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UMA BREVE HISTÓRIA DA LINGUAGEM

Introdução à origem das línguas


Steven Roger Fischer

UMA BREVE HISTÓRIA DA LINGUAGEM


Introdução à origem das línguas

Tradução Flávia
Coimbra
A History of Language
by Steven Roger Fischer
was first published by Reaktion Books, London, UK, 1999
Copyright © Steven Roger Fischer, 1999
Copyright © 2009 by Novo Século Editora

PRODUÇÃO EDITORIAL Equipe Novo Século PROJETO GRÁFICO E


COMPOSIÇÃO Claudio Braghini Jr. CAPA Genildo Santana PREPARAÇÃO DE
TEXTO Josias Aparecido de Andrade REVISÃO Salete Brentan Patrícia
Murari

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara


Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Fischer, Steven Roger


Uma breve história da linguagem / Steven Roger Fischer, tradução
Flávia Coimbra.— Osasco, SP: Novo Século Editora, 2009.

Título original: A history of language


1. Linguagem e língua 2. Linguística histórica 3. Mudanças
linguísticas — Aspectos sociais 4. Sociolinguística.

09-01046 CDD-417.7

Índices para catálogo sistemático:


1. História da linguagem 417.7
2. Linguagem: História 417.7

2009
IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
DIREITOS CEDIDOS PARA ESTA EDIÇÃO À
NOVO SÉCULO EDITORA
Rua Aurora Soares Barbosa, 405 — 2o andar
CEP 06023-010 — Osasco — SP
Tel. (11) 3699-7107 — Fax (11) 3699-7323
www.novoseculo.com.br
arendimenro@novoseculo.com.br
Sumário

Capa – Orelha — Contracapa

Prefácio ............................................................................................................. 7
1 — Comunicação animal e 'linguagem' ........................................................ 11
2 — Primatas falantes ..................................................................................... 43
3 — Primeiras famílias ................................................................................... 75
4 — Linguagem escrita ................................................................................ 107
5 — Linhagens............................................................................................. 141
6 — Em direção a uma ciência da linguagem ............................................. 175
7 — Sociedade e linguagem ........................................................................ 219
8 — Indicativo futuro .................................................................................. 261
Notas ............................................................................................................ 285
Prefácio

Este livro é uma introdução à história da linguagem. Ao tratar o


tema em seu sentido mais amplo, sua intenção é preparar o leitor, que
talvez esteja familiarizado apenas de modo geral com línguas
estrangeiras e o estudo da linguagem, para o aprendizado profissional
da linguística. Nesse sentido, o presente volume é uma leitura
preliminar útil antes do início de um curso introdutório de linguística
numa universidade. Não é necessária nenhuma experiência anterior
em linguística para sua leitura. Ele não exige conhecimento prévio de
uma terminologia linguística especial nem de métodos linguísticos
particulares.
Como uma história da linguagem em geral, esta visão difere em
muito das histórias tradicionais da linguística — que consistem em
descrições formais da mudança linguística em línguas humanas
conhecidas ou reconstituídas. Ela vai além das restrições humanas,
para

7
incluir a linguagem dos animais. É uma exposição curta e concisa do
significado histórico da 'linguagem' em termos globais.
O primeiro capítulo começa com a Natureza e o passado; o
último termina com a Tecnologia e o futuro. Esta história introdutória
também se inicia com macroquestões para chegar até as
microquestões: das linguagens de todos os animais até aquelas
específicas aos primatas; das linguagens do Homo sapiens em geral às
macrofamílias das línguas humanas; e de famílias de línguas
específicas ao uso da língua na nossa nova sociedade global e o futuro
possível do inglês, no momento em que a espécie humana começa a
colonizar o Sistema Solar. É uma história do único e do lugar-comum,
apresentando a capacidade mais fascinante do mundo natural: a
linguagem.
As muitas facetas do que o ser humano quer dizer com essa
palavra amorfa que é a 'linguagem', com suas vinte e quatro diferentes
definições, além de várias outras conotações em contextos específicos,
se tornarão evidentes no decorrer desta introdução à história da
linguagem. A atual definição formal de 'linguagem' também está
passando por mudanças semânticas, em que a 'linguagem' não é mais
privilégio exclusivo do Homo sapiens. Hoje, acredita-se que qualquer
ser vivo, em qualquer época, que tenha usado algum meio para
transmitir informação a outros animais, usou algum tipo de
'linguagem'. Ela é, obviamente, uma faculdade universal.
Seria absurdo declarar que 'alguém, em algum lugar, emitiu a
primeira palavra. E outro alguém a entendeu . No presente, tal
discurso pode ser especialmente sedutor. Mas seu conteúdo é
historicamente inválido, como sabemos hoje. A linguagem não
'começou'. A linguagem, em toda a sua miríade de formas, evoluiu
durante centenas de milhões de anos. Apenas no final dessa lenta
evolução a 'linguaguem', um conceito essencialmente antropomórfico,
aparece numa forma em

8
que seres humanos modernos conseguem identificá-la como tal e
entendê-la melhor.
Uma história da linguagem precisa incluir a linguagem
não-humana, como foi revelado particularmente em experimentos
inovadores feitos com aves, cetáceos e primatas, conduzidos desde a
década de 1960. Ainda existem formas primevas de linguagem em
todo o mundo e que apenas agora estão sendo reconhecidas,
principalmente como resultado da tecnologia moderna, que usa
equipamentos de monitoração sensíveis para registrar a comunicação
do mundo natural que havia passado despercebida até então.
Tempos atrás, os hominídeos se tornaram seres falantes. O tema
principal deste livro consiste na história do surgimento da linguagem
humana e sua subsequente evolução. Não há respostas definitivas para
as principais questões relativas à linguagem humana: o que é a
'linguagem'? Como a 'linguagem' se relaciona a outras habilidades
intelectuais? De que modo a linguagem humana se diferencia da
comunicação entre não hominídeos? Um dos objetivos de uma história
da linguagem é descobrir maneiras de responder essas e outras
perguntas semelhantes.
Este livro não aborda aspectos teóricos específicos da evolução
linguística. O tema é mencionado, mas apenas como parte de uma
história da linguagem em geral, dentro de uma visão global. Para o
aprofundamento de controvérsias teóricas específicas — a origem das
'palavras', o surgimento da sintaxe e assim por diante — há textos
relevantes citados nas Referências e na Bibliografia. A evolução da
capacidade do cérebro em processar referências vocais específicas é
um campo igualmente fascinante que, infelizmente, está além da
esfera de ação dessa introdução a uma história da linguagem.

9
Jeremy Black sugeriu que eu escrevesse este livro, e sou
extremamente grato a ele pela ideia e por seu inigualável apoio.
Também agradeço Michael Leaman da Reaktion Books, que
gentilmente discutiu comigo as especificidades do projeto e forneceu
vários comentários e sugestões construtivas.
Também devo agradecimentos especiais a muitas pessoas
especiais, que desempenharam papéis importantes, cada uma de sua
própria maneira, na minha carreira linguística e filológica. Seu
profundo conhecimento sobre línguas, ciência da linguística e/ou
filologia influenciou, formou e afiou meu conhecimento e crenças
linguísticas e filológicas nos últimos trinta anos. Dos muitos que
merecem menção, gostaria de expressar minha gratidão
particularmente a Eli Sobel (T), Noam Chomsky, Raimo Antilla, Theo
Vennemann, Terrence Wilbur, Stephen Schwartz, Arthur Groos,
Thomas Bartel (T), H. G. A. Hughes, Margaret Orbell, Bruce Biggs,
Andrew Pawley, Malcom Ross, Ross Clark, Ray Harlow, Terry
Crowley, Albert Schutz, John Charlot e Jack Ward.
E também um agradecimento muito especial a Jean Aitchison,
por mostrar a todos nós como se deve escrever sobre a linguagem.
Acima de tudo, a minha esposa, Taki, que foi meu pilar e minha
vela.

Steven Roger Fischer


Ilha de Waiheke, Nova Zelândia
Janeiro de 1999

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1
Comunicação animal e 'linguagem'

Os primeiros organismos terrestres desenvolveram mecanismos


primitivos de troca capazes de transmitir informações sobre espécie,
gênero e intenção. Essa transmissão ocorria através do que então
consistia o meio mais sofisticado da natureza: a comunicação química.
Os milhões de anos da necessidade contínua de se entrar em contato
com outra criatura da mesma espécie para fins reprodutivos exigiram
métodos de comunicação ainda mais complexos. Desse processo
evolutivo nasceu a 'linguagem' em seu sentido mais amplo.
Cada tipo de linguagem usada na natureza difere entre si.
Quanto mais profundamente se investiga, mais se descobre sobre a
habilidade comunicativa de cada espécie, distinguida por definições
cada vez mais elaboradas do conceito de 'linguagem'.

11
Em sua definição mais simples, linguagem significa 'meio de
troca de informações'. Essa definição permite que o conceito de
linguagem englobe expressões faciais, gestos, posturas, assobios,
sinais de mão, escrita, linguagem matemática, linguagem de
programação (ou de computadores), e assim por diante. A definição
também abarca a 'linguagem' química das formigas e a dança das
abelhas (hoje sabemos que ambos os insetos também usam
simultaneamente outros meios de expressão comunicativa).
A definição reconhece as várias trocas de informação
bioacústicas (emissões de sons de formas de vida) que ocorrem em
frequências que escapam à audição humana. Por exemplo, um
humano comum de 15 anos de idade só consegue ouvir cerca de dez
oitavas dentro da frequência e amplitude da conversação normal —
que fica entre 30 e 18.000 hertz (ondas por segundo). Aves, rãs, sapos
e cães vocalizam dentro desse intervalo. Porém, a maioria das outras
criaturas parece se comunicar tanto abaixo quanto acima dos limites
considerados 'normais' pelos humanos. O infrassom compreende
emissões abaixo de 30 hertz, como, por exemplo, os sons emitidos por
baleias-fin, baleias-azuis, elefantes, crocodilianos, ondas oceânicas,
vulcões, terremotos e tempo ruim. O ultrassom ocorre acima dos
18.000 hertz, frequências normalmente usadas por insetos (os
habitantes mais numerosos do planeta), morcegos, golfinhos e
musaranhos. Porém, a linguagem é muito mais do que a comunicação
vocal. Em seu sentido mais universal, a linguagem é o nexo do mundo
animado, cujos limites são traçados apenas pelos seres humanos.
Estudos mais recentes sobre comunicação animal tendem a se
concentrar na descrição das espécies, ligando a comunicação animal a
processos essencialmente biológicos ou especificamente sociais.1
Embora uma 'história da linguagem' no início do século XXI ainda

12
seja implicitamente uma 'história da linguagem humana', ela carrega a
sugestão de que possa evoluir de modo a abarcar muitas formas de
linguagem desconhecidas até então. A comunicação vocal de muitos
anfíbios, especialmente rãs, foi pesquisada intensivamente nos últimos
anos — embora ainda não se encontre qualquer referência a uma
'linguagem das rãs'. A bioacústica vem concentrando sua atenção
também nos peixes, uma vez que, particularmente durante a desova,
muitos peixes emitem um 'som complexo' representativo, cuja
primeira parte consiste numa série de pulsos parcialmente
sobrepostos, e a segunda, composta por pulsos rapidamente repetidos
que se sobrepõem, produzindo uma onda constante semelhante a um
'tom'.
A comunicação vocal em sua forma mais primitiva é, por
exemplo, surpreendentemente demonstrada pelo 'zumbido' do peixe
mamangá do litoral oeste dos EUA, cujos 'zumbidos' noturnos eram
desconhecidos para a ciência até perturbarem, recentemente, uma
comunidade flutuante na Califórnia, chegando às manchetes
internacionais. O mamangá macho emite 'zumbidos' para atrair fêmeas
que desovem em seus ninhos. O barulho — um zumbido alto e
ressonante, muito parecido ao som produzido pelo didgeridoo2
australiano — se origina de um par de músculos presos à bexiga
natatória, que se contrai e vibra contra a parede do estômago, e
continua se movimentando por mais de uma hora. Quando a fêmea
chega, o 'zumbido' prontamente acaba.
Várias ordens de insetos também possuem órgãos que produzem
sons, evidentemente usados para a comunicação. Muitos deles usam o
ultrassom, cuja própria existência era desconhecida à ciência até a
segunda metade do século XX. Por exemplo, durante a corte, traças
machos e fêmeas se comunicam por meio dos feromônios (secreções
excretadas por glândulas específicas); toda a sequência do
comportamento das

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traças durante a corte também envolve a produção do ultrassom. Esta
descoberta recente exigiu que o comportamento das traças durante a
corte fosse reconsiderado, e que fosse colocada uma maior ênfase na
interação entre os vários modos de expressão comunicativa.
Porém, quando se ouve sobre comunicação ou 'linguagem'
animal, normalmente se pensa na linguagem das formigas, abelhas,
aves, cavalos, elefantes, cetáceos e grandes primatas.

FORMIGAS (FORMICIDAE)
Há entre 12.000 e 14.000 espécies de formigas no mundo, cada
uma de suas colônias compreende um milhão de indivíduos ou mais.
Elas ocupam quase todos os locais habitáveis do planeta e excedem
em trilhões o número de seres humanos. Nenhuma está sozinha. Todas
se comunicam de alguma maneira. Cada formiga consegue transmitir
pelo menos 50 mensagens diferentes usando a linguagem corporal e
os feromônios. Suas glândulas mandibulares secretam odores de
alerta; seu aparelho digestivo termina numa glândula retal que libera
um cheiro que marca sua trilha. Excreções da glândula esternal são
usadas para chamar as formigas operárias que estiverem por perto, e
assim por diante. Essas mensagens químicas altamente específicas,
combinadas com a linguagem corporal, aparentemente oferecem um
pacote econômico que contém as informações necessárias que uma
formiga precisa trocar com suas companheiras para a sobrevivência da
colônia. Aqui, a linguagem foi reduzida a seu mínimo, basicamente a
uma 'linguagem dos feromônios'. Alguns a chamam de idioma
primevo da Terra.
Porém, é possível que a habilidade linguística das formigas seja
mais complexa do que a ciência atualmente admite. A divisão do
trabalho das

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formigas não pode ser totalmente explicada pelo modelo de
comunicação presente. Como o grupo decide qual folha levar? Como
são alcançadas a organização e a coordenação em massa? Isso deve
envolver uma troca de informação mais elaborada do que a
identificada até então. Além disso, pesquisas bioacústicas muito
recentes revelaram que as formigas também usam a estridulação; sua
produção de som e ultrassom ainda é pouco entendida e os contextos
precisos de seu uso ainda são desconhecidos. Em qualquer evento,
hoje, os entomologistas desconfiam de que talvez as formigas se
comuniquem por meio de uma altamente complexa combinação de
feromônios, linguagem corporal e emissão de sons há centenas de
milhões de anos.3

ABELHAS-EUROPEIAS (Apis mellifera)


Na primeira metade do século vinte, o zoólogo austríaco Karl
von Frisch revelou que as abelhas-europeias usam a 'dança' para se
comunicar, chocando o mundo ao demonstrar que mesmo 'insetos
insignificantes' eram capazes de trocar informações complexas sobre
coisas distantes no tempo e no espaço. Por meio de uma 'dança', a
abelha forrageadora informa às seguidoras o tipo (por meio de
amostras oferecidas), a qualidade (quantidade de voltas de 180 graus
realizadas na 'dança') e a localização (traçando uma figura em forma
de oito para comunicar a distância e a direção) da comida que
encontrou além da colmeia. No passado, a dança da abelha-europeia
foi frequentemente citada como um exemplo clássico do uso da
'verdadeira linguagem' no reino animal.
Pesquisas recentes também revelaram que as abelhas
forrageadoras da espécie Trigona minima dançam apenas a céu aberto,
acima das colmeias; as seguidoras apenas assistem. Porém, as
forrageadoras das espécies que dançam dentro das colmeias vibram as
asas para

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produzir correntes de ar, uma 'voz' que as seguidoras, após
acompanhar várias figuras em oito, monitoram de perto com suas
antenas — indicando que as abelhas conseguem 'ouvir'. Logo depois,
as seguidoras pedem amostras da comida pressionando seus corpos
para baixo e emitindo uma vibração repentina no tórax, sentida pelas
pernas da dançarina. Essa combinação de meios de expressão —
linguagem corporal, troca de comida e 'voz' — constitui a 'linguagem'
das abelhas-europeias. Experimentos com 'abelhas-robôs' mostraram
que tanto a dança quanto a mensagem acústica são essenciais para o
estabelecimento de uma comunicação correta entre as
abelhas-europeias. Se um desses meios é omitido, a maioria das
seguidoras não consegue encontrar a comida.

PÁSSAROS (AVES)
Há muito tempo ornitólogos entusiasmados vibram com o vasto
repertório de sons da carriça. Desde a Antiguidade, sabe-se que na
natureza, alguns pássaros aprendem suas músicas em contextos
diferentes, um fato que sugere que os pássaros agregam significados
diferentes a suas vocalizações. Pesquisas de campo recentes
confirmam o fato.4
Os pássaros apresentam grandes diferenças individuais nas
inclinações e habilidades vocais, mesmo entre as espécies mais
loquazes. Alguns não dizem nada; outros, ao que parece, nunca se
calam. Talvez, os grandes papagaios estejam entre os 'linguistas' mais
fenomenais do reino animal, especialmente o papagaio cinzento e o
papagaio da Amazônia (papagaio-de-nuca-amarela,
papagaio-campeiro, papagaio-diadema e papagaio-verdadeiro). A
arara-piranga e a arara-vermelha também vocalizam bem; mas suas
vocalizações são normalmente roucas e altas. Cacatuas são boas
'falantes' de voz suave; porém, assim como ocorre com as araras, é
difícil ensiná-las.5

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Já na década de 1940, foi demonstrado que o papagaio-cinzento
era perfeitamente capaz de aprender tarefas não vocais, que, segundo
a crença comum, exigem uma inteligência complexa, como combinar
quantidades de objetos. Pesquisas posteriores observaram que os
papagaios, em particular, pareciam usar entre eles vocalizações
naturais 'significativas' de diversas maneiras, vocalizações certamente
aprendidas com outros membros do bando.
Os últimos vinte e cinco anos do século XX testemunharam
uma grande ruptura no nosso entendimento do que, durante séculos,
era chamado apenas metaforicamente de 'linguagem' dos pássaros.6
Em junho de 1977, Irene Pepperberg começou a ensinar um
papagaio-cinzento de 13 meses de idade chamado 'Alex' a se
comunicar com ela em inglês, usando novas técnicas e resultados de
pesquisas sobre o aprendizado social humano. Os resultados do
experimento são impressionantes. Segundo todos os indícios, Alex,
totalmente treinado, não 'repete' o discurso humano, mas sim entende
seu significado e consegue expressar uma resposta de teor semântico
similar, numa variedade de modos conceituais, com uma precisão
estatística notável.
Por exemplo, um pesquisador segura no alto uma chave de
metal roxa e uma chave maior de plástico verde. Ele pergunta: Alex,
quantos?' Quinze segundos depois, Alex responde: 'Dois'. 'Qual é o
maior?' 'Chave verde'. Então, um palito de sorvete de madeira é
levantado. 'De que é feito?' Há uma longa pausa e ele finalmente
responde: 'Madeira'.
Em 12 anos, os treinadores de Alex ensinaram a ele uma
variedade de tarefas linguísticas. Alex conseguia nomear 40 objetos
diferentes (banana, rolha, água, e assim por diante). Ele fazia um uso
funcional de 'não', 'Venha cá', 'Eu quero X', e 'Quero ir para Y'. Ele
conseguia nomear sete cores, descrever várias formas e contar objetos
até seis. No

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fim, Pepperberg descobriu que Alex estava combinando todas aquelas
etiquetas vocais para identificar, pedir, recusar, categorizar e
quantificar mais de 100 objetos diferentes, incluindo alguns que
diferiam dos exemplares de seu treinamento regular. Quando suas
habilidades eram testadas, a precisão de Alex chegava, em média, a
80%.7
Havia limites. Embora Alex fosse evidentemente capaz de se
comunicar com seres humanos num nível aparentemente elevado, ele
não conseguia 'falar' com seus treinadores da mesma maneira que
papagaios falam uns com os outros. Diferente de grandes primatas,
Alex também não conseguia se referir ao que havia feito no dia
anterior, ou ao que gostaria de fazer no dia seguinte. O que Alex
mostrou aos seres humanos é que talvez os pássaros também possam
usar a linguagem de maneira criativa e, portanto, também possam
raciocinar com um nível de complexidade comparável ao dos grandes
primatas (orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos) e cetáceos
(baleias e golfinhos).
Recentes testes neuroanalíticos revelaram que, nos pássaros, o
controle do canto é feito pelo lado esquerdo do cérebro, semelhante
aos humanos, cuja fala também é controlada no lado esquerdo do
cérebro. Uma ligação foi feita a partir desse fato. Porém, a
comunidade científica ainda não a estudou.
Será que se a ciência acabar por concluir que os pássaros têm e
usam algum tipo de 'linguagem' elaborada, o fato implicaria que seus
longínquos ancestrais, os dinossauros, também usavam algum tipo de
linguagem, talvez de um modo semelhante? A implicação parece
evidente.

A comunicação acústica também é muito usada por todos os


mamíferos, grandes vertebrados que amamentam seus filhotes com

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leite excretado peias glândulas mamárias. Ao ajudar na sobrevivência
dos mamíferos, permitindo a coesão social e a adaptação, a linguagem
parece uma característica primitiva de toda essa classe de vertebrados.
Os intricados sons produzidos pelos mamíferos tornam seu estudo tão
difícil quanto o estudo dos sons dos não mamíferos, além dos
contextos sociais dos mamíferos serem extremamente complexos e
variados. É difícil associar sons específicos e/ou padrões de sons com
atividades particulares e/ou trocas entre a mesma espécie.
Aumentando ainda mais a dificuldade, assim como ocorre com os
pássaros que vivem na natureza, parece haver muitas variantes
regionais ('dialetos') no 'discurso' dos mamíferos, assim como
capacidades de aprendizado e expressões individuais ('idioletos').
A maioria das pesquisas sobre a comunicação dos mamíferos
feitas até então se concentra em sua bioacústica: a medição e análise
das emissões de som de formas de vidas. Os estudos bioacústicos mais
sofisticados feitos com mamíferos foram concluídos em ambientes
com um contexto altamente específico, como o acasalamento ou
estudo de sonares (ecolocalização8). Na verdade, apenas os estudos
mais recentes conseguiram satisfazer quase todas as exigências
normalmente feitas a experimentos científicos, uma vez que seu
ambiente é limitado por leis físicas bem conhecidas e essas emissões
de sons são mais uniformes e fáceis de monitorar do que as atividades
sociais, permitindo comparações simples de dados. Porém, o estudo
de sonares não consiste em comunicação. Ele prova que vários
mamíferos, como morcegos, baleias e golfinhos, possuem
biomecanismos elaborados que podem ser capazes de promover
sofisticadas trocas de informação entre membros de uma espécie.
Particularmente, os estudos com morcegos se concentram no sonar de
frequência constante e de frequência modulada com o qual esses
pequenos mamíferos se

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orientam e caçam através da ecolocalização; nesse caso, emissões
ultrassônicas compreendem seu componente mais importante. Porém,
os chamados sociais dos morcegos são emitidos em frequências mais
baixas, e ainda não são compreendidos. Os estudos de bioacústica em
mamíferos também tratam da vocalização de camundongos. Mesmo
assim, poucos escreveram sobre uma 'linguagem dos morcegos' ou
uma 'linguagem dos camundongos'. Essa é uma deficiência, cuja causa
reside na falta de familiaridade ou na restrição do termo 'linguagem'
aos seres humanos, pois a complicada comunicação bioacústica ocorre
tanto com morcegos quanto com ratos. Até muito recentemente, a
espécie humana simplesmente não percebeu o fato.
Por outro lado, as 'linguagens' de cavalos, elefantes, baleias e
golfinhos receberam uma enorme quantidade de atenção popular nos
últimos anos. Escritores esotéricos chegaram a ligar esses sistemas de
comunicação com formas de 'supercomunicação' sobrenaturais e até
extraterrestres. Embora isso seja absurdo, não há dúvidas de que esses
mamíferos se comuniquem de alguma forma. Sua comunicação é
simplesmente diferente da nossa. Não há indícios científicos que
sugiram que a comunicação entre mamíferos não humanos é de
qualquer forma 'superior' — ou seja, contextualmente mais elaborada
— à linguagem humana. Na verdade, o acúmulo de indícios da
segunda metade do século XX leva enfaticamente à conclusão de que
só os hominídeos (espécie humana e ancestrais próximos)
desenvolveram formas mais sofisticadas de comunicação natural e
artificial na história natural do planeta.

CAVALOS (Equus caballus, FAMÍLIA EQUIDAE)


Há muito tempo é sabido que os cavalos usam alguma forma
sofisticada de linguagem corporal (gestos, orientação, contato visual e

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evitação), com vocalizações específicas, para se comunicarem uns
com os outros, mesmo a longa distância. Nos últimos anos,
treinadores humanos desenvolveram novas técnicas baseadas na
observação dessa 'língua' equina para manipular o comportamento dos
cavalos para propósitos humanos, como selar e montar. Os resultados
são notáveis, reduzindo o ‘breaking time’ de cavalos de muitos dias
para dezenas de minutos. Não pode haver muitas dúvidas de que se
alcançou assim alguma forma de comunicação entre humanos e
equinos desconhecida até então. Realizações semelhantes com cervos
(família Cervidae) seguiram técnicas quase idênticas, embora o
processo tenha sido mais lento e sutil. Normalmente, as vocalizações
não desempenham um papel nessas interações; como regra, entre eles,
os cavalos quase sempre combinam linguagem corporal e vocalização.
Contudo, uma forma de 'linguagem' fica evidente aqui, pois há uma
troca de informações específicas entre humanos e cavalos e humanos
e cervos. Porém, a investigação científica acerca de 'linguagens' de
cavalos e cervos está apenas no início.

ELEFANTES (ELEPHANTIDAE)
Nas últimas duas décadas do século vinte, pesquisadores usaram
métodos e técnicas científicas modernas na questão da comunicação
dos elefantes. Há muito se suspeita de que os elefantes se comunicam
constantemente para reforçar os laços sociais que sustentam a
sobrevivência de uma manada. Porém, se essa comunicação pode ser
considerada uma 'linguagem', no sentido de transmitir informações
significativas entre a espécie, ainda é um fato, em geral,
desconhecido.
Elefantes usam vários tipos de vocalizações: roncos, rugidos,
rosnados, bufos, barridos e ladros.9 Cada uma dessas vocalizações
parece representar um diferente modo de expressão comunicativa,

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dentro dos quais os variados sons representam subunidades
importantes. O ronco é, sem dúvida, a mais significativa de todas as
vocalizações dos elefantes, emitidas entre 14 e 35 hertz; acima de 30
hertz, os roncos são audíveis aos seres humanos como um deep organ
bass, sentido como um 'tinido' subcutâneo. Frequências tão baixas são
pouco barradas por obstáculos ao passar por matagais e florestas.
Pesquisas no Zimbábue, Namíbia e Quênia sugerem que os elefantes
(provavelmente de maneira única entre os mamíferos) usam os roncos
infrassonoros abaixo do limite normalmente audível para se
comunicarem de algum modo com outros elefantes distantes de si.
Sensores remotos, com cronômetros, provaram a ocorrência de
comunicação infrassonora entre elefantes fêmeas e machos separados
por uma distância de quatro quilômetros. Parece que, entre várias
outras utilidades, os roncos permitem que elefantes machos e fêmeas
se encontrem para a reprodução (machos e fêmeas adultos vivem
longe uns dos outros e não contam com migrações previsíveis nem
temporada de acasalamento fixa). Durante o cio, uma fêmea emite
uma sequência única de chamados com infrassons que, como
preservam a mesma forma, podem ser classificados como uma 'canção
de acasalamento': ela começa com roncos lentos e profundos, que
gradualmente crescem em força e aumentam o tom; e depois baixam
até o silêncio. O 'concerto' pode durar meia hora.
As vocalizações da fêmea são ricas e variadas, implicando
muitos tipos diferentes de mensagens. Às vezes, seus chamados
parecem indicar até onde a manada pode ir, quando amamentar, quem
está presente no grupo e assim por diante. As fêmeas também reagem
a eventos distantes. Machos adultos vocalizam muito menos; um
pesquisador jocosamente concluiu que isso ocorre porque os machos

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estão ocupados demais ouvindo as fêmeas tagarelas. O olfato é
sempre usado com a audição; é evidente que os feromônios
desempenham um papel significativo na reprodução dos elefantes.
Machos em estado de frenesi sexual em busca de uma parceira, que
podem ter apenas dois dias de cio a cada quatro anos, reagem
agudamente a tal 'comunicação química'.
É claro que a comunicação dos elefantes como uma forma de
'linguagem' incluiria os roncos que permitem variados tipos de
mensagens, e não apenas sinais reprodutivos. Alguns dos mais fortes
infrassons de elefantes já registrados documentaram roncos que
claramente assinalam pânico; foi sugerido que esses 'chamados de
pânico' são emitidos para pedir ajuda a uma manada distante. Embora
separadas por quilômetros de florestas, manadas individuais
conseguem ajustar continuamente sua busca por alimento numa
sincronia quase perfeita, evidentemente usando roncos infrassonoros
para manter contato umas com as outras. Essa rede também pode
permitir a manutenção de uma elaborada sociedade hierárquica,
mesmo entre populações esparsas, como sugerem alguns
pesquisadores.

BALEIAS (CETACEA)
Por uma ampla variedade de motivos, frequentemente de
natureza militar secreta (estudos com sonares), a maioria das
pesquisas internacionais sobre a acústica dos mamíferos envolve os
cetáceos: mamíferos aquáticos, na maior parte marinhos, que incluem
baleias, golfinhos, botos e animais similares. Além dos pássaros e dos
hominídeos, os cetáceos parecem ser as únicas outras criaturas
terrestres que contam com trocas vocais facilmente audíveis,
espontâneas e complexas. As pesquisas atuais sobre a acústica dos
cetáceos se concentram em chamados sociais e sinais de
ecolocalização, por meio da análise de

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registros de sons na água, detectados por conjuntos de hidrofones
ligados a estações de trabalho com processadores de sinais digitais.
Porém, o método falha na hora de mostrar os contextos sociais dos
cetáceos; para isso, seria necessário um monitoramento de vídeo em
tempo real, cujos resultados deveriam, então, ser analisados em
laboratório para dados comparativos. Em particular no caso das
baleias, cuja coleta de dados é extremamente difícil.
As vocalizações das baleias podem alcançar 256.000 hertz —
uma frequência doze vezes mais aguda que o ouvido humano
consegue detectar. Por esse motivo, os seres humanos só ficaram a par
do verdadeiro intervalo de comunicação vocal entre as baleias após o
desenvolvimento de dispositivos eletrônicos sensíveis, na segunda
metade do século XX. Há muitos tipos de 'linguagens' de baleias, que
dependem do seu gênero.10
Pesquisas sobre as orcas feitas desde a década de 1970 revelam
que suas vocalizações compreendem cliques, assobios e gritos curtos e
agudos chamados de 'chamados em pulso'. Os cliques são
simplesmente sons do sistema de ecolocalização. Os assobios são
ouvidos entre orcas que estão descansando ou socializando e parecem
estar envolvidos em brincadeiras e atividades sexuais. Chamados em
pulso, junto a um 'grito parecido com uma dobradiça enferrujada',
provavelmente servem para rastrear membros do cardume que não
estão à vista, uma vez que eles podem ser ouvidos por outras orcas a
oito quilômetros de distância. Cada cardume compartilha um número
de sequências de pulsos com outros cardumes da região. Porém,
frequentemente, cada cardume demonstra versões únicas desses
chamados em pulso em comum; além disso, cada um deles possui um
ou dois chamados em pulso distintos, que não são compartilhados
com outros cardumes. São essas

24
diferenças que parecem isolar um 'dialeto' local. Cardumes individuais
de orcas podem ser facilmente identificados por seu dialeto único.
Diferentemente das baleias-jubarte, as orcas mantêm dialetos
individuais sem mudanças intencionais por períodos muito longos,
possivelmente pela vida inteira.
Hoje, as baleias-fin são conhecidas por emitirem intensos
chamados infrassônicos; mas ainda não se sabe se eles servem para
sua comunicação. Também não se sabe se os gemidos, grunhidos e
sons parecidos com o da corneta e do barrido do elefante feitos pela
baleia-franca, um dos cetáceos mais vocais, compreendem algum tipo
de comunicação.
Entre os mais poderosos sons uniformes emitidos por qualquer
forma de vida terrestre está o chamado produzido pela baleia-azul.
Como foi medido pela marinha norte-americana no litoral da América
do Sul, sua 'canção' de 188 decibéis — um nível de barulho
comparável a um cruzeiro navegando em velocidade normal — pode
ser detectada a centenas de quilômetros de distância. Normalmente
infrassônicas, as canções da baleia-azul compreendem notas
perfeitamente harmonizadas, repetidas em intervalos de 128 segundos.
Durante a maior parte do ano, a baleia-azul canta continuamente
durante oito dias, repetindo apenas cinco dessas notas harmonizadas
em diferentes combinações. Se há alguma pausa, a nota seguinte
ocorre em exatos 256 segundos. Alguns especialistas acreditam que as
baleias-azuis 'cantam' para apontar com precisão sua localização no
oceano, cronometrando o reflexo de suas emissões em bancos de areia
dos continentes, ilhas e montanhas submersas. Assim essas canções
não teriam uma função comunicativa. Porém, o fato de as canções
serem audíveis em distâncias tão gigantescas parece contradizer essa
hipótese.

25
Hoje, nós sabemos que as baleias-jubarte — assim como os
primatas, talvez as únicas outras compositoras na natureza —
transmitem, de modo semelhante, 'canções' para centenas de
quilômetros pelo oceano. As jubartes evidentemente usam uma
'linguagem' especial que deve verdadeiramente ser uma das
características mais fascinantes da natureza. Elas exibem uma grande
variedade de vocalizações: lamentos, chiados, grunhidos, rugidos e
urros que podem, às vezes, ser associados a comportamentos
específicos, sugerindo um significado social. Mas são as canções da
jubarte que mais se aproximam do nosso conceito de 'linguagem'
verdadeira. Durante mais de vinte anos, as canções das jubartes das
bermudas foram investigadas. Foi descoberto que entre as
vocalizações havia 'longas canções de amor' — ou seja, sequências
regulares de sons repetidos emitidos para o acasalamento. As canções
apresentavam uma ampla variedade de tons e duravam entre seis e 30
minutos; quando gravadas e artificialmente aceleradas em mais de 14
vezes, as canções se pareciam notavelmente com o canto de um
pássaro. Há solos, duetos, trios e até coros de dezenas de jubartes.
Cada uma delas canta a mesma 'canção', embora não em uníssono. E a
canção muda diacronicamente, ou seja, ao longo do tempo, um
processo que parece ser constante e intencional, muito semelhante a
formas de mudança da linguagem humana: novos elementos são
compostos, mantidos, e depois aperfeiçoados. Isso é muito diferente
do 'dialeto' das aves, que são simplesmente regionais. Como os
humanos, as jubartes modificam intencionalmente seu próprio ritual
de vocalizações com o tempo. Um grupo regional de jubartes cantará a
mesma 'canção' durante um ano, e no ano seguinte colocará outra
canção em seu lugar. É significativo que as canções de dois anos
consecutivos sejam mais parecidas do que duas canções separadas por
um intervalo de vários anos. A canção parece estar 'evoluindo' e cada
jubarte participa da evolução da canção.

26
Quando as jubartes do Havaí foram comparadas às jubartes das
Bermudas, num período de quatro anos, foi descoberto que em todos
os anos os grupos cantavam canções diferentes. Ainda assim, ambas
apresentaram uma mudança diacrônica e demonstraram a mesma
estrutura (não conteúdo) na canção. Por exemplo, cada canção
compreende cerca de seis temas, com várias frases idênticas ou que
mudavam lentamente. Cada frase contém entre dois e cinco sons. A
canção mantém os temas numa determinada ordem, mas, às vezes, as
jubartes omitem um ou mais temas. Os temas que restam são sempre
cantados numa sequência previsível, baseada em performances
anteriores. Embora as jubartes das Bermudas e do Havaí não tenham
contato, suas canções compartilham 'regras linguísticas' essenciais.
Assim, as leis de composição das jubartes parecem ser
universais, seja no Atlântico, seja no Pacífico. Isso sugere que as
jubartes (na verdade, talvez todos os cetáceos) herdam um conjunto
de leis de vocalização, dentro das quais cada geração pode improvisar.
Não se sabe se essas supostas leis de vocalização são transmitidas
geneticamente ou transmitidas pelo aprendizado. Sugere-se que, como
as jubartes não cantam nas áreas de alimentação durante o verão e
como as canções são complexas demais, elas simplesmente esqueçam
a canção entre uma estação e outra e arquitetem uma nova versão,
baseadas numa lembrança parcial. A hipótese foi testada nos mares da
Ilha de Maui, no Havaí, e se provou equivocada: quando as jubartes
voltaram, a canção antiga foi cantada, e depois gradualmente alterada
durante a temporada de acasalamento.
As jubartes sempre cantam as novas frases num andamento
mais rápido do que as frases antigas, e, às vezes, as frases novas são
ajustadas, de modo a conectar o início e o final de frases consecutivas.
As partes

27
do meio são simplesmente omitidas, como as abreviações usadas por
seres humanos ('cê' por Você'). Esse processo também é parecido com
o modo como a linguagem evolui em comunidades humanas. Como as
canções das jubartes são diferentes, embora a forma da canção seja
similar tanto no Atlântico como no Pacífico, os especialistas
concordam que, nesse caso, pode-se falar em termos de verdadeiros
'dialetos' regionais. O fato também indica fortemente que na canção da
jubarte pode se encontrar uma forma de 'linguagem' que mais se
aproxima das expectativas humanas, embora sua natureza específica
ainda precise ser entendida.
Os celebrados codas — distintos padrões de cliques — do
grande e tímido cachalote parecem ser diferentes para cada indivíduo;
ou seja, eles não parecem constituir o mesmo tipo de 'linguagem'
compartilhada, exibida pela jubarte. Infelizmente, esses codas ainda
não foram decifrados. Porém, sabe-se que eles variam de oceano para
oceano, e, portanto, podem representar (pelo menos para rastreadores
humanos) uma marca de 'dialeto'. Por exemplo, os cachalotes de
Galápagos emitem 23 codas distintos durante interlúdios sociais. Há
um coda de cinco cliques que frequentemente inicia as conversações,
como um 'oi'. Também há um coda de sete cliques que normalmente
segue um coda de oito cliques, ambos os significados são
desconhecidos. Os machos se anunciam com um som metálico
chamado de 'grande clique', repetido a cada sete segundos, parecido
com o som do 'bater de uma porta de cela de cadeia', talvez o som seja
usado para atrair fêmeas ou intimidar rivais. Os codas do cachalote
são quase sempre ouvidos no meio do dia, quando as baleias estão
socializando perto da superfície do mar. Foi sugerido que os codas
permitem que os cachalotes se identifiquem individualmente, uns para
os outros. Vários outros cliques (não codas) usados pelos cachalotes
podem agir

28
como um sonar de ecolocalização e, como dizem alguns, para
atordoar a presa com o som.

GOLFINHOS (DELPHINIDAE)
O termo golfinho geralmente inclui os botos, uma subespécie,
que também vocaliza frequentemente, como é observado há milhares
de anos no caso do golfinho-riscado, que assobia para se comunicar e
faz cliques para ecolocalização simultaneamente. Os golfinhos
produzem os cliques forçando as cavidades nasais contra as beiradas
ósseas do crânio, e depois, convergindo-os através do tecido adiposo
em sua testa. Os golfinhos não possuem ouvidos externos; o som é
recebido através de uma estreita 'janela no osso maxilar inferior.
Na década de 1960, o neurofisiologista e psicanalista
norte-americano John C. Lilly, convencido de que os golfinhos já
possuíam uma elaborada linguagem natural, começou a ensiná-los a
'falar inglês'.11 O objetivo do Projeto Janus, idealizado por Lilly, era
permitir que seres humanos e golfinhos, cada um em seu respectivo
ambiente, trocassem vocalizações ajustadas a uma 'audição
confortável', através de um código de 64 sons. Lilly esperava rápidas
comunicações entre humanos e golfinhos: 'Quero descobrir se eles têm
sagas, ensinamentos, histórias'. Seu desejo antropocêntrico — talvez
ingênuo, quando visto em retrospecto — não foi satisfeito. Tentativas
semelhantes posteriores, como as feitas em Marineland, na Flórida,
seguindo o modelo de experimentos contemporâneos para ensinar uma
língua artificial para primatas, também produziram resultados
insatisfatórios. A comunicação entre humanos e golfinhos, quase
sempre vinculada à combinação de códigos simples, raramente
transmitia mais de 12 palavras codificadas em inglês.

29
É evidente que o repertório vocal dos golfinhos inclui
mensagens emocionais de alguma espécie. Especialistas isolaram um
grito, que sobe e desce, parecido com o de um pássaro, que deve
significar algo parecido com 'socorro!'. Outros sinais isolados e
específicos de golfinhos devem significar alguma coisa como: 'Sou o
Flipper'. Apesar disso, a opinião científica atual, num forte contraste
com o entusiasmo otimista de mais de uma geração passada, sustenta
que a 'linguagem' do golfinho na natureza (em oposição à
comunicação artificial entre humanos e golfinhos) esteja talvez mais
próxima aos gemidos, risadinhas e suspiros humanos do que
geralmente se espera de uma 'linguagem' verdadeira.
Como vimos, a acústica dos cetáceos indica 'dialetos'
discerníveis, e mesmo evoluções de estrutura marcadas, esperadas
numa troca de informações baseadas no conhecimento. Por tudo isso,
as tentativas dos humanos em estabelecer 'diálogos', na forma como
os entendemos, com os cetáceos falharam até o momento. Nós não
compreendemos realmente o modo como os cetáceos transmitem
informações. Eles se comunicam uns com os outros de alguma
maneira; e acima de tudo, os golfinhos e as jubartes parecem viver
numa sociedade ricamente vocal. Mas ainda temos de compreender a
'linguagem' dos cetáceos nessas elaboradas vocalizações.
No caso dos primatas, o terreno é mais familiar. Como escreveu
o primatologista John Mitani: 'Você não consegue olhar de perto um
grande primata sem sentir algo muito especial'. É o extremo da
vaidade: percebemos nós mesmos. Cerca de dezessete milhões de
anos atrás, durante o período mioceno, havia pelo menos três vezes
mais gêneros de macacos do que hoje. Seus descendentes são os
pequenos primatas ou gibões; os grandes primatas (orangotangos,
gorilas, chimpanzés e bonobos); e os seres humanos, o último dos
hominídeos.

30
Todos os grandes primatas parecem exibir habilidades linguísticas que
chegam perto daquilo que entendemos por verdadeira 'linguagem',
principalmente devido a seu conceito antropocêntrico.

ORANGOTANGOS (Pongo pygmaeus)


No final da década de 1970, a linguagem de sinais foi ensinada
para grandes primatas em seu próprio lar pela primeira vez, para
orangotangos em Bornéu. Suas lições foram preparadas no modelo de
experimentos contemporâneos com gorilas e chimpanzés nos EUA.
Dois orangotangos aprenderam vinte sinais da Linguagem de Sinais
Norte-Americana em menos de um ano, uma taxa semelhante à
capacidade de aprendizado das outras espécies. O experimento indicou
que as habilidades de 'linguagem' de todos os grandes primatas é,
provavelmente, quase a mesma, independentemente da espécie. O
talento individual parece apresentar uma diferenciação mais ampla. As
experiências com a linguagem em orangotangos aumentaram nos
últimos anos. Elas produziram resultados de compreensão e produção
linguísticas ainda mais surpreendentes.

GORILAS (Gorilla gorilla)


Uma tolerância temporária a seres humanos na sociedade dos
gorilas da montanha pode ser alcançada por meio de gestos (fingindo
comer folhas), postura (de lado, olhos desviados) e vocalizações (sons
que imitam o ato de comer, grunhidos de busca por alimentos) — tudo
simultaneamente, como demonstrou Dian Fossey no Centro de
Pesquisa Karisoke de Ruanda, desde a década de 1960, até seu
assassinato em 1985. Ela fez um estudo básico das vocalizações dos
gorilas na natureza, e chegou até mesmo a reproduzir esses sons,
numa tentativa

31
de 'falar a língua dos gorilas'. Pela primeira vez na história, foi
estabelecida uma confiança entre gorilas e seres humanos na natureza
— por meio da 'linguagem' deles e não da nossa.
Ao mesmo tempo, os experimentos de linguagem com a
chimpanzé fêmea Washoe haviam inspirado Francine Patterson a
tentar ensinar uma adaptação da Linguagem de Sinais
Norte-Americana, ou Ameslan, a linguagem dos 'surdos-mudos' dos
Estados Unidos, a uma gorila ocidental das terras baixas, fêmea de 13
meses chamada Koko em julho de 1972. Em 6 anos, o mundo
aclamava Koko como a 'primeira gorila a alcançar proficiência' em
conversar por sinais. O experimento se tornou o mais longo estudo em
andamento sobre a linguagem dos primatas, título que mantém até
hoje.12 Atualmente, Koko apresenta um vocabulário ativo de mais de
500 sinais; ela também tem um vocabulário passivo com outros 500
sinais. Hoje, seu vocabulário total é semelhante ao de uma criança
humana de menos de 5 anos de idade. Tal capacidade linguística
também prova a existência de uma faculdade cerebral para a
linguagem em grandes primatas — ou seja, os gorilas na natureza já
são 'preparados' para algum tipo de linguagem, que os permite usar a
linguagem de sinais em laboratório. O QI de Koko, testado por meio
do exame Stanford-Binet, fica entre 85 e 95; muito pouco abaixo da
média das crianças humanas. Porém, vários de seus 'erros' cometidos
no teste antropocêntrico foram computados incorretamente: por
exemplo, para um gorila, uma árvore, e não uma casa, é o abrigo
lógico contra chuva. Provavelmente, o QI de Koko seja um pouco
mais alto.
As proezas de Koko são tanto divertidas quanto sérias. Quando
Koko viu um cavalo com um freio na boca, fez sinais para 'cavalo
triste'. Patterson perguntou por quê. Koko respondeu: 'Dentes'. Ao
imitar os humanos, Koko tentou até falar; uma vez, ela tentou
telefonar

32
(aterrorizado, o operador rastreou a chamada, achando que a pessoa
que havia ligado estava morrendo). Em 1976, um gorila ocidental das
terras baixas, macho de três anos e meio chamado Michael, se juntou
ao treinamento de Koko. Patterson disse a Koko que um novo bebê
estava chegando. Quando Koko viu Michael, de 23 quilos, respondeu
por meio dos sinais: 'Errado. Velho'. Em dois anos, os gorilas Koko e
Michael 'conversavam' entre si usando a Ameslan.
Um teclado especial foi projetado para operar com um
sintetizador de voz. Koko e Michael apertavam uma tecla e a palavra
escolhida era pronunciada em voz alta nas caixas de som. Por meio da
linguagem de sinais e do teclado, Koko, em particular, apresenta toda
a gama de emoções, humor e inteligência de uma criança humana.13
Patterson foi mais além. Reconhecendo o deslocamento — a
habilidade inata de se referir a eventos distantes no tempo e no espaço
do ato presente da comunicação — como uma característica principal
da linguagem humana, ela testou se Koko estava na verdade
classificando eventos simultâneos ou se os recriava linguisticamente
usando o deslocamento. 'Será que os animais usam símbolos para se
referir a eventos passados ou futuros?', ela ousou perguntar. Logo foi
descoberto que Koko conseguia conversar prontamente sobre um
incidente passado, assim como descrever um estado emocional
passado.14 O deslocamento também foi demonstrado pelas mentiras
que Koko contava, usadas principalmente para evitar a culpa, mas
também com humor ou fazendo gracinhas. Por exemplo, Koko
começou a mastigar um giz de cera vermelho. Patterson perguntou:
'Você não está comendo o giz de cera, está?' Koko respondeu por
meio de sinais: 'Lábio', e começou a passar o giz, primeiro no lábio
superior, e depois no lábio inferior, como se fosse um batom. Essa
anedota contém uma revelação mais profunda: o uso da linguagem por
um

33
não humano para distorcer a percepção da realidade do ouvinte. Ale
os experimentos de Patterson com Koko, tal uso era uma prerrogativa
exclusivamente humana.
Ao contrário das estimativas depreciativas dos naturalistas sobre
a inteligência dos gorilas na metade do século XX, no início do século
XXI os primatologistas hoje consideram os gorilas pares intelectuais
dos chimpanzés, em grande parte devido aos resultados da pesquisa de
Patterson. Mas há diferenças significativas entre gorilas e chimpanzés.
Em comparação com seus primos chimpanzés, Koko usa os sinais
mais deliberada e cuidadosamente. Ela também usa os sinais com
mais frequência e se dirige a uma gama muito maior de atividades.15
Mesmo hoje, 27 anos após o início do experimento, Koko ainda
usa ativamente seu teclado auditivo de 46 teclas. Ele apresenta os
números e as letras comuns do alfabeto, mas cada tecla também está
pintada com um padrão geométrico simples e arbitrário em dez cores
diferentes. Koko entende que eles representam 'palavras' para objetos,
emoções e ações; eles também incluem pronomes, preposições e
modificadores, permitindo uma sintaxe primitiva. Pacientemente,
Koko digita com o dedo indicador; uma mão fica livre para fazer
sinais. Ela digita e 'fala' simultaneamente. Koko e seu companheiro
Michael usam regularmente centenas de gestos da Ameslan. O projeto
em andamento continua revolucionando nossa compreensão da
comunicação animal e da 'linguagem'.

CHIMPANZÉS (Pan troglodytes)


O ano de 1967 foi um marco para a comunicação entre humanos
e primatas, quando a chimpanzé Washoe proferiu a sentença 'quero
doce' na linguagem de Sinais Norte-Americana. O período

34
entre as décadas de 1960 e 1980 foi a grande era dos experimentos em
comunicação entre humanos e chimpanzés. Experimentos anteriores,
levados a cabo durante anos com as chimpanzés Viki e Sarah, usavam
símbolos de plástico ou palavras faladas e haviam gerado apenas um
vocabulário extremamente pequeno. Em contraste, Washoe aprendeu
34 sinais da Ameslan nos primeiros 22 meses de treinamento, e dois
anos mais tarde, em 1970, já havia adquirido um total de 132 sinais,
que ela usava de uma maneira semelhante à usada por crianças
humanas nos primeiros estágios de aprendizado da fala.16 Ficou
evidente para os treinadores de Washoe, Allen e Beatrix Gardner, que
a dificuldade dos chimpanzés em adquirir a linguagem está em sua
incapacidade de controlar os lábios e a língua — ou seja, em produzir
um discurso articulado. Além disso, a faringe dos grandes primatas
impede o som aspirado dos humanos, permitindo apenas as
vocalizações mais simples através da laringe: grunhidos, gritos
agudos, choramingos e assim por diante. Os Gardners foram os
primeiros a usar a linguagem dos sinais com os primatas. Seus
resultados foram impressionantes, e inspiraram Francine Patterson a
usar a Ameslan com a gorila Koko, quando também instigaram Duane
Rumbaugh a colocar a chimpanzé Lana em frente a um computador no
Centro Regional de Pesquisa de Primatas de Yerkes, em Atlanta, na
Geórgia: eventualmente, Lana 'digitou' declarações racionais e
intencionais num teclado arbitrariamente codificado.17
Se no início da década de 1970 os linguistas, com base apenas
nas pesquisas feitas com chimpanzés, concluíram com unanimidade
que Washoe e outros grandes primatas não possuíam uma linguagem
como nós conhecemos; no final da década de 1970, principalmente
devido aos resultados dos experimentos de Patterson com os gorilas
Koko e Michael, eles ou se retrataram totalmente ou modificaram

35
significativamente sua avaliação: os grandes primatas, admitiu a
maioria dos linguistas, pareciam ser dotados de alguma forma de
'capacidade de linguagem'. Muito recentemente, uma característica do
cérebro considerada essencial para a linguagem humana — a
assimetria do planum temporale localizado bem acima do ouvido —
foi descoberta também no cérebro do chimpanzé; porém, ainda não se
sabe como isso pode influenciar na capacidade de linguagem dos
chimpanzés, se é que há uma influência. O papel exato dessa
assimetria na recepção e/ou produção de linguagem ainda precisa ser
determinado.
Experimentos de comunicação entre humanos e primatas feitos
entre as décadas de 1960 e 1980, nos quais alguns primatas
aprenderam a linguagem de sinais, enquanto outros, usaram
linguagens simbólicas inventadas, demonstram que não há uma
diferença real se são usados gestos ou símbolos. Os grandes primatas
aprenderam sim a trocar informações com seus treinadores humanos,
alguns deles de maneira notável, o que provou que seus caminhos
neurais para a linguagem, de alguma forma não específica, já estavam
presentes. Porém, uma questão ainda permanece: a comunicação entre
humanos e primatas prova que os grandes primatas são capazes de
usar a linguagem de modo semelhante aos humanos? Talvez Washoe
estivesse sinalizando associações vagas esperando uma recompensa.
Koko pode ter sido superinterpretada a partir de pré-concepções
humanas. Outros chimpanzés podem ter respondido a sugestões
corporais, sons circunstanciais e sutis, e não a uma linguagem real. O
pessimismo recaiu sobre todo o campo e os fundos de pesquisa foram
extremamente reduzidos. Mas tudo mudou com o bonobo Kanzi.

BONOBOS (Part paniscus)


Dividimos 99% da nossa constituição genética com os
chimpanzés, e ainda mais características consideradas humanas com
os

36
chimpanzés pigmeus, os bonobos. Na natureza, os bonobos foram
observados se comunicando individualmente e de maneira constante
uns com os outros por meio da linguagem corporal (gestos, expressões
faciais, postura, orientação) combinada com vocalizações simultâneas.
Por exemplo, há pelo menos vinte gestos e chamados que demonstram
a vontade de copular. Será que essa 'linguagem natural' dos bonobos
na natureza pode indicar os caminhos neurais que permitem que os
bonobos usem a linguagem de uma maneira talvez mais familiar para
os seres humanos? Experimentos recentes feitos pela norte-americana
Sue Savage-Rumbaugh, aclamada pela comunidade científica, não
apenas confirmaram o fato, mas também revelaram uma dimensão até
então ignorada da capacidade linguística dos grandes primatas.18
O bonobo Kanzi foi ensinado a se comunicar com os seres
humanos por meio de um 'lexigrama, um teclado com símbolos que
representam conjuntos de palavras ou ações. Kanzi é diferente de um
'primata treinado', no sentido de que suas respostas são motivadas em
vez de condicionadas: Kanzi é 'estimulado' a usar símbolos de maneira
espontânea e criativa para se comunicar com humanos e outros
prima-tas. Após muitos anos nesse ambiente de treinamento artificial,
Kanzi também aprendeu a entender perguntas, declarações e
comandos de voz em inglês, aos quais ele responde usando o
lexigrama. Hoje, o lexigrama também consegue ativar eletronicamente
uma resposta vocal para Kanzi. Raramente um primata chegou tão
perto de produzir um léxico e uma sintaxe que seres humanos
conseguem identificar e entender prontamente. Kanzi parece estar no
limiar do uso da 'linguagem' do modo que os seres humanos
compreendem o conceito.19
Exemplificando, um dos chimpanzés do centro de pesquisa
havia roubado as chaves de Savage-Rumbaugh. Ela pediu para Kanzi
recuperá-las. Kanzi foi até o culpado, 'murmurou' alguma coisa em
seu

37
ouvido, e voltou com as chaves. Kanzi também demonstra reconhecer
vozes humanas no telefone, e consegue sinalizar respostas apropriadas
a essas mensagens telefônicas. Ele aparenta compartilhar uma
comunicação vocal parecida com a dos humanos com seus
treinadores, embora suas respostas a mensagens vocais sejam
necessariamente eletrônicas ou simbólicas. Atualmente, Kanzi está
usando o lexigrama com 256 símbolos geométricos. Os chimpanzés
estão aprendendo a usar o lexigrama de Kanzi de maneira semelhante.
Um resultado curioso do experimento é que, hoje em dia, crianças
humanas com dificuldades de aprendizado estão usando e se
beneficiando de uma versão adaptada do lexigrama do bonobo.
Num teste recente, 660 solicitações inéditas, do tipo 'coloque a
maçã no chapéu', foram feitas para Kanzi e para crianças. Os acertos
de Kanzi foram superiores aos de crianças de 2 anos de idade. Kanzi
parece ser capaz de responder e produzir linguagem de maneira
espontânea com a mesma proporção inata de uma criança de dois anos
e meio. Savage-Rumbaugh provou, para a satisfação da maioria dos
especialistas, que primatas podem compreender e usar a linguagem
espontaneamente do mesmo modo que uma criança: por meio da
audição e relação das palavras faladas a objetos, símbolos e ações que
elas representam.
Se a capacidade linguística de um ser humano de dois anos de
idade é chamada de 'linguagem', então o bonobo Kanzi está 'falando'
conosco.20

Haverá uma 'linguagem' verdadeiramente não humana? Ou


estaremos nós apenas 'concedendo' a linguagem a não humanos,
talvez interpretando uma linguagem onde há, na verdade, uma

38
não linguagem? Como escreveu o filósofo austríaco Ludwig
Wittgenstein: 'Se um leão pudesse falar, nós não o entenderíamos'. A
comunicação dos grandes primatas na natureza é significativamente
diferente da comunicação entre humanos e primatas em laboratório: o
primeiro compreende uma rica combinação de linguagem corporal e
vocalizações, enquanto o segundo ocorre era um ambiente humano
artificial que estimula os primatas a responderem por meio de
símbolos humanos ou palavras.21 Porém, uma grande quantidade de
testes controlados demonstrou, talvez além de qualquer dúvida, que
embora o meio seja artificial e treinado, o resultado dos experimentos
com humanos e animais é uma comunicação espontânea e criativa —
ou seja, a troca vocal ou por meio de sinais de informações com
significado. Através de caminhos neurais preexistentes, os animais
estão falando para nós, e conosco, de uma maneira significativa.22
Contudo, a comunicação entre humanos e animais não forneceu
quase nenhuma informação sobre o que os animais comunicam uns
aos outros em seu ambiente natural. É possível que primatas
transmitam mensagens complexas, porém o conteúdo das informações
trocadas ainda é desconhecido. Os humanos podem ensinar papagaios
cinzentos e bonobos a se comunicar de modo humano, mas papagaios
cinzentos e bonobos não estão ensinando seres humanos a se
comunicarem de maneira não humana.
A ignorância e a arrogância humana em relação à maioria das
espécies de animais até o meio do século XX foi substituída, na
segunda metade do século, por uma crença exagerada na equidade
intrínseca dos animais, postulando inclusive intelectos
proporcionados. Essa dialética irracional encontrou, atualmente, um
equilíbrio mais racional, que aceita que os animais usem sim 'algum
tipo de linguagem' na

39
natureza; que eles são capazes de ser treinados para se comunicar,
deforma espontânea e criativa, com humanos e não humanos por
meios artificiais e/ou não naturais; e que o limite (definido por
humanos) da inteligência de tal comunicação entre humanos e animais
pode, às vezes, se aproximar do de crianças muito pequenas. Por outro
lado, precisa-se aceitar que a questão da inteligência comparativa de
não humanos pode simplesmente não valer a pena.
A linguagem que os não humanos aprendem e usam ativamente
não é irrelevante nem efêmera para esses animais. No início da década
de 1970, o chimpanzé Bruno aprendeu o Ameslan; em 1982, o projeto
foi encerrado e Bruno foi levado para um laboratório médico. Em
1992, mesmo sem estímulos, Bruno continuava usando o Ameslan,
inspirando os técnicos do laboratório a aprender a linguagem de sinais
para se comunicar com ele. Outros primatas ensinaram
voluntariamente a membros de sua espécie, incluindo os filhotes,
modos de comunicação aprendidos com os humanos. Para esses
animais, a linguagem artificial, uma vez adquirida, é reconhecida
como um elemento essencial de interação social. Talvez, a apreciação
seja inata.23
Mais importante, o estudo da comunicação e 'linguagem' animal
nos permite especular de maneira mais inteligente sobre a evolução da
linguagem humana. Certamente, não é coincidência o fato de os
animais que aparentam ter uma 'linguagem' mais próxima àquela
como concebemos — embora a vocalização tenha sido alcançada
apenas eletronicamente — serem também os geneticamente mais
próximos de nós. O próprio conceito humano do que constitui a
linguagem é, necessariamente, antropocêntrico. Não estamos
buscando linguagem em animais, estamos procurando a linguagem
humana. Quando planejamos várias maneiras de extrair linguagem
dos animais, geralmente as limitamos a artifícios humanos. A maioria
das pesquisas de

40
'linguagem' entre humanos e animais, mesmo as mais objetivas, cria
um meio artificial, centrado no humano, que tem pouca relação com
as linguagens naturais. Sob esse aspecto, é admirável que
pesquisadores como Patterson e Savage-Rumbaugh também
considerem o conteúdo semântico de olhadelas, gestos, posturas e
orientações como 'modos comunicativos' que, também em laboratório,
recebem a mesma consideração que expressões vocais e habilidades
no teclado.
O que diferencia os humanos? Não podemos mais ser
identificados como a espécie que constrói ferramentas. Parece que não
temos mais a patente da linguagem. Talvez os humanos sejam animais
que simplesmente desenvolveram uma 'comunicação mais elaborada'
que rendeu benefícios sem precedentes para seus inovadores.
Concluindo com sua definição mais estrita, a linguagem pode
ser entendida como o meio pelo qual se transmitem pensamentos
complexos por símbolos arbitrários — expressões vocais gramaticais
ou sua expressão gráfica — numa sintaxe significativa. Embora a
humanidade tenha até então assumido que essa definição é preenchida
apenas pelo Homo sapiens, as revelações dos experimentos feitos com
humanos e animais forçaram, pelo menos, uma reconsideração dessa
antiga pressuposição.
Talvez seja melhor considerar os animais similares a
administradores — assessores, que tentam, por meio de uma variedade
de meios comunicativos, fazer com que outras criaturas obedeçam de
modo a beneficiar o indivíduo, o grupo e a espécie. Essa interação
entre administradores e assessores poderia então explicar a evolução
da comunicação animal em geral: é o que o comportamento
comunicativo conquista, e não o que ele diz, que realmente importa
para a sobrevivência e prosperidade na natureza. Nesse processo
evolucionário cada vez mais elaborado, a linguagem na forma de
comunicação

41
vocal não apenas como a base de toda a interação social, mas também
como veículo de pensamentos sofisticados — pelo menos em termos
comparativos — parece ter surgido naturalmente em uma única
família, a dos hominídeos.

