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Dom Casmurro
Machado de Assis

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dou-lhe chá. mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. . vindo da cidade para o Engenho Novo.se não tiver outro daqui até ao fim do livro. para atribuir-me fumos de fidalgo. a casa é a mesma da Renania. porém. disse eu acordando. e eles.Continue. Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso. encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro.“Vou para Petrópolis. vê se deixas essa caverna do Engenho Novo. Sucedeu. e vai lá passar uns quinze dias comigo. que. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. .São muito bonitos. domingo vou jantar com você.”. por graça. que afinal pegou. e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. estava amuado. . sentou-se ao pé de mim. Os vizinhos. que eu conheço de vista e de chapéu.Dom Casmurro Machado de Assis CAPÍTULO 1 DO TÍTULO Uma noite destas.” Não consultes dicionários. que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados. Cumprimentou-me. E com pequeno esforço. chamam-me assim. Dom Casmurro. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão. murmurou ele. e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. como eu estava cansado. alguns em bilhetes: “Dom Casmurro. vai este mesmo. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios. Contei a anedota aos amigos da cidade. tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. e acabou recitando-me versos. A viagem era curta. mas não passou do gesto. dou-lhe cama.Já acabei. Nem por isso me zanguei. fechei os olhos três ou quatro vezes.”. deram curso à alcunha. não cuide que o dispenso do teatro amanhã. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração . . falou da lua e dos ministros. só não lhe dou moça.“Meu caro Dom Casmurro. dou-lhe camarote. Dom veio por ironia. venha e dormirá aqui na cidade.

Antes disso. Nero e Massinissa. Não alcanço a razão de tais personagens. fi-la construir de propósito. e ao centro das paredes os medalhões de César. com os nomes por baixo. mas vá lá. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida. vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde. Vivo só. Uso louça velha e mobília velha. O mais é também análogo e parecido. como outrora. já ela estava assim decorada. como se diz nas autópsias. como todos os documentos falsos. A casa em que moro é própria. semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos. porém. umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos. legume. se o rosto é igual. todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos. Pois. Quanto às . varanda ao fundo. agora. Enfim.. mal comparando. Na principal destas. poderá cuidar que a obra é sua. passo a escrever o livro. com um criado. e restaurar na velhice a adolescência. lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos. flores. um poço e lavadouro. Augusto. as mesmas alcovas e salas. a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual. a fisionomia é diferente. que desapareceu. o interno não agüenta tinta. levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo. que é pacata. mas não a mim. dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra. senhor. vinha do decênio anterior. Se só me faltassem os outros. CAPÍTULO 2 DO LIVRO Agora que expliquei o título. alguns nem tanto. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos. O que aqui está é. com a exterior. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado.sendo o título seu. e que apenas conserva o hábito externo. há aqui o mesmo contraste da vida interior. Os amigos que me restam são de data recente. e esta lacuna é tudo. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações.. Em tudo. Há livros que apenas terão isso dos seus autores. Tenho chacrinha. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas. três janelas de frente. mais falto eu mesmo. Um dia. uma casuarina. que é ruidosa. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos. não consegui recompor o que foi nem o que fui. de espaço a espaço. digamos os motivos que me põem a pena na mão. há bastantes anos.

Eia. Sim. Depois. Quis variar. o mês novembro. como bem e não durmo mal. A casa era a da Rua de Mata-cavalos.. Entretanto. o ano era de 1857. Jurisprudência. Augusto. e piores. aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei. Duas ou três fariam crer nela aos outros. mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários. É o que vais entender. uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos. O mais do tempo é gasto em hortar. tudo árido e longo. CAPÍTULO 3 A DENÚNCIA Ia entrar na sala de visitas. Fiquei tão alegre com esta idéia. Distrações raras. era obra modesta. Nero. melhores. mas o do Fausto: Aí vindes outra vez. conservo alguma recordação doce e feiticeira. . esta monotonia acabou por exaurir-me também. que me incitas a fazer os meus comentários. comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro. e.. e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta. agradeço-vos o conselho. outras de menos. Ora. viverei o que vivi. mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas. que nunca me esqueceu. como ao poeta. Talvez a narração me desse a ilusão. lendo. jardinar e ler. é outra coisa a certos respeitos. como tudo cansa. Em verdade. mas exigia documentos e datas como preliminares. e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. filosofia e política acudiram-me. mas não me acudiram as forças necessárias. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que. de memória. inquietas sombras?. o ano é que é um tanto remoto. Massinissa.amigas. quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. pensei em fazer uma “História dos Subúrbios” menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade. que ainda agora me treme a pena na mão. e tu. e tal freqüência é cansativa. mas aquela nunca se me apagou do espírito. e quase todas crêem na mocidade. vida diferente não quer dizer vida pior. Tive outras muitas. pegasse da pena e contasse alguns. Deste modo. pouco apareço e menos falo. grande César. algumas datam de quinze anos. e as sombras viessem perpassar ligeiras. não o do trem. e lembrou-me escrever um livro.

Mano Cosme.. há dez anos. vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes. daí vieram as nossas relações. mas não me atrevia.Pode ser minha senhora.Não acho.Há algum tempo estou para lhe dizer isto. que. em que a família Pádua perdeu tanta coisa.Mas. a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo. Metidos nos cantos? . parece-lhe que todos têm a alma cândida. e que o Padre Feijó governou o Império. . . depois de alguns instantes de concentração.Perdão. são dois criançolas. uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre. . . estou citando O que eu . . . Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos..Que dificuldade? . vai sendo tempo. veio ver se havia alguém no corredor. . Não se esqueça que foram criados juntos.Governo como a cara dele! atalhou tio Cosme. você que acha? Tio Cosme respondeu com um “Ora!” que. voltou e.Bem. traduzido em vulgar. Bentinho quase que não sai de lá... Pois eu hei de crer?. sempre juntos. a senhora terá muito que lutar para separá-los. senhor José Dias. e esta é a dificuldade.Uma grande dificuldade. . Basta a idade. não estou defendendo ninguém. Oxalá tenham razão. Capitu fez quatorze à semana passada. Compreendo o seu gesto. creio que o senhor está enganado. a gente do Pádua.. Em segredinhos. o pai faz que não vê. .. José Dias. tem-se ganho o principal. ... desde aquela grande enchente. abafando a voz. queria dizer: “São imaginações do José Dias os pequenos divertem-se.Em todo caso. não deu por mim. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga.A gente do Pádua? . porque se eles pegam de namoro. tenho visto os pequenos brincando. tomara ele que as coisas corressem de maneira. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte. .Sim.Dona Glória. onde está o gamão?” . e já agora pode haver uma dificuldade.. e nunca vi nada que faça desconfiar. A pequena é uma desmiolada. a senhora não crê em tais cálculos. Minha mãe quis saber o que era. disse que a dificuldade estava na casa ao pé. cedendo a antigos rancores políticos. doutor. interrompeu minha mãe. mas creia que não falei senão depois de muito examinar.É um modo de falar. Bentinho mal tem quinze anos. eu divirto-me.

prima Justina? . há de cumprir-se.. bem pensado. Creio que. era então moda.Verdade é que cada um sabe melhor de si. vá buscar o gamão.Sei que você fez promessa.quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil. Você que acha. mas um vagar calculado e deduzido. servia a prolongar as frases. para cumprir um dever amargo. uma promessa de tantos anos. Prima Justina exortava: “Prima Glória! Prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se soubesse. com um arco de aço por dentro. que é isso. presilhas. pela estima. Contudo. um silogismo completo. ande. um dever amaríssimo.Você o que quer é um capote. Quanto ao pequeno. durante o qual estive a pique de entrar na sala.. continuou tio Cosme. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas.É promessa.Deus é que sabe de todos.. com um princípio de calva. não sei. realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro. Um dever amaríssimo! . parecia nele uma casaca de cerimônia.. Seguiu-se um alto silêncio. não aquele vagar arrastado se era dos preguiçosos. mana Glória. mana Glória? Está chorando? Ora esta pois isto é coisa de lágrimas? Minha mãe assoou-se sem responder. teria os seus cinqüenta e cinco anos.. . Era magro. mas falei pela veneração. rodaque e gravata de mola. Levantou-se com o passo vagaroso do costume. A gravata de cetim preto.. mas outra força maior. imobilizava-lhe o pescoço. e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas. “ CAPÍTULO 4 UM DEVER AMARÍSSIMO! José Dias amava os superlativos.Eu? . se tem de ser padre. chupado. Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. outra emoção. Era um modo de dar feição monumental às idéias. olhe cá.. a premissa antes da conseqüência. a conseqüência antes da conclusão. pelo afeto.. Levantou-se para ir buscar o gamão.. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. Mas. Cosi-me muito à parede.. não teria falado.. O rodaque de chita. Mas.. há mesmo necessidade de fazê-lo padre? .. veste caseira e leve. mas uma promessa assim. que estava no interior da casa. .. não as havendo. e talvez neste mundo.

mas comunicativo. Eles. se era preciso. os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos. aceitou casa e comida sem outro estipêndio. sim. Não foi despedido.Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário. Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola. ria largo. suspirou e acabou confessando que não era médico. de um grande riso sem vontade. . você curou das outras vezes. e teve o seu quarto ao fundo da chácara. toda a cara. Também se descompunha em acionados. mas fique morando conosco. para servir à verdade. mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes. Voltou dali a duas semanas. disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. tão natural nesta como naquela maneira.. dava-se por falta dele. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo. com pequeno ordenado. e não o fez sem estudar muito e muito. Um dia.Voltarei daqui a três meses. os olhos.. Era nosso agregado desde muitos anos. meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí. José Dias curou o feitor e uma escrava. porém. a tal ponto ás bochechas. mas é tempo de restabelecer tudo. o mais acertado. . a homeopatia é a verdade. José Dias deixou-se estar calado. salvo o que quisessem dar por festas.Creio que sim. Eu era um charlatão. gravíssimo. . José Dias recusou. Não negue. e eu acabava de nascer. Havia então um andaço de febres.CAPÍTULO 5 O AGREGADO Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. levava um Manual e uma botica. . eles. toda a pessoa. Nos lances graves. todo o mundo pareciam rir nele. . era muita vez rápido e lépido nos movimentos. reinando outra vez febres em Itaguaí.Mas. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata. é dizer que foram os remédios indicados nos livros. meu pai já não podia dispensá-lo. como pedia então. os dentes. e não quis receber nenhuma remuneração. dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre. Outrossim. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família. menti. abaixo de Deus. e. ele veio também.

tinha amigos em Lisboa. falar dos efeitos do calor e do frio. ao menos. que era religiosa. uma apólice e quatro palavras de louvor. ou explicar algum fenômeno. A roupa durava-lhe muito. Minha mãe ficou-lhe muito grata. adquiriu certa autoridade na família. “Esta é a melhor apólice”. Teve um pequeno legado no testamento. era a casa dos três viúvos. . abotoado. mas a nossa família. repetiu José Dias cheio de veneração. Era lido. Copiou as palavras. . ele foi despedir-se dela. . Tinha o escritório na antiga Rua das Violas. Já então era viúvo. e sabia opinar obedecendo. CAPÍTULO 6 TIO COSME Tio Cosme vivia com minha mãe.Obedeço. ao sétimo dia. ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo. disseram-me. cerzido. Com o tempo. dizia ele muita vez. minha senhora. já teria voltado para lá. como prima Justina. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. era tudo.como de pessoa da família.Fique. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa.Abaixo. Ao cabo. ele trazia o velho escovado e liso. confiava-lhe a cópia de papéis de autos. Quando meu pai morreu. Era quem lhe vestia e despia a toga. com muitos . certa audiência. posto que de atropelo. tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. José Dias agradeceu de cabeça. perto do júri.Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia. que era advogado. E minha mãe. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. dizia ele. abaixo de Deus. não me lembra. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar. não direi ótimo. Tio Cosme. era amigo. que era no extinto Aljube. e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara. de uma elegância pobre e modesta. por cima da cama. E não lhe suponhas alma subalterna. a dor que o pungiu foi enorme. encaixilhou-as e pendurou-as no quarto. desde que ela enviuvou. não abusava. o bastante para divertir ao serão e à sobremesa. e confessava que a não sermos nós. depois da missa. Trabalhava no crime. José Dias. . Formado para as serenas funções do capitalismo. dos pólos e de Robespierre. mas nem tudo é ótimo neste mundo. e sorriu aprovando. as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole.

segundo impulso. e tinha medo ao cavalo. e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas.Mana Glória. tenho medo. além de partidário exaltado. “Agora é que ele vai namorar deveras”.Deve acostumar-se. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. Padre que seja. ainda não sendo padre.a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão.Medo! Ora. e a besta partia a trote. por mais modesto que quisesse ser. se for vigário na roça. Tio Cosme. e. medo! A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde. tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório. Em casa. sozinho e desamparado. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta.Pois que se queixe. cuidou que me estivessem matando. afagou-me. Era gordo e pesado. . Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor. igual efeito. há de queixar-se de você. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo. sorria de persuasão. Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde. Quando me vi no alto (tinha nove anos). o corpo ameaçava subir. . menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. em rapaz. o primeiro. Nele era velho costume e necessidade. Tio Cosme acomodava as carnes. foi aceito de muitas damas. Já não dava para namoros. tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. enquanto o irmão perguntava: .Não está acostumado. referia os debates. enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo . O preto que a tinha ido buscar à cocheira segurava o freio. e desta vez caía em cima do selim. Uma ou outra vez dizia pilhérias. Depois. dava um impulso. Não se diria o mesmo de tio Cosme. eu não sabia montar. pegou-me. se quiser florear como os outros rapazes. . e não souber. pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa? . Contam que. dava o último surto da terra. é preciso que monte a cavalo. o chão lá embaixo.cumprimentos no fim. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo. disseram quando eu comecei as lições. mas não subia. Enfim. entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula. mana Glória. aqui mesmo. . mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual. após alguns instantes largos.

e deixou-se estar na casa de Mata-cavalos. em bandós. como ninguém tachou de má a boceta de Pandora. continuar um sonho provavelmente. eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. mas teimava em esconder os saldos da juventude. Vendeu a fazendola e os escravos. alguma vez trazia a touca branca de folhas. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais. a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande. descendente de outra paulista. Lidava assim. Era filha de uma senhora mineira. eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade. desde manhã até à noite. Pedro de Albuquerque Santiago. sem adornos. o retrato mostra uns olhos redondos. Dona Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. Contava então vinte anos. por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Vivia metida em um eterno vestido escuro. tais quais na outra casa. a um lado e outro. dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu. vendo e guiando os serviços todos da casa inteira. Os cabelos. ergo os . Quando lhe morreu o marido. em alguma parte há de ela ficar. contava trinta e um anos de idade. uma dúzia de prédios. Não quis. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. ao lado do marido. efeito da pintura que me assombrava em pequeno. salvo um trechozinho pegado às orelhas. Tenho ali na parede o retrato dela. com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos. que me acompanham para todos os lados. comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou. onde vivera os dois últimos anos de casada. se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande.CAPÍTULO 7 Dona GLÓRIA Minha Mãe era boa criatura. por lhe ter ficado a esperança no fundo. Não me lembra nada dele. O de minha mãe mostra que era linda. que se foram desta para a outra vida. a cara é toda rapada. preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. Quando a loteria e Pandora me aborrecem. O que se lê na cara de ambos é que. e tinha uma flor entre os dedos. os bem-aventurados. os bem-amados. No painel parece oferecer a flor ao marido. e podia voltar para Itaguaí. Concluo que não se devem abolir as loterias. mas ainda dá idéia de ambos. Era ainda bonita e moça. com um xale preto. A pintura escureceu muito. pois. certo número de apólices. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora. a família Fernandes. naquele ano da graça de 1857. Ora.

. dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu. Talvez valha a pena dá-la. repetiu-me a definição do costume. e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera. parece dizer: “Sou toda sua. o preparo das rabecas. abanou a cabeça e replicou: . CAPÍTULO 9 A ÓPERA Já não tinha voz.olhos para eles. tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena.. O de minha mãe. ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu.. uma tarde clara e fresca. a sinfonia. São como fotografias instantâneas da felicidade. Trazia ainda os bigodes dos seus papéis.. Quando andava. não sei. algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto . estendendo a flor ao marido. cantarolava. E explicou-me um dia a definição. o empresário cometia mais uma. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida. o acender das luzes. sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. como uma viagem de mar ou uma batalha. “A vida é uma ópera”. sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. e ele saía a bradar contra a iniqüidade. em tal maneira que me fez crer nela. São retratos que valem por originais.” Se padeceram moléstias. como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. apesar de velho. As vezes. “O desuso é que me faz mal”. olhando para a gente. Agora é que eu ia começar a minha ópera. é só um Capítulo. sem abrir a boca.vozes assim abafadas são sempre possíveis. meu guapo cavalheiro!” O de meu pai. mas teimava em dizer que a tinha. Depois da morte dele. parecia cortejar uma princesa de Babilônia. Uma noite. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. CAPÍTULO 8 E TEMPO Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro. lembra-me que ela chorou muito. mas aqui estão os retratos de ambos. acrescentava... depois de muito Chianti. faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer.

Tudo se teria passa do sem mais nada. Aqui tendes a partitura.. com todas as partes.. pousou o cálix. e acaso para reconciliar-se com o céu. Criou um teatro especial. Foi talvez um mal esta recusa. por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. meu caro Marcolini. O tenor e o barítono lutam pelo soprano.compôs a partitura. muitos bailados. escutai-a emendai-a.. de beber um gole de licor. consentiu em que a ópera fosse executada.. não quero saber de ensaios. fazei-a executar. . e a orquestração é excelente. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. em presença do baixo e dos comprimirás.. Há coros a numerosos..Quê. e ele expulso do conservatório. Rival de Miguel.. em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. até que Deus.. E depois. estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. Senhor. . A música é de Satanás. e inventou uma companhia inteira.Nada! nada! Satanás suplicou ainda. não desaprendi as lições recebidas.Senhor..Não. jovem maestro de muito futuro. que aprendeu no conservatório do céu. disse-lhe.A vida é uma ópera e uma grande ópera.Mas. fugindo à . Basta-me haver composto o libreto. Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição. sem melhor fortuna. Deus é o poeta. não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. admiti-me com ela a vossos pés.. . dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito.Mas. se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão. para a esquerda. e expôs-me a história da criação. cansado e cheio de misericórdia. ... . retorquiu o Senhor. este planeta. Rafael e Gabriel. Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo. . Com o fim de mostrar que valia mais que os outros.Não. quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor. mas fora do céu. e se a achardes digna das alturas. e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. com palavras que vou resumir. . não quero ouvir nada. primárias e comprimárias. há lugares em que o verso vai para a direita e a música. coros e bailarinos.Ouvi agora alguns ensaios! .

Certos motivos cansam à força de repetição. sem razão suficiente. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. No princípio era o dó. eu não tenho graça.Graça? bradou ele com fúria. e. que a partitura corrompeu o sentido da letra. por exemplo. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais. e talvez italiano.. Tal é a opinião dos imparciais.. e aquelas desapareçam inteiramente.. não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. e assim explicam o terceto do Éden. Satanás em papel. pode ser que tenor. evidentemente. os coros da guilhotina e da escravidão. etc. é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. Tudo é música. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. concluiu o velho tenor. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam.monotonia. mas tudo cabe na mesma ópera. Já não dizem o mesmo os amigos deste. O grotesco. há de haver algum. o maestro abusa das massas corais. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera. não está no texto do poeta. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia. ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas. . . e do dó fez-se ré. . e trabalhada com arte em outros. Deus recebe eu ouro. mas. poucos os escolhidos”. O êxito é crescente. mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas. a ária de Abel. . é um plagiário. Juram que o libreto foi sacrificado. Um dia quando todos os livros forem queimados por inúteis. Também há obscuridades. que não são os mesmos. eu tenho horror à graça.Esta peça. é absolutamente diversa e até contrária ao drama. Este cálix (e enchia-o novamente). durará enquanto durar o teatro. meu amigo.. e replicou: Caro Santiago. Isto que digo é a verdade pura e última. com tal arte e fidelidade. posto seja bonita em alguns lugares. Dizem eles que. este cálix é um breve estribilho. que ensine esta verdade aos homens. nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados. encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso.Tem graça. mas aquietou-se logo. que parece ele próprio o autor da composição.

prometendo. mas enviuvou antes disso. em que eu vim a saber que já cantava. metê-lo na Igreja. foi dada principalmente a mim. CAPÍTULO 11 A PROMESSA Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor. mas era tão devota. e há filósofos que são. dizia-me sempre que era para aprender a ser padre. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. Talvez esperasse uma menina. por aquele Padre Cabral. nem antes. depois um trio. mas porque a minha vida se casa bem à definição. confiando a promessa a parentes e familiares. aceito a teoria do meu velho Marcolini. tenores desempregados. tão temente a Deus. Não disse nada a meu pai. sentiu o terror de separar-se de mim. A mim é que ele me denunciou. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. Mas não adiantemos. tudo convergia para o altar quando íamos à missa. velho amigo do tio Cosme. contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola. vamos à primeira parte. e a ocasião destes é a que vou dizer. não só pela verossimilhança. e corri à varanda do fundo. Prazos largos são fáceis de subscrever. que buscou testemunhas da obrigação. Unicamente. depois um quatro. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos. datava de dezesseis anos. que é muita vez toda a verdade. para que nos separássemos o mais tarde possível. Viúva. Imagens de santos. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho. a imaginação os faz infinitos. Os projetos vinham do tempo em que fui concebido. Cantei um duo tecnicismo. meu caro leitor. brincos de criança.CAPÍTULO 10 ACEITO A TEORIA Que é demasiada metafísica para um só tenor. Eu. deixei o esconderijo. minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse. e que . nem depois de me dar à luz. fez-me aprender em casa primeiras letras. se fosse varão. em resumo. por ser já então história velha. porque a denúncia de José Dias. não há dúvida. conversações de casa. Entretanto ia-me afeiçoando à idéia da Igreja. que ia lá jogar às noites.. leitor amigo. latim e doutrina. livros devotos.. mas a perda da voz explica tudo.

e me derramava não sei que bálsamo interior... atordoado.” Tijolos que pisei e repisei naquela tarde... Capitu e eu. No tempo em que brincávamos assim. a tal ponto que eu supunha ser negócio findo. E as vozes repetiam-se confusas. Às vezes dava por mim. que eu devia dizer três vezes. a hóstia era sempre um doce. brincava de missa. como alma perdida. que me envolvia em mim mesmo. ia tonto. voltava com ela. arranjávamos o altar. e me trazia arrepios. penso que só dizia uma. era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer.. tal era a gulodice do padre e do sacristão. porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. não tínhamos o primeiro. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim. não tirasse os olhos do padre.” “Sempre juntos. José..reparasse no padre. Não bebíamos vinho nem água. estacando para amparar-me.. as pernas bambas. podiam antes o seminário do mundo que o de S. non sum dignus.. “Em segredinhos. Arranjávamos um altar. Dominus. Isto. um ar de riso de satisfação. não havendo vocação.” “Se eles pegam de namoro. para apertá-la muito.um tanto às escondidas. Em casa. Comecei a andar de um lado para outro. sorrindo... colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda. e alterávamos o ritual. CAPÍTULO 12 NA VARANDA Parei na varanda. e ia pedir hóstia por outro nome.” “Em segredinhos. e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. ou pegava-me na mão. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: “Sempre juntos. no sentido de dividirmos a hóstia entre nós. e logo me dispersava. Não me atrevia a descer à chácara. que desmentia a abominação do meu pecado. Ultimamente não me falavam já do seminário. a sensação de um gozo novo...” . respondia afirmativamente. e passar ao quintal vizinho. Quinze anos. em vós me ficou a melhor parte da crise. segundo eu ia ou vinha. a pretexto de nada. o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. e andava outra vez e estacava.. Ela servia de sacristão. engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias.

vendo-me inquieto e adivinhando a causa. e eu dizia que não. e Capitu a mim? Realmente. Pois. Fez-se cor de pitanga. ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes. mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos. francamente. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera. uma flor . só agora entendia a comoção que me davam essas e outras confidências. Pássaros. algum gesto. agora os sentia como sinais de alguma coisa.” Um coqueiro.. as perguntas curiosas. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia. e eram aventuras extraordinárias. mais ainda que nos velhos livros. e no último ano era completa. apenas reproduziam a nossa familiaridade. Era um coqueiro velho. Capitu um dia notou a diferença. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras. andava cosido às saias dela. a matéria das nossas conversações era a de sempre. Também . Capitu chamava-me às vezes bonito. dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus. que subíamos ao Corcovado pelo ar. os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício. Eu. sem fazer o mesmo aos dela.mas eu retorquia chamando-lhe maluca. ao contrário. que dançávamos na lua. Entretanto. Também eu os contava. mas esta voltou pouco a pouco. toda a gente viva do ar era da mesma opinião. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos. Com que então eu amava Capitu. a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer.. que me não descobriam nada.. tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis . e eu cria nos coqueiros velhos. dizendo que os achava lindíssimos. é certo que não estabelecemos logo a antiga intimidade. murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze. os cuidados. mas a causa dela fugia-me. depois que saiu do colégio. borboletas. A emoção era doce e nova. e assim as meias palavras. eram tudo travessuras de criança. ouvia-lhe contar que sonhara comigo. sem que eu a buscasse nem suspeitasse.outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. nem os cantos outra utilidade. Os silêncios dos últimos dias.“Se eles pegam de namoro. o gosto de recordar a infância. Antes dela ir para o colégio. disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava. eu. mocetão. depois de certa hesitação. as respostas vagas. uma cigarra que ensaiava o estilo. alguma frase. e muita vez não passavam da simples repetição do dia.. Os que eu tinha com ela não eram assim.

mas com exclusivismo também. a eterna Verdade não valeria mais que ele. o mal que dissera. Naturalmente por ser minha. A porta não tinha chave nem taramela. Se se falava nela. e caminharam para o quintal vizinho. nem a eterna Bondade. Em crianças.Mamãe! E outra vez na casa: . As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. CAPÍTULO 13 CAPITU De repente.Vem cá! Não me pude ter. Naturalmente também por ser a primeira. estacavam. desandavam. é verdade. ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: E no quintal: . e valem de si mesma. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam. o mal que fizera. essa revelação da consciência a si própria. e. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço. assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe. apenas inferiores aos braços. Esse primeiro palpitar da seiva. Naquele instante. com intervalos.adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. segundo era louvor ou crítica. Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias. o médico era eu. As minhas chegaram ao pé do muro. para imitar o . Era quase que exclusivamente nossa. Que as pernas também são pessoas.abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro. quando Capitu e eu éramos pequenos. e às manhãs também. em minha casa. prestava mais atenção que dantes. que me denunciara a mim mesmo. e escutá-la de memória. e estremecer quando lhe ouvia os passos. Quando as bonecas de Capitu adoeciam. às tardes. e a quem eu perdoava tudo. quando a cabeça não as rege por meio de idéias. Era costume delas. e fechava-se ao peso de uma pedra pendente o uma corda. nem as demais Virtudes eternas. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês. quando éramos somente companheiros de travessuras. trêmulas e crentes de abarcar o mundo. fazíamos visita batendo de um lado. e o que pudesse vir de um e de outro. nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. nunca mais me esqueceu.

E emendei logo. forte e cheia. como se viesse já da porta dos fundos. encostou-se ao muro. eram curadas com amor. . “É surda. Capitu estava ao pé do muro fronteiro.vem cá. voltada para ele. e entrei. se não. você tem alguma coisa. tinha a boca fina e o queixo largo. porque ela veio a mim. mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. com certeza. à moda do tempo.Eu? Nada. um coração que desta vez ia sair.bengalão do Doutor João da Costa. riscando com um prego.Que é que você tem? repetiu. pela boca fora. olhos claros e grandes. como se quisesse esconder alguma coisa. não. Quis insistir que nada. com as pontas atadas uma à outra. exclamava Capitu. apertada em um vestido de chita. ao dar comigo. não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador. tinha agora a vista não . é que não gostava. e perguntou-me inquieta: . meio desbotado. e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico. . . Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos. Caminhei para ela. rasos e velhos. Todo eu era olhos e coração. Afinal fiz um esforço. .Que é que você tem? . balbuciei finalmente.Notícia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. naturalmente levava o gesto mudado. tomava o pulso à doente e pedia-lhe que mostrasse a língua. . O rumor da porta fê-la olhar para trás. nariz reto e comprido.Mamãe! . As mãos. Então eu coçava o queixo. mas não achei língua. Morena. alta. A voz da mãe era agora mais perto. empurrei a porta. feitos em duas tranças. a que ela mesma dera alguns pontos. Calçava sapatos de duraque. Os cabelos grossos. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido. Se a consternasse é que realmente gostava de mim. desciam-lhe pelas costas.Capitu! . a despeito de alguns ofícios rudes. como o doutor.Deixa de estar esburacando o muro . Quis passar ao quintal.É uma notícia. pareciam agora presas ao chão. senti que não poderia falar claramente. .Não é nada. há pouco tão andarilhas. coitada!”.Nada. mas as pernas.

Então quis vê-los de perto. como dissera a mãe. não falamos nada. e dei um passo. mas. .Então? . sem suspeitar as do amar. o muro falou por nós.. e ficamos a olhar um para o outro.. o lugar em que ela estivera riscando. Não soltamos as mãos. escrevendo ou esburacando. abertos ao prego. Dei um pulo. e sim dispostos: BENTO CAPITOLINA Voltei-me para ela. Padre futuro... e depois de vagarem ao perto. CAPÍTULO 14 A INSCRIÇÃO Tudo o que contei no fim do outro Capítulo foi obra de um instante. Não nos movemos. fundindo-se. por um latim que ninguém aprende e é a língua . as mãos é que se estenderam pouco a pouco. ou por temer que eu acabasse fugindo..sei como. pegando-se. e antes que ela raspasse o muro. mas quero ser poupado. Ergueu-os logo. todas quatro. Vi uns riscos abertos e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. correu adiante e apagou o escrito. sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. Capitu agarrou-me. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se. Devia tê-la marcado. tornavam a meter-se uns pelos outros. mas não traria nenhum. ou por negar de outra maneira. estava assim diante dela como de um altar. Nisto olhei para o muro. li estes dois nomes.. Conhecia as regras do escrever. e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse. Não marquei a hora exata daquele gesto. A boca podia ser o cálix. nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era. tu valias bem duas ou três páginas. os lábios a patena. sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite. Faltava dizer a missa nova. devagar. O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido.Você sabe. apertando-se. Confissão de crianças. Em verdade.. Capitu tinha os olhos no chão.. tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. tinha orgias de latim e era virgem de mulheres.

cansada de esperar. que disse ser o retrato dele. não agüenta. . dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. com o prego. era o essencial.Não me estragues o reboco do muro. faziam das duas criaturas uma só.eu estava ainda sob a ação do que trouxe. . por mais que devesse fazê-lo. que estava à porta dos fundos. pernas e braços curtos. não ria.católica dos homens. Há coisas que só se aprendem tarde é mister nascer com elas . apagou os nossos nomes escritos. Não me tenhas por sacrilégio. Capitu foi ao muro.Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu.Capitu! . Soltamos as mãos depressa. e ficamos atrapalhados. apesar do gesto duvidoso. Ninguém lhe chamava assim lá em casa. . . que José Dias lhe pôs. para legitimar a resposta de Capitu. ele chegou sem cólera. convidando-me ao jogo.Estávamos. unindo os nervos.Papai! . mm uma só criatura seráfica. sim. um perfil. ou menos que duvidoso em que nos apanhou. costas abauladas. as palavras de boca é que nem tentavam sair. senhor. Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto: Capitu respondeu por ambos. . mas desta vez uma voz de homem: . fitou em mim os olhos. E nem assim ri. Capitu riscava sobre o riscado. Era um homem baixo e grosso. mas Bentinho ri logo.Quando eu cheguei à porta. não pode. e não fui capaz de rir. a ver o que era.fê-lo rir. ao pé da mulher. todo meigo. Pádua saiu ao quintal. CAPÍTULO 15 OUTRA VOZ REPENTINA Outra voz repentina. Papai quer ver? E séria. para apagar bem o escrito. disfarçadamente. entrada de Pádua. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. e. era só o agregado.. mas já a filha tinha começado outra coisa. O susto é naturalmente sério ..Já tinha rido das outras vezes. Esta. desviou o rosto. tornavam ao coração caladas como vinham. leitora minha devota a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo.Vocês estavam jogando o siso? perguntou. donde lhe veio a alcunha de Tartaruga. Estávamos ali com o céu em nossas mãos. De resto. e tanto podia ser dele como da mãe .

