1

REGIMES INTERNACIONAIS: COOPERAÇÃO OU MEIOS PARA INGERÊNCIA INTERESTATAL?
André Bezerra Meireles* Introdução Muitas são as controvérsias que envolvem os estudos sobre as chamadas instituições internacionais ou regimes internacionais. As análises e discussões perpassam pelas suas formas, funções, e até sobre quais interesses essas instituições poderiam servir, ou, se realmente servem como ponto de equilíbrio e participação dos Estados nas negociações e na formação das normas, regras e princípios que regem tais modelos de organismos. Estes e outros tópicos ligados à economia política internacional são foco de muitos estudos desde os anos 70, não sendo, de todo modo, os analistas e scholars capazes de estabelecer um único referencial que permita compreender os processos de cooperação entre os atores internacionais, ou mesmo as relações de poder e discórdia existentes nas relações desses agentes. Releva-se estes como alguns dos embates que permeiam a discussão do tema que se pretende esclarecer nesta pesquisa. O que se almeja responder neste trabalho é, dentro do campo proposto inicialmente, se o direito internacional encontra-se em expansão no sentido de inclusão tanto dos países desenvolvidos quanto em desenvolvimento na construção e regulação de uma sociedade internacional em que a possibilidade de negociação ocorra em maior grau do que a imposição por um ou mais agentes na determinação das “regras do jogo” da economia política mundial, favorecendo assim somente um número limitado desses agentes em relação aos demais envolvidos.

*

Mestre em Direito Internacional (UFSC). Advogado e Consultor Jurídico. Professor de Direito Internacional (Uniceuma) e Processo Legislativo no Curso de Especialização em Direito Constitucional (UnDB). Membro da American Society of International Law (ASIL). O autor agradece a André Vinícius Tschumi pela leitura e comentários, sendo que os eventuais percalços deste estudo somente podem ser atribuídos ao autor.

2

Para isso, escolheu-se abordar a presente temática por meio de pesquisas que vêm sendo promovidas com maior profundidade desde o início dos anos 80, em sua maioria por cientistas políticos e juristas norteamericanos, a respeito do que foi identificado como teoria do Institucionalismo, ou seja, a teoria dos regimes internacionais.1 Para que se demonstre de modo mais claro, far-se-á algumas considerações concernentes às mudanças ocorridas no século XX no sistema internacional, bem como aos esforços que vem sendo realizados em prol de melhor interpretar e compreender tal quadro. 1. As mutações na sociedade internacional e o direito internacional a partir do século XX O surgimento de novos membros do sistema internacional e o maior grau de interação e interdependência entre si aparecem como resultado de uma maior aproximação das relações entre as unidades estatais, indicando ainda que não se vive mais, unicamente, em um sistema internacional, mas em um sistema que já pode ser visto atualmente como uma sociedade internacional. Não obstante, existem aqueles que afirmam não haver uma sociedade internacional, em virtude de esta não possuir os requisitos essenciais para que se considere como tal. Os sistemas internacionais são destacados pelos historiadores com o fim de darem “a fotografia de uma área política” em determinado momento, apresentando as múltiplas relações e o fluir das mesmas, como, por exemplo, o sistema de Paz de Vestfália do século XVII e o bipolarismo da segunda metade do século XX.2 Torna-se necessário ir além do plano geográfico, de abrangência por sobre as formas de intercâmbios nos distintos níveis de interações sociais, políticas e econômicas. Ademais, deve-se verificar as modificações que se realizam no seio dessas interações. Raymond Aron observa que o sistema internacional é formado por unidades políticas que
1

John Gerard Ruggie, cientista político norte-americano, foi quem introduziu o termo “regimes” nos estudos de política internacional. Cf. RUGGIE, John G. International Responses to Technology: Concepts and Trends. International Organization. v. 29, n. 3, p. 570, 1975. 2 MOREIRA, Adriano. Teoria das relações internacionais. 3. ed. Coimbra: Almedina, 1999, p. 272-273.

94. provocam reações mútuas. enfim. 372. Paix et Guerre entre Les Nations. não importando onde ocorram. 6. . a lei e as instituições seriam governadas e limitadas pela luta pelo poder. o citado scholar realista aduz que "um sistema de Estados (ou sistema 3 4 ARON. 113. Paris: Calmann-Lévy. p. Ressalva-se. e que este – sistema internacional – é um “sistema planetário”. ou. Raymond. 5 Para um esclarecimento inicial. A política do poder.ed. Raymond. p. p.4 Partindo. 5 WIGHT. outro teórico da Escola Inglesa de Relações Internacionais. enquanto a luta no âmbito interno dos Estados é governada e circunscrita pelo molde das leis e das instituições. A respeito do termo anterior. regidas por meio de normas e formas de entendimento político. da inexistência de um poder central ou de um governo mundial. Segundo alguns autores entre os vários existentes que compartilham dessa ótica. por enquanto. o ponto inicial é a existência dos Estados e é com base neles que a sociedade internacional é organizada.3 mantêm relações diplomáticas regulares entre si3. Desse modo. A sociedade internacional é considerada anárquica. 2. esta é uma afirmação unicamente da perspectiva do realismo político. que pressupõem a existência de tal sistema. pode-se dizer. Martin Wight afirma que se faz parte de um sistema de direito internacional e existem instituições internacionais para alterar ou complicar a forma de funcionamento da política de poder. Essa anarquia é decorrente da existência de uma multiplicidade de Estados e da insuficiência de uma regulamentação internacional eficaz que consiga responder aos chamados das constantes mutações globais. Brasília: Editora da UnB. Paix et Guerre entre Les Nations. 1962. a principal distinção entre a política externa e interna dos Estados pode ser identificada no paralelo dialético entre a política internacional. ed. que pressupõe a ausência de um sistema de governo. Martin. apenas da visão do realismo político. 2002. Tradução de C. Sérgio Duarte. a sociedade internacional é centrada unicamente nos Estados como principal ente dessas relações. pois todos os acontecimentos. Hedley Bull. na política internacional. pois. prescreve um paralelo entre o que seja sistema de Estados e sociedade de Estados. assim como as políticas nacionais. ARON.

