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Aurora

Aurora

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Published by Sarah Kavinsky
A moiah Kavinsky book. A storie about the life of the woman on the 50th years on Brazil society.
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Published by: Sarah Kavinsky on Sep 29, 2010
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03/05/2014

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O semestre havia sido tempo suficiente para que minhas irmãs crescessem e se
tornassem diferentes do que haviam sido. Naquela cidade de pessoas escuras e de
cabelos negros, os cabelos loiros de Mira eram o símbolo da beleza, e era por isso que
todas nós parecíamos feias aos outros e a nós mesmas. Mira sabia disso, o que a fazia
menos feliz, porque, sendo bonita, julgava que o mundo devia fazer-lhe vênia, e a
qualquer obstáculo se considerava injustiçada. Meu pai a admirava e temia, mas isso
não era suficiente para que ele lhe permitisse sair à rua, participar da vida daquelas
pessoas que o tinham como superior a elas. Meu pai acreditava nessa sua
superioridade e dela uma parcela era distribuída a todas nós. Apesar disso, eu me
havia descoberto igual a todo mudo. Sara queria sair à rua e, impedida, se revoltava
contra meu pai e contra todos.

Minha mãe, de poucas palavras, mostrava-nos quanto lhe eram incômodos os
filhos, e eu tinha medo de aumentar os desequilíbrios daquela casa e me fazia como a
pessoa que cada um queria que eu fosse. Anulava-me. Sofia brincava com suas
bonecas, fazendo-lhes roupas. Era habilidosa e quase imperceptível entre nós. Otávio
não aparecera nos primeiros dias, e quando chegou, um certo dia foi amável comigo e
até me falou que o mar era imenso, com muita água verde e que sua escola era um
prédio grande e ele e muitos rapazes aprendiam a fazer navios. Fiquei tão encantada
com o que ele me disse, e com as várias fotografias que ele me mostrou de moços
como ele, bonitos, fortes e tostados de sol.

Foi bom depois desse dia. Quando Otávio não estava na rua, conversava
comigo e muitas vezes me pedia pequenos favores, como lavar-lhe alguma roupa ou
engraxar-lhe os sapatos, coisas que as empregadas só faziam em horários certos.
Minha mãe não gostava que Otávio ou qualquer de nós fosse incômodo às
empregadas, porque, dizia, se uma delas se demitisse seria para ela que os trabalhos
ficariam, quando não estivéssemos lá. Isabel era pequena e, penso, muitas vezes ela
me sentia como se eu fosse sua mãe e quando ficava doente era a mm que recorria.

Foi então que eu aprendi a gastar as minhas férias em pequenos serviços
domésticos, estar com meu irmão e minhas irmãs menores, e na leitura de alguns
livros usados que havia na casa, não sei se como enfeites ou como informação aos
raros visitantes de que ali moravam pessoas habituadas à leitura.

No colégio, eu nem percebia que estava impedida de ir à rua porque lá nossos
horários eram bem preenchidos e, no meio de muitas colegas, havia sempre alguém
com quem se podia falar. Em casa, não tínhamos obrigações, o tempo se esquecia de

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passar e o calor se tornava mais intenso, o sol nos permitindo ver a solidão. Nossa
casa, mesmo nos dias mais claros, era sombria, no ar alguma coisa não bem entendida
porque nunca falada.

Foi porsso que, numa das minhas tardes com minha avó, fiz-lhe esta pergunta:
“O que há de errado com meus pais?”

Minha avó, que com o tempo havia adquirido alguma coisa dos modos de meu
avô, respondeu-me e eu senti que ela dizia a verdade: “Nunca se pode querer alguma
coisa pela metade. Sua mãe quis se casar com seu pai porque ele era trabalhador e
ambicioso, mas não o queria porque ele é rígido nos seus costumes e prepotente nas
suas ordens. Seu pai se casou com sua mãe porque ela era alegre e sociável, mas não
queria que ela gostasse de festas e luxos. Nenhum deles mentiu ao outro, mas nenhum
deles também se modificou em nenhum de seus hábitos, Estarão sempre em choque e
não se separarão nunca, porque antes deles ninguém da família se desquitou e, como
na maioria das famílias, eles também pensam que devem repetir o que fizeram
aqueles que vieram antes. Não têm força bastante para se separar, nem
desprendimento suficiente para anular nada de si mesmos. Toda convivência exige
um pouco a morte de cada um, muitas vezes a morte inteira de um deles”.

