FACULDADE DE LETRAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO V MESTRADO EM ESTUDOS AFRICANOS

O Senegal nas rotas lusíadas
Contributo para o estudo da presença da Língua Portuguesa na África Ocidental a partir do século XV Dissertação apresentada por Maria de Lurdes Pires Gomes Martins Reis Leitão

Orientadora: Professora Doutora Elvira Mea

Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto 2007

INTRODUÇÃO

“… e o que se mostrava no mapa mundy, quanto ao desta costa, nom era verdade, ca o nom pintavam senom a aventura; mas esto que agora he posto nas cartas, foe cousa vista por olho, segundo já tendes ouvido” Gomes Eanes de Zurara1 A partir da Literatura de Viagens2 sobre os Descobrimentos Portugueses na Costa Ocidental de África, tentamos conhecer melhor as movimentações dos navegadores portugueses naqueles novos lugares e o relacionamento que estabeleceram com povos tão diferentes cuja existência se desconhecia. Todos os temas abordados, as referências feitas por esses viajantes, testemunhas oculares da época, podem ser pistas para compreender os povos africanos, os seus modos de vida, os seus interesses, as suas acções, porque falam “de cousa vista por olho”3. Por outro lado, aspectos da geografia dos lugares descritos podem também contribuir para explicar comportamentos e acrescentar dados para a construção da História desses povos; é a face visível que consideramos assemelhar-se à da época pré-colonial e pós-colonial, e que poderá ajudar a explicar movimentos dos grupos e dos reinos que ali viviam. Gostaríamos de contribuir, principalmente através de textos ou registos dos portugueses da época das Descobertas, para trazer não só conhecimento sobre as realidades observadas pelos portugueses, verificar como foram interpretadas por eles, mas também identificar condicionalismos da natureza sobre a acção do homem, investigar sobre os reinos africanos existentes, procurar compreender as vivências e as acções humanas, num espaço muito extenso, com características geográficas e especificidades climáticas muito distintas das da Europa. Por isso, é importante também descobrir a humanidade africana, os seus modos de vida, os seus contactos, as suas mudanças e os seus interesses, as marcas culturais que deixaram, e eventualmente, identificar aspectos culturais que permaneceram até aos nossos dias e que os exploradores portugueses teriam encontrado.
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G. E. de ZURARA (1453); vide ZURARA, Gomes Eanes de, Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné (Introdução pelo Visconde de Santarém), publicada por J. P. Aillaud, Paris, 1841, Cap. LXXVIII, “Das legoas que estas caravellas do Iffante forom a allem do cabo, e doutras cousas místicas”, pp. 371372 2 Ao longo deste estudo, e como fizemos na nota supra, a indicação de um autor seguida de data constitui uma referência à data de produção do referido texto 3 G. E. de ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. LXXVIII, pp. 371-372

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Neste sentido, procuramos dados sobre a relação destes povos com os portugueses e com a Língua Portuguesa. Queremos recolher vestígios do passado que possam explicar o interesse crescente do Senegal e dos senegaleses pela Cultura e Língua Portuguesas, na actualidade. Esse interesse terá origem nas memórias de um passado remoto? Terá outras causas, na época presente? Ou haverá uma confluência das consequências do passado e dos interesses actuais do país? Com o nosso estudo, pretendemos captar principalmente elementos que se relacionem com os territórios do Senegal e a zona circundante que faz fronteira com a Gâmbia, a Mauritânia, o Mali, a Guiné-Bissau e a República da Guiné (Conacri), embora não existisse esta divisão territorial em países, nem quando os portugueses descobriram o continente africano nem mais tarde. Ou seja, na nossa análise sobre o passado, devemos integrar os dados no contexto de toda a África Ocidental (Guiné, no século XV). Depois da Conferência de Berlim de 1884, a organização do território criou contextos e perspectivas específicas. Ainda assim, hoje, como há quinhentos anos, esta região apresenta determinados traços geográficos e culturais que devem ser realçados para compreender como foi condicionada pela natureza a fixação de múltiplos grupos humanos, com características muito específicas nos seus modos de vida, e conhecer também os interesses e as necessidades que moveram as suas acções ao longo dos tempos, antes e depois da colonização. O Senegal é um Estado no litoral do Oeste africano. Com uma superfície de 196722 km²; o seu relevo é plano e pouco elevado. Muitos planaltos se estendem a perder de vista, mas as altitudes são sempre inferiores a 130 metros. Perto da fronteira da Guiné, no Sudeste, encontra-se o ponto mais elevado do país, nas montanhas do Fouta Djalon (581m). No Noroeste, os planaltos ultrapassam ligeiramente os 100 metros e a sua altitude baixa progressivamente de Leste para Oeste, não ultrapassando os 20 metros no Ferlo ocidental, no Siné-Saloum e na Casamansa. Também se encontram dunas fixas que se estendem na região de Cayor e de Jalofo. Devido à escassez e à irregularidade das chuvas, o Senegal é atingido frequentemente por períodos de seca que provocam consequências dramáticas sobre o equilíbrio ecológico e sobre as actividades humanas. O clima, a exploração agrícola contínua e as más escolhas de produtos a cultivar causaram uma grave erosão dos solos, já de si pouco variados, excepto na região de Dacar, no litoral. Predominam os solos arenosos, mais fáceis de trabalhar, e os solos argilosos, mais compactos e mais difíceis de cultivar. 2

O rio Senegal estende-se ao longo de 1700 km, do Fouta Djalon, na República da Guiné (Conacri), a Saint-Louis, percorrendo o território senegalês de Sul a Norte e delimitando as fronteiras deste com o Mali e a Mauritânia. Este rio foi ocupado pelo mar há 5500 anos, construindo um delta ao longo dos tempos, cujas correntes fluviais são constituídas por areia muito fina com solos muito salgados, a Oeste de Richard Toll. Este rio favoreceu a penetração colonial no Sudão, sendo hoje factor de desenvolvimento e de integração regional, possuindo um vasto potencial de aproveitamento agrícola, através dos projectos de irrigação desenvolvidos pela Organização para a Valorização do Rio Senegal, na qual participam a República da Guiné (Conacri), a Mauritânia, o Mali e o Senegal. É corrente4 dizer-se que o nome do país provém da expressão “sunugal”que significa “a minha piroga”; isso explica a importância atribuída ao rio que se transfere para a designação do próprio país. No Senegal correm ainda outros três rios importantes: o Casamansa, o Gâmbia e o Saloum. As regiões da Casamansa e do Siné-Saloum, nomes que advêm dos rios que as atravessam, são regularmente submersas pelas marés. A Gâmbia é um pequeno Estado de 11295 km², um enclave no território senegalês que acompanha o rio do mesmo nome, não tendo nenhuma das suas margens mais de 30 km de largura. A península do Cabo Verde apresenta um relevo de colinas e de planaltos, com solos pedregosos; ao longo da costa Norte, encontram-se dunas litorais que isolaram os lagos, testemunhos da última submersão marítima. Esta área apresenta um relevo vulcânico: os montes das Mamelles elevam-se em Dacar a 105 metros de altitude e são o que resta de um planalto antigo de origem vulcânica. Os pequenos planaltos do Cabo Manuel, em Dacar, e da ilha de Goreé constituem-se de lavas e todos estes relevos formam uma costa rochosa. As costas Sul e Oeste da península são, aliás, geralmente acidentadas, com falésias. Referimos ainda, pela proximidade geográfica, a existência do rio Níger. Verdadeira espinha dorsal do território maliano, tem suscitado muito interesse dos geógrafos e dos historiadores. Os mistérios ligados à orientação, à nascente, ao estuário e às cidades próximas do maior rio da África ocidental (4200 km desde a nascente, na República da Guiné, até à foz na Nigéria) só foram esclarecidos por vários exploradores

A. D. BOILAT (1853); vide BOILAT, Abbé David, Esquisses Sénégalaises, Karthala, Paris, 1984. Esta ideia, profundamente enraizada, é, ainda assim, contestada por autores como Etienne Smith; vide SMITH, Etienne, “La nation «par le côté» - le récit des cousinages au Sénégal", in Cahiers d’études africaines, parentés, plaisanteries et politique, 184, Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris, 2006

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nos séculos XVIII e XIX. Este rio é parcialmente navegável em território maliano, especialmente no delta interior que se forma a partir de Ségou. O delta vivo cobre uma superfície de 30000km² e estende-se numa imensa planície com os seus múltiplos braços que formam um mar interior. As águas do Níger alimentam numerosos lagos, fazendo a ligação entre a zona de savana e a desértica. Sendo fonte de vida para numerosos pastores e agricultores, este rio testemunha a presença de civilizações e de impérios africanos. Ainda no Mali, encontramos o deserto do Sara que cobre metade da superfície do país, a Norte de Tombuctu e de Gao. As dunas dominam. Só alguns oásis e poços escavados pelo homem permitem aos raros habitantes viver ali da pastorícia e do comércio do sal. Os dias tórridos, as noites frias e as tempestades de areia tornam a vida quase impossível no deserto. Mas é na Mauritânia que se sente a omnipresença desta força poderosa do deserto do Sara, como se fosse um grande oceano de areia. Neste país de 1030700km², o único curso de água importante é o Senegal que, por esse motivo, é simplesmente chamado “o rio”. Toda a produção agrícola se concentra na orla do rio que, no final do “hivernage”, a estação das chuvas, chega a atingir 20 km de largura perto do seu estuário. Na estação seca, o rio encontra-se abaixo do nível do oceano e este último tem tendência a penetrar profundamente no interior das terras. O rigor extremo do clima desértico é temperado apenas no Sul, durante a estação das chuvas, e na orla costeira. A Mauritânia é pois, naturalmente, um país com baixa densidade populacional, praticamente nula a Leste de Nouakchott. Ao longo dos tempos, a situação de finisterra do Senegal terá proporcionado a fixação de vários grupos humanos e de vagas migratórias sucessivas de povos, de origens diversas, vindos principalmente do Norte e do Leste. No rio Senegal terão passado os mais antigos e importantes fluxos migratórios da sub-região: grupos negros do Sara, outros mestiços berberes que terão fugido para o Sul mais húmido e populações sudanesas autóctones ou vindas do Leste. Estes encontros dariam azo a conflitos e terse-iam constituído grupos, até compor a originalidade étnica senegalesa actual. Contudo, a informação histórica sobre a África Ocidental e sobre os territórios do Senegal é, em geral, escassa e encontra-se muito dispersa. Por outro lado, as relações culturais entre Portugal e o Senegal também não têm sido muito visíveis. É frequente encontrar entre os senegaleses (povo, estudantes e professores) pouca informação, ou ideias infundadas, e expectativas irrealistas relativamente aos portugueses e a Portugal. Visto como um dos países da Europa, Portugal é considerado pelos senegaleses como 4

um país onde se vive bem. Se se falar do passado, por um lado pensam erradamente, por exemplo, que os portugueses foram os responsáveis pelo início da escravatura em África; por outro lado tendem a valorizar demorada e excessivamente certas ocorrências, causas e consequências da Guerra Colonial nos países lusófonos africanos. Generalizaram ideias sobre esses contextos, expressas demasiadas vezes, sem fundamento e sem contexto ou tempo definidos, causando-nos alguma estranheza por reflectirem um certo desconhecimento de realidades portuguesas do presente e do passado. Ao mesmo tempo, os senegaleses manifestam surpreendentemente enormes simpatias pelos Portugueses, reconhecem com frequência os falantes de Língua Portuguesa e vêem Portugal, ou a Europa, como um paraíso dourado, para onde muitos desejam emigrar em busca de melhores condições de vida. De facto, o contacto directo com este povo, durante alguns anos, permitiu-nos identificar não só indícios de uma enorme falta de informação sobre a História e a Cultura portuguesas, mas sobretudo um interesse particular pela Língua Portuguesa e, em geral, uma afabilidade inesperada para com os portugueses. Desde logo, esse convívio proporcionou-nos uma reflexão privilegiada sobre a presença e as marcas portuguesas que possam permanecer neste povo, independentemente da sobreposição da influência francófona. Foi crescendo a nossa curiosidade sobre várias constatações e evoluímos para um interesse mais sério com o objectivo de responder às nossas questões, dúvidas e perplexidades, neste domínio da influência portuguesa sobre a cultura senegalesa. Por conseguinte, julgamos ser de grande importância aprofundarmos o nosso conhecimento sobre o Senegal, com pesquisas e dados históricos sobre assuntos acerca dos quais existe, por vezes, uma certa visão distorcida ou mesmo falsa, que paira sobre o o passado e o presente português nestes espaços. Até porque novos dados poderão levar-nos a descobrir ligações importantes, desejáveis e úteis para o futuro da difusão da Língua e da Cultura Portuguesas no Senegal. Na verdade, o que nos causou maior admiração foi, sem dúvida, o interesse crescente pela Língua Portuguesa no Senegal. Surgiam-nos impressões contraditórias sobre os objectivos a alcançar com a instituição do ensino do Português. Que motivações teriam os estudantes que frequentam os Cursos de Português da Universidade Cheikh Anta Diop, em Dacar? Por isso, inquirimos os estudantes, e os resultados desse processo foram clarificadores, em alguns pontos, sobre as características actuais da cultura senegalesa. Ao mesmo tempo, encontrámos respostas objectivas sobre a ligação dos senegaleses à Cultura e à Língua Portuguesas. 5

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LÍNGUA

PORTUGUESA

COMO

INSTRUMENTO

PARA

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CONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA DE ÁFRICA: O CASO DO SENEGAL O passado de África continua a suscitar a curiosidade de muitos estudiosos. Ao longo dos tempos, os mistérios que envolvem este continente têm despertado interesses múltiplos e até divergentes. Após as Descobertas dos portugueses, outros europeus se deslocaram para esses mesmos lugares, seguindo os passos dos primeiros navegadores que passaram por aqueles mares, querendo obter as famosas riquezas ali existentes. Por que razão os interesses de vários países europeus coincidiriam, ao mesmo tempo, nos mesmos lugares até então desconhecidos? Foi talvez um momento de grande euforia quando se soube que, no continente africano (à época, designado por Etiópia, sob a influência dos estudiosos da Antiguidade Clássica), tinham sido encontradas as riquezas e as rotas do ouro de que se falava na Europa. Por um lado, a África pré-colonial carece de documentos escritos que nos transmitam informações e testemunhos da época. Não foram ainda identificadas as fontes concretas, escritas ou outras, que teriam apoiado as expedições lusas no século XV. Os conhecimentos anteriores seriam insuficientes para orientar os navegadores para as regiões posteriormente descobertas pelos portugueses porque não se fundamentavam num conhecimento adquirido pela experiência, que trouxe a “clara certidom da verdade” (Fernão Lopes), sendo “a madre de todas as cousas”5 (Duarte Pacheco Pereira). De acordo com a História, e entre muitos autores que desenvolvem esta ideia, Óscar Lopes apresenta uma explicação fundamentada e especialmente minuciosa para o sentido da aventura portuguesa quatrocentista:

ALBUQUERQUE, Luís de, Introdução à História dos Descobrimentos Portugueses, Col. Fórum da História, Publicações Europa-América, 5ª ed., Mem-Martins, 2001, pp. 292, ”Não é menos importante salientar que a prática de uma navegação astronómica, bem como a necessidade de serem observadas as condições físicas da atmosfera e dos mares ajudou a criar o clima propício para o surto de um experimentalismo que veio a dar no decurso do século XVI alguns dos frutos mais sazonados da ciência portuguesa. Nem sempre a invocação da experiência na pena de Duarte Pacheco Pereira exprimirá já um convívio interrogador com os fenómenos do mundo físico, se bem que nalguns passos inegavelmente o acuse; meio século antes, Azurara empregava expressões idênticas a algumas das usadas no Esmeraldo de situ orbis, mas num sentido simplesmente literário. (…) ou quando D. João de Castro procurava uma explicação para a anomalia que notara no desvio da agulha e afastava uma peça de artilharia que lhe estava próxima que supôs ser (e era) a responsável pelo caso, ou , ainda, quando este mesmo navegador mandava lançar fardos de palha às águas da foz de um rio para assim reconhecer a orientação das correntes superficiais nelas criadas, é irrecusável que estavam a considerar a experiência como “madre de todas as coisas” (palavras de Duarte Pacheco Pereira), num sentido positivo, e não retórico.”

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“…diz respeito a uma importante conotação que liga a palavra experiência à palavra perigo, que parece não lhe ser etimologicamente afim mas que o é do ponto de vista paragramático e conotativo, e isto já em latim: um saber de experiência feito não é simplesmente aquilo a que Bertrand Russell deu a designação inglesa de knowledge by acquaintance. A experiência relacionada com a prática náutica quatrocentista já se não reduz a uma sedimentação passiva: o ver claramente visto que encontraremos enfatizado em Camões não constitui um simples ver (…) trata-se do saber resultante de um risco (perigo) que se correu, sob as condições de uma metodologia náutica, cosmográfica e cartográfica afinal tão complexa como a metodologia de um laboratório de experimentação mecânica.”6 Fomos investigar, procurando apoio em conhecimentos de vários documentos, narrativas, roteiros e literatura de viagens, em estudos e dados da Literatura, também da Geografia, da Economia e da História. É nosso desejo recorrer, sempre que possível, a documentos escritos em Língua Portuguesa, como contributo para a construção da História de África, para estudar e avaliar a influência dos portugueses e da Língua Portuguesa nos povos que viviam na África Ocidental, com quem os navegadores contactaram pela primeira vez. Interessamnos especialmente os territórios e os nativos do actual Senegal, como vimos. Assim, no que diz respeito a Portugal, o nosso interesse incide principalmente sobre o momento e a época em que o Estado Português empreendeu assumidamente viagens de Descobrimentos, no século XV, ou seja, a partir de 1415, data oficial do início destas aventuras marítimas. Mas incide igualmente sobre a permanência de portugueses nesses territórios ao longo dos séculos, assistindo às várias evoluções que foram ocorrendo junto dos indígenas e a relação de continuidade dos portugueses com África. De acordo com um estudo de História Moderna7, as fontes documentais escritas em Língua Portuguesa, sobre as Viagens do Senegal à Serra Leoa (1453-1508), na primeira fase das Descobertas, são as seguintes: - Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453-1460?); - Este liuto he de rotear…, de um português anónimo (1480-1485?);

LOPES, Óscar, A busca de sentido, Questões de Literatura Portuguesa, Ed. Caminho, Lisboa, 1994, pp. 31 7 HORTA, José da Silva, “A Representação do Africano na Literatura de Viagens, do Senegal à Serra Leoa (1453-1508)”, in “Mare Liberum”, nº 2, 1991

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- “…certos capítulos das prouincias do titulo real…”, de Valentim Fernandes (1502); - Da viagem de Dom Francisco viso rey…, de Mayr /Valentim Fernandes (15051506); - Crónica da Guiné [versão da], de Valentim Fernandes (1506); - Descripçam de Cepta por sua costa…, de Valentim Fernandes (1506-1507); - Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508). Destes textos, apenas três tiveram um redactor português que coincide com o autor: Gomes Eanes de Zurara, Português Anónimo e Duarte Pacheco Pereira. Não podendo ter acesso a todas estas fontes escritas em Português, quisémos assegurar, contudo, a informação das fontes mais conhecidas e mais importantes para a História dos Descobrimentos portugueses, para reunir mais informação, de acordo com as referências do mesmo estudo. Assim, referem-se ainda os seguintes textos, um escrito em italiano e os outros dois em Latim, cujos informadores foram portugueses: - Relação das Viagens de Pedro de Sintra, de um português anónimo e do italiano Luís de Cadamosto (1463-1465?); - De prima inuentione Guinee…, de Diogo Gomes de Sintra, escrito em Latim (1484-1496); - De inuentione Africae…, do alemão Jerónimo Monetário, escrito em Latim (1495?). De todas estas fontes escritas, sobre os Descobrimentos e várias viagens promovidas pelo Estado Português naquele período de tempo, consultámos com maior preocupação e regularidade, não só por razões de maior acessibilidade mas também pelo seu significado e importância histórica, as que a seguir se indicam: - Crónica dos Feitos da Guiné, de Gomes Eanes de Zurara (1453-1460?); - Relação das Viagens de Pedro de Sintra, de um português anónimo e do italiano Luís de Cadamosto (1463-1465?); - De prima inuentione Guinee…, de Diogo Gomes de Sintra, escrito em Latim (1484-1496); - Esmeraldo de Situ Orbis, de Duarte Pacheco Pereira (1505-1508). Explorámos também a informação dada por viajantes que, à época, estavam declaradamente ao serviço do Infante D. Henrique e do Estado Português: - Carta, Usodimare, (1455); - Viagens de Luís de Cadamosto (1463-1465?). 8

Além destes, acrescentamos outros títulos, que não figuram naquele estudo, referentes a uma época mais tardia, que nos permitiram observar a evolução da presença e da influência portuguesas até aos finais do século XVII, de entre os quais analisámos com maior atenção a “Discripção da Costa de Guine e Situação de todos os Portos e Rios della, e Roteyro para se Poderem Navegar todos seus Rios”, de Francisco de Lemos Coelho, um relato, escrito na ilha de Santiago de Cabo Verde, em 1684, redigido por um capitão português, sobre a sua própria vivência nestes lugares, ao longo de mais de duas décadas. Continua a ser necessário consultar as fontes escritas, mas também é indispensável desenvolver métodos e realizar estudos científicos sobre as marcas arqueológicas que existem. Devem investigar-se os vestígios visíveis e analisar-se as culturas hoje existentes, transmitidas sobretudo pela tradição oral. A recolha de dados é muito importante para África, para se compreender e se conhecer melhor, sob pena de se perderem irremediável e rapidamente, conhecidas as influências perturbadoras da globalização, hoje idênticas em todo o mundo, questionando as especificidaddes culturais dos povos. A transmissão oral da História tem imensas limitações, sabemos que aquilo que não se regista, por escrito ou por outra forma material, ou se perde ou se transforma. Diz o povo, em língua portuguesa, que “quem conta um conto, acrescenta um ponto”. Sabemos que é verdade, pois conhecemos esses fenómenos pela nossa própria experiência do quotidiano, que não difere das outras culturas, nem da africana; por muito que se queiram defender as memórias da cultura de transmissão oral, nunca se poderá aprofundar o conhecimento do passado se não se recorrer a outras fontes e a outros métodos para a recolha de dados. Muita informação se perdeu com o passar dos tempos. Nem os próprios africanos podem garantir ou afirmar toda a história do passado das gerações anteriores. A História de África continua por detrás de uma enorme e densa obscuridade. 1.1. Perspectiva Histórica da Senegâmbia Embora percorrendo, como pioneiros europeus, toda a costa ocidental africana, os portugueses concentraram as suas actividades na faixa a Sul do Cabo Verde – onde se encontra a actual capital, Dacar. Esta área é designada por Senegâmbia e pertenceu, durante séculos, ao Estado do Gabú e pequenos reinos a ele ligados.

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A compreensão da evolução política do reino do Gabú, das suas relações com os vizinhos – e, em particular, com o Fouta – e do conflito entre o animismo autóctone e a islamização exógena, são importantes para a análise do quadro geopolítico encontrado pelos portugueses e da sua evolução até à situação política, étnica, linguística e cultural actuais. Fundado no século IV pelos berberes, o império do Gana8 tornar-se-ia um território próspero ao longo dos séculos, graças ao comércio transariano dos escravos, do sal e do ouro. Estendia-se do Senegal ao Níger, passando pelo Sul da Mauritânia. Koumbi Saleh seria a capital, situada ao Sul da Mauritânia actual, uma cidade florescente. Parece que o Gana animista manifestava uma grande tolerância para com os muçulmanos, dado que a sua capital tinha uma dúzia de mesquitas. Audaghost (hoje Tegdaoust), outra cidade da Mauritânia, era também uma cidade de caravanas próspera. O ouro do Gana era trocado por tecidos, armas, vidraria e cerâmica com o mundo muçulmano, por intermédio dos berberes, donos de dromedários. Contudo, o crescimento económico provocou a reacção dos berberes nómadas que se aliaram aos almorávidas, tomaram e queimaram Audaghost (1054) e lançaram a “jihad” - guerra santa – contra o Gana animista. O Império do Gana sobreviveria até ao século XIII, antes de ser anexado ao Império do Mali. Uma das principais consequências para a região foi a conversão ao Islão da maior parte da população. Os antepassados dos sérères, jalofos, toucouleurs e peuls estariam implantados entre o Tagant e o Adrar (ou seja, na actual Mauritânia) e participariam na intensa actividade do reino de Tekrour, a Ocidente do império do Gana, em ambas as margens do troço médio do rio Senegal (correspondendo, grosso modo, à Mauritânia e à actual área do Fouta Toro, ou seja, a margem esquerda do Senegal médio), que se tornou um grande eixo do comércio transariano de escravos, de ouro e de sal. As primeiras referências ao Tekrour surgem em crónicas árabes do século IX, e terá sido fundado pelos peuls vindos do Norte. Em conflito com o Gana, terá abraçado a causa dos almorávidas (1040) e terá sido o primeiro reino subsariano a converter-se ao Islão. Mais tarde, viria a cair sob o domínio do império do Mali, mas sempre conservando um estatuto particular, em grande parte devido ao respeito que detinham os toucouleurs

“Ghana” significa “chefe de guerra dotado de um poder sobrenatural” em língua mande. Contudo, o rei era designado Kaya Magan (rei do ouro) e o reinado era o Wagadu.

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junto dos outros povos, por terem sido os primeiros a islamizar-se. Mais tarde, a sua importância viria a diminuir com a emergência do Jalofo e do Cayor. Mapa 1: O Senegal pré-colonial do séc. XV ao séc XVIII9

O Cayor era um pequeno reino situado entre a foz do rio Senegal e a península do Cabo-Verde. Quando Cadamosto10 menciona a sua existência, em 1450, o Cayor está dependente do reino do Jalofo; mas, no final do século XVI, aproveitando a queda do império Songai11, o chefe Detye Fu-Ndiogu proclamou-se rei do Cayor que, situado na

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« Les Atlas de l’Afrique, Sénégal », Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed. Paris, 2000 L. de CADAMOSTO e P. de SINTRA (1463-1465?); vide CADAMOSTO, Luís de, Viagens de Luís de Cadamosto e de Pedro de Sintra, Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1988, pp. 116 e ss 11 No século XVI, estendia-se do Senegal até à curva do Níger e desapareceu neste século. O povo Songai vivia nas duas margens do rio Níger, povo do Níger e do Mali.
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costa, foi o primeiro a beneficiar das relações comerciais com os europeus que ali procuravam peles, ouro, marfim e escravos capturados nas regiões limítrofes. Apesar de tentativas diversas, nunca conseguiu anexar o Baol, a Sul, e teve relações difíceis com os vizinhos, tendo sofrido uma derrota severa pelos lébous de Dacar, no Século XVII. Aliás, no final desse século, o Cayor estava preso entre dois vizinhos poderosos: os franceses, a Norte (Saint-Louis) e a Sul (Dacar) e os toucouleurs do Fouta Toro que promoviam a guerra santa - tendo já previamente derrotado a dinastia diananké do Jalofo – e que acabaram por invadir e converter os seus habitantes. Em 1886, com a morte do seu chefe Lat Dior, da responsabilidade dos franceses, o reino do Cayor desapareceu. O Jalofo nasceu da vontade de separação do Tekrour por Ndiadiane Ndiaye, no final do século XIV, para estender os seus domínios na direcção do Sudoeste, englobando pequenos domínios como o Walo, o Cayor, o Baol e o Sine Saloum. A sociedade era dominada pelo rei (“bour”), seguindo-se-lhe os nobres, os homens livres, as gentes de casta (ferreiros, tecelães, “griots” – trovadores) e os escravos. Estes eram rapidamente integrados na sociedade por via de casamentos e adopções. A sucessão era, matrilinear e o reino foi por vezes dirigido por princesas (“linguères”). A desagregação do Jalofo começou com a secessão do Cayor, em 1566, seguindo-se-lhe outros reinos vassalos e o estabelecimento dos franceses na foz e na costa do Senegal. O Jalofo deu origem aos wolofs, a maior etnia do Senegal actual. O Mali, pequeno Estado malinké, existiria desde o século XI. Muito ligados à sua cultura e ao animismo, os malinkés viveram muito tempo da caça e da agricultura. Mas a extensão da escravatura árabe provocava êxodos muito importantes de populações, em particular do reino do Gana. Conta-se que Soundjata, o herói lendário cantado pelos “griots” malinkés, após a conquista de Kirina, em meados do século XIII, estendera o seu império pela conquista, ordenara prospecções auríferas e criara, em cada região, forças militares para fazer reinar a ordem, a segurança e a justiça. De campo de captura privilegiado para os esclavagistas, o Mali tornar-se-ia um Estado respeitado por todos. O império ocuparia, nessa altura, uma área compreendida entre o Atlântico e a embocadura do Níger. O comércio transariano apresentaria um crescimento prodigioso. Assim, expandia-se uma civilização cujas principais cidades eram Niani, Kansala, Tombuctu, Oualata, Djenné e Gao. A partir do século XIV, várias revoltas terão eclodido sucessivamente, até à queda do império, em meados do século XVII.

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Por outro lado, parece que também os lugares, os vestígios pré-históricos e os dados fornecidos pela tradição oral permitem pensar que o povoamento do território do Senegal, em épocas anteriores à chegada dos europeus, se efectuou a partir do Norte e do Leste com a chegada de muitas vagas migratórias. As últimas grandes migrações terão sido as dos jalofos, dos mandingas, dos peuls e dos sérères, pertencendo todos a um grupo designado Bafour12, cuja expansão em vários ramos parece estar correlacionada com a pressão almorávida. Assim, a História do Senegal pré-colonial caracteriza-se pela existência de reinos e de Estados que foram progressivamente divididos ou desintegrados. Alguns pesquisadores incluem as populações da Senegâmbia no grupo de línguas atlântico-ocidental, por oposição ao grupo “sudanês” (peuls, toucouleurs, wolofs…). Grande parte dos povos do grupo atlântico-ocidental (bainouks, balantas, beafadas, papel, para o grupo atlântico, e bassaris, koniaguis, badiarankés, pajadinkas para o grupo continental, no interior) têm estruturas matrilineares (ao contrário dos povos “sudaneses”) e terão sido os primitivos e responsáveis da civilização megalítica de que subsistem testemunhos no Siné-Saloum. Os bainouks são, aliás, considerados os “mestres do solo” pelas outras etnias e, à data das invasões mandingas, seriam os únicos com reinos constituídos ou, pelo menos, com capacidade de resistência. Também os balantas e os diolas seriam anteriores aos demais povos, na Casamansa. De facto, o Pakao, o Djassi, o Boudhié, o Balmadou eram territórios povoados por bainouks e balantas.13 No século XIX, os bainouks da Baixa Casamansa terão sido em grande parte assimilados pelos malinkés (mandingas). Quanto aos balantas, os residentes da margem direita do rio Geba, ter-se-ão integralmente diluído nos mandingas, enquanto que os da margem esquerda terão permanecido irredutíveis e atacavam mesmo os primeiros. Os mandingas, em geral, teriam já uma ocupação antiga (anterior ao século XIII e confirmada pelas conquistas de Tiramaghan, às ordens do mítico Soundjata, por volta de 1240) da área entre a península do Cabo Verde e a Gâmbia, de acordo com as tradições wolof, lébou ou sérère. Contudo, esses mandingas seriam oriundos do país

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THIAM, Iba Der, “Préhistoire et histoire”, in Les Atlas de l’Afrique, Sénégal, Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed., Paris, 2000 13 NIANE, Djibril Tamsir, Histoire des Mandingues de l’Ouest, Karthala-Arsan, Paris, 1989, pp. 119

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Soninké (no Sudeste do actual Senegal e no Sudoeste do Mali), como atesta a presença dos patrónimos Diafounou ou Wagadou, nas linhagens nobres. Em termos gerais, o Gabú terá conhecido quatro fases históricas: 1. Um período pré-mandinga, das origens ao Século XIII, testemunhada pelas tradições sérères e wolofs, a Norte, e pelas badiarankés e bainouks, a Sul. 2. O período maliano, de 1240 ao desaparecimento do império, no século XVII, durante o qual é constituído o Gabú e criada uma capital, Kansala (hoje desaparecida). 3. O Gabú independente cujo apogeu ocorreu no século XVIII, com o tráfico negreiro (1650-1790). 4. O declínio e queda, entre 1790 e 1867. Mapa 2: O Gabú no séc. XVIII14

A história do povoamento do Senegal é também a do relacionamento entre o Fouta e o Gabú e, em particular, dos seus conflitos que, mais do que religiosos (o Fouta é sobretudo representado pelos peuls muçulmanos), foram de luta política pelo domínio da sub-região: atraídos pela prosperidade do Gabú, obtida através do tráfico negreiro, o reino teocrático do Fouta Djalon procurou dominar os pequenos reinos costeiros de Baga e Nalou (Rios Pongo e Nunes) e sentiram-se atraídos pelas praças de Bissau,

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D. T. NIANE, Op. Cit.

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Cacheu, da Gâmbia e de Seju (actual Sédhiou, na Casamansa). A queda de Kansala e a derrota do Gabú teve, como primeira grande consequência, a islamização da região; logo de seguida, ocorreram as conquistas coloniais, com efectiva ocupação dos territórios. O contacto entre os mandingas (incluindo socés, soninkés e malinkés) e as populações da Senegâmbia é antigo e difícil de determinar. As tradições orais do Siné dão unanimemente conta da presença, no local, de populações mandingas15 quando os sérères chegaram do Fouta Toro (nos Séculos XI-XII, provavelmente no rescaldo das guerras religiosas entre muçulmanos e animistas desencadeadas pelos almorávidas nas províncias ocidentais do Gana)16 e distinguem esse povoamento mais antigo de outro, mais recente, ao tempo do reino do Mali. Os sérères rechaçaram ou assimilaram aqueles mandingas e constituíram-se como “guélowars” (a aristocracia local). A vaga “maliana”, a partir do século XIII, é mais facilmente reconhecível pelo facto de as famílias provenientes do Wagadou (“império do Gana”, em Soninké) terem conservado o nome do seu país de origem, uma prática corrente na África ocidental, como refere Djibril Niane que assinala, também, o hábito mandinga de chamar os estrangeiros pelo nome dos seus países.17 A origem da migração do General Tiramaghan18, com uma comitiva de cerca de cem mil pessoas, está ainda por explicar, mas uma tradição oral refere que se terá devido à recusa daquele de acompanhar o “mansa” (rei) Soundjata19 na conversão ao Islamismo, o que justificaria o facto de os mandingas daquela região se manterem animistas até ao princípio do século XX, apesar da pressão peul. As áreas conquistadas por Tiramaghan, a Sul, adquiriram o nome de Gabú. Os efeitos desta campanha nas nomenclaturas são interessantes: à medida que os exércitos chegavam a localidades, certas famílias ficavam ali estabelecidas, geralmente por decisão do próprio Tiramaghan; assim, a Norte, o patrónimo “Sylla” (do General sarakholé Lamine Sylla) foi integrado pelos wolofs, enquanto que, no outro extremo, a

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Chamados de “Socés” no Sine e no Jalofo D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 16-17 17 D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 16-17 18 Terá ocorrido por volta de 1250; vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 13, e NANTET, Bernard, Dictionnaire de l’Afrique, Histoire Civilisation Actualité, Larousse, Paris, 2006, « Mali (Empire du)». 19 Soundjata foi o mais notável rei do Mali. De acordo com a lenda, os animistas que fugiam dos almorávidas foram recolhidos pelo rei do Sosso que, no entanto, tentou matar os doze príncipes do reino do Mali. Apenas sobreviveu Soundjata que conseguiria, mais tarde, unir os chefes de clãs malinkés através da admiração pelas suas façanhas, liderar as conquistas dos reinos do Gana e do Sosso e reformar profundamente o ordenamento político-social da África ocidental. Vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 13 e ss, e B. NANTET, Op. Cit., « Mali (Empire du)»

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Sul do rio Gâmbia, instalou as famílias Keita e Diatta que viriam, por vezes, a juntar aos seus nomes o patrónimo Manjang. Por volta de 1450, dois séculos após a expedição de Tiramaghan, as províncias ocidentais tinham um claro domínio mandinga. O povoamento malinké era denso ao longo dos rios Gâmbia e Casamansa, até aos confins do Fouta Djalon. Assim, a maior parte dos povos da Alta e Média Casamansa – baïnouks, balantas, badiarankés, etc – poderia considerar-se mandinga. De resto, os navegadores portugueses incluíam todos os povos da Casamansa, incluindo os diolas, na categoria dos mandingas. Contudo, os mandingas não impuseram a sua língua, embora os chefes diolas a utilizassem para fins comerciais. A chegada dos portugueses foi um acontecimento maior na História da região; num primeiro momento atribulada, com notórias dificuldades de comunicação, desconfiança e violência, rapidamente a relação com os autóctones melhorou, quando estes perceberam que os portugueses procuravam, sobretudo, comerciar. Um conjunto de circunstâncias auxiliou o rápido estabelecimento de relações comerciais profícuas: em 1433 os tuaregs conquistaram Tombuctou e expulsaram a guarnição malinké; de 1462 a 1492 os songai revoltaram-se, conquistaram a área meridional do Níger, até ao delta interior e conquistaram Djenné; os malinkés viram, assim, cortado o acesso às pistas sarianas mas tinham ainda o controlo das regiões auríferas de Bouré e Bambouk; ainda tentaram reanimar a pista ocidental com destino a Sidjilmassa, em Marrocos (passando pela feitoria portuguesa de Ouadane20), mas esta cidade estava em declínio após a deslocação para o Cairo do eixo comercial do mundo muçulmano. É neste contexto que se ouve falar, por volta de 1445, da chegada de uns brancos em navios gigantes; e quando, em 1456, Diogo Gomes subiu o rio Gâmbia21, tendo já estabelecido boas relações com os autóctones, foi recebido pelo rei do Bintang e fez a paz com o “mansa” do Niomi, o Manding-Mansa (rei dos mandingas) deu ordem aos mercadores das margens do Níger para dirigirem as suas caravanas para Oeste. Os portugueses tornaram-se rapidamente familiares de todo o universo mandinga, com uma predilecção pelas regiões da Casamansa, Cacheu e Rio Grande. Grandes caravanas partiam do Manding, para viagens que podiam durar quatro a seis meses, atravessavam

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Ouadane integra um triângulo de três cidades históricas do Leste da Mauritânia, com Atar e Chinguetti. Era a feitoria portuguesa mais afastada da costa Atlântica e a localidade, inscrita como Património Mundial da UNESCO, foi restaurada entre 2004 e 2006 com apoio financeiro do Estado português. 21 D. T. NIANE, Op. Cit., cita Diogo Gomes de Sintra, neste contexto

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o Diarra, o Bambouk e encontravam os portugueses no Cantor ou no Woulli. Este comércio permitia ao Manding-Mansa e à sua corte receberem directamente produtos manufacturados europeus, a um preço dez vezes inferior ao praticado pelos intermediários árabes. Do seu lado, os portugueses recebiam o ouro maliano praticamente na fonte, dispensando a mediação onerosa dos árabes. No início, o ouro seria o bem mais procurado pelos portugueses, seguindo-se-lhe as especiarias e, apenas em terceiro lugar, os escravos.22 Os “mansa” e os “farins” – chefes locais - da Gâmbia e da Casamansa foram, na verdade, os grandes beneficiários do comércio com os portugueses, cabendo apenas ao Manding-Mansa o rendimento dos direitos sobre o comércio do ouro. Ao contrário dos flups e dos balantas que se mostraram muito reticentes ao contacto com os portugueses, os vizinhos kassangas entregaram-se ao comércio e mesmo a uma certa ocidentalização, patente no fausto da corte do rei Massa Tamba23, conquistador do reino dos bainouks, que trocava um bom cavalo por dez a quinze negros.24 Ora, segundo o mesmo autor, Massa Tamba disporia de uma cavalaria de cinco mil cavalos… Os portugueses fixaram-se em número significativo na Casamansa, no Cacheu e no Rio Grande, sendo a sua principal base Toubaboudaga, próxima de Brikama (na actual Gâmbia), a capital de Massa Tamba. Contudo, no Século XVI, a base principal dos portugueses era o arquipélago de Cabo Verde. O desenvolvimento do comércio com os portugueses e a dinamização das feiras situadas nas rotas para a costa aceleraram o movimento migratório para Ocidente iniciado pelos malinkés; por sua vez, o comércio de escravos tornou-se a principal actividade comercial entre europeus e soberanos da costa, os quais tiveram tendência para se libertarem da vassalagem ao Manding Mansa, emancipando-se. Os malinkés misturaram-se com as populações locais (bassaris e bainouks, essencialmente, mas não só) e souberam beneficiar do costume local de transmissão da herança do tio aos sobrinhos, filhos da irmã. Para tal, adoptavam também o nome do clã materno e tornavam-se, deste modo, donos legítimos do Gabú; deste modo, nomes malinkés foram sendo substituídos por outros: Traoré (clã de Tiramaghan) deu lugar a
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D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 31 Massa Tamba chegou mesmo a criar uma aldeia para brancos, junto à capital Brikama, em 1580, vide D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 32 24 A. DONELHA (1625); vide DONELHA, André, Descrição da Serra Leoa e dos rios de Guiné e do Cabo Verde, Junta de Investigações Científicas do Ultramar, Lisboa, 1977, pp. 166 e nota 286, pp. 311

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Sane e Mané, Keita (clã de Mansa Wali, filho de Soundjata que acompanhou Tiramaghan) foi substituído por Sagna e Mandjan, etc. Contudo, os mandingas que chegaram mais tarde – sobretudo os muçulmanos, que não adoptaram o regime familiar local – guardaram os nomes originais (Cissé, Touré, Diané, Diaby, Dabo, Souaré). Os muçulmanos não faziam parte da comitiva de Tiramaghan mas, na sua crónica, André Donelha já refere o seu grande número. A data de chegada dos pastores peuls à Senegâmbia também não está rigorosamente determinada: terão vindo na comitiva de Tiramaghan, ou antes? Sabemos apenas que os dois povos viviam juntos no Wagadou e no Manding, ao tempo de Soundjata. Em regra, os peuls acampavam ao lado das aldeias de agricultores, beneficiando do pasto das terras em pousio e estrumando-as; respeitavam as autoridades locais e não tinham ambições políticas; esta seria uma regra geral de comportamento, que os levava a ser bem aceites pelos agricultores. Contudo, nos Séculos XV e XVI os peuls transformar-se-iam em ferozes guerreiros, pondo em risco o Império do Mali e as províncias da Senegâmbia. Ignora-se o motivo pelo qual, em 1460, os peuls invadiram as províncias ocidentais, embora se acredite25 que tenha a ver com os conflitos no delta interior do Níger entre os mandingas, os songai e os tuaregs. André Donelha refere um rei dos Fulos muito belicoso que saiu da cidade de Fouta e decidiu conquistar grande parte da Guiné”. Este rei, Dulo (ou Diallo) Demba atravessou o rio Senegal, vindo de Leste, penetrou no Jalofo onde derrotou os wolofs em diversas batalhas e atingiu a Gâmbia. Os malinkés não contiveram esta investida dos peuls que atravessaram o Gabú, atingiram o Rio Grande e chegaram às portas do reino Beafada, cujos reis os detiveram. Não obstante, os peuls, animistas como as populações autóctones, integraram-se facilmente com estas. O primeiro grande chefe dos peuls foi Tenguella Diadié Bah que, contornando o Gabú pelo Leste, atravessou o rio Senegal com o seu exército e, com o apoio dos bambaras, empreendeu a conquista do Bambouk e do reino de Diarra. O Manding Mansa, Mahmoud II, solicitou a ajuda militar de D. João II26 que enviou uma embaixada a Niani, em 1490, chefiada por Pêro de Évora e Gonçalo Eanes. Contudo, embora a comitiva presenteasse o Manding Mansa, com ofertas dignas de um grande soberano, Portugal não deu apoio militar, eventualmente porque cedo se apercebera de

LY-TALL, Madina, L’Empire du Mali, N.E.A, Dakar / Abidjan, 1977, pp. 48 BARROS, João de, Décadas da Ásia, public. Hernâni Cidade, Agência das Colónias, Lisboa, 1945, e M. LY-TALL, Op. Cit., citados por D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 57
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que o poder do Mansa era mais simbólico do que real27. O perigo acabaria por ser afastado graças aos songhai – também atraídos pelo comércio atlântico – que derrotaram Tenguella Bah, em Diarra, em 1512. Uma nova investida, em 1535, liderada por Koly Tenguella (filho de Tenguella Diadié Bah e que talvez tenha ficado para a História como o maior chefe peul), daria origem a um novo pedido de apoio de Mansa Mahmoud III, neto de Mahmoud II, a Portugal que, novamente, enviou uma embaixada mas não deu qualquer apoio militar. Das movimentações de Koly Tenguella ficou, entre outros aspectos, o patrónimo Bâ na Casamansa, na Gâmbia e na Guiné. Em 1625, o Manding Mansa detinha ainda um poder quase lendário mas emergia, na costa, o reino do Gabú, cujo Governador, ou Farim Cabo, se tornou o “Gabou mansa-ba, senhor de todos os reis Mandingas e dos Jalofos, Berbecins e de diversos reis estabelecidos do lado Norte”28. É provável que este domínio chegasse ao Siné até ao século XVII, quando as províncias gambianas se emanciparam do Gabú. No século XVIII, parece que o Mansa-ba dispunha de um grande corpo de fuzileiros bem armados, porquanto, observador não só dos conflitos que opunham brancos portugueses, franceses e ingleses, mas também das incursões esporádicas de holandeses e dinamarqueses, estava ciente de que só com uma forte organização poderia tirar proveito do comércio com os europeus. O Mansa-ba seria o mais importante fornecedor de escravos cujo efectivo rondava, anualmente, três a cinco mil. No final do século XVI, o Gabú tornara-se um Estado guerreiro e uma área de passagem das caravanas. Ao longo das pistas para a costa surgiram numerosas aldeias de mercadores, os morocounda, termo que vem do facto de lidarem com comerciantes “mouros” (muçulmanos malinkés ou sarakholés). Os diolas eram os maiores mercadores, tinham entrepostos seguros nas aldeias, onde pernoitavam e deixavam os seus feridos, e formavam sociedades familiares: os parentes, dispersos pelas aldeias, comunicavam entre si através de mensageiros. As mercadorias eram transportadas em pequenas etapas até aos portos e esta forma de agir contribuía certamente para reforçar os fortes laços que uniam os clãs diolas entre si. Os diolas estavam presentes em todo o Gabú e, a partir de certa altura, eram apenas concorrenciados, seriamente, pelos lançados. As feiras, que os diolas animavam, tinham por vezes uma dimensão apreciável, como o mercado semanal de Cacheu, entre

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D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 61 A. DONELHA, Op. Cit., pp. 121, citado por D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 75

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Novembro e Junho, ao qual acorreriam sete a oito mil pessoas para trocarem mercadorias locais e portuguesas. No final do Século XVII, o domínio português na Casamansa era já posto em questão pelos franceses e ingleses; contudo, se estes conseguiram dominar as águas gambianas, havia fortes resistências a Sul. As feitorias de Bissau, Cacheu e Farim eram palco de constantes transações. E os beafadas de Cacheu preferiram, a dado momento, os franceses aos portugueses, enquanto os diolas, malinkés e sarakholés mantiveram as suas relações, vendendo ferro e algodão. No século XVIII, os grumetes (filhos de portugueses e africanas) povoavam todos os rios, formando uma classe sócio-profissional de comerciantes.29 Misturados com as populações locais e partilhando os seus hábitos, vivendo em condições de grande insalubridade, formaram uma sociedade intermediária e o Português, combinado com as línguas locais, deu origem ao crioulo. Os diolas, que, como vimos, eram os rivais dos lançados, aprenderam a falar Português, Francês ou Inglês. Até à queda do reino do Gabú, o animismo permaneceu a sua crença oficial. Por oposição ao “moro” (mouro), chamava-se soninké ao malinké que pratica o culto tradicional e bebe vinho. Mas, no século XIX, os muçulmanos eram já muitos e procuravam libertar-se da autoridade dos que bebiam vinho. Por fim, a queda de Kansala, em 1867, marcou o fim do reino do Gabú e trouxe a destruição das florestas sagradas e a islamização generalizada dos gabounkés, o que levou, também, à transmissão do poder dos nobres (“nianthio”, em Mandinga), de pais para filhos e não de tios para sobrinhos. Em 1725 os peuls fundaram o Estado muçulmano do Fouta Djalon. A infiltração peul nas montanhas, propícias à pastorícia transumante, começara provavelmente no século XIII e intensificara-se no século XVII. No início do século XVIII, os peuls eram já suficientemente numerosos para conspirarem contra os chefes djalonkés animistas que derrotaram finalmente em Talansan, em 1730. Os vencedores peuls organizaram um novo poder, reduzindo os anteriores senhores à escravatura. Os chefes religiosos que tinham dirigido a insurreição tornaram-se os novos chefes das províncias. Deu-se, assim, uma alteração radical no quadro geopolítico regional, o aparecimento de um Estado muçulmano no seio dos vizinhos animistas. Contudo, a situação não seria bem aceite pelos djalonkés que passaram a organizar acções de guerrilha contra as aldeias

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D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 95-96

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peuls e a aristocracia guerreira dos “marabouts” durante quase toda a segunda metade do século XVIII. Entre 1784 e 1789, todo o Fouta foi assolado por uma guerra violenta, resultante de um levantamento de animistas, com um exército tão vasto que certas tradições chegam a estimá-lo composto por quatrocentos mil homens (o que é certamente um exagero mas transmite uma noção da sua dimensão), que reagiram às campanhas dos “almany” (chefes dos peuls) Karamoko Alfa (contra o Gabú e Konkodougou) e Ibrahima Sory Maoudo (para Leste), demasiado destrutivas e frequentes contra as suas aldeias. Os animistas (incluindo peuls não islamizados), conduzidos por Koné Bouréma Sidibé quase exterminaram os muçulmanos mas, confiantes na vitória definitiva, não perseguiram nem capturaram Sory Maoudo que conseguiu reunir tropas e contra-atacar Kondé Bouréma em plena estação das chuvas, vencendo-o. O Fouta estava salvo, e os peuls prepararam um exército forte, condição de sobrevivência necessária do Estado muçulmano rodeado por vizinhos animistas. No final do século XVIII, o Fouta Toro torna-se também um reino teocrático, com a vitória dos torodbés, tal como o Boundou e o Fouta Djalon. E, se a aristocracia demonstra o seu apego às práticas religiosas tradicionais, as massas camponesas acentuam a sua conversão ao Islão. Os Estados gabounké e peul apresentavam semelhanças, sendo ambos federações de provínicas autónomas e, tal como os primeiros, os peuls limitaram-se a dotar-se de um poder central forte. Mas os gabounkés permaneceram, em geral, camponeses misturados com os autóctones bainouks, diolas e beafadas, adoptando inclusive os nomes destes. Ao contrário dos mandingas, os peuls, que permaneceram pastores transumantes durante muito tempo, acabaram também por se sedentarizar em aldeias “foulasso” ou “foulacounda”, mas ocuparam as terras dos autóctones (djalonkés, bagas e sares) e reduziram estes povos à escravatura. Ainda assim, com o tempo, os peuls acabaram por se miscigenar com os autóctones, procurando impor, contudo, a sua língua, o pulaar, e a sua cultura; e se, num primeiro tempo, concederam o estatuto de homens livres aos vencidos islamizados, os peuls acabaram por travar a conversão30, optando por manter os autóctones nas suas crenças tradicionais e na situação de escravatura. No início do século XIX, o Estado peul consolida-se através de uma sociedade fortemente hirarquizada, dominada por uma aristocracia de “marabouts” guerreiros; em

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D. T. NIANE, Op. Cit., pp. 130

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cada província (“diwal”) as “paróquias” (“missidé”) organizam em seu redor um conjunto de territórios e aldeias (“roundé” e “foulasso”). Os vencidos eram cerca de três quartos da população mas não tinham quaisquer direitos políticos; os peuls pobres e os convertidos podiam deslocar-se entre “missidés”, mas os djalonkés, quais servos da gleba, não podiam sair dos “roundés”. Os aristocratas distinguiam-se em dois estratos, os guerreiros e os letrados – estes eram particularmente numerosos em Labé, na actual República da Guiné (Conacri). O almany era eleito por um colégio de letrados e de chefes de guerra das nove províncias31, residia em Timbo, era simultaneamente chefe religioso e temporal da confederação e dirigia pessoalmente a djihad fora do Fouta. Por último, dois clãs, os Alfaya e os Soriya, alternavam no poder de dois em dois anos, uma prática aparentemente copiada aos gabounkés32. Entre 1799 e 1870 o Fouta viveu um período estável, embora Estados animistas como Solima, Sankaran e Tamba o tenham atacado regularmente e, sobretudo, apesar de algumas dificuldades internas como a oposição dos muçulmanos ortodoxos da confraria Kadiryia33 aos almany do Fouta e de Timbo. Este núcleo de resistência (a sua capital, Boketo, só foi conquistada e destruída em 1884) na estrada entre Timbo e a actual Freetown, terá levado os almany a intensificarem as suas campanhas a Norte, contra o Gabú que dominava o território entre a Gambia e o Rio Nunes. O Fouta Djalon desempenhava um papel relevante na vida económica da subregião da Guiné-Gâmbia, enquanto centro de comércio de gado, de cereais, de algodão e de mel, e mercado de escravos. Os ingleses (em Freetown), os franceses (junto aos rios Nunes e Pongo) e os portugueses (há muito estabelecidos nos estuários dos rios Grande e Casamansa) competiam na atracção das caravanas que provinham do Fouta. A partir de 1830, os franceses e ingleses passam a ter o objectivo de levar o trabalho a África, já que não era mais possível trazer mão-de-obra, por causa da industrialização que deixava de requerer aquela de modo tão intensivo. Assim, iniciaram uma nova política agrícola, distribuindo sementes de amendoim e de algodão, o que dinamizou de novo o comércio.

