1

LIBERTAÇÃO FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER DITADO PELO ESPÍRITO ANDRÉ LUIZ (7) .

2

Série André Luiz 1 - Nosso Lar 2 - Os Mensageiros 3 - Missionários da Luz 4 - Obreiros da Vida Eterna 5 - No Mundo Maior 6 - Agenda Cristã 7 - Libertação 8 - Entre a Terra e o Céu 9 - Nos Domínios da Mediunidade 10 - Ação e Reação 11 - Evolução em Dois Mundos 12 - Mecanismos da Mediunidade 13 - Conduta Espírita 14 - Sexo e Destino 15 - Desobsessão 16 - E a Vida Continua...

3

ÍNDICE
Ante as portas livres CAPÍTULO 1 = Ouvindo elucidações CAPÍTULO 2 = A palestra do Instrutor CAPÍTULO 3 = Entendimento CAPÍTULO 4 = Numa cidade estranha CAPÍTULO 5 = Operações seletivas CAPÍTULO 6 = Observações e novidades CAPÍTULO 7 = Quadro doloroso CAPÍTULO 8 = Inesperada intercessão CAPÍTULO 9 = Perseguidores invisíveis CAPÍTULO 10 = Em aprendizado CAPÍTULO 11 = Valiosa experiência CAPÍTULO 12 = Missão de amor CAPÍTULO 13 = Convocação familiar CAPÍTULO 14 = Singular episódio CAPÍTULO 15 = Finalmente, o socorro CAPÍTULO 16 = Encantamento pernicioso CAPÍTULO 17 = Assistência fraternal CAPÍTULO 18 = Palavras de benfeitora CAPÍTULO 19 = Precioso entendimento CAPÍTULO 20 = Reencontro

ébrio de novidade e sedento de estudo.. o pobrezinho não dispunha de tempo para muito lazer e começou a estudar com bastante interesse. Apesar de macérrimo pela abstenção completa de qualquer conforto. arrebatavam para si todas as formas larvárias e ocupavam. ricas de flores e sol que o defrontavam. embarcações e pontes. Junto deles. do outro lado. a se refestelarem. impressionado com o espetáculo.. nédios e satisfeitos. porém. atingir o oceano. Os outros. abeirou-se dela mais que . Depois de muito tempo. Embevecido. Em breve. cabanas e arvoredo. todos os lugares consagrados ao descanso. porém. palácios e veículos. A frente da imprevista oportunidade de aventura benéfica. No centro de formoso jardim. e ali viviam. otimista. Elegeram um dos concidadãos de barbatanas para os encargos de rei. embriagado de esperança . avançou. De Inicio. encantado com as novas paisagens. contemplou nas margens homens e animais. através de grade muito estreita. perseguido pela canícula ou atormentado de fome. refletiu consigo: — “Não será melhor pesquisar a vida e conhecer outros rumos?” Optou pela mudança. com precisão. Alimentado por diminuto canal de pedra. arrolou todos os buracos nele existentes e sabia. Habituado com o pouco. entre a gula e a preguiça. encontrou a grade do escoadouro. em complicadas locas. com grande sofrimento. adornado de ladrilhos azul-turquesa. vorazes e gordalhudos. à custa de longas perquirições. displicentes. frescas e sombrias. Conseguiu. onde se reuniria maior massa de lama por ocasião de aguaceiros. jamais perdendo a leveza e a agilidade naturais. menosprezado de todos. Não conseguia pescar a mais leve larva. Nesse reduto acolhedor. Não encontrando pouso no vastíssimo domicilio. em correria constante. fascinado pela paixão de observar. vivia com extrema simplicidade. havia um peixinho vermelho. desse modo. vivia toda uma comunidade de peixes. plenamente despreocupados. perdeu várias escamas. aproximou-se de uma baleia para quem toda a água do lago em que vivera não seria mais que diminuta ração. nem refugiar-se nos nichos barrentos. escoava suas águas. O peixinho vermelho que nadasse e sofresse. Fêz o inventário de todos os ladrilhos que enfeitavam as bordas do poço. Por isso mesmo era visto. Pronunciando votos renovadores. e seguiu. Encontrou peixes de muitas famílias diferentes. que com ele simpatizaram. a fim de atravessar a passagem estreitíssima. alcançou grande rio e fêz inúmeros conhecimentos. pelo rego d’água. Instruindo-o quanto aos percalços da marcha e descortinando-lhe mais fácil roteiro. recordamos prazerosamente a antiga lenda egípcia do peixinho vermelho.4 Ante as portas livres Ante as portas livres de acesso ao trabalho cristão e ao conhecimento salutar que André Luiz vai desvelando. havia grande lago.

supôs que o seu regresso causasse surpresa e entusiasmo gerais. então. rios caudalosos repletos de seres diferentes e. Vivia. no Palácio de Coral que elegera. porque o valente cetáceo começou a soluçar e vomitou. que havia outro mundo liquido.. algo entorpecido pela mania de grandeza. protegidos por flores de lótus. sua prece foi ouvida. descobriu a existência de muitos peixinhos. para residência ditosa. o peixinho aflito orou ao Deus dos Peixes. estrelas móveis e flores diferentes no seio das águas. de momento para outro. mas depressa verificou que ninguém se mexia. reuniu o povo e permitiu que o mensageiro se explicasse. O peixinho pensou. Encontrou plantas luminosas. estudiosos e delgados tanto quanto ele. mas não houve quem lhe prestasse atenção. veio a saber que sômente no mar as criaturas aquáticas dispunham de mais sólida garantia. repimpados nos mesmos ninhos lodacentos. agradecido e feliz. prestando-lhes a tempo valiosas informações? Não hesitou. O benfeitor desprezado. sorridente e calmo. do peixe-coelho e do galo-do-mar. esclareceu. Estimulado pela proeza de amor que efetuava. pensou. procurou. deliberou consagrar-se à obra do progresso e salvação deles. Esbelto e satisfeito como sempre. glorioso e sem fim. ao se referir ao seu começo laborioso. corriam regatos ornados de flores. Lá fora. ali. o mar. Em apuros.. do rio dirigiu-se aos regatos e dos regatos se encaminhou para os canaizinhos que o conduziram ao primitivo lar. animais estranhos. por fim. ansiosamente. valendo-se do ensejo. onde a vida aparece cada vez mais rica e mais surpreendente. e sentindo imensa compaixão daqueles com quem convivera na infância. Fortalecido pela generosidade de irmãos benfeitores que com ele viviam no Palácio de Coral. Sobretudo. não obstante as trevas em que pedia salvamento. rogando proteção no bojo do monstro e. com centenas de amigos. de trutas e esqüalos. as águas de outra altitude continuariam a correr para o oceano. varou a grade e procurou. Ridicullzado. Todos os peixes continuavam pesados e ociosos. os velhos companheiros. Além do escoadouro próximo desdobravam-se outra vida e outra experiência. Contou que vira o céu . moscas ou minhocas desprezíveis. restituindo-o às correntes marinhas. havia dado pela ausência dele. passou a reparar as infinitas riquezas da vida. de onde saiam apenas para disputar larvas. a coletividade inteira lhe celebraria o feito. junto dos quais se sentia maravilhosamente feliz. quando o estio se fizesse mais arrasador.5 devia e foi tragado com os elementos que lhe constituíam a primeira refeição diária. o rei de guelras enormes e comunicou-lhe a reveladora aventura. com ênfase. Não seria justo regressar e anunciar-lhes a verdade? não seria nobre ampará-los. Deu notícias do peixe-lua. agora. pela vida de estudo e serviço a que se devotava. porqüanto ninguém. O pequeno viajante. O soberano. empreendeu comprida viagem de volta. de vez que. Gritou que voltara a casa. Plenamente transformado em suas concepções do mundo. Tornou ao rio. quando. procurou companhias sim páticas e aprendeu a evitar os perigos e tentações. Aquele poço era uma Insignificância que podia desaparecer. Certo. Descreveu o serviço de tainhas e salmões.

