Estranhas Entranhas. Psicanálise e Depressão na Gravidez
Marcia Zucchi

2000

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ZUCCHI, Marcia Aparecida “Estranhas Entranhas. Psicanálise e Depressão na Gravidez.” 1. Psicanálise. 2. Feminino. 3. Gestação 4. Maternidade. 5. Depressão. 6. Transtornos afetivos na gravidez.

minha mãe.iii À Rita Leucci Zucchi. pelo amor da vida inteira .

................................59 As divergências com relação a Freud............................................................................................... As bordas do caminho............................................................................................42 O complexo de Édipo feminino em Freud.................... Apresentação..........76 Amor e Melancolia: os domínios do objeto. Um corpo estranho......87 Algumas articulações com a depressão na gravidez........ uma prática feminina...................................113 8................................................................................................................21 Método da pesquisa............................................................................................................91 A dor psíquica.......35 Depressão como experiência afetiva........28 A organização dos saberes sobre o mental em sistemas classificatórios: implicações clínicas...............................................................................................82 Uma concepção metapsicológica da depressão................ Sobre um dos nomes da tristeza............................................................................................... A depressão no campo dos saberes.....................................108 Estranhar.....53 5........... um trabalho de objeto............. A metapsicologia da melancolia como modelo de compreensão do afeto deprimido....70 6..........64 O afeto deprimido na gravidez.................................................................................................................................102 Estranhos afetos......................................................................................................................................................................................................... Bibliografia.........2 2..................................................................68 Um narcisismo feminino................................................63 O apoio da função reprodutiva para organização da sexualidade feminina..................... Considerações preliminares.................16 Porque uma descrição metapsicológica......................................................24 3.............1 Indice 1............................................32 Os estudos sobre a depressão na gravidez.......................................................................................................................................................................................................... Psicanálise e Depressão na Gravidez... À procura da especificidade feminina....................................................................................................... O debate de 20 e a produção de Helene Deutsch...... Considerações finais.................. Estranhas Entranhas................................................................. Proposições freudianas acerca da sexualidade feminina e da maternidade................ A teoria de Freud.......................................................45 O estatuto do objeto filho.....................................119 9................................123 .............................................................27 Alguns aspectos epistemológicos da conceptualização da depressão.............................................. A Metapsicologia da maternidade..94 7..38 4........

Wislawa Szymborka1 1 SZYMBORKA . Por que cavaste um buraco na terra? – Não sei.2 Psicanálise e Depressão na Gravidez Mulher. – Não sei. não te faremos mal nenhum. “Vietnã”. E estas crianças. Por que mordeste o meu anular? .Não sei. Quando nasceste. como te chamas? – Não sei. A autora recebeu o Prêmio Nobel da Literatura em 1996. são tuas? – Sim. Sabes. . De que lado estás? – Não sei. tens de escolher. publicado no Jornal do Brasil de 4 de outubro de 1996. tua origem? – Não sei. Há quanto tempo estas aqui escondida? – Não sei. – Não sei. Existe ainda a tua aldeia? – Não sei. É tempo de guerra.

Permanece. podendo chegar até a depressão? Na perspectiva das mulheres que engravidam desejando estas gravidezes. seria melhor do que o silêncio que. Inicialmente reagiam manifestando um misto de espanto e curiosidade. então. onde algo aparece simultanêamente como íntimo e profundamente estranho.Unheimlich2 . termo alemão utilizado por Freud no título de sua obra de 1919. algo simultaneamente familiar e estranho . com o afeto da tristeza. em geral. Importante ressaltar que esta reação foi muito acentuada nas mulheres. não seria coerente com as suposições psicanalíticas atribuir-se valor de determinação exclusiva a um fator externo à subjetividade. Tomei esta hipótese como um fato pois. a estranheza estaria relacionada ao filho ou às proprias mulheres? Se a estas últimas. embora soasse estranho. qual o eixo ou o núcleo da estranheza. para em seguida demonstrarem uma “familiaridade aliviada”. Este alívio parecia se dever à possibilidade de delineamento ou contorno de uma experiência vivida. muitas vezes. por efeito de recalque. . como se aos meus interlocutores tal tema desconcertasse. ainda que tal nomeação carecesse de precisão. a “identidade materna” ou a “identidade feminina”? A identificação ao papel materno é uma via “normal” do feminino ou sua construção exige algum trabalho específico mas não 2 Das Unheimliche. perfeitamente cabível Cabe perguntar se tal estranheza se explicaria exclusivamente pela pressão cultural em direção a uma “felicidade na maternidade” como único modo possível da mulher viver a gravidez quando desejada. fugindo ao âmbito deste livro.a associação dos termos sendo possivel. Modo esse que impediria não só a expressão.3 Apresentação Ao enunciar o tema deste livro – a depressão na gravidez – tanto no ambiente acadêmico como fora dele a reação foi sempre de embaraço. a questão: quais seriam os fatores subjetivos determinantes desse estranhamento vivenciado. mas o próprio reconhecimento de qualquer sentimento oposto. ainda que não universalizável. referente à experiência de estranhamento. Uma pesquisa com maior grau de detalhamento quanto a esta questão seria pertinente ao campo sociológico. então. é um dado constatável ao nível do senso comum. permeia esta experiência. Além disso. Concluí que a ligação entre depressão e gravidez despertava. Chamar de depressão o entristecimento que ronda a gravidez.

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do aparelho psíquico? Qual o estatuto do objeto filho, durante a gravidez? Como este é incluído, assimilado, “incorporado”, no eu da gestante? O encaminhamento de possíveis respostas a estas questões requer que se contextualize, de modo metapsicológico, tanto a maternidade – corolário psíquico da gestação desejada -, quanto a depressão – nomeação sob a qual reuniu-se um conjunto de experiências subjetivas perpassadas pela tristeza.

A maternidade tem um aspecto enigmático que ora a tem feito participar do sacro, ora a torna objeto de atenção científica, além de ser constantemente abordada pelas linguagens artísticas. Seja no âmbito do relato jornalístico, na

poesia, na construção mítica, ou na ciência, a experiência humana da procriação, especialmente a vertente da relação entre a mulher e seu filho, é sempre descrita como um precipitado extremo de paixões. Alguns exemplos permitem que se o constate. O exemplo em epígrafe é um deles. Vivendo uma situação limite, a

guerra, a mulher em questão perdeu todas suas referências identitárias. Sabe, apenas, de sua condição de mãe. Sabe, somente, que aqueles são seus filhos. Nada mais. Este é o único saber que a referencia. Há um apontamento, pela autora do poema, no sentido da perenidade e força deste vínculo, enquanto ancoradouro subjetivo para mulher. Roberto Pompeu de Toledo, num Ensaio escrito à revista Veja de 5 de agosto de 98, apresenta a confrontação de duas situações extremas, vividas por mulheres, onde, em cada uma delas, o leitor é tomado por uma fina e aguda sensação de divisão entre o espanto e a amarga ternura. Compara as histórias de Christine Malèvre e Roberta Magnani, apresentadas pela imprensa em 98: a primeira, autora de uma série de assassinatos a idosos em estado terminal; a segunda, uma mulher que após conseguir realizar o sonho de uma gravidez se descobre com câncer e abre mão do tratamento e da vida para que a criança nasça. Histórias passadas em contextos culturais bastante diferentes, uma numa região próxima a Paris, a outra no norte da Itália. Uma, a história de uma enfermeira, a outra, a de uma funcionária pública. Ambas guardando uma relação de profunda intimidade com o extremo, com o limite, com a lei, mas também com um além dela. Ambas protagonizadas por mulheres. O estilo do autor, elegante, sensível, contribui muito para evocar os sentimentos descritos acima. Há, porém, algo que ultrapassa as questões estilísticas

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e parece advir das realidades descritas. Não que sejam mártires ou heroínas, muito ao contrário, as condutas dessas mulheres não deixam de ter um aspecto “reacionário”, como lembra o autor, pois decidem, de modo solitário, sobre a vida e a morte de outrem, caracterizando um arbítrio, se não um certo “delírio” onipotente. Há, porém, algo de semelhante entre essas duas situações, talvez a pungência que evocam, a coragem que implicam, certamente o caráter afetivamente extremo que portam. As duas histórias têm a ver com sofrimento físico e morte. Uma delas tem a ver com nascimento. Na soma, cobrem os dois extremos da vida, o nascimento e a morte. Não é por acaso que são protagonizadas por mulheres.(...)Roberta e Christine têm em comum, no entanto, algo de nobremente arquetípico. Suas histórias são histórias de mulheres em estado visceral, colocadas num extremo, muito delas, de paixão e compaixão. São histórias de mulheres. (TOLEDO, 1998: 162).

As produções acadêmicas de diferentes áreas retratam, também, a pluralidade de aspectos que envolve a mulher e a maternidade. Num estudo relativo a representações mitológicas da maternidade, CHEVALIER e GHEERBRANT, apontam como as grandes deusas mãe, foram também deusas da fertilidade, simbolizando, entretanto, a ambivalência entre a vida e a morte: para os gregos, Gaia, Réia, Hera, Deméter, dentre outras; entre os egípcios e nas religiões helenísticas, Ísis; para os assírios-babilônicos, Istar; Astart para os fenícios e Kali entre os hindus (1988: 580). Os autores discutem as várias vertentes da figura simbólica da mãe tanto no cristianismo, como nas religiões célticas, e em algumas religiões orientais. No caso do cristianismo, por exemplo, afirmam que a simultaneidade da condição da Virgem Maria de mãe e filha de Deus, atesta sua dupla vinculação, humana e divina. Além disso, o dogma em torno da virgindade de Maria reveste sua maternidade com um duplo contorno: factual (histórico) e simbólico. Já nas artes e religiões indianas as deusas são estritamente símbolos, porém, também, com aspectos ambivalentes como no caso de Kali com sua aparência hedionda, considerada a Mãe Divina e representando, de modo concomitante, a criação, a manutenção e a destruição. Ainda nas religiões célticas a mulher desempenha simultaneamente o papel de “mensageira Outro Mundo”, e de “divindade guerreira” (1988: 581).

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Em diferentes expressões simbólicas, especialmente naquelas oriundas das culturas antigas, há uma associação entre a Mãe, a Terra e a Água, claramente vinculada aos enigmas em torno das origens e dos destinos, seja do homem, seja do cosmo. Na modernidade, no entanto, as associações da identidade feminina aos fenômenos “naturais”, especialmente às ocorrências do corpo como a reprodução, têm sido duramente criticada pelos estudiosos das questões de gênero3, dado o caráter de exclusão da subjetividade da mulher que uma concepção essencialista da maternidade pode sugerir. É sabido que o sentimento da maternidade é construído na história da cultura ocidental (BADINTER, 1981). Mesmo sendo a “chave do estatus feminino em cada época histórica, a maternidade não é um fato biológico inalterável cuja consideração possa isolar-se das transformações sociais.” (IRIARTE, 1996: 77)4. Os significados sociais que a gravidez e a maternidade podem assumir, diferem no tempo e espaço, caracterizando, assim, uma especificidade cultural. Mesmo o corpo, em sua complexidade biológica e subjetiva - mediatizada pela linguagem -, participa de uma realidade historicizável. As manifestações humanas nas diferentes expressões semióticas atestam a diversidade das concepções de corpo na história da humanidade.

Num interessante estudo antropológico acerca do papel e do valor da maternidade na democracia da Grécia antiga, IRIARTE (1996) busca demonstrar, através das personagens das tragédias gregas, o papel que a maternidade ocupa na sustentação da organização social patrilinear. De algumas das tragédias, a autora deduz um desejo masculino de apropriação das funções reprodutivas femininas e apoia aí sua tese de que o enaltecimento da reprodução não corresponde à valorização da mulher como cidadã. Em suas próprias palavras: Do ponto de vista do estatus feminino, a relevância que, em nome da paternidade, o discurso político dá à função reprodutora, constitui uma faca de dois gumes, pois se a intervenção da mulher – concretamente, da mulher-mãe – se reconhece explicitamente como imprescindível para definir a

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Esta não é uma posição hegemônica. Sobre isto ver, por exemplo, Camille PAGLIA (1992) em Personas Sexuais. Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson. 3 Tradução da autora.

Uma outra autora. porém. embora lhe fosse atribuído um estatuto heróico tanto pelos sofrimentos implicados no parto (as dores. estas produções discursivas se orientam no sentido de desvendar e exorcizar poder tão ameaçador. Analisa. expressa em sua capacidade geradora. um conjunto de estátuas encontradas em Santa María Capua 5 6 Tradução da autora. Tradução da autora. Imagem pré-edípica.7 empresa política. como pela entrega dos filhos à cidade e à guerra (em Esparta. fantasma de origem que é suposto preceder a experiência individual e humana. a organização social (patrilinear) frespondia retirando-lhe o poder no campo da cidadania. Poder-se-ia considerar que frente à potência natural da mulher. aponta que o caráter enigmático de potência geradora é ponto de enlace dos grandes saberes da antigüidade. a linearidade do tempo das narrativas impedindo que se as circunscreva. o risco de morte). Sem consegui-lo. então. A autora supõe a existência de figuras primordiais que participam tanto do imaginário da cultura como do imaginário individual. Suas representações permanecem enigmáticas tanto nas expressões individuais como culturais por remeter a algo que escapa à possibilidade de transmissão pela linguagem. 1996: 78)5 A autora demonstra que embora a maternidade fosse revestida de caráter cívico pois gerava cidadãos para pólis. em seu artigo sobre os mitos de origem e suas relações com a construção da identidade feminina. (IRIARTE. as Matres Matutae. este reconhecimento implicará um maior controle da esposa legítima. Segundo Finzi. . 1996: 129). Finzi considera que a estatuária pode bem representar a força desta figura da mãe arcaica. estas representações tão valorativas da maternidade não garantiam o direito civil das mulheres em relação a seus filhos. Partindo da constatação freudiana de que as imagens gozam de privilégios em relação às palavras quanto à censura. A mãe arcaica seria uma delas. “como demonstra a persistência de um imaginário monstruoso acerca do corpo e das funções femininas e a reiteração de uma interrogação insistente”6 ( FINZI. a maternidade era equivalente à experiência bélica). por exemplo. Silvia FINZI (1996). Este anseio feminino era vivido como ameaçador à ordem social e política na democracia patriarcal da Grécia antiga.

indicando desde o aspecto impessoal e atemporal desta. A autora ressalta. contendo vida mas sem estarem vivas. região que foi ponto de ligação entre a antiga Etrúria e a Magna Grécia. até sua expressão singularizada na relação entre uma mãe e seu filho. que enfatizam o caráter histórico da maternidade e sua procedência como resultado de operações simbólicas. São menores e apresentam gestos e A mulher expressões plenos de relação e afetividade. aparentando algo de imemorial. Nas palavras da autora. provavelmente construídas entre os séculos VII e IIa. a vida e a morte. porém. é destacar a questão da origem como vinculada à alteridade. o risco da ideologização do caráter cultural de ambas. Tais estátuas. . também só esboçados. As mais antigas apresentam uma imponência fria e distante. visa desconstruir ideais identitários da mulher apoiados na ilusão de uma singularidade sustentada pela experiência da maternidade. moderna já encontra elementos de identificação com estas imagens. e o trono se confunde com seus corpos. enquanto origem de vida. como na amamentação. o material é aspero. O conjunto destas estátuas parece visar um complexo de representações da maternidade. “nenhuma mulher se identifica a elas porque representam a alteridade nelas mesmas.8 Vetere. 1996:142). a importância da análise da maternidade representada nos mitos. Segundo Finzi. as estátuas construídas mais recentemente parecem se humanizar.. A maioria dos estudos atuais.c. os filhos são pequenos e numerosos. Por outro lado. 7 Tradução da autora.”7 (FINZI. em relação às anteriores. que estas últimas perdem um pouco de seu caráter enigmático. faltam expressões no rosto e gestos. Estão esculpidas como se estivessem num trono real. A autora. bem como os arqueólogos que a elas se dedicam. Arqueólogos consideram que estas figuras representam as grandes deusas da fecundidade. as descrevem como tendendo ao inorgânico. o radicalmente outro. às vezes. representam a maternidade em seus vários aspectos. amalgamando em si o corpo e a terra. corre-se. Na fuga de uma naturalização opressiva da maternidade e do feminino. atemporal: suas vestimentas são apenas esboçadas.

. as quais vão caracterizar a particularidade das experiências subjetivas de cada mulher. onde essas realidades se tocam. A autonomia do sujeito feminino se acha limitada em sua singularidade quando seu corpo passa a ser lugar de origem de outro ser humano. analisa.) se é reducionista subsumir a feminilidade à categoria da maternidade. O exercício da maternidade supõe a articulação do corpo na cultura.. Na apresentação que faz a Figuras de mãe. dentre outras coisas. Se a maternidade não se reduz à transmissão de um patrimonio genético senão que se situa no plano da transmissão simbólica da cultura. O feminino e o maternal mantêm relações lógicas complexas: nem coincidem totalmente nem são completamente dissociáveis. no entanto. sociológicos e psicanalíticos referentes à maternidade.9 A posição que se pretende manter neste livro é a de sustentar a tensão entre os aspectos biológicos e subjetivos da maternidade. Silvia TUBERT descreve a concepção de maternidade sob a qual é construída aquela coletânea e que se aproxima bastante da que se quer como fundamento deste livro: (. tanto biológicas quanto culturais. o qual considera o resultado da relação 8 Tradução da autora. o extremo desenvolvimento da cultura ocidental. se acha por sua vez limitado por ter sido aquele construído como corpo significante pelas práticas e discursos dominantes na sociedade. também existe a possibilidade da redução oposta. Se falamos de uma maternidade assumida pela mulher como sujeito desejante. manter no horizonte um fio de indecidibilidade.” 8(1996: 11) considera-se que as pressões modeladoras da maternidade. através da linguagem e dos vínculos sociais. que supõe a separação simples e irredutível de ambas as categorias. . Pretende-se. o domínio sobre o próprio corpo – a maternidade voluntariamente escolhida -. Camille PAGLIA (1992) num belíssimo ensaio denominado Sexo e Violência ou Natureza e Arte. tampouco se pode negar que o processo biológico da gestação se realiza segundo uma ordem que escapa à vontade da mulher em cujo corpo tem lugar. sofrerão as marcas distintivas do desejo inconsciente. coletânea de textos antropológicos. não podemos ignorar que a gestação requer a aceitação de uma posição de passividade frente ao desenvolvimento embrionário e fetal.

Indolentes e adormecidos. O edema é nossa recaída de mamífero no vegetal. especificamente na gestação. (1992: 21-22) Alguns reparos são cabíveis nesta concepção: a máquina ctônica9 sofre sim e também provoca efeitos no espírito que a habita. parece ser um ponto de especial exemplificação deste entrincamento. A gravidez. (PAGLIA.. Tal concepção se aproxima da concepção psicanalítica do feminino que norteia este trabalho. distorção esta promovida pela ótica feminina dos fatos. (. não lhe sendo. e depois se enxugam de repente na maré alta hormonal. e. A realidade “ deve ser distorcida. um possível 9 O têrmo ctônico é relativo às entranhas da terra . ao referir-se à relação da mulher com seu corpo afirma: O corpo feminino é uma máquima ctônica. Entretanto. que por rigor conceitual e metodológico será abordado dentro dos limites do campo psicanálitico. entre o ctônico e o cultural. quer dizer. corrigida pela imaginação”. a valorização da mulher na cultura não se faz às expensas de sua natureza ctônica. O objeto cuja pesquisa resultou neste livro é a ocorrência de afeto deprimido em relação à gravidez. alí. na subjetividade da gestante. A gravidez demonstra o caráter determinista da sexualidade da mulher.10 agonística entre o masculino e o feminino. no entanto. ali. Acredita-se. Toda mulher grávida tem o corpo e o ego tomados por uma força ctônica além de seu controle. portanto.. segundo PAGLIA (1992: 23). seus tecidos adiposos encharcamse de água. especialmente considerando-se que pode estar em jogo. que o real do corpo.) O corpo da mulher é um mar sobre o qual atua o movimento lunar das ondas. seja um forte propulsor de trabalho psíquico em relação à reconfiguração narcísica que a passagem à condição de mãe exige da mulher. mas numa dialética muito mais complexa entre masculino e feminino cujo resultado é “a distorção da realidade”. indiferente ao espírito que o habita.1992:17) . indiferente. na concepção do feminino que a autora apresenta. A posição aqui adotada está em consonância com a concepção de que os efeitos subjetivos da gravidez se inscrevem no trajeto entre os valores imaginários e simbólicos que o filho pode assumir para a mulher.

são categorias destacadas por Lacan quanto à estruturação do aparato psíquico. de um modo que satisfaça os critérios de cientificidade. ou níveis de trabalho do aparelho psíquico. que se dá no exercício clínico. este livro se constitui do modo como se descreverá a seguir. é o instrumento de abordagem do real. busca-se descrever a depressão na gravidez em termos metapsicológicos. especialmente psicanalítica. Além disso. Neste segundo capítulo discute-se tanto os esforços de Freud para manter sua obra no campo da cientificidade. sua produção conceitual. por maiores que sejam as diferenças entre as escolas psicanalíticas. mantém a possibilidade de distinção entre este campo de saber e os outros. possibilitando sua participação nas produções transdisciplinares. a 10 Imaginário. na psicanálise.11 gozo feminino na maternidade. Entretanto. . Discute-se o reducionismo necessário a toda abordagem teórica. Tais categorias definem os planos de operação da subjetividade e seus limites. O 2º capítulo trata de questões metodológicas gerais envolvidas no trabalho de pesquisa. gozo este que pode ser experimentado como “estranho”. organizada num corpo metapsicológico. a metapsicologia enquanto organização conceitual própria da(s) psicanálise(s). A produção de testemunhas fidedignas que atestem a veracidade da realidade abordada – as manifestações do inconsciente – não se dá. quando renovado criticamente. no 3º capítulo.10 Em seu conjunto. Real e Simbólico. A partir de uma questão proveniente da clínica – como uma gravidez desejada pode ser vivida com afetos depressivos? – analisa. implicados no quadro clínico em questão. isto é: em termos de operações subjetivas. quanto os limites deste empreendimento.se. Através da revisão da literatura psicanalítica em torno dos diferentes temas que envolvem o objeto em pauta. Tal instrumento . especialmente em se tratando de objetos complexos como é o caso da depressão na gravidez. representados por outra categoria. permite uma maior eficácia da psicanálise frente às novas realidade clínicas.

A década de 20 caracterizou-se pela profusão de produções sobre este tema. um efeito imediato. Além disso. do “ornar-se mulher”. Percorre-se os desenvolvimentos da teoria de Freud quanto à femininilidade. no campo teórico então nascente. envolveram-se também com esta temática. orientada t pela lógica fálica. a revisão bibliográfica preliminar nos levou a esta autora como primeira referência à depressão na gravidez interpretada psicanaliticamente. No 5o capítulo. especificamente. no plano da identidade sexual. ao campo psicanalítico. Procura-se salientar. Como a teoria freudiana da sexualidade psíquica se construiu numa certa ênfase de sua modalidade masculina. por exemplo. apresentar como a maternidade se localiza no contexto teórico freudiano. ela parece útil para destacar algumas questões epistemológicas que envolvem o problema da depressão do ponto de vista conceitual. foi a busca da especificidade da sexualidade feminina. que se dedicou intensamente ao estudo da sexualidade feminina. O valor de operadores destes conceitos no escopo deste trabalho se escalrecerá em capítulos . conforme o contexto de uso. autora deste período.12 propriedade do têrmo depressão para descrição deste evento clínico. Outros autores como Karen Horney. Destaca-se o fato da maternidade inscrever-se. as principais diferenças entre os estudos epidemiológicos e os psicanalíticos quanto a depressão na gravidez. Brunswick. isto é. Neste capítulo levanta-se. a inclusão de Deutsch nesta pesquisa se deve à ênfase que a autora dá a aspectos como o narcisismo e a maternidade na subjetividade feminina. Busca-se. avalia-se seu uso em alguns contextos teóricos subdivididos em duas grandes áreas de abordagem dos fenômenos mentais: as que tem como eixo uma concepção orgânica do mental e as que centralizam suas conceituações no aspecto simbólico do aparato mental. O 4º capítulo trata da metapsicologia da maternidade. enfocando as particularidades do complexo de Édipo feminino. Jones. na teoria freudiana. Porém. os estatutos que assume o filho enquanto objeto relativo à subjetividade da mãe. ainda. tomase as proposições de Helene Deutsch. então. ali. Embora esta classificação possa correr o risco da imprecisão dada sua generalidade. também. Com este fim. Lampl de Groot. Foi em a de Gozo. em especial as retificações posteriores a 1920. Passa-se.

A questão metapsicológica da dor intrigou Freud durante todo seu trabalho com as diferentes formas de luto. indo até Inibição. Passa-se. o primeiro deles é a questão da chamada “identificação narcísica ao objeto perdido”. A revisão bibliográfica. retomando a indicação de Deutsch quanto ao filho ocupar o lugar de ideal de eu da mãe. proposta por M. Neste ponto da pesquisa. Parte-se da teorização sobre a melancolia. porém na sua vertente de resto. destacando-se as permanências e transformações da teoria freudiana sobre o tema. responderia por esta identificação. buscando-se extrair dela os elementos conceituais para compreensão do afeto deprimido na gravidez. onde se busca compreender como a relação entre o eu e o objeto pode ser de ordem a inibir a diversidade dos comparecimentos simbólicos. Alguns aspectos da teoria da melancolia são ressaltados. A partir destes elementos teóricos busca-se estabelecer algumas relações com o que ocorre entre a gestante e seu bebê. ficando o ideal de eu deslocado para os objetos. apresenta-se alguns tópicos de suas proposições.13 sua obra que se encontrou um aprofundamento de algumas indicações freudianas quanto ao lugar de ideal de eu que o filho pode ocupar para subjetividade da mãe. cuja produção também subsequentes. a identificação do sujeito ao objeto. No 6º capítulo discute-se a teoria metapsicológica de Freud. A autora extrai destas proposições uma particularidade no caso dos melancólicos. a questão do objeto toma um valor pregnante.C. autora de orientação lacaniana. Considerando-se a precisão conceitual que Lacan oferece à questão do objeto. Parte-se do Rascunho G de 1895. Sintoma e Ansiedade [Angústia] de 1926. então para ao terceiro aspecto ressaltado. O segundo aspecto ressaltado é a dinâmica dos ideais como origem de estados melancólicos e depressivos. mais uma vez conduziu a um autor que dedica um trabalho exclusivo a esta problemática. o problema da dor psíquica envolvida nos processos de luto. sobre a melancolia. passa-se por Luto e Melancolia de 1915. A ausência de um investimento materno desejante sobre a imagem do filho.D.Nasio. onde se destacam as proposições quanto ao estádio do espelho na abordagem da melancolia. . patológico ou não. J. Lambotte.

ou no campo do sentido. então. O Estranho. ressaltando-se tanto os pontos de corte. Aproxima-se. especialmente.. este trabalho àquele exigido à subjetividade materna para o reconhecimento do filho enquanto objeto simultaneamento idêntico e estranho ao eu materno. no 7º capítulo. . O estranhamento é tratado em consonância com a abordagem freudiana do tema. como indicador de uma quebra fantasística que deixa o eu convulsionado pela desorientação pulsional. indicador esse que se situa no limite entre o corpo e o psiquismo. como os aspectos de ligação que definem o território abordado por esta pesquisa. especialmente no que se refere às diferentes formas de trabalho que o objeto promove no aparelho psíquico para seu reconhecimento (juízos). não só na perspectiva de um masoquismo perverso. Quanto à questão do objeto. A concepção de feminino formulada por Lacan parece oferecer elementos para essa proposição uma vez que ela contempla o ultrapassamento da lógica e do gozo fálicos. parte-se especialmente da experiência corporal da gestação para desenvolver o sentido de “estranho” que o filho pode assumir para subjetividade materna.. apresentada em seu artigo de 1919.14 é de orientação lacaniana. ela é aqui tratada conforme as proposições freudianas do Projeto. A dor que algumas experiências de estranhamento podem provocar estaria ligada à pressão por inscrição desse gozo na ordem fálica. mas. No 8º capítulo é apresentado um breve mapeamento do caminho percorrido. Propõe-se ao final que o “estranhamento” seria uma prática peculiar ao feminino. Finalizando.. Nasio tratará da dor como objeto pulsional. Toma-se as relações estabelecidas por Freud na segunda tópica entre ego e corpo para dali deduzir a faceta de estranheza que o filho como objeto pode assumir para o eu materno.

Assim não era possível atingir toda a verdade. Cada um optou conforme seu capricho. (1984: 41-42). ANDRADE. Era dividida em metades diferentes uma da outra. E os meios perfis não coincidiam. Derrubaram a porta. Chegaram ao lugar luminoso onde a verdade esplendia seus fogos. . “Verdade”. Nenhuma das duas era totalmente bela. In: Corpo. porque a meia pessoa que entrava só trazia o perfil de meia verdade. sua miopia. E sua segunda metade voltava igualmente com meio perfil. Carlos Drummond de Andrade1 1 C. sua ilusão.15 As bordas do caminho A porta da verdade estava aberta. Arrebentaram a porta. Chegou-se a discutir qual a metade mais bela. mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. E carecia optar. D.

tendes o sentido do caráter multidimensional de qualquer realidade. ‘jogando o jogo’ reducionista.a complexidade é diferente da completude.16 Considerações preliminares A explicitação dos referenciais norteadores de qualquer pesquisa demarcam a posição do pesquisador no tocante às possibilidades de produção do conhecimento ou de abordagem do real.. Releva de outra parte algo de lógico. ”o qual só pode progredir obrigando-se a ser reducionista. certos objetos empurram o pesquisador à utilização de eixos de compreensão diversos. sempre se procederá a uma forma de redução2 ( ATLAN. 1994). de um lado. ainda. No limite tudo é solidário. Julga-se muitas vezes que os defensores da complexidade pretendem ter visões completas das coisas. como a forma escolhida para essa abordagem (método em sua vertente de técnica) e. De qualquer m odo. da incapacidade de estar seguro de tudo. uma determinada concepção de conhecimento ou de ciência engendra concepções específicas de objeto. . Isto implica não só o recorte do objeto.. Conforme indica MORIN: Pode dizer-se que o que é complexo releva de uma parte do mundo empírico. de conceber uma ordem absoluta. Por que o pensariam eles? Porque é verdade que pensamos que não se pode isolar os objetos uns dos outros. quer dizer da incapacidade de evitar contradições. Este é o caso na presente pesquisa. Além disso. sejam quais forem os referenciais adotados. mesmo que se os compreenda como efeitos complexos das articulações entre linguagem. da incerteza. a finalidade deste conhecimento ou produção. ‘crer nele’ certamente testemunharia uma grande ingenuidade” (ATLAN. de circunscrever o domínio de legitimidade da ciência. impreciso em seus contornos e paralelamente complexo em suas articulações. op. : 83). Se. Se tendes o sentido da complexidade tendes o sentido da solidariedade. (1991: 8283). no sentido atribuído por L atour: relativo simultaneamente à natureza e à cultura. Falar em depressão na gravidez é falar de um objeto híbrido3 (LATOUR. cit. 1991). de formular uma lei. Em se tratando de um estudo acerca de processos subjetivos. 2 Atlan se refere ao valor pragmático do reducionismo. indicando os limites do procedimento científico. 3 Híbrido esta sendo utilizado aqui. porém.

