação (fonte: Pelczar et al. tamanho e forma dos endósporos em células de várias espécies de Bacillus e Clostridium. que se alimentam de matéria orgânica morta. saprófitas. consideravelmente. As bactérias heterotróficas apresentam exigências nutritivas mais simples. 1996). Estas simbiontes podem .

daí resultando um meio que promove o desenvolvimento de grande variedade de bactérias e de outros microrganismos. ou podem ser parasitas. Quando se deseja um meio sólido. adiciona-se o ágar como agente solidificante. os extratos de carne e de levedura (tabela 4). . O caldo e o ágar nutritivos são exemplos de meios líquidos e sólidos. 1980). como vitaminas e outras substâncias estimulantes. e necessitam de meios especiais para seu cultivo. Sais Inorgânicos Carbono Orgânico Dois ou mais Um Nitrogênio aminoáciaminoáci Inorgânico dos do Uma vitamina Duas ou mais vitaminas Bactérias Escherichia coli Salmonella typhi Proteus vulgaris Staphylococcus aureus Lactobacillus acidophilus X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X 2. nem prejudicam seu hospedeiro. isolamento e reconhecimento. 1980). Tabela 2: Principais tipos nutritivos das bactérias (fonte: Pelczar. tais como as peptonas. Alguns microrganismos não se desenvolvem bem nestes meios. pois demonstram exigências de nutrientes específicos. que causam dano ao hospedeiro (caso das bactérias patogênicas). indicados para a cultura de microrganismos heterotróficos comuns. Tipo Fototrófico: Fotolitotrófico (autotrófico) Fotorganotrófico (heterotrófico) Quimiotrófico: Quimiolitotrófico (autotrófico) Quimiorganotrófico (heterotrófico) Fonte de Energia Para Crescimento Fonte de Carbono Para Crescimento Exemplo de Gênero Luz CO2 Composto orgânico Chromatium Luz Rhodopseudomonas Oxidação de composto inorgânico Oxidação de composto orgânico CO2 Composto orgânico Thiobacillus Escherichia Tabela 3: Exigências nutritivas mínimas de algumas bactérias heterotróficas (fonte: Pelczar. relativamente simples.2 Meios Bacteriológicos Para o cultivo rotineiro de microrganismos heterotróficos. utilizam-se certas matérias-primas complexas. Tais microrganismos são chamados de heterotróficos fastidiosos.2. que nem ajudam.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 19 _____________________________________________________________________________________________ ser comensais.

tratado para a remoção de substâncias estranhas Usado como agente solidificante dos meios. as peptonas diferem em suas propriedades de promover o crescimento Principal fonte de nitrogênio orgânico. em uma dada concentração. após a inoculação e a incubação. MATÉRIA PRIMA CARACTERÍSTICA VALOR NUTRITIVO Contém as substâncias solúveis dos tecidos animais. compostos orgânicos de nitrogênio. também demonstram respostas diversas às condições físicas do ambiente. não é considerado como fonte nutritiva para as bactérias Fonte muito rica de vitaminas B. incluindo carboidratos. obtido de certas algas marinhas. impede o crescimento de bactérias gram-positivas. 1980). de acordo com a sua aplicação ou função.3 Condições Físicas Necessárias ao Crescimento Assim como as bactérias variam com relação às exigências nutritivas. como: Meios Enriquecidos: a adição de sangue. algumas das bactérias podem hemolisar (destruir) as células vermelhas e outras não. o ágar. vitaminas hidrossolúveis e sais Extrato de carne Extrato aquoso de tecido muscular.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 20 _____________________________________________________________________________________________ Os meios de cultura. Meios Seletivos: a adição de certas substâncias químicas específicas ao ágar nutritivo previne o crescimento de um grupo de bactérias sem agir sobre outras. de modo que o meio possa permitir o crescimento de heterotróficos fastidiosos. dependendo do tipo de material protéico digerido Ágar Carboidrato complexo. inoculando-se uma mistura de bactérias num meio de ágar sangue. a digestão protéica é realizada por meio de ácidos ou de enzimas. concentrado sob a forma de pasta Peptona Produto que resulta da digestão de materiais protéicos como carne. existem muitas peptonas diferentes (dependendo da proteína usada e do método de digestão) para uso em meios bacteriológicos. Tabela 4: Características de vários produtos complexos.2. gelifica quando a temperatura é reduzida a menos de 45ºC. por exemplo. usados como ingredientes dos meios de cultura (fonte: Pelczar. Por exemplo. carboidratos. soro ou extratos de tecidos animais ou vegetais ao caldo ou ágar nutritivos proporciona nutrientes acessórios. A zona clara ao redor da colônia é a evidência de ter ocorrido a hemólise. Meios Diferenciais: a incorporação de certos reagentes ou substâncias químicas no meio pode resultar num tipo de crescimento ou modificação. às vezes. podem ser classificados. Assim. caseína e gelatina. de acordo com o seu desenvolvimento. que permite ao observador distinguir os tipos de bactérias. pode conter algumas vitaminas e. . O cristal violeta. sem afetar o desenvolvimento das bactérias gram-negativas. pode-se estabelecer a distinção entre bactérias hemolíticas e não-hemolíticas. dissolvido em soluções aquosas. também contém compostos orgânicos de nitrogênio e de carbono Extrato de levedo Extrato aquoso de leveduras comercialmente apresentado sob a forma de pó 2. entre outros.

embora seu ótimo seja entre 15° C ou 20° C. Bactérias psicrófilas: são capazes de crescer a 0° C ou menos. Após a replicação do cromossomo.1 Reprodução Bactérias geralmente reproduzem-se assexuadamente por fissão binária transversa. uma vez que esta influencia as reações químicas do processo de crescimento. sendo assim. o pH ótimo de crescimento localiza-se entre 6. 2.3. Bactérias anaeróbias facultativas: crescem tanto na presença como na ausência do oxigênio livre. 4. usualmente. para a maior parte das espécies. 3. refere-se. pode-se formar uma cadeia (ou filamento) de bactérias. são classificadas nos seguintes grupos: 1. Bactérias termófilas: crescem melhor a temperaturas de 45 a 60° C A temperatura ótima de crescimento é a temperatura de incubação que possibilita o mais rápido crescimento. estão entre pH 4 e pH 9. Quando a nova parede formada não se separa completamente em duas paredes. Acidez e alcalinidade (pH): para a maioria das bactérias. Bactérias aeróbias: crescem na presença de oxigênio livre. Bactérias mesófilas: crescem melhor numa faixa de 25 a 40° C. elas são divididas em: 1. durante curto período de tempo (12 a 24 horas). tal como é comumente aplicado às bactérias e a outros microrganismos. dividindo-se então em duas novas células (figura 15). Bactérias anaeróbias: crescem na ausência de oxigênio livre. A fissão binária não é o único método reprodutivo entre as bactérias. Exigências atmosféricas: os principais gases que afetam o crescimento bacteriano são o oxigênio e o dióxido de carbônico. Cada espécie de bactéria cresce sob temperaturas situadas em faixas características e. 2. 2. quando ocorre a replicação do cromossomo bacteriano e a célula desenvolve uma parede celular transversa.3 Reprodução e Crescimento O termo crescimento.5. Embora poucos microrganismos possam desenvolver-se nos limites extremos de pH. 3. Como as bactérias apresentam grande variedade de resposta ao oxigênio livre. a parede transversa forma como uma invaginação da membrana plasmática e da parede celular. Bactérias microaerófilas: crescem na presença de quantidades pequenas de oxigênio livre. às alterações ocorridas na cultura das células e não às alterações de um organismo isolado.5 e 7. As espécies do gênero Streptomyces produzem muitos esporos reprodutivos . as variações mínimas e máximas.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 21 _____________________________________________________________________________________________ Temperatura: o crescimento bacteriano pode ter seu ritmo e quantidade determinados pela temperatura. 2.

algumas vezes as bactérias realizam troca de material genético. depois de um período de aumento de tamanho. Na transdução. cada esporo dando origem a um novo indivíduo. chamado de pêlo sexual ou pêlo F. Na transformação. dentro de um bacteriófago (vírus bacteriano). genes bacterianos são carregados de uma bactéria para outra.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 22 _____________________________________________________________________________________________ por organismo. de modo que o vírus agora carrega esta parte do DNA. formando um novo indivíduo. As células F+ são cobertas com pêlos e contêm um plasmídeo conhecido como fator F. o DNA da primeira bactéria pode misturar-se com o DNA da segunda bactéria. Bactérias do gênero Nocardia produzem extenso crescimento filamentoso. Espécies do gênero Hyphomicrobium podem reproduzir-se por brotamento: desenvolve-se um broto. Na conjugação. ou fator da fertilidade. . duas células bacterianas geneticamente diferentes trocam DNA diretamente. a célula bacteriana "pega" fragmentos de DNA perdidos por outra bactéria que se rompeu. Se o vírus infecta uma segunda bactéria. Quando uma célula F+ entra em contato com uma célula F-. o DNA do vírus mistura-se com uma parte do DNA bacteriano. permitindo que o DNA pase de uma bactéria para outra. Quando o bacteriófago entra numa célula bacteriana. O pêlo F é "oco". Embora não ocorra uma reprodução sexuada complexa nos moneras. conjugação ou transdução. os pêlos organizam um tubo de conjugação. que conecta a célula F+ à célula F-. a partir da célula-mãe e. Este mecanismo tem sido usado experimentalmente para mostrar que os genes podem ser transferidos de uma bactéria para outra e que o DNA é a base química da hereditariedade. seguido pela fragmentação dos filamentos em pequenas células bacilares ou cocóides. que tem linhagens F. Esta nova informação genética é então replicada a cada nova divisão.e F+. Este processo tem sido extensivamente estudado na bactéria Escherichia coli. Tal recombinação genética pode ocorrer por transformação. o broto se separa da célula original.

o processo de reprodução prevalecente entre as bactérias é a fissão binária. Assim sendo.23 . formando duas células. o aumento populacional se faz em progressão geométrica: 1 . 2. como a Escherichia coli. .22 . seguido por um rápido aumento da população (fase logarítmica). para outras pode ser de muitas horas. pode ser de 15 a 20 minutos. Para algumas. que se nivela posteriormente (fase estacionária) e declina quanto ao número de células viáveis (fase de morte ou declínio). partindo de uma única bactéria. Na curva.3.. A figura 16 mostra a curva de crescimento típica das bactérias em um sistema fechado.2 Crescimento Como já foi mencionado. que não é o mesmo para todas as bactérias.24 .25 .. 2n O tempo necessário para que uma célula se divida .. O tempo de geração está na forte dependência dos nutrientes existentes no meio e das condições físicas de incubação. 1996).é conhecido como tempo de geração.ou para que a população duplique .IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 23 _____________________________________________________________________________________________ Figura 15: Multiplicação bacteriana pela fissão binária transversa (fonte: Pelczar et al. uma célula se divide.21 . observa-se que há um período inicial no qual não parece haver crescimento (fase lag ou de latência).

A densidade óptica é uma medida da turbidez da cultura bacteriana e é obtida através da análise da cultura em espectrofotômetro (fonte: modificado de Brock et al. 1993). Grupo 1: Bactérias fototróficas Grupo 3: Bactérias com bainha Grupo 5: Espiroquetas Grupo 7: Coco e bacilos gram-negativos aeróbios Grupo 9: Bactérias gram-negativas anaeróbias Grupo 11: Cocos gram-negativos anaeróbios Grupo 13: Bactérias produtoras de metano Grupo 15: Bacilos e cocos esporulados Grupo 17: Actinomicetos e microrganismos afins Grupo 19: Micoplasmas Grupo 2: Bactérias deslizantes Grupo 4: Bactérias gemulantes e/ou pedunculadas Grupo 6: Bactérias espiraladas e encurvadas Grupo 8: Bacilos gram-negativos facultativos Grupo 10: Cocos e cocobacilos gram-negativos Grupo 12: Bactérias gram-negativas quimiolitotróficas Grupo 14: Cocos gram-positivos Grupo 16: Bacilos gram-positivos não-esporulados Grupo 18: Rickettsias Recentemente. Este manual divide as bactérias em 19 grupos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 24 _____________________________________________________________________________________________ Figura 16: Curva de crescimento típica de uma população bacteriana... 1990) propuseram um sistema de classificação útil que divide as bactérias em 16 filos de acordo com algumas de suas características mais significantes. A tabela 5 mostra algumas características de 11 destes grupos. 2. . 1994).4 Principais Grupos de Bactérias A referência padrão para a classificação e taxonomia bacterianas é o Bergey's manual of determinative bacteriology (Holt et al.. Lynn Margulis e Karlene Schwartz (citado por Davis et al.

