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Movimento rápido dos olhos

Priscila Muniz

Odor misto de ração e excremento. O que entra e o que sai das entranhas desses bichos
enormes, nojentos. Claustrofobia. Fábio fechava os olhos e via-se na pele daquele
camelo encerrado pelas grades. Meu pêlo está mudando. Acho que vi essa placa da
última vez que vim a este inferno. Há anos não recebe um aumento decente, no entanto,
tem que se prestar a levar aqueles gringos risonhos, de bermudas amarradas nos
umbigos, como são ridículos... Paul, Brendan, Steven e Eponine. Eponine, ela não. O
que ela vê nesse otário que acha graça em tudo? Odeio esse estralo que ele faz com a
língua, a mesma que se encontra com a dela quando eles se beijam, sós . Em público, só
beijinhos no rosto, you’re so polite. Dizem que os franceses fedem... Ela não. Ela exala
o único odor agradável que pode ser sentido neste lugar. Escócia. Morou lá por quase
dez anos. Parece que se conheceram por lá, in his land.

Fur Elise. Tenho que lembrar de mudar o toque desse celular.

— Oi Verônica
— Fábio, onde vocês estão?
— Em Dois Irmãos ainda. Acho que daqui a pouco estamos saindo.
— Vocês vão almoçar onde?
— Eles eu não sei, eu em casa.
— Ah, que bom. Já que tem almoço na sua casa, você pode convidá-los para comer lá.
Depois, você traz todo mundo aqui para a escola. Os quadros de horários já estão
prontos. Quando todos chegarem, eu digo com que turmas cada um ficou, OK?
Como ela é engraçadinha. Por que ela não vai para a cozinha fazer comida para eles.
— Tá certo.
— Até logo Fábio.

Chamada terminada
Verônica cell

Desvio ativo

Verônica, diretora do Highway Cursos de Idiomas. Mulher altiva, de olhar malicioso.


Viúva. Perdeu o marido pouco depois do casamento. Sua resignação não durou muito, é
o que dizem. Trabalha com Fábio há cinco anos; às vezes o adora, às vezes quer
esmagar-lhe os olhos com os saltos das sandálias que disfarçam sua pouca altura. Ela
realmente se acha grande coisa. Passou cinco anos na universidade estudando Letras,
mas é incapaz de escrever duas frases sem cometer sequer um erro gramatical. É bem o
estilo dela jogar a batata quente nas mãos dos outros. Agora sim! Tenho que encher a
pança desse povo, sem receber um centavo por isso. Gostaria de ver essa perua vestida
com um avental sujo de gordura, suor, fedendo a peixe, cozinhando para seus novos
amigos. Piranha imunda. Hoje ela decide o meu salário. Quatro. Deve me dar apenas
quatro turmas: três begginers e uma intermediate. Advanced, só para nativos, meu bem.
Puta desgraçada.

— Fábio, let’s get out of here. I’m hungry. Verônica told us we’d have lunch at your
home, is it right?
— Yes, Brendan. We’re going in a little while. Why don’t you call the couple out there
and tell them we are already leaving?
— Fine.

Ligar para casa. Avisar a mãe. Melhor não, ela ficaria arretada. Além do mais, ela
sempre prepara muita comida. E se faltar, que se danem. Minha casa não é restaurante.
Fábio parou um instante e atentou-se a sua respiração. Pela primeira vez desde que
chegara ao zoológico, observou bem o local. Muito verde, natureza. O parque está bem
vazio. Deve vir mais gente pela tarde, crianças, muitas crianças. Balões, maçãs do amor,
pipoca. Mãe, eu quero pipoca, eu quero, eu quero. A gente chegou agora filho. Na saída
eu compro. Crianças choronas e perversas. Como podem se divertir vendo esses bichos
trancafiados em grades, gaiolas. Pássaros sem espaço para voar. Devem maldizer até a
vigésima geração desses pirralhos que os encaram, curiosos. Pobres macacos. Já ouvi
dizer que sofrem de uma doença esquisita e que é por isso que andam de um lado para o
outro sem parar e ficam repetindo o mesmo movimento o tempo todo. Loucura animal.
Ficam loucos pela falta de espaço. Ela disse que os felinos daqui também têm
problemas mentais. Algo a ver com o cheiro da urina alheia. Muito verde, bichos,
natureza. Natureza agonizante, moribunda. Natureza superficial, forjada, morta. Sair
daqui e nunca mais voltar.

— Come on guys. Now we’re going to take the bus. Say goodbye to the animals.
— That’s it Steven. Say goodbye to your siblings. Look at that monkey. He’ll burst into
tears! “Please don’t go brother, I’ll miss you!” (Laughers).
— Oh Brendan. You should work in a circus.