As nove províncias eram Timbo, Fodé Hadji, Kébali, Labé, Kolladé, Koin, Timbi, Fougoumba e Bhuria D. T. NIANE, Op. Cit., pp 131 33 Confraria ainda hoje presente na África ocidental, fundada no Iraque por Abd al-Qadir al-Jilani, no século XII, com vista a converter os povos ao verdadeiro islamismo. Vide THORAVAL, Yves, L’ABCdaire de l’Islam, Ed. Flammarion, Paris, 2003, pp. 49, e BARRY, Boubacar, La Sénégambie du XVe au XIXe Siècle, L’Harmattan, 1988
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Por volta de 1840, o Gabú está em crise: os franceses estabelecem-se na Casamansa, o Fouta Djalon tem, em Sédhiou, um porto de escoamento para as suas mercadorias, dispensando as caravanas de seguirem até à Gambia e os almany esforçam-se por controlar as pistas de caravanas que atravessam o Gabú. Em 1845, subiu ao trono o mansa-ba Dianké Wali, o último rei dos gabounkés. Com Wali, o Gabú conheceria um sobressalto de poder e de reorganização que culminaria com o ataque a Manda e a destruição integral desta cidade peul. Desde o final do Século XVIII nenhum exército gabounké tinha conseguido passar o Koliba e guerrear no Fouta. Mas em 1849, o novo almany Oumar, desejoso de vingar a incursão de Manda, proclamou a guerra santa e mobilizou um exército de seis mil homens, incluindo uma numerosa cavalaria de mais de três mil cavalos. A batalha de Bérékolon concluiu-se ao fim de cinco dias com a vitória peul, mas estes, consideravelmente enfraquecidos, retornaram ao Fouta com menos de metade dos efectivos. Em 1850, o Gabú, que perdera o mito da invencibilidade, sofre com as incursões peuls, com as sublevações dos muçulmanos e com a implantação cada vez mais forte dos europeus na Senegâmbia. Kansala já não controlava, por exemplo, as províncias do rio Geba, na actual Guiné-Bissau, nem as vias para Cacheu e Farim. O reino era ainda grande, mas encontrava-se dividido pelas guerras e minado por dentro, não pelo peul mas pelo muçulmano malinké, aliado natural do Fouta. Do seu lado, as provínicas malinkés da margem Norte do rio Gambia separaramse do Gabounké, embora sendo consideradas territórios de Tiramaghan34. Assim, nos séculos XVII e XVIII, os reinos do Badibou, do Niani e do Wouli teriam uma grande autonomia. Os reis de Niomi vigiam com severidade o acesso ao Gâmbia, não hesitando em recorrer à força, a única prática respeitada pelos mercadores. Contudo, o reino declina no final do século XVIII e as rivalidades exacerbam-se. Ao contrário, o Saloum vive nesse tempo um período de expansão, impõe-se, ganha um acesso directo ao Gâmbia e entra no comércio de escravos. Os muçulmanos são cada vez em maior número na área do Gâmbia, tomam consciência da sua força e tentam mesmo ingerir-se nos assuntos do Estado. Em consequência da pressão muçulmana, o Niani divide-se em dois reinos, no início do século XIX, o Alto e o Baixo Niani, cujos princípes se guerreiam. Entretanto,

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Segundo Djibril Tamsir Niane, esses territórios terão sido, na verdade, domínio de expansão de tropas não comandadas por Tiramaghan, seriam posteriores à invasão deste. Subsiste, no entanto, um grande desconhecimento em relação a todo este período

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os peuls e os jalofos, atraídos pelo comércio de escravos, fundaram diversas aldeias, entregaram-se à cultura de amendoim e colocaram-se sob a protecção dos milicianos dos negociantes, com os quais lidam directamente. Por fim, um chefe religioso (um marabout) toucouleur, Maba Diakhou-Ba, decidiu levantar armas em nome do Islão e impor-se ao Niani e ao Badibou35. O reino do Wouli, o mais extenso dos gambianos, também não escapou aos efeitos do comércio de escravos. Os ingleses mantinham pelo menos desde o século XVIII feitorias em Fatatenda e Yarboutenda que se tornaram pólos de atracção de malinkés e de sarakolés. Os soninkés governavam sem trabalhar, desprezavam ostensivamente os muçulmanos o que, também aqui, acabou por provocar a revolta destes contra a aristocracia tradicional, ociosa e parasitária. Por volta de 1850, os franceses tinham conseguido tornar Sédhiou uma praça comercial mais importante do que as de Ziguinchor e de Cacheu, controladas pelos portugueses, mas a influência portuguesa estava ainda bem presente sob forma do crioulo: «En 1849, le nouveau résident Emmanuel Bertrand-Bocandé nous a laissé de fort riches Notes sur la Guinée Portugaise ou Sénégambie méridionale. Ayant appris le créole portugais et le malinké, il avait une grande expérience des pays mandingues»36. Ou seja, as duas línguas francas nos territórios mandingas eram o malinké, naturalmente, e o crioulo do Português. A desagregação lenta do reino do Gabú foi explorada pelos franceses que, a pouco e pouco, foram considerando território seu, áreas da Casamansa (Boudhié em 1849, seguida das aldeias de Patiabor, Bajari e Bunu), não sem resistências locais: soninkés, primeiro, e balantas, depois, opuseram forte resistência às forças muçulmanas aliadas dos franceses. Em 1854 os franceses aproveitaram incidentes com balantas para conquistar a margem esquerda do Casamansa, entre Binako e Bambanjon. Perante estes acontecimentos, Kansala já não tinha, de facto, qualquer autoridade ou força para reagir, tanto mais que os residentes franceses apoiavam, secretamente, os peuls do Fouta Djalon contra o poder animista. Nos anos 1860, precipita-se a queda do Gabú, com sucessivas deserções de “nianthios” num contexto em que a guerra com o Fouta se tornara palco de complexas alianças e traições, mais ditadas por motivos políticos e económicos do que religiosos.

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I. D. THIAM, Op. Cit. D. T. NIANE, Op. Cit., pp 174

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A terrível batalha de Kansala (dita pelos mandingas “Guerra da exterminação da raça gabounké”), em 1867, ditou a derrota definitiva do Gabú, a destruição da capital pelo próprio mansa Dianké Wali e a morte da grande maioria da sua aristocracia perante um exército peul de trinta e dois mil homens, dos quais doze mil cavaleiros, todos de branco vestidos e usando o nome de Mamadou (Maomé). Com a conquista de Kansala, parece estar-se perante o início do domínio peul e da islamização. Contudo, a conquista colonial sobreveio pouco depois, com Portugal, a França e o Reino Unido a partilharem entre si os reinos gambianos e do Gabú. No final do século XVIII e no início do século XIX, o Fouta Djalon tornara-se um dos centros mais importantes da cultura islâmica na África ocidental, mas o papel principal foi muitas vezes desempenhado não por peuls, mas por diakhandés e sarakolés. Os peuls tinham centros corânicos reputados em Touba (na actual Guiné Conacri37), Sombili, Koula, Daralabé e Dow Sare e recorreram ao alfabeto árabe para escrever o pulaar que se tornou, deste modo, escrita e veículo de difusão cultural e literária. Os letrados peuls escreviam tanto em pulaar como em árabe e, em Timbo ou em Labé, o Estado subvencionava os membros da classe que podiam, assim, viver exclusivamente para estudar. A escola corânica era obrigatória para todas as crianças filhas de pais livres; nela se cultivava o amor pelo bem mas, também, o ódio do animismo e o desprezo por todos os descrentes. Mais tarde, gerou-se uma tendência para um culto de superioridade sobre outras raças negras (tratadas de “balébés” – os negros38). Uma das grandes confrarias do Senegal é a dos Mouridas, fundada por Amadou Bamba M’Backé, um marabout (chefe religioso) toucouleur falecido em 1927. Após ter feito os seus estudos junto de Cheikh Sidiya, membro eminente da grande confraria Qadiriyya ou Khadrya (ainda muito presente na sub-região e a terceira mais importante no Senegal), criou a sua própria confraria, por alegada inspiração do anjo Gabriel. O mouridismo, virado inicialmente para os jalofos, preconiza que o trabalho manual é tão importante para o discípulo (“talibé”) como a oração e esses ensinamentos são transmitidos nas “daaras” (escolas corânicas). O centro da confraria é Touba, uma cidade fundada por Amadou Bamba em 1886, a 60 km a Leste de Djourbel.

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A cidade guineense de Touba foi o mais pujante centro de difusão corânica na sub-região, no século XIX, sob a condução das chefias religiosas Khadrya; não confundir com a cidade senegalesa de Touba, sede da confraria mourida. 38 D. T. NIANE, Op. Cit., pp 136

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A outra grande confraria (não se sabe, em bom rigor, qual delas é a que tem mais adeptos) é a Tidjane, fundada em 1737 por Sidi Ahmed Al Tidjani, em fés, Marrocos. A Tidjania é uma confraria sufi39 que visa uma ascenção individual pela purificação do indivíduo; repousa no ensino religioso tradicional da “sunna” (feitos e gestos do Profeta Maomé), da recitação de excertos do Corão e de textos da própria confraria. A Tidjania (também presente na Guiné-Bissau) foi difundida no Senegal e no vale do Níger pelo conquistador Toucouleur El-Hadj Omar Tall durante a guerra santa contra os animistas (1856). O seu sucessor, El-Hadj Malick Sy compreendeu a supremacia dos colonizadores e adoptou uma via pacífica. A sede da confraria é em Tivaouane, a cerca de 40 km a Norte de Thiès, na estrada que liga esta importante cidade com Saint-Louis. Os tidjanes têm um comportamento mais discreto do que os mouridas e, tal como estes, realizam uma grande peregrinação anual. No caso dos tidjanes, trata-se do Gamou que corresponde ao Maoloud, comemoração do nascimento do Profeta. Para os mouridas, é o Magal, comemorando o dia do regresso do exílio e da visão profética do fundador da confraria. Os limites administrativos da colónia francesa do Senegal foram estabelecidos em 1904, após a criação da África Ocidental Francesa (1895) e da deslocação da capital de Saint-Louis para Dacar (1902). Avançam então obras públicas e a conquista agrícola do Leste, comandada, no terreno, pelos marabouts mouridas. Em 1945, dois deputados, Lamine Guèye e Léopold Senghor, têm assento na Assembleia Constituinte francesa. A actividade política acompanha-se da criação de partidos políticos distintos dos da metrópole. Associados na Federação do Mali em Janeiro de 1959, o Sudão e o Senegal pedem a independência que obtêm no quadro unitário, no dia 4 de Abril de 1960. Porém, a Federação não resiste e, a 20 de Agosto de 1960, a Assembleia senegalesa proclama a independência do país. Desde então, o país evoluiu para um regime pluripartidário, sob a batuta do primeiro Presidente, Léopold Senghor que, após 20 anos no poder, se tornou o primeiro Chefe de Estado a dele sair antes do término de um mandato. Seguiu-se-lhe o também socialista Abdou Diouf, de 1980 a 2000, ano em que, a 19 de Março, o liberal Abdoulaye Wade ganhou as eleições presidenciais, em nome da “alternância”.
39

O Sufismo, corrente mística do Islão, nascida no século VIII, opõe-se ao Islão legalista e privilegia a apropriação pessoal da verdade corânica. Esta “maleabilidade”, contrária à do chiismo ou do sunismo, poderá justificar a sua popularidade na África ocidental, porquanto permite uma melhor adaptação às práticas animistas enraizadas. Ainda hoje, são raros os chiitas e os sunitas num país fortemente islamizado como o Senegal.

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1.2. A presença portuguesa

Primeira razão do Infante

“E porque o dicto Senhor [Infante] quis disto saber a verdade, parecendo-lhe que se ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber... e vendo outrossim como nenhum outro príncipe se trabalhava disto, mandou ele contra aquelas partes seus navios, por haver de tudo manifesta certidão, movendo-se a isso por serviço de Deus e d’el- Rei D. Eduarte seu senhor e irmão que aquele tempo reinava. E esta até que foi a primeira razão de seu movimento.”40 Foi esta razão do Infante que levou a Língua Portuguesa para África, e depois para todos os continentes; ainda que não esteja escrito, o facto é que os Descobrimentos marítimos tiveram como consequência directa e inabalável a transferência do código linguístico português para terras novas. E tal como noutros países africanos, a Língua Portuguesa deixou as suas marcas na costa ocidental de África, nomeadamente no Senegal. Naqueles territórios, por onde passaram, os descobridores lusos registaram o que viram e o que lhes aconteceu em contacto com a natureza e com as novas gentes, e passaram a comunicar com eles. Mas, falando línguas diferentes, parece-nos que os estrangeiros e os autóctones levaram tempo para aprender a língua do outro, e não comunicariam pela linguagem verbal, desde o início. Então, como se justifica ou se explica a seguinte afirmação? “Aos negros todos trate com boas palavras e não se engane, cuidando que não entendem o portuguez (sic) por que o não fallão: pois os mais delles o entendem bastantemente.”41 Parece que a presença portuguesa foi tão intensa, desde meados do século XV, que permitiu a aprendizagem da língua portuguesa pelos nativos, como informa este capitão português, Francisco de Lemos Coelho, que passou mais de vinte anos da sua

40

G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, “ no qual se mostram cinquo razoões porque o senhor F. L. COELHO (1684); vide COELHO, Francisco de Lemos, Duas Descrições Seiscentistas da Guiné,

iffante foe movido de mandar buscar as terras de Guynea”, pp. 44-49.
41

(Manuscritos Inéditos Publicados com Introdução e Anotações Históricas de Damião Peres) Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1990, pp. 114

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vida nos territórios correspondentes ao actual Senegal. Em meados do século XVII, data desta afirmação, apesar da presença dos holandeses, dos franceses e dos ingleses, os indígenas africanos não só reconheciam como compreendiam bem o Português, antes de conhecerem a influência francófona nos territórios do actual Senegal, colonizado pela França, depois de muitas rivalidades e conflitos com os outros europeus que ali se fixavam. Após a descoberta destes territórios, parece que os portugueses se distribuíam pela região de forma algo indeterminada ou desordenada. A partir do século XVI, outros europeus se fixaram nesses mesmos territórios e impuseram a ocupação daqueles espaços; logo iam construindo fortalezas, com grandes exércitos, para protegerem o seu comércio e manterem os seus interesses em diversas áreas, como observaremos mais à frente. Por isso, torna-se necessário conhecer melhor a acção dos portugueses e falar dos antecedentes das Descobertas, para um entendimento mais correcto da evolução das investidas dos portugueses até alcançarem aqueles espaços e compreender o grau de influência que tiveram junto daqueles reinos africanos. Por estas alturas, no século XV, os nautas portugueses manifestavam já o conhecimento de técnicas de navegação das mais avançadas da Europa. Empreendendo viagens marítimas cada vez mais frequentes e mais afastadas da costa portuguesa, enriqueciam-se de um saber que os manteve na linha da frente dos Descobrimentos marítimos e terrestres sobre o continente africano: “Todo o movimento de expansão marítima supõe igualmente um mínimo de condições orgânicas gerais, ou seja, um ambiente económico internacional que solicite aquele esforço, e particulares, isto é, um conjunto de aptidões específicas em determinado povo ou grupo social que lhe permitam levá-lo a cabo.”42 Portugal era já no século XIV, uma nação consolidada, que conquistara as condições que fundamentam a expansão lusa. Os portugueses sempre se inclinaram para os trabalhos do mar, dada a situação geográfica do país. Estando também rodeados por Estados poderosos e rivais, a Norte, a Sul e a Oriente, a expansão para o oceano era determinada não só por circunstâncias geográficas mas também políticas, económicas e religiosas:

42

J. CORTESÃO (1931-1934); vide CORTESÃO, Jaime, História da Expansão Portuguesa, INCM, vol. IV, 1993, pp. 14

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“Todo o movimento da expansão geográfica obedece antes de mais às necessidades da procura e do transporte dos produtos. Que outras coisas de carácter espiritual possam somar-se a estas, e em geral apareçam fundidas com elas, não é menos verdade; mas na base de todos os descobrimentos geográficos, de carácter perdurável, encontram-se as razões económicas. Trata-se de uma regra sem excepção, cuja plena validade pode estudar-se na história de todos os povos navegadores, desde os cretenses e os tartéssios até aos holandeses e aos ingleses.”43 De facto, a experiência acumulada ao longo de alguns séculos, pelo menos desde o início da nacionalidade, contribuiu para impulsionar as descobertas do século XV e muitos homens corajosos puseram a sua vida em perigo ao serviço da nação. As Cruzadas44 permitiam não só a experiência do contacto com outros povos, inclusivamente com o mundo islâmico, mas também o conhecimento da Terra Santa onde os portugueses podem ter obtido muitas informações sobre as características do Oriente, das Índias, do comércio, das riquezas, das especiarias dali provenientes, e mesmo ouvir falar de um reino cristão, como o do Preste João das Índias, isolado entre muitos reinos árabes infiéis, e entre os turcos que também ameaçavam a Europa, que dominavam aquelas regiões ao longo de toda a Idade Média. A Reconquista cristã, em toda a Península Ibérica, colocou Portugal em contacto privilegiado com os muçulmanos e essa experiência e o conhecimento directo do inimigo da fé cristã acabou por ter repercussões positivas na expansão portuguesa do século XV. A luta contra os Mouros foi um investimento no futuro, ou seja, logo no início das Descobertas avançaram com conhecimento de causa sobre os muçulmanos. O desenvolvimento da marinha de guerra e a protecção da marinha mercante por parte dos monarcas portugueses contribuiu naturalmente para o domínio dos mares, para as aventuras no oceano Atlântico e no Índico.

J. CORTESÂO (1931-1934); Op. Cit., pp. 14 Nova Enciclopédia Larousse, 1994, Vol. 7: Cruzadas, Dá-se o nome de “cruzadas” às expedições militares empreendidas pela Europa cristã entre os sécs. XI e XIII, sob o impulso do papado, no intuito socorrer os cristãos do Oriente, reconquistar o Santo Sepulcro (local do túmulo de Cristo) aos Turcos muçulmanos, e mais tarde, para defender os Estados fundados pelos cruzados na Síria e na Palestina. Graças a um fortesurto demográfico, o Ocidente inverteu no séc. XI o movimento que fazia dele uma cidadela cercada, submetida às incursões de sarracenos, Escandinavos e Húngaros. Pouco depois do início da Reconquista Ibérica e da instalação na Itália Meridional, as cruzadas manifestaram esse novo dinamismo. (…) Para além do nascimento de Estados latinos no Oriente, as cruzadas tiveram como consequência a criação das ordens religiosas e militares (Hospitalários, Templários, cavaleiros Teutónicos) e a multiplicação dos contactos entre o Oriente (muçulmano e bizantino) e o Ocidente. Contudo, não modificaram profundamente as correntes comerciais nem o intercâmbio cultural.”
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Estavam portanto reunidas as condições essenciais para os portugueses garantirem o sucesso desta empresa dos Descobrimentos, estímulo (luta contra o infiel), experiência (conhecimento do mundo árabe e muçulmano), conhecimento técnico (técnicas de navegação avançadas, desenvolvidas ao longo de vários séculos no Oceano Atlântico). A crise económica do século XIV, assim como a pestilência, que se estenderam por toda a Europa, despoletaram a necessidade urgente e o desejo de encontrar equilíbrios e soluções, alternativas, novas riquezas para restituir a estabilidade e o nível de vida a que a Europa já se habituara. Em Portugal, faziam-se sentir com mais acuidade as dificuldades na aquisição de determinados produtos, estando mais afastado das rotas comerciais vindas do Oriente, controladas pelos árabes, depois pelos comerciantes da península itálica, e a partir daí distribuídas para o interior da Europa. Para ter acesso a esses produtos, os comerciantes portugueses ou iam buscá-los directamente pelo Mediterrâneo, comprando-os a intermediários, portanto mais caros, ou então esperavam pela sua distribuição por toda a Europa, adquirindo-os tardiamente nas nossas costas, pelas rotas da Flandres, com custos mais elevados também. Portugal tentou e conseguiu sair deste ciclo vicioso de dependências dos produtos exóticos e deliciosos do Oriente, além de que tinha notícias sobre a existência de ouro em África, tão perto do Algarve. Além disso, em terra de pescadores, estes desde sempre se aventuraram ou se arriscaram no alto mar, por questões de sobrevivência, para o seu sustento; navegar é, pois, uma actividade muito antiga, tradicional e necessária para os portugueses, que marcará sempre a cultura lusitana. A coragem destes homens, não podendo ser ignorada, associava-se a uma experiência marítima muito arreigada e que foi naturalmente posta ao serviço da nação, com os fidalgos da coroa e a gente da câmara do Infante, escolhidos e coordenados para penetrar em territórios nunca vistos e imprevisíveis. Desde o tempo do conde D. Henrique e de seu filho D. Afonso Henriques45, primeiro rei de Portugal, no século XII, preparavam-se embarcações para lutar contra os ataques dos mouros, havendo notícia de combates navais. Essas galés serviam também para espiar os movimentos da armada castelhana na costa. No tempo de D. Sancho I, foi

ALMEIDA, Fortunato de, História de Portugal desde os tempos pré-históricos a 1580, Vol. I, Bertrand Editora, Lisboa, 2003, pp. 229

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muito importante a existência de navios na conquista de Silves. Mais tarde, D. Afonso III foi o primeiro monarca a preocupar-se com a construção de uma marinha de guerra. D. Dinis fez grandes inovações na marinha, chamando homens experimentados para formar os marinheiros portugueses. E os progressos deste rei permitiram a D. Afonso IV obter permissão do papa Bento XII para fazer guerra aos infiéis. No reinado de D. Fernando, construíram-se muitos navios, tendo o rei concedido privilégios aos que comprassem navios estrangeiros ou que os construíssem nos estaleiros portugueses. D. João I, depois de confirmar a independência nacional, iniciou as conquistas de além-mar, a Expansão marítima e a obra dos Descobrimentos: “Em 1415, portanto decorridos apenas quatro anos sobre a assinatura da paz com Castela, o rei de Portugal, à frente de uma enorme expedição militar (19.000 combatentes, 1700 marinheiros, 200 navios), conquistou a importante cidade de Ceuta, no Norte de África. Este facto é considerado como o ponto de partida da polítca oficial da expansão ultramarina.”46 Inspirado pelos valores de cavalaria, D João I quis revitalizar, tradições através dos seus filhos47, entre os quais se distinguiram D. Duarte, D. Pedro, e D. Henrique, D Fernando. Desejando que fossem armados cavaleiros, quis organizar grandes torneios, mas os infantes preferiam mostrar as suas qualidades e conquistar aquela dignidade em situações concretas de guerra para defender o reino:

“Não consentiu a morte tantos anos Que de Herói tão ditoso se lograsse Portugal, mas os coros soberanos Do Céu supremo quis que povoasse. Mas, pera defensão dos Lusitanos, Deixou, Quem o levou, quem governasse E aumentasse a terra mais que dantes: Ínclita geração, altos Infantes. Não foi do Rei Duarte tão ditoso

46

SARAIVA, José Hermano, História concisa de Portugal, Publicações Europa-América, Col. Saber, 7ª ed., Mem-Martins, 1981, pp. 122 47 F. ALMEIDA, Op. Cit., pp 275, “ Os filhos de D.João I, além de deixarem grandes exemplos de virtudes religiosas, morais e cívicas, tiveram alta cultura intelectual, prova de que não houve menor cuidado em formar-lhes a inteligência do que em educar-lhes a vontade. Diversos factos provam que os infantes eram muito estudiosos e ilustrados. Em carta dirigida a seu irmão D. Duarte, quando este subiu ao trono, dizia o Infante D. Pedro: “ E como quer, Senhor, que visse muitos Livros com singulares doctrinas aos Reys e Príncipes, quaes deveem seer, e vós delles tenhaaes muytos “ etc. [vide Pina, Rui de, Crónica de El-Rei D.Duarte, cap IV], (…) D. Duarte possuía uma livraria relativamente numerosa e selecta.”

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O tempo que ficou na suma alteza, Que assi vai alternando o tempo iroso O bem co mal, o gosto co a tristeza. Quem viu sempre um estado deleitoso? Ou quem viu em Fortuna haver firmeza? Pois inda neste Reino e neste Rei Não usou ela tanto desta lei? Viu ser cativo o santo irmão Fernando (Que a tão altas empresas aspirava), Que, por salvar o povo miserando Cercado, ao Sarraceno se entregava. Só por amor da pátria está passando A vida, de senhora feita escrava, Por não se dar por ele a forte Ceita. Mais o pubrico bem, que o seu, respeita.48 A conquista de Ceuta foi uma oportunidade para a concretização desses desejos do rei e significava expulsar os mouros, como acontecera na reconquista do território português, dois séculos antes. Fizeram-se os preparativos para a conquista de Ceuta, oficialmente o ponto de partida das aventuras portuguesas em África: “Ceuta era um importante centro comercial terrestre e marítimo; situava-se numa região agricolamente rica e num bom porto estratégico, que dominava o estreito de Gibraltar. Podia servir de base para novas conquistas e, além do prestígio que um tal feito representava para o rei, proporcionava-lhe ocupação para muitos nobres, cuja profissão eram as armas.”49 E, apesar do falecimento da rainha D. Filipa de Lencastre, a 18 de Julho de 1415, D. João I não desistiu desse projecto. No dia 25 de Julho, partiu da praia do Restelo, o que prova a importância desta empresa e a forte convicção do rei.50 E, além do esforço continuado dos monarcas portugueses, significava retomar a tradição nacional de defesa e de expansão da civilização Cristã contra o Islão. Levar o Cristianismo para terras africanas era um desejo de todos e um compromisso antigo com a Santa Sé. Sabe-se igualmente que o infante D. Henrique estava, desde muito cedo, empenhado em fazer o reconhecimento da costa ocidental de África, como relata Diogo Gomes de Sintra,

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L. V. CAMÕES (1572); vide CAMÕES, Luís Vaz de, Os Lusíadas, Porto Editora, Lisboa, 1982, Canto IV, est. 50, 51,52, pp. 175 e 176 49 J. H. SARAIVA, Op. Cit., pp. 122 50 F. ALMEIDA, Op. Cit., pp. 267

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almoxarife desta localidade, um dos homens da casa do Infante, enviado em expedições nos mares da incógnita Guiné: “No ano do Senhor de 1415, um fidalgo do reino de Portugal, D. João de Castro (que era capitão da armada feita pelo Infante Dom Henrique, filho de D. João I, rei de Portugal, e irmão da duquesa da Borgonha, mãe de Carlos, Infante esse que sempre cuidou em manter fidalgos de boa estirpe e mandá-los às suas custas saber de regiões estranhas), D. João de Castro, navegando pelo mar Atlântico, tomou pela força uma parte de uma ilha dita Grã-Canária (...) Ao voltar, deparou com fortíssimas ondulações marítimas a que os portugueses chamam correntes (...) Foi assim que o sobredito capitão voltou a Portugal no meio das maiores dificuldades e deu conta ao Senhor Infante do que acima se descreve.”51 Podem acompanhar-se as consequências das acções do Infante, de acordo com os avanços que a pouco e pouco os exploradores lhe anunciavam, que se iam fazendo no oceano Atlântico; é possível apreciar uma certa continuidade dos planos do Infante, e as reacções, as alterações, as adaptações imediatas ao conhecimento que os corajosos navegadores transmitiam no regresso das aventuras: “Por outra parte, no ano seguinte, 1416, mandou o senhor Infante D. Henrique um nobre cavaleiro, de nome Gonçalo Velho, passar além das ilhas Canárias, sem se afastar da costa, com a intenção de saber o motivo de tamanhas correntes de mar.”52 Há razões para acreditar que, no século XIV, já se conhecia o arquipélago da Madeira e algumas ilhas dos Açores. Além disso, a verdade é que muitos estrangeiros viajaram até Portugal ao longo do século XIV para trabalhar em múltiplos ofícios, alguns deles convidados pelos sucessivos monarcas; e no século XV muitos oferecerem os seus serviços ao Infante, na empresa dos Descobrimentos. Entre outros, de variadas nacionalidades, os genoveses Cadamosto e Usodimare colocaram-se ao serviço da Coroa Portuguesa: “Tendo eu ficado no Cabo S. Vicente pelo modo sobredito, o dito Senhor mostrou haver grande prazer com a minha ficada e fui dele mui bem recebido; e depois de muitos e muitos dias mandou armar-me uma caravela com o lote de cerca de 90 tonéis da qual era patrão um Vicente Dias, natural de Lagos, que é um lugar próximo do Cabo de S. Vicente 16 milhas. E fornecida de todas as coisas necessárias para a
51

D. G. SINTRA (1484-1496); vide SINTRA, Diogo Gomes de, Descobrimento Primeiro da Guiné, (Edição crítica de Aires A. Nascimento), Ed. Colibri, Lisboa, 2002, pp. 51 52 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 53

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nossa viagem, em nome de Deus e em boa hora, partimos do sobredito Cabo S. Vicente no dia 22 de Março de 1455,...”53 E também uma carta de Antoniotto Usodimare (de 12 de Dezembro de 1455), assinala a presença deste aventureiro e comerciante genovês em Portugal, precisamente no mesmo ano: “E o Senhor Rei, vendo o que se passava, queria excluir-me de tal empresa, mas graças aos rogos do tal secretário, concordou em que eu vá a essas partes com esse secretário. Por isso, em nome de Deus volto a fretar uma caravela na qual seguirei, e levarei um carregamento dos servidores do Senhor Infante, e espero com o negócio equilibrar todo o meu futuro”.54 Portanto, é certo também que Sagres se tornou num centro de cultura da arte náutica e um centro de contactos privilegiados, conhecido por toda a Europa, onde se concentraram muitos estrangeiros. Muitos acalentavam a esperança de participar nas aventuras dos portugueses, por necessidade, por curiosidade ou por ambição, esperando enriquecerem tal como outros viajantes; significa que, desde muito cedo, estas viagens cumpriram os objectivos económicos de Portugal. Várias fontes nos informam sobre a grande actividade marítima dos portugueses. Uma dessas fontes é a narrativa de Diogo Gomes de Sintra, reveladora do estado de espírito que animou muitos dos que participaram nas primeiras descobertas. Confirma que os portugueses se embrenharam no oceano Atlântico, desfazendo muitas lendas medievais sobre o Mar Tenebroso, misterioso e povoado de monstros, assustando os que ousassem avançar mais além. Dos perigos do mar os portugueses tinham já um claro conhecimento e a experiência necessária para se lançarem no mundo incógnito. Este projecto, para o qual contribuíram vários reis, surge como uma necessidade mas também uma nova aventura para o país, surgindo a figura do Infante D. Henrique como o mais veemente impulsionador dessa grande empresa dos Descobrimentos: “ (…) bem-aventurado é o Infante D. Anrique que o glorioso Deus, pera se isto comprir, escolheu; e, assi, são bem-aventurados os Reis de Portugal que suas vezes sobcederam, e em tanto lograram a glória, riquezas e honra destas conquistas e comércio, com paz e acrecentamento, enquanto, com caridade e aspereza, servindo

53 54

L. CADAMOSTO e P. SINTRA (1463-1465?); Op. Cit., pp. 89 e 90 “Portugaliae Monumenta Africana”, vol. I, in Mare Liberum, INCM, 1993

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Nosso Senhor, delas bem usaram. A qual navegação começou o Infante, por serviço de Deus, do cabo de Não pera diante.”55. E não só pelo que acima se transcreve. Mais impressionante se torna a sua acção, se considerarmos a seguinte afirmação do cronista Gomes Eanes de Zurara, a primeira razão do Infante enunciada no começo deste nosso capítulo e que fundamenta a intencionalidade da sua acção: “E porque o dicto senhor quis disto saber a verdade, parecendo-lhe que se ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber, nenhuns (…) e vendo outrossim como nenhum outro príncipe se trabalhava disso (…)”.56 Pressupõe que outros príncipes poderiam interessar-se pela sua causa, mas a convicção e os fundamentos do Infante eram mais fortes e a sua vontade foi determinante. Diogo Gomes de Sintra parece acompanhar de muito perto as intenções do Infante e as evoluções dos acontecimentos: “Nesse tempo, recebeu o Infante Dom Henrique graça, privilégio e Cartas do Sumo Pontífice, que então era Eugénio IV, de que nenhum príncipe, rei ou senhor algum ousaria ir às partes da Guiné sem licença sua e do rei de Portugal, sob pena de excomunhão.”57 Na edição crítica de Aires A. Nascimento, que temos consultado58, esclarece-se que “na realidade, a Bula de concessão é de Nicolau V e data de 1454; o Papa Eugénio IV é anterior (1431-1447).” Contudo, os factos estão correctos, o que pode significar um erro de memória do informador, navegador e homem muito próximo do Infante e da Coroa portuguesa, que pode ter feito este registo muito tempo depois de ocorrerem estas situações. Esta notícia repete-se mais tarde, por volta de 1508, com Duarte Pacheco Pereira, em Esmeraldo de Situ Orbis; retoma esta linha de raciocínio, baseando-se ou não nas nossas fontes, ou noutros testemunhos à época mais acessíveis. Com grande naturalidade revela que o Infante não só concebeu um projecto para Portugal, tendo-o transmitido a vários reinos, acreditando talvez que seria útil e necessária a ajuda de outros reis para tão importante empresa. Ao que parece, os europeus não acreditaram nas suas informações e declinaram qualquer interesse:
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D. P. PEREIRA (1505-1508); vide PEREIRA, Duarte Pacheco, Esmeraldo de Situ Orbis, (Introdução e Anotações Históricas de Damião Peres), Academia Portuguesa de História, 3ª ed, Lisboa, 1988, pp.79 56 G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49 57 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65 58 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit.

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“ E tanto que a estes reinos foram trazidos os primeiros negros e por ele sabida a verdade da Santa Revelação, logo o Infante escreveu a tôdolos reis cristãos que o ajudassem a este descobrimento e conquista por serviço de Nosso Senhor, e todo o proveito igualmente lograssem, o que eles não quiseram fazer; mas, havendo isto por vaidade, lhe renunciaram seu dirieto. Pelo qual o Infante mandou ao Santo Padre, o Papa Eugénio IV, Fernão Lopes de Azevedo, fidalgo de sua casa e do Conselho de ElRei D. Afonso o Quinto, comendador-mor da Ordem de Cristo; o qual apresentando ao Sumo Pontífice a embaixada do Infante e renunciação dos ditos Reis, lhe foi outorgado tudo o que pediu.”59 Ainda de acordo com Zurara, o Infante teria várias razões para o descobrimento e a conquista de novas terras, entre elas, as mais evidentes seriam: conhecer a costa africana para além das ilhas Canárias; procurar outros povos cristãos; desenvolver relações comerciais; defender-se contra os mouros, conhecendo melhor o seu poder naqueles territórios; procurar aliados cristãos contra os mouros; difundir a fé cristã. O Infante D. Henrique era um homem privilegiado, se considerarmos que se encontrava numa posição de maior acessibilidade a todo o tipo de informação que circulasse no país ou no estrangeiro. Com certeza, a proximidade à Coroa, a sua posição social e a sua formação permitir-lhe-iam o acesso mais facilitado a várias fontes, às informações dos autores da Antiguidade ou de fontes medievais, como por exemplo O Livro de Marco Polo. Desconhecem-se ainda as fontes concretas de informação do Infante mas aquelas e o contexto económico das rotas comerciais, à época, já poderiam permitir-lhe projectar o descobrimento do caminho marítimo para a Índia, de onde vinham há muito as especiarias para a Europa, pelas rotas do mar Vermelho; buscava também as informações que, desde o século XII, circulavam na Europa, acerca do reino cristão do Preste João das Índias, com grande probabilidade conhecido dos comerciantes árabes que controlavam o comércio no Oriente e que, por razões comerciais, obviamente contactavam com os comerciantes europeus, venezianos e genoveses, intermediários daquelas mercadorias. Acreditava-se que aquele rei cristão poderia ser um aliado dos cristãos e de Portugal, contra os muçulmanos que eram por aqueles considerados como uma ameaça. Mas as informações sobre a localização deste reino eram contraditórias. Sabia-se da existência deste reino contudo as informações seriam confusas. Assim, ao longo de

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D. P. PEREIRA (1505-1508), Op. Cit., pp. 79

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muitos anos, os portugueses procuraram a localização e o auxílio do reino do Preste João da Etiópia60: “Das Alagoas do rio Nilo de que, neste capítulo acima, falamos, temos sabido que delas um grande braço corre, por meo da Etiópia Inferior, contra oucidente, o qual, segundo a ordem do caminho que traz das longas terras de que vem, dizem os Etiópios
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que o rio de Çanagá é; porque de tôdolos rios desta região da Etiópia os

quais por muitos anos cada dia praticamos, sabemos certo que este é o maior, segundo se mais largamente dirá no capítulo que adiante vier, que do rio de Çanagá falar.”62 Sabe-se que o Infante D. Henrique orientava esta empresa dos Descobrimentos e parece que antecedia as descobertas por informações concretas, objectivos e cálculos em vários domínios, além de uma complexa preparação das viagens; escolhia-se o comandante da expedição, pensava-se no número de naus e de marinheiros, a quantidade de mantimentos e de água para o tempo de viagem previsto, ao que se juntavam técnicas e instrumentos de navegação, etc. Eram investimentos consideráveis para um país com poucos recursos e que, à época, vivia em crise económica. Os resultados que conhecemos sobre estas expedições indicam que não eram concretizadas ao acaso, decorriam de estudos de várias fontes escritas, da parte do Infante, do rei D. Duarte, de contactos múltiplos e variados com o exterior. Eram acções pensadas, estudadas, aplicadas com ponderação e prudência, ou não teria sido tão rápida e eficaz a descoberta dos lugares desconhecidos e imprevisíveis. E, de facto, é inegável que se revelaram muito perigosos em determinadas etapas destas aventuras marítimas. A costa ocidental africana foi a primeira etapa dos Descobrimentos. Teve a força do primeiro impacto, sobre os intervenientes directos e depois sobre o mundo; uma acção que trouxe muitos perigos e muitas novidades que os marinheiros portugueses

46 L. ALBUQUERQUE, Op. Cit., pp.174, “ A ideia de uma extensa Etiópia é confirmada em Santo Isidoro. Nas Etimologias, depois de nos dizer que os Etiópios são negros porque “ o queima a proximidade do Sol”, situa a região numa larga faixa transversal da África, que de modo nenhum se pode identificar com a Etiópia de hoje. O texto de Santo Isidoro diz assim: A Etiópia na parte ocidental é montanhosa, arenosa no meio e ao oriente deserta. Estende-se desde o monte Atlas até aos limites do Egipto, ao meio-dia tem o oceano e por setentrião o Nilo. O Nilo aqui referido não podia deixar de ser o rio dos Negros de Solino e Nunchul de Mela, isto é, o Senegal dos navegadores portugueses. Mas o texto é ainda mais afirmativo, quando acrescenta: Há duas Etiópias: uma que está próxima da saída do Sol, e outra que está no ocaso, junto da Mauritânia. Conclui-se, portanto, que uma tradição geográfica estabelecida desde os primeiros séculos da era cristã dava o nome de Etiópia a uma larga região que se estendia do Atlântico à contracosta; os seus limites setentrionais seriam, de ocidente para nascente, a Mauritânia (prolongada até ao rio dos Negros), a Núbia e o Egipto.” 47 Os habitantes da Etiópia são os guinéus, no século XV. 62 D. P. PEREIRA (1505-1508), Op. Cit., pp. 25

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tiveram que compreender. Para um marinheiro da Idade Média que, ao longo da vida, ouviu falar de histórias aterradoras sobre o Mar Tenebroso e o fim do mundo, esta linha da costa significava um perigo iminente, uma ameaça de morte. Seria de ânimo leve que, ainda hoje, um homem comum viajaria numa nave em direcção à Lua ou a Marte? E, além deste obstáculo psicológico que os navegadores tiveram de vencer, com muita ousadia e coragem, a verdade é que, souberam depois, aquele mar era de facto muito perigoso, muito agitado, com muitas correntes marítimas e ventos que dificultavam grandemente a navegação, exigindo conhecimentos avançados sobre as técnicas de navegar, sobre os ventos e as marés, etc. Por outro lado, a necessidade de encontrar alternativas económicas para resolver os problemas do país, os objectivos de ir sempre cada vez mais longe e difundir a fé cristã, eram motivos tradicionais e suficientes para iluminar o espírito destes marinheiros portugueses que se orgulhavam de combater em defesa da nação. Eram homens nobres e homens do povo, despertos para as coisas novas, para a aventura, para arriscar, orientados para recolher e registar todas as informações sobre os lugares que ninguém conhecia. Muitas naus portuguesas seguiram na direcção da costa africana por volta de 1420 e 1430. O Cabo Não já era conhecido no século XIV e ultrapassar o mais assustador - o Cabo Bojador -, a apenas sessenta léguas além do outro cabo, já era com grande probabilidade a principal preocupação do Infante D. Henrique. Gil Eanes, enviado pelo Infante, conseguiu dobrar o grande obstáculo do Cabo Bojador em 1434, constatando que o mundo se alargava a partir dali, muito ao contrário do que se esperava. E, tendo ultrapassado este cabo intimidatório, as descobertas sucederam-se a um ritmo mais rápido. No ano seguinte, o mesmo Gil Eanes e Afonso Gonçalves Baldaia chegaram ao Rio do Ouro, encontrando o ouro, essa enorme riqueza de que havia notícia na Europa. Então, estas viagens começaram, naturalmente, a chamar a atenção de um maior número de pessoas e de nações, mais interessados nos proveitos que delas poderiam obter. Facilmente podemos deduzir que múltiplas informações sobre as Descobertas dos portugueses se espalharam, desordenadamente, sobretudo pelos outros países europeus e pelo continente africano, na segunda metade do século. Multiplicaram-se as expedições até 1450. O Cabo Branco foi atingido por Nuno Tristão em 1441 e talvez este tenha sido o primeiro navegador a chegar ao Senegal, ao rio Gambia e ao Saloum. Em 1444, Dinis Dias descobriu o Cabo Verde e o Cabo dos Mastros que se situam no território da República do Senegal. E, em menos de trinta 38

anos, os portugueses tinham descoberto e baptizado muitos novos lugares. Este ritmo acelerado das Descobertas atesta, uma vez mais, a orientação dos marinheiros para executar um plano, estando dispostos a ir a toda a parte para conseguir notícias novas para o Infante, sobre os lugares e as gentes que encontrassem, cujas culturas desconheciam completamente. Portanto, não se pode afirmar que houvesse certo tipo de premeditações da parte dos portugueses, por exemplo em relação à exploração dos indígenas destes lugares. É necessário separar os antecedentes das Descobertas e as suas consequências directas em novos contextos económicos e culturais. O facto é que os projectos marítimos do Infante e da Coroa portuguesa alcançaram prestígio, o reconhecimento e o privilégio papal para continuar a empresa dos Descobrimentos e a divulgação da fé cristã. Passados alguns anos, as recentes Descobertas eram reconhecidas e valorizadas: “o mesmo papa Nicolau V, em 8 de Janeiro de 1455, pela bula Romanus Pontifex, declara que as terras já descobertas ou a descobrir pertenciam ao rei de Portugal e aos seus sucessores a título perpétuo, proibindo que alguém nelas penetrasse sem autorização daquele monarca e reconhecendo o monopólio comercial dos portugueses nesses territórios, incorrendo em pena de excomunhão quem nelas exercesse comércio sem autorização dos monarcas portugueses. Pela bula Inter Caetera, de 13 de Março de 1456, o papa Calisto III concede ao prior-mor da Ordem de Cristo63 [Infante D. Henrique] a jurisdição espiritual nas terras portuguesas do ultramar, dando-lhe o poder de instituir benefícios eclesiásticos.”64 Na verdade, as conquistas que os monarcas empreenderam na costa africana foram legitimadas pela Santa Sé, e esse reconhecimento foi também uma conquista dos portugueses; sendo, desde a sua fundação, uma nação profundamente lutadora e religiosa, sempre os reis procuraram legitimar as suas conquistas, junto da Santa Sé, para vê-las reconhecidas internacionalmente. De facto, a 18 de Junho de 1452, pela bula Dum Diversis, Nicolau V concedeu aos reis de Portugal a autorização e a liberdade de

Nova Enciclopédia Larousse, 1994, vol 7: Ordem de Cristo “Ordem que herdou em Portugal, os bens e muitos dos membros da Ordem dos Templários, extinta pelo Papa Clemente V a instâncias de Filipe, o Belo, que cobiçava as suas riquezas. Fundada por D. Dinis, foi aprovada (1319) por João XXII, que lhe atribuiu a regra de S. Bento. A sua sede transferiu-se (1357) de Castro Marim para Tomar. Teve um papel notável no empreendimento dos Descobrimentos (descoberta, conquista e evangelização de novas terras), sendo seu administrador o infante D. Henrique. Com D. Manuel (que a chefiou desde 1484), a ordem ficou dependente da Coroa. A Ordem de Cristo foi secularizada em 1789, extinta em 1910 e restabelecida em 1918 para premiar altos serviços militares ou civis.” 64 J. C. MAGALHÃES, 1990, pp. 43

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adquirir os domínios dos muçulmanos e de possuir os seus bens, num contexto de combate aos infiéis, incitando-os a propagar o cristianismo (e originando o direito de padroado concedido pelos papas a Portugal, também no Oriente). Sabe-se que o Infante D. Henrique, sendo o orientador desta empresa dos Descobrimentos, tinha o apoio da Coroa portuguesa. Frequentemente se regista o desejo dos próprios navegadores de levarem ao Infante boas novas e provas sobre os lugares descobertos – por exemplo flores, papagaios, pessoas negras. E o espanto com as novas realidades não se esgotou em cada viagem; pelo contrário, foi-se expandindo e a curiosidade também: “Sem mentir, digo que vi uma grande parte do mundo, mas nunca vi coisa semelhante a esta.”65 E, a par da surpresa dos navegadores portugueses, também o Infante reagia às novidades: “Ao ouvir isto, o Infante Dom Henrique incitou-o a ir saber daquelas terras por mar para estabelecer comércio com elas e para garantir casa aos seus nobres. O dito cavaleiro voltou a ter com o senhor Infante e deu-lhe conhecimento de ter encontrado um mar sereno, mas cum contínuo vento rijo de aquilão e enorme quantidade de peixe nas costas de tal mar. O Infante mandou então aparelhar uma nau a que deram o nome de Talbin e por capitão deu-lhe o copeiro de sua casa, de nome Afonso Gonçalves Baldaia.”66 O interesse do Infante é observável em vários momentos desta narrativa, embora deva depreender-se que estas iniciativas precisam de um certo tempo de preparação, meses e até anos, se considerarmos alguns períodos de paragem por outros motivos políticos nacionais. Não era tudo imediatamente estabelecido, outros interesses se intercalavam e condicionavam os avanços nas acções marítimas; e, ainda assim, o ritmo das descobertas foi rápido, orientado pela lucidez deste homem determinado e atento às mudanças: “Por outra parte, depois da chegada do senhor Infante da armada com o rei Afonso, depois do cerco e tomada da cidade de Alcácer, trouxe à memória ao senhor Infante o que me dissera o rei Nomimans quanto a mandar-lhe tudo o que lhe encomendara.