Minha avó encontrou esta visão das coisas naturalmente em algum sofrimento,
sedimentado no fundo de sua alma, já imobilizada e tranqüila.

Minha avó não sentia pena de minha mãe e nem de meu pai. Mesmo sabendo
de seu casamento enfadonho, ela havia aprendido que a vida de todo mundo tem
sempre alguma coisa que a torna triste ou inútil. Minha mãe falava às vezes com meu
pai, mas isso não era freqüente. Não se odiavam, se temiam. Talvez até se amassem:
muitas coisas costumam se chamar amor.

Nessas férias, seguindo o que havia falado minha avó, verifiquei que meu pai
continuava progredindo. Progredir para ele tinha o sentido de ganhar dinheiro, e foi
quando comecei a perceber que, para mim, progredir era sinônimo de aprender. Meu
pai entendia isso e não tardou a me ocupar muitas vezes para escrever suas cartas
comerciais.

Nesse tempo, ele passou a falar mais comigo e a me dizer que Otávio era
desobediente e que não seria ao filho que ele entregaria os seus negócios quando
tivesse tanto dinheiro que pudesse descansar. Dizia-me: “Otávio não é confiável. Os
homens sentem necessidade de ser espertos e, se meus negócios forem entregues a
ele, tenho certeza de que vocês, as mulheres, serão prejudicadas”.

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Ouvindo meu pai, eu pensava: “ Otávio me parece bom, talvez mais do que
meu pai. O problema é que eles não pensam do mesmo modo. Para meu pai, quem
pensasse diferente do que ele pensava, pensava errado. Meu pai era um homem de
números, não de palavras. No entanto, ele me escolheu para sua confiança porque me
achava dócil e facilmente moldável”.

Senti pena de meus pais, no seu isolamento. E de novo naquelas férias, em que
estando na cidade éramos ausentes de tudo, voltei a falar com minha avó, que me
parecia sábia, tecendo seus crochês, assentada sempre na mesma cadeira, imóvel, o
mundo vindo até ela.

Minha avó me disse que eu era muito jovem para querer entender as pessoas e
disse mesmo que o esforço é sempre inútil quando se procura entender alguém. “As
pessoas que entendemos são aquelas que não precisamos procurar entender”.

E disse mais: “Todas as famílias têm um segredo, alguma coisa não falada, que
as faz parecer diferentes das outras, mesmo que todas sejam iguais, ou que as
diferenças não estejam no essencial”.

Então, perguntei à minha avó se ela me contaria o segredo da família que havia
sido dela, antes de ela se casar. E ela me disse que sim, e, antes que eu lhe
perguntasse, respondeu: “Tínhamos uma família honrada, que todos sabiam ser tão
correta que, mais, seria impossível. Porque a todos que não eram da família não
deixávamos saber o que para nós era desonra. Mas é até bom que você saiba, porque
isso lhe fará ter mais os pés firmes na sua verdade e tirar de seu caminho o mal que
lhe deram de herança.”

E então, ainda naquele dia, minha avó me contou: “Nossos antepassados vieram
a este país e pelo simples fato de aqui estarem tiveram dinheiro suficiente para ser
senhores de escravos. E era hábito entre eles aos domingos se divertirem estuprando
escravas ou colocando escravos a correr enquanto praticavam tiro ao alvo. Houve até
muitos deles que, ao fazerem isso com os negrinhos, mantinham amarradas suas
mães, para que estas se afligissem e fosse emocionante ver-lhes o rosto contraído de
medo, ódio e ansiedade. Uma vez, uma escrava de belos dentes brancos resistiu a um
de meus tios, e ele, que a queria dócil e não estuprada, odiou-a por isso e mandou
arrancar-lhe todos os dentes, sem qualquer anestésico, na presença dos outros
escravos. E então, um dos escravos, negro forte e jovem, matou o meu tio. Meu avô,
envergonhado, não teve coragem de condenar o negro à morte, como naqueles tempos
era permitido. Mudamos, então, para essa cidade, onde ninguém, por não o saber,
nunca pôde contar essa história”.

