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HISTÓRIAS DO MEDITERRÂNEO

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O PESO DA HISTÓRIA Os fenícios desembarcaram aqui. Eça de Queiroz também, no século XIX.

E hoje, os modernos viajantes de cruzeiros chegam diariamente ao Grande Porto de La Valletta.

HISTÓRIAS DO MEDITERRÂNEO
Ir a banhos na História e nas águas mais cobiçadas do Mediterrâneo é o quotidiano feliz do arquipélago de Malta. De qualquer janela das suas ilhas vêem-se três milénios de civilização. Como dizem os ingleses, os derradeiros colonos e ainda os viajantes mais assíduos, «it’s the right place to be».
TEXTO DE TIAGO SALAZAR | FOTOGRAFIA DE JOAQUIM GROMICHO

M ALTA • GOZO • COMINO
Foi um colonato fenício e por aqui passaram cartagineses, romanos, árabes e normandos. Em 1282 passou a ter domínio aragonês e em 1530 foi doada aos cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém. Napoleão invadiu-a em 1798 e dois anos depois passou para a coroa britânica.

N
CRUZ DA ORDEM DE MALTA A Cruz de Malta é o símbolo da Ordem dos Cavaleiros de São João de Jerusalém, patrono da instituição com mais de novecentos anos. As pontas bífidas representam as oito Bem-Aventuranças.

o hall do aeroporto, inspirado numa ala nobre de Heathrow, um batalhão de ingleses vermelhos e loiros afina

A inglesa miss Atwood tinha a História na ponta da língua. Sabia do colonato fenício, datado de 800 a 600 a. C., do cartaginês, romano, bizantino, árabe, normando e de todas as potências europeias, até a ilha passar para o domínio aragonês em 1282 e, mais tarde, em 1530, a feudo do rei Carlos V, que deu Malta aos Cavaleiros da Ordem de São João. Sabia ainda da investida de Napoleão, que invadira Malta em 1798. Dois anos mais tarde, o comandante francês general Belgrand de Vaubois rendeu-se aos britânicos e ao primeiro governador, Sir Alexander Ball, que ficou nos livros como um homem com pulso – outros se sucederam, por duzentos anos. De disposição amplamente melhorada por se saber entre os seus, despedimo-nos, já de humores retemperados, depois de conversa mansa sobre a espantosa história do ínfimo arquipélago – é o mais pequeno dos 27 Estados membros da União Europeia, com 316 quilómetros quadrados, mas onde ocorreram alguns dos acontecimentos mais importantes da história do continente. Um arquipélago que – tirando os membros do All England Cricket Club – a maioria dos europeus ainda dispensa nas suas intenções de viagem. Contudo, para os aficionados do pretérito perfeito, Malta era, como diria miss Atwood, «the right place to be». Além de marinheiros, cavaleiros mais ou menos andantes, gatos francófonos e falcões, Malta foi um dos lugares mais cobiçados por escritores, sobretudo no século XIX, quando viajar era já um hábito turístico – graças a outro senhor inglês de nome Thomas Cook. É vasta a lista de artistas dos séculos XVIII e XIX que passaram por Malta atraídos pela fantasia oriental. Nas suas pinturas, poesias e narrativas confessaram sobretudo a paixão pela linha de água de La Valletta e o seu histórico Grande Porto, ainda antes de entrarem no coração da cidade. Nomes como Samuel Taylor Coleridge, Hans Christian Andersen, Sir Walter Scott (que aqui escreveu sobre o grande cerco otomano de 1565), Alexandre Dumas, Lord Byron ou o português Eça de Queirós, todos fizeram de Malta um destino mítico. Coleridge, por exemplo, veio para Malta em Abril de 1804 aconselhado pelos médicos. A ilha era de clima seco, propício ao restabelecimento da sua doença respiratória. Foi