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D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 65 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 53

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Isso tudo fez o Infante e mandou para ali um sacerdote parente do Cardeal, o abade de Souto da Casa, para ficar com aquele rei e instruí-lo na fé. Além disso, mandou com ele um moço da sua câmara, de nome João Delgado. Era isto no ano de 1458.”67 Ainda na mesma linha de raciocínio, o espanto dos marinheiros portugueses manifestava-se naturalmente em relação a tudo o que viam, até a existência de redes de pesca, feitas à maneira dos africanos, que denunciavam sem dúvida a presença humana. E transportavam para Portugal essas surpresas visíveis, causando forte impressão junto do Infante: “Chegaram à costa do mar que toma o nome de Rio do Ouro, onde acharam muitas redes feitas com cascas de árvores, porque naquele lugar há imensa actividade de pesca. Admirou ele [o senhor Infante] as redes que traziam com eles feitas pelos homens daquela terra.”68 Compreensivelmente, este mesmo espírito se manifestou em relação às pessoas que encontraram naqueles lugares: “E vendo eles que nada aproveitavam, regressaram a Portugal e deram novas de tudo ao senhor Infante. Com isso o senhor Infante ficou muito satisfeito, pois tinham encontrado rasto de gente.”69 Parece-nos que perante as diferenças encontradas nos nativos etiópios, os navegadores pioneiros nesta aventura não hesitaram em mostrar as diferenças humanas daquelas gentes ao senhor Infante, o príncipe D. Henrique que organizava todas estas expedições marítimas: “Ordenou-lhes que fossem até ao Rio do Ouro e que, se encontrassem gente, fizessem tratado de paz com ela. Assim foram até ao Rio do Ouro; de noite foram com batéis até à costa e ao alvorecer viram uma gente que vinha tirar água a um poço. Cheios de satisfação, saltaram em terra com as suas armas e apanharam treze homens e mulheres, enquanto o resto fugia. (...) E voltaram a Portugal, a ter com o senhor Infante que muito se alegrou em sua companhia. Por esses teve início o conhecimento daquela região. (...)
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D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 86 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 55 69 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 57

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O senhor Infante ficou a saber por eles o caminho para chegar a Tambucutu. Disseram-lhe muitas mentiras.”70 Assim, o Infante D. Henrique ia recebendo novos dados sobre os novos lugares. E das viagens da Descoberta traziam-se desta forma muitas informações concretas, que o Infante aproveitava e adequava aos seus objectivos em vários domínios. Eram investimentos consideráveis para um país que, à época, como em toda a Europa, vivia dificuldades económicas e transformações sociais irreversíveis, como a falência do feudalismo e as necessidades crescentes de rendimento por parte das classes senhoriais que provocavam a ineficiência deste modo de produção. Também devido às rudimentares técnicas de produção utilizadas nos trabalhos agrícolas, tornaram-se insuportáveis as exigências dos senhores aos servos; como consequência das miseráveis condições de vida dos trabalhadores, emergiu a burguesia e criaram-se novas oportunidades sociais. Portanto, estas expedições não eram concretizadas ao acaso, não poderiam expor-se ao fracasso e perder tudo, embora fossem sempre um risco, como qualquer investimento. Tal como nos nossos dias, investir era difícil e inseguro, exigindo adquirir certo tipo de informações e de condições estratégicas. Com tempo para um certo amadurecimento, faziam-se estudos de várias fontes escritas, mantinham-se e promoviam-se contactos diversos com o exterior. Eram acções e investimentos que levaram à descoberta de uma tão grande extensão de lugares imprevisíveis, em que muitos pereceram. Neste contexto da Natureza, da navegação e do armamento, muitas coisas não se podiam prever, por desconhecimento, e haveria muitas outras que eventualmente nos ocorrem, designadamente: a especificidade dos perigos a que se expunham naqueles mares e terras nunca antes visitados; distância a percorrer até àqueles lugares; espaço e duração das viagens; dificuldades que teriam de enfrentar na resolução de novos problemas náuticos, climáticos ou outros; número de marinheiros; clima adverso; doenças; tipo de alimentação no mar e noutros lugares; receptividade (amigável ou hostil) das gentes que encontrassem; adequação do armamento que possuíam para a defesa e o ataque. Um século depois, ainda está bem viva a memória das vidas que se perderam nestas expedições marítimas, que Luís Vaz de Camões, n’ Os Lusíadas, não deixa cair

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D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 57-59

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no esquecimento e situa-nos, em vários momentos da epopeia, nesse contexto do perigo e das incertezas, tanto no mar como em terra: “No mar, tanta tormenta e tanto dano, Tantas vezes a morte apercebida; Na terra, tanta guerra, tanto engano, Tanta necessidade avorrecida! Onde pode acolher-se um fraco humano, Onde terá segura a curta vida Que não se arme e se indigne o Céu sereno Contra um bicho da terra tão pequeno?”71 Apesar de tudo, os portugueses partiram intencionalmente de Portugal para descobrir novos mundos; e pela primeira vez na História mundial, contornaram o continente africano, chegaram à Índia por via marítima e viram o Brasil. A descoberta da costa ocidental africana foi a vivência de toda uma realidade nova, diferente e estranha. Foi uma acção que trouxe muitos perigos e muitas novidades que os marinheiros, portugueses e estrangeiros, ao serviço do Infante D. Henrique, tiveram de compreender, foram postos à prova para algo que nunca tinham visto, ouvido ou sentido. Caminhando para o desconhecido, os navegadores partiam de Lagos, no Algarve, ou do Restelo, em Lisboa, ao serviço da Coroa portuguesa ou do Infante D. Henrique que orientavam este projecto de Estado, virados para a conquista do Oceano Atlântico, além do estreito de Gibraltar e do Norte de África, já sobejamente conhecidos e explorados pelos povos do Mediterrâneo. Como se prepararam para o desconhecido? Que experiência tinham para se lançarem em aventuras no mar “Oceano”? Que marinheiros se colocavam nestas expedições? Diogo Gomes aponta-nos muitos dos primeiros navegadores e caracteriza-os, o que nos permite identificar as classes sociais, a posição social dos navegadores escolhidos para comandar as expedições e desbravar os caminhos ocultos: “No ano do Senhor de 1415, um fidalgo do Reino de Portugal, D. João de Castro (que era capitão da armada feita pelo Infante D. Henrique...) navegando pelo Mar Atlântico, (...)” 72

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L. V. CAMÕES (1572), Op. Cit., Canto I, est. 106

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“Por outra parte, no ano seguinte, 1416, mandou o senhor Infante Dom Henrique um nobre cavaleiro, de nome Gonçalo Velho, passar além das ilhas Canárias.”73 No início da expansão, logo os fidalgos da corte eram chamados a cumprir esta grande responsabilidade, como uma missão de guerra ou de paz, e nem sempre bem sucedida, vendo-se de repente e frequentemente em grandes dificuldades que os obrigavam a regressar ao reino. As escolhas dos comandos das tripulações para estas viagens incidiam naturalmente sobre nobres cavaleiros e sobre aqueles que, com certeza, o Infante já conhecia bastante bem, confiando-lhes altas responsabilidades como a de comandar viagens que representavam muitas dificuldades, que exigiam experiência de navegação e de vida; daí que muitos deles tivessem já uma idade avançada. Mas, por outro lado, colocava também homens jovens, capazes, da sua confiança, mais fortes e resistentes, acautelando assim outros imprevistos, partilhando as virtudes de todos os que lhe estavam mais próximos e que aceitassem esses desafios da aventura marítima, pelo prestígio da nação: “O Infante mandou então aparelhar uma nau a que deram o nome de Talbin e por capitão deu-lhes o copeiro de sua Casa, de nome Afonso Gonçalves Baldaia. Com ele mandou dois moços fidalgos com dois cavalos (...)”74 “Imediatamente, o senhor Infante fez uma armada de duas caravelas e mandou por capitão-mor um cavaleiro já de idade que se chamava Nuno Tristão; por capitão em outra caravela ia Antão Gonçalves, muito moço, que depois teve o castelo de Tomar, com outros moços da câmara do senhor Infante”75 Estes homens, com experiências de vida diferentes, tinham contudo o denominador comum de alguma proximidade ao príncipe, ao Infante D. Henrique, que também não deixava de os premiar, de os recompensar pela coragem e valentia demonstradas. Portanto, muitos alcançaram grande prestígio no reino em consequência das suas acções nas Descobertas, tal como este Antão Gonçalves, por exemplo. São homens e navegadores portugueses, com estas características, que atingem o rio Senegal e o Cabo Verde, onde ainda hoje é considerado e homenageado o primeiro

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D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 51 D. G. SINTRA (1484-1496), Op. Cit., pp. 53 74 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 53-54 75 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 57

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navegador português que ali desembarcou, Dinis Dias, embora se pense que Nuno Tristão terá sido o primeiro a chegar a estes sítios: “Depois o senhor Infante expediu caravelas: numa ia alguém da sua própria Casa, de nome Gonçalo de Sintra, e noutra um certo Dinis Dias; e queria que fossem além do lugar chamado Pedra da Galé, para ver se mais longe poderiam apanhar ou descobrir mais línguas (...)”76 A partir do momento em que fizeram o reconhecimento desta região, as viagens passaram a ter não só o objectivo da descoberta desses lugares, mas também a descoberta de novas áreas e rotas de mercado com os indígenas, o que obrigava a uma maior eficácia da comunicação com os nativos – “descobrir mais línguas” - para obter as informações necessárias sobre os produtos, os interesses dos intervenientes e dos intermediários. Para isso, procuraram formas para desenvolver as trocas comerciais mas também para as facilitar, passando pela necessidade de criar uma maior proximidade. Assim, foi provavelmente quando descobriram um lugar onde afluíam periodicamente, de forma sustentável, muitos comerciantes africanos para transaccionarem os seus géneros, que em Portugal se decidiu construir uma fortaleza, para se instalarem definitivamente e com maior segurança nesses circuitos comerciais, também para defender o território contra os infiéis e instruir os nativos na fé cristã. Era também um lugar aprazível, na ilha de Arguim, na actual Mauritânia: “Mais além chegaram a um lugar que agora tem o nome de Arguim. (...) A ilha tem muitos lugares onde nasce água doce na areia. Por causa disso, o senhor Infante mandou depois fazer aí uma fortaleza. Pôs aí gente segura de cristãos com um sacerdote de nome Polono, da vila de Lagos, o qual foi o primeiro que celebrou os ofícios divinos na Guiné (...). Esta fortaleza foi construída no ano de 1445.”77 Foi o lugar escolhido preferencialmente pelos navegadores, pelas condições mais favoráveis que oferecia à presença humana, ficando a meio caminho entre o que conheciam (que não ia além da Serra Leoa) e Portugal. Parece representar, assim, uma estratégia para abranger e controlar melhor a totalidade dos territórios descobertos, geridos unicamente pelos portugueses, naquela altura. Estas motivações podem justificar o facto de os portugueses não terem uma presença mais forte no Cabo Verde,

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 59 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 59 e 61

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no actual Senegal, desde que conheceram aqueles lugares, tendo-se adaptado às circunstâncias que encontraram, e traçando sempre os seus objectivos em consonância com aquilo que iam descobrindo, num processo de causa/ efeito. Muito cedo, montaram essa estratégia que, à época, e naquele ponto das aventuras era mais benéfico e seguro instalarem-se em Arguim do que no Cabo Verde, que acabavam de conhecer. Estando já bastante distante do reino, as viagens até ao Cabo Verde eram necessariamente mais penosas e dispendiosas do que a partir de Arguim, tanto para Norte como para Sul: “De novo o senhor Infante fez uma armada de quatro caravelas. Os capitães: Gil Eanes de Vilalobos, cavaleiro; Lançarote, almoxarife do Rei em Lagos; Nuno Tristão e Gonçalo Afonso de Sintra. E houve muitos homens de nobreza que foram a Arguim (...)”78 Deste modo, talvez possamos compreender mais facilmente por que motivos os piratas e os outros europeus se introduziram rapidamente nos territórios do actual Senegal, dado que as orientações dos portugueses se desviaram, mais para Norte e, mais tarde, situaram-se também mais a Sul, nos territórios da actual Guiné-Bissau e outros circundantes; isto também porque, tendo sido os primeiros a chegar ao continente africano, procuraram a zona onde o comércio era mais intenso e onde os nativos eram menos agressivos, pois, nas primeiras viagens ao Cabo Verde há notícia de tripulações dizimadas, quase por completo, pelos negros que atiravam setas envenenadas ou que atacavam de surpresa e de forma traiçoeira os visitantes que se aproximassem de terra, como veremos mais adiante: “Depois de o senhor Infante ter sabido notícias tão horrendas mandou uma caravela armada de paz e de guerra, indo nela por capitão o já referido Nuno Tristão que havia estado nas terras dos Cenegas com outros nobres. De Portugal navegaram directamente até Cabo Verde.”79 É muito importante a atitude do Infante e dos navegadores perante os indígenas. Enquanto transportava largos investimentos para as expedições marítimas, igualmente ia sabendo de acontecimentos nefastos junto dos navegadores que comprometia nestas viagens; não seria muito agradável perder as tripulações, ou as embarcações, ou desviarem-se e não concretizarem os seus objectivos:

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 61 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

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“Ao ouvir contar as notícias desagradáveis da morte dos seus cristãos, o senhor Infante ficou muito triste. Andava então pelo seu paço um certo fidalgo do Reino da Suécia que viera a Portugal para ser armado cavaleiro além-mar, em África; era seu nome Abelhart. Desejando ele ver terras estranhas e principalmente as da Guiné, rogava ao senhor Infante que o mandasse a tais paragens; anuiu o senhor Infante ao seu pedido e deu-lhe uma caravela armada com alguns nobres da sua corte.”80 Se considerarmos os contextos de “notícias desagradáveis”, torna-se mais compreensível que o Infante recebesse, de bom grado, a ajuda de outros príncipes ou de estrangeiros destemidos, impressionados com estas aventuras inovadoras, como este fidalgo da Suécia. Por outro lado, não hesitava e continuava a armar caravelas para novas viagens, com recurso a homens próximos da sua câmara ou do próprio rei: “Não muito tempo depois, o senhor Infante armou uma caravela de Lagos que tomava o nome de Picanço e fez seguidamente Diogo Gomes capitão dela. Armou também outras duas caravelas para irem além. Fez de Diogo Gomes o capitão-mor destas caravelas e numa das outras ficou como capitão João Gonçalves Ribeiro, criado do Infante, enquanto na outra ficava Nuno Fernandes Baía, escudeiro do mesmo Infante. E mandou-lhes que fossem além o mais que pudessem.”81 Neste caso, trata-se da experiência do navegador português, cujo manuscrito temos vindo a consultar. Refira-se que, apesar da polémica que existe acerca da origem deste texto, partilhamos a posição apresentada por Aires A. Nascimento que atribui a autoria desse documento a Diogo Gomes de Sintra. Trata-se das informações recolhidas por um português, que passou de forma marcante pelos territórios descobertos, inclusivamente pelo território actual do Senegal. Para nós, tem grande valor a experiência de uma testemunha ocular, de um navegador que teve contacto directo com as novas realidades e com as novas gentes. Ainda que nos pareça que muitos destes dados tenham sido escritos ou registados muito posteriormente aos acontecimentos ou que possam ter sido adulterados ao longo dos tempos por algum possuidor do documento, a verdade é que está aqui presente a cultura dos Descobrimentos que se conhece e aceita em outros textos sobre as Descobertas.

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 69 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 69 e 71

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Diogo Gomes empreendeu viagens ao serviço do Infante e do rei D. Afonso V, teve várias oportunidades para aprofundar os seus conhecimentos na região do Senegal, que nos interessa especificamente: “Dois anos depois, porém, o rei Dom Afonso armou uma grande caravela, em que me mandou por capitão. Levava eu dez cavalos comigo e fui à terra dos Barbacins (...). O rei deu-me poder sobre as costas do mar, de tal modo que todas as caravelas que encontrasse em terra da Guiné ficassem sob minha jurisdição ou domínio (já que ele sabia que ali havia caravelas que levavam espadas e armas para os mouros), ordenando-me que as trouxesse sob prisão até ele em Portugal”82 Reflecte-se até uma querela entre Diogo Gomes de Sintra e o genovês António de Noli, acerca do descobrimento das ilhas de Cabo Verde, por ambos afirmarem ter sido os primeiros a pôr o pé naquele arquipélago, precisamente na sequência desta viagem ao Cabo Verde, em que se cruzaram e navegaram lado a lado; a descoberta tem sido atribuída ao genovês, mas a questão ainda não parece estar cabalmente esclarecida: “Com a ajuda de Deus em doze dias cheguei aos Barbacins e achei ali duas caravelas, a saber, uma em que ia Gonçalo Ferreira, criado da Casa do senhor Infante, homem morador no Porto, cidade de Portugal, que transportava cavalos para ali. Na outra caravela estava como capitão o mercador genovês António de Noli, que também transportava cavalos.”83 Partiam as naus com tripulações diminutas, inicialmente nem todos arriscavam o seu futuro nestas aventuras, principalmente sem saberem se tirariam algum proveito disso; por outro lado, o país não tinha muitos recursos e o investimento nestas viagens era exigente e elevado; por isso, tudo era pensado, calculado com peso e medida, diante de muitas incertezas sobre o que iriam encontrar e/ou ganhar. Outras dificuldades havia como, por exemplo, os mantimentos que não se podiam conservar com segurança, com facilidade, durante tempo incerto, em quantidades que de todo não podiam prever de forma exacta se seriam as necessárias, as suficientes ou as melhores para lhes permitirem resistir aos perigos ocultos em situações imprevisíveis. Estas fragilidades, à partida, revelam também a enorme força do projecto do Infante D. Henrique e do Estado português, que não se detiveram perante os obstáculos, porque tinham objectivos firmes, inquestionáveis, e que muitos até transformaram na

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 89 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 90

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oportunidade para encontrar uma vida melhor. O povo vivia numa grande pobreza; era necessário lutar e arriscar para sobreviver. O Estado procurava soluções, tomava a iniciativa para resolver problemas do país, buscava novas riquezas (metais preciosos, especiarias da Índia, e outros produtos de difícil acesso em mercados longínquos), novos caminhos e mais curtos para os mesmos produtos que poderiam obter, na fonte, a mais baixos preços; teriam um mercado mais lucrativo, sem concorrência, e acederiam a esses produtos que há muito escasseavam na Europa. E, na sequência do espírito cavaleiresco medieval, muitos nobres estavam dispostos a travar batalhas contra os infiéis ou conquistar novos lugares pelo prestígio d’El-Rei de Portugal. 1.3. Os indígenas da Guiné

Segunda razão do Infante

“E a segunda foi porque considerou que, achando-se em aquelas terras alguma povoação de Cristãos, ou alguns taes portos em que sem perigo pudessem navegar, que se poderiam para estes reinos trazer muitas mercadarias, que se haveriam de bom mercado, segundo razão, pois com eles não tratavam outras pessoas destas partes, nem doutras nenhumas que sabidas fossem; e que isso mesmo levariam para lá das que em estes reinos houvesse, cujo tráfego trazeria grande proveito aos naturaes.”84 Efectivamente, os portugueses vieram a desvendar mistérios que existiam desde a Antiguidade Clássica, que os autores greco-latinos tinham difundido com base em ideias fantasiosas sobre o Mar Tenebroso e sobre o litoral do continente africano, sem contudo o terem visto, sem viverem a experiência do contacto com as realidades que descreviam com tanto pormenor. Mas também existiam muitas lendas do conhecimento do povo, e basta observar algumas das mais antigas representações do Mundo, para termos a percepção destas influências até ao século XV: “Num primeiro grupo, que teve muita aceitação nos meios religiosos, devem ser reunidos os pequenos diagramas circulares onde é corrente a representação esquemática do mundo conhecido, de acordo com os textos bíblicos. (...)

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G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

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Num segundo grupo deveremos juntar todos os planisférios e mapas, de nítida filiação nos esquemas anteriores e na geografia erudita do cristianismo, onde se anotam as representações, quase sempre imprecisas e profundamente erradas, de países e acidentes mais conhecidos. Num último grupo, de origem mais recente, terão de ser reunidos todos os documentos cartográficos subsidiários das cartas náuticas, por terem sido desenhados por cartógrafos que também eram autores destas ou que delas se serviram ao traçar a representação do mundo que então se sabia ser habitado pelo homem.”85 De tal modo, que até à Idade Média, essas lendas intocadas resistiram, convenceram, assustavam e dissuadiam muitos da exploração daqueles espaços. Entre muitos documentos, apresentamos um exemplo, sobre lugares ainda próximos de Portugal, citado pelo mesmo autor, Luís de Albuquerque, na mesma obra: “Item. Está, pois, a ilha Canária, dita Canária pela grande quantidade de cães que estão nela, muito grandes e fortes. Diz Plínio, mestre de mapas-mundo, que nas ilhas Afortunadas há uma ilha onde crescem todos os bens do mundo, e sem semear e sem plantar crescem todos os frutos. [...] Por este motivo acreditam os pagãos das Índias que, quando morrem, vão as suas almas para aquelas ilhas e vivem por todo o tempo do odor daqueles frutos e eles crêem que é o seu paraíso; mas para dizer a verdade, isto é fábula.”86 Ainda gostaríamos de apresentar outra referência ao texto de um dos autores mais influentes em Portugal e Espanha, à época, Pompónio Mela: “No seu pequeno tratado de Geografia, Pompónio Mela não se limitou a localizar as regiões do Mundo e a descrevê-las: acrescentou aos dados estritamente geográficos indicações sobre a fauna, usos e costumes desses países; e é neste aspecto que o livrinho se afasta muito da realidade, pois dá tal crédito a fantasias que o seu autor é muito justamente apontado como um dos pioneiros desta literatura de maravilhas.”87 Refira-se também o mais conhecido texto de John de Mandeville, dentro da literatura deste género: “O autor, imputando ao seu personagem uma longa viagem que nunca fez, meteu na história dessas fingidas andanças pelo Mundo tudo quanto pôde encontrar de
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L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 110-111 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 120 87 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 134

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mais extraordinário na então já vasta bibliografia dessa geografia fantástica; e os romances de cavalaria, dando aqui e além umas pinceladas romanescas, ajudaram a compor os ingredientes de que saiu essa obra que é muito justamente considerada como uma das maiores mistificações que a história da geografia regista. Aparecem neste livro: as montanhas que vão para além das nuvens e dão sombra com oitenta e seis milhas de extensão; a torre de Babilónia, morada de dragões, serpentes e outros animais venenosos que não consentiam a aproximação de visitantes; o “ paraíso terreal”, situado na mais alta montanha da Terra, tão alta que tocava a Lua; e todos os lugares-comuns que os seus antecessores tinham laboriosamente inventado – a Fénix, as trevas perpétuas no Norte da China, as riquezas incríveis na mesma China e do Egipto, etc. O que singulariza Mandeville é, porém, o poder de convicção com que redige as maiores patranhas, conferindo-lhes um tom de autenticidade que elas não possuíam noutros autores (…).)”88 Há ainda a considerar a grande difusão na Europa do Livro de Marco Polo: “ O Livro de Marco Polo difundiu-se por toda a Europa e é muito de aceitar que tenha entrado em Portugal na bagagem do infante D. Pedro, quando ele em 1428 regressou da sua jornada pelas “sete partidas”, como nos diz Valentim Fernandes no intróito da edição em língua portuguesa que do texto nos deu. Porém, em relação ao “plano da Índia”, Marco Polo apenas poderia ter sido um dos factores auxiliares que contribuíram para o seu desabrochar; só mais tarde, tal como o foi para Colombo, teria servido de meio de informação, o que, de resto, a edição portuguesa do princípio do século XVI claramente denuncia.”89 Sobre estas maravilhas que se contavam, também se pronuncia Diogo Gomes de Sintra, contrariando Ptolemeu, um dos grandes mestres antigos da Geografia que influenciou a Idade Média e a Renascença. Contudo, há que ter em conta que a obra deste autor só foi traduzida, vertida para Latim no século XV, o que inviabiliza seguramente a sua grande influência nos Descobrimentos portugueses: “Estas coisas que aqui se escrevem damo-las com a devida vénia do ilustríssimo Ptolemeu, que muito de bom escreveu acerca da divisão do mundo, mas nesta parte enganou-se. Escreveu, com efeito, que o mundo se dividia em três partes: uma povoada

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L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 138 L. ALBUQUERQUE, 2001, pp. 130

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que ficava a meio do mundo; a setentrional, segundo escreveu, não era povoada devido ao frio excessivo; escreveu também que a parte equinocial do meridião era também desabitada por causa do calor excessivo. Descobrimos que tudo era diferente.”90 Na verdade, ao contrário do que sucedera com as descobertas das ilhas da Madeira e dos Açores, que posteriormente vieram a ser povoadas pelo reino de Portugal, havia gente muito diferente e estranha na costa da Guiné, nunca antes visitada: “Na viagem, passaram além do cabo de Tofia e acharam uma terra despovoada e arenosa, como a anterior, sem vegetação nem àrvores. Indo mais além depararam com uma terra cheia de àrvores, nomeadamente palmeiras, e saíram a terra. A sua gente era toda negra.”91 No primeiro contacto, considerar o impacto da novidade é fundamental para compreender os acontecimentos e, parece-nos, não se pode sequer esquecer ou desvalorizar este aspecto, sob pena de se distorcerem os factos. Ao conhecerem os habitantes destas terras, colocavam-se novas situações à presença dos portugueses nos territórios da costa ocidental africana, onde tem início uma História comum, europeia e africana, incluindo os territórios do actual Senegal que queremos observar. Como poderíamos caracterizar estes contactos pioneiros? Que importância e que influência têm no futuro destes povos? O contexto da situação de comunicação era novo para os visitantes e para os nativos. As gentes e os lugares, à primeira vista, apresentavam características distintas. Os estrangeiros surgiram de repente, vindos do mar, navegando, eram brancos e maioritariamente homens (há poucas notícias sobre mulheres que embarcassem nestas primeiras expedições de exploração marítima). Camões, mais de um século depois destes acontecimentos, não deixa de recordar esse contexto da dor dos marinheiros, na hora da partida para aquelas viagens incertas; lembra-nos esses dramas humanos da separação das famílias e dos amigos:

“A gente da cidade, aquele dia, (uns por amigos, outros por parentes, Outros por ver somente) concorria, Saudosos na vista e descontentes. E nós, co a virtuosa companhia De mil religiosos diligentes,

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63 e 65 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63

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Em procissão solene, a Deus orando, Pera os batéis viemos caminhando. Em tão longo caminho e duvidoso Por perdidos as gentes nos julgavam, As mulheres cum choro piadoso, Os homens com suspiros que arrancavam. Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso Amor mais desconfia, acrecentavam A desesperação e frio medo De já nos não tornar a ver tão cedo. (...) Qual em cabelo: “ Ó doce e amado esposo, Sem quem não quis Amor que viver possa, Porque is aventurar ao mar iroso Essa vida que é minha e não é vossa? Como, por um caminho duvidoso, Vos esquece a afeição tão doce nossa? Nosso amor, nosso vão contentamento, Quereis que com as velas leve o vento?” (...) Nós outros, sem a vista alevantarmos Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado, Por nos não magoarmos, ou mudarmos Do propósito firme começado, Determinei de assi nos embarcarmos, Sem o despedimento costumado, Que, posto que é de amor usança boa, A quem se aparta, ou fica, mais magoa.”92 Naturalmente, estas experiências vividas pelos portugueses nestas viagens estavam fora do alcance dos africanos a Sul do Sara. Os autóctones daqueles sítios longínquos, integrados numa paisagem específica, apresentavam aspectos humanos, alguns semelhantes e outros diferentes; tinham a pele negra, eram homens, mulheres e crianças. Também as indumentárias terão impressionado uns e outros, dentro das suas referências culturais, e terão ultrapassado o horizonte de expectativa de ambos os lados, com certeza. As modas eram outras. As experiências sobre o mundo também divergiam, só de ver e de olhar:

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L. V. CAMÕES (1572); Op. Cit., Canto IV, est. 88-93

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“As caravelas, indo além de Cabo Verde, ou seja, em direcção ao polo antárctico, descobriram uma terra desabitada. Avançando mais além descobriram uma grande praia e chegaram a ela com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra.”93 Para os exploradores portugueses, o calor, a flora e a fauna causariam sensações novas e estranhas aos sentidos, não só pelo que havia de diferente mas também pelas semelhanças que encontravam na terra e nos seres. O mundo estendia-se aos seus olhos com aspectos novos que apreenderam dentro das suas referências culturais e que, quase inadvertidamente, foram transplantadas por eles próprios para estes sítios e em contacto com estas gentes distintas. Afinal, não se cruzaram com monstros marinhos nem o mar entrou em ebulição, nem sabiam desta gente negra. Facilmente concluíram que o senhor Infante tinha razão para querer que atravessassem aquele mar “Oceano”, para ir “mais além”; estava portanto bem informado e muito melhor do que quaisquer outros príncipes da Europa. Tinham diante dos olhos a prova de todas as expectativas do Infante e logo isso lhes servia de novo estímulo psicológico para continuar a participar nesta grande e corajosa empresa dos Descobrimentos, um projecto que só traria prestígio a estes aventureiros, ao Infante e à Coroa portuguesa. Renovava-se o estímulo com a descoberta seguinte e entusiasmavam-se com a possibilidade de trazer as novidades a Portugal, juntamente com as provas que pudessem encontrar, tudo o que estivesse ao seu alcance. Renovavase a confiança no futuro. Houve entendimento entre os portugueses e os nativos daquelas terras? Como estabeleceram o contacto? Como comunicaram? Diogo Gomes de Sintra conta vários episódios cujas consequências dependiam ou da capacidade de comunicar dos estrangeiros ou da receptividade dos indígenas: “ Os cristãos faziam-lhes sinais de paz, mas eles não entenderam. Mandaramlhes os cristãos mercadorias que tinham trazido com eles a terra, mas eles receberamnas sem se disporem a falar. Os cristãos bem teriam podido apanhar alguns, mas não ousavam fazê-lo pois o senhor Infante tinha-lhes mandado que não lhes fizessem nada de mal e assim eles lhes fizeram.”94

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63

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Em primeiro lugar, os navegadores ao serviço do Infante não ousariam quebrar as suas orientações e as instruções que recebiam seriam de um rigor extremo, sendo inquestionável a admiração pelo príncipe. Mas a adaptação dos navegadores não foi fácil, com certza, e nem todos teriam saúde que resistisse àquelas mudanças climáticas fortes e repentinas. Perante aqueles homens novos, era necessário comunicar. As mercadorias, objectivas e concretas, apresentadas directamente, seriam um sinal dos interesses dos estrangeiros em trocar os seus produtos, levaria à acção idêntica da parte dos que ali viviam, mas a comunicação verbal seria impossível por desconhecerem a língua uns dos outros. Portanto, uma característica comum aos visitantes e aos autóctones seria a própria capacidade, desejo e necessidade de comunicar95; além da prática da utilização de um turgimão / língua, teriam de recorrer a formas não verbais de comunicação e os conteúdos das mensagens seriam de uma enorme simplicidade, seriam sinais humanos gestuais, universais, muito óbvios, concretos, para se entenderem; esses aspectos humanos universais devem ter sido a base da comunicação entre os indígenas e os visitantes portugueses. Diríamos que esses conteúdos universais deveriam abranger tudo aquilo de que um ser humano precisa para viver em contacto com uma determinada comunidade e com a natureza. Apesar das diferenças humanas encontradas (no início, a cor da pele, a indumentária, a expressão verbal), houve um reconhecimento mútuo e imediato de seres humanos, homens e mulheres. Mas a curiosidade e a criatividade humanas, de ambos os lados, não pararam na observação do que lhes era estranho. Desde os primeiros encontros, esta identificação psicológica existiria, o que de certa forma contribuiria para aproximar estes grupos humanos de origens e culturas distintas. Sem falarem a mesma língua, os primeiros contactos entre os portugueses e os guinéus, basear-se-iam num conhecimento intrínseco dos aspectos humanos universais, o que nem sempre foi pacífico. Eram contactos que ofereciam dificuldade, à partida, e portanto desenvolviamse resistências de ambas as partes; seriam lentos e complicados, cansativos e a precisar de uma enorme paciência e dedicação. Teriam de criar as condições para uma atmosfera de confiança entre os interlocutores, sob pena de não se entenderem e de não conseguirem os objectivos a que se propunham. Seria contudo raro este tipo de relação

CARVALHO, José G. Herculano de, Teoria da Linguagem, Natureza do Fenómeno Linguístico e a Análise das Línguas, Coimbra Editora, vol I, 6ª Ed, Coimbra, 1983, pp. 11-54

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calma e pacífica. Muitas vezes, os indígenas atacaram imediatamente, com as suas setas envenenadas, aqueles que consideravam como invasores ou inimigos. Por outro lado, os visitantes tinham de aceitar os termos do negócio impostos por aquelas gentes. Além de ficarem impressionados com a nova paisagem, os navegadores portugueses foram surpreendidos por estas habilidades dos negros que apareciam e desapareciam repentinamente debaixo do seu olhar e não esperavam, com certeza, a recepção daquela gente do reino de Beseguiche: “ (...) Avançando mais além, descobriram uma grande praia e chegaram a ela com os seus batéis. E logo saiu das árvores gente em número de cor negra. O senhor daquela gente, de nome Beseguiche, era homem malvado e traiçoeiro e todos os seus vizinhos o odiavam pela sua extrema malvadez; atirou ele setas envenenadas aos cristãos e ficaram alguns cristãso feridos e imediatamente morreram do veneno (...) Não tendo entrado em terra, regressaram eles ao rio Cenega, onde encontraram as outras caravelas suas e assim todos regressaram a Portugal.”96 Estas “notícias horrendas” chegavam ao senhor Infante que mudava de estratégia consoante os acontecimentos relatados pelos navegadores, que experimentavam situações novas como esta e se sujeitavam a perder a vida nestas aventuras junto de povos e de culturas desconhecidos. Não perdendo o entusiasmo, o Infante de novo mandou uma caravela armada de paz e de guerra, indo nela por capitão Nuno Tristão que havia estado nas terras dos Cenegas com outros nobres: “De Portugal navegaram directamente até Cabo Verde avançando para além, até uma terra de homens malvados a que dão o nome de Sereres. Encontraram muitos deles na praia do mar com arcos e setas envenenadas e não quiseram eles falar com os cristãos.”97 Não parece ter sido fácil desembarcar nestas terras dos Cenegas, muito menos comunicar com eles, pois em cada etapa que os portugueses venciam, acontecia uma surpresa indesejável, no mar ou em terra: “Avançando para além, navegaram para terra de Barbacins e descobriram um pequeno rio que agora tem o nome de rio Nuno Tristão. Indo além depararam com muitos negros dessa terra em almadias dentro do rio e fora dele no mar. Com setas

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67

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envenenadas mataram eles todos estes cristãos, tomaram a caravela, puxaram-na para dentro do rio e fizeram-na em pedaços. Eu, Diogo Gomes, muito tempo depois, tive uma âncora do rei dos negros que me fez presente dela.”98 Encontraram muita resistência dos indígenas ao longo da costa africana que descobriram. Estes primeiros passos dos portugueses em terras de Cenega não foram fáceis, foi necessário negociar, fazer contratos de paz e colocaram-se outras questões como a necessidade de comunicar de forma eficaz. Apesar de levarem os “língua” como intérpretes para falar com as gentes negras, estas revelaram-se agressivas e mantinham a distância contra os invasores dos seus territórios, atacavam frequentemente as embarcações portuguesas, demonstrando assim que estavam habituados a contextos de guerra, com técnicas específicas para afugentar os inimigos. E os navegadores tiveram de se proteger destes ataques, tendo sido obrigados várias vezes a regressar a Portugal. 1.4. O comércio no Cabo Verde

Terceira Razão do Infante

“A terceira razão do Infante foi porque se dizia que o poderio dos Mouros daquela terra d’Africa era muito maior do que se comummente pensava, e que não havia entre eles Cristãos nem outra alguma geração. E porque todo sisudo, por natural prudência, é constrangido a querer saber o poder de seu inimigo, trabalhou-se o dicto senhor de o mandar saber, para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis.”99 Além da descrição da geografia e das gentes que os exploradores portugueses encontraram, interessa-nos neste momento observar principalmente o tipo de relações comerciais que se estabeleciam entre as gentes que habitavam aquelas terras, entre si e com estes estrangeiros, à época. Muitíssimas expedições marítimas se organizaram em Portugal até se desenhar a costa ocidental africana:

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 67 G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

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“O senhor Infante mandou que as caravelas avançassem mais além. Indo, porém, de paz e de guerra, descobriram um cabo belíssimo que entra pelo mar a que deram o nome de Cabo Verde. (…) As suas gentes são extremamente negras.” 100 No que diz respeito aos primeiros contactos humanos nesta região, desde logo, o leitor destes relatos pode facilmente deduzir que aquelas gentes estavam preparadas para o combate, recorrendo a tácticas de uma enorme eficácia, afirmando-se como verdadeiros senhores daqueles lugares. De facto, só eles conheciam bem aquela terra, a sua beleza, os seus perigos, os seus segredos e as suas riquezas, tendo naturalmente desenvolvido técnicas de defesa e de ataque que utilizavam contra qualquer ameaça. Não foi fácil pôr o pé neste solo, de acordo com as notícias dessa época sobre navegadores que, imediatamente atacados ao longo da costa, ficavam sem capacidade de resposta, morrendo ou regressando inevitavelmente a Portugal. Ao avistar as embarcações, os africanos nem sempre esperavam para identificar ou comunicar com os visitantes. Por isso, as negociações exigiam certos cuidados e a criação das condições necessárias para esse mercado: “(…) descobriram um grande rio que tem o nome de Cenega, muito povoado. Falaram os cristãos com essa gente através dos homens que traziam consigo e fizeram pazes com eles, trocaram as suas mercadorias e trouxeram daí muitos negros comprados. E assim desde esse tempo até agora de cada vez trazem mais negros desde esse lugar, que já não têm conta. A terra chama-se Gelofa (...) habitada também por negros e em tão grande multidão de gente que custa a acreditar; (…) Pôs o senhor Rei duas casas naquela terra de Cenégios para trocar as suas mercadorias por ouro, são elas a de Arguim e a de S. João que fica próximo de Tofia e Anterote.” 101 Podemos depreender que, em algumas situações, foi necessário, e até mesmo imperativo, estabelecer relações de paz, não só para conseguir uma aproximação efectiva a estas gentes, mas também para possibilitar posteriormente trocas comerciais. O espírito guerreiro daquelas gentes é perceptível nas descrições apresentadas neste documento e podemos observar que se movimentavam ou se deslocavam não só com frequência, rapidamente e com facilidade, para vender e comprar produtos vários, mas também estavam sempre equipados para a guerra. Tão depressa faziam a guerra

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 63 e 65

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como a paz, consoante o modo de aproximação dos estrangeiros ou os seus próprios interesses comerciais: “O senhor da terra, porém, pretendendo falar comigo na margem do rio, numa grande floresta, trouxe com ele grande número de homens armados com setas envenenadas, azagaias, espadas e adagas. Eu aproximei-me dele levando-lhe como presente meus biscoitos e vinho do nosso, pois eles não têm vinho a não ser de palma. (…) Ele deu-me três negros, duas mulheres e um homem (…)102 Estes senhores dos reinos africanos teriam esta enorme flexibilidade quando se tratava de trocas comerciais. De acordo com as palavras de Diogo Gomes de Sintra, neste contexto das relações comerciais, estes povos facilmente se entregavam à troca de géneros, parecia terem hábitos nesse sentido e uma receptividade muito grande aos produtos oferecidos pelos estrangeiros. Davam, em troca, homens e mulheres, que também ofereciam de presente, como forma de reconhecimento ou para manifestar o seu contentamento. Era, assim parece, uma prática comum e habitual entre os africanos: “No outro dia (…) vimos gente do lado direito e aproximámo-nos dela e fizemos pazes com eles. O senhor deles chamava-se Frangazick, sobrinho de Farisangul, grande príncipe dos negros. Recebi deles 180 pesos de ouro em troca das nossas mercadorias, a saber, panos, manilhas e outras coisas.103 (…) Ele deu-me três negros, duas mulheres e um homem. Manifestou-me o seu contentamento e cheio de alegria e de satisfação jurou-me (…)”104 A receptividade era tanta que se espalhavam, por todas as terras, mesmo muito longínquas, as notícias sobre a presença dos navegadores. Praticavam-se trocas de produtos, muitos deles desconhecidos dos “cristãos” portugueses (como por exemplo, “dentes de elefante, malagueta em grão e em casca, tal como cresce”105): “Acordadas as pazes com eles, correu fama por toda a terra de que havia cristãos em Cantor e acorreram de todas as partes até ali, a saber do norte de Tombucutu, bem como moradores do lado sul fronteiras à Serra de Gelei, tendo vindo igualmente gentes de Quioquium que era uma grande cidade (…)”.106 Pode deduzir-se que o comércio entre estes povos era uma actividade de enorme importância e que esses interesses económicos expandiram-se ainda mais com a
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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 79 D. G. SINTRA (1484-1496);Op. Cit., pp. 73 104 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 79 105 D. G. SINTRA (1484-1496);Op. Cit., pp. 71 106 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 73

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chegada dos produtos vendidos pelos portugueses. Por outro lado, estas gentes tinham no continente africano, e em vastas regiões, uma organização comercial bastante sólida, se tivermos em consideração o conhecimento profundo que tinham de possuir para organizar e investir em grandes caravanas de camelos para transportar ouro e outros produtos valiosos pelo deserto. Todos os modos de vida pareciam assentar num sistema económico de trocas comerciais que implicava uma mobilidade calculada e o investimento na força de trabalho de escravos, sem a qual esses objectivos económicos, à época, não se poderiam concretizar, dadas as duríssimas condições para o transporte das mercadorias e a agressividade do clima, só para referir algumas das dificuldades óbvias que este tipo de empresas enfrentaria: “Fiquei a saber por eles que em tal cidade [Quioquum] havia abundância de ouro e que por ali passavam as caravanas de camelos e dromedários que transportavam as mercadorias de Cartago ou de Tunes, Fez, do Cairo e de toda a terra dos sarracenos com carregamento de ouro que é transportado das minas do Monte Gelu [Fouta Djalon]. A outra parte desse monte, no lado oposto, chama-se Serra Leoa.”107 Por outro lado, há notícia de frequentes conflitos entre os vários senhores daquelas terras, revelando-se uma organização política instável, a um tal ponto que acontecia os líderes refugiarem-se junto dos estrangeiros, procurando protecção contra os adversários ou rivais que sobrepunham o seu poder na sequência de jogos de poder ou de guerras entre estes povos africanos: “Era isto no porto de Zaza. Aí encontrei também Borgebil que havia sido rei de Gelofa e que daí fugira por medo do rei de Burbruck que lhe tomara a terra.”.108 Portanto, a posse da terra era um sinal de poder mas também de riqueza do senhor que a habitava, acompanhado dos seus súbditos e por homens de corte que se distinguiam por determinados sinais como, por exemplo, brincos de ouro nas orelhas; mas o líder do grupo nem sempre tinha garantida grande estabilidade no seu posto, sujeito a guerras e cobiças constantes naquelas regiões. Por fim, há um outro aspecto muito pertinente a considerar no desenvolvimento de relações comerciais com os povos do continente africano. Trata-se da forma como

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 75 D. G. SINTRA (1484-1496) ; Op. Cit., pp 89

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comunicavam, dado que se falavam línguas diferentes e desconhecidas nestas regiões. Naturalmente, o aspecto linguístico foi, com toda a certeza, uma das primeiras dificuldades sentidas pelos marinheiros portugueses e rapidamente tiveram necessidade de resolver os problemas de comunicação. Para isso, como já dissemos, uma das mais antigas estratégias dos navegantes foi a utilização de intérpretes (o “língua” ou “turgimão”), emissores e receptores de mensagens, que poderiam levar à paz ou à guerra. Os primeiros “língua” vinham até da Índia109, o que não deixa de ser surpreendente, nesta fase das Descobertas - devia pensar-se que a Índia estava muito perto; outras vezes, escravos e prisioneiros de guerra eram utilizados para contactos com outros grupos. A comunicação entre os povos era difícil e, por conseguinte, os interesses económicos foram sempre mais importantes para as populações, ao longo de muitos séculos. E isto é tão verdade que os africanos nem precisavam de falar para negociar, fazendo usualmente uma troca muda dos produtos, com determinadas regras que os visitantes portugueses passaram a conhecer e aprenderam a utilizar no comércio com estes povos. Portanto, eliminavam o obstáculo linguístico e substituíam-no por um outro sistema que garantia a clareza nas transacções comerciais e a transmissão dos mesmos interesses. Nem uns nem outros precisaram de aprender ou de falar línguas diferentes, porém comunicavam, devido a interesses comuns: “E as gentes de uns lugares, aos quais um deles chamou Bètu e outro Abanbarraná e o outro Bahá, vão a esta terra de Toom comprar o ouro por mercadorias e escravos que lhe levam; os quais no modo de seu comércio, tem esta maneira, silicet: todo aquele que quer vender escravo ou outra cousa, se vai a um lugar certo pera isto ordenado e ata o dito escravo a ua árvore e faz ua cova na terra, daquela cantidade que lhe bem parece; e, isto feito, arreda-se afora um bom pedaço, e então vem o rostro de cão, e se é contente de encher a dita cova de ouro, enche-a, e se não, tapa-a com a terra e faz outra mais pequena, e arreda-se afora. E como isto é acabado, vem seu dono do escravo e vê aquela cova que fez o rostro de cão, e, se é contente, aparta-se outra vez fora; e tornado o rostro de cão ali enche a cova de ouro. E este modo tem em seu comércio e assi nos escravos como nas outras mercadorias; eu falei com homens que isto viram.”110

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BETHENCOURT, Francisco; CHAUDHURI, Kirti et al., História da Expansão Portuguesa, Volume I, A Formação do Império (1415-1570), Círculo de Leitores, 1998, pp. 418 110 D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 107

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Concluindo sobre estas ideias, podemos salientar três facetas dos africanos que habitavam a costa ocidental de África: guerreiros exímios, comerciantes experientes e verdadeiros senhores destes territórios. Desde logo, em meados do século XV, estes traços foram referidos ou apresentados por vários informadores portugueses. Estes terão conhecido muitas situações semelhantes às que foram analisadas. Revelaram muitas características dos indígenas africanos que nem sempre são devidamente consideradas, merecendo ser interpretadas e avaliadas com uma ponderação mais imparcial, ou seja, uma leitura menos marcada por acontecimentos ainda recentes, como a descolonização, por exemplo. Contudo, mais tarde, surpreendentemente, os africanos foram dominados, explorados, vendidos na sua própria terra; e foi assim que se espalharam pelo mundo inteiro.

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2. O SENEGAL E OS PAÍSES LUSÓFONOS Nesta parte do nosso estudo, interessa-nos observar de que modo a presença portuguesa pode ser um traço cultural comum aos países da costa ocidental africana, principalmente no litoral, onde se fixavam mais demoradamente os navegadores e os comerciantes, após as Descobertas. Os portugueses espalharam-se pelos territórios africanos, e desse ordenamento espontâneo resultaram regiões que sofreram maior ou menor influência portuguesa. Por exemplo, as ilhas despovoadas de Cabo Verde, quando foram encontradas, geridas apenas pelos portugueses que aceitaram fixar-se naquele arquipélago, estavam mais isoladas e protegidas de influências externas, pelo menos enquanto não foram rota preferencial dos piratas europeus também. Por conseguinte, são mais evidentes as marcas da cultura portuguesa. Pelo contrário, no continente africano, os portugueses não estiveram isolados ou sozinhos, pois eram terras muito povoadas e posteriormente foram ainda ocupadas por outros europeus. Quando os portugueses entraram na costa ocidental africana, eram os primeiros europeus a chegar, desconheciam totalmente a cultura, os modos de vida dos nativos da região, as formas de organização das gentes que viviam naquelas aldeias, as línguas que falavam, etc. Começaram certamente a passar por ali e a tentar comunicar com as comunidades que encontrassem, com o objectivo de criar zonas de negócio, o que nem sempre foi fácil, como vimos. Contudo, terá sido um factor de avanço conseguir contactar de alguma forma com os indígenas e obter informações cada vez mais pormenorizadas sobre, por exemplo, o tipo de mercado que ali se estabelecia, em que regiões preferencialmente se juntavam os indígenas para obter os produtos por todos procurados. Tendo conhecido os locais de maior confluência do mercado africano, acederam rapidamente a esses produtos e instalaram-se nas zonas de maior incremento do comércio, passando a fazer concorrência nesses circuitos da economia. Arguim foi um desses pontos de mercado que se transformou num centro comercial de grande influência portuguesa: “ E esta terra se chama Azara. E estes homens falam a língua dos Azenegues e adoram a burla da seita de Mafoma. (…) é achada ua alagoa pequena que se chama Idamém, na qual todo o tempo do ano acham áugua e ali pousam os Alarves que vão de Arguim com suas mercadorias, e doutras partes, e tomam folga e dão de beber a seus camelos e tomam áugua pera o caminho. E quatro légoas desta alagoa, contra o sueste está outra alagoa 63

chamada Enseri. E neste deserto há uãs salinas donde tiram muito sal, e muito fino, nesta maneira, scilicet, em certos lugares cavam a terra e acham, altura de um côvado, uã fita como tábua e muito longa, de uã légua de comprido ou mais e às vezes menos, a qual tem de grossura três dedos; e esta cortam em cantidade de seis palmos de longo e três de largo; e destas tábuas cinco delas carregam um grande camelo. E é muito bom e alvo, e eu o vi em Lisboa na casa da Mina, onde se fazem os tratos de Guiné, o qual ali trouxeram de Arguim. E deste deserto levam os Alarves muitos camelos carregados deste sal pera a feira de Tambucutu, onde por ele hão muito ouro.”111 Além deste mercado no continente africano, os portugueses foram desenvolvendo um outro, paralelo, nas ilhas do Cabo Verde, que veio a ter ainda maior influência no comércio português, principalmente após a Descoberta do caminho marítimo para a Índia. Aquele espaço insular foi povoado e administrado pela Coroa portuguesa, sendo um dos lugares preferenciais de escala dos navios vindos do Oriente. Assim, a marca portuguesa foi-se espalhando um pouco por todos os espaços africanos que os marinheiros visitavam ou onde se iam estabelecendo, como se sabe, no continente ou nas várias ilhas atlânticas, numa presença contínua e permanente ao longo de vários séculos, até ao século XX. Hoje, permanecem a Língua e a Cultura portuguesas. No ocidente do continente africano, a acção dos portugueses foi contudo dispersa, desde as Descobertas. Por um lado, a extensão das terras era imensa, impossível de ser controlada completamente; por outro lado, outros povos habitavam nessas partes, tendo as suas próprias dinâmicas de poder, económicas e culturais. Além desses aspectos, mais tarde, a partir do século XVI, veio a acrescentar-se a acção de outros europeus, nessas zonas, que acabaram por transformar gradualmente as estruturas organizativas dos africanos aí existentes. Como consequências imediatas, os territórios africanos iam sendo ocupados e divididos entre quem se instalava e conseguia expandir de forma mais eficaz o seu poder e a sua influência, situações que se mantiveram e se aprofundaram até ao século XX, quando existia um continente caracterizado por uma mescla quase indecifrável de marcas europeias e africanas. Assim, os portugueses e a Língua Portuguesa fixaram-se definitivamente no arquipélago de Cabo Verde, desenvolvendo-se ao longo de muitos séculos uma cultura isolada, no meio do Atlântico, muito específica nesse espaço insular, habitado por

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D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 91

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negros trazidos do continente africano e por brancos vindos da Europa. Na actualidade, Cabo Verde mantém-se um país lusófono. Na costa ocidental africana, os portugueses e a Língua Portuguesa dispersaramse por vários territórios, o que diminuiu a capacidade de intervenção de Portugal. Contudo, vários países lusófonos aí surgiram na época da descolonização: GuinéBissau, Angola, São Tomé e Príncipe. E muitos outros países mantêm, até hoje, muitas das influências portuguesas que marcaram os lugares, a cultura e a História desses povos. Essas marcas existem debaixo do pó dos tempos. Só investigações muito específicas poderão trazer à luz essa acção portuguesa, oculta por sobreposições sucessivas de acontecimentos que marcaram os africanos e todo o Mundo. Encontrar no Senegal vestígios da presença portuguesa, idêntica à que se verifica nos países lusófonos, é assim o nosso maior objectivo e a proposta deste nosso estudo. Neste país francófono, a Língua Portuguesa é reconhecidamente necessária, em vários contextos, onde há uma vontade nacional, por vários motivos, de intensificar as relações com os países lusófonos da região, nomeadamente Guiné-Bissau e Cabo Verde, sem excluir os outros. São também, com grande probabilidade, razões históricas, económicas e culturais que definem o conflito recorrente em Casamansa, no Sul do Senegal, área contígua à Guiné-Bissau. A Língua Portuguesa continua presente naqueles lugares, sendo facilmente reconhecida e sentida como útil em certas situações. 2.1. A colonização

Quarta Razão do Infante

“A quarta razão foi porque de XXXI anos que havia guerreava os Mouros, nunca achou rei Cristão nem senhor de fora desta terra que por amor de nosso senhor Jesus Cristo o quisesse á dita guerra ajudar. Queria saber se se achariam em aquelas partes alguns príncipes Cristãos em que a caridade e amor de Cristo fosse tão esforçada que o quisessem ajudar contra aqueles inimigos da Fé.”112

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G. E. ZURARA (1453); Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

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Interessa-nos observar o tipo de relações que se estabeleceram nesta mesma costa ocidental africana, nos territórios da actual República do Senegal e nos espaços circundantes onde chegou a Língua e a Cultura portuguesas, desde o século XV. Em 1444, o português Dinis Dias desembarcou no Cabo Verde, continuando as viagens, integradas nas orientações do Infante D. Henrique. Como vimos, o objectivo destas viagens era já, com grande probabilidade, descobrir novas rotas comerciais, um caminho marítimo que permitisse o acesso ao comércio das Índias, aos mercados das especiarias que à época vinham, por outras rotas, do Oriente para a Europa. Como ilustrámos anteriormente, parece-nos que esses interesses económicos justificam o primeiro impulso para esta grande aventura das viagens marítimas empreendidas pelos portugueses. Embora tudo pareça indicar que, à época, se adivinhava uma distância mais curta, e um acesso mais rápido a esses mercados. Acreditava-se que isso era possível pelas informações que, na Idade Média, na Europa, já se conheciam, não só por livros escritos na Antiguidade, mas também do relato de experiências de navegadores e de comerciantes de épocas mais recentes. A história dos irmãos Vivaldi é recorrente, embora tenham desaparecido no mar sem mais notícias. A história de Marco Polo, que navegou vários anos pelo Oriente, com o seu tio, deixou descrições inovadoras e impressionantes para o mundo, sobre esses lugares igualmente desconhecidos para os europeus. Mas também as lutas contra as invasões muçulmanas na Europa colocaram os europeus em contacto com a cultura árabe, muito bem informada sobre determinadas rotas de comércio, não só as que vinham do Oriente pelo mar Vermelho, mas também as que existiam em África, se bem que o deserto do Sara se tenha apresentado como um obstáculo intransponível ou muito arriscado de ultrapassar para atingir o Sul do continente africano. Portanto, sempre algum desconhecimento permanecia sobre o interior de África; era inevitável, pelo calor, pelas condições climáticas e pelas condições insalubres que naquela época os homens tinham menos capacidade de vencer, as doenças e a morte que provocavam. Seria preciso conhecer muito bem os territórios. Os árabes sempre estiveram melhor posicionados para conhecer as transacções comerciais que se faziam no Norte de África, incluindo o Egipto, mas quase desconheceriam o continente africano mais a Sul. Contudo, havia comerciantes vindos do Sul do Sara que, em caravanas, vinham fazer comércio ao Norte de África, e também conheciam as rotas para Tombuctú. Contudo, o interior do continente africano e a extensão das terras só muito depois do século XV vieram a ser explorados. 66

Os portugueses chegaram à costa ocidental africana nas primeiras décadas do século XV, por iniciativa da Coroa portuguesa que tinha interesses e objectivos económicos, mas também se empenhou a nível religioso em busca do reino do Preste João, na Etiópia (ou seja, África), que não sabiam localizar de forma exacta no continente africano. Contudo, havia notícias desse reino cristão, do qual o Infante D. Henrique esperaria apoio e ajuda para combater o Islão, contra o qual os portugueses já se tinham debatido em Portugal, na conquista e reconquista cristãs do território peninsular, para expulsar os mouros. À época, significaria uma continuação e uma extensão da História de Portugal, um combate ao infiel, perfeitamente lógico e coerente com a mentalidade tradicional portuguesa. Aliás, nos textos que consultámos, quando se referem os descobridores portugueses, os autores destes textos chamam-lhes “cristãos”, com enorme frequência, o que devia ter um significado muito mais específico. Haveria implícitamente motivações religiosas muito fortes que conduziram a essa grande aventura marítima portuguesa. Tratava-se de facto de um projecto realizado por cristãos. O Infante D. Henrique empreendeu este projecto dos Descobrimentos marítimos às suas próprias custas e com o apoio do Estado ou dos reis de Portugal: D. João I, D. Duarte e D. Afonso V. Permaneceu, ao longo de vários reinados, esta iniciativa do Infante para procurar um mundo novo, terras e gentes desconhecidas, e tinha acesso a muitas informações. Ainda no início das Descobertas, quando o maior obstáculo foi ultrapassado, depois do cabo Não, do cabo Bojador, à volta do qual muitas lendas existiam (“quem passar além do cabo de Não tornará, sim ou não”113), o Infante informou outros príncipes cristãos da Europa, pedindo-lhes apoio nesta empresa para combater os infiéis, para conquistar as terras e tirarem proveito de novas riquezas. Mas esta informação do Infante D. Henrique, para levar os reinos europeus a participar nesta aventura dos Descobrimentos, não foi suficiente para obter o apoio desejado. Gomes Eanes de Zurara refere-se, na Crónica da Guiné, a este desinteresse e falta de solidariedade dos príncipes cristãos: “E porque o dicto senhor quis disto saber a verdade, parecendo-lhe que se ele ou algum outro senhor se não trabalhasse de o saber, nenhuns mareantes nem mercadores nunca se disso intrometeriam, porque claro está que nunca nenhuns daquestes se trabalham de navegar senão para donde conhecidamente esperam proveito; e vendo outrossim como nenhum outro príncipe se trabalhava disto, mandou

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D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 51

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ele contra aquelas partes seus navios, por haver de tudo manifesta certidão, movendose a isso por serviço de Deus e d’el-Rei D. Eduarte, seu senhor e irmão, que aquele tempo reinava114.” Mais tarde, também Duarte Pacheco Pereira, na sua obra misteriosamente intitulada Esmeraldo De Situ Orbis (não se esclareceu ainda cabalmente o significado da palavra Esmeraldo) reafirma este desinteresse dos príncipes cristãos europeus, sobre as Descobertas de Portugal: “A qual navegação começou o Infante, por serviço de Deus, do Cabo de Não pera Diante. E tanto que a estes reinos foram trazidos os primeiros negros e por ele sabida a verdade da Santa Revelação, logo o Infante escreveu a tôdolos reis Cristãos que o ajudassem a esse descobrimento e conquista por serviço de Nosso Senhor, e todo o proveito igualmente lograssem, o que eles não quiseram fazer; mas, havendo isto por vaidade, lhe renunciaram o direito. Pelo qual, o Infante mandou ao Santo Padre, o Papa Eugénio quarto, Fernão Lopes de Azevedo, fidalgo de sua casa e do conselho de el-Rei D. Afonso o Quinto, comendador-mor da Ordem de Cristo; o qual apresentando ao Sumo Pontífice a embaixada do Infante e renunciação dos ditos reis, lhe foi outorgado tudo o que pediu.”115 Devemos pois realçar o facto de a Santa Sé ter apoiado e estimulado o projecto dos Descobrimentos portugueses, na condição de os portugueses lutarem contra os infiéis e difundirem a fé. Podemos, pois, afirmar que as Descobertas estão inegavelmente ligadas ao Catolicismo e ao poder da Santa Sé. Naquela época, o poder temporal dos papas era aceite por todos os reis e príncipes cristãos da Europa, tinha reconhecimento internacional desde o século XI. Gregório VII (1020-1085) foi o papa que afirmou definitivamente o poder temporal do Sumo Pontífice e da Santa Sé, reconhecida e aceite na cristandade, não só por razões religiosas mas também políticas, pelo prestígio que conferia aos reis e às nações, com legitimidade inquestionável. Não é portanto inesperada ou surpreendente esta preocupação do Infante D. Henrique em informar a Santa Sé das suas conquistas ultramarinas e consequentemente obter benefícios para o país. Neste ponto, torna-se necessário lembrar e demonstrar que, já desde a fundação da nação portuguesa, o reconhecimento dos papas e a vassalagem de D. Afonso Henriques à Santa Sé, foram alicerces fundamentais para o poder e o

114 115

G. E. ZURARA (1453), Cap. VII, pp. 44-49 D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 79-80

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prestígio dos reis de Portugal. Era natural que D. Afonso Henriques quisesse obter o reconhecimento da sua qualidade de rei independente pelo Sumo Pontífice. Assim, pela bula Manifestis Probatum116, de 23 de Março de 1179, D. Afonso Henriques garantiu a continuidade da independência portuguesa. Nesta bula, era do interesse da Santa Sé que os reis católicos expandissem a fé cristã e combatessem os seus opositores, os infiéis; por isso, o papa Alexandre III vem, desta forma, reforçar o seu apoio no combate aos infiéis e ao mesmo tempo, incita D. Afonso Henriques a prosseguir na obra da “dilatação da fé cristã.” Este objectivo cristão continua a existir ao longo dos Descobrimentos marítimos, pelas informações de Zurara e de vários outros autores. Quando a expansão portuguesa se inicia, a nação portuguesa está consolidada e o projecto dos Descobrimentos surge sempre alicerçado na História e na Religião de um povo, determinado nas suas acções e interveniente nos destinos do país, com memória assente nos valores da Independência portuguesa, de Afonso Henriques, e das relações com a Santa Sé. Esses valores tradicionais mantiveram-se ao longo dos séculos, até ao século XV, e até muito mais tarde. Assinale-se, por exemplo, a luta diplomática, travada por Portugal, para ser reconhecida a independência após a Restauração, em 1640, em que inúmeros obstáculos foram colocados, junto da Santa Sé, por vários países europeus com influência junto dos papas. E só em 1670, os representantes diplomáticos de Portugal conseguiram alcançar esse objectivo, o reatamento das relações com a Santa Sé, pelo breve de Clemente X, Ex Litteris, de 19 de Julho de 1670. Portanto, é fundamental não isolarmos estes valores tradicionais nem os excluirmos da orientação e dos objectivos nacionais durante tantos séculos. Nesta época que estamos a observar, estes factos assumem relevância na concepção das Descobertas e nas suas consequências sobre os territórios do continente africano, pois, também foi sempre um compromisso de Portugal expandir a religião cristã, mantendo boas relações com a Santa Sé nesse domínio. Tomemos, pois, ainda como referências, estes dois documentos, duas bulas papais (Dum Diversis de 18 de Junho de 1452 e Romanus Pontifex de 8 de Janeiro de 1455) que legitimaram as Descobertas e as conquistas dos portugueses em África, reconhecendo o monopólio comercial dos portugueses nos territórios africanos e o compromisso dos cristãos.