O soberano da comunidade. compelindo a comunidade inteira a perecer. abstendo-se de devorar tanta larva e tanto verme nas locas escuras e aprendendo a trabalhar e estudar tanto quanto era necessário à venturosa jornada. realizadas depois de muitos conflitos no sofrimento. aguardando o tempo. Deveriam todos emagrecer. no Palácio de Coral.. dirigiu-se em companhia dele até à grade de escoamento e.. buscando acender luz nas trevas. convenientemente. prósperos e tranquilos. além dos cubículos em que se movimentam. entre a mordacidade e a Indiferença. sem André Luiz e sem nós. exigindo. As águas desceram de nivel. que o peixinho vermelho delirava. volve aos recôncavos da Crosta Terrestre. Nosso lago é o centro do Universo.. Ninguém acreditou nele. em definitivo. 22 de fevereiro de 1949.” EMMANUEL Pedro Leopoldo. Mas. de longe. Esperam um paraíso gratuito com milagrosos deslumbramentos depois da morte do corpo. monstros temíveis.6 repleto de astros sublimes e que descobrira árvores gigantescas. procurando locas passageiras ou pleiteando larvas temporárias. E o poço onde viviam os peixes pachorrentos e vaidosos esvaziou-se. atolada na lama. é semelhante à missão do peixinho vermelho. porém. porém. Ninguém possui vida igual à nossa! . Fala. anunciando aos antigos companheiros que. Depois de alguns anos. onde viveriam todos. que aquela história de riachos. para todos os caminheiros da vida humana pronunciou o Pastor Divino as indeléveis palavras: — “A cada um será dado de acordo com as suas obras. solenes. rios e oceanos era mera fantasia de cérebro demente e alguns chegaram a declarar que falavam em nome do Deus dos Peixes. barcos imensos. apareceu pavorosa e devas tadora seca. esclarece . tinha igualmente seu preço. gargalhadas estridentes coroaram-lhe a preleção. exclamou. a travessia. Encantado com as descobertas do caminho infinito.. O esforço de André Luis. contudo. Expulso a golpes de sarcasmo. acurado aprimoramento individual para a travessia da estreita passagem de acesso às claridades da sublimação. resplandece outra vida.. para melhor ironizar o peixinho. Há. Alguns oradores tomaram a palavra e afirmaram. jardins submersos. humildes servidores de boa vontade... muitos peixes humanos que sorriem e passam. . Finalmente os informou de que semelhante felicidade. estrelas do oceano e ofereceu-se para conduzi-los ao Palácio de Coral. prepara. informa.. cidades praieiras. mais intensa e mais bela. Assim que terminou. tentando. que trazia os olhos voltados para eles ünicamente. borbulhante: — “Não vês que não cabe aqui nem uma só de minhas barbatanas? Grande tolo! vai-te daqui! não nos perturbes o bem-estar.. que outra vida além do poço era francamente impossível. o peixinho realizou a viagem de retorno e instalou-se.

que procura a simples mecanização da vida. sim. mal conhece a existência da primeira. esferas obscuras em que se agregam consciências embotadas na ignorância. concederanos permissão de acompanhá-lo a enorme centro dessa espécie. o Ministro prosseguia. que se mantinha silencioso. arrebanhando milhares de criaturas arraigadas no mal.. agora. Necessitam de amparo eficiente que lhes modifique o tom vibratório. A severidade pertencerá ao que instrui. e guardar todas as informações compatíveis com o novo trabalho que nos cumpria desempenhar. que nos preside a todos os atos da vida. tanto quanto maneja a eletricidade. a preleção revestia-se de profundo interesse. Empreender o tentame. A rigor. sob pena de se precipitarem no baixo nível deles. elevando-lhes o modo de sentir e pensar. seguíamos o curso das elucidações com justificável expectação de aluno que não deseja perder um til do ensinamento. porém. entretanto. Semelhantes criaturas. criam zonas de tormentos reparadores. Senhoreando-nos o espírito. em nossa companhia. portanto. mas somos de parecer que possuímos suficiente número de roteiros nesse sentido. observando que a serenidade e a atenção transpareciam no rosto de todos os aprendizes. ali. em todos os setores do conhecimento terrestre.. Eminentes pensadores do mundo traçam diretrizes à salvação das almas. contudo. satisfeito: — Os superiores que se disponham a traba lhar em benefício dos inferiores. Reclamamos. a renovação. o Instrutor Gúbio. traduzindo aperfeiçoamento real. movimenta-se em sentido inverso. no entanto. na atualidade. parte da periferia para o centro. dentro do assunto. não temos círculos infernais. o Ministro Flácus. no transformismo incessante da Terra. perfeitamente organizadas para o trabalho expiatório a que se destinam. Congregamo-nos. não se regeneram à força de palavras. Sabemos que a educação. seria consagrar a tecnocracia. Podíamos perguntar à vontade. Ambos os impulsos. Interessados na palavra fluente e primorosa do orador. de modo a registrar-lhe as instruções edificantes. no recinto. com a diferença. Desesperadas e insubmissas. fixando em nós o olhar saturado de doce magnetismo. de que se já aprende a gastar a segunda. em ação persistente e substancial. cristalizadas no ócio reprovável ou confundidas no eclipse temporário da razão. éramos candidatos ao serviço de socorro aos irmãos ignorantes. atormentados nas sombras. de acordo com os figurinos da antiga teologia. considerando-se que todos. são alimentados e controlados pelos poderes quase desconhecidos da mente. incentivando-se tão somente os valores culturais. mas o amor é o companheiro daquele que serve. convidava-nos a preciosas meditações. todavia. sômente algumas dezenas de companheiros.7 1 Ouvindo elucidações No vasto salão do educandário que nos reunia. destruin- . ouvira comentários alusivos a colônias purgatoriais. onde se mostram indefinidamente gênios satânicos de todas as épocas e. quem ajude o pensamento do homem na direção do Alto. Até então. na maioria das vezes. não lhes podem utilizar as armas. sem dúvida. E. O espírito humano lida com a força mental.

em pleno Universo. faz-se inadiável o auxílio restaurador. de imensas coletividades em dolorosa petição de reajustamento. unifica o Império Romano em sólidos alicerces. por si só. Grandes políticos e veneráveis condutores nunca se ausentaram do mundo. Augusto. de pronto. Péricles. pois. o ditador. que reclama não só a presença daqueles que ensinam o bem. não impede que os seus generais prossigam em conflitos sanguinolentos. É forçoso reconhecer. oferece novo padrão de vida ao Planeta. Porque não acender piedosa luz. em círculos escuros de desencanto e desesperação. advogado dos cristãos indefesos. sucumbindo ao assédio de aflitivo desgosto. nos vales da Terra. mas não se furta. Comparada à grandeza. Permanecemos diante de um mundo civilizado na superfície. conclamando comiseração. é imprescindível que desçam as torrentes da compaixão do Céu. Pasteur. o estadista que legou seu nome a um século. entretanto. Constantino. não lhes atenua a belicosidade e os pruridos de hegemonia.. difundindo o saque e a morte. no entanto. concretizando avançado programa político em benefício de todos os povos. confrontados com a excelsitude dos Espíritos Superiores. Alexandre. dentro da noite em que se mergulham. Sobre os mananciais da cultura.. pela simples ganância da posse. misturam-se milhões de seres. o Divino. ele próprio. todavia. devotando-se. abnegado. o cientista. Não longe de nossa paz relativa. pode ser considerada qual laranja minúscula. estabelecendo uma civilização respeitável. impõe novos métodos de progresso material. de milhões de sóis que obedecem a leis soberanas e divinas. Resplandece na demonstração. que a organização humana. e nós outros. à condição dos anjos. mas principalmente daqueles que o praticam. não atende às exigências do ser imperecível. perante o Himalaia.8 do-lhe as sementes gloriosas de improvisação. é indispensável mantenhamos a coragem de amparar e salvar. em toda a Terra. de infinito e de eternidade. o conquistador. Em companhia d’Ele. descendo aos recessos do abismo. às garras da tirania. realiza edificante trabalho educativo. desorientados? porque não semear esperança entre corações que abdicaram da fé em si mesmos? A frente. ao combate silencioso contra a selva microbiana. não pode evitar que seus contemporâneos se destruam reciprocamente em disputas incompreensíveis e cruéis. junto dos gregos. o Grande. porém. mas não consegue banir de Roma o desvario pela dominação a qualquer preço. inabordável para nós. através dos montes do amor e da renúncia. Passam pela multidão. a nossa Terra. contudo. não modifica as disposições detestáveis de quantos guerreavam em nome de Deus. defende a saúde do corpo humano. que dominam na sabedoria e . com todas as esferas de substância ultrafísica que a circundam. sacudindo-a ou arregimentando-a. Somos entidades ainda infinitamente humildes e imperfeitas para nos candidatarmos. Napoleão. Cristo não brilha apenas pelo ensino sublimado. organiza vastíssimo império.

