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Bertolt Brecht - Santa Joana Dos Matadouros Comp

Bertolt Brecht - Santa Joana Dos Matadouros Comp

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  • OS OPERÁRIOS
  • UM OUTRO OPERÁRIOS:
  • OS OPERÁRIOS:
  • CRIDLE:
  • GRAHAM :
  • OS FABRICANTES DE CONSERVAS :
  • MAULER :
  • CRIDLE :
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  • LENNOX :
  • SLIFT :
  • MAULER:
  • SLIFT:
  • DONA LUCKERNIDDLE:
  • JOANA:
  • OS FABRICANTES:
  • OS COMPRADORES:
  • OS CRIADORES:
  • UM CORRETOR:
  • OS FABRICANTES – a Mauler:
  • OS FABRICANTES, replicando:
  • CRAHAM:
  • OS CHAPÉUS NEGROS cantando:
  • SLIFT
  • DONA LUCKERNIDDLE, avançando:
  • BISPA SNYDER, de volta
  • JOANA
  • BISPA SNYDER:
  • MAULER
  • OS FABRICANTES
  • OS CRIADORES
  • GRAHAM:
  • UM CRIADOR:
  • OS TRABALHADORES:
  • UMA VOZ:
  • OUTRA VOZ:
  • AS VOZES:
  • A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE:
  • OS CHAPÉUS NEGROS:
  • BISPA SNYDER
  • OS MÚSICOS:
  • OS REIS DA CARNE:
  • OS FABRICANTES E OS CRIADORES:
  • SNYDER:
  • O POLICIAL:
  • OS CHAPÉUS NEGROS, a Joana:
  • OS AÇOUGUEIROS:
  • OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES:
  • TODOS:

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I O rei da carne, Pierpoint Mauler, recebe uma carta de seus amigos de Nova Iorque CHICAGO. OS MATADOUROS
MAULER,

lendo uma carta. – “Parece-nos evidente, caro Pierpoint, que já há alguns dias o mercado da carne está saturado. E, no sul, as barreiras alfandegárias resistem a todas as nossas ofensivas. Acreditamos, portanto, ser prudente, querido Pierpoint, não mais envolver-se com este negócio...” Acabo de receber essas indicações de meus bons amigos de Nova Iorque. Lá vem meu sócio. Ele esconde a carta. CRIDLE – Por que esse ar tão sombrio, querido Pierpoint? MAULER: Lembra-te, Cridle, daquela caminhada Que fizemos uma vez, pelos abatedouros? Era noite. Diante de nossa máquina nova, Cridle, lembra-te, nós vimos um touro Claro e nobre, dirigindo aos céus seus grandes olhos vazios. Ele recebeu diante de nós o golpe que o abatia: E tal golpe me atingiu até o fundo do coração! Há sangue demais, Cridle, em nosso negócio! CRIDLE: Amigo, vens outra vez com tua antiga fraqueza. Quem acreditaria, Pierpoint? Tu, o maior de todos, O rei dos abatedouros, dos açougueiros o terror, A morte de um touro louro te enche de dor! Não conte, eu te rogo, tal segredo a ninguém A não ser a mim! MAULER: Oh, meu fiel amigo, Por que me levaste a visitar o abatedouro! Durante os sete anos em que estou no negócio

Eu evitei fazê-lo. Eu não posso suportar Um comércio tão sangrento, não tenho mais forças: Eu me retiro de imediato... Cridle, queres a minha parte? A terias por muito pouco; a ti, a preferência: Ninguém conhece o negócio como tu. CRIDLE: Muito pouco? Quanto? MAULER: Velhos amigos como nós dois Não podem disputar muito por valores. Dez milhões! CRIDLE: Não seria caro, se não houvesse Lennox Que, pela carne em conserva, lata a lata se bate, E estraga o mercado com seus preços baixos. Tirará nossa pele, se não tirarmos a dele. Enquanto ele estiver em pé, e só tu podes abatê-lo, Não posso aceitar tua proposta. Deverás, até lá, com tua mente fértil, Encontrar uma saída. MAULER: Não, Cridle, Esse coração treme ainda com o grito do touro! É preciso então que Lennox caia rápido, Pois quero, doravante, viver como homem de bem E não mais como açougueiro. Saiamos, Cridle, e eu te direi A forma de abater Lennox. Mas tu deverás então tirar esse peso do meu coração E tomar a frente de nosso negócio CRIDLE: Quando Lennox for derrubado Eles saem. II

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O desmoronamento das grandes indústrias da carne A - DIANTE DA FÁBRICA DE ENLATADOS DE LENNOX
OS OPERÁRIOS

Nós somos setenta mil Nessas fábricas de conservas E nossos salários são tão baixos que não podemos mais [sobreviver. Ainda ontem, de surpresa, reduziram nosso pagamento E hoje, um novo aviso: “Os que não estão satisfeitos, sempre podem deixar a fábrica!” Saiamos então, e todos juntos. Ao diabo esse salário que diminui todos os dias. Silêncio Há muito tempo já esse trabalho nos nauseia: Esta fábrica é para nós um verdadeiro inferno E só pode nos manter aqui o medo, O medo duplo, de Chicago e do inverno. Mas agora, doze horas de trabalho Já não garantem nem um pão seco Nem dão para comprar um trapo velho. Melhor partir E morrer de uma vez. Silêncio Pelo que nos tomam eles? Acreditam então Que nós somos gado, dispostos a tudo? Tomam-nos por jumentos? Melhor morrer! Deixemos a fábrica Agora mesmo. Silêncio O que houve? São seis horas! Por que não abrem, corja de esfoladores? Seus bois estão aqui, bando de açougueiros! Abram! Batem no portão.

Terão eles nos esquecido? Risos. Abram! Queremos entrar Em suas imundas pocilgas E suas cozinhas infectas Para preparar guisados indigestos Para os que ainda podem pagar. Silêncio No mínimo exigimos, O salário anterior, que já não dá para nada. No mínimo A jornada de dez horas e, no mínimo... UM HOMEM QUE PASSA: O que vocês estão esperando? Não sabem que Lennox fechou? Gazeteiros de jornal aparecem na cena GAZETEIRO – Lennox, o rei da carne, forçado a fechar suas fábricas! Setenta mil operários na rua. Lennox vítima da concorrência feroz imposta por Pierpoint Mauler, rei da carne e da responsabilidade social!
OS OPERÁRIOS

Desgraça! O próprio inferno Diante de nós fecha suas portas! Nós estamos perdidos. O impiedoso Mauler Aperta a garganta de nosso explorador E somos nós que sufocamos! B - UMA RUA – A Tribuna de Chicago, edição do meio-dia! O rei da carne e da responsabilidade social, Pierpoint Mauler vai inaugurar os Hospitais Pierpoint Mauler, os maiores e mais caros do mundo! Dois transeuntes olham para o fundo do palco, “vendo” Mauler. UM TRANSEUNTE, ao outro – Aquele é o Pierpoint Mauler. Mas quem são os dois que o acompanham?
GAZETEIRO

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– Seguranças. Só anda escoltado, com medo de apanhar de alguém.
O OUTRO

Para levar Deus ao coração de um mundo que desaba E nele restaurá-Lo, pela ação dos mais humildes. Os Chapéus Negros andam. Toque de tambores. Durante todo o dia os Chapéus Negros pregaram nos matadouros, mas, quando a noite chegou, os resultados eram quase nulos. DIANTE DA FÁBRICA DE CONSERVAS LENNOX – Dizem que eles estão preparando um grande golpe sobre o mercado de carne. Para nós isso que dizer esperar e passar fome. OUTRO OPERÁRIO – A luz está acesa nos escritórios. Estão lá, calculando os lucros. Chegam os chapéus Negros. Fixam no chão uma placa na qual se lê: “Hospedagem: 20 centavos por noite. Com café: 30 centavos.” CHAPÉUS NEGROS cantando Escutem todos, escutem bem! Tu que te afundas, nós te vemos, Teu apelo por ajuda, nós o escutamos, Teu sinal, nós o percebemos. Parem os carros, detenham o trânsito Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Tu que te escondes, tu que duvidas, Olha para nós! Olha, Meu irmão, antes que sucumbas! Nós te damos o que comer E nós não esquecemos Que tu não tens abrigo. E, sobretudo, não digas que tudo está perdido: Tudo será diferente, a injustiça nesse mundo Não poderá durar se todos se juntarem a nós, Marchando ao nosso lado Com o único objetivo de ajudar o próximo. Nós faremos avançar os tanques e os canhões
UM OPERÁRIO

Para levar consolo aos miseráveis dos matadouros, os Chapéus Negros deixam a sua sede. Joana empreende sua primeira descida às profundezas. C - EM FRENTE AO TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS
JOANA,

à frente de um comando dos Chapéus Negros: Nesta noite de sangue e confusão, Nesse tempo de desordem organizada, De arbitrariedade consentida, E de humanidade desumanizada, Nesse tempo em que em nossas cidades Os problemas não têm fim; Nesse mundo, imenso matadouro, Em que nos chegam rumores de violência iminente; Para impedir que, em sua brutalidade, O povo, ofuscado, quebre suas ferramentas E destrua assim seu ganha-pão, Nós queremos reintegrar Deus Pois aos lugares onde realmente vivem os homens Ele não mais tem acesso: Sua glória anda pouca, Seu nome, já quase suspeito. Dos mais humildes, entretanto, ele é a única salvação! Então nós resolvemos Por ele bater nossos tambores nesses bairros; Para que ele penetre no coração da miséria E que sua voz retumbe pelos matadouros. Aos Chapéus Negros: O que faremos agora é uma última tentativa. Pela derradeira vez, nos esforçaremos

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Nós lançaremos ao mar os navios de guerra, E nos ares, os aviões Para conquistar teu pão, meu irmão. Porque vós, os pobres, formais Nesse mundo um imenso exército. Vós que nos escutais Não esperai o amanhã! Desde hoje ajudai, Ajudai ao próximo! Avante! Ao assalto! Empunhai vossos fuzis! Vós que soçobrais, recobrai vossa coragem, Pois os soldados de Deus avançam – ei-los! Cantando, os Chapéus Negros começam a distribuir seu jornal: Apelo às Armas, bem como colheres, pratos e sopa. Os operários agradecem e põem-se a escutar o discurso de Joana. JOANA – Nós somos os soldados do bom Deus. Por causa dos chapéus que usamos, somos também conhecidos como os Chapéus Negros. Nós dizemos que somos soldados, porque formamos um exército e porque, em todos os lugares em que vamos, precisamos lutar contra o crime e a miséria, contra as forças que tendem a nos aviltar. (Ela mesma começa a distribuir sopa) Bem, agora comam esta sopa quente e constatarão que depois vocês verão as coisas com um olhar diferente. Pensem agora qual esperança se pode fundar sobre a felicidade terrena. Nenhuma, absolutamente nenhuma. A desgraça vem como a chuva: ninguém a provoca, mas, entretanto, ela vem... Suas desgraças, digam-me de onde vem? UM DOS QUE COMEM – De Lennox & Cia. JOANA – O senhor Lennox tem talvez mais preocupações do que vocês! O que vocês estão perdendo? Ele, suas perdas se contam por milhões. UM OPERÁRIO – Carne não há nesta sopa, só uma aguinha clara, isso sim. Mas quente, pelo menos, está. OUTRO OPERÁRIO – Fiquem quietos, bando de glutões! Escutem a palavra de Deus! Senão vão tomar o prato de água quente de vocês.

– Silêncio! Queridos amigos, digam-me: por que vocês são pobres? UM OPERÁRIO – Sei lá! Explique você! JOANA – Eu lhes direi. Não é porque vocês não estão cheios de bens materiais – que não chegam para todos – mas porque vocês não têm idéia dos valores mais elevados. É por isso que vocês são pobres. Esses gozos vulgares aos quais vocês aspiram, comer um pouco, ter um bom lugar para morar e ir ao cinema, não são mais do que prazeres frívolos, grosseiros. Enquanto que a palavra de Deus é um prazer mais delicado, mais profundo e muito mais refinado; talvez vocês não possam nem imaginar algo mais doce do que o chantili, mas a palavra de Deus é ainda mais doce. Homens de pouca fé, os pássaros no céu não têm carteira de trabalho, as açucenas do campo não têm emprego e, entretanto, como eles cantam Sua glória, Deus lhes dá alimento. Nós, os Chapéus Negros, fazemos então a vocês uma pergunta muito prática: de que um homem precisa para crescer na vida? UM OPERÁRIO – Um colarinho engomado. JOANA – Nada disso. Para progredir na terra talvez seja necessário um bom colarinho, mas diante de Deus é preciso muito mais que isso, outras glórias. Vocês aos olhos Dele, nem mesmo um colarinho puído têm, pois deixaram suas almas no abandono. Mas então como vocês querem elevar-se, chegar ao que vocês, em sua ignorância, chamam de uma “situação melhor”? Pela força bruta, pela violência? Como se algum dia a violência tivesse trazido alguma coisa além da destruição. Vocês acham que mostrando os dentes conquistarão o paraíso na terra. Mas eu lhes digo, agindo dessa maneira o que se cria não é o paraíso, mas o caos! Um operário chega correndo. O OPERÁRIO: Uma vaga, agora mesmo, acaba de abrir! Um trabalho, um salário, esperam por vocês, Na fábrica número cinco! Que mais parece uma latrina. Corram, rápido. Um operário larga seu prato cheio e sai correndo.
JOANA

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– Ei, você, onde é que você vai? Quando se ocupará de Deus? Vocês não querem nem ouvir falar, não é? UMA MOÇA DOS CHAPÉUS NEGROS – Acabou a sopa. OS OPERÁRIOS: Acabou a sopa; Era só um caldinho ralo Mas era melhor do que nada. Todos se viram e se levantam. JOANA – Fiquem sentados; acabou, mas que importa, uma vez que a grande sopa celeste não se esgota nunca. OS OPERÁRIOS: Quando, afinal, vocês Abrirão as portas de seus porões, Carniceiros, mercadores de carne humana? UM OPERÁRIOS: Com o quê, agora, pagarei A casa pequena e úmida, onde vivemos doze? Eu já paguei dezessete prestações, Mas a última, não conseguirei Seremos jogados na rua. E o chão de terra batida E nosso pedaço de grama amarela, Nunca mais os veremos, nunca mais, Nem tampouco respiraremos seu pestilento ar familiar. UM OUTRO OPERÁRIOS: Aqui estamos, em pé, nossas mãos como pás, E nossos pescoços fortes como tratores. Nossas mãos e nossos pescoços, queremos vendê-los Mas não há quem os compre. OS OPERÁRIOS: E nossas ferramentas - Gigantesca montanha de prensas e gruas – Estão trancadas, detrás desses muros! JOANA – E então, o que se passa? Quer dizer que já se vão? É porque já terminaram de comer? Adeus e obrigado. Mas por que então vocês escutaram até agora?
JOANA

– Pela sopa. JOANA – Continuemos. Cantem! CHAPÉUS NEGROS cantando Avante, entrai nessa luta! No coração da batalha lutai! Cantai com louvor, que cante todo o mundo. Ainda é noite, mas logo virá o dia, Raiando com todo o esplendor, E junto virá Jesus Nosso Senhor. UMA VOZ, do fundo do palco – Estão contratando nas fábricas de Mauler! Os operários saem. Fica apenas uma mulher. JOANA, com ar sombrio: Parem a música! Acabou a sopa, lá se vão eles! Seus olhos são incapazes de elevar-se Mais alto do que a borda do prato. Eles não crêem em nada além do que está Entre suas mãos. Acreditarão em suas mãos? Vivendo cada dia, cada minuto mesmo, Na insegurança, eles não são capazes De se esquecer das preocupações mais básicas. Nada, a não ser a fome, tem sobre eles qualquer influência. Nenhuma canção os toca mais. Nenhuma palavra pode Descer até eles e penetrar seus corações. Aos que a cercam: Parece que nós, os Chapéus Negros, temos por tarefa alimentar todo um continente com nossos poucos talheres. Os trabalhadores voltam. Ao longe, ouvem-se gritos. OS OPERÁRIOS, na frente do palco – Que gritos são esses? Um imenso caudal humano emerge dos abatedouros. UMA VOZ, do fundo: Mauler e Cridle também fecharam. As indústrias Mauler optam pelo lock-out! OS OPERÁRIOS, refluindo:
UM OPERÁRIO

pronto. ruídos da Bolsa. . já que ele é a causa de tamanha miséria. dos Chapéus Negros: Não vá te meter com estes problemas. O selvagem Mauler! De um tal monstro a investida É inexorável! A natureza. Joana e Marta esperam. JOANA – Esse Mauler. desde o dia em que nasceram. Jamais seus corações. O que comeste. Tu desaparecerás na lama! Pois a lama entope as bocas Que fazem perguntas sem prudência JOANA: Eu quero saber. por que correm de um lado a outro e não encontram trabalho? OS OPERÁRIOS: O sanguessuga Mauler e o muquirana Lennox brigam entre si. Uma multidão enorme e desesperada. GRAHAM: E então. Eles encherão tuas orelhas com seus gritos. esse Mauler. São reles glutões Preguiçosos. Todos haviam perdido o emprego E perguntavam onde achar trabalho. torna-se. Enquanto corríamos atrás de trabalho. mora aonde? OS OPERÁRIOS: Lá. OS CHAPÉUS NEGROS – Pare! Não te metas com essas questões. desce cada vez mais baixo. Quem abandona o lar protetor. – Não. onde se compram e vendem animais. para ele. Recebemos mil respostas. Na insana esperança de obter uma resposta Que jamais chegará. Torna-se mercadoria. derrubou-te. Ao fundo. JOANA III Pierpoint Mauler é tocado pelo sopro de um outro mundo EM FRENTE À BOLSA DE CARNES Em baixo. Os Chapéus Negros se afastam. Lennox está branco como algodão. meu velho Lennox. antes. JOANA – Quero saber. E o frio supremo Rouba de seu coração todo o calor. MARTA. OS CHAPÉUS NEGROS – Então teu destino nos parece bem negro. No alto. a Joana – Vamos agora. Eles têm apenas idéias vulgares na cabeça. Em um grande edifício: A Bolsa de Carnes JOANA: Eu vou até lá: Eu preciso saber. quem é o responsável por tudo isso. ele te revenderia. Abrigaram sentimentos nobres. Resultado para nós: barrigas vazias. por favor. Oh Joana! Não te metas nas querelas terrestres! Pois quem nelas se envolve. Degrau após degrau. presa. JOANA – Não! Eu quero saber (aos trabalhadores) Digam-me. UM OPERÁRIO. Ao fazer mil perguntas. na frente do palco: Desgraça! De todos os lados chegam ainda Torrentes infindáveis de homens! OS CHAPÉUS NEGROS.6 No meio do caminho encontramos. E vê esvanecer-se sua pureza original. Sua bondade perde rápido. os fabricantes de conservas Lennox e Graham discutem. Ele venderia o próprio ar. eu quero vê-lo. Estamos gelados e molhados e precisamos comer. que fogem do trabalho.

Cridle sai da Bolsa e desce até o palco. A nova técnica é muito engenhosa: O porco é colocado em uma esteira rolante Até o alto da fábrica. E agora. Em dinheiro ele as transformará.Joana. E assim. JOANA. OS FABRICANTES DE CONSERVAS : Trata-se de saber quem agüentará mais tempo. Por si mesmo.. que. E talvez chore. com sua escalada.. Destroem com seus cascos o pasto que disputam. Gritaram-me prudência: Para eles. Ele não pode suportar A visão da miséria. Um mercado aviltado. Depois seus pelos. O que fazer com ela? Ah. ele extrai rendas. como vais reconhecê-lo? JOANA – Saberei bem reconhecê-lo. Primeiro perde a pele. olhe para mim e de meu pescoço.. Lubrificar meus cutelos. Que ele não saberia jamais trair seu instinto. que vira couro. A Lennox: Estás perdido. acompanhado de seu corretor. não é verdade? GRAHAM : Muito bela! Mas e a lata. Tão natural. por conta de seu próprio peso. MARTA . Instalar duas ou três dessas máquinas novas. Vá. lutando. no último andar. até ele e. este homem não é duro E nem ama o dinheiro. Pois caindo. surge de um grupo de fabricantes de conserva. Tal qual dois grandes búfalos. sozinho. Ele terá medo. eu também te recomendei prudência. Mauler. confessa. esta arte contrária à natureza. não achas? Ele se degola e logo. Todos me abandonaram. Espero que o mercado recobre a saúde. Quando ele não podia absorver mais nada. chega Na lata que o espera lá embaixo. moídos como farinha. a cada fase. Vocês mesmos. nele.. eu garanto. ainda ontem florescente!. o porco se precipita. Fecho minhas fábricas. Marta. Agora vou limpar a minha fábrica. MARTA – Joana. Batendo-se por sua conquista. à Marta: Tu somente. época maldita! Um comércio estrangulado por montanhas de conservas. em salsicha se transforma. e dorme mal à noite. para economizar Uma agradável soma em salários. com voz suave. então. Slift. De carne podre. cruzei a última fronteira.7 De barracos miseráveis. Lennox! Acabou a guerra de preços! Foste eliminado.. Tira esta mão que me aperta e me estrangula. JOANA – Mas tu vieste comigo. E pensa nos velhos tempos. Diga-lhe: Mauler. Bem pensado. CRIDLE: Muito bem. E se lhe jogas pedras na cabeça. até aqui me acompanhastes. Cridle. O faro para o dinheiro é nele tão potente. Bela invenção. Saibas. Começa então o seu retalhamento. ficarás com a fábrica Conforme está previsto nos termos do contrato: “No dia em que Lennox for eliminado. Nas facas.” CRIDLE : . Fizeram desabar os preços e destruíram seu negócio. que viram escovas. no entanto.. Estranho conselho! Eu te agradeço. MAULER : Lennox está de joelhos. ele faz ouro. Até chegar aos ossos.

