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Diálogos da Loucura - Diálogo VI

Diálogos da Loucura - Diálogo VI

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"O Cobarde e o Ousado estão condenados à mesma sina: preservar a própria verdade sem questionar os prejuízos."
"O Cobarde e o Ousado estão condenados à mesma sina: preservar a própria verdade sem questionar os prejuízos."

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Published by: António Marcos Coelho on Oct 16, 2010
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"Diálogos da Loucura

"

António Marcos N. F. Coelho 2010/10/16 Diálogo VI – certezas Estavam pessoas a circular na rua, circundando um amontoado de lixo, desperdício e sujidade. Naquele momento, tudo era confuso naquele amontoado. Algo como se, não houvesse ninguém para limpar aquela porcaria da valeta. A sujidade entranhava-se nas pessoas que seguiam sem se preocuparem com o seu estado. Nem com aquela alma sentada no meio de tudo aquilo havia alguém que se desse ao luxo de perder algum tempo. Mais um, menos um… Lixo, é lixo! Ouviu-se uma gargalhada doentia vinda do meio do desperdício dos homens e dois outros pararam chocados. Eu conheço-vos, garanto-vos. Eu sei o que cada um de vós é. Eu sei ler a vossa essência, digo-vos. Parados como sempre estiveram, sem fugir sem agir… Não digo que seja uma coisa má, não, é o que são ambos. Não poderiam ser de outra maneira, tal coisa não é realmente possível. Sei que não me compreendem ainda... Diz-me tu, o que julgas ser? Um dos homens, deu dois paços em direcção ao lixo. Possuído pela revolta, levantou a voz e disse ao desperdício: “Eu sempre fui o que quis ser, não há-de ser um monte de porcaria que me vai dizer quem sou.”. O corado de raiva, as contracções na expressão determinada, a voz firme, tudo aquilo ficou suspenso num momento como se esperasse disparar a rajada final sobre o amontoado de desperdício a qualquer momento. As risadas voltaram. Entre catarro e rouquidão, o velho continuou a falar sem se separar da sujidade que o sustentava. Eu tinha-te dito, tu és o homem ousado. Não temes, és persistente. Só por tentares mais do que os outros, consegues mais – é simples. Mas não te iludas, nem sempre conseguiste o que quiseste. Não terias sobrevivido sequer se o tivesses feito. Diz-me, também lutas com a tua verdade para não a assistires? Há coisas que não suportaríamos ver, o que te fere? Diz-me se o que te faz doer não é o ataque á tua verdade? Se é assim, porque o fazes tu? A sujidade entranhava-se no homem ousado enquanto se sentava ao lado do louco que ria, ria, tossia e ria… Ao ver esta cena, o outro homem deu dois passos atrás como se pretendesse fugir mas já não tivesse coragem para isso. Permaneceu a olhar aquela imagem cada vez mais confusa.

. Nada mais.. Tu tornaste-te ousado. no meio de lixo e desperdício.. é apenas a protecção que fazem a essas verdades. As palmas da plateia começaram a entoar na sala. Tal coisa não é realmente possível. E não é mais do que isso que procuram mudar… Ao começar a falar. porque tu nunca vais saber isso. não queiras parecer o cobarde que és. Aproximaram-se os actores da frente do palco e antes da vénia tradicional… “Acorda! O táxi já está lá em baixo à tua espera!”. Porque fazes isso a ti mesmo? Tentas mudar quem és mas o que tu fazes não é mais do que eu disse – estás a proteger a tua verdade.Não tenhas medo. Se pretendes mudar. O que vos atormenta não são as vossas verdades rígidas que protegem. muda isso. o que podemos fazer?”. tenho a certeza de quem és. Mas acreditam que seja possível. não seria possível. continuou. O vosso único tormento é a luta que fazem com a vossa verdade. é assim que podes transformar-te realmente. num ar pensativo. procuramos melhorar a cada momento. O cobarde deu um passo em frente e. tu cobarde e este ousado. o homem perguntou ao velho: “Diz-nos. procura-se. nem o mundo que desejam. Não se desenvolvem com intenções que sejam vossas. Não mudes. procuram em tudo que seja possível. Agora que te vejo lutar a tua cobardia. não lutes por verdade nenhuma – a verdade não se ganha nem se encontra. a audiência ainda apreciava a cena que acabara de assistir. Esquece quem és. as coisas. ambos estão. então. a diferença está na verdade. Como te podes rir disso?”. a dureza com que firmaram os alicerces das vossas verdades impede-vos que possam mudar. Podes dizer a uma pedra para não ser uma pedra? Podes dizer a uma árvore para não ser uma árvore? Não há nada que se possa fazer. são iguais. Ambos estão condenados à mesma sina: preservar a própria verdade sem questionar os prejuízos. “Essa luta de que falas não é mais do que o nosso mecanismo de desenvolvimento. O velho. a tua segurança. Não são os outros. Caído por fim. as outras verdades que ouvem. As risadas do velho não se ouviram no meio de todas as outras. apenas isso. Mas os risos loucos não cessaram. este baixou-se ao nível do desperdício. Não imagines. começou a falar. o cobarde é empurrado por alguém que passava apressado pela calçada onde estava o amontoado de lixo. A aparente ousadia do homem provocou-lhe o mesmo rubor na cara e todas as outras feições se assemelharam a ousadia. o teu medo. o mundo que vêm. eu. Mais estridentes agora do que os risos loucos do velho. tu também. A tua luta contra a tua verdade é a mesma que este desperdício aqui ao lado. enquanto hesitava em olhar o velho. tal coisa não é realmente possível. Ninguém o faz.

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