as gargantas com a Canção do General Bum, um tema tão popular para os britânicos como o Malhão é para os portugueses. Os seus patrícios deixaram oficialmente a ilha em 1964, depois de duzentos anos e, no entanto, Malta continua a figurar nas principais intenções de férias e aposentadorias dos britânicos. «Aqui, sentimo-nos quase em casa, e com vantagens. Falamos a mesma língua, o tempo é sempre bom, a cerveja é barata e a comida deixa-se comer», ajuíza-me um londrino bonacheirão. Entrei em Malta da pior maneira, de noite, sem a luz «serena e ampla» dos poemas de Lord Byron, zurzido pelas imprecações de uma miss sobre as moléstias do vulcão islandês. O Eyjafjallajokull tinha-a feito penar três dias, antes de conseguir voo para as suas marvelous holidays maltesas, onde a esperavam as águas mais limpas e transparentes do Mediterrâneo, as memórias da quinta essência do filme noir O Falcão de Malta (e da terceira saga de O Padrinho) e o quadro mais célebre de Caravaggio.

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O arquipélago de Malta é o mais pequeno dos 27 Estados membros da União Europeia,

com apenas 316 quilómetros quadrados, mas onde ocorreram alguns
dos mais importantes acontecimentos da história do continente europeu.
acolhido pelo governador Ball que lhe ofereceu o posto de secretário. Apesar de doente, o escritor acabou por aceitar e ficou até Setembro a escrever páginas intensas. Hans Christian Andersen foi outro escritor-viajante tentado pelo idílio de Malta. Aqui esteve de raspão e um só dia: 17 de Março de 1841. Chegou no cargueiro Leónidas acompanhado do amigo Christoforoff, alugaram uma caleche em La Valletta, visitaram a Catedral de São João, o Palácio da Ordem Soberana e as cidades medievais de Rabat e Medina. O escritor mostrou-se impressionado com a ausência de vegetação, apesar de ser Primavera. No regresso à capital da ilha, visitou o cemitério do bastião de Msida e o hospital de Lazzaretto, no lado oposto da cidade, ainda hoje uma das imagens de marca da Ordem de Malta (a ajuda aos enfermos). Já Lord Byron chega a Malta para ser envolvido pelo romance. Apesar de a ilha o ter inspirado e de ter alargado a sua estada, nunca se lhe refere directamente nos seus poemas. Chama-lhe apenas «uma das ilhas de Calypso» e ocupa-se em particular de um amor platónico pela senhora Spencer Smith, a musa Florence de Peregrinação de Childe Harold. Começou por se instalar numa casa na zona alta de La Valletta, de onde podia ver três milénios de civilização. Teve aulas de árabe com um monge e frequentou a alta sociedade, onde conheceu Mrs. Spencer Smith, a memória mais nítida da sua estada em Malta. Segundo o meu anfitrião, Sir Francis Vassalo, cavaleiro da Ordem de Malta e poeta maltês, «todas estas experiências “exóticas” são ainda parte da realidade maltesa». A passagem de Eça de Queirós soa-nos mais familiar, cem anos depois, sobretudo para quem navegar ao largo das ilhas de Gozo e Comino, as outras duas partes do arquipélago. Tal como Eça observou da amurada do navio que o levou a Malta no Outono de 1869 (a caminho do Egipto), continua a avistar-se «uma terra baixa, lívida e inexpressiva» onde se distinguem «aldeias espalhadas de atitudes monumentais». Para quem chega de noite, por mar ou por ar, divisa-se ainda o «perfil tenebroso» de La Valletta. Nas notas de viagem ao Egipto, Eça escreve um fresco épico das suas primeiras impressões de Malta. Vê da amurada do paquete – tal como o verá um viajante moderno a bordo de qualquer ferry ou cargueiro – os monumentos esbatidos na

FORTE MANOEL O Forte Manoel, em processo de restauro financiado por fundos comunitários, será uma possibilidade de luxuosa estadia. Uma das maneiras de aqui chegar é num autocarro vintage da frota deixada pelos ingleses.

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PORTOS HISTÓRICOS Os veleiros e paquetes, alguns ultramodernoscom este Falcon Maltese, são presença assídua em Malta. O mais espectacular porto natural europeu, recebeu recentemente o Seatrade Award for Preferred Port of Call in the Mediterranean.

Talvez os pescadores de Marsaxlokk sejam ainda herdeiros de Corto Maltese.