. negócio de relatório. cheio de ternura: . escrevo todas as noites que é um desespero. Que o meu desejo era nenhum. após duas voltas. teve de ceder aos conselhos de minha mãe. alta. Pádua hesitou muito. que continuava à porta da casa. Também. ando com trabalhos da repartição. forte. Capitu. etc. e demais amava particularmente os passarinhos. tratava deles como se fossem gente. posto que menor. os mesmos olhos claros..Está. mandar vir da Europa alguns pássaros. Trocava pássaros com outros amadores. em pé. se adoeciam. A primeira idéia do Pádua. Estou com vontade de dar um capote ao doutor. a quem Dona Fortunata pediu . olhando para ela e para mim. a mesma cabeça. afinal. Não ganhava muito. um adereço de brilhantes para a mulher.Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. esta Dona Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa. Tinha-os de vária espécie. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria. o pai. e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. CAPÍTULO 16 O ADMINISTRADOR INTERINO Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. mas a mulher. foi comprar um cavalo do Cabo. dez contos de réis. era propriedade dele. no próprio quintal.Há muitos dias que não a vejo. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. mas o pai era o pai. Demais. armando alçapões. cor e tamanho. deixando-nos a mim e ao pai encantados dela. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava. falando à filha. a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa. quando lhe saiu o prêmio. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. ande ver. que faziam cantando um barulho de todos os diabos. crê-se facilmente. . foi ter com a mãe. cheia. apanhava alguns. mas a mulher gastava pouco. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. dizia-me. em casa. assobradada como a nossa. mas não tenho podido. a casa em que morava.para fazê-las cedo. como a tia. sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim. Ia agora mesmo buscar a gaiola. uma sepultura perpétua de família. comprava-os. e a vida era barata.

auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia
chegou a salvar a vida ao Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao
Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial
designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos
honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes
dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se
às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa matava um
leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim
vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde
entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque
chegara o efetivo naquela manhã. Pediu à minha mãe que velasse pelas
infelizes que deixava; não podia sofrer a desgraça, matava-se. Minha mãe
falou-lhe com bondade, mas ele não atendia a coisa nenhuma.
- Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a
família, tornar atrás... Já disse, mato-me! Não hei de confessar à minha
gente esta miséria. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o
público?
- Que público, senhor Pádua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre se que
sua mulher não tem outra pessoa... e que há de fazer? Pois um homem...
Seja homem, ande.
Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns
dias, mudo, fechado na alcova,- ou então no quintal, ao pé do poço, como
se a idéia da morte teimasse nele. Dona Fortunata ralhava:
- Joãozinho, você é criança?
Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a
pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido
que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e
intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia
ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um
emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a
mulher e a filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para
cumprir a vontade de minha mãe.
- Vontade minha, não; obrigação sua.
- Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.
Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido à parede,
cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a
vizinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina.
Vieram as semanas, a ferida foi sarando Pádua começou a interessar-se

pelos negócios domésticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranqüilo
as noites e as tardes, a conversa e dar notícias da rua. A serenidade
regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de - dois
amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o
ar do costume; a ferida sarou de todo.
Com o tempo veio um fenômeno interessante. Pádua começou s falar da
administração interina, não somente sem as saudades dos honorários, nem
o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração
ficou sendo a hégira, donde ele contava para diante e para trás.
- No tempo em que eu era administrador...
Ou então:
- Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, ou um dois meses
antes... Ora espere; a minha administração começou. É isto, mês e meio
antes; foi mês e meio antes, não foi mais.
Ou ainda:
- Justamente; havia já seis meses que eu administrava...
Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a
vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a
Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó:
“Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e cura”

CAPÍTULO 17
OS VERMES “ELE FERE E CURA!”
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma
ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma
dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros
mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e
o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento
israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o
que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos
absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos,
nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado
palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre
os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

CAPÍTULO 18
UM PLANO
Pai nem mãe foram ter conosco, quando Capitu e eu, na sala de visitas,
falávamos do seminário. Com os olhos em mim, Capitu queria saber que
notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se
cor de cera.
- Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminários; não
entro, é escusado teimarem comigo, não entro.
Capitu, a princípio, não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e
deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda
parada. Então eu, para dar força às afirmações, comecei a jurar que não
seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte.
Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se
fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia
sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas
faltou-me animo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara,
creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e
medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas
palavras furiosas:
- Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela,
que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que também
gostava
de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira, coisa
bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação; mas
os impropérios, como entender que lhe chamasse nomes tão feios, e
principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que
ela também ia à missa, e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou,
na nossa velha sege. Também lhe dera um rosário, uma cruz de ouro e um
livro de Horas... Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a
chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida
dos pais. Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer
tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não
sabia que fizesse, repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma
noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminário.
- Você? Você entra.
- Não entro.

falava baixo. Tínhamos chegado à janela. parou em frente e perguntou: . deixei o canto e corri para a varanda. desde algum tempo. A reflexão não era coisa rara nela. quem vai para a rua é ele. Aos quinze anos. . menos a parte que lhe dizia respeito. A tenção de Capitu estava agora particularmente nas lágrimas de minha mãe. . eu então. dá-lhe atenção demais. mas quase. É um sujeito muito ruim. Mas. que não era coisa de choro. rindo.Não. e proferi outras ameaças. mas. Ele chegou a mostrar-se arrependido.. não e ainda a Capitu do costume. Capitu refletia. depois a conversa entrou a cochilar e dormir. vinha apregoando cocadas. Ao relembrá-las. qué cocada hoje? . Pediu-me algumas circunstâncias mais. ouvi só dizer que ela não chorasse. Parece até que chorou. Quando tornou a falar.Você verá se entra ou não. deixe estar que me há de pagar. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa. Estava séria.Não. e saiu. pouco antes. as próprias palavras de uns e de outros. a adolescência e a infância não são. Capitu deixou-se ir. temente a Deus. respondeu Capitu. eu contei-lha toda. é um dos seus privilégios. . não me acho ridículo. deixe estar. Este mal ou este perigo começa na mocidade. para não ser apanhado.Cocadinha tá boa.Acho que nenhum. Em meio disto. mamãe. neste pontos ridículas. que. e o tom delas.Sinhazinha. não lhe pude dar toda a significação.. confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre.. não me fica um instante Mamãe é boa demais. que peguei da mão dela e apertei-a muito. não acabava de entendê-las. não podia deixar de cumprir. um preto. . Quando eu for dono da casa. e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos.Não sei. era a promessa antiga que ela. que ele me paga! Disse isto fechando o punho. sem aflição. Quis saber a conversação da minha casa. que era ela mesma. há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada. .Chorou por quê? . você verá. cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito.E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim. Calou-se outra vez. .José Dias? . foi só para fazer mal. tinha mudado.

e alcançavam o fim proposto. porque não tem Vintém. se pudesse cumpri-lo. Da toada não era.Vá-se embora. e gostava muito de doce. menina. tinha já idéias atrevidas. por onde eu. muito menos que outras que lhe vieram depois. o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da aventura. e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar. ora comprando um doce ausente. se não aprovava a minha ordenação. o pregão das velhas tardes. destinada a picar a vaidade das crianças. Assim. era um “boa-vida”. iria realmente até Bordéus. ora vendendo. surdas. espreitou-me os olhos. Rejeitou tio Cosme. o pregão que o preto foi cantando. mas tive de as comer sozinho. eu conservava um canto para as cocadas. da persuasão lenta e diuturna. e melhor que os dois seria o Padre Cabral. Capitu. à espera. ela a sabia de cor e de longe. não de salto. combatendo os meus projetos de resistência franca. pelo que. . porque logo depois me disse: . mas eram só atrevidas em si. Como vês. Capitu. deixando minha mãe na praia. Prima Justina era melhor que ele. ou só agradeceram a boa intenção. foi que a enojou agora. Vi que em meio da crise. pela ação de empenho. Creio que a letra. metia-se no paquete e ia para a Europa. aos quatorze anos. Comprei-as. . mas creio que eles não lhe disseram nada. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga.Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. Ao contrário.Se eu fosse rica. na prática faziam-se hábeis. trocando os papéis comigo. Não sei se me explico bem. estenderia uma fila de canoas daqui até lá. tão sabido do bairro e da nossa infância: Chora. não quis saber de doce. sinuosas. mas o momento não é para definições tais. saltando. Capitu recusou. apesar de equilibrada e lúcida. você fugia. fiquemos em que a minha amiga. mas aos saltinhos. fosse antes pelos meios brandos.. não era capaz de dar um passo para suspendê-la. não admira que. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. não me faria embarcar no paquete e fugir. da palavra. o que tanto pode ser perfeição como imperfeição. a modo que lhe deixara uma impressão aborrecida. Dito isto. parecendo ir à fortaleza da Laje em ponte movediça. Com efeito. chora Chora. para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. replicou ela sem rispidez. rindo. usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia.

Que tem José Dias? . e inquiria-me depois sobre eles.Mas se foi ele mesmo que falou.Isso não. José Dias.. a ver se entendera bem. . . ele gosta muito de ser elogiado. e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia. Capitu repetiu. mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer.Justo. Estremeci de prazer. em vez da grossa parede espiritual e eterna. Não lhe fale acanhado.Lembra-me. Olhe. só se eu lhe confessasse que não tinha vocação. . Ande. E insistia em que pedisse com boa cara. mostre que quer e que pode. como no Gênesis. Dê-lhe bem a entender que não é favor. mande. faz-se outra coisa. Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez há dois meses Dona Glória não queria e bastava isso para que José Dias não teimasse. se não trocara uns por outros.. Capitu. mas ele queria ir. e pagou a entrada aos dois. e o melhor é outra coisa. sim. logo virá a tarde. mas o padre não havia de trabalhar contra a Igreja. Tudo é que você não tenha medo. tanto falou que sua mãe acabou consentindo.Mas que se perde em experimentar? Experimentemos. e fez um discurso. lembra-se? . .pela autoridade. dirá agora outra coisa.. tendo de servir a vocês falará com muito mais calor que outra pessoa.Não importa. peça.Então vá para o seminário.. mostre que há de vir a ser dono da casa. onde se fizeram sucessivamente sete. continuou Capitu. . Prometi falar a José Dias nos termos propostos.. Dona Glória presta-lhe atenção. acentuando alguns como principais.Não acho. . São Paulo era um frágil biombo. se não mudar. não. Dona Glória pode ser que mude de resolução. é que ele.Pode ser um bom empenho. façam que lhe digo. diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo.. Faça-lhe também elogios..Posso confessar? . Ele gosta muito de você.Pois. . mas o principal não é isso. mete-se então o Padre Cabral. mas seria aparecer francamente. . disse que o teatro era uma escola de costumes. .. destinado a ser arredado um dia. Conto estas minúncias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga. .

Repeti-as ainda.” CAPÍTULO 20 MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS Levantei os olhos ao céu. e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. a casa é minha. se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário”. repetindo-as novamente. depois em voz alta. ele é um simples agregado. como para sublinhá-las. escolha o lugar e diga-me”. Assim cheguei aos números vinte. Era um modo de peitar a vontade . ao meu amigo. Afinal disse comigo que as palavras podiam servir. que começava a embruscar-se. nem adoçar muito. escolhendo as palavras que diria e o tom delas. pode muito bem trabalhar por mim. E a prova é que. “E Capitu tem razão. Bastava não carregar tanto. quase ríspidas. entre seco e benévolo. e desfazer o plano de mamãe. e mais lentamente ainda as palavras sem falta. era ao meu refúgio.. um meio-termo. antes de entrar em casa. impróprias de um criançola para um homem maduro. Entrei nas centenas e agora no milhar. porém. E então disse de mim para mim: “Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias. sem falta. cinqüenta. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores.CAPÍTULO 19 SEM FALTA Quando voltei casa era noite. Vim depressa. para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma. e então achei-as secas demais. se eles viessem. mediante orações que diria. mas eu não rezei as orações. saíram-me quase súplices. e. Formulei o pedido de cabeça. pensei. repeti-as comigo.. se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. não tanto. mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto. Disse as primeiras. Jeitoso é. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. Cuidei de escolher outras e parei. Proferi-as lentamente. trinta. Não choveu. as outras foram adiadas. A soma era enorme. Amanhã. tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. Na chácara. francamente.

é possível que estas agitações de menino te enfadem. não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. e também por interesse.. ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma. podiam empenhar-me outra vez a alma.. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. e a Paulo o que pensava de Pedro. Afinal perdi-me nas contas. mil”. Passeamos alguns minutos na varanda. Deus podia muito bem.. além disso. a matéria do benefício era agora imensa. irritado com os esquecimentos. confessar que mentira é que me pareceu novidade. Realmente. dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo. . A mentira espantou-me. inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de . mas eu disse que você já tinha vindo. A Terra Santa ficava muito longe. Não é que prima Justina fosse de biocos. Não achava outra espécie em que. ir à Terra Santa. não é? Mamãe perguntou por mim? . Sublimes não eram. eu adiava a paga. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe. Mandar dizer cem missas. e distraí-me. magra e pálida. CAPÍTULO 21 PRIMA JUSTINA Na varanda achei prima Justina. mil. e dizendo-lhe eu que não. “Mil. repeti comigo. cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. alumiada por um lampião. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos.Estive aqui ao pé. mas. tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. É tarde. minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si. mediante a intenção. mil. As missas eram numerosas. Mil. devia feri-los por força. Homem grave. e antes parenta que estranha.Perguntou.. Era quadragenária. tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. tudo se cumprisse. Vivia conosco por favor de minha mãe. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos. negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro.divina pela quantia das orações. fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. não menos que a franqueza da notícia. se é que não as achas ridículas. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera. passeando de um lado para outro. conversando com Dona Fortunata. boca fina e olhos curiosos.

e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução. a senhora podia pedir a mamãe.Eu gosto do que mamãe quiser. nos ouvidos. .Prima Glória deseja muito que você se ordene.Pois é verdade. . há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça. fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer. Hoje de tarde falou como você não imagina...Isso não. mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre. mas também. um bajulador. Lá avivar-lhe a memória.. . Enruguei a testa interrogativamente.Era capaz de. prima Glória tem este negócio firme na cabeça. explicou rindo. mas ainda que não desejasse. apesar da casca de polidez. disse: . é bonita. . como se não soubesse nada Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga. quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é.Naturalmente. .. Note que é só para fazer mal. passados alguns instantes. um grosseirão. a senhora era capaz de uma coisa? .Quem é? . e aquela afetação. tudo com aquelas palavras que só ele conhece. Respondi esquivo: . que não se importa com isso.José Dias? concluí. Novamente me recomendou que não me desse por achado. Não contou. . falando do seminário? E os discursos que ele faz.Mas falou à toa? perguntei..De quê? . eu também não. Você ainda era pequenino.. .Prima Glória pode ser que.. já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade. Você não se dê por achado. . e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias e não era pouco.. os elogios da Igreja. . . mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre.padre.Ora. . um especulador. atalhou prontamente.Vida de padre é muito bonita. um intrigante. zás que darás.Prima Justina. pedir outra coisa. não. ou só conhecidas. ainda hoje.. em passando os dias. e.. e que a vida de padre é isto e aquilo.Sim. Suponha que eu gostasse de ser padre. vá esquecendo a promessa. Eu. a ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha.. porque ele é tão religioso como este lampião.. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. só o tempo.

Só pensei nisso na cama. se não gosta. Não disse mal dela. como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos. CAPÍTULO 23 PRAZO DADO . Entretanto. eu penso que.não peço. o trabalhar para os seus. à tarde. prima Justina reteve-me alguns minutos. como eu quisesse ir para dentro. dos meus velhos oratórios. Agora. após algum tempo.. e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. você que acha?”. a gravidade. o amor que tinha a minha mãe. sim. se é que também ela não desconfiava já. ao contrário insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. mas. e finalmente de Capitu. era com o gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra. e até lhe fez algumas críticas. Creio antes. entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. pareciam apalpar-me. Então. sim. os costumes. falando do calor e da próxima festa da Conceição. gostar-me. bradaria que era a mais bela criatura do mundo. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. na sala de visitas. mas ainda assim. Quando não era com palavras. a minha resposta era: “Prima Glória. É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia. se ele gosta de ser padre.. Ciúmes não podiam ser. não creio que fossem ciúmes. o melhor é ficar”.. Também se goza por influição dos lábios que narram. ir falar-lhe sem ser chamada. É certo que. que já a achava lindíssima. cheirar-me. Eu. Se ela me consultasse bem. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias. Só então senti que os olhos de prima Justina. creio isto. não faço. CAPÍTULO 22 SENSAÇÕES ALHEIAS Não alcancei mais nada.. pode ir. se o receio me não fizesse discreto. fazer o ofício de todos os sentidos. se ela me dissesse: “Prima Justina. modificou os elogios a Capitu. disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. ouvir-me. tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. ouvida por ela. quando eu falava.

quando o Padre Cabral me ensinava latim. Ao despedir-se de mim. ele a corrigia. disse-me ele: . dos meus livros. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava. na rua. e reproduziam com moderação a ternura e a cólera. Foi no corredor. ia comigo à rua. Não lhe pergunto o que é. sem falta. escolha o lugar e diga-me. . conforme o sexo dos interlocutores. meio sério para dar autoridade à lição. pedirei a mamãe.Sim. CAPÍTULO 24 DE MÃE E DE SERVO José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. dos meus sapatos. Aos oito anos os meus plurais careciam. . . à porta de casa. Cuidava dos meus arranjos em casa. da minha higiene e da minha prosódia. senhor. alguma vez. Lia cantado e compassado. Mais tarde. mas as palavras o eram. Houve só uma altercarão. . A primeira coisa que consegui logo que comecei a andar fora. Fez-se tudo o melhor possível. Tenho umas compras que fazer. ele assistia às lições. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. não pedir.. foi dispensar-me o pajem. afirmo desde já que é matéria grave e pura. e o não interrogar. meio risonho para obter o perdão da emenda. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele.Preciso falar-lhe amanhã.Amanhã. disse-me José Dias. como era próprio da criança e do meu estilo habitual. você pode ir comigo. doutrina e história sagrada. minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé. os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. José Dias vinha andando cheio de leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. alternava o som das vozes. fazia reflexões eclesiásticas.Não importa. quando íamos para o chá.Até amanhã.Perfeitamente.A lição foi hoje. não hesitar. . da desinência exata. na varanda. É dia de lição? . certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma nova situação. Nos diálogos. que eram levemente grossas ou finas. entramos no ônibus. Creio que José Dias achou desusado este meu falar. fez-se pajem. podemos apear-nos à porta do Passeio Público.

ele podia passar por criado.. não se lembra? . era natural. um dia. gostava do elogio. poderia passar.. CAPÍTULO 25 NO PASSEIO PÚBLICO Entramos no Passeio Público. afinal. . falei do jardim: . Dona Glória. para a minha idade. Pois. em criança. e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. apesar deles. em minha presença. há dias. A gente Pádua não é de todo má. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. se não fosse a vaidade e a adulação. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. Oh! a adulação! Dona Fortunata merece estima. Não digo isto por ódio. possui a casa em que mora. . . Andando. apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu. possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Seguimos para o terraço. dos meus sapatos acalcanhados. .Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo. . para me dar animo.. disse ele a um sujeito. não é bonito que você ande com o Pádua na rua..e. e ele não nego que seja honesto. dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes. não há muito tempo. tem um bom emprego. no fim. Algumas caras velhas. consentiu. já que falamos nisto. que é boa como a mãe de Deus.É verdade. perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”. posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio.Perdoe-me. . interrompi suspendendo o passo. mas ouça-me. pelo contrário. e ela.. Pádua tem uma tendência para gente reles. Eu. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. era um elogio. nunca ouvi que falasse mal do senhor.Quando era mais jovem. Capitu. mas foi tão de passagem. outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. que o senhor era “um homem de capacidade e .Mas eu andei algumas vezes. sem contar que. talvez um ano. . mas honestidade e estima não bastam. não pode gostar disso. não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua.Perdão.. atalhou ele. nem porque ele fale mal de mim e se ria. mas que eu excedia a todos esses. como se riu.Há muito tempo que não venho aqui.

. José Dias ficou aturdido. disse eu depois de alguns instantes. como pode parecer do texto.. Padre. eu próprio não me conhecia. e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos.Mamãe quer que eu seja padre. até cocheiro de ônibus. . mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda. as sobrancelhas arquearam-se. subimos ao terraço. não menos pasmado que ele. e vinha de cor. Os olhos do agregado escancararam-se. José Dias endireitou-se pasmado. mas não é para mim. mastigado. . . não posso ser padre. de vez. estou pronto a ser o que for do seu agrado.Conto com o senhor para salvar-me. a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova. de melhor sangue. Todo esse discurso não me saiu assim. Durante algum tempo não pude dizer o resto. enfiado natural mente. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo.sabia falar como um deputado nas câmaras. José Dias tornou a perguntar o que era. em voz um pouco surda e tímida. mas eu não posso ser padre. depois replicou: .. mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto. sacudia-me com brandura. Não contava certamente com a resistência.Mamãe. Outros. me têm feito o favor de juízos altos. continuei eu. A carreira é bonita. levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim. disse finalmente.Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício. ansioso também.Um favor? Mande. ordene.Não lhe agradeço nada.Pois que outra coisa. Não obstante. mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão: . e olhamos para o mar. Toda a cara dele era pouca para a estupefação.” José Dias sorriu deliciosamente. Tínhamos outra vez andado.Não posso. por mais acanhada que fosse. não tenho jeito.Mamãe quê? Que é que tem mamãe? . José Dias ouvira-o espantado. peço-lhe um favor. . Estou por tudo o que ela quiser. não. não gosto da vida de padre. Bentinho? . Realmente.Mas que posso eu fazer? perguntou. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. peremptório. como a prima Justina na véspera.Neste caso. Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias: . que era pouco. mas aos pedaços. que é? . .

e uma ação valia outra. .uma idéia que o alegrou extraordinariamente. O senhor sabe que.. Que desejo. Deveras. não quer ser padre? As leis são belas.. trabalharei com alma. a ambição e O sonho de longos anos. Se eu fosse destemido. disse ele. a Pernambuco.. rompesse a chamar-lhe mentiroso. ainda é tempo. nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. mas é só um.Não é tarde. . além de promessa.Pois ainda é tempo. Contentei-me de responder que não era tarde. CAPÍTULO 26 AS LEIS SÃO BELAS Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia.é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço.São bondades. . Vá para as leis. . mas.Pode muito. como eu. senão que seja feliz. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias.É tarde.Há de ser também o de proteger os amigos. não é por vadiação.. Sua mãe é uma santa. anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é. Estou pronto: para tudo. em nossa casa. . O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho. Olhe. Há boas universidades por esse mundo fora. mas lutar. se o senhor quiser. . senão servi-lo. com a indignação que experimentei.. irei falar a sua mãe. ele voltara os seus para o lado da barra. é provável que.. para lhe provar que não há falta de vontade. atrás da porta. Calou se alguns instantes.. é tarde.. se ela quiser que eu estude leis. preciso meter Bentinho no seminário”. .Em que lhe posso valer. Pode ir a São Paulo. meu querido. Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais. como merece? . vou para São Paulo. se tal é a sua . mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta. ou ainda mais longe. eu tinha os olhos nele.Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu. Timidez não é tão ruim moeda. Quando pudesse. retorquiu lisonjeado. Como insistisse: . que merecem tudo.. Não prometo vencer. seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo Tenho conhecido famílias distintas. São favores de pessoas dignas. por quê? porque são ilustres e virtuosas. como parece. não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento. todos o apreciam Mamãe pede muita vez os seus conselhos.

Pedir. espanhol. mas pedir não é alcançar.. grandes pássaros negros faziam giros. e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos.Não blasfeme. Não contava com esta possibilidade de ir comigo. José Dias passou .. e ao mesmo tempo que estuda. estamos a bordo! Ah! você não imagina o que é a Europa. o passado. matrículas.Hei de falar.Deus fará o que o senhor quiser. na água. sem desfazer na teologia que é melhor que tudo. e tornavam a erguer-se para descer novamente.... não quererá guiar os negócios. se vontade de servir é poder de mandar. estamos a bordo! CAPÍTULO 27 AO PORTÃO No portão do Passeio.. russo e até sueco. . papéis. como a vida eclesiástica é a mais santa.vocação. Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade. veremos as terras estrangeiras. . estamos aqui.. peço. Mas nem as sombras do céu. As leis são belas. avançando ou pairando. francês. .Está dito..com Deus e a Virgem Santíssima. ainda que possa e vá. Uma das suas ambições era tornar à Europa. italiano.. viaja: Podemos ir juntos.. e prefere as leis. Oh! as leis são belíssimas! . nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor. e andar com você de um lado para outro. Deus é dono de tudo. emendei-me: .. fale também a seu tio. Peça-lhe a sua felicidade que eu não faço outra coisa. pede a mamãe que me não meta no seminário? . . perto da praia. um mendigo estendeu-nos a mão. e desciam a roçar os pés. o presente e o futuro. Uma vez que você não pode ser padre. Bentinho.. só por si.Estamos a bordo. falava dela muitas vezes. O céu estava meio enfarruscado. sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme. e cuidar de hospedarias. Oh! a Europa. Depois de lhe responder que sim.. Anjo do meu coração. Dona Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo. ouviremos inglês. No ar. ele é. a terra e o céu. concluiu apontando para o céu. mas não conte só comigo. Levantou a perna e fez uma pirueta. por mais que louvasse os ares e as belezas. Vou falar a Dona Glória.Pegue-se também com Deus.

adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário, tirei dois vinténs do
bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse
a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus
desejos.
- Sim, meu devoto!
- Chamo-me Bento, acrescentei para esclarecê-lo.

CAPÍTULO 28
NA RUA
José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como
era à rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de
tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz
de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças, recitava monólogos em
verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu aluguéis de casa;
para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso rendeu o
flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a
mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e
entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no
ônibus.

CAPÍTULO 29
O IMPERADOR
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O
ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros
desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse.
Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir
ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”,
pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E
logo me achei em casa, à esperar até que ouvi os batedores e o piquete
de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava as
janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa
porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança:

“O Imperador entrou em casa de Dona Glória! Que será? Que não será?” A
nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava
a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,
- não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,- pedia a minha
mãe que me não fizesse padre, - e ela, lisonjeada e obediente, prometia
que não.
- A medicina, por que lhe não manda ensinar medicina?
- Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade..
- Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui
bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos
médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras
terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde
aos outros, conhecer as moléstias; combatê-las, vencê-las... A senhora
mesma há de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doença era
fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira: mande-o
para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
- Mamãe querendo.
- Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de
todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de
assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de
adeus, dizendo ainda: “A medicina, a nossa Escola.” E o coche partia
entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que
a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais
que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos,
até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus
companheiros.

CAPÍTULO 30
O SANTÍSSlMO
Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não
era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de
Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo
desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse
para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu.

- Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um
sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, senhor recebedor!
O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do
cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas
rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos
também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia.
Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a
princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade
do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou
a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido, era o meu vizinho
Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio
cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe
respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre que lavava as mãos.
Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles;
eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava do sacristão uma das varas do
pálio. José Dias pediu uma para si.
- Há só uma disponível, disse o sacristão.
- Pois essa, disse José Dias.
- Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.
- Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá
estava. Leve uma tocha.
Pádua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo
isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a
rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que
cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim
fez, mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que
tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, “jovem seminarista”, a
quem esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou pálido, como as
tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me
conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso
se eu era deveras seminarista.
- Ainda não, mais vai sê-lo, respondeu José Dias piscando o olho
esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.
- Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.
Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava
acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos levando uma tocha,
mas
que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do

As tochas acesas. e ouvi alguém dizer-me: . Opas enfiadas. outra vez a interinidade interrompida. erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. que se ajoelhavam. o agregado tolheu-me esse ato de generosidade. há pouco. senti-me me cansado. e. tísica. O vigário confessou a doente. nem ao agregado.pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento. tão lúgubres na ocasião tinham-me ares de um lustre nupcial. Quis ceder-lhe a vara. cheio de uma glória pia e risonha.. e a voz era dela. na Rua do Senado. com os braços no ar. paralelamente a mim. de uma doçura que me embriagou. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto. saiu o préstito à rua. o administrador regressava ao antigo cargo. fiquei comovido. padre e cibório prontos. e a minha imaginação. que. Quando me vi com uma das varas. É uma metáfora. felizmente a casa era perto. talvez nem tivesse graça. falar-me. rompendo a marcha do pálio. com as duas varas da frente. o sacristão de hissope e campainha nas mãos. passando pelos fiéis. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma complicada da lembrança de minha mãe. os braços caíam-me.Não ria assim! . os cabelos caíam despenteados.. De resto. não pude mirá-lo por muito tempo. E nada! E tornava à tocha comum. era a segunda vez do pálio. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja.. para tocha qualquer pessoa servia. Pádua roía a tocha amargamente. Não obstante o total falava e cativava o coração. e não vejo outra mais que bodas. senti um ímpeto de soluçar também. ouvi distintamente o meu nome. A moça não era formosa. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim. tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos que estava chorando à porta do quarto. a ele e a mim.. A enferma era uma senhora viúva. tochas distribuídas e acesas. assim como lhe atribuíra lágrimas. e pediu ao sacristão que nos pusesse. assim lhe encheu a boca de riso agora. deu-lhe a comunhão e os santos óleos. doeu-me mais. vi-a escrever no muro. andar à volta. Vim para perto de uma janela. Com pouco. e me disse ao ouvido.Não chore assim! A imagem de Capitu ia comigo. e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. era alguma coisa contrária à morte. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. enfiei pelo corredor. não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho. Que era lustre nupcial Não sei. quando enfim pensei em Capitu. tanto que cuidou logo de ir pedi-lo. em voz baixa: .

a animação da rua. Se ainda o não disse. não acabava de se consolar da tocha. Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação. e apenas mostravam a compostura do ato. desde os sete anos.Não. Peguei da minha vara. outras frívolas. No colégio onde. as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. Também se pode dizer que conferia. o sol cá fora. CAPÍTULO 31 AS CURIOSIDADES DE CAPITU Capitu preferia tudo ao seminário. doutrina e obras de agulha. e. Esta imagem é porventura melhor que a outra. a narração e o diálogo. que falaria logo que pudesse. Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado. mas também não iam tristes. Eram de vária espécie. por exemplo. Se disse. fiquemos por ora com a promessa de José Dias. os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja. Apesar de substituído por mim. à força de repetição. as alterações do gesto e até a pirueta. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. tudo me enchia a alma de lepidez nova. ao contrário. umas graves. Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? . prometeu que ia ver. escrever e contar. fica também. como já conhecia a distancia.Não marcou dia.o peso da vara era mui pequeno. E contudo havia outros que também traziam tocha. uma criatura mui particular. Bentinho. não iam garridos. e agora voltávamos para a igreja. mostrou se satisfeita. da miserável tocha. Pedia o som das palavras. explicáveis e inexplicáveis. Era o momento da saída. a fazer renda- . aí fica. gostava de saber tudo. Era minuciosa e atenta.Fiquei sério depressa. deixemos o Imperador sossegado. replicou. que apenas lhe contara. rotulava e pregava na memória a minha exposição. Via-se que caminhavam com honra. tudo parecia remoer consigo. francês. Demais. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial: . se vingasse a idéia da Europa. Pádua. assim úteis como inúteis. e que me pegasse com Deus. mais mulher do que eu era homem. Era também mais curiosa. Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor. aprendera a ler. o que fazia a distancia menor. Capitu era Capitu. isto é. não aprendeu. ia mais humilhado. mas a ótima delas é nenhuma. .

referia-se ao que estava na sala. Era o de meu pai. o lugar. querendo saber das ruínas. Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre. mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. folheava os nossos livros de gravuras. dizia-lhe ele.Anda apanhar um capotinho. com exclamações em latim: . demorando-se um pouco mais em César.E quanto valia cada sestércio? José Dias. Lia os nossos romances. O agregado disse-lho sumariamente. não tendo ela rudimento algum de arte. mas não foi adiante. Capitu. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de erudito. Um dia. . dava os últimos rasgos. ao contrário. Ainda assim. Mas.É o maior homem da história! A pérola de César acendia os olhos de Capitu. e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércio! . um diadema e brincos. com atenção. a história. depois de lhe propor gracejando. acabou dizendo que latim não era língua de meninas. . A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo. o nome. e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. não sei se diga com amor. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato. como aprendeu música mais tarde. os olhos saíram esbugalhados. copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora está comigo. das pessoas. não tendo presente o valor do sestércio. Tio Cosme ensinou-lhe gamão. tinha um grande colar. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. das campanhas. apenas de estimação. Capitu obedecia e jogava com facilidade.por isso mesmo. achei que era obra de muito merecimento. Perfeição não era. Já então namorava o piano da nossa casa. velho traste inútil. Brute? Capitu não achava bonito o perfil de César. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as jóias do retrato. com o de meu pai. quis que prima Justina lhe ensinasse. Em compensação. respondeu entusiasmado: . estou que aprenderia facilmente pintura. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber.César! Júlio César! Grande homem! Tu quoque. Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo. e havendo feito aquilo de memória em poucos minutos.descontai-me a idade e a simpatia.

Quando é que botou estas? . Nascera muito depois daquelas festas célebres.São jóias viúvas. fui ver a minha amiga. teimou um dia em saber o que fora este acontecimento. argolinha de latão. Capitu. apenas entrei na sala. a verdade é que. Como passou a noite? . moldura tosca. um adágio dacolá. Dona Fortunata. Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. toda ela voou pelos ares.Parece que não. Fui devagar. . entre as duas janelas. pente.Não há nada. Se não foi ele. Este pode ser que não fosse. notícias de Itaguaí. disseram-lho. como eu.Eu bem.Está na sala penteando o cabelo.. eram dez horas da manhã. mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade..Foi pelas festas da Coroação. como eu. mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas. vá devagarzinho para lhe pregar um susto. cabelos. passados alguns dias do ajuste com o agregado. CAPÍTULO 32 OLHOS DE RESSACA Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha. José Dias ainda não falou? . Neste direi somente que. no qual não sei se aprendeu ou ensinou. porém. uma lembrança dali. pendente da parede. Um ou outro. disse-me. era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza). . alfaias velhas.. Caso houve. e só lhe ouvi esta pergunta: . Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões dos bailes. comprado a um mascate italiano. e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. costumes. foi o pé. vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição. um dito daqui. É o que contarei no outro Capítulo. a infância e a mocidade de minha mãe.Oh! conte-me as festas da Coroação! Sabia já o que os pais lhe haviam dito. respondi.Mas então quando fala? . .Há alguma coisa? . mobílias antigas. ou se fez ambas as coisas. .

não se lhe falaria. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. a onda que saía delas vinha crescendo. Não me acode imagem capaz de dizer. com tal expressão que. Ele é atendido.Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto..” Eu não sabia o que era oblíqua. Hoje mesmo ele há de falar. Para não ser arrastado. Este outro suplício escapou ao divino Dante. E se não fosse preciso alguém para vencer já. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. porém. uma força que arrastava para dentro. . . crescidos e sombrios. aos cabelos espalhados pelos ombros. . mas eu não estou aqui para emendar poetas. mas dissimulada sabia. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos. com os meus olhos longos. agarrei-me às outras partes vizinhas. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita. e de todo. constantes. um toque. acho que fará tudo.Que tem. puxar-me e tragar-me. ao cabo de um tempo não marcado. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento. como a vaga que se retira da praia. Bentinho. o que eles foram e me fizeram.. Capitu deixou-se fitar e examinar. eu nada achei extraordinário. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles... ameaçando envolver-me. Só me perguntava o que era. interrompeu Capitu.. Capitu. entrará em matéria. tem. enfiados neles. Deixe ver os olhos. falará assim por alto e por longe. mas poderá alcançar?. Olhos de ressaca? Vá.Teimo. não vai logo de pancada.. dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu.. se nunca os vira. sem quebra da dignidade do estilo. “olhos de cigana oblíqua e dissimulada. às orelhas. mas tão depressa buscava as pupilas. e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos. se sentir que você realmente não quer ser padre.. Estou para contar que.Você jura? . aos braços. nos dias de ressaca. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto. A eternidade tem as suas pêndulas. a cor e a doçura eram minhas conhecidas. É o que me dá idéia daquela feição nova. É um inferno isto! Você teime com ele. Depois. cava e escura.Juro. de ressaca. nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. e queria ver se podiam chamar assim. Retórica dos namorados. assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto. se.. .

e a sensação era um deleite.Eu mesmo. é que nunca penteastes uma pequena. nem assim depressa. digamos somente uma criatura amada.Vai embaraçar-me o cabelo todo. . Continuei a alisar os cabelos. isso sim. Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. por mais que eu os quisesse intermináveis. risquemos ninfa. devagarinho.que era capaz de os pentear. porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois. os cabelos iam acabando.Se embaraçar. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita.. enfim. Pedi-lhe que se sentasse.agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu. mas ainda que fosse da mesma altura. mas então com as mãos. e dividi-os em duas porções iguais. .para dizer alguma coisa.Vamos ver.Você? . Onde estava a fita para atar-lhes as . falando dos seus olhos de ressaca. outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. disse-me rindo. . CAPÍTULO 33 O PENTEADO E Capitu deu-me as costas. se quisesse. e disse-lhe. mas devagar. . mas. como podem supor os cabeleireiros de ofício. desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos. para compor as duas tranças. “Vamos ver o grande cabeleireiro”. Sentou-se. desgraçado leitor. risquei Tétis. que eram parte dela. Ainda há pouco. colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente. que lhe desciam à cintura. tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Mas.. saboreando pelo tato aqueles fios grossos. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora. Peguei-lhe dos cabelos. Enfim acabei as duas tranças. . desde a testa até as últimas pontas. O trabalho era atrapalhado. palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. Se isto vos parecer enfático. você desembaraça depois. . cheguei a escrever Tétis. Não as fiz logo. às vezes por desazo. nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa. voltando-se para o espelho. Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu.Senta aqui. com muito cuidado. é melhor..

Em vez de ir ao espelho. ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear. podia ficar tonta. Está muito bem. . pediu-me para acabar o penteado. de costas para mim.Pronto! . Não me atrevi a dizer nada. faltava-me língua. um riso espontâneo e claro. Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos. ainda que quisesse. tão depressa que.. Capitu ergueu-se. e ficamos assim a olhar um para o outro. sem fala. não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas. machucar o pescoço.. mas trocados. retoquei a obra. Capitu compôs-se depressa. mamãe? Isto? redargüiu Capitu. Capitu derreou a cabeça. nenhuma contração de acanhamento. Grande foi a sensação do beijo. mas nem esta razão a moveu. eu desci os meus. até que ela abrochou os lábios.. olhe como este senhor cabeleireiro me penteou.Mamãe.Veja no espelho. transbordando de benevolência . Juntei as pontas das tranças. que ela explicou por estas palavras alegres: . Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. ela abanava a cabeça e ria. eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem.. era Dona Fortunata. Com dezessete. rápida. Preso. leitor precoce. e. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto. atordoado. Veja que tranças! .pontas Em cima da mesa. Capitu! Não quis. e fez isto. achatando ali. os olhos de uma na linha da boca do outro.O que. . uni-as por um laço.Que tem? acudiu a mãe. mamãe! E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha. pegou do .Estará bom? . Nenhum laivo amarelo. os olhos escuros. o espaldar da cadeira era baixo.Levanta. Ora. Não mofes dos meus quinze anos. quando a mãe apontou à porta. até que exclamei: . CAPÍTULO 34 SOU HOMEM! Ouvimos passos no corredor. Cheguei a dizer-lhe que estava feia. alargando aqui. a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la. não levantou a cabeça. um triste pedaço de fita enxovalhada. desfazendo as tranças. que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada. Pedi-lhe que levantasse a cabeça.