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Ficamos as duas em silêncio, e depois ela me disse: “Quando você for adulta, já
alguma coisa terá acontecido em sua família, obrigando-a a um segredo. Não é
previsão, é a história”.

Naquela noite, o sono não me veio e eu pensei em minhas irmãs e em meu
irmão e me perguntei por qual de nós teríamos de guardar um segredo.

Então, de medo, pensei que minha avó também era uma pessoa, e como pessoa

talvez ela estivesse errada.

O sombrio tempo de férias passava e meu pai não me falava do novo internato
para onde eu devia ir. Mas eu já não me sentia impedida de lhe fazer perguntas e ele
então me disse que, assim, na urgência do tempo, não havia outra solução a não ser
que eu estudasse num colégio mais simples, porque também, afinal, não seria por
muito tempo e ao terminar o ginásio, seria eu levada para uma cidade grande onde,
como Mira, eu pudesse me preparar para estudar Medicina.

Por que eu haveria de estudar Medicina, isso eu não perguntei, minha coragem
não era tanta, e eu já havia começado a entender que até as perguntas têm uma hora
certa para que sejam feitas.

Minha mãe, rápida, se assentou à máquina de costura e me fez um enxoval, sem
rendas e sem bordados. Os cortes também não precisavam ser bem feitos, porque no
colégio a vaidade era pecado e todo o feminino era punido.

E eu me esforçava para que aquelas idéias não se misturassem em minha
cabeça, pois que eu queria que ao menos os meus pensamentos fossem meus,
percebendo bem cedo que a liberdade não existe e que a identidade é mentira. E como
ser feliz, se não se consegue ao menos ser, se na verdade somos a soma atrapalhada
daqueles que foram antes de nós?

E ia eu de novo para o internato, ele, meu pai, e eu, mudando todos nós a cada

instante.

O novo colégio ficava numa cidade de casas antigas, uma cidade cheia de
tradições e era preciso que fizéssemos de conta que parecíamos todos com aqueles
que antes fizeram a glória da cidade. Logo à chegada, éramos informadas disso e
todas as palavras repetiam a história.

No entanto, o colégio era diferente do outro. Era por isso que todas as tardes as
religiosas nos levavam a passeio e havia até incentivo para que tivéssemos
namoradinhos, filhos dos grandes da cidade, porque o colégio dependia do município

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. Não se falava dessas coisas, porque não eram coisas de se falar, mas percebia-se o
pacto entre mestras e alunas, tudo tão da conveniência de nós todas.

Neste colégio, o destaque não ficava com as meninas mais ricas: prestigiavam-
se as mais bonitas. Não só as meninas, mas também as coisas, tudo devia ser bonito,
porque a beleza se via logo e haviam percebido as religiosas que o presente é mais
importante do que o futuro. Assim pensavam elas, e a respeito eu ainda não havia tido
tempo para pensar.

O colégio não me permitiu ter aulas de dança, e a madre me explicou as suas
razões: o colégio não tinha interesse nisso porque suas alunas não seriam bailarinas , e
na mulher, a arte só tem sentido quando a faz uma esposa capaz de se mostrar bem em
sociedade. Seria melhor que eu estudasse piano. Isso não me agradava, e então me pus
apenas sobre os livros, sabendo que ali, naquele colégio, tudo seria mais distante para
mim. Respirava-se ali uma alegria sem razões palpáveis.

O novo colégio ficava numa cidade de antigos casarões, onde se falava muito
de antepassados e nomes de família. Faltava-me ali esse nome, porque naquele lugar
nada se sabia a respeito de meus antepassados. E se tinham eles alguma importância,
essa eles a foram perdendo com o tempo, descansados que estiveram nos feitos dos
mais velhos. Decididamente, eu estava consciente de que minha família não
apresentava nenhum sinal que a fizesse mais valiosa do que a generalidade das
pessoas comuns.