“um grupo de Estados. p. O último século foi marcado pela legalização das relações internacionais. ou seja. violentamente. que vêm se proliferando continuamente nas organizações internacionais multilaterais. New York: Columbia University Press. ver: GOLDSMITH. à realidade da vida estatal de finais do século XX. 9-10 7 BULL. isoladamente. Toda essa normatividade encontra-se estruturada nos atuais tratados. 6 BULL. e detém impacto suficiente sobre as decisões um dos outros. fazendo com que se comportem – pelo menos em certa medida – como partes de um todo” 6. e alterações na elaboração das normas internacionais. e participam conjuntamente de instituições comuns”7. e início do século XXI. com o transcorrer do século XX. formam uma sociedade no sentido de que eles mesmos aceitam estar ligados por um conjunto comum de regras em suas relações. The Limits of International Law. Jack L.. The Anarchical Society. mudanças de regimes internacionais tanto políticos quanto econômicos. 2005. Hedley. Oxford: Oxford University Press. A sociedade internacional evolui de forma rápida desde o século XIX e. passando nesta fase por uma realidade conflitiva marcada por duas grandes guerras mundiais. The Anarchical Society. surge o que Bull define como uma sociedade de Estados. como também por juristas de distintas nacionalidades. 13. desenvolvimento de novos atores internacionais. 8 Em contraposição a esta afirmativa. dando um novo perfil para o direito internacional e às formas de negociação entre os Estados. p. As definições anteriormente descritas sobre o sistema e sociedade internacionais não mais correspondem. no surgimento e maior dinâmica de empresas multinacionais. pode-se dizer. POSNER. e mais recentemente. Hedley. nos acordos regionais de comércio. Eric A. 1977. em uma larga escala de acordos bilaterais.8 Tal assertiva é defendida não somente por cientista políticos. destacando-se os acordos no setor da economia internacional.4 internacional) é formado quando dois ou mais Estados têm contato suficiente entre si. Pari passu. conscientes de certos interesses e valores comuns. . A Study of Order in World Politics.

independentemente dos processos de integração econômica regional que alguns já estavam iniciando. estes são pontos que serão abordados mais à frente neste trabalho. O domínio que os Estados Unidos detinha sobre essas instituições quando da sua criação. Esse foi um instante em que o governo norte-americano percebeu o quanto poderia se beneficiar da relação de dependência que países do velho continente passariam a ter. como meio cooperativo de segurança internacional coletiva entre os 26 países da respectiva área do globo contra a dita ameaça do bloco soviético. e evitar as crises ocorridas no período entre guerras. passando. desta feita. o fim era estabelecer novas formas de controle sobre a economia mundial. No entanto. Organização do Tratado do Atlântico Norte (1949). Desde o fim da 1ª Grande Guerra.5 1. tendo a ajuda dos Estados Unidos como sustentáculo.1 As instituições internacionais pós 2ª Guerra Mundial: reflexos da hegemonia norte-americana O fim do período entre guerras foi o momento em que as instituições internacionais passaram a surgir em maior escala e dentro de um cenário em que era latente a necessidade pela criação de organismos de caráter multilateral. sendo as demais subsidiárias da ONU. também organizado do mesmo modo por meio do Pacto de Varsóvia (1955-1991). ainda a auxiliar a reerguer os países europeus dizimados pela 2ª Guerra Mundial. o Banco Mundial (BIRD) e Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) foram as instituições que representaram os primeiros. e que ainda detém nos dias atuais. porém definitivos passos para um caráter multilateralista das relações internacionais. . desvinculada dela surgiu também a OTAN. demonstram que a existência de uma potência considerada hegemônica é um dos possíveis motivos que levam ao surgimento de instituições internacionais (regimes internacionais). A Organização das Nações Unidas (ONU) juntamente com o Fundo Monetário Internacional (FMI). já se firmava como o período de transição da Pax Brittanica para a nova realidade da Pax Americana. Além das Nações Unidas.

KEOHANE.6 O que há muito já foi verificado. apesar de darem grande relevância às suas atividades fora do seu país de origem. Odete Maria de Oliveira leciona que as corporações transnacionais são também denominadas corporações multinacionais. 25. Relações internacionais: estudos de introdução. Transgovernamental Relations and International Organizations. e ainda. No entanto. ainda. BERGSTEN.. Odete Maria de. econômica e politicamente derrotados. NYE. tornando mais difícil em alguns momentos. 1. KEOHANE. . 329-349. ver: KEOHANE. NYE. Robert O. 27. Estas. por parte dos Estados. Concernente a transnacionalidade. cartéis internacionais e. A face transnacional das empresas é verificável também na forma como elas conseguem administrar as relações entre si. Joseph S. 1975.39-62. NYE. Robert O.. as empresas transnacionais podem ser geridas por indivíduos nacionais distintos e suas decisões fogem à esfera nacional em que se localiza. frente aos acordos regionais que passaram a surgir com grande força entre os países no velho mundo. n. Joseph S. International Organization..3-36. desenvolvendo regras autônomas. e que tem sido um avanço natural das relações internacionais. segundo a autora. 1971. direcionam todo o resultado do movimento financeiro de suas filiais para a sede principal. como frente também às grandes corporações. 1974. “uninacional”. como por 9 OLIVEIRA. especialmente no campo econômico e financeiro. p. v. o desenvolvimento e controle de suas relações uns com os outros.9 O transnacionalismo 10 surge como fonte diversificadora dos agentes do sistema. Foi a partir dessa tendência a uma mútua dependência essencialmente assimétrica entre os Estados. e exige uma nova forma comportamental dos países entre si. é o aumento de uma maior interdependência. se caracteriza pela ultrapassagem das fronteiras nacionais. n. mas também da relação dos Estados com as instituições internacionais e corporações transnacionais. a criação de organismos intergovernamentais. até então. International Organization. 10 Com relação aos estudos iniciais sobre a origem do transnacionalismo. Curitiba: Editora Juruá. Joseph S.. p. v. 1. 2001. n. 3. 29. Robert O.. Fred C. ao nascimento gradativo de outras formas de grupos e organismos (com competências e interesses temáticos específicos) que a paisagem global foi evoluindo e se modificando. World Politics. que existe não só entre os Estados. p. out. Transnational Relations and World Politics: An Introduction. sendo. 250. v. International Economics and International Politics: A Framework for Analysis. p.