O lendário marinheiro terá nascido em Malta, a 10 de Julho de 1887.
A mãe era uma bonita cigana de Sevilha e o pai um embarcadiço britânico originário da Cornualha.
escuridão. Vê o Palácio do Grão-Mestre, com a sua extensa galeria e janelas esguias, que fazem pensar em grandes salas ladrilhadas, em vastos pátios onde brilham tanques entre árvores, em longos corredores abobadados e misteriosos. Vê ainda o observatório, a Igreja de São João e, mais longe, os albergues de Castela, da Baviera e da Provença, onde se reuniam os cavaleiros de cada nação para velada de armas, e «talvez para cantar as cantigas das pátrias distantes e as largas histórias de batalhas e aventuras». Eça entra finalmente em Malta depois de atracar no Grande Porto, hoje considerado o mais espectacular dos portos naturais europeus (vencedor, recente, do Seatrade Award for Preferred Port of Call in the Mediterranean). O escritor entra por uma grande escadaria «cheia de mendigos, de vendedores de fruta, de contrabandistas de coral, de pregões, de vadios e de lama (…). Assim se sobe para Malta», diz. Acha-se então, como nos achamos agora, numa rua de um «estranho carácter». As paredes brancas, desenhando linhas severas de muralhas, fazem-no pensar ao mesmo tempo no Oriente e na Renascença veneziana. Tantas influências em tão curto espaço levam-no a reflectir sobre a sorte de Malta, «aquela pobre Malta que foi dos gregos, dos cartagineses, dos fenícios, dos romanos, dos turcos, de Carlos V, dos franceses, dos italianos, de todos os bastardos, de todos os piratas veio a ser, enfim, da Inglaterra, imenso cesto trapeiro de todas as terras-farrapos». A estada será breve, três magros dias para o tempo de cinco civilizações, e culmina com uma passagem pelo Teatro Manoel, o teatro europeu mais antigo ainda em uso, cuja acústica levou o compositor Puccini ao êxtase. É lá que Eça ouve a música romântica de A Favorita, se maravilha com os uniformes vermelhos dos militares britânicos que, ao tempo, ali estacionavam e monopolizavam a vida social. Na noite da sua última soirée vê-se rodeado de mulheres «feias, aloiradas e inexpressivas». Apenas uma pequena miss lhe atrai o olhar. «Divinamente loira, modelada como uma grega, rosada, fresca e virginal como um fruto do Paraíso». É Tostoli, a grande dançarina maltesa, espécie de Isadora Duncan, ainda hoje venerada. Desse passado de sortidos caros quase nada sobra. Ir ao Teatro Manoel é hoje a maneira de esbarrar com a influência portuguesa que se deve aos grão-mestres António Manoel de Vilhena e Manuel Pinto de Fonseca, e que

O MAR E A HISTÓRIA O Teatro Manoel deve o nome ao grão-mestre português António Manoel de Vilhena, que o mandou construir em 1731. Ainda hoje é utilizado, na cidade cujas ruas e janelas são ávidas de mar. A maioria dos malteses faz do Mediterrâneo sustento e lugar de ócio e contemplação.

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«O Mediterrâneo foi o litoral mais importante até aos Descobrimentos dos séculos XV e XVI.

Malta foi o epicentro cobiçado por franceses, ingleses, italianos e portugueses.
A criação de hospitais, bibliotecas, fortes, é outra das grandes riquezas e orgulhos de Malta.»
permanece em nomes de ruas, estátuas, fortes e até na forma do pão tradicional. A herança inglesa é mais vistosa e vai das boas maneiras às fardas dos colegiais, às ementas de grilled sea bass com batatas cozidas e dois legumes ou aos negócios de rua onde abundam as grocery, os butchers e as sanity dispensing machines, as máquinas de gelo dos hotéis. Malta é também famosa graças a três visitantes míticos. O primeiro o herói grego Ulisses, que esteve retido na ilha de Gozo pela ninfa Calypso e talvez pelo mel doce, termo cunhado pelos colonos gregos para dar nome à ilha de Malta. Outra etimologia possível é da palavra maleth, que significa «paraíso», em alusão às muitas baías, lagoas e enseadas do arquipélago – sobretudo as do ilhéu de Comino, como a sublime lagoa Azul, amplamente cobiçada para set de filmes idílicos – ou, no mesmo torrão, Dwejra, o mar interior e a Janela Azul, um impressionante arco natural suspenso a vinte metros que atrai as variantes modernas de mergulhadores de Acapulco. O segundo viajante ilustre foi São Paulo, que naufragou ao largo de Malta e deixou as suas ossadas na ilha – no relicário da Igreja do Naufrágio de São Paulo (St. Pauls Shipwreck Church) estão o que se acredita ser os ossos do pulso do santo. No livro dos Actos dos Apóstolos conta-se do naufrágio,

