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Dom Casmurro
Machado de Assis

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e eles. estava amuado. dou-lhe cama. . deram curso à alcunha. como eu estava cansado.São muito bonitos. não cuide que o dispenso do teatro amanhã. dou-lhe camarote. e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. dou-lhe chá. O meu poeta do trem ficará sabendo que não lhe guardo rancor. que eu conheço de vista e de chapéu. mas não passou do gesto. vê se deixas essa caverna do Engenho Novo. A viagem era curta. . mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo. Os vizinhos.”. Vi-lhe fazer um gesto para tirá-los outra vez do bolso. chamam-me assim. E com pequeno esforço. que não gostam dos meus hábitos reclusos e calados. que afinal pegou.“Meu caro Dom Casmurro.” Não consultes dicionários.Dom Casmurro Machado de Assis CAPÍTULO 1 DO TÍTULO Uma noite destas. Tudo por estar cochilando! Também não achei melhor título para a minha narração . e acabou recitando-me versos. a casa é a mesma da Renania. vindo da cidade para o Engenho Novo.Já acabei.“Vou para Petrópolis. para atribuir-me fumos de fidalgo. Dom veio por ironia. Contei a anedota aos amigos da cidade. vai este mesmo. Dom Casmurro. que. murmurou ele. fechei os olhos três ou quatro vezes. porém. alguns em bilhetes: “Dom Casmurro. falou da lua e dos ministros.se não tiver outro daqui até ao fim do livro.”. só não lhe dou moça.Continue. . venha e dormirá aqui na cidade. No dia seguinte entrou a dizer de mim nomes feios. e acabou alcunhando-me Dom Casmurro. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão. domingo vou jantar com você. encontrei num trem da Central um rapaz aqui do bairro. e vai lá passar uns quinze dias comigo. tanto bastou para que ele interrompesse a leitura e metesse os versos no bolso. Cumprimentou-me. Sucedeu. disse eu acordando. . por graça. sentou-se ao pé de mim. Nem por isso me zanguei.

que é pacata. como outrora. alguns nem tanto. umas grinaldas de flores miúdas e grandes pássaros que as tomam nos blocos. e que apenas conserva o hábito externo. Pois. e ao centro das paredes os medalhões de César. mal comparando. todos os antigos foram estudar a geologia dos campos-santos.sendo o título seu. lembrou-me reproduzir no Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de Mata-cavalos. Em tudo. Naturalmente era gosto do tempo meter sabor clássico e figuras antigas em pinturas americanas.. Uso louça velha e mobília velha. Se só me faltassem os outros. O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida. Enfim. Um dia. Augusto. O mais é também análogo e parecido. três janelas de frente. se o rosto é igual. vá um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde. que é ruidosa. Nos quatro cantos do tecto as figuras das estações. e esta lacuna é tudo. Na principal destas. já ela estava assim decorada. Tenho chacrinha. de espaço a espaço. legume. mas vá lá. poderá cuidar que a obra é sua. como se diz nas autópsias. passo a escrever o livro. com um criado. Construtor e pintor entenderam bem as indicações que lhes fiz: é o mesmo prédio assobradado. Nero e Massinissa. O que aqui está é. a pintura do tecto e das paredes é mais ou menos igual. as mesmas alcovas e salas. fi-la construir de propósito. digamos os motivos que me põem a pena na mão. Há livros que apenas terão isso dos seus autores. varanda ao fundo. Os amigos que me restam são de data recente. porém. vinha do decênio anterior. Antes disso. e restaurar na velhice a adolescência. flores. não consegui recompor o que foi nem o que fui. com os nomes por baixo. levado de um desejo tão particular que me vexa imprimi-lo. mas não a mim. A casa em que moro é própria. senhor. Quando fomos para a casa de Mata-cavalos. um poço e lavadouro. como todos os documentos falsos. Não alcanço a razão de tais personagens. há aqui o mesmo contraste da vida interior. dando-lhe o mesmo aspecto e economia daquela outra. CAPÍTULO 2 DO LIVRO Agora que expliquei o título. há bastantes anos. que desapareceu. Vivo só. a fisionomia é diferente. semelhante à pintura que se põe na barba e nos cabelos.. o interno não agüenta tinta. Uma certidão que me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos. uma casuarina. agora. Quanto às . mais falto eu mesmo. com a exterior.

mas aquela nunca se me apagou do espírito. mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar às pessoas que não amam histórias velhas. O mais do tempo é gasto em hortar. Distrações raras. o ano é que é um tanto remoto.amigas. pegasse da pena e contasse alguns. como bem e não durmo mal. CAPÍTULO 3 A DENÚNCIA Ia entrar na sala de visitas. e. conservo alguma recordação doce e feiticeira. mas é também exato que perdeu muito espinho que a fez molesta. Deste modo. Talvez a narração me desse a ilusão. viverei o que vivi. o ano era de 1857. comecemos a evocação por uma célebre tarde de novembro. . A casa era a da Rua de Mata-cavalos. que me incitas a fazer os meus comentários.. uma vez que eles não alcançavam reconstituir-me os tempos idos. e piores. agradeço-vos o conselho. inquietas sombras?. e assentarei a mão para alguma obra de maior tomo. que nunca me esqueceu. melhores. e lembrou-me escrever um livro. Tive outras muitas. o mês novembro. como tudo cansa. Duas ou três fariam crer nela aos outros. Massinissa.. filosofia e política acudiram-me. Em verdade. mas a língua que falam obriga muita vez a consultar os dicionários. algumas datam de quinze anos. Foi então que os bustos pintados nas paredes entraram a falar-me e a dizer-me que. aquela vida antiga aparece-me despida de muitos encantos que lhe achei. jardinar e ler. Depois. Nero. tudo árido e longo. não o do trem. e tu. vida diferente não quer dizer vida pior. Sim. e vou deitar ao papel as reminiscências que me vierem vindo. grande César. mas exigia documentos e datas como preliminares. e as sombras viessem perpassar ligeiras. como ao poeta. Entretanto. era obra modesta. é outra coisa a certos respeitos. esta monotonia acabou por exaurir-me também. mas não me acudiram as forças necessárias. É o que vais entender. e tal freqüência é cansativa. Jurisprudência. que ainda agora me treme a pena na mão. e quase todas crêem na mocidade. de memória. Ora. Eia. mas o do Fausto: Aí vindes outra vez. pensei em fazer uma “História dos Subúrbios” menos seca que as memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos relativas à cidade. Fiquei tão alegre com esta idéia. outras de menos. lendo. quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. pouco apareço e menos falo. Augusto. Quis variar.

Basta a idade. e já agora pode haver uma dificuldade.. Oxalá tenham razão. queria dizer: “São imaginações do José Dias os pequenos divertem-se. depois de alguns instantes de concentração.. creio que o senhor está enganado. Não se esqueça que foram criados juntos. traduzido em vulgar.. a senhora não crê em tais cálculos.Perdão. . o pai faz que não vê. e que o Padre Feijó governou o Império. .Em todo caso. disse que a dificuldade estava na casa ao pé. mas creia que não falei senão depois de muito examinar. tenho visto os pequenos brincando. vai sendo tempo. .Que dificuldade? . e esta é a dificuldade. A pequena é uma desmiolada. senhor José Dias. abafando a voz.Uma grande dificuldade. José Dias. cedendo a antigos rancores políticos. porque se eles pegam de namoro. vou tratar de metê-lo no seminário quanto antes. parece-lhe que todos têm a alma cândida. uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre. Capitu fez quatorze à semana passada. sempre juntos. Compreendo o seu gesto.Bem. você que acha? Tio Cosme respondeu com um “Ora!” que. não deu por mim. Bentinho há de satisfazer os desejos de sua mãe e depois a igreja brasileira tem altos destinos.Dona Glória. são dois criançolas. a gente do Pádua. Minha mãe quis saber o que era.Mas. Bentinho quase que não sai de lá. eu divirto-me.A gente do Pádua? . a senhora terá muito que lutar para separá-los. . interrompeu minha mãe.Pode ser minha senhora. em que a família Pádua perdeu tanta coisa. Metidos nos cantos? . desde aquela grande enchente.Não acho. Pois eu hei de crer?. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga. Bentinho mal tem quinze anos.Governo como a cara dele! atalhou tio Cosme. veio ver se havia alguém no corredor.Sim. Em segredinhos. tem-se ganho o principal. não estou defendendo ninguém. . mas não me atrevia. e nunca vi nada que faça desconfiar.É um modo de falar.. a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo. há dez anos. . doutor. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte... . que. daí vieram as nossas relações. . Mano Cosme. estou citando O que eu . onde está o gamão?” . . tomara ele que as coisas corressem de maneira...Há algum tempo estou para lhe dizer isto. voltou e. . ..

Quanto ao pequeno. um silogismo completo. com um arco de aço por dentro. presilhas. servia a prolongar as frases... há de cumprir-se. rodaque e gravata de mola. mana Glória? Está chorando? Ora esta pois isto é coisa de lágrimas? Minha mãe assoou-se sem responder.Deus é que sabe de todos. com um princípio de calva. Seguiu-se um alto silêncio. que estava no interior da casa. parecia nele uma casaca de cerimônia.Verdade é que cada um sabe melhor de si. outra emoção. Levantou-se com o passo vagaroso do costume. Creio que. ande.. há mesmo necessidade de fazê-lo padre? . não sei. bem pensado... realmente é melhor que não comece a dizer missa atrás das portas. prima Justina? . Levantou-se para ir buscar o gamão. não aquele vagar arrastado se era dos preguiçosos. A gravata de cetim preto.Eu? . não teria falado. durante o qual estive a pique de entrar na sala. Mas.. uma promessa de tantos anos. Contudo. mas um vagar calculado e deduzido. . teria os seus cinqüenta e cinco anos.. a conseqüência antes da conclusão.Sei que você fez promessa.. que é isso.É promessa. ... a premissa antes da conseqüência.. e vi-o passar com as suas calças brancas engomadas. pelo afeto. Era um modo de dar feição monumental às idéias. Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Foi dos últimos que usaram presilhas no Rio de Janeiro. olhe cá. se tem de ser padre. mas uma promessa assim. chupado. Mas. Você que acha.. Cosi-me muito à parede. mana Glória.quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ela. continuou tio Cosme. pela estima. Um dever amaríssimo! . e talvez neste mundo. não as havendo.. mas outra força maior. vá buscar o gamão. para cumprir um dever amargo. era então moda.. “ CAPÍTULO 4 UM DEVER AMARÍSSIMO! José Dias amava os superlativos. mas falei pela veneração. O rodaque de chita.Você o que quer é um capote. veste caseira e leve. um dever amaríssimo. Era magro. Prima Justina exortava: “Prima Glória! Prima Glória!” José Dias desculpava-se: “Se soubesse. imobilizava-lhe o pescoço. Trazia as calças curtas para que lhe ficassem bem esticadas.

a homeopatia é a verdade. toda a cara. com pequeno ordenado. e eu acabava de nascer. e teve o seu quarto ao fundo da chácara.Quem lhe impede que vá a outras partes? Vá aonde quiser. . Tomara este título para ajudar a propaganda da nova escola. menti. de um grande riso sem vontade. e não quis receber nenhuma remuneração. mas comunicativo.. para servir à verdade. os dentes. os olhos. meu pai ainda estava na antiga fazenda de Itaguaí. Nos lances graves. os motivos do meu procedimento podiam ser e eram dignos. ria largo. . todo o mundo pareciam rir nele. Eu era um charlatão. . mas a consciência não lhe permitia aceitar mais doentes. Um dia. Não negue. Também se descompunha em acionados. Tinha o dom de se fazer aceito e necessário. se era preciso. levava um Manual e uma botica.Voltarei daqui a três meses. Não foi despedido. Eles.Creio que sim. abaixo de Deus. Então meu pai propôs-lhe ficar ali vivendo. e não o fez sem estudar muito e muito. o mais acertado. sim. reinando outra vez febres em Itaguaí. meu pai já não podia dispensá-lo. ele veio também.CAPÍTULO 5 O AGREGADO Nem sempre ia naquele passo vagaroso e rígido. porém. José Dias deixou-se estar calado. dizendo que era justo levar a saúde à casa de sapé do pobre. mas fique morando conosco. você curou das outras vezes. disse-lhe meu pai que fosse ver a nossa escravatura. Um dia apareceu ali vendendo-se por médico homeopata.. salvo o que quisessem dar por festas. José Dias recusou. como pedia então. Quando meu pai foi eleito deputado e veio para o Rio de Janeiro com a família. Voltou dali a duas semanas.Mas. Era nosso agregado desde muitos anos. Havia então um andaço de febres. suspirou e acabou confessando que não era médico. tão natural nesta como naquela maneira. aceitou casa e comida sem outro estipêndio. é dizer que foram os remédios indicados nos livros. era muita vez rápido e lépido nos movimentos. . Outrossim. dava-se por falta dele. gravíssimo. a tal ponto ás bochechas. . toda a pessoa. mas é tempo de restabelecer tudo. eles. e. José Dias curou o feitor e uma escrava.

de uma elegância pobre e modesta. falar dos efeitos do calor e do frio. . abaixo de Deus. Ao cabo. Com o tempo. e sabia opinar obedecendo. ele foi despedir-se dela. dos pólos e de Robespierre. dizia ele muita vez. com muitos .Fique. que era no extinto Aljube.como de pessoa da família. . Formado para as serenas funções do capitalismo. era amigo. o bastante para divertir ao serão e à sobremesa. Minha mãe dava-lhe de quando em quando alguns cobres. desde que ela enviuvou. posto que de atropelo. uma apólice e quatro palavras de louvor. por cima da cama. como prima Justina. adquiriu certa autoridade na família. não abusava. CAPÍTULO 6 TIO COSME Tio Cosme vivia com minha mãe. José Dias. gostou de ver que ele punha Deus no devido lugar. Tio Cosme. Minha mãe ficou-lhe muito grata. . disseram-me. repetiu José Dias cheio de veneração. e não consentiu que ele deixasse o quarto da chácara. Era lido. Quando meu pai morreu. E não lhe suponhas alma subalterna. encaixilhou-as e pendurou-as no quarto. A roupa durava-lhe muito. Tinha o escritório na antiga Rua das Violas. A fortuna troca muita vez as mãos à natureza. mas a nossa família.Abaixo ou acima? perguntou-lhe tio Cosme um dia. e confessava que a não sermos nós. José Dias agradeceu de cabeça. não direi ótimo. . Teve um pequeno legado no testamento. “Esta é a melhor apólice”.Obedeço. mas nem tudo é ótimo neste mundo. e sorriu aprovando. as cortesias que fizesse vinham antes do cálculo que da índole.Abaixo. cerzido. Trabalhava no crime. Contava muita vez uma viagem que fizera à Europa. José Dias não perdia as defesas orais de tio Cosme. ao sétimo dia. minha senhora. ou explicar algum fenômeno. a dor que o pungiu foi enorme. Já então era viúvo. dizia ele. que era religiosa. tinha amigos em Lisboa. que era advogado. era a casa dos três viúvos. depois da missa. era tudo. Era quem lhe vestia e despia a toga. ao menos. perto do júri. tio Cosme não enriquecia no foro: ia comendo. certa audiência. ao contrário das pessoas que enxovalham depressa o vestido novo. não me lembra. já teria voltado para lá. abotoado. confiava-lhe a cópia de papéis de autos. ele trazia o velho escovado e liso. E minha mãe. Copiou as palavras.

Medo! Ora. “Agora é que ele vai namorar deveras”. entrei a gritar desesperadamente: “Mamãe! mamãe!” Ela acudiu pálida e trêmula. Contam que. eu não sabia montar.cumprimentos no fim. pegou-me. disseram quando eu comecei as lições. Nas horas de lazer vivia olhando ou jogava. referia os debates. Em casa. é preciso que monte a cavalo. há de queixar-se de você. Uma ou outra vez dizia pilhérias. foi aceito de muitas damas. e a gordura acabou com o resto de idéias públicas e específicas. Nele era velho costume e necessidade. Padre que seja. Era gordo e pesado. o primeiro. em rapaz. ainda não sendo padre. . enquanto ele erguia o pé e pousava no estribo . e a besta partia a trote. e tinha medo ao cavalo. Tio Cosme pegou em mim e escanchou-me em cima da besta. tinha a respiração curta e os olhos dorminhocos. além de partidário exaltado. o corpo ameaçava subir. afagou-me. Raramente a besta deixava de mostrar por um gesto que acabava de receber o mundo.Pois que se queixe. o chão lá embaixo. enquanto o irmão perguntava: . Depois. se for vigário na roça. Uma das minhas recordações mais antigas era vê-lo montar todas as manhãs a besta que minha mãe lhe deu e que o levava ao escritório. mana Glória. por mais modesto que quisesse ser. Posto que nascido na roça (donde vim com dois anos) e apesar dos costumes do tempo. menos por gosto que por vergonha de dizer que não sabia montar. sozinho e desamparado. tenho medo. após alguns instantes largos. e desta vez caía em cima do selim. mas os anos levaram-lhe o mais do ardor político e sexual. Quando me vi no alto (tinha nove anos). e. Não se diria o mesmo de tio Cosme.Mana Glória. medo! A verdade é que eu só vim a aprender equitação mais tarde. igual efeito. dava o último surto da terra. sorria de persuasão. segundo impulso. Tio Cosme. mas não subia. Já não dava para namoros. Também não me esqueceu o que ele me fez uma tarde.a isto seguia-se um minuto de descanso ou reflexão. pois um tamanhão destes tem medo de besta mansa? . aqui mesmo. . se quiser florear como os outros rapazes. O preto que a tinha ido buscar à cocheira segurava o freio. cuidou que me estivessem matando. Agora só cumpria as obrigações do ofício e sem amor. Tio Cosme acomodava as carnes. .Não está acostumado. tio Cosme enfeixava todas as forças físicas e morais. e não souber. . dava um impulso.Deve acostumar-se. Enfim.

Não me lembra nada dele. Aqui os tenho aos dois bem casados de outrora. se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande. A pintura escureceu muito. sem adornos. O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas. comprou alguns que pôs ao ganho ou alugou. e podia voltar para Itaguaí. Nenhum premiado as acusou ainda de imorais. uma dúzia de prédios. certo número de apólices. a um lado e outro. Era ainda bonita e moça. por mais que a natureza quisesse preservá-la da ação do tempo. Contava então vinte anos. Não quis. com os seus sapatos de cordovão rasos e surdos. eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade. naquele ano da graça de 1857. Lidava assim. O de minha mãe mostra que era linda.CAPÍTULO 7 Dona GLÓRIA Minha Mãe era boa criatura. desde manhã até à noite. Dona Maria da Glória Fernandes Santiago contava quarenta e dois anos de idade. que me acompanham para todos os lados. efeito da pintura que me assombrava em pequeno. com um xale preto. Era filha de uma senhora mineira. salvo um trechozinho pegado às orelhas. Os cabelos. a cara é toda rapada. mas teimava em esconder os saldos da juventude. em alguma parte há de ela ficar. mas ainda dá idéia de ambos. Vivia metida em um eterno vestido escuro. onde vivera os dois últimos anos de casada. continuar um sonho provavelmente. ao lado do marido. alguma vez trazia a touca branca de folhas. Vendeu a fazendola e os escravos. por lhe ter ficado a esperança no fundo. os bem-aventurados. os bem-amados. Pedro de Albuquerque Santiago. contava trinta e um anos de idade. preferiu ficar perto da igreja em que meu pai fora sepultado. como ninguém tachou de má a boceta de Pandora. Concluo que não se devem abolir as loterias. em bandós. que se foram desta para a outra vida. vendo e guiando os serviços todos da casa inteira. No painel parece oferecer a flor ao marido. Tenho ali na parede o retrato dela. pois. Quando a loteria e Pandora me aborrecem. a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande. descendente de outra paulista. a família Fernandes. tais quais na outra casa. o retrato mostra uns olhos redondos. Quando lhe morreu o marido. ergo os . eram apanhados sobre a nuca por um velho pente de tartaruga. Ora. O que se lê na cara de ambos é que. e tinha uma flor entre os dedos. e deixou-se estar na casa de Mata-cavalos. dobrado em triângulo e abrochado ao peito por um camafeu.

sossegada como a nossa casa e o trecho da rua em que morávamos. cantarolava. como não sei se tiveram desgostos: era criança e comecei por não ser nascido. uma tarde clara e fresca. Talvez valha a pena dá-la.olhos para eles.. Vinha aqui jantar comigo algumas vezes. estendendo a flor ao marido. parece dizer: “Sou toda sua. CAPÍTULO 9 A ÓPERA Já não tinha voz.. a sinfonia. parecia cortejar uma princesa de Babilônia.. abanou a cabeça e replicou: . Trazia ainda os bigodes dos seus papéis. ia ao empresário e expunha-lhe todas as injustiças da terra e do céu. repetiu-me a definição do costume. não sei. sem que o encardido do tempo lhes tirasse a primeira expressão. sem abrir a boca.” Se padeceram moléstias. faz este comentário: “Vejam como esta moça me quer. Verdadeiramente foi o princípio da minha vida. como uma viagem de mar ou uma batalha. Agora é que eu ia começar a minha ópera. e como eu lhe dissesse que a vida tanto podia ser uma ópera. mas aqui estão os retratos de ambos. olhando para a gente. Uma noite. o empresário cometia mais uma. apesar de velho. depois de muito Chianti. acrescentava.. algum trecho ainda mais idoso que ele ou tanto . São retratos que valem por originais. São como fotografias instantâneas da felicidade. o preparo das rabecas. em tal maneira que me fez crer nela. Sempre que uma companhia nova chegava da Europa. dizia-me um velho tenor italiano que aqui viveu e morreu. tudo o que sucedera antes foi como o pintar e vestir das pessoas que tinham de entrar em cena. o acender das luzes.. mas teimava em dizer que a tinha. E explicou-me um dia a definição. “O desuso é que me faz mal”. “A vida é uma ópera”. Quando andava. CAPÍTULO 8 E TEMPO Mas é tempo de tornar àquela tarde de novembro. meu guapo cavalheiro!” O de meu pai. Depois da morte dele. O de minha mãe. e ele saía a bradar contra a iniqüidade.. lembra-me que ela chorou muito. e esqueço os bilhetes brancos e a boceta fatídica. é só um Capítulo.vozes assim abafadas são sempre possíveis. As vezes.

Não. . Há coros a numerosos. até que Deus. Foi talvez um mal esta recusa.. Rival de Miguel.. por entender que tal gênero de recreio era impróprio da sua eternidade. não quero saber de ensaios.Ouvi agora alguns ensaios! . Tramou uma rebelião que foi descoberta a tempo. e logo que a acabou foi levá-la ao Padre Eterno. muitos bailados. A música é de Satanás.. este planeta. cansado e cheio de misericórdia. e se a achardes digna das alturas. O tenor e o barítono lutam pelo soprano. mas fora do céu. não quero ouvir nada.Quê.compôs a partitura. se Deus não houvesse escrito um libreto de ópera do qual abrira mão. e a orquestração é excelente.. admiti-me com ela a vossos pés. com todas as partes.. há lugares em que o verso vai para a direita e a música. . dela resultaram alguns desconcertos que a audiência prévia e a colaboração amiga teriam evitado com efeito.Mas.Nada! nada! Satanás suplicou ainda. sem melhor fortuna. com palavras que vou resumir. para a esquerda. Rafael e Gabriel. consentiu em que a ópera fosse executada.. e ele expulso do conservatório. E depois. estou pronto a dividir contigo os direitos de autor. .Senhor.Mas. primárias e comprimárias. Deus é o poeta..Não. coros e bailarinos. Basta-me haver composto o libreto. de beber um gole de licor. fazei-a executar. não tolerava a precedência que eles tinham na distribuição dos prêmios. e inventou uma companhia inteira. que aprendeu no conservatório do céu. . Senhor.. Pode ser também que a música em demasia doce e mística daqueles outros condiscípulos fosse aborrecível ao seu gênio essencialmente trágico. não desaprendi as lições recebidas. em presença do baixo e dos comprimirás. Tudo se teria passa do sem mais nada. meu caro Marcolini. Com o fim de mostrar que valia mais que os outros.... pousou o cálix. disse-lhe. em presença do mesmo baixo e dos mesmos comprimirás. . quando não são o soprano e o contralto que lutam pelo tenor.A vida é uma ópera e uma grande ópera. retorquiu o Senhor. Satanás levou o manuscrito consigo para o inferno. Aqui tendes a partitura. Criou um teatro especial.. . escutai-a emendai-a. fugindo à . jovem maestro de muito futuro. e acaso para reconciliar-se com o céu. e expôs-me a história da criação. . Não falta quem diga que nisso mesmo está a além da composição.

e do dó fez-se ré. Deus recebe eu ouro. e assim explicam o terceto do Éden. Juram que o libreto foi sacrificado. que ensine esta verdade aos homens. Não se ouve? Também não se ouve o pau nem a pedra. por exemplo. a ária de Abel. O êxito é crescente. Este ponto é contestado pelos satanistas com alguma aparência de razão. é um plagiário. e. sem razão suficiente. que não são os mesmos.Tem graça.monotonia. e replicou: Caro Santiago. que a partitura corrompeu o sentido da letra.Esta peça. etc. Tudo é música. Certos motivos cansam à força de repetição. . eu não tenho graça. pode ser que tenor. No princípio era o dó. nem essa farsa nem Shakespeare eram nascidos. meu amigo. . posto seja bonita em alguns lugares. evidentemente. não se podendo calcular em que tempo será ele demolido por utilidade astronômica. Satanás em papel. com tal arte e fidelidade. não está no texto do poeta. é uma excrescência para imitar as Mulheres Patuscas de Windsor. e trabalhada com arte em outros.Graça? bradou ele com fúria.. e talvez italiano. Um ou outro admite certas rudezas e tais ou quais lacunas. Isto que digo é a verdade pura e última. durará enquanto durar o teatro. Dizem eles que. Também há obscuridades. este cálix é um breve estribilho. Os amigos do maestro querem que dificilmente se possa acha obra tão bem acabada. há de haver algum. que parece ele próprio o autor da composição. mas aquietou-se logo. O grotesco. encobrindo muita vez o sentido por um modo confuso. o maestro abusa das massas corais. Um dia quando todos os livros forem queimados por inúteis. é absolutamente diversa e até contrária ao drama. poucos os escolhidos”. Este cálix (e enchia-o novamente). eu tenho horror à graça. e aquelas desapareçam inteiramente. não se negando o maestro a emendar a obra onde achar que não responde de todo ao pensamento sublime do poeta. ao tempo em que o jovem Satanás compôs a grande ópera. As partes orquestrais são aliás tratadas com grande perícia.. Poeta e músico recebem pontualmente os seus direitos autorais. Chegam a afirmar que o poeta inglês não teve outro gênio senão transcrever a letra da ópera. Tal é a opinião dos imparciais. mas tudo cabe na mesma ópera. mas. . Já não dizem o mesmo os amigos deste. os coros da guilhotina e da escravidão. .. Não é raro que os mesmos lances se reproduzam. porque a regra da divisão é aquilo da Escritura: “Muitos são os chamados. mas com o andar da ópera é provável que estas sejam preenchidas ou explicadas. concluiu o velho tenor..

Mas não adiantemos. metê-lo na Igreja. minha mãe pegou-se com Deus para que o segundo vingasse. mas era tão devota. e que . Prazos largos são fáceis de subscrever. Os projetos vinham do tempo em que fui concebido.. depois um quatro. mas porque a minha vida se casa bem à definição. leitor amigo. contava fazê-lo quando eu entrasse para a escola. Entretanto ia-me afeiçoando à idéia da Igreja. brincos de criança. para que nos separássemos o mais tarde possível. Tendo-lhe nascido morto o primeiro filho. Cantei um duo tecnicismo. depois um trio. tão temente a Deus. mas a perda da voz explica tudo. Não disse nada a meu pai. sentiu o terror de separar-se de mim. tudo convergia para o altar quando íamos à missa.. foi dada principalmente a mim. CAPÍTULO 11 A PROMESSA Tão depressa vi desaparecer o agregado no corredor. Viúva. e corri à varanda do fundo. A mim é que ele me denunciou. a imaginação os faz infinitos. datava de dezesseis anos. fez-me aprender em casa primeiras letras. por ser já então história velha. livros devotos. Não quis saber de lágrimas nem da causa que as fazia verter a minha mãe. deixei o esconderijo.CAPÍTULO 10 ACEITO A TEORIA Que é demasiada metafísica para um só tenor. que buscou testemunhas da obrigação. nem depois de me dar à luz. Imagens de santos. velho amigo do tio Cosme. aceito a teoria do meu velho Marcolini. não só pela verossimilhança. confiando a promessa a parentes e familiares. não há dúvida. Unicamente. se fosse varão. conversações de casa. Minha mãe esperou que os anos viessem vindo. em que eu vim a saber que já cantava. meu caro leitor. que ia lá jogar às noites. e a ocasião destes é a que vou dizer. Eu. que é muita vez toda a verdade. tenores desempregados. Talvez esperasse uma menina. vamos à primeira parte. prometendo. e há filósofos que são. A causa eram provavelmente os seus projetos eclesiásticos. mas enviuvou antes disso. em resumo. nem antes. porque a denúncia de José Dias. latim e doutrina. por aquele Padre Cabral. dizia-me sempre que era para aprender a ser padre.

Ultimamente não me falavam já do seminário. atordoado.” “Em segredinhos. sorrindo. em vós me ficou a melhor parte da crise.. que me envolvia em mim mesmo. não havendo vocação. para apertá-la muito.um tanto às escondidas. E as vozes repetiam-se confusas. Não me atrevia a descer à chácara.reparasse no padre. podiam antes o seminário do mundo que o de S.. a pretexto de nada.. as pernas bambas.” . tal era a gulodice do padre e do sacristão. respondia afirmativamente. colunas amareladas que me passastes à direita ou à esquerda.” “Se eles pegam de namoro. Dominus. non sum dignus. CAPÍTULO 12 NA VARANDA Parei na varanda. que eu devia dizer três vezes. o coração parecendo querer sair-me pela boca fora. Às vezes dava por mim. Vozes confusas repetiam o discurso do José Dias: “Sempre juntos. Arranjávamos um altar. que desmentia a abominação do meu pecado... e me trazia arrepios. e me derramava não sei que bálsamo interior. arranjávamos o altar... e a segunda viria tirar-nos o gosto do sacrifício. Em casa. e andava outra vez e estacava. segundo eu ia ou vinha.” Tijolos que pisei e repisei naquela tarde. e logo me dispersava. porque minha mãe dizia que missa não era coisa de brincadeira. brincava de missa.. e alterávamos o ritual. não tínhamos o primeiro. José. era muito comum ouvir à minha vizinha: “Hoje há missa?” Eu já sabia o que isto queria dizer.” “Sempre juntos.. “Em segredinhos. ou pegava-me na mão. Isto. Quinze anos.. não tirasse os olhos do padre. um ar de riso de satisfação.. Capitu e eu. no sentido de dividirmos a hóstia entre nós. Ela servia de sacristão. a hóstia era sempre um doce. engrolávamos o latim e precipitávamos as cerimônias. como alma perdida. penso que só dizia uma. a sensação de um gozo novo. voltava com ela.. No tempo em que brincávamos assim. e ia pedir hóstia por outro nome. Não bebíamos vinho nem água. Comecei a andar de um lado para outro. estacando para amparar-me. e passar ao quintal vizinho.. ia tonto. Minha mãe ficava muita vez a olhar para mim. a tal ponto que eu supunha ser negócio findo.

francamente. ouvia-lhe contar que sonhara comigo. apenas reproduziam a nossa familiaridade. e no último ano era completa.“Se eles pegam de namoro. os cuidados. eu. e assim as meias palavras.outras pegava-me nas mãos para contar-me os dedos. Capitu um dia notou a diferença. uma cigarra que ensaiava o estilo. ou então que os anjos vinham perguntar-nos pelos nomes. Então Capitu abanava a cabeça com uma grande expressão de desengano e melancolia. Com que então eu amava Capitu.. só agora entendia a comoção que me davam essas e outras confidências. Também . eram tudo travessuras de criança. mas a causa dela fugia-me. Antes dela ir para o colégio. alguma frase. dizendo que os dela eram mais bonitos que os meus. o gosto de recordar a infância. e Capitu a mim? Realmente. Quando me perguntava se sonhara com ela na véspera. sem fazer o mesmo aos dela. a fim de os dar a outros anjos que acabavam de nascer. uma flor . e eu dizia que não. Em todos esses sonhos andávamos unidinhos.mas eu retorquia chamando-lhe maluca. toda a gente viva do ar era da mesma opinião. E comecei a recordar esses e outros gestos e palavras. Fez-se cor de pitanga. mas esta voltou pouco a pouco. disse-lhe que eram como a pessoa que sonhava. dizia que os dela eram muito mais lindos que os meus. Também eu os contava. algum gesto. vendo-me inquieto e adivinhando a causa. que subíamos ao Corcovado pelo ar.. Era um coqueiro velho. Os silêncios dos últimos dias.. depois que saiu do colégio. agora os sentia como sinais de alguma coisa. que me não descobriam nada. mocetão. as perguntas curiosas. andava cosido às saias dela. e muita vez não passavam da simples repetição do dia. mas não me ocorria nada entre nós que fosse deveras secreto. borboletas. Eu. Os que eu tinha com ela não eram assim. que dançávamos na lua. as respostas vagas. A emoção era doce e nova. Capitu chamava-me às vezes bonito. e eram aventuras extraordinárias. dizendo que os achava lindíssimos. o prazer que sentia quando ela me passava a mão pelos cabelos. tanto mais de espantar quanto que tinha os cabelos realmente admiráveis . depois de certa hesitação.” Um coqueiro. murmurou de cima de si que não era feio que os meninos de quinze anos andassem nos cantos com as meninas de quatorze. mais ainda que nos velhos livros. e eu cria nos coqueiros velhos. é certo que não estabelecemos logo a antiga intimidade. Pois. os adolescentes daquela idade não tinham outro ofício. a matéria das nossas conversações era a de sempre. ao contrário. sem que eu a buscasse nem suspeitasse. Entretanto. nem os cantos outra utilidade. Pássaros..

A porta não tinha chave nem taramela. assim me trazia gosto ou desgosto mais intensos que outrora. ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: E no quintal: . o médico era eu. e escutá-la de memória. Naturalmente por ser minha. em minha casa. Era costume delas. às tardes. é verdade. e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Que as pernas também são pessoas.Vem cá! Não me pude ter. e valem de si mesma. Naquele instante. As minhas chegaram ao pé do muro.abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro.Mamãe! E outra vez na casa: . fazíamos visita batendo de um lado. e a quem eu perdoava tudo. trêmulas e crentes de abarcar o mundo. Entrava no quintal dela com um pau debaixo do braço. Naturalmente também por ser a primeira. e estremecer quando lhe ouvia os passos. desandavam. mas com exclusivismo também. o mal que dissera. e fechava-se ao peso de uma pedra pendente o uma corda. Eu amava Capitu! Capitu amava-me! E as minhas pernas andavam. quando éramos somente companheiros de travessuras. Era quase que exclusivamente nossa. quando Capitu e eu éramos pequenos. CAPÍTULO 13 CAPITU De repente. e às manhãs também. e caminharam para o quintal vizinho. nem as demais Virtudes eternas. e. Cheguei a pensar nela durante as missas daquele mês.adverti que era fenômeno recente acordar com o pensamento em Capitu. segundo era louvor ou crítica. prestava mais atenção que dantes. nem a eterna Bondade. apenas inferiores aos braços. que me denunciara a mim mesmo. para imitar o . Esse primeiro palpitar da seiva. Tudo isto me era agora apresentado pela boca de José Dias. Em crianças. nunca mais me esqueceu. Havia ali uma porta de comunicação mandada rasgar por minha mãe. e o que pudesse vir de um e de outro. com intervalos. Se se falava nela. o mal que fizera. a eterna Verdade não valeria mais que ele. estacavam. Quando as bonecas de Capitu adoeciam. As pernas desceram-me os três degraus que davam para a chácara. essa revelação da consciência a si própria. quando a cabeça não as rege por meio de idéias.

exclamava Capitu. tinha agora a vista não . ao dar comigo. Capitu estava ao pé do muro fronteiro. . à moda do tempo. Quis passar ao quintal.Que é que você tem? repetiu. nariz reto e comprido.É uma notícia. . senti que não poderia falar claramente. porque ela veio a mim. Afinal fiz um esforço. e perguntou-me inquieta: . empurrei a porta. A voz da mãe era agora mais perto. Quis insistir que nada. feitos em duas tranças. como o doutor.Notícia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminário e espreitar a impressão que lhe faria. As mãos. se não. tinha a boca fina e o queixo largo.Mamãe! . com certeza. . . Se a consternasse é que realmente gostava de mim. Não podia tirar os olhos daquela criatura de quatorze anos. não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador. Então eu coçava o queixo. a despeito de alguns ofícios rudes. encostou-se ao muro. riscando com um prego. é que não gostava. há pouco tão andarilhas. como se quisesse esconder alguma coisa. O rumor da porta fê-la olhar para trás. Mas todo esse cálculo foi obscuro e rápido. com as pontas atadas uma à outra. mas as pernas. pareciam agora presas ao chão. pela boca fora. tomava o pulso à doente e pedia-lhe que mostrasse a língua. . não.Que é que você tem? . forte e cheia. coitada!”. voltada para ele. Morena. mas não achei língua.bengalão do Doutor João da Costa. mas com água do poço e sabão comum trazia-as sem mácula. Os cabelos grossos.Não é nada. e acabava mandando aplicar-lhe umas sanguessugas ou dar-lhe um vomitório: era a terapêutica habitual do médico. balbuciei finalmente. a que ela mesma dera alguns pontos. um coração que desta vez ia sair. e entrei. você tem alguma coisa. rasos e velhos. apertada em um vestido de chita. naturalmente levava o gesto mudado. Caminhei para ela. meio desbotado. E emendei logo.vem cá. como se viesse já da porta dos fundos. desciam-lhe pelas costas. eram curadas com amor. olhos claros e grandes.Nada. Todo eu era olhos e coração. Calçava sapatos de duraque. . “É surda. alta.Capitu! .Eu? Nada.Deixa de estar esburacando o muro .

mas não traria nenhum. ou por temer que eu acabasse fugindo.. Ergueu-os logo. li estes dois nomes. Não soltamos as mãos. ou por negar de outra maneira. todas quatro. correu adiante e apagou o escrito. nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. tinha orgias de latim e era virgem de mulheres...Você sabe. Capitu tinha os olhos no chão.. o lugar em que ela estivera riscando. sendo uma das faces a Epístola e a outra o Evangelho. Dei um pulo. . pegando-se. Confissão de crianças. A boca podia ser o cálix. escrevendo ou esburacando. Vi uns riscos abertos e lembrou-me o gesto que ela fizera para cobri-los. os lábios a patena. e depois de vagarem ao perto. mas quero ser poupado. Então quis vê-los de perto. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se. como dissera a mãe. abertos ao prego. Em verdade. devagar. Não nos movemos. e que eu poria aqui com os erros de ortografia que trouxesse. e ficamos a olhar um para o outro. Devia tê-la marcado. não falamos nada. e antes que ela raspasse o muro. CAPÍTULO 14 A INSCRIÇÃO Tudo o que contei no fim do outro Capítulo foi obra de um instante. e sim dispostos: BENTO CAPITOLINA Voltei-me para ela. Padre futuro. tornavam a meter-se uns pelos outros. fundindo-se. Nisto olhei para o muro. por um latim que ninguém aprende e é a língua . sinto a falta de uma nota escrita naquela mesma noite. apertando-se. mas.. Capitu agarrou-me. as mãos é que se estenderam pouco a pouco. e dei um passo. sem suspeitar as do amar. o muro falou por nós. Foi o mesmo que acender em mim o desejo de ler o que era. Conhecia as regras do escrever. estava assim diante dela como de um altar. Não marquei a hora exata daquele gesto.Então? .sei como. tu valias bem duas ou três páginas.. tal era a diferença entre o estudante e o adolescente. Faltava dizer a missa nova... O que se lhe seguiu foi ainda mais rápido.

mas desta vez uma voz de homem: . . que José Dias lhe pôs. e tanto podia ser dele como da mãe . desviou o rosto. O susto é naturalmente sério . não agüenta. e ficamos atrapalhados. Estávamos ali com o céu em nossas mãos. sim. para apagar bem o escrito. Há coisas que só se aprendem tarde é mister nascer com elas . que disse ser o retrato dele.eu estava ainda sob a ação do que trouxe. mm uma só criatura seráfica. Capitu riscava sobre o riscado. entrada de Pádua. fitou em mim os olhos. as palavras de boca é que nem tentavam sair. CAPÍTULO 15 OUTRA VOZ REPENTINA Outra voz repentina.Quando eu cheguei à porta. Não me tenhas por sacrilégio. com o prego. Era um homem baixo e grosso. a ver o que era. senhor. faziam das duas criaturas uma só. Ninguém lhe chamava assim lá em casa.Vocês estão jogando o siso? Era o pai de Capitu. mas Bentinho ri logo.Não me estragues o reboco do muro. leitora minha devota a limpeza da intenção lava o que puder haver menos curial no estilo. não pode. . Capitu foi ao muro. convidando-me ao jogo. Olhei para um pé de sabugueiro que ficava perto: Capitu respondeu por ambos. mas já a filha tinha começado outra coisa. . De resto. Papai quer ver? E séria.Estávamos. donde lhe veio a alcunha de Tartaruga. e. era só o agregado. cansada de esperar.Vocês estavam jogando o siso? perguntou. ao pé da mulher. . pernas e braços curtos.Já tinha rido das outras vezes. um perfil. Soltamos as mãos depressa. era o essencial. Esta..Papai! . para legitimar a resposta de Capitu.católica dos homens. apagou os nossos nomes escritos. tornavam ao coração caladas como vinham. apesar do gesto duvidoso. Pádua saiu ao quintal.Capitu! . costas abauladas. ou menos que duvidoso em que nos apanhou. E nem assim ri. por mais que devesse fazê-lo.fê-lo rir. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas. não ria. e não fui capaz de rir. . que estava à porta dos fundos. dizendo que eu não ria daquela vez por estar ao pé do pai. ele chegou sem cólera.. disfarçadamente. unindo os nervos. todo meigo.

Tinha-os de vária espécie. em casa. e guardar o que sobrasse para acudir às moléstias grandes. e demais amava particularmente os passarinhos. Mamãe está boa? continuou voltando-se inteiramente para mim. os mesmos olhos claros. a mulher é que lhe disse que o melhor era comprar a casa. que faziam cantando um barulho de todos os diabos. CAPÍTULO 16 O ADMINISTRADOR INTERINO Pádua era empregado em repartição dependente do Ministério da Guerra. Que o meu desejo era nenhum. que continuava à porta da casa. crê-se facilmente. cheio de ternura: . teve de ceder aos conselhos de minha mãe. foi comprar um cavalo do Cabo. a casa em que morava. escrevo todas as noites que é um desespero. ande ver. Demais. ando com trabalhos da repartição. etc. comprava-os. negócio de relatório. mas não tenho podido. a mesma cabeça. dez contos de réis. Ia agora mesmo buscar a gaiola. Estou com vontade de dar um capote ao doutor. Trocava pássaros com outros amadores. mas a mulher. dizia-me. alta. . mandar vir da Europa alguns pássaros. o pai. . mas a mulher gastava pouco. posto que menor. a quem Dona Fortunata pediu . quando lhe saiu o prêmio. cor e tamanho. E melhor é naturalmente cedo que artificialmente tarde. Comprou-a com a sorte grande que lhe saiu num meio bilhete de loteria. Pádua hesitou muito. se adoeciam. cheia. em pé. no próprio quintal. um adereço de brilhantes para a mulher. A primeira idéia do Pádua. armando alçapões. afinal. tratava deles como se fossem gente. Meu desejo era ir atrás de Capitu e falar-lhe agora do mal que nos esperava. esta Dona Fortunata que ali está à porta dos fundos da casa.Quem dirá que esta pequena tem quatorze anos? Parece dezessete. Não ganhava muito. Capitu. após duas voltas. foi ter com a mãe. mas o pai era o pai. deixando-nos a mim e ao pai encantados dela.. falando à filha.Está. olhando para ela e para mim. como a tia. apanhava alguns.para fazê-las cedo. assobradada como a nossa. sem ser preciso jurar pelo céu nem pela terra. uma sepultura perpétua de família.Há muitos dias que não a vejo. era propriedade dele. A área que havia no centro da casa era cercada de gaiolas de canários. Você já viu o meu gaturamo? Está ali no fundo. e a vida era barata. forte. Também.

auxílio. Nem foi só nessa ocasião que minha mãe lhes valeu; um dia
chegou a salvar a vida ao Pádua. Escutai; a anedota é curta.
O administrador da repartição em que Pádua trabalhava teve de ir ao
Norte, em comissão. Pádua, ou por ordem regulamentar, ou por especial
designação, ficou substituindo o administrador com os respectivos
honorários. Esta mudança de fortuna trouxe-lhe certa vertigem; era antes
dos dez contos. Não se contentou de reformar a roupa e a copa, atirou-se
às despesas supérfluas, deu jóias à mulher, nos dias de festa matava um
leitão, era visto em teatros, chegou aos sapatos de verniz. Viveu assim
vinte e dois meses na suposição de uma eterna interinidade. Uma tarde
entrou em nossa casa, aflito e desvairado, ia perder o lugar, porque
chegara o efetivo naquela manhã. Pediu à minha mãe que velasse pelas
infelizes que deixava; não podia sofrer a desgraça, matava-se. Minha mãe
falou-lhe com bondade, mas ele não atendia a coisa nenhuma.
- Não, minha senhora, não consentirei em tal vergonha! Fazer descer a
família, tornar atrás... Já disse, mato-me! Não hei de confessar à minha
gente esta miséria. E os outros? Que dirão os vizinhos? E os amigos? E o
público?
- Que público, senhor Pádua? Deixe-se disso; seja homem. Lembre se que
sua mulher não tem outra pessoa... e que há de fazer? Pois um homem...
Seja homem, ande.
Pádua enxugou os olhos e foi para casa, onde viveu prostrado alguns
dias, mudo, fechado na alcova,- ou então no quintal, ao pé do poço, como
se a idéia da morte teimasse nele. Dona Fortunata ralhava:
- Joãozinho, você é criança?
Mas, tanto lhe ouviu falar em morte que teve medo, e um dia correu a
pedir à minha mãe que lhe fizesse o favor de ver se lhe salvava o marido
que se queria matar. Minha mãe foi achá-lo à beira do poço, e
intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia
ficar desgraçado, por causa de uma gratificação menos, e perder um
emprego interino? Não, senhor, devia ser homem, pai de família, imitar a
mulher e a filha... Pádua obedeceu; confessou que acharia forças para
cumprir a vontade de minha mãe.
- Vontade minha, não; obrigação sua.
- Pois seja obrigação; não desconheço que é assim mesmo.
Nos dias seguintes, continuou a entrar e sair de casa, cosido à parede,
cara no chão. Não era o mesmo homem que estragava o chapéu em cortejar a
vizinhança, risonho, olhos no ar, antes mesmo da administração interina.
Vieram as semanas, a ferida foi sarando Pádua começou a interessar-se

pelos negócios domésticos, a cuidar dos passarinhos, a dormir tranqüilo
as noites e as tardes, a conversa e dar notícias da rua. A serenidade
regressou; atrás dela veio a alegria, um domingo, na figura de - dois
amigos, que iam jogar o solo, a tentos. Já ele ria, já brincava, tinha o
ar do costume; a ferida sarou de todo.
Com o tempo veio um fenômeno interessante. Pádua começou s falar da
administração interina, não somente sem as saudades dos honorários, nem
o vexame da perda, mas até com desvanecimento e orgulho. A administração
ficou sendo a hégira, donde ele contava para diante e para trás.
- No tempo em que eu era administrador...
Ou então:
- Ah! sim, lembra-me, foi antes da minha administração, ou um dois meses
antes... Ora espere; a minha administração começou. É isto, mês e meio
antes; foi mês e meio antes, não foi mais.
Ou ainda:
- Justamente; havia já seis meses que eu administrava...
Tal é o sabor póstumo das glórias interinas. José Dias bradava que era a
vaidade sobrevivente; mas o Padre Cabral, que levava tudo para a
Escritura, dizia que com o vizinho Pádua se dava a lição de Elifás a Jó:
“Não desprezes a correção do Senhor; Ele fere e cura”

CAPÍTULO 17
OS VERMES “ELE FERE E CURA!”
Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de Aquiles também curou uma
ferida que fez, tive tais ou quais veleidades de escrever uma
dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em livros velhos, livros
mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los, catando o texto e
o sentido, para achar a origem comum do oráculo pagão e do pensamento
israelita. Catei os próprios vermes dos livros, para que me dissessem o
que havia nos textos roídos por eles.
- Meu senhor, respondeu-me um longo verme gordo, nós não sabemos
absolutamente nada dos textos que roemos, nem escolhermos o que roemos,
nem amamos ou detestamos o que roemos; nós roemos.
Não lhe arranquei mais nada. Os outros todos, como se houvessem passado
palavra, repetiam a mesma cantilena. Talvez esse discreto silêncio sobre
os textos roídos fosse ainda um modo de roer o roído.

