EU, TODOS OS SONETOS E OUTRAS POESIAS

(OBRA COMPLETA)

AUGUSTO DOS ANJOS

Autor: Augusto dos Anjos Título: Eu, todos os sonetos e outras poesias Data da Digitalização: 2004 Data Publicação Original: Primeiras décadas do séc. XX

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ÍNDICE
Introdução
As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos (por Horácio de Almeida) ....................................... 06 Um Currículo Escrito pelo próprio poeta (respostas ao inquérito de Licínio dos Santos) .............. 33

Sonetos
O Morcego ..................................................34 Psicologia de um Vencido ......................... 34 A Idéia ....................................................... 35 O Lázaro da Pátria ..................................... 35 Idealização da Humanidade Futura ........... 36 Soneto ao Meu Primeiro Filho .................. 36 Versos a um Cão ....................................... 37 O Deus-Verme .......................................... 37 Debaixo do Tamarindo .............................. 38 Budismo Moderno ..................................... 38 Sonho de um Monista ................................ 39 Solitário ..................................................... 39 Mater Originalis ........................................ 40 O lupanar ................................................... 40 Idealismo ................................................... 41 Último Credo ............................................. 41 O Caixão Fantástico .................................. 42 Solilóquio de um Visionário ..................... 42 A um Carneiro Morto ................................ 43 Vozes da Morte ......................................... 43 Insânia de um Simples .............................. 44 Asa de Corvo ............................................. 44 O Martírio do Artista ................................. 45 O Mar, a Escada e o Homem ..................... 45 Decadência ................................................ 46 Ricordanza della mia Gioventú ................. 46 A Um Mascarado ...................................... 47 Vozes de um Túmulo ................................ 47 Contrastes .................................................. 48 Soneto I a meu pai doente ......................... 48 Soneto II a meu pai morto ......................... 49 Soneto III ................................................... 49 Depois da Orgia ......................................... 50 A Arvore da Serra ..................................... 50 Vencido ..................................................... 51 O Corrupião ............................................... 51 Alucinação a Beira Mar ............................. 52 Vandalismo ............................................... 52 Versos Íntimos .......................................... 53 Vencedor ................................................... 53 Eterna Mágoa ............................................ 54 O Lamento das Coisas .............................. O Meu Nirvana ......................................... Caput Immortale ....................................... Apóstrofe a Carne ..................................... Louvor a Unidade ..................................... O Pântano ................................................. Supreme Convulsion ................................. A Um Gérmen .......................................... Natureza Íntima ........................................ A Floresta ................................................. Guerra ....................................................... O Sarcófago .............................................. Hino a Dor ................................................ Última Visio ............................................. Aos Meus Filhos ....................................... A Dança da Psique .................................... O Poeta do Hediondo ................................ A Fome e o Amor ..................................... Homos Infimus ......................................... Minha Finalidade ...................................... Noli Mi Tangere ....................................... O Canto dos Presos ................................... Aberração .................................................. Vítima do Dualismo .................................. Ao Luar ..................................................... A Um Epiléptico ....................................... Canto da Onipotência ............................... Minha Arvore ........................................... Anseio (Quem Sou Eu...) .......................... Revelação I ............................................... Revelação II .............................................. Versos a um Coveiro ................................ Trevas ....................................................... As Montanhas I ......................................... As Montanhas II ....................................... Apocalipse ................................................ A Nau ........................................................ Volúpia Imortal ......................................... O Fim das Coisas ...................................... A Noite ..................................................... A Obsessão do Sangue ............................. 54 55 55 56 56 57 57 58 58 59 59 60 60 61 61 62 62 63 63 64 64 65 65 66 66 67 67 68 68 69 69 70 70 71 71 72 72 73 73 74 74

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Vox Victimae ............................................ Agonia de Um Filósofo ............................. O Último Número ..................................... Saudade ..................................................... Abandonada ............................................... Ceticismo ................................................... Mágoas ...................................................... Ouvi, Senhora ............................................ Triste Regresso .......................................... Infeliz ........................................................ N’augusta solidão dos cemitérios ............. Noivado ..................................................... No meu peito arde .................................... A Máscara ................................................. Amor e Religião ........................................ Canta no espaço a passarada ..................... O Coveiro .................................................. Pecadora .................................................... No Claustro ............................................... Il Trovatore ................................................ A Louca ..................................................... Primavera .................................................. A Esperança .............................................. Senhora, eu trajo o luto do passado .......... Sofredora ................................................... Ecos d’Alma .............................................. Amor e Crença .......................................... Ariana ........................................................ Tempos Idos .............................................. Na rua em funeral ei-la que passa ............. Adeus, adeus, adeus! E, suspirando... ....... A Aeronave ............................................... Lirial .......................................................... A Minha Estrela ........................................ A praça estava cheia.... .............................. A Esmola de Dulce .................................... Ave Dolorosa ............................................ Gênio das trevas lúgubres... ...................... Nimbos ...................................................... O Mar ....................................................... Anseio (Nessas Paragens Desoladas...) ..... Aurora Morta, Foge! ................................. No Campo ................................................. Canta o Teu Riso Esplendida Sonata ........ Cravo de Noiva ......................................... Plenilúnio .................................................. Insânia ....................................................... O Bandolim ...............................................

75 75 76 76 77 77 78 78 79 79 80 80 81 81 82 82 83 83 84 84 85 85 86 86 87 87 88 88 89 89 90 90 91 91 92 92 93 93 94 94 95 95 96 96 97 97 98 98

Ara Maldita ............................................... 99 Na etérea limpidez... ................................ 99 Treva e Luz ............................................ 100 O Templo da Descrença .......................... 100 A Peste .................................................... 101 Ideal ........................................................ 101 Cítara Mística ......................................... 102 Súplica num Túmulo .............................. 102 Afetos ..................................................... 103 Martírio Supremo .................................. 103 Sombra Imortal ....................................... 104 Coração Frio ........................................... 104 Noturno (Para o Vale Noital...) ............... 105 Sedutora .................................................. 105 Pelo Mundo ............................................. 106 E o Mar Gemeu a Funda Melopéia ......... 106 O Riso .................................................... 107 Vamos, Querida! ..................................... 107 A uma Mártir ......................................... 108 Régio ...................................................... 108 Pelo Mar ................................................. 109 Pallida Luna ............................................ 109 A Morte de Vênus ................................... 110 Mártir da Fome ....................................... 110 Sonho de Amor ....................................... 111 A Orgia Mata a Mocidade ...................... 111 Festival ................................................... 112 Noturno (Chove, lá fora...) ...................... 112 E Ele Morreu .......................................... 113 Vaes Victis .............................................. 113 A Dor ..................................................... 114 Terra Fúnebre ......................................... 114 O sonho, a Crença e o Amor ................... 115 Meditando ............................................... 115 Para Quem Tem na Vida... ...................... 116 Soneto a Frederico Nietzche ................... 116 O Negro ................................................. 117 Vinhas trilhando gárrulo a Avenida ........ 117 O Ébrio ................................................... 118 O Canto da Coruja .................................. 118 Senectude Precoce .................................. 119 André Chénier .......................................... 119 Mystica Visio .......................................... 120 Ilusão ...................................................... 120 Nome Maldito ........................................ 121 Dolências ................................................ 121 A Lágrima ............................................... 122

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....................................................................................................................... 192 Ode ao Amor ............128 As Cismas do Destino ................Outras Poesias Monólogo de uma Sombra .. 200 Mãos ..............................................................................................................123 Uma noite no Cairo ................................................ 155 Duas Estrofes .................................................................................................................................................... 170 A Vitória do Espírito .................. 162 Versos de Amor ...................................................................... 195 Numa Forja ............... 204 Viagem de um Vencido .............. 197 Quadras ................... 141 Os Doentes ...................................................... 157 A Meretriz .................... 190 Mistérios de um Fósforo .................. 184 Idealizações ................................................................. 205 Queixas Noturnas ................................ 199 Tristezas de um Quarto Minguante ....................................................... 179 Estrofes Sentidas ....................................... 212 5 ..... 183 História de Um Vencido ......................................................................................................................................................................................................................................................................................... 156 Gemidos de Arte ... 183 Gozo Insatisfeito .................................................. 166 A Luva .............. 209 Poema Negro ........ 129 A Caridade ....... 176 Ave Libertas .......................................................................................................................................................................................................................................... 173 A Ilha de Cipango ........ 182 Canto de Agonia ....................... 142 À Mesa .. 168 Noite de um Visionário ..................... 180 Canto Íntimo ............... 203 Vênus Morta ................................ 186 Insônia . 155 Mater ................... 175 Barcarola .......................

isto é. segundo as síndromes patológicas revelados. Nalgum ponto. no que há de mais sutil e imponderável. A crítica literária já lhe realçou a obra em sua forma estética. Em Augusto dos Anjos não há que procurar o autor fora de sua obra. Gráfica Ouvidor. pois. senão em mais de um. Apenas como contribuição a essa crítica de sentido mais amplo. Interpretar cada verso isoladamente não é tarefa que se enquadre no plano deste trabalho. não vejo documento mais preciso para conhecer o autor que a sua própria obra. Seja como * (do livro As Razões da Angústia de Augusto dos Anjos. nos moldes da velha orientação impressionista. nesse estado de superexcitação. o eu fora do Eu. Fazer o elogio do poeta. sobretudo pela sinceridade com que nela está fotografado. compreendendo inclusive a estilística. inatingível também ao bisturi dos que tentam dissecar o interior humano. o que de alguma forma facilita o trabalho de interpretação. acompanhá-lo na trajetória desse pensamento tumultuário. que é de todas a menos operante. quando. Sua personalidade singular ali se projeta. poder conhecer a árvore pelo fruto. já que não podemos penetrar com tanta intimidade o mundo subliminal. A crítica metodológica do autor do Eu e Outras Poesias devia constituir o alvo desta escalada. nos moldes em que se ajusta a passividade compreensiva do comum dos homens. contudo. em suas mensagens de angústia.INTRODUÇÃO AS RAZÕES DA ANGÚSTIA DE AUGUSTO DOS ANJOS* Por Horácio de Almeida Muito se tem escrito sobre Augusto dos Anjos. Não me parece. na chaga viva de sua consciência. que o não convencia de todo. entrava em crise espiritual. Toda vez que o poeta se concentrava na dor que mais o cruciava. O autor revela o homem e ambos estão por inteiro em sua obra. quando não irrompia ovante para logo se perder na dúvida. e era aí. realçar a força de sua inteligência manifestada na originalidade do estilo e na tônica de um materialismo filosófico. ed. Nessa tentativa de interpretação psicológica. Difícil tarefa é essa de querer conhecer a alma dos nossos semelhantes. Teria sido um neurótico para uns. Só o estudo do conjunto poderá explicar os matizes de um pensamento que tinha por norma ocultar-se em metáforas. esteja o poeta revelado por inteiro em todos os reflexos de sua alma. proponho-me a interpretá-lo a partir de um ângulo até agora pouco estudado — a inquietação de sua personalidade. não escapasse um pouco da minha acuidade intelectual. É preciso. numa atitude de respeito e reflexão. desejosos de. na verdade. A crítica genética já lhe esvurmou a alma em busca de uma explicação para as suas anomalias psíquicas. Por conseguinte. um psicastênico para outros. já outros o fizeram com maior ou menor adequação. penso poder levantar a ponta da cortina para melhor compreensão das suas mensagens de angústia. que forjava em versos candentes a produção que depois levava ao papel. é possível que se tenha conservado à distância da crítica literária. Deste modo. RJ. ao menos. 1962) 6 . não conhecemos sequer a nossa. paremos reverentes à porta do templo. Convenha-se antes de tudo que Augusto não foi um homem normal.

for. tem sido Augusto comparado a Leopardi. Nietzche. Ao que se sabe. em relação com a casuística. igualmente inteligentes. Juízo é coisa que todos julgam ter. mas vale a pena ser louco quando se deixa por tal motivo um nome à admiração da posteridade. a de Leopardi. não é possível interpretar a obra de um escritor. com distúrbios os mais evidentes no seu sistema nervoso. de quem o sobrinho nascituro herdaria o nome e as conseqüências do choque. enfim. fobias. Pai e irmãos passavam por normais. como se houvesse saído do limbo para cair na labareda. todo o seu temperamento emocional. enfim. por vezes controvertidos. que nada explica. Obviamente. sobre o seu caso clínico. choques emocionais. tais modelos de comparação passaram também pelas mesmas crises intra-uterinas que afetaram a sensibilidade do autor do Eu. por motivos vários. Nem os que nasceram antes. Todas se angustiaram por acontecimentos imprevistos. tiques nervosos. nas modalidades do caráter. Byron. menos a de Byron. no final. com preocupações de grandeza e fidalguia. De seu pai também não herdou as características psíquicas que o marcaram a fundo. Augusto não era um homem igual aos outros. tenho por desnecessário entrar aqui nesse campo de especulação psiquiátrica. pelo drama que padeceu na vida intra-uterina. Assim como a mãe de Augusto. nem os que vieram depois. Oscar Wilde e outros loucos geniais ou degenerados superiores. do sentimento. que já era constitucionalmente quase louca. a partir de Lombroso. a de Nietzche. o refinamento de suas faculdades morais. só ele dava a impressão de um desajustado. estudante de medicina. E por curiosa coincidência. não há negar também a dos psicológicos. repetindo conceitos. A mãe do poeta. a de Wilde. reduzir tudo a categorismo. tal fato não podia deixar de refletir-se no filho em gestação. aos que perseguem riquezas ou fazem do amor o cio bestial. que procura dissecar a alma para ajustá-la a quadros nosológicos já catalogados e. a de Byron. da inteligência. sestros. Sem o concurso da causa primária. A causa primária de sua desordem nervosa já é assunto conhecido. assim como está provada a hereditariedade dos caracteres biológicos. na classificação dos antropologistas do século passado. Não há que imputar a Augusto a pecha de louco. além mesmo da gravidez. de fundo genético. sobretudo quando provém da linha materna. Isto posto. O traumatismo moral que tão fundamente abalou a mãe. Por seu parentesco espiritual. aos que se acomodam. quando este ainda em estado de gestação sofreu uma comoção das mais fortes. aos que se rebaixam para subir. ficou desajustada da mente pelo resto da vida. causada pela perda imprevista de um irmão querido. Não se trata aqui de fazer coincidir a personalidade criadora de 7 . mas da mediocridade ajuizada que enche de presença os quadros humanos nunca ninguém viu sair obra duradoura. caracterizado por uma sensibilidade doentia. como é do gosto da crítica científica. sobretudo quando tal obra reflete da primeira à última página a alma do autor. Tanto isso parece verdade que seus irmãos. perturbou-a por muito tempo. sofreram perturbações muito fortes na época de gestação daqueles notáveis supranormais. jamais denotaram qualquer grau de semelhança ou relação de afinidade com a alma bizarra do poeta. Explica-se deste modo.

era um introvertido. entrou a estudar as matérias do curso de humanidades. A par disso. publicado no Almanaque do Estado da Paraíba. sofreu duros reveses. porquanto as duas já se apresentam fundidas sem a química da ajuda biográfica. guiado apenas pela ilustração paterna. em sua linha tomista. confessava-se já então “afeito às mágoas e ao tormento”. de vez que a literatura indígena longe estava de adquirir a consciência de sua função. a rigor. dr. para aprazimento intelectual das elites. Sílvio Romero. A paisagem bucólica da várzea. em Monólogos de uma Sombra. em prefácio à segunda edição do Eu. Logo mais. quando apareceu para os primeiros exames no velho Liceu Paraibano. A doutrina positivista foi a primeira a ganhar terreno. saído da roça. em contraste com a mocidade e a inteligência. Nada de admirar. segundo os primeiros retratos que temos dele. Era de fato um excêntrico. O que há de singular nele não é. a sua própria vida sem problemas. como uma fatalidade. estavam a fazer dele um lírico. aprendeu a ler e. sem afastar-se do lar. Com seu pai. inspirado na natureza e no amor. A amizade que logo nasceu da admiração foi regada mais tarde com lágrimas de saudade no elogio que fez do poeta. Coelho Rodrigues. Já em 1875. haurido no transformismo de Haeckel e no evolucionismo de Spencer. Augusto nasceu e se criou no engenho Pau d’Arco. bradava para o conceituado mestre que o argüia. Quando Órris o conheceu nos idos de 1900. que a metafísica estava morta. Ocioso será afirmar que a metafísica ortodoxa. Deste modo. visto ter nascido poeta. numa defesa de tese na Faculdade de Direito do Recife. Muito cedo. não fossem os conflitos espirituais que trazia do berço. reunindo a esse volume a produção posterior à edição princeps de 1912. Tais idéias materialistas eram a coqueluche que o século passado legara ao presente. Órris Soares confessa que só conseguiu passar no exame de latim porque se valeu do colega que o ajudou a destrinchar Horácio. mas no final 8 . Falava nele o positivista que. é a vocação que já revelava para o infortúnio. no último ano do século passado. os quais o acompanhariam. mas não era somente isso. conforme disse num soneto que não consta. cinco anos após a sua morte. até o túmulo. logo mais. com o título Eu e Outras Poesias.Augusto com a sua personalidade psicológica. para maior complicação de sua personalidade. agravados por outros que irromperam na idade perigosa. que lançou em 1919. evolvia para o evolucionismo de Speneer. Alexandre dos Anjos. viu nele um tipo excêntrico de pássaro molhado. na várzea do Paraíba. cuja vida corria sem obstáculos. Esse adolescente sorumbático já poetava desde os sete anos de idade. Os conhecimentos filosóficos gozavam reputação de primeira plana. sofregamente bebida nas academias. Tão na flor da juventude e já se dizia um descrente. a quietude da vida na província. ao invés de um estudante bisonho. do Eu. E para completar o esboço do auto-retrato acrescentava: “Eu hoje só vivo para a descrença”. Vinha-se de uma época em que a erudição nacional destilava-se da cultura européia. O rapazinho de 16 anos. começou a envenenar-se com o materialismo filosófico. definia mais claramente esse pensamento “como uma vocação para a Desgraça e um tropismo ancestral para o infortúnio”. como expressão do pensamento nacional. em 1900. o seu tipo de pássaro molhado. foi logo chamando a atenção de mestres e colegas pelos conhecimentos que demonstrava.

desde Haller. firmava-se o conceito. Esquisitão que era. por ver em tudo isso hipóteses visionárias. Ainda na fase preparatória de estudos. Era a época da evolução do pensamento brasileiro. quando ainda pontificava na Faculdade de Direito do Recife um devoto do fenomenismo agnóstico. que. dupla feição de filósofo e de poeta. Darwin e Haeckel podem ser contestados ainda hoje como panteístas pelos que seguem ao pé da letra a história bíblica da Criação. disse-me certa vez que só depois de formado foi que veio a conhecê-lo direito. Um que foi seu colega de estudos e morou com ele na mesma pensão em Recife. não exclui absolutamente a hipótese da existência da alma. mas a origem simiesca do homem. que se irradiava do Recife ao sopro tempestuoso de Tobias Barreto e seus ardorosos discípulos. já era moda entre os renovadores o lançamento de poemas filosóficos. emancipou-se dela intelectualmente. introduziu entre nós a poesia científica. como se desconhecesse ou procurasse desconhecer a parte subjetiva de si mesmo. conciliada. desde o monismo de Haeckel ao evolucionismo de Spencer. em sua. está sujeita também ao processo da evolução. já lidos nos filósofos da natureza. ou mesmo. um século antes de Hugo. Foi nesse ambiente de agitação doutrinária. nas concepções filosóficas de seus poemas. Os menos letrados. se o diabo é tão feio como o pintam. os que ainda não tinham qualquer convicção filosófica. confundidas ambas na unidade cósmica. Nas rodas que se faziam na Paraíba. a ciência do Direito interessou menos ao estudante taciturno que as especulações filosóficas do materialismo naturalista. como toda substância animada. que só cuidava de preocupações teológicas. enquanto a metafísica do verdadeiro cristianismo continua palpitando na alma de todos os povos. irradiação natural da Escola do Recife discutia-se o problema do ser e do não-ser. o queixo apoiado no cabo do guarda-chuva. que Augusto dos Anjos penetrou os umbrais da tradicional escola. tentou o milagre de 9 . Ao que parece. os intelectuais mais dotados. que ficou sem seguidores e acabou relegada pelo próprio poeta. a velha Escolástica. de que católico era sinônimo de burro. de onde saiu formado em 1907. Aliás. Embora educado na religião católica. aliás bem pouco lisonjeiro. José Américo de Almeida. isto é. mas a metafísica resistiu ao impacto das idéias novas. o pensamento ao longe. suportou a mais dura crise. Desses embates. Por todo o Nordeste. como uma velharia do século. já no seu ocaso. adepto do positivismo. Na Paraíba. ficava a escutar os companheiros. aliás. O materialismo dialético dos nossos dias retrocede. Os filósofos da natureza foram ficando para trás. Martins Júnior. faziam praça de livres pensadores. com a evolução da matéria e do espírito. Augusto pouco falava.de contas resistiu ao choque de uma crença que condenava até a indagação anatômica e a astronomia sideral. Desta forma. Toda a preocupação era combater o pensamento teológico. Laurindo Leão. o rapazelho sorumbático deu asas ao pensamento nos conflitos entre a consciência e o sentimento. a exemplo de Victor Hugo. entre o mundo da forma e o mundo da razão. em seu livro Frases e Notas. A matéria em sua essência afigurava-se-lhe tão misteriosa como a força. segundo o depoimento de Cristino Castelo Branco. influenciado pelos naturalistas e evolucionistas do século. proceda ou não proceda. Comte passou. O beatério era o último reduto do catolicismo. Até no Piauí. formavam rodas para discutir o sexo dos anjos.

depois de infinitas transformações. já diferenciado na mônada. ora transfigurado em sátiro vilíssimo. A simbiose das coisas me equilibra. Por ela vai buscar-se no mundo informe da vida planetária. simultâneas. identifica-se na substância primeva. ampla. Encontra-se. trinta anos antes. enfim. começa então o drama crucial da consciência. como bem observa Cavalcanti Proença. e—crente no tema. Integrado na sociedade. incomparável na forma musicada. E é de mim que decorrem. Da substância de todas as substâncias. É a sua confissão de f transformista. Rimbaud escrevera Bateau ivre. ouvindo a citação de dois versos seus tomados ao acaso. fundado na unidade cósmica. numa caminhada de 31 estâncias. Do cosmopolitismo das moneras. sempre a evoluir em movimentos rotatórios.. Pólipo de recônditas reentrâncias. a consciência 10 . A partir da monera. Imitá-lo seria obra grosseira de pastiche. A saúde das forças subterrâneas. Não há. Augusto compôs Monólogos de uma Sombra. Em Monólogos de uma Sombra é a Sombra que fala e a Sombra é o eu do poeta. naquela mesma idade em que. mas há paralelismo de símbolos e de força criadora. mas “a solidariedade subjetiva de todas as espécies sofredoras”. 186 versos. bem mostra a preocupação indagativa do poeta de penetrar a coisa em si.reduzir a um campo único a ciência e a arte. Vejamos. que passou do reino vegetal para o animal. “esse mineiro doido das origens”. Em Bateau ivre quem fala é o barco ébrio e conta a sua derrota. Não sofre apenas a sua dor. poema que abre o Eu e Outras Poesias. por força das sucessivas mutações da matéria. a ponto de mostrar seu nojo à natureza humana. O aspecto conceptual do poema. até adquirir a forma humana. que é a derrota da humanidade. facilmente o identifica. Não sei se Augusto leu alguma vez Rimbaud. ora transfigurado em filósofo moderno. já desiludido. Em minha ignota mônada. E assim continua.. Nessa ânsia de penetrar a vida fenomênica das formas.. vibra A alma dos movimentos rotatórios. Larva do caos telúrico. Quem já o leu uma vez.. todavia. nas duas composições uma coincidência de temas. Aos 17 anos. desesperado por não poder libertar a energia intra-atômica e dominar a lei da mecânica universal. na larva que procede do caos telúrico. mas há casos em que a vidência poética de um é manifesta no outro. como amostra. Realizou de fato esse milagre em estrofações de profunda força conceptiva e de cunho tão pessoal que toda a sua produção traz a marca do autor — a eurritmia musicada dos decassílabos. Venho de outras eras. chega aos seres mais complexos. terso na linguagem. as duas primeiras estrofes dos Monólogos: Sou uma Sombra. procedo Da escuridão do cósmico segredo. E a morbidez dos seres ilusórios! E por aí vai. e vem vindo como uma monera através de milhões de anos.

que faz quase lembrar a reencarnação. entrega-se ao sacrifício. respondeu-me que por todo o casco da cabeça. noção trivialíssima das funções orgânicas. tantas vezes exaltada pelo poeta. Eis que assim se expressa em Os Doentes: A vida vem do éter que se condensa. A rigor. o vidente de Patmos: . segundo querem os frenologistas. Por alma. dentro do mundo fenomenal. as conchas das orelhas rasas como a palma da mão e. chamando a si. E por que não admitir logo a alma? Se eu disser que a consciência e a inteligência têm a sua sede no espírito. temos aí um transformismo metafísico. No fundo. como está dito em Monólogos de uma Sombra. posto que falasse às vezes em alma divina e em Deus de amor e de bondade. cuido não estar proferindo uma heresia.No princípio era o Verbo. natural de minha terra. Augusto nunca deixou de ser um metafísico no sentido religioso da palavra. onde impera a força que responde pelo movimento ubiqüitário da massa. Para os que negam o espírito há muitos fenômenos que ficam sem explicação. segundo a qual a matéria e o espírito se unificam numa só substância. numa espécie de solidariedade subjetiva. A partir dai. O próprio Augusto. diante das maravilhas do aparelho encefálico. no entanto. a forma para ele era a manifestação passageira da matéria em seus processos evolutivos. A mesma coisa. Nada obstante. o que vale dizer. No tocante à transformação da matéria. assombrado com o não-ser. Todo mundo sabe que é pelo ouvido que se ouve. sem mais compreender que prodígios são esses da monera. Quando a matéria transmigra acompanhada de um elemento hereditário que memoniza o instinto da espécie através das gerações. uma espécie de fogo que devora e não consome. no princípio era a força. em esconderijos apropriados. sente o remorso a queimar-lhe a consciência. que tinha os ouvidos totalmente tapados. embora intelectualmente convencido da teoria racionalista. com sótão e porão. dezenove séculos antes. já havia dito. Isso não impede que o espírito seja o agente atuante de tão prodigiosa membrana. E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva! Bem examinada a questão. há que distinguir um pormenor. Por fim. sente-se vencido diante do seu martírio e do martírio das criaturas. É a concepção monística. Perguntei-lhe um dia por onde entrava o som.conspurcada de gozo malsão. força será admitir um agente oculto capaz de operar o fenômeno. conheci um sujeito. do ponto de vista metafísico. que a ele não interessava considerar. Sabemos que a consciência tem a sua morada no cérebro. centro de toda a acuidade sensorial. o sofrimento de toda a humanidade. ouvia mais que um tísico. Vemos o poeta a adquirir a forma humana e a degradar-se em seguida num gozo efêmero de dolorosas conseqüências. manifestou o seu espanto. Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma 11 . entendia o agregado abstrato da saudade. Nesse estado d’alma. o remorso já acordado na caverna escura.

No auge da inquietação.. cadáveres e bocas necrófagas. onde não há lugar para a alegria. admite o éter. onde imperam sombras. Os tormentos mortais da alma crescem com a descrença. Essa saturação filosófica fez-lhe um grande mal. vermes. impreca. causa-lhe repugnância. Augusto falava como um homem que já perdeu o ideal da vida. o lado malsão da vida. sem problemas materiais: Eu. procura penetrar o mistério da substância universal. rasgar do mundo o velário espêsso. Em sua alma atormentada as superexcitações provocam visões aterradoras.Psicologia de um Vencido . filho do carbono e do amoníaco. que é o Deus materialista de Haeckel. Exausto da luta. servindo de pasto a uma civilização corrompida.. Este ambiente me causa repugnância. Em tudo. procura 12 . mas “diante da sombra do mistério eterno” considera-se vencido. O próprio amor. solta blasfêmias. Profundissimamente hipocondríaco. fonte inesgotável de vida. faz perguntas ao destino: “Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” E nesse duelo da matéria com o espírito perturba-se. Querendo fugir a essas coisas. Na frialdade inorgânica da terra! Assombrado com o futuro. Ao invés de fecundação do espírito.tenha sido escrito por um adolescente para quem o cotidiano devia correr. inconformado com a idéia de ser um dia roído pelos vermes. na melhor das suposições. Que o sangue podre das carnificinas Come e à vida em geral declara guerra. dominado por um ceticismo acabrunhador.este operário das ruínas. Monstro de escuridão e rutilância. perscrutar a fenomenalidade da energia a erguer da prisão milenária outras espécies que hão de vir. uma natureza gasta. o éter cósmico. Sofro. Sobe-me à boca uma ânsia igual à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco.Fazer a luz do cérebro que pensa. um mundo de fantasmas errantes que não adquiriram ainda a consciência de sua dor. Custa crer que este soneto . Na idade em que os encantos do mundo douram a existência. desde a epigênese da infância. A influência má dos signos do zodíaco. Por toda parte. que era o pior dos remédios para a sua alma inquieta. O mundo em que vive é um vasto hospital. Mas como é preciso preencher um claro na consciência. firmava-se no presente a flagelar-se na ciência racionalista. só serviu para adensar o clima de alucinação. E há-de deixar-me apenas os cabelos. Nem por isso admite Deus. a matéria putrefata. Já o verme . Anda a espreitar meus olhos para roê-los.

a perda da crença e. O resultado de bilhões de raças Que. podia exercer influência no temperamento sensível do poeta. Falava como um homem que parecia ter a consciência carregada de remorsos. Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer. o Eu e Outras Poesias. numa atitude mental de fuga à realidade. não há homem que sofra mais. há muitos anos desapareceram! Nesta temática vai longe. Nenhum pintor. gasta imensas energias e enche de culminâncias. acompanham-no. no todo ou em parte. uma desgraça na vida do poeta. Com efeito. E é nesta manumissão schopenhauriana. Há. como se o infortúnio tivesse desabado sobre a sua cabeça. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das idéias! Mas de novo se encontra em face do nada. com o poder de sua imaginação. sente o desejo. E de onde vem essa dor? É possível que tenha a explicá-la um concurso de causas. Um inocente metido na prisão talvez se revoltasse menos que ele no ergástulo da carne. E para não capitular a esse apelo. A julgar pelos seus gemidos. Tudo isso. O niilismo esvaziava-lhe a alma da mesma forma que o cientificismo materialista. como se já tivesse despido a carcaça da matéria. como se supunha. O subconsciente o aturde. evadido de si mesmo. Espera aí encontrar o seu nirvana. Depois disso. leve-se em conta a deformação de uma sensibilidade que vinha do berço e o predispunha ao desequilíbrio das sensações entre o eu e o mundo externo. Mas o diabo não larga a sua presa. que os anos não carcomem. Mas há dentro dele qualquer coisa que o chama à realidade. para não desmoronar a fortaleza de suas convicções filosóficas. Por um instante. E via em mim. com efeito. supõe-se integrado na imanência da idéia soberana. não é demais supor a existência de algum motivo oculto capaz de levá-lo ao desespero. paralelamente. seria capaz de executar o quadro de suas aflições. de subverter-se no grande todo e fazer da parte abstrata do universo a sua morada equilibrada e firme. pois que precisaria a tinta de todos os tormentos do homem. coberto de desgraças.. tenta ir ao fundo da crença monística. mas não me parece bastante para torná-lo um desgraçado. monstros terríveis. em suas visões oníricas. Grita a sua dor por toda parte e. Onde quer que se refugie. que exulta triunfante: Gozo o prazer. Algo de mais grave. deve ter acontecido na sua juventude. podia fazer dele um triste. diz ele.. Antes de mais nada. já cansado de escutar a natureza. que ele denomina um sonho ladrão. Até agora 13 .refúgio na inexistência espiritual. nem Haeckel compreenderam. na vã expectativa de que seu ego o deixe em sossego. a terrível moléstia que se atribui.

Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E via em mim. Iríamos a um país de eternas pazes. Exatamente aí. no tocante a esse drama. Trata-se. não pode ocultar que foi vítima dele.. Lembro-me bem. Banhei-me na água de risonhos lagos E finalmente me cobri de flores. Mas o seu eu está projetado na obra e nestas condições não preciso de outro elemento identificador para firmeza do valor interpretativo que neste trabalho tenho a intenção de destacar. em . Por suas próprias palavras. dada a ausência de biografia. é que deve começar o trabalho de pesquisa para a verdadeira interpretação psicológica do autor. coberto de desgraças Mas veio o vento que a Desgraça espalha Para iludir minha desgraça estudo.. Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio. Mesmo que quisesse recorrer a essa fonte para uma boa exegese literária. Por mais que procure fugir ao assunto. Ele próprio. que é o drama mais doloroso de sua consciência.esse seu sofrimento tem sido considerado puramente abstrato. .A Ilha de Cipango alude a uma felicidade perdida. cujo desfecho infeliz teria abalado convulsivamente sua personalidade carente de equilíbrio.. de uma paixão. sempre se revela. no capítulo do amor. não vejo maior necessidade de conhecer a biografia de Augusto dos Anjos para bem interpretar a sua obra. A dificuldade está em conhecer o valor dos símbolos e em seguida decifrar as alegorias. inútil seria qualquer esforço. Minha desgraça há de ficar sozinha! E que desgraça foi essa que o fez ficar assim tão sombrio? Convém que ele mesmo conte a sua história. depois de haver conhecido os inefáveis afagos do amor. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrio! Um penetrante e corrosivo frio 14 . Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. não tenho dúvidas em afirmar que foi o drama do amor. desespero virtual e não real. Gozei numa hora séculos de afagos. Por mais que Augusto negue o amor. pois. Mas é ele próprio quem está a falar continuamente numa desgraça. Por enquanto.

Anestesiou-me a sensibilidade. E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro. A tarde morre. Passa o seu enterro. . A luz descreve ziguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos!

Até aqui, apenas um lampejo, mas o bastante para mostrar que foi por causa de um amor desventurado que se fez assim tão sombrio. Onde deixa vislumbrar um pouco mais de claridade é neste outro quadro - A Árvore da Serra:
As árvores, meu filho, não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho... É preciso cortá-la, pois, meu filho, Para que eu tenha uma velhice calma! — Meu pai, porque sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs alma nos cedros... no junquilho... Esta árvore, meu pai, possui minha alma!... Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa: “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!” E quando a árvore, olhando a pátria serra, Caiu aos golpes do machado bronco, O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra!

Numa e noutra composição, como se vê, o assunto é tratado em linguagem hermética. Aliás, o uso de metáfora é freqüente nele, mais ainda quando alude ao drama da consciência. Um corte transversal nas duas composições - A Ilha de Cipango e A Arvore da Serra - entremostra a desventura amorosa. A cena teria se passado no engenho Pau D’Arco, residência do poeta. O moço triste era ele, e a namorada, a árvore da serra, que possuía a sua alma. A bem amada já havia cedido o seu amor ao poeta, como adiante veremos. Por ser uma jovem de condição humilde, um junquilho entre cedros, o pai austero, orgulhoso de sua estirpe ou premido pela família, determinou ou concordou tirar para sempre da presença do filho aquela flor silvestre, que o tinha preso aos seus encantos, crendo que, com o desaparecimento do empecilho, pudesse ter uma velhice calma.