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Monumenta Henricina, citada por MAGALHÃES, José Calvet, Breve História Diplomática de Portugal, Colecção Saber, Publicações Europa-América, 2ª ed., Mem-Martins, 1990, pp 231

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Como se explicam então as ingerências de outros europeus que não participaram nessas Descobertas? Como se entenderam estes novos contextos económicos, políticos e religiosos? Como reagiram os portugueses à invasão europeia nos territórios que tinham descoberto com legitimidade e sofrendo tantas adversidades? Até 1500, enquanto os grandes navegadores portugueses se orientavam por novos percursos para a Índia e para o Brasil, alguns desses viajantes iam-se instalando por terras africanas. Há notícias de que alguns portugueses ficaram nas terras do Senegal, nas ilhas de Cabo Verde, dispersos por todas as terras de Guiné, isto é, por toda a África Ocidental, onde fazem História também os países lusófonos, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola e os espaços insulares de S. Tomé e Príncipe. Porém, essas memórias, sobre os contactos com os indígenas, são escassas. Registam-se não só em poucos documentos escritos mas também na aprendizagem que os indígenas fizeram sobre a Língua Portuguesa, a marca mais profunda dos portugueses e talvez a única não planeada. A distribuição demográfica dos portugueses por estes territórios existiu, sem dúvida, embora a sua dispersão e a falta de registos materiais sobre esses aspectos possam colocar obstáculos ao conhecimento do grau de influência que exerceram nesses lugares. Estes dados históricos da Europa parecem irrelevantes para os africanos, à partida não têm que ver directamente com as gentes daqueles territórios. Mas é um facto que os africanos aprenderam a Língua Portuguesa, provavelmente na medida das necessidades que tinham no comércio com os portugueses, que teriam uma presença forte e única, até certo momento. No que diz respeito aos países africanos, especificamente aos territórios do Senegal, sabemos que muitos portugueses se fixaram ali. E os africanos comunicaram, primeiro só com os portugueses, mais tarde receberam os outros europeus. Mas ser-lhes-ia difícil distingui-los por serem todos “brancos”; além disso, os africanos desses territórios, recentemente descobertos, não dispunham de qualquer referência cultural acerca dos estrangeiros. Ou seja, conheceram e partilharam o comércio de interesse comum, passaram a distinguir os portugueses pela língua cuja sonoridade já lhes era mais familiar, mais próxima e mais fácil. Esse aspecto da anterioridade dos portugueses está bem ilustrado na descrição de Francisco de Lemos Coelho: “Por tudo isto que tenho dito se verà o muito proveito que se pode tirar deste rio, por que se Guine he hum ovo, pódese bem, com verdade, dizer que elle he a gema. He lastima que o estrangeiro se esteja aproveitando delle, sendo que nos o 70

descubrimos; mas á isso dis elle que, se fomos os descubridores, o fomos para elles, e com rezaõ o dizem. Tudo isto se poderá remediar sem os escandelizar, mandando Sua Alteza, que Deos Guarde, fazer hua feitoria em qualquer parte do rio, com os géneros que elle trás e comprados da primeira mão, para que se pudessem dar com o commodo que elle os dà, e deste modo tendo-os os portugueses, os do rio haviaõ de vender o que tivessem antes aos seus que aos estrangeiros; e faltando-lhe o negocio dos portuguezes, que he a maõ por que o fazem, logo despejaraõ o rio. E quando Sua Alteza naõ quizesse meter fazenda sua podia consignar o negocio a mercadores que fizecem bolça, que aqui se ouvera ella de fazer e naõ em Cacheo, donde se naõ hade tirar interece nenhu, nem hade servir mais do que ruína, assim a esta ilha como a todo Guine, como a esperiencia mostrara.”117 Também é certo que nos apercebemos de algum desânimo da parte deste capitão português. Manifesta claramente o desejo de uma intervenção mais forte da Coroa portuguesa no comércio do Cabo Verde, para que os portugueses obtivessem mais lucros e para que lhes fizesse justiça porque eles eram, ao que parece, os intermediários essenciais no mercado com os estrangeiros europeus e os africanos. Os nativos de África desconheceram durante séculos os conflitos diplomáticos que se deram entre vários países europeus, após as Descobertas portuguesas. Contudo, os destinos de África decidiam-se na Europa, desde o século XVI. Os europeus despertaram para o continente africano e os territórios ultramarinos portugueses foram sendo ocupados directamente por outros (holandeses, franceses, ingleses, espanhóis) ou trocados entre os europeus, consoante o interesse dos tratados e dos acordos de quem os queria ratificar. O que aconteceu foi que Portugal, a partir do século XVI, acabou por ser pressionado, ou forçado, de várias formas e por vários adversários, ou à reconquista de territórios por ele descobertos ou a cedê-los perante a invasão e as condições impostas por outros. Nesta época, a nação portuguesa tinha dado a toda a Europa uma experiência inovadora e invejável; por exemplo, logo estimulou a França e a Inglaterra a empreenderem viagens aos lugares de que os portugueses tiravam tamanhos proveitos. As grandes riquezas que os portugueses obtinham do comércio que faziam na África ocidental provocaram sobretudo a cobiça dos franceses e dos ingleses.

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp 136-137

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Desde então, a actividade dos corsários franceses contra a navegação e os domínios portugueses intensificou-se. Naturalmente, perante os prejuízos causados, a Coroa portuguesa reagiu a esses ataques. E, por exemplo, no tempo do rei D. João III de Portugal e do rei Francisco I de França, houve necessidade de negociações entre os dois países que levaram à assinatura do acordo de 14 de Julho de 1536 – o “Tratado de Lião”. Este tratado mostra a relação de forças que se estabelecia entre estas duas nações europeias, os interesses que as guiavam e os conflitos que existiam. Mediante este acordo, o rei de França permitia que o rei de Portugal vigiasse a acção dos piratas e dos corsários nos portos de França e que, se necessário fosse, efectuasse o sequestro dos seus navios. Além disso, a França comprometia-se a castigar os seus súbditos que se apoderassem de navios ou de territórios pertencentes a Portugal. Apesar dos termos deste tratado, no sentido de se respeitar o comércio português em África, os corsários franceses continuaram a atacar a navegação portuguesa: “Os sucessivos monarcas franceses, Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III, prosseguiram na mesma política de publicarem cartas patentes proibindo aos seus vassalos os ataques aos domínios e ao comércio de Portugal e consentindo, sub-repticiamente, na actividade dos corsários franceses. (...)”118 E os franceses continuaram a ameaçar os domínios e as viagens dos portugueses ao longo de todo o século. Também no século XVI, no reinado de D. Sebastião, os ingleses atacaram os domínios portugueses em África e a acção deste monarca português, com a ajuda das suas frotas, evitava sucessivos assaltos dos corsários: “ Os corsários ingleses continuavam entretanto a visitar a costa da Guiné, o que motivou nova reclamação do embaixador português contida numa memória dirigida à rainha Isabel em 25 de Junho de 1562. Os navios de guerra portugueses, por outro lado, apresavam e metiam a pique os navios ingleses que encontravam na Costa da Mina e no Golfo da Guiné, tratando-os como piratas, como aconteceu com o navio Mignon da expedição de William Rutter. (…) A resposta do governo inglês foi feita nos moldes das respostas anteriores, dizendo que a rainha proibira aos seus súbditos visitar as terras de África que pagavam

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J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., pp. 49

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tributo a Portugal, mas que, em relação às restantes, não via razão para decretar tal proibição.”119 Só na sequência de vários ataques à soberania portuguesa se compreende que o rei de Portugal, D. Sebastião, dirigisse uma mensagem de um tal teor, e tão definitiva, à rainha de Inglaterra, dizendo-lhe: “ (...) que se os ingleses julgavam que lhes seria lícito invadir o território português e como corsários cometer actos de pirataria, roubando os vassalos portugueses, era lícito a estes repelir e punir tais atentados e ultrajes, o que não podia ser considerado como um crime pelos príncipes que julgavam com justiça, tanto mais que não devia causar admiração que os portugueses suportassem sem indignação que estrangeiros se apossassem do que eles haviam conquistado com tanto trabalho e à custa de tanto sangue, para gozarem do fruto de suas fadigas.120” Apesar deste grave aviso, a Inglaterra continuava a emanar documentos contra os portugueses e a manter um posicionamento ambíguo em relação a Portugal. Por isso, a dada altura, o rei D. Sebastião colocou todos os meios à sua disposição em defesa da sua nação e dos territórios ultramarinos que lhe pertenciam, impedindo o comércio dos ingleses em todos os lugares possíveis. Noutros momentos, em Março de 1569, privou os ingleses das propriedades que possuíam em Portugal e fortificou a cidade de Lisboa. Impediu o comércio dos ingleses em todos os portos de mar e reforçou a defesa em África, principalmente em Ceuta e Tânger. E para evitar os assaltos aos navios portugueses vindos das Índias, enviou vinte navios para os Açores. Estes são apenas alguns dos exemplos mais significativos que podemos recolher sobre iniciativas incisivas dos reis de Portugal em defesa dos interesses da nação, contra a cobiça dos estrangeiros europeus que agiam impunemente e fora de qualquer contexto legal, atacando pessoas e bens, não olhando a meios para atingir os seus objectivos, assinando, apenas, em último recurso e sem verdadeira intenção de cumprir, acordos com Portugal para restabelecer uma ordem que mais tarde não reconheceriam. Estas acções de D. Sebastião tiveram como efeito imediato a interrupção do comércio dos ingleses com Portugal. E os prejuízos foram tão elevados que os negociantes apelaram repetidas vezes à rainha para que a situação se modificasse.

119 120

J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., pp. 51 VISCONDE DE SANTARÉM, Quadro Elementar, vol XV, p. CXXIII, citado por J. C. Magalhães (1990), Op. Cit., pp. 52

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Pelos mesmos motivos do anterior tratado com a França, o rei de Portugal e a rainha de Inglaterra assinaram também um acordo - o “Tratado de abstinência”, de 1576: “(...) um documento da mais alta importância pelo qual a nascente potência marítima que era a Inglaterra, que tendo abraçado o protestantismo não reconhecia a validade das bulas papais em que se afirmava o direito exclusivo português às suas conquistas ultramarinas, reconhecia formalmente esse domínio português.”121 Contudo, este Tratado tinha a duração de apenas três anos. Nessas circuntâncias, os ingleses alimentaram a esperança de o renovar e de fazer alterações às disposições deste acordo. Não podemos saber se essas pretensões se efectuariam porque entretanto o rei de Portugal faleceu em 1578, na sequência de uma trágica batalha em AlcácerQuibir, ainda antes de expirar a validade deste Tratado, ficando Portugal numa grave crise de sucessão. Só devido a estas situações imprevisíveis, que deixaram o país à mercê, aconteceu a ocupação espanhola e a impossibilidade de renovação destes acordos com a França ou com a Inglaterra, que não se viram obrigados a respeitá-los no futuro, retomando-se o contexto anterior que os portugueses repudiaram e quiseram evitar a todo o custo. Por outro lado, acrescentam-se ainda os holandeses que atacaram e ocuparam muitos dos domínios ultramarinos portugueses. Em 1590, os holandeses atacaram o Brasil, ocuparam a Baía ( em 1624) e Pernambuco (em 1630); ao mesmo tempo, as esquadras holandesas, em guerra com a Espanha, apresavam os navios portugueses e espanhóis, sem distinção. Na costa ocidental africana, como no Oriente, a Companhia Holandesa das Índias orientais ocupou diversas posições portuguesas e espanholas, comprometendo o comércio português. Após a Restauração da Independência, D. João IV, tendo o objectivo firme de recuperar os domínios portugueses ocupados e preservar os que lhe restavam, tentou estabelecer a paz com a Holanda. Por isso, propôs um acordo de aliança com os holandeses, concedendo-lhes liberdade de comércio em Portugal, com a condição de proibirem os seus súbditos de fazerem a guerra aos portugueses e de lhes tomarem os navios. Foram as disposições do Tratado de Tréguas, de 12 de Junho de 1641, assinado por dez anos, entre Portugal e a Holanda. Estas alianças com Portugal eram bastante

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J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., pp. 55

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convenientes para os holandeses que estavam em guerra com a Espanha, permitindolhes controlar de forma mais eficaz as adversidades. No ano seguinte, apesar dos esforços da diplomacia portuguesa, os holandeses recusaram-se a restituir Luanda e S. Tomé, afirmando que essas conquistas eram legítimas, por serem anteriores ao tratado de 1641; argumento dúbio, sem fundamento, pois as conquistas portuguesas também eram anteriores ao mesmo acordo. Em contrapartida, no Brasil, pela mesma altura, os portugueses derrotaram os holandeses em vários territórios (Tabocas, Guarapés) que estes ocupavam indevidamente. E em 1641, também foi um comandante português que, vindo do Brasil com a sua frota, libertou Luanda em 1649, derrotando de novo os holandeses. Estes mostravam-se renitentes em renunciar ao domínio dos territórios portugueses reconquistados. E, em 26 de Janeiro de 1654, uma poderosa armada portuguesa, comandada por Pedro Jacques de Magalhães e Francisco de Brito Freire, reconquistou também Pernambuco, último reduto dos holandeses no Brasil. Em Setembro de 1657, os Estados Gerais enviaram a Lisboa uma missão. Quiseram apresentar várias exigências relativas à recuperação das conquistas holandesas no Brasil, Angola e S.Tomé. Não foram satisfeitas, ou seja, essas negociações foram um fracasso para os enviados holandeses. Assim, retiraram-se, depois de concluírem o seu plano com a entrega de uma declaração de guerra. Mas Portugal estabelecia alianças também com países que estavam fora deste contexto de guerra e cujo auxílio poderia ser muito conveniente. Por exemplo, D. João IV manteve negociações com a Suécia, de que resultou o acordo de paz assinado em Estocolmo, em 29 de Julho de 1641. Este tratado, além de estabelecer a paz entre ambos os países, determinava que nenhum dos dois países ajudaria inimigos comuns e permitia aos suecos: “livremente navegar aos reinos de Portugal e dos Algarves e às Províncias e Ilhas que a eles pertencem e comerciar também livremente nos territórios portugueses, estabelecendo diversas normas para regular o comércio e a navegação de ambos os países.”122 Em conclusão, sobre estes factos, poderemos dizer que é notória a ambiguidade e a duplicidade das acções dos países europeus relativamente às relações que mantinham com Portugal sobre os territórios ultramarinos, na posse legítima dos

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CASTRO, Borges de, Colecção de Tratados, vol. I, pp. 338, citado por J. C. Magalhães (1990), Op. Cit., pp. 89

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portugueses havia mais de um século. Esta legitimidade advém de três factos: primeiro, por terem descoberto esses lugares; segundo, por terem autorização da Santa Sé, anterior à Reforma, para explorarem os novos sítios descobertos ou a descobrir; terceiro, havia territórios já ocupados pelos portugueses. Aqueles europeus não tinham justificações legítimas para disputar aquelas terras, muito menos dissimulando o conhecimento das posses dos portugueses naqueles territórios: “Il n’entre pas dans mon plan de discuter des questions de découverte; cependant je vois avec peine différents auteurs modernes enlever aux Portugais l’honneur d’avoir découvert le Sénégal, et l’attribuer aux habitants de Dieppe, en 1364. Nous savons que la plupart des expéditions françaises étaient faites par des navires du port de Dieppe et des côtes de Normandie; mais il ne faut pas oublier que les Français et les Anglais trouvaient partout, sur ces côtes, les Espagnols et les Portugais établis et installés, y possédant des comptoirs bâtis et ayant donné des noms à tous leurs postes, ainsi qu’aux rivières, aux caps, aux montagnes, et que ces moms sont restés jusqu’à nos jours, malgré les changements de domination. Il ne faut pas oublier non plus que les Français et les Anglais unissaient ensemble leurs forces pour combattre les Portugais, leurs ennemis communs.”123 Neste contexto, houve de facto atentados à soberania portuguesa, como vimos. Se houve algum fundamento legal, foram os próprios acordos que Portugal teve necessidade de assinar para repor a ordem formalmente, e por escrito, para o reconhecimento internacional do seu poder. Contudo, as riquezas de África eram já sobejamente conhecidas e a invasão dos territórios africanos era inevitável. Os ataques às posições portuguesas foram cada vez mais frequentes e Portugal não tinha meios para controlar tão grande extensão territorial em África, na Índia ou no Brasil, acabando por se fixar em certas regiões preferenciais para os seus interesses: “Les traditions même de tous les peuples du Sénégal confirment ce que j’avance ici. Dans tous les royaumes du Sénégal, non seulement sur les côtes maritimes mais même dans l’intérieur, on donne au pays des blancs, soit que ceux-ci viennent de France ou d’Angleterre, ou même de l’Amérique, le nom de tugal, qui se prononce tougal; or, n’est-il pas évident que c’est le mot Portugal dont ils ont retranché la

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A. D. BOILAT (1853) ; Op. Cit., pp. 196-197

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dernière syllabe, suivant l’habitude du pays, dont les peuples évitent autant que possible les mots de trois syllabes?”124 O Abade Boilat falava no século XIX e, de facto, ainda hoje os senegaleses chamam Toubab aos estrangeiros “brancos”, e principalmente aqueles que têm posses, que mostram estar numa situação confortável na vida. Perante tais afirmações, constatamos que os portugueses deixaram marcas notáveis e visíveis que os indígenas manifestavam, mas que nem sempre identificariam como portuguesas, após o aparecimento dos outros europeus. Confirma-se também a relação conflitual entre os europeus e o ataque às posses portuguesas, como temos vindo a demonstrar com testemunhos escritos, portugueses e estrangeiros. Nestas condições, os estrangeiros europeus vieram sobrepor-se à influência portuguesa, de mais de um século, à época, nas terras africanas, criando-se um complexo cruzamento de interesses económicos, sem lei nem ordem, em que os africanos também participaram e intervieram com os seus produtos e iniciativas, ainda que ignorassem os acordos diplomáticos, que se firmavam na Europa, sobre as suas terras. É certo, porém, que quiseram tirar proveito de um novo contexto económico, como os europeus. Porém, acabaram por ser submetidos lentamente e colonizados pelos invasores, mais tarde, a partir do século XVIII. Assim, parece-nos que, desde o século XVI, o domínio europeu, em certas regiões de África, é muito ambíguo e impreciso, de acordo com circunstâncias acima descritas. Torna-se evidente que os europeus desviaram os seus interesses económicos para África e que os portugueses foram literalmente ameaçados e atacados no exercício das suas transacções comerciais e nos territórios que geriam. Desde então, cedo se delinearam e constituíram os futuros povos colonizadores naquelas terras, aos quais outros países europeus se acrescentam um pouco por todo o continente africano, até à descolonização, no século XX. A região ao Sul do Sara é um mosaico de confluências, de interesses e de culturas diferentes, opositores uns aos outros – os vários povos europeus guerrearam-se entre si, ao longo de pelo menos três séculos, pela posse de territórios em África. Os africanos abriram a porta para o comércio com os portugueses, os “brancos”. E, a partir daí, desconhecendo a Europa e o mundo fora do seu continente, os indígenas consideraram que todos os brancos eram portugueses - um grave equívoco- e

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A. D. BOILAT (1853) ; Op. Cit., pp. 197

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continuaram com o comércio, sem estabelecer distinções entre os europeus, sem conhecer nada mais: “Les blancs eux-mêmes, de quelque nation qu’ils puissent être, sont appelés toubab; ce mot n’est que la corruption du mot tougal; c’est comme s’ils disaient le pays de Por-tugal et les hommes por-toubab. L’article de position, d’après les règles de la langue woloffe, étant be, il eût fallu dire tougal-be, le blanc; ils ont trouvé plus doux d’en former le mot toubab, en retranchant l’l et changeant le b en g.”125 Obviamente, este grave equívoco parece não trazer qualquer vantagem aos portugueses quando já não eram os únicos brancos em África e a complexidade das relações económicas e humanas aumentou, mais do que nunca. A verdade é que parece que se criou, até hoje, uma interpretação errónea, injusta e falsa, sobre a presença portuguesa porque confundida com a presença posterior dos outros europeus brancos. Este equívoco dos africanos ainda existe hoje nas suas memórias, como nos foi dado a perceber por conversas informais que pudemos ter no quotidiano, no Senegal. Contudo, não significa que os portugueses sejam mal recebidos pelo povo senegalês. Pelo contrário, são até muito afectuosos com os portugueses, e a gentileza senegalesa chega até a ser desconcertante em certas situações. Esta história pareceu-nos sempre mal contada, pois, a História de África tem ainda hoje estas enormes fragilidades e equívocos por explicar. Contudo, como vimos, os franceses, os ingleses e os holandeses atacaram realmente, desde muito cedo, a posição portuguesa no “Cabo Verde”, e não só. E, embora os portugueses não se tivessem retirado daqueles sítios, há que esclarecer a História dos portugueses na região, para que não se misture com os resultados posteriores da ocupação dos holandeses, dos franceses e dos ingleses, que não hesitaram em instalar-se com os seus exércitos, fortalezas e comércio ao sul do Sara, entre os séculos XVI - XIX. Muitos dos acontecimentos que se deram nessa região estão muito mal explicados pelos próprios africanos (a transmissão oral tem graves limitações), nomeadamente sobre a escravatura na ilha de Goreia, o pomo da discórdia entre estes europeus, como confirma Francisco de Lemos Coelho no seu relato. A falta de respeito, pelos territórios ultramarinos de Portugal, levou a um jogo dissimulado de acordos e tratados que estes países da Europa acederam em assinar, muitas vezes estando em guerra uns com os outros, usando estes acordos para se escudarem uns nos outros e atingirem os seus objectivos nacionais específicos, em

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A. D. BOILAT (1853); Op. Cit., pp. 197-198

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detrimento dos prejuízos causados aos outros e fora de qualquer quadro legal. Ou seja, agiam impunemente, fazendo declarações de guerra a Portugal vazias de sentido (o caso dos holandeses), querendo recuperar bens que eles próprios extorquiram aos portugueses. Mas, ao que parece, era a lei do mais forte que ainda vigorava, e não outra. Daí em diante, foram lutas de poder constantes entre os europeus, baseados nas excessivamente famosas riquezas de Portugal, vindas de África, do Oriente e do Brasil. Tinham interesses não só em extorquir as riquezas de Portugal mas também em ocupar e dominar os territórios que possuía, até ao século XX. E Portugal só guardou uma pequena parte de tantos lugares que descobriu, teve de negociar muitos dos territórios e, mais tarde, a Conferência de Berlim (1884) conferiu de novo uma falsa autoridade aos europeus para continuarem a ocupar África. 2.2. O tráfico negreiro

Quinta Razão do Infante “A quinta razão foi o grande desejo que havia de acrescentar em a santa fé de nosso senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todalas almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso senhor Jesus Cristo foi obrado a este fim, silicet, por salvação das almas perdidas, as quaes o dito senhor queria por seus trabalhos e despesas, trazer ao verdadeiro caminho, conhecendo que se não podia ao Senhor fazer maior oferta;”126 Ao longo do século XVI, os africanos continuaram a transaccionar os seus produtos com os europeus em África, alheios às movimentações dos estrangeiros na Europa. E, com a pirataria dos ingleses, dos franceses e dos holandeses, a segunda vaga de europeus, começaram a ameaçar-se os territórios até aí desvendados pelos portugueses, concedidos pela Santa Sé e com direito de padroado nesses lugares. Os africanos estavam muito longe de imaginar que a sua terra já tinha outros donos, outros chefes, outros senhores. Negociava-se a posse dos territórios ultramarinos e os novos habitantes em África, europeus, estendiam a sua presença com navios, com fortalezas, com exércitos

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G. E. ZURARA (1453) ; Op. Cit., Cap. VII, pp. 44-49

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nos lugares africanos, sem se considerar o passado daqueles lugares ou daqueles povos, entrando sem pedir licença, entrando porque a porta estava aberta. Em meados do século, não consideravam que fosse uma invasão de propriedade privada, isso não era importante nem existia para os corsários cuja profissão era precisamente invadir territórios alheios. Eram acções que se enquadravam na mentalidade de povos conquistadores, cuja cultura assentava na capacidade de alargar as potencialidades das nações. Para eles, a conquista e o domínio de mais espaço eram um sinal de poder que os submetidos seriam necessariamente obrigados a aceitar. De novo, agiam de acordo com a lei do mais forte que ganha independentemente dos meios que se utilizem. Claro que, depois de tomarem indevidamente posse desses territórios, preocuparam-se muito com a defesa destes para que não viessem outros extorquir-lhos também. E, de facto, estes territórios do actual Senegal foram muito disputados. Portanto, a ocupação dos territórios efectuou-se gradualmente com a construção de fortalezas para a defesa e para o ataque, perante as ameaças com que se deparava naqueles lugares e que se mantiveram durante largos tempos. Os africanos nem sempre se deixaram submeter; vejamos por exemplo este comentário de um observador seiscentista: “ (…) e aldea que fica a vista do porto chamão aldea dos Hereges. Foi aldea de mais negocio que teve este rio de Gambia, e ainda hoje o Inglez tem húa feitoria nella, e dá muitos couros e muita cera e alguñs negros, e vivem brancos filhos da terra, nella. O gentio he bárbaro, e ordinariamente anda esta terra dividida em dous bandos, e em guerras, que cada um quer ter seu rey, e por isso os caminhos por terra não são muito seguros. Tem, fora a terra dos Banhús de que querem fazer estes dois reinos, muitos falupos sugeitos, os quais são aqui mãos, e salteadores no caminho e grandes ladróes, que não està pessoa algúa segura com elles em todo este caminho.”127 Contudo, os europeus iam tirando os seus proveitos nas novas zonas, e os africanos até ajudaram no rápido desenvolvimento deste comércio em que se integraram com facilidade; mas a relação que ao longo do tempo se estabeleceu favoreceu o domínio de uns sobre os outros. Claro que os africanos não terão visto sempre com bons olhos a aproximação destes estrangeiros, não só porque eram invasores, mas também porque eram novos concorrentes às suas actividades económicas e geravam novas forças de poder. Os

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F. L. COELHO (1684) ; Op. Cit., pp. 114

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estrangeiros vieram alterar para sempre o relacionamento entre os vários reinos africanos estabelecidos, que também já mantinham frequentes conflitos, pelo que indicam fontes escritas: “Perguntei que senhores reinavam naquelas terras e responderam-me que na parte dos negros havia um senhor de nome Sambegenu e da parte oriental o senhor se chamava Semanagu; que estavam sempre em guerra e que não havia muito tempo tinham travado grande batalha e vencera Semanagu. (…) Depois que voltei a ter com o senhor Infante, ao referir-lhe tudo isto, disse-me ele que um certo mercador de Orão lhe tinha escrito, já tinham decorrido dois meses, falando da guerra ou batalha que houvera entre Semanagu e Sambegenu. E assim daria crédito a tudo.”128 Além dos conflitos que já existiam entre os africanos, a presença estrangeira levou a que se acendessem rivalidades entre os reinos, acrescentaram-se novos interesses com os novos produtos dos estrangeiros e a organização dos indígenas não se manteve, adequou-se às novidades, naturalmente dentro de referências culturais africanas pré-existentes: “A principal fazenda para estes portos de Jalofos he coral fino comprido e quanto mais grosso milhor, o qual se vende a pedras, e há coral que dão por huã pedra hum couro; e a mim me derão hum hermozo negro por hum ramal de coral.”129 Os nativos de África, concretamente os que se fixaram na região do actual Senegal, quiseram também controlar as suas áreas de influência, junto dos estrangeiros e, por isso, deslocavam-se até onde fosse necessário para ter acesso às novas mercadorias e para trocarem os seus produtos tão desejados pelos novos comerciantes: “São os portuguezes que aqui morão obrigados, senão são empedidos da doença, a hirem vezitar o rei da terra todos os annos huã ves e levarem-lhe muito bom prezente conforme sua possibilidade, que as vezes custa mais de cem mil reis, isto em muito boas pessas de prata, agoardente em barris ou frasqueiras, coral fino, escarlatas e outras couzas, conforme cada um tem; o rei lho gratefica e lhe dá muitas vezes mais do que val o que lhe leva, conforme o acha e he sua fortuna; o que lhe dá são negros, couros, cavallos, camellos, que aos brancos servem muito para conduzirem couros, que

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D. G. SINTRA (1484-1496) ; Op. Cit., pp.75 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 65

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tambem comprão pella terra dentro se tem já muito cabedal: e um camello carrega quarenta e cincoenta couros.”130 Mas o comércio seiscentista que se fazia em África tinha diferenças relativamente ao que se conhecia na Europa, que os negros não conheciam. Os europeus passaram a ter acesso a novos produtos e os seus grandes interesses eram riquezas naturais do continente africano, especialmente o ouro, muito famoso, embora depois se tenham acrescentado outros produtos naturais que existiam em grande abundância naquelas regiões, como o sal, os couros, especiarias e, como vimos, até as pessoas se trocavam como forma de reconhecimento ou de pagamento: “A aldea do porto de Aly fica em passando o Cabo dos Mastros (…). Os negros são os mesmos e os negócios como no Arrecife; mas aqui com mais abundância, que há dia em que se comprão dous mil couros: o rei vende muitos negros a troco de prata, e custa um negro bom vinte patacas.”131 Doutras vezes, estes mesmos grupos africanos da costa ocidental africana, a sul do deserto do Sara, usavam formas específicas para comerciar, evidenciando simultaneamente o seu poder: “Entrando pelo rio de Borçallo se vai por elle duas marés antes de chegar ao porto, que fica mais de tres legoas afastado do reino. Ainda em navio se manda recado ao rey com um prezente, o qual diz o mandador o dia que hade vir; e enquanto não vem ninguém compra nada. Vindo o rei vè a fazenda toda que trás o navio, e as vezes sò elle o despacha porque vende muitos negros e fermozos; e hà ocasião em que só em hum dia vende cem negros. O milhor género para o negocio he prata e agoardente; o rei era no fim dos annos que estive naquellas partes bixirim, que he como legislador da ley de Mafoma, com que não comprava tanta agoardente, mas na terra gastavase bem porque não defendia comprar-se.”132 Para estes africanos, os produtos de pouco valor que os europeus traziam eram a grande novidade e parece que não souberam atribuir o valor correcto aos seus próprios produtos, ou não trocariam tanto ouro por uns pedaços de tecido ou por bugigangas; diz Diogo Gomes, a certa altura, “recebi deles 180 pesos de ouro em troca das nossas mercadorias, a saber, panos, manilhas, e outras coisas.”133 Trocavam muito ouro por

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 101 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 102 132 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106 133 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp 71

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outros produtos menos valiosos, o que foi representando cada vez maiores lucros para os estrangeiros: “Este reino de Manjagar he sogeito ao rei de Borçallo como o da Barra e o do Badibó. Aqui costuma o rei vir commerciar com os navios quando não vão a sua terra, e vende muitos negros. Hà nesta terra muitos couros e os milhores de todo o rio, tem muitos arros limpo e negros. Em a mesma terra (…) Os moradores dela são mercadores bixirins. He de muito tracto, comprasse muita roupa, ouro e muitos boñs couros como os de Manjagar. Vendesse muito bem collas, de que estes mandingas são muito amigos.”134 Portanto, os europeus conheciam os dois continentes, estavam mais bem informados sobre os vários tipos de mercado. Conheciam o valor comercial dos produtos e as possibilidades de escoamento de tudo quanto compravam, alargaram enormemente as suas áreas de negócios. Quanto aos nativos destas mesmas regiões do ocidente africano, alargaram o mercado com os novos produtos exportados pelos estrangeiros, só conheceram o contexto comercial nas suas terras, não atribuíam tão alto valor aos seus produtos como os estrangeiros, embora as ocasiões de negócio fossem sempre momentos a que davam grande ênfase. Quanto aos escravos, eram vendidos pelos africanos indiscriminadamente aos estangeiros, com certas distinções no preço atribuído: “São os Jalofos todos mahometanos e por isso ruins para se reduzirem. As suas guerras são a cavallo, e há muitos na terra; e o rei e fidalgos tem muito (sic) mouriscos que lhe trazem os mouros com quem confinão pelo rio de Sanagâ, e são boníssimos, e há cavallos que custa (sic) vinte e sinco e trinta negros.”135 “(…) Alguns donos de navios costumão hir (…) em alguns destes portos (…) e comprão nelle marfim, roupa, couros e muitos negros, e he bom levar bebida, que ainda que os negros são mahometanos bebem muito vinho e agoardente e dão hum negro bom por sete ou oito botijas de agoardente, (…)”136 Depois, os estrangeiros, donos dessas pessoas transaccionadas como bens, transportavam-nas como faziam com as restantes mercadorias, para diversos lugares do mundo, e vendiam-nas de novo. Estes, desenraizados das suas terras, para onde não regressavam, ou morriam nas viagens ou passavam a viver em lugares que lhes eram

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 120 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 101 136 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 126

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completamente estranhos e sem liberdade, embora esta última condição lhes fosse talvez a menos estranha porque nas terras africanas era comum haver escravos, estar ao serviço e sob o domínio absoluto de alguém. Também os europeus já tinham aquelas terras sob o seu domínio, o comércio compensava largamente e instalaram-se sem grandes contrariedades. No que diz respeito ao caso dos portugueses, os primeiros a chegar, sabemos de duas feitorias, as mais conhecidas naquelas regiões e de que ainda existem vestígios. Estruturaram o comércio com aqueles povos e, desde muito cedo, orientaram os interesses dos indígenas para os seus próprios produtos: “Pôs o senhor Rei duas casas naquela terra de Cenégios para trocar as suas mercadorias por ouro; são elas a de Arguim e a de S. João, que fica próximo de Tofia e Anterote.”137 Apesar dos esforços da diplomacia portuguesa na Europa e de algumas resistências dos africanos nas suas terras, os europeus ficaram definitivamente sediados naqueles territórios africanos, com os seus fortes e os seus exércitos para protegerem as suas actividades comerciais. Por exemplo, é interessante a história da ilha de Goreia, onde os portugueses elevaram uma capela, o primeiro edifício ali construído: “Le poste de police (ancien dispensaire) s’élève peut-être à l’emplacement òu les maçons portugais, allant construire le fort d’El Mina sur la Cote de l’Or (actuel Ghana), édifièrent en 1481 la première chapelle de l’île. Dans le recueil de textes portugais rassemblés par Valentim Fernandes (1506-1507), on peut relever: …une église de pierre couverte de paille qui a été faite par les gens qui accompagnaient Diogo de Azambuja quand ils allèrent construire le château de Saint Georges de la Mine. Dans cette église sont enterrés beaucoup de chrétiens qui se trouvaient pour (ou qui moururent pendant) la traite sur cette côte et venaient se faire enterrer dans cette île pour l’amour de cette église… Ce poste de police est sans doute la construction la plus ancienne de Gorée: il figure déjà sur les plans du XVIIe siècle comme magasin et sur ceux du XVIIIe siècle comme forge.”138 A ilha de Goreia foi, muitíssimo disputada entre os estrangeiros, funcionando como escala para os navios vindos do Sul do Continente africano, mas também para os

D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 65 CAMARA, Abdoulaye e BENOIST, Joseph Roger, Gorée – Guide de l’Île et du Musée Historique, IFAN – Cheikh Anta Diop, 1993, pp. 13
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que vinham das Américas ou da Europa, onde se intensificava de formas nefastas o mercado de escravos. Vejamos o caso da presença holandesa, que deu o nome actual à ilha: “Em passando Cabo Verde esta a ilha de Bersiginche, desviada da terra firme também uma legoa, a qual os olandezes, que erão em meu tempo senhores della, chamavão a ilha de Gure; e em ella tinhão duas fortalezas, a mayor defronte da terra firme, ao longo da agua, aonde estava a feitoria e casa do general e mais soldados; e a outra defronte dessa ao mar, distancia de um tiro de mosquete, em a qual entravão todos os dias huma parte da esquadra da gente que entrava de guarda na fortaleza de baixo; tendo em ambas para esse effeito oitenta the cem homens da guerra, fora a gente que era necessária para o negócio.”139 De acordo ainda com as notícias deste capitão português, que nos deixa aqueles e estes testemunhos escritos, também os ingleses se iam instalando em África, disputando com os holandeses estes territórios ultramarinos na costa ocidental africana, incluindo esta pequena ilha: “Também aqui [Cabo Verde, Gure] vinhão os navios de Cacheo (...) e aqui vinham todos os anos de Olanda, duas e tres naos grandes a carregar dos ditos generos [cera e marfim] que levavão para a cidade de Amsterdam donde tinham o assento da Companhia de Africa que asim lhe chamavão; e tiravão tanto interesse desta ilheta que tomando-lha o inglês em meu tempo, no anno de 1663, não repararão em andarem as guerras muy acesas entre essas duas nações para que logo no anno seguinte não mandassem o seu general Rut com uma esquadra de quatorze náos de guerra a restauralla; assim que por aqui se verá os lucros que tirarão dos negócios que aqui farião”140. A ilha foi passando de mão em mão e, pouco tempo depois, chegou a vez dos franceses que se apoderaram definitivamente de Goreia, tão cobiçada pelos estrangeiros que por ela iam passando: “Hoje [1684] lha tem tomado o francês, e se tem feito senhor de todo negocio desta costa de Jalofo”141. Diz ainda Francisco de Lemos Coelho, o redactor desta notícia do séc. XVII, sobre aqueles lugares de Cabo Verde e a ilha de Goreia, o seguinte:

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 96-97 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 97 141 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 98

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“Defronte desta ilha, na terra firme, está um cabozinho que chamão o Cabo Gaspar, detraz do qual há húa insiada muito boa e grande, que entra pella terra dentro que parece cá de fora rio. (…) era no meu tempo boníssima escalla esta para os navios que vinhão de Cacheo com negros para esta ilha, porque aqui refrescavão a sua armação, fazião aguada fresca, compravão muito mantimento se necessitavão delle e os regallos que querião na ilha, sendo do flamengo benignamente agazalhados”142. Assim, os europeus faziam os seus negócios na ilha com os navios vindos do Norte ou do Sul, por mar e em terra. Na opinião deste observador português, seria aprazível visitar aquelas aldeias que existiam na orla costeira e mais para o interior: “Desta enseada do cabo de Gaspar se vai por terra em muito bons cavallos ao porto de Arrecife, que são três legoas, e he caminho muito alegre, porque há nelle muitas aldeas e muito frequentadas de gente, e muito vinho de palma de que muitos brancos gostão”143. Por ali se misturavam os estrangeiros com os indígenas africanos, no território do actual Senegal, instalando-se por lá definitivamente não só muitos portugueses, flamengos, ingleses e franceses mas também judeus fugindo às perseguições da Inquisição na Europa, desde finais do séc. XV: “Em o porto de Arrecife ou Recife he que está junto da agoa a aldea principal, e nella vivem os portugueses e os brancos filhos da terra, e viverão já muitos judeos com cazas muito grossas, nascidos em Portugal, que aqui se vinhão declarar porque os defendião os reis da terra e não podião ser castigados por isso. Aqui tem o flamengo huma feitoria com mercador aparte, e o francês tem outra”144. Parece, pela descrição que nos é apresentada, que nestes lugares havia já desde há muito tempo um negócio estável e frutuoso também para os franceses, que posteriormente acabaram por dominar a região: “ (…) porque a este porto [Arrecife ou Recife] vem todos os annos húa náo francesa grande e poderoza, a qual vinha ordinariamente em Novembro, que he o fim das agoas ou Inverno desta costa, e estava athe o São João que he o principio do Inverno; e aqui carregava de courama de vaca e levava ordinariamente trinta e cinco ou quarenta mil couros. (…)”145

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 98 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99 144 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99 145 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99

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Os ingleses acabaram por se instalar mais a Sul, junto ao rio Gâmbia, por volta de meados do século XVII, onde os seus produtos seriam muito apreciados. “Sahindo do porto de Borçallo se vai ao rio de Gambia, o qual não tem entrada, ainda que tem baixos de banda do Norte e de banda do Sul (…) Assim que havendo inglez no rio melhor genero hé couros, cera e marfim; para que vendido com o estrangeiro se sortée dos géneros do rio, que são ferro, agoardente, contaria miuda preta e branca, panno vermelho, cristal numero vinte e doiz, papel miudo, que em hum dia gastaria vinte resmas. (…) Em este porto de Barra não há negocio nem ninguém surge nele senão para aguardar maré para hirem para o porto de Julufré, que he do mesmo reino e fica defronte da fortaleza do Inglez.146” Este capitão português descreve os espaços ocupados pelos estrangeiros, distinguindo-os com clareza, com muito pormenor, sabendo de todos os seus interesses e relações. Apresenta o poderio europeu ali instalado, com uma enumeração dos produtos com que carregavam os seus navios para comerciar e dos lugares onde era costume haver mercado. Mas estes carregamentos, pelo que nos é dado perceber, não se destinavam aos africanos, e todos os anos renovavam estas actividades que dariam muito lucro noutros lugares, venderiam a outras gentes e noutros contextos económicos mais lucrativos, onde esses produtos eram escassos e pagos a melhores preços, em que se incluía o tráfico de pessoas: “Defronte deste porto de Julufré, a meyo rio, que terá aqui mais de húa legoa de largo, está húa ilheta que o Ingles tem bem fortificada; sendo que he couza piquena, mas está muito deffensavel com húa fortaleza de pedra e cal, e cazas dentro para o General, e almazens para as fazendas, com mais de vinte pessas de artelharia; e a roda da ilheta, entre as pontas que faz, tem feito ao lume da agoa três plataformas com quatro pessas de artelharia cada húa; tam rasas com a agoa que quando ha mareta, lhes lava as bocas. Aqui lhes vem as naos de Inglaterra deitar o ferro e fazendas de que está ordinariamente bem provida, e carregão de couros de vaca e de bicho, feitos no rio, os quais constão de antas sinsins, tancões e gimguisangas e são melhores e mais estimados esses que os de vaca, marfim e cera; e levão hum anno por outro, comprados no rio, sincoenta mil couros e mil e quinhentos quintaes de cera e marfim. Também comprão muitos negros que embarcão para as Barbadas, para cujo negocio e deffensão

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 111

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da fortaleza tem ordinariamente outenta athe cem homeñs, assim de soldados como gente maritima e mercadores para andarem nos pataxos, que ordinariamente tem dous para conduzirem a fazenda que fazem os feitores, que poem en diversos portos deste rio. Também compram algum ouro (…).”147 Entretanto, como veremos a seguir, os indígenas continuavam a organizar-se com os seus reinos, tal como no séc. XV os portugueses os encontraram. Era uma organização política que se mantinha à margem destas transacções económicas com os estrangeiros, sendo previsível que a presença dos estrangeiros tenha interferido, a longo prazo, nas relações de poder entre os reinos africanos e na relação de forças entre os chefes dos reinos, consoante os interesses, as riquezas, as culturas e os líderes.