42
2

Primatas falantes

Nossos ancestrais primatas evidentemente possuíam os exatos


caminhos neurais necessários para variados modos de expressão
comunicativa de maneira a alcançar uma transmissão de informação
adequada. Porém, os lábios e a língua dos grandes primatas careciam
de controle coordenado; eles também eram incapazes de controlar a
expiração. Mesmo se esses grandes primatas fossem fisicamente aptos
a falar, sua 'fala provavelmente não seria em nada semelhante no
modo como a entendemos hoje. O cérebro do humano moderno é duas
ou três vezes mais volumoso do que qualquer outro primata existente
no planeta; ele confere maior capacidade de usar e posteriormente
elaborar a linguagem falada e raciocinar com ela. A história da
linguagem humana é também uma história do cérebro humano e suas
habilidades cognitivas; as duas caminham lado a lado. É uma história
antiga.

43
Entre sete e cinco milhões de anos atrás, na África,
provavelmente como resultado de dietas diferenciadas, os hominídeos
se separaram das outras espécies de primatas primitivos.1 Dois
principais gêneros de hominídeos se distinguiram: o gênero
Australopithecus e o gênero Homo.
Forçado pelas mudanças do clima na Terra a se adaptar para
sobreviver, o hominídeo Australopithecine — presente no Grande
Vale do Rift, na África há, pelo menos 4,1 milhões de anos — se
tornou mais carnívoro que seus primos primatas e desenvolveu o
bipedalismo (capacidade de andar sobre duas pernas) com uma
postura ereta, permitindo maiores possibilidades de coleta de comida e
a caça com duas mãos livres. Segundo alguns especialistas, devido à
dieta altamente calórica, sua capacidade cerebral aumentou
proporcionalmente ao seu peso corporal. As florestas africanas
continuaram a se retrair, e esses robustos Australopithecines se
ajustaram física e mentalmente às novas, áridas e abertas savanas; eles
desenvolveram uma maior cooperação entre pequenos bandos, com
períodos de caça mais longos e cobrindo distâncias maiores. Nenhum
grande primata jamais exibiu a coerção social necessária para caçar
nas savanas (embora os chimpanzés se juntem em bandos para caçar
macacos na floresta); ainda assim, foi na savana africana que o
Australopithecine se desenvolveu. Porém, um Australopithecus
africanus de três milhões de anos atrás, por exemplo, teria
demonstrado uma capacidade linguística similar à de um gorila,
chimpanzé ou bonobo moderno. Ao dominar o bipedalismo, os
australopithecines se tornaram grandes primatas andantes, mas a
maioria dos especialistas concorda em afirmar que eles não eram
grandes primatas falantes.2
A linguagem vocal humana parece ter surgido pela primeira vez
com o gênero Homo, como será explicado a seguir. Hoje em dia, a

44
maioria dos especialistas assume que uma espécie do gênero
Australopithecus — ou os africanus do sul da África, ou os afarensis
do leste da África — originou uma linhagem que eventualmente
evoluiu para 0 nosso gênero Homo, cerca de 2,5 milhões de anos atrás.
(Porém, é igualmente possível que o Homo seja um gênero não
relacionado a ele.) O mais antigo espécime Homo já identificado, com
2,4 milhões de anos, pertence à espécie Homo habilis. O habilis
surgiu quando o clima da África mudou novamente: ele ficou mais
seco e frio; as florestas tropicais encolheram, o pasto cobriu extensões
maiores. Com uma capacidade cerebral de 400 cc a 500 cc, os
Australopithecines eram evidentemente inaptos, em termos
evolucionários, para se adaptar a essas mudanças ambientais. Com um
cérebro significativamente maior, com capacidade entre 600 cc a 750
cc, o Homo habilis possuía outros atributos inexistentes no
Australopithecus e necessários à sobrevivência nesse novo ambiente
— membros modernos, mais longos — e assim, o habilis prosperou
até cerca de 1,6 milhão de anos atrás. O habilis não fabricava armas;
ele comia restos de presas de carnívoros mais fortes e velozes. Porém,
o habilis fabricou ferramentas de pedra simples, como martelos de
pedra. O habilis também foi a primeira criatura a controlar o fogo.
O cérebro maior do habilis permitiu que bandos maiores
sobrevivessem, conseguindo excedentes ocasionais de comida. Por
sua vez, isso permitiu que agrupamentos cada vez maiores e mais
complexos de habilis se desenvolvessem, exigindo sociedades mais
elaboradas e favorecendo maior propagação entre os membros com
habilidades mentais superiores. Apenas no crânio do Homo habilis foi
encontrada pela primeira vez a saliência da área de Broca, uma região
do cérebro, essencial para a produção da fala e da linguagem de
sinais.3 O habilis poderia possuir os caminhos neurais para uma
linguagem muito rudimentar.

45
Porém, a fala humana não devia ser fisicamente possível
naquela época. Os atributos físicos necessários para a produção do
discurso vocal foram, geralmente, ignorados na busca pelas origens da
linguagem humana. A ciência só começou a investigar essa questão a
sério nas últimas duas décadas do século XX. Parece que há 1,6
milhão de anos, o Homo ergaster, uma espécie de hominídeo que
sucedeu o habilis, ainda preservava o pequeno buraco na vértebra da
caixa torácica através do qual passa a medula espinhal, idêntico ao
pequeno buraco que hoje também é encontrado em primatas não
humanos. Os nervos dessa região controlam os músculos da caixa
torácica usados especificamente na expiração. Um buraco tão pequeno
torna as expirações necessárias à fala incontroláveis: há muito pouco
tecido nervoso. As duas espécies mais antigas do Homo eram, desse
modo, capazes apenas de padrões de fala curta e lenta e não
modulada, e não uma fala articulada, que é o arranjo sistemático de
sons vocais significativos.
Além disso, sua laringe ou caixa vocal ainda era parecida com a
das crianças humanas, que são anatomicamente incapazes de articular
a maior parte dos sons humanos até a descida da laringe na garganta,
que ocorre após o primeiro ano de vida (a laringe dos grandes
prima-tas não desce). O crânio do antigo Homo habilis mostra apenas
uma leve flexão na sua base, indicando que sua laringe ainda não
havia evoluído para a dos humanos adultos modernos. Mesmo se os
caminhos neurais que permitem a fala estivessem presentes, os órgãos
físicos necessários a ela não estavam.
Os atributos físicos, necessários à fala articulada humana,
parecem ter evoluído bem rapidamente entre 1,6 milhão e 400 mil
anos atrás. É dessa última data que provém o mais antigo fóssil de
hominídeo que indica um uso possível do discurso vocal. Essa

46
possibilidade surgiu com uma espécie de hominídeo totalmente nova:
o Homo erectus.

HOMO ERECTUS
A ciência moderna reconhece atualmente pelo menos três
espécies essenciais do gênero Homo: habilis, erectus e sapiens, nesta
ordem evolucionária. É possível que apenas duas espécies humanas
tenham vivido além da África: o erectus e o sapiens, e que tenham
realizado o feito apenas porque haviam elaborado, por meio de uma
fala rudimentar, um alto grau de organização social, que permitiu a
migração dos grupos. Um modelo atualmente preferido coloca o
Homo erectus como o primeiro hominídeo a deixar a África, seguindo
animais selvagens maiores e deixando para trás uma trilha de
machados minuciosamente manufaturados.
Na década de 1890, a descoberta dos fósseis do topo do crânio,
molar e fêmur de um humano na ilha de Java, na Indonésia, datado de
700.000 anos atrás, provou que um hominídeo, primeiro chamado de
'homem de Java', habitava o que na época era o sudeste do
subcontinente asiático de Sunda. Descobertas posteriores permitiram a
identificação de uma nova espécie: o Homo erectus. Essa espécie de
hominídeo pode ter evoluído na África cerca de dois milhões de anos
atrás, seguindo manadas pelos pastos africanos durante uma expansão
interglacial, tornando-se, aos poucos, quase totalmente carnívora. O
surgimento do erectus assinalou um grande avanço na evolução dos
hominídeos. O erectus era mais magro, mais alto, mais rápido e mais
esperto que todos os outros hominídeos antes dele. Do pescoço para
baixo, ele lembrava com precisão os humanos modernos. Assim, o
erectus ostentava um corpo forte, sua cabeça apresentava sulcos

47
protuberantes na área da sobrancelha, e sua testa se projetava para
atrás. Alguns especialistas acreditam que a energia extra fornecida por
sua dieta predominantemente carnívora produziu um cérebro maior:
800 cc a 1.000 cc (Homo sapiens: 1.100 cc a 1.400 cc).
O cérebro maior permitiu que o erectus inventasse de uma
maneira sem precedentes na natureza até então. O erectus fabricou o
primeiro machado de mão (o mais antigo sítio arqueológico de
machados de mão do mundo fica em Konso-Gardula, na Etiópia, e
data entre 1,7 e 1,37 milhão de anos). Ele matava a presa com lascas e
tijolos feitos de pedras. Provavelmente também usava ossos e
madeira. Com armas versáteis e bons suprimentos de carne, o erectus
se tornou evidentemente o primeiro hominídeo globalmente adaptado.
Aparentemente, o erectus emigrou da África bem cedo, quase ao
mesmo tempo de seu surgimento como espécie. (Ou então seu
ancestral Homo emigrou antes dele, e evoluiu para erectus em outro
lugar, emigrando depois para Java, e de volta para a África, como
propõe uma outra teoria.) Parece que o erectus já estava instalado em
Java — ou seja, no antigo subcontinente de Sunda, antes da elevação
do oceano — cerca de dois milhões de anos atrás.
A conexão com Java é essencial. Até 1997, acreditava-se que o
erectus nunca havia, provavelmente devido à ausência de fala e
inteligência, conseguido cruzar a linha de Wallace, o limite
imaginário que separa Sunda da ilha de Lombok e divide a fauna da
Ásia e da Austrália. Na verdade, até então, a linha de Wallace
representava um divisor de águas que delineava as diferentes
capacidades e alcance do Homo erectus e do Homo sapiens}
Porém, ferramentas de pedra e restos dietéticos descobertos em
1997 na ilha Flores ao leste de Lombok — do outro lado da

48
linha de Wallace -, datados entre 900.000 e 800.000 anos atrás,
parecem demonstrar que o erectus era inteligente e socialmente bem
organizado o suficiente para construir balsas de bambu e cruzar o
estreito de dezessete quilômetros que separa Sunda de sua vizinha
oriental, mesmo nas épocas de níveis marítimos mais baixos. (Mais de
uma década antes, um paleontólogo holandês sugeriu que os humanos
haviam causado ali a extinção dos stegodons pigmeus cerca de
900.000 anos atrás.)
Planejamentos complexos exigem processos mentais
complexos. A implementação social de um planejamento complexo
demanda um alto grau de cooperação social. Isto implica o uso de uma
linguagem que permita uma sintaxe condicional (frase significativa e
sentença sequencial): 'se fizermos isto, acontecerá isso e aquilo'.
Parece apropriado concluir a partir das evidências da ilha Flores que já
há quase um milhão de anos, o Homo erectus era capaz de expressar
tal forma de proposição condicional em sua fala. Isto já está bem além
do 'primeiro passo' da humanidade em direção a um pensamento
simbólico.
Apenas recentemente os especialistas cogitaram a ideia de que o
erectus poderia ter sido capaz da linguagem vocal. A admissão deriva
do reconhecimento da capacidade de organização do erectus, como
pode ser testemunhado em suas múltiplas conquistas através do globo.
Porém, é improvável que a linguagem do erectus tenha sido a fala
como a conhecemos. O buraco na vértebra mais baixa através da qual
passa a medula espinhal ainda era pequeno demais para que ele
pudesse controlar a expiração. Expressões vocais curtas e
significativas eram possíveis; talvez uma sintaxe condicional estivesse
realmente se desenvolvendo. Mas expressões vocais longas e
complexas eram anatomicamente impossíveis.5

49
Aparentemente o Homo erectus povoou todo o Velho Mundo
(ilustração I). Dez mil ferramentas de pedra, incluindo muitos
machados de mão, recentemente descobertos em Ubeidiya em Israel,
perto do Mar da Galileia foram datados de 1,4 milhão de anos atrás.
Até a década de 1990, acreditava-se que os humanos não haviam
entrado na Europa antes de 500 mil anos atrás. Porém, indícios da
presença do erectus no local datam de um tempo muito anterior a
esse, e aparecem quase anualmente nos registros arqueológicos. É
claro que isso estabelece uma relação imediata cora a história da
linguagem humana na Europa.
No início de 1996, uma grande parte do topo do crânio de um
(provisoriamente identificado) erectus que havia sido encontrado a 80
quilômetros a sudeste de Roma, perto de Ceprano, foi montado e
descobriu-se que ele datava de mais de 800.000 anos; ele não tem a
crista que percorre o centro do crânio, e seu cérebro é
significativamente maior que o do erectus clássico. Em duas
temporadas recentes no sítio arqueológico de Gran Dolina, na Serra de
Atapuerca, no norte da Espanha, foram descobertos cerca de 100
fósseis, provavelmente de erectus, e o dobro de ferramentas de pedra,
datando de pelo menos 800.000 anos. A fabricação de ferramentas não
exige linguagem, embora a travessia do estreito de Gibraltar como
uma 'migração de grupo' — do mesmo modo que o cruzamento da
linha de Wallace na Indonésia — a exija. A semelhança desses fósseis
com os fragmentos do erectus encontrado na Argélia na década de
1950 sugere que o erectus efetuou travessias marítimas semelhantes
do litoral do norte da África até a Sicília e à Itália continental mais ou
menos na mesma época. O maxilar inferior de um erectus, datado de
talvez 1,6 milhão de anos (o dado é contestado por vários cientistas
ocidentais), foi encontrado em 1991, na República da Geórgia. O peso
cumulativo desses indícios

50
atualmente sugere que o Homo erectus deve ter entrado na Europa por
vários pontos — sudoeste, sul e leste — mais de um milhão de anos
atrás. Porém, nem todos os paleontólogos concordam.6
Esses primeiros europeus parecem surpreendentemente
sofisticados quando comparados aos primeiros hominídeos. O sítio
arqueológico de Boxgrove no sudeste da Inglaterra demonstra isso,
por um curto período, há, pelo menos, 500 mil anos, os humanos
primitivos estavam caçando animais grandes e perigosos, como
auroques e cavalos, com lanças de madeira numa elaborada
orquestração. Não era o mesmo que comer restos, como os antigos
erectus africanos; era uma caça cooperativa, numa escala bem acima
do modo como os chimpanzés caçam macacos na floresta. Para
planejar, coordenar e emboscar a presa dessa maneira, a fala é
essencial.
Mais recentemente, a Alemanha revelou a sofisticação da
sociedade dos erectus na Europa central há quase 500 mil anos. Em
1995, perto de Schöeningen, a leste de Magdeburgo, foram
encontradas cinco longas lanças com 400.000 anos, entre milhares de
ossos de cavalos abatidos e muitos restos de fogueiras. Outro sítio,
Bilzingsleben, perto de Jena, parece ter sido um povoado permanente
de erectus, há, pelo menos, 412.000 anos, com 'casas' de 3 a 4 metros
de largura e uma grande área pavimentada que deve ter servido para
rituais de grupo, incluindo o de esmagar e espalhar restos humanos. O
sítio forneceu a maior coleção de artefatos feitos com ossos do mundo
que indicam uma presença anterior de oficinas para a fabricação de
artefatos de ossos, madeira e pedras. Vários ossos de Bilzingsleben
parecem exibir incisões intencionais, revelando linhas cortadas em
intervalos regulares. Embora seu descobridor veja nesses talhos
símbolos gráficos primitivos, outros sustentam que qualquer
intencionalidade humana seria improvável, uma vez que o

51
1 Alcance cronológico do Homo erectus (o mapa apresenta os litorais modernos).
pensamento simbólico é geralmente aceito como uma característica da
mente humana moderna.
Cerca de 350.000 anos atrás, o norte da Europa foi tragado pelas
geleiras. Os humanos tornaram-se escassos, e migraram para o sul
atrás de climas mais quentes. Restos de pelos menos 32 humanos de
300.000 anos atrás foram descobertos em 1993 na Serra de Atapuerca.
Um crânio possuía um cérebro tão grande quanto o de um humano
moderno. As características faciais desses humanos primitivos
lembravam os primeiros Neandertais (veja mais à frente), mas sua
altura era similar à nossa. Não se sabe se essa população era composta
de Homo heidelbergensis tardios, Homo sapiens primitivos ou uma
nova espécie de Homo. Como resultado de migrações sucessivas,
nessa época, a Europa abrigava muitas espécies diferentes de
hominídeos. As diferenças entre os fósseis também sugerem uma
diversidade 'racial' significativa entre as populações de erectus,
indicando uma maior liberdade genética do que se estimava até então.
O clima ríspido da Europa forçava uma dieta quase
exclusivamente carnívora, a qual, por sua vez, devido às enormes
dificuldades apresentadas pela caça naquele clima, tornava urgente
planejamentos, coordenações e organizações ainda mais complexas:
as sociedades de hominídeos primitivos europeus chegaram a designar
pequenos grupos de caçadores que se separavam do grupo principal
durante longos períodos. Para sobreviver na Europa durante as Eras
Glaciais, migrantes de latitudes meridionais mais quentes tiveram de
desenvolver redes sociais mais complexas, ir embora ou perecer. Uma
teoria recente propõe que a fala articulada humana possivelmente
evoluiu primeiro no ríspido norte europeu e só depois foi transmitida
para outras espécies de Homo em outros locais. Porém, se a linguagem
é geneticamente determinada, sua transmissão para outras espécies só
poderia

54
ocorrer por meio de acasalamentos híbridos; isso faz essa teoria
parecer improvável. Caso o suposto uso da linguagem articulada em
Sunda, que permitiria a travessia da linha de Wallace 900.000 anos
atrás seja verdade, ele similarmente contradiz a sugestão.
O Homo erectus 'deixou' de existir? Recentemente, uma coleção
de fósseis de erectus no sítio arqueológico de Ngandong, na
Indonésia, foi redatada para menos de 50.000 anos atrás. Talvez o
erectus tenha coexistido com o recém-surgido sapiens. Sob esse
aspecto, as descobertas mais recentes de fósseis ainda parecem apoiar,
pelo menos, uma versão modificada da teoria da 'Saída da África para
a substituição do Homo erectus e o aparecimento do Homo sapiens
nessa região.7 Ou seja, o sapiens moderno surgiu na África entre
150.000 e 100.000 anos atrás, e depois se expandiu para o Oriente
Médio e a Europa, onde substituíram os Neandertais, 30.000 anos
atrás, e para a Ásia, onde substituíram os mais antigos Homo erectus.
Os crânios de Ngandong exibem abóbadas mais altas que os mais
primitivos crânios de erectus de Java ou da China. Alguns
especialistas acreditam que isso pode ser explicado ou como uma
evolução convergente — ou seja, que o crânio dos erectus
simplesmente evoluiu por conta própria para um crânio parecido com
o dos humanos modernos — ou como resultado de acasalamento
híbrido com a chegada do sapiens menos de 50.000 anos atrás
(embora a característica que defina uma 'espécie' seja a incapacidade
de se acasalar com outra).
Com a espécie erectus, talvez originada há 900.000 anos, uma
forma de fala articulada foi aparentemente se desenvolvendo pela
primeira vez, possivelmente permitindo planejamentos e organizações
complexas. É possível que os humanos já estivessem usando nomes
para identificar indivíduos. Porém, declarar, como fez recentemente
um neurocientista, que um primitivo ritual de casamento plantou

55
o simbolismo na mente do hominídeo, e foi a única fonte da
linguagem humana, é ignorar a complexidade e a antiguidade do
desenvolvimento da fala humana que, na realidade, foi um processo
demorado de evolução anatômica conduzido e alimentado por uma
série de fatores externos. Que esse processo já houvesse sido iniciado
especificamente pelo erectus, talvez seja ainda mais insinuado pelas
capacidades físicas e neurais de fala que eles dividiam com os
posteriores neanderthalensis (Neandertais) e sapiens (humanos
modernos) e a relativa sofisticação de suas sociedades baseadas na
fala: uma sofisticação que aponta para ou uma evolução convergente
ou uma origem comum.
Quais fundamentos linguísticos o Homo erectus poderia ter
desenvolvido há quase um milhão de anos? Deve-se lamentar a
improbabilidade de que os processos cerebrais dos primeiros
hominídeos possam ser restaurados. Geralmente, aceita-se que a
linguagem vocal humana não deriva diretamente de alguma
característica pré-humana. A linguagem vocal humana também não
lembra nenhuma forma conhecida de comunicação animal na
natureza: o alerta 'fogo!' dos grandes primatas e outros animais, por
exemplo, não constitui uma 'palavra embrionária. E a associação
indexical — ou seja, uma ligação entre um objeto físico e uma palavra
falada ou sinalizada como 'banana' ou 'teclado' — não é simbólica,
mas simplesmente associativa. Assim, as vocalizações ou sinais que
reproduzem essas associações, tais quais as usadas nos experimentos
de comunicação entre humanos e animais, não apontam para o uso
humano da linguagem. A linguagem vocal humana é diferente. Ela é
um processo dinâmico, simbólico — não associativo — e totalmente
antropocêntrico. Isso ocorre porque a linguagem vocal humana
evoluiu como uma função distinta e autônoma com os órgãos de fala e
cérebro humanos.

56
Porém, a implicação de que o cérebro humano só poderia ter evoluído
em conjunção com a fala é improvável.
No centro da história do surgimento da linguagem vocal humana
estão duas questões fundamentais: como apareceram as 'palavras' e
como a 'sintaxe' surgiu?8 Talvez essas duas questões possam ser mais
bem respondidas por meio de uma investigação dos universais
linguísticos. Esses universais poderiam estar presentes nos primeiros
estágios do desenvolvimento da linguagem dos hominídeos. A classe
básica do 'léxico' (entendido aqui em seu sentido mais amplo,
significando o conjunto de unidades individuais de comunicação) deve
ser compartilhada por todas as criaturas, e manifestada por meio de
diferentes modos de expressão: os feromônios, no caso das formigas, a
dança das abelhas e a linguagem vocálica dos hominídeos. Porém,
pode-se observar que o léxico vocal da linguagem de uma criança
humana não se combina em estruturas mais longas; seu léxico também
não pode ser definido em termos de outras palavras. A linguagem da
criança humana carece de sintaxe, da mesma forma que todos os não
humanos carecem de sintaxe em seus vários modos de comunicação.
(O contra-argumento de que as danças das abelhas certamente têm
algum tipo de sintaxe começaria o problema; coreografia não substitui
articulação.)
Cerca de um milhão de anos atrás mudanças significativas nas
vocalizações dos hominídeos primitivos foram, evidentemente,
ocorrendo, talvez como mais uma consequência, a evolução da
capacidade cerebral resultante da dieta, das migrações e/ou das
mudanças climáticas. A gramática foi surgindo a partir de sons até
então indistinguíveis. Provavelmente, um léxico vocal básico foi
incorporando uma morfologia simples: por exemplo, uma palavra
central como 'caça poderia agora se tornar 'caçado' para expressar o
passado. (Essa

57
é uma analogia meramente ilustrativa.) Uma fonologia, ou sistema de
sons, mais sofisticada talvez decorrente de um melhor controle verbal,
permitiu distinções fonéticas (som falado) que se tornaram distinções
fonêmicas (a menor unidade de som): uma palavra como 'cão' poderia
agora ser distinguida de uma palavra como 'mão'. Foi nessa época que
os primeiros universais linguísticos específicos poderiam, talvez, ter
aparecido. Pode-se deduzir os universais pré-sapiens nos tipos de
universais encontrados nos sapiens de hoje.
Aparentemente há quatro tipos básicos de universais
linguísticos. Entre os vários universais absolutos, estão, por exemplo,
o reconhecimento de que todos os sistemas linguísticos contêm pelo
menos três vogais e que preto e branco devem estar presentes entre o
conjunto de cores. Entre os universais tendenciais, está a percepção de
que [p t k] são 'normalmente' os pontos de articulação básicos para
pausas (consoantes que encerram uma obstrução total das vias
respiratórias) e que outras pausas geralmente não são incluídas à
língua a não ser que [p t k] já estejam presentes. Universais
implicativos só são verdadeiros quando existem certas condições: por
exemplo, se vermelho é uma cor em determinada língua, então
pode-se 'esperar' que preto e branco já estejam presentes nelas. Os
universais não implicativos não exigem condições prévias, mas
também podem ser absolutos ou tendenciais: isso é observado no
aparente universal de que todas as línguas humanas contêm pelo
menos três vogais.
O linguista norte-americano Noam Chomsky propôs que
crianças possuem uma 'predisposição inata para selecionar certos
princípios formais de construção de frases em línguas naturais e não
em outras. Ele está convencido de que se, digamos, fosse construída
uma língua artificial que violasse vários desses princípios, então essa
língua simplesmente não poderia ser aprendida ou adquirida com a

58
'facilidade e eficiência' que uma criança normal demonstra ao
aprender uma língua natural. Porém, a hipótese de Chomsky não está
sujeita à verificação empírica direta. Também há vários problemas
graves com o conceito 'inato'.9 Mais significativamente, o conceito
parece exigir uma aceitação passiva de uma qualidade indefinível e
inexplicável — 'inatismo' — em vez de identificar características
linguísticas universais derivadas do processo dinâmico do pensamento
relacionadas à capacidade de percepção, cognição, demanda social e
processamento de informações.
Vamos passar da sintaxe, da construção das sentenças, para um
léxico linguístico ou palavras constituintes, para ampliar a discussão
sobre os universais (embora deva-se notar que a posição de Chomsky
diz respeito apenas à sintaxe). O universal preto/branco mencionado
acima não é verdadeiramente um 'universal de cores', mas meramente
um produto do processo perceptivo do cérebro humano que pode
registrar o brilho em termos de 'negritude' e 'brancura', embora as
cores sejam separadamente codificadas como 'amarelo/azul',
'vermelho/verde, e assim por diante, para o estabelecimento das seis
cores focais do arco-íris as quais todos os grupos linguísticos parecem
responder de variadas maneiras.
Do mesmo modo, também é formalmente inadequado
simplesmente declarar que há um mínimo de três vogais em todas as
línguas humanas modernas (ou seja, do Homo sapiens). Também
deve-se incluir a informação de que as línguas que possuem apenas
três vogais apresentam apenas o [i] (pronunciado i), [a] (a) e [u] (u).
(Estudos recentes mostraram que mesmo o Homo neanderthalensis
era anatomicamente incapaz de produzir especificamente essas três
vogais do Homo sapiens.) Pode-se perguntar 'por quê?'. A resposta
seria que essas três vogais fornecem a máxima projeção acústica.
Vogais adicionais

59
serão posicionadas uniformemente entre essas três voga is básicas de
acordo com o papel dinâmico da separação de vogais.
Um outro exemplo, ligado ao processo cognitivo do cérebro
humano, seria o reconhecimento de que em todas as línguas o singular
ocorre mais frequentemente que o plural, e o plural mais
frequentemente que o dual. Ou seja, o cérebro humano registra uma
unidade específica antes de um grupo (conjunto), e um grupo antes de
um tipo de grupo. A partir daí pode-se generalizar a dinâmica
universal de que, em todas as línguas, uma marcação simples vem
antes de uma marcação menos simples.10 (Marcação significando
qualificação por meio da identificação de características distintas.)
Existirão universais sintáticos que podem ter sido elaborados
numa época tão distante pelo Homo erectus? Na verdade parece
existir um grande número de universais sintáticos. Por exemplo, todas
as línguas parecem compelidas a colocar adjetivos ('grande') próximos
aos substantivos ('caverna') que eles modificam. Uma sensação
cerebral de 'pertencimento' opera na linguagem humana de modo a
limitar a distância entre itens que se 'pertencem'. O que mentalmente
se pertence é então unido sintaticamente. As sintaxes artificiais,
arcaicas e/ou quase sempre forçadas da poesia (como, por exemplo, a
de Homero, Virgílio e Bãshõ) simplesmente compreendem felizes
exceções expressadas em modos de fala altamente marcados ou
menos frequentes; esse universal sintático também é encontrado na
maioria das línguas.
Talvez o Homo erectus já estivesse elaborando, durante
centenas de anos, formas semelhantes de processar a linguagem que
contivessem os essenciais linguísticos humanos. Apesar de limitados,
se conotativos, os significados são os únicos universais linguísticos
humanos óbvios: todos os seres humanos precisam abrir a boca para
falar; todas as línguas humanas possuem um verbo (ação ou modo) e
um

60
complemento (sujeito ou coisa). Todas as línguas humanas têm
imperativo, afirmativo, negativo e interrogativo. Muito mais
importante para as pesquisas atuais são as dinâmicas linguísticas
universais: em todas as línguas, por exemplo, parece que uma frase
significativa e sentença sequencial encontram-se em oposição à
formação sistemática de palavras, que a palavra ('colmeia')
encontra-se em oposição à frase ('para a colmeia'), e oposições
semelhantes ulteriores.
Uma questão adicional em relação a uma elaboração gradual da
fala articulada do Homo erectus seria em que grau a função
comunicativa da linguagem poderia influenciar a própria forma da
linguagem. Os inatistas acreditam que os universais de linguagem são
características inerentes num modelo linguístico autônomo herdado
pela nossa espécie. Os funcionalistas falam em coerções
interlinguísticas — ou universais — explicadas primeiramente pelos
processos linguísticos e a pressão imposta por eles. Um exame do
debate entre inatistas e funcionalistas demonstra que talvez uma
postura conciliadora de que tanto as coerções sintáticas autônomas
quanto a complexidade processual desempenham papéis fundamentais
e complementares na produção da linguagem.11 A função
comunicativa da linguagem influencia dinamicamente a forma da
linguagem ('colmeia' versus 'para a colmeia'), mas dentro de
específicas restrições herdadas, é o que parece ('caverna grande'
permanece unida mentalmente e sintaticamente).
Porém, todos os especialistas concordam que nos hominídeos o
controle da linguagem e o controle das mãos estão intimamente
ligados a funções cerebrais. Os gestos estão tão integrados à fala
humana, que parecem facilitar o processo cerebral que sustenta a
capacidade linguística. Os gestos não estão presentes apenas para
informar expectadores e ouvintes, mas para permitir que o falante
pense. Desde uma época muito distante, a linguagem dos gestos talvez
tenha contribuído,

61
de uma maneira ainda não muito clara, para o desenvolvimento da
linguagem vocal humana.

HOMO NEANDERTHALENSIS (NEANDERTAL)


As características distintas dos Neandertais começaram a
aparecer no Pleistoceno Médio, entre 300.000 e 230.000 anos atrás.12
Os Neandertais são anatomicamente bem diferentes dos Homo sapiens
tardios, embora ambos tenham provavelmente se originado do mesmo
ancestral. Seus fósseis foram encontrados pela primeira vez na década
de 1850, numa pedreira perto de Dusseldorf, na Alemanha; desde
então, restos de Neandertais surgem desde Gibraltar até o Iraque.
Vivendo em bandos independentes de cerca de 30 membros, é
evidente que os Neandertais jamais se juntaram em grupos superiores
a poucas dezenas. Os Neandertais mais antigos, os Pré-Neandertais,
eram altos e magros, e preservavam muitas características dos erectus
anteriores, numa região que apresentava períodos ocasionais do clima
quente subtropical.
Cerca de 180.000 anos atrás, outra parede de gelo desceu a
Europa. Provavelmente, muitos, embora não todos, Pré-Neandertais
migraram para o sul e sudeste até o Oriente Médio. Quando o gelo
lentamente se retraiu, muitos grupos repovoaram a Europa. Porém,
eles não eram mais os altos e magros Pré-Neandertais, mas sim
Neandertais atarracados e troncudos, com membros curtos e fortes —
uma adaptação anatômica que retém o calor contra o clima ríspido e
gelado da Europa da Era do Gelo. Coletores de mariscos, plantas e
répteis e caçadores de grandes caças, os Neandertais matavam pela
estratégia e cooperação, e não por meio de armas superiores. Os
dentes desgastados de seus fósseis provam que eles rasgavam o couro
com os dentes da frente para fabricar roupas quentes, do mesmo modo
como hoje

62
fazem os limites.13 Eles enterravam os mortos; cuidavam dos
incapacitados; adoravam ornamentos pessoais. Suas ferramentas,
frequentemente raspadores de couro, eram o ideal de um artesão. Eles
eram especialistas em pedras de fogo, uma tecnologia altamente
sofisticada. Embora o cérebro do Neandertal fosse maior do que o dos
humanos modernos, essa capacidade extra era, possivelmente, usada
para gerenciar sua adicional massa corporal. Parece que os
Neandertais sempre preferiram os músculos ao cérebro.
A maioria dos especialistas concorda que os Neandertais
usavam uma linguagem rudimentar, parecida com a nossa própria
língua; nada mais poderia explicar sua complexa manufatura de
ferramentas c o alto nível de suas sociedades. A partir da descoberta
de um osso hioide (que fica na parte de trás da língua e dá apoio à
laringe) de Neandertal, intacto, datado de 60.000 anos, idêntico ao dos
humanos modernos, foi recentemente proposto que a língua dos
Neandertais era tão hábil quanto a língua dos Homo sapiens tardios,
indicando uma fala fluente e frequente. Porém, nem todos os
especialistas concordam.14 Mais recentemente, foi descoberto que a
largura do canal hipoglosso (que leva os nervos que controlam a
língua através da base do crânio) dos Neandertais está dentro dos
limites de variação dos humanos modernos.
Pode-se considerar que naquela época, mais de 300.000 anos
atrás, sentenças mais complexas possivelmente permitiam processos
mentais humanos mais complexos.15 O rápido aumento do cérebro
humano aparentemente ocorreu lado a lado com processos mentais
cada vez mais sofisticados facilitados por uma linguagem humana
mais complexa. A 'linguagem de bebê' dos humanos primitivos estava
sendo substituída — primeiramente no caso do Homo erectus, e
depois de maneira mais complexa no caso do Homo neanderthalensis
— por

63
um meio que estava evoluindo rapidamente junto ao seu aparato
funcional: o cérebro maior permitia a fala articulada, e a fala
articulada permitia que o cérebro aumentasse ainda mais.
Aparentemente, esses dois hominídeos já conseguiam transcender as
necessidades imediatas da vida cotidiana — comida, calor, sexo —
objetificando mentalmente as conquistas de um dia, analisando e
qualificando-as de maneira a se preparar para fazer melhor no dia
seguinte.
Para alcançar essa objetificação, para criar um pensamento
produtivo, o cérebro humano exige mais que palavras referenciais, ou
seja, sons autônomos relacionados a objetos da vida real, como
auroques, fogo, genitais. Um cérebro humano exige palavras que
apontem para outras palavras. O pensamento e o sistema linguístico
precisam se tornar autorreferenciais. Para isso, a linguagem humana,
talvez já numa era primitiva, poderia ter elaborado toda uma classe de
palavras especiais como 'para' e 'que', 'porque' e 'por quê?'. Essa nova
ordem superior de palavras — de modo algum associadas com o
exterior, o mundo objetivo — poderia então ter ligado o léxico de
ordem inferior, palavras herdadas, para formar sentenças complexas.
São as sentenças complexas que fundamentam a dinâmica do
pensamento multifacetado. A linguagem humana moderna nasce
através da sintaxe, algo que se tornou tão absolutamente essencial à
humanidade, mas que falta às 'linguagens' não humanas na natureza:
regras que governem o modo como palavras e elementos de frases e
sentenças são conectados de modo a produzir sentido.
Os hominídeos primitivos, talvez como resultado de uma
mutação ao acaso que gerou uma reorganização cerebral, tornaram a
sintaxe o centro de sua linguagem vocal única. Essa sintaxe humana
— que só pôde evoluir quando os humanos já possuíam tanto os
caminhos neurais para processar esse nível de linguagem quanto o
aparato

64
respiratório para controlar a aspiração, construída sobre a fundação de
uma linguagem gestual — evidentemente teve 'início' há quase um
milhão de anos entre os Homo erectus ou possivelmente há mais de
um milhão de anos, (uma vez que esse processo era evidentemente
compartilhado por erectus primitivos da Ásia e da Europa). Ela
provavelmente chegou ao 'fim' apenas há cerca de 400.000 a 300.000
anos, quando o primeiro Homo neanderthalensis surgiu na Europa. O
processo só se completaria totalmente quando surgiram os seres
humanos anatomicamente modernos, cerca de 150.000 anos mais
tarde. Antes da sintaxe, não se pode falar de uma linguagem humana
articulada. Após o final da elaboração da sintaxe, o ser humano falou,
e raciocinou, como nós. Esse não foi um processo repentino. Ele
evoluiu durante muitas centenas de milhares de anos, começando com
o Homo erectus e culminando (e ainda evoluindo) com o Homo
sapiens.
A teoria da importância da sintaxe na história da linguagem
humana, defendida por Noam Chomsky por mais de 40 anos, é apenas
uma entre as muitas teorias. Porém, atualmente, ela parece oferecer a
melhor explicação linguística para o fenômeno observado. A maioria
das teorias sobre a origem e o desenvolvimento da linguagem deriva
de investigações paleoantropológicas, paleoanatômicas e
neuroanalíticas, que geralmente ignoram as prerrogativas mais
imediatas da ciência linguística. A teoria do papel da sintaxe — talvez
o âmago da fala articulada moderna — na história da linguagem
humana merece uma consideração séria, até que apareça uma melhor.
Entre 100.000 e 80.000 anos atrás, outra parede de gelo invadiu
a Europa. Novamente, os Neandertais teriam migrado para o sul e
sudeste em direção ao Oriente Médio, onde também há indícios de
Homo sapiens primitivos de pelo menos 90.000 anos. Nessa época as
atividades sociais, enterros e práticas de caça dos

65
Neandertais eram indistinguíveis das práticas dos sapiens. Na
verdade, há a possibilidade de que neanderthalensis e sapiens
primitivos tenham interagido de forma direta; talvez eles tenham,
inclusive, se reproduzido hibridamente. É óbvio que isso teria
influenciado suas respectivas linguagens, resultando num tipo de
bilingualismo (habilidade de falar duas línguas) entre as espécies,
trocas lexicais (palavras) isoladas e talvez contaminação fonológica
(sistema sonoro), levando a mudanças sistemáticas limitadas. Mas,
devido a populações tão esparsas, esse contato nunca teria sido tão
produtivo quanto os contatos entre uma mesma espécie através do uso
da sua própria língua territorial.
A indistinção entre as culturas dos neanderthalensis e dos
sapiens continuou até 50.000 anos atrás, quando novas tecnologias
surgiram subitamente entre os sapiens — armas, projéteis e lâminas
mais afiadas para o corte. Parece que alguns grupos de sapiens deram
algum tipo de 'salto' evolucionário que permitiu que eles, e não os
neanderthalensis, evoluíssem em humanos modernos. Nessa época o
sapiens 'Cro-Magnon' começou a se estabelecer na Europa, com suas
fogueiras mais elaboradas, abrigos mais eficientes e roupas
especialmente fabricadas. Em cerca de 20.000 anos todos os
Neandertais já estavam extintos, talvez vítimas de invasões e
competições por comida com o Homo sapiens.16

HOMO SAPIENS
Antigamente acreditava-se que os Homo sapiens arcaicos
haviam sido os primeiros hominídeos a emigrar da África. Mas
apenas as pesquisas das últimas duas décadas provaram, sem sombra
de dúvida, que durante um período de cerca de 100.000 anos os
sapiens substituíram os Neandertais na Europa e no Oriente Médio e
o erectus no

66
Extremo Oriente, duas espécies de hominídeos proeminentes que há
muito habitavam essas regiões. Formas arcaicas dos sapiens já
evoluíam havia 500.000 anos: hominídeos de constituição forte com
rostos mais largos, queixos menores e sobrancelhas protuberantes.
Uma nova era glacial, ocorrida há 186.000 anos, criou condições
áridas na África e possivelmente forçou várias espécies humanas que
viviam ali, incluindo os sapiens, a sobreviver em grupos menores e
mais isolados. Há 150.000 anos, humanos anatomicamente modernos,
que possuíam todas as características necessárias para a fala como
conhecemos hoje, estavam surgindo tanto na África quanto no Oriente
Médio, onde provavelmente ocorreram os primeiros contatos com
grupos de Neandertais. Cerca de 120.000 anos atrás, a parede de gelo
que cobria a Europa se retraiu, mais uma vez criando condições
favoráveis, e surgiram os Homo sapiens modernos, idênticos a nós. Os
mais antigos fragmentos de ossos de sapiens modernos datam dessa
época; eles são encontrados no sul da África e na Etiópia e apresentam
características da humanidade moderna: testas altas e lisas — com as
elevações das sobrancelhas pouco visíveis — e maxilares salientes.
Em nenhum outro lugar apareceram fósseis de sapiens tão antigos e
claramente modernos.
Muitos especialistas acreditam que o Homo sapiens se originou
na África. A chamada teoria da 'Saída da África' aponta para indícios
de DNA mitocondrial — o material genético que apenas as fêmeas
podem transmitir — que indicam que os humanos modernos viveram
mais tempo na África do que em qualquer outro lugar.17 Além disso, a
teoria reconhece que os fósseis mais antigos de esqueletos com
características de sapiens modernos provêm igualmente da África.
Porém, há uma outra opinião chamada teoria 'multirregional', que
sustenta que humanos modernos evoluíram de predecessores Homo
erectus em várias regiões: os australianos nativos, por exemplo,
preservariam

67
características específicas de erectus.18 Os que endossam essa última
teoria acreditam que houve uma constante troca de genes entre as
populações primitivas. Eles desconsideram o indício do DNA
mitocondrial da teoria da 'Saída da África', por não enxergarem a
importância do papel do macho nas excursões, trocas e acasalamentos
no milênio. Porém, as últimas comparações de DNA mitocondrial
distribucionais com o cromossomo masculino Y revelaram que a taxa
de migração das mulheres na história parece ser oito vezes maior que
a dos homens.
Ambas as teorias influenciam nosso entendimento das línguas
dos primeiros humanos. Se a teoria da 'Saída da África' estiver correta,
então todas as famílias linguísticas presentes no planeta teriam se
originado das relativamente recentes línguas africanas. Porém, se a
teoria 'multirregional' estiver correta, essas famílias linguísticas seriam
muito mais antigas e abrigariam uma complexidade de
desenvolvimento de um milhão de anos ou mais. Também há uma
teoria conciliatória: que algumas áreas, como a Europa Ocidental,
apresentaram uma substituição total ou quase total, de Neandertais
nativos pelos sapiens, enquanto outros lugares, como o Extremo
Oriente, parecem indicar que pode ter havido algum fluxo genético
entre espécies de hominídeos primitivos. Talvez essa teoria
conciliatória deva ser considerada na investigação das macrofamílias
de línguas, por exemplo (veja ilustração 2).
Análises genéticas recentes deixam poucas dúvidas de que, pelo
menos, a maioria dos europeus descende dos primeiros humanos
caçadores-coletores que migraram do Oriente Médio para a Europa no
início do período paleolítico superior, cerca de 50.000 anos atrás.
Desde então, na Europa, a hereditariedade genética permaneceu
regularmente constante.19
No sítio arqueológico da foz do rio Klasies, na África do Sul, há
uma caverna que abrigou Homo sapiens entre 120.000 e 60.000 anos

68
atrás. Esses humanos modernos podiam abater búfalos gigantes com
lanças. Suas atividades domésticas eram complexas. Seus desenhos de
'giz de cera' vermelho-ocre podem indicar o uso da cor de maneira
simbólica. A gama e procedência de suas ferramentas indicam que
ferramentas particulares foram manufaturadas especificamente para a
troca com tribos vizinhas. Esses sapiens primitivos praticavam a arte e
a música e enterravam ritualmente seus mortos com presentes. Essa
era uma pequena sociedade humana elaborada vivendo num
assentamento permanente. Eles tinham um conhecimento da natureza
e da caça tão rico e complexo quanto o nosso conhecimento da
sociedade moderna e da tecnologia. Eles teriam usado a linguagem
tanto quanto nós a usamos hoje.
Entre 40.000 e 35.000 anos atrás, grupos de sapiens já haviam
chegado no norte da Austrália, onde deixaram decorações ou símbolos
em paredes de abrigos de pedras. Enquanto, no Velho Mundo, o
sapiens substituía e/ou absorvia os erectus e neanderthalensis, eles
experimentavam simultaneamente uma 'explosão cultural' que se
iniciou mais ou menos nessa época e continuou até 11.000 anos atrás:
artefatos manufaturados que exibiam eles mesmos, animais, símbolos
e até mesmo a passagem do tempo (calendários lunares) em osso,
marfim, pedra e madeira; pinturas, gravuras ou molduras em paredes
de cavernas, pedras lisas, ossos redondos e rochas grandes, numa
variedade de cenas ou representações de tirar o fôlego (Lascaux,
Caverna Chauvet); a invenção de novas ferramentas como cabos e
punhos; e a fabricação de flautas, tambores e instrumentos de corda.
Nesse momento, a fala articulada — e o raciocínio simbólico que ela
permitia — estava certamente sendo usada de todos os modos que
conhecemos, e os hominídeos não eram mais apenas os 'primatas
falantes', mas sim os 'primatas simbólicos'. O que importava agora era
o cérebro e não os músculos.

69
Australopithecus gestos, vocalizações (grunhidos,
(4,1 milhões de anos atrás) gritos agudos, suspiros etc.)

Homo habilis gestos, vocalizações (grunhidos,


(2,4 milhões de anos atrás) gritos agudos, suspiros etc.)

Homo erectus talvez expressões vocais curtas,


(2 milhões de anos atrás) incluindo proposições condicionais
cerca de 1 milhão de anos atrás

(Do erectus evidentemente houve


2 principais divergências:)

1. Homo neanderthalensis processos mentais complexos são


(300.000 a 30.000 anos atrás) possivelmente possibilitados por
sentenças complexas, permitindo sociedades
baseadas na fala; mas [i], [a] e [u] não podem ser
pronunciados por essa espécie.

2. Homo sapiens processos mentais complexos são


(300.000 anos atrás) possibilitados por sentenças complexas,
permitindo sociedades baseadas na fala

humanos modernos todas as características físicas


(150.000 anos atrás) necessárias para a fala como a
conhecemos hoje estão presentes há cerca de 150.000 anos.

70
A humanidade colocou cabos e punhos na própria natureza.

Nunca houve uma ursprache, uma 'língua primeva'. Mesmo


assim, a capacidade para algum tipo de linguagem já estava presente
entre os hominídeos mais primitivos. Os humanos evoluíram a partir
de criaturas sem linguagem, e por esse motivo, áreas do cérebro com
outras funções, como a de gesticular, assumiram a nova tarefa da fala.
(Deve-se notar que os centros cerebrais usados nas vocalizações dos
chimpanzés não são os mesmos usados pelos humanos.) A linguagem
foi sobreposta e elaborada em cima desses sistemas cerebrais mais
primitivos e, além disso, parece parasitá-los.
A linguagem vocal humana evoluiu simultaneamente com o
cérebro humano e o desenvolvimento dos órgãos da fala, durante
centenas de milhares de anos. Enquanto o cérebro humano aumentava
sua capacidade, a fala se tornou mais articulada e a dependência da
química e dos sinais do corpo diminuiu. Em troca, isso exigiu a
evolução de órgãos de fala especializados que demandavam uma
maior capacidade cerebral para se adaptar à complexidade da
sociedade engendrada por ele. Causa e efeito funcionaram em ambas
as direções. Cada função alimentava a outra num sistema fechado,
dinâmico e sinérgico. O pensamento primitivo e as vocalizações
evoluíram progressivamente para o pensamento sofisticado e a fala
articulada, na mesma razão, na fila evolucionária. A linguagem
humana moderna parece continuar evoluindo dessa maneira com a
química primordial e a linguagem de sinais virtualmente reduzidos à
percepção subliminar.
O sistema social fundamental de todos os hominídeos, incluindo
nós mesmos, pode ser um sistema social primata, mas os humanos
elaboraram de maneira única a linguagem vocal, e a partir daí, uma

71
cultura baseada quase exclusivamente nela. Há quase um milhão de
anos, com o Homo erectus, a fala humana primitiva já permitia
alguma forma de planejamento e organização sociais para a realização
de vastos projetos cooperativos, como cruzar os mares, algo que
nenhum grupo de grandes primatas conseguiria fazer. Os erectus
tardios, tendo talvez desenvolvido vocalizações mais sofisticadas,
instalaram-se em vilas mais permanentes com uma tecnologia que
germinava. Rituais e estratagemas de caça elaborados. Talvez, há
500.000 anos, o pensamento simbólico e com ele o início da fala
articulada com uma sintaxe mais complexa e os primeiros universais
de linguagem, já estivessem sendo usados pelo Homo erectus. Essa
capacidade foi herdada e/ou mais tarde evoluída — embora de
maneiras significativamente diferentes — pelos Homo
neanderthalensis e os Homo sapiens. O pensamento humano moderno
e o uso da linguagem como conhecemos hoje foi, finalmente, atingido
pelo Homo sapiens cerca de 35.000 anos atrás, se não
significativamente mais cedo.
No longo processo de evolução da fala articulada, sempre houve
um fluxo e refluxo de populações humanas, vítimas e beneficiários de
guerras e doenças, acidentes geológicos e clima. Milhares de línguas e
famílias linguísticas surgiram e desapareceram sem deixar traços.
Contatos frequentes com vizinhos e outras populações por intermédio
do comércio, exogamia, migração, guerra e dominação causaram
mudanças linguísticas para populações cada vez maiores, cujos
avanços tecnológicos e novas formas de transporte criaram suas
próprias dinâmicas. Durante períodos de equilíbrio linguístico, que
devem ter durado milhares de anos, linguagens prototípicas teriam se
formado pela convergência de várias línguas diferentes. Esses
períodos então acabaram subitamente, criando famílias e línguas com
árvores genealógicas.20 Talvez tenha sido esse processo repetitivo de
longos períodos de equilíbrio

72
linguístico, pontuados por mudanças abruptas, que criou as famílias
de línguas que geraram as línguas que falamos hoje.
Quando a fala totalmente articulada já havia sido conquistada,
grupos individuais de Homo sapiens já governavam territórios
autônomos com raios de 30 a 40 quilômetros, com seus vizinhos
imediatos a distâncias de talvez 40 a 60 quilômetros. Membros de
grupos comercializavam e se casavam com esses vizinhos, trocando
bens e filhas, mas também palavras, expressões, histórias e diferentes
pronúncias. Mediante longas separações, dialetos próximos evoluíram
durante séculos, tornando-se línguas autônomas. Línguas diferentes se
fundiram em línguas híbridas com alterações de léxico e sintaxe e
mudanças fonológicas e produziram outras línguas dominantes e
influentes. Novas famílias de línguas, virtualmente irreconhecíveis,
produzidas por outras famílias linguísticas ou por línguas
convergentes, surgiram com a difusão regional e ajustes internos. E
essas, por meio da migração ou por algum outro motivo, geraram
famílias de línguas ainda maiores quando seus falantes as espalhavam
ou dominavam outras áreas, como resultado de mudanças climáticas,
ganância ou sede de viagens, resultando em outras populações que
tiveram a língua nativa substituída pela da minoria intrusa.
Há cerca de 14.000 anos, o Homo sapiens, a única espécie de
hominídeo que sobreviveu à evolução, já possuía milhares de línguas
diferentes, agrupadas em centenas de famílias linguísticas desde as
ilhas Orkney na Escócia até a Tasmânia, e desde o Alasca até a Terra
do Fogo. Nessa época, no Oriente Médio, muitos humanos modernos
já cultivavam trigo selvagem, aveia e cevada usando foices feitas de
ossos presos a lâminas de pedra.
Pouco depois, cerca de 2.000 anos atrás, o clima esquentou
novamente. Isso aumentou as chuvas e levou embora a última geleira
de

73
volta para a região polar. Os oceanos do planeta subiram
dramaticamente, separando povos antigos para sempre. Talvez mais
significativamente, o clima quente produziu um grão mutante, um
híbrido fértil do trigo selvagem com o pasto natural, formando o trigo
de pão (Triticum dicoccum) com 28 cromossomos, cujas sementes se
espalhavam naturalmente com o vento. A partir daí, seguiu-se uma
revolução biológica. Os humanos modernos, tanto do Velho quanto do
Novo Mundo, em seis 'centros de origem', poderiam agora semear e
colher num único lugar. Eles começaram a domesticar o trigo e a
cevada, ovelhas e cabras pela primeira vez, e estabeleceram grupos
rurais permanentes. Durante milhares de anos, o cultivo evoluiu da
horticultura para a agricultura e se tornou o principal meio de
subsistência para muitas (embora não todas) populações humanas, que
produziam excedentes, prosperavam e cresciam cada vez mais. A
complexidade social aumentou. Os humanos permaneceram instalados
durante gerações num único lugar. Apareceram as primeiras cidades
de tijolos de barro. As línguas regionais se tornaram mais influentes, e
eram reconhecidas em terras estrangeiras como a 'língua de uma
determinada área geográfica.
A linguagem humana estava agora ligada à terra.

74
3

Primeiras famílias

Apenas uma geração atrás, um renomado linguista


norte-americano propôs que o sânscrito, a antiga língua clássica dos
hindus, estava geneticamente relacionado ao aztec (nahuatl clássico), a
língua do grande império dos nativos do México.1 Acreditava-se que o
indício para o suposto parentesco estava nas mudanças sonoras
concordantes em itens de vocabulário 'relacionados', que seriam
derivados de uma mesma língua-mãe antiga, falada há mais de 10.000
anos, antes do fim da última Era Glacial. Mas hoje em dia avalia-se
que essa e outras declarações semelhantes acerca de parentescos com
línguas antigas ao redor do mundo desafiam tanto a ciência quanto o
senso comum. A verdadeira história das línguas é muito mais
complexa do que se acreditava até então. Deve-se começar a busca
pelo lado mais estreito do funil, e não pelo mais largo, para descobrir
as primeiras famílias de línguas. E mesmo assim, o termo 'primeiras'
constitui uma metáfora.

75
As famílias são grupos de línguas geneticamente relacionadas.
Ou seja, que dividem um ancestral comum, demonstrado por meio de
correspondências sistemáticas, em forma e significado, não atribuíveis
a mudanças ou apropriações. Há três motivos para a similaridade
linguística: genética compartilhada, difusão areai e semelhanças
tipológicas ao acaso. Apenas a genética compartilhada justifica uma
'árvore genealógica. O número e a qualidade das características
relacionadas variam de acordo com o tempo que se passou desde a
divergência do ancestral comum.2 A linguística histórica já
desenvolveu algumas técnicas de 'reconstrução' das línguas (em vez
de simplesmente deduzir a história das línguas). A aplicação dessas
técnicas permitiu a distinção entre elementos apropriados e os
elementos herdados, a comprovação da idade de características, e a
identificação de características compartilhadas advindas de uma fonte
ancestral comum.3 Esse processo, eventualmente, permite uma
'classificação' da língua ou de toda uma família linguística baseada
nas similaridades e diferenças entre palavras e elementos gramaticais.
Há dois tipos de classificação linguística: tipológica e genética
(ou genealógica). Uma classificação tipológica associa línguas
baseando-se em características distintivas que podem ser
categorizadas em tipos definidos de fenômenos linguísticos. Por
exemplo, uma língua pode ser isolada, como o mandarim, que é uma
língua de raiz. Línguas isoladas são aquelas que tendem a ter, por
palavra, apenas um morfema — a menor unidade dotada de
significado da língua, como 'um' ou 'lá'. Porém, uma língua pode ser
fusional, em que muitos morfemas podem ser encontrados numa
palavra, mas as ligações entre eles são incertas. Este é o caso do latim,
que usa variadas terminações: corpus, que significa 'corpo' em latim,
também pode aparecer como corporis, corpori e corpore dependendo
da sua função na sentença. Isso é chamado 'inflexão', e as línguas
fusionais também são conhecidas como línguas inflexionais.

76
Um terceiro tipo de língua é a aglutinante, na qual uma palavra pode
conter muitos morfemas individuais que podem tanto ser livres (que
se mantêm sozinhos, como por exemplo, 'banco') ou ligados (que não
se mantêm sozinhos, como '-ário' em 'bancário'). O turco é uma língua
aglutinante em que, como em todas as línguas aglutinantes, tanto a
palavra base quanto as palavras adicionadas a ela se mantêm distintas,
assim todas as ligações entre os morfemas são facilmente
identificáveis. Infelizmente, classificações tipológicas como essa não
conseguem fornecer informações históricas diretas. Na classificação
tipológica, é a semelhança relacionai, e não a substancial, entre as
línguas, que tem relevância.
Uma classificação genética se empenha em conectar as línguas
através de suas origens e relações. Línguas relacionadas são
comparadas quanto às inter-relações de subgrupos e línguas dentro de
uma família, por exemplo, como o francês e o italiano, dentro das
línguas românicas ou as línguas românicas e germânicas dentro da
família de línguas indo-europeias. Desse modo, a classificação
genética, particularmente quando é baseada nas formas e paradigmas
gramaticais, e não no vocabulário, consegue fornecer informações
históricas diretas. Por isso, ela é a abordagem mais produtiva para se
entender a história mais recente da linguagem humana.
Algumas línguas, devido a circunstâncias geográficas ou
tecnológicas únicas, não geram línguas descendentes, mas a população
de seus falantes aumenta de tal maneira, que a família compreenda
uma única língua, produzindo uma 'família linguística. A geografia
permitiu que a língua egípcia se tornasse um exemplo do fenômeno, e
seus descendentes são meramente diacrônicos (temporais); o inglês
apresenta o mesmo potencial, devido à comunicação global via
tecnologia moderna. Outras línguas expandem — ou seja, geram
descendentes — sob condições favoráveis — e depois, se retraem, sob
condições desfavoráveis. Foi o que aconteceu com a família de
línguas célticas.

77
Embora seja comum que, sob circunstâncias favoráveis, uma
língua possa gerar de oito a quinzes línguas descendentes que
sobrevivam num período de 2.000 anos — como, por exemplo,
ocorreu com o germânico ocidental, o românico e o polinésio oriental
— a qualificação 'favorável' é relativa. Não há justificativa para
propor que esse fenômeno observado seja uma regra geral para medir
o tempo das famílias linguísticas. Ou seja, não é axiomático que uma
grande família com cerca de 100 descendentes (como a indo-europeia)
tenha cerca de 6.000 anos ou que uma superfamília com mil ou mais
descendentes (a suposta 'nigero-congolesa' ou a austronésia) tenha
10.000 anos. Há muitas incertezas envolvidas, muito poucos
parâmetros de controle e muitos fenômenos contraditórios. Na
verdade, caso se procurasse as fontes primordiais das línguas do
planeta, elas poderiam redundar nas pequenas línguas isoladas
vestigiais (línguas únicas e inclassificáveis, como o basco) nas
periferias das superfamílias atuais, que, até invasões relativamente
recentes teriam, talvez, figurado entre as línguas mais amplamente
faladas de suas regiões.
Por esse e outros motivos, os paleolinguistas não buscam mais
descobrir uma quimérica 'primeira língua, mas sim tentam entender a
complexidade da multidão de línguas que já existiram. Um padrão de
linguagem antigo sobrevive em cada um dos continentes do planeta,
largamente obscurecido por uma grande distância temporal. Um
estudo inovador recente se concentrou na análise de características
mais amplas de grupos linguísticos, em vez de na evolução de línguas
individuais.4 Nele, as distribuições e frequências estatísticas de
determinadas características de uma amostra de 174 línguas foram
identificadas dentro de continentes inteiros. O estudo concluiu que
parece ter havido uma dispersão em três estágios do Homo sapiens,
desde a emigração da África, mais de 100.000 anos atrás. Nenhuma
característica linguística sobreviveu à emigração original (se for aceito
que houve uma 'única emigração original'). A segunda emigração foi

78
a do Homo sapiens em direção às Américas, entre 60.000 e 30.000
anos atrás; foi nessa época que as línguas de Sahul (tasmaniano,
australiano, papua) também entraram na região da Austrália.
Finalmente, na era pós-glacial, emergiram grandes sociedades
complexas, criando maiores unidades de poder político e econômico
que, mais tarde, basicamente destruíram a diversidade linguística
humana.
Porém, num longo período de 100.000 anos, as semelhanças que
poderiam ter sido obtidas entre línguas e famílias de línguas próximas
foram completamente obliteradas pela mudança constante.5
Protolínguas, como a proto-sino-tibetana, provavelmente não têm
mais de 10.000 anos, mas com certeza têm mais de 6.000. Muito
pouco é verdadeiramente conhecido, mesmo sobre famílias
linguísticas mais recentes. Os paleolinguistas dominam um
conhecimento impressionante sobre as línguas indo-europeias,
chinesas e semíticas, devido a documentos escritos de um período
relativamente recente. A história primitiva de outras famílias
linguísticas como a austronésia e a suposta nigero-congolesa,
precisam ser recuperadas por meio da reconstrução linguística, um
meio relativamente impreciso e artificial, em que se 'recria' algo que
pode nunca ter existido na realidade. É de se lamentar que a maioria
dos estudos sobre as protofamílias (ou macrofamílias),
independentemente da orientação da família, simplesmente estenda o
modelo teórico das 'árvores genealógicas' da história da linguagem em
árvores com níveis maiores, criando relações que podem nunca ter
existido.
No final da última Era Glacial, com a temperatura mais quente e
o nível dos oceanos mais elevado, populações humanas — de
aproximadamente dez milhões na época — espalharam-se mais uma
vez, iniciando um longo período de mudança social e linguística (ver
ilustração 3). Tentativas isoladas de agricultura primitiva logo
aumentaram exponencialmente esse quadro. É o período mais antigo
em que se pode especular sobre afiliações linguísticas. A era das
'primeiras famílias'.

