Direito Internacional Público I

Introdução 1. Direito Internacional Público 1.1. Noção O Direito Internacional Público é o conjunto de princípios e regras que regulam as relações internacionais. O Direito Internacional Público é o conjunto de regras e princípios que regulam a existência e o funcionamento da comunidade internacional. Porquê da classificação Direito Internacional Público ao invés de Direito Internacional? A maioria da Doutrina prefere a denominação DIP. Maria Luísa Duarte está de acordo com a opinião doutrinária maioritária. Esta denominação permite evitar confusões entre o Direito Internacional Público e o Direito Internacional Privado. Direito Internacional Privado: consiste em decidir que Direito (de que Estado) é aplicável em casos que envolvam agentes de Estados diferentes em relações jurídicas privadas.

Porque é que o DIP é o conjunto de regras e princípios que regulam a existência e o funcionamento da comunidade internacional e não da sociedade internacional? Alguns autores defendem a referência a sociedade internacional ao invés de comunidade internacional.za aTönnies (autor do século XIX) estudou os conceitos de comunidade e de sociedade. O seu estudo influenciou a concepção destes conceitos no Direito. A distinção entre co munidade e sociedade migrou para o DIP através da Escola de Veneza. Tönnies procurou o critério explicativo da organização de agregados humanos (como família, escola, fábrica, Estado). Tönnies identifica dois tipos de agregados humanos: - Agregados humanos de tipo societário ou associativo; - Agregados humanos de tipo comunitário. Nos agregados humanos de tipo societário, os elementos que compõem esse agregado permanecem separados apesar de todas as semelhanças que os unem. Há uma representação alargada de interesses comuns e os seus elementos podem concertar esforços. Porém, prezam a sua liberdade e individualidade. Nos agregados humanos de tipo comunitário, os elementos permanecem unidos apesar das dissemelhanças que os separam. Isto deve-se à existência de um poder exercido com autoridade. Há uma limitação da liberdade individual e existe uma estrutura organizada e hierarquizada. Direito Internacional Público: que tipo de agregado humano: societário ou comunitário? No DIP há uma coordenação de soberanias ao invés de uma organização limitadora de soberanias em prol de interesses comuns.

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porquê a adopção da expressão comunidade internacional? . XVIII e XIX que ele se desenvolve e ganha importância crescente. XVI e XVII que se encontram as origens directas do Dto. 4. enquanto que o Direito Internacional dos Direitos do Homem é um modelo de tipo comunitário. XV. Das relações entre os povos.) Assim sendo. livres e iguais). Humanitário de guerra.Razão programática: esperança de se alcançar um modelo de tipo comunitário no DIP. A reforma a Contra-reforma. Multiplicam -se as relações comerciais. . 1. Das gentes com crescente alcance e vai-se projectando na vida dos Estados.A segunda decorre até à Rev. aparecem uniões administrativas internacionais. consiste no estudo de regras que permitam compreender o passado.ª guerra mundial ± as rev.A primeira. A Santa aliança é a expressa da nova ordem de consenso que emerge através de conferências diplomáticas. 3. Formação e evolução histórica Direito Internacional clássico Sendo nos séculos. o plano internacional. Mare Liberum). Afirma-se o Dto. de primórdios. Sucedem-se três fases: 6. pois o DIP não é uma realidade homogénea (por exemplo. Internacional passa a ser concebido como o Dto. Entre o séc. ou seja. Emergem os EUA e Japão. ou seja. Territórios. . 10.Razão prática: é a expressão mais usada. 5.A terceira começa nessa altura e termina na 1. à delimitação da acção e das esferas das potências europeias em expansão (aqui entra a famosa contraposição entre Hugo Grócio e Frei Serafim de Freitas ± Mare Clausum Vs.Maria Luísa Duarte afirma que a resposta a esta questão não é definitiva nem unívoca. Serão os descobrimentos a trazer problemas que se reportam. . A relação entre o DIP e a Teoria das Relações Internacionais O DIP e a Teoria Relações Internacionais têm o mesmo objecto. 2..2. . Internacional moderno e é nos séculos. os descobrimentos. representações diplomáticas). a Teoria das Relações Internacionais consiste na compreensão das relações internacionais e na procura das regras do seu funcionamento. o Direito Internacional dos Confitos Armados é um l modelo de tipo societário. celebram-se tratados e vão surgindo normas consuetudinárias em áreas vitais (limites do poder do Estado. marcam uma nova fase. 9. coincidente com o liberalismo burguês. Porém. 7. Quanto ao Direito Internacional Penal caminha-se para um modelo de tipo comunitário. o Renascimento. introduzem-se noções de soberania popular (o Dto. 8. Francesa e Século XVIII ± os tratados de Vestafália reconhecem o princípio da soberania dos Estados como princípio de independência dos Estados europeus entre si e de exclusão de qualquer poder que lhes seja superior. com o nacionalismo romântico e com o apogeu do poderio europeu. e cria -se um Dto. Francesa e americana 2 . enquanto o DIP está no plano do dever ser. abrange os tempos anteriores à paz de Vestefália (1648). o presente e prever o futuro. XV a 1648 sucedem-se grandes eventos históricos: a quebra do poder do imperador do SacroImpério.