Antes que quebres de uma vez! Creia-me. Pepê! Como quiseres. até teu coração sabe ver longe! LENNOX : Eu gostaria ainda. MAULER : O quê? A soma está inscrita Claramente no contrato Tome. CRAHAM . Mauler. e onde eu conseguiria dinheiro para pagar tua parte? Eu estaria arruinado! MAULER : Já que me dizes isso. É preciso então. tu me forças. seguindo-o com os olhos: Tive a ligeira impressão de que algo o atormentava.. Não estava caro. um contrato dos tempos de prosperidade! Mas e a crise? Ela não existe? Que posso fazer eu com um grande matadouro Se ninguém mais compra carne em conserva? Agora sei bem porque não podias Mais suportar a visão do gado morrendo: sua carne Não vende mais! MAULER : Não.8 Sim. Lennox acabou. (faz contas em uma caderneta) Quando combinamos que tu sairias do negócio. É o máximo que posso fazer. elas cairão a 70. e tu tinhas um terço. Pois eu proibirei Cridle De comprar-te uma única lata. Lennox! Toque-o! É uma lata de lixo. Ah! Pudesse eu estar liberado De um comércio tão bestial! Tenho. de examinar Contigo. Isso não é um contrato? Com um preço fixado? CRIDLE : Sim. LENNOX – Não. Ele sai. eu precisaria jogar essas ações no mercado. Veja se esse contrato diz uma só palavra sobre a crise... Tu me ofereceste a 320. as ações estavam a 390. Mauler. devido à saturação do mercado. Cridle.. cinco. Hoje. : Pepê! Isso não é um jogo! Não podes misturar Questões pessoais aos negócios! CRIDLE – Pois não. como eu. Lennox. veja Lennox. Nada além. Estou tão temeroso que chego a suar frio: seis dias. E eu. Seis dias? Não. MAULER . GRAHAM — Mauler. MAULER – Ai! GRAHAM — Viu? Ele tem um coração! MAULER : Então. Cridle. nosso contrato não é mais viável. CRAHAM : Toque-lhe o coração. então. mas. sem mais delongas. é que meu coração se aperta Quando ouço mugir a criatura CRAHAM : Agora eu compreendo a grandeza de teus atos.. LENNOX – Mauler. Repensar os dez milhões de dólares Que queres por tuas ações. olhe para mim. então. A exigir meu dinheiro. nada. MAULER – Leia. se tu estás Realmente onde dizes. Mauler. Mas com ele acabaram Os bons dias do mercado. sensível! Ele soca Mauler no coração. Joana fez um sinal a um segurança e lhe diz algumas palavras. Não pude imaginar seu fado. Mas. isto é. Freddy! Quer dizer que tu me socas. Para pagar o que te devo. mergulhado em meus negócios. tenho dois mil empregados! CRIDLE – Mande-os ao cinema! Mas Pepê. as ações caíram para 100.. o coração torturado! Cridle se afasta. se eu fizer isso.

. MAULER : Já ouvi falar dessa gente. Vitelos. respondam apenas Quando ele lhes perguntar. sobre outra questão. (aponta para Slift) É ele! JOANA. não é notável? Já viste algo igual? Que trabalhem por nada e sem se lamentar? Não vejo em seus olhos nem medo da miséria Nem de dormir sob as pontes alguma noite. Que não é acusada de nada E que não espera o impossível de mim. O SEGURANÇA: Ele vai vê-los. a Slift: Que eles trabalhem por nada. Porcos. Para Joana:) Quanto recebes por dia? JOANA. na verdade. Mas que nome curioso! Soldados do Bom Deus. MAULER : Está bem. Slift. O melhor para eles É causar em mim a impressão de gente honesta. Durante esta cena. hein? Não. o rumor da Bolsa continua. e pôs em apuros Cridle que. JOANA. sem dúvida? Prontos para a violência. Slift ri.9 O SEGURANÇA — Senhor Mauler. MAULER . Pouco me importa o que esperam de mim. JOANA. Mas o que eles querem comigo? O SEGURANÇA — Afirmam que têm algo a dizer ao senhor. São chamados de soldados do Bom Deus. . apontando para Mauler – O senhor é o Mauler! MAULER – Não. cá entre nós. 59. Ouve-se: Bois. Graham sai. gente estranha. há algumas pessoas que querem lhe falar. Mas. MAULER – Como me reconheceste? JOANA: De todos. Sim. é ele.. MAULER: O tecido é bem fininho e. são numerosos e gozam de grande consideração nas camadas inferiores da população. Com ar invejoso. – É o senhor. em absoluto. Pretendo renunciar a esse negócio sangrento Logo que eu possa: renunciar sem retorno. que eu sou Mauler. diga que não estou. MAULER – Rindo. que a sopa seja rala. Mais uma coisa: não diga. Dizem. que a escória me chama – Despojou Lennox. O SEGURANÇA — São membros da Organização dos Chapéus Negros. A Joana: Vós sois. Creiam-me: esses são assuntos profissionais Que não vos interessam. seus trabalhadores na rua? MAULER.É assim. mas vocês não devem Perguntar nada. 43. dirigindo-se direto a Mauler – O senhor é o Mauler! – Não sou eu. além da comida e do uniforme. adoraria vossa opinião. 55. etc. MAULER : O que é esta organização? O SEGURANÇA — Eles têm muitas ramificações. MAULER : A escória em farrapos. Nada de choros. – Vinte centavos. O segurança vai ao encontro de Joana no outro lado do palco. Senhor Mauler. eu sei. Chapéus Negros. Diga-lhes que eu os receberei Mas que eles limitem-se a responder minhas perguntas. não é homem de bem. suponho. JOANA: Por que joga. Slift? (Enquanto isso. é o que tem a cara mais ensangüentada. que o sangrento Mauler. nem desses versos sentimentais Que eles adoram cantar. o tecido não é grosso Nem é grossa a sopa.

Melhor para ti que não os veja. não creias que seja de boa fé. Ele se aproxima dos industriais. São todos carniceiros. por que fechou os matadouros? Eu preciso saber. Embora já tenhas vivido mais de vinte anos. não me comove. E desejaria que fossem mais numerosos..10 Pois eu vi – e isso vos interessará – Morrer. Dêem o dinheiro. nos matadouros dizem que o senhor é o responsável pela miséria deles. tu também. O homem. Marta sai. confesso. de resto. Abandonar esta empreitada. Eu sei. Desculpe-me. tomando-lhes o dinheiro que trazem consigo e dando-o a Joana. Deverias. São. O mundo não poderá mudar se antes não mudarem os homens. Um instante. dêem! Corja de carniceiros! Ele continua mexendo nos bolsos deles para dar dinheiro à Joana. Cedi por dez ao homem que vêem aqui. um boi e fiquei tão comovido Que quis largar tudo. aliás. A parte – doze milhões – que eu tinha na usina. não é? JOANA: Não sei se o senhor fala sério. não me digas nada. Seu rosto me agrada. vamos. . dêem o dinheiro. Ele não é maduro ainda. ele é mau. Ele fala com Slift em voz baixa. que com tal decisão As pessoas sofreram. JOANA: Senhor Mauler. É bom. A canalha. mas não digas nada. Não. Mas tendes consideração demais pelo destino dos pobres: Eles são maus. Isso não é bom? Os fabricantes de conservas explodem em gargalhadas. Tome para os pobres.. Seu riso não me atinge. ele decidiu abater O rico Cridle. JOANA – Isso é uma gota no oceano. minha filha. Isso não é bom? E conforme vosso espírito? SLIFT : Vendo morrer o boi. a Joana: Joana. MAULER: É que adquiri o maldito hábito De disfarçar a voz. Talvez por isso te ajude. pessoas extremamente más. Eu os verei chorar um dia. há pouco. eu sinto Que tu não gostas de mim. no lugar do pobre animal. MAULER: Eu tenho grande piedade pelos bois: o homem. Senhor Mauler. para o que pretendes fazer. Tamanha inocência!. Diga-me que está certo E que isso te agrada. Eu sei. Mas este mal era inevitável.. Deixai disso. Eles não têm mais trabalho.. isso de se retirar do negócio. Mas. Eu também vou embora. O senhor não poderia realmente ajudá-los? MAULER: Repita por toda a parte: eu aprovo vossa ação. diga. MAULER: Riam todos. Nenhum é inocente. JOANA – Senhor Mauler. MARTA. Mas é uma gentileza. sem nenhuma obrigação: Eu não sofro de insônia. Dirigindo-se aos outros: Parece-me que fui tocado pelo sopro de um outro mundo. por favor. MAULER: Poderia eu ir mais longe? Porque ele é sangrento É que eu tirei as minhas mãos deste imenso negócio.

o que causa má impressão. O JOVEM OPERÁRIO – O senhor pode confiar em mim. dê dinheiro a ela. Mas volte aqui amanhã. na caldeira. Veja então o que ela compra. De saber o que queres saber. SLIFT. vendo Mauler se afastar: Este homem não é mau. Entrego a você porque sei que é de confiança: se alguém encontrá-los em algum lugar. caiu. (O contramestre volta para a fábrica pela portinhola. Isso pode funcionar.. É preciso queimá-los. Se quiseres mesmo saber. ficará com a vaga de Luckerniddle. se quiser. por suas vidas miseráveis. JOANA.11 Chame ela de lado. é o lixo do mundo. Ele sai. o quanto antes melhor. e depois a siga. e enrola o seu. Luckerniddle. é claro. perderei meu emprego. Dois homens saem por uma portinhola. Azar. enfim. Mas seu casaco ainda está bom e isso também é uma pena. Se isso falhar . vestido com uma lata. já que agora ele está em embalado. e ele entrou na faca e virou toicinho. Diga “para seus pobres”. A Slift: Mal posso suportar a existência de seres Semelhantes a esta moça. . que nada têm Além de seus vinte centavos por dia e seu chapéu negro. O amigo Pedaço-de-Toicinho não precisa mais dele. IV O corretor Sullivan Slift mostra à Joana Dark como os pobres são maus: Joana desce às profundezas pela segunda vez BAIRRO DOS MATADOUROS SLIFT: Joana. agora eu vou te mostrar Como eles são maus Essa gente da qual tens piedade. cheios de traições. Slift e Joana escutam.. JOANA. a um jovem operário – Um de nossos homens. assim como o seu boné. Aqui estão seu casaco e seu boné: pegue-os e façaos desaparecer. Sullivan Slift.E eu adoraria que não desse certo – Leve-a aos matadouros. SLIFT: Em teu lugar não gostaria. Semelhantes a bestas. Ele veste o casaco. UM CONTRAMESTRE. sobre o qual se lê: “Fábrica de Conservas de Carne Mauler e Cridle”: O nome de Mauler aparece riscado. mas não pudemos parar as máquinas a tempo. ele te fará ver algumas coisas. Quando a fábrica reabrir você. Ele ouviu nosso chamado. E verás que tua piedade é descabida. em um jornal. E que não têm nenhum medo. É o primeiro que nossos tambores desalojaram Das trevas da vilania. Estão ocupando inutilmente um cabide no vestiário. é pavoroso. vacilando: Estou me sentindo mal. ele cairá bem. e mostre a ela Como os pobres são maus e covardes. é a escória. JOANA — Eu quero vê-los. em uma palavra. ela poderá Aceitar sem pudor. Slift e Joana contornam o muro de uma fábrica. A Joana: Aqui está meu corretor. senhor Smith. Responsáveis. peguei para mim. faz quatro dias. e para mim.) É uma pena. saindo – Um conselho: não te metas com as gentes dos matadouros. este homem será mandado para os quatro cantos do mundo sob a forma de toicinho.

Vamos. Joana e Slift seguem seu caminho. que fizeram dele? Há quatro dias que estou aqui. legalmente. ao meio-dia. Não tenho outro esteio. . Quando ele se aproximar. Venha. Por causa dele deixei minha mão na máquina de cortar chapas. além dele. SLIFT: Senhora Luckerniddle. Eles chegam a uma cantina da usina e vêem diante de uma janela dois homens que olham para o interior. então a senhora não pode aceitar a refeição que a fábrica lhe oferece. em nossa cantina durante três semanas. seu marido está viajando. Antes eu gostaria de fazer-lhe uma proposição interessante. Vinte refeições são muita coisa Para aquele que tem fome. Esse salafrário se empanturra às nossas custas. DONA LUCKERNIDDLE: Eu quero que me devolvam meu marido. Mas existem coisas Que importam mais para ela. se você não está precisando disso!. Slift volta para junto de Joana. e meu marido não sai da fábrica. nós não somos. Eu. lamentando-se: Faz já quatro dias que. é capaz de o meu quebrar já no primeiro golpe. No ano passado me deixei seduzir pelos vinte centavos a mais que se ganha na fábrica de adubo. é muito desagradável vê-la sentada aí. fui trabalhar no moinho de ossos e adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. Eu tiro agora mesmo. Precisará nos processar. isso não lhe parece muito brutal? SLIFT: Bem. SLIFT: Guarde essas coisas. todo o tempo.) Onde você conseguiu este casaco e este boné? Estes são os pertences de Luckerniddle. DONA LUCKERNIDDLE – Não. senhor. ele não foi para São Francisco. diga-lhe que procura trabalho. me encontrará na cantina. No frio. a Joana – Fique aqui. aquele que se acidentou? O JOVEM OPERÁRIO – Por favor. Você poderá comer e lhe darei um dólar se disser à mulher de Luckerniddle onde conseguiu o casaco e o boné. Senhora Luckerniddle: ele está viajando e. pronto para encher a pança. à cantina número 7. se quiser me ver. mesmo à noite. SLIFT – Se é esta a sua opinião. Aconteceu alguma coisa com ele aí. Joana e Slift prosseguem seu caminho. passe-me logo teu cassetete. É por isso que lhe fazemos uma proposta: note bem que. na fábrica. senhor. de qualquer modo. SLIFT – Estamos dizendo que ele partiu para São Francisco. O JOVEM OPERÁRIO – Pode confiar em mim. lhes digo. E malditos sejam vocês Se lhe fizeram qualquer coisa! Slift caminha até ela. DONA LUCKERNIDDLE está sentada em frente ao portão da fábrica. vou falar com ele. (Ele pára o jovem operário. Já não posso mais trabalhar como antes e só consegui emprego duas vezes desde fevereiro. Tenho a impressão de que você está prestes a cometer um ato impensado. obrigados a fazê-la. Vamos cuidar para que essa seja a última vez. DONA LUCKERNIDDLE: Agora inventam que ele viajou! SLIFT – Deixe-me dizer uma coisa. O JOVEM OPERÁRIO – Mas senhor. Eu ficarei aqui.. de forma alguma. esperando por ele Mas ninguém diz nada. Verás então o que é essa gente. Eu estou em uma situação muito ruim. SLIFT. dizendo tolices. Não procure mais saber o que se passou com seu marido e a senhora poderá almoçar. (Ele vai em direção a Gloomb). enquanto não o vir. não diga mais isso.. DONA LUCKERNIDDLE – Quero saber o que aconteceu ao meu marido. gratuitamente. Bando de açougueiros. GLOOMB – O feitor está bem ali. senhora Luckerniddle. saindo para o trabalho. Mas reflita bem. e vocês não querem que se saiba disso. Amanhã.12 SLIFT: Aí está a vida como ela é. para nós. ele me dizia: “Espere-me à noite com uma sopa quente!” Desde então não [voltou. JOANA: Ela nunca aceitará.

. GLOOMB – Rápido então. já faz dois dias que eu não como nada. SLIFT – Que pena. Ela correu até aqui e já nos espera. É um bom posto? GLOOMB – É um ótimo posto. O posto não é feito para gente fraca. Naturalmente seria muito bom se nós encontrássemos alguém para esse posto. Slift cai na gargalhada e arrasta Joana. O que há para comer hoje? A GARÇONETE – Ervilhas. por acaso. Ela senta-se em uma mesa. GLOOMB – Posso confiar no que você está me dizendo? SLIFT – Sim. GLOOMB – Nada disso é verdade... DONA LUCKERNIDDLE – Espero uma pessoa que deve vir hoje ou amanhã. temi que amanhã ela viesse. Seria vantajoso para você. não sabia. Se você. A GARÇONETE – Se a senhora não for comer. JOANA: Ela sentou-se ali. GLOOMB – Você enxerga bem? JOANA – Não. Os movimentos ficam menos firmes e pode-se prender as mãos nas serras. DONA LUCKERNIDDLE. Ela não parece muito forte. por exemplo. É preciso que ele pague hoje mesmo por esse sistema desumano do qual ele é o feitor. GLOOMB . Ali adiante. Joana procura um prato e leva à senhora Luckerniddle. SLIFT – Gostaria de propor um meio de tirar-lhe dessa jogada. encontrasse alguém. Disseram-me que não tinha ninguém além dele. No ano passado fui trabalhar na fábrica de adubo. pode ser que mude de idéia. faremos isso amanhã à noite. (Ao seu companheiro:) Pensei melhor. Tchau. JOANA – A senhora já está aqui. Eu imaginava que ela iria resistir. Vai se perguntar como alguém pode contar histórias tão ridículas sobre esta máquina. estaríamos dispostos a reempregá-lo imediatamente. Uma jogada dessas é melhor de se fazer à noite. há uma moça que está procurando trabalho.. meu senhor. tem que se retirar. GLOOMB – Aquela moça ali? . justamente porque você contou todas essas histórias a respeito de seus dedos. E eis que ela nos precedeu..13 – Não tenho tempo. JOANA – Quase tenho medo de continuar. O posto que você ocupava na sua máquina continua vago e isto é muito chato. desde hoje? DONA LUCKERNIDDLE – Não como nada há dois dias. e então eu teria. Desde fevereiro estou sem emprego. e então eu poderia. JOANA – Não há realmente como me arranjar outro posto? Ouvi dizer que o trabalho nesta máquina era perigoso para quem não resistisse ao trabalho muito pesado. Talvez a vaga deste contramestre. SLIFT – Leve você mesmo a comida a ela.. Não podemos perder esse safado. A maior parte dos trabalhadores a considera muito perigosa. Eu sou inspetor nesta fábrica. JOANA – Vindo para cá ouvi dizer que aconteceu alguma coisa com o seu marido e que a fábrica é responsável. (Ele vai em direção a Joana. e lhe daríamos até um trabalho mais fácil e melhor remunerado do que o antigo. JOANA – Mas a senhora nem sabia que nós viríamos hoje. calculando – Vinte refeições.) Você está procurando trabalho? JOANA – Sim. Você se surpreenderá ao ver como o trabalho é agradável. DONA LUCKERNIDDLE – O que? Vocês pensaram melhor e estão retirando a oferta? Então eu não terei mais as minhas vinte refeições? JOANA – Me pareceu que a senhora se dava bem com seu marido. DONA LUCKERNIDDLE – Sim. A senhora Luckerniddle está falando com a garçonete. E é um trabalho que pode ser feito mesmo por pessoas como você.. não muito fortes.. Apesar de tudo.. DONA LUCKERNIDDLE – É verdade. Adoeci dos pulmões e dos olhos e não consigo me curar. O que mais verei? Eles entram na cantina.. Naturalmente você precisaria manter os ritmos de trabalho mesmo os dispositivos de segurança não sendo perfeitos. no moinho de ossos. depois do que eu iria.