Esperar. Dois Irmãos Sítio dos Pintos. É só esperar. Como chamam a atenção. As
pessoas não param de olhar para eles. Engraçado como é fácil perceber se alguém é ou
não daqui. Roupas, olhos, cabelos, pele, sandálias. Abrir a boca é só confirmação. Lá
também todos sabiam que eu não era americano. Ah, cabelos espetados. Muitos
americanos usam. Dos dois, Paul sim, Brendan não. Escoceses não sei. Não conheci
muitos. Na verdade, acho que o Steven é o primeiro. Cabelos lisos, normais. Nada de
espetos. Churrasco. Domingo, de manhã, em Boa Viagem. O pior é acordar cedo. Mas
se bem conheço o Carlos, nove horas serão onze e meia. O cara não desiste. Insiste que
eu leve a Carol. Ele é vidrado nela desde aquele dia no boliche. Maninha não tá nem aí
para ele. Ela ainda é muito nova pro bico dele. Não tá nem aí para ninguém. 16 anos e
ainda é tão boba... Não, imatura. Será que ela vai almoçar em casa hoje? Tomara que
não. Uma boca a menos.

Dois Irmãos / Caxangá

— We are taking this one. I guess you know you need to pay one real and sixty cents.

Dois Irmãos Caxangá parou um pouco a frente do local onde os futuros passageiros se
concentravam. O veículo estava quase cheio. Hora do almoço, estudantes largando da
Universidade Rural. Naquele momento, cerca de dez pessoas iniciaram tacitamente uma
competição pelo espaço nos últimos acentos vazios do coletivo. A primeira a chegar foi
uma jovem estudante, que foi quase espremida pela senhora baixa e gorda com quem
disputava a poli position. A gordinha ferozmente conseguiu chegar em primeiro.
Entregou o vale ao cobrador sonolento e empurrou seus lipídios contra a catraca,
fazendo-a girar. Escolheu o local que lhe parecia mais pertinente e lá depositou toda sua
massa corporal. Depois dela, as demais pessoas entraram em circunstâncias
semelhantes; com exceção dos quatro últimos, que formavam uma fila indiana.

— Eponine, you can sit here.


— Thanks, Fábio.

Como é engraçado. Anos e anos de lutas pelos direitos femininos, sutiãs queimados.
Querem trabalhar. Iguais salários. Não aceitam mais ser o sexo frágil. Mas, se houver
um acento vazio no ônibus, o homem deve ser cavalheiro e conceder o lugar a uma
mulher que esteja em pé. Elas são muito espertas. Livram-se das mazelas do
patriarcalismo, no entanto conservam as vantagens. Submissão, não. Cavalheirismo,
sim. E ai do homem que cobrar uma dívida da namorada, que sentar na última cadeira e
deixar a companheira em pé. Será fulminado por olhares machistas e também
feministas. Pseudo-feministas. Como este rapaz é mal educado! Mesmo que ele esteja
morto de cansado e ela tenha passado o dia inteiro just relaxing... A cadeira parece
clamar por uma bunda feminina. Lesbianismo.

Fábio sentiu um mal cheiro e, em seguida, algo a roçar seu corpo. Olhou para traz.
Nojo. Uma criança pobre caminhava por entre os passageiros que lotavam o ônibus.
Aos que estavam sentados, dava um minúsculo papel. Fábio, de pé, não o recebeu. Nem
precisava. Já sabia exatamente o que estava escrito ali.

Tenho cinco irmãos pequenos e meus


pais estão desempregados. Por favor
me ajude. Que deus te abençoe.

Sentiu raiva. Raiva do garoto que trombava em todo mundo e jogava aqueles papeis
imundos nas mãos dos passageiros. Quantas vezes já não os pegara, repugnando-os. Mal
educado, vadio, parasita. Foi quando, pela primeira vez desde que o pequeno entrara no
coletivo, Fábio olhou-o nos olhos. Não, não desviou como tantas vezes já fizera.
Encarou aqueles olhos melancólicos, tão expressivos que só os têm quem já passou
fome. Mas que angustia é essa que pressiona minhas artérias? Angústia do cristianismo
esvaecido. É só uma criança! Que culpa tem de estar pedindo dinheiro? Afinal, nós o
levamos a esse ponto. Nossa sociedade burra, egoísta, elitista! Nossa sociedade suicida!
Quantas crianças não pedemvendemroubam? É delas o prêmio Nobel que nunca
conquistamos. Certamente, daqui a alguns anos,

Freeeeeeeeeeeeeeio. Nossa, o que foi isso?

— Porra. Olha por onde anda! — gritou o motorista com todo o furor de suas enormes
bochechas encarnadas. Buldogue velho. Como resposta, obteve um dedo médio
apontado em sua direção.

