Kali: a mulher mais poderosa do universo

Prof. P.C. Jain e Dr Daljeet. Kali personifica os três aspectos do ato cósmico, que se revelam na criação, na preservação e na aniquilação. Ela é a divindade mais misteriosa de todas as ordens religiosas indianas – no Budismo, no Jainismo, entre os seguidores de Vishnu ou Shiva, ou qualquer outra. Ela faz gestos que asseguram a ausência de medo (abhaya) e benevolência (varada), definindo perpetuamente sua disposição mental mais profunda. Porém, em contraste, a aparência da Deusa inspira sentimentos de espanto e terror, espalhando a morte com a espada nua que carrega em uma de suas mãos e se alimentando com o sangue que jorra dos corpos que mata. Os instrumentos de destruição, para ela, são meios de preservação. Seu caminho de passagem para a vida é através da moradia que Ela escolheu – o terreno de cremação, iluminado por piras queimando e cheio dos ecos de gritos dos chacais e dos fantasmas, que pairam sobre cadáveres desmembrados. Kali A Deusa mais sagrada, Kali, partilha sua moradia com terríveis monstros que comem carne humana (pishachas) e é representada montada sobre um cadáver. Ela ama Shiva, mas só se une com o seu cadáver (shava), seu corpo passivo e morto, sendo ela própria o agente ativo. Ela se alegra com a destruição e ri, mas apenas para fazer com que os quatro cantos da Terra e do Céu tremam de terror. Sendo uma mulher, Kali gosta de se enfeitar, mas seus ornamentos são uma guirlanda ou um colar de cabeças humanas decepadas, um cinto com braços humanos cortados, brincos com cadáveres de crianças, braceletes de serpentes – tudo com aparência horrível e lamentável. A essência de Kali é essa fusão de contradições, um misticismo com o qual nenhuma outra divindade foi dotada. Vashishtha Ganapati Muni disse corretamente sobre ela: "Tudo aqui é um mistério de contrários, trevas, uma luz mágica que oculta a si própria, sofrimento, uma máscara secreta do êxtase trágico, e morte, um instrumento de vida perpétua."

Kali sobre Shiva

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Ela concede sua graça ao seu devoto que adquire assim o domínio sobre todas as trevas cósmicas – acessíveis ou inacessíveis. algo que eles possuem dentro e fora e em grande abundância. e em sua forma assustadora deve-se ultrapassar todos os medos. talvez. mas aceitando-os como bem-vindos. o devoto não poderia apreender e controlar sua imensidão cósmica. medo e todos os aspectos negativos do universo. é a fusão de contrários – não apenas como duas coisas que existem juntas. isto é. mas aquela que se inicia nas trevas deve necessariamente chegar aos vales da luz ilimitada. onde nenhum raio de luz jamais chega. mas como dois aspectos essênciais da unidade. não escapando deles. Ela destrói para recriar. pois a alegria é a face brilhante do sofrimento – o filho que nasce dela.O que define Kali e também o cosmos que Ela manifesta. Por outro lado. Na invocação a Kali. ou impossíveis de conhecer. e sua forma. por seu poder de revelar a luz a partir das trevas. A Deusa de tonalidade escura. Uma realização que contrasta com o sofrimento. que representa nela própria as trevas. Da mesma forma. surge a vida. Kali lhe dá assistência em sua batalha. conhecidas ou desconhecidas. é a deformação incarnada. toda sua beleza e vigor. destruição. A invocação da luz é comum a todas as ordens religiosas e todas as divindades. é a fonte mais poderosa de vida. que Ela condensa em si própria. mais brilhante essa luz. Em cada ciclo. Kali é a divindade suprema dos Tantrikas. pois nela eles descobrem o instrumento que lhes permite comandar diversas forças cósmicas de uma única vez. cosmos e Kali. A unidade interrelacionada dos contrários define ambos. A árvore nasce quando a semente explode e sua forma é destruída. A antiga popularidade de Kali entre as tribos primitivas ignorantes foi inspirada. Se não estivessem condensadas assim. Mãe Kali A terrível Vajrapani com auréola do fogo da sabedoria 2 . luz. o devoto procura superar as trevas e descobrir tudo o que elas ocultam – luz. e quanto mais profunda a escuridão. uma caminhada que parte da luz termina nas trevas. o devoto se confronta com as trevas que agregam morte. alegria e beleza – o aspecto positivo da criação. por contraste. sofrimento. que é mais escuro do que os recessos mais pro-fundos do oceano. Do útero. Não sendo sua presa mas sim um guerreiro valioso. a morte. a deformação e a feiúra. Kali assegura a luz perpetuamente. produz sofrimento para que a alegria se revele melhor. o sofrimento. a vida é o renascimento da morte. das trevas nasce a luz brilhante. alegria e até mesmo a libertação do ciclo de nascimentos e mortes. vida.