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Para melhor compreensão do drama, convém apanhar o pensamento do poeta na parte em que as duas composições esboçam de leve o quadro: - “Gozei numa hora séculos de afagos,/’ Banhei-me na água de risonhos lagos,/ E finalmente me cobri de flores ... / Mas veio o vento que a Desgraça espalha”/ “Esta árvore, meu pai, possui minha alma!” ‘ / “Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”/ “Foi sobre esta ilha que extingui meu sonho!”/ Desde então para cá fiquei sombrio!/ Um penetrante e corrosivo frio/ Anestesiou-me a sensibilidade.”// “Invoco os Deuses salvadores do erro./ A tarde morre. Passa o seu enterro!”// “Pela estrada feral dois realejos/’ Estão chorando meus amores mortos!”./ “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/ Caiu aos golpes do machado bronco,/ O moço triste se abraçou com o tronco/ E nunca mais se levantou da terra!” Seus versos deixam transparecer que houve violência. Mais de uma vez fala o poeta em golpes: - “E a grandes golpes arrancou as raízes/’ Que prendiam meus dias infelizes/ A um sonho antigo de felicidade!” / / “E quando a árvore, olhando a pátria serra,/i/ Caiu aos golpes do machado bronco”/... A moça, ao que parece, era natural do brejo ou do sertão lugares que ficam sobre a Serra da Borborema, cujos contornos, na faixa do horizonte, se avistam da várzea do Paraíba, pois de outra forma não há sentido para o verso que diz: “E quando a árvore, olhando a pátria serra”... Se aprofundarmos um pouco mais a indagação, vamos encontrar retalhos desse episódio em quase todas as composições do Eu. A coisa tem começo em Monólogos de uma Sombra, quando o poeta, em seu primeiro exame de consciência, já mordido pelo remorso, acusa o sátiro que ele foi.
As alucinações táteis pululam. Sente que megatérios o estrangulam; A asa negra das moscas o horroriza. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa!

A seguir, em As Cismas do Destino, descreve o segundo ato da tragédia:
Fetos magros, ainda na placenta, Estendiam-me as mãos rudimentares! Ah! Com certeza, Deus me castigava! Por toda a parte, como um réu confesso, Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo, me persegue! Essa obsessão cromática me abate. Não sei porque me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança

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E um pedaço de víscera escarlate. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse, E até o fim, cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória.

O terceiro ato da cena, constante do mesmo poema, é de revolta contra os seus, os que, cansados de viver na paz de Buda ou inflamados de preconceitos de nobreza, se encheram de humano orgulho, e quais guerreiros priscos contra uma imbele criatura que ao amor se rendera, entraram em conserto para a consumação da tragédia. Assim fala o poeta:
Todos os personagens da tragédia, Cansados de viver na paz de Buda, Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psico-plasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, A morte desgraçada dos açougues... Tudo isso que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

E ao terminar o poema, no qual pôs toda a sua amargura, o peito arfando de impotente indignação, solta esse brado de desespero:
Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psiquê no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo!

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Como quem afasta de si a visão terrível de um drama macabro, guarda-se o poeta, mui cautelosamente, de descobrir o motivo cruciante do seu trabalho poético, deixando, entretanto, a perceber, em cada símbolo, em cada imagem de sentimentos dissimulados, um fragmento da realidade que abrasava o seu mundo interior. Sofre realmente e sofre mais porque a dor que se dissimula não estanca, principalmente quando falta ao paciente resignação cristã ou conformidade filosófica. A obsessão do sangue vai até o fim. Alma agoniada por tormentos mil, anda gemendo pelas estradas solitárias, perseguida por visões alucinadoras. Numa de suas últimas composições, ainda atormentado pelo monocromatismo monstruoso da universal vermelhidão, assim recorda o passado sombrio:
No inferno da visão alucinada, Viu montanhas de sangue enchendo a estrada, Viu vísceras vermelhas pelo chão...

Ele guarda para todo o sempre o pesar do golpe sofrido. Ora irrompe em forma de protesto, ora de arrependimento pela culpa que lhe cabe. A consciência inquietada pelo remorso é aquele morcego do seu soneto, que à noite entra imperceptivelmente em seu quarto. Seu coração ficou um deserto. Nem mais amor a Deus, nem mais amor à humanidade, nem mais amor à mulher. Ao coração devastado a alegria nunca mais voltou. Vive somente para a sua dor. Poder, riquezas, glórias terrenas, são coisas que despreza. Em sua musa, o amor não terá mais lugar, nem mesmo como tema de glorificação poética. Causa-lhe até repugnância. Explica-se desse modo a deficiência cromática de seus versos. Só na cor do sangue às vezes se manifesta. Em toda a sua poesia, a paisagem do Pau D’Arco se converte em cenário triste e repugnante. Com referência a esse cenário, diz ele em Psicologia de um Vencido: “Este ambiente me causa repugnância...” Alguns críticos tomaram o impropério como dirigido à sociedade da Paraíba. Do Pau D’Arco, ressalva apenas o velho Tamarindo, a árvore da perpétua maravilha, a cuja sombra amou e chorou. Varado de dor — continua amando em espírito, um amor etéreo, que está fora da carne e não tem mais sentido com o coração. Eis que assim se manifesta: Porque o amor, tal como eu o estou amando, É espírito, é éter, é substância fluida, É assim como o ar que a gente pega e cuida, Cuida, entretanto, não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes, imponderabilíssima e impalpável, Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! O fato em si é de todo interesse para a interpretação da obra original de Augusto. Já os detalhes do fato são sobras que ficarão reservadas ao investigador biográfico, que infelizmente ainda não apareceu. Em Augusto dos Anjos o que mais interessa é a biografia do poeta. Erro será querer julgá-lo como prosador, fora da área da poesia, como tem sido estranhamente fariscado por alguns críticos. Na prosa, era, de fato, rebarbativo, como de refinado mau gosto também foi, na prosa, o genial cantor dos Lusíadas. Apenas como um desafio ao futuro biógrafo, seria curioso saber como se chamava a moça que Augusto metamorfoseou na árvore da serra. Essa curiosidade vem a propósito do nome de uma 18

. Sonâmbulo. contrito.. Sonâmbulo. Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. nunca foi chegado a santos. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim.santa. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido. ao mesmo tempo que. mas no poema .Queixas Noturnas .referindo-se certamente ao espectro de sua desventurada amada.. E invejo o sofrimento desta Santa. O poeta.. Noite. confessa mais uma vez a sua culpa. que não é das mais invocadas. Rola impetuosa por meu peito a dentro?! Porque é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-mundi estranha.extravasava desta forma o seu lamento: 19 . em mágoa. surpreende com a invocação de Santa Francisca.Insônia . como em . Porque não evitei o precipício Estrangulando a minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! De outras vezes.. Como um bemol ou como um sustenido. Em cujo olhar o vício não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse. eu também vou passando Sonâmbulo.. como é sabido. Depois de embebedado deste vinho. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Porque cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.

Rezo. sonhando. ando! Bati nas pedras de um tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza a minha única saúde! Curioso é que o egoísmo de uma dor sem fim não lhe fez perder o amor ao pai.As Cismas do Destino .. dormir primeiro. num carro azul de glórias. pouco fala. expressa a sua mágoa numa comovente unção. luta por fugir dela. E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. De nada valia para um espírito inquietante como o seu uma filosofia que arma o seu sistema à margem da vida. entre as estrelas flóreas. Como Elias. ama-o até mesmo na atômica desordem. A morte é o fim de tudo.Quem foi que viu minha Dor chorando? Saio. como referiu vagamente em As Cismas do Destino. apenas três vezes. mas para os que crêem há ainda uma esperança. que parece se deixou levar por pressão da família. Minha alma sai agoniada. quando a morte o olhar lhe vidra. A satisfação que buscava nos conhecimentos filosóficos só lhe faz aumentar a sede de infinito. Talvez visse nela uma criatura transtornada pela “mania mística”. Mas pareceu-me.brada: 20 . Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido. cuidei que ele dormia E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o!” deixa-o. como perseguido pela sinistra ceifeira. Madrugada de treze de janeiro. entre estes monstros. Ao vê-lo morto. o ofício da agonia. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu. Em . em que a piedade do sentimento se sublima na tessitura da composição. não para ele. isso mesmo sem revelar um mínimo de afeto. E porque a visão da morte não o deixa em sossego. Toda a crença monística em que procura consolo não lhe explica à satisfação o fenômeno da vida. que não admite a vida espiritual. A projeção da imagem materna esvaneceu-se por certo como símbolo da mais freqüente e sublimada veneração. Mãe. entretanto.. sem resolver a verdade interior. Nem uma névoa no estrelado véu. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Ao pai. Da mãe.

cheio de imperfeições. Ao invés de ajustá-lo à realidade. tanto que nos conflitos entre a inteligência e o sentimento tomava o partido do intelectualismo. é natural que se mostre rebelado contra a natureza. Nestas condições. Não me parece tenha razão 21 . Nada o consolava nesse estado de espírito. as palavras também servem para ocultar o pensamento. ponto final da última cena.. Aqui. embora ansiasse por encontrá-lo. alguém há de responder pelos sucessos infelizes do seu destino.Morte. devia ter na época.. como em toda a obra. quando recebeu os 22 açoites da natureza. Forma difusa da matéria imbele. Acha Flósculo da Nóbrega. E ainda. que Augusto era um cerebral. levava-o a recolher-se em si mesmo. O remédio que então buscava para as suas mágoas era o pior dos excitantes. não cria em Deus.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. Essa visão shakespeariana das espadas cruzando o espaço tanto pode ser a perseguição da morte como o trágico fim da sua amada. 22 anos de idade. desesperado por não encontrar solução no raciocínio frio e racionalista. em A Ilha de Cipango: Tenho alucinações de toda a sorte. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas Atravessando os ares bruscamente. desabafando-se nestes termos contra a natureza: Tu não és minha mãe. em Alucinação à Beira Mar: “Um medo de morrer meus pés esfriava”.. Meu raciocínio enorme te condena! E num horror quase pânico exclama. ilustre membro da Academia Paraibana de Letras. pois estava certo que nem Deus compreendia os seus soluços. Minha filosofia te repele. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Presumivelmente. escravo do raciocínio frio. habitado por monstros humanos. que só faziam aumentar a sua ânsia de infinito. Procura assim desoprimir o coração. Por tua causa apodreci nas cruzes. Vivia um mundo à parte. ardendo em indagações subjectivas. O sentimento profundo de dor e de descrença afastava-o da realidade. Impressionado sem cessar com a morte E sentindo o que um lázaro não sente. em cujas entranhas um feto magro estendia-lhe as mãos rudimentares. Já que não crê em Deus. E porque não se acalmava? Faltava-lhe fé.

volta-se vez por outra contra a sociedade. que o acolhia com carinho. Ao contemplar esse ambiente. ao contrário. O que produziu no sul do País. que só repugnância lhe causava. Depois que o poeta deixou a Paraíba. Em reforço desse argumento temos uma prova no próprio Eu. que não se sabe se foi escrito na Paraíba ou no sul. não se deixaria possuir pelo demônio da dúvida. Já é tempo de desfazer um equivoco que de tão repetido vai criando raízes. na vertigem: Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Punha-se então a passear. Era. O mundo que o fazia sofrer não era de certo o da sociedade paraibana. sua musa empalideceu à falta de ambiente. um espiritualista em eterna briga com o racionalismo. excetuado da segunda parte do Eu e Outras Poesias o grande soneto O Lamento das Coisas. teria Augusto encontrado satisfação na filosofia. Não que tenha recebido ofensas dela. passos largos. um homem excluído do mundo. torturado no sentimento do desamparo. tinha-se na conta de um doente. foram produzidos no Pau D’Arco. Os seus melhores versos. A inspiração despertava com a dor. mas no particular. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. Mas ninguém tinha culpa de ser ele um incompreendido. Nem ele próprio se conhecia. ao redor da capela do engenho. nunca recebeu hostilidades. Um tuberculoso pode sucumbir a outro evento que lhe antecipe o fim. Há. Suas percepções sensoriais estão sempre em conflito com as atividades especulativas do espírito. como um sonâmbulo. toda a mágoa do seu espírito vem à tona. Desta. em 1912. além de pouco. andar bamboleante. de vez que ninguém o compreendia. no caso. Não importa que tenha morrido de pneumonia. via na sociedade a representação da humanidade sofredora. As suas relações com a sociedade parecem rompidas. e a mim pergunto. Tomado de tensão nervosa pela repugnância que lhe causava o ambiente. em Poema Negro: A passagem dos séculos me assombra. Na luta em que Augusto se debate. No fundo. Fosse como ele diz.o ilustre intelectual paraibano. Era ali que ele sentia bulir na alma o drama de sua existência. que o 22 . os de maior densidade emocional. condenado a expectorar os pulmões dilacerados. noite a dentro. Em agravo da tortura moral que não cessa de persegui-lo. conforme declarou nesta honesta confissão. podia ter alguma razão para queixar-se da sociedade. De um modo geral. Surgem daí as freqüentes inflexões mentais e os distúrbios emocionais de fundo neurótico. o cérebro em fogo. destoa em força emocional do que produzira em sua terra natal. o que ele via realmente era o ambiente do engenho Pau D’Arco. um cuidado muito discreto da família em negar a tuberculose. contudo. conforme ouvi de Alcides Carneiro que ouvira dos seus íntimos. entrava em crise espiritual. mas porque se sente um desajustado. não viveria atormentado com os mitos que o afastavam da realidade.

Mas ninguém pode furtar-se às impressões da infância. aliada à descrença. num desalento ainda maior. em Os Doentes. perdeu também a crença. Na ascensão barométrica da calma. fez dele um misantropo. Depois disso. sob os seus pés. como se já tivesse perdido o alento de viver. imaginária cidade à margem do Paraíba. onde os anjos cantavam. a imagem dos sonhos remotos que ele quebrara com o furor de um iconoclasta. confessa-se minado pela tuberculose. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minha alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. os acordes saudosos do coração. Não há. “na urbe natal do Desconsolo”. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! Mais tarde. Lá para o fim do poema. como ele chamava. que pode figurar sem favor entre os melhores da língua. eis que escuta. Esse retorno do pensamento aos dias tranqüilos do passado. havia “um fígado doente que sangrava e uma garganta de órfã que gemia”. depois de exclamar que sua angústia feroz não tinha nome. na terra onde pisava. passa a chorar a sua dor e a alheia. Foi a partir dai que entrou a sentir o vazio de sua alma. como um arrependido. numa emoção que comove. Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. hosanas ao Senhor. levado pela lembrança terna de um mundo cheio de encantos e maravilhas. atormenta-se com a idéia de que. a arremetida que deu depois contra esses tesouros do coração. que admirar chore um dia a crença perdida. Parece que desperta para a vida. De início. pois. que os enfermos se reuniam pela camaradagem da moléstia. tudo isso ele pincelou num quadro que é uma jóia de rara beleza.próprio poeta confessava. na qual os doentes consagravam a sua última fonética a uma recitação de misereres. Mais adiante. Já cansado do ceticismo. deixa escapar este triste lamento: O inventário do que eu já tinha sido Espantava. Eu bem sabia. ansiado e contrafeito. assim principia o soneto Apóstrofe à Carne: “Quando eu pego nas carnes do meu rosto/’ Pressinto o fim da orgânica batalha”. jamais preenchido pelo cientificismo materialista. Essa real ou imaginária doença. em serenata. Em As Cismas do Destino. o soneto Vandalismo. Era ali. 23 . despedaçando as imagens dos próprios sonhos. A tragédia espiritual de Augusto começou desde que extinguiu seu sonho de amor sobre a Ilha de Cipango. Perdido o amor. entra a descrever a cidade dos lázaros. à guisa de ácido resíduo.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas. tanto sobre a obra como sobre a personalidade do autor. que se afundava a alma do poeta. Assim é que. João Lélis e De Castro e Silva. Nesse decurso.Meu coração tem catedrais imensas. gostar e não gostar é coisa que se não discute. Santos Neto. destaco Órris Soares. disse que Augusto agarrava a musa e saía com ela a passear pelos recônditos da diluição biológica.. Álvaro de Carvalho. mas dar opinião atabalhoada a respeito daquilo que não chegou a ser entendido muda de figura. ao aludir com desdenhoso apreço aos motivos abjetos que abundam no Eu e Outras Poesias. O que a uns desperta atenção e convida mesmo a uma meditação mais séria. Raul Machado. pois. a outros poderá parecer insípido ou fastidioso. Sua obra. era apenas o meio de formular soluções. na Academia Paraibana de Letras. apenas como autor de um livro apologético. José Américo de Almeida. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. em gemidos de dor. tenham bordejado na superfície do abismo em.. A arte. a musa é que tomava o poeta de assalto nos momentos de suas lucubrações. reconhecendo nele apenas o mérito de artista do verso. quase todos. Para só mencionar os intelectuais paraibanos que se pronunciaram sobre Augusto dos Anjos. Sabe-se como compunha. ler. chegou a dizer que Augusto não era poeta. muitas opiniões foram veiculadas. há sempre o que referir. Dos outros. João Lélis. Negou-lhe peremptoriamente as qualidades de poeta. Flóscolo da Nóbrega. cada leitor tem o direito de sentir o autor a seu modo. quando a aflição interior explodia em chamas 24 . Canta a aleluia virginal das crenças. para ele. Não é. Ao contrário da incontinente afirmativa. já na 27ª edição. por exemplo. Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! Caminha para cinqüenta anos que Augusto dos Anjos morreu. Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. de admirar que ao lado de conceitos da mais justa penetração girem outros que espantam pela desconformidade. Onde um nume de amor. Como os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. Enfim. No final de contas. continua despertando o mesmo interesse dos primeiros tempos. Não era espremendo o cérebro como muitos que se apagam antes de morrer. este último. num discurso de recepção a Flóscolo da Nóbrega. em serenatas. posto que. que não é biografia e não chega a ser estudo. No desespero dos iconoclastas. Templos de priscas e longínquas datas.

que pretende ser de interpretação psicológica. Neles. tem a prejudicá-la a idiossincrasia literária que afasta cada vez mais o retratista do retratado. com efeito. o sentimento parece ter outra dimensão. Escrevia numa linguagem difícil porque era esse o seu estilo. já por sua tendência malsã de ver as coisas pelo lado abjeto. na época. o que acabava de compor. a passear a esmo. que só deu pela presença do amigo depois de concluído o trabalho mental. num timbre especial de voz. tem as suas raízes no caráter polêmico da crítica passadista. claro que avulta ainda mais o seu mérito. certa preocupação inclusive dos simbolistas. Bilac pode ter sido um lapidário da forma. lábios crispados. Anoja-se o crítico diante de cadáveres. Seus versos. em 1945. A virtuosidade ganha valor na opulência da expressão verbal. enquanto forjava mentalmente a composição. Álvaro de Carvalho escreveu dois estudos sobre Augusto dos Anjos. associado à vibração sonora. olhar perdido no espaço. Foi então que recitou de inopino. nem o gosto se levava em conta quando prevalecia a prevenção pessoal ou quando se pretendia alcançar fama com a marreta da demolição. o que era. sangue de vísceras dilaceradas. à primeira vista incompatível com a poesia. entrava disciplinada em seus versos. Cavalcanti Proença. No entanto. em excelente estudo sobre o artesanato na poesia de Augusto dos Anjos. essa linguagem. surpreendeu-o num desses partos sem dor e tão absorto divagava o poeta. seu colega de turma e companheiro de estudos desde a fase preparatória. o ilustre escritor paraibano opõe embargos ao poeta. de um a outro canto da sala. Poe e Rimbaud. segundo a classificação que adota de Agripino Grieco. Muitas vezes. sobretudo da crítica provinciana. que não tenha fecundado a poesia nacional. Órris Soares. um em 1920. Em ambos. lá fora. afirma e reafirma que o Eu ficou como planta exótica. insulado em sua própria grandeza. impressionam pelo poder da dialética. Jamais foi o leit-motiv de sua produção intelectual. mas quem os lê e os medita tem a impressão de que foram cavoucados na rocha. como em compasso de música. Em ter ficado sozinho. o outro 25 anos depois. Os versos espoucavam no momento da inspiração. Essa incompreensão a respeito de Augusto. entre nós. Os que o conheceram de perto descrevem-no de andar banzeiro. disse que uma das suas forças. duendes. figuras espectrais e outras visões sinistras. já pelo cientificismo que tem por incompatível com a linguagem poética. como lamenta o crítico.devoradoras. reside justamente no termo técnico. por ver em tais composições a podridão enroupada em jargão científico ou jargão clínico. Repugna-lhe o fartum que diz emanar do Eu e Outras Poesias. cujos adeptos se apraziam em demolir toda vez que a obra visada não estava na conformidade do seu gosto. Augusto foi um torturado da idéia a serviço de um estro estrepitoso. Não importa que Augusto tenha ficado sem seguidores. escarros. túmulos. vermes. Essa crítica. à margem das correntes estéticas do pensamento literário. a densidade. Por tudo isso. também 25 . essa repulsa idiossincrásica que compromete o crítico antes de atingir o alvo. este na prosa. a sua personalidade psicológica. Euclides da Cunha. Só depois de elaborada é que ia para o papel.

pela bizarria do estro e pelo gosto malsão de impregnar a poesia com o almíscar das coisas abjetas. na impotência de estabelecer relação entre o mundo visível e o invisível. Até mesmo quando desce ao abominável das podridões tumulares cintila em fulgurações de gênio. Eis porque. com efeito. Foi exatamente com esse título — Poeta do Hediondo — que ele. Com Baudelaire. a fim de atingir. Da vasta literatura que já se produziu sobre Augusto dos Anjos. por isso mesmo poética. Com Mallarmé. é mais uma aversão de olfato alérgico. juízos despropositados de quem roça pelo assunto sem penetrar o recôndito da dor possessiva que tanto sublimava o poeta. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto. no duelo da carne. O anojamento de Álvaro de Carvalho. Ou então. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Tenho por desnecessário dizer que uma interpretação psicológica de Augusto. reconheça-se que essa poesia é humana. aparelhou. de sentido mais profundo. Sua obra está aí mesmo a desafiar a argúcia dos mais entendidos. pela tristeza indefinível da alma. num dos seus últimos sonetos. mesmo doentia. neste ensaio de exegese literária. está em tempo de ser feita. Há. Não pode o critico ser ortodoxo. o que forma em seu conjunto a harmonia orgânica de toda a obra poética do consagrado artista paraibano. Augusto tem sido comparado aos mais altos padrões da corrente estética do pensamento. como se vê. numa revolta do espírito que vai aos extremos da blasfêmia. deu resposta por antecipação aos reparos dos seus futuros críticos. ninguém lhes nega a grandeza de gigantes. O próprio Augusto tinha a consciência de que ia ficar sozinho e que era o poeta do hediondo. tenho por objetivo abrir aos estudiosos uma clareira que os conduza ao fundo da obra. O autor é o que é e não o que o crítico quer que ele: seja. Por suas excentricidades e afinidades outras de ordem espiritual. 26 . nem tudo pode ter cabimento.ficaram sem seguidores. Se há fartum de diluição biológica na poesia de Augusto. manifestada em poemas impressionistas de aguda sensação. Nem por isso. Mas é preciso notar que essa musa. na interpretação de um drama emocional. Admita-se que a musa de Augusto tenha algo de doentio. elogios ou restrições. que apenas transparece em linguagem evasiva. Absurdo é querer sujeitar a literatura aos padrões em voga. não lhe tira o vigor da expressão verbal. Com Verlaine. Note-se mais que a esse vigor casa-se uma virtude de efeitos encantatórios. pelas crises espirituais porque ambos passaram. como se definiu neste quarteto de Minha Finalidade: Pré-determinação imprescritível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.

crematismos. palavras raras e eruditas. encontra-se em Roma. Também no amor os dois se assemelham. as mesmas despreocupações do rebuscado pour épater le bourgeois. Súbito. e eu ouço tudo e calo! O amor na Humanidade é uma mentira. como se fosse uma convicção firmada e firmada com ênfase. É. De lá de fora. Honesto em tudo. Não fica apenas aí o confronto. que cultivava em sua sensibilidade enfermiça. “Na Eternidade. usando símbolos e valores que convergem para o fim colimado. desde a sua fase inicial. Em outros lances de sua obra manifesta o mesmo desdém.através da sensação. em grupos prosternados. para a neologia e o vocábulo raro. temida pelo outro. Veja-se como se pronuncia a respeito do assunto: Falas de amor. Augusto tem as suas razões para desdenhar o amor. os ventos gemedores estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na Serra da Borborema. os mesmos descuidos de metro e rima. as mesmas figuras de linguagem. O triste espetáculo do seu século leva Rimbaud a um passado remoto. desejada por um. Com Antero do Quental. Segundo Delahaye. ambos procuram traduzir a sensação das coisas inanimadas. nunca nenhum dos seus críticos traçou o paralelo.. Nos transportes espirituais os dois correm parelha. numa sexta-feira santa. visionário. como quem deriva o pensamento para o lado oposto da imagem triste que o assedia. e é com veneração religiosa que vê os soldados do Vaticano. posto que as coisas que tinha a dizer exigiam. Dentro da Igreja de São Pedro o silêncio só é quebrado pelo vento que entoa cânticos de morte. por sua natureza. Só com Rimbaud. guardando o corpo do Divino Mestre. em quem se acumulam. pela tortura do espírito e pela constância do tema da morte. havia acentuada tendência do poeta. citado por Augusto Meyer. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. assentado sobre cacos de pote e urtigas. a filosofia da dor. Curioso é que fez a citação ‘unicamente para dizer que nenhuma parecença encontrara entre com emprego de termos técnicos. ao pé de um muro carcomido pelo tempo. de mistura com alucinações. num artigo publicado em 1914. Vez por outra. vem o barulho das matracas. foi José Américo de Almeida. sensações simples e cenestesias. na terra santa. como neste exemplo: 27 . Encontra-se. Ouvindo isso. na postura de um campônio rústico. de uma honestidade quase bravia. isso mesmo de passagem.” Então desperta como de um pesadelo e com os olhos ainda ensanguentados da vigília sente a tristeza de ver mais uma vez como a sua vida é tão vazia. a idéia pura das coisas. pelo sentido da dor universal. O único que mencionou Rimbaud. em termos de comparação. só nesse ponto dissimula o pensamento. Com Leopardi. A mesma coisa ocorre com Augusto.. um mês após a morte de Augusto. um grande medo toma conta do poeta. em tropos ousados. que dialoga com os elementos imponderáveis. Augusto lembra Rimbaud. no ar de minha terra. Até nas aliterações e metáforas. quando a cristandade parecia pura sobre a terra.

No tempo de jovem. depois de errar longos anos pela África e pelo Oriente Médio. Teria acontecido com ele alguma coisa? Ao que se sabe. que era o seu anseio máximo. chupo-a. sente-se que há um complexo de culpa. É que Rimbaud era portador de uma mensagem que acabou por cumprir. Em cada um deles. Não percebe sequer que toda a sua angústia é nascida de suas entranhas. o bem e o mal caminhando juntos. Ou então como nesta outra amostra: Parece muito doce aquela cana. andou conspurcado de sensações súcubas. teve motivos de sobra para tratar o amor com aquele desdenhoso apreço. tendo culminado com aquele célebre tiro que recebeu de Verlaine. exacerbava-a. Começou então a ver e a sentir milhões de criaturas encantadoras. provo-a. Rimbaud encontrou-se a si mesmo depois que descobriu o caminho da virtude — le sentier de l’honner — que tanto procurava. contudo. mas que o levaram ao resultado conhecido. A violência do veneno que ingeriu muito cedo nas fontes materialistas fá-lo morrer de sede. poeta. Augusto e Rimbaud negam sistematicamente o amor. Quando viu que tudo quanto imaginava como solução para restabelecer o paraíso não passava de divagação delirante. é inútil. por causas várias.. em busca do paraíso terrestre. largou-se para a África.. converteu-se à realidade e mandou ao diabo o ar do inferno que o sufocava. E como não 28 .. é verdade. à beira da água. vítima de injustiças humanas. filha legítima de sua alma. embora tenham se casado e tido filhos. é como a cana azeda. onde se casou com uma nativa da Abissínia. Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Descasco-a.”. Também Rimbaud modulou o seu canto no mesmo tom: “Je n’aime pas les femmes: l’amour est à réinventer. Ao invés de aceitá-la como resultante de seu egocentrismo. Augusto sentia-se puro. Não sou capaz de amar mulher alguma. Rimbaud. como Tântalo. segundo é fama. a julgar pelos seus lamentos. em suma. que é talvez o drama mais crucial de suas consciências. . Motivos escabrosos. Há. e por isso mesmo não achava conformidade para a sua dor. um suave concerto espiritual na natureza.Sobre histórias de amor o interrogar-me É vão. Era a vida que lhe chegava e que fugia de Augusto. é improfícuo. A toda boca que o não prova engana. homens de bem cheios de nobres intenções. ilusão treda! O amor. enquanto Augusto não chegou a cumprir a sua. Ninguém sofre mais do que ele. na Bélgica. acabou por admitir a presença de uma realidade espiritual. uma diferença de fundo entre os dois poetas. Depois desse fato. As repetidas negativas ocultam de certo uma dolorosa frustração.

Uma análise mais demorada encontraria maiores pontos de contacto entre Augusto e Rimbaud. da mesma forma como sucumbira Antero do Quental. tudo quanto desperta a alma. É sabido que nenhum escritor adquire a força do seu gênio senão depois de renovarse interiormente. os mistérios da natureza. mas nem isso acredito tenha havido. A conversão de Augusto foi às avessas e porque não se desconverteu estabeleceu-se o conflito do eu com o indivíduo. Todo vácuo que se abre na vida interior é prejudicial ao comportamento do indivíduo. sem preencher esse vácuo. nada disso seria capaz de provocar-lhe uma sensação nova de vida. Machado de Assis só entrou na posse de si mesmo depois que se converteu à descrença. dessa conversão ao materialismo. Jamais desceu ao fundo de si mesmo. segundo apregoam os fundibulários da crítica. o que recebe influências supera o modelo de inspiração. revolta-se contra o mundo. onde não faltavam o ranger de dentes. Há muitas espécies de conversões em literatura.espécie de autobiografia moral. quando a monera já manifestava os primeiros sintomas de diluição. sua vida se transforma num verdadeiro inferno. deixava-se ficar no interior da concha. quando muito. Augusto vai irredento até o fim. silvos de labaredas e suspiros de empestados. contra a sociedade. contra a sua grei. isto é. Por curioso paradoxo. se fossemos no rasto dos poetas mais notáveis em busca de fontes de inspiração ou influências literárias. Torturava-se por ver somente o lado negativo das coisas. Rimbaud também criou para si uma estação no inferno . o amor. conforme confissão feita a Mário de Alencar. Ele mesmo se esvaziava no mundo vazio que se criou. Augusto revela-se mais lido em Põe e em Shakespeare. porém.Une Saison en Enfer . tudo quanto eleva os sentidos. martelada em versos magníficos e candentes. Não raras vezes. Mallarmé também passou pelas mesmas crises. Nas coincidências de temas ou mesmo de paralelismo de imagens não se veja. segundo o conhecido conceito bergsoniano do intuitivismo. Neste passo. perfume. luz. autores que exerceram forte influência em sua formação intelectual. Mesmo assim. Também Rimbaud bebeu na mesma taça de Põe. som. Ou será preenchido ou compromete a dinâmica das forças morais. como fontes de inspiração. perdia-se no estado de dúvida. beleza. e se o fez alguma vez foi guiado pela dialética do monismo. Uma mesma idéia artística pode ser tratada com sabor de originalidade por mais de um autor. 29 . que se agravou o drama latente de sua alma inquieta. a criação. depois que perdeu a ilusão dos homens.pode reformar o mundo. A vida.. como Camões na de Petrarca e de Vergílio. entre a voz do sentimento e a da razão. mas depois que abandonou a luta espiritual afundou no suicídio. Dominado pela idéia de um mundo sem objetivo. quanto mais afunda no racionalismo mais vacila na dúvida. numa reação inócua. Esse divórcio do eu com o indivíduo acabou por abranger a própria sociedade. como muito bem já disse Augusto Meyer a propósito de Machado de Assis. do qual se considerava prisioneiro. Tais similitudes valeriam. cor. imitação. sem procurar levantar o véu das aspirações profundas de sua alma. Foi a partir daí. teria apenas disciplinado em poemas imortais os cânticos populares da época. chegaríamos por certo ao pai Homero que. isto é. Rimbaud salvou-se porque se encontrou a si mesmo. Possuído do demônio da dúvida. Um problema sempre gera outro.

viram nisso o pecado da blasfêmia. olhar menos para as suas dores e um pouco mais para as alheias. porquanto Deus é princípio e é fim. Convém. na realidade. levantou-se a questão de saber se Deus existe ou não existe. Apurada a eleição e com base no resultado. a reação que lhe ocorre é a de menosprezo ao cristianismo. quando não proferida por modo vulgar e chulo. com raríssimas exceções. aceitar as imperfeições do mundo. No meio em que viveu era querido e admirado. Mas no mundo fechado em que se enclausurava não era possível ver lá fora as almas piedosas e aflitas que tão necessitadas como ele pediam socorro. proclamou que Deus não existe. É o que há. certos de que no futuro sobrará tempo para essas coisas. a essência dos Evangelhos. uns batem nos peitos diante do altar e querem logo a recompensa do sacrifício feito. é. mas os que o seguem desconhecem. afetando melindres de devotos. supria-se do mais no magistério particular. Não fosse a trama filosófica do individualismo racionalista. Isso mostra que ele. a propósito. Se emigrou para o sul do país foi porque a Paraíba do seu tempo nada tinha de melhor para dar-lhe senão uma cátedra no Liceu Paraibano. em torrentes de eloqüência. decretar a inexistência de Deus por decisão tomada nas urnas ou no bozó. Se o Cristo não vem em seu auxílio.Enredado em idéias preconcebidas. uns afirmando. em meio a tantas emoções extravasadas. outros andam com a Bíblia debaixo do braço e o coração carregado de impiedade. outros negando. A conquista da fé importa na conquista do próprio eu. um pedido de socorro. Os oradores. como ninguém ainda se entendesse. Todos nós. resolveu o presidente submeter a questão a votos. há que distinguir entre blasfêmia contra o cristianismo e blasfêmia contra o Cristo. descuramos o nosso destino espiritual pelo gozo do momento que passa. no desespero de tantos sofrimentos. tal como Rimbaud. Na prática. teria certamente encontrado a realidade espiritual que nasce da fé e se alimenta na caridade. O cristianismo se apresenta como a doutrina de Cristo. alcançando a grande esforço um lugar de diretor de Grupo Escolar. Toda a obra poética de Augusto é um grito de dor arrancado do fundo da alma. Para uma alma sequiosa de infinito como a sua não há que estranhar uma ou outra expressão de revolta. é objeto de amor e de crença e não de investigação científica. Embora não caiba nos limites deste trabalho uma digressão sobre a contradição reinante no mundo da crença. sentia-se Augusto na impossibilidade de admitir a realidade da vida. sem advertir-se de que jamais dera um passo ao encontro do Mestre. que se veja na blasfêmia. é questão que não deve ser formulada. via de regra. lecionando a quatro gatos pingados todas as matérias do curso de humanidades. nas Alterosas. Alguns críticos. Só é possível possuir a fé quando se está convencido da verdade. se não há Deus. Ora. um episódio que me foi contado por um amigo do Ceará. 30 . nas apóstrofes do poeta contra o cristianismo. se sucediam na tribuna. E como não lhe bastasse pela exigüidade dos proventos. heresia maior que a do poeta quando. Vale mencionar. se manifesta ainda escravo do batismo. Num dos muitos grêmios literários que proliferam na terra de Iracema. a meu ver. todavia. Se há Deus. Ao cabo do bombardeio oratório. No sul do país continuou a mesma luta heróica pela subsistência.