— Isso é uma vagabunda! Não trabalha e fica atrapalhando o serviço dos outros.

É ela! Ela que sobe nos ônibus. A velha que rasteja por baixo da borboleta. Agora está
fora, mas é ela. Um centavo, dois centavo, três centavo, qualquer quantia selve. Selve
para ela comprar cigarros na Praça do Derby. Fumar sua solidão. Será que tem família?
Júnior. Foi bom ter encontrado ele ontem. Desde aquele dia no Caldinho do Marinheiro.
Ele tá diferente, mais magro, cabelos mais longos. Mais sério, bem mais sério, parecia
triste. Só o via assim quando o Santa Cruz perdia. Como naquele dia que ameaçou
deixar a Marcela sozinha num beco escuro bem de noite se ela não gritasse tri tricolor
tritritritritricolor. Gostava dela, mas enfureceu-se pelo Santa perder para o Palmeiras, e
ela gritava tanto Palmeiras Palmeiras Palmeiras... Não, ele não é má pessoa, foi só a
raiva do momento. Se ele tivesse... poxa, estou com fome. Será que estão escutando o
ruído? Fábio coçou a cabeça com seus três dedos centrais da mão direita. Contra a forte
luz do meio dia, via caírem lentamente, passeando pelo ar, minúsculas partículas
brancas. Caspas, nunca me livrarei delas. Brincarão comigo para sempre, ou até que eu
fique calvo. Prefiro as caspas.

Abaixou a cabeça. Seu olhar encontrou Eponine, ela não o olhava. Como é linda. Fitou
seus cabelos loiros, que refletindo a luz do sol brilhavam como ouro. Também
brilhavam seus olhos infinitamente azuis, infinitamente profundos, infinitamente
inocentes. Não como os olhos de Fábio, infinitamente maliciosos, que, a essa altura, já
encaravam os seios da jovem, avermelhados pelo sol dos trópicos. De pé, sua posição
era privilegiada. {Não há palavras não há palavras [só desejo (coração acelerado como o
trote de um cavalo de corrida) ele viu!]}. Desvio de olhar. Desconcertado. Será que ele
notou? Naquele momento, Steven já havia sentado ao lado da namorada, conversavam.
Deve ter notado. Melhor eu me controlar. Daqui a pouco descemos.

Ainda aturdido, Fábio soava muito. Foi ao perceber gotículas percorrendo seu corpo que
a brisa leve soprada através da janela a sua frente teve o efeito de um copo de água
quando se está sedento. O ônibus tem que andar. Movimento traz vento. Frescor
v\\\\e\\\\n\\\\t\\\\o.

Estamos quase lá. Fábio notou que uma mulher se levantava, iria também descer na
próxima parada. Não, não posso deixar que ela puxe primeiro. Com uma mão, Fábio fez
sinal para os estrangeiros, enquanto a outra puxava forte o cordão que avisa ao
motorista: alguém quer descer. Orgasmo. Viu a mão da mulher repetir o gesto. Inútil. A
corda já não emitiria som algum. Ele já havia extraído tudo que ela poderia dar naquele
momento. Como ele gostava daquilo, de ser o primeiro a dar o sinal. Alegrava-se ao ver
as demais tentativas frustradas.

Desceram bem ali na primeira parada da Avenida Conde da Boa Vista, já bem próximo
da casa onde Fábio vivia com a mãe e a irmã, e onde em bem pouco tempo teria que
encarar os olhares de soslaio daquela senhora. Não, não vai demonstrar sua ira na frente
das visitas. À noite quando eu voltar, me ferro sozinho, sem que ninguém presencie.
Será ainda pior, porque ela vai passar o dia inteiro ruminando isso. Vou escutar até a
semana que vem: por que você não avisou que aquele povo todo vinha? Eu não preparei
nada. Quanta irresponsabilidade trazer tanta gente para almoçar sem avisar antes. Vou
logo dizer a ela que a gente se vira com qualquer coisa. Salsichas, deve ter salsichas.
Xalsichas, Xalchisas, xalxixas.

O que você me pede eu não posso fazer // assim você me perde e eu perco você // como
o barco perde o rumo // como uma árvore no outono // perde a cor.
O que você não pode eu não vou te pedir // o que você não Droga!

Odeio quando essa porcaria cai no chão, fica todo sujo. Com as unhas, a jovem
esforçava-se em raspar do sabonete a sujeira que havia penetrado nele. Era sábado.
Sábado é dia de banhos demorados. Lavar bem os cabelos, depilar as pernas e cantar.
Após tirar toda a espuma do corpo, a moça pôs na mão direita uma enorme quantidade
de xampu (ou shampoo?). Mais do que o necessário para lavar seus longos cabelos
negros.