como Kali. mas também a origem de Kali. ou o memento mori. Alega-se que o aspecto mais sombrio de Kali se desenvolveu a partir de Ratridevi. é um culto primitivo que ainda permanece em vários grupos étnicos e mesmo nas tradições clássicas como o Budismo. há temas como o dragão chinês. que tem muitas divindades que inspiram terror. especialmente Ratridevi. veneradas em todo o mundo.a Noite Cósmica 3 .Invocar e associar-se ao terrível – o aspecto negativo da criação – afastando assim os males e sua influência. na forma de um esqueleto considerado muito auspicioso por alguns setores da sociedade russa. ou a semurga do mundo islâmico. a Noite Transcendental. alguns eruditos procuraram na língua de Agni a origem da forma de Kali. Dando grande ênfase à associação entre Kali e esta língua de Agni com o local de cremação. todas revelam a busca humana para se tornar benéfica ou mais branda a influência de algum aspecto terrível da natureza – do cosmos manifesto. ou uma forma que se desenvolveu a partir de alguma das divindades dos Vedas citada nos Brahmanas e Upanishads.. embora Ela transcenda mesmo essas fontes. a Deusa da noite profunda. ou na tradição grega de Nemeses. sendo que uma delas atua no local de cremação e devora os mortos. máscaras de fantasmas. as mulheres cheias de ira que infligiam castigos pelos erros e realizavam a purificação através de um azar vingativo. também chamada Maharatri. nem atingindo objetivos tão amplos quanto o comando dos elementos cósmicos. teria se originado na dança cósmica de Nirtti que também pisava sobre tudo o que caía sob seus pés. a dançarina cósmica. formas animais grotestas e temíveis. e sua dança. ORIGEM DE KALI O misticismo encobre não apenas sua forma. Há três linhas mais significantes que foram traçadas para encontrar sua origem. Mesmo sem ter a amplitude cósmica de Kali.. e Nirtti. Kali Kalaratri . Algumas vezes Ela é vista como uma transformação. que ele realiza para destruir. A Mundaka Upanishad fala sobre as sete línguas de Agni.

um termo que indica grande reverência. características que ainda são relevantes na iconografia de Kali. Invocada com grande fervor em muitas ocasiões no Mahabharata. um fato que indica sua grande popularidade em domínios diferentes da religião. imensurável e infinito que tem sido venerado como Mahakala – o tempo transcendental – representado na tradição indiana metafísica e religiosa por Shiva. ou uma forma divina que tivesse surgido a partir delas.. Kali parece ser uma divindade antiga e talvez préVêdica. Um grande número de textos do período que vai dos séculos II-IX. assim como o culto muito difundido dela. séculos antes do início da era dos Puranas. que poderia ser Kali uma provavelmente uma forma que a precedeu. mais especialmente no Bhishma-Parva. Mahakali A vitória da Devi 4 . também fazem alusão a Kali. além de Shiva.Embora variem em suas versões. o Budismo deve tê-la introduzido a partir de uma fonte não Vêdica. Mahakala é apenas outro nome de Shiva. um pouco antes do ponto onde o Senhor Krishna apresenta seu sermão do Gita. Obviamente. que prevalece entre várias tribos e grupos étnicos espalhados em áreas rurais remotas. Malitimadhava de Bhavabhuti e Yashatilaka de Somadeva. Chandi. Bhadrakali. Kapali.. uma divindade feminina feroz. Kadambari de Banabhatta. Maharatri e Nritti dos Vedas. Como seu nome sugere. O Budismo. Esta Kali transcende de forma essencial Ratridevi. com a pele semelhante ao bronze escuro. os Puranas percebem Kali como um aspecto da Devi – a Deusa. Alguns ícones do vale do Indus parecem representar. introduziu no seu panteão Mahakala e um divindade feminina feroz que se manifesta sob várias formas. como Kumarasambhava de Kalidasa. já que se opunha veementemente aos Vedas. uma divindade que agora está quase completamente fundida com Durga. ou uma das sete línguas de Agni. considerando o status da própria Kali como uma Deusa. e com epítetos como Mahakali. como sendo a contraparte feminina de Mahakala. Embora invocada como "arya". Kali parce ser uma divindade bem estabelecida durante os dias do épico. ou seja. Vasavadatta de Subandhu.. No entanto.. Arjuna a louva como uma mulher tenebrosa com guirlanda de crânios. ela parece ser o aspecto feminino de Kala – o tempo – aquele ser invencível. Na terminologia religiosa. uma corrente de pensamento que se opôs à percepção dos Vedas na maioria das coisas.