CAPÍTULO 18
UM PLANO
Pai nem mãe foram ter conosco, quando Capitu e eu, na sala de visitas,
falávamos do seminário. Com os olhos em mim, Capitu queria saber que
notícia era a que me afligia tanto. Quando lhe disse o que era, fez-se
cor de cera.
- Mas eu não quero, acudi logo, não quero entrar em seminários; não
entro, é escusado teimarem comigo, não entro.
Capitu, a princípio, não disse nada. Recolheu os olhos, meteu-os em si e
deixou-se estar com as pupilas vagas e surdas, a boca entreaberta, toda
parada. Então eu, para dar força às afirmações, comecei a jurar que não
seria padre. Naquele tempo jurava muito e rijo, pela vida e pela morte.
Jurei pela hora da morte. Que a luz me faltasse na hora da morte se
fosse para o seminário. Capitu não parecia crer nem descrer, não parecia
sequer ouvir; era uma figura de pau. Quis chamá-la, sacudi-la, mas
faltou-me animo. Essa criatura que brincara comigo, que pulara, dançara,
creio até que dormira comigo, deixava-me agora com os braços atados e
medrosos. Enfim, tornou a si, mas tinha a cara lívida, e rompeu nestas
palavras furiosas:
- Beata! carola! papa-missas!
Fiquei aturdido. Capitu gostava tanto de minha mãe, e minha mãe dela,
que eu não podia entender tamanha explosão. É verdade que também
gostava
de mim, e naturalmente mais, ou melhor, ou de outra maneira, coisa
bastante a explicar o despeito que lhe trazia a ameaça da separação; mas
os impropérios, como entender que lhe chamasse nomes tão feios, e
principalmente para deprimir costumes religiosos, que eram os seus? Que
ela também ia à missa, e três ou quatro vezes minha mãe é que a levou,
na nossa velha sege. Também lhe dera um rosário, uma cruz de ouro e um
livro de Horas... Quis defendê-la, mas Capitu não me deixou, continuou a
chamar-lhe beata e carola, em voz tão alta que tive medo fosse ouvida
dos pais. Nunca a vi tão irritada como então; parecia disposta a dizer
tudo a todos. Cerrava os dentes, abanava a cabeça... Eu, assustado, não
sabia que fizesse, repetia os juramentos, prometia ir naquela mesma
noite declarar em casa que, por nada neste mundo, entraria no seminário.
- Você? Você entra.
- Não entro.

não e ainda a Capitu do costume. Capitu refletia. mas quase. deixei o canto e corri para a varanda. pouco antes..Acho que nenhum. Tínhamos chegado à janela. foi só para fazer mal. menos a parte que lhe dizia respeito. que não era coisa de choro. .. Quando tornou a falar. Quis saber a conversação da minha casa.. Quando eu for dono da casa.Chorou por quê? . A tenção de Capitu estava agora particularmente nas lágrimas de minha mãe. deixe estar que me há de pagar. eu então. falava baixo. não lhe pude dar toda a significação. quem vai para a rua é ele. confessou que certamente não era por mal que minha mãe me queria fazer padre. A reflexão não era coisa rara nela. Ele chegou a mostrar-se arrependido. é um dos seus privilégios. Em meio disto. . Aos quinze anos. rindo. não me fica um instante Mamãe é boa demais. . ouvi só dizer que ela não chorasse. e o tom delas. Mas. mas. eu contei-lha toda. depois a conversa entrou a cochilar e dormir. qué cocada hoje? .Não. Como eu não queria dizer o ponto inicial da conversa. cresce na madureza e atinge o maior grau na velhice. Calou-se outra vez. Parece até que chorou. não me acho ridículo. não podia deixar de cumprir. sem aflição. que. você verá. Pediu-me algumas circunstâncias mais.Você verá se entra ou não. que peguei da mão dela e apertei-a muito. que ele me paga! Disse isto fechando o punho. dá-lhe atenção demais. parou em frente e perguntou: . É um sujeito muito ruim. Capitu deixou-se ir. vinha apregoando cocadas. respondeu Capitu. e conheciam-se as ocasiões pelo apertado dos olhos. . e proferi outras ameaças. um preto. Este mal ou este perigo começa na mocidade.Sinhazinha. Estava séria.Cocadinha tá boa. não acabava de entendê-las. mamãe.E que interesse tem José Dias em lembrar isto? perguntou-me no fim. e saiu.Não sei. . tinha mudado. Fiquei tão satisfeito de ver que assim espontaneamente reparava as injúrias que lhe saíram do peito. . as próprias palavras de uns e de outros. neste pontos ridículas. temente a Deus. que era ela mesma. há até certa graça em ameaçar muito e não executar nada. desde algum tempo. para não ser apanhado.José Dias? . Ao relembrá-las. deixe estar. a adolescência e a infância não são. era a promessa antiga que ela.Não.

à espera. na prática faziam-se hábeis. mas eram só atrevidas em si. eu conservava um canto para as cocadas. não quis saber de doce. chora Chora. usava repeti-la nos nossos jogos da puerícia. ou só agradeceram a boa intenção. parecendo ir à fortaleza da Laje em ponte movediça. Suponde uma concepção grande executada por meios pequenos. mas o momento não é para definições tais. estenderia uma fila de canoas daqui até lá. ela a sabia de cor e de longe. porque logo depois me disse: . Da toada não era. . Creio que a letra. metia-se no paquete e ia para a Europa. fiquemos em que a minha amiga. replicou ela sem rispidez. o pregão que o preto foi cantando. Prima Justina era melhor que ele.Vá-se embora. Rejeitou tio Cosme. para não sair do desejo vago e hipotético de me mandar para a Europa. o que tanto pode ser perfeição como imperfeição. porque não tem Vintém. Capitu. era um “boa-vida”. o sentimento era tão amigo que eu podia escusar o extraordinário da aventura. muito menos que outras que lhe vieram depois. Vi que em meio da crise. não era capaz de dar um passo para suspendê-la. destinada a picar a vaidade das crianças. deixando minha mãe na praia. e melhor que os dois seria o Padre Cabral. mas tive de as comer sozinho. tinha já idéias atrevidas. e gostava muito de doce. não de salto. e examinasse antes as pessoas com quem podíamos contar.. Assim. da persuasão lenta e diuturna. surdas. Como vês. combatendo os meus projetos de resistência franca. mas aos saltinhos.Se eu fosse rica. não me faria embarcar no paquete e fugir. sinuosas. menina. o pregão das velhas tardes. fosse antes pelos meios brandos.Dê cá! disse eu descendo o braço para receber duas. . você fugia. Ao contrário. pela ação de empenho. e alcançavam o fim proposto. apesar de equilibrada e lúcida. espreitou-me os olhos. Capitu. mas creio que eles não lhe disseram nada. iria realmente até Bordéus. rindo. ora comprando um doce ausente. Tal era a feição particular do caráter da minha amiga. saltando. não admira que. se pudesse cumpri-lo. tão sabido do bairro e da nossa infância: Chora. aos quatorze anos. foi que a enojou agora. por onde eu. se não aprovava a minha ordenação. pelo que. a modo que lhe deixara uma impressão aborrecida. ora vendendo. Com efeito. trocando os papéis comigo. Comprei-as. Capitu recusou. Não sei se me explico bem. Dito isto. da palavra.

se não mudar. acentuando alguns como principais. sim. peça. Dê-lhe bem a entender que não é favor. e pagou a entrada aos dois. logo virá a tarde.Então vá para o seminário.Isso não. Prometi falar a José Dias nos termos propostos. . . E insistia em que pedisse com boa cara. Tudo é que você não tenha medo. .. . Ande. Olhe. mostre que quer e que pode.Mas que se perde em experimentar? Experimentemos. é que ele. Capitu repetiu.Não importa. . Conto estas minúncias para que melhor se entenda aquela manhã da minha amiga. tanto falou que sua mãe acabou consentindo.Não acho. . Faça-lhe também elogios. destinado a ser arredado um dia. Não lhe fale acanhado.Justo. mas o padre não havia de trabalhar contra a Igreja. tendo de servir a vocês falará com muito mais calor que outra pessoa. diga-lhe que está pronto a ir estudar leis em São Paulo. façam que lhe digo.. . ele gosta muito de ser elogiado. mas ele queria ir.. e inquiria-me depois sobre eles. dirá agora outra coisa. Ele gosta muito de você. não.. Estremeci de prazer.Que tem José Dias? . se não trocara uns por outros.. e o melhor é outra coisa. São Paulo era um frágil biombo. mas o principal não é isso.. mas seria aparecer francamente. . e fez um discurso. José Dias. e da manhã e da tarde se fará o primeiro dia. Capitu. disse que o teatro era uma escola de costumes. como no Gênesis.Mas se foi ele mesmo que falou. Você não se lembra como é que foi ao teatro pela primeira vez há dois meses Dona Glória não queria e bastava isso para que José Dias não teimasse. a ver se entendera bem. mostre que há de vir a ser dono da casa. Dona Glória presta-lhe atenção. . continuou Capitu. em vez da grossa parede espiritual e eterna. Dona Glória pode ser que mude de resolução.Posso confessar? .. mande. lembra-se? .Pois. faz-se outra coisa. mete-se então o Padre Cabral.Pode ser um bom empenho. só se eu lhe confessasse que não tinha vocação.pela autoridade.. . onde se fizeram sucessivamente sete. mas assim como quem pede um copo de água a pessoa que tem obrigação de o trazer.Lembra-me.

como para sublinhá-las. saíram-me quase súplices. Amanhã. e então achei-as secas demais. Não choveu. escolhendo as palavras que diria e o tom delas. A razão é que eu andava carregado de promessas não cumpridas. Desde pequenino acostumara-me a pedir ao céu os seus favores. Entrei nas centenas e agora no milhar. A soma era enorme. pode muito bem trabalhar por mim. impróprias de um criançola para um homem maduro. Disse as primeiras. Na chácara. entre seco e benévolo. nem adoçar muito. não tanto. quase ríspidas. Cuidei de escolher outras e parei. e mais lentamente ainda as palavras sem falta. Jeitoso é. Repeti-as ainda. porém.” CAPÍTULO 20 MIL PADRE-NOSSOS E MIL AVE-MARIAS Levantei os olhos ao céu. ele é um simples agregado. repeti-as comigo. se José Dias arranjar que eu não vá para o seminário”. Proferi-as lentamente. Era um modo de peitar a vontade . se não chovesse em certa tarde de passeio a Santa Teresa. E a prova é que. era ao meu refúgio. um meio-termo. Assim cheguei aos números vinte. escolha o lugar e diga-me”. ao meu amigo. Formulei o pedido de cabeça. mas eu não rezei as orações.. e à medida que se amontoavam iam sendo esquecidas. repetindo-as novamente. Bastava não carregar tanto. que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. se eles viessem.CAPÍTULO 19 SEM FALTA Quando voltei casa era noite. “E Capitu tem razão. E então disse de mim para mim: “Prometo rezar mil padre-nossos e mil ave-marias. A última foi de duzentos padre-nossos e duzentas ave-marias. que começava a embruscar-se. depois em voz alta. Era ao outro céu que eu erguia a minha alma. tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. as outras foram adiadas. francamente. Afinal disse comigo que as palavras podiam servir. antes de entrar em casa. a casa é minha. para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: “Preciso falar-lhe. Vim depressa. mediante orações que diria. mas não foi para vê-lo coberto ou descoberto.. cinqüenta. sem falta. e desfazer o plano de mamãe. e. trinta. pensei.

Mil. Mas vão lá matar a preguiça de uma alma que a trazia do berço e não a sentia atenuada pela vida! O céu fazia-me o favor. Quis saber se eu não esquecera os projetos eclesiásticos de minha mãe. mil”.. não é? Mamãe perguntou por mim? . alumiada por um lampião. passeando de um lado para outro. minha mãe queria ter uma senhora íntima ao pé de si. Era quadragenária. inquiriu-me sobre o gosto que eu tinha à vida de . irritado com os esquecimentos. tudo me acudia sem se fixar de vez no espírito. devia feri-los por força. A Terra Santa ficava muito longe. mas. e também por interesse. conversando com Dona Fortunata.. além disso.. eu adiava a paga. cada promessa nova era feita e jurada no sentido de pagar a dívida antiga. Realmente. tudo se cumprisse. mil. . e dizendo-lhe eu que não. Não é que prima Justina fosse de biocos. As missas eram numerosas. podiam empenhar-me outra vez a alma. fechando a escrituração da minha consciência moral sem déficit. Era muito duro subir uma ladeira de joelhos. Cogitei muito no modo de resgatar a dívida espiritual. a matéria do benefício era agora imensa. Era preciso uma soma que pagasse os atrasados todos.Estive aqui ao pé. ou subir de joelhos a ladeira da Glória para ouvir uma. É tarde. ir à Terra Santa. não menos que a salvação ou o naufrágio da minha existência inteira. e distraí-me. confessar que mentira é que me pareceu novidade. Mandar dizer cem missas. e a Paulo o que pensava de Pedro.divina pela quantia das orações. magra e pálida. tudo o que as velhas escravas me contavam de promessas célebres. Homem grave.. Passeamos alguns minutos na varanda. Deus podia muito bem. Afinal perdi-me nas contas. boca fina e olhos curiosos. não menos que a franqueza da notícia. é possível que estas agitações de menino te enfadem. se é que não as achas ridículas. repeti comigo.Perguntou. dizia francamente a Pedro o mal que pensava de Paulo. mil. e antes parenta que estranha. A mentira espantou-me. CAPÍTULO 21 PRIMA JUSTINA Na varanda achei prima Justina. “Mil. negar-se a ouvir-me sem muito dinheiro. Sublimes não eram. mediante a intenção. mas eu disse que você já tinha vindo. Veio ao patamar e perguntou-me onde estivera. Não achava outra espécie em que. Vivia conosco por favor de minha mãe.

José Dias? concluí. um especulador. .Pois é verdade. a senhora era capaz de uma coisa? . explicou rindo.. mas como há de esquecer se uma pessoa estiver sempre.Sim. Eu.. e não há nada no mundo que a faça mudar de resolução.Vida de padre é muito bonita. um bajulador. passados alguns instantes.. só o tempo. .Ora. e aquela afetação. . Lá avivar-lhe a memória. os elogios da Igreja.. Você ainda era pequenino.Quem é? .Prima Justina. não. vá esquecendo a promessa. Você não se dê por achado. quem! Quem é que há de ser? Primo Cosme não é. atalhou prontamente. apesar da casca de polidez. Enruguei a testa interrogativamente. . .Eu gosto do que mamãe quiser. falando do seminário? E os discursos que ele faz..Naturalmente. Novamente me recomendou que não me desse por achado. há cá em casa quem lhe meta isso na cabeça..De quê? . .Prima Glória pode ser que. mas também. prima Glória tem este negócio firme na cabeça. . como se não soubesse nada Prima Justina completou a notícia dizendo que ainda naquela tarde José Dias lembrara a minha mãe a promessa antiga. Suponha que eu gostasse de ser padre. mas o que pergunto é se você gostaria de ser padre.. .Mas falou à toa? perguntei. a senhora podia pedir a mamãe.padre. um grosseirão.. é bonita. um intrigante. zás que darás.. e. disse: . tudo com aquelas palavras que só ele conhece. e que a vida de padre é isto e aquilo. já ela contava isto a todas as pessoas da nossa amizade. pedir outra coisa. Hoje de tarde falou como você não imagina. mas ainda que não desejasse. que eu não trabalho para a desgraça dos outros. em passando os dias. . . ainda hoje. nos ouvidos.. fez apenas um gesto como indicando que havia outra coisa que não podia dizer.Isso não. .Era capaz de. eu também não. a ver se ela contava a denúncia do meu namoro com a vizinha. Note que é só para fazer mal.Prima Glória deseja muito que você se ordene.. porque ele é tão religioso como este lampião. e recapitulou todo o mal que pensava de José Dias e não era pouco.. Respondi esquivo: . Não contou. que não se importa com isso. ou só conhecidas.

. CAPÍTULO 22 SENSAÇÕES ALHEIAS Não alcancei mais nada. gostar-me. mas. quando eu falava. disse-me que era um pouco trêfega e olhava por baixo. prima Justina reteve-me alguns minutos.não peço. se o receio me não fizesse discreto. Agora. e para o fim arrependi-me do pedido: devia ter seguido o conselho de Capitu. Entretanto. entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes. e até lhe fez algumas críticas. falando do calor e da próxima festa da Conceição. se ela me dissesse: “Prima Justina. que já a achava lindíssima. modificou os elogios a Capitu. cheirar-me. Então. Também se goza por influição dos lábios que narram.. fazer o ofício de todos os sentidos. Só pensei nisso na cama. na sala de visitas. bradaria que era a mais bela criatura do mundo. ouvir-me. pareciam apalpar-me. sim. após algum tempo. você que acha?”. É o que eu diria e direi se ela me consultar algum dia.. se é que também ela não desconfiava já. Creio que prima Justina achou no espetáculo das sensações alheias uma ressurreição vaga das próprias. ouvida por ela. os costumes. à tarde. Não disse mal dela. como eu quisesse ir para dentro. e certamente com a felicidade que devia iluminar-me a cara. não faço. Ciúmes não podiam ser. o trabalhar para os seus.. mas ainda assim. tudo isto me acendeu a ponto de elogiá-la também. Eu. CAPÍTULO 23 PRAZO DADO . É certo que. dos meus velhos oratórios. pode ir. eu penso que. sim. Só então senti que os olhos de prima Justina. como prima Justina se metesse a elogiar-lhe os modos. ao contrário insinuou-me que podia vir a ser uma moça bonita. o amor que tinha a minha mãe. se ele gosta de ser padre. ir falar-lhe sem ser chamada. era com o gesto de aprovação que dava a cada uma das asserções da outra. a gravidade. o melhor é ficar”. Creio antes. se não gosta. a minha resposta era: “Prima Glória. Se ela me consultasse bem. não creio que fossem ciúmes. e finalmente de Capitu. Quando não era com palavras. Não adverti que assim confirmava a denúncia de José Dias. creio isto.

Creio que José Dias achou desusado este meu falar.Perfeitamente. ele a corrigia. Aos oito anos os meus plurais careciam. A primeira coisa que consegui logo que comecei a andar fora. e o não interrogar. doutrina e história sagrada. É dia de lição? . não hesitar. pedirei a mamãe. conforme o sexo dos interlocutores. José Dias vinha andando cheio de leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina.A lição foi hoje. . à porta de casa.Até amanhã.. afirmo desde já que é matéria grave e pura. certamente lhe deu idéia de uma pessoa nova e de uma nova situação.Amanhã. Os castelos e os parques saíam maiores da boca dele. disse-me José Dias. foi dispensar-me o pajem. ia comigo à rua. . disse-me ele: . Tenho umas compras que fazer. Houve só uma altercarão. sem falta. O tom não me saíra tão imperativo como eu receava. Lia cantado e compassado. quando o Padre Cabral me ensinava latim. na rua. que eram levemente grossas ou finas. escolha o lugar e diga-me. você pode ir comigo. e reproduziam com moderação a ternura e a cólera. da desinência exata. os lagos tinham mais água e a “abóbada celeste” contava alguns milhares mais de estrelas centelhantes. . Nos diálogos. Cuidava dos meus arranjos em casa. podemos apear-nos à porta do Passeio Público. ele assistia às lições. quando íamos para o chá. alternava o som das vozes. entramos no ônibus. como era próprio da criança e do meu estilo habitual.Não importa. . dos meus livros. Fez-se tudo o melhor possível. . alguma vez.Preciso falar-lhe amanhã. senhor. meio risonho para obter o perdão da emenda. Não lhe pergunto o que é. fez-se pajem. Mais tarde.Sim. da minha higiene e da minha prosódia. não pedir. meio sério para dar autoridade à lição. mas as palavras o eram. na varanda. dos meus sapatos. fazia reflexões eclesiásticas. Ao despedir-se de mim. CAPÍTULO 24 DE MÃE E DE SERVO José Dias tratava-me com extremos de mãe e atenções de servo. minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé. Ajudava assim o mestre de primeiras letras. Foi no corredor.

gostava do elogio. A gente Pádua não é de todo má. . Capitu. mas foi tão de passagem. se não fosse a vaidade e a adulação. para a minha idade. apesar deles. Não digo isto por ódio. ele podia passar por criado. consentiu.Perdoe-me. Eu. não se lembra? . e ela. Andando. nem porque ele fale mal de mim e se ria. não há muito tempo. . dos meus sapatos acalcanhados. . era um elogio. que é boa como a mãe de Deus. atalhou ele. outras doentes ou só vadias espalhavam-se melancolicamente no caminho que vai da porta ao terraço. Você já reparou nos olhos dela? São assim de cigana oblíqua e dissimulada. disse ele a um sujeito. Pois. Seguimos para o terraço. Algumas caras velhas. CAPÍTULO 25 NO PASSEIO PÚBLICO Entramos no Passeio Público. um dia. que o senhor era “um homem de capacidade e . Dona Glória. como se riu.Perdão. apesar daqueles olhos que o Diabo lhe deu. dizia a minha mãe ter conhecido outrora meninos muito inteligentes.. era natural. e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda.Há muito tempo que não venho aqui. já que falamos nisto. em minha presença... interrompi suspendendo o passo.e. no fim.. pelo contrário. perguntava ao padre: “Não é verdade que o nosso jovem amigo caminha depressa?” Chamava-me “um prodígio”. . nunca ouvi que falasse mal do senhor. não é bonito que você ande com o Pádua na rua. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. poderia passar. não pode gostar disso. não há três meses que esteve aqui com o nosso vizinho Pádua.É verdade. . posto não avaliasse todo o valor deste outro elogio. . . mas que eu excedia a todos esses. para me dar animo..Mas eu andei algumas vezes.Quando era mais jovem. tem um bom emprego. e ele não nego que seja honesto. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. possuía já certo número de qualidades morais sólidas. Pádua tem uma tendência para gente reles. em criança.. talvez um ano. falei do jardim: . sem contar que.Ele pediu a sua mãe que o deixasse trazer consigo. mas ouça-me. possui a casa em que mora. há dias. Oh! a adulação! Dona Fortunata merece estima. mas honestidade e estima não bastam. afinal.

Quando os olhos tornaram às dimensões ordinárias: .Vejo que o senhor não quer senão o meu benefício. estou pronto a ser o que for do seu agrado. Padre. levantava-me o queixo e espetava os olhos em mim.sabia falar como um deputado nas câmaras.Mas que posso eu fazer? perguntou. mas fez um esforço grande e fechou outra vez o rosto. continuei eu.Pois que outra coisa. Não obstante.Um favor? Mande. E nada disso impede que ele seja o que lhe digo. como a prima Justina na véspera.Conto com o senhor para salvar-me. não posso ser padre. peço-lhe um favor. peremptório. Realmente. ordene. . e o prazer que eu contava dar-lhe com a escolha da proteção não se mostrou em nenhum dos músculos. Não contava certamente com a resistência. de vez. Toda a cara dele era pouca para a estupefação. disse finalmente. Os olhos do agregado escancararam-se. subimos ao terraço. e vinha de cor. as sobrancelhas arquearam-se. não gosto da vida de padre. não. mas o que ainda mais o assombrou foi esta conclusão: . José Dias tornou a perguntar o que era.Mamãe quê? Que é que tem mamãe? .Não posso. ansioso também. me têm feito o favor de juízos altos. não tenho jeito. José Dias endireitou-se pasmado. disse eu depois de alguns instantes. eu próprio não me conhecia. A carreira é bonita..Mamãe quer que eu seja padre. que era pouco.” José Dias sorriu deliciosamente. . enfiado natural mente. não menos pasmado que ele. . Bentinho? . que é? . por mais acanhada que fosse. Estou por tudo o que ela quiser. de melhor sangue. sacudia-me com brandura. . depois replicou: . mastigado.. a matéria do discurso revelara em mim uma alma nova. . mas não é para mim.Não lhe agradeço nada. mamãe sabe que eu faço tudo o que ela manda. Outros. e olhamos para o mar. em voz um pouco surda e tímida. mas aos pedaços. até cocheiro de ônibus. Todo esse discurso não me saiu assim. Mas a palavra final é que trouxe um vigor único. Tínhamos outra vez andado. Durante algum tempo não pude dizer o resto. .Mamãe. como pode parecer do texto.Neste caso. mas eu não posso ser padre. José Dias ficou aturdido. José Dias ouvira-o espantado.

mas. disse ele. Se eu fosse destemido. . não quer ser padre? As leis são belas. . Deveras. vou para São Paulo. ou ainda mais longe. meu querido. é provável que.Em que lhe posso valer. nenhuma poderá vencer a sua em nobreza de sentimentos. Que desejo.É tarde. se ela quiser que eu estude leis. a Pernambuco. .. Aí está! nunca ninguém me há de ouvir dizer nada de pessoas tais. mas é só um.Pode muito. eu tinha os olhos nele.Se eu quiser? Mas que outra coisa quero eu.. Timidez não é tão ruim moeda.Pois ainda é tempo. . como parece. Não prometo vencer. irei falar a sua mãe. senão servi-lo. em nossa casa. anjo do céu? Não hei de dissuadir sua mãe de um projeto que é. mas então seria preciso confessar-lhe que estivera à escuta..Não é tarde. é tarde. que merecem tudo. ainda é tempo. . Sua mãe é uma santa. como eu. CAPÍTULO 26 AS LEIS SÃO BELAS Pela cara de José Dias passou algo parecido com o reflexo de uma idéia. Estou pronto: para tudo. não é por vadiação. rompesse a chamar-lhe mentiroso. . ele voltara os seus para o lado da barra. senão que seja feliz. se tal é a sua ... Quando pudesse.Há de ser também o de proteger os amigos. O talento que seu tio acha em mim confesso que o tenho. preciso meter Bentinho no seminário”. atrás da porta. como merece? . Há boas universidades por esse mundo fora. para lhe provar que não há falta de vontade. a ambição e O sonho de longos anos.é o talento de saber o que é bom e digno de admiração e de apreço. além de promessa. . seu tio é um cavalheiro perfeitíssimo Tenho conhecido famílias distintas. e uma ação valia outra. Contentei-me de responder que não era tarde. por quê? porque são ilustres e virtuosas. São favores de pessoas dignas.. Como insistisse: . trabalharei com alma.. com a indignação que experimentei. Olhe. Ainda ontem fez-me o favor de dizer: “José Dias. mas lutar. se o senhor quiser. Pode ir a São Paulo.São bondades. todos o apreciam Mamãe pede muita vez os seus conselhos.uma idéia que o alegrou extraordinariamente.. Calou se alguns instantes. retorquiu lisonjeado. O senhor sabe que. Vá para as leis.. não é? Tio Cosme diz que o senhor é pessoa de talento.

Dona Glória provavelmente não poderá acompanhá-lo. ouviremos inglês.. Por que não há de ir estudar leis fora daqui? Melhor é ir logo para alguma universidade. e cuidar de hospedarias. ele é. . Bentinho. Oh! a Europa. viaja: Podemos ir juntos. sem acabar de tentar minha mãe nem tio Cosme. perto da praia. José Dias passou . e prefere as leis. grandes pássaros negros faziam giros. concluiu apontando para o céu.Está dito. Uma vez que você não pode ser padre.. se vontade de servir é poder de mandar. por mais que louvasse os ares e as belezas. e lá ficar durante a eternidade dos meus estudos. pede a mamãe que me não meta no seminário? .. nem as danças fantásticas dos pássaros me desviavam o espírito do meu interlocutor. Uma das suas ambições era tornar à Europa. Depois de lhe responder que sim. Oh! as leis são belíssimas! .Hei de falar. papéis. estamos aqui. veremos as terras estrangeiras. mas não conte só comigo. francês.Pegue-se também com Deus. falava dela muitas vezes. avançando ou pairando.. fale também a seu tio.. . sem desfazer na teologia que é melhor que tudo. e tornavam a erguer-se para descer novamente. matrículas. como a vida eclesiástica é a mais santa.Estamos a bordo. na água.. Levantou a perna e fez uma pirueta.Deus fará o que o senhor quiser. o passado. estamos a bordo! Ah! você não imagina o que é a Europa. mas pedir não é alcançar. estamos a bordo! CAPÍTULO 27 AO PORTÃO No portão do Passeio. não quererá guiar os negócios. As leis são belas.. Deus é dono de tudo. espanhol. e andar com você de um lado para outro.. . russo e até sueco.Pedir. só por si. . um mendigo estendeu-nos a mão. O céu estava meio enfarruscado.com Deus e a Virgem Santíssima. e ao mesmo tempo que estuda. Peça-lhe a sua felicidade que eu não faço outra coisa. ainda que possa e vá. italiano. Mas nem as sombras do céu. Anjo do meu coração.. No ar. o presente e o futuro. Não contava com esta possibilidade de ir comigo.. a terra e o céu... Vou falar a Dona Glória. e desciam a roçar os pés.. peço. emendei-me: .vocação.Não blasfeme.

adiante, mas eu pensei em Capitu e no seminário, tirei dois vinténs do
bolso e dei-os ao mendigo. Este beijou a moeda; eu pedi-lhe que rogasse
a Deus por mim, a fim de que eu pudesse satisfazer todos os meus
desejos.
- Sim, meu devoto!
- Chamo-me Bento, acrescentei para esclarecê-lo.

CAPÍTULO 28
NA RUA
José Dias ia tão contente que trocou o homem dos momentos graves, como
era à rua, pelo homem dobradiço e inquieto. Mexia-se todo, falava de
tudo, fazia-me parar a cada passo diante de um mostrador ou de um cartaz
de teatro. Contava-me o enredo de algumas peças, recitava monólogos em
verso. Fez os recados todos, pagou contas, recebeu aluguéis de casa;
para si comprou um vigésimo de loteria. Afinal, o homem teso rendeu o
flexível, e passou a falar pausado, com superlativos. Não vi que a
mudança era natural; temi que houvesse mudado a resolução assentada, e
entrei a tratá-lo com palavras e gestos carinhosos, até entrarmos no
ônibus.

CAPÍTULO 29
O IMPERADOR
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O
ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros
desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse.
Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir
ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não
confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”,
pensei comigo.
Vi então o Imperador escutando-me, refletindo e acabando por dizer que
sim, que iria falar a minha mãe; eu beijava-lhe a mão, com lágrimas. E
logo me achei em casa, à esperar até que ouvi os batedores e o piquete
de cavalaria; é o Imperador! é o Imperador! toda a gente chegava as
janelas para vê-lo passar, mas não passava, o coche parava à nossa
porta, o Imperador apeava-se e entrava. Grande alvoroço na vizinhança:

“O Imperador entrou em casa de Dona Glória! Que será? Que não será?” A
nossa família saía a recebê-lo; minha mãe era a primeira que lhe beijava
a mão. Então o Imperador, todo risonho, sem entrar na sala ou entrando,
- não me lembra bem, os sonhos são muita vez confusos,- pedia a minha
mãe que me não fizesse padre, - e ela, lisonjeada e obediente, prometia
que não.
- A medicina, por que lhe não manda ensinar medicina?
- Uma vez que é do agrado de Vossa Majestade..
- Mande ensinar-lhe medicina; é uma bonita carreira, e nós temos aqui
bons professores. Nunca foi à nossa Escola? É uma bela Escola. Já temos
médicos de primeira ordem, que podem ombrear com os melhores de outras
terras. A medicina é uma grande ciência; basta só isto de dar a saúde
aos outros, conhecer as moléstias; combatê-las, vencê-las... A senhora
mesma há de ter visto milagres Seu marido morreu, mas a doença era
fatal, e ele não tinha cuidado em si... É uma bonita carreira: mande-o
para a nossa Escola. Faça isso por mim, sim? Você quer, Bentinho?
- Mamãe querendo.
- Quero, meu filho. Sua Majestade manda.
Então o Imperador dava outra vez a mão a beijar, e saía, acompanhado de
todos nós, a rua cheia de gente, as janelas atopetadas, um silêncio de
assombro: o Imperador entrava no coche. inclinava-se e fazia um gesto de
adeus, dizendo ainda: “A medicina, a nossa Escola.” E o coche partia
entre invejas e agradecimentos.
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que
a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais
que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos,
até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus
companheiros.

CAPÍTULO 30
O SANTÍSSlMO
Terás entendido que aquela lembrança do Imperador acerca da medicina não
era mais que a sugestão da minha pouca vontade de sair do Rio de
Janeiro. Os sonhos do acordado são como os outros sonhos, tecem-se pelo
desenho das nossas inclinações e das nossas recordações. Vá que fosse
para São Paulo, mas a Europa... Era muito longe, muito mar e muito
tempo. Viva a medicina! Iria contar estas esperanças a Capitu.

- Parece que vai sair o Santíssimo, disse alguém no ônibus. Ouço um
sino; é, creio que é em Santo Antônio dos Pobres. Pare, senhor recebedor!
O recebedor das passagens puxou a correia que ia ter ao braço do
cocheiro, o ônibus parou, e o homem desceu. José Dias deu duas voltas
rápidas à cabeça, pegou-me no braço e fez-me descer consigo. Iríamos
também acompanhar o Santíssimo. Efetivamente, o sino chamava os fiéis
àquele serviço da última hora. Já havia algumas pessoas na sacristia.
Era a primeira vez que me achava em momento tão grave; obedeci, a
princípio constrangido, mas logo depois satisfeito, menos pela caridade
do serviço que por me dar um ofício de homem. Quando o sacristão começou
a distribuir as opas, entrou um sujeito esbaforido, era o meu vizinho
Pádua, que também ia acompanhar o Santíssimo. Deu conosco, veio
cumprimentar-nos. José Dias fez um gesto de aborrecido, e apenas lhe
respondeu com uma palavra seca, olhando para o padre que lavava as mãos.
Depois, como Pádua falasse ao sacristão, baixinho, aproximou-se deles;
eu fiz a mesma coisa. Pádua solicitava do sacristão uma das varas do
pálio. José Dias pediu uma para si.
- Há só uma disponível, disse o sacristão.
- Pois essa, disse José Dias.
- Mas eu tinha pedido primeiro, aventurou Pádua.
- Pediu primeiro, mas entrou tarde, retorquiu José Dias; eu já cá
estava. Leve uma tocha.
Pádua, apesar do medo que tinha ao outro, teimava em querer a vara, tudo
isto em voz baixa e surda. O sacristão achou meio de conciliar a
rivalidade, tomando a si obter de um dos outros seguradores do pálio que
cedesse a vara ao Pádua, conhecido na paróquia, como José Dias. Assim
fez, mas José Dias transtornou ainda esta combinação. Não, uma vez que
tínhamos outra vara disponível, pedia-a para mim, “jovem seminarista”, a
quem esta distinção cabia mais diretamente. Pádua ficou pálido, como as
tochas. Era pôr à prova o coração de um pai. O sacristão, que me
conhecia de me ver ali com minha mãe, aos domingos, perguntou de curioso
se eu era deveras seminarista.
- Ainda não, mais vai sê-lo, respondeu José Dias piscando o olho
esquerdo para mim, que, apesar do aviso, fiquei zangado.
- Bem, cedo ao nosso Bentinho, suspirou o pai de Capitu.
Pela minha parte, quis ceder-lhe a vara; lembrou-me que ele costumava
acompanhar o Santíssimo Sacramento aos moribundos levando uma tocha,
mas
que a última vez conseguira uma vara do pálio. A distinção especial do

tochas distribuídas e acesas. rompendo a marcha do pálio. e a voz era dela. o sacristão de hissope e campainha nas mãos. em voz baixa: . há pouco. senti um ímpeto de soluçar também. Com pouco. para tocha qualquer pessoa servia. os braços caíam-me. felizmente a casa era perto. É uma metáfora. Vim para perto de uma janela.. tinha uma filha de quinze ou dezesseis anos que estava chorando à porta do quarto. na Rua do Senado. não pude mirá-lo por muito tempo. falar-me.. Quando me vi com uma das varas. doeu-me mais. tão lúgubres na ocasião tinham-me ares de um lustre nupcial. passando pelos fiéis.. fiquei comovido. O vigário confessou a doente. e ouvi alguém dizer-me: . e as lágrimas faziam-lhe encarquilhar os olhos. O pranto da moça redobrou tanto que senti os meus olhos molhados e fugi. andar à volta. E nada! E tornava à tocha comum. Opas enfiadas. e me disse ao ouvido. tanto que cuidou logo de ir pedi-lo.. o agregado tolheu-me esse ato de generosidade. a ele e a mim. outra vez a interinidade interrompida. nem ao agregado. Pádua roía a tocha amargamente. As tochas acesas. com as duas varas da frente. que. assim lhe encheu a boca de riso agora. Foi ele mesmo que me contou e explicou isto. era alguma coisa contrária à morte. cheio de uma glória pia e risonha. deu-lhe a comunhão e os santos óleos. Pobre criatura! A dor era comunicativa em si mesma complicada da lembrança de minha mãe.Não chore assim! A imagem de Capitu ia comigo. Que era lustre nupcial Não sei. quando enfim pensei em Capitu. os cabelos caíam despenteados. e a minha imaginação.Não ria assim! . Não obstante o total falava e cativava o coração. A enferma era uma senhora viúva. era a segunda vez do pálio. enfiei pelo corredor. tísica. padre e cibório prontos. e pediu ao sacristão que nos pusesse. assim como lhe atribuíra lágrimas. ouvi distintamente o meu nome. talvez nem tivesse graça. A moça não era formosa. e não vejo outra mais que bodas. com os braços no ar. paralelamente a mim.pálio vinha de cobrir o vigário e o sacramento. De resto. saiu o préstito à rua. Assim fica entendido o alvoroço com que entrara na igreja. o administrador regressava ao antigo cargo. Esta nova sensação me dominou tanto que José Dias veio a mim. e. de uma doçura que me embriagou. que se ajoelhavam. vi-a escrever no muro. senti-me me cansado. Quis ceder-lhe a vara. erguia a cabeça com o ar de ser ele próprio o Deus dos exércitos. não acho outra forma mais viva de dizer a dor e a humilhação do meu vizinho.

o que fazia a distancia menor. As curiosidades de Capitu dão para um Capítulo. não aprendeu. Demais. Era o momento da saída. Capitu quis que lhe repetisse as respostas todas do agregado. e apenas mostravam a compostura do ato. Em vez de ficar abatida com a ameaça da larga separação. doutrina e obras de agulha. prometeu que ia ver. e agora voltávamos para a igreja.Não marcou dia. Era também mais curiosa. que falaria logo que pudesse. não iam garridos. Capitu era Capitu.Não. o sol cá fora. como já conhecia a distancia. as alterações do gesto e até a pirueta. e. Peguei da minha vara. mas a ótima delas é nenhuma. assim úteis como inúteis. aí fica. que apenas lhe contara. desde os sete anos. E contudo havia outros que também traziam tocha. explicáveis e inexplicáveis. No colégio onde. outras frívolas. Pádua. E quando eu lhe contei o meu sonho imperial: . as devotas que chegavam às janelas ou entravam nos corredores e se ajoelhavam à nossa passagem. a narração e o diálogo. tudo parecia remoer consigo. Eram de vária espécie. à força de repetição. escrever e contar. Esta imagem é porventura melhor que a outra. Era minuciosa e atenta. CAPÍTULO 31 AS CURIOSIDADES DE CAPITU Capitu preferia tudo ao seminário. se vingasse a idéia da Europa. umas graves. aprendera a ler. rotulava e pregava na memória a minha exposição. Quando é que ele disse que falaria a sua mãe? . isto é. Se ainda o não disse. não acabava de se consolar da tocha. replicou. ao contrário. Pedia o som das palavras. Via-se que caminhavam com honra. a animação da rua.o peso da vara era mui pequeno. fica também. os rapazes da minha idade que me fitavam cheios de inveja. ia mais humilhado. francês. da miserável tocha. tudo me enchia a alma de lepidez nova. fiquemos por ora com a promessa de José Dias. a fazer renda- . e que me pegasse com Deus. mas também não iam tristes. mostrou se satisfeita. . Há conceitos que se devem incutir na alma do leitor. Apesar de substituído por mim. uma criatura mui particular. gostava de saber tudo.Fiquei sério depressa. Se disse. Bentinho. deixemos o Imperador sossegado. por exemplo. mais mulher do que eu era homem. Também se pode dizer que conferia.

dizia-lhe ele. e pediu-me que esperasse para ver se estava parecido. acabou dizendo que latim não era língua de meninas. Já então namorava o piano da nossa casa. das pessoas. Capitu confessou-me um dia que esta razão acendeu nela o desejo de o saber. mas não foi adiante. apenas de estimação.por isso mesmo. . dava os últimos rasgos. quis que prima Justina lhe ensinasse. O agregado disse-lho sumariamente. Era o de meu pai. os olhos saíram esbugalhados. com o de meu pai. . mas as ações citadas por José Dias davam-lhe gestos de admiração. quis aprender inglês com um velho professor amigo do pai e parceiro deste ao solo. respondeu entusiasmado: . Capitu quis saber o que eram as figuras da sala de visitas. A erudição deste não avultava muito mais que a sua homeopatia de Cantagalo. querendo saber das ruínas. referia-se ao que estava na sala. com exclamações em latim: . velho traste inútil. um diadema e brincos.É o maior homem da história! A pérola de César acendia os olhos de Capitu. o lugar. não tendo presente o valor do sestércio. copiado da tela que minha mãe tinha na sala e que ainda agora está comigo. e os cabelos eram pequenos círculos uns sobre outros. Ficou muito tempo com a cara virada para ele. Tio Cosme ensinou-lhe gamão. tinha um grande colar. Em compensação. estou que aprenderia facilmente pintura.E quanto valia cada sestércio? José Dias. das campanhas. Lia os nossos romances.César! Júlio César! Grande homem! Tu quoque. José Dias dava-lhe essas notícias com certo orgulho de erudito.Anda apanhar um capotinho. Ainda assim. Capitu. Brute? Capitu não achava bonito o perfil de César. Um homem que podia tudo! que fazia tudo! Um homem que dava a uma senhora uma pérola do valor de seis milhões de sestércio! . Se não estudou latim com o Padre Cabral foi porque o padre. Perfeição não era. Um dia fui achá-la desenhando a lápis um retrato. Mas.descontai-me a idade e a simpatia. não tendo ela rudimento algum de arte. ao contrário. achei que era obra de muito merecimento. não sei se diga com amor. com atenção. a história. Um dia. Capitu obedecia e jogava com facilidade. e havendo feito aquilo de memória em poucos minutos. Foi nessa ocasião que ela perguntou a minha mãe por que é que já não usava as jóias do retrato. o nome. depois de lhe propor gracejando. folheava os nossos livros de gravuras. demorando-se um pouco mais em César. como aprendeu música mais tarde.

. José Dias ainda não falou? . como eu. mobílias antigas. Um ou outro. que estava no quintal nem esperou que eu lhe perguntasse pela filha. Se não foi ele. Como passou a noite? .. vá devagarzinho para lhe pregar um susto. um dito daqui. CAPÍTULO 32 OLHOS DE RESSACA Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. costumes. como eu. . Fui devagar. disseram-lho. um adágio dacolá. toda ela voou pelos ares. Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para a lição.Quando é que botou estas? . . Nascera muito depois daquelas festas célebres. passados alguns dias do ajuste com o agregado.Foi pelas festas da Coroação. a infância e a mocidade de minha mãe. moldura tosca. respondi.Eu bem.Parece que não. e só lhe ouvi esta pergunta: . Dona Fortunata.Há alguma coisa? . porém. Capitu. a verdade é que.Mas então quando fala? . pendente da parede. disse-me. .Não há nada..Está na sala penteando o cabelo. Ouvindo falar várias vezes da Maioridade. Caso houve. mas naturalmente tinha para si que eles pouco mais conheceriam do que o que se passou nas ruas.São jóias viúvas. no qual não sei se aprendeu ou ensinou. mas ou o pé ou o espelho traiu-me. fui ver a minha amiga. É o que contarei no outro Capítulo..Oh! conte-me as festas da Coroação! Sabia já o que os pais lhe haviam dito. pente. foi o pé. cabelos. notícias de Itaguaí. eram dez horas da manhã. argolinha de latão. uma lembrança dali. alfaias velhas. Este pode ser que não fosse. Queria a notícia das tribunas da Capela Imperial e dos salões dos bailes. teimou um dia em saber o que fora este acontecimento. e achou que o Imperador fizera muito bem em querer subir ao trono aos quinze anos. Neste direi somente que. apenas entrei na sala. comprado a um mascate italiano. era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza). entre as duas janelas. ou se fez ambas as coisas.