(1975: 168). Em um de seus últimos trabalhos – Esboço de Psicanálise -. será necessária alguma sorte de redução que permita abordá-los. conforme descrito por CASTIEL (1996) num capítulo de sua obra Moléculas.que depois se tornarão os conceitos básicos da ciência. de início. inclusive.. Num dos principais textos metapsicológicos. FREUD afirma num curto prefácio: Os ensinamentos da psicanálise baseiam-se em um número incalculável de observações e experiências. somente alguém que tenha repetido estas observações em si próprio e em outras pessoas acha-se em posição de chegar a um julgamento próprio sobre ela. As origens da psicanálise estão assentadas no empirismo. É interessante notar como as marcas do método de John Stuart Mill . tratando da importância do conceito de pulsão para organização do aparato teórico da psicanálise. propostos por Mill..17 biologia e relações sociais. onde busca respeitar as principais regras de uma produção empírica. O projeto freudiano de construção de uma psicologia profunda foi marcado.. possuir necessáriamente certo grau de indefinição. Todavia.) Tais idéias . escrito em 1938. da “diferença”. aparecem nos trabalhos psicanalíticos iniciais de Freud (este último foi. e portanto. Nesta pesquisa tal redução se fez a partir do referencial psicanalítico. Mesmo na fase de descrição não é possível evitar que se apliquem certas idéias abstratas ao material manipulado (. para língua alemã). como base da construção teórica (BOURGUIGNON.. (..são ainda mais indispensáveis à medida que o material se torna mais elaborado.) Enquanto permanecem nessa . Devem. a concepção freudiana de ciência foi bem além do positivismo. “da variação concomitante” e dos “resíduos”. sua classificação e sua correlação. Molestias e Metáforas. Os instintos e suas vicissitudes. durante toda sua produção. Em suas próprias palavras: O verdadeiro início da atividade científica consiste antes na descrição dos fenômenos. os métodos da “concordância”. denominado “Freud e Mill: a histeria e a empiria”.. pelo anseio de incluí-lo no campo das ciências. Freud (1974c) dá absoluta prioridade à formulação do conceito como instrumento de abordagem do real. Pode-se considerar ainda a adesão freudiana ao empirismo em função da prevalência dada à clínica como fundamento epistemológico da teoria. 1991). tradutor das obras daquele. passando então a seu agrupamento. filósofo da ciência empírica do século XIX.

e I.. Acompanham as origens da psicanálise na hipnose.18 condição.. elas são da natureza das convenções – embora tudo dependa de não serem arbitrariamente escolhidas mas determinadas por terem relações significativas com o material empírico. rigorosamente falando. chegamos a uma compreensão acerca de seu significado por meio de repetidas referências ao material de observação do qual parecem ter provindo. realizaram um interessante estudo acerca do projeto freudiano de cientificidade. Nosso método analítico é o único em que essa preciosa conjunção é assegurada. A construção do saber psicanalítico se faz num processo dialético entre a clínica (que não é. visava garantir seu . relações que parecemos sentir antes de podermos reconhecê-las e determiná-las claramente. a evolução da psicanálise à da química. cuja finalidade é sempre o retorno à clínica. e assim sucessivamente. Comparam. foi impossível conseguir nova percepção sem perceber seus resultados benéficos. L. A proposição de criação dos fatos químicos e dos protocolos de abordagem destes. comparação indicada pelo próprio FREUD em Linhas de Progresso na Terapia Psicanalítica (1976 a). exatamente.: 291). porém é empírica no sentido de experienciada) e a teorização. fonte de observação empírica no sentido sensorial . a partir do abandono da técnica sugestiva pela da associação livre e pelo processo elaborativo. O conhecimento trouxe êxito terapêutico. conjugando suas respectivas experiências de psicanalista e epistemóloga. STENGERS (1990). que permeia toda obra freudiana. então. e o processo de sua construção como campo de saber em relação às ciências modernas. Aí demonstram o meticuloso trabalho de Freud para garantir condições de produção de um testemunho fidedigno que pudesse fazer da psicanálise uma ciência de pleno direito. Assim. (1974c: 137). mas ao qual de fato foram impostas. (1976m. A questão da Análise Leiga: Na psicanálise tem existido desde o início um laço inseparável entre cura e pesquisa. Conforme indica FREUD em seu artigo de 1926. Era impossível tratar um paciente sem aprender algo de novo. CHERTOK. onde apontam a passagem realizada por Lavoisier estabelecendo o estatuto da química como técnica experimental ou ciência operatória (em oposição a seus antecessores que lhe reservariam o estatuto de arte da experiência). Este texto parece evidenciar a relação dinâmica entre observação e conceituação.

Freud buscou estabelecer a psicanálise como um campo de produção científica ao substituir a hipnose pelo trabalho de elaboração. Consideram. convocar os cientistas a uma prática da transdisciplinariedade. ao contrário. pretendem assinalar como o desprezo dos “testemunhos falsos” (como os produzidos pela hipnose. Afirmam que os textos finais da obra de Freud atestam o “fracasso da experiência” de produzir testemunhas fidedignas pela cura dos pacientes através da clínica psicanalítica (única a lhes permitir um verdadeiro acesso a sua verdade em oposição às técnicas sugestivas). Assinalam que tais testemunhos e fracassos experimentais deveriam. . o analista “[instaurava] um estado que tem todos os aspectos de uma doença artificial”. entretanto. não mais estudando as matérias-primas não purificadas que o artesão transformava. por exemplo) pode ser empobrecedor do processo de conhecimento. Chertok e Stengers julgam que. que a posição freudiana frente a este “fracasso” foi de valorizar a teoria (o conceito) por esta ser capaz de explicar os fracassos da técnica. 1990: 76). Cabe ressaltar que a posição destes autores não é de elogio ao cientificismo. na medida em que tinha por arena única o “campo circunscrito” da cena analítica. Impossibilidade que se revelou freqüente em função das resistências e da compulsão à repetição. Tal como o químico do século XIX “criava seu objeto”. na perplexidade que evocam.19 reconhecimento e sua reprodutibilidade por qualquer um que dispusesse destes instrumentos. A cena analítica viria a se transformar numa espécie de laboratório onde o objeto de experimentação seria a neurose de transferência. Os referidos autores pretendem destacar a insistência do passo freudiano na busca do caráter científico da experiência analítica. Os autores concluem que o objetivo freudiano de fazer da psicanálise uma técnica científica de abordagem do inconsciente onde a verdade e a sugestão fossem claramente distingüíveis. que impediam os sujeitos de reconhecer e aceitar sua verdade inconsciente. não se produziu. tornava-se acessível a suas intervenções . em vez de tomá-lo no mundo natural. E essa doença. de modo semelhante.(CHERTOK e STENGERS.

portanto cientificamente inválido. só são compreendidas e/ou explicadas através de recortes teóricos de alcance específico e limitado. Indica.a que implica analista e analisando -. parece ser um modo não só de ampliar as possibilidades de compreensão deste dado.”(1990: 121). explicativa) e uma realidade empírica. cada vez mais exigentes quanto aos múltiplos sentidos de seu conhecimento ‘patético’”(1990 : 141). aponta para necessidade de se ultrapassar a diferença entre fato e artefato 4. Buscar descrever um dado clínico – o surgimento de afetos de tristeza relacionados à gravidez – em diferentes perspectivas da teoria psicanalítica.na lógica de sua racionalidade5 -. É na perspectiva proposta por Stengers que este trabalho foi concebido. ainda. afirma que o que se põe aos psicanalistas como questão é “quais são as práticas a serem produzidas. A pertinência das construções teóricas pode ser verificada na coerência interna de suas premissas e categorias .. Racionalidade é. . STENGERS (1990). uma vez que é inevitável (e não totalmente controlável) a participação do analista na produção dos efeitos da análise. Na neurose de transferência.. também.. sem o ideal judiciário da testemunha fidedigna que concluirá a controvérsia. bem como na eficácia da praxis7 que produz. inventadas para trabalhar juntos e transformar um fenômeno em ator de discussão. de experimentar-se os limites do aparato conceitual. “o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência lógica (descrita. e parece indicar como caminho para a psicanálise a ampliação do trabalho conjunto entre escolas e entre campos de saber.. que dirá quem tem razão e quem está errado. a natureza do fato clínico é a de um artefato enquanto criação de uma certa realidade . que o fato dos psicanalistas lidarem com “seres que estão interessados na produção de saber operado a seu sujeito”(1990: 140). em princípio. como. individuais e sociais.20 Ainda em outro trabalho.. referindo-se à esta mesma temática.) e ficções cada vez mais pertinentes. Considera-se. STENGERS reafirma sua posição epistemológica de que fazer ciência é um processo coletivo. sem que haja diferença de valor entre eles. no “interesse”6 que geram entre os pares.”(1990: 139). segundo MORIN. abarcando diferentes graus de complexidade do real. que as realidades humanas. realidade esta que mantêm estreitas relações com os fatos ou realidades psíquicas do sujeito em análise. 4 5 O artefato é considerado um testemunho extorquido pelo experimentador. “produzindo intrigas cada vez mais sutis (. Quem Tem Medo da Ciência.

Como se pode perceber. há um certo consenso no campo quanto à pertinência da inclusão de outros textos neste conjunto. A razão de estabelecer-se que o produto desta pesquisa deveria incluir-se no campo da metapsicologia. de união entre teoria e prática. Em 1915. no sentido de organizar forças e meios de prova em torno desta proposição. se deve ao fato de considerar-se que esta define o campo onde se organizam os conceitos e as experiências relativas à psicanálise. Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos e Luto e Melancolia. A idéia de que o que Freud produzia era uma metapsicologia (têrmo formulado por equivalência a metafísica). A praxis humana constituindo o fundamento de toda possível teorização ( FERRATER-MORA. Repressão [recalque]. 7 O termo praxis é utilizado aqui. são vários os momentos em que se questiona. Voltado para sintomas mentais de origem enigmática. Freud adverte aos seus leitores que as descrições metapsicológicas devem envolver três modos de descrição dos fenômenos. Formulações sobre os dois princípios do funcionamento mental. Freud realiza um trabalho de sistematização de suas proposição referentes ao aparelho psíquico. no sentido dado por Marx. Em sua correspondência a Fliess (1977) . finalmente. Embora declare compor-se de um conjunto de 12 textos. é de que o “interesse” que desperta uma proposição científica é condição para que ela possa ser considerada “ verdadeira”. uma descrição econômica apresentando as vicissitudes das forças ou quantidades de excitações que respondem pela formação de tal fenômeno e. Uma introdução e O Ego e O Id. Capítulo 7 da Interpretação dos Sonhos. À propos de la Psychanalyse. tais como O Projeto para uma psicologia científica. . parece ter escrito somente 5: Os instintos [pulsões] e suas vicissitudes. 6 Uma das hipóteses desenvolvidas por STENGERS (1992) em La Volonté de Faire Science. O inconsciente. Entretanto. quando escreve sua Metapsicologia. são considerados metapsicológicos os trabalhos de organização conceitual. quanto à propriedade deste termo (metapsicologia) para suas construções teóricas. está ligada ao campo onde emergem suas pesquisas. é além da consciência que Freud vai buscar a razão destes. 1986: 2661). isto é. o qual nomeia explicitamente Metapsicologia. O Narcisismo. a localização das estruturas psíquicas envolvidas na produção do fenômeno em questão. No período em torno de 1914/15.21 Porque uma descrição metapsicológica. Uma descrição dinâmica explicando os conflitos subjacentes a eles. através de seu interlocutor. uma descrição topográfica.

a teorização psicanalítica quando referida à prática clínica. Não só pelas dificuldades de reprodução experimental dos fenômenos inconscientes. então.22 Não será descabido dar uma denominação especial a essa maneira global de considerar nosso tema.. Parece claro que o projeto de organização do campo teórico da psicanálise nos termos de uma metapsicologia responde. A tensão entre o fechamento e a abertura do campo conceitual psicanalítico é o que parece caracteriza-lo. que permitiria à psicanálise alcançar um certo Olimpo da cientificidade. se mostra freqüentemente arredia a estes acabamentos. A descrição metapsicológica produziria. passemos a nos referir a isso como uma apresentação metapsicológica. nem também pela extrema implicação do observador nos fenômenos observados. Freud por vezes promoveu o ideal de uma apresentação conceitual “completa” da psicanálise. (FREUD. quando tivermos conseguido descrever um processo psíquico em seus aspectos dinâmico. para designar o que a descrição nestes tres níveis produz foi – vollendung – “acabamento”. 1974e: 208).(. Entretanto. . mas pela própria riqueza e variabilidade das produções do inconsciente. topográfico e econômico. pois ela é a consumação [vollendung] da pesquisa psicanalítica. aos anseios freudianos de cientificidade. a conclusão conceitual explicativa sobre um fenômeno psíquico assim abordado. Proponho que. dentre outras coisas. e um inacabamento conceitual que é prova de um traço fundamental de seu objeto.8 O termo ao qual se referiu Freud em 1915. foi mantido o caráter descritivo apontado por Freud nesta citação. traço que nenhum conceito particular consegue subsumir e que no entanto seria fatal ignorar.(1996: 340). Conforme esclarece LE GAUFEY: Em sua preocupação de tornar a psicanálise reconhecida como ciência. É nesse intervalo que a metapsicologia essa “bruxa” como a caracterizou Freud em Análise Terminável e Interminável (1975 8 Importante salientar que ao nomear-se alguns capítulos subseqüentes com o termo “metapsicologia” (metapsicologia da maternidade ou metapsicologia da melancolia)..) O projeto metapsicológico talvez seja o melhor atestado desta tensão presente na obra de Freud entre um acabamento conceitual. o acabamento. e só seu respeito pelas imposições inerentes ao objeto de sua démarche o afastou constantemente deste ideal.

a qual se constrói na transferência. Widlöcher apresenta. por exemplo). estas concepções não se opõem. Entretanto. “explicar o inconsciente” ou “explicar pelo inconsciente” são ambas posições encontradas em Freud. Na segunda concepção a metapsicologia é um meio de explicar a vida mental. uma terceira concepção de metapsicologia. “as condições contemporâneas de subjetivação desempenham um papel etiológico . assim como a análise de seus próprios sonhos teria fornecido a Freud o complexo teórico básico da psicanálise. porém. no segundo. trata-se de articular a concepção do inconsciente às outras concepções de aparelho psíquico (as neurobiológicas. numa construção metapsicológica. Através da análise de alguns textos freudianos. O autor ressalta que a metapsicologia possibilita uma interdisciplinariedade. empurrando-a. Partindo da articulação feita por Didier Anzieu quanto à relação entre a auto-análise de Freud e sua construção metapsicológica. apresenta três concepções da metapsicologia. No primeiro caso propõe-se uma nova leitura dos fenômenos do mundo a partir do inconsciente. adiante. Segundo o autor. As divergências que produzem só aparecem quando articuladas a outros aparatos conceituais de explicação da vida mental. Na primeira. ainda. num artigo no qual discute uma certa tendência atual das produções psicanalíticas em direção a questões sociais. SOUZA (1998). Daniel WIDLÖCHER (1994) num artigo denominado Metapsicologia e Auto-Análise. certamente. o que se observa é um movimento recursivo entre as dimensões sociais e individuais de produção de subjetivação. aponta o empobrecimento do campo conceitual psicanálitico provocado pelo deslocamento do olhar da psicopatologia dos sujeitos para psicopatologia do social. o quadro teórico é compreendido como o organizador dos dados clínicos. Toda análise constitui-se. permitindo a descrição mais precisa possível dos processos que ali ocorrem. então. os riscos de um reducionismo descaracterizante quando as assimilações são feitas de modo simplificador. assim também cada análise fornece uma teoria da vida mental do analisante. mostra a especificidade do modo pelo qual Freud aborda a vinculação entre subjetividade e cultura com sua metapsicologia. Na obra freudiana não ocorre o deslocamento descrito acima.23 a) -. o autor propõe que. pode fazer “surgir” respostas especulativas aos limites da clínica. Ressalva.

francesa.: sistema Medline). A pesquisa deste material foi feita em torno de 3 núcleos temáticos9 (Complexo de Édipo/Castração. sejam eles movidos por transformações sociais ou não. bem como algumas reformulações teóricas. propostas por autores que tenham contribuído para a teorização destas temáticas. então. O material foi coletado em bibliotecas e através de sistema eletrônico de pesquisa (ex. Tal revisão se processou através de fontes primárias .e secundárias. O estudo do feminino e da maternidade conduziu aos . parece importante salientar que as elaborações conceituais aqui estabelecidas sofreram o balizamento desta experiência clínica. a partir das teorias psicanalíticas. O objetivo geral da presente pesquisa foi buscar elementos teóricos que permitissem a compreensão da ocorrência de afetos deprimidos durante a gravidez. Para que tal objetivo fosse atingido procedeu-se uma pesquisa básica de revisão da literatura psicanalítica. A “renovação criativa dos conceitos metapsicológicos” é o que poderia oferecer aos psicanalistas saídas para os impasses que a clínica apresenta. que a metapsicologia possa exercer um papel moderador na avaliação dos psicanalistas quanto à incidência de suas práticas na cultura.a obra freudiana . Método da pesquisa O objeto desta pesquisa – o afeto deprimido durante a gravidez – foi resultado de questões sucitadas pela clínica. Alguns outros temas surgiram como contingências dos caminhos percorridos na pesquisa. Gravidez/Maternidade/Feminino e Depressão/Melancolia). ou seja: artigos e livros de línguas inglesa.24 importante mas não absolutamente decisivo no espectro psicopatológico do qual o psicanalista se ocupa. Embora esta não seja uma pesquisa de campo. Foi necessário. espanhola e portuguesa. porém foram destacados diferentemente nos vários períodos e pelas diversas escolas psicanalíticas. que se buscasse suas principais conceptualizações em Freud. Estes temas não se encontram isolados na teoria. O autor propõe. então.”(1998:86).

a linha de costura do tecido deste livro.25 diferentes estatutos que o filho ocupa enquanto objeto na subjetividade da mãe. o qual se tornou. 1992: 208) . 9 Tema é aqui compreendido no sentido descrito por Bardin como “a unidade de significação que se liberta naturalmente de um texto analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia de leitura. por fim. O anseio de encontrar uma explicação para os afetos deprimidos durante a gravidez que não se restringisse a efeitos de uma estrutura neurótica ou psicótica.” (BARDIN apud MINAYO. A pesquisa em torno da depressão conduziu à questão da formação do eu e seus ideais. levou à análise do fenômeno do estranhamento.

entre outras coisas.) – o psiquiatra nascido na Suiça. Seja como for. Perto das Trevas .26 Sobre um dos nomes da tristeza “Quando me dei conta de que fora vencido pela doença. Adolf Meyer – não tivesse um ouvido capaz de captar os rítmos mais sensíveis da língua inglesa e por isso não percebeu que estava perpetrando um desastre semântico quando propôs a palavra “depressão” para descrever uma doença tão terrível. mas foi destronada por uma palavra de conotações mais brandas. deixando poucos sinais indicadores da sua malevolência e impedindo. por mais de setenta e cinco anos a palavra tem deslizado inocuamente através da língua como uma lesma. senti a necessidade de.. devido à sua extrema insipidez. uma palavra realmente sem cor considerando uma doença dessa importância. usada indiferentemente para descrever uma economia em declínio ou uma vala na estrada. nos tempos modernos(. registrar um protesto contra a palavra “depressão”. (.) “Melancolia” pode ainda ser adequada e evocativa para definir as formas mais graves da doença.... o conhecimento generalizado da terrível intensidade da doença quando não é controlada”. Talvez o cientista a quem geralmente é atribuida essa denominação. William Styron1 1 STYRON (1990: 43-44). sem ar professoral.

é poder recortar a experiência do afeto deprimido durante a gravidez não como efeito de uma estrutura subjetiva melancólica ou deprimida. O motivo deste estado de tristeza ou dor psíquica que se está qualificando como depressão na gravidez não parecia ser o bebê – este continuava sendo extremamente desejado. Embora se reconheça a existência de imensa literatura relativa à depressão como quadro psiquiátrico. com alterações de sono e apetite. O termo depressão aparece nas produções psicanalíticas desde seu início. Cabe ressaltar que as mulheres em questão eram primíparas e não tinham diagnóstico de psicose. a definição do que seja a depressão e sua posição no campo da patologia tem sido trabalhosa e permanentemente alterada. o que se busca.S. aqui. sem que tenha o estatuto de um conceito teórico da psicanálise. ao longo do trabalho.M. Nas vezes em que Freud se utiliza deste termo. seja como experiência fenomenológica. ao realizarem esse projeto foram acometidas de um estado de tristeza. bem como a profusão de obras referentes à melancolia como estrutura clínica. mesmo na psiquiatria. Seja como entidade nosográfica. 1995). a depressão adquire interesse nesta pesquisa. a adequação (ou não) da utilização desta nomenclatura. num período que abrangia os primeiros meses da gestação. O quadro clínico que deu origem a esta pesquisa emergiu da clínica psicanalítica. Todavia. Uma primeira questão relativa à propriedade do uso do termo depressão para qualificar uma ocorrência clínica deste tipo diz respeito a seu caráter diagnóstico e à pertinência de seu uso na clínica psicanalítica. nos casos observados - mas algo relativo à própria subjetividade daquelas mulheres em vias de se tornarem mães. mulheres que durante suas análises expressavam intenso desejo de engravidar.27 A depressão no campo dos saberes. Pretende-se. no entanto. IV) (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Tal quadro pode ser aproximado àquele classificado pela psiquiatria moderna como episódio depressivo ( D. mas como efeito do processo de subjetivação feminino em relação à maternidade. Em alguns casos. tanto por seu “poder definidor” ou “poder explicativo” junto ao senso comum (o têrmo depressão é utilizado de forma a . o faz com o caráter que lhe atribui a psiquiatria da época. Chamar-se-á inicialmente este estado afetivo de depressão por esta semelhança descritiva. discutir.

1993: 16-19). Nesse sentido. Alguns aspectos epistemológicos da conceptualização da Depressão Tratar de aspectos epistemológicos é. em função dos dados que caracterizam uma situação ou um . são inevitáveis as intersecções e interfaces (ex. e o senso comum vem se construindo sobre esta forte influência da divulgação dos saberes científicos (GRANGER. por vezes.. há. psicobiologia. MORIN descreve a razão como: (. a razão é o mediador que caracteriza o conhecimento científico. uma profusa literatura não científica sobre este tema. quanto das possíveis combinações de saberes.) onde os conceitos se organizam em sintaxes que se diferenciam tanto das fontes originais (uma psicologia ou uma psiquiatria específicas).. bem como sua terapêutica. também. tratar da lógica sob a qual um conhecimento se processa. Sabe-se que os fenômenos depressivos são objeto de diferentes áreas do saber cujos contornos são. empregado para resolver problemas postos ao espírito. como pela freqüência com que tem sido associada aos mais diversos quadros clínicos. Além da abundância de literatura científica. independente da qualidade destas ou do quanto de incerteza escamoteiam.28 representar quase toda sorte de estados de “dor psíquica”). as ciências sociais.este objeto pouco preciso.: psiquiatria psicanalítica. complexo ou pluriobjeto). comparece nos discursos dos representantes de qualquer classe social (pelo menos nos países cuja cultura é ocidentalizada). (nenhuma delas hegêmonica no domínio do saber sobre o mental ou psíquico .. falada ou televisiva. é apresentado. as psiquiatrias. as psicanálises. acerca do tema depressão. Se o conhecimento só se faz por mediação.. a circulação das informações científicas tem se dado de forma ampla.. da neurologia e outras. neuropsiquiatria. muito pouco definidos: as psicologias. etc. complexificando suas explicações etiológicas.. Ele é presença freqüente na imprensa escrita. ratio quer dizer cálculo). Na última década. antes de mais nada. além da genética. nas mais diversas tendências. em home pages de redes computacionais.) um método de conhecimento baseado no cálculo e na lógica (na origem.. inclusive... psiconeuroimunologia.

por vezes. gens. . bioquímica cerebral) (ANDREASEN. portanto. aqui também (clínica do mental). Para as neurociências o mental se circunscreve nos processos de cognição e nas estruturas cerebrais (ex. Nesse sentido. ( 1990: 121). sofre os efeitos lógicos de estar vinculada a uma ou outra concepção do mental. é necessário que antes se considere os ganhos e as perdas que tal junção pode trazer.29 fenômeno. custam a perda do objeto em si (SAMAJA. os pesquisadores das neurociências (ANDREASEN. sem dúvida. O estudo da depressão coloca o pesquisador .: circuitos neuronais. relações sociais ou traços de linguagem). outras. Porém. 1997: 1586) enquanto nos saberes psicodinâmicos a ênfase do mental está na subjetividade. simbólica. Por outro lado. há diferenças marcantes: umas caminhando no sentido da eliminação ou controle dos sintomas e transtornos. com o mental simbólico.. A escolha de tais referenciais tem implicações tanto no campo teórico como prático. op. explicativa) e uma realidade empírica. de compreendê-la como efeito de processos bioquímicos num aparato neuronal..1586). A racionalidade é o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência lógica (descrita. A clínica do mental (e suas dificuldades. é completamente diferente. portanto. sede da depressão. Se é possível relacionar o mental orgânico. especialmente. Do ponto de vista epistemológico é importante se ressaltar a diferença de recorte do objeto mente ou psiquismo. a finalidade pode justificar esta tentativa.em confronto com problemas epistemológicos como o da multiplicidade de definições de depressão conforme os referenciais teóricos utilizados. do que quer que seja o mental (neurônios. considerando os sintomas como discursos subjetivos cuja decisão sobre seu destino (eliminação ou não) não é devida. Compreender os périplos da noção de depressão implica reconhecer a racionalidade do uso deste conceito em diferentes contextos teóricos. as enormes diferenças na clínica da depressão conforme o modelo teórico que se utilize. como pretendem.clínico ou teórico . cit. Conceber a depressão como ocorrência de um aparelho psíquico forjado no embate entre moções pulsionais e as pressões culturais. que. por exemplo. a categoria ou conceito depressão.. na organização particular. um forte estimulante para criação destas interfaces. Não seria necessário demonstrar.) é. 1992: 15). Essas relações só se fazem através de reduções. nem possível para o profissional que conduz a clínica.

assim. enfatizando todas as formas de manifestação subjetiva. em sua tese de mestrado acerca das relações entre psiquê e cancer: (. Outra questão epistemológica relevante na análise de um conceito é a dificuldade em se rastrear as semelhanças ou linhas de continuidade internas a um saber. através de métodos e linguagem claros e objetivos como pretendem ser o método e a linguagem científicos.. 1997:1588). O objetivismo poderia ser sintetizado como uma visão do mundo constituído de objetos com características e propriedades independentes dos seres que com eles se relacionam. têm sua determinação (ao menos em parte.) em alguns casos a “depressão” é entendida como algo que o sujeito sofre. ou sentidos da intervenção clínica. Uma tentativa de neutralização deste problema tem sido feita pela epidemiologia psiquiátrica com seus sistemas de classificação. Conforme descreve PALMEIRA. Tais objetivos.) no privilégio à vertente subjetivante ou objetivante da produção de conhecimento. em função das mudanças de estatuto que este sofre no seu contexto de uso.(LAKOFF & JOHNSON. nos quais estados como os de depressão seriam sempre adjetivos.). no caso) quando vinculado a um ou outro desses objetivos. seu conhecimento verdadeiro. (1994: 47) . Na perspectiva mais estritamente neurobiológica. ou processo de recaptação da serotonina ao nível sináptico do referido sistema (s. ou entre saberes diversos.n.30 Parece importante destacar-se a mudança de perspectiva de um fenômeno (a depressão... em outros é interpretada como algo inerente à própria natureza do sujeito. ou ainda deficiência de .).c. Já o subjetivismo compreende o conhecimento dos objetos do mundo através das relações entre os seres e os objetos.. possibilitando. por exemplo. no que tange ao uso desse conceito. de modo que se possa decidir sobre a propriedade de seu uso no contexto clínico abordado por esta pesquisa.c. tem sido tratada ora de modo substantivo ora adjetivo. a depressão é associada a fatores tais como alterações de processos cerebrais adaptativos (ANDREASEN. A depressão. resultado de um somatório de sinais. 1980).n. ou intercorrências nos sistemas de transmissão noradrenérgicos do sistema nervoso central (s.

31 dopamina no sistema nigroestriatal ( SIMÕES et alii. o pouco vago. como o estrogênio. Outra vertente da pesquisa biomédica associa a depressão a fatores hormonais. 1991). pelas diversas correntes de saber que têm as experiências psíquicas como seus objetos. distinguir as boas das más analogias. as metáforas enriquecedoras das metáforas enganadoras.) a depressão também tende a ser vista de modo adjetivo. saberes psicodinâmicos (incluindo aqui os culturais). por sua “ ação direta e indireta sobre os neurônios do s. renunciar a continuar racional. duas vezes maior. A pretensão do conhecimento objetivo acerca dessa experiência é. abandonada e substituida por uma racionalidade que supõe encontrar a verdade do fenômeno depressivo intrinsecamente delineada no contexto particular .mas psíquicos ou sociais. aqui. Para os saberes teóricos que descrevem a subjetividade e suas manifestações (as psicanálises. Os modelos de produção de conhecimento acerca da depressão. op. independente da hipótese que a explique. Seria conceber qualquer universalidade nas formas de pensar a depressão. Fica evidenciado. por isso.. resultante de processos neurobiológicos ou genéticos. ATLAN faz afirmações que podem ser úteis para esclarecer a racionalidade dos saberes psicodiâmicos: Assim.é tratada pelos temerário. como resultante de processos . que procuravam imitar a física e a sua forma lógico-mátemática. subjetivo. as suas analogias e a indefinição que as acompanha. contrariamente ao ideal das filosofias neopositivistas. Seja o que for. sem. no entanto. Referindo-se às diferenças de racionalidade do saber científico e do saber filosófico (não positivista). A depressão como experiência vivida . as antropologias etc.n. são objetivos. 1996: 4-5).agora não mais biológicos . é compreendida como um fenômeno adjetivo.(PAYKEL. a depressão é suposta exterior àquele que a pesquisa.:5).subjetiva . utilizar uma linguagem natural. condição considerada como uma das prováveis responsáveis pela freqüência de depressão. do demasiado vago. e para tal.c. que oculta o que deveria ser dito. cit. que a depressão. (1991: 101). nestas áreas. . de sua manifestação.” (SIMÕES et alii. com as suas metáforas. o papel da filosofia seria falar daquilo que não pode ser formalizado. nas mulheres do que nos homens. entretanto. potencial de criação.