ela também foi concebida como o aspecto dinâmico do Senhor Shiva. ambos emergem como ilimitados. e assim. KALI NOS PURANAS Ocorrem alusões a Kali em alguns Puranas antigos. Este universo está contido em Shiva. aquilo que sobra no universo manifesto quando o Poder do Tempo o toma sob seu controle. Kali. Shava é o corpo sem vida. com relação ao seu poder de destruir e vencer os inimigos. manifestas ou ocultas. não se pode atribuir esta ou aquela origem a Kali. Quando o "i".No entanto. nele ocorre a transição do que é temporal para o atemporal. talvez indígena. que se manifesta como Kali. personalidade. Ela não é um mero epíteto ou aspecto de outra Deusa. que é o Poder do Tempo. não podemos atribuir à tradição sua criação absoluta. simbólico da energia feminina. Mesmo furiosa. a visão mais elaborada a respeito de sua origem. o "a" de Shava e Kala nega o que é realizado pelo "i". poder e feitos aparece no Devi Mahatmya. se une a eles e transforma Shava em Shiva e Kala em Kali. pois isso comprometeria seu status de Deusa e ela seria reduzida a algo que não é. Em uma relação deliciosa. Depois que Durga separa Kali de si própria e Kali emerge com sua própria forma – um ser independente – Ela reina suprema em todo o panteão Hindu. e assim ambos são limitados. não sofre essa transição. a menos que se sacrifique sua absoluta familiaridade e seu status na linha Hindu tradicional. Kali surge na tradição com uma reverência e impulso muto maior do que se atribui aos demais deuses. Kali não é meramente o poder de Durga. Os Puranas percebem Kali como a cólera personificada de Durga – a incorporação da fúria – mas de qualquer forma Ela é sua verdadeira Shakti. Seja qual for sua origem. Ela não pode ser tratada como uma mera divindade tribal de origem indígena. atemporais. Além disso. No entanto. aparência. o componente principal de Shiva e Kali. e Kala é o que se revela apenas no aspecto manifesto do universo. ela tem uma amplitude e poder muito superior ao que as divindades primitivas benfazejas geralmente tinham. O Devi Mahatmya contém uma meditação (dhya- Kali unida a Shiva / Shava 5 . do século V ou VI. Ela permeia todas as coisas. Como Kala. Ela foi concebida como o poder (Shakti) do Tempo (Kala). uma parte do Markandeya Purana. Durga invoca Kali para realizar o que ela própria não consegue fazer. Mesmo se tiver sido uma deusa de origem antiga das tribos primitivas.