O que você não pode eu não vou te pedir // o que você não quer eu não quero insistir
Diga a verdade // doa a quem doer doe sangue e me dê // seu telefone
No táxi me trouxe até aqui Estão falando em inglês.

Devem ser colegas de trabalho do Fábio. Será que vão almoçar aqui? Vai ser igual ao
ano passado, quando mainha ficou danada porque ele trouxe aquelas duas inglesas sem
avisar. Comida até tinha, sempre tem, mas ela odeia ter visita e não preparar nada
especial. É vaidade mesmo. Não admite que alguém almoce sem elogiar a comida dela.
Fica se roendo por dentro. Imagina se saírem falando mal! É a morte. Não é que ela
implica com a Amanda só porque a menina come pouco! É como se tivesse
desprezando a comida dela.

— Carol, se apressa aí. Preciso ir ao banheiro.

Mensagem ignorada, como um spam. A jovem continuou a tomar seu banho com a
mesma vagareza de antes. A mesma de todos os sábados. Nem mesmo a curiosidade de
ver os gringos acelerava o procedimento. Agora, passava o condicionador nos cabelos.
Era um processo complicado, pois, após aplicar o produto, ela ainda tirava com os
dedos todos os nós que percorriam seus cabelos: não eram poucos: em virtude de todo o
tamanho: ainda era perfeccionista : não podia ficar nenhum.

— Carol pô, vai logo aí, — insistia o irmão em um tom baixo, como que para não ser
escutado por qualquer outro que não a menina.

Outro spam imediatamente deletado. Poxa, tomara que ela deixe eu ir. Mais tarde eu
peço a ela. Ah. Agora só amanhã, quando acabar o estresse. Fábio é fogo. Lua deve tá
comprando agora os ingressos da galera. O vestido preto, ou então a saia preta com a
blusa nova, não, não dá certo, melhor a blusa verde que dá pra usar com os brincos que
Dona Márcia deu, sandália preta baixa, odeio salto, desequilíbrio, queda.

Após enxugar o corpo com a toalha e enrolá-la nos cabelos, a menina começou a vestir-
se; pôs acima das roupas íntimas um short curto (redundância) e uma blusa laranjada.
Foi desta forma que ela se dirigiu ao seu quarto para pentear-se. Fácil bem fácil. Depois
de tirar todos os nós ainda no banho, o pente
d
e
s
l ongos.
i
s
a
pelos cabelos

Comer e fazer o trabalho. Não. Comer, siesta, depois trabalho. Arte grega é legal. Não
vai ser difícil. Vou fazer e botar o nome deles. Como sempre eu faço e coloco o nome
deles. Pelo menos fica do meu jeito, bom. Do meu jeito é sempre bom. Carol deixou o
pente na estante e, movida pela fome e pela curiosidade, pegou o corredor estreito em
direção à sala. Um ambiente pequeno, quadrado perfeito, que abrigava um sofá e duas
grandes cadeiras, além da televisão, de pequenas pranchas e da mesa. Fábio, finalmente,
estava no banheiro. Paul e Brendan sentavam-se nas cadeiras e o casal ocupava o sofá.
Steven, desconfortável. Tinha vontade de sair dali. Não sem comer antes, tinha fome.
Seus dedos, angustiados, como o latido de um cachorro para estranhos, deslizavam
freneticamente sobre as mãos de Eponine. It’s so hot inside here. In the weekend we are
going to the beach, Porto de Galinhas. I wishGod, what a beautiful girl. She’s gonna
look now. Prontamente, o rapaz afastou seus dedos da mão de Eponine. Seus olhos
azuis se encontraram com os da moça que surgia do corredor. No mesmo momento, a
francesa envolveu-lhe o corpo com o braço e delicadamente beijou-lhe a face.

Eu não posso. Não posso gostar dele. Ele tem namorada. Desviou bruscamente o olhar,
como quem teme um assalto. Gelou.

— Boa tarde.

Apressou o passo em direção à cozinha, ajudar a mãe a pôr o almoço. Será que ele
percebeu? Também estava me olhando. Que idéia! Esquece isso. Com um estranho
tremor pelo corpo, Carol passava da sala para a cozinha, colocando talheres e comidas
na mesa. Na sala, percebia os olhares tímidos de Steven; e outros muito menos tímidos
dos outros rapazes. Quase nem prestou atenção neles. Quando penetrava a cozinha,
escutava, sem, no entanto, ouvir, os resmungos da mãe, que repetidamente recriminava
Fábio.