PASSEGIATTAS GASTRONÓMICAS O Café Jubilee, em La Valetta (página oposta) e o restaurante Jeffrey’s, em Gozo (à direita), são dois embaixadores da gastronomia local. Abundam os pratos de peixe e de caça de pequeno porte, como a versão maltesa de coelho à caçador.

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La Valletta está cheia de palácios, igrejas e edifícios barrocos. Tudo parece confluir e irradiar

dos jardins de Upper Barraca, o magnífico remanso dos cavaleiros
da Ordem, onde as vistas e as brisas amenas superam as de todos os promontórios.

MURALHAS DE MALTA Os ataques sucessivos e investidas como o grande cerco otomano de 1565 motivaram as preocupações defensivas. O Forte de São Ângelo, em Vittoriosa, é um exemplo bélico dessa demonstração de força e engenho.

No relicário da «Igreja do Naufrágio de S. Paulo» (St. Pauls Shipwreck Church) estão o que se julga

ser os ossos do pulso do santo. No Livro dos Actos dos Apóstolos conta-se
do naufrágio, provavelmente no ano 60 d.C., quando viajava de Jerusalém para Roma.
provavelmente no ano 60 d.C., quando viajava de Jerusalém para Roma. Uma vez em Malta, São Paulo curou o pai do governador romano, Publius, o que o levaria a converter-se e a estabelecer o cristianismo em Malta. Por Malta passou e viveu igualmente o pintor italiano Caravaggio que, além de se meter numa rixa sangrenta (que lhe custou o presídio), pintou na ilha um dos seus quadros mais poderosos, A Degolação de Baptista. O obra pode ser admirada na Catedral de São João, em La Valletta, um edifício de interior sublime na tradição do grande barroco. Apesar de Caravaggio nunca ter recebido a cruz de Malta, o quadro está marcado com o símbolo máximo da Ordem. Além das suas glórias e memórias intermináveis, La Valleta é uma das cidades fortificadas mais bem conservadas do mundo. O nome deve-se a Jean de la Vallete, o grão-mestre que a edificou, no século XVI. A pequena cidade tem menos de um quilómetro quadrado e está construída sobre uma península situada entre o porto de Marsa Mxeti e o Grande Porto. Quando o lugar pertencia ainda à Ordem, a ilha foi atacada pelos turcos, que se viram derrotados pela primeira vez na sua história. As cortes europeias ficaram impressionadas com a gesta dos cavaleiros e mandaram-lhes fortunas, que serviram para construir a nova capital. Assim se explica a panorâmica monumental. «Por essa razão se diz que La Valletta foi o prémio concedido à Ordem por salvar a Europa», explica-me Sir Francis Vassalo. Não foi esta a única vez. Reza a história que os nazis perderam as suas campanhas em África por não terem prestado atenção a esta pequena ilha. Uma distracção aproveitada pelos britânicos para os bombardearem com o êxito conhecido. Um viajante entusiasta da história ao vivo e do pedestrianismo – e do charme italiano das esplanadas e passegiattas – estará em Malta nas suas sete quintas. La Valletta, por exemplo, está cheia de palácios, igrejas e edifícios barrocos. Tudo parece confluir e irradiar dos jardins de Upper Barraca, o magnífico remanso dos cavaleiros da Ordem, onde as vistas e as brisas amenas superam as de todos os promontórios. É daqui que melhor se vê toda a grandeza bélica e naval de Malta, do Grande Porto às muralhas das Três Cidades – Cospicua, Senglea e Vittoriosa –, um engenho defensivo sem paralelo na Europa. A rua principal de La Valletta é Republika Street, onde estão os cafés como o Cordina, o mais indicado para

A RELIGIÃO ORDENA Dizem que Malta tem uma igreja por quilómetro quadrado. A ilha de Gozo talvez tenha duas. E, apesar dos seus menos de cinquenta quilómetros de costa, possui ainda uma imponente catedral setecentista.