N = não-móvel. plantas. B B B N D N. outras reduzem enxofre Saprófitas. C = coco. M C sem parede (d) E B N. flores ou frutos. F Q (a) B = bacilo. patógenas. Os gêneros descritos a seguir compreendem as bactérias fitopatogênicas: Pseudomonas .causa manchas e estrias nas folhas. animais Vida livre e em nódulos ou raízes de plantas Estágios no ciclo do nitrogênio. oxidam compostos do enxofre. F PAPEL ECOLÓGICO Algumas digerem celulose. F D. F METABOLISMO (c) Q. F H H H Quimioautotróficas B. folhas. Q = quimiossintéticas. Os sintomas destas doenças variam. 1986). D = deslizante (c) H = heterotróficas. necrose. . C N. decompositoras Fixadoras de carbono e nitrogênio Simbiose com tunicados Patógenos de plantas e animais Decompositores e patógenos Decompositores e patógenos de plantas Solo. quase todos tipos de plantas são suscetíveis a um ou mais tipos de doenças bacterianas. E.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 25 _____________________________________________________________________________________________ Tabela 5: Características de alguns grupos de bactérias (Raven & Johnson. decompositores e fixadores de nitrogênio Solo. ferrugem e cancros também são sintomas observados. espiroplasmas Espiroquetas Pseudomonadáceas B B.N N N F (e) F H F F H H H. definhamento e raízes moles. oxidam metano ou metanol Metanogênicas Omnibactérias ou Eubactérias Cianobactérias Cloroxibactérias Micoplasmas. outras utilizam metano. NOME DO GRUPO FORMA (a) B. definhamento e doenças similares. murchidão. mas elas geralmente se manifestam como manchas de vários tamanhos nos caules. M = filamentos ou agregados (b) F = flagelada. F = fotossintéticas (d) Mais ou menos esféricas ou alongadas e retorcidas (e) Flagelo inserido abaixo da membrana lipoproteica mais externa da parede celular 2. C. C MOTILIDADE (b) N. E = espirilo. Q Actinomicetos Mixobactérias Aeróbias fixadoras de nitrogênio M.4.1 Bactérias Patogênicas Muitas doenças de plantas estão associadas com bactérias.

as espécies deste gênero são principalmente fitopatogênicas. Bactérias também causam muitas doenças humanas. As espécies fitopatogênicas são encontradas no solo e nos vegetais doentes. especialmente as laranjeiras.as espécies deste gênero invadem os tecidos das plantas vivas e provocam necroses. e aborto contagioso. e as febres tifóide e paratifóide. erupções cutâneas. que aparecem primeiro nas palmas das mãos e nas solas dos pés e depois espalham-se para outras partes do corpo. Os sintomas compreendem vômitos e fezes . febre reumática e outras infecções. sendo responsáveis por doenças vasculares da alfafa. Espécies do gênero Streptococcus estão associadas com a escarlatina. responsáveis por processos de necrose. danificando folhas e frutos. onde desenvolvem galhas. galhas. Erwinia .é um gênero que compreende espécies parasitas do homem e dos vegetais. O gênero Staphylococcus é um dos principais responsáveis pela infecções hospitalares. O contágio se dá através da ingestão de leite oriundo de gado contaminado. esta doença está se tornando rara. pela podridão das batatas. Esta doença caracteriza-se por febre.suas espécies vivem no solo ou nas raízes ou caules de plantas. no gado. definhamentos e apodrecimentos. que é transmitida pelo contato com águas ou alimentos contaminados pelas excreções de pacientes ou de portadores convalescentes. Xilella fastidiosa – responsável pela clorose variegada dos cítricos (ou “Amarelinho”. Agrobacterium ssp. também conhecida como febre ondulante. dos tomates e doenças de muitas outras plantas. . Streptomyces . que afeta os tecidos vasculares de plantas cítricas. lepra. A bactéria Brucella abortus causa a doença chamada brucelose. Produzem colônias amarelas.encontram-se espécies responsáveis pela escara da batata e por uma doença das raízes e radicelas da batata-doce.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 26 _____________________________________________________________________________________________ Xanthomonas . homens e mulheres podem contrair esta doença. e queda brusca de pressão. como por exemplo a disenteria bacilar. A disenteria bacilar é causada por algumas espécies do gênero Shigella. no homem. respectivamente. Corynebacterium . Muitas doenças bacterianas são dispersas pelo alimento ou água. O cólera é uma gastroenterite causada pela bactéria Vibrio cholerae. que estavam usando absorventes internos na época em que apareceram os sintomas. ao lado de outras espécies esbranquiçadas ou de coloração creme. A síndrome do choque tóxico é causada por algumas linhagens de Staphylococcus aureus. Vários gêneros de bactérias patogênicas são de importância particular para o homem. Aproximadamente 85% dos casos de síndrome do choque tóxico registrados nos Estados Unidos ocorreram em mulheres menstruadas. As febres tifóide e paratifóide são doenças intestinais infecciosas agudas causadas pelas bactérias Salmonella typhi e Salmonella enteridis. No entanto. Como as bactérias são destruídas pelo processo de pateurização do leite. dos pastos. como a doença é conhecida popularmente no Brasil). coqueluche e difteria. A bactéria da escarlatina produz seus sintomas e toxinas fatais somente se ela estiver infectada com o bacteriófago apropriado. incluindo cólera. pneumonia bacteriana. tétano.

As lesões cariosas se desenvolvem sob densas massas de bactérias. afetando um grande número de pessoas nos Estados Unidos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 27 _____________________________________________________________________________________________ diarréicas profusas (aspecto de água de arroz). Algumas doenças bacterianas são sexualmente transmitidas e são chamadas de doenças venéreas. A bactéria Clostridium botulinum é a causadora do botulismo. Ambas doenças são facilmente controladas com penicilina. em conserva ou defumados). A legionelose (ou doença dos Legionários) é uma das doenças bacterianas mais recentemente detectadas. causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae. causada pela Treponema pallidum. A doença é contraída pela ingestão de alimentos contendo a toxina botulínica (principalmente enlatados. aderentes à superfície do dente. A cárie dentária é provocada por bactérias. os quais dão lugar a uma severa desidratação. uma espiroqueta. É causada pela bactéria Legionella pneumophyla e desenvolve-se como uma forma severa de pneumonia. . A gonorréia é muito mais comum e menos séria que a sífilis. com perdas de eletrólitos e acidose. e a sífilis. uma intoxicação alimentar grave. muitas vezes fatais. e às vezes fatal. que pode ser fatal. Entre as mais comuns estão a gonorréia. conhecidas como placas dentais. principalmente pela espécie Streptococcus mutans.

Todas representam vários organismos fúngicos. quando obtêm seus alimentos decompondo organismos mortos. do vinho e na produção de antibióticos (penicilina). naturalmente. sendo suas atividades tão necessárias à existência permanente do mundo que conhecemos quanto as dos seres produtores de alimento. no pão e no presunto. como já foi comentado. quanto o são dos animais. Tradicionalmente são agrupados com as plantas. As leveduras se diferenciam dos bolores por se apresentarem sob a forma unicelular. os fungos incluem os bolores e as leveduras. Os fungos constituem um grupo de microrganismos que tem grande interesse prático e científico para os microbiologistas.2 Características próprias dos fungos Os fungos são microrganismos eucarióticos quimiorganotróficos. A palavra bolor tem emprego pouco nítido. a maioria das partes de um fungo é potencialmente capaz de crescimento. briófitas e plantas vasculares. ou podem estabelecer associações mutualísticas com outros organismos. 3. A ciência que estuda os fungos recebe o nome de Micologia. as ferrugens e o carvão (doença de gramíneas). Os fungos podem viver como saprófagos. humanas e animais. A decomposição libera gás carbônico na atmosfera e devolve ao solo compostos nitrogenados e outros materiais. degradando moléculas simples.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 28 _____________________________________________________________________________________________ 3 FUNGOS 3. Reproduzemse. quando se alimentam de substâncias que retiram dos organismos vivos nos quais se instalam. os fungos causam doenças vegetais. como já foi falado. Fungi. Em todos os casos. embora a maior parte das micoses seja menos severa que as bacterioses ou as viroses. as colônias cotonosas (aspecto de algodão). que poderão ser novamente usados por vegetais e eventualmente por animais. os fungos vêm a ser os seres encarregados da decomposição na biosfera. propiciando a reciclagem de nutrientes. tais como na fabricação da cerveja. brancas ou acinzentadas. em que ambos se beneficiam. com poucas exceções. morfologicamente muito diversificados. A fabricação de pães e o amadurecimento de queijos também dependem da atividade saprofítica dos fungos. como parasitas. por meio de esporos. um minúsculo fragmento é . constituindo um dos cinco principais grupos de organismos vivos. mas pertencem a um Reino distinto. os cogumelos dos campos e os comestíveis. no entanto. limões e queijos. Os fungos saprófagos são responsáveis por grande parte da degradação da matéria orgânica. Como parasitas. Os fungos são importantes nas fermentações industriais. sendo usada para designar os mofos. de vitaminas e ácidos orgânicos (ácido cítrico). Além disso. entre tantos. que são então absorvidas pelo fungo. De um modo geral. Foi estimado que os 20 cm superiores da terra fértil possam conter perto de 5 toneladas de fungos e bactérias por hectare.1 Introdução Os fungos são tão distintos das algas. prejudicando-os. Suas manifestações são familiares: crescimentos azuis e verdes em laranjas. os fungos liberam enzimas digestivas para fora de seus corpos e estas atuam diretamente no meio orgânico no qual eles se instalam. Juntamente com as bactérias.

incluindo as porções vegetativas ou não-sexuadas e todas as estruturas especializadas). geralmente. A parede das hifas é semi-rígida. Os fungos não têm clorofila. aéreas. A figura 17 mostra alguns tipos de esporos fúngicos. Os filamentos apresentam paredes celulares constituídas por quitina ou celulose. como nos cogumelos. em sua maioria. Além disso. Os esporos são muito importantes na classificação dos fungos. Os esporos sexuados e as estruturas que os contém são usualmente distinguíveis. 1980). dos esporos assexuados. Dois núcleos de células parentais se fundem para formar um núcleo diplóide zigótico. São imóveis. Morfologia dos fungos filamentosos: O talo de um fungo é tipicamente composto por filamentos tubulares microscópicos. O micélio pode formar uma rede frouxa ou um tecido compacto. embora possam demonstrar células vegetativas móveis. As hifas dos micélios de reprodução são. sob o ponto de vista morfológico. do qual. chamados hifas. enquanto algumas hifas do micélio vegetativo podem penetrar no meio. em busca de nutrientes. O conjunto de hifas tem o nome de micélio... sendo as classes diferenciadas pelas características morfológicas dos estágios sexuados e dos esporos. e os fungos podem apresentar três tipos morfológicos de hifas (figura 18). sendo estes responsáveis pela produção de esporos. Figura 17: Diferentes tipos de esporos fúngicos (fonte: Pelczar et al. os micélios podem ser vegetativos ou de reprodução.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 29 _____________________________________________________________________________________________ suficiente para originar um novo indivíduo. são filamentosos em geral e comumente ramificados. ou ambas. em geral. . A maior parte entre todas as classes de fungos produz esporos de dois modos: sexuada e assexuadamente. são. originam-se os núcleos dos esporos haplóides. os quais são formados por simples diferenciação do talo em desenvolvimento (o talo é o fungo individual completo. haplóides. Os esporos produzidos sexuadamente têm núcleos derivados das células parentais e estas. como os esporos. por divisão celular redutora (meiose zigótica).