79
ANO 0
Um pequeno grupo de falantes do potórico migra
para o outro lado do rio, mudando, com o tempo,
todos seus pês para efes e deixando de pronunciar
os erres finais: os migrantes passam a chamar a si
mesmos de 'Foto'.

ANO 1000
Ocorrem mais mudanças internas e
migrações, ao longo e por entre as
montanhas.

ANO 2000
Um aumento populacional, com mais mudanças
internas e migrações, resulta numa grande família
linguística potórica, que inclui subfamílias.

3 Como podem emergir famílias linguísticas (com o exemplo de um povo imaginário


chamado Poror').

80
LÍNGUAS AFRICANAS
Apenas após a Segunda Guerra Mundial os linguistas puderam
tentar fazer a primeira classificação completa das línguas africanas
nativas.6 Desde então, seguiram-se avanços substanciais.7 Identificada
por alguns como uma das 'superfamílias' linguísticas do mundo,
afirma-se que a suposta família 'nigero-congolesa', um agrupamento
estatístico de características comuns, compreende mais de mil línguas
autônomas, regularmente divididas entre duas grandes subfamílias que
talvez mereçam mais a designação de 'superfamílias' (se é que existe
algo assim): atlântico-congolesa e volta-congolesa. A denominação
presente, 'nigero-congolesa' é simplesmente remota e nebulosa demais
para ser aceita como uma família linguística comprovada.
Não relacionada à nomeada família 'nigero-congolesa' está a
família africana nilo-saariana, cujas onze subfamílias contêm, cada
uma, entre duas e 96 línguas individuais. Com exceção de duas, todas
as 35 línguas da terceira família não relacionada, a família khoisan,
apareceram na África do Sul. Qualquer uma dessas grandes famílias
linguísticas — 'nigero-congolesa, nilo-saariana e khoisan — pode
muito bem ter sido uma protolíngua autônoma 10.000 anos atrás, se,
em primeiro lugar, alguma delas houver existido como entidade real,
caso contrário, elas meramente refletem a convergência ou união de
características linguísticas difusas.
A história humana da África é tão antiga, apresentando espécies
de Homo sapiens em evolução por quase meio milhão de anos, que
pode-se esperar que quase todas as suas antigas famílias linguísticas
tenham aparecido e desaparecido sem deixar rastros. Apenas uma

81
pequena porcentagem de todas as línguas africanas da história ainda
existe, e essas são descendentes apenas das línguas mais recentes. Há
muitas línguas africanas não classificadas, tais como o anlo, em Togo,
o bete, na Nigéria, o imeraguen, na Mauritânia e cerca de dezesseis
outras, sendo que cada uma delas também pode compreender a
relíquia de uma língua que já foi uma família maior, muitos milhares
de anos atrás.

LÍNGUAS AFRO ASIÁTICAS


As exuberantes e férteis regiões do norte da África de 10.000
anos atrás — muito antes de sua relativamente recente desertificação
— sugerem um excedente populacional, fonte de muitas línguas
antigas. Até o momento, foram identificadas 317 línguas
afro-asiáticas, divididas em seis famílias linguísticas diferentes:
bérbere (29 línguas), tchádica (192), chuchítica (47), egípcia (1),
omótica da Etiópia (28) e semítica (73) (ver ilustração 4). O
surpreendente número de línguas tchádicas, em comparação às outras
famílias que são bem menores, aponta para a origem dessa importante
e muito antiga superfamília que, antes das grandes migrações do final
da última Era Glacial, ocupou as regiões do norte central da África,
hoje coberto em grande parte pelo deserto.

82
4 As famílias de línguas afro-asiáticas.

Uma das línguas afro-asiáticas mais conhecidas, a egípcia, é


uma 'família linguística cujos registros escritos datam de 5.400 anos
atrás; devido a circunstâncias geográficas únicas, ela não gerou
múltiplas línguas sincrônicas (contemporâneas), mas apenas
diacrônicas (temporais). Como a língua egípcia, a família linguística
semítica possivelmente divergiu da proto-afro-asiática bem nos
primórdios, talvez cerca de 8.000 anos atrás. O semítico foi fonte de
muitas das mais importantes línguas da história. Logo no início, ele
se diferenciou em família semítica oriental (representada apenas pela
língua acádia dos babilônios, preservada por inscrições cuneiformes
de quase 4.500 anos atrás) e família semítica ocidental, que
eventualmente

83
se desenvolveu em aramaico-cananita (fenício, hebraico) e
árabe-etiópica. Teorias recentes que ligam as línguas semíticas às
indo-europeias numa época muito primitiva não encontraram uma
aceitação geral entre os linguistas.8 Durante muitos milhares de anos,
as línguas bérberes dominaram a maior parte do litoral mediterrânico
sul, enriquecendo sociedades fortes e influentes ligadas ao antigo
Egito, o Levante e o Egeu, como os povos do Planalto Líbio e os de
Putaya, perto da antiga Creta.
O ramo semítico-oriental da família Afro-Asiática, em sua
expansão dinâmica em direção ao Oriente quase 5.000 anos atrás,
suplantou uma língua do Oriente Médio ainda mais antiga, a língua
suméria. Falada há mais de 6.000 anos, na baixa Mesopotâmia (hoje
sudeste do Iraque) e escrita há 5.100 anos, a língua suméria
aparentemente não está relacionada a nenhuma outra. Ela parece ter
sido introduzida à força no território de um povo mais civilizado,
cujos nomes para cidades e profissões foram tomados pelos sumérios.
Argumentos recentes que defendem uma hipotética 'superfamília
suméria, uralo-altaica e húngara' não convencem a maioria dos
linguistas.

LÍNGUAS ASIÁTICAS
A Ásia, onde primitivas espécies de Homo podem estar
evoluindo há dois milhões de anos, primeiro o Homo erectus, mais
tarde substituído ou absorvido pelo Homo sapiens hoje presente,
como a África, tem uma das paisagens linguísticas mais complexas do
planeta. Como várias grandes famílias linguísticas têm a Ásia como
fonte máxima ou imediata, pode-se assumir que várias famílias
linguísticas asiáticas já exerciam sua influência durante a última Era
Glacial. Algumas delas cruzaram a ponte de terra do Estreito de
Bering, talvez 30.000 anos atrás (alguns dizem 60.000 anos) e se
tornaram as

84
primeiras línguas das Américas. Milhares de anos depois, quando a
temperatura do planeta esquentou, descendentes dessas mesmas
línguas migraram para todos os cantos da Ásia e além. Hoje, elas são
conhecidas como famílias de línguas sino-tibetanas, altaicas, urálicas,
caucásicas e paleo-asiáticas.
A língua proto-sino-tibetana gerou uma das mais importantes
famílias linguísticas da história da humanidade. Há muito tempo,
talvez apenas dois ou três mil anos após a última glaciação, a
proto-sino-tibetana se diferenciou em três grandes subfamílias:
chinesa, yenisei-ostyak e tibeto-birmanesa. A subfamília chinesa
consiste hoje em nove línguas mutuamente ininteligíveis, com muitos
dialetos principais. Hoje, sua língua principal, o chinês mandarim
(com quatro dialetos principais), baseado na fala de Pequim, é a
primeira língua mais falada por pessoas do que qualquer outra língua
do planeta.9 (A proeminência do mandarim não reflete uma situação
antiga, mas é o resultado da migração de falantes do chinês para o
delta do Yang-Tsé há menos de 5.000 anos, onde o cultivo do arroz
gerou uma explosão populacional sem precedentes na história.) O
chinês arcaico foi um meio para a escrita já há 3.000 anos. A
subfamília yenisei-ostyak inclui línguas atualmente faladas no norte
da Sibéria, o antigo lar de toda subfamília sino-tibetana. A antiga
subfamília tibeto-birmanesa eventualmente se diferenciou em duas
sub-subfamílias de línguas do Tibete e da Birmânia.
Cerca de 8.500 anos atrás, a domesticação do arroz por falantes
do pré-chinês no delta do Yang-Tsé permitiu a elaboração de culturas
que eventualmente geraram quatro grandes — e talvez antigamente
relacionadas — famílias do sudeste asiático: tai-kadai, miao-yao,
austro-asiáticas (em sua maioria mon-khmer) e austronésia (veja mais
adiante). Cerca de 5.000 anos atrás (as datas são incertas) essas
línguas

85
se espalharam pelo sudeste asiático para serem empregadas pelas
muitas comunidades étnicas diversificadas desde o norte da Tailândia
até as ilhas de Hainan e Taiwan.10
A família altaica, que consiste das línguas mongólicas e
manchu-tungúsicas (ou seja, as línguas túrquicas), foi classificada
recentemente, tendo como primeira base critérios tipológicos e não
genéticos. A classificação permanece especulativa. Todas as
semelhanças entre as línguas túrquicas, mongólicas e tungúsicas são,
geralmente, consideradas resultado de difusões regionais e não
heranças compartilhadas. As línguas túrquicas surgiram na Ásia
central apenas 4.000 anos atrás, ou pouco antes. Elas talvez derivem
diretamente de uma língua paleoasiática da Sibéria ou de um ancestral
comum da família linguística paleoasiática. (Diversas línguas
túrquicas são faladas ainda hoje no sul da Sibéria.) Ainda mais
especulativa que a classificação altaica é a teoria de que as línguas
fino-úgricas são, de alguma maneira, relacionadas geneticamente ao
altaico, e sua protofamília é às vezes chamada de 'uralo-altaicá'.
O chão é mais sólido no caso dos falantes do proto-urálico.
Cerca de 6.000 anos atrás, eles ocupavam o nordeste europeu.11 Logo
no início, eles se diferenciaram em duas principais famílias
linguísticas: samoieda e fino-úgrica. As línguas samoiedas do extremo
leste da Sibéria, possivelmente uma família da Lapônia, foram as
primeiras a se diferenciar da família urálica, talvez 5.000 anos atrás.
Uma língua relacionada comum cerca de 4.000 anos atrás, o
fino-úgrico, se diferenciou em duas famílias: fínico (que deu origem
às famílias linguísticas balto-fínica, lapônica, volga-fínica, permiana e
ugriana) e úgrico (húngaro, mansi e khanty).12 Hoje as muitas línguas
descendentes da família urálica possuem poucos falantes, com
exceção do finlandês (quatro milhões) e do húngaro (treze milhões).

86
A Ásia ocidental possui cerca de 40 línguas caucásicas das
Montanhas do Cáucaso, e suas vastas planícies confinadas
evidentemente compartilham uma grande ancianidade (ou seja, não
apresentam substituições). Num período bem primitivo, talvez 10.000
anos atrás, possivelmente como resultado da primeira 'migração de
povos' pós-glacial, a família caucásica se diferenciou em três grandes
subfamílias: caucásica meridional, das quais o georgiano é a única
amplamente falada (cinco milhões de falantes); caucásica do noroeste;
e na grande família caucásica do nordeste, cujas oito subfamílias
ocuparam o que tenha, talvez, sido o lar original dos falantes da língua
protocaucásica.
A família linguística paleoasiática (ou hiperbórea) do leste
siberiano é pouco compreendida. Porém, há poucas dúvidas de que ela
tenha existido como grupo linguístico autônomo por, pelo menos,
6.000 anos. Hoje, essas línguas são relativamente pouco faladas.
Embora alguns linguistas tenham tentado ligar as línguas
paleoasiáticas às do Novo Mundo, suas declarações carecem de
indícios convincentes.
A língua nativa do Japão, chamada ainu, é uma língua isolada
cuja origem é tão antiga, que ela não pode ser ligada a nenhuma outra
língua conhecida nem a nenhuma família linguística reconstituída. O
japonês é uma língua totalmente diferente que, poucos milhares de
anos atrás engoliu o ainu (marginalizando o ainu à Ilha de Hokkaido,
no norte do Japão), e com o coreano, é, às vezes, ligada à altamente
especulativa família 'uralo-altaicá'; porém a ligação carece de indícios
convincentes. Tanto o japonês quanto o coreano obviamente surgiram
no continente asiático numa época extremamente antiga. O japonês
compartilha uma ancestral comum com as línguas luchuan
(oquinawana) das ilhas Ryukyu, no sul do Japão.

87
LÍNGUAS AMERICANAS
A aceitação científica cautelosa da possibilidade da presença do
Homo sapiens nas Américas cerca de 30.000 anos atrás só surgiu na
última década. Aceitar sua chegada no Novo Mundo numa época tão
primitiva poderia explicar uma paisagem linguística que
evidentemente rivaliza com a complexidade africana, asiática e
europeia. Muitas hipóteses sobre a relação entre as línguas do Novo
Mundo e as línguas de outras partes do globo foram apresentadas.
Porém todas, com exceção de uma dessas 'afiliações', foram rejeitadas
como inconsistentes: apenas a conexão entre as línguas
esquimó-aleútes e as línguas luoravetlan no extremo oriente da
Sibéria, talvez, refletindo uma subsequente migração 'recente', parece
merecer uma precavida consideração.13 Antes de procurar relações
externas, deve-se levar em conta que algumas das 150 famílias
linguísticas americanas podem inclusive não ter relações umas com as
outras.14
Tal convolução linguística implica poucas possibilidades de que
uma classificação formal das línguas americanas lance uma luz sobre
os primeiros povoados da região; para isso, deve-se recorrer a outras
disciplinas. Na verdade, hoje acredita-se que devem ter havido
múltiplas migrações para a América, através das pontes de terra
noroestes. Se isso for verdade, há a tentação de se aceitar a existência
de múltiplos extratos (camadas linguísticas) que evoluíram juntos
durante dezenas de milhares de anos, criando uma população de
línguas relacionadas e não relacionadas diacrônica e sincronicamente
complexa. Devido à falta de documentos escritos de milênios
anteriores, as informações sobre essa região que a linguística histórica
pode providenciar são necessariamente advindas da reconstituição das
línguas americanas sobreviventes. Isso permite uma desapontadora
classificação rasa que, no melhor dos casos, não vai além de 10.000
anos.

88
No caso das línguas da América do Norte, uma 'classificação
consensual' concluída em 1964 aceitava sete grandes famílias
linguísticas que podem ser derivadas de línguas comuns faladas entre
grupos autônomos no fim da última Era Glacial: ártico-paleossiberiana
americana (com duas famílias linguísticas), na-dene (uma família,
duas línguas isoladas), macroalgonquinas (duas famílias, sete línguas
isoladas), macrosiouana (três famílias, duas línguas isoladas), hocana
(dez famílias, sete línguas isoladas), penutiana (nove famílias, sete
línguas isoladas) e asteca-tanoana (duas famílias, nenhuma língua
isolada). Também há um surpreendente número de famílias
linguísticas (como a salish) e línguas isoladas (keres), que não
possuem afiliação evidente com nenhuma das grandes famílias
listadas. A análise comparativa (reconstituição de uma protolíngua por
meio da comparação de línguas descendentes) não conseguiu
encontrar indícios de que essas línguas norte-americanas sejam
descendentes de uma ancestral comum.15 Na verdade, todas as grandes
famílias identificadas parecem não ter nenhuma relação umas com as
outras, provavelmente como resultado de um período longo demais
(no qual as atuais técnicas linguísticas não conseguem penetrar) e/ou
múltiplos povoamentos (ou seja, famílias linguísticas não relacionadas
que chegaram ao Novo Mundo uma após a outra).
A situação é semelhante na Mesoamérica (América Central),
onde foram identificadas muitas famílias autônomas e línguas
isoladas. Entre as famílias mais importantes estão a otomangueana e
maia. A família otomangueana é uma das maiores famílias linguísticas
da Mesoamérica, com oito subfamílias. A família maia, que deve ter
existido como língua autônoma mais de 4.000 anos atrás, inclui a
pequena família huastecana e a imensa família iucatã-core, com
diversas subfamílias e subsubfamílias. Também há

39
mais de 100 línguas extintas e não classificadas on dialetos na
Mesoamérica, mencionadas apenas em fontes históricas, e de outro
modo desconhecidas.
A entrada de populações humanas na América do Sul foi
condensada de maneira semelhante nos últimos anos. Hoje,
geralmente — embora não universalmente — aceita-se que o sítio
arqueológico de Monte Verde no sul do Chile tenha 12.500 anos. Os
arqueólogos também dataram vilas em todo o litoral pacífico da
América do Sul em, pelo menos, 20.000 anos, e um sítio arqueológico
no interior do Brasil indica uma ocupação de 50.000 anos atrás;
porém, ambas as datas são controversas. Uma análise de DNA
mitocondrial sugere que uma linhagem ameríndia de 30.000 anos
(para contrastar, a linhagem na-dene do noroeste da América do Norte
parece ter apenas 9.500 anos). É evidente que essas datas estão bem
além das possibilidades de reconstituição de qualquer técnica
linguística moderna.16
Toda a América do Sul apresenta atualmente uma paisagem
linguística muito antiga e complicada, que data de, talvez, dezenas de
milhares de anos, com possíveis incursões múltiplas do noroeste
(Panamá) e nordeste (Caribe), antes da elevação do nível do mar.
Foram propostos setenta e cinco ramos ou superfamílias para a
América do Sul, dentro dos quais, alguns também ocorrem em regiões
da Mesoamérica e do Caribe. Entre eles estão o chibcha (a 'ponte
linguística' entre a Mesoamérica e a América do Sul), arawak (a maior
família linguística do Novo Mundo, com cerca de 65 línguas
autônomas), tucano, quéchua, pano, tacanan, guaikuru, gê, tronco tupi
e carib. Atualmente, a América do Sul apresenta um dos mais difíceis
desafios linguísticos do planeta.

90
LÍNGUAS OH SAHUL (TASMANIANO,
AUSTRALIANO E PAPUA)
Antes da elevação dos níveis do oceano no final da última
glaciação, a Tasmânia, a Austrália e a Nova Guiné formavam o antigo
continente de Sahul. Embora indícios recentes sugiram a possibilidade
da presença humana em Sahul entre 60.000 e 50.000 anos atrás, a
maioria dos especialistas ainda concorda que as provas da presença
humana não tenham mais que 35.000 e 40.000 anos. Uma recente
análise linguística sugeriu que todas as línguas de Sahul compreendem
um único estrato e que a colonização subsequente estabeleceu uma
segunda camada, cujas características residuais podem ser encontradas
nas línguas do noroeste, o pressuposto ponto de entrada.17 Porém, a
extrema antiguidade da presença humana em Sahul faz com que
qualquer característica remanescente de um povoamento inicial seja
altamente improvável; as características reconhecidas devem datar de
muito após a intromissão do sapiens. A história da linguagem da área
precisa ser remontada por meio de uma abordagem indutiva, usando
as modernas línguas sobreviventes. Novamente, a reconstituição
histórica limita a linguística a, no melhor dos casos, alguns milhares
de anos antes da era presente.
Na época da chegada europeia, no final do século dezoito, cerca
de 5.000 a 8.000 tasmanianos, considerados de alguma maneira
'racialmente diferentes' dos australianos nativos, ocupavam a ilha da
Tasmânia ao sul do litoral leste da Austrália.18 Duas línguas
tasmanianas autônomas existiram: o tasmaniano do norte e o
tasmaniano do sul. Nenhuma delas parece relacionada a qualquer
língua do continente australiano nem a qualquer família linguística
que tenha sido reconstituída. Talvez os falantes tasmanianos sejam
descendentes de

91
uma população muito antiga de Sahul, que tenha sido levada à
periferia do continente e ficado presa ali quando, 12.000 anos atrás, o
estreito de Bass se encheu, separando a Tasmânia da Austrália.
Porém, a baixa qualidade do material linguístico tasmaniano
disponível para os linguistas, totalmente antedatado da morte de seu
último falante em 1877, dificulta uma reconstituição rígida.19
Na época da intromissão britânica na Austrália em 1788, havia
cerca de 260 línguas distintas próprias da Austrália e das ilhas do
estreito de Torres, no norte da Austrália. Desde então, mais de 100
foram extintas e atualmente, outras 100 estão em vias de
desaparecimento; apenas cerca de vinte dessas línguas ainda são
aprendidas por crianças australianas. Diferente das línguas
americanas, asiáticas e africanas nativas, as línguas australianas
apresentam uma uniformidade notável, particularmente em seu
sistema fonêmico (sons significantes), o que, infelizmente dificulta
uma abordagem comparativa para uma classificação, uma vez que
faltam necessárias características que as distingam. Parece que a
homogeneidade incomum das línguas australianas pode ser atribuída
ao isolamento virtual do continente desde o fim da última Era Glacial.
Essas línguas também podem ter experimentado um período
notavelmente longo de equilíbrio linguístico, pontuado apenas
periodicamente, por mudanças súbitas causadas por fatores externos
(migração, invasão, mudança social e assim por diante) ou internos
(pressões sistêmicas, criticalidade auto-organizada). Na verdade, foi o
perfil australiano incomum que primeiro inspirou o modelo de
'equilíbrio pontuado' da linguística histórica.20
Com o termo emprestado da biologia evolucionária, esse
modelo recente propõe que longos períodos de equilíbrio social no
passado experimentaram a difusão de características linguísticas numa
determinada área, fazendo com que as diferentes línguas daquela área

92
convergissem numa língua prototípica comum (ver ilustração 5).
Porém, ocasionalmente, esse estado de equilíbrio alongado seria
'pontuado' ou perturbado por uma mudança súbita, causada por um ou
mais fatores externos ou internos mencionados acima. Isso poderia
então aumentar o número de povos e dividi-los, assim como suas
línguas, criando uma 'árvore genealógica' de línguas.
Embora muitos linguistas assumam a existência de uma língua
primitiva protoaustraliana, tal protolíngua nunca foi satisfatoriamente
estabelecida por uma aplicação formal do método comparativo
(provavelmente devido à fraqueza do próprio método, baseado apenas
em 'árvores genealógicas' e, mais tarde, também em mudanças
pontuadas). Há quem argumente que o protoaustraliano nunca existiu
como língua real, mas representa uma coincidência superficial de
características artificialmente consolidadas por técnicas linguísticas
modernas. Então, novamente, alguma coisa que se aproximou de um
suposto protoaustraliano pode ter gradualmente emergido das línguas
agregadas faladas pelo Homo sapiens, que interagiu de algum modo
desconhecido em Sunda e/ou noroeste de Sahul, cerca de 35.000 anos
atrás. Assim, as línguas sapiens mais primitivas da área se espalharam
por todo o continente e foram faladas por, talvez, dezenas de milhares
de anos, com mudanças e convergências advindas de difusões
regionais ocasionais e ajustes internos.
As atuais línguas australianas não se dividem confortavelmente
em 'árvores genealógicas', como ocorre em outras línguas.21 Por
exemplo, as 29 subfamílias de uma grande família australiana são
fonologicamente (fonologia é a ciência dos sons da fala e seus
sistemas) menos diferenciadas que apenas duas subfamílias e uma
grande família americana. É principalmente esse fato que torna
urgente a identificação de um protoaustraliano primitivo, que esteja

93
extremamente distante no tempo. Muitos falantes de qualquer língua
australiana conseguem entender os dialetos de seus vizinhos
próximos, mas considerando todos os dialetos da língua, a densidade
dos cognatos (palavras relacionadas pela origem) é tão baixa quanto a
obtida entre línguas totalmente diferentes.22 Por esse motivo, os
linguistas sugerem o termo 'língua aparentada'.
As línguas australianas também apresentam estruturas muito
semelhantes, quase idênticas, em todos os seus dialetos (mesmo com
apenas 45% de vocabulário compartilhado entre dialetos que estão nas
pontas). Tais cadeias dialetais são impressionantemente longas, com
mais de 1.500 quilômetros. Porém, ainda é virtualmente impossível
provar que essa característica particular deriva de uma língua
ancestral comum, ou o protoaustraliano. Este último, se realmente
existiu como língua real, pode ter sido uma forma de língua migrante
que se impôs sobre uma ou mais línguas anteriores de maneira tão
completa, que essa(s) língua(s) anterior(es) não é(são) mais
reconhecida(s) hoje. Ou pode ter sido a única língua da Austrália.
Apenas em vocabulários regionais australianos, há o que talvez sejam
vestígios de uma ou mais línguas anteriores.23 Mas, novamente, elas
podem ser convergências recentes, derivadas em último caso do
protoaustraliano, que pode ter passado por uma evolução cíclica num
período de 35.000 anos sem intervenções estrangeiras significativas
até 1788.
Isolada de Sahul desde o preenchimento do estreito de Torres,
cerca de 8.000 anos atrás, a Nova Guiné, a segunda maior ilha do
mundo, abriga o mais rico tesouro de línguas, mais de 700 (além de
outras 200 línguas austronésias), dentro de uma área geográfica
confinada.24 Embora se possa esperar ligações genéticas com as
línguas australianas, não foi encontrada nenhuma correspondência
sistemática fonológica nem morfológica confiável. Ao contrário da
crença

94
ANO 0
Três diferentes línguas vizinhas
apresentam palavras diferentes para
'humanidade, com os sufixos nominais
variantes V, '-da' e Y.

ANO 1000
Aconteceram mudanças naturais
internas, com ocorrência de cópia,
devido à comunicação contínua entre
as três línguas.

ANO 2000
A supremacia política da língua dominante
causou mais mudanças e cópias, resultando
em compartilhamento sistêmico, apenas
com diferenças dialetais menores na nova
protolíngua.

5 Durante um período de equilíbrio, diferentes línguas podem convergir em uma protolíngua


pela difusão.

anterior, muitas das línguas papua (ou seja, não austronésia) da Nova
Guiné parecem ser faladas por comunidades relativamente populosas,
às vezes superiores a 100.000 falantes.25
Após as línguas austronésias, as línguas papuas compreendem a
segunda maior divisão linguística do Pacífico e do sudeste asiático. O
papua é falado em quase toda a Nova Guiné (com exceção de alguns
litorais); norte de Halmaera nas Molucas; leste da Indonésia (Alor,
Pantar, partes do Timor); regiões da Nova Bretanha e da Nova Irlanda;
e partes de Bougainville e outras ilhas Salomão até o arquipélago de
Santa Cruz. Das supostas 741 línguas papua identificadas

95
na década de 1980, 507 supostamente pertencem a uma 'superfamília'
linguística, a assim chamada trans-nova guineense.26 Esse seria um
agrupamento de um nível mais alto (mais antigo) que incluiria cerca
de 80% de todos os falantes papua. Porém, outros pesquisadores
identificaram apenas cerca de 60 pequenas famílias linguísticas. Muito
do trabalho comparativo sobre o papua foi baseado na análise
estatística de palavras, e é, de modo geral, duvidoso, embora poucas
pesquisas linguísticas histórico-comparativas tenham sido feitas. Na
verdade, 'papua' é usado muito frequentemente para designar todas as
línguas não austronésias da área, cujas afiliações genéticas precisas
não são claras.

LÍNGUAS AUSTRONÉSIAS
A elevação do nível dos oceanos no fim da última glaciação
também gerou, indiretamente, a relativamente recente superfamília
linguística austronésia — que atualmente se estende desde
Madagascar, no Oceano Indico, até a Ilha de Páscoa, no sul do
Pacífico — que comporta o maior número de línguas,
aproximadamente 1.200, cerca de 30% de todas as línguas do
mundo.27 Falada atualmente por cerca de 270 milhões de pessoas, a
família austronésia inclui quase todas as línguas da Indonésia,
Micronésia e Polinésia. Surpreendentemente, 2 % (25 línguas da
Malásia, Indonésia e Brunei) do total de línguas austronésias atuais
são faladas por 87% dos falantes de línguas desta família.
É possível que os falantes da pré-protoaustronésia, talvez
agricultores de arroz do delta do Yang-Tsé, pertencessem a um
subgrupo de uma família linguística sino-tibetana, falada cerca de
8.000 anos atrás. Indícios dessa afirmação são encontrados nas
reconstruções tonais e monossilábicas do protoaustronésio, que
parecem lembrar muitas das línguas e famílias linguísticas da China e
do sudeste asiático.28

96
Deslocados por intrusos falantes de sino-tibetano do norte, é possível
que os falantes do protoaustronésio tenham chegado à Ilha de Taiwan
vindos do sudeste, cerca de 6.000 a 5.000 anos atrás.29 Assim, Taiwan
permaneceu exclusivamente habitada por falantes de austronésio até a
invasão chinesa no século 17 d.C, que levou os falantes de austronésio
para o interior montanhoso; hoje, restam apenas 200.000 falantes de
austronésio, apenas 1 % da população de Taiwan.

LÍNGUAS INDIANAS
A primitiva convolução linguística do subcontinente indiano
lembra o que ocorreu na África, na Ásia e na América do Sul. Já nos
primórdios, muitas grandes famílias linguísticas, cujas origens estão
obscurecidas pela passagem do tempo, lutavam pela supremacia. Por
outro lado, arqueólogos identificaram uma continuidade notável na
antiga cultura hindu que vai de 8.000 a 1.000 a.C. É geralmente aceito
que a família dravídica — sem nenhum cognato identificável entre as
línguas do mundo — foi a família linguística nativa mais amplamente
distribuída da Índia, quando os falantes do indo-europeu entraram pela
primeira vez pelo noroeste mais de 3.000 anos atrás. (As línguas
indo-iranianas, extremamente populosas na Índia são indo-europeias.)
A cultura altamente avançada do Vale do Indo, 4.000 anos atrás, pode
muito bem ter sido elaborada, por exemplo, por falantes do
protodravídico. A superfamília dravídica, hoje falada por cerca de 175
milhões de pessoas, é a quarta maior do mundo e inclui 24 grandes
subfamílias.30 Embora algumas poucas línguas dravídicas tenham
sobrevivido no norte da Índia — Baluchistão oriental (centro do
Paquistão), por exemplo, a língua dravídica bahui ainda é falada
atualmente — as principais línguas dravídicas estão hoje localizadas
no sul da Índia (télugo, tâmil, kanarese e malaiala).

97
A classificação das outras línguas nativas da Índia é difícil. Elas
podem muito bem representar relíquias de famílias muito grandes que
foram marginalizadas durante muitos milhares de anos, primeiro pelos
dravidianos, depois pelos indo-europeus. Semelhante ao basco na
Europa, a língua burushaski, do noroeste da Índia, por exemplo, não
tem nenhum cognato identificável. As populosas famílias linguísticas
munda, mon-khmer e annam-muong da Índia oriental pertencem à
família austro-asiática que entrou no território indiano pelo sudeste
asiático muito tempo atrás.

LÍNGUAS EUROPEIAS
Evidentemente também existiram muitas famílias linguísticas na
Europa, onde várias espécies humanas prosperaram por centenas de
milhares de anos. Quase todas essas famílias desapareceram sem
deixar rastros. Uns poucos nomes pré-indo-europeus (acredita-se)
sobreviveram em escritos primitivos, como os pictos ou cruithne na
Escócia (que, porém, podem ter sido celtas primitivos), os lígures do
sul da França e oeste dos Alpes, os etruscos da Itália e os bascos do
norte da Espanha e sudoeste da França. Os últimos exigem um lugar
especial na pré-história da Europa.
Nomeados em relatos romanos de 2.000 anos atrás, os bascos
representam geneticamente um tipo paleolítico que evidentemente já
foi mais espalhado pela Europa Ocidental, aparentemente relacionado
com os aquitanos do sudoeste da Gália da era romana. Expulsos para a
periferia geográfica dos Pirineus, pelos celtas falantes de gaulês, os
bascos falavam uma língua — o basco — não relacionada com
nenhuma língua viva conhecida, embora seu vocabulário seja
permeado por palavras emprestadas do celta, do gótico e do itálico.
(Linguistas mais antigos deduziram uma ligação por meio do antigo
liguriano às línguas caucásicas da Ásia Ocidental.)

98
Hoje, a maioria dos especialistas aceita que os falantes do basco
ocuparam, ou evoluíram linguisticamente, a região basca antes do
primeiro contato com línguas indo-europeias, neste caso, célticas.
Embora alguns pesquisadores tenham proposto que os bascos e sua
língua possam ser descendentes diretos dos Homo sapiens
colonizadores originais da Europa, 50.000 anos atrás, a proposta
parece forçada, pelo menos no que diz respeito à língua (a questão
genética permanece aberta, como se verá a seguir). Os bascos, ou sua
língua, podem muito bem ter precedido os primeiros intrusos célticos
por poucos milhares de anos. Os bascos parecem geneticamente mais
distintos dos vizinhos espanhóis do que dos franceses, uma vez que
seu perfil genético se difundiu gradualmente na região de Garona
(antiga Aquitânia). Os dez principais dialetos bascos são atualmente
falados por cerca de 700.000 pessoas, em sua maioria no norte da
Espanha.
Quase três milênios atrás, os territórios dos falantes do basco
foram invadidos pelos celtas que falavam o gaulês, uma língua
indo-europeia atualmente extinta. O indo-europeu é uma superfamília
linguística — a mais bem-sucedida da história — que inclui quase
todas as línguas faladas atualmente na Europa e suas vastas
ex-colônias, das Américas à Nova Zelândia. (O inglês, por exemplo, é
uma língua indo-europeia da subfamília germânica e subsubfamília
germânica ocidental.) Geralmente se assume que guerreiros montados
da Europa Oriental conquistaram toda a Europa e substituíram as
línguas nativas pelo seu próprio protoindo-europeu. Essa interpretação
foi posta em questão na década de 1980, pela teoria que diz que os
indo-europeus chegaram na Europa no fim da última Era Glacial,
10.000 anos atrás, vindos do Oriente Médio — não como guerreiros,
mas sim como agricultores que plantavam e colhiam.31 Segundo a
nova teoria, esses novos migrantes entraram gradualmente na Europa,
cerca de um

99
quilômetro por ano, absorvendo as populações que caçavam e
coletavam. Sua linguagem 'superior' primeiro dominou, e depois
suprimiu todas as línguas locais enquanto a agricultura substituía
lentamente a caça e a coleta.
Porém, por sua vez, tanto geneticistas quanto linguistas puseram
em questão essa teoria. Os geneticistas apontaram que o perfil
genético humano na Europa não teve alterações significativas nos
últimos 50.000 anos: talvez técnicas agrícolas, ou mesmo novas
línguas, tenham sido introduzidas por povos do Oriente Médio, cerca
de 10.000 anos atrás, mas os residentes europeus não foram expulsos
por outros povos. Os linguistas rejeitam uma substituição gradual da
língua; também não há indícios linguísticos que apontem que os
indo-europeus introduziram a agricultura na Europa numa época tão
antiga — isso pode ter sido alcançado por um povo pré-indo-europeu,
com a chegada dos indo-europeus da cultura de cerâmica linear
muitos anos mais tarde, cerca de 3500 a.C, vindos não do Oriente
Médio, mas da Europa Oriental.32
A ciência da linguística histórica argumenta que o lar original
dos indo-europeus era o centro geográfico da área a partir da qual sua
língua se expandiu — a Europa Oriental. Isso explicaria evidentes e
extremamente antigas afinidades com as línguas fino-úgricas e o
samoiedas da família urálica.33 Se essas afinidades são substanciais
(uma comparação formal ainda está pendente), há, então, a
possibilidade de que o indo-europeu e o urálico tenham uma língua
ancestral comum, ou representem a convergência heterogênea de duas
ou mais línguas diferentes, porém contíguas, falada no extremo
oriente da Europa cerca de 7.000 anos atrás.
O povo da cultura de cerâmica linear, talvez os primeiros
indo-europeus a entrar na Europa Central, cerca de 5.500 anos

100
atrás, teria substituído aqueles agrupamentos muito antigos e dispersos
de povos celto-itálicos, germânicos e talvez balto-eslavos, que
perseveraram nos milênios subsequentes. Então, cada língua
indoeuropeia individual evoluiu em seu próprio solo: ela não era uma
'invasora', mas sim, nativa.
Consequência de um mecanismo histórico, às vezes difícil de
entender, as línguas europeias nativas conhecidas atualmente surgiram
apenas como resultado de muitas forças. Linguisticamente, o grego
moderno, o francês e o inglês surgiram do mesmo modo que o
protogrego, o itálico e o germânico emergiram anteriormente,
evoluindo a partir de conjuntos tribais mais antigos por meio de uma
miríade de processos específicos da língua. O perfil genético das
línguas europeias modernas revela que as línguas dos minoritários
invasores indo-europeus foram bem-sucedidas em quase todos os
lugares, substituindo as línguas nativas dos moradores majoritários,
com exceção do território basco e da região norte da Escandinávia e
do Báltico. Então, o indo-europeu se diferenciou, ou seja, gerou
línguas descendentes, sobre substratos variados e dinâmicos ou
línguas subjacentes, um processo que produziu a extremamente rica e
culturalmente significativa superfamília linguística que o
indo-europeu se tornou nos últimos 5.500 anos.
Documentada em registros escritos em quase 4.000 desses anos,
o indo-europeu compreende hoje uma das famílias linguísticas mais
prósperas do planeta (ver ilustração 6).34 Só o inglês, que é apenas
uma das mais de 100 línguas descendentes do indo-europeu,
distribuídas em oito subfamílias modernas (céltica, germânica,
românica, albanesa, grega, balto-eslava, armênia e indo-iraniana),
pode atualmente contar com mais falantes de primeira e segunda
línguas do que o mandarim chinês, até então detentor do recorde
linguístico.

101
6 Árvore genealógica das línguas Indo-europeias (resumida).
Protoindo-europeu
Na segunda metade do século vinte, o inglês se tornou a língua
dominante da comunicação global e o mais próximo que a
humanidade já chegou de uma linguagem mundial. O indo-europeu
também compreende a família linguística mais estudada do planeta e,
nos séculos dezoito e dezenove, serviu, principalmente por
intermédio do sânscrito, como origem da ciência linguística
moderna.35
Quanto mais para trás vai a pesquisa linguística, menos se
consegue reconstituir uma língua autêntica. Isso acontece porque o
método comparativo de reconstituição linguística não permite o
mesmo tipo de Viagem no tempo' que outras ciências. A
paleolinguística é limitada a um grande corpus de itens
compartilhados que devem, então, permitir comparações léxicas
(palavras) e fonológicas (sistemas sonoros significativos) entre
línguas. Quando esse corpus fica pequeno demais — como ocorre
num longo período de separação física entre tribos relacionadas — as
correspondências sonoras sistemáticas entre as línguas simplesmente
desaparecem.36 Reconstituições além de um certo ponto temporal se
dissolvem em especulações vãs para a necessidade de dados
comparativos concretos. 'Não é nem sensato nem prudente procurar
uma árvore genealógica ou árvores genealógicas'.37 Esse ponto
temporal fica cerca de 10.000 anos atrás para uma amplitude muito
grande de protofamílias linguísticas, e a maior parte de suas
especulações, mas apenas cerca de 6.000 ou menos para protolínguas
específicas, como a protoindo-europeia. Em relação à antiguidade do
ser humano, isso é muito recente.
Contudo, o fim da última Era Glacial, 10.000 anos atrás, foi
um grande ponto de virada na história da humanidade. Foi uma era
de grande diversidade linguística. Até então, bolsões isolados de
sociedades primitivas só haviam interagido ocasionalmente.

104
Esse isolamento natural engendrou um grande número de pequenos
agrupamentos linguísticos autônomos, cujo estado normal era, talvez,
de equilíbrio e mudanças modestas e graduais, quase sempre por meio
da difusão regional. O enorme aumento populacional humano que se
seguiu após a última glaciação, talvez de um modo paradoxal, reduziu
a diversidade linguística da humanidade, porque na época, o aumento
da população estabeleceu não apenas famílias linguísticas maiores,
mas também casos de uma única língua (como o mandarim chinês)
com um número de falantes sem precedentes.
O aumento do poder econômico e político na sociedade humana,
como regra, gera unidades linguísticas homogêneas cada vez maiores,
que então suprimem as menores. Esse sistema sinergístico cresce
exponencialmente até que, no fim, apenas um número muito limitado
de línguas e famílias linguísticas sobrevive. Essa é a situação
linguística do mundo atual, com um número de línguas que diminui
rapidamente, apesar do excesso populacional. Talvez também por esse
mesmo motivo, é essencial que nós compreendamos a abundante
paisagem linguística de 10.000 anos atrás, provavelmente o limite
absoluto da reconstituição linguística: foi este o funil pelo qual os
ancestrais de todas as línguas sobreviventes atravessaram.
Análises genéticas recentes revelaram que, através dos séculos e
milênios, geralmente as línguas, e não os povos, são substituídas. Ou
seja, novas línguas são prontamente absorvidas por populações
relativamente estáveis. Desse modo, por exemplo, os pré-celtas das
Ilhas Britânicas e Irlanda adotaram as línguas dos celtas minoritários,
quando esses indo-europeus entraram em seu território. Seus
descendentes, muitos séculos depois, de maneira semelhante,
adotaram a

105
língua dos minoritários germânicos ocidentais ('anglo-saxões') que
invadiram suas terras, embora o perfil genético dos moradores
insulares tenha permanecido relativamente o mesmo. Esse é um
fenômeno que ocorreu inumeráveis vezes em todo o mundo. Em toda
a história, as sociedades humanas usaram novas línguas como capas.
As metamorfoses linguísticas sempre passaram despercebidas — até a
escrita.

106
4

Linguagem escrita

'Um escriba, cuja mão se iguala à boca é um escriba de verdade',


escreveu, em argila, um sumério anônimo, cerca de 4.000 anos atrás, e
com a frase, ele capturou a essência da escrita.1 A escrita não 'evoluiu'
gradualmente a partir de desenhos mudos. Ela começou
imediatamente como a expressão gráfica da própria fala humana, e
assim permaneceu. Mesmo o mais antigo hieróglifo egípcio de cerca
de 3400 a.C, que imortalizou um chacal, teria evocado imediatamente
na mente de seu leitor a palavra egípcia para 'chacal'.
Não houve uma pessoa que 'inventou' a escrita. Ela surgiu pela
primeira vez numa ampla faixa que vai do Egito até o Vale do Indo,
aparentemente como resultado da melhora de um antigo sistema de
contagem e classificação. Um negociante ou funcionário melhorou
esse sistema descrevendo pictoricamente o bem que estava sendo

107
contado, medido ou pesado, para diminuir as ambiguidades. Embora
todos os glifos (abreviação para hieróglifo) primitivos
compreendessem figuras simples, mesmo os mais rudimentares
representavam um significado fonético ou sonoro tirado diretamente
da língua.
O modelo mais básico de linguagem escrita compreende três
classes gerais, com muitas variantes transicionais e combinações
(escritas mistas):2
— Uma escrita logográfica permite que um glifo represente um
único morfema (a menor unidade linguística significativa, como
'mão') ou uma palavra inteira ('chacal', como no primitivo hieróglifo
egípcio).
— Uma escrita silábico, compreende glifos que têm
significados apenas silábicos-fonéticos (por exemplo, ko-no-so para
'Konossos', nos escritos egeus da Era do Bronze).
— Uma escrita alfabética permite que glifos, chamados 'letras',
representem vogais e consoantes individuais (a, b, c, como no
alfabeto latino).

Com o tempo, a maioria dos escritos históricos reflete uma


mudança de classe, em que a semântica anterior, ou sentido, é
gradualmente substituída pelo conteúdo fonético ou sonoro: desse
modo, os sistemas logográficos tendem a se tornar sistemas silábicos.
Em contraste, o sistema alfabético permanece único: uma vez
desenvolvida — iniciada no Levante e terminado na Grécia — a
escrita alfabética foi subsequentemente adotada por centenas de
línguas. Hoje, o sistema de escrita alfabético é o único usado para
representar graficamente línguas anteriormente sem escrita.
É possível que a ideia da escrita tenha surgido uma única vez na
história humana, e depois imitada por muitas sociedades. Até bem

108
recentemente, a maioria dos pesquisadores acreditava que esse
surgimento havia ocorrido somente no sul da Mesopotâmia (hoje,
sudeste do Iraque).3 Porém, novos indícios arqueológicos tornam
urgente a consideração de que a escrita primitiva se desenvolveu num
território mais amplo, que se estende do Egito até o vale do Indo.
Através da 'difusão estimulada — a transmissão de uma ideia ou
costume de um povo a outro — a ideia da utilidade de mecanismos de
escrita, onde quer que tenha sido sua origem, inspirou seus vizinhos a
criar seus próprios sistemas de escrita de maneira semelhante, embora
gráfica e foneticamente únicos.4 Em algumas culturas, a linguagem
escrita alcançou a veneração, como no caso dos hebreus de Canaã, os
antigos germânicos e habitantes da Ilha de Páscoa. Nesses casos, a
arte gráfica da escrita, e não necessariamente a mensagem transmitida,
se tornou algo à parte da existência cotidiana, uma comunicação
transcendental a ser praticada apenas por escribas ou sacerdotes. Na
história, o próprio ato de escrever foi frequentemente considerado um
processo mágico.
Um darwinista considerado um dos fundadores da antropologia
moderna proclamou que a evolução da sociedade da 'barbárie' à
'civilização' foi possível primeiro e antes de tudo pela capacidade de
ler a linguagem escrita.5 Pode-se ir além, como acredita-se
atualmente, considerando a escrita como o principal lubrificante da
sociedade: a escrita não permitiu o desenvolvimento social, mas
facilitou em muito a mudança social. Também pode-se optar em evitar
a identificação de 'estágios' no uso da escrita. As três classes de escrita
— logográfica, silábica e alfabética (e seus usos transicionais e
mistos) — são, cada uma delas, maximizadas por uma língua, uma
sociedade e uma era particulares.
Sistemas de escrita são ajustados com a mudança das línguas
através do tempo, ou então um sistema de escrita vizinho é tomado

109
emprestado e radicalmente alterado para se encaixar numa língua
diferente. As três classes não são graus qualitativos nem estágios de
um modelo de evolução da escrita; são simplesmente diferentes
formas de escrever, às vezes, usadas para acomodar novas e diferentes
necessidades.6
As línguas podem 'evoluir', ou seja, se desenvolver de maneira
livre da intervenção intencional humana, mas os sistemas de escrita
são modificados propositalmente por agentes humanos para alcançar
determinados objetivos específicos. O objetivo mais comum é uma
melhor reprodução gráfica da língua falada do escritor. Com o passar
dos séculos e milênios, pequenas modificações constantes num
sistema de escrita resultam numa enorme diferença na aparência e uso
de um manuscrito.7 Mesmo mais de 2.000 anos depois, o atual
alfabeto latino, descendente dos mais antigos hieróglifos egípcios,
ainda está experimentando, simultaneamente em muitas línguas
diferentes, a adição de um novo sistema de sinais externos — ou,
devido a novas tecnologias, a expansão semântica de sinais antigos —
como %, ¥, ™, ©, e mais recentemente, @ e // com a internet.
Nas sociedades em que a capacidade de ler e escrever é limitada
a poucas pessoas selecionadas, parece que a escrita tem poucos efeitos
sobre a língua falada.8 Mas em sociedades em que essa capacidade é
difundida, o impacto da escrita é profundo. A escrita preserva a língua
falada, nivela, padroniza, determina, enriquece e gera muitos outros
processos orientados pela língua com implicações sociais de amplo
alcance. A sociedade humana como conhecemos não pode existir sem
a escrita. A aquisição da capacidade de ler e escrever se tornou, no
mundo moderno, a segunda capacidade mais importante, perdendo
apenas para a aquisição da própria língua. A inspirada elaboração da
escrita a tornou, em pouco mais de 5.000 anos, quase tão
indispensável à humanidade quanto as línguas que ela transmite.

110
Traços de sistemas de escrita apareceram e desapareceram na
história. Tanto eles quanto as dezenas que estão atualmente em uso
em todo o mundo não devem nos retardar nesta história da linguagem.
(Ao leitor curioso, recomenda-se alguns excelentes trabalhos.)9
Merecem um exame mais detalhado os escritos que deram voz às
mais primitivas culturas do planeta, e engendraram famílias inteiras
de escritas e aqueles que hoje dominam o mundo.
Surpreendentemente, apenas três principais tradições guiaram
efetivamente o curso da linguagem escrita: a do Egito e Suméria, aqui
chamada de escrita afro-asiática; a da China, ou escrita asiática; e a da
Mesoamérica.

ESCRITA AFRO-ASIÁTICA
Talvez os povos afro-asiáticos tenham sido os únicos na história
a elaborar uma escrita sem inspiração externa. Em todas as outras
partes do mundo, a escrita serviu às prerrogativas dos sacerdotes e
propagandistas, implicando um empréstimo cultural para a obtenção
de prestígio e poder. Apenas nas terras do Egito até o Vale do Indo a
escrita surgiu a partir de uma necessidade mundana: contabilidade.
Placas de argila datadas de 8.000 a.C. na Mesopotâmia, a 'terra
entre os rios' Tigre e Eufrates, podem ter sido as primeiras precursoras
da escrita fonética.10 Nos povoamentos agrícolas mais primitivos da
região, quantidades de grãos e número de animais foram computados
por meio de formas, como pratos e cones, feitas de argila. Após a
incursão dos sumérios na área, que adotaram nomes de cidades e
profissões e o sistema de contagem dos moradores locais, novas
formas e mesmo marcas, estampadas com estiletes de junco estavam
sendo desenvolvidas para incluir mais informações sobre contagem de
jarras de azeite e vinho e unidades de terra. Quando os sumérios
projetaram 'envelopes' de bolas ocas feitas de argila para colocar essas
placas

111
de contagem, outras placas, reproduzindo o conteúdo dos envelopes
foram estampadas em sua superfície exterior, e 'lidas' como um rótulo.
Em tempo, os marcadores contábeis do interior dos envelopes se
tornaram supérfluos, uma vez que a impressão exterior já comunicava
o bem e a quantidade.
Parece que os egípcios e os harappeanos do Vale do Indo, que
mantinham um comércio ativo com os sumérios, adotaram bem cedo
este, ou um método semelhante de contagem, com o uso de
figuras-símbolos identificáveis para representar sons falados: via-se
um objeto reconhecível e simplesmente pronunciava-se seu nome em
voz alta. Tal símbolo é chamado de pictograma, e a escrita que usa
pictogramas é chamada de escrita pictográfica. Os egípcios, por sua
vez, sofisticaram esse processo, reduzindo as figuras a morfemas e
sinais puramente fonéticos para melhor reproduzir a língua egípcia.
No fim, nasceu um sistema de escrita logográfica, totalmente capaz de
transmitir sentenças gramaticais da língua falada. Era a escrita como
atualmente a conhecemos.
Descobertas recentes em Abidos, o mais antigo 'centro de poder'
do Alto Egito, revelaram que os egípcios do local usavam uma escrita
logográfica ou hieroglífica mais refinada já em 3400 a.C. Durante o
período pré-dinástico Gerzean, ou Naqada II, antes da união das
províncias locais, os governantes do Alto Egito estavam consolidando
gradualmente sua base de poder, criando uma administração central
mais eficiente para cumprir seus ousados planos de unificação do Alto
e do Baixo Egito num único reino. O centro de qualquer
administração é, como sempre, o controle da informação. Com a nova
escrita logográfica, que podia capturar e sustentar a lei real e permitia
uma contabilidade controlada, com suas óbvias vantagens
econômicas, os intermediários do poder do Alto Egito tinham um

112
veículo para avançar o processo de centralização política. É possível
que a escrita hieroglífica do Egito tenha surgido como resultado
imediato da dinâmica social que levou à unificação do Alto e do
Baixo Egito. A nova escrita também se encaixava perfeitamente bem
à estrutura particular da língua afro-asiática do Egito — na verdade,
bem mais do que qualquer um dos nossos alfabetos modernos
conseguiria se encaixar. Isso também pode explicar por que o sistema
de escrita logográfica dos egípcios sobreviveu quase sem mudanças
em sua base por mais de 36 séculos, mais do que qualquer outro
sistema de escrita da história da humanidade.11
Há três formas de escrita egípcia antiga. A mais importante são
os hieróglifos (uma posterior denominação grega errada para o termo
'entalhe sagrado') de uso principalmente monumental ou ritualístico.
As duas escritas cursivas (a escrita cursiva flui livremente com
caracteres unidos), a hierática e a bem mais tardia escrita demótica,
que normalmente eram escritas com tinta em papiros.12 Porém, as três
escritas só se diferenciam na aparência externa. Todas as três são,
essencialmente, uma única escrita.13 A escrita hieroglífica consistia,
originalmente, de cerca de 2.500 glifos, mas apenas cerca de 500 deles
eram usados regularmente. Esses glifos consistiam da reprodução
gráfica do objeto nomeado: o glifo de uma 'mão' era pronunciado drt,
e o da 'lótus' ssn. (Normalmente, os egípcios não designavam o som
das vogais, só o das consoantes.) Outros hieróglifos são apenas
sugestivos: por exemplo, wnm, que significa 'comer', consiste de um
homem sentado com uma mão na boca. Os glifos podem ser objetos,
ações, ou mesmo abstrações. Eles também podem ser usados
homofonicamente, com uma palavra servindo para significar outra de
som parecido: a palavra db que significa 'dedo', também era usada
para representar db, que significa '10.000'. Cerca de 26 glifos
representavam apenas

113
uma consoante, outros 84 representavam duas consoantes. 24 outros
eram sílabas (silabogramas).14 Cerca de 100 glifos
determinativos-impronunciados que 'determinavam' ou identificavam
a classe à qual o respectivo glifo pertencia — seguiam-se após os
glifos fonéticos (sonoros). Uma única barra embaixo de um glifo
significava que ele era um logograma; duas barras abaixo
significavam dois do objeto retratado; e três significavam que havia
três ou mais (ver ilustração 7).
Os hieróglifos egípcios parecem ter assumido suas formas
padronizadas e significados sonoros muito antes da Primeira Dinastia,
cerca de 5.400 anos atrás; na época, produzindo um sistema de escrita
misto com várias centenas de logogramas, silabogramas e
determinativos. Apenas dessa forma poder-se-ia escrever coisas que
iam além de objetos específicos e facilmente determináveis. Por
exemplo, dizia-se par para 'casa' ou 'sair', mas escrevia-se apenas pr
para ambos, que, mais tarde, os escribas usaram para palavras que não
tinham qualquer relação com 'casa' nem 'sair', quase sempre anexando
determinativos para identificar qual palavra específica ela significava.
Embora na época tenham surgido 26 glifos específicos para
consoantes, eles nunca se desenvolveram num alfabeto. Porém, no
segundo milênio a.C, eles talvez tenham inspirado os silabários
protoalfabéticos (conjuntos de símbolos que representam sílabas) do
Levante, e em última análise, nosso próprio alfabeto.15
Os hieróglifos egípcios eram mais frequentemente escritos com
tinta em papiro, couro e óstraco (fragmentos inscritos em cerâmica).
Isso permitiu que uma escrita cursiva — mais tarde chamada de
hierática — se desenvolvesse no final da Segunda Dinastia, cerca de
2600 a.C, para facilitar a escrita da contabilidade do governo central.
As características pictóricas dos escritos iniciais haviam sido
estilizadas até se tornarem irreconhecíveis, ao mesmo tempo e do
mesmo modo

114
que a escrita cuneiforme dos sumérios no Oriente Médio. Embora os
liieróglifos tenham sido preservados pela lei e pela tradição, a escrita
cursiva foi desenvolvida separadamente, o que permitiu mudanças
contínuas. Surgiram diferentes caracteres, dependendo do propósito
da escrita cursiva: oficial, pessoal, profano ou religioso.16 Na
Vigésima Quinta Dinastia, no sétimo século a.C, era usada uma forma
cotidiana de escrita cursiva, chamada demótica; ela contava
fortemente com expressões abreviadas e era usada em todas as
transações administrativas e comerciais. Com a introdução do
cristianismo no terceiro século d.C, as três escritas egípcias foram
substituídas por uma escrita descendente dos hieróglifos muito
posterior, a escrita alfabética grega, que, junto ao o alfabeto cóptico,
passou a ser usada para escrever a língua egípcia.
Cerca de 3100 a.C, talvez através de uma inspiração de seus
parceiros comerciais egípcios, os sumérios já haviam substituído seus
rótulos externos por simples tabletes impressos que usavam marcas
logográficas indicando unidades, medidas e pesos.17 O sumério é uma
língua monossilábica com muitos homônimos, ou seja, palavras com o
mesmo som e diferentes significados, como em português, os
homônimos cesta e sexta. Isso cria ambiguidades para a escrita
logográfica, em que um glifo representa um morfema ou uma palavra
inteira. Os sumérios encontraram uma maneira de evitar a confusão,
novamente, talvez emprestando uma ideia dos egípcios: eles
arquitetaram glifos puramente fonéticos para ajudar na identificação
dos logogramas. Esses glifos fonéticos foram particularizados,
novamente do mesmo modo que faziam os egípcios, usando o
princípio rebus (no qual as figuras representam partes da palavra): por
exemplo, em inglês a palavra betray seria representada por uma
abelha ‘bee’ e uma bandeja ‘tray’ . (Desde então, o princípio rebus foi
usado inúmeras vezes em todo o

115
'Ilumine sua face, abra seus olhos'

Os sons s e hd são sugeridos pelo gancho e o bastão de cabo longo,


produzindo shd, que significa 'ilumine'. O sol repete esse
significado funcionando como um determinativo. A cesta é um
sufixo masculino, significando 'você'. Portanto, 'Que você ilumine'.

O rosto é a 'face' e o som hr. A vareta diz ao leitor: 'o que se lê aqui
é o objeto que se vê'.

A serpente com chifres é o sufixo masculino -f, significando 'ele',


'dele' ou 'seu'.

A lebre é wn e também a palavra para 'aberto'. Isto também é


apoiado para o sinal ondulado, lido como um n.
Os dois determinativos seguintes são uma porta de lado (então
também está 'aberta') e um antebraço agarrando uma vara
(sugerindo 'esforço').

Novamente a cesta é um sufixo masculino, significando 'você'. Ele


pertence aos quatro sinais anteriores e produz a leitura 'que você
abra'.

Os dois olhos significam 'isto mesmo', reproduzindo a palavra irty.

Novamente a serpente com chifres significa 'ele' (relacionando-se


com os dois olhos acima), enquanto os dois sinais em diagonal
apontam para a dualidade dos olhos.

7 Como funcionam os hieróglifos egípcios: no sarcófago do rei Amenhotep II, a imagem da


deusa Isis invoca sua bênção ao deus da terra, Geb.

mundo.) Porém, como há homônimos demais na língua suméria, a


escrita fonética se mostrou insuficiente. Então, os sumérios passaram
a usar determinativos, mais uma vez, do mesmo modo que os
egípcios. Por exemplo, os nomes de todos os deuses e deusas
sumérios

116
eram acompanhados com um asterisco * quando escritos. O sistema
de escrita sumério só conseguiria reproduzir elementos gramaticais
graficamente após desenvolver significados silábicos dos logogramas,
depois do desenvolvimento do método egípcio. Só então ela se tornou
uma escrita verdadeiramente útil, capaz de ser usada também por
falantes de outras línguas.
Em 2500 a.C, uma técnica de escrita muito sofisticada que
rivalizava com os hieróglifos egípcios em sua simples eficiência havia
se desenvolvido na Suméria: os sumérios usavam um estilete com
uma ponta arredondada triangular que podia ser facilmente
manuseado para formar impressões cuneiformes em argila mole numa
rápida sucessão.18 Os glifos não eram mais objetos reconhecíveis que
evocariam imediatamente uma palavra da língua suméria, mas sim
formas padronizadas e abstratas feitas com impressões sucessivas com
o estilete. Isso aumentou em muito a capacidade do sistema em formar
palavras individuais. Nos 500 anos seguintes, foi criado um corpus
ativo de cerca de 600 glifos, capaz de expressar qualquer coisa na
língua suméria, e com eles, o mais antigo documento literário do
planeta foi impresso em argila.
Não era mais apenas a língua suméria que podia ser lida na
escrita cuneiforme. Começando cerca de 2600 a.C, os semitas
orientais acádios invadiram seu território e começaram a assimilar a
cultura suméria não semítica e, cerca de 2400 a.C, assimilaram
também a escrita cuneiforme suméria.19 Com ela os acádios
desenvolveram sua gloriosa cultura babilônica. (Foram os acádios que
deram o nome 'Suméria' para a região.) Embora os sumérios já
houvessem sido totalmente absorvidos pelos acádios cerca de 1800
a.C, sua língua sobreviveu nas leituras dos escritos cuneiformes
sumérios feitos pelos acádios. Os acádios também liam os mesmos
glifos na língua acádia,

117
conferindo duas leituras diferentes para cada glifo.20 Devido ao
poderoso império babilônico dos acádios, nos séculos seguintes vários
vizinhos adotaram a escrita cuneiforme suméria-acádia em suas
próprias línguas, fazendo alterações e adições para melhor reproduzir
suas diferentes fonologias.21 Quando os hititas indo-europeus
adotaram a escrita cuneiforme, cerca de 1600 a.C, seus escribas
adicionaram um novo significado hitita aos já presentes significados
sumérios e acádios para cada glifo. Assim, cada glifo cuneiforme
hitita poderia, teoricamente, ser lido de três maneiras diferentes.
Porém, o hábil uso hitita de determinativos reduziu em grande parte
qualquer ambiguidade potencial.
Em 1400 a.C, a escrita cuneiforme era a escrita internacional da
diplomacia e do comércio. Mesmo o poderoso Egito usava a escrita
cuneiforme em suas correspondências diplomáticas com os vizinhos
do nordeste. Grandes bibliotecas de escritos cuneiformes foram
acumuladas por poderosos governantes semitas e hititas:
Assurbanipal, da Assíria (669-633 a.C.) possuía uma biblioteca de
escritos cuneiformes em Nineveh, que chegou a portar quase 25.000
tabletes de argila com inscrições. A expansão cuneiforme diminuiu,
depois parou. Nos primeiros séculos d.C, o uso da escrita cuneiforme
se restringiu à Babilônia, onde continuou sendo usada em escolas de
astronomia até 50 d.C, quando a escrita cuneiforme finalmente
sucumbiu à muito mais influente escrita consonantal semítica.
Uma ramificação anterior da escrita logográfica suméria pode
ser a ainda indecifrada escrita da civilização do Vale do Indo, onde
hoje fica o leste do Paquistão. Cerca de 4.600 anos atrás, surgiu a
primeira sociedade urbana do Vale do Indo, com duas cidades
densamente populosas com ruas pavimentadas e sistema de água.
Harappa, no norte; e Mohenjo-daro, no sul. Ambas influenciavam
uma região maior do

118
que o Antigo Egito.22 O povo do Vale do Indo desenvolveu um tipo
único de escrita em tabletes de cobre esculpidos e selos de esteatita
(pedra-sabão). Uma protoforma dessa escrita, aparentemente datada
de 3500 a.C, aparece em fragmentos de cerâmica de Harappa.
Características de selos harappianos foram encontradas em cidades
mesopotâmicas dentro de contextos arqueológicos que datam de 2500
a.C. Vários milhares de tais selos foram encontrados no próprio Vale
do Indo, objetos normalmente quadrados ou retangulares com
intricadas figuras esculpidas representando animais, bestas míticas,
pessoas fantasiadas, e assim por diante. Porém, a escrita não está
nesses desenhos, e sim nos cerca de cinco glifos que normalmente os
acompanham. O número total de glifos autônomos na relação dos
milhares de selos ilustrados do Vale do Indo é de cerca de 400, porém
muitos deles são obscuros e não padronizados. Como o número de
glifos é grande demais para uma escrita alfabética ou silábica,
presume-se que eles expressem algum tipo de escrita logográfica,
talvez identificando um dono pelo nome.23 Embora tenha sido
proposto que a escrita reproduz uma antiga língua dravídica,24 não há
nenhum indício concreto que aponte para isso. A civilização do Vale
do Indo entrou em declínio cerca de 1900 a.C, por motivos
desconhecidos.
O sistema hieroglífico egípcio, que também incluía 24 sílabas,
pode ter gerado a primitiva escrita semítica ocidental, com 22 sílabas,
baseada no princípio acrofônico ou da consoante inicial.25 O silabário
semítico ocidental gerou então as escritas arábica, mongol, manchu,
síria, aramaica e pahlavi.26 Ele também inspirou o brahmi índico, que
por sua vez gerou o devanágari — a escrita usada para o sânscrito
entre muitas outras línguas modernas da Índia — assim como várias
outras escritas do sul da Ásia. Todas essas escritas permaneceram
silábicas, como sua fonte.