Conforme apresentado no prefácio à edição brasileira da Classificação Internacional de Doenças .S. Esta opção pelo modelo sindrômico em detrimento do modelo nosológico se dá.: XI ). na maioria dos casos.). ZARIFIAN define um diagnóstico como um instrumento que “permite comunicar acerca de um doente.” (O. Nesta mesma linha LAJEUNESSE afirma . representam os resultados mais recentes desta tendência taxônomica que vem buscando instrumentos que permitam a comunicação entre os diferentes profissionais envolvidos na clínica. a sofrimento e interferência com funções pessoais. . e/ou. Estas classificações se caracterizam pela descrição de sinais e sintomas.descrições clínicas e diretrizes diagnósticas .) permite comparar grupos de pacientes entre si. 1993:5). Esta última versão de 1992. Por outro lado.) CID 10 (1993: XI).M. facilitando a clínica. op.M... em função da ausência de certezas quanto à etiopatogenia dos transtornos mentais. a pesquisa e a comunicação entre profissionais da área de saúde mental ( O. o esforço sistemático de classificação dos transtornos mentais. da complexidade que envolve a causalidade do psíquico. clinicamente reconhecível.S.32 A organização dos saberes sobre o mental em sistemas classificatórios: algumas implicações clínicas.CID10. (.. O objetivo apresentado para estas categorizações é: “melhorar o diagnóstico e a classificação dos transtornos mentais”. associado. na pesquisa e na educação em saúde mental. entretanto] pois a abordagem é essencialmente intuitiva. dependendo da finalidade que se atribua a um diagnóstico. (. Outros dois eixos utilizados nas classificações são: a distribuição dos sinais e sintomas no tempo (episódica ou recorrente) e sua intensidade (grave.. especialmente.cit. com um declarado abandono da noção de doença mental e a opção pelos conceitos de episódios e transtornos . moderada ou leve). este esforço classificatório será de maior ou menor valia. orientado por esta entidade.M. junto com o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM IV -AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION.” (1989: 45-47). [não sendo necessário na clínica.da Organização Mundial de Saúde (O. 1994).S. Este último é definido como “um conjunto de sintomas ou comportamentos. data da década de 60 e vem se ampliando e se especificando desde então.

sentimentos de desvalia ou culpa e pensamentos suicidas (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. não garante a objetividade e. perda de prazer generalizada. tal “fidelidade” se obtém às custas da retirada das sintomatologias puramente subjetivas. Se por um lado esta postura “suprateórica” gera a clareza dos sintomas descritos. ainda.. a depressão é classificada como um transtorno afetivo do humor envolvendo episódios depressivos. a uma opção pela não utilização de qualquer referencial teórico específico. segundo o próprio autor.M. entretanto. 10 advertem que a atual versão ainda é fonte de muita discordância entre psiquiatras. por vezes. quando da descrição das categorias. perda de apetite.” (O. Esta ausência de organização teórica dos sintomas leva. A “costura” dos dados parece fundamental na própria caracterização dos fenômenos. ao invés (. Supõem.CID 10 tem 100).. acirra a dicotomia entre os praticantes da clínica do mental (subjetivistas e objetivistas). a situações bizarras. condicionar a orientação terapêutica” (1989: 72).: 13). especialmente aqueles que vivem nos grandes centros urbanos. também. nos dois sistemas classificatórios citados acima. por conseguinte. alterações psicomotoras.S. O transtorno depressivo é um caso exemplar deste tipo. que tais discordâncias serão dirimidas com “medidas fisiológicas e bioquímicas. O abandono da posição nosográfica. Seria quase impossível encontrar um adulto ocidental que não se enquadrasse nestes critérios..) de descrições clínicas de emoções e comportamentos. em um período mínimo de duas semanas e mais. diminuição de energia.cit. ainda. por outro os multiplica de forma progressiva. Segundo este autor. 1994). . a atual versão . no bojo. Na classificação do DSM IV. dificultando sua utílização clínica como instrumento de projeto terapêutico (o capítulo dos transtornos mentais do CID 9 tinha 30 categorias. os organizadores da CID. perturbações do sono.. de um projeto de objetividade de tais classificações. pelo menos quatro dos seguintes sintomas: queixas de tristeza. op. onde qualquer sujeito pode ser incluído sob certos diagnósticos. se deve. Quanto à categoria depressão..33 que: “o interesse de um diagnóstico fiel e válido é condensar uma informação com virtude prognóstica e. Uma perspectiva nosológica implica modelos teóricos de interpretação dos eventos. desesperança. Procedimento que.

. a intenção de objetivação através de critérios estritamente biológicos permanece.) O que é mais notável na visão ocidental da depressão é a afirmação implícita do carater de oposição à alegria. na evolução dos conceitos diagnósticos. desfruta-se agora da precisão e do rigor das imagens (tomografia de emissão de pósitrons. Conta-se.. Poder-se-ia objetar que as versões atuais dos sistemas classificadores minimizam este problema abrindo mão das grandes categorias nosográficas. As classificações de psicotrópicos reforçam a situação. é preciso que se destaque a subversão que tal caminho pode criar na compreensão (e consequente abordagem) dos fenômenos mentais. Outra fonte de dificuldades no estabelecimento e uso clínico de um sistema classificador são as diferenças culturais. nos dois sistemas a que estamos nos referindo (DSM.34 Em relação aos critérios fisiopatológicos. por exemplo. depressões e ansiedade. porém. com instrumentos poderosos para esses fins: além da fidedignidade da bioquímica . com evidentes conseqüências clínicas.IV e CID. Mais ainda.) Se bem que os psicotrópicos não sejam senão tratamentos sintomáticos e não específicos de uma afecção mental. elas não são consideradas. atualmente. entretanto.. Responsável por isso é sobretudo o marketing farmacêutico. por exemplo). em relação a um . Todavia.. antidepressivos e ansiolíticos: então há psicoses. bioquímicos ou genéticos como fontes de especificação diagnóstica.. corre-se o risco de identificar fenômenos de uma esfera (os afetos deprimidos. Mais uma vez isso não ocorre sem prejuízo clínico. e não inocente.). A esse respeito LUTZ afirma: Argumentarei. ou pelo menos aos afetos positivos.) somente faz sentido no contexto cultural Euro-Americano dentro do qual foi desenvolvido(. (. dada a dificuldade em transformá-las em variáveis indicáveis objetivamente . ( op. como foi mostrado alguns parágrafos acima. que a distinção entre o o quê e o como da experiência depressiva (. Sobre isso ZARIFIAN afirma: Os psicotrópicos tiveram papel importante.. o cenário está armado. incorrendo em inevitável engano e confusão. Há antipsicóticos. com achados de outra esfera (as possíveis alterações de imagens tomográficas quando de estados afetivos deprimidos).10). Estas são reconhecidas...cit: 49-50).

. no caso) sutura.. cada dia mais lotados de autodenominados “doentes do pânico” ou “deprimidos”. Tais estudos poderiam ser subdivididos em dois grandes grupos: • aqueles que pesquisam os fatores de risco para depressão na gravidez.) O que é particularmente desviante nos deprimidos é sua desistência em buscar a felicidade ou o amor de si. moldadas culturalmente. em contraste com outras possiveis definições de normalidade nas quais.. em seu artigo DSM-IV: El “McDonald’s de la Psiquiatría”. de fato. traz também alguns riscos clínicos como o de se confundir “os signos recolhidos com a realidade da doença” (CLAVREUL. foram encontrados estudos conjuntos nas áreas de obstetrícia. não significa que as pessoas (o senso comum) a tenham abandonado também. Prova disso são os serviços clínicos.35 estado normal. corretas porém não prazeirosas. a pressão pela busca das razões individuais do sofrimento. (. ou em vivenciar emoções de caráter moral. Parece então que esta objetivação das classificações diagnósticas.. onde o diagnóstico (depressão. 1994: 108). BENETI (1997). 1995.. psiquiatria e psicologia demonstrando a ocorrência de estados depressivos durante a gravidez normal (SÉGUIN et alli. se traz vantagens tais como a abertura de espaço para a consideração de configurações complexas. 1996).. Estas metas aparentemente naturais são.. a ênfase pode ser posta no cuidado de crianças ou parentes. por exemplo. KONIAK-GRIFIN et alli 1996. KITAMURA et alli. ( 1985: 6370). Os estudos sobre Depressão na Gravidez Numa revisão preliminar da literatura médica sobre o tema. 1983:202). parcialmente. no interior de sistemas dinâmicos (BASTOS et al. muito pelo contrário. faz notar o risco de inversão clínica quando à singularidade do paciente é sobreposta a universalidade do sistema diagnóstico. O fato dos sistemas classificadores terem abandonado a concepção de doença.. . Parece possível supor que o caráter de saber universalizador dos sistemas diagnósticos pode oferecer ao senso comum o frágil conforto (no caso das afecções subjetivas) da pertinência a um grupo. considerados objetivos básicos e normais das pessoas..

fatores denominados psicossociais. como vinculada a condições de desequilíbrio ou desadaptação social. na obra do fundador da psicanálise. et al 1996). SÉGUIN. onde as entidades clínicas eram descritas de modo . O transporte deste termo da psiquiatria para psicanálise se fez através dos psicanalistas com formação psiquiátrica dita clássica. et alii. com baixos níveis de escolaridade (ZUCKERMAN. a prevalência da depressão na gravidez é maior em grupos de mulheres de baixa renda. et alii. HOBFOLL. estes ora mais. 1990) ou mesmo a mortalidade neonatal (BUSTAN et al. et alii 1995. negras. nem mesmo um conceito. 1995. ora menos evidentes. predominantemente. Em primeiro lugar.36 • os que buscam associar a depressão como fator de risco para certos desfechos obstétricos. et alii. Em relação aos fatores de risco mais freqüentemente associados à depressão na gravidez. Alguns fatores parecem poder explicar tal ausência. 1976. a qual se baseava na “observação cuidadosa”. na literatura psicanalítica. SÉGUIN. tais como a prematuridade. no “dialógo sustentado e atento com o doente” (MILLAS. encontram-se as dificuldades econômicas e a falta de parceiro ou de suporte familiar e social (MILLÁN. baixa renda. 1991). falta de suporte social. enfim. porém. Não foram encontrados. a depressão é quase sempre ligada a situações como estresse. o fato da depressão não ser uma entidade nosográfica. trabalhos específicos acerca da depressão na gravidez . Os artigos de orientação psicanalítica tendem a abordar estados depressivos em gestantes na perspectiva da reorganização psíquica imposta à mulher pelo estado gestacional (BIBRING et al. 1989. ORR et al. 1990. 1995. JADRESIC. A depressão é ai descrita. do campo psicanalítico. et alii. Nestes trabalhos. 1995). 1994). No campo psicanalítico a consideração de qualquer fenômeno sofre os efeitos de “refração” da existência de diferentes escolas. Nesse sentido. Estes estudos não tecem considerações sobre a dinâmica psíquica subjacente à depressão na gravidez. A teoria psicanalítica não é unívoca. WELDON. 1997: 96). et alii. o baixo peso ao nascer. seu desenvolvimento tem se dado a partir do privilégio ou da ênfase de aspectos diferentes da teorização freudiana. a irritabilidade do bebê (ZUCKERMAN et alii. COPPER. 1993.

Como a maternidade foi tratada por Freud no contexto da organização sexual feminina e considerada seu alvo evolutivo. que serve à psicanálise como modelo para compreensão dos afetos deprimidos. embora com aspecto de caixa preta. 1997).37 minucioso e criterioso a partir da referência à psicopatologia fenomenológica (BENETI. como teorizou Deutsch. porém. uma proposição normativa. É o estudo do quadro clínico da melancolia. . A melancolia também é uma entidade nosográfica da psiquiatria (distinta da depressão). deduziram. Quer fosse por inveja do pênis como propôs Freud. ou por ansiedade paranóide em relação às partes más deste objeto mãe. realizado por Freud em diferentes momentos de sua obra. naquele momento. numa relação mais específica a estes fenômenos. as teses falavam de um infantilismo quanto à sexualidade psíquica. alí. era a possibilidade de expandir seus construtos explicativos. Se para a medicina tais fatores. permitiu o avanço das pesquisas em torno dos chamados fatores psicogênicos. As discussões sobre esta questão se fizeram em torno do desenvolvimento da sexualidade feminina no complexo de Édipo. Outra razão para a falta de trabalhos psicanalíticos específicos quanto a depressão na gravidez parece ser o fato de os trabalhos sobre a maternidade estarem predominantemente centrados em duas grandes temáticas: a frigidez e a infertilidade. ou por temor de um submetimento masoquista à mãe. As angústias e depressões eram abordadas na perspectiva das dificuldades em tornar-se mulher. de técnicas de reprodução sofisticadas. ora considerada uma afecção mental em si. aborda o problema da melancolia buscando descrevê-la nos termos de suas conforme se exporá mais adiante. geralmente. para a psicanálise. referidos à dificuldade de identificação com a mãe. De modo geral. como observou Klein. por parte da psicanálise. Na primeira metade do século a discussão em tôrno da infertilidade já se centrava nos aspectos da psicologia feminina. A inexistência. Quanto a isso cabe lembrar que a questão central sobre a qual Freud se debruçou foi a sexualidade no seu duplo intrincamento. serviam de escoadouro para o não-sabido emanado da clínica. os conflitos eram. atualmente denominada transtorno bipolar). Freud. A depressão é estudada . o teorias. ora associada à psicose (especialmente à psicose maníacodepressiva. alguns estudiosos das questões de gênero. redutora da mulher à condição de mãe.

Nestes trabalhos o afeto deprimido é abordado. que a falta de um significante que especifique a mulher no campo das diferenças sexuais psíquicas.. a ênfase dos trabalhos psicanalíticos relativos à gravidez recai sobre as práticas de inseminação artificial. Se o filho é esperado no lugar de metáfora do que é ser mulher. e que se submetem às técnicas de reprodução assistida. por vezes. e o que se observa nas descrições semiológicas dos quadros ditos depressivos.. redução. psiq: distúrurbio mental caracterizado por adinamia. Depressão como experiência afetiva A versão dicionarizada do vocábulo depressão .. então. no atendimento da demanda de uma gestação. letargia. Na última década.). em relação ao fracasso que estas gravidezes assistidas podem representar quanto ao sentido plurívoco do desejo das mulheres em questão. (CHATEL. Sustentando esta relação analógica buscar-se-á 2 O têrmo Castração está sendo utilizado aqui numa das acepção propostas por Lacan.). A suposição subjacente a estes trabalhos é de que as práticas médicas sustentam. este desconhecimento. que possa ser resolvida pelo imaginário biológico. baixa de terreno.. (.parece evidenciar uma relação analógica entre os movimentos mecânicos de pressão com efeito de diminuição ou redução numa quantidade qualquer. 1996). toda a verdade referente ao sujeito e a seu desejo. diz respeito à pluralidade das suas possibilidades representativas e não a qualquer sorte de carência real.38 indivíduo e a espécie. como ausência de um significante que possa circunscrever. em termos de saber. TUBERT. abaixamento de nível resultante de pressão ou de peso. Tais trabalhos buscam evidenciar. sendo a reprodução e a maternidade indissociáveis nesse plano de pesquisa. 1995. diminuição.“ato de deprimir-se. sensação de cansaço(. ainda. 1966: versão eletrônica) . desânimo. A tendência desta discussão se faz em torno do desconhecimento da vertente inconsciente do desejo destas mulheres cuja infertilidade tem causa desconhecida ou “psicogênica”. a resposta a esta demanda representará a negação da castração2 e a valorização de idealizações imaginárias quanto ao papel da maternidade na identificação da mulher ao feminino. fig: abatimento moral ou físico. como condição estrutural da subjetividade.” (HOLLANDA. .

Na obra de Marie-Claude LAMBOTTE (1997).e de luto. a ocorrência de um período depressivo durante a gravidez não indica. então. Embora nesta pesquisa não tenha sido encontrada referência explícita a essa posição. as diferentes experiências que remetem o sujeito 3 A referência a uma estrutura melancólica visa estabelecer diferença entre uma posição subjetiva transitória e outra prevalente. Como já sublinhado no início deste capítulo. que o tratamento metapsicológico que se pretende dar à questão pode autorizar sua extensão à clínica psicanalítica de quadros de depressão na gravidez vínculados a estruturas melancólicas ou depressivas. entretanto. por decorrência . mas uma manifestação subjetiva passível de ocorrer em mulheres de variadas estruturas psíquicas. que seria menos de desejo e mais de mimese identificatória. ocorrida ou por ocorrer. então. Porém. o trabalho de PINHEIRO (1998) O estatuto do objeto na melancolia. embora não explicite a proposição de uma estrutura melancólica. independente das neuroses. necessariamente. sustentada apenas no afeto da tristeza. Buscar-se-á discutir em capítulos subseqüentes a relação entre a angústia a estranheza e o sentimento de depressão. gerada na passagem da condição subjetiva de mulher à condição de mãe. das psicoses e das perversões. refere-se a uma metapsicologia específica da melancolia. determinou a manutenção do termo. A depressão será aqui considerada como uma ocorrência relativa ao campo do afeto. Entretanto. sua referência ao discurso a aproxima da concepção de estrutura uma vez que para LACAN (1992) a noção de discurso diz respeito a posições estáveis na linguagem. De modo semelhante. Parece. esta pesquisa da depressão associada à gravidez não pretende enfocar um quadro nosográfico. relatada nos casos que serviram de fonte para esta pesquisa. todavia.39 evidenciar que tipo de pressão e sob que aspectos da subjetividade da mulher grávida. envolvendo um modo particular de vinculação da subjetividade ao objeto. tratandose de autora com orientação lacaniana. . a opção é por um discurso melancólico. Parece necessário ressaltar que. poderá resultar num rebaixamento de sua alegria. se toda angústia se refere à fundação do sujeito como desejante.onde o afeto triste e a inibição generalizada dão o aspecto depressivo aos sujeitos por eles acometidos. alguns indícios apontam nessa direção. na experiência da gravidez desejada . desvinculada de qualquer perda objetiva. Poder-se-ia objetar que a utilização do termo depressão está aqui. uma estrutura subjetiva melancólica3: É possível a presença de afeto deprimido na gravidez de mulheres sem uma história pregressa deste tipo de episódios. permeia atualmente a obra de alguns psicanalistas. A intenção de manter tal termo. A idéia de que a melancolia poderia ser uma estrutura específica. A semelhança com as situações de melancolia . por exemplo. se deve à associação entre a tristeza e um sentimento de perda inefável. o que não caracterizaria uma depressão ou um quadro melancólico.

Supõe-se que a gravidez seja uma delas.40 a esta fundação são de extremo interesse na clínica psicanalítica. .

A FEMINILIDADE . como a mulher se desenvolve desde a criança dotada de disposição bissexual. FREUD (1976n). 144 .41 A metapsicologia da maternidade “De acordo com sua natureza peculiar.” Sigmund Freud 1 1 S. mas se empenha em indagar como é que a mulher se forma.p. a psicanálise não tenta descrever o que é a mulher seria esta uma tarefa dificil de cumprir -.

42 Proposições freudianas acerca da sexualidade feminina e da maternidade Estudar a gravidez através da psicanálise implica fazê-lo mediante o recorte específico com que esta compreende o vivido humano. seu principal tratamento no campo. Esta foi a vertente sob a qual Freud abordou preferencialmente a questão da maternidade. No propósito de teorizar a sexualidade. que lhe possibilita a participação na partilha dos objetos sexuais. de modo mítico. sob dois prismas: como manifestação do desejo inconsciente de um sujeito mulher ou como função relativa à constituição simbólica da subjetividade (do filho). Freud descreve sua organização. O feminino entra na psicanálise desde os primórdios. tem sido abordada. com maior ênfase na vertente masculina. essencialmente simbólica. e a necessidade de orientação do sujeito na ordem transgeracional . cenas de excitação sexual na infância. produzidos entre 1895 e 97. A idéia de uma lógica edípica subjacente aos processos subjetivos remonta aos primeiros trabalhos psicanalíticos de FREUD (1974a). entretanto. eram. o Complexo de Édipo. a falta de um demarcador psíquico quanto à diferença sexual. processo que resulta no engajamento do sujeito na ordem social através de sua identificação a uma posição sexual. de valor etiológico na estruturação das neuroses. porém. os próprios pais. Esta. pela origem do sujeito. o conteúdo sexual . por sua vez. já indicava que os adultos que faziam parte da cena relatada pelos pacientes. no entanto. freqüentemente. como campo de enigmas. Nesta última visada a função materna comparece no conjunto de operações psíquicas que respondem. O conjunto de operações que respondem pela sexuação psiquica é. tem se dado através da perspectiva da maternidade. especialmente. É através do complexo de Édipo que o sujeito se reconhece (como homem ou mulher) e pode fazer vínculos de natureza sexual e social. Quanto à gestação. Os fundamentos sobre os quais Freud constrói a teoria edípica são: a bissexualidade constitucional. A teoria da sedução é depois substituída pela teoria da fantasia. por concebê-la como constitutiva da subjetividade humana. no desenvolvimento da sexualidade psíquica nas mulheres. A teoria da sedução. Esbarra. segundo FREUD (1970). As duas áreas da psicanálise às quais a gestação se liga de modo mais imediato são a sexualidade feminina e a maternidade. como experiências cuja realidade é centralmente psíquica. equívocos e muita fecundidade teórica.

1976n). com forças individualmente variáveis. as quais são mediadas pela posição sexual que caracteriza o modo de abordagem dos objetos. 1976g). a atribuir valor determinante ao complexo de Édipo. Essa trama se dá em torno da ausência e presença do pênis como representante do falo3. (LAPLANCHE & PONTALIS: 1986). mas na estruturação psíquica mesma (FREUD.em todos os indivíduos. 1976i) e nos trabalhos dedicados à sexualidade feminina Sexualidade Feminina FREUD (1974f) e a ConferênciaXXXIII Feminilidade (FREUD. em sua repostulação do inconsciente freudiano enquanto estruturado como linguagem. entre a criança e um dos pais (ou seu representante). Freud passa. 3 Em psicanálise o falo é o elemento simbólico por excelência. Estão referidas ao falo todas as significações subjetivas. bem como do sexo oposto. não ter e receber). Embora a primazia do falo na orientação do desenvolvimento psíquico da sexualidade estivesse assentada na teoria desde 1905 nos Três Ensaios Sobre a Sexualidade (FREUD: 1972a). constrói-se a posição sexual subjetiva bem como o ingresso na ordem social. uma vez que não há reconhecimento psíquico imediato. não só na estruturação das neuroses. A formalização da teoria edipiana da subjetivação não se desenvolveu de forma linear no que diz respeito aos homens e às mulheres. A Dissolução do Complexo de Édipo de 1924 (FREUD. A diferença corporal (ter pênis . O que está em questão no Complexo de Édipo é um jogo de investimentos e desinvestimentos libidinais.não ter pênis) é um indicador imaginário da diferença simbólica que se constroi em torno do falo (fálico – 2 Especialmente nos artigos A Organização Genital Infantil de 1923 (FREUD. da diferença sexual. 1976g). e em sua forma invertida ou homossexual . que possibilita a participação do sujeito nas trocas sociais. Algumas Consequências Psíquicas Da Diferença Anatômica Entre os Sexos de 1925 (FREUD. O resultado é a identificação a uma posição sexual (feminina ou masculina). meninos A presença do pênis nos em associação a sua ausência nas meninas (e somente nesta estrita associação) conduz a criança a produzir hipóteses acêrca de seu próprio sexo. Importante ressaltar que um dos reflexos da bissexualidade original (tese que dá fundamento à teoria do Édipo) é a presença universal. acompanhado de identificações ao outro elemento do par parental. 1976h). O falo tem função de indicador de haver diferença sexual. Seu uso esta ligado à função simbólica desempenhada pelo pênis na dialética intra e inter-subjetiva.em sua forma direta ou positiva.43 envolvendo os pais ou seus representantes permanece. Num jogo dialético entre ser e ter o falo e seus correlatos (ter e perder. LACAN (1993A). atribuiu ao falo valor de significante fundador do espaço . progressivamente. inato. os efeitos diversos desta primazia só foram teorizados nos artigos posteriores a 19202. de um complexo de Édipo completo .

A suposição de que todos os seres humanos têm a mesma forma (masculina) de órgão genital é a primeira das muitas teorias sexuais notáveis e momentosas das crianças. Pouco adianta a uma criança que a ciência da biologia subjetivo. (1986: 114-115) Nesta teorização onde a consideração dos genitais femininos se dá a partir do pênis.) (1972a: 192). Como explicitado por LAPLANCHE & PONTALIS: É que o papel que a psicanálise atribui ao complexo de castração não se compreende sem ser relacionado com a tese fundamental – constante e progressivamente afirmada por Freud – do caráter núclear e estruturante do Édipo. FREUD (1972b) descreve este complexo pela primeira vez em 1908 quando do estudo do pequeno Hans.. Tanto nos meninos quanto nas meninas ela é posta em conexão com a micção (na glande e clitóris)(.. 1976g) a castração passa a ser considerada a lógica prínceps sob a qual é abordada a diferença sexual e suas conseqüências: o posicionamento sexual psíquico e as escolhas identificatórias e objetais. a mulher está na condição de desprovida ou provida de forma falha (clitóris como um pênis pouco desenvolvido ou amputado). A castração é o operador em torno do qual se desenvolve o complexo de Édipo. do lado das mulheres: Entre as zonas erógenas que formam parte do corpo da criança há uma que certamente não desempenha o primeiro papel e que não pode ser o veículo dos impulsos sexuais ulteriores mas que é destinada a grandes coisas no futuro. A lógica subjacente ao complexo de castração é a da ameaça de perda de algo valioso – o falo – como norteador das escolhas possíveis para o sujeito. O temor da castração passa a ser descrito nos trabalhos psicanalíticos como relacionado. na interrelação aos outros significantes do campo da linguagem. com o aparecimento do texto freudiano A organização genital infantil (Uma interpolação na Teoria da Sexualidade) (FREUD.44 castrado). A oposição presença / ausência marca uma diferença que faz trabalhar a linguagem.. significante este que.. porém sua comparação com o pênis dos meninos estabelece uma lógica de inferioridade ou falta. Depois de 1920. FREUD reconhece que o clitoris é a zona de atividade sexual genital para menina. daí o valor simbólico do falo. promove sentido à subjetividade. à clínica das neuroses. . de modo especial.) O complexo de castração deve ser referido à ordem cultural em que o direito a um determinado uso é sempre correlativo de uma interdição. (.

entretanto. de modo análogo. 4 . quando a criança retoma o problema da origem e nascimento dos bebês e adivinha que apenas as mulheres podem dar-lhes nascimento. a rivalidade da menina à mãe. (. Para ela. À rivalidade do menino ao pai. retêm o pênis por longo tempo. Até a década de 20 Freud postula uma simetria entre o Édipo masculino e o feminino. em conseqüência da predominância dada por ele à lógica fálica no estabelecimento e desenvolvimento da sexualidade psíquica. No trabalho de 1923 a Organização genital Infantil (Uma interpolação na Teoria da Sexualidade) FREUD reafirma pontos como a primazia fálica na organização genital das criança e a renegação inicial da diferença sexual constatada na observação clínica dos meninos. ocorreria. contudo que a criança efetua rápida e prontamente uma generalização de sua observação de que algumas mulheres não tem pênis. Ao modo especular. ser mulher ainda não é sinônimo de não ter pênis. Strachey ao artigo de FREUD (1976i) Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos. E juntamente. Ao amor devotado à mãe pelo menino. O Complexo de Édipo Feminino em Freud A teorização de Freud sobre o Édipo feminino se inicia pela postulação de sua equivalência ao masculino. são construídas teorias Sobre isso ver Introdução do Editor Inglês. várias vezes.45 justifique seu preconceito e tenha sido obrigada a reconhecer o clítóris como um verdadeiro substituto do pênis.) Mulheres a quem ela respeita. Mais tarde. Toda esta tese será modificada depois de 1925. Freud 4 reconheceu. por Lacan. porém.. como sua mãe. as relações edípicas entre o menino e seus pais se oporiam às da menina. Introduz. J. que lhe atribuirá um estatuto de fonte do ultrapassamento do gozo fálico. mais tarde. Esta noção de falta relacionada à sexualidade das mulheres será retomada. como descreveremos mais adiante. corresponderia o amor ao pai destinado pela menina. ( 1972a: 201). que o seu conhecimento acerca do desenvolvimento da sexualidade das mulheres era precário. somente então também a mãe perde seu pênis.. um aspecto importante para o conjunto da teoria e de especial interesse em relação a este trabalho: a associação entre a maternidade e a percepção das mulheres como castradas: Não se deve supor.

seja na forma de pênis seja na forma de seu substituto. os órgãos genitais femininos jamais parecem ser descobertos. Nesse sentido a simetria entre os Édipos masculino e feminino já não se sustentava. . por desistência. A ausência de um temor e a prevalência de uma inveja responderiam por certa fragilidade do superego feminino. Para os meninos a ameaça de castração por parte do pai seria o principal propulsor do recalcamento do amor pela mãe. Em tudo isso. No caso das meninas. cai também um motivo poderoso para o estabelecimento de um superego e para a interrupção da organização genital infantil. na menina. ou seja.46 bastante complicadas para explicar a troca do pênis por um bebê. aspirando ao desenvolvimento de um pênis ou de algo que se equacione a ele simbolicamente. uma fragilidade no recalcamento de seu amor pelo pai. (FREUD. onde discute especialmente a função da ameaça de castração na dissolução do Édipo e a permanência de seus traços através da estrutura superegóica. Em função da inserção da menina na lógica fálica esta continuará. a pressão para este recalcamento. entretanto. O abandono (quando há) do projeto edípico e o término da organização genital infantil aconteceriam graças a sua não realização. o temor da castração. Freud chega a propor um alongamento indefinido na situação edípica da mulher. o qual lhe seria doado por aquele. um filho especialmente. Para menina tal hipótese seria inadmissível. A formação do superego ocorreria através da ameaça de perda do amor de um dos pais. Estando assim excluído. provocado por seu anseio de obtenção de um pênis. um filho. no entanto. (1976g: 183-184 ). Se o desenvolvimento suposto normal ou ideal do complexo de Édipo seria que as primeiras escolhas ou investimentos libidinais sucumbissem ao recalcamento. restando no inconsciente as marcas deste jogo entre desejo incestuoso e ameaça de castração na forma de núcleo do superego. ressalta que a castração (não como ameaça mas como constatação) ocorre numa fase inicial do desenvolvimento libidinal. parecia advir de fontes diferentes conforme o sexo anatômico da criança. Em 1924 FREUD escreve A Dissolução do Complexo de Édipo.1976h: 223).

1976n). Em suas próprias palavras: “(. ela o encerra. que coincida com ele completamente (. a constatação da castração inaugura o complexo de Édipo. portanto. As principais reformulações que as pesquisas sobre a sexualidade feminina trouxeram à teoria freudiana dizem respeito a dois aspectos: à intensa ligação da menina à mãe nas fases iniciais de sua organização libidinal. A nuclearidade do complexo de Édipo e da angústia de castração são mantidas por Freud acrescentando-se um período pré-edípico. para que esta possa ser tomada como fonte de prazer (e .. onde meninas e meninos teriam o mesmo objeto de investimento libidinal. Importa ressaltar que tais reformulações respondem mais a uma exigência de coerência teórica da própria produção freudiana do que a uma adaptabilidade de Freud aos dados trazidos por estes pesquisadores. Helene Deutsh. exigindo assim uma troca de objeto (da mãe pelo pai) para que o complexo edípico se instale. Neste artigo estão apresentados. um ponto não de simetria mas de semelhança entre os Édipos masculino e feminino.1974f) e Conferência XXXIII (FREUD.. Karen Horney. de modo sintético. 1974f: 320). Freud começa a responder a esta exigência especialmente em seu trabalho de 1925 Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica Entre os Sexos (1976i). Essas críticas já vinham se esboçando desde o artigo de 1925. do clítoris para a vagina. o que pode se observar no último capítulo do artigo sobre a Sexualidade Feminina. Outra questão que se esclarece no texto de 1925 é a diferença da função da castração no desenvolvimento dos vínculos edípicos em meninas e meninos. a mãe..)” ( FREUD. estudos que parecem ter exigido um reposicionamento de Freud quanto à teorização sobre o feminino.Sexualidade Feminina (FREUD.47 Na década de 20 a pesquisa psicanalítica na área da sexualidade feminina produziu trabalhos de peso como os de Abraham. Jeanne Lampl de Groot. os principais pontos de suas reformulações teóricas sobre o tema. para os segundos. Um ponto fundamental para Freud desde o início de sua teorização é a idéia da necessidade de uma operação de deslocamento da fonte de excitação. dentre outros. Este é.. no qual Freud se dedica a rebater as proposições de cada um dos autores citados acima. e à mudança da zona genital (do clitóris para vagina). Para as primeiras. Ernest Jones e Melanie Klein. os quais serão desenvolvidos em dois trabalhos na década de 30 . nada contudo.) existe muita coisa que toca de perto naquilo que escrevi.

