EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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................. 186 Insônia .. 155 Duas Estrofes ........... 141 Os Doentes .... 205 Queixas Noturnas ....................................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .................................... 162 Versos de Amor ................................................................................................................................... 200 Mãos ............. 173 A Ilha de Cipango .................................. 183 História de Um Vencido .............................................. 155 Mater ................. 190 Mistérios de um Fósforo .......... 156 Gemidos de Arte ......................................................................... 142 À Mesa ......... 204 Viagem de um Vencido ................................ 184 Idealizações ..... 129 A Caridade ...................................................................... 183 Gozo Insatisfeito ................................................................................. 182 Canto de Agonia ...........................................................................................................................................128 As Cismas do Destino .....................................123 Uma noite no Cairo ......................................................................... 180 Canto Íntimo .......... 192 Ode ao Amor .......... 179 Estrofes Sentidas .............. 197 Quadras ................ 168 Noite de um Visionário .......................................................... 199 Tristezas de um Quarto Minguante ..................................... 170 A Vitória do Espírito .................. 203 Vênus Morta ........................ 176 Ave Libertas ......... 212 5 ................................................................................................... 166 A Luva .......... 195 Numa Forja ......................................................................................................................................................................................... 157 A Meretriz .......................................................................................................................... 209 Poema Negro .................................................................................. 175 Barcarola ..................................................

Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. ed. numa atitude de respeito e reflexão. isto é. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. que é de todas a menos operante. desejosos de. Teria sido um neurótico para uns. que o não convencia de todo.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. e era aí. Gráfica Ouvidor. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. na verdade. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. o eu fora do Eu. quando. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. ao menos. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. nos moldes da velha orientação impressionista. segundo as síndromes patológicas revelados. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. Por conseguinte. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. senão em mais de um. entrava em crise espiritual. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. contudo. Nalgum ponto. Fazer o elogio do poeta. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. Sua personalidade singular ali se projeta. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. É preciso. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. no que há de mais sutil e imponderável. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. na chaga viva de sua consciência. não conhecemos sequer a nossa. Não me parece. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. em suas mensagens de angústia. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. 1962) 6 . compreendendo inclusive a estilística. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. RJ. nesse estado de superexcitação. um psicastênico para outros. Nessa tentativa de interpretação psicológica. poder conhecer a árvore pelo fruto. Deste modo. pois. paremos reverentes à porta do templo. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico.

como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. como é do gosto da crítica científica. a de Leopardi. só ele dava a impressão de um desajustado. do sentimento. Sem o concurso da causa primária. perturbou-a por muito tempo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. igualmente inteligentes. aos que se rebaixam para subir. Isto posto. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Nietzche. de fundo genético. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . ficou desajustada da mente pelo resto da vida. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. nas modalidades do caráter. Juízo é coisa que todos julgam ter. E por curiosa coincidência. sobretudo quando provém da linha materna. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. sobre o seu caso clínico. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. caracterizado por uma sensibilidade doentia. Nem os que nasceram antes. Augusto não era um homem igual aos outros. Obviamente. no final. por motivos vários. na classificação dos antropologistas do século passado. A mãe do poeta. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. em relação com a casuística. não é possível interpretar a obra de um escritor. a de Byron. enfim. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. da inteligência. repetindo conceitos. Por seu parentesco espiritual. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. não há negar também a dos psicológicos. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. menos a de Byron. tem sido Augusto comparado a Leopardi. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. todo o seu temperamento emocional. causada pela perda imprevista de um irmão querido. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. enfim. Byron. aos que se acomodam. nem os que vieram depois. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. reduzir tudo a categorismo. Ao que se sabe. além mesmo da gravidez.for. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. estudante de medicina. com preocupações de grandeza e fidalguia. fobias. Pai e irmãos passavam por normais. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. Explica-se deste modo. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. que nada explica. por vezes controvertidos. a de Nietzche. que já era constitucionalmente quase louca. sestros. choques emocionais. o refinamento de suas faculdades morais. a de Wilde. Assim como a mãe de Augusto. tiques nervosos. a partir de Lombroso.

que lançou em 1919. era um introvertido. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava. a quietude da vida na província. O que há de singular nele não é. guiado apenas pela ilustração paterna. sofregamente bebida nas academias. Falava nele o positivista que. aprendeu a ler e. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. a rigor. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. Com seu pai. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. com o título Eu e Outras Poesias. logo mais. bradava para o conceituado mestre que o argüia. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. na várzea do Paraíba. inspirado na natureza e no amor. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. ao invés de um estudante bisonho. em sua linha tomista. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. Alexandre dos Anjos. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. conforme disse num soneto que não consta. mas não era somente isso. saído da roça. Já em 1875. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. evolvia para o evolucionismo de Speneer.Augusto com a sua personalidade psicológica. sem afastar-se do lar. que a metafísica estava morta. como uma fatalidade. como expressão do pensamento nacional. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. Deste modo. em Monólogos de uma Sombra. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. A par disso. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. Era de fato um excêntrico. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. cuja vida corria sem obstáculos. cinco anos após a sua morte. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. Nada de admirar. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Coelho Rodrigues. em prefácio à segunda edição do Eu. do Eu. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. A paisagem bucólica da várzea. visto ter nascido poeta. Logo mais. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. segundo os primeiros retratos que temos dele. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. para maior complicação de sua personalidade. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. a sua própria vida sem problemas. mas no final 8 . no último ano do século passado. em contraste com a mocidade e a inteligência. é a vocação que já revelava para o infortúnio. Sílvio Romero. O rapazinho de 16 anos. para aprazimento intelectual das elites. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. os quais o acompanhariam. dr. em 1900. sofreu duros reveses. estavam a fazer dele um lírico. até o túmulo. Muito cedo. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. o seu tipo de pássaro molhado. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente.

introduziu entre nós a poesia científica. ou mesmo. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. desde Haller. Desta forma. Laurindo Leão. como toda substância animada. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. já no seu ocaso. suportou a mais dura crise. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. aliás. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. Por todo o Nordeste. Ao que parece. proceda ou não proceda. de que católico era sinônimo de burro. Ainda na fase preparatória de estudos. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. firmava-se o conceito. Aliás. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. com a evolução da matéria e do espírito. Esquisitão que era. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. em seu livro Frases e Notas. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos. Os menos letrados. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. de onde saiu formado em 1907. mas a origem simiesca do homem. que. emancipou-se dela intelectualmente. isto é. faziam praça de livres pensadores. em sua. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. Desses embates. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. Martins Júnior. Na Paraíba. dupla feição de filósofo e de poeta. tentou o milagre de 9 . por ver em tudo isso hipóteses visionárias. se o diabo é tão feio como o pintam. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. os intelectuais mais dotados. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. entre o mundo da forma e o mundo da razão. José Américo de Almeida. O beatério era o último reduto do catolicismo. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. está sujeita também ao processo da evolução. conciliada. aliás bem pouco lisonjeiro. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. que só cuidava de preocupações teológicas. ficava a escutar os companheiros. Augusto pouco falava.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. nas concepções filosóficas de seus poemas. a velha Escolástica. Nas rodas que se faziam na Paraíba. Embora educado na religião católica. já lidos nos filósofos da natureza. o pensamento ao longe. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. adepto do positivismo. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Comte passou. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. Até no Piauí. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. como uma velharia do século. confundidas ambas na unidade cósmica. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. um século antes de Hugo. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. a exemplo de Victor Hugo.

na larva que procede do caos telúrico. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. Rimbaud escrevera Bateau ivre. É a sua confissão de f transformista. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. E assim continua. ora transfigurado em filósofo moderno. depois de infinitas transformações. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. simultâneas. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. todavia. numa caminhada de 31 estâncias. fundado na unidade cósmica. a consciência 10 . Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas. “esse mineiro doido das origens”. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. Não sofre apenas a sua dor. A simbiose das coisas me equilibra. como bem observa Cavalcanti Proença. começa então o drama crucial da consciência. A saúde das forças subterrâneas. O aspecto conceptual do poema. e—crente no tema. Em minha ignota mônada. como amostra. A partir da monera.. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. incomparável na forma musicada. ampla. trinta anos antes. Vejamos. E é de mim que decorrem. chega aos seres mais complexos.reduzir a um campo único a ciência e a arte. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. poema que abre o Eu e Outras Poesias.. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. facilmente o identifica. Da substância de todas as substâncias. já desiludido. que é a derrota da humanidade. Quem já o leu uma vez. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si. Integrado na sociedade. Encontra-se. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud.. 186 versos. identifica-se na substância primeva. por força das sucessivas mutações da matéria. nas duas composições uma coincidência de temas. Pólipo de recônditas reentrâncias. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. até adquirir a forma humana. sempre a evoluir em movimentos rotatórios. Do cosmopolitismo das moneras. já diferenciado na mônada. naquela mesma idade em que. vibra A alma dos movimentos rotatórios. procedo Da escuridão do cósmico segredo. enfim.. Aos 17 anos. Venho de outras eras. terso na linguagem. que passou do reino vegetal para o animal. Larva do caos telúrico. Não há.

A mesma coisa. dentro do mundo fenomenal. numa espécie de solidariedade subjetiva. Nesse estado d’alma. Por fim. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. O próprio Augusto. tantas vezes exaltada pelo poeta. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. manifestou o seu espanto. entrega-se ao sacrifício. com sótão e porão. uma espécie de fogo que devora e não consome. chamando a si. no princípio era a força. centro de toda a acuidade sensorial. natural de minha terra. que faz quase lembrar a reencarnação. diante das maravilhas do aparelho encefálico. Nada obstante. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. conheci um sujeito. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. o que vale dizer. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som. Por alma.No princípio era o Verbo. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. que tinha os ouvidos totalmente tapados. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. É a concepção monística. assombrado com o não-ser. o sofrimento de toda a humanidade. temos aí um transformismo metafísico. que a ele não interessava considerar. dezenove séculos antes. segundo querem os frenologistas. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. entendia o agregado abstrato da saudade. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. em esconderijos apropriados. No tocante à transformação da matéria. já havia dito. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. No fundo. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. A partir dai. noção trivialíssima das funções orgânicas. do ponto de vista metafísico. A rigor.conspurcada de gozo malsão. como está dito em Monólogos de uma Sombra. cuido não estar proferindo uma heresia. o vidente de Patmos: . Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. ouvia mais que um tísico. o remorso já acordado na caverna escura. no entanto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . há que distinguir um pormenor. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas.

admite o éter. o lado malsão da vida. mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista.Psicologia de um Vencido . Profundissimamente hipocondríaco. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. O mundo em que vive é um vasto hospital. Já o verme . impreca. sem problemas materiais: Eu. Sofro. solta blasfêmias. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. a matéria putrefata. que é o Deus materialista de Haeckel. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras. desde a epigênese da infância. procura 12 . Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. Ao invés de fecundação do espírito.. causa-lhe repugnância.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. cadáveres e bocas necrófagas. dominado por um ceticismo acabrunhador.este operário das ruínas. Exausto da luta. E há-de deixar-me apenas os cabelos. uma natureza gasta. só serviu para adensar o clima de alucinação. Em tudo. rasgar do mundo o velário espêsso. No auge da inquietação. Querendo fugir a essas coisas. vermes. Nem por isso admite Deus. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença.. A influência má dos signos do zodíaco. onde não há lugar para a alegria. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. filho do carbono e do amoníaco. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. na melhor das suposições. fonte inesgotável de vida.Fazer a luz do cérebro que pensa. Por toda parte. O próprio amor. Anda a espreitar meus olhos para roê-los. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. procura penetrar o mistério da substância universal. o éter cósmico. Este ambiente me causa repugnância. Monstro de escuridão e rutilância. onde imperam sombras. servindo de pasto a uma civilização corrompida. Custa crer que este soneto .

Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. deve ter acontecido na sua juventude. Até agora 13 . E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. que ele denomina um sonho ladrão. diz ele. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. Nenhum pintor. acompanham-no. O resultado de bilhões de raças Que.refúgio na inexistência espiritual. o Eu e Outras Poesias.. numa atitude mental de fuga à realidade. Onde quer que se refugie. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Antes de mais nada. coberto de desgraças. Espera aí encontrar o seu nirvana. no todo ou em parte. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Mas o diabo não larga a sua presa. Por um instante. E é nesta manumissão schopenhauriana. evadido de si mesmo.. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. em suas visões oníricas. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. a terrível moléstia que se atribui. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. a perda da crença e. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. tenta ir ao fundo da crença monística. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. com o poder de sua imaginação. com efeito. não há homem que sofra mais. A julgar pelos seus gemidos. paralelamente. Algo de mais grave. O subconsciente o aturde. Grita a sua dor por toda parte e. Há. como se supunha. Tudo isso. que os anos não carcomem. podia fazer dele um triste. Com efeito. uma desgraça na vida do poeta. E via em mim. sente o desejo. Depois disso. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. nem Haeckel compreenderam. E para não capitular a esse apelo. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. que exulta triunfante: Gozo o prazer. já cansado de escutar a natureza. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. gasta imensas energias e enche de culminâncias. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. monstros terríveis.

depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo. Iríamos a um país de eternas pazes. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato.. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Exatamente aí. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio.A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. Por enquanto. Lembro-me bem. dada a ausência de biografia. Por mais que Augusto negue o amor.. Por suas próprias palavras. Por mais que procure fugir ao assunto. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. Ele próprio. que é o drama mais doloroso de sua consciência. inútil seria qualquer esforço. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. sempre se revela. no tocante a esse drama. Trata-se. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. em . Gozei numa hora séculos de afagos. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . não pode ocultar que foi vítima dele. desespero virtual e não real. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar.. de uma paixão. no capítulo do amor. . pois.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha. E invejo o sofrimento desta Santa. Depois de embebedado deste vinho. surpreende com a invocação de Santa Francisca. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes. Sonâmbulo.. contrito. como é sabido. nunca foi chegado a santos. em mágoa. O poeta. que não é das mais invocadas.Insônia ... Noite.referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada. confessa mais uma vez a sua culpa. eu também vou passando Sonâmbulo. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. mas no poema . Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.Queixas Noturnas . ao mesmo tempo que. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. Sonâmbulo. Como um bemol ou como um sustenido.. como em . Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim...santa.extravasava desta forma o seu lamento: 19 .

em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. como referiu vagamente em As Cismas do Destino.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. sonhando. que parece se deixou levar por pressão da família.. não para ele. Ao vê-lo morto. Como Elias. entre estes monstros. como perseguido pela sinistra ceifeira. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. expressa a sua mágoa numa comovente unção. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. Nem uma névoa no estrelado véu. luta por fugir dela. sem resolver a verdade interior. Mas pareceu-me. Rezo. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. pouco fala. Em . De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. Madrugada de treze de janeiro. que não admite a vida espiritual. apenas três vezes. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. quando a morte o olhar lhe vidra.. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai. A morte é o fim de tudo. Minha alma sai agoniada. ama-o até mesmo na atômica desordem. Mãe. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. o ofício da agonia.brada: 20 . Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. entretanto. num carro azul de glórias. Da mãe. Ao pai. entre as estrelas flóreas. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. dormir primeiro.As Cismas do Destino . mas para os que crêem há ainda uma esperança.