119
No início do segundo milênio a.C, a escrita silábica semítica
ocidental da cosmopolita cultura cananita, com seu sistema integrado
de economias e diplomacia internacional, também inspirou as várias
escritas silábicas dos gregos indo-europeus, evidentemente através de
Chipre. Os gregos haviam ocupado a área da Grécia moderna no
terceiro milênio a.C. e então, vários séculos depois, com o domínio da
região, haviam iniciado um relacionamento comercial com os muito
mais ricos cananitas do Levante. Os gregos emprestaram do Levante
apenas a ideia da escrita silábica; seus elaborados glifos e significados
fonéticos eram totalmente egeus em forma e som, baseados no
princípio rebus e usando uma forma muito primitiva da língua grega.
(A tradicional teoria de que os pré-gregos da região haviam elaborado
a primeira escrita egeia de modo independente parece insustentável.)
Entre as várias escritas silábicas usadas por muitos séculos pelos
minoicos e micênicos de Creta, nas Ilhas Egeias e no continente
grego, estava a famosa escrita hieroglífica de Creta (com variantes) e
suas simplificações estilizadas linear A e linear B. Os mais de 4.000
fragmentos que sobreviveram constituem a mais antiga literatura
europeia. Os escritos silábicos gregos foram evidentemente
abandonados nos últimos séculos do segundo milênio a.C, com a
introdução do eminentemente mais conveniente protoalfabeto,
também vindo do Levante. A ilha de Chipre, na periferia da Grécia,
manteve uma arcaica escrita silábica reservada para uso especial até o
segundo século a.C.27
Indícios da escrita alfabética mais antiga do mundo — que
adorna as jarras de Gezer, onde fica hoje a área da moderna Israel —
datam do século dezesseis a.C.28 Esse protoalfabeto, usado em Canaã
como pictogramas, foi escrito 200 anos depois junto ao o alfabeto
cuneiforme que serviu simultaneamente em Ugarit (moderna Rãs
Shamrah, na Síria) e outras importantes cidades do Levante. Os

120
escribas ugaríticos haviam mantido o material de escrita e a técnica da
escrita cuneiforme primitiva, mas haviam inventado seus glifos e
significados próprios.
Cerca de 1300 a.C, os escribas fenícios de Biblos elaboraram
um silabário altamente simplificado usando glifos derivados do
princípio acrofônico ou 'da consoante inicial'. Os fenícios semitas não
acharam que a representação das vogais era necessária em seu
silabário; entre outros motivos não linguísticos para não usar a escrita
egípcia, neste caso, é suficiente reconhecer que uma escrita silábica
era mais conveniente que a escrita logográfica dos egípcios. (Línguas
semíticas priorizam consoantes antes de vogais na formação de
palavras.) Esse novo silabário levantino, um protoalfabeto que foi
usado de várias formas por centros comerciais no final da Idade do
Bronze, durou apenas até 1200 a.C, quando, junto ao alfabeto
cuneiforme, sucumbiu ao alfabeto consonantal que havia se
desenvolvido através do alfabeto pictográfico de Canaã da Idade do
Bronze.29
Os gregos, ainda parceiros comerciais regulares, também
adotaram esse novo alfabeto consonantal. Porém, eles logo
descobriram que embora ele representasse eficientemente as línguas
semíticas, a falta de vogais causava muitas ambiguidades no caso de
uma língua indo-europeia, como o grego, em que as vogais são
componentes gramaticais e produtores de sentido importantes. Eles
perceberam que alguma coisa deveria ser feita para criar um alfabeto
conveniente tanto para o escritor quanto para o leitor de grego. Essa
'alguma coisa' produziu o mais importante desenvolvimento da escrita
desde seu surgimento em si: os gregos introduziram vogais no alfabeto
consonantal levantino, e, desse modo, completando toda uma nova
classe e escrita. A escrita alfabética grega permaneceu, desde essa
época, essencialmente a mesma, a não ser em sua aparência externa:
há quase 3.000 anos.

121
A conquista grega foi tremendamente simples e
impressionantemente eficiente (ver ilustração 8). Do glifo consonantal
semítico hebraico ‘aleph, cujo pictograma original reproduzia um 'boi'
— onde a consoante inicial ' representa a parada glotal semítica (como
ã-hã em português), um fonema desconhecido em grego — os gregos
usaram apenas o a do glifo, sem a parada glotal, criando com isso um
sinal para uma vogai pura. Eles também emprestaram outra consoante
inicial (o yodh semítico para ι) e inventaram duas novas 'letras' (glifos
num alfabeto), até conseguirem sinais para todas as vogais puras
necessárias na representação da língua grega: a (a), ε (é) ι (i) e ο (ó).
Assim, os gregos montaram seu novo 'alfabeto', uma palavra composta
das duas primeiras letras gregas aλΦa e βετa, para uma reprodução
ainda mais fiel da língua grega como ela era falada. Primeiro, o η foi
emprestado do glifo semítico heth para distinguir o ε longo do ε curto.
De maneira semelhante Ω foi pensado — um o com a parte de baixo
aberta — para distinguir o o longo do o curto. Os quatro sons gregos
especiais υ (upsilon), f (phi, χ (chi) e ψ (psi) também foram todos
elevados à categoria de letras individuais, talvez tiradas de
significados cipriotas mais antigos.
No final desse processo os engenhosos escribas gregos estavam
de posse de um pequeno e prático alfabeto de letras com consoantes e
vogais individuais. Tudo o que eles tinham de fazer para escrever sua
língua era combinar consoantes e vogais em sequências que
formassem palavras inteiras, o mesmo método que usamos hoje. Em
nenhum outro lugar do planeta a invenção independente de um
alfabeto vocálico e consonantal se repetiu. Talvez mais
significativamente, nenhum sistema de escrita conseguiu nada mais
eminentemente útil para a maioria — embora não todas — das línguas
do mundo.30

122
Todas as escritas da Europa ocidental e oriental derivam do
alfabeto grego, incluindo a deste livro. Ao encontrar o alfabeto grego,
europeus pré-alfabetizados ou tomaram emprestada a ideia da escrita
grega ou adotaram o alfabeto grego, com ou sem mudanças. As
primitivas tribos germânicas, por exemplo, simplesmente
emprestaram a ideia da escrita para elaborar seu sistema único de
runas. Ele consistia de 24 sinais, em três séries de oito, usados para
inscrições curtas, mais frequentemente em enterros. O texto
germânico mais antigo, do primeiro século d.C, foi escrito em runas.
Só no século dez, quando as tribos germânicas mais ao norte se
converteram ao cristianismo e adotaram o alfabeto latino, o uso das
runas cessou completamente. De modo semelhante, o irlandês e o
galês primitivos, ao encontrar a escrita alfabética, desenvolveram sua
própria escrita, chamada ogham. Ela consistia de linhas ou pontos
precisos que se interseccionavam; um a cinco pontos, ou uma a cinco
linhas, produzindo cinco sinais para vogais e quinze para consoantes,
que poderia ir da esquerda para a direita, ou em ambas as direções ao
mesmo tempo. A introdução do cristianismo viu a escrita ogham
também sucumbir ao alfabeto latino.
Os etruscos do primeiro milênio a.C. usavam letras gregas para
escrever sua própria língua. Atualmente, sua escrita, ainda não
decifrada (a escrita é conhecida, mas não a língua), permite que se leia
em etrusco, mas não que se entenda. No século quatro d.C, os povos
eslavos usaram o alfabeto grego de Constantinopla para construir duas
escritas eslavas: a cirílica, baseada nas letras maiúsculas e adotada na
Rússia (a escrita russa atual, usada por centenas de milhões de
pessoas), e subsequentemente em muitas outras línguas eslavas e
mesmo não eslavas; e a Glagolítica, talvez derivada das letras
minúsculas dos gregos por Santo Cirilo,

123
Fenício Grego Arcaico Grego Clássico Latim

8 O desenvolvimento dos alfabetos grego e latino.

124
apóstolo dos Eslavos, que atualmente sobrevive apenas na liturgia
católica romana croata.
De longe, a mais importante adaptação do alfabeto grego foi
feita pelos romanos que, cerca de 600 a.C, se depararam com a escrita
grega em solo italiano por intermédio dos vizinhos etruscos. Os
romanos mudaram muito pouco o original grego. Mais notavelmente,
eles sonorizaram o C, que em latim tem o som de [k] e o escreviam
como G. O subsequente poder militar e econômico romano viu o latim
escrito ser usado em todo o mundo ocidental, também em línguas de
origem não latina como as célticas e germânicas.
As modificações finais no alfabeto foram terminadas cerca de
800 d.C, quando a necessidade de uma base de escrita clara e clássica
foi sentida pelos instruídos conselheiros de Carlos Magno. A letra V
foi dobrada para se criar o W para o som [w]; o U foi inventado para
se distinguir a vogai [u] da consoante V; e o J sofreu uma inovação
para se distinguir da função consonantal da letra I. Mas o alfabeto
atual é muito pouco diferente do usado pelos romanos 2.000 anos
atrás. (Um romano antigo teria poucas dificuldades para pronunciar de
modo aproximado os sons deste livro.) No terceiro milênio d.C, o
alfabeto latino se tornou o sistema de escrita mais importante do
planeta. Houve desdobramentos fascinantes dessa venerável tradição.
Na América do Norte, cerca de 1820, Sequoyah, o líder dos
cherokees, modificou a forma do alfabeto latino para criar 85 sinais
silábicos — não alfabéticos — especiais para reproduzir a fonologia
cherokee. Mesmo hoje, a escrita cherokee de Sequoyah pode ser lida
em publicações religiosas e jornais cherokees. Entre 1905 e 1909,
falantes de woleai das Ilhas Carolinas, no sul do Pacífico,
remodelaram o alfabeto latino dos missionários europeus para criar, de
maneira semelhante, uma escrita especial silábica capaz de

125
Al +B >C
Manu ma’u ika ra’ã
Manu mau ika ra’ã
Pássaro todos peixe sol

(Te) manu mau[falo: ki’ai ki roto ki} (te) ika: (ka pu te) ra’ã

Todos os pássaros copularam com o peixe: então originaram o sol.

9 Lendo a escrita rongorongo da Ilha de Páscoa.

expressar sua língua. Duas outras expansões nativas do alfabeto latino


são a escrita silábica vai, de Duala Bukere no oeste da África, de
1834; e a escrita bamum, decretada pelo rei Nshoya, no centro de
Camarões, a partir de 1900.
Com exceção dos escritos macáçar-buginese de Celebe e dos
escritos bisaya das Filipinas — descendentes de sistemas de escrita
vindos da Índia — o Pacífico permaneceu sem escrita até o final do
século dezoito. Na verdade, a escrita era desnecessária nas antigas
sociedades do Pacífico, uma vez que lá nunca se desenvolveram
estados elaborados que exigissem contabilidade, e a literatura oral e a
memória prodigiosa satisfaziam as exigências dessas sociedades,
incluindo longas recitações genealógicas. Então, uma das escritas
mais intrigantes do mundo foi

126
elaborada na isolada Ilha de Páscoa, no extremo leste do sul do
Pacífico.31 Emprestando a ideia da escrita, linearidade e direção da
esquerda para a direita de visitantes espanhóis em 1770, os polinésios
nativos da Ilha de Páscoa escreveram seus famosos rongorongos, com
cerca de 120 logogramas básicos — pássaros, peixes, deidades,
plantas, figuras geométricas e assim por diante — que aceitam vários
semasiogramas (glifos que indicam diretamente ideias, sem o uso da
língua) como conexões, resultando numa escrita solta mista com glifos
principais, fusões, conexões e componentes. A escrita não se tornou
repentinamente 'necessária' na Ilha de Páscoa primitiva. O mana, ou
'força sócio-espiritual', da escrita dos visitantes estrangeiros, com seus
grandes navios, espingardas e canhões, foi explorado para restabelecer
a autoridade decadente da classe dominante da ilha, o líder e seus
sacerdotes. A maioria, embora não todas, das 25 inscrições
rongorongo preservadas estão em madeira, e parecem compreender
produções simples no 'estilo telegrama Al + B > C, como: 'Todos os
pássaros copularam [com o] peixe: [então originaram o] sol' (ver
ilustração 9).

ESCRITA ASIÁTICA
Talvez inspirada pelas escritas ocidentais, a escrita chinesa se
originou no segundo milênio a.C. com uma representação simples e
padronizada de objetos em ossos, varas de bambu, tabletes de madeira
e, muito raramente, seda, cujos nomes deveriam ser pronunciados em
voz alta. Como regra, escrevia-se de cima para baixo, em colunas que
iam da direita para a esquerda. Com o tempo, as representações
passaram a ser cada vez mais estilizadas. Isso permitiu uma escrita
mais rápida e eficiente. Assim, a escrita relacionada com a figura
também poderia ser usada por mais falantes, numa área mais ampla.

127
A engenhosidade da escrita chinesa está nas possibilidades
combinatórias, que já estavam totalmente desenvolvidas no final do
segundo milênio a.C.32 Dois glifos primitivos ou wen (originalmente
pictogramas), como 'árvore' e 'sol', criam um novo glifo derivado ou
dze — 'leste', o sol nascendo por trás e uma árvore. 'Amor' é a
combinação de 'fêmea' e 'criança'. 'Brilho' é 'sol' e 'lua' escritos juntos.
Outros glifos são mais simbólicos: 'acima e 'abaixo' são linhas
horizontais com respectivas linhas perpendiculares acima ou abaixo
(ver ilustração 10).
Os wen e os dze compreendiam originalmente cerca de 2.500
glifos. Eles poderiam também ser usados foneticamente para fornecer
um som que não precisava mais ser ligado a um objeto físico definido.
Na segunda metade do primeiro milênio a.C, um dos cerca de 625
determinativos (sons identificadores) era normalmente ligado à
'fonética' para mostrar qual objeto estava sendo designado com
determinado som fonético.
A forma mais antiga de escrita chinesa conhecida é a 'Antiga
Escrita', cujo estágio mais jovem é o 'Estilo do Grande Selo'. Com a
unificação do primeiro império com Xin Shi Huang Di, no terceiro
século a.C, a escrita da Chancelaria Imperial de Xin, o 'Estilo do
Pequeno Selo' prevaleceu. Desde então, não ocorreu nenhuma
mudança fundamental na escrita, apenas pequenas alterações formais.
A maior delas ocorreu em cerca 200 a.C, com o declínio do uso do
estilete de madeira e o aumento do uso da escova de cabelo, que
necessitava de uma nova técnica, e resultou no 'Estilo dos Escribas.
No século quatro d.C, ela se desenvolveu no esteticamente mais
agradável 'Estilo regular', usado em impressões e correspondências
oficiais. Para o uso diário surgiram cursivas menos precisas e mais
abreviadas.
Devido às numerosas mudanças fonológicas na língua chinesa
no último milênio, os significados originais de muitos glifos chineses

128
10 Escrita chinesa.

não são mais transparentes. Apesar disso, o significado total de um


glifo é facilmente reconhecível, tanto semântica quanto foneticamente,
devido ao glifo determinativo que está normalmente ligado ao glifo
'fonético'. Desse modo, quando se vê o glifo chinês ma, imediatamente
se sabe qual das palavras está lendo, se 'sanguessuga-ma’, 'ágata-ma',
'tábua-ma', rabugenta-ma' ou peso-ma'. A maioria dos glifos chineses
atuais consiste de um elemento identificador e um fonético. Embora
possam ter existido cerca de 50.000 glifos individuais, hoje, apenas
cerca de 4.000 são comumente empregados, logogramas que usam
214 determinativos (MADEIRA, FOGO, ÁGUA, e assim por diante).
Como todas as escritas logográficas, a escrita chinesa é altamente
fonética (relacionada aos sons) com fortes componentes semânticos
(sentido), facilitando a memorização. A simplicidade inata do sistema
de escrita chinês, que é perfeitamente adaptável às línguas tonais,
monossilábicas e inflexivas (ou seja, sem modificações no final das
palavras) que ela reproduz, assegurou sua sobrevivência de modo

129
virtualmente não modificado por mais de 3.000 anos. Hoje- em dia,
essa escrita é lida por bem mais de um bilhão de pessoas.
Entre os vários povos asiáticos que adotaram o sistema de
escrita chinês, talvez os japoneses tenham introduzido as mudanças
mais fascinantes. Ao substituir o povo ainu, originário do Japão, e sem
escrita própria, nos primeiros séculos d.C, os eruditos japoneses
aprenderam a escrita chinesa no continente, e mais tarde a
introduziram na corte japonesa com o intuito de escrever textos
políticos e religiosos japoneses. A cultura japonesa logo foi permeada
pelas palavras monossilábicas chinesas, produzindo um grande
número de homônimos (palavras que se pronunciam do mesmo modo,
mas com diferentes significados, como em português, casa
significando lar e casa do verbo casar). Um glifo chinês ou kanji
chegou a ter várias pronúncias diferentes, ambas sino-japonesas e
japonesas nativas. A escrita chinesa não se encaixava muito bem na
língua japonesa polissilábica (e não monossilábica, como a língua
chinesa) e flexiva (com mudanças no final de palavras que mostram
diferenças gramaticais), que era diferente demais do chinês cuja
escrita havia sido feita para transmitir. Nos primeiros séculos, ler
japonês na escrita chinesa foi um processo lento, trabalhoso e confuso.
Por esse motivo, mais de 1.000 anos atrás, os escribas japoneses
selecionaram várias dezenas de glifos chineses apenas para seus
próprios sons e os reduziram graficamente a partículas essenciais, para
fornecer cinco vogais (a, i, u, e, o) e 41 sílabas consoantes-vogais (ka,
ki, ku e assim por diante).33 Assim, eles confeccionaram um silabário
com 46 glifos dos quais emergiram eventualmente duas escritas kana
silábicas japonesas, cada qual com 48 glifos. A mais importante das
duas, a hiragana, foi desenvolvida já no século oito ou nove e
normalmente fornece finais gramaticais de palavras ligadas às raízes
chinesas

130
kanji (as raízes são quase sempre escritas com glifos chineses);
fornece marcadores sintáticos ou de sentenças sequenciais; e
frequentemente, na escrita em minúscula, explica kanjis obscuros para
ajudar o leitor. A segunda, katakana, foi desenvolvida por volta do
século doze, como uma versão simplificada do hiragana, e é
principalmente usada para escrever foneticamente palavras
estrangeiras, onomatopaicas (que imitam o som de seu significado),
entre outras. Atualmente, todas as três escritas japonesas — o kanji
logográfico, e os silabários hiragana e katakana — são usadas
simultaneamente num texto escrito em japonês, obedecendo às regras
soltas do uso padrão em domínios restritos. Frequentemente, um kanji
terá um significado e uma pronúncia originais em chinês assim como
um, dois ou mesmo três pronúncias e significados em japonês. Por
esse motivo, talvez o japonês seja o sistema de escrita mais
complicado do mundo, lembrando a mesoamérica em sua
complexidade.
A Coreia começou seguindo o mesmo caminho, mas depois
tomou um rumo totalmente diferente. Na Coreia, a escrita chinesa foi
usada com exclusividade até 692 d.C., quando os glifos ido coreanos
foram elaborados para fornecer terminações coreanas nativas em
textos escritos em chinês, em muito semelhantes às sílabas hiragana
usadas no Japão. Porém, quando os coreanos se depararam com o
alfabeto ocidental, no século quinze, criaram um alfabeto coreano
chamado hangul, primeiro com 28, depois com 25 letras. Ao contrário
do japonês, a escrita hangul é considerada a mais simples do mundo.

ESCRITA MESOAMERICANA
Poucos povos americanos nativos usaram a escrita, e apenas na
Mesoamérica.34 Sua origem é desconhecida. Alguns estudiosos
defendem uma origem nativa, em que a escrita seria, talvez, um
'reflexo

131
natural' do alto grau de civilização da região. Porém, a escrita como
'reflexo natural' da civilização parece não ter ocorrido em nenhum
outro lugar do planeta. A ideia de uma arte gráfica reproduzindo a fala
humana parece ter surgido uma única vez na história — mais de 5.000
anos atrás, entre os povos afro-asiáticos — e depois levada dali para
outras partes do globo. (Essa é a chamada 'teoria monogenética' da
escrita e que, talvez melhor explique a origem das escritas no mundo,
segundo o peso cumulativo dos indícios atualmente disponíveis.) No
caso dos vários escritos mesoamericanos, pode-se estar lidando com
uma única e muito longa tradição que se originou, talvez com
inspiração exterior, pelos poderosos olmecas do sul do México na
primeira metade do primeiro milênio a.C, se desenvolveu com os
incríveis maias durante o primeiro milênio d.C, e depois acabou cerca
de 1.000 anos atrás. Os escritos menores dos mistecas e astecas da
mesma região parecem compreender simples desenvolvimentos
posteriores da rica tradição escrita maia.
No sul do México, durante a primeira metade do primeiro
milênio a.C, surgiu um sistema hieroglífico olmeca único (1200 a 500
a.C).35 Restam poucos fragmentos desta escrita, mas em 600 a.C, os
escribas olmecas de Oxaca e partes de Chiapas e Veracruz esculpiam
intrincados hieróglifos em pedra, provavelmente registrando nomes de
governantes e suas conquistas — temas predominantes nas inscrições
mesoamericanas até a chegada dos europeus mais de 2.000 anos
depois. Ocasionalmente, eles vinham acompanhados de números.
Integrantes de toda escrita mesoamericana e, portanto, implicando
uma tradição única, os glifos numéricos foram associados com o
calendário, um dos mais complexos e socialmente difundidos já
projetados em qualquer lugar do mundo. As inscrições olmecas
podem ter inspirado a melhor escrita documentada epiolmeca da
mesma região (150 a.C.

132
a 450 d.C). Por sua vez, a escrita epiolmeca está, talvez, relacionada à
escrita maia, com ambas compartilhando a mesma fonte. Porém, a
linhagem dos escritos mesoamericanos permanece obscura.
Todas as escritas mesoamericanas eram logográficas, e os glifos
representavam objetos, ideias ou sons (dos nomes dos objetos).36
Também havia um silabário de significados puramente fonéticos
usados num sistema misto com outros glifos. A inferência é, ou de um
desenvolvimento de escrita nativa extremamente longo, anterior ao
primeiro milênio a.C, ou do empréstimo de um sistema de escrita
estrangeiro que já havia se desenvolvido por um longo período. O
sistema de escrita mais sofisticado e melhor conhecido da
Mesoamérica, a escrita maia, contém cerca de 800 glifos no total.
Porém, muitos desses glifos representam nomes reais usados apenas
uma única vez; apenas entre 200 e 300 desses glifos eram usados
regularmente. Mais de 150 glifos maias representam sílabas, quase
todas do tipo consoante-vogal. A escrita exibe polivalência, em que
um glifo compreende vários significados, como som e deter mi nativo;
homofonia, em que o mesmo som é usado por vários glifos diferentes;
e também polifonia, em que um glifo tem vários sons. Isso significa
que um glifo também pode possuir funções duais, tanto logográfica
(representando um morfema ou o nome inteiro de um objeto) quanto
silábica (representando a primeira sílaba do nome do objeto
representado, a ser pronunciada separadamente).
Em seus códices ou livros manuscritos, os maias escreveram
com tinta e escovas de cabelo (como os chineses do século três a.C.)
em páginas de casca de árvore batidas (como o papel chinês do século
dois d.C), medidas com estuque, registrando os glifos em colunas
verticais de cima para baixo (como na escrita chinesa) e da esquerda
para a direita, em pares.37 Blocos de glifos individuais combinam dois

133
ou mais glifos (como na escrita chinesa). Por exemplo, para escrever o
nome do governante maia Pacal, dever-se-ia, entre outras
possibilidades, desenhar um pacal, ou seja, um 'escudo', com os glifos
para 'soberano' escritos acima e ligados à direita aos glifos silábicos
pa-ca-la para se 'soletrar' o nome (como na 'fonética' chinesa).
Durante o período clássico maia (250 a 900 d.C), os maias
homens e mulheres medianos conseguiriam provavelmente ler datas,
nomes e eventos numa colorida esteia maia (postes de pedra com
inscrições) . A escrita teria um efeito profundo e imediato na
população e língua locais. Não apenas as esteias, mas também grandes
monumentos públicos, similarmente cheios de inscrições e cores
brilhantes, proclamavam as vidas e genealogias gloriosas dos
poderosos governantes maias — dificilmente 'história factual' no
sentido moderno, mas sim uma ferramenta propagandística para
preservar a liderança, proclamar a preeminência e justificar impostos,
como se encontra em vários escritos em diversas partes do mundo.38
As cerâmicas também eram decoradas com glifos, identificando potes
de chocolate, vasos funerários e outros objetos.
Também havia milhares de códices escritos em grossas cascas
de árvore nas bibliotecas reais dos maias. Devido à destruição total da
literatura maia que se seguiu à invasão espanhola no século dezesseis,
apenas quatro códices maias milagrosamente sobreviveram,
produções pós-clássicas que compreendiam tabelas rituais e
astronômicas. Como o norte-americano Michael Coe, especialista nos
maias lamentou: 'Nem mesmo o incêndio da biblioteca de Alexandria
destruiu tão completamente a herança de uma civilização'.

O ramo egípcio-semítico da escrita afro-asiática experimentou a


maior adaptação de todos os sistemas de escrita do mundo, de pic-

134
togramas para logogramas e de silabogramas para as letras do alfabeto
— dependendo de quem precisava do que, segundo as demandas de
suas respectivas eras e línguas. A história da escrita cuneiforme
suméria e da escrita logográfica chinesa progrediu de maneira
semelhante, mas devido às exigências de suas línguas, elas só
experimentaram uma maior 'sofisticação' ou complexidade linguística
nas escritas silábicas de seus descendentes, o persa antigo e o japonês.
A necessidade da escrita alfabética nunca foi sentida por essas línguas.
Em toda a história, cada língua encontrou e/ou se adaptou à escrita
que melhor se encaixa em sua fonologia. As escritas não 'evoluem':
elas são propositalmente modificadas por agentes humanos para
melhorar a qualidade da reprodução da fala (som) e transmissão
semântica (sentido).

Originalmente, a escrita engenhosa começou com pictogramas,


em que o nome do objeto desenhado servia para estimular uma
pronúncia. Sobre essa base adequada, um sistema logográfico, no qual
glifos representam objetos, ideias ou sons (do nome dos objetos),
eventualmente nasceu para reproduzir a fala humana de maneira mais
fiel e eficiente. Mas com o tempo, os escritos logográficos pareceram
gerar novas necessidades, e quando isso ocorre, sempre são
encontradas soluções silábicas. Elas podem surgir internamente,
quando a escrita logográfica falha em reproduzir a língua em
evolução, como, por exemplo, na adição posterior de glifos silábicos
no Egito; e também externamente, quando a escrita logográfica é
emprestada de uma língua não relacionada, como no caso do kana
japonês.
As maiores mudanças em sistemas de escrita parecem ocorrer
quando falantes de outras línguas emprestam e adaptam sistemas que
não se encaixam nelas. Entre os falantes semitas ocidentais do
Levante, os glifos silábicos foram transformados em símbolos
consonantais que

135
melhor reproduzem as línguas semíticas da área que são orientadas
pelas consoantes. Esse foi, então, o catalisador da maior contribuição
grega para a cultura mundial: um alfabeto puro com sinais tanto para
vogais quanto para consoantes. A forma de comunicação escrita mais
eficiente já projetada (para a maioria, embora não todas, as línguas), o
alfabeto grego foi adotado e imitado em todo o mundo por centenas,
senão milhares de línguas, particularmente nos séculos dezenove e
vinte da nossa era. Hoje, qualquer língua que ainda precise de uma
escrita é automaticamente transposta para a escrita alfabética.
Na pré-escrita, a chamada 'escrita' pictográfica, o desenho de
um objeto aciona a memória de uma expressão vocal. Na primeira
classe de escrita real, a escrita logográfica, a figura novamente aciona
a memória de uma expressão vocal, mas apenas ela — não o objeto
retratado — transmite a mensagem. Na segunda classe, a escrita
silábica, essa expressão vocal é reduzida apenas à sua primeira sílaba
e sua posição dentro de um silabário de sons definido e limitado. Na
última classe, a escrita alfabética, a figura é uma letra que já não é
mais relacionada a qualquer objeto, mas sim reproduz apenas um ou
dois tipos de som, ou uma vogai, ou uma consoante; assim, ela é
depois lida sequencialmente em combinação com outros sons
reproduzidos de maneira semelhante. Em todas as classes, a arte
gráfica permanece inextricavelmente à fala humana. O que equivale a
dizer que: não há escrita que possa transmitir toda a gama de
pensamentos humanos que não seja fonética.
Também é por meio da escrita que se pode acompanhar melhor
a história de uma língua.39 A reconstituição linguística interna
(trabalhar com uma única língua para recuperar formas antigas) e a
reconstrução linguística comparativa (comparar duas ou mais línguas
relacionadas para alcançar o mesmo objetivo) produzem hipóteses

136
precisas, mas sem provas sobre estágios anteriores da língua. Porém,
documentos antigos — escritos — mostram esses estágios. Isso
permite que o linguista não apenas vislumbre formas antigas de uma
língua, mas também avalie os tipos exatos de mudanças que podem
ocorrer nas línguas durante séculos e milênios. Mais ainda, palavras
emprestadas e nomes de lugares e documentos antigos frequentemente
preservam línguas que, de outro modo, não seriam certificadas, como
o rhaetiano e o gaulês em relatos em grego e latim da Europa
primitiva de mais de 2.000 anos atrás, revelando paisagens
linguísticas pré-históricas que de outro modo estariam perdidas para
sempre.40 Mesmo grafias modernas, como ‘light’ em inglês, podem
ser cápsulas do tempo, apontando características vestigiais, origens
históricas e as dinâmicas de mudanças relativamente recentes: neste
caso, a perda de um antigo som indo-europeu, ainda preservado no
cognato alemão para ‘light’, Licht.
Assim como não existe algo como uma 'língua primeva',
também não há um 'escrita primeva'. Cada escrita preenche
adequadamente as funções para as quais é designada em determinado
período. Quando se encontra características 'primitivas' numa escrita,
há um julgamento feito numa perspectiva temporal. De maneira
semelhante, não há 'escrita passiva': a escrita afeta a fala tanto quanto
a fala afeta a escrita; isso pode ser avaliado a partir da leitura de cartas
antigas.41 A capacidade de ler e escrever sempre causou um profundo
impacto na língua falada. Falantes educados e alfabetizados são,
normalmente, líderes de suas sociedades. Habitualmente, eles
padronizam sua fala a partir da língua escrita formal, para ser,
eventualmente, imitados por outros membros da sociedade. Desde seu
início, a fala 'impressa também é um modelo de fala.
Isso conferiu à escrita uma influência excepcional na sociedade
— maior do que a maioria das pessoas percebe — particularmente nas

137
sociedades alfabetizadas modernas, que cultuam a palavra escrita. A
fala escrita diminui a velocidade de mudanças linguísticas através da
nivelação, padronização e preservação de formas e usos que, de outro
modo, desapareceriam com o desgaste natural. A leitura da literatura
passada enriquece qualquer vocabulário vivo. O discurso escrito
também pode determinar o uso da língua falada por séculos (a Bíblia
King James, de 1611, o Talmude, o Alcorão); pode definir formas
artísticas (peças de Shakespeare e o teatro No do Japão); pode
constituir o meio de tecnologias inteiras (linguagens de programação),
substituindo a língua falada.
Porém, todos os sistemas de escrita, independentemente de
quão reverenciados ou inovadores sejam, são imperfeitos e
convencionais. Quase todos são uma aproximação, e não uma
reprodução exata da fala humana. No inglês, a letra a pode
representar seis sons diferentes (dependendo do dialeto), como em:
an, was, pa, date, all e hat, ou devido a um arcaísmo da língua, não
representar nenhum som, como em bean, beau e beauty. A
ambiguidade, ou seja, a dúvida ou incerteza no significado, nascida
da indistinção ou obscuridade, ocorre frequentemente em escritas
silábicas e alfabéticas.
O inglês, em particular, falha em reproduzir suas
supra-segmentais — que são: entoação (Yes?/Yes!), extensão (inglês
britânico cot/ cart), acento (désert/desért), articulação (Van
Dyck/vanned Ike) e tom (eee!/duh...) — devido ao uso de uma escrita
alfabética inadequada. Escritores de língua inglesa tentam corrigir o
problema com pontuação não sistemática, espaço entre palavras e
letras maiúsculas entre outros expedientes, mas é necessário admitir
que uma reprodução precisa do inglês falado não pode ser escrita com
o alfabeto inglês. O acento, por exemplo, que não é marcado em
língua inglesa. Quando lemos desert, queremos dizer 'deserto' ou
'abandonar'? Será attribute 'uma

138
característica inerente' ou 'designar'? Aqui, o alfabeto inglês
simplesmente não funciona. Só o contexto pode revelar o sentido e,
com ele, o acento necessário. A escrita logográfica chinesa, por outro
lado, com sua combinação de determinativos (que identifica a classe
da palavra) e fonética (o som da palavra), não apresenta esse
problema.
Idealmente, uma escrita alfabética deveria, talvez, representar
todas as expressões fonêmicas — a menor unidade de som
significativo da língua. Porém, apenas os símbolos especiais da
linguística conseguem reproduzir pronúncias com exatidão, mas
também eles são muito trabalhosos para uso popular. As escritas
alfabéticas populares em uso no mundo constituem aproximações
convenientes, com muitas ambiguidades e enormes diferenças de
pronúncia entre dialetos diferentes e línguas diferentes, que usam o
mesmo alfabeto escrito. Mas a eficiência demonstrável de uma
simples escrita alfabética assegurou sua adoção na maior parte do
planeta, a escrita logográfica como a chinesa e a japonesa ainda
continuam sendo praticadas por uma porção significativa da
humanidade, que a considera eminentemente preferível para suas
respectivas línguas.
Mesmo imperfeita, a escrita é atualmente uma expressão
indispensável da fala viva. A fala também responde dinamicamente à
escrita. Tanto a fala quanto a escrita existem num relacionamento
sinergístico, inextricavelmente ligados um ao outro, de maneira muito
parecida com o modo como o pensamento primitivo estava ligado às
vocalizações dos primeiros hominídeos, e isso continua fazendo com
que a humanidade mude e avance com uma mágica multidimensional.
No início do século XXI, a mão não mais apenas 'se iguala à boca',
mas por meio das linguagens de programação de computadores, cria
palavras totalmente novas e dá voz ao futuro eletrônico da
humanidade.

139
5

Linhagens

Como as línguas bantas na África e as polinésias no Pacífico, a


maioria das línguas do mundo não tem uma árvore genealógica
escrita. Elas precisam revelar suas histórias por meio da reconstituição
comparativa. Técnicas linguísticas modernas baseadas em línguas com
uma longa história escrita, como as línguas célticas, germânicas,
itálicas e chinesas, permitiram que as reconstituições comparativas
atingissem um nível em que se pode, atualmente, mesmo sem registros
escritos da maioria das línguas, entender de onde elas vieram e como e
quando elas se diferenciaram de outras línguas relacionadas.
Porém, as protolínguas reconstituídas são regulares e
homogêneas demais para serem reais. Apenas línguas artificiais
modernas, como o esperanto, se igualam em regularidade às
protolínguas reconstituídas, mostrando o quão longe da realidade está
a reconstituição.

141
A reconstituição linguística sempre produz uma aproximação apenas
parcial, nunca uma 'língua' natural completa.
Toda a prosperidade, decadência e mudança de uma língua é
resultado tanto do tempo quanto do fortalecimento ou do
enfraquecimento de uma sociedade. Embora todas as línguas sofram
mutações, as línguas de sociedades fortes prosperam, enquanto as
línguas de sociedades fracas perecem, ou seja, são substituídas por
uma língua estrangeira. Línguas extintas são sempre tão vítimas
quanto aqueles que as falaram; talvez ainda mais, uma vez que povos
de todo o mundo cederam com muito mais boa vontade suas línguas
do que suas vidas. Durante 50.000 anos, o perfil genético dos
europeus quase não mudou, enquanto ondas após ondas de novas
línguas passaram por eles. Dialetos e línguas prestigiadas ou
dominantes são adotadas, dialetos e línguas infrutíferas e perigosas
são abandonadas. Isso aconteceu em toda a história, continua
acontecendo hoje e guiará o curso de todas as línguas futuras até que
reste apenas uma única língua dominante no planeta. Centenas de
línguas menores estão sendo substituídas pelo bahasa indonésio, o
mandarim chinês, o inglês e o espanhol, e um pequeno e deprimente
número de outras línguas. Certamente, os séculos futuros não
desfrutarão da imensa diversidade linguística que o planeta conheceu
no passado.
A história das línguas humanas é a história das mudanças
linguísticas. Parece possível fazer algumas generalizações em relação
ao modo como as línguas se relacionam e mudam com o tempo em
todas as épocas e partes do globo:1

— A terra natal de uma família linguística — ou seja, a região


onde uma língua mãe foi falada — é normalmente, mas não sempre,

142
uma região da área onde as línguas descendentes foram, ou
atualmente são faladas.
— As mais antigas diferenciações numa língua mãe
normalmente, mas nem sempre, ocorrem perto de sua terra natal. Por
esse motivo, é comum encontrar uma maior diversidade linguística
perto da terra natal e uma menor diversidade linguística em sua
periferia.
— Um relacionamento histórico entre as línguas é estabelecido
quando se identifica semelhanças sistemáticas grandes demais para
serem atribuídas ao acaso.
— Línguas irmãs apresentam inovações compartilhadas de uma
língua-mãe e esta mãe ou protolíngua pode ser, na verdade, uma área
linguística onde duas ou mais línguas separadas se combinaram.
— Uma pequena diversidade entre línguas-irmãs normalmente,
mas nem sempre, implica um desenvolvimento comum mais curto
longe da língua-mãe.
— Uma grande diversidade linguística entre línguas-irmãs
normalmente, mas nem sempre, implica um maior período de
separação da língua-mãe.

Há quatro tipos básicos de mudança linguística:

A mudança fonológica, ou mudança sistemática no som, é


efetuada por falantes de todas as línguas do mundo muito mais
rapidamente do que qualquer outro tipo de mudança linguística. É por
isso que as palavras hus e mus no inglês de Chaucer são, 600 anos
depois, 'house' e 'mouse' (hus e mus do alto-alemão médio também
são hoje Haus e Maus em alemão moderno).

143
A mudança morfológica é uma mudança sistemática na forma
das palavras, e ocorre com muito menos frequência que a mudança
fonológica. Por exemplo, 400 anos atrás, Shakespeare usou 'goeth' e
'didst' em contextos que hoje usaríamos 'goes' e 'did'.
A mudança sintática reordena sistematicamente as palavras em
frases ou períodos. As expressões inglesas 'court martial' e
Attorney-General'2 são expressões medievais fossilizadas emprestadas
do francês normando, as quais o sistema sintático inglês — sob
pressão de seu substrato germânio — deveria, de outro modo, ter
revertido há várias centenas de anos para 'martial court' ou General
Attorney'.
A mudança semântica altera o significado comum de uma
palavra. Por exemplo, a palavra cniht em inglês arcaico era muito
comum para 'menino' ou 'jovem', mas na época do inglês médio, kniht,
com o k ainda pronunciado, significava 'servo militar do rei', e mais
tarde 'arrendatário feudal, responsável por serviços militares para o
rei'. Hoje, 'knight' (já não se pronuncia mais o k) é 'uma pessoa criada
para uma posição social nobre por um rei ou rainha ou qualquer outra
pessoa qualificada', uma palavra que hoje tem um domínio
extremamente limitado, e que talvez logo se torne extinta.
Cada um desses processos é o resultado da combinação de
operações linguísticas bem conhecidas — assimilação, dissimilação,
lenição (uma suavização da articulação), excrescência (adição de um
som ou letra), apócope (corte do último som ou sílaba), síncope (corte
de uma letra ou sílaba do meio), analogia, metátese (transposição de
um som ou letra), empréstimo, nivelamento, expansão, redução e
muitos outros. O leitor interessado pode desejar consultar os livros de
história linguística para obter detalhes de tais operações (ver
bibliografia).
Todos esses processos e operações ocorreram nas seguintes
linhagens representativas.

144
LÍNGUAS CÉLTICAS
Os celtas estavam entre os primeiros indo-europeus a migrar da
terra natal no leste para a Europa ao oeste, cerca de 5.500 anos atrás.3
Com relações muito antigas com os povos itálicos, os celtas
habitavam amplas regiões da Europa central e ocidental já havia
muito tempo. Sua presença é certificada por nomes de lugares como a
Boêmia; de rios como o Danúbio, o Rhine e o Rhône;4 e por nomes de
cidades como Viena e Paris. Cerca de 2.600 anos atrás, os celtas se
mudaram novamente, ocupando a Península Ibérica e as ilhas
Britânicas. No quarto século a.C. eles invadiram as regiões do norte
da Itália, antes ocupadas pelos etruscos e logo tomaram Roma. Um
século depois, eles já haviam chegado a Ankara, onde hoje fica a
Turquia; São Paulo se referiu a eles como os 'Gálatas'.5
Nos últimos séculos a.C, três línguas célticas dominavam o
continente europeu e a Ásia Menor. Os falantes do gaulês do leste da
Gália foram, eventualmente, dominados pelos falantes germanos nos
primeiros séculos d.C.; nesta época, o latim dos romanos já havia
substituído o gaulês da França e norte da Itália. (O gaulês permaneceu
na Bretanha por mais um ou dois séculos, até ser substituído por um
retorno migratório céltico do sudoeste inglês.) A língua celtibérica da
Espanha e o gálata da Ásia Menor sucumbiram de maneira
semelhante ao poder de Roma.6
Apenas as línguas célticas das Ilhas Britânicas sobreviveram
(ver ilustração II). Hoje, elas são classificadas em dois grupos, de
acordo com a interpretação do fonema protoindo-europeu /kw/. Os
q-celtas ou povo goidélico (irlandeses, maneses e escoceses falantes
de gaélico) preservaram o /kw/, é por isso que kwetuores, 'quatro' em
protoindo-europeu, com suas mudanças subsequentes ficou ceathair

145
em irlandês, kiare em manes e ceithir em gaélico escocês. Os p-celtas
ou povo britônico (galeses, córnicos e bretões falantes de britônico)
mudaram o /kw/ para /p/, e assim, o 'quatro' é pedwar em galês,
peswar em córnico e pevar em bretão.
Os falantes originais de gaélico (goidélico) foram os irlandeses,
provavelmente os primeiros celtas a chegar às ilhas Britânicas cerca
de 600 a.C. A língua irlandesa gerou vários dialetos principais do
período do irlandês antigo (700-950 d.C); nenhum deles se
desenvolveu em línguas descendentes no período do irlandês médio,
(950-1400), talvez devido à conquista inglesa normanda. A
subsequente supressão do irlandês pelo inglês continuou no período
do irlandês moderno (1400 até o presente), particularmente nos
séculos dezessete e dezoito, quando o inglês substituiu quase todos os
dialetos irlandeses. Com o estabelecimento da República da Irlanda,
no século vinte, o dialeto do sudoeste irlandês de Munster foi
selecionado para servir como nova língua nacional em lugar do inglês
'estrangeiro'. Porém, até o momento, as pressões econômica, histórica
e social frustraram seu sucesso. Hoje, o irlandês é falado como
primeira língua por poucos milhares de habitantes, em geral em
desvantagem econômica, do extremo oeste, noroeste e algumas ilhas
da Irlanda, que atualmente encorajam seus filhos a falar o inglês como
primeira língua, principalmente por motivos econômicos.
No quinto século d.C, colonizadores irlandeses falantes de
gaélico navegaram para o leste e se estabeleceram na Ilha de Man e na
Escócia, assimilando os nativos pictos. Em Man, sua língua
eventualmente se tornou o autônomo manês, cujo suposto 'último
falante nativo' morreu em 1974. Na Escócia, a língua dos
colonizadores irlandeses também evoluiu, em solo picto, e mais tarde
ficou conhecida como gaélico escocês.

146
11 Alcance das línguas célticas hoje.

Os celtas britônicos se seguiram aos irlandeses nas ilhas


Britânicas nos primeiros séculos a.C. Porém, sua língua permaneceu
tão semelhante ao gaulês continental, que uma 'língua galo-britônica' é
reconhecida como a língua franca dos celtas da França e Bretanha até
a época da invasão romana, quando os falantes de latim e alemão
entraram na região. As tribos germânicas intrusas, particularmente no
quinto século d.C, empurraram os britônicos para a periferia da
Bretanha: o sul da Escócia, Gales, Devon e Cornualha. Durante mais
de dois séculos, os britônicos escaparam das invasões

147
saxônicas migrando de volta para o continente, ao sul, para a
Bretanha, na França. Atualmente, seus descendentes, os bretões, são
cerca de meio milhão, mas poucos falam o bretão. Recentemente,
jovens bretões demonstraram um interesse renovado em aprender sua
língua ancestral, que não é reconhecida como língua oficial pelo
governo francês.
A língua céltica com o maior número de falantes ativos é o
galês. A língua que J.R.R. Tolkien acreditava ser a 'mais antiga língua
dos homens da Bretanha' era falada em 1991 por 510.920 pessoas, ou
seja, 18,7% da população de Gales com mais de três anos de idade.7 O
Galês sobreviveu com grande dificuldade. A ocupação romana
introduziu muitas palavras latinas. Mais tarde, os colonizadores
irlandeses invadiram o território galés, introduzindo palavras gaélicas
desde o século sete até o final do período do galés primitivo (cerca de
850). A influência do inglês aumentou no período do galês antigo
(850 a 1100). Durante a era do galés médio (1100 a 1500), os nobres
franceses normandos da Inglaterra conquistaram Gales, resultando na
introdução de muitas palavras emprestadas do francês; porém o galés
prevaleceu. Apenas no período do galés moderno (1500 até o
presente) — e principalmente devido ao Ato de União de Henrique
VIII, que incorporava Gales à Inglaterra — o uso do galés diminuiu, e
o inglês se tornou a língua das cortes e cargos públicos de Gales.
Mesmo assim, ele sobreviveu.
Acima de tudo, foi o avanço do inglês que dividiu os falantes
britônicos: o cúmbrico foi falado no sul da Escócia e no noroeste da
Inglaterra; o galês em Gales; e o córnico no sudoeste da Bretanha. Os
anglo-saxões chamavam todos os falantes dessas línguas de wealas ou
'não germanos', que deu origem à palavra inglesa 'welsh'.8 Os
britônicos galeses e cúmbricos hoje se referem a si mesmos como

148
combrogi, 'companheiros do campo', assinalando um novo sentido de
identidade étnica. Os galeses de hoje são cymry (pronuncia-se
CÚM-RÍ) e sua língua cymraeg (CUM-RÁ-EG). O cúmbrico
sobreviveu sofrendo uma crescente pressão até a queda do reino de
Strathclyde, em cerca de 1018. Na Cornualha, o reino céltico foi
vencido pela Inglaterra em cerca de 878; desde então, o uso da língua
córnica diminuiu num ritmo constante até sua extinção no século
dezenove. Como o manês, atualmente o córnico está sendo
ressuscitado artificialmente.
A família céltica, a mais importante e amplamente distribuída
família linguística 2.300 anos atrás, hoje — primeiro devido aos
romanos e germanos, e depois devido à consolidação nacional
(Inglaterra, França) — constitui uma das menores famílias
indo-europeias, confinada ao oeste da França e às periferias das ilhas
Britânicas. Com exceção do dialeto oficial de Munster na Irlanda, as
línguas célticas estão entre aquelas línguas 'não estatais' à mercê das
línguas metropolitanas dominantes, sofrendo o mesmo destino do
catalão (Espanha, França, Itália), do galego (Espanha), do occitano
(Espanha, França, Itália), do romani (presente na maioria dos países
europeus) e de muitas outras línguas de comunidades europeias. E os
falantes de línguas não oficiais de seus respectivos países superam o
número de vinte milhões de pessoas. Até bem recentemente, temia-se
que as línguas célticas desaparecessem ao mesmo tempo. Dinâmicas
sociopolíticas e a redescoberta do sentimento do orgulho entre os
celtas causaram um novo ressurgimento do interesse no irlandês,
ressuscitaram o manês, o gaélico escocês, o galês, o córnico e o
bretão, e permitiram que o número de seus falantes crescesse, e que
eles conquistassem uma maior autonomia política na nova Europa
unificada.

149
LÍNGUAS ITÁLICAS
No primeiro milênio a.C, a maioria da península com exceção
dos etruscos e rhaetianos não indo-europeus do norte e noroeste; as
tribos messápicas dos ilirianos originários do outro lado do Adriático;
e as colônias gregas independentes do sul, falavam uma língua itálica
pertencente a uma das três subfamílias: picena, osco-umbra e latina?
Ao se diferenciar, no segundo milênio a.C, se não antes, a
língua picena do sul do centro do litoral leste italiano parece ter sido
intimamente relacionada à família osco-umbra, embora também
compartilhe características com as línguas venetas e balcânicas. Seus
falantes foram derrotados por Roma em 268 a.C.
O osco-umbro (sabeliano) incluía o osco, o umbro e o volsco (e
seus dialetos menores).10 Como os p-celtas, todos os falantes de
osco-umbro substituíram o indo-europeu /kw/ pelo /p/, assim, o
protoindo-europeu kwi (s), que significa 'quem?' se tornou pis em
osco, e o protoindo-europeu penkwe que significa 'cinco' se tornou,
após mudanças subsequentes, pompe em umbro. Preservando muitas
vogais protoindo-europeias sem mudanças, o osco foi a língua mais
forte e amplamente distribuída da subfamília; ela sobrevive em cerca
de 200 inscrições, em sua maioria dos últimos dois séculos a.C. O
umbro é conhecido principalmente pelas famosas Tabulas Iguvinas, os
textos não-latinos mais significativos da Itália antiga: sete inscrições
em bronze, talvez datadas do primeiro século a.C, que contêm regras
sobre presságios, penitências, oferendas e preces. Os dialetos
osco-umbros da Itália central — sabino, aequiano, hernicano,
marsiano, entre outros — sucumbiram muito cedo ao latim dominante
de Roma. Os volscos do sudeste do Lácio — Itália central, na
fronteira com o mar Tirreno — falavam uma língua autônoma
intimamente relacionada com o umbro.

150
Com uma história primitiva obscura, a língua veneta era falada
pelos vênetos do litoral adriático, entre o rio Pó e a Aquileia." Sua
língua sobrevive em cerca de 300 inscrições, a maioria de Esta e
Làgole di Calázio no Vêneto atual. Muitas características sugerem a
afiliação do vêneto às várias línguas itálicas, particularmente ao latim.
O vêneto pode representar, então, um vestígio da primeira incursão
itálica na península, no terceiro milênio a.C.
As línguas latinas falisco e latim estão, provavelmente, entre as
mais antigas línguas faladas na península, exibindo uma fonologia
indo-europeia arcaica e um vocabulário muito modificado, talvez
estimulado pelo contato com a população pré-indo-europeia. O falisco
era a língua da antiga tribo itálica cuja capital era Falerii (a moderna
Cività Castellana ao norte de Roma), que desde o século dezoito a.C.
esteve sob influência etrusca. Ela foi destruída pelos romanos cerca de
241 a.C, extinguindo o falisco antes das línguas osco-umbras.
O latim surgiu no Lácio no primeiro milênio a.C, quando Roma
chegou ao poder e subsequentemente suprimiu todas as outras línguas
itálicas da península.12 No início, o latim era simplesmente o dialeto
local da vila de Roma, mas com o passar do tempo ele se tornou uma
das grandes línguas da história.
A literatura começou seriamente apenas cerca de 240 a.C, o que
deu força e enriqueceu o império romano em expansão. A história do
latim segue os seguintes estágios de desenvolvimento: latim
pré-literário até 240 a.C; latim antigo, 240 a 100 a.C; latim clássico (a
literatura latina preservada), 100 a.C. a 14 d.C; idade de prata, 14 d.C
a cerca de 120 d.C; latim arcaico, 120 a 200 d.C; latim vulgar da
antiguidade tardia, 200 a 600 d.C; latim médio, 600 ao século
quatorze d.C; e, desde então, o latim moderno.

151
O latim clássico era a fala cotidiana de Júlio César, Augusto c
Virgílio. Logo 'petrificada' como meio escrito da administração e da
cultura do império em expansão, o latim eventualmente se tornou o
meio escrito e falado da Igreja cristã e de toda educação ocidental. Ele
sobreviveu ao século dezoito como a principal língua erudita e ao
século vinte como a língua da liturgia católica romana. Negligenciado
por muitas décadas, o latim clássico está hoje passando por um
ressurgimento dinâmico como segunda língua ou língua adicional na
Europa e na América do Norte.
O latim vulgar falado continuou a evoluir em substratos
estrangeiros em todo o império romano, criando a família linguística
românica.13 Cada uma de suas línguas descendentes foi falada em suas
protoformas durante muitos séculos até serem finalmente registradas
em documentos: francês no século nove; o italiano no século dez; o
provençal no sul da França, um século depois; as três línguas
ibero-românicas espanhol, português e catalão, no século doze; e o
romeno no século dezesseis. As línguas românicas menores incluem o
valão, do sul da Bélgica, o reto-românico (romanche, ladino) dos
vales suíços, o sardo, o recentemente extinto dálmata, o crioulo
haitiano e o judeu-espanhol, a língua dos judeus expulsos da Espanha
que hoje sofre de risco iminente de extinção.14
Todas as línguas românicas, com exceção do romeno, sofreram
influência contínua do latim clássico. Por esse e outros motivos, a
inteligibilidade entre os falantes atuais das línguas itálicas é muito
maior do que entre os falantes de línguas germânicas. Embora a
população falante do latim vulgar no noroeste africano houvesse sido
dominada pelos falantes de árabe cerca de 700 d.C, muito mais tarde
colonizadores espanhóis, portugueses, franceses e italianos levaram as
línguas itálicas para outras partes da África, e para lugares ainda
muito mais

152
distantes, como as Américas, a Ásia e o Pacífico ocidental, onde elas
prosperaram. Por esse motivo, atualmente as línguas itálicas são as
segundas em distribuição geográfica, perdendo apenas para as línguas
germânicas (inglês).
O francês surgiu do latim vulgar em solo gaulês, conservando
várias pronúncias célticas: ct como cht (como no escocês Loch), que
mais tarde, se tornou it (desse modo, a palavra factum, em latim, se
tornou fait em francês); e o u latino como o u alto como o francês tu.
Assim que a latinização da Gália foi consumada sob a tutela
romano-germânica, ocorreu a invasão de novas tribos germânicas,
com os francos dominando a maior parte do norte da Gália. A
influência germânica afetou muito a fonologia do latim vulgar falado
ali. (O sul da Gália não sofreu esse processo; seu latim vulgar se
desenvolveu na autônoma língua provençal.) Os estágios de
desenvolvimento do francês são francês antigo (842 a 1350), francês
médio (1350 a 1605) e francês moderno (1605 até o presente).15 Desde
o século doze, o francês é uma das grandes línguas culturais do
mundo, sua rica literatura afetou o rumo de muitas outras, mesmo de
línguas e literaturas não indo-europeias.16
O espanhol surgiu do latim vulgar falado em solo céltico, na
península Ibérica.17 O espanhol antigo (1100 a 1450) está atualmente
preservado na fala dos poucos falantes remanescentes do
judeu-espanhol (do mesmo modo que o iídiche preserva parcialmente
o alto-alemão médio). O espanhol moderno (1450 até o presente) foi
dominado pelo dialeto castelhano, que estabeleceu os padrões da
língua escrita, ou castelhano. O espanhol conservou muitas
características do latim vulgar perdidas em outras línguas românicas.
Porém, devido à longa ocupação muçulmana na Espanha (713 a
1492), sua língua adquiriu muitas palavras árabes. Em épocas mais
recentes, os

153
dialetos da América Hispânica emprestaram muitas palavras
americanas nativas. Hoje, o espanhol é, depois do inglês, a segunda
língua mais amplamente distribuída do mundo.18
O italiano é uma forma evoluída do latim vulgar falado no solo
original dos povos itálicos.19 Devido a seu caráter nativo, o italiano
conservou o maior número de características originais do latim — ou
seja, ele não experimentou os vários substratos ou invasões que tanto
alteraram outras línguas românicas. Inovações gramaticais específicas
como a formação do plural (finais —i/-e/-a) diferenciam o italiano das
línguas românicas ocidentais (-s/-es), assim, o italiano está
formalmente alinhado com o romeno, ao românico oriental. Única
entre as línguas românicas — e fato realmente raro no mundo — é a
fonologia quase sem modificações do italiano no decorrer de vários
séculos: qualquer italiano educado dos dias de hoje consegue ler
facilmente seus poetas medievais sem treinamento especial. Por esse
motivo, a história do italiano não é categorizada em períodos antigo,
médio e moderno, encontrados na maioria das línguas europeias. O
longo período de desunião política italiana também promoveu um
desenvolvimento dialetal separado que levou, como no caso do
alemão, a literaturas dialetais locais de grande força: a italiana central
e do sul (com o siciliano); toscana (com os dialetos corsos) e romana
Umbra; e a alta italiana ou o grupo de dialetos galo-italianos. Hoje, os
dialetos italianos das principais cidades da Toscana (Florença, Siena,
Arezzo) e de Roma constituem o padrão nacional, ou a língua toscana
in bocca romana.

LÍNGUAS GERMÂNICAS
No terceiro milênio a.C, um povo indo-europeu que havia
seguido os celtas para fora da Europa oriental ocupava o local onde
hoje

154
fica a Suécia, a Dinamarca e o norte e nordeste da Alemanha. Era o
povo germânico, sua língua era acima de tudo caracterizada por uma
reinterpretação sistemática radical das consoantes indo-europeias (o
Primeiro Desmembramento do Som) e por outras inovações
específicas. Mil anos depois, tribos germânicas isoladas migraram
para o leste para Weichsel, ao sul do Danúbio e ao leste do Rhine,
expulsando ou absorvendo os celtas nativos. Nessa época, havia duas
tribos germânicas principais, identificadas por sua interpretação de
sons específicos do protoindo-europeu: os falantes do germânico
setentrional (godo-nórdico) haviam mudado esses sons; os falantes do
germânico ocidental os preservaram. Durante o primeiro milênio a.C,
os falantes do germânico ocidental, crescendo cada vez mais em
número, começaram a expulsar os celtas vizinhos em direção ao sul e
ao oeste. Nos primeiros séculos d.C, escandinavos, balto-germanos,
germanos do Mar do Norte, germanos do Elba e germanos ocidentais
viviam em pequenas comunidades diferenciadas.20
Além dos relatos antigos gregos e romanos, que confundem as
tribos germânicas com os celtas, o indício linguístico mais antigo de
uma presença germânica até então é a curta inscrição do casco Negau
encontrado na Estíria (sudoeste da Áustria), datado do início da Era
Cristã. Nessa época, os falantes do germânico setentrional do leste,
mais conhecidos como 'godos', repetiam o que os falantes do celta
haviam feito séculos antes: migrando para a Espanha (até mesmo para
a África), a Gália, a Itália, a Península Balcânica, o Mar Negro, e a
Ásia Menor. O documento gótico mais significativo continua sendo a
tradução da Bíblia, do bispo visigodo Wulfila (311 — 83 d.C), que
sobreviveu num manuscrito ostrogótico transcrito em letras gregas
mais de um século após a morte do bispo. Como preserva muitas
formas linguísticas germânicas mais antigas, o gótico tem uma
utilidade con-

155
siderável em comparações histórico-linguísticas. Entre outras línguas
germânicas setentrionais cujos falantes faziam a história da Europa
ocidental dos primeiros séculos d.C. estavam o burgundo, o vândalo,
o gepídico, o rugiano e o Scirano, entre outras, que sucumbiram no
primeiro milênio d.C. para o latim vulgar local. O gótico da Crimeia,
falado ao longo do Mar Negro, sobreviveu até o século dezesseis.21
A língua nórdica antiga original dos germânicos setentrionais
está preservada em inscrições rúnicas encontradas em quase todas as
regiões da Escandinávia, algumas datando do século quatro d.C. As
inscrições exibem uma língua arcaica que retém as vogais de sílabas
átonas (horna para 'horn'), uma característica que foi perdida mais
tarde. Provavelmente, a língua nórdica antiga já havia se diferenciado
em nórdico oriental (que compreendeu mais tarde o sueco, o
dinamarquês e o gútnico) e o nórdico ocidental (norueguês, feroês e
irlandês) na metade do primeiro milênio d.C; porém, a
intercomunicação ativa dos séculos seguintes impediu que os dois
grupos perdessem a inteligibilidade mútua.22 O nórdico antigo surtiu
um grande impacto no inglês antigo do final do primeiro milênio d.C.
Pouco depois, o irlandês antigo enriqueceu a literatura mundial com
suas canções Eddas, sagas, poemas e histórias dos escaldos ou bardos.
A Escandinávia preservou a unidade linguística por muito mais tempo
que qualquer outra comunidade germânica. Por esse motivo, hoje suas
línguas podem ser mais consideradas como dialetos da língua
escandinava do que línguas separadas.
O 'Segundo' Desmembramento do Som do alto-alemão dividiu
as tribos germânicas ocidentais em dois grupos distintos: os falantes
do alto-alemão do interior e os falantes do baixo-alemão no norte e
noroeste da área costeira.23 Já nos séculos sete e oito d.C. escribas
medievais usavam o alfabeto latino para registrar uma variedade de

156
coisas em alto-alemão médio. Predominava o frâncico renano da corte
de Carlos Magno. Mais tarde, na Idade Média, a influência política se
transferiu para a alta Alemanha, onde se falava dois dialetos
principais: o alemânico no oeste e o bávaro no leste. No século
dezesseis, os reformadores da Igreja, liderados por Martinho Lutero,
usavam o novo peso político da Alemanha central para difundir suas
publicações; de seu dialeto alemão central emergiu o alto-alemão
moderno, hoje a língua padrão da Alemanha.24
O alto-alemão se tornou uma das grandes línguas culturais do
planeta. Os poetas, dramaturgos e romancistas alemães ainda são
proeminentes na literatura mundial. No século dezenove, o alemão era
a língua principal da ciência e da cultura. O alemão é rico em dialetos,
desde o plattdeutsch, do norte, ao tirolês meridional, nos vales alpinos
do extremo norte da Itália. A fonologia do alemão medieval ainda
pode ser ouvida hoje em algumas regiões dos Alpes. Uma relíquia do
dialeto alemão medieval, o iídiche, foi preservada durante muitos
séculos por uma comunidade especial; ele é falado até hoje,
principalmente em Nova Iorque e Israel.
Uma língua do baixo-alemão, o baixo-frâncico medieval,
sobrevive nos Países Baixos com o holandês; seu dialeto meridional é
o flamengo, uma das três línguas oficiais da Bélgica (flamengo, valão
e alemão). O holandês foi levado para a África do Sul no século
dezessete, e se desenvolveu numa língua autônoma, o africâner, que,
hoje, está sendo substituída pelo inglês, a ex-língua colonial da África
do Sul, sob o novo regime nativo.
No século cinco d.C, muitas comunidades de baixo-alemães que
viviam ao longo do Mar do Norte — anglos, saxões e jutos da
Dinamarca — migraram para o leste e o sul da Britânia, unindo-se aos
alto-alemães descendentes das tropas romano-germânicas de Roma.