2.3. Os reinos africanos

“ Fiquei a saber por eles que em tal cidade [Quioquum] havia abundãncia de ouro e que por ali passavam as caravanas de camelos e dromedários que transportavam as mercadorias de Cartago ou Tunes, Fez, do Cairo e de toda a terra dos sarracenos com carregamento de ouro, porque aí há abundãncia de ouro que é transportado das minas do monte Gelu [Fouta Djalon]. A outra parte desse monte, no lado oposto, chama-se Serra Leoa.”148 Diogo Gomes de Sintra transmite, no seu livro de memórias que temos vindo a referenciar, a ideia da existência de vários reinos dispersos nestes territórios, em meados do século XV. Também Francisco de Lemos Coelho, nos finais do séc. XVII, descreve estes lugares, correspondentes aos do actual Senegal, divididos em vários reinos ao longo da costa, entre o rio Senegal, passando pelos rios Gâmbia e Casamansa, até aos sítios que hoje pertencem à Guiné-Bissau, como veremos: “Deste Cabo Verde ou rio de Sanagá athe o rio Gambia há de costa trinta e tres legoas, e nesse destricto todo está a região do Grão Jalofo em o qual há sinco reinos a saber: o do Grão Jalofo, que se estende do dito rio de Sanagá pela terra dentro, e vai confinando com os mais reinos jalofos, os quais antigamente todos erão seus vassallos não havendo nesta nasção mais rei soberano que este do Grão Jalofo; mas todos se lhe

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 112-113 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp 73 a 75

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revelarão e fizerão senhores soberanos e hoje não tem mais poder do que os outros reis desta nasção; e somente o reconhecem e tem como couza sagrada e nenhu lhe intenta guerra, tendo-a continuamente huns com os outros principalmente nas sucessões dos reinos em os quais he tudo comum, assim nos ritos e ceremonias, como no negocio da mercancia e generos para elle.”149 Observamos, desde logo, que vários reinos eram a base da organização destes territórios, provavelmente anteriores à chegada dos portugueses.Vamos agora ter em conta as suas dinâmicas originais, tentando distingui-las da influência europeia. Precisamente, torna-se interessante compreender esses reinos independentes, como viviam, que tipo de relações estabeleciam entre si, de paz ou de guerra, as causas e os efeitos dos modos de vida que tinham desenvolvido. Tentaremos reencontrar formas específicas da organização destes povos africanos. Para isso, seguiremos o olhar dos informadores portugueses, que escreveram as suas impressões sobre o que viram e descreveram, até certo ponto, o relacionamento entre estes reinos. A partir dessas fontes conhecemos, pelo menos alguns dos reinos africanos, seriam com grande probabilidade os mais proeminentes e os mais conhecidos. É importante conhecer a forma como se orientavam, os seus interesses e maneiras de viver, que durante séculos se mantiveram desligados da presença estrangeira, tendo evoluído de forma autónoma, provavelmente até ao presente. Nos finais do século XVII, as estruturas administrativas e sociais africanas parecem manter traços independentes, funcionando com a lógica que os concebera durante os séculos anteriores: “Tenho dado notícia de todos os reinos dos Jalofos, que são quatro, a saber, o de Encalhor, o do porto de Aly, cujo Reino se chama Bool, o de Joalla, cujos negros se chamam Brebesis e são os mais valentes de todos, e o de Borçallo, que são mais em terras mas mais cobardes, que assim os dispos o Criador para que deste modo se podessem conservar.”150 Também por esta transparência e por este estado de espírito, descomprometido mas atento, podem aceitar-se com segurança as apreciações que se fazem sobre o carácter destes povos, o que era também um traço distintivo entre eles, como veremos. Quando se diz o que acima acabámos de transcrever, fica claro que os reinos negros se distinguiam pela força, “são os mais valentes”, pelo número e pela extensão de terras

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 95-96 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106

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que ocupavam,“que são mais em terras”, embora o maior poder seja reconhecido aos que tivessem mais coragem, e não aos que possuíssem mais territórios ou mais súbditos porque estes eram “mais cobardes.” São apreciações de um português que viveu com estes povos, ou seria, talvez também nestes aspectos que se distinguiam os indígenas entre si. Já no iníco do século XVI, também Duarte Pacheco Pereira se referia aos mesmos lugares onde se situavam estes reinos, mas o desconhecimento sobre os reinos era maior, como é natural, se compararmos com o documento acima transcrito, sem deixar de haver uma clara complementaridade: “ (…) E em língua dos Negros se chama este rio Encalhor e a terra dali, Çanaga, e o reino, Jalofo. E em nossos dias se resgatavam aqui escravos negros, dez e doze por um cavalo posto que bom não fosse (e pola má governança que se nisto teve, até seis não podem haver); e assim resgatavam aqui algum pouco ouro por lenço e por pano vermelho e por outras coisas. E este rio mandou descobrir o virtuoso infante D. Anrique por Dinis Dias, cavaleiro e Infante del-rei D. João, seu padre, e por Lançarote de Freitas, seus cavaleiros e capitães. E quando este rio de Çanaga foi descoberto e novamente sabido, disse o Infante que este era o braço do Nilo que corre pela Etiópia contra oucidente, e disse verdade. E quando aqui havia bom resgate, se tiravam deste rio, em cada ano, quatrocentos escravos e outras vezes menos a metade, havidos pelos ditos cavalos e outras mercadorias.”151 E aquele português, Francisco de Lemos Coelho, tendo vivido mais de vinte anos na vizinhança destes reinos, não pode deixar de intervir na sua descrição com alguma subjectividade, expressando juízos de valor sobre a conduta destes povos que conheceu bem de perto. Assim, vai dizendo o que pensa acerca deles, com generalizações por vezes, com dados muito específicos doutras. Fá-lo da forma como qualquer um de nós faria, nos nossos dias, ao contar impressões pessoais da viagem que realizou, mas também com as marcas da cultura em que se inseria: “O porto he boníssimo e a terra he muito sadia e muito lavada dos ventos, muito abundante de tudo, assim de carnes como pescado, que he o milhor e mais que em toda a costa da Guiné; e entre outros peixes que há são huns que chamão enxovas, que tem

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D. P. PEREIRA (1505-1508); Op. Cit., pp. 94

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esta costa, muita sardinha e tam barata que eu comprava huma barca chéa por meya pataca, que he o menos dinheiro que corre ali.”152 No caso desta testemunha portuguesa, devemos valorizar a experiência adquirida, ao longo de décadas, em contacto com povos culturalmente muito diferentes. De facto, este documento torna-se mais valioso pela proximidade e pela experiência pessoal que apresenta, garantindo um conhecimento muito profundo das realidades em causa. Aliás, ele próprio explica por que motivo faz este relato e não se mostra preocupado com o facto de o “Leytor, amigo,” eventualmente não gostar ou não acreditar nas coisas que ele conta, o que revela do autor uma atitude interessante e até bastante moderna, pela comunicação com os seus leitores eventuais, pela espontaneidade e pela segurança que manifesta; parece duvidar de uma recepção positiva da sua mensagem; contudo, está consciente das novidades que conta e confiante na utilidade da sua experiência para os vindouros: “Enquanto gostares lê, sequer por cousa nova; em te enfadando disso dize o que quizeres, advertindo que não he minha tenção fazello para ti, pois não gostas delle; mas sabe que o que aqui escrevo são verdades, e que faço isto com testemunha de vista e como quem nesta costa gastou vinte e três annos vivendo em várias partes, como no discurço da obra verão; e nas mais commerciei em seus portos em os meus navios com que navegava. Creyo, Amigo Leytor, de tua benevolência me perdoarás os erros e não censures a fazer tantas digressões entrometendo histórias que não competem a discripção da costa; mas como ella he de si tam seca e intratável, que de si não dá nada, o fis de prepozito para se saborear o gosto.”153 Faz-se então a apresentação dos lugares e dos reinos respectivos, acima enunciados, começando de Norte para Sul. De acordo com este relato português, os reinos que dividiam aquelas terras e gentes eram inicialmente os reinos submetidos ao do Grande Jalofo. Com o tempo foram-se compartimentando e disseminaram-se vários reinos, cada vez mais divididos. O caso de Encalhor, primeiro reino que o autor assinala, teria uma forte ligação a Portugal, conta-se até um episódio antigo significativo sobre as relações que Portugal estabelecera, muito cedo, com estes povos, ao ponto de estes pedirem auxílio ao rei de

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 99 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 93

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Portugal para apoiar a reconstrução deste reino ameaçado. Pode-se depreender que nos finais do século XV, as relações com Portugal não se tinham deteriorado, pelo contrário, existia uma enorme esperança e interesse no apoio vindo do Estado Português: “O primeiro reino que desta nasção conhecemos pello comercio he o de Encalhor o qual se estende do rio do Senegá athe húa casta de negros desta nação que chamão Xercos, e he a terra donde he senhor o Príncipe Bumugelém que em tempo de El-Rei Dom João o segundo foi a Portugal pedir socorro ao Senhor Rey dito para restaurar o seu reino que se lhe tinha revelado. (…)”154 Independentemente do desfecho insólito desta situação, a verdade é que o apoio de Portugal era visto como uma grande força para resolver os próprios conflitos dos reinos africanos. Este episódio reflecte expectativas positivas que se criaram junto de alguns povos africanos que não considerariam a presença portuguesa como invasora ou inimiga. O segundo reino seria o reino de Bool, onde viveriam muitos “brancos” ou europeus, ou seja, onde a influência destes terá sido mais profunda, não só pelo comércio mas também pela vizinhança e convívio directo que desde cedo se instalou naquela área, onde hoje encontramos marcas linguísticas dos portugueses, por exemplo nos topónimos como Portudal (porto de Aly) - se a origem não é portuguesa, pelo menos tem uma evolução e uma estrutura muito próxima da Língua Portuguesa, sendo este um exemplo, entre outras muitas palavras portuguesas de uso comum, no Senegal, nos nossos dias: “Tres legoas abaixo deste porto do Arrecife comessa o reino de Bool que tem por costa nove legoas; nelle esta a aldeã do porto de Aly que he aonde vivem os brancos; no mejo deste caminho está hua casta de negros (…) Chamão-se Xercos. (…) Os negros são os mesmos e os negocios como no Arrecife ; mas aqui com mais abundancia, que hé dia em que se comprão dous mil couros; o rei vende muitos negros a troco de prata, custava um negro bom vinte patacas.”155 Não há uma descrição tão pormenorizada como a que responde mais directamente ao objectivo das viagens naqueles lugares, nomeadamente a indicação dos sítios e do percurso que se deve escolher, por mar e por terra, do comércio, dos produtos, das formas como se transaccionavam as mercadorias e até alguns valores

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 97 D. G. SINTRA (1484-1496); Op. Cit., pp. 102

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atribuídos aos bens. Por esse motivo, torna-se difícil aprofundar o conhecimento das características destes reinos designados, que estão inseridos principalmente no contexto das transacções comerciais que se efectuavam entre os europeus e os africanos. Parecenos ainda assim que estes povos indígenas mantiveram alguma reserva sobre os seus modos de vida; ou então, esses eram aspectos que os estrangeiros não quiseram explorar, por falta de interesse ou de tempo, por se dedicarem prioritariamente ao comércio; ou seria porque os aldeamentos se encontravam resguardados, sendo de difícil acessibilidade. Seja qual for a razão, na verdade, não encontramos uma caracterização profunda, bem localizada e distinta, sobre a constituição de todos os reinos africanos enunciados neste documento. Contudo, esta repartição e a designação destes deixam clara a divisão dos territórios por vários reis, que escolhiam preferencialmente uma localização junto dos rios, cuja função, entre outras, seria a de divisória, para separar as terras e as gentes. Assim, temos o terceiro reino referido, o de Joalla, que se prestava a muitos conflitos, pelas condições da paisagem. Mas era aqui que se acomodavam muitos portugueses: “O porto de Joalla he muito conhecido (…) Querendo ir por terra do porto de Aly para o porto de Joalla são também nove legoas, e vaisse pella beira da agoa. Em o meyo do caminho está um rio que devide estes dois reinos, que chamão o rio Sereno, e a terra, á terra do Sereno, em elle de huã banda e da outra há aldeas; as do Norte, do rey de Bool, e as do Sul do rey de Joalla; e parece que criou Deos este asillo para muitos portuguezes que vevião nestes dous portos; por que se vevião com temor do rei da terra, em huã noite andavão estas quatro legoas e passavão da outra banda, aonde ficavão seguros, e destes não faltavão brancos nestas aldeas, o rio se vadea de baixamar.”156 Segue-se o quarto reino, o de Borçallo, que tinha uma maior extensão do que os anteriores e, talvez por isso, se subdividia noutros reinos, ou comunidades mais pequenas, submetidos e administrados pelo reino maior: “Deste porto de Joalla ao rio de Borçallo, que he muito perigozo de entrar… Há nelle um riacho fundo que chamão o rio de Palmeirinha, e he a demarcação do reino de Joalla com o de Borçallo (…) De todos estes reinos he o mais dilatado em terras, pois comessa do rio de Palmeyrinha e vay athe o rio de Gambia, e sobe por elle asima athe

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 104

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o rio de Nanhigega, que são perto de secenta legoas, em o qual districto põem muitos reyzinhos que lhe são tributários.”157 Mas os reinos que se espalhassem para o interior do continente não eram tão visitados e o autor assume o seu desconhecimento sobre essas áreas, mais longínquas do mar e dos locais de negócio preferenciais dos portugueses e dos outros europeus: “ Da terra do Gran Jalofo não he mais que as notícias que dei; que como fica pela terra dentro não temos comunicação com elle.”158 Contudo, depreende-se que a influência cultural de certos grupos africanos abrange grandes extensões, no século XVII: “Pella terra dentro, confinante com o reino do Gran Jalofo, está o reino do Gran Fulo cuja costa se chama Tugutá ou Tutá, e há neste reino gente sem número, todos dados mais a lavoura e criação de gado, de que tem infinita quantidade, do que a guerra. He este reino dos Fullos tam dillatado que os conhecemos pela terra dentro do rio de Sanagá athe a Serra Leoa, e dizem se estendem athe Angolla.”159 Apesar das limitações da época ao conhecimento do vasto continente africano, conclui-se que os portugueses tiveram o engenho necesário para estabelecer contactos com boas fontes de informação e terão viajado o suficiente para terem uma ideia bastante correcta da dimensão e da complexidade das sociedades e territórios com que contactavam. Neste caso, pensamos que o autor se refere ao reino dos fulas, isto é, o Fouta peul que foi, de facto extenso, teve uma influência marcante, deixando mais raízes que outros reinos anteriores (por causa do grande número de súbditos, que se instalaram em territórios geograficamente muito alargados, e, em parte, porque foram o principal veículo difusor do islamismo na sub-região). Hoje, aqueles lugares correspondem aos territórios de vários países cujas sociedades têm semelhanças, devido à proximidade cultural, histórica e geográfica desses povos. Assim, muitas famílias podem ter-se dispersado, até podem ter perdido o contacto entre si, desenvolvendo-se de forma autónoma, mas com as mesmas marcas e referências culturais. Naturalmente, os autores portugueses dos séculos XV a XVII não podiam delimitar muito bem os territórios de todos os reinos que referem; no caso em apreço, o capitão português tenta fazer essa delimitação geográfica, mas parece-nos que não seriam do seu conhecimento certos detalhes. De acordo com as suas experiências, estes

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 106 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 107 159 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 109

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reinos parecem distinguir-se também por características específicas dos seus líderes e dos seus súbditos, ou seja, esses agrupamentos viviam separados, até isolados, pelo que tinham experiências históricas e culturais próprias. Com grande probabilidade se identificam com as etnias ou famílias, tal como hoje ainda existem no Senegal. São muito diversificadas e dificilmente se separam, preservando os seus costumes e as suas leis ao longo dos tempos. Haveria, no século XVII, idêntica autonomização de grandes famílias, fechadas a tudo o que pudesse ameaçar as suas estruturas, os seus laços de união ou o seu poder? Sobre estes assuntos, recordamos um pequeno episódio que presenciámos quando pedimos a identificação a um estudante senegalês. Não foi por acaso que ele se apresentou com o nome da família primeiro, depois com o nome próprio. Quando pedimos também o nome da etnia, ele mostrou-se muito incomodado. Depois explicounos que, dessa forma, teríamos acesso pormenorizado às suas origens e às da sua família, ou seja, era como se nós estivéssemos a entrar em domínios privados ou reservados. Obviamente, nós não atribuímos este significado à sua identificação pessoal. Mas, no Senegal, dizer estes dados é expor-se a uma leitura do seu passado. Nós não temos igual informação, do passado, da história, das famílias e das etnias do Senegal. Aquele mundo estava ali mesmo à nossa frente, oculto pela palavra. De facto, no Senegal, esta imagem das etnias ainda está muito presente no quotidiano, embora desconheçamos muito das suas histórias e tradições. Pode ter sido também um aspecto distintivo dos reinos antigos africanos, de que falávamos. Espalhavam-se e afirmavam-se naqueles extensos territórios que, por isso mesmo, permitiam-lhes viver longe uns dos outros, controlando o seu pedaço de terra, muitas vezes isolados nas suas aldeias, sem outros contactos que não fossem os da sua comunidade, o que proporcionava um certo fechamento ou distanciamento do resto do mundo. De alguma forma, abriram-se mais para o mundo quando os europeus chegaram. Estes reinos passaram a receber visitantes. E os nativos compraram produtos novos, desenvolveram outros interesses e contactaram com outros homens. Mas sem experiência, pouco habilitados para responder às exigências deste novo mundo, como vimos, os interesses variaram ou mudaram, as guerras eram outras, vindas de outros contextos: “Querendo hir mais por este rio de Bitam asima, que he pernada do rio de Gambia, deste porto de Bintam a seis legoas está outro reino de Banhús, que chamão o

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reino de Sangedegú, e aldea que vista a vista do porto chamão a aldea de mais negocio que teve este rio de Gambia, e ainda hoje o Inglez tem húa feitoria nella.”160 Aqui, neste ponto, não podemos distinguir claramente os reinos das aldeias, onde viviam determinadas comunidades, também designadas por outros nomes. Por isso, parece que a certa altura os reinos confundem-se – o reino de Banhús é também o reino Sangedegú - e ficamos com a sensação de que esses reinos também seriam mais diversificados, com várias comunidades de diferentes proveniências e características. E a complexidade acentuou-se mais ainda, a partir de certo momento, com a chegada dos europeus que instalaram as suas feitorias, nessas comunidades ou reinos. Podem ter provocado uma colisão de interesses no mercado comum. Estes agrupamentos africanos trocavam os mesmos produtos, tinham as mesmas necessidades e os mesmos desejos. Criou-se uma concorrência comercial e acenderam-se eventuais rivalidades entre esses grupos e as suas lideranças, o que acontecia, como vimos atrás acerca deste mesmo reino de Sangedegú. Por causa desta organização diversificada, mesclada de famílias, de proveniências e de costumes, estes pequenos reinos apresentavam fragilidades que podem ter-se arrastado ao longo dos tempos. Por exemplo, Casamansa é hoje um território de conflitos frequentes que podem estar relacionados com a proximidade geográfica e étnica da Guiné-Bissau: “Neste porto de Boaguer se embarcará em canoa, das muitas que vão para Buzetõ ou Bajetõ ou Bajatõ … e logo dará na madre do rio de Caza-mança, o qual atravessará a hir buscar a terra do Sul, assim por lá estar a boca do rio que vay entrar como por se livrar dos Sacalates, que he huã nação de negros que estão entre os Falupos da boca do rio da banda do Sul e o reino dos Bacotes, e estes são os olandezes do rio, que não vivem mais que de furtar e roubar as canoas que atravessão aqui.”161 Esses conflitos podem também existir devido à história mais recente desse território, dominado pelos portugueses e depois pelos franceses, na sequência de jogos de guerra dos povos colonizadores que separaram reinos e etnias:

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F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 114 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 115

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“Barbosa du Bocage aceitou ceder à França a bacia do rio Casamansa contra o reconhecimento da esfera de influência portuguesa numa longa faixa do território ligando Angola a Moçambique. O acordo ficou ajustado em Dezembro de 1885 (…)”162 Devemos ainda chamar a atenção para a extensão da religião islâmica disseminada por todos estes reinos africanos, destacando-se como característica comum e unificadora, de Norte a Sul destes lugares da costa ocidental africana, na região ao Sul do Sara. Na verdade, esse aspecto religioso define ainda actualmente a maior parte do povo senegalês. Mais de 90% da população segue o Islão: “Tornando ao nosso rio de Gambia e ao porto de Bintam (…) o primeiro porto que tem he o de Tancoroale aonde há húa boa aldeã, e o reino se chama de Quiam, e o rei se chama Taram de Quiam; e já tudo isto, assim de húa banda como de outra, são Mandingas, nação que vindo por hospedes da terra de Mandincança se naturalizarão aqui (…) sendo todos mahometanos, mais ainda que os Jalofos.163 Os aspectos religiosos poderão também contribuir para um melhor conhecimento da evolução destes povos, sendo talvez até uma fonte inesgotável de informações. Contudo, pela complexidade e pela extensão desse tema, poderíamos desviar a atenção para aspectos que não podemos aprofundar neste nosso trbalho. Preferimos limitar-nos aos contactos entre as várias culturas. Não pára por aqui a referência aos reinos africanos que parecem espalhar-se e subdividir-se ao longo da costa ocidental: “Deste porto de Nhacoi ao de Findifeto, há seis legoas, o qual fica de banda do Sul (…) He o primeiro porto do reino de Oli, que lhe aqui chega o reino de Nhani; e todos estes reinos tem mais cognominamento de Mansa, como Nhanimansá, Olimansá.”164 Esta proliferação de reinos permite-nos pensar que, apesar da grande extensão das terras que estamos a observar, o poder dos seus chefes sofreria de certas instabilidades. O poder e a autoridade estavam muito repartidos e sem ligações ou relações específicas entre eles. Por exemplo, não parece haver o reconhecimento claro da pertença das terras ao reino vizinho e, por isso, fariam guerras por terras comuns. Também viveriam a grandes distâncias uns dos outros, o que evitaria outros conflitos.
J. C. MAGALHÃES (1990), Op. Cit., capítulo “A questão dos limites dos domínios portugueses no último quartel do século XVIII”, sub-capítulo “4. Asconvenções luso-francesa e luso-alemã de 1886; o «mapa cor-de-rosa»”, pp. 183 163 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 117 164 F. L. COELHO (1684); Op. Cit., pp. 129
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Mas os interesses e as necessidades eram os mesmos e, por isso mesmo, haveria combates para conseguir o mesmo objecto. Nos locais de comércio, encontravam-se por razões de sobrevivência, realizariam as trocas úteis a todos, mas produtos como o ouro, a prata e o sal davam prestígio aos governantes, eram de mais difícil acesso, havia rotas comerciais estabelecidas para estas riquezas, o que implicava um esforço maior e, por vezes, guerras para os adquirir. Os portugueses ter-se-ão cruzado com uma sociedade caracterizada por uma multiplicidade de lideranças e de comunidades dispersas em territórios subdivididos por reinos diferenciados. Para um estrangeiro, não seria fácil abarcar toda esta complexidade. Manter interesses comerciais ao longo de toda a costa da Guiné e comunicar com tantos grupos, deve ter levado a mal-entendidos frequentes, entre os africanos e os visitantes. De facto, os portugueses foram vítimas de muitos ataques, mas também foram muito bem recebidos por outros grupos. E a permanência e o entendimento nas relações comerciais acabaram por estabelecer interesses comuns, hábitos e até expectativas. Assim, os portugueses, ao mesmo tempo que planeavam o seu comércio naquelas regiões, acabaram por se fixar nas zonas mais adequadas aos seus interesses e mais lucrativas, comunicando com os nativos, firmando a sua presença na economia e falando em Português. Como vimos, no século XVII os indígenas compreendiam e reconheciam bem a língua que os portugueses falavam. Além disso, a ausência de interesse, condicionalismos geográficos ou de tempo, bloqueio dos reinos africanos, fossem quais fossem os motivos para não explorarem o interior do continente africano, é certo que só muito mais tarde se desbravaram essas terras; e, ainda hoje, existem muitas dúvidas sobre a evolução dos povos africanos e sobre lugares mais recônditos. Mas esta falta de informação parece não existir apenas na Europa, os próprios africanos têm dificuldade em encontrar fontes documentais que confirmem ou infirmem as numerosas tradições orais. Os regimes políticos africanos ainda são modelos inspirados no mundo ocidental. Os modos de vida são também influenciados pelos europeus e emigram preferencialmente para os países colonizadores. Têm como línguas oficiais as dos povos que os submeteram, mas falam, no dia-a-dia, línguas nem sempre escritas e raramente estudadas. Por isso, dizem, no Senegal, que quando morre um ancião é como se desaparecesse uma biblioteca. O que se verifica, contudo, e cada vez mais, é a adopção de modelos estrangeiros, falando aqui apenas do Senegal especificamente, ao mesmo tempo que se 98

buscam as origens culturais africanas. Mas avança-se lentamente, o que nos parece ser um sinal de persistência dos atrasos no desenvolvimento deste continente, que ninguém conseguirá modificar sem a participação voluntária e convicta dos africanos. Conhecer as origens culturais das populações, ou mantê-las, não devem, de forma alguma, significar um recuo ao passado porque as culturas africanas também evoluíram e sofreram sucessivas adaptações a novas realidades que conheceram. Pelo contrário, devem integrar-se as culturas específicas na situação actualmente vivida e projectar o futuro para o desenvolvimento do país dentro dos modelos que já escolheram. Parecenos que não há ainda sensibilidade real deste povo e dos seus líderes para se unirem com objectivos benéficos para todos e contribuírem para o bem comum, para melhorar efectivamente a qualidade de vida das pessoas.

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3. INQUÉRITO AOS ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS Quisémos conhecer as razões do interesse crescente pelo estudo da Língua Portuguesa no Senegal cujo ensino foi decretado em 1967 por Léopold Sedar Senghor, primeiro Presidente da República do Senegal – as primeiras classes foram leccionadas por um guineense, Benjamim Pinto Bull, nos liceus Van Vollenhoven (actual Lamine Guèye) e John F. Kennedy, em Dacar, seguindo-se, em 1972, a criação da Secção de Português na Faculdade de Letras da Universidade Cheikh Anta Diop. No momento da descolonização, não deixa de ser contraditório que, neste país africano e francófono, se julgue importante que as novas gerações aprendam esta Língua de um colonizador com o qual o Senegal estava, à época, de relações diplomáticas cortadas, apoiando o PAIGC – Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde - na sua luta pela independência e sofrendo incursões militares portuguesas na região da Casamansa. Contudo, faz algum sentido que, para o diálogo e o relacionamento entre países africanos, seja urgente esta via de comunicação, onde existe uma multiplicidade de línguas étnicas convivendo com as línguas oficiais dos antigos colonizadores europeus. As políticas económicas destes países dependem de uma comunicação cada vez mais eficaz, de uma associação de esforços para resolver problemas prementes que afectam muitos países do continente africano. O primeiro Presidente da República do Senegal, Léopold Sédar Senghor, era um homem de cultura, universalista e arauto da Negritude, cujo país ensaiou, nas três primeiras décadas de independência, duas federações: em 1960, a efémera Federação do Mali e, entre 1982 e 1989, a Federação da Senegâmbia. Assim, é natural que tenha considerado importante o ensino de línguas estrangeiras, para servirem de instrumentos de trabalho e/ou políticos, na parceria entre países e para unir África ao resto do Mundo. Por outro lado, o Presidente-Poeta publicou as suas ideias, valorizando África e os africanos. Tendo sido divulgadas pelo continente africano, contribuiram para o desenvolvimento de um esforço colectivo no sentido de reencontrarem as identidades nacionais, para a emancipação da Negritude e para a procura do reconhecimento das suas culturas noutros continentes, mas também para a afirmação de supostos valores que interessava realçar em diversos planos – nos organismos do sistema das Nações-Unidas, nas relações entre doadores e beneficiários da ajuda pública ao desenvolvimento, etc. 100

Não será com certeza uma coincidência que, no ano de 1961, Senghor tenha escrito a tão conhecida Elégie des Saudades165, em que afirma ter a sua gota de sangue português e onde relembra aspectos da cultura portuguesa que se espalhou por todo o continente africano. Para além da influência de Senghor, outras razões haverá certamente para que muitos jovens senegaleses optem pelos Estudos Portugueses e que se verifique, ao longo de quase quatro décadas, um aumento significativo de estudantes nos Ensinos Secundário e Superior. Observemos então os aspectos específicos abordados num inquérito, com temas diversos, elaborado com o objectivo de obter o máximo de informação possível sobre a opção dos estudantes universitários pelos Estudos Portugueses. Contudo, reconhecemos que muitas outras abordagens teriam sido possíveis sobre a cultura senegalesa. 3.1. Público-alvo O público-alvo do presente inquérito é constituído pelo universo dos estudantes inscritos nos cursos de Estudos Portugueses da Universidade Cheikh Anta Diop em Dacar, Senegal. A estrutura dos cursos, inspirada no sistema francês166, é a seguinte: 1. “Licence” – diploma que sanciona a conclusão dos 3 primeiros anos de ensino Superior (ou seja, Bacharelato); para obter a “Licence”, os alunos frequentam sucessivamente o Duel I (1º ano), o Duel II (2º ano) e o ano de Licence (3º ano); 2. “Maîtrise” – diploma de conclusão do 4º ano (logo, equivalente a uma Licenciatura); 3. “Études de 3ème cycle” – diploma de conclusão do 5º ano (equivalente a um Mestrado), que pode ser obtido por duas vias: i) “DEA” – “Diplome d’Études Appliquées” (via científica, na qual os alunos apresentam uma dissertação) ou ii) DESS (via profissionalizante, na qual os alunos fazem um estágio); 4. Doctorat d’Etat, equivalente ao Doutoramento. Ao todo, no ano lectivo da realização do inquérito (2004-2005), estavam inscritos 646 alunos nos referidos cursos, distribuídos da seguinte forma:

SENGHOR, Léopold Sédar, Oeuvre Poétique, Éditions du Seuil, Paris, 1990 Há mecanismos de transição – transferência ou continuação de estudos - quasi automáticos da UCAD para as Universidades francesas. Assim, dada a especificidade do sistema senegalês, preferimos manter as designações originais.
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- Licence: 568 (87,9%)

- 294 em “Duel I” (45,5%, 1º ano); - 164 em “Duel II” (25,4%, 2º ano); - 75 em “Licence”( i.e., no 3º ano 11.6%167);

- Maîtrise: 75 (11,6%); - DEA: 2 (0,3%); - 3ème Cycle: 1 (0,15%). No total, foi possível obter respostas válidas de 300 alunos (a que acrescem 6 inquéritos parcialmente utilizáveis), isto é 46,4% do universo, o que constitui uma amostra muito representativa, da qual não constam, apenas, os níveis superiores (“DEA” e “3ème Cycle”) cujo efectivo, como vimos, é, no entanto, diminuto e pode considerarse praticamente irrelevante para os efeitos do presente trabalho. A validade desta amostra não reside apenas no seu efectivo, mas também na repartição dos alunos que responderam: - 279 (93% da amostra) no conjunto dos três primeiros anos - 133 de “Duel I” (44,3%); - 90 de “Duel II” (30%); - 56 de “Licence” (18,6%); - 26 de “Maîtrise” (8,7%). Os desvios entre as frequências relativas (por anos) do universo e da amostra são de: (-1,2)% em “Duel I”; 4,6% em “Duel II”; 7% em “Licence” (-2,9)% em “Maîtrise. Assim, podemos, sem receios, considerar representativa a amostra para os objectivos deste inquérito. 3.2. Questões O inquérito distribuído aos alunos foi idêntico ao que se reproduz nas duas páginas seguintes:

As percentagens entre parêntesis referem-se também ao universo total dos estudantes de Português na UCAD.

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O inquérito está dividido em duas partes: “1. Identificação Pessoal” e “2. Estudos Portugueses”.

1. Identificação Pessoal: A primeira parte visou colher informações de carácter pessoal sobre os alunos, com um certo detalhe, de forma a poder ir mais além do mero recenseamento e estabelecendo algumas correlações entre os dados apurados. Um dos objectivos prosseguidos com este inquérito foi o de apurar, com a maior clareza possível, o universo socio-económico de cada aluno, porquanto, sendo o Senegal um país pobre, com baixas taxas de frequência escolar, as contingências de natureza económica e social podem ter um papel importante no desempenho do aluno, nas suas ambições e, eventualmente, podem constituir-se como factores da escolha dos estudos superiores em Português. Por outro lado, um retrato das origens geográficas dos alunos e dos seus familiares ascendentes poderia ser útil para detectar movimentos migratórios e, eventualmente, tirar conclusões sobre as motivações da escolha da frequência dos cursos de Português da Universidade Cheikh Anta Diop. Para o efeito, optámos por perguntar aos alunos (sempre que possível, com a opção de escolha múltipla, para melhor facilidade de escolha e de expressão), os seguintes dados de natureza pessoal: - Nome de família (os nomes designam, por vezes, origens étnicas e estratos); - Idade; - Local e região de nascimento; - Etnia e língua étnica (coincidiriam?); - Se os alunos exerciam alguma actividade profissional e qual; - Com quem viviam antes do ingresso na Universidade; - Com quem viviam à data do preenchimento do inquérito; - Pedia-se também o preenchimento de um quadro de dados (nome, local e país de nascimento, etnia e profissão) relativos aos pais e aos avós.

2. Estudos Portugueses: A segunda parte do inquérito visou compreender melhor a relação dos alunos com a Língua Portuguesa. Por um lado, procurando verificar a convicção com que 105

tinham optado pela frequência dos seus cursos, as expectativas futuras e as perspectivas de saídas profissionais. Pareceu-nos igualmente importante analisar os primeiros contactos dos alunos com a Língua Portuguesa, os motivos que os levaram – nos casos em que tal aconteceu – a ter a disciplina de Português no Ensino Secundário. Assim, a segunda parte incluiu as seguintes questões: - Como teve conhecimento do ensino do Português no Senegal? - Se estudou Português no liceu, por quantos anos e por que motivos; - Por que motivos escolheu fazer estudos superiores de Português? - O que pensa e o que gostaria de fazer profissionalmente após a conclusão do curso de Estudos Portugueses; - Por último, um pedido para os alunos indicarem países, por ordem decrescente, incluindo o Senegal, onde gostariam de viver após a conclusão dos seus estudos universitários. Importa notar que algumas questões colocadas aos alunos parecem repetitivas ou, pelo menos, com respostas sobrepostas; tal não foi casual, mas antes, propositado. Com efeito, não ignorávamos, com a experiência da docência na Universidade Cheikh Anta Diop, as dificuldades de interpretação de perguntas redigidas em Português – sobretudo, dos alunos do primeiro ano - nem o condicionamento à resposta franca que alguns factores culturais e sociais objectivamente poderiam constituir. 3.3. Análise e comentários das respostas

3.3.1. Identificação Pessoal: Como vimos, os alunos participaram no inquérito em grande número, com empenhamento e seriedade. Tendo também em conta a proporcionalidade da repartição dos alunos por nível de ensino, reiteramos que a amostra proporciona um elevado grau de probabilidade às respostas obtidas, constituindo um retrato muito claro e fidedigno do universo dos estudantes de Português na Universidade Cheikh Anta Diop. Seguidamente, analisaremos os resultados obtidos junto dos já referidos 300 alunos:

106

3.3.1.a - Nomes de família:

Quadro 1.1. Nomes citados pelo menos três vezes
NOME
Diarra Gomis Ndiaye Diouf Diop Sane Mané Sambou Diedhiou Faye Mendy Sagna Badji Coly Diallo Sarr Sene Ba Bampoky Camara Fall Baldé Bodian Dione Dramé Gaye Keïta Manga N’gom Niang Sadio Seck Senghor Tendeng

n168 Etnia mais citada
12 Diola (10) 11 Manjaco (11) 11 Wolof (4) 10 Sérère (9) 9 Wolof (5) 9 Diola (7) 8 Balanta (5) 8 Diola (6) 7 Diola (7) 7 Sérére (6) 7 Manjaco (7) 6 Diola (6) 5 Diola (5) 5 Diola (3) 5 Peul (3) 5 Sérère (4) 5 Sérère (5) 4 Halpulaar (2) 4 Mancanhe (4) 4 Mandinga (2) 4 Wolof (4) 3 Peul (2) 3 Diola (3) 3 Sérère (3) 3 Mandinga (2) 3 Wolof (3) 3 Toucouleur (1), Bambara (1) e Mandinga (1) 3 Diola (3) 3 Sérère (2) 3 Wolof (2) 3 Balanta (3) 3 Wolof (3) 3 Diola (2) 3 Diola (3)

2ªetnia mais citada
Balanta (2) Halpulaar (3) Wolof (1) Sérère (2) Fula (2) Mandinga (2) Mancanhe (1) e Bainouk (1) Fula (1)

Outras etnias citadas

Sérère (2), Fula (1) e Manjaco (1) Diola (1) e Halpulaar (1) Bainouk (1)

Bainouk (2) Fula (1) Papel (1) Fula (1) Diola (1) e Socé (1)

Halpulaar (1)

Manjaco (1)

Wolof (1) Toucouleur (1)

Sérère (1)

168

n: número de vezes que o nome foi citado pelos alunos

107

Quadro 1.2. Nomes citados duas vezes
NOME
Badiane Banana Bassene Cissé Dia Diaw Dieng Diompy Gueye Kante Kassé

Etnias citadas
Diola e Sérère Manjaco Diola Wolof e Lébou Toucouleur Toucouleur e Lébou Wolof Mancanhe Wolof Bambara e Mandinga Sérère

NOME
Nancasse Ndecky Ntab Sall Sidibe Sow Sy Sylla Tamba Tine Top

Etnias citadas
Mancanhe Mancanhe Mancanhe Halpulaar e Sérère Sarakholé e Bambara Wolof e Halpulaar Peul Sarakholé e Wolof Diola Sérère Wolof

Quadro 1.3. Nomes citados uma vez
NOME
Alveringa Babene Bahoum Baïlo Bandiaky Barbosa Basse Bassoucou Bayo Biagui Biaye Boye Cabral Carvalho Cissokho Corréa Danfa Diafouna Diagne Diakhate Diamé Diarra Diasse Diassy Dieisse Dieme

Etnia citada
Crioula Diola Sérère Peul Mancanhe Papel Manjaco Mancanhe Mandinga Diola Balanta Wolof Mancanhe Crioula Bambara Manjaco Balanta Mandinga Wolof Wolof Bainouk Bambara Wolof Manjaco Bainouk Diola

NOME
Diol Djiba Djighaly Fam Faty Fofana Fofo Gano Goudiaby Hane Ka Kadiona Kaly Kampintane Kathiaw Kenene Kinty Konnte Kor Koroboung Leye Lima Lopis Mancabou Mandika Marna

Etnia citada
Wolof Diola Mandinga Wolof Mandinga Mandinga Balanta Peul Diola Wolof Papel Mancanhe Mancanhe Mancanhe Mancanhe Halpulaar Manjaco Diola Manjaco Mandinga Wolof Mancanhe Diola Mancanhe Mancanhe Manjaco

NOME
Maro M'baye Mbengue Nahekane Nahoukane Ndione Ndiongue Ndiougou Ndour Pandoupy Preira Sakho Sanka Savane Sonko Soumaré Tamega Teuw Thiam Thioub Tidiane Tomy Touré Traoré

Etnia citada
Manjaco Wolof Wolof Mancanhe Mancanhe Wolof Wolof Wolof Sérère Mancanhe Manjaco Sarakholé Mancanhe Mandinga Diola Soninké Bambara Wolof Wolof Wolof Diola Mancanhe Mandinga Soninké

108

A análise dos quadros 1.1. a 1.3. evidencia, antes de mais, a composição multiétnica do Senegal. Os alunos citaram 19 etnias (incluindo o crioulo), as quais podem variar, em número, consoante os autores. Uma das referências que tomámos, neste domínio, foi o livro “Peuples du Sénégal”169, cuja publicação foi apoiada pelo Ministério da Cultura do Senegal e pelo Comissariado para as Relações Internacionais da Comunidade Francesa da Bélgica, segundo o qual estaríamos em presença de 16 etnias, na medida em que consideram os seus autores que os soninkés e os sarakholés são a mesma etnia, bem como os peuls e os halpulars. Para estes autores, algumas etnias constituem sub-grupos de outras: - Os toucouleurs seriam um sub-grupo da etnia peul; - Os lébous170 constituiriam um sub-grupo da etnia wolof; - Os bambaras constituem um sub-grupo da etnia mandinga. Estas acepções variam, como dissemos, de autor para autor, e de país para país171; contudo, para maior comodidade de leitura dos elementos colhidos no inquérito, seguidamente damos algumas definições inspiradas no Dicionário da África172, que nos parecem compatíveis com a linha dominante das fontes que conhecemos: - Diolas: povo da Baixa Casamansa, muito apegado à sua independência. São associados aos flups, aos diamatas, aos balantas, aos manjacos, aos mancanhes e aos bainouks. Alguns diolas vivem também do outro lado da fronteira com a Guiné-Bissau e a solidariedade permanece muito forte entre estas populações. Permanecendo largamente animistas, ainda que sensíveis ao Islão a Leste, são tradicionalmente governados por “reis-sacerdotes” e reagrupam-se no seio de associações (sociedades secretas) que mantêm uma forte coesão social. Cada família trabalha o seu lote de terra, mas a propriedade geral é colectiva, tal como os trabalhos de desmatamento. Habitando geralmente nas zonas florestais atravessadas por rios, os diolas cultivam principalmente o arroz, o milho e o sorgo, bem como plantas de consumo familiar (mandioca, ínhamo, feijão, batata doce), praticando, ainda, a pesca em água doce e a caça pequena.

DIATTA, Christian Sina; DRAME, Mamadou; DIOP, Abdoulaye Bara; BIDIAR, Jean-Paul Thiarthiar; NDIAYE, Raphaël; NDIAYE, Mamadou; TOUNKAR, Kéba: Peuples du Sénégal, Ed. Sépia, Saint-Maur,1996 170 Tradicionalmente residentes na Península do Cabo Verde e na ilha da Goreia 171 Para a Guiné-Bissau, por exemplo, vide: GARCIA, Francisco Proença, Guiné 1963-1974: Os Movimentos Independentistas, o Islão e o Poder Português, Comissão Portuguesa de História Militar e Universidade Portucalense Infante D. Henrique, Lisboa 2000 172 B. NANTET, Op. Cit., A tradução e a adaptação são nossas

169

109

- Mandingas ou Mandes: populações da África ocidental falando línguas mande e vivendo nas regiões servidas pela rede comercial “dyula”173 e no antigo império do Mali (Manden é raiz comum a Mali, Mandinga e Mande). Constituem o principal conjunto linguístico da sub-região. Dele fazem parte os dan e os gouro (Costa do Marfim), os mendé (Libéria e Serra Leoa), os bambara (Mali) e os mandingas propriamente ditos (Gambia e Senegal). Os malinkés (Guiné Conacri e Mali actual), manika ou mendeka (“gentes do Mali”), formam o grupo mais importante, com os seus mercadores “dyula” que difundiram o mande em toda a savana. No Fouta Djalon, os djalonkés era Mandes, ourives animistas que asseguravam a riqueza do império do Mali. Há uma forte identidade cultural entre estas populações associadas por antigas tradições e cujos clãs se referem, de perto ou de longe, aos impérios do Gana e do Mali. - Peuls, fulbes ou fulas: povos tradicionalmente criadores de gado que falam o fulfude. Os peuls intitulam-se fulbe (ou halpulars), mas são também chamados de peuls (países francófonos), fulani (países anglófonos) e fulas. Uma predominância de autores, como Mamadou Ndiaye174 e Makhtar Diouf175, consideram que, independentemente da sua designação, inclui os subgrupos toucouleur e laobé, critério adoptado pelas autoridades para o recenseamento de 1988, ao contrário do de 1976 em que os toucouleurs surgiam à parte176). A origem dos peuls é ainda misteriosa, sabendo-se que estão significativamente presentes em 16 actuais Estados africanos, numa área cujos vértices são a Mauritânia, a Noroeste, os Camarões a Sul e o Sudão a Oriente (quadrante do qual provêm e para onde voltarão, segundo as lendas tribais)177. Este povo de pastores e nómadas está tradicionalmente ligado ao seu gado, que é a sua única riqueza, e o leite, trocado contra o milho dos sedentários e os produtos manufacturados, é a única moeda. Os peuls repugnam separar-se dos seus animais, cuja carne não comem, a não ser aquando de cerimónias rituais. Nos peuls do Oeste, sedentários e islamizados, a sociedade contém castas de artesãos integrados nos quatro grandes clãs Peuls: Ba, Barry, Dia, Sow. Por último, recorda-se que os peuls se converteram muito cedo ao Islão.

Não confundir “dyula” (comerciantes) com os diola (etnia) C. S. DIATTA et al, Op. Cit., pp. 139 175 DIOUF, Makhtar, Sénégal, les ethnies et la Nation, Les Nouvelles Editions Africaines du Sénégal, Dakar, 1998, pp. 24 176 Há ainda quem considere, como alguns alunos participantes no inquérito, que os fula são um subgrupo dos peuls 177 C. S. DIATTA et al, Op. Cit., pp. 39 e ss.
174

173

110

- Sérères: Constituindo cerca de um quinto da população do Senegal, os sérères vivem sobretudo na costa a Sul de Dacar, até à foz do Saloum. Constituem uma das mais antigas populações do país. Assim, atribuem-se-lhes os vestígios do passado mais longínquos, em particular os restos de aldeias do vale do Senegal associados à metalurgia e a antigos cemitérios animistas. Terão desaparecido desta região no século XII, na sequência da islamização pelos almorávidas, seguido do aumento do poderio do reino do Jalofo. Originariamente animistas, muitos sérères converteram-se ao cristianismo com a chegada dos Europeus. - Soninkés ou sarakholés: povo vivendo no Oeste maliano, no Sudeste da Mauritânia e no Leste do Senegal. Agricultores praticando também a pecuária, os soninkés têm uma sólida tradição de comércio e de emigração. Constituídos a partir da mestiçagem de várias populações amalgamadas à época do império do Gana, serão também os sucessores dos agricultores expulsos das regiões mais setentrionais pela desertificação. - Wolofs ou jalofos: população constituindo perto de metade dos habitantes do Senegal, a maior parte dos quais são islamizados. O sistema social piramidal herdado do antigo império do Jalofo continua a ser praticado. Os wolofs compõem uma etnia que, tal como a sua língua que se tornou praticamente franca no Senegal, irradiou a partir da área original do Jalofo. Trata-se da maior etnia senegalesa, cuja importância social esteve muito tempo aquém da demográfica, mas que tende agora a inverter esta situação, graças ao talento comercial dos seus membros e à sua ascensão no poder político, principalmente desde 2002, a que não é alheia a vitalidade das confrarias religiosas, em particular, a mourida (os membros da outra grande confraria, tidjane, são associados a um comportamento mais contemplativo). Assim, de grandes cultivadores de amendoim, os wolofs passaram a comerciantes com um peso cada vez maior na economia senegalesa. No universo dos alunos inquiridos, ocorrem 132 nomes diferentes, dos quais 106 são exclusivos de uma etnia e, dos 26 restantes, 6 são maioritariamente referentes a uma só etnia (75% ou mais dos casos). Em geral, podemos assinalar uma certa constância na correspondência entre nome e etnia dos povos meridionais (Casamansa e costa a Sul da

111

Península do Cabo Verde), em contraste com a maior heterogeneidade das tribos178 do interior, particularmente os peul e os wolofs. O objectivo de reunir os dados recolhidos nestes quadros extensos é o de salientar, desde logo, que existe, no Senegal, uma grande correspondência entre os nomes e as etnias que permite, aos autóctones, saberem muitas vezes, pelo simples anúncio do nome, elementos sobre a condição social e a origem geográfica do interlocutor, senão com precisão, pelo menos situando a região da família deste e as etnias possíveis. Assim, podemos depreender que a sociedade senegalesa se apresenta fortemente estratificada, embora isso se verifique num plano informal: a Constituição garante, na letra, a igualdade entre todos. No Senegal e como poderemos apreciar adiante, a matriz de casamentos tradicionalmente “aceitáveis” entre etnias é, para o estrangeiro, quase esotérica, mas, por vezes, muito clara para os locais, constituindo um facto importante para o estudo das relações pessoais e para a compreensão da vida socio-política do país. No Senegal, a pertença étnica já não tem estatuto oficial nem é mencionada nos documentos de identidade. Todavia, praticamente ninguém a esconde, antes é referida com facilidade. Muitos patrónimos permitem a identificação étnica; eis alguns exemplos: - Os Fall, Guèye e Seck são wolofs; - Os Faye, Ndour e Sarr são sérères; - Os Diatta, Diédhiou e Manga são diolas; - Os Ba, Diallo e Sow são peuls; Na maior parte das sociedades senegalesas, ao lado de um patrónimo colectivo, que significa a pertença a uma família ou a um clã, cada pessoa tem um nome que a designa enquanto indivíduo. Mas mesmo o nome próprio é muitas vezes escolhido dentro de um leque restrito; por vezes, o nome invocará circunstâncias relativas ao seu nascimento, como é o caso na maioria dos diolas. Vale a pena determo-nos sobre algumas práticas diolas que, como veremos ao longo do inquérito, constituem o grupo mais significativo dos estudantes de Estudos Portugueses. Nos diolas, por exemplo, Boalijo significa “para que serve?” (usado, neste caso, com um intuito aparentemente depreciativo, com vista a desviar a atenção dos maus

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Este termo será sempre utilizado com o sentido de “cada uma das divisões de um povo”, “conjunto de famílias que provêm de um tronco comum, sob a autoridade de um chefe”, ou “conjunto de clãs” Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Ed.,7ª ed, 1995.

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espíritos de uma criança que nasce depois do ritual do Kanhalen); Kusumenso significa “reuniram-se”; Sibilumbai é “de onde vêm?” Por outro lado, os nomes diolas são muitas vezes escolhidos para honrar parentes. Contudo, é também prática corrente que, para além dos nomes oficiais, outros possam ser dados, formalmente ou não, para uso diário. Assim, os mesmos diolas podem adicionar ao nome tribal um outro, cristão ou muçulmano, não necessariamente inscrito no estado civil, sendo que o uso de um ou de outro é por vezes exclusivo, outras vezes não; em todo o caso, é-lhes indiferente que o nome de uso seja, ou não, o oficial. Um estudo sobre a marca étnica na escolha dos nomes próprios na área de Oussouye, na Casamansa179 constatou que 76% dos diolas, 91% dos manjacos e 90% dos mancanhes optaram por atribuir nomes próprios cristãos aos seus filhos, enquanto que 78% dos halpularen, 73% dos mandingas e 71% dos wolofs dão nomes muçulmanos aos seus filhos. Outro dado interessante do mesmo estudo, quando optaram por dar um nome étnico aos seus filhos, nenhuma das 260 crianças halpular recebeu um nome diola, enquanto que, nesta etnia, 47% dos nomes atribuídos relevavam de uma outra etnia. Marie-Louise Moreau conclui que a repartição dos indivíduos nas duas grandes categorias de nomes próprios está fortemente condicionada pela sua pertença étnica e que menos de 2% dos indivíduos possuem simultaneamente nomes cristãos e muçulmanos, o que leva a pensar que estes dois universos são vistos não somente como distintos, mas, também, como opostos. Contudo, assinala também que a existência de um nome religioso é mais uma forma de obter reconhecimento institucional, e não pode ser interpretada, necessariamente, como a adesão à religião em causa. De facto, o animismo continua presente e o nome diola, mesmo que, como vimos, não “oficial”, é por vezes o mais utilizado e significativo entre os diolas. Esta situação, que poderia levar á diluição, a prazo, de elementos identitários diolas, seria reforçada pela imagem depreciativa que outras etnias teriam daquela etnia (vista como constituída por empregadas domésticas e por camponeses atrasados no obscurantismo das práticas tradicionais), “atestada” pelo facto de não se verem nomes diola em crianças de outras etnias.

MOREAU, Marie-Louise, « Le marquage des identités ethniques dans le choix des prénoms en Casamance (Sénégal) », in Cahiers d’Études Africaines, Langues déliées 163-164, 2001. Note-se que, para este estudo, a autora considera « halpularen » os peuls e toucouleurs ; nos “mandingas”, inclui os bambaras; e nos “manjacos”, inclui os crioulos, o que a própria autora considera “discutível”.

179

113

Contudo, M.-L. Moreau regista o fenómeno do aumento significativo dos nomes diola no seio da etnia, o que considera um indicador de afirmação da identidade, correspondente “a um sobressalto identitário, a cuja afirmação a crise casamansence, com o seu movimento independentista, e a ocupação militar da região180 poderão não ser alheias”. A título ilustrativo da riqueza etnográfica do ocidente africano, vejamos também algumas características dos peuls. Na origem, os nomes peuls podiam designar a ocupação dos seus titulares (“peuls da vaca”, ainda dedicados à pastorícia, “peuls do livro”, dedicados ao Islão e ao ensino corânico, e “peuls do tambor” que detêm o poder nos grandes territórios). Assim, os peuls reconheciam-se através de quatro grandes clãs associados aos elementos da natureza (fogo, ar, terra e água), à cor dos bovinos (amarelo, vermelho, branco e negro), e aos quatro pontos cardeais: - Jal, Jallo (Dial, Diallo, mas também Ka, Kan ou Kane): associados ao Leste, ao sol nascente, ao símbolo do fogo e aliados à vaca amarela; - Ba (mas também Mbaalo e Balde): associados ao Oeste, ao poente, ao ar e à vaca vermelha; - Bari (Barry, mas também Sangare e Moodibaa’be – os letrados): associados ao Norte, à terra e à vaca branca; - Soh (Sow, mas também Sidibe, Dikko, Soonde): associados ao Sul, à água e à vaca negra.181 Salamatou Sow refere ainda “la parenté à plaisanterie” (termo utilizado para referir uma aliança entre tribos, povos e / ou castas que pode valorizar aspectos antepassados comuns, esquecer outros e facilitar ou dificultar casamentos ou tratamentos preferenciais) entre Jallo e Ba, ou entre Bari e Soh. Há ainda peuls mais identificados com o sedentarismo, que têm como nomes de clã mais usuais: Ly, Sy e Tall. Outros povos senegaleses, como os wolofs, os sérères ou os mandingas têm, também, nomes ligados a clãs; mas o objecto do presente trabalho e a dimensão aconselhável do mesmo não justificam o alongamento nesta matéria, para além destes

Marie-Louise MOREAU cita aqui a tese de doutoramento de MARUT, J.-C., “La question de la Casamanse (Sénégal). Une analyse géopolitique”, Université de Paris VIII, Paris 181 SOW, Salamatou, “Les noms sociaux en fulfulde”, in Cahiers d´études africaines, Langues déliées, 163-164, Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Paris, 2001

180

114

dois exemplos do vasto e complexo universo das nomenclaturas na África ocidental e das interpretações que elas consentem junto dos iniciados. 3.3.1.b - Idade Atente-se ao seguinte quadro relativo à repartição etária dos alunos: Quadro 2. Repartição etária dos alunos
Idade 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 Duel I 2 11 19 35 39 17 5 1 1 Duel II 1 3 13 18 22 18 7 3 1 Licence Maîtrise Total 2 12 22 52 66 53 44 19 15 7 1 1 0 0 0 1 % 0,7 4,1 7,5 17,6 22,4 18,0 14,9 6,4 5,1 2,4 0,3 0,3 0,0 0,0 0,0 0,3

4 9 13 16 7 3 2 1

1 5 4 8 4 1

1

A análise das idades dos alunos revela alguns aspectos marcantes: - O ingresso tardio na Universidade: só 0,7% dos alunos têm menos de 20 anos; - As dificuldades escolares: não há nenhum aluno de “Licence” (3º ano) com 21 anos, nem de “Maîtrise” com 23 e o maior efectivo (moda) em cada ano lectivo ocorre, em geral, na mediana (23 anos em “Duel I”, 24 em “Duel II”, 25 em “Licence” – cuja mediana seria 25,5 - e 27 em “Maîtrise”); - A permanência limitada na Universidade: devido às dificuldades escolares registadas e, provavelmente, à falta de meios financeiros, os alunos acabam cedo os estudos ou abandonam rapidamente, sem os concluir; - São em pequeno número os que terminam o curso; - Poucos iniciam a sua actividade profissional dentro da formação em Estudos Portugueses; - Verfica-se, nestes alunos, um atraso sistemático para o início de uma actividade profissional.