De outras vezes. começa o poema “Sou uma Sombra. os filósofos iônios. o sacrifício da linda moça Polixena. A minha sombra há de ficar aqui! Por sombra. No tempo de meu Pai. De inflexões mentais sua obra anda cheia. esse sombrio personagem do drama panteístico das trevas. como uma caixa derradeira.Debaixo do Tamarindo. O passado da flora brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida. nunca teve escrúpulos de manifestar as dúvidas que lhe abalavam a consciência. Voltando à pátria da homogeneidade. Só muito raramente soltava uma blasfêmia. sob estes galhos. 31 . coisa que não cabe na boca de um ateu. A denominação. por mãos de seu filho Pirro. virtudes que cultivava com extremado zelo. desde Tales de Mileto. vem de muito longe. dá à alma a denominação de sombra. como se vê. não se pode dizer fosse ele um materialista ético.atormentado por visões escatológicas. esta árvore de amplos agasalhos Guarda. E como era sincero e honesto. Mandando ao céu o fumo de um cigarro.” E onde mais expressivo se mostra é neste admirável soneto . Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. depois de carpir amargamente diante de um mundo que se mostrava indiferente às suas mágoas: Escarrar de um abismo noutro abismo. Por mais de uma vez chegou a falar em alma divina. explodiu em As Cismas do Destino. Por outro lado. Como uma vela fúnebre de cera. Abraçada com a própria Eternidade. através dos séculos. entendiam a alma. e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri. Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do cristianismo! Graciosa é a afirmação de que Augusto tenha tido a obsessão do sacrilégio. encarnado nele e manifestado nesta passagem: Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade? Já em Monólogos de uma Sombra. Camões fala na sombra de Aquiles quando exigia.

tal como se apresenta. de onde decorrem todas as moléculas que se esvaem na transubstanciação da natureza. Assim fala e assim termina a composição: A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ainda tem de abrir para o infinito! Vã ilusão será pensar que já está reconciliado com Deus. sua intimidade numenal. que eram uma constante na alma torturada do poeta paraibano. a 12 de novembro de 1914. Assim vai. que não quer ver a glória de Deus resplandescendo em tudo. da substância de todas as substâncias. Fala como um crente da cegueira da criatura humana. para ele. completem os estudos aqui esboçados ou deles discordem por modo a dar uma interpretação mais aceitável às mensagens de angústia. acrescenta.Mas o que Augusto chama a sua sombra não é ainda a alma. Até Deus. nas composições que vão até o fim do livro. mas dentro da alma aflita Via Deus . como entidade eterna. isto é. assaltado de alucinações. então a presença do Eterno afastará a escuridão do caminho e aproximará a criatura do Criador. conjunto das faculdades intelectuais e morais do homem. as formas microscópicas do mundo. Daí por diante. virtualidade espiritual. 32 . foi objeto de uma palestra proferida em maio de 1960. vacilante na ciência fria. mas com o que ai está me contento. até que morre numa cidade das Alterosas. tal como a entendiam os filósofos iônios. em soluços quase humanos. Choram ainda dentro dele. à semelhança da mônada de Leibnitz ou da monera de Haeckel. até mesmo num grão de areia. desde o declínio das crenças mitológicas. mais dotados de inteligência e espírito de penetração. ansiado por compreender o princípio anêmico dos seres. perdendo-se novamente no enleio cósmico. larva do caos telúrico. em Leopoldina. Quem o ler nesse soneto dirá que já está reconciliado com Deus. !" Este trabalho. É a substância primeva. Mais poderia dizer agora. em briga com o dualismo. era uma mônada. que procede do éter cósmico. na Federação das Academias de Letras do Brasil. o metafísico cede lugar ao inveterado monista. aos 30 anos de idade. Que outros. como está dito em Sonhos de um Monista: A verdade espantosa do protilo Me aterrava. mito cosmogônico que liga entre si o espírito e a matéria. Quando essa cegueira for resgatada e arrancar o homem da inciência.essa mônada esquisita Coordenando e animando tudo aquilo! Em Ultima Visio revela-se um metafísico teológico.

Quais os autores que mais o impressionaram: Shakespeare e Edgar Poe Qual o seu autor favorito: Todos os bons autores me agradam. chá ou outro excitante intelectual: Sou contra os excessos. o que não impede. Rio de Janeiro. numa atmosfera de rigorosíssima moralidade. Eu. Quais os trabalhos que deu à luz até a presente data: um livro de versos. Tem continuados sonhos fantásticos: Quanto a sonhos fantásticos é também muito raramente que os tenho. comecei a produzir muito antes dos 9 anos. da chamada vida física. Em que idade começou a produzir: Se me não falha o poder de reminiscência. Engenho Pau d'Arco. Quais as cores de sua predileção: A vermelha e a azul. Como faz o seu trabalho intelectual: Durante o dia. Sofre de insônia. Conservo de memória tudo quanto produzo. Tenho insônia raras vezes. relegando por completo tudo quanto concerne ao desenvolvimento. dos Anjos e D. presumo.UM CURRÍCULO ESCRITO PELO PRÓPRIO POETA Resposta ao inquérito de Licínio dos Santos em A Loucura dos Intelectuais. cefaléia e amnésia: Até esta data não sofro absolutamente de amnésia. 1914 Nome: Augusto dos Anjos Idade: 28 anos Profissão: Professor e advogado Estado civil: Casado Filiação: Filho legítimo do bacharel Alexandre R. O que sente de anormal quando está produzindo: Uma série indescritível de fenômenos nervosos. Onde e como foi educado: Na Paraíba do Norte. entretanto. mas a cefalalgia persegue-me constantemente. R. 33 . Quais as horas que dedica ao seu trabalho intelectual: Não tenho horas metodicamente preferidas para o meu trabalho mental. Córdula C. quase sempre andando no meio de toda azáfama ambiente ou à noite deitado. São muito poucas vezes que me sento à mesa para produzir. dos Anjos Antecedentes hereditários: Meu pai. Quantas horas repousa: Meu repouso varia de 7 a 8 horas. de abusar um pouco do café. Faz as suas irregularidade: Sim refeições com Tem muito apetite: Regular Faz uso do álcool: Não Faz uso excessivo do café. acompanhados muitas vezes de uma vontade de chorar. vítima de surmenage morreu de paralisia geral e minha mãe é excessivamente nervosa Antecedentes pessoais: O que me pode adiantar sua infância: Desde a mais tenra idade eu me entreguei exclusivamente aos estudos.

desde a epigênese da infância. Meu Deus! E este morcego! E.. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça. igual a um olho.. E vejo-o ainda. Fecho o ferrolho E olho o teto. Ao meu quarto me recolho.. Minh’alma se concentra.. Esforços faço. Monstro de escuridão e rutilância. e à vida em geral declara guerra. E há de deixar-me apenas os cabelos. filho do carbono e do amoníaco. vede: Na bruta ardência orgânica dasede. à noite ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto! PSICOLOGIA DE UM VENCIDO Eu. Na frialdade inorgânica da terra! 34 . Anda a espreitar meus olhos para roê-los. Produndissimamente hipocondríaco. Este ambiente me causa repugnância.TODOS OS SONETOS O MORCEGO Meia-noite. Já o verme -.Digo. A influência má dos signos do zodíaco. Sofro. Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.este operário das ruínas -Que o sangue podre das carnificinas Come. “Vou mandar levantar outra parede. Chego A tocá-lo.” -. Ergo-me a tremer. Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia Que se escapa da boca de um cardíaco. agora.

À noite. Delibera. Riem as meretrizes no Cassino. Quebra a força centrípeta que a amarra. de repente. Que. quer e executa! Vem do encéfalo absconso que a constringe. Mostra aos montes e aos rígidos rochedos A hedionda elefantíase dos dedos Há um cansaço no Cosmos. Em qualquer parte onde a cabeça ponha.. tênue. Marcas oriundas de úlceras e antrazes.. Tísica. E o Lázaro caminha em seu destino Para um fim que ele mesmo desconhece! 35 . quando sonha. Sente no tórax a pressão medonha Do bruto embate férreo das tenazes. e depois. Mas. raquítica. Anoitece. Deixa circunferências de peçonha.A IDÉIA De onde ela vem?! De que matéria bruta Vem essa luz que sobre as nebulosas Cai de incógnitas criptas misteriosas Como as estalactites duma gruta?! Vem da psicogenética e alta luta Do feixe de moléculas nervosas. em desintegrações maravilhosas.. esbarra No molambo da língua paralítica! O LÁZARO DA PÁTRIA Filho podre de antigos Goitacases. Todos os cinocéfalos vorazes Cheiram seu corpo. e quase morta. Chega em seguida às cordas da laringe.. mínima.

Agregado infeliz de sangue e cal. em vez de achar a luz que os Céus inflama. Tragicamente anônimo. Em tua morfogênese de infante A minha morfogênese ancestral?! Porção de minha plásmica substância. Meus olhos liam! No húmus dos monturos. Dentre as genealogias animais! Como quem esmigalha protozoários Meti todos os dedos mercenários Na consciência daquela multidão. Filho da grande força fecundante De minha brônzea trama neuronial. feto esquecido. Que poder embriológico fatal Destruiu.IDEALIZAÇÃO DA HUMANIDADE FUTURA Rugia nos meus centros cerebrais A multidão dos séculos futuros . Fruto rubro de carne agonizante... Realizavam-se os partos mais obscuros. E. Em que lugar irás passar a infância. Somente achei moléculas de lama E a mosca alegre da putrefação! SONETO AO MEU PRIMEIRO FILHO Ao meu primeiro filho nascido morto com 7 meses incompletos 2 fevereiro 1911. com a sinergia de um gigante.Homens que a herança de ímpetos impuros Tornara etnicamente irracionais! Não sei que livro. Panteisticamente dissolvido Na noumenalidade do NÃO SER! 36 . a feder?! Ah! Possas tu dormir. em letras garrafais.

afaga-a. arrima-a. pelos séculos adiante. Cão! -. Verme -. Filho da teleológica matéria. Latindo a esquisitíssima prosódia Da angústia hereditária dos teus pais! O DEUS-VERME Fator universal do transformismo. acode-a A escala dos latidos ancestrais.. ampara-a. Tua garganta estúpida arrancar Do segredo da célula ovular Para latir nas solidões enormes? Esta obnóxia inconsciência. Almoça a podridão das drupas agras. para provar A incógnita alma..é o seu nome obscuro de batismo.. Janta hidrópicos. E vive em contubérnio com a bactéria. avoenga e elementar Dos teus antepassados vemiformes. Ah! Para ele é que a carne podre fica..Alma do inferior rapsodo errante! Resigna-a. E irás assim. E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção! 37 . em que tu dormes. Suficientíssima é.VERSOS A UM CÃO Que força pôde adstrita e embriões informes. rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão. Na superabundância ou na miséria. Jamais emprega o acérrimo exorcismo Em sua diária ocupação funérea. Livre das roupas do antropomorfismo.

depois da morte?! Ah! Um urubu pousou na minha sorte! Também. de amplos agasalhos. esta tesoura.DEBAIXO DO TAMARINDO No tempo de meu Pai. Como uma vela fúnebre de cera. Chorei bilhões de vezes com a canseira De inexorabilíssimos trabalhos! Hoje. sob estes galhos.corte Minha singularíssima pessoa. Voltando à pátria da homogeneidade. e. esta árvore. das diatomáceas da lagoa A criptógama cápsula se esbroa Ao contato de bronca destra forte! Dissolva-se. Mas o agregado abstrato das saudades Fique batendo nas perpétuas grades Do último verso que eu fizer no mundo! 38 . minha vida Igualmente a uma célula caída Na aberração de um óvulo infecundo. O passado da Flora Brasileira E a paleontologia dos Carvalhos! Quando pararem todos os relógios De minha vida e a voz dos necrológios Gritar nos noticiários que eu morri.. Abraçada com a própria Eternidade A minha sombra há de ficar aqui! BUDISMO MODERNO Tome. Guarda. Que importa a mim que a bicharia roa Todo o meu coração. Dr.. portanto.. como uma caixa derradeira.

Na guturalidade do meu brado. com uma ânsia sibarita.essa mônada esquisita -Coordenando e animando tudo aquilo! E eu bendizia. Na inconsciência de um zoófito tranqüilo.Velho caixão a carregar destroços -Levando apenas na tumba carcaça O pergaminho singular da pele E o chocalho fatídico dos ossos! 39 . Alheio ao velho cálculo dos dias. Cortava assim como em carniçaria O aço das facas incisivas corta! Mas tu não vieste ver minha Desgraça! E eu saí. Como um pagão no altar de Proserpina. A verdade espantosa do Protilo Me aterrava. um dia. Por trás dos ermos túmulos. A energia intracósmica divina Que é o pai e é a mãe das outras energias! SOLITÁRIO Como um fantasma que se refugia Na solidão da natureza morta. com o esqueleto ao lado. mas dentro da alma aflita Via Deus -. -.. Eu fui refugiar-me à tua porta! Fazia frio e o frio que fazia Não era esse que a carne nos contorta. como quem tudo repele..SONHO DE UM MONISTA Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo Viajávamos. por toda a pro-dinâmica infinita.

mísera e mofina. Dentro do ângulo diedro da parede.MATER ORIGINALIS Forma vermicular desconhecida Que estacionaste. talvez. Ah! De ti foi que. Quando a promiscuidade aterradora Matar a última força geradora E comer o último óvulo do ventre! 40 . Nos estados prodrômicos da vida. como um gado vivo. autônoma e sem normas. moços do mundo. Todas as noites. Vêm matar a sede! É o afrodístico leito do hetairismo A antecâmara lúbrica do abismo.. O hierofante que leu a minha sina Ignorante é de que és. nascida Dessa homogeneidade indefinida Que o insigne Herbert Spencer nos ensina. vede: É o grande bebedeouro coletivo. Oh! Mãe original das outras formas.. A alma do homem poilígamo e lascivo?! Este lugar. Onde os bandalhos. A minha forma lúgubre nasceu! O LUPANAR Ah! Por que monstruosíssimo motivo Prenderam para sempre. Como quase impalpável gelatina. Nenhuma ignota união ou nenhum sexo À contingência orgânica do sexo A tua estacionária alma prendeu. nesta rede. Em que é mister que o gênero humano entre.

Creio. E é por isso que na minha lira De amores fúteis poucas vezes falo. O amor! Quando virei por fim a amá-lo?! Quando. Do meu sepulcro para o teu sepulcro?! ÚLTIMO CREDO Como ama o homem adúltero o adultério E o ébrio a garrafa tóxica de rum. Amo o coveiro -. É. De Messalina e de Sardanapalo?! Pois é mister que. para o amor sagrado.IDEALISMO Falas de amor. O mundo fique imaterializado -. Que o homem universal de amanhã vença O homem particular eu que ontem fui! 41 . e eu ouço tudo e calo! O amor da Humanidade é uma mentira. é o pneuma . como o filósofo mais crente.Alavanca desviada do seu futuro -E haja só amizade verdadeira Duma caveira para outra caveira. é o ego sum qui sum .. na generalidade descrente Com que a substância cósmica evolui. É a morte.. perante a evolução imensa. se o amor quea Humanidade inspira É o amor do sibarita e da hetaíra.este ladrão comum Que arrasta a gente para o cemitério! É o transcendentalíssimo mistério! É o nous . é esse danado número Um Que matou Cristo e que matou Tibério! Creio.

De aberratórias abstrações abstrusas! Nesse caixão iam... Mas. Vaguei um século.. Cinzas.O CAIXÃO FANTÁSTICO Célere ia o caixão. talvez as Musas. como os sonhos dos selvagens. subi talvez às máximas alturas. cartilagens Oriundas. se hoje volto assim. caixas cranianas. com a alma às escuras. inclusas. Pelas monotonias siderais. Na rua apenas o caixão sombrio Ia continuando o seu passeio! SOLILÓQUIO DE UM VISIONÁRIO Para desvirginar o labirinto Do velho e metafísico Mistério. nele. É necessário que ainda eu suba mais! 42 . À meia-noite. improficuamente. e. Era tarde! Fazia muito frio. Numa antropofagia de faminto! A digestão desse manjar funéreo Tornado sangue transformou-me o instinto De humanas impressões visuais que eu sinto Nas divinas visões do íncola etéreo! Vestido de hidrogênio incandescente.. penetrava fundo No meu fenomenal cérebro cheio. Talvez meu Pai! Hoffmânicas viagens Enchiam meu encéfalo de imagens As mais contraditórias e confusas! A energia monística do Mundo. Comi meus olhos crus no cemitério.

vales. a maldição de Pio Décimo caia em teu algoz sombrio E em todo aquele que for seu herdeiro! Maldito seja o mercador vadio Que te vender as carnes por dinheiro. com o envelhecimento dos tecidos! Ah! Esta noite é a noite dos Vencidos! E a podridão. tua lã aquece o mundo inteiro E guarda as carnes dos que estão com frio! Quando a faca rangeu no teu pescoço. Depois da morte.A UM CARNEIRO MORTO Misericordiosíssimo carneiro Esquartejado. glebas. Pelo muito que em vida nos amamos. Talvez perdoasses os que te mataram! VOZES DA MORTE Agora sim! Vamos morrer. meu velho! E essa futura Ultrafatalidade de ossatura. Ao monstro que espremeu teu sangue grosso Teus olhos -. Tamarindo de minha desventura. A que nos acharemos reduzidos! Não morrerão. Tu. para o Futuro. Se fosses Deus. tuas sementes! E assim. Eu. Na multiplicidade dos teus ramos. trilhos.fontes de perdão -.perdoaram! Oh! tu que no Perdão eu simbolizo. no Dia de Juízo. porém. reunidos. em diferentes Florestas. selvas. inda teremos filhos! 43 . pois. com o envelhecimento da nervura.

Perseguido por todos os reveses. Ser semelhante aos zoófitos e às lianas. na hierarquia Das formas vivas.INSÂNIA DE UM SIMPLES Em cismas patológicas insanas.. apodrecer sozinho No silêncio de minha pequenez! ASA DE CORVO Asa de corvos carniceiros.. Como os Goncourts. asa De mau agouro que. É meu destino viver junto a esa asa. Na orgia heliogabálica do mundo. nos doze meses. como os irmãos siameses! É com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza..a costureira funerária -Cose para o homem a última camisa! 44 . à categoria Das organizações liliputianas. Como a cinza que vive junto à brasa. É-me grato adstringir-me. Cobre às vezes o espaço e cobre às vezes O telhado de nossa própria casa. Deixar enfim na cloaca mais sombria Este feixe de células humanas! E enquanto arremedando Éolo iracundo.. adstrito ao triângulo mesquinho De um delta humilde. É ainda com essa asa extraordinária Que a Morte -. Ganem todos os vícios de uma vez. Ter o destino de uma larva fria. Apraz-me.

“Rasgue a água hórrida a nau árdega e singre-me! E a verticalidade da Escada íngreme: “Homem. A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda. conquanto ainda hoje em dia.. o Hércules. puxa e repuxa a língua. com os dedos brutos Para falar. Como o soldado que rasgou a farda No desespero do último momento! Tenta chorar e os olhos sente enxutos!.. “Com a ampla hélice auxiliar com que outrora ia “Voando ao vento o vastíssimo vapor. mamífero inferior. em desalento. o Homem. violento. caiu de bruços No pandemônio aterrador do Caos” 45 . já transpuseste os meus degraus?!” E Augusto. aos soluços.O MARTÍRIO DO ARTISTA Arte ingrata! E conquanto. rasga o papel. E não lhe vem à boca uma palavra! O MAR. Ouvindo a Escada e o Mar. a mim. à míngua Da própria voz e na que ardente o lavra Febre de em vão falar. Busca exteriorizar o pensamento Que em suas fronetais células guarda! Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda! E ei-lo a tremer. A ESCADA E O HOMEM “Olha agora. “Homem. “À luz da epicurista ataraxia. “O fracasso da tua geografia “E do teu escafandro esmiuçador! “Ah! Jamais saberás ser superior. É como o paralítico que.

mas eu.DECADÊNCIA Iguais às linhas perpendiculares Caíram. Sinhá-Mocinha. ralhava. Que a mim somente cabe o furto feito. Furtaste a moeda só. Nas suas 33 vértebras gastas Quase todas as pedras tumulares! A frialdade dos círculos polares. agora. Ele hoje vê que.Não. como cruéis e hórridas hastas. afetava Susceptibilidade de menina: “-. Penetrara-lhe os próprios neuroplastas. o ouro que brilha. Em sucessivas atuações nefastas.. porque furtei o peito Que dava leite para a tua filha! 46 . então. Estragara-lhe os centros medulares! Como quem quebra o objeto mais querido E começa a apanhar piedosamente Todas as microscópicas partículas.. minha Mãe.. Tu só furtaste a moeda. Que ela absolutamente não furtava.. após tudo perdido. Vejo. minha ama. Via naquilo a minha própria ruína! Minha ama. hipócrita. em minha cama. Eu furtei mais. entretanto. não fora ela! --“ E maldizia a sina. Só lhe restam agora o último doente E a armação funerária das clavículas! RICORDANZA DELLA MIA GIOVENTÚ A minha ama-de-leite Guilhermina Furtava as moedas que o Doutor me dava.

igual a um porco. que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho. porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta. os restos Duma comida horrivelmente azeda! A sucessão de hebdômadas medonhas Reduzirá os mundos que tu sonhas Ao microcosmos do ovo primitivo.a mãe comum -. aos reais convivas. Assim Tântalo. porém. do que este que palmilho E que me assombra. Hás de engolir.o brilho Destes meus olhos apagou!. à noite....... E tu mesmo. a escândalos e incestos É natural que o instinto humano aceda! Sem que te arranquem da garganta queda A interjeição danada dos protestos. Hoje. Terás somente uma vontade cega E uma tendência obscura de ser vivo! VOZES DE UM TÚMULO Morri! E a Terra -. e.. após a árdua e atra refrega.A UM MASCARADO Rasga essa máscara ótima de seda E atira-a à arca ancestral dos palimpsestos. num festim. Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por que?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse. É noite.. Hoje que apenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou! 47 .

para amenizar as dores tuas..Seria a mão de Deus?! Mas Deus enfim É bom. Tudo convém para o homem ser completo! O ângulo obtuso. e o horror de nossas duas Mágoas crescendo e se fazendo horrores! Magoaram-te. o Ódio e a Carnificina. Uma feição humana e outra divina São como a eximenina e a endimenina Que servem ambas para o mesmo feto! Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes! Por justaposição destes contrastes. Junta-se um hemisfério a outro hemisfério. e sendo justo. Deus não havia de magoar-te assim! 48 . para onde fores. para amenizar as minhas dores! Que coisa triste! O campo tão sem flores. Irei também. meu Pai?! Que mão sombria. Às alegrias juntam-se as tristezas.. Eu. SONETO – I – A MEU PAI DOENTE Para onde fores. O que o homem ama e o que o homem abomina. Deus. Tu. trilhando as mesmas ruas..CONTRASTES A antítese do novo e do obsoleto. é justo. Pai.. e o ângulo reto. gemendo. pois. O Amor e a Paz. E eu tão sem crença e as árvores tão nuas E tu. Indiferente aos mil tormentos teus De assim magoar-te sem pesar havia?! -. E o carpinteiroque fabrica as mesas Faz também os caixões do cemitério!.

Amo meu Pai na atômica desordem Entre as bocas necrófagas que o mordem E a terra infecta que lhe cobre os rins! 49 . Mas pareceu-me. E a marcha das moléculas regulam.SONETO – II – A MEU PAI MORTO Madrugada de Treze de Janeiro.. Meu Pai nessa hora junto a mim morria Sem um gemido.. Como Elias. Ver a alma de meu Pai subindo ao Céu! SONETO – III Podre meu Pai! A morte o olhar lhe vidra. sonhando. E disse à minha Mãe que me dizia: “Acorda-o”! deixa-o. como os queijos Sobre a mesa de orgíacos festins!. Em seus lábios que os meus lábios osculam Microrganismos fúnebres pululam Numa fermentação gorda de cidra.. Com a invariabilidade da clepsidra! Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos Roída toda de bichos. entre as estrelas flóreas. assim como um cordeiro! E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro! Quando acordei. Nem uma névoa no estrelado véu.. dormir primeiro! E saí para ver a Natureza! Em tudo o mesmo abismo de beleza. num carro azul de glórias. Duras leis as que os homens e a hórrida hidra A uma só lei biológica vinculam. Rezo. o ofício da agonia. cuidei que ele dormia. Mãe.

pai. Ficar latindo minha dor medonha! A ÁRVORE DA SERRA -. no junquilho. por que sua ira não se acalma?! Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?! Deus pôs almas nos cedros.DEPOIS DA ORGIA O prazer que na orgia a hetaíra goza Produz no meu sensorium de bacante O efeito de uma túnica brilhante Cobrindo ampla apostema escrofulosa! Troveja! E anelo ter... olhando a pátria serra. É preciso cortá-la. meu filho. pois.. O moço triste se abraçou com o tronco E nunca mais se levantou da terra! 50 . -.e ajoelhou-se. numa rogativa: “Não mate a árvore. Esta árvore. O sistema nervoso de um gigante Para sofrer na minha carne estuante A dor da força cósmica furiosa. sôfrega e ansiosa. despindo a última alfaia Que ao comércio dos homens me traz presa. meu pai. Apraz-me. Para que eu tenha uma velhice calma! -. enfim.. Livre deste cadeado de peçonha.Disse -..Meu pai.. possui minh’alma!... não têm alma! E esta árvore me serve de empecilho. Semelhante a um cachorro de atalaia Às decomposições da Natureza. para que eu viva!” E quando a árvore. meu filho.As árvores. Caiu aos golpes do machado bronco.

Olha a atmosfera livre. Acometido de uma febre estranha Sem o escândalo fônico de um grito. desde o mais prístino mito. o amplo éter belo. não tens mais! E pois. sem cerebelo A gargalhada da última derrota! A gaiola aboliu tua vontade. Continua a comer teu milho alpiste. Arrancou os cabelos na montanha! Desceu depois à gleba mais bastarda. preto e amarelo.. por exemplo: o do boi Ápis do Egito Ao velho Niebelungen da Alemanha. Pões-te a assobiar.. bruto. de à antiga rota Voar. Pondo a áurea insígnia heráldica da farda À vontade do vômito plebeu.. Foi este mundo que me fez tão triste. Ah! Tu somente ainda és igual a mim.. Que do fundo do chão todo o ano brota! Mas a ânsia de alto voar. mergulhou a cabeça no Infinito. O CORRUPIÃO Escaveirado corrupião idiota.VENCIDO No auge de atordoadora e ávida sanha Leu tudo. Foi a gaiola que te pôs assim! 51 . Tu nunca mais verás a liberdade!. E a alga criptógama e a úsnea e o cogumelo. E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria O vencido pensava que cuspia Na célula infeliz de onde nasceu.

Templos de priscas e longínquas datas. Canta a aleluia virginal das crenças. Na ogiva fúlgida e nas colunatas Vertem lustrais irradiações intensas Cintilações de lâmpadas suspensas E as ametistas e os florões e as pratas. em serenatas... me assombrava! Mas a alga usufrutuária dos oceanos E os malacopterígios subraquianos Que um castigo de espécie emudeceu. Noite alta. ególatra céptico. assim como eu! VANDALISMO Meu coração tem catedrais imensas. na diuturna discórdia. E erguendo os gládios e brandindo as hastas. Com os velhos Templários medievais Entrei um dia nessas catedrais E nesses templos claros e risonhos. cismava Em meu destino!. Ante o telúrico recorte. Onde um nume de amor. O vento estava forte E aquela matemárica da Morte Com os seus números negros.. No desespero dos iconoclastas Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos! 52 .. No eterno horror das convulsões marítimas Pareciam também corpos de vítimas Condenados à Morte.ALUCINAÇÃO À BEIRA MAR Um medo de morrer meus pés esfriava. a equórea coorte Atordoadamente ribombava! Eu.

o gládio de aço. e doma Meu coração -. Se a alguém causa inda pena a tua chaga. Somente a Ingratidão -. Vieram todos. E não pôde domá-lo enfim ninguém. entre feras. sente invevitável Necessidade de também ser fera.estranho carniceiro! Não podes?! Chama então presto o primeiro E o mais possante gladiador de Roma. e.. Toma um fósforo. ao todo. Veio depois um domador de hienas E outro mais. por fim. E à rutilância das espadas. uns cem. Escarra nessa boca que te beija! VENCEDOR Toma as espadas rútilas. E qual mais pronto. e qual mais presto assoma Nenhum pôde domar o prisioneiro. veio um atleta. Acende teu cigarro! o beijo. amigo.esta pantera -Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Mora. por fim. é a véspera do escarro. nesta terra miserável. Meu coração triunfava nas arenas. toma A adaga de aço. Que ninguém doma um coração de poeta! 53 . que.. guerreiro.VERSOS ÍNTIMOS Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Apedreja essa mão vil que te afaga.

jazem ainda na estática do Nada! É o soluço da forma ainda imprecisa. podendo mover milhões de mundos. A sucessividade dos segundos. nada há que traga Consolo à Mágoa.. e quanto mais resiste Mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Quer resistir. E quando esse homem se transforma em verme É essa mágoa que o acompanha ainda! O LAMENTO DAS COISAS Triste.ETERNA MÁGOA O homem por sobre quem caiu a praga Da tristeza do Mundo. Sabe que sofre.. No rudimentarismo do Desejo! 54 .. pancada por pancada. E é em suma. a escutar. Que. Da transcendência que se não realiza. do Orbe oriundos. em sons subterrâneos. Ouço. a que só ele assiste. Da luz que não chegou a ser lampejo. o subconsciente ai formidando Da Natureza que parou. o homem que é triste Para todos os séculos existe E nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada.. mas o que não sabe E que essa mágoa infinda assim não cabe Na sua vida. é que essa mágoa infinda Transpõe a vida do seu corpo inerme. chorando. O choro da Energia abandonada! É a dor da Força desaproveitada — O cantochão dos dínamos profundos. pois...

pensando. Sobre a pancosmológica exaustão Reste apenas o acervo árido e vão Das muscularidades consumidas! Ainda assim. Onde a Vida do humano aspecto fero Se desarraiga. Todas as urbes siderais vencidas! Morra o éter. impero Na imanência da Idéa Soberana! Destruída a sensação que oriunda fora Do tacto — ínfima antena aferidora Destas tegumentárias mãos plebéas — Gozo o prazer. De haver trocado a minha forma de homem Pela imortalidade das Idéas! CAPUT IMMORTALE Na dinâmica aziaga das descidas. Morto o comércio físico nefando. De que. o meu Nirvana! Nessa manumissão schopenhauereana. me desencarcero. Cesse a luz.O MEU NIRVANA No alheamento da obscura forma humana. Parem as vidas. Aglomeradamente e em turbilhão Solucem dentro do Universo ancião. Como a última expressão da Dor sem termo. num grito de emoção. sincero Encontrei. Oh! Nauta aflito do Subliminal. afinal. Tua cabeça há de ficar vibrando Na negatividade universal! 55 . Foi que eu. que os anos não carcomem. a animar o cosmos ermo. eu. feito força.

pois. feixe de mônadas bastardas. Dói-me ver. Diafragmas. Pressinto o fim da orgânica batalha: — Olhos que o húmus necrófago estraçalha. sondas e agulhas "Debalde aplicas aos heterogêneos "Fenômenos. ao sol posto. O regresso dos átomos aflitos Ao descanso perpétuo da Unidade! 56 . e. arpões. Era.. A dardejar relampejantes brilhos. muito embora a alma te acenda.. Que eu tenho de deixar para os meus filhos! LOUVOR A UNIDADE "Escafandros. Da multimilenária dissonância Que as harmonias siderais invade. Onde a alva flama psíquica trabalha. "Num pluralismo hediondo o olhar mergulhas! "Une.. sem retumbância. Conquanto em flâmeo fogo efêmero ardas. E o Homem — negro e heteróclito composto. "Com essa intuição monística dos gênios.. Em tua podridão a herança horrenda. o olfato e o gosto! Carne. Desagrega-se e deixa na mortalha O tacto.APOSTROFE À CARNE Quando eu pego nas carnes do meu rosto. numa alta aclamação. sem gritos. o ouvido. a vista. decompondo-se. a irmanar diamantes e hulhas. há inúmeros milênios. "À hirta forma falaz do are perennius "A transitoriedade das fagulhas!" — Era a estrangulação.

à espera de quem passa Para abrir-lhe. Ah! foi teu beijo convulsionador Que produziu este contraste fundo Entre a abundância do que eu sou. é a essência pura.O PÂNTANO Podem vê-lo.. A convulsão meteórica do vento. E eu sinto a angústia dessa raça ardente Condenada a esperar perpetuamente No universo esmagado da água morta! SUPREME CONVULSION O equilíbrio do humano pensamento Sofre também a súbita ruptura. Tragicamente. meus semelhantes! Mas. E o nada do meu homem interior! 57 . — libertação do homem cativo — Ruptura do equilíbrio subjetivo. E a alma o obnóxio quietismo sonolento Rasga. É a síntese. De todas as grandezas começantes! Larvas desconhecidas de gigantes Sobre o seu leito de peçonha e luto Dormem tranqüilamente o sono bruto Dos superorganismos ainda infantes! Em sua estagnação arde uma raça. sem dor. na noite escura. opondo-se à Inércia.. Que produz muita vez. e. é a abreviatura Do todo o ubiqüitário Movimento! Sonho. no Mundo. para mim que a Natureza escuto. é o transunto. às escâncaras. Este pântano é o túmulo absoluto. a porta.

Vence o granito. como o gérmen de outros seres. ainda sentia Era a mesma imortal monotonia De sua face externa indiferente! E a Natureza disse com desgosto: "Terei somente. tanto Que. Teu desenvolvimento continua! Antes. A Natureza olhou-se interiormente! Baldada introspecção! Noumenalmente O que Ela. E hás de crescer. ainda algum dia. porventura. no teu silêncio. deprimindo-o . e.. rosto?! "Serei apenas mera crusta espessa?! "Pois é possível que Eu.A UM GÉRMEN Começaste a existir. o pranto Das tuas concreções plásmicas flua! A água. oh! gérmen. "Menos interiormente me conheça?!" 58 .. um dia. Reconcentrando-se em si mesma. em conjugação com a terra nua. geléia crua. é natural. O espanto Convulsiona os espíritos. Volvas à antiga inexistência calma!. em realidade. que ainda haveres De atingir. Ao supremo infortúnio de ser alma! NATUREZA ÍNTIMA Ao filósofo Farias Brito Cansada de observar-se na corrente Que os acontecimentos refletia. "Quanto mais em mim mesma me aprofundo. entanto.. geléia humana. não progridas E em retrogradações indefinidas.. Antes o Nada. causa do Mundo.

.. Precisa de encharcar-se em sangue humano Para mostrar aos homens que está viva! 59 . é ânsia. os elementos broncos.. Bracejamentos de álamos selvagens. Vivem só. que se entrega à morte Para a felicidade da Criatura! É a obsessão de ver sangue. São absolutamente negativas! Araucárias.. E a dramatização sangrenta e dura Vir Deus num simples grão de argila errante. Porque nunca puderam realizar-se! GUERRA Guerra é esforço. Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens. traçando arcos de ogivas. Tornam todas as almas pensativas! Há uma força vencida nesse mundo! Todo o organismo florestal profundo É dor viva. no seu arcano..As ambições que se fizeram troncos..Todas as hermenêuticas sondagens. na ordem cósmica.. . trancada num disfarce.. E a coorte Das raças todas. é inquietude... é transporte. É a Natureza que.A FLORESTA Em vão com o mundo da floresta privas!. Como um convite para estranhas viagens. descendo A irracionalidade primitiva. . é o instinto horrendo De subir. Da avidez com que o Espírito procura É a Subconsciência que se transfigura Em volição conflagradora. nele.