Você a viu. estamos vendendo carne! Compradores. O que tu me mostraste Não é a imoralidade Dos pobres: é a pobreza deles. esta mulher. para colocar Ao abrigo da chuva. Tão cara a ele. Desejas mostrar-me a sua imoralidade. ao lado daquela mulher. comprem nossas latas! Carne fresca e suculenta. como manda o costume. SLIFT – E onde você comprou? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Era seu único esteio. então? O JOVEM OPERÁRIO – De um homem que caiu dentro de uma caldeira. Mercadoria invendável. Ela se levanta e sai. (Ele senta-se. Continuar fiel à memória de seu marido. eu. como um animal. o preço era muito alto. Eu virei todos os dias. preferido. os sofrimentos que suportam Esses pobres sem moralidade. como vós a explorais! Não vês que nem teto eles têm. DONA LUCKERNIDDLE – Ele foi para São Francisco. e por mais justa que fosse. como muitas. Atrás dele:) Você tem um belo boné. eu volto. verdadeira manteiga! Banha fresca do Kentucky! OS COMPRADORES: OS FABRICANTES DE CONSERVAS . Você só precisa perguntar a esse senhor. a imoralidade deles? Ela teria. DONA LUCKERNIDDLE. (O jovem operário o esconde) De onde ele vem? O JOVEM OPERÁRIO – Eu comprei. Pois não há mais compradores! Do fundo do palco chega o jovem operário com seu casaco e seu boné. Fatias de toicinho Cridle-Mauler! Carne de filé Graham. JOANA: Porões e armazéns abarrotados de carne. A senhora Luckerniddle sente náuseas. com que habilidade torna-te mestre dela! Esta imoralidade. Mostrar-te-ei. Um certo tempo ainda. E este jovem – em quem botaria fé Qualquer malandro -. Ele foi obrigado a vender sua cólera. ninguém mais perguntará o que foi feito dele. O JOVEM OPERÁRIO – Bom dia. Que sua miséria. tu me dizes? Sua pobreza também é incomensurável. Sua imoralidade é sem limites. Ela sai. posso comer aqui? SLIFT – Você só precisa sentar-se ali. Mas vinte refeições. certamente teria me prevenido Não fosse o preço a pagar por seu pequeno escrúpulo. saindo. SLIFT – E onde você conseguiu. mas não em uma loja. acreditas que ele teria mostrado À mulher do morto a roupa que usava Se tivesse tido a chance de escolher? O maneta. a vossos olhos contradiga Esta depravação que injustamente se lhes imputa. Joana? A imoralidade dela não tem limites! JOANA: E tu.14 – A senhora não quer esperar até amanhã? Se a senhora desistir de procurar o seu marido. Dona Luckerniddle arranca o prato das mãos dela e começa a comer avidamente. ao garçom – Deixe meu prato. V Joana apresenta os pobres à Bolsa de Carnes A BOLSA DE CARNES : Nós todos. SLIFT – Durante três semanas ela virá. e que já apodrece. (Dona Luckerniddle permanece em silêncio) Não pegue. JOANA E procurar por ele. e comerá sem levantar os olhos do prato.

Quem comprará agora nosso gado? Os estábulos estão cheios De porcos e bois devoradores de milho Que eles devoram ainda nos trens que os transportam. Eu teria sobre as costas toda a carne! Idiotas. O que provocaria um movimento de alta. E graças aos perspicazes planos dos industriais da carne Nós conseguimos reduzir em um terço O preço do toicinho Cridle-Mauler. Temos diante de nós montanhas de latas. fabricantes. Não a agüenta mais. nenhum tinha dinheiro. O estômago do país. Aproveitem então. Saturado de carne em conserva. com nossos matadouros? Nossas fábricas estão cheias de bois. ao trabalho de nossos [engenheiros. Engolindo nosso ouro junto com nosso grão. Nós queremos vender a carne em conserva E ninguém a quer! E todos os nossos clientes. compradores. a visão da carne enlatada Causa náuseas. OS FABRICANTES: Graças aos avanços da técnica. o que te escrevem? MAULER: Teorias.15 E sobre as águas fez-se um grande silêncio De todos os compradores. Esperando até ninguém poder Mexer nem o mindinho! E eu. dia e noite nossas máquinas Ligadas no máximo: salgadeiras. SLIFT: E teus amigos de Nova Iorque. Nós não compramos mais nada! OS FABRICANTES: E nós. quase de graça. E da banha de Kentucky. cubas. caldeirões Convertem sem parar em latas de conserva As manadas mugidouras que pastam nos prados. A nós. SLIFT: Eu riria se. eles conseguissem Fazer cair de uma vez as taxas de importação. Nas estações e nos pátios. Nós iríamos perder o bonde! MAULER: E quando isso ocorresse! Terias a imprudência De tirar tua parte de tamanha miséria. em Nova Iorque. Mas ninguém quer comprar carne enlatada. OS COMPRADORES: Nós compradores. comprem nossas latas! OS COMPRADORES: E sobre as montanhas fez-se um grande silêncio E as cozinhas dos hotéis escondem a face E as lojas se desviam com horror Os atacadistas mudam de cor. MAULER: E mesmo a faca os recusa. cozinhas e lojas Estão cheios até as bordas. Comprem. Frigoríficos entupidos de carne congelada. A morte Despreza esse gado e fecha-lhe a porta. E abrissem assim o Sul aos nossos produtos. Quando todos te seguem com olhos de lince Para ver o que fazes? Eu não teria cara. Do filé Graham. A dar-se-lhes ouvidos Seria necessário agora deitar por terra Todo o cartel da carne E deixá-lo estagnado durante muitas semanas. os criadores. . compradores. verdadeira manteiga. Clamamos aos berros por um consumidor que não existe. Nós estamos perdidos! OS CRIADORES: E nós.

provoca muitas outras! Lixo! Assassino! CRIDLE . . Tu te desfazes de tuas ações? UM CORRETOR: A cento e quinze! OS FABRICANTES: Ficaste louco? Tua morte. Cridle? Levanta os olhos. e ficando com as outras. Tumulto entre os fabricantes. todo teu estoque. Mauler! Fala. o que desejo. eu quero o meu dinheiro. Esses dez milhões são exatamente a soma que devo a Mauler – e ele a exige em vinte e quatro horas. Foste tu mesmo quem provocou o marasmo! Nossas latas agora não saem mais caro Que a areia dos mares. OS FABRICANTES: Quando ages assim com Cridle. que conspurca nosso ninho! Nós sabemos bem quem fez os preços caírem sem cessar Vendendo gado por baixo do pano. nem que fosse por mais uma hora. que já se arrasta. OS FABRICANTES Essa gente não faz as coisas pela metade. É bom que ele seja nosso adversário.investindo contra Mauler que lê o jornal: Traidor. a preço vil. Veio a baixa. Ele queria me vender a sua parte. que se lançam sobre Cridle. Cridle. olha para nós! Assim. Desde aquele dia. então! OS FABRICANTES – a Mauler: Corre o boato que teu capital. Para acabar com Lennox. ele vem realizando secretamente vultosas vendas de gado a preços baixos e provocou a queda das cotações que. na entrada da bolsa: Queda gigantesca das cotações na Bolsa! Venda maciça de ações. ave de agouro. E exiges dele o pagamento sem demora. MAULER: Açougueiros insolentes é o que sois! O animal torturado parou de mugir. é o cartel da carne. pálido como algodão. mas um outro Quem joga a rede. por dez milhões de dólares. eu acabo de saber.16 . tu o retiras Do negócio e Cridle.. nós somos os peixes! O que querem arruinar. Hoje os papéis de Mauler não valem mais dez. Falai que um dentre os vossos Não pode mais suportar o grito dos bois morrendo E aos mugidos deles. já vinham caindo. preferiu o vosso.. nesta conjuntura. ao fundo. MAULER – O próprio Cridle me confessou que está insolvente: se eu deixasse meu dinheiro com ele.apontando para Mauler: Falem com ele! CRAHAM – colocando-se diante de Cridle: Não é Cridle. Pois tu liquidaste. é que me levem a sério. E vós soluçais nas saias de vossas mães. Não é de hoje que fazes tais manobras. de toda a maneira. Carrega em sua queda as cotações de todo o cartel!. antes de qualquer coisa. Quero apenas meu dinheiro e a paz de minh’alma UM CORRETOR – urrando. e o conjunto das fábricas vale dez. estava acordado. OS FABRICANTES: O que significa isso. Voltai para casa. antigamente Mauler.Há quatro semanas apenas eu assinei um contrato com Mauler. Ele poderia exigir seu dinheiro quando quisesse. MAULER: E por que matastes tanto gado? Açougueiros alucinados sois vós! Agora. Eu me propunha pagar-lhe vendendo uma parte das ações dele mesmo. Isso representava um terço do total das ações. quem de vocês continuaria a me levar a sério nos negócios? Ora. ao invés de trinta. mas três milhões. CRIDLE – dirigindo-se aos que o cercam:. Cridle. que estavam valorizadas. Mas somos atingidos pelo que lhe acontece. Cala-se e aponta para o dedo para ti.

. OS CRIADORES: Impossível vender um boi em Chicago.Pierpoint Mauler! Onde está Mauler? MAULER: O que é esse barulho de tambores que de súbito me envolve? E quem chama pelo meu nome Nesse lugar.Nenhuma sequer! OS FABRICANTES – Então. escutem bem! Um homem afunda sob os nossos olhos! Escutamos lá no fundo seu apelo por salvação. mas rápido! OS COMPRADORES . pois preciso partir. não saia! Graham. com isso. mas rápido! OS COMPRADORES . E nós dizemos: é preciso ir sempre adiante. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Escutem todos. Mauler. Pois os bons nesse mundo Não formam um grande exército.17 Mesmo que tivésseis todos que mendigar. OS CRIADORES: Lennox já caiu! E Cridle balança! E Mauler. Eu não quero que me vejam aqui. Ei. Fazer avançar os tanques e os canhões. Avante! Ao assalto! Empunhem os fuzis! Diante de nossos olhos os homens naufragam. Ei-nos aqui. Os que nos escutam. OS FABRICANTES: Oitenta e sete mil latas pela metade do preço. Lançar ao mar os navios de guerra E nos ares. Não falemos mais de negócios. o responsável Por esta catástrofe. Eu quero meu dinheiro. detenham todo o tráfego Em torno de vós os seres naufragam. E ninguém se preocupa. os aviões Para conquistar o pão dos pobres. Graham. com nossos bois Que hoje ninguém mais quer. Parem os carros. Mauler. nós estamos perdidos! JOANA – Onde está Mauler? MAULER: Slift. Uma explosão de gargalhadas toma a frente da cena. seja quem for! Levantai o nariz de vosso prato. Haveis então esquecido Os que esperam diante da porta E que esperam. Meyers. Ouvem-se os tambores dos Chapéus Negros e a voz de Joana. cem dólares pelo meu chapéu. MAULER: Por hoje basta. fiquem diante de mim. suja de sangue? Joana e Marta avançam e cantam o seu hino de guerra. então. Nesse mundo sempre reinará a injustiça. seu cão. Meu chapéu. Estimularam-nos a criar bois. ele retira o seu dinheiro! OS FABRICANTES: Oitenta mil latas a cinqüenta. Durante esse período a batalha na bolsa continua. onde cada um revela Sua boca desnuda.Nenhuma sequer! Silêncio. pois tenho outros projetos. olhos para ver? Ele é vosso irmão. meu chapéu. És tu. para comer? Pensai convosco mesmo: sempre será assim. E. Para Illinois esse dia é um desastre! Vocês fizeram os preços subirem. Uma mulher nos faz sinais de aflição. JOANA . Não esperem o amanhã! Cada um deve nos ajudar. acompanhada de exclamações. Com o único objetivo de ajudar o próximo. E ninguém se preocupa Não tendes.

Joana mostra aos negociantes os pobres (Luckerniddle e Gloomb) que ela trouxe. nas favelas. E os senhores. UMA VOZ. eu bem sei. OS POBRES – Ele é o responsável por tudo! Os fabricantes de conservas correm para socorrer Mauler. Traçam essas desconhecidas. a Revolução. em conseqüência.18 – Maldito sejas! Cridle sai. MAULER. JOANA. todo-poderosos. Já me disseram o que os senhores fazem: manobras. Cujo ciclo pavoroso sempre recomeça. que se dobram sob o fardo de suas penas. Não tenham vergonha. COMPRADOR. pois os que estão lá fora já não têm como comprar. os senhores se enganaram. As crises são catástrofes naturais. Mas nós lhes dissemos que é um imbecil. Aumentem-no. engodos e combinações para aumentar o preço da carne. como não seriam os valores mais elevados esmagados em seu coração? Sempre ouço dizer. Nos baixios. Senhores. JOANA – E qual a causa desta imoralidade no mundo? Poderia ser diferente? Se cada um é obrigado a rachar com um machado a cabeça de seu próximo para fazê-lo ceder seu pequeno pedaço de presunto e sua migalha de pão. OS FABRICANTES: Água para Pierpoint Mauler! . Reparem então nestas gentes. existe também um poder de compra moral: o dinheiro. nesses lugares sombrios e secretos onde os senhores tratam de seu comércio. a quem os senhores transformaram no que são. acabarão tendo de comer sozinhos a carne que produzem. Vossa imunda cobiça. são todos uns imbecis. tanto hoje quanto no dia do juízo final. e é verdade. aí pelo mundo. que os pobres não têm muita moral. gritando – Afastem-nos! Ele desmaia. Se continuarem a agir assim. seus mugidos serão testemunhos. buscando desculpas. e escute o que eu tenho a lhe dizer. nada querem saber da miséria que existe fora deste recinto. as leis econômicas. em tom de reprovação Aqui estamos com nossos bois Que hoje em dia ninguém quer. como fazem em seus jornais. replicando: Imbecis são vocês! Ninguém pode nada contra as crises! Bem acima de nós. vocês. que fazem subir o preço do pão e que fazem da vida um inferno onde os homens viram demônios. é lá que mora a imoralidade no estado puro e. tereis a moralidade. JOANA – Mas os senhores. os Chapéus Negros. atrás de mauler – Fique senhor Mauler. ver surgir a nós. ao fundo – Pierpoint Mauler passou mal. que sentam nesse palácio. então em suas costas os bois começarão a mugir contra os senhores. Se os senhores continuarem tergiversando. destinos inelutáveis. e a quem não querem reconhecer como irmãos. Silêncio! Não lhes agrada muito. OS CRIADORES. nada além disso. eles que nada têm? Senhores. Inverno e verão nós dependemos do tempo: nós também estamos mais próximos do Deus de nossos pais do que os senhores. imaginando que não virão à tona suas manobras. avancem à luz do dia. CRIDLE OS CRIADORES: Como? Somos asfixiados e ninguém pode fazer nada? A causa de nossos males é a imoralidade De vossas armações escusas. Mas então eu lhes pergunto: de onde tirariam eles alguma moralidade. JOANA – Um homem de negócios também pode ser um bandido – dependendo do ponto de vista. o salário. Risos OS CRIADORES – Nós criadores não encontramos nestas palavras motivo para o riso. Causais vossa própria queda! Bando de imbecis! OS FABRICANTES. gritando: Por vossa especulação desenfreada. Mas se os senhores acreditaram que seus procedimentos permaneceriam ignorados. pobres e deploráveis imbecis. e diante de Deus TodoPoderoso.

. eu compro! Escutai todos: Pierpoint Mauler compra! Que estas gentes tenham trabalho e que se afastem. vós me mostrastes a imoralidade deles. afastados dos bens indispensáveis. Os que estão atrás. Eles o levantam. de todos os estoques do cartel. Eles parecem bem piores. levantando-lhe a cabeça – E os estoques? MAULER. Aos pobres: Segunda-feira vocês terão novamente trabalho. O cartel entregará a Pierpoint Mauler. em 15 de novembro. MAULER: Afastem-nos. A tal ponto dependentes de alguma comida E de um pouco de calor. por favor. deitado no chão – Eu compro. ao fundo. ao instinto animal. Além disso. então Para querer fechar a boca do Bom Deus? Não se deve calar a boca de ninguém. levai-o agora. eu. OS POBRES – Gente como essa. MAULER. JOANA – E agora. e reduzi-los À voracidade. eles não. Eu vos mostro agora a pobreza dos pobres. vos rogo. cantemos: “Nunca faltará o pão.. Mas quem sois vós. meus amigos. MAULER – Agora. Tu quem os reduziu à tamanha miséria. OS FABRICANTES – Quem? Os Chapéus Negros? Quer que eles saiam? MAULER – Não. Quem em seu seio habita Jamais será infeliz. ao preço do dia. aí em cima. E fome nunca se passa.” OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Nunca faltará o pão Ao que dedica a Deus sua alma. No seio de Deus não há frio. CRAHAM: Então! Não podes vê-los? No entanto foste tu. antes de partirmos. Torna-se comprador. nós conhecemos. a contar de hoje. para eles inacessíveis. OS FABRICANTES – Ele comprou! Mauler comprou! MAULER – Ao preço do dia! CRAHAM. E não basta que cerres as pálpebras Para que eles desapareçam. pelo menos cinqüenta mil toneladas de conservas. Que viver assim pode mesmo afastá-los Da necessidade de um ideal. que mantendes longe de vós. Nem mesmo do boi que esmaga espigas com seu casco! Em todo o caso.19 Um médico para Mauler! JOANA: Mauler. o que fazeis? Vós me ordenastes não dizer uma palavra. qual burros de carga. tudo o que em oito semanas conseguirdes [fabricar. levantai-me. E vós. voltando a si – Eles ainda estão aí? Eu suplico que os afastem. como eles sim. estão tão enfraquecidos. assume compromisso sobre a produção de dois meses. Nós. eu vou falar. JOANA: É isso. cumprimos nosso trabalho de [missionários.. CRAHAM – A cinqüenta? MAULER – A cinqüenta! CRAHAM: Ele comprou tudo! Vocês ouviram: Comprou tudo! CORRETOR. Mas os dois que estavam ao lado dele. também ao preço de cinqüenta. e por vós mantidos Nesta pobreza. gritando em um megafone – Pierpoint Mauler reanima o mercado da carne. nós nunca tínhamos visto. Compro. E lá. Invisíveis para vós. Mauler. Eles. SLIFT – Ele não abrirá os olhos enquanto não os fizerem sair.

Muitos criadores se transtornaram. Não o deixaremos descansar Enquanto um homem precisar de ajuda. de São Francisco a Nova Iorque. PEQUENO IMÓVEL COM DUAS SAÍDAS MAULER. JOANA: Saibam todos: estou de olhos em Mauler. por que te impressionas com os discursos dela? MAULER: . a sabedoria triunfa. seguidos dos criadores. Recusa-se a engolir mais. Sua consciência já despertou. JOANA – Todos aqueles que se interessam realmente pela palavra de Deus e que querem saber o que ele diz e não apenas a cotação da Bolsa podem vir domingo à tarde assistir nosso ofício. não é. entrada gratuita. Agora os senhores podem respirar. Pois ele pode vir em auxílio. Pois o contrato que acabam de ver firmado É apenas um pedaço de papel. nenhum. dirigindo-se à Joana Aquilo que disseste e tua intervenção Causou-nos forte impressão.20 OS COMPRADORES: Este homem está ruim da cabeça. Para tal negócio. Sábia decisão. VI A Captura dos grilos NA CIDADE CASA DO CORRETOR SULLIVAN SLIFT. liga as luzes e agora repara em mim. cutucá-lo. OS CRIADORES: Agora os preços subirão. O estômago do país. Se estiverem muito necessitados. ele não encontrará Um centavo. Aqueles que dão o pão. O homem que o assinou não estava em seu juízo. E ele faz meter carne em latas Que ninguém comprará. Que carecem tanto uns como os outros? CRIADOR. É preciso. E vocês precisam dela. enfim do ponto morto! Confiança e concórdia estavam fortemente abaladas. ao criador: O que Mauler promete. Slift. pois nós também. às duas horas. Contra a desrazão. açougueiros infames! Enquanto vocês não dobrarem o preço do gado Não entregaremos um só grama de carne. sabiamente acatada. Joana e os Chapéus Negros saem. Ele cumpre. As fábricas reabrem e as chaminés fumegam! Pois efetivamente é de trabalho. Os fabricantes de conserva saem. Venham comigo procurá-lo Para que ele os tire do embaraço. Podem esquecer seu nome. e diga se realmente todos podem ler em meu rosto? SLIFT – Ler o quê? MAULER – Ora! A minha profissão! SLIFT – Teu ofício de açougueiro? Diga-me. na Rua Lincoln. SLIFT. os operários entrarão. Escutem: saímos. OS FABRICANTES: Podem guardar sua carniça podre! Não estamos interessados em comprar. Mauler. saturado de conservas. discute com Slift – Fecha a porta. Música a partir das 3 horas. aqueles que o recebem. Os patrões vão reabrir. dentro da casa. então. Nós estamos sob uma miséria atroz. Nesse momento o mercado recobra a saúde.