157
Sua fusão linguística criou uma nova língua que, um dia, dominaria o
mundo: o inglês. O saxão antigo foi escrito pela primeira vez em solo
inglês no século sete; o poema anglo Beowulf, a maior e mais antiga
saga dos povos germânicos, foi provavelmente composto no norte da
Inglaterra pouco antes de 750 d.C. O inglês antigo (700-1100 d.C.)
compreendia três dialetos principais, com muitas variantes e
influências estrangeiras: o kentish, no sul (Kent e Surrey); o saxão, no
território meridional central (Sussex a Middlesex); e o anglo, ao norte
(Essez a Nortúmbria). Quase substituído pelo francês após a invasão
normanda de 1066, o inglês médio (1100 a 1500) era composto por
quatro dialetos principais altamente influenciados pelo francês e o
latim: o meridional, centro-ocidental, centro-oriental e setentrional.
Chaucer escreveu seus Contos de Canterbury no dialeto londrino que
fazia fronteira tanto com o inglês meridional quanto com o
centro-oriental. Devido à centralização política, o dialeto londrino
acabou se tornando a língua padrão da Bretanha.
Com seu início no século dezessete, a língua inglesa seguiu o
exemplo do holandês e foi levada para a América do Norte, as Índias
Orientais, o Caribe, partes da África e para a Índia. Enquanto a
influência do holandês diminuía, a do inglês crescia. A colonização da
Austrália, da Nova Zelândia e de várias regiões do Pacífico ocorreu
nos séculos dezoito e dezenove. Essa expansão global resultou na
criação de um Inglês Padrão Internacional, a principal língua de
falantes bilíngues do planeta. Em número de falantes nativos, o inglês
só perde para o mandarim chinês. O crescimento internacional do
inglês não tem paralelos na história mundial. Com o advento do Inglês
Padrão Internacional, uma verdadeira língua mundial foi quase
alcançada pela primeira vez.25
A maior parte das semelhanças que as línguas germânicas um
dia possuíram foi substituída pelo grande número de idiossincrasias

158
extremas que surgiram nas línguas sobreviventes. O vocabulário
itálico do inglês e a perda de inflexão (terminações de palavras que
marcam características gramaticais, como em 'whom'), a estrutura
sentenciai emaranhada do alemão (com o verbo quase sempre no final
da sentença), a sufixação dos artigos definidos do escandinavo (a
palavra islandesa bók significa 'livro', mas bókin significa 'o livro')
além de muitas outras inovações. A diversidade das línguas
germânicas é a antítese da homogeneidade itálica.

LÍNGUAS BANTAS
A família linguística africana banta compreende hoje cerca de
550 línguas — um número gigantesco quando comparado com a
família indo-europeia, que tem pouco mais de 100. Descendente do
ramo benue-congolês da suposta superfamília linguística
'nigero-congolesa', as línguas bantas cobrem uma imensa área
geográfica.26 Quase todos os povos da África central, desde do baixo
rio Cross no oeste até o sul da Somália no leste, falam línguas
relacionadas, imprecisamente agrupadas sob o nome banto ('povo').
Originalmente limitadas à região da baía de Benin antes de 1000 d.C,
apenas no último milênio as línguas bantas alcançaram a enorme
distribuição vista hoje — embora no século dezessete, o holandês
houvesse alcançado o Cabo da Boa Esperança antes do banto. Além
disso, o alto grau de semelhança linguística entre as línguas bantas
revela uma proximidade de longa data.
Quatro das principais línguas 'nigero-congolesas' são bantas:
ruanda, macua, xhosa e zulu. O suaíli é o idioma banto do litoral leste
da África e de Zanzibar que, muitos séculos atrás, emprestou um
grande número de palavras do vocabulário árabe para ser usado, com
a gramática banta, como língua franca. No século dezenove,

159
negociantes de escravos árabes usavam o suaíli como língua
comercial em lugares interioranos tão distantes quanto o Congo.27
As línguas bantas foram reconhecidas como pertencentes a uma
única família mais de um século atrás. Desde então, se seguiu a
reconstituição da fonologia (sistema de sons significativos) e
morfologia (formação sistemática de palavras) bantas. Porém,
empréstimos frequentes entre as línguas bantas relacionadas (ou seja,
difusão areai e convergência) tornaram a descrição da árvore
genealógica banta extremamente difícil.28
Um estudo recente usou o método da léxicoestatística — a
comparação de 100 (ou 200) itens de palavras básicas ou
culturalmente neutras entre línguas relacionadas — para construir um
perfil geral e altamente especulativo da 'árvore genealógica' banta.29 A
léxico-estatística sustenta que o vocabulário central sempre se
comporta de maneira diferente do periférico; que a substituição de
palavras ocorre numa taxa constante; e que um léxico, ou lista de
palavras, pode, sozinho, fornecer informações sobre relacionamentos
genéticos. A origem da família banta, segundo esse estudo, seria
supostamente no vale Benue da atual Nigéria. Lá, cerca de 5.000 anos
atrás, o banto se dividiu entre banto ocidental e banto oriental. O
estudo diz que as línguas bantas ocidentais se desenvolveram ao leste
do rio Cross no oeste de Camarões. Começando em cerca de 1560
a.C, as línguas bantas ocidentais se expandiram gradualmente por toda
a África central, talvez com os portadores de novas técnicas de
agricultura. O banto ocidental divergiu numa sucessão de línguas
descendentes, em que cada uma se diferenciou, em distintas épocas,
do 'corpo principal' (um termo relativo) dos falantes do banto
ocidental, um processo bem diferente da fragmentação geral das
línguas germânicas.

160
Segundo essa interpretação, os primeiros a 'divergir' foram os
falantes de nen-yambassa. Depois deles, foi a vez dos myene-tsogo,
seguidos pelos bioko. Em cerca de 1120 a.C, os aka-mbati, as línguas
do norte do Zaire, se diferenciaram das línguas do sudoeste e se
dispersaram. Cerca de dois séculos depois, o 'corpo principal' dos
falantes do banto ocidental se dividiu em dois e estabeleceu duas
famílias separadas: o banto sul-ocidental e savana, incluindo as
línguas congolesas e gabão-congolesas. Cerca de 580 a.C. as línguas
buansoan se diferenciaram, e depois as línguas buan se dividiram
internamente cerca de um século e meio depois. Cerca de 170 d.C, as
línguas biran divergiram do buan, tornando-se o grupo mais oriental
do subgrupo. A expansão inicial do banto ocidental cessou quando o
grupo linguístico meridional maniema se diferenciou da língua
vizinha savana cerca de 330 d.C. Apenas no segundo milênio d.C, as
línguas bantas se expandiram rapidamente para as extremidades leste
e sul da África, substituindo muitas das línguas nativas que
encontraram no caminho.
Essa árvore genealógica das línguas bantas ocidentais foi
proposta recentemente, na falta de uma língua escrita, com base na
reconstituição comparativa léxico-estatística, que reconhece que,
como em todas as mudanças linguísticas, certas inovações têm de vir
antes de outras.30 A essa árvore genealógica, foram anexadas mais
estimativas estatísticas que estudam o vocabulário para determinar o
relacionamento entre línguas em particular e seu desenvolvimento
através do tempo. Isto se chama glotocronologia, e é um método
linguístico tão especulativo quanto a léxicoestatística. Sua fórmula é
baseada na observação de línguas com uma longa história escrita, em
que todo o vocabulário básico muda ou é substituído numa taxa
constante. A fórmula deveria permitir que qualquer porcentagem
léxicoestatística dada (calculada pela

161
comparação de palavras básicas selecionadas entre línguas
semelhantes) fosse expressa em termos de um número de anos
específico, segundo os proponentes da glotocronologia.
Porém, as taxas de substituição de vocabulário não são
constantes. Isso pode ocorrer, como propõe uma nova teoria, porque
as línguas também passam por longos períodos de equilíbrio. Durante
tais períodos, as mudanças podem ocorrer através de difusão, ajustes
internos da língua ou convergência linguística. Esses períodos podem
ser seguidos por uma 'pontuação' ou perturbação súbita, que leva à
criação das assim chamadas 'árvores genealógicas'.
Consequentemente, todos os dados glotocronológicos para o banto
continuam como especulação subjetiva.
Apenas comparações fonológicas (baseadas no sistema de sons
de uma língua) que forneçam cronologias relativas para
desenvolvimentos linguísticos relacionados sustentam uma validade
incontestável neste campo de pesquisa, embora não possam fornecer
dados absolutos. Apesar disso, pode-se dizer com uma certeza
razoável que, no início da Era Cristã, os falantes de banto ocidental
ocupavam a maior parte do oeste da África central. Mais de um
milênio depois, as línguas bantas iniciaram suas grandes migrações
que, eventualmente, as levaram ao extremo sul do continente africano
no final do século dezessete.

LÍNGUAS CHINESAS
O chinês ou sinítico é a subfamília mais oriental e importante da
grande família linguística sino-tibetana.31 Seus membros são línguas
isolantes — ou seja, sua 'palavra é geralmente um morfema (a menor
unidade significativa de uma língua), com uma construção sintática
e/ou partículas especiais que mostram as relações gramaticais.

162
Diferente das línguas célticas, germânicas e itálicas, que se tornaram
isolantes apenas recentemente, o chinês preservou essa característica
em todos os estágios de sua história. Provavelmente, menos de 5.000
anos atrás, os primeiros falantes de sino-tibetano entraram no Vale do
rio Amarelo e se instalaram permanentemente. Quem eles
encontraram ali — aqueles cuja língua ajudou a criar o que veio a se
tornar o chinês — permanece desconhecido. Parece que uma grande
parte do vocabulário chinês, mas não sua gramática, poder ter sido
emprestada desses primeiros habitantes.
Durante a Dinastia Chou (1050 a 220 a.C), o chinês era falado
numa área muito mais restrita do que no presente. Sua terra natal foi a
Planície do rio Amarelo. Mas seus domínios se expandiram para as
periferias já no primeiro milênio a.C. Com os séculos, a conquista das
etnias vizinhas impôs a língua chinesa nos territórios onde ela é
atualmente falada — de modo semelhante ao latim no ocidente. O
chinês antigo era falado antes do século seis d.C. O chinês médio
designa a língua falada entre os séculos seis e dez. O mandarim antigo
foi ouvido desde o século dez até o século quatorze (início da Dinastia
Ming), o mandarim médio do século quatorze ao dezenove e o
mandarim moderno do início do século dezenove até o presente.
Além da descendente sinítica, o mandarim chinês, ser falada
como primeira língua por um número maior de pessoas do que
qualquer outro idioma do planeta, o chinês é uma das poucas línguas
(ou famílias linguísticas) contemporâneas cuja história está
documentada por meio da escrita numa tradição contínua que remonta
à metade do segundo milênio a.C. Nessa época, durante a Dinastia
Shang (cerca de 1700 a 1100 a.C), textos divinatórios em conchas e
ossos foram escritos numa linguagem obviamente relacionada com
aquela que foi mais copiosamente documentada na sucessora Dinastia
Chou. Não há

163
dúvidas de que a língua da Dinastia Chou gerou todos os estágios
posteriores do chinês, incluindo as línguas chinesas faladas
atualmente.
Devido ao sistema de escrita logográfica (ou seja, não
alfabética) da língua chinesa, até mesmo a reconstituição da pronúncia
dos logogramas do chinês médio é difícil, uma vez que o elemento
fonético (som) não é claro. O processo de reconstituição vem sendo
auxiliado por antigos dicionários de rima chineses, que podem ajudar
a reconstruir terminações de palavras e pela comparação de
empréstimos das línguas coreana e japonesa para a identificação dos
inícios das palavras. A reconstituição linguística histórica demonstrou
que antes do século dois a.C, o chinês antigo usava agrupamentos
consonantais no início de uma palavra, mas sua natureza precisa ainda
é desconhecida. Com o tempo, eles foram reduzidos a consoantes
únicas, como resultado os morfemas das línguas chinesas são palavras
monossilábicas. (Agrupamentos consonantais sobrevivem em
terminações de palavras em algumas poucas línguas chinesas.)
Também foi sugerido que o sistema de vogais do chinês antigo
continha apenas duas vogais, o que é improvável, ou então que
contava com quatorze vogais. Além disso, é evidente que o chinês
primitivo era uma língua flexiva — ou seja, a função sintática era
mostrada por meio da mudança das palavras — e que as distinções
efetuadas pelas inflexões, uma vez que essas inflexões foram perdidas,
foram preservadas pela introdução ou expansão de diferentes tons nas
palavras, um outro método de marcar função ou sentido. Os
especialistas ainda estão em processo de reconstrução do chinês
antigo.
Durante a Dinastia Chou, a língua escrita chinesa, da mesma
forma que o latim clássico, provavelmente não diferia muito da fala
educada comum. Porém, no final da Dinastia Han (206 a.C. a 220
d.C), a língua falada não seguia mais a escrita, e a lacuna entre as duas

164
se alargou nos séculos seguintes. Novamente, como no caso do latim
no Ocidente, a escrita chinesa não refletia as línguas vernáculas que
emergiam. Sempre houve dialetos regionais em chinês, mesmo numa
época muito primitiva. Mas eles não se desenvolveram em línguas
separadas até o final do primeiro milênio a.C, ou seja, quase 1.000
anos antes do surgimento das línguas românicas a partir do latim
vulgar.
O chinês médio era muito diferente do chinês antigo. Nessa
época, os agrupamentos consonantais haviam desaparecido
totalmente. Além disso, o sistema tonai do chinês médio já contava
com quatro tons para registros altos e quatro tons para registros
baixos, como ainda ocorre nas línguas do sul da China. (Por outro
lado, o mandarim de Pequim atual, falado no norte, reconhece ao todo
apenas quatro tons para as palavras.) Entre o chinês médio e o chinês
moderno ocorreu uma grande redução no número de fonemas —
sendo um fonema o menor som significativo de uma língua que
distingue uma palavra (ou parte de uma palavra) de outra — como os
dois fonemas que distinguem mão de pão. O processo deixou como
resíduo muitos homófonos, ou palavras que possuem o mesmo som, e
a língua de Pequim contém hoje o menor número de fonemas. Essa
redução no número de fonemas em todas as línguas chinesas tornou
inevitável a formação de novas composições de palavras,
principalmente de conjuntos de sinônimos (palavras com o mesmo, ou
quase o mesmo, significado). Por esse motivo a 'palavra' chinesa atual
não é mais monossilábica (com uma sílaba), mas di- ou mesmo
polissilábica (com duas ou mais sílabas).
Hoje, as oito principais línguas chinesas constituem uma família
de línguas mutuamente ininteligíveis, com vários dialetos principais
cada. Embora o chinês antigo possa ser hoje tão diferente do
mandarim chinês contemporâneo de Pequim quanto o latim clássico é
do francês de Paris, permanece, contudo, um forte senso de unidade
linguística

165
entre todos os falantes do chinês. Isso é o resultado de três fatores: um
texto logográfico que não reflete línguas diferentes ou mudanças
diacrônicas; uma língua escrita baseada num dialeto padrão que
previne a competição entre outros dialetos; e a unidade política do
povo chinês, quase sem paralelos na história. Hoje, a língua escrita
chinesa é uma continuação direta da língua padrão vernacular literária
do chinês médio.
Porém, na língua falada — não escrita — o significado original
verbal ou pronominal (relativo aos pronomes) de muitas das partículas
gramaticais usadas para esclarecer as relações sintáticas numa
sentença foi enfraquecido no chinês moderno ao papel de afixos
gramaticais ou palavras de ligação. O chinês moderno hoje tende ao
polissilabismo, usando palavras com várias sílabas, e até mesmo à
aglutinação — a formação de palavras derivadas ou compostas pela
união de constituintes com um significado.
O mandarim chinês do norte sustenta três dialetos principais:
mandarim setentrional (bacia do rio Amarelo e Manchúria), mandarim
do sudeste e mandarim do sudoeste. Durante a maior parte da história
da China houve uma língua padrão, compreendendo tanto a língua
falada quanto a escrita. Uma fala comum, ou língua franca, era
necessária para o comércio, a burocracia e a consolidação política por
um rígido governo central. Nos dias de hoje, o mandarim chinês
surgiu da língua franca usada nas dinastias estrangeiras Liao (916 a
1125 d.C), Jin (1115 a 1234 d.C.) e Yuan (1271 a 1368 d.C), sendo
que todas as três mantiveram suas capitais na área geral de Pequim.
Usado em todo o norte da China e além, ou seja, cerca de dois terços
dos falantes chineses, o mandarim é falado por aproximadamente um
bilhão de pessoas. O dialeto mandarim setentrional da capital Pequim
é a base para o Chinês Comum Vernacular, introduzido no início do
século vinte, que serve como base para a maioria dos dicionários
ocidentais.

166
As sete principais línguas chinesas do sul atuais são geralmente
mais conservadoras em suas fonologias e sistemas tonais do que os
dialetos do norte. Os dialetos min nan são falados no sudeste,
geralmente em Zhejiang, Fujian e as ilhas de Hainan e Taiwan. Os
dialetos min pei são encontrados no noroeste de Fujian. Em Shanxi e
no sudoeste de Hebei podem ser ouvidos os dialetos gan. Os idiomas
wu são falados no delta do Yang-Tsé, incluindo Xangai e outras partes
de Anhui, Jiangsu e Zhejian. Os dialetos yueb ou cantonenses do sul
são ouvidos principalmente em Guangdong, no sul de Guangxi, em
Macau e também em Hong Kong. O hakka é uma língua bem
distribuída, cujos dialetos são falados principalmente entre Fujian e
Guangxi. O hsiang, também conhecido como hunan, é falado na
região de Hunan, no centro-sul da China.
Durante muitos séculos, coreanos, japoneses e vietnamitas
usaram o chinês literário como seu meio cotidiano de expressão
escrita. Mesmo hoje, esses três povos continuam a usar raízes
chinesas para criar novas palavras em seus vocabulários. Por este e
outros motivos, o chinês pode muito bem ser chamado de 'latim da
Ásia Oriental'. Devido a numerosas migrações recentes — talvez de
pequeno alcance quando comparadas às migrações dos falantes de
inglês e espanhol — o chinês pode ser ouvido na maioria das grandes
cidades de todo o mundo. A influência da família linguística chinesa
permanecerá, sem sombra de dúvida, considerável durante a maior
parte do século vinte e um.

LÍNGUAS POLINÉSIAS
A Polinésia também sustenta uma árvore genealógica
respeitável.32 Cerca de 6.000 anos atrás, sua mãe, a superfamília
linguística austronésia gerou uma família proto-oceânica que incluía,
por um

167
lado as línguas austronésias da Nova Guiné, do Arquipélago de
Bismarck, das ilhas Salomão, da Nova Caledônia e de outras ilhas do
Pacífico Ocidental, e por outro lado, a família linguística
proto-oceânica oriental. A última compreendia as línguas ocidentais
das Novas Hébridas norte e central, da Micronésia e de Rotuma e a
línguas orientais protopacíficas centrais, que, eventualmente se
tornaram protofijianas no Ocidente, e protopolinésia, cerca de 1500
a.C, no centro-leste do crescente Fiji-Tonga-Samoa.
As línguas polinésias estão entre as mais conservadoras do
mundo. As vogais, o vocabulário e a gramática polinésia
permaneceram extraordinariamente estáveis nos últimos 3.500 anos,
num grau talvez nunca visto no planeta. Pode-se atribuir esse fato ao
extremo reducionismo (simplificação) já presente no protopolinésio
— poucas consoantes, vocabulário monossilábico e dissilábico
simples, reduplicação frequente (duplicação de palavras, como
hulahula) e um número muito limitado de partículas que mostram
funções gramaticais. Assim, as mudanças que ocorreram nas línguas
polinésias são geralmente mudanças consonantais em um estágio,
como de k para ', a parada glotal; ng para n ou '; e t para k, que são
quase de natureza dialetal, permitindo uma quase inteligibilidade em
toda a Polinésia. O notável conservadorismo e a homogeneidade das
línguas polinésias também são, provavelmente, o resultado de um
comércio ativo contínuo entre a maioria dos grupos insulares até
poucas centenas de anos atrás.
Diferente da maioria das outras famílias linguísticas, a família
polinésia não contém nenhum membro cuja inclusão seja controversa.
Porém, os limites entre língua e dialeto são frequentemente pouco
claros, devido ao grande número de línguas semelhantes que
compartilham um vocabulário quase idêntico, com exceção de
substituições

168
fonológicas menores, facilmente identificáveis. Por exemplo, 'casa'
em samoano é fale, em taitiano é fare, em rapanui (Ilha de Páscoa) é
hare, em maori é whare e em havaiano é hale. Há cerca de 36 línguas
polinésias faladas atualmente, desde as Ilhas Salomão no Pacífico
Ocidental até a Ilha de Páscoa no sul do extremo Pacífico Oriental,
descendentes de uma única comunidade original que, cerca de 3.500
anos atrás se desenvolveu dentro de seu novo isolamento, com
contatos apenas esporádicos com a terra natal, uma cultura e língua
únicas que milênios depois, os ocidentais chamaram de 'Polinésia, do
grego poli para 'muitos' e nesos para 'ilha.
Após a diferenciação de sua língua-irmã, o protofijiano, o
protopolinésio experimentou um longo período de desenvolvimento
isolado, provavelmente em Tonga.33 Em toda a história da Polinésia, a
causa comum da diferenciação linguística continuou a ser a remoção
de falantes de uma ilha ou arquipélago para outro. A continuidade
linguística da população estabelecida estava assegurada, porque os
pequenos números de subsequentes visitantes não imporiam sua
língua sobre a população de uma grande ilha. Em Tonga, no segundo
milênio a.C, a protolíngua se dividiu em duas famílias: a prototongíca
(que eventualmente gerou as línguas tonganesa e niueana) e a família
linguística protopolinésia nuclear, que provavelmente se originou no
povoado de Samoa. Cerca de 2.000 anos atrás, os falantes de
protopolinésio nuclear migraram para as Ilhas Marquesas
norte-ocidentais, onde foram bem-sucedidos no estabelecimento de
um povoado permanente. Foi nas ilhas Marquesas norte-ocidentais,
durante muitos séculos, e com transações comerciais apenas isoladas
com a terra natal, que uma nova língua evoluiu — a protopolinésia
oriental.
Enquanto isso, em Samoa, a língua ancestral também continuou
a se desenvolver, eventualmente se tornando a

169
protosamoica-discrepante. Com o tempo, ela gerou a língua samoana,
assim como as línguas individuais faladas por grupos que saíram para
colonizar outras ilhas, particularmente no primeiro milênio d.C. Como
essas últimas divergiram do samoano em diferentes épocas,
tornaram-se em suas ilhas isoladas, línguas como o tokelauano, o
tuvaluano, o uveano oriental, o futunano oriental, o niuafo'o, o
pukapukano e cerca de outras quinze línguas, algumas delas
pertencentes aos subgrupos especiais dos assim chamados
'discrepantes', ou comunidades de falantes de polinésio a oeste do
'Triângulo Polinésio' formado por Nova Zelândia-Havaí-Ilha de
Páscoa.34
No início do primeiro milênio d.C, os falantes de protopolinésio
das Ilhas Marquesas norte-ocidentais migraram para a Ilha de Páscoa,
talvez através das Ilhas Tuamotu, Mangareva e Ilhas Pitcairn; sua
língua evoluiu para a atual língua rapanui. As Ilhas Marquesas
sul-orientais foram subsequentemente colonizadas, ao mesmo tempo
que a língua protopolinésia central oriental evoluía ali. Talvez, no
século quatro d.C, um grupo de marquesanos tenha se dirigido para o
Havaí, onde muitos séculos depois, sua língua se tornou o havaiano.
Cerca de um século mais tarde, outro grupo de marquesanos foi para o
Taiti, onde sua língua estabeleceu seu próprio subgrupo — taítico —
que se espalhou para o arquipélago de Tuamotu, as Ilhas Austrais, as
Ilhas Kermadec e as Ilhas Cook. Cerca de 700 d.C, um grupo de
falantes de maori das Ilhas Cook trouxe sua língua taítica para a Nova
Zelândia. Quando as grandes migrações polinésias chegaram ao fim,
cerca de 1000 d.C, e quase todas as ilhas habitáveis do Pacífico já
haviam sido colonizadas, o marquesano norte-ocidental e o
marquesano sul-oriental diferiam cada vez mais em suas fonologias e
vocabulário, até se tornarem línguas separadas no século dezoito. O
mesmo processo havia ocorrido em todos os outros lugares onde havia
falantes

170
do polinésio oriental, assim como nas Ilhas Austrais ao sul do Taiti,
embora na maioria dos casos — como em Tuamotu, ilhas Cook e
Nova Zelândia — essas línguas diferenciadas sejam chamadas de
'dialetos', mesmo que sua diferença seja maior do que a diferença
entre o dinamarquês e o sueco.
No século dezenove, a invasão europeia e americana no Pacífico
causou a perda de mais de 96% da população, devido a pandemias
calamitosas e tráfico de escravos e a concomitante destruição cultural,
nivelamento linguístico, perda dialetal e contaminação linguística e
substituições: inglês (Havaí, Nova Zelândia, Samoa, Ilhas Cook),
francês (Taiti, Tuamotu, Ilhas Marquesas, Ilhas Austrais e
Mangareva) e espanhol (Ilha de Páscoa). Apenas a monárquica Tonga
e algumas longínquas ilhas menores foram poupadas do furioso
ataque.
Hoje, a maioria dos moradores da Polinésia já perdeu ou está
perdendo sua língua ancestral para um idioma metropolitano
ocidental, particularmente na Polinésia Francesa, ou está sendo
substituída pela língua franca taitiana. Vigorosas línguas polinésias
caracterizam populações grandes (tonganesa, samoana, taitiana),
pequenas e isoladas (kapingamarangi, tikopiana entre muitas outras)
além daquelas cujas línguas já foram faladas por muitos e estão sendo
revividas pelo povo com apoio governamental (havaiana, maori). A
rica literatura oral da Polinésia — músicas dançadas, cantos sagrados,
histórias místicas, genealogias, entre muitos outras — foi quase toda
perdida no século dezenove. Apenas uma pequena fração dessa
literatura foi escrita por estudiosos ocidentais e poucos insulares que
receberam educação ocidental. Só a Ilha de Páscoa possui uma escrita
nativa; porém, seu rongorongo foi uma elaboração inspirada por
europeus no final do século dezoito.

171
Estas linhagens representativas — céltica, itálica, germânica,
banta, chinesa e polinésia — exibem a rica diversidade e a
universalidade das mudanças linguísticas. A linhagem céltica mostra
como uma família linguística importante e amplamente distribuída
pode ser reduzida a uma relativa insignificância em apenas poucos
séculos. A itálica mostra como uma pequena língua descendente, o
latim, pode gerar uma enorme, porém homogênea, família própria, as
línguas românicas, cujas fonologias e vocabulários continuam a lucrar
com sua língua-mãe milênios depois. Por sua diversidade e
fragmentação, a linhagem germânica exibe um desenvolvimento
exatamente oposto ao da itálica. Com uma única língua descendente, o
inglês, altamente alterado pela linhagem itálica, eventualmente vem se
aproximando do status de língua mundial. A linhagem banta produziu
muitas línguas descendentes de poucas divisões na África
centro-ocidental, e depois, experimentou, no milênio passado, uma
expansão sem paralelos, que permitiu que ela dominasse a maior parte
do leste e do sul da África. A linhagem chinesa é caracterizada
principalmente por sua uniformidade e consistência, talvez resultante
de um rígido conformismo social e centralização política durante
muitos milênios. E a linhagem polinésia, que se expandiu a ponto de
se tornar a família linguística mais amplamente distribuída da
Pré-história embora fosse, ao mesmo tempo, talvez a mais
conservadora, hoje, corre o risco de sucumbir a línguas metropolitanas
mais fortes.
Grandes tendências se tornam evidentes no decorrer dos
milênios. Por exemplo, muitas dessas línguas compartilham a
transição de um tipo de língua fusional (sintecismo) para um tipo
isolante (analiticismo); ou seja, a protolíngua usava terminações em
palavras para mostrar sua função sintática, mas as línguas
descendentes abandonam essas terminações e usam em vez delas
partículas e preposições que

172
designam essas funções. Quase toda mudança linguística é cíclica,
alternando períodos fusionais, aglutinativos e isolantes e marcação no
núcleo verbal (mudanças no verbo), nos elementos dependentes do
verbo (mudanças no sujeito/objeto) e ordem sintática rígida em frases
e sentenças sequenciais. Em cerca de 3.000 anos, o egípcio evoluiu de
fusional para aglutinante, e voltou a ser fusional. Enquanto as línguas
mudam, elas tendem a descrever um círculo tipológico similar.35
Pode ser detectada uma hierarquia das mudanças, dentro da qual
alguns elementos linguísticos mudam mais rapidamente que outros. A
mudança fonológica é o mais frequente tipo de mudança linguística. A
mudança semântica também ocorre numa taxa relativamente rápida.
Menos frequente, é a mudança morfológica, a mudança sistemática na
formação das palavras e também mudanças nas formas gramaticais,
especialmente paradigmas (como em latim puer, pieri, puero, puerum
e assim por diante). O que também ocorre raramente é a mudança
sintática, a mudança sistemática da ordem das palavras numa frase ou
sentença. Uma das mudanças mais raras de todas é a sílaba tônica das
palavras. O acento, ou sílaba tônica, tende a ser mais uma
característica arcaica que ajuda os linguistas a alinhar línguas
descendentes a uma língua-mãe, ou palavras emprestadas à sua origem
estrangeira. Por exemplo, Marcel em francês, tem seu acento tônico na
última sílaba, mantendo o acento da palavra latina paroxítona
marcellus, mesmo após ter se tornado uma língua isolada e, perdido a
terminação — us. Portanto, o oxítono francês moderno é, na realidade,
um paroxítono histórico. Ao reconhecer tais relíquias, os linguistas
podem iluminar um grande número de origens e relações linguísticas.
Outra tendência se torna evidente com o passar do tempo.
Paradoxalmente, quanto maior a população humana, menor o número
de línguas. As comunidades isoladas da pré-história presumidamente

173
desfrutavam de uma enorme diversidade linguística. O aumento
populacional ocorrido desde o início da urbanização significou a
redução dessa diversidade linguística. Particularmente, a corrida para
as cidades do início do século dezenove, resultante da Revolução
Industrial, que criou a terceira grande onda populacional da história
(ainda em andamento), gerou nações que, com a centralização política,
exigiam uma língua nacional padronizada. Os idiomas nacionais
atuais, as assim chamadas línguas metropolitanas, estão hoje
eliminando centenas de línguas menores em todo o mundo. Enquanto
a estimativa é de que a população do planeta, hoje por volta dos seis
bilhões, dobre nos próximos 50 anos, pode-se esperar que muitas das
menores línguas do mundo desapareçam durante esse período.
Um último ponto para concluir esse exame das linhagens
linguísticas. Expressões populares como 'a língua tâmil de 5.000 anos'
ou 'a língua inglesa de 1.500 anos' não poderiam estar mais longe da
verdade. Nenhuma língua do planeta é 'mais antiga' que outra: todas as
línguas naturais — ou seja nem revividas nem inventadas —
atualmente faladas têm exatamente a mesma idade.

174
6

Em direção a uma ciência da linguagem

'A ciência linguística é um passo na autorrealizaçáo do homem,


escreveu o ilustre linguista norte-americano Leonard Bloomfield no
início do século vinte.1 O passo percorre milênios. Muito antes da
língua escrita, povos antigos divinizaram a fala humana como um dom
especial de um deus, uma crença ainda presente hoje em dia em
muitas culturas não relacionadas umas com outras. O estudo sério e
organizado da língua teve início na Índia e na Grécia no primeiro
milênio a.C. e continua sendo feito, numa tradição contínua e
mutuamente enriquecedora, até os dias atuais. Traduções latinas de
termos gramaticais gregos — substantivo, pronome, verbo, advérbio,
adjetivo, artigo, transitivo, intransitivo, inflexão, declinação, tempo,
caso, gênero, sujeito, objeto

175
entre muitos outros — são usados ainda hoje para descrever a língua
na maioria das culturas ocidentais.
Na Índia antiga, os eruditos sânscritos se sobressaíram na teoria
fonética (som) e fonológica (sistema de sons significativos) e em
aspectos da análise gramatical. Na época seu trabalho era muito mais
científico — ou seja, exibia os métodos e princípios do conhecimento
sistematizado — do que qualquer estudo europeu do mesmo tipo. Mas
pouco se sabe sobre a origem e o início do desenvolvimento da
linguística da Índia antiga. Em contraste, há uma continuidade de seu
desenvolvimento desde os primórdios da Grécia antiga até os dias de
hoje. A linguística grega foi levada para Roma. Os últimos gramáticos
latinos de Roma, que estudaram as classes de palavras latinas, suas
inflexões, funções e relações sintáticas, inspiraram os eruditos
medievais, cujo trabalho foi reinterpretado pelos gramáticos
renascentistas. Foram eles que lançaram as bases iniciais para a
ciência linguística moderna que finalmente emergiu no século
dezenove. Há um fluxo constante de linguistas europeus desde as
primeiras especulações gregas sobre o assunto; cada geração desfrutou
e lucrou com o conhecimento gerado pelo trabalho de perspicazes
antecedentes (ver ilustração 12). Por esse motivo, a história da
linguística europeia consegue corporificar uma história da linguística
em geral. Apesar disso, não se deve subestimar a influência de
linguistas não europeus, uma vez que cada estudioso que escreveu
seriamente sobre a linguagem nos últimos dois mil anos e meio
contribuiu para o conhecimento sobre o que é a linguagem, de onde
ela veio e para onde ela vai.

ÍNDIA
Os estudos linguísticos mais antigos conhecidos do planeta
foram feitos na Índia entre 800 e 150 a.C, numa tentativa de preservar

176
a literatura oral indiana do muito anterior período védico.2 Como no
Ocidente, os eruditos hindus mantiveram uma continuidade dos
estudos linguísticos até o presente. A fonética indiana e vários tópicos
gramaticais, incluindo tratados profundos sobre fonologia e
semântica, feitos até o século dezoito, superam qualquer realização
ocidental na área. Embora sem preocupações históricas, os linguistas
hindus basearam seus estudos no fenômeno observado da mudança da
língua através do tempo.
Diferente da antiga linguística grega, a tradição indiana parecia
totalmente amadurecida, a primorosa culminação de um
desenvolvimento teórico longo embora não registrado. O primeiro
grande trabalho de linguística indiano foram os Astadhyayi ou 'Oito
Livros', da gramática sânscrita, escritos por Panini, o primeiro
trabalho científico em língua indo-europeia escrito ou transmitido
oralmente entre 600 e 300 a.C.3 Os escritos indianos sobre a língua
podem ser agrupados sob os mesmos tópicos gerais encontrados na
cultura ocidental, embora a tradição linguística indiana preceda e
supere a europeia, pois já debatia com profundidade teorias
linguísticas, semântica, fonética, fonologia e gramática descritiva.
Comparado com a investigação literária e a especulação filosófica, os
primeiros linguistas indianos chegaram à conclusão irrevogável de
que a relação linguística entre a forma e o sentido se deve mais a uma
convenção arbitrária (costumes da sociedade) do que a uma mimesis
natural (cópia dos sons da natureza). Seus estudos semânticos também
enxergavam os significados das palavras como criações
observacionais, assim como heranças.4 Os primeiros linguistas hindus
assumiram a visão notavelmente moderna de que sentenças inteiras
poderiam compreender unidades linguísticas autônomas (os linguistas
ocidentais, que se concentraram durante muito tempo na palavra'
como a

177
partícula primária da língua, chegaram a essa conclusão pela
primeira vez no século vinte).
A antiga questão da linguagem versus substância — ou seja, a
expressão vocal era oposição ao sistema herdado de características,
categorias e regras — já havia sido antecipada pelos primeiros
estudiosos sânscritos da Índia, que desenvolveram a teoria da relação
dhvani-sphota. A expressão vocal era dhvani; a substância linguística
permanente, inexprimível, era sphota. Assim, o dhvani provinha do
sphota assim como 'se tira água de uma nascente'. Na fonética, já em
150 a.C, os linguistas hindus haviam ordenado a descrição fonética
em estruturas fonológicas, com processos precisos de articulação (o
ato ou modo de dar expressão vocal), divisões consonantais e vogais e
síntese segmentai. A partir disso, é evidente que os estudiosos
indianos intuíram totalmente os princípios da fonêmica — dos quais
se aproximam partes da teoria sphota — que os estudiosos ocidentais
só conseguiram descrever adequadamente no século vinte (veja a
seguir).
Talvez os linguistas hindus sejam mais conhecidos por sua
análise gramatical do sânscrito, especialmente pelos Astadhyayi de
Panini, embora o trabalho falhe em compreender totalmente o que
hoje se entende por 'gramática'. Os estudiosos da Índia antiga parecem
ter sido obcecados pela gramática, procurando estabelecer todas as
regras de modo mais econômico e priorizado possível: um comentador
notou que poupar metade do comprimento de uma vogai curta ao
postular uma regra gramatical tinha 'a mesma importância que o
nascimento de um filho'. As regras da formação das palavras,
aplicadas de modo rigoroso em sutras ou 'encadeamentos' aforísticos,
têm precedência; por outro lado, a descrição fonética e a gramática do
sânscrito são quase totalmente presumidas. A

178
'gramática' de Panini não apenas fundou a linguística indiana, mas
também, cerca de 2.300 anos depois, contribuiu para a criação dos
estudos comparativos e históricos europeus sobre a linguagem, que
ajudaram a criar a ciência linguística moderna.

GRÉCIA
Porém, a ciência linguística tem seus pilares em solo grego.5 O
mais antigo registro de estudo linguístico na Grécia data do início da
era clássica, no século cinco a.C. Os gregos não estavam interessados
na fala dos bárbaroi ou 'falantes estrangeiros'. Mas os dialetos gregos
os fascinavam, uma vez que o grego antigo era altamente
diferenciado, como hoje são as línguas escandinavas, mas, mesmo
assim, uma unidade subjacente era agudamente sentida por todos os
falantes. (No início do século cinco a.C, o historiador Heródoto
escreveu: 'toda a comunidade grega, com um sangue e uma língua'.)
A maioria desses dialetos, embora não todos, foi reduzida com a
escrita. Na verdade, talvez a maior conquista cultural grega, no início
do primeiro milênio a.C, senão antes, tenha sido a elaboração de uma
escrita alfabética (veja Capítulo 4). A habilidade de ler e escrever as
letras (grámmata) do alfabeto grego era chamada de téchne
grammatike e aquele que a dominava era um grammatikós, ou
'gramático'.6 O estudo das letras era uma parte integrante da
philosophía ou 'esforço intelectual'. Em particular, os retóricos como
Górgias da Sicília, no século cinco a.C, estudavam e escreviam sobre
a língua como uma ferramenta para melhorar habilidades oratórias.
Platão (427?-347 a.C.) recebeu mais tarde os créditos como
'primeiro investigador das potencialidades da gramática'. Seu diálogo
Crátilo compreendia um debate sobre a origem da língua e as relações

179
12 Breve panorama do desenvolvimento da Linguística.
entre palavras e seus significados: ele mostra que os naturalistas
acreditavam que as palavras eram onomatopaicas (com o som
sugerindo seu significado) e simbólicas em seus sons, mas os
convencionalistas sustentavam que as palavras eram arbitrariamente
mutáveis, ou seja, que qualquer mudança linguística é uma mera
convenção.7
Aristóteles (384-322 a.C), o maior intelecto da Antiguidade,
escreveu ecleticamente sobre a língua, desenvolvendo sua própria
opinião sobre o assunto: A língua é convenção, uma vez que os nomes
não aparecem naturalmente'. Seu entendimento sobre a linguagem era
inequívoco: 'Fala é a representação das experiências da mente'.
Trabalhos feitos pelos estoicos no segundo século a.C.
investigaram os aspectos individuais da língua pela primeira vez na
cultura ocidental. Os estoicos foram os primeiros a dividir os estudos
da língua em fonética, gramática e etimologia (história da palavra). Os
gregos se destacaram na gramática e seu estudo influenciou a
trajetória da linguística ocidental por mais de 2.000 anos.
Com a mimesis (imitação da natureza) versus a convenção
(sociedade) na origem da língua — com os estoicos favorecendo a
mimesis e Aristóteles a convenção — também havia uma dicotomia
no pensamento sobre se a anomalia (irregularidade) ou a analogia
(regularidade) seria o principal tema da língua.8 (Enquanto cruzava os
Alpes, numa campanha militar, no primeiro século a.C, Julio César
ocupou seu tempo refletindo sobre a controvérsia entre a anomalia e a
analogia na linguística clássica, tal era a sua popularidade.) Aristóteles
havia sustentado que a analogia era o fator dominante na morfologia
grega, ou formação sistemática de palavras. Por sua causa, hoje os
linguistas modernos entendem que uma descrição moderada da
morfologia grega está na identificação e regularização de analogias
formais.

182
Após os estoicos, o estudo linguístico grego se concentrou
principalmente com a pronúncia correta e o estilo literário, junto à
criação de acentos gráficos para reproduzir com precisão o grego
falado na escrita, e com a produção dos melhores textos do trabalho
de Homero. Uns poucos estudos fonéticos foram escritos, mas eles
eram alfabeticamente orientados, presumindo uma relação inválida
entre as letras de um texto e os sons distintos da língua falada. (A
verdadeira relação entre letras e sons não foi considerada até os
tempos modernos.) Na Grécia, o entendimento da fonética
permaneceu subjetivo e poeticamente interpretativo e não chegou nem
perto da adequação descritiva dos linguistas hindus.
Porém, a análise gramatical dos gregos antigos tinha um alto
padrão e seu sistema e nomenclatura se tornaram exemplares. Baseada
principalmente no grego clássico da região de Atenas, a descrição
gramatical grega assumiu o modelo palavra-e-paradigma tão familiar a
gerações de estudantes latinos: amo 'eu amo', amas 'tu amas', amat
'ele/ela ama', e assim por diante. Mas a morfologia clássica não era um
substituto para uma teoria do morfema (a menor unidade significativa
de uma língua), então, a linguística grega, 'empacada' apenas no 'nível
da palavra', não conseguiu avançar e chegar ao estágio de
discernimento que a Índia havia alcançado séculos antes. A fonologia
também estava focada na pronúncia das letras do alfabeto, fazendo
com que o estudo da língua grega continuasse sendo principalmente
uma descrição da língua escrita — e não a falada. Porém, os gregos,
particularmente por intermédio dos escritos de Platão e Aristóteles,
criaram uma nomenclatura linguística para descrever características e
processos linguísticos observáveis pela primeira vez em língua
europeia, e foi dessa maneira que ferramentas tão notavelmente úteis
como 'substantivo' e 'verbo' entraram em circulação.

183
A mais antiga descrição explícita da língua grega, a Téchne
Grammatike de Dionísio Thrax, do início do primeiro século d.C,
fornece o que foi durante treze séculos considerado o texto definitivo
sobre a linguagem, omitindo apenas a sintaxe (ordem da frase ou
sentença). A brevidade, precisão e simplicidade de Thrax, assim como
sua exagerada exposição das regularidades linguísticas, consistiam
então no principal domínio da gramática. Na Alexandria egípcia, no
segundo século d.C, Apolônio Díscolo, cuja posterior influência nos
gramáticos latinos foi gigantesca, compilou a primeira teoria completa
da sintaxe grega. Ele basicamente construiu sua descrição sintática
sobre dois pilares: o substantivo e o verbo, e descobriu que a
gramática está na relação entre esses dois conceitos e sua relação com
outras classes de palavras. Nesse estudo, Apolônio prefigurou as
muito posteriores distinções sintáticas de sujeito e objeto, e conceitos
de regência e subordinação.
Os estudos linguísticos gregos na Constantinopla medieval, com
poucas exceções notáveis como a investigação semântica dos casos
gregos (levada para a Europa renascentista, ela influenciou a teoria do
caso) de Máximo Planude (c. 1260-1310), compreendiam, em sua
maioria, comentários literários de textos antigos e careciam da
profundidade intelectual dos escritores helênicos.9 Na época, a
dinâmica da cultura grega já havia passado havia muito tempo para os
romanos, cuja língua latina se tornou o veículo de perpetuação da
teoria gramática grega.

OS ROMANOS
Durante o terceiro e o segundo séculos a.C, a Grécia cedeu
gradualmente à supremacia romana. Ironicamente, com a tomada

184
completa do mundo helênico no primeiro século d.C, a língua grega
não se submeteu ao latim, mas o latim capitulou ao grego. Embora os
germânicos e os celtas do oeste do império romano houvessem sido
forçados a se submeter a administrações de língua latina, o império
oriental, sob administração grega, continuou firmemente falando o
grego, com funcionários gregos, cultura grega e ideais gregos, uma
dicotomia ideológica que, vários séculos depois, levou à divisão do
império. A literatura grega compreendia o modelo erudito romano, e a
língua grega era a língua da própria cultura, assim como viria a ser a
própria língua latina na idade média europeia, mil anos depois.
Como em outras esferas artísticas e intelectuais, a linguística
romana era a extensão da linguística grega. Não havia uma separação
intelectual clara entre a teoria linguística grega e a romana, mas sim
uma continuação da mesma dinâmica com parâmetros filosóficos
idênticos, um processo favorecido em parte pela relativa similaridade
entre as duas línguas indo-europeias.10 O prolífico intelectual Varro
(116-27 a.C.) foi o primeiro crítico latino, cujos escritos
sobreviveram, a debater a linguística, embora os romanos tenham
certamente compilado trabalhos anteriores. Seu De Língua Latina,
com originalmente 25 volumes — apenas os livros de cinco a dez e
alguns fragmentos de outros volumes sobreviveram — discute
longamente a controvérsia anomalia-analogia na linguística, mas
também fornece considerações originais, não sendo uma mera
imitação dos mentores gregos, sobre a natureza e os primeiros estágios
da língua latina. O trabalho de Varro, dividido em etimologia,
morfologia e sintaxe, com tratamento perspicaz e copiosos exemplos
em latim, rivaliza com o melhor da Grécia. Embora a ignorância da
Antiguidade em relação à linguística histórica também seja
pronunciada aqui, onde considerações diacrônicas e sincrônicas são,
infelizmente intercambiáveis,

185
Varro, ao discutir variações na forma da palavra a partir de uma raiz
única, apresenta argumentos pró e contra a anomalia e a analogia, uma
solução conciliatória que reconhece ambas na formação das palavras
da língua e seus sentidos associados.
Se suas ideias não derivaram de um autor anterior cuja obra
tenha se perdido, Varro foi inovador para a sua era. Ele distinguiu a
formação derivada (por exemplo, a palavra 'derivação', de 'derivar') da
flexionada (por exemplo, a palavra 'derivamos' de 'derivar'),
acreditando ser a última uma variação natural, mas a primeira, uma
variação artificial e mais restrita. Sua classificação morfológica das
palavras latinas também foi altamente original. Diferente dos gregos,
Varro não simplesmente reconheceu o caso e o tempo verbal como as
principais categorias latinas e gregas e estabeleceu as quatro classes
— de acordo com sua flexão — de substantivos (flexão de caso),
verbos (flexão de tempo), particípios (caso e tempo) e advérbios (nem
caso nem tempo): ele caracterizou as funções específicas de cada um
deles. Substantivos davam nome às coisas. Verbos faziam afirmações.
Particípios juntavam elementos (eles compartilhavam a sintaxe dos
dois anteriores) e os advérbios davam apoio a todos eles. Varro estava
obviamente fascinado pelo amplo alcance gramatical das palavras
baseadas numa simples raiz comum: lego eu escolho, ler'; lector
'leitor'; legens 'lendo, alguém que está lendo'; e lecte 'primorosamente'.
Varro foi, sem dúvida, o linguista mais original de Roma. Ele se
destacou entre outros escritores romanos, que discutiram o tópico
apenas superficialmente, concentrados em assuntos literários, ou
seguiram cegamente a Téchne de Thrax. Após Varro, desapareceu o
interesse pela controvérsia anomalia-analogia. Um notável sucessor
foi Quintiliano no primeiro século d.C, que, em seus doze livros do
Institutio Oratoria, repetia a afirmação de Thrax que a gramática
consistia

186
numa ferramenta indispensável para uma educação liberal, e apenas
superficialmente examinava o sistema de caso latino. Até o século seis
d.C, a linguística romana constituiu da adoção, análise e aplicação das
nomenclaturas e categorias gregas à língua latina. O estudioso
alexandrino Dídimo, que escreveu na segunda metade do primeiro
século a.C, já havia 'demonstrado' que todas as características da
gramática grega também poderiam ser encontradas na gramática
latina.
Só no final do período latino foi formalizada uma gramática
latina, que serviu como base de toda a educação ocidental que se
seguiu.11 O trabalho principal dos últimos gramáticos latinos foi o
Institutiones Gramaticae, de Prisciano, escrito cerca de 500 d.C. em
Constantinopla. Em seu tomo de mil páginas, Prisciano refletiu a
retrospecção de Constantinopla e a Categorização baseada no grego da
língua já arcaica da literatura clássica, ignorando as dinâmicas
evolutivas da língua falada. O objetivo de Prisciano era claro: traçar
uma linguística latina sobre a matriz grega, em particular a Téchne de
Thrax e os trabalhos de Apolônio Díscolo, que Prisciano chamou de
'maior autoridade em gramática'. O modelo do trabalho de Prisciano
foi o palavra-e-paradigma grego, e nenhum significado era ligado a
nenhum elemento abaixo do nível da palavra derivada. Ou seja,
Prisciano via domus, que significa 'casa, por exemplo, num nível
primeiro da língua e, como toda a Antiguidade ocidental, permaneceu
sem saber que tanto dom-quanto — us eram morfemas (menores
unidades significativas) e que d, por exemplo, era um fonema (aqui
contrastando com o t, em latim tomus significa 'cortar, picar').
Prisciano alcançou a descrição mais abrangente do latim clássico, que
serve como base para o ensino da língua latina até o presente. O
Institutiones foi a gramática mais copiada nos escritórios de conventos
medievais. Ele lançou as bases para os linguistas da Idade Média.

187
O MUNDO ÁRABE
A sofisticação cultural do Islã no Oriente Próximo, norte da
África e Espanha engendrou um grande número de estudos
linguísticos significativos durante a Idade Média.12 Alguns autores
desses trabalhos eram na verdade judeus espanhóis, como Ibn Barun,
que compilou um tratado comparativo entre o árabe e o hebraico.
Porém, a maioria era feita por muçulmanos que centravam sua
pesquisa no Alcorão que, desde o século sete d.C, tem sido visto como
a palavra de Deus mediada pelo profeta Maomé em língua árabe, que
não admite tradução, mesmo entre muçulmanos que não falam árabe.
A demanda do ensino do árabe em todo o extenso domínio do Islã
exigiu o estabelecimento, durante muitos séculos, de centenas de
escolas de árabe, que, então, elaboraram as regras da leitura, escrita e
pronúncia árabes.
Algumas escolas do Alcorão realçaram a origem natural e
multiforme do árabe como a representação da natureza e
generalizaram esse conceito para incluir nele todas as línguas, de
modo muito semelhante aos naturalistas da linguística grega clássica.
Depois, houve outras escolas, como as de Basra, no sul do Iraque, nas
quais Aristóteles influenciou diretamente o reconhecimento árabe da
arbitrariedade convencional e regularidade sistemática da língua.13
Contudo, o mundo árabe desenvolveu uma abordagem única da
linguagem, e evitou a adoção indiscriminada dos protótipos gregos
característica dos gramáticos latinos.
O persa não árabe, Sibawaih de Basra, que escreveu no século
oito d.C, consolidou todas as instruções linguísticas árabes em seu
tratado gramatical Al kitab (O Livro). Partindo de uma base sólida e
estudos linguísticos anteriores, Sibawaih definiu o árabe clássico
como

188
ele é conhecido hoje. Sua descrição fonética e anatômica da produção
do som, guarnecida com uma terminologia precisa, pode levantar
suspeitas acerca de uma inspiração indiana, embora não seja
necessariamente o caso. Com certeza, Al kitab é, em sua precisão
descritiva, superior a tudo o que gregos e romanos conseguiram
alcançar.
Os linguistas árabes nunca mais atingiram tal proeminência
linguística.

CHINA
Embora o primeiro dicionário de língua chinesa tenha sido
compilado entre 1100-900 a.C, a preocupação chinesa com a análise
linguística se concentrou numa reprodução mais fiel da palavra falada
através de glifos sílabo-fonéticos.14 Em 489 d.C, os tons chineses
foram identificados pela primeira vez de um modo sistemático, como
componentes de sílabas faladas, talvez graças à influência de monges
budistas, familiarizados com a escrita alfabética. Outras análises
fonológicas no século onze chegaram por meio das tabelas de rimas
chinesas que colocavam as sílabas iniciais em colunas verticais e as
sílabas finais em fileiras horizontais, permitindo que todas as
características mediais, finais e tonais potenciais do chinês fossem
ressaltadas, mesmo que elas não ocorressem na língua falada devido
às restrições fonotáticas ('toque-do-som') naturais. A influência dos
linguistas sânscritos é evidente na ordenação precisa das sílabas
iniciais das tabelas de rimas de acordo com a articulação, entre outras
características.
Essa análise fonológica pseudoprosódica (ou seja, relacionada à
prosódia, ou ao estudo sistemático da versificação) condizente com o
modo como o chinês era escrito permaneceu sendo a base da
investigação linguística chinesa em toda a Idade Média até a Idade
Moderna.

189
Se os estudiosos chineses inicialmente houvessem tratado da literatura
clássica do chinês médio, ele teria sido mais tarde ligado ao mandarim
de Pequim e outras línguas chinesas. Dignos de nota são os escritos do
dialetólogo Pan-lei, que viajou pela China no século dezessete,
descrevendo as muitas línguas e dialetos que encontrou.
A linguística chinesa nunca atingiu o nível de investigação
erudita tanto do Ocidente quanto, acima de tudo, da índia já no
primeiro milênio a.C. Desde o final do século dezenove, um dos
principais tópicos da linguística chinesa é a questão da transliteração
mais eficiente da escrita chinesa para o alfabeto ocidental.

A IDADE MÉDIA LATINA


A investigação linguística durante a Idade Média Latina — um
nome conveniente e talvez historicamente equivocado, para o período
entre 600 e 1500 d.C. na Europa — é caracterizada principalmente
pela sua orientação: baseada na Igreja, ela permaneceu pedagógica.
Como o latim falado e escrito havia sobrevivido à queda romana como
a língua erudita em todos os países ocidentais independentemente da
língua local, estudar a língua significava estudar a gramática do latim
clássico, particularmente no início da Idade Média.15 Das 'Sete Artes
Liberais' que compreendiam essa educação, não menos que três —
gramática, dialética (lógica) e retórica — envolviam diretamente o
estudo da língua latina. Na verdade, durante a Idade Média, a
gramática latina foi considerada a mais importante das sete, o próprio
fundamento de uma educação adequada. Todas as Sete Artes Liberais
eram, é claro, subordinadas à teologia.
Nos estudos gramaticais latinos, as duas principais autoridades,
Prisciano e Donato, eram meramente regurgitadas com mudanças

190
insignificantes.16 Embora a cópia da Bíblia e o ensino do latim
dominassem os monastérios, monges com inclinação linguística
também comentavam ou glosavam, redigiam etimologias e
compilavam léxicos. Neste último, o mais notável foi Isidoro de
Sevilha, na Espanha, que no início do século sete escreveu a
Etymologiae, a ‘Britannica’ da Idade Média. Porém, tentativas de
gramáticas e livros de conversação latinos independentes, como as
feitas por Bede e Alcuin na Nortúmbria no século oito, também
apareceram bem cedo. Em particular, os irlandeses estiveram entre os
primeiros a aplicar os princípios da gramática latina à língua
vernácula local, iniciando uma tradição que prosperou durante muitos
séculos na Irlanda.17
Durante o período da filosofia escolástica que começou em
cerca de 1100, com o surgimento das primeiras universidades na
Europa, a arquitetura gótica e a literatura cortesã, os estudos
linguísticos ainda pertenciam à doutrina pedagógica. Mesmo assim,
vários deles se destacaram: Doctrinale, de Alexandre de Villedieu, um
manual de latim de cerca de 1200; gramáticas galesas e irlandesas; e o
Primeiro Tratado de Gramática escrito por um extraordinário irlandês
desconhecido no século doze, chamado de o 'Primeiro Gramático'. Ao
defender uma reforma na ortografia que melhor reproduzisse a língua
islandesa na escrita, o irlandês incluiu uma rara análise fonética e
fonológica. Na verdade, o 'Primeiro Gramático' identificou os
princípios subjacentes da fonêmica, o sistema interno de sons
significativos de uma língua. Seu trabalho, que compreende o melhor
que a Idade Média tinha a oferecer, permaneceu ignorado até o século
vinte.
A tradição, e não a inovação, linguística floresceu na Idade
Média com 'gramáticas especulativas', tratados intitulados De Modus
Significandi (Nos Modos do Significado), escritos por muitos autores
entre 1200 e 1350 que, geralmente, compartilhavam a

191
mesma postura teórica e concepção linguística.18 Esses 'Modistae'
integraram as descrições da gramática latina de Prisciano e Donato na
filosofia escolástica. (A escolástica é a escola de pensamento que
incorpora a filosofia aristotélica na teologia católica.) Os Modistae
declararam que a simples descrição do latim não era mais sufi ciente;
eram necessárias uma teoria mais profunda e uma melhor justificativa
para elementos e categorias do latim. A filosofia havia sido ligada à
gramática: 'Não é o gramático, mas o filósofo que, cuidadosamente
considerando a natureza específica das coisas, [...] descobre a
gramática'.
Desse clima teórico surgiu a noção de uma 'gramática universal'
que serviria para todas as línguas. O inglês Roger Bacon (1214?-94),
autor de uma das primeiras gramáticas especulativas, escreveu que: A
gramática é, em sua essência, uma e a mesma em todas as línguas, e
varia nelas apenas acidentalmente'. (Desde então, teóricos linguistas
vêm buscando uma 'gramática universal'.) A semântica foi
particularmente usada numa tentativa de definir a diferença entre o
significatio (significado) de uma palavra e sua suppositio (substituição
relacionai).
Mas o principal interesse dos Modistae era a própria gramática,
e aqui eles criaram uma elaborada terminologia para explicar um
sistema integral e coerente de gramática filosófica, se desviando
significativamente de Prisciano para fornecer uma dimensão
explanatória para a análise meramente descritiva do latim feita por
ele. O sistema sintático dos Modistae, por exemplo, alcançou uma
transparência muito maior na função específica das classes de
palavras, permitindo uma definição mais adequada dessas. Os
Modistae também conseguiram uma teoria abrangente e coerente da
estrutura das sentenças e sua análise sintática. Isso envolvia níveis
estruturais mais profundos do que as flexões das palavras de
Prisciano. Em sua teoria da linguagem, os Modistae

192
acreditavam que a mente humana executava processos de abstração,
reflexão e comunicação do mesmo modo em todas as línguas — uma
teoria que desabou quando as línguas não indo-europeias se tornaram
conhecidas. Embora ainda estivessem muito longe da gramática
formal atual, as 'gramáticas especulativas' dos Modistae representam
uma ponte entre a Antiguidade e a Idade Moderna.

