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Bertolt Brecht - Santa Joana Dos Matadouros Comp

Bertolt Brecht - Santa Joana Dos Matadouros Comp

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  • OS OPERÁRIOS
  • UM OUTRO OPERÁRIOS:
  • OS OPERÁRIOS:
  • CRIDLE:
  • GRAHAM :
  • OS FABRICANTES DE CONSERVAS :
  • MAULER :
  • CRIDLE :
  • CRAHAM :
  • LENNOX :
  • SLIFT :
  • MAULER:
  • SLIFT:
  • DONA LUCKERNIDDLE:
  • JOANA:
  • OS FABRICANTES:
  • OS COMPRADORES:
  • OS CRIADORES:
  • UM CORRETOR:
  • OS FABRICANTES – a Mauler:
  • OS FABRICANTES, replicando:
  • CRAHAM:
  • OS CHAPÉUS NEGROS cantando:
  • SLIFT
  • DONA LUCKERNIDDLE, avançando:
  • BISPA SNYDER, de volta
  • JOANA
  • BISPA SNYDER:
  • MAULER
  • OS FABRICANTES
  • OS CRIADORES
  • GRAHAM:
  • UM CRIADOR:
  • OS TRABALHADORES:
  • UMA VOZ:
  • OUTRA VOZ:
  • AS VOZES:
  • A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE:
  • OS CHAPÉUS NEGROS:
  • BISPA SNYDER
  • OS MÚSICOS:
  • OS REIS DA CARNE:
  • OS FABRICANTES E OS CRIADORES:
  • SNYDER:
  • O POLICIAL:
  • OS CHAPÉUS NEGROS, a Joana:
  • OS AÇOUGUEIROS:
  • OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES:
  • TODOS:

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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. Os Chapéus Negros se afastam. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. Uma multidão enorme e desesperada. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. Ao fundo. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. Jamais seus corações. derrubou-te. antes. presa. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. ruídos da Bolsa. . OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Degrau após degrau. Lennox está branco como algodão. No alto. que fogem do trabalho. por favor. quem é o responsável por tudo isso. Ao fazer mil perguntas. desce cada vez mais baixo. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS. Torna-se mercadoria. UM OPERÁRIO. Ele venderia o próprio ar. – Não. eu quero vê-lo. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. Resultado para nós: barrigas vazias. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. Recebemos mil respostas. torna-se. MARTA. ele te revenderia. O que comeste. Sua bondade perde rápido. E vê esvanecer-se sua pureza original. Joana e Marta esperam. esse Mauler. desde o dia em que nasceram. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. GRAHAM: E então. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. São reles glutões Preguiçosos. JOANA – Esse Mauler. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber.6 No meio do caminho encontramos. a Joana – Vamos agora. Abrigaram sentimentos nobres. pronto. para ele. onde se compram e vendem animais. JOANA – Quero saber. meu velho Lennox. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. já que ele é a causa de tamanha miséria. Quem abandona o lar protetor. Enquanto corríamos atrás de trabalho.

até aqui me acompanhastes. A Lennox: Estás perdido. Vá. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado. MARTA – Joana. Fecho minhas fábricas. à Marta: Tu somente. em salsicha se transforma. Bela invenção.. Por si mesmo. Primeiro perde a pele.” CRIDLE : . Slift. Marta. Mauler. Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. JOANA. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. até ele e. Saibas. E pensa nos velhos tempos. esta arte contrária à natureza. E talvez chore. JOANA – Mas tu vieste comigo. sozinho. O faro para o dinheiro é nele tão potente. que viram escovas. Começa então o seu retalhamento. acompanhado de seu corretor. Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. Quando ele não podia absorver mais nada. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Ele não pode suportar A visão da miséria.. Depois seus pelos. no último andar.. E assim. Batendo-se por sua conquista. Lubrificar meus cutelos. Cridle. que. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Até chegar aos ossos. eu também te recomendei prudência. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. ainda ontem florescente!. nele. moídos como farinha. Diga-lhe: Mauler. cruzei a última fronteira. o porco se precipita. Pois caindo.. então. e dorme mal à noite. Gritaram-me prudência: Para eles. Nas facas. E se lhe jogas pedras na cabeça. com voz suave. lutando. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. Em dinheiro ele as transformará. Um mercado aviltado. Agora vou limpar a minha fábrica. confessa. olhe para mim e de meu pescoço. por conta de seu próprio peso. Tão natural. Vocês mesmos.Joana. CRIDLE: Muito bem. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. Instalar duas ou três dessas máquinas novas. MAULER : Lennox está de joelhos.. Ele terá medo. chega Na lata que o espera lá embaixo. Bem pensado. a cada fase. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. com sua escalada. ele faz ouro. De carne podre.7 De barracos miseráveis. ele extrai rendas. eu garanto. MARTA .. no entanto. Tal qual dois grandes búfalos. O que fazer com ela? Ah. para economizar Uma agradável soma em salários. não achas? Ele se degola e logo. Todos me abandonaram. Espero que o mercado recobre a saúde. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Estranho conselho! Eu te agradeço. E agora. que vira couro.

MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. se tu estás Realmente onde dizes. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. É preciso então. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Seis dias? Não. as ações estavam a 390. Freddy! Quer dizer que tu me socas. CRAHAM : Toque-lhe o coração. LENNOX – Mauler. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. elas cairão a 70. cinco. Pepê! Como quiseres. mas. Hoje.8 Sim. como eu. então. Mauler. Nada além. É o máximo que posso fazer. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. Mauler. eu precisaria jogar essas ações no mercado.. tu me forças. isto é. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. de examinar Contigo.. Não pude imaginar seu fado. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. Mas.. MAULER – Leia. então. as ações caíram para 100. sem mais delongas.. nosso contrato não é mais viável. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. veja Lennox. Cridle. MAULER . o coração torturado! Cridle se afasta. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos. Tu me ofereceste a 320. LENNOX – Não. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.. Ele sai. Cridle. E eu. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não. e tu tinhas um terço. mergulhado em meus negócios. Lennox acabou. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. A exigir meu dinheiro. Lennox. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. Mauler. sensível! Ele soca Mauler no coração. nada. se eu fizer isso. Para pagar o que te devo. devido à saturação do mercado. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise. Não estava caro.. olhe para mim. GRAHAM — Mauler. CRAHAM .

43. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. o rumor da Bolsa continua. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. seus trabalhadores na rua? MAULER.. (aponta para Slift) É ele! JOANA. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. na verdade. que a sopa seja rala. JOANA: Por que joga. hein? Não. JOANA. Pouco me importa o que esperam de mim. MAULER – Rindo. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. eu sei. é ele. e pôs em apuros Cridle que. MAULER: O tecido é bem fininho e. São chamados de soldados do Bom Deus. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam.. sem dúvida? Prontos para a violência. que o sangrento Mauler. gente estranha. 55. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa. Ouve-se: Bois. MAULER . em absoluto. etc. Slift. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. cá entre nós. suponho. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. Com ar invejoso.É assim. JOANA. a Slift: Que eles trabalhem por nada. além da comida e do uniforme. Nada de choros. Slift? (Enquanto isso. . Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. há algumas pessoas que querem lhe falar. Dizem. – É o senhor. Chapéus Negros. A Joana: Vós sois. Senhor Mauler. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. – Vinte centavos. MAULER : Está bem. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. Durante esta cena. que a escória me chama – Despojou Lennox. Porcos. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. 59. mas vocês não devem Perguntar nada. que eu sou Mauler. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. Graham sai. Mas. sobre outra questão. não é homem de bem. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. adoraria vossa opinião. Slift ri. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. Vitelos. é o que tem a cara mais ensangüentada. Sim. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. diga que não estou. MAULER : A escória em farrapos. Mais uma coisa: não diga.

Tamanha inocência!. Abandonar esta empreitada. Eles não têm mais trabalho.. Mas. A canalha. de resto. Eu sei. não me comove. mas não digas nada. Nenhum é inocente. Deverias. Mas é uma gentileza. Desculpe-me. Seu rosto me agrada. ele decidiu abater O rico Cridle. MAULER: Riam todos. Diga-me que está certo E que isso te agrada. Dêem o dinheiro. Um instante. ele é mau. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. O homem. isso de se retirar do negócio. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. Tome para os pobres. eu sinto Que tu não gostas de mim. Talvez por isso te ajude. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Deixai disso. não creias que seja de boa fé. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. E desejaria que fossem mais numerosos. MARTA. .. não me digas nada. Eu sei. Ele fala com Slift em voz baixa. Marta sai. dêem o dinheiro. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. minha filha. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação.10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio. pessoas extremamente más. por favor. Eu os verei chorar um dia. que com tal decisão As pessoas sofreram. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. Ele se aproxima dos industriais.. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. a Joana: Joana. JOANA: Senhor Mauler. JOANA – Isso é uma gota no oceano. Eu também vou embora. São. Melhor para ti que não os veja. Não. confesso. Mas este mal era inevitável. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. É bom. no lugar do pobre animal. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Senhor Mauler. tu também. Ele não é maduro ainda. diga. aliás. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. Seu riso não me atinge. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. vamos. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. JOANA – Senhor Mauler. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina.. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. há pouco. para o que pretendes fazer. São todos carniceiros.

