Edição de 1977 INDICE Uma explicação …............ .................................................................. 7 PRIMEIRA PARTE—Os «Pravdas» de Moçambique …................. 9 1. Uma redacção em efervescência ….......................................

...........13 2. Dois heróis do jornalismo …........................................................... 16 3. Moçambique com a Frelimo …....................................................... 20 4. Um estranho Fremilista .................................................................. 24 5. O ódio de jornalista aos portugueses ............................................. 26 6. Um pequeno drama na Beira ......................................................... 29 7. O trágico epílogo do 7 de Setembro …........................................... 33 8. Êxodo: Rescaldo do medo ............................................................... 36 SEGUNDA PARTE —Um Moçambique a destruir …..................... 43 9. A Geraldina Francesa e as contradições de Samora..................... 45 10. dupla personalidade do Presidente ............................................. 51 11. Eu, inimigo camuflado .................................................................. 56
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12. Num clima de terror ….................................................................. 63 13. Nenhum fica o jornalismo reaccionário ...................................... 67 TERCEIRA PARTE —O Apocalipse Moçambicano …................... 73 14. Moçambique forte para a guerra? .............................................. 75 15. O caos económico ......................................................................... 80 16. As nacionalizações …..................................................................... 84 17. Saque aos bens dos portugueses ................................................... 91 18. Onde se encontram as garantias? ................................................ 95 19. O marchismo Machelismo ............................................................ 98 20. O preço da liberdade .....................................................................103 QUARTA PARTE—A derrocada do Machelismo ............................107 21. O povo Moçambicano diz «não» à Frelimo .................................109 22. A Frelimo em duas guerras ...........................................................114 23. A Rádio África livre .......................................................................119 24. A resistência: — vários nomes, a mesma luta ...........................................................122 25. Outra forma de resistência interna ..............................................129 QUINTA PARTE —O sanguinário estertor da Frelimo …............. 133 26. Nos campos de reabilitação ......................................................... 135 27. O que é a prostituição ...................................................................141 28. O assassinato do polícia Graça Diniz ..........................................145 29. Portugal não foi ludibriado ......................................................... 148 SEXTA PARTE—As opções da independência ................................155 30. Recurso às armas: — Depoimento de Uria Simango .......................................................157 31. General Spínola: Independência com referendum ....................................................... 163 32. Otelo Saraiva de Carvalho: A necessária confissão ….....................................................................167 33. Keneth Kaunda: Moçambique, comunidade de cultura lusa .......................................170 34. Plano de Lusaka: Caminho para a paz ............................................................................176 35. Plano de Lusaka: O bem-estar dos portugueses ….........................................................179 36. Dr. Almeida Santos: Estado Federal «União Portuguesa» ….............................................183

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37. Conclusão: Eu e o traidor Marrão ........................................................................187

UMA EXPLICAÇÃO A escalada do terror em Moçambique teve a conivência da Imprensa desde a primeira hora, ainda antes da independência do país. Familiarizei-me com essa certeza e o primeiro título dado a esta reportagem foi «OS PRAVDAS DE MOÇAMBIQUE» — devido ao facto dos jornais moçambicanos, dominados pelo Governo de Transição, e depois pelo definitivo, se assemelharem, no espírito e tendências, ao «PRAVDA» moscovita — optando, a seguir, por «A ESCALADA DO TERROR». Mesmo assim, tornava-se necessário descrever, pois era o factor dominante de grande parte das situações, o ambiente das Redacções moçambicanas, retratando, com a maior nitidez, o estado psicológico dos jornalistas portugueses que preenchiam os quadros redactoriais. Coloquei em foco o «Notícias da Beira» por me encontrar mais intimamente ligado a este jornal, mas todas as minhas afirmações podem ser alargadas pelo leitor aos restantes órgãos da comunicação social moçambicana, por todos eles se regerem pela mesma batuta. Descrevendo o estado psicológico de cada um destes profissionais de Imprensa não tento, nem desejaria tentar, dar uma possibilidade de busca de atenuantes ao seu comportamento, mas sim, desmistificá-lo. Os crimes por eles cometidos — e por cada um individualmente — continuam crimes, por mais justificações que tentemos encontrar na ideologia marxista-leninista em que basearam tropegamente os seus actos. Essa é a razão por que dedico todas as páginas da Primeira Parte deste volume ao ambiente redactorial moçambicano, como prólogo à verdadeira Reportagem sobre alguns dos principais acontecimentos que ensombraram Moçambique, transformando a antiga colónia portuguesa do Indico numa verdadeira pátria de terror. Queria, porém, salientar que toda a actividade da Imprensa moçambicana foi dirigida à distância por alguns membros da Frelimo, os mesmos que, cuidadosa e trabalhosamente, foram moldando as ideias de Samora Machel — inicialmente apolítico — pelas matrizes moscovitas. E a actividade foi-lhes fácil. Bastou-lhes colocar nas direcções dos jornais homens obedientes a Moscovo e preencher os quadros redactoriais com jornalistas imaturos, ou veteranos oportunistas, afastando tacitamente quantos podiam, de qualquer modo,
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voluntária ou involuntariamente, contrariar a conjura comunista. Samora Machel caiu no logro e foi fácil acomodar nas Redacções jornalistas mercenários, bastando para tanto acenar-lhes com posições de destaque. Estava encetado o caminho que facilitaria a estratégia conducente à vitória do imperialismo soviético na África Austral. Os factos descritos são reais na totalidade. Ou foram recolhidos na minha experiência profissional, ou retirei-os de depoimentos de gente idónea, sempre avalisados por nunca menos de três testemunhas dignas de crédito. Deles o leitor pode colher as ilações que lhe aprouver, não sendo, porém, minha intenção de voltar contra o povo moçambicano a repulsa ou a má vontade do leitor. No seu livro sobre o anarquismo, Daniel Guerin afirma que Proudhon constata, com desolação, que as massas têm necessidade de indivíduos que as despertem. O povo moçambicano foi despertado para o mal, na fase da Independência, por uma Frelimo que desconhecia, comunista, e a arma usada pelo Partido foi a Imprensa. Mas esta sabia que o regime que entrava em Moçambique para governar se solidarizava com os princípios moscovitas, e conclamava a necessidade da formação de um bloco comunista e ateu, que fizesse frente às ideias ocidentais no continente africano. E este regime, convertido em paladino na luta contra o Ocidente, assegurava uma nova situação no contexto africano, oferecendo a Moçambique uma importância estratégica crescente. As injecções constantes da Imprensa, vassala do regime, alimentava a mística da cruzada machelista contra o imperialismo ocidental, ocultando, das massas, que a intenção deste proceder era favorecer a tentativa de domínio, por Moscovo, de toda a África Austral, domínio imperialista (mal) disfarçado numa ideologia socialista. Assim, entendendo-se a Frelimo, compreendendo-se a Imprensa e a posição de meia dúzia de jornalistas portugueses, que a quiseram servir, e dela servir-se de qualquer modo, num compungente e trágico mercenarismo, chega-se à resposta que queremos encontrar para esta pergunta: «Como justificar as bárbaras perseguições movidas ao povo moçambicano e à colónia portuguesa pela Frelimo?». Creio que o leitor a encontrará nesta reportagem. INÁCIO DE PASSOS

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PRIMEIRA PARTE OS «PRAVDAS» DE MOÇAMBIQUE (prólogo à reportagem que ides ler) 1. UMA REDACÇÃO EM EFERVESCÊNCIA

O clima emocional de quantos se encontravam na Redacção do «Notícias da Beira» era caldeira prestes a estoirar. Estava-se na noite de 7 de Setembro de 1974. Eu, que então chefiava uma delegação do jornal em Tete, próximo da guerra e de Cabora Bassa, viera, em visita particular, à sede. Chegara na véspera, num dia de muito sol, de calmaria absoluta. Entretivera-me, logo que pusera os pés na cidade, num restaurante batido pela brisa do Indico, na companhia de camarões grelhados, cerveja fresca, mulher e filho. A cidade, que percorreria depois do anoitecer, era a cidade que sempre conhecera, com os seus coloridos «néons» e os cafés repletos, viva àquela hora. Os restaurantes mostravam o que de melhor, mais atraente e caro, poderia satisfazer o gosto dos turistas rodesianos. Automóveis corriam no asfalto para um destino qualquer, uns mais apressados que outros. Nos cafés os homens falavam do Acordo de Lusaka, que seria assinado no dia seguinte entre a Frente de Libertação de Moçambique e Portugal. Pela Colónia apenas um homem aporia o seu nome no documento — Samora Machel — tornando mais fácil e menos extensiva a responsabilidade do seu não cumprimento. Por Portugal o peso era dividido por oito homens, uns conhecidos outros saídos do anonimato com o 25 de Abril. Eram ministros com e sem pasta; conselheiros de Estado; um membro português do Governo Provisório de Moçambique; e oficiais das Forças Armadas de Portugal. Os seus nomes andavam de boca em boca, tanto os jornais neles haviam falado nos últimos dias: Melo Antunes, Mário Soares, Almeida Santos, conhecido ex-causídico de Lourenço Marques, Vítor Crespo, Antero Sobral, Nuno Lousada, Almeida e Costa e Casanova Ferreira. Todos os que, nos cafés, falavam do Acordo denunciavam medo e incerteza em quanto diziam. Que se podia saber então? Que o Acordo da Independência de um país, que mais interessava a moçambicanos que a portugueses, ia ser assinado numa cidade estrangeira, sem que o povo moçambicano fosse consultado. Ë pouco provável que alguém, nesta noite de incerteza, tivesse podido reagir de outro modo. Sabia-se, pela História e pelos exemplos africanos, que seria em vão que um país economicamente débil e com grande parte da população por alfabetizar, procuraria garantias duráveis de liberdade e de independência. A que novo senhor iria servir Moçambique após dez anos de desgastante luta com Portugal? Não se tornariaMoçambique o rastilho de um conflito internacional por ordem de Moscovo (o capitalista da guerra de libertação moçambicana) por forma a ser silenciada qualquer voz discordante à penetração comunista na África Austral?
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Eu tinha as minhas ideias próprias sobre o problema pois sou contra todas as formas de agressão, contra todas as guerras, contra todas as ocupações, contra todas as interferências de um país em qualquer outro. Sou contra todas as guerras por convicção. Entendo, sobrepondo a todas as ideologias políticas, que os conflitos entre países não devem ser resolvidos através da guerra, através da utilização da força ou da ameaça pela força. E talvez por eu pensar assim, agora, um dia volvido sobre a minha chegada, o clima emocional dos meus colegas na Redacção, nesta noite de 7 de Setembro de 1974, não me contagia. — O que querem os tipos?... A coisa está mais do que resolvida e o Acordo assinado! ... O que desejam esses loucos agora?... Mais sangue? ... — estribilha, pela terceira ou quarta vez, o Heleodoro Baptista, um redactor. A Redacção estava superlotada. Duas mulheres, a D. Lídia, tradutora e chefe da secção de Estrangeiros, e a Odete Carreio, uma repórter; quase a totalidade do quadro redactorial masculino: O Heleodoro Baptista, um mestiço da Zambézia, espaIhador de propagandas comunistas de duvidosa sinceridade ideológica; o Jorge Figueiredo Jorge, português maoista; o Armindo de Sousa, negro zambeziano; o José Rui Cunha, repórter sem política; o Castro Lobo, comunista e militante da Frelimo, mais tarde um dos chefões da Polícia de Investigação Criminal (P.I.C.) em Quelimane, e autor da maioria das perseguições e assassinatos de que foram vítimas bons portugueses; eu, uma visita apenas; a minha mulher; e a totalidade do pessoaldas oficinas e das diversas secções do jornal, em funcionamento àquela hora, todos atraídos pelo receptor que não deixava de nos atirar frases excitadas. No outro lado estava a voz da «Rádio Moçambique Livre», emissão fantasma de um grupo de homens e de mulheres que, horas antes, havia tomado de assalto os estúdios do Rádio Clube de Moçambique. — Vão atacar a Redacção!... — não sei quem afirmou, ao tempo que buzinadelas de automóveis penetravam pêlos buracos vazios, que serviram para acomodar os aparelhos de ar condicionado. É preciso lembrar que este grupo de jornalistas, durante muito tempo privado de qualquer opinião política, aproveitou as «perspectivas» criadas com o 25 de Abril, e, numa brusca inversão, saneou a administração do jornal, passando a empresa a ser administrada por uma comissão de trabalhadores. Entrara, deste modo, a «liberdade» no jornal, saudada com orgulho por todos, e que se mostrava, flagrante, nos bonecos, gatafunhos e dizeres libertinos, que se espalhavam pelas paredes sujas da Redacção. Viera, na peugada da liberdade, a falta de dinheiro para os vencimentos, para a tinta de impressão, para o papel e para os credores, e ficaram também vagos os lugares dos aparelhos de ar condicionado, que agora serviam de vigias na fortaleza onde nos barricávamos, pois davam directamente para a rua. O cortejo de viaturas ia engrossando, e, sem se deter, passava junto à Redacção, contornava a rua, cruzada pelo restaurante «Kanimango», e vinha aparecer, sempre mais reforçado, no lado oposto do quarteirão. Era um espectáculo bonito mas barulhento. Os homens gritavam de dentro das viaturas, de punhos ameaçadoramente erguidos, dizendo coisas que não se entendiam, podendo cada um de nós interpretálas como quisesse.
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— Eu vou para férias!... — afirma, nervoso, o Jorge Figueiredo Jorge, esquecendo-se de arrumar os poucos cabelos loiros no comprimneto luzidio da cabeça oval: — Vou desaparecer por uns tempos! ... E sai, deixando o nosso grupo enfraquecido com a falta do mais fluente representante do comunismo. Do quadro redactorial éramos agora cinco homens e duas mulheres, além do pessoal oficinal. Mas entre o último nasce burburinho: — Vocês é que são os comunistas. Vocês é que são os corajosos, os revolucionários ... defendam-se agora. Quando nós dizíamos para serem mais moderados chamavam-nos reaccionários!... — diz uma voz excitada, a que outra acrescenta: — Eu tenho mulher e filhos. Vou embora! ... O pessoal negro das oficinas olha em silêncio e não arreda pé. O José Rui Cunha, de sacola ao ombro, no estilo mais perfeito de turista rodesiano em semana de Rhodes and Founders, passeia de um extremo ao outro da sala. Excitado, retira da sacola uma arma de pequeno calibre, enquanto afirma que venderá cara a vida, que esvaziará o minúsculo carregador nos ventres anafados dos reaccionários beirenses. O Armindo de Sousa, negro que tinha contra si a cor da pele, na hipótese dos sitiantes serem apenas brancos, e que ocupava a primeira secretária, muda-se para o lugar mais afastado da portaria. Nas secretárias da frente arrumam-se as mulheres, e todas elas parecem calmas. Só então se dá pela ausência do Heleodoro Baptista, o outro comunista do quadro redactorial. Desço ao primeiro piso. Um polícia português, de arma aperrada e costas apertadas ao umbral da porta, por forma a confundir-se com as sombras da noite, segredame com humor: — O senhor parece que tem medo! ... A observação enerva-memas ele não entende tudo o que respondo pois o buzinar, que só tem início junto ao edifício do jornal, abafa-me a voz. Subo à Redacção ao encontro de um nervosismo crescente. O Frederico, chefe das oficinas no turno da noite, com os seus cabelos brancos e cara escarlate, gesticula, exaltado, dominando o tumulto. — Os heróis cavaram. Só falavam mal de Portugal... Frelimo para aqui, Frelimo para ali... Agora o que é feito deles?... Não sabiam que tinham a população farta dos seus insultos? ... Eu vou embora imediatamente ... E foi, forçando com a sua atitude a partida de muitos dos seus colegas. A entrada do chefe da Revisão for oportuna. Vinha excitado e exclama mal encara os presentes: — Onde estão o Heleodoro, o Jorge Figueiredo Jorge e o Castro Lobo? Queroos aqui imediatamente. Todos imediatamente. Só eram corajosos quando insultavam os portugueses, quando lhes chamavam colonialistas e exploradores?... Uma cortina de silêncio cobre todas as vozes, deixando do lado de fora apenas a sua. Para nós, os «sobreviventes», a sua presença valia mais do que a dos três comunistas amedrontados que se puseram em fuga, depois de excitarem ao rubro a população beirense. Mas seriam eles, na realidade, comunistas? 2. DOIS HERÓIS DO JORNALISMO
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Ë necessário que o leitor tenha em mente que não fazíamos parte de uma Redacção dependente de uma administração organizada; que não possuíamos um director, pois o último afastara-se voluntariamente após os saneamentos na administração; que fora nomeado um sub-director, de nome Evo Fernandes, que sofrera a sorte comum — o saneamento; que o director interino era o chefe da Redacção, Henriques Coimbra, mas encontrava-se como observador em Lusaka, nas cerimónias de assinatura do Acordo. A força que existiria no jornal era uma força clandestina, camuflada. Ela estava nas mãos do Heleodoro Baptista, por ser comunista e da Frelimo; do Jorge Figueiredo Jorge, por ser comunista e da Frelimo; do Castro Lobo, por ser comunista e da Frelimo. Claro que tinha havido dissidências mas elas não partiram, embora fossem perfilhadas em silêncio por alguns elementos, do sector da intelligentsia, mas dos operários das oficinas. Esses queriam o pão para a boca e para os seus, e viam ele fugir-lhes com os consecutivos saneamentos na classe que o proporcionava. E essas dissidências chegaram ao paroxismo com o aparecimento, nas ruas da cidade, de um panfleto, impresso no «Notícias da Beira», aconselhando as massas populares a não comprarem o jornal. Esse panfleto, por mais paradoxal que pareça, era assinado pêlos operários do «Notícias da Beira». Esses mesmos homens ousaram ainda, e com o apoio do então secretário de Informação, dr. Willem Pott', sair para a rua com um pasquim, em tudo igual às edições normais do jornal, com a Redacção encerrada e sem director. Todo o trabalho partira do sector oficinal e da iniciativa dos operários, sem auxílio dos intelectuais. Julgamos serem estes dois flagrantes actos de resistência do proletariado do «Notícias da Beira» um interessante tema de estudo da penetração da ideologia socialmarxista na Imprensa moçambicana. Por onde penetra o comunismo numasociedade? Melhor, por onde tem penetrado o comunismo nos países de política ocidental? Diversos exemplos apontam-nos que ele penetra pela classe operária e pêlos pequenos camponeses, só a seguir pêlos funcionários, médicos, engenheiros,advogados, intelectuais, em resumo pela intelligentsia burguesa, se quisermos usar terminologia esquerdista. No «Notícias da Beira» ele penetrara pela última e não era apoiado pela primeira. À juventude intelectualizada, especialmente à ligada às Redacções dos jornais, fora permitido o acesso à Imprensa estrangeira, e a que mais lhe interessava vasculhar era a que então era considerada inconveniente. O quotidiano contacto com as agências noticiosas internacionais — mesmo as ocidentalizadas — trazia-lhes «meias verdades» desconhecidas, pequenas aberturas por onde o pensamento se expandia, embora desorganizado. Durante muito tempo, como intelectual pequeno burguês, o redactor dos jornais pôde comprazer-se com a atitude, repleta de comodidades, de simples observador privilegiado, pois o Governo concedia à sua classe a maior liberdade de contacto com o «mundo proibido», permitindo-lhe uma imersão, cada vez mais profunda, numa

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ideologia que apenas conhecia de algumas obras medrosamente chegadas às livrarias, consideradas não demasiadamente alienatórias. Esses pequenos encontros com as ideias moscovitas não ultrapassavam as paredes das Redacções, sendo, deste modo, mercadoria de consumo exclusivamente interno. A ideologia onde tentavam a imersão não era, porém, pêlos jovens intelectuais assimilada pela base, mas empurrada de qualquer modo, apressadamente. Eles não tiveram oportunidade de a aprender com as famílias, a maioria da média burguesia, e isso marcara, em quase todos, uma ruptura com a sua classe de origem, fazendo-os penetrar num mundo que lhes pareceu confuso. Entretanto a política russa apregoava ostensivamente a sua luta pela igualdade das nações, pêlos direitos à liberdade individual e dos povos, quesitos que iam ao encontro das propagandas políticas mastigadas pêlos profissionais de Imprensa,na clandestinidade permitida das Redacções. A coexistência pacífica soviética era o cavalo de batalha de todos os comunicados, reportagens e crónicas, das agências noticiosas contratadas após o 25 de Abril, na intenção de que os desconfiados ficassem tranquilos e que as massas não politizadas recebessem melhor a propaganda soviética do que até então sucedia. Os jovens redactores agarravam à letra os textos para alimentarem a sua ilusão de liberdade esquerdista, ilusão tanto mais tenaz quanto, para a maioria, esta era a sua primeira experiência política, uma experiência em que muitos, viciadamente alimentados de ideologia personalista, procuravam uma realização pessoal. A Imprensa moçambicana, assim dominada por jovens inexperientes e ambiciosos, passou a encher-se da propaganda socialista soviética, ficando os poucos espaços vagos ao dispor das teorias produzidas por Cuba, pela China e pela Alemanha Democrática, mesmo que essas teorias fossem repetição da propaganda soviética. E, claro, se bem que a princípio isto acontecesse sem ordens expressas da Frelimo, essa iniciativa das massas teve, a curto prazo, obrigatoriedade exigida pelo Partido, que lhe deu, ainda, os necessários impulsos. No mundo germinava o vírus da contestação e as Redacções acolheram mais jovens contestatários, que, depois de enfastiados das leituras de Marx-Engels, se espraiaram pelos trabalhos de Roberto Guillain, Domenach, Marty e outros, conscientes de que, após absorverem a mais completa cultura revolucionária, eram, na verdade, intelectuais revolucionários. A maioria dessa nova escola do jornalismo moçambicano era composta por rapazes portugueses, vindos em criança para Moçambique, e os primeiros contactos com a política foram efectuados junto às máquinas de telex dos jornais. Mas era moda ser-se revolucionário e teriam de sê-lo de qualquer modo. E o que para eles representava obstáculo era mostrar que o eram, para não merecerem a recusa de um lugar na sociedade contestatária intelectual, tão em moda, afundando-se por vezes, para o conseguir, no burlesco. Um colega do «Notícias», de Lourenço Marques, sem grande mérito profissional, receando não ser readmitido naquele matutino após o abandono do serviço militar — estava no activo da tropa «colonizadora» — recorreu ao truque
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vítima, influenciado pela série, suspeita, de agressões de carácter político que proliferava na capital. Uma noite tombou numa artéria citadina, vencido pelo excesso de álcool que ingerira. Feriu-se na queda. Era de madrugada e ninguém assistira ao acidente. Socorrido e transportado ao Hospital, adormeceu entre bocejos de ébrio e vómitos de etilizado. Ao outro dia o seu jornal noticiava que o redactor fulano de tal fora barbaramente agredido por inimigos da liberdade. O tal colega acordou com direito a ser comunista após a ressaca, mas o pessoal do Hospital não colaborou na comédia. O «Notícias», porém, nunca rectificou a local, agarrando com unhas e dentes a oportunidade de possuir nos seus quadros um jornalista que não podia ser acusado de fascista. E, dias após, comunista respeitável e frelimista da primeira apanha, o «nosso» herói teve a honra de ver em todas as montras e paredes de Moçambique um poema seu, dedicado a Samora Moisés Machel, servindo de legenda a um gigantesco «póster» do presidente da Frelimo. Meses depois, a mulher do herói discursava em Tete, do alto de um púlpito e em nome de todas as mulheres de Moçambique. O futuro estava assegurado ao jornalista Guilherme da Silva Pereira e a sua mulher. E estávamos ainda sob o domínio do Governo de Transição. Outros aderiram ao G.U.M.O., partido político criado após o 25 de Abril e chefiado por Joana Simeão, evitando, deste fácil modo, a denominação de fascista tão em moda, verificando-se, a curto prazo, que em Moçambique não existia um único jornalista das «direitas», e que fora da Imprensa só haviam sido fascistas o Governo Geral e os seus secretários provinciais. E os jornalistas provavam que nunca o haviam sido pois todos sabiam recitar Lenine ou Mao-Tsé-Tung, para parecerem progressistas, como definiria mais tarde Fernando Barradas esta estranha fauna «como cordeiros amestrados atrás do prémio, da segurança, de serem desde pequeninos, comunistas». Os mais directos colaboradores da Imprensa moçambicana do tempo de Marcello Caetano apareceram como agressivos defensores da Frelimo, sujeitando-se às mais escabrosas traições ao povo português para agradarem ao Partido. Outros,ainda, não tendo a sorte de serem agredidos numa rua da capital, nem meios económicos para irem a Dar-es-Salam abraçar Samora Machel e pregoar a sua militância à Frelimo, publicando-a em letras gordas nos seus jornais, tentaram ser os primeiros a contactar os guerrilheiros em pleno mato — mas sem arriscarem a pele — para em seguida, com os seus escritos, reclamarem o preço merecido pelo seu gesto tradutor de militância — um tacho. Um pequeno exemplo: Algum tempo depois do 25 de Abril, e quando a população não sabia, ainda, se a guerra havia terminado, fui informado, por um meu contacto habitual, de que um grupo de guerrilheiros da Frelimo se encontrava nas proximidades de Tete. Para o encontrar teria de seguir em viatura cerca de sete quilómetros, na estrada Tete-Beira, e depois caminhar mais cerca de quatro quilómetros por picadas de difícil acesso.

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— Vale a pena — dissera-me o meu interlocutor, acrescentando: — O comandante desse destacamento é um guerrilheiro célebre, indivíduo muito humano, de nome Raimundo Dalepe, um maconde. Eu encontrava-me no aeroporto de Tete, prestes a tomar o avião para a Beira; adiei a viagem para o dia seguinte e segui o meu informador. Percorremos o caminho indicado e contactámos os guerrilheiros. Nada havia sido preparado; a minha visita fora uma surpresa para eles. No dia seguinte o «Notícias da Beira» publicou o meu encontro com a Frelimo e uma pequena entrevista que o Raimundo Dalepe me concedeu. Poucos dias depois uma equipa da Televisão Portuguesa, chefiada por SerrasFernandes, procurou-me. Queria contactar com os guerrilheiros e pedia a minha colaboração. O encontro foi conseguido mais perto da cidade e tive tanta confiança nele que a minha mulher nos acompanhou. Os guerrilheiros foram filmados no seu «habitat» sem qualquer preparação, sem o mais pequeno embuste, e eu fui colhido pelas objectivas da T.V.P. em diversas imagens, dialogando com eles. O filme correu mundo. Um amigo viu-o com surpresa em Paris. A Televisão Portuguesa apresentou-o para todo o Portugal. Mesmo assim, bastante tempo depois, a revista moçambicana «Tempo» publicava uma extensa e especulativa reportagem da autoria de José Quatorze, colhida no Màzoe, pacífica zona próxima de Tete, quando em todos os cafés, bares, ruas, cinemas, jardins e em algumas casas particulares de Tete e da maioria dos centros urbanos do Norte, se encontravam guerrilheiros fardados, armados e desarmados, confraternizando comcivis e com as Forcas Armadas Portuguesas. A reportagem, que se rodeara de ridículo cenário a que não faltou uma patética caminhada a pé, não se esquecia de sublinhar, em «caixa alta», que «Tempo», por intermédio de José Quatorze, fora «o primeiro órgão de Informação a contactar os heróicos guerrilheiros da Frelimo». A revista foi entregue pessoalmente a Samora Machel em Dar-es-Salam, e José Quatorze viu o seu futuro assegurado na Imprensa de Moçambique. Era mais um homem de confiança no país que ia nascer, sob os auspícios de uma ditadurasocialista, para a comunidade das nações. Algum tempo depois foi nomeado pelo Partido para o cargo de chefe de Redacção do «Notícias da Beira», incrementando esta sua nomeação a luta e os insultos à colónia portuguesa, o que levou à demissão ou ao afastamento a maioria dos jornalistas, que, lutando contra a maré, ainda se conservavam íntegros. De notar que a nomeação de José Quatorze para chefe de Redacção do «Notícias da Beira» seguiu-se à escolha pela Frelimo do advogado Afonso dos Santos para director do jornal, como recompensa pêlos seus esforços de «democrata liderante» ensaiados na Beira em Janeiro de 1974, com a presença naquela cidade do general português Costa Gomes. Recorda-se, apenas como nota elucidativa, que este advogado fora mais tarde enviado, com outros suspeitos «democratas», a Dar--esSalam, na intenção de preparar o encontro entre a Frelimo e as autoridades portuguesas, atitude que teve a iniciativa do general Costa Gomes e foi jocosamente criticada por Samora Machel. Lá chegaremos, porém.
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MOÇAMBIQUE COM A FRELIMO

Os manifestantes abandonaram as viaturas e concentraram-se em frente da Redacção. Desconhecíamos o que tencionavam fazer, e eu pensava que eles próprios não traziam programa definido. Proibir a publicação da edição de 8 de Setembro? Agredir os jornalistas? Acreditávamos que entre a compacta multidão existissem extremistas. Existem sempre em todas as manifestações de carácter político ou de desforra, mas confiávamos, não sem algum receio, que a maioria —— especialmente os indivíduos mais influentes do numeroso grupo — apenas desejasse pregar um pequeno susto aos fabricantes do jornal, que diariamente e na intenção de agradar à Frelimo, viravam as suas armas mais envenenadas contra Portugal e contra o povo lusitano. Jorge Figueiredo Jorge atrevera-se, no seu entusiástico maoismo despoletado, a amesquinhar e ridicularizar a cultura portuguesa, atitude que Samora Machel tomaria imensas vezes depois. Era necessário agredir de qualquer modo, e creio que pouco do que existe em .Portugal se esquivou às seringadelas de veneno dos seus escritos. E o que por ele foi poupado não teve a mesma sorte na prosa do Heleodoro Baptista e do Castro Lobo. A atitude destes jornalistas, seguida mais medrosamente por outros, espantava os portugueses. Eles tinham conhecimento das palavras de Eduardo Mondlane, muitas vezes divulgadas pela Imprensa após o 25 de Abril, pronunciadas na Conferência Internacional de Solidariedade com os Povos das Colónias Portuguesas e da África Austral, realizada em Janeiro de 1969, em Kartum: «O povo português deve compreender que o povo moçambicano é um povo fraterno. Nós, moçambicanos, nada temos contra o povo português nem contra a cultura portuguesa. Ao contrário». Samora Machel, seu seguidor na presidência da Frelimo, discursando no Norte no seu primeiro contacto com as populações do Niassa, diria que a cultura portuguesa «começa às dez da noite e termina de madrugada. Ë uma cultura de cabarés, de álcool e de prostituição», o que mostra o contraste flagrante da forma de pensar dos dois dirigentes a respeito de Portugal. Na verdade, nada já existia de comum entre a Frelimo de Mondlane — nacionalista — e a de Samora — escrava do imperialismo soviético. O telex chama. Era de Lisboa a Emissora Nacional, tentando informar-se sobre a situação em Lourenço Marques. Marcam novo contacto e damos-lhes um código para que soubessem que era connosco que contactavam, pois receávamos, tão grande era o alvoroço no exterior do edifício, que o que de melhor nos poderia acontecer era sermos desalojados. Oiço com mais atenção a voz do locutor. Diz que junto a «Rádio Moçambique Livre» se encontram centenas de mulheres e de crianças, apelando, imediatamente a seguir, a mais mulheres e crianças para que se juntem à multidão. «A cidade de Tete aderiu em pleno. Somos de minuto a minuto mais e melhores. Automóveis percorrem todas as ruas daquela cidade, buzinando,
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chamando a população que já se está a concentrar. Um grupo de nossos irmãos tentou sabotar as antenas do Emissor Regional, não sabemos se com sucesso. Aquela Emissora ainda não aderiu ao nosso Movimento...» E logo a seguir, em tom convincente: «Fala-vos Rádio Moçambique Livre. Saiam para as ruas. Venham para junto de nós. Apoiem-nos com a vossa presença física. Tragam cigarros e café que a noite está fria. Tragam cobertores. Há mulheres e crianças junto de nós, em toda a rua. Seremos mais. Temos de ser todos. Venham para junto de nós...» Os meus camaradas na Redacção fitam-se lívidos. Era isto a descolonização? Se o era não condizia com as declarações de Vítor Crespo, um dos homens que assinara o Acordo: «Descolonizar significa entregar os poderes de soberania sem que haja convulsão social, em paz e harmonia entre os diversos sectores da população, para que se possa criar o clima de reconstrução nacional, essencial ao progresso do povo até agora colonizado...». Aceito o risco de me censurarem por afirmações que não são admitidas por alguma gente: A nação moçambicana encontra-se preparada para receber a Independência; a Frelimo, não. Não sendo, portanto, contra a Independência, penso, e pensarei até me provarem o contrário, que a maioria dos observadores sabiam que Moçambique com a Frelimo não sobreviveria. O Partido estava preparado para uma luta demorada de guerrilha e não para dirigir um país. Em todos os sectores da actividade económica e administrativa não existiam quadros, nem em quantidade nem em qualidade. Os quadros teriam de ser, forçosamente, por tempo ilimitado, de nacionalidade portuguesa, os compostos por moçambicanos não militantes do Partido, mas isso não interessava aos comunistas — o pequeno grupo que rodeava e amestrava Samora Machel. Para eles a Frelimo teria de sobreviver por si própria e apenas com o auxílio do eixo comunista, seu importante credor das despesas de guerra. Moçambique estava preparada para a Independência e a Frelimo não. O 25 de Abril e as resoluções apressadamente tomadas prejudicaram a Frelimo nacionalista — beneficiando o sector extremista — e precipitaram os acontecimentos. Samora Machel, num dos seus poucos momentos de verdade, quando a vigilância dos «cérebros» que o rodeiam afrouxou, confessaria no Niassa — declarações transcritas na revista moçambicana «Tempo» — que «foi pena que a guerra contra o colonialismo português não se tivesse prolongado por mais cinco anos». Mesmo assim, as negociações decorreram apenas com a Frelimo, tal a aceleração pretendida por Melo Antunes para a descolonização. Melo Antunes soube aproveitar-se da situação política e social de carácter anarco-populista que adoentavaas estruturas governativas portuguesas, e da intensa campanha movida contra o Ultramar pelas forças progressistas a nível popular, aliciamento a cargo da Internacional Comunista. Ele foi, apenas, um intérprete, tipo «roberto de feira» do«entreguísmo» das colónias portuguesas ao imperialismo soviético. Portugal e a Frelimo não permitiram a presença de observadores moçambicanos, não afectos ao Partido mas simpatizantes da libertação nacional, de homens que, no
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contacto directo com as realidades moçambicanas, tivessem conhecimentos e força moral para aconselhar, para orientar Portugal e a própria Frelimo, mesmo sabendo-se que as autoridades portuguesas, representadas em Lusaka, desconheciam as gentes e as terras moçambicanas, as reivindicações honestas e humanas do povo,as suas necessidades reais, os seus anseios, a forma de liberdade pela qual lutavam. Mas sabiase, também, que a Frelimo, com uma dezena de anos de luta, período de tempo em que apenas contactou as zonas do interior, que pouco ou nada representavam no contexto económico, político e humano de Moçambique, vivendo com sede no estrangeiro e visitando clandestinamente a parte mais desértica e menos civilizada da colónia, desconhecia, do mesmo modo, a realidade moçambicana. Pode-se, assim, afirmar que o Acordo de Lusaka foi negociado entre duas entidades estranhas a Moçambique: o Governo de Portugal com sede em Lisboa, e a Frelimo com sede em Dar-es-Salam. Mas era com a Frelimo que Portugal teria forçosamente de negociar a descolonização segundo a pusilanimidade dos então governantes de Portugal, aberrativamente exposta por Vítor Crespo: «Descolonizar é transferir os poderes que o Estado Português detém para a Frente de Libertação de Moçambique. E porquê a Frelimo? Porque foi o Partido, a Frente, que manteve a luta armada pela independência nacional durante dez anos e tem o apoio generalizado. Por isso a única força política em Moçambique.» A opinião de Vítor Crespo era a da maioria dos dirigentes portugueses. As suas palavras eram as do Governo de Portugal, dominado, na sombra, pelo general Costa Gomes, que se acobertara sob o prestígio do general António de Spínola. Eram a própria opinião do mal informado povo português, logrado pelo chavão da solução política que o Acordo de Lusaka parecia representar. O povo moçambicano e os habitantes portugueses de Moçambique, subjugados pelas armas dos dois negociantes, iam ser entregues, sem remissão, à vontade moscovita representada pela Frelimo, mesmo circulando de boca em boca, medrosamente, a afirmação de que um ano antes, no dia 12 de Setembro de 1973, o Presidente Kaunda da Zâmbia havia-se debruçado sobre o problema moçambicano, apresentando um programa intitulado «Plano de Lusaka», onde era prevista a participação da Frelimo no futuro Governo de Moçambique, mas não em regime exclusivista. A solução, programada então, da qual o Governo Português tivera conhecimento pelo então cônsul do Malawi em Portugal, eng.° Jorge Jardim, antes de 7 de Setembro de 1974, definia que os movimentos nacionalistas, tais como a Frelimo, deveriam ser reconhecidos como importante factor político, cuja participação no formular da futura estrutura política não podia ser ignorado. Saliente-se importante; não exclusivo. De notar, porém, que este «Programa», cujo cumprimento honraria Portugal e as suas Forcas Armadas, aquelas que o 25 de Abril afirmou representar, estava em vésperas de ser integralmente aceite. Já o fora por Nyerere, Presidente da Tanzânia, pelo dr. Hasting Banda, Presidente do Malawi e o mais inteligente e lúcido dirigente
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da África Austral, e assinalava-se, com optimismo, a adesão incondicional de Samora Machel, ainda não manobrado completamente pelo seu grupo intelectual--comunista. Ao contrário do Acordo de Lusaka, apenas um ano depois assinado, Moçambique não era entregue a Moscovo mas ao povo moçambicano. Recorde-se, ainda, que o professor Marcello Caetano afirmara, também, pela mesma altura, ao definir a sua política de «Autonomia Progressiva e Participada» que «não recusava a Independência, se esta traduzisse a vontade local, autenticamente expressa». Não era, pois, a Independência que estava em jogo. Jogava-se o «processo», e venceu o engendrado pelos extremistas. Havia apenas necessidade de lhe criar ambiente propício, e os oficiais comunistas portugueses, e os pseudodemocratasmoçambicanos, que hoje, após terem atirado Moçambique às feras, passeiam por Lisboa, criaram esse ambiente acelerando o Acordo, para que este não fosse ultrapassado pelo Programa. A Frelimo comunista vencera a Frelimo nacionalista. As ideias de Mondlane foram espezinhadas pelo grupo que domina Samora Machel. E é dentro desta perspectiva, onde existe apenas um substracto comum — a Independência — que SamoraMachel exerce o seu papel de ditador, dirigido pelo seu grupo de intelectuais extremistas, e organiza o seu novo Estado segundo as concepções comunistas. Dois elementos fundamentais simbolizam o poder moçambicano: O Partido e o Chefe. O terceiro elemento fundamental foi esquecido: O povo. 4 UM ESTRANHO FREMILISTA

O Machado, chefe geral das oficinas, entra na Redacção. Vem calmo. Junta-se a nós, que nos acocorávamos nas vigias deixadas pêlos aparelhos de ar condicionado. O silêncio voltara à rua. Não era um silêncio pesado, mas apenas a ausência dos gritos que os nossos ouvidos captavam havia mais de duas horas, um murmúrio composto por conversas a baixa-voz, como se toda aquela plateia revolucionária se interrogasse. Fazia lembrar — e essa imagem me veio ao pensamento, ali e naquela hora — os décimos de segundo que antecedem o sinal de partida dos atletas numa prova pedestre de velocidade. Desceu à portaria e eu acompanho-o. Centenas de pessoas acotovelavam-se em todo o comprimento exterior do edifício. A nossa defesa era assegurada por meia dúzia de agentes da Polícia de Segurança Pública, pois, embora a situação fosse dramaticamente comunicada às Forças Armadas, ainda nenhum militar comparecera. Destacam-se quatro homens da primeira fila e dirigem-se-nos. Dois são brancos, um é goês e outro é negro. A presença do último leva-me a olhar a plateia de manifestantes: Mais negros, muitos negros, em toda a parte. Por que se afirmava, então, que a Frelimo tinha o apoio total do povo negro?... Mas quem o afirmava? Não eram apenas o Governo de Lisboa e nós os jornalistas? ... É um dos brancos que fala pelo grupo:
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— Queremos dialogar com os jornalistas, mas com todos. O jornal tem que ser encerrado, a bem ou a mal. Ë melhor compreenderem a nossa posição e muito especialmente a vossa... O Machado pede-lhes que subam à Redacção. Eles falam com alguns das primeiras filas. Há observações de apoio e de descontentamento. Existe quem prefira quebrar as montrarias, destruir as oficinas, arrasar tudo, silenciando, de uma vez para sempre, o único jornal beirense. Os agentes da P.S.P. estudam a situação de armas aperradas. Parecem em menor número: Alguns haviam-se espalhado por pontos estratégicos, por forma a melhor dominarem a situação. O que está mais perto de mim sussurra-me que, em caso de emergência, tínhamos assegurada a saída pelas traseiras. Acompanho o Machado e os quatro manifestantes. Penetrámos na Redacção silenciosa. Os restantes colegas rodeiam-nos e é o mesmo branco que fala. Calça chinelas de quarto e veste camisa vermelha de quadros, que lhe cai com sofisticadodesleixo sobre os calções: — O que queremos é que vocês fechem imediatamente o jornal. Não permitiremos que amanhã as vossas mentiras venham prejudicar o Movimento... Estamos dispostos a conseguir o que queremos pela força e sem olharmos a consequências. O Machado responde-lhe, mas dirigindo-se a nós: — Vamos rapaziada. Desliguem o quadro geral!... O jornal é encerrado por uns dias, e os jornalistas comunistas hibernaram por mais um mês, não metendo as cabeças fora das tocas onde se encolheram, ruminando vinganças, nos intervalos das leituras dos clássicos do marxismo e dos seus discípulos modernos. A multidão não dispersara ainda e comentários, e olhares de ódio e de desprezo, são dirigidos na nossa direcção. Quando abandono o jornal levo nos ouvidos, ressonando como matracas, as últimas palavras que ouvira ao locutor: «Um grupo de nossos irmãos tentou sabotar as antenas do Emissor Regional de Tete, não sabemos se com sucesso. Aquela Emissora não aderiu ao nosso Movimento...» O meu pensamento volta-se para a cidade que apenas no dia anterior deixara. E recordo: Nos princípios de Abril de 1974, a poucos dias da queda do Governo de Marcello Caetano, encontrei sobre a minha secretária de trabalho uma carta muito mal redigida. Fora seu autor um comandante da Frelimo. Levei a missiva para casa e a São, minha mulher, falou dela, no intervalo de uma emissão, a alguns dos seus colegas de estúdio onde então trabalhava — o E.R.T. do Rádio Clube. O jornalista Santos Martins informou a D.G.S., chefiada pelo inspector Sabino, e eu e minha mulher fomos incomodados. Afirmava-se, à boca cheia que ele era, de velha data, informador da P.I.D.E. Eu, porém, via-o apenas como homem pouco culto que queria tirar partido de meios oportunistas para ocupar posições para que não lhe chegava o mérito. Mas foi ele próprio que na minha ausência, e por ordem do inspector da
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D.G.S., tentou convencer a minha mulher para que ela lhe entregasse a carta, afirmando-lhe que cumpria instruções minhas. Ela escondera a carta no corpete mas negou possuí-la. Meses após, depois de curta passagem por um grupo fantoche de Democratas — criado após a revolução dos cravos — para onde entrou pelas mãos de um comerciante com pretensões a literato e ex-lider do G.U.M.O., de nome Isaías Marrão, traidor português responsável por inúmeras prisões de colonos na província de Tete, o jornalista Santos Martins entrava nas estruturas da Frelimo, e conseguia deitar mão a algumas alavancas do comando político de Tete, esquecendo a sua recenteadesão à política colonialista. O seu sucesso foi rápido e brilhante. Candidato ao cargo de professor de Política da Frelimo, na escola secundária local, passou a leccionar História. Como habilitações literárias lia-se no seu curriculum vitae, na proposta ao professorado:Estudioso do socialismo e das teorias marxistas-leninistas. Cativou a Frelimo e transformou-se no mais entusiástico e perigoso militante, presidindo a reuniões a nível distrital do Partido. Construiu duas residências. Dirigiu um Emissor. Representou o mais importante jornal de Moçambique. Foi proprietário de uma discoteca. Foi professor num curso médio, muito acima da sua cultura. E, finalmente, regressou a Portugal, após ser vítima, como todos os portugueses, das nacionalizações, residindo actualmente na cidade universitária namorada do Mondego. Mas nas prisões em Moçambique ficaram algumas das suas vítimas. 5. O ÓDIO DE JORNALISTA AOS PORTUGUESES

Regresso a casa. Toda a minha família estava nas proximidades do receptor, atenta às notícias, que, em torrente, nos eram trazidas pelo éter: «Temos a alegria de comunicar que foi retirado o mandato de captura ao senhor engenheiro Jorge Pereira Jardim...» «Julgamos que o senhor general Spínola está a compreender a nossa situação, o motivo do nosso Movimento, e o vai apoiar...» «A cidade de Inhambane adere ao Movimento. Há alegria nas ruas...» «Milhares de portugueses da África do Sul dirigem-se para Lourenço Marques em longos comboios de viaturas automóveis. As autoridades sulafricanas estão a facilitar a sua passagem na fronteira com Moçambique...» «O jornal «Diário» prepara-se para sair com uma edição. Levem cigarros e café aos valorosos jornalistas. Já está garantida a chegada de papel para as futuras edições daquele jornal...» E muitas coisas mais.
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A voz do locutor é persuasiva, mole por vezes, agressiva por outras, convincente sempre. Continuam a ouvir-se sirenes pela cidade, por onde centenas de viaturas circulam em cortejo. É gente que não pensa em dormir e eu adivinho no interior das carrinhas, das camionetas e dos automóveis — de que apenas vejo os faróis à distância — pessoas atentas à voz do locutor, querendo acompanhar, como nós, toda a sequência do imbróglio para que já não se vislumbra uma solução pacífica. Como reagirá a Frelimo? Interrogo-me, e como eu milhares de pessoas por Moçambique afora. Não farão idêntica pergunta a si próprios, todos aqueles que fazem guarda •— homens, mulheres e crianças — junto ao Rádio Clube de Moçambique, em Lourenço Marques, ou se encontram na Praça do Município da cidade da Beira, ou, ainda, essoutros que se acumulam nas vilas e aldeias do interior, ou isolados nas choupanas humildes, ouvem, estupefactos, o que o locutor agora afirma, tão diferente do que ontem foi propagado pelo mesmo Emissor, ou pespegado em caracteres de Imprensa nos jornais moçambicanos, verdadeiras guardas avançadas do Kremlin, incitando, ante a passividade criminosa dos dirigentes, com a ilegitimidade das suas doutrinas os saneamentos indiscriminados, as prisões arbitrárias, os espancamentos, as torturas, as expulsões, a negação da cultura portuguesa, a usurpação criminosa e selvagem de terras e de habitações, tudo ordenado pela moral dos serventuários do imperialismo soviético? A História um dia falará da influência da Informação moçambicana na escalada do terror que destruiu Moçambique. Testemunhos não faltarão: Como chefe da Delegação do «Notícias da Beira» na província de Tete recebi, com surpresa, uma comunicação de que uma equipa de reportagem visitaria aquela zona moçambicana, a fim de colher elementos para uma edição especial. A minha surpresa justificava-se, sobretudo por, durante os cinco anos de guerra naquela província, nenhum dos meus colegas se oferecer, ou aceitar quando imposto, qualquer serviço na região, facto que contra a minha vontade me obrigava à acumulação de férias. A equipa seria composta pelo repórter Mário Ferro — secretário de Informação do Grupo Dinamizador da Frelimo — pelo repórter-fotográfico Carlos Rodrigues, e por um publicista encarregado de adquirir fundos para a feitura da referida edição. Os nossos homens seguiram para a Angónia depois de pedirem apoio ao Partido em Tete, e ali, acompanhados por elementos fardados da Frelimo, percorreram todas as casas comerciais e as machambas agrícolas portuguesas, arrecadando cerca de cem mil escudos de «publicidade». Os amedrontados portugueses entregavam-lhes quanto lhes fosse sugerido, receosos de caírem no desagrado da bélica comitiva. Aquela região era a mais rica de Moçambique, considerada o celeiro do país. Ali eram produzidas as batatas que Moçambique consumia, parte do milho que alimentava a população, e diversas experiências no campo frutícola foram coroadas de extraordinário sucesso. Era, ainda, fértil produtora de carnes, sendo por este e outros
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motivos uma região onde o povo nunca conheceu a fome e a revolução armada da Frelimo não vingou, nem obteve êxitos militares e políticos. O angone não ignorava que toda a riqueza da região partiu da experiência portuguesa, da sua agricultura evoluída, da sua técnica, presente nas máquinas que substituíram definitivamente os processos tradicionais de cultivo. Deste modo, não desconhecia que a riqueza que usufruía era a parte que lhe cabia da iniciativa portuguesa. Mário Ferro viu tudo isso e encolarizou-se. O choque que sentiu ao deparar com abundância de víveres e de cereais numa província de um país onde se formam bichas para adquirir arroz, para comprar um pão, fez ultrapassar a dose de paciência que o seu extremismo, mais que comprovadamente militante, permitia e virou ódio. Ódio que dirigiu no sentido mais fácil e tolerado pelo Partido: Aos portugueses. O desafogo económico colectivo era, para ele, uma ofensa ao povo do Sul, miserável e faminto. Não se preocupou em estudar os motivos da abundância, porque não lhe interessou observar a vida, o trabalho e o combate da classe agricultora. Não olhou as mãos calejadas dos trabalhadores negros e brancos. Não fitou, de frente, os rostos curtidos pêlos frios das madrugadas serranas e pelos calores das várzeas tropicais, naquele pedaço de mundo onde todas as temperaturas são permitidas. Excitado, destilou veneno num artigo sobre os agricultores portugueses da Angónia, alcunhando-os de elitistas, de sabotadores económicos, e de outras definições usuais no dicionário político da Frelimo. A sua injusta opinião demagógica fazia-lhe ver na fartura uma caótica subversão a roer as estruturas comunistas, que necessário se tornava implantar em toda a Angónia. E a Angónia mostrava-se alérgica ao comunismo ... porque era rica. Lavrar, semear, colher mecanicamente, era desmentir a capacidade de trabalho do povo moçambicano, que deveria ser orientado para as machambas colectivas. O futuro de Moçambique estaria assegurado pela mobilização maciça de agricultores em regime de «kolkhoz», essas tão faladas cooperativas agrícolas de inspiração comunista, amoçambicadas pela definição de «machambas colectivas». Alardeando fartos conhecimentos dos conceitos esquerdistas, Mário Ferro falou das disparidades de riqueza e miséria e, para cabalmente cumprir a sua missão de extremista, entrou na campanha demagógica em curso pelo Partido, preconizando o dimensionamento das explorações. Ao bom entendedor — e o Partido que lhe encomendara o sermão era-o, de certeza — estava posta a funcionar a engrenagem que levaria à depradação dos bens e à perseguição dos portugueses residentes na Angónia. A resposta ao apelo de Mário Ferro não se fez esperar, e, por ordens da Frelimo, é detido poucos dias depois um agricultor de nome António Ferreira Abreu. Transportado sob prisão para Lourenço Marques foi ali enclausurado em regime incomunicável. Sua mulher e filha — uma criança doente — sofreram igual sorte. A

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solução chegou para todos com a expulsão de Moçambique, após haverem sofrido as mais desumanas humilhações e maus tratos. A acusação baseou-se em «crime de sabotagem económica», mas o acusado não foi julgado em nenhum tribunal. Entretanto nas terras do detido apodreceram, sem que alguém as retirasse do solo, centenas de toneladas de batata, enquanto o povo moçambicano do Sul morria de fome. Nos seus armazéns ficaram mais de um milhão de escudos de mercadoria, entregue à destruição do tempo, enquanto nos lares do Sul os pais gemiam ao ouvir os filhos chorar com fome. Repito: António Ferreira Abreu não foi julgado. Nenhum tribunal se debruçou sobre o seu caso. A justiça comunista fora praticada por um jornalista português e por um guerrilheiro de nome Eusébio Nenhum Fica, comissário político na província de Tete, figura representativa do mais cruel sadismo e das mais descaradas prepotências, de que nos ocuparemos ainda. Prosseguindo o programa de Mário Ferro, algum tempo decorrido é encarcerada a totalidade dos agricultores portugueses e a maioria dos comerciantes, nestes se incluindo cinco moçambicanos. A justificação para a captura era serempossuidores de armas — embora estas se encontrassem em seu poder por determinação das autoridades. Foram transportados, como animais, em camiões de carga, permanecendo numa cela colectiva durante uma semana. Após o seu regresso àliberdade tem início o êxodo dos portugueses da Angónia e grande parte deles fixa residência no Malawi, onde a sua experiência agrícola é acolhida de braços abertos pelo Governo do dr. Hasting Banda. O povo da Angónia pede para os portugueses não se afastarem das terras que enriqueceram. Manifestações de negros imploram ao Governo a protecção para os portugueses. Agricultores angones botam sentidos discursos louvando o trabalho dos portugueses quando alguém graúdo visita a Angónia. Porém o programa do Partido estava traçado: O comunismo só penetraria naquela estratégica região nortenha quando a miséria substituisse a abundância. A experiência portuguesa estava a mais na Angónia e em seu lugar ficou a fome. As desigualdades económicas deixaram de existir. Antes de regressar à Beira, o secretário do Grupo Dinamizador da Frelimo da Secção de Informação, e repórter do «Notícias da Beira», Mário Ferro, publica novo trabalho, e nele afirma existir assinalável incremento da prostituição em Tete, referindo alguns bares que empregam mulheres portuguesas. Foi incisivo e directo: A prostituição era prática das mulheres empregadas em determinados estabelecimentos, por estas serem, na maioria, portuguesas. Este seu trabalho motivou uma vigorosa acção do Comissariado Político de Tete, acção que levou dezenas de mulheres a serem isoladas em terríveis e criminosos «campos de reabilitação», junto à fronteira da Tanzânia, de onde poucasregressaram com vida. As que sobreviveram foram consideradas inocentes pela Frelimo. Tenho em meu poder um desses certificados de inocência, passada a uma jovem de aspecto frágil,
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sobrevivente do campo de «reabilitação» de Luatize. Essa jovem, Maria Fernanda— inocente como a própria Frelimo reconhece num documento oficial — foi uma das vítimas de Mário Ferro. Tinha consigo documentos que a Frelimo destruiu— entre eles um passaporte português. O único motivo do seu infortúnio foi a publicação de um trabalho de um jornalista português, que nem sequer a conhecia. Esta pode acusá-la e acusa-o, de certeza. Mas e as outras? As que ficaram pelo caminho?... 6. UM PEQUENO DRAMA NA BEIRA

Passámos a noite na sala — eu e a minha família — ouvindo o «Rádio Moçambique Livre». O locutor ia acrescentando novas adesões ao Movimento. Informava repetidas vezes que o «Diário», o mais antigo jornal de Moçambique, seria publicado no dia seguinte, voltando a pedir que levassem cigarros e cafés quentes e refrigerantes aos «abnegados trabalhadores» daquele órgão de Informação, ao tempo que apelava aos linotipistas, paginadores, tituleiros e outros técnicos, para se dirigirem às oficinas do velho «Guardian». O «Notícias da Beira» e o «Notícias» estavam fora de combate por vontade das massas portuguesas, como o estariam, ainda, durante bastantes dias. Do primeiro jornal não se veria ninguém nas ruas beirenses. Os esconderijos eram os mais diversos, e nern os colegas saberiam onde encontrar o Heleodoro Baptista, o Jorge Figueiredo Jorge, ou o Castro Lobo. Eu percorreria, nos dias seguintes, as ruas da cidade, onde o comércio não abrira as portas. Caminhando devagar, espreitava com os ouvidos as residências e em todas ouvia as vozes dos locutores da «Rádio Moçambique Livre». As notícias eram as mesmas: Mais adesões; a esperança de que os enviados do general Spínola resolvessem algo a contento dos cabecilhas do Movimento; conclusões favoráveis no encontro entre os representantes de todos os movimentos e partidos políticos que proliferavam na colónia; mundos de devaneios, de ilusões, de certezas amontoadas sem os alicerces da lógica política; esperança de que o dr. Domingos Arouca comparecesse a reuniões a que se mostrava alheio e estranho ... Caminhando devagar, eu ouvia conversas contrárias ao Movimento nos poucos bares abertos à gente sedenta, conversas de pessoas que o consideravam tardio e irremediavelmente condenado ao fracasso. Ouvia afirmações que prediziam que o que estava a acontecer iria conduzir a um inevitável derramamento de sangue, que opinavam que depois de Portugal se comprometer em Lusaka não mais retrocederia. Ouvia pessoas — quase todas desejavam a independência moçambicana — que viam o problema pelos olhos dos partidos a que entregavam a sua simpatia: Uns opinavam por Lenine que não se vence apenas com uma vanguarda, que lançar
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umavanguarda numa batalha decisiva, enquanto a classe no seu conjunto, a massa, não adoptou uma atitude de franco apoio, pelo menos de neutralidade benevolente que a torne incapaz de deter o adversário, seria mais que uma estupidez, seria um crime. Outros «iam» pela Convergência Democrática, esperando que Portugal conseguisse construir, entre os seus territórios coloniais e as parcelas atlânticas, uma espécie qualquer de confederação. Muitos eram de opinião de que todos os partidos deveriam ser ouvidos, e falavam no G.U.M.O., no F.I.C.O., todos porém distribuindo opiniões mas ninguém definindo claramente ideias. Do mesmo modo procediam os oradores que se apresentavam aos microfones do «Rádio Moçambique Livre», ou subiam ao púlpito formado por uma camioneta engalanada com estandartes portugueses, encostada a um canto de um extremo daPraça do Município da Beira, onde, durante três dias e três noites, frias e de cacimbo, centenas de pessoas, velhas e novas, negras, mestiças e brancas, marcaram presença. Eu não me podia admirar ao encontrar estas centenas de revolucionários, incorrigivelmeníe esperançados numa viragem radical ao Acordo de Lusaka já assinado, mas podia criticar o suporte das suas opiniões. E olhando essa gente — e vejo uma mulher paralítica no seu carrinho, uma velha junto ao fogareiro e frigideira, uma mãe enregelada retirando o frio a uma criança de meses, um velho reformado asmático — eu sabia que eles sairiam dali mais vencidos. Caminhando devagar, eu ia ao encontro do entusiasmo popular, do optimismo que eu não entendia, vendo, na cidade inteira, um gigantesco teatro onde se representavam, simultaneamente e sem centrastes, milhares de dramas e de comédias. E os intérpretes do espectáculo de que me sentia espectador não entendiam as minhas recusas, quando me abordavam para que eu convencesse os meus colegas mais moderados a abrir o jornal, e a sair para a rua uma edição «fantasma» de apoio ao Movimento, a exemplo do que o «Diário» estava a fazer em Lourenço Marques. Não entendiam as minhas fugidias negativas cheias de coerência. Não compreendiam que eu sabia que o gesto que me ditavam estava a virar contra eles, contra nós todos, as armas da Frelimo e das Forças Armadas Portuguesas leais ao M.F.A.; estavam a virar contra eles a força de quantos entregaram Moçambique à Frelimo. Caminhando devagar, cruzei-me com grupos de soldados de Portugal que haviam enfeitado as suas armas com cravos rubros, numa grosseira imitação das fotografias publicadas nos jornais reportando o 25 de Abril português, e que levantavam a mão direita em gesto grotesco, colocando dois dedos em símbolo de vitória. Para estes sorri. E acenei com ambas as mãos. E quase gritei: Eles eram as maiores vítimas em Lusaka. O sangue dos seus camaradas, que pintaram de honra o sertão e levantaram monumentos de bravura nas picadas mais remotas, havia sido traído pêlos seus chefes numa cidade estranha de um país mais estranho. Desço rnais uma vez à baixa no dia seguinte. Paro junto ao aglomerado humano que se comprime perto de um orador na Praça do Município. Conheço quem gesticula e fala: É o dr. Lúcio Sigalho, advogado do foro beirense.
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Fico-o ouvindo sem interesse, mau grado entusiásticos aplausos cortem amiudadas vezes a sua voz. A meu lado a São, que estreara uma maxi-saia que lhe prendia os movimentos, pede-me que abandonemos o lugar. Mas eu sinto-me atraído pêlos rostos de quantos escutam o orador, pelas expressões daquele pequeno exército pacífico composto por homens sem história, por mulheres e por crianças. Revelar-me-iam o motivo individual por que estavam ali? Apenas porque julgavam que cumpriam o seu dever ou por obrigação política? Ou ainda por uma tomada de consciência colectiva repentina? Havia ali gente de toda a espécie; estava ali o povo, essa massa que constrói partidos, que apoia governos, mas que raramente os sabe derrubar. Estavam ali, também, os «progressistas», homens e mulheres que se queriam apresentar como demolidores da velha sociedade, e que se juntavam aos oportunistas, demonstrando que o oportunismo e o aventureirismo político podem acasalar-se sem questiúnculas. Alguém gritou que se aproximava a polícia e uma onda de inquietação varreu a desassossegada mole humana. Olho à retaguarda e distingo um grupo de homens armados — vinte ou trinta — vestidos de negro. São também negros mas comandados por policiais portugueses, e trazem nas mãos pesadas matracas de madeira. Um dos organizadores do comício usa o megafone para pedir ao povo que se sente no solo. A maioria obedece à voz de comando e aguarda. Uma jovem fala do seu medo no meio de um grupo de raparigas, perto de mim. Tento acalmá-la usando lugares comuns: «Não nos farão mal. Estamos desarmados e há aqui muitas mulheres e crianças», mesmo sabendo que em cenas como a que estávamos a viver o diálogo cede lugar à matraca. O veredicto estava traçado: A força caiu sobre a multidão. Gritos de mulheres unem-se a choros de crianças. As pessoas comprimem-se, apertam-se, sufocando-se umas às outras, e deslocam-se no mesmo sentido, querendo passar por entre duas colunas numa saída da praça. Sinto a São soltar-se-me dos braços levada pela multidão em pânico e ergo-a do solo quando tropeça na própria saia, sentindo então sob os meus pés os corpos de pessoas desfalecidas. Incólumes passámos entre gente agredida, protegidos por voz forte de um jovem oficial pára-quedista português, especado com um grupo de soldados de guarda aos estúdios do Aero Clube da Beira, na saída do Largo. Por nós passaram rostos deformados cobertos de sangue, homens gritando, mulheres transportadas aos ombros, despojos de uma inútil batalha a que involuntariamente assistira. Tento aproximar-me de uma mulher grávida amparada por populares que gritava histericamente «Bateram-me! ... Bateram-me! ...», quando o deflagrar de uma granada, seguido imediatamente por segundo estrondo, fez tremer as paredes dos edifícios e estilhaçou os vidros das montrarias dos estabelecimentos mais próximos.

