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Folha de S. Paulo, Mais!, 30 dez. 2001, p. 5-13.

Uma história do conto

Guillermo Cabrera Infante

O escritor cubano traça um amplo percurso do gênero literário mais antigo


e versátil, que tem início com as primeiras epopéias, passa pelas "Mil e
Uma Noites" e, no século 19, por autores como Machado de Assis e
Tchecov, até chegar, no século 20, a Guimarães Rosa e Borges

Associated Press

Tabuleiro de xadrez
com peças
caracterizadas como
personagens das
histórias de Sherlock
Holmes

Folha de São Paulo, 30/12/2001


Tradução de Sergio Molina

O conto é tão antigo quanto o homem. Talvez até mais, pois podem muito bem ter
existido primatas ancestrais que contavam contos feitos inteiramente de grunhidos,
que são a origem da linguagem humana: um grunhido, bom; dois grunhidos,
melhor; três grunhidos já são uma frase. Assim nasceu a onomatopéia e com ela a
epopéia. Mas antes desta, cantada ou escrita, houve contos feitos inteiramente de
prosa: um conto em verso não é um conto, mas outra coisa: um poema, uma ode,
uma narração com métrica e talvez com rima: uma ocasião cantada, não contada,
uma canção.

Antes até que aquele anônimo artista de Altamira pintasse seus minuciosos murais,
deve ter existido um autor anônimo na região que contasse contos para seus
companheiros de caverna sentados em volta de uma fogueira. O homem, como
sabemos, é o único animal que faz fogo. O contista é o único ser humano que faz
contos. Esses contos seriam, por exemplo, narrações de um dia de caça perdido no
encalço de um cervo branco com um chifre na testa. Os contos não perduraram nas
paredes da caverna, mas não se perderam: foram reencontrados, contados, na
memória coletiva.

Séculos mais tarde, outro contista pegou o mesmo conto, embelezou o cervo
branco e o converteu em mito ao chamá-lo unicórnio. Embora a experiência fosse
alheia, tomou e fez seu o tema do unicórnio perdido. Muitos séculos mais tarde,
outro contista enfeitou com metáforas (isto é, embelezou poeticamente) esse
animal único com seu único chifre. Passados outros tantos séculos, o homem que
conta já havia aprendido a escrever (e, é claro, a ler), e outros animais e outros
homens que se transformavam em animais povoaram com contos o que chamamos
mitologia, mas que para eles era essa transcendência chamada religião.

Em outro século, quando outros homens já não acreditavam nessa religião de


deuses tão humanos que se confundiam com os simples mortais, um deles, um
poeta chamado Ovídio, escreveu As Metamorfoses. De religião, esses textos não
tinham mais do que aqueles primeiros contos contados em volta de uma fogueira
numa caverna. Isso fez do conto o gênero literário mais antigo e mais protéico.

Protéico, como se sabe, vem de Proteus, deus grego que estréia na cena olímpica
com a "Odisséia", poema feito de contos. Proteus sabia tudo de tudo, mas mudava
de forma para não ser interrogado. Isto é, fazia o contrário de um autor atual, que
nunca muda de forma, mas procura sempre ser interrogado: pela imprensa, pelo
rádio e pela televisão - e, às vezes, pela polícia. Creio desnecessário frisar que
Proteus era uma metamorfose feita deus. Proteus está muito perto de prosa, que é
o que os contistas cultivam. Protéico, prosaico - dá na mesma.

Os gregos, além de Homero e sua Odisséia, cultivavam o conto, e um


romancezinho, que é o que é Dafne e Cloé, publicado no segundo ano da nossa era,
foi seu provável precursor.

Mas são contos os fragmentos que fazem do Satyricon, de Petrônio, um romance, e


um de seus mais memoráveis é aquele intitulado "A Viúva de Éfeso", um conto
perfeito e muitas vezes citado, copiado até. Entre outros por Jean Cocteau, poeta
tão teatral que transformou o conto em peça, ganhando-o para o teatro.

O conto, logo protéico, parece desaparecer na Idade Média, mas na verdade se


veste com os versos do romance, seja nos "romans courtois", onde aparece como
história de aventuras, seja no "Roman de Renart", em que serve a um fabulário,
não longe do zoológico de Esopo. Na saga arturiana (que não se deve confundir
com a sopa asturiana, conto de favas), o romance adquire um tom mágico, quase
místico, que lhe é exclusivo. Mas a história paralela do amor fatal de Tristão pela
bela Isolda é, como quer Bédier, um conto de amor, de loucura e de morte cuja
aura mágica não fica nada a dever aos modelos gregos e romanos.

Mas o conto, sempre recomeçado, reaparece onde menos esperariam os trovadores


medievais: no Oriente.

Os árabes, entre o harém e a areia

As Mil e Uma Noites é a mais monumental compilação de contos do final da Idade


Média. Esses contos são a mais traduzida (e conhecida) literatura árabe depois do
Corão. Suas histórias ("Ali Babá e os 40 Ladrões", "Aladim e a Lâmpada
Maravilhosa" e "Simbá, o Marujo") são hoje tão populares como quando foram
traduzidas aos diversos idiomas europeus. Sua influência é perceptível desde
Boccaccio e Chaucer. Mas, já antes deles, um extraordinário escritor espanhol, o
infante d. Juan Manuel, incluiu em seu "Libro de los Enxiemplos" mais de um conto
árabe extraído de "As Mil e Uma Noites", então reconvertidas em tradição oral.