dispersas através do vento ou por animais e. . Estas estruturas são chamadas esporocarpos ou corpos de frutificação. 1990). os septos transversais apresentam um poro central. Cada broto que separa-se. 3.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 30 _____________________________________________________________________________________________ Figura 18: Tipos morfológicos de hifas nos fungos. os fungos freqüentemente realizam um tipo de conjugação no qual duas hifas geneticamente diferentes juntam-se e seus núcleos fundem-se. degradando seus compostos orgânicos em pequenas moléculas que serão absorvidas pelos fungos.2. por exemplo. Em alguns fungos. através do qual o citoplasma e os nucléolos podem migrar de um compartimento para outro (modificado de Davis et al. Leveduras também podem reproduzir-se assexuadamente por fissão e sexuadamente. onde os esporos são produzidos. Ao contrário de células animais e vegetais. os núcleos geneticamente diferentes não se fundem imediatamente. As leveduras não são classificadas como um grupo taxonômico único pois muitos fungos diferentes podem ser induzidos a formar um estágio de levedura. Os esporos dos fungos terrestres são células reprodutivas não-móveis. Assim que uma camada de hifas emaranhadas infiltra-se no pêssego. no qual uma pequena protuberância (broto) cresce e eventualmente separa-se da célula-mãe. Nós normalmente não vemos a maior parte do organismo. o esporo germina e começa a crescer (figura 20). As hifas septadas podem apresentar células mononucleadas (um núcleo por célula) ou multinucleadas (dois ou mais núcleos por célula). Hifas que contêm dois núcleos distintos geneticamente dentro de cada célula são chamadas dicarióticas. A hifa conocítica não apresenta septos transversais.. através da formação de esporos. por exemplo. as hifas aéreas formam estruturas grandes e complexas. um pêssego muito amadurecido. Este arranjo permite que os esporos sejam "arrastados" por correntes de ar e distribuídos a novas áreas. Em certos fungos. Na reprodução sexuada.1 Reprodução nos Fungos As leveduras (fungos unicelulares) reproduzem-se assexuadamente por gemulação ou brotamento. Hifas que contêm somente um núcleo por célula são monocarióticas. Quando um esporo fúngico "cai" num substrato apropriado. uma rede quase invisível de hifas enterradas sobre o material na qual ele cresce. geralmente. é um grande esporocarpo. uma outra hifa estende-se em direção ao ar. mas permanecem separados dentro do citoplasma do fungo pela maior parte de sua vida. Células das hifas secretam enzimas digestivas dentro do pêssego. Uma hifa parecida com um fio emerge do pequeno esporo.. A parte familiar de um cogumelo. produzidos nas hifas aéreas (que se projetam no ar). pode tornar-se uma nova levedura (figura 19). os fungos normalmente contêm núcleos haplóides.

mostrando a reprodução por brotamento. 3. Embora o pH ótimo para a maioria das espécies seja ± 5. os fungos sobrevivem entrando num estado de repouso ou produzindo esporos. porém são encontrados universalmente onde quer que exista matéria orgânica disponível. que são resistentes à aridez. b) Fotomicrografia de células da levedura Saccharomyces cerevisiae. 1990).6. Figura 20: Germinação de um esporo e crescimento de um fungo terrestre (fonte: Davis et al.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 31 _____________________________________________________________________________________________ Figura 19: a) Célula de uma levedura comum. alguns fungos podem tolerar e crescer em . utilizado como fermento de pão. Eles necessitam de umidade para crescer e podem obter água da atmosfera. Quando o ambiente torna-se muito seco.. bem como do meio sobre o qual vivem..2.2 Fisiologia e Nutrição dos Fungos Fungos crescem melhor em habitats úmidos e escuros. Note que muitas das células estão brotando (fonte: Davis. 1990).

Muitos fungos são menos sensíveis à altas pressões osmóticas que as bactérias. Os fungos imperfeitos são classificados arbitrariamente. que produzem células flageladas em alguma fase do seu ciclo de vida. Ascomycetes.3 Classificação dos Fungos A classificação dos fungos é baseada principalmente nas características dos esporos sexuais e dos corpos de frutificação. Durante a etapa de propagação. e podem crescer em soluções de sais concentradas ou soluções de açúcares. A reprodução sexuada pode ocorrer por vários meios. bolores. Existem 4 principais grupos de fungos terrestres: Zygomycetes. Durante uma de suas etapas de crescimento. a maioria produz um micélio bem desenvolvido constituído de hifas septadas ou cenocíticas. os fungos inferiores flagelados e os fungos terrestres. Aqueles que possuem todos os estágios sexuais conhecidos são denominados fungos perfeitos e os que não possuem. a reprodução assexuada ocorre mediante a produção de zoósporos. são então reclassificados entre outras classes e recebem novos nomes. A reprodução sexuada envolve a produção de zigósporos. na natureza de seus ciclos de vida e nas características morfológicas de seus micélios vegetativos ou de suas células. A reprodução assexuada ocorre através de brotamento. . produzindo um micélio cenocítico. em solo úmido e em vegetais em decomposição. que vivem no solo ou água doce. Entretanto. muitos fungos produzem esporos sexuais sob certas condições ambientais. mofo. e são colocados provisoriamente em uma classe especial denominada Deuteromycetes. formam corpos de frutificação e esporângios apresentando esporos com paredes. assemelham-se aos protozoários porque não possuem parede celular. carvão. Podem ser parasitas ou saprófitas. A tabela 6 resume esta classificação. Muitos são unicelulares ou unicelulares com rizóides. A grande maioria é filamentosa. Vivem em água doce. com exceção das leveduras. bufa-de-lobo e cogumelos. como nos fungos típicos. fragmentação e produção de esporangióforos ou conídios. Todos caracterizam-se pela nutrição através da absorção e. num primeiro momento. fungos imperfeitos. ferrugem. Os fungos terrestres são as espécies mais conhecidas entre os fungos. nem um protozoário típico. Basidiomycetes e Deuteromycetes. Quando o seu ciclo sexual é descoberto posteriormente. fungos em forma de taça. possuem movimentos amebóides e ingerem nutrientes particulados. Os fungos inferiores flagelados incluem todos os fungos. Os fungos também crescem num amplo intervalo de temperatura (0o a 62o C. orelhas-de-pau. que inibem ou previnem o crescimento bacteriano. 3. ascósporos ou basidiósporos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 32 _____________________________________________________________________________________________ ambientes onde o pH varia de 2 a 9. com exceção dos limosos. Este grupo inclui as leveduras. As células móveis não são encontradas nos fungos terrestres. Os fungo limosos são considerados um enigma biológico e taxonômico porque não são nem um fungo típico. estando a temperatura ótima entre 22o e 30o C). Os micologistas dividem o Reino Fungi em 3 principais grupos: os fungos limosos. Alimentam-se pela absorção dos alimentos.

Rhizopus stolonifer. bufade-lobo. Não há diferenciação sexual morfológica.1 Zygomycetes Os membros desta classe são chamados de zigomicetos e há cerca de 600 espécies encontradas em todo mundo. alguns são parasitas de plantas e animais. A reprodução sexual pode ocorrer quando hifas de dois tipos diferentes (+ e -) crescem em contato uma com a outra (figura 21). chamadas estolões.. hormônios são produzidos. O zigósporo pode permanecer dormente por vários meses. Eles produzem esporos sexuais chamados zigósporos. SEXUADA zigósporos ascósporos Basidiomycetes Deuteromycetes (fungos imperfeitos) basidiósporos conídios estágio sexual desconhecido 3. ácidos orgânicos esteróides para drogas contraceptivas e antiinflamatórias. O pão torna-se embolorado quando o esporo do bolor cai sobre ele. chamadas rizóides. Agregados de esporos esféricos pretos desenvolvem-se dentro do esporângio e são liberados quando este se rompe. crescem horizontalmente. A meiose provavelmente ocorre no momento ou um pouco antes da germinação do zigósporo. na extremidade.. algumas espécies de Penicillium e Aspergillus REPR. Alguns zigomicetos são utilizados na elaboração de produtos comercialmente valiosos. .3. ASSEXUADA esporos não-móveis conídios desprendemse dos conidióforos incomum REPR. como molho de soja. trufas. Quando as hifas de dois tipos encontram-se. Suas hifas são cenocíticas (não têm septo). 1990). outras. fazendo com que suas extremidades cresçam juntas. Os núcleos + e . Cada esporo formado é capaz de tornar-se um novo micélio. Muitos zigomicetos vivem no solo sobre matéria orgânica animal ou vegetal em decomposição.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 33 _____________________________________________________________________________________________ Tabela 6: Classes de Fungos Terrestres (modificado de Davis et al. ancoram os estolões no pão. Classes Zygomycetes Ascomycetes TIPOS COMUNS bolor preto do pão leveduras. germinando e crescendo como uma massa de fios. fungos da ferrugem e do carvão. Algumas hifas. que permanecem dormentes por um tempo. ou saco de esporos. Um zigomiceto comum é o bolor preto do pão. certas hifas crescem para cima e desenvolvem um esporângio.fundem-se e formam um núcleo diplóide. As hifas penetram no pão e absorvem nutrientes. o zigoto. de modo que não é próprio referir-se a linhagens feminina e masculina. Eventualmente. cogumelos. Quando este germina. o micélio. uma hifa aérea desenvolve-se com um esporângio na extremidade. fungos em forma de taça. orelha-de-pau Candida albicans. chamado de zigósporo.

são formadas ramificações de copulação denominadas progametângio. rosas e marrons que estragam os alimentos e as trufas comestíveis. Suas hifas geralmente têm septos. desde leveduras unicelulares até mofos multicelulares e fungos em forma de taça. 3. Um esporangiósporo germina para desenolver um talo micelial. Eles logo se fundem. a reprodução assexuada envolve a produção de esporos. os rizóides penetram no meio e os esporangiósporos dão origem ao esporângio. permitindo o movimento do citoplasma. Algumas vezes chamados . O zigósporo germina para formar um novo organismo haplóide e a meiose ocorre durante o processo de germinação (fonte: Pelczar et al. Os ascomicetos desempenham um papel ecológico importante na degradação de moléculas animais e vegetais resistentes como a celulose. que repousa em estado dormente por 1 a 3 meses ou mais.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 34 _____________________________________________________________________________________________ Figura 21: O ciclo de vida do bolor preto do pão. chamados conídios. Recebem também o nome de fungos de saco pois seus esporos sexuais são produzidos em pequenos sacos chamados ascos.2 Ascomycetes Os ascomicetos constituem um grande grupo de mais ou menos 30.000 espécies descritas. formando o zigósporo diplóide maduro. porém as paredes transversais são perfuradas. lignina e o colágeno.. os esporangiósporos são liberados.. 1996). Quando entram em contato. A reprodução sexuada requer dois mating types (+ e -) sexualmente compatíveis. Eles incluem a maioria dos bolores esverdeados.3. Na maioria dos ascomicetos. Após ruptura da parede do esporângio. Rhizopus stolonifer. Os ascomicetos variam na complexidade. os protoplasmas misturam-se (através da plasmogamia) e os núcleos + e – também se fundem (através da cariogamia) para formar muitos núcleos zigotos. Estes esporos desprendem-se das extremidades de certas hifas conhecidas como conidióforos (que contêm os esporos). completando a fase assexuada do ciclo de vida. A estrutura contendo o núcleo torna-se corada em preto e com aspecto verrugoso.

Assim. O elemento feminino é representado pelo protoperitécio. quando separados. nas diferentes espécies. rosa ou outra. a muitos destes bolores..IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 35 _____________________________________________________________________________________________ de "esporos de verão". Cada um destes passa por uma mitose. Eles variam na forma. Estas hifas formam o corpo de frutificação conhecido como ascocarpo. que são liberados quando este se rompe. que são unicelulares. Dentro de cada célula que irá se desenvolver num asco. A reprodução sexual ocorre após duas hifas crescerem juntas e unirem seus citoplasmas. muitas linhagens . formam um dos grupos mais importantes e interessantes dos ascomicetos microscópicos.1 Leveduras As leveduras. há 4 ascósporos. 3. Através dos anos. A Neurospora pode também reproduzir-se assexuadamente através de conídios (fonte: Pelczar et al.3. Este processo é de fundamental importância na produção de pão.2. azul. quebrando a glicose para produzir etanol e dióxido de carbono. verde. o zigoto.1996). Estão reunidas em torno de 40 gêneros. cerveja e vinho. Figura 22: Ciclo de vida de Neurospora sp. As leveduras possuem a capacidade de fermentar carboidratos. os conídios são um meio de rápida propagação do novo micélio. Estes. A figura 22 mostra o ciclo de vida do ascomiceto Neurospora sp. as células destas hifas são dicarióticas (2 núcleos). dentro de um asco. com aproximadamente 350 espécies. resultando na formação de 8 núcleos. tamanho e cor. a cor do conídio é que dá a característica preta. Novas hifas desenvolvem-se a partir desta estrutura.. os dois núcleos ficam juntos. Isto resulta na formação de ascos que produzem ascósporos haplóides gerados por fusão sexual do núcleo de duas diferentes cepas. Os elementos masculinos são os conídeos. porém não se fundem. Cada zigoto sofre meiose e origina 4 núcleos haplóides. onde o asco se desenvolve. que podem fornecer núcleo para um protoperitécio. Dentro desta estrutura fundida. os dois núcleos fundem-se e formam um núcleo diplóide. formam os ascósporos.