Caminheiros.. somos micróbios que sonham com o crescimento próprio para a eternidade. E o amor divino alcança-nos a todos.. situados noutra faixa vibratória. o homem da atualidade. de bactérias. distanciados do corpo denso. quanto os próprios homens. e continuou: — Mas. . Entretanto. que nos condiciona as manifestações nos mais variados planos da natureza. no entanto. a renitência da imperfeição e da fragilidade da carne. Torturam-se e entredevoram-Se. a sondar a força mental. estudamos essa mesma energia através de aspectos que a ciência terrestre. sabemos hoje que o espírito humano lida com a razão há. como se a carne fôsse permanente índividuação diabólica. além do principado humano. a fim de que os valores espirituais se desenvolvam e resplandeçam. refletindo a divina luz. apóiam-se na mente encarnada. que somos do progresso infinito.. Os investigadores do raciocínio. começa vasto império espiritual. Todavia. bondoso. O domínio vegetal vale-se do império mineral para sustentar-se e evoluir. a golpes de sílex. Encarcerados ainda na lei de retorno. porém. principiamos apenas. queda-se a inteligência. abrange inumeráveis famílias de criaturas. esquecidos de que a matéria mais densa não é senão o conjunto das vidas inferiores incontáveis. quarenta mil anos. através de rudes experiências. quem avança demora-se em ligação com quem se localiza na esfera próxima. Enquanto o homem. à maneira do Sol que abraça os sábios e os vermes. através de falanges incontáveis. amparando-a com limitada visão e benéfico esquecimento. com o mesmo furioso ímpeto com que o homem de Neandertal aniquilava o companheiro. crescimento e libertação. Atritam os reinos da vida. para lá das fronteiras sensoriais que guardam ciosamente a alma encarnada. desintegra assombrado as formações atômicas. com as criaturas terrenas. Os homens se socorrem de uns e outros para crescerem mentalmente e prosseguir adiante. controladas pelo impulso da fome e pelo magnetismo do amor. em processo de aprimoramento. identificam tão somente.. tão semiconscientes na responsabilidade e tão incompletas na virtude. por enquanto. ligeiramente tisnados de princípios religiosos. classificada de gloriosa era das grandes potências. do cristal até o homem. Todavia. vizinho dos homens. nós outros... por milênios consecutivos. o esclarecido Ministro fêz longa pausa. auxiliá-la-emos a sentir e reconhecer que o espírito permanece vibrando em todos os ângulos da existência. Cada espécie de seres. por agora. fitou-nos. Nesse ponto. nessa anomalia sinistra. mal conseguiria imaginar. Nos campos da Crosta Planetária.9 na santidade. ele e nós.. temos efetuado multisseculares recapitulações. guindados a singelas culminânciaS da inteligência. qual se fora anestesiada por perigo-soa narcóticos da ilusão. não passamos.. Os animais aproveitam os vegetais na obra de aprimoramento. Ai se agitam milhões de Espíritos imperfeitos que partilham. nosso irmão. entre si. operando em determinada frequência do Universo. conhecidos na Terra. e do homem até o anjo. precisamente. Expressando-nos coletivamente. extermina o próprio irmão a tiros de fuzil. as condições de habitabilidade da Crosta do Mundo. Seres humanos.

Como acontece aos corpos gigantescos do Cosmos. os filhos do desespero organizam-se em vastas colônias de ódio e miséria moral. em todas as direções. como se o Planeta. lhes consomem as forças e lhes inutilizam o tempo. e. com inquietudes e perseguições recíprocas. toda a nossa atividade terrestre se desdobra num campo de influências que nem mesmo nós. poderíamos. a vida a milhões de quilômetros. igualmente. na comunidade universal. nutrindo. estabelecendo gigantesca luta de pensamento que ao homem comum não é dado calcular. cerca a experiência humana. em nosso sistema. homens e mulheres de todos os climas e de todas as civilizações. depois da morte. ainda não integralmente submetido a seus caprichos. disputando. a dominação da Terra. congregando milhões de vidas embrionárias. experimentando as radiações uns dos outros. estão sujeitas à sua influenciação. Nesse processo multiforme de intercâmbio. acima de tudo. toda união é temporária e a guerra será sempre o estado natural daqueles que perseveram na posição de indisciplina. Demora-se a inteligência corporificada no círculo humano em transitória região. também nós outros. alonga-se a matéria noutros estados. lembremo-nos de que. maternalmente. adaptada às suas exigências de progresso e aperfeiçoamento. Frustrados em suas aspirações de vaidoso domínio no domicílio celestial. Um reino espiritual. é o poder do espírito eterno a alavanca diretora de prótons. determinar. atendendo aos imperativos do “eu” que lhe preside à destinação. espiritualmente. a mente desencarnada. nesse mesmo espaço. a caminho do Céu que não souberam conquistar. Entretanto. Do hidrogênio às mais complexas unidades atômicas. Dentro de semelhante realidade. não se apercebem da situação dolorosa em que se acham. nesses outros estados. quanto ocorre a nós mesmos. aperfeiçoam-se mundos e almas. radica-se na esfera física. na estrada infinita da vida. Sabemos que o Sol opera por meio de radiações. estimulando o poder autocrático da inteligência insubmissa e orgulhosa e buscam preservar os círculos terrestres para a dilatação indefinida do ódio e da revolta. entre si. buscam.10 A matéria. Rebelados filhos da Providência. crescimento e expansão. dividido e atormentado. em vista da permanente discórdia reinante entre eles mesmos. dentro da qual o protoplasma lhe faculta instrumentos de trabalho. É que. Fora do amor verdadeiro. imantação e repulsão. caminhamos para o zênite evolutivo. intentando dilatar o domínio permanente da tirania e da força. nêutrons e eléctrons. confinados ao berço escabroso da ignorância em que o medo e a maldade. . atração. largos e valiosos patrimônios intelectuais e. Sem nos referirmos às condições da matéria em que nos movimentamos. Conservam. buscando dominá-la e absorvê-la. por enquanto. os aprendizes humanos em círculos mais altos. Incapacitados de prosseguir além do túmulo. em viagem para o conhecimento e para a virtude. as existências mais rudimentares. anjos decaídos da Ciência. esbarram nessa região em que se prolongam as atividades terrenas e elegem o instinto de soberania sobre a Terra por única felicidade digna do impulso de conquistar. lhes fôsse paraíso único. é também a condensação da energia. desde os cumes iluminados aos recôncavos das trevas. da vaidade e da criminalidade. em sua expressão inferior. tentam desacreditar a grandeza divina.

contudo. lhes conseguiram identificar. tentam sola-par. controlados pelas inteligências mais vigorosas que a nossa e que seguem conosco. Misturam-se à multidão terrestre. lado a lado. à força da ignorância defendida e do egoísmo recalcado. Raros compreendem na morte simples modificação de envoltório. escura e infeliz. pela necessidade da proclamação de verdades velhas para os velhos ouvidos e novas para os ouvidos novos da inteligência juvenil situada no mundo. quaisquer que sejam. a existência. Conhecem inumeráveis recursos de perturbar e ferir. de conformidade com os princípios superiores que esposaram. aderimos aos movimentos que lhes dizem respeito e colhemos os benefícios da ascensão e da vitória ou os prejuízos da descida e da derrota. de criaturas encarnadas e desencarnadas que se dirigem para o monte da sublimação. recuaram. lançando perturbação. O sofrimento é reparação ou ensinamento renovador. outra corrente existe. agora. de algum modo. nunca pôde apreender. integrando. Entre aquele que já se acerca do anjo e o selvagem que ainda se limita com o irracional. entre os homens. Satã é a inteligência perversa O mal é o desperdício do tempo ou o emprego da energia em sentido contrário aos propósitos do Senhor. embalada pela ternura paternal da providência. por isto mesmo. dentro de enormes extensões do caminho evolutivo. na organização terrestre. interessada em descer aos recôncavos das trevas. tão sômente. A mente infantil da Terra. a realidade espiritual que nos governa os destinos. ainda mesmo em se tratando dos religiosos mais avançados. é a conservação do mundo ofuscado e distraído. obscurecer e aniquilar. consagrando a morte. desânimo. é o condutor do próprio homem. adiando-Se o Reino de Deus. não constituem uma raça espiritual sentenciada irremediàvelmente ao satanismo. Os homens terrenos que. na zona progressiva ou deprimente. entrincheiradas nas paixões escuras que lhes vergastam as consciências. brilhante e maravilhosa. em que nos colocamos. em posição de absoluta insensatez.. através da teologia comum. desordem e sombra. nas mesmas condições.. no vaso físico. Escravizam o serviço benéfico da reencarnação em grandes setores expiatórios e dispõem de agentes da discórdia contra todas as manifestações dos sublimes propósitos que o Senhor nos traçou às ações. a Sabedoria Eterna. Somos defrontados. a coletividade das criaturas humanas desencarnadas. em vão. dentre elas. existem milhares de posições. imortalidade. desferindo glorioso cântico de trabalho. espalhando entre os contemporâneos as noções de um inferno punitivo e infindável. E. semi-libertos do corpo. De milênios a milênios. e escasso número de pessoas. O homem. Espíritos incompletos que somos ainda. tímidos e espavoridos. herdeiro presuntivo da Coroa Celeste. encravado em tenebrosas regiões além da morte. beleza e esperança. criando quistos de vida inferior. O inferno. ocupadas pelo raciocínio e pelo sentimento dos mais variados matizes. mais intensivamente. se há uma corrente.11 a perversão dos processos divinos que orientam a evolução planetária. a região em que respiram padece extremas . Mentes cristalizadas na rebeldia. exaltando a vida. As almas decaídas. guardaram a prudência de viver. exercem atuação singular sobre inúmeros lares e administrações e o interesse fundamental das mais poderoSaS inteligências. é um problema de direção espiritual. indefinidamente.