envolta em juventude. Kalika. ricamente adornada por jóias e com roupas brilhantes. Shumbha desejou intensamente se casar com ela e lhe mandou sua proposta. e outro. generais de Mahisha. Quando ela perguntou isso. e parecia horrorosa com sua pele macilenta. dois episódios que expõem de forma mais completa sua origem. no entanto. os ferozes demônios que ela mata. Chandika. papel e outras coisas. e usa os nomes de Kali como Bhadrakali. estava envolta em uma pele de tigre. com um enorme exército de demônios comandados pelos generais Chanda e Munda. que estava se banhando no rio Ganga sob a forma de Parvati. Há. Os Devas louvaram a Devi e a invocaram para que viesse em seu socorro e libertasse sua morada dos terríveis demônios. Ouvindo um mensageiro falar sobre sua aparência." Devi Mahatmya – o culto da Mãe Divina Aniquilação dos demônios Shumbha e Nishumbha 6 . Finalmente.. a Rakta-bija. os próprios Shumbha e Nishumbha vieram lutar contra a Deusa. carregando espada e laço. como epítetos da Devi. Ela portava um estranho bastão coroado por um crânio e tinha uma guirlanda de cabeças humanas. em suas diferentes partes. com sua face assustadora. Vendo Chanda e Munda avançando contra ela. e uma boca que enchia os quatro cantos com rugidos. com olhos afundados e vermelhos.. Como o Devi Mahatmya descreve. A Deusa o derrotou e destruiu. Um deles está relacionado com Chanda e Munda. brotou dela própria uma forma feminina – uma beleza encantadora que tinha um brilho único. a Deusa se incendiou de fúria. No entanto. Pensando que uma jovem sem armas nas mãos não era um desafio significativo.na) independente sobre Mahakali. sua boca escancarada. . Ela respondeu que era a ela que eles louvavam. "Das sobrancelhas de sua testa brotou imediatamente Kali. e também um após outro. aterrorizando com sua língua para fora. todos os contingentes que vieram depois. Shumbha mandou um pequeno contingente para lutar com ela e capturá-la. Devi. Então ela foi para a região que estava infestada pelo exército de Shumbha e se assentou sozinha sob uma árvore. ouviu o louvor dos deuses e se perguntou a quem eles estavam louvando. Os deuses haviam sido derrotados e atirados para fora de sua moradia divina (devaloka) pelos demônios Shumbha e Nishumbha. a jovem divina enviou de volta seu mensageiro dizendo que ela somente se casaria com alguém que a vencesse em uma batalha.

procurando uma forma feminina que pudesse matar Mahisha. A Deusa atribuiu a Kali o epíteto de Chamunda – destruidora de Chanda e Munda. Shiva. pois este tinha um dom pelo qual surgia um novo demônio Rakta-bija de todos os lugares onde caísse uma gota de seu sangue. Kali é venerada como a Deusa que garante sucesso na guerra e elimina os inimigos – não apenas no Devi Mahatmya. Vaishnavi. matou Chanda e Munda e como troféus de guerra trouxe à Deusa suas cabeças decepadas. porém o que mais perturbou a Deusa foi a multiplicação de Rakta-bija. por um ascetismo rigoroso (tapas) e com a ajuda de Brahma. Kali consumiu cada gota de sangue que saía das feridas de Rakta-bija. depois de ser chamada duas vezes de Kali (a Negra). Shiva identificou o demônio e o matou. devorando multidões de demônios. Parvati foi capaz de se desfazer de sua camada externa negra. mas em quase todos os Puranas. e de dentro emergiu sua forma dourada. por todos os lados. Aproveitando sua ausência e a solidão de Shiva. Skanda.A Deusa pediu a Kali que destruísse o exército dos demônios. Enquanto isso. atacaram a Deusa e a cercaram. os poderes de todos os grandes Devas. a Deusa chamou Kali para beber o sangue de Rakta-bija antes que caísse sobre o solo. juntamente com Kali. Depois que Parvati partiu. Os Deuses. em particular Chanda e Munda. Parvati tinha uma aparência escura. Kumari. Com uma boca escancarada. Seguiu-se uma batalha feroz. Narsimhi e Aindri. Brahma. um demônio chamado Adi. transforma- Matrikas e Mahavidyas lutando contra os demônios Aniquilação de Raktabija pelas deusas Durga e Kali Shiva dançando para Parvati 7 . Para enfrentar seu imenso número. Finalmente. Maheshvari. Inicialmente. ela retornou a Shiva. O Skanda Purana associa a origem de Kali a Parvati. As mortes de Chanda e Munda enfureceram fortemente Shumbha e Nishumbha e eles. e por isso Shiva costumava caçoar dela de vez em quando. Um dia. Transformada em Gauri (a dourada). e com uma língua que se estendia em todas as direções e que se movia mais depressa do que o demônio. particularmente no Agni Purana e no Garuda Purana. disfarçou-se como se fosse Parvati e conseguiu entrar no quarto de Shiva. incluindo Rakta-bija e outros de seu clã. Kali infligiu grande destruição à sua volta. Parvati abandonou Shiva e disse que não retornaria a menos que se livrasse de sua aparência escura. dançou sobre os cadáveres. Shiva se sentiu muito só. Depois de algum tempo. Vishnu e Indra. a Deusa invocou as Sete Mães (Sapta Matrikas) Brahmani. com os demônios sob seu comando. Varahi. que estava procurando uma oportunidade para matá-lo e se vingar da morte de seu pai.