Uma exclamação. não era nada. nada disso valeu a sensação do beijo. murmurando: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. Vendo-me calado. igualmente esticados para os dela. Andando. tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas que me rodeavam. a lição do velho coqueiro também.Sou homem! Supus que me tivessem ouvido. chamei algumas palavras cá de dentro. De repente. e unindo-se uns aos outros. para viver não sei onde nem como.” Assim. E todas as palavras recolheram-se ao coração. e sorriu por dissimulação. e logo perdia tudo para sentir somente os beiços de Capitu Sentia-os estirados. Tinha estremeções. Era uma saída.pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. ouvi que a mãe censurava as maneira da filha. por mais que investissem com força. mas não passei à sala da lição. Dona Fortunata tirou-me daquela hesitação. por menos que as emoções o dominem. e corri à porta da alcova. baixinho. despedi-me e enfiei pelo corredor. mas a filha não dizia nada. descobrindo a América. e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. e via a cama. sentei-me na cama. porque a palavra saiu em voz alta. e perdoai a banalidade em favo. enfiado. Colombo não o teve maior. e disse-me que não fizesse caso.. embaixo dos meus. um simples artigo. achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado.. Fiz outros achados mais tarde. do cabimento.. a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande abalo. ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. apanhados pela mãe. o Padre Cabral estava à minha espera. um almirante e um sol de outubro. Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado. como vistes.. A denúncia de José Dias alvoroçara-me.com efeito. mas de atropelo. O gosto que isto me deu foi enorme. éramos dois e contrários. Corri ao meu quarto. há em cada adolescente um mundo encoberto. dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim. os livros. Depois. Voltei para dentro. parece-me que desconfiou. Olhava com ternura para mim e para ela. nenhum me deslumbrou tanto. cosido à parede. o chão. não logravam romper de dentro. e. peguei dos livros. próximo ou remoto. Não havia ninguém fora. maluquices da filha. sem querer. saiu-me da boca esta palavra de orgulho: . recordando o penteado e o resto. vago. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. e elas acudiram de pronto. as paredes. E tornava a mim. Dona Fortunata chamou-lhe tonta. sem pensar. ouvia algum som de fora. repeti que era homem. Podiam ser .

Não. muitas intelectuais. mas as honras dele. .mentira ou ilusão. pensei no seminário. apertadas. e podiam ler-me no semblante alguma coisa. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares. ninguém ralhou comigo.era a primeira vez que ele soavaaos nossos ouvidos. núncios. não podiam dizer tudo. Grande homem que fosse. de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta. a mais compreensiva. mas como se pensa em perigo que passou. um mal abortado. Outra vez senti os beiços de Capitu. Tive idéia de mentir. foi ter com ele. alegar uma vertigem que me houvesse deitado no chão. como que fundidas. eram os ossos da verdade. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos. ouvi vozes alegres. e internúncios. Bentinho.Sou homem! Quando repeti isto. é o passar e repassar das memórias antigas Ora. fui andando. a meio caminho parei. por decreto pontifício. acostumados a cônegos. e repetia: . mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. vastas e numerosas. Sendo verdade. O sangue era da mesma opinião.Prepara-te. Quando entrei na sala. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. pela terceira vez. de vária espécie. acabava de ser nomeado protonotário apostólico. CAPÍTULO 35 O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO Enfim.. Outras tenho. advertindo que devia ser muito tarde. outra promessa em aberto e outro favor pendente. mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria. Não corri precisamente. tinha. bispos. a recordação era menor que esta. e soube que. todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. peguei dos livros e corri à lição. igualmente intensas. um pesadelo extinto. vamos ver. tu podes vir a ser protonotário apostólico . doces também. a que inteiramente me revelou a mim mesmo. a mais nova. O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio. não eram a carne e o sangue dela. conversavam ruidosamente. porém. As próprias mãos tocadas.Protonotário apostólico! E voltando-se para mim: . Esta distinção do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. monsenhores.. mas a saudade é isto mesmo.

Conheci aqui o meu homem. No uso comum. ainda que não venha a ser padre. Era a primeira palavra.Há de ser padre. assentiram todos.Sim. era demasiado comprido. .Não tem que festejar a vadiação.Cabral ouvia com gosto a repetição do título. voltando a mim do receio. .Não. . . e padre bonito. grandes esperanças da Itália. mana Glória. e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. e protonotário também. basta protonotário. que entrou pouco depois de mim. acentuou Cabral.acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título. Subentendia-se apostólico. como para acostumar os ouvidos da família. o latim sempre lhe há de ser preciso. aplaudia a distinção. Era muita felicidade para uma só hora. mas respondeu logo: . . etc. não impede. mas ninguém pegou do assunto. e acabou dando-me férias. sacudindo a barriga.não impede que nos casos de maior formalidade.Protonotário Cabral. Minha mãe sorriu para mim. para ligá-lo ao nome. Bateu-me na bochecha paternalmente. e recordou. são só as honras.disse Cabral.. a semente lançada à terra. cheia de amor e de tristeza. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo. assim de passagem. se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. . . . Estava em pé.Não. chamou-me peralta. porque tio Cosme. que continuava a refletir. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo. observou minha mãe. Eu. José Dias. os primeiros atos políticos de Pio IX. não sei bem.isto o obriga a ir a Roma? . tem razão. posto que.Justamente. mas José Dias corrigiu a alegria: . .Agora. senhor protonotário. sorria ou tamborilava na tampa da boceta. a propósito. . Dona Justina. entendi que devia cumprimentá-lo também. dava alguns passos.. Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome. bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral. protonotário Cabral. O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência. Protonotário apostólico.O protonotário Santiago.esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. cartas de cerimônia.Não esqueça..Mas. atos públicos. o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a .

tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi
antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar quieta e
muda, tal como daí a pouco outras idéias... Aliás essas pedem um
Capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou
algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande
interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da
própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho
magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais
excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas
estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos
pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a
fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de
protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe
novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria
saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a
falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “protonotário Santiago.”

CAPÍTULO 36
IDÉIA SEM PERNAS E IDÉIA SEM BRAÇOS
Deixe-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura
da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao
cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à casa vizinha, agarrar
Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e concluí-las daquela
maneira particular, boca sobre boca. E isto vamos é isto... Idéia só!
idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito
depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. Quando
ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa,
almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e
a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e
dissimulada. As mãos pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu,
do lado oposto da mesa, não sabia que fizesse e outra vez me fugiram as
palavras que trazia Assim gastamos alguns minutos compridos, até que ela
deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela,
e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que não A
boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de
aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la e beijá-la... Idéia só! idéia sem

braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Não conhecia nada da Escritura.
Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar à
língua mística do Cântico um sentido direto e natural. Então obedeceria
ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua
boca”. E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes, bastaria
cumprir o versículo seis do capítulo 2: “A sua mão esquerda se pôs já
debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois”. Vedes
aí a cronologia dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu
conhecesse o texto, as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas, que
não sei se não continuaria parado. Foi ela, entretanto, que me tirou
daquela situação.

CAPÍTULO 37
A ALMA E CHEIA DE MISTÉRIOS
- Padre Cabral estava esperando há muito tempo?
- Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe também que o Padre Cabral
falara da minha entrada no seminário, apoiando a resolução de minha mãe,
e disse dele coisas feias e duras. Capitu refletiu algum tempo, e acabou
perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, à tarde em minha casa.
- Pode, mas para quê?
- Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à
casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, uma
vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça, e,
para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe
levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a
vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção.
Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém- não vivia com
rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de
Lucrécia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre
Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do
penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação
amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. De
manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os
lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve

contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão
alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos; mas
concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas;
depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e o
outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a
reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça
não quis ceder também, e caída para trás, inutilizava todos os meus
esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a
lição do Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da
cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de vontades, e Capitu,
que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão
e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque
apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a cautela necessária para
não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mistérios. Agora sei
que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até que cansou; mas então foi
a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso,
relativamente à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro
oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e
bastaria um pouco mais...
Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu,
que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava às vezes.
“Abre, Nanata! Capitu, abre!” Aparentemente era o mesmo lance da manhã,
quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente verdade, era outro.
Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de Dona Fortunata
foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora lutávamos com as mãos
presas, e nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno era a mãe
que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo
de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tentá-lo, mas
Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,
pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar à
força. Repito, a alma é cheia de mistérios.

CAPÍTULO 38
QUE SUSTO, MEU DEUS!
Quando Pádua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitu, em

Não entrou com a familiaridade do costume. perguntava em voz alta: . Como desse a este duas vezes em cinco minutos. A minha persuasão é que coração não lhe batia mais nem menos. usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. ou dois lances de há quarenta anos. que apertou a minha mão. .Que susto. O alvoroço da primeira hora é melhor. de costas para mim. mas eu.Ora. bradando infantilmente: . jantar. Bentinho. traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro.Mas. Alegou susto. inclinada sobre a costura. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual.pé. esse estado da alma que vê na inclinação do arbusto.Obrigado. E coligindo os petrechos da costura.essa cara é mesmo de quem vende saúde. cara morta. ela iria à minha. tocado do vento. José Dias para se desforrar da concorrência. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim. Capitu. estimo que você goste também. tais quais. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer. que é protonotário apostólico? . o pai não lhe meteu mais medo. muito obrigado. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta. deteve-se um instante à porta da sala antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. como a recolhê-la. No meio de uma situação que me atava a língua. mas se conto aqui. o título de protonotário. papai chegou! CAPÍTULO 39 A VOCAÇÃO Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o padre em casa dele. sem agradecimentos. vivam! exclamou o pai. meu Deus! Agora é que o lance é o mesmo. Foi logo falar ao pai. é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe. vi que era mentira e fiquei com inveja. que sabia tudo. e deu à cara um ar meio enfiado.Mamãe. e quis saber por que a filha falava em protonotário apostólico. E como vamos de rezas? A todas as perguntas Capitu ia respondendo prontamente e bem trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. . fez um pequeno discurso em honra “ao coração paternal e . enfiou pelo corredor. um parabém da flora universal.

é a melhor. . e um dia a voz de Deus lhe fala. Mas.A vocação é muito. . Prima Justina interveio: . Padre Cabral retorquia: . Não me quero dar por modelo.Pois então? exclamou José Dias triunfalmente. e em qualquer profissão liberal se serve a Deus. Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la. concluiu: . senhor. quando ele acabou José Dias sorriu sem vexame. mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina. que também são úteis e honradas.Homem.” . teimou com meu pai para que me metesse no seminário. e ele sai apóstolo. que acabei ordenando-me. . todas as crianças do meu tempo eram devotas. mas o que eu digo é outra coisa. como todos devemos. sem os seus superlativos. ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princípio dos tempos. pode-se ou não se pode? . piscando-me o olho.Você é um grande prosa. voltando-se para mim.meu padrinho. meu pai cedeu. . . . Sem vocação é que não há bom padre. tudo é que Deus o determine. falo de vocação sincera e real. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado. disse tio Cosme. E. José. que era manifesta. o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber.Perfeitamente. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre cá fora.Não contesto. veja São Paulo. e que eu não mudava de vocação. mas o poder de Deus é soberano. suponha que não acontecia assim. e.Pode-se. e eu adorava os ofícios divinos. A prova não provava.Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre? Padre Cabral respondeu que sim.augustíssimo de Pio IX. contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. que era coadjutor de Santa Rita. um jovem pode muito bem estudar as letras humanas. Cabral acrescentou que o reitor de S.A vocação é tudo. O estado eclesiástico é perfeitíssimo.Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre. que se podia. a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe. Pois. Não havendo vocação. tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos padres. falou da minha vocação. mas vocação não é só do berço que se traz. e são sempre melhor ensinadas naquelas casas. os meus brinquedos foram sempre de igreja. olhando em volta de si.

Capitu que ia depressa. todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo. descer à chácara.Escuta! . Contei-vos a da visita imperial. Capitu. ele era da mesma opinião. e ia talvez contar às outras. senhor protonotário. pegou-me na mão. e pôs o dedo na mão. como vim a saber depois. e despedir-me. amanhã falaremos. mas Capitu não me apareceu. pregado. Eram ave-marias. esperando que ela fosse também.Adeus. é claro que o meu dever.Não precisa.. Adeus. e ficássemos à vontade. . Capitu segredou-me que a escrava desconfiara. decorou o principal. seguir a vizinha corredor fora. o meu gosto. não. e enfiei pelo corredor. aliás.tinha o meu nascimento por milagre. .. e tive uma fantasia. até acabar o mundo. despediu-se. disse minha mãe. não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava. senão para ir embora. Uma preta. Capitu.Fica! Falava baixinho.. reproduzindo a de Mata-cavalos. . .Mas eu queria dizer a você. se acabasse. eu deixei-me estar parado. riu de simpatia e murmurou em tom que ouvíssemos alguma coisa que não entendi bem nem mal. CAPÍTULO 40 UMA ÉGUA Ficando só. Já conheceis as minhas fantasias. Duas vezes fui à janela. Não deixou minha mãe. Não me importou a recusa. entrar no quintal. cheguei-me a ela. cosida às saias de minha mãe. A imaginação foi . mas.. refleti algum tempo. . e retirou-se. e.. disse-vos a desta casa de Engenho Novo.Vai com ela. Não obedeci. também não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas conseqüências. vendo-nos naquela atitude. estacou e fez-me sinal que voltasse. Bentinho. dar-lhe terceiro beijo.. . . acudiu ela rindo. Novamente me intimou que ficasse.Amanhã. sozinhos. que veio de dentro acender o lampião do corredor.Não venha. Dona Glória. agarrado ao chão. Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala. eu sei o caminho. quase às escuras. que cuidei simulada. não.

” CAPÍTULO 41 A AUDIÊNCIA SECRETA O resto fez-me ficar mais algum tempo. a menor brisa lhe dava um potro. . A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira. pensando... e ordenou-me que lhe dissesse tudo. dando comigo. ela foi só. se o estômago. olhe. . E..a companheira de toda a minha existência. correndo. conto-lhe o que se passou outro dia. Minha mãe saiu da sala. que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. Neste particular. e apalpava-me a testa para ver se tinha febre. senhora. no corredor. . Não é nada mau. é melhor depois do chá. o penteado e o resto. . senhora. quis saber o que é que me doía. a minha imaginação era uma grande égua ibera. conhece-se pela voz. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica.Mas então que é? . viva. que saía logo cavalo de Alexandre. Digamos o caso simplesmente. logo. se não foi nele. para ..Não. não é coisa de cuidado. mas tu estás constipado. inquieta. se ela duvidar. perguntou se acompanhara Capitu. as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas.É. Tentei rir. levou-me ao quarto dela. Mas. mamãe. abria-me uma porta de saída. vou dizer a mamãe que não tenho vocação.É uma coisa. e preparou-se logo o voltarete do costume. senhora. é isto. e confesso o nosso namoro.Não. alguma vez tímida e amiga de empacar. para mostrar que não tinha nada. pensei. se a cabeça. Nem por isso permitiu adiar a confidência. “Sim. ao passo que me assustava. foi noutro autor antigo. mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. Disfarças para não tomar suadouro.. rápida.Que é? Toda assustada. E quase investindo para ela: . Vi entrar o Doutor João da Costa. acenda vela.Mamãe.. .Não tenho nada não. escute. e. Então eu perguntei-lhe. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento. mamãe assusta-se por tudo. . pegou em mim. eu queria dizer-lhe uma coisa. isso é volta de constipação.Não é moléstia? . se o peito.

continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim. Calou-se durante alguns instantes. só os primeiros dias.. como lhe dissera José Dias. numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é muita vez tão involuntária como a transpiração. Vocação? Mas a vocação vem com o costume. para ficar? . . Quantas intenções viciosas há assim que embarcam. e que eu confessei não sentir em mim.Agora só para o ano. E depois. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora. Bentinho. Não creio.Vou. e pareceu-me que tinha os olhos úmidos. quando José Dias te chamava Reverendíssimo. repreendeu-me sem aspereza. Enxuguei os olhos e o nariz.. não. quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las. o que me veio animando à resistência. Ela afagou-me. nem por simples intuição era capaz de deduzir uma coisa de outra. vens morar comigo. Como eu buscasse contestá-la. mas creio que a voz lhe tremia. mas as contradições são deste mundo. Disse-lhe que também sentia a nossa separação. não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de São José. . depois quis repreender-me. a meio caminho. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela tarde. é melhor. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres. não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu. Negou que fosse separação. com as suas batinas? Em casa. nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu. Depois.. ...Voltas aos sábados e pelas férias. isto é. ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera. leitor amigo.Não volto para casa? . desviava as suspeitas de cima de Capitu. .Como ficar? . quando é que ia para o seminário. era só alguma ausência. Quando te ordenares padre..Eu só gosto de mamãe. Por outro lado. não me disse as . e acabaria gostando de viver com eles. por fazer crer que ela era a minha única afeição. disse ela. anterior ao primeiro pecado. mas estimei dizê-la. e eu tornei ao filho submisso que era. tu rias com tanto gosto! Como é que agora?.Mas tu gostavas tanto de ser padre. Não houve cálculo nesta palavra. depois das férias. por causa dos estudos.principiar. mas com alguma força. depois replicou-me sem imposição nem autoridade.

salvando a tua existência. são coisas que não se fazem sem pecado. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem. eu sei que seria castigada e bem castigada. Estás tonto.circunstâncias nem a ocasião. Deixa de manha. não lhe hei de mentir nem faltar. Bentinho. Afirmou o principal. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando. e a voz não lhe saía clara. não podia ser manha. porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo. No seminário há interesse em conhecer-te. Ser padre é bom e santo. é tarde. dizem. Vamos. que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria. Este era já o seu desejo íntimo. em benefício dela e para bem da minha alma.Não. em pagamento a Deus. como o Padre Cabral.. Quisera um modo de pagar a dívida contraída. voltou-se para mim. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco atropeladamente. isto é. não.Nosso Senhor me acudiu. mas não recuava dos seus propósitos. e escapou de ser bispo. um tio meu também foi padre. . Vi que a emoção dela era outra vez grande. manha. e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não seria padre. que vive tão feliz com a irmã. e aventurei-me a perguntar-lhe: . Moleza é o que queria dizer. outra moeda.. irás para o seminário. .Também eu. e não achava nenhuma. não. não peço. mas velada e esganada. coisas que só vim a saber mais tarde. é bonito. Bentinho.E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa? ..Talvez em sonho. Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos que ela emendou logo a palavra. como para o Padre Cabral. Antes de sair. não só para ti. vamos para a sala. não me deixaria assim. mas é inútil. Bentinho. Caminhou para a porta. à proporção que se aproximava o tempo. nem os motivos dela. e Deus que é grande e poderoso. saímos ambos. que valesse tanto ou mais. CAPÍTULO 42 CAPITU REFLETINDO . Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava? . sabia muito bem que eu era amigo dela. meu filho.. que me deixas de moleza. eu sonho às vezes com anjos e santos. que a havia de cumprir. você conhece muitos. e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse.

Era pouco.. mamãe zangava-se. e por fim as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses iria para o seminário. atenuando o texto desta vez. Satisfi-la. Capitu tornou cá para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha mãe. examinando bem. Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma.. refletia. a mãe contou-me que fora excesso de leitura na véspera. Capitu confirmou a narração da mãe. Minto.. na sala e na cama. a verdade última. mas distraía-me da aflição. a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo. . é que já me arrependia de haver falado a minha mãe.. refletia. Capitu despedia-se de três amigas que tinham ido visitá-la. mas Capitu respondeu que não era preciso. Ficamos sós na sala.Se eu acendesse vela.No dia seguinte fui à casa vizinha. logo que a vi assim. mas conteve-se. trazia um lenço atado na cabeça. vi que não se mexia. a entrevista com minha mãe. ou se somente enxugou os olhos. Caímos no canapé. Já estou boa. Capitu refletia. Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras. E como desatasse o lenço. como prestes a estalar de cólera.. Vendo-lhe o gesto peguei-lhe na mão para animá-la. até muito depois da meia-noite. Que faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega. estava boa. depois sombria. acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa. e com lamparina. chama-me compassivo. se lhe morressem as esperanças todas. a segunda de um comerciante de objetos americanos.. mas também eu precisava ser animado. Quando tornei a olhar para Capitu. ainda que demorado. e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. Fiz o mesmo. companheiras de colégio. CAPÍTULO 43 VOCÊ TEM MEDO? . e ficamos a olhar para o ar. antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José Dias. o roído das fendas. as minhas súplicas. cuido que os enxugou somente. Agora. Também eu lhe contei o que se dera comigo. enquanto que eu fitava deveras o chão. as lágrimas dela. duas moscas andando e um pé de cadeira lascada.ela olhava para o chão. a verdade das verdades. mas doía-me vê-la padecer. antes e depois do chá. logo que pude. esta de dezessete anos” primeira filha de um médico. Paula e Sancha. não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo. para não amofiná-la. quando acabei. Não me chames dissimulado. aquela de quinze. é certo que receava perder Capitu. respirava a custo. Estava abatida.

sentados sobre a borda do poço. ..Medo? . e. disse-me que estava brincando.. .. sorrindo. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente.Mas. . quero brincar. . e. pergunto se você tem medo.Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitu fez um gesto de impaciência. Sem saber de mim. e por que. Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério. de brigar. não precisava afligir-me.. Mas aquela pergunta assim. . não querendo interrogá-la novamente. vou botar uma rodela de limão nas fontes. Não é nada.. entenderia. e perguntou-me se tinha medo. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube. o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. mas. De apanhar? .Tem razão. não entendo.De repente.Como até logo? . nesta ocasião.Medo de apanhar. entrei a cogitar donde me viriam pancadas. uma casa escura e infecta. fitou em mim os olhos de ressaca. você não está brincando.Medroso! . a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. em todo caso. nenhum de nós tem vontade de brincar. foi só maluquice. de ser preso. Fez o que disse. . antes diminuir até às dimensões normais. Bentinho. de andar. Ventava.Medo de quê? . e disse: . até logo. o . Também vi a presiganga.Sim... Não entendi. de trabalhar.Está-me voltando a dor de cabeça. . e. Em seguida. acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim. sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim. Capitu tornou ao que era. cessando a reflexão. Se ela me tem dito simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não. e também por que é que seria preso. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. e quem é que me havia de prender.Não.. bateu-me na cara. vaga e solta. não pude atinar o que era. ainda aí nos detivemos por alguns minutos.Eu? Mas. e dar-lhe o movimento do costume. e atou o lenço outra vez na testa. Pois quem é que há de dar pancada ao prender você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca.Sim. com um gesto cheio de graça. Capitu.

deixa tudo. levantou o olhar.Venho. .. deixa sua mãe. e sua mãe não quiser que você venha. mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias. . Capitu falou novamente da nossa separação. e com a taquara escreveu uma palavra no chão.Dê cá. por mais que eu. e pedi-lhe a taquara.Não diga isso! . inclinei-me e li: mentiroso. A voz. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ela no muro.Contra a ordem de mamãe. não quero disfarce.. sem levantar os olhos.Ou que me mato de saudades. narizes e perfis..Você deixa seminário.Que é? Diga.. .Pois sim. um tanto sumida. riscava no chão. mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer. mas fale verdade...Contra a ordem de sua mãe? . quando não falava. se você não vier logo. Era tão estranho tudo aquilo.céu estava coberto. Capita. CAPÍTULO 44 O PRIMEIRO FILHO .Eu? Fez-me sinal que sim. buscasse agora razões para animá-la. quis fazer o mesmo no chão. você vem? . há de responder com o coração na mão. com um pedaço de taquara. Capitu olhou para mim. Não me ouviu ou não me atendeu.Não fale em morrer. . deixe escrever uma coisa. . mas eu pergunto. para me ver morrer? . . Não atinava com a . receoso disso mesmo. diga-me. como de um fato certo e definitivo.Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe. ..Eu escolhia. perguntou-me: . que não achei resposta. Capitu! Capitu teve um risinho descorado e incrédulo.Diga-me uma coisa. era uma das suas diversões. oblíquo e dissimulado. Desde que se metera a desenhar. a quem é que escolhia? . tudo lhe servia de papel e lápis.

disse-lhe eu mordendo os beiços.Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre. e o sangue correndo.Ou Candelária.. avise-me a tempo para fazer um vestido à moda saia balão e babados grandes. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas... A igreja há de ser grande. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos. não há dúvida. e acabou por dizer: . melhor que padre só cônego. que o nome escrito por ela.Pois sim. Pensando bem. se éramos sós? Dona Fortunata chegara uma vez à porta da casa. ninguém mais. mas até me pareceu que repercutia no ar. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. Nada mais. uma moça que morou na Rua de Mata-cavalos. é possível que a escrevesse também. do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua..Padre é bom.. e o furor na alma. você ouvirá a minha missa nova.Que morou? Você vai mudar-se? . Hei de fazer um figurão. na rua um tropel de bestas. metido na alva. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?”.razão do escrito. Pater noster. depois virão as roxas. . Tive então uma idéia ruim. ou somente este fenômeno curioso. mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar. disse-lhe que. com a mesma taquara. Carmo ou S. Quem. O roxo é cor muito bonita. Qualquer serve. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena. como não atinava com a do falado. Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. vozes vagas e confusas.Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia.“Aquela é Dona Capitolina. . . Como desforço. O que eu não quero perder é a sua missa nova. comece pelas meias pretas. . cantando. mas com uma condição. com a capa de ouro por cima. até ao meu golpe final que foi este: . a vida de padre não era má. afinal de contas. . e eu podia aceitá-la sem grande pena. . era pueril.Candelária também. contanto que eu ouça a missa nova. Ao longe. . “ . é melhor cônego. não só me espiava do chão com gesto escarninho..Bem. mas não me lembrava nada. Francisco. por causa das meias roxas. a graça de um e a prontidão de outro. Tinha a cabeça vazia. A solidão era completa. Capitu. Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela. mas entrou logo depois.

disse ela vendo-me hesitar. e antes não me chegasse a sair da boca: não ouviria o que ouvi.Diga se promete. se o não fez antes e só agora. não há nada mais exato.. Percorreu-me um fluido. Promete-me que seja eu o padre que case você? . e acrescentou que esperava a segunda. .. tudo isso produzia um tal .. Todavia. sim. Olhe.. prometo outra coisa.. Quanto ao meu espanto. com tais palavras e maneiras.. por haver-me acudido outra idéia.A falar verdade são duas coisas.Vossa Reverendíssima pode falar. ..Promete uma coisa? .A primeira é que só se há de confessar comigo.Que é? . Logo depois fez descair os lábios. leva muitos anos. e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos. Falou do primeiro filho. você não vai ser padre já amanhã. não prometo. A segunda é que. . sem crer por isso na veracidade do autor.Ao que ela respondeu: . a perda. LEITOR Abane a cabeça leitor. faça todos os gestos de incredulidade. . é que. . se também foi grande. como se fosse a primeira boneca.Que me case? disse ela um tanto comovida. o casamento dela com outro. Aquela ameaça de um primeiro filho. portanto. Mas. Palavra que me custou. a separação absoluta. Foi assim mesmo que Capitu falou. o primeiro filho de Capitu. Chegue a deitar fora este livro. .Não sabendo o que é. CAPÍTULO 45 ABANE A CABEÇA. disse..Não. seria esperar muito tempo. a aniquilação.A segunda. Bentinho. . para eu lhe dar a penitência e a absolvição. prometo que há de batizar o meu primeiro filho.. se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. veio de mistura com uma sensação esquisita. e abanou a cabeça. .A primeira está prometida.. fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página.Duas? Diga quais são. continuei eu.

mas.Está bom. Fiz-me de rogado. disse eu finalmente. se nem me deixou tempo de puxar o braço. como as rezas de obrigação. Era amor puro.. Buscasse eu neste livro a minha glória. nem sei se iria.. não sei para que. era a ternura da reconciliação. Fosse o que fosse. Se. foi ela que as iniciou. Para que bulir nisso? . ela pegou-me na ponta dos dedos. a não ser que fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia.Diga sempre.. como penso. mas não. não tinha outra. sem devoção. Capitu alegava a insônia... depois de alguma hesitação. sentia os olhos molhados. Capitu fitou-me uns olhos tão ternos.Não foi por nada. por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? . que era muito chorão por esse tempo. como eu estivesse cabisbaixo. que se dizem de tropel. depois quis levantar-me para ir embora. A explicação agradou-me.. que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. o abatimento do espírito. Foi por causa do seminário? .” Eu.. Capitu não . e foi assim que nos pacificamos. e diria que as negociações partiram de mim. e pedíamos reciprocamente perdão... Capitu sorria. e a posição os fazia tão súplices. depressa. que me deixei ficar. e finalmente “os seus calundus. Podia ser um simples descargo de consciência. uma cerimônia. Outra vez Dona Fortunata apareceu à porta da casa.. CAPÍTULO 46 AS PAZES As Pazes fizeram-se como a guerra. e. mas nem me levantei. acabou. eu via o primeiro filho brincando no chão. respondeu Capitu. passei-lhe o braço pela cintura. ela abaixou também a cabeça.efeito. desapareceu logo. era efeito dos padecimentos da amiguinha. explique-me só uma coisa.Foi. a dor de cabeça. CAPÍTULO 47 “A SENHORA SAIU” . Não? Eu também não creio. Alguns instantes depois... mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus. o meu braço continuou a apertar a cintura da filha. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si. ouvi dizer que lá dão pancada.

Há nessa cumplicidade um gosto particular. o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas.Mas eu também juro! Juro. durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia. mas dois ou três anos passam depressa. porém. disse ela. Basta isto? . não casando nunca. os nossos temores. continuei.Ainda que você case com outra. e as costas com que elas descem. no coração de Capitu. e até lhe vi as faces vermelhas de prazer. o tom da exclamação..Que eu case com outra? .Tudo pode ser. melhor que a ama.Não quê? Tinha havido alguns minutos de silêncio. e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que “a senhora saiu”. ou não seriam as mesmas.disse a verdade. apetecível. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião? . quando a senhora não quer falar a ninguém. Jurou duas vezes e uma terceira: . . cumprirei o meu juramento. Bentinho.. cochilando o seu arrependimento.. Você jura uma coisa? lura que só há de casar comigo? Capitu não hesitou em jurar. Dizem que não estamos em idade de casar.. Bem. E eu não desci triste nem zangado. achei a criada galante. haja o que houver. As andorinhas vinham agora em sentido contrário.já ouvi dizer criançolas. Mas juremos por outro modo. força é reconhecer que não podia dizê-la.Devia bastar. . foi tão alto que espantou a minha vizinha. começando já a somar as nossas saudades. você jura. Capitu.. criançolas. Nós é que éramos os mesmos. ali ficamos somando as nossas ilusões. apaixonar-se por ela e casar. . CAPÍTULO 48 JURAMENTO DO POÇO . Sim.Não! exclamei de repente. A verdade não saiu. Você pode achar outra moça que lhe queira.Não há de ser assim. juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. que somos crianças. . juremos que nos havemos de casar um com outro. ficou em casa. eu não me atrevo a pedir mais. não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas.

Estávamos contentes. havíamos de ter um oratório bonito. CAPÍTULO 49 UMA VELA AOS SÁBADOS Eis aqui como. era a afirmação do matrimônio.Se teimarem muito. Éramos religiosos. irei. de jacarandá. entramos a falar do futuro. Não nos censures. na roça ou fora da cidade. Havíamos de acender uma vela aos sábados. após tantas canseiras. era mais que a eleição do cônjuge.Compreendeis a diferença. plantei-lhe flores. que era o melhor. Viríamos aqui uma vez por ano. mas dela. uma sege e um oratório. Podíamos acabar solteirões. Se fosse em arrabalde. em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas. e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. seria longe. e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. na minha opinião. piloto de má morte. A casa. Não afligíamos minha mãe. em parte porque éramos religiosos. .. Eu nem já temia o seminário. Esta reflexão não foi minha. sem mentir ao juramento do poço. não tomo ordens.mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a proteção do céu. Realmente. não se navegam corações como os outros mares deste mundo. mas faço de conta que é um colégio qualquer. Demorei-me mais nisto que no resto.. um meio-termo. ninguém nos fosse aborrecer. escolhi móveis. Esta fórmula era melhor. não devia ser grande nem pequena. Sim. onde. mas acabou aceitando este alvitre. como o sol e a lua. com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Ao contrário. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. apenas exclusiva. a fórmula anterior era limitada. tínhamos o céu por testemunha. e tinha? a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela. Juramos pela segunda fórmula. Capitu temia a nossa separação. alto. tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. CAPÍTULO 50 .

e nesse caso. por um modo que pede Capítulo especial. padeci muito..Minha filha. E a mim. mas a boca disse que não. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã. um ano passa depressa. e apoiou o “alvitre do senhor protonotário”. se no fim de dois anos. Os olhos dela brilharam. e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. Capitu deu-me igual conselho. e um ano andava depressa.. Não foi ainda a nossa despedida.. José Dias.Estou certo. é que a vontade divina é outra. somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. experimentar-me a vocação. não tendo alcançado ir comigo para a Europa.. Se não sentir gosto nenhum. demais. fazendo vir do credor a relevação da dívida. quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário: . não fico longe da verdade. uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou. A senhora não podia pôr em seu filho. beijou-lhe a mão. Há de ser um padre de mão-cheia. o Padre Cabral achara um meio-termo. José. tudo é infinito. em particular: . no fim de um ano as coisas estariam mudadas. por mais preparado que estivesse. para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige.UM MEIO-TERMO Meses depois fui para o seminário de S. seguiria outra carreira. . Era uma concessão do padre. agarrou-se ao mais próximo. disse ele. meu amiguinho. antes de nascido. mais tarde. aos quinze anos. esta fez-se na véspera. e que o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim. se não vier em um ano. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho. se eu me ativer só à lembrança da sensação. é que Deus não quer. que nem teve tempo de ficar triste. só lhe parecia que um ano era bastante. uma ou outra vez. piscando-me o olho. como diz o padre.. que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. Também. o melhor remédio é a Europa. mas é bom ser enfático. Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha mãe lhe dava). você vai perder o seu companheiro de criança. O que . eu não revelasse vocação eclesiástica.As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer. Realmente. Minha mãe também padeceu.Vá por um ano. Dava a minha mãe um perdão antecipado. Entretanto. Há nisto alguma exageração. Em particular animou-me a suportar tudo com paciência.. . mas sofria com alma e coração.

e não foi só o aperto de mão que selou o contrato. Deus. Não consentiu em fotografar-se. ela ia prendendo minha mãe. eram direitos. de dotes finos e raros. para lhe dar um retrato. foi o mais que pôde. minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. fez-se mais assídua e terna. se pensar. nem de ressaca. tanto se doía como se aprazia de qualquer coisa. Minha mãe era de natural simpático. José. eu era puro. e puro fiquei. como fez as mãos limpas. e antes dela a vocação. não se descrevem. e puro entrei na aula de S.. a buscar de aparência a investidura sacerdotal. antes do acender das velas. Eu não ia mentir ao seminário. claros. feita aos vinte e cinco anos. e.. Talvez risque isto na impressão. lúcidos. como a pequena lhe pedia. Quanto ao selo. na sala de visitas. como no quintal. quando recebeu o mimo. em casa dela. porque. vivia ao pé dela. Beijou o retrato com paixão. CAPÍTULO 51 ENTRE LUZ E FUSCO Entre luz e fusco. e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes. Juramos novamente que havíamos de casar um com outro.. depois de algumas hesitações. E desde já fica. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas. Os olhos de Capitu. assim fez os lábios limpos. mas tinha uma miniatura. Tudo isto me lembra a nossa despedida. resolveu dar-lha. Oh! minha doce companheira da meninice. tudo há de ser breve como esse instante. Logo cedo veio à nossa . deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. ao passo que nos prendíamos um ao outro. foi a conjunção das nossas bocas amorosas.unicamente digo aqui é que. com os olhos nela. fica. Mas a vocação eras tu. uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. é a nossa defesa. em verdade. se até lá não pensar de outra maneira. O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. e igualmente sensível. aí é que nos despedimos de uma vez. a investidura eras tu. Nem durou muito a nossa despedida. não eram oblíquos. CAPÍTULO 52 O VELHO PÁDUA Já agora conto também os adeuses do velho Pádua..

ao sair. aduladores baixos. coisa que já lhe não preste para nada.Aqui está. Padre que seja. um botão de colete. Fui apertar-lhe a mão. Deus é grande e descobre a verdade..coisa que eu. para guardá-lo. . que é mais cuidadosa que a mãe.. Se lhe disserem outra coisa. e. qualquer coisa. fui vítima de intrigas. eu não sou como outros. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades.Seja feliz! disse-me.Não esqueça o seu velho Pádua. mas tive idéia de dá-lo ao pai. desfizeram-se. guarde.. certos parasitas.Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta. . são os mais felizes! “Por que falará assim? pensei. por esta luz que me alumia. São intrigas. se tem algum trapinho que me deixe em lembrança. a nossa casa está às suas ordens. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos. O valor é a lembrança. quando me casei. .um número tão bonito! . e vê sair branco o maldito número. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus! Tinha os olhos úmidos deveras. Enfim.Mas.. levava a cara dos desenganados.. cortados na véspera. ou à pequena. não esqueça o velho Pádua. Todos nós estimamos muito ao senhor. como merece.. Se algum dia perder sua mãe e seu tio. Não. tão grandes e tão bonitos. excelentes pessoas.eu sou de outra espécie. Peguei do embrulho e dei-lho. ele abraçou-me com ternura. pode contar com a nossa companhia. porque são boas pessoas. a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. Suspirou e continuou: .. e eu sou grato às finezas recebidas.casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto. não.” . creia. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele. vindos de fora para desunião das famílias. mas a afeição é imensa. . Quero só que me não esqueça. não desejo. Tive um sobressalto.Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia. um caderno latino. se algum dia perder os seus parentes. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha. Também eu. A intenção era levá-los a Capitu. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças. não acredite.. Não é suficiente em importância. como ia dizendo.

