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Fabio_Zanon_-_O_violão_no_Brasil_depois_de_Villa-Lobos

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O violão no Brasil depois de Villa-Lobos

FÁBIO ZANON

já que Villa-Lobos admitiu haver aprendido violão pelos métodos do espanhol Dionísio Aguado (1784-1849). talvez surpreendentemente. Canhoto era filho de italianos. Até a metade do séc. Isto. levadas ao interior do país pelos bandeirantes. Os instrumentos trazidos pelos jesuítas provavelmente foram as vihuelas. Até este momento. estigmatizou o violão – como acontecia na Espanha – como o instrumento do populacho. mas depois de 1850 já fica clara a diferença entre a viola. a imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro passou a considerar o violão como instrumento de concerto e até a elogiar Barrios. por exemplo. e José Ramos Tinhorão afirma que “todos os exemplos de cantigas urbanas entoadas a solo por aqueles inícios do século XVI revelam em comum o acompanhamento ao som de viola”. e nossa identidade musical é impensável sem a sua presença. mas com as cordas em posição normal: Américo Jacomino. Instrumentos da família do violão foram já trazidos pelos jesuítas e usados na catequese. o que ilustra uma nova tendência de popularização do violão: a sua adoção pela classe operária imigrante. como alvo de charges derrogatórias. um desenvolvimento organológico do séc. foram adotadas como o instrumento folclórico nacional por excelência: a viola caipira. ou a guitarra francesa (como era chamada nos métodos à venda no Rio de Janeiro). em oposição ao piano. e a má fama decorrente é festejada nos romances de Lima Barreto. heroicamente se sujeitaram ao ridículo público ao se apresentarem. Como vemos. o que faz da vulcânica 79 . A partir de então. na verdade. Dessa forma. no Clube Mozart. centro musical da elite carioca. possibilita o início da dissolução do preconceito que freava o desenvolvimento da música para violão”. entre a viola e o violão. o “Canhoto” (1889-1928). mas supõe-se que já houvesse um ensino sério de violão clássico nessa época. Os primeiros concertos de violão solo documentados no país foram oferecidos pelo violonista cubano Gil Orozco em 1904 e não chegaram a atrair muita atenção. o violão como instrumento de concerto ainda não completou 100 anos no Brasil. o violão está indissociavelmente ligado a uma visão sóciocultural do Brasil. XIX. sem dúvida pelo fato de não haver violonistas capazes de ler música. o desembargador Itabaiana e o professor Alfredo Imenes. alaúdes e violas – as quais. Os primeiros defensores sérios do violão como instrumento de concerto. Não é um mero acidente os luthiers Di Giorgio. XIX há uma certa confusão. que realizava um ideal de bom tom das famílias urbanas mais abastadas. aquele que podemos apontar como o primeiro concertista brasileiro não sabia ler música e tocava com o violão invertido. como atestam as “Memórias de um Sargento de Milícias”. e o violão. os exemplos existentes são escritos para piano. não há uma literatura específica para o instrumento publicada no país. tornaram-se guitarras barrocas – que. simplificadas. desde o primeiro encontro que define nossa identidade cultural. instrumento favorecido no acompanhamento do cancioneiro popular de tradição urbana. O violão também foi adotado como baixocontínuo dos incipientes grupos de choro. aluna de Tarrega que também residiu no Brasil por vários anos. Mas o violão continuava sendo ridicularizado na imprensa. Del Vecchio e Giannini terem se estabelecido no Brasil e transformado sua atividade artesanal em linha de produção de instrumentos dentro de poucas décadas. Canhoto e a espanhola Josefina Robledo. Entretanto. conjugado à marcada diferença cultural entre as classes sociais no período imperial. apesar do enorme sucesso popular de violonistas-compositores como João Pernambuco (1883-1947). “É através deste concerto que Américo Jacomino conquista a elite paulistana e assim. dos capadócios e da marginalidade. que residiu no Brasil em decorrência de seu sucesso.C omo o café e o futebol. um instrumento tipicamente sertanejo. O ano da “virada da casaca” é 1916. O violão em seu formato atual é. No mesmo ano. Canhoto apresentou-se no Conservatório Dramático e Musical com extraordinário êxito. Mas sua trajetória é tortuosa. quando o crítico do jornal “O Estado de São Paulo” ouviu e se rendeu à arte do virtuose e compositor paraguaio Agustín Barrios (1885-1944). o violão está presente. como o engenheiro Clementino Lisboa. E não é para menos.