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No Mediterrâneo, só a Grécia compete com as águas de Malta, em especial as da pequena

ilha de Gozo, terra de agricultores e pescadores. Os arqueólogos
e arqueonautas adoram mergulhar aqui à procura de vestígios de fenícios, romanos e árabes.
comer uma fatia de «bolo de noiva», a origem do aroma anisado que incensa toda a cidade. É também aqui que estão as praças e os edifícios públicos mais significativos. Apesar de grande parte da arquitectura de cidade datar dos séculos XVI e XVII, a majestade do barroco abafa todas as outras épocas. Os balcões de madeira azuis e verdes, imagem de marca do perímetro histórico (que não se percebe exactamente onde começa e onde acaba), dão simplicidade aos prédios nobres de pedra robusta. Caminha-se pelas ruas como quem atravessa um planalto e todas as travessas parecem desembocar na água. Até as janelas são ávidas de mar e o mais provável, e mais adequado, é terminar-se o dia (inevitavelmente quente, de Março a Novembro) derramado sobre uma espreguiçadeira de um qualquer terraço, de preferência com um gin on the rocks. O arquipélago de Malta, e em particular a ilha de Gozo, tem fama de ser um dos lugares mais seguros e hospitaleiros (e castos) do mundo. O maior pecado será fazer-lhe a desfeita de não comer o «bolo de noiva», não ir à missa ao domingo ou deixar escapar o fogo-de-artifício das Festas de São Paulo em Rabat, a bélica cidade a sudeste de La Valletta. Perto do mítico hotel Phoenicia e da porta de acesso à cidade encontra-se o albergue de Castela, onde os cavaleiros da Ordem se distribuíam por divisões chamadas lengua conforme a sua procedência. O edifício, de fachada barroca e renascentista, era o local de acolhimento dos cavaleiros portugueses e espanhóis. Depois tornou-se o quartel-general das tropas britânicas e actualmente é a residência oficial do primeiro-ministro. No edifício residiu ainda o chefe supremo da Ordem de Malta, também conhecida por Ordem dos Cavaleiros de São João. «O Mediterrâneo foi o litoral mais importante até aos Descobrimentos dos séculos XV e XVI. Daí a relevância de Malta, epicentro cobiçado e cortejado por franceses, ingleses, italianos e portugueses. A criação de hospitais, bibliotecas, fortes… que resistiram ao teste do tempo, e estão ainda abertos ao cidadão comum, é outra das grandes riquezas e orgulho de Malta», diz Sir Francis Vassalo, que me recomenda uma ida a Marsaxlokk, para «entender in loco o princípio da fraternidade e da humildade».

A VITÓRIA DA RAINHA A herança britânica é intensa: a capital de Gozo chama-se Victoria, em honra da rainha, e muitos negócios conservam os letreiros apelativos com a língua de Sua Majestade, falada com à-vontade por toda a população.

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Para quem chega de noite, por mar ou por ar, divisa-se ainda o «perfil tenebroso»