Os basidiomicetos formam seus esporos sexuais dentro de estruturas chamadas basídios. Os botões desenvolvem-se numa estrutura que popularmente chamamos de cogumelo. e que na verdade é o basidiocarpo (figura 23). que são os basidiocarpos ou cogumelos. que é uma massa de hifas compactas (fonte: Davis et al. As hifas deste micélio têm células monocarióticas. como os fungos do carvão e da ferrugem. que consiste de uma haste (estipe) e um "chapéu". ou basidiocarpo.3 Basidiomycetes Esta divisão tem mais de 25. chamadas botões.000 espécies e inclui os fungos mais familiares. Quando duas hifas de tipos diferentes se juntam. A levedura de maior importância econômica é espécie Saccharomyces cerevisiae. e vão formar os basidiósporos (figura 24). e cada um pode formar. tipo fios. tal como o do cogumelo comestível Agaricus campestris. Nas nervuras destes. Assim é formado o micélio secundário. potencialmente. O corpo vegetativo de um basidiomiceto. formando zigotos diplóides. Estas hifas podem crescer e formar massas compactas. as orelhas-de-pau. que fica geralmente abaixo da terra. com hifas dicarióticas. elas se fundem. Cada fungo individual produz milhões de basidiósporos. 3. desenvolvem-se num novo micélio. como os cogumelos. consiste em uma massa de hifas brancas. que se localizam na superfície do basídio. Na extremidade de cada um destes são formados 4 basidiósporos.. ramificadas. . os núcleos se fundem. como dedos. entre outras partes do organismo humano. 1990).3.. Quando são liberados e encontram ambiente apropriado. além de importantes parasitas de plantas. desenvolvemse ao longo do micélio. Outras leveduras são importantes patógenos e causam doenças tais como o "sapinho" e a criptococose. porém seus núcleos não. Massas compactas de hifas.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 36 _____________________________________________________________________________________________ diferentes de leveduras têm sido selecionadas para este processo. infecção que pode atacar os pulmões. Os basídios estão localizados em lamelas que existem na superfície inferior dos chapéus. Figura 23: O cogumelo é um corpo de frutificação. um novo micélio primário. Estes sofrem meiose e originam 4 núcleos haplóides.

que causa a candidíase. além de produzir ácido cítrico comercialmente. . Entre os gêneros economicamente importantes desta divisão estão o Penicillium e o Aspergillus. um basidiomiceto típico. Na superfície inferior do "chapéu" estão as lamelas. onde se desenvolvem-se os basídios. que irão produzir os basidiósporos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 37 _____________________________________________________________________________________________ Figura 24: Ciclo de vida de um cogumelo. podem se desenvolver e originar um novo micélio (fonte: Davis et al. Desta forma. Algumas espécies de Penicillium produzem o conhecido antibiótico penicilina. uma doença da mucosa da boca. acredita-se que alguns deuteromicetos possam ser ascomicetos ou basidiomicetos que perderam a capacidade de formar ascos ou basídios.4 Deuteromycetes Em torno de 25. A maioria dos deuteromicetos reproduzem-se somente por esporos assexuais ou conídios (figura 25)... como Candida albicans. Quando os esporos alcançam um ambiente propício. Um basidiocarpo desenvolve-se a partir do micélio. Assim são chamados porque não observa-se o estágio sexuado em seu ciclo de vida. vagina e trato alimentar. Outros fungos imperfeitos são causadores de certas doenças. 3. que fica abaixo da terra. que também produzem esporos assexuais. que também são conhecidos como "fungos imperfeitos". 1990). uma massa de "fios" entrelaçados.000 fungos são classificados como deuteromicetos. lembram os estágios assexuais de ascomicetos e basidiomicetos. Espécies de Aspergillus são usadas para fermentar pastas e molhos de soja. enquanto outras espécies dão sabor e aroma a queijos com Roquefort e Camembert.3. Neste aspecto.

. os indivíduos podem sobreviver por si mesmos. por exemplo. Existem mais ou menos 20. picos de montanhas e rochas lisas. como cidades industriais. enquanto estes dependem das algas quanto ao fornecimento de carbono orgânico. 3. 1995). ou por pequenas projeções do talo conhecidas como isídios. Esses organismos contêm muitos compostos químicos incomuns. O arranjo dos conídios (esporos assexuais) nos conidióforos varia de espécie para espécie e é usado na identificação dos fungos (fonte: Solomon & Berg. amarelo e verde. usando a água e os minerais obtidos pelos fungos.000 espécies de liquens. marrom. Liquens normalmente se reproduzem por simples fragmentação. Os liquens podem crescer sobre troncos de árvore. A figura 26 mostra um esquema de uma secção transversal de um liquen. As algas ou cianobactérias encontradas nos liquens também são encontradas livremente na natureza. Em algumas destas associações os parceiros são mutuamente dependentes e não podem viver isoladamente.1 Liquens É uma relação simbiótica entre uma alga (ou uma cianobactéria) e um fungo. As cores dos liquens variam do branco ao negro. ou pela produção de propágulos pulvurulentos especiais denominados sorédios. passando por tonalidades de vermelho.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 38 _____________________________________________________________________________________________ conídios Fotomicrografia Figura 25: eletrônica de varredura de conidióforos de Penicillium. Fragmentos. sorédios e isídios contêm tanto hifas do fungo como algas ou cianobactérias. Em outras. conidióforos 3. O fungo geralmente é um ascomiceto. Eles toleram ambientes extremos de temperatura e umidade e crescem em quase todos os lugares exceto em ambientes muito poluídos. As algas fabricam alimentos pela fotossíntese. enquanto que o parceiro fúngico tem sido encontrado somente como parte do líquen.4 Fungos e suas associações com outros organismos Os fungos podem se associar a organismos de diversas formas.4. bases fixadoras de perfumes ou fontes de alimento de menor importância. Muitos liquens são utilizados como fontes de corantes e também como medicamentos. Por isso muitas espécies são utilizadas como bioindicadoras de poluição. laranja. eles atuam como unidades de dispersão que têm a função de estabelecer o liquen em novas localidades.

3 Trufas As trufas são corpos frutificantes subterrâneos de certos Ascomycetes que crescem em associação com algumas árvores. O vinho é produzido a partir da . Possuem odor. Esta camada. Estas associações são usualmente benéficas para a planta hospedeira. que são incapazes de germinar e se desenvolver a menos que sejam infectadas por fungos. parece servir como área de armazenagem. o que as torna apreciáveis pelos gourmets. e (4) o córtex inferior. com as células do fungo aumentadas. para impedir que o fungo cause dano às radicelas. uma camada protetora constituída de hifas de paredes muito espessadas. Por outro lado. a qual. significando "raiz fúngica". As micorrizas melhoram a absorção mineral pelas plantas verdes que possuem. geralmente. (2) a camada de algas. Os liquens mais complexos consistem apenas em uma crosta de hifas entrelaçadas envolvendo colônias de algas.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 39 _____________________________________________________________________________________________ Figura 26: Uma secção transversal do liquen Lobaria verrucosa. As micorrizas ajudam na transferência direta do fósforo. que são os parceiros mais comuns. Contudo. nos liquens mais complexos.2 Micorrizas A micorriza é uma associação benéfica entre um fungo e uma raiz de planta. um sistema de proteção. o hospedeiro não pode prosperar sem os benefícios oriundos do fungo. por sua vez.5 Fungos economicamente importantes A capacidade das leveduras de produzirem etanol e dióxido de carbono a partir da glicose é de grande importância econômica. estas de paredes finas frouxamente entrelaçadas.. (3) a medula. O fungo proporciona certos nutrientes à arvore.4. algumas vezes. 3. constituída por células de algas e hifas. zinco. 3. as hifas e as células de algas estão organizadas em um talo com crescimento e forma definidos e uma estrutura interna característica. cobre e outros nutrientes do solo para as raízes. O liquen mostrado tem 4 camadas distintas: (1) o córtex superior. que constitui cerca de dois terços da espessura do talo. que é mais fino que o superior e coberto por finas projeções (rizinas) que prendem o liquen ao substrato (fonte: Raven et al. que é uma camada espessa de hifas frouxas e de paredes menos espessas. fornece substâncias essenciais para o crescimento do fungo. coberta com uma casca espessa e protuberante do micélio. assim como para o simbionte e. 1996). Os parceiros fúngicos são geralmente os zigomicetos e os basidiomicetos. como o caso de certas orquídeas. Este termo é derivado do grego.4. 3. As trufas consistem em uma massa de ascósporos e micélios. gosto e textura agradáveis. a planta fornece carbono orgânico ao fungo simbionte. entre as quais o carvalho e a faia.

Alguns dos cogumelos venenosos pertencem ao gênero Amanita. Todas as plantas são aparentemente suscetíveis a infecções fúngicas. causando grandes prejuízos econômicos. Conocybe e Psilocybe . phalloides ("anjo da morte"). A ingestão de um único cogumelo pode matar um homem de 68 kg. a partir da fermentação da cevada.1 Fungos Patogênicos Os fungos são responsáveis por várias doenças sérias de plantas. Não há um modo fácil para distinguí-los. somente um especialista o deve fazer. . A tabela 7 mostra alguns efeitos patológicos das micoses de plantas. quimicamente relacionada ao ácido lisérgico (LSD). Uma planta pode tornar-se infectada após as hifas entrarem pelos estômatos da folha ou do caule ou através de feridas na planta. Alguns fungos podem causar doenças em humanos e outros animais. A cerveja. nas quais o fungo infecta tecidos profundos e órgãos internos. Histoplasmose é uma séria infecção fúngica sistêmica que é causada por um fungo que esporula abundantemente em solo que contém fezes de aves. por suas propriedades alucinógenas. cabelos ou unhas. Entre os basidiomicetos existem cerca de 200 tipos de cogumelos comestíveis e cerca de 70 espécies de cogumelos venenosos. virosa ("anjo destruidor") e A.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 40 _____________________________________________________________________________________________ fermentação do açúcar de frutas. Outros causam infecções sistêmicas. Podem causar infecções superficiais que atingem somente a pele. As espécies mais conhecidas são A.5. A substância química psilocibina. é responsável pelo estado de transe e visões coloridas experimentadas por aqueles que comem estes cogumelos. Sapinho e pé-de-atleta são exemplos de infecções fúngicas superficiais. incluindo doenças epidêmicas que se espalham rapidamente por plantações. 3. O pão cresce através das bolhas de CO2 formadas a partir da fermentação. A tabela 8 relaciona os dermatófitos mais comuns. Os cogumelos sagrados dos Astecas. Os cogumelos comestíveis e venenosos podem ser muito parecidos e até mesmo pertencerem ao mesmo gênero. uma pessoa que inala os esporos podem desenvolver a infecção. Candidíase é uma infecção de membranas mucosas da boca e vagina e está entre as infecções fúngicas mais comuns. A ingestão de certas espécies de cogumelos pode causar intoxicação e alucinação. são ainda usados em cerimônias religiosas por índios da América Central e outros.

com aspecto de uma escara Coloração marrom. dos ramos. nas folhas. usualmente recobertas de micélio e frutificações fúngicas Ferrugem Míldio Tabela 8: Os dermatófitos (fonte: Pelczar. resultando em sua morte Maceração e desintegração de frutos. preenchidas com micélio fúngico geralmente Protuberâncias similares a verrugas nos tubérculos e caules Ramificação profusa dos brotos Distorção. dos caules e frutos. raízes. etc. sobre as folhas ou o caule. 1980). com aspecto de fusos ou clavas Porções aumentadas de tamanho. dos brotos e dos órgãos florais. espessamento e encrespamento das folhas Usualmente um sintoma secundário generalizado. bulbos. usualmente com leve elevação ou escavação. no qual as folhas perdem seu turgor e caem por causa de um distúrbio no sistema vascular da raiz ou do caule Muitas lesões pequenas. NECROSE: Podridão da raiz Podridão basal do caule Apodrecimento (damping-off) Cancro Antracnose Manchas da folha Desintegração ou decomposição de parte ou de todo o sistema e raízes de uma planta Desintegração da parte interior do caule Rápido colapso e morte de mudas muito jovens no leito de sementeira ou no campo Ferida localizada ou lesão necrótica. necrótica e escavada no caule. formadas por células mortas Lesões localizadas nos frutos do hospedeiro.. na folha ou na flor Lesões localizadas nas folhas do hospedeiro. muitas vezes escavada na superfície do caule de uma planta lenhosa Lesão semelhante a uma úlcera. com típica coloração ferruginosa Áreas cloróticas ou necróticas das folhas.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 41 _____________________________________________________________________________________________ Tabela 7: Alguns efeitos patológicos das micoses de plantas (fonte: Pelczar. tubérculos e folhas carnosas Escara Mangra Podridão mole e podridão seca HIPERTROFIA: Raiz em clava Galhas Verrugas Vassouras de bruxa Encrespamento das folhas OUTROS SINTOMAS: Murcha Raízes intumescidas. 1980). nos tubérculos. geral e extremamente rápida das folhas. .