E pense em tua situação: ela não é muito boa. Talvez depois de comer carne crua ele retome seus instintos. Seremos colados ao muro. pois desde essa manhã tu nada tens a ver com a morte dos bois. urrando. que mais não vi. Sob a chuva e de barriga vazia. talvez.. mas permita que eu te exponha simplesmente a situação. Não. Isso não pode mais perdurar. E quando da onda emana uma voz Que nada tem de bestial. SLIFT – O discurso deles te perturbou. vender e lutar sem parar. vejo-te mergulhado na contemplação de teu ser grandioso. retorna. Esquecer todo o resto. irei confessar-te Minha verdadeira opinião sobre nossos negócios: Comprar.. A urrar de aflição. MAULER: Sempre me pergunto por que essas tolices me afetam: Discursos plenos de utopias.. MAULER: Mas que dizem eles? Essas cidades São um braseiro jamais extinto Onde. Não há mais consolo. Tão forte.. Levantar-se-ão com a aurora e por-se-ão em marcha. não é? SLIFT – Come. meu caro Slift. Não conheceremos a morte em nossas camas. Sabias que tu compraste hoje tudo aquilo que pode ser colocado dentro de uma lata de alumínio? Meu caro Mauler. Certamente porque essa gente trabalha a troco de nada. SLIFT – Não queres comer um pouco de carne. por mais louca que seja. no entanto. qual onda. Há sempre boquirrotos que acham Que as coisas não andam como deveriam. MAULER: Tu crês que eu deveria? Eu poderia. Para estes que caem em nossos porões sangrentos. SLIFT: Em cidades como as nossas. de onde se eleva uma cólera Que nos varrerá a todos. Se nos apanharem um dia. É outra coisa. caro Pierpoint? Pense que agora podes fazê-lo sem peso na consciência. Agora.. . eles são muito numerosos. um após o outro. É sua antiga fraqueza que retorna. Seu número aumenta a cada dia. Que não sabem como passarão a noite mas. Ele se afasta e começa a grelhar um bife no fogão. Eu deveria podê-lo de novo. por mais externa e sem importância que ela seja. Para limpar esse mundo. (À parte:) Farei com que ele coma um filé muito mal passado. Esfolarmos uns aos outros friamente. Onde o fogo arde embaixo Enquanto congela-se em cima. a humanidade. Por trás havia rostos selvagens. então? MAULER: O que vive abaixo e não acima De mim! Esses seres reunidos nos matadouros.. Então creio sentir Como um peixe aprisionado entre duas águas Pauladas na espinha. Tudo isso são ainda meras desculpas O que temo não é Deus.21 O que ela disse? Eu não ouvi nada. Nós e nossa corja. SLIFT – E o que é. lançar-nos-ão Ao chão como um peixe podre. Fórmulas tomadas ao coração. Nós que aqui estamos. E dezoito horas por dia. Slift. Tagarelice vazia e fácil. Máscaras da aflição.

escapando bem. Ainda pela manhã. votarão contra as tarifas aduaneiras. Receberás. Estão erradas. na Câmara. eles me escrevem para comprar. SLIFT: Tudo depende de quem escreve a carta. eu comprei. Mas ainda há a carne Que no mercado liquidarão cem criadores Muito ávidos. safa-se. Tu as compraste a cinqüenta mas. Escuta: X comete um roubo. mais notícias. Essa seria uma saída.” SLIFT. Mas esta mulher comoveu-me a tal ponto Que mal lancei os olhos. quando os preços estiverem em trinta. SLIFT – Tu deves fazer o que? MAULER – Comprar carne. acredito. essas teorias de gabinete.. então. eu me escutei dizer: “Eu compro tudo”. ou a vinte e cinco. MAULER: Oh! Slift. na melhor hipótese. E uma vez lá. Sob o fardo de toneladas de latas de alumínio. a não ser que golpeie Y Se ele golpear. Milhares de homens sangram Por causa deste imundo dinheiro. eu te juro. qual Atlas. indicado. Ah! Meu caro Slift. SLIFT – E o que escreveram. . o Cartel te entregará mais cinqüenta mil toneladas a cinqüenta. sob os arcos de alguma ponte. Eu fui vê-los cair. mas Y o surpreende. muitos de meus concorrentes balançavam. Não é qualquer um que pode.22 Primeiro compraste ao Cartel um estoque de vinte mil toneladas de conservas.“Estamos em condições. de resto. de anunciar-te que nosso dinheiro começa a render seus frutos: muitos são aqueles que. esmagado. comprar carne. eu comprei! O que eu fiz! Coloquei sobre minhas costas toda a carne desse mundo! Trôpego. MAULER: Tu compreenderás. SLIFT – E por que reclamas de ter comprado? MAULER – Sim. Nas semanas vindouras. dizer-lhes Que ninguém era louco o suficiente Para comprar carne em conserva.. Realmente eu não vejo sentido nesta carta. Ou desencadear guerras. hoje. os preços Subam? E nós acabaríamos. deverás escoá-lo em um mercado que já não consegue absorver uma única lata. eu tenho a impressão De que nada de bom sairá daí. O ladrão está perdido. Slift. Em quinze de novembro. apesar de tudo. Então pode ser que. eu não agi por razões vis. Aqui está: “Caro Pierpoint. É coisa que também não se deveria fazer. amanhã. Na carta que recebi de Nova Iorque essa manhã. Ah. Facilmente nascem guerras À custa de tais atitudes. Mas não foi por causa da carta. os preços cairão a trinta. SLIFT – Quem são. Corromper ou abolir as tarifas. continuando a leitura . rir-me deles. Parece. eu estou perdido.. Sim. eu estou perdido! Esse é o meu fim. caro Pierpoint. MAULER: Corromper assim. Essas pessoas são gente de bem? MAULER – É gente com liquidez. é verdade. assim. sim! Eu comprei carne.. teus amigos de Nova Iorque? MAULER – Que eu devo comprar carne. Cairei. Os preços baixarão novamente. Não. então? Mauler sorri. SLIFT – E tu compraste! MAULER: Oh.

SLIFT – Por aqui. Quando ele me ouvir cantar aqui. Os enganados serão os criadores. Devo comprar ainda todo o gado de Sírius? É como se alguém viesse dizer a Atlas Que não mais agüenta. das fábricas paradas. Slift? Não quero reencontrá-la e. Feliz se. Slift sai. que precisa bastante. Não. Slift. como quem captura um grilo.. aos criadores – Pierpoint Mauler está examinando vosso pedido. Pierpoint! MAULER: Ah! É verdade. para o outro lado. Lembrá-los de Lennox. Nem a mim nem aos que me acompanham. todo esse gado? SLIFT – Vejo apenas Graham. mais de dez mil criadores que não sabem mais a qual santo rezar. no fim. Também trouxe alguns trabalhadores que adorariam perguntar-lhe quando o senhor reabrirá a sua fábrica. JOANA – Nós o faremos sair de sua toca. Mas então. Slift. não sairemos daqui! MAULER – Tu dizes Graham? É verdade que ele precisa de gado? Saia. OS CRIADORES. Pois. Eu não compro mais nada. SLIFT Tu que não querias mais comprar um chapéu.). MAULER – Eu não compro. eu estou comprando e compro ao preço do dia. Joana diante da porta da esquerda. de perto ou de longe. minha decisão está tomada. então. tentará sair pela outra porta. de seus delitos. em todo o Illinois. depois. Slift. Slift. Vais comprar todo o gado de Illinois. Isto é o principal: Sumir com o gado. Ele pede-vos dois minutos de reflexão.23 Da mesma maneira a carta – que está errada – Requer – para acertar – um crime desta ordem. e tudo o que cheire à banha eu compro também. SLIFT – Qual crime? MAULER: Um crime que eu não poderia cometer. MAULER – A outra saída onde é. Mauler. a cinqüenta. JOANA. nem chapéu nem sapatos. com um porco ou com um boi. E comprar-lhes tudo. Toda a carne posta em conserva até hoje. Ele não gosta muito de me ver. a partir de hoje. Tu és o responsável por nossa desgraça. eu compro. E nós somos. eu vou comprar. SLIFT. Ele desenha um “A” na porta de um armário.) Slift.) Saia. Senhor Mauler. quero paz em minh’alma. não foi bom. Eu fiz “A”. e diga-lhes que quero refletir dois minutos. MAULER: É verdade. grandes lucros! É verdade que o ganho seria apreciável. Vão para lá. A operação é simples: seria preciso comprar Todo o gado que se encontrasse em pé. eu não comprarei! Eu que já carrego toda a carne desse mundo. diante da porta da direita – Sai. Slift volta. Slift tragame tudo o que se pareça. Retumbar de tambores. Antes de ter saído dessa. é verdade. Joana entra acompanhada dos criadores. Compra então o nosso gado! MAULER: Fecha a porta. dobrando-se sob o peso da terra: Saturno também precisa de apoio. é preciso que eu lhe fale da miséria dos criadores de Illinois.. . eu não quero meter o dedo neste negócio. diante da porta da esquerda – Enquanto os criadores não forem ajudados. (Os criadores colocam-se diante da porta da direita. SLIFT – Não deverias ter comprado. tiver cem dólares no bolso. Traga-me até a menor mancha de gordura. (Ele calcula. Persuadir os criadores da oferta excessiva. Que eles tirem. para evitar me encontrar. (Ela ri. Quem me comprará. No interior da casa. Agora. àquela gente que está com ela. E por agora também não penso em reabrir a fábrica. sobretudo. ele se dirige à porta da direita.

Pierpoint Mauler resolveu comprar todo o gado que se encontrar no mercado. salvador do comércio! Eles entram na casa. sobretudo nas camadas inferiores da população. uma avareza completamente inexplicável. convidar em vosso nome as pessoas ricas e bem colocadas de Chicago. que são gente de bem. proprietária do imóvel. . Mas seu nome não deve ser mencionado. GLOOMB – No começo falaram em reabri-los. Talvez isso tenha a ver com o fato de que eles não possuem nada. Ela sai. SLIFT. acabamos constatando que esses segmentos demonstraram. OS CRIADORES – Viva Pierpoint Mauler. pelo que acaba de fazer.24 Dominado por seus sentimentos. Comandante dos Chapéus Negros. (Os Chapéus Negros saem. Infelizmente. os dispensados esperam ainda pacientemente na porta dos matadouros ou já começam a dar discursos revolucionários? DONA LUCKERNIDDLE – Desde ontem gritam bastante. JOANA. Trabalham duro e vestem-se decentemente. não é preciso que as vendas sejam feitas em seu nome. não se esqueçam de varrer a escada. frente a Deus. mas não fizeram nada. e. sai e se dirige aos criadores – Para salvar Illinois e impedir a ruína dos fazendeiros e criadores. grita a eles – Digam ao senhor Mauler que os Chapéus Negros lhe agradecem. BISPA SNYDER – Não se aproximem muito da caixa! Ele fez sinal para que eles recuem até o fundo. Eles não têm teto. em nome de Deus. E eis que “A” e “B” tomados juntos. Eles não são como os outros. VII Os mercadores são expulsos do templo TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS Sentados em uma longa mesa. sobretudo. os Chapéus Negros esvaziam suas latas de ferro e contam ao óbolos das viúvas e dos órfãos. OS CHAPÉUS NEGROS cantando: Recolham cantando Os trocados dos órfãos E os trocados das viúvas. Em seguida comete “B”. que cada um volte alegremente às suas funções. Faça entrar os fazendeiros. um grande golpe no ateísmo e no materialismo que reinam nesta cidade. Entra dona Mulberry. Alguém se equivoca: “A” é um erro. Que dão medo de olhar. Mas Deus todo poderoso Achará os meios de alimentá-los! BISPA SNYDER. dona Mulberry. mas por enquanto não se preocupem. para vocês também haverá pão novamente. O dinheiro nos permitirá também pagar à nossa querida proprietária. tão errado quanto “A”. (Aos operários:) Quando os que compram gado e os que o vendem se acertarem. Suas misérias são grandes. caros ouvintes! Para resolver o delicado problema do financiamento nós até agora apelamos aos pobres e aos mais pobres. entre os quais dona Luckerniddle e Gloomb:) Vocês de novo? Vocês passam a vida aqui? O trabalho voltou nos matadouros! DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. BISPA SNYDER – Agora. Eles não têm pão. Assim eu decidi. Aos pobres:) Digam-me. sábado próximo. GLOOMB – Muitos já dizem que se não empregarem a violência não haverá trabalho para todos tão cedo. se levantando – Que mixaria! Que mixaria! (Dirigindo-se a alguns pobres. pois eles sabem que as fábricas receberam encomendas. minha cara dona Mulberry. dão certo. o aluguel que ela tão gentilmente tem adiado. DONA MULBERRY – E meu aluguel. DONA MULBERRY – O que me agradaria muito. ao fundo. o que foi feito dele? BISPA SNYDER – Meus caros Chapéus Negros. que eles nos ajudem a desferir.

os reis da carne nos escutarão mais facilmente. senhora bispa. recompensados por suas penas. é saber de que lado vocês estão! Desse lado da barricada ou do outro? BISPA SNYDER – Os Chapéus Negros. sem que ninguém saiba como. não gosto disso. então. no púlpito – Nós. um dia. mas que serão. OS FABRICANTES – E quanto querem pelo serviço? BISPA SNYDER – Oitocentos dólares por mês. a Snyder – Desembuche! Eles se sentam no banco dos fiéis. após a sua morte. Nós. MEYERS – O que não será fácil. a Snyder – Todos pobretões. E já citam vossos nomes. SLIFT – Mauler e eu não compramos um centavo sequer de gado.. Se vierem para cá tocados a pedradas. É nosso nervo vital! SLIFT. portanto. Meyers. o Pepê está com o gado. GRAHAM. SLIFT – O essencial. tão certo quanto eu estou aqui. minha cara. Do lado de cá. Nós também prometeremos a eles que os ricos serão punidos. afirmando que sois vós os responsáveis pelo desemprego! Em breve eles dirão: queremos fazer como os bolcheviques. Graham. Quinhentos dólares. diremos a eles que a desgraça vem como a chuva. onde poderia estar todo o gado! GRAHAM – É o que eu me pergunto também: onde poderia estar? SLIFT – Eu me coloco a mesma questão. a Snyder – O que querem de nós? GRAHAM. Já é melhor. Entram os fabricantes de conservas: Cridle.. tomar as fábricas em nossas mãos para que todos possam trabalhar e comer. Graham. OS FABRICANTES – Por que falar em pagamento? BISPA SNYDER – O pagamento do qual falamos é feito após a morte. Slift! MEYERS.. mas que ela é provocada por aqueles que dela tiram vantagem. ouvimos dizer que há nos matadouros cinqüenta mil pessoas sem trabalho. os Chapéus Negros. novo soco – Que tu achas que eles querem. os Chapéus Negros. Que tal. mais então. vocês certamente precisam. precisamos do gado. Slift? (Slift simula um ar astucioso e exagera na mímica do ato de dar dinheiro). Senhor Slift. a Meyers – Essa senhora não tem senso de humor. (Aos outros) Eles carecem desta quantia. são vocês que estão com o gado. estão acima da querela. que eles estão destinados ao sofrimento.25 – Isso nos é favorável. BISPA SNYDER MEYERS Há um cretino que razia o gado E que sabe bem que estamos comprometidos A entregar carne enlatada E que.. bispa. na frente do palco – Então. MEYERS. BISPA SNYDER – Podemos dar um jeito com setecentos e cinqüenta. GRAHAM – Confesse. menos Snyder. Porque já começam a dizer por todos os lados que a desgraça não cai do céu como a chuva. não enrole. Na mosca. SLIFT – Quem poderia ser? GRAHAM. MEYERS. Deus é testemunha. BISPA SNYDER. e vá dizer ao Pepê Que afrouxe o laço. dando-lhe um soco na boca do estômago: Velho cão imundo! Vamos. quinhentos? GRAHAM – Quinhentos sim. MEYERS – Eu me pergunto. sem dúvida? SLIFT – Sem dúvida. E que alguns entre eles começam a resmungar e a dizer: devemos nós mesmos cuidar do negócio. (Aos pobres:) Vocês não poderiam ao menos cortar lenha para nós? OS POBRES – Não há mais lenha. precisamos de sopa quente e música animada. confesse Slift. MEYERS – Setecentos e cinqüenta... Bispa Snyder! Todos riem. . Slift. sim! Vocês agora terão que achar alguém que faça a doação. a Snyder – Quinhentos dólares? Isto é muito dinheiro! Quem vai pagar? SLIFT – Ah. portanto. SLIFT. GRAHAM – Até tu? E Mauler também. (Os fabricantes de conserva caem na gargalhada) E tudo isso por apenas oitocentos dólares por mês! GRAHAM – Não precisas de tanto.

Mas agora. avançando: Eu te conheço: tentei te convencer A trabalhar nas serras que me cortaram o braço. própria para jogar água na fervura. da tua vista sairia. Se essas pobres criaturas. Para que ninguém mais vá olhar de perto. É o seguinte: alguém sumiu com o gado do mercado de uma maneira que somos obrigados a ficar de olho em Mauler. pois. Mas cruel é a fome: Renasce sempre. Os Chapéus negros aparecem na porta. nós não queremos mais ver. Basta que alguém diga: está acertado. que ela usa como se fosse um porrete. GLOOMB. que haveis atormentado ao extremo. eu sei o que faço. SLIFT – Mas querem antes estrangular os agricultores! OS TRÊS – Como abater gado que não existe? SLIFT – Quando Mauler e eu compramos a carne de vocês.26 Entra Joana SLIFT – Aí está a nossa Santa Joana da Bolsa de Carnes! OS TRÊS. e a religião vos parecerá de novo algo de muito bom. comprou-vos conservas Por minha solicitação! E não reabristes ainda? OS TRÊS – Está correto. Haveis perdido então todo o respeito pelo que se parece humano? E ousais anda vir à casa de Deus porque possuem o vil metal? Sabe-se bem de onde haveis tirado esse ouro e como o haveis adquirido. E eu. se os consumidores não têm com o que pagar? JOANA – Em vossas gigantescas instalações e vossas fábricas detendes as ferramentas dessa gente: deveríeis ao menos permitir que eles as usassem. JOANA. e rápido. hoje. perdi demasiado tempo até sabêlo. É preciso ser muito tonta! Na verdade. para fazer pior. indo de um lado a outro.) Saí! Quereis transformar a casa de Deus em um estábulo! Saí! Nada tendes a fazer aqui! Cabeças como as vossas. mas não fizeram nada. quem comerá a carne que nós compramos? E para que nós a compramos.No começo falaram em reabri-los. Estou pronto. Nós queremos reabrir nossas fábricas. senão lançar-me-ei sobre vós e golpeá-los-ei a cabeça. Parece que podes fazê-lo agir ao teu gosto. Mas o Bom Deus tem uma opinião muito elevada de Si mesmo para ser sempre a vossa babá para todo o serviço e para vir limpar vossas cavalariças. Sois indignos e eu vos expulso! Apesar de vosso dinheiro! . De bom grado. mal tendo sido saciada. vós então vos borrareis todos. Dirigindo-se aos fabricantes: Mauler. supúnhamos que iriam retomar o trabalho. (Joana sai atrás deles com o mastro de uma bandeira. ajudo também aos de baixo. olhando os pobres. e nessa atitude há alguma coisa que parece exploração. senão ficam imobilizados. Dizem que ele come na tua mão. Se fizeres isso por nós. e que os operários poderiam comprar a carne. empunharem um porrete para bater em vossas cabeça. JOANA – Por que não trabalham? Não arranjei trabalho para vocês? DONA LUCKERNIDDLE – Onde? Os matadouros estão fechados. dizendo-me: ajudando aos de cima. e eu. ela está espantada – O que fazem vocês aqui? DONA LUCKERNIDDLE. Não me detenham. aos fabricantes: Esses pobres continuam a esperar trabalho? Silêncio dos fabricantes Eu que pensava que eles estavam arranjados! Faz já oito dias que neva nas costas deles. JOANA. ao me veres aqui. Esta neve os mata. mas também os esconde De todos os olhares. É preciso que ele libere o gado. qualquer um que queira ajudar aos pobres deve ajudá-los a protegerem-se de vós. Saí. sem pena também Esqueci o que todos se apressam em esquecer Para rapidamente estar em paz com suas consciências. avançando: As vinte refeições foram comidas! Não te irrites. gritando alto a Joana – Ah. aí estás! Nós não estamos muito contentes contigo! Tu não poderias dizer uma palavrinha de nossa parte à Mauler? Parece que tens sobre ele alguma influência. GLOOMB . entretanto. pagaremos o aluguel dos Chapéus Negros por quatro anos.

