You are on page 1of 1

VILLA LOURDES: SERÁ QUE MAIS UMA PARTE DA MEMÓRIA

ARQUITETÔNICA DE MAFRA ESTÁ SENDO DEMOLIDA?

Mais uma casa antiga de Mafra parece que vai deixar de existir. Ao menos
tudo indica. Tomara que seja um engano meu.
Mas se não for um engano? Não sendo um engano, mais um pedaço da
memória arquitetônica de nossa cidade estaria desaparecendo. Um pedaço da
memória histórica, um pedaço de nossa identidade, um pedaço da paisagem urbana,
um exemplo de uma arquitetura que não mais existe.
Trata-se da Villa Lourdes, construída em 1933. Uma linda casa situada na
esquina das ruas Marechal Floriano e Pereira de Oliveira. Não sei quantos de nós,
moradores em Mafra, já paramos para vê-la em todos os seus ângulos, para observar a
sua rica quantidade de detalhes arquitetônicos. Quem já nela entrou talvez recorde que
o teto era decorado com afrescos suaves, e que suas salas também eram ricas em
detalhes. Que belo Museu daria!
Caso a Villa Lourdes esteja sendo demolida, que pena seria!... Logo em
Mafra, onde existem tantos terrenos vagos criando mato, depósitos de lixo dos
insensatos... Que pena dá ver que aos poucos desaparecem as lembranças vivas de
um tempo. Que pena dá ver tantas construções mal-feitas, caixas de fósforos mal
acabadas, feias, serem construídas naquilo que é, e poderia ser bem mais, um centro
histórico de nossa cidade.
Evidentemente, se uma casa tem um dono e se não existe nenhuma lei que
proíba sua demolição, nada a objetar ao direito do proprietário demoli-la. Mas,
escrevo sobre isso, pois questões desse tipo, envolvem a história de uma cidade,
embora em parte sejam questões privadas, inevitavelmente adquirem uma dimensão
pública. E, nesse sentido, devem se tornar objeto de debate, pois a questão não se
resume a essa casa, mas sim a todas as casas antigas e históricas ainda existentes.
Ainda é bom passear a pé em Mafra e deixar-se levar pela cidade. Vemos
ainda muitas casas antigas e bonitas. Lembro de meu saudoso amigo Norton Saliba -
que não era arquiteto, mas tinha grande sensibilidade arquitetônica - que certa vez fez
um álbum fotográfico de todas as casas históricas de Mafra. Fiquei espantado de
quantas eram. Por isso penso que ainda é tempo; que ainda é tempo de pensarmos em
preservação.
Qual a possibilidade de contato com o IPHAN para uma avaliação do
patrimônio arquitetônico de nossa cidade. Eis uma idéia para os nossos arquitetos e
para as autoridades que cuidam dos aspectos culturais de Mafra. Talvez mais do que
uma idéia: uma sugestão de que a comunidade comece a se mobilizar nesse sentido.
Fazermos alguma associação que vise atuar na proteção de nosso patrimônio
histórico? Quem sabe?
Uma cidade que não preserva sua história concreta, uma história que somente
seus prédios antigos conseguem manter presente, perde sua identidade. É como se um
ser humano perdesse a memória de sua vida e sua própria noção de identidade.
Tentemos não deixar que Mafra padeça de uma doença de Alzheimer arquitetônica e
histórica. Talvez ainda seja tempo.

Cláudio Luis da Cunha Gastal

Related Interests