(. Freud toma como ponto de partida a masturbação clitoridiana infantil e seu correspondente psíquico – as fantasias – que. A este ponto se oporão autores como Ernest Jones e Karen Horney por suporem um conhecimento precoce da vagina (no sentido de experiência psíquica) por parte das meninas.) (. exceto supondo existir algum fator concorrente que faça a menina voltar-se violentamente contra essa atividade prazerosa. esse é um ponto no qual ela não pode competir com os meninos e assim seria melhor para ela abandonar a idéia de fazê-lo. em princípio.... A maternidade é compreendida no espectro do desenvolvimento da sexualidade fálica. A menina transformou-se em uma pequena mulher. mas desde muito cedo. Um primeiro modo seria através do abandono de toda atividade sexual caso . Nesta vertente fálica.. com esse fim em vista toma o pai como objeto de amor. o lembrete de que afinal de contas . A ênfase da sexualidade genital infantil feminina é toda no clitóris em equiparação ao pênis. a libido da menina desliza para uma nova posição ao longo da linha – não há outra maneira de exprimi-lo – da equação ‘pênis-criança’. A mãe se torna o objeto de seu ciúme.) Agora. Não pode ser outra coisa senão seu sentimento narcísico de humilhação ligado à inveja do pênis. Quanto ao desejo de um filho pela mulher. mas pode vir a se tornar mulher. no universo fálico: Não posso explicar a oposição que por esse modo é levantada pelas meninas à masturbação fálica. ele é um desejo essencialmente fálico. O desejo de um filho entra no campo psíquico da menina como uma espécie de desejo de reparação desta humilhação ou inferioridade. Esse fator está bem à mão. As chances de um exercício erótico ativo ou masculino são então percebidas pelas meninas como menores em comparação com os meninos.48 melhor servir à reprodução ). se orientam para os pais. Considera que a interrupção desta atividade (a masturbação) e o recalcamento das representações a ela ligadas promovem o sentimento de humilhação da menina na comparação das possibilidades de atividade da vagina em relação ao pênis. (1976g: 317-318) No artigo de 1931 Sexualidade Feminina FREUD (1974f) teoriza três modos através dos quais as meninas lidariam com a constatação da diferença sexual. na perspectiva freudiana. o que sustenta a primazia fálica na organização psíquica da sexualidade. a menina não é. senão nos seus primordios. Ela abandona seu desejo de um pênis e coloca em seu lugar o desejo de um filho.

ou a vontade de recebê-lo ou de produzir um substituto dele. podendo levar a um vínculo objetal de caráter homossexual. ou ainda a vontade de arrancá-lo do outro. Esta retificação teórica. o que dá à mãe o papel de sedutora. sob a forma do filho. por mais de uma vez. para mulher. no caso. As transformações da imagem materna. A criança vive os cuidados maternos como estímulos sexuais. trata-se de uma mãe fálica (não castrada) cujo falo. é a própria menina. durante a organização de sua sexualidade infantil. 1974f: 264). multívoco (que deve ser conservado). por exemplo. e esta passa a ocupar o lugar de objeto das fantasias . enumera quando fala das soluções do complexo de castração feminino.49 o sentimento de inferioridade fálica fosse percebida como irreparável. daquelas soluções contraditórias que Freud. em função do papel que a imagem de mãe assume como elemento de identificação para menina. por exemplo. via através da qual atingiria “a atitude feminina normal final” (FREUD. no âmbito do complexo de Édipo (pênis-filho recebido do pai). Estes processos são de interesse para a presente pesquisa. em relação ao texto de 1925. Neste artigo o desejo de um filho aparece como efeito dos dois modos que não o do abandono da sexualidade: é um projeto de obtenção fálica (portanto. ou na expectativa de recebimento deste órgão. Esse equívoco do têrmo “inveja do pênis” significa justamente essa coexistência possível. poderiam ser sintetizadas da seguinte maneira: inicialmente a mãe é o objeto de todo investimento libidinal. na menina. parece indicar uma sorte de contradição: desejar um filho seria. Um segundo modo seria pela intensificação da masculinidade que poderia configurar-se duplamente: na manutenção da suposição de posse de um órgão fálico (por negação da castração). para as meninas. tem sido freqüentemente sublinhado: tanto é a inveja de ter um pênis no lugar pubiano quanto o desejo de receber um no coito. especialmente no que se refere às vicissitudes da imagem materna enquanto objeto de investimento libidinal. termo cujo caráter equívoco. masculino). (1988: 79) Ainda no artigo sobre Sexualidade Feminina Freud discute longamente as transformações profundas no caráter da vinculação da menina à mãe. um projeto masculino ou um projeto da feminilidade? Sob este aspecto afirma LAPLANCHE: São essas soluções contraditórias para responder à constatação de uma certa disparidade dos órgãos genitais que foram agrupadas sob o têrmo inveja do pênis. afinal. O terceiro modo de administração da castração pela menina se daria pelo ingresso no complexo de Édipo.

Já a menina não ingressará no percurso tortuoso da identificação à feminilidade caso não abandone a mãe como objeto. na mulher. cuja obtenção exige. Outra vertente importante na discussão acerca do feminino é a oposição atividade/passividade que surge já nos trabalhos iniciais de Freud sobre o desenvolvimento sexual fazendo série. desenvolver sua masculinidade nos parâmetros do complexo de Édipo.50 sexuais da filha. no entanto. A constatação da diferença sexual acrescenta uma outra característica negativa à representação da mãe para menina: teria sido ela . Freud enumera ainda os sentimentos de insuficiência do amor materno ligados a fantasias de ter sido pouco aleitada. mãe. Este é.. posteriormente. por vezes. muita atividade. porém. tanto por contingências biológicas (anatômicas) como sociais. ela (a mãe) acabará por assumir um valor contraditório: simultaneamente sedutora e proibidora.. Não é a passividade em si que caracteriza o feminino. segundo Freud. Essa oposição foi Introduzida por FREUD (1972a) no artigo Os Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade. especialmente. Enfatiza. é. A bissexualidade original se molda. no entanto. assim. O menino pode manter sua ligação afetuosa à mãe dedicando os sentimentos de rivalidade ao pai. 1976n) que se encontra a síntese de seus pontos de vista sobre esta questão. Observa-se na clínica psicanalítica um reavivamento deste conjunto fantasístico durante a gravidez . Freud atribui esta tendência feminina a uma extensão do modelo sexual à vida da mulher de modo geral. em relação à mãe. que o deslocamento objetal da mãe para o pai se deve.mãe a responsável pela ausência de seu pênis e. o caminho para que a menina possa se tornar mulher e. na conferência de 1933 – Feminilidade – (FREUD. ou de ter tido que se submeter à repartição do amor materno com outros além de si (irmãos em geral). a variabilidade individual do poder modelador da sexualidade. mas a busca de um fim passivo. para que cumpra então a anatomia seu destino. a vertente rivalitária de seu amor infantil. O fim . à natureza ambivalente das ligações libidinais. por sua inferioridade. Sendo em geral a própria mãe que limita a prática masturbatória da criança. e. portanto. com as oposições fálico / castrado e masculino / feminino. respectivamente. nem a influência do meio. possivelmente. ao predomínio da passividade. o que só se dará se prevalecer. sem desprezar. Freud estabelece uma seqüência lógica entre passividade –› ambivalência –› masoquismo.

ela se faz. Freud afirma. (.. de modo que. o que se faz às custas de suas tendências agressivas. também a vaidade física das mulheres. (FREUD. (.. como uma tardia compensação por sua inferioridade sexual original. O objeto de seu amor é aquele que puder amá-la com ou por sua falta. no caso específico da experiência edípica nas mulheres. Isto faz a mulher mais dependente do amor e dos dons do homem (pênis e filho. por exemplo). freqüentemente. Retomando o artigo de FREUD (1976n) de 1933.. Para atingi-lo. para ela. na busca de reparação narcísica. A inveja do pênis tem em parte. também para as meninas as fantasias primordiais de sedução são relacionadas à mãe e é também em relação a ela que se organiza inicialmente. ser amada é uma necessidade mais forte que amar. do modo mais evidente. Freud demonstra nesta conferência como a supressão da agressividade. . importando assim uma maior demanda narcísica. no entanto. Karen Horney e Melanie Klein.. já foi vivido inicialmente em relação a mãe. para que a passagem da menina fálica à mulher receptora do falo possa ocorrer.) Onde a escolha (objetal) pode mostrar-se livremente. Referindo-se à fase adulta da mulher. que a escolha objetal desta é marcada pela inveja do pênis. na Conferência em questão. como efeito. deverá abdicar (ou sublimar) o fim ativo de suas moções pulsionais. vê-se ressaltar com especial atenção o fato de que. Tais impulsos investem de um caráter erótico as tendências destrutivas voltadas contra o próprio eu da mulher. Sendo assim.)Assim. o que vem a favorecer “o desenvolvimento de poderosos impulsos masoquistas (. de modo que a sexualidade f minina assume um viés masoquista. de vez que elas não podem fugir à necessidade de valorizar seus encantos. 1976n:144). o desejo de um filho. em conformidade com o ideal narcisista do homem que a menina quisera tornar-se. 1976n: 162). é reforçada socialmente.)” (FREUD.. que se institui no desenvolvimento da organização libidinal feminina. em função de sua suposta inferioridade ou deficiência quanto ao falo. atribuimos à feminilidade maior quantidade de narcisísmo. que também afeta a escolha objetal da mulher.51 passivo é o alvo genital da sexualidade feminina. tudo que vem a se passar quanto ao investimento libidinal em relação ao pai.. e Nesta vertente se desenvolveram as pesquisas de psicanalistas de peso como Helene Deutsch.

o quanto a mítica edipiana . É importante. A idealização do masculino como objeto de identificação.. O peso da anatomia parece central na constituição da sexualidade em sua face simbólica. descritos por FREUD em 1914 (1974b). Outra dificuldade. mas a fonte de identificação (a mãe) é destituída de poder por sua posição de castrada quanto ao falo. no caso das meninas há também a interdição quanto ao objeto (o pai).)” e assim. ela mantém no campo psicanalítico uma exigência à constante redefinição do papel do corpo na subjetividade.52 Nestas duas citações vê-se Freud tratar o narcisismo feminino na perspectiva do complexo de Édipo. (FREUD. situando-se no plano do complexo de Édipo. esta é uma fonte de equívocos. que se ressalte o apontamento freudiano de que a anatomia esta . porém. uma escolha objetal que se mostra livremente também pode revelar-se em conformidade com o ideal narcisista do (a) filho (a) amado (a) que se foi. independente de se considerar ou não a pulsão como um conceito relativo a algo que participa do campo biológico. Esta afirmação parece revelar o caráter problemático de uma identificação à posição feminina final. escolhas de caráter pré-edípico. a possibilidade de. é que este processo de identificação da menina à mãe não se faz senão sobre um fundo de ressentimento de um amor primário fracassado. Estes são os modos narcísicos de escolha de objetos. Assim. portanto. parece. ainda.se apóia na anatomia. ou gostaria de ter sido um dia. 1976n: 163).vertente sob a qual Freud supõe o reconhecimento psíquico do sujeito quanto à diferença entre os sexos . a mulher reviver sua identificação à mãe “contra a qual ela vinha batalhando até a época do casamento (. Se no caso do menino a “normalidade” de sua identidade sexual está na identificação ao pai e ao abandono da mãe como objeto de desejo. Freud ressalta. Parece importante destacar. onde o marido ou companheiro é tomado num deslocamento da imagem da mãe. em favor de todas as outras mulheres. ainda. por um lado. É impossível que se despreze o lugar de operador que a imagem do corpo assume na organização da sexualidade psíquica. dever ser pensada como segunda em relação a um primeiro plano identificatório. nas mulheres. na conclusão deste capítulo. frente ao nascimento de um filho.. reproduzir o “casamento infeliz dos pais”. Se. por outro. No final desta conferência Freud discute alguns possíveis problemas na relação conjugal das mulheres e atribui-lhes como causa uma possível regressão libidinal a estágios pré-edípicos marcados pela ambivalência.

associada a uma perspectiva psicofisiológica de objeto da percepção. a satisfação. parece ser fonte de muitas divergências no campo psicanalítico. onde o objeto é visado numa pretensa meta de totalização do eu. É nesse sentido que se faz necessária a distinção entre mulher e feminino. no entanto. privilegiando os surgimentos daquela noção que sustentam a construção lacaniana de objeto a. numa perspectiva mais próxima à concepção filosófica de objeto do conhecimento. buscam demarcar fortemente a não pertença ao campo psicanalítico desta terceira vertente. o peso relativo da anatomia nos fundamentos da organização sexual psíquica. Ainda assim. porém. Um segundo surgimento do objeto se faz em torno da noção de pulsão: aqui o objeto é essencialmente parcial. explicitar as várias vertentes em que a noção de objeto comparece na teoria freudiana. todavia. o segundo relativo ao que se pode fantasiar ou simbolizar quanto aquilo que a anatomia oferece de possibilidades de gozo para uma mulher.53 implicada no destino da sexualidade psíquica. Autores vinculados às concepções lacanianas da psicanálise. e a terceira proveniente da intersecção entre os campos psicanalítico. também em três. É o objeto em jogo no processo primário. A . o objeto sendo fundamentalmente perdido e reconstruído alucinatóriamente como percepção interna. Apresenta como primeira teoria do objeto a da Interpretação dos Sonhos onde esta noção é vinculada à de desejo. instrumento do qual esta se utiliza para atingir sua finalidade. sendo duas delas próprias ao campo da psicanálise. as formas de comparecimento da noção de objeto na obra freudiana. restrita à anatomia. este mesmo o protótipo do objeto. a primeira. filosófico e biológico. Na primeira acepção o objeto é correlativo da pulsão. É preciso. Uma segunda postulação diz respeito ao amor. Nesta linha uma autora como RABINOVICH (1988) subdivide. LAPLANCHE & PONTALIS (1986) destacam três formas sob as quais a noção de objeto aparece na teoria freudiana. Segundo os autores a noção de objeto comparece ainda. O estatuto do objeto filho Para que se possa compreender as implicações do filho na subjetividade materna é necessário que se qualifique seu estatuto de objeto.

condição de produção do objeto pulsional na obra freudiana. A terceira dimensão do objeto é a do amor. então. Presume. (FREUD. Retomando a questão do estatuto do filho como objeto na obra de Freud. o filho pode ser tomado como mesmo e como outro pelo eu materno.. A obtenção da satisfação erótica se viabilizando através dos mesmos objetos que garantem a sobrevivência (a mãe ou seus substitutos). a noção do objeto falo. (.” (op. Sendo investido simultânemente pela libido narcísica e pela libido objetal. No texto Sobre o Narcisismo. tardia na obra freudiana. como redefinidor das outras séries do objeto. Uma Introdução FREUD (1974b) trata da relação entre a libido do eu e a libido objetal. Importante lembrar que Freud também tratou do filho como objeto na vertente narcísica. Nesta parte de seu artigo descreve o apoio das pulsões sexuais nas de autoconservação no início da vida erótica. em todos os seres humanos.). 6). e com Lacan ressalta uma possível excentricidade deste. . 1974b: 104-105). comparando-a com o fluxo entre vasos comunicantes. A autora sublinha porém. todo desenvolvimento teórico demonstrado no ítem anterior indica que ele é fálico..54 relação entre estas duas acepções de objeto pode ser resumida nas palavras da própria autora: “O objeto perdido do desejo é. O modelo do objeto é simultaneamente aquele que provê satisfação e o que é satisfeito. este último adquire traços que lhe são próprios e que são inseparáveis do autoerotismo e da inclusão do corpo. o que dá elementos para que se pense o duplo estatuto do objetofilho. Em seguida fala da descoberta clínica de sujeitos cuja escolha objetal tem como modelo o próprio eu. em alguns casos. pode manifestar-se de forma dominante em sua escolha objetal. o qual. Cabe que se tome aqui o texto de 1914 para se acompanhar o desenvolvimento que faz Freud quanto à vida erótica dos seres humanos como prova em favor da existência de um narcisismo primário. Sendo o objeto o elemento em torno do qual se orienta a pulsão. Poder-se-ia argumentar que tal viés se deve ao fato das maiores referências à maternidade terem sido feitas no contexto do complexo de Édipo e à lógica fálica. uma dupla condição do objeto em sua origem: Dizemos que um ser humano tem originalmente dois objetos sexuais – ele próprio e a mulher que cuida dele – e ao fazê-lo estamos postulando a existência de um narcisismo primário em todos. cit p.

Distingue o tipo de escolha feminino pela transferência sempre parcial da libido aos objetos em função da manutenção de um certo grau de narcisismo.55 esta é outra forma de abordar-se a reversibilidade pulsional.. Compara o fascínio exercido pelas mulheres (especialmente as mais belas). mas também o conteúdo pulsional. FREUD (1974c) em seu artigo metapsicológico sobre as Pulsões descreve como única forma de reversão do conteúdo pulsional a reversão do amor em ódio. dos grandes criminosos e dos humoristas.)” (FREUD. da doença orgânica. se utiliza do desenvolvimento da sexualidade nas mulheres. desfavorável a uma escolha objetal completa. o surgimento de afetos derivados do ódio no seio de relações narcísicas conforme demonstrou LACAN em seus artigos O Estádio do Espelho. dos grandes animais carnívoros. Atribui a estas uma intensificação do narcisismo na adolescência graças ao amadurecimento dos órgãos sexuais. No trabalho sobre o narcisismo.(1995c) e A Agressividade em Psicanálise (1995d). Faz uma diferenciação entre os modos de escolha de objeto típicos da masculinidade e da feminilidade.. Tal possibilidade explicaria. 1974b: 105).. Nesta via o feminino lhe serve de sustentação. . atribui ao masculino o amor objetal completo. o qual lhes propicia um certo “autocontentamento”. com seu traço de supervalorização sexual. “Sua necessidade não se acha na direção de amar mas de serem amadas(. Ao tratar do tipo feminino o texto se complexifica pois o autor trabalha em dois níveis: no âmbito estritamente psíquico (o feminino em oposição ao masculino). ao das crianças. Reversão que implica não só os dois polos sujeito e objeto.. e no plano biológico (mulheres em oposição aos homens). em suas aparências de autosuficiência e/ou independência em relação aos objetos. Afirma que este tipo é o mais frequente e o mais verdadeiro. Freud constrói os argumentos para postulação de um narcisismo primário como modo de organização libidinal prévio aos investimentos objetais. os quais serão abordados em capítulo subsequente. originado da total transferência do amor de si (narcisismo) em favor do amor do objeto. Para explicá-lo. Embora reconheça não poder universalizá-los. da esquizofrenia e outras. Atribui o poder de encantamento destes objetos à sua capacidade de afastar qualquer coisa que possa interferir em sua integridade narcísica. a fim de justificar as observações clínicas que indicam o retorno da libido para o eu em circunstâncias como as do sono. então.

Esta última formulação coincide. transformado a partir do amor narcísico dos pais. O amor ao objeto filho sendo sempre uma expansão do amor dos pais a si mesmos. Freud atribui um valor genético. deveria representar um incremento do amor próprio daqueles.56 Freud conclui apresentando duas situações onde as mulheres amam de modo objetal completo: “na criança que geram em seu próprio corpo” ou na manutenção do “anseio por um ideal masculino” (FREUD. Se o filho desejado é sempre investido pela libido narcísica dos pais. o desânimo. 1974b:106). no entanto. O amar narcísico pode ser entendido como amar a si mesmo através do objeto mas.através de si mesmo enquanto objeto amado e amável. mantendo-se sob recalcamento um dos polos. mas ao modo neurótico ou não de fazê-lo. Parece possível que se conclua que Freud considera masculino o amar extensivo (anaclítico) que se dirige para alteridade. que isto nem sempre ocorre. com a do amor objetal. A tristeza. na perspectiva narcísica. também. durante a gestação normal. não diz respeito à distinção entre os modos masculino e feminino de amar. e feminino o amar intensivo (narcísico) dirigido à ampliação do próprio eu. tais afirmações se prestam a equívocos. amar o objeto como ao próprio eu. Assim a distinção entre o amar a si através dos objetos e o amar aos objetos através de si. de fundamento. ou através do outro enquanto objeto amador -. Na terceira sessão do artigo Freud descreve a formação do ideal do eu como derivada do narcisismo prímario. Ainda assim. em tese sua presença. no entanto. A observação clínica demonstra. ao amor de si em relação ao amar os objetos. enquanto a neurose implica na fixidez da reversibilidade. Freud finaliza a segunda sessão de seu artigo dedicando-se a explicar o amor dos pais aos filhos. afetos próximos aos da melancolia ocorrem . e os modos pelos quais se pode amá-lo – como amor de si (narcísico) ou como amor para outro (anaclítico). Afirma tratar-se de um amor objetal completo. A experiência pulsional completa envolve os dois polos de satisfação. Construção que se dá pelas atribuições que o amor do objeto faz sobre o eu infantil e que são por ele percebidas enquanto atribuições de valor. compondo-se dos traços de si enquanto objeto amado. Tais afirmações parecem se esclarecer na seqüência do artigo quando Freud descreve os caminhos pelos quais se escolhe um objeto . Ao considerar o narcisismo como modo de organização libidinal. Supõe que o fundamento da supervalorização afetiva freqüentemente envolvida neste tipo de relação se deve à revivescência do narcisismo dos pais.

Como explicar. na perspectiva narcísica. a ocorrência desses estados afetivos? É o que se pretende desenvolver a seguir. .57 com certa freqüência em periodos iniciais da gravidez.

PAGLIA (1992) “Sexo e Violência ou Natureza e Arte”.58 À procura da especificidade feminina “(. Quanto mais a mulher corre em busca de identidade e autonomia pessoais. Arte e Decadência de Nefertite a Emily Dickinson. e que erige o individualismo e a realização pessoal como modelos.) É precisamente na avançada sociedade ocidental. que a crua realidade da condição feminina emerge com dolorosa clareza.” Camille Paglia.. que tenta melhorar ou ultrapassar a natureza. quanto mais desenvolve sua imaginação mais feroz será a luta com a natureza – quer dizer. com as obstinadas leis físicas de seu próprio corpo. ..1 1 C. In: Personas Sexuais.

na constituição da sexualidade psíquica. em Amsterdam.. No caso do tema abordado por este livro .) ao corpo das mulheres. Discussões sobre o papel da vagina.59 O debate de 1920 e a produção de Helene Deutsch Nas décadas de 20 e 30 travaram-se intensos debates no campo psicanalítico referentes à teoria do estabelecimento das vias de construção da sexualidade nas mulheres. dentre outros.o peso do cenário biológico é bastante relevante. Os debates se faziam não só quanto ao papel da anatomia. Sem dúvida. mas quanto ao que seria a particularidade.os afetos deprimidos na gravidez . fazendo diferir a sexualidade feminina da masculina. Ainda em 1960. tanto do percurso. Autores como Karen Horney. Isto demonstra que os problemas relativos ao papel da anatomia na subjetividade ainda eram bastante candentes naquele momento da produção psicanalítica. Ernest Jones e Helene Deutsch.. Destes destacou-se o trabalho de Helene Deutsch uma vez que esta autora revela uma preocupação em teorizar as relações entre a função reprodutiva na mulher e a feminilidade. do complexo de castração e do masoquismo. construída em tôrno da genital. formavam o núcleo de tais debates. A teoria psicanalítica da organização da sexualidade psíquica infantil. quanto do resultado final. no qual LACAN apresenta uma compilação dos problemas teóricos relativos ao feminino organizados em tôrno da seguinte questão: “quais são as vias da libido outorgadas à mulher pelos faneros anatômicos de diferenciação sexual dos organismos superiores?” 2 ( 1993b: 704). Tomou-se como ponto de partida os autores que debateram diretamente com Freud a questão do feminino. pareciam supor a necessidade de se produzir uma conceitualização da sexualidade psíquica das mulheres centralizada em sua especificidade anatômica. realizou-se um colóquio internacional de Psicanálise sobre o tema da Sexualidade Feminina. outros autores que trabalharam o feminino abordaram . parecia dar o lugar de modelo à sexualidade masculina. Cabe ressaltar que estes debates se estenderam no campo desde então. A gravidez é um processo biológico restrito (ao menos por enquanto. Este tipo de ocorrência ou mesmo de possibilidade responde por especificidades da organização libidinal nas mulheres? De que modo? Foi com este tipo de questão que se abordou a literatura psicanalítica pesquisada.

A posição adotada neste livro é a de que talvez não se trate exatamente de disparidades. Uma delas é AMARAL (1996) que em sua tese de mestrado descreve e analisa algumas produções desse período. a “subjetivação do corpo” e a “corporificação da subjetividade” (PRADO Jr. La Psicologia de la Mujer. Em relação a Helene Deutsch. apresenta uma análise aguda e extremamente pertinente sobre seu trabalho.. além do livro da própria Helene DEUTSCH (1952). Olga SALAS (1990) e Nympha AMARAL (1996). salientando a correção da constatação daquela autora quanto ao campo onde poder-se-ia buscar uma especificidade do feminino . se deve. porém. foi na teorização de Deutsch que encontrou-se a primeira referência à depressão na gravidez interpretada psicanaliticamente. Ressalva. Atualmente. Os artigos de Deutsch aqui trabalhados são aqueles coletados por MarieChristine HAMON (1994) e publicados num conjunto de textos psicanalíticos acerca do feminino denominado Féminité Mascarade. têm retomado. bem como nas produções de alguns comentadores dos trabalhos desta autora: Paul ROAZEN (1978). buscando simetrizar a sexualidade entre homens e mulheres e critica a postulação de uma finalidade ou sentido (a reprodução) no desenvolvimento da organização sexual psíquica.60 direta ou indiretamente a reprodução e a maternidade. especificamente. onde se operam. as produções e os debates do início desta polêmica em tôrno do feminino. suas relações não sendo necessariamente de causalidade. Amaral pretende demonstrar a disparidade da teorização de Deutsch em relação a de Freud. ou seja. Este último é tomado na concepção que propõe LACAN.o do gozo. isto é os artigos das décadas de 20/30. mas submetidas a ordens complexas de interações recursivas. 1998). que a teorização de Deutsch se faz numa direção essencialista. O recurso a esta autora. . como modo particular de experiência do limite da subjetividade na linguagem. limite do saber (1992). mas de conseqüências lógicas de um tipo de leitura da obra freudiana onde o apoio do psíquico no biológico não é apenas metafórico mas real. os psicanalistas interessados nas experiências da maternidade e seus correlatos. Além disso. ao especial destaque que ela dá ao narcisismo na organização psíquica da mulher. 2 Tradução da autora. simultaneamente. com freqüência.

inclusive. Apesar de algumas contestações de Freud quanto às posições desta autora. especialmente. faz um paralelismo entre masoquismo nas mulheres e agressividade nos homens. O trabalho de H. Deutsch estabelece uma analogia entre esta atividade dirigida para dentro nas mulheres e a atividade voltada para fora nos homens. ou seja. no campo da psicologia feminina. Deutsch questiona. seu caminho de acesso à posição feminina. abrindo mão da hipótese da simetria entre o desenvolvimento libidinal masculino e feminino. este se defende e fortifica sua segurança interna intensificando seu amor a si mesmo. não julgamos que seja completa nem que constitua o fator essencial que se deva levar em conta. A autora 3 Tradução da autora. que se manifesta. Tais inibições são defesas do ego frente aos conflitos entre as tendências sexuais e as de autoconservação. 1978). alteração que aparece em seu artigo Algumas Conseqüências Psíquicas da Diferença Anatômica entre os Sexos ( FREUD. Sua contribuição se deu. Deutsch... ( DEUTSCH. seria o da passividade e do masoquismo. Brunswick a descoberta da fase préedípica de ligação da menina à mãe (ROAZEN. Através de um aumento do investimento narcísico o eu feminino se defende do m asoquismo característico de suas tendências sexuais. 1952: 177). . a tese freudiana de que o narcisismo da mulher seja mais forte do que o do homem como produto da inveja do pênis : Ainda que esta explicação contribua num certo grau para nossa compreensão do narcisismo feminino.) Como as tendências sexuais da mulher se dirigem a objetivos perigosos para seu ego. como ‘narcisismo’. 1976i). então.3 O resultado desta inibição constitucional é um aumento da “atividade voltada para dentro” expressão que a autora prefere para descrever a passividade feminina. leva Freud a reorganizar sua teoria edípica. também. constitucional. Para Deutsch a peculiaridade do desenvolvimento libidinal das mulheres. entre outros. Segundo esta autora a vida sexual das mulheres se caracteriza por sofrer inibições não só de caráter social (estas inibições seriam secundárias) mas.(. ele respeitava sua produção a ponto de atribuir a ela e a R.61 Helene Deutsch tem um importante papel na elaboração teórica da psicanálise por ter participado do grupo que partilhou com Freud essa construção.

. a autora define três tipos femininos eróticos. portanto. Quanto aos três tipos femininos eróticos poder-se-ia sintetizá-los através das nuances no equilíbrio entre as tendências narcísicas e masoquistas. ou seja suas escolhas eróticas se fazem com vistas à atualização de suas tendências à maternidade. O terceiro tipo difere dos dois primeiros pela presença de um forte masoquismo moral. sofrimento e dor. Tais 4 “Para tranquilizar o leitor anteciparemos nossa exposição do masoquismo feminino assinalando que carece da crueldade. esta interfere na eleição dos objetos de amor por parte das mulheres. comparando-as com a humana. Quanto à disponibilidade para maternidade. estabelendo-se este modo de aproximação sexual como modelo humano. Essa tipologia se estabelece apoiada ainda num terceiro elemento – os precussores emocionais das funções reprodutivas da mulher ou seja. Há uma clara preocupação em desvincular o masoquismo feminino da perversão4. a autora se utiliza de estudos na área da fisiologia sexual animal. Deutsch supõe. segundo a autora. Masoquismo parece ser utilizado no sentido de predominantemente receptivo em oposição à masculinidade cuja característica seria a tendência intrusiva. Deutsch atribui esta diferença à passagem ao bipedalismo do homo erectus que permitiu ao homem. Mostra que entre algumas espécies animais a fêmea só está submetida ou receptiva no ato do coito e na fecundação. dadas as diferenças de compleição física. Para auxiliar na sustentação de suas hipóteses. com que se manifesta o masoquismo nas perverssões” (DEUTSCH. podendo aquele submeter por sua força a esta última. Este tipo de movimento libidinal explica. Tradução da autora. sua disponibilidade psíquica para maternidade. No caso dos humanos. o qual se reatualiza nas fantasias de estupro femininas. uma maior tendência à sublimação do erotismo. dominar a mulher para o sexo. Partindo do jogo entre as tendências masoquistas e narcísicas. No primeiro haveria um leve aumento nos traços de satisfação masoquista. enquanto no segundo a inclinação seria para o incremento do narcisismo. nas mulheres. impulsos destrutivos. Importante ressaltar que esta tipologia não propõe designações nosográficas mas refere-se a “tipos normais”. 1952: 180). há uma total independência entre a sexualidade do homem e a da mulher. todo o ciclo reprodutivo nestas espécies se deslanchando a partir da fêmea.62 não se utiliza do termo sadismo no equivalente masculino. um papel central à maternidade (realizada ou fantasiada) na organização psíquica do feminino.

(. A vagina – órgão funcionalmente passivo – leva muito tempo para ser percebida pela menina. a insuficiência do órgão pode ser considerada como uma causa biológica e fisiológica das diferenças sexuais psíquicas. Vemo-nos obrigados a supor que esta verdadeira incapacidade do órgão para satisfazer as moções pulsionais. estabelecendo então uma equipotência fálica entre ambos. parece se deslocar na teoria de Deutsch para uma distinção no tempo e nos meios pelos quais se obtem a integração e conseqüente satisfação da pulsão sexual. não se constitui como característica central ou o móvel da organização sexual feminina. para satisfação de impulsos ativos/agressivos. (. deve ter conseqüências importantes.. É quanto a este caráter funcional que as meninas sofreriam o trauma genital. durante o qual a menina pequena não tem este órgão a sua disposição. Para Deutsch a inveja do pênis. a vagina.63 fantasias associam a violência e a força masculina com o cuidado e a proteção que a mulher deseja. o mais importante parece ser o papel equivalente que Deutsch atribui à vagina em relação ao pênis na organização da sexualidade... Em primeiro lugar – em oposição à conduta do menino – essas pulsões que necessitam um órgão ativo ficam suspensas.. e o mais notável é que entre esse giro em direção à passividade e a completa eficácia do órgão corresponde um grande espaço de tempo. ativas e agressivas. O clitóris. para sua percepção. é o estabelecimento de um caráter funcional aos órgãos sexuais que fornece à criança os indícios da diferença sexual. Portanto. Este processo se produzirá mais tarde. As divergências com relação a Freud No que tange aos pontos de divergência teórica em relação a Freud. um pênis em menor dimensão. é insuficiente para penetração. que em Freud se estrutura em tôrno da diferença anatômica.) Estes dois . A percepção da diferença anatômica não tem valor de fundação da diferença no campo psíquico.) O lugar do órgão ativo é ocupado por outro passivo-receptivo. A questão da diferença psíquica entre os sexos. Para esta autora. no coito. Este se refere à dupla carência funcional – ativa e passiva – quanto aos órgãos sexuais. uma vez que depende do pênis.