às orelhas. crescidos e sombrios. e queria ver se podiam chamar assim. Ele é atendido. ameaçando envolver-me. Eu já nem sei se José Dias poderá influir tanto. Bentinho. como a vaga que se retira da praia. e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos. ao cabo de um tempo não marcado. mas eu não estou aqui para emendar poetas.Você jura? . “olhos de cigana oblíqua e dissimulada.Teimo..Juro. entrará em matéria. Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles. cava e escura. não vai logo de pancada. com os meus olhos longos. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita. mas poderá alcançar?. Depois.. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico. uma força que arrastava para dentro.Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto.. imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto. Capitu deixou-se fitar e examinar. aos braços. se. se sentir que você realmente não quer ser padre. constantes. Hoje mesmo ele há de falar.. de ressaca. . um toque. interrompeu Capitu. Estou para contar que. nos dias de ressaca. com tal expressão que. sem quebra da dignidade do estilo. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento.. Há de dobrar o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já terão padecido no inferno os seus inimigos.. . dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu.. Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve. mas dissimulada sabia. assim também a quantidade das delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos condenados do inferno. Capitu. É o que me dá idéia daquela feição nova. Este outro suplício escapou ao divino Dante. Retórica dos namorados. mas tão depressa buscava as pupilas. É um inferno isto! Você teime com ele. nem por não acabar nunca deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. agarrei-me às outras partes vizinhas.. se nunca os vira. puxar-me e tragar-me. porém. Não me acode imagem capaz de dizer. não se lhe falaria. Só me perguntava o que era. eu nada achei extraordinário. Para não ser arrastado. enfiados neles. Olhos de ressaca? Vá.. acho que fará tudo. falará assim por alto e por longe. . aos cabelos espalhados pelos ombros. e de todo. o que eles foram e me fizeram. A eternidade tem as suas pêndulas. a onda que saía delas vinha crescendo. a cor e a doçura eram minhas conhecidas. .Que tem. tem. E se não fosse preciso alguém para vencer já. Deixe ver os olhos.” Eu não sabia o que era oblíqua.

isso sim. risquemos ninfa. Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Sentou-se. que eram parte dela. saboreando pelo tato aqueles fios grossos. devagarinho.para dizer alguma coisa. Onde estava a fita para atar-lhes as .Se embaraçar.Vamos ver. para compor as duas tranças. disse-me rindo. os cabelos iam acabando. porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois.Você? . você desembaraça depois. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora. e a sensação era um deleite. nem assim depressa.Eu mesmo. desgraçado leitor. outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Continuei a alisar os cabelos. . mas devagar. Enfim acabei as duas tranças. Se isto vos parecer enfático. se quisesse. “Vamos ver o grande cabeleireiro”. CAPÍTULO 33 O PENTEADO E Capitu deu-me as costas. . e disse-lhe. com muito cuidado. como podem supor os cabeleireiros de ofício. tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Ainda há pouco.. . Em pé não dava jeito: não esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu. às vezes por desazo.agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu.Senta aqui. e dividi-os em duas porções iguais. . cheguei a escrever Tétis. palavra que envolve todas as potências cristãs e pagãs. voltando-se para o espelho. . Mas. mas então com as mãos. é que nunca penteastes uma pequena.. digamos somente uma criatura amada. por mais que eu os quisesse intermináveis. mas ainda que fosse da mesma altura. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita. Peguei-lhe dos cabelos.Vai embaraçar-me o cabelo todo. falando dos seus olhos de ressaca. risquei Tétis.. Não as fiz logo. nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa. Pedi-lhe que se sentasse. colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente. que lhe desciam à cintura. desde a testa até as últimas pontas. enfim. O trabalho era atrapalhado. é melhor. desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos. mas.que era capaz de os pentear. .

mamãe! E com um enfadamento gracioso e voluntário que às vezes tinha. de costas para mim. retoquei a obra.O que. Pedi-lhe que levantasse a cabeça. pegou do . rápida.. que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que estava sentada. Com dezessete. não levantou a cabeça. uni-as por um laço. Preso.pontas Em cima da mesa. mas trocados. não achava gesto nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil palavras cálidas e mimosas. pediu-me para acabar o penteado. era Dona Fortunata. Está muito bem. achatando ali. eu recuei até à parede com uma espécie de vertigem. ela abanava a cabeça e ria. até que ela abrochou os lábios.. Capitu compôs-se depressa.Veja no espelho. . alargando aqui. quando a mãe apontou à porta. atordoado. tão depressa que.Pronto! . e ficamos assim a olhar um para o outro. leitor precoce. Veja que tranças! . os olhos de uma na linha da boca do outro. Não me atrevi a dizer nada. ainda que quisesse. Grande foi a sensação do beijo. Nenhum laivo amarelo. ninguém dirá que é de pessoa que não sabe pentear. Não mofes dos meus quinze anos. CAPÍTULO 34 SOU HOMEM! Ouvimos passos no corredor. até que exclamei: . Em vez de ir ao espelho. transbordando de benevolência . um riso espontâneo e claro. eu desci os meus. olhe como este senhor cabeleireiro me penteou. um triste pedaço de fita enxovalhada. podia ficar tonta. e. sem fala. machucar o pescoço. . faltava-me língua.. Inclinei-me depois sobre ela rosto a rosto. Capitu derreou a cabeça.Que tem? acudiu a mãe. o espaldar da cadeira era baixo.Estará bom? .. Quando eles me clarearam vi que Capitu tinha os seus no chão. Ora. Juntei as pontas das tranças.Mamãe. Cheguei a dizer-lhe que estava feia. Capitu! Não quis. desfazendo as tranças. e fez isto. os olhos escuros. mamãe? Isto? redargüiu Capitu. que ela explicou por estas palavras alegres: . a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la. nenhuma contração de acanhamento.Levanta. Capitu ergueu-se. mas nem esta razão a moveu. Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos.

recordando o penteado e o resto. e logo perdia tudo para sentir somente os beiços de Capitu Sentia-os estirados. há em cada adolescente um mundo encoberto. não era nada. Era uma saída. não logravam romper de dentro. maluquices da filha. mas de atropelo. um simples artigo. por menos que as emoções o dominem. como vistes. descobrindo a América. os livros.. dizendo que minha mãe me mandara chamar para a lição de latim. éramos dois e contrários. e disse-me que não fizesse caso. murmurando: “Eis aqui um que não fará grande carreira no mundo. as paredes. sentei-me na cama. Uma exclamação. Não havia ninguém fora. enfiado.Sou homem! Supus que me tivessem ouvido.” Assim. Olhava com ternura para mim e para ela. Colombo não o teve maior. parece-me que desconfiou. o chão. Voltei para dentro. O beijo de Capitu fechava-me os lábios. ouvi que a mãe censurava as maneira da filha. Andando. Dona Fortunata tirou-me daquela hesitação. cosido à parede. Corri ao meu quarto. nenhum me deslumbrou tanto. e sorriu por dissimulação. próximo ou remoto. um almirante e um sol de outubro.. e corri à porta da alcova. Depois. e elas acudiram de pronto. Fiz outros achados mais tarde. e encheram-me a boca sem poder sair nenhuma. Dona Fortunata chamou-lhe tonta. Ainda agora tenho o eco aos meus ouvidos. ela encobrindo com a palavra o que eu publicava pelo silêncio. a vista dos nossos nomes aberto por ela no muro do quintal deu-me grande abalo.pente e alisou os cabelos para renovar o penteado. e via a cama. O gosto que isto me deu foi enorme. nada disso valeu a sensação do beijo. despedi-me e enfiei pelo corredor. e. Vendo-me calado. peguei dos livros. e unindo-se uns aos outros. tinha uns esquecimentos em que perdia a consciência de mim e das coisas que me rodeavam. o Padre Cabral estava à minha espera. e perdoai a banalidade em favo. para viver não sei onde nem como. igualmente esticados para os dela. Podiam ser . De repente. vago. Tinha estremeções. E tornava a mim. E todas as palavras recolheram-se ao coração. apanhados pela mãe. mas a filha não dizia nada. ouvia algum som de fora.com efeito. achou talvez que houvera entre nós algo mais que penteado. sem querer. baixinho. Como eu quisesse falar também para disfarçar o meu estado. saiu-me da boca esta palavra de orgulho: . A denúncia de José Dias alvoroçara-me. do cabimento. mas não passei à sala da lição. a lição do velho coqueiro também.. repeti que era homem.. chamei algumas palavras cá de dentro. sem pensar. por mais que investissem com força. porque a palavra saiu em voz alta. embaixo dos meus.

CAPÍTULO 35 O PROTONOTÁRIO APOSTÓLICO Enfim. e soube que. ninguém ralhou comigo. mas o susto que causaria a minha mãe fez-me rejeitá-la. como que fundidas. muitas intelectuais. a que inteiramente me revelou a mim mesmo. monsenhores. vamos ver.Prepara-te. foi ter com ele. mas como se pensa em perigo que passou. Grande homem que fosse. a recordação era menor que esta. todos os meus nervos me disseram que homens não são padres. Sendo verdade. Não corri precisamente. e internúncios. acabava de ser nomeado protonotário apostólico. Pensei em prometer algumas dezenas de padre-nossos. Outras tenho. Esta distinção do papa dera-lhe grande contentamento e a todos os nossos. conversavam ruidosamente. de todas as daquele tempo creio que a mais doce é esta. núncios. de vária espécie. e podiam ler-me no semblante alguma coisa.era a primeira vez que ele soavaaos nossos ouvidos. bispos. igualmente intensas. é o passar e repassar das memórias antigas Ora. doces também. O sangue era da mesma opinião. Bentinho. um mal abortado. Tio Cosme e prima Justina repetiam o título com admiração. não podiam dizer tudo. O Padre Cabral recebera na véspera um recado do internúncio. advertindo que devia ser muito tarde. mas as honras dele. não eram a carne e o sangue dela. por decreto pontifício.. alegar uma vertigem que me houvesse deitado no chão. As próprias mãos tocadas. mas que era protonotário apostólico? O Padre Cabral explicou que não era propriamente o cargo da cúria. outra promessa em aberto e outro favor pendente.Sou homem! Quando repeti isto. Quando entrei na sala.. porém. pensei no seminário. Talvez abuso um pouco das reminiscências osculares. e repetia: . eram os ossos da verdade. pela terceira vez. acostumados a cônegos. apertadas. mas a saudade é isto mesmo. Tio Cosme viu exalçar-se no parceiro de voltarete. Tive idéia de mentir. peguei dos livros e corri à lição. tinha. a meio caminho parei. ouvi vozes alegres.mentira ou ilusão. . fui andando. um pesadelo extinto. Outra vez senti os beiços de Capitu. vastas e numerosas. tu podes vir a ser protonotário apostólico .Protonotário apostólico! E voltando-se para mim: . a mais compreensiva. a mais nova. Não.

mana Glória.Cabral ouvia com gosto a repetição do título. aplaudia a distinção. .Protonotário Cabral. Subentendia-se apostólico. . os primeiros atos políticos de Pio IX.Não.Há de ser padre.. dava alguns passos. a semente lançada à terra. são só as honras. o principal da hora e do lugar era o meu velho mestre de latim. mas respondeu logo: . protonotário Cabral.Não esqueça.disse Cabral. assentiram todos. . . ainda que não venha a ser padre. como para acostumar os ouvidos da família. senhor protonotário. . cheia de amor e de tristeza.. . voltando a mim do receio.Mas. Se a intenção do meu mestre de latim era ir acostumando ao uso do título com o nome. cartas de cerimônia. . o que sei é que quando ouvi o meu nome ligado a .Justamente. observou minha mãe. sacudindo a barriga. . mas ninguém pegou do assunto. sorria ou tamborilava na tampa da boceta.não impede que nos casos de maior formalidade. se empregue o título inteiro: protonotário apostólico. a propósito. e este aplauso não lhe foi menos ao coração que os outros. mas José Dias corrigiu a alegria: .isto o obriga a ir a Roma? . Minha mãe sorriu para mim. porque tio Cosme. que continuava a refletir. bastava que lhe chamassem o protonotário Cabral. José Dias. Era muita felicidade para uma só hora. e recordou. Conheci aqui o meu homem. assim de passagem. e padre bonito. para ligá-lo ao nome.Agora. Dona Justina. acentuou Cabral. atos públicos. Padre Cabral acudiu que não era preciso dizê-lo todo. grandes esperanças da Itália. .esta segunda reflexão foi tio Cosme que a fez. Um beijo e férias! Creio que o meu rosto disse isto mesmo.O protonotário Santiago. . O tamanho do título como que lhe dobrava a magnificência. Eu.Não tem que festejar a vadiação. e acabou dando-me férias.Sim. Protonotário apostólico. e protonotário também. era demasiado comprido. entendi que devia cumprimentá-lo também. não sei bem. não impede. chamou-me peralta. etc. No uso comum. tem razão..Não. que entrou pouco depois de mim. Bateu-me na bochecha paternalmente. o latim sempre lhe há de ser preciso. Estava em pé. basta protonotário.acudiu prima Justina para se ir acostumando ao uso do título. Era a primeira palavra. posto que.

tal título, deu-me vontade de dizer um desaforo. Mas a vontade aqui foi
antes uma idéia, uma idéia sem língua, que se deixou ficar quieta e
muda, tal como daí a pouco outras idéias... Aliás essas pedem um
Capítulo especial. Rematemos este dizendo que o mestre de latim falou
algum tempo da minha ordenação eclesiástica, ainda que sem grande
interesse. Ele buscava um assunto alheio para se mostrar esquecido da
própria glória, mas era esta que o deslumbrava na ocasião. Era um velho
magro, sereno, dotado de qualidades boas. Alguns defeitos tinha; o mais
excelso deles era ser guloso, não propriamente glutão; comia pouco, mas
estimava o fino e o raro, e a nossa cozinha, se era simples, era menos
pobre que a dele. Assim, quando minha mãe lhe disse que viesse jantar, a
fim de se lhe fazer uma saúde, os olhos com que aceitou seriam de
protonotário, mas não eram apostólicos. E para agradar a minha mãe
novamente pegou em mim, descrevendo o meu futuro eclesiástico, e queria
saber se ia para o seminário agora, no ano próximo, e oferecia-se a
falar ao “senhor bispo”, tudo marchetado do “protonotário Santiago.”

CAPÍTULO 36
IDÉIA SEM PERNAS E IDÉIA SEM BRAÇOS
Deixe-os, a pretexto de brincar, e fui-me outra vez a pensar na aventura
da manhã. Era o que melhor podia fazer, sem latim, e até com latim. Ao
cabo de cinco minutos, lembrou-me ir correndo à casa vizinha, agarrar
Capitu, desfazer-lhe as tranças, refazê-las e concluí-las daquela
maneira particular, boca sobre boca. E isto vamos é isto... Idéia só!
idéia sem pernas! As outras pernas não queriam correr nem andar. Muito
depois é que saíram vagarosamente e levaram-me à casa de Capitu. Quando
ali cheguei, dei com ela na sala, na mesma sala, sentada na marquesa,
almofada no regaço, cosendo em paz. Não me olhou de rosto, mas a furto e
a medo, ou, se preferes a fraseologia do agregado, oblíqua e
dissimulada. As mãos pararam, depois de encravada a agulha no pano. Eu,
do lado oposto da mesa, não sabia que fizesse e outra vez me fugiram as
palavras que trazia Assim gastamos alguns minutos compridos, até que ela
deixou inteiramente a costura, ergueu-se e esperou-me. Fui ter com ela,
e perguntei se a mãe havia dito alguma coisa; respondeu-me que não A
boca com que respondeu era tal que cuido haver-me provocado um gesto de
aproximação. Certo é que Capitu recuou um pouco.
Era ocasião de pegá-la, puxá-la e beijá-la... Idéia só! idéia sem

braços! Os meus ficaram caídos e mortos. Não conhecia nada da Escritura.
Se conhecesse, é provável que o espírito de Satanás me fizesse dar à
língua mística do Cântico um sentido direto e natural. Então obedeceria
ao primeiro versículo: “Aplique ele os lábios, dando-me o ósculo da sua
boca”. E pelo que respeita aos braços, que tinha inertes, bastaria
cumprir o versículo seis do capítulo 2: “A sua mão esquerda se pôs já
debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abraçará depois”. Vedes
aí a cronologia dos gestos. Era só executá-la; mas ainda que eu
conhecesse o texto, as atitudes de Capitu eram agora tão retraídas, que
não sei se não continuaria parado. Foi ela, entretanto, que me tirou
daquela situação.

CAPÍTULO 37
A ALMA E CHEIA DE MISTÉRIOS
- Padre Cabral estava esperando há muito tempo?
- Hoje não dei lição; tive férias.
Expliquei-lhe o motivo das férias. Contei-lhe também que o Padre Cabral
falara da minha entrada no seminário, apoiando a resolução de minha mãe,
e disse dele coisas feias e duras. Capitu refletiu algum tempo, e acabou
perguntando-me se podia ir cumprimentar o padre, à tarde em minha casa.
- Pode, mas para quê?
- Papai naturalmente há de querer ir também, mas é melhor que ele vá à
casa do padre, é mais bonito. Eu não, que já sou meia moça, concluiu rindo.
O riso animou-me. As palavras pareciam ser uma troça consigo mesma, uma
vez que, desde manhã, era mulher, como eu era homem. Achei-lhe graça, e,
para dizer tudo, quis provar-lhe que era moça inteira. Peguei-lhe
levemente na mão direita, depois na esquerda, e fiquei assim pasmado e
trêmulo. Era a idéia com mãos. Quis puxar as de Capitu, para obrigá-la a
vir atrás delas, mas ainda agora a ação não respondeu à intenção.
Contudo, achei-me forte e atrevido. Não imitava ninguém- não vivia com
rapazes, que me ensinassem anedotas de amor. Não conhecia a violação de
Lucrécia. Dos romanos apenas sabia que falavam pela artinha do Padre
Pereira e eram patrícios de Pôncio Pilatos. Não nego que o final do
penteado da manhã era um grande passo no caminho da movimentação
amorosa, mas o gesto de então foi justamente o contrário deste. De
manhã, ela derreou a cabeça, agora fugia-me; nem é só nisso que os
lances diferiam; em outro ponto, parecendo haver repetição, houve

contraste.
Penso que ameacei puxá-la a mim. Não juro, começava a estar tão
alvoroçado, que não pude ter toda a consciência dos meus atos; mas
concluo que sim, porque ela recuou e quis tirar as mãos das minhas;
depois, talvez por não poder recuar mais, colocou um dos pés adiante e o
outro atrás, e fugiu com o busto. Foi este gesto que me obrigou a
reter-lhe as mãos com força. O busto afinal cansou e cedeu, mas a cabeça
não quis ceder também, e caída para trás, inutilizava todos os meus
esforços, porque eu já fazia esforços, leitor amigo. Não conhecendo a
lição do Cântico, não me acudiu estender a mão esquerda por baixo da
cabeça dela; demais, este gesto supõe um acordo de vontades, e Capitu,
que me resistia agora, aproveitaria o gesto para arrancar-se à outra mão
e fugir-me inteiramente. Ficamos naquela luta, sem estrépito, porque
apesar do ataque e da defesa, não perdíamos a cautela necessária para
não sermos ouvidos lá de dentro; a alma é cheia de mistérios. Agora sei
que a puxava; a cabeça continuou a recuar; até que cansou; mas então foi
a vez da boca. A boca de Capitu iniciou um movimento inverso,
relativamente à minha, indo para um lado, quando eu a buscava do outro
oposto. Naquele desencontro estivemos, sem que ousasse um pouco mais, e
bastaria um pouco mais...
Nisto ouvimos bater à porta e falar no corredor. Era o pai de Capitu,
que voltava da repartição um pouco mais cedo, como usava às vezes.
“Abre, Nanata! Capitu, abre!” Aparentemente era o mesmo lance da manhã,
quando a mãe deu conosco, mas só aparentemente verdade, era outro.
Considerai que de manhã tudo estava acabado, e o passo de Dona Fortunata
foi um aviso para que nos compuséssemos. Agora lutávamos com as mãos
presas, e nada estava sequer começado.
Ouvimos o ferrolho da porta que dava para o corredor interno era a mãe
que abria. Eu, uma vez que confesso tudo, digo aqui que não tive tempo
de soltar as mãos da minha amiga; pensei nisso, cheguei a tentá-lo, mas
Capitu, antes que o pai acabasse de entrar, fez um gesto inesperado,
pousou a boca na minha boca, e deu de vontade o que estava a recusar à
força. Repito, a alma é cheia de mistérios.

CAPÍTULO 38
QUE SUSTO, MEU DEUS!
Quando Pádua, vindo pelo interior, entrou na sala de visitas, Capitu, em

Capitu. ela iria à minha. No meio de uma situação que me atava a língua. meu Deus! Agora é que o lance é o mesmo. bradando infantilmente: . muito obrigado. Papai está bom? E mamãe? A você não se pergunta. o pai não lhe meteu mais medo.Que susto. mas eu. Foi logo falar ao pai. esse estado da alma que vê na inclinação do arbusto. fez um pequeno discurso em honra “ao coração paternal e . é para mostrar que Capitu não se dominava só em presença da mãe. enfiou pelo corredor. deteve-se um instante à porta da sala antes de ir beijar a mão a minha mãe e ao padre. . e deu à cara um ar meio enfiado. tais quais. E como vamos de rezas? A todas as perguntas Capitu ia respondendo prontamente e bem trazia um vestidinho melhor e os sapatos de sair. usava da palavra com a maior ingenuidade deste mundo. Capitu repetiu-lhe o que ouvira de mim. Cabral ouviu as palavras de Capitu com infinito prazer. vivam! exclamou o pai. Tempo chega em que os dignificados recebem os louvores como um tributo usual.essa cara é mesmo de quem vende saúde. E coligindo os petrechos da costura. e quis saber por que a filha falava em protonotário apostólico. A minha persuasão é que coração não lhe batia mais nem menos. Bentinho. O alvoroço da primeira hora é melhor. como a recolhê-la. tocado do vento. de costas para mim. jantar. que é protonotário apostólico? . traz sensações mais íntimas e finas que qualquer outro. o título de protonotário. sem agradecimentos.Ora. estimo que você goste também. Alegou susto.Mas. perguntava em voz alta: . que sabia tudo. Como desse a este duas vezes em cinco minutos.pé. um parabém da flora universal. que apertou a minha mão. cara morta. ou dois lances de há quarenta anos. e opinou logo que o pai devia ir cumprimentar o padre em casa dele. Não entrou com a familiaridade do costume. inclinada sobre a costura.Mamãe. . mas se conto aqui.Obrigado. vi que era mentira e fiquei com inveja. papai chegou! CAPÍTULO 39 A VOCAÇÃO Padre Cabral estava naquela primeira hora das honras em que as mínimas congratulações valem por odes. José Dias para se desforrar da concorrência.

que acabei ordenando-me.Como? Então pode-se entrar para o seminário e não sair padre? Padre Cabral respondeu que sim. falou da minha vocação. suponha que não acontecia assim. que era coadjutor de Santa Rita. . . Padre Cabral retorquia: . mas vocação não é só do berço que se traz. que era manifesta. o que é que acontecia? Tinha estudado no seminário algumas matérias que é bom saber. e. contanto que o sacerdote venha já destinado do berço. pode-se ou não se pode? . Sem vocação é que não há bom padre. e um dia a voz de Deus lhe fala. Um homem pode não ter gosto à igreja e até persegui-la. quando ele acabou José Dias sorriu sem vexame. e são sempre melhor ensinadas naquelas casas. e eu adorava os ofícios divinos. e que eu não mudava de vocação. sem os seus superlativos. Cabral acrescentou que o reitor de S. Não me quero dar por modelo. todas as crianças do meu tempo eram devotas. disse tio Cosme. falo de vocação sincera e real. Não havendo vocação. O que eu digo é que se pode muito bem servir a Deus sem ser padre cá fora. Padre Cabral confirmou os louvores do agregado.Um moço sem gosto nenhum à vida eclesiástica pode acabar por ser muito bom padre.meu padrinho.Pode-se.augustíssimo de Pio IX. teimou com meu pai para que me metesse no seminário.Perfeitamente. José. Pois. . os meus brinquedos foram sempre de igreja. ao que este acrescentou que o Cardeal Mastai evidentemente fora talhado para a tiara desde o princípio dos tempos.Pois então? exclamou José Dias triunfalmente. senhor. tomei tal gosto aos estudos e à companhia dos padres.Você é um grande prosa.Não contesto. A prova não provava. . é a melhor. olhando em volta de si. voltando-se para mim. E.” .Homem. . concluiu: . piscando-me o olho. mas o poder de Deus é soberano. tudo é que Deus o determine. meu pai cedeu. Prima Justina interveio: . veja São Paulo. . Mas. como todos devemos. O estado eclesiástico é perfeitíssimo. e em qualquer profissão liberal se serve a Deus. um jovem pode muito bem estudar as letras humanas. e ele sai apóstolo. que também são úteis e honradas. que se podia. mas o que eu digo é outra coisa. mas aqui estou eu que nasci com a vocação da medicina. a quem contara ultimamente a promessa de minha mãe.A vocação é muito.A vocação é tudo.

. e tive uma fantasia. acudiu ela rindo. não. refleti algum tempo. Capitu. que cuidei simulada.. todos os impulsos da idade e da ocasião eram atravessá-la de todo. Eram ave-marias. A imaginação foi . até acabar o mundo.Amanhã. também não parecia escutar a conversação sobre o seminário e suas conseqüências. e pôs o dedo na mão. Capitu. e. Capitu segredou-me que a escrava desconfiara. Capitu que ia depressa. que veio de dentro acender o lampião do corredor. e ficássemos à vontade.Não venha. sozinhos. ele era da mesma opinião. disse minha mãe. CAPÍTULO 40 UMA ÉGUA Ficando só. se acabasse. e retirou-se. decorou o principal. riu de simpatia e murmurou em tom que ouvíssemos alguma coisa que não entendi bem nem mal. Não deixou minha mãe. . estacou e fez-me sinal que voltasse. . . Contei-vos a da visita imperial. cosida às saias de minha mãe. senhor protonotário. despediu-se. entrar no quintal. senão para ir embora. não atendia aos olhos ansiosos que eu lhe mandava.Vai com ela. . agarrado ao chão. Novamente me intimou que ficasse. Uma preta. . Adeus. como vim a saber depois. é claro que o meu dever... Bentinho. pegou-me na mão. não.Fica! Falava baixinho. e enfiei pelo corredor. Tendo dado um passo no sentido de atravessar a sala. eu deixei-me estar parado..Mas eu queria dizer a você.Adeus. dar-lhe terceiro beijo.Não precisa.. Já conheceis as minhas fantasias. vendo-nos naquela atitude. eu sei o caminho.Escuta! . e ia talvez contar às outras. reproduzindo a de Mata-cavalos.tinha o meu nascimento por milagre. mas Capitu não me apareceu. Não obedeci.. Dona Glória. Não me importou a recusa. esperando que ela fosse também. quase às escuras. o meu gosto. mas. amanhã falaremos. aliás. disse-vos a desta casa de Engenho Novo. Duas vezes fui à janela. seguir a vizinha corredor fora. . pregado. cheguei-me a ela. descer à chácara. e despedir-me.

“Sim. . Vi entrar o Doutor João da Costa. Mas. a menor brisa lhe dava um potro. as mais delas capaz de engolir campanhas e campanhas.É uma coisa.Não é moléstia? . olhe.. isso é volta de constipação.Mamãe. se o peito. inquieta. se o estômago. mas tu estás constipado. senhora.” CAPÍTULO 41 A AUDIÊNCIA SECRETA O resto fez-me ficar mais algum tempo.. escute. A fantasia daquela hora foi confessar a minha mãe os meus amores para lhe dizer que não tinha vocação eclesiástica. . senhora. pensei. dando comigo. Creio haver lido em Tácito que as éguas iberas concebiam pelo vento. quis saber o que é que me doía. e. ela foi só. E. foi noutro autor antigo. e confesso o nosso namoro. Tentei rir. mamãe. viva. se não foi nele. e preparou-se logo o voltarete do costume. mas deixemos metáforas atrevidas e impróprias dos meus quinze anos. logo. no corredor.Que é? Toda assustada. a minha imaginação era uma grande égua ibera. . Nem por isso permitiu adiar a confidência. Disfarças para não tomar suadouro. conto-lhe o que se passou outro dia. abria-me uma porta de saída. se a cabeça. para . A conversa sobre vocação tornava-me agora toda inteira. Então eu perguntei-lhe. Digamos o caso simplesmente. vou dizer a mamãe que não tenho vocação. acenda vela. é melhor depois do chá.É. e ordenou-me que lhe dissesse tudo.. se ela duvidar. alguma vez tímida e amiga de empacar. E quase investindo para ela: . Neste particular. que saía logo cavalo de Alexandre. não é coisa de cuidado. Não é nada mau. eu queria dizer-lhe uma coisa. é isto. levou-me ao quarto dela. para mostrar que não tinha nada.Mas então que é? . .Não. Minha mãe saiu da sala.Não tenho nada não. pensando. e apalpava-me a testa para ver se tinha febre. .Não. conhece-se pela voz.. ao passo que me assustava. mamãe assusta-se por tudo. o penteado e o resto..a companheira de toda a minha existência. correndo.. . que entendeu guardar essa crendice nos seus livros. senhora. pegou em mim. perguntou se acompanhara Capitu. rápida.

quando José Dias te chamava Reverendíssimo. ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera. por causa dos estudos. A verdade é que minha mãe era cândida como a primeira aurora. não me disse as .. nota que eu queria desviar as suspeitas de cima de Capitu. nem por simples intuição era capaz de deduzir uma coisa de outra. e pareceu-me que tinha os olhos úmidos.. Bentinho. e acabaria gostando de viver com eles. Não houve cálculo nesta palavra. Depois.Não volto para casa? . não. Daí o falar-lhe na vocação que se discutira naquela tarde. . não concluiria da minha repentina oposição que eu andasse em segredinhos com Capitu. Calou-se durante alguns instantes. isto é. era só alguma ausência. Ela afagou-me. Vocação? Mas a vocação vem com o costume.. só os primeiros dias. tu rias com tanto gosto! Como é que agora?. Em pouco tempo eu me acostumaria aos companheiros e aos mestres. depois replicou-me sem imposição nem autoridade. mas as contradições são deste mundo. quando é que ia para o seminário. disse ela. e eu tornei ao filho submisso que era. Enxuguei os olhos e o nariz. para ficar? . a meio caminho. vens morar comigo. Negou que fosse separação. continuou repetindo as reflexões que ouvira ao meu professor de latim. leitor amigo. como lhe dissera José Dias. anterior ao primeiro pecado. mas creio que a voz lhe tremia. . depois quis repreender-me. repreendeu-me sem aspereza. desviava as suspeitas de cima de Capitu.principiar. .. quando havia chamado minha mãe justamente para confirmá-las. Como eu buscasse contestá-la. numa frase inocente e pura! Chega a fazer suspeitar que a mentira é muita vez tão involuntária como a transpiração. e que eu confessei não sentir em mim. é melhor. E depois..Vou.Eu só gosto de mamãe.Agora só para o ano.. depois das férias. por fazer crer que ela era a minha única afeição. mas com alguma força. Quando te ordenares padre. com as suas batinas? Em casa. . Quantas intenções viciosas há assim que embarcam. não te lembras que até pedias para ir ver sair os seminaristas de São José.Mas tu gostavas tanto de ser padre. Disse-lhe que também sentia a nossa separação.Voltas aos sábados e pelas férias. Não creio.Como ficar? . mas estimei dizê-la. Por outro lado. o que me veio animando à resistência.

vamos para a sala. que vive tão feliz com a irmã. em benefício dela e para bem da minha alma. e Deus que é grande e poderoso. Bentinho. um tio meu também foi padre. Caminhou para a porta. Bentinho.Nosso Senhor me acudiu. saímos ambos. Todas essas coisas e outras foram ditas um pouco atropeladamente. porque o Padre Cabral fala de ti com entusiasmo. que me fizesse homem e obedecesse ao que cumpria. não só para ti. mas velada e esganada. que valesse tanto ou mais. outra moeda. é bonito. você conhece muitos. mas não recuava dos seus propósitos. como para o Padre Cabral. não peço. Está entendido: no primeiro ou no segundo mês do ano que vem. CAPÍTULO 42 CAPITU REFLETINDO . Bentinho? E como havia de saber que Deus me dispensava? . em pagamento a Deus.circunstâncias nem a ocasião. Vamos.. meu filho.. manha. como o Padre Cabral. Moleza é o que queria dizer. não me deixaria assim. nem os motivos dela.E se mamãe pedisse a Deus que a dispensasse da promessa? . e aventurei-me a perguntar-lhe: . Este era já o seu desejo íntimo. e escapou de ser bispo. não. Creio que os olhos que lhe deitei foram tão queixosos que ela emendou logo a palavra. é tarde. que me deixas de moleza. coisas que só vim a saber mais tarde. e a voz não lhe saía clara. Ser padre é bom e santo. Antes de sair. e não achava nenhuma. . sabia muito bem que eu era amigo dela. Bentinho. Quisera um modo de pagar a dívida contraída. isto é. são coisas que não se fazem sem pecado. não lhe hei de mentir nem faltar. O que eu quero é que saibas bem os livros que estás estudando.Talvez em sonho.. Deixa de manha. irás para o seminário..Também eu. eu sonho às vezes com anjos e santos. não.Não. . Estás tonto. à proporção que se aproximava o tempo. Afirmou o principal. dizem. mas é inútil. eu sei que seria castigada e bem castigada. e não seria capaz de fingir um sentimento que não tivesse. e quase a vi saltar-me ao colo e dizer-me que não seria padre. não podia ser manha. que a havia de cumprir. Vi que a emoção dela era outra vez grande. No seminário há interesse em conhecer-te. salvando a tua existência. voltou-se para mim.

vi que não se mexia. respirava a custo. Estava abatida. e ficamos a olhar para o ar.. duas moscas andando e um pé de cadeira lascada. e por fim as últimas respostas decisivas: dentro de dois ou três meses iria para o seminário. CAPÍTULO 43 VOCÊ TEM MEDO? . mamãe zangava-se.. Caímos no canapé. para não amofiná-la. a verdade última. cuido que os enxugou somente.Se eu acendesse vela. refletia. não quisera ter ouvido um desengano que eu reputava certo. mas distraía-me da aflição. Capitu confirmou a narração da mãe. antes e depois do chá. mas Capitu respondeu que não era preciso. Capitu despedia-se de três amigas que tinham ido visitá-la. a verdade das verdades. e fiquei com tal medo que a sacudi brandamente. Também eu lhe contei o que se dera comigo. antes de qualquer trabalho efetivo por parte de José Dias. mas também eu precisava ser animado. logo que pude.. a entrevista com minha mãe. quando acabei. Agora. é que já me arrependia de haver falado a minha mãe.ela olhava para o chão. Capitu refletia. refletia. Já estou boa. as minhas súplicas. companheiras de colégio. se lhe morressem as esperanças todas. Há tanto tempo que isto sucedeu que não posso dizer com segurança se chorou deveras. logo que a vi assim. enquanto que eu fitava deveras o chão. Era pouco. Capitu tornou cá para fora e pediu-me que outra vez lhe contasse o que se passara com minha mãe. trazia um lenço atado na cabeça. ou se somente enxugou os olhos. esta de dezessete anos” primeira filha de um médico. Minto. Ficamos sós na sala. ainda que demorado. o roído das fendas. é certo que receava perder Capitu. as lágrimas dela. até muito depois da meia-noite. . Quando tornei a olhar para Capitu. Satisfi-la. mas doía-me vê-la padecer. como prestes a estalar de cólera. depois sombria. acrescentando que passara mal por causa do que ouvira em minha casa.. atenuando o texto desta vez.No dia seguinte fui à casa vizinha.. a segunda de um comerciante de objetos americanos. a mãe disse-lhe timidamente que era melhor atá-lo. e com lamparina. aquela de quinze. Vendo-lhe o gesto peguei-lhe na mão para animá-la. examinando bem. Fiz o mesmo. mas conteve-se. Que faríamos agora? Capitu ouvia-me com atenção sôfrega.. Não me chames dissimulado. E como desatasse o lenço. Paula e Sancha. estava boa. chama-me compassivo. na sala e na cama. a mãe contou-me que fora excesso de leitura na véspera. Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si mesma.

Está-me voltando a dor de cabeça. mas.Mas. . e perguntou-me se tinha medo. Mas aquela pergunta assim. Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Também vi a presiganga.Tem razão. o . Sem saber de mim.De repente. . nenhum de nós tem vontade de brincar. de ser preso. ainda aí nos detivemos por alguns minutos. Bentinho. nesta ocasião. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube. . não pude atinar o que era.Medroso! . e dar-lhe o movimento do costume.. sem que os olhos de ressaca de Capitu deixassem de crescer para mim. O erro de Capitu foi não deixá-los crescer infinitamente. o quartel dos Barbonos e a Casa de Correção. você não está brincando. em todo caso. não precisava afligir-me. Se ela me tem dito simplesmente: “Vamos embora!” pode ser que eu obedecesse ou não. . Não entendi.. de brigar. . De apanhar? . quero brincar. sentados sobre a borda do poço.Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitu fez um gesto de impaciência. vaga e solta.Medo de quê? . a tal ponto que as fizeram esquecer de todo.. cessando a reflexão. pergunto se você tem medo. antes diminuir até às dimensões normais. foi só maluquice. e. vou botar uma rodela de limão nas fontes.. Em seguida.Sim. Ventava. bateu-me na cara. com um gesto cheio de graça.. . e disse: . uma casa escura e infecta. não querendo interrogá-la novamente.Medo? . acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim.Medo de apanhar. .Sim. Não é nada. de trabalhar. entrei a cogitar donde me viriam pancadas.Como até logo? . Pois quem é que há de dar pancada ao prender você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca.Não. e atou o lenço outra vez na testa. e por que. sorrindo. Capitu tornou ao que era. fitou em mim os olhos de ressaca... não entendo. disse-me que estava brincando.Eu? Mas. e também por que é que seria preso. e quem é que me havia de prender. entenderia. Todas essas belas instituições sociais me envolviam no seu mistério. de andar. e. Fez o que disse.. e. até logo. Capitu.

Capitu olhou para mim.. Capitu falou novamente da nossa separação. como de um fato certo e definitivo.Ou que me mato de saudades. e pedi-lhe a taquara. ..Contra a ordem de mamãe. um tanto sumida. . .Que é? Diga.Pois sim. buscasse agora razões para animá-la. A voz. . que não achei resposta. Desde que se metera a desenhar. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer.. não quero disfarce.. oblíquo e dissimulado. inclinei-me e li: mentiroso. Não me ouviu ou não me atendeu.Não fale em morrer. deixa tudo. deixe escrever uma coisa. e com a taquara escreveu uma palavra no chão. para me ver morrer? . quando não falava. CAPÍTULO 44 O PRIMEIRO FILHO .céu estava coberto. perguntou-me: . deixa sua mãe. Era tão estranho tudo aquilo. há de responder com o coração na mão..Eu escolhia. por mais que eu.Não diga isso! .Você deixa seminário.Diga-me uma coisa. se você não vier logo. tudo lhe servia de papel e lápis. com um pedaço de taquara.Venho.Dê cá.. riscava no chão. narizes e perfis. Capitu! Capitu teve um risinho descorado e incrédulo. e sua mãe não quiser que você venha. levantou o olhar. receoso disso mesmo. era uma das suas diversões. quis fazer o mesmo no chão. mas eu pergunto. .. Capita. mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.Contra a ordem de sua mãe? .Eu? Fez-me sinal que sim. a quem é que escolhia? . mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias.Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe. sem levantar os olhos. . Não atinava com a . você vem? . diga-me. . Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ela no muro. mas fale verdade.

e o sangue correndo. comece pelas meias pretas. disse-lhe eu mordendo os beiços. Tive então uma idéia ruim. não há dúvida.Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia. era pueril. “ . e o furor na alma. Como desforço.Que morou? Você vai mudar-se? . ninguém mais. A igreja há de ser grande. Francisco.Bem. por causa das meias roxas. mas até me pareceu que repercutia no ar. Carmo ou S. O roxo é cor muito bonita.razão do escrito. a vida de padre não era má. Capitu. é melhor cônego. contanto que eu ouça a missa nova.Ou Candelária.Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre. com a capa de ouro por cima. com a mesma taquara. metido na alva. . Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ouvir ou ler. cantando. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos.“Aquela é Dona Capitolina. afinal de contas.Candelária também. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?”. como não atinava com a do falado.Padre é bom. uma moça que morou na Rua de Mata-cavalos. . Quem. mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. .. é possível que a escrevesse também. .. até ao meu golpe final que foi este: . se éramos sós? Dona Fortunata chegara uma vez à porta da casa. Tinha a cabeça vazia. na rua um tropel de bestas. a graça de um e a prontidão de outro. avise-me a tempo para fazer um vestido à moda saia balão e babados grandes. Hei de fazer um figurão.. A solidão era completa. mas com uma condição. Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela. ou somente este fenômeno curioso.Pois sim. O que eu não quero perder é a sua missa nova... do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do morro de Santa Teresa. . depois virão as roxas. e acabou por dizer: . . Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena. e eu podia aceitá-la sem grande pena. não só me espiava do chão com gesto escarninho. Pensando bem. vozes vagas e confusas. que o nome escrito por ela. Qualquer serve. melhor que padre só cônego. disse-lhe que.. mas tornando logo ao sarcasmo: E você no altar. mas não me lembrava nada. . Pater noster. Ao longe. Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. mas entrou logo depois. você ouvirá a minha missa nova. Nada mais.

Promete uma coisa? . e acrescentou que esperava a segunda. prometo que há de batizar o meu primeiro filho. portanto.. o primeiro filho de Capitu. leva muitos anos. Logo depois fez descair os lábios. se o tédio já o não obrigou a isso antes tudo é possível. não prometo.A primeira é que só se há de confessar comigo. Percorreu-me um fluido. Mas. Falou do primeiro filho. se também foi grande.. Palavra que me custou. disse. Promete-me que seja eu o padre que case você? .A primeira está prometida. prometo outra coisa. .Que é? . se o não fez antes e só agora. . o casamento dela com outro. faça todos os gestos de incredulidade. e antes não me chegasse a sair da boca: não ouviria o que ouvi.. continuei eu. é que. veio de mistura com uma sensação esquisita.Duas? Diga quais são. CAPÍTULO 45 ABANE A CABEÇA.Não sabendo o que é...Ao que ela respondeu: . tudo isso produzia um tal . seria esperar muito tempo.Diga se promete. sim. . Todavia. LEITOR Abane a cabeça leitor. com tais palavras e maneiras. para eu lhe dar a penitência e a absolvição. a perda.A segunda.. você não vai ser padre já amanhã.Não. a aniquilação.. . Chegue a deitar fora este livro..A falar verdade são duas coisas. Aquela ameaça de um primeiro filho. por haver-me acudido outra idéia. Foi assim mesmo que Capitu falou. disse ela vendo-me hesitar. . Quanto ao meu espanto. . como se fosse a primeira boneca. a separação absoluta. e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos. A segunda é que. não há nada mais exato. e abanou a cabeça.Que me case? disse ela um tanto comovida. .. . sem crer por isso na veracidade do autor.Vossa Reverendíssima pode falar. fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página. Bentinho. Olhe..

não sei para que. ouvi dizer que lá dão pancada. ela pegou-me na ponta dos dedos. como penso. o meu braço continuou a apertar a cintura da filha. sentia os olhos molhados. que me deixei ficar. era efeito dos padecimentos da amiguinha.. depois de alguma hesitação. que se dizem de tropel. o abatimento do espírito. Para que bulir nisso? . acabou.Não foi por nada. que era muito chorão por esse tempo. disse eu finalmente. Capitu sorria. mas não.. nem sei se iria. e a posição os fazia tão súplices. respondeu Capitu.. CAPÍTULO 46 AS PAZES As Pazes fizeram-se como a guerra. e pedíamos reciprocamente perdão.. que não achei palavra nem gesto fiquei estúpido. Fiz-me de rogado. mas voltando os olhos para cima a fim de ver os meus. CAPÍTULO 47 “A SENHORA SAIU” . Capitu fitou-me uns olhos tão ternos.. era a ternura da reconciliação. a dor de cabeça. passei-lhe o braço pela cintura. e foi assim que nos pacificamos..Foi. eu via o primeiro filho brincando no chão.efeito. Se.. mas. depois quis levantar-me para ir embora.. Alguns instantes depois. Era amor puro. Podia ser um simples descargo de consciência. não tinha outra.. A explicação agradou-me..Diga sempre. como as rezas de obrigação. sem devoção. explique-me só uma coisa. e diria que as negociações partiram de mim. e. Buscasse eu neste livro a minha glória. Capitu alegava a insônia.. desapareceu logo.” Eu. Fosse o que fosse. como eu estivesse cabisbaixo. ela abaixou também a cabeça. por que é que você me perguntou se eu tinha medo de apanhar? . e finalmente “os seus calundus.Está bom. Foi por causa do seminário? . Não? Eu também não creio. uma cerimônia. foi ela que as iniciou.. mas nem me levantei. O bonito é que cada um de nós queria agora as culpas para si. Outra vez Dona Fortunata apareceu à porta da casa. se nem me deixou tempo de puxar o braço. depressa. a não ser que fosse para certificar aos próprios olhos a realidade que o coração lhe dizia. Capitu não .

que somos crianças. Há nessa cumplicidade um gosto particular. os nossos temores. apetecível. o pecado em comum iguala por instantes a condição das pessoas.Não! exclamei de repente. CAPÍTULO 48 JURAMENTO DO POÇO . Você jura uma coisa? lura que só há de casar comigo? Capitu não hesitou em jurar.Tudo pode ser. . e as costas com que elas descem. começando já a somar as nossas saudades. ficou em casa. eu não me atrevo a pedir mais. Jurou duas vezes e uma terceira: . juremos que nos havemos de casar um com outro. Quem sou eu para você lembrar-se de mim nessa ocasião? . Mas juremos por outro modo. Nós é que éramos os mesmos. durante os quais refleti muito e acabei por uma idéia. Bentinho. Bem. . ..Devia bastar.Que eu case com outra? . não casando nunca. Capitu.Mas eu também juro! Juro. foi tão alto que espantou a minha vizinha. cumprirei o meu juramento. Dizem que não estamos em idade de casar. A verdade não saiu. porém. não contando o prazer que dá a cara das visitas enganadas. e a mentira é dessas criadas que se dão pressa em responder às visitas que “a senhora saiu”. juro por Deus Nosso Senhor que só me casarei com você. continuei. achei a criada galante. melhor que a ama. quando a senhora não quer falar a ninguém. força é reconhecer que não podia dizê-la. cochilando o seu arrependimento.disse a verdade.já ouvi dizer criançolas. ali ficamos somando as nossas ilusões.. ou não seriam as mesmas. E eu não desci triste nem zangado.Ainda que você case com outra. Basta isto? . .Não quê? Tinha havido alguns minutos de silêncio. você jura.. mas dois ou três anos passam depressa. Sim. disse ela.. apaixonar-se por ela e casar. criançolas.. o tom da exclamação. e até lhe vi as faces vermelhas de prazer. Você pode achar outra moça que lhe queira. no coração de Capitu. haja o que houver.Não há de ser assim. As andorinhas vinham agora em sentido contrário.

de jacarandá. mas dela. mas acabou aceitando este alvitre. não tomo ordens. na roça ou fora da cidade.Compreendeis a diferença. era mais que a eleição do cônjuge. havíamos de ter um oratório bonito. com a imagem de Nossa Senhora da Conceição. em parte para compensar a batina que eu ia deitar às urtigas.. qualquer resistência ao seminário confirmaria a denúncia de José Dias. na minha opinião. seria longe. irei. Capitu temia a nossa separação. sem mentir ao juramento do poço. Viríamos aqui uma vez por ano. Éramos religiosos. Sim. escolhi móveis. tocávamos o porto a que nos devíamos ter abrigado logo. e ficamos tão felizes que todo receio de perigo desapareceu. A casa. não devia ser grande nem pequena. Esta reflexão não foi minha. Havíamos de acender uma vela aos sábados. um meio-termo. Demorei-me mais nisto que no resto. alto. CAPÍTULO 49 UMA VELA AOS SÁBADOS Eis aqui como. plantei-lhe flores.mas ainda restava uma parte que atribuo ao intuito secreto e inconsciente de captar a proteção do céu. CAPÍTULO 50 . piloto de má morte. não se navegam corações como os outros mares deste mundo. apenas exclusiva. tínhamos o céu por testemunha. A cabeça da minha amiga sabia pensar claro e depressa. que era o melhor. como o sol e a lua.. a fórmula anterior era limitada. após tantas canseiras. . Podíamos acabar solteirões. em parte porque éramos religiosos. Juramos pela segunda fórmula. onde. uma sege e um oratório.Se teimarem muito. Não nos censures. Eu prometia à minha esposa uma vida sossegada e bela. Esta fórmula era melhor. Realmente. Não afligíamos minha mãe. mas faço de conta que é um colégio qualquer. Se fosse em arrabalde. e o tempo correria até o ponto em que o casamento pudesse fazer-se. era a afirmação do matrimônio. Eu nem já temia o seminário. Estávamos contentes. ninguém nos fosse aborrecer. entramos a falar do futuro. e tinha? a vantagem de me fortalecer o coração contra a investidura eclesiástica. Ao contrário.