mas na arena político-militar. 22-23. Nesse período. . tanto escritas como não. mal sucedida em detrimento das duas grandes guerras. como fez em 1897. é um fenômeno que se apresenta hoje como um dos entraves para o multilateralismo. 1. Count Goluchowski. seus produtos cresciam em volume. Jacob. que se configura como um complexo de normas jurídicas. Já os processos de regionalismo econômico ou dos acordos regionais de comércio vêm ocorrendo de maneira mais acelerada a 11 VINER. a (nova) lex mercatoria.2 Os processos de integração regional Os processos de formação de blocos econômicos pelos países europeus. e a redução nos transportes estavam trazendo maior competição com a agricultura européia em função dos cereais e produtos animais norte-americanos. a Liga das Nações. tanto que posteriormente. Estímulos à união entre os países do antigo continente já ocorriam. já no campo não unicamente econômico e comercial. p. este que aparenta ter sofrido um baque nos últimos anos em função do grande aumento de acordos bilaterais e acordos multilaterais em menor amplitude. possuindo como fim o controle das relações do comércio internacional.7 exemplo. as tarifas norte-americanas já eram altas e continuavam a subir. Lancaster: Lancaster Press.11 Esse período pré 1ª Guerra Mundial já demonstrava uma maior tendência à interdependência econômica entre Estados. primeiro ministro austríaco. veio a surgir o que foi semente das instituições internacionais de hoje. ao circular uma carta aberta aos líderes europeus no sentido de que estes se prontificassem em conjunto a tomar medidas contra as ações dos Estados Unidos no setor comercial. Todo esse surgimento de acordos de livre comércio e uniões aduaneiras no continente europeu não é recente. Pois bem. desvinculadas do direito positivo dos Estados. The Customs Union Issue. 1950. sendo inicialmente zonas de livre comércio e uniões aduaneiras.

respectivamente: o elemento da guerra e da luta pelo poder entre os Estados. no sistema internacional moderno. sendo que a cooperação internacional a partir dos anos 50 talvez tenha sido maior que em qualquer outro período da história. 1995. Os movimentos integracionistas ocorridos a partir da segunda metade do século XX na Europa Ocidental representam o marco da formação e intensificação do antigo regionalismo. Todo esse período histórico dos últimos cinqüenta anos pode ser dividido em duas ondas que são assim identificadas pela incrível rapidez com que ocorreram. . New Dimensions in Regional Integration. as bases da supranacionalidade que viria surgir.12 Nessa nova forma de regionalismo. Arvind. estando representada unicamente na União Européia. e isso só tem aumentado. Hedley Bull observa a existência. Jaime. O sistema internacional não se encontra em um “estado de natureza” como definido por Hobbes na política mundial.8 partir da metade dos anos oitenta. New York: Cambridge University Press. sendo a primeira. DE MELO. o elemento da solidariedade transnacional e 12 PANAGARIYA. dos elementos defendidos pelas categorias do pensamento hobbesiano. 2. As normas do direito europeu são diferentes das normas de direito internacional O que se busca demonstrar neste breve início de pesquisa é uma constante necessidade de cooperação entre os Estados. quais sejam. kantiano e grociano. gerando um forte e crescente impacto na economia dos países. mas a não existência de um governo central superior aos Estados soberanos e independentes. no mínimo. foram aos poucos se consolidando. a fundadora dos primeiros acordos comerciais regionais. A segunda onda ocorreu nos anos 80. tendo desde já os Estados Unidos como um dos grandes negociadores. A Cooperação Internacional Anarquia é também um dos conceitos muito trabalhados pelos defensores do institucionalismo. é a própria anarquia internacional existente. p. algumas considerações podem ser colocadas para uma maior compreensão do tema. 03. A respeito da temática da cooperação. para até hoje se manter.

elas variam. n. 1985. ou seja. por sua vez. os institucionalistas defendem a possibilidade de negociação e entendimento entre os atores internacionais. como importante explicativo da natureza e da dinâmica dos processos de integração regional. p. 15 Importante a afirmação feita pelo professor Alcides Costa Vaz. coloca em questão a ação de atores não-estatais. 1.14 Mesmo assim. agentes atuantes internacionalmente seguirem determinados comportamentos específicos em suas interações – os regimes internacionais – e.” In: . Robert. Princeton. Achieving Cooperation Under Anarchy: Strategies and Institutions. além do Direito Internacional. Como defendem alguns observadores da política mundial. 13 A anarquia – a ausência de um governo central – é uma constante na política mundial. e o elemento da cooperação e de interação regulada entre os Estados.9 o conflito cruzando as fronteiras nacionais. por uma malha de princípios. corrigindo falhas de mercado. na introdução de obra de sua autoria. World Politics. por se encontrarem em um contexto de interdependência complexa. normas e procedimentos que a leva os Estados e demais ritos. Não obstante o grau no qual as interações são estruturadas e os meios pelos quais são estruturadas. com o que elevam os custos de ações unilaterais que possam fragilizar interesses coletivos. KEOHANE. reduzindo problemas de ação coletiva e gerando normas e regras orientadoras do comportamento dos Estados. Hedley. e o mais importante. tornando assim mais estável e previsível o sistema em que eles interagem. ao dizer que: “O institucionalismo liberal. oct. p. é muito difícil ocorrer uma congruência entre os interesses dos Estados e um aprofundamento de suas articulações para solucionar questões de ação coletiva em função do estado de anarquia do sistema internacional. v. o nível de poder de barganha dentro de cada uma das temáticas. inclusive nos planos domésticos. Essa perspectiva construída sobre o legado funcionalista.15 13 14 BULL. coloca em perspectiva a capacidade das instituições internacionais de gerar incentivos para a cooperação internacional. AXELROD. regras. Paralelamente a este entendimento. As relações internacionais encontram-se regulamentadas. conforme seus interesses em cada uma destas mesmas temáticas. esse quadro de anarquia no qual se envolvem os Estados não representa a falta de controle ou de uma regulação das interações entre esses membros da sociedade internacional. a possibilidade de cooperação. The Anarchical Society. 41. as ações estatais ocorrem dentro dos limites formais estabelecidos com relação às temáticas a que se direcionam. 38. Robert O. 226.