.O SARCÓFAGO Senhor da alta hermenêutica do Fado Perlustro o atrium da Morte. Alegria das glândulas do choro De onde todas as lágrimas emanam. oh! Dor. perante o Incognoscível Essa fatalidade de ser grande Para guardar unicamente poeira! HINO À DOR Dor. acérrima e latente. psíquico tesouro. saúde dos seres que se fanam. És suprema! Os meus átomos se ufanam De pertencer-te.. inteira. Minha maior ventura é estar de posse De tuas claridades absolutas! 60 . Dói-lhe. Que o sarcófago. assim. sol do cérebro. Com os corpúsculos mágicos do tacto Prendo a orquestra de chamas que executas. sem convulsão que me alvorece. À humana comoção impondo-a. E.. ereto e imóvel sente Em sua própria sombra sepultado! Dói-lhe (quem sabe?!) essa grandeza horrível Que em toda a sua máscara se expande. ouro De que as próprias desgraças se engalanam! Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstrato. É frio o ambiente E a chuva corta inexoravelmente O dorso de um sarcófago molhado! Ah! Ninguém ouve o soluçante brado De dor profunda. Riqueza da alma. ancoradouro Dos desgraçados..... em suma.

. Meu fantasma de carne passageira! Vulcão da bioquímica fogueira Destruiu-me todo o orgânico fastígio .ÚLTIMA VISIO Quando o homem resgatado da cegueira Vir Deus num simples grão de argila errante. em épocas futuras. Sois vós que sustentais ( Força Alta exige-o . Minha continuidade emocional! 61 . Ions emanados do meu próprio ideal.. pois. que. Benditos vós.. ) Com o vosso catalítico prestígio. Terá nascido nesse mesmo instante A mineralogia derradeira! A impérvia escuridão obnubilante Há de cessar! Em sua glória inteira Deus resplandecerá dentro da poeira Como um gasofiláceo de diamante! Nessa última visão já subterrânea. para a hora derradeira! Culminâncias humanas ainda obscuras. Dai-me alma. Haveis de ser no mundo subjetivo.. A Verdade virá das pedras mortas E o homem compreenderá todas as portas Que ele ainda tem de abrir para o Infinito! AOS MEUS FILHOS Na intermitência da vital canseira.. pois. Dai-me asas. Expressões do universo radioativo.. Um movimento universal de insânia Arrancará da insciência o homem precito. para o último remígio.

Emoções extraordinárias sinto. os pés e os braços Tombara. Eu sinto. Arranco do meu crânio as nebulosas.. então.. E acho um feixe de forças prodigiosas Sustentando dois monstros: a alma e o instinto! O POETA DO HEDIONDO Sofro aceleradíssimas pancadas No coração. O cosmos sintético da Idéa Surge.. Subitamente a cerebral coréa Pára. Ataca-me a existência A mortificadora coalescência Das desgraças humanas congregadas! Em alucinatórias cavalgadas. A carne é fogo. as mãos. sondando-me a consciência A ultra-inquisitorial clarividência De todas as neuronas acordadas! Quanto me dói no cérebro esta sonda! Ah! Certamente eu sou a mais hedionda Generalização do Desconforto. A espaços As cabeças..A DANÇA DA PSIQUÊ A dança dos encéfalos acesos Começa. A alma arde. Eu sou aquele que ficou sozinho Cantando sobre os ossos do caminho A poesia de tudo quanto é morto! 62 . cedendo à ação de ignotos pesos! É então que a vaga dos instintos presos — Mãe de esterilidades e cansaços — Atira os pensamentos mais devassos Contra os ossos cranianos indefesos.

criatura cega. e. no ardor dos seus assomos A alegoria do que outrora fomos E a imagem bronca do que inda hoje sois! HOMO INFIMUS Homem. tragando a ambiência vasta. entretanto. na ânsia voraz que. ris! Fruto injustificável dentre os frutos. Os dentes antropófagos que rangem. Superexcitadíssimos. Deixa a tua alegria aos seres brutos. na superfície do planeta. ávida. carne sem luz. Antes da refeição sanguinolenta! Amor! E a satiríasis sedenta. No desembestamento que os arrasta.. os dois Representam. O Universo calado te renega E a tua própria boca te maldiz! O nôumeno e o fenômeno. Todas as danações sexuais que abrangem A apolínica besta famulenta! Ambos assim. Montão de estercorária argila preta. o alfa e o omega Amarguram-te. Tu só tens um direito: — o de chorar! 63 .. Teu coração se desagrega. Excrescência de terra singular. Sangram-te os olhos. Porque. Realidade geográfica infeliz. enquanto as almas se confrangem.A FOME E O AMOR A um monstro Fome! E. Hebdômadas hostis Passam. Rugindo. aumenta. Receando outras mandíbulas a esbangem.

— A águia dos latifúndios florentinos! Sistematizo. sou maior que Dante. E trago em mim. mordem-se. homens felizes. Levou-me o crânio e pôs-lhe dentro a palma Dos que amam apreender o Inapreensível! Predeterminação imprescriptível Oriunda da infra-astral Substância calma Plasmou.. Da dor humana. talhou minha alma Para cantar de preferência o Horrível! Na canonização emocionante. por conseqüência um ser monstruoso! Em minha arca encefálica indefesa Choram as forças más da Natureza Sem possibilidades de repouso! Agregados anômalos malditos Despedaçam-se. de sofrerdes A sensação de todas as misérias! 64 .. Ai! Não toqueis em minhas faces verdes. aparelhou. a Glória. a Ciência. num sincronismo eterno A fórmula de todos os destinos! NOLI ME TANGERE A exaltação emocional do Gozo.. Que força alguma inibitória acalma. Sob pena. soluçando.MINHA FINALIDADE Turbilhão teleológico incoercível. o Inferno.. dão gritos Nas minhas camas cerebrais funéreas. O Amor. a Arte e a Beleza Servem de combustíveis à ira acesa Das tempestades do meu ser nervoso! Eu sou.

Uiva. O epitalâmio da Suprema Falta. È a saudade dos erros satisfeitos. Como Belerofonte com a Quimera Mato o ideal. achato a esfera E acho odor de cadáver na fragrância! Chamo-me Aberração. Existo Como o cancro. à luz de fantástica ribalta. urdo o crime. ontem. não cabendo mais dentro dos peitos. Se escapa pela boca dos cativos! ABERRAÇÃO Na velhice automática e na infância. a exigir que os sãos enfermem. Minha alma é um misto De anomalias lúgubres. A ignomínia de todos os abusos! É a prosódia do cárcere... cresto o sonho. engendro o lodo E nas mudanças do Universo todo Deixo inscrita a memória do meu gérmen! 65 . a alardear bárbaros sons abstrusos. Pela promiscuidade dos reclusos! No wagnerismo desses sons confusos.O CANTO DOS PRESOS Troa. Em que o Mal se engrandece e o ódio se exalta. (Hoje. é a partênea Aterradoramente heterogênea Dos grandes transviamentos subjectivos. em voz muito alta. Criando na alma a estesia abstrusa da ânsia. Teço a infâmia. Entoado asperamente.. amanhã e em qualquer era) Minha hibridez é a súmula sincera Das defectividades da Substância. Que..

Feita dos mais variáveis elementos. pelos caminhos quedos Minha tátil intensidade é tanta Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos! Quebro a custódia dos sentidos tredos E a minha mão.. Criação a um tempo escura e cor-de-rosa. enfim.Carrego em minhas células sombrias Antagonismos irreconciliáveis E as mais opostas idiossincrasias! Muito mais cedo do que o imagináveis Eis-vos. Nos paroxismos da hiperestesia. invado. à noite. o Céu e o Inferno absorvo. o Infinito se levanta À luz do luar. minha alma. Encho o Espaço com a minha plenitude! 66 .. como um corvo. agarro.VÍTIMA DO DUALISMO Ser miserável dentre os miseráveis -. Ceva-se em minha carne. transmudado em rutilância fria. dada às bravias Cóleras dos dualismos implacáveis E à gula negra das antinomias! Psique biforme. dona. O Infinitésimo e o Indeterminado.. A simultaneidade ultramonstruosa De todos os contrastes famulentos! AO LUAR Quando.. por fim. Todas as coisas íntimas suplanta! Penetro. Transponho ousadamente o átomo rude E. de quanta Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos. ausculto. apreendo.

Na hiperculminação definitiva O meu supremo e extraordinário Ser! Em minha sobre-humana retentiva Brilhavam. aos trismos Da epilepsia horrenda. como um astro. Tifon. Sentia dos fenômenos o fim. E acima deles. Como a luz que arde. Tu hás de entrar completamente puro Para a circulação do Grande Todo! CANTO DA ONIPOTÊNCIA Cloto. A perfeição virtual tornada viva E o embrião do que podia acontecer! Por antecipação divinatória.. como a luz do amanhecer. num monturo.. arder. Laquesis. defunta Na aterradora operação conjunta Da tarefa animal dos organismos! Mas após o antropófago alambique Em que é mister todo o teu corpo fique Reduzido a excreções de sânie e lodo.. e nos abismos Ninguém responderá tua pergunta! Reclamada por negros magnetismos Tua cabeça há de cair. Átropos. Siva. virgem. projetado muito além da História..A UM EPILÉTICO Perguntaras quem sou?! – ao suor que te unta À dor que os queixos te arrebenta. A coisa em si movia-se aos meus brados E os acontecimentos subjugados Olhavam como escravos para mim! 67 . Eu.

Hão de encontrar as gerações futuras Só..Trilhões de células vencidas. E. Essa elementaríssima semente Do que hei de ser.. entanto. às apalpadelas e às escuras. rábido. nas minhas formas carcomidas.... Nutrindo uma efeméride inferior. alarga-se em meu hausto. neste ergástulo das vidas Danadamente.MINHA ÁRVORE Olha: É um triângulo estéril de ínvia estrada! Como que a erva tem dor. remoinha. a afagar tantas feridas. ai! como eu sinto no esqueleto exausto Não poder dar-lhe vida material! 68 . Branda. minha árvore humana desfolhada! Mulher nenhuma afagará meu tronco! Eu não me abalarei.. A áurea mão taumatúrgica do Amor Traça.) Quem sou eu. sobre a terra ardente Hão de encher outras árvores! Somente Minha desgraça há de ficar sozinha! ANSEIO (QUEM SOU EU. Roem-na amarguras Talvez humanas. Folhas e frutos. nem mesmo ao ronco Do furacão que. tenta transpor o Ideal.. A estrutura de um mundo superior! Alta noite. e entre rochas duras Mostra ao Cosmos a face degradada! Entre os pedrouços maus dessa morada É que.. esse mundo incoerente. Grita em meu grito. a soluçar de dor?! -.

-. em cisma abismadora absorto. A potencialidade do que é morto E a eficácia prolífica do estrume! Ah! Sou eu que. aliando Buda ao sibarita. Dentro dos quais recalco em vão minha ânsia. Apreendo. hirto.Mãe promíscua do amor e do ódio insano! Sou eu que. -. auscultando o absconso arcano! Por um poder de acústica esquisita. Sou eu que. Sinto bater na putrescível crusta Do tegumento que me cobre os peitos Toda a imortalidade da Substância! 69 . Penetro a essência plásmica infinita. sânie e perfume.Tudo a unidade do meu ser resume! Sou eu que.. transpondo a escarpa augusta Dos limites orgânicos estreitos. feto vivo e aborto. Restituo triunfalmente à esfera calma Todos os cosmos que circulam na alma Sob a forma embriológica de sonhos! II Treva e fulguração.REVELAÇÃO I Escafandrista de insondado oceano Sou eu que. desconforto E ataraxia.. ateando da alma o ocíduo lume. Ouço o universo ansioso que se agita Dentro de cada pensamento humano! No abstrato abismo equóreo. em que me inundo. Massa palpável e éter. revolvendo o ego profundo E a escuridão dos cérebros medonhos.

Para convulsionar a alma que dorme Todas as tempestades são pequenas! Há de a Terra vibrar na ardência infinda Do éter em branca luz transubstanciado.. Esoterismos Da Morte! Eu vejo. cérebros. somente em. Continua a contar na paz ascética Dos tábidos carneiros sepulcrais Tíbias. -.. infinita como os próprios números. dois. em fúlgidos letreiros. hei de ficar trancado Na noite aterradora de mim mesmo! 70 . sem complicados silogismos.VERSOS A UM COVEIRO Numerar sepulturas e carneiros. nas geenas Luz bastante fulmínea que transforme Dentro da noite cavernosa e enorme Minhas trevas anímicas serenas?! Raio horrendo haverá que as rasgue apenas?! Não! Porque. três. Na progressão dos números inteiros A gênese de todos os abismos! Oh! Pitágoras da última aritmética. rádios e úmeros. A tua conta não acaba mais! TREVAS Haverá.Tal é. quatro. Reduzir carnes podres a algarismos.. A própria Esfinge há de falar-vos ainda E eu. cinco. na abismal sustância informe. Rotos os nimbos maus que a obstruem a esmo. Porque. por hipótese. A aritmética hedionda dos coveiros! Um. crânios..

afinal.AS MONTANHAS I Das nebulosas em que te emaranhas Levanta-te. recalcados. e dize-me. amam jazer. na natureza espiritual. Inacessíveis aos humanos tráficos Onde sóis. A representação ainda inorgânica De tudo aquilo que parou em mim?! II Agora. mal Quis erguer-se a cumíadas tamanhas?! Ah! Nesse anelo trágico de altura Não serão as montanhas. se o que ainda não existe Não vibra em gérmen no agregado triste Da síntese sombria do meu Ser?! 71 . em contrações de dor. porventura. Quem sabe. De onde rebenta. Toda a sublevação da crusta hirsuta! No curso inquieto da terráquea luta Quantos desejos fervidos de amor Não dormem. A significação dessas montanhas! Quem não vê nas graníticas entranhas A subjetividade ascensional Paralisada e estrangulada. a alma. sob o horror Dessas agregações de pedra bruta?! Como nesses relevos orográficos. me semente. alma. Por um abortamento de mecânica. Estacionadas. assim. oh! delumbrada alma. Qual é. íngremes. perscruta O puerpério geológico interior.

Destrói a ebulição que a água alvorota E põe todos os astros na desgraça! São despedaçamentos. integérrima... A única luz tragicamente acesa a universalidade agonizante! A NAU A Heitor Lima Sôfrega. se as Tem. que o Éter indica. alçando o hirto esporão guerreiro. sonha! Mágoas. A íngreme cordoalha úmida fica. É a subversão universal que ameaça A Natureza.. em noite aziaga e ignota. E eu só. E não haver uma alma que lhe entenda A angústia transoceânica medonha No rangido de todas as enxárcias! 72 . subjugue-as ou difarce-as. derrubadas. o último a ser. Pára e. a amarra agarrada à âncora.. babando. Zarpa. derrota Na atual força. E estende os braços de madeira rica Para as populações do mundo inteiro! Aguarda-a ampla reentrância de angra horrenda. Federações sidéricas quebradas. da Massa. haurem-lhe o cheiro! Na glauca artéria equórea ou no estaleiro Ergue a alta mastreação. e. Lambe-lhe a quilha e espúmea onda impudica E ébrios tritões..APOCALIPSE Minha divinatória Arte ultrapassa Os séculos efêmeros e nota Diminuição dinâmica.. Espião da cataclísmica surpresa. pelo orbe adiante.

A humanidade vai pesar seu gênio Encontra o mundo. que ela encheu. Tragicamente. invente A lâmpada aflogística de Davy! Em vão! Contra o poder criador do Sonho O Fim das Coisas mostra-se medonho Como o desaguadouro atro de um rio. Para a perpetuação da Espécie forte. num triunfo surpreendente. vazio! 73 .VOLÚPIA IMORTAL Cuidas que o genesíaco prazer. na ânsia ardente De perscrutar o íntimo do orbe. Com essa volúpia das ossadas novas Hão de ainda se apertar cada vez mais! O FIM DAS COISAS Pode o homem bruto. em que arde o Ser. Os nossos esqueletos descarnados. Em convulsivas contorções sensuais. Fome do átomo e eurítmico transporte De todas as moléculas... continua a arder! Surdos destarte a apóstrofes e brados. Das profundezas do Subconsciente O milagre estupendo da aeronave! Rasgue os broncos basaltos negros. aborte Na hora em que a nossa carne apodrecer?! Não! Essa luz dial. ainda depois da morte. E quando. e. cave. Haurindo o gás sulfídrico das covas. Sôfrego. Arrancar. o dolo sáxeo. ao cabo do último milênio. adstrito à ciência grave. Dentro dos ossos.

Ficam brilhando com fulgor sinistro Dentro da treva onímoda e complexa Os olhos fundos dos que estão com medo A OBSESSÃO DO SANGUE Acordou. A onda estoura Na negridão do oceano e entre os navios Troa bárbara zoada de ais bravios. mancha a gleba. Ah! Certamente não podia ser! Levantou-se.. vendo sangue. agride os rios E urde amplas teias de carvões sombrios No ar que álacre e radiante. E. A carne que ele havia de comer! No inferno da visão alucinada.A NOITE A nebulosidade ameaçadora Tolda o éter. Extraordinariamente atordoadora. Viu vísceras vermelhas pelo chão. iguais a espiões que acordam cedo. com um berro bárbaro de gozo. antes do almoço. À custódia do anímico registro A planetária escuridão se anexa. há instantes.. a escorrer Fita rubra de sangue muito grosso. Olhou-se no espelho. Viu montanhas de sangue enchendo a estrada. A água transubstancia-se.. Somente. Disse.... Horrível! O osso Frontal em fogo. Na mão dos açougueiros. fora. O monocromatismo monstruoso Daquela universal vermelhidão! 74 . Ia talvez morrer. eis que viu. Era tão moço... E amou.

No mar de humana proliferação. percorro como um gênio Desde a alma de Haeckel à alma cenobial!. Rasgo dos mundos o velário espesso. reconheço O império da substância universal ! 75 ..VOX VICTIMAE Morto! Consciência quieta haja o assassino Que me acabou.. Abraço-me com a terra atormentada Em contubérnio convulsionador. dando-me ao corpo vão Esta volúpia de ficar no chão Fruindo na tabidez sabor divino! Espiando o meu cadáver ressupino. Outras cabeças aparecerão Para compartilhar do meu destino! Na festa genetlíaca do Nada. O Inconsciente me assombra e eu nele rolo Com a eólica fúria do harmatã inquieto! Assisto agora à morte de um inseto!.... E.. Ah! todos os fenômenos do solo Parecem realizar de pólo a pólo O ideal do Anaximandro de Mileto! No hierático areópago heterogêneo Das idéias. E ai! Como é boa esta volúpia obscura Que une os ossos cansados da criatura Ao corpo ubiqüitário do Criador! AGONIA DE UM FILÓSOFO Consulto o Phtah-Hotep. E em tudo igual a Goethe... Leio o obsoleto Rig-Veda. me não consolo. ante obras tais.

Da saudade na campa enegrecida Guardo a lembrança que me sangra o peito. Eu a bendigo da descrença. A Idéia estertorava-se. em meio. Para dar vida à dor e ao sofrimento. ao meu lado. 76 . E assim afeito às mágoas e ao tormento. estranho ao mundo.. No fundo Do meu entendimento moribundo Jazia o Último Número cansado. Tragicamente de si mesmo oriundo. E à dor e ao sofrimento eterno afeito. Era de vê-lo. P’ra iluminar-me a alma descontente. Não te abandono mais! Morro contigo!" SAUDADE Hoje que a mágoa me apunhala o seio. imóvel. Porque eu hoje só vivo da descrença. imensa. Parecia dIzer-me: "É tarde. Fora da sucessão. Mas que no entanto me alimenta a vida. Como o reflexo fúnebre do Incriado: Bradei: -. atro e subterrâneo.O ÚLTIMO NÚMERO Hora da minha morte. resignado. amigo! Pois que a minha autogênica Grandeza Nunca vibrou em tua língua presa. E o coração me rasga atroz. À noute qunado em funda soledade Minh’alma se recolhe tristemente.Que fazes ainda no meu crânio? E o Último Número. Hirta. Se acende o círio triste da Saudade.

De joelhos aos pés do Nazareno Baixo rezei. em fundo misticismo: . e então sereno.Todas se foram num festivo bando. seu olhar magoado.Resta somente um’alma tristurosa! Coitada! o gozo lhe fugiu correndo. Fraco que sou. Da Igreja . Hoje ela habita a erma soledade. volvi ao ceticismo.Oh! Deus. eu creio em ti. Onde a dúvida ergueu altar profano.a Grande Mãe . Não sei se viva p’ra morrer na terra. Fugazes sonhos.ABANDONADA Ao meu irmão Odilon dos Anjos Bem depressa sumiu-se a vaporosa Nuvem de amores. Não sei se morra p’ra viver no Céu! 77 . entre o medo que o meu Ser aterra.o exorcismo Terrível me feriu. Fazem lembrar em noute de saudade A luz mortiça d’um olhar nublado. CETICISMO Desci um dia ao tenebroso abismo. Em que vive e em que aos poucos vai morrendo! Seu rosto triste. sombras cor-de-rosa . de ilusões tão bela. O brilho se apagou daquela estrela Que a vida lhe tornava venturosa! Sombras que passam. mas me perdoa! Se esta dúvida cruel qual me magoa Me torna ínfimo. Cansado de lutar no mundo insano. desgraçado réu. Ah. gárrulos voando .

Tristes fanaram redolentes rosas. Morreram todas. Ouvi. senhora. SENHORA Ouvi. As minhas crenças que alentei outrora Rolam dispersas. senhora. Cansado de chorar pelas estradas. Todas murcharam. amei. Revolvo as cinzas de passadas eras. o cântico sentido Do coração que geme e s’estertora N’ânsia letal que o mata e que o devora. todas sem olores. tristes. triste e descrido. de amor ferido. Exausto de pisar mágoas pisadas. Quando a morte matar meus dissabores. senhora. E como a luz do sol vai-se apagando! E eu triste.MÁGOAS Quando nasci. num mês de tantas flores. triste pela vida afora. Sombrio e mudo e glacial. Eterno pegureiro caminhando. Hoje eu carrego a cruz das minhas dores! OUVI. Oh! Minha infância nunca teve flores! Volvendo à quadra azul da mocidade. langorosas. pálidas agora. Mais tarde da existência nos verdores Da infância nunca tive as venturosas Alegrias que passam bonançosas. Como um coveiro a sepultar quimeras! 78 . Desfeitas todas num guaiar dorido. E que tornou-o assim. Minh’alma levo aflita à Eternidade.

Altivo lutador. Era o soldado. coração amargurado. um tresloucado. Mas a Pátria chamou-o. Vivia alegre o vate apaixonado. Ao chegar. Dos canhões ao ribombo e das metralhas. Cantaste e riste. E tinha que deixar p’ra sempre aquela Meiga visão. e o pesar negro e profundo. Se nada te aniquila o desalento Que te invade. Alma viúva das paixões da vida. 79 . E voltou. Juncou-lhe a fronte aurifulgente estrela. INFELIZ Alma viúva das paixões da vida.TRISTE REGRESSO Uma vez um poeta. venceu batalhas. Oh! Tu. pendeu triste e desmaiada. Esconde à Natureza o sofrimento. Apaixonou-se d’uma virgem bela. que na grinalda emurchecida De teu passado de felicidade Foste juntar os goivos da Saudade Às flores da Esperança enlanguescida. Alma arrancada do prazer do mundo. enamorado dela. Louco vivia. na estrada da existência em fora. e na existência agora Triste soluças a ilusão peerdida. No sepulcro da loura virgem bela. olímpica e singela! E partiu. E fica no teu ermo entristecida. Tu que. mas a fronte aureolada.

Desliza então a lúgubre coorte. Ambos unidos soluçara um beijo. Passam meus sonhos sepultados nestes Brancos sepulcros. ardentes . São minhas crenças divinais. Eu choro e gemo e triste me debruço Na lájea fria dos meus sonhos pulcros. Há de chegar. Resvalando nas sombras dos ciprestes.Alvos fantasmas pelos merencórios Túmulos tristes. Era o supremo beijo de noivado! 80 . Quebrando a paz suprema dos sepulcros. silentes. Vinha rompendo a aurora majestosa. Quando há de ser o venturoso dia?! Quando há de ser!? O noivo então dizia E a noiva e ambos d’amores s’embriagavam. no eternal soluço. Hoje rolando nos umbrais marmóreos.N’AUGUSTA SOLIDÃO DOS CEMITÉRIOS N’augusta solidão dos cemitérios. pálidos. Quando há de ser!? E os pássaros falavam. soturnais. Fora no campo pássaros trinavam. Quando da vida. NOIVADO Os namorados ternos suspiravam. funéreos. a brisa respondia. Chegara enfim o dia desejado. E a mesma frase o noivo repetia. E rompe a orquestra sepulcral da morte. Dos rouxinóis ao sonoroso harpejo E a luz do sol vibrava esplendorosa.

81 . E onde a vida borbulha e o sangue medra. Em luta co’a natura sempiterna. E entre a mágoa que masc’ra eterna apouca A humanidade ri-se e ri-se louca No carnaval intérmino da vida. Dores que ferem corações de pedra. Muitos que esgotam do prazer a taça Sentem no peito a dor indefinida. Já que do mundo não vinguei-me em vida. No delírio. A morte me será vingança eterna. E espuma e ruge a cólera entranhada. A MÁSCARA Eu sei que há muito pranto na existência. porém. Eu subo na atitude dolorida De um Cristo a redimir um mundo vário. da febre ardente Da ventura fugaz e transitória O peito rompe a capa tormentória Para sorrindo palpitar contente.NO MEU PEITO ARDE No meu peito arde em chamas abrasada A pira da vingança reprimida. Como no mar a vaga embravecida Vai bater-se na rocha empedernida. Mas se das minhas dores ao calvário. Assim a turba inconsciente passa. Aí existe a mágoa em sua essência. E em centelhas de raiva ensurdecida A vingança suprema e concentrada. Espumando e rugindo em marulhada.

bom Papá. Foste do amor o mártir sacrossanto. Quantos." CANTA NO ESPAÇO A PASSARADA Ao meu prezado irmão Alexandre Júnior pelas nove primaverasque hoje completou. Minh’alma alegre no teu rir s’encanta. Jóias.AMOR E RELIGIÃO Conheci-o: era um padre. Pois se da Religião fizeste culto. um desses santos Sacerdotes da Fé de crença pura. num abraço de ternura santa. oh! Quantos Ouviram dele frases de candura Que d’infelizes enxugavam prantos! E como alegres não ficaram tantos Corações sem prazer e sem ventura! No entanto dizem que este padre amara. Eu só encontro no primor de rima A justa oferta. Somente assim festejarei teus anos. Tu’alma ri-se descuidosamente. Irmão querido. Enquanto outros que podem. a jóia que te exprima O amor fraterno do teu mano Em 28 de abril de 1901 82 . Canta no espaço a passarada e canta Dentro do peito o coração contente. consente Que neste dia de ventura tanta Vá. Mostrar-te o afeto que meu peito sente. Da sua fala na eternal doçura Falava o coração. E Deus lhe disse: "És duas vezes santo. dão-te enganos. Morrera um dia desvairado. Su’alma livre para o Céu se alara. bonecos de formoso busto. estulto.

o porte emoldurado No mármore sublime dos contornos. tomando a enxada gravemente. Eu senti a minh’alma entristecida E interroguei-o: "Eterno companheiro Da morte. Os seios rijos eram dois brasões Onde fulgia o simb’lo do Pecado. tinha ido ver a sepultura De um ente caro. Ali jazia o seu amor primeiro! Depois. morria Uma noute entre as vascas da agonia Tendo no corpo o verme do pecado! 83 . divina.O COVEIRO Uma tarde de abril suave e pura Visitava eu somente ao derradeiro Lar. Os seios brancos. sorrindo tristemente: "Ai! Foi por isso que me fiz coveiro!" PECADORA Tinha no olhar cetíneo. Lá encontrei um pálido coveiro Com a cabeça para o chão pendida. palpitantes. Bela. No entanto. Do destino fatal. Tornou-se a pecadora vil. aveludado. Balbuciou. A chama cruel que arrasta os corações. Do fado. mornos. presa. esta mulher de grã beleza. Dançavam-lhe no colo perfumado. amigo verdadeiro. Moldada pela mão da Natureza. que matou-te o coração?" Ele apontou para uma cruz no chão.

E à noute quando rezam na clausura.NO CLAUSTRO Pelas do claustro salas silenciosas De lutulentas. E as mesmas monjas sempre tristurosas. Repercute. Que guardam cinzas de ilusões passadas. Subindo pelo Azul da Inspiração. Vagueiam tristemente desfiladas De freiras e de monjas tristurosas. addio. os sons esmorecendo. Ai! não. . Eleonora! Oh! sonhos meus! E o canto se desprende harmonioso Na vibração final do extremo adeus. Eleonora. Assim canta também meu coração. No sigilo das rezas misteriosas. addio! 84 . Perdem-se as notas pelo Azul morrendo. desnudas. E as mesmas portas impassíveis. Nem a sombra mais leve de ventura! Sempre as arcadas ogivais. dolente. pouco a pouco. mudas! IL TROVATORE Canta da torre o trovador saudoso Addio. mavioso. não acordeis. Trovador torturado e angustioso.Addio. úmidas arcadas. lembranças minhas! Saudades d’umas noutes em que vinhas Cantar comigo em doce desafio! Mas. Que guardam pér’las de funéreas rosas. Na vastidão silente das caladas Abóbodas sombrias tenebrosas.

Arca sagrada de cerúleos sonhos. Eu sei a sua história.Arca cerúlea de ilusões etéreas. Vai morta em vida assim pelo caminho. . PRIMAVERA A meu irmão Odilon dos Anjos Primavera gentil dos meus amores. Moça. o triste outono. Primavera.Em seu passado Houve um drama d’amor misterioso . No seu olhar feroz eu adivinho O mistério da dor que a traz penada.O segredo d’um peito torturado E hoje. .a veste desgrenhada. a desgraçada estulta. No sudário de mágoa sepultada. tão moça e já desventurada. Na auréola azul dos dias teus risonhos. para guardar a mágoa oculta. Os dias voltarão a ser tristonhos E tu hás de dormir o eterno sono. porém. Chova-te o Céu cintilações sidéreas E a terra chova no teu seio flores! Esplende. Num sepulcro de rosas e de flores. Chora. Canta. Tu que sorveste o fel das minhas dores E me trouxeste o néctar dos teus sonhos! Cedo virá.A LOUCA A Dias Paredes Quando ela passa: . os teus fulgores. Da desdita ferida pelo espinho.coração saudoso. gargalha. O cabelo revolto em desalinho. Primavera gentil dos meus amores! 85 . soluça .

E não é a Esperança por sentença Este laço que ao mundo nos manieta? Mocidade. Foi outrora do riso abençoado.avança! E eu.A ESPERANÇA A Esperança não murcha. No entanto o mundo é uma ilusão completa. Muita gente infeliz assim não pensa. portanto. túm’lo do prazer finado. Vão-se sonhos nas asas da Descrença. O berço onde as venturas se embalaram. O mistério d’um peito que estertora E o segredo d’um’alma que não sonha! Não. ergue o teu grito. Também como ela não sucumbe a Crença. risonha. tristonha . Sirva-te a crença de fanal bendito. Sonâmbulo da dor angustiado. 86 . Também espero o fim do meu tormento. ela não cansa. que vivo atrelado ao desalento. Senhora. Este luto sem fim que é o meu Calvário E anseio e choro. Quantas venturas que me acalentaram! Mau peito. delirante e vário. EU TRAJO O LUTO DO PASSADO Senhora. Mas não queiras saber nunca. não busques saber por que. Salve-te a glória no futuro . Voltam sonhos nas asas da Esperança. É minha sina perenal.Cantar o Ocaso quando surge a Aurora. Na voz da morte a me bradar: descansa! SENHORA. eu trajo o luto do passado.

santíssima. Como Jesus a soluçar no Horto! ECOS D’ALMA Oh! madrugada de ilusões. Vinde entornar a clâmide puríssima Da luz que fulge no ideal sagrado! Longe das tristes noutes tumulares Quem me dera viver entre quimeras.SOFREDORA Cobre-lhe a fria palidez do rosto O sendal da tristeza que a desola. Bela na Dor. Por entre o resplandor das Primaveeras Oh! madrugada azul dos meus sonhares. Mas volta logo um negro desconforto. Mas quando vibrar a última balada Da tarde e se calar a passarada Na bruma sepulcral que o céu embaça. nervosa e louca Esquecer por momento a mágoa intensa Arrancando um sorriso à flor da boca. Chora . Quando o rosário de seu pranto rola. Quem me dera morrer então risonho. Fitando a nebulosa do meu Sonho E a Via-Láctea da Ilusão que passa! 87 .o orvalho do pranto lhe perola As faces maceradas de desgosto. sublime na Descrença. Sombra perdida lá do meu Passado. Tenta às vezes. porém. Das brancas rosas do seu triste rosto Que rolam murchas como um sol já posto Um perfume de lágrimas se evola.

. e. Dorme talvez. Rendilhando-lhe o colo de sultana. pois. As níveas pomas do candor da rosa.. crê em Deus. Na altura Imensa. púbere. Enquanto o amante pálido. Esse manto de amor doce e clemente Que lava as dores e que enxuga o pranto?! Ah! Se queres saber a sua grandeza. Sienkiewicz Sabes que é Deus?! Esse infinito e santo Ser que preside e rege os outros seres. A carne exuberante e capitosa Trescala a essência que de si dimana.AMOR E CRENÇA E sê bendita! H. Emergem da camisa cetinosa Entre as rendas sutis de filigrana. Branca. Em flácido abandono Lembra formosa no seu casto sono A languidez dormente da indiana. mimosa. a seu lado Medita. num só encanto? Esse mistério eterno e sacrossanto. o olhar velado No Mistério da Carne Soberana 88 . sê bendita! ARIANA Ela é o tipo perfeito da ariana. O amor é a hóstia que bendiz a Crença. Fita a cúp’la do Céu santa e infinita! Deus é o templo do Bem. Essa sublime adoração do crente. a fronte triste. ama. nevada. Estende o teu olhar à Natureza. Que os encantos e a força dos poderes Reúne tudo em si.

não quero o meu sonho sepultado No cemitério da Desilusão.Quero abraçar o meu passado morto. E na choça a lamúria que traspassa O coração. ânsias e gritos De mães que arquejam sobre os probrezitos Filhos que a Fome derrubou na praça. Tem pena dessas cinzas que ficaram. porém. . A alma saudosa pelo amor vibrada. Dos romeiros saudosos da desgraça. dos proscritos. e quero sempre tê-las ao meu lado! Não.Dizer adeus aos sonhos meus perdidos! Deixa ao menos que eu suba à Eternidade Velado pelo círio da Saudade. Ao dobre funeral dos tempos idos! NA RUA EM FUNERAL EI-LA QUE PASSA (Lendo o "Poema de Maio") Na rua em funeral ei-la que passa. coveiro. A romaria eterna dos aflitos. o meu Passado.TEMPOS IDOS Não enterres. . Vai Corina mendiga e esfarrapada. lânguida e bela. Entre todos. além. Da juventude a virginal capela A lhe cingir de luz a fronte baça. Eu vivo dessas crenças que passaram. A procissão dos tristes. Que não se enterra assim sem compaixão Os escombros benditos de um Passado! Ai! Não me arranques d’alma este conforto! .A Stella Matutina da Desgraça! 89 .

Sulcando o espaço. Saí deixando morta a minha amada. Hermeto Lima Adeus. Voa. adeus! E. Vencendo o azul que ante si s’erguera. É como um despertar de estranho mito.ADEUS. Auroreando a humana consciência. se eleva em busca do infinito. Perto. Para mim no mundo Tudo acabou-se. adeus. suspirando. devassando a terra. apenas restam mágoas. ADEUS! E. SUSPIRANDO Pareceu-me inda ouvir o nome dela No badalar monótono dos sinos. A aeronave que um mistério encerra Vai pelo espaço acompanhando o mundo. Cheia da luz do cintilar de um astro. Deixa ver na fulgência do seu rastro A trajetória augusta da Ciência.eu disse. 90 . um ribeiro claro murmurando Muito baixinho como quem chorava. Vinha o luar iluminando a estrada E eu vinha pela estrada soluçando. ADEUS. Parecia o ribeiro estar chorando As lágrimas que eu triste gotejava. Mas no mistério astral da noute bela Pareceu-me inda ouvir o nome dela No marulhar monótono das águas! A AERONAVE Cindindo a vastidão do Azul profundo. Fitando o abismo sepulcral dos mares. Súbito ecoou do sino o som profundo! Adeus! . E na esteira sem fim da azúlea esfera Ei-la embalada n’amplidão dos ares.