da cidade de La Valletta, tal como o escritor Eça de Queirós observou
da amurada do navio que o levou a Malta no Outono de 1869, a caminho do Egipto.
Quando chego à pitoresca vila piscatória há um vaivém de pescadores na barra. Voltam da faina nos seus luzzu e kajjik, os arrastões de cores garridas. Na madrugada seguinte, enquanto os homens andarem no mar, as mulheres estarão na lota a vender a pesca do dia, tal como o fazem desde o tempo dos fenícios. Talvez os pescadores de Marsaxlokk sejam herdeiros de Corto Maltese. Segundo a biografia escrita pelo historiador Michel Pierre, o lendário marinheiro terá nascido em Malta a 10 de Julho de 1887, filho de uma lindíssima cigana de Sevilha e de um embarcadiço originário da Cornualha britânica. No Mediterrâneo, só a Grécia parece poder competir com o romantismo de Corto e as águas de Malta, em especial as da pequena ilha de Gozo, terra de agricultores e pescadores, para onde se deve prosseguir viagem. Os arqueólogos e arqueonautas adoram mergulhar nas águas de Gozo à procura de vestígios fenícios, romanos e árabes. Basta mergulhar um metro para se perceber a razão deste fascínio. É também em Gozo que se encontra o templo de Ggantija, construção neolítica datada de 3500 a. C. e a mais antiga (intacta) do mundo. Ao contrário de Malta, a ilha de Gozo mantém-se ainda rústica e hospitaleira, à imagem do seu fraterno passado quando recebia forasteiros a troco de quase nada. Diz-se que tem uma igreja por quilómetro quadrado, e a conta não andará longe da verdade. A maioria da população é católica e pode bem dar-se o caso de, em plena hora de comércio, os negócios fecharem as portas para os proprietários e empregados irem à missa. Nessa altura, se não quiser acompanhá-los, o melhor que tem a fazer é procurar uma das centenas de praias da ilha. Em particular Ramla Bay, na costa norte, de areia vermelha, mar turquesa e belos maciços de rocha ao longo do litoral. Aos domingos, quando as ilhas e as lojas fecham para remissão dos pecados, todo o arquipélago é uma festa. Decoram-se as casas com flores, os homens e as mulheres vestem-se a preceito para a missa e estala o festim. Vende-se álcool a rodos nas barraquinhas de rua e doçaria nas mercearias abertas para a ocasião. Quando a noite cai, o fogo-de-artifício cobre a ilha de lés a lés e ouve-se o eco na vizinha Sicília. E, em dias sem vento, até na Líbia, a 160 quilómetros, do outro lado do Mediterrâneo. I

NOITES MEMORÁVEIS O Grande Porto é o ex-líbris de Malta, honrado por artistas enamorados pelos embalos boémios. Nas suas pinturas, poesias ou narrativas de viagem confessam a paixão pela linha de água da cidade, ainda antes de nela entrarem.

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MALTA
Malta celebra a fé cristã em muitas festas ao longo do ano. Uma das mais emblemáticas é em honra de Nossa Senhora do Carmo, que se comemora no último fim-de-semana de Julho. Para incursões mais pagãs, o Festival de Cerveja de Malta atrai curiosos e apreciadores à ilha na primeira semana de Agosto.
COMO IR
A TAP (www.flytap.com) tem ligações para Malta (La Valletta) a partir de 435 euros.
Gozo Comino

Café Jubilee
À entrada, confunde. Tanto pode ser um pub inglês como um bistrot francês. A ementa é uma cornucópia de sabores e serve duplamente as intenções de um jantar intimista (destaque para a versão de coelho à caçador) ou de um almoço very typical de batatas fritas e hambúrgueres (gourmet). O sucesso foi tal que a população referendou a abertura de um parente em Gozo. O preço médio ronda os vinte euros por refeição. St. Lúcia Street, 125 La Valletta Independence Square, 8 Gozo

METEOROLOGIA
O clima do arquipélago não difere muito do português abaixo do Tejo: verões quentes (a temperatura do ar ultrapassa facilmente os 30° C e a da água do mar fica apenas dez graus abaixo disso) e invernos amenos, com chuva em Dezembro e Janeiro. Mais informações em www.bbc.co.uk/weather.
Mar Mediterrâneo Rabat

M

al

ta

LA VALLETTA

EUROPA

Marsaxlokk

FUSO HORÁRIO
GMT + 1 hora

MALTA

British Hotel PORTA-MOEDAS
O euro é a moeda oficial neste Estado da União Europeia. Há muitas caixas ATM e a maior parte dos restaurantes e hotéis aceita cartões de crédito. Uma refeição ligeira, como uma piza, um sumo de garrafa e um café custará entre 10 e 15 euros. Típico hotel da década de 1970, serviu de set ao filme Munique, gravado em Malta em 2005. Adequado para os amantes do retrocool. A partir de 70 euros por noite. Battery Street, 40 La Valletta Tel.: (+356 21) 22 47 30 www.britishhotel.com