Morte.. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé. Vivia um mundo à parte. E ainda. Minha filosofia te repele. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. Aqui. ardendo em indagações subjectivas. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Nada o consolava nesse estado de espírito. escravo do raciocínio frio. 22 anos de idade. quando recebeu os 22 açoites da natureza. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Não me parece tenha razão 21 . Por tua causa apodreci nas cruzes. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. cheio de imperfeições. Nestas condições. levava-o a recolher-se em si mesmo. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe.. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. como em toda a obra. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. Já que não crê em Deus.. não cria em Deus. Acha Flósculo da Nóbrega. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. ponto final da última cena. as palavras também servem para ocultar o pensamento. que Augusto era um cerebral. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. Procura assim desoprimir o coração. Forma difusa da matéria imbele. Ao invés de ajustá-lo à realidade. devia ter na época.. habitado por monstros humanos. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino. embora ansiasse por encontrá-lo. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte.

via na sociedade a representação da humanidade sofredora. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. tinha-se na conta de um doente. Não importa que tenha morrido de pneumonia. volta-se vez por outra contra a sociedade. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. que só repugnância lhe causava. sua musa empalideceu à falta de ambiente. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. Fosse como ele diz. o cérebro em fogo. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. no caso. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. como um sonâmbulo. Os seus melhores versos. que o 22 . Na luta em que Augusto se debate. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. No fundo. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. torturado no sentimento do desamparo. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. ao contrário. ao redor da capela do engenho. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. Desta. e a mim pergunto. Há. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. Não que tenha recebido ofensas dela. mas no particular. que o acolhia com carinho. Depois que o poeta deixou a Paraíba.o ilustre intelectual paraibano. conforme declarou nesta honesta confissão. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Ao contemplar esse ambiente. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. além de pouco. nunca recebeu hostilidades. A inspiração despertava com a dor. um homem excluído do mundo. mas porque se sente um desajustado. contudo. andar bamboleante. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. os de maior densidade emocional. O que produziu no sul do País. Nem ele próprio se conhecia. foram produzidos no Pau D’Arco. De um modo geral. noite a dentro. passos largos. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade. Era. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. em 1912. Punha-se então a passear. entrava em crise espiritual. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. de vez que ninguém o compreendia. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida.

como um arrependido. passa a chorar a sua dor e a alheia. sob os seus pés. Essa real ou imaginária doença. num desalento ainda maior. como se já tivesse perdido o alento de viver. confessa-se minado pela tuberculose. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. De início. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. em serenata. Eu bem sabia. imaginária cidade à margem do Paraíba. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. que admirar chore um dia a crença perdida. à guisa de ácido resíduo. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração.próprio poeta confessava. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. “na urbe natal do Desconsolo”. numa emoção que comove. eis que escuta. Em As Cismas do Destino. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. aliada à descrença. ansiado e contrafeito. na terra onde pisava. Lá para o fim do poema. os acordes saudosos do coração. atormenta-se com a idéia de que. Depois disso. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Não há. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza. 23 . Na ascensão barométrica da calma. hosanas ao Senhor. despedaçando as imagens dos próprios sonhos. perdeu também a crença. Perdido o amor. fez dele um misantropo. como ele chamava. Mais adiante. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. Era ali. em Os Doentes. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. Já cansado do ceticismo. Parece que desperta para a vida. entra a descrever a cidade dos lázaros. onde os anjos cantavam. pois. o soneto Vandalismo. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia.

Assim é que. José Américo de Almeida. gostar e não gostar é coisa que se não discute. para ele. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Raul Machado. Ao contrário da incontinente afirmativa.Meu coração tem catedrais imensas. pois. há sempre o que referir. Álvaro de Carvalho. por exemplo.. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. João Lélis. Onde um nume de amor. Enfim. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. A arte. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Sua obra. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Flóscolo da Nóbrega. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Santos Neto. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. que não é biografia e não chega a ser estudo. quase todos. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . João Lélis e De Castro e Silva. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. destaco Órris Soares. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica. em gemidos de dor. Sabe-se como compunha. na Academia Paraibana de Letras. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. Dos outros. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. tenham bordejado na superfície do abismo em. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. No final de contas. em serenatas. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. Templos de priscas e longínquas datas. muitas opiniões foram veiculadas. era apenas o meio de formular soluções. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. apenas como autor de um livro apologético. chegou a dizer que Augusto não era poeta. Nesse decurso. já na 27ª edição.. No desespero dos iconoclastas. este último. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. Canta a aleluia virginal das crenças. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. Não é. posto que. que se afundava a alma do poeta. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. ler.

que não tenha fecundado a poesia nacional. No entanto. claro que avulta ainda mais o seu mérito. a sua personalidade psicológica. Euclides da Cunha. Cavalcanti Proença. à primeira vista incompatível com a poesia. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. Os versos espoucavam no momento da inspiração. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. vermes. essa linguagem. num timbre especial de voz. Em ter ficado sozinho. Muitas vezes. Seus versos. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. que pretende ser de interpretação psicológica. Por tudo isso. também 25 . olhar perdido no espaço. associado à vibração sonora. certa preocupação inclusive dos simbolistas. como lamenta o crítico. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Bilac pode ter sido um lapidário da forma.devoradoras. na época. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. o que era. sobretudo da crítica provinciana. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. o sentimento parece ter outra dimensão. Foi então que recitou de inopino. o outro 25 anos depois. como em compasso de música. Essa incompreensão a respeito de Augusto. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. com efeito. Poe e Rimbaud. este na prosa. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. duendes. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. impressionam pelo poder da dialética. entre nós. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. de um a outro canto da sala. escarros. reside justamente no termo técnico. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. enquanto forjava mentalmente a composição. a densidade. a passear a esmo. Neles. o que acabava de compor. Essa crítica. insulado em sua própria grandeza. Só depois de elaborada é que ia para o papel. sangue de vísceras dilaceradas. em 1945. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. um em 1920. Em ambos. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. figuras espectrais e outras visões sinistras. lábios crispados. Órris Soares. túmulos. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. lá fora. disse que uma das suas forças. entrava disciplinada em seus versos. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição.

reconheça-se que essa poesia é humana. neste ensaio de exegese literária. Com Verlaine. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. no duelo da carne. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. nem tudo pode ter cabimento. elogios ou restrições. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. aparelhou. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. pela tristeza indefinível da alma. Com Baudelaire. Com Mallarmé. O anojamento de Álvaro de Carvalho. não lhe tira o vigor da expressão verbal. por isso mesmo poética. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Não pode o critico ser ortodoxo. a fim de atingir. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos.ficaram sem seguidores. pelas crises espirituais porque ambos passaram. mesmo doentia. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. num dos seus últimos sonetos. Há. está em tempo de ser feita. na interpretação de um drama emocional. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. que apenas transparece em linguagem evasiva. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. com efeito. como se vê. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. de sentido mais profundo. Ou então. Mas é preciso notar que essa musa. Nem por isso. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. Eis porque. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. é mais uma aversão de olfato alérgico. 26 . Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual.

usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. encontra-se em Roma. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. as mesmas figuras de linguagem. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. foi José Américo de Almeida. vem o barulho das matracas. Encontra-se. em quem se acumulam. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. guardando o corpo do Divino Mestre. sensações simples e cenestesias. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. Só com Rimbaud. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. É. Também no amor os dois se assemelham. Não fica apenas aí o confronto. visionário. que dialoga com os elementos imponderáveis. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo. de uma honestidade quase bravia. Ouvindo isso. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. desejada por um. Vez por outra. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. em grupos prosternados. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. Segundo Delahaye. Augusto lembra Rimbaud. isso mesmo de passagem. A mesma coisa ocorre com Augusto. Honesto em tudo.através da sensação. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. temida pelo outro. havia acentuada tendência do poeta.. quando a cristandade parecia pura sobre a terra.. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém. a filosofia da dor. em termos de comparação. de mistura com alucinações. Com Leopardi. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Com Antero do Quental. em tropos ousados. na terra santa. assentado sobre cacos de pote e urtigas. só nesse ponto dissimula o pensamento. Súbito. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. num artigo publicado em 1914. um grande medo toma conta do poeta. na postura de um campônio rústico.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. “Na Eternidade. De lá de fora. palavras raras e eruditas. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. citado por Augusto Meyer. um mês após a morte de Augusto. numa sexta-feira santa. pelo sentido da dor universal. no ar de minha terra. por sua natureza. Até nas aliterações e metáforas. a idéia pura das coisas. O único que mencionou Rimbaud. como neste exemplo: 27 . desde a sua fase inicial. para a neologia e o vocábulo raro. crematismos. os mesmos descuidos de metro e rima.

Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas.. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. Augusto sentia-se puro. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. o bem e o mal caminhando juntos. .”. onde se casou com uma nativa da Abissínia. Não sou capaz de amar mulher alguma. Ninguém sofre mais do que ele. uma diferença de fundo entre os dois poetas. provo-a. é inútil. é improfícuo. chupo-a. Rimbaud. largou-se para a África. homens de bem cheios de nobres intenções. No tempo de jovem. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. Motivos escabrosos. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. por causas várias.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. a julgar pelos seus lamentos. que era o seu anseio máximo. sente-se que há um complexo de culpa. filha legítima de sua alma. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. na Bélgica. como Tântalo. é como a cana azeda. E como não 28 . poeta. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. andou conspurcado de sensações súcubas. é verdade. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. à beira da água. ilusão treda! O amor.. embora tenham se casado e tido filhos. vítima de injustiças humanas. em suma. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Em cada um deles. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. contudo. em busca do paraíso terrestre. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. segundo é fama. exacerbava-a. um suave concerto espiritual na natureza. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração. mas que o levaram ao resultado conhecido. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. Há. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. Depois desse fato. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. A toda boca que o não prova engana. Descasco-a..

Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe.. perfume. Um problema sempre gera outro. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. numa reação inócua.pode reformar o mundo. segundo apregoam os fundibulários da crítica. onde não faltavam o ranger de dentes. Por curioso paradoxo. deixava-se ficar no interior da concha. conforme confissão feita a Mário de Alencar. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. contra a sua grei. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Mesmo assim. contra a sociedade. perdia-se no estado de dúvida. Jamais desceu ao fundo de si mesmo.espécie de autobiografia moral. dessa conversão ao materialismo. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. mas nem isso acredito tenha havido. Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. Possuído do demônio da dúvida. Neste passo. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. luz. isto é. cor. beleza. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . os mistérios da natureza. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Foi a partir daí. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. entre a voz do sentimento e a da razão. imitação. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. o amor. sem preencher esse vácuo. chegaríamos por certo ao pai Homero que. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. Augusto vai irredento até o fim. tudo quanto eleva os sentidos.Une Saison en Enfer . quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. 29 . o que recebe influências supera o modelo de inspiração. que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. Não raras vezes. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Há muitas espécies de conversões em literatura. som. martelada em versos magníficos e candentes. tudo quanto desperta a alma. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. isto é. como fontes de inspiração. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. Tais similitudes valeriam. A vida. a criação. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. porém. depois que perdeu a ilusão dos homens. do qual se considerava prisioneiro. quando muito. revolta-se contra o mundo. silvos de labaredas e suspiros de empestados.

certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. se sucediam na tribuna. porquanto Deus é princípio e é fim. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. se manifesta ainda escravo do batismo. um pedido de socorro. nas Alterosas. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. como ninguém ainda se entendesse. Apurada a eleição e com base no resultado. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. Todos nós. todavia. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. No meio em que viveu era querido e admirado. resolveu o presidente submeter a questão a votos. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. é. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. Ao cabo do bombardeio oratório. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. em torrentes de eloqüência. se não há Deus. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. 30 . afetando melindres de devotos. outros negando. quando não proferida por modo vulgar e chulo. É o que há. tal como Rimbaud. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. mas os que o seguem desconhecem. uns afirmando. no desespero de tantos sofrimentos. Vale mencionar. Alguns críticos. proclamou que Deus não existe. a essência dos Evangelhos. Ora. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. que se veja na blasfêmia. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. via de regra. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência.Enredado em idéias preconcebidas. Na prática. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. heresia maior que a do poeta quando. Convém. na realidade. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. Isso mostra que ele. viram nisso o pecado da blasfêmia. a meu ver. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. a propósito. Se o Cristo não vem em seu auxílio. aceitar as imperfeições do mundo. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. supria-se do mais no magistério particular. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. Se há Deus. Os oradores. é questão que não deve ser formulada. em meio a tantas emoções extravasadas. com raríssimas exceções. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade.

esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. A denominação. De inflexões mentais sua obra anda cheia. No tempo de meu Pai. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida.atormentado por visões escatológicas. dá à alma a denominação de sombra. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. 31 . Voltando à pátria da homogeneidade. De outras vezes. através dos séculos. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . virtudes que cultivava com extremado zelo. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio.Debaixo do Tamarindo. como se vê. coisa que não cabe na boca de um ateu. os filósofos iônios. desde Tales de Mileto. não se pode dizer fosse ele um materialista ético. como uma caixa derradeira. o sacrifício da linda moça Polixena. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. E como era sincero e honesto. explodiu em As Cismas do Destino. Abraçada com a própria Eternidade. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. entendiam a alma. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. vem de muito longe. sob estes galhos. Como uma vela fúnebre de cera. começa o poema “Sou uma Sombra. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. por mãos de seu filho Pirro. Por outro lado. Mandando ao céu o fumo de um cigarro. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo.