Agora não dizia nada. disse ele.CAPÍTULO 53 A CAMINHO! Fui para o seminário. Quando minha mãe me deu o último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ciência comum a todos os sistemas. no quarto dele. Prima Justina suspirava. Como eu achasse muito breve. emendando os descuidos de minha mãe. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos íntimos. lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo”. A alopatia é o erro dos séculos. é o assassinato. mas é melhor aprender logo tudo de uma vez. . . Os moleques cochichavam.Não duvidaria aprovar a idéia. Antes de um ano estaríamos a bordo. Fisiologia. não dizia nada a princípio. a alopatia é erro na terapêutica. não são alopáticas nem homeopáticas. Já não era. é a ilusão. Poupa-me as outras despedidas. apertou os beiços. Assim falara na véspera e no quarto.. . volta-me papa! José Dias.Anda lá. disse-me rindo: . . se na Escola de Medicina não ensinassem. Era manhã de um lindo dia. diz-se que padecem mais que as outras. composto e grave. e vai morrer. tínhamos falado na véspera. se não for. dando ordens. até que formalmente rejeitou o alvitre. quando eu lhe beijei a mão em despedida. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca. José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência. ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família. Minha mãe apertava-me ao peito. por livros e por língua de homens cultores da verdade. patologia. rapaz. Talvez chorasse mal ou nada. exclusivamente. até lá tudo estará arranjado. é verdade. Tio Cosme. fazendo-me recomendações. nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua José Dias insistiu nas esperanças: .Posso estudar medicina aqui mesmo.Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlântico. as escravas tomam a bênção: “Bênção. vou indagar. a podridão alopata.. explicou-se.Agüente um ano. iremos em março ou abril. é a mentira. onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário. mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. anatomia.

toda a velha palhada saiu cá fora. Esta sarna de escrever. Deixara seminário. sem ir mais longe.. fui pedir-lhas. à maneira dos de Junqueira Freire. feito chefe de uma seção administrativa.. senhor meu amigo. elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. coçou-se. e rimos juntos. Como eu precisasse de algumas informações. algum dia. Não é preciso dizer o nome. aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos. . menos o Panegírico de Santa Mônica. casos de estudo. deixara letras. nem me bastaria a isso um Capítulo.. Chamava-se.. e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte. a vida cara. copioso Naturalmente conversamos do passado. incidentes de nada. de todo o resto. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica. não despega mais.. quando pega aos cinqüenta anos. . Ah! não vou contar o seminário. Ou porque eram dele. passou.. um verbo.. cujo livro de frade-poeta era recente. umas vinte e nove páginas. dos costumes. é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. deu-me tudo. Tudo isso é história velha. . Alcançou licença de imprimi-lo. um mote. ou porque éramos então moços.Ah! sorriu ele. Sorriu.CAPÍTULO 54 PANEGÍRICO DE SANTA MÔNICA No Seminário. uma vigairaria mineira. claro.Que versos? perguntou meio espantado. que veio distribuindo pela vida fora. estava bom. e. memórias pessoais. certo. e suspiramos de companhia. em 1882. ali dei com este meu colega. Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira.. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia. Foram cócegas da mocidade.. Na mocidade é possível curar-se um homem dela. Não. o que é mais moço é que um dia. Pois não se lembra que no seminário. as recordações traziam tal poder de . um livro. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos. das pessoas que tratei. Ordenou-se anos depois encontrei-o no coro de S. baste o caso. um sermão do padre X.Os seus. casara e esquecera tudo. indo ver certo negócio em repartição de marinha. sim.. e dedicou-o a Santo Agostinho. e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade..

creia. . as viagens. os recreios. .. mas a explicação devia bastar. e vieram amizades novas que também se foram depois. Pois.Também eu. lembra-se? o Padre Lopes. e apontou-as. tentei mover os beiços. fitando em mim uns olhos murchos e teimosos. afinal perguntei: . como é lei da vida. os nossos recreios.Panegírico? Que panegírico? . E.. e os daqui tomaram vigairarias fora.. Ele. Concordou que fossem belas. não apareceu agora. as lições. Ele confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário. acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam eco em minha memória. meu caro colega.O meu Panegírico de Santa Mônica.. li uma delas. mas era cortesia. Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa. . nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência. após alguma reflexão. os acontecimentos vêm uns sobre outros.. mas preferia outras. perguntou-me: . encardido. respondi que por muito tempo o conservara. disse-me.felicidade que.Conservou o meu Panegírico? Não achei que dizer. que não posso dar a ninguém. era quase caridade recordar alguma lauda. Não me lembrou logo.Recorda-se bem? . mas sem lacuna. e as sensações também. oh! o Padre Lopes. com o folheto. e com uma dedicatória manuscrita e respeitosa.Bom tempo! suspirou ele. mas as mudanças.Hei de levar-lhe um exemplar. E como me visse folhear o opúsculo: . voltaram naturalmente às suas províncias.Veja se lhe lembra algum pedaço. Panegírico de Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário. disse-me. com os olhos no ar.. agora só me resta um.. . e depois de alguns instantes de pesquisa mental.Perfeitamente. e ainda assim depois de algum tempo de .É o penúltimo exemplar. quase todos. um velho folheto de vinte e seis anos. Os anos passam. mas só me disse uma palavra. uma vez ordenados. devia estar ouvindo. Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas. se alguma sombra contrária houve então. . os padres. e naturalmente ouvia.. mas não tinha palavra. manchado do tempo.

não me deixou dormir uma longa hora ou duas. mas podia ser a virtude. e o primeiro filho. e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um Capítulo ou mais. qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor. e porque também eu tive o meu Panegírico. apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento. um desses versos capitas no sentido e na forma. afinal deixei-me estar de costas. e coçava-me com alma. aos lençóis. porém. estando eu na cama como uma exclamação solta. e. Qual à idéia. ora sobre o esquerdo. Aguardei o resto. pensei em compor com ele alguma coisa. eu. Fiquei só com o Panegírico. e tanto de rima como de verso solto. Decorei bem o verso. logo. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho. as cócegas pediam-me unhas. e o primeiro verso é o que ides ler: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Como e por que me saiu este verso da cabeça. despediu-se e saiu. Não escolhi logo. r afinal ative-me ao soneto. o soneto. diria em verso as minhas tristezas. não sei. Antes. e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu. com dificuldade traria a . um soneto. ao notar que tinha a medida de verso. a religião. recitando sempre verso. considerando que o verso final. e repetia-o em voz baixa. como ele dissera as suas no claustro. tratei de poetar. saindo cronologicamente dos treze anteriores. com os olhos no tecto. era uma exclamação. seminarista. a poesia. o primeiro verso não era ainda uma idéia. recolhendo os olhos e um suspiro! . francamente achava-o bonito. e deitado ora sobre o lado direito. a idéia viria depois. a princípio cuidei de outra forma. ia competir com aquele monge da Bahia pouco antes revelado. Ia ser poeta. saiu assim.silêncio. musa de olhos arregalados. envolvido no lençol.Tem agradado muito este meu Panegírico! CAPÍTULO 55 UM SONETO Dita a palavra. e então na moda. naturalmente. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro. vinha mais nada. A insônia. e flor do céu. contarei a história de um soneto que nunca fiz: era no tempo do seminário. Assim na cama. Pensei em forjar uma de tais chaves. isto é. Era um poema breve e prestadio. mas nem assim.

com a idéia em si. pareceu-me melhor não ser Capitu. evoquei alguns sonetos célebres. Era mais próprio dizer que. e notei que os mais deles eram facílimos. era uma ironia: não exercendo a .. e. cada um a seu modo. escrevendo. Esta acepção porém. por exemplo. mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. Neste caso. saiu este: Perde-se a vida. Sonoro. Naquela ocasião achei-o sublime. depois de muito suar. perde-se a batalha! O sentido vinha a ser justamente o contrário. Assim foi que me deter minei a compor o último verso do soneto. Para me dar um banho de inspiração. sendo o poeta um seminarista. não vinha nenhum. nem quarto. assim: Ganha-se a vida. imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. que se não acabava de crer se ela é que os fizera. e fazer dela a luta pela pátria. Também me ocorreu aceitar a batalha. à vista do último verso. ganha-se a batalha! A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. Tive alguns ímpetos de raiva. os versos acudissem. a vitória ganha à custa da própria vida. e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo. Que não fosse novidade. tão naturalmente. Achei melhor a justiça. Cansado de esperar. mas. no sentido natural. e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel. era um verso magnífico. pensamento alevantado e nobre. Recitei uma e muitas vêzes a chave de ouro. Então tornava ao meu soneto. ganha-se a batalha! Sem vaidade. e recitei os dois versos. os versos saíam uns dos outros.perfeição louvada. e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. perder-se-ia acaso a vida. nem terceiro. e falando como se fosse de outro. e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. na pugna pela justiça. mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova a caridade. o segundo não vinha. mas também não era vulgar. um languidamente: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura e o outro com grande brio: Perde-se a vida. podia não caber tanto como a primeira. Começar bem e acabar bem não era pouco.. lembrou-me alterar o sentido do último verso. se eles é que a suscitavam. mas a batalha ficava ganha. com a simples transposição de duas palavras. e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. pode ser que. nesse caso a flor do céu seria a liberdade. A idéia agora. depois repeti os dois versos seguidamente. E tinha um pensamento. é possível. não há dúvida. seria a justiça.

ainda que mais breve. dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade. traziam o calor da juventude nascente. mas perde-se a batalha do céu. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa. às vezes. nada me consola daquele soneto que não fiz. apesar de padre. dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser.. bem ou mal.. acostumada a ajudá-los. se não morreu já. Vi o Bastos. por uma razão de ordem metafísica. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto.. um pouco fugitivos. ou se estiver chovendo. Queria lê-las outra vez. E quem sabe se os vagalumes luzindo cá embaixo. que está de vigário em Meia-Ponte. como a fala.. tão recente como no primeiro dia. um dos quais é cônego na Bahia. inconscientemente. Quantas outras caras me fitavam das páginas frias do Panegírico! Não. não eram frias. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal. catei. creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da página. ou na roça. como tudo. com os seus consoantes e sentidos próprios? Trabalhei em vão. com as suas letras velhas e citações latinas. Pois. e acabou senador do império. como eu creio que os sonetos existem feitos. senhores. se tivesse. em qualquer ocasião de lazer. Não fitava de rosto. fazia o seu ofício. fez-se político. e agora estou compondo esta narração. Ao domingo. não sabendo por onde lhe pegasse. um magricela. e lograva entender algum texto. Eis aqui outro seminarista. o calor do passado. CAPÍTULO 56 UM SEMINARISTA Tudo meia repetindo o diabo do opúsculo. nem . pode-se ganhar a vida. é possível que fosse pedir uma idéia à noite. por exemplo. olhos claros. Não tinha janela. não seriam para mim como rimas das estrelas. Era um encanto ir por ele. e a mão. e as demais obras de arte. enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um específico contra a febre amarela. Mas. busquei. como as odes e os dramas. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas. esperei. como as mãos. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta. Luís Borges. não achando maior dificuldade que escrever. não falava claro nem seguido as mãos não apertavam as outras. não vieram os versos. o meu próprio calor. pode tentar ver se o soneto sai. Criei forças novas e esperei. e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos.caridade. os irmãos Albuquerques. como os pés.

interessantes. mas também ria folgado e largo. todas as quais vinham a dar na bondade e no espírito daquela criatura. Eu.. simples alpendres ou paços suntuosos. Cá o achei dentro. como sabes.Não é só na beleza que é um anjo. é uma casa assim disposta. Morreu pouco depois. já não tinha nada. e tinha memória para guardá-las todas. Escobar veio abrindo a alma toda. eram simples e afetuosas. Escreve-me muita vez. bastava empurrá-las. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas. mas também na bondade. Uma coisa não seria tão fugitiva. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. muita vez. hei de mostrar-lhe as cartas dela. Esta dificuldade em pousar foi a maior obstáculo que achou para tomar os costumes do seminário. como o resto. até que. a reflexão. à semelhança de conventos e prisões. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual. que lia depressa estavam aqui como lá. sendo delgados e curtos. e Escobar empurrou-as e entrou. Aqueles modos fugitivos. até as palavras. Não imagina que boa criatura que ela é. que era um anjo. logo. . cogitando. Este era homem de fortes sentimentos católicos. mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras. Outrossim. o receio é que me tolhia a franqueza. Escobar contava-me histórias dela. Também as há fechadas e escuras. e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. dizia ele. capelas e bazares. por que os dedos. Escobar tinha uma irmã. Era mais velho que eu três anos. aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro. seduzido pelas palavras dele. ou então que recordava a lição da véspera. A alma da gente. . quando a gente cuidava tê-los entre os seus. que servia de correspondente ao pai. Não sei o que era a minha. A princípio. tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu. a minha história. sem janelas ou com poucas e gradeadas.. De fato. mas ele fez-se entrado na minha confiança. Eu não era ainda casmurro. fui tímido. cá ficou. estive quase a contar-lhe logo. desde a porta da rua até o fundo do quintal. cessavam quando ele queria. cheias de carícias e conselhos. muita luz e ar puro. íamos dar com ele. filho de um advogado de Curitiba. olhos enfiados em si. O sorriso era instantâneo. O mesmo digo dos pés. não raro com janelas para todos os lados. nem dom casmurro.se deixavam apertar delas.

dizia-me José Dias andando e comentando a queda. porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas. Uma dessas. sem tirar espaço ao resto. agradeceu. ela ergueu-se muito vexada. uma segunda-feira. e não este tique-tique afrancesado. a distancia. não fica nunca. tais e tantas que eu não poderia dizê-las todas. Não é que a matéria não ache termos honestos em nossa língua. quando examina a possibilidade do que há de vir. vi cair na rua uma senhora. olhei para a outra rua. e não as sujou. em tal caso. as proporções dos acontecimentos e a cópia deles. . voltando eu para o seminário. mas não tiveram tempo de a levantar. Eu mal podia ouvi-lo. devia ser de pena ou de riso. Já agora meto a história em outro Capítulo. Sim. Várias pessoas acudiram. como pode ser torpe para os torpes. ao ler o que vais ler. a nossa desastrada. E isto é muito. levava ligas de seda. o coração. é evidentemente um erro. com seu vagar e paciência. sem susto nem vexame. que é casta para os castos. não foi uma nem outra coisa. e não as perdeu. e o mal é menor mal. erguiam-se e iam-se embora. como diria o meu finado José Dias podeis ler o Capítulo até ao fim. e enfiou pela rua próxima. As nossas moças devem andar como sempre andaram. que ia no mesmo passo.CAPÍTULO 57 DE PREPARAÇÃO Ah! Mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Panegírico. sacudiu-se. CAPÍTULO 58 O TRATADO Foi o caso que. fica robusto e disposto. que pede umas linhas de repouso e preparação. leitor meu amigo. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim. . Elas me trouxeram também sensações passadas. e andavam. se não fica então. e das primeiras quisera contá-la aqui em latim. leitora castíssima. há sempre no assunto alguma coisa menos austera. E aqui verás tal ou qual esperteza minha. caíam.Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor. porquanto (e é isto que eu quisera dizer em latim). porquanto. Também. Sirva este de preparação. O meu primeiro gesto.. e vi. Quando chegamos à esquina. tique-tique. é provável que o aches menos cru do que esperavas.. Por mais composto que este me saia.

.Parece que não se machucou.. . As batinas traziam ar de saias. e lembravam-me a queda da senhora. tique-tique. faziam um vasto círculo de saias ou. que eram assim difusas e confusas..tique-tique. Também é possível. Sábios da Escritura. com alguma repugnância. mostravam-me agora de relance as ligas azuis. tentei vencê-lo. sempre no meio para concertá-la bem. Não formulei isto por palavras. rezei padre-nossos. todas as que eu encontrara na rua. aquela presteza é manha. mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos. mas fez-se. e não as rejeitava.. outras grossas. com as mãos presas em volta de mim. como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida.. a primeira hora foi insuportável. E por alguns dias. eu fiquei “nos joelhos arranhados”. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios... Eram belas. Não dormi mais. Acordei. disse eu. busquei afugentá-las com esconderijos e outros métodos.. De noite. . todas ágeis como o diabo. sonhei com elas. . Foi isto. trepadas no ar.. Já não era uma só que eu via cair. como se não tivesse havido interrupção.Tanto melhor para ela.. e sendo este livro a verdade pura. senão quando elas mesmo de cansadas. ave-marias. Vindo o mal pela manhã adiante. até o seminário. e por isso mesmo contempláveis. Pegava depressa na oração. era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me. nem foi preciso. Ou então. adivinhai o que podia ser. tique-tique. o contrato fez-se tacitamente. Vou esgarçando isto com reticências para dar uma idéia das minhas idéias.. mas tão depressa dormi como tornaram. se iam embora. e. recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação. mas certamente não unia a frase nova à antiga. No seminário. umas finas. Creio que foi “manha” que ele disse. Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros.. tique-tique. Assim fui até madrugada. A cabeça ia-me quente. não vi mulher na rua. Dali em diante. a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas. mas por um modo que o não perdesse de todo. e o andar não era seguro. é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe. e credos. a quem não desejasse uma queda... Tal haveria que nem levasse meias. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim. eram azuis. Mas eu as via com elas.. com certeza não dou nada. choviam pés e pernas sobre a minha cabeça....

A quem passe a vida na mesma casa de família. a minha memória não é boa. e eu sou acaso um deles. as ligas. mas era um antigo. A vida é cheia de tais convivas. quando leio algum desta outra casta. e fiz mais: pus-lhe não só o que faltava da santa. Assim preencho as lacunas alheias. as igrejas que não vi nas folhas lidas. Viste o soneto. leitor amigo. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias. Não. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor. Ao contrário. pessoas e afeições. em chegando ao fim. e basta. todos me aparecem agora com as suas águas. conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo. Nada se emenda bem nos livros confusos. mas ainda coisas que não eram dela. assim podes também preencher as minhas. é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. explico-me. e somente raras circunstancias. mas tudo se pode meter nos livros omissos. as montanhas. e os clarins soltam as notas que dormiam no metal. Eu. os seus altares. o seminarista Escobar e vários outros. e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho. Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas do opúsculo. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios. sem guardar delas nem caras nem nomes. as meias. . O que faço. não me aflijo nunca.CAPÍTULO 59 CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha. é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. E antes seja olvido que confusão. com os seus eternos móveis e costumes. as suas árvores. CAPÍTULO 60 QUERIDO OPÚSCULO Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica. não.

E se a comparação não vale. mestre de música.Querido opúsculo. o desvanecimento de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. Se depois jarretei o Capítulo. foi porque outro músico. Gastas e rotas. sem o que tudo é calado e incolor. não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã. mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto. sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas. vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas. ao erguer da cama. como aquele das cocadas que contei no cap. . que falava de mim todos os dias. como a pedra da rua. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem. me confessou ingenuamente não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. quando contei o pregão das cocadas. fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever por um amigo. duros e opacos. CAPÍTULO 61 A VACA DE HOMERO O mais foi muito. Já agora creio que não basta que os pregões de rua. e qual é ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos. mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. a porta da casa. um assobio particular. . a quem o mostrei. Tio Cosme também se enternecia muito.Todos estão saudosos. e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. ou as descalçava à noite. e logo pintou a tristeza de minha mãe. acudi eu. . nem ponho. José Dias apertou-me as mãos com alvoroço. quase a todas as horas. um pregão de quitanda. melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. ao entrar ela. e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera. 18. Vês que não pus nada. e grudá-lo às pernas do Capítulo. encerrem casos. há muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dois pés. Como a aprovasse sempre. Mas. como os opúsculos de seminário. Vi saírem os primeiros dias da separação. porque as chinelas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés. aqui estão outras lembranças. é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo.Mamãe. pessoas e sensações. Justamente. e as de minha mãe e tio Cosme. trazidas por José Dias ao seminário. disse-me este. tu não prestavas para nada.

A viagem à Europa é o que é preciso... . Não lhe perguntei o que é que tinha. e a minha saída daqui? . um deles de teologia.os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto As pálpebras caíram depois. ele agradeceu. concluiu demorando mais as palavras. acudiu José Dias. cortejou-os com as deferências devidas.. Eu é que não gostei nada.. e os olhos fixaram-se na parede do pátio.Por ora nada se pode afiançar. demais..Era melhor que fosse este mesmo ano. todo ele era atenção e interrogação. como que embebidos em alguma coisa. não um filho. vá estudando. e logo . senhor José Dias. Neste ponto. Tendo eu dito à Excelentíssima que Deus lhe dera. Ao passarem por nós. e. e disse-lho. Não é preciso dizer que Dona Glória enxugou furtivamente uma lágrima. no pode ter melhores estudos que os que fizer aqui. se não era em si mesmos. mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos. . que os conhecia.Ontem até se deu um caso interessante. .Tão tarde! . já por acanhamento. Desta vez a fulguração dos olhos foi menor. O lente de teologia gostou da metáfora. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero. disse um deles. não escrevia nem orava. as pálpebras não lhe caíram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. e pediu-lhes notícias minhas. mas ainda que não chegue a ordenar-se. e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia. em 1859 ou 1860.O que eu lhe dizia agora mesmo. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo! . Conto ouvir-lhe a missa nova. e assim ficaram por alguns instantes.Isso é negócio meu. mas parece que dará conta da mão. Para a viagem da existência.Mas. andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. Ao contrário. não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa. o agregado. explicando que eram idéias que lhe escapavam no correr da conversação. vinham caminhando na nossa direção. mas um anjo do céu e doutor ficou tão comovido que não achou outro modo de vencer o choro senão fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe. irá ungido com os santos óleos da teologia. já porque dois lentes. depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo. quando muito.lembra-me como se fosse hoje. um sorriso claro e amigo lhe errava nos lábios.. Tenha paciência. ainda não acabando padre a vida do seminário é útil. mas demos tempo em tempo.. até que novamente se ergueram.

que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
- Não quero saber dos santos óleos da teologia; desejo sair daqui o mais
cedo que puder, ou já...
- Já, meu anjo, não pode ser; mas pode suceder que muito antes do que
imaginamos. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito, e
penso já nas palavras com que hei de expô-lo a Dona Glória; estou certo
que ela cederá e irá conosco.
- Duvido que mamãe embarque.
- Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ela ou sem ela, tenho por certa
a nossa ida, e não haverá esforço que eu não empregue, deixe estar.
Paciência é que é preciso. E não faça aqui nada que dê lugar a censuras
ou queixas; muita docilidade e toda a aparente satisfação. Não ouviu o
elogio do lente? É que você tem-se portado bem. Pois continue.
- Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
- Será este ano, replicou José Dias.
- Daqui a três meses?
- Ou seis.
- Não; três meses.
- Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro
qualquer. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade
de mudar de ares. Você por que não tosse?
- Por que não tusso?
- Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando for
preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio; eu irei
preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto é em benefício dela. Uma
vez que o filho não pode servir a Igreja, como deve ser servida, o
melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. O
mundo também é igreja para os bons...
Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este “mundo também é
igreja para os bons”, fosse outro bezerro, irmão dos “santos óleos da
teologia.” Mas não dei tempo à ternura materna, e repliquei:
- Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
- Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu há meses que
desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno, teve
umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas há dias em que está mais
descorado. Não digo que já seria o mal, mas o mal pode vir depressa.
Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora não quiser ir
conosco,- ou para que vá mais depressa, acho que uma boa tosse... Se a

tosse há de vir de verdade, melhor é apressá-la... Deixe estar, eu
aviso...
- Bem, mas em saindo daqui não há de ser para embarcar logo; saio
primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque é que pode ficar
para o ano. Não dizem que o melhor tempo é abril ou Maio? Pois seja
maio. Primeiro deixo o seminário daqui a dois meses...
E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta
rápida, e perguntei-lhe à queima-roupa:
- Capitu como vai?

CAPÍTULO 62
UMA PONTA DE IAGO
A pergunta era imprudente, na ocasião em que eu cuidava de transferir o
embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha
repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer Improvável a viagem.
Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como,
nem ele me deu tempo.
- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não
pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo.
A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites,
produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão
violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas
o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e
partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se
entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória,
chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as
pancadas
do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro
amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria
de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando,
mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não,- um sentimento cruel e desconhecido, o pulo ciúme,
leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo
as palavras de José Dias: “Algum peralta da vizinhança.” Em verdade,
nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a
intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me

acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes
passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para
Capitu,- e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim,
um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo
espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas
certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre
é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua,
falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...
E... quê? Sabes o que é que trocariam mais- se o não achas por ti mesmo,
escusado é ler o resto do Capítulo e do livro, não acharás mais nada,
ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. Mas se o achaste,
compreenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um ímpeto de
atirar-me pelo portão fora, descer o resto dai ladeira, correr, chegar à
casa do Pádua, agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos,
quantos, quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. Não fiz nada. Os
mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naqueles três ou quatro
minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados
e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confusão, um
turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias
concluía uma frase, cujo princípio não ouvi, e o mesmo fim era vago: “A
conta que dará de si.” Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava
ainda de Capitu, e quis perguntar-lho, mas a vontade morreu ao nascer,
como tantas outras gerações delas. Limitei-me a inquirir do agregado
quando é que iria a casa ver minha mãe.
- Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
- Vai sábado.
- Vai sábado.
- Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sábado!
Sábado!
Este sábado, não? Que me mande buscar, sem falta.

CAPÍTULO 63
METADES DE UM SONHO
Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda
acordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só
ponho, e no menor número de palavras, ou antes porei dois, porque um
nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo

isto é obscuro. eu relancei os olhos pela rua. acode-me uma idéia e um escrúpulo. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até à madrugada. Quanto ao sonho foi isto. o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria. mas então nem peraltas. Tinha o número 4004. como me recomendara tio Cosme: “Anda lá. se papa. Corri ao lugar. estava deserta. se bispo. consegui conciliá-lo. que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. quando ele de si mesmo a deu. apertá-los bem. Enquanto ele falava. esquecer tudo para dormir. posto que daquela banalidade do sol e da lua. Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos. meu rapaz. mas não dormia. volta-me papa!” Ah! por que não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão. que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista. CAPÍTULO 64 UMA IDÉIA E UM ESCRÚPULO Relendo o Capítulo passado. não a havendo mais banal na terra. Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. avancei para Capitu. e provavelmente a roda andara mal. Pádua desapareceu. mas a culpa é do vosso sexo. Capitu inclinou-se para fora. mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. Deixei o manuscrito. como as suas esperanças do bilhete. dona leitora. O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho. tenente e imperador. Sobre a madrugada. ou uma encíclica. Não sonhei mais aquela noite. nem sortes grandes ou pequenas. O escrúpulo é justamente de escrever a idéia. Não fosse ele. A maior destas devia ser dada com a boca. enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. e dei mal as lições daquele dia. era impossível que não devesse ter a sorte grande. nem bilhetes de loterias. e este livro seria talvez uma simples prática paroquial. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança. Peguei-lhe nas mãos.nada dos nadas veio ter comigo. e acordei sozinho no dormitório. e o bilhete saíra branco. ou uma pastoral. vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. se eu fosse padre. mas não estava só tinha o pai ao pé de si. todos os destinos estão neste século. resmunguei não sei que palavras. Não me parecendo isto claro.. e olhei para as . E aqui entra a segunda parte do sonho. ia pedir a explicação. ele fugiu.

o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida. como todas as ilhas de todos os mares. Capitu refreou-me. Os padres gostavam de mim. CAPÍTULO 65 A DISSIMULAÇÃO Chegou Sábado. Estes. é reprodução da minha antiga casa de Mata-cavalos. e não continuam mais A noite não me respondeu logo. Sabes que esta casa do Engenho Novo. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperanças. Pois o mesmo sucedeu àquele sonho do seminário. com a fresca. nem outros. Estava deliciosamente bela. não poderiam fazê-lo. são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos. fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. disposições e pinturas. Como eu insistisse. Pois que não amo a política. os rapazes também.Escobar é muito meu amigo. Outrossim. . nas dimensões. como a dos amores. e ainda menos a política internacional. basta-me um sono quieto e apagado. dar-me-ia explicações possíveis. declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu. Capitu! . fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo. e Escobar mais que os rapazes e os padres. Ia alternando a casa e o seminário. chegaram outros sábados. e os modernos moram no cérebro da pessoa. como te disse no Capítulo II. os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Os sonhos antigos foram aposentados. Mas os tempos mudaram tudo. filhos da memória ou da digestão. onde ela tinha o seu palácio. por mais que tentasse dormir e dormisse. o que aliás na alcancei. Donde concluo que um dos oficiais do homem é fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. e eu acabei afeiçoando me à vida nova. Era uma alusão às Filipinas. a ilha dos sonhos. Antes de concluir este Capítulo. Não peço agora os sonhos de Luciano. De manhã. ainda que quisessem imitar os outros. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui e só provisoriamente a escrevo. e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição.paredes. irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas.

mas também meu. e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma. para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira. . por palavras encobertas. e lançando-lhe em rosto. e talvez acabassem não me recebendo. logo no primeiro sábado. que não pensasse mais em mim. vá para casa. senhora. interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala. e se me doía alguma coisa.Com Dona Glória e Dona Justina mostro-me naturalmente alegre.você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre? . com ela. a disciplina. . .. elas tratariam de separar-nos mais.senhor José Dias. mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados. os estudos. recordando as palavras da véspera. e os dias. Minha mãe. uma vez que suspeitavam de nós. tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho. ainda duvida que saia daqui um bom padre? .E você.. também tivera noites desconsoladas. depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam. no quintal dela. . se puder. quando eu fui à casa dela. ele já me disse que há de vir cá para conhecer mamãe. respondeu Capitu cheia de convicção. em casa dela.Pode vir a ser..Mas não é meu amigo. A mãe chegou a dizer-lhe. É natural que Dona Glória queira estar com você muito tempo. as relações. após alguns minutos de conversa.. ou todo. calei-me e obedeci. Capitu fez-se muito séria. e este é tão bom que a omissão seria um crime.Hoje não fique aqui mais tempo. e perguntou-me como é que queria que se portasse. podia indagá-lo do pai e da mãe. quando eu vivia curtido de saudades.. Se parecesse.Não importa. Capitu. Outra coisa em que obedeci às suas reflexões foi. Era justo. Para mim. foram tão tristes como os meus. na manhã seguinte. Assim lhe disse. e. que eu lá vou logo. concluiu voltando-se para José Dias: .. .Excelentíssima. e se dormia bem. . pela primeira vez. Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo. basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro. Foi à minha terceira ou quarta vinda à casa. Não gostei da convicção. me aconselhou a ir embora. você não tem direito de contar um segredo que não é só seu. a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no seminário.Acho que sim.

e não sentia bem de pessoa alguma Talvez do marido. e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior. eu espero que ele se ordene!” Tio Cosme riu da graça. estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada. Compreende-se que. Esta opinião. José Dias não dessorriu. Como vivesse de favor na casa. feita de azedume e de implicância. o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. vamos enganar toda esta gente. Não penso que ela aspirasse a algum legado. . Capitu lhe dissera: “Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho. e os últimos seis meses acabaram separados. de aparência. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina. e construir tranqüilos o nosso futuro. dias antes. precedem os fâmulos. e olhou para mim interrogativamente. Também gostaria de minha mãe. fazem-se mais risonhas. não existiria homem capaz de competir com ele na afeição. CAPÍTULO 66 INTIMIDADE Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. ao almoço. corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. nas maneiras e na agudeza de espírito.Não é? disse ela com ingenuidade. Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas. a propósito do sol e da chuva. Capitu sorriu de agradecida. mas o marido era morto. no trabalho e na honestidade. devíamos dissimular para matar qualquer suspeita. alguma vez ficava para jantar. mas não tratava de todo mal a minha amiga. . e.Era isto mesmo. falando de mim. em todo caso. logo que almocei. era póstuma. contou que. Viviam o mais do tempo juntas. e tratei de comer. às manhãs. mais assíduas. não pude resistir ao gesto da prima. concluí eu. explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos. estando a falar de moças que se casam cedo. minha mãe. Mas comi mal. Capitu ia lá coser.as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais. que havia olhado para todos.Você tem razão. Tanto melhor para a justiça dela. segundo tio Cosme. Capitu. pois em vida andavam às brigas. dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa. ou só . ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro. Eu. só prima Justina é que franziu a testa. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém. ou de nada. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte. multiplicam os cuidados. lhe desse a estima devida.