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Fica, assim, patente o difícil ambiente que ainda prevalece no Senegal para os estudos, quer pela pobreza geral, quer pelo implícito insucesso escolar no Ensino Secundário. Assim, a taxa de escolaridade no ensino primário era, em 2000, de apenas 60,7%, o que, traduz, contudo, uma nítida progressão durante a década anterior, pois aquele ratio era de 48,1% em 1990, mas as evoluções positivas foram uma regra em África, exceptuando a Namíbia e a Tanzânia182. 3.3.1.c - Local de nascimento Para melhor estudar esta matéria, vejamos um mapa da divisão administrativa do Senegal: Mapa 3: Regiões e capitais regionais do Senegal183

Analisemos agora a distribuição geográfica dos locais de nascimento dos alunos, relacionando-a com os anos que frequentam na Universidade Cheikh Anta Diop:
Fonte: MINEDAF, 8ª Conferência dos Ministros da Educação dos Países africanos, Dezembro 2002 e PNUD, matrizes elaboradas na base dos questionários nacionais relativos ao processo de acompanhamento dos Objectivos do Milénio para o Desenvolvimento, Agosto de 2003, citados por: RHAZAOUI, A; GRÉGOIRE, L-J; MELLALI, S: L’Afrique et les Objectifs du Millénaire pour le Développement, Ed. Económica, Paris, 2005 183 « Les Atlas de l’Afrique, Sénégal », 2000
182

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Quadro 3. Distribuição por área de nascimento
Ano Região / país
Dacar Djourbel Fatick Kaolack Kolda Louga Saint-Louis Tambacounda Thiès Ziguinchor Outros países 3 5 11 56 1 17 4 8 5 23 17 7 2 4 13 2 3 5 13 23 1 12 4 4 3 9 1 4 1 2 16 2 1 10 1 2 3 1 5 1 47 17 17 13 50 4 10 13 27 115 2 14,4 5,4 5,4 4,1 15,9 1,3 3,1 4,1 8,6 36,5 0,3

Duel I

Duel II

Licence

Maîtrise

Total

%

Os dados compilados no Quadro 3 evidenciam a predominância dos alunos do Sul do Senegal no universo dos estudantes de Português da Universidade. Com efeito, 52,4% dos estudantes nasceram nas duas regiões da Casamansa, a província mais meridional do Senegal e que separa a Gambia da Guiné-Bissau. Grosso modo e sem prejuízo de posteriores análises, a repartição indicada indicia a predominância das etnias diola, manjaco, mancanhe, mandinga, balanta, fula e papel. Contudo, é importante reter que parte dos elementos destas etnias nasceram já na região de Dacar (cidade e arredores), fruto do êxodo rural que se iniciou com a designação daquela cidade como capital da África Ocidental Francófona e que se intensificou a partir de 1960, quando se tornou a primeira – e, até ao momento, única – capital do Senegal. Também relevante é o peso de Thiès neste quadro, resultante da presença de muitos estudantes sérères. Os sérères residem em geral na “Petite-Côte” e no SinéSaloum, a Sul de Dakar, área pertencente às regiões de Thiès, Fatick e (pouco) Kaolack. 3.3.1.d – Etnia Procuraremos verificar se as etnias têm habitats tradicionais e se os elementos estatísticos permitem explicar a proporção de cada etnia na amostra. O primeiro aspecto

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relevante será a análise comparativa da repartição por etnias dos alunos com a do Senegal. Vejamos, para o efeito, o Quadro 4184: Quadro 4. Repartição das etnias na amostra de estudantes e na população do Senegal
Repartição das etnias na amostra de estudantes
Diola Wolof Sérère Manjaco Mancanhe Mandinga Balanta Peul Fula Bainouk Bambara Toucouleur Papel Sarakholé Lébou Socé 23,3% 15,7% 13,8% 9,8% 9,2% 5,3% 4,3% 3,0% 2,3% 2,0% 2,0% 1,6% 1,0% 1,0% 0,7% 0,3%

Repartição das etnias na população senegalesa
Wolof Sérère Peul Toucouleur Diola Mandinga Sarakholé Bambara Manjaco Mouro Balanta Lébou Socé Mancanhe Laobé Bassari 42,7% 14,9% 14,5% 9,3% 5,3% 3,6% 1,7% 1,3% 1,0% 1,0% 0,8% 0,8% 0,6% 0,3% 0,3% 0,1%

A etnia mais representada no universo de estudantes de Português é a diola que, no Senegal, é apenas a quinta. A percentagem de estudantes diolas na amostra é praticamente o quádruplo da sua representatividade no Senegal. Os wolofs seguem com 15,7%, apenas 1,9% a mais do que os sérères. Ora, na população senegalesa, a proporção entre wolofs e sérères é de 1,83 para 1, ou seja, quase o dobro. Com uma percentagem de alunos acima da representatividade na população senegalesa, temos as seguintes etnias: diola (4,4)185, manjaco (9,8), mancanhe (30,7), mandinga (1,5), balanta (5,4) e bambara (1,5). Refira-se o caso dos bainouks, fulas (quando citados à parte dos peuls) e papel que, segundo os autores citados, têm uma expressão irrelevante (no conjunto e com outras etnias, perfazem 1,3%) na população senegalesa. Ora, na amostra, estão representadas com, respectivamente, 2%, 2,3% e 1%. Com uma percentagem de alunos inferior à frequência relativa na população senegalesa, temos as etnias wolof (-63,3%), sérère (-7,3%), peul (-79,3%), toucouleur

Tendo em conta que utilizaremos os elementos fornecidos por C. S. DIATTA et al, Op. Cit., seguiremos a fusão das etnias que adoptam 185 Indicamos, entre parêntesis, a proporção entre as frequências relativas na amostra e na população senegalesa

184

118

(-82,8%), sarakholé (-41,2%), lébou (-12,5%), socé (-50%), bassari, laobé e mouros. Procuraremos, ao longo deste documento, dar pistas de explicação para esta situação. Façamos, também o exercício de simplificação, agrupando os dados em grandes grupos étnicos186: Quadro 5 - Repartição das grandes famílias de etnias na amostra de estudantes e na população do Senegal
Repartição das etnias na amostra de estudantes
Grupo subguineense (diolas, bainouks, bassaris, manjacos, mancanhes, balantas, papel) Grupo sahelo-sudanês (wolofs, sérères, lébous) Grupo mande (mandingas, soninkés / sarakholés, diakhanés, bambaras, djalonkés, socés) Grupo halpular (peuls / fulas, laobés, toucouleurs) Mouros 49,6% 30,2% 8,6% 6,9% -

Repartição das etnias na população senegalesa
Grupo sahelo-sudanês (wolofs, sérères, lébous) Grupo halpular (peuls / fulas, laobés, toucouleurs) Grupo subguineense (diolas, bainouks, bassaris, manjacos, mancanhes, balantas, papel) Grupo mande (mandingas, soninkés / sarakholés, diakhanés, bambaras, djalonkés, socés) Mouros 58,4% 25,1% 7,5% 7,2% 1,0%

O quadro fala por si, no que refere à predominância do grupo sub-guineense: praticamente metade do universo. O grupo mande, também mais presente a Sul do que a Norte do Senegal, completa o conjunto das famílias cuja proporção na amostra de estudantes é superior à da população do país. Contudo, a diferença de proporções indicia que uma elevada concentração de estudantes de Estudos Portugueses de uma determinada etnia não é, apenas, consequência da sua proximidade geográfica com países lusófonos, pois tanto Kolda, como Ziguinchor, fazem fronteira com a Guiné-Bissau. Ao invés, o grupo sahelo-sudanês tem uma proporção de estudantes claramente inferior à sua predominância (58,4%) na população senegalesa. Como vimos, esta constatação é também válida para a etnia sérère, que integra este grupo. O grupo halpular é o que tem uma maior desproporção, negativa, entre a percentagem nos alunos e na população.

186

MBOW, Raymonde, e KANE, Ahmadou Fadel, «Peuplement et ethnies», in « Les Atlas de l’Afrique, Sénégal», Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed., Paris, 2000

119

Mapa 4: Grupos étnicos no Senegal actual187

Para tentar encontrar explicações para as dissemelhanças entre as proporções das etnias na população senegalesa e no universo dos alunos de Estudos Portugueses da Universidade Cheikh Anat Diop, comecemos por relacionar as etnias dos alunos com as suas regiões de nascimento, de modo a verificar uma eventual diferenciação de zonas dos habitats das etnias:

187

MBOW, Raymonde, e KANE, Ahmadou Fadel, «Peuplement et ethnies», in « Les Atlas de l’Afrique, Sénégal», Les éditions Jeune Afrique, 5ª ed. Paris, 2000

120

Quadro 6. Relação etnia / área de nascimento dos alunos
Área Etnia
Diola Bainouk Balanta Crioula Mancanhe Manjacos Papel Wolof Lébou Sérère Mandinga Bambara Sarakholé Socé Peul Fula Toucouleur

Da- Djour- Fa- Kao- Kol- Lou- Saint Tamba- Thiès Ziguin- Costa car bel tick lack da ga Louis counda chor do Marfim
4 1 2 2 3 5 1 17 1 7 2 1 1 5 8 12 8 4 5 1 1 3 1 3 1 6 15 2 1 2 1 2 1 1 2 2 1 1 61 6 3 11 15 2 1

5 1 4 1 1 1 2 2

1 15

5

1 2

9

3 1

2

4 4

3 1 1

Verifica-se, no quadro 5, uma diferenciação zonal da origem das etnias188: a) Grupo subguineense (Ziguinchor, Kolda, Dacar) - bainouks, diolas e papel: Ziguinchor; - balantas, mancanhes e manjacos: Kolda; - crioulos: Dacar; b) Grupo sahelo-sudanês (Dacar, Thiès, Fatick) - wolofs: Dacar; - lébous: Dacar e Djourbel; - sérères: Fatick e Thiès; c) Grupo mande (Kolda, Ziguinchor, Dacar-Djoubel-Kaolack-Tamba-Thiés) - bambaras: Kaolack; - mandingas: Kolda; - sarakholés: Thiès e Ziguinchor; - socé: Djourbel; d) Grupo halpular (Kolda, Saint-Louis, Dacar-Tambacounda) - fulas: Kolda ; - peuls: Kolda;

188

Entre parêntesis, indicam-se as três principais, por gupo e por ordem decrescente

121

- toucouleurs: Djourbel. A diferenciação zonal apresenta, no entanto, variações significativas entre grupos étnicos: assim, o grupo subguineense regista a maior concentração (64,5%) de nascimentos na província mais citada, Ziguinchor, enquanto que os demais grupos têm uma muito maior dispersão: o grupo mande tem apenas 31% em Kolda, o grupo halpular, 25% em Kolda, e o grupo sahelo-sudanês tem 22,6% em Dacar. O quadro 6 permite ainda constatar a grande variedade das etnias presentes em Dacar, atraídas pelas funções inerentes ao estatuto de capital, mas também em Kolda e em Ziguinchor, revelando as características de cruzamento étnico da região da Casamansa que foi posse de diversos impérios coloniais. Para aprofundar esta análise, optámos por introduzir, também, as áreas de nascimento de pais e avós de alunos, interrelacionando-as entre si e com as etnias. O estudo da região de nascimento de pais e avós fornece indicações sobre origens étnicas, mobilidade das famílias dos estudantes e pode fornecer pistas, de natureza geográfica e cultural, sobre a motivação dos alunos para frequentarem os cursos de Português na UCAD: Quadro 7 – Relação etnia / região de nascimento dos pais
Depart.189 Etnia
Diola Bainouk Balanta Crioulo Mancanhe Manjaco Papel Wolof Lébou Sérère Mandinga Bambara Sarakholé Socé Peul Fula Toucouleur 1 8 18 1 19 3 2 1 3 4 1 13 1 4 1 2 2 5 6 45 2 4 3 15 1 9 6 1 1 1 2 13 2 1 4 1 2 1 2 1 11 15 16 10 14 3 13 31 6 3 2 3 1 CV(1) GB(2), GC(2) GB(3), MAU(1) MALI(1) 1 128 12 5 25 34 3 4 GB(3) GB(2) GB(3) GB(16) GB(7) GB(3)
Dkr Djb Ftk Klk Kld Lga St.L Tmb Ths Zgr Estrangeiro190

Legenda: Dkr – Dacar; Djb – Djourbel; Ftk – Fatick; Klk – Kaolack; Kld – Kolda; Lga – Louga; St.L – Saint-Louis; Tmb – Tambacounda; Ths – Thiès; Zgr – Ziguinchor; 190 Legenda: CV – Cabo Verde; GB – Guiné-Bissau; MAU – Mauritânia; GC – República da Guiné (Conacri);

189

122

No que respeita à região de origem dos pais dos alunos, mantêm-se no essencial as características assinaladas para os estudantes, mas com particularidades: a) Grupo subguineense (Ziguinchor, Kolda, Dacar-Kaolack-Thiès) - bainouks, diolas, mancanhes, manjacos e papel: Ziguinchor; - balantas: Kolda; - crioulos: Guiné-Bissau; b) Grupo sahelo-sudanês (Fatick, Thiès, Dakar) - lébous, wolofs: Dacar; - sérères: Fatick; c) Grupo mande (Kolda, Ziguinchor, Tambacounda) - bambaras: Kaolack; - mandingas: Kolda; - sarakholés: Dacar; - socés: Djourbel; d) Grupo halpular (Kolda-Saint-Louis, Djourbel) - fulas: Kolda; - peuls: Saint-Louis; - toucouleurs: Djourbel. Comparando a concentração dos nascimentos de cada grupo étnico no departamento citado mais vezes, temos que esta é de: 68,8% em Ziguinchor, para o grupo subguineense; 28,5% em Fatick, para o grupo sahelo-sudanês; 27,3% em Kolda, para o grupo mande; e 26,2% em Kolda ou Saint-Louis, para o grupo halpular. Assim, a concentração nos primeiros departamentos de nascimento dos pais era, nos casos sahelo-sudanês e halpular, maior do que no caso dos filhos e, no caso mande, inferior em 3,7%. Contudo, as diferenças não são muito significativas, destacando-se sobretudo o grupo subguineense, que apresenta, para ambas as gerações, valores superiores a 65% (arredondando à unidade) e os outros grupos que, na geração dos pais, têm valores compreendidos entre os 26 e os 28% e, na geração dos filhos, entre 23% (sahelo-sudanês) e 31% (mande). Em detalhe, podemos observar que os pais bainouks provêm exlusivamente da província de Ziguinchor, onde nasceram, também, 91% dos pais diolas.

123

Por sua vez, a percentagem de pais wolofs nascidos em Dacar era menor que a dos filhos (20% em vez de 37%), visualizando-se claramente a grande disseminação no território da etnia, sobretudo a Norte do rio Gambia. Quanto aos pais sérères, 93% nasceram nas regiões de Thiès e de Fatick mas esta província destaca-se (55% contra 38%), ao contrário do equilíbrio que se verifica nos filhos (36% para ambos os departamentos). Ao contrário dos filhos, é na região de Ziguinchor que nasceram mais pais manjacos (59%) e não em Kolda. Também no caso dos peuls, a região principal de nascimento dos pais é SaintLouis e não Kolda, embora esta tivesse um forte efectivo; parece notar-se, em todo o caso, um movimento geracional no sentido Norte-Sul. Por último, uma parte significativa (7,4%) dos pais nasceu noutros países e, em particular, na Guiné-Bissau (6,6%), onde nasceram 100% dos crioulos e 50% dos papel. Aprofundemos ainda mais a perspectiva de análise, observando, no quadro 7, os departamentos de nascimento dos avós, sempre em função da etnia: Quadro 8 – Relação etnia / região de nascimento dos avós191
Depart. Dkr Etnia Diola Bainouk Balanta Crioulo Mancanhe Manjaco Papel Wolof Lébou Sérère Mandinga Bambara Sarakholé Socé Peul Fula Toucouleur Djb Ftk Klk Kld 9 26 1 28 6 4 11 2 8 4 87 13 2 2 6 4 1 2 4 3 2 9 6 6 2 7 4 24 8 3 23 9 16 38 1 1 8 2 6 2 8 1 29 3 19 51 10 1 4 4
GB(12), GAM(2), GC(1), MALI(1), MAU(1) MALI(10)

Lga

St.L

Tmb

Ths

Zgr 228 18 7 29 34 4 6

Estrangeiro192
GB(10), MALI(3), MAU(1) GB(4) GB(12) GB(10), PT(1) GB(36), CV(2) GB(50) GB(4)

GC(4), GBO(1), MALI(1) GB(6), GC(4) 1CV

191 192

Legenda idêntica à do quadro 6, acrescida de: GAM – Gâmbia; GBO – Gabão; PT - Portugal Legenda: CV – Cabo Verde; GB – Guiné-Bissau; MAU – Mauritânia; GC – República da Guiné

124

O Quadro 8 ajuda a apreender melhor a mobilidade intergeracional das etnias. Vejamos, antes de mais, um resumo dos dados relativos aos grupos e às etnias: a) Grupo subguineense (Ziguinchor, Kolda, Guiné-Bissau) - bainouks, diolas, mancanhes, manjacos: Ziguinchor; - balantas: Kolda; - crioulos: Guiné-Bissau; - papel: Ziguinchor e Guiné-Bissau; b) Grupo sahelo-sudanês (Fatick, Thiès, Louga) - lébous: Dacar; - sérères: Fatick; - wolofs: Louga; c) Grupo mande (Kolda, Tambacounda, Guiné-Bissau) - bambaras: Mali; - mandingas: Kolda; - sarakholés: Tambacounda; - socés: Djourbel; d) Grupo halpular (Saint-Louis, Kolda, Kaolack) - fulas: Saint-Louis ; - peuls: Saint-Louis; - toucouleurs: Thiès Em matéria de concentração dos nascimentos nos departamentos mais citados, regista-se pouca diferença em relação ao que foi referido para os estudantes e seus pais: o grupo subguineense é o que apresenta menor dispersão, com 62,3% dos nascimentos em Ziguinchor; os demais grupos situam-se num curto intervalo: 33% dos halpulars nasceram em Saint-Louis; 29,2% dos sahelo-sudaneses nasceram em Fatick; e 22,8% dos mandes nasceram em Kolda. Analisando os resultados obtidos para os grupos étnicos nas três gerações, detectamos alguns padrões estáveis: - o grupo subguineense tem sempre, no departamento de Ziguinchor, o seu foco de nascimentos, com elevadas concentrações: (de avós para netos) 62,3%, 68,8%, 64,5%; - Kolda é sempre o departamento com mais nascimentos do grupo mande, e a tendência parece ser a de uma crescente concentração: 23%, 27%, 31%;

125

- o grupo sahelo-sudanês apresenta uma cada vez mais baixa concentração (29%, 28,5% e 23%); - o grupo halpular apresenta também uma tendência para reduzir a concentração (33%, 26%, 25%) e uma aparente tendência migratória de Norte para Sul. Acerca deste grupo valerá a pena relembrar que são, na origem, pastores, pelo que a desertificação progressiva do Sahel poderá ter influenciado parcialmente esta tendência migratória. Será também pertinente assinalar que os departamentos citados são bastante diferentes entre si, em termos de extensão, pelo que a “concentração” na maior província, a de Tambacounda, com os seus 59602km² (ou na de Saint-Louis, também muito vasta e, sobretudo, muito extensa) não é comparável à concentração efectiva nos 550km² do departamento de Dacar. Por último, assinale-se também uma nítida imigração, para o Senegal, de muitas das famílias dos alunos mas que, também nesta matéria, a situação é bastante distinta entre os grupos étnicos. Assim, o peso dos nascimentos no estrangeiro passa, no total, de 17,1% nos avós, para apenas um nascimento nos alunos. Ou seja, o fenómeno imigratório parece, para estas famílias consolidado, ainda que fosse interessante, noutro âmbito, avaliar o impacto da emigração, para fora do Senegal e do próprio continente africano, cuja pulsão existe entre os alunos, como veremos adiante. Mas, como dissemos, notam-se grandes diferenças entre grupos étnicos, no que respeita à imigração: Assim, podemos considerar que o grupo que parece ter origens mais antigas no território do Senegal, de acordo com os dados colhidos no inquérito, é o sahelo-sudanês, constituído, recordamos, por wolofs, sérères e lébous. O facto de nenhum avó, nem nenhum aluno destas etnias ter nascido fora do Senegal revela bem o seu enraizamento no país, conforme tivemos já a ocasião de assinalar, e, também, uma menor miscigenação, provavelmente devido ao facto de os seus “terroirs” não serem contíguos ás fronteiras do país. No que respeita aos nascimentos dos pais, apenas três ocorreram no estrangeiro (1,7%). No grupo halpular, 16% dos avós nasceram no estrangeiro, valor que desce para 8,2% nos pais e 3,1% entre os alunos deste conjunto étnico. O peso dos avós do grupo mande nascidos no estrangeiro é bastante relevante: 26,7%. Esse valor desce para 9,1% nos pais e para zero nos alunos.

126

Por último, o grupo subguineense tinha uma percentagem de avós nascidos no estrangeiro inferior à dos mandes - mas, ainda assim, elevada (25,9%) -; contudo, é nos pais subguineenses que há mais nascimentos no estrangeiro (11,3%), o que poderá indiciar laços fortes com povos da Guiné-Bissau (designadamente, os flups) que, por motivos diversos – instabilidade político-militar e pobreza crónicas – continuam a emigrar daquele país para o Senegal. Em pormenor, os avós diolas nascem predominantemente na Casamansa (90,8% em Ziguinchor, valor idêntico ao dos filhos, e 3,6% em Kolda) mas também no estrangeiro (4% na Guiné-Bissau, 1,2% no Mali e 0,4% na Mauritânia). As áreas de nascimento dos avós bainouks evidenciam uma diferença relativa às dos filhos e netos, a favor da Guiné-Bissau (18,2%). Os wolofs não são essencialmente originários da região do Cabo Verde, mas sim de uma faixa contígua ao litoral a Norte desta (o Jalofo), como se evidencia pelo facto de Louga ser a região onde nasceram mais avós (25%) daquela etnia, seguida de SaintLouis (19,2%) e de Dacar (18,5%). Em certas etnias, é maior a frequência de avós nascidos no estrangeiro do que em qualquer região do Senegal: os papel (100% na Guiné-Bissau), os crioulos (91% na Guiné-Bissau), os bambaras (50% no Mali), os mancanhes (47,4% na Guiné-Bissau) e os manjacos (49,5% na Guiné-Bissau). Nos pais séréres, Fatick continua a predominar (56,9%), embora com uma forte presença em Thiès (33,3%). Demonstra-se, também, o carácter itinerante dos peuls, com um notório equilíbrio da sua disseminação pelo Senegal (excepto em território sérère) e pelos países a Leste e Sudeste do Senegal. Contudo, no caso dos peuls propriamente ditos, destacase a região de Saint-Louis (38,7%) que inclui toda a margem esquerda do rio Senegal a jusante do município de Bakel, ou seja, uma grande parte do Fouta Toro. Observemos dois mapas de fluxos, entre os países e regiões de nascimento dos avós e dos pais, e destes para os seus filhos.

127

MAPA 5 – Fluxos migratórios dos avós dos alunos193

Na primeira fase, dos avós para os pais, nota-se imediatamente que o principal fluxo migratório ocorre da Guiné-Bissau para a Casamansa, com predominância de Ziguinchor, mas com uma presença importante de Kolda. Igualmente significativos, embora de intensidade menor, são os fluxos República da Guiné (Conacri) para Kolda, de Saint-Louis para Dakar, e de Thiès para Djourbel. No caso da Guiné-Bissau, dois factores relevam para este fluxo migratório: o parentesco entre vizinhos de uma fronteira artificial, traçada pelos europeus e que dividiu etnias e a Guerra Colonial. Não temos, neste trabalho, qualquer possibilidade de apurar a relação entre os fluxos Norte-Sul e Sul-Norte que, entre a Casamansa e a Guiné-Bissau ocorreram à época, nem conhecemos estudos nesse sentido que nos pudessem esclarecer melhor sobre qual das duas motivações terá sido a principal (sendo que, naturalmente, se tivesse predominado o factor étnico, seria provável que os fluxos se assemelhassem em ambas as direcções, enquanto que a motivação de fuga aos confrontos militares geraria um maior fluxo Sul-Norte). O caso de Saint-Louis é um exemplo de êxodo rural generalizado que se faz sentir no Senegal há décadas. Não é, consabidamente, um caso isolado em África, nem

193

Provavelmente entre a Segunda Guerra Mundial e a Independência do Senegal

128

no Mundo, embora pareça estar, agora, em fase de regressão. O fenómeno tem geralmente as mesmas causas – procura de emprego e de oportunidades nos polos urbanos – mas é, no caso senegalês, agravada por três factores adicionais: as secas recorrentes e a consequente desertificação que afecta o Sahel; as pragas de gafanhotos e uma emigração persistente para outros continentes. Atente-se, também, ao caso de Louga, que sofre um visível êxodo, embora disperso em todas as direcções. Quanto ao fluxo de Thiès para Djourbel, dever-se-á ao aparecimento, nesta região, da cidade de Touba, lugar “santo” da confraria mourida. De uma pequena aldeia, Touba tornou-se uma cidade com cerca de 400 mil habitantes (próxima de outra urbe significativa, Mbacké), onde a lei é, na prática, estabelecida pelo Califa Geral dos mouridas. É uma zona franca, e o local de muitos comércios que aproveitam as romagens constantes e, sobretudo, a grande peregrinação anual que junta cerca de dois milhões de fiéis. Não surpreende, deste modo, que muitos senegaleses a procurem para residir e / ou desenvolver uma actividade económica, ao abrigo da protecção e das influências que os chefes religiosos têm, de facto, em todas as esferas do poder. MAPA 6 – Fluxos migratórios dos pais dos alunos194

194

Provavelmente entre a Independência do Senegal e os anos 80

129

Na segunda fase – transição das regiões de nascimento de pais e filhos – verifica-se a redução do fluxo proveniente da Guiné-Bissau, embora permaneça importante. Significativo é o facto de não haver registo de qualquer fluxo da GuinéBissau para Ziguinchor, mas, apenas, para Kolda. De resto, há também um fluxo significativo de Ziguinchor para Kolda, o que pode ser parcialmente explicado pelo desvio das estradas comerciais entre a Guiné-Bissau e Dacar após o início dos actos de violência armada do MFDC. Com efeito, os assaltos a viaturas e, mesmo, a colocação de minas, ocorreram com maior frequência na área de Ziguinchor, prejudicando assim a rota Bissau - Ziguinchor – travessia do rio Gambia por “ferry” em Farafeni - Kaolack. Esta poderá ser, também, uma explicação para algum fluxo em direcção de Tambacounda (cruzamento das estradas para Dacar, para o Mali, para a Guiné Conacri via Kédougou ou via Medina Gounass e a alternativa para Bissau - quer por contornar a Gambia na ligação a Kolda, quer entrando no país vizinho por Pirada, na direcção de Gabú e Bafatá) e centro ferroviário na linha Dacar - Bamako) e para os êxodos de Ziguinchor para Dacar e, até Kaolack, significativamente maiores do que os de Kolda. Outro aspecto bem patente é a aceleração do êxodo em direcção de Dacar, um fenómeno que está hoje comprovado, estando a população da capital no limiar dos 2,5 milhões de habitantes, à custa de uma desertificação humana do interior e do Norte. A análise da dispersão dos habitats étnicos pode ser facilitada pela análise das regiões ou países de origem dominantes em cada geração, por etnia. Assim, se, para uma etnia, a região onde ocorre a maioria dos nascimentos for sempre a mesma ao longo das gerações, há constância; de igual modo, interessa também ver qual a frequência relativa dos nascimentos nas referidas regiões dominantes: quanto mais próximo do valor máximo de 100%, maior é a concentração da etnia numa dada região; ao invés, as etnias mais nómadas tenderão a não ter regiões de origem dominantes. Vejamos, assim, o seguinte quadro síntese que complementa, detalhando, a análise relativa aos grupos:

130

Quadro 9 – Regiões ou países onde ocorre a maior frequência relativa de nascimentos por etnia:
Geração Avós País / região dominante
Ziguinchor Ziguinchor Kolda RGB RGB RGB Ziguinchor Louga Dacar Fatick Kolda Mali Tambacounda Djourbel Saint-Louis Saint-Louis Thiès

Pais

Alunos

Etnia
Diola Bainouk Balanta Crioulo Mancanhe Manjaco Papel Wolof Lébou Sérère Mandinga Bambara Sarakholé Socé Peul Fula Toucouleur

Frequência relativa
90,8 81,8 57,8 90,9 50,0 49,5 50,0 25,2 75,0 56,9 37,7 50,0 37,5 100,0 38,7 33,3 40,0

País / Frequência País / Frequência região relativa região relativa dominante dominante
Ziguinchor Ziguinchor Kolda RGB Ziguinchor Ziguinchor Ziguinchor Dacar Dacar Fatick Kolda Kaolack Dacar Djourbel Saint-Louis Kolda Djourbel 90,8 100,0 72,0 100,0 44,6 59,7 50,0 20,4 75,0 54,9 46,9 36,4 30,0 100,0 35,1 42,9 50,0 Ziguinchor Ziguinchor Kolda Dacar Kolda Ziguinchor Ziguinchor Dacar Dacar Fatick Kolda Kaolack Thiès Djourbel Kolda Kolda Djourbel 85,9 100,0 61,5 100,0 42,9 51,7 66,7 36,2 50,0 35,7 52,9 33,3 40,0 100,0 21,1 57,1 33,3

Constata-se que certas etnias mantêm, ao longo das gerações, a mesma região ou país predominante em matéria de nascimentos: bainouks (Ziguinchor), balantas (Kolda), diolas (Ziguinchor), lébous (Dacar), mandingas (Kolda), papel (Ziguinchor), sérères (Fatick) e socé (Djourbel); contudo, convirá relembrar que as amostras de lébou, papel e socés são pequenas, pelo que a fiabilidade de eventuais conclusões é menor. Assinalem-se, também, as elevadas e constantes frequências relativas dos nascimentos dos bainouks e dos diolas em Ziguinchor, o que demonstra a fixação territorial daquelas etnias naquela região. Para continuar a analisar a dispersão, podemos analisar, no Quadro 9, duas ocorrências complementares: - as regiões e países onde ocorre a segunda maior frequência relativa de nascimentos por etnia; - o somatório das frequências relativas às primeira e segunda regiões onde ocorrem mais nascimentos:

131

Quadro 10: segundas áreas onde ocorrem mais nascimentos, por etnias
Geração 2º País / região mais citado RGB RGB RGB Portugal Ziguinchor Ziguinchor RGB Saint-Louis Djourbel Thiès RGB Kaolack Dacar, Louis St.Avós Frequência relativa 2ª ∑ 1ª maior e 2ª 4,0 94,8 18,2 26,7 9,1 38,2 33,7 50,0 19,2 25,0 33,3 19,7 30,0 25,0 14,5 25,0 20,0 100,0 84,5 100,0 82,2 83,2 100,0 44,4 100,0 90,2 57,4 80,0 62,5 53,2 58,3 60,0 Ziguinchor RGB Kolda RGB Saint-Louis Djourbel Thiès Ziguinchor Thiès St.-Louis, Tambacounda, Ziguinchor Kolda St.-Louis, Tambacounda, RGB, GC Dacar, Kolda, St.-Louis, Thiès, Ziguinchor 20,0 28,6 28,1 50,0 15,1 25,0 37,8 18,8 27,3 20,0 24,3 14,3 10,0 Pais 2º País / região Frequência mais citado relativa 2ª ∑ 1ª maior e 2ª Kolda 5,7 96,5 100,0 92,0 100,0 73,2 87,8 100,0 35,5 100,0 92,7 65,7 63,7 50,0 71,2 56,2 60,0 Ziguinchor Ziguinchor Kolda Dacar Thiès Djourbel Thiès Tambacounda Dacar, Djourbel, St.-Louis, Thiès Ziguinchor Dacar, St.-Louis Tambacounda Dacar, St.-Louis, Tambacounda, Ziguinchor 23,1 39,3 27,6 33,3 12,8 50,0 35,7 17,7 16,7 40,0 15,8 28,6 16,7 Alunos Frequência 2º País / região relativa mais citado 2ª ∑ 1ª maior e 2ª Kolda 7,0 92,9 100,0 84,6 100,0 82,2 79,5 100,0 49,0 100,0 71,4 70,6 50,0 80,0 36,9 85,7 50,0

Etnia Diola Bainouk Balanta Crioulo Mancanhe Manjaco Papel Wolof Lébou Sérère Mandinga Bambara Sarakholé

Peul Fula

Kaolack Kolda, RGB Ziguinchor

Toucouleur

Podemos separar as etnias em diversos grupos, consoante a dispersão das duas regiões em que ocorrem mais nascimentos de cada. Vejamos o Quadro 11: Repartição dos nascimentos pelas regiões dominantes de cada etnia
Etnias em que 80% ou mais dos nascimentos ocorrem na região dominante Etnias em que 80% ou mais dos nascimentos ocorrem nas duas regiões dominantes Etnias em que 50% a 80% dos nascimentos ocorrem na região dominante Etnias em que 50% a 80% dos nascimentos ocorrem nas duas regiões dominantes Etnias em que as duas regiões dominantes representam menos de 50% dos nascimentos Avós: bainouks, crioulos, diolas, socés Pais: bainouks, crioulos, diolas, socés Alunos: bainouks, crioulos, diolas, socés Avós: balantas, bambaras, lébous, mancanhes, manjacos, papel, sérère Pais: balantas, lébous, manjacos, papel, sérères Alunos: balantas, fulas, lébous, mancanhes, papel, sarakholés Avós: balantas, bambaras, lébous, mancanhes, papel, sérères Pais: balantas, lébous, manjacos, papel, sérères, toucouleurs Alunos: balantas, fulas, lébous, mandingas, manjacos, papel Avós: fulas, mandingas, peuls, sarakholés, toucouleurs Pais: bambaras, fulas, mancanhes, mandingas, peuls, sarakholés, toucouleurs Alunos: Bambara, Mandinga, Manjaco, Sérère, Toucouleur Avós: wolofs Pais: wolofs Alunos: peuls, wolofs

132

Da observação do quadro 11 resultam os seguintes traços gerais: Quatro das etnias têm o seu habitat tradicional concentrado numa só região (bainouks, crioulos, diolas e socés) e mantêm-se estáveis, sendo de reter a excepcional ligação, ao longo das três gerações, dos bainouks e dos diolas a Ziguinchor. No extremo oposto, é assinalável a dispersão dos habitats wolof e peul: as regiões onde nascem mais alunos peuls são Kolda, a Sul, seguida de Saint-Louis, a Norte, e Dacar, ao Centro; por sua vez, os wolofs apresentam valores mais altos em Dacar e Thiès, mas, também, em Saint-Louis, Kaolack e Djourbel. Os sérères apresentavam-se muito concentrados na mesma área, o Siné-Saloum, administrativamente dividida entre as regiões de Fatick e de Thiés, nas gerações anteriores. No que respeita aos locais de nascimento dos alunos desta etnia, assinala-se a emergência de Dacar, e nota-se uma tendência para o aumento da frequência relativa de nascimentos de sérères em Thiès, em detrimento de Fatick, o que se explica facilmente pela proeminência daquela cidade, a terceira mais povoada do Senegal (se for considerado o aglomerado de Touba / Mbacké), industrialmente activa (é um importante entroncamento rodo-ferroviário, sendo também conhecida como a “cidade do carril” e nela se implantaram indústrias importantes) e a sede de um departamento onde se encontram os mais importantes recursos turísticos (a “Petite Cote”, com a importante estação balnear de Saly Portugal, mas também Mbour, Somone e Nianing). Como referimos, os mandingas parecem estar em processo de concentração, enquanto os bambaras, os peuls, os sérères e os toucouleurs estarão a disseminar-se. Avaliemos, em conjunto, todos os nascimentos, por etnias e regiões / países: Quadro 12a – Repartição, por regiões, de todos os nascimentos no Senegal
Região de nascimento Dacar Djourbel Fatick Kaolack Kolda Louga Saint-Louis Tambacounda Thiès Ziguinchor Total Senegal Avós 46 30 91 32 95 48 69 21 79 345 856 Pais 34 28 51 21 90 12 33 13 49 223 554 Alunos 47 17 17 13 50 4 11 12 26 106 303 Total 127 75 159 66 235 64 113 46 154 674 1713 Frequência relativa 6,6 3,9 8,2 3,4 12,2 3,3 5,8 2,4 8,0 34,8 88,5

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Quadro 12b – Repartição, por países, dos nascimentos ocorridos fora do Senegal e sua frequência relativa ao total de todos os nascimentos
País de nascimento Cabo Verde Costa do Marfim Gabão Gambia Guiné-Bissau Guiné (Conacri) Mali Mauritânia Portugal Total Estrangeiro Avós 3 1 2 144 9 15 2 1 177 Pais 1 1 39 2 1 1 44 1 Alunos Total 4 1 1 2 183 11 16 3 1 222 Frequência relativa 0,2 0,1 0,1 0,1 9,5 0,6 0,8 0,2 0,1 11,5

A análise de todos os nascimentos de alunos e familiares referidos no inquérito permite confirmar a importância de Ziguinchor (34,8%) e da Casamansa em geral, que inclui Kolda (12,2%) e que, no conjunto, representa 47% do universo estatístico. Vejamos, ainda, um outro quadro comparativo:

Quadro 13 – Repartição da população senegalesa, por regiões, em 2000, e comparação com as frequências relativas da repartição dos nascimentos de alunos e familiares:
Região População em 2000195 Frequência relativa da poulação em 2000
24,4 9,5 6,6 11,6 8,4 5,8 8,8 5,4 13,8 5,7 100,0

Frequência relativa dos nascimentos de avós, pais e alunos
6,6 3,9 8,2 3,4 12,2 3,3 5,8 2,4 8,0 34,8 88,5

Frequência relativa dos nascimentos de pais e alunos
9,0 5,0 7,5 3,8 15,5 1,8 4,9 2,8 8,3 36,5 95,1

Frequência relativa dos nascimentos dos alunos
15,5 5,6 5,6 4,3 16,5 1,3 3,6 4,0 8,6 34,9 99,7

Dacar Djourbel Fatick Kaolack Kolda Louga Saint-Louis Tambacounda Thiès Ziguinchor Total Senegal

2326929 902327 628969 1100938 797165 555052 842409 518040 1310933 543886 9526648

Ziguinchor e Kolda são as únicas regiões onde a frequência relativa de nascimento de alunos é superior à da população. Sendo o valor de referência da
Fonte : Departamento de Projecções e de Estatísticas do Ministério da Economia e das Finanças citado pelo Programa das Nações Unidas para o Desevolvimento, Rapport National sur le développement humain au Sénégal, 2001 – Gouvernance et Développement Humain, PNUD, 2001
195

134

população aquele obtido em 2000, é naturalmente discutível compará-lo com as regiões de nascimento e, em particular, as dos pais e dos avós, na medida em que, para tal, seria importante conhecer a repartição da população há 25 e 45 anos atrás, por exemplo. Contudo, podem-se tirar pistas de interpretação, do facto, por exemplo, de que, tanto no agregado das três gerações, como no dos nascimentos de pais e filhos, Fatick tem, também, frequências relativas superiores à repartição da população senegalesa em 2000, o que poderá querer dizer que, ou o peso da população Sérère está a diminuir em Fatick, ou aquela etnia se está a transferir para Thiès. Ainda assim, as frequências dos nascimentos de alunos e a da população de Fatick e Tambacounda, em relação ao todo nacional, estão próximas, divergindo 1% e 1,4%, respectivamente. As observações dos dois parágrafos anteriores sugerem a divisão do território senegalês em três áreas, no que diz respeito à apetência das populações para estudarem o Português: - A Casamansa, que se dirá de alta apetência; - As regiões de Thiès, Fatick e Tambacounda (ou seja, um eixo aproximativamente transversal a Norte da Gâmbia, com a excepção de Kaolack), de apetência média; - As regiões a Norte desse “eixo” e de Kaolack, de apetência baixa (embora Dacar apresente uma evolução sensível). O caso específico da Casamansa suscita alguns comentários adicionais: a região representa 38,8% dos nascimentos de avós, 52,3% dos nascimentos de pais e 51,3% dos nascimentos de alunos, ou seja, as frequências relativas dos pais e dos alunos são quase idênticas, mas representam um significativo acréscimo em relação à dos avós. Tal facto explica-se pelas migrações dos avós, sobretudo a que teve origem na Guiné-Bissau, com destino à Casamansa: com efeito, 9,5% de todos os nascimentos ocorreram na Guiné-Bissau, mas a repartição por gerações é muito desigual (13,9% dos avós, 6,5% dos pais e 0% dos alunos). A Guiné-Bissau, na qual ocorreram 82,4% de todos os nascimentos ocorridos no estrangeiro, é claramente o maior foco de origem das migrações de familiares ascendentes dos alunos e o seu peso na amostra indicia que esse factor será porventura relevante nas motivações para a escolha dos cursos de Português na Universidade Cheikh Anta Diop.

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Sabe-se que, dos restantes países vizinhos, houve migrações significativas para o Senegal, mas estas não se reflectem na nossa amostra. Com efeito, o Senegal teve, ao longo do Século XX, um saldo migratório positivo. Numa primeira fase, até aos anos 1950-60, grandes contingentes de trabalhadores do Mali, da Guiné (Conacri) e, mesmo, do então Alto Volta (hoje, Burkina Faso) vinham sazonalmente para o Senegal, na estação quente e húmida (“hivernage”), para o cultivo do amendoim (de que o Senegal chegou a ser o maior produtor). Destes trabalhadores, muitos acabaram por se estabelecer no Senegal, com as respectivas famílias. O movimento sazonal para a bacia do amendoim (cujo polo principal é Kaolack) era também interno: em primeiro lugar, com os wolofs, mas, também, com os toucouleurs e os soninkés / sarakholés. Os wolofs que, por sua vez, foram a primeira etnia a migrar massivamente para Dacar, deram início a um importante êxodo rural que só não teve consequências mais visíveis por causa das elevadas taxas de crescimento natural que asseguraram um crescimento da população senegalesa de 100,1% entre 1976 e 2000196, embora desigualmente repartido (a taxa de crescimento natural entre 1988 e 1995 variou entre 1,3% em Louga e 3,8% em Dacar e em Djourbel). Com a independência, as estatísticas tornaram-se menos fiáveis e não existe um balanço oficial do saldo migratório senegalês desde então (embora, na actualidade, se saiba que é largamente desfavorável), tanto mais que o exercício é dificultado pelos laços de parentesco e linguísticos que unem residentes do Senegal, da Gâmbia, da Guiné-Bissau, da Guiné (Conacri), do Mali e da Mauritânia. Sabe-se, em relação às comunidades lusófonas e de acordo com informações transmitidas pelas respectivas Embaixadas em Dacar, que os efectivos de originários de Cabo-Verde e da Guiné-Bissau rondarão os 20 a 25 mil no primeiro caso (com tendência de estagnação) e serão superiores a este valor, com tendência crescente, no segundo caso. A emigração caboverdiana para Dacar (capital da África francófona ao tempo colonial e, por isso, também ponto de passagem para uma emigração para a França) é

Fonte : Departamento de Prospecção e Estatística do Ministérios das Finanças, citada por PNUD, Op.cit.