até a 2. O aparecimento dos novos Estados dir-se-ia pôr em causa algumas das bases do Dto. verificar-se-ia que o Dto. rácicos. 2. . Interno. Porém. 22. ultrapassado apriorismos ideológicos. revelando-se dotado mesmo de maior capacidade de adaptação do que o Dto. No ano de 3010 AC foi celebrado um tratado com o objectivo de estabelecer fronteiras. Desenham-se movimentos anticoloniais fora da Europa.A elevação da cooperação económica e social ± art. . sob a égide das Nações Unidas. Internacional e o desenvolvimento.O exacerbamento dos contrastes nacionais.º. Aparecimento de um Tribunal Permanente de Justiça Internacional ± instância jurisdicional de solução de litígios internacionais de harmonia com critérios estritamente jurídicos.U. separadamente ou conjugados. pois nessa altura não 3 .Os problemas do clima e da preservação do ambiente e dos recursos naturais. são eles que avultam.º e 55. 26. Há quem se reporte a esse momento como o início do DIP. . 34.Uma primeira até 1939.º e 75. económicos e culturais. Em anexo ao Tratado de Versalhes é criada a Sociedade das nações (embora não confinada a objectivos de segurança. Tem os seguintes aspectos: 20. 18. 24.º. Maria Luísa Duarte discorda. em vez de ser mera superestrutura dependente de quaisquer interesses. 17. sendo ainda os países europeus que dominam a Sociedade das Nações). 12. 73. a ciência. 1. produto do domínio de países imperialistas e exploradores. A par das N. religiosos e mundiais. militares. Internacional.A globalização económica 30. . 14. Direito internacional contemporâneo 13.U e da organização internacional do trabalho constituíram -se outras organizações (organização das N.º da Carta.A proibição da guerra ± arts. a Conferência Internacional do Trabalho. após 1945. 28.º. Internacional conseguiria adaptar-se às transformações. através das convenções e das recomendações que elaborará a partir da sua assembleia. . . Para certas correntes de doutrina teria mesmo de se dar uma ruptura com os princípios e regras anteriores. Interno. Criação numerosas organizações de âmbito continental ou subcontinental.O agravamento das desigualdades 32. Novos estados emergem.A globalização da comunicação social e cultura. . 25. . 19. também haveria um Dto. Entre os aspectos mais cadentes da actualidade internacional podem ser destacadas: 29. com objectivos políticos. 27.Os extensos movimentos de pessoas 33. n.Conjunto complexos de órgãos. 33.ª guerra Mundial ± o desmembramento dos chamados impérios centrais levam à reafirmação dos princípios da autodeterminação dos povos e das nacionalidade. 21. no sentido da autodeterminação e da indepe ndência ± art. . Esta foi criada a pensar num sistema mundial mais dinâmico. . Divide-se em duas fases: 15.O empenho no progresso político. para a educação. 16. . 23. e 51. .11.º. à semelhança do que ocorreria como Dto. . e a cultura).A segunda. 4 e 5.º 3. Aparecimento da Organização Internacional de Trabalho a qual irá desempenhar uma função decisiva no progresso social. 31.