José Dias foi incumbido do recado. posto que isto a aliviasse de cuidados penosos. mas vão buscá-lo. os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. mais de uma vez . Caso tivesse ressentimentos de minha mãe. não custando nada trazer-me.Pois não lhe digam nada. a febre passa. já. Em vão tio Cosme: . . prima Justina acabava sorrindo. perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa. não perdoou à minha amiga a intervenção.Mana Glória. com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir”. eu temendo ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. como negócio simples.mas cabisbaixo e suspirando. Prima Justina. Contudo. Entrou tão atordoado que me assustou. Capitu.. você assusta-se sem motivo. . não era uma razão mais para detestar Capitu. Na rua.Não! não! mandem buscá-lo! Posso morrer. Cuidaram fosse delírio. nem ela precisava de razões suplementares. inda que azedo mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina. CAPÍTULO 67 UM PECADO Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. desde que a não via. por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. ele não alterando o passo do costume. Só me falara na doença. e a minha alma não se salva. se Bentinho não estiver ao pé de mim. Ao cabo de cinco dias. as pernas bambeavam-me. o silêncio. Um dia. íamos calados. Demais. minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. mas o chamado.dissesse mal dela a Deus e ao Diabo.Vamos assustá-lo. a conseqüência antes da conclusão.mas. Contou particularmente ao reitor o que havia. que a pôs às portas da morte. Capitu usava certa magia que cativa. já. e recebi licença para ir a casa. O coração batia-me com força. .. atenta. Prima Justina tolerava esses cuidados. não se demorem. a intimidade de Capitu fê-la mais aborrecível à minha parenta Se a princípio não a tratava mal.. outro dia. Como minha mãe adoecesse de uma febre. quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre. indagava dela e ia procurá-la.. rindo. soltou-lhe este epigrama: “Não precisa correr tanto.a premissa antes da conseqüência.

o centésimo de um instante. ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso. pois nada articulou parecido com palavras. de ver um corpo defunto.. e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém. A piedade filial desmaiou um instante. Ia só andando. e Deus pode tudo. como se esvaiu.Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo. foi um instante. quisera interrogar o meu companheiro. sem ousar abrir a boca. me segredou ao coração. . Não há de ser nada. me envolvia. como uma necessidade da obra humana.. já nem tinha tal desejo. Com os . um nó na garganta. pelo efeito do remorso que me ficou. mas então era sempre a morte de minha mãe. Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo. mais me aterrava a idéia de chegar a casa. cheguei aos Arcos. Três ou quatro vezes. de entrar. como um gesto do destino. A rua.. por mais que José Dias andasse superlativamente devagar. foi um relâmpago.. assim também se vão embora. Leitor. etc..cuidei cair. mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta. entrei na Rua de Mata-cavalos. Mas a pena trazia tanto amor. José Dias suspirava. Bentinho? .Mamãe. e não pude mais. mas muito além da dos inválidos. A casa não era logo ali. com a perspectiva da liberdade certa. Tão depressa alumiou a noite. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. me encarava com os olhos furados e escuros.? . as casas voavam de um e outro lado.. mas agora. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos.. perto da do Senado. mas não é mal de morte. para combater o Terror. e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final. menos que um instante. que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado. Senti uma angústia grande.. Fui.. O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. Enxugue os olhos... assim como dão com força. de ouvir os prantos. acaba o seminário”.Que é. e a escuridão fez-se mais cerrada. parecia fugir-me debaixo dos pés. As febres. não estas palavras. pelo desaparecimento da dívida e do devedor. e foi então que a Esperança.. que eu ia castigar-me. chorei de uma vez. Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. uma febre. que não podia ser pesar do meu pecado. aceitando o pior.

toda ela parecia consumida por um vulcão interno. Enxuguei os olhos. que estava na alcova. Eu confessarei tudo o que importar à minha história. não. chamando-me seu filho. usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais. onde está o lenço? Enxuguei os olhos. foi a última vez que o empreguei A crise em que me achava. entramos. segundo me disse depois. levanta. por amor do período. debruçado sobre a cama. meu filho. e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive. gostou de ver a minha entrada. por mais que o pecado me doesse Então levado do remorso. onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros. mas como este era alto. mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária. chegamos.dedos. Ora. CAPÍTULO 68 ADIEMOS A VIRTUDE Poucos teriam animo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Mata-cavalos. e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos. Estava queimando os olhos ardiam nos meus.. pensei em dizer tudo a minha mãe. posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração. Eram mais dois mil. e. não menos que o costume e a fé. palavras e lágrimas. Entrando no meu quarto. valem a soma que dizem. leitor para que o emende na segunda edição. uma ação que eu não faria nunca. mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição. Ajoelhei-me ao pé do leito. perdoa este recurso. fiquei longe das suas carícias: . c’est mon essence. mas esta idéia não me mordia. logo que ela ficasse boa.Não. e fui andando. há só um modo de escrever a própria . nada há mais feio que dal pernas longuíssimas a idéias brevíssimas. ansioso agora por chegar a casa. subi trêmulo os seis degraus da escada. levanta! Capitu. Vi depois que ele só queria dizer grave. mas o uso do superlativo faz a boca longa.ainda que o devedor as não pague. José Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro algum caso da mesma família. explica tudo. avisa-me. ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos. Padre que me lês. c’est moi. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’escris. repito. Enfim. era uma veleidade pura. os meus gestos. e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe. foi aquele gravíssimo. e daí a pouco.

essência. ele só guia o indivíduo. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia.. o bem e o mal. Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro. agora que contei um pecado. posto que divino. e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada. sem que este. meu amigo. ou por isso mesmo. é contá-la toda. Pelo que me toca. Tal faço eu. é um Rothschild . que não pude esperar por ele. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado. fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. e principiou a vestir-se. mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas. não menos simples que clara. é certo que nasci com alguns daqueles casais. Já me sucedeu. e era reconciliar-me com Deus. e. aliados por matrimônio para se compensarem na vida. mas não me lembra. aqui no Engenho Novo. era também agradecer o restabelecimento de minha mãe. ainda que morresse alguém. Jeová. depois do que se passou no Capítulo LXVII. diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea. à medida que me vai lembrando e convidando à construção ou reconstrução de mim mesmo. CAPÍTULO 69 A MISSA Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes. e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. por estar uma noite com muita dor de cabeça. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo número deles e delas. mas a regra é dar-se a prática simultânea dos dois. por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. Por exemplo. Nem perderás em esperar. se me lembrasse. Voilà mes gestes. acode-me agora que. visto que digo tudo. ç pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos. desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas. Antônio dos Pobres. por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado se possa dizer isento de um ou de outro. fica transferida a melhor oportunidade. voilà mon essence.. O agregado quis ir comigo. ao contrário. eu queria estar só. falta-me tempo. e naturalmente ainda os possuo. com vantagem do portador de ambos. Demais. Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião como são também possíveis e prováveis.

disse-lhe que estava restabelecida. a companheira de colégio de Capitu que queria notícias de minha mãe. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo. Havia homens e mulheres. CAPÍTULO 70 DEPOIS DA MISSA Rezei anda. Ora. lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro. Depois saímos. No adro. Era sinhazinha Sancha.Mas que queres? . e recebi a bênção final do oficiante como um ato solene de reconciliação. Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais. viemos juntos. uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. que saíam da igreja e pararam. papai pergunte. mas a igreja também não é grande. ao levantar a Deus. . velhos e moços. persignei-me. como eu vinha na mesma direção. chegando à porta da casa. Ia na direção da porta. mas eu não vi uns nem outros. sedas e chitas. ouvia e esperava.Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando. parei e olhei para todos. e o homem olhava para mim. e pagaria logo as que fizesse. era muito obsequioso. mamãe espera-me. com propensão a engrossar o ventre. mostrou-me a casa dele. Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. fechei o livro de missa e caminhei para a porta. e não faz moratórias. Não ela feia. . Vi então uma moça e um homem. O pai veio a mim.Obrigado. depois pedi perdão do pecado e revelação da dívida.Queria saber dela. eu não queria outra coisa.muito mais humano. mas devagar. A gente não era muita. Ouvi missa.Venho outro dia. receei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. dali em diante não faria mais promessas que não pudesse pagar. E chegaram-me estas palavras: . logo. onde se fez claro. e. e ira mais tarde. com a onda. e a moça olhava para mim falando ao homem. ouvindo a moça. e provavelmente olhos feios e belos. Sinhazinha Sancha. agradeci a vida e saúde de minha mãe. ouvindo as saudações e os cochichos. quis por força que eu fosse almoçar com ele. voltada para o pai. e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. e não pude sair logo. No fim. . . perdoa as dívidas integralmente.

despedi-me veio ao patamar da escada. Da rua olhei para cima.. de minuto a minuto. e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre.Tanto incômodo! . nem as nossas relações estavam Já tão estreitas. interveio tio Cosme. respirou. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. o pai estava à janela e fez-me um gesto largo de despedida. .. como vieram a ser depois. Tio Cosme quis que jantasse conosco. .Incômodo nenhum. Como eu recusasse o almoço. Rua da Quitanda..mas sabendo a razão da minha saída.. . a minha fé. Nunca me visitara até ali. os meus estudos.Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui. que também acabava grosso. Vestia simples.. mas eu entrei e comigo a tranqüilidade. aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou não. repeti-as: . conquanto falasse mais do que veio a falar depois ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade.. Teria acontecido alguma coisa. lembrando-me das palavras do Gurgel. Quando lhe disse que não.Tive receio. Era o dia das boas sensações. mano Cosme?.. Mandem ver. Enfim. Quis saber a minha idade.Parece que sim: alguns souberam.. . Escobar era muito polido e. Eu. e irá depois. disse me o número do armazém. quis que descansasse alguns minutos.” Assim falava ela. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe. Gurgel era viúvo e morria pela filha. Tio Cosme e José Dias gostaram do moço. disse ele. naquele dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume. CAPÍTULO 71 VISITA DE ESCOBAR Em casa. a filha deu-me recomendações para Capitu e para minha mãe. o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro. Não pude recusar e subi. tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa. Bentinho devia está de volta.só se lhe podia notar a semelhança do nariz. mas há feições que tiram a graça de uns para dá-la a outros. três dias antes. “A missa das oito já há de ter acabado.Os outros souberam? .

a mesma prima Justina achou que era um moço muito apreciável. de quando em quando e veio a perdê-lo. sejam romances. onde não achara restrição.Vê-se que era um coração puro! Os olhos de Escobar. A testa é que era um pouso baixa. claros como já disse. também os dominava agora. vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda. de dentro do ônibus. Conservei-me à porta. na sala como na mesa. Separamo-nos com muito afeto: ele. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos Pescadores. ainda olharia para trás. assim os definiu José Dias. . depois de alguns instantes de contemplação. sejam histórias verdadeiras. eram dulcíssimos. com a mão. São coisas que se adivinham na vida. Em casa. e aparecera. virou-se e disse-me: . era interessante de rosto. Apesar de quê? perguntou-lhe José Dias. Escobar despediu-se logo depois de jantar. apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. como nos livros. ficaram querendo bem a Escobar. a boca fina e chocarreira. ao longe. ou então foi obra de uso velho.. Nisto não houve exageração do agrado. prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede. Gostou muito do retrato de meu pai.Escobar aceitou e jantou. Era Capitu. o apesar era uma espécie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia. desde que um de nós lhe notou um dia no seminário. e ficava aberto até às nove horas: ele é que se não queria demorar fora. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito. e mantenho esta palavra.mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições. vendo que ela não acabava a frase.. que nos espreitara desde algum tempo. onde esperamos a passagem de um ônibus. fui levá-lo à porta. o nariz curvo e delgado. a ver se. por dentro da veneziana. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. nem podia tê-la. Realmente. que levou a restringir. Não é preciso dizer que era Capitu. primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos. apesar. mas não olhou. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas.Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém de uma janela ao pé. nem diminuir a graça delas. Não teve resposta. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula. depois que ele saiu. A hora que passou comigo foi de franca amizade. e agora abrira inteiramente a janela. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. ainda me disse adeus.. e quis saber quem era que me .

e o bom conselho do fino lago: “Mete dinheiro na bolsa. os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme. para advertir o contra-regra.merecia tanto. até que o pano cai. as explicações de Otelo e Desdêmona. e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos. o espectador. por que os últimos atos explicam o desfecho do primeiro. isto é. um carro. que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: “Ouço a trombeta do arcanjo!” Não se ouviu trombeta nenhuma. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar. como ensaio. mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor. ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor: Ela amou o que me afligira. nem ela. por outro lado. nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais. agora mais alto. que as peças começassem pelo fim. envergonhado. nem tu. Asaverus. disfarçadamente trágico. designa a entrada dos personagens em cena. não anuncia as peripécias nem o desfecho. . acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão. um tiro.” Desta maneira. em não sei que teatro. dá-lhes as cartas e outros objetos. e eu proporia. disse eu indo pôr-me embaixo da janela. por um lado. a olhar para cima. repetiu a palavra. CAPÍTULO 73 O CONTRA-REGRA O destino não é só dramaturgo. é também o seu próprio contra-regra.É o Escobar. apagam-se as luzes. mas ainda nada. e dizer em voz surda: “O pisão! o pisão! o pisão!” O público . O principal personagem era Asaverus. CAPÍTULO 72 UMA REFORMA DRAMÁTICA Nem eu. Então caminhou para o fundo. tão certo é que o destino. e os espectadores vão dormir. Eles chegam a seu tempo. e. como todos os dramaturgos. Quando eu era moça representou-se aí. um drama que acabar pelo juízo final. uma trovoada. Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato. Eu amei a piedade dela. e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo. espécie de: conceito.

Tinham passado outros. quando dei por mim. para ver a namorada no Catete. dizia um dos seus personagens de teatro de 1858.. levá-lo ao . botas de verniz. era a trombeta do juízo final e soou a tempo. Vão lá raciocinar com um coração de brasa. Relê Alencar: “Porque um estudante. até que. e Capitu para ele. um sentado..1851 que residia em Catumbi. como era o meu! Nem disse nada a Capitu. mas aquele sujeito costumava passar ali. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. e. um gaiato da platéia corrigiu cá de baixo: “Não. Era uso do tempo namorar a cavalo. A rigor. mas voltou a cabeça para o nosso lado. é o pistão do arcanjo” Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro.” Era certamente alusão ao cavaleiro. estava na sala de visitas. mas não seria essa palavra. e depois. às tardes.ouviu esta palavra e desatou a rir.. Montava um belo cavalo alazão. um cavalo e uma namorada. inconscientemente guardada.. que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola.” Relê Alvares de Azevedo. e Asaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo. o lado de Capitu e olhou para Capitu. O cavaleiro não se contentou de ir andando. Uma das suas poesias é destinada a contar . Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua.. era natural admirar as belas figuras. saí da rua à pressa. morava no antigo Campo da Aclamação. todos iam às suas namoradas. assim faz o Destino. alugara um cavalo por três mil-réis. e depois. que é o seu próprio contra-regra. CAPÍTULO 74 A PRESILHA Na sala de visitas. enfiei pelo meu corredor.. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela. outro andando e parando. o cavalo andava.. senhor. não pode estar sem estas duas coisas. e ainda outros viriam atrás. a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. e. figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. quando a trombeta soou deveras. Três mil-réis! tudo se perde na noite dos tempos! Ora. tio Cosme e José Dias conversavam. o dandy do cavalo baio não passou como os outros. como então dizíamos. um dandy. firme na sela.. rédea na mão esquerda a direita à cinta.

E os dois falavam. queria ir à casa ao pé. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da expressão habitual. enterrá-las bem.Que é. escapei a minha mãe não indo ao quarto dela. e abafava os soluços com a ponta do lençol. mas eu. e entrei atrás de mim. imaginando que vinha justamente dizer-mo. Bentinho? Para não fitá-lo. respondi apontando com o dedo: . e perguntou-me com interesse: . nem nunca mais. Os olhos. agora. mas José Dias. a sós comigo e o meu desprezo. impaciente. diante dela. eu saí correndo. Da cama ouvi a voz dela. caindo. como das outras vezes. eu continuei surdo. que parara ao ver-me entrar. mas não escapei a mim mesmo. Corri ao meu quarto.corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese. eu perseguia-me. fiquei com medo de ouvi-lo. abotoe a presilha. como ele insistisse em saber o que é que eu tinha.. como se a tivesse entre eles. deixei cair os olhos. falava alto. Há um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro. muito desprezo. frio e sereno. Via-me já ordenado. .Olhe a presilha.. e rolava comigo. Eu falava-me. que viera passar o resto da tarde com minha mãe. até ver-lhe sair a vida com o sangue. por maior que fosse o abalo que me deu. voltava-lhe as costas. e naturalmente comigo. ao vão da outra janela. que choraria de arrependimento e me pediria perdão. não me fez sair do quarto e Capitu ria alto. José Dias inclinou-se. como se me avisasse. e José Dias veio ter comigo. Quis tapar-lhe a boca.. eu atirava-me à cama. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes. não teria mais que desprezo. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde. CAPÍTULO 75 O DESESPERO Escapei ao agregado. Eu. imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não tardasse a aparecer. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço. e chorava.. mas. até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente. Chamava-lhe perversa. continuou a andar e a falar. e fazer-me padre de uma vez. viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada. e. para indagar e explicar.

tudo estaria dissolvido entre nós Aceitei a ameaça. era a primeira suspeita e a última. Quis resolver tudo. depois suspirou. Como me achasse estirado na cama. E aqui romperam-lhe lágrimas. mas eu acudi de pronto. e jurei que nunca a haveria de cumprir. mas fez outra.. depois abanou a cabeça. Podia estar zangada comigo.. . disse-me com quem. Esta razão quadrou-me mais que tudo. para evitar nova equivocação. tão leviana a julgasse que pudesse crer. mas abatido. e fez um gesto de separação. Ergui-me de golpe. lembrou-me a recomendação que minha mãe fazia de me não deitar depois do jantar para evitar alguma congestão. estava sossegado. podia não querer-me agora e preferir o cavaleiro. . era prova exatamente de não haver nada entre ambos. se ele vai casar? concluiu. não podia crer que depois da nossa troca de juramentos. podia ser que tivesse defesa e explicação. simulei maior incômodo. Capitu ria agora menos e falava mais baixo. à primeira suspeita da minha parte. era natural dissimular. mas nem por isso me abalou. e ela o sentiu no meu gesto. Não ceei e dormi mal.Não! não! não! não lhe peço isto! Consentiu em retirar a promessa. Na manhã seguinte não estava melhor. senão como os outros que ali passavam às tardes. Enxugou os olhos com os dedos. e foi que. deixando de examinar o negócio. nem por isso deixou de dizer que. mas não saí do quarto. se houvesse. Se olhara para ele. Confessou-me que não conhecia o rapaz. com uma moça da Rua dos Barbonos. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha.Vai casar? Ia casar. por eles e pelas lágrimas. estaria aflita E com a minha reclusão. peguei-lhe das mãos e beijei as com tanta alma e calor que as senti estremecer. Tinha ambas as coisas.E que poderia haver. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera. deixaria de ir mais à janela. a cavalo ou a pé. estava diferente. . com o fim de não ir ao seminário e falar a Capitu. com os olhos no tecto. Posto que a cabeça me doesse um pouco. . ouvi-la e julgá-la.CAPÍTULO 76 EXPLICAÇÃO Ao fim de algum tempo. eu os beijei de novo. disse-me que era grande injúria que lhe fazia.

aqui ao seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração.CAPÍTULO 77 PRAZER DAS DORES VELHAS Contando aquela crise do meu amor adolescente. . . Ouvia. . e se estava bom de todo. Ele.. mas buscava ficar atento. a tal ponto se espiritualizaram com o tempo que chegam a diluir-se no prazer..Se eu disser a mesma coisa. você é meu amigo.Então parece-lhe?. era bom disfarçar o mais que pudesse. ninguém se distrai à toa. retorquiu ele sorrindo. você é o primeiro e creio que já notaram. . se eu me demorasse mais um dia em casa. e lá fora. mas nem tudo é claro na vida ou nos livros A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento.. ele esperou.Que é? .Sim. achei-o inquieto. a não ser a gente da família. Perguntava-me com interesse o que é que tivera. eu sou seu amigo também. não tenho propriamente um amigo. você às vezes está que não ouve nada. mas eu não me . CAPÍTULO 78 SEGREDO POR SEGREDO De resto. naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu. na quarta-feira.Escobar. Quando voltei ao seminário. à sua parte.. . disfarce. mas só uma parte.Tenho motivos. olhando para ontem. Hesitei. parece que estou repetindo.. e foi Escobar que a recebeu.. espetando-me os olhos. Não referi tudo. Não é claro isto. tinha razões para andar distraído também. sinto uma coisa que não sei se explico bem.Escobar. perde a graça.Estou. . . Santiago. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém. quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada. disse-me que era sua intenção ir ver-me. .Creio. Três dias depois disse que me estavam achando muito distraído. e é que as dores daquela quadra.

Só isso? . sei porém que disse “uma pessoa. Comovido. absolutamente nadafica só entre nós. Nota que eu não lhe disse tudo. Eu sei que é moço sério. e nesse caso. trazia a este mundo um aspecto extraordinário.. O amor do trabalho . uma vez que eu só podia servi-lo no mundo. eu não posso ser padre.Escobar. Uma pessoa?. .” com reticência. e esperam. Não calculas o prazer que me deu a confidência que lhe fiz. por exemplo. . Era como que uma felicidade mais. você é capaz de guardar um segredo? ... nem o melhor. Não foi preciso mais para que ele entendesse. .. nem seria padre. meu desejo é o comércio.Desculpe. . seria um mau padre.Nem eu.Nem você? . . Que voltamos ao assunto.Você que pergunta é porque duvida. matéria adequada à admiração de um seminarista. achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. Não podia levar para a igreja um coração que não era do céu. . aí me cumpria ficar.Escobar. é um modo de falar. sou religioso. também eu tenho o propósito de não acabar o curso. mas o contado era multo. Nem cuides que pasmou de me ver namorado. não é preciso dizê-lo. . a simpleza. e eu nem mais nem menos um mimoso do céu. no fim da nossa conversação declarou-me que era segredo enterrado em cemitério. e faço de conta que me confesso a um padre. Uma pessoa devia ser uma moça. os meus acreditam. está absolvido. Estou aqui. . senti que a voz se me precipitava da garganta. Deus protegia os sinceros. nem outros assim. Deu-me de conselhos que não me fizesse padre. Aquele coração moço que me ouvia e me dava razão.Se precisa de absolvição. a vida uma carreira excelente. Era um grande e belo mundo.importo com isso.. mas eu não posso ser padre. E não é que eu não seja religioso. mas o comércio é a minha paixão. mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto Escobar escutava com interesse. não lhe referi o Capítulo do penteado. Santiago. Então contei-lhe por alto o que podia. a modéstia.Que mais há de ser? Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. tão escassa e surda.Segredo por segredo. Voltamos uma e muitas vezes: eu louvava as qualidades morais de Capitu. mas não diga nada. eis a minha sensação. que não a ouvi eu mesmo. mas da terra. Ao contrário.

minha mãe era adorável. para que um e outro digam a verdade. . Quando ela vier. mas toda a verdade.Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço. que apenas trocara com ela quatro palavras Uma só bastava a penetrar-lhe a essência íntima. acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade. não podia deixar de sentir que era adorável. gostei de ouvi-lo falar assim. mas. pode ir sempre. . Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria.Você não me convidou. como uma santa. e o filho há de ouvir o autor. É grave e complexo. delicado e sutil. sim. não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir. uma vez que toquei no ponto.Também eu fiquei gostando de todos. Realmente.e os costumes religiosos.Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você. um destes em que o autor tem de atender ao filho. Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende da parede.Agora não é possível. que esperei viesse depois tanto que já pesquisava em que altura lhe daria um Capítulo. E porventura era certo que me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto. Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. Ainda agora. . . só a verdade. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar. melhor é acabar com ele. vamos ao Capítulo. confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável. sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista. por que não foi ontem jantar comigo? . disse-lhe na primeira semana. Basta de prefácio ao Capítulo. você irá lá. mas é possível fazer distinção. ao voltar de casa. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adorável. mas pode ir antes. Não lhe tocava nas graças físicas. sim. CAPÍTULO 80 . nem ele me perguntava por elas. CAPÍTULO 79 VAMOS AO CAPÍTULO Com efeito.

nem prima Justina. feita com fervor. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. falou da necessidade de entregar o preço ajustado. Tudo está contado oportunamente. é o princípio do ponto. não dependia daquela quantia para comer. que estava atrás da porta. a quaresma é curta. comercialmente falando. foi guardada por ela. sem sequer agravar a taxa do juro. tudo se manteve. Ora. nesse mesmo Capítulo. e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. Minha mãe concordou e recolhi-me a S. embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis. nem o agregado José Dias entendeu absolutamente: eu. e ela ficou diante do contrato. porém. e minha mãe. posto me mandasse ensinar latim e doutrina. apesar da distancia.e pode ser também. e naturalmente inclinava-se à negativa. no mais íntimo do coração. era uma conclusão primeira. como única devedora. sem necessidade de lhe dedicar ab ovo. sabes que para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação. mas. é provável que me encaminhasse somente à política. José. Católica e devota. começou a adiar a minha entrada no seminário. e consentiu nas transferências de pagamento. verteu ela umas lágrimas. que enxugou sem explicar. Por que é que Deus a puniria. Era um raciocínio tardio: devia ter sido feito no dia em que fui gerado. para quem tem de pagar na páscoa. Mas meu pai morrera sem saber nada. Meu pai. aceita com misericórdia. reformar uma letra. se vivesse. é possível que alterasse os planos. sentia muito bem que as promessas se cumprem. A promessa. Outorgam. confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. O credor era arquimilionário. e que nenhum dos presentes nem tio Cosme. a questão é se é oportuno e adequado fazê-las todas. sabes disto. vê-se que eram saudades prévias. É o que se chama. e da fé pura que as animava. como tinha a vocação da política.VENHAMOS AO CAPÍTULO Venhamos ao Capítulo. negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida. está num dos Capítulos primeiros. Minha mãe era temente a Deus. não as entendi mais que eles. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. Um dia. Bem examinadas. das suas práticas religiosas. Um dos aforismos de Franklin é que. e. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras. . a mágoa da separação. não bastando concluir para destruir. Em todo caso. e . pode ser que arrependimento da promessa. um dos familiares que serviam de endossantes da letra. com alegria.

uma troca de promessa. e. Minha mãe faria. tornando-me absolutamente incompatível com o seminário. Então. o sol das manhãs. o fogo e o cutelo. Como Abraão. st pudesse. eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. ouvindo. haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. por modo idêntico ou análogo. tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. o ato de terceiro não desobriga o contratante. CAPÍTULO 81 . lá vivia horas e horas. Na vida comum. Era como se.eu fui para o seminário. e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura. revolvia-lhe os olhos. a lua das noites. conheci que temes a Deus”. é o final do ponto anunciá-lo. Capitu passou a ser a flor da casa. Tal seria a esperança secreta de minha mãe. assim como suponho que rejeitou tal idéia. No momento de fazê-lo cair. pegou do cutelo e levantou-o ao alto. mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. e mais a lenha para o holocausto. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse. dando parte dos seus anos para conservar-me consigo. E atou Isaac em cima do feixe de lenha. se és religioso. Minha mãe apalpava-lhe o coração. me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo Diabo. casado e pai: é o que presumo. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos. O céu e a terra acabam conciliando-se. falando e cantando. Neste caso. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. por lhe parecer uma deslealdade. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. a esperança de que o nosso amor. eles são quase irmãos gêmeos. o frescor das tardes. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura. fora do clero. A verdade é que minha mãe não podia tê-la agora longe de si. ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: “Não faças mal algum a teu filho. minha mãe levou o filho ao monte da Visão. A afeição crescente era manifesta por atos extraordinários. tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada.

e as pernas como armas de fuga ou de defesa. teriam suprido tudo. . mortes. Eis aqui um Capítulo fúnebre como um cemitério.UMA PALAVRA Assim contado o que descobri mais tarde. se pudessem matar. não menos que espantada. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes. e anunciou-me que se mataria também. O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. se elas ouviram algo.Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa? . Foi Capitu que os trouxe à porta da sala.caíra na véspera com uma febre. elas que têm ouvidos. Capitu trazia sinais de fadiga e comoção. De resto. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. nem elas nem os móveis. e efetivamente conversamos por alguns minutos. exerceriam vingança pronta. e correriam a chorar a vítima. pistola nem punhal. corri à Rua dos Inválidos. eu e que não escapei ao efeito da insinuação. Não a matei por não ter à mão ferro nem corda. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo.Pois então? Mas é se queres. quis que lhe falasse. às onze horas. senhor. com sinhazinha Gurgel: . no primeiro sábado. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. mas são tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram.Está pior? perguntou Gurgel assustado. . nada entenderam. ficou toda outra.mas os olhos que lhe deitei.Não. com este acréscimo que.Fique aqui um bocadinho. Falou-me. para desnortear a justiça. eu já volto. os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos. vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar.Talvez ficassem namorando.Ofereceu. e voltando-se para mim: E a enfermeira de Sancha. que não quer outra. Prima Justina escapou aos meus. pensava já vê-la morta. Agora se entenderá que ela me dissesse. e soube que Capitu estava na Rua dos Inválidos. mas quer falar-lhe. certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá. Custou-lhe a crer que fosse eu. disse-lhe ele. mas tão depressa me viu. insinuou prima Justina. posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe. . e no domingo. Como ele queria muito à filha. . Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. . quando eu cheguei a casa. como armas de ataque. suicídios e assassinatos. A filha estava enferma. fresca e lépida. a mocinha de sempre. . que se ia agravando.

Eu levantei-me depressa e não achei compostura.. quer visse ou não. Também me lembra. disse ele. . Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império. metia os olhos pelas cadeiras. a conselho de minha mãe. continuou a prestar os seus serviço às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas.. Capitu e eu.mas. e mostra a casa toda sem sair da sala. Data daí a opinião particular que tenho do canapé.a febre parece que cede. isto é. Todas as minhas invejas foram com ela. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande. E acrescentou com os olhos. mas. com os simples dedos. nenhum ar de mistério da parte de Capitu. Ele faz aliar a intimidade e o decoro. Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentará. . que brilhavam extraordinariamente . Nem sobressalto nem nada. com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos.Seremos felizes! Repeti estas palavras.. e duas mulheres a graça de um vestido.Não. . com a pura verdade. que lhe expliquei a minha visita à Rua dos inválidos. vagamente.. estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. Foi o que fizemos.. e que até breve. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? .Não sei. CAPÍTULO 82 O CANAPÉ Deles. Ao contrário..Conselho dela? murmurou Capitu.que estavam tão tristes como o dono. visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha. O canapé. e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina. CAPÍTULO 83 O RETRATO Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. voltou-se para mim. apertando os dela. só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral. um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos.

mulher por todos os lados. Mandei recado a sua mãe agora mesmo. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor. com a alegria de Capitu. pareciam irmãs. perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. Ia satisfeito com a visita.Senhor Bentinho! Senhor Bentinho! Só depois que a voz cresceu e o dono dela chegou à porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa. observou Gurgel olhando também para ela. fui respondendo que sim.Finalmente. voltando-se para a parede da sala. e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido. de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia. mulher à direita e à esquerda. escassa e pobre: tinha as portas meio cerradas. sabe que meu filho Manduca morreu? .a mãe não era mais amiga dela. até a amizade que ela tem a Sanchinha . . Quanto ao gênio.Senhor Bentinho. a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava: . Capitu ia crescendo às carreiras as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade moralmente a mesma coisa. Murmurei que sim. . desde que a matéria não me agrava.Está uma moça. os olhos pareciam ter outra reflexão. enterra-se amanhã. onde pendia um retrato de moça. Gurgel. examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma coisa. Era mulher por dentro e por fora.. Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. A casa era uma loja de louça.Morreu há meia hora. a testa principalmente e os olhos. Na verdade. e ela fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. .. com os louvores de Gurgel. e a boca outro império. Também achava que as feições eram semelhantes. e foi bom que morresse. Esse arvorecer era mais apressado. mas achei que não e pus-me a andar. era um. aborrece ou impõe.Morreu? . Meu pobre filho! Tinha de morrer. disse-me ele chorando. Estava já na Rua de Matacavalos. CAPÍTULO 84 CHAMADO No saguão e na rua.. e desde os pés até à cabeça. agora que eu a via de dias a dias. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato.

e eu. o quadro era feio. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando. ande vê-lo. .. Um dia destes ainda se lembrou do senhor. mas provavelmente não falei por palavras claras. é outra coisa. com o dedo na boca.. Que vida que ele teve!. Quer vê-lo? Entre. Isto aqui.. e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro..... que era horrível. a coisa mais importante do momento era o filho. nem sequer humanas. e o corpo acabou entrando. sim. Suspendamos a pena e vamos à janela espairecer a memória. agora que as janelas da área estavam cerradas. O mal foi que os dois casos se conjugassem na mesma tarde. Se eu passasse antes ou depois. porque ele.. e o interior da casa menos luz tinha. que não queria ver o Manduca. assobia. Custa-me dizer isto. Mas também não me culpem a mim. Não era medo. A simples notícia era já uma turvação grande. Há coisas que se não ajustam nem combinam. a palmeira que investe para o céu. e fiz até um gesto para fugir. nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. sem alma para entrar nem fugir. a cama. para ele. a coisa mais importante era Capitu. deixei ao corpo fazer o que pudesse. o trem da Estrada Central que bufa. fumega e passa. mas apesar de tudo sempre dói. para mim. mas antes peque por excessivo que por diminuto. e finalmente aquela torre de igreja. e não distingui mais nada. CAPÍTULO 85 O DEFUNTO Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça.coitado.. morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde. Não culpo ao homem. à porta da alcova duas crianças olhavam espantadas para dentro. Quis responder que não. encostado ao portal. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa. já pela morte... abria-me espaço com o gesto. mas agora ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada.. a galinha que marisca no chão da rua. Tudo o que vejo lá fora respira vida. Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito. Eis o mal todo. já pelo defunto. As minhas idéias de ouro perderam toda a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia. A loja era escura. noutra ocasião pode ser até que entrasse com facilidade e curiosidade. ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer. O cadáver jazia na cama. a cabra que rumina ao pé de uma carroça. e perguntou se estava no seminário. Realmente.

Tudo arredei da vista. mas tanto lhe darias quinze como vinte e dois. CAPÍTULO 86 AMAI.morto pareceu-me horrível. principalmente. diga-se tudo. Vá. mas podes imaginá-lo. cedi. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez. fiquei apavorado e desviei os olhos.buscava esquecer o defunto. Verdade é que o outro Manduca era mais velho. elas dão remédio ao mal. Teria dezoito ou dezenove anos. tornei a olhar... rapazes! CAPÍTULO 87 A SEGE Chegara ao último degrau. o triste corpo daquele meu vizinho. e despedi-me O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro.apesar de não ter músculos nem folhagem. como se . RAPAZES! Era tão perto. os seus parentes são mortos. . a tomar fôlego. respondi com a verdade.. faria o que minha mãe quisesse. Parei no corredor. disse que era esperado em casa.Coitado de Manduca! soluçava a mãe. Vivo era feio.. Diga-se tudo. e o mais que não disse para não dar a estas páginas um aspecto repugnante. e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu. se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. a cara não permitia trazer a idade à vista antes a escondia nas dobras da. até que recuei de todo e saí do quarto. posto também se chame Manduca. em poucos segundos. Quando eu vi. que antes de três minutos me achei em casa. nada menos que a lepra.. amai moças lindas e graciosas. que não sabia. bastou-me pensar na outra casa. Um rapaz. é morto.Padeceu muito! suspirou o pai. não morreu nem morre. Manduca padecia de uma cruel enfermidade. Amai. aroma ao infecto.. . Amai. Eu cuidei de sair. e saltei à rua. ainda que de fugida. E rápido saí. trocam a morte pela vida. pálido e disforme. atravessei a loja. e uma idéia me entrou no cérebro. estendido na cama. rapazes! e. olhei. que ali no beco empina um papagaio de papel.

com duas cortinas de couro na frente. que era nosso escravo. continuamos a andar nela. e na rua as pessoas que iam e vinham. as botas. lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia e à missa. Bentinho. que ela conservou o mais que pôde. com gente ou sem ela. dizia-me rindo: .João. de duas rodas. e segurando a rédea da outra. tão velho como a sege. Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. entre as grades da cancela.Deixa espiar. Não cuides que era o desejo de andar de carro.. mamãe! E em pé. vestido. Cada cortina tinha um óculo de vidro. metia a cara no vidro. quando era mais pequeno. por onde eu gostava de espiar para fora. com grandes pernadas ou passos miúdos. e era conhecida na rua e no bairro pela “sege antiga. . . que tem um filho. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: “É aquela senhora da Rua de Mata-cavalos.” Afinal minha mãe consentiu em deixá-la. naturalmente sobre quem iria dentro. Tudo incômodo.. escanchado na mula da esquerda. . e via o cocheiro com as suas grandes botas. Dos lados via passar as casas. demora muito as bestas.Mas demora! Fica entendido que era para saborear a sege.. Parei no degrau. ou atravessavam diante da sege. que quando já não havia nenhuma outra.Pai João vai levar nhonhô! E era raro que eu não lhe recomendasse: . o chicote e as mulas. olhavam para a sege e falavam entre si. Bentinho! . mas ele gostava e eu também. Em pequeno. quando me via à porta. vai devagar. esperando minha mãe.” A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe. porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro. abertas ou fechadas. lojas ou não.Senta. na mão levava o chicote grosso e comprido.Nhã Glória não gosta. . se chovia. Refleti um instante. sim.estivesse a esperar por mim. pediria a minha mãe que me alugasse um carro. estreita e curta. Quando havia impedimento de gente ou de animais. a sege parava. não pela vaidade. as pessoas paradas na calçada ou à porta das casas. O cocheiro. que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. por mais que tivesse o gosto da condução. Era uma velha sege obsoleta. e então o espetáculo era particularmente interessante. Era uma velha sege de meu pai.. podia ir ao enterro.