. Mesmo que o dinheiro os carcoma como um câncer Devorando o que seu resto tem de humano. Trazendo-vos totalmente convertido. ah. agora. tudo mal. Enfrentam-se como gigantes? Vá. não se vão.27 – Está bem! Mas conosco. É mister que haja um Justo entre eles! Ela sai. está bem. BISPA SNYDER. Mesmo que ele os torne surdos. JOANA. Enquanto não tiver feito de Mauler um dos nossos. Anda cuidar de tua vida. de um ao outro. Povoada de cânticos e palavras que despertam. esses pobres. Por causa do aluguel. Homem de boa fé e destemido. modestamente. Queres. De qualquer maneira. onde não escutam mais Os pedidos de salvação do resto dos humanos. Doravante farás parte dela. dona Mulberry – que ele encontrou sobre a terra. ela não representa ninguém. no coração da tormenta. Eu não desejo Colocar novamente o chapéu e o uniforme negro. Ela carrega uma mala pequena. Mas como deixar-se levar por isso? (À dona Luckerniddle e a Gloomb:) Sentem-se lá no fundo. é muito justo que pague. entrando — Vocês já arranjaram o dinheiro? BISPA SNYDER – Deus encontrará logo o meio de pagar o abrigo bastante modesto – eu disse modesto. eu lhes trarei a sopa. fracos. JOANA Irei ver o rico Mauler. OS TRÊS Joana sai. DONA MULBERRY — Sim. Mas se ele não paga. entretanto. Tu que planas mais alto que as questões terrenas! Parta sob a chuva. tudo bem. BISPA SNYDER: Infeliz ignorante! Como não vês que operários e patrões. DONA MULBERRY. ela retorna vestida como uma jovem camponesa. BISPA SNYDER. vão-se irrevogavelmente quarenta meses de aluguel. na ponta dos pés. Nem outra vez cruzar o limiar dessa querida casa. aos Chapéus Negros – O que acabo de fazer certamente foi pouco habilidoso. como jamais viu antes o mercado do gado! Saída dos fabricantes de conservas. Nós iremos viver dias terríveis. correndo sai atrás deles – Fiquem senhores. Eu pedirei sua ajuda. Serve-lhes água de chuva e belas palavras Pois do céu não lhes vem mais do que neve E não misericórdia! A humildade. Quanto ao pão que precisamos comer. Fazes-te de difícil e és muito curiosa Para saber como é feito. não tem nenhum mandato! É apenas uma mulher que perdeu a razão! Ela está despedida! Ela fará pelos senhores tudo o que desejarem. tu a ignoras E cedes a teus impulsos! É mesmo muito fácil Caçar esses impuros com um gesto cheio de orgulho. Se o Bom Deus não paga o seu aluguel. não temos mais um centavo. terá de se mudar. comê-lo também! Vá-te então. oferece teus bons préstimos. Grupos inimigos irreconciliáveis. Vá sob a neve e continue intransigente! JOANA – Quer dizer que devo tirar meu uniforme? BISPA SNYDER – Tira o uniforme e arruma tua bagagem! Sai desta casa e livra-nos da escória que arrebanhaste. pois esses que te seguem não são mais do que escória e refugo. e a partir de sábado à noite. Mediadora inútil e que cava a própria cova. então. bispa Snyder? Ela sai. prisioneiros Em uma torre de marfim. é bem disso que se trata! Falaste a palavra exata! Se o Bom Deus paga. de volta Convida a tua casa.

senhor Mauler. Ela não tem medo de nada. Graham e companhia ficarão então parecidos À lama. em sua casa. Slift. senhor Mauler. E todos aqueles que como ele. Deixo minhas coisas nesse canto. os preços a oitenta. Assemelhem-se a bois ou porcos. Serão obrigados a comprar a carne Que devem nos entregar. MAULER: Agora. E os preços Subirão ainda mais. SLIFT. Eu desmenti. e de que. se eu estivesse lá. onde enfiaremos o pé Unicamente para ver a marca que deixa. Deixar que gritem: “É um crime!” Entra Joana. posso me interessar mais por cada homem em particular. por um momento. mesmo nas pequenas coisa. mas por que o lençol em cima. Houve discrepâncias entre nós. Eles precisam comprar de nós. Mauler. Slift. Agora que não tenho mais o trabalho fatigante da missão. realmente. Não se possa aceitar gente da minha laia. JOANA – Bom dia. Neste mercado de Chicago Todos os bois que se escutam mugir São nossos bois. Faça subir. meu caro Slift. Mas o senhor tem razão. Senhor . Desde Que ela nos expulsou do Templo. A mim também Teria expulsado. carregando uma mala. Então eu disse a mim mesma: vá dar uma olhada no que se passa com o senhor Mauler. Em busca de animais que. Mas o senhor. Não pretendo soltar um só grama de carne A fim de arrancar-lhes mesmo a pele desta vez: É a minha natureza quem exige. Ele sai. SLIFT: E tua Joana? Algo de novo? Um boato corre na bolsa: dizem Que te deitaste com ela. E na nossa mão é mais caro. queriam esperar Que o preço do gado caísse o mais baixo possível. desta vez. Gostei muito de vê-la expulsá-los do Templo. MAULER: Seria preciso esfolar esta cidade maldita E ensinar-lhes o seu ofício A essa gente. SLIFT: Estou feliz. de perto ou de longe.28 VIII Discurso de Pierpoint Mauler sobre a absoluta necessidade do capitalismo e da religião ESCRITÓRIO DE MAULER MAULER: MAULER: Chegou enfim o dia em que nosso caro Graham. É que eu não estou mais com os Chapéus Negros. dá rédea solta a teus corretores! Deixa-os correr o mercado. e cada porco Que eles precisam nos entregar. É um belo sofá que o senhor tem aqui. Terão de pagar mais caro. Não é fácil encontrá-lo. Dir-se-ia Que Chicago a engoliu Em sua negra e ruidosa bruma. Não se fala mais dela. no seu escritório? Sempre achei que o senhor devia possuir um dos grandes palácios de Chicago (Mauler se cala). que tu tenhas superado Teus recentes acessos de fraqueza. de ser cuidadoso. Gosto nela deste traço. Vou ver como eles compram. e que nem mesmo está dobrado direito? Diga-me: o senhor dorme aqui mesmo.

MAULER – Ah! E agora os Chapéus Negros estão em uma situação financeira difícil? JOANA – Sim. E foi por isso que eu me disse: irei ver o senhor Mauler. Eles são cinqüenta mil Que permanecem lá. JOANA – . Mas nesse negócio. MAULER – Vá dizer-lhes que o dinheiro está chegando. Joana pára de comer. Não pude dar-lhes trabalho rapidamente. ainda por cima. Quando não o tens. MAULER – Não te inquietes. e aos Chapéus Negros é preciso auxiliar. Eu também. mesmo à noite. senhor Mauler! MAULER Tome. É por ti que o faço. É Mauler quem vai dá-lo. JOANA – Senhor Mauler. Corra. arrancar a pele desta cidade. na minha vez. Ele traz comida a ela em uma bandeja.. não faço mais parte. Eu te encontro bastante mudada. E como eu sei que sois pobres E que querem privar-vos Do teto que vos abriga. tenho boas esperanças de que sua consciência esteja em paz nesse momento! MAULER – Então não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Não.. nos deu prazo só até o próximo domingo. Mas contigo não será assim. JOANA – Sim. senhor Mauler. é claro.. MAULER – . Mesmo que deva cortar na carne. Que meu comércio não é antinatural. vá dizer-lhes isso. Aqui está por escrito. Vou agora mesmo à Bolsa para procurar o dinheiro. Estás de acordo? JOANA – Sim. a proprietária. não como eu queria. a coisa não andou. o que me agradou muito e me pareceu justo. Um trabalho ruim. Toma. muda logo a tua cara? . Daqui até sábado.. Ela começa a comer avidamente. Eu irei à Bolsa encontrar o dinheiro que lhes falta. eu buscarei o dinheiro a qualquer preço. Mas eu o encontrarei. Eu confesso cruamente. Assim como aos criadores. Há quanto tempo não estás mais com os Chapéus Negros? JOANA – Oito dias. o dinheiro para vocês eu terei. Eu quero dar-vos alguma coisa Para provar-vos a bondade de meu coração. Queres? Joana observa a comida. é lógico. Nesta história dos cinqüenta mil trabalhadores. sim.. ser ou não ser. Confirme que foi por teus conselhos Que eu.. O dinheiro.. MAULER: Tão mudada! Apenas oito dias! Onde ela esteve? O que ela viu? E por que essas rugas em torno dos lábios? Esta cidade de onde ela saiu. eu lamento Que o trabalho ainda demore nos matadouros. E que. de pé. quando nós expulsamos os ricos de nosso templo. aos fabricantes. Mauler vai até o fundo do palco e chora. Uma vez mais. Eis o desafio.29 Mauler. eu não comerei. encomendei a carne. e que agi bem. está caro. que vive do aluguel.. Eu não conheço. senhor Mauler. naqueles pátios imensos. O escuro caminho que leva aos matadouros. não querem partir. JOANA – Os operários continuam esperando nos matadouros? MAULER Por que és contra o dinheiro? E por que então. Teria adorado ouvir-te dizer Que o que eu faço está bem. MAULER – E do que tens vivido? (Silêncio de Joana) De nada. Trata-se de saber Se eu serei o melhor de minha classe Ou se tomarei eu mesmo.

Tão penosa de construir. Pouco ou muito segundo o caso. destruído na mesma hora. Pouco agradável. Ou então seria preciso mudar tudo. sob gemidos. Ainda que dia após dia se precise reconstruir O que dia após dia é destruído. Mas pensa na realidade. sob chuva e frio. Ela se levanta. Modificar por inteiro o plano do edifício. Sim. Assim. Eu sei. Eu seria varrido. Por isso vós deveis nos ajudar em nossa obra. nem nós tampouco: Não seríamos necessários. Apanhe o que te dão. Mas eu faço parte daqueles Para quem essa não é uma ajuda. Como esses bobos para os quais o dinheiro Tem não sei qual problema. Em uma palavra é preciso que vós Restabeleçam Deus em sua glória. eu que nutro Poucas simpatias pela ordem do mundo. Desde que existem sobre a terra. Na banal verdade. Se eu quisesse me retirar. Por Ele batendo os tambores. Mas saiba com qual objetivo foi dado! Tome isso! Saiba que representa O aluguel de quatro anos. veja bem. Fazendo Dele a única salvação. Para que Ele finque pé nas favelas E para que Sua voz retumbe nos matadouros. Obra imensa. . sem dúvida. durmo mal à noite. Que o gênero humano está entregue. É à sorte. Esse sistema é o único que permite arrancar O que pode ser arrancado dos rigores desse mundo. Olha também como o mundo é feito! Que edifício! Obra dos homens. Isso que o senhor falou. Atribuir ao homem um lugar totalmente diferente. malgrado os sacrifícios. diga-me. nem Deus.30 O que pensas tu do dinheiro. Eis porque esta obra é sempre defendida Pelos melhores entre os homens. de cima a baixo. JOANA Senhor Mauler. isso será suficiente.O que nós não vos exigiremos de nenhuma forma – Devem dizer ao menos que eles são justificados. Concepção inaudita à qual vós mesmos. Eu não compreendo E nem quero compreender. eu deveria estar feliz De ver que alguém vem em ajuda a Deus. MAULER . O dinheiro é um meio De melhorar um pouco a vida. Daqueles a quem ninguém oferece nada. Ao menos a vida de alguns. aliás. E que. E incessantemente construída. As coisas não deixariam de seguir o seu curso de antes. Quero saber. eu concordo. Não desejais. Que seria suprimido por falta de utilidade. Ele alcança o papel a Joana. Seria como um mosquito Tentando se opor a derrubada de uma montanha. Mas mesmo assim verdade: Sobre a terra nada há de sólido. Não enchas a cabeça de falsas idéias. ou quase. E se vós não precisais se expor aos sacrifícios.

BAIRRO DOS MATADOUROS Joana. silhueta múltipla. Que o aceitem. E nada comerei além do que eles comem. Que o campo inflou-se e uma cascata humana Inteira ficou pendurada em suas elevadas bordas.31 Leva aos Chapéus Negros este dinheiro E poderás ficar com eles. Jogados aos matadouros e de tudo ignorantes. Vai à janela e repara se neva. A tempestade de neve. E isso é muito bom. Fez esta massa começar a fluir. Ela permaneceu suspensa por um instante. Ao mesmo tempo. do que os pardais Que se poderia colocar em tal lugar. MAULER Esta noite. Ficarei lá até que as portas sejam reabertas. em todo o caso. que vive da pobreza. JOANA Se os Chapéus Negros quiserem o seu dinheiro. Eu comerei esta neve. e então eu me vi: À vossa frente. Ela sai. pulsando vida. soluçando e jurando Logo fora de mim! Virtude e terror confundidos! . IX Escutai o que eu sonhei. uma palavra sem importância. Arranjando para não ver esses condenados. E então uma palavra. Sobre ela que tu conheces. com passos guerreiros. creia-me. a fronte ensangüentada. Chicago! Vós também Lá estavam. se o senhor quiser me ver Me verá nos matadouros. Eles fazem muita questão do dinheiro. Mauler. Jovem e velha. Mas eu me sentarei Em frente aos matadouros. sem uma palavra. Eu marchava. Depois eu gritei palavras em tom belicoso Em uma língua para mim mesma desconhecida. E o senhor. Notei uma massa humana. com aqueles que esperam. Saberás que neva sobre ela. afluíam inúmeros cortejos. por toda a parte. Eles formavam uma massa tão densa. E se não houver trabalho. Há sete dias: Diante de mim. E se nevar. No futuro. Quantos eram eles? Eu não sei. Pois esta vida sem eira nem beira não te serve. JOANA Terceira descida de Joana às profundezas. marchava à sua frente. Eu também não tenho dinheiro E nem uma maneira de ganhá-lo de outro modo. Eu serei como eles sem trabalho. Cercado de todos os lados por enormes edifícios E tão pequeno que a sombra de um arbusto O teria encoberto totalmente. A cada hora. Se for um punhado de neve o que lhes dão. em um pequeno campo. desfilando. E eu. Pelo menos não honestamente. Mais numerosos. e outras familiares. Perto dela Gloomb e dona Luckerniddle. 1. eu quero fazê-lo. Sem poder suportar a visão dos pobres Que os julga sem conhecê-los. E o trabalho deles também. Que alguém gritou em algum lugar. Vi depois cortejos E ruas desconhecidas. levanta-te.

Eu andava no mesmo passo que o cortejo. sem mais delongas. OS FABRICANTES Desgraça! As tarifas caíram E nós não temos mais bois para vender! Eles já estão vendidos. OS CRIADORES aos fabricantes de conservas: Meus amigos de Nova Iorque me escreveram Que as tarifas aduaneiras no Sul Acabam de ser derrubadas. MAULER: Sendo grande a demanda De conserva e de vianda E sendo os preços aceitáveis. GRAHAM: Ao preço antigo? MAULER: Como combinado. éramos inatingíveis. e pior. Rendidos pela fome. A exata extensão de nossa miséria. abandonando este lugar insuportável Por qualquer outro.32 Tudo o que eu pisava. Assim foi o meu sonho. Comprem-no! OS FABRICANTES: Comprar gado nestes dias! Que horror! 3. eu ignoro. E com a aurora chegaremos a Chicago. Precisamos comprar e os preços aumentam! . Mauler. a preço vil.. UM PEQUENO BAR NO BAIRRO DOS MATADOUROS Desgraça! As tarifas caíram! E nós não temos mais carne para vender! Ela já está vendida. nas praças públicas. libere-nos de nossos compromissos! MAULER: Estou desolado. mas existe. Faremos um chamado a todo o ser que pareça humano. e pior. Ninguém sabe quem foi. BOLSA DE CARNES MAULER. Eu exijo que me entreguem. Para aí mostrar a todos. não nos podiam alvejar. a senhora entendeu esta história? Eu não. E também perturbando o aspecto familiar de ruas bem próximas. Habitando em lugar algum. Ocasionando imensas destruições. Graham. mas preciso das conservas. Há muito gado. Oitenta mil toneladas. GLOOMB – Dona Luckerniddle. Envolvida pela neve. estávamos fora de alcance. que eu saiba. ao abrigo dos ataques inimigos. DONA LUCKERNIDDLE – Se ela tivesse calado um pouco a boca lá nos Chapéus Negros. Um pouco caro. nós agora estaríamos comendo a nossa sopa. transparentes. Habituados ao sofrimento. Senhores. O que acontecerá. modificava. é verdade. bem e aquecidos! 2. Influenciando o curso dos planetas distantes. OS FABRICANTES: Mas como nós poderemos Comprar gado com preços em alta? Alguém promoveu uma razia. se eu me lembro direito Daquela hora em que perdi um pouco o juízo. Hoje eu compreendo o seu sentido: Nós deixaremos os matadouros antes do raiar do dia. a cidade deles.. a preço vil. E assim andava o cortejo. Todas as conservas Previstas no contrato.

tu também. Onde está Jesus.33 Trabalhadores e trabalhadoras. Ah. Intercala sua pregação com observações aos companheiros. não o ódio. Discursos. GLOOMB – Bondade curta. A MULHER – Por que não nos procuram para tentar nos converter? GLOOMB. mas então eu encontrei Nosso Senhor Jesus e fez-se em meu coração uma grande luz e provei uma grande alegria.(Vocês acham que isso serve para alguma coisa?) Eu também. Se algumas pessoas soubessem calar a boca eu saberia onde procurar abrigo esta noite. os comunistas. hoje (eles não estão escutando nada!) basta que eu pense muito em Jesus. Pois nós encontramos Jesus. ente os quais Joana. reina a paz. tenente dos Chapéus Negros. depois de entoar um cântico apressadamente: Por que não provar. Nosso Senhor. BOLSA DE CARNES OS FABRICANTES: Nós compramos qualquer gado! Bezerros! Gado gordo! Vitelos! Bois! Porcos! Façam as suas ofertas. Silêncio. e o velho Adão dentro de mim não tinha outro desejo do que comer e beber. JOANA. UMA MULHER Por que vir aqui fazer escândalo Com tamanho frio! E se pudessem ao menos se calar! Com muito custo eu consigo agora Suportar as palavras que há pouco amava E que me soavam agradáveis. Bem que eu gostaria de estar com eles! DONA LUCKERNIDDLE – A música era bonitinha! GLOOMB – Bonita e curta. do pão de Deus? Grande é nossa alegria. já ouvi demais. meus irmão. e eu não tenho mais fome e nem sede. que alguma voz. por favor! OS CRIADORES: Não sobrou mais nada! Tudo o que podia ser vendido . como vocês. apesar de todas as nossas más ações. triste. mas ninguém contribui) Aleluia! JOANA – Deixe-os. JOANA – Mas não são os tais que ficam incitando ao crime? O TRABALHADOR – Não. durante a cena. estava um dia sentada. UM TRABALHADOR. dona Swingburn? A MULHER – A sua música era bonita. (É tudo absolutamente inútil!) Eu lhes digo: ajudem-nos a manter a marmita fervendo! OS CHAPÉUS NEGROS . fazendo o gesto de contar dinheiro – A senhora consegue manter a marmita fervendo. não a violência. por causa do meu marido. Vinde a ele. surpreendendo-se pela ingenuidade – É sério? A senhora acreditou nisso? DONA LUCKERNIDDLE – Eu também. eu esperava que eles fossem ao menos nos dar um prato de sopa. que um resto de pudor lhes diga: Aqui reinam a neve e o vento: calem-se! 4. Luckerniddle – De onde a senhora os conhece? DONA LUCKERNIDDLE – No tempo em que eu não me fiava em gente como você eu ia bastante até eles. Eles precisam fazer isso para conseguir um pouco de calor e de comida. à margem do caminho. à dona. eu prefiro os atos. mas eles traziam uma panela. vinde logo! Aleluia! Uma jovem dos Chapéus Negros dirige-se aos trabalhadores. curta bondade. MARTHA. (Isso não serve para nada!). que nos salvou na dor. o amor. JOANA – Então não há ninguém que tente fazer alguma coisa? O TRABALHADOR – Sim. meu irmão. JACKELINE. soldado dos Chapéus Negros: . faz desesperadamente sinais para que saiam.Aleluia! (Jackeline faz circular a cuia de esmolas. minhas irmãs. Um destacamento dos Chapéus Negros chega. JOANA – Onde eles estão? GLOOMB – A dona Luckerniddle pode lhe dizer. grande o nosso regozijo. Nosso Senhor. DONA LUCKERNIDDLE – Eles são boas pessoas. Joana se levanta e. tenho apenas sede da palavra de Jesus.

se ela for justa. Mauler. e acho que sou capaz de defender bem uma causa. a greve geral. uma parte de nós perderá seu emprego nos matadouros e os outros nunca recuperarão o salário anterior. precisamos de um prazo. sabemos agora de uma coisa: se tudo andar como querem os industriais da carne. OUTRO LUGAR NOS MATADOUROS Nos cartazes se lê: “Solidariedade com os trabalhadores sob lockout!” “Desencadeiem a Greve Geral”. OS CRIADORES – Vendido. eu acertarei as contas com ele! MAULER: Ah! É assim. eu tenho propostas a fazer. UM CRIADOR: Oitocentos bois de Kentucky a quatrocentos. Corte você mesmo! MAULER: Por que se surpreendem. Os trabalhadores das grandes empresas da cidade nos prometeram declarar. dois homens da direção dos sindicatos discutem com um grupo de operários. OS FABRICANTES: Nem pensar! Vocês estão loucos? Quatrocentos! SLIFT – Eu compro. mesmo só uma pata. Aprendi a falar em lugares públicos e em auditórios. Os senhores devem me entregar a carne. OS FABRICANTES: Mais nada? E nas estações? Estão abarrotadas de gado. Deixe-os totalmente à míngua. Quatrocentos. Silêncio . Já que não há demanda.. mesmo nos grandes. de Chicago a Illinois. OS FABRICANTES – Vendido a quem? Entra Mauler. eu as quero agora. e caro! Ofereço. Os fabricantes se precipitam sobre ele. o apetite desperta! GRAHAM. Terá de ser comprado de mim. se são os senhores os bois. Mesmo que tenhas que te enfiar nelas! Eu vos ensinarei como se faz esse comércio! Doravante. Vendo-os. Graham! As latas que me deves. Ele vai falar com Slift. para começar Quinhentos bois a cinqüenta e seis. É impossível encontrar um boi em Chicago. OS FABRICANTES: É Mauler. Qualquer vitelo. Na minha opinião é preciso fazer alguma coisa imediatamente. precipitando-se sobre Mauler: É preciso liquidá-lo. Chegada de Joana. os operários. Nós. É claro que é! Era o que dizíamos! O cão! Ele nos obriga a entregar-lhe as latas E é ele quem compra o gado! Somos então obrigados a comprar de Mauler A carne que deveremos colocar em suas latas! Carniceiro sujo! Tome então a nossa carne..34 Foi vendido. eu não tenho medo. Em frente a um galpão. JOANA – São vocês os que defendem a causa dos desempregados? Eu posso ajudá-los. Se alguém vier perturbar a reunião. MAULER: Atenham-se à nossa combinação. Agora eu quero sessenta! E tenham o cuidado De não esquecer as minhas latas! 5. no mais tardar depois de amanhã. Além disso. OS CRIADORES: Oitocentos bois a quatrocentos para Sullivan Slift. Não havendo ninguém que precise de carne. De hoje até amanhã é certo que os patrões vão lançar todo o tipo de falsas notícias: eles dirão que . UM DIRIGENTE OPERÁRIO – Escutem todos: até agora os magnatas da carne não manifestaram a menor intenção de reabrir as suas fábricas.