Depois disso. enlouquecida. Em outro relato. O Linga Purana contém ainda um outro episódio responsável pela origem de Kali. Embriagada pelo consumo do veneno e pelo sangue do demônio. Kali se tornou incontrolável. Um devoto de Shiva foi até ele com o pedido de livrar a floresta do terror de Kali. Depois de derrotar Shumbha e Nishumbha. Shiva pediu a Parvati que o matasse. e por suas atividades destrutivas colocou em perigo o equilíbrio cósmico. Kali foi vencida e saiu. Sati se torna furiosa. Shiva lhe pediu que competisse com ele dançando. esfregou seu próprio nariz e daí apareceu Kali. Ela concordou. No Sul da Índia prevalece uma tradição semelhante. Shiva assumiu uma das formas da própria Kali e sugou dos seios dela todo o veneno. A deusa Kali amamentando Shiva A dança de Shiva e Kali 8 . Kali se retirou para uma floresta com sua escolta de companheiros terríveis e começou a aterrorizar a vizinhança e seus habitantes. Parvati a baniu para a região que fica depois da montanha Vindhya. embora em um contexto diferente. Kali não parou a destruição mesmo depois de matar Daruka. mas não conseguindo (ou não querendo) atingir o nível de energia de Shiva. Quando chegaram relatos de suas atrocidades. Quando Kali se recusou a obedecer a Shiva. alegando que estava no seu próprio território. Em seu caminho ele encontrou um monstro que o assustou tanto que o sangue de Rama se congelou de medo. Finalmente. onde ela se tornou conhecida como Katyayani. ela se acalmou.ram com sua luz esta casca negra de Parvati em Kali. Em um relato. e a partir do veneno que estava contido em sua garganta ela se transformou e reapareceu como Kali. quando é insultada por seu pai Daksha. Rama estava retornando a Ayodhya depois de vencer Ravana. Então Sita se transformou em Kali e o derrotou. O Skanda Purana amplia mais essa história. Ela reuniu um exército de Pishachas que comem carne humana e com sua ajuda destruiu Daruka. e depois que ela realizou o desejo dos Deuses. Um demônio chamado Daruka tinha um dom de que apenas uma mulher poderia matá-lo. Então Parvati entrou no corpo de Shiva. A origem de Kali também foi associada a Sati (a primeira esposa de Shiva) e com Sita (esposa do Senhor Rama) – embora não seja uma conexão muito significativa.

para qualquer direção em que o sangue caia. Ela está sempre nua. onde estão espalhados por toda parte lagos de sangue. uma língua esticada e uma boca suja de sangue que. ou seja. todo o cosmos. Kali carrega em uma de suas quatro mãos uma espada desnuda – seu instrumento para vencer os inimigos e comandar os males. exceto quando ele é quebrado pelos ventos que assobiam. embora sua forma mais usual tenha quatro braços. Quando não está no campo de batalha. com longo cabelo desgrenhado e uma face repulsiva. não apenas engole multidões de demônios. com a superior. incorporados nela. Indicando seu poder ilimitado de destruição. corpos sem cabeça. embora algumas partes de seu corpo sejam cobertas por seus ornamentos. a cabeça cortada de um demônio. No entanto. ela estica sua língua tanto quanto seja necessário e a gira mais depressa do que o vento. Kali é uma divindade terrível que inspira temor. tanto nos textos quando na arte. se tornam inoperantes ou que apenas agem sob o seu comando. a cabeça decepada é substituída por uma cuia feita de crânio. pelos resmungos dos chacais e Kali A aniquilação de Raktabija Mãe Kali 9 . é sua garantia contra todos os temores que. cabeças decepadas. mas que abrange desde as profundezas do oceano com sua parte inferior até o fim dos céus. Eles são interpretados como simbolizando sua capacidade de agir e dirigir as quatro direções do espaço. Kali já foi concebida com qualquer número de braços. que assusta a todos por sua aparência.KALI: APARÊNCIA E PERSONALIDADE As manifestações de Kali são numerosas. de dois até dezoito. Ela tem longas presas afiadas. assim como sua natureza básica e personalidade geral. Kali vagueia pelos campos de cremação. Uma figura macilenta. onde reina o silêncio da morte. Algumas vezes. braços e outras partes cortadas. Quando precisa lamber o sangue que cai do corpo de um demônio que foge. e as outras duas mostram gestos que indicam ausência de medo e benevolência (abhaya e varada). Abhaya é uma das suas disposições mentais permanentes. não variam muito. quando se expande. e com isso se assegura novamente a ausência de medo. em outra. Na sua iconografia mais usual. O lugar usual de Kali é um campo de batalha. Abhaya é a essência de todo o ser de Kali. cheia de sangue. e longas e feias unhas. Na sua forma usual de cor negra. sua aparência externa. um terceiro olho na testa que emite fogo. e algumas vezes até mais de vinte. o aspecto assustador de Kali é seu poder para dispersar o mal e o perverso.