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Corremos pela rua fugindo ao Inferno e penetrámos com alvoroço por uma porta que se abriu à nossa passagem. Quanto tempo decorrera desde o início do tumulto que colocou em aberta hostilidade as forças da ordem e o povo? Minutos apenas? Sirenes de ambulâncias, e apitos aflitivos de outras viaturas, vindas da Praça do Município na direcção do Hospital indicam-nos que houve feridos. Venho para junto da porta e espreito o comprimento da artéria deserta, até que avisto, vindos em corrida na direcção do teatro do tumulto, dois homens transportando pesados e complicados engenhos fotográficos. Eram da Imprensa estrangeira; os jornalistas de Moçambique escondiam-se em buracos escudando-se do povo, germinando ódios e recitando a sua lábia comunista mal ingerida. O resultado da acção policial soube-se ainda nesse dia: Um morto e diversos feridos graves. «Uma coisa sem importância, um pequeno drama», dirão alguns; «Uma catástrofe», afirmarão outros. A verdade, porém era só uma: Quem não concordasse com a forma como decorreram as conversações em Lusaka teria de enfrentrar as kalasnicov da Frelimo, as G-3 do Exército de Portugal, e as matracas da Polícia de Segurança Pública, dirigida e comandada por graduados portugueses. O povo estava policiado e o medo armava cerco aos discordantes. Entretanto, em Lourenço Marques, um grupo honesto de portugueses continuava a sua missão pacífica aos microfones da «Rádio Moçambique Livre». Eram eles das mais variadas cores políticas. Eram apenas portugueses revoltados contra a desonra da Bandeira Nacional portuguesa, passeada pelas ruas lourenço-marquinas por um grupo de jovens brancos e mestiços, estudantes universitários comunistas. Mas a atitude honesta desse grupo de portugueses, locutores de ocasião, havia propositadamente sido espicaçadas pêlos verdadeiros criminosos, pêlos jovens extremistas que, obedecendo às ordens do seu Partido, levaram o caos à capitalmoçambicana, e a acção os portugueses honestos, que, após o mostrarem ser, não teriam outro recurso além da fuga de Moçambique, deixando mais livre a actividade do grupo comunista que rodeava Samora Machel, e do Partido Comunista Português nas mãos de Álvaro Cunhal. O 7 de Setembro foi, deste modo, uma forma de peneirar, seleccionando, os que não prejudicariam o avanço comunista em Moçambique. E a peneira colocou «fora da carroça» inúmera gente, política e apolítica, boa e má, sincera e oportunista. 7. O TRÁGICO EPÍLOGO DO 7 DE SETEMBRO

Regresso a Tete apenas no dia 13, por todas as carreiras aéreas terem estado paralisadas em Moçambique. No avião sou informado, por testemunhas oculares, do decorrer dos distúrbios em Lourenço Marques, e da forma como o Exército Português, que se encontrava dividido, actuara para a reconquista do «Rádio Clube de Moçambique».

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Eu ouvira, ainda na Beira, com crescente nervosismo, a última emissão do «Rádio Moçambique Livre», adivinhando, de momento a momento, o seu canto de cisne. Ouvira a voz do comandante provincial da O.P.V., pedindo ao cordão humano que, enquadrado por soldados comandos dissidentes, cercava o edifício do emissor, que se afastasse e deixasse passar alguém importante que iria falar às massas, no sentido de que fosse posto termo aos combates de rua. Estes, que tiveram início nos subúrbios, haviam-se espalhado por toda a cidade. O ódio fervilhava nos gatilhos das armas automáticas e as cenas da mais desumana bestialidade iam-se registando nos bairros limítrofes da capital e em todas as artérias do seu acesso. Mas estas mortes não se podiam justificar politicamente pois os instigadores puseram-se a recato, deixando nas mãos populares o motorista ferido que transportara quantos ofenderam, dilacerando-a no solo, a Bandeira de Portugal. Esse confessaria que recebera pelo seu trabalho vinte mil escudos. A revolução de folhetim, que os jovens comunistas fabricaram, transformara-se numa razão para os assassinatos, onde todas as torpezas, roubos, vilipêndios, nos quais se agitavam fatalmenteresquícios de ódio recalcado, foram proclamados como virtudes revolucionárias. Os algozes fugiram ao julgamento. Deles quantos foram capturados? Quantos expiaram os crimes que cometeram? Nenhum. A Frelimo superlotaria mais tarde as prisões, mas os que lá entraram eram homens e mulheres de boa fé, que apenas haviam obedecido aos apelos da «Rádio Moçambique Livre». E era o povo, eram os amigos, eram os parentes, os conhecidos dos aprisionados, que os levaram à prisão, ao os indicarem em fotografias, intencionalmente colhidas no aglomerado humano inocente que rodeou o Rádio Clube de Moçambique. Os assassinos que incendiaram viaturas não permitindo a saída dos ocupantes, que não se comoveram com os gritos das vítimas inocentes que transformaram em tochas vivas, os açougueiros que degolaram mulheres e crianças depois de as violentarem numa infernal orgia de ódio, que percorreram as ruas entrando em todas as casas, subindo aos mais altos edifícios onde humilde gente se barricava, para praticarem os mais horripilantes crimes, para matar, para destruir, para fazer sofrer, para saquear, numa incompreensível e injustificada sede de sangue, esses ficaram em liberdade. A revolução, segundo a concepção bakunista, não é mais do que um desencadear de más paixões com um controlador no cume. Apenas essa concepção anárquica pode justificar as consequências do 7 de Setembro moçambicano. Quantos ocuparam, no cume, os comandos do controlador da revolução, conheciam de certeza as teorias de Bakunine. E eles eram figurantes contratados e encenados pelo governo marxista ou marxizante português, que fingia governar e se vergava à vontade e ao capricho de Moscovo.

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A Imprensa moçambicana e portuguesa, dirigidas então pela mesma ideologia, não denunciaram, antes cobriram de louvores, quantos devolveram os produtos dos saques, esquecendo-se que cada objecto devolvido, móveis, cobertores, lençóis elouças, representava o corpo selvaticamente assassinado do seu proprietário. Antes cobriram de louvores quem devolvia um pequeno berço às autoridades, olvidando que ele representava a cama de uma criança portuguesa degolada ou desventrada. O tempo era de louvar, e a Imprensa moçambicana, ao reencetar o seu contacto com as massas, aplaudia quem, respondendo ao apelo da Frelimo, entregava quanto roubara depois de assassinar. Adulavam-se os assassinos, e a verdade nunca foi contada na Imprensa moçambicana. Nunca se disse, também, que os distúrbios foram propositadamente engendrados. Falou-se do início do imbróglio. Disse-se que um grupo de rapazes passeou na baixa de Lourenço Marques uma bandeira portuguesa, mas não se disse que esses mesmos rapazes eram estudantes universitários comunistas, para que a explosão de violência assumisse uma aparência menos estritamente política do que na verdade possuía. Recordo com raiva o relato de um homem: Sua mulher, licenciada em Farmácia, exercia a sua profissão na Matola, regressando a casa, em Lourenço Marques, todos os dias ao fim da tarde. Temerosa pêlos relatos de atrocidades, que ouvira de gente assustada, decidiu regressar mais cedo, telefonando primeiramente ao marido a dar conta da sua resolução. O marido, também temeroso, foi ao seu encontro, a tempo de ouvir os gritos lancinantes da mulher dentro do automóvel em chamas, cercado por centenas de assassinos que gozavam o espectáculo em diabólica orgia. Ele fugiu levando nosouvidos como música do mais trágico drama os últimos gritos de desespero e morte da mulher incinerada viva. Ela fora apenas uma portuguesa entre centenas, entre milhares de vítimas — o número nunca foi divulgado pela Imprensa moçambicana — sacrificadas como ela. Ela fora uma das colonizadoras, umas das fascistas, um dos monstros a destruir, que a Imprensa comunista fabricava diariamente nas suas edições dirigidas por portugueses traidores, por virtuosos intelectuais ultra-revolucionários. Lembro, também, a descrição de um homem que perdeu toda a família: Estava em Lourenço Marques e, mal tomou conhecimento das trágicas ocorrências, dirigiu-se para a sua casa nos subúrbios, pedindo protecção a uma força militar portuguesa, que o escoltou até à residência. Todas as portas estavam arrombadas. Junto à escada de acesso jazia a sua filha, de catorze anos, numa poça de sangue, degolada e com os membros decepados. Tinha sido violentada antes de morrer. Nos compartimentos interiores espalhavam-se os corpos de seus irmãos e tios, vítimas das mais desumanas mutilações. Este comprido filme de terror e ódio — de que apenas projecto ao leitor duas imagens — afastou de Moçambique milhares de portugueses em pânico. Mas a maioria ficou.

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Essa maioria ficou na Frelimo, no guia do povo, no braço armado do povo moçambicano. Mesmo aqueles que percorreram as morgues, procurando inutilmente nos corpos calcinados e desmembrados os despojos dos seus entes queridos, ficaram. Havia um Moçambique a construir, e não afirmava a Imprensa que foram as Forças Populares de Libertação, o braço armado da Frelimo, que defenderam o povo e puseram fim à contenda que ceifou vidas e haveres, que destruiu quase totalmente o parque industrial de Lourenço Marques? Não diziam que foi a Frelimo o símbolo da Paz, a abençoada pomba branca dos conturbados dias de Setembro de 1974? Que importavam as afirmações de testemunhas oculares, de sobreviventes, que viram homens, armados e fardados com os camuflados da Frelimo, assassinando pessoas indefesas e saqueando residências, embriagados no mesmo álcool sanguinário? Que importava — ou continua a importar tudo isso — se os comunicados oficiais e os artigos de Fernando Couto e de seu filho Fernando Amado Couto, dois jornalistas portugueses apregoadores das virtudes frelimistas e dos dons de líder de Samora Moisés Machel, afirmaram não ser verdade, nas páginas do «Notícias»? Não se passara nada de anormal em Moçambique? Mas nada, absolutamente nada. Apenas o poder efectivo popular estava na rua e os crimes tinham a denominação de acção revolucionária. Havia um país a construir e a ocorrência era de rotina. Almeida Santos diria, exactamente um ano depois, já aboletado no Governo de Portugal a que se grudaria: «Que não tenha sido possível evitar incidentes ao nível de populações carregadas de ressentimentos, é algo que só não compreenderá quem se situe fora do mundo real e persista em elaborar os seus juízos a partir de um momento hipotético e fantasista. Isto para não ter de recordar que alguns dos que mais nos criticam foram directamente responsáveis por esses incidentes. Estou a lembrar-me da desastrada insurreição do Rádio Clube de Moçambique que causou à descolonização danos de incalculável dimensão...» A fantasia ou a desinformação estavam, como o futuro viria a provar, com Almeida Santos. Pois embora o seu Governo aconselhe e exija que é necessário desdramatizar a descolonização, a escalada do terror apenas em Setembro de 1974 teve início. Essa data foi a partida para o desastre. O estertor prolongou-se. A história de Moçambique, como país, só então nascia. Mas era escrita com letras de sangue. 8 ÊXODO: RESCALDO DO MEDO

Construir um forte país era a intenção generalizada em quantos, brancos e negros, ficaram em Moçambique após o 7 de Setembro. Pouco tempo volvido, porém, quando a população portuguesa se resume a uma minoria sofredora que martela pregos nos seus contentores e procura passagens nas agências de viagens, todos receosos de mais

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um Decreto, de mais um discurso de Samora Machel, de mais uma onda de prisões, merece a pena recordar o que foram os últimos meses de terror. Nas cidades, e poucos meses volvidos após a Independência, assiste-se a espectáculos que jamais se imaginariam: Longas bichas de gente, de todas as cores, estendem-se junto aos Consulados de Portugal, formadas desde as madrugadas. Mulheres negras e mestiças, velhas e jovens, buscam homens solteiros, jovens ou velhos, para casarem por um dia paraque, mercê de um simples documento legal, possam ser consideradas portuguesas, adquirindo o direito a um lugar ao sol em terras lusitanas. Mulheres mestiças e negras, jovens e velhas, pedem, imploram nos cafés, nos bares, nos restaurantes, nas ruas, que qualquer português idoso as perfilhe, por piedade, para abalarem de qualquer modo, de bolsos vazios, de roupas coçadas, de olhos fartos de chorar, a caminho do desconhecido europeu que para todos simboliza liberdade. O que motiva este êxodo? O que obriga e empurra os jovens negros para os balcões do Consulado, levando como documentos de identificação a caderneta militar e as mais diversas condecorações de combate, e, implorando primeiro, pedindodepois, exigem a nacionalidade portuguesa? Não era na realidade a Frelimo o guia do povo? Estariam errados os governantes de Lisboa ao prometerem que as vidas e os bens dos portugueses estavam defendidos, quando os próprios naturais se sentem inseguros e assustados? O que sucedeu então? Quem destruiu e como foi destruída a esperança que fez chorar de alegria os olhos de tantos moçambicanos na noite de 25 de Junho de 1975, na grande noite da Independência, para que os mesmos olhos chorem agora de desespero e de revolta? Onde está a liberdade, a tão apregoada liberdade, quando os calabouços são poucos para os milhares e milhares de reclusos que não sabem porque foram condenados; para as centenas de pessoas que em campos de trabalho pedem por clemência a morte, desconhecendo em que razões se baseiam os seus algozes para os indescritíveis tormentos que lhes infligem, dia após dia, sem que um tribunal qualquer os absolva ou condene? Onde está a liberdade, após a Independência? Estará na fome que mata as enfraquecidas populações do interior, nas longas bichas formadas desde as primeiras horas do dia nas ruas das cidades e das vilas em busca de um simples pão para a boca, nas agressões dos homens fardados do Partido, nas arbitrariedades dos oportunistas que formam os Grupos Dinamizadores e as Comissões Administrativas de Trabalhadores, no poder cego e maligno concedido aos Comissários Políticos, que dispõem da liberdade e da vida de quantos lhes caem nas mãos, nas promessas de guerra com países que sempre respeitaram os princípios básicos das leis internacionais de vizinhança, ou nos discursos agressivos do Presidente da República Samora Machel? Então, é essa liberdade a razão do êxodo dos portugueses, dos indianos, dos chineses e, sobretudo, do próprio povo moçambicano. E é em nome dessa liberdade, que encheu de parangonas a Imprensa mundial, é em nome da pureza ideológica e da
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unidade dos princípios revolucionários marxistas, que todos os dias, a todas as horas, em todas as regiões de Moçambique, as forças da Frelimo, o grande exército do proletariado, composto por operários sem indústrias, e por agricultores sem campesinato, fardados e armados, aquartelados e alimentados pelo Governo, vai praticando as mais mesquinhas vinganças, apoiado por denunciadores que atiçam ódios em troca de situações políticas e de emprego. Motivos para as capturas não é necessariamente importante que existam. Mas este estado de espírito colectivo obriga a que o filho busque o pai junto das autoridades do Partido, a mulher o marido, o marido a mulher, o pai o filho, quando qualquer deles demora no regresso ao lar. Em cada ausência imprevista todos os seus familiares pensam que o ausente está na prisão, onde se encontra fulano (que ninguém sabe porquê), onde está beltrano (parece que sem motivo), onde estão ou estarão todos os nossos amigos e inimigos. Estará neste regime drástico de pavor, de intimidação, a causa do êxodo do povo moçambicano com rumo a Portugal, ao Malawi ou à África do Sul? Por isso e por muito mais. O terror impossibilita a expressão do pensamento. O que se sabe ouve-se ciciado a meia voz por amigos de muita confiança e em lugares onde mais ninguém se encontra. Quando é iniciada uma conversa logo alguém afirma atemorizado: «Se não se calam eu vou embora. Não quero ir para a cadeia». É neste clima psicológico que eu iniciei a Reportagem a que me propus, desafiando, com a minha atitude, as represálias da Frelimo, da mesma forma que a enfrentara, de máquina fotográfica e de caneta, nas nervuras traiçoeiras dos capinzais do interior, em Reportagens de guerra. E a minha afronta era continuar a falar, já que não me era permitido escrever. Um dos indivíduos que mais vezes me mandava calar era o dr. B., um advogado. Homem idoso, honesto. Reside em Moçambique há mais de trinta anos e não possui fortuna nem economias. Aderiu na primeira hora à Frelimo, mas com honestidade. Aprendeu a dedilhar todas as teclas do socialismo científico, empregando as teorias de Karl Marx e de Friedrich Engels quando queria convencer interlocutores pouco acostumados a divagações filosóficas. Aceitou com prazer a dupla nacionalidade sem trair Portugal, comprando deste modo o mais caro bilhete para o Inferno. Nacionalizaram-lhe o escritório. Congelaram-lhe a conta bancária — uma ninharia que não lembrava ao Diabo. Decidiu, como recurso de subsistência, dedicar-se ao professorado e foi admitido como professor de Direito Comercial e de Noções de Comércio. O vencimento que auferia, com esta nova profissão, não satisfazia a sua forma normal de vida mas alimentava-o e vestia-o. Conhecia pela primeira vez na prática o comunismo que aprendera em teoria. Foi saneado por informação de uma jovem professora primária, inexperiente, mas frelimista, presente sempre à abertura de latrinas e às machambas do povo, com a sua enxada oportunista que a levou, de um dia para o outro, de incompetente professora recém-saída do Magistério a inspectora provincial dos Serviços de Educação e membro influente do Departamento de Educação e Cultura. O seu nome interessa para
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quando for feita a biografia dos traidores de Portugal — é portuguesa, e cruzará, qualquer dia, contigo em Lisboa. Trata-se de Fernanda La Salette Teixeira. O dr. B., porém, considerando-se comunista, e por amizade, aconselhavame moderação no falar, quando eu referia injustiças, quando eu falava sobre ocorrências que vinham chegando ao conhecimento da Delegação do jornal. Respondialhesempre: — Vocês falavam e deixaram de falar. Eu escrevia e deixei de escrever... Na verdade eu deixara de contribuir com os meus trabalhos para o preenchimento das páginas do «Notícias da Beira». As minhas Reportagens iam pouco além dos discursos de gente influente do Partido — que me eram entregues pelo Departamento de Informação e Propaganda, e de descrições, mais ou menos curtas, claras e concisas, dos ambientes onde os discursos eram pronunciados. Reportava as manifestações, entrando sempre em choque com os exageros que lia nos outros jornais, tanto no que se referia ao número de manifestantes como ao entusiasmo popular. Escrevi sobre a «Campanha de Saneamento do Meio Ambiente», iniciativa com que o Governo tentou lutar contra a doença, mandando abrir latrinas junto a cada residência, lugar de trabalho ou de concentração de massas, obrigando os brancos portugueses, das cidades, a abandonarem os seus lares nas madrugadas dos domingos, para voluntariamente abrirem, à força de enxada, junto aos casebres dos negros do interior, os buracos onde estes depositariam os excrementos. E era feita chamada pelo secretário do Grupo Dinamizador do bairro, e registadas as ausências, que, em falta de forte «sagwate» (gorjeta), seriam levadas ao conhecimento das estruturas superiores do Partido. Esses brancos voluntários ouviram, como eu ouvi, grupos de negros negarem-se a colaborar, afirmando alguns: «Se não comermos não cagamos. Temos fome. Tragam-nos comida!» Os brancos portugueses, porém, sujeitaram-se a todos os vexames, e isso fui eu obrigado a silenciar, quando, nessa humilhante sujeição, se encontrava verdadeiramente a notícia que interessava a qualquer profissional de Imprensa. Mas as latrinas foram um fracasso, pois não haviam passado de um capricho do ministro da Saúde, dr. Helder Martins, um dos dirigentes da Frelimo e um dos vinte médicos que ficaram em Moçambique depois da Independência, para assistirem a umapopulação de nove milhões de pessoas. As latrinas foram um fracasso mas proporcionaram, para gáudio dos dirigentes do Partido, motivos suficientes para amesquinharem o português, para o humilharem, para o rebaixarem. Que prazer sádico, que torrentes de gargalhadas, a substituir o tradicional rilhar de dente raivoso, teriam despejado os generais sem estrelas do Partido quando souberam que, por ordem do comissário político de Tete, um grupo numeroso de guerrilheiros, armado de Kalashnicov, invadiu a Igreja da cidade e expulsou todos os

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cristãos, alegando, como motivo para a selvática vassourada na Religião: «Hoje é Dia de Latrinas, não é Dia de Deus». Esqueceram-se os fanáticos socialistas da verdade de Claude Prévost, que tão bem se adapta à sua marxizante atitude: «Dizer merda para Deus é prestar-lhe a homenagem de que Ele existe, o que deve ser a sua reivindicação estrutural maispremente...». Desta forma eu, não escrevendo o que queria, não escrevia o que o Partido desejava e ordenava. Mas aprecie-se, para necessário esclarecimento da situação da Imprensa moçambicana poucos meses após a Independência, os trabalhos apresentados numa edição que passou a ser normal do «Notícias da Beira», escolhida ao acaso: «Objectos imediatos do Partido na política interna é externa» Trata-se de um artigo que refere um Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em notícia da agência noticiosa comunista «T.A.S.S.». «China — Carta de oito pontos sobre a produção agrícola» O autor é Paig Ming e o artigo foi extraído do «Chine Features». «R.D.A. na via do socialismo — A construção socialista» Não traz assinatura mas a origem é comunista e refere-se à Alemanha Democrática. «O Congresso da Paz e do Bem-Estar» É da autoria de Vladimir Lomeixo, soviético. «Conquistas do Socialismo — O sistema educacional da R.D.A. — Informação documental» Não assinado, o trabalho é possivelmente da autoria de um dos redactores comunistas do jornal, salientando-se que José Quatorze havia, há pouco, regressado da Alemanha Vermelha, onde se deslocara com o patrocínio da Frelimo. O conteúdoda prosa refere-se à educação na República Democrática Alemã. «Cinco anos do Tratado de Moscovo» É seu autor Y. Zakharov e foi retirado do «International Affairs». «Desencadear a grande ofensiva para libertar a mulher» Artigo local, de espírito marxista, distribuído pelo Departamento de Informação e Propaganda do Partido. O jornal tem ainda mais algumas pequenas locais, com ideologia comunista, e, finalmente, uma notícia de Portugal com o mesmo teor ideólogo: «Octávio Pato denuncia conluio da Direita» Falta examinarmos as gravuras: Mao-Tsé-Tung, a três colunas, com a seguinte legenda: «Mao-Tsé-Tung: Grande revolucionário e líder da revolução popular da China, transformada hoje, apenas em pouco mais de trinta anos, num dos países mais progressistas do mundo. Do território colonizado e pilhado pelas potências ocidentais, através de uma linha justa, a República Popular da China obteve estrondosas vitórias nos mais diversos sectores da sua vida.» Outra, de um grupo de crianças loiras tomando uma refeição. A quatro colunas, assim legendada: «Os jovens na República Democrática Alemã dispõem de um ensino
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verdadeiramente revolucionário, que lhes permitirá prosseguir, concluídos osvários cursos, a consolidação das vitórias socialistas. Pondo a ciência e a técnica efectivamente ao serviço do povo, o sistema socialista tem alcançado, ano após ano, sucessivas e consideráveis vitórias no caminho do progresso, do bem-estar social,da igualdade social.» O exemplar do «Notícias da Beira» a que jogo mão é o n.° 9455. Serão o «Pravda», ou o «Izvestia», mais comunista do que ele? Este exemplar da Imprensa moçambicana teria maior aceitação nas ruas de Pequim, de Moscovo ou de Berlim, do que nas artérias da Beira, de Lourenço Marques ou de Nampula. E, por mais descabida que pareça a afirmação, os seus «fazedores» são portugueses, mostrando todos eles, cinicamente, mercenariamente, uma adoração cega, quase um casamento com as directrizes do Governo e com as ordens da Frelimo. O fim em vista desta actividade da Imprensa foi ganhar, com propagandas integradas numa campanha organizada, mais adeptos à ideologia importada para escravizar a maioria. E como numa guerra os meios não contam, nem há lugares para homens com escrúpulos — numa guerra política desta espécie, entenda-se—, enganar e mentir passou a ser a Bíblia da Imprensa moçambicana, onde eu não me queria integrar. E essa foi, conscientemente, a razão do meu silêncio profissional, que causou estranheza a muito boa gente e alertou as autoridades governamentais. O Partido sabia que eliminada a oposição — mesmo que esta se manifestasse pelo silêncio — as dificuldades que encontraria nas massas ledoras de jornais seriam minimizadas. Deste modo estabelecia-se uma gentil troca de favores entre a Frelimo e a Informação, desde que desse entendimento sobressaísse a sujeição da última. O número de exemplares por edição, porém, diminuía. O povo alfabetizado passou a desprezar os jornais e a odiar quem neles escrevia. O Partido não se importunou. As empresas editoras, que paradoxalmente continuaram a ser consideradas particulares, deixaram de pagar aos credores, tendo esta atitude o beneplácido do Governo. As contas de luz, de água, de telefones e telex, foram trepando nas Execuções Fiscais sem que o Governo se preocupasse, passando a considerar essas dívidas aos cofres estatais como uma espécie de disfarçado subsídio. Deixou de existir o pagamento às agências noticiosas por as notícias por elas difundidas não interessarem à informação moçambicana, passando as fontes de origem informativa ao domínio governamental, que ofereceu regime exclusivista à A.I.M. (Agência de Informações de Moçambique) e aos serviços noticiosos distribuídos pelas repartições de propaganda das embaixadas comunistas. O papel, e outras matérias-primas essenciais para a feitura dos jornais, começaram a ser fornecidos pelo Governo, que, ao mesmo tempo, subsidiava o aparelho bélico de defesa das Redacções, traduzido pela presença constante, junto dos edifícios das editoras, de dezenas de «gorilas», armados com armas soviéticas, para defenderem os jornalistas do povo das arremetidas das massas populares.

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Aos redactores e repórteres também pouco preocupou a situação de economia decadente das entidades editoras, pois a receita da venda de jornais, mesmo mínima, ia sendo suficiente para os pagamentos dos vencimentos — embora liquidados com atrasos — e essas importâncias eram os únicos débitos que a empresa liquidaria. Aliás, o Governo e o Partido não se preocupavam em pedir contas aos membros das Comissões de Trabalhadores, desde que estes, por seu lado, não lhes solicitassem financiamentos, permitindo este tácito acordo que os homens dos jornais se aboletassem com os restos do banquete, a seu bel-prazer. Por mim passaram débitos de garrafas de vinho, cervejas e pacotes de cigarros caros, em vales do repórter Mário Ferro para serem liquidados pela Comissão de Trabalhadores. E esta liquidou sem discutir, pois o crime, que se elevava a milhares de escudos, fora praticado por um membro do Grupo Dinamizador, intocável, portanto. Os jornalistas mercenários tinham, pois, pouco a perder e muito a ganhar com a venda da sua consciência, restando-lhes, ainda, no arcaico baú das suas esperanças, o regresso a Lisboa quando a vaca não mais pudesse ser ordenhada. E ali, junto aos portugueses que tudo esquecem e que tudo perdoam, aguardariam, como tantos continentais, assíduos mostruários de cafés sofisticados, que a política de haraquirismo de Álvaro Cunhal tomasse de assalto, com a conivência dos acordantes de Lusaka, ou de parte deles, os comandos estratégicos de Belém e de S. Bento. Foi neste ambiente de traição que escrevi a Reportagem que só agora ides ler, iniciada e quase completada em Moçambique, na relativa insegurança de uma semi-clandestinidade jornalística, alheio totalmente a quaisquer submissões à tutela marxista da Frelimo. Nela se encontrarão alguns esclarecimentos a factos que as autoridades portuguesas teimam em considerar secretos, para por eles não responderem perante os portugueses. Aceito as consequências do meu acto. Ele tinha de ser praticado. l Preso em Quelimane após a queda do Governo a que pertencia, foi diversas vezes agredido na prisão. Velho e puro democrata, abandonou a prisão para morrer na sua residência. Um dos seus assassinos foi Castro Lobo, já então elemento directivo do P.I.C.

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SEGUNDA PARTE UM MOÇAMBIQUE A DESTRUIR

9.

A GERALDINA FRANCISCA E AS CONTRADIÇÕES DE SAMORA

Corria a manhã de 10 de Dezembro de 1975, uma manhã quente e húmida, do mais tórrido verão moçambicano. Chovera durante a noite, e as terras ressequidas retiveram a água que, evaporando-se com o calor da manhã — quarenta graus marcava o barómetro—, formava uma pegajosa humidade que me molhava o corpo. No meu gabinete da Delegação eu dava por finda a tarefa do dia, adiando uns trabalhos que tinha entre mãos, pois o aparelho de ar condicionado avariara uns dias antes e o ambiente sufocava. Tete, cidade que sempre afligiu os europeus, punha mais uma vez em experiência a sua resistência a climas do Inferno. Preparava-me para sair quando uma mulher ainda jovem, de olhar assustado, molhado por lágrimas recentes, me travou o passo. Contou-me uma longa história e, pediu-me que a publicasse no jornal. Chamava-se Geraldina Francisca e era parteira do Hospital da ZAMCO, no Songo, o consórcio empreiteiro construtor da barragem de Cabora Bassa. Meses antes, e depois de ter sido perseguida por um comandante da Frelimo, e chefe do Corpo de Polícia de Moçambique naquela localidade, que a desejava para amante, passou a ser vítima de diversas injustiças permitidas pelo poder do jovem comandante. Eram perseguições exercidas por todos os meios, difamações e insultos, sem que ela — dizia-me — lhe retrucasse qualquer palavra, ou gesto, que a ele desse oportunidade de a deter. — Eu enojava-me o homem. Era um mulherengo e eu sou uma mulher séria. Não quero dizer que já não tivesse tido um marido, mas desse gostava. Mas o comandante queria-me para amante, mesmo havendo em Cabora Bassa uma porção de mulheres mais bonitas e mais novas do que eu, que não se importavam de pôr-se à disposição dele ... — E depois? — pergunto apressando o seu relato. — Como nunca me conseguiu convencer — continuou — atirou-se a uma colega minha, mulher que mais tarde fez barulho e foi presa. Mandaram-me chamar para depor e, pelo caminho, quando seguia no jipe da Polícia, que era conduzido por um guarda embriagado, o jipe chocou com outra viatura. Fui transportada para o Hospital do Songo e dali fui evacuada, em perigo de vida, para a Rodésia, por via aérea. O tratamento custou-me quinze mil escudos.

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Eu vou tomando notas por força de hábito, pois sei que a história daquela mulher dificilmente poderá ser publicada na imprensa moscovita de Moçambique. — Quando regressei ao Songo, já restabelecida, soube que a Polícia tinha retirado o «processo» do Tribunal e tudo ficara em nada. Como o comandante soube que o guarda é que fora o culpado do acidente levou o tribunal «à certa» e eu fiquei a perder o meu dinheiro. Comecei a falar por fora, a dizer a toda a gente que iria contar o facto ao Joaquim Chissano de Lourenço Marques. O comandante da Polícia teve medo e aproveitou-se das rusgas, feitas agora contra a prostituição, e mandou-me prender. Antes enviou ao meu quarto alguns guardas, durante diversas noites, para espiarem se eu dormia com algum homem, mas a sua acção foi inútil porque eu sou uma mulher séria. Veja lá que numa dessas noites encontraram um homem no quarto de uma colega minha e não a prenderam. A mim é que me queriam. Ela passou a ser amante do comandante da Polícia. E prossegue: — Ele de mim não levou nada, nunca me viu com um homem, e prendeu-me como prostituta. Estou na cadeia há um mês e não me querem ouvir. Quero ir ao Partido e não me deixam ir. Agora eu ia a caminho do Hospital e lembrei-me de lhe contar a história. Publique-a por favor. Eu quero que em Lourenço Marques saibam destas injustiças... Digo-lhe para escrever tudo o que me contara numa carta, que depois eu publicaria quando escrevesse. Abandonei o jornal durante cerca de uma hora, tempo que ocupei a me informar dos antecedentes da mulher que me procurara. Quando regressei o rosto da jovem negra estava diferente. Os seus olhos brilharam. Onde eu vira o medo, antes de partir, eu lia agora confiança. Fiz-lhe ver que depois da publicação da sua carta ela seria perseguida pelo Partido e pela Polícia e ela respondeu-me: — Eu não tenho medo. Não me podem fazer mais mal do que já me fizeram. Eu quero que em Lourenço Marques saibam isto ... A carta foi publicada no dia 13 de Dezembro a abrir uma página intitulada «Participação Popular», com o seguinte teor: UMA INJUSTIÇA Camaradas do Notícias da Beira: Vou contar um caso que se passou comigo c que interessa à Participação Popular, porque se trata de uma injustiça. Fui a vítima, mas no nosso país pode haver mais raparigas honestas, solteiras, vítimas como eu. Camaradas: No dia 19 de Abril fui chamada ao Posto de Polícia do Songo, para esclarecer um assunto de que estava inocente. Um polícia, por ordem do chefe Manjate, foi-me buscar de jipe. No caminho do Posto houve um desastre
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muito grande, eu tive de ser hospitalizada no Hospital do Songo, onde sou parteira. Dali fui evacuada para a Rodésia, e o tratamento custou-me 15.000$QO, dinheiro emprestado pelas minhas colegas do Hospital. Ninguém me pagou nada e o processo não chegou a ir para Tribunal. Sou pobre, trabalhadora, honesta, e fui vítima duma injustiça. No dia 8 de Novembro, porque uma colega minha era desonesta e morava no Lar do Hospital como eu, foram-me buscar numa rusga feita para as mulheres desonestas, que não é o meu caso. Sou séria e posso provar com muita gente. Mesmo assim continuo presa hoje, dia 10 de Dezembro, um mês depois. Só por ser solteira? Mas as outras solteiras não foram presas. Sou séria e quero justiça. Obrigada, camaradas do «Noticias da Beira», por olharem para o meu caso. Viva a justiça popular! Viva a FRELIMO! Geraldina Francisca — Parteira do Hospital da ZAMCO — Songo Pode parecer exagerado ao leitor que vive num regime democrático de características ocidentais o receio que eu manifestei em publicar, de minha lavra, a história contada por esta mulher. Porém, as prisões arbitrárias que se vinham efectuando em Moçambique, e que diariamente chegavam ao meu conhecimento, eram lições que se impunham com a força da evidência, dando-me o sentido exacto do que era ou não era tolerado pela Frelimo. Conhecia, ainda, as reacções do Partido, pois a História ensina-nos que um regime, ou um movimento político, nascido da violência apenas se pode perpetuar pela violência. Era desta roupa que a Frelimo se vestia aos olhos do povo moçambicano, razão do meu receio de que a carta da Geraldina Francisca viesse levantar, entre as massas silenciadas pelo terror, um precedente de queixas, de lamentos e de acusações, que irritassem os dirigentes do Partido. É certo que se sabia que a corrupção minava todos os sectores, e que a Polícia não era, nem podia ser, um quadro de excepção. Era o próprio Samora Machel que pedia ao povo, sempre que tinha oportunidade de o fazer, para exercer uma vigilância activa sobre o comportamento de cada militante, contribuindo, deste modo — dizia ele — para que a linha política da Frelimo fosse salvaguardada, e para que as fileiras estivessem purificadas de qualquer elemento nocivo, embora se soubesse que estas afirmações se destinavam a disfarçar os saneamentos que o grupo intelectual que dirigia Samora Machel se preparava para fazer, entre os dirigentes e combatentes menos receptivos ao comunismo, e ainda leais às directrizes do primeiro presidente, dr. Eduardo Mondlane. De qualquer modo, porém, a publicação da carta na Participação Popular do «Notícias da Beira» ia ao encontro desse apelo. No «Notícias da Beira» escrevia-se, constantemente, ser aquela página um meio do povo colaborar na feitura de um jornal que era seu, de apontar desvios, de criticar atitudes menos correctas. Era certo, ainda, que Ornar fuma, um membro do Comité Central da Frelimo, denunciara publicamente, e com dureza, ao ocupar o cargo de
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governador da província de Sofala, a corrupção que minava todo o aparelho de Estado, falando da indisciplina, da anarquia, do relaxamento que se verificava em todos os sectores governamentais, quedando-se mais agressivamente nas críticas ao quadro policial, textualmente nestes termos: «Nós temos de disciplinar o aparelho do Estado, em primeiro lugar a Polícia de Moçambique, que é um instrumento que deve servir as massas e manter uma ordem pública para defender os interesses da maioria e fazer justiça pública. Já falámos com eles, não é segredo, por isso queremos dizer aqui publicamente: Muitos tinham amantes, mas foram os primeiros, quando da ordem de 30 de Outubro, a mandarem prender prostitutas e deixarem prostitutas. Primeiro queremos através da Polícia estabelecer a ordem pública. Mas para estabelecermos essa ordem pública e toda a gente respeitar a Polícia, deve-se tomar nova medida em relação ao seu próprio Corpo, internamente. Eliminando o quê? Eles têm muitas amantes nos nossos bairros. Comem com a nossa farda. Eles têm uma farda. Bebem com a nossa farda. E usam a nossa farda para exibirem o seu poder, mas estão a representar o Governo Popular de Moçambique. Temos de impor a disciplina na Polícia...» (sic) Estavam na verdade os grandes da Frelimo de parabéns com as teorias lançadas em discursos e na Imprensa, mas tudo isso fazia parte de uma acção teórica apenas, com os fins já apontados e de natureza estritamente política. A manifestaindignação era pois falsa. Não sabia o povo moçambicano que quanto era afirmado pelo presidente Samora Machel, ou por qualquer membro dos Comité Central ou Executivo da Frelimo, era desmentido na prática? Não sabiam os prisioneiros que enchiam as prisões do país, os campos de trabalho, as pestilentas enxovias dos isolamentos políticos, que oficialmente não existem em Moçambique? Não deu toda a Imprensa moçambicana o maior destaque à entrevista de Samora Machel, concedida à revista «Tercer Mundo», onde o dirigente moçambicano negou a existência de castigos corporais no país? Vejamos a «claridade» daentrevista deste turbulento marxista: «Tercer Mundo» — Deve-se entender, então, que a auto-crítica é feita depois que cada um reconhece o seu erro, que o reconhece honestamente e sem coacção... Samora Machel — Sim, honestamente e sem coacção. Nós rejeitámos durante a guerra utilizar castigos corporais. Enterrámo-los. Começámos por nós mesmos, pois o castigo físico diminui a capacidade intelectual do indivíduo. Rejeitámos, também os insultos no seio do exército. Na Frelimo não há insultos nem castigos corporais. Existe a crítica, que é muito séria. Ë tão séria que é possível que alguns preferissem os castigos corporais. «Tercer Mundo» — E prisões? Samora Machel — Sim, podemos fazer, mas não lhe chamamos prisões. Não existe prisão alguma. Existe reeducação. «Tercer Mundo» — Realmente encontrámos alguns jovens portugueses que estiveram envolvidos em atentados subversivos em Lourenço Marques que, em princí-

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pio, estavam «presos» na Base Central. Contudo, encontrámo-los vivendo como os militares que estão ali. Samora Machel — Produzem como nós produzimos. Produzem nos campos de morte; e quantos deles não regressam! ... Conhece o Presidente Samora Machel a história daquela rapariga, de nome Maria Fernanda, que, sobrevivente de um desses campos de trabalho e de produção, foi hospitalizada no Hospital de Lichinga (Vila Cabral), durante um mês, em estado de coma? Sabe o Presidente Samora Machel que essa rapariga, após regressar a Tete voltou a ser internada no Hospital daquela cidade, recebendo soro duas vezes por dia, e durante um longo período? Desconhece o Presidente Samora Machel que essa rapariga após todos os tratamentos a que foi submetida no campo de produção, incluindo o tratamento de chicote que lhe deixou indiscritíveis vergões nas costas — vistos por dezenas de pessoas de Tete — dos ultrajes ao seu pudor, pois era obrigada a trabalhar nua da cintura para cima e apenas com um minúsculo trapo a lhe cobrir o sexo, recebeu uma Guia de Marcha onde era considerada inocente da acusação de prática de prostituição, quando já era impossível devolver-lhe a saúde, a confiança na justiça humana, e a fé na existência de Deus? Mas como pode o Presidente Samora Machel desconhecer estes factos se o próprio secretário do ministro do Interior a foi retirar ao Hospital de Lichinga, onde ainda se encontrava sob prisão, compadecendo-se do seu estado de extrema debilidade? Se foi o próprio secretário do ministro do Interior que lhe examinou o corpo, ferido pela marca da bestialidade dos carrascos frelimistas, e, envergonhado, condenou junto de quatro testemunhas, o comportamento dos sádicos carcereirosdos campos de «reabilitação», reverberando os processos de tortura ali usados, aprendidos numa escola de terrorismo argelina? ... Desconhece o Presidente Samora Machel os sofrimentos infligidos a um homem de nome Amorim, gerente de uma importante empresa distribuidora de óleos em Tete, apenas porque possuía na sua residência uma bandeira portuguesa? Desconhece isso? Eu conto: Amorim havia pertencido à direcção de uma agremiação de caçadores civis, e, na dissolução da colectividade, fora nomeado fiel depositário dos bens existentes. Entre eles encontrava-se uma bandeira portuguesa. O espírito de «vigilância do Partido» detectou-a. Foi preso e transportado para uma cela situada no recinto do comando provincial em Tete. Os homens que o arrastaram entregaram-no a outros que o agrediram à coronhada, a murro, a pontapé, sendo depois atirado, autêntico farrapo humano, para o cimento de uma acanhada e imunda cela. Por uma janela sem grades foi insultado durante o longo decorrer da negra noite. Por ela os guerrilheiros enfiaram as pontas aguçadas de baionetas ferindo-o, embora ele se esquivasse, como lhe era possível, aos golpes dos assanhados e enraivecidos
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algozes. Por ela ouviu-os afirmar que «haviam de picar aquele porco português como se pica um chouriço». Durante toda a noite ele esperou a morte e foi vítima das maiores e mais desumanas sevícias. Sua mulher, entretanto, esgotadas todas as esperanças de conseguir a libertação do marido, procurou-me percorrendo toda a cidade. O Amorim havia sido aprisionado às três horas da tarde, e cerca da meia noite, quando eu abandonava uma sessão de cinema, fui abordado por ela que me implorou que, como jornalista português, usasse os «contactos» do jornal a favor do marido que, afirmava-me desvairadamente, já deveria encontrar-se morto. Seguimos para minha casa, e enquanto a São tudo fazia para a acalmar eu, em nome do jornal, tentava alertar as mais gradas figuras do Partido. Ninguém, porém tinha conhecimento da captura. Nem o comandante Neves, à frente do Corpo da Polícia de Moçambique, com quem falei pessoalmente, nem o comissário político Mexila, a quem expus dramaticamente a situação, nem o governador da Província Gomes do Amaral — o último governador provincial branco — a quem telefonicamente, e depois frente a frente, acompanhado de testemunhas, apresentei o problema do Amorim. Veio-se a saber, mais tarde, que a detenção e as inevitáveis agressões eram da responsabilidade dos homens de serviço no Comando e que estes só entregaram o prisioneiro aos seus chefes ao fim da tarde do dia seguinte. Até esse momento ele fora um simples objecto de diversão para os soldados, mas ninguém afirmou que o agredira. Os ferimentos apareceram-lhe no corpo assim mesmo. Três dias depois, o Amorim saiu da prisão por influência do comandante provincial, rendido ao apelo humanitário de diversos residentes portugueses e moçambicanos, destes últimos se destacando um negro de nome Paulo. Não houve culpa formada contra o Amorim. Ninguém o julgou. A população portuguesa, que viu no rosto chagado e pisado da última vítima da Frelimo a imagem segura do que a todos aconteceria, começou a acomodar a um canto, junto ao leito, uma pequena maleta com os objectos necessários para uma viagem aos calabouços, incluindo nela os utensílios necessários para curativos de emergência. A Frelimo sabia que a confiança que nela havia sido depositada pela colónia portuguesa tinha declinado, e que ao clima de confiança substituirá o de medo. O clima psicológico que afastou de Moçambique mais umas largas centenas deportugueses, com rumo à Europa ou aos países vizinhos, neles se incluindo o próprio Amorim e os seus familiares. De nada valia a ninguém as palavras mansas dos dirigentes da Frelimo, tragicamente desmentidas pêlos seus actos. 10. A DUPLA PERSONALIDADE DO PRE SIDENTE
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Este clima de terror teve início com a entrada em Moçambique de Samora Machel, ainda apenas como presidente da Frente de Libertação de Moçambique. Penetrando no futuro país pelo Norte, em todas as cidades e grandes centros onde discursou não poupou insultos ao povo português, ameaças veladas que fizeram renascer, em alguns sectores da população, velhos ódios rácicos que haviam sido enterrados pelas teorias humanistas de Eduardo Chivambo Mondlane, o fundador da Frelimo. Devido às insidiosas afirmações de Samora Machel o povo negro, menos evoluído, começou a olhar o branco com desconfiança, vendo no seu afastamento da colónia a extinção do trabalho e a distribuição de riquezas sem esforço. Parte dos quadros da própria Frelimo passou a ver no branco um inimigo em potência. O ódio ao colonialismo português transformava-se, mercê da campanha do Presidente, em declarado ódio ao português. A cultura lusitana foi levada para as ruas da amargura como cultura de prostituição e de vícios. A Igreja foi condenada desde os seus alicerces. As instituições humanitárias foram difamadas e encerradas. De discurso em discurso, e conforme as conveniências de momento e a qualidade dos seus ouvintes, todos os alicerces da cultura ocidental foram danificados, minados, destruídos, chegando os insultos à causa portuguesa a causar pânico nas fileiras da própria Frelimo, pânico que culminou com a partida apressada de Joaquim Chissano, então primeiro ministro de Moçambique, a Quelimane, logo após o Presidente da Frelimo ter naquela cidade, mais uma vez, insultado a cultura portuguesa. Nas palavras de crítica respeitosa ao Presidente, pronunciadas na presença de Gideon Ndobe, então ministro da Educação, e ouvidas por alguns portugueses, notava-se que Joaquim Chissano desconhecia no actual Samora Machel o antigoguerrilheio, descoberta que quebrara repentinamente o endeusamento que dedicara ao antigo companheiro de armas. Desconhecia Chissano a lavagem ao cérebro a que fora sujeito Samora Machel, em Dar-es-Salam, pelos verdadeiros dirigentes de Moçambique, o grupo intelectual-marxista da Frelimo, dirigido por Marcelino dos Santos. Mesmo assim, apreensivo, notou a falta grave do Presidente, dessa atitude emergindo o óvolo das dissidências que, dia após dia, amadurecia dentro do cada vez mais pequeno e desunido Comité Central da Frelimo. Mas a Imprensa moçambicana apenas levava às rotativas quanto não comprometesse o Presidente Samora junto dos observadores internacionais, silenciando grande parte das suas afirmações ou distorcendo-as. Saliente-se que todos os discursos de -Samora Machel eram — e são ainda — censurados pelo Departamento de Informação e Propaganda, mas, mesmo assim, nos trechos publicados verifica-se a sua exaltada perseguição aos símbolos, charneira da sua luta política, como se fosse o único criador da História. Eu gravei, na íntegra, o discurso pronunciado pelo Presidente em Tete, na sua primeira visita de contacto com o povo moçambicano, e a Imprensa apenas referiu

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pequenos trechos que falsearam a verdade, pois eram as afirmações decepadas pela Informação que retratavam a personalidade de Samora Machel. Nesse discurso, e numa conversa que nesse mesmo dia com ele manteria, ficoume a convicção de que o Presidente da Frelimo mostrava possuir duas personalidades distintas, que se substituíam e alternavam. Por vezes o seu único credo político era o poder, e as palavras que exprimem emoções humanas não faziam parte do seu dicionário; por outras mostravase humano. Qualquer observador teria dificuldade em o classificar, por as suas atitudes e afirmações fornecerem um terreno favorável ao erro, mas muitos consideravam-no um resultado do fenómeno social da guerra. Samora Machel penetrou na luta de libertação nacional sem ideias políticas. O seu ideal era a liberdade, o desejo de fugir ao jugo colonialista e um inconfessável ódio ao colonizador branco. Pouco inteligente, mas corajoso em combate, era o homem indicado para ser apresentado como símbolo de chefia aos verdadeiros nacionalistas que lutaram no interior, e fácil palhaço político nas mãos dos camaradas intelectuais que esperavam, no momento propício, empurrá-lo para as ideias socialistas do Kremlin. Esse momento só apareceu com o 25 de Abril, quando a Frelimo viu que Portugal lhe oferecia o Governo de Moçambique, pois já não era mais necessário iludir o Ocidente — fornecedor de importantes meios económicos para a existência do Partido — nem os chefes dos governos negros da África Austral. Saliente-se que Keneth Kaunda, presidente da Zâmbia, em diversas declarações pronunciadas até à independência moçambicana, se afirmou convicto de que Samora Machel não conduziria Moçambique para a constelação moscovita, e o próprio auxílio chinês indica idêntica suposição do império comunista amarelo do Oriente. Trabalhado apressadamente pelos persuasivos processos moscovitas, usados pelos seus camaradas, e convencido pelas mais amiudadas visitas a Moscovo, onde era rodeado de especiais honras e adulações, que apraziam a sua vaidade pessoal e a sua sede de Poder, do homem apolítico nasceu o dirigente comunista condutor de massas. Mas diversas situações permitiam que o primitivo homem se manifestasse em algumas atitudes, daí derivando a sua aparente dupla personalidade. O seu apoliticismo anterior, e a sua sobrepolitização repentina, operaram nele o fenómeno da dupla personalidade. Os exemplos que mostro, a seguir, provarão como é fácil de distinguir os seus dois contraditórios comportamentos. Retiro do gravador parte do discurso proferido em Tete, no dia 10 de Junho de 1975, o suficiente para ilustrar a forma pouco usada por outros políticos para atrair a atenção das massas e a sua simpatia! «Vocês já viram um turra?» (risos nos milhares de assistentes ao comício). «Nunca viram um turra?... É ou não é?» (silêncio). «Mas é, ou não é?» (vozes que gritam «É», vozes que gritam «Não é»). «Eu sou um turra! Eu sou um turra! ... Viva o turra! ...» (o povo grita «Viva»). «Eu sou um turra... É ou não é?» (a multidão grita «Ë»). «Então eu vou-vos apresentar mais turras. Está aqui este que é o turra Marcelino dos Santos, vice-presidente da Frelimo e
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membro do Comité Central. Viva este turra!» (o povo grita «Viva»). «O Marcelino dos Santos é um turra. É ou não é?» (o povo grita «É»). Marcelino dos Santos ergue-se majestosamente e sorridente grita estridentemente «vivas» à Frelimo, a Samora Machel, a Eduardo Mondlane, e Samora prossegue: «Temos aqui mais turras. Este é o Mariano Matsinha. Conhecem este turra? Ë membro do Comité Central da Frelimo. Viva este turra!» (o povo grita «Viva» e Mariano Matsinha repete os «Vivas» de Marcelino dos Santos). Samora Machel continua: «Este é o turra Joaquim de Carvalho, membro do Comité Executivo da Frelimo. É um turra. Ë ou não?» (o povo aplaude e grita «Ë», repetindo-se os «Vivas»). «Mas é ou não é?» (o povo grita «É»). «Pois bem foram estes turras que vos trouxeram a liberdade. É ou não é?» (a multidão grita «É»). «Foram estes turras que venceram os miseráveis e assassinos soldados de Portugal, o exército colonizador. Foram estes turras que ganharam a guerra e fizeram com que os portuguesesfugissem como galinhas para Portugal. Ë ou não é?» (a multidão grita «Ë»). «Então vivam os turras! Vivam os turras!» (o povo grita «Vivam»). «Agora vamos cantar! ...». E todos cantam alto e bom som, estando conseguida a comunicação entre o dirigente e as massas. Uma comunicação ridícula mas no momento útil aos homens que o manobram. Homens que sabiam que no momento oportuno Samora Machel seria uma figura para queimar. Mais tarde, nesse mesmo dia, eu falo com Samora Machel nos jardins do Palácio do Governo de Tete, durante uma recepção oferecida em sua honra. Conversa informal a princípio, eu encaminhei-a para entrevista, forçando Samora Machel a mostrar-se a si próprio sem as orientações do seu grupo de conselheiros, obrigando-o, deste modo, a combater desarmado. Interroguei-o: — Presidente Samora, qual é a sua impressão pessoal a respeito do professor Marcello Caetano? O grupo de meus colegas aproxima-se, interessado na resposta que sairia de Samora Machel, e eu, no curto intervalo, tento descortinar, inutilmente, surpresa ou outro sentimento qualquer no rosto do meu interlocutor. Vejo nele apenas o ar apagado de um homem vulgar e pouco inteligente. — Somos inimigos políticos. Ele representava o colonialismo, força opressora contra a qual nós lutávamos pela Frente de Libertação. Isso não impede, porém, que, pessoalmente, o admire como homem... Reparando, sem dúvida, que esta última afirmação era um bocado ousada tempera-a imediatamente: — Ele era um homem sério, honesto, íntegro. A sua política é que estava errada. A opinião pública moçambicana em geral fora agredida com uma acesa campanha contra o general Kaúlza de Arriaga, e grande parte dos «posters» da Frelimo mostravam o general português em atitudes ridículas, fazendo nascer a impressão de que os dirigentes da Frelimo sentiam um especial rancor ao estratega da operação «Nó
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Górdio», denominada pela Frelimo como «A Grande Ofensiva». Por isso perguntei a Samora Machel: — E Kaúlza de Arriaga?... Consta que o vai convidar para as festas da Independência ... Rui, agarrou-me amistosamente por um braço, e respondeu: — O camarada diz isso em forma de anedota, mas olhe que ele foi um razoável colaborador da nossa luta. Quando actuava contra nós havia sempre processo de, com uma semana de antecedência, sabermos a sua estratégia. Geralmente era o«bocas» (Samora Machel referia-se a um avião munido com um altifalante integrado na luta psicológica contra a Frelimo) ou a Imprensa portuguesa que nos alertavam. Nós sabíamos sempre quando ia ter lugar uma operação de vulto por parte do inimigo, e até a Grande Ofensiva nos encontrou precavidos. Porém, como estratega, era um grande general, era um inimigo à nossa altura. Admiroo. Samora Machel referia-se à humana actividade do general Kaúlza de Arriaga, que sempre evitou o sacrifício de inocentes. Deste modo tentou sempre — e essa justiça ninguém lhe pode negar — afastar das zonas de morte mulheres, crianças,velhos e quantos não apontavam armas à presença portuguesa em Moçambique. O «Grande Comandante», como era conhecido em Moçambique por militares e civis, fez uma guerra humana, o que por vezes permitiu à Frelimo prever uma «operação» pêlos preparos de segurança oferecidos à pacífica população civil. Mas a Frelimo sabia que nunca derrotaria o «Grande Comandante», e disfarçava os seus desaires inventando na sua propaganda hipotéticas vitórias. Nelas se incluem o ataque a Tete, com edifícios destruídos — pura mentira — e destruição de aviões na Base Aérea de Tete — outra indesmentível invenção. Neste ataque, efectuado infantilmente com foguetes de 122 milímetros, a Base não foi atingida, as pistas não foram violadas, e tudo não passou de aparato. Dirigi-me para a Base Aérea ainda durante o ataque, desencadeado ao pôr do sol de um dia calmo. E como eu, muita gente civil. A actividade bélica da Frelimo apenas fora espectáculo agradável de ver, desperdício de munições, e prova de inépcia militar. Mesmo assim, os calendários vendidos pela Frelimo, depois desta ter derrotado Portugal, apresentavam o ataque como uma sua vitória, aviões destruídos, e outras afirmações destituídas de verdade. E o que mais espantava as gentes era o impudor com que essas mentiras eram vendidas às gentes sorridentes de Tete. Esse motivo reforçara a minha curiosidade sobre a impressão de Samora Machel a respeito do general Kaúlza de Arriaga. Samora volta a sorrir e prossegue: — Admiro o general Kaúlza de Arriaga; agora o outro, o que o substituiu, esse era perigoso. Chegou a fazer infiltrar nas nossas fileiras homens cegos e aleijados. Até paralíticos, veja bem. Espiavam os nossos movimentos e informavam Oinimigo. Esse era perigoso. Chegou a fazer penetrar traidores no noss o seio...