schoenleini T.ferrugineum T. piedra branca Trichosporon beigelii Nocardia minutissima Causa do eritrasma. lesões em outras áreas do organismo . causa a tinea capitis em crianças Ocorre como saprófita no solo e como parasita em animais. uma infecção crônica das axilas e áreas gênito-crurais Causa a ptiriase versicolor. cães e outros animais.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 42 _____________________________________________________________________________________________ GRUPO Epidemophyton Microsporum MICRORGANISMOS E. rubrum Primariamente parasita dos cabelos Causa tinhas em muitas partes do corpo. o Trichophyton verrucossum também causa infecções no gado Causa tinhas do couro cabeludo humano Causa infecção em frangos Causa uma infecção do cabelo e do couro cabeludo. mentagrophytes T. concentricum T. floccosum M. chamada trichomycosis axillaris Malassezia furfur Nocardia Aspergillus Penicillium Mucor Rhizopus Estes quatro fungos. tonsurans Subgrupo faviforme: T. audouini M. ocasionalmente encontrado na tinha do couro cabeludo em crianças M. megnini T. gypseum Trichophyton Subgrupo gypseum: T. mas com nódulos brancos. podem ocasionar otomicoses e produzir. no couro cabeludo e na pele glabra do homem. canis OCORRÊNCIA E DOENÇA Causa infecções da pele e das unhas das mãos e dos pés Causa tinha epidêmica do couro cabeludo em crianças Causa comum de infecções da pele e dos pêlos em gatos. caracterizada pela formação de nódulos duros e negros. gallinae Miscelânea Piedraia hortai Estes cinco fungos causam tinhas na pele. às vezes. eventualmente. comumente saprófitas. outras áreas do corpo Causa da doença dos pêlos púbicos e axilares. uma infecção fúngica generalizada da pele que recobre o tronco e . verrucossum Subgrupo rosaceum: T. piedra negra Causa infecção similar à anterior. violaceum T. infecta os cabelos e o couro cabeludo Infecta os cabelos e o couro cabeludo T.

um menino de 8 anos de idade.1 Introdução Os vírus constituem um grupo grande e heterogêneo de agentes infecciosos. quando o rapaz foi inoculado com pus de um varioloso e não desenvolveu a doença. vacinou. a qual caía após cerca de duas semanas. São tão pequenos que passam através dos filtros cujos poros não permitem a passagem das bactérias. O maior vírus tem menos do que a quarta parte das dimensões de uma salmonela e milhares dos de menor tamanho poderiam ser colocados dentro da parede celular vazia de um estafilococo. eles não têm capacidade de movimentação nem de metabolismo autônomo. Os vírus causam doenças ou infecções em insetos. o termo empregado passou a ser vacinação. Na verdade. plantas. Em 1796. por exemplo. Friedrich Loeffler e Hans Frosch na Alemanha. A prova de que a inoculação havia conferido proteção contra a varíola foi obtida seis semanas mais tarde. pela primeira vez.2 Histórico Algumas viroses foram clinicamente conhecidas durante séculos. como reação positiva. Os vírus são "pedaços" de DNA ou RNA protegidos por uma capa proteica. Martinus Beijerinck na Holanda. deixando apenas uma pequena escara. microrganismos. semelhantes pelo fato de serem parasitas intracelulares obrigatórios para as células de seus hospedeiros específicos. vegetal ou de um microrganismo). Muitas vezes não produzem prejuízos particulares aos seus hospedeiros. a primeira doença infecciosa para a qual se desenvolveu um método prático e efetivo de prevenção foi uma enfermidade causada por vírus. desconhecendo a natureza dos anticorpos e dos vírus. Como o material usado era de origem bovina (latim = vaca). homens e outros animais. Eles chegaram a esta conclusão pois as unidades infecciosas não eram retidas nos filtros de porcelana. vários grupos de cientistas europeus. uma pequena crosta no local da aplicação. os vírus que infectam as tulipas causam suas cores variegadas. As primeiras observações indiretas dos vírus foram feitas quase no final do século 19. pois as tulipas "sadias" são solidamente monocoradas. Edward Jenner. Jenner observou que as pessoas inoculadas intradermicamente com vírus isolados de lesões da varíola bovina desenvolviam. trabalhando independentemente. embora demonstrem efeitos visíveis. para referir-se a este método. Baseados nestas observações e nas propriedades do material filtrado. com material removido de uma lesão de varíola bovina da mão de um leiteiro. 4. Jenner aprendeu a realizar este processo. e na mesma época. Na época. usados para remover bactérias de vários meios. um médico inglês. concluíram que os agentes infecciosos associados com uma doença de planta conhecida como mosaico do tabaco e aqueles associados com a doença do casco e boca de gado não eram bactérias. podendo sofrer mutações. peixes. concluíram que os vírus não só eram muito menores que qualquer bactéria .IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 43 _____________________________________________________________________________________________ 4 VÍRUS 4. Reproduzem-se por replicação numa célula hospedeira (anima.

Alguns anos depois. seus capsídios são cilindros ocos. . descobrindo que o vírus precipitou na forma de cristais. Tais vírions são pleomórficos (têm formas variadas). mas nunca são encontrados os dois juntos no mesmo vírion. e é composto de subunidades de proteína. O próximo e mais importante avanço feito a este respeito ocorreu em 1933. Helicoidais: lembrando longos bastonetes. mas apresenta várias camadas em torno do ácido nucleico. O vírus do mosaico do tabaco é um exemplo. o clorofórmio e agentes emulsificantes (sais biliares e detergentes). A maioria dos vírus só pode ser detectada usando microscopia eletrônica de alta resolução. podendo ou não apresentar um envoltório (envelope) contendo lipídeos ou lipoproteínas. Cada partícula viral (ou vírion) pode ter as seguintes estruturas: Capsídio e Envelope: o capsídio é uma capa protéica que circunda o ácido nucleico. já que os envoltórios não são rígidos. por exemplo. não possui capsídio claramente identificado. é circundado por uma membrana envoltória. Vírus complexos: alguns vírions têm uma estrutura muito complicada. mas a maioria dos outros vírus tem DNA.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 44 _____________________________________________________________________________________________ como também eram diferentes na estrutura. Quanto à forma. Os vírus podiam reproduzir-se somente em células vivas de seus hospedeiro e portanto. preparou um extrato do vírus do mosaico do tabaco e purificou-o. o vírus da vacínia (grupo poxvirus). protegido por uma capa de proteína. Todos os vírions possuem uma simetria de estrutura (figura 27). faltaria algo crítico na sua maquinaria. O vírus do herpes é um vírion icosaédrico envelopado. Muitos vírus de plantas têm constituição similar. que são responsáveis pela especificidade viral. com estrutura helicoidal . A estrutura dos ácidos nucleicos nos vírions pode ser linear ou circular. alguns cientistas demonstraram que o vírus do mosaico do tabaco era constituído de RNA. os vírions com envelope são sensíveis aos solventes de lipídeos. esta forma é determinada pelo capsídio. Mesmo os maiores têm uma pobre visibilidade ao microscópio óptico. Assim. Wendell Stanley do Instituto Rockefeller. ao invés de RNA. Ácidos Nucleicos: Os vírus podem ter DNA ou RNA.3 Estrutura dos Vírus Os menores vírus têm somente 17 nm de diâmetro e os maiores chegam a 1000 nm (1 micrômetro). tais como o éter. 4. os capsômeros. O poliovírus e os adenovírus são alguns exemplos. que pode ser icosaédrico ou helicoidal. os vírions podem ser (figura 28): Icosaédricos: poliedro regular com 20 faces triangulares e 12 ângulos. Vírus envelopados: o nucleocapsídio interno desse vírus.

4. adeno. [B] herpes. O envelope pode ter projeções na sua superfície denominadas espículas (fonte: Pelczar et al. Desenhos mostram todos os principais componentes que podem fazer parte de um vírion. parainfluenza. esta combinação é denominada nucleocapsídeo.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 45 _____________________________________________________________________________________________ Figura 27: Estrutura geral de um vírion. 1996). verruga. Figura 28: Morfologia de alguns vírus bem conhecidos. 1996). Simetria helicoidal: [C] mosaico do tabaco.. Um vírion tem um cerne de ácido nucléico envolvido por um capsídeo protéico. [F] raiva. rota. Simetria icosaédrica: [A] pólio. Simetria incerta ou complexa: [G] poxvírus. [D] influenza. [E] sarampo. caxumba.. [H] fagos T-pares (fonte: Pelczar et al..4 Classificação dos vírus animais e de plantas . Um vírion pode ter um envelope membranoso (lipoproteína) envolvendo o nucleocapsídeo.

Espécie de hospedeiro. À medida que se foi desenvolvendo a análise das características físicas. diâmetro do nucleocapsídeo para vírions helicoidais Local de replicação: Núcleo ou citoplasma Modo de transmissão: Por exemplo. A tabela 9 resume tais propriedades. 1996). propriedades antigênicas Tabela 10: Classificação dos vírus que infectam o homem e outros animais (fonte: Pelczar et al. Outro método de classificação dos vírus se baseava-se na afinidade tissular dessas partículas infectantes. do hospedeiro ou tipos de células peso molecular Estrutura do vírion: Helicoidal.da tabela 10 Icosaédrico Icosaédrico Não (RNAfu2) 30 – 37 Não (RNAfu) 24 – 30 Caliciviridae Picornaviridae Calicivirus Enterovirus Calicivírus Poliomielite Citoplasma Citoplasma . fezes Estruturas específicas de superfície: Por exemplo.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 46 _____________________________________________________________________________________________ Os vírus têm sido agrupados ou classificados de várias maneiras.. tecido específico genoma único ou segmentado. agrupados de acordo com a simetria e a ordem decrescente de tamanho. vegetais ou microrganismos). acumulou-se uma informação sobre a qual era possível construir uma classificação de acordo com esses conhecimentos. Um dos primeiros sistemas. cadeia (+) ou (-). que ainda tem uso limitado. número de capsômetros para vírion icosaédrico.. químicas e biológicas dos vírus. complexidade. Simetria do capsídeo Envelope (genoma) Diâmetro do vírion (nm) Família Gênero típico Vírus típicos Local de montagem ou subfamílias (local de envelopamento) Mastadenovirus Adenovírus humano 2 Reovírus Rotavírus SV 40 Núcleo Citoplasma Núcleo Icosaédrico Não (DNAfd1) 70 – 90 Adenoviridae Icosaédrico Não (RNAfd) 65 – 75 Reoviridae Reovirus Rotavirus Icosaédrico Não (DNAfd) 45 – 55 Papovaviridae Polyomavirus Papillomavirus Vírus da verruga Cont. A tabela 10 mostra a classificação dos vírus que infectam os animais. nu ou envelopado. CARACTERÍSTICAS PRIMÁRIAS Natureza química do ácido nucleíco: CARACTERÍSTICAS SECUNDÁRIAS Hospedeiro: RNA ou DNA. os vírus que se fixam às células nervosas eram denominados vírus neurotrópicos. 1996). fita dupla ou única. por exemplo. icosaédrico ou complexo. Tabela 9: Propriedades utilizadas para a classificação dos vírus (fonte: Pelczar et al. estabelecia subgrupos de acordo com a espécie do hospedeiro normalmente infectado pelo vírus (animais.

IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 47 _____________________________________________________________________________________________ Coxsackievírus Rhinovirus Icosaédrico Não (DNAfu) 18 – 26 Parvoviridae Parvovirus Resfriado comum Vírus do rato de Kilham Núcleo Icosaédrico Sim (DNAfd) 120–200 Herpesviridae Alphaherpesvi.Herpes rinae simples Núcleo (membrana nuclear e/ou citoplasma) Citoplasma (membrana citoplasmática e/ou citoplasma) Citoplasma (membrana citoplasmática e/ou citoplasma Núcleo (citoplasma) Citoplasma (membrana citoplasmática e/ou citoplasma) Icosaédrico Sim (RNAfu) 80 – 140 Retroviridae Oncovirinae Tumor RNA Icosaédrico Sim (RNAfu) 40 – 70 Togaviridae Rubivirus Rubéola Icosaédrico Helicoidal Sim (DNAfd) 42 Hepadnaviridae Vesiculovirus Hepatite B Estomatite vesicular Lyssavirus Raiva Sim (RNAfu) 130–300 Rhabdoviridae x50-100 Helicoidal Sim (RNAfu) 100–150 Paramyxoviridae Paramyxovirus Caxumba Citoplasma (membrana citoplasmática) Citoplasma (membrana citoplasmática) Citoplasma (citoplasma) Citoplasma (citoplasma) Citoplasma (citoplasma) Helicoidal Sim (RNAfu) 80 – 120 Orthomyxoviri dae Influenzavirus Influenza (Gripe) Helicoidal Sim (RNAfu) 75 – 160 Coronaviridae Coronavirus Coronavirus Helicoidal Sim (RNAfu) 90 – 120 Bunyaviridae Bunyavirus Bunyamwera Complexo ou incerto Sim (DNAfd) 200–350 Poxviridae x115260 Sim (RNAfu) 50 – 300 2 Orthopoxvirus Varíola Complexo ou incerto Arenaviridae Arenavirus Lassa Citoplasma (membrama citoplasmática e/ou citoplasma) 1 fd = fita dupla fu = fita única 4.5 Replicação do Vírus .