como soberano (independente no plano internacional).Francisco Suarez . início do século XVI.DIP Clássico: inicia-se no século XV-XVI e termina no século XX. . em 1989. . Assim.século XV/XVI até 1919 Guerra dos 30 Anos: guerra entre credos religiosos.existia aquilo que é hoje o DIP. o luteranismo e o calvinismo. O epílogo das guerras permite a reavaliação do DIP. Assim. I Fase Direito Internacional Público Clássico . ³Pelo justo império luso-asiático´.O princípio da igualdade entre o catolicismo. O Estado é caracterizado como tendo poder supremo. . em 1625. no qual defendia o mare clausum. O DIP nasce com a concepção de Estado em sentido moderno de Jean Bodin.O princípio da igualdade entre os Estados. em 1625. As guerras são o motor da evolução do DIP.Hugo Grotius foi o fundador do Direito Humanitário. outros indicam os atentados do 11 de Setembro de 2001. Durou até 1648.DIP Contemporâneo: inicia-se m 1919 até hoje.Francisco de la Vitória . outros afirmam o colapso económico de Setembro de 2008. torna-se necessário regular as relações entre esses Estados. Uns apontam para a queda do muro de Berlim.Frei Serafim de Freitas redigiu.Há quem defenda uma terceira fase. as potências europeias entram em conflito para deter mais terras alémmar. . em 1609.A ideia da não ingerência nos assuntos internos.Escola Holandesa: . mas há divergências quanto ao momento inicial desta fase. com o fim da I Guerra Mundial e a assinatura do Tratado de Versalhes (1919). Fases do DIP: .Escola Portuguesa: . A Paz de Vestefália assegurou: . do Direito da Guerra´. Defendeu a posição do mare liberum.Escola Espanhola: . um conjunto de regras e princípios que regulam a comunidade internacional. 4 . nos fins do século XV. em que se assinou a Paz de Vestefália. os Estados são iguais e independentes. . Com as Descobertas. Escreveu ³Do Direito da Paz. Foi o fundador do DIP em Portugal. a fase do DIP Pós-Moderno. Escolas doutrinárias (como manifestação política da época): .

como por exemplo a sobreposição de convenções ao nível do Direito II Fase Direito Internacional Público Contemporâneo . As relações bilaterais clássicas estavam Tornava-se ultrapassadas. Na I Fase só os Estados eram sujeitos de DIP. 1814. Humanitário. . Com o Congresso O O de Viena do promoveu-se: reconhecimento Direito das Nacionalidades. O DIP pretende regular o maior número de matérias possível. O Concerto as consultas periódicas entre os Estados. primeira organização internacional. todas as matérias são susceptíveis de ser internacionalizadas e tratadas em convenções internacionais. potencialmente. (Comissão Fluvial do Reno.Congresso de Viena (18141815) marcou o fim das Guerras Napoleónicas. que alastra a todas as matérias. houve e uma das institucionalização relações das organizações surgindo as internacionais internacionais.DIP de base convencional e não costumeiro. necessário encontrar novos mecanismos de relação entre os Estados que assentassem no Epílogo da I Guerra Mundial.A evolução do DIP. primeiro.O multilateralismo. Tratado de Versalhes (1919) promoveu: Europeu: potências . também. pois tem direitos e deveres.1919 até hoje Papel do indivíduo no DIP. através da assinatura de tratados. Houve. respeito. em seguida. europeias. o indivíduo começa a ser encarado como sujeito de DIP. Ou seja. de modo a prevenir as guerras. aprofundamento das relações internacionais. Na II Fase surgem. 5 . o DIP baseia-se em convenções internacionais. Hoje. as organizações internacionais dotadas de personalidade jurídica e. mas em moldes distintos dos actuais) organizações internacionais como elementos estruturantes da política internacional. O DIP é uma normatividade expansiva. Ou seja. . uma subjectivização do indivíduo ou uma internacionalização da vida jurídica (não há matérias imunes à regulação internacional). Surgem as verdadeiras organizações internacionais dotadas de personalidade jurídica distinta dos Estados. Isso pode trazer consequências negativas. como por exemplo a Organização Internacional do Trabalho.