Ao contrário do que acontece com os contos contemporâneos na Europa, As Mil e


Uma Noites têm mil e um autores, e a esperta princesa Sherazade é um autor
coletivo que conta com voz de mulher. São, em todo caso, contos de encanto, e até
seu título em árabe é encantador, encantatório: "Alf Layla wa Layla". Dessa vasta
coleção de contos rastreou-se a origem até o século 9º d.C. Sua última forma é do
século 16. Isso quer dizer que, com seu feitiço oriental, o livro cobre quase toda a
Idade Média cristã - embora diga, no início de cada conto: "... mas Allah é mais
poderoso". Em seguida vem uma espécie desconhecida de poesia que as infiéis e
cruentas traduções não conseguiram aniquilar. Sherazade é a mais poderosa
máquina de matar o tédio e a crueldade do rei que sempre assassinava a consorte
de cada noite, à exceção da contista, uma mulher amena, apesar de ameaçada.

Chaucer repetiu o esquema em seus Contos de Canterbury, mas em verso. Quem o


conseguiu em prosa foi Boccaccio, em seu imitado, inimitável Decameron. É curioso
que Cervantes, um artista supremo, tenha buscado inspiração nos contos italianos
e não nos exemplos do infante d. Juan Manuel, que, diga-se de passagem, deu a
Shakespeare seu "Relato de Mancebo que Casó con Mujer Brava". Acontece que
Boccaccio é um contista natural, tal como a contadora de histórias árabe.
Cervantes, que inaugurou o romance moderno, o mais imitado, chamou o Quixote
de livro e de "novelas exemplares" seus contos, declarando que "de modo algum
poderás fazer", leitor, "mistifório". Mas revelou seu ofício e arte: "Meu intento foi
armar (...) uma mesa de carambolas". E acrescentou: "Onde cada qual encontre
com o que se entreter".

Um escritor cairota, Naguib Mahfuz, em suas Noites das Mil e Uma Noites, que o
editor cataloga como romance (os editores são capazes de chamar de romance a
lista telefônica, que pode não ter narração, mas tem uma porção de personagens),
esse escritor consciente, demasiado consciente, tenta se tornar uma Sherazade
assídua. Mas fracassa em seu intento. O livro quer ser árabe e é apenas egípcio.

Por outro lado, Los Cuentos Negros de Cuba são minhas mil e uma noites negras,
contadas por uma Sherazade branca, Lydia Cabrera, para entreter as noites em
claro de uma amiga agonizante. No final do livro, a doente já estava morta, mas os
contos vivem na imortalidade da literatura. Eu os classifiquei, qualifiquei, como
"antropoesia".

A trama tecida noite após noite por Sherazade, Penélope contista com milhares de
pretendentes, levou muitos escritores - desde d. Juan Manuel, Boccaccio e Chaucer
- a tentar uma imitação em que diversos talentos buscam emular o encantamento
árabe. Poucos o conseguiram, mas um escritor nosso contemporâneo, Manuel Puig,
em seu O Beijo da Mulher Aranha, é uma Sherazade argentina que a cada noite
conta um filme inventado para seu companheiro de cela, seu vizir cruel:
completamente surdo às dádivas orais que lhe oferece Puigrazade - assim como é
cego a suas investidas sexuais.

Edgar Allan Poe inventou com três contos - "Os Crimes da Rua Morgue", "O Mistério
de Marie Roget" e "A Carta Roubada" -, ele sozinho, a literatura policial, que são o
conto e o romance de mistério. Todos os cultivadores do gênero recém-criado
foram seus epígonos, de Arthur Conan Doyle, criador do insólito Sherlock Holmes, a
Dashiell Hammett e Raymond Chandler, romancistas que foram também contistas
e, de passagem, renovaram o gênero. Uma epígona (se alguém disse "jóvenas", eu
posso muito bem dizer "epígona"), Agatha Christie, disse: "O conto é o domínio
natural da literatura de crime e mistério".

Muitos contistas, quase todos anglo-saxões, fizeram do conto seu habitat, que era
como uma casa mal-assombrada. Todos seguiram o ditame de Poe, que disse que o
conto "é uma narração curta em prosa" e definiu o conto breve como uma peça
literária que "requer de meia hora a uma hora e meia ou duas de leitura". Eis aí um
importante modo de usar, "com cuidado". Mas há - ah! - leitores descuidados. Para
estes, a melhor maneira de ler é no avião - e um best-seller ou livro que se compra
porque se vende.

Os herdeiros de Mark Twain são tão numerosos quanto os seguidores de Poe, mas
os primeiros, que chamaremos aqui humoristas, atentaram apenas para o lado
luminoso da lua de Twain -sem enxergar suas regiões de sombra e de penumbra. O
mais bem-sucedido deles foi Damon Runyon, com suas historietas em que o
submundo de Nova York aparecia povoado de gângsteres sentimentais, jogadores
sementais e uma porção de mulheres de moralidade duvidosa e um (pouco) siso
legível como sexo. O cinema e o teatro, onde ninguém lê, criaram um Runyon
ilustrado para iletrados. Runyon, que fazia rir, ia ao banco sempre rindo.
Não foram só os contistas com humor que tiveram sucesso popular. A partir do
século 19, houve também quem cultivasse - e fosse popular por algum tempo -
essa estranha e elusiva planta chamada "conto fantástico". Na Inglaterra, onde se
desperdiçara a tradição realista iniciada por Chaucer, houve muitos autores de
fantasias cujo objetivo não era induzir o sonho, e sim o pesadelo. Lembro, entre
outros, Arthur Machen, Saki e Roald Dahl.

Na Irlanda, terra de luzidas lendas nada lúcidas, Sheridan le Fanu foi um contista
de mistério e terror cuja coleção In a Glass Darkly (em Dublin, cidade alcoólica,
tomam o espelho, "glass", como copo, e o livro se chama "Em um Copo Escuro") é
um dos clássicos do conto de terror como horror. Sua contrapartida foi mais tarde o
norte-americano H.P. Lovecraft, um precursor da ficção científica, gênero
praticamente inventado por H.G. Wells na Inglaterra. A ficção científica encontrou
no conto sua forma perfeita para uma arte imperfeita. Vale registrar que todos os
mestres do conto de horror anglo-saxão têm, também eles, em Poe seu antecessor
primordial.