Rubino
É o sítio mais indicado para experimentar a cozinha maltesa, livre dos cardápios ingleses desenxabidos. Por «cozinha maltesa» entenda-se temperos meticulosos (em que predomina o azeite de azeitonas locais), peixe a rodos e uma espantosa mistura de influências, fruto das dezenas de colonos que por ali passaram. As pastas são o must e, para testar as papilas a fundo, destaca-se o ghagin grei ou sfinex ta l-incova, um possante donut frito com anchovas. Os vinhos da casa são excelentíssimos e a carta ampla. Mantém os altos padrões desde 1906. Old Bakery Street La Valletta

COMO SE DESLOCAR
O ideal é alugar um carro. O único obstáculo é a condução «à inglesa», mas é uma questão de hábito (cuidado com as rotundas). O preço do aluguer de um automóvel ronda 60-80 euros diários. A rede de circuitos de autocarro (também de origem inglesa) é encantadora, sobretudo para os apreciadores do vintage. Nos centros históricos, andar a pé é a solução ideal. A melhor maneira de conhecer a ilha de Gozo será alugar um jipe ou moto, que permite o acesso a estradas secundárias. Para lá chegar, pode apanhar o barco em Cirkewwa, no extremo norte de Malta. A travessia demora cerca de meia hora e custa três euros. Para chegar a Comino, pagará pelo menos cinco euros, mas o preço pode variar de acordo com o passeio pretendido.

Castille Hotel
A fachada de old palazzo, ainda que decadente, torna este hotel histórico a morada ideal para ficar instalado no coração histórico de La Valletta. A partir de 65 euros por noite. Pjazza kastilja La Valletta Tel.: (+356 21) 24 36 77 www.hotelcastillemalta.com

GUIAS DE VIAGEM
Malta & Gozo, Lonely Planet

Xara Palace
O boutique hotel mais prestigiado do arquipélago. Parte das suas paredes formou o principal bastião dos Cavaleiros da Ordem de Malta quando estes ali estiveram sitiados, no século XVII. A partir de 180 euros por noite. Misrah il-Kunsill Mdina Tel.: (+356 21) 45 05 60 www.xarapalace.com

NA INTERNET
www.visitmalta.com

AGRADECIMENTOS
A Volta ao Mundo agradece à Air Malta, à Halcon Viagens e ao Turismo de Malta o apoio na realização desta reportagem.

ONDE FICAR Le Meridien Phoenicia
É o hotel mais emblemático de Malta. Uma relíquia de traça colonial com mármores vistosos e jardins tropicais, eleito da rainha de Inglaterra e da rainha da pop, Madonna. E permite ainda um posto de observação privilegiado na varanda do quarto. A partir de 175 euros por noite. The Mall Valletta Tel.: (+356 21) 22 52 41 www.phoeniciamalta.com

RESTAURANTES E BARES Café Cordina
Misto de casa de chá, cafetaria, pastelaria, geladaria e Museu, o Café Cordina é a morada mais carismática de Republik Street. Sofisticado, de sortidos caros, é um dos melhores lugares de La Valletta para experimentar dezenas de variedades de bolos malteses. Republik Street, 244 La Valletta

www.airmalta.com

www.halcon.pt

OS PREÇOS DOS VOOS JÁ INCLUEM AS TAXAS ADICIONAIS (SALVO INDICAÇÃO EM CONTRÁRIO). ALGUNS VALORES APRESENTADOS PODEM RESULTAR DE CONVERSÕES PARA EUROS E/OU ARREDONDAMENTOS. ESTES E OUTROS DADOS PODEM SOFRER ALTERAÇÕES APÓS O FECHO DA EDIÇÃO. PARA MAIS INFORMAÇÕES CONSULTE UMA AGÊNCIA DE VIAGENS.

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