SLIFT: Em teu lugar não gostaria. em um jornal. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. é a escória. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar.11 Chame ela de lado. JOANA. ela poderá Aceitar sem pudor. Dois homens saem por uma portinhola. JOANA — Eu quero vê-los. o que causa má impressão. Quando a fábrica reabrir você. Isso pode funcionar.. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. em uma palavra. é o lixo do mundo. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. Luckerniddle. já que agora ele está em embalado.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. é claro. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. senhor Smith. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho. . caiu. ele cairá bem. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. por suas vidas miseráveis.) É uma pena. e para mim. assim como o seu boné. Responsáveis. faz quatro dias. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. De saber o que queres saber. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. cheios de traições.. e depois a siga. É preciso queimá-los. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. vacilando: Estou me sentindo mal. na caldeira. A Joana: Aqui está meu corretor. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. UM CONTRAMESTRE. Veja então o que ela compra. JOANA. Ele sai. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. Slift e Joana escutam. perderei meu emprego. o quanto antes melhor. peguei para mim. Mas volte aqui amanhã. Se isso falhar . ficará com a vaga de Luckerniddle. Sullivan Slift. Ele veste o casaco. SLIFT. Ele ouviu nosso chamado. E que não têm nenhum medo. E verás que tua piedade é descabida. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. e enrola o seu. é pavoroso. que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. a um jovem operário – Um de nossos homens. dê dinheiro a ela. Semelhantes a bestas. ele te fará ver algumas coisas. Diga “para seus pobres”. enfim. vestido com uma lata. e ele entrou na faca e virou toicinho. Azar. se quiser. Se quiseres mesmo saber.

Não tenho outro esteio. para nós. Slift volta para junto de Joana. Eu. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. gratuitamente. à cantina número 7.. Precisará nos processar. seu marido está viajando. e vocês não querem que se saiba disso. diga-lhe que procura trabalho. esperando por ele Mas ninguém diz nada. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. (Ele pára o jovem operário. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. Mas existem coisas Que importam mais para ela. nós não somos. vou falar com ele. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. se quiser me ver. Amanhã. No frio. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. JOANA: Ela nunca aceitará. senhor. SLIFT. enquanto não o vir.. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. Joana e Slift seguem seu caminho. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. lhes digo. Venha. passe-me logo teu cassetete. . Bando de açougueiros. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. legalmente. Eu tiro agora mesmo. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. SLIFT: Guarde essas coisas. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. SLIFT: Senhora Luckerniddle. dizendo tolices. Mas reflita bem. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. Quando ele se aproximar. lamentando-se: Faz já quatro dias que. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. saindo para o trabalho. pronto para encher a pança. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. mesmo à noite. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. a Joana – Fique aqui. se você não está precisando disso!. e meu marido não sai da fábrica. em nossa cantina durante três semanas. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. ao meio-dia. obrigados a fazê-la. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. não diga mais isso. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. Joana e Slift prosseguem seu caminho. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. de qualquer modo. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. Eu estou em uma situação muito ruim. Verás então o que é essa gente. Vamos. ele não foi para São Francisco. Eu ficarei aqui. SLIFT – Se é esta a sua opinião. GLOOMB – O feitor está bem ali. DONA LUCKERNIDDLE – Não. todo o tempo. (Ele vai em direção a Gloomb).12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. além dele. de forma alguma. é muito desagradável vê-la sentada aí. na fábrica. Aconteceu alguma coisa com ele aí. senhora Luckerniddle. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. senhor. me encontrará na cantina.

por exemplo. GLOOMB – Rápido então. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. Não podemos perder esse safado.. justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. e então eu teria. E eis que ela nos precedeu. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. encontrasse alguém. Talvez a vaga deste contramestre. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. GLOOMB – Aquela moça ali? . Ela não parece muito forte. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. Ela senta-se em uma mesa... GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. O que mais verei? Eles entram na cantina. por acaso. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. meu senhor. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. Ela correu até aqui e já nos espera. há uma moça que está procurando trabalho. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto.. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. GLOOMB . Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. (Ele vai em direção a Joana. DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. temi que amanhã ela viesse. Eu sou inspetor nesta fábrica. não sabia. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. Ali adiante. JOANA – A senhora já está aqui. faremos isso amanhã à noite. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. depois do que eu iria. JOANA – Quase tenho medo de continuar. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar.. no moinho de ossos. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa... Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. Se você. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. já faz dois dias que eu não como nada. Desde fevereiro estou sem emprego. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. e então eu poderia. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. Seria vantajoso para você. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. O posto não é feito para gente fraca.. calculando – Vinte refeições. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. Tchau.. GLOOMB – Nada disso é verdade. JOANA: Ela sentou-se ali.13 – Não tenho tempo. não muito fortes. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. tem que se retirar. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela.. SLIFT – Que pena. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. Apesar de tudo. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. pode ser que mude de idéia. DONA LUCKERNIDDLE. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você. Eu imaginava que ela iria resistir.

Sua imoralidade é sem limites. Ele foi obrigado a vender sua cólera. e comerá sem levantar os olhos do prato. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Atrás dele:) Você tem um belo boné. e que já apodrece. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Que sua miséria. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. Continuar fiel à memória de seu marido. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. estamos vendendo carne! Compradores. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. mas não em uma loja. ao lado daquela mulher. Era seu único esteio. Mercadoria invendável. e por mais justa que fosse. SLIFT – Durante três semanas ela virá. como um animal. preferido.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. Eu virei todos os dias. DONA LUCKERNIDDLE. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. SLIFT – E onde você conseguiu. ao garçom – Deixe meu prato. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. eu volto. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. (Ele senta-se. como muitas. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. a imoralidade deles? Ela teria. Ela se levanta e sai. Tão cara a ele. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. Mas vinte refeições. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. esta mulher. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. JOANA E procurar por ele. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. saindo. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Mostrar-te-ei. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. Você só precisa perguntar a esse senhor. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Um certo tempo ainda. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. como manda o costume. A senhora Luckerniddle sente náuseas. eu. Você a viu. para colocar Ao abrigo da chuva. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. o preço era muito alto. Ela sai.

caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. o que te escrevem? MAULER: Teorias. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. os criadores. MAULER: E mesmo a faca os recusa. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. Comprem. O que provocaria um movimento de alta. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. SLIFT: Eu riria se. Nas estações e nos pátios. nenhum tinha dinheiro. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Frigoríficos entupidos de carne congelada. Temos diante de nós montanhas de latas. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. fabricantes. O estômago do país. compradores. cubas. E da banha de Kentucky.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Do filé Graham. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós. Não a agüenta mais. verdadeira manteiga. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. em Nova Iorque. Aproveitem então. OS COMPRADORES: Nós compradores. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. A nós. quase de graça. a visão da carne enlatada Causa náuseas. Saturado de carne em conserva. compradores. . ao trabalho de nossos [engenheiros. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe.

e ficando com as outras. é que me levem a sério. Para acabar com Lennox. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. todo teu estoque. mas um outro Quem joga a rede. tu o retiras Do negócio e Cridle. Mauler! Fala. E vós soluçais nas saias de vossas mães. estava acordado. Cridle. e o conjunto das fábricas vale dez. É bom que ele seja nosso adversário. Pois tu liquidaste. ao fundo. Não é de hoje que fazes tais manobras. preferiu o vosso. a preço vil. nós somos os peixes! O que querem arruinar. E exiges dele o pagamento sem demora. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. . de toda a maneira. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. olha para nós! Assim. antes de qualquer coisa. Voltai para casa. provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . antigamente Mauler. eu quero o meu dinheiro. eu acabo de saber. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele. OS FABRICANTES: O que significa isso. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. ave de agouro. mas três milhões.. por dez milhões de dólares. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. é o cartel da carne. Veio a baixa. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. que estavam valorizadas. que se lançam sobre Cridle. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Cridle? Levanta os olhos. Cridle. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. nem que fosse por mais uma hora.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. Cala-se e aponta para o dedo para ti. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. já vinham caindo. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. Tumulto entre os fabricantes. que já se arrasta..Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas.16 . Isso representava um terço do total das ações. ao invés de trinta. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. Ele queria me vender a sua parte.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Desde aquele dia. o que desejo. nesta conjuntura. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. pálido como algodão.