Capitu deu-me igual conselho.. não fico longe da verdade. piscando-me o olho. para compensar este escrúpulo de exatidão que me aflige. disse ele. você vai perder o seu companheiro de criança. Em particular animou-me a suportar tudo com paciência. é que a vontade divina é outra. José Dias. e nesse caso. e um ano andava depressa. aos quinze anos. só lhe parecia que um ano era bastante. mas a boca disse que não. por mais preparado que estivesse. Também. quando minha mãe lhe anunciou a minha ida definitiva para o seminário: . padeci muito. José.. O que . que dentro de um ano a vocação eclesiástica do nosso Bentinho se manifesta clara e decisiva. mais tarde. Há de ser um padre de mão-cheia. e que o costume do seminário não lhe dá o gosto que me concedeu a mim. . se eu me ativer só à lembrança da sensação. beijou-lhe a mão. tudo é infinito. Há nisto alguma exageração. é que Deus não quer.As promessas devem ser cumpridas conforme Deus quer.. se não vier em um ano. seguiria outra carreira. que nem teve tempo de ficar triste. agarrou-se ao mais próximo. uma ou outra vez. A senhora não podia pôr em seu filho. Minha mãe também padeceu. meu amiguinho. e disse-lhe que já sabia disso por mim mesmo. um ano passa depressa.Minha filha. esta fez-se na véspera. fazendo vir do credor a relevação da dívida.Vá por um ano. Entretanto. não tendo alcançado ir comigo para a Europa.. eu não revelasse vocação eclesiástica.UM MEIO-TERMO Meses depois fui para o seminário de S. o melhor remédio é a Europa. Dava a minha mãe um perdão antecipado. Suponha que Nosso Senhor nega disposição a seu filho.. somaria mais que todas as vertidas desde Adão e Eva. Era uma concessão do padre. Os olhos dela brilharam.. mas é bom ser enfático. E a mim. experimentar-me a vocação. demais. mas sofria com alma e coração. . Não foi ainda a nossa despedida. em particular: .Estou certo. Realmente. e apoiou o “alvitre do senhor protonotário”. no fim de um ano as coisas estariam mudadas. se no fim de dois anos. antes de nascido. Fez-lhe tão bem este tratamento de filha (era a primeira vez que minha mãe lhe dava). o Padre Cabral achara um meio-termo. uma vocação que Nosso Senhor lhe recusou. como diz o padre. por um modo que pede Capítulo especial. Se não sentir gosto nenhum. Se eu pudesse contar as lágrimas que chorei na véspera e na manhã.

não se descrevem. como fez as mãos limpas. com os olhos nela. assim fez os lábios limpos.. José. O que o mandamento divino quer é que não juremos em vão pelo santo nome de Deus. Quanto ao selo. Tudo isto me lembra a nossa despedida. Minha mãe era de natural simpático. vivia ao pé dela. de dotes finos e raros. fica. para lhe dar um retrato. Entrou a achar em Capitu uma porção de graças novas. na sala de visitas. se até lá não pensar de outra maneira. eu era puro. Logo cedo veio à nossa . mas tinha uma miniatura. antes do acender das velas. e puro fiquei. uma vez que levava um contrato feito no próprio cartório do céu. Eu não ia mentir ao seminário. tanto se doía como se aprazia de qualquer coisa. fez-se mais assídua e terna. nem de ressaca. é a nossa defesa. não eram oblíquos. e igualmente sensível. depois de algumas hesitações. CAPÍTULO 51 ENTRE LUZ E FUSCO Entre luz e fusco. Beijou o retrato com paixão. como no quintal... minha mãe fez-lhe a mesma coisa a ela. Talvez risque isto na impressão. resolveu dar-lha. a investidura eras tu. eram direitos. como a pequena lhe pedia. Oh! minha doce companheira da meninice. Não consentiu em fotografar-se. lúcidos. claros. porque. Nem durou muito a nossa despedida. Deus. quando recebeu o mimo. deu-lhe um anel dos seus e algumas galanterias. e puro entrei na aula de S. tudo há de ser breve como esse instante. em casa dela. foi o mais que pôde. CAPÍTULO 52 O VELHO PÁDUA Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. ao passo que nos prendíamos um ao outro.unicamente digo aqui é que. feita aos vinte e cinco anos. a buscar de aparência a investidura sacerdotal.. e. e antes dela a vocação. foi a conjunção das nossas bocas amorosas. e não foi só o aperto de mão que selou o contrato. E desde já fica. aí é que nos despedimos de uma vez. em verdade. Juramos novamente que havíamos de casar um com outro. Mas a vocação eras tu. Os olhos de Capitu. e a malícia está antes na tua cabeça perversa que na daquele casal de adolescentes. se pensar. ela ia prendendo minha mãe.

. creia.Não esqueça o seu velho Pádua.coisa que eu. ou à pequena.um número tão bonito! . por esta luz que me alumia. como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças. certos parasitas. Enfim.. para guardá-lo.casa. Quero só que me não esqueça. não acredite. vindos de fora para desunião das famílias. um botão de colete. Oh! obrigado! obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha.” . Peguei do embrulho e dei-lho..eu sou de outra espécie. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele. aduladores baixos. Também eu. .. como merece. levava a cara dos desenganados. não esqueça o velho Pádua. porque são boas pessoas.. . pode contar com a nossa companhia. e eu sou grato às finezas recebidas. mas tive idéia de dá-lo ao pai. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. não desejo. A intenção era levá-los a Capitu. Deus é grande e descobre a verdade.Seja feliz! disse-me. ele abraçou-me com ternura. Se algum dia perder sua mãe e seu tio.. São intrigas. fui vítima de intrigas. a nossa casa está às suas ordens. se tem algum trapinho que me deixe em lembrança. mas a afeição é imensa.Mas.Aqui está. tão grandes e tão bonitos. que é mais cuidadosa que a mãe... e. não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia. se algum dia perder os seus parentes. guarde. coisa que já lhe não preste para nada. são os mais felizes! “Por que falará assim? pensei. Não. a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. Padre que seja. Suspirou e continuou: . excelentes pessoas.Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta. Tive um sobressalto. Se lhe disserem outra coisa. Não é suficiente em importância. ao sair.Um cachinho dos seus cabelos! exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos. cortados na véspera. qualquer coisa. como ia dizendo. O valor é a lembrança. eu não sou como outros. . e vê sair branco o maldito número. Fui apertar-lhe a mão. desfizeram-se. não.. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! outro! mais outro! adeus! Tinha os olhos úmidos deveras. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto. quando me casei. Todos nós estimamos muito ao senhor. um caderno latino.

não são alopáticas nem homeopáticas. não dizia nada a princípio. Quando minha mãe me deu o último beijo: “Quadro amantíssimo!” suspirou ele. se na Escola de Medicina não ensinassem. Minha mãe apertava-me ao peito. tínhamos falado na véspera. mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. lembro-me deste: “Dividi-lo com Deus é ainda possuí-lo”. composto e grave. a podridão alopata. no quarto dele. Como eu achasse muito breve.. disse ele. . Prima Justina suspirava. a alopatia é erro na terapêutica. diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos íntimos. e vai morrer. explicou-se. Os moleques cochichavam. Fisiologia. onde fui ver se era ainda possível evitar o seminário.Não duvidaria aprovar a idéia. Assim falara na véspera e no quarto. é a ilusão. dando ordens. Antes de um ano estaríamos a bordo.Posso estudar medicina aqui mesmo. Tio Cosme.Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlântico. as escravas tomam a bênção: “Bênção. Talvez chorasse mal ou nada. apertou os beiços. exclusivamente. A alopatia é o erro dos séculos. Poupa-me as outras despedidas. rapaz. é verdade. é a mentira. nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joana! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!” Na rua José Dias insistiu nas esperanças: . vou indagar. Já não era. patologia.. .Anda lá. José Dias correu os dedos pelos suspensórios com um gesto de impaciência. Se lhe disserem que pode aprender na Escola de Medicina aquela parte da ciência comum a todos os sistemas. é o assassinato. mas é melhor aprender logo tudo de uma vez. fazendo-me recomendações. Há pessoas a quem as lágrimas não acodem logo nem nunca. por livros e por língua de homens cultores da verdade. disse-me rindo: . .Agüente um ano. emendando os descuidos de minha mãe. quando eu lhe beijei a mão em despedida.CAPÍTULO 53 A CAMINHO! Fui para o seminário. anatomia. Agora não dizia nada. até lá tudo estará arranjado. se não for. iremos em março ou abril. volta-me papa! José Dias. . até que formalmente rejeitou o alvitre. ou proferia algum aforismo sobre a religião e a família. Era manhã de um lindo dia.

umas vinte e nove páginas. um mote. sem ir mais longe. um verbo. Tinha composto um Panegírico de Santa Mônica. certo. de todo o resto. estava bom.. passou. Não é preciso dizer o nome. que veio distribuindo pela vida fora... Contrário a isso foi um seminarista que não seguiu a carreira.. Deixara seminário. Pois não se lembra que no seminário. toda a velha palhada saiu cá fora. Pedro e pedi-lhe que me mostrasse os versos novos. um livro.. Ordenou-se anos depois encontrei-o no coro de S. Tudo isso é história velha. e.Que versos? perguntou meio espantado. em 1882. aqui mesmo no seminário tive um companheiro que compôs versos. E falou-me em prosa de uma infinidade de coisas do dia. um sermão do padre X. feito chefe de uma seção administrativa. e seria impossível achar melhor nem mais pronta vontade. e continuando a procurar num livro aberto a hora em que tinha de cantar no dia seguinte. elogiado por algumas pessoas e então lido entre os seminaristas. ou porque éramos então moços.Os seus. à maneira dos de Junqueira Freire. Não. Foram cócegas da mocidade. fui pedir-lhas. deixara letras. Sorriu. Alcançou licença de imprimi-lo. copioso Naturalmente conversamos do passado.CAPÍTULO 54 PANEGÍRICO DE SANTA MÔNICA No Seminário. . casara e esquecera tudo. memórias pessoais. as recordações traziam tal poder de . casos de estudo. e dedicou-o a Santo Agostinho. claro. Chamava-se.. dos costumes. Ah! não vou contar o seminário. coçou-se. cujo livro de frade-poeta era recente. indo ver certo negócio em repartição de marinha. . confessou-me que não fizera mais versos depois de ordenado. Esta sarna de escrever. menos o Panegírico de Santa Mônica.. algum dia.. nem me bastaria a isso um Capítulo. das pessoas que tratei. uma vigairaria mineira.. não despega mais..Ah! sorriu ele. Ou porque eram dele. . é possível que componha um abreviado do que ali vi e vivi. quando pega aos cinqüenta anos. a vida cara.. Vivemos algum tempo do nosso velho seminário. e suspiramos de companhia. senhor meu amigo. Na mocidade é possível curar-se um homem dela. baste o caso. sim. Como eu precisasse de algumas informações. o que é mais moço é que um dia. deu-me tudo. ali dei com este meu colega. incidentes de nada. e rimos juntos.

Hei de levar-lhe um exemplar.Veja se lhe lembra algum pedaço.. com o folheto. e naturalmente ouvia. afinal perguntei: . mas só me disse uma palavra. e depois de alguns instantes de pesquisa mental. se alguma sombra contrária houve então. agora só me resta um. Panegírico de Santa Mônica! Como isto me faz remontar os anos da minha mocidade! Nunca me esqueceu o seminário. Vinte e seis anos de intervalo fazem morrer amizades mais estreitas e assíduas.Bom tempo! suspirou ele. mas não tinha palavra. mas era cortesia. lembra-se? o Padre Lopes.felicidade que. disse-me. não apareceu agora. tentei mover os beiços. manchado do tempo. Pois.. .Conservou o meu Panegírico? Não achei que dizer. meu caro colega. Ele confessou-me que perdera de vista todos os companheiros do seminário. era quase caridade recordar alguma lauda. os recreios.Recorda-se bem? . disse-me. creia. Antes de vinte e quatro horas estava em minha casa. Concordou que fossem belas. as lições.. mas preferia outras. que não posso dar a ninguém. e com uma dedicatória manuscrita e respeitosa. mas sem lacuna. . os nossos recreios. como é lei da vida. fitando em mim uns olhos murchos e teimosos. .. os acontecimentos vêm uns sobre outros. com os olhos no ar. . os padres. Ele.É o penúltimo exemplar. nada fez apagar aquele tempo da nossa convivência.Panegírico? Que panegírico? . Os anos passam. Não me lembrou logo. encardido.. quase todos. acentuando certas frases para lhe dar a impressão de que achavam eco em minha memória. E como me visse folhear o opúsculo: . mas as mudanças. respondi que por muito tempo o conservara. e ainda assim depois de algum tempo de . E.O meu Panegírico de Santa Mônica. devia estar ouvindo.. e vieram amizades novas que também se foram depois.Também eu.Perfeitamente. perguntou-me: . mas a explicação devia bastar.. as viagens.. e as sensações também. após alguma reflexão. . um velho folheto de vinte e seis anos. li uma delas. uma vez ordenados. e apontou-as. oh! o Padre Lopes. voltaram naturalmente às suas províncias. e os daqui tomaram vigairarias fora.

a religião. ao notar que tinha a medida de verso. Então adverti que os sonetos mais gabados eram os que concluíam com chave de ouro. contarei a história de um soneto que nunca fiz: era no tempo do seminário. Qual à idéia. estando eu na cama como uma exclamação solta. musa de olhos arregalados. e o primeiro filho. saindo cronologicamente dos treze anteriores. Aguardei o resto. isto é.Tem agradado muito este meu Panegírico! CAPÍTULO 55 UM SONETO Dita a palavra. o primeiro verso não era ainda uma idéia. Antes. vinha mais nada. e ainda agora não me parece mau: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Quem era a flor? Capitu. pensei em compor com ele alguma coisa. envolvido no lençol. e flor do céu. Era um poema breve e prestadio. não me deixou dormir uma longa hora ou duas. ora sobre o esquerdo. e porque também eu tive o meu Panegírico. francamente achava-o bonito. considerando que o verso final. saiu assim. o soneto. e o que as folhas dele me lembraram foi tal que merece um Capítulo ou mais. recitando sempre verso. e tanto de rima como de verso solto. apertou-me as mãos com as forças todas de um vasto agradecimento. a princípio cuidei de outra forma. e repetia-o em voz baixa. e então na moda. ia competir com aquele monge da Bahia pouco antes revelado. r afinal ative-me ao soneto.silêncio. porém. aos lençóis. logo. Fiquei só com o Panegírico. Decorei bem o verso. não sei. Não escolhi logo. mas podia ser a virtude. Pensei em forjar uma de tais chaves. e. diria em verso as minhas tristezas. Ia ser poeta. Assim na cama. com dificuldade traria a . recolhendo os olhos e um suspiro! . como ele dissera as suas no claustro. Tinha o alvoroço da mãe que sente o filho. era uma exclamação. seminarista. naturalmente. e deitado ora sobre o lado direito. as cócegas pediam-me unhas. mas nem assim. e o primeiro verso é o que ides ler: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura! Como e por que me saiu este verso da cabeça. tratei de poetar. afinal deixei-me estar de costas. A insônia. com os olhos no tecto. despediu-se e saiu. eu. a poesia. um desses versos capitas no sentido e na forma. qualquer outro conceito a que coubesse a metáfora da flor. a idéia viria depois. um soneto. e coçava-me com alma.

evoquei alguns sonetos célebres. lembrou-me alterar o sentido do último verso. e. e dispus-me a ligá-los pelos doze centrais. e mais de uma vez pensei em sair da cama e ir ver tinta e papel. mas a batalha ficava ganha. não vinha nenhum. pensamento alevantado e nobre. com a simples transposição de duas palavras. Cansado de esperar. era um verso magnífico. depois repeti os dois versos seguidamente. os versos acudissem. tão naturalmente. nesse caso a flor do céu seria a liberdade. ganha-se a batalha! A sensação que tive é que ia sair um soneto perfeito. e recitei os dois versos. e ainda agora não explico por que via misteriosa entrou numa cabeça de tão poucos anos. na pugna pela justiça. cada um a seu modo. não há dúvida.. nem quarto.. era uma ironia: não exercendo a . Era mais próprio dizer que. Tive alguns ímpetos de raiva. saiu este: Perde-se a vida. perder-se-ia acaso a vida. perde-se a batalha! O sentido vinha a ser justamente o contrário. nem terceiro.perfeição louvada. mas afinal aceitei definitivamente uma idéia nova a caridade. Achei melhor a justiça. à vista do último verso. o segundo não vinha. Que não fosse novidade. depois de muito suar. e novamente repetia o primeiro verso e esperava o segundo. mas. no sentido natural. Esta acepção porém. e fazer dela a luta pela pátria. seria a justiça. mas talvez isso mesmo trouxesse a inspiração. com a idéia em si. sendo o poeta um seminarista. e gastei alguns minutos em escolher uma ou outra. Neste caso. podia não caber tanto como a primeira. Assim foi que me deter minei a compor o último verso do soneto. que se não acabava de crer se ela é que os fizera. se eles é que a suscitavam. a vitória ganha à custa da própria vida. escrevendo. um languidamente: Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura e o outro com grande brio: Perde-se a vida. pode ser que. imaginei que tais chaves eram fundidas antes da fechadura. Então tornava ao meu soneto. e notei que os mais deles eram facílimos. pareceu-me melhor não ser Capitu. Sonoro. assim: Ganha-se a vida. Também me ocorreu aceitar a batalha. por exemplo. Começar bem e acabar bem não era pouco. ganha-se a batalha! Sem vaidade. e falando como se fosse de outro. os versos saíam uns dos outros. A idéia agora. Naquela ocasião achei-o sublime. mas também não era vulgar. é possível. Recitei uma e muitas vêzes a chave de ouro. E tinha um pensamento. Para me dar um banho de inspiração.

não sabendo por onde lhe pegasse. tão recente como no primeiro dia. os irmãos Albuquerques. bem ou mal. se não morreu já. Pelo tempo adiante escrevi algumas páginas em prosa. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal. Não tinha janela. traziam o calor da juventude nascente. Vi sair daquelas folhas muitos perfis de seminaristas.caridade. ainda que mais breve. senhores. Luís Borges. pode tentar ver se o soneto sai. é possível que fosse pedir uma idéia à noite. esperei. dobrava a folha como se estivesse lendo de verdade. como as mãos. por uma razão de ordem metafísica. nada me consola daquele soneto que não fiz. Não fitava de rosto.. como tudo. em qualquer ocasião de lazer. um dos quais é cônego na Bahia. como as odes e os dramas. olhos claros. enquanto o outro seguiu medicina e dizem haver descoberto um específico contra a febre amarela. ou se estiver chovendo. e lograva entender algum texto. se tivesse. que está de vigário em Meia-Ponte. busquei. fazia o seu ofício. Mas. fez-se político. com os seus consoantes e sentidos próprios? Trabalhei em vão. não seriam para mim como rimas das estrelas. e agora estou compondo esta narração. não vieram os versos. Vi o Bastos. Queria lê-las outra vez. e a mão. apesar de padre. um magricela. não achando maior dificuldade que escrever. Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar era um rapaz esbelto. nem . E quem sabe se os vagalumes luzindo cá embaixo. às vezes. ou na roça. não falava claro nem seguido as mãos não apertavam as outras. creio que era quando os olhos me caíam na palavra do fim da página. Tudo é dar-lhe uma idéia e encher o centro que falta. por exemplo. mas perde-se a batalha do céu. como a fala. e esta viva metáfora não me daria os versos esquivos. Criei forças novas e esperei. Pois. Era um encanto ir por ele. Quantas outras caras me fitavam das páginas frias do Panegírico! Não. catei. acostumada a ajudá-los. pode-se ganhar a vida. como eu creio que os sonetos existem feitos. e acabou senador do império. com as suas letras velhas e citações latinas. dou esses dois versos ao primeiro desocupado que os quiser. não eram frias.. um pouco fugitivos. CAPÍTULO 56 UM SEMINARISTA Tudo meia repetindo o diabo do opúsculo.. inconscientemente. Ao domingo. o meu próprio calor. como os pés.. o calor do passado. Eis aqui outro seminarista. e as demais obras de arte.

muita vez. muita luz e ar puro. Não imagina que boa criatura que ela é. cá ficou. A alma da gente. e tinha memória para guardá-las todas. logo. desde a porta da rua até o fundo do quintal. até as palavras. quando a gente cuidava tê-los entre os seus. sendo delgados e curtos.. Não sei o que era a minha. . por que os dedos. que lia depressa estavam aqui como lá. não raro com janelas para todos os lados. Este era homem de fortes sentimentos católicos. bastava empurrá-las. Esta dificuldade em pousar foi a maior obstáculo que achou para tomar os costumes do seminário. já não tinha nada. todas as quais vinham a dar na bondade e no espírito daquela criatura. aparentado com um comerciante do Rio de Janeiro. como o resto. O sorriso era instantâneo. olhos enfiados em si. a minha história. sem janelas ou com poucas e gradeadas. filho de um advogado de Curitiba. como sabes. O mesmo digo dos pés. a reflexão. Uma coisa não seria tão fugitiva. Também as há fechadas e escuras. capelas e bazares. mas também na bondade. Era mais velho que eu três anos. ou então que recordava a lição da véspera. Talvez esta faculdade prejudicasse alguma outra. Aqueles modos fugitivos. é uma casa assim disposta. que era um anjo.. De fato. o receio é que me tolhia a franqueza. estive quase a contar-lhe logo. dizia ele. mas como as portas não tinham chaves nem fechaduras. Outrossim. Respondia-nos sempre que meditava algum ponto espiritual. nem dom casmurro. . cessavam quando ele queria.Não é só na beleza que é um anjo. Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me freqüentemente explicações e repetições miúdas.se deixavam apertar delas. à semelhança de conventos e prisões. cheias de carícias e conselhos. Escreve-me muita vez. seduzido pelas palavras dele. e Escobar empurrou-as e entrou. A princípio. que servia de correspondente ao pai. eram simples e afetuosas. Eu não era ainda casmurro. hei de mostrar-lhe as cartas dela. Escobar veio abrindo a alma toda. Eu. mas ele fez-se entrado na minha confiança. Escobar contava-me histórias dela. até que. Morreu pouco depois. simples alpendres ou paços suntuosos. interessantes. fui tímido. e o meio e o tempo os fizeram mais pousados. mas também ria folgado e largo. Cá o achei dentro. tais eram que me fariam capaz de acabar casando com ela se não fosse Capitu. íamos dar com ele. cogitando. Escobar tinha uma irmã.

Não é que a matéria não ache termos honestos em nossa língua. Sim. caíam.. a nossa desastrada. fica robusto e disposto. ela ergueu-se muito vexada. e não as perdeu. e não este tique-tique afrancesado. e vi. que é casta para os castos. sem tirar espaço ao resto. As nossas moças devem andar como sempre andaram. . Por mais composto que este me saia. uma segunda-feira. e não as sujou. Várias pessoas acudiram.. sem susto nem vexame. devia ser de pena ou de riso. não fica nunca. leitor meu amigo. Eu mal podia ouvi-lo. voltando eu para o seminário. erguiam-se e iam-se embora. E aqui verás tal ou qual esperteza minha. como diria o meu finado José Dias podeis ler o Capítulo até ao fim. . a distancia.CAPÍTULO 57 DE PREPARAÇÃO Ah! Mas não eram só os seminaristas que me iam saindo daquelas folhas velhas do Panegírico. porquanto a senhora tinha as meias mui lavadas. Já agora meto a história em outro Capítulo. Quando chegamos à esquina. em tal caso. há sempre no assunto alguma coisa menos austera. como pode ser torpe para os torpes. se não fica então. E isto é muito. leitora castíssima. agradeceu. porquanto. Sirva este de preparação. e enfiou pela rua próxima. que ia no mesmo passo. o coração. e o mal é menor mal. as proporções dos acontecimentos e a cópia deles. tais e tantas que eu não poderia dizê-las todas. que pede umas linhas de repouso e preparação. sacudiu-se. e das primeiras quisera contá-la aqui em latim. tique-tique. e andavam. CAPÍTULO 58 O TRATADO Foi o caso que. é evidentemente um erro. As meias e as ligas da senhora branqueavam e enroscavam-se diante de mim.Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor. vi cair na rua uma senhora. Uma dessas. dizia-me José Dias andando e comentando a queda. não foi uma nem outra coisa. é provável que o aches menos cru do que esperavas. olhei para a outra rua. com seu vagar e paciência. Elas me trouxeram também sensações passadas. Também. mas não tiveram tempo de a levantar. ao ler o que vais ler. porquanto (e é isto que eu quisera dizer em latim). levava ligas de seda. O meu primeiro gesto. quando examina a possibilidade do que há de vir.

e não as rejeitava. Já não era uma só que eu via cair.. Não dormi mais. Assim fui até madrugada. disse eu.. eram azuis. Vou esgarçando isto com reticências para dar uma idéia das minhas idéias. e lembravam-me a queda da senhora... tique-tique. umas finas. faziam um vasto círculo de saias ou. busquei afugentá-las com esconderijos e outros métodos.. .. Pegava depressa na oração. Também é possível. As batinas traziam ar de saias.. sempre no meio para concertá-la bem.... como se não tivesse havido interrupção.. com alguma repugnância. Vindo o mal pela manhã adiante. outras grossas. e o andar não era seguro. até o seminário. adivinhai o que podia ser. que eram assim difusas e confusas. ave-marias. A cabeça ia-me quente. trepadas no ar. o contrato fez-se tacitamente. com certeza não dou nada. Ou então.. mas é impossível que não tenha arranhado os joelhos. todas ágeis como o diabo. tentei vencê-lo. a quem não desejasse uma queda.. como o melhor modo de temperar o caráter e aguerri-lo para os combates ásperos da vida. Dali em diante. Sábios da Escritura. Eram belas. eu fiquei “nos joelhos arranhados”. era eu mesmo que evocava as visões para fortalecer-me. Acordei. com as mãos presas em volta de mim. Uma multidão de abomináveis criaturas veio andar à roda de mim. se iam embora.. tique-tique.. Não formulei isto por palavras. e credos. aquela presteza é manha. nem foi preciso. é força confessar que tive de interromper mais de uma vez as minhas orações para acompanhar no escuro uma figura ao longe.tique-tique.. Creio que foi “manha” que ele disse. E por alguns dias. e sendo este livro a verdade pura. tique-tique. e por isso mesmo contempláveis. mostravam-me agora de relance as ligas azuis.. Foi isto. rezei padre-nossos. . a algumas adivinhei que traziam as meias esticadas e as ligas justas. mas tão depressa dormi como tornaram. mas por um modo que o não perdesse de todo. Não podendo rejeitar de mim aqueles quadros.. mas fez-se. não vi mulher na rua.Tanto melhor para ela. todas as que eu encontrara na rua. recorri a um tratado entre a minha consciência e a minha imaginação. Mas eu as via com elas. Tal haveria que nem levasse meias. mas certamente não unia a frase nova à antiga. . senão quando elas mesmo de cansadas. No seminário. a primeira hora foi insuportável. choviam pés e pernas sobre a minha cabeça.Parece que não se machucou. sonhei com elas. e. De noite. As visões feminis seriam de ora avante consideradas como simples encarnações dos vícios.

A quem passe a vida na mesma casa de família. mas era um antigo. sem guardar delas nem caras nem nomes. e os generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha. Como eu invejo os que não esqueceram a cor das primeiras calças que vestiram! Eu não atino com a das que enfiei ontem Juro só que não eram amarelas porque execro essa cor. é cerrar os olhos e evocar todas as coisas que não achei nele. CAPÍTULO 60 QUERIDO OPÚSCULO Assim fiz eu ao Panegírico de Santa Mônica. com os seus eternos móveis e costumes. as suas árvores. e eu sou acaso um deles. A vida é cheia de tais convivas. Não. mas isso mesmo pode ser olvido e confusão. e tudo marcha com uma alma imprevista que tudo se acha fora de um livro falho. as montanhas. O que faço. é que se lhe grava tudo pela continuidade e repetição. Nada se emenda bem nos livros confusos. não. e somente raras circunstancias. e os clarins soltam as notas que dormiam no metal. as ligas. leitor amigo. pessoas e afeições. mas tudo se pode meter nos livros omissos.CAPÍTULO 59 CONVIVAS DE BOA MEMÓRIA Há dessas reminiscências que não descansam antes que a pena ou a língua as publique. a minha memória não é boa. Vais agora ver o mais que naquele dia me foi saindo das páginas amarelas do opúsculo. as meias. Eu. e basta. é comparável a alguém que tivesse vivido por hospedarias. Assim preencho as lacunas alheias. Quantas idéias finas me acodem então! Que de reflexões profundas! Os rios. explico-me. Ao contrário. todos me aparecem agora com as suas águas. assim podes também preencher as minhas. conquanto a prova de ter a memória fraca seja exatamente não me acudir agora o nome de tal antigo. o seminarista Escobar e vários outros. . os seus altares. em chegando ao fim. mas ainda coisas que não eram dela. as igrejas que não vi nas folhas lidas. e fiz mais: pus-lhe não só o que faltava da santa. Um antigo dizia arrenegar de conviva que tem boa memória. quando leio algum desta outra casta. Viste o soneto. E antes seja olvido que confusão. não me aflijo nunca.

CAPÍTULO 61 A VACA DE HOMERO O mais foi muito. vamos ao mais que me foi saindo das páginas amarelas. mestre de música. e logo pintou a tristeza de minha mãe. E se a comparação não vale. duros e opacos. pessoas e sensações. Se depois jarretei o Capítulo. e acrescentasse alguma palavra relativamente aos dotes que Deus lhe dera. o desvanecimento de minha mãe nessas ocasiões era indescritível. Para que não aconteça o mesmo aos outros profissionais que porventura me lerem. mas a maior saudade está naturalmente no maior dos corações. encerrem casos. como aquele das cocadas que contei no cap. Já agora creio que não basta que os pregões de rua. um pregão de quitanda. Vi saírem os primeiros dias da separação. Gastas e rotas. trazidas por José Dias ao seminário. há muita vez no casal de chinelas um como aroma e calor de dois pés. é preciso que a gente os tenha conhecido e padecido no tempo. tu não prestavas para nada. e grudá-lo às pernas do Capítulo. Tio Cosme também se enternecia muito. Justamente. e qual é ele? perguntou escrevendo a resposta nos olhos. José Dias apertou-me as mãos com alvoroço. quando contei o pregão das cocadas. mas que mais presta um velho par de chinelas? Entretanto.Querido opúsculo. disse-me este. a porta da casa. fiquei tão curtido de saudades que me lembrou fazê-lo escrever por um amigo. e as de minha mãe e tio Cosme.Mamãe. Mas. sem o que tudo é calado e incolor. 18. não deixam de lembrar que uma pessoa as calçava de manhã. sem embargo das palavras de conforto que me deram os padres e os seminaristas. ao entrar ela. foi porque outro músico. Vês que não pus nada. nem ponho. melhor é poupar ao editor do livro o trabalho e a despesa da gravura. um assobio particular. que falava de mim todos os dias.Todos estão saudosos. ou as descalçava à noite. . Como a aprovasse sempre. . . acudi eu. aqui estão outras lembranças. ao erguer da cama. a quem o mostrei. porque as chinelas são ainda uma parte da pessoa e tiveram o contato dos pés. como a pedra da rua. como os opúsculos de seminário. me confessou ingenuamente não achar no trecho escrito nada que lhe acordasse saudades. e contava-me tudo isso cheio de uma admiração lacrimosa. quase a todas as horas.

Tenha paciência. e disse-lho. um sorriso claro e amigo lhe errava nos lábios.Era melhor que fosse este mesmo ano. quando muito.lembra-me como se fosse hoje.. que os conhecia.. já por acanhamento. cortejou-os com as deferências devidas.Isso é negócio meu. e a minha saída daqui? . acudiu José Dias. um deles de teologia.os olhos de José Dias fulguraram tão intensamente que me encheram de espanto As pálpebras caíram depois. Ou ela não fosse mãe! Que coração amantíssimo! . não um filho. as pálpebras não lhe caíram nem as pupilas fizeram os movimentos anteriores. todo ele era atenção e interrogação.Tão tarde! . mas ainda que não chegue a ordenar-se. Neste ponto.. O lente de teologia gostou da metáfora. até que novamente se ergueram.. A viagem à Europa é o que é preciso. Podia compará-lo aqui à vaca de Homero. o agregado.Mas. Conto ouvir-lhe a missa nova. Desta vez a fulguração dos olhos foi menor. já porque dois lentes. e assim ficaram por alguns instantes. Ao passarem por nós. depois despegaram-se da parede e entraram a vagar pelo pátio todo. . e os olhos fixaram-se na parede do pátio. senhor José Dias. e vale sempre entrar no mundo ungido com os santos óleos da teologia. mas demos tempo em tempo. . Para a viagem da existência. Não é preciso dizer que Dona Glória enxugou furtivamente uma lágrima. como que embebidos em alguma coisa. Eu é que não gostei nada. demais. Ao contrário. .. vá estudando. e. e pediu-lhes notícias minhas. andava e gemia em volta da cria que acabava de parir. ainda não acabando padre a vida do seminário é útil. Não lhe perguntei o que é que tinha. em 1859 ou 1860. Tendo eu dito à Excelentíssima que Deus lhe dera. mas um anjo do céu e doutor ficou tão comovido que não achou outro modo de vencer o choro senão fazendo-me um daqueles elogios de galhofa que só ele sabe. não se perde nada em ir sabendo já daqui alguma coisa.. não escrevia nem orava.Por ora nada se pode afiançar. irá ungido com os santos óleos da teologia. e logo .O que eu lhe dizia agora mesmo. ele agradeceu. se não era em si mesmos.Ontem até se deu um caso interessante. concluiu demorando mais as palavras. mas parece que dará conta da mão. mas pode fazer-se daqui a um ou dois anos. disse um deles.. vinham caminhando na nossa direção. explicando que eram idéias que lhe escapavam no correr da conversação. no pode ter melhores estudos que os que fizer aqui.

que os lentes se foram, sacudi a cabeça:
- Não quero saber dos santos óleos da teologia; desejo sair daqui o mais
cedo que puder, ou já...
- Já, meu anjo, não pode ser; mas pode suceder que muito antes do que
imaginamos. Quem sabe se este mesmo ano de 58? Tenho um plano feito, e
penso já nas palavras com que hei de expô-lo a Dona Glória; estou certo
que ela cederá e irá conosco.
- Duvido que mamãe embarque.
- Veremos. Mãe é capaz de tudo; mas, com ela ou sem ela, tenho por certa
a nossa ida, e não haverá esforço que eu não empregue, deixe estar.
Paciência é que é preciso. E não faça aqui nada que dê lugar a censuras
ou queixas; muita docilidade e toda a aparente satisfação. Não ouviu o
elogio do lente? É que você tem-se portado bem. Pois continue.
- Mas, 1859 ou 1860 é muito tarde.
- Será este ano, replicou José Dias.
- Daqui a três meses?
- Ou seis.
- Não; três meses.
- Pois sim. Tenho agora um plano, que me parece melhor que outro
qualquer. É combinar a ausência de vocação eclesiástica e a necessidade
de mudar de ares. Você por que não tosse?
- Por que não tusso?
- Já, já, não, mas eu hei de avisar você para tossir, quando for
preciso, aos poucos, uma tossezinha seca, e algum fastio; eu irei
preparando a Excelentíssima... Oh! tudo isto é em benefício dela. Uma
vez que o filho não pode servir a Igreja, como deve ser servida, o
melhor modo de cumprir a vontade de Deus é dedicá-lo a outra coisa. O
mundo também é igreja para os bons...
Pareceu-me outra vez a vaca de Homero, como se este “mundo também é
igreja para os bons”, fosse outro bezerro, irmão dos “santos óleos da
teologia.” Mas não dei tempo à ternura materna, e repliquei:
- Ah! entendo! mostrar que estou doente para embarcar, não é?
José Dias hesitou um pouco, depois explicou-se:
- Mostrar a verdade, porque, francamente, Bentinho, eu há meses que
desconfio do seu peito. Você não anda bom do peito. Em pequeno, teve
umas febres e uma ronqueira... Passou tudo, mas há dias em que está mais
descorado. Não digo que já seria o mal, mas o mal pode vir depressa.
Numa hora cai a casa. Por isso, se aquela santa senhora não quiser ir
conosco,- ou para que vá mais depressa, acho que uma boa tosse... Se a

tosse há de vir de verdade, melhor é apressá-la... Deixe estar, eu
aviso...
- Bem, mas em saindo daqui não há de ser para embarcar logo; saio
primeiro, depois cuidaremos do embarque; o embarque é que pode ficar
para o ano. Não dizem que o melhor tempo é abril ou Maio? Pois seja
maio. Primeiro deixo o seminário daqui a dois meses...
E porque a palavra me estivesse a pigarrear na garganta, dei uma volta
rápida, e perguntei-lhe à queima-roupa:
- Capitu como vai?

CAPÍTULO 62
UMA PONTA DE IAGO
A pergunta era imprudente, na ocasião em que eu cuidava de transferir o
embarque. Equivalia a confessar que o motivo principal ou único da minha
repulsa ao seminário era Capitu, e fazer crer Improvável a viagem.
Compreendi isto depois que falei; quis emendar-me, mas nem soube como,
nem ele me deu tempo.
- Tem andado alegre, como sempre; é uma tontinha. Aquilo enquanto não
pegar algum peralta da vizinhança, que case com ela...
Estou que empalideci; pelo menos, senti correr um frio pelo corpo todo.
A notícia de que ela vivia alegre, quando eu chorava todas as noites,
produziu-me aquele efeito, acompanhado de um bater de coração, tão
violento, que ainda agora cuido ouvi-lo. Há alguma exageração nisto; mas
o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e
partes diminutas, que se compensam, ajustando-se. Por outro lado, se
entendermos que a audiência aqui não é das orelhas, senão da memória,
chegaremos à exata verdade. A minha memória ouve ainda agora as
pancadas
do coração naquele instante. Não esqueças que era a emoção do primeiro
amor. Estive quase a perguntar a José Dias que me explicasse a alegria
de Capitu, o que é que ela fazia, se vivia rindo, cantando ou pulando,
mas retive-me a tempo, e depois outra idéia...
Outra idéia, não,- um sentimento cruel e desconhecido, o pulo ciúme,
leitor das minhas entranhas. Tal foi o que me mordeu, ao repetir comigo
as palavras de José Dias: “Algum peralta da vizinhança.” Em verdade,
nunca pensara em tal desastre. Vivia tão nela, dela e para ela, que a
intervenção de um peralta era como uma noção sem realidade; nunca me

acudiu que havia peraltas na vizinhança, vária idade e feitio, grandes
passeadores das tardes. Agora lembrava-me que alguns olhavam para
Capitu,- e tão senhor me sentia dela que era como se olhassem para mim,
um simples dever de admiração e de inveja. Separados um do outro pelo
espaço e pelo destino, o mal aparecia-me agora, não só possível mas
certo. E a alegria de Capitu confirmava a suspeita; se ela vivia alegre
é que já namorava a outro, acompanhá-lo-ia com os olhos na rua,
falar-lhe-ia à janela, às ave-marias, trocariam flores e...
E... quê? Sabes o que é que trocariam mais- se o não achas por ti mesmo,
escusado é ler o resto do Capítulo e do livro, não acharás mais nada,
ainda que eu o diga com todas as letras da etimologia. Mas se o achaste,
compreenderás que eu, depois de estremecer, tivesse um ímpeto de
atirar-me pelo portão fora, descer o resto dai ladeira, correr, chegar à
casa do Pádua, agarrar Capitu e intimar-lhe que me confessasse quantos,
quantos, quantos já lhe dera o peralta da vizinhança. Não fiz nada. Os
mesmos sonhos que ora conto não tiveram, naqueles três ou quatro
minutos, esta lógica de movimentos e pensamentos. Eram soltos, emendados
e mal emendados, com o desenho truncado e torto, uma confusão, um
turbilhão, que me cegava e ensurdecia. Quando tornei a mim, José Dias
concluía uma frase, cujo princípio não ouvi, e o mesmo fim era vago: “A
conta que dará de si.” Que conta e quem? Cuidei naturalmente que falava
ainda de Capitu, e quis perguntar-lho, mas a vontade morreu ao nascer,
como tantas outras gerações delas. Limitei-me a inquirir do agregado
quando é que iria a casa ver minha mãe.
- Estou com saudades de mamãe. Posso ir já esta semana?
- Vai sábado.
- Vai sábado.
- Sábado? Ah! sim! sim! Peça a mamãe que me mande buscar sábado!
Sábado!
Este sábado, não? Que me mande buscar, sem falta.

CAPÍTULO 63
METADES DE UM SONHO
Fiquei ansioso pelo sábado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda
acordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só
ponho, e no menor número de palavras, ou antes porei dois, porque um
nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo

que o céu nos dá todos os dias e todos os meses. e olhei para as . e o bilhete saíra branco. Enquanto ele falava. estava deserta. se papa. Capitu inclinou-se para fora. e este livro seria talvez uma simples prática paroquial. Tinha o número 4004. dona leitora. mas a culpa é do vosso sexo. Como estivesse a espiar os peraltas da vizinhança. o peralta fora levar-lhe a lista dos prêmios da loteria. acode-me uma idéia e um escrúpulo. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos. e acordei sozinho no dormitório. Não me parecendo isto claro. apertá-los bem. avancei para Capitu. A maior destas devia ser dada com a boca. nem bilhetes de loterias. esquecer tudo para dormir. CAPÍTULO 64 UMA IDÉIA E UM ESCRÚPULO Relendo o Capítulo passado. eu relancei os olhos pela rua. Disse-me que esta simetria de algarismos era misteriosa e bela. como as suas esperanças do bilhete. se bispo. nem sortes grandes ou pequenas. ou uma encíclica. Deixei o manuscrito. Capitu dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. não a havendo mais banal na terra.nada dos nadas veio ter comigo. ou uma pastoral. meu rapaz. E aqui entra a segunda parte do sonho. mas não dormia. mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nele outra vez. Esse mesmo trabalho fez-me perder o sono até à madrugada. Peguei-lhe nas mãos. O escrúpulo é justamente de escrever a idéia. ia pedir a explicação. vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janela. resmunguei não sei que palavras. mas não estava só tinha o pai ao pé de si. e dei mal as lições daquele dia. O interesse do que acabas de ler não está na matéria do sonho.. Corri ao lugar. mas então nem peraltas. tenente e imperador. enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Quanto ao sonho foi isto.isto é obscuro. consegui conciliá-lo. quando ele de si mesmo a deu. como me recomendara tio Cosme: “Anda lá. se eu fosse padre. era impossível que não devesse ter a sorte grande. Não sonhei mais aquela noite. todos os destinos estão neste século. volta-me papa!” Ah! por que não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão. posto que daquela banalidade do sol e da lua. e provavelmente a roda andara mal. Sobre a madrugada. ele fugiu. Não fosse ele. Pádua desapareceu. que perturbava assim a adolescência de um pobre seminarista.

paredes. os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. os rapazes também. Estes. fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo. e eu acabei afeiçoando me à vida nova. como a dos amores. filhos da memória ou da digestão. Não peço agora os sonhos de Luciano. basta-me um sono quieto e apagado. No fim de cinco semanas estive quase a contar a este as minhas penas e esperanças. e não continuam mais A noite não me respondeu logo. é reprodução da minha antiga casa de Mata-cavalos. por mais que tentasse dormir e dormisse. Pois que não amo a política. dar-me-ia explicações possíveis. são agora objeto da ambição e da rivalidade da Europa e dos Estados Unidos. Era uma alusão às Filipinas. Os sonhos antigos foram aposentados. com a fresca. Estava deliciosamente bela. Tal é a idéia banal e nova que eu não quisera pôr aqui e só provisoriamente a escrevo.Escobar é muito meu amigo. a ilha dos sonhos. Mas os tempos mudaram tudo. Antes de concluir este Capítulo. irei dizendo o mais da minha história e suas pessoas. fechei a janela e vim acabar este capítulo para ir dormir. CAPÍTULO 65 A DISSIMULAÇÃO Chegou Sábado. o que aliás na alcancei. onde ela tinha o seu palácio. como todas as ilhas de todos os mares. Como eu insistisse. disposições e pinturas. . nas dimensões. não poderiam fazê-lo. e os modernos moram no cérebro da pessoa. ainda que quisessem imitar os outros. Outrossim. Sabes que esta casa do Engenho Novo. Capitu! . De manhã. declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu. e ainda menos a política internacional. Pois o mesmo sucedeu àquele sonho do seminário. Donde concluo que um dos oficiais do homem é fechar e apertar muito os olhos a ver se continua pela noite velha o sonho truncado da noite moça. e Escobar mais que os rapazes e os padres. chegaram outros sábados. nem outros. o meu fim em imitar a outra foi ligar as duas pontas da vida. Os padres gostavam de mim. e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição. Ia alternando a casa e o seminário. Capitu refreou-me. como te disse no Capítulo II.

ou todo. e perguntou-me como é que queria que se portasse. . a alegria que ela mostrara desde a minha entrada no seminário. podia indagá-lo do pai e da mãe.. no quintal dela. após alguns minutos de conversa. me aconselhou a ir embora.E você. Em tudo isso mostrava a minha amiga tanta lucidez que eu bem podia deixar de citar um terceiro exemplo. A mãe chegou a dizer-lhe. e. e talvez acabassem não me recebendo.Mas não é meu amigo. e lançando-lhe em rosto. . Assim lhe disse. por palavras encobertas. tudo o que a ternura das mães inventa para cansar a paciência de um filho. as relações. ele já me disse que há de vir cá para conhecer mamãe. em casa dela. interrompeu minha mãe voltando-se para a filha do Pádua que estava na sala. Não gostei da convicção. ainda duvida que saia daqui um bom padre? .. . que eu lá vou logo.Não importa. quando eu vivia curtido de saudades. e eu não lhe dou licença de dizer nada a pessoa nenhuma.Com Dona Glória e Dona Justina mostro-me naturalmente alegre. Foi à minha terceira ou quarta vinda à casa. senhora. mas também meu. Para mim. e se me doía alguma coisa. a disciplina. concluiu voltando-se para José Dias: . Outra coisa em que obedeci às suas reflexões foi. logo no primeiro sábado. mas os exemplos não se fizeram senão para ser citados. É natural que Dona Glória queira estar com você muito tempo. e se dormia bem. Se parecesse. foram tão tristes como os meus.você não acha que o nosso Bentinho dará um bom padre? .Acho que sim. com ela. você não tem direito de contar um segredo que não é só seu. Era justo.. basta o nosso juramento de que nos havemos de casar um com outro. uma vez que suspeitavam de nós. depois que lhe respondi às mil perguntas que me fez sobre o tratamento que me davam. na manhã seguinte. pela primeira vez.. . calei-me e obedeci. e este é tão bom que a omissão seria um crime.Hoje não fique aqui mais tempo. recordando as palavras da véspera. . respondeu Capitu cheia de convicção. elas tratariam de separar-nos mais. quando eu fui à casa dela. e os dias.Excelentíssima. se puder. Minha mãe. . Capitu fez-se muito séria.senhor José Dias.Pode vir a ser. vá para casa. Capitu.. também tivera noites desconsoladas.. que não pensasse mais em mim. os estudos. para que não pareça que a denúncia de José Dias é verdadeira.

não pude resistir ao gesto da prima.Não é? disse ela com ingenuidade. e não sentia bem de pessoa alguma Talvez do marido.as pessoas assim dispostas excedem os serviços naturais. no trabalho e na honestidade. Era assaz sincera para dizer o mal que sentia de alguém. feita de azedume e de implicância. dizendo tio Cosme que ainda queria ver com que mão havia eu de abençoar o povo à missa. . Esta opinião. que havia olhado para todos. Compreende-se que. lhe desse a estima devida. CAPÍTULO 66 INTIMIDADE Capitu ia agora entrando na alma de minha mãe. Capitu sorriu de agradecida. e os últimos seis meses acabaram separados. Eu. . multiplicam os cuidados. Tanto melhor para a justiça dela. Viviam o mais do tempo juntas. concluí eu. dias antes. em todo caso. só prima Justina é que franziu a testa. Como vivesse de favor na casa. era póstuma. e ao mesmo tempo gozar toda a liberdade anterior. fazem-se mais risonhas. José Dias não dessorriu. mas o marido era morto. precedem os fâmulos. e construir tranqüilos o nosso futuro. Não penso que ela aspirasse a algum legado. Mas comi mal. de aparência. devíamos dissimular para matar qualquer suspeita. contou que. Capitu lhe dissera: “Pois a mim quem me há de casar há de ser o padre Bentinho. e tratei de comer. Tudo isso era contrário à natureza de prima Justina. estava tão contente com aquela grande dissimulação de Capitu que não vi mais nada. minha mãe. ao almoço. explica-se que não desestimasse a dona e calasse os seus ressentimentos. eu espero que ele se ordene!” Tio Cosme riu da graça. logo que almocei. vamos enganar toda esta gente. não existiria homem capaz de competir com ele na afeição. ou se algum mal pensou dela foi entre si e o travesseiro. segundo tio Cosme. nas maneiras e na agudeza de espírito.Você tem razão. pois em vida andavam às brigas. Também gostaria de minha mãe. estando a falar de moças que se casam cedo. mas não tratava de todo mal a minha amiga. e. Mas o exemplo completa-se com o que ouvi no dia seguinte. corri a referir-lhe a conversa e a louvar-lhe a astúcia. ou de nada. e olhou para mim interrogativamente. ou só . alguma vez ficava para jantar.Era isto mesmo. Capitu. falando de mim. a propósito do sol e da chuva. Prima Justina não acompanhava a parenta naquelas finezas. às manhãs. o louvor dos mortos é um modo de orar por eles. Capitu ia lá coser. mais assíduas.

mas cabisbaixo e suspirando. por mais vontade que tenha de as infringir deslavadamente. o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir”. a intimidade de Capitu fê-la mais aborrecível à minha parenta Se a princípio não a tratava mal. como negócio simples... e recebi licença para ir a casa. inda que azedo mas a sós com minha mãe achava alguma palavra ruim que dizer da menina. mais de uma vez .Pois não lhe digam nada.Não! não! mandem buscá-lo! Posso morrer. desde que a não via. prima Justina acabava sorrindo. . Um dia.a premissa antes da conseqüência. eu temendo ler no rosto dele alguma notícia dura e definitiva. . os suspiros podiam dizer alguma coisa mais. Cuidaram fosse delírio. Capitu usava certa magia que cativa. Entrou tão atordoado que me assustou. José Dias foi incumbido do recado.dissesse mal dela a Deus e ao Diabo. O coração batia-me com força. não se demorem. Em vão tio Cosme: . Contudo.mas. Capitu. com o tempo trocou de maneiras e acabou fugindo-lhe. nem ela precisava de razões suplementares.Vamos assustá-lo. já.. íamos calados. ele não alterando o passo do costume. você assusta-se sem motivo. quis que Capitu lhe servisse de enfermeira. Como minha mãe adoecesse de uma febre. minha mãe amanheceu tão transtornada que ordenou me mandassem buscar ao seminário. Prima Justina tolerava esses cuidados. soltou-lhe este epigrama: “Não precisa correr tanto. não era uma razão mais para detestar Capitu. perguntou-lhe se não tinha que fazer em casa. mas vão buscá-lo. e a minha alma não se salva. posto que isto a aliviasse de cuidados penosos. mas o chamado. Contou particularmente ao reitor o que havia. se Bentinho não estiver ao pé de mim. Caso tivesse ressentimentos de minha mãe. atenta. CAPÍTULO 67 UM PECADO Já agora não tiro a doente da cama sem contar o que se deu comigo. Prima Justina. não perdoou à minha amiga a intervenção. a conseqüência antes da conclusão. A vida é cheia de obrigações que a gente cumpre. indagava dela e ia procurá-la. que a pôs às portas da morte.. Demais. outro dia. Só me falara na doença. as pernas bambeavam-me. . a febre passa. o silêncio. Ao cabo de cinco dias.Mana Glória. não custando nada trazer-me. já. rindo. Na rua.