É a substância primeva. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico. foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. Assim vai. Que outros. Mais poderia dizer agora.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. mas com o que ai está me contento. perdendo-se novamente no enleio cósmico. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. a 12 de novembro de 1914. sua intimidade numenal. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. !" Este trabalho. 32 . nas composições que vão até o fim do livro. aos 30 anos de idade. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. para ele. até mesmo num grão de areia. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência. na Federação das Academias de Letras do Brasil. desde o declínio das crenças mitológicas. Até Deus. tal como se apresenta. Daí por diante. isto é. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. vacilante na ciência fria. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. assaltado de alucinações. como entidade eterna. as formas microscópicas do mundo. em soluços quase humanos. era uma mônada. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. acrescenta. mas dentro da alma aflita Via Deus . larva do caos telúrico. da substância de todas as substâncias. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. até que morre numa cidade das Alterosas. em Leopoldina. virtualidade espiritual. Choram ainda dentro dele. tal como a entendiam os filósofos iônios. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. em briga com o dualismo. que procede do éter cósmico. o metafísico cede lugar ao inveterado monista.

Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. dos Anjos e D. de abusar um pouco do café. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. Conservo de memória tudo quanto produzo. R.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. 33 . presumo. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. Tenho insônia raras vezes. Eu. Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. Engenho Pau d'Arco. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. da chamada vida física. Rio de Janeiro. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. Córdula C. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. Sofre de insônia. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. o que não impede. entretanto. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R.

Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Já o verme -. “Vou mandar levantar outra parede.. Sofro. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. Minh’alma se concentra. igual a um olho.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. e à vida em geral declara guerra. Ao meu quarto me recolho. E vejo-o ainda.Digo.. Fecho o ferrolho E olho o teto.” -. E há de deixar-me apenas os cabelos.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. Na frialdade inorgânica da terra! 34 .. Ergo-me a tremer. Este ambiente me causa repugnância. agora. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. filho do carbono e do amoníaco. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau.. Esforços faço. Monstro de escuridão e rutilância. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Meu Deus! E este morcego! E. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. desde a epigênese da infância. Chego A tocá-lo. Produndissimamente hipocondríaco. A influência má dos signos do zodíaco.

Que. e depois. de repente. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo.. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. em desintegrações maravilhosas. tênue.. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Riem as meretrizes no Cassino. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. Chega em seguida às cordas da laringe. e quase morta. Deixa circunferências de peçonha. Quebra a força centrípeta que a amarra. quando sonha. À noite. raquítica.. mínima.. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. Mas. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Delibera. Tísica. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . Anoitece. Marcas oriundas de úlceras e antrazes.

Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . Que poder embriológico fatal Destruiu.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Meus olhos liam! No húmus dos monturos. feto esquecido. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. E. Em que lugar irás passar a infância. Tragicamente anônimo. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. com a sinergia de um gigante.. Realizavam-se os partos mais obscuros. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. Agregado infeliz de sangue e cal.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Fruto rubro de carne agonizante.. a feder?! Ah! Possas tu dormir. em letras garrafais. em vez de achar a luz que os Céus inflama.

Janta hidrópicos.. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . afaga-a.. Verme -.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Suficientíssima é. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. pelos séculos adiante. E irás assim. acode-a A escala dos latidos ancestrais. Ah! Para ele é que a carne podre fica... arrima-a. Almoça a podridão das drupas agras.Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. ampara-a.é o seu nome obscuro de batismo. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Na superabundância ou na miséria. em que tu dormes. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. para provar A incógnita alma. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Cão! -. E vive em contubérnio com a bactéria. Livre das roupas do antropomorfismo. Filho da teleológica matéria.

portanto.corte Minha singularíssima pessoa.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. Como uma vela fúnebre de cera. Dr. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. e. Voltando à pátria da homogeneidade. como uma caixa derradeira. de amplos agasalhos. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. esta árvore.. sob estes galhos.. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . Guarda. depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também.. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. esta tesoura.

um dia.SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. por toda a pro-dinâmica infinita. -. Na guturalidade do meu brado.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta.. Alheio ao velho cálculo dos dias. Por trás dos ermos túmulos. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. como quem tudo repele.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . mas dentro da alma aflita Via Deus -. com uma ânsia sibarita. com o esqueleto ao lado. Como um pagão no altar de Proserpina..

Oh! Mãe original das outras formas. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Nos estados prodrômicos da vida.. vede: É o grande bebedeouro coletivo.. Como quase impalpável gelatina.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. nesta rede. talvez. autônoma e sem normas. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. como um gado vivo. Onde os bandalhos. Ah! De ti foi que. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Todas as noites. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Em que é mister que o gênero humano entre. mísera e mofina. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. moços do mundo. Dentro do ângulo diedro da parede. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo.

. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. É a morte. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. Amo o coveiro -. como o filósofo mais crente. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra. é o ego sum qui sum . É. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. Creio.IDEALISMO Falas de amor. perante a evolução imensa. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio. é o pneuma .. para o amor sagrado. O mundo fique imaterializado -.

À meia-noite. Pelas monotonias siderais. caixas cranianas.. Era tarde! Fazia muito frio. se hoje volto assim.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. Comi meus olhos crus no cemitério. cartilagens Oriundas. talvez as Musas. com a alma às escuras. inclusas. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo.. como os sonhos dos selvagens.. nele. De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. Mas. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio.. subi talvez às máximas alturas. improficuamente. Vaguei um século. Cinzas. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . e.

selvas. Eu. inda teremos filhos! 43 . a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. porém.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. vales. Tu. tuas sementes! E assim. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. com o envelhecimento da nervura. Pelo muito que em vida nos amamos. Depois da morte. para o Futuro. Tamarindo de minha desventura. em diferentes Florestas. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Se fosses Deus. Na multiplicidade dos teus ramos.fontes de perdão -. glebas. no Dia de Juízo. reunidos. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. trilhos. pois.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão.

É meu destino viver junto a esa asa.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas.. Apraz-me. Perseguido por todos os reveses.. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros.. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza. Como os Goncourts. Ter o destino de uma larva fria. à categoria Das organizações liliputianas. nos doze meses. Como a cinza que vive junto à brasa. na hierarquia Das formas vivas. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde.. Ganem todos os vícios de uma vez.a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . asa De mau agouro que. É-me grato adstringir-me. Na orgia heliogabálica do mundo. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa.

a mim. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor.. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar.. o Homem. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. “Homem. o Hércules. com os dedos brutos Para falar. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!. mamífero inferior. rasga o papel. “Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. violento. conquanto ainda hoje em dia.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. “À luz da epicurista ataraxia. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. aos soluços. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . É como o paralítico que. Ouvindo a Escada e o Mar. puxa e repuxa a língua. em desalento.

agora. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava. Furtaste a moeda só.. Ele hoje vê que. então. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama.. hipócrita. mas eu. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. Em sucessivas atuações nefastas. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 .. em minha cama. Eu furtei mais. entretanto. Vejo. minha Mãe. Que a mim somente cabe o furto feito. como cruéis e hórridas hastas.Não. após tudo perdido. Que ela absolutamente não furtava.. Tu só furtaste a moeda.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. minha ama. o ouro que brilha. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. Sinhá-Mocinha. afetava Susceptibilidade de menina: “-. ralhava. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.

o brilho Destes meus olhos apagou!.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. e. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. porém. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 . Hás de engolir. igual a um porco. após a árdua e atra refrega. E tu mesmo. Assim Tântalo.. num festim. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo. à noite.. aos reais convivas.. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. do que este que palmilho E que me assombra.. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. Hoje.a mãe comum -... porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta... É noite.

Deus não havia de magoar-te assim! 48 .. Deus. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. Tu. e sendo justo. Irei também. gemendo. para onde fores. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. Pai. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto.. trilhando as mesmas ruas. o Ódio e a Carnificina. é justo. O Amor e a Paz. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. Às alegrias juntam-se as tristezas.. Eu. para amenizar as dores tuas.Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. e o ângulo reto. meu Pai?! Que mão sombria. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. pois. O que o homem ama e o que o homem abomina.. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso.

. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. cuidei que ele dormia.. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Mãe. num carro azul de glórias. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam.. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. E a marcha das moléculas regulam. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. Mas pareceu-me. Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . sonhando. o ofício da agonia. Como Elias. entre as estrelas flóreas.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. Rezo. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra. Nem uma névoa no estrelado véu..

não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. no junquilho. pai... É preciso cortá-la. Livre deste cadeado de peçonha.. pois. -.As árvores. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . meu pai. enfim.. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.. Caiu aos golpes do machado bronco..DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter. Esta árvore. possui minh’alma!. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. para que eu viva!” E quando a árvore. Apraz-me.e ajoelhou-se. sôfrega e ansiosa. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza.Disse -... olhando a pátria serra. Para que eu tenha uma velhice calma! -.Meu pai. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. meu filho. meu filho. numa rogativa: “Não mate a árvore.

.. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar... preto e amarelo. não tens mais! E pois. de à antiga rota Voar. o amplo éter belo. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . Foi este mundo que me fez tão triste. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. desde o mais prístino mito. Continua a comer teu milho alpiste.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. Ah! Tu somente ainda és igual a mim. Tu nunca mais verás a liberdade!. Olha a atmosfera livre. mergulhou a cabeça no Infinito. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu. bruto. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. Pões-te a assobiar.

na diuturna discórdia. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. Onde um nume de amor. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Templos de priscas e longínquas datas..ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. cismava Em meu destino!. Noite alta... me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu. Canta a aleluia virginal das crenças. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. em serenatas. ególatra céptico. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte. Ante o telúrico recorte. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.

guerreiro. é a véspera do escarro. uns cem. sente invevitável Necessidade de também ser fera. que. Veio depois um domador de hienas E outro mais. entre feras. Apedreja essa mão vil que te afaga. Somente a Ingratidão -. por fim. E qual mais pronto. Mora. Se a alguém causa inda pena a tua chaga.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. amigo. E não pôde domá-lo enfim ninguém. Vieram todos. Toma um fósforo.. o gládio de aço. E à rutilância das espadas. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas.. e. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. por fim.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. veio um atleta. nesta terra miserável. Meu coração triunfava nas arenas. Acende teu cigarro! o beijo. e doma Meu coração -. ao todo. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . toma A adaga de aço.

e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Que. A sucessividade dos segundos.. a que só ele assiste. em sons subterrâneos. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada. Da transcendência que se não realiza. Sabe que sofre. chorando. Da luz que não chegou a ser lampejo. pois. pancada por pancada. podendo mover milhões de mundos.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. nada há que traga Consolo à Mágoa. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. Quer resistir.. No rudimentarismo do Desejo! 54 . o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou.. E é em suma.. do Orbe oriundos.. a escutar. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste. Ouço. jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa..

num grito de emoção. De que. Parem as vidas. Oh! Nauta aflito do Subliminal.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. sincero Encontrei. a animar o cosmos ermo. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. que os anos não carcomem. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. Como a última expressão da Dor sem termo. me desencarcero. Cesse a luz. eu. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. pensando. Foi que eu. feito força. Morto o comércio físico nefando. afinal.

há inúmeros milênios. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. Diafragmas. A dardejar relampejantes brilhos. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une. sem gritos.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. Era. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto. Em tua podridão a herança horrenda. o ouvido. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação. Dói-me ver. ao sol posto.. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. pois. Onde a alva flama psíquica trabalha. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas.. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. o olfato e o gosto! Carne. "Com essa intuição monística dos gênios. numa alta aclamação. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . arpões. e. muito embora a alma te acenda. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros.. decompondo-se. a vista.. feixe de mônadas bastardas. E o Homem — negro e heteróclito composto. sem retumbância. a irmanar diamantes e hulhas.

O PÂNTANO Podem vê-lo. e. é o transunto. Este pântano é o túmulo absoluto. para mim que a Natureza escuto. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça.. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. meus semelhantes! Mas. E o nada do meu homem interior! 57 . Tragicamente. a porta. — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. no Mundo. Que produz muita vez. é a essência pura. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. às escâncaras. sem dor. na noite escura. à espera de quem passa Para abrir-lhe. A convulsão meteórica do vento.. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. É a síntese. opondo-se à Inércia.

em conjugação com a terra nua. é natural. ainda algum dia. causa do Mundo. como o gérmen de outros seres. geléia humana. não progridas E em retrogradações indefinidas. um dia. Antes o Nada. O espanto Convulsiona os espíritos. Volvas à antiga inexistência calma!. Reconcentrando-se em si mesma. deprimindo-o . em realidade. porventura. Vence o granito. Teu desenvolvimento continua! Antes.. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu. "Menos interiormente me conheça?!" 58 . E hás de crescer. geléia crua.. que ainda haveres De atingir. oh! gérmen. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. tanto Que. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo.. e..A UM GÉRMEN Começaste a existir. no teu silêncio. entanto.

. descendo A irracionalidade primitiva. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. na ordem cósmica.Todas as hermenêuticas sondagens. é transporte. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. São absolutamente negativas! Araucárias.. no seu arcano. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. é ânsia. trancada num disfarce. É a Natureza que. os elementos broncos.. nele.As ambições que se fizeram troncos.. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . é inquietude. Bracejamentos de álamos selvagens. Como um convite para estranhas viagens.. Vivem só. .A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. E a coorte Das raças todas. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora.. traçando arcos de ogivas. é o instinto horrendo De subir..... .

O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Dói-lhe.. em suma. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. Que o sarcófago. inteira. saúde dos seres que se fanam. psíquico tesouro. Riqueza da alma.. oh! Dor. E. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato.. ancoradouro Dos desgraçados. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor.. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te. sem convulsão que me alvorece.. acérrima e latente. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. sol do cérebro.. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. À humana comoção impondo-a.. assim.

Minha continuidade emocional! 61 . para o último remígio. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira. em épocas futuras. pois. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea... Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. Dai-me asas.. Benditos vós.. que. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Haveis de ser no mundo subjetivo. ) Com o vosso catalítico prestígio. Expressões do universo radioativo.ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. pois. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .. Dai-me alma. Ions emanados do meu próprio ideal.