Para H. Além disso. 1952: 216). (DEUTSCH. Deutsch se distingue de outras autoras contemporâneas suas.64 5 acontecimentos associados produzem o trauma genital (DEUTSCH. através do mamilo. em seu 5 Tradução da autora. no coito. como Karen Horney e Josine Mueller. Supõe que estas não se passam de modo linear mas cumulativo. A autora supõe uma equivalência na economia libidinal entre boca e vagina. também. regressivamente. e a ausência de atividade vaginal espontânea constitui a base fisiológica da passividade feminina. 1994) a autora busca explicar como a procriação está relacionada a processos de reavaliação funcional e revaloração que a mulher tem que operar em relação a seus órgãos genitais. que supunham a percepção precoce da vagina com representações psíquicas a ela correspondentes. Deutsch esta percepção é tardia: O despertar da vagina para um funcionamento sexual completo depende totalmente da atividade do homem. por exemplo. . amalgamando elementos de etapas anteriores. assim como entre mamilo e pênis.6 O apoio da função reprodutiva para organização da sexualidade feminina. posteriormente. Deutsch parte das concepções de FREUD (1972a) e ABRAHAM (1970) quanto às fases ou modos de organização da libido. e que este processo se faz orientado pelo desenvolvimento da organização libidinal. presume uma organização que se dá não só de modo progressivo mas. 1952: 212-213) . A boca se erogeneiza inicialmente de modo passivo–receptivo. Este artigo se desenvolve no sentido de demonstrar que a vagina assume progressivamente sua função de recepção do pênis. Um ponto fundamental de sua construção teórica é a concepção de que a sexualidade feminina se dirige. o pênis erogeinizará a vagina. em equivalência regressiva. Em seu artigo La psychologie de la femme en rapport avec ses fonctions de reproduction (DEUTSCH. assim como. Os destinos dados a estas percepções respondendo pelo poder do complexo masculino na menina.

como isto responde por uma melhor adaptação do organismo ao meio. Em ambos os casos é através do contato com o pênis que estes investimentos se deslocam para a vagina. especialmente no que se refere ao papel teleológico do coito na organização psíquica. a libido que investe a vagina advém de duas fontes: do corpo em geral com suas zonas erógenas e do clitóris. 1994: 78). nas condições de sobrevivência deste organismo. também. ‘um duplo do eu’ (DEUTSCH. reproduzindo o processo inteiro em cada etapa de sua organização. para procriação. nas fases iniciais do desenvolvimento libidinal o “inconsciente estabelece uma equivalência entre o pênis paterno como órgão de sucção. e entre o ego e a secreção genital. Isto exige um investimento narcísico da vagina. 1994: 79). Já a libido proveniente do clitóris é responsável pelo caráter masculino também atribuível à vagina. O alvo final da 6 7 Tradução da autora. a tarefa última não é a satisfação do desejo infantil do pênis no ato sexual. uma vez que a prevalência de um erotismo disperso por todo o corpo interferiria na funcionalidade dos órgãos e. O coito representa o ponto terminal de uma organização sexual que se dá de modo pangenético. Para quem alcançou a posição feminina. Este órgão novamente descoberto deverá se tornar para mulher – como o pênis para o homem. Tradução da autora.65 desenvolvimento. segundo Ferenczi. Importante salientar que a teorização de Helene Deutsch se ancora.7 Para a autora. mas uma verdadeira descoberta da vagina como órgão de prazer – por uma troca do pênis diante da posse real e equivalente da vagina. e o seio materno. para que esta tome sua função tanto no processo reprodutivo como na economia do prazer. . portanto. Segundo a autora. O autor supõe um tríplice processo de identificação: entre o organismo total (que se representa no ego) e o órgão genital. Para esse autor não só a sexualidade se desenvolve no sentido da genitalidade. A libido proveniente do corpo como um todo responde pelo papel passivo da vagina na medida em que herda o caráter receptivo da boca em seu modo de relação primária com o mamilo.” (DEUTSCH. A atividade orgástica é suposta equivalente à uma ejaculação masculina “atenuada”. entre o ego e o parceiro sexual. ‘uma miniatura do eu inteiro’. nas teorias de FERENCZI (1990).

Esta reconsideração do papel da anatomia não a afasta. O desejo edipiano é a expressão psíquica de uma tendência biológica muito mais geral que impele os seres vivos ao retorno ao estado de repouso de que desfrutavam antes do nascimento. por que o desejo edipiano. 1990: 24). 1994: 95).66 evolução da sexualidade sendo um “regressar ao corpo materno” situação primária de bem estar. embora num claro hibridismo entre . porém. A autora relativiza. é reencontrado com essa regularidade quase enfadonha por sua monotonia como tendência nuclear na análise dos homens neuróticos. no entanto. o que a faz tratar fatores constitucionais e anatômicos como empecilhos a um pleno acesso à feminilidade. mas ser determinada pela organização genital. (FERENCZI. no próprio excesso de ênfase na anatomia. esbarra às vezes. o desejo de coito com a mãe. 1990: 24-25). desvinculando-a de uma posição de sombra da sexualidade do homem e. Abraham e Deutsch. onde ainda não teria havido a ruptura dolorosa entre o ego e o meio ambiente. Afirmações como estas demonstram o grande esforço da autora em buscar a especificidade da sexualidade feminina. Se considerarmos o processo genital sob esse ângulo que eu qualificaria de ‘bioanalítico’. a organização sexual psíquica parece não só se apoiar. no entanto. Nas concepções de autores como Ferenczi. a autora faz equivaler a vagina ao pênis. neste processo. restando a bissexualidade e o clitóris como obstáculos à plena feminilidade: Se não houvesse para mulher esta funesta disposição à bissexualidade e o clitóris com suas tendências masculinas. de uma concepção da primazia fálica na organização da subjetividade. considerando a anatomia e a fisiologia feminina como centro e alvo da organização sexual psíquica da mulher. sem. Nesse sentido. como seria simples e evidente para ela a via em direção a uma mestria harmoniosa de sua existência! 8 (DEUTSCH. abrir mão de uma via de sexualização específica da mulher. o papel fálico do pênis. enfim. a obra teórica de Deutsch busca a especificidade da sexualidade da mulher. Por outro lado. (FERENCZI. Por preservar a exclusividade da lógica fálica como o modo de funcionamento da sexualidade no campo psíquico. estaremos em condições de compreender.

a vagina passa de continente do pênis a continente do filho. A gestação parece repetir a organização do eu. Prosseguindo na análise do artigo de 1924. a qual se desenvolve rumo a genitalidade. . tanto biológica quanto psíquica. (DEUTSCH. sofreria um desdobramento: a primeira fase. a gravidez e o parto. visa sempre o retorno a este estado original (FREUD. fora da ambivalência. que se inicia no coito. Ambos constituem-se como prolongamentos do ato sexual. O parto seria a conclusão de uma experiência. 8 Tradução da autora. a equivalência entre o mamar e o coito-parto. 1994:85) Ao centrar na incorporação. um “missed labour”. O orgasmo para mulher já encerraria. A culminância desse processo no parto corresponde a um retorno a uma situação sem ambivalência. onde as fronteiras entre sujeito e objeto se apagam. A gravidez e o parto se inscrevem no conjunto da organização libidinal. a uma primeira organização erógena do eu que se pré-figura na fase oral primitiva da organização libidinal. bem como uma abordagem do problema da depressão na gravidez. em si. condições que se apoiam sem serem idênticas. elementos da satisfação completa só obtenível no parto. mais especificamente do coito. Esta proposição parece se articular à tese freudiana de que todo desenvolvimento do ego. o qual representa o restabelecimento de uma forma primária de relação aos objetos: a incorporação oral. 1974b: 117). A autora fala do orgasmo feminino como um parto não ocorrido. a descrição de uma psicologia da mulher. Deutsch parece estar fazendo equivaler o filho (sua representação) enquanto resultado do coito. o orgasmo. A função reprodutiva que no caso do homem é alcançada diretamente no ato sexual com a ejaculação e a satisfação orgástica.67 o estabelecimento de uma lógica de regência inconsciente própria ao feminino e. para além do narcisismo. Na perspectiva do coito como um processo de incorporação. a segunda. encontra-se um relevo quanto ao papel da gravidez no processo de organização da sexualidade psíquica da mulher. na mulher.

que se manifesta no trato com o objeto pênis-criança. são expressões destes modos respectivos de trato com o objeto. ainda. a autora a explica partindo da proposição freudiana acerca da pulsão de morte. de que a pulsão de morte se manifesta quando as pulsões sexuais estão satisfeitas. A depressão na gravidez seria. a regressão libidinal a estágios precoces de organização tais como a fase oral tardia e a fase anal sádica. como objeto derivado das series identificatórias. responderiam pela duplicidade de afetos com os quais as representações do bebê são investidas quando de sua incorporação e introjeção simultaneamente como objeto interno e externo ao eu. a hiperemese. Deutsch aborda. investindo o bebê enquanto parte do corpo próprio da mãe. identificando esta última com a destrutividade. A autora afirma que em ambos os casos é de uma libido narcísica que se trata. Para Deutsch. assim. por representarem o cume da satisfação erótica para mulher. Segundo esta autora. assim como as contrações uterinas durante a gravidez. As relações entre o eu e este objeto (pênis-bebê) se passam em dois níveis: de um lado o objeto é tomado como parte integrante do próprio eu. Seguindo a proposição de FREUD. A manutenção do feto na gestação. como outro em relação ao eu materno. passando a ser parte constitutiva do eu. em O Ego e o Id (1976e). a economia dos afetos na gravidez referindo-se à ambivalência amor-ódio. e a abertura. um efeito das moções pulsionais destrutivas. as quais serão descritas no contexto da gravidez. para a manifestação da pulsão de morte. portanto. Dada a analogia entre a organização fálica da sexualidade na mulher e no homem. Aqui. então. Tal afirmação parece se esclarecer na análise teórica que a autora faz das relações entre o eu materno e o objeto libidinal bebê. bem . Deutsch afirma que a gravidez e o parto poderiam despertar os temores da manifestação destas pulsões destrutivas. portanto. marcados pela ambivalência. de outro.68 O afeto deprimido na gravidez Quanto à depressão na gravidez. Este processo se apoia na equivalência simbólica entre fezes-bebê. numa relação narcísica. A autora descreve uma complexa economia libidinal entre o coito e o parto. para ambos a descarga da tensão genital significa o ápice da satisfação sexual. porém parte a ser dela destacada. o qual é incorporado no ato do coito sendo também introjetado psiquicamente.

podendo se tornar fonte de conflito com o eu. é de ordem metapsicológica. A autora define dois tipos de mulheres conforme suas reações à gravidez: umas que adoecem. para vertente superegóica. correspondente à identificação paterna. o bebê ocupa para a mãe o lugar de Ideal do Eu. ao enfoque dado por Freud à questão da melancolia em Luto e Melancolia ( 1974d) Deutsch termina este artigo ampliando a demonstração da analogia entre o fim sexual masculino (a descarga sexual).. se deprimem e se enfeiam à medida que o bebê se desenvolve.o conflito entre instâncias psíquicas – além de um econômico. então. tal identificação desliza.69 como a separação do bebê em relação ao corpo real e simbólico da mãe. atraiu para si uma tal quantidade de libido que o eu se tornou empobrecido. enquanto objeto de amor. reatualiza um investimento desta mesma ordem. A ênfase no caráter opressivo do Ideal do Eu corresponde. uma identificação ao papel fálico masculino. outras que parecem estar no apogeu de suas capacidades físicas e psíquicas durante a gestação. ela se configura numa clara indicação de que. Ainda ancorada na analogia fantasmática entre a atividade do pênis e do seio. Envolve um aspecto dinâmico e topográfico . referente ao deslocamento da libido entre o eu e o objeto. Por outro lado. o narcisismo da mulher sofreu em benefício da criança. especialmente. De um lado o superego se apropriou do eu. conseqüentemente à melancolia na gravidez. afirma: No primeiro caso. para esta autora. No texto. e. se apoiam sobre esta equivalência. atraída pela introjeção do objeto bebê. ainda. Helene Deutsch esclarece que a libido que aflui ao eu. na lactação o mamilo se faz pênis erotizando a boca do bebê.Se não se toma exclusivamente os aspectos anatômicos desta descrição.9 (DEUTSCH. por vezes. erotizando a vagina. 1994: 91) Vê-se. No coito o pênis assumiu o papel do mamilo. o desenvolvimento da sexualidade psíquica feminina tem como fim não só a transmissão genética mas. Neste sentido. a autora propõe que na lactação se realiza para mulher. pela segunda vez. em cujo grupo supõe poder encontrar experiências de melancolia na gravidez. a 9 Tradução da autora . que o tratamento dado pela autora a esta tipologia. tornando-se assim o eixo de seus processos sublimatórios. Em relação às primeiras. de outro lado a criança. e o feminino (o parto)..

70 transmissão da potência erógena. A autora faz uma crítica à afirmação freudiana de que uma mulher feminina não ama mas se deixa amar.” (DEUTSCH. uma vez que tal disposição é de caráter estruturante. 1952:180) Como compreender esta disponibilidade à que a autora se refere? Não parece tratar-se de uma mera descrição fenomenológica relativa à psicologia da mulher. uma vez que os objetivos sexuais femininos tenderiam a pôr o eu em perigo. Um narcisismo feminino Buscou-se mostrar. e por sua capacidade psicológica para a maternidade. especialmente as desenvolvidas no artigo de 1914 (1974b). Afirma que o amor feminino é naturalmente passivo-narcisista. pode comparar-se a um fogo que irradia calor. “Se este amor não é patologicamente deformado. de certo modo. Em seu artigo Erotismo: A Mulher Feminina (DEUTSCH. O vínculo com o objeto de amor se faz numa dupla determinação: em relação a um modelo paterno e . mas da vida desejante.” (DEUTSCH. Dito de outro modo: o objetivo da sexualidade feminina é não só a transmissão da vida. Considera o aumento do narcisismo como efeito da luta das pulsões de autoconservação em relação às sexuais. Um terceiro elemento que define a estrutura feminina é a disponibilidade para maternidade. Deutsch relaciona esta disponibilidade para a maternidade aos laços amorosos femininos. determinada por seus laços emotivos passados. Atribui ao narcisismo um central na organização da sexualidade psíquica feminina: seu papel seria o de fiel da balança entre a feminilidade normal e a neurótica e sua função seria exercer uma certa regulação em relação às moções pulsionais passivo-masoquistas que predominariam nas mulheres. “A eleição pela mulher dos objetos amados está. papel desenvolvendo-as de modo bastante particular. Cabe ressaltar o modo específico com que a autora trata esta organização libidinal nas mulheres. como Helene Deutsch privilegia o narcisismo no delineamento da sexualidade feminina. Como já foi dito acima. 1952) parte das concepções freudianas. até o momento. 1952: 179). a autora compreende a estutura psíquica feminina como se organizando em torno da tensão entre a sexualidade passivo-masoquista e o narcisismo erótico mas também autoconservador.

Pode-se supor uma referência ao que vem a desenvolver a seguir: o supereu. como da identificação ao objeto que já foi investido anteriormente pela libido. O elemento comum é o vínculo através da identificação. Importante lembrar que FREUD (1976d) em seu artigo de 1921 Psicologia de Grupo e Análise do Ego trata a identificação como a expressão do modo mais primitivo de laço emocional. Naturalmente. é muito freqüente.” (DEUTSCH. que existem diversos graus de capacidade de resistência. Um aspecto da teoria do feminino de Deutsch que parece importante salientar é o que ela considera um traço comum às mulheres: sua facilidade para identificar-se a seus objetos de amor.) De qualquer maneira. o processo [de identificação pós abandono do objeto] especialmente nas fases primitivas de desenvolvimento. neste caso. desde o início. e torna possível supor que o caráter do ego é um precipitado de catexias objetais abandonadas e que ele contém a história dessas escolhas de objeto. Freud não especifíca neste trecho a natureza dessa capacidade de resistência a qual parece responder por uma maior ou menor fixidez do eu.. deve-se admitir. Em O Ego e o Id de 1923. Chama atenção porém. no capítulo dedicado a formação de superego e suas relações com o ego (eu) Freud trata tanto das identificações primárias. (FREUD. seja a uma forma realizada (paterna) ou por realizar-se (filial). Traço indicativo de riqueza interna. mas referirse ao estatuto inicial . não parece haver dificuldade em encontrar vestígios de suas catexias de objeto nos traços de seu caráter.. não parece ter um caráter valorativo. básico. a introdução do exemplo das mulheres e suas relações amorosas . ora na série do filho promissor “que necessita que a mulher a ele se identifique para aumentar sua confiança em si mesmo.71 a um um modelo filial – o objeto é recolhido ora na serie do pai idealizado e hiperestimado. Ainda buscando especificar as relações entre investimento objetal e identificação Freud afirma: (. Em mulheres que tiveram muitas experiências amorosas. os quais decidem até que ponto. 1976e: 43-44). da identificação como modo de relação do eu ao objeto. anteriores a qualquer relação objetal. Primitivo. Descreve este último movimento como o principal processo na formação do ego (eu). o caráter de uma pessoa [seu ego] desvia ou aceita as influências da história de suas escolhas objetais eróticas. 1952: 187).

em relação à economia libidinal. modalizada em masculino e feminino. em oposição à passividade [ou a maior fixidez] das organizações psíquicas estabelecidas em conformidade com identificações impostas. O fato de a autora em questão referir-se a este investimento como libidinal parece definir seu caráter sexual. como propunha Freud. A concepção de Helene Deutsch parece apontar no sentido de uma corrente única sexual. que dificultariam o empreendimento das ações específicas. Seguindo imediatamente o trecho descrito acima.72 num contexto onde descrevia a formação do aparelho psíquico. A ênfase dada a corrente afetiva de ligação das mulheres a seus objetos. Cabe lembrar que Freud sempre considerou lábil o superego feminino em função da particular relação das mulheres com o complexo de castração. Em se considerando que num texto de Freud. com sua teorização do amor primário. tal como apresentadas nos textos freudianos. Freud se refere à possibilidade de vigor simultâneo tanto da identificação quanto do investimento objetal em relação a um mesmo objeto. e BOWLBY (1990). buscando uma correlação entre o conceito de desmetido de Ferenczi e o conceito de hemorragia psíquica de Freud. ou escassas. Estes parecem ser os pontos de sustentação para concepção de Deutsch quanto ao predominio das identificações amorosas nas mulheres e seu papel “enriquecedor” da subjetividade. ou se existiria uma corrente terna. estágios pré-ambivalentes. permite que se levante a questão de se o vínculo com o objeto é sempre de natureza sexual. pode-se supor que o exemplo clínico indica uma particularidade da organização egóica nas mulheres. com sua teoria do apego. seu caráter terno sendo resultado de sublimação ou dessexualização. analisa a questão das identificações nas mulheres. desvinculada da sexual e de natureza própria. uma afirmação não seja nunca desprovida de importância. esta última modalidade se distinguindo da corrente masculina pelo predomínio do objetivo passivo e do modo de satisfação 10 CORRÊA (1995) em seu artigo Um disparador e suas consequências psíquicas. uma vez que esta autora supõe a regressão libidinal da gestante a estágios primários de organização libidinal.10 Retornando a H.Deutsch. responder pela manutenção da relação objetal (este ponto será retomado em capítulo subsequente). por vezes. como formas de relação objetal primárias. Afirma que a plurivocidade do precipitado de identificações das mulheres – os traços de seus muitos amores – é o que lhes confere ganho psíquico. Julga que esta concomitância pode. provavelmente derivada de pulsões de autoconservação como viriam a propor BALINT (1986 e 1993). parece necessário que se esclareça qual a natureza do vínculo ao filho durante a gravidez. Este ultimo é entendido como a ampliação e complexificação das vias de resposta (descarga) do aparelho psíquico. .

bebê e considera tais sentimentos de desgosto como deslocamentos para alimentos. Essa integração da imagem do objeto permite sua separação em relação ao eu materno. Atribuias ao reavivamento da equivalência fezes. numa ótica estritamente fálica. Em relação às alterações afetivas durante a gravidez. o desenvolvimento da criança para uma certa autonomia pressiona na direção do amadurecimento descrito acima. dos desejos expulsivos (anais) em relação ao bebê. alvo da retaliação por parte de sua própria mãe. A diferença entre masculino e feminino se centraria. Ressalta. em face dos desejos agressivos da gestante para com ela. assim.. numa perspectiva como a apresentada por Deutsch representa também seu fracasso.73 narcísica. A . então. que não teriam sido. da integridade dos conteúdos internos da gestante. como o narcisismo. que tem função de proteger o ego da mulher de suas tendências masoquistas em relação a seus parceiros. de objeto narcísico (objeto de amor de si). o texto de 24 parece descrever os tempos e o modo de constituição deste objeto. também. não na natureza do vínculo. A construção desse objeto. p. enfatizando os aspectos clínicos da transformação da representação do filho. pessoas ou situações. ao objeto filho.. então.88). A autora supõe uma dupla vetorialidade na mudança que então se passa: de um lado o amadurecimento do investimento libidinal por parte da mãe tende a uma representação do filho como objeto separado. através de um modelo de dinâmica libidinal própria à gravidez. porém. mas no modo de acesso ao objeto. Numa interpretação kleiniana poder-se-ia considerar que a movimentação do feto pode servir como signo da integridade do objeto. 1996). repetiria a história de construção da subjetividade materna. que tais atitudes hostis tendem a se modificar em torno do quinto mês de gestação “ om os primeiros c movimentos do bebê” . por outro. a maternidade que. poderia representar a realização de uma posição narcísica para mulher. Paradoxalmente. para objeto de amor. No que se refere. sem conseqüências destrutivas para este último (KLEIN. na mulher grávida” (1994. tipicamente anais. Deutsch discute. freqüentemente fracassa em sua função defensiva quando da relação da mulher ao filho. portanto. Helene DEUTSCH fala de “tendências hostis se manifestando igualmente nas modificações passageiras de caráter.

relativa ao falo. agora em relação ao filho. A espécie está representada pelo filho. mas a atitude maternal pode ser dirigida a outras pessoas ou coisas. simbólica.” (DEUTSCH. uma tentativa de salvaguarda do eu . É necessário que se ressalte que a posição da autora quanto à maternidade não caracteriza uma normativização. maternidade designa a “(. A autora afirma que a escolha de não ter filhos em mulheres com traços fortemente femininos e maternais pode representar. a função de transmissão da eroticidade. submete a mulher às suas tendências passivo-masoquistas. especialmente no próprio filho. Nas palavras da própria autora. Fica assim evidente o intrincamento ou apoio do destino pulsional às necessidades biológicas não só do indivíduo mas também da espécie.. Apoio que a autora parece sustentar com toda conseqüência ao considerar. A disposição para maternidade é uma tendência. conforme já afirmado anteriormente. neste sentido. . liberando a libido para outros investimentos amorosos.)capacidade para subordinar seus interesses individuais aos da espécie. mesmo que se a considere em sua vertente fálica. por sua vez.74 posse do filho. na reprodução e na sexuação psíquica. Isto. 1952: 190). apoiada na disposição biológica da espécie. elimina a ferida narcísica anterior. A tendência às posições masoquistas nas relações entre mães e filhos é um dado observado na clínica psicanalítica..

a melancolia. engendra paixões diversas: no coração. os problemas correspondentes às suas funções. no estômago. as ilusões enganadoras.”1 Timothy Bright2. BRIGHT (1996: 129) Traité de la Mélancolie de 1586. 1 2 Tradução da autora T. no cérebro. . conforme a parte que ocupa ou atravessa.75 A metapsicologia da melancolia como modelo de compreensão do afeto deprimido na gravidez. uma fome devoradora. e nos outros órgãos. “Como as partes diferem e as funções variam. um estremecimento.

1977). em seu Neurose e Psicose (FREUD. Nele. Nele. então. No período de escrita do Rascunho G. trabalho parcialmente abandonado pelo autor. que resultaria no Projeto para uma Psicologia Científica (FREUD 1977). ressaltando. provavelmente na esteira do artigo sobre o Narcisismo. Freud parte de dois eixos: o movimento da libido e o afeto que lhe corresponde. artigo escrito em 1914. as manifestações somáticas da ansiedade intensa) e verifica que a semelhança entre estes quadros clínicos se deve a uma diminuição no nível da excitação somática que investe as representações de objeto. dá à melancolia o estatuto de neurose narcísica. baseada em sua nova teoria do aparelho psíquico. Freud parte da relação entre a melancolia e estados somáticos (como a anestesia sexual. Em 1924. Em 1917 Freud aborda novamente este tema em Luto e Melancolia (FREUD. em favor da construção de um conjunto teórico de caráter metapsicológico. Em sua correspondência a Fliess. 1976f). uma organização metapsicológica específica a estas afecções. O rascunho sobre a melancolia se inseria naquela linha de pesquisa. Freud se encontrava em pleno processo de pesquisa das relações entre as funções somáticas e as psicológicas. 1974d). o Rascunho G testemunha sua atenção à descrição dos processos psíquicos subjacentes a este quadro clínico (FREUD. a neurastenia provocada por masturbação e coito interrompido. como luto pela perda da libido. a regressão libidinal ao narcisismo. porém. a melancolia é abordada em sua forma clínica associada à mania. Sua data provável é 7 de janeiro de 1895. a abordagem teórica da melancolia se faz em torno da dinâmica da libido. Supõe. como indica seu editor inglês. Afirma que em qualquer estado melancólico o que se observa é uma perda no âmbito da libido. Freud mantém a comparação dos processos melancólicos àqueles envolvidos no luto. e . Para analisar estas diferentes apresentações da melancolia. pode-se constatar seu interesse pela melancolia. distinguindo-a tanto das neuroses de transferência como das psicoses. Neste artigo sua ênfase recairá no conflito entre o ego e o superego.76 A teoria de Freud Em diferentes momentos da produção psicanalítica de Freud. agora. Nesse momento.

A falha ou perda se passa no campo pulsional. e uma diminuição do sentimento de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento. 1974d: 276). 1977: 281-282). A ausência de perturbação da auto-estima e suas conseqüências. Neste artigo a ênfase recairá nos vínculos com o objeto. a inibição de toda e qualquer atividade. Também será necessário distinguir o vínculo objetal de uma identificação. cujo resultado é um conjunto de traços mentais. (FREUD. Em Luto e Melancolia esta tese inicial guarda sua pertinência. Daí a importância da distinção entre a perda do objeto real (no luto) e a perda do objeto ideal (na melancolia).por ambos envolverem uma perda. Descreve o mecanismo melancolia do seguinte modo: psíquico subjacente à Podemos imaginar que se o ps. por assim dizer – que se manifesta nos outros instintos e funções. G [grupo sexual psíquico] se defronta com uma grande perda da quantidade de sua excitação. muito semelhantes: (.77 um afeto semelhante ao luto. pelo tratamento diverso que é dado ao objeto nas duas situações. Freud examina em que consiste o trabalho do luto e em seguida tenta compará-lo aos estados melancólicos. nos processos de luto. serve de chave para compreeensão de importantes diferenças metapsicológicas quanto aos dois processos. como uma ferida. Esta descrição da melancolia é prevalentemente econômica.luto e melancolia . Os neurônios associados são obrigados a desfazer-se de sua excitação.. pode acontecer uma retração para dentro (por assim dizer) na esfera psíquica. a questão do objeto assume relevância. que produz um efeito de sucção sobre as quantidades de excitação contíguas. o efeito é uma inibição dos investimentos libidinais e sofrimento psíquico (dor). a perda da capacidade de amar. num modo análogo ao da dor. instala-se um empobrecimento da excitação (no seu depósito livre) – uma hemorragia interna. Freud reafirma a propriedade da analogia entre estes dois estados psicológicos . o que produz sofrimento. culminando numa expectativa delirante de punição. Afirma que a constatação da ausência do objeto leva o eu a um período alucinatório da . (FREUD. entretanto.) um desânimo profundamente penoso. Essa retração para dentro atua de forma inibidora. Com isso.. Desfazer-se associações sempre é doloroso. a cessação do interesse pelo mundo externo.

“se comporta como uma ferida aberta.78 presença daquele. então. por parte do eu. Na melancolia. Entretanto. Tal deslocamento ocorre. responde.. o que torna o trabalho de desligamento libidinal.) provenientes de todas as direções. de modo que a catexia objetal. na verdade.. contraditórias. aparentemente. em função de duas précondições: uma forte fixação mas uma fraca catexia objetal. pode retroceder para o narcisismo.. A conformação à realidade tende a impor-se. também. ao se defrontar com obstáculos.. na segunda. a natureza da perda é diferente – é no campo do ideal – e ocorre fora do plano da consciência. baseado numa constatação de Otto Rank. atribuindo à identificação narcísica um papel mais primitivo. Avaliando a questão da auto-estima na melancolia. o complexo melancólico. FREUD afirma: (. no caso do luto.(. e a conclusão deste trabalho torna o eu novamente livre e desinibido. Estas condições são. Reafirma. em seu caráter inconsciente.. ataques ao objeto deslocado para o eu. Ao especificar a diferença entre a identificação histérica e a narcísica. 1974d: 283). todavia. do modo de vínculo narcísico. então. que absorve todo movimento libidinal do sujeito melancólico. por sua dificuldade em refazer novos investimentos. Essa concepção de um furo ou de uma ferida na organização do eu. naturalmente. visando à manutenção do vínculo. Situa ambas no contexto da formação dos sintomas. todavia.. que as identificações expressam a existência de algo em comum entre o eu e o objeto. uma regressão de um tipo de escolha objetal para o narcisismo original. são. O sujeito melancólico não sabe o que perdeu.) Ele representa. Freud afirma que na primeira o investimento libidinal ao objeto é mantido. atraindo a si as energias catexiais (.. é abandonado. tão impróprios à natureza narcísica do eu. e esvaziando o ego até este ficar totalmente empobrecido” (FREUD. um substituto da catexia erótica. Além disso. Freud conclui que os ataques a si. A identificação narcisista com o objeto se torna.) Essa substituição da identificação pelo amor objetal constitui importante mecanismo nas afecções narcisistas (.. 1974d: 286). . antes prazeiroso. O desinvestimento da representação de tal objeto exige que o desligamento da libido se realize em relação a cada lembrança ou expectativa relacionada a ele (trabalho do luto). “que pode significar amor” (FREUD. mais difícil e enigmático. (1974d: 282) Forte fixação e fraco investimento do objeto seriam característicos. enquanto.) essa contradição parece implicar que a escolha objetal é efetuada numa base narcisista.