Contava que tudo me saísse como naquele dia. um resto da pessoa. mas a principal e imediata foi aquela. e podia fazer outra visita a Capitu. a mesma alma integral e pura. ouvi agora a da mãe.Perder um dia de seminário Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha. disse. velhas idéias. e. Mas o uso. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental. neste ponto. a si mesma se queria fazer velha. não alcançava tudo o que queria. . a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras. mas já deixei dito que.Vou pedir a mamãe. Capitu comigo no canapé. só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. . umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825.. velhas modas. Tinha o seu museu de relíquias. Tudo o que me lembrou dizer. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos. acompanhando o enterro no dia seguinte. .. um trecho de mantilha. o penteado. e repeti a meia voz: . assim como ouvira da memória a palavra do pai do morto. um tanto mais demorada. Antes de transpô-la. Bis aí o que era. CAPÍTULO 88 UM PRETEXTO HONESTO Não.sem a vender logo. e depois era gente pobre. .Coitado de Manduca! CAPÍTULO 89 A RECUSA Minha Mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro. não iria ao seminário. Prima Justina opinou pela negativa. as mãos presas. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele. era a lembrança do marido. A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois.Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe. A origem era outra: era porque.. velhas maneiras. Voltaria à Rua dos Inválidos. esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. pentes desusados.. Abri a cancela. a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. Gurgel aflito. para que tudo fosse antigo.

foi só um instante. Que amizade é essa que eu nunca vi? Prima Justina venceu. Uma vez que não ia ao enterro antes longe que próximo. deitado na cama. pensando no motivo. e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro “o lustre da minha pessoa”. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias. recordando algumas. fiquei amuado. Tinha eu de treze para quatorze anos. o aspecto não atraía decerto. Manduca fez o mesmo ao dos aliados. que então ardia e andava nos jornais. Era todo o seu recreio. Intimidade que intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Tivemos relações breves e distantes. sobre a tarde.. Quando referi o caso ao agregado. e a justiça está com os aliados. dois anos antes. entre nós. tornou ele. Ao domingo. Manduca disse que os aliados haviam de vencer. o pai enfiava-lhe uma camisola escura.. CAPÍTULO 90 A POLÊMICA No dia seguinte. donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. ainda mais breve que este em que vo-lo digo. Foi a guerra da Criméia. Naturalmente. . e eu respondi que não. Foi ali que o vi uma vez. e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. Se me não engano.. lendo por desfastio.Acho que não. Fui andando e pensando no pobre-diabo. Da segunda vez que o vi ali. como falássemos da guerra da Criméia.Pois veremos. a propósito. Reduziam-se todas a uma polêmica. Defendi o direito da Rússia. sem entrar nem parar . Manduca vivia no interior da casa. os dedos queriam apertar-se. Fui pensando nelas. receando que me chamassem como na véspera. Só se a justiça não vencer neste mundo. íamos com o que nos diziam os jornais da cidade transcrevendo os de fora. e não fiquei pouco espantado. no dia seguinte. Não éramos amigos. mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. . a razão é dos russos. mais tarde achei-lhe um sabor particular. andei até mais depressa. Mal podeis crer a que propósito foi. este sol riu. se parei. passei pela casa do defunto. e trazia-o para o fundo da loja. . senhor. a doença ia-lhe comendo parte das carnes.Não. não me desagradou. Fosse o que fosse. o que é impossível. nem nos conhecíamos de muito.ou.

Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço. nem a moléstia os permitiria. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. nem talvez interesse conhecê-los. Manduca era mais longo e pronto que eu. os recreios. Manduca. não me lembra se trazia coisas novas ou não. e o final era o mesmo: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Trepliquei. Fala e ri muito. . e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. era simples. deitou-se ao debate. Manduca. antes de saber os meus argumentos. não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente. concluindo por esta frase profética: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Li-a e meti-me a refutá-la. dizia-me o dono da loja. agora que o século está a expirar. entra a indagar da resposta. tinha só esta guerra. mal coberto por uma colcha de retalhos. ele.Não imagina como ele anda agora. um gozo infinito de vitória. O acaso dera-lhe em mim um adversário. em que nenhum de nós cedia. Senti esta mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe. não era exaltada. se porventura choravam antes. não era ruidosa. por mais nojosa que tivesse então a cara. e a própria saúde. e da integridade da Turquia. mas que ninguém ia tratar com ele. assunto da cidade e do mundo. onde ele jazia estirado na cama. grande. como a um remédio novo e radical. não tinha gestos. o sorriso que a acendeu dissimulou o mal físico. e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados. salvo o palmo de rua ao domingo de tarde. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam. e que pergunte ao moleque. o calor é que crescia. Tinha já papel. e se demorará muito. . defendendo cada um os seus clientes com força e brio. que tinha gosto à escrita. profunda. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente.Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito. depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis. a família. mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. uma vez. pena e tinta ao pé da cama. Fizeram-me entrar na alcova. à porta da rua. Dias depois recebi a réplica. que me chamava a outros exercícios. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei. pela sua parte. o estudo. os olhos desaprenderam de chorar.

mas agora no gabinete do Engenho Novo Então não fiz propriamente nenhuma.quando passar. mas. Enquanto espera. como os Estados morrem. relê jornais e toma notas. a não ser esta: que servi de alívio um dia ao meu vizinho Manduca. Mas a predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil. Quanto ao Manduca. Mas também. apenas recebe os seus papéis. acabou de todo com as suas apologias. mas até lhe dei felicidade. não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. gastou três anos de dissolução. tão certo é que a natureza. E o achado consola-me. nem até agora. nem depois. Morreu afinal. debaixo da triste. como a história. CAPÍTULO 91 ACHADO QUE CONSOLA É claro que as reflexões que aí deixo não foram feitas então. afirmava a mesma predição eterna: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Não entraram. Há ocasiões em que não come ou come mal. rota e infecta colcha de retalhos. até que não dei mais nenhuma. Hoje pensando melhor. essa era a questão para o meu vizinho leproso. ele estará purgando há quarenta anos a felicidade ... fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. É alguma coisa na liquidação da minha vida. esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. r nosso caso particular. e começa logo a escrever a resposta.. para entrar na sepultura. não se a Turquia morre porque a morte não poupa a ninguém. A vida dele resistiu como a Turquia se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa. O próprio Manduca. Comecei a demorar as respostas. acho que não só servi de alívio. efetivamente. A última como a primeira. é que não os mande à hora do almoço ou de jantar. não se faz brincando. atira-se a lê-los. nem então. a caminho do seminário. mas não recebendo contestação alguma. mas se os russos entrara algum dia em Constantinopla. tanto que eu queria pedir-lhe uma coisa. a questão é saber. se era.ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu silêncio. como todas. já agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo. não creio que fosse pecado opinar contra a Rússia. Fui eu que cansei primeiro. Se há no outro mundo tal ou qual prêmio para as virtudes sem intenção.. por fadiga também ou por não aborrecer.

Não examinei. o meu jardineiro afirma que as violetas. Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurreições. Capitu.. duas pessoas vieram ajudá-lo. sem opinar coisa nenhuma. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polêmica da vida. e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. cuja imagem dormiu comigo na mesma noite. mas este caso afligiu-me particular mente pela razão já dita. O resto deste Capítulo é só para pedir que. decerto e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algumas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. e ele respondeu com . E talvez saia assim a flor mais bela. para terem um cheiro superior. dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava.donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido somente. Quero dizer que o meu vizinho de Mata-cavalos. e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas. CAPÍTULO 92 O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO SE PINTA Manduca enterrou-se sem mim. Nem foi só ele. Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha. A muitos outros aconteceu a mesma coisa.Vim para isto mesmo. temperando o mal com a opinião anti-russa. Escobar? . antes do meio-dia. como se me não visse desde longos meses. o gosto com que ele recebia os meus papéis e se propunha a refutá-los.. mas deve ser verdade. Há consolação maiores. sem que eu sentisse nada. e outra que direi no Capítulo que vem.que alcançou em dois ou três meses.. não deixe de concluir que o Diabo não é tão feio como se pinta. Um amigo supria assim um defunto. Quero dizer. hão mister de estrume de porco. não contando o gosto do carro. .Você janta comigo. veio ter a Mata-cavalos.. CAPÍTULO 93 UM AMIGO POR UM DEFUNTO Quanto à outra pessoa que teve a força obliterativa. se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar.. foi o meu colega Escobar que no domingo.

pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. Também a alguém há de você sair. e prima Justina não achou tacha que lhe pôr. . mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. nem podia deixar de ser assim. respondi eu vagamente por vaidade. acudiu José Dias. senhora grave. são exatamente os dela. perguntando mais. Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. . Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça. com esses olhos que Deus lhe deu.São olhos refletidos. dizendo que eram bondades. Agradeceu. foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação. no segundo ou terceiro domingo. Escobar escutava atento. ainda agora frescas. José Dias desfechou-lhe dois superlativos. Quarenta anos! Nem parece trintaestá muito moça e bonita. ... .. . agora não voltamos mais. e o preto andava em serviço. Que idade teria? . ainda que um tanto atado. veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. O que ele disse. acrescentou. E não contávamos voltar . distinta e moça. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha.Não é possível! exclamou Escobar. Enviuvou há muitos anos? Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. contou-me duas ou três reminiscências dos seus três anos de idade.A mim parece-me um mocinho muito sério. como se carecesse de palavra pronta. Olhe. Todos ficaram gostando dele... opinou tio Cosme. chegou-se . muito moça. em resumo. sim. e elogiou também minha mãe.Nhonhô! Estávamos na horta da minha casa. no seminário todos me queriam bem. expliquei. Já viste que não era assim. nos bons exemplos. . a palavra obedecia-lhe. depois. Insistia na educação. aquele preto que ali vai passando.Nem eu digo que sejam de outro. e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natura. pode ser que a senhora Dona Justina tenha alguma razão.Seguramente. A verdade é que uma coisa não impede outra. para não discordar dela. . “na doce e rara mãe” que o céu me deu.São os olhos dele. entretanto. é de lá. disse minha mãe. Tomás! . isso parece. tio Cosme dois capotes. Parece curioso.muita polidez. mas.Justamente! confirmou José Dias. Quando eu referi a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer dele foi extraordinário.Já fez quarenta.. tão pequenino viera.Não.

As outras estão alugadas. outros estão alugados Não era possível ter todos em casa. senhor. disse ele. aquele José. senhor. ele riu também. distinguindo-se por um apelido. “um anjo dobrado”. que a natureza parecia rir também conosco. Maria Gorda ou de nação como Pedro Benguela. São assim as boas horas deste mundo. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo.Conheço essa.Todas as letras do alfabeto. sim. e o ar tão claro. na Cidade-Nova. em casa da cidade..Não sei.Você ainda se lembra da roça. a de lá é naturalmente grande. Algumas são bem grandes. Mamãe tem outras casas maiores que esta..Não lhe hão de faltar tectos.Alembra. Antônio Moçambique.Não. ele parou um instante aí. concluiu ele sorrindo com simpatia. . mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio. A minha alegria acordava a dele.. eram diferentes letras. Caminhamos para o fundo. a propósito da beleza moral que se ajusta à física. onde tudo é apertado. . ou da pessoa.. tornou a falar de minha mãe.Está socando milho. . .a nós e esperou. Mostrei outro. como a da Rua da Quitanda.É casado. Maria onde está? .. Passamos o lavadouro. Com efeito. . disse eu para Escobar. Tomás? . sim.. diz porém que há de morrer aqui.O que me admira é que Dona Glória se acostumasse logo a viver. como João Fulo. interrompeu Escobar. este Pedro. mas parece. e ainda outro. .. aquele outro Damião. CAPÍTULO 94 IDÉIAS ARITMÉTICAS . apontei ainda outros escravos. depois. lembra-me só que as achei engenhosas.Tem também no Rio Comprido. alguns andam ganhando na rua. . . por palavras tão finas e altas que me comoveram. e o céu estava tão azul.E estão todos aqui em casa? perguntou ele. mais outro. depois continuamos. uma no Catete. . é bonita. . alguns com os mesmos nomes. Nem são todos os da rosa: a maior parte ficou lá. vá-se embora.Bem. . Quais foram as reflexões não me lembra agora. e só então reparei nisto.. e ri.

e sussurrava.. Criado na ortografia de meus pais. O mesmo digo do b e do p..Há letras inúteis e letras dispensáveis. é 500.Dá tudo 1:070$000 mensais. em si mesmo. um dia. nada. o mesmo do k e do g. em um minuto. Isto com sete.. do c e do z. sabia também calcular depressa e bem.Não digo o mais. dê-me um caso. . enforque-me! Aceitei a aposta. eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto. Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito. coisa que não fazem as letras dobradas. 4 é 4. o que não vale nada faz valer muito. em três minutos. e acrescentou que as idéias aritméticas podiam ir ao infinito. Nem ele sabia só elogiar é pensar. Assim.. dá 484. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). proferi algumas palavras de defesa. eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou lingüístico. ao que ele respondeu que era um preconceito. em meio minuto bradava-me: . custava-me a ouvir tais blasfêmias. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes. Escobar pegou o papel. Assim que. . dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma.. São trapalhices caligráficas. O valor do zero é. com a vantagem que eram mais fáceis de menear. e assim por diante. Agora dobre 11 e terá 22.Por exemplo. ele erguia as pupilas. e se eu não disser a soma total em dois. Um 5 sozinho é um 5. mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. ao passo que ele podia somar. passou-os pelos olhos a fim de os decorar. cerrava as pálpebras. etc. e enquanto eu fitava o relógio.. A divisão que foi sempre uma das operações difíceis para mim. voltados para cima. e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. e 7 é 7. quaisquer quantias. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. treze. e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. sendo poucos. multiplique por igual número. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. vinte algarismos. olhe. Contudo. Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. o mesmo do s. pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp. mas não ousava refutá-lo. dizia ele. que foi muito. . era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos. e tinha esta opinião que os algarismos. ponha-lhe dois 00.

e havia de ser no papel.Fiquemos ainda mais amigos que até aqui.. A natureza é simples.. brincando. Eu. Olhava-me triunfalmente. e que os aluguéis variavam de uma para outra.Agora é certo que você vai sair já do seminário.Mas é coisa certa? .A modéstia. e mostrei-lho. e portanto mais naturais. Ao primeiro aspecto confesso que fiquei deslumbrado. Na primeira semana disse-me este em casa: . tanto pior para eles. decerto. que não pude deixar de abraçá-lo. não consente esses gestos excessivos podem estimar-se com moderação. conto-lhe o que há. Era no pátio. Vou jogar com eles que me chamaram. Pois tudo isto em que eu gastaria três ou quatro minutos.Fiquei pasmado. .fê-lo Escobar de cor. Considera que eram não menos de nove casas.. . Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo. outros seminaristas notaram a nossa efusão. A idéia é tão santa que não está mal no santuário. É ilusão.Mas. e perguntava se não era exato. a de José Dias não lhe quis ficar atrás. A arte é atrapalhada. .Espere até amanhã. só por lhe mostrar que sim. tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total. indo à missa. lá no quarto. Suspendamos a pena por alguns instantes. . Amanha. Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. Bentinho.Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples. indo de 70$000 a 180$000.Certíssima! No dia seguinte revelou-me o mistério. um padre que estava com eles não gostou..Quebremos-lhe a castanha na boca! . com tal força que ainda me doem os dedos. disse-nos. se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. Interrompi-o dizendo que não inveja. . nem um erro: 1:070$000. Escobar apertou-me a mão às escondidas. Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que . . amanhã..Como? . . era aquilo mesmo. ou na rua. CAPÍTULO 95 O PAPA A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda. no quintal.

e boca no nosso caso é a moeda.. no domingo daria a resposta.. e prostrar-se aos pés do papa o próprio objeto do favor.. Era não menos que isto. não.Melhor é falar domingo que vem.. e desejaria ver-me cá fora. Não. inclina-se. nem professor. além do mais que não digo. ou antes.falava aos meus olhos de seminarista. Pensar em quê? Você o que quer. ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do papa.. sejam satisfeitos. a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seus desejos. nem ninguém. Bentinho.. você pode muito bem gastar consigo. Os anjos o contemplam. estava arrependida do que fizera. era só o tempo de refletir. Bem sei a objeção que se pode opor a esta idéia.Pois resolvamos hoje mesmo. Digo? Não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. . o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. eram duas pessoas..Não? . Minha mãe. Comigo. ao parecer dele. Pode ser um bom remédio. respondi depois de alguns segundos de reflexão. Rigorosamente. . não preciso mais. Bentinho. com o poder de desligar dado aos apóstolos. deixe-me pensar primeiro. absolve e abençoa.. é o único! Vou já hoje conversar com Dona Glória. que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina. cartas de capuchinhos.. que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus. e para tanto valia a Escritura. E que pessoa. . com o sorriso evangélico. nem reitor..Parece-me bem. Não digo mais. um par de calças. e ele não acabou o . Sua Santidade. cartas para o nosso ministro. basta refletir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano. mas. três camisas e o pão diário.Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. Assim que. ouve. Cumpria rompê-lo. mas buscá-la. o levita prometido. e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má.Quem tem boca vai a Roma. mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Serei como São Paulo. mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém. porque é preciso acabar o capítulo. Pois eu vou. e podemos partir daqui a dois meses. expondo-lhe tudo.. .. uma semana.. Considere o quadro. Levaremos cartas do internúncio e do bispo. Capitu e Escobar. Ora. não pregá-la. e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu. interroga. . Que me parecia? .Não se vai a Roma brincando. dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe.É o único. . você beijando o pé ao príncipe dos apóstolos..

que eu só geograficamente sabia onde ficava. Há melhor. . Mas se o papa não tiver ainda soltado a você? Mando dizer isso mesmo. Ouviu-me atentamente. Eis o ponto essencial. De caminho. um reflexo de idéia e ouvi-lhe dizer com volubilidade: . vi a alma feliz de Capitu. e eu com elas. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. não é preciso isso. e acabou triste. mas ainda assim não consentiu logo. se acaso fosse a Roma. De repente. e não achei logo que lhe replicasse Capitu meteu o negócio à bulha. e eu que visse também por meu lado. Os olhos.Sim. e a Itália principalmente. porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. A Europa dizem que é tão bonita. mas a distancia que estaria da vontade de Capitu é que não. ambas em casa. nem acabava de adotar esta. de costume fugidios. que me daria um bom conselho. rindo e chamando-me disfarçado Depois. e assim também a Escobar.Juro. declarou crer que eu cumpriria o juramento. não iria. E não haverá outro meio? Dona Glória está morta para que você saia do seminário. Bentinho. E se você mentir? Esta palavra doeu-me muito. Bentinho. disse ela. quase me comeram de contemplação. pediu-me que. Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me. . esquece-me inteiramente. Se Capitu achasse longe. .Nunca! .mas era preciso ouvi-la. CAPÍTULO 96 UM SUBSTITUTO Expus a Capitu a idéia de José Dias. Quando voltei ao seminário.Não. jurasse que no fim de seis meses estaria de volta.discurso. mas julga-se presa pela promessa. vi-lhe no rosto um clarão. . ia ver se não haveria outra coisa. contei tudo ao meu amigo Escobar que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra.. Vi a alma aliviada de minha mãe.mas ha coisa que produz . espiritualmente. .Esquece.Por Deus. também. e ele conosco.Por Deus? . .não dizia melhor. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.Você indo. Capitu não achava outra idéia. tudo mediante uma pequena viagem a Roma. por tudo.

E saímos juntos. . fala-se ao senhor bispo. disse eu rindo. a questão era fácil minha mãe gastaria o mesmo que comigo.. realmente. Eu. . Aqui devia ser o meio do livro.Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote não é? Pois bem. Escobar sorriu. Vou melhorar o meu latim e saio. a religião c a liberdade fazem boa companhia. Depois ficamos a cuidar de nós mesmos. CAPÍTULO 97 A SAÍDA Tudo se fez por esse teor. Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se não é a mesma coisa. que podia ser. .. Os dele estavam assim.. Escobar ouviu-me contentíssimo. não podia havê-lo melhor.Sim. Citou a soma dos aluguéis das casas.Não acha? continuou ele. tendo consultado o bispo.Também eu.070$000. para que no comércio? . Tinha então pouco mais de dezessete..Ainda uma vez.In hoc signo vinces.o mesmo efeito. ou eu mesmo consulto. Oh! como a esperança alegra tudo. refletindo: . quando tornei de longe. que não seja você. voltou a dizer-lhe que sim. pelo lado econômico. sem que você. entendo. nem dou teologia. dê-lhe um sacerdote. . se quer e se ele hesitar. . O próprio latim não é preciso.Que é? . parecendo gostar da resposta.Não há outra coisa. não se perdendo o padre. .. disse ele gravemente. Escobar observou que.. 1. está dado um padre ao altar. . . disse eu. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão.Você também? . Saí do seminário no fim to ano. mas acabou cedendo.. e um órfão não precisaria grandes comodidades. a promessa cumpre-se. provavelmente. parece que é isso. é isso mesmo. fazê-lo ordenar à sua custa.Entendo. cada um com os seus olhos perdidos. Sentia-me pilhérico. . Minha mãe hesitou um pouco. depois que o Padre Cabral.. e agradeci de novo o plano lembrado. além dos escravos.

Achavam-me lindo. não tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir à minha graduação. pousa emenda. Já esta página vale por meses. e chego quase ao fim do papel. Passei os dezoito anos. debaixo do recolhimento casto. diria o meu agregado José Dias. e descer comigo a serra.mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena. Tio Cosme padecia do coração e ia descansar. e a vaidade é um princípio de corrupção. deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. e não diria mal. os vinte e um. tudo em resumo. mas eram também das moças que na rua ou da janela não me deixavam viver sossegado. Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. a análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano. capítulo sobre capítulo. o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demissão da vida. os vinte. a touca. fui-me aos estudos. ainda assim os cabelos brancos vinham de má vontade. A mãe de Capitu falecera. e assim chegaremos ao fim. Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus . José Dias também. sentia já. Se sim. e diziam-mo. mas. aos vinte e dois era bacharel em Direito. pouca reflexão. Tudo mudara em volta de mim. eram do sangue. O que essa qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca dizê-lo aqui. os dezenove. Eu era um curiosíssimo. outras valerão por anos. CAPÍTULO 98 CINCO ANOS Venceu a razão. A prima Justina apenas estava mais idosa. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas. lépido e viçoso. uns assomos de petulância e de atrevimento. os vestidos. algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza. Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. se tal idéia houve. Posto que filho do seminário e de minha mãe. Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. com o melhor da narração por dizer. cumpre não esquecer a grande diferença de idade. aos poucos e espalhadamente. Minha mãe resolvera-se a envelhecer. os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. Já não andaria tanto de um lado para outro. Era opinião de prima Justina que ele afagara a idéia de convidar minha mãe a segundas núpcias. sem cair no erro que acabo de condenar. como se o bacharel fosse ele.

Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. ordena-se para o ano. E diga-me agora mana Glória.. A princípio.adivinha com quem.Justamente! exclamou minha mãe. entre lágrimas: .” Assim se formam as afeições e os parentescos. Capitu entregou-lhe a primeira carta. eis aí o teu filho! Filho.Sim. não é? . E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever Tio Cosme. olha bem para mim. preferia José Dias. . . as aventuras e os livros.. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu. . o bigode realmente. tanto que alguma vez. não foi melhor que ele não teimasse em ser padres Veja se este peralta daria um padre capaz. que foi mãe e avó das outras. como se recebesses em ti mesmo a sagração.casou com a boa Sancha a amiga de Capitu. se o meu senhor coração consentir. mana Glória. veja se não é a figura do meu defunto. um pouco mais moderno. Venceu Escobar posto que vexada. concluiu por chalaça.Mulher. não sem este remoque: “Dona Glória é medrosa e não tem ambição. tem alguma coisa. quase irmã dela..primeiros tentamens comerciais. como amigo. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. eis aí a tua mãe! Minha mãe. É o pai. escrevendo-me. . respondeu tio Cosme. lembrando o evangelho de São João. Que ele casou.. Mas veja bem. Sempre achei que te parecias com ele..Sim.. mano Cosme. Bentinho. agora é muito mais.Como vai o meu substituto? . é a cara do pai. mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. a disposição do rosto. e de fato. custou-lhe a ela aceitá-lo. .Mano Cosme. CAPÍTULO 99 O FILHO É A CARA DO PAI Minha mãe. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio. Olha. chamava a esta a “sua cunhadinha.” A separação não nos esfriou.. e dizendo ao ver-nos abraçados: .Vai indo. a pedido meu. quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade Ainda ouço a voz de José Dias. e fê-lo servir a ambos nós. É bom que te sintas na alma do outro. minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros. mas é muito parecido. os olhos. eu também. O bigode é que desfaz um pouco. que ele lhe restituiu. Hás de ir ver a ordenação. logo que pôde.

mas. muita vez a ouvi clara e distinta. é um anjíssimo. a felicidade não é só a glória. já lhe contei que ouvi da boca dos lentes. velho também sabe amar. e trabalhador. Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto... Bentinho. é caju chupado.Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também. é também outra coisa..para alegrá-la.” . Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada.Mas que é? . BENTINHO” No quarto.Há de ser feliz.Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? .. não vale nada. os Escobares. pela mesma toada universal e eterna... Bentinho. Uma fada invisível desceu ali. CAPÍTULO 100 “TU SERÁS FELIZ. os escravos. é a mesma predição. Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto. Esta. Pádua. por exemplo. foi . Macbeth!” . Demais.Ouviu o quê? .. chamava-me doutor.. enquanto José Dias me ajudava calado e zeloso. Quando voltei do meu espanto.“Tu serás feliz. as visitas. e ela mesma repetiam-me o título. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso. ia pensando na felicidade e na glória. desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata. tu vais ser feliz.É boa! Você mesmo é que está dizendo..E por que não seria feliz? perguntou José Dias. José Dias também. . ouvi o resto do discurso de José Dias: . porque ela é um anjo. espanta . e marido de truz. Bentinho!” Ao cabo. endireitando o tronco e fitando-me.. que é verdadeiramente uma bênção do céu. e todos em casa. Não lhe nego que é moço muito distinto.Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?. agora são os novos. os maiores elogios. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: “Tu serás rei. a prima. meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora. naturalmente as fadas. e me disse em voz igualmente macia e cálida: “Tu serás feliz. a filha. como merece. Via o casamento e a carreira ilustre.. em particular. que não é favor de ninguém. assim como mereceu esse diploma que ali está. expulsas dos contos e dos versos.. enfim. Perdoe a cincada. .

. e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce. mantimento. agora que se aposentou. Talvez agora case mais depressa. tomou conta de tudo. e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. meu filho! .. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si... . Depois da morte da mãe. deveras. eu é que. Há de ver que não ha nada. cuida de tudo. entre si. e logo sério: Digo isto por gracejo. roupa. confundi os modos de criança com expressões de caráter. que me repetia mas já então sem palavras: “Tu serás feliz. A filha é que distribui o dinheiro. falava de Capitu. Enfim. casando-se.Pois então? Temos falado sobre isso. fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa. . naturalmente. outrora.Mamãe sempre que me escrevia. boa. não.Mamãe aprova deveras? . paga as contas. com termos diversos. salva a redação própria de mãe: “Tu serás feliz. amiga da gente. e uma dona de casa. prendada. luz. não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha. faz o rol das despesas. e dizem (não sei. Bentinho!” E a voz de Capitu me disse a mesma coisa.. Não ouvi o resto.. e assim também a de Escobar.Mas. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos. além do consentimento. Cuidei o contrário. algumas semanas depois. Só se ela é um cemitério. você já a viu o ano passado. deu-me igual profecia.um modo de acentuar a perfeição daquela moça. mas não é fora de propósito. e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. Por que é que não me contou também o que outros sabem. que não lhe digo nada. o Doutor João da Costa enviuvou há poucos meses.Positivamente.Você sabe que elas se dão muito. quando lhe fui pedir licença para casar. o protonotário é que me contou) dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez.. os quais ambos me confirmaram a notícia de José Dias pela sua própria impressão. minha mãe.. falei em nora. .Prima Justina? . ..Não sabe? São contos. pergunte-lhe. contanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos. comentou rindo. mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? . e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? . mas enfim. discreta.. Pádua. na resposta. Dona Glória não negou e até deu um ar de riso. Ouvia só a voz da minha fada interior. E quanto à formosura você sabe melhor que ninguém.

” Em seguida. Quando chegamos ao alto da Tijuca. Ao cabo.. tão concertadamente. casemo-nos. nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura. abriu-nos as portas dele.” Quanto às de S. que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si. e eles entoaram um trecho do cântico. O pêndulo iria de um lado para outro mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo.. de maneira que não se vissem as horas escritas. Do mesmo modo.CAPÍTULO 101 NO CÉU Pois sejamos felizes de uma vez. A música ia com o texto. e vá espairecer a outra parte.. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo. decorou algumas palavras. que não sabia Escritura nem latim. não só as já conhecidas. fez sinal aos anjos. S. que desmentiriam a hipótese do tenor italiano. Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro. Depois.. como a vasos mais fracos. uma tarde de março. nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. maridos. mas o homem que está escondido no coração. por sinal que chovia. visitamos uma parte daquele lugar infinito. antes que o leitor pegue em si. como se houvessem nascido juntos. Foi em 1865. que tem as chaves do céu. por exemplo: “Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado. mas era no céu. Tal foi aquela . pode ser que tudo fosse um sonho. o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas. se a execução fosse na terra. à maneira de uma ópera de Wagner. A verdade que Capitu. recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos. mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos.. como estas. CAPÍTULO 102 DE CASADA Imagina um relógio que só tivesse pêndulo. e herdeiras convosco da graça da vida. vós. tratando-as com honra. onde era o nosso ninho de noivos. Pedro.. Descansa que não farei descrição alguma. Pedro. e depois de tocar-nos com o báculo. fez-nos entrar. Foi grande fineza e não foi única. coabitai com elas. disse-me no dia seguinte que estava por tudo. morto de esperar. sem mostrador.

. confesso. mas ia falando do pai e de minha mãe. e descemos com sol. depois de uma longa paixão de crianças. que teimava em não vir. Não obstante.Pois vamos amanhã. parando. digo isto porque é realmente assim. mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol. E quando eu me vi embaixo. creio que eles podem estar desejosos de. tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. e. A alegria com que pôs o seu chapéu de casada. tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades.” E ambos os dois: “A uma mocetona!” . Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim. olhando.semana da Tijuca. . Inventava passeios para que me vissem. Uma ou outra vez.Não. achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. outros paravam. disto e daquilo. há de ser com tempo encoberto.Parece. De quando em quando. pela minha parte. que casou há dias com aquela moça.Eu? . a denúncia que está nos primeiros capítulos. e nós esperávamos um dia encoberto. e acabou festejando o nosso consórcio. e o braço para andar na rua. Bentinho. Na rua. senti a mesma coisa. Concordava em ficar. redargüiu rindo. que queria ver papai. ver-nos e imaginar alguma doença.Você há de ser sempre criança. a ponto que nos arrufamos um pouco. Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não. pisando as ruas com ela. Dona Capitolina. mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. os anos da adolescência. . muitos voltavam a cabeça curiosos. falando. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados. falávamos em descer. e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores. as famílias residem em Mata-cavalos. da falta de notícias nossas. disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. Peguei-lhe no riso e na palavra. alguns perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Doutor Santiago. e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro. mas a impaciência continuou. precisava do resto do mundo também. me confirmassem e me invejassem. moram na Glória. .

não podendo ser tantas como desejávamos.. desde a tarde de 1858. Interveio com um advogado célebre para que me admitisse à sua banca. as aves emplumando as asas e subindo ao céu. Nenhum de nós riu. Imagina o resto. Eles moravam em Andaraí. quando não podia ser mais. logo depois do almoço. íamos sempre muito cedo. íamos lá jantar alguns domingos. levando abraços dos nossos e palavras suas. dez e onze horas. Um dia. negócio de teatro. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na Tijuca. Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. e. alternando os jantares da Glória com os almoços de Mata-cavalos. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido. aonde que riam que fôssemos muitas vezes. Ao fim de dois anos de casado. mas foram deliciosas. e só nos separávamos às nove. comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhados contíguos. Tudo corria bem. Jantar é pouco. mas palavras que eram músicas verdadeiras. tinham uma filhinha. Perdera meu sogro. Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola. é verdade. salvo o desgosto grande de não ter um filho. e o céu agora mais largo para poder contê-las também. sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides. para gozarmos o dia compridamente. esquecendo tudo. Escobar e a mulher viviam felizes. Eu era advogado de algumas casas ricas.. e o tio Cosme estava por pouco. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. mas a saúde de minha mãe era boa. ambos escutávamos comovidos e convencidos. e arranjou-me algumas procurações. e os processos vinham chegando. Demais. CAPÍTULO 104 AS PIRÂMIDES José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe. as nossas relações de família estavam previamente feitas. não sei que atriz ou . não as ponho aqui para ir poupando papel.CAPÍTULO 103 A FELICIDADE TEM BOA ALMA Mocetona é vulgar. A felicidade tem boa alça. José Dias achou melhor. a nossa excelente. tudo corria bem. ou eles vinham fazê-lo conosco. tudo espontaneamente. Escobar e eu a do seminário.

e enfeitava-se com amor quando ia a um baile. donde vieram. a ponto que me encheram de desvane acontecimento. mas foi só por pouco tempo. e daí a pouco tocava nas casas de amizade. Não sabendo piano. o marido trabalhador. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho. . e se não der nenhum é que os quer para si. Arranjava-se com graça e modéstia. Embora gostasse de jóias. nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. nos primeiros tempos. agora pagava antecipadamente. era como um pássaro que saísse da gaiola.. nem os seus. também cantava. replicou-me: . não creio que houvesse iguais na cidade. notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa. os braços é que. leitora. Deus os dará quando quiser. Os braços merecem um período. Eram os mais belos da noite. eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedi-lo. deixa lá. Já não era como em criança. e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais nenhuma. e melhor será que fiquem no céu. As vezes. Eram belos. Capitu pedia-o em suas orações. como as outras moças.Uma criança. quando íamos a passeios ou espetáculos.Virá. como os aluguéis da casa. ou a gente que passava na praia. e na primeira noite que os levou nus a um baile.bailarina. se for necessário. . um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre. Na Glória era uma das nossas recreações. não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. De dançar gostava. CAPÍTULO 105 OS BRAÇOS No mais. aprendeu depois de casada.Homem. e. um filho é o complemento natural da vida. tudo corria bem. Conversava mal . ou se não íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros) passávamos as noites à nossa janela da Glória. Capitu gostava de rir e divertir-se. Não vinha. ou nas mãos do divino escultor. Quando não estávamos com a família ou com amigos. mas provavelmente estariam ainda no mármore. mirando o mar e o céu. eu contava a Capitu a história da cidade. que eram então de menina. a sombra das montanhas e dos navios.. por não ter voz. se eram nascidos. Sancha era modesta. outras dava-lhe notícias de astronomia. A nossa vida era mais ou menos plácida. mas se foi certo. mas pouco e raro. não deu escândalo. e depressa.

. os últimos que usou antes de calçar botinas. e aqui tive o apoio de Escobar. lá não foi assim no segundo baile. uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna.com as outras pessoas. com outras velharias.Não é? Mas não diga o motivo. ou fica dito agora. que nem cobria nem descobria inteiramente.Você. por lembrança ou por saudade.Qual Sírius. de os buscar. a quem confiei candidamente os meus tédios. . dessas que se guardam por tradição. por exemplo.. . Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. ou irá de mangas compridas. e não foi ao baile.Eu? Ouço perfeitamente. Capitu. à Praia da Glória. e que roçavam por eles as mangas pretas.O que é que eu dizia? . Ao terceiro não fui. que me deu ciúmes. Capitu. hão de chamar-nos seminaristas. Minha mãe. Uns sapatos. dizendo-me que eram pedaços de criança. Capitu já me chamou assim. mas levou-os meio vestidos de escumilha ou não sei que. Há vinte minutos que eu falei de Sírius. trouxe-os para casa. . como o cendal de Camões. Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia. Quanto às puras economias de dinheiro.. e não só de dinheiro mas também de coisas usadas. e basta. quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles. por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. nesse. .Você não me ouve. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos. concordou logo comigo. o contrário parece-me indecente. quase de os pedir. só para vê-los. com tal força e concentração. CAPÍTULO 106 DEZ LIBRAS ESTERLINAS Eu já disse que era poupada. fiquei vexado e aborrecido. direi um caso. gostava de ouvir falar e fazer assim.Sanchinha também não vai. . mas cedeu depressa. que tinha o mesmo gênio. Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. . e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda. Uma noite perdeu-se em fitar o mar. a outros foi.você falava de Sírius.