4. 19-20. 5. After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy. integração e processo negociador: a construção do Mercosul. p. por causa do acelerado crescimento da interdependência econômica internacional a partir do período pós-guerra. e a formação de blocos econômicos. as análises de organizações internacionais vê tais atividades dessa forma. 6. ainda. Joseph S. Ele afirma que a diferença ocorre na idéia de cooperação como sendo “uma ação tendente a diminuir a discriminação”. a VAZ. “After Hegemony integra esta visão sobre organizações internacionais dentro de uma teoria mais ampla de regimes internacionais. p. Power and Interdependence Revisited. International Organization. como da atual Organização Mundial do Comércio (OMC). e mais recentemente. Por conseguinte. Todavia.GATT). p.” KEOHANE. 41. entre ambas as categorias no âmbito do Acordo Geral sobre Comércio e Tarifas (General Agreement on Tarrifs and Trade . Bela Balassa faz a distinção entre integração e cooperação no aspecto quantitativo das mesmas. bilaterais e multilaterais de comércio. tanto entre países desenvolvidos como aqueles em desenvolvimento e.10 O contexto de interdependência complexa em que evolui o sistema internacional tem gerado conflitos entre os atores na tentativa de controle e desenvolvimento de suas economias. 1987. Mesmo um nível absoluto de cooperação pode ser desarticulado pela discórdia. Robert O. p. NYE. 2002. Robert O.17 Não há dúvida de que os Estados têm apresentado tendências a cooperar de maneira crescente nas últimas décadas. é claro que para que ocorra qualquer processo de integração de economias é necessária. Brasília: IBRI. v. 1984. 739. n. After Hegemony. o crescente envolvimento dos governos na operação das economias capitalistas modernas tem criado mais “pontos de fricção potencial” 16 entre os países. inicialmente. 16 KEOHANE. Cooperação. Um exemplo é o atual grande número de acordos regionais. Observa Robert Keohane que a cooperação continua ainda muito escassa se comparada à discórdia. Robert O. New Jersey: Princeton University Press.. Alcides Costa. ao mesmo tempo em que a interdependência e as intervenções estatais criam mais oportunidades para o conflito de políticas. 17 KEOHANE. . Já a integração é definida como “medidas que conduzem à supressão de algumas formas de discriminação”.

Teoria da Integração Econômica. e mais cooperação não necessariamente virá a ser melhor do que menos. sobre instituições internacionais. está se deteriorando e pode estar a beira do colapso. International Regimes: Toward a New Theory of Institutions. p. Oran R. 12. O fato de haver discórdia. é o que tornam necessárias as tentativas de cooperação entre os atores internacionais.” Cf. 1961.19 3. Keohane aduz que sob condições de interdependência. engendrada pelos Estados Unidos e seus aliados. pois onde existem interesses comuns. O contrário ocorre com muito mais freqüência. já nos faz perceber a existência de objetivos distintos. Lisboa: Livraria Clássica Editora. afirma Balassa. . Por isso a necessidade de contrapor-se cooperação à discórdia. Tradução de Maria Filipa Gonçalves e Maria Elsa Ferreira. A cooperação é vista pelos policymakers mais como um meio para atingir uma gama de outros objetivos do que um fim em si mesmo. 19 KEOHANE. demonstrando também que na política internacional não existe lugar para harmonia. Todavia. p. mais genericamente.11 busca do interesse comum entre os países envolvidos. 39. a cooperação é necessária para atingir níveis favoráveis de bem-estar. a cooperação tende a falhar e a discórdia a prevalecer. YOUNG.20 Segundo Robert Keohane e Joseph Nye. 104-105. n. Robert O. 10-11. reflete um senso emergente.18 O referido economista húngaro nos apresenta uma análise limitada das perspectivas de uma negociação. v. Bella. esta se torna insuficiente. é importante asseverar que não se deve confundir cooperação com interesses comuns. o que já pressupõe uma forma de cooperação entre os atores internacionais. Oran Young faz o seguinte comentário: “Sem dúvida. 20 esse respeito. 1. esta explosão de trabalhos sobre regimes ou. O mero fato de dois governos possuírem agendas políticas distintas. World Politics. Os Regimes Internacionais: Conceitos e Críticas O alcance da compreensão do que seja o processo de interdependência é fundamental para que se possa compreender essa variável muito maior da política mundial que são os regimes internacionais. 1986. em especial entre os americanos. After Hegemony. p. no final da Segunda Guerra Mundial. Assim. objetivos divergentes. a maior contribuição obtida em Power and Interdependence para o estudo da interdependência e da cooperação foi enfatizar que a “análise das políticas de interdependência exige 18 Ver BALASSA. de que a ordem internacional.