à regressão libidinal ao narcisismo. recorrendo ao caráter ambivalente dos vínculos objetais nas fases iniciais da organização libidinal. como agressão ao eu tomado pelo objeto. que se verifica por volta do anoitecer. É na própria natureza dos vínculos entre o eu o o objeto que Freud vai buscála. onde a ambivalência afetiva (inconsciente) revela sua face de sadismo na forma de agressões ao eu identificado ao objeto. atacando o eu do melancólico. devida a alguma sorte de ataque ao eu (perda). que não a regressão libidinal da relação objetal para relação narcísica. Freud conclui que a melancolia toma emprestado alguns de seus traços. Uma afirmação de Freud. como devida a esta fixidez da catexia libidinal no complexo conflitivo. (FREUD. Daí a possibilidade do suicídio. podem . constata a rigidez do eu atribuindo-a à afluência da libido para as representações ligadas ao conflito melancólico e explica a dificuldade em dormir. nestes casos. agora identificado ao objeto. entretanto. coloca de modo muito condensado questões de bastante relevância. A catexia libidinal.79 Assim. a melancolia se processa como efeito de uma regressão libidinal ao narcisismo. independente do objeto 3 . e os outros. fator este que não pode ser explicado psicologicamente. não basta o recurso ao vínculo narcísico para compreender a melancolia. Devido aos processos regressivo. diretamente por causa de toxinas. o vínculo amoroso se transforma em agressão. torna-se visível na melhoria regular da condição. A explicação de seu caráter auto-acusatório e auto-culpabilizador deve vir de outra fonte. e se um empobrecimento da libido do ego. não será capaz de produzir certas formas de doença. Do ponto de vista metapsicológico. Embora Freud esteja se referindo a processos somáticos – tóxicos – afetando a estrutura egóica. e à ambivalência. observada nestes pacientes. O que provavelmente é um fator somático. 1974d: 286). parece pertinente que se deduza que outros processos. ao luto.um golpe puramente narcisista contra o ego -. Essas considerações nos levam a perguntar se uma perda no ego. Discutindo a dinâmica do trabalho psíquico na melancolia. não bastará para produzir o quadro de melancolia. sofre dupla vicissitude: parte dela regride para o narcisismo e outra parte se transforma em sadismo devido à ambivalência.

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também ser responsáveis pelo aparecimento de estados melancólicos. Conforme indicado na citação acima, a perda no ego pode se referir a algo que o afete em sua organização básica, nuclear. Se o narcisismo primário é o recobrimento pela libido de um conjunto de traços identificatórios primitivos, formador do eu, poder-se-ia pensar no efeito doloroso provocado por tudo que afete o arranjo original destes traços. Retomando o rascunho G, conforme citado acima, o desinvestimento de traços é sempre doloroso. Esta afirmação, aparentemente isolada no texto, parece indicar que, do ponto de vista etiológico ou, no que se refere à disposição para a afecção, o peso relativo da estrutura do eu, de sua flexibilidade para suportar o “golpe narcísico”, na produção dos sintomas, está em conexão estreita com a dinâmica pulsional e o conseqüente trato (vínculo) com o objeto. Esta posição será claramente indicada em 1924 no artigo Neurose e Psicose (1976f).

Baseando-se nesta afirmação acima, parece possível supor que a presença do feto no corpo da mulher pode representar uma perda no eu. A perda do estatuto narcísico de filha, e/ou mulher, reorientado no sentido do tornar-se mãe, poderia responder pela presença de afetos melancólicos durante a gravidez. Em algumas mulheres, ou mesmo em alguns períodos da gravidez, a atenção do

parceiro ou do entorno em geral, voltada de modo prevalente para a gestação, pode representar uma perda no plano narcísico. O ser amada através do filho implica, num certo nível, a perda do ser amada por seu próprio eu. É freqüente escutar-se a queixa por parte das gestantes quanto ao excesso de atenção ao “corpo gestante” e perda de atenção ao “corpo erógeno” da mulher grávida, especialmente por parte do parceiro.

Retornando aos textos freudianos, observa-se que, em 1923, quando publica O Ego e o Id, formalizando sua nova tópica do aparelho psíquico, a explicação da dinâmica subjacente à melancolia será centrada nas relações entre o ego e o superego. A supremacia da instância crítica fica evidente tanto na melancolia quanto na neurose obsessiva. Na neurose obsessiva, no entanto, o

objeto ao qual se destina o sadismo superegóico é um objeto ao qual o eu se

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Grifo da autora.

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vincula, um objeto externo ao eu. Já na melancolia, o fato do objeto ter sido incluido no eu, faz com que seja a este último (ao eu) que se dirijam os ataques, aumentando os riscos de autodestruição. O maior risco de suicídio na melancolia se deve justo a esta identificação. A neurose obsessiva estaria mais protegida pela manutenção do vínculo agressivo com um objeto exterior ao eu. “Podemos perceber que o que garante a segurança do ego é o fato de o objeto ter sido retido.” [retido como objeto, portanto, separado do eu]. ( FREUD, 1976e: 70). Importa ressaltar que, nesta segunda tópica, as forças pulsionais são supostas duais, podendo se fusionar e desfusionar. Ao eu cabe administrar a satisfação dessas tendências pulsionais opostas, em relação às exigências da realidade, e àquelas oriundas das instâncias ideais. Em relação à melancolia a perspectiva proposta em O Ego e o Id é a de que através do processo de regressão libidinal, provocado por frustração, ocorre um desintrincamento pulsional onde o superego passa a mobilizar as moções destrutivas e as dirige contra o ego. Conforme indica Freud, o superego surge ao final do complexo de Édipo, por identificação aos modelos parentais, processo que implica na dessexualização das relações a estes objetos de amor. Entretanto, a dessexualização implica na desfusão pulsional. “Essa desfusão seria a fonte do caráter geral de severidade e crueldade apresentado pelo ideal - o seu ditatorial ‘farás’” (FREUD, 1976e: 71).

No artigo de 1924, Neurose e Psicose, Freud qualifica a melancolia como uma neurose narcísica. Num esforço de aperfeiçoamento do poder de descrição clínica de seu novo esquema do aparelho psíquico, propõe como diferencial nosográfico as fontes de conflito do ego. Assim, “As neuroses de transferência correspondem a um conflito entre o ego e o id; as neuroses narcísicas, a um conflito entre o ego e o superego, e as psicoses, a um conflito entre o ego e o mundo externo.” (FREUD, 1976f: 192). Termina este pequeno artigo questionando-se sobre as circunstâncias em que o ego pode enfrentar estes conflitos sem “cair enfermo”, e conclui que os determinantes serão o fator econômico (magnitude das moções pulsionais envolvidas) e a plasticidade do ego em deformar-se, ou mesmo clivar-se, evitando, assim, seu colapso.

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Amor e Melancolia: os domínios do objeto

Seguindo as proposições freudianas quanto à melancolia, visando relacioná-las com o objeto desta pesquisa, acompanhar-se-á as relações entre o estar amando e o estar melancólico. Freud toma o amor intenso e o suicídio melancólico como exemplos de situações onde o eu é dominado pelo objeto. Cabe notar que afeto deprimido e gravidez desejada parecem relacionar-se com estes dois pólos. Uma gravidez ensejada a partir do desejo de um filho envolve um enorme investimento amoroso quanto às representações deste objeto. Nesse sentido, a dimensão do filho como objeto de amor pode ser de ordem tal que sua sombra venha a se abater sobre o eu total da mulher, inibindo seus outros investimentos afetivos ou manifestações simbólicas. O que parece importante destacar são as identificações constitutivas do ser mãe, relativas ao narcisismo e ao eu feminino, e relacioná-las ao desejo da mulher que espera um filho. Dito de outro modo: qual a relação entre a constituição narcísica da mulher na posição de mãe e o filho como objeto? Como essa relação pode afetar o sujeito mulher ou quando o amor pelo filho gestado pode ser inibidor das produções subjetivas da mulher?

A temática das identificações interessa aqui por sua participação tanto na teoria freudiana da melancolia - modelo que se está utilizando para compreensão do afeto deprimido -, como por sua inclusão freqüente nas abordagens psicanalíticas da maternidade. Partindo-se da teoria freudiana, a identificação ao papel maternal é suposta ocorrer como resultado da experiência edipiana, por identificação à mãe. O desejo é, inicialmente, de dar um filho à mãe e, posteriormente, de ter um filho do pai. Mas é identificada ao lugar da mãe que a mulher poderá gerar filhos. A literatura descreve, também, a necessidade de identificação da mulher ao filho, na maternidade4. Esta identificação parece referir-se ao reconhecimento dos limites
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Exemplos desta concepção de que a mulher grávida se identifica ao feto podem ser encontrados em DEUTSCH : “A ’regressão maternal’ definitiva é alcançada durante a gravidez pela identificação com o bebê.” (1994: 92) ; LANGER: “A mulher grávida se identifica com o feto, revivendo assim sua própria vida intrauterina” (1964:182); WINNICOTT: “Existe comunicação, ou não, [entre mãe e bebê] dependendo do fato de a mãe ser ou não capaz de se identificar com o bebê (...). Isto leva a um estudo das transformações que ocorrem com a mãe (ou pai) no que diz respeito à gravidez e à paternidade.(...) Nesta situação a mãe é tanto o bebê quanto ela própria (...).” (1996: 95); BALINT: “Libidinalmente, a mãe é receptora e doadora na mesma extensão que seu

Na segunda tópica. até assumir valor central na constituição do aparelho psíquico. parece ser reatualizada na gestação e nas relações iniciais da mãe com o filho recém-nascido. da construção do supereu como seu herdeiro. especialmente com a teorização da dissolução do complexo de Édipo e. isto é. a temática das identificações na teoria psicanalítica de modo que se possa examinar as semelhanças entre sua ocorrência na gravidez e nos processos melancólicos e de luto. parece possível supor que o processo de identificação primária ou narcísica diz respeito a alguma sorte de alteração (ou formação) do eu total. A fragilidade maturacional dos primórdios da vida humana. a partir do id. Este primeiro tipo de laço ao objeto se associa ao modo mais elementar de experiência pulsional. do . a constituição oral do objeto. A identificação narcísica. Daí a possibilidade de situar-se filho.1974b: 107). será denominada identificação primária. o que se gostaria de ser ou alguém que foi uma vez parte sua (FREUD. apresentada sob esta denominação em Luto e Melancolia. a identificação narcísica se torna correlata aos investimentos do eu. mediante a relação ou intervenção de um objeto também total. Retomar-se-á. Em síntese. as identificações respondem pela formação das subestruturas psíquicas. fundamento sobre o qual se estrutura a subjetividade desejante. em conformidade com o que se é. considerada anterior às relações objetais e tida como uma relação maciça ao objeto. a identificação narcísica ou incorporativa. A escolha objetal narcísica se faz sob um modelo identificatório. Na segunda tópica. Com a teorização do narcisismo e a divisão pulsional em pulsões sexuais e pulsões do eu. Neste momento da obra de Freud. Essa centralidade é correlativa ao papel essencial atribuído ao complexo de Édipo com seu corolário de identificações e escolhas objetais. O conceito de identificação vai se especializando progressivamente na obra de Freud. a idéia de especialização do aparelho a partir do id dá muito relevo às identificações como traços das relações primitivas. ela experencia seu filho como uma parte de seu próprio corpo e ainda como algo estranho e hostil. então. já fora postulada em Totem e Tabu como um modo primário de relação ao objeto definido por sua introdução ou incorporação no eu. sem discrimanação exata de seus traços ou atributos. o que se foi.83 quanto aos referenciais (tanto imaginários como simbólicos) nos quais se inscreve a subjetividade.

fazer seu luto. Outros efeitos podem também ser observados: o incremento mesmo modo que a criança em relação ao corpo da mãe. a identificação ao objeto. sua capacidade de sofrer alterações nas lides com o objeto. o que já o vincula. porém não como único objeto possível. uma vez que.84 este modo de identificação tanto numa primeira constituição do eu onde as distinções se fazem por critério incorporativo (o que é prazeroso é eu. Na melancolia o luto não se faz porque o objeto indiscriminado resta incorporado ao eu. onde o objeto filho poderá se inscrever na série dos objetos fálicos. visando encontrar um encaminhamento de resposta a essa questão. O luto do objeto implica no reconhecimento destes atributos. no reinvestimento do vínculo em cada um deles para a posterior retirada da libido. ao narcisismo da mãe. então. suicídio melancólico e fascinação amorosa aparentemente se identificam. a vinculação do eu ao objeto é de tal ordem que o sujeito não reconhece o que perdeu nele (nos atributos do objeto). que não se observa na fascinação amorosa. Amor e Melancolia parecem ser situações extremas que permitem demonstrar o caráter plástico do eu. Seu ponto em comum é o domínio que o objeto exerce sobre o eu. como no caso do suicídio melancólico. não podendo. Parece que no suicídio melancólico há um significativo aporte de ódio dirigido ao objeto. esta não pode responder sozinha pela alteração no eu que o coloca em risco. Todavia. . Na perspectiva da relação do eu ao objeto. As traduções são da autora. porém é necessário esclarecer a que se devem suas diferenças. assim. em parêntese. por definição. No caso da identificação da mulher ao papel materno não se trata de uma identificação primária mas de uma identificação oriunda do complexo de Édipo. o deprazeroso é não-eu). Nesta última. os objetos fálicos são sempre substituições de um hipotético objeto primeiro. Nem na identificação primária. Outro problema é que também na paixão amorosa a identificação narcísica ao objeto seguida da fragilização do eu ocorre somente em algumas situações específicas. pela inibição dos investimentos libidinais maternos com o conseqüente estado de tristeza? Retomar-se-á a discussão sobre o amor e a melancolia.” (1986: 100). também. nem na melancolia há relação objetal em sentido estrito. quanto nos processos relacionados à melancolia. Que relações entre o eu materno e o objeto fálico filho poderiam responder.

então. por uma distinção dinâmica. o objeto . assim ele é novamente erigido dentro do ego e este efetua uma alteração parcial em si próprio. Freud trabalha as questões do direcionamento da libido aos objetos e suas conseqüências para o eu na fascinação amorosa. ressaltando na experiência amorosa a idealização dos atributos do objeto em conformidade com o narcisismo.) o ego enriqueceu-se com as propriedades do objeto (. então. diferenciando o vínculo entre o eu e o objeto em cada uma delas: No caso da identificação. Trata deste efeito hipnótico como equivalente do vínculo amoroso. a idealização. A introdução na teoria de modalidades ou subestruturas do eu – os ideais – indicam que na tópica de 1920 há uma opção pela segunda hipótese.” (1974b: 111). faz uma diferenciação entre a identificação ao objeto e este outro processo amoroso que leva à servidão do eu. Opta. o amor enquanto investimento objetal seria uma experiência envolvendo aspectos metapsicológicos diferentes daqueles presentes na fascinação amorosa? Na obra freudiana parece possível encontrar apoio para ambas as posições.. Mas a identificação é um processo que se refere ao eu... No capítulo VIII de Psicologia de Grupo e a Análise do Ego (1976d). como salienta Freud.) empobreceu-se. o objeto foi perdido ou abandonado.)”. substituiu o seu constituinte mais importante [o ideal do eu] pelo objeto. mas à vida subjetiva num sentido amplo.. está buscando explicar o submetimento apaixonado dos indivíduos ao poder hipnótico dos líderes. segundo o modelo do objeto perdido.. enquanto a idealização é um processo referido ao objeto. ao contrário. artigo de 1921. se inscrever e deslizar por qualquer ponto desta série? Ou. Como explicar essa diferença no interior da experiência amorosa? Trata-se de algum gradiente de investimento libidinal que vai regressivamente do amor como investimento objetal ao amor como fascínio narcísico? Qualquer experiência amorosa pode.85 da auto-estima. Neste caso.. na idealização fascinante “(. Freud encaminha sua argumentação no sentido de mostrar que é esta idealização que revela um processo subjacente de subsunção do eu ao objeto. No outro caso [idealização]. Neste ponto. entregou-se ao objeto. O próprio autor se mostra insatisfeito com a distinção econômica entre estes dois processos. Afirma que na identificação o “(. o aumento dos cuidados dedicados não só à própria imagem. apresentada nestes termos.

além de atribuir às identificações o papel de formadoras do “caráter” do eu. que no caso das mulheres esta alteração do eu é bem mais freqüente. dada a alteração do objetivo pulsional. O tema das identificações é retomado no contexto de elaboração das origens do ideal do eu. Faz ainda uma diferença entre os possíveis desfechos das identificações. Freud enfatiza que a identificação narcísica com o objeto implica uma alteração na qualidade do vínculo. Estas conclusões parecem contradizer as proposições teóricas sobre a melancolia. porém. o eu da mulher é que assumiria. Em O Ego e o Id (1976e) esta possibilidade é tomada como certa.5 (FREUD. Ali. indicando um processo de idealização dos atributos do objeto. Lá. é destacado seu papel na administração das moções pulsionais. O que parece uma indicação no sentido da particular plasticidade do eu feminino. Por outro lado. Dada a ausência do falo imaginário no corpo. 5 Grifo da autora. No artigo sobre a Psicologia de Grupo citado acima. enquanto fonte de traços dos vínculos objetais precoces. Dito de outro modo. FREUD se questiona se seria “inteiramente certo que a identificação pressupõe que a catexia de objeto tenha sido abandonada” conjeturando sobre a possibilidade de “ aver h identificação enquanto o objeto é mantido.“(1976d: 144). .86 é mantido e dá-se uma hipercatexia dele pelo ego e às expensas do ego. a identificação implica numa dessexualização. Esta plasticidade seria devida ao modo especial com que a castração afeta as mulheres. mostrando que nem sempre elas implicam a introdução do objeto abandonado no eu. É na idealização. 1976d: 144). é justamente à identificação narcísica posterior à perda do objeto que se atribuem as inibições de investimento do eu. Este parece um apontamento quanto à ligação íntima entre esses dois processos (identificação narcísica e idealização). que se dá o esvaziamento da libido narcísica. este lugar fálico: daí a ameaça de castração configurar-se como ameaça da retirada do amor por parte do objeto. naquele texto Freud já afirma o caráter ideal da perda na melancolia. Alega. portanto. então. Ao identificar-se ao objeto o eu se oferece como objeto para satisfação das exigências das pulsões.

A autora distingüe. devida ao desfalecimento primeiro da imago materna. LACAN (1955c ) apresenta as linhas que confluem para formação original do eu. O sujeito melancólico reconheceria a castração. os instrumentos ilusórios. considera que a melancolia se constrói nos “avatares da formação do eu e de seus modelos “(op. Com a proposição do estádio do espelho.onde a origem simbólica do sujeito vem a operar. antecipadora de uma totalidade identificatória do eu. para lhe fazer face. a qual orienta. porém. conforme pretende-se demonstrar a seguir. também. Utilizar-se-á as indicações de Marie-Claude LAMBOTTE (1997) apresentadas em O Discurso Melancólico. E a linguagem 6 Lambotte supõe a origem da melancolia na fase pré-especular. por tratar-se de uma obra vigorosa de análise fenomenológica e metapsicológica da melancolia. Essa identificação é. porém. cit. secundária ao investimento do filho no lugar de objeto separado do eu. O que se operaria na entrada do sujeito no simbólico não seria uma foraclusão do significante paterno. . todavia. sem ter. Este semelhante com seus desejos particulares interpreta os movimentos da criança7 como portadores de sentido.87 Essa discussão sobre o papel patógeno da identificação narcísica parece relevante no caso dos afetos na gestação pois este tipo de identificação se impõe em qualquer gravidez desejada. 7 Lacan se utiliza da palavra infans para designar a criança antes de seu acesso a linguagem. Uma concepção metapsicológica da depressão. Esta autora propõe como hipóteses metapsicológicas da melancolia a “ usência ou enorme fragilidade da a imagem especular.espaço . Baseada nas formulações lacanianas do Estádio do Espelho como organizador da função do eu. a formação da imagem especular. mas uma identificação ao objeto enquanto resto de operação simbólica. fantasísticos. a melancolia das psicoses.” (1997:197). 8 Tradução da autora. foi pensada por Lacan como campo . A prematuridade do bebê humano a qual engendra uma especial dependência do semelhante que lhe prove cuidados (em geral a mãe). A imagem especular. Por outro lado. na operação de destacamento de uma metáfora referenciadora do sujeito no simbólico. Parece evidente que o amor da mulher dirigido ao filho enquanto objeto necessariamente deixa traços no eu materno. a inflexibilidade dos ideais que orientam as identificações secundárias pode responder pela rigidez do lugar que ocupará o filho como objeto em relação ao eu materno. 201)6.

uma silhueta de um si mesmo . Lacan sublinha o corte destacado por Freud quanto à natureza do desejo humano que subverte a ordem das necessidades.) simboliza a permanência mental do eu. porém.. A linguagem explode a necessidade em planos diversos .um eu ideal . Trata-se da mesma identificação à qual Freud referiu-se como anterior à relação objetal. se institui como objeto de amor do outro..88 onde esta interpretação se inscreve como enigmática. que esta captura pela imagem. então.. conforme o plano de articulação subjetiva em que estejam envolvidas.) essa forma é mais constituinte do que constituída. As faces do objeto vão se alterar. na relação da criança ao enigma do desejo deste outro que a compreende segundo seus próprio desejos.imaginário. que possibilita à criança a formação de uma imagem.. liga a criança aos outros semelhantes. ainda. um objeto que se circunscreve na linguagem. o narcisismo primário seria a forma de designar a dinâmica libidinal deste momento. No estádio do espelho a configuração prevalente do objeto é a imaginária onde. A saída desta relação especular faz-se pela identificação da criança a um traço (significante) do desejo do outro expresso em suas demandas. portanto. O processo de subjetivação do humano depende do estabelecimento de uma dialética a qual. através do desejo destes últimos expressos no conjunto da linguagem. Esta dinâmica implica a anterioridade (apenas lógica) de uma identificação ao outro como semelhante. onde o outro . simbólico e real – nodulados entre si. (. Na concepção acima descrita. Esse traço – suposto objeto ideal do outro – formará o ideal de eu da criança.)”8 ( 1995c: 87-88 ).. a partir deste eu formal.. a criança se reconhece como aquilo que falta ao outro. O objeto é agora. É.em torno da qual as questões do ser e do desejo vão se dar. que se desencadeia o desejo inconsciente daquela (criança).)transformação produzida no sujeito quando assume uma imagem”. ao assumir uma imagem. nos moldes como se dá no sujeito humano.. é indicativa da insuficiência da realidade orgânica como fonte da subjetividade..com sua imagem e sua . cuja assunção indica uma “matriz simbólica em que o eu se precipita de forma primordial (. porém dissimétricos. Nos termos lacanianos o que se passa então é a “(. ao mesmo tempo que prefigura sua destinação alienante. Toda construção da imagem subjetiva se fará mediada por significantes. Lacan lembra. (.

perdendo-se num horizonte sem limites. (op. (1995d: 106). à subjetividade desta. onde a agressividade é concebida como correlativa da tensão entre a estrutura narcísica e a subjetividade em seu caráter simbólico.) à falta de uma imagem especular suficientemente investida.. fonte da imagem e do desejo da criança. conseqüentemente. Quer dizer. a agressividade é uma tendência correlativa às identificações narcísicas. A tensão que ele provoca é. não pode oferecer a necessária moldura para constituição de uma fantasia que dê contorno.. Ou ainda. não tem outra saída (. desprovida de saída. por isso mesmo. determinantes da estrutura formal do eu e dos objetos. 207). . sendo. alienado no outro. o concurso primordial se precipita em competência agressiva. projetado. é a condição da melancolia. alvo de sua agressividade.. 9 Tradução da autora. Completando.tem poder alienador do eu. (1986: 197-198). cit. ainda que ficcional. é possível destacar-se uma série de inferências clínicas.) senão a destruição do outro.)9. o desejo só existe no plano da relação imaginária do estado especular. Nas palavras do autor: Essa forma se cristalizará em efeito na tensão conflitual interna ao sujeito. e dela nasce a tríade do próximo.. Assim. especialmente aquelas relativas aos ideais. então. antes da linguagem.89 linguagem .. que determina o despertar de seu desejo pelo objeto de desejo do outro: aqui. do eu e do objeto (. Desta teoria de Lacan. então. Segundo Lacan. portanto. Lambotte propõe que a ausência de um olhar materno que destaque a imagem da criança como um objeto potentemente prazeroso para as relações com o Outro. Um olhar materno que transpassa a criança. como é o caso da melancolia e da depressão. Na origem. sua hipótese metapsicológica a autora propõe que: (. de desejo – negando vigorosamente tudo o que se assemelharia a logro e mentira frente a uma verdade encontrada muito cedo: a da irredutível ficção que define o sujeito. o melancólico se esforçaria em atenuar esta falha de ilusão ou de imaginário – e..

) mais que da perda do objeto. Recobre-os com os traços de ideal visando regressivamente incorporá-los. um significante que o refere à ordem simbólica. ao passo que a depressão parece ancorada na presença deste Ideal enquanto traço do sadismo do Outro. 211). uma vez que o que o sujeito melancólico introjetou não foi um traço. não metaforizável. retornaria a um supereu ancestral cuja transmissão na expressão da falta teria como conseqüência invalidar a priori todas as relações humanas. com os conseqüentes sentimentos de angústia e culpa. que reduz inteiramente suas possibilidade de identificação com alguma imagem ideal de si como objeto para o Outro. que não se pretende imaginária. Parece importante salientar que esta autora também distingue a melancolia da depressão. Seguindo Lacan. através da indiferença ou do fechamento da posição materna. . é a constituição de um eu-ideal que não pode se dar.. A autora toma desta construção a idéia de um supereu materno arcaico que se interporia entre a criança e o espelho e afirma: (. ligada à incorporação de objetos bons e maus. Lambotte hipotetiza. seu discurso desafetivizado. engendrando um sentimento de inferioridade e impotência que imediatamente faz deslanchar um processo de inibição. desqualificando qualquer destas relações como passíveis de sustentar sua imagem ideal. A origem deste. em busca da reconstrução protética (a qual não se efetiva) de sua própria imagem. então. Assim.. (op. que a ausência desta imagem impele o sujeito a deslocar o Ideal do Eu para os objetos exteriores. O que do lado da melancolia seria o olhar vazio da mãe. em conformidade com a imago materna. (. Lambotte se apóia na teoria kleiniana da constituição do supereu.cit. e a um discurso pontuado de queixas. a melancolia parece associada à ausência de um Ideal de Eu.. mas um ideal formal. na depressão corresponderia a um olhar de ódio. ou à sua presença formal. arcaica. exigirá da criança (de seu eu) a constante vigilância para proteger os bons dos maus objetos.90 É na relação do melancólico aos objetos que se verá a força de um ideal esmagador.) a imagem de um modelo cujo grau de idealidade impede todo comprometimento com o mundo exterior. Em síntese. o sujeito melancólico sofreria de uma identificação originária que..

Pretende-se.91 Algumas articulações com a depressão na gravidez. não necessariamente à ausência ou fragilidade de uma imagem de sí (eu ideal) constituída pelo olhar materno 10. a pregnância imaginaria do papel fálico desse filho para mulher leva à idealização deste objeto. Parece possível supor. Como já apresentado em capítulo anterior (À procura da especificidade feminina) crê-se possível articular a depressão na gravidez à dinâmica dos ideais. ao fixar imaginariamente o desejo numa certa via libidinal. ao referir-se a depressão na gravidez à rigidez do ideal do eu materno. mas à rigidez ou fixidez do ideal do eu. O ideal do eu responde pelo estabelecimento da via desejante preferencial do sujeito. ter- 10 Não se pretende excluir a existência de casos de depressão na gravidez oriundos da estrutura melancólica ou depressiva da mulher. Se o ideal do eu for aqui entendido como traço do desejo do Outro. poder-se-ia falar de um excesso imaginário. em especial à imagem de um Ideal Materno. não necessariamente a presença de um supereu arcaico ou sádico. Ao invés da ausência de imaginário que caracteriza as estruturas melancólicas. então. pacifica a rivalidade dirigida ao outro. Compõe-se do conjunto dos significantes que. É nesse sentido que se poderia falar de identificação narcísica ao filho. próprio às neuroses. . mas de um ideal de eu inflexível. tendo como efeito a identificação do eu materno ao objeto filho. no momento em que o desejo se apresenta organizado em torno da demanda de um filho. assim. ao contrário. cuja ocorrência é possível a qualquer mulher. o filho é tomado como falo e representa a recomposição da imagem narcísica da mulher enquanto objeto de amor. A função da identificação edipiana é apaziguar essa agressividade deslocando a sexualidade (o desejo) para outros objetos que não aquele apontado pelo desejo do Outro. A prevalência é da relação imaginária à maternidade. Assim. Como já apontava Helene Deutsch far-se-ia. Assim. E esse deslocamento se faz orientado na via do ideal do eu. A depressão na gravidez pode estar referida. O traço do objeto ideal do desejo do outro – o ideal do eu – é deslocado para o filho. relacionado ao papel materno da mulher. limitar o alcance destas proposições aos episódios depressivos ocorridos estritamente em referência à maternidade. com valor de significante que orienta a construção de uma imagem ideal do sujeito. um deslocamento do ideal do eu para o filho. nestes casos.

extingüindo assim. a castração e o desejo. no laço com o bebê. Isto não se daria. dado o complexo de sensações que provoca. do deslocamento do ideal do eu para o filho. seria o desejo de dar o falo à mãe. (1996: 109) De outro lado. Aí emergem as idéias rejeitadas com repulsa. No plano da narrativa edipiana.) é como horror. Mais uma faceta possível. aparece em sua dimensão carnal. há a vertente em que a mãe se toma..92 se-ia uma imagem pouco flexível deste sujeito mulher. revelando a castração por sua presença real e excedente no que diz respeito ao conjunto de sentidos modulados pelo complexo edípico. sendo o incesto aqui entendido como a liquidação – impossível – do desejo. como insuportável. Um filho que participa da fantasia da mulher no lugar do objeto fálico. em sua dissertação de mestrado. abusado. uma vez que a realidade do filho no ventre. deserotizada. conseqüentemente. Isto se traduz. não podendo ser novamente banido de seu campo de saber. onde o ser mãe equivaleria à possibilidade de ter o falo através do filho. algumas conseqüências clínicas da maternidade para subjetividade feminina. como objeto de satisfação para o Outro. Isso que escapou ao recalque e surgiu para o sujeito como possibilidade. no plano fantasístico. através da súbita aparição da fragilidade da criança. descreve com clareza como o filho tomado enquanto objeto de preenchimento fálico pode produzir horror: (. em fantasia. ou mesmo a perder-se. representado pelo filho. fonte de horror para a mulher neurótica. destruído. Esta também pode ser uma fonte de afetos depressivos na gestação. ocupa o lugar do objeto de gozo – fetiche -. AMARAL (1996) ao analisar. como passível de ser usado. A presença de um objeto em posição de satisfação do desejo incestuoso causa horror. objetificado. de que ‘eu poderia esmagá-lo com as minhas próprias mãos’. objeto de sutura da castração materna. porém. horroriza e apavora. pode fazer bascular o objeto fálico de sua vertente imaginária. Na ocorrência da gravidez real. que a emergência da possibilidade da relação incestuosa com o pai é vivida. no Outro.. O corpo do bebê. Sua manifestação clínica é . sem forte carga afetiva. no entanto. esta imagem ideal tende a sofrer abalos.