Os homens encarnados. seria ilógico e absurdo designar um anjo para custodiar criminosos. o meu Reino não é daqui” e. o mau só pode ser corrigido pelo mau. calculistas.12 alteraçõeS. de maneira geral. A matéria que lhes estrutura a residência sofre tremendas modificações e precioso trabalho seletivo se opera na transformação natural. o Planeta. ainda não passa de vasto crivo de aprimoramento. persistem por séculos sucessivos. na direção das esferas sublimes. que me pareceu oportuna e intencional. delituosos e inconseqüentes são vigiados por gênios da mesma natureza. indagando: — Grande benfeitor. Realmente. pela mesma razão. acompanhando o curso das civilizações e seguindo-lhes os esplendores e experiências. Considerando semelhante situação. recordemo-nos de que os estudos desta hora não se prendem aos aspectos da compaixão e. aflições e derrotas. todavia. . criaturas que lhes são invisíveis ao olhar. Paulo de Tarso. aos problemas da justiça. embora de fileiras compactas incessantemente substituidas. mas que lhes partilham a residência. nunca faltou proteção do Céu contra os tormentos que as almas endurecidas e ingratas semearam na Terra e os numes guardiães não se despreocupam dos tutelados. Somos simplesmente alguns bilhões de seres perante a Eternidade. no entanto. dentro dos moldes do Infinito Bem. Funciona a justiça. um companheiro interferiu. quanto eles próprios. que se afinam com as tendências de que são portadores. reconhecemos a veracidade de vossas afirmativas. em Jerusalém: “Por agora. E estejamos convencidos de que se o diamante é lapidado pelo diamante. por enquanto. ao qual somente os individuos excepcionalmente aperfeiçoados pelo próprio esforço conseguem escapar. Em razão disso. através da injustiça aparente. Quanto à intervenção do Senhor. sim. o Mestre Divino exclamou perante o juiz. a vida planetária é compelida igualmente a combater nos recônditos ângulos de si mesma. Nós outros e a humanidade militante na carne não representamos senão diminuta parcela da família universal. Fazendo-Se nova pausa do Ministro. permanecem cercados pelas escuras e degradantes irradiações de entidades imperfeitas e indecisas. confinados à faixa vibratória que nos é peculiar. porque não suprime o Senhor Compassivo e Sábio tão pavoroso quadro? O esclarecido mentor fixou um gesto de condescendência e respondeu: — Não será o mesmo que interrogar pela tardança de nossa própria adesão ao Reino Divino? Sente-se o meu amigo suficientemente iluminado para negar o lado sombrio da própria individualidade? Libertou-se de todas as tentações que fluem dos escaninhos misteriosos da luta interna? Não admite que o orbe possua os seus círculos de luz e trevas. até que o amor nasça e redima os que se condenaram a longas e dolorosas sentenças diante da Boa Lei. qual acontece a nós mesmos nos recessos do coração? E assim como duelamos em formidáveis conflitos por dentro. Homens perversos. Entretanto. qual acontece ao campo provisoriamente ocupado pelos povos conhecidos.

O Ministro sorriu para nós. E entendendo a nossa condição de trabalhadores incompletos. acima de tudo. e distanciou-se dos decretos políticos. provisoriamente impermeáveis no mal. o império imenso das inteligências desencarnadas participa de contínuo no julgamento da Humanidade. Sem polarizar as energias da alma na direção divina. aprendendo a utilizar os poderes da luz potencial de que são detentores. reconhecendo que a obra redentora é trabalho educativo por excelência. levedando toda a massa. cabe-nos preparar recursos de auxilio. e concluiu: — Terei sido bastante claro? Transbordava de todos os rostos o desejo de ouvi-lo por mais tempo. no entanto. expressivamente.13 depois de lutas angustiosas. No entanto. na ordem do aprimoramento iluminativo. todo programa de redenção é um conjunto de palavras. Somente o amor sentido. desceu da tribuna e pôs-se a conversar familiarmente conosco. nas próprias regiões celestes. a obra regenerativa será adiada indefinidamente. se convertam aos Designios Divinos. aureolado de luz. contra as potestades. detentores de velhas dificuldades e terríveis inibições. Sem nosso esforço pessoal no bem. compreendendo-se por precioso e indispensável nosso concurso fraterno para que irmãos nossos. era preciso aguardar nova oportunidade para mais amplos esclarecimentos. sim. As considerações ouvidas despertavam em mim o máximo interesse. mas. crido e vivido por nós provocará a eclosão dos raios de amor em nossos semelhantes. não obstante reverenciá-los com inequívoco respeito à autoridade constituída. do reino humano. contra os principados. visto reconhecer que a verdadeira obra salvacionista permanece radicada ao coração. A preleção fora encerrada. pois. é o Doador da Sublimação para a vida imperecível. . ajustando-lhes o magnetismo ao Centro do Universo. mas do individualismo afeiçoado à boa vontade e ao espírito de renúncia em benefício dos semelhantes. É por isto que Jesus. Absteve-se de manejar as paixões da turba. contra os príncipes das trevas e contra as hostes espirituais da maldade. pecando pela improbabilidade flagrante.” Além. O sacrifício do Mestre representou o fermento divino. Flácus. escreve aos Efésios que “não temos de lutar contra a carne e o sangue. por não ignorar que o serviço do Reino Celeste não depende de compromissos exteriores.

enquanto mentalidades frágeis e enfermiças se dobram humilhadas. aos milhares. buscando preservar-se e escorando-se. precisa tecer os fios do reajustamento próprio e milhões de irmãos nossos se recusam a semelhante esforço. pousando sobre Elói. além da morte.. que dizer dos irmãos infelizes que se deixaram prender. depois do transe corporal. atormentado e desditoso.. — Com que fim — perguntei — essas legiões retardadas se mancomunam. verdadeiras cidades. custava-me crer que as atividades maléficas gozassem de organismo diretor. Auscultando-nos a surpresa manifesta. sem resistência. e sobre mim. em virtude das paixões devastadoras que os magnetizam. Efetivamente.. ante os ditames da Paternidade Celestial. alongando o labirinto em que muitas vezes se perdem por séculos. O objetivo essencial de tais exércitos sombrios é a conservação do primitivismo mental da criatura humana. acentuou: — Para muitas criaturas. uns nos outros. qual ocorre aos próprios homens encarnados. ante quaisquer manifestações da divina luz. impressionantes comentários em torno delas. respondendo-nos às argüições íntimas: — Tais colônias perturbadoras devem ter começado com as primeiras inteligências terrestres entregues à insubmissão e à indisciplina. Errara. assim. Eu também havia passado pelos baixos círculos da vida.14 2 A palestra do Instrutor Ao nos retirarmos do educandário. não obstante os propósitos superiores que já nos orientam. aventurei uma indagação. envergonhadas de si mesmas. é lógica e natural. As observações de Gúbio escaldavam-me o cérebro. exumar todas as recordações do angustiado período que a porta do túmulo me oferecera. dias e noites que me pareceram sem fim. A alma caída em vibrações desarmônicas. não conseguia. pelo abuso da liberdade que lhe foi confiada. entretanto. os olhos lúcidos. aflitivamente. Vira-me perseguido. Inabilitados para a jornada imediata. Por isto mesmo. a fim de que o Planeta permaneça. embora ouvisse. sob seu jugo tirânico. rumo ao Céu. não identificara a existência dessas condensações organizadas de entidades malignas do campo espiritual. o Instrutor Gúbio. Filhos da revolta e da treva aí se aglomeram. às teias da ignorância e da maldade? Não conhecem região mais elevada que a esfera carnal. Enleados em forças de baixo padrão vibratório. através de longos pântanos. ociosos e impenitentes. se despidas da vestimenta grosseira de carne devem saber.. em muitas ocasiões. não apreendem a beleza da vida superior e. Entretanto. . arrebanham-se de conformidade com as tendências inferiores em que se afinam. em que se refugiam falanges compactas de almas que fogem. é difícil compreender a arregimentação inteligente dos espíritos perversos. Organizam. Se ainda nos situamos distantes da santidade. todavia. enfileirando-as em comunidades extensas e dirigindo-as em bases escuras de ódio aviltante e desespero silencioso. de mente agora centralizada nos propósitos do bem. de cujas emanações e vidas inferiores ainda se nutrem. a que ainda se ajustam por laços vigorosos. o nosso companheiro. por ruim mesmo. ao redor da Crosta Terrestre. os gênios da impiedade lhes traçam diretrizes. tanto quanto possível. o Instrutor prosseguiu.