ATÉ O SÉCULO DEZENOVE


Escritores clássicos recolheram dados e descreveram o grego e o
latim. Os Modistae medievais especularam sobre o uso do latim. Mas
após a Idade Média, os eruditos europeus estudaram as línguas não
europeias e leram os trabalhos de linguistas não europeus, não
permitindo mais que o grego e o latim dominassem o estudo
linguístico. A própria língua se tornou objeto de investigação. É claro
que um pouco de árabe e hebraico foi estudado na Idade Média,
particularmente o hebraico, por sua importância para o Cristianismo.
Porém, no Renascimento, o hebraico se tornou um importante objeto
de investigação. O De rudimentis hebraicis, do alemão Johannes
Reuchlin, de 1506, ilustrava para os linguistas europeus a diferença
radical do sistema de classe de palavras com substantivos e verbos
declináveis e partículas indeclináveis. Nessa época também
apareceram gramáticos de outras línguas: italiano e espanhol, no
século quinze; francês, polonês e eslavo eclesiástico, no século
dezesseis. Foram impressos os primeiros dicionários. A Bíblia foi
traduzida para línguas vernáculas e a relação entre o hebraico original
e o grego foi comparada com elas. A pronúncia e a ortografia se
tornaram mais padronizadas com as emergentes literaturas nacionais.
As novas gramáticas de línguas vernáculas se concentravam na
ortografia para alcançar o máximo de compreensão entre povos ainda

193
não unidos em nações. Particularmente entre as relacionadas línguas
românicas: italiano, provençal, francês, catalão, espanhol e português,
ficou claro que elas não eram simples corrupções do latim clássico,
mas sim línguas autônomas que se diferenciavam de modos
sistematicamente descritíveis. As línguas vernáculas estavam se
libertando do latim ao mesmo tempo e sendo estudadas por seu
próprio mérito, como línguas separadas cujas gramáticas eram
igualmente dignas de consideração para os estudiosos.
Um precursor do estruturalismo moderno, o francês Pierre
Ramée (c. 1515-72), cuja Dialectique foi o primeiro livro filosófico
em língua francesa ('Tudo que Aristóteles disse está errado'), escreveu
gramáticas de grego, latim e francês e teorizou sobre a gramática em
Scholae Grammaticae. Divergindo da orientação precedente, Ramée
declarou que as línguas antigas deviam aderir ao emprego clássico,
mas as línguas modernas à observação. Desse modo, as descrições e
classificações gramaticais de Ramée realçam as formas observadas
das palavras, não ideais clássicos.
Gramáticas do quéchua peruano (1560), do basco (1587), do
guarani brasileiro (1639) e muitas outras línguas, incluindo o chinês,
também começaram a ser impressas. Rapidamente avaliou-se o quão
enormemente as línguas diferiam do grego e do latim. As línguas
clássicas agora eram reverenciadas como modelos antigos, mas não
mais ideais vivos. As línguas vernáculas começaram a substituir o
latim medieval como a língua da educação, um processo longo que em
alguns países europeus só terminou no século dezenove.
Convenientemente, o latim já havia sido cultuado e também
objetivamente descrito. O próprio Ramée introduziu as novas letras
latinas j e v para representar a pronúncia exata da semivogal, distintas
das pronúncias vocálicas latinas do i e do u. A impressão aumentou a
alfabetização, e a maior

194
alfabetização significou uma explosão de conhecimento geral e
consciência, similar apenas à revolução tecnológica do século vinte.
Foram formadas sociedades eruditas como a Academie Française, na
França, em 1635, e a Royal Society, na Inglaterra, em 1662, que
frequentemente consistiam em fóruns e mesmo 'cães de guarda da
pesquisa e questões linguísticas.19
Do século dezesseis ao dezoito, a ciência linguística transcendeu
das questões puramente orientadas pela linguagem para se tornar ela
própria uma ferramenta no debate filosófico entre empiristas e
racionalistas, cada grupo enxergando a linguagem de um modo
diferente. Os empiristas, rejeitando a escolástica medieval, realçavam
o fato observado; os racionalistas não acreditavam na percepção dos
sentidos, mas, talvez mais tradicionalmente, naquilo que a razão
humana aduzia. Porém, ambos acreditavam que a base do raciocínio
filosófico estava na matemática e na ciência newtoniana. Todos os
estudos linguísticos da época foram influenciados pelo debate
empirista-racionalista. Foi daí que surgiram as primeiras
reivindicações sérias por uma nova e inventada 'língua universal'
como um meio internacional de aprendizado e comércio.
Um resultado da linguística empírica inglesa foi a primeira
descrição sistemática da fonética inglesa e o início de uma análise
formal de uma gramática inglesa livre da imposição latina de
Prisciano. Nasceu a escola de fonética inglesa que basicamente
fundou o estudo da fonética e fonologia do inglês. Embora a maioria
dos linguistas ingleses ainda forçasse a língua dentro da
camisa-de-força das classes de palavras latinas de Prisciano, havia
exceções que ousavam descartar a tradição em favor da observação
direta do uso real do inglês: Elements of Speech (1669), de William
Holder abordava o diagnóstico articulatório da distinção vocal e não
vocal em consoantes — ou seja, b/p,

195
d/t, g/k e assim por diante — melhor do que qualquer outro estudioso
ocidental antes dele.
De seu lado, o movimento racionalista produziu gramáticas
filosóficas que, em particular deviam sua inspiração às escolas Port
Royal francesas de 1637 a 1661, cuja influência continuou no século
dezoito. Devido à desconfiança institucional do classicismo pagão das
escolas Port Royal, esses gramáticos racionalistas prolongaram as
gramáticas escolásticas da Idade Média propondo uma 'gramática
universal', mas como uma teoria da gramática geral expressa em
idioma vernáculo, não um modelo latino ou ideal. O objetivo dos
gramáticos de Port Royal era revelar a unidade subjacente de todas as
gramáticas em comunicar o pensamento humano. Eles tentaram
alcançar esse objetivo, entre outras coisas, por meio de uma
reinterpretação semântica radical das nove classes de palavras
clássicas, como, por exemplo, enxergando advérbios estruturalmente
como apenas frases preposicionais abreviadas. Os gramáticos de Port
Royal empreenderam a escrita de uma gramática geral baseada no
grego, no latim, no hebraico e em línguas europeias contemporâneas,
acreditando que tal postulado realmente existisse.
No século dezoito a especulação linguística se voltou para a
origem e o desenvolvimento da língua de uma maneira mais
filosófica. Os filósofos franceses Condillac e Rousseau acreditavam
que a origem da língua estava na imitação da natureza por meio de
gestos e gritos; mais tarde, abstrações e complexidades gramaticais
haveriam se desenvolvido a partir de inícios 'tonais' muito simples. O
alemão Johann Gottfried Herder argumentou que a linguagem humana
crescia por meio de sucessivos estágios de desenvolvimento e
maturidade junto ao pensamento humano, um dependendo do outro;
Herder acreditava que primeiro o sentido da audição promovia a
língua, e

196
os outros sentidos contribuíam depois para desenvolver um
Vocabulário simples' quando a língua amadurecia. O inglês James
Harris, discípulo da filosofia aristotélica, que, como Herder
reconhecia as idiossincrasias das línguas individuais, desenvolveu
uma teoria linguística baseada era dois 'princípios' universais:
substantivos e verbos, que segundo Harris subjaziam todas as
gramáticas desde o início da fala humana.
O tratado de seis volumes do Lorde Monboddo (James Burnett)
de Edimburgo, intitulado Of the Origin and Progress of language
(1773-92) também se voltava para o desenvolvimento histórico,
colocando a sociedade humana como um pré-requisito para a criação
linguística, afirmando que as 'línguas' primitivas contemporâneas
revelam características humanas de 'uma língua original', como a
escassez de vocabulário abstrato e organização gramatical, ou seja, em
relação ao grego, ao latim e ao hebraico. (Hoje, sabe-se que nenhuma
língua viva é mais 'primitiva' que outra, cada uma é igualmente
suficiente em todas as suas necessidades imediatas.) Isso não é uma
'arrogância linguística', como muitos afirmaram. É a investigação
linguística, na véspera das grandes descobertas ao longo do
desenvolvimento na direção de uma verdadeira ciência da linguagem.
Perto do final do século dezoito, como resultado de um influxo
de novos dados, os linguistas adotaram uma aproximação mais
histórica e menos teórica e filosófica do estudo da língua, com
comparações tipológicas de línguas desconhecidas até então. A
descoberta de antigos textos sânscritos e a rica tradição linguística
sânscrita revolucionaram e transformaram o estudo ocidental. O
marco foi o ano de 1786, quando Sir Willian Jones, um juiz inglês de
42 anos de idade da Companhia das Índias Orientais, leu um artigo,
hoje em dia lendário, para a Royal Asiatic Society em Calcutá, que
identificava o

197
relacionamento genético do sânscrito com as línguas gregas, latinas,
góticas, célticas e persas antigas.
O conceito em si não era novo, mas Jones foi o primeiro a
introduzir duas noções novas: que as línguas poderiam estar
relacionadas historicamente — 'desenvolvidas a partir de uma fonte
comum', como ele afirmou — em vez de ser produtos umas das outras
(ou seja, do sânscrito para o grego para o latim); e que existia uma
língua ancestral, o que os linguistas chamam hoje de protolíngua. O
estudo de Jones não apenas inaugurou o campo da linguística
histórica, mas também revelou a tradição linguística sânscrita de mais
de 2.500 anos de idade para os estudiosos ocidentais. O resultado da
combinação das tradições sânscritas e ocidentais estabeleceu a ciência
linguística moderna na primeira metade do século dezenove.

O SÉCULO DEZENOVE
No início do século dezenove começou a surgir uma verdadeira
ciência linguística. O século dezenove é a era da linguística
comparativa e histórica — ou seja, da busca de similaridades e
diferença entre as línguas e suas relações históricas uma com as
outras, e o desenvolvimento de um vocabulário científico e
ferramentas para alcançar este objetivo. A investigação histórica das
línguas indo-europeias dominou o século dezenove e estabeleceu os
padrões para a investigação de todas as outras famílias linguísticas.
Esse era o domínio principalmente dos estudiosos de língua alemã que
desempenharam um papel de vanguarda na fundação de uma nova
ciência linguística por meio do espelhamento de contribuições
contemporâneas das ciências naturais, da matemática, da física, da
medicina, da astronomia, da história, entre outras disciplinas dos
Principados alemães, Império Austro-Húngaro e Suíça.

198
Já no século doze, o 'Primeiro Gramático' irlandês havia notado
semelhanças na forma das palavras inglesas e islandesas. No início do
século quatorze, em seu De Vulgari Eloquentia, o italiano Dante
Alighieri havia descrito as diferenças entre línguas e dialetos como
resultado da passagem do tempo e da dispersão geográfica de falantes
de uma única língua (protolíngua). Porém, para Dante, o hebraico
havia sido a primeira língua do planeta, o dom dado por Deus a Adão
no Éden. Toda a diferenciação linguística provinha da destruição da
Torre de Babel, como descrito em Gênesis 11. Escritos históricos
semelhantes sobre a língua continuaram a aparecer até, e mesmo, no
século dezenove, sem que ninguém ousasse questionar o relato
bíblico.
Muitos estudiosos como o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz
(1646-1716), haviam apontado a necessidade da preparação de
gramáticas e dicionários das línguas do mundo, para fornecer uma
maior fonte de informação para que generalizações linguísticas
pudessem ser fundamentadas. Particularmente no século dezoito, eram
compiladas listas de palavras, normalmente incluindo o Pai-Nosso e o
levantamento linguístico efetuado. O auge do frenesi da coleta de
dados foi o Linguarum Totius Orbis Vocabularia Comparativa (São
Petersburgo 1786-9) em quatro volumes, do alemão Peter Simon
Pallas, que incluía 200 línguas. O exame do primeiro volume da
compilação feita pelo alemão C. J. Krus em 1787 forneceu,
possivelmente, a primeira discussão científica da linguística
comparativa e histórica numa estrutura moderna — ou seja, não
clássica e não bíblica.
Em 1808 Friedrich Schlegel publicou um tratado sobre o
sânscrito no qual apontava a urgência do estudo das 'estruturas
internas' (morfologia ou formação sistemática de palavras) das línguas
com o intuito de descobrir semelhanças genéticas. Nesse trabalho
embrionário, Schlegel cunhou o termo vergleichende Grammatik ou

199
'gramática comparativa' para abarcar tanto a linguística comparativa
quanto a histórica.
Dois intelectuais iniciaram o estudo comparativo e histórico da
família linguística indo-europeia: o dinamarquês Rasmus Rask
(1787-1832) e o alemão Jacob Grimm (1785-1863, um dos irmãos
Grimm). Rask foi o primeiro a comparar sistematicamente a forma
das palavras de várias línguas indo-europeias e estabelecer um padrão
de relações etimológicas. Em 1818 ele reconheceu: 'Se entre duas
línguas é encontrada uma concordância nas formas de palavras
indispensáveis, de modo que as regras das mudanças das letras seja
descoberta ao se passar de uma para outra, então, há uma relação
básica entre essas línguas'.
Em sua Deutsche Grammatik (Gramática Alemã) de 1822,
Grimm, que conhecia do trabalho de Rask, descreveu aquela que viria
a se chamar 'Lei de Grimm', identificando a substituição de classes
consonantais de três locais articulatórios em língua alemã e três tipos
de diferenças em relação à fonologia de outras línguas que não
apresentavam as mesmas mudanças. Formulado e ilustrado por Rask
quatro anos antes, ela fornecia a primeira e mais importante das
chamadas 'leis sonoras', que eventualmente promoveram o
conhecimento do indo-europeu e de outras famílias linguísticas. (O
próprio Grimm não via aqui uma lei linguística, apenas uma 'mudança
sonora' que era uma 'tendência geral'.)
Outros estudiosos produziram trabalhos semelhantes, criando
uma nova ciência nesse processo. Franz Bopp (1791-1867), que
estudava sânscrito desde 1812, publicou em seu primeiro estudo,
quatro anos depois, uma comparação das formas verbais sânscritas,
gregas, latinas e alemãs, com a intenção de traçar o desenvolvimento

200
da inflexão (terminações sistemáticas de palavras que mostram função
sintática). Em sua principal contribuição na área, a Vergleichende
Grammatik, publicada entre 1833 e 1852, Bopp cumpriu seu intento
para todas as formas flexionadas. Seguindo os passos de Rask, ele
também investigou as correspondências sonoras entre as línguas
individuais, incluindo o lituano, o armênio, o albanês e as línguas
eslavas e célticas, como membros da família linguística
indo-europeia. Bopp é considerado hoje o pai do estudo
histórico-comparativo das línguas indo-europeias e o verdadeiro
fundador da ciência linguística moderna.
Um dos pensadores mais originais do século dezenove foi
Wilhelm von Humboldt (1767-1835), escritor, historiador e um dos
primeiros estadistas da Prússia. Ele publicou vários trabalhos sobre a
linguagem durante a vida, enfatizando sua teoria de que a linguagem é
uma habilidade inerente de toda a humanidade. É a mente humana,
declarava von Humboldt, que cria as palavras e a gramática, e não
fenômenos externos como alegavam os filósofos gregos e latinos.
Cada língua do planeta é uma criação individual daqueles que a falam,
segundo a innere Sprachform — a estrutura interna da linguagem —
que impões padrões e regras, algumas específicas da língua em
questão, mas outras comuns a toda a humanidade (universais de
linguagem). Cada língua é reflexo das línguas passadas, e cada
palavra de uma língua pressupõe a totalidade de sua língua dentro de
uma estrutura semântica e gramatical. As diferenças entre as línguas
não estão meramente nos sons, mas em todo um Weltansichten —
atitudes e entendimento do mundo.
Von Humboldt foi o maior teórico linguista do século
dezenove, exerceu uma enorme influência, particularmente nos
linguistas germano-americanos do início do século vinte e linguistas
europeus

201
da metade do século vinte. No início do século vinte e um, o innere
Sprachform de von Humboldt fornece uma teoria linguística universal
com uma estrutura que explica como diferentes comunidades étnicas,
por meio da linguagem, podem viver em diferentes realidades mentais
e adotar diferentes sistemas de pensamento. Talvez a contribuição
mais imediata de von Humboldt para a teoria linguística seja sua
divisão em tipos de línguas em isolante (chinês), aglutinante (turco) e
flexionai (sânscrito), baseada na 'palavra' como a unidade gramatical
dominante.
Outras personalidades rapidamente alargaram a ciência
linguística. August Schleicher (1821-68) introduziu uma abordagem
biológica para o estudo da língua em sua reconstituição e descrição
gramatical da língua protoindo-europeia. Mais conhecido por sua
Stammbaumtheorie ou 'modelo da árvore genealógica', Schleicher
agrupou as línguas descendentes que sobreviveram e as dividiu em
subfamílias como o germânico, o eslávico, o celto-itálico, e assim por
diante, baseado em características compartilhadas; depois, ele as
rastreou até sua língua-mãe, o indo-europeu, e tentou então remontar
ou 'reconstituir'. Apesar de sua fraqueza — línguas reais não se
'dividem' nem formam 'galhos' uma de outras, e muito poucas famílias
linguísticas caberem dentro desse modelo (como a indo-europeia, a
polinésia e a semítica) — o modelo da árvore genealógica se mostrou
uma das mais importantes ferramentas teóricas da história da
linguística. Ela também acomodava extremamente bem a abordagem
darwiniana que dominava as ciências naturais no final do século
dezenove.
A ciência linguística nos últimos vinte e cinco anos do século
dezenove foi caracterizada pelos inicialmente controversos
Junggrammatiker, ou partidários da doutrina neogramática. Originária

202
de Leipzig, na Alemanha, sob a tutela de Hermann Osthoff
(1847-1909) e Friedrich Karl Brugmann (1849-1919), a nova teoria
propunha que, do mesmo modo que os processos mecânicos, todas as
mudanças sonoras ocorressem sob leis que não permitiam exceções
dentro do mesmo dialeto, então, aquele mesmo som, no mesmo
ambiente, sempre se desenvolveria da mesma forma. Essa postura
havia sido forçada pelo reconhecimento da ordem por trás dos
conjuntos de correspondências formais entre as línguas
indo-europeias. Toda a ciência linguística histórico-comparativa
parecia estar baseada na aceitação da regularidade das mudanças
sonoras nas línguas humanas com o passar do tempo. Se não havia
uma regularidade nas mudanças sonoras, afirmavam os adeptos da
neogramática, então a variação ocorreria ao acaso, e não poderia haver
uma verdadeira ciência linguística.
O trabalho dos neogramáticos transformou a investigação
linguística numa disciplina científica cujos métodos eram tão exatos
quanto os que germinavam nas ciências naturais. Especulações sobre a
linguagem foram descartadas para dar lugar à aplicação de apenas
dados ou leis que governavam os dados. Muitos trabalhos valiosos
sobre a concepção estrutural da linguagem, como os de von
Humboldt, não foram bem-vindos nesta nova 'mecanização' da
linguagem. Os neogramáticos triunfaram sobre as teorias concorrentes
e uma longa lista de proeminentes linguistas — Delbruck, Paul,
Meyer-Lubke, Wright, Meillet, Boas, Sapir e Bloomfield —
desenvolveram, ou foram treinados nos princípios e métodos da
neogramática.
Também houve muitas críticas justificáveis aos neogramáticos,
especialmente dos dialetólogos que descobriram grandes
irregularidades nas línguas em níveis de uso local e não generalizado.
O principal dialetólogo francês, Tules Gilliéron (1854-1926) chegou a
declarar

203
que: 'cada palavra tem sua própria história', o que, por um lado, é
perfeitamente verdadeiro. Mas cada palavra pertence a um sistema
maior, e era nesse sistema que os neogramáticos se concentravam. A
linguística do século vinte constituiu principalmente na modificação
da doutrina neogramática, não em sua suspensão.

O SÉCULO VINTE
Os linguistas do século vinte introduziram a expansão dos
princípios e métodos da neogramática com a inclusão de línguas não
indo-europeias e a reação à doutrina neogramática por aqueles que
não praticavam a linguística histórico-comparativa (diacrônica), mas
sim a estrutural e sincrônica. Se a Idade Média enfatizou a linguística
pedagógica, o século dezoito a linguística filosófica e o século
dezenove a linguística histórica, até o meio do século vinte prevaleceu
a linguística descritiva — o estudo da estrutura de uma língua numa
época particular, normalmente com a exclusão de dados históricos e
comparativos.
O início do século vinte deu continuidade às três grandes
investidas do século dezenove, a gramática tradicional, a cultura
sânscrita e a adoção dos princípios e métodos de outras disciplinas. A
maior personalidade linguística do início do século foi o suíço
Ferdinand de Saussure (1857-1913), cujas conferências de Genebra
mudaram o rumo da linguística do século vinte.20 Saussure definia a
distinção entre o estudo diacrônico (temporal, portanto histórico) e
sincrônico (concentrado em determinada época, portanto descritivo),
cada um com seus princípios e métodos próprios. Ele também
distinguia a langue (uma competência linguística do falante) da parole
(a própria expressão vocal do falante), em que langue compreende o
principal objeto da investigação linguística.

204
E Saussure demonstrou que a langue precisava ser abordada
sincronicamente dentro de um sistema de elementos lexicais,
gramaticais e fonológicos, todos operando em relação uns com os
outros: a langue é como um enxadrista num tabuleiro de xadrez, ele
declarou. Essa abordagem estrutural da linguagem assinalou o
nascimento da 'linguística estruturalista'.
O efeito mais imediato de Saussure foi na fonologia. Sua
abordagem estrutural coincidia com os pensamentos mais recentes
sobre a fonética — o estudo e a classificação sistemática dos sons
produzidos pela expressão vocal. O inglês Henry Sweet (1845-1912)
já havia, em 1877, descoberto, embora ainda não definido, o conceito
de fonema, por meio da distinção evidente das contrastantes palavras
inglesas bin/pin.21 A nomeação exata do fenômeno de um fonema
apareceu em 1884, num trabalho publicado pelo polonês Baudouin de
Courtnay, que havia distinguido um simples fone (som arbitrário) de
um fonema (som significativo). Apenas quando as anotações das
conferências de Saussure alcançaram reconhecimento internacional,
no final da Primeira Guerra Mundial, o conceito de fonema, e a
própria palavra, se tornou parte do cânone mundial.
Nas décadas de 1920 e 1930, o 'Círculo Linguístico de Praga'
desenvolveu ainda mais a teoria do fonema.22 Eles consideravam o
fonema pertencente à langue, aos constituintes internamente
relacionados da língua, e o trataram como uma unidade fonológica
complexa. Eles acreditavam que cada fonema compreendia um
determinado número de características distintas individuais, cuja soma
o caracterizava como um elemento linguístico autônomo; mas cada
característica distinta também contrastava com sua ausência, ou com
uma característica diferente em pelo menos um outro fonema da
língua investigada. Sistemas fonológicos inteiros podiam, então,

205
ser classificados de acordo com seus inventários de características
contrastantes em seus fonemas constituintes. Desse modo, o galês p/b,
ff/f, th/dd, t/d, ll/l e c/g (aqui escritos alfabeticamente, não
foneticamente), por exemplo, revela um contraste fonêmico não vocal/
vocal. Foi observado que esses contrastes se contraíam, expandiam ou
mesmo desapareciam em diferentes posições na palavra, onde vários
outros fonemas os afetavam, ou como resultado de determinado
número de fenômenos. Foi descoberto que mesmo acento, duração,
tom e articulação — os chamados 'suprassegmentais' — mostravam
características distintas que fornecem um significado além dos
segmentos consoante-vogais comuns. Devido ao trabalho do 'Círculo
Linguístico de Praga' o fonema assumiu um papel principal na teoria
linguística e hoje está implícito na descrição e análise de qualquer
língua do planeta.
Embora a Europa continuasse a produzir um grande número de
estudos sincrônicos embrionários, os Estados Unidos da década de
1920 também começaram a se sobressair na linguística descritiva, e
eventualmente acabariam dominando a ciência linguística no meio do
século vinte.23 Essa foi uma conquista de três linguistas radicados na
América do Norte: os alemães Franz Boas (1858-1942) e Edward
Sapir (1884-1939) e o norte-americano nascido em Chicago Leonard
Bloomfield (1887-1949). Tanto Boas quanto Sapir eram produtos de
sua era e de sua bagagem alemã, e as teorias linguísticas de von
Humboldt ressoavam em seus escritos. Mas a América, onde de
maneira única a antropologia compreendia uma parte fundamental da
linguística, também os afetou. As línguas nativas dos EUA e do
Canadá caíram sob o escrutínio científico nessa época, e Boas editou e
coescreveu o Handbook of American-Indian Languages (1911, 1938),
no qual usou as técnicas da linguística descritiva em línguas

206
que nunca haviam sido descritas em termos científicos formais.
Gerações de linguistas de campo se baseariam na estudada
combinação de teoria e técnica de Boas ao abordar pela primeira vez
uma língua ainda não descrita. Seguindo os modelos alemães, Boas
redirecionou o rumo da antropologia americanista durante o período
da profissionalização da ciência nos EUA.
Sapir, que havia sido aluno de Boas, abordou a língua de uma
perspectiva ampla, enxergando o trabalho como uma variedade de
esforços humanos, permeando todos os aspectos do discurso. Ele
estava particularmente interessado na tipologia das línguas — a
análise das línguas baseada em tipos (como isolante, aglutinante,
flexionai, e assim por diante) — e acreditava que uma tipologia válida
poderia ser alcançada pela determinação de características gramaticais
e morfológicas gerais de uma ampla variedade de línguas, ao contrário
da confiança de seus contemporâneos na semântica e na psicologia. O
Language (1921) de Sapir continua sendo a melhor introdução geral a
uma classificação tipológica.24
Rigorosamente metodológico e baseado na análise formal, a
linguística de Bloomfield estava altamente condicionada pelo
positivismo da psicologia behaviorista americana, refletindo o
interesse científico de sua era.25
Sua Language, publicada pela primeira vez em 1933 nos EUA,
se tornou não só a melhor descrição introdutória da linguística durante
duas décadas, mas também o principal livro universitário sobre a
matéria, influenciando o rumo da própria disciplina.26 A 'era
bloomfieldiana' viu a maioria dos linguistas americanos concentrar
seus estudos na análise formal por meio de operações e conceitos
objetivamente descritos. Aqui, o fonema e o morfema tomaram o

207
centro do palco, com a estrutura sentenciai 'diagramada' em termos de
análise constituinte imediata; os morfemas foram ligados em 'árvores'
que ilustravam construções de tamanho e complexidade ascendentes.
O modelo afirmado era o da distribuição, com uma menor atenção à
sintaxe e à morfologia.
O norte-americano Kenneth L. Pike e seus colegas
fundamentaram uma análise constitutiva imediata, usando em sua
maioria línguas da Mesoamérica e da América do Sul, para criar o
sistema de análise tagmêmico, identificando o tagmema como a
unidade gramatical fundamental, ou 'traço' estrutural — a posição
numa sentença dentro da qual uma determinada classe de itens
gramaticais pode se encaixar'. As sentenças poderiam ser assim mais
precisamente analisadas não como sucessões de constituintes
imediatos, como faziam os linguistas bloomfieldianos, mas sim como
cadeias de constituintes colaterais.
Após a Segunda Guerra Mundial, a ciência linguística começou
a se fragmentar em vários subcampos autônomos. Um movimento
necessário pela complexidade apresentada por cada aspecto do estudo
da linguagem, seja a sintaxe, a fonologia, a fonética, a semântica, a
semiótica (estudo de sinais e símbolos e sua relação com o
significado), a dialetologia, a linguística histórica, a lexicografia, ou
outros campos. O interesse da linguística também se expandiu e
incluiu esferas maiores de aspectos etnológicos, sociais e psicológicos
da linguagem.
A segunda metade do século vinte experimentou um aumento
exponencial no número de linguistas, cursos de linguística e teorias
linguísticas. Significativamente, foi escrito muito mais sobre a
linguagem nesses 50 anos do que nos 1.500 anos anteriores. Dessa

208
montanha de material, foi alcançado um número significativo de
avanços substanciais na investigação linguística. Uma dinâmica
completamente nova também revelou a direção que a ciência
linguística provavelmente tomará, pelo menos no novo século.27
Na Grã-Bretanha, nas décadas de 1940 e 1950, J. R. Firth,
concentrado na fonologia, fez avanços com sua teoria da 'análise
prosódica', que alguns chamam de teoria da linguagem contextual.
Palavras e frases componentes de uma expressão vocal assumem
sentido apenas em relação às suas várias funções nos contextos
situacionais de uso real. Toda forma linguística compreende conjuntos
de abstrações em três níveis diferentes: lexical, gramatical e
fonológico. Esses se referem a características e ocorrências reais de
aplicação fônica, com elementos e categorias relacionados uns com os
outros em cada um dos três níveis em estruturas sintáticas e sistemas
paradigmáticos. Aqui, a fonologia se torna a ligação entre a gramática
e a expressão vocal (fonética).28
A análise de características distintas na transmissão real da fala
foi melhorada por Roman Jakobson, originalmente do 'Círculo
Linguístico de Praga', que após a Segunda Guerra Mundial, analisou
acusticamente características fonêmicas da perspectiva do ouvinte
para desconstruir os fonemas das línguas do planeta em combinações
de doze contrastes binários (agudeza/gravidade, difusão/compactação,
e assim por diante), definidos em termos de distribuição de energia em
frequências variáveis em suas ondas sonoras. O sistema fonológico de
uma língua poderia então ser analisado na matriz de oposições das
características.29
A revolução russa assinalou a ruptura da área com a tradição
linguística ocidental. Os estudos linguísticos soviéticos foram

209
excentricamente controlados por Nikolai Y. Marr (1864-1934), que
havia inventado suas próprias teorias da história da linguística. Marr
rejeitava até a teoria indo-europeia e adotava o antigo conceito do
gesto como origem da língua, que ele combinou com a tipologia do
século dezenove como um indicador dos 'estágios' da evolução da
língua. Em 1950, Josef Stálin ordenou a rejeição total da teoria
marrista, como ela ficou conhecida, e, desde então, os linguistas
russos, em particular, adotaram os princípios e métodos da linguística
ocidental, se sobressaindo na lexicografia (os princípios e práticas da
confecção de dicionários) que, nas décadas de 1950 e 1960 havia
alcançado, na ciência linguística, o mesmo status da fonologia e da
gramática.
Vários linguistas das décadas de 1940 e 1950 reinterpretaram a
ideia neogramática das leis sonoras e as modificaram para incorporar
a teoria fonêmica, enxergando as mudanças históricas e linguísticas
como o 'Primeiro Desmembramento do Som' germânico como a
mudança num sistema — não em sons autônomos — permitindo uma
explicação de tal mudança para representar a manutenção das
oposições fonológicas durante alternâncias sucessivas nas articulações
dos falantes. Agora, as causas também foram investigadas, e não
apenas os efeitos. Descobriu-se que uma das causas mais
significativas estava dentro do próprio sistema fonológico das línguas.
Todas as línguas tendem para a simetria em todos os níveis, mas o
aparelho vocal humano é anatomicamente assimétrico. Isso cria um
desequilíbrio permanente que produz ajustes, ou mudanças,
automaticamente. Os contrastes precisam ser mantidos para se
alcançar uma comunicação significativa, e assim as línguas mudam
constantemente por si próprias, independentemente da intervenção
consciente humana, para manter esses contrastes necessários.

210
Em outra esfera investigativa, a 'gramática estratificacional' do
norte-americano Sidney M. Lamb postulava quatro estratos dentro da
estrutura da língua para a análise sintática: semêmica (a menor
unidade de sentido), lexêmica, morfêmica e fonêmica, sendo cada
nível hierarquicamente ligado a outro. Com uma rejeição consciente
da análise distribucional de Bloomfield, a gramática estratificacional
tornou evidente os vários tipos de relações estruturais que podem ser
encontrados, assim como os muitos modos como uma estrutura em um
nível de análise pode se relacionar com outra estrutura num nível
diferente.30
Uma ruptura significativa com a tradição linguística ocorreu em
1957, o ano em que surgiu o Estruturas Sintáticas do norte-americano
Noam Chomsky, que apresentou o conceito de uma 'gramática
gerativa transformacional'.31 Uma gramática gerativa é, basicamente,
uma que 'projete' um ou mais conjuntos dados de sentenças até o
maior, talvez infinito, conjunto de sentenças que formam a língua que
está sendo descrita, um processo que caracteriza a criatividade da
linguagem humana. Modificada em seus princípios e métodos teóricos
com o passar dos anos por muitos linguistas, principalmente nos EUA,
uma gramática gerativa transformacional tenta descrever a
competência linguística de um falante nativo, compondo as descrições
linguísticas como regras para 'gerar' um número infinito de sentenças
gramaticais.32
Uma gramática gerativa, como entendida por Chomsky, também
precisa ser explícita; ou seja, precisa especificar precisamente as
regras gramaticais e suas condições operacionais. Essas regras se
enquadram em três conjuntos: regras de estruturas frasais (descritas
como 'árvores', hierarquicamente ordenadas como sintagma
nominal/sintagma verbal, então artigo/nome e verbo/sintagma
nominal,

211
e assim por diante); transformações específicas dessas regras
(reordenação, adição, supressão e assim por diante) que afetam a
'estrutura profunda' para produzir uma 'estrutura superficial'; e um
componente morfofonêmico, cujas regras convertem o resultado dos
primeiros dois conjuntos em sons reais (expressão vocal) ou
simbolização dos sons (língua escrita).33
A gramática gerativa transformacional virou a linguística
descritiva Bloomfieldiana de cabeça para baixo, projetando regras que
demonstram e realçam a própria natureza criativa da língua, em vez de
descrever as regras de uma língua. Seus precursores teóricos são
encontrados entre os gramáticos latinos, von Humboldt e os
gramáticos de Port Royal, que apontavam para certas técnicas
transformacionais, como o próprio Chomsky reconheceu. Mas a
gramática gerativa transformacional vai além, fornecendo uma
estrutura para gerar uma competência linguística infinita. Chomsky
também acredita que a linguística, a psicologia e a filosofia não devem
mais se manter como disciplinas separadas, mas sim compreender um
sistema unitário de pensamento humano que deve ser entendido como
um todo maior. Embora a passagem do tempo tenha relativizado o
lugar de Chomsky na história da linguística, de 'a' direção para 'uma'
direção para os estudos linguísticos futuros, a gramática gerativa
transformacional continuará sendo o modelo teórico linguístico mais
importante da segunda metade do século vinte.34
Os linguistas tradicionais ainda seguiam, e continuam seguindo,
o modelo projetado por Bloomfield, Sapir e Boas, entre outros. São os
descritivistas, que geralmente aderem à Teoria Linguística Básica —
conceitos de trabalho fundamentais para descrever a língua e
mudanças linguísticas, e reconhecer propriedades linguísticas gerais.
Os descritivistas se opõem aos formalistas (principalmente os

212
chomskyanos), partidários das 'teorias não básicas', como se declaram,
que tentam criar um novo modelo de linguagem, baseada não numa
língua natural conhecida, mas em universais linguísticos mais
profundos, teoricamente aplicáveis a todas as línguas. Os descritivistas
são inflexíveis em afirmar que não pode haver acordo com os
formalistas, uma vez que nunca poderá existir uma teoria total da
linguagem: eles alegam que para os formalistas a 'análise' consiste em
'encaixar a língua em suas estruturas axiomáticas'.35 Os formalistas
ignoram todo esse debate, uma vez que para eles não há debate, sendo
toda a questão irrelevante. Surgiram muitas novas teorias formalistas,
algumas aumentando, outras competindo com a gramática gerativa
transformacional. Que a gramática gerativa transformacional também
pode ser utilmente aplicada na linguística histórica, explicando certos
fenômenos fonológicos que os linguistas tradicionais não conseguiram
explicar adequadamente até o momento, é demonstrado desde a
década de 1960 por um número considerável de linguistas históricos
importantes.36
A gramática gerativa transformacional é a principal afirmação
teórica da linguagem da segunda metade do século vinte, ao mesmo
tempo que a Teoria Linguística Básica é formalizada como um
contrastante campo de linguística aplicada com uma sólida base
teórica. Os descritivistas podem reclamar do 'mal-estar do formalismo'
e identificar a ausência de boas gramáticas descritivas da maioria das
línguas do planeta. Mas os formalistas também estão dando uma
grande contribuição nessa área, especialmente na área associada da
linguística computacional (ver a seguir).
Surgiram direções totalmente novas. A análise do discurso, do
pioneiro professor de Chomsky, Zellig Harris, da década de 1950, que
chamou a transformação entre duas ou mais sentenças reais em

213
textos de uma 'relação de conversão', já se mostrou uni meio eficaz de
estender a análise descritiva textual para além das fronteiras da
sentença. Ela faz uso do conceito de 'quadros' de linguagem para
interpretar um texto colocando-o num contexto definidor; de 'assalto
de turno' ou 'mudança de turno' numa conversação para identificar
sistemas de se perceber conclusões na fala ou assinalar a atenção do
ouvinte; de 'marcas do discurso' como 'e', 'ah', 'é', e 'mas', que dividem
o discurso em segmentos e mostram relações no discurso que estão
além das meras definições dos dicionários; e da 'análise do ato do
discurso' que investiga o que a expressão vocal alcança, como elogiar
para submeter, insinuar ou tomar posse indiretamente, um aspecto
importante do entendimento intercultural.
A linguística computacional, também conhecida como
processamento de linguagem natural, teve seu início em 1946, quando
os computadores foram usados pela primeira vez para gerar traduções
automáticas do russo para o inglês.37 (Desde então, o campo de
traduções automáticas se tornou uma disciplina altamente sofisticada e
comercialmente lucrativa, com vários e diversificados sistemas em
uso.) Essencialmente, a linguística computacional usa os
computadores para estudar línguas naturais, em contraste com as
linguagens de programação como Java, C++, Fortran, e assim por
diante. Nessa área, os linguistas unem a linguística e os recursos da
ciência da computação para permitir que os computadores sejam
usados tecnologicamente como um auxílio na análise e processamento
de línguas naturais e, psicologicamente, para entender melhor, por
analogia com computadores, como a linguagem humana é processada.
Por meio de métodos e ferramentas da ciência da computação e
disciplinas relacionadas, os linguistas podem construir e testar
modelos computacionais de várias teorias e, portanto conseguir pistas
a partir

214
de algoritmos aplicados (regras de procedimento para resolver um
problema computacional recorrente), estruturas de dados e linguagens
de programação.
Há muitos subcampos na linguística computacional, como a
lexicografia computacional, a fonologia computacional, línguas
controladas e programação com restrições lógicas. A linguística
computacional aplicada se concentra na tradução automática, extração
de informação de textos e síntese e reconhecimento do discurso. O
entendimento e geração do discurso — para deficientes, para sistemas
de informações baseados na telefonia, para sistemas de ditados
empresariais e assim por diante — são campos aplicados da linguística
computacional com gigantescos mercados comerciais. Outros aspectos
são a criação, a administração e a apresentação de textos usando o
computador, removendo o agente humano para minimizar os custos e
maximizar a eficiência. A apresentação de informações textuais em
hipertexto, eliminando a necessidade de textos padronizados (ou seja,
lineares), é, atualmente, um dos maiores desafios da linguística
computacional.
A linguística computacional é hoje um importante campo de
pesquisa, com institutos, seminários, centros de pesquisa e empresas
privadas de todo o mundo dedicadas a seu estudo e fornecimento de
serviços. A disciplina está crescendo exponencialmente, se tornando o
ramo da ciência linguística mais dinâmico e lucrativo dos dias de hoje.

Os estudos linguísticos desfrutam de uma longa e rica tradição.


Os eruditos sânscritos da Índia fizeram descobertas
impressionantemente profundas sobre a natureza da linguagem ainda
na primeira

215
metade do primeiro milênio a.C. Os antigos gregos C romanos
ordenaram e categorizaram de maneira ordenada suas próprias
línguas, criando pilares gramaticais que deram suporte a muitas
estruturas, mesmo a dos 'bárbaros' por mais de 2.000 anos. As
'gramáticas especulativas' medievais combinavam as declinações de
Prisciano com a filosofia aristotélica. A Renascença, descobrindo o
hebraico e outras línguas, percebeu que o grego e o latim não
explicavam todos os fenômenos linguísticos observados. O século
dezoito compilou léxicos e propôs questões sobre a origem da língua,
e o século dezenove forneceu as respostas, e no processo, fundou a
ciência linguística. O século vinte foi rico em novas teorias
linguísticas animadoras e inovações, começando com o fonema e
concluindo com linguagens geradas por computadores, abrindo uma
janela para todo um novo universo de possibilidades linguísticas.
A ciência linguística contribui em muito para guardar o
conhecimento humano. Só agora outras disciplinas podem apenas
confirmar o que a linguística histórica já havia descoberto muito
antes. Por exemplo, as comparações linguísticas de várias décadas
atrás estabeleceram que o finlandês é uma língua urálica do norte da
Ásia; atualmente os geneticistas vêm apresentando sua 'descoberta' de
que os finlandeses são asiáticos, porque podem demonstrar que os
polimorfismos Y (mutações extremamente raras em machos) tão
abundantes na Ásia também prevalecem nas populações finlandesas.
Num caso semelhante, décadas atrás os linguistas identificaram que os
maoris, da Nova Zelândia, assim como os polinésios, haviam se
originado na Ásia, em particular em Taiwan, cerca de 5.000 a 6.000
anos atrás. Em 1998, a mídia mundial comemorava a 'descoberta' do
mesmo fato pelos geneticistas, sem fazer nenhuma menção à anterior
contribuição da ciência linguística. Talvez de maneira mais
espetacular, a linguística computacional em particular

216
está aparentemente oferecendo às vistas de todos um mundo
totalmente novo de descobertas por meio das linguagens de
programação, de maneira que pouco se pode compreender.
A linguística continua evoluindo, como as línguas que ela
investiga. Isso não ocorre apenas devido a novas descobertas, mas
também devido às fluidas mudanças, interesses e prioridades sociais
que afetam o rumo dos estudos da linguagem. A ciência da linguagem,
o 'passo na autorrealização do homem, hoje totalmente desabrochada e
com sua própria e única dinâmica, irá, sem dúvida, continuar a realçar
o entendimento e a valorização da linguagem da humanidade em
evolução e seu aparentemente infinito potencial por muitos séculos
ainda por vir.

217
7

Sociedade e linguagem

'Colocarei meu nome onde são escritos os nomes dos homens


famosos', vangloriou-se o rei sumério Gilgamesh, cerca de 4.000 anos
atrás, assinalando um dos principais usos da linguagem na sociedade:
demarcar um lugar na sociedade. As grandes e pequenas questões da
sociedade sempre são refletidas no uso linguístico. Os antigos egípcios
já avaliavam que 'a palavra é o pai do pensamento', reconhecendo que
a linguagem é tanto a fundação quanto o material de construção da
casa social. A arquitetura final da sociedade e as subsequentes
remodelações também são medidas a partir e por meio da linguagem.
A língua dá voz à ação humana, de maneiras complexas e sutis.1
Níveis de interação social múltiplos, desde relações internacionais até
relacionamentos íntimos, nascem, são permitidos e enriquecidos por
meio da língua.

219
A língua não apenas assinala de onde viemos, o que advogamos
e a quem pertencemos, mas também opera tática e estrategicamente
para investir nossa franquia individual, étnica e de gênero; para
autorizar nossa peregrinação através da ordem social; e para mostrar
aos outros o que queremos e como pretendemos alcançar o que
queremos.2 Por intermédio da história as pessoas julgam umas as
outras — ou seja, consciente ou inconscientemente avaliam seu lugar
na sociedade humana — baseadas somente em sua língua étnica, seu
dialeto regional, e em sua própria escolha pessoal de palavras
individuais. O veredicto linguístico vem sendo definitivo e modelador
de toda a história humana.3

A LÍNGUA MUDA
Todas as línguas vivas experimentam mudanças constantes.4 A
mudança linguística é mais aparente na escrita, o que pode ser
percebido, por exemplo, quando se lê Shakespeare. Menos aparente é
a mudança que está efetivamente ocorrendo, ou 'mudança em
processo'. Apenas uma palavra aqui ou uma vogai ali da fala de um
avô ou avó parecerá um pouco 'estranha'. Inversamente, as gerações
mais antigas acham a fala dos mais jovens 'inapropriada'.
O domínio social da divisão do infinitivo5 se tornou um tópico
tão importante na Grã-Bretanha no final do século dezenove — para
mencionar um caso lento de mudança linguística — que preocupou os
mais altos escalões: 'Este é o tipo de inglês que eu não usaria!',
gracejou Sir Winston Churchill numa nota à margem de um
documento oficial, talvez intuindo que, um século depois, o
Dicionário Inglês Oxford iria ao menos 'tolerar' a construção... que o
inglês usa há séculos com um eminente sucesso.

220
Os registros hierárquicos do uso da língua — sacro, real,
profissional, oficial, militar, civil, familiar e íntimo — competem uns
com os outros e com a fala usada por gerações precedentes e
sucessoras em todas as línguas do mundo. Mesmo assim, a
comunicação resiste e a língua continua a prosperar.
As causas das mudanças linguísticas são tão variadas e
intrincadas quanto a vida pessoal de cada falante: contato estrangeiro,
bilingualismo, substratos, língua escrita, e o próprio sistema
fonológico que sempre busca a simetria, entre outras causas.6 Nos
últimos 200 anos uma das grandes causas de mudanças foi a
urbanização sem precedentes. Em 1790, apenas um em cada vinte
norte-americanos vivia em cidades; em 1990, apenas um em cada 40
vivia numa fazenda. Agora, o Terceiro Mundo está experimentando
uma revolução urbana semelhante, erradicando não apenas línguas,
mas famílias linguísticas inteiras. A inversão dos padrões tradicionais
de povoamento humano provocou inumeráveis revoluções
linguísticas, uma 'pontuação' que causa inovações, nivelamento de
dialetos e mesmo substituição da língua. Em contraste, durante um
alongado período de equilíbrio que pode durar milhares de anos, a
difusão areai pode muito bem ser um fator principal de mudança
linguística.
A tecnologia recente introduziu uma dimensão totalmente nova
à dinâmica da mudança linguística: telefone, rádio, cinema e
televisão. Pela primeira vez na história da humanidade estamos
ouvindo sem 'ver', de modo que um elemento tão primitivo do
discurso—o gesto — está ausente na comunicação não visual, embora
ao falar ao telefone, os italianos ainda gesticulem, os japoneses ainda
se curvem e todos nós sorrimos e franzimos as sobrancelhas, como se
nosso interlocutor estivesse presente, tão ligado está o gesto à fala.
Acreditava-se em tudo que saía da máquina, disse o ator, diretor e

221
escritor norte-americano Orson Welles, sobre o rádio na década de
1930. Ao mesmo tempo, na Alemanha, a amplamente distribuída
Volksempfänger ou 'Receptora do Povo', transmitia pronunciamentos
propagandísticos em alto alemão de Berlim por todo o Terceiro Reich,
estabelecendo efetivamente a pronúncia de um governo central entre
uma grande população de falantes dialetais, algo que nunca havia
acontecido antes. Em todo o mundo, o efeito do rádio na língua falada
foi gigantesco, iniciando um nivelamento linguístico que reverberou
três gerações depois.
Após a Segunda Guerra Mundial, a televisão se impôs ainda
mais dramaticamente: o aumento do nivelamento dialetal, a
contaminação e a superimposição têm sido, desde então,
documentadas entre grandes populações de expectadores. Neste
momento, a televisão é talvez a única grande causa do nivelamento
dialetal universal. No caso do inglês, a predominância dos estúdios de
Hollywood na programação televisiva internacional das últimas duas
décadas do século vinte assegurou o aumento do uso do Inglês Padrão
Americano numa taxa cada vez mais rápida nos países onde a
transmissão dessa programação é feita sem 'dublagem' (reprodução da
fala dos atores em língua estrangeira). Na década de 1970, a Nova
Zelândia, por exemplo, desconhecia os preenchedores discursivos
norte-americanos — 'like', 'sorta', 'kinda', 'ya know' 'and stuff'7 — mas,
no meio da década de 1990, quando por motivos econômicos a
programação norte-americana havia substituído quase toda a
programação britânica e neozelandesa, essas expressões, geralmente
adolescentes, estavam poluindo a fala da Nova Zelândia, assim como
ocorreu nos EUA e no Canadá.
O fenômeno também está ocorrendo em outros países de fala
inglesa, e está efetivamente reinterpretando o Inglês Padrão

222
Internacional, que atualmente está se tornando um idioma híbrido
britânico-amcricano. Introduções léxicas imediatas, particularmente
de gírias, são testemunhadas em todo o mundo como resultado de um
programa favorito ou transmissão de notícias. A transmissão de uma
programação de língua metropolitana a uma comunidade pequena de
falantes minoritários pode ser socialmente devastadora: a televisão
chilena na pequena Ilha de Páscoa, por exemplo, resultou em pais que
falam com seus filhos na tradicional língua polinésia rapanui e filhos
que respondem apenas em espanhol, um fenômeno que ocorre de
maneira semelhante em todo o mundo.
Reflexo de uma sociedade que muda rapidamente, a expansão e
substituição do vocabulário é um processo quase diário em todos os
países modernos. Neste caso, não entram as vinte palavras para 'neve'
em inuit, as 40 palavras para 'verde' em gaélico irlandês, nem as 226
palavras para 'dinheiro' em inglês, que podem ser um fenômeno
ambiental ou psicolinguístico. O que mais preocupa os sociolinguistas
são palavras que aparecem, desaparecem ou têm seu significado
alterado devido ao crescimento tecnológico, recolocação, maturação
ou sofrimento de uma sociedade.
A migração para novos territórios com objetos e topografias até
então desconhecidos e a invenção de novas tecnologias como o
computador são motores sociolinguísticos comumente observados,
que causam mudanças linguísticas. Cerca de 4.500 anos atrás, os
primeiros gregos encontraram os habitantes pré-gregos do Egeu e
aprenderam com eles o que era plínthos 'tijolo, telha', mégaron
'espécie de sala', símblos 'colmeia abobadada', kypárissos/kypárittos
'cipreste' e mesmo thálassa/thálatta 'mar', coisas que eles não
conheciam nem haviam visto antes. Logo elas se tornaram palavras
gregas. Quando os celtas britônicos aprenderam as palavras romanas
strata 'rua, ecclesia 'igreja'

223
e fenestra 'janela', cerca de 2.000 anos atrás, emprestaram esses
conceitos desconhecidos, o que explica por que os galeses dizem
stryd, eglwys e ffenest atualmente. Uma expansão lexical maciça
acabou de ocorrer em muitas línguas do mundo, por exemplo, devido
à introdução de computadores pessoais: 'download', 'online', 'internet',
'spread-sheet', 'database', 'modem', e muitas outras palavras que não
existiam 30 anos atrás são usadas cotidianamente. Emprestar novas
palavras e expandir o domínio das palavras antigas são processos
linguísticos que enriqueceram a sociedade humana desde o
surgimento da fala articulada.
As sociedades também alteram léxicos devido à recolocação,
que algumas vezes reflete o progresso agonizantemente lento de uma
sociedade em direção à maturação. Antes uma palavra honrada,
'guerra' hoje evoca a repugnância geral. 'Nigger'8 para negro é tabu,
uma palavra talvez mais emocionalmente carregada que o pior
palavrão da língua inglesa; significando o mesmo que 'nigger', a
palavra keffir está sendo atualmente expurgada dos vocabulários da
África do Sul. Outras palavras que sumiram totalmente, ou em certos
contextos, do inglês estão 'fairy', 'queer', 'cohabitation', 'concubine'9 e
outras vítimas da revolução sexual das décadas de 1960 e 1970, que
tornaram esses termos não apenas sem sentido, mas ofensivos.
'Divorcèe', 'spinster' e 'unwed mother',10 praticamente desapareceram
desde a década de 1970, evidenciando a mudança do papel da mulher
na sociedade. Muitos termos genéricos antigos — palavras que
relacionavam ou caracterizavam todo um grupo ou uma classe —
também estão sendo Semanticamente reconsiderados, à luz da
crescente percepção e sensitividade do ser humano no início do
terceiro milênio: 'animal', por exemplo, está atualmente passando por
uma reinterpretação semântica, de 'besta' para 'criatura amiga'. Tais
mudanças revelam muito sobre a evolução da condição humana.

224
Os sociolinguistas também notam mudanças negativas.
'Música', 'literatura', 'arte' e 'teatro' estão perdendo suas definições
tradicionais devido a mudanças daquilo que abarcam; essas palavras
estão 'se dissolvendo na falta de sentido'. Talvez de modo mais
alarmante, 'família', 'casamento', 'honra', e até mesmo 'Deus', estão se
tornando conceitos indistintos uma vez que a sociedade inverte e falha
em manter condições e crenças reverenciadas até então.11 A palavra
'parceiro', que até recentemente significava apenas 'amigo', 'sócio
comercial' ou 'companheiro de equipe' está atualmente expandindo
seu domínio semântico para substituir relacionamentos tão antigos
quanto 'marido', 'esposa' e 'noiva/noivo'. (Porém, 'filho/a', 'mãe' e
'incesto' permanecem intocados; 'pai' está em processo de
reavaliação.)
Pode ser vista uma reinvenção da sociedade nessas
substituições. Todas as mudanças citadas acima ocorreram durante a
vida do autor, a última metade do século vinte, que experimentou uma
difícil reelaboração do tecido social que ainda não terminou. O mais
velho se transforma, cada vez mais se torna necessário abandonar
usos antigos e redefinir conceitos veneráveis. Para muitos é uma
tarefa difícil, se não impossível.
Mudanças menores refletem a inclinação da humanidade pela
mudança-pela-mudança, ou seja, a inovação sem motivo algum a não
ser a novidade da própria inovação. Palavras padrões perfeitamente
boas são regularmente substituídas ou suplementadas apenas pelo
tempero adicional, para dar sabor à fala do mesmo modo que o
tomilho dá sabor à sopa. A maioria são palavras passageiras, que
desaparecem quase imediatamente, especialmente entre os jovens. Um
exemplo particularmente vulnerável Semanticamente, que convida a
uma suplementação regular, em inglês, é a palavra 'excellent', com
suas dezenas de sinônimos populares que aparecem e desaparecem:

225
'awsome' (década de 1990), 'groovy' (década de 1960), 'hep' (década
de 1940), 'absolute' (Shakespeare), 'ful faire' (Chaucer).12 Outras
palavras entram no vocabulário como uma moda passageira e
permanecem: no século dezoito, a palavra 'acute'13 em inglês se tornou
a gíria 'cute' significando 'esperto, afiado, sagaz' e então, nos EUA, se
tornou 'atraente, bonito'; 'cuteness' significando 'beleza é uma
derivação recente desta última redefinição.
A gíria representa o uso de um vocabulário informal não
padronizado — tanto na forma de palavras quanto de expressões —
para manipular criativamente a fala por uma variedade de motivos. Na
língua inglesa, apenas no século dezoito a gíria recebeu uma
conotação negativa: Chaucer, Shakespeare, Dryden e Pope usaram
gírias em seus trabalhos como uma parte integrante de suas
manifestações artísticas.14 Do século dezoito ao final do século vinte,
a gíria se tornou algo a ser evitado, enquanto os falantes de inglês se
esforçavam na direção de um uso prescritivo da língua, reflexo do
movimento da educação em geral, com seu conceito idealizado de
uma 'língua apropriada'. Hoje, os falantes de inglês estão mais
parecidos com os da época de Shakespeare, em relação ao uso da
gíria. A gíria se tornou aceitável, inclusive nos registros sociais mais
altos, particularmente entre os falantes norte-americanos: um assessor
de imprensa da Casa Branca referindo-se ao lançamento de um satélite
como 'muito legal' exemplifica o uso rápido, inovador, comercial e
multiétnico da língua pelos EUA.15 Num contraste sóbrio, alemães e
franceses, por exemplo, não tolerariam a gíria nos registros sociais
mais altos, uma vez que em ambas as línguas a gíria está restrita a
camadas 'mais baixas' precisamente definidas.16 Para citar um caso
extremo, usar uma gíria numa oração no Taiti antigo seria motivo para
levar um golpe na cabeça.

226
LÍNGUAS COMUNS, CONTATO E
CONSTRUÍDAS
Pode-se imaginar que desde as primeiras tribos de Homo erectus
houve um esforço para o estabelecimento de algum tipo de língua
comum para facilitar o entendimento mútuo e promover o comércio.
Em toda a história, línguas comuns têm se desenvolvido dessa forma,
normalmente em rotas de comércio. Se uma língua dominante fosse
falada na região de tais rotas, essa língua se tornava a 'interlíngua',
como é chamada. Tal interlíngua, ou koiné, é um dialeto simplificado
com o qual os falantes de dois ou mais dialetos bem diferentes se
comunicam uns com os outros. Características comuns de suas línguas
são retidas e as características não compartilhadas são ignoradas.
Uma das primeiras interlínguas documentadas foi o koiné
diálektos ou 'dialeto comum' da era helênica (323-27 a.C).
Basicamente, um dialeto da Ática na região de Atenas, influenciado
por outros dialetos, particularmente o Jônico, o koiné mudou sua
fonologia, morfologia, sintaxe e léxico e se espalhou rapidamente por
intermédio do comércio e da colonização. Ele também se tornou a
língua grega padrão usada na literatura, especialmente nos escritos de
estrangeiros helenizados, como no Novo Testamento. A partir da
metade do primeiro século a.C, estudiosos, esforçando-se para
ressuscitar uma língua literária Ática 'pura, mostraram antipatia por
essa língua vulgar 'inferior'. No entanto, o koiné continuou a dominar
os portos e centros comerciais da maior fonte mediterrânea nos
primeiros séculos d.C.
Uma das principais interlínguas dos povos célticos nos
primeiros séculos a.C, quando o koiné dominava o Mediterrâneo, era,

227
talvez, o galo-britônico, a língua comum falada pelos falantes do
gaulês do continente e os falantes do britônico da Bretanha, antes da
ocupação romana. Porém, pouco se sabe sobre esse presumido idioma
comum.
Língua franca era como árabes medievais chamavam a língua
dos povos românicos com os quais tiveram contato. Em particular, o
latim vulgar, de origem veneziana e genovesa, dominava o Levante e
servia como interlíngua entre os povos semíticos e os residentes
europeus. O termo língua franca, assim como koiné, vem sendo,
desde então, adotado por muitas línguas para designar qualquer
interlíngua. Língua Geral é a língua portuguesa, em particular as
interlínguas tupi da Bacia Amazônica e o guarani, no Paraguai e sul
do Brasil. O suaíli, com gramática banta e um vocabulário em grande
parte árabe, se tornou a língua franca das rotas comerciais do leste
africano, e no século dezenove, foi usada em regiões no interior do
continente, seguindo o rio Congo. O suaíli ainda representa uma das
principais interlínguas do mundo, com uma própria e rica literatura.
Diferente de uma língua que evolui naturalmente e deriva de
uma protolíngua, uma língua pidgin pode surgir quando falantes de
várias línguas diferentes convergem por longos períodos.17
Normalmente, seu vocabulário provém de uma língua dominante, mas
é muito menor que este; sua gramática é extremamente simplificada e,
na maioria, embora não em todos os casos, regularizada. Uma língua
pidgin é geralmente usada apenas como segunda língua, mas há
exceções. Exemplos de línguas pidgin são o fanagolo, baseada no
zulu, na África do Sul; o settla, baseado no suaíli, na Zâmbia; o tay
boi, do Vietnam, baseado no francês, além de muitas outras. O
processo de pidginização é comumente associado com línguas
coloniais, como o português, o espanhol, o francês e o inglês.