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Samora Machel referia-se ao general Bastos Machado, e os meus camaradas, que assistiam à conversa, estranhavam o atrevimento das minhas perguntas. Eu queria pôr nelas o ácido miraculoso que dissolvesse as páginas mais escondidas da personalidade daquele homem, de que se dizia ter a guerra dado a oportunidade de demonstrar os seus dons de organizador eficiente. Até num estado totalitário comunista é necessário tempo para construir um mito e impô-lo às massas, e eu queria, olhando a figura vulgar que tinha a meu lado, descobrir, por mim próprio, os motivos da sua meteórica ascensão e do seu aparente retumbante êxito político, tentando afastar por momentos, a certeza que já possuía de que ele era um homem dominado por outros cérebros. A impressão, porém, que me causava de já visto não me permitia tirar nenhuma conclusão. Mário Ferro, da Redacção do «Notícias da Beira», toca-me no braço e dir-me-á a seguir: — Se lhe dás trela nunca mais te larga. Foi, porém, Nini Vieira, pessoa das minhas relações pessoais, mãe de Sérgio Vieira (um dos manobrados de Samora Machel, secretário da Presidência da Frelimo e mais tarde director do Gabinete da Presidência da República) que atraiu o Presidente Samora, afastando-o das perguntas que eu já engatilhara e estavam prestes a ser disparadas. Como era de supor, nenhum jornal referiu as afirmações do discurso pronunciado em Tete — e que transcrevi do meu fiel gravador — nem a conversa que comigo teve e que foi ouvida e anotada por diversos jornalistas. Tudo isso não interessava ao Departamento de Informação e Propaganda nem à maioria dos meus colegas que representavam o «Notícias», o «Tempo» e o «Notícias da Beira», além da Imprensa tanzaniana, e que, acompanhando o Presidente na sua viagem de cerca de um mês, como enviados especiais, mais não haviam feito do que receber do D.I.P. parte das gravações censuradas, aquela parte considerada digna de merecer publicidade. E essa forma de actuação do D.I.P. obrigava a que os próprios discursos, os célebres improvisos de Samora Machel, não fossem radiodifundidos em directo, mas algum tempo depois, o tempo suficiente para receberam o bisturi dos escrupulosos e politizados funcionários do Departamento, encontrando-se entre estes o jornalista português Santos Martins. O clima de terror alastrava, porém, por todo o Moçambique e tocavame especialmente após ter sido publicada a carta da enfermeira Geraldina Francisca. Assim, tendo-me deslocado à Beira na quadra do Natal, uma quadra morta sem as alegrias do passado por ser condenada pelo comunismo internacional, e que apenas mereceu uma contrafeita tolerância de ponto aos funcionários cristãos, recebi, no meu regresso, a 30 de Dezembro, uma ordem para me apresentar com urgência no Comissariado Político do Partido. Tratando-se de um dos últimos dias do ano protelei o meu julgamento, fazendo com que todas as chamadas telefónicas, e buscas pessoais, não me encontrassem. Apenas no dia 2 de Janeiro compareci no Comissariado Político, após

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mais uma vez ter tido conhecimento de que me convocavam com urgência ao Partido. Cerca das quinze horas penetrei num gabinete acanhado, cheio de fumo de cigarros, de onde apenas sairia sete horas e meia depois, exausto e com o medo redobrado. Era a primeira sessão de crítica e auto-crítica onde entrava como intérprete, embora tivesse assistido a outras e soubesse com o que me era permitido contar. Eu vira as máscaras de terror das vítimas sujeitas a esta espécie de sádicos julgamentos, e prometia a mim mesmo ser forte, baseando muitas esperanças na minha profissão, pois na verdade ainda nenhum jornalista havia sido intimidado. Mas eu sabia que os que poderiam ter vindo a sê-lo tinham inteligentemente virado as costas a Moçambique e, por outro lado, não me identificava com nenhum dos que ficaram e que era a escória do jornalismo moçambicano. Eu tinha voluntariamente adquirido — ao querer permanecer em Moçambique após a Independência — um bilhete para o Inferno. O que teria de fazer, com todas as forças, era proporcionar-me o direito ao regresso, mesmo sabendo que um indivíduo isolado não vale grande coisa. Eu sabia que o terror é sempre igual seja qual for o pretexto, seja quem for que o exerça, e queria sair do teatro do medo prometendo a mim mesmo que tomaria as mais duras atitudes, que usaria as mais agressivas respostas, consciente de que a humildade é a menos inteligente arma que se pode levar para uma sessão de crítica e auto-crítica. E foi pensando deste modo que me sentei diante dos meus julgadores. 11. EU, INIMIGO CAMUFLADO

Um trio formava o estranho tribunal. Chefiava o grupo o comissário político provincial, Eusébio Nenhum Fica, homem sem escrúpulos que merecera, devido às injustiças e aos crimes que cometera durante a guerra, a alcunha de Nenhum Fica, a qual orgulhosamente viera a adoptar como nome. Dois dos restantes indivíduos apenas conhecia um, de nome Cândido, a quem apontavam façanhas de imoralidade. O outro, de palavras mansas, havia de manifestar-se durante o interrogatório como uma espécie de advogado do Diabo. Eu estava ali, pois, para uma sessão de auto-crítica numa reunião do Comité Provincial da Frelimo, diante deles, na frente de uns miseráveis patifes que sustinham nas mãos o poder. Eu estava ali com a certeza de que ninguém me defenderia, de que não encontraria da parte deles uma só palavra de compreensão, e que o meu destino mais próximo seria a cadeia, a machamba, os maus tratos, as agressões, o inferno. O mecanismo estava preparado e pode-se resumir desta fácil maneira: Façamos o tipo falar e depois é a nossa vez. Competia-me a mim, se me fosse possível, avariar uma das peças do maquinismo. Foi o Cândido que abriu a sessão:

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— O camarada está presente perante o Grupo Dinamizador Provincial da Fre-limo e este gabinete é o do Comissariado Político Provincial. O comissário político quer fazer-lhe umas perguntas ... Olho a secretária e avisto o jornal dobrado, mostrando o motivo da acusação— a carta da Geraldina Francisca. Eles notam a direcção do meu olhar e escondem-no. Ficam-me fitando durante minutos sem nada dizerem, na intenção clara de me gelarem o sangue, de me aturdirem, forma clássica de tortura aprendida sabe-se lá aonde. Eu sei que eles vêem em mim mais uma oportunidade de amesquinharem um português, e que isso lhes traz uma satisfação íntima, um prazer que me tentam ocultar, mas que eu espreito no olhar de cada um deles, na ânsia que não podem disfarçar em iniciarem a investida. — Quais são as estruturas do jornal em Tete? Perguntou-me o comissário Nenhum Fica e eu, ficando a interrogar-me sobre o que ele queria definir com estruturas, respondo descrevendo as funções do jornal, as pessoas que o servem, a distribuição dos trabalhos por cada um dos funcionários, elucidando-o na forma mais coerente possível, fugindo à possibilidade, creio que por eles desejada, de lhes permitir um duplo sentido a qualquer das minhas afirmações. A atenção com que me escutam faz nascer em mim um sentimento de atracção que alterna com o de repulsa, e este impulso dirige-se efectivamente na direcção de Nenhum Fica, na minha frente. — Anh, anh, camaradas. Estão a ouvir? Foi ele que mandou a carta da Geraldina para o jornal. Leia a carta a este camarada... a este senhor... — e sibila palavras em forma de bofetadas que eu não entendo. Recordo-me de uma entrevista publicada, nessa mesma semana, na revista «Tempo», concedida por Nenhum Fica ao jornalista Santos Martins, onde ele afirmava, ao referir a actividade política na província de Tete, que haviam sido detectados diversos reaccionários e punidos severamente, uns por crime de sabotagem económica, outros por não aceitarem o tratamento de «camaradas». Era isso, então. Ao me agredir com o tratamento de senhor, Nenhum Fica estava a cimentar sobre mim a acusação de reaccionário. Penso nisto enquanto o Cândido faz esforços para ler sem erros a carta, que eu sei de cor, e espero a continuação do interrogatório. Nenhum Fica pergunta com ênfase: — Esta carta desta... mulher, passou-lhe pelas mãos? Mandou-a para o jornal, einh?... Respondo afirmativamente, dizendo-lhe que apenas cumpri a minha obrigação profissional. Digo-lhe que a carta não me era dirigida pessoalmente mas ao jornal, não sendo eu mais do que uma peça da gigantesca máquina do «Notícias da Beira». Interrompe-me, erguendo-se da secretária: — Este senhor é um reaccionário. Ë um inimigo do povo. Há três espécies de inimigos, os directos, os indirectos e os camuflados ...

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E prossegue durante cerca de uma hora, repetindo, palavra por palavra, um discurso de Samora Machel, publicado com destaque dias antes na Imprensa. Já ouvira o Nenhum Fica repetir este discurso em duas sessões distintas: Uma, numa reunião do bairro a que eu pertencia, onde, sem qualquer motivo aparente, começou a falar dos inimigos directos, indirectos e camuflados. Recordo-me quedessa vez distraí o cérebro olhando o cabecear sonolento do meu vizinho Carreira, que aproximava a cabeça, cada vez mais perigosamente, do vão da janela que dava para a rua. A segunda vez fora no átrio da Escola Técnica, quando se dirigia aos alunos, numa reunião convocada para que fossem analisados os motivos de uns distúrbios, causados por um grupo irreverente de estudantes. Nessa ocasião a minha curiosidade fora atraída para uma conversa entre duas estudantes, bem mais interessante do que a divagação científica de Nenhum Fica. Agora nem uma palavra ele acrescentava ao seu improviso e repetia textualmente as palavras de Samora Machel como se fossem suas, como se fossem subtraídas, naquele momento e naquele lugar, aos seus pensamentos. Ele falava pela boca do chefe, do raciocínio do chefe, numa autêntica afirmativa de submissão. Nenhum Fica, transpirado e cansado, acabou finalmente de redizer, de fio a pavio, tudo aquilo que no jornal havia ocupado duas páginas completas a oito colunas, e ainda uns restos de outras páginas ... — Por que não veio trazer aqui a carta antes de a mandar para a Beira? Por que não denunciou a Geraldina Francisca como era seu dever? Esquecese da linha de Ordem: Vigilância. Vigilância! ... A pergunta ficou no ar, gritada, e ele olha-me agressivamente. — Por diversas razões — respondo —. A primeira e a principal é existir na sede do «Notícias da Beira» uma Censura na Redacção. Deste modo uma carta dirigida à Participação Popular é censurada. Se os elementos do quadro da Redacção, que têm o apoio da Secção de Informação e Propaganda da Província de Sofala, a acharam publicável, o que eu acho também, sabiam o que faziam. Outro motivo é o facto de que silenciar uma injustiça é cometer uma injustiça maior. O terceiro motivo, e que para mim é o que mais importa, é o facto de eu não ser um delactor, mas um jornalista ao serviço do povo... Interrompeu-me, parecendo-me enfraquecido na sua cólera. — Camarada Cândido, o que é isso de delactor, ou coisa parecida? — Parece-me que é a mesma coisa que denunciante! — elucida o Cândido. — É isso mesmo — confirmo —. Era isso exactamente o que eu queria dizer. — Povo... Povo... — diz Nenhum Fica —. Tu não és do povo. És um burguês ... Tu és um intelectual! ... — Nós não temos pressa. Ë ou não é, camaradas? Podemos estar aqui até de manhã, até resolvermos isto. Ele nem sequer é um ignorante... — e apontame com desdém. O Cândido interrompe:
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— Se lhe aparecesse na Redacção uma carta a dizer que o Comissário Político de Tete era um ladrão, que andava a passear num bom automóvel, como um burguês, enquanto o povo passa fome, o camarada publicava? Percebendo a maligna intenção da pergunta respondi: — Não me apareceu nenhuma carta com esse teor, pelo que está fora de propósito a pergunta. Não respondo. — Oh camarada! — diz Nenhum Fica para o terceiro juiz — Escreva isso, sim? Escreva isso! ... O outro procura papel, não o encontra, e vai buscá-lo a uma sala ao lado. Quando regressa já Nenhum Fica havia mudado de ideias: — Não escreva, camarada. Essa coisa do Comissário Político ser ladrão, e de andar a passear de automóvel pode causar confusão. Ë ou não é?... Concordam ambos e eu fico a pensar, mais uma vez, no Presidente Samora e nos seus É ou não é? que Nenhum Fica imita tão bem. Qual seria a personalidade daquele homem raquítico, inculto, a quem ofereceram os poderes de um Comissariado Político, esses poderes ilimitados que manejam a liberdade de qualquer cidadão nacional ou estrangeiro? Via-se que lhe entregaram uma cartilha a soletrar e que a decorara sem a compreender. Nenhum Fica retorna a falar nos inimigos do povo, nos inimigos directos, indirectos e camuflados, e repete a parte do discurso que lhes é dirigida. Não o oiço e remexo-me na cadeira, nauseado com tamanha farsa. A que conduziria aquela comédia? O que me aconteceria após o discurso bisado daquele actor semi-consciente, semilider improvisado ao serviço de uma ideologia esquerdista trabalhada, reelaborada, que lhe fora injectada em doses maciças superiores à sua capacidade deentendimento? Olho o relógio e penso que a São deveria estar aflita com a minha demora. São seis horas da tarde, e já haviam decorrido cerca de três horas desde que ali entrara, todas elas preenchidas com os discursos de Samora Machel recozinhados na boca de Nenhum Fica. Mostro o meu desejo de telefonar para casa para dar umas instruções urgentes sobre o jornal. Autorizam-me mas sou acompanhado por um elemento da Frelimo, um homem ridículo, antigo comerciante dos arredores de Tete nos anos da guerra, e que, por ter alimentado os guerrilheiros nessa fase crítica do Partido — o mesmo que fazia aos soldados de Portugal — merecera o lugar de relações públicas do Comissariado Político, uma mistura de carcereiro para os criminosos, e de mesureiro para os patriotas. Um guerrilheiro armado também me acompanhou ao telefone num outro compartimento, e sinto, mesmo sem olhar, o cano da sua Kalashnicov apontado na minha direcção. Informo a São, como disfarce, que preste atenção e grave um programa do Partido, que iria para o ar, como todos os dias, pelas 18,30 horas na voz do jornalista Santos Martins, e afirmo-lhe que estou no Comissariado Político, que não existem problemas, e que quando saísse seguiria directamente para casa ou lhe telefonaria.
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Abandonei contente o compartimento de onde telefonara, pois tinha informado a família do lugar onde me encontrava. Mal penetro no gabinete volto a ser interrogado por Nenhum Fica: — O camarada... o senhor... acha que procedeu bem ao enviar a carta para o jornal?... Acha que prestou um bom serviço ao Partido e a Moçambique?... Ou, pelo contrário, fez o jogo do inimigo da Revolução Socialista? — Cumpri apenas o meu dever — respondo—. Estas cartas destinadas à Participação Popular nem sempre passam pelas minhas mãos. Podem ser remetidas directamente pelo Correio, bastando apenas que o seu autor se identifique. A carta da enfermeira Geraldina passou por num, mas podia não ter passado. Era publicada na mesma. Interrompeu-me: — Estão a ver?... Ele está a... Como se diz Está a... Quero ajudar o meu juiz mas receio que a minha interferência seja mal interpretada. A ajuda partiu do seu camarada Cândido: — A divagar ... — Isso mesmo. Sempre gostei muito desse termo. Divagar... Ele está a divagar, não é isso camaradas? Ë ou não é?... Escreve a palavra divagar num bloco que lhe é posto sobre a secretária e usaria esse termo mais dezasseis vezes durante a reunião, olhando sempre para o bloco antes de o pronunciar. — Camaradas — diz o Advogado do Diabo—. O camarada Passos parece que está nervoso. E falando para mini: Alguma vez ouviu falar que aqui batiam, amarravam ou prendiam? Responda com franqueza! — e sorriu-me piscando um olho. Atribuo um preço à minha resposta. O que me valeria a mentira, se afirmasse que desconhecia as arbitrariedades de que muitos meus conhecidos foram vítimas, ali mesmo, no lugar onde eu me sentava, abandonando aquele gabinete repleto desangue? Lembro, só para mim, a agressão bárbara de que foi vítima José Manuel, um moço português empregado do Bar Pic-Nic. Por uma denúncia não confirmada, de uma mulher qualquer, que afirmara ser ele possuidor de armas, foram buscá-lo à sua residência. Mal abandonaram a zona mais povoada da cidade amarraram-no, por forma a que as cordas, apertadas com rancor, lhe dilacerassem as carnes. Colocaram-no sobre um camião, e para que ninguém se apercebesse da carga que a viatura transportava obrigaram-no a deitar-se sobre o chassis, ao mesmo tempo que os homens que cumpriam a horrível missão de captura colocavam os pés sobre o seu corpo. No Partido — onde eu agora me encontrava — e como recepção, perguntaram aos seus captores quem era a vítima. A resposta foi curta: — Não vêem que é um cão de um português? Foi ouvido pelo mesmo trio e novamente agredido. Levaram-no para o Batalhão, nas proximidades do Aero Clube — a agremiação mais sofisticada da cidade — e

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todos os guerrilheiros, em número de dezenas, o pontapearam e agrediram, deixandoo bastante ferido. Uma semana depois, e por não se provar a acusação, o José Manuel foi posto em liberdade. Pediram-lhe desculpa. «Fora um erro» — disseram-lhe. Mas ele trazia nos ouvidos os enraivecidos insultos de que fora alvo, por ser português, e as cicatrizes dos maus tratos que recebera. — Responda de qualquer modo! — diz o Advogado do Diabo, e eu já atribuirá o preço à minha resposta: — Já ouvi... e vi marcas nos corpos de pessoas que caíram como eu nas vossas mãos. Fotografias e depoimentos gravados estão em lugar seguro, e serão vistos e ouvidos se eu desaparecer ou quando algo de anormal me aconteça. Pareceu-me ser ódio, espanto, o que vejo no olhar de Nenhum Fica. Ele estava de tal modo seguro na pele de inquiridor que não desejava, nem a sua formação política lhe permitia, ver em mim mais do que uma massa informe, despersonalizada, esmagada ao peso da culpa e do medo. — Tem então medo de ser preso? Não respondi. — Fizeram-te uma pergunta! — empertiga-se Nenhum Fica. — Ele está nervoso. Deixe-o lá, camarada! — interveio o Advogado do Diabo. Nenhum Fica rectifica-o: — Não podemos ser comedidos com os inimigos do povo, especialmente com os inimigos camuflados. Esses estão no nosso seio e atiram-nos balas de açúcar, que ferem mais do que as balas dos inimigos directos — os soldados do exército colonialista que derrotámos. Parecem ser dos nossos e não são ... E voltei a ouvir, tim-tim por tim-tim, as palavras do discurso de Samora Machel, sentindo que tudo aquilo era de mais para os meus nervos submetidos a tensão. Tornam a ler-me a carta da Geraldina Francisca, a fazer sobre ela reparos, e ordenam que fizesse a minha auto-crítica. Respondo que mais nada posso acrescentar. Que cumpri o meu dever de jornalista. Que me era impossível proceder de outro modo. Que em idênticas circunstâncias voltaria a proceder assim ... Sou interrompido: — É uma ordem. A partir deste momento tudo o que escreveres terá de passar primeiro por este Comissariado. Ouviste? É uma ordem minha... Ë uma ordem do Comissário Político Nenhum Fica... E iniciou um discurso: — Escreva aí, camarada! ... Pela primeira vez o Cândido pega na caneta e preparou-se para escrever numa folha de papel virgem: — O jornalista Inácio de Passos... como é o nome todo dele, como é?
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Dito-o para o papel. Ele prosseguiu: —... é um reaccionário e um inimigo do povo. Provou-se que lhe foi possível evitar a publicação da carta da camarada Geraldina. Com a sua atitude... Está bem atitude, camaradas? ... Há gestos de apoio. —... com a sua atitude beneficiou os inimigos da Revolução. É um inimigo camuflado, mais perigoso do que os inimigos directos e indirectos. £ um desses inimigos que estão no nosso seio e que nos atiram balas de açúcar que ferem mais do que as balas dos inimigos directos. Camarada, escreva isso tudo. Ë muito importante... Parecem ser dos nossos e não são. Estão camuflados no nosso meio. Imitam os nossos gestos, as nossas atitudes... Ganha a batalha e conquistada a independência, total e completa... Interrompeu-se: — Está a escrever tudo, camarada Cândido? Está? ... O outro respondeu afirmativamente. — ...aparece um novo inimigo. O inimigo que ontem nos atacava de uma forma, ataca-nos hoje de outra, procurando destruir-nos através dos seus agentes. Quem são esses agentes?... Vejo que a pergunta não me é dirigida e o Cândido e o Advogado do Diabo olham um para o outro. Nenhum Fica levanta-se, querendo parecer imponente, e, dirigindo-se na minha direcção mas olhando além do meu corpo, como se falasse para uma multidão de ouvintes entusiasmados pela sua dialéctica, terminou, de braço erguido e punho fechado: — É a burguesia! ... É a burguesia! ... Ê ou não é? ... Dão-me a liberdade depois da interminável lenga-lenga, sublinhando Nenhum Fica que por ora estava livre mas que não me era permitido abandonar a cidade. Reencontro a rua e respiro com sofreguidão o ar cheio de perfumes da noite. Apetece-me beber um copo de cerveja em qualquer lado, como se uma febre interior me queimasse as entranhas. Dirijo-me ao Bar Pic-Nic, mas já se encontra encerrado. Eu perdera a noção do tempo. Pergunto as horas: Passa das dez e meia da noite. Haviam decorrido cerca de oito horas desde que me sentara no gabinete do Comissário Político da província de Tete. A cidade parece-me menos feia. O ar quente da noite é absorvido com prazer pelos meus pulmões saturados do fumo que receberam no gabinete acanhado de onde sairá. Entro num café, ainda aberto, e tomo uma «bica» e um copo de água, quando o corpo me pede cerveja. Mas o Partido decretara a proibição de venda de bebidas alcoólicas depois das vinte e uma horas. Sorrio para toda a gente, sentindo quetodos conheciam a minha história como se ela pudesse ser lida no meu rosto. Repito o café com prazer, com deleite, com sofreguidão. Uma criança da idade do meu filho passa junto de mim, aproxima-se da minha mesa e acaricia-me com o olhar. Sinto que a minha mão é atraída para os

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seus cabelos loiros e evito o gesto, começando a morder dentro de mini uma saudade imensa da família. Saio e caminho apressado pelas ruas sem gente. Uma neblina de poeira cresce do solo, das ruas esburacadas e sujas feridas pelas obras de saneamento. Fica pairando junto aos candeeiros que despejam para as artérias uma luz frouxa e indecisa. Tudo quanto me irritava tem outro sabor, outra cor, e martelo, enquanto caminho, até cansar o cérebro, as palavras ouvidas pouco antes. Eu tivera sorte? O comportamento dos outros acusados, dos que me antecederam e dos que me seguiriam, seria idêntico ao meu? As atitudes dos meus inquiridores, as afirmações ridículas do Nenhum Fica imitando os gestos, a voz e as palavras de Samora Machel, a importância sofisticada do Cândido e as suas intervenções maliciosas, as contradições do Advogado do Diabo, ter-me-iam arrancado gargalhadas se eles não fossem tão perigosos e o poder não estivesse nas suas mãos. Mas agora era-me permitido rir e soltei uma gargalhada que ninguém ouviu, e que a noite me devolveu inteira. 12. NUM CLIMA DE TERROR

O clima de terror propagava-se por todo o país. Duas sobreviventes do campo de torturas de Luatize haviam regressado a Tete, foram hospitalizadas e eu queria ouvi-las. Sabia que me vigiavam, que trazia na minha sombra um ou mais bufos escravos à vigilância ideológica, prontos a me lançarem definitivamente às feras. Diversas vezes verificara que os mesmos rostos me fitavam nos mais diversos lugares e a horas diferentes. Mesmo assim, eu queria ouvi-las sem me comprometer e sem lhes arranjar, a elas, mais sofrimentos. Entrevistei-as com precaução. Guardei a bom recato os apontamentos coligidos, pois toda a cidade estava a ser vasculhada de cima abaixo pêlos homens do Partido. Eles entravam nas residências, estivessem nelas os moradores ou não, e algumas mulheres foram obrigadas a abandonarem as casas de banho, apenas envoltas em toalhas, para permitirem que toda a casa fosse revistada sem darem tempo a que escondessem qualquer coisa. E eu temia que a minha residência sofresse igual sorte. Guardava, num recanto qualquer da despensa, os meus camuflados, as fardas que envergara inúmeras vezes nas reportagens que efectuei ao teatro das operações de guerra, e sabia que bastaria esse pequeno pormenor para que me remetessem, por longa temporada, para os calabouços. Possuía vasta documentação, acumulada no decorrer de anos, e centenas de fotografias amontoavam-se, também, na despensa.

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Encarreguei a São de destruir tudo o que me comprometesse. Com a colaboração * de um moleque de confiança, há muitos anos ao serviço do meu lar, foi aberta uma cova no quintal — a que o meu filho de cinco anos chamou latrina — e os objectos comprometedores foram atirados para ela e regados com petróleo. Em poucos minutos, importantes pedaços da minha carreira profissional, arquivados com entusiasmo, foram pasto das chamas. A São atirara também, ingenuamente, para o braseiro outros objectos inúteis — lâmpadas velhas, frascos de «spray», etc., que encontrara na despensa, motivando um inofensivo mas barulhento tiroteio. Pode parecer ridícula esta descrição mas ela é necessária para retratar o clima de terror que se vivia, pois as prisões sem motivo sucediam-se indiscriminadamente. E essas ocorrências, que nunca tinham honras de Imprensa, eram contadas entreamigos aumentando o cenário onde o pânico se expandia em campo propício. Um mestiço de Moatize, de nome Áfrico, afirmara junto de uma roda de amigos que não acreditava na Imprensa moçambicana e dera um exemplo: — Vocês já viram que os jornais só falam do M.P.L.A., dando a impressão de que em Angola não existem uma U.N.I.T.A. e uma F.N.L.A.?... Já repararam que se eles tivessem o povo a seu lado não necessitavam dos cubanos? ... Foi preso e colocado incomunicável numa sela. À noite sua mulher caminhava na rua transportando numa marmita o jantar do detido, quando foi abordada por) um amigo a quem contou a detenção do marido. Não se abriu em pormenores e o amigo afirmou-lhe que daí a pouco levaria um pacote de cigarros à prisão. Esse indivíduo, de nome Loures, levando ao prisioneiro um pacote de cigarros e uma cerveja entra na área da prisão mas só a abandona quatro dias depois. Todo o tempo passou-o descalço a «capinar» uma vasta área, cumulado constantemente com ofensas e insultos. E não foi agredido por ser proprietário de um bar onde os comandantes guerrilheiros se embriagam, liquidando as contas com «vales» que nunca satisfazem em dinheiro. Tudo isto se sabia, e quantos chegavam do Sul transportavam consigo muito mais para contar na roda de amigos, ocorrências que acabavam por percorrer todos os ouvidos dos assustados portugueses. Por outro lado, proliferavam os assaltos eo Corpo de Polícia de Moçambique olhava indiferente quem se atrevia a participar o roubo de que fora vítima. Os alvos dos larápios, como é óbvio, eram as residências portuguesas, os bares, os restaurantes, os estabelecimentos comerciais, ainda propriedade de lusitanos. A estes assaltos, de que nunca eram descobertos os autores, não escaparam em Tete a Recebedoria de Finanças, O Banco de Moçambique, e o Instituto de Crédito, mostrando o à vontade com que as quadrilhas actuavam. As mulheres temiam sair à rua para não chocarem com esbirros da Frelimo, e receavam ficar em casa para não serem agredidas pelos larápios. A cidade rés pirava medo e via-se na forma de falar, nos gestos, nas reacções de todos os habitantes, que se estava às portas do pânico.
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As rusgas prosseguiam não sendo poupada nenhuma residência e os guerrilheiros apropriavam-se de diversos objectos sem passarem recibo. Os bens dos portugueses estavam a saque, e eram os agentes fardados da Frelimo que retiravam aoslegítimos proprietários, ensimesmados cada vez mais nos seus dramas individuais, na sua frente, binóculos, armas de pressão de ar, calçado civil tipo militar, e muitas coisas mais. Um técnico português ao serviço da Câmara Municipal de Tete, especializado na colocação de asfaltos, dirigia os trabalhos numa das artérias mais movimentadas da cidade, calçando botas que havia adquirido dias antes num estabelecimento comercial. Uma força da Frelimo considerou que as botas se assemelhavam ao calçado militar e obrigou-o a descalçar-se na via pública e a acompanhar descalço os agentes da autoridade. Foi o presidente da Câmara Municipal, um negro de nome Corda, que, com a sua influência, o retirou do calabouço. Esse técnico era um dos dois únicos da especialidade ao serviço de Moçambique, e regressou a Portugal. As mulheres portuguesas sofriam, porém, maiores vexames, fossem elas quem fossem. Uma saía de casa na companhia da filha para fazer compras quando, ainda no passeio da sua residência, foi abordada por dois comandantes da Frelimo que abandonavam um jipe. Este foi o diálogo testemunhado por outros portugueses: — És casada? Mostra os documentos!... A senhora mostrou. — Não tens cara de casada. Tens cara de prostituta. Onde está o teu marido? — Está a trabalhar! — respondeu pacientemente a senhora. — Vamos para dentro de tua casa a ver se ele está lá. Tu praticas prostituição. A mim não me enganas. É ou não é?... A senhora convenceu-os pacientemente de que estavam equivocados e nesse mesmo dia o marido, importante industrial de transportes rodoviários, marcou as passagens da mulher e da filha para Portugal. Ele próprio fugiria dias depois,conseguindo, depois de viver uma rocambolesca aventura, passar parte das suas viaturas pesadas para fora das fronteiras moçambicanas. Estas perseguições tiveram, porém, motivos cómicos que causaram hilariedade geral quando foram conhecidos, e que os portugueses iam guardando dentro de si como ligeiras compensações de desforra: Na Beira, as rusgas — as primeiras, realizadas em Outubro — foram efectuadas por Brigadas de Vigilância nomeadas pêlos Grupos Dinamizadores dos bairros, que acompanharam elementos armados da Frelimo. Para que não fossem praticadasinjustiças as brigadas foram espalhadas por bairros opostos àqueles onde viviam. Deste modo, os elementos do Esturro actuavam nas Palmeiras, os das Palmeiras na Manga, os da Manga no Estoril, os do Estoril em Matacuane, e assim acontecendo em todos os bairros e células da cidade. Findo o trabalho os vigilantes regressavam às suas casas, onde alguns deles encontravam as mulheres. Ouviam dos moleques a explicação: — A senhora foi presa patrão. A Frelimo disse que era prostituta...
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Um caso de flagrante desumanidade ocorreu também na Beira: Um casal português dirigiu-se à Pastelaria Riviera para adquirir bolos. Eram nove horas da noite. O automóvel que os transportou estacionou a poucos metros do estabelecimento e deixaram no seu interior, dormindo, um filho de cerca de dois anos. O casal foi abordado no interior da pastelaria pêlos componentes de uma rusga. Disseram-lhes que os documentos se encontravam na viatura e que os iriam buscar. Eram meia dúzia de passos mas não foram autorizados. Levaram-nos à força. Cerca da meia noite a criança chorava no interior do automóvel estacionado. Juntaram-se populares que se dirigiram, em grupo, à residência do Governador. Contaram-lhe o que se estava a passar, e a influência do maior dirigente de Sofala concedeu a liberdade ao casal que ia ser remetido para um campo de trabalho, ambos acusados de corruptos. A mulher baixou ao Hospital em estado de choque. A Imprensa relatou, disfarçadamente: «O comissário da província de Sofala, camarada Ornar Juma, detectou durante uma visita que efectuou a um Campo de Reabilitação para homens, na região da Gorongosa, a presença de cerca de uma dúzia de prisioneiras, para ali conduzidas por engano...» As mulheres foram detectadas cerca de dois meses depois de terem sido capturadas. Entre elas encontrava-se uma rapariga de catorze anos, ao dispor das sevícias dos bárbaros carcereiros e dos seus camaradas de cativeiro. Pode-se, depois das perseguições enumeradas, e de outras de maior gravidade que revelarei ainda, procurar qualquer justificação, além da evasiva de um reino de terror, para o êxodo dos portugueses? Pode-se entender as opiniões de alguns governantes portugueses, que, por obrigação dos cargos que ocupam, deveriam estar mais bem informados do que demonstram ao falarem para a Imprensa comprometida? Pode dizer-se Amen à teoria do almirante Rosa Coutinho, que não satisfeito com a sua vergonhosa actividade em Angola, tenta justificar — e tentará mesmo? — a saída dos técnicos portugueses em actos de pura inconsciência? Vejamos o que diz o senhor almirante: «Eu tive a noção, embora não oficial, de que bastantes técnicos portugueses actualmente a trabalhar em Moçambique, estão de mala aviada para regressar a Portugal. Lamento e considero que isso é exactamente consequência do clima de desinformação que se gerou. Se num ou noutro caso representa uma inadaptalidade de classe à nova sociedade, na maior parte dos casos representa uma incompreensão e até uma consequência de desorientação e falta de esclarecimento.» Claro que estas afirmações de Rosa Coutinho, produzidas para a revista moçambicana «Tempo», e que caíram muito mal entre os portugueses residentes em Moçambique, são bem o testemunho da sua desorientação e falta de esclarecimento, devido a se ter entregue, de inteligência e alma ao acorrentamento
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da ditadura comunista. Deve-se ainda — e nisso dou-lhe razão — à desinformação portuguesa e moçambicana, que ele na referida entrevista critica. Mas preocupou-se o almirante em descortinar as causas dessa voluntária desinformação nos atoleiros políticos onde penetrou após — e antes? — o 25 de Abril? Vou dar um exemplo do motivo real do abandono de técnicos, como prova do engano do senhor almirante: O Partido estipulou o dia 25 de Setembro como data em que o povo voluntariamente abriria, em cada localidade, uma machamba colectiva. Os portugueses foram obrigados a destroncar, a capinar, a cavar grandes espaços de terreno virgem, quando as directrizes do Partido haviam falado em voluntariado. Os técnicos da Companhia Carbonífera de Moçambique, sediada em Moatize, negaram-se a seguir para a machamba quando, pela madrugada, os foram arrancar às camas. A maioria destes técnicos é portuguesa, sendo os restantes de origem belga. A recusa foi colectiva. Foram levados à força por guerrilheiros da Frelimo, armados de kalashnicov e simonov. Caminharam a pé com as armas apontadas. E cavaram. E desbravaram a terra. E trabalharam numa machamba que apenas será símbolo de amesquinhamento de estrangeiros, de manifestação de puro racismo, pois nada produzirá por falta de continuidade e técnica. Ao outro dia todos pediram demissão da Companhia para regressarem aos seus países. Foram-lhes prometidas condições especiais, entre elas a transferência de cinquenta por cento dos vencimentos para as suas pátrias, e negaram-se, mesmo assim, a continuar em Moçambique. Foram enviados ministros, secretários do Governo e todos quiseram saber os motivos do abandono. E eu ouvi as respostas dos técnicos portugueses. Eles foram sinceros e concisos ao dizerem a verdade: — Não estavam na disposição de serem amesquinhados pêlos homens da Frelimo, pêlos dirigentes de um país onde não mais queriam viver. Chegará esta justificação para minorar a desinformação do senhor almirante? 13. NENHUM FICA E O JORNALISTA REACCIONÁRIO

Eu temia a cada momento a prisão. A ordem para não abandonar a cidade era para mim a certeza de novas represálias. Abafava os meus receios e ia acumulando, consciente e metodicamente, os escândalos e as injustiças de que o povo português ia sendo alvo. Muitas vítimas vinham voluntariamente ter comigo e relatavam-me as injustiças praticadas pela Frelimo. Todos estes homens estavam ligados entre si e se apoiavam. O terror tinha detonado.

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Sob uma roupagem imediatista a Frelimo apregoava a sua protecção aos portugueses e a sua voz chegava ao Governo de Portugal semi-comunista. Este, dominando a parte principal da comunicação social levava ao povo português imagens deturpadas do sofrer dos portugueses, forçando-o a não compreender, e a condenar, a leva de retornados que desembarcavam em Lisboa. Mas em Moçambique, as perseguições prosseguiam: Um homem ainda jovem, de nome Silva, técnico de uma empresa empreiteira de estradas, relata-me após abandonar o Hospital, onde permaneceu durante doze dias, depois de sofrer as maiores privações num imundo cárcere: — Fui preso por ter mandado vir dinheiro de Portugal para a minha passagem de regresso. E entra em pormenores: — Eu antes de me empregar na S.C.P.E.L. trabalhei como técnico em Cabora Bassa. Dali transferia parte dos meus vencimentos para Portugal, legalmente. Ao me ver sem emprego pedi para que me enviassem um cheque de Lisboa. Aguardei inutilmente uns dias, e depois fui preso. A princípio desconhecia o motivo da minha captura. Por mais que perguntasse ninguém me queria responder. Prossegue, como se revivesse cada uma das imagens que descreve e que gravará para sempre: — Davam-me uma refeição por dia e era composta de uma mixórdia tipo sopa, feita à base de farinha de milho apodrecida. Dormia no solo sobre o cimento húmido e não me deram o mais pequeno cobertor ou trapo para me embrulhar, sentindo durante a noite os membros enregelarem. Levantava-me e passeava na cela, dormindo apenas em curtos intervalos. Mesmo assim o contacto com o solo, durante os catorze dias que ali estive, a fraqueza e os maus tratos, enfraqueceram-me. Já não movimentava as pernas, e uma forte dor nos rins não me permitia respirar sem gemer. O meu estado de exaustão levou os carcereiros a temerem pela minha vida e fui hospitalizado. Estive a soro. As enfermeiras foram incansáveis e, alimentando-me de um restaurante a crédito, recuperei parte da saúde. Mas não volto a ser o mesmo homem. Pergunto-lhe o motivo por que o soltaram e se justificaram de algum modo a captura. Respondeu-me: — Fui ouvido pela P.I.C. quando me encontrava no Hospital. Aquela polícia reconheceu que eu não cometera crime algum, pois a minha atitude não podia ser considerada como tentativa de sabotagem económica. Pelo contrário, eu mandara vir para Moçambique divisas estrangeiras. O resto sabe como é: Pediram-me desculpa e entregaram-me o cheque que haviam apreendido. Não sei se desconhece que toda a correspondência vinda para portugueses é violada... Eles disseram lá isso e eu ouvi... A meados de Janeiro, cerca de quinze dias após a sessão de crítica a que fora submetido, sou abordado por um amigo: — Ouviste a Rádio hoje? Chamam-te tudo. É melhor fugires porque vais ser preso. Pega na mulher e no filho e põe-te a andar... — O que diziam? — interrogo.
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— Tanta coisa. Chamavam-te inimigo do povo, jornalista reaccionário, e acabavam por dizer que ias ser entregue às altas estruturas do Partido. Sabes o que isso significa? Ou a prisão ou o vinte e quatro vinte! — uma interpretação generalizada entre os portugueses do Decreto que expulsa o estrangeiro em 24 horas, permitindo-lhe que transporte 20 quilos de bagagem. Entro numa livraria de que sou cliente habitual e o proprietário olha-me com espanto e chama-me em particular: — Você ainda aí anda? Porque não foge? ... Passe a fronteira para o Malawi, homem, antes que seja tarde. Você não ouviu o que eles disseram na Rádio? E resume-me quanto ouviu da emissão das onze e trinta horas, uma emissão do Departamento de Informação e Propaganda do Partido. Regresso a casa. Nada digo à São, e, após o almoço vou para o quarto. Adormeço depois de lutar durante mais de uma hora com maus pensamentos. Necessito de dormir, repito a mini próprio, habituando-me à ideia da prisão, às noites de insónia* que me esperariam, ao solo frio de cimento do cárcere, às pancadas, à ordem de expulsão. À tarde saio e dirijo-me a um Bar. Bebo um uisque e adquiro quatro pacotes de cigarros da minha marca favorita. Espreito os olhares de espanto dos frequentadores habituais, a maioria a ocupar lugares de gerência no comércio da cidade. Tomo lugar no grupo de companheiros do costume e, por fim, são eles que não aguentam a tensão nervosa e me interrogam: — Mas tu não ouviste a Rádio?... Respondo negativamente e afirmo que ouvirei o programa às seis e meia. — Como sabes que irão repetir? — pergunta-me um bancário com as malas feitas para embarcar para Portugal. — Sou tão importante para eles que um programa radiofónico é pouco. Vocês vão ver como o Nenhum Fica não se contenta apenas com uma emissão! — afirmo em ar de chalaça. Um deles vai a casa e regressa com um receptor portátil. Não falámos mais no assunto até à hora da emissão do Programa do Partido, mas eu sinto dentro de mini os nervos a fervilharem como água em ebolição. Emborco uisque após uisque, e, ao contrário dos outros princípios de noite, a mesa onde me sento é silenciosa, como se todos estivéssemos obsecados pelo mesmo pensamento. Tenho a satisfação amarga, mesmo assim consoladora, de sentir a amizade daqueles homens, de sentir o seu protestar íntimo contra o regime de pavor que nos unia, numa irmandade perseguida pelo comunismo machelista e todas as suas forças unidas para atacar a civilização e a substituir pela barbárie. O indicativo do Programa aumenta o nosso silêncio. Trata-se do Programa Oficial da Frelimo. Nenhum ruído de discussão em todo o Bar, nem o bater de copos nas mesas, nem o som característico e quase eterno do Frank — o dono do estabelecimento — a lavar
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os copos em muito detergente. Um silêncio pesado que se pode cortar à faca e que aumenta o som do indicativo do Programa. É iniciado com um Comunicado Oficial do Comissário Político da Província. Mas não é ele que o lê, nem talvez o tivesse redigido. Também não é o jornalista Santos Martins — justiça lhe seja feita — embora a prosa possa ter saído — não afirmo — da sua máquina de escrever. É, porém, suspeita, a sua invulgar ausência do programa. Começa por tecer um demorado comentário, onde se afirma que no momento revolucionário que o país vive, os reaccionários manifestam-se das maneiras mais diversas com vista a travar os passos à gloriosa revolução nacional. E um caso flagrante era a posição assumida pelo jornalista Inácio de Passos, um comprovado inimigo do povo, que, lutando contra a Revolução, permitiu que o «Notícias da Beira» publicasse uma carta de uma declarada prostituta de nome Geraldina Francisca. Esse perigoso jornalista não merecia o perdão popular, e fora a vigilância do moçambicano que detectara os seus crimes contra Moçambique. Iniciava a seguir uma espécie de interrogatório, com perguntas e respostas, lidas umas e outras pelo mesmo locutor: «Foi perguntado ao jornalista Inácio de Passos se com a sua atitude serviu o povo moçambicano ou o inimigo e respondeu: Servi o inimigo e lamento. Foi uma precipitação. Não era minha intenção prejudicar Moçambique. Estou muito arrependido da minha atitude. Interrogado se sabia o número de pessoas que teria lido a carta da prostituta Geraldina Francisca e a repercussão internacional de tamanho crime por ele cometido, disse: Não posso imaginar o número de leitores, mas infelizmente são muitos. O meu crime é muito grande e deve-se apenas a uma precipitação.» Sinto-me corar de raiva ao ouvir tão ingénuo amontoado de mentiras. O próprio locutor parece-me envergonhado do que diz. Tudo aquilo me repugna, a ponto de sentir vir-me das profundezas do estômago um formigueiro que me traz saliva à boca. Não me domino e afirmo: — Canalhas. Mentirosos sem vergonha!... Os meus companheiros aconselham-me calma e continuo a ouvir durante mais quinze minutos, as mais mal intencionadas afirmações. Poderia eu voltar a acreditar na Frelimo? — Não era Nenhum Fica um dos elementos das estruturas políticas do Partido, sendo o Partido, portanto, o responsável pelas suas atitudes políticas? Como por medida, era-me oferecida dezenas de vezes a acusação de reaccionário, termo que, subterrado sob a avalanche da imensa terminologia marxista, aparecia agora constantemente nos comunicados oficiais. Aguardei mais uma vez a acusação que não se fez esperar: «O jornalista Inácio de Passos, perigoso reaccionário, disse depois: Lamento que os meus colegas da Redacção, na Beira, tenham permitido a publicação da carta que eu enviei precipitadamente. Sou responsável por ter causado um grande prejuízo a Moçambique e ao seu povo.»
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O comunicado estendia-se ainda por mais afirmações emporcalhadas, terminando: «Este jornalista reaccionário e inimigo do povo vai ser entregue às altas estruturas do Partido para futuros procedimentos. Este comunicado é assinado pelo Comissário Provincial Eusébio Nenhum Fica.» Seguiu-se o Hino da Frelimo e eu sinto que todo o meu ódio, acumulado por meses de perseguições, petrifica-se e apela por exteriorização. Mas é passageiro este meu estado de espírito, tão passageiro que começo a rir, espantando todos os que me rodeiam. — Vai-te embora Passos. Passa a fronteira enquanto é tempo! — dizemme os companheiros e eu respondo com uma gargalhada. Não era aquele comunicado uma demonstração de fraqueza do Partido, de medo, de falta de alicerces ideológicos? O que tinha a temer, então? A consciência deste facto estimula-me. A São aproxima-se correndo e faz aflitivos apelos com gestos nervosos para a esplanada onde me encontro. Peco-lhe calma e acrescento: — Eu ouvi a Rádio. Estive a ouvir agora mesmo. O meu aparente estado de espírito acalma-a e conta-me que uns vizinhos a foram chamar a casa mal o programa começara a ser radiodifundido. Eles, alarmados, cuidaram que eu me encontrava na prisão. A São ouvira o programa inteiro e correra à minha procura. Ao outro dia de manhã diversas pessoas das minhas relações procuram-me no Corpo de Polícia, no Partido, nos calabouços. Eu continuava, porém, em liberdade. Não fica por aqui a perseguição de Nenhum Fica, que deseja mostrar aos seus patrões um verdadeiro reaccionário a quem não seja necessário pedir desculpa ao conceder a liberdade, e envia um relatório, idêntico ao que fora radiodifundido, a todos os jornais do país. Nenhum o publica, mas o «Notícias da Beira», por instruções de José Quatorze, depois de se aconselhar com o Heleodoro Baptista, reenvia-o para o Ministério da Informação e Propaganda, iniciando-se, deste modo, uma acção inquiridora que, contra todos os prognósticos, apearia Nenhum Fica do pedestal de areia onde construirá o seu trono. O Ministério faz um inquérito e Nenhum Fica desdiz-se, atrapalha-se, entra em pânico. Afirma primeiro que as declarações radiodifundidas foram prestadas pelo jornalista Inácio de Passos, declarando a seguir, perante elementos indesmentíveis, que tudo fora por si forjado. Tenta desesperadamente salvar a honra do seu convento e oferece a liberdade a Geraldina Francisca — já com o inquérito em curso — e colocaa numa posição de destaque na Organização da Mulher Moçambicana, organismo feminino de grande influência política. As mulheres protestam. Recentemente emancipadas, sentem-se senhoras da situação e exigem uma sessão de esclarecimento, onde Nenhum Fica acaba por ser forçado a fazer auto-crítica. Nessa reunião, a que não assisto, sou defendido por mulheres que não conheço, pelas eternas defensoras do seu sexo que se viam na contingência de se colocar ao

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lado do jornalista que facultara a defesa de uma delas. E falam das que se encontram prisioneiras, dos atropelos dirigidos pelo estranho código de moral de Nenhum Fica. Nenhum Fica sai da reunião depois de confessar as suas atitudes reaccionárias e prepotentes, ao mesmo tempo que é descoberto, perante o espanto geral, que o Comissariado Político de Tete, sob a sua orientação, era um antro de prostituição, e que grande número das camaradas suas colaboradoras se encontravam grávidas. Uma das mulheres dizia-me dias depois: — Veja lá o desplante. Um homem tão feio, tão ridículo e raquítico! ... Nenhum Fica foi destituído das suas funções e enviado para o BeneTembué como militante a reabilitar, e os seus camaradas o Cândido e o Advogado do Diabo foram saneados. Parecia estar encerrado um capítulo da minha carreira que, num romance qualquer, seria denominado «Medo».

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TERCEIRA PARTE O APOCALIPSE MOÇAMBICANO

14.

MOÇAMBIQUE FORTE PARA A GUERRA?