na crueldade e no ódio. nós mesmos. — Sim — tornou o orientador. e considerou: — Reportamo-nos a Espíritos perfeitamente humanos. através da qual penetráramos nele. na elevada aspiração de galgar a sabedoria santificante. que o homem comum já atravessou. maneiroso.. com atitudes de criminosa indiferença? Ante as sugestões do Plano Divino que te povoam. através de ajuntamentos desprezíveis e diabólicos? Fácil de entender-se a jornada evolutiva do homem. mesmo na Crosta da Terra. por alcançar o oxigênio de cima. porventura. todavia.15 mais que nunca. dá para confundir a mente de qualquer. nos movemos num campo de matéria que se caracteriza por densidade específica. quanto à posição que lhes diz respeito? Não se cercam presentemente de mais sublimes revelações da Natureza? Não lhes quadrariam.. subir. agora. eu sentia dificuldades para aceitar a idéia de purgatórios e infernos dirigidos. convincente —. reclamamos ascensão. O orientador sorriu. embora rarefeita. além do corpo que nos conserva em ilusão. não obstante desencarnados. — Concordo com as elucidações — exclamei reverente —. Por que razão. mais justos. mas é quase incrível tanta ignorân cia. jorrando incessante do Espaço Infinito. desde milênios. revela comportamento de nível inferior ao dele. assim.A maneira do tronco frágil. estrada acima? Por que motivo se aglomeram. é um centro psíquico de atração e repulsão. Reconheçamos. a sepultura abre-nos a todos um caminho novo. A argumentação de Gúbio era bela e sugestiva. nos precipitávamos nas linhas inferiores. como se fora deles senhor absoluto para perpetuar sua tirania. lembras-te de algum tempo passado em que tivesses cogitado sinceramente da própria sublimação? Se desenterrarmos o pretérito. a estação evolutiva em que se demora o irracional e. contrariando espetacularmente a Lei? A frente dos olhos. antes de acordar a consciência para a revelação divina. em várias ocasiões.. quantas vezes teremos menoscabado a Sabedoria Excelsa. poderiam ser formuladas. que regressaríamos do mundo carnal pela mesma porta misteriosa. apesar de algemados ao que fomos.. no entanto. André. por exemplo. que se empenham em combates inúteis? Não se sentem. sabíamos que a existência do corpo correria rápida. não vejo obstáculos à apreensão do ensinamento. É razoável que a mente perturbada sofra amarguras de reajustamento até que se restaure. transportadas ao plano do esclarecimento puro. para quem refletiu sobre o assunto. Não nos compete parar ou desanimar . acrescentou: — Notemos que nós mesmos. além da morte. na Crosta ou aqui onde nos achamos. durante muito tempo. quando confrontada com as antigas formas físicas.. todavia. que seríamos defrontados pela morte comum a todos. é observação que me escapava. à semelhança da árvore humilde presa aos resíduos do complicado envoltório que lhe encerrava a semente. Imprimindo grave entono à voz agradável e fraternal. em qualquer parte. o apontamento surpreende bastante. meu caro. é imperioso crescer. todos os dias. e... depois do sepulcro. e tais perguntas.. o pensamento.. ar puro e largueza de condições para produzirmos o bem que o Senhor espera de nós. O espírito encarnado respira numa zona de vibrações mais .. e nossa mente. mas o estacionamento deliberado. apropriar-se um espírito desencarnado de certos setores do caminho. em sentido contrário à realidade. contávamos com bendito dilúvio de claridade solar. os desencarnados. entretanto. encontraremos lamentáveis reminiscências. o trabalho edificante e o estudo nobre.

mesmo aí. convidando-nos à ascensão para a gloriosa imortalidade. forças e leis no universo minúsculo. porqüanto o doente que se compras na aceitação e no elogio da própria decadência acaba na posição de excelente incubador de bactérias e sintomas mórbidos. através do coração e do cérebro. por mais insignificante. Nosso organismo perispiritual. Dirija um homem a sua vontade para a ideia de doença e a moléstia lhe responderá ao apelo. integrando-se na corrente de vida vitoriosa Registrava as explicações. ainda mesmo que benéfico e merecido. não obstante condicionada por leis cósmicas e morais. Claro que nesse capítulo temos a questão das provas necessárias. Sendo cada um de nós uma força inteligente. nos casos em que determinada personalidade renasce. quanto ocorre ao corpo físico na esfera da Crosta. porém. àmaneira do eletricista que liga as forças da usina para atividades num charco ou para serviços numa torre. o problema de ligação mental é infinitamente importante. no ambiente que nos rodeia. contudo. valoroso. fruto sublime da evolução. não ousei interromper o curso da argumentação a fim de não quebrar a linha do pensamento. seremos invariáveis joguetes das circunstâncias predominantes. enfaixado num veículo constituído de trilhões de células que são outras tantas vidas microscópicas inferiores. A vontade. estaremos sempre engendrando agentes psicológicos. e. Abstendo-nos de mobilizar a vontade. contra o mal. detendo faculdades criadoras e atuando no Universo. Se não escasseiam milhões de influxos primitivistas. Gúbio continuou: — Nossa mente é uma entidade colocada entre forças inferiores e superiores. possui expressão magnética especial. mas. em obediência às ordens interiores. Cada vida. através da energia mental. que vivem e se reproduzem no campo mental das milhões de pessoas que as entretêm. Prestimoso e digno. não nos faltam milhões de apelos santificantes. profundamente edificado. mesmo aquém das formas terrestres a entreter emoções e desejos. porqüanto nossos estados pessoais nos refletirão a escolha íntima. pelos quais já peregrinamos há muitos séculos. . Quando a criatura busca manejar a própria vontade. formando no corpo a enfermidade idealizada. é indispensável resolvamos o problema de direção. tanto quanto no universo macrocósmico. enquanto que o espírito em reajustamento. cujos efeitos podem ser próximos ou remotos sobre o ponto de origem. quando reage. e armando-nos quedas momentâneas em abismos do sentimento destrutivo. atendendo a impositivos das lições expiatórias. ainda mesmo procedentes de almas não sublimadas. através das regiões em que se situam o sexo e o estômago. porque a sugestão mental positiva determina a sintonia e receptividade da região orgânica. absorvidas pelas células que as atraem. não obstante a longa pausa que se fêz espontâneamente. tão logo deliberemos manobrá-la. em baixos círculos. inclinará a comunidade dos corpúsculos vivos que permanecem a seu serviço por tempo limitado.16 lentas. O espírito encarnado sofre a influenciação inferior. constrangendo-nos. escolhe a companhia que prefere e lança-se ao caminho que deseja. acorrerão em massa. com objetivos de aperfeiçoamento. encontra imensos recursos de concentrar-se no bem. pode ser comparado aos pólos de um aparelho magneto-elétrico. reiteradamente recebidas. com todas as características dos moldes estruturados pelo pensamento enfermiço. e recebe os estímulos superiores. exteriorizando o pensamento e com ele improvisando causas possíveis. e as entidades microbianas. Existem princípios. em conexão com o impulso havido.

convertendo-Se. embora as paixões violentas que lhes assinalam a vida íntima. no eclipse total da razão por tempo indeterminável. auxiliam e são auxiliados. O orientador percebeu a oportunidade do esclarecimento e continuou: — Os átomos que integram a hóstia dum templo. no estado de condensação conhecido na Crosta Planetária. O rei que governa milhares. estimam viver no domicílio da enfermidade? Atitudes mentais enraizadas não se modificam facilmente. só porque se desfizeram da carga de células materiais. no terreno idealístico. são. Assim. no capítulo da própria sublimação? Não podemos olvidar. no fundo. ao Supremo Bem. e além dele. sentando-se. impulsionam o progresso e progridem a seu turno. qual ocorre a milhões de entidades encarnadas que. Em tal posição. nos estenderam compassivas mãos. a colheita de personalidades desequilibradas é sempre inquietante. nos serviços de aprimoramento planetário. gradual e imperceptivelmente. em seguida. o condutor que se acostumou a traçar férreas diretrizes. dão e recebem.. não se transformam em servidores humildes de um momento para outro. agora. são conservados e respeitados na obra evolutiva do mundo. é análoga nas mãos das entidades sábias ou ignorantes. depois do túmulo. em que vigiam e reajustam os mais fracos. por alguns anos. um dia. desse modo. são compreensíveis as transitórias construções levantadas em nosso plano por criaturas desviadas do bem. em plena harmonia com a natureza terrestre. toda matéria em si mesma. aos fracos. Imprescindível se torna caminhar nos passos daqueles que igualmente. Se árvores existem assinaladas por centenas de anos. quando não dispõem de princípios santificantes. pelas qualidades apreciáveis e dignas que já conquistaram.devemos aos ignorantes. E considerando que a maioria das criaturas humanas persegue as sensações do corpo físico. o homem que se habituou a dobrar caracteres alheios. num banco de universidade — é obra de paciência nos séculos. sendo vigiados e reajustados pelos mais fortes. em vista dos desvarios na intelectualidade e no poder. como é compreensível a opção de certos espíritos pela casa escura do crime. dentro das finalidades a que se destinam. o amor que . prosseguiu noutro rumo: — Semelhante realidade obriga-nos a meditar na extensão do serviço espiritual em todos os ângulos evolutivos. iguais àqueles que formam o pão pobre de uma penitenciária. ponderou: — Entenderam. a separação da carne geralmente constitui acesso a doloroso estágio na incompreensão. conservando quase inalteradas as fileiras escuras dos insensatos cultivadores . Quando não se recomendam aos precipícios da loucura. para se alimentarem intimamente na tarefa a que se consagram. fitando em nós o olhar percuciente e calmo. Impôs ligeira pausa às elucidações e.. qual se as atrações genésicas e o desvairado apego aos bens provisórios dos círculos mais baixos encerrassem toda a felicidade do mundo. O argumento era demasiado edificante para que interferíssemos com indagações novas. Em razão disso. e são utilizados então por gênios superiores. Para quem anestesiou as faculdades no prazer fugitivo. Educação para a eternidade não se circunscreve à ilustração superficial de que um homem comum se reveste. amorosas ou brutalizadas.17 OInstrutor. aceitando o Plano Divino em cuja execução passam a colaborar com fidelidade e valor. aos infelizes. Passiva e plástica. que dizer dos milênios reclamados por uma individualidade.