Envolto da tristeza no delírio. Mas a noute chegou. Se eu sou o orvalho eterno que te chora. Disse. P’ra que pendes o cálice que enflora Teu seio branco do palor do círio?! Baixa a mim. Lá onde nunca chegue esta saudade. tristonho lírio. E quando ela no Azul foi-se sumindo Surgia a Aurora . E eu disse . E nunca mais eu vi a minha estrela! 91 . com ela Negras sombras também foram chegando. Ai! que ao menos talvez na vida escassa Não chorasses à sombra da desgraça. Viu o adeus que do Céu ela enviava. Para eu sorrir à sombra da ventura! A MINHA ESTRELA A meu irmão Aprígio A. . triste. estrela do Passado! Esconde-te no Azul da Imensidade. onde não pousa a desventura. Minh’alma que de longe a acompanhava. Deixa beijar-te a face que descora! Fosses antes a rosa purpurina E eu beijaria a pétala divina Da rosa. irmã pálida da Aurora.LIRIAL Por que choras assim.Vai-te.a mágica princesa! E eu vi o Sol do Céu iluminando A Catedral da Grande Natureza. Estrela esmaecida do Martírio.A sombra deste afeto estiolado. e a estrela foi p’ra o Céu subindo.

perdão.então. E eu balbucio trêmula balada: . a minha bem amada. Caiu na praça como fulminado A soluçar: perdão. perdão! A ESMOLA DE DULCE Ao Alfredo A. isento de pecado. Pude rever naquele desgraçado O drama lutuoso da Paixão. E todo o dia eu vou como um perdido De dor. A praça estava cheia.A PRAÇA ESTAVA CHEIA. o algoz . Puro de crime. E na atitude do Crucificado.o criminoso . E dos lábios de Dulce cai um beijo. O olhar azul pregado n’amplidão. A esmola dum carinho apetecido. Depois. 92 . e eu gemo o último harpejo. O condenado Transpunha nobremente o cadafalso.e estertorada A minha voz soluça num gemido. Estendo à Dulce a mão.. por entre a dolorosa estrada. dai-me u’a esmola . o olhar enlanguescido. Morre-me a voz. E ela fita-me.Senhora. Pedir a Dulce. Vítima augusta de indelével falso. a fé perdida.. Quando do algoz cruento o braço alçado Se dispunha a vibrar sem compaixão O golpe na cabeça do culpado Ele. como este beijo me consola! Bendita seja a Dulce! A minha vida Estava unicamente nessa esmola.

e à ingrata Luz deste mundo em breve me arrebata E num pallium de tênebras recolhe-me! Aqui há muita luz e muita aurora. ave negra da Desgraça. Num desespero rábido..crença Perdida . Há perfumes d’amor .. Gêmea da Mágoa e núncia da Descrença! Dos sonhos meus na Catedral imensa Que nunca pouses.segue a trilha que te traça O Destino. Seja-te a vida uma agonia intensa! Vives de crenças mortas e te nutres. E o viver calmo e sossegado tolhe-me! Leva-me. E hás de tombar um dia em mágoas lentas. na névoa baça Onde o teu vulto lúrido esvoaça. acolhe-me. e. E as trevas moram.venenos d’alma E eu busco a plaga onde o repouso mora. assassino... obumbra-me em teu seio. acolhe-me N’asa da Morte redentora. E a alma me ofusca e o peito me maltrata.AVE DOLOROSA Ave perdida para sempre . Lá. Gênio das trevas lúgubres. Empenhada na sanha dos abutres. Negrejadas das asas lutulentas Que te emprestar o corvo do Destino! GÊNIO DAS TREVAS LÚGUBRES. onde d’água raso O olhar não trago. Leva-me o esp’rito dessa luz que mata. nem me turba a calma A aurora deste amor que é o meu ocaso! 93 .

e a alma é a Flâmula do sonho. sem bruma Que a transparência tolde. Julgo ver nos reflexos de minh’alma As mesmas nuvens deslizando em calma. Cada rocha é uma eterna sepultura Banhada pela imácula brancura De ondas chorando num albor etéreo. então. a vida é qual risonho Batel. Que o guia e o leva ao porto da bonança. Banhando a fria solidão das fragas. só descanta. Onde a quebrar-se tão fugaz se esfuma. Quando vos vejo. O MAR O mar é triste como um cemitério. negros palinuros Da tempestade negra e da tristeza. Chora a saudade envolta nesta espuma! 94 . Reflete a luz do sol que já não arde. Que o céu reflete. Ah! dessas no bramir funéreo Jamais vibrou a sinfonia pura Do amor. a voz do meu saltério! Quando a cândida espuma dessas vagas. dentre a escura Treva do oceano. sem nenhuma Nuvem sequer. Os nimbos das procelas desta vida. Treme na treva a púrpura da tarde. Abismados na bruma enegrecida.NIMBOS Nimbos de bronze que empanais escuros O santuário azul da Natureza. num mar de esp’rança. Mas quando o céu é límpido.

Anseios d’alma aqui se perdem. Ascende à Claridade. Triste criança virginal. Hoje é trevas. foge! Eu busco a virgem loura Que fugiu-me do peito ao teu clarão de morte E Ela era a minha estrela. e em si a Luz consoladora Do amor . Aurora morta. onde O silêncio campeia soberano Morreram notas do bulício humano. Cantarias do amor a primavera. é dor. Donde Fluiu outrora a luz dum doce engano.) Nessas paragens desoladas.. Dia do meu Passado! Irrompe. Tendo a minh’alma presa nos teus braços! Pau d’Arco . longe dos laços Dessa jaula de carne que a encarcera! Ah! Que unidos assim.ANSEIO (NESSAS PARAGENS DESOLADAS. Adeus oh! Dia escuro. Sírius da minha Sorte E da Noute da vida a Vênus Redentora. Agora. foge . num Pálio auroral de Luz deslumbradora.esse clarão eterno d’alma forte Astro da minha Paz. é desengano.. quem dera Voar est’alma a ti.1902 95 .eu busco a virgem loura! Pau d’Arco . o meu único Norte.1902 AURORA MORTA. FOGE! Aurora morta. Nem vibra a corda que a saudade esconde. O grande Sol de afeto .. lá nos espaços. Vem! Rasga deste peito as nebulosas gazas E.o Sol que as almas doura! Fugiu. meu Futuro.. E eu ergo preces que ninguém responde. agita as tuas asas. oh! Minha Mágoa.

1902 96 . as flores também choram Num chuveiro de pétalas. Um arroio canta pela umbrosa Estrada. Branca. Aragem suspirosa Agita os roseirais que ali vicejam. Ah! num delíquio de ventura louca. Pendem e caem . Quando. chorando enfloram. Ri-se o meu coração na tua boca! Pau D'Arco .. os astros rumorejam Um presságio de noute luminosa E ei-la que assoma .. No alto. nitente. e.NO CAMPO Tarde. as águas límpidas alvejam Com cristais. emergindo às trevas que a negrejam. no teu riso de anjos encantados. à dolente Unção da noute.os roseirais descoram E elas bóiam no pranto da corrente Que as rosas. Como que um doce tilintar de prata E a vibração de mil cristais quebrados.a Louca tenebrosa. entretanto. Bendito o riso assim que se desata . E há. ao luar. Cantando sempre em trínula volata! Aurora ideal dos dias meus risonhos. úmido de beijos em ressábios Teu riso esponta. Vai-se minh'alma toda nos teus lábios. Sonorizando os sonhos já passados.Cítara suave dos apaixonados. despertando sonhos. Pau d’Arco – 1902 CANTA O TEU RISO ESPLÊNDIDA SONATA Canta o teu riso esplêndida sonata. Chora a corrente múrmura.

se duas eu tivera. entre os encantos Dum noivado risonho em primavera. É que dessa concha armínea Da lactescência angélica da neve. Voga a lua na etérea imensidade! Ela. sacrossantos.CRAVO DE NOIVA Ao Dias Paredes Cravo de noiva. A nívea cor de cera Que o seu seio branqueja. Derramam a urna dum perfume vário. Ah! como a branca e merencórea lua. toda a cálida Mística essência desse alampadário. olências de virgínea Carne fremindo num langor de pomas. Eu. eterna noctâmbula do Amor. E a lua é como um pálido sacrário. noctâmbulo da Dor e da Saudade. que a virgem chora. Guarda segredos divinais que eu dera Duas vidas. 97 . Pau d'Arco -1902. é como os prantos Níveos. Também envolta num sudário — a Dor. E tudo quer que nessa flor se enleve O poeta. A gaze pálida Que lhe serve de alvíssimo sudário Respira essências raras. PLENILUNIO Desmaia o plenilúnio. Se evolarn castos. P'ra desvendar os seus segredos santos. Minh'alma triste pelos céus flutua! Pau d'Arco -1902. virginais aromas De essência estranha. Flor dos mistérios d'alma. Onde as almas das virgens em crisálida De seios alvos e de fronte pálida.

E vais aos poucos soluçando queixas! 98 . . Um dia morto da Ilusão às bordas. soluças. Paraíba -1902 O BANDOLIM Cantas.INSÂNIA No mundo vago das idealidades Afundei minha louca fantasia. Que desespero insano me apavora! Aqui. Tanto que cantas. Mas ao esplendor das velhas majestades Vacila a mente e o seu ardor esfria. chora um ocaso sepultado.. a lua é triste e calma. Tanto que gemes. Quando alta noute. Choras. e eu julgo que nas tuas cordas Choram todas as cordas do Passado! Guardas a alma talvez d'um desgraçado. bandolim do Fado. vindo de profundas fráguas.. E vais aos poucos soluçando mágoas. E eu tremo e hesito entre um mistério escuro: . bandolim do Fado E de Saudade o peito meu transbordas. sonhar novas idades.Quero partir em busca do Passado.Quero Correr em busca do Futuro. Cedo atraiu-me a áurea fulgidia Da refulgência antiga das idades. Ali. Teu canto. e ilusões acordas. É como as nênias do Coveiro d'alma! Tudo eterizas num coral de endeixas. pompeia a luz da branca aurora. Busquei então na nebulosa fria Das Ilusões.

.. Meiga. e como Lúcia. Aquele riso despertava a aurora! E tudo riu-se.Foge. Caíste morta ao celestial preceito. Fulgia a bruma para sempre. grave e lenta. também ria! 99 . E eu vi os seios teus virem inconhos . Na etérea limpidez de um sonho branco.Esses teus seios que os cerúleos lares Branquejaram de eternos nenúfares. O céu tremia em seu trevoso flanco. E Lúcia disse à bruma lutulenta: . caindo dos altares. à voz de Lúcia. senão co'o o meu olhar te espanco! E eu vi que. tu vinhas a cindir os ares. Tocando n'ara negra o níveo seio. alegre e rubro. E. Para nunca tocarem negros sonhos! Caíste enfim no meu sacrário ardente. A vida Despontava na aurora amortecida  rutilância mágica do dia. qual hóstia. NA ETÉREA LIMPIDEZ.ARA MALDITA Como um'ave. cindindo os céus risonhos. mas eis que neste enleio. Lúcia sorriu-se à bruma nevoenta. O sol. E eu quis beijar-te o lábio redolente. agora. E beijei-te. E a procela chorou n'um fundo arranco De mágoa triste e de paixão violenta. Quiseste-me beijar a ara do peito. Foste caindo n'ara dos meus sonhos.

Nua. Beije-te o seio e te abençoe o ventre! O TEMPLO DA DESCRENÇA O Templo da Descrença . á luz das alvoradas santas Ungem-te o corpo redolências tantas. Agora. Diluis teu peito em sensações profundas. urnas de Sonho. Que. em bando. Sentes o peito em ânsias revoltadas.A colunata êxul do Sonho Morto . A imensa Cruz da Dor está serena como um lírio! E vejo o pedestal que sustenta o Martírio. ao ver-te nua.o círio Da Quimera Falaz. eis que emerges. às fundas Águas do mar das glórias obumbradas.ei-lo que avisto. e. Longe das sombras aurorais e amadas. o Mundo se concentre. E vejo o pedestal que sustenta a Descrença! . Em mim como no Templo a Angústia se condensa. o túmulo da Crença. em banho ideal de amor te inundas. ante o branco estendal das madrugadas. a Virgem Mãe dos céus escampos. a rasgar o lúrido sacrário. eu sombrio chorando Ante a imagem fatal do Sepulcro da Crença! 100 . Que beija a terra e que abençoa os campos. E a rasgar. Flores mortas da Aurora. luminosa.TREVA E LUZ Neste pélago escuro em que te afundas. e. E. Tudo! até o altar onde a Angústia vibra intensa N'uma fúria assombrai de feras em delírio! Penetro louco enfim o abismo funerário. E em mim como no Templo. E a lua. Mas.

Quero-te assim .Virgens filhas das virgens nebulosas! Quero-te assim... santa de inocência! Anjo de luz de astral aurifulgência.O sol a segue.. ela. De espaço a espaço sepulturas planta E em cada coração planta um cipreste! Exulta o Eterno e.É o castigo de Deus que passa mudo! . A alma diluída em eterais cismares.a Peste N'um insano ceifar que aterra e espanta.e que bendita sejas Como as aras sagradas das igrejas. Etéreo como as Wilis vaporosas. formosa entre as formosas.o astro Deixa um rastro de luto em cada canto! IDEAL Quero-te assim. formosa.A PESTE Filha da raiva de Jeová .Fúlgido foco de escaldantes brasas . como o sol . Colmado o seio de virentes flores. Todos dizem co'os olhos para a Sorte . . Como o Cristo sagrado dos altares. Plena de graça. tudo! Quando Ela passa.. tudo chora. e a Peste ri-se. E como o sol que a segue e deixa um rastro De luz em tudo. Embaladas no albor da adolescência. enquanto Vai devastando o coração das casas.. semeando a Morte. No olhar d'amor a mística fulgência E o misticismo cândido das rosas. entre esplendores.. 101 .

E a Noite afeia corno num sarcasmo E agora a sombra vesperal morreu.CÍTARA MÍSTICA Cantas...dois sangrentos círios A gêmea florescência de dois lírios Entrelaçados numa unção divina. E eu ouço etérea cavatina! Há nos teus lábios . Teu canto agora é um salmodiar de arcanjo. lírio morto do Céu! Perdão! E a minha voz estertora um gemido. perdoa o teu vencido. E para mim. meu anjo. a teus pés. . eis-me a teus pés. Perdão! E este silêncio e esta tumba que cala! Insânia. insânia.. É a música de Deus que vem do Céu! SÚPLICA NUM TÚMULO Maria. pelo mundo. Perdão! E este sepulcro imenso que não fala! 102 . penseroso e pasmo. insânia. E o lábio meu pra sempre apartado do teu Não há de beijar mais o teu lábio querido! Ah! Quando tu morreste. Implorar-te o perdão do imenso crime meu! Eis-me. ah! ninguém me responde..Irei agora... Como o santo levita dos Martírios. Rendo piedosa dúlia peregrina À tua doce voz que me fascina. assim.. pátria da Aurora exilada do Sonho! . Açucena de Deus. o meu Sonho morreu! Perdão. para onde Me levar o Destino abatido e tristonho. pois. Chegou a Noite...Harpa virgem brandindo mil delírios! Quedo-me aos poucos.. Eu venho arrependido.

no Inferno do Gozo. Transpus um dia o Inferno Azul do Gozo! O amor em lavas de candência d'aço. Chora saudades do terreno pouso! Como um mártir de estranho sacrifício.. Desce para a alma o ocaso da Carícia Ora em sonhos de Dor. Turificando a languidez dum seio! O amor. Mas. Onde nunca gemeu o humano passo. supremos.. Banhou-me o peito.. Em ânsia de repouso.Amor que é mirra e que é sagrado nardo. Tinha os lábios crestados pela ardência Da luz letal do grande Sol do Vício! E mergulhei mais fundo no estuário. porém.AFETOS Bendito o amor que infiltra n'alma o enleio E santifica da existência o cardo. que da Desgraça veio Maldito seja. e. sem Calvário. e ora Em contorço es supremas de Delícia! MARTÍRIO SUPREMO Duma Quimera ao fascinante abraço. Cristo d'amor morri pela inocência! 103 .. Por um Cocito ardente e luxurioso. seja como o fardo Desta descrença funeral em que ardo E com que o fogo da paixão ateio! Funambulescamente a alma se atira À luta das paixões. Da Messalina fria no regaço. como a Aurora Que ao beijo vesperal anseia e expira. .

O penetral que leva à derradeira porta! Revejo em ti.. a noute é tumbal.Sonâmbulo glacial da estranha pena! Estavas fria! A neve que a alma corta Não gele talvez mais. a sós... ansiando a luz amena No silêncio notívago da rua. me acalenta e conforta! Noute! E somente tu velas a rutilância. E estavas morta.. desvalida e nua! E o olhar perdi. Ah! que um dia da Vida. Como um'alma de mãe.. estes dardos acúleos Caíam. e a saudade da infância. nem mais alquebre Um coração como a alma que está morta. eu que te almejo.Lua que esfria o sol do meu desejo! 104 . eu vi.. no pó da fulgurância Como uma velha cruz vela na sombra morta! Fora.. ..E tu velas. Lua que já passou e que hoje ainda corta O penetral que guia à derradeira estância... E vi-te triste. também da Dor. Sombra de gelo que me apaga a febre.. . num lânguido smorzando A sombra virginal qu'eu adoro chorando E há de um dia amparar-me na luta correndo.SOMBRA IMORTAL . Teu coração rolou da luz serena! E eu tinha ido ver a aurora tua Nos raios d'ouro da celeste arena.. mulher. lá dos braços hercúleos. Domados pela meiga Ónfale a que me rendo! CORAÇÃO FRIO Frio o sagrado coração da lua.

Pérolas e ouro pela serrania. e. O roble altivo entreteceu4e um ninho. Bendita a Santa do Carinho. e é noute de fatais abrolhos. inata! E. Uma pantera foi se ajoelhando.. Chegaste. No lago branco e rútilo do dia O azul pompeava para sempre vasto. Choras.NOTURNO (PARA O VALE NOITAL. e em lânguida sonata Vinhas transpondo a margem do caminho. te acolheu a mata.. E um canto vai morrer no vale fundo. Rendida ao eflúvio do teu seio casto! 105 . tu. no negror me abrasa. ajoelhando à imagem do Carinho. Branca bem como empalecido arminho. Que luz é esta que das brumas vasa... Santificada pela Dor do Mundo! U'a luz. profundo?! Rumores santos. Somente tristes os teus olhos vejo.. Alvorejando em arrebol de prata.imenso moribundo E a noute veio na negrura d'asa. entanto. Alva d'aurora.. e no Santo harpejo.. virginal.) Para o vale noital da eterna gaza Rolou o Sol . chegando. Para o Infinito e para o Céu voltados! Cantas.. o seio branco. Que canto é este. e no meu peito estes teus olhos Como que cravam dois punhais gelados! SEDUTORA Alva d'aurora..

E o mar chamou-a para o funda abismo! E o céu chamou-a para o Misticismo. Nesse momento a Lua vinha calma E céu e mar num desespero mudo Não viram que num halo de veludo À alma de Déa se evolava est'alma.. Já Vésper.. no Alto. Fria como um crepúsculo da Judéia. E as brumas velam nos sinistros mantos E as virgens dormem nas tumbais jazidas! Súbitos fremem 'spasmos derradeiros. mórbidos encantos. e lânguida. Qual rosa branca que ao tufão vacila. 106 . cintila! Naquela hora morria para a Idéia A minha branca e desgraçada Déa. Chorando auroras músicas perdidas Na estrada santa ensangüentando as Vidas. Eflúvios quentes e fatais quebrantos Crestam a alma das virgens adormidas. Vão pelo mundo ensangüentando as Vidas.. Nos campos-santos enterrando os Sonhos! E O MAR GEMEU A FUNDA MELOPÉIA E o mar gemeu a funda melopéia À luz feral que a tarde morta instila.PELO MUNDO Ânsias que pungem. Triste como um soluço de Dalila.. E a paixão morre e os corações coveiros Vão como duendes pelos céus risonhos. Crepitaç5es de flamas incendidas Nalma explodindo como fogos santos.

Desfaz-se o peito em vibrações dormentes E o Fado geme sob a névoa fria! Que eu sinta n'alma o que tu n'alma sentes! Nesta Missa de Atroz Melancolia Bebes chorando o Vinho da Agonia . clown da Sorte .O RISO "Ri.Ele..Consagração das almas padecentes! Foi numa tarde assim que nos amamos. saturnal do Inferno! Eu te bendigo! No mundano cúmulo És a Ironia que tombou no túmulo Nas sombras mortas de um desgosto eterno! VAMOS. sonolento e tardo.Eterno fogo. Punge-me o peito da Saudade o cardo Enquanto um mocho. Silfos morriam. QUERIDA! Vamos. e a todo o seu assédio.o voltairesco clown .. Riso. que ao frio alvor da Mágoa Humana. No ar.Fogo sagrado nos festins da Morte . coração. Na Via-Látea fria do Nirvana. adormecida..A hora dos tristes e dos descontentes. Alenta a Vida que tombou no Tédio! Que à Dor se prende. tristíssimo palhaço" Cruz e Souza O Riso . E ergue à sombra da dor a que se irmana Lauréis de sangue de volúpia insana. os gaturamos Num recesso de névoa. Clarões de sonho em nimbos de epicédio! Bendito sejas.quem mede-o?! .. Canta no espaço a maldição da Vida! 107 . querida! Já é Ave-Maria .

A UMA MÁRTIR Alma em cilício, vem, enrista a dava, Brande no seio o espículo e o acinace E unjam-te o seio que d'auroras nasce Sangrentas bênçãos eclodindo em lava! Nossa Senhora te unge a face escrava, Cristo saudoso te abençoa a face De monja - violeta que do Céu baixasse À Virgem Santa Natureza brava! Vais caminhando para a terra extrema, Rosa dos Sonhos! e o teu galho trema E a tua crença, o desespero mate-a... E em nuvens d'ouro ascende enfim ao plaustro Da Neve Eterna, estrela azul do claustro, Levada para o Azul da Via-Látea!

RÉGIO Festa no paço! Noite... E no entretanto Luzes; flores, clarões por toda a festa E há nos régios salões, em cada aresta, Credências d'ouro de supremo encanto. No baldaquino a orquestra real se apresta E o áureo dossel finge um relevo santo... - Bissos egípcios d'alto gosto, a um canto, Flordilisados de nelumbo e giesta. Morreu a noite e veio o Sol Eterno - Âmbar de sangue que desceu do Inferno No turbilhão dos alvos raios diurnos... Brilham no paço refulgências de elmo E a princesa assomou corno um santelmo Na realeza branca dos coturnos.

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PELO MAR Manhã em flor. O mar é um policromo E imenso lago d'íris e alabastros... À aurora é branco e ao sol, o mar é como Um pálio imenso que caiu dos astros. Longe, bem longe, no alvoral assomo Ergue um navio os altanados mastros E o Oceano dorme - alourecido pomo Num leito irial de pérolas e nastros. A alma da Mágoa vai pelo seu dorso, Em sonhos geme... Um coração de corso Geme no mar, vibra no mar, entanto, Colma-lhe o seio a opala das esponjas... E à noute morta choram vagas - monjas Purificadas no cristal do pranto!

PALLIDA LUNA És do Passado! Vieste d'alvorada N'asa dos elfos pela Morte espalma... Cantas... e eu ouço esta berceuse calma Da harpa dos mundos ideais do Nada! Ergue o Missal brilhante de tu'alma, Mas nessa elevação mistificada, Vem, que eu te espero, Deusa constelada Desce, anêmona êxul que o Céu ensalma! Venhas e desças, Lua dos Martírios, Desças, mas venhas pela unção dos lírios. Visão de Ocaso de enluaradas comas, Vaso de Unção descido dos espaços, Para ungirmos nós dois, os nossos paços, Na tule idealizada dos aromas.

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A MORTE DE VÊNUS Velhos berilos, pálidas cortinas, Morno frouxel de nardos recendendo Velam-lhe o sono... e Vênus vai morrendo No berço azul das névoas matutinas! Halos de luz de brancas musselinas Vão-lhe do corpo virginal descendo - Abelha irial que foi adormecendo Sobre um coxim de pérolas divinas. E quando o Sol lhe beija a espádua nua, Cai-lhe da carne o resplendor da Lua No reverbero dos deslumbramentos... Enquanto no ar há sândalos, há flores E haustos de morte - os últimos clangores Da música chorosa dos mementos!

MÁRTIR DA FOME Nesta da vida lúgubre caverna De ossos e frios funerais que eu sinto Corno um chacal saciando o eterno instinto Vou saciando a minha Fome Eterna. - Fome de sangue de um Passado extinto, De extintas crenças - bacanal superna, Horrível assim como a Hidra de Lema E muda como o bronze de Corinto! Ânsias de sonhos, desespero fundo! E a alma que sonha no marnel do Mundo, Morre de Fome pelas noites belas... E como o Cristo - o Mártir do Calvário Morre. E no entanto vai para o estelário Matar a Fome num festim de estrelas!

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SONHO DE AMOR Sobre o aromal e amplo coxim de Flora, Que os vapores da tarde inda incensavam E que um incenso tênue e bom vapora, Os namorados lânguidos sonhavam. A alma do Ocaso entrava o céu agora E havia pelas tênebras que entravam Ora estrangulamentos surdos, ora Ruídos de carnes que se estrangulavam. E sonharam assim durante toda A noute, e toda a alva manhã durante! - O Sol jorrava largos raios longos E em roda víride e nevado, em roda, Lembrava o campo um colorido ondeante De vidros verdes e cristais oblongos!

A ORGIA MATA A MOCIDADE A orgia mata a mocidade, quando Rugem na carne do delírio as feras, E o moço morre como está sonhando Nas suas vinte e cinco primaveras. Em cima - o oiro sem mancha das esferas, Em baixo oiro manchado de execrando Festim de sibarita:, das heteras Lubricamente se despedaçando! Em cima, a rede do estelário imáculo Suspensa no alto como um tabernáculo - A orgia, em baixo, e no delírio doudo Corno arvoredos juvenis tombados Os moços mortos, os brasões manchados, E um turbilhão de púrpuras no lodo!

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... batendo em todas as retinas. mas meus movimentos Susto. e ao compasso de arrabis serenos A valsa rompe. Os ventos. vão bater. LÁ FORA. Vibra. Negro. E em meio ás refrações verdes e hialinas. Desencadeados. ameaçando os séculos futuros! De São Francisco no plangente bronze Em badaladas compassadas onze Horas soaram. De encontro ás torres e de encontro aos muros. Surge agora a Lua. Estatuetas de mármore de Lemnos Estão dispostas numa simetria Inconfundível. Lá fora os lampiões escuros Semelham monjas a morrer. Os passos mal seguros Trêmulo movo... A incandescência irial dos candelabros.) Chove. Fulgem por entre mil cristais vermelhos O alvo cristal dos nítidos espelhos E a seda verde dos arbustos glabros. diante do vulto dos conventos. violentos. recordando a estria Dos corpos de Afrodite e Vênus. em compassados trenos Sobre os veludos da tapeçaria. E eu sonho erguer-me aos páramos etéreos Enquanto a chuva cai nos cemitérios E o vento apaga os lampiões da rua! 112 . Saio de casa. O dia Foge.FESTIVAL Para Jônatas Costa Címbalos soam no salão.. NOTURNO (CHOVE.

Ele que foi um forte Que nunca se quebrou pelo Desgosto Morreu. A Dor meu coração torça e retorça! Cubra-me o corpo a podridão dos trapos! Os vibriões.. outono. Que há muito tempo não cantava lá. já faz sete dias Que eu ouço o canto desse sabiá! VAE VICTIS A Dor meu coração torça e retorça E me retalhe como se retalhe Para escárnio e alegria da canalha Um leão vencido que perdeu a força! Sobre mim caia essa vingança corsa.. enquanto o Tédio a carne me trabalha.E ELE MORREU Ao sétimo dia de seu falecimento E ele morreu. E hoje. inverno! 113 . os vermes vis....Repositório de milhões de miasmas Onde se fartem todos os fantasmas. Diluiu o silêncio em litanias. mas não deixou na ara do rosto Um só vestígio que acusasse a Morte! O anatomista que investiga a sorte Das vidas que se abismam no Sol-posto Ficaria admirado do seu rosto Vendo-o tão belo. os sapos Encontrem nele pábulo eviterno. verão. Já que perdi a última batalha! E. Primavera. poetas. tão sereno e forte! Quando meu Pai deixou o lar amigo Um sabiá da casa muito antigo. ...

Gemem poetas . e quando passa. inda altiva. enxuto o olhar. enxuta A face.A DOR Chama-se a Dor. e a ameaça Amarga dessa desgraçada fruta Que é a fruta amargosa da Desgraça! E quando o mundo todo paralisa E quando a multidão toda agoniza.. E se cantar como a Saudade canta. inda o olhar sereno De agonizante multidão rodeada. aqui é a Terra! Em que a alma chora e em que a Saudade canta! O caminheiro que o Pesar desterra. ela. ao noturno açoute. O caminheiro fique nesta Terra! À noute aqui um trovador eterno Chora.Esse sombrio trovador é o Inverno! Aqui é a Terra.. Aqui é o Campo-Santo. Ela. Derrama em cada boca envenenada Mais uma gota do fatal veneno! TERRA FÚNEBRE Aqui morreram tantos poetas! Tanta Guitarra morta este lugar encerra!. abraçado às campas dos poetas.pássaros da Noute! 114 . . Carpem na sombra pássaros ascetas. enluta E todo mundo que por ela passa Há de beber a taça da cicuta E há de beber até o fim da taça! Há de beber. e o travo há de sentir. onde. Pare chorando nesta Terra Santa.

o sonho. a crença e o amor. sendo a risonha Santíssima Trindade da Ventura Pode ser venturosa a criatura Que não crê. poeta. surjam tédios na Descrença. Vence. E esse ouro santo vir rolando pelas Trevas profundas do meu pensamento! 115 . e por fim. no imenso Azul do Firmamento Ir rolando pelo ouro das estrelas. que não ama e que não sonha?! Pois a alma acostumada a ser tristonha Pode achar por acaso ou porventura Felicidade numa sepultura. na Suprema Altura Sinto.O SONHO. Contentamento numa dor medonha?! Há muito tempo. e morrem os vermes que o consomem. A CRENÇA E O AMOR O sonho. do meu seio Partiu num célere arrebatamento De minha crença arrebentando a grade Pois se eu não amo e se também não creio De onde me vem este contentamento. nada há que o abata e o vença! Por isso. assomem Descrenças. eu penso na Ventura! E o pensamento. De onde me vem esta felicidade?! MEDITANDO Penso em venturas! A alma do homem pensa Sempre em venturas! Sorte do homem! O homem Há de embalar eternamente a crença Sem ter grilhões e sem ter leis que o domem! Punjam-no os vermes da Desgraça. Luta.

. para penetrar o mistério das lousas. por fim.. e. profundo. por fim.. pois. Terá no entanto indubitavelmente A admiração do século presente E a sagração dos séculos vindouros! SONETO A FREDERICO NIETZCHE Para que nesta vida o espírito esfalfaste Em vás meditações. De que te serviu. Depois quando no irmão estremecido Fazem aliança o gênio e a probidade. Tesouros reais..Construíste de ilusões um mundo diferente. Para quem tem na vida compreendido Toda a grandeza da Fraternidade O aniversário dum irmão querido A alma de alegres emoções invade.. auríferos tesouros. nada achaste... O homem e a lesma e a rocha e a pedra e o carvalho e a haste?! Pois. O Alexandre dos Anjos merecia Grandes coroas nesse grande dia. Foi-te mister sondar a substância das cousas .PARA QUEM TEM NA VIDA. Feito no decurso de dois minutos. nada achaste! A loucura destruiu tudo que arquitetaste E a Alemanha tremeu ao teu gemido fundo.. Desconheceste Deus no vidro do astrolábio E quando a ciência vã te proclamava sábio A tua construção quebrou-se de repente! 116 . Atinge o amor um grau nunca atingido No termômetro santo da Amizade. em homenagem ao aniversário natalício de Alexandre Rodrigues dos Anjos 28 de abril de 1905. homem meditabundo?! Escalpelaste todo o cadáver do mundo E. estudares.

. E subiu tanto e subiu tanto e tanto Que hoje que és morto. Embora oculta. Representando a integridade humana! Nesses braços de força soberana Gloriosamente á luz do sol desnudos Ao bruto encontro dos ferrões agudos Gemeu por muito tempo a alma africana! No colorido dos teus brônzeos braços. oh! Filho da Hotentóia ufana Teus braços brônzeos como dois escudos. . no entanto. dois gigantes mudos.. o óbolo da Vida! Recordo agora a nossa despedida Na Estação do Cobé.santa nevrose que com fios de ferro as almas cose Principalmente se uma está ferida! Das tuas dores na procela brava Não soubeste talvez que eu te estimava! Mas a amizade oculta não se finda..O NEGRO Oh! Negro. ela subiu.ei-Ia que sobe ainda! Pau D'Arco – 1905 117 .. São dois colossos... . Quando o fantasma da tuberculose Pediu-te. em ânsias. E eu cuido ver os múltiplos produtos Da Terra .as flores e os metais e os frutos Simbolizados nesse colorido! VINHAS TRILHANDO GÁRRULO A AVENIDA À memória do meu colega Caldas Líns Vinhas trilhando gárrulo a Avenida Onde Deus manda que todo homem goze. Fulge o fogo mordente dos mormaços E a chama fulge do solar brasido.

em busca de ascender A essa Babel fictícia do Prazer Que procuravam e que eu procurava. Mas eu não contarei nunca a ninguém. Havia pelo chão um desperdício De folhas que a áurea xantofila corta.. quantos também deixei.Quer fugir. como eu. ouve o canto aziago da coruja! .E o horror começa! Rasga As vestes... como eu.Novo Sileno..... ver Se nesta ânsia suprema de beber.Se ao menos voasse! . Saiu. Daí a pouco.. A ninguém nunca eu contarei a história Dos que. Trás de mim. foram buscar a Glória E que. ela seria morta. A estrada torta Lembrava a antiga ponte de Sublício. Nisto. e não vê por onde fuja. O CANTO DA CORUJA A coruja cantara-lhe na porta Sinistramente a noite inteira! Indício Mais certo não havia! . Achava a Glória que ninguém achava! E todo o dia então eu me embriagava . uma convulsão a engasga E morre ouvindo o mesmo canto aziago! 118 . Implora a Deus como a um fetiche vago. . Quantos também. O Sol ardia. ira-o morrer também.Era o suplício!. na atra estrada que trilhei. . Buscava Em verdes nuanças de miragens.O ÉBRIO Bebi! Mas sei porque bebi!.

.Continua a cantar. Olha essa neve pura! . vivia... Assim como uma casa abandonada. de repente...Foi tanta agrura Que eu nem sei se foi dor ou foi saudade! Sei que durante toda a travessia Da minha infância trágica. E afora disto. Por isso.Foi saudade? Foi dor? . Batendo com a cabeça no barrote Da guilhotina. eu já nem sei mais nada! ANDRÉ CHÉNIER Na real magnificência dos gigantes... Vinte e quatro anos em vinte e quatro horas." Pau d'Arco -1905 119 .. a alma serena. Grave como um lacedemônio harmoste André Chénier ia subir ao poste A que Luís XVI subira dantes! Que a sua morte a homem nenhum desgoste E incite o heroísmo das nações distantes. diz ao povo: "É pena! . canta vibrantes Versos divinos que arrebatam a hoste.Aqui ainda havia alguma cousa. A cal da sepultura Caiu por sobre a minha mocidade. Não há quem nele um só tremor denote! . E eu que julgava em minha idealidade Ver inda toda a geração futura! Eu que julgava! Pois não é verdade?! Hoje estou velho.. pressentindo a lousa. ele a morrer.SENECTUDE PRECOCE Envelheci. Mas. Sei que na infância nunca tive auroras..