Falando em nomes de família, valorizando o que haviam feito os antepassados,
no entanto comportavam-se as freiras e alunas de modo a romper com todas as
tradições. Todas as tardes, terminadas as aulas, nos era dado um horário para nos
vestir, pentear os cabelos e até mesmo colorir, ainda que ligeiramente, os rostos, já
que sairíamos a passeio. Íamos à praça, onde passeavam os moços da cidade, com
quem tínhamos tacitamente encontro marcado. Os rapazes falavam com as religiosas
e com elas conseguiam o direito de falar com as alunas. Namoros ligeiros eram
permitidos e isso quase sempre dava origem a atritos entre nós, as alunas, quando
pretendíamos o mesmo parceiro. Tais atritos não eram tão sérios que

não os fizessem bastante divertidos para aquelas que neles não estivessem
envolvidas. Isso fazia com que os horários de recreio nos oferecessem a cada dia um
assunto diferente.

Percebi que algumas alunas se ligavam a religiosas, ou até mesmo a outras
alunas, de um modo carinhosamente possessivo. Aprendi uma palavra e uma
realidade que me era estranha: homossexualismo. E vi que essa realidade ali era

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simples, igual a todas as outras, sem merecer elogios ou censuras. No meio de tantas
novidades, aprendi o respeito à sexualidade do outro.

Esse colégio, onde o estudo não era valorizado, porque diziam que o saber é
inconveniente às mulheres, era indiferente ao fato de termos ou não termos religião,
nem mesmo a missa aos domingos era obrigatória, e por isso poucas vezes fui à
capela do colégio. E ali estavam imagens religiosas de um barroco puro que a Irmã
Benigna me havia ensinado a apreciar. Nesse colégio nunca ouvi sequer referência às
obras de arte que ali se guardavam.

A única aluna que freqüentava regularmente a capela chamava-se Aparecida.
Eu não tinha muito contato com ela, porque de resto ninguém o tinha, cansadas que
éramos de sua excessiva religiosidade.

Aparecida se destacava de todas as alunas. Censurava as religiosas que nos
levavam aos passeios na praça e até mesmo nos deixavam falar com os rapazes da
cidade, coisa inocente e excitante, pública, na presença de todos, namoricos
românticos, onde a fala era o único meio de comunicação. Soube-se mesmo que
Aparecida havia procurado uma das religiosas para falar da excessiva vaidade de
Helenice, a quem ela vira depilando as pernas e pintando as unhas. E a religiosa
apenas respondeu que nas mulheres a vaidade deve ser considerada normal e que
depilar pernas é muito higiênico. Aparecida se desapontou e aos poucos era só
naquele imenso colégio.

Muitas vezes, durante a semana, não havia missas no colégio, e as religiosas
não se preocupavam com isso. No entanto, Aparecida, tão contrita, pediu à Madre
Superiora que a autorizasse, nessas oportunidades, a freqüentar a pequena igreja ao
lado do colégio, onde o padre - dizia ela - era seu orientador espiritual. Concedeu-se-
lhe essa ordem como quase qualquer outra, porque essa congregação responsável
pelo internato era livre de muitas proibições.

Aparecida ia sempre à igreja diariamente, e um dia foi e não voltou.
O colégio se preocupou inteiro. Não havia muita possibilidade de acidentes: a
cidade tranqüila, sem transtornos de muitos automóveis e com povo pacífico e amigo.
Fizeram-se buscas, e um silêncio sem perguntas abalou o internato e a cidade, quando
se soube que também o padre, orientador espiritual da aluna, não havia voltado para a
casa onde morava com muitos outros que atendiam a paróquias e hospitais da cidade.

Soube-se depois. O jovem padre apareceu sozinho na cidade onde moravam os
pais de Aparecida. Comunicou-lhes o casamento, que seria em cartório, e perguntou-
lhes se o novo casal seria aceito na família, tendo em vista que uma criança era

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esperada. O pai de Aparecida teria ficado muito irritado, mas depois a mãe ponderou:
“Não há mais o que fazer, se falarmos muito a população se sentirá no direito de falar
ainda mais que nós. Se nos silenciarmos, os outros também se silenciarão”. O pai
achou sábios os pensamentos da mulher. As religiosas procederam da mesma forma, e
nós, alunas, tivemos com que preencher o tempo que não gastávamos estudando.
Falamos tudo que nos permitiu falar a raiva ou inveja que tínhamos da colega que se
casara com o padre.

