UMA PROVA DE FOGO Era uma tarde de 5 de abril de 1975, uma quinta-feira.

Tarde de um dia como outro qualquer, não fora o meu primeiro dia de trabalho de um estágio probatório com duração de 90 dias. Findo o curso teórico e aptos para desempenhar nossas funções, provaríamos isso ao final deste novo período. Fardado, mochila nas costas, descia as escadas do nosso prédio para esperar o ônibus que me conduziria ao local de trabalho. Ao chegar ao playground, minha irmã veio gritando apavorada: “Bosco, não vá! A refinaria está em chamas. A TV está pedindo que ninguém se desloque para lá”. Mas isso não era oficial. Nem seria motivo para a minha ausência. Justo naquele dia. Eu fora treinado para situações como aquelas. Era meu dever me apresentar ao serviço. Tranqüilizei minha irmã; disse-lhe que o aviso era apenas para afastar os curiosos que só iriam atrapalhar o combate ao incêndio; tomei o ônibus e, finalmente, cheguei ao meu destino. Rapidamente, mas de forma ordeira, bati o ponto e dirigi-me imediatamente à Casa de Força. Recebi a passagem de turno e comecei a operar os equipamento de minha área, coletando dados de manômetros, termômetros, taquímetros etc. Com exceção da CAFOR (Casa de Força), a refinaria inteira estava parada e todos os esforços eram envidados para debelar o incêndio. Nossa divisão é a fornecedora de utilidades e facilidades como, geração e distribuição de energia elétrica e vapor, ar comprimido, águas doce e salgada, combustíveis etc. - o coração da Refinaria. O incêndio acontecia próximo a nós, cerca de 200 m. O bramido das chamas era estrondoso; grande massa de ar quente deslocava ruidosos ventos, aumentando o furor das chamas, num ciclo vicioso. Uma centelha de uma soldagem fora a causa que prorrompeu esse devastador incêndio em um dos tanques de óleo combustível, do parque de armazenamento de óleo e gasolina. Que prejuízo! Brigadas de incêndio se revezavam, duas a duas – enquanto duas descansavam, uma lutava contra o fogo dos tanques, outra, preventivamente, resfriava os restantes.

Um verdadeiro “Inferno de Dante”. Descontados todos os perigos, pude, de longe, entender o fascínio que Nero sentia ao incendiar Roma, pois, apesar de todos os riscos, não deixou de ser um pinturesco espetáculo. Aquela foi, sem sombra de dúvida, uma verdadeira prova de fogo.

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