A carne é fogo.A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. então. cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos. Subitamente a cerebral coréa Pára. os pés e os braços Tombara. A espaços As cabeças.. A alma arde. Arranco do meu crânio as nebulosas. Emoções extraordinárias sinto. O cosmos sintético da Idéa Surge. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas.. Eu sinto... as mãos. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 .

tragando a ambiência vasta. Hebdômadas hostis Passam.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Rugindo. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. carne sem luz. Deixa a tua alegria aos seres brutos. Excrescência de terra singular. entretanto. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. os dois Representam. Porque. aumenta. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. ávida. ris! Fruto injustificável dentre os frutos.. e. na ânsia voraz que. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 . Montão de estercorária argila preta. criatura cega. enquanto as almas se confrangem. No desembestamento que os arrasta. Os dentes antropófagos que rangem. Superexcitadíssimos. Realidade geográfica infeliz. Sangram-te os olhos. na superfície do planeta.. Receando outras mandíbulas a esbangem. Teu coração se desagrega. o alfa e o omega Amarguram-te.

mordem-se..MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 . a Glória.. E trago em mim. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. O Amor. aparelhou. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo. soluçando.. sou maior que Dante. — A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. homens felizes. Sob pena. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou. a Ciência. Que força alguma inibitória acalma. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se.. Da dor humana. o Inferno. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.

urdo o crime. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. em voz muito alta.O CANTO DOS PRESOS Troa. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. à luz de fantástica ribalta. cresto o sonho. Entoado asperamente. a exigir que os sãos enfermem. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. È a saudade dos erros satisfeitos. ontem. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos.. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. Existo Como o cancro.. Que. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância.. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. a alardear bárbaros sons abstrusos.. não cabendo mais dentro dos peitos. (Hoje. Uiva. Teço a infâmia. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. O epitalâmio da Suprema Falta.

. apreendo. Transponho ousadamente o átomo rude E. Ceva-se em minha carne. transmudado em rutilância fria. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão. invado. ausculto. à noite. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme.. Nos paroxismos da hiperestesia. como um corvo. enfim.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. dona. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 . A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. por fim. o Infinito se levanta À luz do luar. Feita dos mais variáveis elementos. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos.. agarro. o Céu e o Inferno absorvo. O Infinitésimo e o Indeterminado. minha alma.

. como um astro. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo. aos trismos Da epilepsia horrenda. Sentia dos fenômenos o fim.. Átropos.A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória. Siva. Tifon.. Como a luz que arde.. Eu. projetado muito além da História. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. arder. Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. como a luz do amanhecer. E acima deles. virgem. num monturo. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. Laquesis. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 .

MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. Grita em meu grito. rábido. nas minhas formas carcomidas. entanto. esse mundo incoerente. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . A estrutura de um mundo superior! Alta noite. neste ergástulo das vidas Danadamente.. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser. Roem-na amarguras Talvez humanas. às apalpadelas e às escuras. nem mesmo ao ronco Do furacão que. E. remoinha..Trilhões de células vencidas. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei. Nutrindo uma efeméride inferior. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. a soluçar de dor?! -.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.. alarga-se em meu hausto.. Hão de encontrar as gerações futuras Só.) Quem sou eu.. tenta transpor o Ideal... Branda. a afagar tantas feridas. Folhas e frutos.

em que me inundo. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Apreendo. feto vivo e aborto. -. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . -. ateando da alma o ocíduo lume.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. sânie e perfume. em cisma abismadora absorto. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. hirto. desconforto E ataraxia. Penetro a essência plásmica infinita. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Massa palpável e éter..Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que.. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. aliando Buda ao sibarita.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que. Sou eu que.

por hipótese.. na abismal sustância informe. -. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 .Tal é. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque... quatro. sem complicados silogismos.. rádios e úmeros. três. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá. Porque.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. somente em. cinco. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. cérebros. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. infinita como os próprios números. crânios. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. em fúlgidos letreiros. Reduzir carnes podres a algarismos. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. dois. Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.

sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. amam jazer. a alma. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. alma. Estacionadas.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. perscruta O puerpério geológico interior. me semente. porventura. assim. em contrações de dor. Por um abortamento de mecânica. recalcados. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . Quem sabe. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. Qual é. afinal. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. e dize-me. íngremes. oh! delumbrada alma. De onde rebenta. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. na natureza espiritual.

derrubadas. Federações sidéricas quebradas. a amarra agarrada à âncora. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões. pelo orbe adiante. da Massa. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . subjugue-as ou difarce-as. A íngreme cordoalha úmida fica... integérrima.. o último a ser. em noite aziaga e ignota. Espião da cataclísmica surpresa.. babando. E eu só. que o Éter indica. Pára e. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. Zarpa.. alçando o hirto esporão guerreiro. Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. É a subversão universal que ameaça A Natureza. e.. se as Tem. derrota Na atual força. sonha! Mágoas.APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica. A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega.

A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. ainda depois da morte. ao cabo do último milênio. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. que ela encheu. Tragicamente.VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. adstrito à ciência grave. cave. Haurindo o gás sulfídrico das covas. vazio! 73 . Os nossos esqueletos descarnados. num triunfo surpreendente. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. Em convulsivas contorções sensuais. Dentro dos ossos. e... Para a perpetuação da Espécie forte. Sôfrego. E quando. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. Arrancar. o dolo sáxeo. em que arde o Ser. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas.

E amou.. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante.. vendo sangue... antes do almoço.. E. Era tão moço. mancha a gleba. Somente. Viu vísceras vermelhas pelo chão. iguais a espiões que acordam cedo. Na mão dos açougueiros. Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. fora.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. há instantes. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios.. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se.. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Ia talvez morrer. A água transubstancia-se. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. Disse. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. eis que viu. Horrível! O osso Frontal em fogo.. Olhou-se no espelho. com um berro bárbaro de gozo. Extraordinariamente atordoadora. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada.

me não consolo. reconheço O império da substância universal ! 75 . E em tudo igual a Goethe. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep... E. Leio o obsoleto Rig-Veda. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. No mar de humana proliferação... Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias.. Rasgo dos mundos o velário espesso. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador.. ante obras tais.VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou..

Para dar vida à dor e ao sofrimento. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. Parecia dIzer-me: "É tarde. Se acende o círio triste da Saudade. ao meu lado. Fora da sucessão.. Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Porque eu hoje só vivo da descrença. Hirta. estranho ao mundo. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Mas que no entanto me alimenta a vida. Era de vê-lo. imóvel.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. atro e subterrâneo. Eu a bendigo da descrença. P’ra iluminar-me a alma descontente. A Idéia estertorava-se. imensa. Tragicamente de si mesmo oriundo.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. em meio. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente. E o coração me rasga atroz. 76 . E assim afeito às mágoas e ao tormento. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. resignado.

Hoje ela habita a erma soledade. Não sei se viva p’ra morrer na terra.Oh! Deus. desgraçado réu. Cansado de lutar no mundo insano. e então sereno. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Da Igreja . Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. gárrulos voando . Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo.o exorcismo Terrível me feriu. de ilusões tão bela. volvi ao ceticismo. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. seu olhar magoado. eu creio em ti. sombras cor-de-rosa . em fundo misticismo: .Todas se foram num festivo bando.a Grande Mãe . De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. Ah. Onde a dúvida ergueu altar profano. Fraco que sou. entre o medo que o meu Ser aterra. Fugazes sonhos.

tristes. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. Cansado de chorar pelas estradas. pálidas agora. langorosas. senhora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste. Minh’alma levo aflita à Eternidade. todas sem olores. Morreram todas. Desfeitas todas num guaiar dorido. Sombrio e mudo e glacial. Revolvo as cinzas de passadas eras. Ouvi. senhora. Eterno pegureiro caminhando. senhora. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Exausto de pisar mágoas pisadas. SENHORA Ouvi. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. E que tornou-o assim. de amor ferido. Todas murcharam. Tristes fanaram redolentes rosas. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. Quando a morte matar meus dissabores. triste e descrido. amei. triste pela vida afora. num mês de tantas flores.MÁGOAS Quando nasci.

Alma viúva das paixões da vida. pendeu triste e desmaiada. Alma arrancada do prazer do mundo. e o pesar negro e profundo. 79 . olímpica e singela! E partiu. Era o soldado. Vivia alegre o vate apaixonado. enamorado dela. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. Apaixonou-se d’uma virgem bela. Louco vivia. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. No sepulcro da loura virgem bela. Oh! Tu. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. Ao chegar.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. venceu batalhas. um tresloucado. na estrada da existência em fora. mas a fronte aureolada. Cantaste e riste. Mas a Pátria chamou-o. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. E fica no teu ermo entristecida. coração amargurado. E voltou. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida. Esconde à Natureza o sofrimento. Altivo lutador. Tu que.

Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. silentes. E a mesma frase o noivo repetia.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. Quebrando a paz suprema dos sepulcros. ardentes . Hoje rolando nos umbrais marmóreos. Chegara enfim o dia desejado. Fora no campo pássaros trinavam. Vinha rompendo a aurora majestosa. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. Desliza então a lúgubre coorte. São minhas crenças divinais. no eternal soluço. soturnais. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. Quando da vida. Ambos unidos soluçara um beijo. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa. a brisa respondia. Era o supremo beijo de noivado! 80 .Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. pálidos. funéreos. Resvalando nas sombras dos ciprestes. Há de chegar.

E onde a vida borbulha e o sangue medra. E espuma e ruge a cólera entranhada. Assim a turba inconsciente passa. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. Aí existe a mágoa em sua essência. porém. Em luta co’a natura sempiterna. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. 81 . da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente. Mas se das minhas dores ao calvário. No delírio. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Dores que ferem corações de pedra.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Já que do mundo não vinguei-me em vida. A morte me será vingança eterna. Espumando e rugindo em marulhada.

Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. bom Papá. dão-te enganos. Jóias." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Irmão querido. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. estulto. Somente assim festejarei teus anos. Enquanto outros que podem. Su’alma livre para o Céu se alara. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. num abraço de ternura santa. Tu’alma ri-se descuidosamente. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Morrera um dia desvairado. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Foste do amor o mártir sacrossanto. Pois se da Religião fizeste culto. Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. Quantos. bonecos de formoso busto.

morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . esta mulher de grã beleza. Os seios brancos. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão. Bela. Balbuciou. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. presa. No entanto.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Do destino fatal. Tornou-se a pecadora vil. Do fado. divina. Moldada pela mão da Natureza. o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. tomando a enxada gravemente. mornos. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. Dançavam-lhe no colo perfumado. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. palpitantes. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. amigo verdadeiro. aveludado. A chama cruel que arrasta os corações. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois.

os sons esmorecendo. . Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Assim canta também meu coração. úmidas arcadas. pouco a pouco. Repercute.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. desnudas.Addio. Eleonora. Trovador torturado e angustioso. Que guardam cinzas de ilusões passadas. mavioso. Subindo pelo Azul da Inspiração. não acordeis. E as mesmas portas impassíveis. Que guardam pér’las de funéreas rosas. E à noute quando rezam na clausura. addio! 84 . mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas. dolente. Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. Ai! não. No sigilo das rezas misteriosas. addio. E as mesmas monjas sempre tristurosas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas.

Num sepulcro de rosas e de flores.coração saudoso. porém. Canta. Arca sagrada de cerúleos sonhos. para guardar a mágoa oculta. Primavera gentil dos meus amores! 85 . . os teus fulgores.Arca cerúlea de ilusões etéreas. o triste outono. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá. Eu sei a sua história. Na auréola azul dos dias teus risonhos. PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Chora. Vai morta em vida assim pelo caminho. gargalha. O cabelo revolto em desalinho. tão moça e já desventurada.a veste desgrenhada. soluça . . Da desdita ferida pelo espinho.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende.O segredo d’um peito torturado E hoje. Primavera. No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada. No sudário de mágoa sepultada. a desgraçada estulta. Moça.

não busques saber por que. É minha sina perenal. ergue o teu grito.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Mas não queiras saber nunca. ela não cansa. E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. delirante e vário. que vivo atrelado ao desalento. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. 86 . risonha. Também espero o fim do meu tormento. Voltam sonhos nas asas da Esperança.avança! E eu. Senhora. túm’lo do prazer finado. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. Também como ela não sucumbe a Crença. Sirva-te a crença de fanal bendito. portanto. tristonha . No entanto o mundo é uma ilusão completa. O berço onde as venturas se embalaram. Foi outrora do riso abençoado. eu trajo o luto do passado. Muita gente infeliz assim não pensa. Salve-te a glória no futuro . Sonâmbulo da dor angustiado. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito.

Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Quando o rosário de seu pranto rola. santíssima. Bela na Dor. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 . Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola. Tenta às vezes.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras. Quem me dera morrer então risonho. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. sublime na Descrença. Chora .o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. Mas volta logo um negro desconforto. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. porém. Sombra perdida lá do meu Passado.

Enquanto o amante pálido.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. a seu lado Medita. ama. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. e. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana. As níveas pomas do candor da rosa. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Estende o teu olhar à Natureza. mimosa.. Rendilhando-lhe o colo de sultana. pois. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si.. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. a fronte triste. nevada. Branca. Na altura Imensa. crê em Deus. púbere. Dorme talvez. Essa sublime adoração do crente.

A procissão dos tristes. Eu vivo dessas crenças que passaram. E na choça a lamúria que traspassa O coração. coveiro. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. . lânguida e bela.TEMPOS IDOS Não enterres. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Tem pena dessas cinzas que ficaram. Entre todos. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade.A Stella Matutina da Desgraça! 89 . dos proscritos. além. A romaria eterna dos aflitos. porém. A alma saudosa pelo amor vibrada. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! . não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão.Quero abraçar o meu passado morto. Vai Corina mendiga e esfarrapada. . Dos romeiros saudosos da desgraça. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não. o meu Passado.