Acoplamento ou maturação: os vírus são capazes de dirigir a síntese dos componentes essenciais para sua progênie e de acoplar estes materiais sob a forma de vírions maduros. a maturação e a liberação são relativamente lentas e os vírions são liberados sem a destruição da célula hospedeira. as propriedades do capsídio determinam as características adesivas do vírus. levando à fusão do envoltório lipoproteico dos vírus com a membrana citoplasmática da célula. os vírus requerem o uso dos ribossomas da célula. ele primeiro deve ligar-se a um receptor específico na membrana celular. Adsorção: envolve a participação de receptores específicos na superfície da célula hospedeira e das macromoléculas do vírion. A multiplicação dos vírus se faz por replicação. . Os vírus nús (sem envelope) parecem penetrar pelo mecanismo de fagocitose. muitos vírus podem ter um envelope rico em lipídeo envolvendo o capsídio. de enzimas e de certos processos biossintéticos para sua replicação. no núcleo e/ou no citoplasma da célula infectada. As propriedades das moléculas que constituem o envelope estão relacionadas com a adesão do vírus à vários substratos. provavelmente uma glicoproteína. a figura 29 mostra o que ocorre com o vírus do herpes simples. que são comuns a todas as infecções virais: 1. Se o envelope não está presente. 5. Replicação bioquímica: a replicação ativa do ácido nucleico e a síntese de proteínas virais começam após a dissociação do capsídio e do genoma. 3. Liberação: este processo varia com o agente viral. que resulta na liberação do material nucleocapsídico no citoplasma celular. Este processo pode ser dividido em etapas. Do envelope de muitos vírus projetam-se "pontas" que podem conter glicoproteínas e lipídeos. Em outros. no qual as porções protéica e nucleica aumentam no interior das células hospedeiras sensíveis. Como já foi dito. Como exemplo do processo replicativo dos vírus em células eucarióticas. Em alguns casos. a lise celular resulta na liberação concomitante das partículas virais. do RNA de transferência. 4.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 48 _____________________________________________________________________________________________ Antes que qualquer vírus possa infectar uma célula animal. 2. Penetração e desnudamento: os vírus com envelope unem-se às células hospedeiras. Além do ATP celular.

Os RNAs transcritos no núcleo e sintetizados após a replicação do DNA são responsáveis pela síntese de proteínas estruturais que vão formar o capsídeo e o envelope assim como as glicoproteínas da membrana nuclear. Glicoproteínas específicas presentes no envelope viral são essenciais para a adsorção nos receptores presentes na membrana citoplasmática da células hospedeiras. . O vírion é desnudado e o DNA liberado é transportado para o núcleo.. As proteínas estruturais entram no núcleo para participar da montagem dos vírions. O envelope viral e a membrana celular fundem-se e o nucleocapsídeo do vírion é liberado no citoplasma. As enzimas resultantes (proteínas precoces) são utilizadas na replicação do DNA viral. 1996). A transcrição precoce e o processamento do mRNA são aparentemente catalisados pelas enzimas da célula hospedeira. Os nucleocapsídeos adquirem o envelope durante o processo de brotamento através da membrana nuclear.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 49 _____________________________________________________________________________________________ Figura 29: Replicação do vírus herpes simples. O vírus é liberado da célula por mecanismos não conhecidos (fonte: Pelczar et al.

Figura 30: Estrutura de um bacteriófago com cabeça icosaédrica e cauda (fonte: Pelczar et al. sem que haja lise celular. e por Felix d’Herelle. Com relação ao ciclo de vida. Existem 3 formas básicas de bacteriófagos: cabeça icosaédrica sem cauda. No processo infeccioso lítico. Os fagos temperados não destroem suas células hospedeiras.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 50 _____________________________________________________________________________________________ 4. como os outros vírus. após a replicação do vírion. Twort. Os pesquisadores observaram que colônias bacterianas algumas vezes dissolviam-se e desapareciam devido a uma lise que ocorria nas células. em 1917.. 1996). que parasitava as bactérias e foi denominado de bacteriófago. em 1915. os fagos líticos destroem as células hospedeiras bacterianas. o ácido nucléico viral é integrado ao genoma da célula hospedeira e replica-se na célula bacteriana hospedeira de uma geração a outra. os bacteriófagos podem ser líticos (ou virulentos) e temperados (ou avirulentos). em Paris. este efeito lítico podia ser transmitido de colônia a colônia. na Inglaterra.6 Bacteriófagos Bacteriófagos são vírus que infectam bactérias e foram descobertos independentemente por Frederick W. Em vez disso. Este agente lítico seria um agente infeccioso filtrável. a célula hospedeira rompe-se. liberando nova progênie de fagos para infectar outras células hospedeiras. . Os bacteriófagos têm o cerne de ácido nucléico envolvido por um capsídeo de natureza proteica. cabeça icosaédrica com cauda (figura 30) e filamentosa. O processo de adesão de um bacteriófago a uma célula bacteriana é o mesmo nos 2 tipos de ciclos e é mostrado na figura 31. No ciclo lítico. no Instituto Pasteur. Este processo é denominado lisogenia e é realizado somente pelos fagos que possuem DNA de fita dupla.

até que se possam inocular animais sensíveis. (a) fago livre.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 51 _____________________________________________________________________________________________ Figura 31: Adsorção de um bacteriófago T4 à parede celular da batéria Escherichia coli e injeção do DNA.8 Agentes infecciosos semelhantes a vírus Os viróides e os prions são considerados como formas mais simples de vida. a partir de espécimes clínicos ou de materiais de pesquisa. Esta fase inclui a eliminação de bactérias dos produtos em exame. podem ser desenvolvidos por meio de numerosos métodos. podem ser produzidos e pesquisados anticorpos específicos. Até hoje. são constituídos de RNA circular de fita única ou de RNA linear de fita dupla. em relação aos vírus. não havendo contudo. . Havendo a presença de vírus. os menores agentes infecciosos conhecidos. 4. uma técnica única que seja satisfatória para o estudo de todos os vírus.. da centrifugação diferencial ou do uso de drogas antimicrobianas. (d) contração da bainha da cauda e injeção do DNA (fonte: Brock et al.7 Isolamento e identificação do vírus O isolamento e a identificação dos vírus. Os viróides replicam-se em células de espécies de plantas susceptíveis. os viróides só foram encontrados em infecções de plantas. 1994). ovos embrionados ou outro tipo adequado de meio. através da filtração. dentre elas a doença do afilamento do tubérculo da batata e da fruta pálida do pepino. mas não são capazes de codificar suas próprias proteínas. (c) fixação pela extremidade da cauda. Os viróides. (b) adsorção à parede celular através das fibras da cauda. 4. mostrando serem dependentes da atividade metabólica do hospedeiro para replicação. culturas de tecidos. A primeira fase de identificação laboratorial de um vírus é a coleta e manutenção adequadas dos espécimes. não possuindo qualquer tipo de capa protéica.

todas doenças neurológicas. . os tipos de doença de evolução lenta observados são o scrapie e a visna. Das doenças que afetam o homem. como a alta resistência à radiação ultra-violeta e ao calor. 10% são hereditários. dentre a maioria dos casos. infectados com o prion do scrapie. Tem sido sugerido por alguns pesquisadores que a doença de Alzheimer pode ser causada por prion. são inativados pelo hipoclorito e autoclave. É possível que as proteínas dos prions sejam codificadas por um gene encontrado no DNA de um hospedeiro normal. Nesta última o gado é infectado pela ingestão de ração preparada com órgãos de ovinos. por exemplo o cérebro. Assim como os vírus. cujos cérebros de pacientes infectados apresentam a aparência espongiforme. um estabelecimento gradual e uma evolução progressiva e invariavelmente fatal. no entanto.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 52 _____________________________________________________________________________________________ Um outro agente causador de doenças é o prion ou partícula protéica infecciosa. não possuindo nenhum ácido nucléico detectável. e ditas “lentas”. não é altamente transmissível e. esta última doença é rara. pois possuem um longo período de latência. doenças de ovinos. também conhecida como “doença da vaca louca”. e a encefalopatia espongiforme bovina. já que a proteína parece ser seu único componente. Possui propriedades incomuns. Existem várias doenças clássicas causadas por prions. No animais. é endêmica na Grã-Bretanha e diversos casos da doença de Creutzfeldt-Jacob foram atribuídos à ingestão de carne bovina. caracterizada por demência pré-senil. destacam-se o kuru (que acontece somente em tribos da Nova Guiné) e a doença de Creutzfeldt-Jacob (encontrada mundialmente). ao contrário dos vírus convencionais. reproduz-se dentro das células.

como as práticas sanitárias utilizadas no lar e nos hospitais. em resumo. mas não necessariamente. como também o processo traz muitos benefícios para o bem-estar da comunidade. de microrganismos patogênicos. Não somente torna-se o produto de consumo seguro sob o ponto de vista de saúde pública. a pasteurização do leite e a preservação dos alimentos concorrem para o controle das populações microbianas. ou podem ser mais gerais. Anti-séptico: é uma substância que previne o crescimento ou ação de microrganismos. As principais razões para desenvolver o controle de microrganismos podem. normalmente químico. respectivamente. Cuidados diários. Desinfetante: é um agente. Os microrganismos podem ser removidos.1 Fundamentos A condição sanitária de uma dada população humana é determinada. De modo similar. os termos fungicida. vírus e esporos. agindo de modos diferentes e tendo seu próprio limite de aplicação prática.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 53 _____________________________________________________________________________________________ 5 CONTROLE DOS MICRORGANISMOS 5. como o fornecimento de medicação eficaz na eliminação dos microrganismos infectantes. Usualmente está associado com substâncias aplicadas ao corpo do homem. que mata as formas vegetativas. Uma grande variedade de técnicas e de agentes pode ser utilizada. em larga escala. . O termo normalmente refere-se às substâncias utilizadas em objetos inanimados. por sua capacidade de controlar eficazmente as populações microbianas. no sentido microbiológico. Um objeto estéril. tais como a purificação da água. As formas esporulada não são necessariamente eliminadas por estes agentes. Este termo refere-se à ausência total ou à destruição de todos os microrganismos. inibidos ou mortos por agentes físicos ou químicos. Os processos podem ser muito específicos. pela destruição dos mesmos ou pela inibição de seu crescimento ou atividade. 2) prevenir a contaminação ou crescimento de microrganismos nocivos e 3) prevenir a deterioração e dano de materiais por microrganismos. as formas esporuladas. está completamente livre de microrganismos vivos. ser: 1) prevenir a transmissão de doenças e infecções. Os termos a seguir são usados para descrever os processos físicos e os agentes químicos destinados ao controle dos microrganismos: Esterilização: processo de destruição ou remoção de todas as formas de vida microscópica de um objeto ou espécime. viricida e esporocida se referem aos agentes que matam os fungos. Bactericida: é um agente que mata as bactérias.

no caso de o agente nocivo agir através de uma interferência sobre o metabolismo (as células que não estão crescendo não seriam afetadas).4. Consiste em uma câmara de vapor com parede dupla. significativamente. metabolicamente ativas. O aparelho que usa o vapor de água sob pressão regulada chama-se autoclave.3 Modo de ação dos agentes antimicrobianos A revisão de certas características da célula microbiana pode apontar os possíveis locais de ação de um agente antimicrobiano. equipada com dispositivos que permitem o enchimento da câmara com vapor saturado e sua manutenção em determinadas . inibição da ação enzimática. Estado fisiológico das células: células jovens. inibição da síntese de ácidos nucleicos.2 Condições que influenciam a ação antimicrobiana Na aplicação de qualquer agente físico ou químico destinado a inibir ou destruir populações microbianas. Nas espécies esporuladas. e as altas concentrações de carboidratos aumentam. a resistência térmica dos microrganismos. dividem-se em duas categorias: calor úmido e calor seco. Condições ambientais: as propriedades físicas e químicas do meio ou das substâncias que sustentam os microrganismos têm profunda influência sobre o ritmo.4. inativando-a ou protegendo o microrganismo. sendo estas extremamente resistentes.4 Controle pelos agentes físicos 5.1. por exemplo. é muito maior nos meios ácidos do que nos alcalinos. alterações das moléculas de proteínas e de ácidos nucleicos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 54 _____________________________________________________________________________________________ 5. 5. Eles podem agir causando lesões na parede celular. quando usado em combinação com outro agente. 5.1 Aplicação das altas temperaturas Os processos práticos. a eficácia de uma droga antimicrobiana. Tipo de microrganismo: as espécies de microrganismos diferem em sua susceptibilidade aos agentes físicos e químicos. devem ser considerados fatores como: Temperatura: o aumento da temperatura. como uma substância química. A consistência do material (aquosa ou viscosa) também influi na penetração do agente. em geral. proporcionando temperaturas mais elevadas que as obtidas por ebulição. as formas vegetativas são muito mais sensíveis que as formas esporuladas. assim como sobre a eficácia da destruição microbiana. nos quais se emprega o calor.1 Calor úmido a) Vapor d'água sob pressão: é o agente mais prático e seguro para fins de esterilização. A eficiência do calor. entre outras coisas. A presença da matéria orgânica estranha pode reduzir. apressa a destruição dos microrganismos. são mais facilmente destruídas que as células velhas ou em latência. 5. alterações na permeabilidade celular.