228
Como exemplo de uma língua pidgin baseada no inglês, três
formas de uma nova língua surgiram no século dezenove, quando
trabalhadores da Melanésia foram transportados por donos de
plantações falantes do inglês, das Ilhas Salomão, de Vanuatu
(ex-Novas Hébridas) e de Papua-Nova Guiné para cortar
cana-de-açúcar na Austrália e em Samoa. A língua pidgin que eles
trouxeram de volta se tornou o tok pisin em Papua, pijin nas Ilhas
Salomão e Bislama em Vanuatu, consistindo em línguas com entre 80
e 90% de inglês, com uma mistura de vocabulários locais. As três são
hoje 'línguas novas e distintas, com fonologia, gramática e léxico
próprios'.18
Quando uma língua pidgin substitui as línguas nativas, é
chamada de língua crioula, assim como o haitiano, baseado no francês
do Haiti; o Kituba, baseado no congo do Zaire; o unserdeutsch,
baseado no alemão de Papua-Nova Guiné; o nubi, baseado no árabe
de Uganda, entre muitos outros. Uma língua crioula pode surgir de
uma língua pidgin, por exemplo, se os trabalhadores homens falantes
de pidgin forem impedidos de voltar para casa, e as mulheres forem
levadas com eles, pode haver o estabelecimento de famílias de origem
linguística mista. Assim, a língua pidgin se torna a primeira língua, e
apenas fragmentos das línguas-mães permanecem, como relíquias do
novo crioulo. Devido ao tráfico de escravos africanos, um grande
número de línguas crioulas surgiu exatamente dessa maneira nas
muitas ilhas do Caribe.
Há uma zona cinzenta entre as línguas pidgin e crioulas,
ocupadas por aqueles que falam uma mesma língua que não é nem
pidgin nem crioula — ou seja, uma e mesma língua pode servir a
qualquer um dos grupos de falantes. Talvez seja necessária uma
redefinição do crioulo, e que ele seja visto como uma língua de
contato rasa cuja língua pidgin subjacente ainda não tenha uma
linguística

229
sólida elaborada. Uma geração de pessoas que cresce falando apenas
esse pidgin 'inacabado' como primeira língua parece gravitar na
direção de regras estabilizadoras que sugerem universais de
linguagem. A recente Hipótese da Linguagem Bioprogramada alega
que características gramaticais específicas tendem a se mostrar neste
processo de crioulização.19
Se uma pessoa não usa a interlíngua, projeta ou adota um
pidgin, nem cresce falando uma língua crioula, pode elaborar sua
própria língua inventada, uma 'língua humana construída'. Uma língua
artificialmente criada, idealmente fácil de ser aprendida, feita para
servir a todas as nações de maneira neutra. Em séculos mais antigos,
na Europa, uma construção como esta era desnecessária, uma vez que
todos os europeus instruídos falavam latim como segunda língua.
Porém, já no século dezessete, Descartes e Leibniz teoricamente
propuseram a criação de um sistema simbólico perfeito para a
transmissão do conhecimento científico. Uma língua humana
construída é frequentemente chamada de 'naturalística' porque, apesar
de construída artificialmente, ela tenta reduzir uma ou mais línguas
naturais conhecidas a uma gramática e vocabulário comuns e
simplificados. Historicamente, isso tem se dado pela incorporação das
características mais compartilhadas das palavras das línguas
ocidentais, em particular das línguas indo-europeias. É claro que essa
fundamentação histórica na família indo-europeia — apenas uma
entre as muitas famílias linguísticas do mundo — não faz jus à
pretensão à 'universalidade'.
A primeira língua construída experimentada foi o volapuque,
criada pelo pastor Schleyer do sudoeste alemão em 1870; porém, sua
gramática complicada e vocabulário irregular tornavam difícil seu
aprendizado. A língua construída mais bem-sucedida foi o esperanto,
projetada pelo oftalmologista de Varsóvia Ludwig Zamenhof

230
em 1887, que hoje conta com cerca de um milhão de falantes.
Influenciados pelo esperanto, vários membros da Academia
Volapuque se reorganizaram e publicaram em 1902 uma nova
tentativa: o idioma neutral, que foi aclamado como um grande avanço
na construção de uma língua naturalista e surtiu um grande impacto
nas tentativas subsequentes. Na mesma época, o matemático italiano
Giuseppe Peano ofereceu uma versão simplificada (sem flexões, ou
variações na terminação das palavras) do latim chamada interlíngua.
Em 1907, um esperanto naturalisticamente reformado, chamado ido,
desenvolvido pelo francês L. de Beaufront, foi retrabalhado e
endossado por um comitê científico em Paris, causando uma rixa com
os defensores do esperanto e dividindo o movimento pela língua
artificial.
Em 1918, cerca de 100 diferentes línguas construídas já haviam
sido propostas. A experiência real do esperanto e as inovações teóricas
do ido levaram a novas sugestões, como a ocidental, do alemão E. von
Wahl em 1922 e o novial do dinamarquês Otto Jespersen em 1928,
cujo vocabulário era baseado nas línguas europeias ocidentais.
Seguiram-se novas investigações, como os movimentos totalmente
independentes do Basic English de C. K. Ogden em 1930 e do
interglossa de L. Hogben em 1943. Em 1951, foi publicado um
dicionário interlíngua-inglês, com o patrocínio da International
Auxiliary Language Association em Nova Iorque.
Ainda hoje há um interesse ativo pelas línguas humanas
construídas, tanto do ponto de vista teórico-linguístico quanto do
prático, com a criação de novas línguas com o auxílio de
computadores pessoais. O campo é historicamente fascinante, mas o
objetivo não é mais o uso real. A maioria das línguas construídas tem
base indo-europeia e sofre da ausência de uma 'universalidade
linguística' (qualquer que seja

231
esse conceito). Além disso, é simplesmente artificial tentar ser natural.
Línguas vivas exercem muito mais influência sobre o mundo,
particularmente o mandarim chinês, o espanhol e o inglês. A ideia
original por trás das línguas humanas construídas era evitar a
identificação nacional numa era de nações emergentes e competição
pela colonização. Essa necessidade já não existe mais, uma vez que a
maioria das grandes línguas metropolitanas já não identifica mais uma
única nação. Ou seja, as línguas mundiais estão surgindo naturalmente
pela primeira vez na história. Na verdade, a língua inglesa — devido a
circunstâncias históricas, não por si própria — atualmente conta com
mais falantes de segunda língua que qualquer outro idioma do planeta,
e os números continuam crescendo.20

LÍNGUAS NACIONAIS E ÉTNICAS


Em toda a história as pessoas se identificam mais intimamente
com a própria língua e aqueles que a falam. Na verdade, foi pela
identificação com outros falantes do mesmo idioma que surgiu a ideia
de uma 'nação'. Nações multiétnicas e multilíngues mais recentes
frequentemente balançam, principalmente por causa da língua —
basta pensar na Bélgica, no Canadá, no País Basco e outras sociedades
similarmente conturbadas. Uma língua nacional também compreende
de modo inerente a noção de um 'dialeto superior' dentro dela,
normalmente porque os falantes desse dialeto são os mais ricos e
poderosos, enquanto aqueles que não o falam são os mais pobres e
desamparados. Assim, as gramáticas prescritivas, que ensinam como a
língua 'deveria' ser falada 'acolhem pronúncias' de dialetos
prestigiados, uma questão de moda, como um novo chapéu, que
constantemente remodelam dialetos não prestigiados. Hoje, com o
rádio, a televisão e a internet, o bombardeamento dos linguisticamente
poderosos pode ocupar todo o planeta.

232
Num processo contrastante, a recente 'modernização' da British
Broadcasting Corporation (BBC) basicamente eliminou o que havia
sido chamado de 'inglês da BBC, uma pronúncia facilmente
reconhecível da língua inglesa que passou muito tempo levada em alta
conta. Hoje, ouvintes mais velhos, estejam eles na Inglaterra ou na
Nova Zelândia, sentem-se alarmados ao ouvir transmissões da BBC
naquilo que registram como uma 'pronúncia da classe mais baixa'; eles
sentem que isso não apenas 'diminui o padrão', mas também
demonstra uma 'terrível falta de bom gosto'. Porém, tais protestos não
têm sentido na grande saga das línguas vivas. Dialetos 'superiores' são
apenas uma quimera, uma vez que os próprios dialetos especiais
mudam e/ou perdem aquilo que os tornava especiais.
Todos os dialetos de uma nação — geográficos, étnicos, 'de
classe' social, étnico-sociais (negro 'de classe alta' com branco 'de
classe baixa' e vice-versa), prestigiados, nobres, entre outros — com
as influências de contato (como a influência do francês sobre o inglês
por quase 1.000 anos) contribuem para o amálgama linguístico que
caracteriza todas as línguas naturais do planeta.21
Na sociolinguística urbana, normalmente se segue o 'modelo
vernacular padrão', onde se invoca os pares 'poder' versus
'solidariedade, classe social 'mais alta versus 'mais baixa, 'redes
sociais abertas' versus 'redes sociais fechadas' e assim por diante.
Porém, nas comunidades menores que caracterizaram a maioria da
história humana, essas polaridades são evidentemente irrelevantes: a
variação linguística é melhor conceitualizada e ordenada segundo as
normas locais e ancestrais da fala, como revelam hoje os estudos de
línguas africanas menores.
É verdade que alguns grupos étnicos em sociedades multiétnicas
mostram um maior regionalismo do que outros, uma consciência

233
e lealdade a uni domínio distinto com uma população homogênea.
Norte-americanos de origem europeia são muito mais regionalistas
(ligados à área), por exemplo, que americanos de origem africana, que
tendem mais a um comportamento étnico e linguístico universal
(regionalmente independentes, contrastando com as comunidades
africanas). Mas a fala de todos os grupos de uma nação molda
continuamente a língua e a modifica diariamente, do mesmo modo
que cada tempero adicionado a uma sopa muda e enriquece seu sabor.
A fala dos negros norte-americanos, principalmente por intermédio da
música, dos filmes e da televisão, teve uma gigantesca influência na
fala dos euro-americanos nos últimos anos, especialmente entre os
jovens. Um dialeto prestigiado pode impressionar superficialmente,
com certeza; mas todos os dialetos de uma língua, juntos, como um
todo dinâmico, a expressam. E são esses constituintes expressivos
numa orquestração dinâmica que permitem que uma língua viva
prospere. Já foi mencionado como, no início do quinto século a.C, o
historiador Heródoto descreveu 'toda a comunidade grega como um só
sangue e uma só língua. Isso é insignificante. Pois durante a maioria
da história humana, o sangue era a língua. Devido a pequenas
populações humanas, aqueles que falam como você normalmente
estão relacionados com você. Por dezenas de milênios, essa
consanguinidade engendrou uma convicção de que falas semelhantes
se compreendem. Inversamente, a fala estrangeira é uma ameaça.
Enquanto as comunidades de falantes das mesmas línguas se uniram,
primeiro em cidades-estado, depois em Principados e então em
nações, encontros com falantes de outras línguas na mesma época
levaram a conflitos cada vez maiores. Isso definiu ainda mais as
fronteiras entre vizinhanças, fronteiras baseadas na ausência de uma
língua comum.

234
Pode sr notar com tristeza como a divisão entre os falantes do
inglês e do francês no Canadá ameaça a unidade nacional; como a
violenta desintegração da ex-União Soviética segue principalmente
fronteiras linguísticas, e como as muitas guerras africanas são travadas
quase exclusivamente entre tribos de línguas diferentes. Nos EUA, a
recente incursão de milhões de falantes de espanhol vindos de nações
meridionais elevou tanto as sensibilidades, que muitos
norte-americanos clamam por uma emenda 'pelo inglês' na
constituição norte-americana — uma proposta legislativa que torne o
inglês a língua 'oficial' dos EUA. Uma leviandade semelhante foi
instituída pelos falantes russos da União Soviética, aumentando a
discordância interna.
A ideia do 'isolamento linguístico' falha em contar com a força
motora das línguas humanas, o poder de absorver e relacionar de
maneira a incentivar a cooperação e assegurar a sobrevivência
humana. O inglês médio não foi poluído nem destruído pelo francês
normando após 1066; ele foi extraordinariamente enriquecido. Um
enriquecimento semelhante — por intermédio do espanhol no inglês
— pode agora ser desfrutado pelos norte-americanos, mais de 900
anos depois.
Tais tópicos discutem o status das línguas nacionais e
vernaculares como indicadores efetivos da harmonia social em nações
que estão em evolução. Desde a articulação da fala, a avaliação da
humanidade do papel das línguas nacionais na sociedade variou,
unindo e dividindo comunidades, formando-as ou incitando a guerra.
Em meio a tudo isso, as culturas multilíngues experimentam um atrito
constante. A criação do estado-nação em épocas recentes aumentou
esse atrito, adicionando uma pressão artificial de cima para baixo.22
Na maioria dos países multilíngues, os movimentos de libertação
nacionais após

235
a Segunda Guerra Mundial forçaram novamente a discussão sobre as
línguas oficiais após a independência das colônias. Desde essa época,
o impacto social das línguas foi estudado com profundidade: a
necessidade de se identificar com uma comunidade linguística
definida dentro do conceito de 'terra natal' é hoje reconhecida como
um dos requisitos mais básicos da sociedade. Além disso, a questão
dos direitos das minorias causou, ao mesmo tempo, o reconhecimento
da igualdade das línguas e dialetos minoritários na maioria dos
ocidentais, como o espanhol chicano, o inglês afro-americano e
afro-britânico. Essa é uma preocupação antiga, que perturbou os
putayas e os líbios na Creta minoica em 1600 a.C, os gregos no Egito
em 200 a.C. e os romanos e alemães na Bretanha em 200 d.C. — na
verdade, povos minoritários em todas as eras.
A história afro-americana é notável. Levados à força para a
América, os africanos foram proibidos tanto de falar as línguas
africanas ocidentais quanto o inglês instruído. O inglês negro
vernacular que eles desenvolveram para se comunicar foi colocado
inconfortavelmente acima de um substrato africano herdado. Ele ainda
está lá, um emblema étnico facilmente identificável. Em particular, a
fonologia afro-americana tem um excesso de características não
encontradas na fonologia euro-americana. Em geral, presume-se que
elas derivam das línguas africanas ocidentais, embora não seja
necessariamente o caso: tais características podem muito bem ter se
originado entre as comunidades escravas em solo americano no século
dezessete.23
Porém, muitos itens lexicais africanos ocidentais não apenas
sobreviveram, quase sempre escondidos em homônimos ingleses, mas
também entraram em uso internacional: 'dig', 'jive', 'jazz', 'hep', 'cat',
'boogie-woogie', e muitos outros.24 Suplementando a palavra
germânica homônima, a gíria 'cool' pode talvez derivar da palavra

236
africana ocidental kul que significa 'admirável, excelente'; um 'cool
cat' teria sido, por exemplo, uma 'pessoa admirável'. Porém, nos
últimos vinte anos, jovens de todo o mundo vêm usando o
afro-americano 'cool' como um termo representativo para 'excelente'
— tornando 'cool' o adjetivo mais amplamente emprestado em todo o
mundo atualmente. De uma posição inicial de perseguição, devido aos
movimentos pelos direitos civis que se iniciaram na década de 1950, o
inglês negro vernacular conseguiu uma posição influente no inglês
padrão internacional.
Num contraste dramático, a minoria turca residente na Bulgária
há séculos foi recentemente proibida não apenas de usar sua língua
turca, mas também seus nomes turcos; consequentemente, milhares de
pessoas fugiram para a vizinha Turquia. E em 1998, para suprimir a
ex-língua colonial, o francês, o governo da Argélia aprovou uma lei
que torna o uso de qualquer língua que não seja o árabe uma ofensa; a
minoria argelina Bérbere, que fala língua conhecida mais antiga do
país, foi às ruas protestar. Os dois exemplos descrevem um destino
muito comum de línguas minoritárias.

GÊNERO E LÍNGUA
Desde a década de 1960, o movimento pela libertação da mulher
estimulou os linguistas a estudar as diferenças de gênero na língua, em
particular para verificar se o uso da língua ajuda a reforçar e perpetuar
a desigualdade sexual.25 O movimento causou inclusive uma
'neutralização' parcial da língua inglesa — a remoção das tradicionais
'marcas de gênero' — para ajudar mulheres, gays e lésbicas a alcançar
a igualdade social por meio da língua. Para aqueles cuja doutrinação
social e escolaridade antedataram o movimento, foi necessária uma

237
revisão constante do inglês (alado e escrito, assim como de atitudes de
conceitos herdados.
Em muitas línguas, tal neutralização é simplesmente impossível,
uma vez que a distinção de gênero (particularmente classes nominais
diferenciadas) está na base gramatical. Por exemplo, a sentença galesa
Rydw i yn chwarae ei biano 'eu estou tocando o piano dele' contrasta
com Rydw i yn chwarae ei phiano 'eu estou tocando o piano dela'
apenas com uma mutação consonantal que opera na palavra piano que
é guiada pelo gênero. No francês, os adjetivos precisam concordar
tanto em gênero quanto em número com o substantivo: em lês soeurs
sont belles 'as irmãs são bonitas' e lês frères sont beaux 'os irmãos são
bonitos', o plural feminino belles contrasta com o plural masculino
beaux. No alemão, a flexão de gênero é um marcador indispensável da
função gramatical: das Kind gehört der Frau 'a criança pertence à
mulher', onde die Frau 'a mulher' se torna o dativo (objeto indireto)
singular der Frau 'à mulher'. Em muitas línguas, as diferenças de
gênero (ou seja, classes nominais) também carregam distinções
semânticas essenciais. Em alemão, por exemplo, o masculino der
Band significa 'o volume (de um livro)' e o neutro das Band 'o cordão,
a corda, a faixa'. No galês, que como o francês usa apenas dois
gêneros, o masculino gwaith é 'trabalho', mas o feminino gwaith é
'tempo'. Na falta de regras e distinções específicas de gênero, talvez o
inglês esteja numa posição eminente para alcançar, pelo menos
linguisticamente, uma igualdade parcial de gênero.
O que realmente ocorreu com a língua inglesa nos últimos 25
anos foi uma 'limpeza de gênero' sem precedentes, facilitada por uma
concomitante explosão da comunicação de massa. Isso promoveu uma
reavaliação consciente de todo falante ou escritor instruído de língua
inglesa de seu vocabulário para evitar qualquer palavra que

238
pudesse afetar negativamente os direitos não só tias mulheres, mas
também de gays e lésbicas.26 Às vezes, o debate chega a ser absurdo.
Defensores das mulheres, acreditando ser a palavra 'human' uma
derivada de 'man',27 tentaram, por exemplo, substituí-la por
'huperson'.28 Felizmente, a tentativa falhou, talvez nem tanto por
'humano' ser, na verdade, uma palavra proveniente do latim himanus,
que não tem relação com a palavra germânica mann/mannon 'homem,
ser humano', mas sim porque a palavra faz parte do vocabulário
central da língua. (Os humoristas indagaram na época se as 'mulheres
liberais' também gostariam de mudar Manhattan para 'Personhattan'.)
Porém, outras palavras realmente sumiram do vocabulário
inglês ativo, particularmente aquelas que expressam claramente uma
masculinidade desnecessária. Por exemplo, neste livro, o autor
conscientemente substituiu cada 'mankind' pelo politicamente correto
'humankind'.29 Apesar da tentativa do primeiro-ministro da Austrália,
em 1998, de reintroduzir a palavra 'chairman', ela foi efetivamente
substituída em todos os lugares por 'chairperson'.30 A maioria das
categorias ocupacionais foi neutralizada em língua inglesa, 'stewards'
e 'stewardesses' são hoje chamados de 'flight attendants',31 por
exemplo. Palavras antigas como 'forefathers', 'fatherhood' e
'manservant' — que significam, 'ancestrais', 'paternidade' e 'doméstico'
— talvez também desapareçam do vocabulário inglês ativo, para se
juntar ao vasto número de arcaísmos que inflam o léxico histórico.
Esse não é apenas o destino da língua, é seu dever... quando garantido.
O passado vivenciou aventuras semelhantes, normalmente de
natureza religiosa, étnica ou nacionalista (ver mais adiante). No
século dezenove, o político inglês Thomas Massey lutou contra os
catolicismos na língua inglesa e propôs à Câmara dos Comuns que o
termo Christmas deveria ser trocado por 'Christtide', para evitar uma

239
referência à massa católica.32 Mas, quando o primeiro-ministro
Benjamin Disraeli perguntou se ele também estaria pronto para mudar
seu nome para 'tom-tide tidey', a questão foi encerrada.

PURIFICAÇÃO LINGUÍSTICA
Em vez de alterar a língua herdada para efetivar uma mudança
social, os puristas linguísticos queriam o retorno a uma forma
intuitivamente 'mais pura' de sua língua. Talvez o principal motivo
dos primeiros gramáticos sânscritos, gregos, latinos e árabes não fosse
tanto 'entender' a língua (no sentido científico moderno) quanto
prescrevê-la — ou seja, definir e petrificar sua forma 'mais pura na
língua escrita. O mito de uma língua antiga e pura de antecessores
mais sábios sempre pareceu subjacente a essa atividade. Quando os
estudiosos da Renascença introduziram uma profusão de empréstimos
gregos e latinos em todas as línguas europeias para criar um novo
vocabulário filosófico e científico, a maré de palavras
subsequentemente geradas provocou, no século dezessete,
'purificações linguísticas' que procurou se livrar de todos os elementos
estrangeiros percebidos na língua e prescrever um uso 'apropriado', ou
seja, mais antigo, da língua. Apenas no século dezoito, um equilíbrio
racional entre os dois extremos foi, finalmente, alcançado.
Em Florença, na Itália, vários estudiosos e poetas se reuniram
em 1582 para fundar a Accademia della Crusca com a intenção de
expulsar todas as palavras estrangeiras da língua nacional e elevar as
características do italiano sentidas como nacionais, baseando o ideal
particularmente nos reverenciados textos de Dante e Boccaccio. A
Accademia prosperou durante dois séculos e inspirou sociedades
semelhantes em toda a Europa. A Alemanha contava com várias,
sendo a mais antiga e respeitada a Fruchtbringende Gesellschaft

240
(1617-80) em Weimar, a qual pertenciam todos os poetas alemães
importantes do século dezessete. De maneira semelhante, a França
estabeleceu a Academie Française em 1635, que até hoje permanece
sendo a instituição prescritiva de supervisão da língua mais respeitada
da França.
A Royal Society inglesa foi fundada em 1662, principalmente
para tentar superar a França. Até então, a Inglaterra já reclamava havia
muito tempo da impureza da língua. No final do século quinze, o
tipógrafo Willian Caxton havia protestado contra 'Termos curiosos
que não podiam ser entendidos por pessoas comuns'. Centenas de
palavras emprestadas do francês competiam com palavras inglesas
nativas: rock/stone, realm/kingdom, stomach/belly, velocity/speed,
aid/help, cease/stop, depart/leave, parley/speak.33 A solução inglesa:
manter ambas, mas conferir a cada uma delas uma diferente nuance ou
valor social (que também sofreram vários deslocamentos e
substituições). Isso enriqueceu a língua inglesa de modo que poucas
línguas do planeta experimentaram, basicamente tornando o inglês um
produto de duas famílias linguísticas diferentes, a germânica e a
itálica. Em 1577, o historiador Ralph Holinshed pôde declarar: 'Não
há uma língua falada em nossa época que tenha possibilitado tão
grande variedade de palavras e número de expressões quanto o inglês'.
Outros criticaram o empréstimo sem restrições, porém,
disciplinando aqueles que 'remendavam os buracos com retalhos de
outras línguas, emprestando aqui do francês, ali do italiano, e também
do latim, sem pesar como essas línguas vão combinar entre si, e muito
pior, com a nossa língua: então, agora, eles querem transformar a
nossa língua inglesa numa mistura ou miscelânea de todas as outras
línguas'. Samuel Johnson, que, no século dezoito tentou escrever o
primeiro dicionário 'completo' de inglês, declarou que seu objetivo

241
era 'redefinir nossa língua a uma pureza gramatical e limpá-la dos
barbarismos coloquiais'. Johnson, é claro, estava desde o início
condenado ao fracasso, uma vez que não existe algo como uma 'língua
pura. Em particular no inglês, das 10.000 palavras utilizadas com
mais frequência, apenas 31,8% foram herdadas do germânico, sendo
as restantes 45% provenientes do francês, 16,7% do latim e o restante
de várias outras línguas menores. (O inglês também apresenta um
superestrato francês em sua gramática e fonologia, mas ele não é tão
pronunciado quanto seu vocabulário.) Porém, das 1.000 palavras mais
frequentes do inglês, 83% derivam do inglês antigo, 12% do francês e
2% do latim.
O erro dos puristas linguísticos sempre foi a não percepção de
que o empréstimo é uma das grandes forças de uma língua. As línguas
humanas não são pedras, são esponjas. Essa qualidade é uma dádiva
em sua maravilhosa criatividade, assim como em sua adaptabilidade e
viabilidade. Mesmo assim, em toda a história, purificações
linguísticas ocorreram de tempos em tempos. Na Primeira Guerra
Mundial, por exemplo, palavras alemãs ou relacionadas ao alemão em
inglês foram anglicizadas: 'pastor alemão' se tornou 'alsaciano',
Battenberg' se tornou 'Mountbatten', e assim por diante. De maneira
semelhante, devido à aberração ariana das décadas de 1930 e 1940, os
nazistas tentaram purificar a língua alemã de todas as influências
estrangeiras, particularmente as judias. Ao mesmo tempo, a Rússia
purificava a língua russa de todas as palavras capitalistas em toda a
União Soviética, para criar um 'vocabulário puro, socialista',
semelhante a uma miragem.
Quando a Indonésia se tornou independente da Holanda, após a
Segunda Guerra Mundial, o novo governo substituiu o holandês pelo
bahasa indonésio — até então apenas uma das línguas locais — como
a

242
língua do governo, da corte, da mídia e da instrução. Um conselho de
língua e literatura foi estabelecido para criar uma nova terminologia e
traduzir os materiais holandeses para o bahasa indonésio usando essa
terminologia. Isso significava um bahasa indonésio totalmente 'puro',
planejado, sancionado e implementado pelo governo central. Toda
educação na Indonésia vem sendo, desde então, transmitida por essa
nova língua artificial, resultando numa rápida redução da rica
diversidade linguística da Indonésia.
Os maoris da Nova Zelândia são cerca de 11 % da população,
mas apenas um em cada vinte maoris fala ativamente a língua maori,
um idioma polinésio (todos os maoris falam inglês fluentemente). No
entanto, devido à campanha pelos direitos dos nativos da Nova
Zelândia, inspirada pelos movimentos a favor dos direitos civis dos
negros nos EUA, um conselho linguístico semelhante ao da Indonésia
foi estabelecido para criar um novo vocabulário maori incluindo itens
da cultura e tecnologia ocidentais desconhecido em maori. Como essa
é uma ação preconceituosa para 'proteger' o maori do inglês, não é
necessária, nem frequentemente aplicada. O plano não pode ser
comparado a medidas tomadas em outras partes do mundo para
preservar um língua nacional majoritária.
Um exemplo, a Islândia é outro país que pratica a purificação
linguística. O irlandês é a língua germânica da maioria dos
descendentes de colonizadores, em grande parte nórdicos (mas
também irlandeses), que se instalaram na Islândia a partir de 874 d.C.
Devido à pequena população islandesa, de cerca de 270.000 pessoas,
o que torna a Islândia um país particularmente vulnerável a
influências estrangeiras, e devido a um forte orgulho étnico, um
conselho linguístico especial se encontra regularmente para 'islandizar'
qualquer novo termo, em grande maioria tecnológico' que entre na
língua, como sjónvarp para

243
'televisão' (literalmente Visão a distância'). O trabalho do conselho
vem ajudando na sobrevivência da língua islandesa.

PROPAGANDA E LÍNGUA
Uma sociedade também ofusca, mente e engana por intermédio
da língua, com consequências terríveis para a liberdade pessoal de
seus membros que ficam assim privados do direito de alcançar um
consentimento democrático. Tal mau uso da língua é sintoma de uma
sociedade doente. No passado, governos que praticaram esse mau uso
por períodos prolongados invariavelmente pereceram.
O 'politicamente correto' é primeiro e principalmente
linguístico. Uma pessoa é prejudicada se não fala a língua daqueles
que estão no poder.34 Os antigos atenienses tiveram de usar os lógoi
que rebaixaram os espartanos e defenderam os valores atenienses.
Após a invasão romana, os celtas londrinos tinham o cuidado em
evitar qualquer latinismo que pudesse insultar o domini novi.
Enquanto os monges medievais exerciam a castidade da fala, os
vikings que os assassinaram escolheram o tal que exaltava sua
coragem entre seus guerreiros. Com a imprensa surgiu uma censura
mais rigorosa, e os escribas se tornaram escritores e editores que
escolhiam cuidadosamente o usus scribendi que não colocasse em
perigo a precisa impressão aos olhos do príncipe ou bispo local.
A mídia em particular, com o advento dos primeiros jornais no
final do século dezesseis, tinha de ser especificamente cautelosa com
seu vocabulário ao relatar e criticar. Por esse motivo, a palavra
impressa representa normalmente um compromisso linguístico
diferenciado do uso da fala. A palavra impressa também leva
frequentemente ao erro. Nos EUA, na primeira metade do século
dezenove, o 'Manifest

244
Destiny' foi uma provocação jornalística que promovia a matança de
americanos nativos e a posse de suas terras. Um século depois, os
movimentos anticoloniais após a Segunda Guerra Mundial quase
sempre foram chamados, caso lutassem contra a Aliança Ocidental, de
'grupos de guerrilha' ou 'insurgentes comunistas', ou caso se
opusessem ao Bloco Oriental de 'rebeldes capitalistas', 'fascistas',
'bandidos' e assim por diante. A antifaschistische Schutzmauer ou
'forte antifascista' da Alemanha Oriental era, na verdade, uma prisão
que mantinha milhões de pessoas encarceradas. Mesmo após a Guerra
Fria, a retórica propagandística persiste.
A propaganda trabalha de modo sutil. Numa entrevista à rádio
de Joanesburgo em 1998, um entrevistador branco usou a expressão
'vocês, afro-americanos', enquanto seu entrevistado respondeu com
um 'vocês, brancos', uma inversão irônica de antigas ofensas
linguísticas na região. (Hoje, a África do Sul está num período em que
os jornais brancos se classificam como 'pós-apartheid', mas os jornais
negros como 'pós-libertação'.) Convoluções linguísticas semelhantes
são frequentemente empregadas no mais alto nível para mascarar os
excessos corporativos multinacionais: poluição radioativa, bioinvasão,
emissões excessivas de dióxido de carbono, desmatamento de
florestas tropicais, aumento do buraco da camada de ozônio. Quando
esse mascaramento ocorre somente para o lucro de empresas, alguns
acreditam que o 'consentimento de produção' — ou seja, que a mídia
manipula a língua para comunicar a desinformação e uma realidade
composta a favor de uma minoria privilegiada — pode causar, na
nossa era de comunicação global, danos graves em sistemas
democráticos, na humanidade em geral e em toda a natureza.35
Pode-se lembrar com horror da sanitarização linguística. A
Endlösung ou 'Solução Final' de Adolf Hitler encobria o assassinato
em

245
massa dos judeus europeus. Nos EUA, durante a Guerra do Vietnã, as
expressões 'levar alguém para fora' e 'higienizar' substituíram 'morte' e
'assassinato'. Mesmo no final do século vinte, após a Guerra Fria, o
pentágono ainda chamava bombas de 'dispositivos liberados
verticalmente feitos para atingir pessoas'. Mortes humanas viram
'contagens de corpos'. Muitos acreditam que a sanitarização linguística
é necessária, pois permite que o ser humano cometa atos inumanos.
Num fenômeno semelhante, os soldados reduzem o inimigo a um
coletivo de não entidades para se convencerem de que suas vítimas em
potencial são diferentes de seres humanos comuns e, portanto,
assassináveis. Para os gregos antigos, os persas eram apenas bárbaroi
ou 'bárbaros'. Na Guerra da Independência Norte-Americana, ou se
estava com os 'redcoats' ou com os 'yankees'; na Guerra Civil
Americana, 'Johnny Rebs', ou novamente 'yankees'; no Sudão, os
'fuzzy-wuzzies'; na Primeira Guerra Mundial, os 'Hunos'; na Segunda
Guerra Mundial os 'Heinies', 'Jerries', 'Krauts', 'Fritz' ou 'Japas'; e no
Vietnã, simplesmente 'Charley'.
Na verdade, os oficiais são ensinados a encorajar tais usos da
língua. Às vezes, seu uso é indecoroso para políticos íntegros. No
quartel do general Eisenhower, em Londres, durante a Segunda
Guerra Mundial, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill
ouviu um coronel norte-americano perguntar, após uma batalha: 'Qual
a contagem de PDC?' Churchill perguntou: 'O que é PDC?' 'Pessoal
danificado em combate', respondeu o coronel. 'Nunca mais diga essa
expressão detestável na minha frente', irritou-se Churchill. 'Se você
estiver falando sobre as tropas britânicas, refira-se a eles como
'soldados feridos'.
Debochando da razão e dos sentimentos, a língua afetada da
burocracia também é endêmica em todas as nações que possuem es-

246
crita. O 'oficialês', em seu sentido mais amplo, degrada quase todas as
inscrições monumentais egípcias e maias antigas, uma vez que elas
comunicam em alto grau mensagens estilisticamente do e sobre o
autoengrandecimento do poder central. Hoje o abuso é comum. Em
inglês, inumeráveis títulos ocupacionais receberam recentemente
novas denominações quase incompreensíveis: 'undertaker' ou
'mortician' se tornou 'diretor funerário' e então bereavement care
expert; 'caretaker' (Inglaterra) ou 'janitor' (Escócia, Canadá e EUA) se
tornaram hoje 'sanitary engineer'.36 De modo mais sinistro, conceitos
perfeitamente compreensíveis desaparecem cada vez mais, dando
lugar a expressões mais ambíguas que escondem realidades
desagradáveis ou politicamente incorretas. Alguns textos são
frequentemente escritos de maneira tão confusa, que desafiam o senso
comum; e algumas vezes esse é o objetivo do autor.
Para conter tais abusos linguísticos, foi lançada uma Campanha
pelo Inglês Compreensível em 1979, para persuadir as organizações a
se comunicar com o público numa linguagem direta. Contrários ao
mau estilo, à ambiguidade e ao ofuscamento, os diretores do
movimento reclamam do oficialês, do legalês e das 'letras miúdas', ou
seja, do engodo linguístico implícito. O trabalho da campanha
'transformou a linguagem e a forma da informação transmitida ao
público no Reino Unido', com repercussões internacionais. O editor da
Oxford Companion to the English Language escreveu recentemente:
'Em toda a história da língua [inglesa], nunca houve um movimento
popular com uma influência tão forte quanto a Campanha pelo Inglês
Compreensível. Um exemplo de reescrita em inglês compreensível:
Ambientes de ensino e alta qualidade são uma pré-condição necessária
para a facilitação e intensificação do processo de aprendizado' se
torna: 'Crianças precisam de boas escolas para aprender bem'.

247
LÍNGUA DE SINAIS
Todas as línguas vivas do mundo combinam gestos com a fala,
indicando que alguma forma de 'sinal' sempre fez parte da
comunicação humana. Alguns acreditam que foram os sinais
primitivos que desencadearam o desenvolvimento da língua vocal nos
primeiros seres humanos. Mas uma 'língua de sinais' per se também
consegue se sustentar sozinha como um sistema organizado de
símbolos criados naturalmente, mecanicamente ou eletronicamente
para transmitir mensagens a longas distâncias; e de gestos feitos com
as mãos e/ou pantomimas no lugar da língua falada entre pessoas com
uma língua comum ou entre indivíduos fisicamente incapazes de falar
e/ou ouvir. A semiótica é a teoria filosófica dos símbolos e sinais que
lida particularmente com sua função nas línguas naturais e construídas
artificialmente.
Seres humanos sempre transmitiram mensagens a distância
através de uma forma de língua de sinais: fumaça, tambores, conchas,
flechas, trompetes, cornetas, entre muitos outros meios.37 Os gregos
antigos faziam sinais para navios refletindo o sol em escudos de
bronze polidos. Os romanos usavam trompetes e estandartes para
sinalizar uma batalha. Os chineses empregavam rojões coloridos em
código e pólvora. Os norte-americanos nativos frequentemente
transmitiam sinais especiais por entre extensos vales pelo uso de
nuvens de fumaça, como uma espécie de Código Morse primitivo.
Códigos em bandeiras são usados por navios mercantes e marinhas há
milênios. Com o surgimento das ferrovias no século dezenove, surgiu
um sistema de sinais gerais feitos com lanternas que significavam
'liberar freios', 'parar', 'voltar' e assim por diante. Com o telégrafo
surgiram códigos linguísticos elaborados que também podiam ser
usados por outros

248
meios de sinalização física: o Código Morse, por exemplo, é usado
por bandeiras de mão, projeção de raios de sol, ou, à noite, por tochas,
lanternas ou outras fontes de luz; se a distância for curta, o Código
Morse também pode ser transmitido por meio de assobios, buzinas,
tambores, entre outros meios.
A língua falada também é transmitida por meio de gestos
preestabelecidos. A língua de sinais monástica é usada dentro de
monastérios europeus desde a Idade Média como segunda língua,
permitindo a comunicação sem a quebra de votos de silêncio. Não há
falantes de uma 'língua-mãe' da língua de sinais monástica. A língua
de sinais dos índios das planícies norte-americanas, compartilhada por
falantes de grupos linguísticos mutuamente ininteligíveis, é um
manual de linguagem elaborado que consegue expressar objetos
naturais, conceitos, emoções e sensações por meio de uma sintaxe
sofisticada que beira a gramática. Ela foi projetada na América do
Norte após a introdução de cavalos pelos espanhóis vindos do sul das
Grandes Planícies, e o cerco de armas francês ao leste. Permitindo
conversações detalhadas, os Sinais das Planícies permitiam a troca de
informações sobre comércio, caça e informações sociais não apenas
com outras nações americanas nativas, mas também com os europeus.
Dentro das nações individuais, os Sinais das Planícies ainda são
usados hoje em dia para lendas, preces, rituais e contação de histórias;
eles não são mais usados entre as nações, uma vez que todos os
americanos nativos são agora fluentes em inglês. A língua de sinais
dos índios das planícies não é uma língua de sinais para deficientes
auditivos e permanece apenas como segunda língua.
Para os deficientes auditivos que conhecem a língua de sinais,
ela é a primeira língua. Com bem mais de 100 línguas individuais
sendo transmitidas — do catalão ao chinês e do mongol ao maia — a

249
língua de sinais para deficientes auditivos é o maior grupo de língua
de sinais atualmente usado no mundo. Na verdade, a língua de sinais
diz respeito principalmente à cultura dos deficientes auditivos, com
um número significativo de pesquisas e outras atividades no campo
que, atualmente, conta com dezenas de milhões de praticantes.
A Abbé de l'Épée, que em 1770 fundou em Paris a primeira
escola para surdos e deficientes mentais, projetou um alfabeto especial
expresso com uma mão para seus estudantes. Mais tarde, foi elaborado
um alfabeto expresso por duas mãos, cujo método é atualmente usado
pela maioria dos deficientes auditivos. A língua de sinais dos
deficientes auditivos não é uma língua separada, mas, em geral, o
alfabeto de uma língua natural codificado por meio de sinais manuais.
Ao copiar a língua de sinais dos índios das planícies e o exemplo
francês, especialistas em deficientes auditivos norte-americanos
elaboraram dois tipos de linguagens gestuais manuais, das quais
derivam a maioria das línguas de sinais para deficientes auditivos do
mundo: o primeiro de sinais naturais, que, como no caso do sistema
dos povos das planícies, assinala objetos e conceitos com base na
língua falada; e o segundo de sinais sistemáticos, que sinaliza palavras
ou letras do alfabeto individuais, com base na língua escrita. A
maioria das pessoas que se comunica por sinais no mundo hoje usa a
Língua de Sinais Americana. Ela também é usada para a comunicação
com animais (ver Capítulo 1).

LÍNGUAS AMEAÇADAS E
EXTINÇÃO DE LÍNGUAS
As línguas morrem mais frequentemente do que os povos que as
falam. Na verdade, a história humana da Europa dos últimos 50.000
anos abarca uma esmagadora substituição linguística, e não genética.

250
Embora os livros citem cerca de 5.000 línguas existentes,
provavelmente apenas cerca de 4.000 ainda são faladas atualmente, e
esse número diminui rapidamente. Estima-se que talvez menos de
1.000 dessas línguas continuaram sendo faladas no início do século
vinte e um. A integração social e a dissolução étnica nunca foram tão
pronunciadas na história humana.38 Línguas sempre desapareceram,
por motivos econômicos, culturais, políticos, religiosos, entre outros.
Não é necessário ser uma minoria para perder uma língua: a maioria
das línguas majoritárias da Europa foi substituída por uma minoria de
línguas indo-europeias no decorrer de várias ondas de invasões do
leste. O risco de extinção das línguas é, atualmente, um dos maiores
desafios culturais da humanidade, apresentando enormes problemas
científicos e humanistas.39
Ao contrário da opinião geral, a extinção de uma língua como
resultado de uma catástrofe — seca, guerra, terremoto, erupção de
vulcões, deslizamento, tsunami e inundação — é extremamente rara.
Embora em épocas mais antigas assassinatos, doenças e exílios
fossem causas mais frequentes de perda da língua, na história humana
mais recente, essa perda, que é quase sempre uma substituição da
língua, é muito mais frequentemente 'voluntária', ou seja,
'relutantemente desejada'. Desse modo, os pré-indo-europeus da
Aquitânia se renderam ao gaulês dos celtas, e, depois, o próprio gaulês
cedeu ao latim de Roma. A maior parte dos celtas britônicos da
Bretanha aceitou o latim dos seus ocupantes minoritários de maneira
semelhante, e depois finalmente adotaram o germânico dos ocupantes
minoritários que se seguiram. O polábio, a língua eslava dos eslavos
ocidentais que ocupavam a região entre os rios Elba e Oder, foi
finalmente assimilado pela língua e a cultura alemã cerca de 1750 d.C,
após 800 anos de contato próximo; mesmo assim, os vênedos ou
sorábios, eslavos ocidentais

251
do alto e médio rio Spree, a sudeste de Berlim, conseguiram manter
sua língua e cultura eslava até os dias de hoje, como resultado de uma
série de circunstâncias fortuitas. Após 500 anos de colonização, quase
toda a América Latina fala hoje o espanhol. A pequena Ilha de Páscoa,
que atualmente já não é mais o último refúgio do planeta, também está
finalmente se rendendo ao espanhol, trocando seu patrimônio
polinésio por renda financeira. Quando ocorre o contato com uma
força estrangeira 'superior', pais e mães de todo o mundo aconselham
seus filhos a se encaixarem, desejando sua segurança e progresso. São
normalmente eles que substituem sua língua por outra, encorajando ou
tolerando o bilingualismo. As crianças eventualmente acabam se
tornando monolíngues no novo idioma.
Apesar dos ganhos imediatos produzidos pela substituição da
língua, aqueles que abrem mão voluntariamente de seu idioma
invariavelmente sentem a perda da identidade étnica, uma derrota
causada pelo poder colonial ou metropolitano (com concomitantes
sentimentos de inferioridade) e traição penosa a seus ancestrais
sagrados. Ela também causa a perda de histórias orais, cantos, mitos,
religiões e vocabulário técnico, assim como das tradições, costumes e
comportamento prescrito. Toda sociedade antiga desaba, e quase
sempre a nova língua não consegue preencher o vácuo resultante,
tendo como consequência gerações perdidas em busca de uma nova
identidade, de 'algo de valor'.
Uma alternativa à substituição da língua é o bilingualismo
permanente. Ou seja, o povo continua falando sua língua nativa entre
eles ao mesmo tempo em que também usa ativamente uma língua
metropolitana, como o Inglês Padrão Internacional ou o espanhol para
se comunicar cora os outros. Em grandes populações de falantes, a
solução funciona eminentemente. Mas entre populações menores, ela

252
quase invariavelmente acarreta a substituição pela língua
metropolitana. Línguas verdadeiramente minoritárias, ou seja, aquelas
faladas por cerca de 20.000 pessoas ou menos, dependentes das
circunstâncias, só conseguem ser preservadas por meio do total
isolamento. Qualquer outro meio significa uma aniquilação certa.
Não apenas as línguas estão sendo perdidas numa velocidade
sem precedentes. Os dialetos também estão desaparecendo. Todos os
dialetos regionais de línguas ouvidas em transmissões midiáticas estão
se rendendo ao dialeto prestigiado que os centros governamentais ou
corporativos escolheram para serem representados pela mídia
(normalmente o dialeto da própria classe governante). É um
nivelamento da variedade linguística comparável ao desmatamento
das florestas tropicais. Além disso, desde o início do século dezenove,
a instrução também é tradicionalmente transmitida na língua
prestigiada de uma nação e no dialeto prestigiado desta língua. Isso
resultou, do mesmo modo, numa grande uniformidade da fala, como,
mais comumente, impuseram os modos 'prescritivos'.
A maioria das tentativas de salvar línguas ameaçadas falhou. Às
vezes argumenta-se que manter a variedade linguística é tão essencial
para a humanidade quanto manter a diversidade da flora e da fauna,
com o intuito de evitar um mundo culturalmente esvaziado.40 Porém,
cada cultura muda para se adaptar e sobreviver; isso não é perda, é
evolução social. Há muito mais linguistas estrangeiros entusiasmados
em salvar línguas ameaçadas do que dentro das comunidades que as
falam. Para propósitos científicos, as línguas ameaçadas precisam ser
documentadas em descrições formais, sem demora e com todos os
recursos disponíveis. Mas elas não podem ser salvas.
Uma vez mortas, as línguas também não podem ser
'ressuscitadas'. Não há um Lázaro entre as línguas. Frequentemente
ouve-se que

253
O hebraico é um 'renascimento' moderno. Porém, o hebraico nunca
chegou a morrer. Sempre considerada a língua prestigiada por seus
falantes, por motivos religiosos e étnicos, o hebraico foi a língua
escrita e cantada dos serviços religiosos judaicos, então, era
constantemente ouvida e falada. Eventualmente, devido à necessidade
política da fundação de um estado judeu em 1948, o hebraico foi
elevado de segunda língua ritual para primeira língua ativa. Tentativas
de renascimentos linguísticos modernos, como no caso do manês e do
córnico, invariavelmente permanecem como uma distração de
pequenos grupos interessados, sem repercussões linguísticas de larga
escala: as línguas metropolitanas que as substituíram permanecem
como primeira língua. A maioria dos linguistas aceita que a extinção
em massa de línguas humanas já é uma conclusão inevitável, o preço
que a humanidade paga pela nova sociedade global.

HUMOR VERBAL
Dos muitos tipos de humor — pantomímico, gestual,
situacional, musical, ilustrativo, gráfico, simbólico, e assim por diante
— o humor verbal é de longe o mais comum, e constitui igualmente
um elemento essencial da sociedade humana. Todas as sociedades
usam o humor verbal. Ele implica brincar com a língua em múltiplos
níveis, do ridículo ao sublime, apelando para o lúdico ou o
absurdamente incongruente. Frequentemente com uma interação
desses níveis ao mesmo tempo, a manipulação linguística une opostos
de uma maneira súbita ou inesperada, para produzir, pelo menos
inicialmente, a surpresa e o deleite.41
Pode-se assumir que formas mais sofisticadas de humor verbal,
como a sátira, a ironia e a paródia sempre existiram. Porém, uma parte
extraordinariamente grande do humor antigo que sobreviveu parece

254
ter uma natureza sexual, uma forma de humor verbal evidentemente
universal. Isso não significa que as sociedades mais primitivas eram
mais promíscuas. Pelo contrário, indica o oposto. O humor verbal
revela o que normalmente é suprimido numa sociedade e como as
sociedades mais antigas mantinham um decoro rígido com
comunidades pequenas e próximas, e, frequentemente regras quase
sufocantes de fala e conduta, histórias picantes e mesmo obscenas
eram mais bem-vindas por sua condição de 'enema social'.42 O humor
está em revelar aquilo que é oculto e mencionar o que não é
mencionado — o choque da justaposição súbita produz o riso
imediato. A crítica social mordaz que só podia ser feita quando
ocultada pelo humor também era apreciada.
No antigo Egito, o 'país que possuía tantas maravilhas', nas
palavras de Heródoto, o humor sem dúvida temperava a dieta diária.
'Os ouvidos de um menino estão em seu traseiro, explicou um antigo
escriba, 'pois ele ouve melhor quando apanha!' Um amante do Nilo
escreveu sobre sua amada (numa tradução livre): 'Se eu a beijo e seus
lábios estão abertos, fico bêbado sem cerveja!'
O mais antigo humor verbal europeu conhecido é a história
homérica em que Odisseu diz ao ciclope Polifemo que seu nome é
'ninguém'. Quando os outros ciclopes ouvem os gritos de dor de
Polifemo e correm para ajudá-lo, perguntam o que o está machucando,
Polifemo responde: 'Ninguém!', e eles vão embora.
O poeta romano Marcial escreveu como Pompeia foi destruída
pela erupção do Monte Vesúvio em 79 d.C: 'Mesmo para os deuses,
isto é ir longe demais'. Entre as pichações encontradas em Pompeia
está uma que diz: 'Você acha que eu me importaria se você morresse
amanhã?' Um marido romano escreveu à sua esposa, que havia
comprado cremes caros: 'Você está estocada em centenas de
potinhos...

255
seu rosto não dorme com você!' E no século dezoito, os descendentes
dos romanos disseram sobre a coleta do Grande Tour: 'Se o Coliseu
fosse portátil, os ingleses o teriam levado embora!'
A Idade Média foi um período particularmente rico para o
humor, um fato frequentemente esquecido pelos estudiosos. Um
fragmento da última página das 'Cambridge Songs', copiado em cerca
de 1050 d.C. preserva a lírica latina, cantada por uma mulher à sua
amante (um dos gêneros literários preferidos da época):

Venha para mim, meu querido amor — com ah! e oh!


Me visite, e você experimentará delícias — com ah! e oh! e ah!
e oh!
Estou morrendo de desejo — com ah! e oh!
Como anseio pelo fogo de Vênus — com ah! e oh! e ah! e oh!...
Se você vier e trouxer sua chave — com ah! e oh!
Como será fácil entrar — com ah! e oh! e ah! e oh!

Numa canção espanhola de al-Andaluz (Andaluzia) do início do


século doze, uma jovem canta a seu amante: 'Eu lhe darei tanto amor
— mas apenas se você dobrar meus tornozelos acima dos meus
brincos!'
Guilherme IX da Aquitânia (1071-1127), o primeiro poeta lírico
secular da França que conhecemos pelo nome, uma das
personalidades mais interessantes da Idade Média, duque de Poitou e
Aquitânia e avô de Eleanor da Aquitânia, que se tornou depois a
rainha da Inglaterra, cantou para seu grupo de companhos (cavaleiros
e soldados) sobre suas 'duas esplêndidas éguas que [eu] posso montar'.
Mas elas não se suportam; se ele apenas conseguisse domá-las, teria
'uma melhor montaria do que qualquer outro homem. Então, ele pede
a seu

256
público que 'resolva minha difícil situação: nunca uma escolha causou
tanta confusão. Não sei quem manter agora — Agnes, ou Ermensent!'
(nomeando duas damas nobres de sua corte).
O mais antigo canto polinésio reconstituído da Ilha de Páscoa,
composto em cerca de 1800 d.C, termina com a fala de um
adolescente escarnecendo das meninas adolescentes:

Por que a devoção à música? — para ficar dentro do buraco.


Dentro do buraco onde? — [nas] ti folhas onde são deitadas
Quando [uma vez que] não houver chuva, contorcendo,
preenchendo.
Armem um briga, jovens mulheres, temendo que a flor seja
domada, ha!

O humor verbal foi exaltado como uma raridade até ou antes de


William Shakespeare, quando, em sua peça a Tragédia do Rei Lear,
de 1606, ele permitiu que o Bobo da Corte revelasse o mais profundo
objetivo do humor: trazer à tona as mais feias verdades da vida.
Quando Lear protesta: 'Você me chamou de bobo, menino?' o
Bobo da Corte responde: 'Já abandonaste todos os outros títulos; mas
este é de nascimento'.
Mais tarde. 'Quem está aí que pode dizer quem eu sou?' chora
Lear. A sombra de Lear', responde o Bobo.
E então: 'Se o cérebro de um homem estivesse em seu
calcanhar', diz o Bobo, 'ele não correria o risco de ter frieiras?' Ah,
menino', diz Lear. 'Então, eu peço, seja feliz; teu espírito não andará
de chinelos'. Ao que Lear ri ingenuamente: 'Ha, ha, ha!'

257
Perto do final trágico de Lear, o Bobo aconselha Kent: 'Soltes a
roda quando ela começar a rolar morro abaixo, para não quebrar o
pescoço seguindo-a; mas quando a roda grande subir o morro, deixe
que ela te arraste. Quando um homem sábio lhe der um conselho
melhor, devolva com o meu: quisera eu que apenas os velhos o
seguissem, bobo que sou'.

Pela primeira vez na história humana, o papel supremo da língua


na transmissão, formação e retratação de todos os fenômenos sociais é
considerado, e essa consideração começou a ser aplicada a amplos
problemas sociais, educacionais e políticos. Essa é a tarefa da
sociolinguística que, por meio do estudo do uso da linguagem na
sociedade, une teoria, descrição e prática.
A principal preocupação da sociolinguística é a mudança na
língua que marca os pontos de atrito da atividade humana; assinala a
morte de crenças e o surgimento de conceitos; define os limites do
tolerável; revela as maquinações dos que estão no poder; e, talvez, o
mais importante, registra a evolução da consciência e sensibilidade
humanas reveladas pela língua. O uso de línguas comuns e construídas
artificialmente demonstra uma necessidade fundamental das
sociedades humanas de se comunicar de maneira igualitária. Em toda
história, as sociedades se identificam mais com outras de fala
semelhante; por causa disso, surgiram nações com um único idioma.
Minorias étnicas dentro dessas nações também se empenham em
expressar sua contribuição única por meio da língua. A independência
colonial em regiões multiétnicas revelou a importância da língua no
estabelecimento de um sentido de nacionalidade.
Na geração passada, a reinvenção do papel da mulher na
sociedade assistiu uma 'purificação de gênero' na língua inglesa. A
purificação

258
linguística ocorre na história humana quando a sociedade muda de
maneira proeminente, quando há um número demasiado de
empréstimos estrangeiros, ou quando um regime declara uma agenda
nacionalista. A propaganda e o politicamente correto são fenômenos
sociais que sempre contaminaram as línguas; na verdade, ambos
tornaram possíveis os atos mais hediondos da humanidade. Mas
bem-vindos, no entanto, são os movimentos que 'limpam' e
'simplificam' as ofuscações linguísticas e engodos da burocracia.
A língua de sinais é em suas várias formas a demonstração da
necessidade que a sociedade tem de se comunicar quando a língua
vocal falha fisicamente, um fenômeno biológico ao qual muitas
sociedades recorrem por meio de uma linguagem sistematizada de
gestos. As mais de 100 línguas de sinais para deficientes auditivos do
mundo testemunham a maravilhosa plasticidade e utilidade dessa
forma de linguagem. Ura fenômeno social ligado à língua humana é a
morte da língua. Dezenas de milhares de línguas desapareceram desde
que a primeira fala humana surgiu. Ao contrário da crença comum, a
maioria simplesmente evoluiu numa nova língua, ou foi
voluntariamente substituída por uma língua intrusa porque se esperava
conseguir com isso algum benefício. Todo contato linguístico é
enriquecedor.
Essas manifestações ocorreram com os triunfos e tragédias da
vida, sempre contando com o humor verbal, a arte linguística que
permite que a humanidade zombe da adversidade e ria em face da
aflição enquanto examina as profundidades da vida.
Dessas e de muitas outras fascinantes maneiras, a língua é a
maior medida da sociedade humana. Mais do que qualquer outra
faculdade, é a língua que nos diz quem somos, o que queremos dizer e
para onde vamos.

259
8

Indicativo futuro

Como serão as línguas do planeta no futuro? Não se pode prever


com precisão um futuro linguístico, uma vez que tantos fatores não
linguísticos remodelam constantemente a língua de uma sociedade:
mudanças econômicas, insurreições civis, migrações de massa, o
aumento súbito da influência de nações, novas tecnologias, novidades
sociais, entre muitos outros fenômenos. Porém, o exame das
mudanças linguísticas passadas e o reconhecimento das tendências
linguísticas atuais podem fornecer cenários linguísticos possíveis, pelo
menos para um futuro próximo. Pode-se também desejar considerar as
atividades governamentais e estrategistas corporativas —
principalmente em língua inglesa — que estão ardentemente
expandindo seus campos de atividades no presente, aumentando a
probabilidade de que sua língua (inglesa) prevaleça sobre as línguas
de não estrategistas nas décadas futuras.

261
O simples esboço de analogias com as mudanças e dinâmicas
linguísticas passadas não apresenta uma validade qualificativa. Todas
as relações tradicionais de poder político, cultural e econômico entre
as nações ocidentais e o resto do mundo se encontram num processo
de transformação sem precedentes. Hoje, esta parece ser uma
característica global permanente, que, talvez, criará uma nova ordem
mundial cuja natureza e qualidade ainda são em grande parte
desconhecidas. Mas que, provavelmente, privilegiará as maiores
nações e corporações, e quanto maiores elas forem, menos línguas
existirão.
Não é simplesmente a mudança e perda (substituição), como no
passado, que atualmente descreve a história linguística, mas também a
expansão do domínio da língua a um grau sem precedentes na
sociedade humana. Ela está reinventando o significado da própria
palavra 'língua'. Novas tecnologias, como as linguagens de
programação (de computadores), estão elaborando extensões
inovadoras da fala humana, permitindo um novo meio de linguagem
que se comunica artificialmente consigo mesmo.
Embora as línguas sobreviventes do planeta continuem a mudar
de modos familiares, uma dimensão linguística tradicional foi alterada
para sempre. Em toda a história, a língua esteve relacionada com o
território geográfico — a terra. Agora, o atlas linguístico não faz mais
sentido. A língua significa principalmente tecnologia e riqueza, um
novo mundo sem fronteiras, onde a única direção é para cima ou para
baixo, separando aqueles que têm dos que não têm. A proficiência na
única língua corporativa do planeta — talvez, em última análise, o
inglês — logo definirá o lugar de casa pessoa no planeta... e além.

262
LINGUAGENS DE PROGRAMAÇÃO
Os computadores facilitam a manipulação da descrição de
valores, propriedades e métodos para fornecer mais prontamente
soluções para problemas particulares. O resultado de um processo de
programação é um programa para processamento de texto, sistemas
operacionais, bancos de dados e outras atividades computadorizadas.
A ferramenta específica que permite os processos de programação é
uma linguagem de programação, uma convenção para descrições
escritas que podem ser avaliadas.1 Uma linguagem de programação
também pode ser usada para pesquisa linguística, como compilador de
pesquisa e no ensino, entre outros.
Muitas definições contrastantes tentam capturar sucintamente a
essência de uma linguagem de programação. Ela é uma linguagem,
sim, porque é um 'meio de troca de informação'. Mas é totalmente
diferente de todas as formas de linguagem anteriormente conhecidas
da humanidade, com exceção, talvez, da escrita, com seus muitos
tipos e formas de reprodução das línguas naturais.2 Para alguns, a
linguagem de programação é simplesmente uma ferramenta para
ajudar o programador. Para outros, é um sistema notável de descrever
a computação de maneira que tanto máquinas e humanos conseguem
ler. Alguns entendem a linguagem de programação como uma notação
que expressa formalmente algoritmos (uma regra de procedimento
para a solução de qualquer problema computacional) de modo que
eles podem ser entendidos tanto por humanos quanto por
computadores. E outros a vêem simplesmente como uma sequência de
instruções para uma máquina.
O propósito de toda linguagem é a comunicação, e assim o
principal objetivo de uma linguagem de programação é se comunicar
com

263
máquinas de mentalidade literal.3 Em sua essência, a linguagem de
programação, com certas exceções, é um mecanismo para descrever a
computação e soluções de problemas. Ela precisa, acima de tudo, ser
lida pela máquina; ou seja, um computador precisa ser apto a traduzir
dados, problemas e instruções em sua própria língua. E uma
linguagem de programação também precisa ser lida por seres
humanos; ou seja, a pessoa tem de estar apta a ler e entender a
descrição da solução.4
Cada linguagem de programação revela diferentes perspectivas
e características da descrição e do projeto de algoritmos, em estruturas
de dados e direção e programas. Como uma língua natural humana,
cada linguagem de programação tem características únicas e
específicas. Isso determina sua adequabilidade a uma tarefa
computacional dada.5 A teoria da linguagem de programação de
computadores normalmente reconhece três aspectos principais de uma
linguagem de programação:

Sintaxe: a linguagem de programação determina os símbolos e


suas combinações permitidas ('legais');
Semântica: são os significados que os programadores designam
para as construções da linguagem de programação;
Modelo de linguagem: este é o domínio, a filosofia ou
paradigma inerente ao programa (ou seja, os modos de abordagem da
computação de modo a solucionar um problema específico).

Há, atualmente, uma grande variedade de modelos de


linguagem ou abordagem de solução de problemas. Entre as mais
importantes (e as seguintes são apenas uma pequena seleção de todas
as abordagens atualmente existentes) estão:6

264
Uma linguagem imperativa aplica um algoritmo a um conjunto
inicial de dados. Aqui, os programas são sequências de comandos
básicos, normalmente tarefas; eles usam estruturas associadas de
controle como sequências, condicionais e curvas que governam os
comandos. Por exemplo, Fortran, Pascal, C e Assembly Code.

Uma linguagem orientada para o objeto tem programas que são


coleções de objetos que se comunicam. Por exemplo, C++, Java,
Eiffel, Simula e Smalltalk-80.

Uma linguagem lógica sequência passos dedutivos garantindo


que a solução fique dentro de uma relação específica ao conjunto
inicial de dados. Ela consiste de programas que são coleções de
afirmações de uma lógica específica, normalmente lógica predicada,
como no caso da linguagem Prolog. Linguagens lógicas equacionais
são OBJ, Mercury e Equational.

Uma linguagem funcional aplica funções (matemáticas) a um


conjunto inicial de dados. Por exemplo, ML, Haskell, FP e Gofer.

Uma linguagem paralela ou concorrente consiste em programas


que são coleções de processos que se comunicam ou cooperam
mutuamente. Por exemplo, Ada, Modula-2 e C*.

Uma linguagem declarativa contém programas que são


simplesmente coleções de fatos. Várias linguagens lógicas e
funcionais estão incluídas nesta categoria.

265
As linguagens de script adotam muitos dos modelos anteriores,
mas são normalmente utilizadas como pacotes de suporte maiores.

Ao adotar um ou mais entre os modelos acima, ou entre outras


abordagens, as linguagens de programação começam a se assemelhar
com os tradicionais modelos de 'famílias linguísticas normalmente, se
não totalmente, associadas com as línguas naturais humanas — elas se
'bifurcam' umas das outras, em outras palavras, criam novas 'famílias'
de linguagens de programação. Mas as principais diferenças das
linguagens de programação são o fato de elas não serem biológicas,
nem vocais (até o momento) e prescindirem de território geográfico.
Elas são um processo interno ao sistema do teclado que só existe no
cyberespaço.
Porém, também isso parece estar evoluindo. Pesquisadores da
Raytheon Systems e da Universidade do Texas, em Dallas,
recentemente desenvolveram um interruptor neural eletrônico para um
sistema nervoso artificial. Ele vai imitar os processos do cérebro
humano e sua rede de comunicação, permitindo a criação de um robô
autônomo que possa receber informações através de vários sensores e
tomar decisões independentes. Em último caso, até a 'fala' entre robôs
e humanos e entre robôs e outros robôs e sistemas computacionais
deve se tornar possível.
Em todo o mundo, os computadores já se 'comunicam' entre si,
através de uma ampla gama de linguagens de programação, de modo
muito parecido à comunicação entre humanos e animais, mas desta
vez a comunicação é induzida pelo humano sem necessariamente ser
guiada por ele. A 'linguagem', em seu sentido mais amplo, está
transcendendo rapidamente o domínio humano para se tornar também
a

266
origem de sistemas eletrônicos artificiais. No presente, não se pode
saber para onde esse desenvolvimento nos levará.