24 O professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha. . foi recebido com entusiasmo por grande parte da literatura de relações internacionais em contraposição à relativa rejeição para a interdependência complexa. New York: Longman. como uma grande gama de países com relação a uma temática específica.. além de questões econômicas e financeiras. Interdependência e Interdependência Complexa. p.25 Os regimes internacionais podem estar configurados de diversas maneiras. as quais podem envolver alguns poucos países. e que padrões de interdependência econômica tem implicações para o poder e vice-versa”. Arno (Orgs. No entanto. A definição comum é realmente só uma lista de elementos que são difíceis de diferenciar conceitualmente e que. In: OLIVEIRA. R. manutenção e mudança de regimes internacionais. “Parte do problema com a definição de Krasner é que ele não nos permite identificar regimes com precisão ou separar regimes facilmente do resto das relações internacionais. Joseph S. ecológica e dos mares. sendo assim seguido pelos dois autores citados anteriormente. A evolução dessa linha de análise já vinha se desenvolvendo há anos. p. 3. qual seja. Robert O. Robert O. Robert O. 2001. Relações Internacionais: interdependência e sociedade global. “conjunto de acordos de governos que afetam relações de interdependência”. 17.21 O conceito de regimes internacionais22. Embora o conceito de regimes internacionais fosse então bastante mais vago do que ficou depois do seminário organizado por [Stephen] Krasner para que se construísse um consenso mínimo a respeito dos fenômenos da realidade aos quais querem se referir os analistas quando utilizam este termo. Joseph S. Ijuí: Editora Unijuí. p. Odete Maria de. analisa as condições de surgimento. reforça a idéia aqui exposta ao afirmar que a obra de Robert Keohane e Joseph Nye. 486. 2003. podendo ser bem específicos e surtir efeitos em relações de interdependência. Cf. questões de segurança internacional.24 Porém. Poder. Antonio Jorge R. 736-737. Power and Interdependence Revisited.ed. International Regimes: Toward a New Theory of Institutions. 106.23 O conceito de regimes é mais abrangente chegando a incluir análises que envolvem. a definição de regimes internacionais foi dada por Keohane e Nye. DAL RI JUNIOR. Power and Interdependence Revisited. YOUNG. p.. Oran. NYE. a preocupação com a divergência de expectativas dos agentes internacionais em áreas específicas da vida internacional já era bastante significativa em fins dos anos 60 e início dos anos 70”. da. 25 KEOHANE. não foi na obra em questão que o estudo dos regimes internacionais foi introduzido com maior destaque.” Cf. primeiramente. p. 21 22 KEOHANE. com freqüência. Power and Interdependence. “ao discutir o fenômeno da interdependência.). ROCHA.12 uma concepção sofisticada de negociação. Joseph S. sendo que o pioneiro nesta temática foi o cientista político norte-americano John Gerard Ruggie. encobrem situações no mundo real. 23 KEOHANE. NYE. NYE. elaborado de modo mais simples ainda nos anos 70.. 740.

Robert O. 28 Os regimes internacionais auxiliam na construção do quadro político dentro do qual os processos econômicos internacionais se desenvolvem. NYE. necessário se torna o entendimento de como os regimes internacionais surgem e se desfazem. Power and Interdependence Revisited. Power and Interdependence. foi com os estudos mais aprofundados de diversos pesquisadores nos anos 80 que se chegou à definição que hoje se mantém. Power and Interdependence. p. o qual define a estrutura do sistema. 29 KEOHANE..27 Os regimes internacionais são classificados como fatores intermediários situados entre a estrutura de poder de um sistema internacional e as negociações políticas e econômicas que ali se desenrolam..13 Para compreender os regimes internacionais que afetam as relações de interdependência. p. Robert O. Joseph S. Joseph S. 740. A 26 27 KEOHANE. Robert O. Robert O. 28 KEOHANE. A distribuição de poder entre os países. O conceito internacional de regimes internacionais serviu como um “rótulo” para identificar a noção inicial feita por John Gerard Ruggie. Assim.. p. NYE. 18. p. que afirmava serem os regimes um “comportamento coletivo institucionalizado”. deve-se fazer a dicotomia entre estrutura e processo. afeta e até certo ponto governa a negociação política e as tomadas de decisão diárias que ocorrem dentro do sistema”. 26 Os regimes internacionais têm a função de fatores intermediários que se encontram entre a estrutura de poder de um sistema internacional e as negociações políticas e econômicas que ocorrem dentro desse sistema. a estrutura é distinguida de processo. regras e procedimentos informais relevantes ao sistema). 33. KEOHANE.. Da mesma forma. por outro lado. 18. afeta de modo incisivo a natureza do regime que é caracterizada por um conjunto de regras e procedimentos formais e informais relevante ao sistema. NYE. . para se alcançar uma compreensão dos processos políticos de interdependência. sobre o qual o mesmo se refere ao comportamento designativo ou de negociação no interior de uma estrutura de poder. Power and Interdependence. Acrescentam ainda que a “estrutura do sistema (a distribuição de poder entre os Estados) afeta profundamente a natureza do regime (o mais ou menos disperso conjunto de normas. Joseph S. O regime. Joseph S. NYE. 29 No entanto.

1983. Stephen D. Segundo Raimundo Batista Junior. normas. . Paradigmas das relações internacionais: idealismo-realismo-dependência-interdependência. que podem estar baseados no recíproco desejo de agilizar a eficiência das trocas orientadas por eles. “o que estimula a formação dos regimes é a existência de interesses compartilhados. In: KRASNER. b) normas são padrões de comportamentos definidos em termos de direitos e obrigações. Structural Causes and Regime Consequences: Regimes as Intervening Variables.31 É necessário ressaltar a distinção feita por Stephen Krasner entre o que sejam princípios. e conceituando-os como sendo um “conjunto de princípios. a necessidade dos atores realizarem acordos com objetivo de maximizar ganhos no interior do sistema internacional.30 Em outras palavras. ou seja. Assim são caracterizados: a) princípios são crenças de fatos. regras e procedimentos de tomadas de decisões implícitos e explícitos em torno dos quais as expectativas dos atores convergem em uma determinada temática de relações internacionais”. a função básica de regimes é a coordenação do comportamento do Estado e outros atores internacionais para atingir objetivos desejados em temáticas específicas. os princípios e as normas dão as características básicas de definição de um regime. Gilmar Antonio et al. considerando que a separação fundamental consiste em por princípios e normas de um lado. p. Deve haver muitas regras e procedimentos de tomadas de decisão que 30 KRASNER. regras e procedimentos de tomadas de decisão. sem o recursos de um arcabouço institucional”. p. International Regimes. e regras e procedimentos de outro. Ithaca and London: Cornell University Press. p. Stephen D. Raimundo B. 31 KRASNER.14 definição consensual de regimes internacionais foi formulada por Stephen Krasner em 1982. In: KRASNER. Consoante Krasner. 7. Mas tais acordos não poderiam ser realizados restritivamente. International Regimes. d) procedimentos de tomada de decisões são práticas prevalecentes para fazer e implementar escolha coletiva. Stephen D. In: BEDIN. 285. Structural Causes and Regime Consequences: Regimes as Intervening Variables. normas. Stephen D. Para diferenciar tais elementos formadores dos regimes. Diversificação das relações internacionais e teoria da interdependência. c) regras são prescrições ou proscrições específicas para ação. In: SANTOS JUNIOR. para que se possa compreender a extensão deste conceito. 2. causa e retidão.