196

136

um tema clássico da própria literatura e da música, tendo ocorrido, ao contrário da guineense, principalmente antes da independência, em 1975: “Pouco se sabe da emigração para o Senegal. Trata-se de tema abandonado pela quase totalidade dos investigadores caboverdianos, mas curiosamente, também não é considerado pelos investigadores não-caboverdianos que se têm interessado pela evolução do arquipélago. (…) Consideramos de pura incoerência histórica pretender fixar o início da emigração caboverdeana para o Senegal, a partir de 1903. Citamos o caso dos lançados que exerceram uma acção preponderante sobre o comércio do litoral e interior da África Ocidental que eram na maioria naturais das ilhas de Cabo Verde. A construção do porto de Dakar recebeu uma grande contribuição da mão-deobra caboverdiana, a tal ponto que l’Avenue Gambetta era popularmente conhecida como l’Avenue des Portugais.”197 Relativamente à Guiné-Bissau, sabe-se que os manjacos e os mancanhes emigraram em grande número, na segunda metade do Século XX, para a Baixa Casamansa; sabe-se, ainda, que os fulas se dirigiram antes para a Alta Casamansa ou para Dacar, onde denotam algum activismo cultural e associativo, sendo bastante distinto o modo de inserção na sociedade senegalesa. Os guineenses tenderam a estabelecer-se, num primeiro tempo, na Casamansa, para prosseguirem as suas ocupações tradicionais (agricultura e pesca) e, em Dacar, são essencialmente operários e empregados domésticos (exceptuando um pequeno grupo de quadros superiores das instituições internacionais – Nações-Unidas, Bretton Woods, União Económica e Monetária da África Ocidental, com delegações regionais em Dacar, que ali têm o seu lugar de origem que suspendem ocasionalmente para presenças, não raras vezes efémeras, nos Governos guineenses). Os caboverdianos concentram-se em Dacar, onde exercem, tradicionalmente, grande parte das artes, sejam musicais, sejam ofícios como electricistas, carpinteiros, marceneiros, barbeiros – de que tinham quase o exclusivo na capital – e cabeleireiras e, no caso das mulheres, alguns trabalhos domésticos. Numa segunda fase ou geração, os caboverdianos desenvolveram uma importante actividade comercial ou empresarial (restaurantes, agências de viagens e imobiliárias, empresas de armação e industriais) e, talvez por força de uma maior atenção dos pais, uma parte significativa prosseguiu

197

CARDOSO, Pedro, Folclore Caboverdiano, Edição da Solidariedade Caboverdiana, Paris, 1983, pp. XIII (Prefácio de Alfredo Margarido)

137

estudos superiores, estando aquela comunidade bem representada ao nível de profissões como médicos, advogados, magistrados, gestores de empresas e quadros superiores. A diferença de comportamento entre as duas comunidades “lusófonas” (que tendem, na realidade, a expressar-se nos respectivos crioulos do Português) está também patente na amostra de alunos: sendo relativamente idênticas na população, a percentagem de alunos de origem guineense é elevada, enquanto que apenas 0,2% de todos os estudantes, pais e avós nasceram em Cabo Verde. A mera origem familiar num país lusófono constituirá, nestes termos, uma condição suficiente para motivar o estudo do Português na Universidade Cheikh Anta Diop? 3.3.1.e – Língua e miscigenação étnicas Por curiosidade, pedimos aos alunos que designassem a sua língua étnica. Os resultados confirmam o facto de muitas etnias terem línguas próprias, que utilizam. Contudo, não questionámos sobre a língua mais correntemente usada, pois sabe-se que o Wolof se tornou uma língua quase franca, falada, no mínimo, por 3/4 da população senegalesa. Assim, podemos fazer uma distinção em função da regra da associação etnia / língua: - Nenhum bainouk, balanta, bambara, crioulo, mancanhe, sarakholé, socé, soninké, toucouleur ou wolof declara qualquer outra língua para além da que tem o nome da sua própria etnia; - Os lébous e papel, devido, porventura, à sua reduzida presença na amostra, dividem-se: os lébous citam, em igual proporção, o Lébou e o Wolof; e 1/3 dos papel refere o crioulo como língua; - As demais etnias referem uma língua predominante e, num ou noutro caso, uma segunda ou terceira: para além do mandinga que diz falar Socé (na verdade, são a mesma língua), um manjaco cita como língua o Pulunde e um sérère refere falar Diola. Nos restantes casos, citem-se apenas dois aspectos: - Os diolas falam a sua própria língua em 94% dos casos. Dos restantes, 4,3% preferem referir sub-grupos linguísticos (Bayotte, Erame, correspondentes a aldeias) e um aluno cita como língua étnica o crioulo;

138

- O Pulaar é falado pelos peuls, pulaars e por dois fulas (que referiram, no inquérito, que os fulas são Pulaars). Assim, constata-se que, não obstante a tendência para generalizar o Wolof, como “língua nativa” (sobretudo dirigida a partir de Dacar e recorrendo aos meios audiovisuais de comunicação social), a par do Francês, língua oficial, as etnias senegalesas resistem à assimilação e salvaguardam a sua identidade, no plano linguístico e não só; de facto, observem-se os quadros seguintes, relativos à miscigenação étnica: Quadro 14a - Casamentos dos pais – miscigenação étnica - grupo subguineense
Mães Pais
Diola Bainouk Balanta Crioulo Manjaco Mancanhe Papel 66 2 1 1 1 4 11 1 1 1 27 1 27 2 1 1 diola bainouk balanta crioulo manjaco mancanhe papel mandinga fula

Quadro 14b - Casamentos dos pais – miscigenação étnica - grupo sahelo-sudanês
Mães Pais
Wolof Lébou Sérère 37 1 39 1 2 1 1 1 1 3 1 wolof lébou sérère diola mandinga bambara sarakholé peul toucouleur 1

Quadro 14c – Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo mande
Mães Pais
Mandinga Bambara Sarakholé Socé man din ga 6 bam ba ra 1 3 1 sara kho le dio la 1 1 bai nou k 1 ba lan ta 1 man jaco 1 wo lof 1 2 2 sérè re 1 peul tou cou leur mou ros 1 1 1 1

1

Quadro 14d – Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo halpular
Mães Pais
Peul Fula Toucouleur 12 6 2 1 2 1
peul fula toucouleur diola criola wolof lébou sérère bambara

1

1

2

1

1

139

Quadro 15a – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo subguineense
Avós Avôs
Diola Bainouk Balanta Crioulo Manjaco Mancanhe Papel
129 12 24 1 1 2 2 42 39 4 1 1

diola

bainouk

balanta

crioula

manjaco

mancanhe

papel

outros
1

Quadro 15b – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo sahelo-sudanês
Avós Avôs
Wolof Lébou Sérère
63 4 1 72 1 4

wolof

lébou

sérère

sarakholé
2

peul
1

toucouleur
1

outros
1

Quadro 15c – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo mande
Avós Avôs
Mandinga Bambara Sarakholé Socé

mandinga
17

bambara
8 1

sarakholé
1 1 2

diola
4

balanta
2

wolof

sérère

peul

outros
1 1 1

1 3 1

Quadro 15d – Casamento de avós – miscigenação étnica – grupo halpular
Avós Avôs
Peul Fula Toucouleur
23 14 6 3 3

peul

fula

toucouleur
1

diola

papel

wolof
1

sérère

mandinga

Através dos quadros anteriores, pretendemos observar até que ponto, nos casamentos, as pessoas de cada etnia procuram manter-se-lhe fiéis à etnia, ou se há uma miscigenação. Os resultados não deixam dúvidas e reflectam um traço colectivo da sociedade senegalesa, a da preferência à própria etnia quando se trata de encontrar um cônjuge. Mas há diferenças por etnia e por sexo:

140

Quadro 16 – Frequência relativa dos casamentos com pessoas da mesma etnia
Etnia dos Pais
Crioulo Fula Papel Sérère Mancanhe Diola Balanta Manjaco Wolof Bainouk Peul Bambara Lébou Mandinga Toucouleur Sarakholé Português Socé

%
100,0 100,0 100,0 97,5 96,4 95,7 91,7 90,0 78,7 66,7 66,7 50,0 50,0 40,0 33,3 20,0 0,0 0,0

Etnia das mães
Papel Manjaco Mancanhe Balanta Sérère Diola Fula Wolof Bainouk Mandinga Peul Bambara Lébou Sarakholé Toucouleur Crioulo Mouro

%
100,0 96,4 93,1 91,7 90,7 86,8 85,7 80,4 80,0 75,0 66,7 50,0 50,0 50,0 50,0 20,0 0,0

Etnia dos avôs
Bainouk Balanta Fula Lébou Mancanhe Diola Sérère Peul Manjaco Wolof Mandinga Bambara Papel Crioulo Toucouleur Sarakholé Socé Mouro

%
100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 99,2 97,3 92,0 91,3 87,5 68,0 66,7 66,7 50,0 50,0 33,3 0,0 0,0

Etnia das avós
Fula Lébou Mancanhe Manjaco Mandinga Diola Balanta Serère Bambara Wolof Peul Bainouk Toucouleur Papel Crioulo Sarakholé

%
100,0 100,0 100,0 100,0 94,4 94,2 92,3 91,1 88,9 88,7 88,4 85,7 75,0 66,7 33,3 33,3

Assim, no que respeita aos pais, vejamos aspectos sobre a fidelidade étnica nos casamentos. Verifica-se uma absoluta fidelidade à etnia dos homens fulas, papel e crioulos, embora o número de ocorrências seja pequeno nas duas últimas, logo estatisticamente pouco relevantes; nos casos femininos, apenas a etnia papel parece ter absoluta uma fiedelidade absoluta. É curiosa a diferença entre a prática dos fulas inquiridos e a dos peuls que, em princípio, são uma só etnia; tal situação poderá explicar-se por desvio estatístico (este universo não é suficientemente grande para garantir conclusões), ou por particularidades sociais locais que indicam que, mesmo no seio de uma família étnica, há diferenças assinaláveis, possivelmente determinadas pelo meio envolvente. Regista-se uma fidelidade praticamente integral (superior a 90%) nos homens sérères (97,5%), mancanhes (96,4%), diolas (95,7%), balantas (91,7%) e manjacos (90,0%), e, nas mulheres manjacas (96,4%), mancanhes (93,1%), balantas (91,7%) e sérères (90,7). Constata-se uma fidelidade superior a 50% em quase todas as etnias, excepto, nos homens mandingas, toucouleurs e sarakholés, e nas mulheres crioulas (assinale-se, também neste caso, que o baixo número de crioulas na amostra não permite que se considere representativa da “etnia” ou do grupo). Quanto aos avós, refira-se: - que a fidelidade à etnia parece ser maior do que a dos filhos (pais dos alunos);

141

- a absoluta fidelidade, nos homens bainouks, balantas, fulas, lébous e mancanhes, e nas avós fulas, lébous, mancanhes e manjacas; - uma grande fidelidade (superior a 90%) nos homens diolas, sérères, peuls e manjacos, e nas mulheres mandingas, diolas, balantas e sérères; - uma fidelidade superior a 50% em quase todas as etnias, excepto nos avôs sarakholés e nas avós crioulas e sarakholés. Para complementar esta análise, vejamos o seguinte quadro: Quadro 17 – Outras etnias com que se registam casamentos
Etnia
Bainouk Balanta Bambara Crioulo Diola Fula Lébou Mancanhe Mandinga Manjaco Mouro Papel Peul Português Sarakholé Sérère Socé Toucouleur Wolof

Pais
1 1 2 0 3 0 1 1 9 3 0 5 1 3 1 1 3 7

Mães
1 1 3 4 9 1 1 2 2 1 2 0 4 1 3 2 5

Avôs
0 0 4 1 1 0 0 0 4 3 2 1 2 2 2 1 2 5

Avós
1 1 1 1 3 0 0 0 1 0 2 3 3 4 2 4

Com o quadro 17 pretendemos verificar se, quando não há fidelidade absoluta à própria etnia para casar, há uma dispersão dos restantes matrimónios por muitas ou poucas outras etnias. E os resultados permitem distinguir dois grupos de etnias: as que se “misturam” com poucas etnias e as que, aparentemente, são menos selectivas. Antes de mais, assinale-se que em nenhuma etnia se registou, no conjunto de todos os estratos familiares, uma incompatibilidade absoluta. Contudo, as etnias bainouk, balanta, fula, lébou, mancanhe e papel (a amostra de socé não é, de facto, representativa e deve ser vista como mandinga) são claramente renitentes em diversificar as suas uniões e não o fazem com etnias com as quais não tenham uma ligação evidente, seja ela de coabitação geográfica, de origem comum ou de parentesco linguístico. Assim, as associações constatadas são as seguintes:

142

1. Nas avós (não há miscigenação por iniciativa masculina): bainouk – manjaco; balanta – mandinga; papel – crioulo; e papel – português; 2. Nos pais: bainouk – diola; balanta – diola; lébou – peul; e mancanhe – crioulo; 3. Nas mães: bainouk – mandinga; balanta – mandinga; fula – diola; lébou – peul; mancanhe – diola; e mancanhe – manjaco. Ou seja, as associações constatadas são maioritariamente intra-subguineenses (5), ocorrendo também entre estes e mandes (2), portugueses (1) e halpulars (1); a associação que não envolve subguineenses dá-se entre sahelo-sudaneses e halpulars, o que também não surpreende. No oposto, os diolas, mandingas, peuls e wolofs mencionam mais de 15 outras etnias com as quais casaram. Contudo, estes casos são bastante diferentes entre si: nos diolas, são as mulheres que aceitam mais facilmente (ou aceitam as suas famílias por elas) casar com outras etnias; nos mandingas são, ao contrário, os homens quem mais contribui para diversificar os casamentos; as únicas etnias que têm um comportamento semelhante em ambos os sexos são os peuls e os wolofs. Face a quanto precede, podemos concluir que, em geral, as pessoas que desejam contrair matrimónio, fazem-no preferencialmente com alguém da mesma etnia (ainda que, assinale-se, a poligamia seja legalmente permitida no Senegal). Assim, 6 das 18 etnias analisadas198 têm, no conjunto das duas gerações analisadas, uma média igual ou superior a 90% de casamentos com pessoas da mesma etnia: mancanhes (97,3%), fulas (96,5%), manjacos e sérères (94,3%), balantas e diolas (94%). Todas estas etnias habitam tradicionalmente a Casamansa, à excepção dos sérères. Por outro lado, das etnias com amostras minimamente significativas, a toucouleur é aquela com uma menor percentagem de fidelidade étnica: 52%, ainda assim maioritária. Mesmo as etnias conhecidas pela sua maior mobilidade, os wolofs e os peuls, apresentam valores relativamente altos de fidelidade étnica: 84% e 78,5%, respectivamente.

Consideramos, para este efeito, o crioulo como uma etnia – o que é obviamente discutível – mas não o português.

198

143

Nestes termos, a ideia de que o Senegal é um país de intensa miscigenação étnica199 propagandeada oficialmente, sobretudo por um núcleo wolof mourida muito activo, só pode ser entendida comparativamente com o passado ou com outros Estados africanos. No entanto, fica claro, na amostra, que há sempre excepções, em todas as etnias minimamente representadas, e que a miscigenação ocorre com diversas outras etnias. Analisando os dados do quadro 17 e fazendo a média das quatro categorias (pais, mães, avôs e avós) no que respeita ao número de outras etnias com as quais se registaram casamentos, os valores obtidos variam entre o mínimo dos Fula (0,25) e o máximo dos Wolof (5,25%). Já vimos que o comportamento dos géneros, dentro de cada etnia, pode variar; mas assinale-se que este indicador atinge os seus três valores mais altos em etnias com percentagens de fidelidade bastante diferentes: 5,25 nos Wolof (84% de fidelidade), 4 nos Diola (94%) e nos Mandinga (69,3%). E sabe-se que, quando a pessoa decide não casar no interior da etnia, vários factores entram em jogo na escolha, dos quais a coabitação local, a afinidade cultural / linguística, e a segregação por castas. Um dado interessante pode ainda ser extraído das análises precedentes. Das etnias com uma representatividade na amostra igual ou superior ao dobro da sua representatividade na população senegalesa, todas têm uma fidelidade à etnia, na escolha da pessoa a desposar, muito elevada (83,3% dos bainouks, 83,5% dos papéis, 94% dos balantas e dos diolas, 94,3% dos manjacos, 96,5% dos fulas e 97,3% dos mancanhes). E fica por saber se, caso as amostras das etnias bainouk e papel fossem maiores, se os valores então apurados não tenderiam a alinhar-se com os outros, acima dos 90%. Os dados até agora apurados suscitam uma questão: por que motivo(s) os povos da Casamansa – ou do grupo subguineense, mais propriamente – apresentam, em vários aspectos, comportamentos muito distintos dos demais grupos senegaleses? Detenhamo-nos, por momentos, sobre o conceito de “parenté à plaisanterie”, acima referido e que é alvo de estudos e de algum debate no Senegal.200 Há vários tipos de parentescos, e já nos referimos aos parentescos entre patrónimos.
M. DIOUF, Op. Cit., pp. 95 Seguimos, para este tópico, DIALLO, Youssouf, “Identités et relations de plaisanterie chez les Peuls de l’ouest du Burkina Faso”, in Cahiers d’études africaines, parentés, plaisanteries et politique, 184, 2006, pp 709 e ss. Traduziremos parenté à plaisanterie, literalmente, “parentesco para gracejo”, por “parentesco.”
200
199

144

Um outro parentesco clássico é o que une os peuls e os ferreiros, resultante de uma suposta aliança sagrada. As regras da aliança entre ambos prescrevem a entreajuda recíproca, evitar conflitos entre membros dos dois grupos e a interdição da aliança matrimonial. Ora, quanto mais sagrada é considerada a aliança, mais pesadas são as obrigações e acutilantes os “gracejos” entre aliados. No caso da aliança peuls / ferreiros, por exemplo, são interditos casamentos entre os verdadeiros parceiros rituais e a transgressão das regras e tabus sexuais pode ter grave consequências, através de sanções ocultas que trazem a morte ou o azar para o parceiro faltoso. Por isso, uma transgressão das regras exige sempre uma reparação, pecuniária ou meio de um sacrifício expiatório. Outro exemplo será a relação entre bambaras e peuls, que obriga os segundos a servir um dos primeiros, tratando-lhe do gado, sem o que será tratado de fútil. Não se trata, aqui, de uma relação resultante de uma aliança celebrada no passado, mas antes ilustrando as relações de força do passado. Uma das consequências dos “parentescos” é a adopção pelos cativos ou dominados, voluntária ou por imposição, dos patrónimos dos dominantes. Esta é uma das razões pelas quais alguns patrónimos bem marcados de uma etnia se disseminaram por outras. Em Ségou (Mali), por exemplo, o clã real atribuía o epíteto de “Fula” (ou peul) a todos os indivíduos, livres ou servos, e grupos de indivíduos que tinham como actividade principal a vigilância dos rebanhos bovinos. Assim, um parentesco inicial entre dois patrónimos originariamente ligados, intrinsecamente, a duas etnias específicas, pode actualmente ser invocado por pessoas com esse nome mas de outras etnias e/ou funções sociais. Youssouf Diallo dá o exemplo dos Ouattara, inicialmente Dogossié-fing, um grupo de caçadores itinerantes da actual Costa do Marfim que se tornaram vassais de Bamba, influente chefe de guerra do Kong e foram, por isso, chamados de bamba-jon (escravos ou sujeitos de Bamba). Ora, séculos depois, na África ocidental, é tradição que, quando um Ouattara encontra um Kulubali (Koulibaly), Koné, Bamba, Câmara, Diarra ou Sidibé, irão trocar gracejos. No Senegal, os “parentes” tratam-se frequentemente por primos. Na “vox populi”, os parentescos são inúmeros: os sérères seriam cativos dos toucouleurs, os sérères seriam primos dos peuls, os sérères seriam primos dos diolas, etc. Contudo, alguns parentescos não são tão antigos como parece e o conceito presta-se a manipulações de propaganda por parte de qualquer Estado desejoso de consolidar a unidade nacional feita, como sabemos, a partir das fronteiras imprudentemente desenhadas pelo colonizador. 145

Etienne Smith201 tenta evidenciar que, “no contexto senegalês, a récita dos parentescos é uma tentativa de reorganização dos contos plurais e divergentes nascidos da crise do regime de verdade histórico do nacionalismo senegalês. Apresenta-se como uma pedagogia da convergência que insiste sobre as similitudes e as ligações horizontais “pelo lado” entre comunidades, a fim de, por um lado, tirar legitimidade às imaginações separatistas e, por outro, de fazer circular uma representação pluralista da nação, não limitada ao seu centro “islamo-wolof” (Diouf 2001). Este discurso é feito por certas franjas do aparelho cultural do estado senegalês, cuja capacidade de produção de elites neo-tradicionais e de uma ideologia culturalista não carece de mais demonstrações (Diagne 1992, 1996). É fruto da formulação de etno-histórias por amadores, da multiplicação de jornadas culturais organizadas por associações locais, mas também da participação de agentes culturais estatais familiarizados com o discurso sobre a «cultura» e cujas profissões são assim valorizadas (professores, bibliotecários, eruditos, tradicionalistas, linguistas militantes das línguas nacionais, inspectores de academia, escritores, «peritos culturais», responsáveis de rádios comunitárias, militantes de associações de desenvolvimento, etc)”. Ora, se o parentesco entre sérères e toucouleurs parece ser geralmente considerado pelos senegaleses, bem como os peuls Didhiou, peuls - mandingas no antigo Gabú, peuls - balantas e peuls - soninkés, já o mesmo não se passa entre lébous e sérères ou toucouleurs, nem entre estes e diolas, nem entre diolas e sérères, como afirma o autor. Por vezes essas dúvidas advêm de uma questão de precedência, sendo incómodo admitir, a esta ou aquela etnia, que se foi, no passado, vassalo, escravo ou vencido de outra. De resto, a aliança firma muitas vezes a vontade de omitir no futuro, deliberadamente, a memória de um conflito ou de uma humilhação. Unidos pelo pacto de silêncio, os parentes afastam definitivamente pretextos de conflitos, omitindo a autoria do golpe inicial e apagando as hierarquias, mas guardam, nas piadas, a possibilidade de desafiar o outro, sem consequências. Um exemplo é o parentesco peul mandinga, resultado da batalha de Kansala. Atendamos, em particular, e acompanhando Étienne Smith, a questão do parentesco entre sérères e diolas, por envolver as duas etnias mais presentes no universo dos alunos de Estudos Portugueses da Universidade Cheikh Anta Diop.

201

E.SMITH , 2006, Art. cit., pp 907 e ss

146

Segundo aquele autor202, “a emergência da récita dos parentescos é inseparável do surgimento da crise casamansence como teste à integração nacional no Senegal. Isto é particularmente claro no que concerne o activismo do Governador Diola Saliou Sambou, na origem do primeiro Festival das origens no país sérère (Janeiro de 1994) e, mais tarde, da criação da Associação Cultural Aguène e Diambogne (ACAD) em 1994 que reagrupa os quadros sérère e diola dedicados à promoção do parentesco. (…) A récita dos parentescos, que se inscreve na história mais vasta das convergências (De Jong, 2005), faz parte da contra-ofensiva cultural do Estado senegalês, para disputar ao MFDC o monopólio da produção de discursos sobre a etno-história diola. (…) Assim, a promoção do parentesco operada pela ACAD deu lugar a três festivais das origens alternando entre países sérère e diola: o objectivo era o de arrimar os diola à nação senegalesa por intermédio desta relação privilegiada de parentesco com os sérère, emblematizando o coração da senegalidade”. Em conclusão, nota o autor, apesar de sectores diolas rejeitarem qualquer ligação aos sérères, é forçoso reconhecer a qualidade do trabalho da ACAD: Enquanto que, em 1967, menos de 27% dos diolas afirmavam conhecer o mito de Ageen (que, teria sido separada da sua irmã Jamboñ ao largo de Sangomar por uma tempestade que quebrou a sua embarcação, dando origem aos diolas e aos sérères), em 2003 eram cerca de 60%. O abade Diamacoune Senghor, líder histórico do MFDC, admitia a ligação diola - sérère, mas dava a primazia aos primeiros. Esta visão é naturalmente polémica e, ainda que assim fosse, jamais seria assumida pelo Estado senegalês. Para nós, a capacidade de utilização de propaganda ao serviço dos estados africanos é um dado adquirido, por vezes, com assinalável eficácia; e o Senegal, país de exímios oradores e com elites cosmopolitas, tem naturalmente quadros bem capazes de executar uma tal política. Contudo, também sentimos, na nossa passagem pelo Senegal, que a ideia de uma relação especial entre diolas e sérères é comum, não tendo nós ferramentas para aferir até que ponto aquele autor está, ou não, próximo da verdade. A própria crise militar na Casamansa é complexa, tendo o MFDC diversas facções que produzem, não raras vezes, argumentos contraditórios para justificar a sua acção. Neste contexto, para Etienne Smith o Wolof surge como algo à parte. Não é, neste contexto da promoção dos parentescos, apresentado como uma identidade própria, mas antes como uma língua e, sobretudo, um produto final da História senegalesa. Em

202

E. SMITH, 2006, art. Cit., pp. 920-921

147

abono da sua tese sobre um estereótipo do wolof mourida em oposição às tradicionais qualidades distintivas de cada etnia, E. Smith refere diversos estudos sobre estereótipos (Diarra e Fougeyrollas, 1969; Fougeyrollas, 1970; Mk. Diouf, 1998; E. Smith, 2003) e sobre representações linguísticas (Julliard, 1991; Moreau, 1994, 1996; Thiam, 1996; Swigart, 1996; Rasoloniaina, 2000). Etienne Smith conclui afirmando que o quadro de promoção dos parentescos dá ao grupo sérère, o mais “wolofizado” de todos os pontos de vista, um papel central, o de núcleo da constelação, tendo este grupo laços históricos e afinidades com todos os outros. Em conclusão, o factor étnico parece ter importância na escolha dos cursos de Português na Universidade Cheikh Anta Diop. As etnias mais representadas pelos alunos revelam, em geral, uma forte identidade étnica, com evidente procura de cônjuges que perpetuem a linhagem. Este comportamento é baseado em tradições culturais e em pressões familiares, mas permite, também, a perenidade da memória antiga, na qual se podem incluir, nas etnias do Sul do Senegal, a memória da presença portuguesa, a Língua Portuguesa. No caso das populações do Sul, a vizinhança com a Guiné-Bissau lusófona (quer em termos oficiais quer na utilização do crioulo do Português), conjugada com a presença de familiares e, mesmo, de terras, do outro lado da fronteira traçada pelos colonizadores, é obviamente um importante factor adicional para a motivação dos jovens para aprenderem o Português. A presença portuguesa fez-se também sentir em território costeiro sérère, cujo número de alunos de Português é elevado, mas inferior à proporção daquela etnia na população senegalesa. Logo, não justifica tudo, de per se. De facto, os wolofs não têm uma memória forte da passagem portuguesa, embora esta tenha sido efectiva; contudo, a extensão do domínio Jalofo incluía vastas terras do interior e, de qualquer modo, após a presença portuguesa registou-se a holandesa, a inglesa e, sobretudo, a francesa, mais recente, bem mais intensa e marcante. Assim, para além do factor étnico, a vivência urbana (que contribui para a erosão daquele) e o interesse dos pais na educação dos filhos são importantes para a decisão de prosseguir estudos superiores, quaisquer que sejam. Investiguemos, pois, factores adicionais.

148

3.3.1.f – Contexto social – profissões exercidas na família e a questão das castas A sociedade senegalesa é também marcada pela existência, informal, de castas; informal, na medida em que estas não são oficialmente reconhecidas nem é permitida, nos termos da Constituição, qualquer distinção em função das mesmas. Contudo, existem, mais numas etnias do que noutras, sem a importância que lhes é atribuída na Índia, mas a África Ocidental (essencialmente o Mali) é a sub-região, no continente, onde se coloca este problema com maior acuidade. As principais castas no Senegal são as dos “griots” (trovadores, que asseguram a transmissão da História e das tradições por via oral), dos ferreiros, joalheiros, cordoeiros e tecelões, e as dos escultores de madeira que se confundem com a etnia laobé. O reconhecimento das castas permite compreender melhor algumas características políticas, sociais e económicas do Senegal, mas não é simples, porque o fenómeno varia entre etnias (por exemplo, os pescadores são uma casta entre os toucouleurs, mas não nos wolofs). Em certos casos, o problema das castas sobrepõe-se à questão étnica: “Numa família fora de casta Wolof ou Toucouleur, qualquer projecto de casamento com uma pessoa de casta esbarra com reticências podendo ir até à ruptura total com os parentes. É um domínio em que a tradição continua a preceder o Islão, no Senegal”203. Para o mesmo autor, esta situação tem a vantagem de encorajar matrimónios inter-étnicos, na medida em que uma família intransigente sobre o casamento de um dos seus com uma pessoa de casta diferente, no seio da etnia, pode tornar-se tolerante relativamente à união com uma pessoa de outra etnia, na qual não existem castas (os diolas, por exemplo), ou elas têm o mesmo nível. Por outro lado, a influência da casta é muito importante na política: “Os grandes grupos étnicos muçulmanos Wolof e Haal Pulaar aceitaram Senghor durante duas décadas como Presidente da República, descartando qualquer consideração étnica ou confessional. Mas pode dizer-se, (…) que não estão prontos a ver a magistratura suprema ser exercida por um Wolof ou um Toucouleur muçulmano

203

M. DIOUF, Op. Cit., pp. 126 e ss

149

se ele pertencer a uma casta, quaisquer que possam ser as suas qualidades humanas e as suas competências.”204 Neste inquérito não era possível colocar a questão das castas, desde logo porque nem todas as etnias as têm, mas também porque se trata de uma questão muito delicada. Assim, este elemento não foi considerado, embora possa ser parcialmente antevisto através da análise das profissões dos pais (ressalve-se, no entanto que, nos meios urbanos e perante o desemprego, há pessoas sem casta que exercem funções habitualmente reservados aos de casta, e vice-versa): Quadro 18 - Profissões exercidas pelos familiares dos estudantes
Profissão Agricultor Não refere Doméstico Empregada doméstica Comerciante Falecido Sem profissão Trabalhador manual / artes Reformado Técnico especializado Ilegível Professor Forças da Autoridade Marítimos, incluindo pescadores Operário Técnico Superior Funcionário Público Chefe religioso Empresário Pais
119 23 0 0 17 6 4 21 31 22 1 16 11 7 3 9 7 0 2

Mães
30 48 156 13 18 1 8 6 3 7 0 8 0 0 2 1 0 0 0

Avôs
273 206 3 0 13 23 13 17 6 12 3 2 7 10 10 5 2 2 0

Avós
81 216 183 224 20 23 22 2 2 1 36 0 0 0 0 0 0 0 0

Total
503 493 342 237 68 53 47 46 42 42 40 26 18 17 15 15 9 2 2

%
24,9 24,4 17,0 11,8 3,4 2,6 2,3 2,3 2,1 2,1 2,0 1,3 0,9 0,8 0,7 0,7 0,5 0,1 0,1

O quadro 18 permite antever um difícil quadro socio-económico para a vida dos alunos. A categoria profissional predominante, no geral e no sexo masculino, é a dos agricultores (24,9%) que não têm, em geral, remunerações elevadas. O peso dos agricultores mantém-se constante (24,8%) nos pais. No sexo feminino as mães e avós dedicam-se geralmente ao trabalho doméstico. Há também profissões dominadas pelo

204

M. DIOUF, Op. Cit., pp. 127

150

sexo masculino tais como as forças da autoridade, funcionários públicos, pescadores, empresários, técnicos superiores e chefe religioso. O facto de os alunos não conseguirem referir a profissão em 24,4% dos parentes, sobretudo avós, é sintomática: alguns serão inactivos, outros falecidos, outros, de facto, desconhecidos; as domésticas são também um caso especial porque é plausível que alguns alunos tenham confundido esta ocupação (activa mas não remunerada), com “empregada doméstica”. Assim, numa perspectiva pessimista, os não remunerados poderão atingir 45,7%. Apenas 3% dos familiares exerce funções de “casta” e não mais de 3,6% (6,2% dos pais) é empresário, comerciante ou chefe religioso, ocupações que poderão garantir uma remuneração superior à média. A estas, poder-se-ia acrescentar as forças da autoridade e os técnicos superiores o que, ainda assim, não excederia 4,5% dos familiares (9,7% dos pais). Ou seja, a esmagadora maioria dos familiares dos alunos provêm de um meio economicamente desfavorecido, o que não permite as condições necessárias para um estudo sereno. A evolução positiva de avós para pais é uma realidade (assinale-se a forte redução da proporção de empregadas domésticas para 2,2% dos pais), mas é muito provável que menos de 10% destes tenham condições acima da média. Relativamente aos próprios alunos, 282 (94%) referem não ter actividade profissional. É um valor surpreendentemente baixo, se tivermos em conta as profissões dos parentes ascendentes e as idades relativamente avançadas dos alunos. Contudo, este indicador também revela duas realidades sentidas no Senegal: o desemprego massivo entre os jovens e uma atitude muito reivindicativa face às alegadas obrigações do Estado de financiar os seus estudos, alimentação e alojamento205. Os restantes 18 (6%) alunos citam as seguintes ocupações profissionais: - 14 alunos de Duel I declaram exercer uma profissão (4 agricultores, 3 futebolistas, 2 informáticos, 1 alfaiate, 1 andebolista, 1 artista e 1 pintor); - 4 alunos de Duel II declaram exercer uma profissão: (2 informáticos, 1 carpinteiro e 1 canalizador); - Nenhum estudante de “Licence” exerce uma profissão;

Esta atitude reivindicativa faz-se sentir numa conflitualidade permanente, com greves e confrontos com as polícias recorrentes, em qualquer ano lectivo, que presenciámos na nossa actividade de leitora.

205

151

- Apenas um aluno de “Maîtrise” trabalha, como agente no Serviço de Comércio de Pikine. 3.3.1.g – Agregados familiares dos alunos A nomenclatura e a dimensão dos agregados familiares dos alunos fornecem igualmente elementos de análise importantes sobre as condições de estudo e de trabalho dos alunos. Assim, não basta conhecer o rendimento de uma família para aferir a sua qualidade de vida, sendo relevante a dimensão do agregado. Por outro lado, se o aluno não vive com os pais, tal poderá criar alguns problemas de adaptação, embora as famílias senegalesas incentivem, tradicionalmente, a mobilidade dos seus. Por último, a análise de tais dados permite observar as redes familiares que se dizem muito desenvolvidas no Senegal, tal como em toda a África Ocidental. Quadro 19 – Pessoas com quem vivia antes da entrada na Universidade
Duel I Só Com outras pessoas, não familiares Com familiares Não refere
1 31 96 6

Duel II
2 24 60 4

Licence
0 14 40 2

Maîtrise
0 5 21 0

Total
3 74 217 12

%
1,0 24,2 70,9 3,9

Assinale-se que a maior parte dos alunos (70,9%) vivia com familiares antes de ingressar na Universidade e que apenas 1% vivia só. Quadro 20 – Pessoas com quem vivia à data do inquérito
Duel I Só Com outras pessoas, não familiares Com familiares Não refere
9 54 58 11

Duel II
8 33 38 6

Licence
4 17 31 4

Maîtrise
5 6 11 4

Total
26 110 138 25

%
8,7 36,8 46,2 8,4

A proporção de alunos que vive com familiares desce para 46,2%, o que significa que cerca de 24% poderá ter migrado da sua área de residência para Dakar. Este valor é provavelmente maior, na medida em que alguns alunos deixaram os locais

152

de residência dos pais e vieram habitar com familiares, pelo que estão incluídos na mesma categoria. Por outro lado, poucos são os alunos que vivem sós, mesmo depois do ingresso na Universidade; tal poderá significar, apenas, falta de recursos para arrendar uma casa, ou mesmo, um quarto, mas, também, a apetência senegalesa para a vida em colectivo e um aproveitamento dos alojamentos para estudantes no interior do recinto universitário. Quadro 21 – Pessoas da família com quem viviam
Com quem vive ou vivia Pais e outros Só mãe Só pai Avós Irmãos Tios Primos Sobrinhos Antes da entrada na UCAD
214 4 2 3 2 4 0 0 93,5% 1,8% 0,9% 1,3% 0,9% 1,8% -

À data do inquérito
103 2 1 1 8 29 4 1 69,1% 1,3% 0,7% 0,7% 5,4% 19,5% 2,7% 0,7%

Dos alunos que mencionaram com quem viviam, verificamos que a percentagem dos que habitavam com os pais era de 96,2% antes do ingresso na Universidade e de 71,1% depois. Assim, confirma-se a ideia de que pelo menos 25% terá migrado para Dakar, a fim de prosseguir estudos na capital. Mas o facto de a proporção de alunos que habitavam com os tios e primos passar de 1,8% para 22,2% após o ingresso na Universidade, evidencia a importância e a coesão da família senegalesa. E esta asserção é tanto mais evidente se tivermos presente que grande parte dos familiares dos alunos não reside na península do Cabo Verde, mas sim nas regiões tradicionalmente habitadas pelas respectivas etnias. Quase estaremos tentados a afirmar que, em geral, quando há parentes na área de Dakar, os alunos aproveitam a rede e a solidariedade familiares, por motivos económicos e não só. Quadro 22 – Dimensão dos agregados familiares com quem viviam os alunos
Nº de familiares com que vive 1 a 4 pessoas 5 a 9 pessoas 10 a 14 pessoas 15 a 19 pessoas 20 a 24 pessoas Mais de 25 pessoas Antes da entrada na UCAD
43 89 33 4 7 3 24,0% 49,7% 18,4% 2,2% 3,9% 1,7%

À data do inquérito
71 38 16 6 1 1 53,4% 28,6% 12,0% 4,5% 0,8% 0,8%

153

No que concerna a qualidade de vida do aluno e, em particular, os meios financeiros, é mais importante analisar com quantas pessoas, e não com quem vive, embora este último factor possa interferir no seu estado de espírito. Os elementos recolhidos e constantes do Quadro 22 são eloquentes: as famílias senegalesas são muito numerosas, o que indicia um baixo rendimento per capita, logo, menor disponibilidade para estudos bem sucedidos e, sobretudo, longos. Mas este dado transmite também o interesse com que as famílias vêem os estudos dos seus filhos, adivinhando-se reais sacrifícios para sustentar os jovens, tanto mais que, como vimos, estes raramente exercem actividades remuneradas, nem mesmo a tempo parcial. E, embora a maioria dos alunos que reside com a família habite, após o ingresso na Universidade, com agregados que não excedem os quatro elementos, é importante reter que 46,6% partilha tecto com cinco pessoas ou mais. Por outro lado, os factos de 49,7% dos alunos provirem de famílias com cinco a nove elementos e, ainda mais importante, de 26,2% pertencerem, antes do ingresso na Universidade, a agregados com mais de dez membros, é suficiente para traçar um quadro sobre a estrutura da família senegalesa e a pirâmide demográfica triangular da população daquele país. É pois num contexto socio-económico marcado por uma população jovem, em forte crescimento (pelo efeito conjugado da alta natalidade e do aumento da esperança de vida) e por uma economia que, sobretudo no domínio comercial, repousa no “sector informal”, que os alunos têm de competir para concluir os seus cursos bem classificados, na expectativa de aproveitar as escassas hipóteses de colocação no mercado de trabalho, designadamente, no ensino. Neste sentido, constitui também motivo de alguma admiração que tantas famílias façam sacrifícios para que estejam inscritos 646 alunos nos cursos de Português da Universidade Cheikh Anta Diop, sem grandes possibilidades de que esta formação habilite directamente para uma saída profissional.

154

3.3.2. Estudos Portugueses 3.3.2.a – Antecedentes e motivos da escolha do Português Quadro 23 - Como teve conhecimento do ensino do Português no Senegal?
MOTIVO Disciplina de opção na Escola onde estudava Procurou informação porque gostava do Português Documentação na Escola onde estudava Através da família ou de amigos Outras razões N.º DE ALUNOS 147 94 74 40 54 35,9% 23,0% 18,1% 9,8% 13,2%

Sem grande surpresa, é na escola secundária que os alunos descobrem a possibilidade de aprender o Português. Veremos, adiante, que a rede do ensino da nossa Língua, na principal região de origem dos alunos, é bastante densa. No conjunto das duas opções correlacionadas, 54% dos alunos terão descoberto o Português por ser uma disciplina de opção na Escola onde estudavam, logo, provavelmente, no acto da matrícula, ou pela acção de divulgação dos professores que procuram distribuir toda e qualquer documentação que promova a Língua. Refira-se, de resto, que a permanência dos professores de Português numa determinada escola depende da inscrição dos alunos, pelo que os docentes lançam mão de todos os (escassos) recursos para convencerem os alunos a matricularem-se. Quanto ao segundo motivo – “procurou informação porque gostava do Português” – parece-nos imputável aos contactos com a Língua, na sua forma original ou através do crioulo, que muitos alunos tiveram no seio das famílias ou na vizinha Guiné-Bissau (incluindo os meios de comunicação social desta, isto é, televisão, rádio que podem chegar à região da Casamansa). Esta motivação pode ser associada à quarta mais citada – descobriu o Português através da família ou dos amigos, adivinhando-se que alguns alunos tiveram alguma dificuldade em escolher o motivo. Dos alunos inquiridos, 13,2% invocou outras razões.

155

Quadro 23 bis – Outras razões
MOTIVO MENCIONADO Queria falar Português Para conhecer a civilização e a História de Portugal Gosta da Língua e da Cultura portuguesas Desde criança que quer falar Português Porque o Senegal faz fronteira com a Guiné-Bissau Porque o pai era professor na Guiné-Bissau Para telefonar ao irmão que está em Portugal Gosta muito da Língua de Camões e quer falá-la Porque é uma língua muito importante N.º DE ALUNOS 11 11 9 2 1 1 1 1 1

Os motivos aqui invocados valem, sobretudo, pela curiosidade; mas assinalemse as menções mais votadas que denotam um certo voluntarismo, embora se possam encarar as hipóteses de se tratar de formulações justificativas de escolhas mais ou menos involuntárias, ou mesmo, de amabilidade para com a professora portuguesa. Inquiridos sobre os antecedentes no liceu, 300 alunos responderam que já tinham estudado Português no Ensino Secundário, com durações variáveis: Quadro 24 – Duração dos estudos de Português no Liceu
Duração dos estudos 2 anos 3 anos 4 anos 5 anos 6 anos 7 anos 9 anos 11 anos 12 anos Frequência absoluta 2 178 40 67 6 4 1 1 1 Frequência relativa 0,7 59,3 13,3 22,3 2,0 1,3 0,3 0,3 0,3

Os períodos de estudo de Português no Liceu mais frequentes são, naturalmente, os 3 anos – geralmente os últimos do Ensino Secundário206, com 59,3%, e os 5 anos207, com 22,3%. Os restantes casos serão muitas vezes repetições de anos. Note-se, porém, a grande diferença de frequência relativa entre os dois valores mais citados, que demonstra que o Português é essencialmente ensinado no que, em Portugal, seria o Ensino Secundário propriamente dito, e não no terceiro ciclo do Básico.
206

O sistema senegalês tem uma terminologia idêntica ao Francês. Assim, neste caso, será a Seconde, Première e Terminale 207 Neste mesmo caso, a Quatrième e a Troisième

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Perguntámos aos alunos quais os motivos que os levaram a frequentar a disciplina de Português no Liceu. Trata-se de uma pergunta relativamente semelhante à primeira pergunta (“A”) desta segunda parte do inquérito, permitindo verificar a atenção dos alunos e a consistência das respostas que deram. 163 alunos escolheram uma resposta, 137 optaram por várias e 2 não responderam. Os resultados foram os seguintes: Quadro 25 – Motivação para o estudo do Português no Liceu
Motivo Era uma opção na escola Queria ser Professor Interesso-me pela Cultura Portuguesa Interesso-me pela História de Portugal Ouvia falar Português Gosta da sonoridade Já falava Português Outros Citações 145 118 111 92 53 44 26 72

As duas respostas mais citadas eram relativamente previsíveis: 145 alunos referiram ter optado pelo Português, pelo simples motivo de que era uma das disciplinas oferecidas pela Escola, e 118 alunos parecem privilegiar a via profissional, afirmando desejarem ser professores mais tarde. As respostas mencionadas em terceiro e quarto lugares (“interesso-me pela Cultura Portuguesa” e “interesso-me pela História de Portugal”) são mais difíceis de interpretar; os alunos responderam por sentirem verdadeiramente essas motivações? Por cortesia? Não esqueçamos contudo que vários optaram por respostas múltiplas. Ou, tão só, por estes motivos constarem do formulário? É difícil esclarecer e houve, provavelmente, de tudo. Quanto às três restantes opções constantes do inquérito, poderão agrupar-se num conjunto que subentende um contacto – falado, ouvido – com a nossa Língua; ao todo, 123 respostas mencionaram um destes factores. Relativamente aos “outros motivos”, os estudantes identificaram 35 distintos, alguns dos quais francamente surpreendentes: “ser embaixador”, “ser ministro”, “ser dentista”, “quero ganhar muito dinheiro”, “lutar pelo desenvolvimento da Língua de Camões”, “era uma obrigação fazer a Língua Portuguesa na minha turma” e “no primeiro dia de aulas, o meu nome estava na turma de Português”… Os motivos mais

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citados pelos alunos são: “ser intérprete” (17 alunos); “ser diplomata”, Embaixador ou “trabalhar na Embaixada” (7), “ser investigador” (5 alunos) e “ser jornalista” (3). A pergunta seguinte incidiu sobre as motivações para fazer estudos superiores de Português. Os resultados foram os seguintes: Quadro 26 – Motivação para os estudos superiores de Português
Motivo Quero ser Professor Gostei das aulas no Liceu Pelos mesmos motivos referidos em B Interesso-me pela Cultura Portuguesa Interesso-me pela História de Portugal Porque tem saídas profissionais Porque não entrei no curso que queria Citações 136 101 82 82 59 26 15

Antes de mais comentários, assinale-se que, como em todas as perguntas deste sub-capítulo, os alunos puderam fazer escolhas múltiplas. A resposta mais frequente foi “quero ser professor”, o que indica que a Licenciatura ainda representa uma saída profissional credível, além de que a frequência dos estudos liceais não só não terá dissuadido aqueles que invocaram este objectivo como motivação para os iniciar, como terá aumentado o número de adeptos da docência. Questionados sobre onde desejavam ser professores (no Liceu ou na Universidade), os alunos que escolheram esta resposta dividiram-se do seguinte modo: 72 querem ser professores na UCAD, 31 no Liceu e 16 referem ambas. O segundo motivo – “gostei das aulas no Liceu” – é um tributo aos professores senegaleses e ao seu esforço louvável, num contexto difícil, como veremos. Último aspecto relevante, o facto de apenas 15 alunos referirem que seguiram Português porque não entraram no curso que queriam. Se este número corresponde à realidade ou se é fruto de alguma susceptibilidade que leva a não admitir a negação da expectativa, não o sabemos; de qualquer modo, o valor apurado é muito baixo e significa, também, que no Senegal, a função docente é ainda socialmente prestigiada, em todo o caso, bem mais do que na Europa em geral, e em Portugal, em particular; convém, a este respeito, não esquecer que se trata da perspectiva de um emprego estável, uma carreira no estado que, embora relativamente mal remunerada, garante casa de função, vencimento mensal e pensão de reforma (apenas 2% dos senegaleses contribuem para a Segurança Social…).

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3.3.2.b – Expectativas quanto ao futuro profissional A questão seguinte incidia sobre as expectativas dos alunos relativamente ao seu futuro profissional. Designadamente, colocámos duas questões precisas: “O que pensa fazer profissionalmente quando concluir o seu curso de Estudos Portugueses na UCAD” e “o que gostaria de fazer quando terminar o seu curso de Estudos Portugueses”; ou seja, quisemos distinguir entre o que os alunos realmente gostariam de fazer e aquilo que, de modo realista, pensavam estar ao seu alcance. Os resultados foram os seguintes: Quadro 27 – Ambições e expectativas dos alunos quanto ao seu futuro profissional
Ordem de preferência 1ª 2ª 3ª 4ª 5ª 6ª 7ª 8ª 9ª O que gostaria de fazer após a conclusão dos estudos Professor universitário Estudos portugueses estrangeiro Professor de liceu no n O que pensa fazer após a conclusão dos estudos no n 90 58 48 25 21 11 6 3 1

78 Estudos portugueses estrangeiro 54 Professor universitário 31 Professor de liceu 24 Investigador 20 Outros estudos no estrangeiro

Outra profissão ligada à Língua Portuguesa Outros estudos no estrangeiro Investigador Ter outras profissões Estudos portugueses no Senegal Outros estudos no Senegal

16 Outra profissão ligada à Língua Portuguesa 7 Estudos portugueses no Senegal 3 Outros estudos no Senegal 3 Ter outras profissões

Em primeiro lugar, verifica-se que um número significativo de alunos não quis, ou não soube, responder: 78 alunos não escreveram o que gostariam de fazer e 31 não referiram o que pensam fazer; ou seja, uma parte dos alunos já não tem, ou não refere, um ideal profissional… A carreira docente universitária beneficia claramente de uma imagem positiva entre os alunos de Português da UCAD; no universo das escolhas possíveis para os alunos que escolheram estas licenciatura e mestrado, ser professor universitário representa um posto de trabalho vitalício e fixo, em Dacar, relativamente prestigiado (embora a sociedade senegalesa seja materialista), com uma remuneração superior à

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média dos funcionários e viagens ao estrangeiro para congressos e serviços – bem remunerados – de interpretação. Naturalmente, nem todos os alunos que gostariam de seguir essa carreira pensam que o vão conseguir, mas, ainda assim, cerca de 20% dos alunos considera que a mesma está ao seu alcance. Ao contrário, o número de alunos que gostaria de ser professor liceal é pouco mais de metade daqueles que pensam vir a seguir essa carreira; ou seja, esta constitui uma segunda escolha, plausível e realista, para muitos alunos (30%). Curiosamente, são mais os alunos que pensam poder prosseguir estudos Portugueses no estrangeiro do que aqueles que, a priori, gostariam de o fazer. Confessamos que ficámos surpreendidos com este dado. Com efeito, a pulsão para a emigração é uma realidade patente em todo o Senegal, sejam quais forem as habilitações literárias dos jovens; ora, seria, a nosso ver, de esperar que os alunos desejassem emigrar, mas que, em menor número, esperassem consegui-lo, atendendo aos exigentes critérios de concessão de vistos de estudo – e outros – nas missões consulares estrangeiras. A única explicação credível assenta na sensação de que não há saídas profissionais para os alunos no Senegal, pelo que estes desejarão tentar a sorte no estrangeiro. O estrangeiro já não surgiria, assim, pelo menos a este nível social, como um “El-dorado”, mas sim como um mal necessário para uma parte significativa dos alunos. Por outro lado, deve ser tida em conta a recente vaga de emigração clandestina por via marítima que começou a ganhar amplitude precisamente no ano de realização do inquérito, em 2005, e que foi vista, num primeiro tempo e por muitos candidatos à emigração, como um expediente de resultado quase garantido, tanto mais que o então recém-empossado Governo espanhol acabara de legalizar 700 mil imigrantes em situação irregular. Por outro lado, a escolha dessa nova rota marítima é mais barata do que as vias “clássicas” de tentar comprar passaportes, vistos falsos ou adulterados e influências, o que, numa sociedade pauperizada, tem óbvia importância. Deste universo de alunos, 8% gostaria de “ter uma profissão ligada à Língua Portuguesa”, mas apenas 3,6% acreditam que o poderão conseguir. Assinale-se que pedimos aos alunos que identificassem a referida profissão, e, no total das duas questões, 12 responderam diplomata, 6 hospedeiro e 3, intérprete. Ao contrário e, também, surpreendentemente, são mais os alunos que consideram possível ser investigador, do que aqueles que mencionam esse desejo. Para esta situação não temos qualquer explicação, pois não temos conhecimento de carreiras ligadas à investigação nacional senegalesa (os poucos investigadores presentes no 160

Senegal são, em geral, mestrandos e doutorandos, ou funcionários e agentes contratuais do CNRS – Centre National de Recherche Scientifique – francês). As restantes categorias têm uma frequência praticamente irrelevante, mas vale a pena observar as respostas obtidas sob um outro ângulo, somando as pontuações atribuídas pelos alunos às diversas alternativas de respostas (de 1 ponto para a primeira preferência até 10 pontos para a última). Deste modo, não focamos apenas a primeira preferência que, em muitos casos, pode não constituir uma opção clara e evidente na mente dos alunos: Quadro 28 – Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos sobre o que gostariam de fazer após a conclusão dos estudos
O que gostaria de fazer após a conclusão dos estudos 760 874 1015 1025 1043 1144 1294 1340 1394 1453

Profissão Ser professor universitário Continuar os estudos portugueses no estrangeiro Ter uma profissão ligada à Língua Portuguesa Ser investigador Ser professor no liceu Prosseguir outros estudos no estrangeiro Continuar os estudos portugueses no Senegal Ter outras profissões noutros países Ter outras profissões no Senegal Prosseguir outros estudos no Senegal

Quadro 29 – Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos sobre o que pensam fazer após a conclusão dos estudos
O que pensa fazer após a conclusão dos estudos 741 811 1046 1058 1083 1228 1486 1498 1518 1585

Profissão Continuar os estudos portugueses no estrangeiro Ser professor universitário Ser professor no liceu Ser investigador Prosseguir outros estudos no estrangeiro Ter uma profissão ligada à Língua Portuguesa Continuar os estudos portugueses no Senegal Prosseguir outros estudos no Senegal Ter outras profissões noutros países Ter outras profissões no Senegal

Nos quadros 28 e 29, quanto mais baixo é o valor, maior é a preferência. Assim, mantêm-se, em geral, a ordem das preferências do quadro 27, sobre o que gostariam e o

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que pensam fazer os alunos após a conclusão dos seus estudos e sobre o que pensam realmente fazer. No que se refere ao que os alunos gostariam de fazer, mantém-se a docência universitária no cimo das preferências e o prosseguimento de outros estudos no Senegal, em último. A única diferença relevante é a descida da profissão de professor liceal para quinto lugar, embora as diferenças com os terceiro e quarto, “ter uma profissão ligada à Língua Portuguesa” e “ser investigador”, sejam pouco significativas. No que se refere ao que os alunos pensam fazer após a conclusão dos estudos, a ordem das escolhas é idêntica. Assim, confirma-se que os alunos vêem na possibilidade de prosseguir os Estudos Portugueses no estrangeiro uma perspectiva mais exequível do que ser professor universitário o que, se por um lado é mais realista (poucas serão, previsivelmente, as aberturas de vagas na UCAD); por outro lado surpreende, atendendo à dificuldade, por todos conhecida, de obter vistos e bolsas de estudo no estrangeiro, pelo que se afigura, de algum modo, uma “fuga em frente”, na qual a emigração é vista como a solução para as incertezas do futuro. 3.3.2.c – Pulsão migratória Perante uma tentação migratória previsível, pois ela é, actualmente, absolutamente generalizada na sociedade senegalesa, quisemos apurar a sua intensidade e quais seriam os destinos favoritos. Para o efeito, pedimos aos alunos que colocassem, por ordem decrescente, os cinco países no mundo onde gostariam de viver após a conclusão dos seus estudos universitários, incluindo o Senegal, para aferir se, em condições de equidade, os alunos prefeririam ficar no seu país ou, ainda assim, emigrar. Conhecendo as grandes dificuldades dos jovens senegaleses em encontrar trabalho, sabíamos que a apetência geral dos senegaleses para a migração também se verifica no seio dos estudantes de Português da UCAD; ora, a visão idealizada das perspectivas de emprego no estrangeiro terão certamente levado alguns alunos a, por realismo, ponderarem as contingências e não responderem, em relação ao seu país, como fariam se este estivesse em condições idênticas com os demais. Ainda assim, os resultados foram interessantes e significativos, tendo os estudantes referido 19 países, a saber:

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Quadro 30 – Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos estudos – 1ª preferência
País Portugal Senegal Brasil França E.U.A. Cabo Verde Itália Guiné-Bissau Angola Frequência 118 92 29 22 10 6 4 4 3 % 38,9 30,4 9,6 7,3 3,3 2,0 1,3 1,3 1,0 País Canadá Suíça Austrália Inglaterra África do Sul América do Sul Bélgica Marrocos Moçambique Frequência 3 3 2 2 1 1 1 1 1 % 1,0 1,0 0,7 0,7 0,3 0,3 0,3 0,3 0,3

A preferência por Portugal é significativa, mas não muito surpreendente: os alunos estudam Português, pelo que lhes parece natural trabalharem num país lusófono (53,1%) e, particularmente, no nosso país, que é visto como rico, desenvolvido e integrando a União Europeia, à qual proporciona o acesso. O valor obtido pelo Senegal poderá surpreender pela negativa se considerarmos que tivemos o cuidado de mencionar “após a conclusão dos estudos”, isto é, em nada supondo que estes não poderiam dar acesso a um emprego no próprio país; contudo, pensamos que os alunos não responderam a esta pergunta em abstracto, mas, antes, que terão incluído no seu raciocínio a probabilidade de poderem ter trabalho no Senegal, bem como o próprio poder de atracção da emigração. Mencione-se, também, a atracção visível que exercem a França e os Estados Unidos (16,9% no conjunto) nos jovens senegaleses; mesmo que se afigure improvável, a qualquer estudante senegalês, conseguir obter um emprego naqueles países com um diploma de Português, não deixam de exprimir o desejo de para ali emigrarem, provavelmente para exercerem profissões não relacionadas com a nossa Língua. Para melhor apreender a atracção de cada país, optámos por somar as pontuações atribuídas pelos alunos, dando 5 pontos à primeira escolha e 1 à quinta:

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Quadro 31 – Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos estudos – somatório das pontuações
País Portugal Senegal França Brasil Estados Unidos da América Cabo Verde Canadá Angola Itália Espanha Guiné-Bissau Suíça Inglaterra Moçambique Austrália Bélgica Alemanha São Tomé e Príncipe Países Baixos Frequência 1106 709 634 630 293 164 147 121 107 102 91 79 68 45 36 34 26 23 12 País Marrocos África do Sul Emiratos Árabes Unidos México Timor-Leste Gambia Japão Polónia Suécia Arábia Saudita Índia Argentina Camarões China China – R A Macau Dinamarca Luxemburgo Mali Rússia Frequência 10 8 5 5 5 4 3 3 3 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1

Ao todo, os alunos referiram mais do que os 19 países citados como primeira preferência, designadamente, 38. Confirma-se que Portugal é o país mais atractivo e por uma diferença maior em relação ao Senegal - o segundo preferido – comparativamente à mera relação das primeiras escolhas. A França vem, desta feita, em terceiro lugar, ligeiramente à frente do Brasil. Os Estados Unidos são uma quarta preferência destacada, seguido por Cabo Verde, o Canadá, Angola, Itália e Espanha, o último país que “obtém” mais de 100 pontos. Curiosamente, a Guiné-Bissau surge de seguida, o que indicará a vontade de regressar a um território de origem familiar ou, eventualmente, de trabalhar num país vizinho, lusófono, fazendo valer a utilidade do curso tirado na UCAD e a possibilidade de serem professores de Francês – língua estrangeira – na Guiné-Bissau, o que revela um intercâmbio útil entre os dois países. Assinale-se, também, que o Senegal não aparece, no quadro 30, tão destacado do terceiro nomeado, como no quadro 29. Cremos que este resultado advém do elevado número de alunos que gostaria, naturalmente, de viver no seu próprio país e que, como tal, o colocaram como primeira escolha, quando optaram por referi-lo. 164

Assim, dos dez países mais citados, quatro são europeus, três são africanos, dois são norte-americanos e um sul-americano e os países lusófonos obtêm 48,7% do total das preferências manifestadas.

