P. 1
Inacio de Passos - Moçambique: A Escalada do Terror

Inacio de Passos - Moçambique: A Escalada do Terror

|Views: 1,067|Likes:
Published by Lisboa24
Inacio de Passos - Moçambique: A Escalada do Terror
Inacio de Passos - Moçambique: A Escalada do Terror

More info:

Published by: Lisboa24 on Oct 17, 2010
Copyright:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

04/17/2013

pdf

text

original

Pela reportagem de Fernando Lima subentende-se que a maioria das prisioneiras a
reabilitar nos campos de morte da Frelimo são prostitutas. Mas o que é a prostituição
vista com os olhos da Frelimo?
Leia-se este bocado de prosa de uma crónica que Fernando Lima juntou à sua
reportagem, numa espécie de crónica que intitulou «Como encarar a prostituição».

«Como encarar a prostituição, como encarar os agentes da prostituição?
Para os mais simplistas trata-se de uma questão fácil de analisar, ou pelo
contrário, ignoram os fundamentos da prostituição, procurando no
comprimento de uma saia, na maquilhagem exagerada, em formas de trato mais
extravagantes de uma mulher, uma tosca definição de prostituta; num bar com
homens e mulheres que bebem cerveja ou qualquer outra bebida alcoólica, um
«quadro de prostituição». Para outros, duas pessoas que dormem juntas sem
terem assinado o contrato matrimonial, ou que simplesmente se passeiam em
qualquer artéria de uma cidade, em sítios bafejados pela luz eléctrica, também
serão casos de prostituição.
Ë claro, como oportunisticamente convém, a denúncia destas graves
situações é sempre feita com vários chavões que falam muito de corrupção,
liberalismo, etc.

São casos que à mentalidade pequeno-burguesa, o puritanismo, os
preconceitos sociais e sexuais, a formação política de certos estratos sociais da
sociedade interpretam os factos, sem que efectivamente se faça uma análise, uma
leitura política das situações.
A prostituição tem o seu fundamento na sociedade de classes, nas circuns-
tâncias económicas, políticas, sociais e ideológicas engendradas por essa
sociedade. Havia prostituição na Grécia Antiga, havia no período feudal, existe
nos países capitalistas, existe nos países onde não as palavras, mas as condições
políticas e ideológicas, as condições materiais, permitem que as pessoas tenham
relações de dependência entre elas, quando não existem de facto novas relações

123

entre as pessoas, onde não existem novos valores, nem condições e trabalho
político que possibilite a formação de um homem novo.
O aspecto caricatural da prostituta na esquina ou no bar à espera de clientes
é apenas uma pálida ilustração do que é a prostituição. Nas concepções
burguesas de vida e relações sociais não é prostituta aquela que usa aliança,
aquela que vai à missa, ou que perfilha os padrões de honestidade
convencionados.

Também as relações entre as pessoas são eminentemente políticas.
O amor é um acto político. E quantos casais na prática sabem responder
politicamente às solicitações quotidianas? Quantos não esquecem a política no
escritório onde desempenham «um cargo de responsabilidade» ou na sede do
Grupo Dinamizador» onde não faltam a qualquer reunião?
Para muitos a política não entra na vida conjugal, nas relações entre as
pessoas, ou por outras palavras, a política, a ideologia está presente, mas é a
ideologia do inimigo, a ideologia reaccionária, exploradora e individualista. Por
isso, não devemos pensar que, se acabarmos fisicamente com as prostitutas mais
«visíveis» nos centros urbanos, acabamos com a prostituição.
A prostituição é inerente a um determinado sistema, onde são dominantes as
relações de desigualdade entre as pessoas, onde a ideologia dominante permite
que se forje a prostituição. Só eliminando as causas, as próximas e as remotas, se
poderá eliminar a prostituição. O mesmo será dizer que só destruindo o sistema,
a sociedade colonial-capitalista, só destruindo e eliminando a ideologia
burguesa, acampamento inimigo nas nossas cabeças, só com a criação da
SOCIEDADE NOVA, com a criação de fundamentos materiais e ideológicos que
permitam a eliminação da exploração do homem pelo homem, a criação do
HOMEM NOVO, se poderá eliminar a prostituição FÍSICA E
IDEOLOGICAMENTE.»