Tabela 11: O uso da temperatura no controle de microrganismos (fonte: Pelczar et al. A partir de exposto acima. tubos de ensaio). b) Incineração: é usada para a eliminação de carcaças de animais de laboratório infectadas ou de outros materiais contaminados.4. é empregado na preservação de culturas de muitos vírus e microrganismos. não efetuam atividade metabólica aparente. . 5. não podem se indicadas para a desinfecção ou esterilização. muitas bactérias e vírus podem ser mantidos em unidades de alta refrigeração.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 55 _____________________________________________________________________________________________ temperatura e pressão por quaisquer períodos de tempo. cessa o metabolismo e o crescimento. embora extremas. empregados no controle de microrganismos. Os microrganismos mantidos em temperatura de congelamento ou mesmo inferiores podem ser considerados dormentes. água em ebulição e pasteurização são outros processos de calor úmido.2 Aplicação de baixas temperaturas As temperaturas inferiores ao ponto ótimo para o crescimento diminuem o ritmo metabólico e. entre -20° e -70° C. em temperaturas de -196° C. 5. entre 4° e 7° C.. embora não sempre.1. Esterilização fracionada. praticada rotineiramente quando a agulha de inoculação (ou alça de platina) é levada à chama de um bico de Bunsen. culturas em ágar de algumas bactérias. uma exposição de 2 horas à temperatura de 160°C seja suficiente para a esterilização.4.estufa . leveduras e fungos. Esta condição estática é a base da bem sucedida aplicação do frio na preservação dos alimentos.ou mesmo um forno de cozinha. As temperaturas baixas são úteis na manutenção de culturas. sendo a temperatura suficientemente baixa. ela é operada numa pressão de aproximadamente 15 libras por polegada quadrada (1 atmosfera=121°C). para a vidraria de laboratório. pois os microrganismos apresentam uma capacidade típica de sobrevivência em face do frio. A destruição de microrganismos pelo calor direto é. pó e substâncias similares. ou seja. Além disso. 1996). são usualmente armazenadas durante longos períodos de tempo sob temperatura de refrigerador. A tabela 11 resume os métodos que usam a temperatura no controle de microrganismos. torna-se aparente que as temperaturas baixas. O aparelho utilizado neste tipo de esterilização pode ser um forno elétrico especial (ou a gás) .2 Calor seco a) Esterilização pelo ar quente: é recomendada quando o contato direto ou completo do vapor d'água sob pressão com o material a ser esterilizado é considerado como indesejável ou improvável. também. assim como as fontes de células de mamíferos usadas em virologia. O nitrogênio líquido. o que é verdadeiro para certos tipos de vidraria laboratorial (placas de Petri. Geralmente. óleos. admitindo-se que.

vidrarias. bandejas de tratamento. mas a eficácia bactericida mais alta situa-se em comprimentos de onda ao redor de 2650 Å. utensílios. suco de frutas e em outras bebidas Esterilização de materiais impermeáveis ou danificáveis pela umidade (óleos. porque estas radiações produzem relativamente pouco calor no material irradiado e. eliminação de queima rápida e completa carcaças de animais infectados.7oC por 15 s Destruição de células vegetativas de microrganismos patogênicos e de muitos outros microrganismos no leite. apresenta objetos contaminados que potencial de poluição do ar não podem ser reutilizados Preservação de alimentos e outros materiais Preservação dos microrganismos Principalmente microbiostático em vez de microbicida Alto custo do nitrogênio líquido Baixas temperaturas Congelamento Menor que 0 C -196oC o Nitrogênio líquido 5. Este método é chamado de esterilização fria. 10 min Destruição de células vegetativas em instrumentos. ou 71. Embora a energia radiante da luz solar seja parcialmente . meios e outros líquidos Limitações Ineficiente contra micorganismos presentes em materiais impermeáveis ao vapor. recipientes Endósporos não são mortos. metais) Destrói materiais que não suportam altas temperaturas por muito tempo Calor seco Forno de ar quente 170 – 180oC por 1 – 2 h Incineração Centenas de oC O tamanho do incinerador Esterilização de alças de deve ser adequado à semeadura.900 Å. assim. A luz ultravioleta é outro tipo de radiação empregada na esterilização de materiais. 15 – 30 min 2 Aplicações Esterilização de instrumentos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 56 _____________________________________________________________________________________________ Método Calor úmido Autoclave o Temperatura 121. eliminação de da maior carga. tecidos.3 Radiações As radiações ionizantes (raios X e raios gama) têm tido aplicação na esterilização de materiais biológicos. não pode ser utilizado em materiais termossensíveis Água em ebulição 100oC.8oC por 30 min.6 C à pressão de 15 lb/pol .4. instrumentos cortantes. não pode ser utilizado como esterilizante Não é esterilizante Pasteurização 62. é possível esterilizar substâncias termossensíveis. A porção ultravioleta do espectro inclui todas as radiações compreendidas entre 150 e 3. especialmente nas indústrias alimentícia e farmacêutica.

Mesmo uma fina camada de vidro filtra uma grande parte da luz e. inocuidade para o homem e os animais. na indústria alimentícia para o tratamento de superfícies contaminadas.870 a 3. em certas condições. nuvens e fumaça).um agente químico usado para desinfetar utensílios contaminados pode ser completamente insatisfatório para aplicação na pele. fungos e outros microrganismos. estabilidade. 2. é restrita à faixa de 2. embora em grau limitado. homogeneidade.600 a 2. referente ao uso deste meio de destruição microbiana. é que a luz UV tem uma capacidade de penetração muito pequena. 3.700 Å. a maior parte dos comprimentos mais curtos é filtrada pela atmosfera terrestre (ozônio.1 Escolha do agente químico antimicrobiano Os fatores que devem ser considerados na escolha de um agente químico antimicrobiano são: 1. Condições ambientais: fatores com temperatura.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 57 _____________________________________________________________________________________________ composta de luz ultravioleta. São elas: a atividade microbiana. Tipos de microrganismos: os agentes químicos são completamente eficazes sobre bactérias. com relação à resistência aos desinfetantes. apenas os microrganismos existentes na superfície de um objeto diretamente exposto à radiação UV são susceptíveis à destruição. Essas lâmpadas germicidas são amplamente utilizadas para reduzir a população microbiana em salas cirúrgicas de hospitais e em câmaras assépticas de indústrias farmacêuticas. do que se conclui que a luz solar. pelos ácidos nucleicos. ainda. Natureza do material a ser tratado: um exemplo extremo pode ser citado . de modo mais significativo. onde são envasados produtos estéreis e. tempo. Existem muitas lâmpadas que emitem alta concentração de luz UV na região mais efetiva. 5. ausência de combinação com material orgânico estranho. na superfície da Terra. Sendo assim. assim sendo. Uma importante consideração prática. a substância escolhida deve ser compatível com o material no qual é aplicada.5. a radiação ultravioleta. A luz ultravioleta é absorvida por muitas substâncias celulares. solubilidade. 5.900 Å. poder de penetração. Os esporos são mais resistentes que as formas vegetativas. onde ocorre o maior dano. ausência de poderes corrosivos e tintoriais. Existem diferenças entre bactérias gram-positivas e gramnegativas. toxicidade para microrganismos em temperatura ambiente ou corporal. concentração e presença de material orgânico podem influir na taxa e na eficiência da destruição microbiana. . poder desodorizante e capacidades detergentes. pH. tem capacidade microbicida. 2. Conseqüentemente. Algumas especificações podem orientar a preparação de novos compostos e devem ser consideradas nos métodos de avaliação dos desinfetantes destinados ao uso prático.5 Controle pelos agentes químicos Nenhum agente químico antimicrobiano único é o melhor ou o ideal para qualquer ou todas as finalidades. mas. Consequentemente. vírus. o agente escolhido deve ser conhecidamente efetivo contra o organismo a ser destruído.

lentes de instrumentos.8o C. Halogênios (iodo e cloro) 4. 1996). 1. Metais pesados e seus compostos 5. O formaldeído é comercializado em solução aquosa como formalina. tem uma estabilidade limitada.. Este é utilizado para a esterilização de instrumentos e a forma gasosa é utilizada para a desinfecção e esterilização de áreas fechadas. podendo atravessar e esterilizar o interior de grandes pacotes com objetos. Tem grande poder de penetração.5. Tabela 12: Alguns desinfetantes e anti-sépticos comumente utilizados (fonte: Pelczar et al. .2 Principais grupos de desinfetantes e anti-sépticos Alguns dos principais grupos de agentes químicos desinfetantes e anti-sépticos são listados a seguir e a tabela 12 mostra a aplicação destes agentes no controle de microrganismos. Os principais esterilizantes químicos utilizados são: a) Óxido de etileno: composto orgânico (C2H4O) que é líquido a temperaturas abaixo de 10. que contém 37 a 40% (p/v) da substância. Desvantagem: é inflamável e é potencialmente explosivo em forma pura. Detergentes Outros agentes químicos são aplicados na esterilização de materiais e são denominados de esterilizantes químicos.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 58 _____________________________________________________________________________________________ 5. o paraformaldeído. Fenol e compostos fenólicos 2. Tem baixo poder de penetração e seu uso foi restringido devido a sua provável propriedade carcinogênica. incluindo câmaras assépticas utilizadas para procedimentos que devem ser livres de microrganismos. mas acima desta temperatura torna-se um gás. Também são utilizados para esterilizar ambientes fechados. Em temperatura ambiente. Como desvantagem. equipamentos respiratórios e outros equipamentos específicos. São particularmente utilizados para a esterilização de materiais médicos sensíveis ao calor. c) Glutaraldeído: é um líquido oleoso e incolor. Álcoois 3. é corrosivo. Desvantagem: tem fraco poder de penetração. Destina-se à esterilização de instrumentos e materiais termossensíveis. b) β– Propiolactona: é um composta líquido incolor em temperatura ambiente. é extremamente tóxico e seus vapores são irritantes às mucosas. como bolsas de sangue para transfusão. seringas plásticas descartáveis e equipamentos de cateterização. É utilizado em medicina para esterilizar instrumentos urológicos. roupas e certos plásticos. ele polimeriza-se formando uma substância sólida incolor. d) Formaldeído: é um gás que se mostra estável somente em altas concentrações e em temperaturas elevadas.

Em geral. pequenos cortes e abrasões. cromo Mercúrio 1.5 – 5.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 59 _____________________________________________________________________________________________ Desinfetante ou antiséptico Compostos fenólicos Hexilresorcinol. materiais domésticos 0. intermediário = mata o bacilo da tuberculose. assoalhos e termômetros retais (cresóis) Anti-sepsia da pele. Estas substâncias são preparadas em laboratórios químicos ou obtidas de microrganismos.1 – 0. cresóis Alcoóis Álcool etílico. as drogas naturais são diferenciadas dos compostos sintéticos pela denominação específica de antibióticos. anti-sépticos ou germicidas.5 – 3. Alguns destes são preparados por via sintética. e 0. mas a maioria é comercialmente produzida por biossíntese. inclusive os esporos bacterianos. o-Fenilfenol. baixo = não mata esporos bacterianos. desinfecção de instrumentos cirúrgicos e termômetros Nível de atividade * Intermediário a baixo 0. superfícies não metálicas. por litro utensílios de restaurantes.0% Concentração Aplicações Desinfecção de objetos inanimados como instrumentos. As antitoxinas e outras substâncias formadas pelos organismos de animais infectados não são consideradas como agentes quimioterápicos. . desinfecção de instrumentos. utilizado também como preservante em alguns materiais biológicos Compostos quaternários Compostos mercuriais Mertiolate.0% de iodo Intermediário Anti-sepsia da pele.2% Saneamento ambiental de Baixo superfícies e equipamentos Baixo Anti-sepsia da pele.0% * Nível de atividade microbicida: alta = mata todas as formas de vida microbiana. fungos e vírus mas não os esporos bacterianos. utilizado também para desinfecção de água potável e de piscinas iodo a 2% + iodeto de sódio a 2% + álcool 70% Baixo Desinfecção de água. 5. algumas plantas e animais.6 Antibióticos e outros agentes quimioterápicos Os agentes quimioterápicos são substâncias empregadas no tratamento das doenças infecciosas e daquelas que são causadas pela proliferação de células malignas.0g de cloro livre equipamentos de laticínios. superfícies de mesa. o mesmo sendo válido para os compostos que causam a destruição ou inibição de microrganismos in vitro.5–2. bacilo da tuberculose ou vírus não lipídicos em um tempo aceitável. Álcool isopropílico Álcool + iodo Iodo Iodóforo (polivinilpirrolidona) Tintura de iodo Compostos clorados Hipocloritos cloraminas 1. usualmente classificados como desinfetantes.0 % Solução aquosa Intermediário 70 – 90 % 70% + 0.