Almoçaram todos. Como sempre, a comida foi suficiente, o que não amenizou o furor
nos olhares que dona Inês dirigia ao filho. Did you like the food? Sure. It’s excellent.
Very good. Conhecendo bem a mãe, Fábio tentou acalentar seu coração repassando-lhe
os elogios que à sua comida foram feitos, que, aliás, ele mesmo planejou. A senhora
sorriu para as visitas, mas manteve a mesma gravidade perante Fábio. Quando todos já
haviam reocupado seus lugares nas cadeiras grandes e no sofá, dona Inês chamou a
filha, que fora para o quarto.

— Me ajude aqui a colocar bolo para o pessoal.


— Tá certo, mãe.

A jovem recolheu nas prateleiras alguns pratos pequenos. Enquanto a mãe cortava as
fatias, Carol levava as já separadas. Serviu primeiro os rapazes das cadeiras, que
estavam mais próximos. Em seguida, entregou um prato a Eponine, thank you, e outro a
Steven, thank you. Novamente seus olhares se encontraram, como nas tolas histórias de
folhetins românticos. A garota voltou para o quarto angustiada: nunca mais vou ver ele.
Na sala, Fábio esperava seu pedaço de bolo, que não chegou. Ai ai, até parece que não
conheço dona Inês.

Love at first sight, this is bullshit. It was her legs, so beautiful legs. Her dark eyes, gipsy
eyes. Inviting. And her long and dark and wet hair. If I could have seen that shower.
Eponine. What about her? My dear Eponine. I love her. Do I love her? She’s just like
me. She’s too much like me. Jesus! Two weeks. Only two weeks for me to doubt. Two
years without winking. Bloody hell. Just forget it. We are going to Porto, we’ll have a
good time. Sun, and barbecue, maybe I can learn to surf. I will. What a wonderful
country. Standing on the shoreline, drinking beer. S R I G.
U F N
Coming back to the beach, sitting in the sand (sand + water = mud in the butt). As I
stare at the sea water mirroring the sunlight I see her walking right in front of me. Her
beautiful legs, naked. She sits besides me and we talk, and we kiss, and we fuck in the
water! She’s a kid, must be 17 or less. No, she isn’t 18 yet. God, stop it, I’ll get mad if

— Steven, come on. The meeting is gonna begin.


— OK, Pon.

She’s nice. Doldrums. We’re very similar to each other. In behavior. Maybe not in
thoughts.

— Good afternoon Steven.


— Good afternoon, Verônica. Hello, Mônica, Silvio, Patríshia. Hi everyone.
— Hey Steven. Are you enjoying the first weeks?
— Sure.
— OK, now you are all here, let’s start the reunion. I’m here with the schedule for the
semester. Before showing it, I will tell our new colleagues where are they going to stay.
Brendan, you are going to work in our branch in Olinda. You, Eponine, are going to
work right here, with us. Paul, you are going to Madalena and Steven to Boa Vista, in
the downtown. I gess you don’t know where those schools are, so I’ll ask Fábio to take
each of you to them. You can do that, can’t you Fábio?
— Acho que não, Verônica.
— Tomorrow is a good day, you can go with him.

Tomorrow is Saturday. Porto de Galinhas. No way.

— I don’t think it’s necessary. We can find the places if you give us the directions.
Besides, we already know those neighborhoods. We went to Olinda last week, as soon
as we arrived here. Today we have been to the downtown, in Fábio’s home. And I gess
Paul won’t meet with difficulties to find Madalena. Don’t worry, we won’t get lost.
— Fine, if you prefer, Steven. Now, the schedule. I’ll put the time-table in the bulletin
board.

Expressão grave, de quem não gosta de ser contrariada.

Olhos ansiosos, fingindo-se discretos. Ver o quadro, deduzir o salário é tudo que
querem. Cinco turmas, três turmas, quatro turmas. Insatisfação. Anyway.

Rancor por dentro, risos para fora. Muitos dentes, lobos. Sociabilidade = falsidade. Who
will ever subvert? Defenestrar todas as máscaras. Sorrir com sorriso de fera, sem
vergonha de ser fera, mostrando bocas enormes, famintas, sedentas de sangue. São mais
bestiais fingindo não o serem. Hipocrisia é verdade; verdade, vergonha. What the hell is
truth, Kant, Marx, Weber, Foucault?

A reunião acabou logo, mas muitos ainda ficaram na escola, conversando, discutindo
bajulando. Sentados numa das mesas da cantina, Eponine, Paul e Steven conversavam
com Sílvio e Mônica; esta última volta e meia falava em Fórmula 1, assunto que em
nada agradava seus companheiros. Não economizava exultações ao decadente (se é que
já esteve no alto) piloto Villeneuve. Amava-o mais do que o marido que nunca teve e os
filhos que nunca pariu. Sua vaidade não permitia o ultraje de passar pela conversação
sem mencionar o fato que todo ano ela vai ao Grande Prêmio de Interlagos, e que já
presenciou corridas nos Estados Unidos. Quando a conversa enveredava pelo esporte
preferido de Mônica, os colegas fingiam interesse, tentando lembrar de recentes fatos
automobilísticos. Perguntavam sobre Rubinho – a piece of shit. Everything in this
country is a piece of shit! Senna is exception.