.11 Algo exige sem nomear o que quer. indica a presença de um objeto (a imagem da própria mulher) em posição de garantir o gozo do Outro (representado pelo filho). o falo. irreparável. que buscará preencher. pelo efeito superegóico que a imagem do filho exerce sobre elas. de opressão que a função de aleitamento promoveria. Quando aspectos do objeto não representáveis na linguagem aparecem. através da linguagem. É a reinstauração massiva deste Che vuoi? Insaciável que remete à perspectiva de extinção. ela própria. essa falta em sua imagem. pode ser observada na rigidez com que são consideradas as tarefas de cuidado do bebê.) Este filho é agora tomado como pólo de todas as demandas irrecusáveis a que o sujeito–mulher deve responder. causa do desejo do sujeito. que o desejo se instala para o sujeito. Parece possível que tais afirmações se inscrevam na cadeia das idealizações das funções maternais. desaparecimento do sujeito-mulher. o que as enrijece. esgotamento. Mais uma vez utilizar-se a a descrição feita por AMARAL (1996) quanto à este quadro: Ela [a mulher]. aqui. e a si como objeto de gozo daquele. Essa descrição corresponde. Lacan articula o que escapa do jogo especular. no entanto. é um significante inscritível na linguagem. o que não se reflete na imagem narcísica.. demandada por aquilo que ambicionara ter(. tornando-as pouco metaforizáveis. àquela feita por Helene Deutsch quanto às mulheres que adoecem e/ou tornam-se feias na gravidez. Outra manifestação desta tomada de si mesmas como objetos de gozo do filho. por parte de algumas mulheres. pois parecem corresponder ao que Freud designou quanto a melancolia através da formulação de que a sombra do objeto recai sobre o eu. É como busca de um objeto. por exemplo. como objeto a. Sublinhou-se os sentimentos de perda irreparável e irreversível de si. O falo. Ao colocar o filho no lugar de seu ideal de eu. que demandara ter um filho para suturar a falta que reconhecia em si. 11 Grifo da autora . a mulher o toma como Outro. transformadas assim em árduas batalhas. o que se tem é angústia. também.93 permeada pela angústia que. Em relação à amamentação. vê-se. Isto se apresenta na clínica como uma perda-de-si irreversível. (1996:111). é freqüente escutar-se ditos referentes a um sentimento de aprisionamento.

se inscreve na vertente que vai do narcisísmo ao objeto fálico. até o Adendo C de Inibição Sintoma e Angustia de 1926. mas no amor de objeto a esse outro sujeito. até sua queda ou revelação como alteridade. então. A dor psíquica. tomando o quadro o aspecto deprimido. deste ideal imaginário da posição materna. A questão da dor interessa a Freud desde suas primeiras elaborações como se pode observar em sua correspondência a Fliess. são percebidas como dor. fora dos cânones de qualquer ideal. na melhor das hipóteses. estabelecidos pelas experiências precoces de desprazer. um trabalho de objeto. Desde trabalhos como o Rascunho G de 1895.seja do filho como falo. ao luto. É o que se pretende desenvolver no próximo capítulo. A concepção da dor apresentada no Projeto vai percorrer toda sua obra.94 A queda.)a dor consiste na irrupção de grandes Qs [quantidades de energia] em psi”. o qual poderia manifestar-se pela dor e até por certa inibição característica deste trabalho elaborativo. 1977: 408-409). Fica evidenciado que o filho para mãe. Nas abordagens que faz da melancolia e do luto. A presença de dor psíquica nos casos de melancolia.. deixa sempre sublinhada a necessidade de compreensão metapsicológica dos processos de dor como condição para o entendimento mais amplo daqueles fenômenos. e com a complexificação da dinâmica de funcionamento deste aparelho. mesmo com as modificações de suas concepções quanto à tópica do aparelho psíquico..levaria.estranho – talvez represente a concepção do filho na perspectiva feminina tal como apresentada por Lacan – fálica mas não-toda. conduziu esta pesquisa a uma breve abordagem deste tópico. o processo econômico básico relativo à dor permanece entendido como . exigiria da mulher um forte trabalho de luto. nesta formulação. de depressão ou no de luto. Esta queda. o qual permitiria à mulher reinvestir seu papel de mãe. (FREUD. seja da mãe como falo do filho . A idéia subjacente é de que o ultrapassamento de certos limites. “(. estranho. Esta tomada do filho como unheimliche . ou perda imaginária . especialmente pelo que ele pode revelar da relação do sujeito ao objeto. porém seu filho. passando por Luto e Melancolia de 17.

ligação com alto nível de investimento. Esta concepção parece mesmo sustentável como . com a dor psíquica. em seu Adendo C. entretanto. Inibição Sintoma e Angústia. A questão que orienta sua reflexão diz respeito às condições em que a perda de objeto produz angústia e às condições em que produz dor (neste momento a dor é correlativa ao luto). a angústia e o luto. No entanto. e a dor à relação com o objeto. plausivelmente podemos atribuir isso a um fator do qual ainda não fizemos suficientemente uso em nossas explicações – o alto nível de catexia e ‘ligação’ que predomina enquanto ocorrem esses processos que conduzem a um sentimento de desprazer. no que diz respeito ao campo psíquico. referindo esta última ao investimento narcísico. A dor é uma reação à perda do objeto. acarretando um excesso de carga libidinal diante da impossibilidade de inscrever como representações certos aportes do real. nem de outro. No trabalho de 26. incompatíveis com o funcionamento homeostático do aparelho psíquico. A contradição é só aparente se se entender que o alto nível de catexia de uma representação implica o redirecionamento de todos os investimentos laterais para essa representação em foco. Todo desenvolvimento é feito no sentido de mostrar que não se encontrará diretamente na perda do objeto a explicação nem de um. A natureza contínua do processo catexial e a impossibilidade de inibi-lo produzem o mesmo estado de desamparo mental. separa dor e angústia. Freud apresentara uma perspectiva da dor como relacionada ao desligamento associativo ou ao desinvestimento libidinal que aparentemente se opõe a esta última definição da dor como continuidade da catexia. onde é suposta uma hipercatexia das representações egóicas da parte doente do corpo. 1976l: 197). caracterizando um certo modo de fixação. em vez de manifestar-se na forma reativa de ansiedade [angustia]. enquanto a angústia é uma reação ao perigo da perda.95 ultrapassagem de limites. No rascunho G. Uma representação de objeto que esteja altamente catexizada pela necessidade instintual [pulsional] desempenha o mesmo papel que uma parte do corpo catexizado por um aumento de estímulo. Se o sentimento de desprazer que então surge tem o caráter específico de dor (um caráter que não pode ser descrito mais exatamente). (FREUD. Freud compara os processos implicados na dor física. FREUD (1976l) traz importantes distinções quanto às relações entre a dor. Reafirma que as condições econômicas de ambas são as mesmas.

No seminário proferido durante os anos de 62 e 63. Expressões do senso comum como “amo tanto que chega a doer” parecem corroborar esta hipótese. Lacan constrói este conceito para representar o resto. à dor e ao luto. o vazio. no entanto. foi o conceito de objeto a.96 explicação da dor. a seguir. objeto perdido da teoria freudiana. A ênfase dada por Lacan à estrutura linguageira do inconsciente e do desejo se ancora na separação radical entre o objeto da necessidade e o objeto do desejo. real inassimilável às outras duas posições. que se retome alguns aspectos do conceito de objeto tal como propostos na teoria de Lacan. sobre cuja ausência se constrói. e como objeto a. Discutir-se-á. em vários momentos. gestalt antecipatória de uma imagem de si. com a teoria freudiana do luto. via linguagem. como objeto simbólico. Separação que este autor destaca na obra de Freud com o conceito de Das Ding forjado no Projeto (FREUD. pois pode-se observá-la também em situações de investimento amoroso sem perda de objeto. porém condição lógica dos dois outros modos de comparecimento do objeto. ao buscar rigorizar o conceito de objeto a. o por-vir. a falta de uma última palavra quanto à razão subjetiva. como miríade de objeto. 1977). o tratamento dado por Lacan ao Adendo C. . A proposição mais inovadora. funcionando simultaneamente como seu limite e causa. Nesta vertente. Parece necessário. resto da operação simbólica. quando o aborda em seu seminário sobre a Angústia (1996). Além das acepções de vazio e resto. aqui. através dos corpos de ambas (BAUDRY. “estilhaços” de objeto aos quais não se reduz. 1996). Sua concepção se liga à operação de constituição subjetiva na linguagem. destacando da noção de perda de objeto os diferentes estatutos do objeto na teoria psicanalítica. descreve-se como partes destes estilhaços os primeiros objetos (parciais) delineados no jogo de demandas entre a criança e mãe. A partir desta leitura lacaniana examinar-se-á algumas proposições teóricas trazidas por Nazio quanto a este mesmo adendo freudiano referente à angústia. de um eu. o desejo inconsciente. Este é abordado numa tripla dimensão: enquanto objeto imaginário do estádio do espelho. o objeto a é destacável no movimento pulsional. Ao estabelecer a linguagem como campo de surgimento subjetivo será necessário forjar alguma materialidade à causa ou razão desta subjetividade. LACAN (1996) trabalha.

a reconstituição da relação entre a imagem de si como objeto e a falta estrutural a partir da qual o desejo se organiza.. Enquanto no seminário A Angústia a ênfase se dá sobre a vertente do objeto como resto da operação simbólica. 12 Ainda neste seminário Lacan retoma o Adendo C utilizando-se da distinção entre as noções de objeto narcísico e objeto a. 12 . e a impossibilidade de satisfazê-las todas. No plano da constituição subjetiva. No seminário R. a tônica recai sobre seu papel de nodulador dos registros simbólico. ao objeto no trabalho do luto e na melancolia. a presença do objeto a indica. Segundo ele. Esta imagem afasta a angústia proveniente do desordenamento pulsional original.) senão de i(a). enquanto este termo implica a dimensão idealizada que expressei. em R.S. portanto. o árduo trabalho do luto sobre cada traço do vínculo com o objeto perdido reflete a busca de restauração do vínculo fundamental entre sujeito e objeto.I. resultando na impossibilidade de chegar à razão última da própria subjetividade. Esta pesquisa centra-se nas proposições teóricas apresentadas no seminário 10 (A Angústia) tanto em função da ênfase que traz quanto a posição do objeto relativamente à castração.S. Se a angústia é sempre de castração como constatou Freud em Inibição Sintoma e Ansiedade [Angústia]. como pelo tratamento que Lacan dá.S. orientando-o em relação a uma demanda proveniente do Outro. índice. da castração. ou seja. simultanemante. a imagem narcísica do sujeito.. pelo qual todo amor. imaginário e real. alí.I. o que dela resta não simbolizável permanece como objeto a. suporte de uma estrutura gramatical mínima – a fantasia – liga o desejo do sujeito ao Outro. não do objeto a (. está estruturado narcisicamente.. com os quais opera o psiquismo humano. sua presença indicando a separação entre o movimento do desejo e a possibilidade de gozo.97 No seminário de 62-63. e se esta é estrutural na fundação da subjetividade. LACAN (1990) descreve a angústia como provocada pela invasão de real no imaginário. Em suas próprias palavras: O problema do luto é o da manutenção dos vínculos por onde o desejo esta suspenso. a vinculação do desejo do sujeito às demandas do Outro inscritas na linguagem. para estabelecer a diferença entre o trabalho do luto e a melancolia. Lacan teorizará a angústia como ligada à esse objeto – o objeto a –.I. (1996: sessão de 3/7/63). causa de desejo para o sujeito. Essa retificação da teorização sobre a angústia postulada em R. é uma primeira configuração de si como objeto. é devida a ampliação das articulações teóricas de Lacan relativas ao conceito de objeto a . então. Como tal imagem não responde pela totalidade da subjetividade.

Seguindo as indicações freudianas. A ameaça de sua perda é fonte de angústia. mas de A apertar fortemente demais os laços com a representação do outro ausente. se relaciona ao trabalho de luto. o objeto mas enquanto objeto a. Constata com Freud que o que provoca a dor é o intenso direcionamento da libido para os traços representativos do objeto. inicialmente. designação do objeto a teorizado por Lacan. Considera a dor como afeto limite. Nasio propõe uma leitura onde a dor mais do que referida à perda. à luz das observações trazidas pelo Adendo C. de uma tensão pulsional que ultrapassou os níveis de prazer-desprazer que garantiam a homeostase no funcionamento do aparato psíquico. Nas palavras do próprio autor. Por seu caráter de elemento de passagem entre um investimento objetal a ser desfeito e outro por vir. Lacan aponta tratar-se de um ataque à própria imagem visando. Juan David NASIO (1997). cit p. Quanto aos objetos que podem provocar dor quando de seu desaparecimento. “ dor não é pois dor de perder. Esta proposição teórica parece útil para que se compreenda a dor na gestação como um afeto indicativo da mudança na qualidade do vínculo da subjetividade da mãe em relação ao filho como objeto. enquanto a efetivação de sua . etapa prévia ao desligamento libidinal destes. uma distinção entre sofrimento e dor.98 Já na melancolia. e opta por esta última como um fenômeno de maior precisão para o debate metapsicológico.cit. A dor seria a expressão de uma percepção endopsíquica. em seu trabalho denominado O Livro da Dor e do Amor. O autor faz. Atacando a própria imagem visa atacar a inconsistência (ou perda) fundamental do objeto do desejo. porém. a dor recebe no trabalho de Nasio o estatuto de objeto pulsional.36).” (op. e pelas formulações lacanianas conforme apontadas acima. ao discutir o problema da dor psíquica debate as formulações de Freud em Luto e Melancolia. A perda a que se refere o melancólico é a perda fundamental da subjetividade. conforme se buscará discutir adiante. para consciência. O melancólico parece capturado no logro que representa a imagem narcísica. Nasio os qualifica como aqueles cuja presença “nos assegura a indispensável insatisfação” (op.166). p. indicador.

(. apoiado na teoria lacaniana da fantasia. no luto patológico: perda de objeto mais ambivalência. ou mais exatamente o meu eu ideal ligado à pessoa que acaba de desaparecer. Em suas próprias palavras: “O que se perde com a morte do ente querido é. Isso significa que o que se perde é o eu ideal. trabalhando também sobre o luto e a melancolia em seu seminário a Angústia. identificação e ambivalência. Este ponto será desenvolvido no próximo capítulo. através do qual o sujeito se constituiu como efeito suposto de seu desejo (do Outro). suporte da alteridade. os três elementos: perda de objeto. os objetos cuja perda parece insubstituível são aqueles cujos traços se identificam aos de um outro primitivo. 13 Seguindo estas indicações de Nasio.cit. primeiro.” (1987: 308). Embora correspondendo efetivamente à distinção teórica estabelecida por Freud. o Outro a quem o sujeito falta.” ( opus cit. na melancolia. Lacan parece privilegiar a vertente de objeto a do filho Cabe sublinhar que Nasio trata o luto patológico como característico da melancolia em oposição ao luto normal. LAPLANCHE. O recurso à teoria lacaniana relativa aos diferentes estatutos do objeto parece necessário à clarificação da relação da subjetividade materna ao filho como objeto. O autor tende a não tratar a identificação narcísica ao objeto como um processo patológico em si. antes de tudo. poder-se-ia supor que. Não diferencia o luto patológico como cartacterístico da neurose obsessiva. mas o suporte real desse eu. tem-se no luto: perda de objeto. 163). Ainda segundo Nasio. Em seu Seminário 20. Considera que somente quando esta identificação “se dissemina pelo conjunto do eu e se cristaliza sob a forma de uma identificação congelada com a imagem do objeto perdido” (op. 13 . separação que corresponderia melhor ao texto freudiano. que o outro tornava possível. Para Nasio. Segundo Nasio. ou à queda da mãe enquanto objeto fálico para o filho. p. o objeto cuja perda causa dor é aquele que sustenta a fantasia. mas sem identificação com o objeto perdido.99 perda provoca dor. a dor esteja relacionada ou à queda do filho enquanto objeto fálico. na gravidez desejada. a imagem de mim mesmo que ele me permitia amar.. em oposição a melancolia .) Ele não era meu eu ideal. afirma: “Esquematicamente. também no luto. clinicamente é possível observar-se a identificação ao objeto perdido. p..168) o resultado será um luto patológico. O que perdi. é o amor a mim mesmo. a identificação ao objeto perdido seria o terceiro passo do trabalho do luto.

Proposição extremamente perigosa. porém. Nesta última vertente o filho pode remete-la para além do gozo fálico.100 para a mãe. “eu. como mãe. Poderse-ia dizer que a imagem narcísica da mulher enquanto mãe se constrói tanto em referência aos traços de identificação à sua mãe como em referência ao filho. no entanto. sou o que falta a este filho”. ela encontrará como rolha esse ‘a’ que será seu filho” (LACAN. seu papel será de garantir a unidade narcísica.Lacan parece designar ao filho o lugar do objeto que pode responder pelo recentramento da mulher no campo do gozo fálico. . mas presente no imaginário feminino. a imagem fálica da mulher. Como objeto a o filho é. não-toda. a vertente imaginária do filho como objeto fálico. que a faz em algum lugar ausente de si mesma. ausente enquanto sujeito. A não relativização desta imagem pode responder pela dor de muitas mulheres grávidas quando se sentem como não estando “à altura” de ocupar este lugar materno. quer dizer. simultaneamente causa de desejo da mulher e resto não simbolizado de seu desejo. A não aceitação da castração materna e/ou a permanência de uma relação rivalitária à própria mãe. Esta última pode cristalizar-se em afirmações tais como. Se se tomar. pode levar a uma intensificação da relação imaginária ao filho como fonte de traços narcísicos para mulher. 1985: 49). Afirma: “Para esse gozo que ela [a mulher] é. Apesar de um certo mal gosto na metáfora utilizada – “rolha” .

Anjo esperado. como tu. meu sangue foi pasto. mas meu filho. mas teu olho que me encara busca a vida. e ponto de partida. . madeira de barco. LUFT (1984: 103) Mulher no Palco. todas as perguntas. Lya Luft1. homem menino.101 Estranhas Entranhas O terceiro anjo brotou entre meus galhos meu corpo feito árvore. dramaticamente um homem. Meu corpo foi barco. Não tenho respostas: tenho. logo um homem. e a estranheza de ser porto de repouso. 1 L.

podem ser fonte de estranhamento e angústia. como o estranho/familiar unheimliche – freudiano. A presença do filho no corpo da mulher grávida. exige sua presença na subjetividade2. O que corrobora a idéia do filho gestado como um estranho/familiar. É na série do estranhamento despertado pela presença do filho como objeto. as questões relativas ao corpo exigem alguns estabelecimentos prévios. Contudo. pesquisas no campo da genética têm demonstrado que somente 25% das fecundações em humanos resultam em gravidezes. realidade corporal estranha. Estes anticorpos. mas não são citotóxicos in vivo” (1993: 199). sem que sejam claramente percebidas pelas mulheres. A evocação da idéia de um corpo estranho não parece distante daquilo que as mulheres experimentam em alguns momentos da gravidez. aqui. dos afetos depressivos durante a gestação. antes mesmo da nidação.102 Um corpo estranho A condição de desconhecido do objeto real filho e sua gestação na intimidade do corpo da mulher. portanto. ao psiquismo sem mediação da 2 Segundo LERENA (1997). algumas hipóteses podem ser levantadas mesmo no . em presença de complemento. Nada que é do corpo acede. As causas destes abortos precoces são muito variadas e de difícil pesquisa. podem lisar celulas fetais in vitro. O que significa um corpo desenhado por experiências de prazer/desprazer recobertas de sentidos e significações oriundas inicialmente do meio e. pulsional. campo de eleição preferencial deste livro. Interessante notar que mesmo no campo da imunologia o feto enquanto corpo estranho em relação ao corpo materno se reveste de uma estranheza peculiar. portanto. Na psicanálise. Qual o corpo que a psicanálise aborda? -O corpo erógeno. inibindo a reação a ele. que se pretende tratar. tomadas como referenciadoras da particularidade subjetiva. Embora reconhecendo a impropriedade metodológica de articular-se hipóteses de um campo teórico sobre outro. desafiando as regras usuais de reatividade imunológica. porém. posteriormente. Em tôrno de 75% são abortadas espontaneamente. é quase inevitável supor-se que o sistema orgânico vivo da mãe pode “reconhecer” de algum modo este corpo estranho filho. “Cerca de 25% das mulheres primigravídicas desenvolvem anticorpos IgG dirigidos a epitopos do HLA fetal. Como afirmam VAZ e FARIA. circunscrito pela linguagem. porém entranhada no corpo e no eu materno.

) 3.. Desviar. endoidecer. . familiar e estranho.103 linguagem. “roubando”. um alienante do corpo materno. As acepções do verbo alienar.. porém. quando a mãe pode defrontar-se com um sujeito real. A construção simbólica do filho como objeto de desejo da mulher se inicia muito antes da concepção daquele..) numa adoção verdadeira deste pequeno outro como objeto de amor. afastar(... parecem oferecer uma boa visão do estatuto do corpo da mulher quando em gestação de um filho.) 6. simultaneamente. Durante a gestação. tornar alheio.. enlouquecido por esse outro. pelo eu materno.. vitaminas etc. é na condição de mesmo e de outro que o filho se situa no corpo materno. uma primeira fase desta construção parece só se concluir com o nascimento. A ênfase na atenção da mulher às suas próprias necessidades orgânicas é feita.. um corpo cedido a outrem. ao menos parcialmente. e. malquistar(.” (1975: 69-70). e embora a extensão desta construção possa perdurar ao longo da existência de ambos (mãe e filho). para seu desenvolvimento. Indispor. Desviar.) 4. é ali. É necessário sublinhar. o campo das produções teóricas sobre o psiquismo. se utiliza das “reservas” maternas ( hormônios. aprofundando o sentimento de que o bebê (o feto) estaria “retirando”.). “utilizando-se egoisticamente” do corpo da mãe. apartar (. um alheio. Na tentativa de salientar a necessidade de alguns cuidados especiais com a saúde do organismo da gestante é ressaltado o caráter relativamente compulsório com que o feto.o embrião – para que possa ser tomado.. processo que culmina (ou não.... como “corpo próprio”. alhear-se. por vezes.Transferir para outrem o domínio de. no entanto. invariavelmente diferente daquele imaginarizado antes e/ou durante a gravidez. O corpo da mulher durante a gravidez se torna. Segundo FERREIRA alienar significa “1. Parece necessária uma sorte de percepção endopsíquica e um imediato investimento narcísico neste “corpo estranho” . na lingua portuguesa.) 5. Assim sendo.) 2. Algumas metáforas usadas no campo da saúde incidem negativamente sobre este sentimento de estranheza promovendo um aspecto ameaçador da experiência de gestação. também.. estrangeiro. que no psiquismo o corpo próprio só se apresenta como imagem e como exigência de trabalho ou pulsão. Embora esteja se desenvolvendo no corpo da mãe. por vezes.. perturbar(. Enlouquecer. Alucinar. alhear(.

o corpo próprio tem lugar privilegiado por oferecer ao aparelho psíquico sensações de duas espécies: de interioridade e de exterioridade. através do qual o eu se funda. O fato de. O corpo – seja como imagem. experiência de objeto enquanto reflexo da experiência de sujeito promovida pelas pulsões. especialmente graças às experiências táteis. como transformação da pulsão em percepção (interna).. na gestação.. Freud atribui ao corpo o estatuto de objeto por excelência. esse filho foi considerado um dom do Outro. como “(. ainda assim. porém. no imaginário. Em O Ego e o Id (1976e). mesmo nestas circunstâncias. Os efeitos agressivos e rivalitários desta experiência serão mediatizados quando o desejo do filho estiver lastreado além dele próprio e das referências narcísicas da mãe. pode promover um efeito. Nesta segunda tópica freudiana.) aquela parte do id que foi modificada pela influência direta do mundo externo. ceder o corpo a um outro – o filho – pode não ser uma experiência de perda para mulher quando este filho é um dom recebido e retribuído a um homem – o parceiro – aquele por quem a mulher foi desejada na sua condição de semblante de objeto causa de desejo. semelhante ao da experiência especular onde o sujeito se percebe apenso ao desejo do outro. se organiza (se forma) a partir de uma projeção ideativa ou mental do corpo. No campo dos objetos perceptíveis. Freud discute a formação do eu à partir do id. o eu. Dito de outro modo. o que indica que. instância psíquica mediadora da busca de satisfação das moções pulsionais e das exigências culturais fixadas em ideais. a mulher ver-se alheada parcialmente de seu corpo. não é como amada que a mulher gesta um filho e. Algumas vezes. no texto que ora se aborda. mas como antecipação gestáltica de uma superfície limite entre externo e interno. sede das pulsões. As relações entre o que é relativo ao corpo e suas implicações no eu. ou seja. não como corpo biológico. foram tratados por Freud em vários momentos de sua obra. por intermédio do [sistema] Pcpt-Cs(. e amada.104 corpo real já é fonte de estranhamento independente da presença desse outro corpo – o do filho – cuja presença implica em mais estranhamento. aqui serão destacados seus apontamentos na segunda tópica .. cede amorosamente seu corpo a ele. como pulsão associada à linguagem. seja como fonte de .) (1976e: 39). A matéria sob a qual se constrói esta superfície é tratada.. inserida no sistema de sentido por sua participação na linguagem. conjunto de traços das primeiras experiências de objeto.

finalmente. No Projeto. Daí se deduz que a coincidência entre essas duas catexias se converte num sinal biológico para pôr fim à atividade do pensamento e iniciar a descarga.. Nas palavras de FREUD: Assim.. No desenvolvimento do conceito de objeto algumas linhas se mantêm vigorando desde os primeiros esboços desta noção no Projeto. surge o impulso para a atividade do pensamento. passam pelo processo de juízo afim de que a descarga possa ser autorizada. cuja função é orientar as novas excitações através das facilitações e inibições. 41). O julgamento só sendo dirigido às segundas. (1977: 434). de 1920. a segunda. representado como catexia num grupo de neuronios) e a percepção.. sua conformação implica em partes estáveis (coisa) e partes cambiáveis (atributos). numa situação d0e desejo: uma primeira.cit p. seja o da percepção. O objeto aparece.. o ego é postulado como uma organização entre neurônios catexizados. Freud afirma neste artigo que o eu é “primeiro e acima de tudo um ego corporal “(op. Quando as duas catexias não coincidem. tanto os traços do complexo perceptivo. Quanto ao complexo do objeto.. Assim. criada pelas experiências primitivas de satisfação e dor. Freud descreve três confrontos possíveis entre a memória e a percepção. juízo é um processo “psi” que só se torna possível graças à inibição exercida pelo ego e que é evocado pela dissemelhança entre a catexia de desejo de uma lembrança e uma catexia perceptiva que lhe seja semelhante. ali.105 sensações – dá conformação ao eu.. a terceira situação onde não haveria nenhuma identidade entre os traços do objeto percebido e aqueles da satisfação primeva . respectivamente – fora esboçada em 1895 e depois retomada no capítulo IV de Além do Princípio do Prazer. como do complexo mnêmico. que voltará a ser interrompida pela repetição da coincidência. onde haveria identidade entre ambas. onde a parte núclear permaneceria idêntica restando o trabalho de encontrar possíveis identidades nas partes variáveis e. como o que se constrói entre o traço de memória (neste momento. A dupla vertente do objeto – coisa e atributo – bem como seus efeitos no psiquismo – exigência de trabalho e trabalho de vinculação. seja o da memória. até as obras posteriores a 1920. possibilitando ou não a descarga.

A repetição .. as experiências como as dos sonhos traumáticos. FREUD esclarece este processo nos seguintes termos: (. entretanto. então.sempre idêntica – revelando a pouca possibilidade de ligação (e. No polo oposto encontra-se a pulsão e seu “influxo de energia” inundando o aparelho e exigindo o máximo de vinculação. maior parece ser a sua força vinculadora. o mínino de vinculação fazendo tela à angústia da desorientação frente a irrepresentabilidade das forças que acossam o aparelho.106 transformados em memória. em cuja ausência sobrevém. Para que o filho possa. aos limites. ou.) Quanto mais alta a própria catexia quiescente do sistema. nos dois polos de funcionamento do aparelho psíquico. Nestas experiências se observa o limite do sistema de vinculação. FREUD (1976c) busca expandir. Para fundamentar a pulsão de morte. independente do princípio do prazer. a angústia. Como afirma CORRÊA (1994) em seu artigo Revisão do Conceito de Objeto em Psicanálise. por implicar em mais trabalho (maior produção de pensamentos) no sentido de buscar vias de identidade que permitam a descarga da tensão do desejo. (1976b: 46). a entre coisa e objeto.” (1994: 23). não se confunde com as formações do inconsciente. e no qual as experiências como as dos sonhos traumáticos. dado o caráter totalmente inusitado desta experiência. inversamente. as possibilidades de regência do psiquismo pelo princípio do prazer. e sua profunda implicação no corpo/eu da mulher. Freud destaca o maior ganho psíquico neste último caso. de descarga). Parece possível pensar-se que o filho gestado (especialmente o primeiro) se encontra para subjetividade da mãe nesta terceira categoria. quanto mais baixa a catexia. portanto. dos jogos de repetição infantis “ brem caminho para o estudo de formações cujo estatuto. No trabalho de 1920. também. entre corpo e psiquismo. dos jogos de repetição infantis e da própria transferência. Esta última está. conseqüentemente.. reafirma o psíquismo como um aparato cuja competência essencial é a da vinculação de estímulos (externos e internos). ser compreendido numa . indicam a repetição como meta. menos capacidade terá para receber o influxo de energia e mais violentas serão as conseqüências de tal ruptura no escudo protetor. a temática da constituição dos objetos no psiquismo é retomada no contexto da reteorização das pulsões em pulsões de vida e pulsão de morte. Nesta via.

o da nossa experiência comporta que é esse objeto. que se trata de reencontrar. enquanto o Outro absoluto do sujeito.filho para mulher.. Das Ding – e salienta sua posição de exclusão e seu papel imantador. Sendo a coisa a parte do objeto que não suscita pensamento. É bem verdade que Lacan retoma esta noção apresentada no Projeto... LACAN (1988).. um ugar de substituto privilegiado de Das Ding. no entanto. das Ding. neste sentido. ou seja. Nas palavras de Lacan: (. Fremde. nuclear na constituição de todo movimento desejante pelo qual se caracteriza o aparelho psíquico. (. tornando-se.) O Ding como Fremde. é em torno do que se orienta todo encaminhamento do sujeito... Parece possível. porém impossível. isolado pelo sujeito em sua experiência do Nebenmensch [semelhante] como sendo. .. (. empuxo à representabilidade. em todo caso como o primeiro exterior. como se pode observar na citação apresentada na página 99. a de objeto causa de desejo. O próprio l Lacan destaca este privilegio do objeto. A experiência do excesso – por uma revisão da loucura dos artistas.107 perspectiva que ultrapasse a de um sintoma da mulher.) o Ding é o elemento que é.. causa. sua retomada no plano do desejo o ressitua como objeto a ser reencontrado. analisando a noção de das Ding. quando. a noção de objeto como portador de um núcleo resistente à representação parece de grande valia. no seminário sobre a Ética da Psicanálise. CORRÊA (1998) ressalta o importante passo de Lacan. estranho. na linha proposta por Freud em mais Além do Princípio do Prazer. retoma esta vertente do objeto – a coisa. enquanto objeto da subjetividade da mãe.mas como núcleo afetado pelo significante. o propõe não só como núcleo irrepresentável . Em sua tese de doutoramento. considerar-se que um filho ocupa.núcleo coeso . por sua natureza. em seu seminário sobre a ética da psicanálise. sua localização é anterior à ordenação da subjetividade em torno da busca de repetição das experiências de satisfação. (1988: 68-69). estranho e podendo mesmo ser hostil num dado momento.) O mundo freudiano. para com ela distinguir uma das vertentes do objeto. originalmente. Assim.

a recepção destes adventos parece comocionar inevitavelmente o sujeito em questão. uma vez que a maternidade não se constitui. Se o corpo é em princípio potência (e não força pré-direcionada). Mesmo antes de ser compreendida pela metapsicologia como elemento pulsional. Isto pode ser observado desde as concepções de 1895. no Projeto. Na teoria psicanalítica a análise do afeto se faz vinculada à sexualidade. Todas as construções mentais que a mãe possa fazer quanto ao filho gestado (e mesmo o nascido) ou quanto a si como mãe serão díspares em relação às suas experiências primárias. seu tratamento esteve ligado a um raciocínio econômico relativo à sexualidade e à formação de sintomas. Sua abordagem não corresponde às concepções psicológicas dos afetos.o que restringiria este afeto a um prazer narcísico . especialmente. exclusivamente.mas. E o estranhamento parece ser uma das faces desta comoção. que fazem bascular o filho de sua posição fálica em relação a subjetividade materna.108 Acredita-se que o trabalho de elaboração que um filho objeto de desejo traz à subjetividade materna encontra-se na categoria descrita acima. portanto. Acredita-se que isto se deva não só ao fato da mulher estar gerando um complemento fálico . como uma experiência de total reorganização subjetiva. no campo psicanalítico. cujas possibilidades de produção estão nele sob a forma de virtualidades e cuja presentificação reordena (ou renova) toda a subjetividade (BORGES 1996). onde as experiências de prazer e desprazer são concebidas . a dúvida. ao saber que o filho gerado pode ser tomado como outro. Resta ainda discutir-se como esse complexo objetal – o filho – pode ser fonte de estranhamento e como isto pode produzir dor ou um afeto deprimido. Além disso. o estranhamento. exigência de vida ao corpo e à subjetividade materna. O acesso a essa alegria pode passar. Estranhos afetos A questão do afeto é delicada e fundamental. como diverso. não é só como alienante que o filho ocupa o corpo da mãe. no entanto. O afeto está mais ligado à idéia de transformação do que de expressão. como uma experiência de satisfação. pelo susto. mas. nem dos sentimentos. e. É luminosa e indescritível a alegria com a qual esta experiência pode ser vivida. exigindo intensa elaboração psíquica.