O semestre terminava. Naquele colégio, não se temia reprovação, e o estudar
era secundário. Diziam mesmo as religiosas que mulheres não deviam saber mais do
que o necessário para serem boas donas-de-casa e boas mães, alegres e capazes de
organizar festas.

Falei dessas coisas a meu pai ainda mesmo em minha viagem de retorno à casa.
Ele me falou da impossibilidade de uma transferência para outro internato no meio do
ano e de minha ida para um bom colégio tão logo fosse possível. Mira já havia feito o
concurso para a faculdade de Medicina e ele achava de conveniência que eu estudasse
no colégio onde ela estivera, como garantia de que também eu seria médica.

A profissão me desagradava, porque era óbvia a minha falta de habilidade para
ela. Não lhe falei disso, mas nestas férias, eu agora já mocinha, muitas vezes
conversava com o Dr. Ulisses, o médico que continuava freqüentando nossa casa
para o café da tarde e as noites musicais. Dr. Ulisses me falava de literatura e quando
lhe disse que eu não queria ser médica, concordou comigo, dizendo: “Você é muito
introvertida. A Medicina poderá lhe fazer muito infeliz, e os médicos têm contato com
as doenças do corpo e da mente; eles descobrem o ser humano numa profundidade
que é às vezes destruidora para as pessoas sensíveis.” Sem que eu lhe perguntasse,
havia ficado sabendo da sua opinião, pela qual, eu tinha certeza, meu pai tinha muito
respeito. Isso me seria útil.

De minhas férias já nem posso falar, todas tão iguais.
A cidade crescia, mas não de pessoas estranhas. Casas recém-construídas
serviam de moradia apenas aos filhos das famílias da cidade que se casavam.
Ninguém de novo, ao contrário dos colégios, onde a cada semestre meninas e moças
chegam e saem.

Meu pai nos proibia de ir mesmo às suas lojas e, se as quiséssemos conhecer,
ele por vezes nos levaria até elas à noite, quando fechadas para seus clientes. Então,
não havia lugar onde ir. O sol sempre muito quente, era um convite a que ficássemos
nos jardins de nossa casa, mas a repetição dos dias tão iguais me deixava cansada.

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A casa de minha avó na sua simplicidade, era o melhor lugar para esperar que
as férias passassem e era lá que em todas as tardes me eram contadas as histórias que
me marcaram para sempre.

Então, naquelas férias perguntei à minha avó se as mulheres de nossa família
costumavam, mesmo eventualmente, substituir seus maridos por outros homens, e ela
me respondeu que não, e me disse: “Isso não é um mérito nem das mulheres nem dos
homens. As mulheres não o fazem porque sempre estiveram sob vigilância extrema de
todo nosso clã. E foi por isso que, quando Aurora se afastou de casa, e naturalmente
teve todos os homens que quis ou que a quiseram, consideraram-na doente e excluída
da família, e o seu nome só era pronunciado em público pelos nossos inimigos. Já os
homens - disse minha avó - esses sempre tiveram amantes e concubinas, e com elas
filhos que se misturavam conosco em nossas casas, nossas mães muitas vezes
educando-os a todos com igual carinho, para não serem repudiadas pelos homens que
as sustentavam e que oficialmente se intitulavam seus maridos.

Quis eu saber, então, da história da família de meu pai, que todos diziam um
filho de estrangeiro, aqui aportado não se sabe por quê. Minha avó me respondeu que
eu era ainda muito nova para saber dessas coisas e que além disso os segredos da
família de meu pai não eram segredos dela, e que, sabendo-os, não os deveria contar
enquanto fosse possível que outros membros de sua família pudessem fazê-lo. Meu
pai estava vivo e se ele quisesse me contaria histórias daqueles que do mesmo sangue
haviam vivido antes.

Mesmo quando minha avó não me contava histórias, era com ela que me
agradava ficar, pois que na casa de meus pais nada se falava que não fosse do
presente, e do presente não queria que me falassem, porque eu o estava vivendo e
percebia-o talvez mais do que os outros.

A política estava naquele tempo mais calma, porque sempre as coisas nos
parecem calmas quando somos nós que determinamos como elas devem ficar. Nesse
período, o governador e o prefeito eram aqueles que meu pai queria que fossem. As
férias foram, então, muito tranqüilas e cada uma de nós voltou ao seu colégio, tudo de
novo como se fazia sempre.