How can a Brazilian hate her own country like this? It can’t be so bad. People here
seem to be free. Irresponsible, yes. But somehow free. Carol, I herd they call her
carol. Why didn’t he introduce us? She was smiling, smiling quite a lot. Everyone here
seems to be happy. I want to learn She’s quite. No strong emotions. Our life together
works like this, peace and stillness. No intense matters, no intense extravagances. I
want to be mad. I need to be mad at once.

Despediram-se dos colegas brasileiros, chamaram Brendan, que conversava com outros,
e foram andando para o apartamento onde estavam vivendo, quatro quarteirões distante
dali. No caminho, os jovens falavam pouco. À frente, iam os dois americanos, pouco
atrás estava, de mãos dadas, o casal. Os olhos claros de Eponine pareciam enxergar o ar
que corria; ele trazia cores distintas de todos os ventos que já lhe pintaram a alma.
Rosado. Ela o via rosado. Mirava a rua, as pessoas, as coisas. E tornava-as únicas, pois
jamais foram encaradas dessa forma; da forma dela. De todas os caminhos que já
percorrera no Brasil, aquele caminho do Highway para casa lhe era o mais agradável,
pois já parecia decorá-lo, entendê-lo.

Ela olhava os outdoors, sempre curiosa por entender o que eles diziam. Cada palavra
nova que aprendia era uma peça a mais juntada ao quebra-cabeça, que tinha como
esqueleto, na cabeça da garota, as imagens, cores, marcas, que em nada
particularizavam o Brasil. Globalization, late capitalism, they turn the ads everywhere
around the world quite the same. Scotland, France, Brazil, Africa, maybe mars
someday. Everything is good, everyone is the best. There should be a world law
obligating every company to tell in the ads all the bad things about their products. Or
services. Who would evaluate it? Maybe a commission built by They are all happy. You
are not buying a deodorant, you buy happiness. A drink for freedom, a mobile for
modernity. Things are not just what they are. They are something else, and that’s what
matters. O Zirou dou Habbib’s êssa mânia pêga

A vida gira em torno do sol. Passe Sundown e aproveite.

Sol is sun. Life, sun. Sundown thirty, it’s that solar protector I brought yesterday. My
skin is getting Eponine teve que desviar o traçado em linha reta que fazia pela calçada,
empurrando o namorado para o lado esquerdo, pois duas moças que conversavam
naquele lugar interrompiam o trajeto. Rustic. People here are rustic in many ways.
Citizenship, I don’t think they know what it means. What’s difficult about stepping
aside and leaving the sidewalk free for the others to pass? They don’t care to each other.
Look at these streets. Filthy. People do it. Yesterday, on the bus, that can through the
window. Eponine parou no meio-fio para esperar que o semáforo lhe autorizasse a
cruzar a avenida. Com a mão direita, impediu que uma grossa gota de suor que percorria
seu rosto alcançasse a boca. Em seguida, soltou a outra mão que estava presa a Steven e
com as duas ajeitou os cabelos assanhados pelo vento de Boa Viagem. Education. They
don’t have it. What’s a nation without education? (it rhymes). Ela sentiu seu corpo
pesar: estava cansada. Abaixou a cabeça e viu pequenas rachaduras na pista. They
resemble an E, of Epo

– Eponine, your name, it is not very common, I guess not even in France. Why Eponine,
do you know?
– Oh, Eponine is the name of a Victor Hugo’s character, from the novel Les Miserables.
Actually, she is my mother’s favorite character.
– Your mother, I thought she was dead. You told us you used to live with your father
and a stepmother.
– Yes Paul, that’s true. My mother my parents got divorced.
– Oh, of course. Does she live in France or in Scotland?

Where? What am I supposed do say? – In France.


– So I guess you don’t see each other quite a lot.
– You are right.
– Why did they divorce?

What a cheeky. Who the hell does he think he is to inquire me like this? (Ela finge que
não ouviu).
– I’m dying for a drink. A full glass of cold water, ahhhh. Which of you has fill up the
bottles?
Não há resposta. Todos se entreolham, desconfiados.
– God. So, I must do everything in OUR home! Fine. I would really appreciate if you
could help me a little.
– Calm down, Pon. You don’t need to stress out.
– I am not stressed, Steven. But I can’t keep doing all the houseworks by myself. You
are not exactly helping me in these things.
–Hey, come here – ele afasta a namorada para longe dos outros rapazes – you don’t
need to complain close to them. Do you want to annoy our friend?
– I don’t care if they will get bored. They are both adults and have responsibilities, so
you do. I mean, if we are sharing an apartment, every one of us must take care of it.
–I’ve had enough of it. I must, you must. Are these the only things you can say?