. a composição do que realmente seja o regime. os princípios e normas devem. International Regimes. base para existência dos regimes. os princípios e normas representam as mudanças de regimes ou. normas. ou se a prática atual dos Estados estiver notavelmente incompatível com os mesmos princípios. 4. Conseqüentemente. teórico português das relações internacionais. em primeiro lugar. regras e procedimentos de um determinado regime se tornarem menos coerentes. o fim de um regime. Assim. possivelmente. surge a possibilidade do nascimento de um novo regime para determinada temática.15 sejam consistentes com os mesmos princípios e normas. sendo às vezes relacionados a quadros que não se encontram por eles exatamente representados. Regimes e Instituições Internacionais: Divergências Conceituais Muita confusão existe entre tais termos. In: KRASNER. competência especializada e não genérica.32 sendo estes. Stephen D. dá um conceito muito genérico de instituições internacionais. Um caso diferente pode ocorrer quando se verificar um enfraquecimento do regime. normas. Enquanto que mudanças nas regras e tomadas de decisão representam mudanças dentro do sistema. Organizações. instituídas por 32 KRASNER. em regra com personalidade internacional. esse regime vai se encontrar enfraquecido e corre o risco de ser alterado por completo. que são a “essência” do regime. 4. A mudança de um sistema ou o fim dele só viria a ocorrer se os princípios e normas não fossem mais seguidos. Stephen D. Se os princípios. p. Adriano Moreira. Structural Causes and Regime Consequences: Regimes as Intervening Variables. ou seja. regras e os procedimentos. as instituições internacionais “são organismos interestaduais. sempre ser obedecidos para que possam se manter as regras e procedimentos concernentes a elas. Segundo ele.

In: KRASNER. Susan Strange é considerada uma das maiores críticas a análise de regimes internacionais. não se considerou a discussão dessa parte do estudo neste trabalho. p. STRANGE. Robert Keohane. Em função de tal abrangência. Robert. O termo “regimes internacionais” também acaba por para caracterizar corretamente as regras e as organizações internacionais formais. p. são as regras em si que devem ser seguidas. todavia. Isto não se quer dizer que as organizações internacionais não sejam instituições. Cf. New Jersey and Oxford: Princeton University Press. Stephen D. . Elas representam as organizações internacionais. Como visto acima. p.16 tratados sujeitos à ratificação pelos órgãos soberanos de cada Estado membro”. ao apresentar referida definição. 2001. Arthur Stein entre outros. o qual simplifica dizendo que. Adriano. De todo modo. 35 33 34 MOREIRA.33 Pode-se perceber que. Susan. as instituições não são somente as organizações isoladamente. coleciona-se o entendimento de Robert Gilpin. Princeton. Cave! Hic Dragones: A Critique of Regime Analysis. o professor Adriano Moreira está se referindo simplesmente às organizações internacionais formais. 35 GILPIN. É bom ressaltar que as instituições internacionais acabam sendo uma das definições mais abrangentes dentro do estudo da política internacional. Global Political Economy: understanding the international economic order. o que realmente importa para o funcionamento da economia mundial. 339. os regimes internacionais 34 e os costumes internacionais. como o Fundo Monetário Internacional e o GATT. contrária tanto ao seu conceito como aos fins para os quais eles são criados consoante autores como Stephen Krasner. Teoria das relações internacionais. 83. Para reforçar tal afirmação. deve-se destacar a distinção feita entre um regime internacional – significando regras e entendimentos – e uma instituição internacional – como sendo uma organização formal. 337-354. International Regimes. mas as regras e normas incorporadas ou não nessas organizações. instituições internacionais não são unicamente as organizações internacionais onde se encontram corporificadas em sedes fixas as regras próprias que cada Estado membro deve seguir. ao invés das instituições (organizações) nas quais as mesmas se encontram incorporadas.

Por outro lado. Os termos “regimes internacionais” e “organizações internacionais” não são sinônimos nem co-extensionais.17 Toda essa confusão conceitual é gerada por dois motivos: a abrangência. em conseqüência. mesmo que os demais membros do regime internacional alcancem resultados favoráveis relativos às suas políticas. os quais não acreditam em processos de cooperação. a qual está relacionada a uma clara atividade cooperativa entre os atores envolvidos. na obra organizada por Stephen Krasner. a não ser temporariamente. os pensadores realistas vêem os Estados como atores racionais egoístas. como já dito. 5. que os Estados buscam por respostas aos seus interesses individuais. . que pode gerar também ganhos absolutos em longo prazo. no início dos anos 80. e a falta de precisão do termo regimes. Por isso. Esse teórico traz uma mesma explicação para o que foi dito por Robert Gilpin. ou seja. Possivelmente. Regimes Internacionais como uniformização do direito internacional – possibilidade de cooperação ou ingerência? Os estudiosos do institucionalismo têm uma inclinação a defender o crescimento dos processos de cooperação ou de situação de governança supranacional. cooperação e interesses individuais transitam dentro de um meio ambiente de negociação. nada disso impedirá a ocorrência de cooperação. vale destacar a explicação dada por Oran Young para observar a diferença entre essas terminologias. contudo. o qual continua muito criticado desde sua conceituação existente mais difundida. enquanto os interesses individuais não forem alcançados. não podem e não devem ser confundidos. Acredita-se nesta afirmação. do conceito de instituições. Em outras palavras. A referida premissa realista é adotada por Robert Keohane quando do desenvolvimento da teoria do institucionalismo. de maneira mais clara. consoante acima. tendo em vista que as instituições internacionais (regimes internacionais) são simplesmente meros instrumentos para a aplicação de política estatal em nível internacional. e.