“sinal” indicativo. a angústia do nascimento ou desamparo toma valor. O afeto foi tratado nos artigos metapsicológicos como um representante pulsional paralelo ao representante ideativo. que pensar o afeto como inconsciente seria incompatível com a sua função psíquica. Como Freud sempre insistiu que todo desenvolvimento da sexualidade e. Sintomas e Ansiedade [Angústia] (1976l) Freud faz uma diferença entre angústia automática e angústia como sinal. retroativamente. na consciência. este esteve sempre associado à angústia. porém. no artigo O Inconsciente. estavam ligados à angústia de castração (perda dos representantes fálicos). Já em LACAN a questão do afeto é tratada exclusivamente como angústia. da história das construções sintomáticas e transformações subjetivas. retroativamente. fornecedor de sentido no plano da consciência. ainda como uma reação do eu. na psicanálise. qual seja.passa a ser o protótipo das experiências de angústia subseqüentes. Reafirma ainda esta posição em O Ego e o Id. fosse difícil ou impossível. paralelamente a esta. até as proposições de 1926. portanto. ali. Na segunda tópica. De modo sintético poder-seia afirmar que em grande parte da obra de Freud a angústia esteve articulada à idéia de transformação da libido quando represada a sua satisfação. Outro aspecto importante quanto à questão do afeto é que. quando a angústia é concebida como afeto por excelência. afirma que a angústia é a experiência essencial do sujeito em relação à sua contingência na linguagem. a pressão pulsional. Indica. como experiência afetiva que se reedita na angústia de castração. Em seu seminário de 62/63 A Angústia (1996). uma outra concepção se configura. responsável pela transformação em consciência da parcela quantitativa da pulsão não associada aos traços de palavras. A angústia como afeto fundamental . Na discussão que FREUD faz sobre o tema. do desejo inconsciente. a de revelar. A segunda (angústia como sinal). teria a função de deflagrar movimentos defensivos que pudessem impedir o desenvolvimento da angústia e o conseqüente colapso das funções do eu. sendo . parece deixar clara a sua conexão com a instância da consciência.109 como delimitando a complexificação do aparelho psíquico.experimentada no nascimento através do sentimento de desamparo . Em Inibições. correspondendo a primeira à manifestação ou reação do eu diante de um afluxo pulsional intenso cujo ordenamento pela linguagem.

se o articule à angústia. o estado de estranheza. este amplia ainda mais a constatação de que a incerteza intelectual quanto à vitalidade dos objetos é fonte de estranheza e a aproxima da vida emocional infantil quando freqüentemente se atribui vida a objetos inanimados (brinquedos. parece contribuir para o sentimento de estranheza. luto ou dor psíquica. com suas transformações corporais observáveis e/ou sensíveis. quanto a esse objeto que portam em seus corpos. e há muito familiar. como se buscassem alí a garantia desta vitalidade. seja dos defeitos do eu. ou se um destes estados aparenta o seu oposto (algo vivo parece morto ou o contrário). o cerne da experiência psicanalítica. Um parêntese parece necessário: nada mais próximo do que experenciam as gestantes em relação à vitalidade do feto. Ainda em reparo à proposição freudiana Lacan afirma que a angústia “não é sem objeto”. através das manifestações do destacameto do objeto a. Se o objeto tem vida ou não. parece mesmo necessário que. isto é. oferecendo-lhes uma sorte de certeza intelectual afim de minimizar. um aspecto que permite associação com a relação mãe-filho: freqüentemente o bebê é associado às . ao tratar-se psicanaliticamente de um afeto.) aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido.110 também. portanto. O objeto da angústia é esta imagem em queda desvelando a castração ao fundo. A gestação. provocado pelo narcisismo primário. Quanto ao artigo de Freud. Este afeto é tomado aqui. que a angústia é o afeto evocado quando uma imagem subjetiva (imagem do sujeito como objeto do gozo do Outro) resiste à sua queda. Na segunda parte deste artigo Freud parte das constatações de Jentsch sobre os aspectos psicológicos do estranhamento e dá destaque à incerteza intelectual quanto à vitalidade de um objeto como uma condição particularmente favorável para a evocação daquele sentimento. por parte das gestantes.. à criação de um duplo imaginário. novamente. sede. Isto pode ser observado no aumento considerável da demanda por ultrassonografias. como “(. seja nas suas vertentes de estranhamento. de angústia. Articula este processo à clivagem do eu.” (1976b: 277). Lacan considera. frente à pressão pulsional que insiste na exigência de novas representações. ao menos temporariamente.. seja de perfeições. na perspectiva apresentada por FREUD em 1919 em seu artigo O Estranho. Assim. seja de modo direto. Aqui. são questões que provocam estranheza. de velho. neste seminário. por exemplo).

o da instabilidade no campo material .. o questionamento é quanto a estabilidade de algo da realidade psíquica. assim. e aquela originada no retorno de complexos infantis recalcados. é a própria referência subjetiva simbólica que se desestabiliza com o retorno do recalcado.. Após o processo de recalcamento dos atributos do eu estabelecidos num duplo. o que é fonte de angústia.)”. Implica numa repressão [recalque] real de algum conteúdo de pensamento e num retorno desse conteúdo reprimido [recalcado]. este faz. então. a questão da realidade material não surge. Freud busca distinguir as fontes específicas deste sentimento. são geralmente chamadas na infância de “boneca”). não num cessar da crença na realidade de tal conteúdo (1976b: 309) Parece possível supor que. desorganiza o sistema de referências egóicas podendo provocar a sensação de desamparo e estranheza.o abalo se dá em relação às crenças do sujeito: opera-se uma alteração no campo do sentido a que o sujeito está referido. facilmente a ocupar o lugar de duplo materno. o seu lugar é tomado pela realidade psíquica. o traço de seu retorno é.111 bonecas da infância – são bonecas com vida -. mas nem todo recalcado retorna associado ao sentimento de estranheza). vivido com estranheza. a não universalidade desta ocorrência (todo estranhamento advém de material familiar que sofreu recalque. o abalo se dá no campo material dos fenômenos. No a primeiro caso. ao passo que no segundo. é vivida como perda – perda da mobilidade simbólica. prestando-se. uma separação entre a estranheza oriunda de um abalo na crença de algum aspecto da realidade. Quando o estranho se origina de complexos infantis.(as meninas. especialmente. daí uma possível semelhança com os processos de melancolia e de luto. O retorno de traços identificatórios recalcados ameaça cristalizar o sujeito em certas significações. Constatando. No segundo caso. Voltando ao artigo de Freud. no primeiro caso . alí. da multiplicidade de possibilidades de comparecimento subjetivo. e o que se desorganiza (parcialmente) é a orientação do sujeito no simbólico. Sua outra face. por vezes. Atribui a esta instância simultaneamente crítica e ideal a posição de sucedâneo do duplo narcísico infantil. o . Faz. A repetição involuntária de um traço infantil recalcado. porém. Afirma que em ambos os casos “ coisa toda é simplesmente uma questão de ’teste de realidade‘(. Parece possível conceber que uma face da experiência do estranhamento. uma correlação com o que virá a ser na segunda tópica o supereu.

que a mulher contacta com a experiência deste objeto privilegiado: o filho. torna-se presente na consciência. ocorre uma quebra na estabilidade de certos aspectos narcísicos. Enfim. constatou que. o traço da gestação com suas experiências de estranhamentos e enigmas. parece. sede de inúmeras transformações. as marcas corporais deixadas pela gravidez ( estrias. e de materialidade também estranha porque radicalmente outro. “meu peito diminuiu “ ou “aumentou”. A mudança no plano corporal parece representar. digam respeito a alterações no cerne do eu da mulher que. O sentimento de estranheza aparece na fala de gestantes tanto em referência ao corpo. como a realidade subjetiva.) eram apresentadas como registros de uma ascese da mulher a um status de mulher adulta. Embora só em algumas gestantes se possa obsevar . Uma espécie de proximidade da coisa – das Ding – essa ausência da razão última. cicatrizes. como à subjetividade. Este investimento de atenção e libido sobre o corpo em transformação significa um reinvestimento narcísico. são fontes de estranhamento por suas rápidas transformações.112 estranhamento proveniente das alterações na “realidade material”. convocar ao trabalho psíquico na busca de encontrar traços de identidade com a “realidade psíquica”. mudanças corporais ocorridas após a gravidez – “meu cabelo ficou mais liso” ou “mais crespo”. seja como afastamento desta. e a ênfase não é propriamente no resultado. mas na mudança em si. expressos através da referência às mudanças corporais. há um discurso que aparece quase sempre como queixa. mesmo sem o caráter de queixas. passando a protagonista. Ainda que a mulher retorne à forma física semelhante àquela anterior a gravidez. esse núcleo enigmático da essência humana. deslocou um de seus eixos de orientação subjetiva: a condição de mulher-filha. que o corpo ”nunca mais voltou ao que era”. Estranho porque fálico mas não-todo em relação à subjetividade da mãe. outras vezes são apontadas.. manchas etc. serviam como signos de um ideal (social. porém. etc. Acredita-se que tais sentimentos. saindo de sua posição de fundo.. entre as mulheres entrevistadas para aquele estudo. também vivido com angústia. pela gestação. PAIM (1998) em seu estudo etnográfico Marcas no corpo: gravidez e maternidade em grupos populares.. de palco. para a condição de mulher-mãe. O corpo feminino. Seja como realização de uma imagem idealizada. para o conjunto do eu. no caso) de maternidade atingido. é como se fosse dito “não sou mais a mesma pessoa”.. No caso da gestação tanto a realidade material – o corpo da mulher grávida – .

De um lado. A radicalidade da experiência de gerar no próprio corpo este ser de pura diferença. A presença do filho como corpo estranho associada à pregnância dos aspectos etogramáticos que as transformações corporais da gravidez representam. parece marcar-se na subjetividade feminina através de um assustador sentimento de inexorabilidade ligado à condição materna. mesmo que seja imediatamente reavida.113 quadros de profunda desorganização mental com perda de referência subjetiva. Estes efeitos são . o advento da maternidade tem efeitos definitivos sobre a subjetividade feminina. Longe de ser um episódio biográfico pareado a outros. nos quadros de depressão pós-parto. Autoras como BENHAÏM (1992) e AMARAL(1996) descreveram o sentimento de irreversibilidade da maternidade como fonte de angústia na gravidez. à experiência de estranhamento. não contém qualquer elemento natural. Indicação de sua posição fálica excessivamente imaginarizada. surge uma posição inalcançável. ocorrerá quando do nascimento da criança. freqüentemente. Quando a mãe perde seu filho. porém. esta dúvida refletie o temor de extinção do desejo que a posse do filho traria. A certeza antecipada quanto ao desejo parece vacilar na iminência de sua realização.O estado de mãe é irreversível. aparecendo. De outro. ainda. por parte da gestante. 1992: 89). Estranhar. porém. Quando a mulher toma contato com o fato de estar grávida – mesmo nas gravidezes muito ansiadas – ocorre. um sentimento de susto seguido da dúvida quanto ao desejo de ter um filho. a dúvida liga-se à radical alteridade de que se reveste o filho como objeto. do seguinte modo: A passagem do estado de mãe ao estado de nãomãe não pode se realizar. (BENHAÏM. aquela do retorno impossível. A regressão (mãe–>não-mãe) não se realiza no psiquismo. Acredita-se. em uma direção bastante diversa da beatitude apontada por Freud. O susto e a dúvida parecem também indicar que não é só como falo que o bebê é esperado. na maioria das gestações pode-se constatar algum período de desorientação da mulher quanto à sua potencialidade simbólica. levam em maior ou menor grau. uma prática feminina. que se esta experiência não ocorre durante a gravidez. possívelmente.

a interdição do incesto bem como sua aspiração se organizam em torno da idéia de mãe enquanto origem e objeto perdido. fonte dos processos metonímicos e metafóricos de articulação do desejo.. também. . Por outro lado. vivido imediatamente após a chegada do primeiro filho3. Podem também. se apoiar (não no sentido de determinação mas de suporte) nas mudanças corporais da gestação.114 comumente relatados como sendo da ordem de um sentimento de irreversibilidade. julga-se que tais sentimentos podem iniciarse durante a gravidez.. Importa ressaltar que em toda extensão da psicanálise o filho é tido como um objeto privilegiado do desejo da mulher. podendo a excessiva pregnância imaginária de um objeto levar à paralisia do desejo (fonte de agressividade para o sujeito. Nas obras dos mais diversos autores – inclusive na de Lacan – o filho é tomado como o equivalente fálico natural. O sentimento de irreversibilidade da condição de mãe. para a mulher. Retomando a questão da dúvida quanto ao desejo do filho. sem retorno. no sentido descrito no subcapítulo anterior. todavia. do pênis para o homem. (AMARAL. Como salienta LACAN no Seminário 7: 3 Em função dos dados clínicos que orientaram a presente pesquisa. é próprio à sua natureza a discordância. com seus traços permanentes. denotando que algo está definitivamente modificado. ou mesmo. parece. diante desta vinculação quase absoluta da subjetividade da mãe à do filho. 1996: 91-92). Sendo o falo um significante e não um signo. na vida da mulher. poder-se-ia considerá-la como inerente à própria lógica fálica que rege (parcialmente. As ocorrências no plano do corpo biológico parecem deixar traços psíquicos de irreversibilidade que se reinscrevem como traços simbólicos nas mudanças da imagem do corpo. aparecer sob uma forma de estranhamento.) o desejo. as quais correspondem a mudanças na gramática fantasmática da mulher em vias de tornar-se mãe. uma vez que o objeto fálico é sempre um substituto do objeto original (ou natural) ausente. angústia. na mítica individual prevalente na clínica psicanalítica. como descreveu Lacan).

O estranhamento seria um indicador deste caráter do objeto filho para a subjetividade da gestante. Lacan retoma a questão da divisão sexual não como complementaridade. com Lacan. Parece afirmar que o analisável é o que está adstrito à ordem fálica. Se em Freud a diferença sexual só se inscrevia no inconsciente como positividade instaurada pelo falo – o que respondeu bem à lógica subjacente às produções masculinas -. não estando submetido a ela. Ainda. ver-se-á a postulação da lógica do não-todo fálico para as mulheres. porém. (1988: 86) Lacan. agora. nenhum submetendo-se a ela por inteiro.que se quer abordar.. de das Ding. ou seja. no caso feminino.a do nãotodo fálico . da gratificação e da dependência não é senão um imenso desenvolvimento da coisa materna. Em seu Escrito de 1960 – Idéias Diretivas Para Um Congresso Sobre Sexualidade Feminina – LACAN se pergunta “se a mediação fálica drena tudo o que pode manifestar-se de pulsional na mulher. a universalidade é contraditada pela contingência.. O caráter mítico da formulação masculina é revelado por uma outra lógica que aponta não haver nenhum falante não submetido à castração. e principalmente.115 (. da mãe na medida em que ela ocupa o lugar dessa coisa. ainda. Enquanto na vertente masculina a universalidade fálica é sustentada por um elemento (pai primordial) que. que a divisão sexual apontaria para uma ordem sexual além da fálica. o estatuto do filho para mulher. redimensiona o valor do falo na economia do desejo quando lhe atribui um estatuto de significante e. Nestes seminários do início da década de setenta. mas que nem todo o sexual seria accessível à análise. 4 Tradução da autora. faz o limite do campo. mas como dissimetria e suplementaridade. porém já aponta o que será formalizado em 72 e 73 em L’ Etourdit e Mais. Propõe como solução estabelecer-se que tudo o que seja analisável seja sexual. toda corrente do instinto materno”4 (1995b: 709). . É nesta outra via do desejo . quando postula o desejo feminino como referido ao falo mas não-todo.)tudo o que se desenvolve no nível da interpsicologia criança-mãe e que expressamos mal nas categorias ditas de frustração. todavia.

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Sendo a realidade subjetiva regida pela lógica do significante, a positividade da vertente masculina estaria na sua condição de sujeito representado entre significantes, referido à possibilidade de ocupação do lugar de falo simbólico. Dito de outro modo: face a abertura do campo da linguagem e a ausência de um significante demarcatório da diferença sexual, a afirmação identificatória mínima do humano só poderia se fazer na afirmação da condição de sujeito da linguagem. Na tábua da sexuação construída por Lacan no Seminário 20, do lado do masculino é que se encontra o sujeito cindido entre significantes e o falo simbólico. A constituição de seu desejo dependeria, no entanto, da articulação a um objeto (a) situado alhures. Trata-se da construção da fantasia onde o objeto é revestido de uma expectativa de complementaridade, impossível em realidade. É no outro lado da tábua da sexuação que se localiza este objeto - no campo do feminino - o que afirma a mulher como sintoma do homem. Quanto à vertente feminina da sexuação, sua referência não seria o sujeito, mas sua causa – a ausência de um significante totalizador da linguagem – representada no destacamento do objeto (objeto a). É dúplice, portanto, a face feminina da sexualidade: ora objeto causa do desejo masculino (posição que a mulher só ocupa como semblante), ora afirmação vivida, porém não dizível, de tudo que excede a possibilidade de simbolização. Segundo LACAN, para a mulher que “por sua essência ela não é toda”(1985: 98), não haveria universalidade possível. Seu gozo é “para além do falo (...) Há um gozo dela sobre o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe” (1985:100). Lacan aproxima este gozo suplementar da mulher à experiência mística. A positividade do gozo feminino se revelaria no endereçamento de sua realidade ou ‘identidade” para além do significante fálico, portanto, para além do que a língua pode expressar. O feminino seria, então, da ordem da experiência que faz empuxo ao dizer. Sobre essa questão, VILTARD (1996), ao final de seu verbete sobre o Gozo no Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, se pergunta sobre onde a mulher ancoraria seu pouco de ser uma vez que não seria como sujeito que ela encontraria sua referência feminina. Reafirma , então, a posição expressa por Lacan em dois seminários já avançados em sua obra – Mais, Ainda (1985) e RSI (1990) -, onde os filhos, enquanto objetos a, são designados como a referência por excelência da mulher no feminino.

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Em seu livro Variáveis do Fim da Análise, SOLER (1995) analisando a posição do filho na teoria de Lacan, se refere à carta enviada por este a Jenny Aubry, onde afirma “é dado a uma mulher como mãe, o que não é dado a nenhum homem, ver aparecer no real o objeto mesmo de sua existência” (LACAN, apud SOLER, 1995: 131). A autora destaca que o filho é, na teoria de Lacan, um objeto real, destacado do corpo da mãe, objeto cuja “ereção de vivente” só é alcançavel pela mãe; seu ser presentificando a causa de desejo parental como impossível a dizer. Soler sublinha uma diferença entre a mãe na teoria de Freud e na de Lacan: A mãe freudiana é a que obtém o substituto do falo sob a espécie de criança. Nesse texto, Lacan não fala do substituto do falo, mas de uma espécie de presentificação real do mais impossível de dizer. Poderíamos então muito bem desenvolver as diferenças entre a mãe freudiana e a lacaniana; esta última distingue-se da outra, não só porque vale por seu desejo e não por seu amor, mas também porque tem a mais um acesso ao real, fato não sublinhado por Freud.” (SOLER, 1995: 131).

Assim, a maternidade para o feminino, em Lacan, parece revestir-se de importância especial. Tomando-se sua afirmação no seminário 20 de que o homem só se remete à divisão sexual orientado pela castração ao passo que a mulher só o faz enquanto mãe, e que o filho como objeto a é o que vem barrar o gozo excêntico desta última (LACAN, 1985), pode-se compreendê-la tanto na perspectiva de que é o filho que centra a mulher no campo das possibilidades discursivas, mas, também, como sendo ele – o filho – o limite, e assim, uma forma de “lembrança” ou “testemunho” dessa realidade além do significante que o feminino experiencia. Quanto ao fato de o gozo feminino não se positivar senão como experiência, parece útil utilizar-se, aqui, a noção de experienciador apresentada por Corrêa em sua tese de doutoramento. Ancorada na concepção lingüística de que papeis semânticos universais se inscrevem como competência dos falantes, destaca um, apresentado por Ray Jackendoff, que é o beneficiário ou dativo ético no qual o indivíduo se encontra na posição de acolher um evento que a ele se dirige. Preferindo a nomenclatura experienciador, a autora a põe em paralelo com as

noções de agente e paciente. Em suas próprias palavras: “ e o agente faz e o S paciente sofre, o experienciador acolhe, deixa que por ele passem as linhas do acontecimento”. ( CORRÊA, 1998: 53). É nesse sentido que a particularidade da

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experiência da gestação no corpo da mulher lhe franqueia o acesso a um gozo especial, não-todo fálico, estranho ao universal da ordem masculina. Se a produção de objetos no campo dos significantes – no campo da lógica fálica – serve à produção de discurso e ao liame social, a experiência da maternidade parece inscrever cada mulher que dela participa, no limite entre o definível e o indefinível, entre o dizível e o indizível de si mesma e de seu gozo. É neste aspecto que parece articulável o gozo feminino e a experiência do estranhamento.

A dor da qual por vezes se recobre essa experiência pode ser entendida na extensão do masoquismo erógeno compreendido como estado fundamental do aparelho psíquico face a pressão pulsional, uma das leituras a ser depreendida do artigo freudiano O Problema Econômico do Masoquismo (FREUD, 1976j). Ali,

Freud, tentando compreender como a dor poderia ser compatível com o princípio do prazer, retoma a proposição que fizera nos Três Ensaios..., onde afrima que em um grande número de processos internos a excitação sexual sobreviria como efeito do aumento, além de certos limites, das intensidades de excitação envolvidas. Amplia, ainda, esta argumentação, associando os processos de sadismo e masoquismo à “parcelas” da pulsão de morte que, transformadas em agressividade e destrutividade seriam dirigidas para fora ou mantidas associadas à libido, respectivamente. Descreve o masoquismo, então, como uma das faces da organização pulsional onde o sujeito aparece submetido, como objeto, do desejo de outrem (ser devorado, ser espancado, ser copulado). O que parece fundamental, entretanto, é que Freud admite, neste artigo, a existência de um masoquismo primário. Se se compreender esta operação de associação da pulsão de morte à pulsão de vida e o trabalho desta última como a vinculação ou busca de representabilidade para pressão pulsional, parece esclarecer-se que o masoquismo erógeno ou primário seja a condição básica da estrutura subjetiva. O modelo para pensar como doloroso todo contato com o aspecto real (não representado) do objeto pode ser formulado mediante a experiência do desamparo (Hilflosigkeit) provocada pelas pulsões - “agressão dolorosa por um corpo estranho interno” ( LAPLANCHE apud ANDRÉ, 1996: 113) – sem que a criança disponha de aparelhos mínimos de organização fantasística para fazer face às excitações endógenas.

se o filho for tomado como esse objeto “estranho” que faz “exigência de trabalho” ao psiquismo materno. pode-se considerar que sua presença possa evocar uma forma de “dor”. A dor da convulsão subjetiva provocada por sua presença de objeto que ultrapassa em muito ao falo. .119 Assim.

119 Considerações Finais “ (.. variantes. sofre correções. tarô após tarô.) Não sei há quanto tempo (horas ou anos) Fausto e Parsifal se dedicam a retraçar os seus itinerários. Mas cada vez que se inclinam sobre as cartas sua história se lê de um outro modo.(.. sobre a tábua da taverna.)” Italo Calvino 1 1 I...: 123. P. ressente-se dos humores da jornada e do curso dos pensamentos. . CALVINO (1993) O Castelo dos Destinos Cruzados. oscila entre dois pólos: o tudo e o nada.

bem como a melancolia e o estranhamento. da perturbação. com isso. restrita a algumas formas de organização psíquica. dentro da própria psicanálise. no contexto do complexo de Édipo. exigiu recortes e. portanto episódico e circunstancial. Desde o princípio deste trabalho pareceu necessário distinguir dois planos nos quais a depressão na gravidez se insere: um o da “psicopatologia”. sem sombra de dúvida. Assim. busca-se explicá-la como uma ocorrência possível. Entretanto. tendo-se trabalhado apenas alguns aspectos tanto d’uma quanto d’outra visada. No primeiro plano. trata-se de descrevê-la sob a ótica do conflito. Parece importante que se enfatize. portanto. o outro o da “normalidade”. esperada. algumas linhas com as quais se esquadrinhou o problema. A perspectiva desta pesquisa é de que. Tendo Freud discutido a questão da maternidade em relação à organização da sexualidade psíquica. Mais uma vez. Em ambas há uma exacerbação da experiência de submetimento. Depressão na gravidez e masoquismo erógeno parecem ligados enquanto experiências subjetivas que articulam sexo e sexualidade. formam o núcleo da abordagem desta pesquisa. de uma ampla gama de aspectos constituintes. parece situar-se no âmago da experiência feminina da gravidez. por outro.120 O quadro clínico “depressão na gravidez” compõe-se. destacando que se reconhece a possibilidade de tratá-lo em outras direções conceituais. se por um lado. a dor psíquica (depressão) na gravidez é percebida como algo sintomático. no segundo. implicou riscos de imprecisões. o tempo disponível para confeção deste trabalho só permitiu que essas diferenças fossem apontadas. então. fez com que a teoria de Freud fosse o eixo central em torno do qual se problematizou a questão.quanto à pressão biológica da natureza reprodutiva do sexo. inerente mesmo à sexualidade feminina. suas considerações quanto à maternidade apontavam para uma experiência adstrita ao eixo narcísico-fálico. a maternidade e o feminino. Problematizando esta teorização. A busca de coerência no delineamento das áreas e conceitos psicanalíticos que poderiam auxiliar a compreensão deste quadro clínico. abordálo dentro dos limites deste livro. tanto à pressão do desejo inconsciente que caracteriza a sexualidade – simbólica por excelência . .

ou não. transformar-se em superego. A autora afirmava que o filho poderia ocupar o lugar de ideal do eu da gestante. Deutsch norteou o recorte a ser feito. fonte de deslocamento dos ideais paternos e. Considerou-se que se a gravidez é desejada. Partindo destas indicações foram buscados os apontamentos de Freud quanto à melancolia. então. nesse momento em que o corpo se define como hospedeiro de um outro. Esta. para. observou-se que a clivagem do ego e a dinâmica dos ideais eram alguns dos problemas centrais descritos como relativos à melancolia. Importante salientar que poder-se-ia destacar outros aspectos da dinâmica melancólica. o apontamento de H. implique em incremento do amor-próprio e da auto-estima da mulher. como por exemplo o “negativismo”. pode surgir angústia. a flexibilidade destes traços é necessária para que o reinvestimento narcísico secundário que a gestante necessita desenvolver. O centramento de sua teoria nas questões do narcisismo na mulher ofereceu subsídios para uma primeira abordagem psicanalítica da depressão na gravidez. o eu da futura mãe. daí.121 tomou-se alguns trabalhos de Helene Deutsch.extraiu-se algumas considerações relativas à depressão na gravidez. autora que ressaltou o caráter especial do narcisismo nas mulheres. será.indicações estas que apontam para o poder mais ou menos deformante do “outro” que suporta o lugar do espelho . Dentre estes destacou-se o trabalho de Lambotte como uma das tentativas mais completas de abordagem metapsicológica do problema. No entanto. Se a representação do bebê se constrói em acordo com os traços do ideal do eu. com a conseqüente passagem ao pleno amor de objeto na figura do filho. não como efeito da “inveja do pênis” mas como defesa frente à tendência pulsional feminina ao submetimento (masoquismo). à pesquisa dos autores atuais que tratam do tema da melancolia. apoiadas na teoria lacaniana do narcisismo e da relação especular ao Outro . conforme a flexibilidade dos ideais narcísicos dessa gestante. Tendo percorrido os principais artigos onde abordou o tema. A rigidez do ideal do eu materno. extrair conseqüências relativas à depressão na gravidez. tiranizando. assim. Além disso. ao . Deutsch tratou de modo especial o papel da maternidade na sexualidade das mulheres. Passou-se. Seguindo as indicações desta autora. através deles. destinada a novas produções discursivas referentes à subjetividade da mulher.

de redescrição que ele importa para subjetividade materna. Retomando o percurso realizado neste trabalho. quanto a essa posição.. considerou-se este excedente de estranhamento que representa a presença viva de um outro. como o trabalho psíquico deslanchado pelo complexo do objeto. Tomou-se. ainda. . e a exigência de reorganização. não permite que a presença do feto no corpo da mulher represente moldura estável para o ego materno. mas identificada narcisicamente ao feto. Seguindo indicações lacanianas relativas ao feminino buscou-se. especialmente. Donde a gestante não poder tomar-se na imagem de mãe. seja da psíquica (afinal. considerou-se que a “dor” pode ser o indicador da exigência de produção de novas inscrições no ordenamento subjetivo.. que o complexo objetal filho representa para o psiquismo da mulher grávida. parecia necessário que se delineasse. embora estivesse claro que os conflitos envolvendo as diferentes faces do eu não recobriam todo o universo etiológico da depressão na gravidez. permanecendo. no campo da “normalidade” feminina. . a primeira sempre se reduz a esta última). isto é. numa relação desprovida de investimento. Tomou-se esta noção (estranho) como uma experiência no limite entre os planos afetivo e intelectivo frente às oscilações seja da realidade material. então.122 contrário. a segunda vertente na qual se insere a depressão na gravidez. a noção de juizo proposta no Projeto. Ao tentar compreender psicanaliticamente tais experiências buscou-se encontrar instrumentos de intervenção clínica para aqueles que de algum modo se ocupam da mulher e da gravidez. Antes de terminar parece necessário destacar que o objetivo deste trabalho foi o de ressaltar a possibilidade de ocorrência de certas experiências subjetivas na gravidez . articular a concepção do filho enquanto objeto-não-todo fálico. Partindo-se da noção de que o corpo real é fonte de estranheza para o psiquismo. Por fim.aquelas revestidas de um matiz de angústia e/ou tristeza – em qualquer mulher. no corpo materno.

123 BIBLIOGRAFIA .

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É também psicanalista filiada à Escola Brasileira de PsicanáliseSeção Rio. . pelo Instituto Fernandes Figueira – FIOCRUZ. Tem artigos publicados na área e este seu livro de estréia é resultado da pesquisa realizada para obtenção do grau de Mestre.Dados da Autora Marcia Zucchi é psicóloga formada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1976. Atua na clínica psicanalítica desde 1983. e Mestre em Ciências da Saúde. área de especialização saúde mental da mulher.

a autora buscou. com ela. à teorização lacaniana sobre o feminino para. São assinaladas. articular a experiência da passagem à condição de mãe . tal como descrito por Freud. as permanências e transformações da teoria de Freud relativas à melancolia. também. A dor psíquica é tratada. uma vez que este aparato conceitual é uma das principais referências para o estudo da depressão no campo psicanalítico. .através da gestação – com o estranhamento. mesmo em gravidezes desejadas. A autora recorre. os elementos da dinâmica própria à sexualidade feminina que pudessem responder por estas manifestação. ainda. Neste percurso são levantadas as principais formulações teóricas de Freud e Helene Deutsch quanto à maternidade em sua relação com a sexualidade feminina. como o efeito da “exigência de trabalho” que esse estranhamento impõe ao aparelho psíquico da gestante.por fim.Considerando que os afetos depressivos podem ser freqüentes. na teoria psicanalítica.

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