Ostenta ainda as mesmas cicatrizes Que eternizaram sua heroicidade! Quem vê o her6i. Não mentes.. Dizes Tudo que sentes.. beijou-me com um carinho Que a um ser divino não seria dado.. Bem como tu.. E. em Tebas .a tumbal cidade. o vulto ia a meu lado E desde então. E eu me elevava.. não andei mais sozinho! Abraçou-me... A infelicidade Parece às vezes com a felicidade E os infelizes mostram ser felizes! Assim. . diz que ele é vivo. Para onde eu ia. que nessa crença infinda Feliz me viste no Passado.Assombrava-me aquela claridade! Mas através daquelas falsas luzes Pude rever enfim todas as cruzes Que têm pesado sobre a Humanidade! ILUSÃO Dizes que sou feliz.MYSTICA VISIO Vinha passando pelo meu caminho Um vulto estranhamente iluminado. e ainda Te persuades de que sou feliz! 120 . A múmia de um herói do tempo de Ísis. persuadido fica do que diz. Diz que ele não morreu.. Da tribo alegre que povoa os ares. inda com o braço altivo. sendo assim beijado Muito acima do humano borborinho! Falou-me de ilusões e de luares.

Não há divina proteção que o guarde!" Dúvidas cruéis! Momentos cruéis! Incertos E cruéis momentos! Ânsias cruéis! E. por seus onze augúrios certos: "E maldito o teu nome! E aos céus abertos. quando Eu. triste e sem cantar. à tarde. ia. aos tropeços. A lua continue sempre a nascer! 121 . apesar disto Inda cadáver hei também de ser! Quando eu morrer de novo... a sofrer E acostumado a assim sofrer existo. como um cão covarde. assim. pois. Teve sede e fome. Sofreu o que olhos de homem não têm visto E olhos de fera não puderam ver! Acostumei-me. amigos. E.... Existo! .O tamarindo reverdeça ainda. morrer. A percorrer desertos e desertos. E foi assim que ele morreu um dia Amaldiçoado pelo próprio nome! DOLÊNCIAS Eu fui cadáver. assombrado. assim como o de Jesus Cristo. com medo do Infinito.. Saiu aos tombos.E apesar disto. antes de viver! Meu corpo.NOME MALDITO Das trombetas proféticas o alarde Falou-lhe. de saudades me despedaçando De novo. Por toda a parte viu seu nome escrito! Vieram-lhe as ânsias. onde. Por toda a parte. Nada se altere em sua marcha infinda .

Ah! Basta isto..Faça-me o obséquio de trazer reunidos Clorureto de sódio. . Vem-me então à lembrança o pai Ioiô Na ânsia psíquica da última eficácia! E logo a lágrima em meus olhos cai.A LÁGRIMA . água e albumina.O farmacêutico me obtemperou. porque isto é que origina A lágrima de todos os vencidos! .A farmacologia e a medicina Com a relatividade dos sentidos Desconhecem os mil desconhecidos Segredos dessa secreção divina. Ah! Vale mais lembrar-me eu de meu Pai Do que todas as drogas da farmácia! 122 ..

123 . Da substância de todas as substâncias! A simbiose das coisas me equilibra. Como um pouco de saliva quotidiana Mostro meu nojo à Natureza Humana. os resíduos ruins dos quiosques E o animal inferior que urra nos bosques É com certeza meu irmão mais velho! Tal qual quem para o próprio túmulo olha.. O amarelecimento do papirus E a miséria anatômica da ruga! Na existência social..OUTRAS POESIAS MONÓLOGO DE UMA SOMBRA “Sou uma Sombra! Venho de outras eras. Larva de caos telúrico. Como um dorso de azêmola passiva. ampla. Não conheço o acidente da Senectus -. vibra A alma dos movimentos rotatórios. A podridão me serve de Evangelho. Pólipo de recônditas reentrâncias.. A saúde das forças subterrâneas E a morbidez dos seres ilusórios! Pairando acima dos mundanos tetos. Em minha ignota mônada. E é de mim que decorrem. sem bramânicas tesouras. Amo o esterco.. Do cosmopolitismo das moneras. sem dispêndio algum de vírus. À luz do americano plenilúnio. A solidariedade subjetiva De todas as espécies sofredoras. possuo uma arma -.Esta universitária sanguessuga Que produz.. simultâneas.O metafisicismo de Abidarma -E trago.. procedo Da escuridão do cósmico segredo. Amarguradamente se me antolha.

A que todas as coisas se reduzem! E hão de achá-lo. O coração. Estrangulada dentro da matéria! E o que ele foi: clavículas. O espólio dos seus dedos peçonhentos. E apenas encontrou na idéia gasta. bestas agrestes. rotos os liames Dessa estranguladora lei que aperta Todos os agregados perecíveis. Tal a finalidade dos estames! Mas ele viverá. Que se chama o Filósofo Moderno! Quis compreender. Fonte de repulsões e de prazeres. iguais a fogos passageiros.Na alma crepuscular de minha raça Como uma vocação para a Desgraça E um tropismo ancestral para o Infortúnio. Sobre a esteira sarcófaga das pestes A mostrar. Quimiotaxia. magnetismo misterioso. quebrando estéreis normas. tatuada de fuligens Esse mineiro doido das origens. o Homem. -. Sonoridade potencial dos seres. Raio X. a boca. Que. Com a cara hirta. já nos últimos momentos. a coçar chagas plebéias. amanhã. causa ubíqua de gozo. ondulação aérea. Ao clarão tropical da luz danada. luzem. A vida fenomênica das Formas. abdômen. 124 . Nas eterizações indefiníveis Da energia intra-atômica liberta! Será calor. Aí vem sujo. O horror dessa mecânica nefasta. Como quem se submete a uma charqueada. Tudo coube na lógica medonha Dos apodrecimentos musculares. Trazendo no deserto das idéias O desespero endêmico do inferno. em síntese.Engrenagem de vísceras vulgares -Os dedos carregados de peçonha.

E foi então para isto que esse doudo Estragou o vibrátil plasma todo. Num suicídio graduado... igual à luz que o ar acomete.A desarrumação dos intestinos Assombra! Vede-a! Os vermes assassinos Dentro daquela massa que o húmus come. à noite. Sôfrego.. É uma trágica festa emocionante! A bacteriologia inventariante Toma conta do corpo que apodrece. o monstro as vítimas aguarda. Sentindo o odor das carnações abstêmias. Suas artérias hírcicas latejam. Há estratificações requintadíssimas De uma animalidade sem castigo. Nutrindo sua infâmia a leite e a trigo. Toda a sensualidade da simbiose. E até os membros da família engulham. No sombrio bazer domeretrício.. E explode. Lembra a fome incoercível que escancara A mucosa carnívora dos lobos. À guisa de um faquir. bastarda. vai gozar. ébrio de vício. consumir-se. Do seu zooplasma ofídico resulta. fazendo um s. brincam. reduzir-se À herança miserável dos micróbios! Estoutro agora é o sátiro peralta Que o sensualismo sodomita exalta. Vendo as larvas malignas que se embrulham No cadáver malsão. No horror de sua anômala nevrose... em suas clélulas vilíssimas. em lúbricos arroubos. Negra paixão congênita. Uivando. Numa glutonaria hedionda. pelos cenóbios?!.. Como as cadelas que as dentuças trincam No espasmo fisiológico da fome. Brancas bacantes bêbadas o beijam. Como que. O cuspo afrodisíaco das fêmeas.. E após tantas vigílias. Como no babilônico sansara . E à noite. 125 .

Que tateando nas tênebras. Que é talvez propriedade do carbono! Ah! Dentro de toda a alma existe a prova De que a dor como um dartro se renova. Mas muitas vezes. Reconhecendo. se estende Dentro da noite má.Com a veemência mavórtica do aríete E os arremessos de uma catapulta. bêbedo de sono. em rembrandtescas telas várias. Assim também.. esculpindo a humana mágoa. A família alarmada dos remorsos. E de su’alma na caverna escura. A asa negra das moscas o horroriza.. torna água Todo o fogo telúrico profundo 126 . Abranda as rochas rígidas. Numa coreografia de danados. É o despertar de um povo subterrâneo! É a fauna cavernícola do crânio -. observa através a tênue trança Dos filamentos fluídicos de um halo A destra descarnada de um duende. Dentro da elipse ignívoma da lua A realidade de uma esfera opaca. Mostrando. Quando o prazer barbaramente a ataca. com os candeeiros apagados. As incestuosidades sanguinárias Que ele tem praticado na família. Sente que megatérios o estrangulam. E autopsiando a amaríssima existência Encontra um cancro assíduo na consciência E três manchas de sangue na camisa! Míngua-se o combustível da lanterna E a consciência do sátiro se inferna. Na própria ânsia dionísica do gozo.. observa a ciência crua. Fazendo ultra-epiléticos esforços. Hirto. quando a noite avança. para agarrá-lo! Cresce-lhe a intracefálica tortura.. Acorda. Somente a Arte. As alucinações tácteis pululam. Essa necessidade de horroroso.Macbeths da patológica vigília.

Executando.O homicídio nas vielas mais escuras. Reverta à quietação datrava espessa E à palidez das fotosferas mortas! 127 . Prostituído talvez. Há-de ferir-me as auditivas portas. A aspereza orográfica do mundo! Provo desta maneira ao mundo odiento Pelas grandes razões do sentimento. E o turbilhão de tais fonemas acres Trovejando grandíloquos massacres. em suas bases. a desintegre. sem que. entanto. A orquestra arrepiadora do sarcasmo! Era a elegia panteísta do Universo. Julgava ouvir monótonas corujas.. -. entre daveiras sujas. E. Continua o martírio das criaturas: -. Chorando e rindo na ironia infausta Da incoerência infernal daquelas frases. À condição de uma planície alegre. ouvindo estes vocábulos. Era a canção da Natureza exausta. até que minha efêmera cabeça.. Da luz da lua aos pálidos venábulos. Que a mais alta expressãoda dor estética Consiste essencialmente na alegria.O último solilóquio dos suicidas -E eu sinto a dor de todas essas vidas Em minha vida anônima de larva!” Disse isto a Sombra.O ferido que a hostil gleba atra escarva.E reduz. Na produção do sangue humano imenso. -. Sem os métodos da abstrusa ciência fria E os trovões gritadores da dialética. Na ânsa de um nervosíssimo entusiasmo.

. discutindo. das pirâmides o quedo E atro perfil. Pasta um cavalo esplêndido da Arábia. Troam kinnors ! Depois tudo é tranqüilo.. na mais próxima planície. Apenas como um velho stradivário.. A Lua cheia Está sinistra.UMA NOITE NO CAIRO Noite no Egito. O céu claro e produndo Fulgura. Os mastins negros vão ladrando à lua. Dorme soturna a natureza sábia. Tonto do vinho. Convulso e roto. Embaixo. Vaga no espaço um silfo solitário. Num quiosque em festa alegre turba grita.. e sobre a paz do mundo A alma dos Faraós anda e vagueia. E dentro dançam homens e mulheres Numa aglomeração cosmopolita. No ângulo mais recôndito da rua Passa cantando uma mulher hebraica. exposto ao luar. Soluça toda a noite a água do Nilo! 128 . conversando. O Egito é sempre assim quando anoitece! Às vezes. A rua é triste. O Cairo é de uma formosura arcaica. parece Uma sombria interjeição de medo! Como um contraste àqueles mesereres. Executando evoluções de razzia Solta um brado epilético de injúria! Em derredor duma ampla mesa preta -.. Resplandece a celeste superfície.Última nota do conúbio infando -Vêem-se dez jogadores de roleta Fumando. um saltimbanco da Ásia.. no apogeu da fúria.

Como uma pele de rinoceronte Estendida por toda a minha vida! A noite fecundava o ovo dos vícios Animais. uma besta solta Soltasse o berro da animalidade. A matilha espantada dos instintos! Era como se. Dançavam. e tinha medo! Na austera abóbada alta o fósforo alvo Das estrelas luzia. Do carvão da treva imensa Caía um ar danado de doença Sobre a cara geral dos edifícios! Tal uma horda feroz de cães famintos. na alma da cidade.. Uivava dentro do eu . a irritar-me os globos oculares. Apregoando e alardeando a cor nojenta. 129 . Copiava a polidez de um crânio alvo. Livres de microscópios e escalpelos. indo em direção à casa do Agra. Eu. E aprofundando o raciocínio obscuro. Ponte Buarque de Macedo. Atravessando uma estação deserta. com a boca aberta. à luz de áureos reflexos. O calçamento Sáxeo. de asfalto rijo. O trabalho genésico dos sexos. Mas. Assombrado com a minha sombra magra. parodiando saraus cínicos. Fazendo à noite os homens do Futuro. Pensava no Destino. A ponte era comprida. então.. Lembro-me bem. atro e vidrento. E a minha sombra enorme enchia a ponte. Bilhões de centrossomas apolínicos Na câmara promíscua do vitellus . Eu vi.AS CISMAS DO DESTINO I Recife. Profundamente lúbrica e revolta. Mostrando as carnes.

Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas. 130 . o ignis sapiens do Orco Abafava-me o peito arqueado e porco Num núcleo de substâncias abrasantes. A vingança dos mundos astronômicos Enviava à terra extraordinária faca. Deus me castigava! Por toda a parte. Ninguém compreendia o meu soluço. ainda na placenta. pelo menos. Estendiam-me as mãos rudimentares! Mostravam-me o apriorismo incognoscível Dessa fatalidade igualitária. A cor do sangue é a cor que me impressiona E a que mais neste mundo me persegue! Essa obsessão cromática me abate. como um réu confesso. Havia um juiz que lia o meu processo E uma forca especial que me esperava! Mas o vento cessara por instantes Ou. E. Quisera qualquer coisa provisória Que a minha cerebral caverna entrasse. O ventobravo me atirava flechas E aplicações hiemais de gelo russo. Não sei por que me vêm sempre à lembrança O estômago esfaqueado de uma criança E um pedaço de víscera escarlate.Fetos magros. Ah! Com certeza. Posta em rija adesão de goma laca Sobre os meus elementos anatômicos. na ígnea crosta do Cruzeiro. Que fez minha família originária Do antro daquela fábrica terrível! A corrente atmosférica mais forte Zunia. No ardor desta letal tórrida zona. É bem possível que eu umdia cegue. Julgava eu ver o fúnebre candeeiro Que há de me alumiar na hora da morte.

Não era o cuspo só de um indivíduo Minado pela tísica precoce. Arrebatada pelos aneurismas. Na ascensão barométrica da calma. cinco. Ia engolindo. de tal arte. te segregam! Escarrar de um abismo noutro abismo. A hemoglobina vinha cheia de água! Cuspo. quatro. ansiado e contrafeito. seis e sete Vezes que eu me furei com um canivete. aos poucos. cortasse e recortasse A faculdade aziaga da memória. três. 131 . cujas caudais meus beiços regam. Que. quotidianamente. a hemoptísis! Na alta alucinação de minhas cismas O microcosmos líquido da gota Tinha a abundância de uma artéria rota. Que uma população doente do peito Tossia sem remédio na minh’alma! E o cuspo que essa hereditária tosse Golfava. Chegou-me o estado máximo da mágoa! Duas. Eu bem sabia. Igual ao ruído de um calhau redondo Arremessado no apogeu do estrondo. com certeza Era a expectoração pútrida e crassa Dos brônquios pulmorares de uma raça Que violou as leis da Natureza! Era antes uma tosse ubíqua. Sob a forma de mínimas camândulas.E até ao fim. em minha boca. Não! Não era o meu cuspo. Pelos fundibulários da montanha! E a saliva daqueles infelizes Inchava. Que eu. Benditas sejam todas essas glândulas. à guisa de ácido resíduo. estranha. Mandando ao Céu o fumo de um cigarro. para não cuspir por toda a parte.

À anatomia mínima da caspa. a espiar-me. Iluminava. Ninguém.Há mais filosofia neste escarro Do que em toda a moral do Cristianismo! Porque. estava ali. da cor de um doente de icterícia. ali posto De propósito. os duendes. Com a força visualística do lince. a rir. A companhia dos ladrões da noite. A camisa vermelha dos incestos. Imitando o barulho dos engasgos. Perpetravam-se os atos mais funestos. com as brancas tíbias tortas. então. Davam pancadas no adro das igrejas. lembrava ante o meu rosto. meus olhos distinguiram Da miniatura singular de uma aspa. sem pudicícia. Rodopiavam. Vai pela escuridão pensando crimes. E o luar. para hipnotizar-me! Em tudo. A falta de unidade na matéria! Os esqueletos desarticulados. Mas um lampião. Jamais exprimiria o acérrimo asco Que os canalhas do mundo me provocam! II Foi no horror dessa noite tão funérea Que eu descobri. Um sugestionador olho. Nessa hora de monólogos sublimes. Livres do acre fedor das carnes mortas. maior talvez que Vinci. Siva e Arimã. se no orbe oval que os meus pés tocam Eu não deixasse o meu cuspo carrasco. Embriões de mundos que não progrediram! 132 . o In e os trasgos. de certo. Buscando uma taverna que os açoite. Numa dança de números quebrados! Todas as divindades malfazejas.

133 . Pareciam pedir com a boca muda A ganglionária célula intermédia. Maior que as epopéias carolíngias! Era a revolta trágica dos tipos Ontogênicos mais elementares. fervendo! Nessa época que os sábios não ensinam. Desde os foraminíferos dos mares À grei liliputiana dos pólipos.Ser cachorro! Ganir incompreendidos Verbos! Querer dizer-nos que não finge. Escapando-se apenas em latidos! Despir a putrescível forma tosca. e vence-O. cinge-as À imperfeição! Mas vem o Tempo. os montes argilosos Criariam feixes de cordões nervosos E o neuroplasma dos que raciocinam! Almas pigméias! Deus subjuga-as. Na atra dissoluçào que tudo inverte. daquele horrendo Caos de corpos orgânicos disformes Rebentariam cérebros enormes. Todos os personagens da tragédia. Acho-a nesse interior duelo secreto Entre a ânsia de um vocábulo completo E uma expressão que não chegou à língua! Surpreendo-a em quatrilhões de corpos vivos. Cansados de viver na paz de Buda. E a palavra embrulhar-se na laringe. Nos antiperistálticos abalos Que produzem nos bois e nos cavalos A contração dos gritos instintivos! Tempo viria. distingo-a. Como bolhas febris de água. E o meu sonho crescia nosilâncio. A pedra dura. Deixar cair sobre a barriga inerte O apetite necrófago da mosca! A alma dos animais! Pego-a. em que.

Um conjunto de gosmas amarelas. E as coisas inorgânicas mais nulas Apregoavam encéfalos. a sós. medulas Na alegria guerreira da desforra! Os protistas e o obscuro acervo rijo Dos espongiários e dos infusórios Recebiam com os seus órgãos sensóricos O triunfo emocional do regozijo. E apesar de já não ser assim tão tarde. na dor forte do vômito. refletindo. 134 . Depositavam quase sem consciência As derradeiras forças musculares. igual a um amniota subterrâneo. sobre o meu caso Vi que. berrava.A planta que a canícula ígnea torra. Aquela humanidade parasita. Os bêbedos alvares que me olhavam. No meu temperamento de covarde! Mas. Iam depois dormir nos lupanares Onde. E sacudidos de um tremor indômito Expeliam. na glória da concupiscência. E eu me encolhia todo como um sapo Que tem um peso incômodo por cima! Nas agonias do delirium-tremens . jazia atravassada no meu crânio A intercessão fatídica do atraso! A hipótese genial do microzima Me estrangulava o pensamento guapo. Como um bicho inferior. Fabricavam destarte os bastodermas. aflita. Em cujo repugnante receptáculo Minha perscrutação via o espetáculo De uma progênie idiota de palermas. Com os copos cheios esterilizavam A substância prolífica dos sêmens! Enterravam as mãos dentro das goelas.

Prostituição ou outro qualquer nome. o eco particular do meu Destino. em tudo imerso. Rolam sem eficácia os amuletos. Há o malvado carbúnculo que mata A sociedade infante dos bezerros! Quantas moças que o túmulo reclama! E após a podridão de tantas moças. Os porcos espojando-se nas poças Da virgindade reduzida à lama! Morte. A inconsciência das máscaras de cera Que a gente prega. 135 . Minha filosofia te repele.. Forma difusa da matéria embele. Reboou. ponto final da última cena.. Oh! Senhora dos nossos esqueletos E das caveiras diárias que fabricas! E eu desejava ter. numa ânsia rara. Nessas perquisições que não têm pausa. Fazer da parte abstrada do Universo.e. Ao pensar nas pessoas que perdera. como um cordão. nas catedrais mais ricas. na cara! Era um sonho ladrão de submergir-me Na vida universal. por tua causa. pior que o remorso do assassino. III “Homem! por mais que a Idéia deintegres. tal qual. Numa impressionadora voz interna. Minha morada equilibrada e firme! Nisto. a morte é ingrata. embora o homem te aceite. Meu raciocínio enorme te condena! Diante de ti. É que as mulheres ruins ficam sem leite E os meninos sem pai morrem de fome! Por que há de haver aqui tantos enterros? Lá no “Engenho” também. num fundo de caverna.

saberás a causa De todos os fenômenos alegres! Em vão. fora Mister que. não como és. A própria humanidade sofredora! A universal complexidade é que Ela Compreende. magro homem. para que a Dor perscrutes. com a bronca enxada árdega. 136 . Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos. por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas. As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado. Mesmo ainda assim. seu todo não RESIDENCIA No quociente isolado da parcela! Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda! Como o machucamento das insônias Te estraga. sondas A estéril terra. o cordeiro simbólico da Páscoa. E se. estriada. Trazes. antes Fosses. A formação molecular da mirra. por vezes. quando toda a estuada Idéia Dás ao sôfrego estudo da ninféia E de outras plantas dicotiledôneas! A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta. se divide. e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem. em síntese. e a hialina lâmpada oca.Jamais. a refletir teus semelhantes. espirra. onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas! Porque.

A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come. -. O antagonismo de Tífon e Osíris. O achatamento ignóbil das cabeças. A mentira meteórica do arco-íris. O Amor e a Fome. A cristalização da massa térrea. As projeções flamívomas que ofuscam. a fera ultriz que o fojo Entra. O fogo-fátuo que ilumina os ossos. O tecido da roupa que se gasta. O homem grande oprimindo o homem pequeno A lua falsa de um parasseleno. A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos. as nódoas mais espessas. A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam. Deixa os homens deitados. abalando os solos. Os terremotos que.O orbe feraz que bastos jojos acres Produz’a rebelião que na batalha. As pálpebras inchadas na vigília. à espera que a mansa vítima o entre. Como uma pincelada rembrandtesca. as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopéias. sem mortalha. Que ainda degrada os povos hotentotes. Onde morreu o chefe da família. As aves moças que perderam a asa. O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea. Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia. O fogão apagado de uma casa. Lembram paióis de pólvora explodindo.Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo. 137 . Na sangueira concreta dos massacres.

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima; As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre da mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma; E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues... Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra! Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmem dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças! Poeta, feito malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos; Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores! O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Amálogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes! Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

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O Espaço -- esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência E só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana! As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, entretanto, compreendê-las. Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes! A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa! Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste! Quando chegar depois a hora tranqüila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila! Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo! Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

IV Calou-se a voz. A noite era funesta. E os queixos, a exibir trismos danados,

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Eu puxava os cabelos desgrenhados Como o Rei Lear, no meio da floresta! Maldizia, com apóstrofes veementes, No estentor de mil línguas insurretas, O convencionalismo das Pandetas E os textos maus dos códigos recentes! Minha imaginação atormentada Paria absurdos... Como diabos juntos, perseguiam-me os olhos dos defuntos Com a carne da esclerótica esverdeada. Secara a clorofila das lavouras. Igual aos sustenidos de uma endecha Vinha-me às cordas glóticas a queixa Das coletividades sofredoras. O mundo resignava-se invertido Nas forças principais do seu trabalho... A gravidade era um princípio falho, A análise espectral tinha mentido! O Estado, a Associação, os Municípios Eram mortos. De todo aquele mundo Restava um mecanismo moribundo E uma teleologia sem princípios. Eu queria correr, ir para o inferno, Para que, da psique no oculto jogo, Morressem sufocadas pelo fogo Todas as impressões do mundo externo! Mas a Terra negava-me o equilíbrio... Na Natureza, uma mulher de luto Cantava, espiando as árvores sem fruto. A canção prostituta do ludíbrio.

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A CARIDADE No universo a caridade Em contraste ao vicio infando É como um astro brilhando Sobre a dor da humanidade! Nos mais sombrios horrores Por entre a mágoa nefasta A caridade se arrasta Toda coberta de flores! Semeadora de carinhos Ela abre todas as portas E no horror das horas mortas Vem beijar os pobrezinhos. Torna as tormentas mais calmas Ouve o soluço do mundo E dentro do amor profundo Abrange todas as almas. O céu de estrelas se veste Em fluidos de misticismo Vibra no nosso organismo Um sentimento celeste. A alegria mais acesa Nossas cabeças invade... Glória, pois, á Caridade No seio da Natureza! Estribilho Cantemos todos os anos Na festa da Caridade A solidariedade Dos sentimentos humanos.

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OS DOENTES

I Como uma cascavel que se enroscava, A cidade dos lázaros dormia... Somente, na metróplole vazia, Minha cabeça autônoma pensava! Mordia-me a obsessão má de que havia, Sob os meus pés, na terra onde eu pisava, Um fígado doente que sangrava E uma garganta órfã que gemia! Tentava compreender com as conceptivas Funções do encéfalo as substâncias vivas Que nem Spencer, nem Haeckel compreenderam... E via em mim, coberto de desgraças, O resultado de bilhões de raças Que há muito desapareceram!

II Minha angústia feroz não tinha nome. Ali, na urbe natal do Desconsolo, Eu tinha de comer o último bolo Que Deus fazia para a minha fome! Convulso, o vento entoava um pseudosalmo. Contrastando, entretanto, com o ar convulso A noite funcionava como um pulso Fisiologicamente muito calmo. Caíam sobre os meus centros nervosos, Como os pingos ardentes de cem velas, O uivo desenganado das cadelas E o gemido dos homens bexigosos. Pensava! E em que eu pensava, não perguntes! Mas, em cima de um túmulo, um cachorro

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O hidrogênio e o oxigênio que tu choras Pelo falecimento dos teus filhos! Ah! Somente eu compreendo. a abóbora. os astros miúdos Reduziam os Céus sérios e rudos A uma epiderme cheia de sarampos! III Dormia embaixo. de errante rio. branda e beatífica. No Alto. A incógnita psique das massas mortas Que dormem. Apenas eu compreendo.Pedia para mim água e socorro À comiseração dos transeuntes! Bruto. A queixada específica de um burro! Gordo adubo de agreste urtiga brava. Em cuja álgida unção. 143 . como as ervas. Criando as superstições de minha terra. satisfeito. o álamo E a câmara odorífera dos sumos Absorvem diariamente o ubérrimo húmus Que Deus espalha à beira do seu tálamo! Nos de teu curso desobstruídos trilhos. Na esteira igualitária do teu leito! O vento continuava sem cansaço E enchia com a fluidez do eólico hissope Em seu fantasmagórido galope A abundância geométrica do espaço. Benigna água. A Paraíba indígena se lava! A manga. olhando os campos Circunjacentes. com a promíscua véstia No enbotamento crasso dos sentidos. a amêndoa. Além jazia os pés da serra. A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia. Meu ser estacionava. magnânima e magnífica. alto e hórrido. em quaisquer horas. o urro Reboava. sobre as hortas. a ameixa.

Nas cancerosidades do organismo! Falar somente uma linguagem rouca. Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas! Estas. Reboando pelos séculos vindouros. aos bocados. como inúmeros soldados. entre estrépitos e estouros. Alucinado. Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira. dores não recebem. 144 . Restos repugnantíssimos de bílis. Cortanto as raízes do último vocábulo. os micróbios assanhados Passearem. a existência Numa bacia autômata de barro. Adivinhando o frio que há nas lousas. adstritos ao quimiotropismo Erótico. Estas dis bacalhaus o óleo não bebem.Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles. Da degenerescência étnica do Ária Se escapava. O ruído de uma tosse hereditária. por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos. Estas não cospem sangue. Vômitos impregnados de ptialina. Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca! Expulsar. OH! desespero das pessoas tísicas. Um português cansado e incompreensível. Pintando o chão de coágulos sangüíneos! Sentir. estas não tossem! Descender dos macacos catarríneos. vendo em cada escarro O retrato da própria consciência! Querer dizer a angústia de que é pábulo E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca.

Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira! Aturdia-me a tétrica miragem De que. naquele instante. magras mulheres. com o vexame de uma fusa. Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi! E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer. me acorda. urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera! Porque a morte. em sonhos mórbidos. Nos ardores danados da febre hética. Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite. É a alfândega. Consagrando vossa última fonética A uma recitação de mesereres. A mágoa gaguejada de um cretino. 145 . Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta omnívora das lajes Do que morrerdes. com efeito. hoje. Alagava a medula dos Doentes! Do fundo do meu trágico destino.Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se. Consoante a minha concepção vesânica. como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba! Mas vos não lamenteis. em cachoeiras desobstruídas Encharcava os buracos das feridas. Saía. no Amazonas. a água. Onde a Resignação os braços cruza. Pelas algentes Ruas. resfriando-vos o rosto. onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto! IV Começara a chover.

A civilização entrou na taba Em que ele estava. Recebeu. E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra. Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos! Mas. espantada. A carcaça esquecida de um selvagem. Desterrado na sua própria terra.. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do mazombo . Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha! Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos. Diminuído na crônica do mundo! A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Na tumba de Iracema!.. caladas.Fedia. Cuspiu na cova do morubixaba ! E o índio. por fim. E agora. todas as inúbias. Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História! Como quem analisa uma apostema. acordando na desgraça. entregue a vísceras glutonas. Jazem. Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século. Viu toda a podridão de sua raça.. Exercia sobre ela ação funesta Desde o desbravamento da floresta à ultrajante invenção do telefone. diante a xantocróide raça loura. como um lúgubre ciclone. sem difíceis nuanças dúbias. Ah! Tudo. adstrito à étnica escória. Com uma clarividência aterradora. 146 .. De repente. tendo o horror no rosto impresso.

E eu. Os fantasmas hamléticos dispersos Atiram na consciência dos perversos A sombra dos remorsos famulentos. As mães sem coração rogavam pragas Aos filhos bons. A peçonha inicial de onde nascemos. Perfurava-me o peito a áspera pua do desânimo negro que me prostra. Maldiziam. 147 . Todos os vocativos dos blasfemos. ex. Hereditariedades politípicas Punham na minha boca putrescível Interjeições de abracadabra horrível E os verbos indignados das Filípicas. E quase a todos os momentos mostra Minha caveira aos bêbedos da rua.: o homem e o ofídio. com voz estentorosa. rolando sobre o lixo. Batia com o pentágono dos dedos Sobre um fundo hipotético de chagas! Diabólica dinâmica daninha Oprimia meu cérebro indefeso Com a força onerosíssima de um peso Que eu não sabia mesmo de onde vinha. Uma necessidade de suicídio E um desejo incoercível de ser morto! Naquela angústia absurda e tragicômica Eu chorava. No horror daquela noite monstruosa. Com a contorção neurótica de um bicho Que ingeriu 30 gramas de noz-vômica. Como que havia na ânsia de conforto De cada ser.Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa! V Era a hora em que arrastados pelos ventos. roído pelos medos.

A pragmática má de humanos usos Não compreende que a Morte que não dorme É a absorção do movimento enorme Na dispersão dos átomos difusos.E. Não me incomoda esse último abandono Se a carne individual hoje apodrece Amanhã. Confundir-me com aquela coisa porca! Vinha. cansado. às vezes. Eu voltarei. Consubstanciar-me todo com a imundície. como Cristo. era A saudade inconsciente da monera Que havia sido minha mãe antiga. Anelava ficar um dia. por epigênese. da árdua liça À substância inorgânica primeva De onde. 148 . em suma. porém. Com o horror tradicional da raiva corsa Minha vontade era. na terráquea superfície. Reduzido à plastídula homogênea. Era (nem sei em síntese o que diga) Um velhíssimo instinto atávico. veio Eva E a stirpe radiolar chamada Actissa . Menor que o anfióxus e inferior à tênia. Sem diferenciação de espécie alguma. Arrancar do meu próprio corpo a prova Da persistência trágica da força. Tentava. o anelo instável De. com o auxílio especial do osso masséter Mastigando homeomérias neutras de éter Nutrir-me da matéria imponderável. reaparece Na universalidadej do c arbono! A vida vem do éter que se condensa Mas o que mais no Cosmos me entusiasma É a esfera microscópica do plasma Fazer a luz do cérebro que pensa. perante a cova. como um homem doido que se enforca.

e as mãos. dando emoção à pedra Na acústica de todos os planetas! VI À álgida agulha. embalde. doentes de hematúria. As prostitutas.. até que.. 149 . e. Uma. Nem tínheis. Cheirava com prazer no sacrifício A lepra má que lhe roía o braço! E ensangüentava os dedos da mão nívea Com o sentimento gasto e a emoção pobre. De certo. vítima última da insânia. Quase que escangalhada pelo vício. virgem fostes... Nessa alegria bárbara que cobre Os saracoteamentos da lascívia. a perversão de que era presa o sensorium daquela prostituta Vinha da adaptação quase absoluta À ambiência microbiana da baixeza! Entanto. à-toa.. análoga era. alva. entre oscilantes chamas. agora. maior que a Bíblia e a Fedra Reviverá. Não tínheis ainda essa erupção cutânea. Duas mamárias glândulas estéreis! Ah! Certamente não havia ainda Rompido.Quando eu for misturar-me com as violetas Minha lira.. com violência. Acordavam os bairros da luxúria. para além. ignóbil. derreada de cansaço. a saraiva Caindo. O sol malvado que secou a fonte De vossa castidade agora finda! Talvez tivésseis fome. Mas. Estendestes ao mundo. quando o éreis. Um cão agora Punha a atra língua hidrófoba de fora Em contrações miológicas de raiva. Se extenuavam nas camas. no horizonte.