Temos pois uma nova definição de prostituição. Não é o amor, nem o acto que
está em causa porque o amor é um acto político. Uma mulher pode ser honesta
dentro dos padrões da honestidade convencional, ser amiga do seu marido, ser leal ao
laço matrimonial, respeitá-lo em gestos e acções, nada se lhe apontar dentro das
fronteiras da honestidade convencional, mas se a política — e tem de ser a da
Frelimo — não entrar na sua vida conjugal, nas suas relações entre as pessoas,
pratica prostituição.

Não é prostituta a jovem que, solteira, dorme com o guerrilheiro da Frelimo, ou
com o dirigente do Partido, desde que leve bem dentro de si, a política socialista
marchelista.

Não são prostitutas as mulheres, jovens e velhas, que depois dos endiabrados
batuques realizados nos recintos da sede do Partido — e provo com a totalidade dos
habitantes das proximidades do ex-colégio João de Deus, na Beira — acabam as
madrugadas em animalescas bacanais, porque trazem dentro de si a ideologia e não
são reaccionárias.

124

Não são prostitutas as camaradas do Departamento Feminino, das bases guer-
rilheiras da Frelimo, que dormem cada dia com o seu camarada diferente, porque são
políticas e o acto é um acto político. Nem aquelas que encontrei no aquartelamento
de M. Pádua — nove mulheres totalmente sem roupa — na barraca do comandante do
destacamento.

Prostitutas são todas as mulheres, de todas as raças, que não aderem à
Frelimo. Prostituição praticam todos os homens que não levantam o braço, de punho
fechado, aos gritos histéricos de «Viva a Frelimo».
As mulheres encurraladas nos campos de reabilitação, desconhecendo a razão
porque se conservaram vivas no Inferno onde viram tantos morrer, praticaram
a prostituição porque não frequentavam as reuniões de esclarecimento do Partido no seu
bairro, no seu emprego, porque não aderiram à Frelimo. E as que morreram, vitimadas
pelas balas dos seus algozes embriagados por álcool e por desejos de sangue, eram
prostitutas, praticavam a prostituição, embora fossem puras de corpo, embora se
conservassem honestas de pensamentos e de acções, fossem óptimas esposas, mães
exemplares e cidadãs sem mácula aos olhos da honestidade convencionada por todos
nós.

A sua prostituição foi, pois, unicamente política. E por isso, leitor, nos campos de
morte de Bilibiza, de Mandimba, de Tebamba, de Nawá, de Ludiene, de Nova Freixo,
de Mabaca, de Marrupa, da Base Beira, de Luatize, da Base Central, de Atisel, de
Msauíze, do Xiconono, e de outras criadas, e de muitas outras que serão construídas,
podes encontrar homens e mulheres, com idades compreendidas entre os poucos dias
de vida e os oitenta e noventa anos que praticaram prostituição aos olhos da
honestidade não convencionada, da honestidade política mesmo conservando-se
honestas, mesmo pagando com a vida para continuar a serem até à morte.
Foram transportadas como animais em camiões de carga para os diversos campos
de morte do Niassa, numa viagem que demoraria cinco a seis dias mas que
preencheu, totalmente, cerca de um mês, porque os ordenanças do delirante
socialismo de Samora Machel, os transportadores da carrada humana para o mata-
douro, desejavam aproveitar a fartura de fêmeas do curral volante para as
suas torpezas de sexualismo viciado e selvagem.
Mulheres, crianças, entregues aos abutres que em Lusaka receberam das mãos de
insignes portugueses, seus irmãos, a resolução dos seus destinos, as suas próprias
vidas.

Todos nós conhecemos as fronteiras da honra e do pudor, das gentes africanas,
que vergastam as mulheres desde o nascimento: São vendidas pêlos pais ao primeiro
homem que lhes pague o «lobolo» e trocam de marido desde que, com dinheiro ou
valores, o novo conquistador indemniza o marido traído.
E não há prostituição! ...
A Frelimo, mesmo não apoiando o «lobolo», que considera uma das tradições
tribais a afastar do povo moçambicano, admite-o. E criou, em sua substituição, o
casamento revolucionário, praticado entre os e as camaradas, a qualquer nível, a
partir do próprio Presidente. Samora Machel casou com Graça Simbine, uma mulher