165

4. A DIFUSÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA NO SENEGAL

J’ai retrouvé mon sang, j’ai découvert mon nom l’autre année à Coïmbre, sous la brousse des livres. » L. S. Senghor208

4.1. Léopold Sédar Senghor Senghor, a sua poética e os valores da Negritude representam uma vontade forte de construir uma ponte entre África, Portugal e o Mundo. Com a sua obra estabeleceu laços universais e solidariedades com toda a Humanidade. De facto, ter escrito em língua francesa não significa uma ligação apenas à França ou ao antigo colonizador. É antes consequência da sua formação e da sua experiência no país natal, mas também vontade de difundir a cultura africana : « Et puisqu’ìl faut m’expliquer sur mes poèmes, je confesserai encore que presque tous les êtres et choses qu’ils évoquent sont de mon canton : quelques villages sérères perdus parmi les tanns, les bois, les bolongs et les champs. Il me suffit de les nommer pour revivre le Royaume d’enfance – et le lecteur avec moi, je l’espère - « à travers des forêts de symboles ».209 Quem leria os seus poemas se estivessem escritos em sérère, a sua língua étnica? Seria preciso esperar por uma tradução ? Não traria vantagens óbvias para África nem para os africanos, seria uma perda de tempo na difusão da sua mensagem à Humanidade. De facto, uma ideia universal escreve-se em todas as línguas. Mas é importante e relevante que este poeta tenha escolhido uma estratégia que facilitou, sem dúvida, a transmissão desses conteúdos ao maior número possível de eventuais receptores. Sendo a língua oficial do Senegal, veiculada no ensino e nos meios de comunicação social, não é de estranhar que Senghor tenha expresso pensamentos e sentimentos através da Língua Francesa. A língua vale assim pelos conteúdos que transmite e pelo acto de os comunicar. Numa situação comunicativa, a língua refere experiências e culturas dos indivíduos e dos povos. Senghor não escreveu na sua língua

208 209

L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp.203 L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 160

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étnica (sérère), pois, não permitiria uma tão rápida transmissão dos conteúdos africanos ao resto do mundo e fechar-se-ia na esfera cultural das etnias do Senegal. Mas a sua estratégia resultou. Senghor, pela sua obra, apresenta um traço de união entre o passado e o presente dos africanos, marca uma continuidade e uma reconciliação com o passado, atitude que pode ser um ponto de partida pacífico, estável e duradouro para considerar e debater, de forma poética, muitos dos equívocos existentes sobre África, no passado e no presente. Transmite e defende assumidamente a ideia da Negritude. Por exemplo, “ Ethiopiques” é um conjunto de textos em que Senghor explora, desde logo, o sentido da palavra grega « aithiops » que designa o que é negro. Não é tanto o código linguístico que se valoriza, mas antes o significado, o conteúdo da mensagem que se quer projectar, para revelar aquele conceito, é o ritmo, a emoção e a verdade que a palavra encerra na mensagem poética : “ Le Nègre singulièrement, qui est d’un monde où la parole se fait spontanément rythme dès que l’homme est ému, rendu à lui-même, à son authenticité. Oui, la parole se fait poème.”210 Ainda, no conjunto de poemas designado por “Nocturnes”, destacamos também “Elegia das Saudades”211 , onde o poeta se associa à Língua e à Cultura Portuguesas, parte de um mundo de que se recorda vagamente, que o “eu” lírico quis alcançar com a sua poesia, embora se trate de uma reflexão crítica sobre um passado remoto : " Monde scellé de caractères stricts et mystérieux, ô nuit des forêts vertes, aube des plages inouïes ! J’ai bu – murs blancs collines d’oliviers - un monde d’exploit et d’aventures d’amours violents et de cyclones. Ah ! boire tous les fleuves : le Niger le Congo et le Zambèze, l’Amazone et le Gange. Boire toutes les mers d’un seul trait nègre sans césure non Sans accents Et tous les rêves, boire tous les livres, les ors, tous les prodiges de Coïmbre. Me souvenir, mais simplement me souvenir… "212

210 211

L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 156 L. S. SENGHOR, Op. Cit. 212 L. S. SENGHOR, Op. Cit. , pp. 203

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Senghor manifesta, com frequência, um interesse especial por Portugal, realçando memórias de tempos antigos, não só referindo-se à presença dos portugueses no território do Senegal, mas também para homenagear o seu próprio povo e as respectivas façanhas antigas, de tempos distantes, quase míticos. A proximidade de países lusófonos também o desperta para este tipo de reflexões que se desenham como projectos para o futuro. É evidente a necessidade e a utilidade da Língua Portuguesa naquela região. Senghor ter-se-á apercebido precocemente das vantagens de uma associação do Senegal com os países lusófonos e soube avaliar a importância definitiva das marcas do passado em África. E, talvez por isso, considerando interesses económicos, políticos e culturais do seu país natal, o Presidente-Poeta decidiu oferecer a formação em Língua, Literatura e Cultura Portuguesas às futuras gerações. Parece-nos uma vontade firme e muito consolidada, com alicerces nesses desejos de universalidade e nessa favorável vizinhança de países lusófonos, como a Guiné e Cabo Verde com quem o Senegal se relaciona em inúmeros contextos, sem excluir os outros países e alargando ainda mais as potencialidades da influência do Senegal no continente africano, com a diversificação de aliados. É Senghor o fundador inquestionável dos Estudos Portugueses no Senegal. A sua identificação com um passado longínquo, ligado aos vestígios da acção portuguesa, transporta-o para uma dimensão poética e cultural. Através dela, e no contexto improvável e surpreendente da Guerra Colonial, aparece muito cedo no seu espírito a ideia da instituição do ensino do Português no Senegal, num território já mesclado de tantas outras culturas e línguas. A cultura francesa influenciou a vida de Senghor, mas no seu percurso de vida esteve sempre aberto a todo o mundo e às causas africanas. Especialmente ligado à sua gota de sangue português, que declarava ter, atribuindo a si próprio e ao povo do Senegal uma ligação muito forte à História de Portugal : « Ah ! Je confonds confonds, je confonds présent et passé. » (…) « Mon sang portugais s’est perdu dans la mer de ma Négritude. Amália Rodriguez, chante ô chante de ta voix basse Les saudades de mes amours anciennes Des fleuves des forêts des voiles, des océans des plages de soleil Et les coups donnés et le sang versé pour des choses futiles.

168

J’écoute au plus profond de moi la plainte à voix d’ombre des saudades »213

A apologia da Negritude aparece ligada à presença portuguesa numa elegia que fala de tempos remotos, em que se lembram as batalhas travadas em África, e cuja expressão recorre mesmo aos signos do código linguístico português : « Cétait au siècle de l’honneur. La bataille était belle, le sang vermeil la peur absente. A l’ombre de mes dunes, chantent les saudades de mes gloires perdues. »214 A Negritude surge como um apelo ao povo do Senegal, fazendo-o acreditar em glórias do passado, buscando um orgulho nacional através de memórias, longínquas e/ou recentes. Na verdade, os problemas da pobreza de África continuam a ser de muito difícil resolução. É, pois, imperativo estimular os africanos para a acção, com fundamentos que vão ao mais profundo do seu ser, como fazia Senghor ao transpor o conceito de Negritude para a sua poesia. O conceito ficou. Mas não há continuidade nem correspondência visíveis na acção. As pessoas continuam receptivas ao que vem do exterior, mas mantêm-se fechados nas suas esferas culturais sem resolver os problemas da pobreza. Emigrar para a Europa não é resposta para todos nem para todas as carências que se vivem no Senegal, e noutros países africanos. É necessário que os africanos se sintam bem na sua própria terra. Contudo, Senghor abriu a porta para a resolução de certos problemas. Muitos dependem da boa comunicação entre os povos. Outros dependem de um esforço continuado, colectivo e convicto, para empreender acções de defesa da Humanidade em perigo. Infelizmente, as novas tecnologias não contribuem de forma eficaz para a resolução de todos os problemas do Desenvolvimento Humano, e não produzem milagres. Não se confie excessivamente na tecnologia que sempre terá limitações. Há que apostar mais na capacidade criadora e infindável das pessoas, que transformam o mundo. É bom que todos possam ter um computador e acesso à Internet. O Senegal faz já um esforço significativo para reduzir a “fractura numérica”. Mas seria lógico que antes se tivesse acabado com a fome e a miséria, no país. Não é saudável uma ínfima refeição ou uma pequena porção de arroz, por dia, para um estudante. A construção de

213 214

L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 206 L. S. SENGHOR, Op. Cit., pp. 204

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uma casa começa pelos seus alicerces e não pelo tecto. O computador veio intensificar as possibilidades de comunicação entre os povos mas o desenvolvimento humano continua a depender da vontade dos homens e da solidariedade entre os povos.

4.2. O Ensino Secundário 4.2.1. Estrutura do sistema A estrutura do Sistema de Ensino do Senegal, Secundário ou Superior, identifica-se com a organização do Sistema de Ensino Francês. O Ensino é veiculado em Francês, língua oficial no país, e costuma iniciar-se o estudo de uma segunda língua estrangeira (LV II) nas turmas de Quatrième (4e), prolongando-se essa aprendizagem até ao último ano do Ensino Secundário, ou seja, proporciona-se a opção pela aprendizagem de uma outra língua estrangeira ao longo de cinco anos. Devemos ter presente que nenhuma destas é a língua materna da generalidade dos alunos que, como vimos, falam as suas línguas étnicas. Mas quando entram para o Ensino Primário é obrigatório realizarem os seus estudos em Língua Francesa. É uma situação de bilinguismo normal para qualquer estudante senegalês, em escolas públicas ou privadas. Com a família, entre amigos, entre si, os estudantes são falantes do Wolof, do Sérère ou de outras línguas das suas etnias. Na escola, no liceu e na Universidade recebem toda a sua formação em Língua Francesa e são avaliadas as suas competências na língua oficial do país, que condicionam a sua progressão nos mais variados cursos. Contudo, a Faculdade de Letras da Universidade Cheik Anta Diop de Dacar também oferece, aos alunos de Estudos Portugueses, Espanhóis ou Italianos, o ensino e a formação em várias línguas étnicas: Wolof, Sérère, Pulaar, Diola, pelas quais os estudantes podem optar, tal como pelo Inglês. Portanto, um jovem senegalês pode iniciar a sua aprendizagem da Língua Portuguesa com a idade de 13/14 anos e prosseguir esses estudos até terminar o Ensino Secundário, completando cinco anos de aprendizagem desde o ano escolar de “Quatriéme” (4ème), pode até licenciar-se em Estudos Portugueses. A par desta situação, nem sempre se encontra esta consistência e esta regularidade no processo de Ensino/Aprendizagem da Língua Portuguesa. Podem surgir múltiplas situações de alunos com maior ou menor sucesso, mas há situações problemáticas e complexas que 170

actualmente podemos encontrar na UCAD. Há alunos que frequentaram no liceu apenas dois, três ou quatro anos de Português (LV II - Langue Vivante II). Esta irregularidade na frequência da disciplina de Português, no liceu, deve-se a um situação específica. Trata-se do conceito de “Grands Commençants” que se iniciou a partir da década de 1980, ou seja, alargou-se o Ensino do Português aos estudantes de faixas etárias mais elevadas. Os alunos podem iniciar mais tarde a sua aprendizagem do Português (LV2), na turma de “Seconde” (2nde, ou seja, o início do Secundário, em Portugal), podendo completar um ciclo de três anos no ensino secundário. Mais tarde, podem candidatar-se ao Curso de Estudos Portugueses no Ensino Superior. Nos últimos anos, tem havido um número crescente de candidatos que são seleccionados directamente pelos professores da Faculdade de Letras, de acordo com as suas habilitações literárias e mediante uma entrevista. Após a selecção e quando admitidos, os alunos inscrevem-se no curso. Na Faculdade de Letras, funciona o Departamento de Línguas Românicas, onde se integram o Português, o Espanhol e o Italiano. 4.2.2. Quadro geral do Português no Ensino Secundário em 2004/ 2005 Para termos uma ideia sobre o espaço actual do ensino da Língua Portuguesa no Senegal, é importante conhecermos dados sobre as regiões e as escolas secundárias onde se inicia o estudo da Língua Portuguesa. Começamos por apresentar as escolas frequentadas pelos estudantes universitários que escolheram continuar os Estudos Portugueses na UCAD (Universidade Cheikh Anta Diop). Trata-se do público-alvo do inquérito, cujos resultados foram já apresentados. Os estudantes universitários da UCAD, inscritos em DUEL I e DUEL II, no ano lectivo de 2004-2005, realizaram os seus estudos do Ensino Secundário nas seguintes escolas, de várias regiões do Senegal: - Região de Dakar: Cours Sainte Marie de Hann, Lycée John F. Kennedy, Lycée Lamine Gueye, Lycée Mixte Maurice Delafosse, Lycée des Parcelles Assainies e Lycée Seydina Limamou Laye, em Dakar; Lycée Abdoulaye Sadji e Lycée Moderne em Rufisque; - Região de Djourbel: Lycée d’Enseignement Général em Djourbel; - Região de Fatick: Lycée Léopold Sédar Senghor em Fatick, e CEM de Palmarin; - Região de Kaolack : Lycée Valdiodio Ndiaye em Kaolack; 171

- Região de Kolda: Lycée Alpha Molo Balde, em Kolda; Lycée Ibou Diallo, em Sédhiou; - Região de Saint-Louis: Lycée Charles De Gaulle e Lycée Louis Faidherbe, em Saint-Louis ; - Região de Tambacounda: Lycée Mame Cheikh Mbaye, em Tambacounda; - Região de Thiès: Lycée Léopold Sédar Senghor, em Joal; CEM Malick Sy e Lycée Malick Sy, em Thiès; - Região de Ziguinchor: Lycée Alioune Sane, em Bignona; Lycée Aline Sitoé Diatta, em Oussouye; CEM de Thionk-Essyl; CEM Amilcar Cabral, Lycée Djignabo e Lycée Saint Charles Lwango, em Ziguinchor. Dado o número total de alunos seleccionados para o curso de Estudos Portugueses da Faculdade de Letras da Universidade Cheikh Anta Diop, e de acordo com estes dados recolhidos junto dos alunos, poderemos depreender que estas são as escolas secundárias que apresentam geralmente maior sucesso no ensino da Língua e Cultura Portuguesas, no Senegal. A Embaixada de Portugal em Dacar procurou também saber, com exactidão, em 2004, o panorama completo do ensino do Português no Senegal, na medida em que, até então, todos (anteriores leitores, professores senegaleses, inspectores de Academia, etc) falavam em “cerca de” 8, 9, 10 mil alunos. Considerou-se, então, que a desejável melhoria do apoio ao ensino do Português começaria por uma definição de prioridades, baseada na realidade sobre a distribuição dos efectivos de escolas, professores e alunos. Para efeito, o Embaixador pediu-nos a colaboração para conduzir este trabalho que se revelou, autentica mas inesperadamente, de morosa investigação. Num primeiro momento, recorreu-se ao Ministério da Educação do Senegal, ao qual foram solicitados os elementos em causa. Apesar de promessas reiteradas, o facto é que nunca se recebeu uma listagem do Ministério da Educação, acabando um responsável por reconhecer, em Dezembro de 2004, que os serviços não tinham conhecimento da realidade do país, nem um sistema estatístico de rotina e operacional. Foi então necessário recorrer a uma abordagem diferente, tendo sido pedido à autora que realizasse um trabalho metódico de contacto de todas as escolas senegalesas passíveis de oferecer aulas de Português. Assim, começámos por solicitar aos participantes do “Colóquio sobre o Ensino Recíproco do Português e do Francês” (realizado em Dezembro de 2004), o preenchimento de uma folha, com indicação da escola em que leccionavam e dos 172

contactos. Infelizmente, apesar de muitas insistências, não foi possível contactá-los a todos, verificando-se que certos números de telefone estavam errados. Numa segunda fase, procurámos contactar, uma a uma, todas as escolas indicadas pelo Ministério da Educação, pelos professores e as constantes na lista telefónica (o que, ainda assim, poderá não ter garantido a cobertura integral do espaço escolar senegalês). Infelizmente, entre números errados e ausência frequente de responsáveis, nem sempre foi possível obter respostas. Assinale-se que, devido à inexistência de viatura disponível da Embaixada e às limitações orçamentais que impossibilitavam o pagamento de deslocações a cidades distantes, não nos foi possível efectuar deslocações ao terreno. Por outro lado, tendo presente a evidente falibilidade das informações prestadas, optou-se por repetir todas as chamadas das escolas que informaram ter alunos de Português, para confirmar os dados fornecidos, tendo por vezes sucedido que se verificaram contraditórios, obrigando a uma terceira chamada. Solicitou-se a todas as escolas que enviassem os dados por escrito, mas apenas duas o fizeram. Os dados solicitados foram os seguintes: nome exacto da escola; localidade, endereço, telefone, fax e correio electrónico; nº de alunos de Português por ano escolar; n.º e nome dos professores de Português; nome e contacto do Director da escola; se a escola tem clube de Português.

Os dados obtidos relativos às escolas que leccionam Português estão parcialmente resumidos no quadro 32, retendo-se os seguintes elementos: - Escolas recenseadas: 93215 - Escolas contactadas: 86 - Escolas que não têm Português: 29 - Escolas que têm Português: 57 - Nº de Professores: 92216 - Nº de total de alunos: 10966217.

Recordamos que o Português só é disponibilizado a partir da 4ème / 8º ano de escolaridade Assinala-se que não foi possível obter os nomes dos Professores de 17 escolas que têm alunos de Português - o que poderá ser estranho para quem não conheça a Administração senegalesa, pelo que é provável que o efectivo se aproxime dos 110 docentes
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Os alunos recenseados estão repartidos pelos seguintes anos: - em 4ème: - em 3ème: - em 2nde: - em 1ère: - Em Terminale: 1409 (12,8%); 1071 (9,8%); 3257 (29,7%); 3050 (27,8%); 2282 (20,8%).

Por último, foram recenseados oito clubes de Português, mas a maioria dos Directores não estava bem informada sobre esta actividade nas escolas. Vejamos, de seguida, a rede de escolas senegalesas em que se leccionava Português no ano lectivo de 2004-2005. Devido ao grande número de escolas, optámos por dividi-las por quadros evidenciando a repartição regional Quadro 32a – Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos (2004-2005) – Norte e Centro interior do Senegal
ESCOLA LOCALIDADE N.º DE ALUNOS 4eme 3eme 2nde 1ere Term TOTAL 22 42 64 27 22 11 60 2 1 3 41 64 19 124 16 16 15 47 9 7 4 20 262 382 150 691 49 27 28 104 43 43 85 71 156 61 14 75 52 42 94 18 10 1 3 32 267 85 83 435 149 121 45 315 265 191 814 748 348 2263

CEM André Guiaber CEM Mpal CEM Sancaré Lycée Charles de Gaulle Lycée Cheick Omar Foutya Tall Collège Privé Cheikh Assane Ndiaye Lycée d'Enseignement Général Lycée Techniq. Cheikh Ahmadou Bamba CEM Acapes CEM Moriba Diakite CEM Quinzambougou CEM Thierno Souleymane Agne Collège Waounde Ndiaye Lycée de Tambacounda Lycée Mame Cheikh Mbaye TOTAL

Saint-Louis Saint-Louis Saint-Louis Saint-Louis Saint-Louis Djourbel Djourbel Djourbel Tambacounda Tambacounda Tambacounda Tambacounda Tambacounda Tambacounda Tambacounda

Contudo, não foi possível obter esta informação em 2 escolas, pelo que, tendo também em conta que não conseguimos contactar 8 escolas, é razoável apontar para uma fasquia superior a 11000 alunos

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Quadro 32 b/c - Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos (20042005) – Centro Oeste e Casamansa
LOCALIDADE N.º DE ALUNOS

ESCOLA
CEM Abdoulaye Mathurin Diop Cours Sainte-Marie de Hann Ecole Fadilou Diop Lycée Blaise Diagne Lycée Galandou Diouf Lycée J F Kennedy Lycée Lamine Guèye Lycée Mixte Maurice Delafosse Lycée Parcelles Assainies Lycée Seydina Limamoulaye Lycée de Mbao Lycée Abdoulaye Sadji Nouveau Lycée de Rufisque CEM Malick Sy CEM Modeime Lat Dior Cours Bede Yacine Kocc Barna Privé Promo Educ Lycée Malick Sy Nouveau Lycée de Thiès CEM Lamine Senghor Lycée Léopold Sedar Senghor CEM Djim Momar Gueye CEM Valdiodio Ndiaye Lycée Valdiodio Ndiaye CEM Collège Maounde Kande CEM Kolda Groupe Scolaire An Nur Lycée Alpha Balde CEM Amadou Maputhe Diagne CEM Saint Jean Lycée Ibou Diallo Lycée Chérif Sambidine Haidara CEM Kandé CEM Tété Diadhiou CEM Thionk Essyl Collège Goudomp Collège Lwanga Charles Collège Malick Sall Lycée Djinabo Aline Sitoé Diatta Lycée Ahoune Sane CEM de Sindiane TOTAIS

4eme 3eme 2nde 1ere Term TOTAL Dacar 52 63 115 Dacar 15 4 22 13 16 70 Dacar 86 80 166 Dacar 21 25 145 131 40 362 Dacar 10 20 10 20 7 67 Dacar 12 7 85 120 54 278 Dacar 57 41 13 111 Dacar 71 73 60 204 Dacar 225 176 112 513 Guediawaye – DK 136 47 46 229 Mbao – DK 40 54 30 124 Rufisque – DK 65 47 33 145 Rufisque – DK 102 16 27 145 Thiès 40 40 Thiès 2 2 Thiès 10 1 2 5 18 Thiès 1 6 5 3 15 Thiès 145 287 122 554 Thiès 96 148 244 Mbour – TH 22 12 34 Mbour – TH 32 45 27 104 Kaolack 53 54 107 Kaolack 42 38 80 Kaolack 216 45 44 305 Kolda 12 10 3 12 37 Kolda 62 75 137 Kolda 5 2 7 14 Kolda 29 82 34 145 Sedhiou – KOL 101 82 183 Sedhiou - KOL 2 2 Sédhiou – KOL 73 57 232 116 81 559 Velingara – KOL 68 10 78 Ziguinchor 0 Ziguinchor 99 50 149 Ziguinchor 163 139 135 121 80 638 Ziguinchor 75 120 195 Ziguinchor 180 150 206 536 Ziguinchor 130 130 Ziguinchor 190 447 208 845 Oussouye – ZG 40 84 38 28 47 237 Bignona - ZG 45 83 618 746 Sindiane – ZGR 20 20 40 1144 880 2443 2302 1934 8703

A análise do quadro 31 permite retirar algumas conclusões:

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Os alunos das principais regiões e cidades do Senegal têm a possibilidade de aprender Português no 3º Ciclo do Ensino Básico e no Secundário (terminologia portuguesa), à excepção das regiões de Louga e de Fatick, bem assim como das cidades de Bakel, Matam e Podor, que ficam muito distantes da capital regional, Saint-Louis, em pleno interior Nordeste, área de fraca densidade populacional e habitada pelas etnias Peul, Toukouleur e Wolof. Relativamente à região de Fatick, assinale-se que a Escola de Palmarin, na qual muitos alunos tradicionalmente frequentam o Português, estava, no ano da análise, sem professor, na medida em que o titular fora para Portugal como bolseiro. Ora, sucede que, devido à organização interna do sistema de ensino senegalês, esta situação pode provocar o fim do ensino da nossa Língua, na medida em que, se não houver professor, deixa de haver a oferta da disciplina que é, não raras vezes, prontamente substituída por outra218, sem possibilidade de regresso à situação inicial. No seu regresso, o professor poderá ter sido colocado noutra escola. Este tipo de consequências de uma certa inadequação da figura da concessão de bolsas anuais foi diversas vezes objecto de reparos e informações dos sucessivos leitores na UCAD ao Instituto Camões, mas sem êxito até àquela data. No cômputo geral, a Casamansa destaca-se claramente pela oferta disponível e pelo número de alunos: 18 escolas (5 das 7 com mais alunos) e 4671 alunos (42,6%). Contudo, assinale-se que a percentagem de alunos casamansences que frequentam a disciplina de Português no Ensino Secundário é menor do que a de inscritos na UCAD. Este dado explica-se, a nosso ver, pelo aumento dos alunos inscritos na disciplina nas escolas da região de Dakar (2529 alunos - 23,9%)., de que, porventura, uma parte significativa poderá ter familiares ascendentes da Casamansa ou da Guiné-Bissau.

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O Instituto Cervantes é, nesta matéria, particularmente agressivo e eficaz na promoção do Espanhol

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CONCLUSÃO
Não é muito difícil depreendermos que na África Ocidental estejam ocultos muitos vestígios da presença portuguesa. Muitos lugares, que são hoje países distintos, não tiveram sempre essa configuração, nem a tinham à chegada dos portugueses nas suas caravelas, no século XV. A presença de vários países lusófonos, relativamente próximos geograficamente, é indício óbvio da disseminação de marcas portuguesas. Principalmente a Língua Portuguesa está espalhada pelo continente africano e os africanos identificam-na há séculos. Nos nossos dias, talvez a marca linguística seja a maior evidência das Descobertas lusíadas. De facto, é aquela que vingou, como marca histórica e pela necessidade de comunicação humana, embora não pareça ter havido, desde o início desse projecto luso, um plano específico de difusão da Língua. Mais tarde, após a conferência de Berlim, os territórios africanos ficaram divididos e desenhados com régua e esquadro no mapa, de acordo com os interesses dos países que colonizaram África, a partir do século XVIII. Mas a vontade dos europeus de dividir, de separar e de ter aquelas terras não conseguiu desmembrar completamente as culturas dos povos que aí habitavam. Esses povos e as suas culturas continuaram a evoluir com as suas dinâmicas próprias, tal como em tempos anteriores. Sempre o poderio estrangeiro, em geral, assentava nas relações comerciais, perpetuando a busca de riqueza e de melhores condições de vida em proveito próprio nesses lugares. Os estrangeiros, visitantes ou invasores de África, adquiriram escassos conhecimentos sobre as particularidades culturais dos nativos. Esse interesse não fazia parte dos objectivos e das prioridades dos tratados que assinaram ao longo dos séculos. Por isso, a antiguidade da presença portuguesa e muitas marcas iam sendo preservadas, memorizadas, pelos nativos, ainda que sem intencionalidade específica, e dentro dos seus hábitos culturais. Assim, apesar da descolonização e das lutas pela independência mais recentemente, a nossa ideia-chave é que está ainda em curso a Expansão da Lusofonia. No começo, a convicção do Infante D. Henrique foi maior na grande aventura dos Descobrimentos. O Infante manifestava uma consciência especial, de prudência e bom senso, sabendo, desde logo, que estava a expor-se a muitos perigos no espaço desconhecido, tal como demonstrámos. A Santa Sé deu um voto de confiança e acreditou que essa aventura poderia ser uma via para simultaneamente combater os

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infiéis e difundir a fé cristã. Por isso, concedeu tudo o que os portugueses pediram e legitimou todas as suas Descobertas, incluindo as suas conquistas futuras em lugares desconhecidos. Apoiou os Descobrimentos portugueses e cristãos, ab initio. A Coroa portuguesa igualmente deu sempre um grande valor às determinações da Santa Sé, para legitimar grandes conquistas portuguesas, e não só, que adquiriram grande prestígio internacional, por intermédio de relações pacíficas e respeitosas com o poder da Igreja Católica. Assim, toda a Nação se entregou a essa aventura marítima, também com grande empenho na procura do reino cristão do Preste João das Índias, porque a devoção do povo português era profunda e muito menos reservada do que actualmente. Fizeram-se múltiplos investimentos, prepararam-se intensa e continuadamente as expedições marítimas, embora não se registassem dados seguros que orientassem os navegadores de forma inequívoca. O desconhecimento da “Etiópia” era quase total, excluindo o Norte banhado pelo Mediterrâneo. Quando os portugueses chegaram à África ocidental, os africanos foram, de facto, surpreendidos pelos visitantes, e tudo indica que mantiveram as suas dinâmicas culturais. Como sabemos, o confronto de culturas tem particularidades que nem sempre facilitam a comunicação entre os povos. Era grande a dispersão dos habitantes da África ocidental, antes e depois dos lusíadas. Vários fluxos migratórios, de proveniências diferentes, se tinham fixado nesses lugares, disputando os poderes e as riquezas naturais daqueles sítios. Apresentavam uma consistente organização na troca dos produtos destas terras. Ao longo dos séculos, vários povos chegaram, instalaram-se e dispersaram-se naquele imenso continente, onde o Islão surgiu também como uma invasão sobre as culturas de muitos grupos. O Islão árabe219 foi impondo essa religião cuja influência

LEWIS, Bernard, Os árabes na História, (trad) Ed. Estampa, 2ª ed, 1996, pp 158-160: o primeiro traço que nos chama a atenção é o poder assimilativo da cultura árabe, muitas vezes indevidamente apresentado como meramente imitativo. As conquistas árabes uniram, pela primeira vez na história, os vastos territórios que se estendem desde as fronteiras da Índia e da China até às proximidades da Grécia, Itália e França. Durante algum tempo pelo seu poder militar e político, durante muito mais tempo pela sua língua e pela sua fé, os Árabes uniram numa única sociedade duas culturas inicialmente colidentes –a tradição mediterrânica milenar e diversificada, da Grécia, Roma, Israel e do Próximo Oriente antigo,e a rica civilização da Pérsia, com padrões de vida e de pensamento próprios e os seus férteis contactos com as grandes culturas do Oriente mais afastado. Da coabitação de muitos povos, fés e culturas no seio da sociedade islâmica nasceu uma civilização nova, diversa nas suas origens e nos seus criadores, e no entanto imprimindo em todas as suas manifestações o cunho característico do Islão árabe. Desta diversidade da sociedade islâmica ressalta um segundo traço característico, particularmente surpreendente para o observador europeu – a sua relativa tolerância. Contrariamente aos seus contemporâneos do Ocidente, o muçulmano medieval raramente sentiu necessidade de impor o seu credo pela força a todos aqueles que se encontravam subjugados à sua autoridade. Tal como eles, ele sabia perfeitamente que, na devida altura, aqueles que acreditavam em algo diferente sofreriam as penas do Inferno. Mas ao contrário deles, não via qualquer vantagem em se antecipar ao julgamento divino neste mundo. A maior parte das

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nem sempre foi benéfica nem pacífica, sendo a causa do declínio de grandes impérios africanos (Mali, Gabú) e de conflitos duradouros na região. A sua influência permaneceu até aos nossos dias com marcas visíveis, definitivas e complexas que merecem um estudo exaustivo e específico, que nós não tínhamos como objectivo abordar. Contudo, não se pode ignorar a sua existência no Senegal. Os árabes invadiram também a Península Ibérica, os portugueses reconquistaram o território cristão, assimilaram aspectos dessa cultura mas expulsaram os muçulmanos e, na sequência desse plano nacional, da acção e da vontade firmes dos monarcas, restabeleceram as suas raízes culturais e a posse dos territórios. No século XV, como na época da Reconquista, os portugueses voltam a unir-se para a concretização de um novo plano nacional, para o qual também contribuiu o engenho de muitos monarcas que possibilitaram os Descobrimentos, com as suas iniciativas no aperfeiçoamento continuado da marinha portuguesa, que seria a chave para resolver muitos problemas do país, no futuro. Por um lado, o desenvolvimento da marinha permitia não só uma maior eficácia no ataque aos inimigos mas também a defesa e a protecção do país. Por outro lado, serviu para combater os infiéis, o Islão, e expulsá-los do território. Portanto, a unidade do povo português em torno de grandes projectos nacionais foi, ao longo dos tempos, a maior garantia do sucesso de certas acções, incluindo aqui obviamente as Grandes Descobertas. Embora a maior riqueza que se espalhou no mundo nem sequer tenha obedecido a um plano desde o começo. Falamos da difusão da Língua Portuguesa. que até hoje permanece em tantas partes de África. Além dos países lusófonos, também no Senegal, como noutros países africanos onde os portugueses passaram, deixaram-se marcas ainda por explorar. A aventura portuguesa, pode dizer-se, foi sendo preparada ao longo de séculos, ignorando e desconhecendo totalmente o passado africano. Quando chegaram a esses lugares, os portugueses surpreenderam-se com as paisagens e os povos que encontraram, precisaram de tempo para assimilar as práticas culturais locais e adaptar-se às novas realidades, mas conseguiram fazê-lo com êxito, de acordo com as orientações

vezes sentiu-se satisfeito por pertencer à fé dominante numa sociedade de muitas fés. Impôs aos restantes algumas discriminações sociais e legais, em sinal da supremacia, e a advertência não se fazia esperar se alguma vez parecessem dispostos a esquecê-lo. De outro modo, concedia-lhes a sua liberdade religiosa, económica e intelectual, e dava-lhes a oportunidade de contribuírem de forma notável para a própria civilização árabe.

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recebidas no reino e não à maneira dos africanos, cada povo agiu dentro das suas características culturais. Devemos considerar que as Descobertas tiveram início com o desconhecimento completo da existência dos povos e das culturas ao Sul do rio Senegal. Não se podem atribuir intenções aos portugueses que eles nunca poderiam ter antes de lá chegarem, como por exemplo a exploração do homem preto pelo homem branco; o racismo não existia, por desconhecimento de uns e de outros. O que aconteceu depois é consequência de novas realidades em que todos participaram, e em que ninguém foi sempre inocente. Pelo contrário, no continente africano, os povos apresentavam-se muito divididos e dispersos, além de disputarem entre si as mesmas riquezas e os mesmos poderes, o que reforçava a conflitualidade, com todas as consequências dela decorrentes. Por outro lado, havia um confronto entre as diversas culturas originais destes povos, de diversas proveniências e a intromissão da religião islâmica que veio alterar profundamente a organização social e subverter hierarquias instituídas, constituindo um factor adicional de desordem, com grande impacto, além dos conflitos que já existiam entre os muitos reinos. Quando os portugueses chegaram à África ocidental, depararam já com os traços predominantes da diferença de civilizações ainda hoje verificável. Com efeito, a influência islâmica, já bem presente, mesclada com as tradições animistas, criou um subtipo cultural e civilizacional específico e distinto, quer das sociedadade tribais “puras” da África negra, quer das magrebinas e, obviamente, muito diferente da portuguesa. Por outro lado, após a chegada dos europeus, além da escassez de documentos em certos períodos de tempo, África surge sempre ligada às culturas e às acções dos colonizadores, o que lhe retira conteúdos, substância e objectividade; pois, os africanos estão, geralmente, ocultos pelos acontecimentos mais recentes da colonização europeia, acentuam-se as perplexidades sobre o tráfico negreiro e desvalorizam-se frequentemente características específicas dos povos africanos, que não são da responsabilidade dos colonizadores, o que leva estes povos a não empreenderem uma reflexão exaustiva sobre as suas acções no passado. Por exemplo, no contexto da escravatura, nem todos os argumentos que se apontam contra o antigo colonizador são de aceitar para justificar as dificuldades em que vivem, na medida em que já existia em África, e os africanos aderiram a muitas das acções dos estrangeiros. Por outro lado, mantêm apoios diversos, dos países cooperantes e dos planos da Ajuda Pública ao Desenvolvimento do chamado 180

Terceiro Mundo, que deviam reverter para o bem comum e, como se sabe, isto raramente acontece. Apesar das mudanças de contextos políticos e económicos, os africanos continuam a refugiar-se num “certo” e ainda nubloso passado, marcado pela interferência de estrangeiros, para justificar a maneira como vivem e não sentirem a urgência de mudar. Contudo, ao mesmo tempo, integram a influência islâmica sem a questionarem e distinguem as suas identidades, afirmando mantê-las bem vivas e seguras, pelo saber e pelas tradições transmitidos de geração em geração. Afinal, as suas culturas específicas estiveram e estão sempre presentes nos seus modos de vida. Portanto, conjugam estas três vertentes culturais e civilizacionais (islâmica, europeia e culturas autóctones) que, de acordo com as conveniências, interferem nas suas acções, na resolução de problemas e na preparação do futuro. Não deixa de ser verdade que essa mescla de culturas pode dificultar a escolha de uma via de mudança e de desenvolvimento dos países. Por isso, interessa conhecer essa partilha dos territórios e das riquezas do continente, pelos indígenas e pelos estrangeiros, ao longo de mais de cinco séculos. Parece-nos mais ou menos claro que, até hoje, devemos entender que, desde o século XV, há uma História comum em África, dos estrangeiros (europeus e não só) e dos nativos africanos, várias culturas, com vidas que partilhavam os lugares, as riquezas da terra e do mar, o comércio, desejado por todos, e a partir do qual se desenvolveu um novo contexto económico. A sociedade, os hábitos e os costumes, a religião, ou seja, estes aspectos das culturas que se cruzaram, não impediam os contactos comerciais nem separavam totalmente as gentes que por ali passavam. Temos de ver, contudo, duas excepções, ou dois aspectos que mudaram os indígenas. Por um lado, a religião islâmica mantém influências mais antigas e mais fortes sobre os povos do Norte de África. Contudo, a religião católica implantou-se reconhecidamente, desde muito cedo, por acção dos portugueses: “Les Portugais sont sans contredit les premiers qui envoyèrent des prêtres sur les côtes qui nous occupent en ce moment. Quoique nous n’ayons aucun registre concernant leur mission, la chrétienté de Joal, dont nous parlerons plus tard, en est une preuve palpable. Nous les verrons s’honorer du nom de Portugais et conserver glorieusement leur titre de chrétiens, malgré toute leur ignorance et toutes leurs superstitions. Les vieillards de quatre-vingt-dix ans se vantent encore d’avoir été les enfants de choeur des derniers missionaires portugais, et aiment encore à raconter des 181

traditions de leurs pères touchant les premiers qui portèrent chez eux le flambeau de la foi.”220 Por outro lado, há também a transmissão / imposição das línguas europeias dos colonizadores. Apesar disso, muitas línguas étnicas resistiram às interferências dos estrangeiros e continuam a ser faladas pelos nativos de África. Existem várias descrições de África, escritas por europeus, deixadas por navegadores, comerciantes, governantes, missionários, que nos legaram as suas experiências em contacto directo com os africanos, desde o século XV. Os africanos não escreveram sobre essas épocas mais remotas, contaram a sua História de geração em geração. Mas esses elementos da tradição oral não coincidirão com os dados históricos enunciados em fontes escritas por outros que viram e contaram o que viveram nesses tempos, nesses lugares, em contacto com esses povos? Consideramos que o período entre os séculos XV e XVII, ao momento da chegada dos portugueses, será o momento de maior impacto dos novos contactos culturais, aquando das Descobertas desta costa africana. Por isso, esses acontecimentos apresentam especificidades sobre a difusão da Língua Portuguesa junto dos indígenas. Podemos estudá-las para compreender melhor os vestígios da presença portuguesa que parecem influenciar os projectos culturais, políticos e económicos do Senegal na actualidade. Por serem tão antigas, a influência e as consequências da presença dos portugueses nos territórios do actual Senegal, encontram-se muitas vezes por detrás da cortina da colonização. Desde muito cedo, os africanos sabiam orientar-se com eficácia naqueles largos espaços. Temos notícia das caravanas que organizavam para trocar os seus bens e que são a prova sobre o conhecimento que tinham para empreender acções que lhes interessassem verdadeiramente. As riquezas dos lugares – o ouro e outros metais preciosos, o sal e os escravos – eram produtos muito valiosos e abundantes, à volta dos quais se foram construindo e desfazendo muitos reinos africanos, ao longo de várias gerações e de muitos séculos, muito para além da data das Descobertas dos portugueses. São culturas diferentes, desde sempre. Mas, apesar de longínqua, a influência portuguesa deixou marcas, reminiscências e vestígios visíveis no povo senegalês, tal como pudemos verificar e concluir neste nosso estudo e também pela análise do inquérito aos estudantes universitários de Estudos Portugueses na Universidade Cheikh

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A. D. BOILAT (1853); Op. Cit., pp. 20

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Anta Diop de Dakar. Além das fontes documentais que consultámos, de períodos diferentes da História, de vários autores que viram, viveram e transmitiram características concretas destas realidades, este inquérito acrescenta aspectos da actualidade senegalesa e deu-nos a possibilidade de confrontar o passado com o presente. Mas também permite antecipar medidas de acção para a difusão da Língua Portuguesa no Senegal, dado que existe um tão grande interesse e empenho neste desenvolvimento. Como pudemos constatar e, em síntese, devemos reter as conclusões principais mais pertinentes do inquérito realizado junto dos alunos da UCAD. Os alunos manifestaram, na sua grande maioria, um gosto especial pela língua e cultura portuguesas, tendo recebido estímulos para os Estudos Portugueses, da parte da família e de amigos, sendo principalmente provenientes de regiões geográficas do Sul do Senegal, na fronteira com a Guiné-Bissau, país lusófono, a que acresce a predominância das etnias do Sul entre os estudantes, o que explica também a distribuição e a concentração das escolas do ensino secundário. Estes resultados confirmam portanto que essa apetência dos jovens senegaleses para os Estudos Portugueses tem causas muito remotas que continuam a influenciar as escolhas ou as preferências deste povo. Ao mesmo tempo, fica comprovado que, através das etnias e das famílias, a transmissão oral de experiências e de conhecimentos, de geração em geração, continua bem viva e a orientar as escolhas dos mais jovens africanos. Os dados históricos aqui enunciados e as realidades evidenciadas pelo inquérito mostram um interesse significativo do Estado senegalês no ensino do Português, merecendo, no nosso entendimento, um apoio muito maior do que aquele que tem sido prestado por Portugal. Em particular, a região da Casamansa deve ser objecto de uma atenção especial, tendo em conta a sua posição geográfica (fronteira da Guiné-Bissau), a sua etnia tradicionalmente dominante (diolas ou flups, espalhados pelos dois países) e a grande concentração de escolas, professores e alunos de Português, provavelmente das mais elevadas nos países que não integram a CPLP. Além disso, esta região é distante de Dakar – e ainda mais isolada desde o desastre do navio Joola, 2002 - o que cria graves dificuldades de mobilidade aos docentes que queiram fazer formação na capital. Em geral, os contactos realizados permitiram verificar a nítida dificuldade no domínio da língua de muitos professores, sem prejuízo do grande empenhamento e motivação que alguns revelam no exercício das suas funções. Assim, parece-nos do máximo interesse restabelecer um programa de bolsas de curta duração (2 meses, no 183

máximo), a gozar no Verão em Portugal, de que todos os professores, rotativamente, deveriam beneficiar regularmente ao longo da vida profissional (de 5 em 5 anos, por exemplo), para manter um contacto directo com a Língua. As bolsas de curto prazo parecem preferíveis, não apenas por questões de natureza económica, mas também porque se verificou, no passado, que bolsas anuais levavam à extinção da oferta de Português nas escolas a que pertenciam os professores beneficiários. Por outro lado, afiguram-se também mais úteis os contactos regulares com Portugal, em vez de uma grande e única estada em Portugal. Além de tudo isto, os materiais são escassos e muitas vezes desactualizados ou inadequados, por vezes mesmo contraproducentes para um conhecimento realista do nosso país. Trata-se de um problema que começa, desde logo, na Universidade, sem meios de qualquer ordem para um ensino superior mais digno e cujos docentes privilegiam sectores ou perspectivas da nossa Literatura e da nossa Cultura que se afiguram 30 anos atrasados. Parece-nos, pois, urgente dotar as escolas de manuais – que ali não existem – e utilizar parte do acervo do ICA (Instituto Camões), por exemplo, para equipar as biliotecas e clubes com livros em Português, que suscitam curiosidade e interesse dificilmente compreensíveis para qualquer europeu que não sabe o que é aprender em condições tão deficientes. Parece-nos também que o projecto já esboçado de distribuição de jornais por escolas, como materiais de trabalho, em parceria com a TAP – Air Portugal, seria muito útil para manter todos os professores e alunos em contacto com a realidade actual portuguesa. Por último, parece-nos imprescindível apoiar melhor a Universidade, atribuindo ao leitorado de Português pelo menos um equipamento de projecção de filmes e imagens (computador portátil e projector), para que os alunos (646 no ano lectivo de 2004-2005) possam familiarizar-se com a Língua e com o País. Por, outro lado, criar e gerir com competência Bibliotecas ou Centros Culturais de Língua Portuguesa, como o de Cabo Verde, a título de exemplo, seria estabelecer alicerces definitivos para a permanência e/ou para a continuidade da expansão da Língua Portuguesa, em vários países, atestando e reforçando a sua actual pertinência na comunicação a nível mundial. São algumas pistas que deixamos com o objectivo de valorizar a continuidade da Expansão da Lusofonia em África. Ali existem tantos países lusófonos, tantos falantes da nossa língua e tanta vontade de aprender e de manter o laço histórico que continua a aproximar os nossos países! Com a Língua Portuguesa construímos, há muitos séculos, 184

uma “auto-estrada da comunicação”. Por isso, chamamos a atenção para o facto de esta realidade ser frequentemente negligenciada ou mal entendida, tendo vindo a excluir-se sucessivamente oportunidades para o desenvolvimento e o crescimento de todos estes países africanos, que Portugal poderia apoiar. Todos poderão beneficiar de projectos facilitadores e multiplicadores para o enriquecimento cultural, também económico, contribuindo mutuamente para a estabilidade, para uma maior qualidade de vida, valorizando e espalhando este bem comum, a Língua Portuguesa, uma ponte entre Portugal, África e o Mundo.

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MAPAS Mapa 1 - O Senegal pré-colonial do século XV ao século XVIII ---------------Mapa 2 - O Gabú no século XVIII --------------------------------------------------Mapa 3 - Regiões e capitais regionais do Senegal --------------------------------Mapa 4 - Grupos étnicos no Senegal actual ----------------------------------------Mapa 5 - Fluxos migratórios dos avós dos alunos ---------------------------------Mapa 6 - Fluxos migratórios dos pais dos alunos ---------------------------------11 14 116 120 128 129

QUADROS Quadro 1 - Inquérito -------------------------------------------------------------------Quadro 1.1. - Nomes citados pelo menos três vezes -------------------------------103 107

Quadro 1.2. - Nomes citados duas vezes ---------------------------------------------- 108 Quadro 1.3. - Nomes citados uma vez ------------------------------------------------- 108 Quadro 2 - Repartição etária dos alunos ----------------------------------------------- 115 Quadro 3 - Distribuição por área de nascimento ------------------------------------- 117 Quadro 4 - Repartição das etnias na amostra de estudantes e na população do Senegal ------------------------------------------------------------------- 118 Quadro 5 - Repartição das grandes famílias de etnias na amostra de estudantes e na população do Senegal ----------------------------------- 119 Quadro 6 - Relação etnia/ área de nascimento dos alunos --------------------------- 121 Quadro 7 - Relação etnia/ região de nascimento dos pais ---------------------------- 122 Quadro 8 - Relação etnia/ região de nascimento dos avós --------------------------- 124 Quadro 9 - Regiões ou país onde ocorre a maior frequência relativa de nascimentos por etnia ------------------------------------------------------- 131 Quadro 10 - Segunda área onde ocorrem mais nascimentos, por etnias ----------- 132 Quadro 11 - Repartição de nascimentos pelas regiões dominantes de cada etnia 132 Quadro 12 a - Repartção, por regiões, de todos os nascimentos no Senegal ------ 133 Quadro 12 b - Repartição, por países, dos nascimentos ocorridos fora do Senegal e sua frequência relativa no total de todos os nascimentos--------- 134 Quadro 13 - Repartição da população senegalesa, por regiões, em 2000, e comparação com as frequências relativas da repartição dos 186

nascimentos de alunos e familiares ----------------------------------- 134 Quadro 14 a - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo subguineense 139 Quadro 14 b - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo sahelo-sudanês--------------------------------------------------- 139 Quadro 14 c - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo mande ----- 139 Quadro 14 d - Casamentos dos pais – miscigenação étnica – grupo halpular ---- 139 Quadro 15 a - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo subguineense 140 Quadro 15 b - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo sahelo-sudanês---------------------------------------------------- 140 Quadro 15 c - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo mande ------ 140 Quadro 15 d - Casamentos de avós – miscigenação étnica – grupo halpular ----- 140 Quadro 16 - Frequência relativa dos casamentos com pessoas da mesma etnia -- 141 Quadro 17 - Outras etnias com que se registam casamentos ----------------------- 142 Quadro 18 - Profissões exercidas pelos familiares dos estudantes ---------------- 150 Quadro 19 - Pessoas com quem vivia antes da entrada na Universidade --------- 152 Quadro 20 – Pessoas com quem vivia à data do inquérito --------------------------- 152 Quadro 21 – Pessoas da família com quem viviam ----------------------------------- 153 Quadro 22 – Dimensão dos agregados familiares em que viviam os alunos ------ 153 Quadro 23 - Como teve conhecimento do Ensino do Português, no Senegal ----- 155 Quadro 23 bis - Outras razões ----------------------------------------------------------- 156 Quadro 24 - Duração dos Estudos de Português no liceu --------------------------- 156 Quadro 25 - Motivação para o estudo do Português no liceu ------------------------ 157 Quadro 26 - Motivação para os Estudos Superiores de Português ------------------ 158 Quadro 27 - Ambições e expectativas dos alunos quanto ao seu futuro profissional ----------------------------------------------------------------- 159 Quadro 28 - Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos sobre o que gostariam de fazer após a conclusão dos estudos ------ 161 Quadro 29 - Somatório das pontuações obtidas pelas respostas dos alunos sobre o que pensam fazer após a conclusão dos estudos ------------- 161 Quadro 30 - Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos estudos – 1ª preferência --------------------------------------------------- 163 Quadro 31 - Países onde os alunos gostariam de viver após a conclusão dos estudos – somatório das pontuações ------------------------------------- 164 Quadro 32 a - Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos 187

(2004- 2005) – Norte e Centro interior do Senegal ------------------ 174 Quadro 32 b/c - Escolas onde se lecciona Português e alunos inscritos (2004-2005) – Centro Oeste e Casamansa ---------------------------- 175

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ÍNDICE
Introdução ………………………………………………………………… 1

1. A Língua Portuguesa como instrumento para a construção da História de África : o caso do Senegal ……………………………… 1.1. Perspectiva histórica da Senegâmbia ……………………………. 1.2. A presença portuguesa …………………………………………… 1.3. Os indígenas da Guiné …………………………………………… 1.4. O comércio no Cabo Verde ……………………………………… 2. O Senegal e os países lusófonos …………………………………….. 2.1. A colonização ……………………………………………………. 2.2. O tráfico negreiro ………………………………………………… 2.3. Os reinos africanos ………………………………………………. 3. Inquérito aos estudantes universitários ……………………………. 3.1. Público-Alvo ……………………………………………………... 3.2. Questões …………………………………………………………. 3.3. Análise e comentários das respostas ……………………………... 3.3.1. Identificação Pessoal ……………………………………….. 3.3.1. a - Nomes de família …………………………………… 3.3.1. b - Idade ………………………………………………. 3.3.1. c - Local de nascimento ………………………………… 3.3.1. d - Etnia ………………………………………………… 3.3.1. e - Língua e miscigenação étnica ………………………. 3.3.1. f - Contexto social – profissões exercidas na família e a questão das castas…………………………………. 3.3.1. g - Agregados familiares dos alunos……………………. 3.3.2. Estudos Portugueses ………………………………………… 3.3.2. a - Antecedentes e motivos da escolha do Português …… 3.3.2. b - Expectativas quanto ao futuro profissional …………. 3.3.2. c.- Pulsão migratória ……………………………………. 149 152 155 155 159 162 6 9 27 49 57 63 65 79 88 100 101 102 106 106 107 115 116 117 138

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4. A difusão da Língua Portuguesa no Senegal …………………………. 4.1. Léopold Sédar Senghor ……………………………………………. 4.2. O Ensino Secundário ………………………………………………. 4.2.1. Estrutura do sistema ……………………………………… 4.2.2. Quadro geral do Português no Ensino Secundário em 2004 / 2005 …………………………………………… Conclusão ……………………………………………………………………. Mapas ……………………………………………………………………... Quadros …………………………………………………………………… Bibliografia ……………………………………………………………….. Índice ………………………………………………………………………

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