usando lima resistente.. na esfera humana. vivendo a expensas de generoso rebanho bovino. por isto. o homem encarnado. contudo. prestativo. temporariamente afastados de Sua Obra. franco. veículo destinado às suas próprias manifestações no circulo novo de matéria diferente a que foram arrebatadas. porventura. fazem vida coletiva provisória à força de sugarem as energias da residência dos irmãos encarnados. Encarcera-se-lhes. Qualidades morais e virtudes excelsas não são meras fórmulas verbalistas. Atravessam séculos. é impraticável a ascensão do espírito humano. menos consciente e incapaz de ser julgada por delito de conivência. dirigidos por inteligências soberanas. assim. que cada homem se sentará no trono que levantou ou se projetará ao fundo do abismo que preferiu? Além disto. O choque da morte imprime-lhes tremendos conflitos à organização perispirítica. Sorrindo. Importa ponderar. no plano de serviço em que se localiza. Se o perseguidor invisível aos olhos terrestres erige agrupamentos para culto sistemático à revolta e ao egoísmo. por voluntários. sob visível consternação — não bastaria ligeira ordem do Eterno para sanar a desarmonia? Gúbio. onde milhões de homens e mulheres lhes sustentam as exigências mais baixas. enredadas em conflitos deploráveis. qual se fôssem extensa colônia de criminosos. é necessário reconhecer que se o lapidário aprimora a pedra. Sem a posse delas. não se fêz esperado na resposta. senhor de valiosos patrimônios de conhecimento santificante. atritam e se vascolejam reciprocamente. quando nos atilhos educativos da carne ou na ausência deles. com extremas perturbações para si mesmos. no pavor. usando corações endurecidos. garante-lhe a obra nefasta pela fuga constante às obrigações divinas de cooperador de Deus. a mente na insegurança. e. ajustando-se ao primeiro grupo de entidades viciosas que lhes garantam continuidade de aventura em fictícios prazeres. já que a herança celestial se faz naturalmente vedada a todos aqueles que menosprezam em si próprios as sementes divinas. Um e outro. o Senhor do Universo aperfeiçoa o caráter dos filhos transviados de Sua Casa. então. aduziu com interesse: — Não será o mesmo que perguntar o motivo pelo qual o Senhor nos esperou até ontem? acreditaremos em paraísos miraculosos? não sabemos. mútuamente. Nem sempre o melhor juiz pode ser o homem mais doce. na fragilidade. partilhando os resultados da indiferença destrutiva ou da ação condenável.. que o homem explora a vaca. especializadas em dominação. alimentando ruinosa aliança. Personalidades vulgares apegam-se à salvaguarda de recursos exteriores e neles centralizam os sentimentos mais nobres. São forças vivas. a bem dizer. constituem hordas terríveis que. após perderem abençoados anos no campo didático da esfera carnal. erram aflitas. Formam associações enormes e compactas. Há milhões de almas humanas . presos a lamentáveis ilusões e propósitos sinistros. Loucos perigosos. exânimes e revoltadas. A criatura racional não se eximirá à responsabilidade. com base nas emanações da Crosta do Mundo. tais quais feras que se entredevoram na floresta da vida. o quadro apresenta outro aspecto. prendendo-se a fantasias inúteis. vigiam as saídas das esferas inferiores em todas as direções.18 da satisfação egoística a qualquer preço. Obsidiam-se. jungidos um ao outro. ao passo que. — E porque permite Deus semelhante irregularidade? — inquiriu Elói.

em guerras arrasadoras que atingem os dois planos. observou. há mais de dez mil anos. enfrentando a ofensiva incendiária e exterminadora. humanidade a dentro. atendidos em nossa fome de elucidações. nos mais diversos pontos do Globo. O devotado orientador fixou o gesto de quem dava término oportuno às explicações. afastadas deliberadamente do santuário de si mesmas.19 que se não afastaram. na Terra. então. e sabemos que semelhante energia. A força mental. e interrogou: — Qual de nós cometeria o absurdo de exigir voo ao balão cativo? A mente humana. individual e coletivamente. onde estivermos. na conversação de alguns minutos. em silêncio. . na luta comum. Se alguém abre a porta viva da alma. entre o Mestre e o Discípulo. livres da antiga escravidão à miséria moral. no impulso mal dirigido de libertação. em sublime trabalho de compaixão. transferindo-se de civilização. copiando o molusco algemado à concha. maravilhosamente constelada. Se milhões de raios luminosos formam um astro brilhante. porém a ortodoxia no mundo costuma ser o cadáver da revelação. quanto às realidades divinas. aos milhões. Destroem. Herdeiros do Poder Criador. da Crosta Terrestre. A exposição não podia ser mais clara. sob o patrocínio d’Ele. ainda. acentuou. contudo. precioso material de observação para longo tempo. operam no amor e na renúncia. O coração é tabernáculo e a sublimação das potências que o integram é a única via de acesso às esferas superiores. com as bênçãos da Luz Celeste. permanece restrita ao círculo acanhado da personalidade egoística. que a vida infinita se estenderia. Não será tudo isto perfeitamente inteligível? É por esta razão que o Senhor mandou constar no Livro Divino o seu aviso celestial: — “eis que estou à porta e bato”. sentindo a profunda atenção com que lhe seguíamos a palavra. no fluir e refluir das eras numerosas. Argumentos teológicos de milênios obstruem os canais da inteligência humana. sem atinarem com os dons celestiais de que são herdeiras. o que construíram laboriosamente e modificam processos de vida exterior. através de crises inomináveis de fúria e sofrimento. Recapitulam. nosso velho domicilio. Mas a criatura prosseguirá na tarefa de autodescobrimento. benévolo. os filhos do Planeta que se conservam atentos às determinações divinas. extáticos ante a beleza imponente da noite. Prosseguíamos. avançando. tornam ao ambiente escuro do cativeiro que já abandonaram. Calamo-nos.. estranha e ameaçadora? — Sim — concordou o orientador —. de quando em quando. enraizada nos interesses mais fortes da Terra. profundamente arraigadas no solo. patrimônio eterno com que nos sublimamos ou viciamos. depois de leve pausa: — Todavia. agitando-se. Morrem no corpo denso e renascem nele. emite raios criadores sobre a matéria passiva que nos cerca. agora. assim. Elói. no terreno movediço da egolatria inconsequente. qual acontece às árvores que brotam sempre. dificilmente embora.. geraremos forças afins conosco. assombrado: — Quem diria. sorriu. a fim de ampararem os irmãos ignorantes e desvairados. dependendo de nós a direção que venha a tomar. lições multimilenárias. Formam as vanguardas do Cristo. não detém outro símbolo. haverá realmente o colóquio redentor. é natural que milhões de pequeninos desesperos integrem um inferno perfeito. e. Colhêramos ali. O Instrutor.

mostravam no olhar a mesma doce felicidade que transbordava do arvoredo florido.20 Vento brando sussurrava cânticos sem palavras na folhagem leve e grupos de amigos. como se avançassem. banhados em comoções inesquecíveis. buscamos o santuário em que receberíamos instruções para serviço próximo. E assim. . na posição de trabalhadores jubilosos que caminhassem contentes para a luta. para uma festa de luz. felizes. que nos defrontavam de instante a instante. inundados de confiança e alegria.

valiosa segurança para retorno a oportunidades de elevação. quando a Perturbação se estabelece. com respeito à jovem senhora que nos cabia socorrer. costuma ver somente o “seu lado”. na forja de benditas experiências. As almas corporificadas na Crosta guardam-se em passageiro sono. com esquecimento temporário quanto às atividades pregressas. aduzi.. com escalas por uma colônia purgatorial de vasta expressão. a cuja assistência fomos admitidos.. humilde —. não nos deixam impassíveis. A responsabilidade pelo aperfeiçoamento do mundo compete-nos a todos. Perseguidores e perseguidos entrelaçam-se. Ternos e ríspidos laços de amor e ódio. Em cada problema de Socorro. — É admirável pensar — aventurei respeitosamente — que se formam verdadeiras expedições em nossa esfera para atender a simples caso de obsessão. Os perigos que nos ameaçam os entes amados de agora ou de épocas que o tempo consumiu. alias não fui designado para servir no caso de Margarida. durante certo tempo.. Os homens não se acham sozinhos na estreita senda de provas salutares em que se confinam. corações imantados uns aos outros. maior é o âmbito de nossas ligações na esfera geral. semeando esperança.21 3 Entendimento O zimbório estrelado. harmoniosos. em abençoada vigília. está por exemplo em vosso passado espiritual. amor e autoridade. não é fácil desfazer obstáculos porque. aos raios liriais da Lua. eles e nós. — Esclarecido. mas. O homem terrestre. No romance evolutivo e redentor da Humanidade. acorrentam-nos reciprocamente. — Os homens encarnados — redarguiu o orientador com certa vacuidade no olhar. apenas porque houvesse sido minha filha em eras recuadas. Em razão . Almas existem que se vêem sob o interesse de milhões de outras almas.. Todavia. contudo. Informado quanto aos objetivos que nos conduziriam à Crosta. enquanto se mergulham em olvido benéfico. prôpriamente considerada. reverente: — A enferma. Banham-se no Estige dos antigos. em grande expressão numérica. espalhava em torno vibrações de beleza inexprimível. desde muito. Somos todos. as dificuldades não chegam a surgir. em cada processo de auxílio. alegria e consolo. acima da justiça comum. tentando arrancar-lhe observações que vinham sempre revestidas de preciosos ensinamentos.. — Sim — confirmou Gúbio. cada espírito possui capitulo especial. Em virtude do enigma de obsessão que nos propomos resolver. mormente nos dias tormentosos. é imprescindível Considerar as várias partes em jogo. Quanto mais crescemos em conhecimentos e aptidões. cujas águas lhes facultam. Enquanto os movimentos da vida se estendem. em tais circunstâncias é indispensável procedamos com absoluta imparcialidade dando a cada um quanto lhe caiba. demoramo-nos por nossa vez.. somos levados a buscar todas as personalidades que compõem o quadro de serviço. Cada espírito é um elo importante em extensa região da corrente humana. sob os ascendentes do bem. a doente que nos compele à breve expedição do momento. simpatia e repulsão. qual se trouxesse a alma presa a imagens fugidias do pretérito — não suspeitam a extensão dos cuidados que despertam em nossos círculos de ação. vali-me da hora amena para aproveitar a convivência com o Instrutor. outros tribunais mais altos funcionam.