– Eu já vendi jornais na rua Vinte e Quatro. Eu não sou uma espiã. estou vendo. (os operários riem alto) Mas é desumano! E dizendo isso eu penso também em gente como Mauler! (os operários caem na gargalhada) Por que se riem? Acho que vocês estão errados em zombar e em acreditar sem provas que alguém como Mauler não é um ser humano. Essas cartas anunciam que a usina de gás. O DIRIGENTE OPERÁRIO. a Mauler.35 tudo está arranjado e que a greve geral não acontecerá. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Pela nossa causa? Diga-me: ela não é também a sua? JOANA – Não é no interesse geral que os industriais jogam. em diversos pontos dos matadouros. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E em que trabalhava? JOANA – Eu vendia um jornal. ouve-se gritar ao fundo o nome das empresas que suspenderam seus pagamentos: “Encerram os pagamentos. Ela é honesta. galpão número cinco. dona Luckerniddle? (Dona Luckerniddle faz sinal que sim). O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua vinte e seis. BOLSA DE CARNES Durante toda esta cena. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Rua Três.. À Joana: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. dessa maneira.” OS FABRICANTES – Nós não podemos mais agüentar. as centrais elétricas e o serviço de águas entrarão em greve em solidariedade a nós. Tudo acontece como se a miséria dos pobres fosse útil aos ricos. UM OUTRO OPERÁRIO – Dê-me a carta para as usinas Graham. Meyers e Cia. MAULER: Os senhores não respeitaram. pois o endereço dado pelos camaradas das usinas Cridle para o encontro está muito vigiado. Você pode tranqüilamente entregar-lhe a carta. encostado em uma coluna – Faça subir. Eu luto de todo o coração pela causa de vocês. Jack. É do Exército da Salvação e os policiais a conhecem bem. A carta é para eles. etc.. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – Não é sem provas. Ela é sua conhecida. pergunte-lhes se são das usinas Cridle. O DIRIGENTE OPERÁRIO – Não. assegurar o trabalho . O contrato assinado há pouco entre nós: Eu queria. em frente ao edifício da Westinghouse! (À Joana) Quem é você? JOANA – Fui mandada embora do emprego. Um operário apanha a carta e sai. Ninguém suspeitaria que ela trabalha para nós. tanta gente na rua. O operário apanha a carta e sai. eu conheço o pessoal. não é? DONA LUCKERNIDDLE – Honesta ela é. aos responsáveis que esperam nossa orientação. SLIFT. os preços estão a mais de setenta! OS CORRETORES – Os cabeçudos não compram. dando a carta à Joana – Vá até a fábrica Graham. Nós não temos ninguém para passar despercebido como ela. Como se rede já não houvesse: De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. na esquina do Parque Michigan. E poderíamos até dizer que esta pobreza seja obra deles. e vá esperar os responsáveis defronte à cantina da senhora Schmittens. Elas devem ser entregues às dez horas. Esconda essa em seu casaco. JOANA 6. O OUTRO DIRIGENTE OPERÁRIO – E quem te garante que ela vai levar a carta que lhe entregarmos? O DIRIGENTE OPERÁRIO – Ninguém. com tal medida. O DIRIGENTE OPERÁRIO – E para quem trabalhava? JOANA – Eu era ambulante. eu sei quem ela é. Quando você vir chegarem três operários com cara de quem procura alguém. Por este buraco fogem todos os peixes. essa noite. pau neles! OS FABRICANTES – Queremos dois mil bois a setenta. UM OPERÁRIO – Pode ser uma espiã. Isso é bom..

Pois a queda deles Será a nossa. Ele pode ir longe demais. que voltou para perto da coluna – Slift. OS FABRICANTES – Mauler paga cinqüenta pelas conservas. Impossível. eu não me sinto muito bem. MEYERS – Mil e quinhentos a oitenta.36 Aos operários e agora me dizem Que eles ainda esperam em frente aos matadouros. MAULER. As conservas que comprei. Acima disso. só quinhentos. O segundo segurança sai. MEYERS – Cinco mil a oitenta! Assassino! MAULER. Vou soltar a carne e deixá-los partir. Diga-lhe para que não me procure. Isso basta. Pergunta para que nós pagamos impostos! Manda arrebentar a cabeça dos líderes. Eles ainda agüentam! Quinhentos bois a setenta e sete. SLIFT – A oitenta. Ponha os pingos nos “is”. é impossível ouvir uma voz isolada: há muita gente correndo de todos os lados. mas que não rebentem. Além disso. SLIFT: Faça subir. Sem contar que a polícia está evacuando os matadouros e que começa a atirar. O primeiro segurança sai. Mas os senhores se lamentarão por isso. Ceda. No canto em que trabalham os sindicatos reina uma grande efervescência! MAULER – Quem trabalha? Os sindicatos? E a polícia os deixa incitar os operários? Meu Deus! Liga imediatamente para a polícia. MAULER: Atiram? Contra quem? Mas eu sei bem. não me diverte mais. sim. por telefone. à procura de um parente que não encontram. Quando se grita qualquer coisa. A carne sumiu de vez do mercado! Quinhentos bois a setenta e cinco! MAULER: Não seria conveniente. Vá só até oitenta e depois abaixe o preço. Mil a setenta e sete. Ainda por cima está escuro. E tenho outras preocupações! Veja bem. de achá-la? E atiram? Encontra o Jim. O estranho é que aqui não se ouve nada. subir muito mais. é o fim! SLIFT: Quinhentos a setenta e sete para Graham. senhor. entreguem-me! GRAHAM: Nada poderíamos ter feito. MAULER. Eles já não agüentam. Slift. Se perguntasse por uma Joana. A encontraste? O SEGURANÇA – Não. pois. eu me pego esgoelando-os E não tenho tanto prazer quanto esperava. MAULER – Então. . São centenas de milhares nos matadouros. nós não podemos pagar oitenta a Mauler pelo gado. Mauler. Slift. tudo a oitenta. desembucha! O primeiro segurança faz seu relatório. Senão pensarão ainda Que fomos nós que exigimos que atirassem. eu não vi ninguém com o uniforme dos Chapéus Negros. a Slift – Onde está o pessoal que eu mandei para os matadouros? SLIFT – Ali está um. são incontáveis. Slift. o vento abafa as palavras. Mas para nós. perdido por perdido. é claro. A multidão anônima e sem rosto continua sentada lá. Que sangrem. esperando. É preciso que a cidade Possa voltar a respirar. voltando ao grupo: Este negócio. se apresentariam dez ou talvez cem. dizes. Ele repara no segundo segurança. O SEGURANÇA – As multidões. GRAHAM: Que seja. Fala em meu nome.

esperem a resposta! CORO OPOSTO. Nesse dia sim. pode ler. também em segundo plano: É mentira: por maior que seja a miséria. Eles não abrirão as fábricas! Eles esperarão os lucros aumentarem! E a sua resposta sairá Dos canhões e das metralhadoras! Ninguém poderá nos ajudar. no fundo. Aja conforme o meu espírito. serei eu quem fará subir. em segundo plano. eles abrirão. Mauler? MAULER. 7. Slift não tem ordem para isso. Aja conforme o meu espírito. Continue então com o negócio. Entre eles. Tu me conheces. Eu não posso mais. Virão três pessoas. E se quiseres abrandar. Chega um grupo de jornalistas. JORNALISTAS – O que há de novo. SLIFT MAULER Eu preciso de ar fresco. Joana. que a opinião pública está do seu lado. OS JORNALISTAS – No escritório do senhor Mauler nos disseram que a senhorita jurou não sair dos matadouros enquanto as fábricas não fossem reabertas. SLIFT – Quinhentos bois a noventa! OS FABRICANTES: Mauler. OS TRABALHADORES. É um enorme sucesso para os Chapéus Negros. Fora uns poucos especuladores sem escrúpulos. Slift. Para nós a senhorita faz parte. Eles se sentam. nos matadouros Enquanto a miséria não chegar ao máximo. Prefiro abandonar tudo Do que ser a causa de uma desgraça! Oitenta e cinco. a jovem pregadora dos Chapéus Negros? JOANA – Não. isso não é possível. não mais. O HOMEM. Mas nós não queremos incomodá-la e iremos ficar ali. NOS MATADOUROS Muita gente esperando. JOANA – Eu não faço mais parte dos Chapéus Negros. senhorita Dark. (a Joana) Esses são jornalistas. afastando-se – É preciso que façam chegar aos operários que eu acabo de ceder gado às fábricas.37 – Nem pensar. Um homem os guia. apontando para Joana – Aqui está. Os jornalistas lêem em voz alta) “A Madona dos matadouros. Saindo ele encontra jornalistas. Não vão embora. JOANA – Eu queria que vocês fossem embora. a não ser nós mesmos E a ninguém podemos apelar OS JORNALISTAS . toda a Chicago comparte seus sentimentos. Nós publicamos isso com manchete de oito colunas. Então agora existe gado. De outra forma isso terminaria em violência. Eles terão de nos responder.” JOANA – Eu não falei nada disso. Queria vender a oitenta e cinco. SLIFT: Mentirosos! Agora serei eu que vos ensinarei A vender carne enlatada Sem ter nem mesmo um quilo! E cinco mil bois a noventa e cinco! Urros. Veja. OS JORNALISTAS – Podemos lhe assegurar. – Olá! A senhorita é Joana Dark. Joana Dark. a alguma distância. OS JORNALISTAS – Veja bem. (Joana vira-lhes as costas. Mas quando a aflição for tremenda. declara: Deus está solidário com os operários das fábricas de conservas. Eles ainda agüentam. nós ouvimos. ALGUÉM – Porque estás aqui? JOANA – Tenho que entregar uma carta. Eles não abrirão as fábricas.

a qualquer momento. E uns se sentam lá em cima Só porque os outros estão embaixo. Ir para um quarto quente. Que audácia! Emborcar assim o whisky desse velho! JOANA – Segure a língua. que de resto Já é a muito conhecido. Mas a estrutura interna continua ignorada. Eu não tinha sonhado que pudesse fazer tanto frio! Se eu tivesse pelo menos o meu agasalho! Ah! É fácil para vós passar fome. Mas. eu não tenho o direito de ir. não dormir. a Joana – Você está totalmente gelada. dona Luckerniddle? DONA LUCKERNIDDLE – Sim é verdade. Onde está o meu chale? Eles me roubaram. imbecil!. Para que estejamos todos no alto! Mas olhando mais de perto descobre-se. E um ambiente. UM TRABALHADOR. JOANA Se dependesse só de vós Eu poderia congelar nua em pleno vento. o medo me aperta a garganta: Não comer. E os do alto gritam: Subam. eu quero ir embora. UM VELHO HOMEM. levantam-se e dirigem-se ao fundo. (Ela arranca de sua vizinha o pano com o qual ela cobre a cabeça) Sim. tenho frio. isso é normal. confesso. Alguns – pouco numerosos – estão sentados lá em cima E um grande número aqui embaixo. UM HOMEM – Silêncio! Alguém atira um trapo para Joana. Ficar aqui sem necessidade absoluta Parece-me um jogo indigno. Tenho fome e isso é banal. ela vai me matar. Apesar de tudo. foi você! Não adianta mentir. chega! Você é boa mesmo de copo. JOANA: Eu compreendo esse sistema. é claro! É o cúmulo! Eles me roubaram até o chale! Quem foi o mão leve que pegou o meu chale? Devolvam-me imediatamente. com um vasto plano. a Joana – O que fazias com aquela gente? JOANA – Nada. Os jornalistas.. A MULHER – Socorro. E para vós é fácil passar frio. ignorar aonde te leva a vida.38 Que não seja um nosso igual. que nada tendes para comer. Vós. Enfim. E falar Daquele que mora lá em cima. não é? JOANA – A senhora também acha.. que acabaram de receber uma informação. Vós todos. Quando eu cheguei aqui. A mim me esperam. ao qual estava acostumada. . Algo de obscuro. O TRABALHADOR – Mas falaste com eles! JOANA – Eles me confundiram com outra pessoa. dê-me meu pano. Mas eu posso. Mas. A qual logo se nota claramente Que serve de gangorra Todo o sistema é como uma balança Na qual os dois lados dependem um do outro. Entre os que estão em cima e os que estão embaixo. dir-se-ia que é um caminho. Encorajada por um sonho que confirmava minhas idéias. UMA MULHER – Que audácia! JOANA – A senhora falou alguma coisa? A MULHER – Sim. o que haveis deixado? Eu.. Não fazia tanto frio em meu sonho.. desde fora. um teto e o sustento. um emprego que me assegurava O pão de cada dia. Já basta. Empunhar a bandeira e bater o tambor. Mas é apenas uma tábua. o que deixei foi uma vocação. mais do que tudo. guardam-me a sopa. Quase uma comédia. Quer um gole de whisky? (Joana bebe) Ei.

no fundo do palco: Se ficardes agrupados Eles vos rebentarão. JOANA – Mas estão atirando! UM OPERÁRIO – Pode ficar sentada tranqüilamente. A tropa foi encarregada de evacuar os matadouros. Os matadouros são tão grandes que a tropa levará horas até aqui. JOANA: Parai! Chega de aprender essas lições! JOANA . A não ser a proposta Que leve a mudanças verdadeiras. Classe cheia de neve e que as leis ignoram. Quando se falou com ele como a um ser humano Ele deu uma resposta humana. Que barulho é esse? UM JORNALISTA – São as metralhadoras. É preciso fazer com que se calem os agitadores que incitam à violência. JOANA – Quanta gente há aqui? OS JORNALISTAS – Uns cem mil. Se combaterdes. Ao longe as metralhadoras crepitam. O que aprendeis? OS TRABALHADORES. mocinha. Não creiam em nada e não escutem ninguém. JOANA – Oh! A boa nova! DONA LUCKERNIDDLE – Vejam as mentiras sobre as quais nos alertaram. Os tanques deles vos esmagarão. ainda que os preços continuem a subir. E sobretudo entendam bem Que nada se faz sem luta E sem a sua própria ação. Nessas condições o trabalho voltará muito em breve aos matadouros. Agora as fábricas reabrirão. DONA LUCKERNIDDLE – Não digas tais tolices. Não se separem! É apenas ficando todos juntos Que poderão ajudar uns aos outros. de jeito nenhum. Tu não compreendes nada de nada. se esses senhores estão dizendo? Sobre um assunto como esse não se brinca. (Ela se levanta) Eu vou avisar aos nossos que os boatos já começaram a circular. E nós vos dizemos: ficai agrupados. Então a bondade existe. Não te movas! Entendeu? Ela sai. Os jornalistas retornam. acaba de cedê-lo aos fabricantes. OS JORNALISTAS – Olá. Não ficaste tempo suficiente aqui. JOANA: Tanto assim? Oh! Escola desconhecida. Mas tu. Felizmente temos a carta para mostrar a verdade. Que tem a fome por mestre e onde a miséria Fala implacavelmente da necessidade! E sois cem mil alunos. com a carta. aconteça o que acontecer.39 OS TRABALHADORES: Fiquem. espera. O coração deles não é de gelo. o seu sucesso foi formidável: nós ouvimos que Pierpoint Mauler. JOANA: Escutem todos! Há trabalho. E nós vos dizemos: combatei. UMA MULHER – Devemos voltar para casa agora? UM TRABALHADOR – Quem nos garante que é verdade? Que haverá trabalho de novo? – E por que não seria verdade. Esse combate será perdido E talvez perdido Ainda o próximo combate Mas vós ireis aprender a combater E aprendereis pela experiência Que nada se faz sem luta E sem a vossa própria ação. o milionário que dispõe de muito gado. no frio. Havia entre eles pelo menos um homem honesto E ele não falhou em seu dever.