O medo já não consegue silenciar as populações, que se manifestam abertamente contra a agressividade do regime moscovita que as acorrenta. Todos tentam a fuga do país, abandonando os haveres. A alegria peculiar das populações deu lugar a vulcões de ódio em vias de erupção, enquanto o espírito de revolta penetra nas fileiras do Partido em todos os sectores, sem disfarces. As forças populares abusam do poder, usam as fardas e as armas como escudo para violentarem mulheres, para praticarem assaltos criminosos, para distribuírem o pânico pelas populações, sabendo que as suas acções são facilitadas pela anarquia que assola os comandos, e pêlos pequenos fulcros de revolta que, aos poucos, se convertem em rotina. Samora Machel mostra-se apreensivo e tenta dominar a situação, sentindo que lhe foge o poder. Mas a sua preocupação volta-se contra os militares que tentam fugir ao seu dirigismo totalitário e não contra a corrupção. Reúne com as Forças Populares em Boane e cria severas leis militares, proibe a circulação na via pública, nos estabelecimentos civis, nos cinemas e cafés, de militantes uniformizados. Decreta penas pesadas de prisão a quantos forem encontrados armados sem missão justificativa. Reprime com raiva o que sabe que já não pode dominar. A revolta, porém, não tocara apenas os militares, e as represálias do Presidente da República são ineficazes para combater a evolução de todo um movimento contra o regime, urdido nas mais elevadas esferas do Partido. E enquanto o povo, desconhecedor da realidade, recebe com alívio as medidas repressivas de Samora Machel, um batalhão das Forças Populares, estacionado na Machava, revolta-se contra a ditadura do Presidente da República e tenta ocupar, pela força, os pontosnevrálgicos da capital moçambicana. A insurreição foi esmagada sanguinariamente mas um facto estava à vista dos observadores: As Forças Populares haviam encontrado a brecha por onde manifestaram a insuportabilidade ao regime. O povo, porém, mais uma vez pagou para aprender. A intentona militar foi dominada mercê de uma denúncia, mas a desordem e o caos apoderavam-se do poder do regime socialista moçambicano, enquanto o líder se excedia com o entusiasmo da vitória fácil. O grupo intelectual-marxista do Partido não partilha do mesmo estado de ânimo. Moscovo tornara bem claro que era necessário eliminar a oposição, seleccionando os

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membros do grupo dirigente com o afastamento dos menos receptivos às teorias comunistas. E o momento era oportuno, pois acirravam-se as divisões. A ideia foi levada a Samora Machel disfarçada no comportamento imoral dos homens a sanear, e os antigos heróis, fanatizados em discursos, e apontados como exemplo de militância ao povo, foram indicados como imorais em comunicados oficiais, publicados simultaneamente em todos os órgãos de Informação do país. As soluções de emergência, forjadas pelo cérebro marxista da Frelimo, continuavam deste modo a ser bem aceites por Samora Machel. Elas haviam sido iniciadas meses antes com a destituição de um dos mais importantes elementos do Partido, o governador Pedro Juma, responsável pelo governo da província do Maputo, onde se integra a capital. Bastava prosseguir a mesma política, e a cada acção de saneamento foi dada a mesma justificação: purificação de fileiras. Mas a purificação mostrava-se ilimitada, pois o espírito de revolta contra o regime afectava dirigentes e dirigidos, havendo cada vez menor número de sobreviventes nos Comités Central e Executivo da Frente de Libertação de Moçambique, facto que nunca se havia verificado nos tempos de combate. Mateus Malichocho foi acusado de desenvolver intrigas e actividades divisionistas no seio da Frelimo para satisfazer as suas ambições, de abusar do poder para usufruto pessoal, de fomentar a subversão e a indisciplina no seio das Forças Populares, tentando promover a sua desagregação. Foi expulso do Comité Central do Partido, a mais alta instância governativa da nação. Joaquim Maquival foi acusado da demonstrar negligência no cumprimento das missões de que foi incumbido, de utilizar fundos da Frelimo para satisfazer os seus vícios pessoais, nomeadamente a corrupção sexual. Foi demitido de Secretário Provincial, deixando automaticamente de fazer parte do Comité Central. Leonard Cumbe foi acusado de se mostrar altamente ambicioso, indisciplinado, intriguista e boateiro, de ter utilizado fundos da Frelimo para satisfazer vícios pessoais, abusando do poder com idêntico fim, de ser corrupto sexual e moral, opondo-se frontalmente, através do seu comportamento de corrupção, à emancipação da mulher, manifestando por esta total desrespeito. Foi demitido de director-adjunto dos Serviços de Saúde da Frelimo. Gideon Ndobe, ex-ministro de Educação e Cultura do Governo Provisório, foi acusado de indisciplina e falta de respeito pelas estruturas, de prática sistemática de embriagues, de imoralidade e desrespeito pela mulher. Foi demitido de Secretário Nacional do Departamento de Educação e Cultura, deixando automaticamente de fazer parte do Comité Executivo da Frelimo. Estes saneamentos foram publicados na Imprensa em Abril de 1976, mas não chegariam dezenas de volumes para transcrever quantos se seguiram a estas primeiras depurações. O terror exercido por Samora Machel e ordenado pelo seu grupo de conselheiros bolchevistas baseava-se numa auréola de herói político que já não encontrava terreno de eleição nas massas moçambicanas. E como não era de crer que se tratasse de uma concepção original da política comunista os observadores divisavam, oculta em cada ordem, o longo braço do Kremlin.
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Os jornais e a Rádio aprovaram, era certo, todas estas atitudes. Adulavam o Presidente. Aplaudiam-no num servilismo com que os leitores e os ouvintes não concordavam. Todos compreendiam, com a clareza que precede as grandes convulsões políticas, que Moçambique se abandonava a uma vontade estrangeira, afastandose dos seus caminhos históricos. Nenhum jornal pensava adiantado ou por si, nenhum profissional de Imprensa tinha ideias próprias, individuais. Aplaudiam quanto partisse do Presidente da República, sentindo uma fraca consolação nas palavras de incentivo do D.I.P., dirigido por Oscar Monteiro, um dos intelectuais marxistas, que isso mesmo desejava: Jornalistas autómatos ao serviço de jornais servis. Mas a República Popular de Moçambique tornava-se assim, e cada vez mais, menos popular. O Comité Central do Partido, reduzido a menos de metade do número de elementos exigido pêlos Estatutos, aprovados em Congresso, e impossibilitado de os engajar entre as massas afectadas por uma agressiva sub-cultura, ou entre os militantes descontentes, aceitava, mais aparatosamente, a tutela da União Soviética. As idas e vindas de diplomatas enviados pêlos dois países, desmascaravam a dependência, cada vez mais humilhante e aflitiva, de Moçambique a Moscovo. Ao povo restava-lhe criticar, e a Samora Machel sentir-se de dia para dia mais isolado. Não se julgara ele completamente apoiado pela população moçambicana na fase da Independência? A sujeição a uma potência estrangeira, seja qual for a sua política, é sempre sujeição, e o povo moçambicano queria aliviar-se, por qualquer preço, do fardo de Portugal. Isso era, em parte, um apoio à Frelimo, e, por consequência, a Samora Machel. Mas a que Frelimo? O povo sabia apenas que a Frente de Libertação de Moçambique era uma organização que lutava pela independência nacional, que lutava, portanto, pelo ideal colectivo das massas. As suas recentes inclinações políticas, as suas progressivasprovas de sujeição a Moscovo, só eram do conhecimento de poucos observadores, e estes haviam sido silenciados durante o Governo de Transição. As massas populares só delas se aperceberam após a Independência, com o início das perseguiçõesideológicas e religiosas, com as nacionalizações, com os proteccionismos, que o espírito ideológico actual do Partido não se adaptava às necessidades da nação nem aos desejos do povo. A fome, a miséria, a incapacidade de governar dos dirigentes foram o primeiro toque a rebate. As prisões arbitrárias, a corrupção dos mandantes, o seu luxo, as directivas educacionais, os trabalhos forçados nas machambas colectivas, a implantação de aldeias comunais, viraram o povo contra a Frelimo. Se a História da Construção de Moçambique, iniciada após a Independência em 25 de Junho de 1975, não tivesse sido acompanhada de tantas tragédias individuais, o Partido conquistaria o povo, pelo menos a grande parte dele que não conheceu a guerra, que não foi vítima das traiçoeiras minas. Nas zonas nortenhas o apoio retardaria, por grande parte da população ter assistido a massacres da Frelimo, ou ter entre os seus familiares alguém desmembrado pelas traiçoeiras minas, que, ao contrário
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do que sempre rezaram as propagandas do Partido, se viraram mais contra o povo do que contra o exército colonialista português. O apoio retardaria mas seria conquistado tarde ou cedo. Com plena consciência de que seria necessário arranjar meios para atrair a simpatia das massas, Samora Machel começou a justificar todos os fracassos do seu Governo nos vestígios do colonialismo, na existência de uma burguesia nacional, nas atitudes dos Governos brancos da África Austral, tentando atrair o ódio do povo — que sentia virar-se contra o seu Governo — aos poucos portugueses ainda residentes em Moçambique, à Rodésia e à África do Sul, ao tempo que ia louvando as atitudes dos países progressistas, companheiros da mesma luta e irmãos de armas. Samora Machel entusiasma-se. Parece-lhe que as suas ideias são animadas de uma força absolutamente autónoma, que basta-lhe querer para fazer. Afoito pêlos conselhos de Moscovo, começa a despejar o seu ódio aos regimes de Salisbúria e de Pretória em todos os discursos que pronuncia, um ódio que não é evidenciado pêlos outros Chefes de Estado africanos, nomeadamente pêlos que sustém o poder na África Austral. Samora Machel insulta. Agride. lan Smith é denominado por vagabundo, miserável, tabaqueiro, louco, mesmo quando procura soluções para o problema rodesiano, que é, afinal, o que todo o sub-continente ambiciona. E é enquanto decorrem conversações entre ele e umdirigente nacionalista, que o Presidente Samora, causando surpresa aos moçambicanos e aos observadores estrangeiros — que finalmente começam a suspeitar que a intenção de Samora é oferecer a Rodésia a Moscovo como os portugueses ofereceram Moçambique—, anuncia o encerramento das fronteiras, e pede ao povo moçambicano que construa abrigos anti-aéreos junto às residências, às machambas, aos lugares de trabalho, para que se proteja de hipotéticos ataques rodesianos. Grande parte do mundo interpreta estas suas afirmações como uma formal declaração de guerra, mas é calma a reacção das autoridades rodesianas. Estas esclarecem que o encerramento das fronteiras, que sem dúvida afecta aquele país, prejudica muito mais Moçambique, a Zâmbia e o Malawi. Confirmando as afirmaçães rodesianas, Joaquim Chissano, porta-voz do Governo de Moçambique, vai à O.N.U. e pede àquele organismo mundial um auxílio de urgência a Moçambique da ordem dos 50 milhões de dólares — cerca de um milhão e 250 mil contos — destinado a fazer face à perda de receitas da utilização dos portos moçambicanos pela Rodésia, das exportações moçambicanas para aquele país, e de outras ligações comerciais cortadas com o encerramento das fronteiras. O pedido de Joaquim Chissano leva o Conselho de Segurança da O.N.U. a solicitar a todos os braços da Organização, nomeadamente ao «Conselho Económico e Social», ao «Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento», ao «Programa Alimentar Mundial», ao «Banco Mundial», ao «Fundo Monetário Internacional», e ainda a todas as instituições especializadas da O.N.U., que socorram Moçambique. Ao mesmo tempo o ministro da Defesa da Rodésia afirma à Imprensa, em Salisbúria, que seria melhor que o Presidente Samora Machel, em vez de pedir ao povo
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moçambicano para abrir abrigos anti-aéreos o ensinasse a produzir para não morrer de fome, e recorda a velha verdade que do cano de uma espingarda nunca nasceu uma espiga de trigo. Como reagiu a Imprensa moçambicana à atitude de Samora Machel? Como sempre, com aplausos. O «Notícias da Beira» achou motivo para uma série de crónicas laudatórias, o «Notícias» seguiu o mesmo caminho, e o «Tempo», como semanário, copiou-os. Por vontade de todos eles — e bastaria o camarada Presidente ordenar — as forças da Frelimo, sem avião, sem marinha, sem estrategas, apoiadas apenas em guerrilheiros sem experiência bélica, destruiriam a Rodésia e a África do Sul. Mas algum jornal lembrou a caótica situação económica de Moçambique? Algum jornal indagou, junto de economistas, se o país teria possibilidade de sobreviver sem as receitas fornecidas e proporcionadas pelo intercâmbio comercial praticado pelas fronteiras rodesianas? Onde encontrava Samora Machel a sua força, para colocar Moçambique às portas da guerra? No povo? Claro que não. Então onde? A guerra era uma guerra de fronteiras, de civilizações e as frentes eram formadas pelo comunismo moscovita e pela cultura ocidental presente em África. O poeta Heirich Heine profetizava, oitenta e cinco anos antes do revolucionário Lenine introduzir o comunismo na Rússia czarista: «O comunismo é o nome secreto de um terrível antagonista que vai precipitar o domínio do proletariado com tudo o que ele implica, numa batalha contra os modernos regimentos da burguesia. Será uma luta árdua... Como acabará? Somente os deuses e as deusas, que privam com os segredos do futuro, poderão dizer. Uma coisa, porém, é certa: «Comunismo» ainda pode ser, para nós, uma expressão estranha; pode errar, desocupado, nos escuros sótãos, descansando em miseráveis colchões de palha; mas, sem dúvida alguma, um papel heróico lhe foi destinado na tragédia moderna, e ele está apenas à espera da deixa para fazer a sua entrada em cena. Não devemos, portanto, perder de vista tal actor; de tempos a tempos temos de noticiar os ensaios secretos que faz ao preparar-se para a grande representação. E essas notícias serão muito mais importantes do que todas as outras, sobre escândalos de eleições, intrigas de partidos ou de gabinetes.» Não será toda a actividade comunista em Moçambique um ensaio secreto de preparação para o grande espectáculo? Não se verifica, pela actividade extraordinariamente desenvolvida após as ocorrências no Médio Oriente, que é a África o alvo principal da União Soviética, e que é ainda neste continente que ela se mostra claramente, sem disfarces, afirmando-se senhora da situação nas palavras e nas acções, aliviada dos antigos receios que tinha às potências ocidentais incompreensivelmente adormecidas?

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Ao se imiscuir nos assuntos africanos — e Angola é o mais cabal exemplo — a União Soviética não esconde os seus interesses imperialistas. Pelo contrário, mostraos claramente como dominadora. Onde estranhar, então, que Samora Machel, sacrificando ainda mais o povo do seu país, proporcione a Moscovo a tentativa de desmantelamento dos governos ocidentais africanos, atirando o sub-continente para a guerra? Mas quem se espanta ainda, se olharmos à obsessiva mescla de sadismo e de ódio que dirige todas as suas últimas atitudes políticas? 15. O CAOS ECONÓMICO

«Destruiremos a pobreza através de uma estratégia económica correcta, baseada nas necessidades do povo. Sabemos o que o povo quer e o nosso problema central c destruir a estrutura colonial que está profundamente arreigada. Por isso temos que libertar os espíritos das pessoas, libertar a sua iniciativa criadora. Assim, definimos as aldeias comunais como locais onde o povo está organizado, executará tarefas definidas, terá programas, e utilizará correctamente as suas próprias forças. E o desenvolvimento começará no campo e será apoiado pela indústria...»— afirmou Samora Machel ao jornalista D. Martin, do «Observer», quando aquele repórter focou o problema da miséria do povo moçambicano, já impossível de disfarçar. Segundo o Presidente Samora Machel, para vencer os graves problemas de economia que afectam Moçambique, é apenas necessário libertar o espírito das pessoas. Libertar a sua actividade criadora é enclausurar o indivíduo em campos de trabalho — aldeias comunais — e dar-lhe tarefas definidas — trabalho forçado. Poucos meses após concedida esta entrevista os resultados da medicação comunista estão patentes aos observadores. Mais uma vez os modelos extraídos de uma situação histórica estranha a um país, transportados para ele dão como resultadoo fracasso. Do interior do país, em intermináveis caravanas, milhares de agricultores famintos, que recusam o trabalho forçado nas machambas colectivas instituídas sob terror, buscam protecção nas cidades onde os empregadores escasseiam: as indústrias encontram-se paralisadas ou são dirigidas por inexperientes comissões administrativas, as empresas economicamente sólidas vão-se enfraquecendo com as exigências salariais, a construção civil, parcialmente amorfa desde a Independência, foi forçada a cessar completamente a sua actividade com a nacionalização dos imóveis, e a actividade bancária, que já desertou do interior, não concede créditos por não possuir uma carteira de depósitos que justifique uma actividade credicial. As avalanches destes agricultores, que se sentem desenraizados nas florestas de cimento, aumentam o palco da fome, bordão que os apoia para as veredas do crime. Os estrangeiros partiram, em busca de liberdade, para os países ocidentais, e os moçambicanos negros, que por motivos diversos não podem imitar-lhes a fuga, passam
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clandestinamente as fronteiras para a Rodésia e para o Malawi. Na área da Angónia, cerca de quarenta mil moçambicanos internaram-se por terras estrangeiras entre Novembro de 1975 e Fevereiro de 1976, procurando do lado de lá o direito à iniciativa privada, ao trabalho livre, à própria liberdade individual. Isto confidenciame um administrador de Distrito, recentemente nomeado pelo Partido. Em qualquer região do globo onde uma política deseje ser bem aceite pelas massas a fome terá de ser destruída por meios locais. Os governos comunistas, porém, dão aos problemas, sejam quais forem, uma interpretação ideológica, já que para eles não existe área de actividade livre de ideologia. Lendo em cartilhas alheias, interpretam o seu povo com olhos de estranhos no lugar e no tempo. Os sucessos obtidos muito longe do pequeno mundo que governam, são considerados como certezas de sucesso no seu mundo. Passam-lhes despercebidos os anseios do povo e as suas tendências naturais. Obedecem à União Soviética, a única pátria pura para eles, aquela que não lhes merece a mais pequena crítica e que é espelho do comportamento a que obrigam o seu povo. A União Soviética sabe que o socialismo em liberdade poderia ser terrivelmente perigoso para ela, bastando-lhe o exemplo de Pequim. Por isso obriga todos os governos, conquistados pelo seu imperialismo ideológico, a que se sintam amarrados às suas ideias base, à sua directriz, às suas determinações, passando a contar, para os governantes fantoches, primeiro o agrado moscovita e só depois o bem estar do seu povo. E não há nada mais doloroso do que assistir às constantes tentativas para aplicar a um país africano, no final do século XX, as teorias, possivelmente usadas com relativo sucesso por Lenine na Rússia em 1917. O resultado da experiência pode encontrar-se já no caos económico de Moçambique e não vale a pena culpar o colonialismo para atirar poeira aos olhos dos observadores, como disfarce simplista e grosseiro. Para o Governo, porém, e para a Imprensa que o adula, pouco importam, no momento, as realidades subterrâneas se a fachada construída resiste. Vejamos, pois os graves problemas da economia, e como justifica a Imprensa, ou tenta justificar, as faltas de produtos de primeira necessidade que contagiam a fome a quem ainda tem meios económicos para a debelar: «A falta de farinha de milho no mercado, alimento básico das populações de menores recursos, deve-se à inexistência de milho, em virtude de uma avaria registada no desvio ferroviário...» «...a propósito da escassez de pão de trigo, neste aspecto não existe falta de matéria-prima, mas as empresas lutam com falta de pessoal qualificado para obter não só o máximo rendimento da linha de montagem em funcionamento, tuas ainda para pôr em funcionamento uma nova linha de montagem...» «...o pão de trigo que tem aparecido nas últimas semanas, para além de ser pequeno, é de fraca qualidade. O pão apresenta-se compacto e isso deverá ser motivado pela falta de sal ou de levedura e ainda devido a misturas...» Isto escrevia-se no «Notícias da Beira» no dia 12 de Março de 1976, mas o povo não aceitou as justificações inventadas e reclamou, sendo necessário o uso da força policial em diversas bichas formadas em vários estabelecimentos da Beira. O jornal foi
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forçado a mudar a sua forma de observar o problema e, na edição seguinte, afirmava cautelosamente: «Têm-se registado, nos últimos tempos, uma falta considerável de produtos de primeira necessidade para a alimentação. As causas para a existência desta situação são variadas. Entre elas destacamos avarias técnicas e escassez de abastecimento por parte dos centros produtores ou por quebra de produção ou por falta de transportes. O que é certo é que a falta de produtos alimentares tem sido muito sentida pela população. Entretanto, prevc-se que já esteja normalizado o abastecimento de arroz. O carregamento do produto, vindo do Paquistão, já chegou, e a partir do início da corrente semana começou a ser distribuído no mercado. Por outro lado, junto às padarias, têm-se formado ultimamente grandes bichas para a aquisição de pão, em virtude da quebra de produção registada...» Sob o domínio da embriagues política, os jornalistas vão enganando os leitores com meias verdades, dando-lhes esperanças infundadas, aguardando com paciência que os peditórios, feitos a nível internacional pelo Governo de Moçambique resultem, para que o povo tenha alguma coisa para enganar a fome. Será aberrante acreditar, porém, que esses auxílios venham solucionar o caos económico do país sem um esforço interno e este não existe. A produção é nula e os salários treparam, após reivindicações exageradas, cinco e seis vezes. As primeiras exigências salariais, após a Independência, tentaram colocar o salário mensal mínimo à razão de 600 escudos diários, e a justificação que encontravam para a tola exigência era política e revolucionária: Terminar de uma vez para sempre com os antigos exploradores, os exploradores feudais. A generosidade governamental, que não se elevou a esse extremo, encaminhou dezenas de empresas à falência, causando maior número de desempregados. Simultaneamente os técnicos, perseguidos, injuriados, regressavam a Portugal e os seuslugares eram preenchidos por operários inexperientes a quem era proporcionada uma reciclagem que, mesmo assim, não os preparou para tirar partido das máquinas demasiadamente sofisticadas para os seus frágeis conhecimentos técnicos. Grandes complexos industriais paralisaram temporária ou definitivamente a sua actividade, mas mesmo dessa caótica situação o Governo moçambicano quis tirar partido político inventando culposos. Dou, como exemplo, o que se passou na C.I.G.O.M.O., importante empresa de transformação de sisal, situada na zona industrial de Nacala. Esta empresa passou a ter, após a Independência, um encargo de salários da ordem dos 900 mil escudos mensais, e o jornalista encontrou como motivo para a sua paralisação temporária o seguinte: «Os Estados Unidos da América eram, nos anos anteriores, os principais consumidores deste produto da indústria moçambicana, mas, na presente fase, ainda não se mostraram interessados na sua compra. Alguns responsáveis daquele complexo industrial pensam que a posição dos Estados Unidos da América seja motivada por razões de ordem política.»
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Esqueceu o jornalista Mário Ferro, autor deste bocado de prosa publicado no «Notícias da Beira», que os responsáveis que assim pensavam — e pensariam mesmo? — eram os membros do Grupo Dinamizador da empresa, membros políticos, portanto. Não disse, também, que as exigências dos trabalhadores — sancionadas pelo mesmo Grupo Dinamizador — e a diminuição de produção, criaram à empresa dificuldades de carácter económico-financeiro que se fizeram sentir no preço do produto, colocando-o muito acima da oferta da concorrência internacional. Atirou apenas as culpas aos Estados Unidos da América, um país de política ocidental, boa razão para mais uma vez se apreciarem as vantagens do comunismo. Esvazia-se o capitalismo de uma virtude, implantando mais solidamente no coração das massas o amor ao socialismo russo. A produção de açúcar baixou em cerca de 60 por cento na primeira apanha após a Independência, e a Imprensa disfarçou o fracasso acusando os agricultores estrangeiros de sabotagem económica. Foram saneados os dirigentes administrativos,estrangeiros também, mas a verdade tornou-se impossível de camuflar por mais tempo: A produção baixou por falta de trabalho e pela existência de liberalismo e de anarquia na classe trabalhadora. A decepção dos dirigentes, quando constataram que a classe operária se batia acima de tudo pela sua comodidade individual, manifestou-se com rancor. A Imprensa acusou os trabalhadores de terem deixado na terra grandes quantidades de cana por colher. «Foi cortada a 60 centímetros do solo!» — explicaram os jornalistas, usando as mãos como fitas métricas. Houve reuniões com as estruturas do Partido. Os comissários políticos encontraram-se com os trabalhadores nos próprios locais detrabalho. Deram-se «vivas» ao Presidente Samora Machel e à Frelimo. Mandaramse «abaixar» a preguiça e os malandros. E os trabalhadores gritaram e aplaudiram e cantaram canções revolucionárias. No dia seguinte tudo continuava na mesma. A desorganização e a anarquia haviam penetrado em todos os sectores de actividade e os que desejaram suster o desastre foram encarcerados, maltratados, expulsos do país. Permitia-se que irresponsáveis se entregassem a ataques torpes e insensatos aos que tentavam travar o desastre económico do país com a audácia que as circunstâncias exigiam. Esses, rotulados de exploradores e de colonialistas, embarcaram contrafeitos nos «jumbos» para Lisboa. Os, observadores internacionais olhavam estas bizarras cenas com curiosidade e comentavam desfavoravelmente a política moçambicana, não escondendo o espanto que a todos causava o caminho de auto-destruição que Moçambique trilhava. Viam nas «bichas» citadinas, junto aos estabelecimentos, a montra do caos económico, da fome, da miséria colectiva, e do que viam iam informando os seus países. O correspondente da B.B.C, reportou esta situação, em curta notícia do seguinte teor: «Nas ruas do Maputo, a antiga e rica cidade de Lourenço Marques, vivem-se espectáculos nunca presenciados. O povo passa horas, desde o nascer do sol, em
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longas bichas para adquirir pão. A maioria destas pessoas é africana. Outras longas bichas, desta vez compostas por gente de todas as raças, são assinaladas junto das empresas aéreas e das agências de viagem, em busca de vagas nos aviões para abandonarem Moçambique. Embora estejamos em Março, todas as passagens aéreas para Portugal estão esgotadas até fins de Julho.» O correspondente da B.B.C, foi expulso de Moçambique. Não era esta a imagem que o mundo deveria colher do país, mas aquela oferecida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Joaquim Chissano, quando discursa nas tribunas internacionais, sem outra alternativa além da de renunciar à análise dos problemas nacionais para não desmistificar o Partido e a ideologia socialista. Pode deste modo sobreviver o regime comunista em Moçambique, mergulhado na doença, na fome e em perseguições? A resposta é afirmativa. A solução foi encontrada pela Frelimo, com o auxílio do Kremlin: Basta construir o homem novo enclausurando-o dentro de uma ideologia que o iniba de olhar o mundo que o rodeia, obrigando-a a uma conduta falsamente liberta. E para tanto acontecer Samora Machel possui a receita: «Por isso temos que libertar os espíritos das pessoas, libertar a sua iniciativa criadora». Mas é dessa liberdade que milhares de pessoas fogem diariamente passando, com risco de vida, as fronteiras rigorosamente policiadas. 16. AS NACIONALIZAÇÕES

Vladimir Borodin, num artigo publicado pela Imprensa moçambicana pouco após a Independência — com todo o destaque devido a um colunista soviético — diz que ainda antes da grande revolução de Outubro de 1917, Lenine frisava a necessidade da abolição de propriedades privadas, fábricas, empresas, banca, caminhos de ferro, pois sem a sua transformação em património nacional seria impossível liquidar o domínio da burguesia. E descrevia todo o processo leninista. O povo moçambicano tomava, pois, conhecimento, por intermédio de Vladimir Borodin, das instruções políticas recebidas por Samora Machel dos seus patrões moscovitas. Samora Machel põe em prática, sem organização, sem estruturas económicas, sem quadros, as realizações de Lenine no princípio do século. Alheando-se às realidades moçambicanas, plagia todo o processo comunista de nacionalizações sem medir as consequências, sem verificar que a fuga do povo moçambicano para a Europa e para outros países africanos se devia à não concordância com a sua política. E, não se contentando com a nacionalização das grandes empresas, com a lutacontra o capitalismo, a média e a baixa burguesia, faz mais pobre a pobreza, freando o desenvolvimento económico sob um controlo estatal arcaico. Os primeiros meses de Independência caracterizam-se pela progressiva agudização da situação social. As ajudas estrangeiras não resolvem o problema, pois os empréstimos não fazem mais do que incrementar o déficit. As nacionalizações,
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repentinas e sem estudo prévio, agravam ainda mais a situação económica e financeira. Imprevistas, as nacionalizações vieram imediatamente a seguir a um discurso do Presidente Samora, e o povo não recebeu de bom grado mais essa prova deditadura. Foram nacionalizadas as terras, porque apenas o Estado, que é popular, pode ser senhor de propriedades. Foram nacionalizados os edifícios, porque as casas são do povo. Foi nacionalizada a medicina, porque a saúde é um direito do homem. Foram nacionalizadas as agências funerárias, porque é crime negociar com a morte. Foi nacionalizada a advocacia, porque a Justiça é popular. Foi nacionalizado o ensino, porque todo o homem tem o direito de saber. Filosoficamente, definindo a situação, afirmar-se-ia que tudo quanto existe em Moçambique passou a ser do povo. Mas será assim? Vejamos, uma a uma, as medidas de nacionalizações e as concretas consequências imediatas: AS TERRAS Moçambique, com uma área de cerca de 790 mil quilómetros quadrados, tem grande parte das suas terras produtivas por aproveitar. As que de maior importância foram até agora agricultadas deixaram de o ser ao passarem para o Estado, porque pertenciam a particulares que se viram despojados do que lhes pertencia e abandonaram o país. O Estado não possuía quadros técnicos para os substituir. As produções, mesmo assim, reduzidas em proporção à capacidade produtora dos espaços cultivados, são conseguidas em complexos agrícolas ainda organizados, a maioria multinacionais, e não em iniciativas estatais ou do povo. Toda a produção de açúcar parte de grandes empresas, nomeadamente da «Sena Sugar Estates», da «Açucareira de Moçambique» e da «Maragra». Os plantadores particulares, localizados nos arrebaldes destas empresas de capital estrangeiro, que auxiliavam a produção para que as fábricas laborassem em pleno, foram os primeiros a abandonar os campos, forçados à desistência pela falta de mão-de-obra. O moçambicano menos culto negou-se a trabalhar após o 25 de Junho, ou passou a exigir salários que nenhum empregador podia satisfazer, transformando-se a mão-de-obra moçambicana numa das mais caras do mundo. Os mesmos problemas passaram a afectar a produção de chá, na mão de empresas do Gurué, de Licungo e de Milange, nomeadamente os importantes complexos agrofabris dos grupos «Junqueiro», «Monteiro & Giro» e «Sena Sugar Estates». Todas estas empresas baixaram as produções pelos motivos apontados, e os mesmos problemas tocaram as concessionárias de algodão, de quenafe, de arroz, de caju, de tabaco e de copra, agriculturas exploradas, no tempo português, por importantes colossos económicos, que caminharam com rapidez após a Independência para o total abandono pelas entidades empresariais, não substituídas por competentes administrações estatais mas por oportunistas Grupos de Trabalhadores que as atiraram para a ruína.
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As ricas terras moçambicanas voltavam a ser selva. Cobriam-se as ruínas e as dores do desemprego e da fome com a bandeira marxista. Sob as bênçãos de Moscovo, Moçambique afundava-se na mais confrangedora pobreza. O que restou? Apenas aquilo que o povo cultiva junto ao casebre, produtos de consumo corrente, em quantidades muito inferiores às carências nacionais. Moçambique, considerado oficialmente como um país de agricultores, passou a importar todos os produtos agrícolas que consome. E, enquanto o povo se compenetra da real ameaça soviética, o Governo segura-se à esperança das machambas colectivas, distribuídas por comunas humanas. Mas o povo não apoia nem aceita essa tão apregoada técnica comunista. Ninguém pode, de certeza, adivinhar o futuro, mas a miséria e a fome actual são já importantes motivos de meditação. OS EDIFÍCIOS Serviu a nacionalização dos edifícios para uma melhoria de vida das populações? Em princípio cuidou-se que esta iniciativa do Governo moçambicano, que tanto prejudicou a colónia portuguesa, viria solucionar o problema habitacional das massas menos favorecidas economicamente, proporcionando a grande parte das famílias um lar. No dia 3 de Fevereiro de 1975 Samora Machel expressa-se neste sentido: «Agora vocês não vão levar para os edifícios que eram dos colonizadores, para aqueles andares todos, para aquelas casas que foram vocês com o vosso trabalho que os construíram, com o vosso trabalho forçado e desumano, não vão levar para lá as vossas galinhas, os vossos cães, os vossos cabritos, os vossos porcos. Ë ou não é?...» E apreensivo: «...Nem vão levar para lá o pilão. Não vão levar para lá o pilão e bater com o pilão lá em cima. É ou não é?... Vocês a bater no pilão as casas vinham todas cair cá em baixo. Ë ou não é?...» Eram, pois, para o povo as casas nacionalizadas sem qualquer indemnização aos antigos proprietários (falou-se nela, é verdade!), e assim pensou o povo, ainda pouco acostumado às manobras políticas do Partido. A Imprensa, na sua boa fé fez-se eco dessa opinião, e o «Notícias da Beira», em preâmbulo a uma espécie do inquérito público, publicou o seguinte: «O direito ao alojamento, que corresponde à satisfação duma necessidade essencial e elementar de cada cidadão e da sua família, é objecto de uma especulação sem limites, que conduz ao enriquecimento escandaloso de um certo sector da burguesia colonial, eis uma das razões da recente nacionalização dos prédios de rendimento, expressa num comunicado oficial, no dia seguinte à medida ter sido anunciada pelo camarada presidente. Por outro foram objectivos concretos daquela decisão governamental liquidar o racismo, a discriminação racial e social que ainda existem na nossa sociedade, acabar com a divisão para criar uma verdadeira unidade de todo o povo sem distinções de
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espécie alguma e permitir ao povo tomar a cidade, vivendo nela, deixando esta de ser propriedade de um certo número de exploradores que desprezam os trabalhadores. Um outro objectivo da recente nacionalização, igualmente importante, é poder-se agora organizar no seio da cidade uma verdadeira vida colectiva, isto é, organizar a democracia no seio da cidade, de modo a que todos participem na discussão eresolução dos problemas da vida colectiva, criando assim as bases para o exercício do poder popular democrático, o alicerce político da nossa sociedade, tal como também vem expresso naquele comunicado da Presidência da República.» É isso? ... Pois bem: Cerca de um ano volvido, as rendas continuam elevadas, algumas até subiram de custo, e os edifícios vagos continuam sem inquilinos para os habitar. Apenas mudou o senhorio, que agora é o Governo da República Popular de Moçambique, por intermédio de uma nova repartição que ofereceu lugares optimamente remunerados a um grupo de protegidos do Partido — na maioria familiares dos membros do Comité Central — e que foi denominada Administração dos Prédios do Parque Habitacional do Estado, embora efectivamente a administração seja exercida pelo Montepio de Moçambique ... umas das estruturas colonialistas. Mas não só: Os atrasos nos pagamentos de rendas são punidos com multas, e, sendo o senhorio apenas uma entidade, as bichas nos dias de pagamento ocupam quilómetros de artérias citadinas. O povo foi traído pela demagogia governamental e continua a viver onde sempre viveu, sentindo nos bolsos a mesma ausência de dinheiro para habitar a residência que deseja. O direito ao alojamento continua a ser comprado ao capitalista, só que o capitalista agora è oEstado, que baseia a cobrança das rendas no seguinte: «Tornar possível recuperar parte do dinheiro aplicado na construção ou compra de prédios, conseguidos através de empréstimos feitos pelos bancos estatais e que ainda estão por amortizar, possibilitando, por outro lado, a construção de novas habitações, valer aos encargos das obras em curso dos prédios em construção, que estão a ser levados a cabo sob a responsabilidade do Estado a partir da estatização dos prédios de rendimento...» Estas afirmações não podem em hipótese alguma responder às interrogações do povo ludibriado. Quanto gastou o Estado na aquisição dos imóveis? A resposta é: Nem um chavo! Os antigos proprietários devem aos bancos estatais? Mas que bancos estatais? Não passaram eles para o Estado sem que este investisse na sua aquisição? E onde estão os capitalistas, se o próprio Governo reconhece que os imóveis, por ele nacionalizados sem dispender qualquer indemnização, pertenciam a pessoas que

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para os adquirirem, ou para os construírem, necessitaram de apoio da banca?Que capitalistas eram então? Sabe-se que os revolucionários moçambicanos desprezam a bagagem embaraçante da interrogação do povo, de que se dizem parte integrante, mas o povo moçambicano, sabendo que não houve na revolução do seu país um revolucionário que soubesse prever as consequências, até ao pormenor, da revolução que dirige, continua a perguntar: Quais foram os capitalistas abrangidos pelas nacionalizações? Noventa por cento dos proprietários perderam o fruto do esforço dispendido durante grande parte da existência. O que o Estado abocanhou era o produto de economias trabalhosamente adquiridas. Assim, à luz da opinião generalizada, nãodeveria o Governo de Moçambique reavaliar os seus actos, cingindo-se aos princípios de justiça tão apregoados pelo socialismo? ... Não deveria proceder a humanas indemnizações? A MEDICINA O país possui cerca de nove milhões de habitantes espalhados pelos seus quase 800 mil quilómetros quadrados. Ao serviço do povo ficaram, depois da nacionalização da medicina, menos de duas dezenas de clínicos, o que dá, na melhor das hipóteses, um médico para 450 mil pessoas. Como todos eles habitam cidades é fácil de estimar, «à priori», o número de habitantes desprezado pela assistência médica. As bichas de doentes nos hospitais têm início às primeiras horas do dia e prolongamse pela noite adiante, levando muitos doentes à morte antes de receberem a marcação da consulta. A consulta, porém, apenas é conseguida entre três e quatro meses depois de marcada, mesmo para os casos mais graves. Muitos doentes desistem e aguardam calmamente a morte, ou recorrem às manigâncias dos curandeiros e dos feiticeiros. Entre os poucos doentes felizes, que à altura da consulta lhes é facultada hospitalização, aumentou de forma assustadora a percentagem de mortalidade. Em Julho de 1976 o número de doentes hospitalizados, que tinham baixa para os cemitérios, havia aumentado de 2,4 por cento (Janeiro de 1976) para 41,6 por cento, números que retratam o descrédito em que caiu, para não mais se erguer, o serviço hospitalar do país, que passou a estar nas mãos de para-médicos chineses, coreanos e cubanos que cumprem escrupuloso horário de trabalho como o mais vulgar manga de alpaca burocrático. Para onde foram os médicos de Moçambique? Claro que regressaram à Europa, pois eles próprios foram vítimas de perseguições e o povo passou a recorrer à Rodésia até ao encerramento das fronteiras. Samora Machel sabia isso ao rigorosamente cumprir as instruções de Moscovo, mas, mesmo assim, condenou à morte grande parte do seu povo. A solução de emergência encontrada por Samora Machel foi atrair ao país médicos coreanos, chineses e cubanos que não falam a língua, e que na prática têm demonstrado serem possuidores de pequena experiência de enfermagem e de
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socorros. E é sintomático ver-se que nenhum membro do Governo recorre ao serviço destes clínicos; vai ao estrangeiro em busca de medicação, podendo-se assinalar, para já, a saída dos ministros Joaquim Cabaço e Graça Simbine, em busca de medicina estrangeira, recurso que não pode ser seguido pelo povo moçambicano. A afirmação de Samora Machel de que o povo passou a ter ao seu serviço uma medicina verdadeiramente popular é desmentida pela negra realidade: O povo sabe que deixou de contar com a medicina. AS AGÊNCIAS FUNERÁRIAS Passou o Estado a ser o enterrador mas não baixou os preços dos funerais. As tabelas anteriores são respeitadas, no que se refere aos enterramentos populares, e ao povo de menores recursos económicos foi retirada a possibilidade de recorrer aos carpinteiros de «biscate». Nestes, o povo pagava uma bagatela por um caixão, mas essa actividade passou a ser considerada criminosa por ser concorrente a uma receita estatal. Morre-se, pois, mais, pelo mesmo preço. A ADVOCACIA O povo deixou de ter direito à defesa experiente de um advogado. Mas para que o queria, se a Justiça é praticada pela Frelimo, por intermédio dos seus agentes de confiança? E quem se defende? — E onde se pode defender? Algum dos prisioneiros portugueses que enchem as cadeias do país, foi presente a julgamento? E o povo necessita de quem o defenda com base na lei, se a única lei em vigor são as determinações do Partido, quantas vezes em contraste com quanto se encontra legislado? A EDUCAÇÃO Também a educação é estatal. Mas como é ela processada? A resposta é simples: A preocupação do Ensino é política. Ela tem por finalidade construir o homem novo. E como se constrói esse homem? O meu filho, de cinco anos, frequentava a pré-primária. Ia todas as tardes para a Escola, situada num edifício ao lado do que eu habitava, uma Escola do Povo, colégio particular antes das nacionalizações. Da janela da minha casa via-o no terreiro antes de entrar nas aulas, formado em regime militar com outras crianças da sua idade. Eram centenas de miúdos de todas as raças.

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Em correcta posição de «sentido» entoavam, durante cerca de meia hora, canções revolucionárias que não entendiam, mas que lhes iam ficando grudadas aos pequenos cérebros. Davam «vivas» à Frelimo e a Samora Machel, faziam muitos «abaixos» e só depois começavam as lições sem livros, sob rigorosas instruções do Partido. As lições eram políticas e o tema principal era a vigilância. Ou melhor: A denúncia. O meu pequeno filho chegou a afirmar, sem entender a maldade que praticava: — Se falar mal da Frelimo eu vou dizer à Polícia. Era isso, exactamente, o que ele aprendia. E era isso, exactamente, o que mais vezes lhe ensinaram. E isso continuarão ensinando até a criança entrar na adolescência e dela passar à maturidade. Nenhum dos futuros homens novos terá a possibilidade de escolher a sua carreira, fazer a vontade aos pais, ou seguir uma vocação. O seu futuro é marcado, desde o início, pelo Partido, até à sua formatura. E os protegidos, tão condenados pêlos revolucionários extremistas, passam a existir, mas como protegidos pela Frelimo. O leitor pode pensar que eu dramatizo a situação, que também contribuiu para o afastamento de Moçambique de muitos portugueses. Em defesa da minha a mação transcrevo, sem comentários, uma entrevista concedida por Samora Machel ao «Tercer Mundo»: «Tercer Mundo» — Quais são as relações actuais e o projecto de relações futuras, da Universidade com a Frelimo? Conhece certamente as dificuldades que têm surgido em muitos países revolucionários do Terceiro Mundo com a Universidade? Samora Machel — Já temos a nossa política a esse respeito. A Universidade será dirigida pelo Partido. De futuro os que irão para a Universidade serão indicados pelo Partido. Estudarão para ter capacidade de realizar as tarefas que a naçãoexigir. «Tercer Mundo» — Não para realizar uma aspiração pessoal. Samora Machel — Não, não absolutamente. E isso não o escondemos. Dize-molo. É o que temos feito ao longo dos treze anos de experiência da Frelimo. O Partido é que indicava quem devia prosseguir os seus estudos na Tanzânia. E chegámos a um ponto de desenvolvimento em que os próprios colegas era quem decidia quem devia prosseguir os estudos. Cremos que esse método deve continuar. E esse método democrático, assinalámo-lo, existe também a nível militar. É pois esta a Educação que espera a juventude moçambicana. Samora Machel tenta justificar a sua teoria absurda num moralismo hipocritamente democrático, ao colocar a Universidade — e toda a Educação — não ao serviço das ciências mas unicamente da política, fazendo dela o espelho de uma sociedade escravizada, composta por homens de carregar no botão, de cães de guarda de uma ideologia importada. Esta é uma apreciação realista da situação das nacionalizações em Moçambique que contribuiu para a queda da Frelimo no crédito popular. Vistas assim, em
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retrospectiva, fazem ver claro as dádivas do Céu que caíram sobre o povo moçambicano e sobre os estrangeiros que confiaram na linha política do Partido, naquela linha que foi mostrada nos dias que antecederam a Independência e nas palavras encorajantes que partiram dos membros do Governo de Portugal, que acusaram de cépticos e de pessimistas quantos, a tempo, passaram as fronteiras, levando consigo ainda alguma coisa de seu. E é nos que regressam agora, transportando histórias tristes, que os governantes portugueses sentem as consequências da sua atitude. 17. SAQUE AOS BENS DOS PORTUGUESES

Desloquei-me ao aeroporto da Beira para assistir à partida de mais um numeroso contingente de portugueses, vendo-me no rosto de todos eles, no desespero dos semblantes enlutados, no medo dos olhos que fitam, com alarme e desgosto, quanto as mãos dos agentes da Frelimo vão retirando das malas que contêm o pouco permitido para a viagem sem regresso. Não há em nenhuma das vítimas resistência declarada ao terror e ao arbítrio. Apenas tremem, justificam-se, imploram. — Por favor não me tirem isso. É do meu nétinho! — diz uma mulher de pele enrugada. No chão avisto dois pequenos lençóis de berço e um fatinho de malha para criança. — É do meu nétinho. Deixem-me levar! — continua a velha, como se rezasse uma comprida oração há muito tempo decorada, perante o galhofar ostensivo de dois homens fardados. Sinto que as minhas mãos se apertam enclavinhadas uma na outra e olho um homem a meu lado, como eu na parte de fora da divisória limite aos não passageiros, formada por uma corda. Ele faz um pequeno gesto de reprovação que foi notado pêlos agentes do Partido. — Não pode estar aqui! — empertiga-se um deles. — Estou dentro do limite permitido!—responde o homem. — Amarra o tipo. Não vês que ele está a discutir? Amarra o tipo. Eles têm que aprender a falar com as Forças Populares. O tempo do Marcello Caetano já acabou ... Levam-no. Eu fico a olhar. A anciã, involuntária causadora da prisão, fica a olhar. Todos os portugueses ficam a olhar. E ninguém diz nada. No chão amontoam-se os objectos retirados das malas dos passageiros: Camisas, calças, camisolas de lã, revistas, um cobertor, brinquedos ... Subo ao primeiro andar do edifício, ao restaurante. Dezenas de portugueses, futuros passageiros, olham da sacada os roubos efectuados pelos homens da Frelimo e ciciam coisas que não oiço. Uma mulher fala mais alto do que os restantes: — Mas não é só aqui. Uma rapariga minha amiga despachou pelo correio uma saia que ela própria bordara. Assim de lado, com uma flor. Qual não foi
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o espanto dela quando, ao passar no dia seguinte na rua, encontrou uma mulher negra vestindo a sua saia. — E depois? — interroga a outra, com visível curiosidade. — Foi um milando do Diabo. A moça não se calou e tiveram que levar a coisa para a frente. Foi ao director e o homem devolveu a saia. Aqui no aeroporto não há directores e estes malandros fazem o que querem. Para que serve a gente se queixar? ... Peço um café, que me sabe a mofo e se me enrola na garganta. Abandono-o sobre a mesa e volto a espreitar o monte de roupas e objectos furtados que se espalham no chão, em baixo. O monte crescera. Cada soldado das Forças Populares tirava o que lhe apetecia, o que em seguida iria oferecer às suas manacages e amantes, ou usar como se o tivesse adquirido com dinheiro seu. E sem notar que estava a ser ouvido, sussurro: — É fartar, vilanagem! ... — Ainda hoje isto não é nada! ... — respondem a meu lado. Sobressalto-me mas de imediato acalmo. O homem que falara era um português e aceno-lhe com a cabeça. Volto à cidade e encontro amigos que me trazem notícias: — Sabes que está um barco russo no porto? Vê lá que no registo de chegadas tem um nome e no casco apresenta outro. Adivinhas que carga trouxe?... Cubanos. Foram camiões militares e maxibombos da «Auto Transportes» buscá-los ao porto e seguiram para os quartéis de Matacuane. Os tipos vinham à paisana, e traziam uns sacos grandes, verdes! ... Irão atacar a Rodésia? Digo que não sei e o meu amigo prossegue: — Vê lá que o Governo de Moçambique voltou a pedir trigo à Rodésia depois de fechar as fronteiras. Isto não parece uma anedota? Mas olha que todos os jornais de Salisbúria trouxeram a notícia e parece que é verdade. Tu quando vais?... A pergunta colheu-me de surpresa e repito-a de forma pessoal a mim próprio. Sim, e eu quando vou? ... Teimarei em ficar em Moçambique? ... Afasto-me apressado do meu amigo e entro numa Agência de Viagens. Tinha lugares para Setembro, para o dia 3 de Setembro. O meu gesto, que a São classificaria de impensado, aliviou-me os nervos. Entro num café e compro um jornal. Leio-o sem interesse, até ser atraído pelas declarações de Samuel Simbine, director nacional de Cultura, irmão de Graça Simbine, a última mulher de Samora Machel, a respeito da partida de portugueses, referindo-se especialmente aos professores: «Muitos professores estrangeiros estão na eminência de abandonar o país, o que resulta, muitas das vezes, pelo crédito ao boato por um lado, e à falta ou recusa de compreender a clareza dos objectivos do Partido e do Governo da República Popular de Moçambique. Essa deserção começou a verificar-se, com maior intensidade, após as recentes medidas de nacionalizações, verificadas no dia 3 de Fevereiro findo, deserção que atingiu diversos níveis de produção.» Mas será desertar fugir a uma perseguição sistemática, diária, dirigida especialmente contra a cor e contra a nacionalidade portuguesa?
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Desertava a pobre velha, vítima até à partida das arbitrariedades da Frelimo? Desertará o homem que, apenas por assistir no aeroporto às injustiças praticadas nos bens de seus patrícios, é preso e insultado ao manifestar um gesto silencioso de protesto? Mas alguém pode desertar do Inferno? Que inversão de valores se realizou em Moçambique, com o patrocínio do Partido, que o carrasco lamenta-se quando a vítima quer sobreviver longe dos seus aparelhos de tortura? E a que boato se referiria o cunhado do Presidente da República? Será boato o que é visto com os olhos, sentido com a carne, vivido com os nervos? Ou quererá a Frelimo mostrar ao mundo uma face acomodada da sua política, expulsando para a seguir se mostrar queixosa de abandono, na intenção de não alarmar, por enquanto, os brancos progressistas, irradiando para o exterior, cobiçado por Moscovo, as circunspectas opiniões que antes do 25 de Junho convenceram muitos portugueses? Será essa a intenção manifestada pêlos porta-vozes do Governo e desmentido pêlos operantes fardados desse mesmo Governo? Mas a quem podem ainda enganar? Não têm os observadores internacionais, aqueles que não dependem do D.I.P. nem alinham no mercenarismo informativo, atirado aos quatro ventos a verdade da política da Frelimo, desmentindo as regras e premissas difundidas por todos os actores do cenário político moçambicano? Onde reina o boato, então? E terá ele lugar quando a realidade é já tão trágica e a desesperança de todos tão aflitiva? Entro no jornal e subo à Redacção. É o José Quatorze que me recebe com um sorriso. Cumprimenta-me efusivamente. Eu fora transferido para a sede, após cinco anos de trabalho jornalístico na área de guerra, depois do «Notícias da Beira» encerrar todas as suas Delegações. — Ora então vamos trabalhar?... Você descanse uns dois ou três dias para esquecer Tete, está bem? ... Volto dois dias depois e ele diz-me: — Há aqui uma forte corrente contra o seu regresso à Redacção. Estamos a viver uma Revolução e temos contra nós uma grande campanha... Até nos têm prometido agressões, um Inferno. Você pode ser politicamente um elo fraco. Nós formamos um grupo ... Não quero dizer que sejamos uns revolucionários excepcionais ... Mas houve aquela carta da prostituta ... Está fora de jogo a sua competência profissional, mas nós achámos que era melhor ficar uns tempos fora da Redacção ... Ficar a chefiar os Serviços de Revisão ... até isto acalmar... Eu tinha muitas coisas para dizer. Mas seria mesmo necessário? Eles pensavam que venceriam o povo por terem nas mãos a excessiva força da Imprensa e as armas da Frelimo. Mas não venceriam, ou pelo menos não convenceriam as massas, pois convencer significa persuadir e para persuadir necessitavam de esgrimir com a única arma que não possuíam — a razão. Era, porém, inútil exortá-los e sinto-me feliz ao responder, pois a minha decisão estava tomada:

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— Eu tenho cinco meses de férias acumuladas. Entro de férias. É uma situação que me é agradável, depois de tantos anos de guerra, e é um alívio para a vossa luta que em consciência não aprovo ... Lembro a reserva de passagem que havia feito e sinto-me feliz, mesmo quando a Comissão de Trabalhadores me informa que o Ministério da Informação queria que eu entrasse imediatamente ao serviço da Redacção, sendo precipitada a atitude medrosa de José Quatorze. E a nota do Ministério trazia a assinatura de Jorge Rebelo, o próprio ministro. Mas eu já me encontrava de férias e nessa situação me mantive. Sabia que o Ministério procuraria no meu trabalho um motivo para me atirar às feras, pois o quadro redactorial do «Notícias da Beira» era composto pela escória do jornalismo moçambicano. Além de dois estagiários — cartas sem valor no baralho redactorial — dele faziam parte como vigilante do Partido o Heleodoro Baptista, O Mário Ferro e o José Quatorze, e todos eles liam na cartilha que o próprio jornal denunciava: «Não nos perguntem quem escreveu este ou aquele artigo no jornal. O nosso trabalho é um trabalho colectivo, sem elitismo, feito por uma Equipa ao serviço da Revolução», e era essa equipa revolucionária a responsável moral pela maioria das perseguições movidas aos portugueses e ao próprio povo moçambicano. Passeio pela rua. Compro cigarros num restaurante bem afreguesado. A meu lado um jovem negro, envergando um esfarrapado camuflado, pede uma laranjada. Fala a língua inglesa. A farda que enverga é idêntica à usada pelos homens da Frelimo, mas ele é rodesiano. É guerrilheiro do Zimbabwé. Moçambique transformara-se numa base militar internacional no coração de África, para permitir, com a força das armas russas e cubanas, a expansão do monolítico império comunista. O eixo de todos os esforços da expansão imperial comunista em África situava-se, sem disfarces, na antiga colónia portuguesa, enfraquecida por uma longa luta de libertação nacional. O guerrilheiro do Zimbabwé terminou o seu refrigerante e bebe um copo de cerveja que lhe é oferecido pelo dono do estabelecimento, um português, que puxa conversa, tacitamente, por forma a que eu oiça quanto se diz. Está a convalescer no Hospital do Macuti e a sua base situa-se no Chimoio, junto à fronteira rodesiana, mas bem dentro do solo moçambicano. São muitos e esperam reforços. Quantos?... Muitos, confirma sem elucidar. E cubanos? ... Não sabe. Por quanto tempo conseguirá Moçambique camuflar os ataques à Rodésia, mostrando-se internacionalmente como vítima para ser alvo da comiseração mundial e de subsídios? ... Por quanto tempo pode espalhar as suas convenientes mentiras, se os próprios soldados agressores passeiam fardados numa cidade moçambicana, e afirmam que as suas bases se encontram em Moçambique? Ou estará certa a afirmação, que soe dizer-se, de que as árvores, muitas vezes, não deixam ver as florestas? ...

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18.

ONDE SE ENCONTRAM AS GARANTIAS?