Francis Fukuyama (A Construção dos Estados. Internacional compreende processos de formação específicos. os Estados eram os únicos sujeitos de DIP. dos modos e das circunstânci s.Pós 1919. mas várias comunidades internacionais. num segundo momento. O Dt. Failed States) julgou que com a Queda do Muro de Berlim tinham acabado as divergências ideológicas. as ONG¶s (organizações não governamentais). Papel dos Estados: maior ou menor centralidade do Estado: . pela ausência de lei como acto normativo. patenteia a existência de círculos alargados de comunidades jurídicas para além da comunidade estatal. Sem Estados há anarquia. e singulariza-se pelo papel mais extenso do costume. Contudo. pois mudam as regras. abalar o DIP e. Só os Estados permitem a estabilidade necessária ao respeito do DIP. o Dt.11 de Setembro de 2001 . Internacional surge como expressão das soberanias dos Estados. Mas esses procedimentos não valem nem se explicam por si mesmos. houve uma multiplicação dos sujeitos de DIP. Paradigma Clássico: DIP refém dos Estados. grande importância do Estado. Ele liga-se a uma dinâmica feita tanto de entidades colectivas como de pessoas singulares que não acaba nas fronteiras políticas. O prof. num primeiro momento. das relações recíprocas dos estados ele foi as estruturando em termos permanentes através de meios organizativos a se e de formas avançadas de institucionalização. Jorge junta os dois últimos critérios. Tendo começado como Dt. reforçá-lo. não uma.Ou têm força sistémica (do Sistema) e mantêm-se. Será realista pensar no DIP distanciado ou contra os Estados? Maria Luísa Duarte julga que tal não é possível. No entanto. 6 . como as organizações internacionais. São as normas que melhor se adaptam às crises que substituem as anteriores. Novo Paradigma: DIP baseado em valores e alforriado da vontade dos Estados. antes pressupondo a inserção num plano mais vasto e mais complexo.Setembro de 2008: crise económica As crises podem. são elementos estruturantes da comunidade internacional. Para além disso existem. Fukuyama refere os Estados fortes como oposição aos Estados fracos (Estados de Direito). assiste-se a um outro paradigma das diferenças: já não tanto das diferenças ideológicas mas das diferenças religiosas. Os Estados competem com outros poderes na vida internacional (competição ideológica). .Até 1919.1989: Queda do Muro de Berlim . naturalmente. como nela se inscrevem os a Estados e os demais sujeitos. das condições próprias e mutáveis da vida internacional. bem como das conexões entre eles e as pessoas físicas.Ou não têm efectividade e são substituídas pelas normas contrárias (costume contra legem).Crises/Abalos ao modelo do DIP: . Os Estados são peças fundamentais. derivam. a partir dos seus interesses e vontades. Os Estados continuam a ser os elementos estruturantes da comunidade internacional. ainda hoje não se pode negar o peso decisivo que os Estados têm dentro da comunidade internacional. . As normas violadas: . autoritário e centralizado e pelo significado peculiar de factores convencionais.