22 disso. ali se achava com o objetivo de receber instruções de serviço para esferas mais baixas. médiuns de materialização em nosso plano. foi composto o conjunto de oração. aliás. — Mãe querida — clamou uma delas. que se encarregava dos serviços da casa. Os doadores de energia radiante. em bases do amor que Jesus exemplificou e. e lágrimas tranquilas inundaram-me o rosto. Alguns irmãos adiantaram-se. preparamo-nos a satisfazer todos os imperativos de trabalho salvacionista que a tarefa nos imponha ou proporcione. que outro grupo. acolhedores. Comovedora partitura soou. com tal inflexão de voz que nos . formosa e espontânea. Cumprimenta-nos com um gesto de bênção. As vibrações constantes das preces. Eu trazia o coração opresso. em que ouvira tão confortadoras e tão graves reflexões atinentes à extensão do mundo e da vida. penetramos o jardim que circundava o aprazível santuário. estranha à nossa. Os doadores de fluidos sublimados encontram-se a postos e a outra comissão já veio. Melodia celeste derramava-se à surdina e as flores delicadas do átrio pareciam corresponder aos sons cristalinos. avançaram com lágrimas discretas e rojaram-se. Nesse doce recanto consagrado à materialização de entidades sublimes. A essa altura da instrutiva conversação. As duas moças que formavam a comissão de serviços. abraçou-nos e disse com bondade: — Chegam no momento preciso. pouco a pouco. a todos. Indizível serenidade caracteriza-lhe o olhar simpático e o porte de madona antiga. E logo após a prece. Entramos sem detença. de imediato. Esbranquiçada nuvem de substância leitosa-brilhante adensa-se em derredor e. sem inclinações pessoais. não longe. o Instrutor Gama. em número de vinte. Soube. repentinamente trazida à nossa frente. em aposento próximo. genuflexas. emerge a figura viva e respeitável de veneranda mulher. O Instrutor tomou-nos a frente e. quase que imperceptivelmente. se alinhavam. aí emitidas por vários séculos. a luz suave da noite calma como que se fazia mais bela. semelhantes aos lírios que conhecemos na Terra. nessas ocasiões. desse bloco de neve translúcida. tinham criado em torno da edificação prodigioso clima de encantamento. juntos. chegamos a gracioso templo. argentina e leve. constituído. dentro das atividades que lhe são conexas. variando no brilho e na cor. como que nos endereçando. Não houve tempo para conversações prévias. Um deles. como se a felicidade das últimas horas. me aproximasse a insignificância pessoal da grandeza divina. predispondo-nos à meditação de ordem superior. Em seguida a saudações ligeiras e cordiais. todos os casos de desarmonia espiritual na Terra movem aqui extensa rede de servidores que passam a tratá-los. Cariciosa claridade azul-brilhante banhava o largo recinto. pronunciada pelo responsável mais altamente categorizado na instituição. adornado de flores níveas. por duas irmãs. os raios da luz esmeraldina que em forma de auréola lhe exornam a cabeça. eis que a tribuna doméstica se ilumina.

. num quadro emocionante e mudo. Contudo. colérico e irritado. Dono de afeição inquieta. até à vitória. o Sol combate a treva todos os dias. Perdoa-nos. além de nossas tarefas habituais na zona de serviço em que a tua bondade nos situou. Mãezinha. Nesse ponto. acrescentava em pranto: — De conformidade com as tuas amadas recomendações. psiquicamente sintonizado com espíritos maliciosos e vingativos das sombras... Escapa-nos à influência renovadora e se compraz na companhia de entidades que. contudo. Envenenou um parente para COnseguir a riqueza material que nos ofereceu educação e conforto na esfera carnal. infinitamente. uns para com os outros? Cláudio se fêz para sempre credor da nossa estima e gratidão. atormentado abdicará do ingresso numa estrela para .. mas. viveu durante quarenta anos consecutivos entre o remorso e o sofrimento. Batalhemos contra o mal. como vencer nos turbilhões do abismo? Desejando talvez justificar-se.. há seis anos buscamo-lo embalde. Há muito tempo aguardamos esta hora breve de reencontro contigo. e. Gesticula a esmo. e colaboremos por restitui-lo à terra firme da luz... erguendo as filhas e acolhendo-as nos braços. Auxilia-me! não me deixes perder este doce e divino minuto! Apesar dos soluços de emoção que lhe vibravam no peito. apesar do pavoroso crime Oculto que no-lo arrebatou às profundezas . senão em forma de pensamentos vagos. Se o Cristo trabalha por nós.. detestando-nos a ternura. Desculpemos o Papai.. Não nos recebe a atuação carinhosa. procede como louco.23 cortava as fibras mais íntimas —. na realidade. Por extrema dedicação a nós três. exclamou com acento consolador na voz sem lágrimas.. sobre as aflições dele nos foi possível atravessar abençoada existência de progresso e conforto.. que dizer das nossas obrigações de amparo e tolerância. a cujas radiações escuras se entrelaça. não hesitou diante da tentação que o constrangeu a infernal compromisso.. grita blasfêmias e solicita o concurso de seres viciados. ajuda-me a falar-te! A saudade longamente reprimida é um fogo que consome o coração. impelindo-nos as sugestões e a presença. Comovedoramente Abraçadas as três. de que se desvencilha facilmente. Para que ele nos sentisse garantídos e felizes. por onde passam. sem sabermos que em nossos alicerces espirituais vivia um ato escuro de assassínio e violência! A essa altura. sem tua proteção amorosa.. a Mãezinha encontrou recursos a fim de prosseguir: — Tornaremos. desde o principio dos séculos. sem que lhe possamos compreender a amplitude dos sacrifícios.. vampirizam as criaturas. ao campo de luta regenerador e benfazeja. crise mais intensa de emotividade impediu-lhe continuar. se insistimos tanto na rogativa. a entidade materializada chorou. temos velado pelo Paizinho. numa casa ditosa e farta. não Soube esperar a bênção do tempo e lançou mão de inconfessável processo para localizar-nos em um oásis de Superioridade mentirosa... Que vale para nós a paisagem celestial sem a libertação daqueles que amamos? O coração amoroso. continuou: — Abençoa-nos para a grande jornada!. Não se suponham sozinhas no conflito doloroso.. ante os olhos maternos.. A nobre senhora que descera da tribuna.. incessantemente. não obstante a visível melancolia: — Filhas amadas. mergulhado nas sombras: todavia. Prefere o contacto de entidades ignorantes e infelizes. se multiplicamos providências salvacionistas.