125

que possuiu diversos maridos revolucionários, sem que o seu casamento fosse regis-
tado em qualquer repartição além do Partido, que o autorizou.
Samora Machel casara em Lourenço Marques antes de entrar na
revolução. Casou diversas vezes nos anos de combate. Apoderou-se de Josina
Magaia, após ter assassinado o marido, um dos guerrilheiros de confiança do dr.
Eduardo Mondlane, o comandante Filipe Magaia. Assassinou Josina Machel porque
sabia demais sobre a morte do primeiro presidente da Frelimo e volta a casar com
Graça Simbine depois de endeusar o nome de Josina entre as componentes do
Departamento Feminino que ela criou.
Mas nunca praticou prostituição. Nem nenhuma das suas amantes. Mesmo agora,
que esconde o filho à curiosidade popular por não ser negro como ele nem como
Graça Simbine sua última mulher — que também era casada em LourençoMarques
antes da revolução — não acusa a mulher de prostituição. E a razão é simples:
Todos eles transportam para os actos de amor animalesco a política. Os seus
actos de amor são políticos. Não são reaccionários. Não fazem parte da honestidade
convencional. A política foi transportada para a sua vida conjugal, mesmo que essa
vida conjugal apenas dure horas ou meses.
O que pensaria, se vivesse, da evolução marxista moçambicana, o seu

criador Karl Marx?

Os outros prisioneiros, as outras prisioneiras, são Testemunhas de Jeová. Per-
tencem à seita religiosa sedeada nos Estados Unidos da América mas espalhada pelo
mundo inteiro.

Lidei com os membros desta religião, com os mesmos que hoje morrem nos
campos de trabalho e de extermínio da Frelimo em 1972, nas regiões de Gulemo--
Balame, na Angónia, onde cerca de quarenta mil se refugiaram a expensas do
Governo de Portugal.
Eram pessoas honestas e trabalhadoras.
Ergueram, como se saltassem do solo de um dia para o outro, mercê da vontade
férrea do homem, gigantescos, embora precários, aglomerados humanos, que rodearam
de evoluída agricultura. Eram, na totalidade, malawianos e somavam cerca de quarenta
mil almas.

Desloquei-me, em aventurosa viagem, acompanhado de um administrador de
posto de Vila Coutinho, à região onde se acolheram e onde desejavam contribuir no
desbravamento de terras, na agriculação, no progresso moçambicano.
Não possuíam outra política além da sua religião e o amor ao próximo, e haviam
sido expulsos do Malawi. O Portugal moçambicano acolheu-os e integrou-os sem
dificuldade na sociedade local.
Em Agosto e Setembro de 1975 a Frelimo quis mostrar a sua presença
bolchevista disfarçada de laicismo, e as quarenta mil pessoas, e quantos
moçambicanos com eles estudavam a Bíblia, tiveram de enfrentar torturas desumanas,
espancamentos, roubos de dinheiro e as mais infamantes sevícias.
Os homens foram despidos e muitas mulheres foram estupradas.

126

Em Setembro, Outubro e Novembro de 1975, congregações completas
foram transportadas para os campos de extermínio, nelas se incluindo cerca de três
mil moçambicanos, além das dezenas de milhar de malawianos que se haviam refu-
giado na Angónia.

Entretanto, dezenas de milhares de volumes com roupas, oriundos da África do
Sul, legalmente despachados nos correios sul-africanos, vistos e revistos pêlos serviços
alfandegários moçambicanos sem que qualquer atropelo à lei fosse detectado, destinados
às Testemunhas de Jeová, eram abertos em Tete, por ordem do inspector da P.I.C., e
distribuído o seu valioso conteúdo pelos combatentes terroristas da Z.A.P.U., depois
denominada Z.I.P.A., e pêlos simpatizantes da Frelimo.
Os volumes continham fatos, casacos, camisolas, vestidos, sapatos,
sobretudos, ofertas de instituições humanitárias internacionais. Mas isso pouco
importou à P.I.C. da Frelimo. A Frelimo desafiava as leis internacionais, apoderando-
se do que não lhe pertencia, do que era propriedade dos homens, mulheres e
crianças que assassinara ou enclausurara em campos de trabalho.
E, pasmai! o mundo aceitou todo este procedimento com criminosa indiferença.
Eu próprio vi os volumes armazenados nas instalações da P.I.C. em Tete, assisti à
sua conferência pêlos registos alfandegários, e ouvi da boca do camarada José
Castigo, que mostrava um rictus de estranha e patética felicidade:
Oh Passos, isto vale mais de vinte mil contos! ...
Não respondi. Tudo aquilo que estava frente a meus olhos, ocupando todas as
salas do primeiro andar do edifício, mesmo ao lado do Tribunal que deveria significar
Justiça, não tinha preço monetário. Valia as quarenta mil vidas destruídas pela Frelimo.

You're Reading a Free Preview

Download
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->