Uma nova onda de desalento percorre os portugueses. Espoliados de todos os seus bens era-lhes, porém, permitido fazerem-se acompanhar, no seu regresso definitivo a Portugal, por uma viatura automóvel com mais de um ano de sua propriedade, pagando, ao Estado de Moçambique, cinquenta por cento do seu valor nos primeiros quatro anos de vida da viatura, diminuindo sucessivamente a percentagem a pagar consoante o tempo de uso. Uma nova Portaria deu à República Popular de Moçambique o direito a se apropriar, sem quaisquer indemnizações, de qualquer automóvel que deseje, sendo atirado para o cesto dos papéis mais um dos direitos garantidos pelos Acordos que dizem haverem sido assinados entre Portugal e Moçambique. A Portaria a que me refiro, que viria depois a ser substituída, mas que teve força legal durante os meses principais do êxodo dos portugueses, reza que, para efeitos de exportação definitiva ou temporária, são atribuídos aos veículos ligeiros de passageiros, importados até há quatro anos, o valor actual de venda praticado pêlos agentes, e que para os importados há mais de quatro anos o valor C.I.F. actual. Deste modo, para que qualquer português se fizesse acompanhar da sua visita teria que fazer os seguintes pagamentos aos cofres da República Popular de Moçambique: Para os veículos importados até há dois anos, 90 por cento ad valoren; com mais de dois anos e até três, 70 por cento ad valoren; com mais de três anos e até quatro, 60 por cento ad valoren; com mais de quatro anos, 50 por cento ad valoren. Como se nota «à priori», e tendo em vista que os cálculos são efectuados respectivamente sobre o valor de venda efectuada pêlos agentes, ou o seu valor C.I.F. actual, a viatura, especialmente na primeira situação, pagará mais — mesmo tendo em conta que apenas é devedor de 90 por cento do seu valor — do que custou ao proprietário quando foi adquirida, olhando-se ao valor actual praticado pelos agentes. Não está aí, porém, a armadilha governamental, mas numa alínea que reza que «os veículos automóveis a exportar definitivamente poderão ser adquiridos preferentemente pelo Estado, pelo valor que lhes foi atribuído». E como era a P.I.C. que lhes atribuía o valor, e à sua resolução não era consentida controvérsia, criaram-se as mais desumanas situações, que formariam um longo e cansador filme de imagens documentais de saques aos bens de portugueses. Um homem de nome Anezula Ramos Aba, oriental de ascendência portuguesa, tinha o seu automóvel, um «Mercedes», já despachado no cais, com praça num navio português com destino a Leixões. A viatura fora avaliada em 220 mil escudos e liquidara 50 por cento do seu valor, exigência até então legislada. Dias volvidos, após a publicação de novo Decreto, foi chamado às autoridades, sendo-lhe comunicado que o automóvel teria de ser novamente avaliado, e desta vez por funcionários da P.I.C. Aquela Polícia considerou que o valor não excedia 90 mil escudos, mas como poderia ser adquirida preferentemente pelo Estado passaram-

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lhe um documento para levantar essa importância, quando existisse verba, para o efeito não orçamentada. O homem reclamou. Disse que havia pago de direitos de exportação a quantia de 110 mil escudos e que queria que essa importância lhe fosse restituída. Foi--Ihe respondido: — O que pagou, pagou. Não é connosco. O Estado deve-lhe 90 mil escudos, que liquidará quando houver disponibilidade financeira. — Mas eu vou-me embora! — lamentou-se o homem. — O problema é seu! — responderam-lhe. Anezula Ramos Aba embarcou para o Porto, por via aérea, levando no bolso um papel sem valor como recordação da terra onde viveu durante meio século. Em poder do Governo da República Popular de Moçambique ficaram o seu automóvel e 110 mil escudos. Um facto idêntico aconteceu a uma professora — de que não publico o nome por ainda se encontrar em Moçambique, sustida por um contrato que levianamente assinou. Tentou levar o seu problema ao conhecimento das altas estruturas do Partido, mas ninguém a quis ouvir. Aproveitando-se de uma reunião com grados elementos da Frelimo, realizada na Beira no edifício da Escola Preparatória, quando um dos dirigentes do Partido interrogava os professores sobre os motivos que os levavam a abandonar Moçambique, ela contou a sua história, descrevendo minuciosamente o roubo de que fora vítima por parte do Governo. Impertigado o presidente da reunião, interrompeu-a: — Isso é um assunto pessoal. Queremos assuntos colectivos. Abaixo o elitismo. Viva a Frelimo! ... E todos, contrafeitos, fiscalizados por dezenas de olhos avermelhados por ódios — os olhos da vigilância — gritaram «abaixo», e aplaudiram o «viva». Mas, também, todos saíram da reunião com mais vontade de abandonar definitivamente Moçambique. O assunto pessoal daquela professora era assunto pessoal de centenas de portugueses, mas mesmo assim não era colectivo. Uma outra educadora presente à reunião confidenciava depois: — Por enquanto deixam-nos levar a vida! Pode o Governo da República Popular de Moçambique desconhecer todos estes saques aos bens dos portugueses, se é ele próprio que legisla e relegisla, e define as atitudes de todos os seus agentes? Não tem o Governo conhecimento de que as viaturas, que eram propriedade particular de portugueses, são passeadas escandalosamente por agentes e graduados da P.I.C., que se dão ao luxo de usar uma diferente de cada vez que saem à rua, e ainda as emprestam aos seus familiares mais chegados e as oferecem às amantes? Onde se encontram, então, as garantias anunciadas pelo ministro português Almeida Santos, que afirmou textualmente ao «Século Ilustrado» que parte das garantias individuais, nomeadamente as relativas à segurança das pessoas e ao respeito dos bens, só ao nível dos acordos de cooperação podiam ser
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negociados, afirmando, a seguir, com convicção, que os tais acordos já começaram a sê-lo com confortável êxito!? Que êxito? ... Quando as cadeias se encontram repletas de portugueses; quando os campos de trabalho vão minando a saúde dos homens que nenhum crime cometeram além de teimarem em continuar na terra para onde vieram há vinte ou trinta anos? ... Que garantias foram asseguradas em Lusaka, ou acordadas posteriormente? Não terão os portugueses, espoliados dos seus bens, da sua dignidade, da sua segurança pessoal, o direito de exigirem que esses acordos de garantia sejam tornados públicos? Não sentirão força moral para pedirem que os ajustes de contas sejam efectuados entre os mesmos homens que jogaram os destinos de Moçambique e dos portugueses ali residentes, para que os danos — morais e materiais — sejam compensados com humanas indemnizações? Não terão força moral, todos os portugueses retornados de Moçambique, para exigirem, com voz digna, a Melo Antunes, a Mário Soares, a Almeida Santos, Vítor Crespo, a Antero Sobral, a Nuno Lousada, a Almeida e Costa e a Casanova Ferreira, que consigam da Frelimo a reparação que lhes é devida, visto que nenhum deles pode exigir algo a Samora Machel? O direito à permanência na História não se adquire com o simples rabiscar de uma assinatura sobre um documento dactilografado sem erros ortográficos, mas nas consequências dessa assinatura. E as consequências estão à vista de todos. 19. O MARXISMO MACHELISMO

Desço à cidade com um destino fixo: assistir ao movimento de contentores no cais e à forma como são fiscalizados pela Polícia Aduaneira e pelas forças da Frelimo. Vou a pé. Percorro o longo trajecto do Esturro aos Bombeiros, onde o trânsito acusa uma hora de ponta diferente da de meses atrás. Passo a ponte sobre o Chiveve e curvo pela rua dos indianos, no sentido da velha Marisqueira, na intenção de ir desembocar, finalmente, na antiga Praça do Município. Desconheço o nome das ruas que tuteei em reportagens anos atrás. Samora Machel despersonalizou-as e ninguém as trata pelas novas denominações moscovitas. Praças de Lenine, de Karl Marx, de Moscovo, de Lumumba, e outros nomes quejandos, apagaram as recordações portuguesas, como se a raiva de um homem e a sua obediência a Moscovo fossem capazes de riscar do pensamento dos homens, das paredes das casas, das ruas que trilho, dos passeios das avenidas, as recordações, boas e más, de cinco séculos de presença portuguesa. No passeio da Marisqueira depara-se-me, porém, um insólito espectáculo: Seis soldados da Frelimo, de farda verde azeitona e capacetes de aço, montam uma

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metralhadora pesada no solo, apontando-a para um edifício em frente. Estão no passeio que eu trilho e vacilo se devo ou não prosseguir o meu caminho. Um medo — que reconheço ridículo — acompanha-me desde que comecei a compilar estes apontamentos, como se todos os homens da Frelimo tivessem conhecimento de que eu, um jornalista português há cerca de vinte e dois anos a residir em Moçambique, iria dar publicidade a parte dos seus crimes. Mas quem é que jamais saiu de uma arena sem ter antes sentido um arrepio de medo? Ora eu estava ainda no seu interior, desafiando, na clandestinidade, as iras da Frelimo. Rodeara-me de todas as precauções, não falando do meu trabalho a ninguém, o que mais ridicularizava o meu medo, mas eu sentia que os dias dramáticos que vivíamos me modificaram. Sigo e entro na Marisqueira, não querendo perguntar, mal chego, o que se passava ali. Alguém me informa, porém: Foram nacionalizados os clubes recreativos. Era esse o justificativo para tamanho aparato bélico! ... Dois dos soldados carregam cadeiras para o passeio e sentam-se, preparando-se para uma cómoda e demorada operação. No solo, pronta a disparar, continua apontada a metralhadora pesada, e cada homem transporta consigo uma Kalashnicov que deixa brilhar, à distância, com os reflexos do sol a pino, a folha da baioneta desembainhada que se prolonga da nervura recta do cano da arma. A metralhadora está apontada para um edifício onde se situa a mesquita muçulmana, que sobressai, em contraste, como símbolo de paz, com os seus resplandecentes quarto crescente e estrela virados para Meca. Às portas das residências aparecem, espreitando, medrosas mulheres vestidas de garridos saris que deixam a descoberto pedaços frescos e morenos de corpo, à altura das cinturas. Os homens espalham-se em grupos, mas parecem desinteressados do que está a desenrolar-se a seu lado e que afronta a religião que seguem por tradição e fé. Nos estabelecimentos, indianos na maioria, o labor comercial prossegue com a entrada constante de mercadores. Só o rosto do passeio é diferente dos outros dias, e triste, fazendo lembrar uma daquelas imagens da propaganda política que enxameia agora os jornais com o beneplácito da Frelimo, e que serve para documentar qualquer notícia, de qualquer país do mundo não progressista, onde convenha mostrar opressão, medo, morte ou guerra. Só que a imagem ali era real e paletava uma rua pacata de uma cidade de uma República Democrática, de uma República Popular. Os clientes da Marisqueira, familiarizados com o espectáculo, fazem comentários jocosos que são mal interpretados por um homem asiático que se afasta. Parecera-me que alguém dissera que a Frelimo ia derrubar a tiros de metralhadora, o símbolo da religião, a lua em quarto crescente, para no local colocar uma foice e um martelo. Eu pergunto quando tivera início o aparato bélico e elucidam-me que, minutos antes, todos os clubes, agremiações e sociedades culturais, recreativas ou de benemerência, haviam sido tomadas pela força por homens da Frelimo. E dizem-me que a coisa vem no jornal...
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— Parece que se trata de um Decreto! ... Consulto o jornal e lá vem, em destaque na primeira página, a notícia encabeçada por este título: «COMBATE AOS VESTÍGIOS DO COLONIALISMO — EXTINTAS AS ASSOCIAÇÕES DE CARÁCTER DIVISIONISTA». Estará certa a atitude do Governo de Moçambique? Já não opino; ninguém opina mais. O que não concordo, por mais pedradas dialécticas que me atirem ao cérebro, é com o aparato de guerra usado pela Frelimo, contra o edifício onde apenas se situam uma mesquita e uma escola, quando uma acção policial comedida não alarmaria a população, nem ridicularizaria o Partido. Estávamos, porém, na época em que surgia fortalecida por um discurso qualquer atitude, por demais condenável do Partido; em que os discursos abundavam pelos comícios de ruas, pelas reuniões de bairro, pelos comités de círculo ou de localidade. E quanto se dissesse ali apoiava quanto estava feito, fosse quem fosse o orador, bastando, antes e depois dos disparates apregoados, saber gritar, a bons pulmões, meia dúzia, senão mais, de «vivas» à Frelimo. Que interessava, pois, a discordância massiva a esta ou a outra arbitrária atitude do Governo de Samora Machel? Penetro no porto com as facilidades concedidas ao cartão do jornal, depois de diversas diligências junto dos elementos do portão de acesso. Um aglomerado de portugueses junto de contentores indica-me que ali termina a minha digressão. Fico vendo e ouvindo quanto ali se diz e faz. Os agentes da P.I.C., que mais tarde seriam substituídos por forças da Polícia Aduaneira, vão escolhendo os objectos que não podem seguir nos contentores. Uma mobília de quarto, aparentemente nova mas com sete anos de uso — segundodeclara com provas a proprietária — é refugada. A mulher observa aos agentes que, não tendo filhos, o aspecto dos móveis foi perseverado, mas é interrompida: — Por que mentes? Ganhas alguma coisa com isso?... Só segue se nós quisermos ... e como não queremos... O homem da P.I.C. afastou-se e decretava as suas leis a outro português. O objecto em discussão era um «bar» em talha: — Não pense em levar isso. Faz falta à economia de Moçambique. Quer ir para a jaula acusado de sabotagem económica? ... Um homem algarvio, das minhas relações, diz-me: — Tudo o que para aqui vem já foi vistoriado. As pessoas chamam a casa as autoridades administrativas e elas inventariam o que pode seguir. O que é autorizado vem para o porto, mas aqui os homens da P.I.C. fazem nova selecção, deixando no cais mais mobiliário, que ninguém sabe para onde vai. Será o Governo o ladrão? ... Serão eles? ...2. Regresso a casa. O Presidente Samora Machel estava desde manhã discursando em Lourenço Marques. Virão mais nacionalizações? Mas o que falta ainda roubar aos portugueses? Ligo o receptor no momento em que Samora Machel passa em revista a posição dos organismos recentemente nacionalizados e a imoralidade que penetrou nesses sectores após as nacionalizações. Ele dirige-se às mulheres moçambicanas, pois a
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cerimónia a que preside assinala a inauguração das comemorações da Organização da Mulher Moçambicana. Capto as suas mais interessantes afirmações: «Assistimos ao nível dos hospitais, a fins-de-semana... há um nome, como se do sexo, cigarros nas escolas, e alguns professores também fomentam isso, porque é Governo da Frelimo. E o Governo da Frelimo, a sua característica é a indisciplina. Assistimos a professoras que fazem dos alunos seus amantes. Assistimos também a alguns professores que fazem das alunas já crescidas suas mulheres e suas amantes. Assistimos a situações bastante vergonhosas, que humilham, desprestigiam a Frelimo,desprestigiam a mulher moçambicana.» «Assistimos ao nível dos hospitais, a fins-de-semana... há um nome, como se chama... bailes organizados com muita bebida alcoólica, dançam, vão apagando as luzes e vão tirando as roupas, dançam, bebem nus. Como é que se diz isso?...Bacanais. Existe no nosso país, deixado pêlos colonialistas. Ao nível dos hospitais gostam, fazem. Existe essa prática. Vocês viram alguma vez? Mas existe nos hospitais, [untam bebidas, juntam-se lá todo o pessoal dança e vai bevendo e quandochegam aí por duas horas da madrugada começam a tirar a roupa, vão diminuindo as luzes, e, finalmente, todos ficam nus e bebem. São civilizados. A isso chama-se orgia.» (sic). «Façamos esse combate e a mulher não faz combate contra isso. Cabarets e boites, aqui ao nível do Maputo, Beira, Nampula, onde havia concentração da tropa colonialista, da tropa de agressão e os nossos moçambicanos, as nossas moçambicanas, continuam. Têm saudade, porque se foram embora aqueles que traziam a civilização avançada. Encontramos a nossa mulher rodeada de três homens, quatro homens ao mesmo tempo. Existe ou não existe? Como é que vamos lutar contra isso tudo? As nossas moçambicanas agora vão para Portugal. Vão atrás dos seus amantes, dos quatro ou cinco homens que tinham ao mesmo tempo. E depois dizem que a Frelimo lhes tira as roupas no aeroporto, lhes tira tudo. Então elas vão nuas para Portugal? É ou não é?...» (sic). Samora Machel refere a seguir o estado caótico em que se encontram alguns sectores de actividade, nacionalizados pela Frelimo, com as seguintes palavras: «Nos hospitais, porque nacionalizamos a medicina privada, sabemos que já não há mantas para dar aos doentes. Já não há lençóis, é preciso levá-los de casa. £ preciso levar a manta de casa, que é para provar que quando havia hospitais privados, isso sim, havia higiene. E nós dizemos que isso é falta de organização, é falta de planificação, incapacidade dos dirigentes nos hospitais. Nos nossos hospitais não tínhamos sabão, nas zonas de guerra não tínhamos lençóis, não tínhamos nada. Mas mantinham-se limpos os hospitais, havia higiene nos hospitais. Porque, primeiro, o enfermeiro e o médico sabiam o valor da vida de uma pessoa e estes só sabem o valor do dinheiro e não da vida da pessoa. E dissemos que a terra pertence ao povo. Parece que todos já têm terra. É por isso que esses vossos irmãos querem ir para Portugal. Com o vosso
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dinheiro, que roubaram durante muitos anos, querem comprar terrenos em Portugal, porque aqui não há compra de terrenos. Hojenacionalizamos os prédios. Quem é que ficou ofendido? Quem é que ficou prejudicado? Quem tinha prédios? Levantem a mão. Agora vocês vão para os prédios, não vão? Já leram o jornal? Irão ou não irão para os prédios? Mas mantenham a cidade limpa. Cabe às mulheres organizarem-se para ver como fazer limpeza às cidades. Higiene na cidade, higiene nas vossas residenciais. Manter a cidade limpa. Isso cabe às mulheres. Vamos desligar os homens que estão nas fábricas para viremvarrer? Por isso, termino aqui, para escutar as vossas intervenções, porque eu vim para aprender convosco.» (sic). É deste modo que a política marxista-machelista se esforça para ser acolhida favoravelmente por aqueles que a detestam. É assim que ela é apresentada ao seu próprio povo, uma sociedade plenamente amorfa e insatisfeita que se vem sentindo traída e segregada. Esta é a máscara do socialismo científico machelista, que transforma Samora Moisés Machel numa espécie amodernizada de bombeiro incendiário que postula uma unidade perdida. É seu dever, perante Moscovo, dar provas de imaginação, com o fito de trocar as voltas à vontade do povo que lhe é impossível controlar, lançando palavras de ordem aventureiristas disfarçadas de um moralismo hipócrita. Mas perto o seu grupo de intelectuais vigia-o. Todos sabem, menos Samora Machel, que o Presidente da República Popular de Moçambique é uma figura para queimar, e que quanto mais ridícula e estúpida se mostrar melhor servirá os intuitos moscovitas. Por ora é necessária, enquanto no pensamento dos verdadeiros guerrilheiros, dos que apoliticamente lutaram nas matas pela liberdade moçambicana, se conservar a imagem endeusada do Chefe Samora, do Comandante Samora, dos seus tempos apolíticos, antes de se deixar desinteligentemente dominar e politizar pêlos cérebros comunistas do Partido. Depois o seu afastamento será fatal. Mas só então. Por isso, talvez, a Imprensa, ao contrário do seu costume, publicou este ridículo discurso, que retrata o desastre verificado nos organismos nacionalizados pela política de Samora Machel. Da Imprensa o transcrevi sem lhe acrescentar uma vírgula, respeitando, assim, a forma ortográfica dada pelo «Notícias da Beira» às palavras de Samora Machel. Cerca de um ano depois, em Março de 1977, Samora Machel voltaria a abordar os mesmíssimos problemas, pelos vistos sem resolução, num comício realizado no estádio da Beira, usando desta vez, porém, expressões mais agressivas mas nãomenos ridículas. Do «Notícias da Beira» extraio integralmente: «Sabemos que ainda vivemos num estado quase primitivo: poligamia. Vivemos neste estado em que criámos um curral, metemos lá um bode e pusemos lá vinte cabras. Correcto? Correcto?... Ë assim quando queremos criar animais. Compramos mais cabras do que bodes. Não é verdade?... É ou não é?...» Referindo-se mais uma vez à nacionalização dos edifícios, afirmaria:
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«Alguns já levaram dez mulheres para o prédio. Outros deixaram as mulheres porque não eram compatíveis com o prédio... É ou não é?... Ir para o prédio significa produção. É uma conquista. Uma conquista que ganhámos através de combates sucessivos. Agora como tratar o prédio? Essa tarefa pertence particularmente às mulheres.» «A partir de agora vamos formar com a O.M.M. comissões para de 15 em 15 dias fazer uma vistoria a todas as residências. Quem for encontrado a manter mal a manutenção da casa, falta de higiene, vamos expulsar do prédio. É xiconhoca, está a destruir a vitória do povo. Portanto aqueles que forem encontrados a sujar as portas, partir os vidros, deixar as torneiras estragadas, sujar as paredes, os vidros, as portas, o Estado vai arranjar pedreiros, carpinteiros, consertam tudo... e será descontado. Directamente lá do seu vencimento. Descontado. Ouviram? Ouviram?...» «Outros levaram cabritos para os prédios. Outros galinheiros nos prédios. Outros muita terra ali no terraço para semear batatas. Outros nas banheiras puseram terra para plantar cebolas. Vamos tirá-los do prédio também.» «Podem pilar lá em baixo amendoim... Não é verdade?... Mas levam para o prédio, começam a bater, pilar todos os dias... e começam a rachar o prédio. Ouviram?...» Aparecerá um chefe de Estado, neste mundo tão confuso, com discursos, sempre muito aplaudidos, mais ridículos? Mas é ou não é?... 20. O PREÇO DA LIBERDADE

Deslocava-me, de quando em vez, à Redacção do jornal, não para matar saudades nem para alimentar amizades, mas por questão económica. Era credor de cerca de uma centena de milhar de escudos de vencimentos, além de outras centenas de milhar de escudos de comissões, acumuladas em Tete nos últimos cinco anos. Mas a Comissão de Trabalhadores, chefiada por Mário Ferro, que dependia do Grupo Dinamizador do jornal, de que também fazia parte Mário Ferro, quebrara pelo canto mais vulnerável, o económico. As edições diminuíam de tiragem de dia para dia, pois o leitor alfabetizado era cada vez em menor número. O «Notícias da Beira», que perdera o combate, continuava & discussão com o povo, querendo impingir as suas ideias desacreditadas. Passava os dias junto à máquina de escrever, e, à noite, ao penetrar no quarto para dormir, o sono era-me retirado pêlos ensaios de guerra praticados na minha rua, em todas as ruas, por parte dos habitantes menos evoluidos dos bairros. Marchavam dirigidos por vozes avinhadas de comando, e eu vinha para a janela unir-me ao escuro para espreitar a rua. Os recrutas eram homens e mulheres esfarrapados e descalços, e o treino destinava-se a reforçar os quadros para a guerra. Samora Machel queria transformar cada homem num guerrilheiro, num combatente contra o imperialismo capitalista e os ensaios dessa gente processava-

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se entre as 22 horas e o badalar da uma da madrugada, com muitas marchas, corridas, canções. A minha posição política, de não concordância com a destruição de Moçambique ensaiada com sucesso pela Frelimo, trazia-me um sentimento de angústia física que me levava a, uma vez por outra, retirar de sob o travesseiro da minha cama os apontamentos desta Reportagem, como se alguém os pudesse surripiar, tal a sensação de ameaça permanente que eu vivia. Quanto mais se afirmava a necessidade de vigilância contra a engrenagem que dificultava a destruição do país, maior era o meu terror, por eu me sentir uma peça importante dessa engrenagem. Li, devorando as palavras, a carta do ministro de Informação e Propaganda, Jorge Rebelo, onde ele achava conveniente a minha entrada imediata ao serviço da Redacção, mas essas palavras não me traziam a cómoda segurança, necessária para que as minhas noites fossem preenchidas pelo sono, pois havia quem perguntasse: — Por que é que este indivíduo não foi ainda preso? Mas eu não podia ver passivamente Moçambique correr para o suicídio que, mesmo inevitável com a política da Frelimo, estava ainda a tempo de ser refreado. Por isso me afligia, me interrogava e me amedrontava mais. Quando se produziria qualquer coisa, mesmo insignificante, que fragmentasse o aparente poder da Frelimo?... Eu ouvia todas as noites as emissões radiofónicas ocidentais, onde as atitudes de Samora Machel eram criticadas abertamente, e espreitava nas informações a abertura que o povo desejava para se manifestar, pela primeira vez, com honestidade nos últimos meses. Espreitava essa abertura esperando assistir a ela antes de partir, olhando o riscar das folhas do calendário que me aproximava, cada vez mais, do início de Setembro, fronteira da minha liberdade. Qual seria o preço a pagar ainda? Restava-me colocar a bom recato, em Portugal, estes apontamentos. Quem os levaria? Toda a documentação em poder dos portugueses era examinada com a lupa do Partido, e nem recortes de jornais, mesmo favoráveis à Frelimo podiam sair do país. Que fazer, então? Recorrer às fronteiras moçambicanas e tentar uma curta e disfarçada fuga, com regresso ao país? Opto por essa solução, e, numa manhã de princípio de Inverno, percorro as estradas que há tanto conheço, de regresso a Tete. Dali tento a passagem para o Malawi, por forma a que não seja necessária a apresentação de documentos. Planeio o golpe, medindo os prós e os centras. A cidade malawiana que me promete solução ao problema, por fácil acesso, é Dedza, a uma milha da fronteira. Tive de dissimular, de ser um actor de primeira classe na comédia que engendrei em noites sem dormir, actor que soube convencer os esbirros da Frelimo, com e sem farda, negros e brancos. Tive de dissimular, arriscando a liberdade e a vida numa aventura. Passei os controlos de estrada. Ouvi as vozes que tantas vezes já ouvi e as mesmas palavras: «Dá-me um cigarro! Que levas aí no carro?» Vi-os remexer
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nos meus pertences, abrir malas, senti armas apontadas contra mim. Pediram-me osdocumentos uma, duas, dezenas de vezes, tornando mais comprido o asfalto. Olharam-me com desconfiança, exigiram-me uma Guia de Marcha que eu também forjei. Tentaram ler dentro de mim as minhas intenções mais íntimas, e esta viagem, de cerca de mil quilómetros, não se pareceu com nenhuma outra das que até então efectuei por aquelas terras que conheço e me conhecem, que se me mostraram familiares em cada curva que bordejava o caminho, em cada machamba que se estendia, a perder de vista, até o início das montanhas. Parei no Dondo, onde o cruel saudosismo me fustigou (trazendo até mim os anos da juventude, dos bailaricos no Clube, onde se furtavam beijos às moçoilas envergonhadas; segui pelas terras açucareiras, onde o asfalto é atapetado por folhas secas da cana sacarina; ultrapassei, em cómoda ponte, o Rio Pungué, que tantas vezes venci em almadia ou batelão ... Fui mais longe, à velha Vila Pery que tanta gente orgulhou, e que hoje, como cidade do Chimoio, a todos enfastia; onde as prisões são ainda mais arbitrárias; onde os cabouqueiros da agricultura evoluída abandonaram casas, armazéns, alfaias e toda uma vida, para que os seus nomes venham depois, ao abrigo de um Artigo qualquer de uma Portaria socialista, como autores de abandono de tudo, não sendo esquecido, no Inventário do que deixaram, um penico desprezado ao dispor de novos donos ... Subi o Bárué até ao Guro, paraíso de verdeais perdido entre montanhas majestosas de altitude e de sossego, mas não me detive aí em contemplação. Fui à Changara, de onde quase podia avistar a Rodésia de lan Smith, e desci a Tete, primeira etapa desta tentativa de fuga que era demasiado bela por ser conseguida com sucesso ... Respirei ali, abraçado às montanhas, aos vales, às planícies percorridas, um abraço que senti ser de despedida eterna, cruel, íntima. Revi amigos e olhei rostos que conheço, antes de rumar para a fronteira, onde se repetiram os mesmos «controlos» de estrada, as vozes que tantas vezes já ouvi, e as mesmas palavras. Vi remexerem-me nos meus pertences, abri malas e mostrei os mesmos documentos, cada vez mais cocados e cada vez mais necessários. Tornei a ver as árvores da Picada da Angónia, as gentes de Ulongué, da velhíssima Vila Coutinho que vi crescer e espraiar-se no planalto. Bebi copos de cerveja gelados no «Dominó» de Bragança, com amigos. Olhei depois, com esperança, a grande montanha da Mesa, que significava finalmente a conclusão de todo o meu esforço, o desfecho feliz da minha grande aventura. E tive depois, nas mãos, o recibo de registo aéreo malawiano de um volume de documentos, compilados na clandestinidade, num país que nada tolera. E a resposta do sucesso da viagem, leitor, está frente a teus olhos, pois esta Reportagem foi publicada. 2 Após Setembro, foi proibida a saída de Moçambique de quaisquer mercadorias. Os contentores, mesmo vistoriados e com frete marítimo pago, ficaram retidos nos portos moçambicanos, à chuva e ao sol, apodrecendo o seu conteúdo. A intenção não
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é ressalvar a economia moçambicana, mas, apenas, prejudicar os últimos portugueses que fogem da República Popular de Moçambique. (Nota do Autor)

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QUARTA PARTE A DERROGADA DO MACHELISMO

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O POVO MOÇAMBICANO DIZ «NÃO» À FRELIMO

Os erros cometidos pela Frelimo, as prepotências dos seus dirigentes, o luxo e as demonstrações de riqueza pela parte dos chefões da República Popular de Moçambique, aliados às recordações da recente guerra com Portugal — agora mais nítidos no pensamento do povo, após o crescimento da euforia da Independência — voltaram os moçambicanos de Norte a Sul contra o Governo. O espírito de revolta, após demorada incubação, rebentou o ovo e manifesta-se claramente em todas as reuniões de massas. Fazem-se comparações dos preços dos artigos de consumo corrente, expostos nas Lojas do Povo — originalidade comunista — com os praticados no tempo do colonialismo; critica-se a criação do Banco da Solidariedade para auxílio aos terroristas da Z.A.P.U., subsidiando-se, desse modo, a luta contra a Rodésia, Banco que obriga o povo ao pagamento de um dia de salário mensal, automaticamente descontado nas folhas de vencimentos das empresas privadas ou estatais. «Que temos com essa guerra? Não nos bastam os nossos feridos, os nossos filhos mutilados pelas minas plantadas nos carreiros e nos acessos das povoações pela Frelimo, na luta contra o exército português?...» E recorda-se, cada vez mais com maior nitidez, os sofrimentos impostos pela guerra colonial, nascendo a pergunta, que se espalha de lar em lar, de casebre em casebre: «Não foi a Frelimo que colocou as minas nas machambas que plantámos, nos rios onde as nossas mulheres e as nossas crianças iam buscar água, nas estradas que éramos forçados a trilhar junto aos nossos casebres?» A Frelimo não oculta a sua profunda preocupação em relação à atitude do povo, e nem procura disfarçar a plena gravidade da sua significação. Fazem-se comícios. Substituem-se os comissários políticos. Enviam-se para os campos de trabalho quantos erguem publicamente a voz discordante. Assassinam-se os mais renitentes e perigosos, ou isolam-se em zonas de difícil acesso, no interior da Tanzânia, pátria irmã de Moçambique na miséria e na criminalidade do regime. Samora Machel apregoa, em ridículos discursos, que a luta continua, e toda a gente sabe que a luta agora é travada contra o povo moçambicano que aprendeu a dizer «não» à Frelimo, e que, lentamente, caminha para uma mobilização geral em toda a extensão do país.
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Os próprios soldados e comandantes da Frelimo aliam-se ao povo na sua revolta natural contra o Governo que lhes foi imposto. E este levantamento nacional, que conseguiu pôr de acordo etnias que até agora se guerreavam, organiza-se em todos os pontos do território, ao tempo que grande número de combatentes, que desde a hora de luta estiveram com a Frelimo, que sofreram a guerra nas florestas, que se afastaram dos seus lares durante uma dezena de anos, são agora forçados a fugirem de novo da sua terra para salvarem as suas vidas, ao verem totalmente traídos os ideais por que lutaram. O povo glosa os últimos discursos do Presidente Samora Machel, ridicularizando-o. E essa é, também, uma forma de luta contra o regime machelista. O discurso mais em baila foi o pronunciado no primeiro aniversário da Independência, no dia 25 de Junho de 1976, e a partir de então é vulgar ouvir-se nos bares, nos cafés, em qualquer lugar, um moçambicano perguntar a outro: — Já mataste hoje trinta moscas?... Se não o fizeste és um mau moçambicano!... Samora Machel nesse ridículo discurso — e dizem que após o haver pronunciado foi proibido pelo Comité Central do Partido de falar em público de improviso— traçara a linha de ordem para o segundo ano de Independência, com as seguintes palavras: «Moçambicanas, moçambicanos, operários e camponeses, a linha de ordem para este segundo ano de Independência infere-se na luta contra a doença. Há um bichinho que transmite a doença, é ou não é?... Que poisa na porcaria, que poisa na comida que nós comemos. Ë a mosca. Ë ou não é?...» «Moçambicanas, moçambicanos, operários e camponeses, a palavra de ordem para este novo ano é que todos nós, operários e camponeses, nas nossas casas, nos escritórios, nas oficinas, matemos cada um trinta moscas por dia. Trinta moscas,estão a ouvir?... Quem não matar trinta moscas por dia não é bom moçambicano. Estão a ouvir? Ë ou não é?... De acordo com esta estratégia vamos acabar com moscas em Moçambique...» (sic). Samora Machel discursou com os olhos raiados de fogo, alheio aos olhares de gozo dos moçambicanos evoluídos, fitando apenas os poucos rostos que espelhavam idolatria, dos homens seus capangas, daqueles que, com sofreguidão, vão chupando os nacos do manjar moçambicano que escapam à voracidade famélica de glória e de poder, de luxo e de ostentação do Presidente da República Popular de Moçambique. Mas Samora Machel vai descobrindo que o seu poder é fictício, que mais não é do que um símbolo ainda necessário a quem o manobra, mas que prepara a sua destruição. A Frente de Libertação de Moçambique actual, literalmente oposta à criada por Eduardo Mondlane, encontra-se sob o controlo de um pequeno grupo. E descobrindo tudo isso, não esconde o seu terror e procura esquivar-se ao fim que adivinha, a resistir por qualquer preço, agitando para o efeito moribundos lemas nacionalistas. Deixou de pernoitar no palácio presidencial, em Lourenço Marques, deslocando-se diariamente para a Ilha de Inhaca, onde passa a noite, em helicóptero
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convenientemente protegido. Nas suas deslocações, em automóvel de luxo à prova de bala, faz-se acompanhar de um incessante clamor de sirenes e do aparato bélico de dezenas de «kalashnicov» prontas a disparar ao mais pequeno gesto suspeito. A sua guarda pessoal é composta por soldados tanzanianos e oficiais cubanos, tão pouca confiança deposita nas Forças Populares de Libertação, pois sabe que elas são enquadradas por comandantes que lhe são hostis. O medo acompanha Samora Machel. Ergue-se a seu lado. Está presente em todo o lugar onde se encontra. E o remorso, também. Os corpos esburacados pelas balas, de quantos levantaram a voz contra o seu domínio — enquanto na realidade dominou — são paletas constantemente perto dos seus olhos. O povo acusa. Interroga sobre o nome do assassino de Eduardo Chivambo Mondlane, e encontra como resposta o de Samora Machel, aceitando sem reticências a opinião de inúmeros dissidentes do Partido, postas a circular clandestinamente entre as massas. Uma das vozes apoiadas popularmente é a do dr. Domingos Arouca, que mesmo nos calabouços da P.I.D.E. manteve amistosos contactos com o primeiro líder da Frelimo: «...a determinada altura começámos a temer pela vida de Mondlane. Travava-se em Dar-es-Salam uma luta desenfreada pelo poder dentro da Frelimo, coincidindo com a mudança de protector internacional e com o avanço de Samora para o poder; pelo sistemático afastamento e selvático aniquilamento de todos os comandantes de guerrilha que estavam na sua frente, até chegar ao topo. Para isso serviu-se das suas próprias mãos e das mãos que comprou. Serviu-se de inimigos do Presidente e também de pessoas que a ele estavam intimamente ligadas. Todos dentro da Frelimo calculamos quais foram as mãos que mataram e as que rebentaram a tão discutida bomba. E após a sua morte os que estavam vinculados pelo sangue derramado tinham de eliminar todos os que sabiam demais. Josina Mutemba, mulher de Filipe Magaia, que, após a morte deste, muito estranhamente, aparece ligada a Samora, também «sabia demais» e não era pessoa para pactuar com a traição, também foi abatida e a série continua mesmo ainda agora dentro de Moçambique porque o sangue e o assassínio arrastam consigo sempre novas vítimas...» O dr. Kamati Mahoce, um dos fundadores da Frelimo, licenciado em Sociologia pela Universidade de Colúmbia, também se referiu recentemente à morte de Mondlane, afirmando que assistiu ao assassinato e que ele foi prepetrado por elementos da Frelimo, afectos ao actual Presidente Samora Machel, e que o crime apenas aproveitou ao actual ditador. E o povo continua acusando. Quer conhecer o passado do chefe Samora, os seus delitos comuns que o levaram a julgamento e à expulsão do Curso de Enfermagem, os roubos praticados quando empregado nos Serviços de Saúde, ao se oferecer, no intuito de os praticar mais livremente, para lavar os mortos e pernoitar na casa mortuária, em Lourenço Marques, onde se apropriava dos anéis dos defuntos.

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O povo comenta tudo isto abertamente, afirmando que a Frelimo não tem capacidade para prender ou assassinar a totalidade da população moçambicana. O espírito de revolta alastra nas três províncias da fronteira Norte de Moçambique — Cabo Delgado, Niassa e Tete—, e os seus habitantes disputam a orientação da luta contra a Frelimo, tendo alguns destes povos passado à acção violenta, nomeadamente os macondes, sob a orientação do espírito revolucionário do dissidenteLázaro Kavandame. Nas cidades do Sul, nomeadamente na Beira, Lourenço Marques e Inhambane, os sintomas de revolta são, de dia para dia, mais patentes, acompanhados por uma palpável resistência às directrizes do Partido. Nestas principais localidades,centroschave em densidade populacional, o povo nega-se a comparecer às reuniões dos Grupos Dinamizadores, aos comícios, às sessões de esclarecimento, mesmo se os chefões da Frelimo decretam feriados quando uma destas reuniões tem lugar onde são anotados os nomes dos faltosos pêlos secretários das células de trabalho ou de residência. Mas nem o medo às represálias leva o povo à presença massiva. Espalha-se pelos bares, pêlos cafés, pêlos lugares de convívio, nos bairros — aproveitando-se a seu bel-prazer do inesperado dia de folga — ou reúne-se em sessões clandestinas, onde são dissecados todos os crimes do Partido. Ao mesmo tempo os prisioneiros sem julgamento, detidos às ordens da P.I.C. ou da S.N.A.S.P., polícia política com poderes ilimitados decalcada nos métodos da K.G.B., amotinam-se nas prisões e tentam diariamente a fuga, sendo muitos deles abatidos a rajadas de metralhadora pêlos mercenários da Frelimo. Outros são transferidos para campos de morte, situados em zonas desérticas do país, onde são dizimados sem piedade, ou ainda fuzilados publicamente, após serem obrigadas a assistir as crianças das escolas primárias e elementares, como aconteceu na cidade de Quelimane recentemente. E Samora Machel tresloucado, vendo o poder fugir-lhe, oferece vencimentos chorudos aos membros da sua «gang», cada vez mais reduzida, ao tempo que reforça os seus quadros com mercenários estrangeiros, na maioria cubanos, chineses e vietnamitas, aproveitando, ainda, a colaboração de alguns cadastrados portugueses. Neste contexto, nomeia Zeca Russo — Carlos José Daniel dos Santos Rocha, de nome — autor de assaltos à mão armada em Lourenço Marques e em Johanesbourg-.na África do Sul — criminoso internacional evadido das prisões sul-africanas e moçambicanas, onde cumpria penas de delito comum, tendo numa das fugas atirado, a matar, sobre forças policiais — nomeia, dizia eu, chefe de Brigada da P.I.C., e entrega a Informação e a sua propaganda à escória do jornalismo moçambicano, composta por portugueses traidores, de que podemos nomear Martins de Almeida, Moaz Gonçalves, Mário Ferro, José Quatorze, Cabeça Lopes — depois também chefe da P.I.C.— Jorge Figueiredo Jorge, e outros. A intenção de vencer pelo medo, porém, não resulta. O povo reage empunhando armas, e refugia-se junto à fronteira rodesiana, de onde, aliado às forças contrárias
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aos terroristas da Z.A.P.U., investe contra bases frelimistas ou do Zimbabwé, em território moçambicano. Como é lógico, Samora Machel diz que são incursões da Rodésia, mas todos os correspondentes internacionais que se encontram naquelas zonas sabem que os atacantes são moçambicanos, comandados por chefes da Frelimo que se rebelaram contra as atrocidades que Samora Machel, e os seus capangas cometem. São de maior importância, pelos danos causados aos terroristas do Zimbabwé e às forças da Frelimo, as surtidas com sucesso efectuados à vila de Mapai — que foi totalmente destruída — e, mais recentemente, à Gouveia, onde foi destruída uma importante ponte sobre o rio Pungué — acção que motivou a divisão de Moçambique em duas partes distintas — e dizimou elevado número de terroristas na sua base, orçado pela Frelimo em cerca de seis centenas, mas que os membros da Imprensa que se deslocaram ao local — e só foram autorizados a fazê-lo cerca de uma semana depois — afirmaram não terem aparecido na gigantesca base mais de quatrocentas e oitenta e três pessoas, das dez mil que ela albergava. É de salientar, ainda, que a reportagem jornalística encontrou os sobreviventes camuflados e calçando botas militares, apressando-se os repórteres do «Notícias da Beira» a lembrarem ao leitor que por a roupa ter sido destruída pelos assaltantes, a Frelimo foi forçada a fardar os sobreviventes, o que poderá levar um observador atento a erro de especulação. Para estes repórteres, para o Alto Comissário da O.N.U. para os Refugiados, e para a Informação comunista, o ataque perpetrado por dissidentes da Frelimo e da Z.A.P.U. tivera por alvo um campo de refugiados, mas as imagens colhidas pelo repórter fotográfico Fernando Veloso, do «Notícias da Beira», e publicadas em toda a Imprensa do país — «Notícias», «Tempo», e «Notícias da Beira» — mostravam cadáveres espalhados pelo solo envergando uniforme militar. E a área atacada estava tão militarizada que os próprios repórteres — entre eles Mário Ferro e Fernando Veloso — foram aprisionados por terroristas do Zimbabwé, e transportados para Vila Pery em viaturas militares, sendo devolvidos à liberdade por influência de José Moiane, governador daquela Província. Os jornalistas moçambicanos haviam sido tomados pelos terroristas do Zimbabué, sobreviventes, como mercenários brancos ao serviço das forças militares rodesianas. Samora Machel colocou-se entre dois fogos e sabe que os movimentos moçambicanos que nasceram nos últimos meses, para o destruir, não lhe darão tréguas no conflito armado que começa a generalizar-se. A sua única esperança consiste em conseguir uma forte ajuda externa, a exemplo da solução encontrada por Agostinho Neto para Angola, atraindo a presença bélica de cubanos ou russos. Essa hipótese, porém, é contrariada — segundo os observadores internacionais — pelasreacções desfavoráveis dos Estados Unidos da América e de outros países do grupo ocidental, que já lamentam a letargia que manifestaram no caso angolano, que veio permitir um avanço importante do comunismo em solo africano.

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Será - agora impossível repetir, sem graves consequências, a jogada de Agostinho Neto, que por ser inédita colheu de surpresa o Ocidente e apareceu aos olhos do mundo como facto consumado. Ao mesmo tempo, e posta fora de questão a interferência de forças cubanas ou russas no conflito que se avizinha, a guerra civil apenas trará vantagens à Rodésia e à África do Sul, que deixariam de ser o fulcro da atenção mundial na África Austral, pela sua política de segregação racial, a qual, lentamente, está a ser abolida. Para Moçambique, esta inevitável guerra civil será — como definiu o eng.° Jorge Jardim — mais uma esperança do que uma ameaça. De notar, ainda, que a rota do Cabo, cada vez de maior importância devido aos problemas do Médio Oriente — que tornam inacessível o Suez — está a ser jogada na África Austral, olhando ao facto de que uma interferência bélica comunista em Moçambique, ou na Rodésia, enfraqueceria as possibilidades de defesa da África do Sul, e que sem este último bastião ocidental a rota do Cabo ficaria praticamente fechada aos Estados Unidos e a todos os países do bloco ocidental. Não está posto fora de hipótese, ainda, e no caso pouco provável dos problemas da África Austral conduzirem a um conflito internacional, que a China, sem MaoTsé-Tung, não hesite em tomar posição ao lado de Vorster, como a que claramente já tomou ao lado de Pinochet. 22. A FRELIMO EM DUAS GUERRAS

Estando a Frelimo envolvida em nova guerra, interessa recordar a sua luta contra o Exército de Portugal e toda a sua actividade, recuando-se, para o efeito, aos anos da sua fundação. As primeiras declarações programáticas da Frelimo, quando da sua formação no exílio sob a direcção do dr. Eduardo Chivambo Mondlane, e que enquadrava um grupo de jovens moçambicanos — de que poucos sobrevivem — definiam o anseio de independência do povo moçambicano sob um pluralismo político. Foi, pois, do descontentamento natural anti-colonialista, e não do ódio ao povo português, que foram geradas as ideias mestras da fundação do Movimento. Estava-se em 1960 e nesse mesmo ano em Paris, cidade escolhida para exílio pelo grupo de jovens revoltosos, foi estruturada a estratégia de actuação subversiva a efectivar dentro do território moçambicano, pois apresentava-se bem claro aogrupo de jovens revolucionários que todas as tentativas de diálogo com Portugal directa ou indirectamente esboçada, resultavam infrutíferas. Como já afirmei, desse grupo poucos são os sobreviventes. Grande parte dos homens que hoje se encontram nos postos directivos da Frelimo servia-se então gulosamente das benesses do colonialismo, frequentando cursos médios emPortugal, com bolsas de estudo oferecidas pelo Governo português, pelas câmaras municipais ultramarinas e pela Mocidade Portuguesa, regressando muitos deles à Tanzânia, para se unirem à Frelimo, em Fevereiro e Março de 1974, nas vésperas, portanto, da queda do regime português.
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Porém a Frelimo, embora fosse o mais importante, não era o único movimento revolucionário a actuar em Moçambique clandestinamente. Vários outros partidos disputavam a orientação da luta contra o colonialismo português, nomeadamente a Coremo, o Molimo, o Monalimo e o Fumo. Apesar da preparação clandestina a que os macondes já estavam a ser sujeitos há alguns anos, a luta armada em Moçambique teve um início precipitado, motivado pelo desejo de supremacia entre os partidos revolucionários. O assassínio de um missionário holandês, de nome Daniel Boorman, na missão de Nangololo — no coração dos macondes — foi o acontecimento que marcou o começo da acção violenta. Desde essa data — 24 de Agosto de 1964 — Moçambique encontrava-se em guerra, iniciando a Frelimo a sua actividade armada um mês depois, a 25 de Setembro de 1964. A partir de então, e até ao fim da guerra anti-colonial, a Frelimo ganhou projecção internacional, mercê do apoio que lhe era oferecido por potências interessadas na progressão da estratégia neo-colonialista em África, especialmente a partir de 1968. Após este ano e até 1970 — anos chamados da «matança interna» em referência à Frelimo — o Partido ia mudando a sua política, aproximando-se, até dele depender inteiramente, do eixo comunista. O grupo que se encontra agora na direcção da Frelimo — segundo todos quantos se têm dedicado ao estudo daquele Movimento — era o mais interessado no desaparecimento dos primitivos chefes, incluindo-se entre estes o próprio dr. Eduardo Mondlane. E não é certo pensar-se apenas no nome de Samora Machel, um dos que sem dúvida estavam interessados. Outros que o rodeiam agora, estão tanto ou mais implicados do que ele, nomeadamente Marcelino dos Santos e Sérgio Vieira. Entretanto, no decorrer destes anos, também no inteior de Moçambique se começaram a registar os efeitos da luta da Frelimo, mas ao contrário do que a propaganda procurava fazer crer, as vitórias do Partido não se situavam em domínios territoriais, sendo absolutamente falso que a revolução controlasse administrativamente qualquer área de Moçambique. No decorrer da longa e sangrenta luta percorri as áreas mais afectadas pela revolução, em serviço de reportagem, e nunca verifiquei a existência de «zonas libertadas», como a Frelimo fazia crer que existiam na sua propaganda internacional. Pelo contrário, a presença da guerra só era detectada pelo sofrimento do povo das zonas nortenhas, vizinhas dos países que asilavam, com descaradas bases e armazéns de remuniciamento, os guerrilheiros da Frelimo. Na realidade, durante os dez anos de luta, as vítimas maiores da Frelimo foram os milhares de camponeses inocentes do Norte, que sentiram a forte pressão do partido revolucionário, especialmente os macondes, os nianjas, os acheuas, os ajauas, os macuas e os tauaras, pequena parte das oitenta e três tribos do território. É bom recordar, e em abono da não existência de zonas libertadas pela Frelimo durante a guerra, que o único Congresso do Partido que foi realizado dentro de território moçambicano, antes da Independência foi o Segundo, e teve lugar no Niassa em Julho de 1968, ainda em vida do dr. Eduardo Mondlane, que a ele presidiu.
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A existirem «zonas libertadas» os Congressos que a este se seguiram até 1975 não teriam, por certo, sido realizados a bom recato no estrangeiro, como efectivamente aconteceu. A acção da Frelimo após a morte do primeiro líder, baseada nos métodos de guerrilha marxista, não encontrou resposta fácil entre as massas populares moçambicanas. O trabalho dos comissários políticos deparou com grandes barreiras e o Partido sentia que perdia terreno. Especialmente nos três últimos anos de luta, a Frelimo acelerou o seu trabalho junto das massas, intensificando os seus processos coercivos. A adesão à política frelimista começou a ser procurada mais pelo terror e menos pelo convencimento. O número de acções, em média anual, exclusivamente terroristas contra populações, retrata, claramente, a mudança de política e de processos de actividade após a morte de Eduardo Mondlane. Enquanto de 1964 a 1970 o número médio anual foi de 156, em 1971 o total foi duas vezes e meia superior a essa média. Em 1972 triplicou. A essas acções correspondem, em 1971, aumento equivalente de mortos e feridos entre a população, mas em 1972 a estatística é ainda mais dramática: Ao triplo das acções corresponderam quatro vezes e meia de mais vítimas. A principal arma usada pela Frelimo foi o engenho explosivo de fabrico russo ou chinês, nomeadamente a mina anti-pessoal. Desde Janeiro de 1971 até Fevereiro de 1973 os camponeses dos três distritos acima referidos accionaram cerca de duzentas minas, colocadas pêlos guerrilheiros nos caminhos mais frequentemente utilizados, junto das aldeias, nos trilhos para as áreas de cultivo, para os rios ou para a apanha de lenha. No mesmo período mais de sessenta camponeses, incluindo mulheres e crianças, morreram em consequência dos engenhos explosivos da Frelimo e mais de duzentos ficaram gravemente mutilados. Estes números, por mim colhidos directamente nos hospitais em diversas reportagens que efectuei, não incluem as inúmeras vítimas de ataques directos a pequenos núcleos populacionais indefesos, e de emboscadas a grupos de homens, mulheres e crianças. Não se referem, também, à eliminação violenta de mais de uma centena de chefes tradicionais que opuseram resistência à Frelimo e tentaram defender o seu povo. Em síntese, desde o início da luta e até fins de Fevereiro de 1973, os guerrilheiros da Frelimo abateram por meio de minas anti-pessoal seiscentos e oitenta e nove homens, mulheres e crianças do povo moçambicano, e feriram, na maioria dos casos mutilando, mil seiscentos e vinte e cinco seres humanos. O ano de 1973, a partir de Março e até final da guerra em 1974, foi, porém, o período mais trágico. Faltam-me os números de diversas frentes de luta mas a estatística colhida no Hospital Regional de Tete, apresenta números impressionantes: Foram mortos, ou ficaram mutilados, setecentos e vinte e nove camponeses, todos pela deflagração de minas anti-pessoal, especialmente nas zonas de Soronhate, Vuende, Bene-Tembué, Casula e Chiuta, na região de Tete.

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O próprio presidente Kaunda, da Zâmbia, afirmaria, perante a atitude desumana dos guerrilheiros da Frelimo: — Temos de acabar com isso quanto antes. São coisas que não se podem tolerar! ... É fácil de entender, pelo que atrás fica escrito, que a actividade da Frelimo não se assemelha a nenhum retrato de guerra, e mais não foi do que uma actividade terrorista, da qual a maior vítima foi o povo. O poderio relativo das duas forças — a portuguesa e a da Frelimo — nunca foi verdadeiramente testado. Em combate, os factores determinantes são o espírito de luta e o padrão de eficiência profissional do combatente. A Frelimo raramente permitiu combates, actuando em emboscadas e fugas, sem domínio de terreno, ou em acções terroristas contra populações pacíficas que desejavam a Independência mas amaldiçoavam a guerra de minas que lhe era imposta pela política marxistamachelista do sanguinário e sádico Samora Machel e dos seus capangas. Ao ser acordada a paz o exército português estava longe de perder a guerra e a Frelimo começava a ser desacreditada internacionalmente ao serem conhecidas as suas patranhas. A paz custou mais sangue e tormentos ao povo moçambicano e à colónia portuguesa do que a própria guerra, tão infantil foi o exemplar processo de descolonização. O general Kaúlza de Arriaga, o estratega que a Frelimo jamais derrotou, exprimiu do seguinte modo a sua opinião, que é compartilhada pela maioria dos moçambicanos, sobre as consequências e desfecho da guerra interrompida: «Em Moçambique, e em fins de 1971, a guerra esteve quase ganha pelas forças portuguesas e mesmo quase terminada. Depois, o atraso no desenvolvimento e, principalmente, o início da construção de Cabora Bassa, com as suas incisivasconsequências políticas e estratégicas, particularmente a fixação de consideráveis efectivos que a área da futura barragem e albufeira, a linha de transporte de energia e os seus acessos impunham, retardou o sucesso. Este, se se procedesse como era acertado e possível, deveria retomar o seu ritmo acelerado no segundo semestre de 1973, com a projecção de arranque em curso do desenvolvimento geral, com a não diminuição do nível da instrução e preparação de tropas, com a manobra de efectivos entre Angola e Moçambique e com a entrada em operações das forças locais voluntárias que foram mandadas constituir. E o mesmo ritmo acelerar-se-ia nos anos de 1974, 1975 e 1976, com o desenvolvimento geral, com o choque político e psicológico que resultaria do termo da construção de Cabora Bassa, precisamente no dia desde o início previsto, e com as grandes vantagens especificamente militares que a sua albufeira oferecia. A Frelimo sabia-o e por isso exerceu o seu grande esforço, contraproducentemente quase o esgotou, no ano de 1973. Assim, em 1976, estarse-ia já numa fase importante de desenvolvimento geral em crescimento, e, no respeitante a operações específicas militares, estas deveriam estar muito reduzidas em volume e localizadas muito a Norte. O próprio Samora Machel tê-lo-ia honestamente reconhecido. Neste ano de 1976, se se tivesse procedido
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acertadamente como era viável e tanto quanto uma previsão isenta pode assegurar, estaria definitivamente garantido, embora possivelmente não consumado, o sucesso das Forças Armadas em Angola e Moçambique. Isto é, as respectivas guerras em termos de contra-subversão.» Ressaltam destas afirmações e de quanto atrás fica escrito, duas ilações: Primeira: São palpáveis os erros cometidos pela exemplar descolonização ao entregar, imediata e incondicionalmente, Moçambique à Frelimo, força não vencedora da guerra contra Portugal e não representativa do povo moçambicano. Verifica-se, ainda, que existia a possibilidade da transição do Governo moçambicano para o verdadeiro povo de Moçambique — sem sede em Dar-es-Salam — o que transforma a exemplar descolonização numa espécie de conspiração para a expansão do poder soviético na África Austral. Segunda: Samora Machel convenceu-se a si próprio — ou pelo menos apregoa ao mundo inteiro — que venceu Portugal, que obrigou os colonialistas a fugirem espavoridos da sua possessão africana, e pensa que, com a mesma facilidade,expulsará os rodesianos e os sul-africanos, esquecendo-se que nem a África do Sul nem a Rodésia possuem nas suas fileiras armadas oficiais como Melo Antunes, como Vítor Crespo, como Rosa Coutinho, como Lemos Pires, como Vasco Gonçalves e outros, que continuam oficiais no seu país, com os mesmos ou mais galões, com idêntico ou superior número de estrelas, após entregarem Moçambique. Os rodesianos defendem a Rodésia, sua pátria, e fora dela são párias, o mesmo acontecendo aos sul-africanos. Não fazem uma guerra de comissões. Sabem porque combatem e como combatem. E o sonho de Samora Moisés Machel — aceso pelas teorias moscovitas — que não passará de sonho pois na realidade nem será capaz de debelar a luta que lhe é imposta pelo povo moçambicano, pode proporcionar-lhe, levado pela falsa facilidade com que venceu Portugal, o desejo de arrastar toda a África Austral para um trágico derramamento de sangue. A exemplar descolonização, que atirou para a vida esmoler cerca de um milhão de bons portugueses ultramarinos, que levou ao desespero, à revolta e à guerra os povos indígenas das colónias, pode alastrar as suas nefastas consequências a todo o Continente Africano, quiçá a povos de outros continentes, ficando na História como exemplo da mais cobarde e mal intencionada fuga a responsabilidades. Como podem, porém, os seus causadores, proteger, ainda, a sua reputação? E quem a protege? E porquê? Uma coisa é certa: O processo histórico resultante da exemplaridade da descolonização portuguesa está longe de chegar ao fim. Será difícil deter a hecatombe que se prepara para desabafar sobre a África Austral. Mas pode o Presidente da República Popular de Moçambique usar a mesma estratégia de luta contra o exército rodesiano? A resposta é negativa, mas, mesmo assim, Samora Machel afirma que empurrará Smith e Vorster até ao Oceano, que comerá ainda este ano o peru de Natal em Salisbúria, esquecendo-se que da guerra civil que alastra em Moçambique serão eles — Smith e Vorster — que
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tirarão partido. Os chefes dos movimentos revolucionários, que se organizam contra a Frelimo, afirmam à Informação internacional que a guerra contra a Rodésia não é feita pelo povo moçambicano, considerando-a, portanto, da exclusiva responsabilidade de Samora Machel e da sua facção política. Estas declarações poderão significar a intenção dos inimigos da Frelimo, de aceitarem um entendimento com Yan Smith e com Vorster, com vista a que lhes seja permitido o uso dos seus territórios para a implantação de bases de apoio à luta contra a Frelimo. E não é de menor interesse a posição geográfica dos dois territórios, que abrangem uma faixa fronteiriça que se tende do Rio Maputo ao Rio Limpopo — África do Sul — e do Rio Limpopo ao Zumbo, na província de Tete — Rodésia — faixa que se estende por mais de metade do país no sentido Sul-Norte. Espera o povo moçambicano que a Frelimo de Samora Machel, ao contrário do que afirma o líder marxista, seja pontapeada para as regiões onde nasceu, na Tanzânia, e que o seu presidente ditador vencido, chore nos braços de Nyerere seu particular amigo e co-sócio na chefia dos terroristas da Z.A.P.U. 23. A RÁDIO ÁFRICA LIVRE

Em meados de Fevereiro de 1976 uma voz estranha passou a ser escutada nos receptores radiofónicos moçambicanos. A princípio ninguém sabia em quantos metros, ninguém fixara em que onda. Era captada casualmente e a horas diferentes do dia. Falava de Moçambique, contava verdades sobre a política machelista, abria finalmente os olhos ao povo para a desgraça do seu viver. Quanto ali era afirmado circulava imediatamente de boca em boca, passando a haver uma autêntica corrida aos receptores nos lares de negros e de brancos, todos desejando ouvir as mensagens, os noticiários, os comentários da emissora. Os que não conseguiam sintonizar o estranho emissor afirmavam, discutiam convincentemente, que quanto se dizia na rua, nos cafés, não passava de um boato. A emissão era curta. Umas quantas afirmações, uma canção e o silêncio. A canção era «Moçambique», na voz de João Maria Tudela. Pouco a pouco, porém, o povo aprendeu a localizar as emissões, e, a partir de então, a Rádio África Livrepassou a ter como ouvinte todo o povo moçambicano, tornando-se fixo o seu horário entre as 20 e as 21 horas. As cidades esvaziavam-se do seu movimento habitual e os cafés transformavamse em lugares frios, enquanto os lares se enchiam de homens, mulheres e crianças, negros, brancos, mestiços, de ouvidos atentos a tudo quanto o locutor afirmava em português e em dialectos locais. A popularidade do programa cresceu, podendo afirmar-se que, em poucos meses, a Rádio África Livre passou a ser a verdade e única voz nacional de Moçambique. Foi essa popularidade que mais uma vez obrigou à mudança do horário de emissão, e, a partir do princípio de Agosto, do mesmo ano, a Rádio África Livre passou a ser sintonizada nos receptores a partir das 19 horas, conservando
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os mesmos 60 minutos de missão. O motivo da alteração estava patente: Enquanto o programa funcionou entre as 20 e as 21 horas os cinemas, os campos desportivos, não faziam receita. O povo trocava de bom grado a hora informativa dá Rádio África Livre por quaisquer espécies de diversão, sedento de ouvir a verdade, tão afastada ela andava da vida moçambicana após a Independência. Chocavam-se opiniões sobre a identidade dos organizadores do programa, que, a breve trecho, passou a saber-se não estar ligado a nenhum dos movimentos políticos então conhecidos, contrários ao socialismo despótico de Samora Machel. O que ninguém afirmava, nem supunha, nem opinava, era o que na realidade acontecia: A Rádio África Livre era uma iniciativa de dissidentes da Frelimo — guerrilheiros, comandantes e até antigos membros influentes do Partido — à qual aderiram alguns redactores moçambicanos exilados na Rodésia e a maioria do povo moçambicano. O indicativo do programa popularizou-se, e, insensivelmente, o povo trauteava-o na rua, esquecido de que esse procedimento era uma auto-denúncia de resistência à Frelimo. O Partido, por seu lado, tudo fazia para silenciar o programa, criando interferências no comprimento de onda em que ele era radio-difundido. E Samora Machel, vítima principal das denúncias radiofónicas, encolerizou-se, procedendo por forma a que deixassem de aparecer no mercado pilhas para os aparelhos receptores, quando, pouco tempo antes, o Departamento de Informação e Propaganda da Frelimo havia preconizado, no seu Seminário, o abaixamento do preço na venda de receptores e a produção acelerada de pilhas — pedido que a «Tudor» local satisfez — para que o povo, analfabeto na sua maioria, tivesse acesso aos noticiários moçambicanos e aos programas do Partido. Mas isso fora resolvido, como é óbvio, antes do aparecimento da Rádio África Livre. Em todos os estabelecimentos de artigos eléctricos passou a ser afixado, no portal ou nas montras, um dístico, primeiro grotescamente escrito e depois impresso pela própria Frelimo, com os seguintes dizeres: Não há pilhas, tal a procura que repentinamente avassalou o país e a vontade oficial de que o povo não tivesse acesso às verdades da Rádio África Livre. E quando, nos subúrbios das cidades, algum comerciante colocava à venda pilhas adquiridas em candonga no Malawi, logo as autoridades actuavam de forma desumana sobre o prevaricador. As massas, porém, renitentes no seu desejo de saber a verdade, passaram a juntarse em grupos nas residências que possuiam receptores eléctricos, sendo interessante verificar a unidade de todas as raças junto aos aparelhos, as observações trocadas, os dichotes de humor que nasciam na boca dos negros, dos mestiços, dos brancos, dos asiáticos, a cada afirmação do locutor da Rádio África Livre. De um dia para o outro Samora Machel passou a ser denominado em todo O país por magarila — sinónimo de ladrão, de animal de rapina — bastando para tanto que a Rádio África Livre assim o alcunhasse. E nunca, nem nos melhores tempos da Frelimo, Samora Machel foi tão popular no seu país como após o início das emissões, popular como criminoso, como ladrão, como déspota, como sádico, como corrupto, como louco.
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Como exemplo mostrarei uma pequena passagem de um desses programas: «Samora Machel, o magarila, continua a dar exemplos de grandeza, enquanto o povo moçambicano se debate com a fome e a miséria. Não lhe basta, qual peraltino, vestir fatos de Paris e usar sapatos de Londres, apresentando-se em cada reunião, mesmo que mais do que uma se realize no mesmo dia, com indumentária diferente. A sua vaidade vai mais longe. Há dias, na sua viagem a Moscovo, o magarila não aceitou a oferta dos seus patrões do Kremlin, que puseram à sua disposição um avião, e fretou um Boeing à Inglaterra. Como o gigantesco avião era demasiadamente humilde para Sua Excelência o Magarila, mandou-o modificar a seu agrado, tendo-se deslocado ao Maputo um grupo de engenheiros e técnicos estrangeiros, com viagens pagas, vencimentos chorudos, e gratificações. As modificações impostos pelo impostor Magarila ficaram em mil e duzentos contos, tendo sido dispendida quase a mesma importância para restituir o aparelho à sua aparência primitiva, antes de ser devolvido. Samora Machel, o Magarila, desembarcou em Moscovo num Boeing inglês com as cores de Moçambique, gastou o dinheiro do país, mas os seus patrões não se deixaram enganar. Entretanto o povo moçambicano morre à fome...» E alguns ataques pessoais: «... Ë verdade, Samora, que a Graça Simbine fez uma experiência matrimonial com o Joaquim de Carvalho? Que cor tem o filho? Não é negro? Então se tu és um negro e a Graça Simbine também é negra, de quem é filho o teu filho? Por que não o mostras ao povo? Por que não dizes de que raça é ele?...» E criando um clima de desconfiança no grupo dirigente: «Graves dissidências são notadas pêlos observadores entre o Magarila e o Marcelino dos Santos. Marcelino dos Santos tenta apoderar-se do poder em Moçambique, tendo a colaboração e o apoio de Armando Guebuza...» E denunciando: «Samora Machel continua a depositar na Suiça, na sua conta pessoal, grandes quantidades de dinheiro roubado ao povo moçambicano. Prepara-se para fugir, preparando o seu futuro na Europa. Até quando, vocês moçambicanos, se vão deixar roubar pelo Magarila?» Além de mosaicos como os atrás transcritos, os programas são preenchidos com noticiários, nacional e internacional. E é o povo que, furando a vigilância que o Partido exerce nos serviços dos correios, envia notícias que são transmitidas apóshaverem sido meticulosamente confirmadas. A Rádio África Livre, emissora com sede em Salisbúria, na Rodésia, conseguiu levantar em poucos meses todo o povo moçambicano contra a Frelimo, criando um impacto enorme entre as populações portuguesa e moçambicana, incluindo-se nesta última os habitantes do interior que, devido ao isolamento, desconheciam a trágica realidade da independência moçambicana e a perfídia dos dirigentes da Frelimo.