O DIP deve ser respeitado pelos seus sujeitos não porque eles querem mas porque devem. 2. Porque é que os Estados cumprem o DIP? O que é que pode demover potenciais violadores? Maria Luísa Duarte defende a posição neo-contratualista. 7 . Qual o fundamento desse dever? Teses contratualistas: Rousseau. e não apenas quando lhes convém (pois assim cair-se-ia no Estado Natureza). do processo. que desrespeita a Convenção de Genebra. não depende das conveniências dos intervenientes. a violação do DIP não implica a sua inexistência. Os Estados não têm alternativa. tem características jurídicas específicas. Porém. O DIP não é um ramo. O Tribunal Penal Internacional já pode julgar indivíduos cujos Estados não aceitem a autoridade dos tribunais internacionais. Há quem afirme que o DIP não tem legislador. A passagem do Estado Natureza ao Estado Sociedade implica cedências. Apesar dessas normas serem imperativas. O DIP tem fontes próprias. Até no ordenamento jurídico Português há regras que carecem de aplicação coactiva. Qual é o fundamento do DIP? O DIP é muito frágil/vulnerável. A questão existencial do DIP: fundamento e juridicidade Será que o DIP existe? Problema das constantes violações de normas de DIP. caracterizado pelo caos e pela guerra (Hobbes). O DIP é verdadeiro Direito? Ou é um conjunto de regras de ética internacional? Será antes soft law? O DIP é Direito! Que tipo de Direito? 1. O DIP tem características jurídicas próprias para ser Direito. como por exemplo a existência da prisão de Guantanamo. tal como o Direito Português e o Direito da União Europeia o são. pelo contrário. No entanto. apesar desses problemas há um polícia. tal não é verdade. pois carece de aplicação coactiva em algumas situações. que desrespeitam a Declaração Universal dos Direitos do Homem. juiz nem polícia. os EUA. (Tribunal Europeu dos Direitos do Homem: os Estados europeus (47. Os Estados têm de reconhecer a autoridade e legitimidade do tribunal em causa. É isso que também se passa no DIP. como por exemplo do Tribunal Internacional de Justiça. que se impõe para evitar o caos). a não ser a de garantir o respeito do DIP (contrato que convém respeitar sempre. Se os Estados querem coabitar numa comunidade internacional têm de respeitar sempre o DIP. Qual seria a alternativa a este fundamento do DIP? A existência do Estado Natureza.35. Há formas de criar Direito. as fontes do DIP. implica. não há aplicação coactiva das mesmas na iminência da sua violação. O DIP é um ordenamento jurídico autónomo. incluindo a Rússia e a Turquia) submetem-se à jurisdição desse tribunal). problema da legitimação do polícia. as violações dos direitos do homem. Kant. Imperativo categórico: regra é um fim em si mesmo. O DIP não é um ramo do Direito. é uma outra árvore. A coercibilidade não é uma característica obrigatória das normas jurídicas. Problema da coercibilidade e efectividade do DIP. De todo o modo. A relação do DIP com os seus sujeitos é de imperatividade absoluta e não de conveniência em função de interesses. a necessidad da existência e adaptação do DIP à e realidade. O DIP é direito imperfeito (lex imperfecta). Há formas/mecanismos de regular o cumprimento do DIP. Problema das polícias autoproclamadas. cujas características não se confundem com as estaduais.

Mas a carta das Nações Unidas prevê (no capítulo VII) medidas coercivas. O positivismo tende a definir o Direito através da estadualidade e da coercibilidade. Apenas de polícia e exército permanente não dispõe a comunidade internacional. ao reunir determinados elementos. em critérios éticos de obrigatoriedade. o que significa que qualquer ente. é ABERTA. não passaria de um direito estatal externo. em certos casos.Teses normativistas ± reconduzem o sistema de Direito internacional não à vontade. funda-se em princípios objectivos de ordem que o transcendem ou num sentido de bem comum.Teses institucionalistas ± . a um sistema de relações. Existe uma pluralidade de ordenamentos em cada um. mas a uma norma. 8 . Quanto a tribunais.