Quem agisse assim se sentiria perdido. No lodaçal dos matadouros. Eu não sou um deles. Os dois dirigentes operários passam. Seu sucesso foi grande. Chegam três operários. William. esta carta? Eu não saberia fazer nada Que requeresse violência. para um dos dirigentes presos – Não liga não. eu seria como eles e não faria perguntas. OS JORNALISTAS – Nós a aconselhamos a sair dos matadouros. os astros sem harmonia Já não seguiriam sua órbitas. Perseguidor perseguido E não mais sabendo ver sem desconfiar. algemados. Sobre sua cabeça. UM OUTRO OPERÁRIO grita para o grupo que se afasta – Assassinos! OS OPERÁRIOS – Se eles acham que assim irão parar as coisas. aparece uma inscrição: A neve começa a cair. Do fundo ouve-se gritos que se aproximam. Há muito tempo que já está tudo arranjado. Enquanto a noite cai. Dia após dia ela desceu. Por três dias viram Joana em Packingtown. é imensa! Mais uma noite como esta. DONA LUCKERNIDDLE. eu preciso ir. Apartado em um mundo Tornado para ele estrangeiro. as palavras teriam outro sentido. Com seu silêncio opressor. Isso seria desleal para com os outros homens. Eu digo: na escuridão se acumulam As violências e as questões nunca resolvidas. que eles ainda poderão ter uma surpresa. Eles saem. Violar as regras em uso. OS OPERÁRIOS – Estão trazendo os sindicalistas. UM OPERÁRIO. Toda inocência tê-lo-ia abandonado. Ou que engendrasse a violência. No terceiro dia sucumbiu. Os operários se levantam. voltando – Nada além de mentiras! Onde foi a moça que estava sentada ao meu lado? UMA MULHER – Partiu! UM OPERÁRIO – Desde o começo eu disse que ela iria embora quando começasse a nevar de verdade. Ela se levanta e sai. Mas o prato que se prepara aqui. ao longo dos anos. JOANA: Os que me entregaram a carta. Vós. Joana tem uma visão.40 Que gélidas elas são! Não é pela violência Que se combatem a desordem e a confusão. Mas assim. e ninguém Poderá manter a sua calma. E é por isso que parto. longe do mundo que lhe é familiar. Começa a nevar. eu digo. Enquanto o fraco ao fraco se alia. Ela continua sentada. vós estivestes juntos Longas noites. No final o lodo a engoliu. A tentação. mas agora a coisa está terminada. Eles procuram alguém que não encontram e vão embora. Nada de bom pode surgir da violência. Quem o comerá? Eu vou embora. Por que foram presos? O que ela contém. estão muito enganados. Se desde a infância o peso da miséria e da fome me tivessem ensinado a violência. E aprendestes A alimentar friamente terríveis pensamentos. Para este homem. Eu assim não poderia viver. Ela se vê com roupas de criminosa. Viram-na descer de degrau em degrau Para em água límpida a lama transformar e aos humildes Aparecer. Direis que fazia muito frio. . conduzidos por policiais.

o mais vasto. nada mais posso fazer por eles. Não preciso. Pensar não serve para nada. Aquela que eu procurava terá tido o bom senso De sair das profundezas onde o inferno se instala. MAULER: Se a desgraça abate ao homem sem caráter. Vejam. Não é para pensar que eu vos pago. Até o reino do espírito. Que nós construímos em nossas grandes cidades Sem importar o custo. dele se diria Um prédio construído com grandes despesas. Eu tenho as minhas razões. mas o arquiteto teria. ainda atiram. UMA ESQUINA EM CHICAGO MAULER. Mas vejo que estão pensando. De agora em diante. impresso. saindo – Bom. Tem certa razão de estar alegre.41 Pergunta feita: quem ficará? Como nos outros dias. Em todo o caso. cocô de cachorro: Que torna a permanência difícil. É o que está escrito. seja por economia. Eu disse: meia volta E tu riste. Só porque duas ou três vezes eu dei meia volta. Agora eu estou livre. o que foi? Riste. hoje restarão No chão as pedras. Passa um vendedor de jornais Ei! Jornal! Vejamos o que se passa na Bolsa de Carnes. Está dito. A mim ela vai elevar às mais altas esferas. Perto dos matadouros. aqui sob meus olhos. Pierpoint Mauler cruza a fronteira da pobreza 8. Doravante Não há mais ninguém que me queira matar. Escolhido como material. Quanto a este edifício. 9.. Até mesmo aos matadouros. E a vocês eu despeço Pois da pobreza eu cruzei a fronteira. a dona Luckerniddle reencontra Joana. Mauler e seu amigo. um objetivo que eu saúdo E que muito me alivia. façamos meia volta. os pobres. a um de seus seguranças Parem. que todos os fabricantes Quebraram juntos e saíram do mercado. preto no branco: O gado está a trinta e ninguém compra. Há resistência. mais de vocês. Basta. Sou conhecido nos matadouros. Na borrasca. Assim foi conseguido. em suor e em dinheiro. Seja por aberração. em cima. modificam tudo. Sem que eu tenha procurado. Essas notícias. Aquele que sai de tal imóvel. meia volta. UM DOS SEGURANÇAS. não lhes parece? Ah! Eu repito Não fiquem enchendo a cabeça com idéias. Ter construído a maior cloaca do mundo Constituirá a sua única glória.. Ele lê e empalidece. Slift. E ninguém quis. Sem nenhuma exigência. preto no branco. Assim espero. O mais prático também. são os mais atingidos. Parece-me Que contratei dois idiotas. OS DOIS SEGURANÇAS – Então podemos ir? MAULER: Podem E eu também posso ir aonde queira. . Este homem está perdido. Vejam o que leio. confessa. UM LUGAR DESERTO NO BAIRRO DOS MATADOUROS Neva. Cedi meu gado a qualquer um que o quisesse. então.

Claridade que então eu deixei de ver! Oh! Quem conhecerá o poder da neve! Oh. Errando pelos matadouros. caindo de joelhos: Luz. fraqueza do corpo! Oh fome. Muitos operários teriam ficado se soubessem da notícia. UM OUTRO LUGAR Correndo em direção ao centro da cidade. O SEGUNDO OPERÁRIO – Os comunistas é que tinham razão. OUTRA VOZ: Joana pára. Joana ouve vozes. O PRIMEIRO OPERÁRIO – E aqui nós não ficamos sabendo. UMA VOZ: Não há desculpa Para quem não chega. As massas não deveriam ter se dispersado. Que nada diga. De tua missão. A VOZ DA DONA LUCKERNIDDLE: Eu fui a tua fiadora. O SEGUNDO OPERÁRIO – Isso é grave: sem dúvida uma parte das ligações não funcionou. eu não a darei. estás aí! Onde tinhas te metido? Entregaste direitinho a carta? JOANA – Não. Pierpoint Mauler as arruinou. Aquilo que lhe foi confiado. Tu não a entregaste. A pedra não perdoa. (Joana desaparece na tempestade de neve) Hei! Venha! Ela foi embora! DONA LUCKERNIDDLE 10. Dê a carta aqui imediatamente. Mas a carta que trazia a verdade. Tudo está voltando ao normal agora. UMA VOZ – Lá onde te esperam. podias dar conta. Nós te encarregamos. Ao que tropeça e cai. ela procura se livrar das vozes que ouve de todos os lados. de uma missão. para poder se apresentar amanhã bem cedo ao trabalho e de repente eles falam que as fábricas nunca mais abrirão. precisas chegar! Joana olha ao redor. AS VOZES: Se rebenta uma só malha A rede não serve para nada. Anda em outra direção. DONA LUCKERNIDDLE – Eu devia ter duvidado. Joana pára. Ainda mais que amanhã todas as empresas de Chicago iriam declarar a greve geral. É inútil tentar pegar.42 – Ah. mas a senhora quer continuar. Eu vou embora. mas entregue. Um lixo. Uma parte dos operários saiu dos matadouros. Por este buraco fogem todos os peixes. Que sentimentos em nós deixareis sobreviver? . Joana. JOANA. Nós não sabíamos quem eras. Sem récitas inoportunas dos seus infortúnios. Mas tu és uma traidora e teu lugar é com eles. Joana cruza com dois operários de quem ouve a conversa: O PRIMEIRO OPERÁRIO – Primeiro eles fizeram correr o boato que as fábricas reabririam a todo o vapor. E aquele que chega a bom porto. Eles teriam ficado apesar da violência da polícia. Lá dentro só se fala em violência. De um só golpe todas as malhas Não servem mais para nada. Nela estava nosso destino. DONA LUCKERNIDDLE – Ora essa! Para ti está tudo normal! E eu que disse que tu eras honesta! Sem isso não teriam te confiado a carta. isso é o que tu és! Dê-me a carta que te confiaram. Cumpriste a missão? Joana volta a andar e uma nova voz a detém. Como se rede já não houvesse. oh verdade! Que a neve em tempestade Inoportunamente mascarou com sua noite. JOANA – Não. Mas também podias nos trair.

BISPA SNYDER. BISPA SNYDER – Sente lá atrás e fique quieto! Ele se senta. Buscam-no por toda a parte. é tudo o que eles querem! Aqui não tem mais sopa! Aqui só tem a palavra de Deus! Ouvindo isso eles vão logo embora. com sopa quente E um pouco de música. OS CHAPÉUS NEGROS: Romperam-se os diques da fé Em Chicago. ou que deixe o imóvel. que triste. coloque os móveis na rua. OS CHAPÉUS NEGROS: Estão levando.43 Frio da noite. na frente do palco : Ouvi alguém procurando um certo Mauler. a outro Chapéu Negro – Há três dias um emissário de Pierpoint Mauler. DONA MULBERRY – Bispa Snyder. Para nos salvar neste instante. X Humilhação e assunção de Pierpoint Mauler TEMPLO DOS CHAPÉUS NEGROS MARTA. se ele pudesse vir. Sob um plúmbeo zênite de destinos desconhecidos. Conheci bem um homem. investindo contra ele – A sopa. Ele sai. Eu o conheci: era um imbecil. posto que sem abrigo. O reino de Deus está pronto na minha cabeça. agora os pegamos. a qualquer momento. o suntuoso Mauler. Ah. UM HOMEM. à chuva. com certeza! Ele já está a caminho com os seus milhões! UM CHAPÉU NEGRO – Bispa. afastada do trabalho. O HOMEM – Os fabricantes de conservas querem falar com ele e os criadores o chamam aos gritos. . ele possuía dez milhões. nossa boa cidade. Quero que a senhora pague o meu aluguel. BISPA SNYDER – Dona Mulberry. Salvar-nos com o seu dinheiro! BISPA SNYDER Há exatos oito dias Que nos matadouros onde as máquinas enferrujam. Um homem começa a levar os móveis para a rua. A massa espera. Pediram-lhe cem dólares. Ele se levanta e avança até os Chapéus Negros. é sábado a noite. veio nos dizer que Mauler em pessoa estava disposto a assumir o nosso aluguel e a organizar conosco uma grande campanha em favor dos pobres. que já se afunda! Mas o rico Mauler virá. Uma boa orquestra à mão e sopa Bem grossinha: terminam para Deus todas as preocupações. o rei da carne. Liberada. E nós gritamos à plena garganta: Ah. que prometeu nos ajudar. o senhor Pierpoint Mauler. minha cara Mulberry. entrando – Pierpoint Mauler está aqui? BISPA SNYDER – Não. MAULER. no céu e no inferno. Mas nós o estamos esperando. DONA MULBERRY – Meu caro Dick. Vejam que já balança. que aliás é muito barato. De um só golpe o bolchevismo também é enterrado. quem vos pode resistir? Eu preciso dar meia volta! Ela retorna sobre seus passos correndo. E as ondas de lama do materialismo Ameaçam a casa de Deus. Exposta outra vez à neve. MAULER – Eis aqui um homen marchando até o seu Deus. o banco dos penitentes! E já suas mãos avidamente se dirigem Ao órgão a vapor e ao púlpito. É Mauler. Este homem que foi em sua vida Mais estúpido do que um vagabundo bêbado e repugnante. estamos aguardando. onde iremos acomodar o nosso público? Chega um pobre.

eu vejo. Não podemos mais pagar as nossas contas. seguindo a letra por sobre o ombro de um dos Chapéus Negros. gritando – E sem dinheiro? (Aos Chapéus Negros:) Façam as malas. DOIS MÚSICOS: Um pedacinho só. Culpado. BISPA SNYDER. Silêncio! Tragam-me o livro das faturas e contas por pagar: estou nessa parte. BISPA SNYDER Silêncio! Fora. Mauler canta com eles. CORO DOS CHAPÉUS NEGROS. todos para fora! A Mauler: E tu primeiro! Onde estão os quarenta meses de aluguel Desses não-convertidos que Joana enxotou? E vejam só o que ela me trás em troca! Devolva-me. devolva-me os meus quarenta aluguéis! MAULER: Vós desejais. Os músicos tocam um hino. sem nada. Diante de vós. deu cabo de si mesmo. Mauler! MAULER: Mas quero acrescentar que no sétimo dia Fui despojado de tudo. Apenas nos resta chorar. Mas quebrou a nossa cara De uma vez por todas. Jogou no mar seus milhões. que tenha caído tão baixo. inclinado sobre os livros de contabilidade – Não direi o que estou calculando. Joana. dirigindo-se aos músicos que vão embora: Nossas orações eram pelo rico Mauler E foi Mauler o arrependido que entrou. meus amigos. BISPA SNYDER. Envolvamos em nossas bandeiras derrotadas Os livros de cânticos. Ele trazia o seu coração. já. é certo. UM CHAPÉU NEGRO – É ele. Todos os pagamentos estão suspensos. não o seu dinheiro. Ouçam então a minha confissão: Aqui jamais se ajoelhou Ninguém. Sentados sobre as margens do lago Michigan. Abusado da força e espoliado todo o mundo Em nome da propriedade. olhos voltados para a porta. OS CHAPÉUS NEGROS: Não perca a confiança! Homem de pouca fé! Ele virá. ar ausente. Passar bem. Por sete dias apertei a garganta Desta cidade até sufocá-la. eu vos rogo! Pois eu sinto O coração ao mesmo tempo leve e pesado. E sobre nós a neve envia suas tempestades Em um inverno no qual crescem os rigores. Se aproxima já Com os seus milhões. Eles cantam ainda “Entrai na batalha”. Ele pega dois Chapéus Negros pelo braço e senta-se com eles no banco dos penitentes. sim. OS MÚSICOS: É deste aí então que vocês esperavam O dinheiro para nos pagar? Então nós vamos embora. Os Chapéus Negros cantam. mas arrependido.44 No fim. Sentados sobre seus últimos bancos e suas últimas cadeiras os Chapéus Negros cantam desordenadamente seus últimos hinos. E esse gesto tocou os nossos corações. MAULER: Eu me acuso de ter explorado o meu próximo. e dilacerado de remorsos. OS CHAPÉUS NEGROS – Ele já chegou? MAULER: Um hino. Tiremos de nossas paredes as máximas. Aqui estou agora. construir vossa casa . recusou-se a dar o dinheiro. BISPA SNYDER – Tu és Mauler? MAULER – Sim.

Os complexos pensamentos de vosso imenso espírito. Que vos pertencia. Eles também estão muito pálidos. o que existisse de gado. No mercado perturbado. Mas nós estamos perdidos: Em torno de nós. Mauler. Não terias a necessidade de aliviar aqui A tua consciência. Bispa. salva tua alma. Eu sei muito bem. Acorreram todos em ajuda. tomado de loucura. que fareis? Entram os criadores em grande agitação. firmas de grande renome. Que a constatação vos enche de amargura. Ninguém jamais pode fugir da lei. Ah! Se não tivesses aliviado tanto os nossos bolsos. é aqui então que te escondes? Paga nossos bois ao invés de fazer penitência. Loew e Lévi. Estão pálidos como o linho. os reis da carne vêm ao seu encontro. Era vosso todo o gado.45 Sobre o que há de pior em mim. e a noventa e cinco Comprou-os todos. Ele tenta sair. como um bêbado sedento Que ao mar esvaziou sem se satisfazer E lambe avidamente cada gota que encontra. Por vós fomos forçados. eles iriam trazer. hesitantes. da Argentina. Para mim o humano era aquele a quem eu podia explorar. Mauler. No ciclo dos astros ou das mercadorias. Mas Slift. O que pretendeis fazer de nós? Foste vós. durante sete horas. e sobre nossas cabeças. Que não ficou só por muito tempo. Viram-se os preços Oscilarem. agigantou-se E a todos nos precipitou no abismo! MAULER: Oh! Eternos combates! Em nada são diferentes Desde os tempos antigos onde os homens Com uma barra de ferro rachavam-se as cabeças! GRAHAM: Recordai que estávamos à vossa mercê. por ter vindo Atrapalhar neste lugar as tuas meditações. . E tudo o que de longe parecesse um boi. Vossa função seria apenas a de brincar na relva. Dá o dinheiro. comprometendo suas casas. Em três dias. em poucas palavras. Um zênite ameaçador de pensamentos desconhecidos. Na porta. E Wallox e Brigham. gado canadense. Lançou. Concluo eu o seguinte: o Mauler que sou Não é aquele do qual precisais. Prometiam até o gado por nascer. OS REIS DA CARNE: Perdoai-nos. E sobre eles atirou-se. Um vitelo ou um porco. O Banco Nacional gritou: “Alto”. paga-nos o gado! GRAHAM. E hipotecando até o último lápis Para trazer de Quebec. Pelos contratos que nos obrigavam A entregar de imediato as conservas prometidas. Que projeto tendes agora. Dais o nome de homem a quem vos vem ajudar. a comprar gado. Subiu os preços a noventa e cinco. O ancião venerável. Mas se chamássemos de homem àquele a quem se ajuda Daria no mesmo: necessitaríeis sempre De gente a ponto de afogar-se. o caos. Este espetáculo atroz apavorou o ancião. com voz dura. Mal viu esses bois vindo ao longe. Slift apertou Ainda mais forte a nossa garganta. quem nos derrubou. tomando a frente : Mauler. Mauler. ao meio-dia. nobre Mauler. Quando. partistes. desde a aurora. OS CRIADORES: Maldito Mauler. assumindo seus deveres. Relatarei o combate memorável Que. chorando.

Eu quero para hoje”. fomos estrangulados E de que adianta estrangular um cadáver? MAULER: Foi assim então. comprar. e então se retirarem. por sua indiferença. em um espasmo. Seria esmagado como um morango no chão. E Brigham arranca a barba aos gritos: “Noventa e seis”. Porque não mais podemos honrar os contratos. Sob nossos olhos. ele ao menos vale vinte e cinco centavos. os agentes fechando suas escrivaninhas. Que nos píncaros se encontrava. na batalha. Como definha uma esponja espremida. Rangerem os dentes. a carne de boi.. em um suspiro. O sapato. e os preços subiram. é sabido. os fabricantes apáticos Depositarem a vossos pés suas fábricas fechadas. Lutavam a dentadas. De cotação em cotação Os preços caíram e rolaram até os negros abismos. Naquele instante. Ouviu-se nesse dia os jovens estagiários. E os jovens bois de pêlos reluzentes Engordados com tanto cuidado. Só um. de imediato. os vívidos vitelos. Estão satisfeitos? OS CRIADORES: Há pouco tempo. Mas alto o bastante para que todos ouvissem: Para pagar-lhes tomem então nossas fábricas. Até os simples contínuos. Slift então gritou: “Cem”! Poderia ouvir-se um alfinete cair. Célebres. Casas até então sólidas e poderosas. Do outro eu preciso. Com esse gado que ninguém é obrigado a comprar? OS CRIADORES: Sem querer perder a paciência. Slift.. que travaste a batalha Que deixei a teus cuidados! SLIFT: Corte-me a cabeça! MAULER: E de que me serve tua cabeça? Dá-me o chapéu. Institutos de crédito. Lévi. Toda a família nos gritava de longe Com a voz embargada pelo trabalho duro . bancos. Lançaram-se um a um nesta última batalha. Parando de pagar. Em tudo semelhantes aos antigos corcéis Mordendo. Inúteis portanto. diga-me. agora. paravam de viver. O que fazer. entrego por cinco. os cavalos inimigos. de rocha em rocha E somente em trinta a queda parou. Como a água que cai na cascata. E como contratos nulos não impõem compras. isto é. Aí está o que tornou o contrato sem valor Apertastes muito forte. Com esse chapéu e este sapato: Dez milhões o chapéu. Eles precisavam entregar. E viu-se. E que não foi ainda acertado. tomados de desespero. E nós comprávamos sempre: Nós precisávamos comprar. Os corretores. com olhos marejados.E a voz ainda nos alcançava Mesmo com a balbúrdia dos trens que partiam: .46 Mas Slift gritou: “Três dias não. golpeia um corretor na barriga. baixou. o velho Lévi disse então em voz baixa. Lévi. um a um. mudos. E em silêncio também os bancos desmoronaram. quando e com que dinheiro Nos pagarás o gado comprado. obstinados. se por um acaso Um elefante se arriscasse pelo interior da Bolsa. quando levamos às estações De nosso longínquo Missouri Com muito sacrifício. Vertiginosamente. Nós queremos que nos digas Como. MAULER: Agora mesmo.

para que comprasse carne. Como voltar para nossa terra? E que diremos a eles.” Não. Mas se fizéssemos uma grande promoção De sua instituição. esta caça fatigante. Compreendido como sendo de interesse geral. mostrando o lombo vazio E nossos bolsos também? Como. de Nova Iorque. sozinho. rapazes. neste estado. Alguma chance de sucesso.. Sancionado pelas instâncias superiores. MAULER: Se o faço. GRAHAM – O que não é possível? MAULER – Tenho amigos em Nova Iorque que. Mauler. entendei. a quem mandavam cartas desse tipo. Como tudo de agora em diante Me parece diferente. assumir a empreitada. Estariam vocês dispostos a repetir aos quatro ventos . amigos. Seus bens. Nem todos aqui em baixo poderiam ser ricos. elas vão mal. De um asilo necessário para os casos mais graves. estão para sempre perdidos. pelo que dizem. E voltar até nós? Pensai. isso não é possível.. o que faremos. Deixando as sublimes esferas onde meditais. Pois os preços do gado vão subir. Seus amigos de Nova Iorque. E dado que de vós necessitamos. Não. Cuja voz está a tal ponto asfixiada. De máximas sagradas e escolhidas com grande cuidado. MAULER – Eu costumava ser esse Mauler. nós aconselhamos a fazer um acordo com os criadores para reduzir o rebanho.47 “Ei. conhecem um meio de sair desta. Neste caso. é impraticável. Jogai sobre vossos ombros o jugo. Caro Pierpoint. MEYERS – Quem são esses amigos de Nova Iorque? MAULER – Morgan. E o barulho das metralhadoras. Mas para mim. O negócio só é possível. Providos de sopa quente e de boa música. Pois ainda creio ouvir O rumor dos matadouros. OS FABRICANTES E OS CRIADORES: Desejarias. ao contrário. Ele estende-lhes a carta. compreendei. GRAHAM – Mas então é Wall Street? Um murmúrio percorre o ambiente. vocês estariam dispostos. O projeto teria talvez. mas são numerosas. condescender. nós estaremos de bom grado à sua disposição. esperamos” E agora. Não quero. caro Pierpoint. Julguem vocês mesmos. MAULER: Ou seja..(Ele abre a carta e lê de canto) “Escrevemos a você recentemente. para que os preços voltem a subir. entrando – Mauler está? Uma correspondência para ele.. Abandonai. não bebam todo o dinheiro. Não ter fartura de bens terrestres. pensai no caos Que ameaça a tudo engolir. é muito a contragosto. Se assim fosse concebido. nós lhe forneceremos amanhã mais detalhes. A Snyder: Existem muitas dessas lojinhas Onde se vende a Bíblia? BISPA SNYDER – Sim? MAULER – E como elas vão? BISPA SNYDER – Mal. MAULER: Em nós a consciência. Mas nossa pobreza não é. Nossa pobreza é termos perdido O sentido dos valores mais elevados. Outra vez responsável. voltar para casa? O HOMEM DE ANTES. Rockfeller. nobre Mauler. Agora.