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Todas as atrocidades cometidas pelo Partido são denunciadas, ao mesmo tempo que são apontados e desmascarados os portugueses traidores, para que o povo os possa assinalar a dedo. Dessa lista, felizmente não muito longa, foram estrelas numa emissão radiodifundida a 15 de Agosto, e readiodifundida no dia 19 do mesmo mês, os nomes dos criminosos Isaías de Jesus Marrão, de quem já falámos mas que voltaremos a referir nesta Reportagem, de Raul Fernandes, primo do comunista Sérgio Vieira secretário de Samora Machel, e de outros. Mas muitos mais nomes aparecerão. 24. A RESISTÊNCIA — VÁRIOS NOMES, A MESMA LUTA

Numa entrevista que me concedeu em 1969, Lázaro Kavandame denunciou a Frelimo como inimiga do povo, como movimento que apenas se interessava pelo sul do país, enquadrado por chefes sulistas que se aboletavam como a melhor parte do bolo que lhes era oferecido pêlos países que capitalizavam a guerra contra Portugal. Porta-voz dos macondes, importante tribo a que pertence e que o respeita, Lázaro Kavandame colocou-se, a partir dessa altura, ao lado de Portugal, colaborando na propaganda psicológica exercida sobre as regiões mais inacessíveis de CaboDelgado e do Niassa. A sua adesão à política portuguesa de então — se adesão se pode chamar à sua atitude — não era por ele considerada traição aos seus ideais de liberdade, à sua definição de democracia, que entendia como o respeito pela vontade das maiorias. Era, isso sim, uma forma de luta contra a Frelimo, após se haver consciencializado de que maiores desgraças cairiam sobre o povo moçambicano com a entrada da Frelimo no país. Numa luta tenaz contra o tempo — segundo então me afirmou — esperava um volte-face da política portuguesa, que levasse o Governo de Lisboa a reconhecer o direito à liberdade do povo moçambicano, dentro de amistosas relações com Portugal. Pertencendo a um povo católico — a maioria dos macondes possui nome bíblico — fez frente a Samora Machel após a morte do líder Eduardo Mondlane, sendo detido e enclausurado num campo de trabalho da Frelimo em Mtwara, na Tanzânia, de onde se evadiu, atraindo a seguir ao seu movimento diversos «chairmans» macondes. Após o 25 de Abril as ideias de Lázaro Kavandane guiaram o seu povo na luta contra a Frelimo, a elas se devendo as insurreições nortenhas já discriminadas, nomeadamente as detectadas nas zonas de Nangololo e de Mazombe, sendo, pois,uma importante arma apontada à sádica política de Samora Machel, tanto mais perigosa quando ela retirava às hordas machelistas a possibilidade de fuga pelo Norte, isolando-as do país que mais tem auxiliado o actual regime moçambicano — a Tanzânia de Nyerere.

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Mas os macondes lutam sem Lázaro Kavandame. O chefe transformou-se em mártir, bandeira ainda mais válida no calor da luta que o seu povo trava até à vitória. Lázaro Kavandame, reduzido ao último estado de miséria física, aguarda a morte num campo de torturas da Frelimo, no Niassa, onde também se encontram, como farrapos humanos, Joana Simeão, Uria Simango, e muitas centenas de nacionalistas moçambicanos, traídos pelos assinadores do Acordo de Lusaka e vendidos pelas promessas de garantia do general Costa Gomes. Recordo a figura digna de Lázaro Kavandame: Franzino, de aspecto patriarcal. Era óptimo orador na língua «swail», dialecto em que me concedeu a entrevista, fora do olhar atento e perspicaz do seu protector político, o então administrador Nasi Pereira, entrevista que o seu chairman Atanázio traduziu com facilidade para português. Dessa entrevista respigo algumas passagens: Pergunta — Acusam-no de ter abandonado a Frelimo para fugir ao julgamento, à má administração de bens e de produtos agrícolas da Frelimo, deixados à sua guarda em Cabo Delgado. Essa é a acusação aceite internacionalmente, propagandeada pêlos dirigentes da Frelimo. Existem fundamentos na acusação? Lázaro Kavandame — A actual direcção da Frelimo não prima por unidade. Pode até dizer-se que todos desconfiam uns dos outros, justificando cada um a sua atitude perante o colega, à sua maneira, com vista a afastar de cima de si responsabilidades. O que aconteceu na altura do meu afastamento da Frelimo, foi eu ter verificado que os ideais do dr. Eduardo Mondlane estavam a ser traídos por Samora Machel e pelo seu grupo. Mesmo no Congresso que nomeou o trio presidencial, após o assassinato de Mondlane — Samora Machel, Marcelino dos Santos e Uria Simango — todos os macondes estavam ausentes e os mais válidos e influentes tinham sido assassinados quando se dirigiam para o Congresso. Deste modo a votação, que mesmo assim permitiu a presença de Simango, não seria favorável a Samora Machel com a presença dos representantes do meu povo. Samora, Marcelino, e o seu grupo, puseram-me fora de combate e justificaram o meu afastamento com o que afirma, convencidos que, ao espalharem essas mentiras, voltavam contra mim os macondes — acusando-me de defraudar o meu próprio povo, visto que a minha actividade estava centralizada em Cabo Delgado — o que na realidade não aconteceu. Os macondes não se iludiram com essas patranhas e continuaram a seguir-me. Eu, para eles, era o verdadeiro chefe. E Samora Machel não teve outro recurso senão o de enclausurar-me e perseguir a minha família — ainda detida em Mtwara — mas a minha fuga encheu de esperança o meu povo, que aderiu imediatamente às minhas directrizes, fugindo à Frelimo. E em tom convincente: — Estas minhas palavras podem ser interpretadas como acusações de um dirigente despeitado, mas não são. Eu luto pela liberdade de Moçambique, pela felicidade do povo moçambicano, a felicidade que nunca pode ser encontrada no regime de terror que é apanágio dos actuais dirigentes da Frelimo, eleitos por
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eles próprios e pelos seus apaniguados sulistas, regime que transportaria para Moçambique. Actualmente o povo moçambicano está em mais segurança protegido pelasautoridades portuguesas do que nas mãos assassinas da Frelimo. A Frelimo de hoje nada tem a ver com a Frelimo que iniciou a guerra contra o colonialismo português. Estas afirmações de Lázaro Kavandame, viriam a coincidir com as prestadas, bastantes anos depois, pelo dr. Domingos Arouca. A verdade sobre a Frelimo posterior a Eduardo Mondlane aparece, ampliada agora a dimensões mundiais: «Com a maior dor e o maior desânimo certifiquei-me que não havia qualquer semelhança entre esta Frelimo que ia agora tomar posse do país e o movimento que se lançara generosa e independentemente para a luta sob a liderança de Mondlane.Da Frelimo de base, da programática fundamental do movimento nada restava, só mantinha ainda o mesmo nome que iria emporcalhar na mais abjecta e cruel exploração do povo moçambicano. Aí os nossos caminhos tinham de divergir totalmente: nem eu, nem todo o Moçambique tínhamos nada de comum com aquele grupo que entrava agora no país. Tenho a certeza que a morte de Filipe Magaia e de outros guerrilheiros do seu grupo e a própria morte de Mondlane marcam nitidamente a viragem ideológica dentro da Frelimo.» Outros nomes se podem, porém, enumerar como adversários da actual Frelimo mas a confrangedora maioria aguarda a morte nos campos de tortura espalhados a esmo pelas terras desérticas do Norte moçambicano, tendo como guardas, além dos mais sádicos carcereiros, os animais da selva que se banqueteiam com os seus corpos precocemente envelhecidos e propositadamente adoentados, quando tentam a fuga. Desses campos, onde também diariamente morrem portugueses, onde os filhos abrem todos os dias covas para enterrar os pais, e os pais os filhos, é-me possível enumerar alguns: Mandimba, Tebamba, Nawá, Nova Freixo, Ludiene, Mabaca, Marrupa, Beira (antiga base militar portuguesa), Luatize, Central, Atisel, Xiconono,Msauíze, etc. Das vítimas, pela sua influência entre as massas moçambicanas e pêlos importantes cargos que ocuparam na Frelimo, saliento os seguintes: Uria Simango, presidente interino da Frelimo após o assassinato de Eduardo Mondlane. Expulso do Partido foi mais tarde Secretário dos Negócios Externos da Coremo (Comité Revolucionário de Moçambique). A partir de 25 de Abril de 1974 foi presidente do Executivo do P.C.N. (Partido de Coligação Nacional), movimento político a que todos os partidos de oposição à Frelimo, como único movimento, se juntaram. Miguel Murupa, dissidente da Frelimo, mais tarde director do jornal «Voz Africana», editado pela empresa do «Notícias da Beira». Encontra-se actualmente no exílio. Foi dos poucos que não acreditaram nas garantias alardeadas pelo general Costa Gomes e abandonou Moçambique, fugindo às desumanas represálias infligidas pela Frelimo a todos os dissidentes do Partido, com o apoio do Exército de Portugal. Haider e Hanife, antigos dirigentes do G.U.M.O. (Grupo Unido de Moçambique), o primeiro representante daquele partido na cidade da Beira. Entraram ambos para o
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P.C.N. após o 25 de Abril, o primeiro para o Departamento de Administração e o segundo para o Departamento de Finanças. Basílio Banda, dissidente da Frelimo e depois secretário-geral do P.C.N. E muitos outros, que passo a enumerar, todos dissidentes da Frelimo após a morte do dr. Eduardo Mondlane: Narciso Mbule (Informação e Propaganda do P.C.N.), Mateus Gwenguere (conselheiro político do P.C.N.), Manuel Lisboa (Departamento de Organização do P.C.N.), Paulo Gumane (vice-presidente do P.C.N.), dr. Arcanjo Kambere (secretário dos Negócios Externos do P.C.N.), Joana Simeão, vicepresidente do G.U.M.O. além de centenas, de milhares, senegados ao convívio das massas pela K.G.B. moçambicana. Mas as suas ideias ficaram. Elas constituem uma razão activa para se construir em Moçambique uma unidade e uma nacionalidade não imobilizada às ideias moscovitas, que se oriente segundo os seus desejos. Pode-se, deste modo, entender o que na realidade é a Resistência moçambicana, e que o seu líder verdadeiro é o povo moçambicano, guiado pelo espírito nacionalista dos seus mártires. Os líderes, activos ou manietados pela repressão da S.N.A.S.P., da P.I.C. e dos Comissários Políticos, são o povo. A Resistência é, como já foi definida por um político moçambicano, «uma atitude geral de levantamento nacional. E por ser o próprio povo em armas, é dotado de extraordinária flexibilidade. Organizase e actua sem demorados preparativos, parecendo que as acções nascem por si mesmas nas zonas mais diversas do país, havendo já diversas faixas e bolsas onde os mercenários da Frelimo não ousam estabelecer as suas bases ou ditar as suas directrizes. Actua, deste modo, com à-vontade em todo o território, escolhendo, como é óbvio, como zonas principais de actividade, as fechadas à influência frelimista. A Resistência é o povo, o que leva os dirigentes da Frelimo a afirmarem em todos os discursos, mensagens e comunicados, que o inimigo está em todo o lado, pedindo e ordenando às massas que exerçam a maior vigilância para o detectar,quando, na realidade, são essas mesmas massas o seu inimigo. São essas massas que, corajosamente, vão peando as actividades da Frelimo e encurralando os seus mercenários nas cidades e nas vilas, não os deixando circular nas estradas do país. O inimigo que está em todo o lado não podem ser os últimos representantes de Portugal, pois a própria Frelimo sabe que o grosso da coluna portuguesa já abandonou Moçambique. Os que ficaram são alguns portugueses optimistas, inofensivos, com a vida miseravelmente destroçada. E os outros, os que fazem parte do pequeno rebanho de traidores ao serviço da S.N.A.S.P., da P.I.C. ou do próprio Partido, grupo que receia, com lógica, não ser bem aceite na comunidade portuguesa do Atlântico. Pode a Frelimo distorcer a verdade na sua propaganda internacional, acusando a Rodésia. Pode a O.N.U., representada pela figura sem adjectivos de Kurt Waldheim — que não nega o seu namoro a Samora Machel — fingir acreditar nessa

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fantasista versão. A verdade é que a força que combate a Frelimo é o povo. E Samora Machel sabe que grande parte dos seus quadros apoia frontalmente a Resistência. Oito destacados membros do «Exército da Frelimo», em Cabo Delgado, foram presos. As prisões foram ordenadas pelo comandante em chefe das Forças Populares em Cabo Delgado, Raimundo Pachinuapa, e pelo Estado-Maior-General, após uma reunião em que foi feita uma análise global da situação naquela área, no período compreendido entre Novembro de 1976 e Março de 1977. Os oito elementos presos foram acusados de exercerem as mais variadas actividades contra a Frelimo e contra a sua linha comunista. São eles: Fernando Macaze, Martins Bandim Veluze e Saul António Madeira, respectivamente, comandante, vice-comandante e comissário político do l.º Batalhão de Porto Amélia (Pemba); Joaquim Mutamanga (mais conhecido por Francisco Andeu), Pedro Camízio e José Alberto Manjate, respectivamente comandante, vice-comandante e comissário político do 2.° Batalhão, em Mocímboa da Praia; Francisco Mutamila e José Tdago, respectivamente, comandante e comandante-adjunto da Companhia de Montepuez. É desconhecido o local onde foram encarcerados mas sabe-se, entretanto, que reina grande agitação entre os efectivos daquelas unidades militares pela prisão dos seus comandantes. A Resistência vai porém minando todos os sectores da Frelimo e em Abril de 1977 foram detidos dois destacados elementos da Polícia, Namuco Pedro Chauque e Júlio Menezes, que exerciam funções no gabinete interino do Estado-MaiorGeneralem Cabo Delgado, ao mesmo tempo que no Maputo (Lourenço Marques), três oficiais do Gabinete Governamental de Samora Machel eram também detidos, acusados de sabotagem e insultos à Frelimo. Saliente-se que a ocorrência registou-se imediatamente após a detenção dos comandantes militares de Cabo Delgado. O pânico apodera-se do grupo machelista, ao constatar que a Resistência penetra nas «Milícias Populares», terrível organização instituída pelo seu regime. E coincidindo com um dos atentados à vida de Samora Machel — 15 de Março de 1977 —, ocorrido em Lourenço Marques (Maputo), e ao rebentamento de diversas minas na Zambézia por viaturas da Frelimo, é detido em Macomia (Cabo Delgado) Sebastião Miguel, comandante das referidas «Milícias Populares» naquela região. A acusação tornada pública foi a de adesão à revolta contra a Frelimo no Norte de Moçambique. O país está em guerra e nenhum moçambicano se pode considerar excluído, seja quem for, pertença a que tribo pertencer, da autêntica guerra que se impõe levar à vitória, para salvar Moçambique da tragédia. Se assim não fora, até a esperança deixaria de servir de consolo à população moçambicana. A Frelimo é uma doença a nível nacional, mas o povo encontrou na revolta a adequada medicação. O dr. Domingos Arouca, referindo-se à Fumo (Frente Unida Democrática de Moçambique) activa na resistência moçambicana, afirmaria: «... compreendo a Fumo como sendo uma atitude geral de levantamento nacional em todos os pontos do território com escassíssimas excepções, em que o único «leader» que existe é um mal-estar generalizado e de ódio contra o
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opressor que para eles é a Frelimo. Por essa razão as acções de guerrilha e de revolta em Moçambique primam pela sua espontaneidade, sem quaisquer planos sistemáticos ou uma organização detectável. Brotam aqui e ali, nas cidades ou nas aldeias e naturalmente muito mais no mato, sendo dificilmente controláveis porque não dependem de quaisquer auxílios exteriores, mas muitas vezes até das próprias armas que tiram aos soldados da Frelimo em emboscadas constantes. O que está também a acontecer é que os próprios soldados e comandantes da Frelimo, e isto quase sempre quando são moçambicanos, se aliam com o povo na sua revolta natural contra o actual governo que lhe impuseram. Claro que a Frelimo tem meios para sufocar alguns destes levantamentos, fuzilando ou mandando para os campos de concentração centenas de pessoas de uma só vez, mas não pode com certeza matar todos os moçambicanos ou meter todos dentro de campos de concentração e extermínio.» Dementado, Samora Machel vê o problema de outro modo e busca medicamentos extremos, sabendo que a verdadeira solução lhe foge por a sua causa estar perdida. Deste modo, referindo-se às constantes adesões dos nortenhos à Resistência,grita num recente discurso na cidade da Beira: «Os revoltosos são tribalistas, são primitivos. Não falamos deles. São primitivos, esses. Não discutimos, são primitivos. Vivem o estado de javalismo. Todos os tribalistas são javalis. São representantes do javalismo. Ouviram?» Continuando a referir-se aos «agentes da reacção», o ditador viria a afirmar: «Vigilância. A reacção está a organizar-se. Estejamos preparados para rechaçar o avanço do inimigo, que será violento, brutal, desumano. E penso que já começou. Em algumas províncias já recomeçou. O inimigo para actuar necessita dos seusrepresentantes internos. Ouviram?... Estão aqui os pides. Estão aqui, não estão?... Estão ou não? Muitos... Há aqui antigos membros da A.N.P. Estão aqui. Parece que a reacção agora, aqui na Beira, primeiro tinha medo um pouco, quando a Frelimo chegou, primeiro quis corromper a Frelimo, quis fazer da Frelimo seu instrumento. Em nome da Frelimo quiseram matar a Frelimo. Infiltraram-se na Organização da Mulher Moçambicana, infiltraram-se nas fábricas, infiltraram-se no aparelho do Estado e fizeram da escola base para a planificação.» «Se é a reacção que avança vai ganhar. Depende de quem for o primeiro a avançar... Estiveram nas nossas escolas muitos reaccionários aqui na Beira. Ë ou não é?... Nas escolas secundárias, sobretudo. Com o inimigo castigamos. Cavalo--marinho com o inimigo. Para o inimigo, cavalo-marinho. Foi assim que fizemos com alguns reaccionários aqui na Beira. Prendemos, levámos para os campos de reeducação. Ouviram?... Desapareceram das escolas alguns. Mas agora não faremos isso. Prenderemos todos os reaccionários e puni-los-emos em público aqui no estádio. Ouviram reaccionários? Serão julgados aqui no estádio, os grandes reaccionários. Porque querem impedir o povo de tomar o poder. E a Beira, como centro do nosso país, que foi centro da reacção, terá de ser o centro de difusão da revolução.»
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«Começaram a mudar de nacionalidade, agora. É uma táctica. Segundo, fugiram do Governo alguns, agora. Vão para as empresas privadas. Mas nós queremos lá também grupos de vigilância. Serão descobertos. Ouviram, reaccionários?» E este discurso, pronunciado na Beira em Abril de 1977, termina com a demonstração clara e pública do temor do chefe ditador comunista e do real avanço em todos os sectores da actividade no país da Resistência Nacional Moçambicana: «Portanto queremos apelar para a elevação do nível de vigilância contra os reaccionários. Denunciar qualquer agente que apareça. Nas escolas, nas aldeias, nas cidades, nos bairros, na produção, nas lojas do povo, nas bichas. Em toda a parte encontramos inimigos. E é preciso esmagá-los. Temos que esmagar o inimigo ainda no ovo. Não permitir que saiam pintainhos... É assim que nós os tratamos. Ë ou não é?... Ë assim que a prática nos mostrou como tratar o reaccionário.» Aos apelos desesperados do ditador Samora à vigilância contra a Resistência do povo moçambicano, esta responde, conforme se pode ler no seu comunicado divulgado no mês de Julho de 1977: «É PRECISO RESISTIR! Irmãos moçambicanos: Como vocês, nós também estamos cansados de sermos espancados, presos, torturados e roubados pela Frelimo; já decidimos: Que a única solução é resistir, com todos os meios, aos traidores que nos tiraram a liberdade. Viemos para o mato, deixámos as cidades e vilas, para combater a Frelimo, pela força das armas. Podemos passar sede e fome, mas temos a liberdade, e lutamos para que todos os moçambicanos também se libertem. Somos a Resistência Moçambicana. Não temos chefes para se aproveitarem da fama, na Europa. Não temos belas fardas ou bandeiras. Somos, como vocês, cansados do domínio da Frelimo. Queremos ser livres e lutaremos para que isso aconteça. Tu também passas a ser um membro da Resistência a partir do momento em que recuses uma informação à Frelimo, escondendo um companheiro perseguido pela Polícia repressiva de Samora, o grande traidor dos moçambicanos. Não dês ouvidos aos «Grupos Dinamizadores», esses mentirosos que enganam as populações. Enfim, faz tudo o que puderes fazer para que o domínio absoluto e cruel dos terroristas assassinos da Frelimo não encontrem ajuda dos irmãos moçambicanos. Resistir é: AREIA NOS TANQUES DE GASOLINA PREGOS NAS ESTRADAS ARVORES TOMBADAS NAS PICADAS PONTES DESTRUÍDAS ARMAS ESCONDIDAS, ARMADILHAS, EMBOSCADAS, ETC. Mostra que és moçambicano, que queres a Liberdade! Junta-te à Resistência Moçambicana! Ainda seremos livres! Coragem!
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Unidos Venceremos! Viva a Resistência!» 25. OUTRA FORMA DE RESISTÊNCIA INTERNA

Ganhei muitas horas em longas conversas com o comandante Machava, da Frelimo. Figura franzina e de aspecto apagado, disfarçava a verdadeira lucidez de pensamento que possuía. Procurava-me amiudadas vezes em Tete, em lugares pouco frequentados por gente afecta à Frelimo, e os nossos encontros prosseguiram na Beira, num minúsculo armazém que também servia de copa a um apagado restaurante. Sentávamo-nos sobre caixotes, bebíamos e conversávamos durante horas, e foi dos mais válidos professores que possui sobre quanto diz respeito à Frelimo. Desvendava-me segredos, definia-me claramente as suas opiniões, e por diversas vezes me testemunhou uma saudade sentida por não mais estar ligado a Portugal, falando-me do Brasil e da plataforma que Portugal e Moçambique deveriam ter procurado para repetir o milagre luso-brasileiro. Dedilhava com clarividência todas as pautas da História de Portugal e falava das terras atlânticas que conhecia, com manifesto carinho, com verdadeira paixão. O comandante Machava não exercia nenhum cargo operacional na Frelimo, mas a sua influência elevava-se acima dos mais altos cargos. A sua amizade ao dr. Eduardo Mondlane, de quem fora companheiro de todas as horas durante largos anos, prosseguia no carinho à viúva do dirigente assassinado, Janet Mondlane, agora a ocupar, no Governo de Samora Machel, o cargo de Directora dos Assuntos Sociais, a nível nacional. Para os filhos do dr. Eduardo Mondlane, o comandante Machava havia sido, desde que nasceram, uma espécie de amigo, de aio, de irmão, e com eles permaneceu na Suiça quando o dirigente nacionalista comandou pessoalmente o movimento de libertação em Moçambique. Com eles ficou nas duras horas de luto, sendo, para verdadeiros militantes nacionalistas, para aqueles que só agora, terminada a luta com Portugal, entendiam as mudanças sinuosas da política do Partido, um monumento vivo, representativo dos primeiros anos da Frelimo. O comandante Machava era, por conseguinte, contrário às ideias comunistas dos seus dirigentes e mostrava-me claramente a sua opinião, dando-me como exemplo a vida de alguns países africanos independentes, onde a população branca era em maior número e mais feliz do que antes da Independência, mercê de uma política acertada dos respectivos governos. Nos princípios de moral era intransigente e só a posição impar que gozava dentro dos quadros da Frelimo, e que lhe era oferecida por uma mistura de respeito e de medo, lhe resguardava a vida. Apresento, para melhor o retratar, um exemplo: Para criação, em moldes mais efectivos, dos serviços de assistência policiais na província de Sofala, Janet Mondlane presidiu na Beira a uma reunião, em Junho, de,
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1976, com os dirigentes e quadros do Corpo de Polícia de Moçambique e da P.I.C. O comandante Machava acompanhou-a, ocupando silenciosamente um dos lugares do ex-Auditório e Galeria de Arte, local onde o encontro decorria. Finda a sessão, Janet Mondlane afirmou: — Parece-nos que não há mais nada a tratar. O comandante Machava que sempre esteve calado não tem nada a dizer? Os presentes olharam na sua direcção com curiosidade, perante as deferências que a madame — tratamento com que distinguem a viúva do primeiro líder da Frelimo — tratava o velho guerrilheiro. E o comandante Machava falou. Disse que se sentia envergonhado por estar numa reunião onde a maioria da assembleia era composta por ladrões, por homens sem escrúpulos e sem moral. Afirmou que ao se pensar em assistência se devia olhar e assistir os perseguidos, os desprotegidos. E perante o espanto colectivo, continuou: — Estão lá fora dezenas de automóveis de luxo. «Peugeots», «Mercedes» e outras marcas valiosas. Algum dos que os conduziram até aqui pode mostrar documentos da sua propriedade, visto que não são do Governo nem das corporações a quepertencem? E aproveitando o silêncio total que as suas palavras causaram, afirmou que todos aqueles luxuosos carros haviam sido criminosamente roubados aos portugueses, e que estes os haviam adquirido com o esforço do seu trabalho. Falou das perseguições a que os brancos estavam sujeitos desde a entrada da Frelimo nas cidades, e do luxo que as forças policiais ostentavam na sua vida privada e nos seus lares. Verberou com veemência o comportamento de quantos ali estavam presentes, e ninguém, nem Janet Mondlane, o interrompeu ou desmentiu. A verdade, porém, é que também ninguém o aplaudiu mas, a partir desse momento, a actuação de rapina da P.I.C. e do C.P.M. passou a ser mais cuidadosamente disfarçada. Nessa mesma tarde eu mantenho um dos meus contactos habituais com o comandante Machava e manifesto-lhe o meu regozijo pela sua atitude. Ele desabafa: — Como sabe eu resido no Macuti. Há poucos dias saí da cama mais cedo e dei uma volta pelo bairro. Passei por uma residência que sabia que a proprietária estava no Sul e vi uma camioneta a carregar móveis, geleiras, um fogão. Abordei os carregadores e verifiquei que eram todos da polícia. O moleque fora comunicar que a senhora tinha ido para o Maputo e não regressara e os policiais imediatamente se apropriaram de todo o recheio da casa. Claro que eu não consenti...» E concluindo: — A pobre da senhora tinha ido à capital em tratamento. Imagine a surpresa que lhe estava reservada ao regressar... Ora eu estava farto de saber tudo isto e as altas estruturas também sabem. Mas eu tinha que desabafar...» Mas de muitos outros casos tinha o comandante Machava conhecimento e alguns levei eu até ele, nas nossas demoradas conversas. Recordo-me nomeadamente de um:

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O nome da vítima é Aires Fonseca, homem natural de Portugal, com cerca de trinta anos de vivência em Moçambique. Ali casara com uma moçambicana que lhe deu nove filhos. Foi oficial do Exército de Portugal e serviu como administrativo a Organização Provincial de Voluntários, mas, essencialmente, era um agricultor. Trabalhou uma importante propriedade hortícola e um arrozal no Matundo e possuía dois edifícios em Tete, um deles com cerca de uma dezena de moradias. Tudo lhe foi roubado. Os imóveis foram-lhe arrebanhados pela lei das nacionalizações e a sua propriedade— onde ele e os familiares labutavam de sol a sol — foi primeiro invadida por populares sequiosos de se aproveitarem de terra já trabalhada e a seguir namorada por forças policiais — C.P.M. e P.I.C. — ambas interessadas em a adquirir gratuitamente, pois nenhuma delas lembrou, nem ao de leve, a possibilidade de indemnização. Mas, saliente-se: Isto aconteceu com Aires Fonseca a residir em Moçambique, não dando à polícia a acomodatícia justificação de abandono. Como não lhes bastasse o saque, um posto de vendas em construção pré-fabricada, que possuía no Mercado Municipal para venda dos seus produtos hortícolas, foi ocupada sem seu conhecimento. Participou o desmando à P.I.C. sem que aparticipação resultasse. O usurpador do posto de vendas, que custara a Aires Fonseca cerca de cem mil escudos, era irmão do presidente da Câmara Municipal de Tete, de nome Corda e amigo do inspector da P.I.C. Esse abuso, prática vulgaríssima dos policiais e autoridades moçambicanas, levei ao conhecimento do comandante Machava num dos nossos clandestinos desabafos. Mas não tive conhecimento de qualquer sua actuação. Um outro elemento da minha confiança — comandante de talabarte da Frelimo — era também meu confidente. Por ele tinha conhecimento dos resultados do trabalho de limpeza ao cérebro de que o Presidente Samora Machel estava a ser cobaia pelo grupo marxista do Partido, resultados que eram palpáveis nos seus discursos e nas suas atitudes. Esse comandante, que para sua segurança não divulgo o nome, alarmava-se de dia para dia com o procedimento dos dirigentes da Frelimo. Como o comandante Machava, não representava nenhuma corrente política e ainda possuía em comum com ele o desejo de preservar a ordem social e barrar a evolução de Moçambique para o liberalismo e para a anarquia. Tanto um como outro declinavam a ocupação de papéis de executantes da verdadeira justiça que ambicionavam para Moçambique, e aguardavam com ansiedade o momento que lhes proporcionasse, como em 1964, colocaram-se inteiramente ao dispor do seu país, integrando-se sob o verdadeiro mando do povo. Com ele falei sobre a Fumo. Com ele discuti, e nem sempre estávamos de acordo, sobre a Rádio África Livre. De tudo quanto lhe contava guardava segredo, pois sabia que o seu silêncio não era traição ao seu povo, pois traição às massas e ao Partido era o procedimento e as ideias dos actuais dirigentes. Mas também por ele tomei conhecimento de factos que sei que até hoje não foram por ninguém revelados.
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Quem dirigiu os militares portugueses a Wiriamu, ao «massacre» que serviu de ponta de lança à propaganda anti-portuguesa, encetada com sucesso pelo padre Hastings? Quem os guiou num pequeno «Volks Wagen», protegido por aperradas armas até ao acesso da picada e os acompanhou até ao local? Quem assassinou, após o 25 de Abril, o seu serviçal, conhecedor do seu segredo, para que a sua criminosa atitude não fosse divulgada aos dirigentes da Frelimo? O seu nome é Raul Frechaud Fernandes, primo carnal de Sérgio Vieira, um dos homens que dirige e automatiza Samora Moisés Machel. — Mas a Frelimo não sabe isso? — interroguei-o. — Eu próprio informei o comandante José Moiane e ele como comandante provincial não procedeu. O velho afirmou que atitudes antigas eram para esquecer. Eu creio que ele não quer tocar na família de Sérgio Vieira... — respondeu-me. Raul Frechaud Fernandes, mestiço asiático, é dirigente do Departamento Distrital da Frelimo de Informação e Propaganda. Mas apenas ocupa esse cargo após a Independência. Possuía uma pequena cantina comercial de onde o povo de Wiriamu se abastecia. Desse povo veio a adquirir os meios de fortuna que hoje possui, pois lhe furtava o gado que vendia a militares portugueses em candonga. Colaborou no assassinato do povo moçambicano que mais intimamente lhe esteve ligado mas hoje é um dos dirigentes do Partido. O povo, porém, sabe que os seus inimigos de ontem são os de hoje. São seus inimigos desde que as teorias e as atitudes do dr. Eduardo Mondlane foram silenciadas pelo deflagrar de um livro armadilhado.

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QUINTA PARTE O SANGUINÁRIO ESTERTOR DA FRELIMO

26.

NOS CAMPOS DE REABILITAÇÃO

Pouco se tem falado, e muito menos se tem escrito, sobre os milhares de moçambicanos e as vastas centenas de portugueses que foram afastados da sociedade e aguardam a morte pela fome, pela exaustão, pelos maus tratos, nos Campos de Reabilitação da Frelimo, espalhados pelas inacessíveis selvas do interior, a centenas de quilómetros dos centros civilizados. A Imprensa moçambicana tem propositadamente olvidado a situação, e os representantes da O.N.U., alojados em confortáveis palacetes da Somerchild em Lourenço Marques, ou nos luxuosos apartamentos dos hotéis de cinco estrelas, fingem que nada sabem. A mesma atitude de cínico lavar de mãos tem sido praticada pelas ligas internacionais que gisam defender os direitos do Homem, talvez contagiadas pela manifesta indiferença das autoridades portuguesas. Os representantes diplomáticos de Portugal, que amiudadamente se deslocam às prisões citadinas, não encontraram ainda a coragem, ou a autoridade oferecida pelas suas credenciais, que os faça rolar nas picadas em incómodos jipões, ou em caminhadas a pé, até aos campos da morte, onde homens e mulheres amaldiçoam a vida, de dia para dia mais próxima da morte. Nem a notícia, propagada por familiares das vítimas, da morte de mulheres portuguesas devoradas por animais selvagens, após se evadirem do campo de trabalho de Luatize, despertou a curiosidade benevolente de quem deveria mostrar mais do que curiosidade, nem o estado de semi-morte verificado nas sobreviventes que ousaram lograr assistência hospitalar em Lichinga ou em Tete, acordou o mundo para a triste realidade da justiça da Frelimo. Os seus baluartes de morte são invioláveis. E ninguém entende porquê. Mesmo assim a Frelimo permitiu uma pequena abertura ao seu segredo e convidou um jornalista da sua inteira confiança, militante frelimista confesso, a visitar um Centro de Reabilitação. Mas o Partido escolheu o centro de mais recente construção, com melhores condições de habitabilidade, e com menor índice necrológico. Não deixou o jornalista falar com as mulheres detidas, mas permitiu-o examinar o ambiente e ouvir as comissárias políticas do campo, cópia fiel das carcereiras dos campos da K.G.B. O jornalista Fernando Lima viu e escreveu. Não quis denunciar as atrocidades da Frelimo, mas, talvez levado pelo código deontológico da sua profissão, ou vergado por uns restos de consciência que ven117

ceram a politização que recebera, excedeu o que a Frelimo permitira. O jornal «Notícias» de 13 de Agosto de 1976 foi retirado da venda nas ruas de Lourenço Marques, por ordem do Ministério de Informação e Propaganda, mas a ordem chegou tardiamente à Beira e a segunda cidade moçambicana teve, pela primeira vez frente aos olhos, um pouco do terror dos campos de concentração da Frelimo. A reportagem de Fernando Lima, de que apresento fotocópia, rezava exactamente assim: «Naquele tempo, ao dizer «Viva a Frelimo», aqui ninguém ia levantar o braço — estas as palavras da Comissária Política do Centro de Reeducação para mulheres, em Msauíze, ao pretender traçar um paralelo entre a situação do Centro, no início e na fase actual. O Centro de Reeducação de Msauíze é um dos cinco centros existentes na Província do Niassa a funcionar na dependência do Comissariado Político Provincial, que para este sector específico, tem criada uma estrutura de apoio. Encontra-se situado na parte norte da província, ainda no distrito de Mataca, mas também já muito próximo de Marrupa, que se encontra para Leste. Partimos para a visita a este Centro da Base Central do Niassa Oriental nas antigas zonas libertadas. O acesso ao local onde está implantado o Centro é feito por uma picada mal-alinhavada, onde despontavam os troncos das árvores que a mão humana teve de abater. Vinte e cinco quilómetros que demoraram 45 minutos a percorrer. A pé são duas horas e meia de caminho, informou o comandante da Base Central, nosso cicerone nesta deslocação. Esta estrada que vocês estão a ver feita pelas Forças Populares e por elas — prosseguiu o comandante. Elas, as internadas de Msauíze. Mais para diante, grandes clareiras em terreno normalmente coberto por uma vegetação densa e árvores de porte médio denunciavam de novo a mão humana, nesta Província onde o elemento humano regista os menores índices de existência de todo o país. Estes campos que vocês aqui estão a ver, foram destroncados há pouco tempo. Serão aqui as futuras machambas do Centro de Reeducação — apontava um elemento das Forças Populares que enquadrava a comitiva de visita ao Centro. Com olhar admirativo dizia: Aqui as mulheres fazem tudo. Não há diferença dos homens. Com efeito, pudemos ver grandes terrenos totalmente desmaiados e que serão posteriormente utilizados para a sementeira de cereais. Os responsáveis pensam aqui desenvolver a agricultura de forma a tornar este centro auto-suficiente. Depois de 45 minutos de viagem em jipe avistamos o Centro. Uma vara de bambu e um pequeno abrigo de colmo assinalam a entrada. Não muito distantes, as primeiras casas de dimensões razoáveis, maticadas e com cobertura de palha.

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Depois um grande campo pelado. No sentido longitudinal avistamos ainda vários barracões com armação em troncos, e cobertura de capim. São ali as instalações delas — indicam-nos. Depois das habituais apresentações, dirigimo-nos para um alpendre de reuniões e que também é utilizado como refeitório do Destacamento Feminino. O Centro compreende duas partes distintas. Logo à entrada, o sector destinado ao Destacamento Feminino — casas para habitação, secretaria, posto de transmissões, celeiro e alpendre de reuniões e refeitório; do lado oposto ficam as instalações das internadas, uma série de barracões dispostos ao comprimento, formando ao fundo um semi-círculo. ORGANIZAÇÃO E ESTRUTURAS DO CENTRO O Centro de Reeducação de Msauíze destina-se a albergar marginais, em princípio prostitutas. Neste momento encontram-se neste local 501 mulheres, vindas de vários pontos do nosso país. A administração, organização e mobilização política encontram-se a cargo do Destacamento Feminino — um pelotão de 36 elementos. A distribuição das tarefas é feita em colaboração com a estrutura das reeducandas, composta por mulheres que se encontram no campo e que revelam possuir capacidade e espírito de responsabilidade para ocupar aquele lugar. Os problemas disciplinares, o comportamento das internadas, são também analisados pelas duas estruturas: O «D.F.» e a estrutura das reeducandas. Quisemos saber o programa de actividades diárias do Centro: Alvorada às quatro e meia da manhã, limpeza e pequeno almoço. Depois, machamba. Almoço. Machamba, novamente. À noite comem outra vez. No entanto, nem sempre temos comida suficiente, de maneira que, às vezes, não se come à noite — responde a comissária política do Centro, que foi quem nos forneceu a maior parte dos esclarecimentos sobre o local. Só machamba?, inquirimos nós. Sorrindo, a comissária esclareceu então que a reeducação não compreende somente o trabalho físico. As mulheres que se encontram na reeducação eram na sua grande maioria mulheres daquela vida, segundo um dos elementos do «D.F.». Além do trabalho da machamba, as reeducandas também têm um programa político no campo. Três vezes por semana há reuniões de mobilização política. O sábado e o domingo são reservados a manifestações culturais. — Porquê a educação política? Ela faz parte dos nossos métodos de trabalho. Ao princípio, aqui, se alguém dissesse «Viva a Frelimo», ninguém respondia. Nenhuma pessoa compreendia porque tinha vindo para aqui, porque é que tinham que sofrer tanto e suportar estas condições de vida. Era necessário explicar o porquê desta situação. Explicar o que representava a vida destas mulheres na sociedade colonial, explicar o tipo de sociedade que queremos

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construir em Moçambique, explicar porque é queelas se encontram aqui neste local isolado. Era necessária uma explicação política. — Depois, no dia a dia, iam surgindo outros problemas. As deserções eram em massa. Aqui não temos vedação. As pessoas fugiam porque não conseguiam suportar aqui as condições de vida. Havia muita fome aqui. Depois vinha o tribalismo e o regionalismo. As do Maputo só queriam viver com outras do Maputo, as de Gaza deviam dormir na mesma casa, as macuas tinham que estar juntas. — Tivemos muitos problemas que entravam em contradição com os nossos princípios. Depois tínhamos problemas de indisciplina e individualismo. Cada uma queria fazer a sua vida, ter a sua própria comida, tudo separado. A indisciplina era muito grande e as condições de vida faziam ressaltar as contradições com mais evidência. De manhã, quando tocava o apito para levantar, ninguém vinha para o campo para formar. Houve tempo em que era difícil andar no campo onde ficam os dormitórios delas. Se alguém entrava na bicha da comida delas, de certeza que era agredido. Elas mesmas discutiam entre elas e agrediam-se mutuamente. Isto é urna situação muito recente pois este Centro apenas tem seis meses. A explicação prosseguiu. Sobre a realidade diária do Centro e sobre métodos de trabalho. Assim, ficámos a saber que durante as reuniões que existem periodicamente no Centro, são feitas leituras de discursos e orientação do Presidente Samora Machel e outros textos formativos do Partido. As questões são postas em termos de exposição prática: Como sofreu o povo moçambicano durante a opressão colonial, o porquê da luta armada, os fundamentos do sistema de exploração... Depois da descrição dos casos de deserções, indisciplina e tribalismo no campo, ficámos com interesse em saber se a situação ainda se mantinha: — Neste momento podemos dizer que a situação ainda não é boa. Mas já melhorou muito desde o início. Há mais disciplina, as pessoas compreendem porque se encontram aqui, esforçam-se por modificar o seu comportamento, mas podemos dizer que ainda há deserções e também há muitas que não modificaram nada o seu comportamento. DIFICULDADES DO CENTRO Ao abordarmos este ponto, um sorriso, como que esclarecendo uma situação de rotina, acolheu a nossa pergunta: — Dificuldades aqui são muitas. Começando pela falta de alimentação. Aqui, ao princípio, passamos muita fome. A comida não chegava. Os camiões avariavamse nas picadas, os alimentos estragavam-se e não chegavam aqui. Tivemos muitasanemias aqui. Mesmo agora só temos sacos no armazém para mais uma refeição. Depois, a qualidade também é fraca. Normalmente, só há feijão e farinha. Sobre este aspecto, lembramos que este local tem caça em abundância, que muito poderia beneficiar o Centro.

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— Depois, não temos roupa para agasalhar. O frio é muito e as casas não têm qualquer protecção dos lados. Não temos mantas. Só distribuímos cobertores àquelas que não tinham nada para se cobrir. — No campo sanitário a situação é também muito má. As mulheres instaladas no campo eram portadoras de muitas doenças venéreas e no Centro não existem medicamentos para fazer um tratamento capaz. Os casos mais graves, como por exemplo a sífilis, são canalizados para o hospital central, que já existia no tempo da guerra mas que luta igualmente com muitas dificuldades materiais. Não existem comprimidos para fazer a prevenção do paludismo, pelo que as reeducandas são muito atacadas. Outra doença que existe muito é a sarna, motivada pela falta de higiene. Nós aqui no Centro distribuímos sabão. Mas elas muitas vezes trocam o sabão por comida, o mesmo acontecendo por vezes com a roupa — explica a comissária política. A cobertura sanitária do Centro é assegurada por um enfermeiro e algumas socorristas formadas por aquele elemento. Para o trabalho agrícola também existe muita falta de material, nomeadamente enxadas, machados e catanas. Neste momento são utilizadas as enxadas das Forças Populares — informam-nos. Visitámos em seguida o Centro. No campo para reuniões, algumas centenas de mulheres, envergando na sua maioria uniformes pretos, entoavam canções e danças. À frente as instalações, cabanas muito rudimentares, muito expostas ao frio e construídas pelas reeducandas. Entre as reeducandas reparamos com uma certa estranheza que a amplitude das idades era muito grande. Havia crianças de tenra idade e mulheres de idade muito avançada. Aqui, além das antigas prostitutas, ainda se encontram, também, Testemunhas de Jeová e mulheres acusadas de feitiçaria. Quanto às crianças, muitas são filhas das prostitutas — esclarecem-nos. Existe um plano para integrar as mulheres mais idosas na população, ao mesmo tempo que as crianças serão levadas umas para o Infantário Josina Machel, que se encontra a curta distância, e as maiores para os Centros-pilotos. No entanto, até ao momento, ainda se encontram no campo. Assistimos, depois, a uma manifestação cultural. Ainda sem grande convicção, as mulheres entoaram várias danças e cantares da cultura moçambicana, importante instrumento de personalização. No fundo de uma pequena encosta, visitamos depois a horta com uma grande extensão, e onde são semeadas várias qualidades de legumes: couves, alfaces, tomates e cenouras. Tudo isto, assim como as machambas, foram as mulheres que fizeram. Havia muita gente que não acreditava que uma mulher pudesse com um machado deitar abaixo uma árvore, mas nós temos aqui a prática — dizia uma das responsáveis do Centro. Aqui formaremos mulheres moçambicanas livres que possam contribuir activamente para a revolução moçambicana — atalhou o comandante da Base Central. Até ao momento, foram reintegradas na sociedade 60 mulheres, que constituem o primeiro grupo a ser
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libertadoá. Temos absoluta confiança que essas mulheres que jáabandonaram o Centro serão quadros valiosos da Organização da Mulher Moçambicana. Aqui neste campo pensamos que se forjarão muitas mais. Sobre a educação das internadas, ainda não existe nada de concreto; algumas mulheres, por iniciativa pessoal, fazem a aprendizagem da alfabetização». Fernando Lima escreve depois de um outro Centro que está a ser construído nas redondezas, terminando do seguinte modo a sua reportagem: «Tinha chegado ao fim a nossa visita. Embora não tivéssemos tido oportunidade de conversar com as reeducandas, ficámos com uma ideia, embora não muito profunda, das condições de vida do Centro. Confrontámos elementos materiais.Observámos a realidade. Existem deficiências, existem erros que certamente transparecerão ao longo desta reportagem. Os erros fazem, no entanto, parte do percurso que traçámos.» Pois bem: Fernando Lima, que voou milhares de quilómetros sobre Moçambique e palmilhou em jipe quarenta e cinco quilómetros para efectuar a sua reportagem que intitulou «TRANSFORMAR PELO TRABALHO MARGINAIS DASOCIEDADE COLONIAL», foi infeliz. Não teve oportunidade de conversar com as reeducandas que, viu, porém, a dançar o batuque, esse importante instrumento de personalização. Preocupou-se mais com as paredes toscas, com as meias informações das carcereiras, do que com quanto podia ouvir das bocas das vítimas. Bebeu a sua cerveja geladinha com o comandante da Base — ela nunca falta onde há um comandante — mas não cheirou o fedor dos feijões da pseudoalimentação das felizardas reeducandas, e regressou a Lourenço Marques (que ele meperdoe: ao Maputo) com a sua missão cumprida. Mas pode cumprir a sua missão quem esquece o que de mais importante existe na notícia que é o homem, que é o sofrimento humano, que é a desumanidade, que é o terror, que é a morte, que é tudo quanto mereceu menos a atenção do jornalistado que as machambas — feitas com sangue — que nada produzem, segundo a fome que a sua própria reportagem apregoa? Foi infeliz o mercenário português do jornalismo moçambicano Fernando Lima mas, no meio da sua infelicidade teve sorte. Homem de confiança da Frelimo não conseguiu agradar aos patrões, mesmo atirando para a rua uma amostra da verdade do que é, e continuará a ser enquanto o mundo civilizado consentir, enquanto um inferno terreno não queimar Samora Machel e os criminosos que o rodeiam, o antro de morte e desespero de um campo de reeducação da Frelimo, mesmo tratando-se do único campo onde foi permitida a admissão a um jornalista da inteira confiança do Partido. Fernando Lima não falou da forma como a alimentação é distribuída. Não disse que a massa é retirada a ferver dos caldeiros e colocada nas mãos chagadas das prisioneiras. Não relatou que aquelas que, não tolerando as insuportáveis queimaduras, derramam a nojenta massa no solo, são inibidas de a apanhar e são for-

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çadas, com a invencível dialéctica do chicote, a comê-la no solo sujo por excrementos. Fernando Lima não teve tempo para ver isso ou faltou-lhe coragem para relatar, e eu compreendo-o. Porém, as poucas verdades que partiram das bocas das carcereiras foram o suficiente para ofender e assustar os proprietários — Samora Machel e o seu grupo — dos campos de terror. Bem-haja, pois, pela quebra, mesmo pequena, do sepulcral silêncio a que estávamos acostumados e que, por certo, não foi do agrado dos fariseus portugueses, promotores da independência frelimista moçambicana. Como podem eles agora justificar as constantes viagens de amizade que fazem a Moçambique? ... 27. O QUE Ë A PROSTITUIÇÃO?

Pela reportagem de Fernando Lima subentende-se que a maioria das prisioneiras a reabilitar nos campos de morte da Frelimo são prostitutas. Mas o que é a prostituição vista com os olhos da Frelimo? Leia-se este bocado de prosa de uma crónica que Fernando Lima juntou à sua reportagem, numa espécie de crónica que intitulou «Como encarar a prostituição». «Como encarar a prostituição, como encarar os agentes da prostituição? Para os mais simplistas trata-se de uma questão fácil de analisar, ou pelo contrário, ignoram os fundamentos da prostituição, procurando no comprimento de uma saia, na maquilhagem exagerada, em formas de trato mais extravagantes de uma mulher, uma tosca definição de prostituta; num bar com homens e mulheres que bebem cerveja ou qualquer outra bebida alcoólica, um «quadro de prostituição». Para outros, duas pessoas que dormem juntas sem terem assinado o contrato matrimonial, ou que simplesmente se passeiam em qualquer artéria de uma cidade, em sítios bafejados pela luz eléctrica, também serão casos de prostituição. Ë claro, como oportunisticamente convém, a denúncia destas graves situações é sempre feita com vários chavões que falam muito de corrupção, liberalismo, etc. São casos que à mentalidade pequeno-burguesa, o puritanismo, os preconceitos sociais e sexuais, a formação política de certos estratos sociais da sociedade interpretam os factos, sem que efectivamente se faça uma análise, uma leitura política das situações. A prostituição tem o seu fundamento na sociedade de classes, nas circunstâncias económicas, políticas, sociais e ideológicas engendradas por essa sociedade. Havia prostituição na Grécia Antiga, havia no período feudal, existe nos países capitalistas, existe nos países onde não as palavras, mas as condições políticas e ideológicas, as condições materiais, permitem que as pessoas tenham relações de dependência entre elas, quando não existem de facto novas relações

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entre as pessoas, onde não existem novos valores, nem condições e trabalho político que possibilite a formação de um homem novo. O aspecto caricatural da prostituta na esquina ou no bar à espera de clientes é apenas uma pálida ilustração do que é a prostituição. Nas concepções burguesas de vida e relações sociais não é prostituta aquela que usa aliança, aquela que vai à missa, ou que perfilha os padrões de honestidade convencionados. Também as relações entre as pessoas são eminentemente políticas. O amor é um acto político. E quantos casais na prática sabem responder politicamente às solicitações quotidianas? Quantos não esquecem a política no escritório onde desempenham «um cargo de responsabilidade» ou na sede do Grupo Dinamizador» onde não faltam a qualquer reunião? Para muitos a política não entra na vida conjugal, nas relações entre as pessoas, ou por outras palavras, a política, a ideologia está presente, mas é a ideologia do inimigo, a ideologia reaccionária, exploradora e individualista. Por isso, não devemos pensar que, se acabarmos fisicamente com as prostitutas mais «visíveis» nos centros urbanos, acabamos com a prostituição. A prostituição é inerente a um determinado sistema, onde são dominantes as relações de desigualdade entre as pessoas, onde a ideologia dominante permite que se forje a prostituição. Só eliminando as causas, as próximas e as remotas, se poderá eliminar a prostituição. O mesmo será dizer que só destruindo o sistema, a sociedade colonial-capitalista, só destruindo e eliminando a ideologia burguesa, acampamento inimigo nas nossas cabeças, só com a criação da SOCIEDADE NOVA, com a criação de fundamentos materiais e ideológicos que permitam a eliminação da exploração do homem pelo homem, a criação do HOMEM NOVO, se poderá eliminar a prostituição FÍSICA E IDEOLOGICAMENTE.» Temos pois uma nova definição de prostituição. Não é o amor, nem o acto que está em causa porque o amor é um acto político. Uma mulher pode ser honesta dentro dos padrões da honestidade convencional, ser amiga do seu marido, ser leal ao laço matrimonial, respeitá-lo em gestos e acções, nada se lhe apontar dentro das fronteiras da honestidade convencional, mas se a política — e tem de ser a da Frelimo — não entrar na sua vida conjugal, nas suas relações entre as pessoas, pratica prostituição. Não é prostituta a jovem que, solteira, dorme com o guerrilheiro da Frelimo, ou com o dirigente do Partido, desde que leve bem dentro de si, a política socialista marchelista. Não são prostitutas as mulheres, jovens e velhas, que depois dos endiabrados batuques realizados nos recintos da sede do Partido — e provo com a totalidade dos habitantes das proximidades do ex-colégio João de Deus, na Beira — acabam as madrugadas em animalescas bacanais, porque trazem dentro de si a ideologia e não são reaccionárias.