É preciso abrir aqui um parágrafo para Rudyard Kipling, talvez o maior contista
inglês de todos os tempos. Kipling não fica nada a dever a Poe ou a Mark Twain, e é
para a Inglaterra o que Maupassant foi para a França e Tchecov para a Rússia: um
contista natural. Começou publicando em jornais indianos e, quando afinal foi a
Londres, então o centro do universo literário, tinha apenas 20 anos (Kipling é quase
nosso contemporâneo, morreu em 1936). Deixara para trás a Índia, embora fosse
justamente seu lado muçulmano, mais do que o hindu, o que mais lhe interessava
no subcontinente.

Kipling cultivou todas as modalidades do conto, do monólogo à conversa, sendo


alguns de seus contos feitos inteiramente de digressões, como queria Sterne, mas
também de invenções memoráveis. E muito antes que Conrad ou Somerset
Maugham descobrissem o mundo exótico do Oriente. Com a diferença de que, para
Kipling, nascido em Bombaim, aquilo era a vida vivida e vívida.

A França não teve um Chaucer, mas teve um mestre do conto no século 18, tardio,
mas nada lerdo em sua arte da ironia, exercida com uma inteligência incomum.
Refiro-me a Voltaire, cuja obra-prima, Cândido, não é um romance, e sim uma
fábula com uma moral em cada página. Os franceses tiveram de esperar todo o
século 19 para que, afinal, surgisse um dos maiores contistas de todos os tempos,
Guy de Maupassant, assombroso autor de sucessivas obras-primas do gênero.
Maupassant teve Gustave Flaubert como mestre e Émile Zola como mentor. Mas
nenhum dos dois, embora tanto Flaubert como Zola tenham escrito contos
memoráveis, conseguiu superar o discípulo nascido para o conto. Sua influência foi
enorme em toda parte e teve seguidores (se não verdadeiros plagiários) na
Inglaterra, nos EUA e na Rússia.

É na Rússia que Maupassant encontrará um rival extraordinário, Anton Tchecov,


que começou contando anedotas e piadas na imprensa e acabou transpondo seus
principais contos para o teatro, com uma arte inesperada. Tchecov, que podia
reivindicar para si Nicolai Gogol (autor de "O Nariz" e "O Capote", entre outros
contos), era um admirador de Tolstói, que escreveu contos como relatórios de
guerra e foi contemporâneo de outro mestre cultivador da forma breve, Ivan
Turgueniev. Mas a influência maior no autor de "A Dama do Cachorrinho" e "A
Cigarra" é, evidentemente, Maupassant. De Tchecov derivam Górki e todos os
contistas russos do início do século 20, que pareciam brotar da terra russa - até
que chegou Stálin e, com seu cultivo forçado do realismo socialista, transformou a
fértil literatura russa num deserto com tratores.

Outro seguidor de Tchecov foi, na Inglaterra, Somerset Maugham, mestre do conto


inglês e mundial. Foi, ainda é, um autor com uma popularidade que se estendeu
aos palcos e às telas: várias obras-primas do cinema, como "A Carta" (do diretor
William Wyler, de 1940), se baseiam em seus contos. Maugham, em seus contos
exóticos, foi influenciado pelas narrações dos "mares do sul" de Conrad e, por sua
vez, teve influência sobre outros contistas, evidente sobretudo nos contos urbanos
de John Cheever e John Updike, típicos produtos da revista "The New Yorker".

Se James Joyce tivesse morrido logo depois de publicar Dublinenses, ainda assim
seria considerado um escritor notável e um grande contista. Traduzir é reescrever.
Traduzindo Dublinenses, tive a oportunidade de encontrar os "tricks" e tiques de
Joyce mas também seus magistrais contos originais e sombrios e sua escritura
cômica.

"The Dead" (que traduzi como "El Muerto") é uma obra-prima dolorosa e um dos
grandes contos escritos em inglês, quase um romance, por seus personagens
inesquecíveis e sua extensão. "The Dead" não é um precursor do Ulisses, e sim
uma peça acabada em si mesma, de uma prosa milagrosamente extraordinária.

Não se poderia deixar de falar de um dos escritores mais originais do século 20,
Franz Kafka, inventor da fábula com moral teológica, ou seja, metafísica. Sua
influência se faz sentir em muitos escritores judeus, como Isaac Bashevis Singer,
ou genuinamente gentílicos como Milan Kundera, que o reclama para a literatura
tcheca, embora Kafka tenha escrito em alemão e pertença à cultura talmúdica.
Felizmente para nós, que não somos nem tchecos nem judeus nem alemães, Kafka
pode ser lido com verdadeiro deleite literário.

Um epígono de Kafka, judeu como Kafka, apareceu não na Tchecoslováquia, mas


na Polônia: Bruno Schulz, contista. Seu "Lojas de Canela" é de uma originalidade
delicada: uma visão da vida judia numa cidadezinha da Polônia que oscila entre a
magia e um doce realismo. Schulz, não podemos esquecer, foi assassinado por um
tenente da SS nazista, castigo tremendo apenas por estar parado numa esquina
sem fazer nada. Ao contrário de Kafka, nunca nem sequer sonhou seu final. É que o
totalitarismo é sempre inimigo da literatura.