O rapaz soltou a mão de Eponine e foi caminhar ao lado de Brendan e Paul, deixando a
francesa afastada do resto do grupo. Ela não fez a menor menção de querer juntar-se a
eles novamente. Gostou daquele momento de liberdade, longe das pessoas com quem
havia uma semana convivia diariamente. Influenciable. I can’t believe he likes these
men. They are so stupid, like most of the Americans. Sometimes he is stupid as well.
Now, laughing with them. Unbelievable. Now he repeats all the time the silly
expressions they say. “Oh, it was mind-blowing!” Why are they here? Fun. Just for fun.
Mind-blow.

Poucos minutos depois eles chegaram a sua casa, um apartamento num edifício velho
que em muito destoava das esmeradas habitações da high society de Boa Viagem.
Subiram as escadas até o terceiro andar, primeiro Steven, depois os americanos e por
último Eponine, até que o escocês abriu a porta depois de enfrentar alguma dificuldade
com a tranca. Entraram. Ambiente ainda muito bagunçado, duas caixas espalhadas pela
sala. O local era pequeno: dois quartos. O casal ocupava um e os outros rapazes
dividiam o outro. A essa altura, o último raio solar já se curvara reverenciando a
sensualidade da noite. Ela tinha fome. Nada havia comido desde o almoço em Fabio’s.
Apesar de escutar carnívoras reclamações de seu estômago, Eponine não foi preparar o
jantar, como fez nos dois últimos dias. Esperava uma iniciativa alheia. Dirigiu-se a seu
quarto e pegou no armário o seu notebook.
– Socks, dirty. I’m definitely sure I’ll never marry this man. I’ll never marry anyone,
it’s a mistake. People get tired of each other. Maybe this is the reason why she wentOh,
news from Lizzie, I miss her. Good friend, good person. Answer her later.

A. Moreau …………………. Quelques images de Cambogia.

She wrote me again. What makes her think I am interested about her travels? She’ll stop
soon. Once or twice in a year she remembers I exist. Just it. Imagine if we met here.
Why not? She would be surprised. Oh, the photographer. He doesn’t seem to be a bad
person. She’s the sinner. She is the one who left us, he just… no. He knew her
condition. How could he allow her to leave a child and her husband? He almost died.
Great depression. Hard to cure. Malgré tout, j’aime celle putain. Pardon chérie, je
voudrait pás... ahhhhhhhhhh. Mon ange, maman a besoin de rester loin pour quelque
temps. Mais je assure toi que je vais t’acheter beocoups de souveniers venue de tout le
monde. Je t’aime, Eponine. Jamais oublie ça. She wanted to visit tout le monde. Wanted
a freedom she could never find with us. Has she found it? Will she ever? Elle était trés
jeune quand ils se sont marrié. Seventeen. Curious. She’s everything I’ll never be. I’ve
never had guts to… Changes. Moving to Scotland. Susan, even though she brought him
back to life. That’s why I left: couldn’t be selfish. I couldn’t stand her anymore. He
likes her, and there’s Nick, he’s young, I’m not. He built another family. And here I
am, doing what? Running away from my everstupid life. Who knows? Maybe I can find

– We are going out for dinner. Wanna come?


– No, thanks. Not hungry.
– K.

Holly shit. They prefer to eat outside then to cook something to us. Lazy, they all are.
And stupid. They’ll spend the rest of the money and will depend on the trifle we’ll own
here. Real, what a joke. I wont stand it. Spend a whole year with them. Ask Steven to
move. If he doesn’t want, I’ll do it anyway. Eponine fechou o notebook e levantou-se da
cama. Foi até a cozinha guiada pela necessidade fisiológica de comer. Abriu a geladeira,
olhou seu interior e, não satisfeita com a imagem que dali foi gerada em sua retina,
fechou a porta. Seguiu para as prateleiras, prateleiras praticamente privadas de
provisões. Apenas um pacote de macarrão e dois de arroz, crus. We must go shopping
tomorrow. I must. Ela fechou a outra porta e voltou à geladeira. Teria que achar ali
alguma coisa para comer; estava exausta para cozinhar. Pegou uma caixa tetra-park com
leite, um resto que sobrara do café da manhã (ou leite da manhã? Ela não tomava café).
Colocou o líquido branco num copo americano enchendo-o pela metade conforme foi
possível pela quantidade de leite pouca que existia na caixinha tetra-park. Em seguida,
retirou um saco de pão de caixa gelado que continha poucas fatias quadradas e pôs um
pedaço de queijo de anteontem no meio dos dois recortes quadrados de pão comendo-o
gelado. Nunca foi dona de casa. Sabia se virar para algumas coisas, mas sempre teve
quem lhe fizesse a comida. I miss his food. I don’t really like it, but I miss it. La Maison
Bleu. We have the best French food in Scotland. Nice to meet you Mr. Robb. I am
Susan, the administrator. I want you to meet my husband, the chef, he’s inside. Look at
that little girl, she’s his daughter. Isn’t she cute? Come here Pon, I want to present
youPon, where are you going? Come back right now! I’ m sorry, she is just a little…
what? What did she say? I can’t remember. Autistic, no, hummm, Imperative! That’s it!