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Não são prostitutas as camaradas do Departamento Feminino, das bases guerrilheiras da Frelimo, que dormem cada dia com o seu camarada diferente, porque são políticas e o acto é um acto político. Nem aquelas que encontrei no aquartelamento de M. Pádua — nove mulheres totalmente sem roupa — na barraca do comandante do destacamento. Prostitutas são todas as mulheres, de todas as raças, que não aderem à Frelimo. Prostituição praticam todos os homens que não levantam o braço, de punho fechado, aos gritos histéricos de «Viva a Frelimo». As mulheres encurraladas nos campos de reabilitação, desconhecendo a razão porque se conservaram vivas no Inferno onde viram tantos morrer, praticaram a prostituição porque não frequentavam as reuniões de esclarecimento do Partido no seu bairro, no seu emprego, porque não aderiram à Frelimo. E as que morreram, vitimadas pelas balas dos seus algozes embriagados por álcool e por desejos de sangue, eram prostitutas, praticavam a prostituição, embora fossem puras de corpo, embora se conservassem honestas de pensamentos e de acções, fossem óptimas esposas, mães exemplares e cidadãs sem mácula aos olhos da honestidade convencionada por todos nós. A sua prostituição foi, pois, unicamente política. E por isso, leitor, nos campos de morte de Bilibiza, de Mandimba, de Tebamba, de Nawá, de Ludiene, de Nova Freixo, de Mabaca, de Marrupa, da Base Beira, de Luatize, da Base Central, de Atisel, de Msauíze, do Xiconono, e de outras criadas, e de muitas outras que serão construídas, podes encontrar homens e mulheres, com idades compreendidas entre os poucos dias de vida e os oitenta e noventa anos que praticaram prostituição aos olhos da honestidade não convencionada, da honestidade política mesmo conservando-se honestas, mesmo pagando com a vida para continuar a serem até à morte. Foram transportadas como animais em camiões de carga para os diversos campos de morte do Niassa, numa viagem que demoraria cinco a seis dias mas que preencheu, totalmente, cerca de um mês, porque os ordenanças do delirante socialismo de Samora Machel, os transportadores da carrada humana para o matadouro, desejavam aproveitar a fartura de fêmeas do curral volante para as suas torpezas de sexualismo viciado e selvagem. Mulheres, crianças, entregues aos abutres que em Lusaka receberam das mãos de insignes portugueses, seus irmãos, a resolução dos seus destinos, as suas próprias vidas. Todos nós conhecemos as fronteiras da honra e do pudor, das gentes africanas, que vergastam as mulheres desde o nascimento: São vendidas pêlos pais ao primeiro homem que lhes pague o «lobolo» e trocam de marido desde que, com dinheiro ou valores, o novo conquistador indemniza o marido traído. E não há prostituição! ... A Frelimo, mesmo não apoiando o «lobolo», que considera uma das tradições tribais a afastar do povo moçambicano, admite-o. E criou, em sua substituição, o casamento revolucionário, praticado entre os e as camaradas, a qualquer nível, a partir do próprio Presidente. Samora Machel casou com Graça Simbine, uma mulher
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que possuiu diversos maridos revolucionários, sem que o seu casamento fosse registado em qualquer repartição além do Partido, que o autorizou. Samora Machel casara em Lourenço Marques antes de entrar na revolução. Casou diversas vezes nos anos de combate. Apoderou-se de Josina Magaia, após ter assassinado o marido, um dos guerrilheiros de confiança do dr. Eduardo Mondlane, o comandante Filipe Magaia. Assassinou Josina Machel porque sabia demais sobre a morte do primeiro presidente da Frelimo e volta a casar com Graça Simbine depois de endeusar o nome de Josina entre as componentes do Departamento Feminino que ela criou. Mas nunca praticou prostituição. Nem nenhuma das suas amantes. Mesmo agora, que esconde o filho à curiosidade popular por não ser negro como ele nem como Graça Simbine sua última mulher — que também era casada em LourençoMarques antes da revolução — não acusa a mulher de prostituição. E a razão é simples: Todos eles transportam para os actos de amor animalesco a política. Os seus actos de amor são políticos. Não são reaccionários. Não fazem parte da honestidade convencional. A política foi transportada para a sua vida conjugal, mesmo que essa vida conjugal apenas dure horas ou meses. O que pensaria, se vivesse, da evolução marxista moçambicana, o seu criador Karl Marx? Os outros prisioneiros, as outras prisioneiras, são Testemunhas de Jeová. Pertencem à seita religiosa sedeada nos Estados Unidos da América mas espalhada pelo mundo inteiro. Lidei com os membros desta religião, com os mesmos que hoje morrem nos campos de trabalho e de extermínio da Frelimo em 1972, nas regiões de Gulemo-Balame, na Angónia, onde cerca de quarenta mil se refugiaram a expensas do Governo de Portugal. Eram pessoas honestas e trabalhadoras. Ergueram, como se saltassem do solo de um dia para o outro, mercê da vontade férrea do homem, gigantescos, embora precários, aglomerados humanos, que rodearam de evoluída agricultura. Eram, na totalidade, malawianos e somavam cerca de quarenta mil almas. Desloquei-me, em aventurosa viagem, acompanhado de um administrador de posto de Vila Coutinho, à região onde se acolheram e onde desejavam contribuir no desbravamento de terras, na agriculação, no progresso moçambicano. Não possuíam outra política além da sua religião e o amor ao próximo, e haviam sido expulsos do Malawi. O Portugal moçambicano acolheu-os e integrou-os sem dificuldade na sociedade local. Em Agosto e Setembro de 1975 a Frelimo quis mostrar a sua presença bolchevista disfarçada de laicismo, e as quarenta mil pessoas, e quantos moçambicanos com eles estudavam a Bíblia, tiveram de enfrentar torturas desumanas, espancamentos, roubos de dinheiro e as mais infamantes sevícias. Os homens foram despidos e muitas mulheres foram estupradas.

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Em Setembro, Outubro e Novembro de 1975, congregações completas foram transportadas para os campos de extermínio, nelas se incluindo cerca de três mil moçambicanos, além das dezenas de milhar de malawianos que se haviam refugiado na Angónia. Entretanto, dezenas de milhares de volumes com roupas, oriundos da África do Sul, legalmente despachados nos correios sul-africanos, vistos e revistos pêlos serviços alfandegários moçambicanos sem que qualquer atropelo à lei fosse detectado, destinados às Testemunhas de Jeová, eram abertos em Tete, por ordem do inspector da P.I.C., e distribuído o seu valioso conteúdo pelos combatentes terroristas da Z.A.P.U., depois denominada Z.I.P.A., e pêlos simpatizantes da Frelimo. Os volumes continham fatos, casacos, camisolas, vestidos, sapatos, sobretudos, ofertas de instituições humanitárias internacionais. Mas isso pouco importou à P.I.C. da Frelimo. A Frelimo desafiava as leis internacionais, apoderandose do que não lhe pertencia, do que era propriedade dos homens, mulheres e crianças que assassinara ou enclausurara em campos de trabalho. E, pasmai! o mundo aceitou todo este procedimento com criminosa indiferença. Eu próprio vi os volumes armazenados nas instalações da P.I.C. em Tete, assisti à sua conferência pêlos registos alfandegários, e ouvi da boca do camarada José Castigo, que mostrava um rictus de estranha e patética felicidade: — Oh Passos, isto vale mais de vinte mil contos! ... Não respondi. Tudo aquilo que estava frente a meus olhos, ocupando todas as salas do primeiro andar do edifício, mesmo ao lado do Tribunal que deveria significar Justiça, não tinha preço monetário. Valia as quarenta mil vidas destruídas pela Frelimo. 28. O ASSASSINATO DO POLÍCIA GRAÇA DINIZ

Massacres, perseguições, lentos assassinatos pela fome, pela pancada, esquartejamentos, têm-se acoitado à desculpa benevolente, e geralmente aceite, da política, em todas as gerações. Grande número destes acidentes históricos, para melhor serem tolerados e digerados pela opinião do homem comum das regiões onde eles não têm lugar, jogam com a palavra liberdade. A liberdade deu até agora um explêndido exemplar de carniceiro. Os processos de tortura têm evoluído com o decorrer dos tempos, e cada geração anexa à experiência histórica das artes de matar novos processos de destruição do homem. Cada governo tenta superar o que politicamente lhe está mais próximo, nos processos de tortura, criando organizações especializadas na morte. A Frelimo não aprendeu na História nem disso necessitou. Não lhe faltaram professores especializados na matéria. Os anos de treino na Argélia — inicialmente — na Rússia e na China — depois— criaram técnicos excepcionais na arte de matar, e vítimas para o holocausto das macabras experiências não faltaram em Moçambique. O país é grande e existe muito espaço desértico onde implantar bases de reeducação, para encurralar
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as cobaias humanas, arrebanhadas sem escolha entre os que não apoiam os crimes da política marchelista. Se um dia alguém conseguir agarrar os números dos que foram sacrificados ao processo de torturas frelimista, o mundo verificará, abismado, que a Frelimo ocupa lugar de destaque na trágica história universal. Falarei de uma vítima. Como símbolo. Falarei dela porque há testemunhas oculares que podem declarar perante a Justiça internacional, os tormentos que viram inflingir a um inocente até à morte. Falarei da destruição, fabricada com técnica sádica ao agente da Polícia de Segurança Pública, Adelino da Graça Diniz, no campo de recuperação de Bilibiza, em Cabo Delgado (agora Rovuma), onde outros como ele agonizam no momento em que, frente a teus olhos está esta reportagem. Antes, porém, terei que recuar escassos meses, para que melhor se entenda os motivos da sua morte. A Polícia de Segurança Pública em Moçambique, que dependia da organização congénere metropolitana, era porém dividida em dois sectores que na actuação não se diferenciavam: Os recrutados na antiga província e os que zelavam pela segurança das populações moçambicanas em regime de comissões, enviados, portanto pela MãePátria, para o Ultramar. A única distinção verificava-se no fardamento: Os agentes em comissão continuavam envergando os uniformes metropolitanos acinzentados e os recrutados, na grande maioria metropolitanos também, que entraram na Corporação após o cumprimento do serviço militar em Moçambique, usavam o uniforme de caqui amarelo, mais de acordo com as condições climatéricas locais. Após a independência, e especialmente nos meses que a antecederam — durante o domínio do Governo de Transição de maioria frelimista — quantos recrutados locais requereram a sua partida para Lisboa, ou para os destacamentos metropolitanos, foilhes concedida. Alguns, porém, iludidos pelas palavras amistosas do Governo, então dirigido por Joaquim Chissano, por serem naturais de Moçambique ou no futuro país terem vivido por longos anos, ou por à terra se sentirem ligados por laços familiares — muitos haviam contraído matrimónio com naturais—, ou ainda por a sua permanência lhes possibilitar uma mais fácil promoção hierárquica, conquistada pela sua experiência policial, aceitaram o ingresso nos quadros moçambicanos. Pesou, ainda, nesta tomada de resolução, permanecer durante largos meses em Moçambique a polícia metropolitana, em regime de conselheira dos novos recrutados para o exercício policial, entre os guerrilheiros da Frelimo e os oportunistas que, à última hora aderiram ao Movimento. Adelino da Graça Diniz foi um dos que ficaram. E ficou para morrer. A violência da Frelimo começa, porém a manifestar-se, e alguns dos seus obreiros passaram a ser os policiais, imediatamente a seguir à partida dos últimos contingentes dos conselheiros portugueses. A Frelimo converte-se numa organização especializada em tortura e assassinato. Matam-se milhares de indivíduos por uma simples delacção ou suspeita de não militância ou antipatia às ideias políticas marchelistas. Nas cidades organizam-se verdadeiras caçadas, camufladas em lutas contra a prostituição, em lutas contra a corrupção, mas que verdadeiramente são
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uma perseguição sistemática contra a presença branca e contra a chamada burguesia. Será difícil saber-se um dia quantos milhares de pessoas morreram nessas «orgias» da Frelimo. Famílias inteiras, aldeias inteiras foram exterminadas ou sonegadas à sociedade, nelas se incluindo, como já frisei, quantos professavam as ideias religiosas das Testemunhas de Jeová. A polícia moçambicana, que abandonou a denominação de Polícia de Segurança Pública para se converter em Corpo de Polícia de Moçambique, estava destinada a cumprir papel essencial nessa acção criminosa de repressão. Muitos agentes, levados por princípios morais, por repulsa natural ao crime, permaneceram leais à sua consciência. Certifícaram-se, com horror, da repressão levada a cabo pelo Corpo de Polícia de Moçambique. As execuções multiplicam-se e a fuga de refugiados expressa o terror e a insegurança do povo. A repressão policial não é outra coisa mais do que urna vingança política, visando destruir as ideias contrárias à Frelimo por meio do extermínio físico dos seus defensores. Em nenhum caso, porém, a atitude destes agentes moralizados pode ser chamada de rebelião no sentido jurídico do termo; foi, pelo contrário, uma tomada de posição ao lado do povo moçambicano, a que por nascimento ou por vivênciapertenciam, um desejo de restabelecimento da ética e justiça que haviam sido ignoradas e frequentemente violadas. O agente da Polícia de Segurança Pública de Moçambique, Adelino da Graça Diniz tomara essa posição e era, perante a Frelimo, um elemento que necessário se tornava eliminar. Foi preso. Foi insultado e amesquinhado. Foi agredido. E depois, resto do que tinha sido, foi transportado para o Centro de Reabilitação de Bilibiza, para ser definitivamente reabilitado com a morte, sofrendo no seu corpo todos os tratamentos que tentou evitar que fossem inflingidos ao povo. Mas no campo de Bilibiza diversas testemunhas assistiram ao assassinato do agente da polícia e identificaram os seus assassinos. Foram eles o comandante provincial do Corpo de Polícia de Cabo Delgado, camarada Massamba, o comandante da Defesa de Cabo Delgado, camarada Pfumo, o chefe da secretaria do referido Corpo de Polícia, camarada Namuca, diversos guerrilheiros e policiais, entre estes últimos se distinguindo pela sua ferocidade, o agente número 52 daquela corporação assassina. E as testemunhas contam, ainda horrorizadas: «Graça Diniz esteve amarrado durante catorze horas sendo durante esse período constantemente agredido da forma mais selvagem e desumana. Foramlhe partidos os dedos das mãos, um a um. Aplicaram-lhe a tortura «china»; Braços amarrados atrás das costas até as omoplatas encostarem uma à outra. Foi queimado com pontas de cigarros. Foi brutalmente agredido e espancado cruelmente. Após as catorze longas horas de indizível suplício, Graça Diniz era um homem completamente destroçado.

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Urinava sangue. Agonizava. Os seus algozes deixaram que ele fosse metido num jipe para — segundo afirmaram — ser levado para tratamentos no hospital. Poucos dias depois um dos polícias da Frelimo — prosseguem as testemunhas — informou os portugueses presos naquele campo que Graça Diniz já fora enterrado. Entretanto, Álvaro Cunhal visitava Moçambique. Durante os dias que antecederam a visita os jornais e a Rádio, em largos títulos, louvavam o camarada visitante e convidavam o povo a associar-se aos festejos dedicados ao nosso grandesalvador e ao grande amigo dos moçambicanos. A Frelimo organizou festas. Recepções. Banquetes. Correu champagne a esmo. Álvaro Cunhal foi festejado. O povo foi obrigado pelos Grupos Dinamizadores a sair à rua e a concentrar-se à passagem do visitante, para o aplaudir, para o acarinhar. E algum povo veio, porque há sempre algum povo para ir a qualquer parte. Álvaro Cunhal ergueu imensas vezes o seu braço direito e de punho fechado elevou a voz, que Portugal já bem conhece, em «Vivas à Frelimo». Estridentes. Sentidos. Convincentes. Álvaro Cunhal foi recebido em festa pela Frelimo. Pela mesma Frelimo que torturou e assassinou o agente da Polícia de Segurança Pública Graça Diniz. Pela mesma Frelimo que ainda conserva no campo de Bilibiza, e pêlos imensos Centros de Reabilitação de Moçambique, milhares de Portugueses à espera da morte. Que não foram convidados a assistir à chegada de Álvaro Cunhal. Nem aos banquetes oferecidos em sua honra ... 29. PORTUGAL NÃO FOI LUDIBRIADO

Perante os factos que até agora descrevi — e que provarei aonde e quando for necessário — é de crer que muita gente — e Portugal está cheio dela — possa ainda acreditar na boa-fé dos negociadores de Lusaka e de alguns elementos das Forças Armadas de Portugal que sustinham o bastão do Poder. , Ê de crer que para esses o povo português reserve umas quantas palavras de comiseração: Coitados! ... Eles acreditaram nas promessas da Frelimo... Quem assim pensar, engana-se. Os negociadores e grande parte das Forças Armadas portuguesas sabiam com que espécie de Frelimo iam negociar. Conheciam toda a astúcia, toda a desonestidade, o espírito de traição dos dirigentes do Partido moçambicano e mesmo assim foi com eles que assinaram o sinistro Acordo. A minha profissão, e especialmente o cargo que ocupava na gigantesca província de Tete, levava-me a imiscuir-me nalguns meandros confidenciais, e por vezes secretos da polícia militar portuguesa, especialmente na trágica e insegura fase que medeou entre o 25 de Abril de 1974 e o 7 de Setembro, de 1975.

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E o que, de certo modo, é interessante, é que eu possuía duas espécies distintas de informadores, antagónicas, até. Da primeira faziam parte contactos por mim aliciados, homens que eu considerava como colaboradores essenciais ao bom desempenho da minha missão de jornalista destacado na mais estratégica região da guerra em Moçambique. Trabalhavam nas mais diversas repartições civis e militares e traziam-me informações, sempre antecipadamente aos informadores oficiais, competindo-me a mim, apenas, tentar confirmação antes de as remeter, geralmente telefonicamente, para aredacção do jornal. A segunda espécie de informadores era composta pêlos homens que oficialmente tinham, entre muitas, a função de informar a Imprensa, mas que só me diziam o que lhes interessava, o que não bolia com o bom nome militar, o que, como é lógico, me era permitido publicar, visto que dentro do próprio jornal, lendo e relendo todas as notícias recebidas, existia, nesses primeiros tempos de democracia portuguesa, um censor militar nomeado pelo M.F.A. Essa informação oficial era dirigida pelo major Xavier, que chefiava a Repartição de Acção Psicológica Militar e estava à frente da comissão do Movimento das Forças Armadas. Por norma, como já disse, as informações que este competente e inteligente oficial trazia ao meu conhecimento haviam sido antecedidas por outro informador privado, e em algumas vezes eu não consegui oferecer ao meu rosto a máscara de ingénua surpresa que ele esperava, e que, confesso, me seria da maior conveniência. Por outras logrei enganá-lo, e vale a pena relatar o caso «Ornar», a mais vergonhosa traição cometida pela reconhecidamente criminosa Frelimo às Forças Armadas Portuguesas, facto que foi totalmente esquecido pêlos ilustres oficiais que assinaram o Acordo de Lusaka. Vamos à história: Estava-se numa fase de paz, se bem que o acordo de cessar fogo só fosse assinado um mês depois. Era uma paz táctica, conveniente para ambas as forças em luta. Os maiorais da Frelimo na região de Tete já se haviam deslocado por diversas vezes à residência do Governador de Tete, Gomes do Amaral, e com ele haviam acamaradado. Os guerrilheiros operacionais já haviam trocado as esfarrapadas fardas que envergavam, e que envergonhavam a Frelimo — viam-se homens de casaco camuflado roto e calções vermelhos sebentos e chapéus de mulher em vez de quépis militares — por uniformes oferecidos particularmente pelas Forças Armadas. Outros, ainda, haviam recebido, por oferta, calças civis de boa fazenda e casacos à última moda, para se apresentarem, condignamente, como representantes do exército vitorioso. Eu próprio assisti à entrega de cara roupa civil ao comandante Raimundo Dalepe e aos seus homens, e os ofertantes foram oficiais do Exército de Portugal. Enfim, existia uma tácita paz sem que o cessar fogo fosse oficializado e os militares de todas as graduações — menos os fuzileiros, esses nunca entraram no jogo — iam

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acumulando recordações, deixando-se fotografar em amistosas posições junto dos seus inimigos de ontem. Foi este ambiente de calma e de paz que o caso «Ornar» veio turvar. Eram cerca das dezoito horas quando recebi em casa a chamada telefónica de um militar, meu informador pessoal. Minutos depois ele encontrava-se na minha casa e contava-me: — O quartel de Ornar, guarnecido por militares portugueses, fora aprisionado pela Frelimo. E entrando em pormenores: — Uma força da Frelimo cercou o quartel, emboscada. Muitos guerrilheiros haviam, nos dias anteriores, acamaradado com os soldados portugueses e o clima que se vivia era de autêntica paz. Além dos emboscados um outro pequeno grupo aproximou-se e alguns elementos falaram com os soldados pedindo que saíssem e viessem acamaradar com eles, pois a guerra havia terminado. Alguns soldados portugueses acederam e começaram os abraços, as boas falas, os gestos de amizade. E prossegue, transmitindo-me o que sabia e que havia chegado ao seu conhecimento de forma confusa: — Os comandantes da Frelimo pediram para os oficiais portugueses entrarem na festa. Estes vieram e apenas um alferes trazia, por rotina, uma pequena arma consigo. Quando todos se encontravam juntos as traiçoeiras kalashnikov fora-lhes apontadas pelo numeroso grupo que se encontrava emboscado. Alguns, poucos soldados conseguiram fugir à ignóbil traição e deram o alarme depois de caminharem desarmados durante toda a noite e parte do dia seguinte. Todo o destacamento português foi aprisionado e levado sob captura para a Tanzânia. E termina: A aviação portuguesa já sobrevoou Ornar. Está lá desfraldada a bandeira da Frelimo, onde estivera a Bandeira de Portugal. Continua, porém, rigorosa proibição às nossas forças para reagirem à traição da Frelimo. — Mas Tete está cheia de guerrilheiros da Frelimo e ninguém os prende! — observei, com espanto. — Ninguém os prende? — retrucou o meu informador: — Então eles vão comer ao quartel com os nossos oficiais! ... Estão lá agora ... Pedi uma ligação telefónica para a redacção do jornal, pois Ornar, pertencendo a uma outra zona de operações — eu estava na Z.O.T. (Zona Operacional de Tete) e Ornar fazia parte da Z.I.N. (Zona Intervencionai do Norte)—e as confirmações da ocorrência deveriam ser investigadas pela sede do jornal. Ainda me foi possível falar com o telefonista da Beira mas, como vinha acontecendo sempre que contactava a Beira, o telefone silenciou, sinal que me indicava que a minha conversação ia ser posta à escuta e só funcionaria quando o meu espião estivesse operacional e com o gravador a postos.

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Alertei o meu informador — um furriel — no sentido de que se pusesse ao fresco mas o meu aviso foi tardio. Escondeu-se no quarto do meu filho enquanto eu abria a porta ao meu visitante. Era o major Xavier. O que o levava à minha casa — disse-me era saber se eu tinha conhecimento do que tinha acontecido em Ornar. Ele também «não sabia bem o que se passava, mas era conveniente que eu silenciasse qualquer informação que viesse ao meuencontro». — É sobre o quartel de Ornar... A Frelimo fez uma patifaria qualquer e parece que aprisionou os nossos soldados... Eu não sei bem o que foi, portanto não publique nada. Eu o que souber de fonte segura mandar-lhe-ei um comunicado, mas é possível que o Comando Chefe informe directamente os jornais... Sosseguei-o e ele partiu. O meu informador, no seu esconderijo, respirou fundo. Eu, pelo meu lado obtivera a confirmação da sua notícia... mas ela não apareceu na Imprensa ... O que motivou o segredo militar? O que o motiva ainda? Estava em jogo o prestígio da Frelimo. Ia ser assinado, no mês seguinte, o honroso Acordo de Lusaka. Estava em funcionamento a mecânica da descolonização exemplar. Mas a Frelimo apregoou aos quatro ventos a sua excepcional vitória de Ornar e as rotativas do mundo comunista e os telex das agências de Informação espalharam a vitória dos nacionalistas moçambicanos. E Portugal honrosamente silenciou a afronta. Ainda hoje, nos calendários vendidos pelo Partido, o caso Ornar é apresentado como uma derrota do exército assassino dos colonizadores portugueses. Um militar confidenciou-me no dia 7 de Setembro, enquanto decorriam as conversações em Lusaka: — Tenho pena de que a Frelimo não repita neste momento o caso Ornar, levando a pé, da Zâmbia à Tanzânia, os militares portugueses que ali se encontram...

Um meu contacto militar — clandestino — entrou nos lavabos do snackbar Mondego, ao lado da Delegação do jornal. Passaram cinco minutos e não saiu. Era a senha. Dirigi-me aos lavabos. Entregou-me umas folhas dactilografadas e poupou palavras. Puxou o autoclismo e saiu. Ocupei o seu lugar e copiei o conteúdo. Era a lista dos portugueses a vigiar ou a afastar de Moçambique antes da assinatura do Acordo de Lusaka. Eram todos portugueses de rija têmpera. Dos bons. Podiam prejudicar a descolonização. Um que tinha o nome na lista levaria, poucos dias depois, um tiro que lhe perfurou o tórax e um braço, o único que o atingiu de uma rajada disparada para matar por uma força da Frelimo.

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O seu nome é Silva. Está vivo. Falei com ele — pouco — quando se preparava, já recuperado, para prestar declarações. A Frelimo também tivera conhecimento da lista pois outro, um homem idoso, de nome Perestrelo, funcionário dos Correios, foi incomodado seriamente pela Frelimo, já depois da Independência. Estes dois exemplos, de centenas que me era possível passar para o papel, provam que as Forças Armadas de Portugal tinham conhecimento da falta de honestidade dos dirigentes da Frelimo. Que sabiam que aquele partido não respeitaria qualquer acordo. Que ela atraiçoaria qualquer promessa de segurança futura que fosse negociada para os cidadãos portugueses. Não é possível analisar-se detalhadamente a evolução de todo o processo histórico da Frelimo sem chegar a essaconclusão. Mas era necessário romper com o passado, com a política marcada pelo colonialismo, e os responsáveis pelo Governo português, seguros do incondicional respaldo militar — que ao fim e ao cabo não era tão seguro — não olharam àsconsequências da entrega incondicional do povo moçambicano, e de muitos milhares de portugueses, a uma organização que enveredara pelo terrorismo sem moral, protegida pelo bolchevismo russo. Só o povo moçambicano e a colónia portuguesa — e alguns observadores internacionais— mediram a vil traição de que foram vítimas todos os habitantes de Moçambique, uma traição que finalmente não se viraria apenas contra eles, contra os quinze milhões de negros que viviam espalhados por todo o Ultramar português, e pêlos milhares de portugueses de Angola e de Moçambique, de Cabo Verde, Guiné e Timor, mas que fez desabafar sobre os milhões de portugueses da Europa umregime de austeridade económica, saindo beneficiados — e até quando? —, apenas uns tantos milhares de comunistas negros, que constituem a nova classe dirigente das excolónias portuguesas e alguns apaniguados ao partido político do Governode Portugal. Na congeminação dos erros que surgiram com o delírio político de alguns militares revolucionários progressistas e dos extremistas sem pátria, ambos guiados pelo barómetro político que oscilava entre a esquerda e a esquerdíssima, ambos protegidos pelo clima de insegurança social fornecido pela constante e sucessiva mudança de governo em Portugal, muita coisa foi escondida ao povo português. Endeusaram-se nos altares da religião vermelha os arautos da liberdade moçambicana, quando não era a libertação dos povos e das terras que estava em jogo no xadrez político do Governo de Portugal, mas a sua entrega ao império dos novos czares da Rússia. Não foi um hino de liberdade que ecoou pelas plagas moçambicanas, pêlos campos de mapira, de algodão, de quenafe, de chá, de açúcar, de tabaco, que penetrou nas cidades, nas aldeias, nos casebres humildes, nos riachos, nos rios, mas a «Internacional», acompanhada pelo compasso assassino do som de morte das rajadas das metralhadoras. Não estava em jogo a liberdade.

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Já o disse, no decorrer desta reportagem, que a liberdade existia no pensamento de todos. Dos negros, dos brancos, dos mestiços, dos indianos, dos chineses, de quantos nasceram em Moçambique ou se sentiam moçambicanos. Disse, também, que Marcello Caetano previra essa libertação e não a combateria com a sua influência política. Afirmei, ainda, que os presidentes negros da África Austral— agora denominada terceira força—, tinham os seus planos, estudados nos calmos gabinetes de Estado, e que a influência que então exerciam sobre Samora Moisés Machel levaria este a apoiá-los, planos honrosos que, a serem cumpridos, elevariam perante o mundo apartidário, ou verdadeiramente não alinhado, o nome de Portugal. Diversas soluções apareciam no universo da liberdade pretendida, mas não era liberdade que se jogava na política portuguesa. As intenções de quem a manobrava estavam traçadas e eram apoiadas pela mais drástica repressão policial, criminosamente embandeirada de defesa às conquistas democráticas do 25 de Abril. Com o estandarte da liberdade as autoridades portuguesas permitiram a prisão da totalidade dos dirigentes nacionalistas negros, com excepção de Miguel Murupa e de Domingos Arouca, os únicos que não aceitaram as promessas de garantias de segurança, prometidas pelo general António de Spínola — promessas honestas com intenção de cumprimento — e pelo general Francisco da Costa Gomes — que apenas quis colocar fora de combate os inimigos das suas ideias extremistas. Com a bandeira da liberdade as mesmas autoridades portuguesas fizeram emitir mandatos de captura a quantos conheciam, e mostravam conhecer, os verdadeiros caminhos para a liberdade moçambicana, a quantos amavam, e provavam amar, Moçambique e o seu povo, não conseguindo, mesmo tendo como aliado o tempo, provar ao povo português que crimes ou desvios praticaram os acusados, para basearem as suas drásticas atitudes policiais e de força. Entre eles lembro o mandato de captura passado ao eng.° Jorge Pereira Jardim. Entre outros recordo a prisão do general Kaúlza de Arriaga. Entre outros assinalo as demissões da então Junta de Salvação Nacional, dos militares Jaime Silvério Marques, Diogo Neto e Galvão de Melo. Mas a liberdade, uma verdadeira liberdade, era prometida a Moçambique por outros moldes e com outra cor. E essa forma de liberdade, que orgulhosamente deveria ter sido seguida pêlos dirigentes de Portugal, tem forçosamente de ser conhecida do povo português, para que finalmente se entenda toda a realidade dramática que representa a presença dos negros de olhar triste nas terras continentais do Atlântico, dos brancos desesperados, dos mestiços sem futuro, que pelas ruas de Portugal mendigam empregos, e comem, sem apetite, as esmolas internacionais oferecidas pêlos países que os reconhecem como vítimas de um drama para que não contribuíram, esmolas que não compensam, de forma alguma, nem tornam menos negro o luto da traição de que foram alvo. A liberdade moçambicana oferecia opções, mas apenas a terceira foi aceite pelos governantes portugueses. Sobre elas vou escrever, documentando-as.

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3 Foram libertadas, após uma visita ao Hospital de Lichinga, efectuada pelo secretário do ministro de Saúde e Assistência. Dessas sessenta mulheres que se encontravam hospitalizadas, a maioria em estado de anemia, faleceram em Lichinga dezanove, entre elas uma portuguesa, natural de Famalicão, de 19 anos, de nome Leonor, estudante de Farmácia em Lourenço Marques. (Nota do Autor)

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SEXTA PARTE AS OPÇÕES DA INDEPENDÊNCIA

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RECURSO ÀS ARMAS — DEPOIMENTO DE URIA SIMANGO

Na fúria suicida com que se pretendeu entregar Moçambique ao império moscovita foram preteridas, como já disse, diversas opções que conduziriam Moçambique à Independência. Os apregoadores da libertação da pobre gente colonizada, pretenderam levar de rompante a cabo a entrega da autonomia política de uma tão grande parcela, oferecendo os seus destinos a um partido armado, mediante uma série de assinaturas rabiscadas após dois dias de amistosas conversações. Estava em causa, e grande parte do povo moçambicano isso entendeu na primeira hora, a substituição da soberania portuguesa, exercida paternalmente, pelo jugo despótico do comunismo soviético. E entendendo, preparou uma rebelião nacionalista. No segredo de reuniões camufladas e fugindo às represálias da vigilância exercido pêlos representantes das Forças Armadas e do seu Movimento, que protegiam a entrega de Moçambique à Frelimo, foram elaborados planos rebeldes e consultados alguns países que podiam apoiar a iniciativa. O intuito era expulsar a Frelimo após a sua penetração em Moçambique, na fase em que Portugal, completada a entrega, teria forçosamente de lavar as mãos da contenda interna que se geraria. Seria o povo moçambicano, de todas as raças, em guerra aberta contra um Partido, que de pouco podia fazer valer as suas forças, enfraquecidas sem o emblema da libertação nacional e de luta contra o colonialismo, situações que deixariam de existir e que até então justificavam auxílios e protecções de diversos países comunistas. A luta deixaria de ser uma luta de emancipação, mas um confronto armado interno, causado por divergências políticas. A revolta contra a Frelimo foi planeada durante meses pelos conjurados, animados de verdadeiro espírito nacionalista. Não estava em jogo uma luta pelo poder. Este haveria de ser delineado pelo próprio povo moçambicano em referendum, mas uma enérgica negativa à aceitação de uma nova forma de colonialismo, identificada com o sistema político dos países totalitários. Contava o Movimento com o importante apoio de elementos das Forças Armadas, especialmente dos quadros e soldados moçambicanos veteranos da guerra e antigos e recentes elementos das tropas especializadas, criadas pelo general Kaúlza de Arriaga: os «G.E.» (Grupos Especiais de Combate) e os «G.E.Ps.» (Grupos Especiais Páraquedistas), aquartelados no Dondo mas ramificados por toda a colónia. Eram notórias, ainda, as adesões dos veteranos e actuais Comandos, escolados e treinados
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em Montepuez, e que formavam diversas companhias que, antes do 25 de Abril, estiveram sob o comando do major Jaime Neves. Todos estes experientes militares, que passariam a lutar não num exército colonialista mas numa força nacionalista que condenava o colonialismo, estavam ao dispor do movimento revolucionário, e enquadrariam o povo leal aos dirigentes dos diversos partidos políticos que se haviam aliado no Partido de Coligação Nacional. O movimento revolucionário seria dividido em duas fases, denominadas Plano Fase I, a qual compreendia a preparação de fundos para compra de armas, a politização das massas, e a angariação de militares para o engajamento na luta para a tomada do poder democrático; o Plano Fase II, representaria a intervenção bélica, em data a determinar. Durante a primeira Fase estava a ser tentado o apoio logístico de outros países, nomeadamente da África do Sul e da Rodésia, tentativa que não obteve, a princípio, resultados satisfatórios, ou pelo menos a contento dos líderes do movimento, por estes países não desejarem comprometer-se. O movimento estava, porém, pronto a intervir em Setembro de 1974, mês em que foi assinado o Acordo de Lusaka. Pelo interior da colónia vivia-se um ambiente de febril expectativa, e nos países vizinhos, portugueses e moçambicanos aguardavam com excitação o momento de actuar, propícia pela natural confusão que proliferava nas hordas da Frelimo, causada com a mudança radical da situação de terrorista rural, em luta contra a colonização do seu país, para a de soldado normal de um governo independente. Os meses de paz que antecederam o Acordo também trouxeram benefícios ao Movimento. Os guerrilheiros da Frelimo, acostumados aos sacrifícios proporcionados por longa vida de luta de guerrilhas na mata, fugindo a qualquer contacto com os grandes centros, foram engolidos pelas cidades e aburguesaram-se. Prosseguiram, porém, as acções de violência, de saque e de vício, que praticavam no interior moçambicano contra humildes campesinos, o que na sociedade evoluída, onde passaram a viver, não era tolerado com o mesmo cabecear displicente dos chefes da Frelimo. Estes queriam, a princípio, e para não assustar as futuras vítimas, mostrar-se mais civilizados do que na verdade eram, pois a maioria dos guerrilheiros que preenchiam os seus quadros eram adolescentes de quinze e dezasseis anos, e adultos que haviam abandonado a sociedade legal para fugirem à responsabilidade de crimes comuns que haviam praticado. A Frelimo teria de afastar da ideia dos moçambicanos os corpos encontrados queimados após haverem sido espoliados dos seus bens, os frios assassinatos dispensáveis numa guerra que se intitulava política, os saques nas lojas e cantinas do interior, o ataque sistemático a pacíficos camionistas, a desumanidade das minas, e outros procedimentos cruéis que eram apanágio da Frelimo. Para afastar a imagem de todo o passado criminoso que o ideal de uma guerra de libertação jamais podia proteger, necessário se tornaria retirar das fileiras grande parte dos seus guerrilheiros, os quais, automaticamente, se colocariam ao lado dos nacionalistas, introduzindo estes, por seu lado, elementos seus de confiança entre os novos recrutados pela Frelimo.
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Todo este trabalho de sapa estava em curso, aderindo ao movimento ainda os «O.P.Vs.» (Organização Provincial de Voluntários) e os soldados do Corpo de Milícias que em grande número se espalhavam por todo o Moçambique, desde o mais pequeno agredado humano à maior cidade. Porém, para que este movimento encontrasse o apoio internacional que lhe era necessário, teria que contar com a não ingerência das forcas armadas portuguesas, sendo consultado, directa e indirectamente, o Governo de Portugal que, após o 25 de Abril, se encontrava dividido por conflitos internos. Havia a esperança, contudo, de que o esforço dispendido em mais de dez anos de luta não seria esquecido num abrir e fechar de olhos por grande parte dos elementos das Forças Armadas. A dialéctica demagógica, o confusionismo, a frase fácil reeditada em cada discursata dos tribunos políticos portugueses, não teriam convencido muitos militares portugueses da inutilidade da guerra estúpida e cruel onde viram morrer os companheiros, e onde assistiram a actos de heroismo praticados por naturais moçambicanos. Estúpida e inútil ela teria sido se o seu desfecho proporcionasse ao povo moçambicano a mudança de tutela, a troca de colonizador, desmascarada na pertinácia dos auxílios moscovitas. O movimento esperava, deste modo, que o Governo de Portugal, não arrojando para longe dos seus ombros as responsabilidades contraídas em quinhentos anos de presença civilizadora, impedisse que o Governo moçambicano se visse reduzido à situação de partido único, situação anti-democrática que nenhum governante português permitiu para Portugal. Ou que, pelo menos, não lutasse contra a vontade do povo moçambicano que queria ser livre e democrático, que queria escrever com as suas mãos o seu destino, caminho que o povo português atabalhoadamente encetava. Os «leaders» do movimento anti-Frelimo acreditavam que o dr. Mário Soares, não impingisse a Moçambique, contra a vontade do seu povo, um governo totalitário social-fascista, desde que o povo, de forma bem clara, mostrasse não ser esse o seu desejo. Os líderes do movimento anti-Frelimo aceitavam a posição da Frelimo num Governo como partido, maioriotário ou minoritário, conforme as massas populares em referendum resolvessem. Os líderes do movimento anti-Frelimo eram contra a Frelimo-ditadura, contra a falsa apregoadora da total simpatia e adesão popular. O recurso às armas seria a derradeira solução, esgotados todos os meios dialécticos para afastar o conquistador armado, o açambarcador do poder. O movimento não era, portanto, uma força agressora mas, ao contrário, uma força defensora do povo, composta pelo povo e por ele enquadrada. Assim não aconteceu. O comunismo que os dirigentes militares portugueses sociais-fascistas não conseguiram impor em Portugal, mau grado as mais atrevidas tentativas, impuseram na totalidade do Ultramar, inventando em Moçambique o 7 de Setembro que veio causar uma onda de confusão no movimento revolucionário, determinando a sua destruição. O «7 de Setembro» foi o golpe de misericórdia que dispersou os líderes do movimento, exilando-os por diversos pontos do globo, ou que se agregaram a grupos
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populares para iniciarem outras formas de luta, aquelas que nesta reportagem já foram suficientemente descritas. O «7 de Setembro», simples atitude de desafrontamento patriótico sem cariz político, foi o foco incendiário, inteligentemente aceso e aproveitado pêlos extremistas moçambicanos com o apoio dos comunistas portugueses, que retirou ao povo moçambicano a possibilidade de afastar a Frelimo do palco político moçambicano, ou de, pelo menos, reduzi-la a um simples partido tirando-lhe as possibilidades de ser o Partido. Uria Simango, que foi presidente interino da Frelimo após o assassinato do dr. Eduardo Mondlane, e que era em Setembro de 1974 presidente do Executivo do P.C.N., descreveu do seguinte modo a surpresa com que foi acolhida a rebelião do Rádio Clube e as suas consequências destruidoras do movimento revolucionário a que me referi. As palavras de Uria Simango, que a exemplo do método que empreguei com os discursos e intervenções do Presidente Samora Machel, respeito totalmente na sua forma ortográfica, foram pronunciadas no campo prisional de Machingwea, na Tanzânia, primeiro calvário da senda tormentosa deste nacionalista, ainda hoje internado num campo de morte da Frelimo, no Niassa. Foram captadas e registadas por jornalistas, moçambicanos e tanzanianos. Posso confirmar a sua veracidade, e sei que elas vêm trazer bastante luz ao momento escuro e difícil que então se vivia em Moçambique. Uria Simango referiu-se a algumas individualidades portuguesas, esclarecendo, também, as suas posições em Setembro de 1974. Este testemunho é forçosamente um dos poucos documentos históricos da época, e foi pena que Uria Simangotivesse sido sonegado ao convívio humano pela Frelimo, pois muito mais do muito que ainda hoje permanece confuso seria esclarecido e facilitaria a, mesmo assim difícil, busca de elementos, aos futuros historiadores que empreenderem as pesquisas necessárias para a história da descolonização de Moçambique, visto que a história da colonização já se encontra demasiadamente historiada e adjectivada pela grande maioria dos escrevinhadores do nosso tempo. Mas Uria Simango calou-se, desarmado. O vento agora sopra da Rússia, a brisa da vitória e do ajuste de contas apontam, porém, para o povo Moçambicano. Um dia, mais tarde. Mas em breve... Passemos às afirmações de Uria Simango: «Depois da formação do P.C.N., uns cinco dias antes do 7 de Setembro, Murupa me disse que havia um senhor que queria me ver naquele dia em casa dele. Quando chegou a hora, fui. Foi-me introduzido como dr. Freitas. Ficámos os dois sem Murupa. Informou que havia um plano de mudar o Governo de Moçambique militarmente. A responsabilidade dele era de arranjar armas e dinheiro — que estava em processo—; queria saber se o P.C.N. apoiaria o tal projecto, o que respondi afirmativamente. Ele disse que não se sabia ainda quando é que isto seria até que tivesse o que estava a arranjar. Foi um encontro muito breve e separámo-nos. Este senhor era do F.I.C.O. e residia em Lourenço Marques.

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Na véspera de 7 de Setembro, houve outro encontro em casa do Murupa com Carvalho a pedido dele. Este é que expandiu o programa do Freitas. Disse que quando as armas chegassem a Lourenço Marques seriam carregadas por camiões via Beira até ao Norte do país. Tanto este como o outro não disseram onde as armas seriam compradas. O Carvalho é que disse que esperava que tudo estaria pronto pêlos dias 20 de Setembro, que a partir desse dia qualquer coisa podia acontecer. Também informou que estava a trabalhar na unificação das várias unidades de portugueses — comandos e outros — que dentro de pouco tempo teriam reunião com eles e aí sairia o comando. Tendo mostrado concordância ele disse que me manteria informado do desenvolvimento. Aqui terminou o encontro e só viemos a nos encontrar na Rádio. Neste plano contava-se que todo o trabalho seria feito pelos brancos — tropa do exército português. O P.C.N. não estava em condições de fornecer ainda homens para trabalho desta magnitude. Corria boato em Moçambique (Beira) que o gabinete português estava dividido, em que o grupo de Spínola era por muitos partidos e eleições, mas o outro queria só um Partido, tanto em Moçambique como em Angola... Dizia-se também que o Spínola tinha autorizado Moçambique e Angola para tomar conta dos governos e organizar eleições que teriam todo o apoio dele pessoalmente.. Por este motivo dizia-se que o Spínola estava maluco porque confrontava uma grande oposição aos seus planos. A respeito do apoio aos grupos de Moçambique e Angola foi confirmado pelo senhor Gomes dos Santos quando ele relembrou a delegação especial de Lisboa, que o Presidente tinha dito na presença deles que os ministros não estavam a executar as suas ordens como são dadas. Isto foi durante a ocupação do Rádio. O Gomes dos Santos citou o Presidente como tendo dito: Estes merdas dos ministros. Na Beira soubemos da tomada da Rádio nesse mesmo dia 7 de Setembro de 1974. Ninguém no P.C.N. sabia ainda do Plano Fase I. Três pessoas que eu devia informar, Gumane, Kambeu e Banda não estavam na cidade quando fui informado. Os dois primeiros já tinham partido para a Suazilândia e o Banda estava em Nampula ainda esperado para chegar. Não tinha passado uma semana quando falei com os senhores Freitas e Carvalho e conclui que não era o Plano que tinha apresentado e além disso nenhumas das preparações previstas teriam sido feitas. Todavia fiquei esperando detalhes, quenunca chegaram. Por volta das onze horas do dia 8 chegou o Costa a minha casa para dizer que o senhor Haider precisava da minha pessoa, que havia uma chamada de Lourenço Marques. O Haider informou que o Hanife tinha telefonado informando que o P.C.N. era precisado e que o avião para nos levar estava no aeroporto da Beira. Os meus camaradas, sem noção do Plano Fase I concordaram. Quando cheguei a casa do Haider já lá estavam todos preparados e informados. O Banda já estava na cidade e também lá em casa do Haider. Os seguintes membros do
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Executivo do P.C.N. partiram para a Beira: Basílio Banda, Narciso Nbule, Mateus Gwenguere, Uria Simango e Manuel Lisboa. Da Suazilândia vieram: Paulo Gomes e Arcanjo Gatabeu. A Joana Simeão chegou na mesma noite de origem desconhecida. Ficámos surpreendidos quando o grupo do Carvalho (Convergência) perguntou quem nos tinha chamado. O Hanife que nos podia ajudar a responder não estava presente porque era um dos activistas técnicos, não sei em que cidade. Estava o Grillo na mesa e o Gomes fazia muitos movimentos. Os membros da Convergência não eram activistas, Carvalho e Vasco. A primeira reunião foi com o chefe de Segurança (Faria) dentro da Rádio. Tratava-se de entregar a Rádio e o Grillo que era o porta-voz do grupo insistia que deveria haver uma outra reunião em que a Frelimo deveria estar presente para que se reformule a constituição do Governo de Transição. O membro do Governo disse que isso era impossível. Essa reunião não tendo resolvido o problema ficou para ser discutido mais tarde na mesma noite quando o chefe militar chegasse (Barbosa). Não tendo convencido o Grillo e outros para entregar a Rádio o Barbosa fechou a reunião prometendo que a reunião continuaria no dia seguinte de manhã com a delegação de Lisboa. Na Rádio estava toda a Delegação do P.C.N. e com o Barbosa estávamos eu e o Banda. A Joana veio mais tarde sem ter sido convidada. No dia seguinte a reunião com os enviados especiais do presidente Spínola teve lugar. Do lado do P.C.N. estavam: Uria Simango, Paulo Gumane, Basílio Banda e Kambeu. Dos nossos amigos estavam Grillo, Gomes dos Santos, Vasco e outros que não cheguei a conhecer. A delegação de Lisboa estava chefiada pelo tenente-coronel Dias. Do P.C.N. falámos eu e Gumane. Dos amigos, Gomes dos Santos e Grillo. Ë nessa reunião que Gomes dos Santos revelou que o Presidente Spínola tinha dito no encontro que tiveram em Lisboa. O tenente-coronel respondeu depois dos nossos discursos, que a sua missão era de ouvir e reportar ao Presidente e este, dentro de 24 horas depois do seu regresso, havia de responder. Falou-se de uma outra reunião mais tarde, e disseram-nos que nós, africanos, não éramos precisados, não era necessário que fôssemos. Nessa reunião, além do Gomes e Grillo não sei quem mais participou, e não soubemos o que foi discutido. Logo de manhã cedo no dia seguinte, iniciaram uma reunião na Rádio sobre a entrega da Rádio. A delegação do P.C.N. saiu da Rádio e da cidade no dia 14 de Setembro para a Beira, Nampula e Suazilândia, composta por Kambeu, Gwenguere, Narciso e Simango, Banda e Gumane e Hanife, respectivamente. O resto também saiu da Rádio no mesmo dia e a Rádio foi entregue.». Estava encerrado o capítulo primeiro da História de Moçambique como país, um capítulo fértil em tragédias como já descrevi. E enquanto pela cidade de cimento corria o sangue, as ruas se cobriam dos maiores dramas e de actos de selvagemferocidade, entrelaçadas com as mais tristes comédias engendradas pêlos extremistas, um outro drama acontecia: O movimento revolucionário nacionalista, alheio completamente à intentona do Rádio Clube, desmoronava. Desfazia-se.
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Deixando no seu lugar a mesma vontade do povo de fugir à ditadura que ia entrando no país ao som das pancadas de um novo Mollière, a política marxista adaptada a Moçambique por Samora Machel e o seu grupo. O povo faltara ao encontro com a revolução. Mas apenas a adiava. Ela continuava vibrando dentro de cada moçambicano. Dos que permaneciam em Moçambique os seus trabalhos de sapa revolucionária, minando, roendo os frágeis alicerces políticos em que o Partido assentava o seu domínio despótico. Dos que foram forçados a se afastar da sua pátria, organizando-se fora dela, nas mais diversas paragens do globo, prontos a responderem à sua chamada, dilatando pelo mundo toda a revolta à permanência em Moçambique de um Governo imposto por Portugal. A ambiguidade portuguesa definia-se nas posições tomadas. Os moçambicanos não podiam contar com Portugal para resolver os seus problemas. Todo o povo moçambicano sabia que abandonar a luta era eleger a incerteza, o caos, e consequentemente facilitar a permanência de Moscovo, de Cuba, da influência estrangeira no país. Era sacrificar o povo a novos tormentos, a uma moderna colonização. Detentora de um poder ilegal, por impopular, a Frelimo iria iniciar a longa embriagues ditatorial que tantas vítimas causou. Estava afastada a ideia de plebiscito. O povo português, nas terras metropolitanas olhava todo numa direcção — a democracia, caminhos que o povo moçambicano, por vontade portuguesa, não poderia trilhar sem guerra. Em Portugal desfazia-se a máquina comunista mas a sua obra ficava. Moscovo havia vencido. A África Austral estava quase nas suas mãos. 31. GENERAL SPÍNOLA: INDEPENDÊNCIA COM REFERENDUM

No biénio negro que segue o 25 de Abril —1975 e 1976 —, em virtude da ameaça comunista cada vez mais presente em Portugal (especialmente no período gonçalvista) e das intentonas de regresso ao regime fascista — o povo português decidiu-se, guiado por campanhas, a confundir os seus valores. Pode-se afirmar que os dirigentes de Portugal, e mesmo os que transportavam as melhores e mais honestas intenções, temiam as consequências de qualquer das suas mais inocentes atitudes políticas, pois elas, fatalmente, eram interpretadasduplamente pelas correntes extremistas. Para não lhe chamarem fascista um dirigente marxizava as suas atitudes, mas antes, ou depois, tomara, ou tomaria, fórmulas fascistas para o seu proceder, para não ser chamado de comunista. Este o ambiente de delírio político, de euforia ideológica, que acompanhou os meses de governo do general António de Spínola. O general Spínola, oficial íntegro e herói condecorado na guerra africana, mas, sobretudo, honesto cidadão português, tomou as rédeas do poder por ordem da