Hemingway e Tarantino

O conto americano do século 20 nada deve a Maupassant, mas sim a Tchecov. Seu
renascimento lembra mais Twain do que Poe e começou, como ocorrera com Twain,
com uma literatura regional que pulava as fronteiras do Meio-Oeste para chegar a
Nova York e daí ao mundo. Seu pioneiro se chamava Sherwood Anderson,
patrocinador de William Faulkner e modelo de Ernest Hemingway. Seu livro
Winesburg, Ohio (conhecido na América do Sul e em Cuba como Las Novelas de lo
Grotesco, embora não sejam romances, e sim contos, e essa história de grotesco
seja gratuita, mas não deixa de ser um título com gancho) continha uma nova
visão do mundo adolescente num lugarejo de Ohio, e sua linguagem, coisa bem
importante, era entre ingênua e sábia.

Faulkner, que graças a Anderson publicou seu primeiro romance, é famoso como
romancista, ou melhor, como um poeta falastrão, mas escreveu meia dúzia de
contos memoráveis. Hemingway, por sua vez, é mais contista do que romancista:
um artista que renovou a prosa moderna americana com seus diálogos sofisticados
para conversar com primitivos, que são de uma mestria ainda atual. Seu conto "Os
Assassinos", em que apenas com o diálogo se oferece uma amostra do mal sob a
forma de uma conversa aparentemente casual, revela uma violência latente que
nunca se faz patente.

Desse breve conto partiu a renovação do romance policial com Hammett e


Chandler, que escreveram primeiro contos de mentira e de morte. Um filme
recente, "Pulp Fiction", de Quentin Tarantino, com seus diálogos recorrentes,
intermináveis e perigosos, não teria lugar se antes não tivesse existido "The
Killers". Seu título mesmo, direto e brutal, serviu ao cinema desde que este
começou a falar: diálogos ditos com o canto da boca, que é como se lêem, sem
mexer os lábios, as conversas de Hemingway.

Dos grandes escritores americanos dos anos 20, Scott Fitzgerald é o único que
frequentou a universidade, mas nunca chegou a se formar. Todos, portanto, foram
autodidatas. Alguns, como John Steinbeck e William Faulkner, exerceram as mais
variadas atividades, quase sempre manuais. Ernest Hemingway se dedicou ao
jornalismo -que é quase um trabalho manual. O único instrumento que se tem de
aprender a utilizar é a máquina de escrever, e Hemingway sempre foi um mau
datilógrafo. Todos eles eram contistas respeitáveis, mas, à exceção de Hemingway,
o cultivo do romance ocultou essa qualidade.

O exemplo mais evidente é o de Fitzgerald. Todos vocês já leram ou sabem que se


deve ler O Grande Gatsby, festejado pela crítica, favorecido pelo cinema em
produções coloridas e em preto-e-branco, com Alan Ladd, o perdedor nato, e com
Robert Redford, numa versão chocha de Alan Ladd. Alguns conhecem seu conto "O
Diamante do Tamanho do Ritz", mas poucos sabem que faz parte de seu livro
Contos da Era do Jazz, e ninguém sabe nada de suas coletâneas All the Sad Young
Men e Taps at Reveille. Depois de sua morte, foram publicados dois volumes de
contos, Afternoon of an Author e The Pat Hobby Stories, uma compilação
surpreendentemente leve para um tema dolorosamente autobiográfico: as
aventuras e desventuras de um escritor de aluguel em Hollywood, onde o autor
morreu.

Faulkner, como Fitzgerald, também foi alcoólatra e, como Fitzgerald, também foi a
Hollywood e serviu como tarefeiro de ouro (ou dourado), especialmente para o
diretor Howard Hawks. Mais esperto ou mais duro de domar, Faulkner ia a
Hollywood, mas, assim que recebia seu dinheiro, voltava correndo para Oxford. Não
a universidade inglesa, mas o pobre povoado do Mississippi onde ele nasceu e
morreu, no mais profundo e racista Sul. Ao contrário de Fitzgerald e Hemingway,
Faulkner era um reacionário público e um liberal privado. Dessas tensões são feitos
não apenas seus romances mas os muitos contos que ele escreveu.

Alguns de seus romances, como Palmeiras Selvagens, cujo belo título acaba de ser
surrupiado e estropiado pelo diretor Oliver Stone, e Desça, Moisés, são feitos de
contos mais ou menos longos, entre os quais algumas obras-primas como "O Urso".
Outras de suas narrações breves, como "A Rose for Emily" e "Barn Burning",
constam de todas as antologias e integraram a seleção feita pelo próprio Faulkner
em suas Selected Stories. William Faulkner chegou a publicar um livro de contos
detetivescos. Chama-se Knight's Gambit, e seu fio condutor é uma atividade que
ninguém associaria ao narrador de "Enquanto Agonizo" e "O Som e a Fúria": o
xadrez.

Steinbeck e John Ford

Tão contraditório quanto Faulkner foi John Steinbeck: primeiro, comunista; depois,
liberal e, mais tarde, um dos defensores mais ferrenhos do presidente Johnson e da
Guerra de Vietnã. Além de seus grandes êxitos novelísticos, como Vinhas da Ira
(conhecido na Espanha por um título menos bíblico e mais vitícola, Las Uvas del
Rencor), que é, apesar da opinião de certos críticos americanos como Mary
McCarthy, uma obra-prima popularizada em todo o mundo por John Ford,
Steinbeck escreveu e publicou muitos contos, e seu segundo livro, Pastagens do
Céu, é uma coleção de contos. Seu conto "O Cavalinho Vermelho" é uma pequena
obra-prima, e seus contos longos, como "Ratos e Homens" e "A Pérola", são obras-
primas desse gênero, a novela, que parece ter sido inventado pelos escritores
americanos, de Henry James, com A Volta do Parafuso, a Hemingway, com O Velho
e o Mar.