seu cão. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. acompanhada de exclamações. . Ei. pois tenho outros projetos. Eu não quero que me vejam aqui.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. cem dólares pelo meu chapéu. olhos para ver? Ele é vosso irmão. E ninguém se preocupa. Meu chapéu. Uma mulher nos faz sinais de aflição. És tu. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. pois preciso partir. Meyers.Nenhuma sequer! Silêncio. JOANA . onde cada um revela Sua boca desnuda. Os que nos escutam. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército. com isso. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago. Parem os carros. Graham. Fazer avançar os tanques e os canhões. Ei-nos aqui. mas rápido! OS COMPRADORES . MAULER: Por hoje basta. Mauler. Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. então. E. Com o único objetivo de ajudar o próximo. o responsável Por esta catástrofe. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. E ninguém se preocupa Não tendes. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. fiquem diante de mim. Durante esse período a batalha na bolsa continua. Eu quero meu dinheiro. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. mas rápido! OS COMPRADORES . Nesse mundo sempre reinará a injustiça. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Não falemos mais de negócios. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. Estimularam-nos a criar bois. não saia! Graham. Mauler.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. meu chapéu. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim.

engodos e combinações para aumentar o preço da carne. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. buscando desculpas. o salário. imaginando que não virão à tona suas manobras. Não tenham vergonha. OS CRIADORES. Silêncio! Não lhes agrada muito. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. MAULER. UMA VOZ. Se os senhores continuarem tergiversando. pobres e deploráveis imbecis. Reparem então nestas gentes. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. COMPRADOR. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . Nos baixios. JOANA. As crises são catástrofes naturais. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. ver surgir a nós. eles que nada têm? Senhores. são todos uns imbecis. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. as leis econômicas. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. que sentam nesse palácio. avancem à luz do dia. eu bem sei. gritando: Por vossa especulação desenfreada. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. e a quem não querem reconhecer como irmãos. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. seus mugidos serão testemunhos. Vossa imunda cobiça. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. vocês. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. e diante de Deus TodoPoderoso. Aumentem-no. JOANA – Mas os senhores. E os senhores. os senhores se enganaram. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. Senhores. em conseqüência. tanto hoje quanto no dia do juízo final. que se dobram sob o fardo de suas penas. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. nada além disso. como fazem em seus jornais. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. os Chapéus Negros. a Revolução. pois os que estão lá fora já não têm como comprar.18 – Maldito sejas! Cridle sai. todo-poderosos. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. tereis a moralidade. e é verdade. que os pobres não têm muita moral. Se continuarem a agir assim. e escute o que eu tenho a lhe dizer. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. Traçam essas desconhecidas. aí pelo mundo. a quem os senhores transformaram no que são. nas favelas. destinos inelutáveis.

Eles.. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem.. e por vós mantidos Nesta pobreza. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. nós conhecemos. E lá. qual burros de carga. eu vou falar. e reduzi-los À voracidade. levantai-me. Os que estão atrás. Nós. deitado no chão – Eu compro. eles não. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. Mauler. a contar de hoje. E vós. Invisíveis para vós. estão tão enfraquecidos. No seio de Deus não há frio. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair. ao preço do dia. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. Compro. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. Mas quem sois vós. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. OS POBRES – Gente como essa. MAULER: Afastem-nos. nós nunca tínhamos visto. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. para eles inacessíveis. vós me mostrastes a imoralidade deles. E fome nunca se passa. afastados dos bens indispensáveis. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. vos rogo. Eles parecem bem piores. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. que mantendes longe de vós. Torna-se comprador. JOANA – E agora. como eles sim. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. JOANA: É isso. MAULER. em 15 de novembro. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. Além disso. eu. levai-o agora.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. . assume compromisso sobre a produção de dois meses. de todos os estoques do cartel. por favor. Mas os dois que estavam ao lado dele. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. meus amigos. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. ao instinto animal. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. também ao preço de cinqüenta. antes de partirmos. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. aí em cima.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. cantemos: “Nunca faltará o pão. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso. MAULER – Agora. cumprimos nosso trabalho de [missionários. ao fundo. Eles o levantam.

Joana e os Chapéus Negros saem. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. aqueles que o recebem. a sabedoria triunfa. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. não é. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. cutucá-lo. ao criador: O que Mauler promete. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. Mauler. dentro da casa. de São Francisco a Nova Iorque. Música a partir das 3 horas. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. Ele cumpre. Os fabricantes de conserva saem. ele não encontrará Um centavo. Aqueles que dão o pão. Muitos criadores se transtornaram. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. pois nós também. Nós estamos sob uma miséria atroz. Os patrões vão reabrir. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. os operários entrarão. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. Slift. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. Pois ele pode vir em auxílio. Se estiverem muito necessitados. Recusa-se a engolir mais. E vocês precisam dela. Para tal negócio. SLIFT. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . liga as luzes e agora repara em mim. na Rua Lincoln. então. Nesse momento o mercado recobra a saúde. Sábia decisão. O estômago do país. nenhum. às duas horas. entrada gratuita. Sua consciência já despertou. Podem esquecer seu nome. É preciso. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão. sabiamente acatada.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Contra a desrazão. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. discute com Slift – Fecha a porta. Agora os senhores podem respirar. O homem que o assinou não estava em seu juízo. saturado de conservas. Escutem: saímos. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. seguidos dos criadores.

Por trás havia rostos selvagens. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. Seu número aumenta a cada dia. vender e lutar sem parar. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. um após o outro. qual onda.. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. por mais externa e sem importância que ela seja. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus. Para limpar esse mundo. SLIFT – O discurso deles te perturbou. Nós que aqui estamos. Não há mais consolo. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. Não conheceremos a morte em nossas camas. a humanidade. Máscaras da aflição. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação.. SLIFT – E o que é. não é? SLIFT – Come. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. no entanto. .. Sob a chuva e de barriga vazia. Tão forte. talvez. urrando. retorna. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. Se nos apanharem um dia. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros. A urrar de aflição.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. E dezoito horas por dia. Fórmulas tomadas ao coração. Esquecer todo o resto. SLIFT: Em cidades como as nossas. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. Esfolarmos uns aos outros friamente.. E pense em tua situação: ela não é muito boa. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. É outra coisa. Tagarelice vazia e fácil.. Que não sabem como passarão a noite mas. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. eles são muito numerosos. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. meu caro Slift. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. Slift. Nós e nossa corja. Isso não pode mais perdurar. É sua antiga fraqueza que retorna. Não. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler.. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Agora. que mais não vi. Seremos colados ao muro. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Eu deveria podê-lo de novo. por mais louca que seja. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado.

sim! Eu comprei carne. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh. Essa seria uma saída. eles me escrevem para comprar. caro Pierpoint. MAULER: Tu compreenderás. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. hoje. Eu fui vê-los cair. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. Ah! Meu caro Slift. mais notícias. O ladrão está perdido. qual Atlas. Tu as compraste a cinqüenta mas. Não. assim. Aqui está: “Caro Pierpoint. na melhor hipótese.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas. eu não agi por razões vis. Os preços baixarão novamente. ou a vinte e cinco... E uma vez lá. muitos de meus concorrentes balançavam.. quando os preços estiverem em trinta.. continuando a leitura . esmagado. sob os arcos de alguma ponte. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. Mas não foi por causa da carta. comprar carne. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. MAULER: Corromper assim. o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. indicado. Sim. Corromper ou abolir as tarifas. amanhã. Ainda pela manhã. Ah. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Estão erradas. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva. mas Y o surpreende. . safa-se. acredito. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. Slift. eu te juro. eu estou perdido! Esse é o meu fim. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. os preços cairão a trinta. apesar de tudo. Então pode ser que. Receberás. Cairei. Nas semanas vindouras. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. rir-me deles. é verdade. então? Mauler sorri.” SLIFT. escapando bem. Parece. MAULER: Oh! Slift. eu estou perdido. Não é qualquer um que pode.“Estamos em condições. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. então. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. SLIFT – Quem são. Escuta: X comete um roubo. SLIFT – E o que escreveram. eu comprei. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. Em quinze de novembro. essas teorias de gabinete. os preços Subam? E nós acabaríamos. É coisa que também não se deveria fazer. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. votarão contra as tarifas aduaneiras. de resto. Ou desencadear guerras. na Câmara.