Por mais divergências que Villa-Lobos possa ter tido com o dedicatário. o vislumbre das possibilidades latentes do violão. em que o compositor se via como um bom selvagem. personalidade de Heitor Villa-Lobos (1887-1959) um fenômeno ainda mais singular. podem ser um tremendo fator de inibição. Some-se a isso o fato de que uma sólida cultura clássica para o violão ainda tardou algumas décadas para cristalizar-se no Brasil. e uma visão idealizada. tocados por todos os violonistas de qualquer nível de excelência. As contingências sócioculturais fizeram com que seu instrumento público fosse o violoncelo e que o violão fosse somente um laboratório de fundo-de-quintal. um fenômeno observado em outros compositores de orientação nacionalista. assim abertas para um compositor brasileiro. que aceita a superposição de influências externas como uma profecia auto-realizada em uma cultura colonizada. sem dúvida. A formidável série de Choros. pelo temor à epigonia. as maiores obras para piano e os 12 Estudos para violão. compostos em 1929. Seu Concerto para violão e orquestra de 1951 é uma das poucas obras brasileiras. corrompido por estas mesmas influências. para que Segovia as incluísse em seus programas e até 1953 para que fossem publicados. Neste hiato. O perfil de Barrios ou Canhoto não era suficientemente “clássico” para o projeto artístico de Villa-Lobos. onde a fronteira entre o idioma clássico e as formas de dança popular não é muito nítida. derivada de Rousseau. XX. As possibilidades de reconhecimento internacional. e a importante . Villa-Lobos é o único que parte de um conhecimento em primeira mão do arcabouço técnico do instrumento para a realização de uma linguagem individual. que estimulou Villa-Lobos a escrever uma coleção comparável às grandes séries de estudos para piano ou violino. há uma nítida mudança de marcha em sua estética que coincide com a residência em Paris nos anos 20. e gravados centenas de vezes. e sua linguagem havia dado uma guinada na direção de um certo conservadorismo positivista e neo-clássico que pode ser detectado na sua série de 5 Prelúdios (1940). Villa-Lobos já havia retornado definitivamente ao Brasil. Não é exagero dizer que os 12 Estudos são um divisor de águas dentro da história do violão. Por mais original e promissora que possa parecer a produção da primeira fase de Villa-Lobos. até 1947. até 1922. permitido pelo extraordinário poder persuasivo de Segovia. Villa-Lobos é o único que parte de um conhecimento em primeira mão do arcabouço técnico do instrumento para a realização de uma linguagem individual. Andrés Segovia. Seria absolutamente impensável a realização desta obra dentro do contexto acanhado do violão clássico no Brasil dos anos 20. É uma obra característica do período. que incorpora uma luxuriante paleta harmônica e um compromisso com a inovação no discurso musical. com lugar assegurado no repertório internacional do gênero. A maior parte das obras que escreveu antes de 1920 perdeu-se. De todos os compositores que escreveram inspirados pela arte de Segovia. Prova da qualidade visionária destas obras é a espera.De todos os compositores que escreveram inspirados pela arte de Segovia. foi. O legado de Villa-Lobos é tanto uma benção como um peso para os compositores da geração posterior. Parece que a distância e a receptividade do novo ambiente lhe permitiram realizar uma síntese entre uma visão pragmática. que ele utilizava para penetrar nas rodas de choro. e a Suíte Popular Brasileira (1912-23) só foi publicada décadas mais tarde – à sua revelia – na França. 80 são os frutos mais suculentos dessa síntese. a personagem dominante do violão no século XX. talvez a única. Seus Prelúdios e Estudos são as obras mais populares do violão no séc.

sob um certo ponto de vista. as inesperadas soluções harmônicas e o verdor da inspiração. no Rio de Janeiro. Some-se a isso o desfavor em que a estética nacionalista caiu após a revolução de 1964 e temos um desconfortável e algo vergonhoso hiato na incorporação da obra de Camargo Guarnieri. pode ser uma qualidade. a instrução dos compositores custou a incorporar a técnica de escrita para violão – uma novidade que Segovia havia imposto a compositores como Ponce e Turina nos anos 20 –. que se estabeleceu em São Paulo nos anos 30. estimulou-o a compor extensivamente e criar obras de considerável interesse. e formou gerações de violonistas que prontamente se estabeleceram como professores em outras capitais. os 3 Estudos de Concerto e Alma Brasileira. mas também a notória falta de paciência com o acabamento e um caráter sonambulístico e quase-improvisatório que. incorporando alguns elementos impressionistas que apontam para a bossa-nova no caso de Garoto. algumas das quais. disposta a ouvir o violão sem preconceitos. a Sonatina para flauta e violão. pouco antes de falecer.contribuição de professores como Attilio Bernardini (1888-1975) teve conseqüências mais visíveis no campo do violão popular. Aníbal Augusto Sardinha. 55. criando um vasto repertório seresteiro no caso de Dilermando. publicou dezenas de métodos e arranjos. o exemplo de Villa-Lobos provou-se um ideal alto demais para se alcançar. Por outro. ou simplesmente estabelecendo-se nos EUA como um músico de jazz no caso de Laurindo. ainda faltava uma metodologia que permitisse o surgimento de um número significativo de concertistas de violão que preenchessem um vazio só ocasionalmente quebrado por raras visitas de artistas internacionais como Regino Sainz de la Maza. Ele teve um papel considerável na promoção do violão dentro do establishment musical do país. com destaque para Antonio Rebello (1902-1965) no Rio de Janeiro. além de inúmeros arranjos que incluem o violão num contexto semi-orquestral. a Suíte. Ele teve a sensibilidade de não sufocar a natural vocação do violão brasileiro para o cross-over e. A advocacia de sua obra. uma Sonata para violoncelo e violão e outra para violoncelo e 2 violões. o rádio enfraqueceu as distinções de classe através do gosto musical e transformou-as numa massa indistinta chamada “ouvinte”. entre seus alunos. seu legado se estende à música de câmara com a suíte Retratos para 2 violões. como a Batucada das Cenas Brasileiras. Não obstante as limitações destes grandes artistas na esfera do violão clássico. e Laurindo de Almeida (1917-1995). ministrada mais tarde por violonistas da esfera clássica. Por um lado. mas um devotado professor e autor de mais de 100 peças originais para violão. 61 e 68). Andrés Segovia (a partir de 1937) e Abel Carlevaro (nos anos 40). A Sávio também devemos a criação do curso oficial de violão nos conservatórios e. incluindo 5 concertos para violão e orquestra (1952. perduram no repertório. e a falta de seriedade com que se encarava o violão no início do século ainda criou reverberações nos anos 40 e 50. a obra de violão de Gnatalli é a mais apreciada e freqüentemente tocada no exterior. nas universidades. eles estabeleceram uma relação próxima e estrearam algumas obras do compositor que mais se esforçou em enfraquecer as barreiras entre a música clássica e a música popular de qualidade: Radamés Gnatalli (1906-1988). o interesse pelo instrumento é vasto o suficiente para o surgimento de uma revista. podemos contar tanto um Luís Bonfá ou um Toquinho quanto um Carlos Barbosa Lima. o “Garoto” (1915-1955). A distinção entre o violão de concerto e o violão popular foi gradualmente se acentuando nos anos 1930. 40 e 50 e alguns dos músicos de maior visibilidade. Sávio foi um concertista de modestos recursos. 53. A obra de violão de Gnatalli traz todas as melhores qualidades e os mais evidentes problemas de sua produção como um todo: a excelente escrita instrumental. que assim tornou-se o autor da obra violonística mais significativa e numerosa a partir dos anos 50. em 1928. como Dilermando Reis (1916-1977). A relação de Sávio com os compositores “sinfônicos” foi algo tímida. Lorenzo Fernandez e Francisco Mignone ao 81 . Depois de Villa-Lobos. “O Violão”. os 10 Estudos. O desenvolvimento desta metodologia veio com o uruguaio Isaías Sávio (1902-1977). como a Brasiliana nº 13. construíram quase que a totalidade de suas carreiras à sombra da Era do Rádio.

um Prelúdio e da Fantasia Sul América. Lorenzo Fernandez (1897-1948) foi ainda menos generoso: deixou somente um pequeno Prelúdio (1942) de parco interesse e um arranjo da Velha Modinha (1938. ocupam uma posição quase tão alta quanto a dele no repertório brasileiro pela precisão de escrita. FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL – DIVISÃO DE MÚSICA E ARQUIVO SONORO repertório internacional de violão. Walter Burle-Marx (19021991). Turíbio Santos (n.1944). possivelmente a mais bem-concebida obra brasileira do gênero. Três compositores já falecidos merecem uma menção particular pela sua importância dentro da vida musical brasileira: Cláudio Santoro (1919-1989).1948) e Eduardo Abreu (n. esses violonistas foram o ponto de referência para toda uma geração de compositores nacionalistas que deixaram itens isolados de considerável interesse. dedicado a Carlevaro) para violão não tem o mesmo carisma dos homônimos pianísticos.1956) e. autora de 4 Prelúdios e Ponteio e Toccatina.1929). mas que ainda não teve a chance de ser plenamente avaliada devido ao seu quase-ineditismo. autor de Bach-Rex e Homenagem a Villa-Lobos. como de praxe em Guarnieri. nos 2 e 3: 1982). mas também a consolidação da carreira internacional de uma geração: Carlos Barbosa Lima (n. Camargo Guarnieri (1907-1993) seria. Junto com Isaías Sávio. Os anos 60 e 70 marcam não só uma extraordinária expansão do ensino do violão popular com o advento da bossa-nova. O mesmo deve ser dito do Concerto para violão e orquestra (1976). 4 Serestas. 5 Valsas-Choro. Seu quase total desaparecimento do repertório internacional é um acidente de percurso. mas. Seus 3 Estudos (nº 1: 1958. Ele se exasperava com as dificuldades de se escrever bem para o instrumento. o compositor ideal para dar continuação ao fio condutor de Villa-Lobos.1964). como José Vieira Brandão (1911-2002) com o Mosaico. Theodoro Nogueira (1913-2002). 12 Improvisos e um 82 . sem manifestarem o ímpeto renovador de Villa-Lobos. Marcelo Kayath (n. e seu único Ponteio (1944.1952) e Odair Assad (n. autor de extensa obra que inclui 6 Brasilianas.1941) e Jodacil Damasceno (n. mas tarde. que freqüentemente é tocado como bis. 1986) são obras bem mais simpáticas. original para piano como parte da Segunda Suite Brasileira) dedicado a Segovia. As 2 Valsas-choro (1954. mas na prática isso não aconteceu. Se a contribuição destes compositores magnos de nosso nacionalismo é numericamente decepcionante. inventividade no tratamento instrumental e variedade de expressão. A paixão de Mignone pelo violão em seu último período criativo foi causada em grande parte pelos frutos colhidos da profissionalização do ensino de violão no país. o mesmo não se pode dizer de Francisco Mignone (1897-1986). Duas peças curtas. Canção Brasileira (1970) e Lenda Sertaneja (1982) completam um corpus de obras para violão de máximo interesse. apresentam um caráter torturado e esotérico que apela somente aos intérpretes mais intelectualmente inclinados.1940). com destaque para Henrique Pinto (n. Sérgio (n. levando-se em conta seu implacável artesanato e concisão. e nenhuma outra obra da escola nacionalista merece maior atenção. em todos os tons menores. e 12 Estudos que. mas em 1970 ele produziu a série de 12 Valsas. e Lina Pires de Campos (1918-2003).1949). autor de um Estudo. O cenário nacional também se beneficiou desse arranque e uma nova geração de didatas se estabeleceu neste período.Almeida Prado. apesar de extraordinários como composições. Souza Lima (1898-1982) com seu Cortejo e Divertimento. A percepção do Brasil como o país do violão deve muito a estes dois eventos conjugados. a 2a delas ainda não está sequer editada. Sérgio (n. Suas primeiras tentativas de escrever para o violão foram bem modestas.

como um natural mediador. e Nobre é. dedicado ao violonista paulista radicado na Suíça. Dagoberto Linhares. Os anos da ditadura militar provocaram uma dramática re-configuração da vida musical do país. cristalizou um sistema de ensino acadêmico que prescinde da atuação no dia-a-dia do compositor profissional e encoraja o surgimento de “processos” composicionais que muitas vezes só podem ser decodificados por colegas. a Entrada e Tango. 10 Lúdicas. 4 Prelúdios e da primeira Sonata brasileira para violão. A considerável dificuldade técnica de suas obras tem se mostrado um fator inibidor. Já Edino Krieger obteve considerável sucesso com sua Ritmata de 1974. e tiveram de responder por isso depois da abertura nos anos 80. também autor de um Concerto. hoje atuam numa tênue linha divisória em que a fronteira entre o que é clássico e o que é música instrumental brasileira não é muito clara. cobre um amplo espectro de possibilidades estéticas. e César Guerra-Peixe (1914-1993) autor de 6 Breves. entre o universo da música clássica e da popular. as Reminiscências. Moda Paulista. cuja produção pende entre o nacionalismo urbano da Série Rio de Janeiro e da Imagem Carioca para 4 violões e o experimentalismo sonoro das duas Lúdicas e dos dois Impulsos para dois violões. A considerável repressão da liberdade de expressão forçou artistas e intelectuais a tomarem posições drásticas. Os compositores de orientação pós-nacionalista que mais contribuíram para o repertório brasileiro são Marlos Nobre (n.1928). autor de três encantadoras peças. encontrou-se subitamente numa posição privilegiada. em Livre pour Six Cordes e Portrait de Dagoberto. Um compositor de produção mais mirrada. no Brasil. Passacaglia in Memorian Fred Schneiter e seu Concerto para 2 violões e orquestra parecem prontas a seguir o mesmo caminho.1934). Turíbio Santos e o duo Assad. tem merecido uma calorosa acolhida internacional.Concertino para violão e orquestra. uma obra extremamente engenhosa da sua fase nacionalista. comparáveis às suas Cartas Celestes para piano. Ponteio e Valsa Choro. a Homenagem a Villa-Lobos. Os compositores ativos criaram seus nichos estéticos.1927). é Osvaldo Lacerda (n.1939). Ao mesmo tempo. O violão. e suas obras mais recentes. seguindo o modelo americano. seguindo a esfera de interesse dos intérpretes a quem é dirigida. Compositores de tendência governista não tiveram sucesso em persuadir as autoridades da necessidade de um desenvolvimento contínuo da educação musical. Almeida Prado (n. uma situação que não parece passível de reversão num futuro próximo. atestam sua imaginação poderosa e o colocam como um verdadeiro herdeiro de Villa-Lobos. a participação ativa dos cantores/compositores de MPB no processo de abertura política relegou os compositores clássicos a uma posição secundária dentro do meio cultural e a um recrudescimento do interesse da imprensa pela produção de concerto. demonstram grande profissionalismo de fatura. num plano internacional. muitas vezes opostos. inicialmente escolados na tradição clássica do violão. Intérpretes como Barbosa Lima. e foram seduzidos pela garantia de inclusão de suas obras para violão no repertório regular. Um item isolado de Ronaldo Miranda (1941). o Prólogo e Toccata. Appassionata.1935) e a peça de mesmo título de Sérgio Vasconcelos Corrêa (n. A produção dos compositores independentes. A obra de Marlos Nobre é extensa e de incalculável alcance artístico. robusta realização instrumental e perfeito equilíbrio entre a cor local e as necessidades de um argumento formal de maiores proporções. mas de sumo interesse. Os Momentos I-IV.1943) realizou experimentos com a sonoridade. mas sua Sonata oscila entre uma energia “prokofieviana” e um nacionalismo desbragado. em sua escrita detalhada. de 1969. mais respeitado que tocado. a Sonatina de José Alberto Kaplan (n. Uma maioria de compositores opostos ao regime refugiou-se na rotina do ensino universitário e.1939) e Edino Krieger (n. as Rememórias e o Concerto para 2 violões e orquestra cobrem 30 anos de produção artística. mas este é um fator que deve ser superado em favor de obras de qualidade superlativa que merecem atenção incondicional. A exploração de técnicas pouco convencionais 83 . Outro prolífico compositor de música para violão é Ricardo Tacuchian (n.

Mikulov . com seu Prelúdio. 4 momentos. festivais. e cada vez mais no Brasil.gravações originais . violão . Graham Devine. Uma parcela significativa do público para estes eventos e produtos carece de uma ampla cultura musical e certamente não dispõe de elementos para uma apreciação crítica da produção contemporânea.independente VILLA-LOBOS .EMI OBRAS DE CAMERON. flauta e orquestra. e que desde então tem escrito obras de extrema intensidade teatral. Rafael Rabello. Orq. e Roberto Victorio (n.O GÊNIO DAS CORDAS . Espelhos ainda aguarda estréia. e Marcus Siqueira (n. Impromptu Móbile e Elegia e Vivo. Mais afortunados são aqueles que transitam na tênue linha entre o clássico.encontra em Sighs de Jorge Antunes (n. Achille Picchi (b. de feição algo mais convencional e bartokiana. Carlos Barbosa Lima. cuja Entoada foi agraciada com o primeiro prêmio no Concurso Internacional “Andrés Segovia” de composição em 1997. A polissemia produziu ao menos uma obra de interesse permanente. obras como Aquarelle. Valsa e Finale e 3 Momentos Poéticos para violão e orquestra.99 para violão e sons gerados por computador. autor de ambiciosos projetos formais de caráter mais tradicional como o Prelúdio. violão de modulação rítmica. violão . violão RAFAEL RABELLO INTERPRETA RADAMÉS GNATALLI. CORTES. de genuína erudição.1972). Duo Assad . O perfil deste púbico determina a aceitação internacional de compositores-violonistas como Sérgio Assad (n. a série 84 . AMARAL VIEIRA. cujas Danças Percussivas. – independente GAROTO .1952) o seu canal de vazão. violão .Nonesuch CONCERTO À BRASILERA. distribuição e registro fonográfico destas obras levam-nos à tábua de salvação das universidades e das sociedades e festivais de música contemporânea. com a provável exceção de Faria e Eisenberg. Paulo Pedrassoli.1938). autor de Assimetrias. dono de um refinado ouvido para colorido instrumental. hoje.1957). violão – Naxos LPs 12 ESTUDOS DE FRANCISCO MIGNONE. como Mikhail Malt (n. Gilson Antunes. 3 Ciclos Nordestinos. No mundo. tem intensificado sua produção nos últimos 15 anos. incorporam elementos DISCOGRAFIA A OBRA PARA VIOLÃO DE AMÉRICO JACOMINO “CANHOTO”. Coral e Fuga e a Pentalogia. Ecos. harpa. Tiago Flores.1942) e no Estudo nº1 para violão e narrador de Rodolfo Coelho de Souza (n.1952) que. violão. duo Assad. frenética e difícil de avaliar. A proliferação de concertistas de atuação local e as óbvias vantagens da colaboração entre eles e compositores ainda não plenamente estabelecidos têm criado espaço para uma atividade extensa. uma aceitação menos circunscrita à sua área de atuação será obra do acaso e do interesse continuado dos intérpretes. foi estreado com sucesso sem precedentes na República Tcheca. Que Trata de España de Willy Corrêa de Oliveira (n. além de ser um dos integrantes do renomado duo Assad. celeste e 2 orquestras de câmara Hoquetus. Mário da Silva Jr.Olhos de uma Lembrança”e nº2 Death of Desire. o segundo dos quais. mas eu apontaria os nomes de quatro compositores nascidos depois de 1960 que apresentam todas as condições para uma plena aceitação no repertório internacional: Alexandre de Faria (n. com seu Tetraktis e um Concerto para violão. violão MARLOS NOBRE: Yanomami. há uma verdadeira indústria de sociedades. e entenda-se por clássico não uma categorização estética. o jazz e o instrumental brasileiro. que absorvem alguns elementos do minimalismo. também premiadas num concurso internacional na Venezuela.1957) e seu Lambda 3. Sérgio Assad.Acervo Funarte MÚSICA NOVA BRASILEIRA. além de dois concertos para violão e orquestra. têm de conviver com a nova ordem: dificuldades para publicação.1974). Daniel Wolff.1960). normalmente são estudantes ou amadores sérios que travaram seu primeiro contato com o violão através do pop ou do jazz. Alexandre Eisenberg (n. Artur Kampela (n. Há também autores de itens isolados de alta qualidade. sua Sonata.OBRA INTEGRAL PARA VIOLÃO SOLO. Harry Crowl (n. reg. de Câmara da ULBRA. Dagoberto Linhares.UERJ clássica ALMA BRASILEIRA. editoras e companhias discográficas dedicadas exclusivamente ao violão “clássico”.1959). seu concerto para violão.1966). HOLLANDA CAVALCANTI E LINA PIRES DE CAMPOS. Todos estes compositores. mas tão somente de técnica instrumental. que é ilustrado pelo Impromptu Fragile.1958). informadas por um raciocínio harmônico personalíssimo e de total intransigência de expressão: o Prelúdio nº1 .independente MANHÃ DE CARNAVAL.

Giacomo. 1947. the music. Lorenzo Fernandez. 1950. EDUSP. DUDEQUE. Mário de. vol.. Mário de Andrade e Villa-Lobos. FUNARTE . Maurice J.). 37. compositor brasileiro. São Paulo: Martins. jan/fev/1994. _______. FÁBIO ZANON Concertista.de Jobinianas. Garoto. NEVES. VERHAALEN. www. São Paulo: Centro Cultural São Paulo. José Ramos. Artigos: BARTOLONI. The Classical Guitar. A parte do anjo. Paulo. Mário de. Gilson Antunes. Editora Movimento. Êxito incondicional tem obtido a obra de Paulo Bellinati (n. O dia em que o violão deixou de ser bandido in www. 25. Francisco. _______.1956). SANTOS. Simon. São Paulo: Editora Movimento. Rio de Janeiro. Luiz Heitor Corrêa de. São Paulo: Editora Ricordi. Saulo. e várias peças para duo de violões como Vitória Régia. the life and works. Ensaio sobre a música brasileira. New York: Oxford University Press. variada e instrumentalmente eficiente obra de Paulo Porto Alegre (n. Art Editora Ltda. O Violão em São Paulo in Violão Mandrião. p. José Maria. MIGNONE. Pinote e Recife dos Corais já fazem parte do repertório regular de estudantes do mundo todo. Enciclopédia da Música Brasileira. ANDRADE. 2a ed. vida e obra. ________. MARIZ. 85 .1976) parece destinada ao mesmo êxito. 1981. Flávia. 1981. CHIAFARELLI. London: Khan & Averill. Rio de Janeiro: José Olympio. Marion. Norton.cafemusic. 150 anos de música no Brasil. Porto Alegre: Editora Movimento/SEC-RS/MEC. mas Marco Pereira (n. players and personalities since 1800. Camargo Guarnieri Expressões de Uma Vida. 2000. Villa-Lobos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. TINHORÃO. Manuel Antonio de. 2001. Música. SUMMERFIELD. conseqüentemente.. Cultura Vozes. 1928.1967) e Maurício Orosco (n. 1998. Um caso singular encontramos em Egberto Gismonti (n. Blaydon-on-Tyne: Ashley Mark. KIEFER. Villa-Lobos. Luiz Heitor Corrêa de. London: McFarland. WANDERLEY. WRIGHT.br. São Paulo: Editora Mangione. nº 7. 1991. Lisa. 2002. Memórias de um Sargento de Milícias. Eurico Nogueira. its evolution. História da Música no Brasil. AZEVEDO. TARASTI. e suas obras são. O Violão em São Paulo in Violões & Mestres. p. 1983.1953) e Guinga (n.1950). Ronoel. PEPPERCORN. TONI. 1990. _________ (coord. Direção Nelson. 1994. doce música. Heitor Villa-Lobos e o violão.EDUERJ.mus. 1963. 1998. 5a ed. mestre pela Universidade de Londres e membro da “Royal Academy of Music” de Londres. o homem e a obra. Martins Cruz. Compositores-violonistas cuja principal atuação é na área dos shows amplificados ou como acompanhantes de cantores ou solistas de jazz tendem a se encarar como herdeiros da tradição de Canhoto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA. Dilermando Reis ou Baden Powell. Daniel Wolff (n. 11a ed. restritas às formas de canção e dança. Rio de Janeiro: Museu Villa-Lobos. Liddy. 1976. Música brasileira contemporânea. 1956. 1980. História Social da Música Popular Brasileira. Curitiba: Editora UFPR. O Violão Brasileiro já é uma Arte in Ver.1944). ANDRADE. Vasco. São Paulo: 34. Heitor Villa-Lobos. Bruno. São Paulo: Livraria Martins.violaomandriao. 1975. História do Violão. Turíbio. A extensa. São Paulo: Ática.com. Rio de Janeiro. História da Música no Brasil. Eero. Celso Machado (n. Francisco Mignone. cujo Jongo já foi gravado pelos mais destacados solistas internacionais e que já produziu centenas de obras na mesma veia. 1997. o que não as impede de serem adotadas amplamente como material de concerto mundo afora. 1998. mas cujas obras Central Guitar e Variations: Hommage à Webern se alinham à produção experimental de concerto. celebrado internacionalmente como um dos maiores instrumentistas do jazz contemporâneo. 1987. Francisco Mignone. SIMÕES. FRANÇA. 1995. Porto Alegre.1950) também têm uma ampla base de admiradores. nº 1. São Paulo. AZEVEDO. 5a Ed. São Paulo.1. Villa-Lobos e o modernismo na música brasileira. O traço que distingue estes compositores daqueles chamados violonistas “populares” é uma evidente ambição formal decorrente de sua atividade como concertistas.1955). s/d CASTAGNA. vol II.

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