Mas vim aqui falar do conto. Toda intromissão de outros gêneros deve ser
considerada uma digressão. E a digressão nunca deve ser considerada uma
agressão. Como diz Laurence Sterne, é o sol que brilha sobre a conversa. Também,
diriam vocês, sobre meu monólogo. Outro escritor contemporâneo desses autores
artistas foi um jornalista que era um contista nato: o risonho e frágil Ring Lardner,
que influenciou todos os mestres do humor americano que o sucederam. Lardner,
embarcado numa missão impossível - criar o conto de humor absurdo -, se
autodestruiu com o álcool.

Outro escritor agora esquecido, Erskine Caldwell, que já foi considerado o melhor
contista do Sul selvagem, sabia mesclar o drama rural com uma sexualidade que,
na época, era franca e atrevida, mas divertida. Agora, perto do que se vê no
cinema, seus contos parecem se passar num convento de freiras que fumam.

Lardner, contudo, teve colegas de mérito, como James Thurber, Robert Benchley e
Dorothy Parker, que apostavam tudo no humor.

Ao mesmo tempo, outros de seus colegas da revista "New Yorker" fiavam, mas não
confiavam no esquivo amor - que muitas vezes se escrevia ódio; outras, tédio.
Talvez o maior mestre entre eles tenha sido John O'Hara, que fez dos diálogos
aprendidos de Hemingway uma espécie de sábia sarabanda em que tudo se fiava à
conversa, para revelar, mas muitas vezes ocultar, os conversantes, conversos de
uma religião atéia.

Desde então não houve nenhum contista americano tão influente e tão lido - se
excluirmos Raymond Carver. Ambos, O'Hara e Carver, são, à sua maneira,
epígonos de Hemingway. Há outro grande contista contemporâneo que não vem da
tradição americana, que não é americano, mas cria sua própria tradição na
América, embora sua arte singular não tenha seguidores. Além de seus grandes
romances, escreveu contos perfeitos que, curiosamente, foram quase todos
publicados pela primeira vez na revista "New Yorker". Seu nome, claro, é Vladimir
Nabokov. Acabaram de sair seus contos completos, e entre eles há pelo menos
meia dúzia de obras-primas do gênero.

Se Os Contos de Canterbury não tiveram continuadores (a não ser, é claro, no uso


do inglês: Chaucer tem na literatura inglesa o mesmo papel crucial que Dante na
italiana), é talvez porque os ingleses do século 16 e 17 não sabiam ler, embora
soubessem, sim, ouvir e apreciar a música das palavras, que vinha de poetas
dramáticos como Marlowe e Shakespeare e Ben Jonson. Todos, sobretudo Jonson e
Shakespeare, grandes contistas. Algo parecido ocorreu na Espanha, onde se
preferiu o romance picaresco e a comédia ao conto.

O conto espanhol da América

Cervantes, ninguém duvida disso, é um grande contista, tanto em suas Novelas


Exemplares como em seus entremezes e em muitos dos contos que retardam com
passos certos os incertos passos do cavaleiro, ginete louco, e seu demasiadamente
sensato escudeiro que segue a seu lado num burro. Todos sabemos que os séculos
18 e 19 fizeram da Espanha uma terra baldia literária e que o grande conto
espanhol que percorrerá o mundo em palcos e cinemas foi escrito por um francês.
Estou falando de Carmen, cujo autor, Prosper Mérimée, situou a ação na Andaluzia,
mas o escreveu em Paris.

Assim como ocorreu nos EUA com o conto escrito em inglês, o conto escrito em
espanhol será escrito na América. Um crítico peruano chamou a América (referia-se
antes à América hispânica) de "romance sem romancistas". Estava enganado, é
claro, mas não teria errado se tivesse chamado as Américas de continente que
contém contos. Pelo menos, se o título não é exato, ele poderia ter tirado algum
proveito de minha aliteração.

Thomas Colchie, tradutor norte-americano, conseguiu organizar uma antologia


intitulada A Hammock Beneath the Mangoes (Uma Rede sob as Mangueiras ou sob
as mangas), o que mais parece a descrição do sutiã de, digamos, Sarita Montiel.

Mas é uma excelente coletânea de contos breves sul-americanos. Não poderia, no


entanto, ter feito uma antologia similar de contos espanhóis chamada, digamos, Os
Dotes de Rocío Jurado.

Por quê? Simplesmente porque haveria peitos a conter, mas não contos a contar.
Toda regra tem uma exceção lutando por vir à tona, e deve-se dizer que uma
recente coletânea de contos de Javier Marías, Cuando Fui Mortal, que contém
contos não imorais, mas sim imortais, poderia continuar a tradição inaugurada por
d. Juan Manuel, que foi neto e sobrinho de reis, adiantado do reino de Múrcia
quando Múrcia era um reino. Mas não é o escritor da nobreza o que nos interessa,
e sim a nobreza do escritor - e sobretudo sua popularidade: em poucos meses,
Marías vendeu perto de 50 mil exemplares de seu livro de contos. Mas eu não vim
aqui para fazer o elogio de Marías, e sim do conto americano ou hispano-
americano, muito embora três dos maiores contistas cubanos (Hernández Catá,
Carlos Montenegro e Lino Novás Calvo) tenham nascido na Espanha: em Castela e
na Galícia, respectivamente. Lino Novás, outra surpresa, foi o verdadeiro criador
dessa coisa curiosa chamada realismo mágico. Aparece pela primeira vez num
conto dele, "Aquella Noche Salieron los Muertos", muito antes que Alejo Carpentier
formulasse sua teoria estética (tomada emprestada de um surrealista francês) do
"real maravilhoso".