criadores e industriais. Vê que são eles os compradores! Seja como for. sorrindo: Minha cara bispa. Todos sorriem longamente. Toda essa gente aí fora: Eles são os nossos compradores! Dirigindo-se aos outros: É incrível. ou melhor: quase todos Mas é o único meio de salvar o sistema De vendas e compras no qual vivemos. aos fabricantes: Faremos uma fusão de suas indústrias Em um só monopólio. Limitar o rebanho oferecido no mercado. Eu compreendo o senhor.Pois eis Chicago outra vez agitada A greve geral. Seria muito importante. Em conjunto. Digamos: a maior parte. MAULER. Não tem outra causa a não ser Que há carne demais. quebre suas ferramentas E destrua assim seu próprio ganha-pão. . E às vezes inoportunos. não poderíamos Doá-lo àqueles que esperam lá fora E quem sabe utilizá-lo melhor? MAULER. Chapéus Negros. é lógico. Então. E mesmo que muitos não compreendam. Meter um freio à anarquia da criação.48 Que nós somos uma gente valorosa. para puxar os preços. BISPA SNYDER – Quase todos. supérfluos. mas olhando bem Quem vê além das aparências das coisas. É preciso limitá-la. . TODOS – Não há outra saída! MAULER – E também precisaremos reduzir os salários! TODOS – É o ovo de Colombo! MAULER: Qual o objetivo dessas medidas? Nesta noite de sangue e confusão. Eu fico com a metade das ações. E que. Miséria e fome. Eliminar o estoque excedente atual. nesses tempos de desgraça? Pois serão necessárias medidas draconianas Que poderão parecer duras porque irão Derrubar alguns e. que deseja Fazer o bem. aos criadores : Escutem. Esta dificuldade pela qual estamos passando Está a ponto de ser superada. Elas impedirão que em sua brutalidade Um povo. mais ainda. você não compreendeu A questão de fundo. Nesse tempo de humanidade desumanizada. meus amigos! Eles cochicham. ofuscado. OS FABRICANTES – Que cérebro! MAULER. Eles podem nos parecer inferiores. queimar um terço do gado existente. Enfim. desordem e violência. O mercado foi saturado este ano. É por isso. pedindo a palavra: Perdão. Em que em nossas cidades os problemas não têm fim. TODOS – Que solução simples! BISPA SNYDER. E é por isso que os preços caíram a zero. Será preciso demitir um terço dos operários: Também de mão de obra o mercado está saturado. nós decidimos. mas se o gado tem tão pouco valor Que pensam em queimá-lo. que nós subvencionaremos Fartamente a sua missão que contribui Com a manutenção da ordem. é eminente -. Nós o faremos. tem seus defeitos. dizem. Elas trarão a calma e a ordem. é claro Que entre vocês estivesse Joana.

olhar fixo na porta: Eles terão de vir. UM CORRETOR. Quando estão cegos e surdos. cantam. Até nós. o mercado vai ser curado! Outra vez saímos do ponto morto E realizamos uma obra difícil. Joana segue com o olhar os prisioneiros. estão chegando! Daqui eles não escapam. dois homens conversando. Nenhum deles tem chapéu. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Todo aquele que aqui entrar. chega e pergunta – Vocês viram passar três homens que vinham buscar uma carta? Ao fundo ouve-se gritos que se aproximam. MAULER: Abram agora a porta principal Aos homens cansados e cheios de preocupação. Sejam bem-vindos. joguem as grandes redes! Sejam bem-vindos. OS CHAPÉUS NEGROS. apanhem-nos! Sejam bem-vindos. estamos prontos! Já estão chegando! A miséria os traz aqui como um rebanho! São obrigados a vir.49 Cuja face por si só já inspira confiança. eles chegam até nós. UM DELES – E por que foram presos? . Toquem a música e nós mesmos Seremos os primeiros a nos sentar Para elevar nossos corações a Deus. UM DELES – Quem são eles? O OUTRO Nenhum deles Pensou só em si mesmo. Imóvel. De sopa encham os pratos. entrando precipitadamente – Escutem a boa nova! A greve que nos ameaçava foi sufocada. joguem as grandes redes! Eles saíram agora de sua última casa! Deus lançou sobre eles o frio! Deus lançou sobre eles a chuva! Eles terão de vir. Nossos planos outra vez se impõem. Quando perdem o trabalho. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Tranquem as saídas. a seu lado. Música de órgão. apanhem-no! Lazarentos e descalços. As coisas retomaram o rumo que nos agrada. Ninguém pode escapar: tranquem as saídas. Foram presos os sacrílegos que perturbavam a paz e a ordem! SLIFT: Podem respirar. Ela então ouve. JOANA. Passam então os dois dirigentes operários escoltados por soldados. Eles combateram Pelo pão dos outros. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! XI NOS MATADOUROS EM FRENTE AO ARMAZÉM DAS FÁBRICAS GRAHAM Os matadouros estão quase vazios. sejam bem-vindos! Boas vindas a todos os que chegam a nós! Vamos. penteados e carecas. SNYDER – Abram as portas! A porta principal é aberta. não deixaremos! Sejam bem-vindos. Perseguidos sem trégua. Os que aqui chegarem. para que nenhum escape! Eles estão a caminho. Passam apenas alguns grupos de operários. Eles vêm até nós para chorar.

Era uma velha operária. – Ela deve estar aqui. à sua frente. Aqui está! Seriam necessárias muitas como ela. saiba que são eles. o salário também. UM DELES – Por que não se ouve falar deles? O OUTRO O OUTRO greve. Nenhum morre de barriga cheia. amparada por um policial. entretanto. Nenhum come seu pão tranqüilamente. Nos vales e nos cimos. Joana cai desmaiada. O POLICIAL: Eis aqui uma sem-teto. As fábricas reabrem. UM DELES – Sempre será assim? O OUTRO – Não. Esta aqui não é das nossas. Recolhida doente Nos matadouros. SNYDER: Quando nos jornais falarem de criminosos abatidos. Seu último endereço Teria sido aqui. não é a nossa Madona dos matadouros? Hei. Nós soubemos ser sublimes E vulgares quando necessário. Deus outra vez se impôs. Divididos em grupos estão os Chapéus Negros. Ou de malfeitores postos na cadeia. Deixem ela aí no chão. a sorte nos sorriu. e a esta a polícia dispersou com o uso de força. UM DELES – O que farão com eles? O OUTRO: O salário deles é baixo e seu trabalho útil à maioria.50 – O homem injusto atravessa a rua à luz do dia. os jornalistas a interpelam. Não. mas apenas para dois terços dos operários. Joana. chega ao termo de sua vida. Nenhum. OS JORNALISTAS – Vejam só. Durante alguns segundos eu a vi distintamente. Ela veio daquele lado e aqui ela gritou para os nossos que as empresas municipais iriam decretar OPERÁRIOS Sim. XIII MORTE E CANONIZAÇÃO DE SANTA JOANA DOS MATADOUROS Agora o templo dos Chapéus Negros está ricamente mobiliado. não é ela. E a carne vai subir. JOANA – Os operários concordaram? OS JORNALISTAS – É claro. Lançados em terra profana. carregando lanternas. que seguram bandeiras novas. Todos perecem antes do tempo. A decisão sobre a greve geral só chegou a uma parte deles. Joana se vira. JOANA. Golpeados. Em nós podem por fé. mas o justo se esconde. você aí! As coisas deram errado. XII EM FRENTE AO ARMAZÉM DA FÁBRICAS GRAHAM Um grupo de operários entra. foi reduzido em um terço. As rajadas de neve a impediram de ver os soldados. pisoteados. os açougueiros (fabricantes de conservas) os criadores e os compradores. Enfim o sucesso chegou E tudo acabou bem. Nem é enterrado com decência. como se ainda quisesse entregá-la: . Quando os soldados vierem a recolherão. A greve geral fez água. Um deles a derrubou com uma coronhada. Um grupo de pobres entra. esticando o braço com a carta na mão.

Nós faremos dela uma santa e não economizaremos em homenagens. dirigindo-se a Joana: Como ela ainda está perturbada. E tinha sonhos para milhares. empregando todos os meios. Pelo contrário. E em sua marcha altaneira Para evadir-se ao mundano. Ela será a nossa Santa Joana dos Matadouros. dando provas de humanidade nos matadouros. Vós. eu poderia levar. Mostrá-la entre nós provará o quanto nos importam os sentimentos de humanidade. A vida tranqüila de um cordeiro. Desta vida intolerável E atingir o inconcebível. Eu faltei. Se eu apenas tivesse entregue A carta que me confiaram! OS CHAPÉUS NEGROS. enquanto as moças dos Chapéus Negros a vestem novamente com o uniforme: Ouve-se outra vez o rugir das fábricas: Outra vez se desperdiçou a chance De colocar um freio a esses excessos. E seus erros. na noite. marchava para a luz! Seus atos eram os de um ser humano. Foi necessário. Chegou na hora certa. a quem não se pode mais explorar! Comei a sopa! Ah. SLIFT – Esta é nossa Joana. MAULER: Que tome posição em nossas fileiras Esta alma inocente e cândida E que sua bela e pura voz Misture-se aos cânticos de nosso coro. e ultrapassa o objetivo. também humanos! JOANA. O ideal. o infinito. Ela vai muito adiante. toda a obra Onde o espírito não encontra. E eu não fiz! Enquanto os pobres tomam assento nos bancos para comer a sopa. quais os gritos que abafas? Comei vossa sopa! E não desperdiceis esse resto de calor. Joana dos Matadouros. OS CHAPÉUS NEGROS: No final. Matéria a sua altura . intercedendo pelos pobres e mesmo proferindo discursos contra nós. Ela que. E só servi aos perseguidores.51 Jamais receberá a carta Aquele que agora está morto. por menor que fosse. Quando o meu esforço. Que Joana exorcize o mal E que por nós ela interceda. Eu o neguei. Quando se poderia ter alterado o curso das coisas. Vamos colocá-la em destaque. MAULER: Uma alma que exala sublimes impulsos Suporta mal. infelizmente. um serviço tão pequeno Foi só o que em toda a minha vida Me pediram para fazer. Intercessora dos pobres. JOANA: Eu falei em todos os lugares. Eu falhei com os perseguidos. pois ela nos ajudou a atravessar a tormenta dessas semanas difíceis. BISPA SNYDER: Levanta-te. sua térrea natureza. Consoladora dos baixios! JOANA: Que vento sopra nesses baixios? Neve. E outra vez o mundo Percorre o antigo ciclo. Slift discute com Snyder e com os fabricantes. Por uma boa causa.

o que foi que eu fiz? Nada. ignora-se o que se passa em baixo. Mas nada mudará se eles melhorarem. Não esqueçamos que ela esteve nos matadouros. Porque o sistema é construído assim: É apenas exploração e desordem. E o que se passa no alto. para os exploradores. A essas tropas indispensáveis. dois pesos e duas medidas. Que nada seja considerado como boa ação. Exceto aquele que muda o mundo Definitivamente: isso é o que é realmente necessário. E sem descanso nem folga Realize seu dever. A esses elementos dos baixios! JOANA: Mas os que estão por baixo são assim mantidos Para que os de cima lá continuem.52 Resta fragmentada Sem alma e sem vida. Eu. Maldito aquele que apelar A essas massas essenciais Mas sempre insaciáveis. Mas também no alto. Que cada um. Entre os do alto a baixeza é sem limites. OS FABRICANTES: O resultado. Nunca se sabe em baixo. a Joana: Seja boa e se cale! . fique no lugar Que lhe é atribuído. No topo e no chão. Que ninguém seja tido como honrado. falando alto. caí do céu! Infelizmente! Bondade sem conseqüência! Sentimentos Que não fizeram a menor diferença! Não. que significam Se não se manifestam em nenhum lugar? De que serve vosso saber Se o que sabeis não tem conseqüência? Eu mesma. GRAHAM – Ela não pode proferir discursos que não sejam razoáveis. OS CHAPÉUS NEGROS. então. Mas que não sabem o quanto. Deixando sem medo um mundo por onde passei muito rápido. Pois se dele esquecer Perturbará nossa harmonia.Isso não basta – Deixai um mundo bom. Eu vos digo: Quando chegar a vossa vez de deixar esse mundo. Contrário à razão. O que está em baixo tem grande importância. eu não transformei nada. JOANA: É uma grande verdade Que aprendi e que vale para todos E morrendo eu vos digo: Vossos bons sentimentos. Quaisquer que sejam as aparências. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES. Sistema bestial. como do topo. Se não for uma ajuda real. é magnífico Sempre que espírito e negócios se aliam. Precisa-se do chão. E dois idiomas diferentes Os homens têm a mesma face E não se reconhecem mais. qualquer que seja. de maneira a encobrir a voz de Joana: Para que até o céu se levante o edifício. Não tenhais a preocupação de terem sido bons . O que está em cima está em seu justo lugar. JOANA: Pois entre os de cima e os de baixo O abismo é mais profundo Que entre o Himalaia e o fundo do mar.

sempre mais alto. invisível. Do qual podeis esperar ajuda. OS AÇOUGUEIROS: Podes fazer qualquer coisa! OS CHAPÉUS NEGROS: Mas faça-o Sempre com muito escrúpulo! Espírito contemplador. Chegar ao topo implica Pisar na cabeça daqueles que estão por baixo. é preciso fazer algo para tirar a atenção do que ela fala. Não. Onde vivem os homens. contraiu a serviço de Deus uma pneumonia nos matadouros de Chicago. Batei com uma pedra em seu crânio Até que arrebente. JOANA: E do mesmo modo. Todos. Sempre necessário . ferir! OS CHAPÉUS NEGROS: Nunca esqueças do sangue que mancha teus sapatos. Falem. SLIFT – Escutem. os alto-falantes começam a transmitir notícias que espalham o medo: “Bank of America e Citibank estão de pires na mão” “Revolta contra os cupins financeiros conflagra Londres” “Múltis drenam do país US$ 3. JOANA: Se alguém um dia vos disser Que existe um Deus. Só dos homens pode vir ajuda. BISPA SNYDER – Joana Dark. para abafar o discurso de Joana. comerciantes. cantam a primeira estrofe do hino. Combatente e mártir. O Verbo magnífico. Denegrindo a ti mesmo. mas que seja bem alto. Não esqueças: tua consciência está lá! Atenção. Não esqueçam. Sempre se metamorfoseia. quando vos disserem. sobretudo. a eles concedei! Hosana! A quem tudo possui. vinte e cinco anos. A palavra de Deus. É preciso também golpear-lhes o crânio com uma pedra. tudo concedei! Hosana! Concedei-lhe a cidade e o Estado! Hosana! Aos vencedores. Aos ricos concedei a riqueza! Hosana! Também a virtude. Precisarás deles sempre! OS CHAPÉUS NEGROS: Olha para cima.Sobretudo se forem compras especulativas – Esse Verbo que. distingam com um sinal! Hosana! Enquanto eles cantam os versos. Onde reina a violência Não há outro recurso senão a violência.53 É preciso.266 bilhões só em dez dias de março” “BC assalta U$ 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street” “Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores” “Deficit dos EUA deve chegar a US$ 9 tri entre 2010 e 2019” . infelizmente. é verdade. MAULER: Deves agir. OS AÇOUGUEIROS: E nem pensa em tirá-los. Que podeis elevar-vos moralmente Mesmo com os pés enfiados na lama. ou seja. de século em século. de esquecer os remorsos. obedeça! OS AÇOUGUEIROS: Quem se mover no espaço Nunca poderá subir: Subir é subir sobre alguém. digam qualquer coisa. Mas evita. Em suas compras.

sempre ele aspira Às esferas mais elevadas. Hosana! Juntai vosso riso aos que riem. Um desejo vive no coração do homem. Não dá mais sinais de vida. BISPA SNYDER – Joana Dark. combatente e mártir. por que não empregaram mais gente e pagaram melhores salários? Quem esperam que compre a nossa carne?” “Foram os intermediários que fizeram subir tanto a carne de gado.” “Foram os especuladores de grãos que encareceram o gado. colocam-se suavemente todas as bandeiras sobre Joana. A carne para a terra o arrasta! MAULER: Ai! Um duplo desejo dilacera meu pobre coração.7%” “Crise já eliminou 6 mi de empregos nos EUA” “Incertezas rondam fábricas da GM à beira do fechamento” Sob o efeito dessa terríveis notícias os personagens trocam entre si acusações e diversos insultos como esses: “Açougueiros sujos. A generosidade De uma alma sem mácula. morta de pneumonia nos matadouros. Hosana! Nesses braços que vos estendem.54 “Empresas dão calote recorde para remunerar seus acionistas” “Recessão ainda irá se agravar no Japão. a serviço de Deus. Infelizmente. Todos ficam muito tempo de pé. Nós que temos a alma comum! E então desperta a boa alma Que temos no fundo de nosso coração. diz governo ” “EUA mudam socorro para bancos. A voz de Joana já não se ouve: Concedei aos ricos misericórdia. até cobri-la totalmente.” “Foram as tarifas das estradas de ferro que nos esfolaram. levanta e vira. para sua grande pena. foram vocês que se recusaram a reduzir também!” “Vocês são os únicos culpados!” “Enquanto não acabarem com vocês não vai melhorar!” “Faz tempo que o destino de vocês está selado!” “O que estão esperando para prender vocês?” Todos cantam a segunda e a terceira estrofes do hino. ao firmamento Um impulso múltiplo o atira. mudos de emoção. Hosana! Com mãos cheias. Hosana! Que seus crimes terminam bem. que vos ajuda também. Qual um punhal. Por um nobre ideal. tocada pela morte. Hosana! Ajudai a quem tudo possui. Hosana! Durante esta estrofe. por que criaram tanto gado?” “Alucinados. Hosana! Notam que Joana para de falar. se não tivessem degolado tantos porcos!” “Criadores miseráveis. Hosana! Piedade com aqueles que ignoram a fome. A um sinal da bispa. Pelo espírito. O palco é iluminado com uma luz rosada. sinto-me atraído: . Colocam a bandeira em suas mãos. Snyder e Mauler vão até ela. na terceira vez ela o pega. Em seguida cai nos braços delas. as mulheres tentaram oferecer a Joana um prato de sopa. Bolsa de NY cai 4. MAULER – Dêem uma bandeira a ela. Hosana! Esmagai o ódio. Em duas tentativas ela recusa o prato. Hosana! Oferecei a vossa graça. Aos astros. MAULER: Como a pureza De um ser inocente. que manipulam o dinheiro a rodo. OS AÇOUGUEIROS E OS CRIADORES: Desde que o mundo é mundo.” “Os bancos nos arruínam com os juros que exigem!” “Quem pode pagar tanto dinheiro para estocar o gado e pelos silos de grãos?” “Por que vocês não começaram a reduzir a produção?” “Nós começamos. Ajudai vossa classe. até o fundo cravado. vinte e cinco anos. Comove-nos profundamente. mas ela cai.

Homem! Luta sempre contigo mesmo! Sigas sendo este ser uno e sempre dividido! Cuida de tua alma boa.55 Desejo a abnegação. Cuida de tua alma terna. como de tua alma vil. Longe de querer escolher uma delas. não consigo resistir Inexplicavelmente! TODOS: Em cada homem habitam Duas almas opostas. desejo o altruísmo Mas à atração pelo lucro. como de tua alma grosseira. Ele precisa cuidar de ambas. Cuida bem das duas! .

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