reduzindo-o à não-existência. Kali não perde uma oportunidade para lutar. seja para se deslocar ou para ajudá-la na sua batalha. Ela espreme. Na sua iconografia. Mahakali . ou melhor. Kali está sempre faminta e nunca é saciada. Seu estilo de vida não tem aspectos de nobreza ou do modo de vida da elite. mas é também indomável. e sob seus pés que dançam há o cadáver da destruição. um fenômeno indicado pela nudez de Kali. ela incita Shiva a um comportamento selvagem. No campo de batalha e em outras situações. Ela é poderosa como Shiva. ela domina tudo. Ela dança loucamente. Exceto raramente. a figura de Kali unida a Shiva ou ao seu cadáver (Shava) simboliza o contínuo processo de criação. Ela é consorte ou companheira de Shiva.a forma cósmica da deusa Kali Shri Bhairavi Devi 10 . o Poder do Tempo. mas que apesar disso contém a semente de um novo nascimento. Kali não usa um veículo. mas quando Kali. ela caminha descalça. O universo manifesto é aquilo que é envolto pelo tempo. destruiu o universo manifesto. esse véu se ergue e o Tempo. perigoso e destrutivo. A escuridão abissal desses lugares. pisa e queima seus inimigos ou os de seus devotos. quebra. o Poder do Tempo. Ela ri tão alto que todos os três mundos estremecem de terror. assim como Kali. Ela é um dos guerreiros de Shiva em sua batalha contra Tripura. se torna des-nudo. Kali não apenas é uma divindade de natureza independente. é o que mais convém a Kali. ocasionalmente iluminada pelas chamas das piras funerárias. mas não tem o jeito meigo e humilde de Parvati. foge às convenções e fica mais à vontade quando reside à margem da sociedade. não apenas pisando sobre cadáveres. Ela dança para destruir. um animal ou qualquer outra coisa. Por sua natureza. Eternamente uma guerreira. ameaçando a estabilidade do cosmos. enquanto o cadáver representa a não-existência ou o universo destruído.pelo som das asas dos abutres que rasgam os cadáveres. ela tem debaixo de si um cadáver esticado com o pênis ereto – não a flor de lótus. Sendo ela própria selvagem e destruidora. Ela se coloca sobre a não-existência – o cadáver do universo destruído. mas também sobre o cosmos vivo. que é o assento favorito da maioria das divindades. quando toma emprestado ou pela força o leão de Durga ou o búfalo Nandi de Shiva. De pé ou sentada.