eu estou comprando e compro ao preço do dia. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu. que precisa bastante. tiver cem dólares no bolso. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. para evitar me encontrar. Que eles tirem. Vão para lá. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. nem chapéu nem sapatos. MAULER: É verdade. Isto é o principal: Sumir com o gado. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. SLIFT – Não deverias ter comprado. Antes de ter saído dessa. eu não quero meter o dedo neste negócio. No interior da casa. àquela gente que está com ela. Feliz se. ele se dirige à porta da direita. tentará sair pela outra porta. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio.) Slift.. como quem captura um grilo. Agora. Eu fiz “A”. Joana diante da porta da esquerda. Senhor Mauler.). Ele não gosta muito de me ver. diante da porta da direita – Sai. Eu não compro mais nada. em todo o Illinois. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. Slift. Retumbar de tambores. não foi bom. então. Mauler. MAULER – Eu não compro. das fábricas paradas. Slift volta. OS CRIADORES. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. JOANA. (Ele calcula. minha decisão está tomada. eu compro. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. Nem a mim nem aos que me acompanham. para o outro lado. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. (Ela ri. Os enganados serão os criadores. Slift? Não quero reencontrá-la e. Toda a carne posta em conserva até hoje. com um porco ou com um boi. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. quero paz em minh’alma. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. Quem me comprará. MAULER – A outra saída onde é. Quando ele me ouvir cantar aqui. e tudo o que cheire à banha eu compro também. Slift tragame tudo o que se pareça. Ele pede-vos dois minutos de reflexão. sobretudo. Lembrá-los de Lennox. a partir de hoje. Slift. Tu és o responsável por nossa desgraça. Pois. E nós somos. Slift sai. a cinqüenta. eu vou comprar. Ele desenha um “A” na porta de um armário. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois.) Saia. no fim. Vais comprar todo o gado de Illinois. Não.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem.. é verdade. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. E comprar-lhes tudo. Traga-me até a menor mancha de gordura. depois. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. SLIFT. Mas então. . Persuadir os criadores da oferta excessiva. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. SLIFT – Por aqui. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. de perto ou de longe. Slift. de seus delitos. Slift. Joana entra acompanhada dos criadores.

DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. E eis que “A” e “B” tomados juntos. dão certo. Suas misérias são grandes. Eles não têm pão. proprietária do imóvel. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. não se esqueçam de varrer a escada. frente a Deus. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. (Os Chapéus Negros saem. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. BISPA SNYDER – Agora. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. Alguém se equivoca: “A” é um erro. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. . OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. em nome de Deus. Ela sai. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. Mas seu nome não deve ser mencionado. pelo que acaba de fazer. sobretudo. SLIFT.24 Dominado por seus sentimentos. mas não fizeram nada. JOANA. ao fundo. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. salvador do comércio! Eles entram na casa. sábado próximo. Infelizmente. Trabalham duro e vestem-se decentemente. Eles não têm teto. Aos pobres:) Digam-me. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. e. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. Em seguida comete “B”. tão errado quanto “A”. uma avareza completamente inexplicável. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Que dão medo de olhar. Comandante dos Chapéus Negros. dona Mulberry. Assim eu decidi. que eles nos ajudem a desferir. Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. DONA MULBERRY – E meu aluguel. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. para vocês também haverá pão novamente. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. que cada um volte alegremente às suas funções. Faça entrar os fazendeiros. minha cara dona Mulberry. que são gente de bem. Entra dona Mulberry. Eles não são como os outros. sobretudo nas camadas inferiores da população. mas por enquanto não se preocupem.

Do lado de cá. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. não enrole. então. precisamos de sopa quente e música animada. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que. Entram os fabricantes de conservas: Cridle. mas que serão. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer.. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado. recompensados por suas penas. Bispa Snyder! Todos riem. SLIFT. um dia. Nós. os Chapéus Negros. Senhor Slift. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. bispa. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. portanto. sem que ninguém saiba como. senhora bispa. MEYERS – Eu me pergunto. Meyers.. MEYERS. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). o Pepê está com o gado. Slift! MEYERS. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. Slift. Que tal. a Snyder – Todos pobretões. precisamos do gado. no púlpito – Nós. . os reis da carne nos escutarão mais facilmente. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. na frente do palco – Então. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. MEYERS. portanto. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. confesse Slift. SLIFT – O essencial. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. É nosso nervo vital! SLIFT. os Chapéus Negros. novo soco – Que tu achas que eles querem. que eles estão destinados ao sofrimento. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho.. GRAHAM – Confesse. mais então. vocês certamente precisam. GRAHAM. menos Snyder. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. minha cara.. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. Deus é testemunha. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Já é melhor. são vocês que estão com o gado. E já citam vossos nomes. após a sua morte. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço.25 – Isso nos é favorável. BISPA SNYDER. estão acima da querela. não gosto disso. Graham. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos.. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida.. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. Quinhentos dólares. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. Graham. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. Na mosca. tão certo quanto eu estou aqui. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. Se vierem para cá tocados a pedradas. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. MEYERS – O que não será fácil. MEYERS – Setecentos e cinqüenta.

Os Chapéus negros aparecem na porta. gritando alto a Joana – Ah. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Estou pronto. vós então vos borrareis todos. nós não queremos mais ver. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . JOANA. e que os operários poderiam comprar a carne. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. Esta neve os mata. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. que ela usa como se fosse um porrete. e eu. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. pois. Saí. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. indo de um lado a outro. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. Se essas pobres criaturas. olhando os pobres. e rápido. Para que ninguém mais vá olhar de perto.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. E eu. Nós queremos reabrir nossas fábricas. De bom grado. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. É preciso que ele libere o gado. ao me veres aqui.No começo falaram em reabri-los. hoje. entretanto. para fazer pior. dizendo-me: ajudando aos de cima. perdi demasiado tempo até sabêlo. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. eu sei o que faço. mas não fizeram nada. própria para jogar água na fervura. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. Dizem que ele come na tua mão. Basta que alguém diga: está acertado. JOANA. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. É preciso ser muito tonta! Na verdade. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. da tua vista sairia. GLOOMB. Mas agora. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês. mas também os esconde De todos os olhares. Se fizeres isso por nós. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. que haveis atormentado ao extremo. mal tendo sido saciada. senão ficam imobilizados.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. ajudo também aos de baixo. Não me detenham. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. GLOOMB . qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos.

oferece teus bons préstimos. Ela carrega uma mala pequena. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. . tudo bem. DONA MULBERRY — Sim. comê-lo também! Vá-te então. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. ah. Quanto ao pão que precisamos comer. Homem de boa fé e destemido. terá de se mudar. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. não se vão. De qualquer maneira. BISPA SNYDER. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. Nós iremos viver dias terríveis. entretanto. OS TRÊS Joana sai. Anda cuidar de tua vida. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. ela não representa ninguém. Mas se ele não paga. não temos mais um centavo. Queres. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. esses pobres. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. tudo mal. agora. e a partir de sábado à noite. Por causa do aluguel. Doravante farás parte dela. Trazendo-vos totalmente convertido. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. está bem. prisioneiros Em uma torre de marfim. Povoada de cânticos e palavras que despertam. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. eu lhes trarei a sopa. Mediadora inútil e que cava a própria cova. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. é muito justo que pague. no coração da tormenta. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. Enfrentam-se como gigantes? Vá. bispa Snyder? Ela sai. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. então. na ponta dos pés. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. Mesmo que ele os torne surdos. Grupos inimigos irreconciliáveis. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. fracos. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. JOANA Irei ver o rico Mauler. JOANA. modestamente. de volta Convida a tua casa. Eu pedirei sua ajuda. BISPA SNYDER. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. de um ao outro. DONA MULBERRY.27 – Está bem! Mas conosco. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano.

que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. e cada porco Que eles precisam nos entregar. Não é fácil encontrá-lo. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. Senhor . É um belo sofá que o senhor tem aqui. Não se fala mais dela. se eu estivesse lá. senhor Mauler. realmente. Ele sai. de perto ou de longe. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. E na nossa mão é mais caro. Ela não tem medo de nada. por um momento. JOANA – Bom dia. Deixo minhas coisas nesse canto. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. Não se possa aceitar gente da minha laia. carregando uma mala. meu caro Slift. SLIFT. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. em sua casa. Mas o senhor tem razão. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Vou ver como eles compram. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. posso me interessar mais por cada homem em particular. Houve discrepâncias entre nós. SLIFT: Estou feliz. Faça subir. Mauler. Desde Que ela nos expulsou do Templo. A mim também Teria expulsado. Mas o senhor. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. MAULER: Agora. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo. mesmo nas pequenas coisa. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Eles precisam comprar de nós. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. Terão de pagar mais caro. Em busca de animais que. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. Eu desmenti. mas por que o lençol em cima. Gosto nela deste traço. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. Slift. e de que. senhor Mauler. E todos aqueles que como ele. de ser cuidadoso. E os preços Subirão ainda mais.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. Assemelhem-se a bois ou porcos. os preços a oitenta. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). Slift. desta vez.