ADEUS. É como um despertar de estranho mito. Auroreando a humana consciência. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. Saí deixando morta a minha amada. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência. suspirando. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . Hermeto Lima Adeus. adeus. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando.ADEUS. 90 . Sulcando o espaço. adeus! E. um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. apenas restam mágoas. Vencendo o azul que ante si s’erguera. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. devassando a terra. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Cheia da luz do cintilar de um astro. ADEUS! E. E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares.eu disse. Voa. Para mim no mundo Tudo acabou-se. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. se eleva em busca do infinito. Perto.

triste. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora .LIRIAL Por que choras assim. Disse. Viu o adeus que do Céu ela enviava. E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . Minh’alma que de longe a acompanhava. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. Lá onde nunca chegue esta saudade. . E eu disse . Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. Estrela esmaecida do Martírio. Envolto da tristeza no delírio. irmã pálida da Aurora. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. com ela Negras sombras também foram chegando. onde não pousa a desventura. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim.Vai-te.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. e a estrela foi p’ra o Céu subindo. tristonho lírio.A sombra deste afeto estiolado. Mas a noute chegou.

e eu gemo o último harpejo. Depois. por entre a dolorosa estrada. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão.o criminoso . a fé perdida. Puro de crime. A praça estava cheia. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola. dai-me u’a esmola .e estertorada A minha voz soluça num gemido. E eu balbucio trêmula balada: . E ela fita-me. E na atitude do Crucificado.. Pedir a Dulce. Morre-me a voz. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. E dos lábios de Dulce cai um beijo. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso. perdão. Estendo à Dulce a mão. o algoz . Vítima augusta de indelével falso.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. isento de pecado. o olhar enlanguescido. O olhar azul pregado n’amplidão. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele.Senhora. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. 92 ..então. A esmola dum carinho apetecido. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. a minha bem amada.

. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 . E hás de tombar um dia em mágoas lentas. Empenhada na sanha dos abutres. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. Lá.. ave negra da Desgraça. E as trevas moram. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.crença Perdida . Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. acolhe-me.. assassino. e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. Num desespero rábido.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora.segue a trilha que te traça O Destino. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses. onde d’água raso O olhar não trago. obumbra-me em teu seio. acolhe-me N’asa da Morte redentora. e. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Há perfumes d’amor .. Gênio das trevas lúgubres.

O MAR O mar é triste como um cemitério. Os nimbos das procelas desta vida. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. sem nenhuma Nuvem sequer. num mar de esp’rança. a vida é qual risonho Batel. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. sem bruma Que a transparência tolde. Mas quando o céu é límpido. Abismados na bruma enegrecida. só descanta. então. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . e a alma é a Flâmula do sonho. dentre a escura Treva do oceano.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. Treme na treva a púrpura da tarde. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. Que o céu reflete. Quando vos vejo. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. Reflete a luz do sol que já não arde. Banhando a fria solidão das fragas. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza.

agita as tuas asas.o Sol que as almas doura! Fugiu. O grande Sol de afeto . Cantarias do amor a primavera. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim. Agora.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz.) Nessas paragens desoladas. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E. é desengano. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. e em si a Luz consoladora Do amor . Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Adeus oh! Dia escuro.eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . meu Futuro. foge . Triste criança virginal. Aurora morta.. Nem vibra a corda que a saudade esconde.1902 95 . Anseios d’alma aqui se perdem. FOGE! Aurora morta. E eu ergo preces que ninguém responde. quem dera Voar est’alma a ti.. Hoje é trevas. lá nos espaços. o meu único Norte. oh! Minha Mágoa. Ascende à Claridade.. é dor. Dia do meu Passado! Irrompe.1902 AURORA MORTA.. num Pálio auroral de Luz deslumbradora.

à dolente Unção da noute. Ah! num delíquio de ventura louca. Chora a corrente múrmura. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma . Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco . Bendito o riso assim que se desata . Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam.NO CAMPO Tarde. entretanto. Pendem e caem . nitente. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. no teu riso de anjos encantados. Sonorizando os sonhos já passados. Branca. ao luar. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata.. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados. emergindo às trevas que a negrejam. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. No alto.1902 96 . despertando sonhos.Cítara suave dos apaixonados. as águas límpidas alvejam Com cristais. as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. e. Quando.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. chorando enfloram.. E há.a Louca tenebrosa.

Ah! como a branca e merencórea lua. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. é como os prantos Níveos. eterna noctâmbula do Amor. Também envolta num sudário — a Dor. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. toda a cálida Mística essência desse alampadário. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. P'ra desvendar os seus segredos santos. Se evolarn castos. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. que a virgem chora. Eu. Derramam a urna dum perfume vário. noctâmbulo da Dor e da Saudade. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. sacrossantos. se duas eu tivera.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. Pau d'Arco -1902. E a lua é como um pálido sacrário. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. virginais aromas De essência estranha. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. 97 . Flor dos mistérios d'alma. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida.

Choras. pompeia a luz da branca aurora. bandolim do Fado.Quero Correr em busca do Futuro. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades.. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . soluças. .Quero partir em busca do Passado. a lua é triste e calma.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia.. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. chora um ocaso sepultado. Tanto que cantas. Ali. E vais aos poucos soluçando mágoas. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões. Um dia morto da Ilusão às bordas. Teu canto. vindo de profundas fráguas. Tanto que gemes. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. e ilusões acordas. sonhar novas idades. Que desespero insano me apavora! Aqui. E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . Quando alta noute. bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas.

qual hóstia. grave e lenta. cindindo os céus risonhos. tu vinhas a cindir os ares.ARA MALDITA Como um'ave. O céu tremia em seu trevoso flanco. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. E eu quis beijar-te o lábio redolente.Foge. Fulgia a bruma para sempre. alegre e rubro. E eu vi os seios teus virem inconhos ..Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. Tocando n'ara negra o níveo seio. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. Quiseste-me beijar a ara do peito. Na etérea limpidez de um sonho branco. agora. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . mas eis que neste enleio.. Caíste morta ao celestial preceito. Foste caindo n'ara dos meus sonhos. caindo dos altares. Meiga. e como Lúcia. E. O sol. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. à voz de Lúcia. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. também ria! 99 . A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. E beijei-te. NA ETÉREA LIMPIDEZ.

E a rasgar. o Mundo se concentre. Diluis teu peito em sensações profundas. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . E. Agora. á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. E a lua. e. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas. E em mim como no Templo. A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. urnas de Sonho.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . em bando. Sentes o peito em ânsias revoltadas.ei-lo que avisto. em banho ideal de amor te inundas. o túmulo da Crença. Mas. Longe das sombras aurorais e amadas.A colunata êxul do Sonho Morto . a Virgem Mãe dos céus escampos. Nua. ante o branco estendal das madrugadas. a rasgar o lúrido sacrário. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . e.o círio Da Quimera Falaz. ao ver-te nua. luminosa. Que. eis que emerges. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. Em mim como no Templo a Angústia se condensa. Que beija a terra e que abençoa os campos. Flores mortas da Aurora.

tudo chora. Todos dizem co'os olhos para a Sorte ... No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.Fúlgido foco de escaldantes brasas . enquanto Vai devastando o coração das casas. Embaladas no albor da adolescência. formosa. A alma diluída em eterais cismares. tudo! Quando Ela passa...o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim.. Plena de graça. entre esplendores.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas.O sol a segue. semeando a Morte. formosa entre as formosas. . e a Peste ri-se. ela.Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.É o castigo de Deus que passa mudo! . 101 . como o sol . Quero-te assim .A PESTE Filha da raiva de Jeová . Como o Cristo sagrado dos altares. Colmado o seio de virentes flores. Etéreo como as Wilis vaporosas. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e..

CÍTARA MÍSTICA Cantas.. Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. Como o santo levita dos Martírios. insânia. Chegou a Noite. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina.. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. assim. penseroso e pasmo.. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 ... a teus pés. o meu Sonho morreu! Perdão. insânia. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste.Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos. E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. pátria da Aurora exilada do Sonho! . E para mim.. meu anjo. Eu venho arrependido. perdoa o teu vencido. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios .. Açucena de Deus. ah! ninguém me responde. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. eis-me a teus pés. pelo mundo. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me.. pois..Irei agora.. .dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina.

Da Messalina fria no regaço. no Inferno do Gozo.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Em ânsia de repouso.. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 . que da Desgraça veio Maldito seja.. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Por um Cocito ardente e luxurioso. supremos. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício. e. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. Mas. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. sem Calvário. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Turificando a languidez dum seio! O amor. . Banhou-me o peito. Onde nunca gemeu o humano passo. porém. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor...

e a saudade da infância... Como um'alma de mãe. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua. também da Dor. a sós. Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.SOMBRA IMORTAL . E vi-te triste. Sombra de gelo que me apaga a febre. lá dos braços hercúleos.E tu velas... mulher. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.. a noute é tumbal. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. eu que te almejo.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 .. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. desvalida e nua! E o olhar perdi. eu vi.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. . . Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância.. num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo. E estavas morta... Ah! que um dia da Vida.. estes dardos acúleos Caíam. ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua..

. Chegaste.. Que luz é esta que das brumas vasa.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.. Alva d'aurora.. profundo?! Rumores santos. inata! E. Somente tristes os teus olhos vejo. tu. e é noute de fatais abrolhos.. o seio branco. Pérolas e ouro pela serrania.. Uma pantera foi se ajoelhando. entanto. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. E um canto vai morrer no vale fundo. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 .. Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. e. Que canto é este. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora..NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. ajoelhando à imagem do Carinho. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. Bendita a Santa do Carinho. Branca bem como empalecido arminho.. chegando. Choras.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. e no Santo harpejo. te acolheu a mata. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Alvorejando em arrebol de prata. no negror me abrasa. virginal.

Triste como um soluço de Dalila. no Alto..PELO MUNDO Ânsias que pungem. Qual rosa branca que ao tufão vacila.. mórbidos encantos. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma. 106 . E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. e lânguida. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas.. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos.. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Fria como um crepúsculo da Judéia. Já Vésper.

quem mede-o?! .. No ar.Eterno fogo. clown da Sorte . Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. querida! Já é Ave-Maria .. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende.Ele. adormecida.. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho.Fogo sagrado nos festins da Morte . Na Via-Látea fria do Nirvana. e a todo o seu assédio. Silfos morriam. Riso. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso .Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos.. QUERIDA! Vamos. coração. E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana.A hora dos tristes e dos descontentes. os gaturamos Num recesso de névoa. Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia .O RISO "Ri. sonolento e tardo. que ao frio alvor da Mágoa Humana.o voltairesco clown . Canta no espaço a maldição da Vida! 107 .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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Vibra.. O dia Foge. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros.. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. vão bater. Saio de casa.. diante do vulto dos conventos. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. mas meus movimentos Susto. Desencadeados. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Os passos mal seguros Trêmulo movo. violentos. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . E em meio ás refrações verdes e hialinas. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. Os ventos. LÁ FORA. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus.. NOTURNO (CHOVE.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão. Surge agora a Lua. batendo em todas as retinas.. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível..) Chove. Negro. A incandescência irial dos candelabros.

poetas.. E hoje. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu... inverno! 113 . Primavera. os vermes vis.. verão. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. enquanto o Tédio a carne me trabalha. outono.. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. Diluiu o silêncio em litanias. .E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu..Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões. Que há muito tempo não cantava lá.. Já que perdi a última batalha! E.

e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza.pássaros da Noute! 114 . . Ela. Aqui é o Campo-Santo. inda altiva.A DOR Chama-se a Dor. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!.. enxuta A face. onde.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra. Carpem na sombra pássaros ascetas. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. e quando passa. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora. ela.. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. e o travo há de sentir. enxuto o olhar. Pare chorando nesta Terra Santa. E se cantar como a Saudade canta. ao noturno açoute. abraçado às campas dos poetas. Gemem poetas .

Luta. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. a crença e o amor. poeta. nada há que o abata e o vença! Por isso. eu penso na Ventura! E o pensamento. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. e morrem os vermes que o consomem.O SONHO. Vence. A CRENÇA E O AMOR O sonho. assomem Descrenças. o sonho. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. e por fim. surjam tédios na Descrença. na Suprema Altura Sinto. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura.

Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. por fim... por fim. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 .Construíste de ilusões um mundo diferente.. e. Tesouros reais. para penetrar o mistério das lousas.. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. nada achaste. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905.. O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois.. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E.PARA QUEM TEM NA VIDA. profundo. pois. estudares. Foi-te mister sondar a substância das cousas .. Feito no decurso de dois minutos. auríferos tesouros. De que te serviu. Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade.

O NEGRO Oh! Negro. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto.. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra . em ânsias. dois gigantes mudos. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda. . ela subiu.. no entanto. São dois colossos. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .. Embora oculta..as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. . oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos... Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te.

Buscava Em verdes nuanças de miragens.em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. Daí a pouco. Nisto. foram buscar a Glória E que. como eu. ela seria morta. quantos também deixei. e não vê por onde fuja.Se ao menos voasse! .. Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . . O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . na atra estrada que trilhei. Quantos também.E o horror começa! Rasga As vestes. ver Se nesta ânsia suprema de beber. Saiu.Quer fugir.. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que.Era o suplício!. . Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta..O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!. ouve o canto aziago da coruja! . como eu. O Sol ardia... ira-o morrer também. Mas eu não contarei nunca a ninguém. uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 .Novo Sileno. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Trás de mim... Implora a Deus como a um fetiche vago..

Assim como uma casa abandonada.. Por isso..." Pau d'Arco -1905 119 . a alma serena. pressentindo a lousa.. vivia. Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas.Aqui ainda havia alguma cousa. diz ao povo: "É pena! . Sei que na infância nunca tive auroras. Mas. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes...Foi saudade? Foi dor? . Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina... E afora disto.. Olha essa neve pura! . ele a morrer. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade.Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste..SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Não há quem nele um só tremor denote! . de repente.Continua a cantar. E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.

que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado. Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i... diz que ele é vivo. Para onde eu ia.. Não mentes.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz. inda com o braço altivo. não andei mais sozinho! Abraçou-me. Bem como tu. Da tribo alegre que povoa os ares.a tumbal cidade. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares. E. A múmia de um herói do tempo de Ísis. Dizes Tudo que sentes.. persuadido fica do que diz. E eu me elevava.. Diz que ele não morreu...MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. em Tebas . e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim.. . o vulto ia a meu lado E desde então.

amigos. quando Eu. assombrado. assim como o de Jesus Cristo. Saiu aos tombos.. pois. aos tropeços. à tarde. Teve sede e fome. a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. A lua continue sempre a nascer! 121 . onde. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. como um cão covarde. Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. com medo do Infinito...NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe.. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. morrer. apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo. ia.. E. assim. antes de viver! Meu corpo.E apesar disto.. A percorrer desertos e desertos. Nada se altere em sua marcha infinda . Existo! .O tamarindo reverdeça ainda. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. triste e sem cantar. de saudades me despedaçando De novo. Por toda a parte.