Também se espalham por toda parte as histórias de seus poderes misteriosos. Em toda aldeia. Nos Puranas. na arte indiana. destruição. mais do que nos textos. Dakshina Kali. tanto de produzir danos quanto de proteger dos males. Shmashana Kali. há um canto no qual se vê uma imagem grosseira de Kali pintada em preto. repugnância. Kali freqüenta um terreiro de cremação entre as piras que queimam – o domínio intermediário entre este mundo e o próximo. medo. Chamunda. Ela carregava nas suas mãos muitas armas mortais e em seus olhos uma luz que queimava seus inimigos. mas principalmente quando é convocada. Bhadrakali. são algumas de suas formas mais populares. com muitos braços. Mahakali. Kali. mesmo que tenha apenas uma dúzia de cabanas. ela é equivalente a Mahakala – o aspecto onipotente de Shiva. Tripura-Bhairavi. Em sua forma de Mahakali. Na sua forma de Mahakali. Bhairavi. Inicialmente. com a língua vermelha como o sangue. Ela ainda mata demônios. Sua presença é mais significativa ainda na arte indiana. onde ela aparece associada a muitos temas hindus importantes. ela personifica mais enfaticamente horror. e mantida sob controle. morte e envelhecimento. Em sua forma de Chamunda – a destruidora de Chanda e Munda – ela era um matador de demônios feroz. Sob a forma de Shmashana Kali. tanto nos textos quanto nas artes. que devora o tempo e dissolve tudo.. Kali é a transformação feminina de Mahakala. seu papel estava limitado à destruição do demônio.AS FORMAS DE KALI Um imenso corpo de mitologia sobre Kali se desenvolveu na tradição popular. Mahakali ou Shmashana-Kali Dakshina Kali 11 . Aquilo que algumas vezes aparece nos textos como meros epítetos de Kali. mais popular no Tantrismo. onde a morte e a dissolução reinam. ela preside à Grande Dissolução que é simbolizada por Shiva sob a forma de Shava. Guhyakali. Na arte.. embora ainda representando dissolução. Kali invariavelmente o conserva como uma relíquia. são formas bem estabelecidas dela. como Mahakali.

Guhyakali é identificada pelo Kali Yantra. é o aspecto esotérico de Kali. Dakshina Kali tem uma espada. em outra uma cabeça humana. Guhyakali. Na sua forma que se revela quando se medita nela (dhyana). que é a forma majestosa. com o pênis ereto.Como Tripura Bhairavi. dança e canta com alegria. Bhadra Kali. sua forma assimila outros atributos de Shiva. benigna. um menor de crânios. Na representação visual. consorte da morte. Em uma de suas mãos. Ela geralmente carrega duas tigelas. foi concebida com um número de braços que costuma variar de dois a quatro. as serpentes constituem uma parte significativa de seus adornos. benevolente e suave de Kali. que é enfeitada por jóias. Ela se delicia. que é conhecido apenas pelos que conhecem bem a tradição de Kali. e a serpente Ananta com mil cabeças é seu guarda-sol. em vez da ênfase em serpentes. o cordão sagrado e o cinto são todos feitos de serpentes. Bhadrakali Guhyakali . e um par de cadáveres como brincos. com proporções perfeitas. com o qual é invariavelmente representada. incluindo um crescente lunar na sua testa. e nas outras duas mostra os gestos de Abhaya e Varada. que significa literalmente “a Kali secreta”. uma guirlanda de braços muito pequenos cortados. e tem outros atributos associados a Shiva. uma para vinho e a outra para sangue. mas em vez de ser repulsiva sua aparência expõe membros jovens e macios. mais geralmente está coberta por uma pele de elefante. Tripura Bhairavi às vezes usa uma tanga. também usa um longo colar de cabeças cortadas. Seu colar. ela bebe. Vishnu e Brahma. onde aves de rapina pairam e os chacais vagueiam. Ela está sobre o corpo de um Shiva deitado. Em volta dela há muitos cadáveres dos quais se alimentam chacais astutos e abutres repulsivos. a auspiciosa. mesmo Shiva.a forma secreta da deusa Kali 12 . Além disso. e brincos de cadáveres de crianças. Dakshina Kali. Kali é concebida com uma forma que porta um longo colar de corpos humanos. em uma pira queimando no terreiro de cremação. é a de Bhadra Kali. A forma de Kali que os deuses cultuam invariavelmente. uma guirlanda de mãos cortadas.