Joana pára de comer. Corra. mesmo à noite. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga.. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. é lógico. não faço mais parte. o que me agradou muito e me pareceu justo. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. Eu confesso cruamente. nos deu prazo só até o próximo domingo. Ele traz comida a ela em uma bandeja. JOANA – Senhor Mauler. Toma. Um trabalho ruim. É por ti que o faço. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros.. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. MAULER – Não te inquietes. O escuro caminho que leva aos matadouros.. vá dizer-lhes isso. Mesmo que deva cortar na carne. Quando não o tens. é claro. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. senhor Mauler. Assim como aos criadores. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. Aqui está por escrito. ainda por cima. aos fabricantes. Confirme que foi por teus conselhos Que eu. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. de pé. senhor Mauler. Mas eu o encontrarei. Que meu comércio não é antinatural. arrancar a pele desta cidade. Estás de acordo? JOANA – Sim.29 Mauler. ser ou não ser. Daqui até sábado. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. encomendei a carne. Mas nesse negócio. não querem partir. Queres? Joana observa a comida. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo. MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. e que agi bem... e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. Uma vez mais.. o dinheiro para vocês eu terei. MAULER – . senhor Mauler! MAULER Tome. naqueles pátios imensos. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Eu também. na minha vez. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. JOANA – . eu não comerei. JOANA – Sim. sim. a proprietária.. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. Mas contigo não será assim. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. Eu te encontro bastante mudada. É Mauler quem vai dá-lo. muda logo a tua cara? . E que. Eis o desafio. não como eu queria. Ela começa a comer avidamente. a coisa não andou. Eu não conheço. que vive do aluguel. está caro.. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. O dinheiro.

E que. É à sorte. Por Ele batendo os tambores. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Obra imensa. Se eu quisesse me retirar. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Tão penosa de construir. Concepção inaudita à qual vós mesmos. O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. nem nós tampouco: Não seríamos necessários.30 O que pensas tu do dinheiro. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. sob chuva e frio. isso será suficiente. Isso que o senhor falou. malgrado os sacrifícios. E incessantemente construída. Que o gênero humano está entregue. Que seria suprimido por falta de utilidade. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. eu concordo. destruído na mesma hora. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. Pouco agradável. Mas pensa na realidade.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Pouco ou muito segundo o caso. diga-me. Ou então seria preciso mudar tudo. Quero saber. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Não enchas a cabeça de falsas idéias. Eu sei. Não desejais. Ele alcança o papel a Joana. de cima a baixo. veja bem. Daqueles a quem ninguém oferece nada. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios. Fazendo Dele a única salvação. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. Ao menos a vida de alguns. Na banal verdade. sem dúvida. Apanhe o que te dão. Eu seria varrido. ou quase. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Assim. aliás. Desde que existem sobre a terra. Ela se levanta. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. JOANA Senhor Mauler. . sob gemidos. MAULER . Eu não compreendo E nem quero compreender. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Sim. durmo mal à noite. Modificar por inteiro o plano do edifício. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. nem Deus. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo.

31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Saberás que neva sobre ela. Ela sai. Vai à janela e repara se neva. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. desfilando. com passos guerreiros. marchava à sua frente. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. por toda a parte. Chicago! Vós também Lá estavam. em todo o caso. eu quero fazê-lo. Eles formavam uma massa tão densa. creia-me. Eles fazem muita questão do dinheiro. IX Escutai o que eu sonhei. Mais numerosos. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. No futuro. em um pequeno campo. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. MAULER Esta noite. Eu comerei esta neve. E eu. pulsando vida. E o senhor. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. levanta-te. sem uma palavra. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. que vive da pobreza. Notei uma massa humana. A cada hora. A tempestade de neve. Que alguém gritou em algum lugar. afluíam inúmeros cortejos. com aqueles que esperam. E então uma palavra. Que o aceitem. Eu marchava. Pelo menos não honestamente. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Jovem e velha. e outras familiares. Fez esta massa começar a fluir. 1. silhueta múltipla. E o trabalho deles também. Há sete dias: Diante de mim. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. e então eu me vi: À vossa frente. Mauler. a fronte ensangüentada. Sobre ela que tu conheces. Ela permaneceu suspensa por um instante. E se não houver trabalho. E se nevar. uma palavra sem importância. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas. Ao mesmo tempo. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. Se for um punhado de neve o que lhes dão. E nada comerei além do que eles comem. Eu serei como eles sem trabalho. Quantos eram eles? Eu não sei. Arranjando para não ver esses condenados. E isso é muito bom. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes.

Rendidos pela fome. a cidade deles. A exata extensão de nossa miséria. modificava. Oitenta mil toneladas. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. GLOOMB – Dona Luckerniddle. transparentes. Há muito gado. e pior. E assim andava o cortejo. E com a aurora chegaremos a Chicago. sem mais delongas. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. nas praças públicas. Senhores. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. ao abrigo dos ataques inimigos. a senhora entendeu esta história? Eu não. Um pouco caro. bem e aquecidos! 2. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. Ocasionando imensas destruições.. mas existe. mas preciso das conservas. Mauler. a preço vil. a preço vil. Envolvida pela neve. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. Habitando em lugar algum. estávamos fora de alcance. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida.. Graham. Ninguém sabe quem foi. não nos podiam alvejar. e pior. eu ignoro. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Habituados ao sofrimento. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. Eu exijo que me entreguem. é verdade. BOLSA DE CARNES MAULER. que eu saiba. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. Precisamos comprar e os preços aumentam! . Assim foi o meu sonho. O que acontecerá. Eu andava no mesmo passo que o cortejo. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Todas as conservas Previstas no contrato.32 Tudo o que eu pisava. éramos inatingíveis. Para aí mostrar a todos. Influenciando o curso dos planetas distantes.

faz desesperadamente sinais para que saiam. JACKELINE. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. curta bondade. Nosso Senhor. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. meu irmão. não a violência. já ouvi demais. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. soldado dos Chapéus Negros: . eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. tu também. meus irmão. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. Pois nós encontramos Jesus. como vocês. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite.33 Trabalhadores e trabalhadoras. (Isso não serve para nada!). estava um dia sentada. Onde está Jesus. minhas irmãs. durante a cena. UM TRABALHADOR. que alguma voz. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. Ah. que nos salvou na dor. Silêncio. Joana se levanta e. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. Discursos. apesar de todas as nossas más ações. não o ódio.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. Nosso Senhor. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. por causa do meu marido. eu prefiro os atos. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. triste. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. Vinde a ele. mas eles traziam uma panela. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. tenente dos Chapéus Negros. e eu não tenho mais fome e nem sede. MARTHA. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. à dona. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. reina a paz. JOANA. ente os quais Joana. o amor. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . grande o nosso regozijo. os comunistas. tenho apenas sede da palavra de Jesus. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. GLOOMB – Bondade curta. à margem do caminho.

Quatrocentos.34 Foi vendido. eu tenho propostas a fazer. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. Se alguém vier perturbar a reunião. OS CRIADORES – Vendido. Os fabricantes se precipitam sobre ele.. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. Não havendo ninguém que precise de carne. o apetite desperta! GRAHAM. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. OS FABRICANTES: É Mauler. eu as quero agora. Mauler. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. É impossível encontrar um boi em Chicago. precisamos de um prazo. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne. se ela for justa. Os senhores devem me entregar a carne. eu não tenho medo. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Qualquer vitelo. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. mesmo nos grandes. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. se são os senhores os bois. Nós. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. Deixe-os totalmente à míngua. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. a greve geral. no mais tardar depois de amanhã. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. e caro! Ofereço. mesmo só uma pata. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Em frente a um galpão. Silêncio . para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. Já que não há demanda. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. Chegada de Joana. Além disso.. Ele vai falar com Slift. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. de Chicago a Illinois. os operários. Graham! As latas que me deves. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Vendo-os. Terá de ser comprado de mim. UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior.

Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. encostado em uma coluna – Faça subir. tanta gente na rua. Eu não sou uma espiã. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. assegurar o trabalho . em diversos pontos dos matadouros. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal.. Elas devem ser entregues às dez horas. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. MAULER: Os senhores não respeitaram. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três. JOANA 6. Por este buraco fogem todos os peixes. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham.. Esconda essa em seu casaco. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. eu sei quem ela é. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. – Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. Jack. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. galpão número cinco. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. na esquina do Parque Michigan.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. essa noite.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar.. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. dessa maneira. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. com tal medida. Meyers e Cia. O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. A carta é para eles. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. Ela é sua conhecida. Essas cartas anunciam que a usina de gás. estou vendo. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. a Mauler. Ela é honesta. O DIRIGENTE OPERÁRIO. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. SLIFT. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. Isso é bom. O operário apanha a carta e sai. etc. eu conheço o pessoal. Um operário apanha a carta e sai. aos responsáveis que esperam nossa orientação.

O segundo segurança sai. Acima disso. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. Mas os senhores se lamentarão por isso. GRAHAM: Que seja. por telefone. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. Pois a queda deles Será a nossa. MAULER. O primeiro segurança sai. Que sangrem. dizes. à procura de um parente que não encontram. senhor. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. Ele pode ir longe demais. só quinhentos. Quando se grita qualquer coisa. Vou soltar a carne e deixá-los partir. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta. Eles já não agüentam. Slift. Slift. Ceda. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. Ele repara no segundo segurança. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. . Mas para nós. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. Além disso. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. MAULER – Então. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. Ainda por cima está escuro. São centenas de milhares nos matadouros. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. esperando. Fala em meu nome. mas que não rebentem. MAULER. são incontáveis. é claro. O estranho é que aqui não se ouve nada. tudo a oitenta. SLIFT: Faça subir. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. não me diverte mais. sim. O SEGURANÇA – As multidões. Impossível. o vento abafa as palavras. que voltou para perto da coluna – Slift. SLIFT – A oitenta. Diga-lhe para que não me procure. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. Mil a setenta e sete. Ponha os pingos nos “is”. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. pois. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. eu não me sinto muito bem. E tenho outras preocupações! Veja bem. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. voltando ao grupo: Este negócio. Slift. Se perguntasse por uma Joana. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. Mauler. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Isso basta.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. subir muito mais. perdido por perdido. As conservas que comprei. se apresentariam dez ou talvez cem. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório.

Joana Dark. (Joana vira-lhes as costas. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. não mais. De outra forma isso terminaria em violência. toda a Chicago comparte seus sentimentos. Entre eles. em segundo plano. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Queria vender a oitenta e cinco. Chega um grupo de jornalistas. isso não é possível. Slift não tem ordem para isso. Não vão embora. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Joana. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. Então agora existe gado. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. Aja conforme o meu espírito. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. apontando para Joana – Aqui está. Saindo ele encontra jornalistas. Eles terão de nos responder. Aja conforme o meu espírito. Eles ainda agüentam. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Veja. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler.” JOANA – Eu não falei nada disso. Eu não posso mais. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. nós ouvimos. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. (a Joana) Esses são jornalistas. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. pode ler. senhorita Dark. no fundo.37 – Nem pensar. Para nós a senhorita faz parte. a alguma distância. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. serei eu quem fará subir. eles abrirão. O HOMEM. Nesse dia sim. esperem a resposta! CORO OPOSTO. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. que a opinião pública está do seu lado. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Mauler? MAULER. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Slift. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . 7. Tu me conheces. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Eles se sentam. JORNALISTAS – O que há de novo. Eles não abrirão as fábricas. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. Continue então com o negócio. Virão três pessoas. OS JORNALISTAS – Veja bem. Um homem os guia. Mas quando a aflição for tremenda. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. OS TRABALHADORES. E se quiseres abrandar.

Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. Tenho fome e isso é banal. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. isso é normal. Quando eu cheguei aqui. desde fora. chega! Você é boa mesmo de copo. que nada tendes para comer. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei. o que haveis deixado? Eu. foi você! Não adianta mentir. imbecil!. UM TRABALHADOR. eu não tenho o direito de ir. E um ambiente.. Mas. ignorar aonde te leva a vida. dê-me meu pano. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. mais do que tudo. Empunhar a bandeira e bater o tambor. A mim me esperam. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. E falar Daquele que mora lá em cima. dir-se-ia que é um caminho. a qualquer momento. Ir para um quarto quente. guardam-me a sopa. ela vai me matar. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. Mas é apenas uma tábua. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. E para vós é fácil passar frio. Apesar de tudo. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. o que deixei foi uma vocação. eu quero ir embora. Os jornalistas. o medo me aperta a garganta: Não comer. Vós todos. Mas. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. um teto e o sustento. Enfim. levantam-se e dirigem-se ao fundo. Algo de obscuro. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. . a Joana – Você está totalmente gelada. Quase uma comédia. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Mas a estrutura interna continua ignorada. JOANA: Eu compreendo esse sistema. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. confesso. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias.. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. não dormir. Não fazia tanto frio em meu sonho. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. E os do alto gritam: Subam. que de resto Já é a muito conhecido. não é? JOANA – A senhora também acha. com um vasto plano.38 Que não seja um nosso igual. ao qual estava acostumada.. A MULHER – Socorro. que acabaram de receber uma informação. Vós.. UM VELHO HOMEM. Mas eu posso. Já basta. tenho frio.

JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. Os tanques deles vos esmagarão. Não creiam em nada e não escutem ninguém. ainda que os preços continuem a subir. no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. Não ficaste tempo suficiente aqui. E nós vos dizemos: combatei. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Tu não compreendes nada de nada. Os jornalistas retornam. Se combaterdes. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. mocinha. espera. O coração deles não é de gelo. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. Ao longe as metralhadoras crepitam. Mas tu. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. aconteça o que acontecer. com a carta. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. no frio. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. o milionário que dispõe de muito gado. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Então a bondade existe. acaba de cedê-lo aos fabricantes. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. OS JORNALISTAS – Olá. de jeito nenhum. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. Agora as fábricas reabrirão. E nós vos dizemos: ficai agrupados. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. Não te movas! Entendeu? Ela sai.

Dia após dia ela desceu. Chegam três operários. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. Direis que fazia muito frio. Eu assim não poderia viver. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Joana tem uma visão. Enquanto o fraco ao fraco se alia. E é por isso que parto. e ninguém Poderá manter a sua calma. longe do mundo que lhe é familiar. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. . ao longo dos anos. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. algemados. Por três dias viram Joana em Packingtown. Isso seria desleal para com os outros homens. vós estivestes juntos Longas noites. Enquanto a noite cai. Os operários se levantam. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Quem agisse assim se sentiria perdido. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. mas agora a coisa está terminada. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. que eles ainda poderão ter uma surpresa. No final o lodo a engoliu. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. Quem o comerá? Eu vou embora. Começa a nevar. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. Os dois dirigentes operários passam. No lodaçal dos matadouros. eu digo. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Para este homem. Ela continua sentada. Ela se vê com roupas de criminosa. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. Por que foram presos? O que ela contém. Ela se levanta e sai. Seu sucesso foi grande. eu seria como eles e não faria perguntas. A tentação. as palavras teriam outro sentido. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. Vós. Nada de bom pode surgir da violência. Com seu silêncio opressor. Mas assim. DONA LUCKERNIDDLE. conduzidos por policiais. William. Sobre sua cabeça. estão muito enganados. UM OPERÁRIO. JOANA: Os que me entregaram a carta. Ou que engendrasse a violência. eu preciso ir.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Violar as regras em uso. para um dos dirigentes presos – Não liga não. Mas o prato que se prepara aqui. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. é imensa! Mais uma noite como esta. Eles saem. Eu não sou um deles. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. No terceiro dia sucumbiu. Há muito tempo que já está tudo arranjado.

em suor e em dinheiro. Sem nenhuma exigência. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. aqui sob meus olhos. Mauler e seu amigo. Na borrasca. 9. Assim espero.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. saindo – Bom. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. Aquele que sai de tal imóvel. Ele lê e empalidece. Essas notícias. mas o arquiteto teria. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. Sem que eu tenha procurado. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. Assim foi conseguido. UM DOS SEGURANÇAS. Eu tenho as minhas razões. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. confessa. De agora em diante. ainda atiram. Não é para pensar que eu vos pago. o que foi? Riste. E ninguém quis. Não preciso. Vejam o que leio. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. Quanto a este edifício. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Basta. Mas vejo que estão pensando. Em todo o caso. seja por economia. Pensar não serve para nada. Até o reino do espírito. Vejam. preto no branco. Sou conhecido nos matadouros. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Tem certa razão de estar alegre. em cima. meia volta. mais de vocês. a um de seus seguranças Parem. Perto dos matadouros. os pobres. Este homem está perdido. impresso. Agora eu estou livre. o mais vasto. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira.. façamos meia volta. nada mais posso fazer por eles. Eu disse: meia volta E tu riste. então. Até mesmo aos matadouros. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Há resistência. a dona Luckerniddle reencontra Joana. O mais prático também. Slift. são os mais atingidos. modificam tudo. Seja por aberração. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. .. hoje restarão No chão as pedras. Parece-me Que contratei dois idiotas. Está dito. Escolhido como material. É o que está escrito.