Ineficácia sobre a flora microbiana normal. que é essencial na síntese de importantes constituintes celulares. devem representar o que se denomina antibióticos de largo espectro. com pequenos danos sobre estas células. 4. após cirurgia ou cateterismo. da infecção de ferimentos e de infecções urinárias. tais como reações alérgicas ou de sensibilidade. Os antibióticos formam um tipo especial de agentes quimioterápicos. As drogas do tipo sulfa são um dos agentes quimioterápicos sintéticos mais conhecidos e utilizados. 2. A sulfa foi primeiramente obtida pelo químico alemão Gerhard Domagk. dentro da célula bacteriana. 2. 3.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 60 _____________________________________________________________________________________________ Um agente quimioterápico satisfatório deve: 1. Ausência de efeitos colaterais indesejáveis. O tipo mais simples de sulfa é a sulfonamida. que é estruturalmente análoga ao ácido para-aminobenzóico (PABA). atingindo concentrações efetivas nos tecidos e nas células hospedeiras. Deixar inalterados os mecanismos naturais de defesa do hospedeiro. de infecções respiratórias por estreptococos e estafilococos e das infecções urinárias devidas a microrganismos Gram-negativos. sem lesar as células do hospedeiro ou. evitando-se assim. Propriedades de um antibiótico útil: 1. geralmente obtidos de organismos vivos. ou seja. 3. . por formas patogênicas habitualmente controladas pela flora normal. consequentemente. Inibindo a formação da parede celular. Capacidade de prevenir o desenvolvimento fácil de formas microbianas resistentes. As sulfonamidas são particularmente úteis no tratamento de infecções causadas por meningococos e Shigella. São importantes na prevenção da febre reumática. irritação renal ou do trato gastrointestinal. Destruir ou inibir a atividade de um parasita. Atividade letal ou inibitória sobre muitas espécies diferentes de microrganismos patogênicos. especialmente. A sulfonamida compete com o PABA pelo sítio ativo de uma enzima envolvida na síntese do ácido fólico. Os antibióticos podem inibir ou destruir os microrganismos de diversos modos: 1. impedindo o estabelecimento de infecções por germes totalmente não-patogênicos ou. lesões nervosas. em 1935. O termo antibiótico designa um produto metabólico de um organismo que é prejudicial ou inibidor para certos microrganismos. provocando uma diminuição na produção do mesmo. da endocardite bacteriana. que é um precursor na síntese do ácido fólico. apenas. tais como a fagocitose e a síntese de anticorpos. em concentrações muito pequenas. a perturbação do equilíbrio natural e. Ser capaz de entrar em contato com o parasita.

.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 61 _____________________________________________________________________________________________ 2. 1980). Bactérias Gram-positivas são geralmente mais sensíveis a antibióticos que as Gram-negativas. a busca da droga ideal continua. não possuem uma parede celular típica bacteriana. Juntamente com a sulfa. (5) o organismo pode alterar. são resistentes a alguns antibióticos. Embora a penicilina seja. usados como antibióticos (fonte: Pelczar. (2) o organismo pode ser ‘impermeável’ ao antibiótico. através de modificação genética. Inibindo o metabolismo dos ácidos nucleicos. É produzida pelo fungo Penicillium notatum. No entanto. algumas bactéria tais como os micoplasmas. sendo assim resistentes à penicilina. A sensibilidade dos microrganismos aos antibióticos pode variar. Um antibiótico que age sobre as bactérias Gram-positivas e Gram-negativas é dito antibiótico de largo espectro. Penicilium. alguns espiroquetas e os diplococos Gram-negativos (Neisseria). Tabela 13: Produtos metabólicos de bactérias e fungos. tornando-o inativo. por exemplo. A penicilina foi o primeiro dos antibióticos modernos e ainda é um dos mais úteis. a via metabólica que o antibiótico bloqueia. Entre os compostos aceitáveis. normalmente existentes no solo. este último pode ser valioso no controle de microrganismos resistentes a outros antibióticos. 3. A resistência devida à propriedade inerente do microrganismo pode ter várias razões: (1) o organismo pode não ter a estrutura sobre a qual o antibiótico atua inibindo. (3) o organismo pode ser capaz de alterar o antibiótico. As drogas mais importantes são produzidas por quatro gêneros de microrganismos: Bacillus. Streptomyces e Cephalosporium. Esta resistência pode ser uma propriedade inerente do microrganismo ou pode ser adquirida (através da mutação ao acaso dos genes cromossômicos). em plena Segunda Guerra Mundial. o solo tem sido profundamente pesquisado na procura de micróbios capazes de produzir novos antibióticos. um dos antibióticos mais valiosos. só passou a ser largamente utilizada no início dos anos 40. A tabela 13 mostra alguns dos principais antibióticos utilizados. notatum foi isolado pela primeira vez pelo médico inglês Alexander Fleming. Lesando a membrana citoplasmática. 4. “jogando-o” para fora da célula (efluxo). Penicillium chrysogenium e outras espécies de bolores. (4) o organismo pode modificar o “alvo” do antibiótico. Certos microrganismos. ainda. P. A penicilina é seletiva para bactérias Gram-positivas. estão aqueles que atuam sobre os microrganismos patogênicos insensíveis ou que se tornaram resistentes à penicilina. (6) o organismo pode ser capaz de eliminar o antibiótico. embora alguns antibióticos atuem somente sobre estas últimas. Assim sendo. em 1929. Interferindo com a síntese protéica. Um antibiótico de espectro restrito age somente sobre um único grupo de microrganismos. porém.

agentes de várias Interfere com a função da micoses membrana citoplasmática Bactérias gram-positivas Inibe a síntese da parede celular Rickettsias.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 62 _____________________________________________________________________________________________ ANTIBIÓTICO (PRODUTO) Ampicilina Anfotericina B Bacitracina Carbomicina (Magnamicina) Cefalosporina C Ciclohexamida (Actidione) Ciclosserina Cloranfenicol (Cloromicetina) Clortetraciclina (Aureomicina) Colistina (Colimicina) Dimetiltetraciclina Eritromicina (Iloticina) Estreptomicina FONTE MICROBIANA Penicillium sp. Streptomyces griseus ESPECTRO PRIMÁRIO Bactérias gram-positivas negativas MODO DE AÇÃO e Inibe a síntese da parede celular Fungos. Streptomyces nodosus Bacillus subtilis Streptomyces halstedii Cephalosporium sp. bactérias gram. anormais Mycobacterium tuberculosis Cont. bactérias gram. especialmente Inibe a síntese protéica fitopatogênicos Inibe a síntese da parede celular Interfere protéica Interfere protéica com com a a síntese síntese Streptomyces orchidaceous Mycobacterium tuberculosis e Streptomyces lavendulae Streptomyces venezuelae Streptomyces aureofaciens Bacilus colistinus Largo espectro Largo espectro Pseudomonas spp. da tabela 13 Nistatina Streptomyces noursei Candida intestinal. Streptomyces fradiae Mycobacterium tuberculosis Bactérias gram-positivas Estafilococos Bactérias gram-positivas e Induz a síntese de proteínas gram-negativas. anormais Mycobacterium tuberculosis Amebas Fungos patogênicos Interfere protéica com a síntese Fumagilina (Amebacilina) Griseofulvina Aspergillus fumigatus Streptomyces griseus Interfere com a parede celular fúngica e com a síntese de ácidos nucleicos Induz a síntese de proteínas anormais Inibe a síntese protéica Inibe a síntese da parede celular Kanamicina Lincomicina Meticilina Neomicina Streptomyces kanamyceticus Streptomyces lincolnensis Penicillium sp. Deteriora a citoplasmática Interfere protéica com com membrana a a síntese síntese Streptomyces aureofaciens Largo espectro (mutante) Streptomyces erythraeus Streptomyces griseus Rickettsias.Interfere positivas protéica Bactérias gram-positivas e Induz a síntese de proteínas gram-negativas.Inibe a síntese protéica positivas Bactérias gram-positivas Inibe a síntese da parede celular Fungos. micoses Danifica a citoplasmática membrana .

Inibe a síntese protéica positivas Largo espectro Bactérias gram-positivas Bactérias gram-negativa Largo espectro Interfere protéica com a síntese Inibe a síntese da parede celular Deteriora a citoplasmática Interfere protéica com membrana a síntese Bactérias gram-positivas. Streptomyces niveus. Inibe a síntese da parede Neisseria. bactérias gram.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 63 _____________________________________________________________________________________________ Novobiocina (Catomicina) Oleandomicina Oxitetraciclina (Terramicina) Penicilina G Polimixina B Tetraciclina Vancomicina Viomicina Streptomyces griseus. Streptomyces spheroides Streptomyces antibioticus Streptomyces rimosus Penicillium chrysogenum Bacillus polymyxa Streptomyces aureofaciens Streptomyces orientalis Streptomyces floridae Bactérias gram-positivas Inibe a ADN polimerização do Rickettsias. Clostridium tetani celular Mycobacterium tuberculosis Interfere protéica com a síntese .

(SBI) CAMARGO.. Saunders College Publishing. New Jersey. J. The World of Biology. 1986. 1993.M. KLEIN. 1995. São Paulo.B. & LEITE. Ed.) Microbiology in Today’s World. Saunders College Publishing. E. 728p. L. J.S..T.D. São Paulo.J. J. (caderno de práticas). EICHHORN.L. (SBI) GODINHO. (apostila de aula da disciplina Microbiologia).C.. Times Mirror/Mosby College Publishing. A. L. L. PARKER. Rio de Janeiro. & ULLOA. COLLINS. BERG.. 1980... D.. São Carlos. MADIGAN. JAWETZ.. 138p. 935p.1995. 143p. UFSCar. HANLIN. N. UNESP. (SBI) PRESCOTT.C. Campinas.P. C. Porto Alegre. & BERG.M. Missouri. (apostila de aula).1. C. CHAN.H.F. D. E.. (SBI) RAVEN. MARTINKO. E. 1989. 1988.W. LEVINSON.E.P. 1996.H. D. Microbiologia Médica e Imunologia.P.V.. (SBI) NEDER.D. Aulas Práticas de Microbiologia. Fundamentos de Microbiologia para Professor III. SOLOMON. & JOHNSON. Vol. Kendall / Hunt Publishing Company. Bergey's manual of determinative bacteriology. T. 196p.F.. 1996. GATTI. W. L. P. 524p.K. Collins and Lyne’s Microbiological Methods. Butterworth-Heinemann Ltd.. USA.. J. 1985.R. (SBI) PELCZAR JR. 19p. (SBI) PELCZAR. Biology of Microorganisms. 909p. GRANGE.R. 1990. J.A. N. 1992. 1998. WCB Publishers. SERAFIM...S.P. 493p. Baltimore. S. São Paulo. G.S.. UNICAMP.G.T.C. EUA. Livraria Nobel. R. KRIEG. Makron Books. M. & JAVAROTI. Biologia vegetal. Microbiologia. & KRIEG. M. R. 1998. 1994. Hunter Textbooks Inc. 5a ed.F. M.Q.. 2nd ed. Ed. Microbiologia – Manual de Laboratório. M. 787 p (SBI) HUDSON. 928p. 9th ed.H. EVERT. B. Biology. R. Guanabara Koogan. RICCI.. E. E. North Carolina. 7th ed. 1996. 2a ed. M. (SBI) Observação: (SBI) = Livros disponíveis na Biblioteca do IFSC . CASTRO. 1198p. 415 p. (SBI) HOLT.M. CHAN.R.R. P. 1005p. LAZARO.. Atlas of Introductory Micology.M. 3rd ed. (SBI) RAVEN. REID. Microbiology. The World of Biology. BERGEY.F.R. Ensino de Microbiologia para Alunos de Primeiro Grau.C. (ed. Ed.. M.B.M. 7th ed.N. Microbiologia: conceitos e aplicações. Artmed. J. P.IFSC / LCE / Biologia 3 – Microbiologia 64 _____________________________________________________________________________________________ 6 Bibliografia BROCK.. Williams & Wilkins. P.M. SOLOMON.H.. Araraquara. McGraw-Hill. A. LYNE.. Prentice-Hall International. Z. HARLEY. (SBI) DAVIS. R. volumes 1 e 2..

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