Tudo isto? . . mas Capitu deteve-me. fui ter com Escobar ao armazém.. falava de Marte. . na mão. Realmente. filha. e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. . .Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasião da nossa última visita a Andaraí. consultou-me sobre o que havíamos de fazer daquelas libras. é o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar. e ri-me do segredo de ambos.Quem foi o corretor? . começou-me na mão.Foi hoje mesmo. emendou.” .“Não sei. mas é claro que só apanhara o som da palavra. ao percebê-lo. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro.Como é que ele não me disse nada? .São nossas. Ergueu-se. Ao contrário. Capitu.Pouco antes de você chegar. emendou ela apressada. . A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me.. não o sentido. Fiquei sério. dez libras só. já então com papel e lápis.Ele esteve cá? . concluiu ele. . sei que arranjou dez libras. e dava a diferença que ela buscava. e o ímpeto que me deu foi deixar a sala. foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas. somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava. isto é. . e disse-lhe a razão do segredo.Quando contei isto a Sanchinha. ficou espantada: “Como é que Capitu pode economizar. concluiu fazendo tinir o ouro na mão. eu não disse para que você não desconfiasse. em alguns meses.Não é muito. Capitu fitou-me rindo. eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas. respondi.Pois você guarde-as.. . No dia seguinte. agora que tudo está tão caro?”. era de Marte. Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo. . sobre o joelho. fez-se a mais mimosa das criaturas.São suas.Falava de. mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também. confessou-me que estivera contando.O seu amigo Escobar. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo.

aceno. CAPÍTULO 107 CIÚMES DO MAR Se não fosse a astronomia. dez minutos. Dez minutos depois. Deus sabe quando. com pouco derrubaria tudo. mas só chega.Marte está a distancia de. um terço. ao piano ou à janela. Não. Não é mister pecado efetivo e mortal. ela ainda mais meiga. não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitu. tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão te ou qual vaidade.Capitu é um anjo! Escobar concordou de cabeça.Não creio. Sanchinha não é gastadeira. suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. continuando a lição interrompida: . E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto. A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu. calar e querer fugir da sala para voltar. mas também não poupada. um décimo de culpadas. Foi isto que me fez empalidecer. nem papel trocado. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles. e tu sabes. e Deus mais Deus. é para que não cuides que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. mas a astronomia tem dessas confusões.. como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. Tão pouco tempo? Sim. pois que em matéria de culpa a graduação é infinita. estaria eu outra vez na sala. não fora ou acima dela. mas não é por isso que torno a ela. o que lhe dou chega.. leitor. Eu. mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu. Os meus ciúmes eram intensos. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte. nem o . É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas. . metade culpadas. o ar mais brando. provavelmente. depois de alguns instantes de reflexão: . um quinto. a terra e as estrelas. mas sem entusiasmo. tão pouco tempo. dez minutos depois. se era possível. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher.Vê se ela aprende também. simples palavra. as noites mais claras.. mas curtos. orgulho ou consolação. meu amigo. Assim pensarias m também. a diferença que há de um a outro na distancia e no tamanho.

vínhamos suspirando as nossas invejas. Talvez perdi algumas causas no toro por descuido. Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas. e várias outras tolices sem palavras. quando não olhávamos para o nosso filho. A pequena era graciosa e gorducha. Não era escasso nem feio.sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia. a mirá-lo.. nem em casa para não afligir Capitu convalescente. e não tardou que viesse ao mundo o fruto delas. e a nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. mas pensadas ou deliradas a cada instante. ficava que não sei dizer nem digo. familiarmente Capituzinha. com os olhos a observá-lo. ou que de longe ou de perto se pareça com ela. Foi uma vertigem e uma loucura. Os pais. um filho próprio da minha pessoa. em casa. e pedindo mentalmente ao céu que no-las matasse. um triste menino que fosse. . mas um rapagão robusto e lindo. CAPÍTULO 108 UM FILHO Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho. e nós. Fora. e. e por que é que eu estava tão inteiramente nele. vivia com o espírito no menino. mas um filho. Também não caía. como os outros pais. Capitu não era menos terna para ele e para mim. do nosso passado e do nosso futuro. contavam as travessuras e agudezas da menina. Dávamos as mãos um ao outro. As horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação. conversávamos de nós.As invejas morreram. e as nossas conversações mais íntimas. mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. como eu já pedia. a perguntar-lhe donde vinha. por diferençá-la de minha mulher. e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada. quando voltávamos à noite para a Glória. e receio que o que dissesse . faladeira e curiosa.. ficávamos cheios de invejas. não sei dizê-la.. positivamente não me lembra. A minha alegria quando ele nasceu. mas que o nosso destino afirmou que seria. as esperanças nasceram. nunca a tive igual. porque há um deus para os pais novos. Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe. Escobar também se me fez mais pegado ao coração. nem creio que a possa haver idêntica. amarelo e magro. Não cantava na rua por natural vergonha. visto que lhe deram o mesmo nome à pia..

Pode ser. quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele. e foi. E. e há de ser depressa o batizado. respondeu me que eu não tinha nada com isso. e cri que me saísse orador. A possibilidade de político foi consultada. de atropelo. meti-o em várias universidades e bancos. disse-lhe entre outros carinhos: . antes que a minha doença me leve de vez. Hoje. ao ver a criança. e propus que os encaminhássemos a este fim.me saísse escuro. mas Escobar. Fez mais. Escobar cumpriu o que disse. que. mas deve haver. toma a bênção a teu padrinho. Não houve remédio senão levar o . negociante. Sobre tarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público. e está tudo passado. oito dias. não é preciso contar a dedicação da minha mãe e de Sancha. para que ele me compreendesse e desculpasse. e às noites sigo para Andaraí. Eu ainda tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença. Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices. também Capitu. jantava conosco. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. afinadas pelo coração.Também você. estas vieram depois. esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar. .Eu virei jantar com vocês. fora tratá-la à Rua dos Inválidos. mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar. Contei discretamente a anedota a Escobar. que me recolhi à minha casmurrice. fazendo ele os seus cálculos. a madrinha devia ser e seria minha mãe. ..Anda. e grande orador.Não se lembra que o senhor foi lá vê-la? . ao ouvir-lhe isto. Quis rejeitar o obséquio de Sancha.onde está a segunda? Usávamos então estas graças em família. Aceitei a lembrança. Escusai minúcias.Não desisto do favor. e ia-se à noite. . advogado. ninguém diria o que veio a se Demóstenes. riu-se e não se magoou. pela infância unida e correta.Lembra-me. e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto. . redargüia Escobar. voltando-se para mim: .. que batia com grande força. Assim que. eu os meus sonhos. Eu via o meu filho médico. também interrogava o futuro. não sei se ainda há tal linguagem. velhaco. A amizade existe. Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno. em solteira. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme. Bem se vê que você é pai de primeira viagem. e até aceitei a hipótese de ser poeta. pela educação igual e comum. que também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites.

a menor febrícula. desde vadio até apóstolo. Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória. e ria-se da própria graça. Vamos ao resto. e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras. onde se lhe deu o nome de Ezequiel. talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado. os sonos que nos tirou. e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio. não menos que de doce. mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança.ao contrário. era o de Escobar. e eu disse a Capitu que lhe . Gostava de música. coisa que não era necessário dizer. se considerares que ele foi único. Agora. e nisto fazia lembrar a mãe. Assim também. ou quase todas. CAPÍTULO 109 UM FILHO ÚNICO Ezequiel. imaginarás os cuidados que nos deu. certo nem incerto. um rapagão bonito. se lhes não relata tudo e o resto. toda a existência comum das crianças. que nenhum outro veio. com os seus olhos claros. Vadio é aqui posto no bom sentido. opinava que a causa principal desta outra inclinação.menino à pia. e anunciava-me que o fana seu sócio. no sentido de homem que pensa e cala. quando acabou era cristão e católico. já inquietos. Escobar. quando os pais lhe trouxessem doces. e fazem-se ainda assim completas e acabadas. desde pequena. que nada entendem. agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras. bom negociante. adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis. metia-se às vezes consigo. mas há leitores tão obtusos. segundo cumpria e urgia. Aos cinco e seis anos. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos. quando começou o capítulo anterior. A tudo acudíamos. morto nem vivo. há vidas que os têm menos. não o fazia antes de farto deles. não era ainda gerado. um só e único. CAPÍTULO 110 RASGOS DA INFÂNCIA O resto come-me ainda muitos capítulos.

de ator e bailarino.Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados! Um dia amanheceu tocando corneta com a mão. Em nenhuma vi as ânsias de gosto com que assistia à passagem da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta tinha. com o pedacinho de papel na mão. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro. às tardes. Fazia de médico de militar.Mas.. querendo que lhe explicasse uma peça de artilharia. A leitora. por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez? . porém. . pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do pregão. mas nem tudo fica na cabeça. ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lho de memória).tirasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos. .dei-lhe uma cornetinha de metal. outro de espada alçada.Mas então por que é que ele se pintou? . Já não falo dos batalhões que passavam na rua. perguntou-me impaciente: . quase delicioso.. é porque é pintado. todas as crianças o fazem. e que ele corria a ver. e não achei tréplica. Nunca lhe dei oratórios. . ficará espantada de tamanho esquecimento. Capitu achou à toada um sabor particular.Olha. Em São Paulo. e assim o cantava e teclava.Nem das palavras. .Nem das palavras? . papai! olha! . e todos os seus amores iam para o de espada alçada. Assim me replicou Capitu.. fui procurá-lo. Expliquei-lho. meu filho! . tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e adolescência haverá olvidado algumas. corri aos meus papéis velhos. papai. um soldado caído.Estou vendo. . quando estudante. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo. dado que me tenha lido com atenção.Lembra-me de um preto que vendia doce.ela teclou as dezesseis notas. Fiz. gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo. . que ainda se lembrará das palavras. você não se lembra daquele preto que vendia doce. Daí a pouco interrompi um romance que ela tocava.Meu filho. mas não sei mais da toada.Não diga isso. e eu guardei o papelinho.Não me lembra. Um dia (ingênua idade!). o que ela não esperava.contou ao filho a história do pregão. mas cavalos de pau e espada à cinta eram com ele..

O gato. não acham nela nada inferior. os que amam a natureza como ela quer ser amada. nem via por onde fugisse. sem interesse nem graça. em suma. Vamos ver Capitu quis também ver o filho. eu mesmo achei-lhe graça. o instante foi curto. A única circunstancia particular era estar o rato vivo.as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. era um gato e um rato. Tais são os principais rasgos da infância: mais um e acabo o capítulo Um dia. e o silêncio não podia ser maior. . e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu. acompanhei-os. e o gato fugiu.Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha pintado no papel. O gato nem deixava a presa. deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca. teve graça. Um tanto aborrecido. Amo o rato. perguntamos-lhe de longe o que era. fez-nos outro sinal de silêncio. o menino. deteve-se. . sem tirar-lhe os olhos de cima. Os dois riram-se. e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim. não desamo o gato. Efetivamente. 0s outros nem tiveram tempo de atalhar-me. dispôs-se a correr. não só por significar a totalidade do silêncio. mas aqui a ponho outra vez. papai! . Ao vê-lo assim atento. e ficou olhando. Escobar concluiu: . mas vi que são incompatíveis. e não lhe nego ainda agora. mas eu queria ver. Ia dizer religioso. Não me pesa dizê-lo. aliás frouxíssimos. bati palmas para que o gato fugisse. e o meu pequeno enlevado. risquei a palavra. sem repúdio parcial nem exclusões injustas. Já pensei em os fazer viver juntos.Pois sim.Ora.Que foi? A esta hora o rato está comido. fez-nos sinal que nos calássemos. O único rumor eram os últimos guinchos do rato. mas o gravador. um rói-me os . mas também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. CAPÍTULO 111 CONTADO DEPRESSA Achei-lhe graça. Ezequiel ficou abatido. esperneando. apesar do tempo passado. De resto. acocorou-se. lance banal. logo que sentiu mais gente. dos sucessos ocorridos. Em verdade.Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. Ezequiel não disse nada. Os ratos continuam a infestar-me a casa. que é o diabo. na chácara de Escobar.

. . um ficou a curta distancia. tocado de pena e guardei as bolas no bolso. eu só lhe descubro um defeitozinho gosta de imitar os outros. Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim. a pedrada. saí. mandei fazer três bolas de carne. outro o queijo. que só agora sabe disto. que é o seu modo de rir deles. . Fui-me a ele. afastaram-se. repliquei. as atitudes.. O diabo ainda latiu. e ia deitar-lhe uma delas. . foi-se calando. mas não é muito que eu lhes perdoe. fiquei assim não sei como. mas não as recusaria também. e disse afinal que era preciso emendá-lo. confiança ou o que quer que seja. Contarei o caso depressa. mas papai em moço era assim também. Procurei o fiscal. que gostamos da paz. Foi quando nasceu Ezequiel. Então resolvi matá-los. Não comporia bolas envenenadas. De noite. até onde lhe dessem as pernas. e foi como se procurasse o leitor. mamãe é que contava.Imitar os gestos. mexendo a cauda.. Quando eles me viram. eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto. Agora reparava que realmente era vezo do filho. mas fiado nos sinais de amizade. A conclusão é que se livrou. disse-me ela um dia. com a bulha dos cães. E se tivesse um pau. suponho. iria a pau.Não sai a nós.livros. nem a doente.Sim não sairá maricas. imita prima Justina. e três cães na rua latiam toda a noite. como que esperando. me atou a vontade. se já perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstancias. e eu mesmo inseri nelas a droga. comprei veneno. Como eu continuasse. Sancha vivia ao pé dela. eu tinha já na mão as bolas envenenadas. já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos. ele veio a mim. dois desceram para o lado da Praia do Flamengo. carinho. os modos. Não digo que não. imita José Dias. era uma hora. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o cão ao silêncio. até que se calou de todo. assobiando e dando estalinhos com os dedos. a mãe estava com febre. e entregou-se-me. Capitu morria por aquele batalhador futuro. nem a enfermeira podiam dormir. CAPÍTULO 112 AS IMITAÇÕES DE EZEQUIEL Tal não faria Ezequiel. quando aquele riso especial.Imitar como? . devagar. O que faria com certeza era ir atrás dos cães.

e a obra é que fica. continuei. e foi naturalmente por não achar da minha parte correspondência aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. uma insistência qualquer.mas parecia-lhe que era só imitar por imitar. depois estirou os braços e atirou-mos sobre os ombros. e apenas se pintarão. Sempre há tempo de corrigi-lo. mas da obra. e para que não fosse mais longe.Sim. e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore.. Um vizinho. Continuei. CAPÍTULO 113 EMBARGOS DE TERCEIRO Por falar nisto. Naquele tempo. A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim.. me enchia de terror ou desconfiança. Sim. nós saberíamos que éramos nós. e não há ver sem mostrar que se vê. é natural que me perguntes se.Também não vamos mortificá-lo. Outros olhos me procuravam também. ninguém quer saber de modelo. como sucede a muitas pessoas grandes. Você também não era assim. sendo antes tão cioso dela. e não digo nada sobre eles. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos. por mais mulheres bonitas que achasse. a tal ponto que o menor gesto me afligia. um dia) é ver também. . um par de valsa. Só brilharia o artista. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem. Eu fiz o mesmo aos meus. senhor. quando se zangava com alguém. moço ou maduro.Quando me zangava.. . é certo. tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. A resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio. e o meio mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora. . Não importa. mas eu não gosto de imitações em casa. . não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos. muita vez só a indiferença bastava. tendo aliás confessado a princípio as minhas aventuras vindouras. vingança de menino.. É certo que Capitu gostava de ser vista. a mais ínfima palavra. que tomam as maneiras dos outros. vou ver. . qualquer homem.E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face. A minha própria mãe . concordo.Há. não muitos. mas eram ainda vindouras. um desses risos que não se descrevem. nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu.

a que ela não foi por ter adoecido. mas jurou que era a verdade pura. Encontrei Escobar à porta do corredor. mas não bem explicado. ocorrera um incidente importante. Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão. .. quanto mais dois. foi em momento de grande ternura.Você jura? .Doente de quê? perguntou Escobar. falemos já. e o tabelião divino sabe as coisas que se juram em tais momentos. Escobar sorriu e disse: . Vamos aos embargos. não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela.Não. mas quis por força que eu fosse.Vinha falar-te. um benefício de ator. vou-me embora. Ao teatro íamos juntos. expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado. Capitu estava melhor e até boa. Expliquei-lhe que tinha saído para o teatro donde voltara receoso de Capitu. . mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes. disse ela estendendo tragicamente o braço. Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão. ele que as registra nos livros eternos. disse-me ele. Capitu era tudo e mais que tudo.. e... Eram uns embargos de terceiro. Não falava alegre. Se estiver pior. . estava ainda no seminário. Vinha para aquele negócio dos embargos.Queixava-se da cabeça e do estômago. 110 ) a um professor de música de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Mata-cavalos. e não vale a pena de um capítulo. desces. que ficara doente. mas já agora falaria depois. Expliquemos o explicado. tendo ele jantado na cidade.não queria mais que metade. a matéria é chocha. CAPÍTULO 114 EM QUE SE EXPLICA O EXPLICADO Antes de ir aos embargos. . ela pode estar melhor. para me não meter medo. mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me.A cunhadinha está tão doente como você ou eu. o que me fez desconfiar que mentia. e uma estréia de ópera.Então. senão agradáveis. só me lembra que fosse duas vezes sem ela. . sobe. Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada. Viste que eu pedi (cap. . mas voltei no fim do primeiro ato. não quis ir para casa sem dizer-me o que era. Em si. Era tarde para mandar o camarote a Escobar. .Juro. saí.

Escobar olhava para mim descer fiado. isto é.Quase nada. vi que a ia perdendo inteiramente. a nossa constituição política. Ao certo. . Mas hás de crer que quando corri aos papéis velhos.. .Então vale alguma coisa. esquecer. também não me lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento. consegui recordá-la e corri ao professor. é profundamente moral. um jeito uma graça toda sua. como se cuidasse que eu recusava a circunstancia nova para forrar-me a escrevê-la. querendo um dia relembrar a toada. quanto mais contá-los. referi as minhas dúvidas a Capitu.Tomaremos depressa. Durante ele. Acabou com um pecado terrível. .. Coisas futuras! Portanto. que me fez o obséquio de a escrever no pedacinho de papel. . mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir. ela as desfez com a arte fina que possuía. naquela noite da Glória. a juro alto e prazo curto. E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevê-los. uma vez ou outra. CAPÍTULO 115 DÚVIDAS SOBRE DÚVIDAS Vamos agora aos embargos. ninguém sabe se há de manter ou não um juramento.É tarde para tomar chá. mas tal suspeita não ia com a nossa amizade. . . Faltar ao compromisso é sempre infidelidade. Não confudam purgatório com inferno. Quando ele saiu. que é o eterno naufrágio. Tomamos depressa. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. e este é que foi o meu pecado. até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os pecados grandes e pequenos. transferindo o juramento à afirmação simples. qualquer esquece.Nada? . capaz de dissipar as mesmas tristezas de Olímpio. Purgatório é uma casa de penhores.Quando fui para São Paulo. desde que não mete a alma no purgatório. Da circunstancia nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então. que empresta sobre todas as virtudes. que não valia nada. Mas os prazos renovam-se.Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você vai tomar comigo.

e ele que veio até aqui. logo que eles passem e as saudades aumentem. como verdadeiras rãs.. e ele enchia-me a cara de beijos. lá vinha um dia e mudavam.Tens razão. não quero falar dos olhos molhados. é que está impressionado com a demanda.Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel Quando ele vai comigo. prima Justina da vizinhança. mamãe não lhe faz as mesmas graças. para não espertar-me os ciúmes.. Fomos jantar com a minha velha. risonha como toda a nossa infância. .Vamos. a cara deliciosa da minha amiga e esposa. entre as grades da cancela. à entrada e à saída. posto que os seus cabelos brancos não o fossem todos nem totalmente. Também não era diferente da costumada.. Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu. Já lhe podia chamar assim. Em lhe faltando o neto. Pois vamos. falando das minhas dúvidas.. Pouco entrou na conversação. . Ezequiel às vezes estava com ela. coisas de sogra. Sogras eram todas assim. José Dias falou do casamento e suas belezas. . CAPÍTULO 116 FILHO DO HOMEM . a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. e o rosto estivesse comparativamente fresco. Palavra puxa palavra. falei de outras dúvidas. . quando este saía da sala.Seria o negócio dos embargos.. ela torna a ser o que era. recrudescia de ternura.. via no alto da escada. da política. à noite. concluiu. Não. Dali em diante foi cada vez mais doce comigo. a esta hora..era uma espécie de mocidade qüinquagenária ou de ancianidade viçosa. Quando voltamos. Eu era então um poço delas. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. viemos por ali a pé. não me ia esperar à janela.Já disse a você o que é. Ao passo que me falava.. Mamãezinha tem ciúmes de você.Quem sabe se não anda doente? . nós o havíamos acostumado a ver o ósculo da chegada e da saída. Mas nada de melancolias. tio Cosme das suas moléstias. à escolha. coaxavam dentro de mim. mas quando eu subia.Vamos nós jantar com ela amanhã? . da Europa e da homeopatia. Capitu novamente me aconselhou que esperássemos.. ou de José Dias.

filho do homem?” “Dize-me. agora é obrigada a estar quieta. entro também no coro. mas a princípio ficava envergonhadíssimo... Para quem chegou. tão bem que ela lhe deu um beijo em paga. Não havia nada. Ezequiel. Tu como vais. como é que eu ando? .São os modos de dizer da Bíblia. que lá tem o seu mal. . ficou espantado..Perfeitamente! . onde estão os teus brinquedos?” “Queres comer doce. . Desta vez falou ao modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel. filho do homem?” ..Tem razão. que andava o dia inteiro. era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu. . Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas. .Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos. mas tudo acabou em bem. parece-me que sou eu mesmo. Imagine a aflição dela. nem podia haver coisa nenhuma.Não. Vamos. José Dias pediu para ver o nosso “profetazinho” (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume. quando Dona Glória elogia a sua nora e comadre. ultimamente.... quando os ouço.Pois eu não gosto deles. enquanto não nos conhecíamos. filho do homem.. concordou o agregado. mamãe não quer. Eu mesmo achava feio tal sestro.Mas. Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. meu anjo? Meu anjo. atalhou Capitu.” . disse eu.Que filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos. replicou ela com aspereza. Capitu. Outro dia chegou a fazer um gesto de Dona Glória.Então mamãe?. O pai é que nos separou um pouco. . como eu. e não a frieza quando íamos nós a Mata-cavalos. como é que eu ando na rua? . sim. por que é que não nos visita há tanto tempo? . até . Este ano tem feito muito frio..Mas tem muita graça. ao pé do irmão. já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros. . a mim. Pois. mas não estendi tão longe a intimidade do agregado. como soube depois) e perguntava-lhe: “Como vai isso.Agora.Não. pequenino. tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia “à bela e virtuosa Capitu.. Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Mata-cavalos. quando ele copia os meus gestos. senhor. a arrenegar deste casamento.Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe. Eu falava assim para variar. como os das mãos e pés de Escobar.

Eu creio que o mar então batia na . não perto. por um modo que hei de contar. quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao pé uma fortaleza. porque é bonita. põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. e não é preciso dizer que no mau sentido. que o repreendeu e chamou a si foi Capitu. ele na minha. morreu pouco depois. e não fez mal. mas não lhe alteraram nada. acendi um charuto.eu vivia na dele. tínhamos por assim dizer uma só casa. e o de deixá-la cair. Fazia-me pensar nas duas casas de Mata-cavalos. Não sei até se ainda tem o mesmo número. não posso dizê-lo bem. Mas o menino era travesso. Eu respirava um pouco. realmente. e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular. ouviu? CAPÍTULO 117 AMIGOS PRÓXIMOS Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo. dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros. passei. o ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos. no sentido de velho e acabado. dizendo a José Dias: . Que a sombra do escritor me perdoe. como o diabo.apanhara o modo de voltar a cabeça deste. Enfim. Não podemos deixar de rir. se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira. confundem vivos e defuntos. meio agitado. Velha é a casa. quando me deu na gana experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou dormiam só. a não ser a respiração. com o seu muro de permeio. é bonita. quando falava. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto. mas pode ser que fosse do mar. tinha subido pela Rua da Princesa. quando são pesados. .O senhor anda assim. Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva. creio que João de Barros. eu mais que ninguém. e dei por mim no Catete. Enquanto viveu.. para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. Capitu ralhava. há dias. saltou ao meio da sala. A primeira pessoa que fechou a cara. casa que ainda ali vi. porque os sonos. uma rua antiga.Não quero isso. quando ria.. apenas começamos a falar de outra coisa. uma vez que estávamos tão próximos. Um historiador da nossa língua. Não digo que número é para não irem indagar e cavar a história.

Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu. ora no Flamengo. ora na Glória. O nosso castelo era sólido. Seguramente há inimigos contíguos. é um velho truísmo. CAPÍTULO 118 A MÃO DE SANCHA Tudo acaba. E o escritor esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o adágio: longe dos olhos.disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse. e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. como ainda o agregado e prima Justina. disse-me que fôssemos lá jantar no dia seguinte. para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas. veio ter comigo. ao contrário. e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo. Nós não podíamos ter os corações agora mais perto. desde Ulisses e antes. . falando-me à janela. Perguntou-me de que é que faláramos. Quando o marido saiu. Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo. leitor. Esta segunda parte não acha crentes fáceis. não só os dois casais inseparáveis. precisávamos falar de um projeto em família. mas um domingo. mas também há amigos de perto e do peito. Opinei de cabeça. como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. nós passávamos as noites cá ou lá conversando. mas não acabaram casados. dificilmente se despegará da cabeça. nem eu digo. Os dois pequenos passavam dias. Vem amanhã. acharam todos que sim. longe do coração.Não. ao canto da janela. ela pediu-me segredo e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dois .. Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa. Eu expliquei: . um projeto para os quatro. Agora que a comparação seja verdadeira é que não. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. é porque Ezequiel imita os gestos dos outros. e podiam acabar casados. .pedra. a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito. O certo é que eles se queriam muito. jogando ou mirando o mar. Escobar concordou comigo.Não. Tudo podia ser. Não és capaz de adivinhar o que seja.. e é bom que seja assim. Foi então que Escobar. como é seu costume.Para os quatro? Uma contradança.

. A cautela desligou-nos eu tornei a voltar-me para fora. Tive um certeza só. como se fossem os de Sancha. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu. Nem só os apalpei com essa idéia.. como se pensa na bela desconhecida que passa. mas então dar-se-ia que ela adivinhando. pareciam quentes e intimativos. e ter estes pulmões disse ele batendo no peito. como agora.Vamos. Disse isto de costas para dentro. A mão dela apertou muito a minha. mas o fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita. Quando saímos. é que um dia pensei nela. . e agora por um movimento invencível. quase suspirando.anos.. acresce que sabiam nadar. onde eu fiquei olhando para o mar. Entretanto. ao pé de mim. tornei a falar com os olhos à dona da casa. que a gente recebe e repete em si mesma.O mar amanhã está de desafiar a gente.. e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada. como eu. Custa-me esta confissão. ao pé do piano. que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. não se me daria beijá-la na testa.Tenho entrado com mares maiores. encontrei-os em caminho. E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão. . graças às relações dela e Capitu. disse-me a voz de Escobar. e tive-lhes inveja. Senti ainda os dedos de Sancha entre os . muito maiores. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha.. Tal se dá na rua entre dois teimosos. . Apalpei-lhe os braços. Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora. O mar batia com grande força na praia. A noite era clara.Vamos todos? perguntei por fim. mas ainda senti outra coisa. Assim devia ser. É preciso nadar bem. esta palavra foi como uma bênção de padre à missa. pensativo. diziam outra coisa.Você entra no mar amanhã? . e demorou-se mais que de costume A modéstia pedia então. apalpa. mas não posso suprimi-la. Invencível. uns esperando que os outros passassem. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. e não tardou que se afastassem da janela. mas nenhum passavam. era jarretar a verdade. os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraterais. e fiquei incerto. e estes braços. achei-os mais grossos e fortes que os meus. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros. havia ressaca.

Entretanto. quente e demorada. filha dela. iria embora. Demais. mas o acaso é um mero acidente. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha. José Dias despediu-se de nós à porta. não. não é só o céu que dá as nossas virtudes. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas. e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação.a ressaca era grande e..Deliciosíssima! repeti com algum ardor. onde me demorei mais que de costume. agora aquilo.. a melhor origem delas é o céu. Capitu e prima Justina. apertada e apertando. a distancia.Como devem ser todas as daquela casa.como já se ouvia de casa. e chamei-me desleal. que eu sentia de memória dentro da minha mão. o mesmo sangue celestial. ao pé do de minha mãe. nem têm maior duração. concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo. Prima Justina dormiu em nossa casa. não contando o acaso. Ouvia-se o mar forte. uma bela noite! . que eu tinha ali. a virtude. genealogicamente. quando cheguei o relógio ao ouvido. . mas a princípio vaguei à toa. viam-se crescer as ondas. cá fora o mar está zangado. Passou depressa no relógio do tempo. que iam adiante. Paixão não era nem insinuação.meus. falou-me como se fosse a própria pessoa. Agora achava-lhes isto. emendando-me: Realmente. mas eu conversava mal. destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise. Assim refletiria se pudesse.Uma senhora deliciosíssima. e fomos conversando os quatro. quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante. Sinceramente. apertando uns aos outros. depois do almoço e da missa. Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. que moderei logo. trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. continuou o agregado. Foi um instante de vertigem e de pecado. quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. como a timidez vem do céu. que nos dá a compleicão. Cá fora. Eu recolhi-me ao meu gabinete.. no dia seguinte. a timidez também. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo. . Quando houvesse alguma intenção sexual.. é.. Os instantes do Diabo intercalavam-se nos minutos de Deus. detiveram-se numa das voltas da praia.. O retrato de Escobar. Capricho . rejeitei a figura da mulher do meu amigo.. eu achava-me mal entre um amigo e a atração. escute.

ouvi passos precipitados na escada. a direita metida ao peito. Pereira e Sousa.seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada.vi-lhe a atitude franca e simples. Naquele tempo a minha vista era boa. eu mudo de rumo. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. na Lapa. sacudi a cabeça e fui deitar-me. a mão esquerda no dorso de uma cadeira. QUERIDA! A leitora. Não faça isso. inteiramente nada. tomei café. escrita embaixo. quer fechá-lo às pressas. querida. a campainha soou. o olhar ao longe para a esquerda do espectador. . sobrecasaca abotoada. alegações falsas. Estava de pé. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte adversa.. CAPÍTULO 119 NÃO FAÇA ISSO. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória. CAPÍTULO 120 OS AUTOS Na manhã seguinte acordei livre das abominações da véspera. O retrato de Escobar pareceu falar-me. chamei-lhes alucinações. CAPÍTULO 121 A CATÁSTROFE No melhor deles. que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje.. ao ver que beiramos um abismo. Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Tornei aos autos. e espancaram de todo as recordações da véspera. sem apoio na lei nem nas praxes. não nas costas do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove. percorri os jornais e fui estudar uns autos. inadmissíveis. eu podia lê-las do lugar em que estava. que eu ia lendo nos autos.” Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manhã. Tinha garbo e naturalidade. Vi que era fácil ganhar a demandaconsultei Dalloz.