JOANA – Não. E aquele que chega a bom porto. UMA VOZ – Lá onde te esperam. A pedra não perdoa. Joana pára. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Joana ouve vozes. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Nela estava nosso destino. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. Pierpoint Mauler as arruinou. Joana. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. eu não a darei. Um lixo. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Mas a carta que trazia a verdade. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. Como se rede já não houvesse. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. de uma missão. fraqueza do corpo! Oh fome. Ao que tropeça e cai. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Eu vou embora. Dê a carta aqui imediatamente. Nós te encarregamos. As massas não deveriam ter se dispersado. Tu não a entregaste. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. De tua missão. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. Anda em outra direção. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Aquilo que lhe foi confiado.42 – Ah. Errando pelos matadouros. Que nada diga. caindo de joelhos: Luz. podias dar conta. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Lá dentro só se fala em violência. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. OUTRA VOZ: Joana pára. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. precisas chegar! Joana olha ao redor. É inútil tentar pegar. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. Tudo está voltando ao normal agora. mas entregue. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. Mas também podias nos trair. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Nós não sabíamos quem eras. mas a senhora quer continuar. Por este buraco fogem todos os peixes. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. JOANA.

DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. estamos aguardando. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. que prometeu nos ajudar. E nós gritamos à plena garganta: Ah. que aliás é muito barato. é sábado a noite. Conheci bem um homem. É Mauler. a qualquer momento. coloque os móveis na rua. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. o suntuoso Mauler. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. Ah. Um homem começa a levar os móveis para a rua. Mas nós o estamos esperando. à chuva. MAULER. agora os pegamos. ou que deixe o imóvel. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Quero que a senhora pague o meu aluguel. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. com sopa quente E um pouco de música. Vejam que já balança. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. Buscam-no por toda a parte. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. no céu e no inferno. Pediram-lhe cem dólares. Para nos salvar neste instante. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre. Exposta outra vez à neve. minha cara Mulberry. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. se ele pudesse vir. UM HOMEM. Ele sai. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. . ele possuía dez milhões. A massa espera. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. que triste. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando. o rei da carne. nossa boa cidade. BISPA SNYDER. afastada do trabalho. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. o senhor Pierpoint Mauler. investindo contra ele – A sopa. Liberada. Eu o conheci: era um imbecil.43 Frio da noite. posto que sem abrigo. O reino de Deus está pronto na minha cabeça.

Aqui estou agora. e dilacerado de remorsos. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. Todos os pagamentos estão suspensos. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. BISPA SNYDER. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Apenas nos resta chorar. recusou-se a dar o dinheiro. sem nada. BISPA SNYDER. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Diante de vós. Não podemos mais pagar as nossas contas.44 No fim. Os músicos tocam um hino. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. mas arrependido. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. Mauler canta com eles. Tiremos de nossas paredes as máximas. Joana. já. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. olhos voltados para a porta. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. não o seu dinheiro. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim. eu vejo. Culpado. Os Chapéus Negros cantam. ar ausente. E esse gesto tocou os nossos corações. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. é certo. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Se aproxima já Com os seus milhões. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. Passar bem. deu cabo de si mesmo. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. que tenha caído tão baixo. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. construir vossa casa . Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. meus amigos. Jogou no mar seus milhões. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. sim. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. Ele trazia o seu coração.

Que a constatação vos enche de amargura. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. com voz dura. Que não ficou só por muito tempo. o caos. Em três dias. Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. nobre Mauler. Mauler. . Subiu os preços a noventa e cinco. comprometendo suas casas. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. Ele tenta sair. Lançou. Por vós fomos forçados. Mal viu esses bois vindo ao longe. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. Que vos pertencia. e a noventa e cinco Comprou-os todos. firmas de grande renome. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Relatarei o combate memorável Que. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. tomado de loucura. os reis da carne vêm ao seu encontro. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. Dá o dinheiro. Prometiam até o gado por nascer. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. No mercado perturbado. Viram-se os preços Oscilarem. E tudo o que de longe parecesse um boi. O Banco Nacional gritou: “Alto”. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. O ancião venerável. Quando. Um vitelo ou um porco. da Argentina. OS CRIADORES: Maldito Mauler. desde a aurora. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. a comprar gado. em poucas palavras. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. Eu sei muito bem. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. Ninguém jamais pode fugir da lei. paga-nos o gado! GRAHAM. Acorreram todos em ajuda. Estão pálidos como o linho. Loew e Lévi.45 Sobre o que há de pior em mim. assumindo seus deveres. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. tomando a frente : Mauler. Mauler. No ciclo dos astros ou das mercadorias. ao meio-dia. E sobre eles atirou-se. salva tua alma. o que existisse de gado. Na porta. eles iriam trazer. quem nos derrubou. chorando. Que projeto tendes agora. E Wallox e Brigham. hesitantes. Era vosso todo o gado. Bispa. Eles também estão muito pálidos. Mas Slift. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. Mauler. gado canadense. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. e sobre nossas cabeças. partistes. durante sete horas.

se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . os cavalos inimigos. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. Que nos píncaros se encontrava. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Célebres. comprar. E em silêncio também os bancos desmoronaram. os agentes fechando suas escrivaninhas. Lutavam a dentadas. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência.. em um espasmo. Só um.46 Mas Slift gritou: “Três dias não. baixou. Os corretores. Lévi. Casas até então sólidas e poderosas. Rangerem os dentes. Inúteis portanto. O que fazer. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. O sapato. Do outro eu preciso. os vívidos vitelos. diga-me.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: . Como definha uma esponja espremida. obstinados. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. paravam de viver. Parando de pagar. Vertiginosamente. golpeia um corretor na barriga. em um suspiro. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Eles precisavam entregar. a carne de boi. é sabido. Como a água que cai na cascata. mudos. Naquele instante. por sua indiferença. Sob nossos olhos. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Porque não mais podemos honrar os contratos. e os preços subiram. Seria esmagado como um morango no chão. Lévi. E viu-se. E que não foi ainda acertado. E como contratos nulos não impõem compras. Institutos de crédito. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. agora. MAULER: Agora mesmo. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. de imediato. e então se retirarem. o velho Lévi disse então em voz baixa. tomados de desespero.. isto é. Nós queremos que nos digas Como. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. Eu quero para hoje”. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. entrego por cinco. com olhos marejados. um a um. bancos. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Até os simples contínuos. Slift. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Lançaram-se um a um nesta última batalha. na batalha.

nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. para que comprasse carne. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan.47 “Ei. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. amigos. compreendei. conhecem um meio de sair desta. sozinho. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Não quero. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. é muito a contragosto. pelo que dizem. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Ele estende-lhes a carta. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele. Seus amigos de Nova Iorque. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. de Nova Iorque. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho.. o que faremos.. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . nobre Mauler. Rockfeller. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. Mas nossa pobreza não é. é impraticável. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. MAULER: Ou seja. E dado que de vós necessitamos. Compreendido como sendo de interesse geral. não bebam todo o dinheiro. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. caro Pierpoint. assumir a empreitada. De um asilo necessário para os casos mais graves. entendei. rapazes.(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. condescender.” Não. esta caça fatigante. vocês estariam dispostos. a quem mandavam cartas desse tipo. Alguma chance de sucesso. Outra vez responsável. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles. Não ter fartura de bens terrestres. O projeto teria talvez. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. E o barulho das metralhadoras. neste estado. Seus bens. isso não é possível. Pois os preços do gado vão subir. Providos de sopa quente e de boa música. Julguem vocês mesmos. mas são numerosas. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. esperamos” E agora.. Não. MAULER: Se o faço. Neste caso. Mas para mim. ao contrário. Caro Pierpoint. Agora. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. Mauler. MAULER: Em nós a consciência. elas vão mal. Sancionado pelas instâncias superiores. Abandonai.. O negócio só é possível. E voltar até nós? Pensai. estão para sempre perdidos. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. nós estaremos de bom grado à sua disposição. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. Se assim fosse concebido. para que os preços voltem a subir.