água e albumina.A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 .A LÁGRIMA . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.O farmacêutico me obtemperou. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .. Ah! Basta isto.Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio.. .

À luz do americano plenilúnio. Não conheço o acidente da Senectus -. sem dispêndio algum de vírus. A podridão me serve de Evangelho.O metafisicismo de Abidarma -E trago. Do cosmopolitismo das moneras. Amo o esterco. Em minha ignota mônada. Amarguradamente se me antolha... Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra.Esta universitária sanguessuga Que produz.OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. simultâneas.. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Como um dorso de azêmola passiva. sem bramânicas tesouras. possuo uma arma -. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. E é de mim que decorrem.. Larva de caos telúrico. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha... procedo Da escuridão do cósmico segredo. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Pólipo de recônditas reentrâncias. 123 . ampla.

abdômen. causa ubíqua de gozo. A vida fenomênica das Formas. em síntese. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. a coçar chagas plebéias. Fonte de repulsões e de prazeres.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha. Quimiotaxia. Sonoridade potencial dos seres. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. -. a boca. A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. quebrando estéreis normas. Raio X. O horror dessa mecânica nefasta. magnetismo misterioso. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. Com a cara hirta. O espólio dos seus dedos peçonhentos. O coração. Que. Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. 124 . iguais a fogos passageiros. E apenas encontrou na idéia gasta. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. já nos últimos momentos. luzem. Ao clarão tropical da luz danada. Aí vem sujo. Como quem se submete a uma charqueada. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. ondulação aérea. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. o Homem. bestas agrestes. amanhã.

pelos cenóbios?!. igual à luz que o ar acomete. Como no babilônico sansara .. Brancas bacantes bêbadas o beijam.. ébrio de vício. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. em lúbricos arroubos. E explode. Negra paixão congênita. O cuspo afrodisíaco das fêmeas. Num suicídio graduado. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. bastarda. Sôfrego. À guisa de um faquir. em suas clélulas vilíssimas. 125 . Uivando. E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Toda a sensualidade da simbiose. consumir-se. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Como que. à noite. brincam.. vai gozar. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. fazendo um s.. E até os membros da família engulham... o monstro as vítimas aguarda. Suas artérias hírcicas latejam. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. No sombrio bazer domeretrício.. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. E após tantas vigílias. Do seu zooplasma ofídico resulta. Numa glutonaria hedionda.. No horror de sua anômala nevrose. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. E à noite.

torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 .. Acorda. quando a noite avança. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura. em rembrandtescas telas várias. A família alarmada dos remorsos. Reconhecendo. Mostrando. se estende Dentro da noite má.. Assim também.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. A asa negra das moscas o horroriza. com os candeeiros apagados. Mas muitas vezes.Macbeths da patológica vigília. Somente a Arte. Hirto. Fazendo ultra-epiléticos esforços. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -.. Essa necessidade de horroroso. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. bêbedo de sono. As alucinações tácteis pululam.. Que tateando nas tênebras. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. esculpindo a humana mágoa. observa a ciência crua. Quando o prazer barbaramente a ataca. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Sente que megatérios o estrangulam. Numa coreografia de danados. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. E de su’alma na caverna escura. Na própria ânsia dionísica do gozo. Abranda as rochas rígidas.

E. até que minha efêmera cabeça.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Há-de ferir-me as auditivas portas. entanto. -..E reduz. a desintegre.O ferido que a hostil gleba atra escarva. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Continua o martírio das criaturas: -. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Executando. À condição de uma planície alegre. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria. entre daveiras sujas.O homicídio nas vielas mais escuras. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 .. sem que. Na produção do sangue humano imenso. ouvindo estes vocábulos. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. Julgava ouvir monótonas corujas. Prostituído talvez. em suas bases. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. Era a canção da Natureza exausta. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. -.

conversando. Apenas como um velho stradivário. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. um saltimbanco da Ásia. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . discutindo. Os mastins negros vão ladrando à lua.. Convulso e roto. O Cairo é de uma formosura arcaica.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. Resplandece a celeste superfície. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo. Dorme soturna a natureza sábia. das pirâmides o quedo E atro perfil. Tonto do vinho. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. no apogeu da fúria. O céu claro e produndo Fulgura. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. Vaga no espaço um silfo solitário. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -. Embaixo. Num quiosque em festa alegre turba grita.. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. exposto ao luar.. A rua é triste. na mais próxima planície. A Lua cheia Está sinistra.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito.. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia...

com a boca aberta. Assombrado com a minha sombra magra. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Livres de microscópios e escalpelos. A ponte era comprida.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. Atravessando uma estação deserta. Mas. Ponte Buarque de Macedo. Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. 129 . parodiando saraus cínicos. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. Mostrando as carnes. Eu. E aprofundando o raciocínio obscuro. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . E a minha sombra enorme enchia a ponte. O calçamento Sáxeo. indo em direção à casa do Agra. na alma da cidade. Eu vi. Copiava a polidez de um crânio alvo. Apregoando e alardeando a cor nojenta.. Profundamente lúbrica e revolta. Dançavam. O trabalho genésico dos sexos. Fazendo à noite os homens do Futuro. Lembro-me bem. A matilha espantada dos instintos! Era como se. de asfalto rijo. atro e vidrento. Uivava dentro do eu .. então. a irritar-me os globos oculares. à luz de áureos reflexos. Pensava no Destino.

Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. No ardor desta letal tórrida zona. 130 . Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. E. na ígnea crosta do Cruzeiro. pelo menos. Ah! Com certeza. o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. ainda na placenta. como um réu confesso. Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. É bem possível que eu umdia cegue. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos.Fetos magros. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Ninguém compreendia o meu soluço. Deus me castigava! Por toda a parte.

Benditas sejam todas essas glândulas. à guisa de ácido resíduo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. estranha. quatro. Sob a forma de mínimas camândulas. para não cuspir por toda a parte. Eu bem sabia. ansiado e contrafeito. aos poucos. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava.E até ao fim. Não! Não era o meu cuspo. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Na ascensão barométrica da calma. 131 . cinco. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. Que eu. quotidianamente. de tal arte. Arrebatada pelos aneurismas. Ia engolindo. três. Que. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. em minha boca. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. cujas caudais meus beiços regam.

A camisa vermelha dos incestos. então. Perpetravam-se os atos mais funestos. para hipnotizar-me! Em tudo. Nessa hora de monólogos sublimes. maior talvez que Vinci. Rodopiavam. Mas um lampião. de certo. Imitando o barulho dos engasgos. a espiar-me. os duendes.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. o In e os trasgos. Vai pela escuridão pensando crimes. com as brancas tíbias tortas. Iluminava. Davam pancadas no adro das igrejas. E o luar. Com a força visualística do lince. À anatomia mínima da caspa. sem pudicícia. Ninguém. estava ali. Um sugestionador olho. Buscando uma taverna que os açoite. lembrava ante o meu rosto. ali posto De propósito. Siva e Arimã. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Livres do acre fedor das carnes mortas. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. A companhia dos ladrões da noite. da cor de um doente de icterícia. a rir. Embriões de mundos que não progrediram! 132 .

Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Como bolhas febris de água. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos. Na atra dissoluçào que tudo inverte. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. A pedra dura. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. E a palavra embrulhar-se na laringe. Cansados de viver na paz de Buda. E o meu sonho crescia nosilâncio. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. 133 . e vence-O. distingo-a. Todos os personagens da tragédia. em que.

Os bêbedos alvares que me olhavam. igual a um amniota subterrâneo.A planta que a canícula ígnea torra. sobre o meu caso Vi que. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. Como um bicho inferior. aflita. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. berrava. 134 . Iam depois dormir nos lupanares Onde. a sós. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . Um conjunto de gosmas amarelas. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. E apesar de já não ser assim tão tarde. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. refletindo. na dor forte do vômito. Aquela humanidade parasita. jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Fabricavam destarte os bastodermas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas. na glória da concupiscência. No meu temperamento de covarde! Mas.

por tua causa.Prostituição ou outro qualquer nome. Reboou. num fundo de caverna. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. tal qual. Minha filosofia te repele. Fazer da parte abstrada do Universo. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. como um cordão. o eco particular do meu Destino. numa ânsia rara. 135 . Rolam sem eficácia os amuletos. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega.. embora o homem te aceite. Numa impressionadora voz interna.e. Forma difusa da matéria embele. nas catedrais mais ricas. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. pior que o remorso do assassino. Nessas perquisições que não têm pausa. ponto final da última cena. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. Ao pensar nas pessoas que perdera. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também.. em tudo imerso. a morte é ingrata.

seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. A formação molecular da mirra. saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. para que a Dor perscrutes. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. o cordeiro simbólico da Páscoa. e a hialina lâmpada oca. fora Mister que. E se. magro homem. estriada. Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. com a bronca enxada árdega. Mesmo ainda assim. não como és. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. Trazes. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. espirra. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem.Jamais. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque. 136 . antes Fosses. sondas A estéril terra. por vezes. a refletir teus semelhantes. em síntese. se divide.

as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. à espera que a mansa vítima o entre. A cristalização da massa térrea. O antagonismo de Tífon e Osíris. Como uma pincelada rembrandtesca. 137 . Deixa os homens deitados. sem mortalha.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. Na sangueira concreta dos massacres. As projeções flamívomas que ofuscam. O fogão apagado de uma casa. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. O Amor e a Fome. Onde morreu o chefe da família. As aves moças que perderam a asa. Os terremotos que. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. As pálpebras inchadas na vigília. -. O tecido da roupa que se gasta. as nódoas mais espessas. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. O achatamento ignóbil das cabeças. a fera ultriz que o fojo Entra. Lembram paióis de pólvora explodindo. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. A mentira meteórica do arco-íris. Que ainda degrada os povos hotentotes. abalando os solos.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. alto e hórrido. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. branda e beatífica. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. o urro Reboava. a abóbora. Benigna água. sobre as hortas. 143 . Apenas eu compreendo. No Alto. Criando as superstições de minha terra. Meu ser estacionava. a amêndoa. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. como as ervas. olhando os campos Circunjacentes. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. de errante rio. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. em quaisquer horas. satisfeito. Além jazia os pés da serra.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. magnânima e magnífica. A Paraíba indígena se lava! A manga. Em cuja álgida unção. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. a ameixa.

Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Restos repugnantíssimos de bílis. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. Um português cansado e incompreensível. Vômitos impregnados de ptialina.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. 144 . Alucinado. Adivinhando o frio que há nas lousas. Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. entre estrépitos e estouros. Cortanto as raízes do último vocábulo. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. OH! desespero das pessoas tísicas. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Reboando pelos séculos vindouros. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. a existência Numa bacia autômata de barro. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca. como inúmeros soldados. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. os micróbios assanhados Passearem. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. O ruído de uma tosse hereditária. Estas não cospem sangue. aos bocados. dores não recebem.

Saía. Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino. com efeito. Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. naquele instante. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. Nos ardores danados da febre hética. em sonhos mórbidos. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. A mágoa gaguejada de um cretino. 145 . a água. me acorda. Onde a Resignação os braços cruza. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. no Amazonas. Pelas algentes Ruas. com o vexame de uma fusa. resfriando-vos o rosto. É a alfândega. Consoante a minha concepção vesânica. hoje.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. magras mulheres. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis.

Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. adstrito à étnica escória. A carcaça esquecida de um selvagem. Na tumba de Iracema!. Jazem. espantada. todas as inúbias. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. sem difíceis nuanças dúbias. E agora. por fim. tendo o horror no rosto impresso. A civilização entrou na taba Em que ele estava.. entregue a vísceras glutonas. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo .. Viu toda a podridão de sua raça. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. como um lúgubre ciclone. 146 . Ah! Tudo. Com uma clarividência aterradora. De repente. diante a xantocróide raça loura. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Desterrado na sua própria terra. Recebeu. caladas. acordando na desgraça..Fedia. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século.. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone.

A peçonha inicial de onde nascemos. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. E eu. Todos os vocativos dos blasfemos. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. rolando sobre o lixo. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser. No horror daquela noite monstruosa. Maldiziam.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. ex. roído pelos medos. 147 . com voz estentorosa. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica.: o homem e o ofídio.

E. Menor que o anfióxus e inferior à tênia. 148 . na terráquea superfície. porém. por epigênese. como um homem doido que se enforca. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. Sem diferenciação de espécie alguma. Consubstanciar-me todo com a imundície. como Cristo. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. às vezes. perante a cova. Eu voltarei. cansado. em suma. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. Tentava. Reduzido à plastídula homogênea. o anelo instável De. Anelava ficar um dia. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos.

até que. alva. derreada de cansaço. Acordavam os bairros da luxúria. para além. entre oscilantes chamas. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. Quase que escangalhada pelo vício.. agora. Uma. virgem fostes.. Mas.. Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. à-toa. 149 . com violência.. embalde. doentes de hematúria. De certo. e. Se extenuavam nas camas. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido. Nem tínheis. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. e as mãos. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. quando o éreis..Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira. vítima última da insânia. a saraiva Caindo. As prostitutas. Estendestes ao mundo. no horizonte. análoga era. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. ignóbil.. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome.

Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. Como uma associação de monopólio. Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. argots e aljâmias. E estais velha! -. Sentia. E hoje. inquieto. 150 . na craniana caixa tosca. que a sociedade vos enxota. porém. Como quem nada encontra que o perturbe. A racionalidade dessa mosca. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces.De vós o mundo é farto. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. no chão frio da igreja.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. eu. Eu pensava nas coisas que perecem. A consciência terrível desse inseto! Regougando.

com o ar de quem empesta. de repente. Quanta gente.A estática fatal das paixões cegas. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Apareceu. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. O fácies do morfético assombrava! -. após baixar ao caos budista. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. E a ébria turba que escaras sujas masca. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. À falta idiossincrásica de escrúpulo. roubada à humana coorte Morre de fome. em que eu entrei adrede. sobre a palha espessa. como Ugolino. Mas. palpável. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas. nos braços de um canalha 151 . Sem ter. escorraçando a festa. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Absorvia com gáudio absinto. Já podre. assim inchado. E o cemitério. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. Vem para aqui.Aquilo era uma negra eucaristia. nesta hora. estriges voam. Rugindo fundamente nos neurônios. Pela degradação dos que o povoam. O ar ambiente cheirava a ácido acético.

vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Pisando. Num prato de hospital. À sodomia indigna dos moscardos. entre fardos. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Vendo passar com as túnicas obscuras. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. Todos os meus cabelos se arrepiaram. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. Ao pegar num milhão de miolos gastos. cheio de vermes. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Comendo carne humana. a alma aos arrancos. como quem salta. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. ao clarão de alguns archotes. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. Na impaciência do estômago vazio. a camisa suada.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . iguais a irmãs de caridade.

Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. após a noite de seis meses. De quem possui um sol dentro de casa. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. às vezes. em vez de hiena ou lagarta. Como o íncola do pólo ártico. E eis-me a absorver a luz de fora. Proporcionando-me o prazer inédito. No céu calamitoso de vingança Desagregava. Manhã. déspota e sem normas. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. Absorve. Os raios caloríficos da aurora. trazendo-me ao sol claro. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . O benefício de uma cova fresca. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. No frio matador das madrugadas. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. Uma sobrevivência de Sidarta.Como indenização dos meus serviços. Dentro da filogênese moderna. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda.

Vinha da original treva noturna. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . tudo a extenuar-se Estava. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. corre.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. em colônias fluídas. em vão teu ódio exerces! Mas. com um prazer secreto.. vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro. oh! Morte. O ar que. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte.. A gestação daquele grande feto. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia.. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. a meu ver. Eu sentia nascer-me n’alma. com os pés atolados no Nirvana. O Espaço abstrato que não morre Cansara.. Acompanhava. Hirto de espanto. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. entanto. numa furna. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. Igual a um parto.

Ai! Como Os que. Rodeado pelas moscas repugnantes. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. não existes mais! 155 . amigo. Como! E pois que a Razão me não reprime. bela como um brinco. têm carne. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago.. como eu. E agora. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Apenas com uma diferença triste.. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa. Com a diferença que Lisboa existe E tu. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Coisa hedionda! Corro. É a hora De comer. Antegozando a ensangüentada presa.. Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais..

Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. que te esgotou as pomas. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa.. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. à amostra. quanto a mim. te emergiu do ventre! E puseste-lhe. oh! Mãe. sujo de sangue. Assim.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre.. Relembrarás chorando o que eu te disse.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta. sem pretensões. E o antigo leão. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. Há de crescer. a atmosfera se encherá de aromas. O Sol virá das épocas sadias. haurindo amplo deleite. Do que essa pequenina sanguessuga. entre dores. Clara. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. nas vitrinas. um novo Ser. No lábio róseo a grande teta farta -. comparo.

Por causa disto. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras.. Tais quais. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. as tesouras Brônzeas. Beber a acre e estagnada água do charco. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . também gira e redemoinham.. Os pães -. maior do que Laplace. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. roendo a substância córnea de unha. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. haurindo o tépido ar sereno. eu vivo pelos matos. mordendo glabros talos. nos fortes fulcros. Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Magro. numa ininterrupta Adesão. com que guarda meus sapatos. Tenho estremecimentos indecisos E sinto.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra. não prendi minha existência?! Por que Jeová.

cheio de chamusco. Beija a peçonha.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos. Dorme num leito de feridas. onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. goza O lodo. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . Subtraída à hediondez de ínfimo casco. apalpa a úlcera cancerosa. Úmido. E eu vou andando. no agudo grau da última crise. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. Com a flexibilidade de um molusco.

.. largando pêlos. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. depois de tanta Tristeza. no árdego trabalho. em vez do nome -.. corte. Eu. bolem Nas árvores. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. Ladra furiosa a tribo dos podengos. fustigue. Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. pelo ar. quero. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. Em grandes semicírculos aduncos. A terra cheira. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. salta. Os ventos vagabundos batem. De árvore em árvore e de galho em galho. morda!. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. No chão coleia a lagartixa. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. O ar cheira. Nos terrenos baixos. queime. Entrançados. depois de morrer. Com a rapidez duma semicolcheia..Augusto ..

dos esconderijos. em vez de flores. como exóticos pintores. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha. Urram os bois. batendo a cauda. O aziago ar morto a morte Fede. À dura luz do sol resplandecente. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Trôpega e antiga. Por saibros e por cem côncavos vales. Nédios. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. Como pela avenida das Mappales. Amontoadas em grossos feixes rijos. Quantas flores! Agora. Aqui. O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Como um anel enorme de aliança. Na bruta dispersão de vítreos cacos. sem conchego nobre. Os musgos. Pintam caretas verdes nas taperas. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. O lodo obscuro trepa-se nas portas. As lagartixas.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. outrora. Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. Viveu. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. Une todas as coisas do Universo! 160 . unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho.

A lamparina quando falta o azeite Morre. com a misericórdia de um tijolo!.E assim pensando. Só. da mesma forma que o homem morre. Súbito. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol.. é o óbolo obscuro. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. À carbonização dos próprios ossos! 161 ... Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. à luz da consciência infame. sem pai que me ame. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. Julgo ver este Espírito sublime. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha.. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. De pé. arrebentando a horrenda calma. aqui. Que por vezes me absorve. Grito. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir.. como quem raspa a sarna.. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre.

Com as mãos chagadas. alta noite. Ouvem-se os brados Da danação carnal. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. hórridos uivos Na mesma esteira pública. Sente. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. Entre farraparias e esplendores. a âmbulas moles. 162 . funcionária dos instintos. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. em coréas doudas. Bramando. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. O Vício estruge.. E a mulher. à lua. espremendo os peitos. por fim. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. recebe. à luz do olhar protervo. Espicaça-a a ignomínia. urna de ovos mortos. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. como o estepe. a arquivar credos desfeitos. em contorções sombrias. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado. hirta. aliando. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. de cabelos ruivos. Reduzidos. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que.. através os meus sentidos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. ébria e lasciva. Lúbrica.

bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.Chão de onde unia só planta não rebenta.. pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada.. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . É o hino Da matéria incapaz. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início. Fulgia. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório.. Ei-la. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. em cada humana nebulosa. Na óptica abreviatura de um reflexo.. de bruços.. E a Carne que. E a dor profunda da incapacidade Que. já morta essencialmente. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido.. filha do inferno. aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos.. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos.

. Como o .. Ficou rolando. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética. adultos.. Saem da infância embrionária e erguem-se. impune. Numa cenografia de diorama.. e a estraga Na delinqüência .. talvez. Mas que.. hírcica.. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia. adstrito a inferior plasma inconsútil.. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas. rubros. momentaneamente luz fecunda. Que. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. sonhos de culminância. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 . Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo. decerto.... ânsia De perfeição. Na homofagia hedionda que o consome.. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis. Pudera progredir.O atavismo das raças sibaritas. Libertos da ancestral modorra calma. radiando. como aborto inútil. Irradiava-se-lhe.. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito.. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços.

......... .................................................. ................................................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E............................. oca... .............. condenada... ....................................................... ............................................... 165 ....................................... ............................................................................ ............................................................................. Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto...................................................... ..................... ao trágico ditame................................................... .................... Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos.......... ....Sugando a seiva da árvore a que se une! .................................... Mordeu-lhe a boca e o rosto............................................................................................. .................. Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia.

Porque o amor. Integralmente desfibrado e mole.. este o amor não é que. chupo-a. Oposto ideal ao meu ideal conservas.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. provo-a. Pudera eu ter. A toda a boca que o não prova engana. enfim. o observas. Imponderabilíssima e impalpável. atenta a orelha cauta. tal como eu o estou amando. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. eu que idolatro o estudo. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . observo o amor. pois. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. conheço o seu conteúdo. Para que. em ânsias. E hoje que. do egoísta Modo de ver. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. é éter. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. Diverso é. Todas as ciências menos esta ciência! Certo.. o egoísta amor este é que acinte Amas. enfim. ilusão treda! O amor. por experiência. o ponto outro de vista Consoante o qual. poeta. amo Mas certo. é como a cana azeda. é substância fluida. entretanto. oposto a mim. É Espírito. Quis saber que era o amor. Como Mársias -. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. Cuida. consoante o qual. É assim como o ar que a gente pega e cuida. Descasco-a.

E só.. olhando o céu que além se expande: ". Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. trabalhar contente. Trabalharei assim dias inteiros.A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito. contra ele. Que importa que. os monstros zombeteiros. a tumbal janela E diz. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. Como Vulcano. abre.. Sem ter uma alma só que me idolatre. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente. que devia. . 167 . em ânsias. com o seu grande grito..O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. trágico e maldito. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. Entendi. depois disso. opresso. Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. no quadrilátero da alcova.. Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto.A maldade do mundo é muito grande...

Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 . E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove. sacudindo-o todo. Sobre a cidade geme a chuva.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade".

E a cimalha minúscula das ervas. Que forma a coerência do ser vivo. e erguia. 169 . íntegra. Rua Direita.Dizia. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. nas telúrias reservas. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. recebendo injúrias.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. alto. lhe entregue. A essa hora. num canto de carro. oh! céu. Cortanto o melanismo da epiderme. Recebiam os cuspos do desprezo. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. sob os pés do orgulho humano. banhava minhas tíbias.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. Como um cara. Com os ligamentos glóticos precisos. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. por ver-vos. E não haver quem. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. e absorve em cada viagem Minh’alma -.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -. O reino mineral americano Dormia.

lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. O vibrião. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . úmida e fresca. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. Pela alta frieza intrínseca. com a símplice sarcode. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. em diástoles de guerra. Onde minhas moléculas sofriam. Com a abundância de um geyser deletério. Mais tristes que as elegais de Propércio. o ancilóstomo. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. Pareciam talvez meu epitáfio. me pediam. A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. com o ar horrível. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -.

se desenrolava A esteira astral da retração etérea.. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. . foi transpondo a porta.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. E pelas catacumbas desprezadas. nos altares esboroados. Mochos vagavam como sentinelas. Em passo lento. Súbito alguém. a viúva. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. e o olhar errante.. Era uma viúva. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo.Um vento frio começou gemendo. ampla e brilhante. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. A Lua encheu o espaço sem limites E. Parou em frente da mesquita morta. funeral mesquita. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. o passo constrangendo. Feras rompiam tolos e balseiros. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Uma vez. dentro.

O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. E sobre o corpo da viúva exangue. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . Fora. entretanto. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Como uma exposição de carnes vivas. E raivosas. infernais ardendo Todas as feras. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos. Além. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. arremetendo. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. Morria a noite. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. contra ela. entanto. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas .

À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.. brilha A árvore da perpétua maravilha. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos.. afetando a forma de um losango. Atravessando os ares bruscamente. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que.. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos. pela vez primeira.. 173 .A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. tenho alucinações de toda a sorte. entre assombros... num enleio doce. Qual num sonho arrebatado fosse. ostentando amplo floral risonho.. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Assim. em plena podridão.. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. exata. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas. Pára. trêmulo. quem diante duma cordilheira. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. no meio.. Verde. A saudade interior que há no meu peito. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis.. Na ilha encantada de Cipango tombo. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. em luz perpétua. Da qual. Rica. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos. ao sol.

Banhei-me na água de risonhos lagos.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Passa o seu enterro!.. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.. E finalmente me cobri de flores. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos.Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.... A tarde morre.. Gozei numa hora séculos de afagos.

. esse vai Para o túmulo que o cobre. em lúcido véu. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. em reflexos. O Céu. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. Espelham-se os esplendores Do céu.BARCAROLA Cantam nautas. Se um cai. A Lua . Quem as esconda. outro se ergue e sonha. a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas.globo de louça Surgiu. nas Águas.. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . as esconda. Vagueia um poeta num barco. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. Vai uma onda. de cima. outro cai. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados.

Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma.. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição...E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou. forte.. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo. poeta da Morte!" . porém. "Viajeiro da Extrema-Unção... "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. "Mas nunca mais.

Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. . Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. oh! Redentora d'alma. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. Como um Tritão. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. Vós. oh Pátria. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. E ali do despotismo entre os escombros. pois. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. Manchar não pode as aras da República. Não! que esse ideal puro. A Liberdade assoma majestosa. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. levando ao mundo inteiro. esplendorosa. A República rola-lhe nos ombros. Caia do santuário lá da História. Da liberdade ao toque alvissareiro. e. fazei que destes brilhos. Da República a nova sublimada. Oh! Liberdade. risonho. Fulgente do valor da vossa glória.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Essa luz etereal bendita e calma.

sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor. nas oliveiras. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo . A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. 178 . Na área em que estou.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra. Além. ao matinal assomo. vendo o horror dos meus destroços. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. Aves de várias cores e de várias Espécies. Estremecendo em suas próprias bases. Passa um rebanho de carneiros dóceis.Mas hoje. desvairado.. à luz das minhas frases. cantam óperas inteiras. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. O amor reduz-nos a uniformes placas. E. Uma montanha que se desmorona.

na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E. demonstrando-a.este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. sinto um violento Rancor da Vida . Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . à nitidez real dos aspectos. ébria de fumo e de ópio. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes.Observo então a condição tristonha Da Humanidade. Da observação nos elevados montes Prefiro.. à frente dele. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. heroicamente.. Tal qual ela é. E quando a Dor me dói. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos.

em sonhos. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. De lá. Muito longe. em sonhos erra. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . olha estas feridas. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo. Muito longe.CANTO ÍNTIMO Meu amor. a esmo. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. se duvidas. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Passo longos dias. Vem cá. Que o amor abriu no meu peito. dos grandes espaços. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. erra.