º) CARACTERÍSTICAS DA SOCIEDADE INTERNACIONAL A sociedade internacional é: UNIVERSAL: porque abrange todos os entes do globo terrestre. as teses que explicam a obrigatoriedade jurídica ou a necessidade de cumprimento das normas de Direito Internacional à margem ou para além da vontade estatal. pode nela ingressar. os tribunais de administrativos da ONU. Não havendo na ordem internacional «nem legislador. o que determina a obediência é o sentido racional e ético. . e até sanções de carácter militar (arts. nem por isso deixa de conter aquilo que de essencial assinala o Direito: a estrutura normativa necessária duma sociedade ou de certo tipo de convivência entre as pessoas humanas. Quanto à lei. e dele não se fasta . por certo. O Direito Internacional faz parte do universo jurídico o mesmo fundamento e a mesma razão de ser do restante Direito. Entre estas teses: . refiram-se o TIJ. seguro é que há sucedâneos ou aproximações: o tratado multilateral geral e. políticos e económicos. nem juiz. o Direito assume expressões peculiares.Hobbes ± negava-lhe carácter jurídico. ela não pode ser decretada em Direito Internacional. Por que motivo se obedece a qualquer norma jurídica? Para além da reciprocidade de interesses. PARITÁRIA: porque há uma igualdade jurídica.Teses solidarista ± fundamentam o Direito internacional na solidariedade entre os indivíduos. Apresentando. a decisão de organização internacional ou de entidade afim. a uma comunid ade. O destinatário da norma é livre de cumprir ou não.Teses jusnaturalistas ± assenta em valores suprapositivos. 42. mais ou menos conscientemente assumido. XX prevalecem na doutrina as posições não voluntaristas. . dependentes de factores culturais. características específicas.º e 43. para além do temor ou não de sanções. No séc. da pertença a um grupo. o Tribunal Internacional do direito do Mar. nem policia o direito internacional ou não seria verdadeiro direito ou . sem que haja necessidade de que os membros já existentes se manifestem sobre o ingresso. o Tribunal Europeu e Interamericano de Direitos do Homem. mas a norma que se lhe dirige não tem por base a sua vontade. afora os arbitrais. a sê-lo.

FORÇAS POLÍTICAS: onde claramente se vê a luta pelo poder e. as Coletividades Interestatais. São eles os Estados. tais como. incorporando-a em seu sistema jurídico.ABERTA: significa que qualquer ente. Declara sua independência dizendo não existir entre elas nenhuma área comum e que lhes é possível apresentarem se como tangentes. sem que haja necessidade de aprovação dos membros já existentes. qual das duas normas vai prevalecer? O Estado. Entretanto. FORÇAS RELIGIOSAS: que com o passar da história tiveram uma influência decisiva no DI. COMÉRCIO INTERNACIONAL: havendo comércio entre vários Estados são necessárias normas que regulem as relações existentes. DESCENTRALIZADA: porque não possui poderes executivo. ao lado desses entes atuam diversas forças que acabam por influenciar a sociedade internacional. Diz respeito à possibilidade de conflito entre uma norma internacional e uma norma interna. o DI tem como fonte a vontade coletiva dos Estados. São elas: FORÇAS ECONÔMICAS: onde. a não ser no direito natural. Enquanto o Direito Interno é o resultado da vontade de um só Estado. PRINCÍPIOS JURÍDICOS COINCIDENTES: ou seja. Parte ele do princípio de que não existe possível conflito entre essas duas normas. interna e internacional e que tentaremos aqui resumir: A primeira diferença: na ordem internacional o Estado é o único sujeito de Direito. as Coletividades Não Estatais e o Indivíduo. O primeiro estudo sistemático da matéria foi feito por HENRICH TRIEPEL.Monismo com primazia do Direito Internacional O Dualismo é uma das 3 correntes que estudam as relações que o Direito Internacional e o Direito Interno guardam entre si.Monismo com primazia do direito Interno . por exemplo. ao reunir determinados elementos poderá ingressar. em 1899. devido aos acordos comerciais. pois na medida que passa a ser uma norma interna. ORIGINÁRIA: porque não se fundamenta em outro ordenamento jurídico. etc. enquanto na ordem interna. pode ser mudada por outra norma interna. a Trégua de Deus.Dualismo . Muitos autores. (Busca da