Nesse tempo de humanidade desumanizada. mais ainda. é claro Que entre vocês estivesse Joana. TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. É preciso limitá-la. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. Digamos: a maior parte. Miséria e fome. criadores e industriais. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e.48 Que nós somos uma gente valorosa. E às vezes inoportunos. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. É por isso. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. queimar um terço do gado existente. O mercado foi saturado este ano. dizem. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. que deseja Fazer o bem. E mesmo que muitos não compreendam. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. Nós o faremos. pedindo a palavra: Perdão. BISPA SNYDER – Quase todos. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. Eles podem nos parecer inferiores. ofuscado. para puxar os preços. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Elas trarão a calma e a ordem. Todos sorriem longamente. Vê que são eles os compradores! Seja como for. Limitar o rebanho oferecido no mercado. é lógico. Eu compreendo o senhor. MAULER. Eliminar o estoque excedente atual. E é por isso que os preços caíram a zero. supérfluos. você não compreendeu A questão de fundo.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. aos criadores : Escutem. nós decidimos. meus amigos! Eles cochicham. . . Meter um freio à anarquia da criação. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. sorrindo: Minha cara bispa. Seria muito importante. Em conjunto. é eminente -. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. Chapéus Negros. desordem e violência. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. E que. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Então. tem seus defeitos. Enfim. Eu fico com a metade das ações.

Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. Quando estão cegos e surdos.49 Cuja face por si só já inspira confiança. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. JOANA. a seu lado. dois homens conversando. UM DELES – E por que foram presos? . apanhem-nos! Sejam bem-vindos. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Ela então ouve. OS CHAPÉUS NEGROS. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Quando perdem o trabalho. Joana segue com o olhar os prisioneiros. cantam. eles chegam até nós. Eles combateram Pelo pão dos outros. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. Eles vêm até nós para chorar. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. olhar fixo na porta: Eles terão de vir. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Perseguidos sem trégua. Os que aqui chegarem. apanhem-no! Lazarentos e descalços. não deixaremos! Sejam bem-vindos. penteados e carecas. Nenhum deles tem chapéu. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. Nossos planos outra vez se impõem. UM CORRETOR. Passam apenas alguns grupos de operários. Imóvel. De sopa encham os pratos. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. Até nós. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Sejam bem-vindos. Música de órgão. estão chegando! Daqui eles não escapam. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir.

UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria. pisoteados. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. As fábricas reabrem. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. entretanto. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. você aí! As coisas deram errado. Golpeados. Em nós podem por fé. a sorte nos sorriu. Deixem ela aí no chão. Joana se vira. Nenhum morre de barriga cheia. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. A greve geral fez água. mas o justo se esconde. Não. esticando o braço com a carta na mão. não é ela. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. E a carne vai subir. que seguram bandeiras novas. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Era uma velha operária. amparada por um policial. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. chega ao termo de sua vida. Deus outra vez se impôs. JOANA. carregando lanternas. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. Seu último endereço Teria sido aqui. Um grupo de pobres entra. Todos perecem antes do tempo. Joana. Um deles a derrubou com uma coronhada.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Nem é enterrado com decência. Nos vales e nos cimos. Ou de malfeitores postos na cadeia. à sua frente. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. OS JORNALISTAS – Vejam só. Esta aqui não é das nossas. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. os jornalistas a interpelam. como se ainda quisesse entregá-la: . Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. Joana cai desmaiada. foi reduzido em um terço. o salário também. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. saiba que são eles. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Recolhida doente Nos matadouros. – Ela deve estar aqui. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Quando os soldados vierem a recolherão. Lançados em terra profana. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. mas apenas para dois terços dos operários. Nenhum.

na noite. Foi necessário.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. BISPA SNYDER: Levanta-te. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Joana dos Matadouros. SLIFT – Esta é nossa Joana. Matéria a sua altura . empregando todos os meios. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Intercessora dos pobres. toda a obra Onde o espírito não encontra. O ideal. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. Eu o neguei. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. Pelo contrário. intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. A vida tranqüila de um cordeiro. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. também humanos! JOANA. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. sua térrea natureza. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. Vamos colocá-la em destaque. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Chegou na hora certa. E seus erros. Vós. Eu faltei. Eu falhei com os perseguidos. Ela que. o infinito. Ela vai muito adiante. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. eu poderia levar. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Quando o meu esforço. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. dando provas de humanidade nos matadouros. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. infelizmente. e ultrapassa o objetivo. por menor que fosse. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Por uma boa causa. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. E tinha sonhos para milhares. E só servi aos perseguidores. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada.

E o que se passa no alto. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. Eu. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. qualquer que seja. OS FABRICANTES: O resultado. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Quaisquer que sejam as aparências. Mas também no alto. Que nada seja considerado como boa ação. eu não transformei nada. dois pesos e duas medidas. Entre os do alto a baixeza é sem limites. Mas nada mudará se eles melhorarem. Que ninguém seja tido como honrado. como do topo. a Joana: Seja boa e se cale! . caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. A essas tropas indispensáveis. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. fique no lugar Que lhe é atribuído. Que cada um. o que foi que eu fiz? Nada. E sem descanso nem folga Realize seu dever. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. falando alto. No topo e no chão. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. Se não for uma ajuda real. Contrário à razão. Sistema bestial. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. ignora-se o que se passa em baixo. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Nunca se sabe em baixo. para os exploradores. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis.Isso não basta – Deixai um mundo bom. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar. OS CHAPÉUS NEGROS. O que está em cima está em seu justo lugar. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem. Mas que não sabem o quanto. O que está em baixo tem grande importância. então. Precisa-se do chão. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Não tenhais a preocupação de terem sido bons .

vinte e cinco anos. ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. para abafar o discurso de Joana. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. MAULER: Deves agir. sempre mais alto. A palavra de Deus. Não esqueçam.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” .Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. Onde vivem os homens. quando vos disserem. de século em século. comerciantes. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. JOANA: E do mesmo modo. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência. Não. O Verbo magnífico. Sempre necessário . invisível. mas que seja bem alto. Só dos homens pode vir ajuda. Todos. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. sobretudo. Denegrindo a ti mesmo. Sempre se metamorfoseia. Do qual podeis esperar ajuda. é verdade.53 É preciso. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. de esquecer os remorsos. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. Combatente e mártir. infelizmente. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. SLIFT – Escutem. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima. Falem. BISPA SNYDER – Joana Dark. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. Mas evita. Em suas compras. ou seja. digam qualquer coisa. cantam a primeira estrofe do hino.

Comove-nos profundamente. que vos ajuda também. morta de pneumonia nos matadouros. que manipulam o dinheiro a rodo. Por um nobre ideal. Um desejo vive no coração do homem. Aos astros. Infelizmente. na terceira vez ela o pega. mudos de emoção. Qual um punhal.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. sinto-me atraído: . combatente e mártir. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração. A um sinal da bispa. Em seguida cai nos braços delas. vinte e cinco anos. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. Em duas tentativas ela recusa o prato. Hosana! Que seus crimes terminam bem.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. levanta e vira. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado. O palco é iluminado com uma luz rosada. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. A generosidade De uma alma sem mácula. Não dá mais sinais de vida. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. tocada pela morte. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. BISPA SNYDER – Joana Dark. Hosana! Oferecei a vossa graça. Hosana! Esmagai o ódio. Todos ficam muito tempo de pé. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. até o fundo cravado. Colocam a bandeira em suas mãos. até cobri-la totalmente. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. Bolsa de NY cai 4.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. Hosana! Notam que Joana para de falar. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. Snyder e Mauler vão até ela. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. para sua grande pena. sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Hosana! Nesses braços que vos estendem. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Pelo espírito. Ajudai vossa classe. a serviço de Deus. mas ela cai. Hosana! Com mãos cheias. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Hosana! Durante esta estrofe.

como de tua alma vil. Ele precisa cuidar de ambas. Cuida bem das duas! . como de tua alma grosseira. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. Longe de querer escolher uma delas.55 Desejo a abnegação. Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa. Cuida de tua alma terna. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro.

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