Lançavam pinceladas pretas de óleo Na arquitetura arcaica dos sobrados. eu. Sentia. E estais velha! -. Somente as bruxas negras da derrota Freqüentam diariamente vosso quarto! prometem-vos (quem sabe?!) entre os ciprestes Longe da mancebia dos alcouces. A consciência terrível desse inseto! Regougando. Desde as musculaturas que apodrecem À ruína vegetal dos lírios secos. Cismava no propósito funéreo Da mosca debochada que fareja O defunto. A racionalidade dessa mosca. argots e aljâmias. 150 . Como uma associação de monopólio. Como quem nada encontra que o perturbe. inquieto. no chão frio da igreja. porém. E vai depois levá-lo ao cemitério! E esfregando as mãos magras. que a sociedade vos enxota. Nas quietudes nirvânicas mais doces O noivado que em vida não tivestes! VII Quase todos os lutos conjugados. A energúmena gei dos ébrios da urbe Festejava seu sábado de infâmias. Dentro da noite funda um braço humano Parecia cavar ao longe um poço Para enterrar minha ilusão de moço. na craniana caixa tosca. Como a boca de um poço artesiano! Atabalhoadamente pelos becos. Eu pensava nas coisas que perecem.Fostes vender a virginal coroa Ao primeiro bandido do arrabalde.De vós o mundo é farto. E hoje.

palpável. escorraçando a festa. sobre a palha espessa. com o ar de quem empesta. uma cabeça Que possa mastigar na hora da morte E nua. E a ébria turba que escaras sujas masca. em que eu entrei adrede. Vem para aqui. que a morféia miserável Tornava às impressões táteis. O ar ambiente cheirava a ácido acético. Mas. Puxava aquele povo de demônios Para a promiscuidade das adegas. Rugindo fundamente nos neurônios. de repente. O fácies do morfético assombrava! -. Pela degradação dos que o povoam. Punham-lhe num destaque horrendo o horrendo Tamanho aberratório das orelhas. Quanta gente. após baixar ao caos budista. À falta idiossincrásica de escrúpulo. roubada à humana coorte Morre de fome.Aquilo era uma negra eucaristia. lúpulo E outras substâncias tóxicas da tasca. Dá-me a impressão de um boulevard que fede. estriges voam. E o cemitério. Sem ter. nos braços de um canalha 151 . assim inchado. como Ugolino. Em cujo aspecto o olhar perspícuo prendo. nesta hora. Apareceu.A estática fatal das paixões cegas. Como se fosse um corpo organizado! VIII Em torno a mim. Já podre. Onde minh’alma inteira surpreendia A Humanidade que se lamentava! Era todo o meu sonho. Absorvia com gáudio absinto. A mandíbula inchada de um morfético! Saliências polimórficas vermelhas.

a alma aos arrancos. Comendo carne humana.porque o madapolão para a mortalha Custa 1$200 ao lojista! Que resta das cabeças que pensaram?! E afundado nos sonhos mais nefastos. À sodomia indigna dos moscardos. Eu maldizia o deus de mãos nefandas Que. como quem salta. Na impaciência do estômago vazio. transgredindo a igualitária regra Da Natureza. Eu devorava aquele bolo frio Feito das podridões da Natureza! E hirto. vinham Com a podridão dar de comer às flores! Os defuntos então me ofereciam Com as articulações das mãos inermes. Nos corpos nus das moças hotentotes Entregues. Num prato de hospital. Ao pegar num milhão de miolos gastos. iguais a irmãs de caridade. Os evolucionistas benfeitores Que por entre os cadáveres caminham. ao clarão de alguns archotes. Eu mendigava aos vermes insubmissos 152 . cheio de vermes. Vendo passar com as túnicas obscuras. Todos os animais que apodreciam! É possível que o estômago se afoite (Muito embora contra isto a alma se irrite) A cevar o antropófago apetite. Todos os meus cabelos se arrepiaram. Pisando. atira a raça negra Ao contubérnio diário das quitandas! Na evolução de minha dor grotesca. As escaveiradíssimas figuras Das negras desonradas pelos brancos. entre fardos. à meia-noite! Com uma ilimitadíssima tristeza. a camisa suada.

Proporcionando-me o prazer inédito. O benefício de uma cova fresca. Manhã. Por sobre o coração dos que sofriam! Do meu cérebro à absconsa tábua rasa Vinha a luz restituir o antigo crédito. após a noite de seis meses. Os raios caloríficos da aurora. E arrancara milhares de existências Do ovário ignóbil de uma fauna imunda. às vezes. Como o íncola do pólo ártico. Dentro da filogênese moderna. Restavam só de Augusto A forma de um mamífero vetusto E a cerebralidade de um vencido! O gênio procriador da espécie eterna Que me fizera. No frio matador das madrugadas.Como indenização dos meus serviços. Ia arrastando agora a alma infecunda Na mais triste de todas as falências. No céu calamitoso de vingança Desagregava. À apreensão fisiológica do faro O odor cadaveroso dos destroços! IX O inventário do que eu já tinha sido Espantava. em vez de hiena ou lagarta. Nunca mais as goteiras cairiam Como propositais setas malvadas. Absorve. O adesionismo biôntico das formas Multiplicadas pela lei da herança! 153 . trazendo-me ao sol claro. Era a volúpia fúnebre que os ossos Me inspiravam. déspota e sem normas. Uma sobrevivência de Sidarta. E eis-me a absorver a luz de fora. De quem possui um sol dentro de casa.

vinha de dentro Da matéria em fusão que ainda há no centro.. tudo a extenuar-se Estava. corre. Igual a um parto. os sáxeos prédios tortos Tinham aspectos de edifícios mortos. O começo magnífico de um sonho! Entre as formas decrépitas do povo. Hirto de espanto.A ruína vinha horrenda e deletéria Do subsolo infeliz. em colônias fluídas.. Decompondo-se desde os alicerces! A doença era geral. Para alcançar depois a periferia! Contra a Arte. Acompanhava. Eu sentia nascer-me n’alma.. Vinha da original treva noturna. O Espaço abstrato que não morre Cansara. o vagido de uma outra Humanidade! E eu. com um prazer secreto. Que vinha substituir a Espécie Humana! 154 . numa furna. Já batiam por cima dos estragos A sensação e os movimentos vagos Da célula inicial de um Cosmos novo! O letargo larvário da cidade Crescia. oh! Morte. O ar que. entanto. em vão teu ódio exerces! Mas.. a meu ver. Parecia também desagregar-se! O prodromos de um tétano medonho Repuxavam-me o rosto. com os pés atolados no Nirvana. A gestação daquele grande feto.

têm carne. Que um dia no ano trágico de mil E setecentos e cinqüenta e cinco. Tu representas toda essa Lisboa De glórias quase sobrenaturais.. Ai! Como Os que. Petrarca A queda do teu lírico arrabil De um sentimento português ignoto Lembra Lisboa.. Apenas com uma diferença triste. Antegozando a ensangüentada presa. Com a diferença que Lisboa existe E tu. E agora.. Possa a terra vingar-se do meu crime Comendo-me também. Como! E pois que a Razão me não reprime. como eu. Rodeado pelas moscas repugnantes. amigo. É a hora De comer.. não existes mais! 155 . Foi abalada por um terremoto! A água quieta do Tejo te abençoa.À MESA Cedo à sofreguidão do estômago. DUAS ESTROFES À memória de João de Deus Ahi! ciechi! il tanto affaticar che giova? Tutti torniamo alla gran madre antica E il nostro nome appena si ritrova. Para comer meus próprios semelhantes Eis-me sentado à mesa! Como porções de carne morta. bela como um brinco. com este assomo Que a espécie humana em comer carne tem!. Coisa hedionda! Corro.

Mas o ramo fragílimo e venusto Que hoje nas débeis gêmulas se esboça. à amostra. haurindo amplo deleite. Relembrarás chorando o que eu te disse. Há de crescer. Assim.. À sombra dos sicômoros eternos! 156 . Essas humanas coisas pequeninas A um biscuit de quilate muito raro Exposto aí. sem pretensões. entre dores.. a atmosfera se encherá de aromas. No lábio róseo a grande teta farta -. comparo. te emergiu do ventre! E puseste-lhe.Fecunda fonte desse mesmo leite Que amamentou os éfebos de Esparta.MATER Como a crisálida emergindo do ovo Para que o campo flórido a concentre. Bebendo a vida no teu seio gordo! Pois. -Com que avidez ele essa fonte suga! Ninguém mais com a Beleza está de acordo. E o antigo leão. O Sol virá das épocas sadias. Clara. Há de beijar-te as mãos todos os dias! Quando chegar depois tua velhice Batida pelos bárbaros invernos. quanto a mim. Do que essa pequenina sanguessuga. que te esgotou as pomas. há de tornar-se arbusto E álamo altivo de ramagem grossa. sujo de sangue. um novo Ser. oh! Mãe. nas vitrinas.

Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?! Quisera antes. Tenho estremecimentos indecisos E sinto. as tesouras Brônzeas. Nabucodonosor ser do Pau d’Arco. maior do que Laplace. também gira e redemoinham. Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos! Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava. não prendi minha existência?! Por que Jeová. Os pães -. eu vivo pelos matos.filhos legítimos dos trigos -Nutrem a geração do Ódio e da Guerra.. haurindo o tépido ar sereno. roendo a substância córnea de unha. Dormir na manjedoura com os cavalos! 157 . Tais quais.GEMIDOS DE ARTE I Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!. Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinase?! Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos. Por causa disto. numa ininterrupta Adesão.. Magro. mordendo glabros talos. Beber a acre e estagnada água do charco. com que guarda meus sapatos. nos fortes fulcros. O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos! Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras.

E eu vou andando. pegajoso e untuoso ao tacto! Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas 158 . onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana! Uma região sem nódoas e sem lixos. no agudo grau da última crise. cheio de chamusco. Chupar os ossos das alimarias! Barulho de mandíbulas e abdômens! E vem-me com um desprezao por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens! Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região. Subtraída à hediondez de ínfimo casco. e não se contamina! Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um vente inchado que se anoja. goza O lodo.Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Úmido. Com a flexibilidade de um molusco. O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços! II O sol agora é de um fulgor compacto. Beija a peçonha. Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos! Outras constelações e outros espaços Em que. apalpa a úlcera cancerosa. Dorme num leito de feridas. Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto! E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos.

Em grandes semicírculos aduncos. Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta! 159 .. Eu. bolem Nas árvores.. A terra cheira. no árdego trabalho. Ladra furiosa a tribo dos podengos. pelo ar. Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas. Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça! Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto. morda!. largando pêlos.Augusto . Um pássaro alvo artífice da teia De um ninho. em vez do nome -. fustigue. queime.. Os ventos vagabundos batem. O ar cheira. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos. A câmara nupcial de cada ovário Se abre. depois de tanta Tristeza. No chão coleia a lagartixa. De árvore em árvore e de galho em galho. quero..E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza! O sol de cima espiando a flora moça Arda. E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen. Com a rapidez duma semicolcheia. corte. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário. salta. depois de morrer. Voam à semelhan ça de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos. Entrançados.. Nos terrenos baixos..

Estão olhando aquelas coisas mortas! Fico a pensar no Espírito disperso Que. uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos. dos esconderijos. Como pela avenida das Mappales. Une todas as coisas do Universo! 160 . O cupim negro broca o âmago fino Do teto. Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. sem conchego nobre. unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança. Me arrasta à casa do finado Toca ! Todas as tardes a esta casa venho. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho. Amontoadas em grossos feixes rijos. Nédios. Urram os bois. Por saibros e por cem côncavos vales. Não sei que subterrânea e atra voz rouca. Viveu. Como um anel enorme de aliança. batendo a cauda. As lagartixas. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha.III Pelo acidentalíssimo caminho Faísca o sol. sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho! Nos outros tempos e nas outras eras. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino. Pintam caretas verdes nas taperas. outrora. em vez de flores. como exóticos pintores. À dura luz do sol resplandecente. Na bruta dispersão de vítreos cacos. Trôpega e antiga. O aziago ar morto a morte Fede. Aqui. O lodo obscuro trepa-se nas portas. Os musgos. Quantas flores! Agora.

Julgo ver este Espírito sublime... À carbonização dos próprios ossos! 161 .. Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite. arrebentando a horrenda calma. Chamando-me do sol com as suas asas! Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares. trabalhando aos brancos! Seja este sol meu último consolo. E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol. A lamparina quando falta o azeite Morre. É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada! Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre. com a misericórdia de um tijolo!. sem pai que me ame. como quem raspa a sarna. e se gritio é para que meu grito Seja a revelação deste Infiniti Que eu trago encarcerado da minh’alma! Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir. com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime. De pé.E assim pensando. Grito.. olha Melancolicamente para o mundo! Essa alegria imaterializada. é o óbolo obscuro. Só.. É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha. Súbito. Que por vezes me absorve. da mesma forma que o homem morre.. à luz da consciência infame. aqui.

em coréas doudas. Bramando. O eretismo das classes superiores E o orgasmo bastardíssimo da plebe! É ela que. Lúbrica. urna de ovos mortos. à falta Da água criadora que alimenta as proles! É ela que. em contorções sombrias. à luz do olhar protervo. A escuridão dos gineceus falidos E a desgraça de todos os ovários! Irrita-se-lhe a carne á meia-noite. ébria e lasciva. O indumento vilíssimo do servo Ao brilho da augustal toga pretexta. hórridos uivos Na mesma esteira pública.. Na vizinhança aziaga dos ossuários Representa. a âmbulas moles. a arquivar credos desfeitos. hirta. E a mulher. Sofre em cada molécula a angústia alta De haver secado.A MERETRIZ A rua dos destinos desgraçados Faz medo. espremendo os peitos. Reduzidos.. recebe. de cabelos ruivos. Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos. Uma mulher completamente nua! É a meretriz que. como o estepe. Espicaça-a a ignomínia. aliando. à lua. Na vacuidade das entranhas frias O esgotamento intrínseco da besta! E ela que. Entre farraparias e esplendores. através os meus sentidos. funcionária dos instintos. Sente. Ouvem-se os brados Da danação carnal. arremessada sobre o rude 'Despenhadeiro da decrepitude. O Vício estruge. Na sodomia das mais negras bodas Desarticula-se. Gane instintivamente de luxúria! Navio para o qual todos os portos Estão fechados. Com as mãos chagadas. excita-a o açoite Do incêndio que lhe inflama a língua espúria. por fim. alta noite. 162 .

aos tácitos apelos Das suas carnes e dos seus cabelos. Para a Finalidade Transcendente Gera o prodígio anímico da Insânia! Nas frias antecâmaras do Nada O fantasma da fêmea castigada. Lembra o ruído harto azorrague A vergastar ásperos dorsos grossos. Ei-la... pela própria hereditariedade A lei da seleção disfarça em Vício! É o júbilo aparente da alma quase A eclipsar-se.. E é aterradora essa alegria de ossos Pedindo ao sensualismo que os esmague! É o pseudo-regozijo dos eunucos Por natureza. Toda a sensualidade tempestuosa Dos apetites bárbaros do Sexo! 163 . de bruços. filha do inferno. em cada humana nebulosa. Pagando com volúpia o crime eterno De não ter sido fiel ao seu destino! E o Desespero que se faz bramido De anelo animalíssimo incontido. no horror da ocídua fase Esterilizadora de órgãos.. alvo e desnudo A síntese eucarística de tudo Que não se realizou na Natureza! Antigamente. Fulgia.. bêbeda de gozo Saciando o geotropismo pavoroso De unir o corpo à terra famulenta! Nesse espolinhamento repugnante O esqueleto irritado da bacante Estrala.. já morta essencialmente.Chão de onde unia só planta não rebenta. E a dor profunda da incapacidade Que.. Na óptica abreviatura de um reflexo. Passa agora ao clarão da lua acesa E é seu corpo expiatório. dos que são caducos Desde que a Mâe-Comum lhes deu início.. Mais que a vaga incoercível na água oceânea. E a Carne que. É o hino Da matéria incapaz.

Saem da infância embrionária e erguem-se. impune. Vinha saciar a milenária fome Dentro das abundâncias do seu leito! Toda a libidinagem dos mormaços Americanos fluía-lhe dos braços.. Criando concupiscências infinitas Como eviterno lobo insatisfeito. Resíduos memoriais tornam-se luzes Fazem-se idéias e ela vê as cruzes Do seu martirológio miserando! Inícios atrofiados de ética.O atavismo das raças sibaritas. hírcica.. Que. adultos. Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas Lembrava um transbordar de ânforas cheias. A hora da morte acende-lhe o intelecto E à úmida habitação do vício abjecto Afluem milhões de sóis.. talvez.. Irradiava-se-lhe. ânsia De perfeição. decerto. das veias E em torrencialidades quentes e úmidas.. Ficou rolando.. Lançando a sombra horrível dos seus vultos Sobre a noite fechada daquela alma! É o sublevantamento coletivo De um mundo inteiro que aparece vivo.. radiando. sonhos de culminância. e a estraga Na delinqüência . Na homofagia hedionda que o consome. Numa cenografia de diorama. Como o . Pudera progredir. Brilha na prostituta moribunda Como a fosforescência sobre a lama! É a visita alarmante do que outrora Na abundância prospérrima da aurora. momentaneamente luz fecunda.. Agarrou-se-lhe aos seios impudicos Como o abraço mortífero do Ficus 164 .. Libertos da ancestral modorra calma. do deserto! Vede! A prostituição ofídia aziaga Cujo tóxico instila a infâmia.. como aborto inútil. adstrito a inferior plasma inconsútil..... rubros. Mas que.

................ Enroscou-se-lhe aos abraços com tal gosto........................................................ ................................................................................... Na horrorosa avulsão da forma nívea Dizer ainda palavras de lascívia............................................................. 165 ...................................................... ......... ao trágico ditame............... .................................................................................. Mordeu-lhe a boca e o rosto....................................... oca.....................Sugando a seiva da árvore a que se une! ..... . condenada......................................................................... .............................................................. Oferecer-se à bicharia infame Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos! Sentir a língua aluir-se-lhe na boca E com a cabeça sem cabelos........ .......... .................. Ser meretriz depois do túmulo! A alma Roubada a hirta quietude da urbe calma Onde se extinguem todos os escolhos: E... ..................... .................................. ............................................................................. ...........

Integralmente desfibrado e mole. É Espírito.. Pudera eu ter. atenta a orelha cauta. Todas as ciências menos esta ciência! Certo. observo o amor. Descasco-a. enfim. Diverso é.. conheço o seu conteúdo. amo Mas certo. que o idioma em que te eu falo Possam todas as línguas decliná-lo Possam todos os homens compreendê-lo. o ponto outro de vista Consoante o qual. é como a cana azeda. consoante o qual. Para que. pois.VERSOS DE AMOR A um poeta erótico Parece muito doce aquela cana. provo-a. Que anda acima da carne miserável Como anda a garça acima dos açudes! Para reproduzir tal sentimento Daqui por diante. eu que idolatro o estudo. chupo-a. Porque o amor. Como um saco vazio dentro d’alma! 166 . em ânsias. por experiência. Cuida. É assim como o ar que a gente pega e cuida. Quis saber que era o amor.o inventor da flauta -Vou inventar também outro instrumento! Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo Ambiciono. A toda a boca que o não prova engana. o egoísta amor este é que acinte Amas. é éter. não o estar pegando! É a transubstanciação de instintos rudes. é substância fluida. ilusão treda! O amor. do egoísta Modo de ver. oposto a mim. E hoje que. o observas. poeta. enfim. Como Mársias -. Por conseguinte Chamas amor aquilo que eu não chamo. chegando à última calma Meu podre coração roto não role. Imponderabilíssima e impalpável. tal como eu o estou amando. Oposto ideal ao meu ideal conservas. este o amor não é que. entretanto.

Que importa que. horrendo e preto O áspide abjeto do Pesar se mova!. 167 . Como Vulcano. os monstros zombeteiros. Vem-lhe á imaginação este soneto: "A princípio escrevia simplesmente Para entreter o espírito. trabalhar contente. Tenha a sorte de Cícero proscrito Ou morra embora. em ânsias.A maldade do mundo é muito grande. trágico e maldito. . E só.. opresso.O pensamento é uma locomotiva Tem a grandeza duma força viva Correndo sem cessar para o Progresso. sobre a forja ardente Da ilha de Lemnos. Durante as vinte e quatro horas do dia! Riam de mim. que devia. contra ele.. depois disso. a tumbal janela E diz. abre. Trabalharei assim dias inteiros. no quadrilátero da alcova. Entendi. com o seu grande grito. olhando o céu que além se expande: ".A LUVA Para o Augusto Belmont Pensa na glória! Arfa-lhe o peito... Como Camões morrendo sobre um catre!" Nisto. Escrevia Mais por impulso de idiosincrasia Do que por uma propulsão consciente... Mas meu orgulho ainda é maior do que ela! Ruja a boca danada da profana Coorte dos homens. Sem ter uma alma só que me idolatre.

sacudindo-o todo. E como um desafio à eternidade Atira a luva para o próprio Cristo! Chove.Que meu orgulho do alto do Infinito Suplantará a própria espécie humana! Quebro montanhas e aos tutões resisto Numa absolta impassibilidade". Sobre a cidade geme a chuva. Batem-lhe os nervos. E na suprema convulsão o doudo Parece aos astros atirar a luva! 168 .

Dizia. Como um cara. íntegra.“Que esta alucinação tátil não cresça!” -.NOITE DE UM VISIONÁRIO Número cento e três. E a ela se aliava o ardor das sirtes líbias. nas telúrias reservas. Rua Direita. lhe entregue. Cortanto o melanismo da epiderme. num canto de carro. É a potencialidade que me eleva Ao grande Deus. recebendo injúrias. sob os pés do orgulho humano. e erguia. Recebiam os cuspos do desprezo.ca! Perante o inexorável céu aceso Agregações abióticas espúrias. alto. O reino mineral americano Dormia. Com a rebeldia acérrima dos nervos Minha atormentadíssima cabeça. Mas a aguadilha pútrida o ombro inerme Me aspergia. Que forma a coerência do ser vivo. A essa hora. por ver-vos. E a cimalha minúscula das ervas. Arimânico gênio destrutivo Desconjuntava minha autônoma alma Esbandalhando essa unidade calma. Eu tinha a sensação de quem se esfola E inopinadamente o corpo atola Numa poça de carne liquefeita! -. 169 . banhava minhas tíbias. Com os ligamentos glóticos precisos. oh! céu.este sombrio personagem Do drama panteístico da treva! Depois de dezesseis anos de estudo Generalizações grandes e ousadas Traziam minhas forças concentradas Na compreensão monística de tudo. e absorve em cada viagem Minh’alma -. Como quem é levado para o hospício Aos trambolhões. E eu sí a tremer com a língua grossa E a volição no cúmulo do exício. E não haver quem.

o ancilóstomo. Dedos denunciadores escreviam Na lúgubre extensão da rua preta Todo o destino negro do planeta. O motor teleológico da Vida Parara! Agora. com o ar horrível. O vibrião. Pareciam talvez meu epitáfio. Pela alta frieza intrínseca. lembravam Toalhas molhadas sobre as minhas pernas. úmida e fresca. Com a abundância de um geyser deletério. E no estrume fresquíssimo da gleba Formigavam. com a símplice sarcode. A ínfima fauna abscôndita e grotesca Da família bastarda dos helmintos. Um necrófilo mau forçava as lousas E eu -. Um pedaço de língua disponível Para a filogenética vingança! A cidade exalava um podre béfio: Os anúncios das casas de comércio. As vegetalidades subalternas Que osserenos noturnos orvalhavam. o colpode E outros irmãos legítimso da ameba! E todas essas formas que Deus lança No Cosmos. Onde minhas moléculas sofriam.coetâneo do horrendo cataclismo -Era puxado para aquele abismo No redemoinho universal das cousas! 170 . A química feroz do cemitério Transformava porções de átomos juntos No óleo malsão que escorre dos defuntos. Mais tristes que as elegais de Propércio. Vinha do coração quente da terra Um rumor de matéria dissolvida. em diástoles de guerra.A liberdade de vingar em risos A angústia milenária que o persegue! Bolia nos obscuros labirintos Da fértil terra gorda. me pediam.

. Em atalaia às gerações passadas! Um crepúsculo imenso. Em passo lento. dentro. Fulgia em tudo uma estriação violeta E um violáceo clarão banhava os mochos Que em torno estavam da mesquita preta. E pelas catacumbas desprezadas. e o olhar errante. Abandonada aos lobos e aos leopardos Numa floresta lúgubre e esquisita. nos altares esboroados. ampla e brilhante.. nunca visto Tauxiava o Céu de grandes roxos Da mesma cor da túnica de Cristo. Já na eminência da amplidão sidérea Como uma umbela. Foram caindo como estalactites Sobre o ouro e a prata das alfaias priscas 171 . A Lua encheu o espaço sem limites E. a viúva. o passo constrangendo. foi transpondo a porta.Um vento frio começou gemendo. rutilava Lantejoulada de opalinos crivos. Súbito alguém. Eternamente aberta ao sol e à chuva. Parou em frente da mesquita morta. aos lampejos derradeiros Das irisadas vespertinas velas.A VITÓRIA DO ESPÍRITO Era uma preta. funeral mesquita. Feras rompiam tolos e balseiros. Os astros mortos refulgiam vivos E a noite. se desenrolava A esteira astral da retração etérea. . Engalanava-lhe as paredes frias Uma coroa de urzes e de cardos Coberta em pálio pelas laçarias. Uma vez. Era uma viúva. Mochos vagavam como sentinelas.

O próprio Deus cantava na floresta! Nos arvoredos rejuvenescidos. Morria a noite. E havia no atro olhar dessas panteras Essa alegria doida da carnagem Que é a alegria única das feras. As flâmulas altivas Do sol nascente erguiam-se vermelhas. arremetendo. No desfilar de sua carne morta A transitoriedade da matéria! 172 . O espírito da viúva se quedara Ao contemplar dessa fulgente porta E dessa clara e alva redoma aérea. na redoma clara Que envolve a porta da região etérea. Tiram-lhe todas ali mesmo a vida.Um dilúvio de fósforos prateados E uma chuva doirada de faíscas. por um chão de onagras Vinha passeando corno numa viagem Um grupo feio de panteras magras. infernais ardendo Todas as feras. E raivosas. entanto. as panteras todas Avançam para a viúva desvalida. A Natureza celebrava a festa Do astro glorioso em cantos e baladas . Além. entretanto. E iam cair em pérolas de sangue Sobre as asas doiradas das abelhas. contra ela. E sobre o corpo da viúva exangue. Fora. E ardendo na impulsão das ânsias doidas E em sevas fúrias. Como uma exposição de carnes vivas. Estrugiam canções desesperadas De misereres e de sustenidos.

A saudade interior que há no meu peito. Em negras nuanças lúgubres e aziagas Vejo terribilíssimas adagas.. E por essa finíssima epiderme Eis-me passeando como um grande verme Que. ao sol.. no meio. entre assombros.A ILHA DE CIPANGO Estou sozinho! A estrada se desdobra Como uma imensa e rutilante cobra De epiderfe finíssima de areia. Impressionado sem cessar com a Morte E sentindo o que um lázaro não sente. Verde. exata. E ao longe soam trágicos fracassos De heróis. quem diante duma cordilheira. Pára. À cuja sombra descansou Colombo! Foi nessa ilha encantada de Cipango.... Assim. Os olhos volvo para o céu divino E observo-me pigmeu e pequenino Através de minúsculos espelhos.. em plena podridão. Atravessando os ares bruscamente. passeia! A agonia do sol vai ter começo! Caio de joelhos. num enleio doce. Da qual. partindo e fraturando os braços Nas pontas escarpadas dos rochedos! Mas de repente. em luz perpétua. Rica.. trêmulo.. tenho alucinações de toda a sorte. afetando a forma de um losango. 173 . Na ilha encantada de Cipango tombo. pela vez primeira.. Anunciando desmoronamentos De mil lajedos sobre mil lajedos.. ostentando amplo floral risonho. Sente vontade de cair de joelhos! Soa o rumor fatídico dos ventos. Ofereço Preces a Deus de amor e de respeito E o Ocaso que nas águas se retrata Nitidamente repdoruz. Qual num sonho arrebatado fosse. brilha A árvore da perpétua maravilha.

.. A luz descreve siguezagues tortos Enviando à terra os derradeiros beijos..Que Toscanelli viu seu sonho extinto E como sucedeu a Afonso Quinto Foi sobre essa ilha que extingui meu sonho! Lembro-me bem. Mas veio o vento que a Desgraça espalha E cobriu-me com o pano da mortalha. Gozei numa hora séculos de afagos. E como agora a lua cheia brilha! Ilha maldita vinte vezes a ilha Que para todo o sempre me fez triste! 174 . Banhei-me na água de risonhos lagos. Passa o seu enterro!. Que estou cosendo para os meus amores! Desde então para cá fiquei sombrioi! Um penetrante e corrosivo frio Anestesiou-me a sensibilidade E a grandes golpes arrancou as raízes Que prendiam meus dias infelizes A um sonho antigo de felicidade! Invoco os Deuses salvadores do erro.. Pela estrada feral dois realejos Estão chorando meus amores mortos! E a treva ocupa toda a estrada longa.. O Firmamento é uma caverna oblonga Em cujo fundo a Via-Láctea existe. A tarde morre. Nesse maldito dia O gênio singular da Fantasia Convidou-me a sorrir para um passeio. Iríamos a um país de eternas pazes Onde em cada deserto há mil oásis E em cada rocha um cristalino veio.... E finalmente me cobri de flores.

a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco. em lúcido véu.. Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados. Vai uma onda. Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue. fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça! 175 . esse vai Para o túmulo que o cobre. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas. A Lua .globo de louça Surgiu. de cima. Espelham-se os esplendores Do céu. Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam. Vagueia um poeta num barco.BARCAROLA Cantam nautas. Quem as esconda. Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta. O Céu. em reflexos. as esconda. outro se ergue e sonha. vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem. outro cai. nas Águas. Se um cai..

.. "O poeta é como Jesus! "Abraça-te á tua Cruz "E morre. Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse! Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu. choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas! 176 . porém.... Mais um coveiro do Verso! Cantam flautas. Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia. "Sonhador do último sonho! "Numa redoma ilusória "Cercou-te a glória falaz. "Viajeiro da Extrema-Unção.Ouça do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar. forte. E como um requiem profundo De tristíssimos bemóis. "Mas nunca mais. Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma. "Fecha-te nesse medonho "Reduto de Maldição.. poeta da Morte!" . nunca mais "Há de cercar-te essa glória! "Nunca mais! Sê. Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou.

Da República a nova sublimada. É que baqueia a vida escravizada! Já se ouvem os clangores do pregoeiro. Da liberdade ao toque alvissareiro. Rola um drama que a Pátria exalça e doura Numa auréola de paz imorredoura. A bênção do valor dos vossos filhos! 177 . Não! que esse ideal puro.Estrela d'Alva imaculada e pura! É livre a Pátria outrora opressa e exangue! Esse labéu que mancha a glória pública. e há de elevar-se neste sonho Ao topo azul das Glórias Imortais! Esplende. risonho. Como um Tritão. oh! Redentora d'alma. Essa luz etereal bendita e calma. Oh! Liberdade.AVE LIBERTAS Ao clarão irial da madrugada. essa bendita e branca Luz que os negrores da opressão espanca. A República rola-lhe nos ombros. fazei que destes brilhos. E ali do despotismo entre os escombros. Enquanto fora na trevosa agrura Sucumbe o servilismo. Manchar não pode as aras da República. Fulgente do valor da vossa glória. oh Pátria. Vós. Banhou-se o coração do Brasileiro Num eflúvio de luz auroreada. Caia do santuário lá da História. Que apouca o triunfo e que se chama sangue. A Liberdade assoma majestosa. Há de transpor sereno os penetrais Da Pátria. pois. e. . levando ao mundo inteiro. esplendorosa.

vendo o horror dos meus destroços. Tenho vontade de estrangulá-lo E reduzi-lo muitas vezes a ossos! Todo o ser que no mundo turbilhona Veja do Amor.ESTROFES SENTIDAS Eu sei que o Amor enche o Universo todo E se prende dos poetas à guitarra Como o Pólipo que se agarra ao lodo E a ostra que às rochas eternais se agarra.. E. A compreensão da minha niilidade Aumenta à proporção que aumenta o dia E pouco a pouco o encéfalo me invade Numa clareza de fotografia. Por muito tempo eu lhe sorvi o aroma. cantam óperas inteiras. 178 . desvairado. Aves de várias cores e de várias Espécies. Eleito Deus no altar do fetichismo! Tudo sacrifiquei para adorá-lo .Mas hoje.. A Natureza veste extraordinárias Roupagens de ouro. E o Sol arranca as minhas crenças como Boucher de Perthes arrancava fósseis. Estremecendo em suas próprias bases. O amor reduz-nos a uniformes placas. Uma montanha que se desmorona. Passa um rebanho de carneiros dóceis. à luz das minhas frases. E em qualquer parte do Universo veja Sombrias ruínas de um solar egrégio E o desmoronamento duma Igreja Despedaçada pelo sacrilégio. sem prever o abismo Fiz desse amor um ídolo de Roma. Além. Na área em que estou. ao matinal assomo. nas oliveiras. Uniformiza todos os anelos E une organizações fortes e fracas Nos mesmos laços e nos mesmos elos.

Observo então a condição tristonha Da Humanidade.. à frente dele. E quando a Dor me dói. à nitidez real dos aspectos. À sombra dum verdoengo tamarindo Que representa a minha infância morta! 179 . Tal qual ela é. A inanidade da Ilusão demonstro Mas. demonstrando-a. eu vou cantando a nênia Do Amor que eu tive e que se fez argila. tanjo minha harpa E a harpa saudosa a minha Dor exprime! Estes versos de amor que agora findo Foram sentidos na solidão de uma horta. Como Tirteu na guerra de Messênia! Transponho assim toda a sombria escarpa Sinistro como quem medita um crime. Ver mastodontes onde há mastodontes E insetos ver onde há somente insetos. O Sábio vê em proporções enormes Aquilo que é composto de pequenas Partes. heroicamente. sinto um violento Rancor da Vida .este maldito monstro Que no meu próprio estômago alimento! Nisto a alma o oficio da Paixão entoa E vai cair. e não tal qual a sonha E a vê o Sábio pelo telescópio. Da observação nos elevados montes Prefiro. na água Da misteriosíssima lagoa Que a língua humana denomina Mágoa! Dos meus sonhos o exército desfila E.. ébria de fumo e de ópio. construindo corpos quase informes E aquilo que é uma parcela apenas.

Passo longos dias. Onde há sonhos inefáveis Vejo os vermes miseráveis Que hão de comer os meus braços. Um grande recolhimento Preside neste momento Todas as forças do Mundo.CANTO ÍNTIMO Meu amor. se duvidas. dos grandes espaços. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra! O Sol está moribundo. olha estas feridas. Que mal o amor me tem feito! Duvidas?! Pois. Ah! Se me ouvisses falando! (E eu sei que ás dores resistes) Dir-te-ia coisas tão tristes Que acabarias chorando. Muito longe. Vem cá. em sonhos. a esmo. De lá. Muito longe. erra. em sonhos erra. Não me queixo mais da sorte Nem tenho medo da Morte Que eu tenho a Morte em mim mesmo! "Meu amor. altivo e ufano Do barulho do oceano E do gemido da terra!" 180 . Que o amor abriu no meu peito.

prece que ainda Entre saudades rezo. Na insaciedade desse gozo falho Busco no desespero do trabalho. ontem. Caminha e vai. triste.Calor que hoje me alenta e há de matar-me em breve. agonia bendita! GOZO INSATISFEITO Entre o gozo que aspiro. agonia! . e o sofrimento De minha mocidade. uma nuvem que corre.. Mas. neve do meu destino! E eu aqui a chorar nesta noite tão fria! Agonia. Numa prece de amor. Queimam-me o peito cáusticos de fogo Esta ânsia de absoluto desafogo Abrange todo o circulo infinito. .Diz e morre-lhe a voz. murmura: . Frio que me assassina. numa delícia infinda. Fazer parar a máquina do instinto. agonia bendita! .Que eu nunca chore assim! Que eu nunca chore como Chorei.. agonia. o louco. Sem um domingo ao menos de repouso.. a sós. e cansado e morrendo O Viajeiro vai. Neve da minha dor. neve.CANTO DE AGONIA Agonia de amor.. Agonia de amar. morre! E a alma se lhe dilui na amplidão infinita. e vê a luz e vendo Uma sombra que passa. quanto mais me desespero.. agonia. abraça a sombra e. Delícia que ainda gozo.. e entre sorrisos e entre Mágoas soluço. oração. sinto A insaciabilidade desse gozo! 181 .Misto de infinita mágoa e de crença infinita. Neve que me embala como um berço divino. num volutuoso assomo. experimento O mais profundo e abalador atrito. amor e frio. vendo-a. até que esta dor se concentre No âmago de meu peito e de minha saudade. Nos desertos da Vida uma estrela fulgura E o Viajeiro do Amor. Amor.. escuridão e eterna claridade..

alta e descompassada A dura vibração incômoda da enxada. do alegre Sol ao grande globo quente E pôs-se para aí.. A flama oriunda Da solar refração bate no mundo.Do Eterno Bem motor principal e alavanca Arrancara-lhe a Crença assim como se arranca De um ninho a seda branca e de uma árvore o galho! Sangrou-lhe o coração a saudade da Aurora! . Rasgando. Mas o braço cansou! Trabalhou.HISTÓRIA DE UM VENCIDO I Sol alto. Para as bordas fatais dum precipício fundo! Quis um momento ainda olhar para o Passado. nesta maldita senda De sofrimento ignaro em sofrimento ignaro Ir caminhando até tombar sem um amparo No tremendo marneI da Desgraça tremenda?! II Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele.. funéreo 182 . e o trabalho . a superfície bruta.O Hércules que ele fora! O fraco que ele hoje era! E surpreendido viu que um abismo se erguera Entre o fraco que era hoje.. oito vezes.. E o Velho veio para o labor cotidiano. acende O pó. Por seis horas seu braço empenhado na luta. trôpego e cambaleando Foi-se arrastando. E em tudo que o rodeava. mordendo a atra terra infecunda. lúgubre e só. A terra escalda: é um forno. e entre o Hércules de outrora! Pois havia de assim. do agro solo. Triste. foi aos poucos se arrastando. desoladoramente A revolver da terra o atro e infecundo arcano. aclara o mar e por tudo se estende E arde em tudo. Fez reboar pelo solo.

tombando. enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos! E o cadáver. ninguém o acalenta. louco. abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas! Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros.. onde arde e floresce a Crença. bêbado de miragem. Quis fazer um esforço . e a sonhar. a toa.o último esforço.Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado! De súbito. a flux d'água.. avistar a Árvore da Esperança. e ele quis falar e estava mudo! Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico. o peito arqueou-se. Caminhava. a família! Não morreria.. E amplo. Somente entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija. era a turba trovadora Que assim cantava. Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara! E aos tropeços. o Velho caminhava. os filhos.. e o braço Pendeu exangue.. o acalenta. viveria! Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos. o precipício estava. sozinho.. Nem viu que era chegado o termo da viagem. pois! Somente morreria Se da Vida. Num instante viu tudo. avistando uma frondosa tília Julgou. o cansaço Empolgara-o. Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto.. no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor. alguém vela o cadáver: a Lua! 183 .. ele pisasse os trilhos. a rugir-lhe aos pés. e compreendendo tudo. E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara. flutua! Ninguém o vê.