INTERNET, E-MAIL E NEWSGROUP


Um dos recursos mais amplamente usados da internet é o ensino
e o aprendizado de línguas.7 Beneficiando escolas, governos,
empresas e indivíduos, esse uso promove e preserva de uma maneira
até então sem precedentes, não apenas línguas vivas, mas também as
línguas extintas, sendo a mais popular delas o latim clássico.
Professores de línguas de todo o mundo descobriram que um
aprendizado eficiente de um idioma é alcançado por meio da
aplicação de recursos linguísticos da internet em planos de aulas
pessoais. A internet é, portanto, não um fim, mas uma ferramenta
eficaz, um meio para o fim: um melhor aprendizado da língua. A
internet não consegue substituir a interação linguística face a face.8
Um estudo conduzido em 1989-90 com estudantes do ensino
médio na Finlândia, na Grã-Bretanha, nos EUA, na Áustria, no
Canadá, e depois nas Alemanhas ocidental e oriental, na Suécia, no
Japão e na Islândia, mostrou que a comunicação online via e-mail se
assemelha com a comunicação oral, fazendo uso de um estilo
linguístico causai que inclui coloquialismos e fala elíptica, ou seja,
uma grande economia de expressões.9 Toda a comunicação não verbal
(gestual) é substituída on-line por visualizações textuais. A escrita
off-line, em contraste, exibe muito mais coesão textual e linguística;
ela é melhor estruturada e hierarquicamente organizada. O estudo
indica que o uso linguístico do e-mail (e consequentemente do
newsgroup) parece ocupar uma posição especial entre a língua falada
e escrita.10

267
Todas as situações linguísticas naturais envolvem
'espectadores-ouvintes'. Porém, cora as comunicações via e-mail e
newsgroup, não se usa os sentidos da visão e da audição, a menos que
eles sejam eletronicamente permitidos, como através de
videomensagens enviadas por e-mail. Com a perda da visão e da
audição, também se perdem expressões faciais, gestos, postura,
suprassegmentais (duração, acento, articulação, tom), distinções de
altura/suavidade, velocidade da fala, e muitas outras características
integrantes da comunicação humana. Sinais subliminares, como o
cheiro, que se referem a um nível de comunicação mais primitivo,
embora não menos importante, também não conseguem ser
transmitidos com a nova mídia eletrônica. Com o ganho óbvio,
evidentemente também perdemos uma boa parte do que atualmente
significa ser humano.
No presente, o Inglês Padrão Internacional é a língua universal
da internet. O inglês não tem tal status 'oficial', uma vez que, em
grande parte, a internet não é regulamentada; apenas alguns poucos
países, como a China, exercem uma censura rigorosa na internet.
Alguns alegam que o inglês domina a internet devido ao
'imperialismo' econômico e político dos países de língua inglesa.
Porém, o inglês prevalece na internet porque ela é a criação de países
que falam o inglês e porque, no início do século vinte e um, o inglês é
o idioma mais popular como segunda língua do mundo. O fato de a
internet ter evoluído dentro de um meio que conta principalmente com
a língua inglesa foi uma circunstância histórica, e não arquitetada.11
Deve-se esperar que nunca haja uma língua 'oficial' para a
internet, apenas a língua ou línguas que seus usuários desejem e
precisem. No momento, o inglês prevalece (alguns diriam 'domina').
Mas qualquer outra língua pode vir a substituir o inglês na internet no
futuro. Uma língua construída pode ser escolhida por um corpo
regulador

268
como uma alternativa (embora pareça improvável). A tradução
automática computadorizada pode tornar supérflua toda a questão da
predominância de uma língua natural, fazendo com que a escolha
recaia apenas em qual linguagem de programação usar. Com esse
cenário, a internet transcenderia então a necessidade da predominância
de qualquer língua natural, inclusive do inglês.
Porém, deve-se reconhecer que o bilingualismo é uma tendência
mundial, além da jurisdição do cyberespaço da internet. Em todo o
mundo, cada vez mais pessoas escolhem o inglês como segunda
língua ou língua adicional. Quando possível, as pessoas retêm sua
língua nativa como primeira língua para uma esfera de interação
menor e mais imediata. Parece que a própria internet permanecerá,
pelo menos no futuro próximo, a experimentação de tais
desenvolvimentos humanos reais.
A internet, o e-mail e os newsgroups também estão por si
mesmos afetando ativamente os vocabulários do planeta. O Inglês
Padrão Internacional adicionou um grande número de itens lexicais a
seu vocabulário (ou expandiu o significado de palavras mais antigas)
que eram desconhecidas uma geração atrás: bit (dígito binário),
browser (um software projetado para o usuário, usado para examinar
os recursos da internet), clicar (usar o 'mouse' para acessar um site),
cyberespaço (a gama de recursos de informações disponíveis na rede
de computadores), e-mail (mensagens que as pessoas mandam umas
às outras via computador), v-mail (videomensagens), gopher (um
método de fazer menus do material disponível na internet), hipertexto
(qualquer texto que tenha 'links' para outro documento), modem (de
modulador, demodulador, o dispositivo que conecta o computador a
uma linha telefônica e permite a comunicação entre computadores) e
muitos outros. A maioria das nações modernas está

269
emprestando esses termos de língua inglesa diretamente, sem tradução
para a língua local.
Logo, os sistemas de reconhecimento por meio de voz
permitirão que uma pessoa fale diretamente com um computador e
consiga uma resposta vocal. Traduções simultâneas também poderão
ser feitas da mesma maneira. No presente, um número cada vez maior
de pessoas passa cada vez mais horas por dia usando a escrita, ou seja,
a linguagem do teclado, em vez da língua falada. Isso é
especificamente verdade no caso de estudantes, funcionários de
escritórios, jornalistas, editores, escritores, pesquisadores,
programadores, bolsistas universitários, entre muitos outros usuários
de computadores. Na Idade Média, apenas os escribas, que
compreendiam uma porcentagem muito pequena da população
medieval, eram encontrados nos escritórios dos conventos. Em poucos
anos, os computadores enriquecerão quase todos os lares do mundo
desenvolvido. A vida humana nesses países está se centrando, e se
restringindo, a textos eletrônicos e redes de contatos internacionais, se
afastando da fala vocal e visual mais imediata. Um tipo diferente de
linguagem está surgindo a partir dessa superfície de contato artificial:
uma 'língua escrita oral'. Não há dúvidas de que também ela vai mudar
com a evolução da nova tecnologia.

O FUTURO DA LÍNGUA
Antes de Thomas Edison inventar o fonógrafo em 1877, apenas
anciãos e antigos textos escritos, cujas qualidades faladas precisas
eram desconhecidas, podiam revelar estágios anteriores da língua.
Hoje, ao ouvir aquelas vozes arranhadas de mais de um século atrás,
pode-se avaliar a rapidez com que a língua muda. Analisando textos
escritos, ouvindo as mudanças recentes e seguindo as amplas
tendências linguísticas, pode-se aproximar de um consenso — apesar
da geral

270
'imprevisibilidade' da mudança linguística — sobre a direção que as
línguas faladas no mundo seguirão num futuro próximo.
Todos os linguistas concordam que as mudanças linguísticas
naturais que ocorrerão permanecerão em grande parte, mas não
exclusivamente, dentro dos parâmetros fonológicos, morfológicos,
sintáticos, lexicais e semânticos conhecidos. As maiores mudanças, os
destinos de línguas e famílias linguísticas inteiras, são, talvez, a maior
preocupação dos linguistas. Isso ocorre porque, sem dúvida, os
próximos dois séculos testemunharão uma substituição linguística sem
precedentes; a homogeneização e nivelamento dos poucos dialetos e
línguas que sobreviverem; e então, por fim, todos estarão falando o
inglês como primeira ou segunda língua, quando a sociedade global se
tornar uma realidade, pelo menos linguística.
Entre as poucas línguas que sobreviverão aos próximos dois
séculos, a evolução tipológica cíclica continuará em vigor. Isso
significa que o mandarim chinês, por exemplo, se tornará ainda mais
isolante e mais aglutinante em sua estrutura, tendendo mais
fortemente ao polissilabismo (usando palavras com várias sílabas) e
formando palavras derivadas ou compostas pela união de constituintes
de significado próprio. As línguas indo-europeias, por outro lado, em
vários estágios de suas próprias evoluções linguísticas, continuarão,
sem dúvida, se afastando da condição fusional anterior em busca de
uma estrutura cada vez mais isolante. Ao mesmo tempo, devido à
mídia moderna, o léxico das línguas do planeta continuará a ser
preenchido com empréstimos comuns. Se em séculos anteriores os
empréstimos levavam anos para serem aceitos em uma língua e se
espalharem para outras línguas (chocolate, café, tabaco, tabu,
varanda), por causa do rádio, da televisão e agora da Internet tais
empréstimos podem se tornar parte do vocabulário nativo em
semanas, ou mesmo dias: fatwa 'lei

271
religiosa', Scud 'tipo de míssil guiado', aiatolá 'líder religioso',
glasnost 'transparência política', para nomear alguns exemplos
recentes.
As transformações sociais que ocorrem simultaneamente em
muitos países também estão deixando suas marcas, causando
mudanças linguísticas fascinantes, cujos efeitos continuarão, sem
dúvida, a repercutir no futuro. Nas línguas indo-europeias que ainda
preservam a distinção entre pronomes formais e informais — o
alemão du e Sie, o francês tu e vous, o espanhol tu e usted, e assim por
diante — o pronome informal se infiltrará cada vez mais no domínio
formal. Ou seja, as crianças desses países, por exemplo, ao se
dirigirem aos pais com as formas formais usadas desde tempos
imemoriais, elas estarão usando os pronomes informais, refletindo
uma mudança fundamental de atitude em relação aos pais e aos mais
velhos em geral.
Porém, um adolescente galês ainda dirá à sua mãe 'Peidiwch â
phoeni!' ('Não se preocupe') usando a gramática formal — e não a
informal que será ouvida no mesmo contexto em alemão ('Mach' Dir
Keine Sorgen!') ou francês ('Ne t'inquiète pas!'). Ou seja, embora a
maioria das línguas metropolitanas de origem indo-europeia tenha
expandido o domínio da forma informal desde a Segunda Guerra
Mundial, as línguas indo-europeias menores geralmente resistem a
essa tendência. Talvez seja um esforço consciente dos falantes de
línguas menores para se afastar das influências metropolitanas
'invasoras', especialmente entre falantes bilíngues (como galeses,
vênedos, catalães, galegos, occitanos, entre outros). Há inumeráveis
exemplos de tendências identificáveis ocorrendo nas línguas do
planeta. Em alemão, por exemplo, o tempo verbal do discurso relatado
(ou seja, o contraste de evidencialidade testemunha ocular/testemunha
não ocular), na forma de 'Er sagte, er sei...' ('Ele disse que estava...')
está se tornando supérfluo na fala moderna, sendo substituído pelo
discurso

272
declarativo neutro: 'Er sagte, er ist...' A sintaxe da conjunção weil,
'porque', que sempre colocava o verbo no final da oração subordinada
('weil er alt ist') hoje permite que o verbo siga imediatamente o
sujeito, como no inglês ('weil er ist alt'), embora a forma ainda não
seja considerada de uso padrão por falantes mais formais e idosos.
Esse novo uso pode se generalizado no futuro para incluir conjunções
semelhantes, alterando radicalmente a sintaxe do alemão durante o
processo. O léxico alemão também compreende muitos empréstimos
do inglês moderno: der Computer, der Supermarket, der Soft Drink,
die Jeans. Não há dúvida de que o alemão absorverá centenas de
introduções semelhantes nos próximos anos.
Na língua rapanui da Ilha de Páscoa, que provavelmente será
substituída pelo espanhol chileno nos próximos vinte anos, o tempo
verbal/marcador de aspecto verbal ku... ‘a, que abarca uma ação ou
estado que começou no passado e continua em vigor, foi recentemente
substituído pelo ko...’a. Durante mais de 100 anos, a parada glotal
taitiana vem substituindo o k na língua, produzindo duplos
historicamente identificáveis: kino/’ino 'mau, cruel, perverso'. Muito
do léxico rapanui mais antigo foi substituído pelo taitiano, um
processo que hoje está se tornando feroz: o rapanui ki 'falar' é hoje o
taitiano parau; ra’a’sum 'dia' foi substituído por mahana; ta’u 'ano' é
hoje matahiti entre muitos outros exemplos, incluindo o sistema
numérico rapanui que hoje é quase totalmente taitiano. O conectivo
taitiano ‘e 'e' foi introduzido (não havia nenhum conectivo na língua
rapanui), assim como o espanhol pero 'mas'. Porém, também esses
empréstimos taitianos logo cairão vítimas do espanhol chileno na ilha.
O galês exibe, de modo semelhante, significativas 'mudanças
em processo'. Em sua fonologia, uma das mudanças mais evidentes é
a perda gradual da terminação f. tref [pronuncia-se TREIVE] para

273
'cidade' hoje se tornou simplesmente ter [TREI]. Logo todas as
terminações em f deverão desaparecer do galês. Após o yn
significando 'em', muitos falantes galeses hoje favorecem mais a
mutação sibilante (com seu domínio de uso mais amplo) do que o
gramaticalmente 'mais apropriado' e menos geralmente, a mutação
nasal, assim, yn Gaerdydd 'in Cardiff hoje é ouvido mais
frequentemente que o tradicional yngh Nghaerdydd. O novo sistema
numérico decimal galés substituiu o antigo sistema numérico celta
apenas na última geração. Assim, 11 un deg un, 12 un deg dau, 15 un
deg pump, 16 un deg chwech, 20 dau ddeg, 30 tri deg, e assim por
diante, para nomear alguns exemplos, substituiu — particularmente
entre os falantes mais jovens — os tradicionais números: 11 un ar
ddeg, 12 deuddeg, 15 pymtheg, 16 un ar bymtheg, 20 ugain, 30 deg ar
hugain e assim por diante.
Como o inglês é atualmente a língua mais popular do mundo (e
também a língua em que este livro foi escrito), com a qual a maioria
dos leitores estará, talvez, mais familiarizado do que com as línguas
acima citadas, os exemplos seguintes mostraram as tendências futuras
do inglês. O inglês está na vanguarda das mudanças linguísticas
internacionais, seguindo a onda da nova linguagem tecnológica.
Embora possa passar despercebido, o inglês também está passando
por rápidas mudanças em vários níveis diferentes: fonológico,
morfológico, sintático, lexical e semântico. E embora a maioria das
línguas do planeta enfrente uma extinção iminente, o inglês continua
ganhando milhares de novos falantes por dia. Na verdade, o inglês
está se tornando algo totalmente novo: uma língua natural mundial.
Em sua fonologia, o inglês exibe tendências características, que
sem dúvida, mudarão o som do inglês do futuro, tanto regionalmente
quanto internacionalmente. No inglês britânico, por exemplo, o t entre
vogais e no final das palavras está sendo substituído por uma

274
parada glotal (') em dialetos bem além da região de Cockney
(Londres) onde a inovação ocorreu pela primeira vez, particularmente
nas terras médias: Ge’ the le’uce tha’s a li’o bi’a ('Get the lettuce
that's a little bitter'). A recente e súbita difusão da inovação antiga —
na variedade de uma fala regional modificada chamada inglês do
estuário, como foi identificado pelo linguista David Rosewarne em
1984 — pode derivar dos filmes e programas de televisão
concentrados em Londres e ter se espalhado principalmente por meio
de falantes jovens imitando a forma antes censurada, que se tornou um
dialeto preferido.
A maior 'mudança em processo' do inglês americano revela uma
inovação semelhante. Nele, o t entre vogais, por muitas décadas, vem
sendo cada vez mais substituído pelo d (ou seja, o ambiente vocálico
do t fez com que ele fosse pronunciado): Get the ledduce that’s a
liddle bidder. No inglês americano, portanto, não há mais uma
distinção falada entre Writer e rider, matter e madder, boating e
boding, whitest e eidest e assim por diante, a distinção é feita pelo
ouvinte apenas a partir do contexto. A enorme influência do inglês
americano no presente sugere que essa inovação fonológica possa se
espalhar em pouco tempo para além da América do Norte. (Em
contraste, parece improvável que a inovação Cockney mencionada
antes experimente uma difusão internacional.)
Como uma demonstração de sua força linguística, a inovação
norte-americana parece ter se tornado produtiva. Ou seja, está
causando uma outra mudança. Em 1998, uma jovem mulher branca
falante de inglês americano do meio oeste diria My dar was sin —
num Inglês Padrão Internacional talvez mais compreensível, 'My
daughter was sitting'. Isso reflete uma forma da fala norte-americana
relativamente nova e cada vez mais distribuída. Nela, um derivado da
forma My daughder was siddin’ experimentou o enfraquecimento do d
entre

275
vogais até seu total desaparecimento, deixando apenas dar para 'filha'
e sin para 'sitting'. Pode ser que essa tendência marque um
desenvolvimento em longo prazo do d intervocálico e das terminações
— ing no inglês americano. Assim, novamente, a mudança pode se
mostrar uma pronúncia alternativa de vida curta. Apenas o tempo
poderá dizer.
Os adjetivos estão assumindo um papel cada vez mais
substantivado na sintaxe inglesa. Por muitos séculos, os adjetivos
ingleses servem como substantivos. Alguns desses usos chegam a
datar do francês antigo, como 'at present', 'in the past', e in future', em
que o substantivo 'time' está subentendido. 'Professional' significa
'professional person'; por exemplo, 'profligate' é 'profligate person' 'the
blind' significa 'blind people; e 'a white' significa 'a white person'. Esse
sentido elíptico ou absoluto tem uma história antiga tanto na família
germânica quanto na família itálica, das quais o inglês moderno
deriva. Porém, seu uso experimentou uma expansão súbita recente,
especialmente entre falantes norte-americanos (que, por sua vez,
afetaram os falantes britânicos), assim, uma qualificação adjetiva
anteriormente limitada pode hoje também servir como um substantivo
genérico: um 'historical' é um 'historical novel', um 'botanical' e 'herbal
drug ou medicine', e assim por diante. Como tais usos parecem
continuar aumentando, pode-se imaginar que no futuro mais adjetivos
assumirão funções substantivas até então inimagináveis: 'a reasonable'
significando 'an acceptal proposal', por exemplo, ou 'a timely' para 'a
recent news item'.
Os adjetivos também estão perdendo espaço para os
substantivos. Enquanto a maioria dos falantes britânicos falaria 'a
Californian wine' e 'a Texan rancher', mantendo as terminações que
marcam os adjetivos, os falantes norte-americanos diriam hoje: 'a
California wine' e 'a Texas rancher'. Ou seja, os substantivos fazem
eles mesmos

276
o papel dos adjetivos no inglês norte-americano. Hoje, a maioria dos
escritores norte-americanos não faz qualquer distinção entre 'linguistic
change' e 'language change', por exemplo. Se essa tendência se tornar
universal, então pode-se esperar que daqui a uma ou duas décadas, as
construções 'the Britain royal family' ou 'an Australia kangaroo' sejam
possíveis.
Nem mesmo as frases preposicionadas são poupadas de tais
reinterpretações, invertendo a sintaxe herdada: o que costumava ser
'children at risk' e 'patients at risk' é agora 'at-risk children' e at-risk
patients', ambos escritos com hífen, tornando uma frase pospositiva
um adjetivo prepositivo. Essa tendência sintática é particularmente
feroz no presente, então no futuro se pode esperar que as construções
'on-time trains' e 'with-a-grudge colleagues' sejam possíveis. Uma
inovação semelhante foi usada por um importante jornal britânico que
publicou recentemente 'a biophysicist-turned-expert on technology
and society at Oxford', uma redução da sintaxe inglesa que, apenas
uma década atrás, dificilmente teria passado pelo exame de um editor.
De maneira semelhante, a 'sintaxe popular' da língua inglesa
também está mudando, muito frequentemente de maneiras que não são
percebidas pelo público geral. A palavra 'chemical' parece hoje
significar 'composto químico Sinteticamente manufaturado', o modo
como a palavra é usada na frase que frequentemente aparece em
propagandas: "This product is 100 per cent chemical free'. (Quando na
verdade, nada no mundo é 'chemical free'.) E 'natural' recebeu
recentemente uma conotação positiva, desde então não se pode
imaginar a expressão perfeitamente correta em inglês 'natural bubonic
plague', embora 'natural hair shampoo' e 'natural washing powder'
passem pelo escrutínio público sem censuras.

277
Embora formas dialetais do inglês como sommat 'somcthing',
anyroad 'anyway', aught/ought 'anything' e naught/nought 'nothing'
tendam a ser substituídas por seus sinônimos, que serão entendidos
universalmente em uma ou duas gerações, novamente, pelo
nivelamento midiático, a gíria internacional — principalmente de
origem norte-americana — continuará a se difundir rapidamente.
Porém, essa gíria internacional, originada principalmente a partir de
filmes hollywoodianos (usando principalmente os dialetos
californianos e nova-iorquinos), da televisão e da música popular que
dominam o mercado de entretenimento mundial, também está
sofrendo uma pressão cada vez mais forte do espanhol. Pode-se
imaginar que a gíria, assim como o léxico inglês em geral, apresentará
nas décadas futuras um uso cada vez mais frequente de palavras e
expressões da língua espanhola do que de qualquer outra língua
estrangeira.
De maneira semelhante, as variedades locais do inglês
continuarão a suplementar seus vocabulários com recursos nativos: o
inglês australiano emprestará mais palavras e expressões australianas
nativas; o inglês da Nova Zelândia, mais palavras e expressões
maoris; o inglês sul-africano, mais palavras e expressões zulus,
xhosas, sothos, tswanas, e assim por diante. Todos esses
desenvolvimentos devem ser saudados como enriquecimentos da
língua inglesa, contribuindo para a destilação de um novo Inglês
Padrão Internacional.
Contudo, o inglês internacional continua perdendo a maioria de
suas características dialetais, amalgamando-se rapidamente ao amorfo
Inglês Padrão Internacional — que é, na realidade, uma norma
estatística que não existe em lugar algum e que não possui um corpo
oficial que determine sua natureza e regulamente seu uso. O Inglês
Padrão Internacional surgiu por intermédio da comunicação global,
permitindo uma compreensão imediata do rádio, da televisão e da

278
internet seja em Nova Déli, Tóquio ou São Petersburgo. Ele é ainda o
produto de circunstâncias históricas, não projetado (embora isso logo
possa mudar), e continuará mudando e evoluindo.
Antes do rádio e dos filmes, a maioria dos britânicos nunca
havia ouvido a fala norte-americana, que muitos consideraram 'vulgar'
num primeiro momento, especialmente a nasalização norte-americana.
A maioria dos norte-americanos também nunca havia ouvido um
inglês apropriado. Agora, apenas três gerações depois, os dois
dialetos, em vez de se tornarem línguas descendentes, como um
processo linguístico normal produziria, estão cada vez mais próximos.
Na verdade, eles estão evoluindo um em direção ao outro, de uma
forma desigual no presente, devido à nova tecnologia. O inglês
britânico, o inglês padrão americano e todas as outras formas de inglês
no mundo inteiro estão contribuindo para o amálgama linguístico que
é o Inglês Padrão Internacional, uma língua emergente.
Neste livro, frequentemente se mencionou o inglês como uma
'língua mundial'. Há um bom motivo para isso. Pela primeira vez na
história humana, a comunicação global é uma realidade diária. O
surgimento dessa conquista tecnológica coincidiu com e parcialmente
foi o resultado do surgimento do inglês como a mais popular segunda
língua ou língua adicional do mundo. Este último desenvolvimento é
proveniente de uma combinação de fatores: a internacionalização do
inglês além da Grã-Bretanha com o estabelecimento de colônias de
língua inglesa em todo o mundo, o desfecho de duas guerras mundiais
no século vinte, o enorme crescimento econômico dos países de língua
inglesa e os recentes acontecimentos políticos.
A ascensão do inglês no século vinte ocorreu ao mesmo tempo
que a influência de forças antigas, em particular a francesa e a alemã,
diminuiu rapidamente.12 Entre as línguas do mundo, apenas o

279
espanhol apresenta atualmente uma dinâmica semelhante à do inglês,
mas num grau muito menor. No caso do mandarim chinês, o idioma
mais falado como primeira língua do mundo, os chineses estão
atualmente aprendendo a falar inglês. Poucos falantes do inglês estão
aprendendo o chinês.
O inglês é atualmente falado como primeira língua (idioma
nativo); segunda língua (ou língua adicional) nos países que falam o
inglês, não apenas na Grã-Bretanha, EUA e Nova Zelândia, por
exemplo, mas também na África do Sul, na Índia, em Fiji, nas Ilhas
Cook, entre muitos outros; e exclusivamente por falantes de outras
línguas. O futuro do inglês como língua mundial está nas mãos dos
dois últimos grupos.13 Oitenta por cento de todos os dados da internet
estão em língua inglesa. Julgando a partir do crescimento do uso da
internet, só esse fato poderia assegurar a posição do inglês como a
língua mais popular do mundo no século vinte e um, se não por mais
tempo.14 O futuro econômico e político do mundo está ligado a uma
base tecnológica que fala inglês e é definida pelo inglês. Desse modo,
a população mundial está sendo 'forçada' a adotar e prosperar, ou
ignorar o inglês e fracassar. No início do século vinte e um, o
aprendizado do inglês se tornou uma questão econômica: os trabalhos
mais bem pagos do mundo exigem a fluência no inglês. É uma
tendência que, talvez, determine o perfil linguístico do planeta, pelo
menos nos próximos dois séculos.
Escandinávia, Holanda, Singapura e algumas outras regiões do
mundo já podem representar a situação linguística que logo
prevalecerá em toda parte: populações adultas bilíngues que falam a
língua local (metropolitana) tão bem quanto o inglês. Depois disso,
talvez no final do século vinte e quatro, pode ser que o inglês seja a
única língua sobrevivente do planeta, junto à sua língua de sinais.
Porém,

280
a história mostrou que tais previsões globais são normalmente
inválidas. O alemão ou o japonês podem muito bem se tornar a língua
dominante do planeta daqui a 200 anos, apesar da tendência atual que
torna tal situação impossível. No presente, considerando apenas os
números, apenas três línguas (e suas respectivas línguas de sinais)
sobreviverão aos próximos 300 anos: mandarim chinês, espanhol e
inglês. Contudo, sociedades ricas e menores (como Japão, países de
língua alemã, França, Itália, entre outros) podem muito bem conseguir
preservar sua língua como vestígios locais por várias centenas de
anos, por razões culturais. E como o latim, o árabe e o hebraico
certamente continuarão sendo falados e sinalizados, por muitos
séculos, principalmente por motivos religiosos.
E depois? Quando a humanidade colonizar o sistema solar uma
nova forma de — talvez — inglês pode vir a ser falada num futuro
nem tão distante. Pode-se imaginar que os descendentes multiétnicos,
colonizadores presumidamente falantes do Inglês Padrão Internacional
em Marte, por exemplo, apresentem, no final do século vinte e um
inovações linguísticas não conhecidas no inglês da Terra. Nesse caso,
surgirá um dialeto diferente, um inglês marciano que será
imediatamente identificável por aqueles que não o falam. Mas, devido
à comunicação interplanetária regular, essa nova forma de inglês
permanecerá dialetal e não se tornará uma língua separada, assim, a
compreensão mútua entre falantes do inglês marciano e do inglês
terrestre será facilmente mantida. Diacronicamente, substituindo o
Inglês Padrão Internacional, poderá eventualmente surgir um inglês
interplanetário.

'A língua é o mais precioso recurso humano', afirmou


recentemente o linguista australiano Robert Dixon.15 Na verdade, a
sociedade humana é inconcebível sem a língua. É ela que define
nossas vidas,

281
proclama nossa existência, formula nossos pensamentos, e permite
tudo o que somos e temos. Mas como tudo que foi colocado até agora
demonstrou, talvez mais convincentemente que qualquer outra coisa, a
língua não é permanente, estável e fixa. Como o próprio rio na
história, a língua está num fluxo constante, sempre mudando, sempre
se transformando, substituindo, morrendo, rejuvenescendo, crescendo.
Embora seja possível identificar características comuns entre as
mudanças no decorrer de milênios, inovações, como o computador
pessoal podem mudar a dinâmica da própria mudança, de modo que
surjam processos de mudanças e usos linguísticos até então sem
precedentes. Desse modo, a língua permanece, e sem dúvida
continuará permanecendo, uma das características mais voláteis da
sociedade humana; enquanto a humanidade sobreviver, sempre haverá
a linguagem, mas ela não será a linguagem como nós a conhecemos
hoje.
Logo, todas as línguas do planeta, com exceção de um pequeno
número vestigial, desaparecerão, deixando apenas uma língua para
toda a humanidade (com sua língua de sinais). Com essa perda, a nova
sociedade global atingirá simultaneamente um grau de comunicação
até então inimaginável, com concomitantes benefícios em todos os
aspectos da atividade humana. Perderemos a maioria da diversidade
cultural do planeta, mas, ao mesmo tempo, ganharemos, com uma
língua única, um novo senso de pertencimento, uma nova ordem
mundial, um novo entendimento comum do nosso lugar no Universo.
Porém, muitos temem, com uma única língua, uma possibilidade de
manipulação política, propaganda e controle sem precedentes. Além
disso, a perda das línguas locais inicialmente levará, pela perda da
identidade étnica, a um maior sentimento de alienação, e não de
fraternidade universal. Uma língua mundial pode trazer benefícios,
mas talvez a um preço alto demais. Qualquer que seja

282
o futuro linguístico do planeta, a língua continuará evoluindo com a
humanidade, como ocorreu no último milhão de anos, desde que os
primitivos hominídeos começaram a se comunicar oralmente.
Pois a linguagem — em toda a sua miríade de formas:
comunicação química, 'dança', infrassom, ultrassom, gestos, fala,
escrita, linguagem de programação — é o próprio nexo da Natureza...
e das criações comunicativas da Natureza.

283
Notas

1 — Comunicação animal e 'linguagem'

1 Donald H. Owings and Eugene S. Morton, Animal Vocal Communication


(Cambridge, 1998).
2 Instrumento musical primitivo australiano. (N. T.)
3 William C. Agosta, Chemical Communication: The Language of
Pheromones (New York, 1992).
4 D. A. Nelson and P. Marler, 'Measurement of Song Learning Behavior in
Birds', in Methods in Neurosciences, XIV: Paradigms for the study of
Behavior, ed. P. Conn (Orlando, FL, 1993), pp. 447-65.
5 Irene M. Pepperberg and R. J. Bright, 'Talking Birds', Birds, USA, II
(1990), pp. 92-6.
6 Irene M. Pepperberg, 'Functional Vocalizations by an African Grey Parrot
(Psittacus erithacus)\ Zeitschrift fur Tierpsyichologie, LV (1981), pp.
139-60.

285
7 Irene Pepperberg, 'Cognition in an African Grey Parrot (Psittacus
erithacus), Further Evidence for Comprechension of Catcgories and
Label's, Journal of Comparative Psychology, CIV (1990), pp. 42-51.
8 Capacidade biológica de calcular a posição e a distância de objetos
através da emissão de ondas ultra-sônicas, que refletem no alvo e
retornam ao emissor sob a forma de eco. (N.T.)
9 L. E. L. Rasmussen, "The Sensory and Communication Systems', in
Medicai Management of the Elephant, ed. S. Mikota, E. Sargent, and G.
Ranglack (West Bloomfield, MI, 1994), pp. 207-17.
10 George Harrar and Linda Harrar, Signs of the Apes, Songs of the Whales:
Adventures in Human-Animal Communication (New York, 1989).
11 John C. Lilly, Communication Between Man and Dolphin (New York,
1987).
12 Francine Patterson, The Education of Koko (New York, 1981).
13 Francine Patterson, 'In Search of Man: Experiments in Primate
Communication, Michigan Quarterly Review, XIX (1980) pp. 95-114.
14 Francine Patterson and C. H. Patterson, 'Review of Ape Language: From
Conditioned Response of Symbol', American Journal of Psychology, Cl
(1988), pp. 582-90.
15 Eugene Linden, Silent Partners: The Legacy of the Ape Language
Experiments (New York, 1986).
16 R. Allen Gardner and Beatrix T. Gardner, Teaching Sign Language to
Chimpanzees (Albany, NY, 1989).
17 Duane M. Rumbaugh, Language Learning by a Chimpanzee: The Lana
Project (New York, 1977).
18 Sue Savage-Rumbaugh, Kanzi: The Ape at the Brink of the Human Mind
(New York, 1996).
19 Duane M. Rumbaugh, 'Primate Language and Cognition', Social
Research, LXII (1995), pp. 711-30.
20 Sue Savage-Rumbaugh, Stuart Shanker, and Talbot Taylor, Apes
Language, and the Human Mind (Oxford, 1998).

286
21 Sue Taylor Parker and Kathleen Rita Gibson, eds, ‘Language’ and
Intelligence in Monkeys and Apes: Comparative Development
Perspectives (Cambridge, 1991).
22 Stephen Hart and Franz De Waal, The Language of Animais (New York,
1996).
23 Judith De Luce and Hugh T. Wilder, Language in Primates: Perspectives
and Implications (New York, 1983).

2 — Primatas falantes

1 Richard Leakey, The Origin Of Humankind (New York, 1996).


2 Donald Johanson and Blake Edgar, From Lucy to Language (New York,
1996).
3 Jean Aitchison, The Seeds of Speech: Language Origin and Evolution
(Cambridge, 1996).
4 Christopher Stringer and Robin McKie, African Exodus: The Origins of
Modern Humanity (New York, 1997).
5 Alan Walker and Pat Shipman, The Wisdom of the Bones: In Search of
Human Origins (New York, 1997).
6 Clive Gamble, The Palaeolithic Settlement of Europe (Cambridge, 1996).
7 Ian Tattersall, 'Out of Africa Again... and Again?', Scientific American,
CCLVI/4 (1997), pp. 60-7.
8 Derek Bickerton, Language and Species (Chicago, 1992).
9 Bernard Comrie, Language Universais and Linguistic Typology: Syntax
and Morphology, 2nd edn (Chicago, 1989).
10 Herbert Clark and Eve Clark, 'Language Processing', in Universais of
Human Language, ed. Joseph Greenberg (Stanford, 1978), I, pp.
225-77.
11 Simon Kirby, 'Function, Selection and Innateness: The Emergence of
Language Universais', PhD. Thesis, University of Edinburgh, 1998.

287
12 Ian Tattersall, The Last Neandertal: lhe Rise, Success, and Mysterious
Extinction of Our Closest Human Relativa (New York, 1996).
13 Nação indígena mais populosa do Quebec no Canadá. (N.T.)
14 Philip Lieberman, Eve Spoke (New York, 1998). See also Philip
Lieberman et al, 'Folk Psychology and Talking Hyoids', Nature,
CC-CXLII/6249 (1990), pp. 486-7.
15 Derek Bickerton, Language and Human Behavior (Seattle, 1995).
16 James Shreeve, The Neandertal Enigma: Solving the Mystery of Modern
Human Origins (New York, 1995).
17 Roger Lewin, Bones of Contention: Controversies in the Search for
Human Origins (Chicago, 1997).
18 Milford Wolpoff and Rachel Caspari, Race and Human Evolution (New
York, 1997).
19 Ian Tattersall, The Fossil Trail: How We Know What We Think We Know
About Human Evolution (Oxford, 1997).
20 Robert M. W. Dixon, The Rise and Fall of Languages (Cambridge, 1997).

3 — Primeiras famílias

1 Morris Swadesh, 'Linguistic Overview', in Prehistoric Man in the New


World, ed. Jesse D. Jennings and Edward Norbeck (Chicago, 1964), pp.
527-56.
2 Sydney M. Lamb and E. Douglas Mitchell, eds, Sprung from Some
Common Source: Investigation into the Prehistory of Languages
(Stanford, 1991).
3 Ernst Pulgram, 'The Nature and Use of Proto-Languages', Língua, x
(1961), pp. 18-37.
4 Johanna Nichols, Linguistic Diversity in Space and Time (Chicago, 1992).
5 Terry Crowley, An Introduction to Historical Linguistics, 3rd edn
(Auckland, 1997).

288
6 Joseph Greenberg, Studies in African Linguistic Classification (New
Haven, 1955).
7 Ian Maddieson and Thomas J. Hinnebusch, eds, Language History and
Linguistic Discription in Africa, Trends in African Linguistics 2
(Lawrenceville, NJ, 1998).
8 Saul Levin, Semitic and Indo-European: The Principal Etymologies, with
Observations on Afro-Asiatic, Amsterdam Studies in The Theory and
History of Linguistics (Amsterdam, 1995).
9 Jerry Norman, Chinese (Cambridge, 1998).
10 Malcolm D. Ross, 'Some Current Issues in Austronesian Linguistics', in
Comparative Austronesian Dictionary: An Introduction to Austronesian
Studies, Part I:Fascicle I, ed. Darrel T. Tryon (Berlin and New York,
1995), pp. 45-120.
11 Daniel Mario Abondolo, ed., The Uralic Languages, Routledge Language
Family Descriptions (London, 1998).
12 Peter Hajdu, Finno-Ugrian Languages and Peoples, Translated G. F.
Cushing (London, 1975).
13 Ives Goddard, "The Classification of the Native Languages of North
America', in Handbook of North American Indians, XVII: Languages
(Washington, 1996), pp. 290-323.
14 Lyle Campbell, American Indian Languages: The Historical Linguistics
of Native America, Oxford Studies in Anthropological Linguistics 4
(Oxford, 1997). Please, consult this outstanding study for the latest
research on the classification, history of investigation, and most recent
theories concerning the North American, Central American and South
American languages.
15 William Bright, American Indian Linguistics and Literature (Berlin, New
York, Amsterdam, 1984).
16 Harriet E. Klein and Louisa R. Stark, eds, South American Indian
Languages: Retrospect and Prospect (Austin, TX, 1985).
17 Nichols (veja nota 27).

289
18 Stephen A. Wurm, 'Classifications of Australian Languages, Including
Tasmanian', in Current Trends in Linguistics, VIII: Linguistics in
Oceania, ed. Thomas A. Sebeok (The Hague and Paris, 1971), pp.
721-803.
19 A. Capell, 'History of Research in Australian and Tasmanian Languages',
in Current Trends in Linguistics, VIII: Linguistics in Oceania, ed.
Thomas A. Sebeok (The Hague and Paris, 1971), pp. 661-720.
20 Robert M. W. Dixon, The Languages of Australia (Cambridge, 1980).
21 Capell (veja nota 62).
22 CF. Voegelin et al, 'Obtaining an Index of Phonological Differentiation
from the Construction of Non-Existent Minimax Systems', International
Journal of American Linguistics, XXIX/I (1963), pp. 4—29.
23 Capell (veja nota 62).
24 Pamela Swadling, Papua New Guinea’s Prehistory: An Introduction (Port
Moresby, 1981).
25 Stephen A. Wurm, 'The Papuan Linguistic Situation', in Current Trends
in Linguistics, VIII: Linguistis in Oceania, ed. Thomas A. Sebeok (The
Hague and Paris, 1971), pp. 541-657.
26 Stephen A. Wurm, The Papuan Languages of Oceania (Tubingen, 1982).
27 Darrell T. Tryon, 'The Austronesian Languages',in Comparative
Austroinesia Dictionary: An Introduction to Austronesian Studies, Part I,
Fascicle I, ed. Darrell T. Tryon (Berlin and New York, 1995). pp. 5-44.
28 Isidore Dyen, "The Austronesian Languages and Proto-Austronesian', in
Current Trends in Linguistics, VIII: Linguistics in Oceania, ed. Thomas
A. Sebeok (The Hague and Paris, 1971), pp. 5—54.
29 Malcolm D. Ross, 'Some Current Issues in Austronesian Linguistics', in
Comparative Austronesian Dictionary: An Introduction to Austronesian
Studies, Part I, Fascicle I, ed. Darrell T. Tryon (Berlin and New York,
1995), pp. 45-120.
30 Sanford B. Steever, ed., The Dravidian Languages, Routledge Language
Family Descriptions (London, 1998).

290
31 Cohn Renfrew, Archaeology and Language: The Puzzle of lndo-European
Origins (London, 1987).
32 Robert S. P. Beekes, Comparative Indo-European Linguistics: An
Introduction (Amsterdam, 1995).
33 Björn Collinder, An Introduction to the Uralic Languages (Berkeley and
Los Angeles, 1965). See also Bela Brogyanyi and Reiner Lipp, eds,
Comparative Historical Linguistics: Indo-European and Finno-Ugric.
Papers in Honor of Oswald Szemerenyi, III (Amsterdam, 1993).
34 Philip Balsi, An Introduction to the Indo-European Languages
(Carbondale, IL, 1983).
35 Anna Giacalone Ramat and Paolo Ramat, eds, The Indo-European
Languages, Routledge Language Family Descriptions (London, 1998).
36 Crowley (veja nota 48).
37 Robert M. W. Dixon, The Rise and Fall of Languages (Cambridge, 1997).

4 — Linguagem escrita

1 M. W. Green, "The Construction and Implementation of the Cuneiform


Writing System', Visible Language, XV74 (1981), pp. 345-72.
2 Archibald A. Hill, "The Typology of Writing Systems', in Papers in
Linguistics in Honor of Léon Dostert, ed. W M. Austin (The Hague,
1967), pp. 92-9.
3 Wayne M. Senner, ed., The Origins of Writing (Lincoln, NB, 1991).
4 Hans Jensen, Sign Symbol and Script. An Account of Man’s Efforts to
Write, 3rd edn (London, 1970).
5 Edward B. Tylor, Anthropology (New York, 1881).
6 David Diringer, Writing (London, 1962).
7 George L. Trager, 'Writing and Writing Systems', in Current Trends in
Linguistics, XII: Linguistics and Adjacent Arts and Sciences, ed. Thomas
A. Sebeok (The Hague, 1974), pp. 373-96.

291
8 Geoffrey Sampson, Writing Systems (London, 1985).
9 For the most comprehensive and up-to-date, see Peter T. Daniels and William
Bright, eds, lhe Words Writing Systems (New York, 1996). Also recomended
are George L. Campbell, Handbook of Scripts and Alphabets (London,
1997); Florian Colmas, The Blackwell Encyclopedia of Writing Systems
(Oxford, 1996); Sampson (see note 88); Diringer (veja nota 86); and Jensen
(note 84).
10 Denise Schmandt-Besserat, How Writing Carne About (Austin, TX, 1997).
11 John D. Ray, 'The Emergence of Writing in Egypt', World Archaeology,
XVII/3 (1986), pp. 307-16.
12 Hillary Wilson, Understanding Hieroglyphs: A Complete Introductory Guide
(Lincolnwood, IL, 1995).
13 Jaromir Malek, The ABC of Hieroglyphs: Ancient Egyptian Writing (Gilsum,
NH, 1995).
14 W V. Davies, Egyptian Hieroglyphs, Reading the Past, vol. VI (Berkeley and
Los Angeles, 1990).
15 David P. Silverman, Language and Writing in Ancient Egypt, Carnegie
Series on Egypt (Oakland, CA, 1990).
16 E. A. Wallis Budge, An Egyptian Hieroglyphic Dictionary, 2 vols (Mineola,
New York, 1978).
17 Denise Schmandt-Besserat, Before Writing: From Counting to
Cuneiforme (Austin, TX, 1992).

18 Stuart Schneider and George Fischler, The Illustrated Guide to Antique


Writing Instruments (New York, 1997).
19 Marvin A. Powell, "Three Problems in the History of Cuneiforme Writing:
Origins, Direction of Script, Literacy', Visible Language, XV/4 (1981), pp.
419-40.
20 C. B. F. Walker, Cuneiforme, Reading, the Past, vol. III (Berkeley and Los
Angeles, 1989).
21 Green (veja nota 81).

292
22 Gregory L. Possehl, The Indus Age: The Writing System (Philadelphia,
1996).
23 Walter A. Fairservis, Jr, "The Script of the Indus Valley Civilization',
Scientific American (March 1983), pp. 41-9.
24 Asko Parpola, "The Inds Script: A Challenging Puzzle', World
Archaeology, XVII/3 (1986), pp. 399-419, and Deciphering the Indus
Script (Cambridge, 1994).
25 Maurice W. M. Pope, 'The Origin of Near Eastern Writing', Antiquity, XL
(1965), pp. 17-23.
26 G. R. Driver, Semitic Writing (London, 1948).
27 Roger D. Woodard, Greek Writing from Knossos to Homer: A Linguistic
Interpretation of the Origin of the Greek Alphabet and the Continuity of
Ancient Greek literacy (Oxford, 1997). The new theory that Minoan
Greeks elaborated the hieroglyphic and Linear A scripts can be read in
Steven Roger Fischer, Evidence for Hellenic Dialect in the Phaistos Disk
(Berne, Frankfurt am Main, New York, Paris, 1988); a popular version of
his theory can be read in Steven Roger Fischer, Glyphbreaker (New
York, 1997).
28 Brian Colless, 'The Byblos Syllabary and the Proto-Alphabet',
Abr-Nahrain, XXX (1992), pp. 55-102.
29 Brian E. Colless, 'Recent Discoveries Illuminating the Origin of the
Alphabet', Abr-Nahrain, XXVI (1988), pp. 30-67.
30 John F. Healey, Early Alphabet, Reading the Past, vol. IX (Berkeley and
Los Angeles, 1991).
31 Steven Roger Fischer, Rongorongo: The Easter Island Script. History,
Traditons Texts, Oxford Studies in Anthropological Linguistics, 14
(Oxford, 1997).
32 S. Robert Ramsey, The Languages of China (Princeton, NJ, 1990).
33 Sampson (veja nota 88).
34 John S. Justeson, "The Origin of Writing Systems: Preclassic
Mesoamerica, World Archaeology, XVII (1986), pp. 439-56.

293
35 John S. Justeson and Terrence Kaufman, 'A Decipherment of Epi-Olmec
Hieroglyphic Writing', Science, CCLIX (1993), pp. 1703-11.
36 Michael D. Coe, Breaking the Maya Code (London, 1992).
37 Michael D. Coe and Justin Kerr, The Art of the Maya Scribe (London,
1998).
38 Joyce Marcus, Mesoamerican Writing Systems: Propaganda, Myth and
History in Four Ancient Civilizations (Princeton, NJ, 1992).
39 D. Gary Miller, Ancient Scripts and Phonological Knowledge,
(Amsterdam, 1994).
40 Henri Jean Martin, The History and Power of Writing, translated by
Lydia G. Cochrane (Chicago, 1995).
41 John L. White, ed., Studies in Ancient Letter Writing (Atlanta, GA, 1983).

5 — Linhagens
1 Ross Clark, 'Language', in The Prehistory of Polynesia, ed. Jesse D.
Jennings (Cambridge, MA, and London, 1979), pp. 249-70.
2 Em português, conselho de guerra e procurador-geral, respectivamente.
(N.T.)
3 Donald Macaulay, The Celtic Languages (Cambridge, 1993).
4 Também Ródano, em português. (N.T.)
5 James Fife and Martin J. Ball, eds, The Celtic Languages (London,
1993).
6 Kenneth Hurlstone Jackson, Language and History in Early Britain
(Portland, OR, 1994).
7 Janet Davies, The Welsh Language (Cardiff, 1993).
8 Galês, em português. (N.T.)
9 R. S. Conway, The Italic Dialects (Cambridge, 1897).
10 Carl Darling Buck, A Grammar of Oscan and Umbrian: With a
Collection of Inscriptions and Glossary (Boston, MA, 1994).

294
11 M. S. Beeler, The Venetic Language, University of California
Publications in Linguistics, IV/I (Berkeley and Los Angeles, 1949).
12 Helena Kurzova, From Indo-European to Latin: The Evolution of a
Linguistic Morphosyntactic Type, Amsterdam Studies in the Theory and
History of Linguistic Science, Series 4 (Amsterdam, 1993).
13 Roger Wright, ed., Latin and the Romance Languages in the Early
MiddleAges (University Park, PA, 1995).
14 Tracy K. Harris, Death of a Language: The History of Judeo-Spanish
(Newark, DE, 1994).
15 Peter A. Machonis, Histoire de la langue: du latin à l’ancien français
(Lanham, MD, 1990).
16 Peter Rickard, A History of the French Language, 2nd edn (London, 1989).
17 Paul M. Lloyd, From Latin to Spanish: Historical Phonology
andMorphology of the Spanish Language, Memoirs of the American
Philosophical Society,173, (Philadelphia, PA, 1987).
18 Ralph Penny, A History of the Spanish Language (Cambridge, 1991).
19 Martin Maiden, A Linguistic History of Italian, Longman Linguistics
Library (London, 1994).
20 D. H. Green, Language and History in the Early Germanic World
(Cambridge, 1998).
21 Johan van der Auwera and Ekkehard K. Fonig, The Germanic Languages
(London, 1994).
22 Joseph B. Voyles, Early Germanic Grammar: Pre-, Proto-, and
Post-Germanic Languages (San Diego, CA, 1992).
23 Orrin W. Robinson, Old English and Its Closest Relatives: A Survey of the
Earliest Germanic Languages (Stanford, CA, 1994).
24 Charles V. J. Russ, German Language Today: A Linguistic Introduction
(London, 1994).
25 Rolf Bemdt, History of the English Language (Leipzig, 1982).
26 Malcolm Guthrie, Comparative Bantu: An Introduction to the
Comparative Linguistic and Prehistory of the Bantu Languages, 4 vols
(Farnborough, 1967-70).

295
27 Derek Nurse and Thomas J. Hinnebusch, Suabili and Sabaki: A
l.inguistic History, University of California Publications in Linguistics,
CXXI (Berkeley and Los Angeles, 1993).
28 Harry H. Johnston, A Comparative Study of the Bantu andSemi-Bantu
Languages (New York, 1997).
29 Jan Vansina, Paths in the Rainforests (Madison, Wisconsin, 1990).
30 Ibidem.
31 Jerry Norman, Chinese (Cambridge, 1988).
32 Victor Krupa, The Polynesian Languages: A Guide, Languages of Asia
and Africa, IV (London, 1982).
33 Clark (veja nota 122).
34 Andrew Pawley, "The Relationships of Polynesian Outlier Languages',
Journal of the Polynesian Society, LXXVI (1967), pp. 259-96.
35 Carleton T. Hodge, 'The Linguistic Cycle', Language Sciences, XIII,
PP I-7.

6 — Em direção a uma ciência da linguagem

1 Leonard Bloomfield, An Introduction to Linguistic Science (New York,


1914).
2 Bimal Krishna Matilal, The Word and the World: India’s Contibution
to the Study of Language (Oxford, 1990).
3 Giulio Lepschy, ed., History of Linguistics: lhe Eastern Traditions of
Linguistics (London, 1996).
4 Esa Itkonen, Universal History of Linguistics: India, China, Arabia,
Europe, Amsterdam Studies in the Theory and History of Linguistic
Science 65 (Amsterdam, 1991).
5 Robert H. Robins, A Short History of Linguistics, 3rd edn, Longman
Linguistics Library (London, 1996).
6 Pieter A. M. Seuren, Western Linguistics: An Historical Introduction
(Oxford, 1998).

296
7 Giulio Lepschy, ed., History of Linguistics: Classical and Medieval
Linguistics (London, 1996).
8 Roy Harris and Talbot J. Taylor, Landmarks in Linguistic Thought: The
Western Tradition from Socrates to Saussure, Routledge History of
Linguistic Thought Series (London, 1997).
9 Robert H. Robins, The Byzantine Grammarians: Their Place in History,
Trends in Linguistics, Studies, and Monographs 70 (Berlin, New York,
Amsterdam, 1993).
10 Seuren (veja nota 162).
11 Lepschy (veja nota 163).
12 Kees Versteegh, Landmarks in Linguistic Thought III: The Arabic
Linguistic Tradition, Routledge History, of Linguistic Thought Series
(London, 1997).
13 Itkonen (veja nota 160).
14 Lepschy (veja nota 159).
15 Vivien Law, ed., History of Linguistic Thought in the Early Middle Ages,
Amsterdam Studies in the Theory and History of Linguistic Science
(Amsterdam, 1993).
16 Lepschy (veja nota 163).
17 Law (veja nota 171).
18 Robins (veja nota 161).
19 Seuren (veja nota 162).
20 Ferdinand de Saussure, Course in General Linguistics, translated by
Wade Baskin (New York, 1966).
21 Jindrich Toman, The Magic of a Common Language: Jakobson,
Mathesius, Trubetzkoy, and the Prague Linguistic Circle, Current Studies
in Linguistics, 26 (Cambridge, MA, 1995).
22 Em português caixa e alfinete, respectivamente. (N.T)
23 Randy Allen Harris, The Linguistics Wars (Oxford, 1995).
24 Edward Sapir, Language: An Introduction to the Study of Speech (New
York, 1921).

297
25 P. H. Matthews , Grammatical Theory in the United States from
Bloomfield to Chomsky, Cambridge Studies in Linguistics, 67
(Cambridge, 1993).
26 Leonard Bloomfield, Language (London, 1935).
27 William O'Grady, Contemporary Linguistics: An Introduction, 3rd edn
(London, 1997).
28 J. R. Firth, Papers in Linguistics 1934-1951 (Oxford, 1957).
29 Roman Jakobson, Selected Writings I: Phonological Studies (The Hague,
1962).
30 Sidney M. Lamb, 'The Sememic Approach to Structural Semantics',
American Anthropologist, LXVI (1964), pp. 57—78; and Outline of
Stratificational Grammar (Washington, DC, 1966).
31 Noam Chomsky, Syntactic Structures (The Hague, 1957).
32 Emmon Bach, Introduction to Transformational Grammars (New York,
1964).
33 Noam Chomsky, Aspects of the Theory of Syntax (Cambridge, MA,
1965).
34 On 12 November 1998, as I was writing this chapter, Noam Chomsky
visited me at my home on Waiheke Island, New Zealand, where we spent
the afternoon together discussing, among other things, transformational
generative grammar and its place in the history of linguistics. When I
asked Chomsky whether he agreed with my assessment, he replied yes,
that 'generative grammar' would perhaps be the most important
theoretical linguistic model of the Second half of the twentieth century.
The 'transformational' aspect might be debatable, he added, though he
believed a transformational element must be present in the process of
language generation.
35 Robert M. W Dixon, lhe Rise and Fall of Languages (Cambridge, 1997).
36 Robert D. King, Historical Linguistics and Generative Grammar
(Englewood Cliffs, New Jersey, 1969); Hans Henrich Hock, Principles of
Historical Linguistics (Berlin, New York, Amsterdam, 1986).
37 James Allen, Natural Language Understanding, 2nd edn (London, 1995).
Noam Chomsky informed me during our meeting on

298
Waiheke Island (see above) that he initially drew his model of
transformational generative grammar from the computational linguistics
being innovated in the USA after the war, specifically in the area of
machine translating.

7 — Sociedade e linguagem

1 Ronald Wardhaugh, An Introduction to Sociolinguistics (Oxford, 1997).


2 Suzanne Romaine, Language in Society: An Introduction to
Sociolinguistics (Oxford, 1994).
3 Peter Trudgill, Sociolinguistics: An Introduction to Language and
Society, rev. edn (New York, 1996).
4 Jean Aitchison, Language Change: Progress or Decay?, 2nd edn
(Cambridge, 1991).
5 Construção gramatical de língua inglesa em que normalmente advérbios
são colocados entre a forma infinitiva do verbo, 'dividindo-o'. Por
exemplo, 'to go', significando ir para 'to boldly go' significando
ousadamente ir. (N. T.)
6 Roger Lass, Historical Linguistics and Language Change (Cambridge,
1997).
7 'Como', 'tipo', 'meio', 'você sabe', 'essas coisas', respectivamente.
(N.T.)
8 Nigger é uma palavra usada para se referir pejorativamente aos negros
em inglês. (N.T.)
9 Fairy e queer se referem a homossexuais, e cohabitation e concubine
significam coabitar e concubina, respectivamente. (N.T.)
10 Respectivamente divorciado (a), solteirona e mãe solteira. (N.T.)
11 R. L. Trask, Language Change (London, 1994).
12 Em português, alguns exemplos da suplementação da palavra 'excelente'
são 'massa', 'brasa', 'da hora', entre outros. (N.T.)

299
13 Em português, agudo. (N.T.)
14 Jonathan Green, Slangs Through the Ages (Lincolnwood, IL, 1996).
15 Robert L. Chapman, American Slang (New York, 1998).
16 Karl Sornig, Lexical Innovation: A Study of Slang, Colloquialisms, and
Casual Speech (New York, 1981).
17 Suzanne Romaine, Pidgin and Creole Languages (New York, 1988).
18 Terry Crowley, An Introduction to Historical linguistics, 3rd edn
(Auckland, 1997).

19 Derek Bickerton, Roots of Language (Ann Arbor, 1981).


20 David Crystal, English as a Global Language (Cambridge, 1998).
21 J. K. Chambers and Peter Trudgill, Dialectology (Cambridge, 1990).
22 Joshua A. Fishman, In Praise of the Beloved Language: A Comparative
View of Positive Ethnolinguistic Consciousness (Berlin, New York,
Amsterdam, 1997).
23 Joey Lee Dillard, Black English: Its History and Usage in the United
States (New York, 1973).
24 Clarence Major, Juba to Jive: A Dictionary of African-American Slang
(New York, 1994).
25 Dale Spender, Man-Made Language (New York, 1990).
26 Anna Livia, Queerly Phrased: Language, Gender, and Sexuality,
(Oxford, 1997).
27 Respectivamente humano e homem. (N.T.)
28 Hu, corresponderia ao radical de human, e person de pessoa. (N.T.)
29 Humanidade, em ambos os casos. (N.T.)
30 Presidente, moderador, dirigente, em ambos os casos. (N.T.)
31 Aeromoço, aeromoça e comissário (a) de bordo, respectivamente.
(N.T)
32 Christmas significa Natal, no caso Christ mass poderia significar 'massa
de Cristo' ou 'massa católica'. (N.T.)

300
33 Numa tradução simplificada os binômios querem dizer respectivamente:
pedra, reino, barriga, velocidade, socorro, parar, deixar (sair, abandonar),
falar. (N.T.)
34 John W. Young, Totalitarian Language (Charlottesville, VA, 1991).
35 Edward S. Herman and Noam Chomsky, Manufacturing Consent: The
Political Economy of the Mass Media (New York, 1988).
36 Em português seriam equivalentes às denominações coveiro, diretor
funerário e especialista no cuidado dos destituídos, no primeiro caso;
faxineiro, zelador e engenheiro sanitário no segundo. (N.T.)
37 William C. Stokoe, Semiotics and Human Sign Languages (The Hague,
1972).
38 Matthias Brenzinger, ed., Language Death (Berlin, New York,
Amsterdam, 1992).
39 Lenore A. Grenoble and Lindsay J. Whaley, eds, Endangered Languages:
Current Issues and Future Prospects (Cambridge, 1997).
40 Trudgill, (veja nota 196).
41 Alison Ross, Language of Humour (London, 1998).
42 Jan Gavan Bremmer and Herman Roodenburg, eds, A Cultural History of
Humour: From Antiquity to the Present Day (Oxford, 1997).

8 — Indicativo futuro

1 Robert W. Sebesta, Concepts of Programming Languages (Don Mills,


Ont., 1998).
2 Alice E. Fischer and Frances S. Grodzynsky, The Anatomy of
Programming Languages (New York, 1993).
3 Ryan Stansifer, The Study of Programming Languages (New York,
1994).
4 Doris Appleby and Julius J. Vandekopple, Programming Languages:
Paradigm and Practice, 2nd edn, McGraw-Hill Computer Science Series
(New York, 1997).

301
5 Kenneth C. Louden, Programming Languages: Principles and Practice,
PWS-Kent Series in Computer Science (Boston, MA, 1993).
6 C. A. R. Hoare and C. B. Jones, Essays in Computing Science,
Prentice-Hall International Series in Computer Science (New York,
1989).
7 Mark Warschauer, ed., Virtual Connection: Online Activities and Projects
for Networking Language Learners, National Foreign Language Center
Technical Reports N°. 8 (Honolulu, 1995).
8 Seppo Tella, "The Adoption of International Communications Networks
and Electronic Mail into Foreign Language Education, Scandinavian
Journal of Educational Research, XXXVI (1992), pp. 303-12.
9 Seppo Tella, Introducing International Communications Networks and
Electronic Mail in Foreign Language Classrooms: A Case Study in
Finnish Senior Secondary Schools. Doctoral dissertation, University of
Helsinki, 1991.
10 Seppo Tella, Talking Shop Via e-Mail: A Thematic and Linguistic
Analysis of Electronic Mail Communication (Helsinki, 1992).
11 Dave Sperling, The Internet Guide for English Language Teachers (New
York, 1997).
12 Robert Phillipson, Linguistic Imperialism (Oxford, 1992).
13 Jenny Cheshire, ed., English Around the World (Cambridge, 1991).
14 The British Council, The Future of English? (London, 1997).
15 Robert M. W. Dixon, The Rise and Fall of Languages (Cambridge, 1997).

302
INFORMAÇÕES SOBRE NOSSAS PUBLICAÇÕES E ÚLTIMOS LANÇAMENTOS
Cadastre-se no site:
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O autor Steven Roger nos conduz a uma fascinante
viagem ao mundo pré-histórico, remontando os passos
do surgimento de uma das mais importantes conquistas
do ser humano: a linguagem. Com ela, nossos ancestrais
foram capazes de transmitir seus conhecimentos às
gerações futuras, e hoje, conhecemos diversos modos de
linguagem, seja ela verbal ou não verbal, por meio de
sinais, gestos, códigos, imagens etc. Estudos recentes
têm comprovado que qualquer ser vivo, em qualquer
época, sempre foi capaz de se comunicar com outro
animal, por mais limitado que fosse esta comunicação, e
deste modo, podemos afirmar que a linguagem não é um
privilégio somente do Homem, mas uma faculdade
inerente a todos os seres. Uma Breve História da
Linguagem é uma obra interessante e muito abrangente.

Steven Roger Fischer nasceu nos Estados Unidos e foi


Doutor pela Universidade da Califórnia na década de
1970. Fala fluentemente francês, espanhol e alemão, e é
hoje diretor do Instituto de Línguas e Literatura
Polinésias. Vive atualmente na Nova Zelândia.
A linguagem surgiu nos primórdios de nossa existência, e está total¬
mente relacionada à evolução de todas as criaturas tanto quanto o
seu modo de se relacionar. Ela é uma das mais importantes ferra-
mentas que o ser humano conquistou ao longo dos tempos, a qual o possibilita
se desenvolver e aprender sobre si próprio e o mundo que o cerca.
Veremos como a linguagem humana evoluiu e as modificações nela ocorridas
ao longo cia história, até chegarmos ao seu estágio atual, e termos uma prévia
de como poderá vir a ser no futuro, com o avanço da tecnologia.

" O intrigante e ambicioso estudo de Steven Fischer explora um vasto terreno,


partes dele quase não registrado; outras, examinadas profundamente ao longo
de muitos anos — e, como ele relata, por muitos séculos. Do começo ao fim,
ele discute questões difíceis que conduzem diretamente aos aspectos funda-
mentais e particulares da natureza humana e suas conquistas. Uma pesquisa
informativa altamente estimulante."
- NOAM CHOMSKY

"Um livro agradável e inesperadamente acessível... Uma viagem rara ao mun-


do da Lingüística."
- T H E ECONOMIST