A garota pegou o controle remoto e ligou a televisão de 20 polegadas que havia na sala
do apartamento. Não gostava de TV, pelo contrário, mas lhe disseram que era um bom
instrumento para o aprendizado da língua. Passou por diversos canais, mas parou na
Globo, canal 13, emissora que sabia ser de longe a mais popular do país. Viu anúncios,
cerveja e pasta de dente. Na tela, apareceu colorida a chamada de uma novela que trazia
um nome com um símbolo incompreensível para ela. Malhação. What is this sign above
the second a? And a cédille in the middle of the word, strange. Eponine ficou por algum
tempo assistindo ao programa, mas aquilo realmente a aborrecia, o que somado ao seu
cansaço lhe provocou uma vontade incomum de retirar-se ao quarto. Quando chegou lá,
extraiu de uma gaveta um fino livro, amaçado pelo uso. Um saison en enfer, de
Rimbaud, seu vício. Já o lera inúmeras vezes, mas de tempos em tempos voltava a
consultá-lo, como se ele ainda tivesse muito a lhe comunicar. Prefácio, sabia-o
decorado. Jadis, si je me souviens bien, ma vie était un festin où s'ouvraient tous les
coeurs, où tous les vins coulaient.

Un soir, j'ai assis la Beauté sur mes genoux. - Et je l'ai trouvée amère. - Et je l'ai
injuriée.

Je me suis armé contre la justice.

Je me suis enfui. O sorcières, ô misère, ô haine, c'est à vous que mon trésor a été confié!

Je parvins à faire s'évanouir dans mon esprit toute l'espérance humaine. Sur toute joie
pour l'étrangler j'ai fait le bond sourd de la bête féroce.

J'ai appelé les bourreaux pour, en périssant, mordre la crosse de leurs fusils. J'ai appelé
les fléaux, pour m'étouffer avec le sable, avec le sang. Le malheur a été mon dieu. Je me
suis allongé dans la boue. Je me suis séché à l'air du crime. Et j'ai joué de bons tours à la
folie.

Et le printemps m'a apporté l'affreux rire de l'idiot. Steven. It’s his smile! Eponine
fechou devagar o livro. O verso que tantas vezes lera, que tanto admirava pela imagem
forte, o riso horrível do idiota, agora lhe assustou como nunca antes. Ela sabia que as
coisas estavam diferentes, e algo lhe dizia que mudariam ainda mais. Eponine deixou
cair o livro no chão enquanto, empurrada pelo peso que o cansaço impunha ao seu
corpo, se estendia transversalmente pela cama de casal. What’s gonna happen now?
Should I really have come here? Runaway, that’s all I do. How will I act when he comes
back? Oh God, what the hell is happening to us? It must be this damn land, he’s
different since we arrived. So I am. Devagar, seus olhos cerraram-se por completo. The
day when we’ve met. She had just shouted at me, I was so angry and he was there, he
saw me running off, he followed me, though she said ‘don’t you mind with this. She’s
acting like a kid’, but he came after me. Many words, one kiss. A whole week receiving
flowers, little gifts. When has he lost it? I used to pass powder in his body, we used to
smile together. Pon, let’s get out. I don’t want you to spend the whole day reading. He
planed that. Do you remember the orange cake? What a mess. Pon, aujourd’hui on vas
manger dehors. Je sais que tu ne supporte plus les repas de ton pérre. Ce pas vrais,
Angeline. Notre fille adore le repas que je fait, nes’t pas, chérie? Si, papa. Mon amour,
je’taime, . Jamais oublie ça. Bientôt nous seromes ensamble, je t’assuré de ça. So, you
are Donat’s little girl, I want you

Trimmmmmmmmm. O toque da campainha a fez despertar assustadamente do labirinto


desvairado que é o sono ainda antes do Rapid Eye Moviment. Abriu seus olhos
azuisavermelhados e durante uma fração de segundo não reconheceu o quarto em que
descansava, estranhando todos os móveis, como se rodopiassem por sua volta. Oh, God,
I am alive. Fortunetly je suis vivre!

Recife, novembro de 2006

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