Neve da minha dor. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. ontem. quanto mais me desespero.. Fazer parar a máquina do instinto. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. agonia. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Neve que me embala como um berço divino. amor e frio.. escuridão e eterna claridade.. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. oração. uma nuvem que corre. agonia! . agonia. o louco. e o sofrimento De minha mocidade. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. triste.. a sós. agonia bendita! . Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. Caminha e vai. . vendo-a. Mas. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. Frio que me assassina. Sem um domingo ao menos de repouso. murmura: . e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. abraça a sombra e.. Agonia de amar. numa delícia infinda. Delícia que ainda gozo.. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade.. num volutuoso assomo. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 .Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei..Diz e morre-lhe a voz.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. Amor. prece que ainda Entre saudades rezo. experimento O mais profundo e abalador atrito.Misto de infinita mágoa e de crença infinita. neve. Numa prece de amor.CANTO DE AGONIA Agonia de amor.

nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele. acende O pó. do agro solo.. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. foi aos poucos se arrastando. Triste.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. lúgubre e só. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí. Mas o braço cansou! Trabalhou. Rasgando.. funéreo 182 . a superfície bruta. Por seis horas seu braço empenhado na luta. oito vezes. Fez reboar pelo solo.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! .. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. E o Velho veio para o labor cotidiano. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. A terra escalda: é um forno.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje. alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. e o trabalho . E em tudo que o rodeava.. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo. mordendo a atra terra infecunda. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim.

era a turba trovadora Que assim cantava.. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto. os filhos. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. e o braço Pendeu exangue. e a sonhar. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. louco. flutua! Ninguém o vê. o peito arqueou-se. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros.. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara.. bêbado de miragem.o último esforço.. avistar a Árvore da Esperança. Num instante viu tudo. onde arde e floresce a Crença. a toa. a família! Não morreria. pois! Somente morreria Se da Vida. E amplo. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor.. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. Caminhava.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito.. tombando. o Velho caminhava. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 . o cansaço Empolgara-o. e compreendendo tudo. Nem viu que era chegado o termo da viagem. a flux d'água. ninguém o acalenta.. Quis fazer um esforço . a rugir-lhe aos pés. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. ele pisasse os trilhos. o precipício estava. sozinho. avistando uma frondosa tília Julgou.. o acalenta.

E há no meu peito . sangrento O sol. dourando as névoas dos espaços. mudo. Além. aos astrais desígnios. No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. a Sombra .ocaso nunca visto. Subindo á majestade do Infinito.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva.Asas de corvo pelo coração. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. E a Noite emerge. Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. e. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro. Atros. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas.condensada treva A sombra desce... Negras.. mudo. mudo. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos.. Na majestade dum condor bendito. ígneo.. alvas.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. rubro. Raios flamejam e fuzilam ígneos. fulvos. Descem os nimbos. pompeiam (triste maldição!) . luminosas. . e o meu pesar se eleva E chora e sangra.eis tudo! E no meu peito . volaterizadas..

como se esses raios N'alma caindo. Ninguém se exime dessa lei imensa Que.o Sol . e hás de ser após as chamas. de que serve. em vão na luz do sol te inflamas.. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois.. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca.hóstia da Aurora. 185 . Ah! Como tu. assassino Ébrio de fogo. Fantástico. E corno a Aurora . Sírius me deslumbra. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. curvo ao seu destino. A alma se abate. A Mágoa ferve e estua. aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Hoje de novo. o mastodonte. se. o tigre. a lesma. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. se tornassem ferros?! IV Poeta. Como Herculanum foi após as chamas. lodo. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. há-de Alva. Vésper me encanta. ciclópico. se erguer. ontem moribundo. a Aurora. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. em lodo tudo acaba. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. O leão. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. entre esplendores. se.E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. III De novo. em plena e fulva reverberação. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. como tombou outrora.

. frias. de ossos. Como recordação da festa diurna... pois poeta. Iluminando as serranias. e.Arrasta as almas pela Escuridão.Fera rendida à música divina.. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. E arrasta os coraç5es pela Descrença. de ilusões te nutres. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar.. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem. pelas penedias.. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. Medonhas valas. E foi deixando essas funéreas. Ergue. Então. e minh'alma cobre-se de flores . a Lua que no céu se espalha. banha As serranias duma luz estranha. Sírius me deslumbra. pelas escarpas. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. sobe ao pedestal. foi valas funerais deixando. onde.. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar. como abutres Medonhos. Canto. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 .. Pelos rochedos. Vésper me encanta.

E invejo o sofrimento desta Santa. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta.. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. triunfalmente... eu também vou passando Sonâmbulo.. 187 .Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha. sonâmbulo. em mágoa.. nos céus altos. sonâmbulo. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse..INSÔNIA Noite. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Mas.. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta.. Depois de embebedado deste vinho. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! .

neste silêncio e neste mato. as flores.. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. O Sol. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. Em que o Tédio. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos.. Com o olhar a verde periferia abarco. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá.. Recordam santos nos seus próprios nichos. Atro dragão da escura noite. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. os corimbos. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. equilibrando-se na esfera. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 . batendo na alma. Aqui. por exemplo. Agora. Estou alegre. porém. As árvores. Cercado destas árvores. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. o funerário. estronda Como um grande trovão extraordinário. em mágoa imerso. hedionda..Vagueio pela Noite decaída.

Dois são. aparece. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. Presto. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo. através ovóide e hialino Vidro. barro. "Na tua clandestina e erma alma vasta. é mais de um. os beiços na ânfora ínfima. e na ínfima ânfora. Risco-o Depois. por outra. harto. irrupto. porque um. a esvaziar báquicos odres: . A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. por epigênese geral."Cinza. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta .MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo. "Miniatura alegórica do chão. o arquitetural e íntegro aspecto 189 . E o que depois fica e depois Resta é um ou. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. síntese má da podridão. amorfo e lúrido. Todos os organismos são oriundos. ébrio. Mergulho. "Onde os ventres maternos ficam podres.Mucosa nojentíssima de pus. Olho-o ainda. "Onde nenhuma lâmpada se acende. De onde. certo. Olho-o. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo.

que. E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. Migalha de albumina semifluida. o que nele Morre. sozinho. ora. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. Depois. na terra instável. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. Em que todos os seres se resolvem! 190 . do meu espírito. é o céu abscôndito do Nada. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. Então. como nunca outro homem viu..Do mundo o mesmo inda e. sois vós. Na síntese acrobática de um salto. Sob a morfologia de um moinho. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. em segredo. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. mônada vil.. Move todos os meus nervos vibráteis. dentre as tênebras. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. é todo aquele Que vem de um ventre inchado.Zooplasma pequeníssimo e plebeu. cósmico zero. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. Vida. muito alto. sou eu. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Se escapa.

Adeus! Que eu veio enfim.. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila.. E eis-me outro fósforo a riscar. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda. De onde quimicamente tu derivas. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas.

bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. . davas brandindo em seva e insana Fúria.Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Sinos além bimbalham. lembras. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. E em tudo estruge a tua dúlia . Troa o conúbio dos amores velhos .. Retroa o sino. 192 . a soberana Imagem pétrea das montanhas duras. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Ora. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. Cantas a Vida que sangrando matas. Amor. medras Nalma de cada virgem.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . tangendo tiorbas em volatas. chora e se lamenta e vibra. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. E. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. .... vezes.

Irene. . pois. Assim.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja. Quedo. e eis o motivo. Irene. Cativo. aos astros. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. sonhei-a. Irene. fosforeando. impassível! Esta de amor ode queixosa. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. 193 .Essa dominação aterradora . Entre timbales e anafis estrídulos. quando Entre estrias de estrelas. Eis o motivo porque fiz esta ode. esse poder terrível. beija os áureos pés dos ídolos. ontem.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens.

tinir. Quase com febre. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. Trinta e seis graus à sombra. ao meio-dia. Dentro. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. Da qual. E eu nervoso. berrar. Inopinadamente 194 . irritado. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. bruta. erguido do pó.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja.

A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência.O ígneo jato vulcânico Que. Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . afinal. A ouvir todo esse cosmos potencial. Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos. . Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante. Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.

. oh! morena . Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.QUADRAS Embala-me em teus braços. Aperta-me em teu peito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena. divina. Eu quero o meu Calvário .. Morreu-te a redolência. De lírios e boninas Um veludíneo leito.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. E dá-me assim. Embala-me em teus braços! 196 . perdeste a ciência. Aperta-me em teu peito. Assim como Jesus. De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.

Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. em suma. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. quando a noite cresce. Tenho 300 quilos no epigastro. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho.TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. embora a lua o aclare. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . através do vidro azul.. 3 de maio. duas. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. A conta recomeço. E aos tombos. Aumentam-se-me então os grandes medos. três. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. em ânsias: .. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.. 6. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que.Uma. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 .ª-feira. e.Uma... quatro. No bruto horror que me arrebata. Vista. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre... Dói-me a cabeça..

Ponho o chapéu num gancho. numa festa. Súbito me ergo. Mas aquilo mortalhas me recorda. por exemplo. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas... A luz fulge abundante 198 . E o amontoamento dos lençóis desmancho... Elevam-se fumaças Do engenho enorme... .aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram". .Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida . Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram. Por muito tempo rolo no tapete.. Meu tormento é infindo. Cinco lençóis balançam numa corda. Acho-me. O suor me ensopa.Sucede a uma tontura outra tontura. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . A lua é morta. Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Tal urna planta aquática submersa. Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. Tomba uma torre sobre a minha testa....

no ato da entrega Do mato verde. a terra resfolega Estrumada. Côncavo. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. Vários reptis cortam os campos. em diâmetro. cheia de adubos. De mim diverso. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. numa última cobiça. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. Entretanto. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . radiante e estriado. passei o dia inquieto. hierática. feliz. Broncos e feios. observa A universal criação. A ouvir. Babujada por baixos beiços brutos. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. longe do pão com que me nutres Nesta hora. No húmus feraz. o céu.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças.

negras. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. vão cheirar. Umas. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. às da neve. em sangue. tentáculos sutis. ás dos cristais. E à noite. a farpas de rochedo Completamente iguais.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. Monstruosíssimas mãos. 200 . Assinalados pelo mancinismo. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. Outras. Mãos que adquiriram olhos.. a delinqüentes natos.. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas. Pertencentes talvez.. pituitárias Olfativas. Mãos adúlteras..

Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. E como um nume de pesar. Sonho abraçar-te. oh Quimera. . Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Guarda a saudade que levou do Mame. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. Rola a violeta santa dos teus olhos . plangente. Pareces reviver a antiga Ofélia. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Opalescência trágica da lua! Tu. Mas neste sonho. No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. pálida camélia.. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero.a Carne. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 .. langue e seminua.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda.

almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes.VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. era só O ocaso sistemático de pó. enquanto eu tropeçava sobre os paus. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. uivando hoffmânnicos dizeres. Cruzes na estrada. O feto original. na escuridão. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar. como num chão profundo. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. E. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. Convulsionando Céus. análogo ao peã de márcios brados. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. com soluços quase humanos. Choravam. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. com uma vela acesa.. Aprazia-me assim. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. num ruidoso borborinho Bruto. No desespero de não serem grandes! 202 .. Aves com frio. Eu procurava.

Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. Como o protesto de uma raça invicta. A abstinência e a luxúria. vingadora. Noite alta. com a sidérica lanterna. na ânsia dos párias. ao colher simples gardênia. de onde se vê o Homem de rastros. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Mas das árvores. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. assim.Vinha-me á boca. frias como lousas. perdido no Cosmos. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. horrenda e monótona. uma voz 203 . Fluía. me tornara A assembléia belígera malsã. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Brilhava. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral.

Tragicamente. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. enquanto Deus. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. Rimos. choramos. Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. entres Na química genésica dos ventres. com a febre mais bravia.Tão grande. arvoredos desterrados.. porque. Para erguer. oh! filho dos terráqueos limos. que. iceberg. Se hoje. afinal. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. diante do Homem. ovário. Rasgando avidamente o húmus malsão. árvore. Não trabalham. na ânsia cósmica. Para esconder-se nessa esfinge grande. amanhã píncaros galgas. em suma. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. obscuro. do Equador aos pólos. montanha. Na prisão milenária dos subsolos. pois. Porque em todas as coisas. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . isto é. tão profunda.. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. Nós. Crânio. a espiar enigmas.

naquela noite de ânsia e inferno. alheio ao mundanário ruído. astro decrépito. Eu. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. a erguer-me. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . desgraçadamente magro. em destroços. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. Eu fora. a escalar Céus e apogeus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. A voz cavernosíssima de Deus.

arrancado das prisões carnais. 206 . armado de arcabuz. Na ânsia incoercível de roubar a luz. em coalhos. pela boca. é o prélio enorme. quero até rompê-las! Quero.. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. Para pintá-lo. As minhas roupas. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. Viver na luz dos astros imortais. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. no combate. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. Minh'alma sai agoniada. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem..QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. entre estes monstros. era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. rolando dos últimos degraus.

Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. a água que bebo. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. enfim. E tombe para sempre nessas lutas. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . faz mal. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. A bênção matutina que recebo. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto.. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.. em suma. é improfícuo. Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã. E é tudo: o pão que como. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça. é inútil. Seja este..esta arca. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração ..

. a 1 de Janeiro.. rio Sinistramente. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. em trajes pretos e amarelos. Intimamente sei que não me iludo.Faminta e atra mulher que. Então meu desvario se renova. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. à meia-noite. na vertigem: -.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. -.. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. sozinho. Mas de repente.. e a mim pergunto. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me.. Como que. Sai para assassinar o mundo inteiro.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. ouvindo um grande estrondo.. abrindo todos os jazigos. A Morte. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. estudo. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. Corro. numa cova. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez. come. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 .POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça.

. Vi que era pó. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo.E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Tu não és minha mãe. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. canalha.. acorda em berros Acorda. e quando vi o que era. Deixa-te estar. e após gritar a última injúria. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes.. É Sexta-feira Santa. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. Por tua causa apodreci nas cruzes. Como as estalactites da caverna. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre. Com as longas fardas rubras. como a gula de uma fera. e de declínio Em declínio. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. De Jesus Cristo resta unicamente 209 . Eu desafio. Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod.. em grupos prosternados. Perante a qual meus olhos se extasiam.. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. desta cova escura. que em mim dorme. Amarrado no horror de tua rede. Quis ver o que era.. Deste-me fogo quanto eu tinha sede.

e a gente. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema.. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. vendo-o. no ar de minha terra. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. Roma estremece! Além... somente eu. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. Na molécula e no átomo. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. Dentro da igreja de São Pedro. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Desperto. Como as chagas da morféia O medo. Na Eternidade. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. As luzes funerais arquejam fracas. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 .Um esqueleto. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. A árvore dorme Eu.. O céu dorme. O vento entoa cânticos de morte. quieta.

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