Em caminho. uma com o parecer abatido e estúpido.. apontando o lugar em que Escobar falecera. Capitu e prima Justina esperavam-me. Assim fizemos. ouvindo referir a chegada do morto. um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco. sinhô morrendo. vozes. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: . falando do desastre. no Flamengo espalhou a notícia. No tílburi em que andei uma ou duas horas.Vão fazer companhia à pobre Sanchinha. não fizera mais que recordar o tempo do seminário. fui adivinhando a verdade. as relações de Escobar. recitou lentamente o discurso. tudo eram carros. que as achou realmente dignas do morto e de mim. divergindo alguns na avaliação dos bens. e confirmou a primeira opinião. As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver. as da outra gente. Como eu houvesse resolvido falar no cemitério.soaram palmas. Não disse mais nada. começada. Saí de lá cerca de onze horas.. . como usava fazer. A casa não sendo grande. pesando as palavras. escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias. sinhô nadando. eu vou cuidar do enterro. deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. não podiam lá caber todos. Poupo-vos as lágrimas da viúva. Escobar meteu-se a na dar.Então. ruas. Poucas mais seriam.. apesar do mar bravio. Pediu-me o papel. golpes na cancela.. acudi eu mesmo.estávamos em março de 1871. muitos estavam na praia. Elogiavam as qualidades de Escobar. outra enfastiada apenas.Quatro palavras. Praia. as minhas. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado. continuada e nunca . foi enrolado e morreu. Quis que o enterro fosse pomposo. muitos deles particulares. Praça da Glória. arriscou-se um pouco mais fora que de costume. acudiram todos. as nossas simpatias. vamos ouvi-lo? . Era um escravo da casa de Sancha que me chamava . Vesti-me. mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. CAPÍTULO 122 O ENTERRO A Viúva. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. ou eu não lhe ouvi o resto. e a afluência dos amigos foi numerosa. a nossa amizade.Para ir lá.

mas grandes e abertos. e ajudar a levar o féretro à cova. sem o pranto nem palavras desta. rompeu o alarido final. e o desespero daquele lance consternou a todos. A confusão era geral. CAPÍTULO 124 O DISCURSO . Só Capitu. O que isto me . desatar as correias. As minhas cessaram logo. não me arrancando nada.. deitei aquelas emoções ao papel. Fechamo-lo. tal seria o discurso. Palavra que. tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto. são horas.. No meio dela. Redobrou de carícias para a amiga. as mulheres todas.. Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa. como se quisesse tragar também o nadador da manhã. que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. as cabeças descobertas.Vamos. como a vaga do mar lá fora. vi o sol claro. quando cheguei à porta. e quis levá-la. quais os da viúva. Sancha quis despedir-se do marido. continuou o seu ofício. amparando a viúva. De quando em quando enxugava os olhos. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral. mas o cadáver parece que a retinha também. Chegando a casa. chegou a hora da encomendação e da partida. Fiquei a ver as dela. CAPÍTULO 123 OLHOS DE RESSACA Enfim. Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde.interrompida.. Consolava a outra. parecia vencer-se a si mesma. e eu peguei numa das argolas. queria arrancá-la dali. Capitu enxugou-as depressa. tudo gente e carros. No carro disse a José Dias que se calasse. tão apaixonadamente fixa. defunto e tudo. Muitos homens choravam também. até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa. olhando a furto para a gente que estava na sala.

tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade. mas o gesto geral foi de compreensão c de aprovação. As lágrimas. . nem seguido. e. e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor. não todo. forcejava por escondê-la bem. os pés quietos. são enxugadas atrás da porta. as saudades confessadas. sabes disto. fale. ao cabo de alguns instantes de total silêncio. é certo. pela causa apontada em Camões. sinais. senhor. Ao mesmo tempo. eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera. os louvores à pessoa e aos seus méritos. temendo que me adivinhassem a verdade. Maquinalmente. que me dizia ao ouvido: . não. e até mau verso. Queriam o discurso. Creio que poucos me ouviram.. Um homem. para que as caras apareçam limpas e serenas. CAPÍTULO 125 UMA COMPARAÇÃO Príamo julga-se o mais infeliz dos homens. a voz parecia-me entrar cm vez de sair. alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! magnífico!” José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. as orelhas atentas. as mãos tremiam-me. leitor. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. um sussurro vago. Homero é que relata isto. mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos. Era o discurso. algumas vozes interrogativas. se as têm. faltam-nos. Descido o cadáver à cova. e é um bom autor. Compara tu a situação de Príamo com a minha. que me pareceu jornalista. mas há narrações exatas em verso. José Dias. aqueles olhos. meti a mão no bolso. é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim.. trouxeram a cal e a pá. pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. Não era só a emoção nova que me fazia assim. nem claro. terás ido a mais de um enterro. mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio.Então. era o próprio texto. É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito. defunto. Tinham jus ao discurso anunciado. as memórias do amigo. ou qualquer outro estranho. Nem digas que nos faltam Homeros. os discursos são antes de alegria que de melancolia. e alguém. não obstante contá-lo em verso. saquei o papel e li-o aos trambolhões. por beijar a mão daquele que lhe matou o filho.custou imagina. ou quando menos igual.

digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera. até que me . disse-lhe eu. Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas. . o ajuntamento de pessoas que devia natural mente impor-lhe a dissimulação. deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade. e deixar que a cabeça cismasse à vontade. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva. José Dias demonstrou longamente o contrário.. No Catete mandei parar o carro. Fui andando e cismando.. fica já destruído de uma vez.Não presta para nada. tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações.Mas. se houvesse algo que dissimular. e subi outra vez a Rua do Catete. rasguei o discurso e deitei os pedaços pela portinhola fora. .Vou fazer uma visita. espírito ativo. . graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. mas voltei para trás. A razão disto era acabar de cismar. Não seria o mesmo caso de Capitu. andei largo espaço. disse a José Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa. eu iria a pé. depois elogiou o enterro. eram inconciliáveis. Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia. bom amigo. Não presta. chegava também à porta de casa. Agora. e como posso ter a tentação de dá-lo a imprimir. sem embargo dos esforços de José Dias para impedi-lo..estas iriam pausadas ou não. parar. arrepiar caminho. Quando cheguei a esta conclusão final. e escolher uma resolução que fosse adequada ao momento. O carro andaria mais depressa que as pernas. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar pé. e por último fez o panegírico do morto.. podia afrouxar o passo. A viúva era realmente amantíssima.CAPÍTULO 126 CISMANDO Pouco depois de sair do cemitério. Neste ponto do discurso. Cuidei de recompor-lhe os olhos. a posição em que a vi. coração reto. não vale nada. porém. raciocinava e evocava claro e bem. amigo. uma grande alma.

que ali foram. tocava agora com mais calor. e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. ficava à porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher. executava não sei que peça. tocaria desesperadamente. subi as escadas sem estrépito. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro. grudava a face ao instrumento. ou por esta máxima. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado).. ele viu-me. Na ocasião em que ia passando. que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola. Supõe agora que este. Divina arte! CAPÍTULO 128 PUNHADO DE SUCESSOS Como ia dizendo. como eu fui. que me conhecia de vista.. Quanto ao marido. Perdeu-os sem perder uma nota. e logo a outro. e tocava. flor no cabelo. havia um barbeiro. vestido claro. CAPÍTULO 127 O BARBEIRO Perto de casa. que estava apenas encostada. e verdadeiramente não as esquece nunca. a despeito da hora e de ser domingo. Batiam oito horas numa padaria. amava a rebeca e não tocava inteiramente mal. e continuou a tocar. deixei a porta da loja e vim andando para casa. Se me não engano. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja. então é que ele. sem ver a mulher. e dei com prima Justina e José Dias jogando . sem ver fregueses. que eram o pão do dia seguinte. levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa.senti sossegar. em vez de ir-se embora. passava a alma ao arco. voltado para ele. vi apontar uma moça trigueira. Divina arte! Ia-se formando um grupo. chegou a dizê-lo com os olhos. Era a mulher dele. tudo para ser ouvido de um traunseunte. Não atendeu a um freguês. enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito. empurrei a cancela.ia tocando para mim. todo arco. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite. tocava. ou por estar ligado a um momento grave da minha vida. creio que me descobriu de dentro. Ao fundo. e endireitei para casa. todo rebeca. confiar-lhe as caras à navalha.

concertou os cabelos tão demoradamente que pareceria afetação. disse-nos que. que me nomeava segundo testamenteiro. mas era lembrança do finado. . Também ele as possuía de minha mão. Vivemos assim a trocar memórias e regalos. Também lhe disse que era melhor vir para cá. O rosto dela era agora sereno e puro. Tudo isso foi na segunda-feira.Também não quis? .Tem lá muita gente. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados à rua.Entretanto.. era preciso pensar primeiro na minha vida. e não sei como poderá. o álbum de Capitu. Ao passar pelo espelho. ponderou José Dias. José Dias achou a frase “lindíssima”. Quando tornou. abraçou-me e disse-me que. ora sem razão particular. mas só achei frases soltas. os estudos e os negócios deste.cartas na saleta próxima. Capitu censurou a imprudência de Escobar. E. livros. a vista do mar há de ser-lhe penosa. Os outros suspenderam o jogo. da mulher e da filha. E como em torno desta idéia começássemos uma troca de palavras... ora em dia de anos. uma bengala de marfim. Vieram os jornais do dia: davam notícia do desastre e da morte de Escobar. o primeiro lugar cabia a mulher. pensara na filhinha de Sancha. duas paisagens do Paraná e outras. se não soubéssemos que ela era muito amiga de si. se quisesse pensar nela. mas não quis. e também falavam dos bens deixados. e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemitério. Capitu levantou-se do canapé e veio a mim. a simpatia do comércio. e todos falamos do desastre e da viúva. Na terça-feira foi aberto o testamento. estariam já varridos. mas . um pássaro. era tarde. e assim acabamos a noite. Tudo isso me empanava os olhos. Não me deixava nada. Perguntei-lhe por que não ficara com Sancha aquela noite. que uma vez juntas não tinham sentido. o que é que não passa? atalhou prima Justina. trazia os olhos vermelhos. Também pensei em fazer outro. e perguntou a Capitu por que é que não fazia versos. sem se lhe dar das visitas.. não que quisesse dá-lo a imprimir.Mas passa. arrependi-me de haver rasgado o discurso. . e passar aqui uns dias conosco. Capitu saiu para ir ver se o filho dormia. um tinteiro de bronze. as qualidades pessoais. Pensei em recompô-lo. . todas as manhãs. ainda assim ofereci-me.Também não. e na aflição da viúva. . ao mirar o filho dormindo. e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga. No dia seguinte. mas era já difícil. Inventariei as lembranças de Escobar. Tentei meter o caso à bulha. nem reparar se havia algum criado.

tudo andou quase tão depressa como aqui vai dito. Por enquanto. esse é indelével. esse acabou. Deixei-me estar calado e aborrecido. se o houver lido até aqui. Capitu desta vez chorou muito.. uma série de bailes. desmentimos a minha ilusão. Um dia. iremos daqui até à porta do céu. não leia mais. quiser ir até o fim. onde nos encontraremos renovados. Vá envelhecendo. Não. CAPÍTULO 129 A Dona SANCHA Dona Sancha. um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. e eu com eles. inventário. mil desses remédios aconselhados aos melancólicos. mas o que agora a alcançar. Rinovellate di novelle fronde. os objetos de algum valor seriam vendidos. amiga minha. e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. E propôs-me a Europa. recusei as diversões. Eu não sabia que lhe respondesse. depois tornaríamos à tona da água. e até lá as jóias. Testamento. Viveríamos sossegados e esquecidos. Pois nem assim. para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez. Basta fechá-lo. como as plantas novas.. e iríamos residir em algum beco. Ela propôs-me jogar cartas ou . Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná. Ao cabo de pouco tempo. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras. Se. Capitu sorriu para animar-me. que eu faço a mesma coisa. Como insistisses repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. Minas. peço-lhe que não leia este livro. O que já lhe tiver feito. a culpa é sua. contando os gestos daquele sábado. Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada. ou. abandone o resto. sem marido nem filha. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem. mas compôs-se depressa.as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. apesar do aviso. O resto em Dante. uma vez que os acontecimentos. não respondo pelo mal que receber. Petrópolis. come piante novelle. melhor será queimá-lo. CAPÍTULO 130 UM DIA.

Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. e começou a tocar.. Ezequiel ia crescendo. os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe. mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim. assim. eram os olhos de Escobar. e. em verdade. peguei do chapéu e saí.damas. e afinal saltou-me ao colo: . Ezequiel. Capitu brincava com o filho. mas não me pareceram esquisitos por isso. estávamos ainda à mesa. Capitu estava mais bela. vai assim mesmo. a banca do advogado rendia-me bastante. Era depois de jantar. não precisa revirar os olhos. depois a narração seguirá direita até o fim.Vamos passear. eu aproveitei a ausência. Ezequiel não entendeu nada. fitava agora a outra borda da mesa.Logo. assim. meu filho. provavelmente porque não gostei tanto das outras. alheia a ambos. olhou espantado para ela e para mim. mas. vira para o lado de papai. porque. Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma... e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. podia antepô-lo a este antes de mandar o livro ao prelo. Aquele entrou-me pela alma dentro. Capitu. um passeio a pé. e muitas semelhanças se dariam naturalmente. dizendo-lhe eu que. papai? . Vou escrevê-lo. ocorrido poucas semanas antes. um amigo de papai e o defunto Escobar. . Aproximei-me de Ezequiel. achei que Capitu tinha razão. CAPÍTULO 131 ANTERIOR AO ANTERIOR Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida. mas custa muito alterar o número das páginas. foi para a sala. . mas este capítulo devia ser precedido de outro. Olha. As pessoas valem o que vale a afeição da gente. uma visita a Mata-cavalos. olha firme. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo. ou um com outro. abriu o piano.Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? perguntou-me Capitu. Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe . é curto.. Demais. ou ele com ela. queriam-se muito. na beleza. como eu não aceitasse nada. Começava o ano de 1872. dois meses depois da partida de Sancha. assim. Só vi duas pessoas assim. em que contasse um incidente.Perdão.

é certo. ora devagar. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos. em casa. mas a mudança fez-se. O costume valeu muito contra o efeito da mudança. Quando. do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa. primeiro que se possa ler uma carta. e eu jurava matá-los a ambos. chegava a fechar os olhos. falar quase. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande. que vivia mais perto de mim que ninguém. metia o papel no bolso. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios. o corpo. não à maneira de teatro. Li a carta. por ser tão miúdo e repetido. ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. não abria as vidraças. sorrir. a cara. depois lê-se a carta na rua. depois fui lendo melhor. fiquemos nos olhos de Ezequiel. em memória do que foi e já não pode ser. Quando novamente abria os olhos e a carta. a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. Todas essas ações eram repulsivas. Mas o principal irá. beijar-me no gabinete de manhã. Antes de descoberta aquela má terra da verdade. mal a princípio e não toda. fez-se como a manhã que aponta vagarosa. ora de golpe. eu tolerava-as e praticava as. porém. receber-me na escada. mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros.enchesse a cara de beijos. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. até que a família pêndula o quadro na parede. iam-se apurando com o tempo. e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. a pessoa inteira. não podia fazê-lo a mim. para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. tivemos outros de pouca . palpitar. mas as restantes feições. CAPÍTULO 132 O DEBUXO E O COLORIDO Nem só os olhos. Fugia-lhe. Mas o que pudesse dissimular ao mundo. não se notará aqui. fechava-me. a letra era clara e a notícia claríssima. corria a casa. ou pedir-me à noite a bênção do costume. tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. sem abrir as janelas. Escobar vinha assim surgindo da sepultura. Aqui podia ser e era. e a figura entra a ver. no gabinete.

e se eu iria vê-lo. antes total. A mesma situação nova agravou a minha paixão. buscava não andar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. ao fim das semanas. . sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar. eu sentia-me cada vez pior. . até que outro pé de vento desbaratava tudo. se voltaria para casa. porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. e nós. por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo.. Era no antigo Largo da Lapa. foi como se não fosse. A ausência temporária não atalhou o mal. Ezequiel entrava turbulento. perto da nossa casa. esperávamos outra bonança. . Aos sábados. pela mão. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista. o sol claro e o mar chão. nos olhos um do outro. dentro de pouco. era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo. uma segunda-feira. e quando. Capitu propôs metê-lo em um colégio. . nós a líamos. quando eu me achava entre jornais e autos. papai! . posto sempre fosse homem de terra.Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele. no gabinete. ao menos. mas a volta dele. vibrante e decisiva.Papai não vai! . conto aquela parte da minha vida. porém. Até a voz. cheio de riso e de amor. ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança. e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar. . que não era tardia nem dúbia.Vou. Eu.dura. a falar verdade. não tardava que o céu se fizesse azul. e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. como um marujo contaria o seu naufrágio. Releva-me estas metáforas. E lá o levei e deixei.. próxima e firme. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu. custou muito ao menino aceitar esta situação. expansivo.Pois juro. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã. Assim. Levei-o a pé. mas não escapava ao domingo. ou pelo descostume em que eu ficava. . postos à capa.Jura. já me parecia a mesma. Já entre nós só faltava dizer a palavra última. donde só viesse aos sábados. . como levara o ataúde do outro.Pois sim.Papai não diz que jura.Vou sim.

quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. antes de se ver cumprida. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande. ela veio comigo. ou ainda maior. Era noite. ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. e posto avoasse com elas. mas também pode ter sido propósito.não pude mais. mas via-as através dela. comprei uma substancia. cuidava de me não fazer encontradiço com ele. que não digo. as mesmas asas trépidas. e não pude dormir. Entretanto. abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro. CAPÍTULO 133 UMA IDÉIA Um dia-era uma sexta-feira. lê agora outro capítulo.tanto a ela como aos outros. que negrejava em mim. como fazem as idéias que querem sair. por mais que a sacudisse de mim. fui educado no terror daquele dia. Também nenhuma noite me passou tão curta. porque o prêmio da loteria gasta-se. O ser sexta-feira creio que foi acaso. vindas da roça e da antiga metrópole. Saí. ouvi cantar baladas. Certa idéia. Fui a casa de . com a cor mais pálida que de costume. supondo deixar a idéia em casa. eu a levava na retina. é provável que a idéia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. e a morte não se gasta. ou só o menos que pudesse. Já me vais entendendo. nas quais a sexta-feira era o dia de agouro. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral. não havendo almanaques no cérebro. não que me encobrisse as coisas externas. ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. CAPÍTULO 134 O DIA DE SÁBADO A idéia saiu finalmente do cérebro. Não me lembra bem o resto do dia. e sem se demorarem nada. em casa. para não espertar o desejo de prová-la.. é verdade. A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela. era como se fosse fixa. Cá fora tinha a mesma cor escura. o dono fez-se banqueiro. A farmácia faliu. e o banco prospera. Sei que escrevi algumas cartas. Amanheceu.

Representava-se justamente Otelo. é verdade um quase nada. os primeiros . com o fim de despedir-me. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes. vagas e turvas.. mas o bastante para ir até à manhã.que faria o público. que eu não vira nem lera nunca. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. Vi as grandes raivas do mouro. De noite fui ao teatro.e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes. os primeiros ruídos. por causa de um lenço. era preciso sangue e fogo. tudo ali me pareceu melhor nesse dia. Passei uma hora em paz. vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores. Vaguei pelas ruas o resto da noite. a título de visita. Os lenços perderam-se.um simples lenço!. as suas palavras amorosas e puras. como eterna extinção. . se ela deveras fosse culpada.minha mãe. um fogo intenso e vasto.não queria expor-me a encontrar algum conhecido. e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. Ouvi as súplicas de Desdêmona. . Nos intervalos não me levantava da cadeira. tio Cosme esquecido do coração. que a consumisse de todo.. O último ato mostrou-me que não eu. prima Justina da língua. vinha eu dizendo rua abaixo. as primeiras carroças.. e a reduzisse a pó. até que o pano subia e continuava a peça. pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa ou prender aquela hora a mim mesmo. e Iago destilava a sua calúnia. e vinham outras incoerências. Cheguei a abrir mão do projeto. e o pó seria lançado ao vento. minha mãe menos triste. hoje são precisos os próprios lençóis. e estimei a coincidência. enquanto os homens iam fumar. Ceei. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério. CAPÍTULO 135 OTELO Jantei fora. alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. à medida que o mouro rolava convulso. .E era inocente. Ou de verdade ou por ilusão. sabia apenas o assunto. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça. mas Capitu devia morrer. tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. e a fúria do mouro..

falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. nem a serra dos órgãos. O copeiro trouxe o café. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. assentei de pô-lo novamente no seu lugar. Não tornaria a contemplar o mar da Glória. e nobremente expira. leu e releu um livro de Platão. nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia. Ergui-me. querendo fugir a qualquer suspeita de imitação. lembra-me bem que. como nos dias comuns da semana. tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele. não tendo esquecido de todo a minha história romana. mas era já numerosa e ia a algum trabalho. era tempo de acabar comigo. bastou-me a ocupar aquele pouco tempo. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. Não tinha Platão comigo. mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias. nem a fortaleza de Santa Cruz e as outras. Nem era só imitá-lo nisso. nem as lutas havidas. que repetiria depois. iam dar seis horas. Tirei o veneno do bolso. guardei o livro. antes de beber o veneno. Até lá. a última. claro e breve. e para em tudo imitá-lo. e fui para a mesa onde ficara a xícara. estirei-me no canapé. senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. Escrevi dois textos. se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros.albores. subi pé ante pé. para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco. e meti-me no gabinete. lembrou-me que Catão. Não lhe lembrava o nosso passado. dirigida a Capitu. O segundo continha só o necessário. abri a porta devagarinho. nem alegria alguma. Já a casa estava em rumores. para intrepidamente morrer. assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo. antes de se matar. A gente que passava não era tanta. Nenhuma das outras era para ela. CAPÍTULO 136 A XÍCARA DE CAFÉ O meu plano foi esperar o café. um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. Cheguei a casa. dissolver nele a droga e ingeri-la. Entretanto. fiquei em mangas de camisa. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga . eu é que não repetiria mais nada. em que era narrada a vida do célebre romano. Há muita gente que se mata sem ele. mas um tomo truncado de Plutarco. e escrevi ainda uma carta.

Cheguei a pegar na xícara. Efetivamente.mas vá lá. Cheguei-lhe a xícara. ou a temperatura. vi-o entrar e correr a mim bradando: . Quando ia a beber. . lá estava ele. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor. era melhor. e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino. é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. e comecei a mexer o café.Papai! papai! exclamava Ezequiel. . porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo..Papai! papai! CAPÍTULO 137 SEGUNDO IMPULSO Se eu não olhasse para Ezequiel.Já. entrei a passear no gabinete. houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido. o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. a memória em Desdêmona inocente. deu-me outro impulso que me custa dizer aqui. e repetia. Chamem me embora assassino. beberia depois. puxando-me: ... mas crê que foi belo e trágico. esticou-se na ponta dos pés. Ezequiel abraçou-me os joelhos.E papai? . Assim disposto.embrulhada. . o meu segundo impulso foi criminoso. diga-se tudo. “Acabemos com isto”. a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. e a vista dele. .Eu mando vir mais.Papai! papai! Leitor. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo que me ia faltando. os olhos vagos.. porque o café estava frio. Pus a xícara em cima da mesa. como o gesto. vou à missa com mamãe.. a olhar ao longe. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café. com a mão nas costas da cadeira. meia xícara só.Toma outra xícara. mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo. pensei. como que rendo subir e dar-me o beijo do costume. como de costume. bebe! Ezequiel abriu a boca. não serei eu que os desdiga ou contradiga. mas o pequeno beijava-me a mão. . Ainda assim tive animo de despejar a substancia na xícara. Mas não sei que senti que me fez recuar. tão trêmulo que quase a entornei. caso o sabor lhe repugnasse. anda. papai.

a própria natureza jurava por si. Sem lhe contar o episódio do café. disse ao filho que se fosse embora.. questão de preço. e Capitu não saía sem falar-me. . disse eu. à dor que a retorcia. Ela olhava sempre. entretanto você que era tão cioso dos menores gestos. Eu creio que ouvira tudo claramente mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. .Não. eu nem olhava para ela. e pediu-me que lhe explicasse.. mas Capitu pareceu-me lívida. repeti-lhe as palavras do final do capítulo. e é tão natural como o primeiro. Capitu recompôs-se. dei com a figura de Capitu diante de mim. Mas.. disse-me ela: . repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Era já um falar seco e breve. Assim que. a que. tal é a extensão do tempo nas grandes crises. eu não sou teu pai! CAPÍTULO 138 CAPITU QUE ENTRA Quando levantei a cabeça.Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. esperando. e não menor a indignação que lhe sucedeu. uma vez que a mãe e o filho iam à missa. a coisa nenhuma. Após alguns instantes.Não há que explicar. Já ouvi que as há para vários casos. eu não creio.Há tudo. tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro. haja ou não testemunhas alugadas. tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. aos seus gestos. não sei se era dos meus olhos.O quê? perguntou ela como se ouvira mal. ao dar com ela. se pode chamar de um século. não. sem mentir. Desta vez. Seguiu-se um daqueles silêncios. Eis aí outro lance. Que houve entre vocês? .Que não é meu filho. a minha era verdadeira.Não ouviu o que lhe disse? Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. nunca revelou a menor sombra . . a maior parte das vezes. Grande foi a estupefação de Capitu. . não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. que parecerá de teatro. e eu não queria duvidar dela. sem atender à linguagem de Capitu.

aqui vai o que lhe posso dizer.Há coisas que se não dizem. não pode ser muito...apesar do seminário não acredita em Deus. Não disse tudo. depois do que ouvi.Não. gritando:.Sei a razão disto. não nos fica bem dizer mais nada. e é tudo. Que é que lhe deu tal idéia? Diga... que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela.. Capitu olhou para mim com desdém. Capitu e eu. o porte não era de acusada. eu creio. . cada um iria com a sua ferida. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande.diga tudo. que a senhora insiste. olhamos para a fotografia de Escobar. Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa. em um tom juntamente irônico e melancólico: . Mas não falemos nisto. mas diga tudo primeiro. porém. enquanto eu.de desconfiança. de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui. depois. Suspirou. é a casualidade da semelhança. não . Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura. ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais! . Este era aquele. Podia estar um tanto confusa. para que eu me defenda. De boca. porém. e murmurou: . Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse. havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. Bentinho. Ri-se? É natural. Bentinho. se você acha que tenho defesa. creio que suspirou. A vontade de Deus explicará tudo.A separação é coisa decidida. diga tudo.. e depois um para o outro. disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim..Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! Concertou a capinha e ergueu-se. . fale! fale! Despeça-me daqui. CAPÍTULO 139 A FOTOGRAFIA Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão. Capitu não pôde deixar de rir.continuou vendo que eu não respondia nada. mas a entrada repentina de Ezequiel. mas já que disse metade. involuntariamente.Que se não dizem só metade. . . uma fantasmagoria de alucinado. redargüi pegando-lhe na proposta.“Mamãe! mamãe! é hora da missa!” restituiu-me à consciência da realidade. ou conte o resto. posso ouvir o resto. Uma vez. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio. mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome.

No intervalo. e estou às suas ordens. quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher. tudo em que a minha cegueira não pôs malícia.. cheguei a temer que ela houvesse ido à casa de minha mãe. rejeitei a morte. mas reparação. e esperei o regresso de Capitu. Ezequiel ia ter comigo ao gabinete. E por que os não esganei um dia. como espreitando um gesto de recusa ou de espera. quando desviei os olhos da rua onde . repetiu as últimas palavras.confessou nada. se devesse havê-la. todas essas reminiscências vieram vindo agora. isto é. mas não fica longe.Confiei a Deus todas as minhas amarguras.. Os olhos com que me disse isto eram embuçados. lembravam-me episódios vagos e remotos. Pelo dia adiante. encontros e incidentes. evocara as palavras do finado Gurgel. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. cujo número não ponho aqui. e deixava a porta aberta à reparação. Respondi-lhe que ia pensar. palavras. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis. em tal atropêlo que me atordoaram. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados. ou eu ia atentando mais nelas. por não me lembrar já qual seja. não. Qualquer que fosse a razão do ato. ... De envolta. e faríamos o que eu pensasse. parecido com Capitu. desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. relê o capítulo. um segredo que me fez rir. Acaso haveria em mim um homem novo. uma palavra dela sonhando. Este foi mais demorado que de costume. mas não foi. e nos outros dias. disse-me Capitu ao voltar da igreja. um que aparecia agora. tinha perdido o gosto à morte. eu acabava de achar outra. puxou do filho e saíram para a missa. se não. senhor. Hás de lembrar-te delas. A morte era uma solução. ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável. era natural pegar do café e bebê-lo. CAPÍTULO 140 VOLTA DA IGREJA Ficando só. Pois. Não disse perdão. e a que faltou o meu velho ciúme. tanto melhor quanto que não era definitiva. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro. e as feições do pequeno davam idéia clara das do outro. justiça. mas falhou tudo.

os olhos enfiados nos olhos. José Dias não foi comigo. estivessem à mesa do jantar cozidas. Também ele estava velho. mas não a procurei. Ao cabo de alguns meses.. Uma professora do Rio Grande. e para o fim saudosas. ficou de companhia a Capitu. para ele. tornei ao Brasil. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora. e as palavras que me dizia. Assim regulada a vida. seria melhor se as andorinhas. pedia-me que a fosse ver. CAPÍTULO 142 UMA SANTA Entenda-se que. não é que lhe faltasse vontade. Ia a bordo despedir-se de mim. foi a outros cuidados. que envelheceu depressa. sem ódio. dizendo-me uma palavra amiga e alegre. se nas viagens que fiz à Europa. . e acharam-lhe graça. e repeti a viagem com o mesmo resultado. confessando que a aborrecíamos. ficava de companhia a tio Cosme. como se acabasse de viver com ela. Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada. Na volta. A última vez não foi a bordo. os gestos de lenço. . acaso afetuosas. Embarquei um ano depois. mas devem ser bons.estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico? Dentro. posto que rijo. que aprenderia o resto nas escolas do país. novo nem velho. continuou. mas tão cautelosos que se desenfiaram logo. que foi conosco. naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo.. queriam notícias..Venha. as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar. quase inválido e a minha mãe. As dela eram submissas. não passear. os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também. se os chins os inventaram. e enganar a opinião. CAPÍTULO 141 A SOLUÇÃO Aqui está o que fizemos. Capitu começara a escrever-me cartas. Um dia. a que respondi com brevidade e sequidão. em vez de trepadas no fio de arame. finalmente. Pegamos em nós e fomos para a Europa.. enquanto Capitu. os que se lembravam dela. Escobar declarou que. paramos na Suíça. e eu dava-lhes. “Nunca comi os ninhos delas. ensinando a língua materna a Ezequiel. nem ver nada.” E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles.

. confirmaria aqui o que lhe digo. É aí. o nome. parece-lhe..Quer dizer que era uma santa senhora.Uma vez que não há outro sentido. a eterna. Bentinho. desejo conservá-la póstuma. Conheceu então o protonotário? .. se a conhecessem mandariam esculpir santíssima. Era um padre-modelo. se fosse vivo. nem nomes. . as datas.Quem se importará com datas. No fim..Bom canonista. na fórmula.Não.. Um dado de mestre! . adeus. pio e caridoso. . nem ele nem os outros homens do cemitério. nem poderia havê-lo.Todavia. senhor.Não posso. com grande melancolia. Agora. O escultor achou-a esquisita. não sei se me verá mais. bom latinista. João Batista uma sepultura sem nome. . .. hesito só.Não a conheceram. quando saímos. depois que eu acabar? .Conheci-o. continuou o vigário. creio que vou para a outra Europa.. atalhei. minha mãe embarcou primeiro. disse mal do padre. não? . com esta única indicação: Uma santa. Procura no cemitério de S. eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada. este ponderou-me que as santas es tão no altar e no céu. filiação. Tanto é assim que. não posso. Fiz fazer essa inscrição com alguma dificuldade. admite-se. . José Dias assistiu a estas diligências... lá em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gamão. não lhe escrevendo o nome. disse eu.Mas.? .. chamou-lhe meticuloso.Então. Não foi logo.E possuía algumas prendas de sociedade. o administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia. A minha idéia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida.Justamente. . sendo a modéstia uma delas. perdão..Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigário. O protonotário Cabral. sim. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe. CAPÍTULO 143 ..Está com medo? .Nem eu contesto a verdade. . . a filiação.

Hão de perguntar-me por que razão. . A doença foi rápida. Já então morava comigo. até que veio o último. até que ele não pediu mais nada. Realmente. mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio. Esta casa do Engenho Novo. e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento. o melhor deles. o ar pode fazer-lhe mal. foram idéias da mocidade. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida.. Morreu sereno.Não. . A .. conquanto reproduza a de Mata-cavalos. Outros teve que não vale a pena escrever aqui. pedia-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô.Que mal? Ar é vida. Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo. deixou cair a cabeça. após uma agonia curta. e pediu que abríssemos a janela. com legado ou sem ele.O ÚLTIMO SUPERLATIVO Não foi o último superlativo de José Dias. posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança. “destinado pelo céu a amar o mesmo sangue. Moro longe e saio pouco. o mais doce. Demais. disse ele. o que lhe fez da morte um pedaço de vida. na mesma rua antiga. Bentinho. mas não é provável. A alopatia é o catolicismo da medicina. Tenho-me feito esquecer. em todas as escolas se morre. apenas me lembra aquela. estava um céu azul e claro. a que pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. após alguns instantes. Abrimos a janela. não se separaria de mim. Pouco antes ouviu que o céu estava lindo. Já disse isto mesmo. . Mandei chamar um médico homeopata. mas a morte veio antes de Ezequiel. converto-me à fé de meus pais. não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. tendo a própria casa velha.basta um alopata. veio dizer-me que. José Dias soergueu-se e olhou para fora. que o tempo levou. Correspondia-se com Capitu. a não ser o coração do jovem estudante. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? CAPÍTULO 144 UMA PERGUNTA TARDIA Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo.Não.” Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração.

segundo contei em tempo. fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala. Vim cauteloso.. quando vim para o Engenho Novo. ouviu-me os passos. e não achei nenhum.creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. espécie de troça concentrada e filosófica. e parece que era a cantiga das manhãs novas. pintado na parede. Estava. e voltou-se depressa. Deixei que demolissem a casa. menos cheio de corpo e. Conhece-me pelos retratos e correu para mim. querendo ir para lá. DE SANTIAGO . naturalmente pasmava do intruso. em vez de reto. A mãe. logo que minha mãe morreu.A pessoa está aí? perguntei ao criado. o mesmo rosto do meu amigo. lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto. Corri os olhos pelo ar. e as maneiras eram diferentes. a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. Não fui logo. fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias. mais tarde.pergunta devia ser feita a princípio. tinha agora um ar de ponto de interrogação. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. No quintal a aroeira e a pitangueira. um pai entre manso e crespo. de costas. dei com um rapaz. Ao contrário. salvo as cores que eram vivas. metade Dom Casmurro Ao entrar na sala. recebi um cartão com este nome: EZEQUIEL A. . mirando o busto de Massinissa. mas aqui vai a resposta. era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro do seminário de José. e toda a casa me desconheceu. abraçá-lo. ouvi também o grunhir dos porcos. lá repousa na velha Suíça. logo. mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. a caçamba velha e o lavadouro. Ao pé dessa música sonora e jovial. Quando saí do quarto. Não me mexi. CAPÍTULO 145 O REGRESSO Ora. Tudo me era estranho e adverso. ficou esperando. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr. . foi já nesta casa que um dia. nada sabia de mim. como outrora. Trajava à moderna naturalmente. um pouco mais baixo. Acabei de vestir-me às pressas. e. e não fiz rumor Não obstante. buscando algum pensamento que ali deixasse. com ares de pai. A razão é que. o poço.Sim senhor. falar-lhe na mãe. estando a vestir-me para almoçar. mas o tronco.

.Papai não faz diferença dos últimos retratos. eu ia desesperado. Prima Justina quis vê-lo. Sim. pediu-me que o levasse lá. . . o verdadeiro Escobar. Ei-lo aqui. concluiu. cenas e palavras. e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. com a cara metida no prato.. bebeu um gole. Teve seus minutos de aborrecimento. fechava os olhos para não ver gestos nem nada. enganas-te. o mesmo obséquio e a mesma graça. . Eu. senhor. a ida para o colégio. persistiria. Se o rapaz tem saído à mãe. e eu com as perninhas. mas estando enferma. e o defunto falava e ria por ele. louvando-me extraordinariamente. os estudos. Não havendo remédio senão ficar com ele. diante de mim. Vestia de luto pela mãe. que era a sua paixão. Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia. não gostava da ressurreição. Às vezes. Sentamo-nos. Conhecia aquela parenta. contava o Egito e os seus milhares de séculos. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. e continuou a comer.Era o próprio.Pois não hei de lembrar-me? .. Falava da antiguidade com amor. com igual riso e maior respeito. era o filho de seu pai. Creio que o desejo . sem se perder nos algarismos. que me não completasse e continuasse.Vamos almoçar. A mãe falava muito em mim. Ansiava por ver-me. disse-me ele A voz era a mesma de Escobar.Era na Lapa. Se pensas que o almoço foi amargo. . que Capitu por descuido levasse consigo. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. como o homem mais puro do mundo. a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho. Ezequiel cria em mim como na mãe. mas o diabrete falava e ria.. o sotaque era afrancesado. A idéia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar. dava-me cada puxão. não me acudiu. o exato. é verdade. total. e papai não parava. e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. Se fosse vivo José Dias. particularmente os de arqueologia. fiz-me pai deveras. tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice. Escobar comia assim também. posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar. Contou-me a vida na Europa. eu acabava crendo tudo. aceito. tinha a cabeça aritmética do pai..Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo.Morreu bonita. nem se acudisse. eu também estava de preto. Era o meu comborço. acharia nele a minha própria pessoa. o mais digno de ser querido.

nem podia. viagem científica. promessa feita a alguns amigos. e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos.De que sexo? perguntei rindo.de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que porventura houvesse achado no menino. grego e latino. tirada do profeta Ezequiel.. sejam velhas ou novas. Seria um regalo último. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. Prometi-lhe recursos. onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição.. CAPÍTULO 146 NÃO HOUVE LEPRA Não houve lepra. alguma rua. No caminho para o cemitério. como se as casas morressem meninas. Ezequiel morreu de uma febre tifóide. quando ficar melhor.” Mandaram-me ambos os textos. Como disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho. qualquer emoção pode trazer-lhe a morte. Ao cabo de seis meses. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu. e à Palestina. Onze meses depois.Está muito mal. . iam-lhe lembrando uma porção de coisas. como se faz a um filho de verdade. senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz e quis apertá-lo ao coração. Sorria vexado. e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos. contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. antes lhe pagasse a lepra. Não fomos. ao fim do dia. alguma torre. e era todo alegria. a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava. o desenho da sepultura. pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. . em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. atalhei-o a tempo. Eram dois colegas da universidade. encarei-o depois. e foi enterrado nas imediações de Jerusalém. Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia. a morte levou-a dentro de poucos dias. tão outra a fizeram os anos e a morte. disse eu a Ezequiel que queria ir vê-la. ao Egito. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara. mas há febres por todas essas terras humanas. mas recuei. . Quando esta idéia me atravessou o cérebro. Iremos vê-la. um trecho de praia. os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos. Assim acontecia sempre que voltava para casa.

sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira.. Então. e não via nada nem ninguém. uma gouache. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva. Jesus. consultei a minha Vulgata. Mas não é este propriamente o resto do livro. é verdade. CAPÍTULO 148 E BEM. CAPÍTULO 147 A EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA Já sabes que a minha alma. Vivi o melhor que pude. ou se fartam de vê-la. não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária.Até amanhã. e as metia dentro. achei que era exato. e. mas tinha ainda um complemento: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. E O RESTO? Agora . se aparecia outra visita. e maiores recomendações. e também esta cansava. calcante pede. . Uma só dessas visitas tinha carro à porta e cocheiro de libré.Como quisesse verificar o texto. ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. entrávamos. se . uma aquarela. Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo. desde o dia da tua criação. consultava o relógio.. Eu ficava à porta. eu é que ia buscar um carro de praça. ia até à esquina. espiava. Não voltavam mais. e. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos. filho de Sirach. . mostrava-lhe as paisagens. um pastel. ou a luz da sala esmorece.Levo.Levas o catálogo? . até amanhã. esperando. As outras iam modestamente. Caprichos de pouca dura. nem os de cigana oblíqua e dissimulada. e ia embora com o catálogo na mão. os quadros históricos ou de gênero. se chovia. com grandes despedidas. por mais lacerada que tenha sido. dava-lhe o braço. Apesar de tudo. por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca. Não lhe dei essa cor ou descor. jantei bem e fui ao teatro.” Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu.

e tu concordarás comigo.. A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”. uma coisa fica. Mas eu creio que não. como a fruta dentro da casca. E bem. ou o resto dos restos. a saber. 9 . que a minha primeira amiga e o meu maior amigo.soubesse dos meus primeiros ciúmes. hás de reconhecer que uma estava dentro da outra. FIM . e é a suma das sumas. como no seu cap. se te lembras bem da Capitu menina.. tão extremosos ambos e tão queridos também. versículo 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. qualquer que seja a solução. quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me. dir-me-ia.

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