Horacio Quiroga é o primeiro contista qua contista (gosto dessa palavra latina, qua,
porque lembra água, aqua, e repetida, qua, qua, parece um chamariz para patos,
quá, quá, quá) e um louco perseguido pelo infortúnio. Perdeu o pai num acidente
de caça (caçava patos na fronteira do Uruguai com a Argentina: os dois países
reivindicam sua paternidade) e seu padrasto se suicidou pouco depois. Perder o pai
pode ser uma desgraça, mas perder um padrasto me parece um descuido.

Ambos, tomem nota, por favor, morreram de morte violenta. Poucos anos depois,
Quiroga matou seu melhor amigo, no que os juízes qualificaram de acidente.
Quiroga se casou, e, não muito depois da lua-de-mel (ele obrigou sua jovem
mulher a passá-la na mais densa selva brasileira), quase nem preciso dizê-lo, foi a
vez de ela se suicidar. Casado mais uma vez, sua nova mulher, como a oitava de
Barba Azul, sobreviveu a ele. Doente de câncer da próstata (até nisso ele foi um
pioneiro), Quiroga escolheu o suicídio.

Detive-me na vida de Horacio Quiroga porque parece uma violenta telenovela e é


mais interessante que sua ficção - que não é menos violenta. Um de seus livros de
contos se chama A Galinha Degolada. No conto que dá título e tom ao volume, dois
irmãos gêmeos, ambos idiotas, têm uma linda irmãzinha. Mas os dois irmãos vêem
- ou melhor, observam - a madre degolar uma galinha para o jantar. Eles provam
que a imitação é a mãe da experiência e cortam o pescoço da irmãzinha.

Li os contos de Quiroga, todos, na adolescência e acreditei em todos. Eu era, como


vocês já devem ter deduzido, mentalmente são, mas impressionável. Agora,
mesmo que me ameaçassem com a expulsão deste encontro, eu não os leria nem
amarrado. Vocês já devem ter deduzido também que Horacio Quiroga era
dependente não só de morfina mas da literatura de Poe.

Outro escritor de contos nascido na Argentina, mas com a cabeça bem no lugar, é
Adolfo Bioy Casares. Muitas vezes é associado a Jorge Luis Borges só porque eram
amigos e colaboravam em empresas narrativas. Alguém os chamou, a ambos,
Biorges. Mas Bioy continuou escrevendo depois da morte de Borges e foi cada vez
mais individual e distinto, não apenas no porte mas na escritura. Bioy escreveu a
mais comovente história de amor da literatura em espanhol do século 20. Chama-
se A Invenção de Morel e, embora alguns a chamem de romance, é uma novela ou
conto longo e, para mim, é perfeita. É a melhor ilustração do conselho francês
"cherchez la femme".

Agora uma breve interpolação para falar, brevemente, embora ele mereça ensaios
e tratados, desse grande autor: um americano que não escreve em espanhol e que
não segue a tradição de sua língua, porque está criando as duas. Refiro-me a
Machado de Assis, o único grande romancista sul-americano do século 19, que é
também um contista extraordinário: sempre original, sempre na vanguarda de um
homem só. Leiam, como aperitivo para o festim de um Trimalcião literário, seu
conto "O Alienista".

O uruguaio Felisberto Hernández era o oposto físico do cubano Virgilio Piñera. Não
gostava de homens magros, como Virgilio, mas de mulheres, muitas, gordas e
caras: casou-se quatro vezes. Ao contrário de Virgilio, que nunca foi musical,
Felisberto (podemos chamá-lo Felisberto: ninguém se chama assim) era um músico
profissional, que, curiosamente, trabalhava como pianista de teatro, mas não de
palco, e sim no fosso, e não para acompanhar sopranos, mas fazendo música de
fundo para filmes mudos.

Suas vidas opostas tiveram um final parecido, mas diferente. Virgilio morreu
reconhecido como pederasta passivo, com passagens pela prisão, condenado por
invertido. Sua morte foi chorada por poetas pederastas, mas seu cadáver
desapareceu do velório: as autoridades estavam convencidas de que seu corpo
presente recriaria o ausente com fins políticos. Felisberto morreu de leucemia muito
mais jovem que Virgilio, mas seu corpo inchou tanto que foi preciso procurar às
pressas um caixão adequado, uma coisa tão enorme que não pôde ser tirada pela
porta da funerária e saiu para a eternidade por uma janela.

Há um provérbio latino que propõe que se chega ao final da vida conforme se


viveu. Os respectivos finais de Virgilio Piñera e Felisberto Hernández foram, se não
vidas, mortes paralelas. Acho que não por acaso a editora americana que publicou
os Contos Frios de Piñera agora publique os contos completos de Hernández. Mas
vale notar e anotar uma diferença notável: Felisberto estava meio louco, Virgilio, ao
contrário, sempre teve a cabeça bem assentada na guilhotina. Precisava apenas de
uma revolução, e a teve.

Juan Rulfo chamou Guimarães Rosa de "o maior autor surgido nas Américas neste
século". Não se deve exagerar, mas Guimarães Rosa, que escreveu o melhor
romance do chamado "realismo mágico", é um grande escritor. Para deleite de
vocês (já que sua obra-prima, Grande Sertão: Veredas é longa, complexa e
metafísica), ele tem um volume de contos, mais zen do que sensacionais, intitulado
Primeiras Estórias, que em espanhol ganhou o sugestivo título de um de seus
textos, "A Terceira Margem do Rio". Há outros compatriotas de Machado de Assis
que vale a pena citar, ainda que rapidamente. Murilo Rubião, com seu conto "O Ex-
Mágico da Taberna Minhota", que é "sui generis", como são os contos de João
Ubaldo Ribeiro, sobretudo seu "Foi um Dia Diferente o da Matança do Porco" e o
elusivo e alusivo Rubem Fonseca, que com seu “Corações Solitários" criou um
escândalo internacional ao ser proibido pelas autoridades de seu país.