O anseio de escutar a verdade complicava-se em mim com o temor de a saber. como se esvaiu. etc. não estas palavras. foi um relâmpago. me segredou ao coração. A casa não era logo ali. que não podia ser pesar do meu pecado. mas não é mal de morte. entrei na Rua de Mata-cavalos. assim como dão com força. Enxugue os olhos. Leitor. mas muito além da dos inválidos. quisera interrogar o meu companheiro. como uma necessidade da obra humana. e não pude mais.. que eu ia castigar-me. Com os . de entrar. como um gesto do destino.. mas então era sempre a morte de minha mãe. já nem tinha tal desejo.Que é. um nó na garganta. me envolvia.Mamãe. com a perspectiva da liberdade certa.Não! não! Que idéia é essa? O estado dela é gravíssimo.. Era a primeira vez que a morte me aparecia assim perto. Foi uma sugestão da luxúria e do egoísmo.. As febres..? . Ia só andando. foi um instante... acaba o seminário”. Senti uma angústia grande. e uma corneta que nessa ocasião tocava no quartel dos Municipais Permanentes ressoava aos meus ouvidos como a trombeta do juízo final. José Dias suspirava. assim também se vão embora. cheguei aos Arcos.. de ouvir os prantos. uma febre. Mas a pena trazia tanto amor. o centésimo de um instante. aceitando o pior. perto da do Senado. A rua. de ver um corpo defunto.. mais me aterrava a idéia de chegar a casa. Não há de ser nada. A piedade filial desmaiou um instante.. para combater o Terror. menos que um instante. e eu quis pedir-lhe que não dissesse nada a ninguém. e Deus pode tudo. parecia fugir-me debaixo dos pés. chorei de uma vez. Três ou quatro vezes.cuidei cair. pois nada articulou parecido com palavras. . e a escuridão fez-se mais cerrada. Fui. mas agora. mas uma idéia que poderia ser traduzida por elas: “Mamãe defunta. Quanto mais andava aquela Rua dos Barbonos. as casas voavam de um e outro lado. me encarava com os olhos furados e escuros. Tão depressa alumiou a noite. pelo efeito do remorso que me ficou.. Uma vez olhou para mim tão cheio de pena que me pareceu haver-me adivinhado. ainda assim o suficiente para complicar a minha aflição com um remorso. Oh! eu não poderia nunca expor aqui tudo o que senti naqueles terríveis minutos. pelo desaparecimento da dívida e do devedor. sem ousar abrir a boca. que é feio um mocinho da sua idade andar chorando na rua. e foi então que a Esperança. por mais que José Dias andasse superlativamente devagar.. Bentinho? .

chegamos. mas saindo de almas cândidas e verdadeiras tais promessas são como a moeda fiduciária. gostou de ver a minha entrada.Não. c’est mon essence. logo que ela ficasse boa. c’est moi. Ajoelhei-me ao pé do leito. e pedi a Deus que me perdoasse e salvasse a vida de minha mãe. usei ainda uma vez do meu velho meio das promessas espirituais. Enxuguei os olhos. mas como este era alto. levanta. Entrando no meu quarto. mas o uso do superlativo faz a boca longa. e eu lhe rezaria dois mil padre-nossos.ainda que o devedor as não pague. debruçado sobre a cama. segundo me disse depois. foi aquele gravíssimo. meu filho. Padre que me lês. nada há mais feio que dal pernas longuíssimas a idéias brevíssimas. por amor do período. valem a soma que dizem. fiquei longe das suas carícias: . não. há só um modo de escrever a própria ..dedos. subi trêmulo os seis degraus da escada. mas esta idéia não me mordia. onde está o lenço? Enxuguei os olhos. repito. palavras e lágrimas. não menos que o costume e a fé. Eu confessarei tudo o que importar à minha história. os meus gestos. e pedir perdão a minha mãe do ruim pensamento que tive. ansioso agora por chegar a casa. Eram mais dois mil. chamando-me seu filho. Vi depois que ele só queria dizer grave. explica tudo. levanta! Capitu. e fui andando. avisa-me. onde iam os antigos? Não paguei uns nem outros. foi a última vez que o empreguei A crise em que me achava. era uma veleidade pura. toda ela parecia consumida por um vulcão interno. Ora. Montaigne escreveu de si: ce ne sont pas mes gestes que j’escris. e daí a pouco. que estava na alcova. uma ação que eu não faria nunca. José Dias fez crescer a minha tristeza se achares neste livro algum caso da mesma família. entramos. pensei em dizer tudo a minha mãe. Enfim. mas não suspeitou naturalmente todas as causas da minha aflição. e. CAPÍTULO 68 ADIEMOS A VIRTUDE Poucos teriam animo de confessar aquele meu pensamento da Rua de Mata-cavalos. leitor para que o emende na segunda edição. posto que de todas as palavras de José Dias uma só me ficasse no coração. por mais que o pecado me doesse Então levado do remorso. perdoa este recurso. ouvia as palavras ternas de minha mãe que me apertava muito as mãos. Estava queimando os olhos ardiam nos meus.

à medida que me vai lembrando e convidando à construção ou reconstrução de mim mesmo. aqui no Engenho Novo. Quando um de tais cônjuges é mais forte que o outro. o bem e o mal. é um Rothschild . aliados por matrimônio para se compensarem na vida. desejar que o trem da Central estourasse longe dos meus ouvidos e interrompesse a linha por muitas horas. O agregado quis ir comigo. e. e principiou a vestir-se.. ele só guia o indivíduo. era também agradecer o restabelecimento de minha mãe.. ç pena que eu não possa fundamentar isto com um ou mais casos estranhos. Reduz-se a isto que cada pessoa nasce com certo número deles e delas. mas era tão lento nos suspensórios e nas presilhas. posto que divino. com vantagem do portador de ambos. Voilà mes gestes. ao contrário. Demais. depois do que se passou no Capítulo LXVII. voilà mon essence. CAPÍTULO 69 A MISSA Um dos gestos que melhor exprimem a minha essência foi a devoção com que corri no domingo próximo a ouvir missa em S. e naturalmente ainda os possuo. ainda que morresse alguém. fazê-lo renunciar ao pagamento da minha promessa. que não pude esperar por ele. Sentia necessidade de evitar qualquer conversação que me desviasse o pensamento do fim a que ia. Tal faço eu. diria com muito gosto alguma bela ação contemporânea. agora que contei um pecado. Nem era só pedir-lhe perdão do pecado. por não haver praticado tal virtude ou cometido tal pecado se possa dizer isento de um ou de outro. é certo que nasci com alguns daqueles casais. Antônio dos Pobres. meu amigo. Pelo que me toca. Nem perderás em esperar. falta-me tempo. se me lembrasse. ou por isso mesmo. e alguma vez com resplendor maior da terra e do céu. fica transferida a melhor oportunidade. não menos simples que clara. Já me sucedeu. acode-me agora que. Jeová. eu queria estar só. Por exemplo. visto que digo tudo. Não só as belas ações são belas em qualquer ocasião como são também possíveis e prováveis. e no dia seguinte perdi o trem da mesma estrada. por estar uma noite com muita dor de cabeça. mas não me lembra. sem que este.essência. pela teoria que tenho dos pecados e das virtudes. mas a regra é dar-se a prática simultânea dos dois. é contá-la toda. por ter ido dar a minha bengala a um cego que não trazia bordão. e era reconciliar-me com Deus.

mamãe espera-me.Manda-se lá um preto dizer que o senhor fica almoçando. perdoa as dívidas integralmente. parei e olhei para todos. e não faz moratórias. Ia na direção da porta. voltada para o pai. uma vez que o devedor queira deveras emendar a vida e cortar nas despesas. ao levantar a Deus. Gurgel era homem de quarenta anos ou pouco mais. e na confissão o mais autêntico dos instrumentos para o ajuste de contas morais entre o homem e Deus. ouvindo as saudações e os cochichos.Queria saber dela. que saíam da igreja e pararam. . com propensão a engrossar o ventre. eu não queria outra coisa. velhos e moços. agradeci a vida e saúde de minha mãe. a companheira de colégio de Capitu que queria notícias de minha mãe. onde se fez claro. mas devagar.Venho outro dia. No adro. . Ouvi missa. logo. fechei o livro de missa e caminhei para a porta. e a moça olhava para mim falando ao homem.muito mais humano. ouvindo a moça. Como o homem muda! Hoje chego a publicá-lo. E chegaram-me estas palavras: . Ora. quis por força que eu fosse almoçar com ele. como eu vinha na mesma direção. No fim. mas eu não vi uns nem outros. sedas e chitas. Mas a minha incorrigível timidez me fechou essa porta certa. . e. depois pedi perdão do pecado e revelação da dívida. e provavelmente olhos feios e belos. Era sinhazinha Sancha. CAPÍTULO 70 DEPOIS DA MISSA Rezei anda. Não ela feia. papai pergunte. Depois saímos. com a onda. e não pude sair logo. persignei-me. disse-lhe que estava restabelecida. A gente não era muita. mas a igreja também não é grande. dali em diante não faria mais promessas que não pudesse pagar. receei não achar palavras com que dizer ao confessor o meu segredo. e o homem olhava para mim.Mas que queres? . O pai veio a mim. Vi então uma moça e um homem. Havia homens e mulheres. . viemos juntos. e recebi a bênção final do oficiante como um ato solene de reconciliação. mostrou-me a casa dele. e ira mais tarde. era muito obsequioso. e pagaria logo as que fizesse. lembrou-me que a Igreja estabeleceu no confessionário um cartório seguro.Obrigado. Sinhazinha Sancha. chegando à porta da casa. ouvia e esperava.

Tive receio.Tanto incômodo! . e dava-me conselhos para o caso de vir a ser padre. quis que descansasse alguns minutos. a minha fé. de minuto a minuto.Incômodo nenhum. CAPÍTULO 71 VISITA DE ESCOBAR Em casa. Tio Cosme e José Dias gostaram do moço. Nunca me visitara até ali.. tinham já mentido dizendo a minha mãe que eu voltara e estava mudando de roupa. Bentinho devia está de volta. Tio Cosme quis que jantasse conosco. Escobar era muito polido e. . mano Cosme?. Rua da Quitanda. .” Assim falava ela. conquanto falasse mais do que veio a falar depois ainda assim não era tanto como os rapazes da nossa idade.. Escobar refletiu um instante e acabou dizendo que o correspondente do pai esperava por ele. disse ele.mas sabendo a razão da minha saída. aproveitou o domingo para ir ter comigo e perguntar se continuava o perigo ou não. Quis saber a minha idade. Escobar foi visitar-me e saber da saúde de minha mãe. naquele dia achei-o um pouco mais expansivo que de costume.. interveio tio Cosme. despedi-me veio ao patamar da escada. lembrando-me das palavras do Gurgel. o agregado disse-lhe que vira uma vez o pai no Rio de Janeiro.Parece que sim: alguns souberam. como vieram a ser depois. os meus estudos. nem as nossas relações estavam Já tão estreitas. respirou.. Como eu recusasse o almoço.só se lhe podia notar a semelhança do nariz.. Quando lhe disse que não. Gurgel era viúvo e morria pela filha. Teria acontecido alguma coisa.Os outros souberam? . Da rua olhei para cima. Enfim. o pai estava à janela e fez-me um gesto largo de despedida.. Não pude recusar e subi. disse me o número do armazém. e irá depois. Era o dia das boas sensações. Eu. três dias antes. que também acabava grosso. repeti-as: .Manda-se lá um preto dizer que o senhor janta aqui.. a filha deu-me recomendações para Capitu e para minha mãe. mas há feições que tiram a graça de uns para dá-la a outros. Mandem ver. .. “A missa das oito já há de ter acabado. mas eu entrei e comigo a tranqüilidade. . Vestia simples.

Escobar despediu-se logo depois de jantar. a ver se. Nisto não houve exageração do agrado. Não teve resposta.Que amigo é esse tamanho? perguntou alguém de uma janela ao pé. a boca fina e chocarreira. Realmente. A cara rapada mostrava uma pele alva e lisa. virou-se e disse-me: . Gostou muito do retrato de meu pai. que levou a restringir. ainda olharia para trás. o nariz curvo e delgado. Nunca deixei de sentir tal ou qual desvanecimento em que os meus amigos agradassem a todos. onde esperamos a passagem de um ônibus. Apesar de quê? perguntou-lhe José Dias. A testa é que era um pouso baixa. apesar. na sala como na mesa. ou então foi obra de uso velho.. mas não olhou. com a mão. sejam histórias verdadeiras. e mantenho esta palavra. como nos livros.. nem podia tê-la. fui levá-lo à porta. São coisas que se adivinham na vida. de dentro do ônibus. o apesar era uma espécie de ressalva para algum que lhe viesse a descobrir um dia. Separamo-nos com muito afeto: ele.. vindo a risca do cabelo quase em cima da sobrancelha esquerda. A hora que passou comigo foi de franca amizade. nem diminuir a graça delas. por dentro da veneziana.Escobar aceitou e jantou. e agora abrira inteiramente a janela. Não é preciso dizer que era Capitu. e quis saber quem era que me .Vê-se que era um coração puro! Os olhos de Escobar. Tinha o sestro de sacudir o ombro direito. ainda me disse adeus. assim os definiu José Dias. Mostrei-lhe os poucos livros que possuía. era interessante de rosto. depois de alguns instantes de contemplação. Notei que os movimentos rápidos que tinha e dominava na aula. Era Capitu. ao longe. claros como já disse. a mesma prima Justina achou que era um moço muito apreciável. vendo que ela não acabava a frase. Disse-me que o armazém do correspondente era na Rua dos Pescadores. que nos espreitara desde algum tempo. eram dulcíssimos. . e ficava aberto até às nove horas: ele é que se não queria demorar fora. também os dominava agora. Viu as nossas despedidas tão rasgadas e afetuosas.mas tinha sempre a altura necessária para não afrontar as outras feições. depois que ele saiu. ficaram querendo bem a Escobar. Em casa. onde não achara restrição. desde que um de nós lhe notou um dia no seminário. primeiro exemplo que vi de que um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos. prima Justina provavelmente não viu defeito claro ou importante no nosso hóspede. sejam romances. de quando em quando e veio a perdê-lo. apesar dos quarenta anos que traz em cima de si. Conservei-me à porta. e aparecera.

uma trovoada. envergonhado.” Desta maneira. Então caminhou para o fundo. mas efetivamente com o fim de falar ao bastidor. um carro. os três seguintes seriam dados à ação lenta e decrescente do ciúme. nem qualquer outra pessoa desta história poderia responder mais. agora mais alto. Otelo mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato. isto é. por um lado. e o último ficaria só com as cenas iniciais da ameaça dos turcos. e eu proporia. e executa dentro os sinais correspondentes ao diálogo. não anuncia as peripécias nem o desfecho. repetiu a palavra. a olhar para cima. em não sei que teatro. e o bom conselho do fino lago: “Mete dinheiro na bolsa. mas ainda nada. é também o seu próprio contra-regra. como todos os dramaturgos. disfarçadamente trágico. apagam-se as luzes. Eles chegam a seu tempo. tão certo é que o destino. e. CAPÍTULO 73 O CONTRA-REGRA O destino não é só dramaturgo. nem ela. nem tu. como ensaio. Nesse gênero há porventura alguma coisa que reformar. Eu amei a piedade dela. por que os últimos atos explicam o desfecho do primeiro. para advertir o contra-regra. designa a entrada dos personagens em cena.merecia tanto. por outro lado. e dizer em voz surda: “O pisão! o pisão! o pisão!” O público . acharia no teatro a charada habitual que os periódicos lhe dão. CAPÍTULO 72 UMA REFORMA DRAMÁTICA Nem eu. ia para a cama com uma boa impressão de ternura e de amor: Ela amou o que me afligira. disse eu indo pôr-me embaixo da janela. espécie de: conceito.É o Escobar. o espectador. Asaverus. Quando eu era moça representou-se aí. um drama que acabar pelo juízo final. . O principal personagem era Asaverus. um tiro. até que o pano cai. que no último quadro concluía um monólogo por esta exclamação: “Ouço a trombeta do arcanjo!” Não se ouviu trombeta nenhuma. as explicações de Otelo e Desdêmona. dá-lhes as cartas e outros objetos. que as peças começassem pelo fim. e os espectadores vão dormir.

era a trombeta do juízo final e soou a tempo. enfiei pelo meu corredor. Tinham passado outros. botas de verniz. um sentado...” Relê Alvares de Azevedo. outro andando e parando. que é o seu próprio contra-regra. quando a trombeta soou deveras. era natural admirar as belas figuras. não pode estar sem estas duas coisas. um cavalo e uma namorada. é o pistão do arcanjo” Assim se explicam a minha estada debaixo da janela de Capitu e a passagem de um cavaleiro. e ainda outros viriam atrás. Uma das suas poesias é destinada a contar . inconscientemente guardada. e Capitu para ele. até que. O cavaleiro não se contentou de ir andando. um dandy. às tardes. o cavalo andava. alugara um cavalo por três mil-réis. rédea na mão esquerda a direita à cinta. saí da rua à pressa. Era uso do tempo namorar a cavalo. e. estava na sala de visitas.. CAPÍTULO 74 A PRESILHA Na sala de visitas.. A vista de José Dias lembrou-me o que ele me dissera no seminário: “Aquilo enquanto não pegar algum peralta da vizinhança que case com ela. Tal recordação agravou a impressão que eu trazia da rua.. o lado de Capitu e olhou para Capitu. Três mil-réis! tudo se perde na noite dos tempos! Ora. mas aquele sujeito costumava passar ali.ouviu esta palavra e desatou a rir.. Tal foi o segundo dente de ciúme que me mordeu. e depois. figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. e depois.. morava no antigo Campo da Aclamação. tio Cosme e José Dias conversavam.. senhor. mas voltou a cabeça para o nosso lado. Montava um belo cavalo alazão.” Era certamente alusão ao cavaleiro. A rigor. quando dei por mim. todos iam às suas namoradas. o dandy do cavalo baio não passou como os outros. firme na sela. e.1851 que residia em Catumbi. assim faz o Destino. um gaiato da platéia corrigiu cá de baixo: “Não. como então dizíamos. Relê Alencar: “Porque um estudante. para ver a namorada no Catete. Vão lá raciocinar com um coração de brasa. a cabeça do homem deixava-se ir voltando para trás. dizia um dos seus personagens de teatro de 1858. levá-lo ao . que me dispôs a crer na malícia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola. e Asaverus bradou pela terceira vez que era a do arcanjo. mas não seria essa palavra. como era o meu! Nem disse nada a Capitu.

. imaginava que Capitu saísse da janela assustada e não tardasse a aparecer.. eu perseguia-me. muito desprezo. Chamava-lhe perversa. deixei cair os olhos.Que é. que choraria de arrependimento e me pediria perdão. fiquei com medo de ouvi-lo. a sós comigo e o meu desprezo. e perguntou-me com interesse: . Quis tapar-lhe a boca. para indagar e explicar. queria ir à casa ao pé. Há um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitu e os peraltas do bairro. que parara ao ver-me entrar. frio e sereno. Duas vezes dei por mim mordendo os dentes. continuou a andar e a falar. mas eu.. Corri ao meu quarto. como ele insistisse em saber o que é que eu tinha. falava alto. escapei a minha mãe não indo ao quarto dela. abotoe a presilha. mas. ao vão da outra janela. que viera passar o resto da tarde com minha mãe.corredor e perguntar-lhe se falara de verdade ou por hipótese. José Dias viu no meu rosto algum sinal diferente da expressão habitual. Via-me já ordenado. como se a tivesse entre eles. e José Dias veio ter comigo. Da cama ouvi a voz dela. por maior que fosse o abalo que me deu. até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente. mas José Dias. E os dois falavam. CAPÍTULO 75 O DESESPERO Escapei ao agregado. e. não teria mais que desprezo. José Dias inclinou-se. diante dela. Eu. enterrá-las bem. eu saí correndo.. e abafava os soluços com a ponta do lençol. respondi apontando com o dedo: . até ver-lhe sair a vida com o sangue. como se me avisasse. e rolava comigo. impaciente. e fazer-me padre de uma vez. voltava-lhe as costas. eu atirava-me à cama. e chorava. caindo.Olhe a presilha. A vontade que me dava era cravar-lhe as unhas no pescoço. como das outras vezes. Jurei não ir ver Capitu aquela tarde. nem nunca mais. e entrei atrás de mim.. Bentinho? Para não fitá-lo. imaginando que vinha justamente dizer-mo. Eu falava-me. agora. viram que uma das presilhas das calças do agregado estava desabotoada. Os olhos. eu continuei surdo. mas não escapei a mim mesmo. não me fez sair do quarto e Capitu ria alto. e naturalmente comigo.

com o fim de não ir ao seminário e falar a Capitu. deixaria de ir mais à janela.Não! não! não! não lhe peço isto! Consentiu em retirar a promessa. disse-me que era grande injúria que lhe fazia. com uma moça da Rua dos Barbonos. Esta razão quadrou-me mais que tudo. tudo estaria dissolvido entre nós Aceitei a ameaça. ouvi-la e julgá-la. e jurei que nunca a haveria de cumprir. simulei maior incômodo. Capitu ria agora menos e falava mais baixo. estava diferente. Na manhã seguinte não estava melhor. Ergui-me de golpe.. Se olhara para ele. e foi que. . por eles e pelas lágrimas. . não podia crer que depois da nossa troca de juramentos. Não ceei e dormi mal. Confessou-me que não conhecia o rapaz. depois suspirou. . lembrou-me a recomendação que minha mãe fazia de me não deitar depois do jantar para evitar alguma congestão. mas não saí do quarto. Quando soube a causa da minha reclusão da véspera. a cavalo ou a pé. se ele vai casar? concluiu. era a primeira suspeita e a última.. nem por isso deixou de dizer que. Como me achasse estirado na cama. Enxugou os olhos com os dedos. Podia estar zangada comigo. estava sossegado. deixando de examinar o negócio. se houvesse. mas abatido. disse-me com quem. era natural dissimular. eu os beijei de novo.CAPÍTULO 76 EXPLICAÇÃO Ao fim de algum tempo. mas fez outra. podia não querer-me agora e preferir o cavaleiro. para evitar nova equivocação.Vai casar? Ia casar. Tinha ambas as coisas. peguei-lhe das mãos e beijei as com tanta alma e calor que as senti estremecer. senão como os outros que ali passavam às tardes. Quis resolver tudo.E que poderia haver. e ela o sentiu no meu gesto. com os olhos no tecto. . estaria aflita E com a minha reclusão. mas eu acudi de pronto. depois abanou a cabeça. à primeira suspeita da minha parte. e fez um gesto de separação. era prova exatamente de não haver nada entre ambos. E aqui romperam-lhe lágrimas. Posto que a cabeça me doesse um pouco. tão leviana a julgasse que pudesse crer. A minha dor agora complicava-se do receio de haver ido além do que convinha. mas nem por isso me abalou. podia ser que tivesse defesa e explicação.

. naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a alguém o que se passava entre mim e Capitu. disfarce.Creio. Quando voltei ao seminário. você às vezes está que não ouve nada. perde a graça. à sua parte. olhando para ontem. Ele. a não ser a gente da família. . Santiago. e é que as dores daquela quadra. disse-me que era sua intenção ir ver-me. .Escobar.. aqui ao seminário você é a pessoa que mais me tem entrado no coração.CAPÍTULO 77 PRAZER DAS DORES VELHAS Contando aquela crise do meu amor adolescente.. e foi Escobar que a recebeu. você é meu amigo. você é o primeiro e creio que já notaram. mas só uma parte. achei-o inquieto. Não referi tudo. ninguém se distrai à toa.Escobar. CAPÍTULO 78 SEGREDO POR SEGREDO De resto. retorquiu ele sorrindo. e lá fora.Que é? . . espetando-me os olhos.. .Sim. e se estava bom de todo. sinto uma coisa que não sei se explico bem.. mas eu não me .Se eu disser a mesma coisa. mas nem tudo é claro na vida ou nos livros A verdade é que sinto um gosto particular em referir tal aborrecimento.. Perguntava-me com interesse o que é que tivera. Não é claro isto. a tal ponto se espiritualizaram com o tempo que chegam a diluir-se no prazer. eu sou seu amigo também. .Estou. na quarta-feira. tinha razões para andar distraído também. não tenho propriamente um amigo. era bom disfarçar o mais que pudesse. . quando é certo que ele me lembra outros que não quisera lembrar por nada. . parece que estou repetindo. Três dias depois disse que me estavam achando muito distraído. Hesitei.Então parece-lhe?. ele esperou.. Mas a verdade é que não tenho aqui relações com ninguém.Tenho motivos. Ouvia. se eu me demorasse mais um dia em casa. mas buscava ficar atento.

mas demoradamente para ter o gosto de repisar o assunto Escobar escutava com interesse. e eu nem mais nem menos um mimoso do céu. E não é que eu não seja religioso. Comovido. não é preciso dizê-lo. Uma pessoa devia ser uma moça. mas o comércio é a minha paixão. tão escassa e surda. achou até natural e espetou-me outra vez os olhos. e esperam. Estou aqui.. . mas eu não posso ser padre. no fim da nossa conversação declarou-me que era segredo enterrado em cemitério. senti que a voz se me precipitava da garganta. e faço de conta que me confesso a um padre. Era como que uma felicidade mais.Que mais há de ser? Dei duas voltas e sussurrei a primeira palavra da minha confidência. . trazia a este mundo um aspecto extraordinário. nem seria padre. Então contei-lhe por alto o que podia.Só isso? . meu desejo é o comércio. Santiago.. Nem cuides que pasmou de me ver namorado. Voltamos uma e muitas vezes: eu louvava as qualidades morais de Capitu. a simpleza.Desculpe. uma vez que eu só podia servi-lo no mundo. Que voltamos ao assunto.Se precisa de absolvição. . mas não diga nada. nem o melhor. os meus acreditam. também eu tenho o propósito de não acabar o curso. Aquele coração moço que me ouvia e me dava razão.importo com isso. não lhe referi o Capítulo do penteado.Escobar. Não foi preciso mais para que ele entendesse. seria um mau padre.. por exemplo.. sei porém que disse “uma pessoa. . que não a ouvi eu mesmo. a modéstia. Não podia levar para a igreja um coração que não era do céu. mas o contado era multo. nem outros assim. O amor do trabalho . Deu-me de conselhos que não me fizesse padre. mas da terra. .Nem eu. eis a minha sensação.Nem você? . Não calculas o prazer que me deu a confidência que lhe fiz. . a vida uma carreira excelente. Uma pessoa?. matéria adequada à admiração de um seminarista. Nota que eu não lhe disse tudo. está absolvido. é um modo de falar. Ao contrário. aí me cumpria ficar. sou religioso.. Era um grande e belo mundo. você é capaz de guardar um segredo? . Eu sei que é moço sério. . . eu não posso ser padre.Você que pergunta é porque duvida.Escobar.” com reticência. e nesse caso. absolutamente nadafica só entre nós.Segredo por segredo. Deus protegia os sinceros.

Não lhe tocava nas graças físicas. Quando ela vier.Agora não é possível. depois de interromper esta linha para mirar-lhe o retrato que pende da parede. Sabes a opinião que eu tinha de minha mãe. e o filho há de ouvir o autor. Nem de outro modo se explica a opinião de Escobar. uma vez que toquei no ponto. minha mãe era adorável. melhor é acabar com ele. como uma santa. Realmente.Também eu fiquei gostando de todos. E porventura era certo que me obrigava à carreira eclesiástica? Aqui chego a um ponto. acho que trazia no rosto impressa aquela qualidade. só a verdade.Pois precisa convidar? Lá em casa todos ficaram gostando muito de você. gostei de ouvi-lo falar assim. não podia deixar de sentir que era adorável. Capitu vai passar uns dias com uma amiga da Rua dos Inválidos. por que não foi ontem jantar comigo? . mas é possível fazer distinção. pode ir sempre.Não é verdade? retorqui cheio de alvoroço. CAPÍTULO 80 . apenas insinuei a conveniência de a conhecer de vista. vamos ao Capítulo.e os costumes religiosos. não cabia dizer agora o que só mais tarde presumi descobrir. CAPÍTULO 79 VAMOS AO CAPÍTULO Com efeito. delicado e sutil.Você não me convidou. você irá lá. sim. . sim. . Basta de prefácio ao Capítulo. Ainda agora. mas toda a verdade. para que um e outro digam a verdade. que esperei viesse depois tanto que já pesquisava em que altura lhe daria um Capítulo. mas pode ir antes. Cabe ainda notar que esse ponto é que torna justamente a santa mais adorável. ao voltar de casa. confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável. . disse-lhe na primeira semana. que apenas trocara com ela quatro palavras Uma só bastava a penetrar-lhe a essência íntima. mas. sem prejuízo (ao contrário!) da parte humana e terrestre que havia nela. nem ele me perguntava por elas. um destes em que o autor tem de atender ao filho. É grave e complexo. . Por mais que me estivesse então obrigando a uma carreira que eu não queria.

não as entendi mais que eles. não dependia daquela quantia para comer. Nem ignoras que a minha carreira eclesiástica era objeto de promessa feita quando fui concebido. como única devedora. Tudo está contado oportunamente. com alegria. nesse mesmo Capítulo. começou a adiar a minha entrada no seminário. é possível que alterasse os planos. nem prima Justina. e . nem o agregado José Dias entendeu absolutamente: eu. A nossa quaresma não foi mais longa que as outras. das suas práticas religiosas. Penso que lhe senti o sabor da felicidade no leite que me deu a mamar. e ela ficou diante do contrato. está num dos Capítulos primeiros. e. no mais íntimo do coração. e naturalmente inclinava-se à negativa. porém. e minha mãe. confiou os seus projetos e motivos a parentes e familiares. Era um raciocínio tardio: devia ter sido feito no dia em que fui gerado. Meu pai. É o que se chama. falou da necessidade de entregar o preço ajustado. Por que é que Deus a puniria. para quem tem de pagar na páscoa. comercialmente falando. O credor era arquimilionário. . que estava atrás da porta. reformar uma letra. pode ser que arrependimento da promessa. vê-se que eram saudades prévias.e pode ser também. não bastando concluir para destruir. e da fé pura que as animava. A promessa. se vivesse. e consentiu nas transferências de pagamento. sabes que para o fim de apertar o vínculo moral da obrigação. era uma conclusão primeira. a questão é se é oportuno e adequado fazê-las todas. Um dia. Um dos aforismos de Franklin é que. a quaresma é curta. posto me mandasse ensinar latim e doutrina. sem sequer agravar a taxa do juro. embora os dois ofícios não fossem nem sejam inconciliáveis. como tinha a vocação da política. negando-lhe um segundo filho? A vontade divina podia ser a minha vida. sem necessidade de lhe dedicar ab ovo. sentia muito bem que as promessas se cumprem. apesar da distancia. feita com fervor. José.VENHAMOS AO CAPÍTULO Venhamos ao Capítulo. tudo se manteve. é o princípio do ponto. Outorgam. e que nenhum dos presentes nem tio Cosme. Mas meu pai morrera sem saber nada. verteu ela umas lágrimas. foi guardada por ela. Bem examinadas. e mais de um padre entre na luta dos partidos e no governo dos homens. um dos familiares que serviam de endossantes da letra. que enxugou sem explicar. sabes disto. Católica e devota. mas. aceita com misericórdia. Minha mãe era temente a Deus. Em todo caso. Ora. a mágoa da separação. é provável que me encaminhasse somente à política. Minha mãe concordou e recolhi-me a S.

Tal seria a esperança secreta de minha mãe. esta esperança íntima e secreta entrou a invadir o coração de minha mãe. Então. Neste caso. eles são quase irmãos gêmeos. o sol das manhãs. me levasse a não ficar lá nem por Deus nem pelo Diabo. se és religioso. mas a vantagem de contratar com o céu é que intenção vale dinheiro. uma troca de promessa. minha mãe levou o filho ao monte da Visão. Pouco a pouco veio-lhe a persuasão de que a pequena me faria feliz. tendo confiado a alguém a importância de uma dívida para levá-la ao credor o portador guardasse o dinheiro consigo e não levasse nada. pegou do cutelo e levantou-o ao alto. dando parte dos seus anos para conservar-me consigo. o fogo e o cutelo. a lua das noites. conheci que temes a Deus”. falando e cantando. haverás buscado alguma vez conciliar o céu e a terra. O céu e a terra acabam conciliando-se. por modo idêntico ou análogo. Um cochilo da fé teria resolvido a questão a meu favor. Capitu era naturalmente o anjo da Escritura. Assim a senti sempre na corrente da vida ordinária. Esta começou a fazer-se-lhe necessária. mas a fé velava com os seus grandes olhos ingênuos. tornando-me absolutamente incompatível com o seminário. Capitu passou a ser a flor da casa. Minha mãe faria. Minha mãe apalpava-lhe o coração. Ela ficava comigo sem ato propriamente seu. e. st pudesse.eu fui para o seminário. o ato de terceiro não desobriga o contratante. assim como suponho que rejeitou tal idéia. Como Abraão. Na vida comum. e o meu nome era entre ambas como a senha da vida futura. A afeição crescente era manifesta por atos extraordinários. a esperança de que o nosso amor. o frescor das tardes. Hás de ter tido conflitos parecidos com esse. ouve a voz do anjo que lhe ordena da parte do Senhor: “Não faças mal algum a teu filho. por lhe parecer uma deslealdade. E atou Isaac em cima do feixe de lenha. é o final do ponto anunciá-lo. Sucedeu que a minha ausência foi logo temperada pela assiduidade de Capitu. A verdade é que minha mãe não podia tê-la agora longe de si. eu romperia o contrato sem que ela tivesse culpa. casado e pai: é o que presumo. CAPÍTULO 81 . revolvia-lhe os olhos. tendo o céu sido feito no segundo dia e a terra no terceiro. Era como se. fora do clero. ouvindo. lá vivia horas e horas. e mais a lenha para o holocausto. No momento de fazê-lo cair.

insinuou prima Justina. pistola nem punhal. nada entenderam. quando eu cheguei a casa. Falou-me. suicídios e assassinatos. O pai de Sancha recebeu-me em desalinho e triste. que não quer outra. Um dos erros da Providência foi deixar ao homem unicamente os braços e os dentes. Eis aqui um Capítulo fúnebre como um cemitério. Prima Justina escapou aos meus. e anunciou-me que se mataria também. . De resto. posso trasladar para aqui uma palavra de minha mãe.Fique aqui um bocadinho. e efetivamente conversamos por alguns minutos. mas tão depressa me viu. às onze horas. . .Por que não vais vê-la? Não me disseste que o pai de Sancha te ofereceu a casa? . Custou-lhe a crer que fosse eu. se elas ouviram algo. senhor. quis que lhe falasse. eu e que não escapei ao efeito da insinuação. mortes. disse-lhe ele. com sinhazinha Gurgel: . Foi Capitu que os trouxe à porta da sala. e soube que Capitu estava na Rua dos Inválidos. fresca e lépida. no primeiro sábado.Ofereceu. Não a matei por não ter à mão ferro nem corda. teriam suprido tudo.Não. mas são tão baixo e abafado que nem as paredes ouviram. que se ia agravando. se pudessem matar. . Como ele queria muito à filha. e as pernas como armas de fuga ou de defesa. para desnortear a justiça. vindo dizer ao pai de Sancha que a filha o mandara chamar. A filha estava enferma. pensava já vê-la morta. e no domingo.Talvez ficassem namorando. Agora se entenderá que ela me dissesse. Capitu devia ter voltado hoje para acabar um trabalho comigo. corri à Rua dos Inválidos. certamente a amiga pediu-lhe que dormisse lá. eu já volto. Um mover deles faria parar ou cair um inimigo ou um rival. os mesmos olhos matadores seriam olhos piedosos. e correriam a chorar a vítima.UMA PALAVRA Assim contado o que descobri mais tarde. com este acréscimo que.Está pior? perguntou Gurgel assustado.Pois então? Mas é se queres. não menos que espantada. Capitu trazia sinais de fadiga e comoção. . ficou toda outra. como armas de ataque. Eu ansiava por um raio de luz clara e céu azul. a mocinha de sempre. Os olhos bastavam ao primeiro efeito. elas que têm ouvidos. nem elas nem os móveis. exerceriam vingança pronta.mas os olhos que lhe deitei. .caíra na véspera com uma febre. mas quer falar-lhe. e voltando-se para mim: E a enfermeira de Sancha.

E acrescentou com os olhos.que estavam tão tristes como o dono. .. estendeu-me a mão e enfiou pelo corredor. vagamente.Conselho dela? murmurou Capitu. Capitu ergueu-se naturalmente e perguntou-lhe se a febre aumentará. Vagamente lembra-me que lhe perguntei se a demora ali seria grande... que lhe expliquei a minha visita à Rua dos inválidos. continuou a prestar os seus serviço às nossas mãos presas e às nossas cabeças juntas ou quase juntas. e que até breve.mas. só o canapé pareceu haver compreendido a nossa situação moral. O canapé. disse ele. quer visse ou não. Data daí a opinião particular que tenho do canapé. Capitu e eu. Foi o que fizemos. . CAPÍTULO 83 O RETRATO Gurgel tornou à sala e disse a Capitu que a filha chamava por ela. Também me lembra. Como era possível que Capitu se governasse tão facilmente e eu não? .Não sei.Seremos felizes! Repeti estas palavras. Ele faz aliar a intimidade e o decoro.a febre parece que cede. um homem e uma mulher só por aberração das leis naturais dirão outra coisa que não seja de si mesmos. e disse-me que levasse lembranças a minha mãe e a prima Justina. Nem sobressalto nem nada. com tal insistência que os aceitamos e nos sentamos. isto é. voltou-se para mim. com a pura verdade. Ao contrário. Eu levantei-me depressa e não achei compostura.. nenhum ar de mistério da parte de Capitu. CAPÍTULO 82 O CANAPÉ Deles. a conselho de minha mãe. Todas as minhas invejas foram com ela. e mostra a casa toda sem sair da sala.. mas. e duas mulheres a graça de um vestido. .Não. metia os olhos pelas cadeiras. Dois homens sentados nele podem debater o destino de um império.. com os simples dedos. apertando os dela. visto que nos ofereceu os serviços da sua palhinha. que brilhavam extraordinariamente .

Era mulher por dentro e por fora. a tal ponto que não acudi logo a uma voz que me chamava: . .a mãe não era mais amiga dela. e a pessoa que me chamava era um pobre homem grisalho e mal vestido. Gurgel.. mulher por todos os lados. a testa principalmente e os olhos. agora que eu a via de dias a dias. Ia satisfeito com a visita. CAPÍTULO 84 CHAMADO No saguão e na rua. escassa e pobre: tinha as portas meio cerradas.Morreu há meia hora. e que as pessoas que a conheceram diziam a mesma coisa.Finalmente. Então ele disse que era o retrato da mulher dele. de cada vez que vinha a casa achava-a mais alta e mais cheia. mulher à direita e à esquerda.Está uma moça. .Senhor Bentinho! Senhor Bentinho! Só depois que a voz cresceu e o dono dela chegou à porta é que eu parei e vi o que era e onde estava. Estava já na Rua de Matacavalos. Quanto ao gênio. Antes de examinar se efetivamente Capitu era parecida com o retrato. A casa era uma loja de louça. onde pendia um retrato de moça. até a amizade que ela tem a Sanchinha .. Um dos costumes da minha vida foi sempre concordar com a opinião provável do meu interlocutor. e ela fez-me a caridade de mandar algumas flores para botar no caixão. os olhos pareciam ter outra reflexão.Morreu? . fui respondendo que sim. mas achei que não e pus-me a andar. e foi bom que morresse. voltando-se para a parede da sala. com a alegria de Capitu. examinei ainda comigo se efetivamente ele teria desconfiado alguma coisa. Na vida há dessas semelhanças assim esquisitas. Na verdade. sabe que meu filho Manduca morreu? . Esse arvorecer era mais apressado. com os louvores de Gurgel. desde que a matéria não me agrava. Meu pobre filho! Tinha de morrer. aborrece ou impõe. pareciam irmãs. enterra-se amanhã.. e a boca outro império. disse-me ele chorando. Mandei recado a sua mãe agora mesmo. observou Gurgel olhando também para ela. Capitu ia crescendo às carreiras as formas arredondavam-se e avigoravam-se com grande intensidade moralmente a mesma coisa. era um. Também achava que as feições eram semelhantes. e desde os pés até à cabeça. perguntou-me se Capitu era parecida com o retrato. .Senhor Bentinho. Murmurei que sim.

Por que morrer exatamente há meia hora? Toda hora é apropriada ao óbito. Tudo o que vejo lá fora respira vida.. já pela morte. mas provavelmente não falei por palavras claras. sem alma para entrar nem fugir. a coisa mais importante era Capitu. O mal foi que os dois casos se conjugassem na mesma tarde. Quis responder que não. Há coisas que se não ajustam nem combinam. para ele. a galinha que marisca no chão da rua. já pelo defunto. ou se o Manduca esperasse algumas horas para morrer. Não era medo. e o corpo acabou entrando. a palmeira que investe para o céu. Mas também não me culpem a mim. é outra coisa. e fiz até um gesto para fugir.. e o interior da casa menos luz tinha. e eu.coitado. que era horrível. Um dia destes ainda se lembrou do senhor. morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde. porque ele. a cabra que rumina ao pé de uma carroça... Realmente. nem sequer humanas.. assobia. o trem da Estrada Central que bufa. agora que as janelas da área estavam cerradas. noutra ocasião pode ser até que entrasse com facilidade e curiosidade. a coisa mais importante do momento era o filho.. Isto aqui. A simples notícia era já uma turvação grande. A loja era escura. sim. Se eu passasse antes ou depois. O cadáver jazia na cama. .. mas apesar de tudo sempre dói. mas agora ia tão contente! Ver um defunto ao voltar de uma namorada. Que vida que ele teve!. para mim. e não distingui mais nada. Suspendamos a pena e vamos à janela espairecer a memória. Custa-me dizer isto. A um canto da sala de jantar vi a mãe chorando. ande vê-lo. CAPÍTULO 85 O DEFUNTO Tal foi o sentimento confuso com que entrei na loja de louça. à porta da alcova duas crianças olhavam espantadas para dentro. fumega e passa. deixei ao corpo fazer o que pudesse. e finalmente aquela torre de igreja. Penso que cheguei a dizer que tinha pressa. encostado ao portal. que não queria ver o Manduca. abria-me espaço com o gesto. As minhas idéias de ouro perderam toda a cor e o metal para se trocarem em cinza escura e feia. com o dedo na boca. nenhuma nota aborrecida viria interromper as melodias da minha alma. e que a morte de um viesse meter o nariz na vida do outro. mas antes peque por excessivo que por diminuto... Eis o mal todo. Quer vê-lo? Entre. e perguntou se estava no seminário. o quadro era feio.... Não culpo ao homem. a cama.

até que recuei de todo e saí do quarto. mas podes imaginá-lo. Um rapaz.buscava esquecer o defunto. bastou-me pensar na outra casa. atravessei a loja.. Amai. olhei. E rápido saí. .. o triste corpo daquele meu vizinho. e uma idéia me entrou no cérebro. principalmente. amai moças lindas e graciosas.. Não sei que mão oculta me compeliu a olhar outra vez. se existe algum não é em tal evidência que se vexe ou doa. que não sabia. fiquei apavorado e desviei os olhos. tornei a olhar. estendido na cama. Parei no corredor. e saltei à rua. ainda que de fugida. que antes de três minutos me achei em casa. em poucos segundos. RAPAZES! Era tão perto. elas dão remédio ao mal. Vá. faria o que minha mãe quisesse. disse que era esperado em casa. rapazes! CAPÍTULO 87 A SEGE Chegara ao último degrau. não morreu nem morre. como se . rapazes! e. os seus parentes são mortos..apesar de não ter músculos nem folhagem. pálido e disforme. diga-se tudo. aroma ao infecto. é morto. Amai. Teria dezoito ou dezenove anos...morto pareceu-me horrível. a cara não permitia trazer a idade à vista antes a escondia nas dobras da. e despedi-me O pai perguntou-me se lhe faria o favor de ir ao enterro. Vivo era feio. mas tanto lhe darias quinze como vinte e dois. cedi. Diga-se tudo. e o mais que não disse para não dar a estas páginas um aspecto repugnante. a tomar fôlego. Eu cuidei de sair. respondi com a verdade. . que ali no beco empina um papagaio de papel. e mais na vida e na cara fresca e lépida de Capitu.Padeceu muito! suspirou o pai. posto também se chame Manduca. Tudo arredei da vista. trocam a morte pela vida.Coitado de Manduca! soluçava a mãe. Quando eu vi. Verdade é que o outro Manduca era mais velho. CAPÍTULO 86 AMAI. nada menos que a lepra. Manduca padecia de uma cruel enfermidade.

metia a cara no vidro. dizia-me rindo: . e então o espetáculo era particularmente interessante. .Senta. que ela conservou o mais que pôde. escanchado na mula da esquerda. Ouvi de memória as palavras do pai de Manduca pedindo-me que fosse ao enterro no dia seguinte. por mais que tivesse o gosto da condução. com duas cortinas de couro na frente.” A sege ia tanto com a vida recôndita de minha mãe. . que quando já não havia nenhuma outra. Tudo incômodo. com gente ou sem ela. olhavam para a sege e falavam entre si. podia ir ao enterro. pediria a minha mãe que me alugasse um carro. e via o cocheiro com as suas grandes botas.. estreita e curta. que era nosso escravo. Bentinho! .. e era conhecida na rua e no bairro pela “sege antiga. de duas rodas. O cocheiro. abertas ou fechadas. Dos lados via passar as casas. lembra-me que ia assim muita vez com minha mãe às visitas de amizade ou de cerimônia e à missa.” Afinal minha mãe consentiu em deixá-la.Nhã Glória não gosta.estivesse a esperar por mim. Em pequeno. se chovia. naturalmente sobre quem iria dentro.Deixa espiar. Bentinho. Era uma velha sege obsoleta. Cada cortina tinha um óculo de vidro. que corriam para os lados quando era preciso entrar ou sair. . mas ele gostava e eu também. que tem um filho. Parei no degrau. as pessoas paradas na calçada ou à porta das casas. com grandes pernadas ou passos miúdos. mamãe! E em pé. Quando havia impedimento de gente ou de animais. . continuamos a andar nela.Pai João vai levar nhonhô! E era raro que eu não lhe recomendasse: . vestido. quando era mais pequeno. a sege parava. quando me via à porta. não pela vaidade. demora muito as bestas. Refleti um instante. sim. tão velho como a sege. por onde eu gostava de espiar para fora. e segurando a rédea da outra. o chicote e as mulas.Mas demora! Fica entendido que era para saborear a sege. porque ela não permitia ver as pessoas que iam dentro. as botas. Era uma velha sege de meu pai.João. Quando fui crescendo em idade imaginei que adivinhavam e diziam: “É aquela senhora da Rua de Mata-cavalos. esperando minha mãe. entre as grades da cancela. vai devagar. ou atravessavam diante da sege.. lojas ou não.. e na rua as pessoas que iam e vinham. Não cuides que era o desejo de andar de carro. na mão levava o chicote grosso e comprido.

Tudo o que me lembrou dizer. umas moedas de cobre datadas de 1824 e 1825. um trecho de mantilha. A razão de a guardar inútil foi exclusivamente sentimental.Perder um dia de seminário Fiz-lhe notar a amizade que o Manduca me tinha. A lembrança do carro podia vir acessoriamente depois. velhas modas. a pretexto de saber de sinhazinha Gurgel. acompanhando o enterro no dia seguinte. esse era filho também do carrancismo que ela confessava aos amigos. neste ponto. e podia fazer outra visita a Capitu. Bis aí o que era..sem a vender logo. era a lembrança do marido. e. Antes de transpô-la.. . as mãos presas. um tanto mais demorada. e depois era gente pobre. velhas maneiras. .Vou pedir a mamãe. CAPÍTULO 88 UM PRETEXTO HONESTO Não. Tinha o seu museu de relíquias. Tudo o que vinha de meu pai era conservado como um pedaço dele. . para que tudo fosse antigo. Contava que tudo me saísse como naquele dia. assim como ouvira da memória a palavra do pai do morto. ouvi agora a da mãe. não iria ao seminário. A origem era outra: era porque. Voltaria à Rua dos Inválidos. um resto da pessoa. mas a principal e imediata foi aquela..Coitado de Manduca! CAPÍTULO 89 A RECUSA Minha Mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro. Prima Justina opinou pela negativa. Capitu comigo no canapé. não alcançava tudo o que queria. . disse. pentes desusados. Abri a cancela. só abriu mão dela porque as despesas de cocheira a obrigaram a isso. a mesma alma integral e pura. a idéia de ir ao enterro não vinha da lembrança do carro e suas doçuras..Você acha que não deve ir? perguntou-lhe minha mãe. Minha mãe exprimia bem a fidelidade aos velhos hábitos. Mas o uso. e repeti a meia voz: . velhas idéias. mas já deixei dito que. o penteado. a si mesma se queria fazer velha. Gurgel aflito.

o que é impossível. foi só um instante. não me desagradou. deitado na cama. sem entrar nem parar . Intimidade que intimidade podia haver entre a doença dele e a minha saúde? Tivemos relações breves e distantes. andei até mais depressa. entre nós. senhor. Fosse o que fosse. e não fiquei pouco espantado. como falássemos da guerra da Criméia. . Manduca disse que os aliados haviam de vencer. e o terceiro domingo em que entrei na loja tocamos outra vez no assunto. e eu respondi que não. Uma vez que não ia ao enterro antes longe que próximo. mais tarde achei-lhe um sabor particular. Só se a justiça não vencer neste mundo. Naturalmente. os dedos queriam apertar-se. Ao domingo.Pois veremos. Era todo o seu recreio. este sol riu. sobre a tarde. a propósito. Defendi o direito da Rússia. passei pela casa do defunto. Mal podeis crer a que propósito foi.Acho que não. Quando referi o caso ao agregado. e a justiça está com os aliados. a doença ia-lhe comendo parte das carnes. Se me não engano. mas pode ser também que cada um de nós tivesse a opinião do seu temperamento. Foi a guerra da Criméia. . dois anos antes. a razão é dos russos.. se parei. e trazia-o para o fundo da loja. no dia seguinte. Manduca vivia no interior da casa. Manduca fez o mesmo ao dos aliados. e disse-me que o motivo escondido da prima era provavelmente não dar ao enterro “o lustre da minha pessoa”. lendo por desfastio. íamos com o que nos diziam os jornais da cidade transcrevendo os de fora. Da segunda vez que o vi ali. Fui sempre um tanto moscovita nas minhas idéias. Tinha eu de treze para quatorze anos. . que então ardia e andava nos jornais. CAPÍTULO 90 A POLÊMICA No dia seguinte. o pai enfiava-lhe uma camisola escura. o aspecto não atraía decerto. nem nos conhecíamos de muito. ainda mais breve que este em que vo-lo digo. pensando no motivo. donde ele espiava um palmo da rua e a gente que passava. Não éramos amigos. Que amizade é essa que eu nunca vi? Prima Justina venceu.ou. Foi ali que o vi uma vez. fiquei amuado. Fui pensando nelas.. receando que me chamassem como na véspera. Fui andando e pensando no pobre-diabo. recordando algumas. Reduziam-se todas a uma polêmica. tornou ele..Não.

um gozo infinito de vitória. pela sua parte. ele. defendendo cada um os seus clientes com força e brio. se porventura choravam antes. era simples. que me chamava a outros exercícios. entra a indagar da resposta. A convicção com que me recebeu o papel e disse que ia ler e responderia é que não tem palavras nossas nem alheias que a digam de todo e com verdade. o calor é que crescia. a família. nem a moléstia os permitiria. mas que ninguém ia tratar com ele. os olhos desaprenderam de chorar. Logo que eu mando o caixeiro levar-lhe os papéis dele. o sorriso que a acendeu dissimulou o mal físico. depois que o senhor lhe escreve aqueles papéis. Fala e ri muito. Manduca.Não imagina como ele anda agora. deitou-se ao debate. Manduca. e que pergunte ao moleque. em que nenhum de nós cedia. As horas tristes e compridas eram agora breves e alegres. Não me recorda um só dos argumentos que empreguei. O acaso dera-lhe em mim um adversário. não me lembra se trazia coisas novas ou não. não era ruidosa. à porta da rua. grande. Senti esta mudança dele nas próprias maneiras do pai e da mãe. pena e tinta ao pé da cama. mal coberto por uma colcha de retalhos. não era exaltada. e o final era o mesmo: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Trepliquei. Fizeram-me entrar na alcova. o estudo. que tinha gosto à escrita. Fui eu mesmo levar-lhe o meu papel. agora que o século está a expirar. antes de saber os meus argumentos. e a própria saúde. não tinha gestos. nem talvez interesse conhecê-los. e o prazer com que lhe dei o papel foi sincero. como a um remédio novo e radical. por mais nojosa que tivesse então a cara. salvo o palmo de rua ao domingo de tarde. dizia-me o dono da loja. concluindo por esta frase profética: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Li-a e meti-me a refutá-la. profunda. os recreios.Então Manduca propôs que trocássemos a argumentação por escrito. e se demorará muito. . e na terça ou quarta-feira recebi duas folhas de papel contendo a exposição e defesa do direito dos aliados. não me deixou sentir toda a repugnância que saía da cama e do doente. . assunto da cidade e do mundo. Ou gosto da polêmica ou qualquer outra causa que não alcanço. e da integridade da Turquia. Manduca era mais longo e pronto que eu. e daí continuou por algum tempo uma polêmica ardente. Naturalmente a mim sobravam mil coisas que distraíam. uma vez. mas a idéia que me ficou deles é que eram irrespondíveis. Tinha já papel. Dias depois recebi a réplica. tinha só esta guerra. onde ele jazia estirado na cama.

já agora não esquecerei mais que dei dois ou três meses de felicidade a um pobre-diabo. nem até agora. apenas recebe os seus papéis. Se há no outro mundo tal ou qual prêmio para as virtudes sem intenção. fazendo-lhe esquecer o mal e o resto. afirmava a mesma predição eterna: “Os russos não hão de entrar em Constantinopla!” Não entraram.quando passar. atira-se a lê-los. esta pagará um ou dois dos meus muitos pecados. mas não recebendo contestação alguma. como os Estados morrem. não se podendo considerar tal o simples acordo da medicina e da farmácia. mas até lhe dei felicidade. para entrar na sepultura. até que não dei mais nenhuma. como a história. é que não os mande à hora do almoço ou de jantar. Comecei a demorar as respostas. a caminho do seminário. Hoje pensando melhor. relê jornais e toma notas. acabou de todo com as suas apologias..ele ainda teimou duas ou três vezes depois do meu silêncio. mas agora no gabinete do Engenho Novo Então não fiz propriamente nenhuma. CAPÍTULO 91 ACHADO QUE CONSOLA É claro que as reflexões que aí deixo não foram feitas então. essa era a questão para o meu vizinho leproso. gastou três anos de dissolução. Quanto ao Manduca. a não ser esta: que servi de alívio um dia ao meu vizinho Manduca.. É alguma coisa na liquidação da minha vida. nem então. nem depois. Enquanto espera. mas. Há ocasiões em que não come ou come mal. E o achado consola-me.. tanto que eu queria pedir-lhe uma coisa. mas se os russos entrara algum dia em Constantinopla. Mas também. não se faz brincando. e começa logo a escrever a resposta. Fui eu que cansei primeiro. O próprio Manduca. tão certo é que a natureza. A última como a primeira. A vida dele resistiu como a Turquia se afinal cedeu foi porque lhe faltou uma aliança como a anglo-francesa. a questão é saber. r nosso caso particular. acho que não só servi de alívio. debaixo da triste. rota e infecta colcha de retalhos. Morreu afinal. não creio que fosse pecado opinar contra a Rússia. como todas. por fadiga também ou por não aborrecer.. ele estará purgando há quarenta anos a felicidade . se era. não se a Turquia morre porque a morte não poupa a ninguém. efetivamente. Mas a predição será eterna? Não chegarão a entrar algum dia? Problema difícil.

não deixe de concluir que o Diabo não é tão feio como se pinta. veio ter a Mata-cavalos. Há consolação maiores. e aos mais nojentos ou mais aflitos acena com uma flor. antes do meio-dia. duas pessoas vieram ajudá-lo. decerto e uma das mais excelentes é não padecer esse nem outro mal algumas a natureza é tão divina que se diverte com tais contrastes. Quero dizer que o meu vizinho de Mata-cavalos..que alcançou em dois ou três meses. Capitu. Escobar? . para terem um cheiro superior. não contando o gosto do carro. e ele respondeu com . como se me não visse desde longos meses. o gosto com que ele recebia os meus papéis e se propunha a refutá-los. Quero dizer. mas este caso afligiu-me particular mente pela razão já dita. E talvez saia assim a flor mais bela. Mas o tempo apagou depressa todas essas saudades e ressurreições.. sem que eu sentisse nada. CAPÍTULO 93 UM AMIGO POR UM DEFUNTO Quanto à outra pessoa que teve a força obliterativa. . hão mister de estrume de porco. Não examinei. Também senti não sei que melancolia ao recordar a primeira polêmica da vida. temperando o mal com a opinião anti-russa. sem opinar coisa nenhuma.Vim para isto mesmo. e outra que direi no Capítulo que vem. dava à podridão das suas carnes um reflexo espiritual que as consolava. O resto deste Capítulo é só para pedir que. Minha mãe agradeceu-lhe a amizade que me tinha. Nem foi só ele. mas deve ser verdade. o meu jardineiro afirma que as violetas. e tal amigo que durante cerca de cinco minutos esteve com a minha mão entre as suas. A muitos outros aconteceu a mesma coisa..Você janta comigo. CAPÍTULO 92 O DIABO NÃO É TÃO FEIO COMO SE PINTA Manduca enterrou-se sem mim. foi o meu colega Escobar que no domingo. Um amigo supria assim um defunto... cuja imagem dormiu comigo na mesma noite.donde concluirá (já tarde) que era ainda melhor haver gemido somente. se alguém tiver de ler o meu livro com alguma atenção mais da que lhe exigir o preço do exemplar.

isso parece. são exatamente os dela. . Já viste que não era assim. Escobar escutava atento. contou-me duas ou três reminiscências dos seus três anos de idade. expliquei. pedindo explicação das passagens omissas ou só escuras. . depois. Insistia na educação. sim. aquele preto que ali vai passando.Justamente! confirmou José Dias. e prima Justina não achou tacha que lhe pôr. tão pequenino viera. senhora grave. José Dias desfechou-lhe dois superlativos. . . pode ser que a senhora Dona Justina tenha alguma razão. Quando eu referi a Escobar aquela opinião de minha mãe (sem lhe contar as outras naturalmente) vi que o prazer dele foi extraordinário. distinta e moça. ainda agora frescas. como se carecesse de palavra pronta. . acrescentou. Olhe. agora não voltamos mais. nem podia deixar de ser assim. Todos ficaram gostando dele.A mim parece-me um mocinho muito sério. e elogiou também minha mãe. e a reflexão casa-se muito bem à curiosidade natura. dizendo que eram bondades. O que ele disse. “na doce e rara mãe” que o céu me deu. Enviuvou há muitos anos? Contei-lhe o que sabia da vida dela e de meu pai. e o preto andava em serviço.Nhonhô! Estávamos na horta da minha casa. Parece curioso.. mas o homem não é sempre o mesmo em todos os instantes. chegou-se .muita polidez.São olhos refletidos. entretanto. veio ela confessar-nos que o meu amigo Escobar era um tanto metediço e tinha uns olhos policiais a que não escapava nada. Tomás! . Também a alguém há de você sair. tio Cosme dois capotes.Não. A verdade é que uma coisa não impede outra. acudiu José Dias.Já fez quarenta. Tudo isso com a voz engasgada e trêmula. para não discordar dela. ainda que um tanto atado. Quando eu lhe disse que não me lembrava nada da roça. Eu estava tão contente como se Escobar fosse invenção minha. .. opinou tio Cosme. perguntando mais.São os olhos dele. . nos bons exemplos. a palavra obedecia-lhe.. disse minha mãe. Que idade teria? .. é de lá.. com esses olhos que Deus lhe deu. muito moça.Não é possível! exclamou Escobar. no segundo ou terceiro domingo. Quarenta anos! Nem parece trintaestá muito moça e bonita. mas.Nem eu digo que sejam de outro.Seguramente. Agradeceu. foi que me estimava pelas minhas boas qualidades e aprimorada educação. no seminário todos me queriam bem. E não contávamos voltar . respondi eu vagamente por vaidade.. em resumo.

. a de lá é naturalmente grande. em casa da cidade. interrompeu Escobar. mirando a pedra de bater roupa e fazendo reflexões a propósito do asseio.. A minha alegria acordava a dele. . Mamãe tem outras casas maiores que esta. .Não lhe hão de faltar tectos. Maria Gorda ou de nação como Pedro Benguela..Não sei. São assim as boas horas deste mundo. distinguindo-se por um apelido. eram diferentes letras. Tomás? . sim.Não. . depois. concluiu ele sorrindo com simpatia.Você ainda se lembra da roça. este Pedro. ..O que me admira é que Dona Glória se acostumasse logo a viver. CAPÍTULO 94 IDÉIAS ARITMÉTICAS . como João Fulo.Alembra.a nós e esperou. . e o céu estava tão azul. Caminhamos para o fundo.Todas as letras do alfabeto. Quais foram as reflexões não me lembra agora. outros estão alugados Não era possível ter todos em casa. alguns andam ganhando na rua. Mostrei outro. é bonita. lembra-me só que as achei engenhosas.. uma no Catete. mais outro. e o ar tão claro. ele riu também. . aquele outro Damião. ou da pessoa.. e ri. Nem são todos os da rosa: a maior parte ficou lá. senhor. .. “um anjo dobrado”. Escobar confessou esse acordo do interno com o externo. Antônio Moçambique. por palavras tão finas e altas que me comoveram. disse eu para Escobar.. ele parou um instante aí. Passamos o lavadouro.E estão todos aqui em casa? perguntou ele. aquele José. Algumas são bem grandes. disse ele. tornou a falar de minha mãe. sim. . que a natureza parecia rir também conosco. a propósito da beleza moral que se ajusta à física.É casado. como a da Rua da Quitanda.Tem também no Rio Comprido.Está socando milho. Com efeito. . diz porém que há de morrer aqui.Bem. . Maria onde está? . As outras estão alugadas. e ainda outro. onde tudo é apertado. vá-se embora. apontei ainda outros escravos. depois continuamos. mas parece. na Cidade-Nova. alguns com os mesmos nomes. senhor.Conheço essa. e só então reparei nisto. .

Agora dobre 11 e terá 22.. dizia ele. do c e do z.. Que serviço diverso prestam o d e o t? Têm quase o mesmo som. nada. sabia também calcular depressa e bem. dê-me um caso. o mesmo do s.Dá tudo 1:070$000 mensais. O mesmo digo do b e do p. Não se imagina a facilidade com que ele somava ou multiplicava de cor. passou-os pelos olhos a fim de os decorar. é 500. e acrescentou que as idéias aritméticas podiam ir ao infinito. dê-me uma porção de números que eu não saiba nem possa saber antes. e tinha esta opinião que os algarismos. o mesmo do k e do g. quaisquer quantias. Veja os algarismos: não há dois que façam o mesmo ofício. e sussurrava. Era das cabeças aritméticas de Holmes (2 + 2 = 4). . Oh! o vento não é mais rápido! Foi dito e feito. um dia. que foi muito. Um 5 sozinho é um 5. e enquanto eu fitava o relógio..Há letras inúteis e letras dispensáveis. com a vantagem que eram mais fáceis de menear. era para ele como nada: cerrava um pouco os olhos. e sussurrava as denominações dos algarismos: estava pronto. em si mesmo. Assim que. Criado na ortografia de meus pais. cerrava as pálpebras. treze. proferi algumas palavras de defesa. ao passo que ele podia somar. Nem ele sabia só elogiar é pensar. dá 484. O valor do zero é. dê-me o número das casas de sua mãe e os aluguéis de cada uma. Mas onde a perfeição é maior é no emprego do zero. enforque-me! Aceitei a aposta.Não digo o mais. em meio minuto bradava-me: . e se eu não disser a soma total em dois. e 7 é 7. São trapalhices caligráficas. . pois eu tanto aprovo com um p como com dois pp. mas não ousava refutá-lo. Isto com sete. Contudo.. Assim. A divisão que foi sempre uma das operações difíceis para mim. . mas o ofício deste sinal negativo é justamente aumentar. A vocação era tal que o fazia amar os próprios sinais das somas. e assim por diante. E admire a beleza com que um 4 e um 7 formam esta coisa que se exprime por 11. sendo poucos. voltados para cima. custava-me a ouvir tais blasfêmias. em um minuto. coisa que não fazem as letras dobradas. eu não era capaz de resolver de momento um problema filosófico ou lingüístico. e na semana seguinte levei-lhe escritos em um papel os algarismos das casas e dos aluguéis. o que não vale nada faz valer muito. ele erguia as pupilas. vinte algarismos.. eram muito mais conceituosos que as vinte e cinco letras do alfabeto.Por exemplo. ponha-lhe dois 00.. olhe. 4 é 4. multiplique por igual número. ao que ele respondeu que era um preconceito. em três minutos. etc. Escobar pegou o papel.

Suspendamos a pena por alguns instantes. conto-lhe o que há. que não pude deixar de abraçá-lo.Quebremos-lhe a castanha na boca! . com tal força que ainda me doem os dedos.Fiquemos ainda mais amigos que até aqui. se não é efeito das longas horas que tenho estado a escrever sem parar. ou na rua.. Amanha. amanhã.fê-lo Escobar de cor. Eu.A modéstia. nem um erro: 1:070$000.. . era aquilo mesmo. tirei do bolso o papelinho que levava com a soma total. . Vou jogar com eles que me chamaram. outros seminaristas notaram a nossa efusão. A arte é atrapalhada. Interrompi-o dizendo que não inveja. . um padre que estava com eles não gostou.Certíssima! No dia seguinte revelou-me o mistério. . Escobar observou-me que os outros e o padre falavam de inveja e propôs-me viver separados. Era no pátio. e perguntava se não era exato.Agora é certo que você vai sair já do seminário.Fiquei pasmado..Isto prova que as idéias aritméticas são mais simples. e mostrei-lho. Bentinho. Ao primeiro aspecto confesso que fiquei deslumbrado. . Pois tudo isto em que eu gastaria três ou quatro minutos. lá no quarto. brincando. decerto. A idéia é tão santa que não está mal no santuário. só por lhe mostrar que sim.. É ilusão. indo de 70$000 a 180$000. Na primeira semana disse-me este em casa: . disse-nos. a de José Dias não lhe quis ficar atrás. não consente esses gestos excessivos podem estimar-se com moderação. indo à missa.e havia de ser no papel. Olhava-me triunfalmente. . e portanto mais naturais.Como? .Espere até amanhã. A natureza é simples. . e que os aluguéis variavam de uma para outra. Considera que eram não menos de nove casas. no quintal.Mas. tanto pior para eles. Fiquei tão entusiasmado com a facilidade mental do meu amigo. CAPÍTULO 95 O PAPA A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda.. Escobar apertou-me a mão às escondidas.Mas é coisa certa? . Trazia uma nota de grandeza e de espiritualidade que .

ou antes. Bentinho. Que me parecia? . Ora.. e podemos partir daqui a dois meses.Parece-me bem. nem professor. . eram duas pessoas.Oh! Bentinho! interrompeu o agregado. além do mais que não digo.. dirão que é dado pedir a dispensa cá de longe. que vivia do ofício enquanto ia pregando a palavra divina. e boca no nosso caso é a moeda. Os anjos o contemplam.. Não. Comigo... Pensar em quê? Você o que quer.Quem tem boca vai a Roma. sejam satisfeitos. expondo-lhe tudo. o levita prometido. respondi depois de alguns segundos de reflexão. uma semana.Não se vai a Roma brincando. com o poder de desligar dado aos apóstolos. ouve. e para tanto valia a Escritura. você beijando o pé ao príncipe dos apóstolos. cartas para o nosso ministro. Sua Santidade. o reitor? Não era natural que lhe confiasse tal assunto. não. inclina-se.Não? . Rigorosamente.. não pregá-la. a Virgem recomenda ao santíssimo filho que todos os seus desejos. três camisas e o pão diário. porque é preciso acabar o capítulo. Digo? Não se amofina com o seu velho? Você o que quer é consultar a uma pessoa. no domingo daria a resposta. absolve e abençoa.Melhor é falar domingo que vem. Pode ser um bom remédio.. Levaremos cartas do internúncio e do bispo. Capitu e Escobar. mas eu neguei a pés juntos que quisesse consultar ninguém. Cumpria rompê-lo. era só o tempo de refletir.. ele e eu iríamos a Roma pedir a absolvição do papa. não preciso mais. . e que o que você amar na terra seja igualmente amado no céu. e prostrar-se aos pés do papa o próprio objeto do favor. interroga. Serei como São Paulo. . e desde já lhe dizia que a idéia não me parecia má. cartas de capuchinhos.É o único. que vai pedir para sua mãe terníssima e dulcíssima a dispensa de Deus. com o sorriso evangélico. um par de calças. ao parecer dele.Pois resolvamos hoje mesmo. e desejaria ver-me cá fora. Pois eu vou.. mas. nem reitor. você pode muito bem gastar consigo. mas entendia que o vínculo moral da promessa a prendia indissoluvelmente. Minha mãe. estava arrependida do que fizera. nem ninguém. é o único! Vou já hoje conversar com Dona Glória. mas buscá-la. . Bem sei a objeção que se pode opor a esta idéia... basta refletir que é muito mais solene e bonito ver entrar no Vaticano. deixe-me pensar primeiro. e ele não acabou o . Assim que.falava aos meus olhos de seminarista.. Era não menos que isto.. Bentinho. E que pessoa. . . Não digo mais.. Considere o quadro.

e ele conosco. Os olhos. um reflexo de idéia e ouvi-lhe dizer com volubilidade: .Nunca! . e eu que visse também por meu lado. se acaso fosse a Roma.Você indo. De caminho. . Não é de lá que vêm as cantoras? Você esquece-me. mas a distancia que estaria da vontade de Capitu é que não. que me daria um bom conselho.Juro. . e assim também a Escobar. quase me comeram de contemplação. Capitu não achava outra idéia.discurso. De repente. .mas ha coisa que produz . que eu só geograficamente sabia onde ficava. Quando voltei ao seminário. Mas se o papa não tiver ainda soltado a você? Mando dizer isso mesmo. por tudo. não iria. esquece-me inteiramente. E não haverá outro meio? Dona Glória está morta para que você saia do seminário. declarou crer que eu cumpriria o juramento. e a Itália principalmente. porque o Santo Padre vale sempre mais que tudo. e não achei logo que lhe replicasse Capitu meteu o negócio à bulha. disse ela.. Ouviu-me atentamente. Falou a todos os meus sentimentos de católico e de namorado. vi a alma feliz de Capitu. e eu com elas.Esquece. espiritualmente. ambas em casa. também. .Sim. Bentinho. tudo mediante uma pequena viagem a Roma.mas era preciso ouvi-la. ia ver se não haveria outra coisa. Bentinho. e acabou triste. mas julga-se presa pela promessa. não é preciso isso. rindo e chamando-me disfarçado Depois. . mas ainda assim não consentiu logo.não dizia melhor. . Se Capitu achasse longe. contei tudo ao meu amigo Escobar que me ouviu com igual atenção e acabou com a mesma tristeza da outra. nem acabava de adotar esta.Por Deus? . Há melhor. Eis o ponto essencial. Juro que no fim de seis meses estarei de volta.Por Deus. A Europa dizem que é tão bonita. Vi a alma aliviada de minha mãe. jurasse que no fim de seis meses estaria de volta. de costume fugidios. pediu-me que. vi-lhe no rosto um clarão. CAPÍTULO 96 UM SUBSTITUTO Expus a Capitu a idéia de José Dias. E se você mentir? Esta palavra doeu-me muito.Não.

Oh! como a esperança alegra tudo..E saímos juntos. Consulte sobre isto o protonotário: ele lhe dirá se não é a mesma coisa. disse eu rindo.. . que não seja você. parecendo gostar da resposta.Que é? ..070$000. parece que é isso.. Tinha então pouco mais de dezessete. a questão era fácil minha mãe gastaria o mesmo que comigo. e um órfão não precisaria grandes comodidades. Escobar observou que.Não acha? continuou ele. Sentia-me pilhérico. CAPÍTULO 97 A SAÍDA Tudo se fez por esse teor. . disse eu. cada um com os seus olhos perdidos. tendo consultado o bispo. ou eu mesmo consulto. . 1. nem dou teologia.Você também? . não podia havê-lo melhor. pelo lado econômico. . que podia ser. depois que o Padre Cabral. é isso mesmo.Não há outra coisa.. a religião c a liberdade fazem boa companhia. se quer e se ele hesitar. . Escobar sorriu. a promessa cumpre-se. fala-se ao senhor bispo. disse ele gravemente. Minha mãe hesitou um pouco. . Saí do seminário no fim to ano.. .Entendo. dê-lhe um sacerdote. Ela pode muito bem tomar a si algum mocinho órfão. não se perdendo o padre.Sim. Escobar ouviu-me contentíssimo. sem que você.Ainda uma vez. para que no comércio? . Citou a soma dos aluguéis das casas. quando tornei de longe. fazê-lo ordenar à sua custa. realmente. Depois ficamos a cuidar de nós mesmos.. está dado um padre ao altar. e agradeci de novo o plano lembrado. Os dele estavam assim.o mesmo efeito. Aqui devia ser o meio do livro.Sua mãe fez promessa a Deus de lhe dar um sacerdote não é? Pois bem. voltou a dizer-lhe que sim. entendo. além dos escravos..Também eu. mas acabou cedendo.In hoc signo vinces. provavelmente. Vou melhorar o meu latim e saio. . O próprio latim não é preciso. Eu. refletindo: . .

Um dos sacrifícios que faço a esta dura necessidade é a análise das minhas emoções dos dezessete anos. Minha mãe resolvera-se a envelhecer. outras valerão por anos. como se o bacharel fosse ele. não tanto que me não fizesse a fineza de ir assistir à minha graduação. Achavam-me lindo. Eu era um curiosíssimo. e diziam-mo. Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus . diria o meu agregado José Dias.mas a inexperiência fez-me ir atrás da pena. e descer comigo a serra. os vestidos. a touca. Agora não há mais que levá-la a grandes pernadas. fui-me aos estudos. Tudo mudara em volta de mim. sentia já. deves saber que é a idade em que a metade do homem e a metade do menino formam um só curioso. CAPÍTULO 98 CINCO ANOS Venceu a razão. Passei os dezoito anos. se tal idéia houve. Se sim. e assim chegaremos ao fim. aos vinte e dois era bacharel em Direito. Já não andaria tanto de um lado para outro. pousa emenda. lépido e viçoso. uns assomos de petulância e de atrevimento. debaixo do recolhimento casto. Era opinião de prima Justina que ele afagara a idéia de convidar minha mãe a segundas núpcias. os vinte. mas eram também das moças que na rua ou da janela não me deixavam viver sossegado. Já esta página vale por meses. e chego quase ao fim do papel. os dezenove. a análise das minhas emoções daquele tempo é que entrava no meu plano. O que essa qualidade superlativa me rendeu não poderia nunca dizê-lo aqui. A mãe de Capitu falecera. Posto que filho do seminário e de minha mãe. Escobar começava a negociar em café depois de haver trabalhado quatro anos em uma das primeiras casas do Rio de Janeiro. Não sei se alguma vez tiveste dezessete anos. os sapatos rasos e surdos eram os mesmos de outrora. e a vaidade é um princípio de corrupção. cumpre não esquecer a grande diferença de idade. Tio Cosme padecia do coração e ia descansar. José Dias também. e não diria mal. os vinte e um. capítulo sobre capítulo. mas. sem cair no erro que acabo de condenar. tudo em resumo. aos poucos e espalhadamente. com o melhor da narração por dizer. ainda assim os cabelos brancos vinham de má vontade. eram do sangue. o pai aposentara-se no mesmo cargo em que quis dar demissão da vida. algumas queriam mirar de mais perto a minha beleza. pouca reflexão. A prima Justina apenas estava mais idosa.

. e de fato. chamava a esta a “sua cunhadinha. não é? . Olha. mano Cosme.” Assim se formam as afeições e os parentescos. custou-lhe a ela aceitá-lo. concluiu por chalaça.Vai indo. que ele lhe restituiu. Hás de ir ver a ordenação. um pouco mais moderno. . quando eu regressei bacharel quase estalou de felicidade Ainda ouço a voz de José Dias. a pedido meu. mas é muito parecido. A princípio. Capitu entregou-lhe a primeira carta.. preferia José Dias. .. não foi melhor que ele não teimasse em ser padres Veja se este peralta daria um padre capaz. é a cara do pai.” A separação não nos esfriou. E minha mãe beijava-me com uma ternura que não sei escrever Tio Cosme. É bom que te sintas na alma do outro. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu. o bigode realmente.Mulher. . escrevendo-me.Sim. que foi mãe e avó das outras. as aventuras e os livros. eis aí a tua mãe! Minha mãe. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. olha bem para mim. mana Glória.casou com a boa Sancha a amiga de Capitu. mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. . veja se não é a figura do meu defunto. Sempre achei que te parecias com ele. ordena-se para o ano. os olhos.Como vai o meu substituto? . tanto que alguma vez. entre lágrimas: .primeiros tentamens comerciais.Justamente! exclamou minha mãe. Ele foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. como amigo. . Mas veja bem. quase irmã dela. logo que pôde. como se recebesses em ti mesmo a sagração. lembrando o evangelho de São João. minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros.. agora é muito mais. eu também.Mano Cosme. eis aí o teu filho! Filho. E diga-me agora mana Glória. e dizendo ao ver-nos abraçados: . Que ele casou. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio.Sim. a disposição do rosto. Bentinho.adivinha com quem.. É o pai. não sem este remoque: “Dona Glória é medrosa e não tem ambição. e fê-lo servir a ambos nós. respondeu tio Cosme. O bigode é que desfaz um pouco.. Venceu Escobar posto que vexada.. CAPÍTULO 99 O FILHO É A CARA DO PAI Minha mãe. tem alguma coisa. se o meu senhor coração consentir.

ia pensando na felicidade e na glória. velho também sabe amar. Aquela intimidade de vizinhos tinha de acabar nisto. a filha. porque ela é um anjo. é a mesma predição. os maiores elogios. desfazendo a mala e tirando a carta de bacharel de dentro da lata. meteram-se no coração da gente e falam de dentro para fora. e me disse em voz igualmente macia e cálida: “Tu serás feliz. Esta. expulsas dos contos e dos versos. assim como mereceu esse diploma que ali está. CAPÍTULO 100 “TU SERÁS FELIZ. enquanto José Dias me ajudava calado e zeloso.E por que não seria feliz? perguntou José Dias. . a prima. muita vez a ouvi clara e distinta. agora são os novos.Você ouviu? perguntei eu erguendo-me também.Mas que é? . .” ..Ouviu o quê? . como merece. Não lhe nego que é moço muito distinto.Há de ser feliz.. Macbeth!” . pela mesma toada universal e eterna. é caju chupado. enfim. tu vais ser feliz. Ainda agora sou capaz de jurar que a voz era da fada. Bentinho... foi . Quando voltei do meu espanto.. Há de ser prima das feiticeiras da Escócia: “Tu serás rei.. Bentinho.Ouviu uma voz que dizia que eu serei feliz? . e marido de truz. a felicidade não é só a glória. as visitas. Via o casamento e a carreira ilustre. Pádua.. ouvi o resto do discurso de José Dias: .Que há de ser? Quem é que não sabe tudo?. espanta . por exemplo. BENTINHO” No quarto. os Escobares. endireitando o tronco e fitando-me.para alegrá-la. os escravos... e ela mesma repetiam-me o título. e trabalhador. que não é favor de ninguém.“Tu serás feliz. e todos em casa. mas. A distinção que tirou em todas as matérias é prova disso. já lhe contei que ouvi da boca dos lentes. é também outra coisa. que é verdadeiramente uma bênção do céu. naturalmente as fadas.É boa! Você mesmo é que está dizendo. Uma fada invisível desceu ali. Perdoe a cincada... chamava-me doutor. não vale nada. Bentinho!” Ao cabo. José Dias também.. é um anjíssimo. em particular. Ah! você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto. Demais.

e não vi que essa menina travessa e já de olhos pensativos era a flor caprichosa de um fruto sadio e doce. mantimento. os quais ambos me confirmaram a notícia de José Dias pela sua própria impressão... Bentinho!” E a voz de Capitu me disse a mesma coisa. mas enfim. Depois da morte da mãe.. pergunte-lhe. falei em nora. amiga da gente. . . na resposta. mamãe consultou o senhor sobre o nosso casamento? . comentou rindo. não faz mais que receber o ordenado e entregá-lo à filha.. o Doutor João da Costa enviuvou há poucos meses. mas não é fora de propósito.Mas.Você sabe que elas se dão muito. e cá em casa está mais que adivinhado e aprovado? . Não ouvi o resto. Por que é que não me contou também o que outros sabem. e assim também a de Escobar. .Mamãe aprova deveras? . deu-me igual profecia. e dizem (não sei.Pois então? Temos falado sobre isso. Ouvia só a voz da minha fada interior. paga as contas.. discreta. o protonotário é que me contou) dizem que os dois andam meio inclinados a acabar com a viuvez. confundi os modos de criança com expressões de caráter. eu é que. salva a redação própria de mãe: “Tu serás feliz. Pádua. cuida de tudo. agora que se aposentou. A filha é que distribui o dinheiro. algumas semanas depois. tomou conta de tudo. casando-se.. entre si. você já a viu o ano passado. Enfim. prendada.Prima Justina? .. e logo sério: Digo isto por gracejo. outrora. além do consentimento. quando lhe fui pedir licença para casar. .Positivamente. não. Só se ela é um cemitério. fez-me o favor de perguntar se Capitu não daria uma boa esposa. luz.Não sabe? São contos. faz o rol das despesas. que não lhe digo nada. Talvez agora case mais depressa. boa. e uma dona de casa. Há de ver que não ha nada. minha mãe. falava de Capitu. E quanto à formosura você sabe melhor que ninguém. com termos diversos.Mamãe sempre que me escrevia. contanto ela sempre achasse que o doutor era um feixe de ossos. e ela fez-me o favor de pedir a minha opinião. Pergunte-lhe o que é que eu lhe disse em termos claros e positivos.. que me repetia mas já então sem palavras: “Tu serás feliz. meu filho! .um modo de acentuar a perfeição daquela moça.. Cuidei o contrário. e por isso é que sua prima anda cada vez mais amuada. deveras. Dona Glória não negou e até deu um ar de riso.. roupa. Disse-lhe que não podia desejar melhor nora para si. naturalmente.

maridos. se a execução fosse na terra. Descansa que não farei descrição alguma. recitou alguns versículos da sua primeira epístola: “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos. abriu-nos as portas dele. pode ser que tudo fosse um sonho. como estas. que desmentiriam a hipótese do tenor italiano. A verdade que Capitu. nem a língua humana possui formas idôneas para tanto. onde era o nosso ninho de noivos. morto de esperar. antes que o leitor pegue em si. e herdeiras convosco da graça da vida. à maneira de uma ópera de Wagner. S.” Quanto às de S. o céu recolheu a chuva e acendeu as estrelas. Foi grande fineza e não foi única. CAPÍTULO 102 DE CASADA Imagina um relógio que só tivesse pêndulo. que eu era a única renda e o único enfeite que jamais poria em si. Não seja o adorno delas o enfeite dos cabelos riçados ou as rendas de ouro.” Em seguida. A música ia com o texto. e vá espairecer a outra parte. e eles entoaram um trecho do cântico. mas o homem que está escondido no coração. que tem as chaves do céu. decorou algumas palavras. mas era no céu. sem mostrador. Ao que eu repliquei que a minha esposa teria sempre as mais finas rendas deste mundo. por exemplo: “Sentei-me à sombra daquele que tanto havia desejado.. fez sinal aos anjos. Pedro. por sinal que chovia.CAPÍTULO 101 NO CÉU Pois sejamos felizes de uma vez. visitamos uma parte daquele lugar infinito. como se houvessem nascido juntos. casemo-nos. tão concertadamente. e depois de tocar-nos com o báculo. fez-nos entrar. Pedro.. vós. tratando-as com honra.. Do mesmo modo. Foi em 1865. de maneira que não se vissem as horas escritas.. mas ainda as que só serão descobertas daqui a muitos séculos... não só as já conhecidas. como a vasos mais fracos. uma tarde de março. coabitai com elas. que não sabia Escritura nem latim. disse-me no dia seguinte que estava por tudo. O pêndulo iria de um lado para outro mas nenhum sinal externo mostraria a marcha do tempo. Tal foi aquela . Depois. Quando chegamos ao alto da Tijuca. Ao cabo. nada mais natural a um ex-seminarista que ouvir por toda a parte latim e Escritura.

creio que eles podem estar desejosos de. e o braço para andar na rua. Dona Capitolina. mas as manhãs marcadas eram sempre de chuva ou de sol. Perguntei-lhe se já estava aborrecida de mim. tornávamos ao passado e divertíamo-nos em relembrar as nossas tristezas e calamidades.Pois vamos amanhã. ver-nos e imaginar alguma doença. digo isto porque é realmente assim. parando. . depois de uma longa paixão de crianças.semana da Tijuca. muitos voltavam a cabeça curiosos. Uma ou outra vez. pela minha parte. Bentinho. as famílias residem em Mata-cavalos. disto e daquilo. redargüiu rindo. . Então eu esperei tantos anos para aborrecer-me em sete dias? Não. e o ar de casada com que me deu a mão para entrar e sair do carro. outros paravam. que queria ver papai. Não obstante. mas ia falando do pai e de minha mãe. e ríamos de José Dias que conspirou a nossa desunião. e acabou festejando o nosso consórcio. Peguei-lhe no riso e na palavra. a denúncia que está nos primeiros capítulos.Você há de ser sempre criança. que teimava em não vir.Não. há de ser com tempo encoberto. Inventava passeios para que me vissem. da falta de notícias nossas. . pisando as ruas com ela. mas a impaciência continuou. Concordava em ficar. que casou há dias com aquela moça. falávamos em descer. senti a mesma coisa. a ponto que nos arrufamos um pouco. disse ela fechando-me a cara entre as mãos e chegando muito os olhos aos meus. . mas isso mesmo era um modo de não sairmos de nós. E quando eu me vi embaixo. precisava do resto do mundo também. os anos da adolescência. moram na Glória. tudo me mostrou que a causa da impaciência de Capitu eram os sinais exteriores do novo estado. me confirmassem e me invejassem. A alegria com que pôs o seu chapéu de casada. e.Eu? . olhando. e nós esperávamos um dia encoberto. Na rua. achei que Capitu estava um tanto impaciente por descer. e descemos com sol. confesso. falando. De quando em quando.” E ambos os dois: “A uma mocetona!” . alguns perguntavam: “Quem são?” e um sabido explicava: “Este é o Doutor Santiago.Parece. Não lhe bastava ser casada entre quatro paredes e algumas árvores. Assim vivemos novamente a nossa longa espera de namorados.

Escobar e eu a do seminário. mas palavras que eram músicas verdadeiras. Um dia. desde a tarde de 1858. Eu era advogado de algumas casas ricas. as nossas relações de família estavam previamente feitas. Em tempo ouvi falar de uma aventura do marido. não as ponho aqui para ir poupando papel. Agora que penso naqueles dias de Andaraí e da Glória. e o céu agora mais largo para poder contê-las também. Perdera meu sogro. comparou-nos a aves criadas em dois vãos de telhados contíguos. e o tio Cosme estava por pouco. Eles moravam em Andaraí. Foi a única pessoa cá de baixo que nos visitou na Tijuca. Tudo corria bem.CAPÍTULO 103 A FELICIDADE TEM BOA ALMA Mocetona é vulgar. e. íamos sempre muito cedo. e os processos vinham chegando. não sei que atriz ou . Escobar contribuíra muito para as minhas estréias no foro. A felicidade tem boa alça. negócio de teatro. Escobar e a mulher viviam felizes. Interveio com um advogado célebre para que me admitisse à sua banca. e só nos separávamos às nove.. esquecendo tudo. para gozarmos o dia compridamente. salvo o desgosto grande de não ter um filho.. mas foram deliciosas. Ao fim de dois anos de casado. não podendo ser tantas como desejávamos. Sancha e Capitu continuavam depois de casadas a amizade da escola. tinham uma filhinha. CAPÍTULO 104 AS PIRÂMIDES José Dias dividia-se agora entre mim e minha mãe. Demais. levando abraços dos nossos e palavras suas. logo depois do almoço. íamos lá jantar alguns domingos. e arranjou-me algumas procurações. tudo espontaneamente. Nenhum de nós riu. ou eles vinham fazê-lo conosco. tudo corria bem. quando não podia ser mais. aonde que riam que fôssemos muitas vezes. sinto que a vida e o resto não sejam tão rijos como as Pirâmides. mas a saúde de minha mãe era boa. dez e onze horas. alternando os jantares da Glória com os almoços de Mata-cavalos. Imagina o resto. Jantar é pouco. José Dias achou melhor. é verdade. ambos escutávamos comovidos e convencidos. as aves emplumando as asas e subindo ao céu. a nossa excelente.

eu contava a Capitu a história da cidade. mas pouco e raro. aprendeu depois de casada. A nossa vida era mais ou menos plácida. . As vezes. o marido trabalhador. como as outras moças. e enfeitava-se com amor quando ia a um baile.Homem. era como um pássaro que saísse da gaiola. que eram então de menina. replicou-me: . . tudo corria bem. outras dava-lhe notícias de astronomia. mas provavelmente estariam ainda no mármore. se eram nascidos. Não sabendo piano. Conversava mal . nos primeiros tempos. e melhor será que fiquem no céu. se for necessário. De dançar gostava. os braços é que.bailarina. Sancha era modesta. a ponto que me encheram de desvane acontecimento. Eram os mais belos da noite. CAPÍTULO 105 OS BRAÇOS No mais.Virá. donde vieram. e depressa. e. Deus os dará quando quiser. mas se foi certo. e se não der nenhum é que os quer para si. agora pagava antecipadamente. também cantava. nem os seus. ou se não íamos a algum espetáculo ou serão particular (e estes eram raros) passávamos as noites à nossa janela da Glória. Quando não estávamos com a família ou com amigos. ou nas mãos do divino escultor. Na Glória era uma das nossas recreações. notícias de amador que ela escutava atenta e curiosa. e um dia afligiu-se tanto que prometi não comprar mais nenhuma. Eram belos. Não vinha. leitora. mas foi só por pouco tempo. a sombra das montanhas e dos navios.. Como eu um dia dissesse a Escobar que lastimava não ter um filho. não queria que eu lhe comprasse muitas nem caras. e na primeira noite que os levou nus a um baile. Arranjava-se com graça e modéstia. Os braços merecem um período. Capitu pedia-o em suas orações. não creio que houvesse iguais na cidade. um dia chegou a entender que era melhor não cantar nada e cumpriu o alvitre.Uma criança. por não ter voz.. Capitu gostava de rir e divertir-se. um filho é o complemento natural da vida. Embora gostasse de jóias. como os aluguéis da casa. eu mais de uma vez dava por mim a rezar e a pedi-lo. ou a gente que passava na praia. nem sempre tanto que não cochilasse um pouco. quando íamos a passeios ou espetáculos. mirando o mar e o céu. e daí a pouco tocava nas casas de amizade. deixa lá. Já não era como em criança. não deu escândalo.

de os buscar. hão de chamar-nos seminaristas. por exemplo. lá não foi assim no segundo baile. os últimos que usou antes de calçar botinas. .Qual Sírius. só para vê-los. gostava de ouvir falar e fazer assim. Minha mãe. que tinha o mesmo gênio. e não só de dinheiro mas também de coisas usadas. Ela sorriu e respondeu que os braços de Sanchinha eram mal feitos. Nem por isso deixei de contar a Capitu a aprovação de Escobar. como o cendal de Camões. dizendo-me que eram pedaços de criança. .. Capitu. ou fica dito agora. Uma noite perdeu-se em fitar o mar. . dessas que se guardam por tradição. uns sapatinhos rasos de fitas pretas que se cruzavam no peito do pé e princípio da perna. e basta. Uns sapatos. por lembrança ou por saudade. o contrário parece-me indecente. mas levou-os meio vestidos de escumilha ou não sei que. à Praia da Glória. ou irá de mangas compridas. e que roçavam por eles as mangas pretas. com outras velharias..Sanchinha também não vai. fiquei vexado e aborrecido. quase de os pedir. Sabes que alguma vez a fiz cochilar um pouco. . Capitu já me chamou assim.você falava de Sírius. quando vi que os homens não se fartavam de olhar para eles.Eu? Ouço perfeitamente.O que é que eu dizia? .Não é? Mas não diga o motivo. Há vinte minutos que eu falei de Sírius.Você não me ouve. direi um caso. nesse. concordou logo comigo. a quem confiei candidamente os meus tédios. . que nem cobria nem descobria inteiramente.Você. por mais que eles se entrelaçassem aos das casacas alheias. e não foi ao baile. CAPÍTULO 106 DEZ LIBRAS ESTERLINAS Eu já disse que era poupada. que me deu ciúmes. . e aqui tive o apoio de Escobar. mas cedeu depressa. Capitu. Quanto às puras economias de dinheiro. Ao terceiro não fui. com tal força e concentração. trouxe-os para casa.com as outras pessoas. a outros foi. Foi justamente por ocasião de uma lição de astronomia. . e tirava-os de longe em longe da gaveta da cômoda.

na mão.Quem foi o corretor? . Ergueu-se.. Tive vontade de gastar o dobro do ouro em algum presente comemorativo.Ele esteve cá? . ficou espantada: “Como é que Capitu pode economizar. sobre o joelho.São suas. e disse-lhe a razão do segredo. e ri-me do segredo de ambos. e dava a diferença que ela buscava. . .Tudo isto? . . mas é claro que só apanhara o som da palavra. Escobar sorriu e disse-me que estava para ir ao meu escritório contar-me tudo. sei que arranjou dez libras. era de Marte. Ao contrário. não o sentido.O seu amigo Escobar. dez libras só.. Capitu fitou-me rindo. já então com papel e lápis.Não é muito. . fez-se a mais mimosa das criaturas. Capitu. ao percebê-lo. No dia seguinte.” . emendou ela apressada. eram as sobras do dinheiro que eu lhe dava mensalmente para as despesas. . eu não disse para que você não desconfiasse. A princípio supus que era um recurso para desenfadar-me. . concluiu ele.Falava de. e replicou que a culpa de romper o segredo era minha. e o ímpeto que me deu foi deixar a sala.Foi hoje mesmo.Pois você guarde-as. mas daí a pouco estava eu mesmo calculando também. foi ao quarto e voltou com dez libras esterlinas. começou-me na mão. Realmente. confessou-me que estivera contando. agora que tudo está tão caro?”.“Não sei. respondi. A cunhadinha (continuava a dar este nome a Capitu) tinha-lhe falado naquilo por ocasião da nossa última visita a Andaraí. é o que a avarenta de sua mulher pôde arranjar.Pouco antes de você chegar. isto é.São nossas. Tratava-se de uma conversão de papel em ouro.. em alguns meses. falava de Marte. emendou. . mas Capitu deteve-me. concluiu fazendo tinir o ouro na mão. filha. fui ter com Escobar ao armazém. . Fiquei sério. .Mas que libras são essas? perguntei-lhe no fim.Como é que ele não me disse nada? . somando uns dinheiros para descobrir certa parcela que não achava.Quando contei isto a Sanchinha. consultou-me sobre o que havíamos de fazer daquelas libras.