As férias foram tão vazias, que delas não tenho mais o que contar, mas o
colégio, por causa de Aparecida, havia se tornado bem diferente. Soube-se que a
Reverendíssima Superiora da Congregação viera de longe para dizer que fatos iguais
não podiam repetir-se num colégio de religiosas. Freiras foram substituídas por outras
mais severas, os passeios da praça não foram mais permitidos e, se tivéssemos que ir
ao dentista ou ao médico, quem nos levaria seria uma das religiosas recém-chegadas,

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em cujos rostos não se via um sorriso e de cujas bocas nada mais se ouvia a não ser :
“Não faça isso”.

No entanto, quando, a mando de meu pai, comuniquei à disciplinária que
quando voltasse à minha casa queria levar comigo os papéis necessários à minha
transferência, pois meu pai não me queria professora, e que, como minha irmã, eu
devia estudar Medicina, a religiosa se escandalizou mais do que havia se
escandalizado com o amor sacrílego de Aparecida. E, desde então, todos os dias
chamava-me a falar uma freira diferente, para repetir tantas vezes a mesma coisa que
ainda hoje eu sei de cor: Deus criou a mulher para servi-lo, ou nos conventos como
mãe de todos que lhes aparecessem, ou para terem filhos de seus maridos e criá-los
bem. Leão XIII tinha razão: o lugar das mulheres era em casa e elas são tão frágeis
que outros trabalhos não lhes podem ser destinados. Ainda mais o trabalho de médica,
vendo corpos nus, e talvez tendo que ouvir de homens coisas impuras. O corpo é
sempre alguma coisa perigosa que Deus nos deu apenas como casa de nossos
espíritos. Somente os homens, já de si acostumados ao que é mau e ao que é impuro,
podem se dar o trabalho de curar doenças, porque é até possível que doenças e mortes
não sejam mais do que conseqüências do pecado.

Eu dizia simplesmente: “O meu pai quer que eu seja médica”. E, no dia
seguinte, outra religiosa me repetia o que havia sido falado no dia anterior e eu
também lhe respondia a mesma coisa, incapaz, por conveniência, de dizer que eu não
queria ser médica. Mas, na verdade, nem por isso estava de acordo com qualquer das
coisas que elas me diziam a respeito.

Quando as férias chegaram e meu pai me veio buscar, a Madre Superiora
mandou avisar que precisava falar-lhe sobre um assunto que ela reputava muito sério.
Meu pai, preocupado, esperou por ela, e ela lhe falou a respeito do que eu lhe havia
dito sobre as razões por que eu iria sair do colégio. Meu pai ouviu todas as objeções
que a religiosa apresentou em relação aos meus futuros estudos.

Independente e
nem sempre preocupado com o recomendado pelo código da boa educação, meu pai
respondeu: “Desde que minhas filhas nasceram, nada me preocupa mais do que o
futuro das mesmas. Ninguém melhor do que eu para determinar como prepará-las
para isso. Não quero minhas filhas dependentes do salário de nenhum homem e muito
menos quero que elas fiquem na companhia de qualquer homem por razões de
subsistência. Dessa forma, nenhuma delas será professora, porque o magistério,
profissão predominantemente feminina, terá sempre profissionais mal pagos e muitas
vezes sem estímulo para fazer bem aquilo que fazem.”

Enquanto eu apanhava minhas coisas para deixar o colégio, a religiosa, que
ficara em silêncio enquanto meu pai falava, veio me dizer que meu pai era mal

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educado, prepotente e que se julgava mais sábio do que todo mundo. Tinha ela
certeza, um dia ele se arrependeria de tudo que pensava e concordaria com o
pensamento que não era delas mas de um papa, representante de Deus na Terra.

Apanhei minhas coisas, beijei como de obrigação as mãos da freira, e fui para
minha casa, pensando que, se meu futuro estivesse ali sendo decidido, não era nem
meu pai e, menos ainda, a freira, que deveria ter o direito de escolher o que melhor
me aprouvesse: era eu. No entanto, nem sequer me fizeram perguntas.

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