O escândalo chegou aos ouvidos do presidente Carter, mais conhecido como "el
manisero", não por causa da saborosa rumba havanesa, mas por ter enriquecido
cultivando amendoim. Há outra rumba chamada "Tanta Lipidia por un Medio de
Maní" cujo título me leva a explicar aqui meu interesse e até meu afeto pelos
cariocas do conto. Não há outro país na América que se pareça tanto com a
minúscula Cuba como o gigantesco Brasil: ambos têm sua musicalidade na música
e na língua, ambos são uma mistura de brancos ibéricos e negros africanos, ambos
criaram uma nova religião, que no Brasil se chama macumba e, em Cuba,
"santeria".

Todos acreditamos que o ritmo não está só na música mas na fala, nos movimentos
do corpo e nesse balanço que em Havana se chama "el caminao". Este meu ensaio,
por exemplo, foi escrito como falam em Havana os "hablaneros".

Penso, ou sinto, não serem muito bons os contos de Rulfo, que me parecem parcos,
mas primitivos. Em compensação, acredito que Pedro Páramo é um grande
romance em poucas palavras e o melhor romance mexicano já escrito - neste e em
outros séculos. O contrário acontece com o defunto Julio Cortázar: seus romances
são para mim enfadonhos exercícios de uma vanguarda que o tempo mandou para
a retaguarda.

Mas seus contos, sobretudo os contos de família, são extraordinários, e um ou dois


- por exemplo, "O Perseguidor"; por exemplo, "A Auto-Estrada do Sul"- são
admiráveis. O mesmo acontece com Alejo Carpentier, cujos últimos romances são
lamentáveis quando comparados aos romances que escreveu na Venezuela: O
Reino deste Mundo, Os Passos Perdidos, O Cerco. Mas seu conto "Viagem à
Semente" é uma obra-prima do gênero.

Também o é seu conto longo "Concerto Barroco" - se esquecermos seu final, que
eu não quero esquecer. Também Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Mario
Vargas Llosa escreveram e publicaram contos. Mas, apreciados ou desprezados,
devem ser considerados romancistas antes de mais nada ou depois de tudo.

Chegamos aqui à grande literatura não apenas regional ou continental mas


mundial, universal até. Agora vem, e com tudo, Jorge Luis Borges. Não houve no
idioma um escritor maior desde que Calderón de la Barca morreu em Madrid em
1681. Toda pessoa que tenha lido um único conto de Borges (e felizmente Borges
só escreveu contos e ensaios à maneira de contos) percebe que está diante de um
escritor excepcional. Foi Borges quem disse de Quevedo que não era um escritor,
mas uma literatura. Com maior justiça se pode dizer o mesmo de Borges. Ele
sozinho, em sua remota Buenos Aires, que depois dele sempre está perto, aqui ao
lado, virando a página, Borges sozinho fez do conto toda uma literatura e até mais,
uma teoria literária. Não preciso citar nenhum título, pois vocês conhecem todos.
Mas são contos não para ler, e sim para reler, recordar, memorizar e sempre nos
assombrar. Não só com sua cultura e seu humor, mas também com sua arte
narrativa. O oportunismo político o privou do Prêmio Nobel que ele tanto almejou.
Pior para o prêmio: não mereceu Borges. Mas todos os seus leitores, todos os dias,
lhe oferecemos o prazeroso desagravo da leitura, pois ele é, argentino nobre que
era, nosso prêmio.

Não me escapa e, claro, não escapará a vocês, que fui parco em nomes e largo em
adjetivos. Não era meu propósito compor aqui um guia de autores, mas oferecer
um panorama do conto mais geográfico do que histórico. Depois de passear - como
queria Anatole France que fosse a visão, não a missão, do crítico - por entre obras-
primas, posso chegar a uma conclusão, se é que chego. Talvez o conto requeira
mais arte que verdade. Isto é, uma quantidade maior de ficção.

Anatole France, aliás, deu uma aula sobre memória histórica em seu magistral
conto "O Procurador da Judéia". Em Roma, Pôncio Pilatos, que fora procurador da
Judéia, vai a uma festa romana, que vocês podem chamar orgia, e seu anfitrião lhe
pergunta por "um judeu desordeiro" chamado Jesus. Pilatos, uma taça de vinho na
mão, a toga impecável, o penteado à César, pensa por um momento e diz: "Jesus?
Não conheci ninguém com esse nome".

Por favor, não me perguntem pelos autores que esqueci.

O que ler

Dante Alighieri (1265-1321)


"A Divina Comédia" (34)

Sherwood Anderson (1876-1941)


"A Verdade de Cada Um" ("Winesburg, Ohio") (Cultrix)

Machado de Assis (1839-1908)


"Obras Completas" (Nova Aguilar)
"Os Melhores Contos de Machado de Assis" (Global)

Calderón de la Barca (1600-1681)


"Os Mistérios da Missa (Civilização Brasileira) Boccaccio (1313-1375)
"Decameron" (Ateliê, Scrinium)

Jorge Luis Borges (1899-1986)


"Obras Completas" (ed. Globo, quatro volumes)
"Ficções" (Globo)

Alejo Carpentier (1904-1980)


"Guerra do Tempo" (Bertrand Brasil)

Raymond Carver (1938-1988)


"Short Cuts" (Rocco)
"Fique Quieta, Por Favor" (Rocco)

Adolfo Bioy Casares (1914-1999)


"Histórias de Amor" (L&PM)

Miguel de Cervantes (1547-1616)


"Novelas Exemplares" (Ediouro)

Raymond Chandler (1888-1959)


"Assassino Metido a Esperto e Outras Histórias" (L&PM)
"Armas no Cyrano's e Outras Histórias" (L&PM)

Geoffrey Chaucer (1343-1400)


"Contos de Cantuária" (T.A. Queiroz)