A hostilidade chinesa com relação à entrada nipônica e a falta de interesse norte-americano impediram que o objetivo japonês fosse alcançado. Reino Unido e França.0%. 19. Deve-se lembrar que juntamente com o G-4 havia a União Africana (AU) na disputa por um assento no CS/ONU. mantida na cúpula do poder responsável pela segurança internacional nas Nações Unidas. Eles simplesmente deixariam de ser rotativos. a China e . logicamente em função de seus papéis na 2ª Guerra Mundial. 2006. Embora seja o segundo maior país contribuinte com as Nações Unidas. a França em 5° com o equivalente a 6. os países do G-4 – inicialmente. com 8. mas os muitos desentendimentos entre os países da AU não foram positivos para a candidatura de (um) seus países. nunca conseguiram contornar essa situação. e se manteriam sempre na discussão dos 36 A Alemanha é o 3° maior contribuinte das Nações Unidas. em meados dos anos 40. a Alemanha e o Japão não foram incluídos no Conselho de Segurança (CS/ONU). continuariam com seu poder de voto.org>. haveria a chance de se ter novos membros fixos nas reuniões do órgão.36 o Japão não possui autonomia dentro da instituição frente a “assimetria criada” 37 quando da gestação da ONU pelos Estados Unidos. Brasil. Disponível em: <www.7% do orçamento.18 O histórico de atuação da ONU nos mostra bem essa realidade de poder de barganha político já desde 1944-45 quando. A ONU e a questão da assimetria de poder. e por fim.5% do orçamento da organização. Mesmo que o G-4 tivesse logrado êxito. eles não teriam direito ao poder de veto nas decisões do Conselho. com 2% e 1% respectivamente. os outros quatro membros permanentes do Conselho de Segurança não contribuem com mais que 10% individualmente para a manutenção dessa assimetria inventada. Com o projeto de reforma do Conselho de Segurança.1%. principais negociadores ocidentais da Carta de São Francisco. Acesso em: 19 mar. e por não ter obtido apoio do governo norte-americano para a entrada dos quatro países. Índia. Alemanha e Japão – atualmente sem este último por discordância com a proposta feita pelos demais. 37 Termo emprestado de ALMEIDA. e ainda mais.pralmeida. ficando somente atrás dos Estados Unidos que contribuem anualmente com o equivalente a 22%. Rússia. sendo o Reino Unido em 4° com 6. Hoje. Paulo Roberto de. .

A cooperação já se encontra em uma outra dimensão. os quais têm mais facilidade. a Alemanha. para alcançar seus objetivos ao negociar dentro do regime mundial de segurança internacional que são as Nações Unidas. russa ou americana. nos demais órgãos formadores da ONU se surgir uma tentativa de modificação dos mesmos. deve haver conformidade entre . Todas essas possibilidades (e necessidades) de renovação dos membros do Conselho de Segurança geram uma alteração na própria Carta de São Francisco no que se refere à quantidade de componentes desse órgão. posteriormente. por exemplo. ou seja. provavelmente. As ações desses indivíduos ou grupos devem estar em concatenação uma com outra por meio de negociações. Este último pode simplesmente querer vetar por interferir em seus objetivos. podendo isto ocorrer. Pois bem. A harmonia é apolítica. quando o Conselho tiver que decidir sobre uma temática que interesse muito mais à China do que à própria Alemanha. A harmonia se caracteriza por uma situação na qual as políticas dos atores – fundamentada no seu próprio interesse sem dar importância às dos demais – facilita a obtenção de outros fins de modo automático. como China ou Reino Unido no momento pode não ser perceptível.19 problemas de segurança internacional. por exemplo. de uma pré-harmonia. Robert Keohane fez a distinção entre as noções de harmonia. não é necessário efetuar-se ajustes nas políticas para tanto. a sustentação do poder de veto somente nas mãos dos atuais membros permanentes demonstra maior barganha de poder político sob o domínio dos 05 países. cooperação e discórdia. Conforme já foi dito nessas linhas. Esta exige que atitudes sejam tomadas por parte de indivíduos ou grupos justamente por não estarem em um contexto de harmonia. estes venham a exercer maior pressão numa negociação ou na elaboração de uma Resolução. evita que. mas sem capacidade de vetar qualquer uma decisão. Em outras palavras. Mas ao ver-se o fracasso do G-4 na sua batalha por um assento permanente. verificada sua competitividade econômica por ser uma das maiores do mundo. e à sua competência. Ao desenvolver a teoria dos regimes internacionais. O ganho para Estados.

A cooperação.20 medidas ligadas à coordenação de suas políticas. 6. 53. e nenhuma influência necessita ser exercida. Considerações Finais Verifica-se que a função dos regimes internacionais constitui-se.38 Dentro da economia política internacional. padrões de comportamento devem ser alterados. O fato de haver um Estado capaz de exercer seu poder para favorecer determinados interesses e outros não. After Hegemony. mesmo onde possam ocorrer benefícios mútuos. na possibilidade de aplicação das políticas unilaterais dos países mais poderosos sobre os mais fracos. os governos procuram suprir suas demandas por proteção aliviando as cargas de ajuste para os grupos e indústrias politicamente influentes no país. em contradição. elimina as chances de um melhor processo de cooperação. não significa a existência ou a geração de harmonia. Como acrescenta Keohane. com o fim de satisfazer interesses 38 KEOHANE. Em decorrência disto. entre outros. Essa perspectiva realista-liberal é corrente. pois medidas unilaterais internas não são suficientes como ajuste de políticas. Todo o processo de cooperação é estimulado pela discórdia. é solidamente política: de nenhuma maneira. deve-se destacar que. p. Esta mudança pode ser alcançada por meio de incentivos que podem ser negativos ou positivos. Bem se destaca que nem sempre se faz necessário o uso da negociação para efetuar o ajuste de políticas. Robert O. ajustes externos são exigidos. tanto em nível de acordos sacramentados em um ambiente institucionalizado como em um ambiente não institucionalizado. nenhuma comunicação é necessária. Assim. . a qual possibilita um ajuste comportamental às preferências dos outros envolvidos. na harmonia. que é caracterizada pelas divergências e conflitos entre políticas nacionais. Toda esta explanação vem para demonstrar que interesses egoístas são exercidos dentro da política tanto nacional quanto internacional.