. Subindo á majestade do Infinito.eis tudo! E no meu peito . Nas chispas fulvas de um vulcão violento! E tudo em vão! Atrás da luz dourada. Descem os nimbos. A VIa-Láctea vai abrindo os braços! Áureas estrelas. E os Sete Passos que magoaram Cristo! II Agora dorme o astro de sangue e de ouro Como um sultão cansado! As nuvens como Odaliscas. e o meu pesar se eleva E chora e sangra. Raios flamejam e fuzilam ígneos. E a Noite emerge. Martirizado porque nunca dorme As Sete Chagas dum martírio enorme. Na majestade dum condor bendito.Crepúsculo fatal vindo do Nada! Que importa o Sol! A Treva. Além. e. Legiões de névoas mortas e finadas Como fragmentações d'ouro e basalto Lembram guirlandas pompeando no Alto Eterizadas. mudo.IDEALIZAÇÕES A Santos Neto I Em vão flameja. ígneo.condensada treva A sombra desce. mudo. Negras.. a Sombra . rubro.. santa e vitoriosa Dentre um velarium de veludos. dourando as névoas dos espaços. Atros. E há no meu peito .Asas de corvo pelo coração. alvas. mudo. fulvos. Trazem no peito o branco das manhãs 184 . No ar há malabatros Turiferando a negridão tediosa. aos astrais desígnios. . luminosas. sangrento O sol. volaterizadas...ocaso nunca visto.. pompeiam (triste maldição!) . da Noite ao negro assomo Beijam-lhe o corpo ensangúentado d'ouro.

E dormem brancas corno leviatãs Sobre o oceano astral das nebulosas. o mastodonte. E corno a Aurora . em vão na luz do sol te inflamas.o Sol . aclarando os cerros E engalanando os arvoredos gaios. Mais em meu peito uma ilusão se enterra. curvo ao seu destino. assassino Ébrio de fogo. Tudo por fim há de acabar na mesma Tênebra que hoje sobre ti desaba. se. entre esplendores. Como Herculanum foi após as chamas. Fantástico. A alma se abate. A Mágoa ferve e estua. de que serve Se é desespero e maldição todo ele?! Pois. em lodo tudo acaba. de que serve.hóstia da Aurora. o tigre. Sírius me deslumbra. Ah! Como tu. E nessa luz queimas4e em vão! És todo Pó. a Aurora. dominando o mundo! Mas de que serve o Sol. há-de Alva. Mais em minh'alma um desespero brada?! De que serve. 185 . e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca. á luz áurea que dele Emana e estua e se refrange e ferve. e hás de ser após as chamas. Abençoada pela Eternidade! E ei-lo de novo. se. como tombou outrora.. III De novo. O leão. ontem moribundo. Eu amo a noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. como se esses raios N'alma caindo. se tornassem ferros?! IV Poeta. se triste em cada Raio que tomba no marnel da terra. lodo. ciclópico. Vésper me encanta.. se erguer. em plena e fulva reverberação. Hoje de novo. Ninguém se exime dessa lei imensa Que. a lesma.

banha As serranias duma luz estranha. de ilusões te nutres. pois poeta. pelas escarpas. Sírius me deslumbra. Pelos rochedos. e num supremo e insano E extraordinário e grande e sobre-humano Esforço. e eu beijo na penumbra A imagem lirial da Noite Branca! 186 . Iluminando as serranias... Ergue.. Medonhas valas. Silêncio! Mas de novo as harpas Reboam pelo mar.Arrasta as almas pela Escuridão.. pelas penedias. canta! Canta a Descrença que passou cortando As tuas ilusões pelas raízes. E em vez de chagas e de cicatrizes Deixar. E arrasta os coraç5es pela Descrença. Eu amo a Noite que este Sol arranca! Namoro estrelas. um pedestal de tanta Treva e dor tanta. frias.Fera rendida à música divina. Canto... onde. e minh'alma cobre-se de flores . sobe ao pedestal. E foi deixando essas funéreas. a Lua que no céu se espalha. Como recordação da festa diurna. Alva corno um pedaço de mortalha! Nessa música que a alma me ilumina Tento esquecer as minhas pr6prias dores. Vésper me encanta.. Harpas concertam! Brandas melodias Plangem.. Geme a pungente orquestração noturna E chora a fanfarra triunfal da Morte. como abutres Medonhos. foi valas funerais deixando. de ossos. Então. e. Vives de cinzas e de ruinarias! V Agora é noite! E na estelar coorte.

.. Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?! . Depois de embebedado deste vinho.. sonâmbulo.. A dispersão dos sonhos vagos reuno. Em cujo olhar o Vicio não faísca! Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse.. eu também vou passando Sonâmbulo. Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?! Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?! À proporção que a minha insônia aumenta Hierógafos e esfinges interrogo. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno! Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta. 187 .INSÔNIA Noite. em mágoa. sonâmbulo.. triunfalmente. logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta. Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece! Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício.. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim. nos céus altos. Mas. E invejo o sofrimento desta Santa..Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ou mapa-múndi estranha.

Agora. Estou alegre.. Cercado destas árvores. o funerário. equilibrando-se na esfera. estronda Como um grande trovão extraordinário. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. hedionda. Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto! 188 .. porém.Vagueio pela Noite decaída. Com o olhar a verde periferia abarco. O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato. Recordam santos nos seus próprios nichos. Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera. Atro dragão da escura noite.. as flores. Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de. neste silêncio e neste mato. por exemplo. No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida. Aqui. os corimbos. em mágoa imerso. As árvores.. batendo na alma. contemplo As maravilhas reais do meu Pau d'Arco! Cedo virá. Respira com vontade a alma campônia! Grita a satisfação na alma dos bichos. O Sol. Em que o Tédio.

o arquitetural e íntegro aspecto 189 . "Na tua clandestina e erma alma vasta. sinto O amargor especifico do absinto E o cheiro animalíssimo do parto! E afogo mentalmente os olhos fundos Na amorfia da cítula inicial. Olho-o. porque um. "Miniatura alegórica do chão. são dois Túmulos dentro de um carvão promíscuo. aparece. Dois são. por outra. os beiços na ânfora ínfima. ante Minha massa encefálica minguante Todo o gênero humano intra-uterino! É o caos da avita víscera avarenta . Todos os organismos são oriundos. "Onde os ventres maternos ficam podres. ébrio.Mucosa nojentíssima de pus. a esvaziar báquicos odres: . A nutrir diariamente os fetos nus Pelas vilosidades da placenta? Certo. Risco-o Depois. síntese má da podridão. harto. através ovóide e hialino Vidro. De onde. Mergulho.MISTÉRIOS DE UM FÓSFORO Pego de um fósforo."Cinza. irrupto. Olho-o ainda. "Onde nenhuma lâmpada se acende. Presto. barro. certo. é do sonho assíduo Que a individual psique humana tece e O outro é o do sonho altruístico da espécie Que é o substractum dos sonhos do indivíduo! E exclamo. e na ínfima ânfora. por epigênese geral. amorfo e lúrido. é mais de um. E o que depois fica e depois Resta é um ou. "Meu raciocínio sôfrego surpreende "Todas as formas da matéria gasta!" Raciocinar! Aziaga contingência! Ser quadrúpede! Andar de quatro pés E mais do que ser Cristo e ser Moisés Porque é ser animal sem ter consciência! Bêbedo.

. Basta um fósforo só Para mostrar a incógnita de pó. ora. sois vós. O espectro angulosíssimo do Medo! Em cismas filosóficas me perco E vejo. sou eu. como nunca outro homem viu. Na anfigonia que me produziu Nonilhões de moléculas de esterco. Depois. atender Ao pedido da célula cansada! Um dia restará. dentre as tênebras. de agulhas e de pregos?! Pesam sobre o meu corpo oitenta arráteis! Dentro um dínamo déspota. mônada vil. Teus gineceus prolíficos envolvem Cinza fetal!. Se escapa. De minha antropocêntrica matéria Numa côncava xícara funérea Uma colher de cinza miserável! Abro na treva os olhos quase cegos. cósmico zero. é todo aquele Que vem de um ventre inchado. ínfimo e infecto! É a flor dos genealógicos abismos . em segredo. é o céu abscôndito do Nada. o que nele Morre. Que fez a boca mística do druida E a língua revoltada de Lutero. Então. Que mão sinistra e desgraçada encheu Os olhos tristes que meu Pai me deu De alfinetes. Migalha de albumina semifluida. Em que todos os seres se resolvem! 190 . E este ato extraordinário de morrer Que há de na última hebdômada. sozinho. na terra instável. Move todos os meus nervos vibráteis. Na síntese acrobática de um salto..Zooplasma pequeníssimo e plebeu.Do mundo o mesmo inda e. do meu espírito. Sob a morfologia de um moinho. que. muito alto. Vida. De onde o desprotegido homem nasceu Para a fatalidade dos tropismos.

. Na aclamação simbiótica do gozo! O enterro de minha última neurona Desfila. De onde quimicamente tu derivas. E eis-me outro fósforo a riscar.. Adeus! Que eu veio enfim. com a alma vencida Na abjeção embriológica da vida O futuro de cinza que me aguarda! 191 .Ah! Maldito o conúbio incestuoso Dessas afinidades eletivas. E esse acidente químico vulgar Extraordinariamente me impressiona! Mas minha crise artrítica não tarda.

lembras. E em tudo estruge a tua dúlia .. Cantas a Vida que sangrando matas. . Beijam-te o passo multidões escravas Dos Desgraçados! . Troa o conúbio dos amores velhos . bate nos granitos E quebra as rochas e arrebenta as pedras! És soberano! Sangras e torturas! Ora. davas brandindo em seva e insana Fúria. Rendilhados de fulvas gemas raras E pontilhados de crisoberilos. vezes.As borboletas e os escaravelhos Beijam-se no ar. quietos Beijam-se além os silfos e os insetos Sob a esteira dos campos que se orvalham. tangendo tiorbas em volatas.Estas multidões Sonham pátrias doiradas de ilusões Entre os tórculos negros da Desgraça . Sinos além bimbalham.. e toda a alma Enches de beijos de infinita calma. Sobes ao monte onde o edelweiss pompeia Nalma do que subiu àquele monte! Mas. Amor. E.dúlia Que na fibra mais forte e até na fibra Mais tênue. E o aroma dos teus beijos infinitos Entra na terra. . chora e se lamenta e vibra. Retroa o sino. desces ao segredo insonte Do mar profundo onde a sereia canta E onde a Alcíone trêmula se espanta Ouvindo a gusla crebra da sereia! Rompe a manha. Ora..Flores que tombam quando a neve passa No turbilhão das avalanches bravas! Tudo dominas! Dos vergéis tranqüilos Aos Capitólios. 192 . medras Nalma de cada virgem. e dos Capitólios Aos claros pulcros e brilhantes sólios De esplendor pulcro e de fulgências claras.ODE AO AMOR Enches o peito de cada homem.. a soberana Imagem pétrea das montanhas duras.

Entre timbales e anafis estrídulos. aos astros.Enorme força regeneradora Que faz dos homens um leão que dorme E do Amor faz uma potência enorme Que vela sobre os homens. Irene. Egrégia estavas no teu plaustro egrégio Mais bela do que a Virgem de Corrégio E os quadros divinais de Guido Reni! Qual um crente em asiático pagode. Assim. 193 . Irene. eis-me de ti cativo! Cativaste-me. Eis o motivo porque fiz esta ode. . Quedo. esse poder terrível. beija os áureos pés dos ídolos. e eis o motivo. impassível! Esta de amor ode queixosa.Essa dominação aterradora . sonhei-a. Cativo. quando Entre estrias de estrelas. ontem. fosforeando. pois. Irene.E em cada peito onde um Ocaso chora Levanta a cruz da redenção da Aurora Como a Judite a redimir Betúlia! Bem haja.

Quase com febre. Uma consciência eternamente obscura! O ferro continuava a chiar e a rir. Dentro. Inopinadamente 194 . provinha Como de um negro cáspio de água impura A multissecular desesperança De sua espécie abjeta Condenada a uma estática mesquinha! Ria com essa metálica tristeza De ser na Natureza. num sardonismo doloroso De ingênita amargura. ao meio-dia. O éter possuía A térmica violência de um braseiro. erguido do pó. bruta. Trinta e seis graus à sombra. Da qual. Onde a Matéria avança E a Substância caminha Aceleradamente para o gozo Da integração completa. Cujo negror profundo Astro nenhum exorna Gritando na bigorna Asperamente a sua própria dor! Era. Compreendia por fim que aquele berro À substância inorgânica arrancado Era a dor do minério castigado Na impossibilidade de reagir! Era um cosmos inteiro sofredor. No horror da metalúrgica batalha O ferro chiava e ria! Ria. E eu nervoso. a cuspir escórias De fúlgida limalha Dardejando centelhas transitórias. berrar. tinir.NUMA FORJA De inexplicáveis ânsias prisioneiro Hoje entrei numa forja. a ouvir Cada átomo de ferro Contra a incude esmagado Sofrer. irritado.

Punha em ciarividência Intramoleculares sóis acesos Perpetuamente às mesmas formas presos.Para que à vida quente Da sinergia cósmica desperte. A ansiedade de um mundo Doente de ser inerte. Cheia de ânsias e medos Com crispações nos dedos Piores que os paroxismos Da árvore que a atmosfera ultriz destronca. . Cansado de estar só! Era a revelação De tudo que ainda dorme No metal bruto ou na geléia informe No parto primitivo da Criação! Era o ruído-clarão. A ouvir todo esse cosmos potencial. afinal. em lúgubre crescendo A antífona assimétrica E o incompreensível wagnerismo aziago De seu destino horrendo! Ao clangor de tais carmes de martírio Em cismas negras eu recaio imerso Buscando no delírio De uma imaginação convulsionada Mais revolta talvez de que a onda atlântica Compreender a semântica Dessa aleluia bárbara gritada Às margens glacialíssimas do Nada Pelas coisas mais brutas do Universo! 195 . Preso aos mineralógicos abismos Angustiado e arquejante A debater-se na estreiteza bronca De um bloco de metal! Como que a forja tétrica Num estridor de estrago Executava. atravessando a absconsa cripta enorme De minha cavernosa subconsciência. Agarrados à inércia do Inorgânico Escravos da Coesão! Repuxavam-me a boca hórridos trismos E eu sentia. Essa angústia alarmante Própria de alienação raciocinante.O ígneo jato vulcânico Que.

De amores bons à sombra Quero em cheirosa alfombra Pousar os sonhos lassos! Teus seios.. Eu quero o meu Calvário . E dá-me assim. De lírios e boninas Um veludíneo leito. Assim como Jesus. Aperta-me em teu peito. divina. perdeste a ciência.Anelo morrer vário Dos braços teus na Cruz! Porque não me confortas?! Bem sei. Embala-me em teus braços! 196 . oh! morena .QUADRAS Embala-me em teus braços. Morreu-te a redolência. Aperta-me em teu peito. Alma das virgens mortas Mas não! Apaga os traços De tão funesto aspeito.Relíquias de Carrara Têm a ambrosia rara Da mais rara verbena..

. 3 de maio.Uma. Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?! A lâmpada a estirar línguas vermelhas Lambe o ar. O hemisfério lunar se ergue e se abaixa Num desenvolvimento de borracha. Vista. de enterrar-me todo Naquele semicírculo medonho! Mas tudo isto é ilusão de minha parte! Quem sabe se não é porque não saio Desde que. Mas novamente eis-me a perder a conta! 197 . embora a lua o aclare... Agora a cara do astro Lembra a metade de uma casca de ovo. Aumentam-se-me então os grandes medos. Diabo! Não ser mais tempo de milagre! Para que esta opressão desapareça Vou amarrar um pano na cabeça1 Molhar a minha fronte com vinagre. em ânsias: . No bruto horror que me arrebata. Este Engenho Pau d'Arco é muito triste. três. Tenho 300 quilos no epigastro. Morde-me os nervos o desejo doudo De dissolver-me. 6. duas. em suma. Variando à ação mecânica dos dedos! Vai-me crescendo a aberração do sonho....TRISTEZAS DE UM QUARTO MINGUANTE Quarto Minguante! E. quatro. A conta recomeço. através do vidro azul.. Dói-me a cabeça. parece Um paralelepípedo quebrado! O sono esmaga o encéfalo do povo. Nos engenhos da várzea não existe Talvez um outro que se lhe equipare! Do observatório em que eu estou situado A lua magra.. Como um degenerado psicopata Eis-me a contar o número das telhas! . quando a noite cresce. tonta Sinto a cabeça e a conta perco. E aos tombos.Uma. e.ª-feira.

.Estarei morto?! E a esta pergunta estranha Responde a Vida .. Súbito me ergo.. A luz fulge abundante 198 .aquela grande aranha Que anda tecendo a minha desventura! A luz do quarto diminuindo o brilho Segue todas as fases de um eclipse.. Minha família ainda está dormindo E eu não posso pedir outra camisa! Abro a janela. Cinco lençóis balançam numa corda. Meu tormento é infindo. Caem-me de uma só vez todos os dentes! Então dois ossos roídos me assombraram.. Vêm-me á imaginação sonhos dementes. Mas aquilo mortalhas me recorda. Elevam-se fumaças Do engenho enorme. Tomba uma torre sobre a minha testa.vis raízes adventícias No algodão quente de um tapete persa. O suor me ensopa. Ponho o chapéu num gancho.. numa festa. Por muito tempo rolo no tapete.. Choro e quero beber a água do choro Com as mãos dispostas á feição de conchas. . E o amontoamento dos lençóis desmancho. por exemplo.. . Tal urna planta aquática submersa.. Antegozando as últimas delicias Mergulho as mãos . Um frio Cai sobre o meu estômago vazio Como se fosse um copo de sorvete! A alta frialdade me insensibiliza. A lua é morta. Acho-me. Começo a ver coisas de Apocalipse No triângulo escaleno do ladrilho! Deito-me enfim.Sucede a uma tontura outra tontura. Figuras espectrais de bocas tronchas Tornam-me o pesadelo duradouro.."Por ventura haverá quem queira roer-nos?! Os vermes já não querem mais comer-nos E os formigueiros lá nos desprezaram".

no ato da entrega Do mato verde. o céu. Vários reptis cortam os campos. radiante e estriado. A ouvir. Babujada por baixos beiços brutos. a terra resfolega Estrumada. nestes bucólicos retiros Toda a salva fatal de 21 tiros Que festejou os funerais de Hamleto! Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas! Quisera ser. hierática. numa última cobiça. Pelos respiratórios tênues tubos Dos poros vegetais. o solo um caramujo Naturalmente pelos mata-pastos. A fatia esponjosa de carniça Que os corvos comem sobre as jurubebas! Porque. em diâmetro. observa A universal criação. passei o dia inquieto. feliz.E em vez do sepulcral Quarto Minguante Vi que era o sol batendo nas vidraças. se ostenta A monarquia da árvore opulenta Que dá aos homens o óbolo dos frutos. longe do pão com que me nutres Nesta hora. oh! Vida em que a sofrer me exortas Eu estaria como as bestas mortas Pendurado no bico dos abutres! 199 . cheia de adubos. cheios Dos tenros tinhorões e da úmida erva. Broncos e feios. No húmus feraz. De mim diverso. rígido e de rastos Com a solidez do tegumento sujo Sulca. Entretanto. Côncavo.

Monstruosíssimas mãos. a delinqüentes natos. Umas.. tentáculos sutis. em sangue. Outras. Mãos de linhas análogas e anfratos Que a Natureza onicriadora fez Em contraposição e antagonismo Às da estrela. mãos mais sanguinárias E estupradoras do que os bisturis Cortando a carne em flor das crianças mortas... ás dos cristais. E à noite. a farpas de rochedo Completamente iguais.. pituitárias Olfativas.MÃOS Há mãos que fazem medo Feias agregações pentagonais. negras. Mãos adúlteras. Que apalpam e olham com lascfvia e gozo A pureza dos corpos infantis. 200 . Pertencentes talvez. vão cheirar. quebrando portas O azul gasofiláceo silencioso Dos tálamos cristãos. às da neve. Assinalados pelo mancinismo. Mãos que adquiriram olhos.

Reza-lhe todo o cantochão memento Dessa Missa de amor da Extrema Agrura. Mas neste sonho. . No vácuo imenso das desesperanças E dos passados viços. oh Quimera. pálida camélia.Lotus diluído n'alma dum cipreste! Como um lilás eternizando abrolhos Tinge de roxo o arminho da grinalda. Abençoada pelo meu tormento E consagrada pela sepultura.. Brande-lhe n'alma o frio dos sepulcros. E como um nume de pesar. Pareces reviver a antiga Ofélia.VÊNUS MORTA A Via-Sacra Azul do amor primeiro Veste hoje o luto que a desgraça veste No miserere do meu desespero.a Carne. Recordo o beijo que te dei nas tranças Emolduradas num florão de riços. de reverberantes E rubras asas de beliantos pulcros. Rola a violeta santa dos teus olhos .. Crava-lhe n'alma o tirso das bacantes. Sonho abraçar-te.Tufos de goivo em conchas de esmeralda. plangente. E que ela suba na serena gaza Dos mistérios dourados e serenos À terra Ideal das púrpuras em brasa E ao Céu doirado e auroreal de Vênus! 201 . Guarda a saudade que levou do Mame. langue e seminua. Eu guardo o travo deste beijo ardente E a Nostalgia desta Pátria . Opalescência trágica da lua! Tu.

com uma vela acesa. como num chão profundo. A efígie apocalíptica do Caos Dançava no meu cérebro sombrio! O Céu estava horrivelmente preto E as árvores magríssimas lembravam Pontos de admiração que se admiravam De ver passar ali meu esqueleto! Sozinho. O feto original. Sentia estar pisando com a planta ávida Um povo de radículas e embriões Prestes a rebentar como vulcões. Mergulhar minha exótica visão Na intimidade noumenal dos seres..VIAGEM DE UM VENCIDO Noite. E. Choravam. Em que as formas humanas se sumiam! Reboava. com soluços quase humanos. almas e oceanos As formas microscópicas do mundo! Era a larva agarrada a absconsas landes. Convulsionando Céus. de onde decorrem Todas essas moléculas que morrem Nas transubstanciações da Natureza. era só O ocaso sistemático de pó. Aprazia-me assim.. Eu procurava. uivando hoffmânnicos dizeres. Do ventre equatorial da terra grávida! Dentro de mim. Cruzes na estrada. enquanto eu tropeçava sobre os paus. Mas o que meus sentidos apreendiam Dentro da treva lúgubre. análogo ao peã de márcios brados. na escuridão. A rebeldia dos meus pés danados Nas pedras resignadas do caminho. num ruidoso borborinho Bruto. No desespero de não serem grandes! 202 . Aves com frio. Era o abjeto vibrião rudimentar Na impotência angustiosa de falar.

me tornara A assembléia belígera malsã. Como o protesto de uma raça invicta. Eles entravam todos na caverna Das consciências humanas mais fechadas! Ao castigo daquela rutilância. Onde Ormuzd guerreava com Arimã. Cumpria-se afinal dentro de mim O próprio sofrimento da Substância! Como quem traz ao dorso multas cargas Eu sofria. Na óssea armação das vértebras simétricas A angústia da biológica engrenagem! No Céu. horrenda e monótona. O brado emocionante de vindicta Das sensibilidades solitárias! A longanimidade e o vilipêndio. Fluía. perdido no Cosmos. Brilhava. com a sidérica lanterna. Mas das árvores. na ânsia dos párias. vingadora. Maior que o olhar que perseguiu Caim. Doía profundamente no meu crânio Esse funcionamento simultâneo De todos os conflitos da matéria! Eu.Vinha-me á boca. Numa crepitação própria de incêndio! Em contraposição à paz funérea. de onde se vê o Homem de rastros. A abstinência e a luxúria. Noite alta. frias como lousas. Na discórdia perpétua do sansara! Já me fazia medo aquela viagem A carregar pelas ladeiras tétricas. a esclarecer As manchas subjetivas do meu ser A espionagem fatídica dos astros! Sentinelas de espíritos e estradas. A multiplicidade heterogênea De sensações diversamente amargas. ao colher simples gardênia. o bem e o mal Ardiam no meu orco cerebral. uma voz 203 . assim.

Jeová ou Siva Oculta à tua força cognitiva Fenomenalidades que hão de vir. enquanto Deus. amanhã píncaros galgas. arvoredos desterrados. choramos. montanha. pois. se ergue A esfinge do Mistério Universal! A própria força em que teu Ser se expande. Não trabalham. afinal. iceberg. tão feroz Que parecia vir da alma das cousas: "Se todos os fenômenos complexos. árvore. obscuro. Rir da desgraça que de ti ressuma É quase a mesma coisa que chorar!" 204 . Nós. Rasgando avidamente o húmus malsão. Tragicamente. Na prisão milenária dos subsolos. Deu4e (oh! mistério que se não traduz!) Neste astro ruim de tênebras e abrolhos A efeméride orgânica dos olhos E o simulacro atordoador da Luz! Por isto. a Energia A última etapa da objetivação?! É inútil. Para esconder-se nessa esfinge grande. Crânio. em suma. oh! filho dos terráqueos limos.Tão grande.. Porque em todas as coisas. Se a contração que hoje produz o choro Não há de ser no século vindouro Um simples movimento para rir?! Que espécies outras. do Equador aos pólos. entres Na química genésica dos ventres. porque. a espiar enigmas. Desde a consciência à antítese dos sexos Vem de um dínamo fluídico de gás. ovário. com a febre mais bravia. A humildade botânica das algas De que grandeza não será capaz?! Quem sabe. Se hoje. tão profunda. rimos Das vãs diatribes com que aturdes o ar. na ânsia cósmica.. isto é. diante do Homem. Rimos. Para erguer. que.

A voz cavernosíssima de Deus. Eu fora. a escalar Céus e apogeus.As vibrações daquele horrível karma Meu dispêndio nervoso era tamanho Que eu sentia no corpo um vácuo estranho Como uma boca sôfrega a esvaziar-me! Na avançada epiléptica dos medos Cria ouvir. Eu. desgraçadamente magro. astro decrépito. Tinha necessidade de esconder-me Longe da espécie humana. alheio ao mundanário ruído. Reproduzida pelos arvoredos! Agora. a erguer-me. em destroços. com os meus ossos! Restava apenas na minha alma bruta Onde frutificara outrora o Amor Uma volicional fome interior De renúncia budística absoluta! Porque. A maior expressão do homem vencido Diante da sombra do Mistério Eterno! 205 . naquela noite de ânsia e inferno.

entre estes monstros. O quadro de aflições que me consomem O próprio Pedro Américo não pinta. Estou á espera de que o Sol desponte! Bati nas pedras dum tormento rude E a minha mágoa de hoje é tão intensa Que eu penso que a Alegria é uma doença E a Tristeza é minha única saúde. no combate. é a rebelião Da criatura contra a natureza! Para essas lutas uma vida é pouca Inda mesmo que os músculos se esforcem. quero até rompê-las! Quero. As minhas roupas. Os pobres braços do mortal se torcem E o sangue jorra. Para pintá-lo. Minh'alma sai agoniada. é o prélio enorme. E muitas vezes a agonia é tanta Que. Viver na luz dos astros imortais. 206 . era preciso a tinta Feita de todos os tormentos do homem! Como um ladrão sentado numa ponte Espera alguém. pela boca. Abraçado com todas as estrelas! A Noite vai crescendo apavorante E dentro do meu peito. Na ânsia incoercível de roubar a luz. Andam monstros sombrios pela estrada E pela estrada. A Eternidade esmagadora bate Numa dilatação exorbitante! E eu luto contra a universal grandeza Na mais terrível desesperação É a luta. rolando dos últimos degraus.QUEIXAS NOTURNAS Quem foi que viu a minha Dor chorando?! Saio. armado de arcabuz.. em coalhos. ando! Não trago sobre a túnica fingida As insígnias medonhas do infeliz Como os falsos mendigos de Paris Na atra rua de Santa Margarida. arrancado das prisões carnais..

Ah! Por todos os séculos vindouros Há de travar-se essa batalha vã Do dia de hoje contra o de amanhã.. a água que bebo. E é tudo: o pão que como. O coração do Poeta é um hospital Onde morreram todos os doentes. Igual á luta dos cristãos e mouros! Sobre histórias de amor o interrogar-me E vão. faz mal..O Hércules treme e vai tombar no caos De onde seu corpo nunca mais levanta! É natural que esse Hércules se estorça.. Seja este. O velho tamarindo a que me encosto! Vou enterrar agora a harpa boêmia Na atra e assombrosa solidão feroz Onde não cheguem o eco duma voz E o grito desvairado da blasfêmia! Que dentro de minh'alma americana Não mais palpite o coração . E tombe para sempre nessas lutas. Se algum dia o Prazer vier procurar-me Dize a este monstro que eu fugi de casa! 207 . A bênção matutina que recebo. Este relógio trágico que marca Todos os atos da tragédia humana! Seja esta minha queixa derradeira Cantada sobre o túmulo de Orfeu.. o último canto meu Por esta grande noite brasileira! Melancolia! Estende-me a tu'asa! És a árvore em que devo reclinar-me. enfim. Não sou capaz de amar mulher alguma Nem há mulher talvez capaz de amar-me. Estrangulado pelas rodas brutas Do mecanismo que tiver mais força. O amor tem favos e tem caldos quentes E ao mesmo tempo que faz bem.esta arca. em suma. Hoje é amargo tudo quanto eu gosto. é improfícuo. é inútil.

.Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? E parece-me um sonho a realidade. Arranco os cadáveres das lousas E as suas partes podres examino. carrego A indiferença estúpida de um cego E o ar indolente de um chinês idiota! A passagem dos séculos me assombra. ouvindo um grande estrondo. Então meu desvario se renova. a 1 de Janeiro. Na podridão daquele embrulho hediondo Reconheço assombrado o meu Destino! Surpreendo-me. A Morte. sozinho.. come. Corro. Levanta contra mim grandes cutelos E as baionetas dos dragões antigos! 208 ... estudo.. em trajes pretos e amarelos. e a mim pergunto. Para onde vou (o mundo inteiro o nota) Nos meus olhares fúnebres. à meia-noite. Intimamente sei que não me iludo. Mas de repente. vendo o verme frio Que há de comer a minha carne toda! É a Morte -. Para onde irá correndo minha sombra Nesse cavalo de eletricidade?! Caminho. E o mundo inteiro não lhe mata a fome! Nesta sombria análise das cousas. Como que. rio Sinistramente. na vertigem: -.Faminta e atra mulher que. Sai para assassinar o mundo inteiro.. Em vão com o grito do meu peito impreco! Dos brados meus ouvindo apenas o eco. numa cova. Eu torço os braços numa angústia douda E muita vez.esta carnívora assanhada -Serpente má de língua envenenada Que tudo que acha no caminho. abrindo todos os jazigos.POEMA NEGRO A Santos Neto Para iludir minha desgraça. -.

Chocalha os dentes com medonha fúria Como se fosso o atrito de dois ferros! Pois bem! Chegou minha hora de vingança. Quis ver o que era.. Tu mataste o meu tempo de criança E de segunda-feira até domingo. que eu me vingo! Súbito outra visão negra me espanta! Estou em Roma. em grupos prosternados. De Jesus Cristo resta unicamente 209 .E quando vi que aquilo vinha vindo Eu fui caindo como um sol caindo De declínio em declínio. Cai no silêncio da Cidade Eterna A água da chuva em largos fios grossos. Por tua causa apodreci nas cruzes. canalha. Deste-me fogo quanto eu tinha sede. Tu não és minha mãe... Eu desafio. No histerismo danado da tortura Todos os monstros que os teus peitos criam. oh! Natureza! Eu desafio agora essa grandeza. como a gula de uma fera.. velha nefasta! Com o teu chicote frio de madrasta Tu me açoitaste vinte e duas vezes. e de declínio Em declínio. É Sexta-feira Santa. acorda em berros Acorda. Em que pregas os filhos que produzes Durante os desgraçados nove meses! Semeadora terrível de defuntod. Como as estalactites da caverna. e quando vi o que era. Amarrado no horror de tua rede. A trava invade o obscuro orbe terrestre No Vaticano. e após gritar a última injúria. vi que era esterquilínio! Chegou a tua vez. Com as longas fardas rubras. que em mim dorme. Contra a agressão dos teus contrastes juntos A besta. desta cova escura. os soldados Buardam o corpo do Divino Mestre... Perante a qual meus olhos se extasiam. Deixa-te estar. Vi que era pó.

. o desalento e o desconforto Paralisam-me os círculos motores. Resume A espiritualidade da matéria E ele é que embala o corpo da miséria E faz da cloaca uma urna de perfume. Na molécula e no átomo. a gente Sente vontade de abraçar-lhe os ossos! Não há ninguém na estrada da Ripetta. num rumor forte Recomeça o barulha das matracas. com a minha dor enorme Os olhos ensangüento na vigília! E observo. quieta. A árvore dorme Eu. As luzes funerais arquejam fracas. A desagregação da minha Idéia Aumenta. Desperto.Um esqueleto. Como as chagas da morféia O medo. Dentro da igreja de São Pedro. O vento entoa cânticos de morte. Na agonia de tantos pesadelos Uma dor bruta puxa-me os cabelos. os ventos gemedores Estão dizendo que Jesus é morto! Não! Jesus não morreu! Vive na serra Da Borborema. vendo-o. enquanto o horror me corta a fala O aspecto sepulcral da austera FIM 210 . e a gente... Roma estremece! Além. Na Eternidade.. É tão vazia a minha vida! No pensamento desconexo e falho Trago as cartas confusas de um baralho E pedaço de cera derretida! Dorme a casa. O céu dorme. somente eu. no ar de minha terra.

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