A verdade é que fiquei mais amigo de Capitu. com pouco derrubaria tudo. mas curtos.Marte está a distancia de. mas também não poupada. Eu. dez minutos. Assim pensarias m também. simples palavra. um terço. o ar mais brando. Deus sabe quando. orgulho ou consolação. É sabido que as distrações de uma pessoa podem ser culpadas. mas não é por isso que torno a ela. não fora ou acima dela. mas com o mesmo pouco ou menos reconstruiria o céu. Dez minutos depois.Não creio. ao piano ou à janela. as noites mais claras. é para que não cuides que a vaidade de professor é que me fez padecer com a desatenção de Capitu e ter ciúmes do mar. como quem sentia não poder dizer o mesmo da mulher. aceno. Não é mister pecado efetivo e mortal. e Deus mais Deus. Foi isto que me fez empalidecer.Capitu é um anjo! Escobar concordou de cabeça. um quinto. A recordação de uns simples olhos basta para fixar outros que os recordem e se deleitem com a imaginação deles. mas a astronomia tem dessas confusões. continuando a lição interrompida: .. pois que em matéria de culpa a graduação é infinita.. Os meus ciúmes eram intensos. mas sem entusiasmo.. nem papel trocado. leitor. provavelmente. e tu sabes. Não. nem o . mas só chega. o que lhe dou chega. um décimo de culpadas. CAPÍTULO 107 CIÚMES DO MAR Se não fosse a astronomia. estaria eu outra vez na sala. . dez minutos depois. meu amigo. E não foram propriamente as dez libras esterlinas que fizeram isto. depois de alguns instantes de reflexão: .Vê se ela aprende também. Um anônimo ou anônima que passe na esquina da rua faz com que metamos Sírius dentro de Marte. Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher. metade culpadas. ela ainda mais meiga. a diferença que há de um a outro na distancia e no tamanho. se era possível. calar e querer fugir da sala para voltar. não descobriria eu tão cedo as dez libras de Capitu. suspiro ou sinal ainda mais miúdo e leve. tão pouco tempo. a terra e as estrelas. Tão pouco tempo? Sim. Sanchinha não é gastadeira. tão certo é que as virtudes das pessoas próximas nos dão te ou qual vaidade.

Escobar também se me fez mais pegado ao coração. não sei dizê-la. um triste menino que fosse. As nossas visitas foram-se tornando mais próximas. A pequena era graciosa e gorducha. amarelo e magro. com os olhos a observá-lo. mas pensadas ou deliradas a cada instante. Não era escasso nem feio. e nós. Talvez perdi algumas causas no toro por descuido. a mirá-lo. e as nossas conversações mais íntimas. e por que é que eu estava tão inteiramente nele.. mas as cautelas que Capitu empregou para o fim de descobrir-me um dia o cuidado de todos os dias. quando voltávamos à noite para a Glória. ficávamos cheios de invejas. e a nossa constância e o nosso amor fizeram que chegasse a ser. do nosso passado e do nosso futuro. mas um rapagão robusto e lindo. um filho próprio da minha pessoa.. visto que lhe deram o mesmo nome à pia. ou que de longe ou de perto se pareça com ela. e várias outras tolices sem palavras. Quando eu via o meu filho chupando o leite da mãe. nem em casa para não afligir Capitu convalescente. Também não caía. CAPÍTULO 108 UM FILHO Pois nem tudo isso me matava a sede de um filho. Capitu não era menos terna para ele e para mim. e pedindo mentalmente ao céu que no-las matasse. vínhamos suspirando as nossas invejas. mas que o nosso destino afirmou que seria. positivamente não me lembra. conversávamos de nós. e não tardou que viesse ao mundo o fruto delas. mas um filho. as esperanças nasceram. faladeira e curiosa. Dávamos as mãos um ao outro.. e. nunca a tive igual. porque há um deus para os pais novos. Não cantava na rua por natural vergonha. . vivia com o espírito no menino. a perguntar-lhe donde vinha. nem creio que a possa haver idêntica. contavam as travessuras e agudezas da menina. Quando íamos a Andaraí e víamos a filha de Escobar e Sancha. por diferençá-la de minha mulher.sentimento de economia que revelavam e que eu conhecia. em casa. quando não olhávamos para o nosso filho. como os outros pais. como eu já pedia. Foi uma vertigem e uma loucura. As horas de maior encanto e mistério eram as de amamentação. ficava que não sei dizer nem digo. Os pais. e receio que o que dissesse . familiarmente Capituzinha. Fora. A minha alegria quando ele nasceu. e toda aquela união da natureza para a nutrição e vida de um ser que não fora nada..As invejas morreram.

A amizade existe. mas parece que esta era mais de aborrecer que de matar.Lembra-me. Assim que. jantava conosco. também interrogava o futuro. não é preciso contar a dedicação da minha mãe e de Sancha. Eu ainda tentei espaçar a cerimônia a ver se tio Cosme sucumbia primeiro à doença. Era minha idéia que Escobar fosse padrinho do pequeno. que batia com grande força. antes que a minha doença me leve de vez. meti-o em várias universidades e bancos. fora tratá-la à Rua dos Inválidos. e cri que me saísse orador. mas Escobar. velhaco. Escusai minúcias.. que também foi passar com Capitu os primeiros dias e noites. Chegou a falar da hipótese de casar o pequeno com a filha. Contei discretamente a anedota a Escobar. voltando-se para mim: . esteve toda nas mãos com que apertei as de Escobar. . para que ele me compreendesse e desculpasse. Mas a primeira parte se trocou por intervenção do tio Cosme. e foi.Eu virei jantar com vocês. e às noites sigo para Andaraí. riu-se e não se magoou.Não desisto do favor. Não houve remédio senão levar o . estas vieram depois. E. . e até aceitei a hipótese de ser poeta. a madrinha devia ser e seria minha mãe. Escobar acompanhava muita vez as minhas criancices. respondeu me que eu não tinha nada com isso. e propus que os encaminhássemos a este fim. ninguém diria o que veio a se Demóstenes. redargüia Escobar. fazendo ele os seus cálculos. e ia-se à noite. de atropelo. em solteira. não sei se ainda há tal linguagem. Eu via o meu filho médico. Fez mais. Quis rejeitar o obséquio de Sancha. mas deve haver. .Também você. Hoje. ao ver a criança. que me recolhi à minha casmurrice. afinadas pelo coração. que.Pode ser. Bem se vê que você é pai de primeira viagem. Sobre tarde descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público. e está tudo passado. pela educação igual e comum. oito dias. negociante. advogado. toma a bênção a teu padrinho.Não se lembra que o senhor foi lá vê-la? . . disse-lhe entre outros carinhos: . eu os meus sonhos. Aceitei a lembrança.Anda.me saísse escuro. pela infância unida e correta. e há de ser depressa o batizado. e grande orador. ao ouvir-lhe isto. A possibilidade de político foi consultada. quis que o almoço do batizado fosse na chácara dele.onde está a segunda? Usávamos então estas graças em família. e na total ausência de palavras com que ali assinei o pacto. Escobar cumpriu o que disse.. também Capitu.

um só e único. toda a existência comum das crianças. mas também os apóstolos não levam a boa doutrina senão depois de a terem toda no coração. segundo cumpria e urgia. não menos que de doce. certo nem incerto. e fazem-se ainda assim completas e acabadas. não o fazia antes de farto deles. Ezequiel não parecia desmentir os meus sonhos da Praia da Glória. Agora.menino à pia. e nisto fazia lembrar a mãe. metia-se às vezes consigo. se considerares que ele foi único. e que sustos nos meteram as crises dos dentes e outras. que nada entendem. se lhes não relata tudo e o resto. Escobar. Gostava de música. e eu quis suprir deste modo a falta de compadrio. a menor febrícula. agitava-se todo e instava por ir persuadir às vizinhas que os doces que eu lhe trazia eram doces deveras. e eu disse a Capitu que lhe . desde pequena. os sonos que nos tirou. onde se lhe deu o nome de Ezequiel. mas há leitores tão obtusos. ou quase todas. já inquietos. morto nem vivo. era o de Escobar. há vidas que os têm menos. quando acabou era cristão e católico. Assim também. como se quisessem namorar todas as moças da vizinhança. quando os pais lhe trouxessem doces. CAPÍTULO 110 RASGOS DA INFÂNCIA O resto come-me ainda muitos capítulos. bom negociante. adivinhavam-se nele todas as vocações possíveis. no sentido de homem que pensa e cala. não era ainda gerado.ao contrário. CAPÍTULO 109 UM FILHO ÚNICO Ezequiel. imaginarás os cuidados que nos deu. Vamos ao resto. talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado. opinava que a causa principal desta outra inclinação. desde vadio até apóstolo. que nenhum outro veio. A tudo acudíamos. e anunciava-me que o fana seu sócio. um rapagão bonito. Este outro é destinado a fazer chegar o meu Ezequiel aos cinco anos. Aos cinco e seis anos. com os seus olhos claros. quando começou o capítulo anterior. e ria-se da própria graça. coisa que não era necessário dizer. Vadio é aqui posto no bom sentido.

quando estudante. e não achei tréplica.Estou vendo. que ainda se lembrará das palavras. é porque é pintado.Mas então por que é que ele se pintou? .. O que nem todas fazem é ter os olhos que esta tinha.Olha. mas cavalos de pau e espada à cinta eram com ele. Nunca lhe dei oratórios. e que ele corria a ver.Lembra-me de um preto que vendia doce. papai.Nem das palavras? . tanto mais que lhe lembrarão ainda as vozes da sua infância e adolescência haverá olvidado algumas.ela teclou as dezesseis notas. Em nenhuma vi as ânsias de gosto com que assistia à passagem da tropa e ouvia tocar a marcha dos tambores. . Expliquei-lho. Ezequiel aproveitou a música para pedir-me que desmentisse o texto dando-lhe algum dinheiro. com o pedacinho de papel na mão. Fiz.Não diga isso. Já não falo dos batalhões que passavam na rua. outro de espada alçada. e eu guardei o papelinho. pedi a um professor de música que me transcrevesse a toada do pregão. mas nem tudo fica na cabeça.. e todos os seus amores iam para o de espada alçada. Daí a pouco interrompi um romance que ela tocava. um soldado caído. gravuras de batalhas que ele mirava por muito tempo.Olha o comandante! Olha o cavalo do comandante! Olha os soldados! Um dia amanheceu tocando corneta com a mão. às tardes. querendo que lhe explicasse uma peça de artilharia. Um dia (ingênua idade!).contou ao filho a história do pregão. papai! olha! .Meu filho. . perguntou-me impaciente: . Fazia de médico de militar. quase delicioso. o que ela não esperava.dei-lhe uma cornetinha de metal. Comprei-lhe soldadinhos de chumbo. todas as crianças o fazem. . e assim o cantava e teclava. . A leitora.Mas. ele o fez com prazer (bastou-me repetir-lho de memória).Não me lembra. ficará espantada de tamanho esquecimento. .. mas não sei mais da toada. Assim me replicou Capitu. você não se lembra daquele preto que vendia doce. corri aos meus papéis velhos.. de ator e bailarino. porém.tirasse ao piano o pregão do preto das cocadas de Matacavalos. Em São Paulo. fui procurá-lo. por que é que ele não deixa cair a espada de uma vez? . dado que me tenha lido com atenção. meu filho! . .Nem das palavras. Capitu achou à toada um sabor particular.

Ri-me do engano e expliquei-lhe que não era o soldado que se tinha pintado no papel. sem interesse nem graça. Tais são os principais rasgos da infância: mais um e acabo o capítulo Um dia. os que amam a natureza como ela quer ser amada. era um gato e um rato. esperneando. dispôs-se a correr. teve graça. deteve-se. O gato. Ao vê-lo assim atento. não acham nela nada inferior. papai! . .as pernas mal se lhe moviam e desordenadamente. CAPÍTULO 111 CONTADO DEPRESSA Achei-lhe graça. Ezequiel ficou abatido. O único rumor eram os últimos guinchos do rato. e ficou olhando.Vão ver que é o gato que apanhou algum rato. o instante foi curto. perguntamos-lhe de longe o que era. 0s outros nem tiveram tempo de atalhar-me. lance banal. e o meu pequeno enlevado. e tive de explicar também o que era gravador e o que era gravura: as curiosidades de Capitu. O gato nem deixava a presa. o menino. e o silêncio não podia ser maior. mas eu queria ver. Efetivamente. não desamo o gato. dos sucessos ocorridos. bati palmas para que o gato fugisse. não só por significar a totalidade do silêncio. Os dois riram-se. e da tal ou qual simpatia ao rato que acho em mim. acocorou-se. que é o diabo. um rói-me os . Um tanto aborrecido. mas o gravador. mas também porque havia naquela ação do gato e do rato alguma coisa que prendia com ritual. mas aqui a ponho outra vez. acompanhei-os. De resto. fez-nos sinal que nos calássemos. . fez-nos outro sinal de silêncio. na chácara de Escobar. Os ratos continuam a infestar-me a casa. em suma. deu com um gato que tinha um rato atravessado na boca. nem via por onde fugisse. Vamos ver Capitu quis também ver o filho. Em verdade. mas vi que são incompatíveis. e o gato fugiu. Já pensei em os fazer viver juntos. Escobar concluiu: . Amo o rato. apesar do tempo passado. logo que sentiu mais gente. aliás frouxíssimos. A única circunstancia particular era estar o rato vivo. risquei a palavra. Ia dizer religioso. sem tirar-lhe os olhos de cima.Ora.Pois sim. sem repúdio parcial nem exclusões injustas. eu mesmo achei-lhe graça. Ezequiel não disse nada.Que foi? A esta hora o rato está comido. e não lhe nego ainda agora. Não me pesa dizê-lo.

Não comporia bolas envenenadas. Contarei o caso depressa. eu só lhe descubro um defeitozinho gosta de imitar os outros. . disse-me ela um dia. assobiando e dando estalinhos com os dedos. outro o queijo. foi-se calando. já lhe achei até um jeito dos pés de Escobar e dos olhos. comprei veneno. e ia deitar-lhe uma delas. repliquei. que gostamos da paz. Como eu continuasse. quando aquele riso especial. CAPÍTULO 112 AS IMITAÇÕES DE EZEQUIEL Tal não faria Ezequiel. e três cães na rua latiam toda a noite.. mandei fazer três bolas de carne. a mãe estava com febre. Ao leitor pode parecer que foi o cheiro da carne que remeteu o cão ao silêncio. Quando eles me viram.Sim não sairá maricas. mexendo a cauda. O diabo ainda latiu. E se tivesse um pau. .Imitar como? . devagar. Agora reparava que realmente era vezo do filho. e disse afinal que era preciso emendá-lo. mas não as recusaria também. que é o seu modo de rir deles.livros. os modos. mas não é muito que eu lhes perdoe. . afastaram-se. era uma hora. saí. um ficou a curta distancia. até que se calou de todo. Então resolvi matá-los. a pedrada. mas fiado nos sinais de amizade. imita José Dias. ele veio a mim. confiança ou o que quer que seja. e foi como se procurasse o leitor. O que faria com certeza era ir atrás dos cães. me atou a vontade. Foi quando nasceu Ezequiel. A conclusão é que se livrou. Fui-me a ele. como que esperando. eu tinha já na mão as bolas envenenadas. Procurei o fiscal. até onde lhe dessem as pernas. carinho.. mas papai em moço era assim também. . suponho. e entregou-se-me. tocado de pena e guardei as bolas no bolso. imita prima Justina. Não digo que não. Capitu deixou-se estar pensando e olhando para mim. eu cuido que ele não me quis atribuir perfídia ao gesto.Não sai a nós. Capitu morria por aquele batalhador futuro. dois desceram para o lado da Praia do Flamengo. e eu mesmo inseri nelas a droga. iria a pau. nem a doente. nem a enfermeira podiam dormir. que só agora sabe disto. De noite. com a bulha dos cães. se já perdoei a um cachorro que me levou o descanso em piores circunstancias. as atitudes. mamãe é que contava.Imitar os gestos. Sancha vivia ao pé dela. fiquei assim não sei como.

Também não vamos mortificá-lo. tão cheios de graça que pareciam (velha imagem!) um colar de flores. quando se zangava com alguém.. ninguém quer saber de modelo. e para que não fosse mais longe.. continuei. Continuei. e a obra é que fica. . . um par de valsa. Eu fiz o mesmo aos meus. nenhuma receberia a mínima parte do amor que tinha a Capitu. . é certo. e apenas se pintarão. mas eu não gosto de imitações em casa. concordo. qualquer homem. a tal ponto que o menor gesto me afligia. tendo aliás confessado a princípio as minhas aventuras vindouras. CAPÍTULO 113 EMBARGOS DE TERCEIRO Por falar nisto. e não há ver sem mostrar que se vê. vingança de menino. nós saberíamos que éramos nós. mas eram ainda vindouras. um dia) é ver também. uma insistência qualquer. .Sim. por mais mulheres bonitas que achasse. me enchia de terror ou desconfiança. . a mais ínfima palavra. Você também não era assim. A resposta de Capitu foi um riso doce de escárnio. muita vez só a indiferença bastava.Há. vou ver. e senti não haver ali um escultor que nos transferisse a atitude a um pedaço de mármore. Um vizinho. Naquele tempo. Só brilharia o artista. como sucede a muitas pessoas grandes. senhor. um desses risos que não se descrevem. que tomam as maneiras dos outros. e não digo nada sobre eles. A minha própria mãe . Sim. é natural que me perguntes se.. Cheguei a ter ciúmes de tudo e de todos.Quando me zangava. e foi naturalmente por não achar da minha parte correspondência aos seus afetos que me explicou daquela maneira os seus olhos teimosos. Não importa. É certo que Capitu gostava de ser vista.mas parecia-lhe que era só imitar por imitar. Outros olhos me procuravam também. não muitos. Quando uma pessoa ou um grupo saem bem. A senhora que me disse isto cuido que gostou de mim. mas da obra..E naquele tempo gostavas de mim? disse eu batendo-lhe na face. sendo antes tão cioso dela. moço ou maduro. depois estirou os braços e atirou-mos sobre os ombros. Sempre há tempo de corrigi-lo. e o meio mais próprio a tal fim (disse-me uma senhora. não continuei a sê-lo apesar do filho e dos anos.

o que me fez desconfiar que mentia. . e o tabelião divino sabe as coisas que se juram em tais momentos. Capitu estava melhor e até boa.. disse ela estendendo tragicamente o braço. e não vale a pena de um capítulo. foi em momento de grande ternura. mas já agora falaria depois. mas não bem explicado. que ficara doente. só me lembra que fosse duas vezes sem ela.A cunhadinha está tão doente como você ou eu. disse-me ele. 110 ) a um professor de música de São Paulo que me escrevesse a toada daquele pregão de doces de Mata-cavalos.Queixava-se da cabeça e do estômago. vou-me embora. Vinha para aquele negócio dos embargos. a matéria é chocha. desces.Você jura? . Confessou-me que apenas tivera uma dor de cabeça de nada. e uma estréia de ópera.. falemos já. ela pode estar melhor. sobe. Em si. Expliquei-lhe que tinha saído para o teatro donde voltara receoso de Capitu. estava ainda no seminário. Expliquemos o explicado. para me não meter medo. e. Capitu era tudo e mais que tudo. CAPÍTULO 114 EM QUE SE EXPLICA O EXPLICADO Antes de ir aos embargos.Então. não vivia nem trabalhava que não fosse pensando nela. Escobar sorriu e disse: . . a que ela não foi por ter adoecido. mas agravara o padecimento para que eu fosse divertir-me. . Não falava alegre. expliquemos ainda um ponto que já ficou explicado.Não. Eram uns embargos de terceiro. mas quis por força que eu fosse. senão agradáveis. um benefício de ator. Encontrei Escobar à porta do corredor. tendo ele jantado na cidade. .Juro. Ao teatro íamos juntos. . ele que as registra nos livros eternos.Doente de quê? perguntou Escobar.. mas voltei no fim do primeiro ato. . quanto mais dois. não quis ir para casa sem dizer-me o que era.não queria mais que metade. ocorrera um incidente importante. mas jurou que era a verdade pura. Se estiver pior.. saí. Era tarde para mandar o camarote a Escobar. Aproveitei o gesto para beijar-lhe a mão. Vamos aos embargos. . Capitu e eu tínhamos jurado não esquecer mais aquele pregão. mas há matérias tais que trazem ensinamentos interessantes. Viste que eu pedi (cap.Vinha falar-te.

.Tomaremos depressa. querendo um dia relembrar a toada.. . Não confudam purgatório com inferno. um jeito uma graça toda sua. Foi para não faltar ao juramento que fiz isto. que me fez o obséquio de a escrever no pedacinho de papel. como se cuidasse que eu recusava a circunstancia nova para forrar-me a escrevê-la. . Ao certo.Quando fui para São Paulo. naquela noite da Glória.Então vale alguma coisa.Nada? . mas a alguém que tenha mais temor a Deus que aos homens não lhe importará mentir. que não valia nada. e este é que foi o meu pecado. Faltar ao compromisso é sempre infidelidade. Durante ele. isto é. ela as desfez com a arte fina que possuía. Tomamos depressa.É tarde para tomar chá. mas tal suspeita não ia com a nossa amizade. . consegui recordá-la e corri ao professor. quanto mais contá-los. referi as minhas dúvidas a Capitu. que empresta sobre todas as virtudes. Mas hás de crer que quando corri aos papéis velhos. CAPÍTULO 115 DÚVIDAS SOBRE DÚVIDAS Vamos agora aos embargos. esquecer. que é o eterno naufrágio. a juro alto e prazo curto. é profundamente moral. Coisas futuras! Portanto.. . também não me lembrava já da toada nem do texto? Fiz-me de pontual ao juramento. Mas os prazos renovam-se. uma vez ou outra. . Purgatório é uma casa de penhores. Quando ele saiu. a nossa constituição política. Escobar olhava para mim descer fiado. qualquer esquece. Acabou com um pecado terrível.Para reforçar as razões que já temos vale menos que o chá que você vai tomar comigo.Quase nada. transferindo o juramento à afirmação simples. vi que a ia perdendo inteiramente. capaz de dissipar as mesmas tristezas de Olímpio. ninguém sabe se há de manter ou não um juramento. E por que iremos aos embargos? Deus sabe o que custa escrevê-los. até que um dia uma ou duas virtudes medianas pagam todos os pecados grandes e pequenos. Da circunstancia nova que Escobar me trazia apenas digo o que lhe disse então. desde que não mete a alma no purgatório.

é que está impressionado com a demanda.Quem sabe se não anda doente? . coisas de sogra.. da política.. não quero falar dos olhos molhados. Mas nada de melancolias. Em lhe faltando o neto.. prima Justina da vizinhança. concluiu. viemos por ali a pé. Também não era diferente da costumada. via no alto da escada. . Palavra puxa palavra. Pouco entrou na conversação. ou de José Dias. mas quando eu subia. coaxavam dentro de mim. Disse-lhe que começava a achar minha mãe um tanto fria e arredia com ela. da Europa e da homeopatia. Dali em diante foi cada vez mais doce comigo. . ela torna a ser o que era.Vamos nós jantar com ela amanhã? .Tens razão. à escolha. falei de outras dúvidas. lá vinha um dia e mudavam.era uma espécie de mocidade qüinquagenária ou de ancianidade viçosa. como verdadeiras rãs.Vamos. nós o havíamos acostumado a ver o ósculo da chegada e da saída. risonha como toda a nossa infância. quando este saía da sala. não me ia esperar à janela. logo que eles passem e as saudades aumentem. Mamãezinha tem ciúmes de você. Capitu novamente me aconselhou que esperássemos..Seria o negócio dos embargos. à entrada e à saída. Ezequiel às vezes estava com ela. Eu era então um poço delas.. Já lhe podia chamar assim.. Não.. e ele que veio até aqui. Quando voltamos. Sogras eram todas assim. mamãe não lhe faz as mesmas graças. recrudescia de ternura. falando das minhas dúvidas. e o rosto estivesse comparativamente fresco. e ele enchia-me a cara de beijos. . Pois aqui mesmo valeu a arte fina de Capitu. Fomos jantar com a minha velha. entre as grades da cancela. José Dias falou do casamento e suas belezas. a ponto de me tirarem o sono algumas vezes. CAPÍTULO 116 FILHO DO HOMEM . . posto que os seus cabelos brancos não o fossem todos nem totalmente..Mas eu tenho notado que já é fria também com Ezequiel Quando ele vai comigo.Já disse a você o que é. tio Cosme das suas moléstias. Pois vamos. a cara deliciosa da minha amiga e esposa. Ao passo que me falava. para não espertar-me os ciúmes. à noite.. a esta hora.

nem podia haver coisa nenhuma.São os modos de dizer da Bíblia. replicou ela com aspereza. como soube depois) e perguntava-lhe: “Como vai isso.Mas tem muita graça. por que é que não nos visita há tanto tempo? ..Não. a arrenegar deste casamento. como os das mãos e pés de Escobar. entro também no coro. ultimamente. e não a frieza quando íamos nós a Mata-cavalos. . filho do homem. .Mas. ficou espantado. . Este ano tem feito muito frio. atalhou Capitu. José Dias pediu para ver o nosso “profetazinho” (assim chamava a Ezequiel) e fez-lhe as festas do costume.. filho do homem?” “Dize-me. era duro confessar que ele foi uma verdadeira bênção do céu. Vamos. pequenino. ao pé do irmão. que andava o dia inteiro. até .Apalpei José Dias sobre as maneiras novas de minha mãe.Que filho do homem é esse? perguntou-lhe Capitu agastada. já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros.Tem razão....Não.. agora é obrigada a estar quieta. que lá tem o seu mal. enquanto não nos conhecíamos.Perfeitamente! . mas a princípio ficava envergonhadíssimo. Outro dia chegou a fazer um gesto de Dona Glória. O pai é que nos separou um pouco. como é que eu ando? . Imagine a aflição dela. meu anjo? Meu anjo. quando os ouço. filho do homem?” . disse eu. Não havia nada.” . Para quem chegou. a mim. quando ele copia os meus gestos. Quis observar-lhe que tal razão explicava a interrupção das visitas.Pois eu não gosto deles. . Que digna senhora nos saiu a criança travessa de Mata-cavalos. onde estão os teus brinquedos?” “Queres comer doce. Pois. Tu como vais.. sim.Creio que tem andado mais achacada dos seus reumatismos. . Você não imagina como a Bíblia é cheia de expressões cruas e grosseiras. mas não estendi tão longe a intimidade do agregado. quando Dona Glória elogia a sua nora e comadre.Então mamãe?.. como eu. senhor. concordou o agregado. Ezequiel. tão bem que ela lhe deu um beijo em paga.. Eu mesmo achava feio tal sestro. Capitu.Agora. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos. Eu falava assim para variar. parece-me que sou eu mesmo. como é que eu ando na rua? . Desta vez falou ao modo bíblico (estivera na véspera a folhear o livro de Ezequiel. .. mamãe não quer. tantos eram os louvores incessantes que ele ouvia “à bela e virtuosa Capitu. mas tudo acabou em bem.

que o repreendeu e chamou a si foi Capitu. Velha é a casa. meio agitado. se eu duvido que o rei dissesse tal palavra nem que ela seja verdadeira. tínhamos por assim dizer uma só casa. dizendo a José Dias: . passei. no sentido de velho e acabado. é bonita. Fazia-me pensar nas duas casas de Mata-cavalos. o ruas antigas! ó casas antigas! ó pernas antigas! Todos nós éramos antigos. quando os portugueses lhe propunham estabelecer ali ao pé uma fortaleza. A primeira pessoa que fechou a cara. quando me deu na gana experimentar se as sensações antigas estavam mortas ou dormiam só. Mas o menino era travesso. Não podemos deixar de rir. Enfim. . e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular.Não quero isso. quando ria. uma rua antiga. eu mais que ninguém. para se não zangarem como as águas do mar que batiam furiosas no rochedo que eles viam dali. como o diabo. e não fez mal. e não é preciso dizer que no mau sentido. porque os sonos. por um modo que hei de contar. acendi um charuto. com o seu muro de permeio. Um historiador da nossa língua. Não sei até se ainda tem o mesmo número. não perto. quando falava.O senhor anda assim. há dias. Capitu ralhava. porque é bonita.apanhara o modo de voltar a cabeça deste. ouviu? CAPÍTULO 117 AMIGOS PRÓXIMOS Já então Escobar deixara Andaraí e comprara uma casa no Flamengo. Provavelmente foi o mesmo escritor que a inventou para adornar o texto. mas pode ser que fosse do mar. Não digo que número é para não irem indagar e cavar a história. morreu pouco depois. não posso dizê-lo bem. Não é que Escobar ainda lá more nem sequer viva.eu vivia na dele. põe na boca de um rei bárbaro algumas palavras mansas. Enquanto viveu. realmente. saltou ao meio da sala. Eu respirava um pouco. quando são pesados. creio que João de Barros.. apenas começamos a falar de outra coisa. e dei por mim no Catete. e o de deixá-la cair. mas não lhe alteraram nada. ele na minha. confundem vivos e defuntos. casa que ainda ali vi. uma vez que estávamos tão próximos. tinha subido pela Rua da Princesa.. Eu creio que o mar então batia na . dizia o rei que os bons amigos deviam ficar longe uns dos outros. a não ser a respiração. Que a sombra do escritor me perdoe.

precisávamos falar de um projeto em família. O certo é que eles se queriam muito. Como eu observasse que podia acontecer com eles o que se dera entre mim e Capitu. O nosso castelo era sólido. Eu expliquei: . nós passávamos as noites cá ou lá conversando. As nossas mulheres viviam na casa uma da outra. a que se pode acrescentar que nem tudo o que dura muito tempo. Os dois pequenos passavam dias. ela pediu-me segredo e revelou-me o que era: uma viagem à Europa dali a dois . Perguntou-me de que é que faláramos. veio ter comigo. Quando o marido saiu. falando-me à janela. e é bom que seja assim.Não. e podiam acabar casados. como ainda o agregado e prima Justina. Foi então que Escobar.Para os quatro? Uma contradança. e Sancha acrescentou que até já se iam parecendo.. ao canto da janela. . longe do coração. leitor. ora na Glória.. CAPÍTULO 118 A MÃO DE SANCHA Tudo acaba. Na véspera tínhamos passado a noite no Flamengo.disse-lhe que de um projeto que eu não sabia qual fosse. não só os dois casais inseparáveis. Seguramente há inimigos contíguos. Esta segunda parte não acha crentes fáceis. para que se não perca o costume daquelas construções quase eternas. ao contrário. desde Ulisses e antes. ora no Flamengo. como é seu costume. um projeto para os quatro. Opinei de cabeça. E o escritor esquecia (salvo se ainda não era do seu tempo) esquecia o adágio: longe dos olhos. Não és capaz de adivinhar o que seja. . dificilmente se despegará da cabeça. mas não acabaram casados. nem eu digo. Nós não podíamos ter os corações agora mais perto.pedra. disse-me que fôssemos lá jantar no dia seguinte. Agora que a comparação seja verdadeira é que não. Tudo podia ser. como me sucedia nas matérias que eu não sabia bem nem mal. jogando ou mirando o mar. é um velho truísmo.Não. Escobar concordou comigo. acharam todos que sim. mas também há amigos de perto e do peito. é porque Ezequiel imita os gestos dos outros. e insinuou que alguma vez as crianças que se freqüentam muito acabam parecendo-se umas com as outras. Sancha não tirava os olhos de nós durante a conversa. mas um domingo. Vem amanhã. a idéia de que um castelo de vento dura mais que o mesmo vento de que é feito.

tornei a falar com os olhos à dona da casa. não se me daria beijá-la na testa. e agora por um movimento invencível. mas o fluido particular que me correu todo o corpo desviou de mim a conclusão que deixo escrita. como eu. Você não imagina o que é um bom mar em hora bravia. e ela me fugisse outrora irritada ou acanhada.. quase suspirando. disse-me a voz de Escobar.. pareciam quentes e intimativos.anos. e estes braços. e ter estes pulmões disse ele batendo no peito. e fiquei incerto. Dali mesmo busquei os olhos de Sancha. e tive-lhes inveja. que eu visse naquele gesto de Sancha uma sanção ao projeto do marido e um agradecimento. .Vamos todos? perguntei por fim.. os olhos de Sancha não convidavam a expansões fraterais. era jarretar a verdade.. Quando saímos. Sancha ergueu a cabeça e olhou para mim com tanto prazer que eu. acresce que sabiam nadar. uns esperando que os outros passassem. e não tardou que se afastassem da janela. Apalpei-lhe os braços. como se fossem os de Sancha. Senti ainda os dedos de Sancha entre os . mas ainda senti outra coisa.Vamos. . E assim posto entrei a cavar na memória se alguma vez olhara para ela com a mesma expressão. Talvez o simples pensamento me transluzisse cá fora. ao pé do piano.Você entra no mar amanhã? . Tal se dá na rua entre dois teimosos. Pararam os quatro e ficaram diante uns dos outros. ao pé de mim. Entretanto. A noite era clara. É preciso nadar bem. mas não posso suprimi-la. encontrei-os em caminho. . esta palavra foi como uma bênção de padre à missa. como agora. Assim devia ser. Custa-me esta confissão. como se pensa na bela desconhecida que passa. e demorou-se mais que de costume A modéstia pedia então. mas nenhum passavam. muito maiores. achei-os mais grossos e fortes que os meus. havia ressaca. O mar batia com grande força na praia.O mar amanhã está de desafiar a gente. onde eu fiquei olhando para o mar. graças às relações dela e Capitu. Nem só os apalpei com essa idéia. Tive um certeza só. é que um dia pensei nela. A cautela desligou-nos eu tornei a voltar-me para fora. pensativo. mas então dar-se-ia que ela adivinhando.Tenho entrado com mares maiores. A mão dela apertou muito a minha. que a gente recebe e repete em si mesma. Disse isto de costas para dentro. . apalpa. Invencível. diziam outra coisa.

Não havia meio de esquecer inteiramente a mão de Sancha nem os olhos que trocamos. A timidez pode ser que fosse outra causa daquela crise.. quem me provaria que não era mais que uma sensação fulgurante. Capricho .. continuou o agregado. genealogicamente. no dia seguinte. que moderei logo. Quando houvesse alguma intenção sexual. falou-me como se fosse a própria pessoa. Combati sinceramente os impulsos que trazia do Flamengo. não contando o acaso. Ouvia-se o mar forte. Entretanto. que iam adiante. viam-se crescer as ondas. Sancha e Capitu eram tão amigas que seria um prazer mais para elas irem juntas.. Assim refletiria se pudesse. concluiu José Dias um discurso que vinha fazendo.Como devem ser todas as daquela casa.. José Dias despediu-se de nós à porta. Paixão não era nem insinuação. eu achava-me mal entre um amigo e a atração.como já se ouvia de casa. não. agora aquilo.. que eu tinha ali. trabalhavam só os minutos da virtude e da razão. Demais. que nos dá a compleicão. a distancia.. . Cá fora. cá fora o mar está zangado. detiveram-se numa das voltas da praia. ao pé do de minha mãe. Os instantes do Diabo intercalavam-se nos minutos de Deus.meus. quente e demorada. a melhor origem delas é o céu. Foi um instante de vertigem e de pecado. depois do almoço e da missa. apertando uns aos outros. rejeitei a figura da mulher do meu amigo. nem têm maior duração. filha dela. é. que eu sentia de memória dentro da minha mão. apertada e apertando. quando cheguei o relógio ao ouvido. O retrato de Escobar. mas eu conversava mal. destinada a morrer com a noite e o sono? Há remorsos que não nascem de outro pecado. e o relógio foi assim marcando alternativamente a minha perdição e a minha salvação.Deliciosíssima! repeti com algum ardor. emendando-me: Realmente. mas o acaso é um mero acidente. Sinceramente. e fomos conversando os quatro.Uma senhora deliciosíssima.a ressaca era grande e. quem me afirmava que houvesse alguma intenção daquela espécie no gesto da despedida e nos anteriores? Tudo podia ligar-se ao interesse da nossa viagem. Eu recolhi-me ao meu gabinete. iria embora. uma bela noite! . a virtude. Capitu e prima Justina. não é só o céu que dá as nossas virtudes. onde me demorei mais que de costume. o mesmo sangue celestial. mas a princípio vaguei à toa. Prima Justina dormiu em nossa casa.. Agora achava-lhes isto. escute. Agarrei-me a esta hipótese que se conciliava com a mão de Sancha. e chamei-me desleal. . como a timidez vem do céu. a timidez também. Passou depressa no relógio do tempo.

Uma só vez olhei para o retrato de Escobar. Naquele tempo a minha vista era boa. QUERIDA! A leitora. Era uma bela fotografia tirada um ano antes. Vi que era fácil ganhar a demandaconsultei Dalloz. CAPÍTULO 120 OS AUTOS Na manhã seguinte acordei livre das abominações da véspera. A figura de Sancha desapareceu inteiramente no meio das alegações da parte adversa. eu mudo de rumo. O retrato de Escobar pareceu falar-me. inteiramente nada. inadmissíveis. chamei-lhes alucinações. que é minha amiga e abriu este livro com o fim de descansar da cavatina de ontem para a valsa de hoje. Não faça isso.” Estas palavras fortaleceram-me os pensamentos daquela manhã. quer fechá-lo às pressas. Capitu e prima Justina saíram para a missa das nove. escrita embaixo. ouvi passos precipitados na escada. CAPÍTULO 119 NÃO FAÇA ISSO. percorri os jornais e fui estudar uns autos. tomei café. Tornei aos autos. . sem apoio na lei nem nas praxes. querida. não nas costas do cartão: “Ao meu querido Bentinho o seu querido Escobar 20-4-70. Pereira e Sousa. que eu ia lendo nos autos. e espancaram de todo as recordações da véspera. eu podia lê-las do lugar em que estava.. ao ver que beiramos um abismo. na Lapa. o olhar ao longe para a esquerda do espectador. CAPÍTULO 121 A CATÁSTROFE No melhor deles. Tinha garbo e naturalidade. A moldura que lhe mandei pôr não encobria a dedicatória. a mão esquerda no dorso de uma cadeira. a direita metida ao peito. sacudi a cabeça e fui deitar-me.seria ou quê? Ao fim de vinte minutos era nada. Estava de pé. a campainha soou. alegações falsas..vi-lhe a atitude franca e simples. sobrecasaca abotoada.

CAPÍTULO 122 O ENTERRO A Viúva. A casa não sendo grande. sinhô morrendo. Pediu-me o papel. divergindo alguns na avaliação dos bens. um ou outro discutia o recente gabinete Rio Branco. tudo eram carros. sinhô nadando. Vesti-me. Tinha-as escrito com receio de que a emoção me impedisse de improvisar. que as achou realmente dignas do morto e de mim. muitos estavam na praia. Quis que o enterro fosse pomposo. e confirmou a primeira opinião.Para ir lá. mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno. vozes. no Flamengo espalhou a notícia. a nossa amizade. não podiam lá caber todos. uma com o parecer abatido e estúpido. continuada e nunca . Em caminho. como usava fazer. apesar do mar bravio. falando do desastre. fui adivinhando a verdade. vamos ouvi-lo? . Capitu e prima Justina esperavam-me.. pesando as palavras. ruas. ou eu não lhe ouvi o resto. Poupo-vos as lágrimas da viúva. No tílburi em que andei uma ou duas horas. recitou lentamente o discurso. muitos deles particulares. foi enrolado e morreu. .estávamos em março de 1871. e a afluência dos amigos foi numerosa. arriscou-se um pouco mais fora que de costume. acudi eu mesmo. Como eu houvesse resolvido falar no cemitério. as relações de Escobar. Elogiavam as qualidades de Escobar. não fizera mais que recordar o tempo do seminário. Alguns conhecidos vieram interrogar-me: . outra enfastiada apenas. Nunca me esqueceu o mês nem o ano. apontando o lugar em que Escobar falecera. deixei recado a Capitu e corri ao Flamengo. escrevi algumas linhas e mostrei-as em casa a José Dias.Então. Poucas mais seriam. José Dias ouviu também falar dos negócios do finado. Escobar meteu-se a na dar.. as nossas simpatias.Vão fazer companhia à pobre Sanchinha.. começada. golpes na cancela. eu vou cuidar do enterro. Praia. Saí de lá cerca de onze horas.. as minhas. acudiram todos. Não disse mais nada. Era um escravo da casa de Sancha que me chamava . As canoas que acudiram mal puderam trazer-lhe o cadáver. ouvindo referir a chegada do morto. Praça da Glória.soaram palmas. as da outra gente.Quatro palavras. Assim fizemos.

defunto e tudo. rompeu o alarido final. tão apaixonadamente fixa. tive um daqueles meus impulsos que nunca chegavam à execução: foi atirar à rua caixão. CAPÍTULO 123 OLHOS DE RESSACA Enfim. No cemitério tive de repetir a cerimônia da casa. amparando a viúva. O que isto me . continuou o seu ofício. O cocheiro aventurou duas ou três perguntas sobre a minha situação moral. as mulheres todas.. Capitu enxugou-as depressa. queria arrancá-la dali. Fiquei a ver as dela. Era José Dias que me convidava a fechar o ataúde. Palavra que. e quis levá-la. e o desespero daquele lance consternou a todos. Chegando a casa. e eu peguei numa das argolas. CAPÍTULO 124 O DISCURSO . Capitu olhou alguns instantes para o cadáver tão fixa. mas o cadáver parece que a retinha também. Muitos homens choravam também. Momento houve em que os olhos de Capitu fitaram o defunto. chegou a hora da encomendação e da partida. A confusão era geral. parecia vencer-se a si mesma.. Só Capitu.. as cabeças descobertas. desatar as correias. tal seria o discurso.interrompida. De quando em quando enxugava os olhos. No meio dela. e ajudar a levar o féretro à cova. que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas. quando cheguei à porta. sem o pranto nem palavras desta. Redobrou de carícias para a amiga. deitei aquelas emoções ao papel. As minhas cessaram logo.Vamos. olhando a furto para a gente que estava na sala. como a vaga do mar lá fora.. No carro disse a José Dias que se calasse. Fechamo-lo. mas grandes e abertos. tudo gente e carros. vi o sol claro. não me arrancando nada. até que um lance da fortuna fez separar para sempre duas criaturas que prometiam ficar por muito tempo unidas. como se quisesse tragar também o nadador da manhã. são horas. quais os da viúva. Sancha quis despedir-se do marido. Consolava a outra.

aqueles olhos. senhor. não obstante contá-lo em verso. é certo. sinais. saquei o papel e li-o aos trambolhões. não todo. Queriam o discurso. Creio que poucos me ouviram. As mãos que me deram a apertar eram de solidariedade. ao cabo de alguns instantes de total silêncio. meti a mão no bolso. as saudades confessadas. fale. As lágrimas. pediu-me licença para levar o manuscrito e imprimi-lo. Só a minha grande turvação recusaria um obséquio tão simples. mas há narrações exatas em verso. e até mau verso. leitor. É impossível que algum Homero não tirasse da minha situação muito melhor efeito. trouxeram a cal e a pá.Então. nem claro. Compara tu a situação de Príamo com a minha. um sussurro vago. terás ido a mais de um enterro. Nem digas que nos faltam Homeros. as mãos tremiam-me. defunto. faltam-nos. José Dias. Um homem. pela causa apontada em Camões. para que as caras apareçam limpas e serenas. e. ou quando menos igual. forcejava por escondê-la bem. se as têm. Não era só a emoção nova que me fazia assim. Era o discurso. que me pareceu jornalista. Tinham jus ao discurso anunciado. sabes disto. as orelhas atentas. os louvores à pessoa e aos seus méritos. os pés quietos. era o próprio texto. CAPÍTULO 125 UMA COMPARAÇÃO Príamo julga-se o mais infeliz dos homens. são enxugadas atrás da porta. algumas vozes interrogativas. e alguém. tudo isto que eu era obrigado a dizer e dizia mal. Ao mesmo tempo. e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor. temendo que me adivinhassem a verdade. é a crise que me tomou quando vi todos os olhos em mim.custou imagina. ou qualquer outro estranho. as memórias do amigo. Homero é que relata isto. os discursos são antes de alegria que de melancolia. por beijar a mão daquele que lhe matou o filho. nem seguido. mas o gesto geral foi de compreensão c de aprovação. mas é porque os Príamos procuram a sombra e o silêncio. eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera. Maquinalmente. Descido o cadáver à cova.. e é um bom autor. não. que me dizia ao ouvido: . a voz parecia-me entrar cm vez de sair. alguns diziam: “Muito bonito! muito bem! magnífico!” José Dias achou que a eloqüência estivera na altura da piedade. . mas o que não sabes nem pode saber nenhum dos teus amigos..