frente a todas as mudanças na sociedade internacional. Contudo. ou seja.21 individuais em detrimento da (possível) exploração dos Estados com menor poder de barganha. de ganhos relativos. ou “guetos normativos” – que são os regimes internacionais –. o direito internacional se encontra seccionado. tanto políticas como. suas normas. O contexto político de interdependência complexa permitiu que subsistemas. existe uma tendência forte à manipulação desses processos internacionais. Assim sendo. seja na forma de blocos econômicos ou acordos bilaterais. ou mesmo expandir. por outro lado. tanto quanto das negociações em uma instituição. pelo menos. O processo de institucionalização em nível internacional é uma nova forma de atuação dos Estados que. do meio ambiente. entre outros. da segurança internacional. em uma relação de interdependência assimétrica. hoje. centralizando a ação dos atores internacionais e buscando evitar a violência generalizada. procuram a todo tempo manter. mesmo quando os atores internacionais encontram-se circunscritos por normas obrigatórias. fossem emergindo a partir de uma necessidade natural dos países de regularizarem suas formas de entendimento. volta-se a assegurar que em nenhuma hipótese a tentativa de ingerência deve ser excluída. Por fim. econômicas. regras e princípios. gerando um entrelace irreversível entre as causas e efeitos internos (econômicos. em constante diversificação (em parte como resultado dos muitos interesses internos das elites dos países). desenvolvidas e uniformizadas para uma melhor aplicação em um determinado setor da economia política. Nesse contexto. impedindo o resultado cooperativo ao qual deveriam se destinar e garantir o alcance. dentro de suas áreas de interesse. percebe-se que apesar da probabilidade de formação de instituições que venham a estimular processos de cooperação na política mundial. ao tempo que se sentem atraídos pela parcial dinamização operacional fornecida pelas instituições. o que se verifica com relação às normas de direito internacional é que elas têm sido bem mais direcionadas. suas autonomias e competências para . e principalmente. havendo assim uma maior inclusão dos sujeitos envolvidos por meio desses processos. políticos e sociais) e externos (político e econômico) dos Estados.

1985. v. World Politics. Disponível em: <www. 38. Referências bibliográficas ALMEIDA. Princeton. New York: Columbia university Press.. p. 1962.org>. 29.pralmeida. Raymond. KEOHANE. BERGSTEN. KEOHANE. Robert. Oxford: Oxford University Press. que porventura venham a interferir em suas transações internacionais com os demais atores. 1. GILPIN. 1975. . 1. POSNER. A Study of Order in World Politics. oct.. Robert O. Acesso em: 19 mar. NYE. Teoria da Integração Econômica. BALASSA. BULL. The Limits of International Law. ARON. 1977. GOLDSMITH. Princeton. International Organization. Paulo Roberto de. n. The Anarchical Society. Eric A. Paris: CalmannLévy. New Jersey and Oxford: Princeton University Press.3-36. 2001.. International Economics and International Politics: A Framework for Analysis. n. Lisboa: Livraria Clássica Editora. 1961. Bella. Paix et Guerre entre Les Nations. 2005. Robert O. Fred C. Tradução de Maria Filipa Gonçalves e Maria Elsa Ferreira. 6. 2006. ed. Hedley. AXELROD.22 dirimir os conflitos. Joseph S. Achieving Cooperation Under Anarchy: Strategies and Institutions. A ONU e a questão da assimetria de poder. Robert. Jack L. Global Political Economy: understanding the international economic order. v.

Coimbra: Almedina. New York: Longman. 3. 1.ed. 2003. NYE. Ijuí: Editora Unijuí. DAL RI JUNIOR.23 KEOHANE. In: KRASNER. World Politics. International Regimes.). KRASNER. Transgovernamental Relations and International Organizations. 25. Adriano. Robert O. n. Arno (Orgs. 1983. Ithaca and London: Cornell University Press. Relações Internacionais: interdependência e sociedade global. Odete Maria de. _______. Ithaca and London: Cornell University Press. Stephen D. Power and Interdependence. n. ed. 3. 2001. 4. International Organization. Curitiba: Editora Juruá. 1999. Teoria das relações internacionais. . KRASNER. New Jersey: Princeton University Press. Stephen D. 1974. out. 1983. Stephen D. Joseph S. MOREIRA. _______.39-62. p. Transnational Relations and World Politics: An Introduction. 1984.. v. After Hegemony: Cooperation and Discord in the World Political Economy.. OLIVEIRA. v. 1987. Odete Maria de. Structural Causes and Regime Consequences: Regimes as Intervening Variables. 27. International Organization. _______. 41. Power and Interdependence Revisited. International Regimes. p. Relações internacionais: estudos de introdução. v. 3. _______. 2001. OLIVEIRA. n. 1971. 329-349.

VAZ. VINER. 1950. 1. Gilmar Antonio et al. Arvind. The Customs Union Issue. Brasília: Editora da UnB. 39. Martin. Alcides Costa. Cave! Hic Dragones: A Critique of Regime Analysis. Ijuí: Editora da Unijuí. In: BEDIN. 1995. 2002. v. n. DAL RI JUNIOR. Relações Internacionais: interdependência e sociedade global. YOUNG. Cooperação. 2003. 570.ed. Brasília: IBRI. . Jacob. SANTOS JUNIOR. 3. Tradução de C. International Regimes: Toward a New Theory of Institutions. Ijuí: Editora Unijuí. A política do poder. ROCHA. Jaime. Paradigmas das relações internacionais: idealismo-realismo-dependência-interdependência. RUGGIE. Lancaster: Lancaster Press. 2. Raimundo B. Diversificação das relações internacionais e teoria da interdependência. da. integração e processo negociador: a construção do Mercosul. International Organization. New York: Cambridge University Press. v. 2002. International Regimes. World Politics. DE MELO. In: OLIVEIRA. 2000. Arno (Orgs. International Responses to Technology: Concepts and Trends. 1975. n. Stephen D.24 PANAGARIYA. Odete Maria de. In: KRASNER. Poder. Oran R. John Gerard. 29. Antonio Jorge R.). Interdependência e Interdependência Complexa. STRANGE. p. 1986. Susan. WIGHT. 337-354. New Dimensions in Regional Integration. Sérgio Duarte. p.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful