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Augusto Dos Anjos - Obra Completa

Augusto Dos Anjos - Obra Completa

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Sections

  • O MORCEGO
  • PSICOLOGIA DE UM VENCIDO
  • IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA
  • SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO
  • VERSOS A UM CÃO
  • O DEUS-VERME
  • DEBAIXO DO TAMARINDO
  • BUDISMO MODERNO
  • SONHO DE UM MONISTA
  • MATER ORIGINALIS
  • O LUPANAR
  • IDEALISMO
  • ÚLTIMO CREDO
  • SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO
  • A UM CARNEIRO MORTO
  • VOZES DA MORTE
  • INSÂNIA DE UM SIMPLES
  • ASA DE CORVO
  • O MARTÍRIO DO ARTISTA
  • O MAR, A ESCADA E O HOMEM
  • RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ
  • A UM MASCARADO
  • VOZES DE UM TÚMULO
  • CONTRASTES
  • DEPOIS DA ORGIA
  • A ÁRVORE DA SERRA
  • VENCIDO
  • VANDALISMO
  • VERSOS ÍNTIMOS
  • VENCEDOR
  • ETERNA MÁGOA
  • O LAMENTO DAS COISAS
  • O MEU NIRVANA
  • CAPUT IMMORTALE
  • LOUVOR A UNIDADE
  • SUPREME CONVULSION
  • NATUREZA ÍNTIMA
  • A FLORESTA
  • GUERRA
  • ÚLTIMA VISIO
  • AOS MEUS FILHOS
  • O POETA DO HEDIONDO
  • A FOME E O AMOR
  • HOMO INFIMUS
  • MINHA FINALIDADE
  • NOLI ME TANGERE
  • O CANTO DOS PRESOS
  • VÍTIMA DO DUALISMO
  • AO LUAR
  • CANTO DA ONIPOTÊNCIA
  • ANSEIO (QUEM SOU EU...)
  • VERSOS A UM COVEIRO
  • TREVAS
  • AS MONTANHAS
  • APOCALIPSE
  • A NAU
  • O FIM DAS COISAS
  • A NOITE
  • A OBSESSÃO DO SANGUE
  • VOX VICTIMAE
  • AGONIA DE UM FILÓSOFO
  • O ÚLTIMO NÚMERO
  • SAUDADE
  • ABANDONADA
  • CETICISMO
  • OUVI, SENHORA
  • TRISTE REGRESSO
  • INFELIZ
  • N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS
  • NOIVADO
  • NO MEU PEITO ARDE
  • AMOR E RELIGIÃO
  • CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA
  • O COVEIRO
  • PECADORA
  • NO CLAUSTRO
  • IL TROVATORE
  • A LOUCA
  • PRIMAVERA
  • SENHORA, EU TRAJO O LUTO DO PASSADO
  • SOFREDORA
  • ECOS D’ALMA
  • AMOR E CRENÇA
  • ARIANA
  • TEMPOS IDOS
  • NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA
  • ADEUS, ADEUS, ADEUS! E, SUSPIRANDO
  • A AERONAVE
  • LIRIAL
  • A MINHA ESTRELA
  • A ESMOLA DE DULCE
  • AVE DOLOROSA
  • NIMBOS
  • O MAR
  • ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS...)
  • AURORA MORTA, FOGE!
  • NO CAMPO
  • CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA
  • CRAVO DE NOIVA
  • O BANDOLIM
  • ARA MALDITA
  • TREVA E LUZ
  • O TEMPLO DA DESCRENÇA
  • A PESTE
  • IDEAL
  • AFETOS
  • MARTÍRIO SUPREMO
  • SOMBRA IMORTAL
  • NOTURNO (PARA O VALE NOITAL..)
  • SEDUTORA
  • PELO MUNDO
  • E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA
  • O RISO
  • VAMOS, QUERIDA!
  • A UMA MÁRTIR
  • PELO MAR
  • PALLIDA LUNA
  • A MORTE DE VÊNUS
  • MÁRTIR DA FOME
  • SONHO DE AMOR
  • A ORGIA MATA A MOCIDADE
  • FESTIVAL
  • NOTURNO (CHOVE, LÁ FORA...)
  • E ELE MORREU
  • A DOR
  • O SONHO, A CRENÇA E O AMOR
  • MEDITANDO
  • PARA QUEM TEM NA VIDA
  • SONETO A FREDERICO NIETZCHE
  • O NEGRO
  • VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA
  • O ÉBRIO
  • O CANTO DA CORUJA
  • SENECTUDE PRECOCE
  • MYSTICA VISIO
  • NOME MALDITO
  • MONÓLOGO DE UMA SOMBRA
  • UMA NOITE NO CAIRO
  • AS CISMAS DO DESTINO
  • A CARIDADE
  • OS DOENTES
  • À MESA
  • DUAS ESTROFES
  • MATER
  • GEMIDOS DE ARTE
  • A MERETRIZ
  • VERSOS DE AMOR

EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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.................. 195 Numa Forja ................................. 179 Estrofes Sentidas .................................... 183 Gozo Insatisfeito ........................................................................ 183 História de Um Vencido ................................................ 141 Os Doentes .......................... 168 Noite de um Visionário ......................................................................................... 184 Idealizações ..... 175 Barcarola .................. 197 Quadras ............................................................................128 As Cismas do Destino .................... 209 Poema Negro ......................................................................................................................................................................... 173 A Ilha de Cipango ........................................................................................... 170 A Vitória do Espírito ..... 203 Vênus Morta ............. 199 Tristezas de um Quarto Minguante .... 155 Duas Estrofes ................ 155 Mater .......................................................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra ... 156 Gemidos de Arte ................ 176 Ave Libertas ..... 182 Canto de Agonia ...................................................................... 212 5 ....................................... 186 Insônia .......................................................................... 205 Queixas Noturnas ................. 204 Viagem de um Vencido ............ 142 À Mesa .................................... 166 A Luva ....................... 162 Versos de Amor ..............................123 Uma noite no Cairo ....................................................................................................................................... 200 Mãos ..................................................................................................................................................................... 129 A Caridade ..... 157 A Meretriz ....... 180 Canto Íntimo ............................................................................................................ 192 Ode ao Amor .................................. 190 Mistérios de um Fósforo ...............................

paremos reverentes à porta do templo. que é de todas a menos operante. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. Fazer o elogio do poeta.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. entrava em crise espiritual. ed. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. É preciso. desejosos de. o eu fora do Eu. pois. Gráfica Ouvidor. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. 1962) 6 . nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. poder conhecer a árvore pelo fruto. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. um psicastênico para outros. nos moldes da velha orientação impressionista. ao menos. em suas mensagens de angústia. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. na verdade. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Teria sido um neurótico para uns. Nessa tentativa de interpretação psicológica. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. contudo. Sua personalidade singular ali se projeta. senão em mais de um. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. Por conseguinte. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. RJ. no que há de mais sutil e imponderável. que o não convencia de todo. Não me parece. e era aí. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. isto é. segundo as síndromes patológicas revelados. compreendendo inclusive a estilística. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Nalgum ponto. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. na chaga viva de sua consciência. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. numa atitude de respeito e reflexão. quando. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. não conhecemos sequer a nossa. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. Deste modo. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. nesse estado de superexcitação. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra.

que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. Explica-se deste modo. a partir de Lombroso. por vezes controvertidos. fobias. aos que se acomodam. repetindo conceitos. igualmente inteligentes. sobretudo quando provém da linha materna. não há negar também a dos psicológicos. Ao que se sabe. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. por motivos vários. E por curiosa coincidência. de fundo genético. do sentimento. como é do gosto da crítica científica. Juízo é coisa que todos julgam ter. Nem os que nasceram antes. Assim como a mãe de Augusto.for. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Por seu parentesco espiritual. estudante de medicina. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. choques emocionais. além mesmo da gravidez. Byron. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. Nietzche. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. perturbou-a por muito tempo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. sestros. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Sem o concurso da causa primária. que nada explica. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. enfim. Obviamente. tiques nervosos. com preocupações de grandeza e fidalguia. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. em relação com a casuística. no final. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. Augusto não era um homem igual aos outros. na classificação dos antropologistas do século passado. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. todo o seu temperamento emocional. a de Wilde. menos a de Byron. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. aos que se rebaixam para subir. A mãe do poeta. só ele dava a impressão de um desajustado. a de Nietzche. reduzir tudo a categorismo. causada pela perda imprevista de um irmão querido. a de Byron. Isto posto. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. sobre o seu caso clínico. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . nas modalidades do caráter. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. nem os que vieram depois. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. o refinamento de suas faculdades morais. enfim. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. não é possível interpretar a obra de um escritor. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. da inteligência. a de Leopardi. que já era constitucionalmente quase louca. Pai e irmãos passavam por normais.

saído da roça. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. em contraste com a mocidade e a inteligência. mas não era somente isso. era um introvertido. Nada de admirar. o seu tipo de pássaro molhado. segundo os primeiros retratos que temos dele. cuja vida corria sem obstáculos. a quietude da vida na província. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. Sílvio Romero. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. mas no final 8 . Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. ao invés de um estudante bisonho. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. em Monólogos de uma Sombra. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Já em 1875. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. logo mais. O que há de singular nele não é. aprendeu a ler e. visto ter nascido poeta. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. em prefácio à segunda edição do Eu. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. sem afastar-se do lar. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. Era de fato um excêntrico. evolvia para o evolucionismo de Speneer. A par disso. Com seu pai. A paisagem bucólica da várzea. estavam a fazer dele um lírico. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. dr. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Muito cedo. Coelho Rodrigues. sofregamente bebida nas academias. Alexandre dos Anjos. que lançou em 1919. sofreu duros reveses. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade.Augusto com a sua personalidade psicológica. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. do Eu. em 1900. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. como uma fatalidade. a rigor. inspirado na natureza e no amor. Deste modo. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. os quais o acompanhariam. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. na várzea do Paraíba. Logo mais. cinco anos após a sua morte. no último ano do século passado. a sua própria vida sem problemas. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. com o título Eu e Outras Poesias. em sua linha tomista. que a metafísica estava morta. guiado apenas pela ilustração paterna. conforme disse num soneto que não consta. até o túmulo. O rapazinho de 16 anos. para aprazimento intelectual das elites. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. para maior complicação de sua personalidade. como expressão do pensamento nacional. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. Falava nele o positivista que.

suportou a mais dura crise. Laurindo Leão. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. aliás bem pouco lisonjeiro. Desses embates. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. está sujeita também ao processo da evolução. a velha Escolástica. proceda ou não proceda. mas a origem simiesca do homem. que. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Embora educado na religião católica. Por todo o Nordeste. O beatério era o último reduto do catolicismo. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. de onde saiu formado em 1907. emancipou-se dela intelectualmente. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. Augusto pouco falava. Ao que parece. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. conciliada. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. como toda substância animada. Aliás. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. já lidos nos filósofos da natureza. que só cuidava de preocupações teológicas. de que católico era sinônimo de burro. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. o pensamento ao longe. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. um século antes de Hugo. aliás. a exemplo de Victor Hugo. isto é. Até no Piauí. como uma velharia do século. Martins Júnior. confundidas ambas na unidade cósmica. faziam praça de livres pensadores. dupla feição de filósofo e de poeta. os intelectuais mais dotados. já no seu ocaso. Esquisitão que era. em seu livro Frases e Notas. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. ou mesmo. tentou o milagre de 9 . adepto do positivismo. firmava-se o conceito. Desta forma. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. Na Paraíba. Ainda na fase preparatória de estudos. ficava a escutar os companheiros. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. Comte passou. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Os menos letrados. introduziu entre nós a poesia científica. entre o mundo da forma e o mundo da razão. desde Haller. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. com a evolução da matéria e do espírito. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. em sua. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. José Américo de Almeida. nas concepções filosóficas de seus poemas. se o diabo é tão feio como o pintam. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos.

E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. todavia. como amostra. identifica-se na substância primeva. Aos 17 anos.reduzir a um campo único a ciência e a arte. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Em minha ignota mônada. O aspecto conceptual do poema.. terso na linguagem. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. como bem observa Cavalcanti Proença. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Integrado na sociedade. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. 186 versos. nas duas composições uma coincidência de temas. e—crente no tema. Da substância de todas as substâncias.. trinta anos antes. A simbiose das coisas me equilibra. numa caminhada de 31 estâncias. depois de infinitas transformações. Rimbaud escrevera Bateau ivre. até adquirir a forma humana. simultâneas. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. Não sofre apenas a sua dor. fundado na unidade cósmica. É a sua confissão de f transformista. Venho de outras eras. Vejamos. começa então o drama crucial da consciência. Larva do caos telúrico. já diferenciado na mônada. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. na larva que procede do caos telúrico. Encontra-se. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. chega aos seres mais complexos. Pólipo de recônditas reentrâncias. naquela mesma idade em que. procedo Da escuridão do cósmico segredo. ora transfigurado em filósofo moderno. enfim. A partir da monera. que é a derrota da humanidade. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. que passou do reino vegetal para o animal.. incomparável na forma musicada. a consciência 10 . A saúde das forças subterrâneas. E é de mim que decorrem. facilmente o identifica. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. “esse mineiro doido das origens”. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. E assim continua. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Não há. por força das sucessivas mutações da matéria. Do cosmopolitismo das moneras. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. ampla. poema que abre o Eu e Outras Poesias.. já desiludido. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. Quem já o leu uma vez. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana.

segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. que faz quase lembrar a reencarnação. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. A partir dai. O próprio Augusto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. Por fim. dezenove séculos antes. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. o sofrimento de toda a humanidade. conheci um sujeito. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. já havia dito. dentro do mundo fenomenal. cuido não estar proferindo uma heresia. assombrado com o não-ser. ouvia mais que um tísico. há que distinguir um pormenor. que a ele não interessava considerar. temos aí um transformismo metafísico. que tinha os ouvidos totalmente tapados. diante das maravilhas do aparelho encefálico. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. A rigor. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. tantas vezes exaltada pelo poeta.conspurcada de gozo malsão. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. o remorso já acordado na caverna escura. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. entrega-se ao sacrifício. natural de minha terra. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. no princípio era a força. noção trivialíssima das funções orgânicas. entendia o agregado abstrato da saudade. em esconderijos apropriados. do ponto de vista metafísico. no entanto. o vidente de Patmos: . Nada obstante. A mesma coisa.No princípio era o Verbo. chamando a si. como está dito em Monólogos de uma Sombra. numa espécie de solidariedade subjetiva. Nesse estado d’alma. manifestou o seu espanto. uma espécie de fogo que devora e não consome. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. No fundo. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. Por alma. com sótão e porão. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. É a concepção monística. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. o que vale dizer. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. segundo querem os frenologistas. No tocante à transformação da matéria. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. centro de toda a acuidade sensorial. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações.

inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. sem problemas materiais: Eu. cadáveres e bocas necrófagas. vermes. fonte inesgotável de vida. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. rasgar do mundo o velário espêsso. Profundissimamente hipocondríaco. Sofro. Em tudo. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência.Psicologia de um Vencido . procura penetrar o mistério da substância universal. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Querendo fugir a essas coisas. na melhor das suposições. a matéria putrefata. solta blasfêmias. Por toda parte. Nem por isso admite Deus. Este ambiente me causa repugnância. admite o éter. só serviu para adensar o clima de alucinação. uma natureza gasta. E há-de deixar-me apenas os cabelos. o éter cósmico. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. filho do carbono e do amoníaco. No auge da inquietação. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. onde não há lugar para a alegria. Exausto da luta. onde imperam sombras. desde a epigênese da infância. O próprio amor. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Monstro de escuridão e rutilância.este operário das ruínas. Já o verme . firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras.. procura 12 . Mas como é preciso preencher um claro na consciência. O mundo em que vive é um vasto hospital. impreca. que é o Deus materialista de Haeckel. o lado malsão da vida. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. Ao invés de fecundação do espírito.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr.Fazer a luz do cérebro que pensa. Custa crer que este soneto . causa-lhe repugnância. A influência má dos signos do zodíaco. dominado por um ceticismo acabrunhador. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. Anda a espreitar meus olhos para roê-los..

gasta imensas energias e enche de culminâncias. já cansado de escutar a natureza. não há homem que sofra mais. uma desgraça na vida do poeta.refúgio na inexistência espiritual. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Há. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo.. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Algo de mais grave. Grita a sua dor por toda parte e. Até agora 13 . deve ter acontecido na sua juventude. Antes de mais nada. Nenhum pintor. Tudo isso. em suas visões oníricas. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. Espera aí encontrar o seu nirvana. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. acompanham-no. numa atitude mental de fuga à realidade. que os anos não carcomem. Por um instante. com o poder de sua imaginação. a terrível moléstia que se atribui. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. Mas o diabo não larga a sua presa. o Eu e Outras Poesias. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. E para não capitular a esse apelo. A julgar pelos seus gemidos. E via em mim. Depois disso. coberto de desgraças. Com efeito. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. E é nesta manumissão schopenhauriana. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. evadido de si mesmo. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. O resultado de bilhões de raças Que. como se supunha. O subconsciente o aturde. sente o desejo. paralelamente. tenta ir ao fundo da crença monística. podia fazer dele um triste. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. Onde quer que se refugie. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. que ele denomina um sonho ladrão. diz ele. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. com efeito.. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. a perda da crença e. monstros terríveis. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. nem Haeckel compreenderam. no todo ou em parte.

não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. não pode ocultar que foi vítima dele. dada a ausência de biografia.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. em . inútil seria qualquer esforço. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. Gozei numa hora séculos de afagos. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.. no capítulo do amor. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Iríamos a um país de eternas pazes. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida.. desespero virtual e não real. Lembro-me bem. Por suas próprias palavras. . pois. Ele próprio. Exatamente aí. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Por mais que procure fugir ao assunto. Por enquanto. Trata-se. de uma paixão. que é o drama mais doloroso de sua consciência. sempre se revela. no tocante a esse drama. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores.. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. Por mais que Augusto negue o amor. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 .

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

confessa mais uma vez a sua culpa.. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.Queixas Noturnas . mas no poema . como é sabido. nunca foi chegado a santos. em mágoa. como em . E invejo o sofrimento desta Santa.. Sonâmbulo. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Como um bemol ou como um sustenido.. eu também vou passando Sonâmbulo. contrito.santa.. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Noite.. Sonâmbulo. O poeta. que não é das mais invocadas.Insônia .. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. ao mesmo tempo que.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. Depois de embebedado deste vinho. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.

que não admite a vida espiritual. entre estes monstros. ama-o até mesmo na atômica desordem. A morte é o fim de tudo. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. sem resolver a verdade interior. não para ele. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. dormir primeiro. entre as estrelas flóreas. num carro azul de glórias. mas para os que crêem há ainda uma esperança. sonhando. entretanto. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. Ao pai. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. quando a morte o olhar lhe vidra. como perseguido pela sinistra ceifeira. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. Mãe. Rezo. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei.As Cismas do Destino . Nem uma névoa no estrelado véu. que parece se deixou levar por pressão da família. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. Da mãe.. Ao vê-lo morto. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. pouco fala.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. apenas três vezes. Madrugada de treze de janeiro. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Minha alma sai agoniada..brada: 20 . Mas pareceu-me. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. luta por fugir dela. Como Elias. o ofício da agonia. Em . em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.

Minha filosofia te repele. E ainda.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. embora ansiasse por encontrá-lo. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo.. cheio de imperfeições. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. quando recebeu os 22 açoites da natureza. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Forma difusa da matéria imbele. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. Acha Flósculo da Nóbrega.Morte. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. Nestas condições. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. as palavras também servem para ocultar o pensamento. que Augusto era um cerebral. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. Não me parece tenha razão 21 . 22 anos de idade. ponto final da última cena. Vivia um mundo à parte. como em toda a obra. levava-o a recolher-se em si mesmo. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. Por tua causa apodreci nas cruzes. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. habitado por monstros humanos. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. devia ter na época. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Ao invés de ajustá-lo à realidade. Procura assim desoprimir o coração. Nada o consolava nesse estado de espírito. Já que não crê em Deus.. escravo do raciocínio frio. ardendo em indagações subjectivas. Aqui.. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. não cria em Deus.

contudo. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. Era. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. conforme declarou nesta honesta confissão. O que produziu no sul do País. passos largos. que só repugnância lhe causava. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo.o ilustre intelectual paraibano. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. em 1912. Na luta em que Augusto se debate. Ao contemplar esse ambiente. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Há. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Punha-se então a passear. mas no particular. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. os de maior densidade emocional. A inspiração despertava com a dor. um homem excluído do mundo. Desta. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. como um sonâmbulo. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. entrava em crise espiritual. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Não que tenha recebido ofensas dela. noite a dentro. andar bamboleante. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. ao redor da capela do engenho. que o acolhia com carinho. No fundo. Nem ele próprio se conhecia. De um modo geral. Os seus melhores versos. torturado no sentimento do desamparo. e a mim pergunto. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Não importa que tenha morrido de pneumonia. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. nunca recebeu hostilidades. de vez que ninguém o compreendia. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. sua musa empalideceu à falta de ambiente. tinha-se na conta de um doente. que o 22 . foram produzidos no Pau D’Arco. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. Fosse como ele diz. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. volta-se vez por outra contra a sociedade. além de pouco. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. ao contrário. o cérebro em fogo. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Depois que o poeta deixou a Paraíba. mas porque se sente um desajustado. no caso. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu.

confessa-se minado pela tuberculose. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. os acordes saudosos do coração. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. onde os anjos cantavam. que admirar chore um dia a crença perdida.próprio poeta confessava. em Os Doentes. na terra onde pisava. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Lá para o fim do poema. num desalento ainda maior. Eu bem sabia. hosanas ao Senhor. como ele chamava. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Já cansado do ceticismo. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. em serenata. passa a chorar a sua dor e a alheia. eis que escuta. Era ali. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. pois. à guisa de ácido resíduo. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. atormenta-se com a idéia de que. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. “na urbe natal do Desconsolo”. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. entra a descrever a cidade dos lázaros. fez dele um misantropo. Depois disso. De início. sob os seus pés. Não há. Essa real ou imaginária doença. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. Perdido o amor. como se já tivesse perdido o alento de viver. imaginária cidade à margem do Paraíba. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. perdeu também a crença. o soneto Vandalismo. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. numa emoção que comove. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. aliada à descrença. 23 . Mais adiante. como um arrependido. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. ansiado e contrafeito. Em As Cismas do Destino. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. Parece que desperta para a vida. Na ascensão barométrica da calma.

Santos Neto. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. por exemplo. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo.Meu coração tem catedrais imensas. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Enfim. Canta a aleluia virginal das crenças. em serenatas. Assim é que. Flóscolo da Nóbrega. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. que se afundava a alma do poeta. No final de contas. Sabe-se como compunha. João Lélis. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Ao contrário da incontinente afirmativa. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. para ele. que não é biografia e não chega a ser estudo. era apenas o meio de formular soluções. Templos de priscas e longínquas datas. José Américo de Almeida. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. posto que.. pois. Onde um nume de amor. quase todos. na Academia Paraibana de Letras. Não é. Álvaro de Carvalho. muitas opiniões foram veiculadas. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. em gemidos de dor. ler. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. gostar e não gostar é coisa que se não discute. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Raul Machado. No desespero dos iconoclastas. A arte. este último. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. já na 27ª edição. apenas como autor de um livro apologético. Dos outros. João Lélis e De Castro e Silva. tenham bordejado na superfície do abismo em.. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. Sua obra. Nesse decurso. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. destaco Órris Soares. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. há sempre o que referir.

Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. disse que uma das suas forças. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. como em compasso de música. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta.devoradoras. Seus versos. Poe e Rimbaud. associado à vibração sonora. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. lábios crispados. à primeira vista incompatível com a poesia. Neles. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. a sua personalidade psicológica. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. Essa incompreensão a respeito de Augusto. que pretende ser de interpretação psicológica. Muitas vezes. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. entrava disciplinada em seus versos. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. duendes. escarros. Em ambos. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. o que acabava de compor. essa linguagem. Por tudo isso. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. o outro 25 anos depois. como lamenta o crítico. vermes. também 25 . túmulos. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Só depois de elaborada é que ia para o papel. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. o que era. Essa crítica. o sentimento parece ter outra dimensão. reside justamente no termo técnico. claro que avulta ainda mais o seu mérito. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. com efeito. Euclides da Cunha. Órris Soares. olhar perdido no espaço. este na prosa. Cavalcanti Proença. impressionam pelo poder da dialética. Os versos espoucavam no momento da inspiração. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. certa preocupação inclusive dos simbolistas. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. num timbre especial de voz. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. Foi então que recitou de inopino. Em ter ficado sozinho. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. a passear a esmo. um em 1920. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. que não tenha fecundado a poesia nacional. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. de um a outro canto da sala. sobretudo da crítica provinciana. figuras espectrais e outras visões sinistras. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. sangue de vísceras dilaceradas. na época. lá fora. insulado em sua própria grandeza. enquanto forjava mentalmente a composição. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. em 1945. No entanto. entre nós. a densidade.

tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. com efeito. Não pode o critico ser ortodoxo. mesmo doentia.ficaram sem seguidores. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. pela tristeza indefinível da alma. Ou então. é mais uma aversão de olfato alérgico. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. no duelo da carne. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. Com Baudelaire. que apenas transparece em linguagem evasiva. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. está em tempo de ser feita. nem tudo pode ter cabimento. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. num dos seus últimos sonetos. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. 26 . Mas é preciso notar que essa musa. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. reconheça-se que essa poesia é humana. elogios ou restrições. Eis porque. como se vê. Há. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. O anojamento de Álvaro de Carvalho. por isso mesmo poética. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. neste ensaio de exegese literária. pelas crises espirituais porque ambos passaram. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. a fim de atingir. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. na interpretação de um drama emocional. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. não lhe tira o vigor da expressão verbal. aparelhou. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Nem por isso. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. de sentido mais profundo. Com Verlaine. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. Com Mallarmé.

É. Súbito. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. citado por Augusto Meyer.. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. palavras raras e eruditas. na postura de um campônio rústico. encontra-se em Roma. de uma honestidade quase bravia. um mês após a morte de Augusto. um grande medo toma conta do poeta. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. de mistura com alucinações.através da sensação. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. crematismos. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. havia acentuada tendência do poeta. numa sexta-feira santa. Vez por outra. em quem se acumulam. a filosofia da dor. desejada por um. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. Com Leopardi. em grupos prosternados. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. visionário. Só com Rimbaud. como neste exemplo: 27 . foi José Américo de Almeida. na terra santa. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. em tropos ousados. em termos de comparação. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. pelo sentido da dor universal. sensações simples e cenestesias. num artigo publicado em 1914. desde a sua fase inicial. O único que mencionou Rimbaud. por sua natureza. Augusto lembra Rimbaud. “Na Eternidade. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. assentado sobre cacos de pote e urtigas. a idéia pura das coisas. Segundo Delahaye. quando a cristandade parecia pura sobre a terra. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. só nesse ponto dissimula o pensamento. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. Não fica apenas aí o confronto. Ouvindo isso. para a neologia e o vocábulo raro. Também no amor os dois se assemelham. que dialoga com os elementos imponderáveis. temida pelo outro. De lá de fora. guardando o corpo do Divino Mestre. os mesmos descuidos de metro e rima. isso mesmo de passagem. no ar de minha terra. Honesto em tudo. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Encontra-se. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. Com Antero do Quental. as mesmas figuras de linguagem. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor.. A mesma coisa ocorre com Augusto. vem o barulho das matracas. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. Até nas aliterações e metáforas.

provo-a. Há. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. A toda boca que o não prova engana. é verdade. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. No tempo de jovem. chupo-a. uma diferença de fundo entre os dois poetas. é inútil. Augusto sentia-se puro. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. em suma. . em busca do paraíso terrestre. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. andou conspurcado de sensações súcubas..”. vítima de injustiças humanas. poeta. um suave concerto espiritual na natureza. exacerbava-a. por causas várias. largou-se para a África. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer.. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. Descasco-a. Não sou capaz de amar mulher alguma. como Tântalo. homens de bem cheios de nobres intenções.. E como não 28 . Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. Em cada um deles. mas que o levaram ao resultado conhecido. é como a cana azeda. na Bélgica. ilusão treda! O amor.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Ninguém sofre mais do que ele. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. que era o seu anseio máximo. a julgar pelos seus lamentos. segundo é fama. à beira da água. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. Motivos escabrosos. onde se casou com uma nativa da Abissínia. embora tenham se casado e tido filhos. sente-se que há um complexo de culpa. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Depois desse fato. é improfícuo. Rimbaud. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. o bem e o mal caminhando juntos. contudo. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. filha legítima de sua alma.

isto é. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. revolta-se contra o mundo. Há muitas espécies de conversões em literatura.pode reformar o mundo. perfume. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. tudo quanto desperta a alma. Neste passo. martelada em versos magníficos e candentes. cor. contra a sua grei. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Foi a partir daí. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. 29 . Por curioso paradoxo. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. beleza. numa reação inócua. onde não faltavam o ranger de dentes. isto é. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época.. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. como fontes de inspiração. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental.Une Saison en Enfer . do qual se considerava prisioneiro. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. chegaríamos por certo ao pai Homero que. quando muito. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Possuído do demônio da dúvida. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. conforme confissão feita a Mário de Alencar. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. depois que perdeu a ilusão dos homens. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . som. silvos de labaredas e suspiros de empestados. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Não raras vezes. dessa conversão ao materialismo. perdia-se no estado de dúvida. Mesmo assim. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. entre a voz do sentimento e a da razão. Tais similitudes valeriam. Augusto vai irredento até o fim. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. a criação. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. luz. A vida. tudo quanto eleva os sentidos. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. porém. sem preencher esse vácuo. o amor. os mistérios da natureza. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. mas nem isso acredito tenha havido. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. contra a sociedade. segundo apregoam os fundibulários da crítica. deixava-se ficar no interior da concha. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida.espécie de autobiografia moral. imitação. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. Um problema sempre gera outro. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo.

há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. Ao cabo do bombardeio oratório. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. como ninguém ainda se entendesse. um pedido de socorro. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. se não há Deus. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. No meio em que viveu era querido e admirado. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. aceitar as imperfeições do mundo. heresia maior que a do poeta quando. é questão que não deve ser formulada. a propósito. Todos nós. com raríssimas exceções. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. É o que há. proclamou que Deus não existe. todavia. em torrentes de eloqüência. 30 . se manifesta ainda escravo do batismo. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. resolveu o presidente submeter a questão a votos. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. a meu ver. a essência dos Evangelhos. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. Vale mencionar. porquanto Deus é princípio e é fim. via de regra. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. Alguns críticos. Isso mostra que ele. Se há Deus. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. em meio a tantas emoções extravasadas. Na prática. se sucediam na tribuna. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. é. que se veja na blasfêmia. viram nisso o pecado da blasfêmia. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. quando não proferida por modo vulgar e chulo. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. Os oradores. Se o Cristo não vem em seu auxílio. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. na realidade. Ora. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano.Enredado em idéias preconcebidas. no desespero de tantos sofrimentos. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. uns afirmando. outros negando. tal como Rimbaud. afetando melindres de devotos. mas os que o seguem desconhecem. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. Apurada a eleição e com base no resultado. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência. nas Alterosas. Convém. supria-se do mais no magistério particular.

explodiu em As Cismas do Destino.atormentado por visões escatológicas. A denominação. o sacrifício da linda moça Polixena. No tempo de meu Pai. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. os filósofos iônios.Debaixo do Tamarindo. virtudes que cultivava com extremado zelo. sob estes galhos. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. Abraçada com a própria Eternidade. como uma caixa derradeira. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. coisa que não cabe na boca de um ateu. por mãos de seu filho Pirro. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. começa o poema “Sou uma Sombra. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. como se vê. 31 . E como era sincero e honesto. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. Como uma vela fúnebre de cera. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. Voltando à pátria da homogeneidade.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . vem de muito longe. De outras vezes. Por outro lado. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. dá à alma a denominação de sombra. desde Tales de Mileto. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. entendiam a alma. através dos séculos. De inflexões mentais sua obra anda cheia.

Daí por diante. da substância de todas as substâncias. a 12 de novembro de 1914. em briga com o dualismo. aos 30 anos de idade. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. tal como se apresenta. era uma mônada. tal como a entendiam os filósofos iônios. em Leopoldina. em soluços quase humanos. Assim vai. larva do caos telúrico. Até Deus. que procede do éter cósmico. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. Que outros. !" Este trabalho. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. isto é. É a substância primeva. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. na Federação das Academias de Letras do Brasil.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. como entidade eterna. até que morre numa cidade das Alterosas. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. mas com o que ai está me contento. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. sua intimidade numenal. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. virtualidade espiritual. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. mas dentro da alma aflita Via Deus . perdendo-se novamente no enleio cósmico. para ele. 32 . conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. desde o declínio das crenças mitológicas. Mais poderia dizer agora. vacilante na ciência fria. as formas microscópicas do mundo. assaltado de alucinações. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. até mesmo num grão de areia. nas composições que vão até o fim do livro. acrescenta. Choram ainda dentro dele.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico.

Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. 33 . Conservo de memória tudo quanto produzo. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Sofre de insônia. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. o que não impede.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. da chamada vida física. entretanto. Rio de Janeiro. de abusar um pouco do café. Eu. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Engenho Pau d'Arco. presumo. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. Tenho insônia raras vezes. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. dos Anjos e D. R. Córdula C.

Produndissimamente hipocondríaco. agora. Fecho o ferrolho E olho o teto. filho do carbono e do amoníaco. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. igual a um olho. Anda a espreitar meus olhos para roê-los.” -. Este ambiente me causa repugnância. Meu Deus! E este morcego! E. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. A influência má dos signos do zodíaco. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. Minh’alma se concentra. Esforços faço. Ao meu quarto me recolho. Ergo-me a tremer. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho..TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Já o verme -. Monstro de escuridão e rutilância. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. “Vou mandar levantar outra parede.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. desde a epigênese da infância. e à vida em geral declara guerra.Digo.. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. E vejo-o ainda.. Chego A tocá-lo. E há de deixar-me apenas os cabelos.. Sofro.

Chega em seguida às cordas da laringe. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. tênue. À noite. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Anoitece... Tísica. Riem as meretrizes no Cassino. Delibera..A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. em desintegrações maravilhosas. e quase morta. Marcas oriundas de úlceras e antrazes. quando sonha. Mas. mínima.. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. de repente. e depois. Em qualquer parte onde a cabeça ponha. raquítica. Deixa circunferências de peçonha. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Que. Quebra a força centrípeta que a amarra.

. com a sinergia de um gigante.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. feto esquecido. Em que lugar irás passar a infância. em letras garrafais.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . E. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Agregado infeliz de sangue e cal. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Realizavam-se os partos mais obscuros. Tragicamente anônimo. Que poder embriológico fatal Destruiu. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial.. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. a feder?! Ah! Possas tu dormir. Fruto rubro de carne agonizante.

em que tu dormes. Filho da teleológica matéria. E vive em contubérnio com a bactéria.. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 ... Suficientíssima é.. ampara-a.é o seu nome obscuro de batismo. pelos séculos adiante. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Cão! -. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. Janta hidrópicos. E irás assim. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Livre das roupas do antropomorfismo.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. Verme -. Almoça a podridão das drupas agras. afaga-a. Na superabundância ou na miséria. para provar A incógnita alma. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. arrima-a. Ah! Para ele é que a carne podre fica.

Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. portanto. Como uma vela fúnebre de cera.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. Voltando à pátria da homogeneidade.. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . como uma caixa derradeira. Dr. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. esta tesoura. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. de amplos agasalhos. e.corte Minha singularíssima pessoa. esta árvore. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Guarda... sob estes galhos.

A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. -. com o esqueleto ao lado. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. um dia. Alheio ao velho cálculo dos dias. Por trás dos ermos túmulos. Na guturalidade do meu brado. por toda a pro-dinâmica infinita. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 ..SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí.. Como um pagão no altar de Proserpina. como quem tudo repele.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. com uma ânsia sibarita. mas dentro da alma aflita Via Deus -.

Em que é mister que o gênero humano entre. Todas as noites. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. nesta rede. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. autônoma e sem normas.. mísera e mofina. Como quase impalpável gelatina. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 .. Dentro do ângulo diedro da parede. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Oh! Mãe original das outras formas. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. Ah! De ti foi que. moços do mundo. talvez. vede: É o grande bebedeouro coletivo. como um gado vivo. Onde os bandalhos. Nos estados prodrômicos da vida.

IDEALISMO Falas de amor. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. é o pneuma . para o amor sagrado. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. perante a evolução imensa. É a morte.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. O mundo fique imaterializado -.. Amo o coveiro -. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. Creio. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 .este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . como o filósofo mais crente. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. é o ego sum qui sum . O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. É..

talvez as Musas. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Cinzas.. com a alma às escuras. subi talvez às máximas alturas. Comi meus olhos crus no cemitério. Pelas monotonias siderais. Mas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. caixas cranianas... nele. se hoje volto assim. improficuamente.. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. cartilagens Oriundas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . Era tarde! Fazia muito frio. inclusas. À meia-noite. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. como os sonhos dos selvagens. e. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Vaguei um século.

A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. glebas.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado.fontes de perdão -. inda teremos filhos! 43 . Tamarindo de minha desventura. trilhos. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. vales.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. selvas. Se fosses Deus. pois. Tu. reunidos. Na multiplicidade dos teus ramos. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. porém. para o Futuro. tuas sementes! E assim. Eu. com o envelhecimento da nervura. no Dia de Juízo. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. em diferentes Florestas. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Depois da morte. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Pelo muito que em vida nos amamos.

Como os Goncourts.... Ter o destino de uma larva fria. Como a cinza que vive junto à brasa. É meu destino viver junto a esa asa. Ganem todos os vícios de uma vez.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas.. Perseguido por todos os reveses. nos doze meses.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. Apraz-me. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. à categoria Das organizações liliputianas. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros. asa De mau agouro que. É-me grato adstringir-me. na hierarquia Das formas vivas. Na orgia heliogabálica do mundo.

o Hércules. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. em desalento. mamífero inferior. com os dedos brutos Para falar. “Homem. É como o paralítico que.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. aos soluços. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. conquanto ainda hoje em dia. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. “À luz da epicurista ataraxia. a mim. violento. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. Ouvindo a Escada e o Mar. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior.. o Homem. puxa e repuxa a língua.. rasga o papel. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora.

o ouro que brilha. Que ela absolutamente não furtava. em minha cama. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. minha ama. não fora ela! --“ E maldizia a sina.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. após tudo perdido.. então. mas eu. Ele hoje vê que. afetava Susceptibilidade de menina: “-. entretanto.. hipócrita. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. ralhava. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . Sinhá-Mocinha.Não. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas. Em sucessivas atuações nefastas. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Vejo.. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. Tu só furtaste a moeda.. Que a mim somente cabe o furto feito. Furtaste a moeda só. agora. minha Mãe. Eu furtei mais. como cruéis e hórridas hastas.

Hoje. à noite. após a árdua e atra refrega. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. igual a um porco... Assim Tântalo. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse.. Hás de engolir. E tu mesmo...A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. aos reais convivas. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -.. É noite. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . porém.o brilho Destes meus olhos apagou!. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. e. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. do que este que palmilho E que me assombra...a mãe comum -. num festim.

e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. pois. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. para amenizar as dores tuas. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. O Amor e a Paz.. trilhando as mesmas ruas. e sendo justo.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.. O que o homem ama e o que o homem abomina. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . para onde fores. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Tu.. Irei também. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. e o ângulo reto. o Ódio e a Carnificina. meu Pai?! Que mão sombria. Às alegrias juntam-se as tristezas. é justo. Deus. gemendo.. Pai. Eu.

Como Elias.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Mãe. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. Rezo. cuidei que ele dormia. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos.. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam.. Mas pareceu-me. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.. entre as estrelas flóreas. o ofício da agonia.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. Nem uma névoa no estrelado véu. sonhando. num carro azul de glórias. E a marcha das moléculas regulam. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.

Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. -. É preciso cortá-la. Caiu aos golpes do machado bronco. pai.. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 ..Disse -. sôfrega e ansiosa..Meu pai. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. numa rogativa: “Não mate a árvore. Esta árvore. Livre deste cadeado de peçonha. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -...DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. meu filho. olhando a pátria serra.As árvores. não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... possui minh’alma!. Para que eu tenha uma velhice calma! -.. pois. para que eu viva!” E quando a árvore. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. Apraz-me. meu pai. no junquilho.e ajoelhou-se. enfim. meu filho.

Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. mergulhou a cabeça no Infinito.. preto e amarelo.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Olha a atmosfera livre. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. não tens mais! E pois. de à antiga rota Voar. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. o amplo éter belo. bruto. Pões-te a assobiar. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu... Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Foi este mundo que me fez tão triste. desde o mais prístino mito. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha.. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Continua a comer teu milho alpiste. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. Tu nunca mais verás a liberdade!. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.

em serenatas. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas.. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. Noite alta. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. cismava Em meu destino!. Canta a aleluia virginal das crenças.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. Templos de priscas e longínquas datas. Onde um nume de amor. ególatra céptico. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 . na diuturna discórdia.. Ante o telúrico recorte. me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas.. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.

sente invevitável Necessidade de também ser fera. E à rutilância das espadas. amigo.. Somente a Ingratidão -. o gládio de aço. Toma um fósforo.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. por fim. A mão que afaga é a mesma que apedreja.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. toma A adaga de aço. que. Meu coração triunfava nas arenas. E não pôde domá-lo enfim ninguém. Apedreja essa mão vil que te afaga. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . ao todo. e doma Meu coração -. uns cem. E qual mais pronto. Mora. Acende teu cigarro! o beijo. Se a alguém causa inda pena a tua chaga.. entre feras. e. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. por fim. é a véspera do escarro. guerreiro.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. nesta terra miserável. Vieram todos. Veio depois um domador de hienas E outro mais. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. veio um atleta.

A sucessividade dos segundos. em sons subterrâneos.. podendo mover milhões de mundos. pancada por pancada. a escutar.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. pois. Quer resistir.. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Da transcendência que se não realiza.. Da luz que não chegou a ser lampejo. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. Que.. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Sabe que sofre. a que só ele assiste. nada há que traga Consolo à Mágoa. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. chorando. E é em suma. Ouço.. do Orbe oriundos. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou.

De que. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. me desencarcero. Como a última expressão da Dor sem termo. num grito de emoção. Cesse a luz. a animar o cosmos ermo. afinal. Parem as vidas.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . feito força. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. pensando. sincero Encontrei. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. Foi que eu. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Morto o comércio físico nefando. que os anos não carcomem. eu. Oh! Nauta aflito do Subliminal. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas.

A dardejar relampejantes brilhos. Dói-me ver. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. decompondo-se. o ouvido. Onde a alva flama psíquica trabalha. sem retumbância. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação.. a irmanar diamantes e hulhas. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. sem gritos. pois. o olfato e o gosto! Carne. há inúmeros milênios.. e. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . ao sol posto. Em tua podridão a herança horrenda. arpões. numa alta aclamação. muito embora a alma te acenda. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. feixe de mônadas bastardas.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto.. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. "Com essa intuição monística dos gênios. Diafragmas.. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. a vista. Era. E o Homem — negro e heteróclito composto.

— libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. é a essência pura. É a síntese. às escâncaras. Tragicamente. à espera de quem passa Para abrir-lhe. no Mundo. e. para mim que a Natureza escuto. meus semelhantes! Mas. na noite escura. A convulsão meteórica do vento. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. Este pântano é o túmulo absoluto. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. é o transunto. a porta. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura.O PÂNTANO Podem vê-lo. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. opondo-se à Inércia. sem dor.. Que produz muita vez. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. E o nada do meu homem interior! 57 ..

Reconcentrando-se em si mesma. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. Vence o granito.. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. entanto. O espanto Convulsiona os espíritos. em realidade.. em conjugação com a terra nua. geléia crua.. deprimindo-o . Volvas à antiga inexistência calma!. e. geléia humana. um dia. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . como o gérmen de outros seres.. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. Teu desenvolvimento continua! Antes. não progridas E em retrogradações indefinidas. Antes o Nada. tanto Que. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. ainda algum dia. porventura. oh! gérmen. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. E hás de crescer. no teu silêncio. é natural. que ainda haveres De atingir. causa do Mundo.A UM GÉRMEN Começaste a existir. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água.

Todas as hermenêuticas sondagens.. é inquietude.As ambições que se fizeram troncos. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. no seu arcano. é transporte.. descendo A irracionalidade primitiva. E a coorte Das raças todas. É a Natureza que. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 .. nele.. São absolutamente negativas! Araucárias.. Como um convite para estranhas viagens. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue.. os elementos broncos... . . Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço.. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens.. na ordem cósmica. Bracejamentos de álamos selvagens. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. é o instinto horrendo De subir. é ânsia. traçando arcos de ogivas. Vivem só.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. trancada num disfarce.

acérrima e latente. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas.. Riqueza da alma.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. psíquico tesouro. inteira. sem convulsão que me alvorece. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . E.. sol do cérebro. ancoradouro Dos desgraçados. assim.. Dói-lhe. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande.. Que o sarcófago. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. À humana comoção impondo-a.. em suma. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. saúde dos seres que se fanam. oh! Dor..O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor.

Benditos vós. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . para o último remígio. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Dai-me asas. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. ) Com o vosso catalítico prestígio.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante... Haveis de ser no mundo subjetivo. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio . em épocas futuras. que.. Minha continuidade emocional! 61 .. pois. Ions emanados do meu próprio ideal. Expressões do universo radioativo. pois.. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. Dai-me alma..

então. A alma arde... Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. Arranco do meu crânio as nebulosas... as mãos. os pés e os braços Tombara. A espaços As cabeças. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . Emoções extraordinárias sinto. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Eu sinto. Subitamente a cerebral coréa Pára. A carne é fogo. O cosmos sintético da Idéa Surge.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto.

Os dentes antropófagos que rangem. e. Receando outras mandíbulas a esbangem.. aumenta. na superfície do planeta. enquanto as almas se confrangem. criatura cega. Porque. tragando a ambiência vasta. o alfa e o omega Amarguram-te. No desembestamento que os arrasta. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. Realidade geográfica infeliz. Teu coração se desagrega. Hebdômadas hostis Passam. os dois Representam. Rugindo. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. entretanto. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Superexcitadíssimos. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Sangram-te os olhos. Montão de estercorária argila preta. Excrescência de terra singular. ávida. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta..A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. na ânsia voraz que. carne sem luz.

a Ciência. sou maior que Dante. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo... Sob pena. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 .. aparelhou. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. soluçando. Que força alguma inibitória acalma. E trago em mim. Da dor humana.. O Amor. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. mordem-se. o Inferno. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. homens felizes. a Glória.

Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. È a saudade dos erros satisfeitos. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. Que. ontem. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. cresto o sonho. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. não cabendo mais dentro dos peitos. Entoado asperamente.. em voz muito alta.O CANTO DOS PRESOS Troa. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos.. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. Teço a infâmia. O epitalâmio da Suprema Falta. a exigir que os sãos enfermem. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 .. Uiva. (Hoje. à luz de fantástica ribalta. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Existo Como o cancro.. urdo o crime. a alardear bárbaros sons abstrusos. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos.

VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Nos paroxismos da hiperestesia. minha alma. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando. agarro... Feita dos mais variáveis elementos. o Infinito se levanta À luz do luar. à noite. O Infinitésimo e o Indeterminado. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .. Ceva-se em minha carne. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. enfim.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Transponho ousadamente o átomo rude E. invado. o Céu e o Inferno absorvo. por fim. dona. transmudado em rutilância fria. ausculto. apreendo. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. como um corvo. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.

arder. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. aos trismos Da epilepsia horrenda. Sentia dos fenômenos o fim.. num monturo.. E acima deles. Eu. Tifon. virgem. Siva..A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. Como a luz que arde. como a luz do amanhecer. Átropos. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. como um astro. projetado muito além da História. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair.. Laquesis.

Hão de encontrar as gerações futuras Só. entanto. E. esse mundo incoerente..MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. nem mesmo ao ronco Do furacão que. Branda. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU.. Grita em meu grito. tenta transpor o Ideal. nas minhas formas carcomidas. a soluçar de dor?! -.. Roem-na amarguras Talvez humanas. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 ..Trilhões de células vencidas.) Quem sou eu. A estrutura de um mundo superior! Alta noite.. rábido. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça. neste ergástulo das vidas Danadamente.. alarga-se em meu hausto. Nutrindo uma efeméride inferior. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. a afagar tantas feridas. remoinha.. às apalpadelas e às escuras.. Folhas e frutos.

revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. hirto. Sou eu que. sânie e perfume. -.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . desconforto E ataraxia. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. em cisma abismadora absorto.. feto vivo e aborto. -. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. em que me inundo. Penetro a essência plásmica infinita. aliando Buda ao sibarita..REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. Massa palpável e éter. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. ateando da alma o ocíduo lume. Apreendo.

A aritmética hedionda dos coveiros! Um. Reduzir carnes podres a algarismos. dois. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. rádios e úmeros. somente em.. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. em fúlgidos letreiros. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. quatro. na abismal sustância informe. crânios. três.. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . cinco. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Porque. por hipótese.. sem complicados silogismos. cérebros.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. infinita como os próprios números. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Esoterismos Da Morte! Eu vejo.Tal é. -.

amam jazer. a alma. porventura. De onde rebenta. na natureza espiritual. alma. me semente. assim. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. recalcados. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. Por um abortamento de mecânica. Qual é. Quem sabe.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. em contrações de dor. íngremes. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. perscruta O puerpério geológico interior. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. Estacionadas. afinal. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . e dize-me. oh! delumbrada alma. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos.

A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.. pelo orbe adiante.. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação.. Federações sidéricas quebradas. da Massa. E eu só.. babando.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. alçando o hirto esporão guerreiro.. derrota Na atual força. Espião da cataclísmica surpresa. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. que o Éter indica. derrubadas. em noite aziaga e ignota. e. Zarpa. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. É a subversão universal que ameaça A Natureza. integérrima. se as Tem. Pára e. a amarra agarrada à âncora. subjugue-as ou difarce-as.. A íngreme cordoalha úmida fica. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . sonha! Mágoas. o último a ser. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda.

adstrito à ciência grave. e. ao cabo do último milênio. Sôfrego. vazio! 73 .. que ela encheu. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. E quando. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. cave. A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. o dolo sáxeo. num triunfo surpreendente.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. Haurindo o gás sulfídrico das covas.. Dentro dos ossos. Em convulsivas contorções sensuais. Arrancar. ainda depois da morte. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. Para a perpetuação da Espécie forte. Tragicamente. em que arde o Ser. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Os nossos esqueletos descarnados.

Na mão dos açougueiros. vendo sangue. Disse. há instantes.. Ia talvez morrer.. com um berro bárbaro de gozo. Olhou-se no espelho.. Horrível! O osso Frontal em fogo.. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. eis que viu. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada. Somente. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. mancha a gleba. iguais a espiões que acordam cedo. Extraordinariamente atordoadora. Viu vísceras vermelhas pelo chão. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso.. A água transubstancia-se. antes do almoço. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se.. E amou. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. E.. Era tão moço. fora.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter..

VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou. No mar de humana proliferação. ante obras tais. Rasgo dos mundos o velário espesso..... O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. me não consolo. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep... E em tudo igual a Goethe. E. reconheço O império da substância universal ! 75 . Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.. Leio o obsoleto Rig-Veda.

amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. Hirta. E assim afeito às mágoas e ao tormento. atro e subterrâneo. Se acende o círio triste da Saudade. imensa. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. P’ra iluminar-me a alma descontente.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte.. A Idéia estertorava-se. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. E o coração me rasga atroz. Para dar vida à dor e ao sofrimento. ao meu lado. Fora da sucessão. Era de vê-lo. Eu a bendigo da descrença. 76 . À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. Parecia dIzer-me: "É tarde. Tragicamente de si mesmo oriundo. estranho ao mundo. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Mas que no entanto me alimenta a vida. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Porque eu hoje só vivo da descrença. imóvel. em meio. resignado.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número.

Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. entre o medo que o meu Ser aterra. eu creio em ti.Todas se foram num festivo bando. sombras cor-de-rosa . Fraco que sou.Oh! Deus. gárrulos voando .ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Fugazes sonhos. Da Igreja . Não sei se viva p’ra morrer na terra. Onde a dúvida ergueu altar profano.a Grande Mãe .Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. volvi ao ceticismo. Hoje ela habita a erma soledade. De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. seu olhar magoado. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. de ilusões tão bela. e então sereno. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. em fundo misticismo: . Cansado de lutar no mundo insano. Ah. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 .o exorcismo Terrível me feriu. desgraçado réu.

de amor ferido. Revolvo as cinzas de passadas eras. Quando a morte matar meus dissabores. amei. Sombrio e mudo e glacial. pálidas agora. Cansado de chorar pelas estradas. Todas murcharam. senhora. senhora. senhora. Ouvi. todas sem olores. Desfeitas todas num guaiar dorido. triste e descrido. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. num mês de tantas flores. E que tornou-o assim. Eterno pegureiro caminhando. triste pela vida afora. tristes. Exausto de pisar mágoas pisadas. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Tristes fanaram redolentes rosas. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Morreram todas. SENHORA Ouvi. langorosas. Minh’alma levo aflita à Eternidade.MÁGOAS Quando nasci.

Louco vivia. venceu batalhas. Era o soldado. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. No sepulcro da loura virgem bela. na estrada da existência em fora. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. coração amargurado. pendeu triste e desmaiada. Ao chegar. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. e o pesar negro e profundo. E voltou. Alma arrancada do prazer do mundo. Cantaste e riste. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Alma viúva das paixões da vida. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Mas a Pátria chamou-o. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Altivo lutador. olímpica e singela! E partiu. Oh! Tu. um tresloucado. mas a fronte aureolada. E fica no teu ermo entristecida. Tu que. Esconde à Natureza o sofrimento. enamorado dela.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. 79 . Apaixonou-se d’uma virgem bela. Vivia alegre o vate apaixonado.

Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. soturnais.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. pálidos. Desliza então a lúgubre coorte. Fora no campo pássaros trinavam.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. E rompe a orquestra sepulcral da morte. a brisa respondia. E a mesma frase o noivo repetia. silentes. ardentes . Ambos unidos soluçara um beijo. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Vinha rompendo a aurora majestosa. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Quando da vida. São minhas crenças divinais. no eternal soluço. Há de chegar. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Chegara enfim o dia desejado. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. funéreos. Hoje rolando nos umbrais marmóreos.

Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Assim a turba inconsciente passa. Aí existe a mágoa em sua essência. A morte me será vingança eterna. 81 . Em luta co’a natura sempiterna. Espumando e rugindo em marulhada. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Mas se das minhas dores ao calvário. porém. Já que do mundo não vinguei-me em vida. Dores que ferem corações de pedra. No delírio. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E onde a vida borbulha e o sangue medra. E espuma e ruge a cólera entranhada. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida.

um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. Somente assim festejarei teus anos. Su’alma livre para o Céu se alara. Tu’alma ri-se descuidosamente. Foste do amor o mártir sacrossanto. Quantos. dão-te enganos. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. estulto. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. bom Papá. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . bonecos de formoso busto. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Irmão querido. Morrera um dia desvairado. Mostrar-te o afeto que meu peito sente.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Enquanto outros que podem. num abraço de ternura santa. Pois se da Religião fizeste culto. Jóias." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração.

Moldada pela mão da Natureza. Do destino fatal. Do fado. Bela. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. No entanto. Os seios brancos. A chama cruel que arrasta os corações. palpitantes. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. divina. mornos. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. aveludado. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. tomando a enxada gravemente.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . Dançavam-lhe no colo perfumado. Tornou-se a pecadora vil. amigo verdadeiro. presa. Balbuciou. esta mulher de grã beleza.

Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. os sons esmorecendo. não acordeis. Subindo pelo Azul da Inspiração. E à noute quando rezam na clausura. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. pouco a pouco. addio. desnudas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. . Ai! não. Que guardam pér’las de funéreas rosas. E as mesmas portas impassíveis. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Que guardam cinzas de ilusões passadas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio.Addio. addio! 84 . úmidas arcadas.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. No sigilo das rezas misteriosas. dolente. Trovador torturado e angustioso. Assim canta também meu coração. Eleonora. mavioso. Repercute.

Na auréola azul dos dias teus risonhos. gargalha.O segredo d’um peito torturado E hoje.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Chora. para guardar a mágoa oculta. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. os teus fulgores.a veste desgrenhada. Primavera gentil dos meus amores! 85 .A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . soluça .coração saudoso. . Primavera. Da desdita ferida pelo espinho. Arca sagrada de cerúleos sonhos. a desgraçada estulta. Moça. tão moça e já desventurada.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . porém. Eu sei a sua história. . Canta. No sudário de mágoa sepultada. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Vai morta em vida assim pelo caminho. o triste outono. Num sepulcro de rosas e de flores. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. O cabelo revolto em desalinho.

EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. É minha sina perenal. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA.avança! E eu. eu trajo o luto do passado. No entanto o mundo é uma ilusão completa. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. risonha. ela não cansa. Muita gente infeliz assim não pensa. túm’lo do prazer finado. portanto. tristonha . Sirva-te a crença de fanal bendito. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Também espero o fim do meu tormento. Voltam sonhos nas asas da Esperança. Senhora. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. delirante e vário. Também como ela não sucumbe a Crença. não busques saber por que. 86 .Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. Sonâmbulo da dor angustiado. que vivo atrelado ao desalento. Salve-te a glória no futuro . O berço onde as venturas se embalaram. ergue o teu grito.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Mas não queiras saber nunca. Foi outrora do riso abençoado.

SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. sublime na Descrença. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Mas volta logo um negro desconforto. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . porém. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Bela na Dor. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Sombra perdida lá do meu Passado.o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Chora . Quem me dera morrer então risonho. Quando o rosário de seu pranto rola. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Tenta às vezes. santíssima.

Dorme talvez. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto.. As níveas pomas do candor da rosa. a seu lado Medita. Estende o teu olhar à Natureza. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. nevada. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. crê em Deus. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si. Essa sublime adoração do crente. Na altura Imensa. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. púbere. Branca. a fronte triste. ama. e. mimosa. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Enquanto o amante pálido. Rendilhando-lhe o colo de sultana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem..AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. pois. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana.

. A alma saudosa pelo amor vibrada. Dos romeiros saudosos da desgraça. A procissão dos tristes. não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. A romaria eterna dos aflitos. Entre todos.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . Tem pena dessas cinzas que ficaram. dos proscritos. . coveiro. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. Eu vivo dessas crenças que passaram. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Vai Corina mendiga e esfarrapada. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. além. lânguida e bela. o meu Passado. porém. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . E na choça a lamúria que traspassa O coração.Quero abraçar o meu passado morto.TEMPOS IDOS Não enterres.

Voa. devassando a terra. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. Perto. 90 . Hermeto Lima Adeus. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Saí deixando morta a minha amada. ADEUS. adeus. É como um despertar de estranho mito. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Fitando o abismo sepulcral dos mares. suspirando. Sulcando o espaço. adeus! E. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando.eu disse. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares. Auroreando a humana consciência. se eleva em busca do infinito. ADEUS! E. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Cheia da luz do cintilar de um astro. apenas restam mágoas.ADEUS. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo.

E eu disse . e a estrela foi p’ra o Céu subindo. Disse.A sombra deste afeto estiolado. Envolto da tristeza no delírio. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Lá onde nunca chegue esta saudade. onde não pousa a desventura. Viu o adeus que do Céu ela enviava.LIRIAL Por que choras assim. Minh’alma que de longe a acompanhava. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. Estrela esmaecida do Martírio. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. triste. Mas a noute chegou. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. tristonho lírio.Vai-te. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . . com ela Negras sombras também foram chegando. irmã pálida da Aurora. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 .

Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. o olhar enlanguescido. por entre a dolorosa estrada.A PRAÇA ESTAVA CHEIA.. E todo o dia eu vou como um perdido De dor.. Vítima augusta de indelével falso.Senhora. Pedir a Dulce.o criminoso . O olhar azul pregado n’amplidão. dai-me u’a esmola . Depois. a minha bem amada. E dos lábios de Dulce cai um beijo. 92 . Puro de crime. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. a fé perdida. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.então. e eu gemo o último harpejo. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E na atitude do Crucificado. A praça estava cheia. Estendo à Dulce a mão. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. Morre-me a voz. A esmola dum carinho apetecido.e estertorada A minha voz soluça num gemido. E ela fita-me. perdão. E eu balbucio trêmula balada: . isento de pecado. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. o algoz .

E hás de tombar um dia em mágoas lentas. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. Empenhada na sanha dos abutres. Num desespero rábido. Lá. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. acolhe-me N’asa da Morte redentora. obumbra-me em teu seio. E as trevas moram. e.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Gênio das trevas lúgubres.crença Perdida . E a alma me ofusca e o peito me maltrata.. Há perfumes d’amor . ave negra da Desgraça.segue a trilha que te traça O Destino. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres.. acolhe-me.. onde d’água raso O olhar não trago. assassino. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata.. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES.

negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Abismados na bruma enegrecida.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Reflete a luz do sol que já não arde. dentre a escura Treva do oceano. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Treme na treva a púrpura da tarde. sem bruma Que a transparência tolde. Banhando a fria solidão das fragas. Que o céu reflete. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Quando vos vejo. num mar de esp’rança. só descanta. Mas quando o céu é límpido. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. então. e a alma é a Flâmula do sonho. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. a vida é qual risonho Batel. sem nenhuma Nuvem sequer. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Os nimbos das procelas desta vida. O MAR O mar é triste como um cemitério.

.. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. é desengano. Aurora morta. Hoje é trevas.o Sol que as almas doura! Fugiu. Adeus oh! Dia escuro. e em si a Luz consoladora Do amor . onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Ascende à Claridade. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.1902 AURORA MORTA.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . o meu único Norte. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . Dia do meu Passado! Irrompe. E eu ergo preces que ninguém responde. meu Futuro. Triste criança virginal. agita as tuas asas. FOGE! Aurora morta.. lá nos espaços. é dor. oh! Minha Mágoa. Cantarias do amor a primavera. Anseios d’alma aqui se perdem.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. foge . Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Agora. num Pálio auroral de Luz deslumbradora. quem dera Voar est’alma a ti.1902 95 ..ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. O grande Sol de afeto . Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano. Nem vibra a corda que a saudade esconde.) Nessas paragens desoladas.

Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. Branca. Ah! num delíquio de ventura louca.. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios.Cítara suave dos apaixonados. e. as flores também choram Num chuveiro de pétalas.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. no teu riso de anjos encantados. despertando sonhos. entretanto. No alto.. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . nitente. as águas límpidas alvejam Com cristais. à dolente Unção da noute.1902 96 . E há. Quando. chorando enfloram. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Chora a corrente múrmura. emergindo às trevas que a negrejam. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Pendem e caem . ao luar.NO CAMPO Tarde. Bendito o riso assim que se desata . Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Sonorizando os sonhos já passados.a Louca tenebrosa.

P'ra desvendar os seus segredos santos. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Se evolarn castos. E a lua é como um pálido sacrário. 97 . olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. virginais aromas De essência estranha. sacrossantos. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. se duas eu tivera. que a virgem chora. noctâmbulo da Dor e da Saudade. eterna noctâmbula do Amor. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. toda a cálida Mística essência desse alampadário. Pau d'Arco -1902. Derramam a urna dum perfume vário. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. Também envolta num sudário — a Dor. Ah! como a branca e merencórea lua. Flor dos mistérios d'alma. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida. é como os prantos Níveos. Eu.

a lua é triste e calma. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. chora um ocaso sepultado. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. Quando alta noute. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . vindo de profundas fráguas. Tanto que gemes. bandolim do Fado.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Choras.Quero Correr em busca do Futuro. sonhar novas idades. Teu canto.. Que desespero insano me apavora! Aqui. pompeia a luz da branca aurora. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. Um dia morto da Ilusão às bordas.Quero partir em busca do Passado. e ilusões acordas.. . E vais aos poucos soluçando mágoas. Ali. soluças. Tanto que cantas.

senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. E eu vi os seios teus virem inconhos .Foge. tu vinhas a cindir os ares..Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. agora. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. Meiga. Quiseste-me beijar a ara do peito.. grave e lenta. Fulgia a bruma para sempre. NA ETÉREA LIMPIDEZ. O sol. cindindo os céus risonhos. Caíste morta ao celestial preceito. E eu quis beijar-te o lábio redolente. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. Tocando n'ara negra o níveo seio. à voz de Lúcia. também ria! 99 . E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta.ARA MALDITA Como um'ave. O céu tremia em seu trevoso flanco. qual hóstia. E beijei-te. alegre e rubro. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. caindo dos altares. E. mas eis que neste enleio. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. e como Lúcia. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . Na etérea limpidez de um sonho branco. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta.

ante o branco estendal das madrugadas. eis que emerges. urnas de Sonho. E em mim como no Templo. Em mim como no Templo a Angústia se condensa.ei-lo que avisto. E a rasgar. em bando. o Mundo se concentre. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . Nua. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. Diluis teu peito em sensações profundas. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . a Virgem Mãe dos céus escampos. Flores mortas da Aurora. em banho ideal de amor te inundas. Agora. a rasgar o lúrido sacrário. Sentes o peito em ânsias revoltadas. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio.o círio Da Quimera Falaz. o túmulo da Crença. Mas. Que. luminosa. e. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Que beija a terra e que abençoa os campos. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . E a lua. e.A colunata êxul do Sonho Morto . E.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. Longe das sombras aurorais e amadas. ao ver-te nua.

E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Embaladas no albor da adolescência. ela.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. A alma diluída em eterais cismares.. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.. tudo! Quando Ela passa.. . enquanto Vai devastando o coração das casas.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta. tudo chora. formosa. Plena de graça.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim.Fúlgido foco de escaldantes brasas . 101 .e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. como o sol . Colmado o seio de virentes flores. entre esplendores. Todos dizem co'os olhos para a Sorte .A PESTE Filha da raiva de Jeová .. Como o Cristo sagrado dos altares. formosa entre as formosas..É o castigo de Deus que passa mudo! .. Etéreo como as Wilis vaporosas. semeando a Morte. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e.O sol a segue. e a Peste ri-se. Quero-te assim . No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas.

Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. .. Açucena de Deus. Como o santo levita dos Martírios. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo..... E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. pois. perdoa o teu vencido. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. insânia. a teus pés. Eu venho arrependido. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. assim. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . Chegou a Noite.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 .dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. E para mim. meu anjo. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia.Irei agora. pelo mundo. insânia. pátria da Aurora exilada do Sonho! . eis-me a teus pés. ah! ninguém me responde.CÍTARA MÍSTICA Cantas.. o meu Sonho morreu! Perdão... E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. penseroso e pasmo.

Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Em ânsia de repouso. supremos. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. porém.. Onde nunca gemeu o humano passo... seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Banhou-me o peito. Turificando a languidez dum seio! O amor. Mas. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Por um Cocito ardente e luxurioso. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário.. no Inferno do Gozo. que da Desgraça veio Maldito seja. Da Messalina fria no regaço. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. . e. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . sem Calvário.

E vi-te triste. eu que te almejo.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta.. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti... a noute é tumbal. Como um'alma de mãe.. Sombra de gelo que me apaga a febre. e a saudade da infância. eu vi. estes dardos acúleos Caíam. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância. desvalida e nua! E o olhar perdi. também da Dor. lá dos braços hercúleos.. E estavas morta. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.SOMBRA IMORTAL .Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais.. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância... num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo..E tu velas. . no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.. a sós. mulher... . Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. Ah! que um dia da Vida.

. chegando. entanto. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. O roble altivo entreteceu4e um ninho. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Chegaste. Somente tristes os teus olhos vejo.. o seio branco. no negror me abrasa.. inata! E. Bendita a Santa do Carinho. Que luz é esta que das brumas vasa... virginal.. profundo?! Rumores santos.. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. Que canto é este.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. e é noute de fatais abrolhos. ajoelhando à imagem do Carinho. Uma pantera foi se ajoelhando.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . te acolheu a mata. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora. Alvorejando em arrebol de prata. e no Santo harpejo. e. tu. Alva d'aurora. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . Branca bem como empalecido arminho. Pérolas e ouro pela serrania. Choras.. E um canto vai morrer no vale fundo..imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.

. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. mórbidos encantos. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.. e lânguida. Qual rosa branca que ao tufão vacila. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas..PELO MUNDO Ânsias que pungem. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Triste como um soluço de Dalila.. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. no Alto. 106 . Já Vésper. Fria como um crepúsculo da Judéia.

Riso. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. sonolento e tardo. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .Ele. clown da Sorte . os gaturamos Num recesso de névoa. Na Via-Látea fria do Nirvana.A hora dos tristes e dos descontentes..Fogo sagrado nos festins da Morte .quem mede-o?! . querida! Já é Ave-Maria . Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . No ar. QUERIDA! Vamos. e a todo o seu assédio. que ao frio alvor da Mágoa Humana. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .o voltairesco clown . adormecida. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho.. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.Eterno fogo. Silfos morriam..Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. coração..O RISO "Ri.

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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. Saio de casa. A incandescência irial dos candelabros. mas meus movimentos Susto. Os ventos.. batendo em todas as retinas.) Chove. Vibra. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. Os passos mal seguros Trêmulo movo.. LÁ FORA. vão bater. O dia Foge. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. Negro. Surge agora a Lua. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer... diante do vulto dos conventos. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. violentos. De encontro ás torres e de encontro aos muros.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 .. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. Desencadeados. NOTURNO (CHOVE. E em meio ás refrações verdes e hialinas.

A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. Já que perdi a última batalha! E. Primavera.. outono. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. verão. os vermes vis. E hoje. Diluiu o silêncio em litanias.. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo.. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. poetas.. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. Que há muito tempo não cantava lá. inverno! 113 . Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. ....Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. enquanto o Tédio a carne me trabalha.

Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. abraçado às campas dos poetas. Gemem poetas ..A DOR Chama-se a Dor. enxuto o olhar. Carpem na sombra pássaros ascetas. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza. onde.pássaros da Noute! 114 .Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. e quando passa. . ao noturno açoute. Aqui é o Campo-Santo. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. enxuta A face. inda altiva.. Ela. E se cantar como a Saudade canta. ela. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. e o travo há de sentir. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. Pare chorando nesta Terra Santa.

Vence. A CRENÇA E O AMOR O sonho. e morrem os vermes que o consomem. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . Luta. nada há que o abata e o vença! Por isso. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. assomem Descrenças. e por fim. eu penso na Ventura! E o pensamento. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. o sonho. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. poeta.O SONHO. na Suprema Altura Sinto. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. a crença e o amor. surjam tédios na Descrença.

Feito no decurso de dois minutos.. nada achaste. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. profundo. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo. para penetrar o mistério das lousas.. por fim. De que te serviu. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . por fim.. Tesouros reais. pois.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. estudares.. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Foi-te mister sondar a substância das cousas ..Construíste de ilusões um mundo diferente. auríferos tesouros. e. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações.PARA QUEM TEM NA VIDA. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade..

. ela subiu. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. em ânsias. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.. São dois colossos. dois gigantes mudos. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. ... E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Embora oculta.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .O NEGRO Oh! Negro. .santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. no entanto...

Daí a pouco. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.. Nisto. foram buscar a Glória E que.Era o suplício!. Mas eu não contarei nunca a ninguém. O Sol ardia.. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. . e não vê por onde fuja. ira-o morrer também. Quantos também.. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Implora a Deus como a um fetiche vago.. . Saiu. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . na atra estrada que trilhei. Trás de mim.. ver Se nesta ânsia suprema de beber. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . ela seria morta.. ouve o canto aziago da coruja! . Buscava Em verdes nuanças de miragens.Novo Sileno. quantos também deixei..em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. como eu.E o horror começa! Rasga As vestes.Quer fugir.Se ao menos voasse! .. como eu.

canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste... a alma serena. E afora disto. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.. Por isso.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes.Continua a cantar. Assim como uma casa abandonada. diz ao povo: "É pena! . Não há quem nele um só tremor denote! . vivia.." Pau d'Arco -1905 119 . A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.. Olha essa neve pura! .Foi saudade? Foi dor? ... ele a morrer. Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. pressentindo a lousa. de repente. Mas..Aqui ainda havia alguma cousa. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Sei que na infância nunca tive auroras... E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.

Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. inda com o braço altivo. não andei mais sozinho! Abraçou-me. Da tribo alegre que povoa os ares... Para onde eu ia. Dizes Tudo que sentes. o vulto ia a meu lado E desde então. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado... Não mentes. Diz que ele não morreu. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. diz que ele é vivo.. A múmia de um herói do tempo de Ísis. E eu me elevava.. em Tebas . E. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 .. Bem como tu. .Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz.. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares.a tumbal cidade. persuadido fica do que diz.

E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. E. assim como o de Jesus Cristo. de saudades me despedaçando De novo. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E.E apesar disto. como um cão covarde. A lua continue sempre a nascer! 121 . amigos. Existo! .O tamarindo reverdeça ainda. onde. ia... morrer.. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. à tarde. pois.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. com medo do Infinito. Saiu aos tombos. Por toda a parte. assim. A percorrer desertos e desertos. Teve sede e fome... quando Eu. Nada se altere em sua marcha infinda . triste e sem cantar. assombrado.. antes de viver! Meu corpo. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. aos tropeços.

Ah! Basta isto.. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! . ..A LÁGRIMA . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .O farmacêutico me obtemperou. água e albumina.

. A podridão me serve de Evangelho. Não conheço o acidente da Senectus -. ampla. E é de mim que decorrem. Do cosmopolitismo das moneras.. Larva de caos telúrico. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Pólipo de recônditas reentrâncias. sem dispêndio algum de vírus. sem bramânicas tesouras. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. vibra A alma dos movimentos rotatórios. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Em minha ignota mônada. possuo uma arma -. simultâneas. Amarguradamente se me antolha. Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.. À luz do americano plenilúnio. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social... procedo Da escuridão do cósmico segredo. Como um dorso de azêmola passiva. 123 .Esta universitária sanguessuga Que produz. Amo o esterco..

Sonoridade potencial dos seres. quebrando estéreis normas. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. -. O coração. O horror dessa mecânica nefasta. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. em síntese. a boca. a coçar chagas plebéias. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. causa ubíqua de gozo. Com a cara hirta. já nos últimos momentos. Ao clarão tropical da luz danada. Aí vem sujo. amanhã. Raio X. E apenas encontrou na idéia gasta. Como quem se submete a uma charqueada.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. iguais a fogos passageiros. Quimiotaxia. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. A vida fenomênica das Formas. 124 . rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. abdômen. luzem. bestas agrestes. o Homem. O espólio dos seus dedos peçonhentos. Que. Fonte de repulsões e de prazeres. magnetismo misterioso. ondulação aérea.

Do seu zooplasma ofídico resulta. E após tantas vigílias. Sôfrego.. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. Como no babilônico sansara . Brancas bacantes bêbadas o beijam. Como que. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. vai gozar. Uivando.. igual à luz que o ar acomete.. E explode. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. E à noite. Num suicídio graduado. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. À guisa de um faquir. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. consumir-se. Suas artérias hírcicas latejam. Sentindo o odor das carnações abstêmias. ébrio de vício. em lúbricos arroubos.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. No horror de sua anômala nevrose. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. fazendo um s. brincam. Negra paixão congênita. No sombrio bazer domeretrício. em suas clélulas vilíssimas. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. E até os membros da família engulham.. Toda a sensualidade da simbiose.. Numa glutonaria hedionda. o monstro as vítimas aguarda.. 125 .. bastarda. pelos cenóbios?!. à noite..

Sente que megatérios o estrangulam.. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Essa necessidade de horroroso. Quando o prazer barbaramente a ataca. Mas muitas vezes. A asa negra das moscas o horroriza. Reconhecendo. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. Acorda. Abranda as rochas rígidas. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. Na própria ânsia dionísica do gozo. Hirto. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. quando a noite avança. em rembrandtescas telas várias. Mostrando. bêbedo de sono. observa a ciência crua. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. A família alarmada dos remorsos.Macbeths da patológica vigília. As alucinações tácteis pululam. se estende Dentro da noite má.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. Numa coreografia de danados. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .... As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. esculpindo a humana mágoa. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Que tateando nas tênebras. E de su’alma na caverna escura. Somente a Arte. com os candeeiros apagados. Assim também.

Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. Há-de ferir-me as auditivas portas. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Executando. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Julgava ouvir monótonas corujas. sem que. entanto.E reduz. Prostituído talvez. Era a canção da Natureza exausta. entre daveiras sujas. a desintegre. -. Da luz da lua aos pálidos venábulos. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. E. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases.. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . ouvindo estes vocábulos.O ferido que a hostil gleba atra escarva.O homicídio nas vielas mais escuras. Continua o martírio das criaturas: -. Na produção do sangue humano imenso.. até que minha efêmera cabeça. -.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. À condição de uma planície alegre. em suas bases.

O Cairo é de uma formosura arcaica. Resplandece a celeste superfície. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. na mais próxima planície. um saltimbanco da Ásia.. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. Embaixo. Vaga no espaço um silfo solitário. Convulso e roto. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 .. discutindo. Os mastins negros vão ladrando à lua. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. exposto ao luar. no apogeu da fúria. Apenas como um velho stradivário.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. A Lua cheia Está sinistra.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. O céu claro e produndo Fulgura. Dorme soturna a natureza sábia.. A rua é triste.. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -.. Num quiosque em festa alegre turba grita. das pirâmides o quedo E atro perfil. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. Tonto do vinho. conversando..

Atravessando uma estação deserta. à luz de áureos reflexos. O calçamento Sáxeo. Profundamente lúbrica e revolta. Uivava dentro do eu . Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Dançavam. E aprofundando o raciocínio obscuro. Mas. então. A matilha espantada dos instintos! Era como se.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Livres de microscópios e escalpelos. de asfalto rijo. Assombrado com a minha sombra magra. na alma da cidade.. com a boca aberta. indo em direção à casa do Agra. parodiando saraus cínicos. Apregoando e alardeando a cor nojenta. A ponte era comprida. Ponte Buarque de Macedo. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. Mostrando as carnes. Pensava no Destino. atro e vidrento. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Lembro-me bem. O trabalho genésico dos sexos.. Eu vi. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Eu. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Copiava a polidez de um crânio alvo. Fazendo à noite os homens do Futuro. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. 129 . a irritar-me os globos oculares.

Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. É bem possível que eu umdia cegue. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. 130 . o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes.Fetos magros. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. No ardor desta letal tórrida zona. na ígnea crosta do Cruzeiro. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. E. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Ninguém compreendia o meu soluço. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. Ah! Com certeza. ainda na placenta. Deus me castigava! Por toda a parte. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. pelo menos. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. como um réu confesso.

E até ao fim. Não! Não era o meu cuspo. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. à guisa de ácido resíduo. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. para não cuspir por toda a parte. Que. Que eu. aos poucos. quotidianamente. Arrebatada pelos aneurismas. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. de tal arte. Ia engolindo. cujas caudais meus beiços regam. ansiado e contrafeito. Eu bem sabia. cinco. três. quatro. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. estranha. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Sob a forma de mínimas camândulas. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. Benditas sejam todas essas glândulas. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. 131 . em minha boca. Na ascensão barométrica da calma. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava.

Ninguém. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. para hipnotizar-me! Em tudo. Siva e Arimã. À anatomia mínima da caspa. Mas um lampião. então. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . Nessa hora de monólogos sublimes. Iluminava. Com a força visualística do lince. a rir. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. sem pudicícia. Livres do acre fedor das carnes mortas. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. de certo. A camisa vermelha dos incestos. E o luar. com as brancas tíbias tortas. Rodopiavam. estava ali. Vai pela escuridão pensando crimes.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. Imitando o barulho dos engasgos. os duendes. A companhia dos ladrões da noite. lembrava ante o meu rosto. da cor de um doente de icterícia. Davam pancadas no adro das igrejas. Um sugestionador olho. Perpetravam-se os atos mais funestos. o In e os trasgos. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. ali posto De propósito. maior talvez que Vinci. Buscando uma taverna que os açoite. a espiar-me. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco.

e vence-O. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Todos os personagens da tragédia. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. A pedra dura. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. E a palavra embrulhar-se na laringe. Como bolhas febris de água. Cansados de viver na paz de Buda. E o meu sonho crescia nosilâncio. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. distingo-a. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. 133 . em que.

berrava. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. na glória da concupiscência. aflita. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. a sós. 134 . refletindo. Iam depois dormir nos lupanares Onde. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. E apesar de já não ser assim tão tarde. No meu temperamento de covarde! Mas. na dor forte do vômito. Aquela humanidade parasita. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos.A planta que a canícula ígnea torra. Fabricavam destarte os bastodermas. Os bêbedos alvares que me olhavam. Como um bicho inferior. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Um conjunto de gosmas amarelas. sobre o meu caso Vi que. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. igual a um amniota subterrâneo.

135 .e. tal qual. numa ânsia rara. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. ponto final da última cena. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Numa impressionadora voz interna. embora o homem te aceite. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres.. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. Fazer da parte abstrada do Universo. como um cordão. Reboou.. Ao pensar nas pessoas que perdera. por tua causa. Rolam sem eficácia os amuletos. num fundo de caverna. o eco particular do meu Destino. Minha filosofia te repele. Nessas perquisições que não têm pausa.Prostituição ou outro qualquer nome. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. nas catedrais mais ricas. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Forma difusa da matéria embele. em tudo imerso. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. pior que o remorso do assassino. a morte é ingrata.

a refletir teus semelhantes. Trazes.Jamais. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. sondas A estéril terra. A formação molecular da mirra. com a bronca enxada árdega. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. antes Fosses. por vezes. espirra. para que a Dor perscrutes. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. estriada. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. Mesmo ainda assim. magro homem. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. 136 . seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. em síntese. E se. não como és. o cordeiro simbólico da Páscoa. fora Mister que. e a hialina lâmpada oca. se divide.

O fogão apagado de uma casa. Deixa os homens deitados. As aves moças que perderam a asa. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. 137 . as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. O tecido da roupa que se gasta. O antagonismo de Tífon e Osíris. a fera ultriz que o fojo Entra. Lembram paióis de pólvora explodindo. Que ainda degrada os povos hotentotes. A mentira meteórica do arco-íris. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Os terremotos que. à espera que a mansa vítima o entre. As projeções flamívomas que ofuscam. abalando os solos. Como uma pincelada rembrandtesca. Onde morreu o chefe da família. Na sangueira concreta dos massacres.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A cristalização da massa térrea. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. O Amor e a Fome. As pálpebras inchadas na vigília. -. as nódoas mais espessas. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. sem mortalha. O achatamento ignóbil das cabeças.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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de errante rio. a amêndoa. o urro Reboava. satisfeito. a ameixa. sobre as hortas. como as ervas. Meu ser estacionava. alto e hórrido. olhando os campos Circunjacentes. Em cuja álgida unção. Além jazia os pés da serra. Criando as superstições de minha terra. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. 143 . a abóbora. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. No Alto. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. A Paraíba indígena se lava! A manga.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. Apenas eu compreendo. em quaisquer horas. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. magnânima e magnífica. Benigna água. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. branda e beatífica.

Alucinado. dores não recebem. Um português cansado e incompreensível. Vômitos impregnados de ptialina. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. OH! desespero das pessoas tísicas. Restos repugnantíssimos de bílis. Estas não cospem sangue. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Reboando pelos séculos vindouros. a existência Numa bacia autômata de barro. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. como inúmeros soldados. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Cortanto as raízes do último vocábulo. os micróbios assanhados Passearem. Adivinhando o frio que há nas lousas. 144 . estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. aos bocados. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. O ruído de uma tosse hereditária. entre estrépitos e estouros.

urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. naquele instante. com o vexame de uma fusa. resfriando-vos o rosto. hoje. 145 . Onde a Resignação os braços cruza. a água. no Amazonas. Saía. com efeito. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. em sonhos mórbidos. A mágoa gaguejada de um cretino. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. me acorda. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. Consoante a minha concepção vesânica. É a alfândega. magras mulheres. Pelas algentes Ruas. Nos ardores danados da febre hética.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes.

por fim. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . adstrito à étnica escória. Viu toda a podridão de sua raça. A civilização entrou na taba Em que ele estava. diante a xantocróide raça loura. Com uma clarividência aterradora. sem difíceis nuanças dúbias. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. caladas. Desterrado na sua própria terra.. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. De repente. Ah! Tudo. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio.Fedia. como um lúgubre ciclone... todas as inúbias. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. entregue a vísceras glutonas. Jazem. espantada.. Na tumba de Iracema!. 146 . tendo o horror no rosto impresso. Recebeu. E agora. A carcaça esquecida de um selvagem. acordando na desgraça. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas.

147 . Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. roído pelos medos.: o homem e o ofídio. Maldiziam. com voz estentorosa. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. rolando sobre o lixo.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. A peçonha inicial de onde nascemos. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. E eu. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. ex. No horror daquela noite monstruosa. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. Todos os vocativos dos blasfemos. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos.

em suma. Eu voltarei. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico.E. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. o anelo instável De. como Cristo. Reduzido à plastídula homogênea. Anelava ficar um dia. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. perante a cova. cansado. por epigênese. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. porém. na terráquea superfície. às vezes. Tentava. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. Sem diferenciação de espécie alguma. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. 148 . Consubstanciar-me todo com a imundície. como um homem doido que se enforca.

virgem fostes.. ignóbil.. à-toa. As prostitutas.. Estendestes ao mundo. para além. no horizonte. Mas. Uma.. vítima última da insânia. doentes de hematúria. e. agora. entre oscilantes chamas. análoga era. 149 . e as mãos. com violência. De certo. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. embalde. alva.. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Acordavam os bairros da luxúria. até que. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. derreada de cansaço. a saraiva Caindo. Nem tínheis. Se extenuavam nas camas. quando o éreis. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Não tínheis ainda essa erupção cutânea..Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Quase que escangalhada pelo vício.

Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Eu pensava nas coisas que perecem.De vós o mundo é farto. Sentia. 150 . E estais velha! -. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. E hoje. A racionalidade dessa mosca. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. eu. no chão frio da igreja. porém. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Como uma associação de monopólio. que a sociedade vos enxota. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. argots e aljâmias. Como quem nada encontra que o perturbe. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. na craniana caixa tosca.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. inquieto. A consciência terrível desse inseto! Regougando.

Vem para aqui. em que eu entrei adrede. Quanta gente.A estática fatal das paixões cegas. E o cemitério. nesta hora. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. roubada à humana coorte Morre de fome. Pela degradação dos que o povoam. palpável. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Rugindo fundamente nos neurônios.Aquilo era uma negra eucaristia. Já podre. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. sobre a palha espessa. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. À falta idiossincrásica de escrúpulo. E a ébria turba que escaras sujas masca. com o ar de quem empesta. estriges voam. de repente. como Ugolino. após baixar ao caos budista. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Sem ter. O fácies do morfético assombrava! -. assim inchado. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. escorraçando a festa. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Mas. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. nos braços de um canalha 151 . Absorvia com gáudio absinto. Apareceu.

a camisa suada. iguais a irmãs de caridade. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Na impaciência do estômago vazio. Comendo carne humana. a alma aos arrancos. Ao pegar num milhão de miolos gastos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . entre fardos. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. cheio de vermes. como quem salta. Pisando. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. À sodomia indigna dos moscardos. Vendo passar com as túnicas obscuras. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Todos os meus cabelos se arrepiaram. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. ao clarão de alguns archotes. Num prato de hospital.

trazendo-me ao sol claro. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. De quem possui um sol dentro de casa. Absorve. às vezes. Uma sobrevivência de Sidarta. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Manhã. E eis-me a absorver a luz de fora. em vez de hiena ou lagarta. Os raios caloríficos da aurora. Proporcionando-me o prazer inédito. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. No frio matador das madrugadas. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . Como o íncola do pólo ártico. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências.Como indenização dos meus serviços. após a noite de seis meses. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. No céu calamitoso de vingança Desagregava. déspota e sem normas. O benefício de uma cova fresca. Dentro da filogênese moderna.

a meu ver. em colônias fluídas. O Espaço abstrato que não morre Cansara. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. o vagido de uma outra Humanidade! E eu... Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. corre.. tudo a extenuar-se Estava. Vinha da original treva noturna. em vão teu ódio exerces! Mas.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Acompanhava. Eu sentia nascer-me n’alma. oh! Morte. Hirto de espanto. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.. com um prazer secreto. A gestação daquele grande feto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. entanto. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. O ar que. Igual a um parto. com os pés atolados no Nirvana. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. numa furna.

. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Coisa hedionda! Corro. Antegozando a ensangüentada presa. É a hora De comer. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Rodeado pelas moscas repugnantes. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais. como eu.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Apenas com uma diferença triste.. E agora.. amigo. Com a diferença que Lisboa existe E tu. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. bela como um brinco. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Ai! Como Os que. não existes mais! 155 . têm carne.. Como! E pois que a Razão me não reprime. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.

entre dores. nas vitrinas. Do que essa pequenina sanguessuga. comparo. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. Assim. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. E o antigo leão.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. sem pretensões. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. oh! Mãe. Há de crescer. a atmosfera se encherá de aromas.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. que te esgotou as pomas. sujo de sangue. Relembrarás chorando o que eu te disse.. O Sol virá das épocas sadias. à amostra. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. quanto a mim. um novo Ser.. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. haurindo amplo deleite. Clara. No lábio róseo a grande teta farta -.

GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava.. Por causa disto. Magro. nos fortes fulcros. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . eu vivo pelos matos. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras. com que guarda meus sapatos. as tesouras Brônzeas. não prendi minha existência?! Por que Jeová. também gira e redemoinham. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. numa ininterrupta Adesão. haurindo o tépido ar sereno. Beber a acre e estagnada água do charco. Os pães -..filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. maior do que Laplace. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. roendo a substância córnea de unha. mordendo glabros talos. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. Tais quais.

Dorme num leito de feridas. goza O lodo. cheio de chamusco. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. apalpa a úlcera cancerosa. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. E eu vou andando. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. no agudo grau da última crise. Úmido. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. Beija a peçonha.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Com a flexibilidade de um molusco. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos.

Eu. De árvore em árvore e de galho em galho... quero.. fustigue. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. no árdego trabalho.E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. largando pêlos. No chão coleia a lagartixa. pelo ar. corte. morda!.Augusto .. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. A terra cheira. Nos terrenos baixos. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. Ladra furiosa a tribo dos podengos.. depois de morrer. em vez do nome -. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. depois de tanta Tristeza.. Os ventos vagabundos batem. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 . O ar cheira. Entrançados. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. Em grandes semicírculos aduncos. salta. Com a rapidez duma semicolcheia. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. queime. bolem Nas árvores. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário.

III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. Quantas flores! Agora. Amontoadas em grossos feixes rijos. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. como exóticos pintores. Como um anel enorme de aliança. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. À dura luz do sol resplandecente. Aqui. Como pela avenida das Mappales. Nédios. outrora. Une todas as coisas do Universo! 160 . Trôpega e antiga. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. Pintam caretas verdes nas taperas. Os musgos. batendo a cauda. sem conchego nobre. O aziago ar morto a morte Fede. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Na bruta dispersão de vítreos cacos. em vez de flores. Por saibros e por cem côncavos vales. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. O lodo obscuro trepa-se nas portas. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. dos esconderijos. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Urram os bois. Viveu. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. As lagartixas.

e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir... Grito. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. À carbonização dos próprios ossos! 161 .. aqui. Só. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. à luz da consciência infame. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. sem pai que me ame. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. arrebentando a horrenda calma. Que por vezes me absorve. como quem raspa a sarna. com a misericórdia de um tijolo!. Súbito.E assim pensando... Julgo ver este Espírito sublime. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. da mesma forma que o homem morre. De pé.. A lamparina quando falta o azeite Morre. é o óbolo obscuro.

por fim.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. urna de ovos mortos. a arquivar credos desfeitos. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. em coréas doudas. funcionária dos instintos. O Vício estruge. Sente.. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. E a mulher. aliando. à lua. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que.. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. Ouvem-se os brados Da danação carnal. ébria e lasciva. a âmbulas moles. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. em contorções sombrias. Espicaça-a a ignomínia. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. Reduzidos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. Lúbrica. espremendo os peitos. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. Bramando. hórridos uivos Na mesma esteira pública. de cabelos ruivos. Entre farraparias e esplendores. como o estepe. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. alta noite. através os meus sentidos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. 162 . à luz do olhar protervo. Com as mãos chagadas. recebe. hirta. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.

Ei-la. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 .. já morta essencialmente..... pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. Na óptica abreviatura de um reflexo. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. E a dor profunda da incapacidade Que. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. de bruços.. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. em cada humana nebulosa. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. filha do inferno.Chão de onde unia só planta não rebenta.. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. E a Carne que. É o hino Da matéria incapaz.. Fulgia. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza.

Ficou rolando. e a estraga Na delinqüência . Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. sonhos de culminância... ânsia De perfeição. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Numa cenografia de diorama. como aborto inútil.. impune. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.. Saem da infância embrionária e erguem-se..O atavismo das raças sibaritas. Irradiava-se-lhe. adstrito a inferior plasma inconsútil. adultos.. momentaneamente luz fecunda. talvez.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. Como o . hírcica. Libertos da ancestral modorra calma.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas.... decerto. Na homofagia hedionda que o consome. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. rubros.. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. Que. radiando. Pudera progredir.. Mas que. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo.

............ ................................................................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia......... ................................................................................................. ....................... .... Mordeu-lhe a boca e o rosto............... Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E........................... ............. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos..................................... ao trágico ditame....................................................... ................................................................................................................................................................................................ condenada............................... .................................. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto... oca.. .............. 165 ................. ....... ... ................Sugando a seiva da árvore a que se une! .................................................

poeta.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. enfim. atenta a orelha cauta. tal como eu o estou amando. em ânsias. amo Mas certo. o observas. do egoísta Modo de ver. o ponto outro de vista Consoante o qual. É Espírito. por experiência. Para que. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. pois. enfim.. é éter. Integralmente desfibrado e mole. chupo-a.. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. eu que idolatro o estudo. E hoje que. Diverso é. é substância fluida. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. provo-a. Pudera eu ter. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . consoante o qual. ilusão treda! O amor. observo o amor. o egoísta amor este é que acinte Amas. Oposto ideal ao meu ideal conservas. Imponderabilíssima e impalpável. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. Cuida. é como a cana azeda. A toda a boca que o não prova engana.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. Quis saber que era o amor. oposto a mim. entretanto. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. Porque o amor. Descasco-a. este o amor não é que. É assim como o ar que a gente pega e cuida. conheço o seu conteúdo. Como Mársias -.

Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora... Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. Como Vulcano. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. em ânsias. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito... sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. trágico e maldito. olhando o céu que além se expande: ".. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens.. Trabalharei assim dias inteiros. trabalhar contente. 167 . Sem ter uma alma só que me idolatre. com o seu grande grito. opresso. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. que devia. no quadrilátero da alcova. a tumbal janela E diz. E só. depois disso. abre. .A maldade do mundo é muito grande. Entendi. contra ele. Que importa que. os monstros zombeteiros.

sacudindo-o todo.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .

Com os ligamentos glóticos precisos. E não haver quem.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. por ver-vos. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. O reino mineral americano Dormia. A essa hora. Cortanto o melanismo da epiderme. 169 . Que forma a coerência do ser vivo. banhava minhas tíbias. sob os pés do orgulho humano. lhe entregue. E a cimalha minúscula das ervas. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. alto. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Como um cara. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Recebiam os cuspos do desprezo. recebendo injúrias. oh! céu. Rua Direita. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. íntegra. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. nas telúrias reservas.Dizia. e erguia. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. num canto de carro.

Pela alta frieza intrínseca. o ancilóstomo. com a símplice sarcode. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. Onde minhas moléculas sofriam. úmida e fresca. Pareciam talvez meu epitáfio. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. Com a abundância de um geyser deletério. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. com o ar horrível. em diástoles de guerra. Mais tristes que as elegais de Propércio. O vibrião. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 .A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. me pediam.

o passo constrangendo. Era uma viúva. Feras rompiam tolos e balseiros. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. E pelas catacumbas desprezadas. Eternamente aberta ao sol e à chuva. ampla e brilhante.. Mochos vagavam como sentinelas. nos altares esboroados. a viúva.. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. A Lua encheu o espaço sem limites E. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Uma vez. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. foi transpondo a porta. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. funeral mesquita.Um vento frio começou gemendo. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Em passo lento. . Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Súbito alguém. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. Parou em frente da mesquita morta.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. dentro. e o olhar errante.

arremetendo. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. E sobre o corpo da viúva exangue. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. entretanto. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. E raivosas.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Morria a noite. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida. infernais ardendo Todas as feras. Além. Como uma exposição de carnes vivas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. entanto. contra ela. Fora. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 .

Verde. exata... Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas.. afetando a forma de um losango. Qual num sonho arrebatado fosse. brilha A árvore da perpétua maravilha.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Rica. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango. ostentando amplo floral risonho. ao sol. 173 . trêmulo. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. pela vez primeira... tenho alucinações de toda a sorte. Pára. Atravessando os ares bruscamente.... em luz perpétua. num enleio doce. quem diante duma cordilheira. entre assombros.. Assim. em plena podridão. no meio. Na ilha encantada de Cipango tombo. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. A saudade interior que há no meu peito. Da qual.

O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. Passa o seu enterro!.. A tarde morre.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem..... Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Gozei numa hora séculos de afagos.. E finalmente me cobri de flores.. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Banhei-me na água de risonhos lagos.

Se um cai. O Céu. Vai uma onda. de cima. em lúcido véu.globo de louça Surgiu. outro cai. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Vagueia um poeta num barco. esse vai Para o túmulo que o cobre.BARCAROLA Cantam nautas. outro se ergue e sonha. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Espelham-se os esplendores Do céu. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta.. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . em reflexos. Quem as esconda. A Lua . choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores.. nas Águas. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. as esconda.

forte. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. porém. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. "Viajeiro da Extrema-Unção.. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "Mas nunca mais. poeta da Morte!" ... "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê...

É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. oh! Redentora d'alma. pois. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. Da liberdade ao toque alvissareiro. Oh! Liberdade. Essa luz etereal bendita e calma. A República rola-lhe nos ombros. . risonho. Manchar não pode as aras da República. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. fazei que destes brilhos. oh Pátria. e. Vós. Da República a nova sublimada.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. esplendorosa. Fulgente do valor da vossa glória. E ali do despotismo entre os escombros. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. A Liberdade assoma majestosa. Caia do santuário lá da História. Não! que esse ideal puro.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. Como um Tritão. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. levando ao mundo inteiro.

sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. ao matinal assomo. O amor reduz-nos a uniformes placas.. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. à luz das minhas frases. vendo o horror dos meus destroços. desvairado. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia.Mas hoje. Uma montanha que se desmorona. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Aves de várias cores e de várias Espécies.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra.. Estremecendo em suas próprias bases. 178 . cantam óperas inteiras. Na área em que estou. E. nas oliveiras. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos. Passa um rebanho de carneiros dóceis. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . Além.

sinto um violento Rancor da Vida . À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . E quando a Dor me dói. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. Da observação nos elevados montes Prefiro. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.. Tal qual ela é. à nitidez real dos aspectos. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. ébria de fumo e de ópio. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. A inanidade da Ilusão demonstro Mas.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. à frente dele. heroicamente. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. demonstrando-a. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime..Observo então a condição tristonha Da Humanidade.

em sonhos erra. a esmo. De lá. Passo longos dias. Vem cá.CANTO ÍNTIMO Meu amor. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Muito longe. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. se duvidas. Muito longe. em sonhos. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . erra. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. dos grandes espaços. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. olha estas feridas. Que o amor abriu no meu peito.

Neve que me embala como um berço divino. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve.. Frio que me assassina. prece que ainda Entre saudades rezo. a sós.. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 . abraça a sombra e. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. quanto mais me desespero. amor e frio. Sem um domingo ao menos de repouso. .. experimento O mais profundo e abalador atrito. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Delícia que ainda gozo.CANTO DE AGONIA Agonia de amor. e o sofrimento De minha mocidade. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. numa delícia infinda. vendo-a. ontem. agonia bendita! .. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. oração. Amor. triste.Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei. Fazer parar a máquina do instinto. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho.. murmura: .Misto de infinita mágoa e de crença infinita. uma nuvem que corre. escuridão e eterna claridade. o louco. num volutuoso assomo. Neve da minha dor. Agonia de amar. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. agonia. neve.Diz e morre-lhe a voz... Mas. Numa prece de amor. Caminha e vai. agonia! .. agonia.

A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí..HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. Mas o braço cansou! Trabalhou. A terra escalda: é um forno. Fez reboar pelo solo. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. do agro solo. Rasgando. e o trabalho . nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. a superfície bruta.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! .. E em tudo que o rodeava. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. Triste. acende O pó. foi aos poucos se arrastando. Por seis horas seu braço empenhado na luta. mordendo a atra terra infecunda.. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. E o Velho veio para o labor cotidiano. lúgubre e só. oito vezes. funéreo 182 .

. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara.o último esforço.. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. e o braço Pendeu exangue. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. a flux d'água. o cansaço Empolgara-o. o acalenta. a família! Não morreria. bêbado de miragem. louco. era a turba trovadora Que assim cantava. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. flutua! Ninguém o vê. o peito arqueou-se. Nem viu que era chegado o termo da viagem. e compreendendo tudo. E amplo. pois! Somente morreria Se da Vida. Num instante viu tudo. onde arde e floresce a Crença. e a sonhar. Caminhava.. o precipício estava. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. sozinho. avistando uma frondosa tília Julgou. a toa. o Velho caminhava. ele pisasse os trilhos. os filhos.. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. ninguém o acalenta. a rugir-lhe aos pés.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito.. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 ... tombando. avistar a Árvore da Esperança.. Quis fazer um esforço .

Asas de corvo pelo coração. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. sangrento O sol. Negras. E há no meu peito . Atros.. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. fulvos. dourando as névoas dos espaços.. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Subindo á majestade do Infinito.. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. rubro. alvas.ocaso nunca visto. . mudo. a Sombra . Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.eis tudo! E no meu peito . mudo.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. ígneo. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. Trazem no peito o branco das manhãs 184 .. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. Além.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. luminosas. e. Na majestade dum condor bendito. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada.condensada treva A sombra desce. E a Noite emerge. mudo. Descem os nimbos. pompeiam (triste maldição!) .. Raios flamejam e fuzilam ígneos.. volaterizadas. aos astrais desígnios.

o tigre. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. assassino Ébrio de fogo. como tombou outrora. lodo. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. Ah! Como tu. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. se.. O leão. ontem moribundo. Vésper me encanta. E corno a Aurora . como se esses raios N'alma caindo. em plena e fulva reverberação.. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. se tornassem ferros?! IV Poeta. 185 . e hás de ser após as chamas. A alma se abate. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo.hóstia da Aurora. III De novo. entre esplendores. de que serve. a Aurora. há-de Alva. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. em lodo tudo acaba. curvo ao seu destino. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. ciclópico. em vão na luz do sol te inflamas. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Sírius me deslumbra. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. Fantástico.o Sol . se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. A Mágoa ferve e estua. se erguer. se. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. a lesma. Hoje de novo. Como Herculanum foi após as chamas. o mastodonte.

E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. frias. pois poeta. Canto. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. pelas penedias. Iluminando as serranias. E arrasta os coraç5es pela Descrença. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. banha As serranias duma luz estranha. Pelos rochedos. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. foi valas funerais deixando.. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. pelas escarpas. Sírius me deslumbra. E foi deixando essas funéreas. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. a Lua que no céu se espalha.Arrasta as almas pela Escuridão.. um pedestal de tanta Treva e dor tanta... como abutres Medonhos.. Ergue. Medonhas valas. e minh'alma cobre-se de flores .. e. Então. de ilusões te nutres. onde. Como recordação da festa diurna.. Vésper me encanta. de ossos. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte.Fera rendida à música divina. sobe ao pedestal..

Depois de embebedado deste vinho. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. Mas.. triunfalmente. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.. nos céus altos. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. sonâmbulo. 187 . em mágoa.. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta....Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. eu também vou passando Sonâmbulo. sonâmbulo. E invejo o sofrimento desta Santa. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! ..INSÔNIA Noite.

os corimbos. porém.Vagueio pela Noite decaída. equilibrando-se na esfera. em mágoa imerso. As árvores. Cercado destas árvores. batendo na alma. Recordam santos nos seus próprios nichos. O Sol.. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida.. Agora. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Atro dragão da escura noite. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. hedionda. as flores. estronda Como um grande trovão extraordinário. Em que o Tédio. Aqui. neste silêncio e neste mato.. por exemplo. Estou alegre. o funerário. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Com o olhar a verde periferia abarco.. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .

"Cinza. Olho-o. harto. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. Presto. aparece. é mais de um. e na ínfima ânfora. De onde. a esvaziar báquicos odres: . através ovóide e hialino Vidro. "Onde nenhuma lâmpada se acende. ébrio. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . Risco-o Depois. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. por outra. Mergulho.Mucosa nojentíssima de pus. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. "Onde os ventres maternos ficam podres. "Na tua clandestina e erma alma vasta. Dois são. barro. Todos os organismos são oriundos. síntese má da podridão. E o que depois fica e depois Resta é um ou. os beiços na ânfora ínfima. irrupto. certo. porque um. A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. "Miniatura alegórica do chão. Olho-o ainda. amorfo e lúrido. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . por epigênese geral. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial.

de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. como nunca outro homem viu. ora. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. Na síntese acrobática de um salto. sou eu. mônada vil. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. o que nele Morre. Se escapa. em segredo. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. Migalha de albumina semifluida. na terra instável. Vida. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. sois vós.Zooplasma pequeníssimo e plebeu.. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará.. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . dentre as tênebras. que. Em que todos os seres se resolvem! 190 . Então. do meu espírito. muito alto. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. cósmico zero. Move todos os meus nervos vibráteis. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos.Do mundo o mesmo inda e. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. é o céu abscôndito do Nada. Depois. sozinho. Sob a morfologia de um moinho.

Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 . E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. Adeus! Que eu veio enfim.Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.. E eis-me outro fósforo a riscar. De onde quimicamente tu derivas..

As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar.. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. lembras. medras Nalma de cada virgem. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem. Retroa o sino. Amor. Cantas a Vida que sangrando matas. 192 ... E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. E.. Sinos além bimbalham. chora e se lamenta e vibra.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. . Ora. Troa o conúbio dos amores velhos . e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. tangendo tiorbas em volatas. E em tudo estruge a tua dúlia . a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . vezes. davas brandindo em seva e insana Fúria. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . . e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.

. impassível! Esta de amor ode queixosa. Irene.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. beija os áureos pés dos ídolos. sonhei-a. ontem. Eis o motivo porque fiz esta ode. Quedo. pois. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. fosforeando. aos astros.Essa dominação aterradora .Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Entre timbales e anafis estrídulos. Assim. quando Entre estrias de estrelas. 193 . Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. e eis o motivo. Cativo. Irene. Irene. esse poder terrível.

E eu nervoso. tinir. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. Dentro. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. irritado. Inopinadamente 194 . bruta. Trinta e seis graus à sombra. Quase com febre. Da qual. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. erguido do pó. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. ao meio-dia. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. berrar.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias.

A ouvir todo esse cosmos potencial.O ígneo jato vulcânico Que.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. . A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. afinal. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.

divina. E dá-me assim. Assim como Jesus.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei... Aperta-me em teu peito. Morreu-te a redolência.QUADRAS Embala-me em teus braços. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios. Aperta-me em teu peito. perdeste a ciência. oh! morena . Embala-me em teus braços! 196 . Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito. Eu quero o meu Calvário . De lírios e boninas Um veludíneo leito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena.

.. em suma. e.. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . E aos tombos. Vista. A conta recomeço. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. 6. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me.ª-feira. Dói-me a cabeça.Uma. duas.. Aumentam-se-me então os grandes medos. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. quatro... Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. quando a noite cresce.. 3 de maio. três.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho.Uma. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. através do vidro azul. embora a lua o aclare. Tenho 300 quilos no epigastro.. em ânsias: . No bruto horror que me arrebata. Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo.

A luz fulge abundante 198 . Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. A lua é morta. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Por muito tempo rolo no tapete.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida ..aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. por exemplo. Meu tormento é infindo. Mas aquilo mortalhas me recorda. E o amontoamento dos lençóis desmancho.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas.. . Súbito me ergo.. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Cinco lençóis balançam numa corda. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. . Tal urna planta aquática submersa.... numa festa.. Tomba uma torre sobre a minha testa. Vêm-me á imaginação sonhos dementes.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". Ponho o chapéu num gancho. Acho-me. O suor me ensopa.. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza.Sucede a uma tontura outra tontura..

Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. hierática. Babujada por baixos beiços brutos. feliz. Broncos e feios. De mim diverso. Côncavo. numa última cobiça. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. cheia de adubos. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. Entretanto. no ato da entrega Do mato verde.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. passei o dia inquieto. longe do pão com que me nutres Nesta hora. a terra resfolega Estrumada. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . Vários reptis cortam os campos. A ouvir. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. observa A universal criação. radiante e estriado. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. o céu. No húmus feraz. em diâmetro.

às da neve. a delinqüentes natos. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. tentáculos sutis. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Umas. Outras.. em sangue. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. vão cheirar. pituitárias Olfativas. E à noite. Monstruosíssimas mãos. a farpas de rochedo Completamente iguais. negras. ás dos cristais. Pertencentes talvez... Assinalados pelo mancinismo. 200 . Mãos adúlteras.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais.. Mãos que adquiriram olhos.

Mas neste sonho. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Opalescência trágica da lua! Tu. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros.a Carne. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Guarda a saudade que levou do Mame. E como um nume de pesar. Pareces reviver a antiga Ofélia. langue e seminua..VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. . E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . plangente. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria .. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. oh Quimera. Sonho abraçar-te. pálida camélia. Rola a violeta santa dos teus olhos .Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.

Aprazia-me assim.. O feto original. era só O ocaso sistemático de pó. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. num ruidoso borborinho Bruto. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. com uma vela acesa. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. E. Convulsionando Céus. com soluços quase humanos.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. uivando hoffmânnicos dizeres. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. na escuridão. análogo ao peã de márcios brados. como num chão profundo. enquanto eu tropeçava sobre os paus. No desespero de não serem grandes! 202 . Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. Cruzes na estrada.. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Eu procurava. Aves com frio. Choravam.

Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. ao colher simples gardênia. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. assim. perdido no Cosmos. Brilhava. vingadora. Noite alta. de onde se vê o Homem de rastros. com a sidérica lanterna. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. na ânsia dos párias. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. frias como lousas. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. me tornara A assembléia belígera malsã. Fluía. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. A abstinência e a luxúria. Como o protesto de uma raça invicta. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. Mas das árvores. Maior que o olhar que perseguiu Caim.Vinha-me á boca. horrenda e monótona. uma voz 203 . O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio.

Nós. árvore.. Crânio. enquanto Deus. montanha. Para esconder-se nessa esfinge grande. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . Rimos. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. em suma.. obscuro. Na prisão milenária dos subsolos. diante do Homem. afinal. tão profunda. entres Na química genésica dos ventres. Tragicamente. arvoredos desterrados. que. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. choramos. porque. a espiar enigmas. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. do Equador aos pólos. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. na ânsia cósmica. ovário. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. Porque em todas as coisas. com a febre mais bravia. pois. iceberg.Tão grande. Para erguer. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Rasgando avidamente o húmus malsão. isto é. oh! filho dos terráqueos limos. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. Se hoje. amanhã píncaros galgas. Não trabalham.

naquela noite de ânsia e inferno. alheio ao mundanário ruído. astro decrépito. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. a erguer-me. Eu. a escalar Céus e apogeus. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . em destroços. desgraçadamente magro. Eu fora. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. A voz cavernosíssima de Deus.

E muitas vezes a agonia é tanta Que. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada.. entre estes monstros. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Minh'alma sai agoniada. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. é o prélio enorme. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. rolando dos últimos degraus. armado de arcabuz.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. Para pintá-lo. no combate. As minhas roupas. Na ânsia incoercível de roubar a luz. arrancado das prisões carnais. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra.. em coalhos. pela boca. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. quero até rompê-las! Quero. Viver na luz dos astros imortais. 206 .

Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me.. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.. em suma. é inútil. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. é improfícuo. Seja este. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. E é tudo: o pão que como.esta arca. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 .. E tombe para sempre nessas lutas.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. a água que bebo. faz mal.. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. A bênção matutina que recebo. enfim. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração .

-. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho.Faminta e atra mulher que. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Mas de repente.. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. Corro. abrindo todos os jazigos.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. Intimamente sei que não me iludo. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 ..esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. numa cova. Então meu desvario se renova.. Como que. come. a 1 de Janeiro.. na vertigem: -. A Morte. e a mim pergunto. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. em trajes pretos e amarelos. estudo. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. rio Sinistramente. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres... à meia-noite. Sai para assassinar o mundo inteiro.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. sozinho. ouvindo um grande estrondo.

os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Perante a qual meus olhos se extasiam. como a gula de uma fera. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. desta cova escura. Eu desafio. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. que em mim dorme. Tu não és minha mãe.. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . e quando vi o que era. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. canalha.. Amarrado no horror de tua rede.. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. em grupos prosternados.. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza.. Quis ver o que era. Vi que era pó. e após gritar a última injúria. acorda em berros Acorda. e de declínio Em declínio. Deixa-te estar. Como as estalactites da caverna. Com as longas fardas rubras. É Sexta-feira Santa. Por tua causa apodreci nas cruzes.. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez.

O céu dorme. no ar de minha terra.. Roma estremece! Além.Um esqueleto.. Dentro da igreja de São Pedro. O vento entoa cânticos de morte. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Na molécula e no átomo. As luzes funerais arquejam fracas. Desperto. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. A árvore dorme Eu.. Como as chagas da morféia O medo. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos.. somente eu. Na Eternidade. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. quieta. vendo-o. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. e a gente.

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