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Revolução, por escolha dos capitães de Abril, tendo como política Portugal e por interesse ideológico a salvação da Pátria. Fora o seu livro «Portugal e o Futuro» a bandeira da Revolução do 25 de Abril. E nessa sua obra o general mostrava que, sendo a libertação dos povos africanos do jugo colonial uma das questões básicas para a sobrevivência de Portugal, essa libertação não poderia significar a escravização dos mesmos povos a uma nova ditadura. O livro, erguido como bandeira na luta contra o regime, quiçá responsável maior pela sua queda, que foi lido como cartilha pêlos revolucionários que idealizaram a nova República Portuguesa, seria mais tarde condenado por alguns desses mesmos revolucionários. O primeiro Presidente da República da era chamada pós-fascista, não foge ao estigma fascista e resigna do cargo. A sua resignação seguiu-se à entrega de Moçambique à Frelimo e será erro separar as duas históricas ocorrências, afastadas apenas por duas semanas. O general António de Spínola havia sido traído. Seria a melhor solução? O período Gonçalvista veio provar que foi pelo menos a melhor opção. O general António de Spínola continuava quanto a mim, leal à sua consciência e à Pátria que sempre servira com honra. Ao resignar deixou um testamento político que é um símbolo de honradez, de dignidade e de lucidez. Nele, como sempre, a descolonização foi recordada: «Toda essa política e consequente processo de descolonização foram deturpados; numa intenção deliberada de os substituir (os princípios programáticos do Programa do M.F.A.) por medidas antidemocráticas e lesivas dos reais interesses das populações africanas. Esteve igualmente o espírito do M.F.A. promover a harmonia entre todos os credos políticos; mas essa harmonia jamais será possível quando, por um lado, os chefes declarados de alguns Partidos políticos fazem apelo ao bom-senso, e por outro lado os respectivos grupos de acção enveredam pela via da coacção psicológica através dos grandes meios de Informação, e até da violência, em flagrante negação da liberdade e a pretexto da insinuação caluniosa logo lançada sobre os seus oponentes.» Repito: «Toda essa política e consequente processo de descolonização foram deturpados; numa intenção deliberada de os substituir por medidas anti-democráticas e lesivas dos reais interesses das populações africanas»... Pois bem: Os valores foram tão confundidos e é tanta a fuga a responsabilidades, que é o general Francisco da Costa Gomes que viria a afirmar em Novembro de 1976, cuidando haver sido esquecida toda a sua actividade na descolonização, numa entrevista concedida ao «Jornal de Notícias»: «Acho que o ex-general Spínola deveria remeter-se a um silêncio, tanto quanto possível passivo, da actividade que possam levar a qualquer perturbação na situação política deste país.» Costa Gomes, após declarar que foi o general Spínola o único responsável pela descolonização de Moçambique e que, relativamente a Angola, «também teve responsabilidades que não pode enjeitar», acentua:
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«Foi também ele que fez as primeiras conversações com Mobutu e com Nixon, de que ninguém sabe o conteúdo e os compromissos que nelas se tomaram e, portanto nós — os que o seguimos—, tivemos logo uma preocupação; eu pelo menos: foi não tomar resoluções sobre a descolonização por «motu próprio». Criei logo uma comissão de descolonização, onde todos os assuntos eram discutidos e onde se tomavam resoluções que se vislumbravam como as melhores. E algumas até eram votadas. Quanto à subversão ter sido organizada pelas cúpulas marxistas da Revolução, devo dizer que nunca pertenci às mesmas. Ê uma afirmação gratuita do general Spínola.» Mas será mesmo? Quase não valeria a pena falar da posição do general Costa Gomes na descolonização de Moçambique e do restante Ultramar português. O povo de Moçambique sabe que o general Costa Gomes tomou parte nas acções mais trágicas da batalha da descolonização em campo oposto ao general António de Spínola, que foi forçado a ceder frente à enorme pressão governamental. E provo: Foi o general Costa Gomes que organizou a ida a Dar-es-Salam de um grupo de pseudo-democratas de Moçambique, para preparar o ambiente das discussões oficiais entre a Frelimo e as autoridades governamentais portuguesas. E quem eram esses democratas? Todos eles pertenciam ao Partido Comunista Português, ou situavam as suas ideias políticas ainda mais à esquerda daquele Partido. O povo de Moçambique não esqueceu a tomada de posição do general Costa Gomes na Beira e em Vila Pery, quando o verdadeiro povo moçambicano — não aquele acomodado em Dar-es-Salam — se manifestou contra a dúbia actuação dasForças Armadas Portuguesas, dominadas então por um grupo de oficiais extremistas. E o general Costa Gomes também não pode ter esquecido o que lhe foi dito por uma comissão do povo ... Mas há mais: Existe a sua afirmação que o condena: «Criei logo uma comissão de descolonização, onde todos os assuntos eram discutidos...». E com que poderes a criou? Não existia em Portugal um Presidente da República, sobre quem cairia essa responsabilidade? Não seria essa sua atitude uma admirável habilidade política em que se nomeava dono absoluto do poder? Não seria uma espécie detraição ao general Spínola, quando este general, ocupando o mais alto cargo nacional, se mostrava favorável à Independência moçambicana pelo caminho de um referendum nacional? Como pode estranhar o general Costa Gomes que ainda hoje não tenha conhecimento dos assuntos tratados nas conversações havidas entre o general Spínola e Mobutu, e o general Spínola e o presidente Richard Nixon «de que ninguém sabe o conteúdo e os compromissos que se tomaram...»?
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Não demonstra a atitude do general António de Spínola que já não confiava no apolicismo do general Costa Gomes, e confirma que, embora com a lentidão a que era forçado pelo seu espírito de honesta lealdade, o general António de Spínola sentia desmantelar-se ao seu redor, as ideias que enformaram o 25 de Abril?... Ninguém pode acreditar que foi o espírito de democrata apartidário que guiou o pensamento do general Costa Gomes ao nomear a sua Comissão de Descolonização. Ë flagrante a sua opção partidária. Foram ouvidos os heróis do 25 de Abril ao tomar a sua resolução? Pode distribuir-se a sua responsabilidade pêlos oficiais António Ramos, Almeida Bruno, Mendes Pereira, Manuel Monge, Neves, Lechener Fernandes, Virgílio Varela, Araújo Marques, Vítor Carvalho, Salgueiro Maia, Jaime Neves, Benjamim de Abreu, Rebordão de Brito, Marcelino da Mata e outros que não me vêm à memória? Claro que não. A Comissão de Descolonização era sua (sua, dele, general Costa Gomes) ... Pode agora o general Costa Gomes vangloriar-se da sua inculpabilidade na descolonização portuguesa, culpando um homem que a previu de modo completamente inverso, de um modo que satisfaria todo o povo africano e apenas descontentaria os negros comunistas que hoje, em obediência a Moscovo, tentam alargar o império neo-czarista ao resto do sub-continente? É agora, que a hecatombe africana é inevitável, que o general Costa Gomes quer arranjar culpados. Mas porque não os vai procurar nos membros da sua Comissão de Descolonização? A resposta é fácil: Porque os teme. E quem pode ser responsabilizado pelo 28 de Setembro de 1974, pela renúncia do general Spínola, renúncia que levou o general Costa Gomes à Presidência da República? Será também que o general António de Spínola o responsável por esses acontecimentos, que mais não são do que elos da mesma cadeia? A posição política do general Costa Gomes em Setembro de 1974 é evidente para todos, mesmo para aqueles que o sectarismo ou a ambição tenham temporariamente cegado. O general António de Spínola não teve apoio na forma de independência que idealizou para o Ultramar português do homem em quem mais confiava, o general Costa Gomes, o seu camarada, o seu amigo pessoal. Não teve apoio em Setembro, mês da Independência de Moçambique, mês da renúncia do general António de Spínola. Podem restar algumas dúvidas que o general foi traído? Podem os portugueses e os moçambicanos duvidar da sinceridade das palavras do general Spínola, que ficarão na história da descolonização portuguesa: «Toda essa política e consequente processo de descolonização foram deturpados ...»? 32. OTELO SARAIVA DE CARVALHO: A NECES SÁRIA CONFISSÃO

A posição do general António de Spínola é, aliás, comprovada por diversos responsáveis pêlos destinos de Portugal e das suas colónias em Setembro de 1974.
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Otelo Saraiva de Carvalho, um oficial do exército português, moçambicano por nascimento, confessaria, ainda antes da sua candidatura à Presidência da República, a sua intervenção na oferta de Moçambique ao império soviético, definindo, embora involuntariamente e levado pela euforia da sua vitória, a justeza das intenções federativas do general António de Spínola. Um pequeno livro, lançado em Lisboa, dá-nos a conhecer — e não podem restar dúvidas pois foi ditado pelo próprio — qual foi o papel de Otelo Saraiva de Carvalho — o braço direito do general Costa Gomes — após o 25 de Abril. Embora muito ficasse por dizer no livro do progressista Otelo de Carvalho, que se afirmou uma amodernada imitação de Fidel Castro, o que ali revela é mais que suficiente para se saber que foi um dos grandes responsáveis — senão o maior — da negociata com a Frelimo: a entrega de Moçambique. Mas, repare-se, a sua assinatura não consta no Acordo de Lusaka. Ele era apenas um vigilante, um conselheiro, um braço forte, do general Costa Gomes. Após declarar ser na altura — Setembro de 1974 — tarde de mais para levar avante a ideia federativa do general António de Spínola, Otelo de Carvalho responde à seguinte pergunta de «Cadernos Portugália»: «Cadernos Portugália» — Essa seria a justificação para que nas primeiras negociações os negociadores políticos fossem sempre acompanhados por negociadores militares. No seu caso, por exemplo, quando foi a Lusaka... Otelo de Carvalho — Exactamente. Comigo, no entanto, o general Spínola ficou bastante desiludido. Em Lusaka, eu vi desde logo que a única solução era o que se veio a efectivar — não havia outra possível. O dr. Mário Soares, muito cauteloso e com elevado espírito diplomático, durante as negociações não se comprometeu de modo nenhum, falou sempre com firmeza mas com «sentido político». Eu expus as minhas ideias numa linguagem aberta sem rodeios. Senti, claro, que diplomaticamente estava como costuma dizer-se a «espalhar-me», mas não era capaz de falar doutra maneira, a partir de certa altura calei-me. O resultado foi que Samora Machel e os homens da Frelimo ficaram um bocado desconfiados com o dr. Mário Soares e a mim adoraram-me... Quando chegámos a Lisboa, o dr. Mário Soares pediu-me que fosse com ele a Belém dar contas ao general Spínola do que se passara. Mário Soares expôs o mais cautelosamente possível o problema ao general e, depois, passou-me a palavra. Eu disse claramente quais as condições da descolonização e referi a posição da Frelimo que me parecia ser a única correcta e possível. O general Spínola «atirou-se ao ar». «Tem de haver outras soluções, não é nada disso», gritava o general, «não quero ouvir mais nada; você o melhor que tem a fazer é calar-se». Limitei-me a reforçar as minhas afirmações, insistindo em que a realidade levava-nos a ter de aceitar outro tipo de descolonização que não o previsto pelo general, até porque as nossas tropas (e isso eu sabia-o bem) não estavam dispostas a continuar na mesma situação. Atingira-se um tal ponto de saturação que o 25 de Abril surgia como o fim de um pesadelo. De facto, se queríamos sair de Moçambique de cabeça levantada, tínhamos de ser nós a tomar a iniciativa. Caso contrário corríamos o risco de ter de lá sair com uma derrota vergonhosa às costas. De
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resto, só concordando com a Frelimo tínhamos hipóteses de evitar que se cavasse um fosso total entre nós e o futuro Moçambique. «Não senhor, não pode ser assim — dizia o general Spínola — porque se for preciso, eu, ao meu nível, falo com o Nixon e ele manda tropas americanas para lá». Chamei-lhe a atenção para o risco de uma vietnamização do conflito em Moçambique que, com certeza, nem ao próprio Nixon interessaria. «Mas se não for o Nixon a África do Sul dá-nos tropas» — continuava o general Spínola que procurava o máximo de argumentos para evitar a solução preconizada, ou seja, uma solução política (pela qual de resto o Exército português lutava há dez anos) que teria de se encontrar através de um partido que fosse o mais representativo do povo moçambicano e esse partido era a Frelimo que, embora não represente todo o povo era, sem dúvida, aquele que havia lutado pela independência da sua terra, que sofrera na carne todos os horrores de uma guerra de dez anos. O nosso interlocutor válido era a Frelimo, não só pela sua grande representatividade como também pelo facto de ter sido o partido que lutou demoradamente pela independência, e uma vez que ela estava disposta a assumir a responsabilidade de encetar a árdua caminhada para a construção do seu novo país, era a ela e com ela que teríamos de chegar a acordo, (sic) Nas palavras de Otelo Saraiva de Carvalho está a absolvição completa do general António de Spínola, se alguma vez esteve em jogo, na consciência dos bons portugueses, a sua honesta intervenção na descolonização portuguesa. Mas nota-se, ainda, laivos de cobardia da parte de um oficial do Exército português que não podem macular a honra dos seus pares. Não pode estar em jogo a honra militar. Jogou-se apenas conveniências partidárias, mercê de uma paciente e trabalhosa infiltração comunista nos quadros do oficialato português. Mas, mesmo assim, a desonrosa actividade dos comunistas semPátria, que trocaram o Hino Nacional pela Internacional comunista, não cobre, apenas suja, a heróica e patriótica acção dos soldados de Portugal. O Exército de Portugal, cumprindo o critério anti-patriótico de Otelo de Carvalho, não só perdeu a guerra mas, também, perdeu a paz. A guerra prossegue em Moçambique, em Angola, em Timor, e Portugal, na sua pequena dimensão atlântica, luta agora, estoicamente, para que não perca a paz. Não era a solução de Otelo Saraiva de Carvalho o caminho para a paz mas sim a vereda para a desonra. Mas como foi seguido por outros oficiais na sua euforia progressista? O general Silvino Silvedo Marques, responde: «Os capitães portugueses, do quadro permanente, profissionais, sem estarem derrotados em qualquer teatro de operações, e muito menos no seu conjunto, recusaram enfrentar militarmente um inimigo, que há 14 anos era combatido por oficiais que já não eram capitães, entendendo que a solução da luta era política. Como foram os jovens militares levados a este atitude é problema que será certamente averiguado e conhecido. Cansaço de capitães (que não de majores antigos, tenentes-coronéis e coronéis), de oficiais, depois importantes, de engenharia, de transmissões, de Cheret, da administração militar, até da marinha, parece explicação sem fundamento. De qualquer forma, perdida a guerra a 25 de Abril,
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restava, quanto a mim, nãoperder a paz, nem para o que ficasse de Portugal, nem para o que era então o seu ultramar, cujas populações de muitas etnias, se haviam unificado por séculos de convivência e de miscegenização física e cultural. Ganhar a paz, após o 25 de Abril, era levar as populações a autodeterminarem-se, mediante o processo reconhecido no Mundo como válido para o efeito: o Referendo». E o último governador-geral de Angola, general Silvino Silvério Marques, referese à descolonização na mesma entrevista que concedeu ao semanário «O Jornal», afirmando: «Somos muitos os que sabemos que as forças militares que se portaram com geral dignidade e mesmo, amiudadamente, com excepcional bravura, em 14 anos de dura guerra, foram levadas a escrever as páginas mais vergonhosas da história militar do nosso povo, ao mesmo tempo que se caracterizava como original e exemplar o processo da chamada «descolonização». Desviados das suas funções, a generalidade dos quadros militares desacreditava-se, entretanto, passando a fazer, sem competência, política, economia, administração... O desprestígio interno e externo atingido pelas Forcas Armadas, em resultado de tudo, foi sem paralelo na nossa história contemporânea. Muitos vivemos, com o coração a sangrar, a profunda tragédia (a maior de sempre do nosso povo) dos que, deixados atirar ao mar, tudo perderam: entes queridos, mortos ou ultrajados, bens de uma vida inteira, e até, verdadeiramente a própria Pátria que já não encontram. Estruturalmente militares, muitos sentimos a injustiça, e a vergonha, da acusação, cada vez lançada com maior iinpudor sobre as Forças Armadas, que atribui à derrota, não sofrida, a razão da entrega de todo o Ultramar (o que estava em guerra e o que se encontrava em paz), por políticos profissionais, civis uns, usando farda outros, a Movimentos, por coincidência todos marxistas. E não compreendemos que os mesmos que têm revelado as manipulações sofridas, à luz do dia, após o 25 de Abril, tenham escrúpulos em as admitir anteriormente, na penumbra da conspiração, concebidas a partir de «comités», gabinetes, chancelarias. Preferem todos ser cúmplices e suportar o labéu de derrotados, que sabem não terem sido, a dissociar-se de manipulações e manipuladores de facto. Gostávamos de poder ser indulgentes ao recordar a preocupação havida com o prestígio das Forças Armadas e a indignação apregoada perante a eventualidade delas servirem pêlos políticos de então de bode expiatório de um insucesso no Ultramar, e verificar a contradição entre as intenções e a tristíssima realidade provocada. Sem esquecer que à repulsa pela ultrapassagem dos camaradas milicianos, não respondeu igual escrúpulo na ultrapassagem (e de que forma) dos camaradas do quadro permanente ... Comprometido em tais antecedentes e sequelas do «processo da descolonização» existe no nosso país um grupo de homens que, sem lugar a dúvidas, carrega o desprezo (e até, perigosamente, o ódio) de milhões de

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concidadãos. Alguns até insultaram a História, comparando, sem pudor, a sua «descolonização», com a maior epopeia do povo português: os Descobrimentos. Ultimo Governador-Geral de Angola nada tenho com esse grupo.»

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KENETH KAUNDA: MOÇAMBIQUE, COMUNIDADE DE CULTURA LUSA

A Independência de Moçambique não interessava, porém, apenas a moçambicanos e a portugueses. Muitos países do mundo africano esperavam ansiosos o término da guerra, para solucionarem os seus problemas internos, olhando interessadamente as antigas colónias portuguesas por a elas se encontrarem ligados por interesses comuns, ou por, em alguns casos, dependerem manifestamente dos desfechos das guerras de libertação do continente. Entre estes destacavam-se o Malawi e a Zâmbia, e este último país desejava acabar com a guerra o mais rapidamente possível, sendo opinião do presidente Keneth Kaunda que a via mais fácil e acessível seria a negociação pacífica com o Governode Portugal. Kaunda tentou, por diversas vezes, estabelecer com Lisboa, e nas mais diversas circunstâncias, vantajosos acordos, expondo com clareza as suas intenções medianeiras. A Zâmbia, antiga colónia britânica — Rodésia do Norte — encontra-se afastada do mar, dependendo, para o escoamento das suas riquezas — especialmente o cobre —, dos portos angolanos e moçambicanos, nomeadamente dos portos de Lobito (Angola), Beira e Nacala (Moçambique). Deste modo, os movimentos de libertação africanos, ao requererem o seu apoio logístico à Zâmbia — que Keneth Kaunda, pressionado não podia negar — colocaram em desagradável posição económica aquele país que necessitava, para sobreviver, dos acessos ao mar apenas possíveis pêlos portos sob dominação colonial portuguesa. Por seu lado Portugal, fechando os olhos ao dúbio comportamento zambiano, continuou a permitir o escoamento do cobre daquele país pêlos seus portos, ao mesmo tempo que nos cais de Benguela e da Beira, eram descarregados milhares de toneladas das mais diversas mercadorias destinadas à Zâmbia, quase a totalidade proveniente de países de política ocidental, especialmente dos Estados Unidos da América, país que também era e é o principal comprador do cobre zambiano, a ele se seguindo o Japão, a França e a Alemanha Federal. A Zâmbia, deste modo, empregando claramente uma política dupla, auxiliava, com bases de apoio logístico no seu território, os guerrilheiros moçambicanos e angolanos, e não só os movimentos que viriam a tomar o poder político naqueles dois novos países — foi o país que mais auxiliou a Coremo, o movimento de libertação nacional moçambicano rival da Frelimo — mas quantos erguiam as suas armas contra o colonialismo português, continuando a servir-se dos portos portugueses para o escoamento das suas riquezas e para o seu abastecimento económico, perante o dar de ombros consentidor dos governos de Salazar e de Marcello Caetano.
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A sobrevivência económica da Zâmbia caracterizava-se, aliás, por uma autêntica caracterização política. Permanecendo como um bloco que procurava garantir uma certa influência no sub-continente africano, permitia a penetração do capitalismo internacional nas suas fronteiras, ao mesmo tempo que não menosprezava a ideologia marxista, exportada em diversos auxílios pelas duas grandes potências comunistas mundiais — a União Soviética e a China. O regime de Keneth Kaunda ficava, deste modo, de mãos livres para escolher, no momento oportuno na conjuntura de guerra fria que o mundo atravessava, o apoio mais forte para debelar a sua frágil economia, embora o seu sentir político fosse notoriamente pró-ocidental. Voltando à posição do Governo zambiano perante Portugal e a Frelimo recordo, entre muitos casos que, numa das minhas muitas reportagens efectuadas nos recintos portuários da Beira, em 1970, detectei, a bordo de um navio britânico, para serem desenvencilhadas naquele porto português, três viaturas ligeiras e uma ambulância destinadas à Frelimo, provenientes de um dos países nórdicos. Havendo no atrevimento zambiano um claro interesse de notícia — para mim — redigi-a, mas ela não passou da Censura. As viaturas, porém, foram normalmente desenvencilhadas no dia seguinte e seguiram o seu destino — Lusaka — atravessando um bom pedaço de território moçambicano — português ainda —, em vagões da Trans-Zambézia Railways para o Malawi, de onde seguiriam por estrada para a Zâmbia. E note-se: Claramente, para que toda a gente visse, o destinatário continuava exposto — Frelimo. Havia, pois, uma oficializada permissão portuguesa na assistência à Zâmbia e nas relações entre Portugal e aquele país, mesmo com prejuízo de Portugal, disfarçada, por vezes, nas actividades diplomáticas do cônsul do Malawi, paradoxalmente um cidadão português, o eng.° Jorge Pereira Jardim. Entretanto, as relações entre a Zâmbia e a Rodésia do Sul, que caminhavam de más para péssimas, vieram a ser totalmente cortadas, conduzindo ao inevitável desfecho do encerramento das fronteiras entre aqueles dois países. As minas zambianas afastavam-se ainda mais dos mercados internacionais, por os acessos aos portos portugueses serem praticados, em grande parte do percurso, pelo caminho de ferro rodesiano. A situação não podia ser mais caótica para a Zâmbia. As pressões internacionais obrigavam Keneth Kaunda a decretar o suicídio económico do seu país. A Zâmbia continuava a ser uma peça do jogo manejado pelas influências das grandes potências. O governo de Keneth Kaunda passou a caracterizar-se pela progressiva agudi-zação da situação social. As ajudas que apareciam não resolvem os problemas. A inflação aproximava o país da catástrofe. A alta dos preços era geral para todas as mercadorias de uso corrente, e muitas, de primeira necessidade, desapareciam dos mercados. Greves e manifestações estudantis turvavam a calmia de Lusaka. E Keneth Kaunda usa de habilidades para enfrentar o problema. O país, a que lhe era possível recorrer na aflição — a União Soviética—, de nada lhe pode valer. Que lhe pedisse armas e as teria. Que lhe solicitasse homens e receberia os desempregados que enxameavam as cidades, vilas e aldeias cubanas ... Estava aberto
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o caminho para a expansão comunista chinesa na Zâmbia, já presente na África Austral, na vizinha Tanzânia. Só a China, vestida com as roupagens de fada milagreira, era capaz de accionar o fenómeno da salvação económica da Zâmbia. E assim nasceu o Caminho de Ferro Tanzam, que, atravessando imensas regiões desérticas de África, unia a Zâmbia e o seu cobre aos portos do Oceano Indico na Tanzânia. Economicamente, o gigantesco caminho de ferro milagreiro era um desastre. Mas ele permitia à China a infiltração no país de muitos milhares de técnicos chineses, que, imediatamente, rodearam a construção ferroviária de outras iniciativas económicas previamente programadas que iam compensando, ou pelo menos amortizando, o desperdício de verbas que a iniciativa ferroviária consumia. O valor do gesto altruísta chinês passou a ser pesado pela China apenas na balança política. A sua vitória era dupla: O seu prestígio trepava na África Austral, ao tempo que caía em descrédito a potencialidade soviética. Mas, repare-se: Não decrescia, na política de Keneth Kaunda, a posição ocidental, marcada pêlos Estados Unidos da América. A situação económica da Zâmbia continuava, mesmo assim, precária. A inflação, galopante. Mas Keneth Kaunda não perde o controlo da situação e os chineses, já instalados no país, efectuam estudos económicos, tentam erguer a agricultura, aproveitam as zonas florestais, disfarçando, em todos os auxílios, que a sua maior influência — o Caminho de Ferro Tanzam — de pouco valeria à Zâmbia. O escoamento dos minérios pelo Tanzam era moroso, caro, e o porto de Dar-esSalam não estava apetrechado para garantir o normal escoamento de minério que os mercados compradores exigiam. E, porquanto o porto da Beira também semostrasse pequeno para armazenar toda a mercadoria destinada à Zâmbia, mais uma vez Portugal, por intermédio do consulado do Malawi, encontrou soluções de emergência para o problema de Keneth Kaunda, oferecendo todas as possibilidades de escoamento que o caminho de ferro malawiano podia oferecer até a um transbordo, naquele país, para transportadores rodoviários. Como já disse, a Zâmbia empreendia, desde a sua Independência, uma jogada política mistificando simpatia a todas as ideologias para atrair favores. Entregava-se, porém, conscientemente, à política pró-ocidental, pois não lhe convinha, nem erafavorável aos seus interesses económicos — os mercados compensadores da venda do minério — mais vizinhança marxista na África Austral do que aquela que já existia. Lembro, para que melhor se entenda a lógica em que Keneth Kaunda baseava a sua inclinação política, que a África Austral se encontrava dividida em mosaicos políticos que formavam um irregular mural. Enquanto a Tanzânia era dominada por um governo pró-chinês, os futuros dirigentes de Angola mostravam tendência marxista soviética — tendência que se viria a concretizar com a Independência. A Rodésia, com um governo pró-ocidental, encontrava-se numa situação periclitante, atacada por quatro grupos de libertação de diversas tendências políticas — um marxista, um maoista, um não alinhado, e um pró-ocidental — enquanto o
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Malawi prosseguia, sob o domínio vitalício do dr. Hasting Banda, a sua política ocidental. Os restantes países (com excepção de Moçambique que também mostrava tendências marxistas em alguns dirigentes mas não na totalidade da Frelimo nem no seu sector mais importante), nomeadamente a Botswana, o Leshoto e a Suazilândia eram também de política ocidental, rumo que Keneth Kaunda gostaria de ver ser seguido pelo futuro Moçambique independente. Os sonhos de Keneth Kaunda iam, porém, ainda mais longe. Admirando a política multi-racial portuguesa, bem diferente da política inglesa e alemã que influíram no subcontinente, ele desejava que Moçambique se transformasse num país de cultura lusitana — ocidental, portanto—, uma repetição do milagre do Brasil. E ao tempo que auxiliava a Frelimo, que lentamente se ia marxizando, aceitava quaisquer outros movimentos subversivos contra o colonialismo português, não desesperando de encontrar, a meias com Portugal, uma solução pacífica, negociada, que conduzisse o país à situação de não alinhamento, com tendências ocidentais, mais favorável a contrabalançar as influências que se sentiam pesar em toda a África. Tentou o presidente Keneth Kaunda abrir os olhos a Portugal em diversas ocasiões, levando-o a que aceitasse a sua mediação que oferecia na intenção de conduzir Moçambique a um regime democrático e nunca a um regime comunista integrado no imperialismo soviético e chinês. E dava garantias da sua sinceridade. O que faria mudar Keneth Kaunda a seguir, a ponto de ser no seu país que Moçambique recebeu das mãos de Portugal o alvará de colónia soviética? Keneth Kaunda não mudou, mas não tinha outra opção. Moçambique era empurrado para o domínio russo pelo governo de Portugal, eleito por si próprio sem referendum nacional, e pela comissão de descolonização nomeada pelo general Costa Gomes — um português como os outros sem procuração nacional — sob as ordens do Partido Comunista Português. Qualquer oposição do dr. Keneth Kaunda às directrizes dos governantes portugueses seria considerada pelos observadores africanos como uma demonstração de luta contra o grito de liberdade que ecoava pelo mundo africano e pêlos mercados onde se encontravam os vendilhões, que compravam, vendiam e negociavam as antigas possessões do império português — a O.N.U. e a O.U.A. O dr. Keneth Kaunda teria que aceitar, contra as suas tendências políticas, contra os interesses do seu país, contra os alicerces de estabilidade do sub-continente africano, a entrega de Moçambique a Moscovo. Do mesmo modo o dr. Keneth Kaunda teria de fingir ficar feliz com a oferta de Angola ao império comunista, tentada, desde ó início, pêlos homens da descolonização do general Costa Gomes, processo manigante que o general António de Spínola, isolado, sem apoio dos seuspares, tentou ingloriamente evitar nas tão discutidas conversações privadas com Mobuto do Zaire e com Richard Nixon. Melo Antunes chegou a temer o obstáculo de Savimbi. E chegou a mostrar temor, tentando-o aliciar para as hordas moscovitas, tornando mais forte o movimento comunista de Agostinho Neto. Não lhe era possível usar os processos moçambicanos e aliciar com a morte ou com o silêncio dos campos de reabilitação da
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Frelimo os não comunistas contrários a Samora Machel e usou com Savimbi as balas de açúcar tão do agrado comunista. Savimbi não caiu e a luta sob a sua direcção continua em Angola, mas o essencial, entretanto, estava conseguido. O governo angolano era comunista. Recordo, como achega, as recentes declarações de Jonas Savimbi, da Unita, concedidas ao «Fígaro», e esquecidas pela grande imprensa portuguesa — especialmente pela estatizada—, a respeito do empurrão que Melo Antunes não disfarçou, mas que Savimbi soube evitar, para cair nos braços dos novos czares da Rússia. Savimbi falava de Agostinho Neto mas, mais uma vez, foi colocado em foco o nome do negociador Melo Antunes, um dos maiores responsáveis pêlos dramas impostos aos povos das antigas colónias portuguesas: «Neto é um comunista. Foi por isso que eu não aceitei a proposta feita por Melo Antunes, em Lusaka, para organizar em Viena, uma conferência secreta entre russos, Neto e eu próprio.» Podia o dr. Keneth Kaunda, sem se comprometer politicamente perante o mundo atento aos seus gestos e atitudes, resistir à armadilha que espreitava as colónias portuguesas e que fora engendrada por Moscovo, que tinha do seu lado um grupo de portugueses internacionalistas comandados pelo general Costa Gomes? Não. De todos os cantos do globo, em orquestração, erguiam-se vozes ratificando o espírito descolonizador dos novos portugueses. Quaisquer divergências ou críticas não seriam toleradas se essa era a vontade portuguesa. A opinião política mundial era unânime e Keneth Kaunda não pôde sugerir emendas à intenção portuguesa. Apenas apoiá-las, ou não. O mundo apregoava que o futuro de Moçambique se delineava promissor e auspicioso e com a derrota das ideias de Keneth Kaunda o Ocidente perdia a sua principal figura de proa e o comunismo russo reavivava a sua infiltração no continente. Keneth Kaunda cedeu. Mas cedendo continuou a ser o mais lúcido cérebro da linha da frente negra da África Austral, daquela linha da frente que reafirma, constantemente, o seu compromisso em apoiar a luta armada pela libertação do Zimbabwé (Rodésia), como a única maneira de propagar a fé marxista pelo continente Sul a seguir, ao mais moderno império mundial — o comunismo soviético. Para Moscovo o desenrolar dos acontecimentos no sub-continente africano foi o triunfo e a plenitude. Valendo-se da atmosfera de optimismo e de nacionalismo, a Rússia desempatou o seu potencial de forças com o Ocidente, criando novas bases estratégicas na rota do Cabo. Mas no silêncio do seu gabinete, quando se desfazem nos ouvidos do dr. Keneth Kaunda as vozes, que não escondem ódios mas fielmente os traduzem, de Július Nyerere, de Samora Machel e de Agostinho Neto, o presidente da Zâmbia deve recordar, com pena, o insucesso de todas as suas iniciativas e dèmarches para fazer nascer, nas terras africanas que caminham para palcos dantescos, um novo e portentoso Brasil de cultura lusa, cristão, chamadoMoçambique. E entenderá que as soluções que não foram aceites, teriam trazido a paz e o progresso aos quinze milhões de negros das duas maiores colónias portuguesas e a
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segurança aos portugueses que ali residiam, e serviria de travão ao avanço comunista na África Austral, que alastrará o sangue, o terror, a incerteza, a miséria, o caos, aos seis milhões de negros rodesianos e às duas centenas e meia de milhares de brancos que povoam aquela antiga e tão conturbada ex-colónia inglesa. Resta apenas a imagem central do «complot» comunista ainda de pé. A destruição da influência ocidental será tentada. Para já os movimentos de libertação que, medrosos e trôpegos, fazem teatrais aparições nos tablados sul-africanos são marxistas e a campanha internacional já foi urdida. Os quatro milhões de brancos sulafricanos e os vinte e quatro milhões de negros do mais forte e rico país africano serão a tentativa mais arrojada da União Soviética, que apenas poderá ser sustida por uma violenta e definitiva acção do Ocidente. O dr. Keneth Kaunda sabe que a União Soviética olha a única fatia que lhe falta mastigar da África Austral, estendendo o seu domínio até ao Cabo. Sabe que os países pró-ocidentais do sub-continente são os mais pequenos e mais fracos agora. A defesa da política ocidental era afirmada pela presença da cultura portuguesa em Angola e Moçambique e hoje o último baluarte é a África do Sul. Se este cair sob o domínio de um governo marxista-negro a África está conquistada pelo império soviético e o Ocidente mais perto do seu fim. O dr. Keneth Kaunda sabe isso e tentou evitar a tempo o drama que se avizinha e do qual é difícil prever as consequências. Mas a História, que condenará os vendedores do império português que incendiaram a África Austral, registará a sua oposição, disfarçada mas activa, ao crime que, conscientemente, Portugal cometeu por intermédio de um grupo de nacionais auto-nomeados dirigentes. 34. PLANO DE LUSAKA: CAMINHO PARA A PAZ

No dia 13 de Setembro de 1973, o dr. Keneth Kaunda, auxiliado por Marx Chona, passava para o papel o seu Plano de Lusaka para ser apreciado pelo Governo de Portugal. Seria seu portador o cônsul do Malawi, eng.° Jorge Pereira Jardim, então nas boas graças do governo de Marcello Caetano. Alguns dirigentes da Frelimo haviam tido prévio conhecimento do Plano e se não o aplaudiam, aceitavam-no pelo menos. A Frelimo era assolada pela crise que já descrevi e a solução encontrada pelo Presidente da Zâmbia punha termo aos fantasmas da derrota que acompanhavam muitos dos seus chefes. O Presidente maoista da Tanzânia, também tinha conhecimento do Plano e sobre ele havia discutido com Kaunda em diversas reuniões. Para Nyerere, a não concretização do avanço russo no sub-continente era meio caminho para agradar aos proprietários da sua simpatia — a República Popular da China — e Moçambique seguiria depois, na paz, a inclinação política que lhe aprouvesse, ou que mais se enquadrasse na forma de sentir do povo moçambicano. Aliás, uma nação
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de influência lusitana implantada no meio do continente elevaria as possibilidades de equilíbrio político, favorecendo todos os territórios vizinhos. Dividía-se o Plano em dois documentos distintos. No primeiro, o Presidente Keneth Kaunda descrevia o ponto de vista da Zâmbia na evolução dos territórios africanos portugueses, com vista à procura do caminho da paz, com honra, sem ressentimentos que viessem mais tarde a motivar o renascimento de atritos entre os dois povos — o português e o autóctone. Desconheciam os autores da descolonização exemplar o Plano de Lusaka do dr. Kaunda? ... Creio estar fora de hipóteses o seu desconhecimento pois ele chegara a alguns dirigentes portugueses. O que aconteceu foi que os planos de descolonização, dissecados pelo grupo nomeado pelo general Costa Gomes, eram outros e bem diversos, como se depreende do teor do Acordo de Lusaka, assinado um ano depois em 7 de Setembro de 1974, onde não são ressalvadas quaisquer cláusulas que exprimam a intenção de salvaguardar os interesses dos portugueses residentes na colónia, onde não é protegida a cultura portuguesa, nem a memória dos seus mais altos valores. Foi sob a «protecção» do almirante Vítor Crespo — um dos membros da Comissão de Descolonização do general Costa Gomes — que todos os monumentos portugueses foram apeados com raiva, e alguns destruídos ou danificados. Nãoescaparam à sanha destruidora os monumentos de Camões, de Vasco da Gama, de Gago Coutinho, de Sacadura Cabral, etc. Era necessário atirar ao lixo toda a recordação de Portugal e colocar, no seu lugar, as figuras de Lenine, de Karl Marx, de Mao Tse Tung. O inculto comissário político da cidade de Moçambique, justificaria ao povo o motivo da destruição do monumento de Vasco da Gama com as seguintes palavras: — O colonizador Salazar, para escravizar os africanos, mandou Vasco da Gama a Moçambique descobrir o caminho marítimo para a índia. E só assim, filosofando desta maneira, a acção destruidora dos alicerces de uma civilização — que mesmo assim não fenece — consentida pelo almirante Vítor Crespo pode ser entendida. Por mais socialista que fosse a atitude do alto comissário de Portugal em Moçambique, a farda que envergava e o cargo que exercia davam-lhe a obrigação de zelar e de fazer respeitar os símbolos de Portugal, como os valores espirituais e humanos que eles representavam. Os destinos do povo moçambicano e dos portugueses foi jogado em Lusaka no dia 7 de Setembro de 1974, por portugueses, o que torna necessário divulgar o que um ano antes havia sido esquematizado por estrangeiros: O Presidente Keneth Kaunda e seus auxiliares. Por isso transcrevo, na íntegra, o Plano do Presidente Kaunda. E que o leitor seja o juiz: «Confidencial República da Zâmbia
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Ponto de vista da Zâmbia na Evolução dos Territórios Africanos Portugueses: A Zâmbia prossegue uma política de paz genuína. O Governo da Zâmbia continuará a esforçar-se para consolidar a paz na Zâmbia e no mundo. O Governo da Zâmbia interessa-se em ter ao redor da Zâmbia vizinhos estáveis e prósperos. Moçambique é um deles. A paz que a Zâmbia pretende em seu redor e no mundo em geral não é apenas a ausência de conflitos mas sobretudo a existência de harmonia, respeito e entendimento, tudo firmemente assegurado pela cadeira da justiça. 2. A Zâmbia prossegue uma política não racista. O Governo Português tem demonstrado que, ao contrário da África do Sul e da Rodésia rebelde, participa nos princípios fundamentais do não-racialismo. As lições da História demonstram que o mundo se encaminha para uma maior integração humana e que a raça humana nunca mais voltará a ser a mesma. O Governo da Zâmbia aceita os milhares de brancos na Zâmbia e no resto da África Austral como uma realidade geográfica, histórica, social e cultural que terá tremenda influência no desenvolvimento humano desta parte do mundo. Os dirigentes africanos não podem abdicar das suas responsabilidades para com as raças não-negras, tal como não espera que os Britânicos, os Americanos e os Latino Americanos, por exemplo, abdicassem das suas responsabilidades para com as raças negras e castanhas naqueles continentes. 3. A Zâmbia está interessada em desenvolver boas relações com Portugal. Nada se opõe a que os dois países desenvolvam boas relações e cooperação em muitos campos, excepto: a) A política portuguesa nos seus territórios africanos. b) A cooperação portuguesa política e militar com a África do Sul racista e com a Rodésia rebelde. Os contactos entre os dois países seriam facilitados e encorajados se Portugal efectivamente modificasse a sua política em face da África do Sul e da Rodésia, cujos actos de agressão contra os países independentes da África são obstáculo na procura de uma solução pacífica dos actuais conflitos nos territórios africanos portugueses. 4. A Zâmbia crê que a independência dos territórios portugueses em África é a única e definitiva solução para a presente situação crítica nesses territórios. A guerra é, lamentavelmente, uma desnecessária perda de sangue e dos recursos financeiros ou outros. Acções que aumentem o intenso ressentimento já existente entre as massas da população africana, cujo espírito e coração deveriam ser conquistados, devem ser firmemente evitadas. 1.

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O Governo português deveria, pelo contrário, intensificar os seus esforços para seriamente estabelecer uma estrutura realística para a cooperação harmoniosa entre o povo de todas as raças nos territórios portugueses. Será o povo de Moçambique que em última análise tratará dos interesses portugueses e traçará o destino dos nacionais portugueses em Moçambique, tal como os dirigentes africanos em Angola e noutros pontos dos territórios portugueses tratarão dos interesses portugueses e moldarão o destino de toda a população incluindo os nacionais portugueses. Os Movimentos Nacionalistas como a «Frelimo» deveriam ser reconhecidos como um importante factor político cuja assistência na formulação da futura estrutura política não pode ser ignorada. 5. O Governo Português deveria evitar: a) Envolver a África do Sul política, e económica e militarmente nos territórios portugueses africanos. b) Envolver Portugal na derrocada rodesiana. c) Ser envolvido pelas grandes potências na defesa dos seus interesses na Rodésia, África do Sul, Namíbia e outros territórios da África Austral bem como nos seus próprios territórios africanos, uma vez que isso complicaria a procura de uma solução pacífica. d) Considerar a Zâmbia e a Tanzânia como Estados comunistas ou testas de ponte de comunismo. Na análise final, a Tanzânia e a Zâmbia são os melhores amigos do povo português e defenderão as comunidades portuguesas tal como têm defendido outras minorias no passado. e) Alistar milhares de africanos no exército para combaterem os nacionalistas africanos porque isso conduzirá à militarização de Moçambique e outros territórios portugueses, para prejuízo último dos próprios interesses de Portugal. Quanto mais for o número de moçambicanos envolvidos nas acções de guerra maior será o número de pessoas submetidas à disciplina militar no futuro. Existem abundantes exemplos na História que comprovam como essa orientação pode ser desastrosa. O Governo Português tem interesse em criar condições apropriadas para uma administração civil estável em Moçambique, em Angola e outros territórios sob a jurisdição portuguesa. 6. É com apoio nestes princípios que o Governo da Zâmbia tem oferecido repetidamente, desde a Independência, os seus bons ofícios privadamente e em público para assistir Portugal e pôr termo à guerra e a resolver os problemas através de negociações com os dirigentes nacionalistas. O Governo da Zâmbia está convencido de que os interesses portugueses serão melhor servidos se se trabalhar para a independência dos seus territórios africanos. Os dirigentes nacionalistas têm demonstrado a sua boa vontade para conversar acerca da criação de condições para a negociação de futuros desenvolvimentos constitucionais em Moçambique.
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7.

O Governo da Zâmbia acredita na comunicação. Acredita que esse é o melhor caminho para resolver o problema. Reafirma a sua disposição de oferecer os seus bons ofícios para ajudar a terminar a guerra e colocar Moçambique e Angola firmemente no caminho da genuína paz, independência e prosperidade.

Lusaka, 12 de Setembro de 1973.» 35. PLANO DE LUSAKA: O BEM-ESTAR DOS PORTUGUESES

A segunda parte do Plano de Lusaka do dr. Keneth Kaunda refere, denominadamente, a estrutura necessária para a Independência de Moçambique, e os interesses de Portugal que deveriam ser respeitados com garantias. Com a mesma segurança e tranquilidade Keneth Kaunda afirma a sua posição medianeira. A troca de garantias é compensadora para Portugal e vai ao encontro das pretensões do povo português e do espírito que iria enformar, um ano depois, o Movimento das Forças Armadas, em 25 de Abril de 1974. Mas não agradaria aosnegociadores portugueses comunistas. Teria outras cores a capitulação portuguesa. O Plano de Lusaka proclama honra para Portugal. O texto e as intenções são claras e nem eram necessárias reformas. Compreendendo-se os motivos que levaram Portugal a não o aceitar antes da Revolução de Abril, não se entende a recusa após o Movimento das Forcas Armadas ter abalado e destruído os alicerces sobre os quais repousava a teoria do governo português deposto. Mas as inovações introduzidas em Portugal são ilimitadas e a Comissão de Descolonização olha o problema de modo diferente. E quem não concordar com ela comete o horrível e duramente punido crime contra a descolonização. A opinião pública internacional mostra-se confusa. O Plano do dr. Kaunda transpirara e muitos países não entendem o comportamento de Portugal, mas assistem em silêncio. Só a Rádio Moscovo, nos seus noticiários para as colónias portuguesas e Brasil, vai dando a perceber as íntimas relações entre o proceder da Comissão de Descolonização e a forma de olhar o problema de Moscovo. E é a Comissão de Descolonização, com o seu procedimento repressivo, que castra qualquertentativa, entre Abril e Setembro, para fazer ressuscitar o Plano de Lusaka. É interessante verificar que até agora, em 1977, toda a Imprensa portuguesa o tem olvidado, como que a não querer remexer numa ferida acesa em muitas consciências portuguesas. E que melhor altura para o divulgar do que esta, quando Portugal conta com um Governo onde o Partido Comunista foi pouco votado pelo povo português? Não será ainda ocasião para dizer a verdade aos portugueses, aquela verdade que Keneth Kaunda não escondeu em 1973 dos dirigentes de Portugal? Publico, a seguir, o segundo documento do Plano de Lusaka e mais uma vez peço ao leitor para ser juiz:
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«Confidencial República da Zâmbia Memorandum Ponto de vista da Zâmbia na Evolução dos Territórios Africanos Portugueses Estrutura para a Independência O Governo Português está obviamente preocupado acerca da preservação dos seus interesses nacionais nos territórios africanos de Portugal. Deve inter alia preocupar-se com o tipo de ligações que permitiriam a Portugal manter a sua influência nos novos territórios independentes. O Governo da Zâmbia tem a consciência desta preocupação e está portanto procurando colaborar na preparação de uma estrutura que proteja e garanta os interesses portugueses. O Governo da Zâmbia está preparado, desde que tenha o acordo do lado português, para obter as garantias dos dirigentes nacionalistas acerca do futuro dos interesses de Portugal. Com este objectivo deve ser considerado o seguinte:

1.

RELAÇÕES POLÍTICAS a) Os territórios independentes prosseguirão uma tendência nãoracial na construção das novas nações e os nacionais portugueses que ali têm vivido há séculos encontrarão uma melhor situação do que aquela que têm agora. b) A segurança dos nacionais portugueses apenas pode ser apropriadamente garantida através de um programa de integração nacional sob condições de harmonia racial e cooperação, sem conflito ou guerra. A actual guerra é um obstáculopara se alcançarem estes objectivos. c) As relações diplomáticas entre os novos territórios independentes e Portugal assegurarão contactos mais efectivos e produtivos, bem como mútuo apoio na base de igualdade e respeito recíprocos. d) Estabelecimento de uma Comunidade Lusíada compreendendo os antigos territórios portugueses incluindo o Brasil. Uma associação destas, na qual Portugal teria uma posição dominante, desenvolver-se-ia como melhor organização do que a «Commonwealth» que a GrãBretanha instaurou. A política britânica-rodesiana-sul-africana conjuntamente com a visão racista de alguns nacionais britânicos nas antigas colónias britânicas ensombraram a imagem da Grã-Bretanha e reduziram a sua influência, sobretudo em África. e) A Administração nos novos territórios independentes será grandemente influenciada por Portugal no futuro previsível. Durante este
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período os nacionais portugueses serão capazes de criar um maior grau de confiança na governação das novas nações independentes agora sob controlo português. 2. RELAÇÕES CULTURAIS O Governo da Zâmbia está ciente do orgulho português na sua cultura Lusíada. É convicção do Governo da Zâmbia de que a independência dos territórios africanos portugueses não significará o fim da influência cultural portuguesa, mas aocontrário o início da expansão do campo da cultura lusa em dignidade e respeito. a) O português permanecerá como a Língua Franca nos novos territórios independentes. b) A educação será predominantemente portuguesa com professores portugueses. c) Cooperação técnica com experiência e pessoal portugueses. d) A influência portuguesa na vida social e cultural permanecerá durante longo tempo. e) As condições religiosas serão influenciadas pelo passado português . 3. RELAÇÕES ECONÓMICAS A conservação dos interesses económicos portugueses é fundamental em qualquer acordo para conceder a independência aos territórios africanos portugueses. O Governo da Zâmbia está ciente de que qualquer estrutura para a independência deveria garantir ao Governo Português que os seus interesses económicos serão protegidos. a) Comércio b) Investimentos c) Assistência técnica d) Acordo económico e de cooperação técnica. 4. RELAÇÕES MILITARES O Governo da Zâmbia reconhece que a Defesa é um campo muito melindroso. O Governo Português quererá, sem dúvida, estar seguro de que a independência política não conduzirá, por exemplo, a que uma potência comunista preencha o vácuo. A preservação dos territórios portugueses será assunto de interesse para o Ocidente em geral. Segundo o Governo da Zâmbia estes aspectos são negociáveis com os dirigentes nacionalistas e não serão um obstáculo para um acordo final sobrea independência.
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5. OPORTUNIDADE PARA A INDEPENDÊNCIA Deve ser negociada logo que a estrutura para a independência esteja traçada. 6. FACTORES EXTERNOS QUE DEVEM SER ARREDADOS DA SITUAÇÃO PORTUGUESA 1. Envolvimento da África do Sul. 2. Envolvimento da Rodésia. 3. Envolvimento das grandes potências. Estes podem complicar as negociações ou as medidas tomadas para pôr fim à guerra. Interesses Nacionais Portugueses 1. INTERESSES POLÍTICOS E DE SEGURANÇA Fundamentalmente referimo-nos ao bem-estar dos nacionais portugueses na era post-independência. O novo sistema político para os novos países independentes deverá assegurar protecção para todos os moçambicanos e promover o seu bem-estar sem consideração de raça, cor, credo ou origem étnica. De particular importância para o Governo Português é o futuro de uma grande população de origem portuguesa. 2. INFLUÊNCIA POLÍTICA Portugal deseja, sem dúvida, ter uma influência dominante nos novos países independentes e não desejaria ver o crescimento de qualquer outra influência prejudicial para os interesses portugueses nos seus antigos territórios. 3. INTERESSES ECONÓMICOS E FINANCEIROS Portugal desejaria, sem dúvida, ver que o comércio, os investimentos e outros interesses económicos sejam completamente desenvolvidos nos seus antigos territórios em seu favor e não em favor de qualquer outra potência. 4. INTERESSES CULTURAIS Conservação da cultura lusa. 5. DEFESA Os novos países independentes deveriam, no ponto de vista do Governo Português, manter uma atitude quanto à defesa que pelo menos não fosse anti-portuguesa. A estrutura para a conservação e progresso de todos estes interesses nacionais é, no conhecimento da Zâmbia, negociável. Os chefes nacionalistas estão determinados por um sentimento de respon162

sabilidade moral para com Portugal e os seus interesses, e estariam preparados para encontrar uma solução amigável em todos estes aspectos. Lusaka, 12 de Setembro de 1975.» 36. DR. ALMEIDA SANTOS: ESTADO FEDERAL «UNIÃO PORTUGUESA»

Não posso afirmar o que pensa hoje o dr. Almeida Santos, ex-ministro da Coordenação Interterritorial, dos dramas que enlutam o povo de Moçambique, da guerra que alastra por todo o novo país, da miséria que adoenta o povo moçambicano, da fuga da morte de quantos, portugueses, teimaram em permanecer em Moçambique após ele ter assinado o Acordo de Lusaka. Era arriscado, para ruim, afirmar qualquer coisa, pois sei que os homens mudam, por vezes com tanta facilidade como o vento. Não posso afirmar quais eram as ideias do dr. Almeida Santos no dia 7 de Setembro de 1974, antes de se transferir para a pasta ministerial da Informação, daquela Informação que tanto iludiu o povo português sobre as causas e as consequências da descolonização de que foi um dos importantes fazedores. Era arriscado para mim, pois as mesmas ideias podem hoje não serem acatadas pelo ministro da Justiça de Portugal, dr. Almeida Santos. Posso afirmar, e não arrisco nada, o que pensava o advogado dr. Almeida Santos, meia dúzia de anos antes da Independência de Moçambique, porque o dr. Almeida Santos se auto-biografou, ou se auto-criticou, no seu livro «Já Agora...»,arranjando uma solução para Moçambique bastante diferente daquela com que concordou em Lusaka, e onde apôs, sorridente e feliz, a sua assinatura. E como posso afirmar, com a permissão que me é dada pêlos escudos que consumi com a compra do «Já agora...», acho oportuno transcrever a solução moçambicana do dr. Almeida Santos e de um grupo de democratas de Moçambique, que, embora custe a muito boa gente, se assemelha ao do dr. Keneth Kaunda e í: que era desejada pelo general António de Spínola. Vejamos, pois, sem comentários, o que pensava ou pensa o dr. Almeida Santos da descolonização de Moçambique: «... Numa campanha eleitoral para candidatos à Assembleia Nacional, a Oposição Democrática de Moçambique apresentou uma lista, de que fiz parte, e elaborou um manifesto aos eleitores — como já disse apreendido na tipografia — onde, pela primeira vez em Portugal se defendia uma solução determinada. A autodeterminação surgia aí, porém, defendida à escala nacional, em perfeita equivalência a uma consulta plesbiscitária...» (sic). E definindo melhor as suas ideias democráticas que desejava oferecer também ao povo moçambicano de todas as raças, o então advogado de Lourenço Marques escreveu:
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«... Nele se dizia ainda este mínimo que convém transcrever para que o nosso intuito não seja deturpado: Seria despropositado esperar que, estados tão distantes na geografia, e tão diferenciados nas populações como seriam a Metrópole, Angola e Moçambique, viessem a sofrer igual evolução centralizadora. Mas nada nos impede de acreditarmos na perduração sem conjecturável limite de laços de vinculação política, estratégica, diplomática, cultural ou tão só linguística, se formos capazes de passar a semear a língua portuguesa, como língua veicular aceite pelas populações autóctones, como mesmo empenho com que temos semeado algodão e sisal. Teremos, nesse domínio, aquilo que tivermos sido capazes de merecer. Ou melhor: colheremos aquilo que tivermos semeado. Se ódio ódio, se amor amor. Visionam, pois, os signatários um estado federal, a que poderia chamarse «União Portuguesa», embora o nome não seja o que mais importa, e estados federados — Portugal, Angola e Moçambique — aos quais aquela se sobreporia na medida das prerrogativas de soberania que sobre eles detivesse. Um chefe do Estado Federal directamente eleito pela comunidade em condições a fixar, e Chefes dos Estados Federados, directamente eleitos por estes, exerceriam as inerentes funções ao nível federal e estadual, respectivamente. Haveria um parlamento federal, constituído por deputados directamente eleitos, em proporção a fixar, pêlos estados federados, e ao qual caberia a elaboração das leis relativas aos assuntos comuns a todo o território da Federação. Parlamentos estaduais, directamente eleitos por cada Estado Federal, chamariam a si a feitura das leis exclusivamente aplicáveis ao respectivo território. Um Governo do Estado Federal, e os governos dos Estados Federados, escolhidos pelos Primeiros Ministros designados pelos respectivos Chefes de Estado, exerceriam a função executiva, e, com menos amplitude do que o actual governo,funções legislativas simples. Um tribunal de conflitos seria encarregado de resolver os diferendos dos Estados Federados entre si, ou entre qualquer deles e o Estado Federal. Cada Estado teria a sua organização jurídica própria. Regressar-se-ia ao sistema da eleição directa dos Chefes de Estado, e acentuar-se-ia a separação dos poderes legislativo, executivo e judicial. Sem se cair em extremos de parlamentarismo, que por toda a parte, e mesmo entre nós, deram má conta de si, os parlamentos exerceriam um tal ou qual controlo sobre os excessos ou os desacertos do executivo, através do sistema das moções de censura, ou qualquer outro modo. Mas para evitar a descontinuidade governativa poderia condicionar-se o recurso às moções, inclusive através da dissolução do parlamento censor, seguida de novas eleições, após certo número de moções em cada legislatura.
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Do maior interesse seria a definição das prerrogativas de soberania reservadas ao Estado Federal. Visionam-se como menos provavelmente alienáveis a defesa, a acção diplomática e a coordenação da economia a partir de economias desintegradas mas cooperantes. Neste domínio, porém, como no mais concernente à montagem do esquema, poderia avançar-se segundo escalões pré-definidos. Num ponto haveria de ser-se intransigente, já que mais do que nenhum outro daria o tom do nosso desejo de evoluir em termos de política ultramarina: na inscrição, em cada uma das constituições regionais, de um esquema evolutivo para governos representativos da maioria das respectivas populações, de par com garantias da sua inalterabilidade e do seu perfeito acatamento. Bem se compreende que qualquer desvio deste princípio só poderia favorecer um nacionalismo neocolonialista que não resolveria coisa alguma e seria fonte segura de novos e inarredáveis apocalipses.» Curioso é ter sido o dr. Almeida Santos um dos homens que assinaram o Acordo de Lusaka, como continua a ser curioso conservar-se no Governo de Portugal contra todos os ventos e eventos da política portuguesa. Não foi democrata — ou eu não entendo o espírito da democracia — ao nomear para último "Governador de Moçambique, já após o 25 de Abril, um seu compadre e colega de profissão, não apoiando os interesses das maiorias. Nesse Governoaconteceram os trágicos Setembros e Novembros moçambicanos. Aconteceu a morte, a destruição, a fuga dos portugueses, o abandono de grande parte de bens, a destruição sistemática da colónia portuguesa. O dr. Almeida Santos nada perdeu. Os seus contentores gigantes foram postos em Lisboa — um deles foi fotografado e publicado na Imprensa, pois no seu bojo quase se podia transportar toda a riqueza moçambicana — os seus capitais transferidos. Nada perdeu na sua democracia. Não foi comunista e não o é nas suas afirmações, na sua forma de viver, nas suas relações humanas, mas, não sendo, sobreviveu à queda dos seus pares no Governo, servindo, um Governo comunista, de terror, de sangue, de maldição, de anarquia, do mesmo modo que serve um Governo socialista na busca de um verdadeiro Portugal remoçado. Qual é a cor política do dr. Almeida Santos, que auto-criticando-se no início da década de 70, deseja para Moçambique e para Angola uma autonomia democrática em regime federado e que foi até à minúcia de a baptizar em «União Portuguesa» e, meia dúzia de anos volvidos, assina um documento onde, sem remissão, se faz a entrega de Moçambique a um partido guerrilheiro, representante declarado da ditadura comunista e do império soviético, empurrando, com o seu gesto, Moçambique para um futuro de fome, de guerra civil, de destruição, e muitos milhares de portugueses para a miséria da situação de semi-apátridas? Qual é o seu critério actual? Não negará esta sua atitude todos os seus pronunciamentos anteriores? É certo que o dr. Almeida Santos, nos seus raros momentos de penitência, afirma filosoficamente que outros Acordos, além do de Lusaka, foram entabulados com a
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Frente de Libertação de Moçambique. Mas que Acordos? Os anos transcorrem e não merecem o povo português e os muitos milhares de retornados e de refugiados um esclarecimento sobre o teor desses acordos, sobre as suas consequências, e, sobretudo sobre a sua actividade nesses acordos, quando a sua responsabilidade é reconhecida por todos os retornados e refugiados devido aos altos cargos que desempenhou e desempenha? Responsabilidade como outorgante no Acordo de Lusaka. Responsabilidade como ministro Inter-Territorial. Responsabilidade como nomeador do último Governador-Geral. Responsabilidade como ministro da Informação, na fase em que menos informada andou a população portuguesa, inclusive sobre o teor dos acordos com os guerrilheiros que, logicamente, não pode apenas interessar a meia dúzia de portugueses mas a todos os portugueses. Responsabilidade — e por que não? — como ministro da Justiça, pois é essa mesma Justiça que o povo português, que o povo moçambicano, que os retornados, que os refugiados, desejavam ver praticada sobre quantos negociaram o Ultramar, sem consultarem democraticamente os povos interessados, tapando orgulhosamente os ouvidos a todas as vozes discordantes que aconselhavam moderação e bom senso. É esta habilidade de jogar com ambos os lados, de se preservar das consequências de gestos históricos, que o futuro não deixará adormecer e que o presente saberá condenar.

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