John Cheever (1912-1982)


"O Mundo das Maçãs" (Companhia das Letras)

Julio Cortázar (1914-1984)


"Todos os Fogos o Fogo" (Civilização Brasileira)
"Octaedro" (Civilização Brasileira)
Roald Dahl (1916-1990)
"A Fantástica Fábrica de Chocolate" (Martins Fontes)
"Matilda" (Martins Fontes)

Esopo
"Fábulas Completas" (Moderna)

William Faulkner (1897-1962)


"Três Novelas de William Faulkner" (Civilização Brasileira)

F. Scott Fitzgerald (1896-1940)


"Seis Contos da Era do Jazz" (ed. José Olympio)
"Contos" (Casa Jorge Editorial)

Gustave Flaubert (1821-1880)


"Três Contos" (Francisco Alves)
"Bibliomania" (Casa da Palavra)
"Novembro" (Iluminuras)

Rubem Fonseca (1925)


"Contos Reunidos" (Cia. das Letras)

Carlos Fuentes (1928)


"Eu e Outros Contos" (Rocco)

Nicolai Gogol (1809-1852)


"O Capote" (Civilização Brasileira)
"O Nariz & A Terrível Vingança" (Edusp)

Máximo Górki (1868-1936)


"Certo Dia de Outono e Outros Contos" (Ediouro)
"Histórias de Natal" (Boitempo)

Dashiel Hammett (1894-1961)


"Continental OP" (Cia. das Letras)

Ernest Hemingway (1899-1961)


"Contos" (ed. Bertrand Brasil, em três volumes)
"O Velho e o Mar" (Bertrand Brasil) Homero
"A Ilíada" (Ediouro, Mandarim)
"A Odisséia" (Ediouro, Edusp)

Henry James (1843-1916)


"Até o Último Fantasma" (Companhia das Letras)
"A Fera na Selva" (Rocco)
"A Volta do Parafuso" (Ediouro)
"A Lição do Mestre" (Paz e Terra)

Ben Jonson (1572-1637)


"Valpone ou a Raposa" (Ediouro)

James Joyce (1882-1941)


"Dublinenses" (Civilização Brasileira)

Franz Kafka (1883-1924)


"Um Artista da Fome/A Construção" (Companhia das Letras)
"O Veredicto/Na Colônia Penal" (Cia. das Letras)

Rudyard Kipling (1865-1936)


"O Livro da Selva" (L&PM, Ática)
"Histórias Sobrenaturais de Rudyard Kipling" (Bertrand Brasil)

Milan Kundera (1929)


"Risíveis Amores" (Cia. das Letras)

Mario Vargas Llosa (1936)


"Os Filhotes" (Cia. das Letras)

H.P. Lovecraft (1890-1937)


"À Procura de Kadath" (Iluminuras)
"A Maldição de Sarnath" (Iluminuras)

Naguib Mahfouz (1911)


"Noites das Mil e Uma Noites" (Cia. das Letras)

Gabriel García Márquez (1928)


"Doze Contos Peregrinos" (Record)

Somerset Maugham (1874-1965)


"Histórias do Mares do Sul" (Globo)

Guy de Maupassant (1850-1893)


"Bola de Sebo e Outros Contos" (ed. Globo)
"Luar" (Boitempo)
"Contos Fantásticos" (L&PM)

Prosper Merimée (1803-1870)


"Contos de Prosper Merimée" (ed. Cultrix)

As Mil e Uma Noites Ediouro (dois volumes)

Vladimir Nabokov (1899-1977)


"Perfeição" (Companhia das Letras)

Ovídio (43 a.C.- 17 d.C.)


"Metamorfoses" (Hedra)

Dorothy Parker (1893-1967)


"Big Loira " (Cia. das Letras)

Petrônio (27-66 d.C.)


"Satiricon" (Ediouro)

Virgilio Piñera (1912-1979)


"Contos Frios" (Iluminuras)

Edgar Allan Poe (1809-1849)


"Ficção Completa" (Nova Aguilar)
"Contos de Terror, de Mistério e de Morte" (Nova Fronteira)
"Os Assassinatos da Rua Morgue" (Imago)

Manuel Puig (1932-1990)


"O Beijo da Mulher Aranha" (Rocco)

Horacio Quiroga (1878-1937)


"Anaconda" (Rocco)
"Contos de Amor, de Loucura e de Morte" (Record)

João Ubaldo Ribeiro (1941)


"Já Podeis da Pátria Filhos" (Nova Fronteira)

Guimarães Rosa (1908-1967)


"Ficção Completa" (Nova Aguilar)
"A Hora e a Vez de Augusto Matraga" (Nova Fronteira)

Murilo Rubião (1916-1991)


"Contos Reunidos" (Ática)

Bruno Schulz (1892-1942)


"Lojas de Canela" (Imago)

William Shakespeare (1564-1616)


"Obra Completa" (Nova Aguilar)

John Steinbeck (1902-1968)


"A Pérola" (Record)

Anton Tchecov (1860-1904)


"A Dama do Cachorrinho e Outros Contos" (ed. 34)
"O Malfeitor e Outros Contos da Velha Rússia" (Ediouro)

James Thurber (1894-1961)


"Luas e Luas" (Ática)

Liev Tolstói (1828-1910)


"Obra Completa" (Nova Aguilar, três volumes)
"O Diabo e Outras Histórias" (Cosac & Naify)

Mark Twain (1835-1910)


"Uma Curiosa Aventura e Outros Contos" (Ediouro)
"História de um Inválido e Outros Contos" (Ediouro)

John Updike (1932)


"Uma Outra Vida" (Cia. das Letras)

Voltaire (1694-1778)
"Candido" (Martins Fontes)
"Zadig ou o Destino" (Ediouro)