hegemonia da ordem internacional BASES SOCIOLÓGICAS DO DIREITO INTERNACIONAL PÚBLICO O DIP.Dualismo . Vêm sofrendo um processo de internacionalização. é omissa quanto à matéria. entretanto. na criação de novos organismos internacionais destinados à cultura e na aproximação entre os Estados. comuns aos Estados (pacta sunt servanda) . vez que o catolicismo angariou uma série de institutos. consideram o assunto uma mera "disputa de palavras" e negam sua importância. não poderá existir o DIP. enquanto na ordem interna.Monismo com Primazia do Direito Internacional Monismo com Primazia do Direito Interno No momento em que ocorre um conflito.A sociedade internacional é composta por entes que possuem direitos e deveres outorgados pela ordem jurídica internacional. perguntamo-nos qual será a norma que deverá prevalecer. como Ross. pelo aumento do território dos Estados. a Paz de Deus. legislativo e judiciário. pressupõe a existência de determinados fatores que os doutrinadores denominam de bases sociológicas. para que uma norma internacional seja aplicada no âmbito do Estado. Ressalve-se. nega o conflito. tais como: 9 . esta concepção nos conduz à denominada TEORIA DA INCORPORAÇÃO. Existem três correntes sobre o assunto:1. FORÇAS CULTURAIS: se manifestam pela realização de acordos culturais entre os Estados. assina um tratado que entra em conflito com norma interna anterior. Normalmente cabe ao Poder Judiciário decidir. A Teoria Dualista é passível de uma série de críticas. que podem ser assim resumidas: PLURALIDADE DE ESTAD OS SOBERANOS: devem existir vários Estados soberanos.se não existirem valores comuns. para existir. A Teoria de Triepel baseia -se nas diferenças entre as duas normas. Quando isto ocorre. baseia-se na subordinação. Algumas constituições têm contemplado as relações entre o Direito Internacional e o Direito Interno. porque vai utilizar a norma mais recente. Assim. infelizmente. A terceira diferença: está na estrutura das duas ordens jurídicas. é necessário que se faça primeiro sua "transformação" em direito interno. que um Estado é soberano dentro de suas fronteiras. . mas fora delas todos os Estados se equivalem. O Dualismo com isso. Na ordem internacional a estrutura está baseada na coordenação. ou seja. porque é o DIP que regula as relações entre eles. todos os problemas de natureza econômica só podem ser resolvidos através de uma cooperação interestatal. A nossa. acrescenta-se também o indivíduo como sujeito de direito. São elas: . A segunda diferença: refere-se às fontes nas duas ordens jurídicas. mas nunca como secantes. que o pode fazer até com primado do Direito Interno. O Direito Internacional não vai atingir diretamente a ordem jurídica interna.

uma vez que os Estados seriam soberanos absolutos e não estariam subordinados a qualquer ordem jurídica que lhes fosse superior. Essa concepção tem duas posições: uma. que era uma hipótese e cada jurista poderia escolher qual seria ela. São elas: Dualismo e Monismo com Primazia do Direito Interno. KELSEN sai do seu indiferentismo e elege a norma costumeira pacta sunt servanda como norma do DI. Não estão sujeitos a nenhum sistema jurídico que não tenha emanado de sua própria vontade. como pode o Estado aparecer nas duas? 3ª) O direito não é produto da vontade nem de um Estado. Verdross. A Teoria Monística com Primazia do Direito Internacional foi eleita por várias co nstituições. na medida que só a aceita na ordem interna. Assim. Essa Teoria. dando ensejo à TEORIA DA LIVRE ESCOLHA ou FASE DA INDIFERENÇA. Cabe-nos aqui discursar sobre o Monismo com Primazia do Direito Internacional. Ele vai ser aplicado na ordem interna. Nenhuma outra norma pode modificar a pacta sunt servanda. pois na verdade ela é pluralista. KELSEN não admite aqui o conflito entre as duas normas jurídicas. Num segundo momento. Mas isso não ocorre. tendo em vista a garantia de que ela será cumprida. mas de estrutura. a existência de uma única norma jurídica. toda ciência jurídica tem por objeto a norma jurídica. toda a modificação na ordem constitucional por um processo revolucionário deveria acarretar a caducidade de todos os Tratados concluídos na vigência do regime anterior. MONISMO COM PRIMAZIA DO DIREITO INTERNO O Monismo com Primazia do Direito Interno foi adotado por autores nazistas e algumas vezes por autores soviéticos. é a que maior segurança oferece às relações internacionais. Críticas: A principal crítica dirigida à esta Teoria é que ela não corresponde à História. sob a reserva de reciprocidade com a outra entidade). de um modo geral. 