vestida de espaço (digambari). compacto e sem mistura – representa a consciência pura. sua aparência descuidada. O Yoga percebe Kali como o poder enrolado. Kamakhya Tantra e Nirvana Tantra veneram Kali como a divindade suprema. e outros conceitos dualísticos que levam a uma natureza incorreta da realidade. define para o seguidor do Tantra a caminhada do irreal para o real. O despertar da Kundalini (Kundalini sadhana). Kali. embora no Yoga seu status não seja tão elevado quanto no Tantra. cada uma representando uma das cinqüenta e duas letras do alfabeto sânscrito. O cinto de mãos. o aspecto negativo As dez Mahavidyas e o Shri Yantra Kali 13 . O comportamento disruptivo de Kali. Tanto Kali quanto Tantra são uma síntese da unidade do dualismo aparente. sagrado e profano. Vishnu e Shiva como provenientes de Kali. sendo a principal delas. atividades de confronto e envolvimento com morte e impureza. que simbolizam sua maternidade incessante. O Tantra procura sua realização nas dez Grandes Sabedorias (Mahavidyas). o seguidor do Tantra descobre seu poder de preservar. especialmente o da mão esquerda (vamachara). Kundalini Shakti. da energia adormecida que é vista como uma serpente negra que faz enrolada e adormecida no corpo interno. livre de toda cobertura ilusória. são o que convém mais ao Tantra. Em Kali com seios repletos. e o Nirvana Tantra percebe Brahma. mas é a verdadeira base do Yoga. é a divindade mais significativa do Tantra. Kali é assim a base do Yoga. embora além dessa equivalência ele não invoque mais Kali. Assim como na sua imagem aterrorizante. o seguidor do Tantra percebe um tesouro de poder e conhecimento. assim todos os nomes e formas se misturam nela. Seu cabelo desgrenhado (elokeshi) representa a cortina da morte que cerca a vida com mistério. a cor negra de Kali é um símbolo de desintegração: como todas as cores desaparecem no preto. Os textos Yogini Tantra. como bolhas brotam do mar. A forma de Kali que contém em uma estrutura corporal impura e mesmo pecaminosa a maior santidade espiritual ajuda o seguidor do Tantra a superar a noção convencional de puro e impuro.KALI NO YOGA E NO TANTRA Kali tem um lugar muito significativo no Yoga e no Tantra. A densidade do negro – massivo. sua atividade tríplice – criação. revela seu poder com o qual o cosmos atua. preservação e destruição. o principal instrumento de trabalho. e em seus três olhos. Para o seguidor do Tantra. em sua nudez. Kali. Em sua guirlanda de cinqüenta e duas cabeças humanas. é uma prática principal em ambos.

Chaukhambha Sanskrit Pratishthan. portanto. Gita Press Gorakhpur 2. http://www.exoticindia. The Great Goddess. 5.C. Steven J. & Wulff. Menzies. que gentilmente nos autorizou a traduzir e publicar na Internet esta tradução para o português. Boston 12. a fonte da criação. Delhi 13. foi escrito pelo Prof. da mesma forma no caminho do Tantra a viagem começa a partir daquilo que é material. Jackie: Goddess. David: Hindu Goddesses. (ed): Vaishnavi. Shrimad Devi Bhagavata. By Devadatta Kali. Kinsley. Delhi 10. Kanwar Lal: Kanya and the Yogi. Kinsley. Upadhyaya. G. C. PARA APROFUNDAMENTO: 1.de seu ser (e. Mahabharata. Delhi 3. Delhi 9. Goddesses of India. Divine Energy. Mitchell. Delhi 4. Delhi 7. Padma: Female Images in Museums of Uttar Pradesh and Their Social Background. é a força vital criadora. Article of the Month – February 2009). do cosmos). A. Madhu: The Tantrika Way. Delhi Mahanirvana Tantra FONTE: O original deste artigo. P. Ajit & Khanna. Devimahatmyam. David: The Ten Mahavidyas: Tantric Vision of Divine Feminine. Art Gallery. J. Washington D. Rosen. Mookarjee. S.: Hindu Gods and Goddesses. tr. Hawley. Dahejia.yogadevi. até o ápice – o supremo. London 11.com/article/goddess_kali Esta tradução está disponível no site “Shri Yoga Devi”: http://www.pdf 14 . Jain e pelo Dr. em inglês (Kali: The Most Powerful Cosmic Female. Vidya: Devi.org/Kali. NSW 6. Monna Marie (ed): Devi. Daljeet e está disponível no site Exotic India. Delhi 8.

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