CAPÍTULO 126 CISMANDO Pouco depois de sair do cemitério. . Não presta. . deixei-o falar sozinho e peguei a cismar comigo. se houvesse algo que dissimular. eu iria a pé. amigo. e por último fez o panegírico do morto.. Neste ponto do discurso. Assim se desvaneceu de todo a ilusão da minha vaidade. O que cismei foi tão escuro e confuso que não me deixou tomar pé. bom amigo. Eram as dúvidas que me afligiam ou a necessidade de afligir Capitu com a minha grande demora? Ponhamos que eram as duas causas. Quando cheguei a esta conclusão final. A viúva era realmente amantíssima.Mas. graças aos solavancos do carro e às interrupções de José Dias. Cuidei de recompor-lhe os olhos. Agora. e como posso ter a tentação de dá-lo a imprimir. tinha sido antes uma barafunda de idéias e sensações. rasguei o discurso e deitei os pedaços pela portinhola fora.Vou fazer uma visita. No Catete mandei parar o carro. e deixar que a cabeça cismasse à vontade. até que me . O carro andaria mais depressa que as pernas. Fui andando e cismando. . A razão disto era acabar de cismar. disse-lhe eu. podia afrouxar o passo. e subi outra vez a Rua do Catete. e escolher uma resolução que fosse adequada ao momento. depois elogiou o enterro. chegava também à porta de casa. não vale nada. o ajuntamento de pessoas que devia natural mente impor-lhe a dissimulação. coração reto. digno da esposa amantíssima que Deus lhe dera. Tinha já comparado o gesto de Sancha na véspera e o desespero daquele dia. Concluí de mim para mim que era a antiga paixão que me ofuscava ainda e me fazia desvairar como sempre. Não seria o mesmo caso de Capitu. andei largo espaço.. a posição em que a vi. José Dias demonstrou longamente o contrário. parar. O que aqui vai por ordem lógica e dedutiva... porém.Não presta para nada. raciocinava e evocava claro e bem. uma grande alma. eram inconciliáveis. fica já destruído de uma vez. sem embargo dos esforços de José Dias para impedi-lo. disse a José Dias que fosse buscar as senhoras ao Flamengo e as levasse para casa. arrepiar caminho. espírito ativo.estas iriam pausadas ou não. mas voltei para trás.

subi as escadas sem estrépito. e logo a outro. Divina arte! Ia-se formando um grupo. Divina arte! CAPÍTULO 128 PUNHADO DE SUCESSOS Como ia dizendo. Batiam oito horas numa padaria. Quanto ao marido. que estava apenas encostada. vestido claro. havia um barbeiro. grudava a face ao instrumento. todo arco. Não atendeu a um freguês. Se me não engano. Esta consideração fez-me chegar francamente à porta da loja. Na ocasião em que ia passando.senti sossegar. levantando a cortina de chita que fechava o interior da casa. ou por estar ligado a um momento grave da minha vida. como eu fui. tocava agora com mais calor. sem ver a mulher. creio que me descobriu de dentro. empurrei a cancela. ele viu-me. vi apontar uma moça trigueira. e dei com prima Justina e José Dias jogando . sem ver fregueses. e continuou a tocar. deixei a porta da loja e vim andando para casa. CAPÍTULO 127 O BARBEIRO Perto de casa. ou por esta máxima. Perdeu-os sem perder uma nota.. Pobre barbeiro! perdeu duas barbas naquela noite. e verdadeiramente não as esquece nunca. tudo para ser ouvido de um traunseunte. Era a mulher dele. ficava à porta a ouvi-lo e a enamorar-lhe a mulher. Nunca me esqueceu o caso deste barbeiro. que me conhecia de vista. passava a alma ao arco. em vez de ir-se embora. a despeito da hora e de ser domingo. que ali foram. amava a rebeca e não tocava inteiramente mal. todo rebeca. que eram o pão do dia seguinte. flor no cabelo. Ao fundo. que os compiladores podem tirar daqui e inserir nos compêndios de escola.ia tocando para mim. e veio agradecer-me com a presença o favor que eu fazia ao marido. tocava. chegou a dizê-lo com os olhos. enfiei pelo corredor e subi as escadas sem estrépito.. confiar-lhe as caras à navalha. A máxima é que a gente esquece devagar as boas ações que pratica. executava não sei que peça. e endireitei para casa. então é que ele. Parei na calçada a ouvi-lo (tudo são pretextos a um coração agoniado). voltado para ele. Supõe agora que este. e tocava. tocaria desesperadamente.

se não soubéssemos que ela era muito amiga de si. era preciso pensar primeiro na minha vida. Tudo isso foi na segunda-feira.Tem lá muita gente. e assim acabamos a noite. era tarde. o álbum de Capitu. mas . as qualidades pessoais. que uma vez juntas não tinham sentido. Os outros suspenderam o jogo. Tentei meter o caso à bulha..Também não. e não sei como poderá. e também falavam dos bens deixados. . mas era lembrança do finado. Quando tornou. Também ele as possuía de minha mão. a simpatia do comércio.Mas passa. Inventariei as lembranças de Escobar. e podia ser apanhado em falso pelos que me tinham ouvido no cemitério. o primeiro lugar cabia a mulher. pensara na filhinha de Sancha. Capitu censurou a imprudência de Escobar. a vista do mar há de ser-lhe penosa. José Dias achou a frase “lindíssima”. que me nomeava segundo testamenteiro. Tudo isso me empanava os olhos. e na aflição da viúva. Capitu saiu para ir ver se o filho dormia. Vivemos assim a trocar memórias e regalos. Pensei em recompô-lo. ainda assim ofereci-me. O rosto dela era agora sereno e puro.. Também pensei em fazer outro. livros. sem se lhe dar das visitas. duas paisagens do Paraná e outras. abraçou-me e disse-me que. os estudos e os negócios deste.Também não quis? . nem reparar se havia algum criado. . Perguntei-lhe por que não ficara com Sancha aquela noite. E. . uma bengala de marfim. arrependi-me de haver rasgado o discurso. Capitu levantou-se do canapé e veio a mim. da mulher e da filha. mas só achei frases soltas. e não dissimulou a tristeza que lhe trazia a dor da amiga.cartas na saleta próxima. mas não quis. e perguntou a Capitu por que é que não fazia versos. todas as manhãs. ponderou José Dias. e passar aqui uns dias conosco. Também lhe disse que era melhor vir para cá.. Na terça-feira foi aberto o testamento. trazia os olhos vermelhos. não que quisesse dá-lo a imprimir. um pássaro. ao mirar o filho dormindo.. Vieram os jornais do dia: davam notícia do desastre e da morte de Escobar. se quisesse pensar nela. ora em dia de anos. e todos falamos do desastre e da viúva. concertou os cabelos tão demoradamente que pareceria afetação. Ao passar pelo espelho. disse-nos que. No dia seguinte. . estariam já varridos. um tinteiro de bronze.Entretanto. E como em torno desta idéia começássemos uma troca de palavras. Quanto a recolher os pedacinhos de papel deitados à rua. ora sem razão particular. Não me deixava nada. o que é que não passa? atalhou prima Justina. mas era já difícil.

sem marido nem filha. amiga minha. Não. como as plantas novas. Testamento. e é ainda o melhor que se pode fazer depois da mocidade. mas o que agora a alcançar. Vá envelhecendo. ou. a culpa é sua. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem. e iríamos residir em algum beco. CAPÍTULO 129 A Dona SANCHA Dona Sancha. Pois nem assim. recusei as diversões. que eu faço a mesma coisa. E propôs-me a Europa. Por enquanto. não leia mais. os objetos de algum valor seriam vendidos. CAPÍTULO 130 UM DIA. onde nos encontraremos renovados. Um dia. Basta fechá-lo. mil desses remédios aconselhados aos melancólicos. tudo andou quase tão depressa como aqui vai dito. para lhe não dar tentação e abri-lo outra vez. um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. Eu não sabia que lhe respondesse. Como insistisses repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. Deixei-me estar calado e aborrecido. se o houver lido até aqui. Ela propôs-me jogar cartas ou . Capitu desta vez chorou muito. inventário. contando os gestos daquele sábado. Ao cabo de pouco tempo. Capitu sorriu para animar-me. uma série de bailes. e eu com eles. esse acabou. não respondo pelo mal que receber. quiser ir até o fim. iremos daqui até à porta do céu. peço-lhe que não leia este livro. melhor será queimá-lo.. Viveríamos sossegados e esquecidos. Sancha retirou-se para a casa dos parentes no Paraná. desmentimos a minha ilusão. Minas. e até lá as jóias. come piante novelle. O resto em Dante. uma vez que os acontecimentos. Petrópolis. A ternura com que me disse isto era de comover as pedras.as palavras que me escrevera em carta separada eram sublimes de amizade e estima. Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada. apesar do aviso. Rinovellate di novelle fronde.. depois tornaríamos à tona da água. esse é indelével. Se. abandone o resto. mas compôs-se depressa. O que já lhe tiver feito.

em que contasse um incidente.. Afinal não haveria mais que meia dúzia de expressões no mundo. ocorrido poucas semanas antes. Capitu.Logo. Demais. Aquele entrou-me pela alma dentro. os olhos de Ezequiel saíam aos da mãe. Assim fica explicado que eu corresse à minha esposa e amiga e lhe . mas.. mas este capítulo devia ser precedido de outro. olha firme.damas. Olha. assim. meu filho. achei que Capitu tinha razão. . podia antepô-lo a este antes de mandar o livro ao prelo. vai assim mesmo. não precisa revirar os olhos. fitava agora a outra borda da mesa. Capitu brincava com o filho. e muitas semelhanças se dariam naturalmente. ou um com outro. CAPÍTULO 131 ANTERIOR AO ANTERIOR Foi o caso que a minha vida era outra vez doce e plácida. dois meses depois da partida de Sancha. e. Ezequiel ia crescendo. Era depois de jantar. Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma. assim. mas é também certo que ele me queria ainda mais a mim. dizendo-lhe eu que. alheia a ambos. e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece. Capitu tinha meia dúzia de gestos únicos na terra. mas não me pareceram esquisitos por isso. em verdade. olhou espantado para ela e para mim. assim. ou ele com ela.. depois a narração seguirá direita até o fim. abriu o piano. Só vi duas pessoas assim. eram os olhos de Escobar. mas custa muito alterar o número das páginas. como eu não aceitasse nada. eu aproveitei a ausência. vira para o lado de papai. As pessoas valem o que vale a afeição da gente.Perdão. queriam-se muito. Ezequiel não entendeu nada. papai? . peguei do chapéu e saí. na beleza. Vou escrevê-lo. Começava o ano de 1872. um amigo de papai e o defunto Escobar. e começou a tocar. porque. uma visita a Mata-cavalos. um passeio a pé.Você já reparou que Ezequiel tem nos olhos uma expressão esquisita? perguntou-me Capitu. a banca do advogado rendia-me bastante. e afinal saltou-me ao colo: . é curto.Vamos passear. Aproximei-me de Ezequiel. Ezequiel.. estávamos ainda à mesa. . Capitu estava mais bela. foi para a sala. provavelmente porque não gostei tanto das outras.

fechava-me. depois lê-se a carta na rua. Fugia-lhe. mal a princípio e não toda. beijar-me no gabinete de manhã. O costume valeu muito contra o efeito da mudança. eu tolerava-as e praticava as. sorrir. a letra era clara e a notícia claríssima. a pessoa inteira. iam-se apurando com o tempo. não à maneira de teatro. palpitar. primeiro que se possa ler uma carta. E o principal é que os nossos temporais eram agora contínuos e terríveis. metia o papel no bolso. não se notará aqui. fez-se como a manhã que aponta vagarosa. que vivia mais perto de mim que ninguém. Escobar vinha assim surgindo da sepultura. chegava a fechar os olhos. Quando novamente abria os olhos e a carta. ficava desarmado e diferia o castigo de um dia para outro. tivemos outros de pouca . e a figura entra a ver. a cara. fiquemos nos olhos de Ezequiel. receber-me na escada. em casa. sem abrir as janelas. e eu jurava matá-los a ambos. tornava a casa e via no alto da escada a criaturinha que me queria e esperava. ora devagar. para dividir pelo tempo da morte todos os minutos da vida embaçada e agoniada. ora de golpe. não podia fazê-lo a mim. Li a carta. do seminário e do Flamengo para se sentar comigo à mesa. até que a família pêndula o quadro na parede. Todas essas ações eram repulsivas. O que se passava entre mim e Capitu naqueles dias sombrios. Mas o principal irá. depois fui lendo melhor. no gabinete. para me não descobrir a mim mesmo e ao mundo. e já tão tarde que não se poderá dizê-lo sem falha nem canseira. mas a mudança fez-se. a luz coada pelas persianas basta a distinguir as letras. o corpo. Quando. porém. CAPÍTULO 132 O DEBUXO E O COLORIDO Nem só os olhos. não abria as vidraças. Quando nem mãe nem filho estavam comigo o meu desespero era grande. em memória do que foi e já não pode ser. ou pedir-me à noite a bênção do costume. Eram como um debuxo primitivo que o artista vai enchendo e colorindo aos poucos. mas este outro incidente não é radicalmente necessário à compreensão do capítulo passado e dos futuros.enchesse a cara de beijos. corria a casa. falar quase. Aqui podia ser e era. Mas o que pudesse dissimular ao mundo. Antes de descoberta aquela má terra da verdade. é certo. mas as restantes feições. por ser tão miúdo e repetido.

o sol claro e o mar chão. já me parecia a mesma. ou porque o tempo fosse andando e completando a semelhança. . eu sentia-me cada vez pior. donde só viesse aos sábados. expansivo.dura. ao fim das semanas. vibrante e decisiva. buscava não andar em casa e só entrar quando ele estivesse dormindo. e se eu iria vê-lo. nós a líamos. que não era tardia nem dúbia.Vou. Releva-me estas metáforas. Já entre nós só faltava dizer a palavra última. e toda a arte fina de Capitu para fazê-lo atenuar.Jura. .. e nós. ou pelo descostume em que eu ficava. . e quando. era a volta de Escobar mais vivo e ruidoso. Ezequiel entrava turbulento. Capitu propôs metê-lo em um colégio. e sempre que Ezequiel vinha para nós não fazia mais que separar-nos. quando eu me achava entre jornais e autos. como um marujo contaria o seu naufrágio. Até a voz. até que outro pé de vento desbaratava tudo. . esperávamos outra bonança. nos olhos um do outro. Fui eu mesmo que o levei um dia de manhã. pela mão. se voltaria para casa. posto sempre fosse homem de terra.Pois juro. postos à capa. Era no antigo Largo da Lapa. sentia agora uma aversão que mal podia disfarçar. cheiram ao mar e à maré que deram morte ao meu amigo e comborço Escobar. conto aquela parte da minha vida. A ausência temporária não atalhou o mal. porém. custou muito ao menino aceitar esta situação. mas a volta dele. papai! .Quero ir com papai! Papai há de ir comigo! bradava ele.Vou sim. foi como se não fosse. . próxima e firme. uma segunda-feira. Assim. Eu. Ezequiel vivia agora mais fora da minha vista. por onde abríamos novamente as velas que nos levavam às ilhas e costas mais belas do universo. . antes total. A mesma situação nova agravou a minha paixão. ao menos. Cheiram também aos olhos de ressaca de Capitu.Papai não diz que jura. Levei-o a pé. Aos sábados.. cheio de riso e de amor. dentro de pouco. no gabinete. a falar verdade. porque o demo do pequeno cada vez morria mais por mim. E lá o levei e deixei. perto da nossa casa. mas não escapava ao domingo. O pequeno ia chorando e fazendo perguntas a cada passo. como levara o ataúde do outro.Pois sim. .Papai não vai! . não tardava que o céu se fizesse azul.

era como se fosse fixa. Não podendo encobrir inteiramente esta disposição moral. ouvi cantar baladas. não que me encobrisse as coisas externas. mas também pode ter sido propósito. para não espertar o desejo de prová-la. as mesmas asas trépidas. Amanheceu. antes de se ver cumprida. A farmácia faliu. fui educado no terror daquele dia. Certa idéia. Sei que escrevi algumas cartas. e não pude dormir. ora tinha trabalho que me obrigava a fechar o gabinete. é provável que a idéia não batesse as asas senão pela necessidade que sentia de vir ao ar e à vida. como fazem as idéias que querem sair. por mais que a sacudisse de mim. CAPÍTULO 133 UMA IDÉIA Um dia-era uma sexta-feira. A vida é tão bela que a mesma idéia da morte precisa de vir primeiro a ela. e o banco prospera. Saí. e posto avoasse com elas. Não me lembra bem o resto do dia. abriu as asas e entrou a batê-las de um lado para outro. Também nenhuma noite me passou tão curta. CAPÍTULO 134 O DIA DE SÁBADO A idéia saiu finalmente do cérebro. Quando me achei com a morte no bolso senti tamanha alegria como se acabasse de tirar a sorte grande. o dono fez-se banqueiro. mas via-as através dela. eu a levava na retina. em casa. nas quais a sexta-feira era o dia de agouro.não pude mais. que negrejava em mim. vindas da roça e da antiga metrópole. Já me vais entendendo. lê agora outro capítulo. Fui a casa de . é verdade. e sem se demorarem nada. quando cuidava não ser mais que uma ou duas horas. ora saía ao domingo para ir passear pela cidade e arrabaldes o meu mal secreto. Cá fora tinha a mesma cor escura. que não digo. ou só o menos que pudesse. porque o prêmio da loteria gasta-se. não havendo almanaques no cérebro. ou ainda maior. O ser sexta-feira creio que foi acaso. ela veio comigo.tanto a ela como aos outros. Entretanto. cuidava de me não fazer encontradiço com ele. Era noite. comprei uma substancia. supondo deixar a idéia em casa.. com a cor mais pálida que de costume. e a morte não se gasta.

tão culpada como Capitu? E que morte lhe daria o mouro? Um travesseiro não bastaria. e vinham outras incoerências. por causa de um lenço. As senhoras ficavam quase todas nos camarotes. vinha eu dizendo rua abaixo. se ela deveras fosse culpada. vi os derradeiros passeadores e os primeiros varredores.E era inocente.. prima Justina da língua. e Iago destilava a sua calúnia. como eterna extinção. os primeiros . à medida que o mouro rolava convulso. mas o bastante para ir até à manhã. De noite fui ao teatro. era preciso sangue e fogo. Passei uma hora em paz. Ouvi as súplicas de Desdêmona.minha mãe. as suas palavras amorosas e puras. . as primeiras carroças. . Vaguei pelas ruas o resto da noite.não queria expor-me a encontrar algum conhecido. e a morte que este lhe deu entre aplausos frenéticos do público. e o pó seria lançado ao vento. Cheguei a abrir mão do projeto. Então eu perguntava a mim mesmo se alguma daquelas não teria amado alguém que jazesse agora no cemitério. Ou de verdade ou por ilusão. alguma vez nem lençóis há e valem só as camisas. com o fim de despedir-me. Os lenços perderam-se.um simples lenço!. sabia apenas o assunto... vagas e turvas. O último ato mostrou-me que não eu. que eu não vira nem lera nunca. Ceei. minha mãe menos triste. os primeiros ruídos. Vi as grandes raivas do mouro. Representava-se justamente Otelo. . que a consumisse de todo.. CAPÍTULO 135 OTELO Jantei fora. a título de visita. Tais eram as idéias que me iam passando pela cabeça.e aqui dou matéria à meditação dos psicólogos deste e de outros continentes. Vi as últimas horas da noite e as primeiras do dia. e a fúria do mouro. Que era preciso para viver? Nunca mais deixar aquela casa ou prender aquela hora a mim mesmo. mas Capitu devia morrer. um fogo intenso e vasto. é verdade um quase nada. Nos intervalos não me levantava da cadeira. pois não me pude furtar à observação de que um lenço bastou a acender os ciúmes de Otelo e compor a mais sublime tragédia deste mundo. até que o pano subia e continuava a peça. hoje são precisos os próprios lençóis.que faria o público. tio Cosme esquecido do coração. tudo ali me pareceu melhor nesse dia. e estimei a coincidência. enquanto os homens iam fumar. e a reduzisse a pó.

em que era narrada a vida do célebre romano. O segundo continha só o necessário. nem ser dada a notícia nas gazetas com a da cor das calças que eu então vestia. lembrou-me que Catão. e meti-me no gabinete. querendo fugir a qualquer suspeita de imitação. Não lhe lembrava o nosso passado. CAPÍTULO 136 A XÍCARA DE CAFÉ O meu plano foi esperar o café. bastou-me a ocupar aquele pouco tempo. se pudesse achar essa espécie de cocaína moral dos bons livros. A gente que passava não era tanta. Entretanto. guardei o livro. A mão tremeu-me ao abrir o papel em que trazia a droga . mas era já numerosa e ia a algum trabalho. Nem era só imitá-lo nisso.albores. e escrevi ainda uma carta. leu e releu um livro de Platão. Não tornaria a contemplar o mar da Glória. Há muita gente que se mata sem ele. Um dos males da ignorância é não ter este remédio à última hora. e para em tudo imitá-lo. nem alegria alguma. Já a casa estava em rumores. assentei de pô-lo novamente no seu lugar. Escrevi dois textos. mas um tomo truncado de Plutarco. Não tinha Platão comigo. nem as lutas havidas. mas estou que muita mais gente poria termo aos seus dias. iam dar seis horas. lembra-me bem que. nem a serra dos órgãos. era tempo de acabar comigo. um dia que vinha depois do outro e me veria ir para nunca mais voltar. As ruas que eu andava como que me fugiam por si mesmas. falava-lhe só de Escobar e da necessidade de morrer. Nenhuma das outras era para ela. para não ser encontrado ao pé de mim o livro de Plutarco. senti necessidade de lhe dizer uma palavra em que lhe ficasse o remorso da minha morte. eu é que não repetiria mais nada. fiquei em mangas de camisa. e nobremente expira. Tirei o veneno do bolso. como nos dias comuns da semana. nem a fortaleza de Santa Cruz e as outras. para intrepidamente morrer. assim como ele precisara dos sentimentos do filósofo. dirigida a Capitu. O primeiro queimei-o por ser longo e difuso. a última. e fui para a mesa onde ficara a xícara. O copeiro trouxe o café. Ergui-me. dissolver nele a droga e ingeri-la. estirei-me no canapé. tinha necessidade de incutir em mim a coragem dele. que repetiria depois. antes de beber o veneno. abri a porta devagarinho. Cheguei a casa. não tendo esquecido de todo a minha história romana. Até lá. subi pé ante pé. antes de se matar. claro e breve.

meia xícara só. Mas não sei que senti que me fez recuar. Ezequiel abraçou-me os joelhos. Ouvi a voz de Ezequiel no corredor. a olhar ao longe. vi-o entrar e correr a mim bradando: . . cogitei se não seria melhor esperar que Capitu e o filho saíssem para a missa. e a vista dele. entrei a passear no gabinete.Papai! papai! CAPÍTULO 137 SEGUNDO IMPULSO Se eu não olhasse para Ezequiel. o meu segundo impulso foi criminoso. Quando ia a beber. Cheguei-lhe a xícara. Cheguei a pegar na xícara. como de costume. Ainda assim tive animo de despejar a substancia na xícara. e repetia. a memória em Desdêmona inocente. com a mão nas costas da cadeira. não serei eu que os desdiga ou contradiga... houve aqui um gesto que eu não descrevo por havê-lo inteiramente esquecido.Toma outra xícara. como que rendo subir e dar-me o beijo do costume. Efetivamente.Já. Mas a fotografia de Escobar deu-me o animo que me ia faltando. papai. pensei. mas disposto a fazê-la cair pela goela abaixo. caso o sabor lhe repugnasse. “Acabemos com isto”. mas crê que foi belo e trágico. . beberia depois. porque o meu primeiro ímpeto foi correr ao café e bebê-lo.mas vá lá.Eu mando vir mais. . puxando-me: . tão trêmulo que quase a entornei. anda. a figura do pequeno fez-me recuar até dar de costas na estante. bebe! Ezequiel abriu a boca. é provável que não estivesse aqui escrevendo este livro. como o gesto. e comecei a mexer o café. ou a temperatura.. Inclinei-me e perguntei a Ezequiel se já tomara café. vou à missa com mamãe. lá estava ele.embrulhada. Chamem me embora assassino. Pus a xícara em cima da mesa. os olhos vagos. esticou-se na ponta dos pés.. diga-se tudo. mas o pequeno beijava-me a mão.E papai? . .Papai! papai! exclamava Ezequiel. e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino. Assim disposto. o espetáculo da véspera vinha intrometer-se na realidade da manhã. porque o café estava frio.. era melhor. .Papai! papai! Leitor. deu-me outro impulso que me custa dizer aqui.

Eis aí outro lance. se pode chamar de um século. a coisa nenhuma. a maior parte das vezes. não sei se era dos meus olhos.Não há que explicar. Após alguns instantes. aos seus gestos. não. ao dar com ela.Não ouviu o que lhe disse? Capitu respondeu que ouvira choro e rumor de palavras. Mas. Eu creio que ouvira tudo claramente mas confessá-lo seria perder a esperança do silêncio e da reconciliação por isso negou a audiência e confirmou unicamente a vista. Já ouvi que as há para vários casos.Que não é meu filho. entretanto você que era tão cioso dos menores gestos. tanto mais que a pessoa que me contou isto acabava de perder uma demanda. tal é a extensão do tempo nas grandes crises. à dor que a retorcia. . a minha era verdadeira. .. repeti-lhe as palavras do final do capítulo. Ela olhava sempre.Há tudo. Que houve entre vocês? . . Era já um falar seco e breve.Não. mas Capitu pareceu-me lívida. nunca revelou a menor sombra . esperando. a própria natureza jurava por si. . sem atender à linguagem de Capitu. repeti as palavras ditas duas vezes com tal resolução que a fizeram afrouxar. Desta vez. e pediu-me que lhe explicasse. Capitu recompôs-se. dei com a figura de Capitu diante de mim. disse eu. questão de preço. uma vez que a mãe e o filho iam à missa. que parecerá de teatro. Grande foi a estupefação de Capitu. disse-me ela: . e é tão natural como o primeiro. e eu não queria duvidar dela. sem mentir. tão naturais ambas que fariam duvidar as primeiras testemunhas de vista do nosso foro.Só se pode explicar tal injúria pela convicção sincera. e Capitu não saía sem falar-me. haja ou não testemunhas alugadas..O quê? perguntou ela como se ouvira mal.. a que. Assim que. eu nem olhava para ela. Sem lhe contar o episódio do café. não entendo as tuas lágrimas nem as de Ezequiel. Seguiu-se um daqueles silêncios. eu não creio. disse ao filho que se fosse embora. eu não sou teu pai! CAPÍTULO 138 CAPITU QUE ENTRA Quando levantei a cabeça. e não menor a indignação que lhe sucedeu.

que não pedia outra coisa mais que a plena justificação dela. depois. ou peço-lhe desde já a nossa separação: não posso mais! . Podia estar um tanto confusa. Pedi-lhe ainda uma vez que não teimasse. cada um iria com a sua ferida.Não. Este era aquele. redargüi pegando-lhe na proposta. ..apesar do seminário não acredita em Deus. é a casualidade da semelhança. e depois um para o outro. involuntariamente. A vontade de Deus explicará tudo. não nos fica bem dizer mais nada. mas pude aludir aos amores de Escobar sem proferir-lhe o nome.Que se não dizem só metade. o porte não era de acusada. Tinha-se sentado numa cadeira ao pé da mesa. que a senhora insiste. Capitu não pôde deixar de rir. porém. Desta vez a confusão dela fez-se confissão pura.A separação é coisa decidida. aqui vai o que lhe posso dizer.. não pode ser muito.diga tudo. não . Bentinho. mas a entrada repentina de Ezequiel. .Pois até os defuntos! Nem os mortos escapam aos seus ciúmes! Concertou a capinha e ergueu-se.de desconfiança. Mas não falemos nisto. mas já que disse metade.. Que é que lhe deu tal idéia? Diga. Capitu olhou para mim com desdém.. mas diga tudo primeiro. porém. Ri-se? É natural. depois do que ouvi. olhamos para a fotografia de Escobar. diga tudo. . de um riso que eu sinto não poder transcrever aqui. para que eu me defenda. havia por força alguma fotografia de Escobar pequeno que seria o nosso pequeno Ezequiel. creio que suspirou.Sei a razão disto. . disse-lhe não sei que palavras adequadas a este fim. posso ouvir o resto.. eu creio.continuou vendo que eu não respondia nada.Há coisas que se não dizem. Bentinho. Era melhor que a fizéssemos por meias palavras ou em silêncio. e murmurou: . Não disse tudo.. se você acha que tenho defesa. e é tudo. enquanto eu. De boca. gritando:. Capitu e eu. Uma vez. em um tom juntamente irônico e melancólico: . fale! fale! Despeça-me daqui. Suspirou. CAPÍTULO 139 A FOTOGRAFIA Palavra que estive a pique de crer que era vítima de uma grande ilusão. ou conte o resto.“Mamãe! mamãe! é hora da missa!” restituiu-me à consciência da realidade.. Que é que lhe deu agora tal convicção? Ande. uma fantasmagoria de alucinado.

mas não foi. De envolta. tanto melhor quanto que não era definitiva. e faríamos o que eu pensasse. CAPÍTULO 140 VOLTA DA IGREJA Ficando só. e deixava a porta aberta à reparação. No intervalo. era natural pegar do café e bebê-lo. cheguei a temer que ela houvesse ido à casa de minha mãe.. . em tal atropêlo que me atordoaram. justiça. cujo número não ponho aqui. Hás de lembrar-te delas. Qualquer que fosse a razão do ato. Ezequiel ia ter comigo ao gabinete.confessou nada. Contava com a minha debilidade ou com a própria incerteza em que eu podia estar da paternidade do outro.. e esperei o regresso de Capitu.Confiei a Deus todas as minhas amarguras. evocara as palavras do finado Gurgel. uma palavra dela sonhando. tinha perdido o gosto à morte. eu acabava de achar outra. Pelo dia adiante. mas não fica longe. disse-me Capitu ao voltar da igreja. Este foi mais demorado que de costume. repetiu as últimas palavras. palavras. Acaso haveria em mim um homem novo. um que aparecia agora. se devesse havê-la. e nos outros dias. e estou às suas ordens. mas reparação. E por que os não esganei um dia. Pois. relê o capítulo. e a que faltou o meu velho ciúme. um segredo que me fez rir. e as feições do pequeno davam idéia clara das do outro. não. lembravam-me episódios vagos e remotos. desde que impressões novas e fortes o descobriam? Nesse caso era um homem apenas encoberto. todas essas reminiscências vieram vindo agora. se não. mas falhou tudo. Em verdade vos digo que tudo estava pensado e feito. Uma vez em que os fui achar sozinhos e calados. isto é. senhor. tudo em que a minha cegueira não pôs malícia. A morte era uma solução. quando desviei os olhos da rua onde .. parecido com Capitu. Não disse perdão. Os olhos com que me disse isto eram embuçados. por não me lembrar já qual seja. como espreitando um gesto de recusa ou de espera. ouvi dentro de mim que a nossa separação é indispensável. ou eu ia atentando mais nelas. Respondi-lhe que ia pensar. puxou do filho e saíram para a missa. quando me mostrou em casa dele o retrato da mulher.. Reduzem-se a dizer que há tais semelhanças inexplicáveis. encontros e incidentes. rejeitei a morte.

. Ao cabo de alguns meses. mas devem ser bons. CAPÍTULO 141 A SOLUÇÃO Aqui está o que fizemos. enquanto Capitu.. finalmente. . e acharam-lhe graça. se os chins os inventaram. seria melhor se as andorinhas. os que se lembravam dela. em vez de trepadas no fio de arame. não passear. posto que rijo. Assim regulada a vida.. e repeti a viagem com o mesmo resultado. como se acabasse de viver com ela. queriam notícias. “Nunca comi os ninhos delas. Agora lembrava-me tudo o que então me pareceu nada. confessando que a aborrecíamos.estavam duas andorinhas trepadas no fio telegráfico? Dentro. CAPÍTULO 142 UMA SANTA Entenda-se que. naturalmente as viagens eram feitas com o intuito de simular isto mesmo. continuou. se nas viagens que fiz à Europa. As dela eram submissas. Escobar declarou que. mas não a procurei. os gestos de lenço. ensinando a língua materna a Ezequiel. Contei-lhes o namoro das andorinhas de fora. e enganar a opinião.. e as palavras que me dizia. acaso afetuosas. Embarquei um ano depois. estivessem à mesa do jantar cozidas. Um dia.. que envelheceu depressa. nem ver nada. quase inválido e a minha mãe. foi a outros cuidados. e para o fim saudosas. paramos na Suíça. Pegamos em nós e fomos para a Europa. Na volta. ficou de companhia a Capitu. mas tão cautelosos que se desenfiaram logo. tornei ao Brasil. os próprios olhos que enxugava eram tais que me comoviam também. para ele. não é que lhe faltasse vontade. novo nem velho. a que respondi com brevidade e sequidão. sem ódio. Uma professora do Rio Grande. que foi conosco.” E ficamos a tratar dos chins e dos clássicos que falaram deles. pedia-me que a fosse ver. Capitu começara a escrever-me cartas. os olhos enfiados nos olhos. A última vez não foi a bordo.Venha. e eu dava-lhes. José Dias não foi comigo. dizendo-me uma palavra amiga e alegre. Também ele estava velho. as minhas outras andorinhas estavam trepadas no ar. que aprenderia o resto nas escolas do país. ficava de companhia a tio Cosme. Ia a bordo despedir-se de mim.

O escultor achou-a esquisita.. . A minha idéia é dar com tal palavra uma definição terrena de todas as virtudes que a finada possuiu na vida. não posso. eu não quero dizer que naquela sepultura está uma canonizada.Nem eu contesto a verdade. Agora.Justamente..Conheci-o. chamou-lhe meticuloso. O protonotário Cabral.. não? . este ponderou-me que as santas es tão no altar e no céu. Fiz fazer essa inscrição com alguma dificuldade. creio que vou para a outra Europa. se a conhecessem mandariam esculpir santíssima.. com esta única indicação: Uma santa. lá em casa sempre ouvi que era insigne parceiro ao gamão. .Quer dizer que era uma santa senhora. João Batista uma sepultura sem nome. parece-lhe. CAPÍTULO 143 . José Dias assistiu a estas diligências.Todavia.Tinha muito bom dado! suspirou lentamente o vigário. desejo conservá-la póstuma.Bom canonista.Não. minha mãe embarcou primeiro. perdão. No fim... continuou o vigário.Uma vez que não há outro sentido. Não foi logo. disse eu. Procura no cemitério de S. . as datas. com grande melancolia. pio e caridoso.Não posso. hesito só. Um dado de mestre! . a eterna. sim..Não a conheceram. . nem nomes.E possuía algumas prendas de sociedade.. . sendo a modéstia uma delas. nem poderia havê-lo. Bentinho. a filiação.. filiação.? . o nome. . admite-se. disse mal do padre.Quem se importará com datas. adeus.Então. bom latinista. se fosse vivo.. senhor. o administrador do cemitério consultou o vigário da paróquia. Só lhe achava desculpa por não ter conhecido minha mãe. na fórmula. atalhei.Mas. não sei se me verá mais. não lhe escrevendo o nome.Está com medo? . confirmaria aqui o que lhe digo. É aí. depois que eu acabar? . Tanto é assim que. Conheceu então o protonotário? . . . Era um padre-modelo. . quando saímos.. nem ele nem os outros homens do cemitério.

Outros teve que não vale a pena escrever aqui. a não ser o coração do jovem estudante. converto-me à fé de meus pais. e pediu que abríssemos a janela. e mais por efeito de comparação e de reflexão que de sentimento. na mesma rua antiga. mas Capitu ia adiando a remessa de correio a correio. José Dias soergueu-se e olhou para fora. mas não é provável. Correspondia-se com Capitu. Realmente.Não. pedia-lhe também que não deixasse de falar a Ezequiel no velho amigo do pai e do avô.Que mal? Ar é vida. disse ele.. A . até que veio o último. A alopatia é o catolicismo da medicina.basta um alopata. estava um céu azul e claro. posto que minha mãe lhe deixasse uma pequena lembrança. até que ele não pediu mais nada. . foram idéias da mocidade. mas a morte veio antes de Ezequiel. Já disse isto mesmo.. Moro longe e saio pouco. o que lhe fez da morte um pedaço de vida. A doença foi rápida. Esta casa do Engenho Novo.” Era assim que ele preparava os cuidados da terceira geração. Pouco antes ouviu que o céu estava lindo. veio dizer-me que. após alguns instantes. deixou cair a cabeça.O ÚLTIMO SUPERLATIVO Não foi o último superlativo de José Dias. Abrimos a janela. “destinado pelo céu a amar o mesmo sangue. Morreu sereno. o ar pode fazer-lhe mal. Pobre José Dias! Por que hei de negar que chorei por ele? CAPÍTULO 144 UMA PERGUNTA TARDIA Assim chorem por mim todos os olhos de amigos e amigas que deixo neste mundo. em todas as escolas se morre. que o tempo levou. após uma agonia curta. conquanto reproduza a de Mata-cavalos. o melhor deles. não impedi que a demolissem e vim reproduzi-la nesta. Não é que haja efetivamente ligado as duas pontas da vida. murmurando: Lindíssimo! Foi a última palavra que proferiu neste mundo. apenas me lembra aquela. . Talvez a esperança dele fosse enterrar-me. não se separaria de mim. a que pedia que lhe mandasse o retrato de Ezequiel. tendo a própria casa velha. Demais. Já então morava comigo. o mais doce. Mandei chamar um médico homeopata.Não. . com legado ou sem ele. Hão de perguntar-me por que razão. Tenho-me feito esquecer. Bentinho.

mais tarde. lá repousa na velha Suíça. segundo contei em tempo. buscando algum pensamento que ali deixasse. Não me mexi. mas aqui vai a resposta. e parece que era a cantiga das manhãs novas. quando vim para o Engenho Novo. ficou esperando. salvo as cores que eram vivas. . Ao contrário. . em vez de reto. CAPÍTULO 145 O REGRESSO Ora. lembrou-me fazer esta reprodução por explicações que dei ao arquiteto. menos cheio de corpo e. Só depois é que me lembrou que cumpria ter certo alvoroço e correr. Conhece-me pelos retratos e correu para mim.creio que ainda não disse que estava morta e enterrada. fiz primeiro uma longa visita de inspeção por alguns dias. Não fui logo. nada sabia de mim. Trajava à moderna naturalmente. Acabei de vestir-me às pressas. com ares de pai. Vim cauteloso. logo que minha mãe morreu. Ao pé dessa música sonora e jovial. A razão é que. pintado na parede. e as maneiras eram diferentes. um pouco mais baixo. Quando saí do quarto. mas o tronco. DE SANTIAGO . abraçá-lo. mirando o busto de Massinissa. falar-lhe na mãe. Tudo me era estranho e adverso. logo. naturalmente pasmava do intruso. Deixei que demolissem a casa. e toda a casa me desconheceu. querendo ir para lá. foi já nesta casa que um dia. mas o aspecto geral reproduzia a pessoa morta. recebi um cartão com este nome: EZEQUIEL A. como outrora. metade Dom Casmurro Ao entrar na sala. Estava. e não achei nenhum. estando a vestir-me para almoçar. a ramagem começou a sussurrar alguma coisa que não entendi logo. a caçamba velha e o lavadouro. de costas. Corri os olhos pelo ar. A casuarina era a mesma que eu deixara ao fundo. dei com um rapaz.Sim senhor. o poço. e. e não fiz rumor Não obstante. tinha agora um ar de ponto de interrogação. A mãe. ouvi também o grunhir dos porcos. era nem mas nem menos o meu antigo c jovem companheiro do seminário de José. um pai entre manso e crespo. ouviu-me os passos. e voltou-se depressa. espécie de troça concentrada e filosófica. fi-lo esperar uns dez ou quinze minutos na sala.. No quintal a aroeira e a pitangueira.A pessoa está aí? perguntei ao criado.pergunta devia ser feita a princípio. o mesmo rosto do meu amigo.

Ansiava por ver-me. mas estando enferma. A mãe falava muito em mim. aceito. nem se acudisse. Se fosse vivo José Dias. . Às vezes. diante de mim. Mas isto mesmo dava animação à cara dele. persistiria. Teve seus minutos de aborrecimento. e o defunto falava e ria por ele. a princípio doeu-me que Ezequiel não fosse realmente meu filho. fiz-me pai deveras. e o meu colega do seminário ia ressurgindo cada vez mais do cemitério. não me acudiu. como o homem mais puro do mundo. era o filho de seu pai. Ei-lo aqui. pediu-me que o levasse lá. que Capitu por descuido levasse consigo. e eu com as perninhas. Eu. total. disse-me ele A voz era a mesma de Escobar. . Vestia de luto pela mãe. louvando-me extraordinariamente. acharia nele a minha própria pessoa. Era o meu comborço. cenas e palavras. . tinha a cabeça aritmética do pai. eu também estava de preto. posto que a idéia da paternidade do outro me estivesse já familiar. Sentamo-nos. Se o rapaz tem saído à mãe. senhor. Estendeu o copo ao vinho que eu lhe oferecia. Escobar comia assim também. o mais digno de ser querido. e continuou a comer. dava-me cada puxão. Se pensas que o almoço foi amargo.. Conhecia aquela parenta. A idéia de que pudesse ter visto alguma fotografia de Escobar. os estudos. particularmente os de arqueologia. o exato.Papai ainda se lembra quando me levou para o colégio? perguntou rindo.Pois não hei de lembrar-me? . Ezequiel cria em mim como na mãe. eu acabava crendo tudo. Creio que o desejo . mas o diabrete falava e ria. e comecei um interrogatório para ter menos que falar e dominar assim a minha emoção. o mesmo obséquio e a mesma graça. eu ia desesperado.. Sim. . Não havendo remédio senão ficar com ele. concluiu. e papai não parava.. Falava da antiguidade com amor. Expliquei-lhe que realmente pouco diferia do que era. Prima Justina quis vê-lo.Morreu bonita. que me não completasse e continuasse.. bebeu um gole. tanto mais facilmente quando que ele parecia haver-me deixado na véspera evocava a meninice. enganas-te. o sotaque era afrancesado.Era o próprio.Vamos almoçar. contava o Egito e os seus milhares de séculos. o verdadeiro Escobar. não gostava da ressurreição. com a cara metida no prato. com igual riso e maior respeito.Papai não faz diferença dos últimos retratos. fechava os olhos para não ver gestos nem nada. é verdade. a ida para o colégio. sem se perder nos algarismos. .Era na Lapa. que era a sua paixão. Contou-me a vida na Europa.

CAPÍTULO 146 NÃO HOUVE LEPRA Não houve lepra. Seria um regalo último. Iremos vê-la. disse eu a Ezequiel que queria ir vê-la.. os olhos que ele me deitou foram ternos e agradecidos. viagem científica. mas recuei. e respondeu-me que as mulheres eram criaturas tão da moda e do dia que nunca haviam de entender uma ruína de trinta séculos. Onze meses depois. . ao Egito. Ao cabo de seis meses. No caminho para o cemitério. tão outra a fizeram os anos e a morte. onde os dois amigos da universidade lhe levantaram um túmulo com esta inscrição. atalhei-o a tempo. um trecho de praia. e foi enterrado nas imediações de Jerusalém. Assim acontecia sempre que voltava para casa. Eram dois colegas da universidade. e à Palestina.” Mandaram-me ambos os textos. como se as casas morressem meninas.Está muito mal. a conta das despesas e o resto do dinheiro que ele levava. . como se faz a um filho de verdade. contava-me as recordações que ia recebendo das ruas e das casas. promessa feita a alguns amigos. Ezequiel viu-lhe a cara no caixão e não a conheceu. grego e latino. encarei-o depois. . o desenho da sepultura. quando ficar melhor. Ezequiel morreu de uma febre tifóide. Ezequiel falou-me em uma viagem à Grécia. nem podia. alguma rua. e dei-lhe logo os primeiros dinheiros precisos.De que sexo? perguntei rindo. em grego: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. qualquer emoção pode trazer-lhe a morte. sejam velhas ou novas. Não fomos. Prometi-lhe recursos. iam-lhe lembrando uma porção de coisas. Sorria vexado. Como disse que uma das conseqüências dos amores furtivos do pai era pagar eu as arqueologias do filho. Admirava-se que muitas destas fossem as mesmas que ele deixara.de ver Ezequiel era para o fim de verificar no moço o debuxo que porventura houvesse achado no menino. e era todo alegria. antes lhe pagasse a lepra. mas há febres por todas essas terras humanas. Ela descansa no Senhor ou como quer que seja. Quando esta idéia me atravessou o cérebro.. pagaria o triplo para não tornar a vê-lo. ao fim do dia. senti-me tão cruel e perverso que peguei no rapaz e quis apertá-lo ao coração. alguma torre. a morte levou-a dentro de poucos dias. tirada do profeta Ezequiel.

se . consultava o relógio. . ou a luz da sala esmorece. Jesus. . Apesar de tudo. dava-lhe o braço. Não voltavam mais.Até amanhã. e ia embora com o catálogo na mão. se chovia.Levo. calcante pede. mas tinha ainda um complemento: “Tu eras perfeito nos teus caminhos. por mais lacerada que tenha sido. Caprichos de pouca dura. entrávamos. e não via nada nem ninguém.Levas o catálogo? . E O RESTO? Agora . Eis aí mais um mistério para ajuntar aos tantos deste mundo.. até amanhã. se aparecia outra visita. Vivi o melhor que pude. CAPÍTULO 148 E BEM. As outras iam modestamente. uma aquarela. e as metia dentro. por que é que nenhuma dessas caprichosas me fez esquecer a primeira amada do meu coração? Talvez porque nenhuma tinha os olhos de ressaca. uma gouache. desde o dia da tua criação. com grandes despedidas. sem me faltarem amigas que me consolassem da primeira. O resto é saber se a Capitu da Praia da Glória já estava dentro da de Mata-cavalos. não ficou aí para um canto como uma flor lívida e solitária. ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. filho de Sirach. CAPÍTULO 147 A EXPOSIÇÃO RETROSPECTIVA Já sabes que a minha alma. jantei bem e fui ao teatro. os quadros históricos ou de gênero. Elas é que me deixavam como pessoas que assistem a uma exposição retrospectiva. Uma só dessas visitas tinha carro à porta e cocheiro de libré. e maiores recomendações. Não lhe dei essa cor ou descor. é verdade. e. esperando. ia até à esquina. um pastel. ou se fartam de vê-la.Como quisesse verificar o texto.. consultei a minha Vulgata. mostrava-lhe as paisagens. eu é que ia buscar um carro de praça. e. nem os de cigana oblíqua e dissimulada. Mas não é este propriamente o resto do livro. Eu ficava à porta. Então. achei que era exato.” Parei e perguntei calado: “Quando seria o dia da criação de Ezequiel?” Ninguém me respondeu. espiava. e também esta cansava.

e tu concordarás comigo. dir-me-ia.. E bem.. 9 . hás de reconhecer que uma estava dentro da outra. A terra lhes seja leve! Vamos à “História dos Subúrbios”. se te lembras bem da Capitu menina. uma coisa fica. versículo 1: “Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti”. como a fruta dentro da casca.soubesse dos meus primeiros ciúmes. a saber. ou o resto dos restos. Mas eu creio que não. FIM . quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me. tão extremosos ambos e tão queridos também. qualquer que seja a solução. e é a suma das sumas. que a minha primeira amiga e o meu maior amigo. como no seu cap.

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