10 . O Monismo sustenta. Kunz. uma vez que tem direitos e deveres outorgados diretamente pela ordem internacional. Realmente. 2ª) Sendo duas ordens independentes. uma simples "diferença de grau". afirmamos. Monismo com Primazia do Direito Internacional. nem de vários Estados. Numa terceira fase. que veio substituir o MONISMO RADICAL de KELSEN em sua fase anterior. a norma base ("Grundnorm"). que nada têm em comum. No vértice da pirâmide estaria a norma fundamental. Afirma que as normas devem ter sua hierarquia: uma norma tem a sua origem e tira sua obrigatoriedade da norma que lhe é imediatamente superior. ou seja. KELSEN continua a eleger a pacta sunt servanda como norma base. se os Estados são absolutamente soberanos. Assim é explicado porque um Tratado não pode ser inovado se o direito interno muda. a francesa (esta. É a norma fundamental no DI. a Primazia do Direito Interno. Ao formular sua Teoria enunciou a célebre pirâmide de normas. influenciado por VERDROSS.1ª) Nega a condição da personalidade internacional do indivíduo. tendo em vista a existência de várias ordens internas. Mas. Ela o reduz a um simples direito estatal. É o MONISMO MODERADO. independente. os países baixos. É um princípio ordenador da Ordem jurídica Internacional. O Tratado é feito pelo Estado e não pelo Governo. o Tratado não fica pairando na ordem internacional. que foi desenvolvido principalmente na Escola de Viena (Kelsen. pois este muda. mas já admite o conflito. Finalmente. É nesse momento que surge a pergunta: Ora. a diferença entre as duas normas não é de natureza. que nos ensina ser o Estado anterior ao DI. Esta é a TEORIA DA AUTOLIMITAÇÃO As diversas críticas a essa Teoria são: . com primazia da norma internacional. TRIEPEL por sua vez dizia que são ordens independentes. que defende a Primazia do Direito Internacional e outra. Entretanto. porque em nome da continuidade e permanência do Estado ele é ainda obrigado a cumprir os Tratados concluídos no regime anterior.A primeira e mais importante de todas é que ela nega a existência do próprio DI como um direito autônomo. etc) Para KELSEN.2ª crítica: alguns a classificam como pseudomonista. O voluntar ioso é insuficiente para explicar a obrigatoriedade do costume internacional. Assim. negar a superioridade do DI é negar a sua existência. neste primeiro momento KELSEN não se define. podemos apresentar uma 3ª crítica que é a de que se a validade dos Tratados Internacionais repousasse nas normas constitucionais que estabelecem o seu modo de conclusão. Essa Teoria parte do princípio que os Estados são absolutamente soberanos. 4ª) KELSEN observa que coordenar é subordinar a uma terceira ordem. por que vão se submeter às normas internacionais?" A resposta é que o próprio Estado autolimita essa soberania para acatar a norma jurídica internacional. Os monistas respondem que sua teoria é "lógica" e não histórica. tais como a espanhola. o homem também é sujeito internacional. a alemã. . MONISMO COM PRIMAZIA DO DIREITO INTERNACIONAL O Monismo com Primazia do Direito Internacional é uma das correntes que estudam as relações que o Direito Internacional e o Direito Interno guardam entre si. majoritária.

Embora seja o Estado sujeito de Direito Interno e de DI. E o Estado aceita esta responsabilidade. quando ele viola um dos seus princípios. O direito. 11 . é um só e a Ordem Internacional acarreta a responsabilidade do Estado. Por este motivo é que ocorre a primazia do DI sobre o Direito Interno. assim. não se pode conceber que esteja submetido a duas ordens jurídicas em choque. ele é a mesma pessoa e. na sua essência.

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