porventura. Silenciou a emissária. Estou Convencida de que há mais grandeza no anjo que desce ao inferno para salvar os filhos de Deus. em face da culpa de quem nos foi desvelado amigo. ouvindo-lhes a harmonia indefinível. A fim de incliná-lo à compreensão e à piedade. felizes e triunfantes.. Terei sobre o peito algumas pedras preciosas por lapidar. assim.24 persistir ao lado de um ente querido. reaproximando-o de Cláudio. em meus braços maternos. Eu e Cláudio. em duelo com as serpentes de um charco. o sobrinho envenenado. revelando-se em despedida. cujo perfume celeste me sustentará as energias necessárias à Perseverança até ao fim. e as moças.... pois.. da gloriosa vida espiritual que. abraçaram-na de encontro ao coração. comprometi-me a acolher também no tabernáculo materno as seis criaturas desviadas do bem. receberei Antônio. acrescentou: — Não desanimem. então renovado.. Lembremo-nos de Jesus e avancemos. não posso atacar o nosso processo redentor em nova fase... lidarei com a discórdia e a tentação. numa situação de destaque adquirida à custa daqueles que gemem e desfalecem nas trevas? Abandonar quem nos serviu de degrau em plena ascensão divina é das mais horrendas formas de ingratidão. no rumo da reencarnação. Ensinar-lhe-ei com alegre ternura a pronunciar o nome de Deus e a desfazer as pesadas nuvens de revolta que lhe empanam a vida íntima... Mais tarde. receberemos muitos filhinhos. O Senhor não pode abençoar uma ventura colhida ao preço de angústias para aqueles que no-las deram. sedentas . em abençoado refúgio terrestre. é necessário que o Papai renasça primeiro. Juntas pelo amor imperecível trabalharemos sustentadas pela recordação. todavia. em ambas. nas regiões inferiores. O porvir reunir-nos-á de novo. com o propósito de nos servirem. reciprocamente. O tempo é das mais preciosas dádivas do Senhor e o tempo nos auxiliará. As jovens derramavam pranto comovedor. do que no mensageiro espiritual que se dá pressa em comparecer ante o Trono do Eterno para louvá-Lo. o que hoje somos... duas flores.. Conquistaremos em cooperação abençoada aquela paz que Cláudio sonhou para nós e que ele próprio não desfrutou. a doce lição do sacrifício silencioso. para socorrer os que. resvalaram a despenhadeiro sinistro e tormentoso. Sem esse marco inicial. desvairado. através da cordialidade e do respeito vividos em comum. onde Jesus me ensinará a soletrar. venturosa.. Enquanto procuro transformar Antônio. no esforço de cada dia e. minhas filhas. e a matrona iluminada. Meu afeto reinará dificilmente num lar repleto de corações menos afins com o meu.. Saldemos nossas dividas secretas com abnegação e devotamento. Muitas vezes. Compensar-me-ão vocês duas de todas as canseiras. e vocês duas estarão entre eles. Poderiamos gozar. com mais eficiência. reajustando-lhe as fibras afetivas. o espetáculo augusto das esferas resplandecentes. transviados e sofredores. Para que eu parta. À venerável matrona enxugou o pranto copioso e prosseguiu: — Olvidemos. reconfortando-nos os corações. Ajudemo-nos. com esquecimento dos próprios benfeitores. não podemos acreditar em felicidades de improviso. um dia.. inclinem ambas o espírito paterno à esperança e à meditação reconstrutivas. porém. embora imprecisa. dentro dalma. provàvelmente avisadas de que o tempo permanecia esgotado. às quais se apegou. em que se misturavam angústia e alegria. nos acolherá.

qual discípulo submisso. controlada pelas reminiscências dolorosas. renovando-nos o ambiente. Trajava um peplo estruturado em fina gaze azul-radiosa e desceu. numa onda de neblina evanescente Entreolhamo-nos em lágrimas. Já lhe surpreendo no espírito rudimentos de necessária transformação. reverente. Chefia condenável falange de centenas de outros espíritos desditosos. e vem sendo instrumento infeliz nas mãos de inimigos do bem. especializou-se. outra mensageira surgia na tribuna. a princípio. já consigo aproximar-me dele. se fêz visível no alto. conquistou a confiança de gênios cruéis. o instante de aceitar-te a ajuda fraterna. em oprimir ignorantes e infelizes. quando o verdadeiro entendimento da vida me não felicitava o espírito. que lhe deslizavam na face como sementes de luz. efetivamente. Dos olhos irradiava doce magnetismo santificante. Parou por alguns momentos. Recalcitrante e duro. com interesse particular. Espero. mentalmente. notei que a venerável matrona derramava lágrimas discretas. em favor da libertação de meu infortunado Gregório. que todas as medidas do bem são planejadas e pacientemente executadas pelos que se angelizam nas Virtudes do Céu. as oportunidades perdidas noutro tempo. pela renovação e penitência dele. e endereçoulhe a palavra. O Instrutor ergueu-se. mais uma vez. A recém-chegada pronunciou frases de paz. já duvida da vitoria do mal e abriga interrogações na mente envilecida. Nesse instante. poderosos e ingratos. Ainda não chora sob o guante do arrependimento benéfico e parece-me longe do remorso salvador. lastimando Intimamente.. há séculos. em tom de infinita ternura: — Irmão Gúbio. Pelo endurecimento do coração. o que constituí uma bênção nos corações infiéis ao Senhor. e. Impressionado pelos imensos recursos do poder. fitando-nos suavemente. depois da morte. recordei os laços afetivos que me ligavam ao pretérito e observei. Em breves instantes. porém. Creio haver chegado. Há cinquenta anos. agradeço-te o concurso dadivoso. Gregório agora experimenta algum tédio. à procura de alguém. ao intuito de modificarnos o campo vibracional Ponderando na incomensurável bondade do Pai. enternecida. obedecendo certo. e continuou: . e que lhe obedecem com deplorável cegueira e quase absoluta fidelidade. erecta e digna. após saudar-nos cordialmente. entretanto. cristalizados no mal. e caminhou na direção dela. em cujo topo desapareceu ao nosso olhar. sem afetação.. quando outro lençol de alva substância. cometeu hediondos crimes da inteligência. desempenhando presentemente a detestável função de grande sacerdote em mistérios escuros. tornou à tribuna. Ainda não voltara a mim mesmo da salutar divagação. coroada de tons dourados. como quem tivera permissão de repousar a mente em branda melodia As irmãs retomaram o lugar que ocupavam e música balsâmica se fez ouvir. revestida de luz. trazidas da insânia terrestre. Agravou o passivo de suas dívidas clamorosas. Internado em perigosa organização de transviados morais. Não é tão severo no comando dos espíritos desventurados que lhe seguem as determinações e o colapso de sua resistência não me parece remoto. no passado distante.25 de carinho A Mãezinha beijou-as.

Alimentamo-nos na Criação com os raios de vida imperecível que emitimos uns para com os Outros. concentrando o olhar sobre o nosso Instrutor. Não é paixão doentia que vibra em minhas palavras. É o amor que o Senhor acendeu em nós. para o torvelinho de lutas carnais. Como surpreender a perfeita ventura se recebo do filho amado tão sômente raios de forças em desvario? O nosso orientador contemplou-a. A veneranda mensageira fêz ligeiro intervalo e. mobilizarei meus amigos. na mocidade e na madureza. Sob o gelo que lhe cristaliza os .. encoraja-lo-á. Triunfará nos bens efêmeros e nas honrarias mentirosas. na colheita de provações mais duras. Estamos presos. a velhice e a solidão. no curso do tempo.. Dita ordens! Por mais que fizéssemos por tua alegria. depois de experiências inquietantes. a fim de esperar Gregório em existência de resgate difícil e doloroso. Encontrando-o. em labor gradativo. têlo-ei precedido na viagem do túmulo. tanto quanto as estrelas que se imantam umas às outras. tanto os possivelmente encarnados quanto os desencarnados. perversidade e delinquência a que atualmente se filia. meu coração materno. que pressinto de tão longe. Até lá.26 — Irmão Gúbio. Num sorriso triste. e conhecerá. embora na esfera espiritual. porém. em calor. perdoa-me o pranto que não significa mágoa ou esmorecimento. sem que os sentimentos de Gregório se voltem igualmente para a Eterna Sabedoria. a miséria. Não encontrarei o Céu. desde o princípio. Padecerá calúnias e vilipêndios. com incessante aproveitamento das horas. Contudo. Nas amarguras e desilusões que o ajudarão a reestruturar e aperfeiçoar os poderes da mente. porém. a enfermidade. É de nosso plano que ele acolha. e rogou: — Nobre Matilde! estamos prontos. a extensa legião de servidores viciados que hoje o seguem e a ele obedecem.. Será muita vez humilhado à face dos homens. meu filho espiritual será talvez um monstro. no desdobramento da tarefa salvadora. o abandono. entretanto.. Moverei as cordas da intercessão sublime. Educá-lo-ei sob os princípios superiores que regem a vida. diante dos sacrifícios em que te empenhas por nós todos.. passo a passo. pelo magnetismo divino. dentro em breves anos. Penso nele qual se houvera perdido a pérola mais linda num mar de lama e tremo de alegria ao considerar que vou reencontrálo. Gúbio. no império universal. Para mim. diante de Deus. Iniciaremos a liberação com o teu abnegado concurso na zona abismal.. a deserção dos falsos amigos. na infância.. Apegar-se-á profundamente ao meu carinho. nosso esforço seria pobre e pequenino. compete-me trabalhar muito e sem desânimo. na direção do esperado triunfo. de olhos úmidos. rogarei a Jesus fortaleza e serenidade. a fim de encaminhá-los. Na pauta do julgamento humano comum. através do carreiro de santificação pela disciplina benéfica em construtivo suor. veste a capa do servo prestimoso e fala-lhe em meu nome.. Receberá. nessa época. aduziu com nova inflexão de voz: — Atenderás Margarida que te foi filha amantíssima e que a Gregório ainda se encontra imantada por teias escuras do passado e colaborarás com o meu devotamento materno para que na alma dele se converta a sublevação em humildade e a frieza. minha voz de amor eterno será por ele registrada com mais precisão.. tentações de toda espécie que lhe serão desfechadas pela colônia de ignorância. Crescerá sob minha inspiração imediata e receberá a prova perigosa e aflitiva da riqueza material. é a jóia primorosa do coração ansioso e enternecido. prosseguiu a respeitável senhora: — Descerei..

Sou simplesmente teu devedor. O Senhor nos enriquece para que enriqueçamos a outrem. dessas (1) A expressão «campos de saída” define lugares-limites. exteriorizando a doce expectativa que lhe povoava a alma. falou. esferas de reajustamento. Gregório e os companheiros que mais se afinarem com ele serão trazidos por nós a círculos regeneradores e. Sei quanto te custa a incursão nos domínios da dor. sonhando em companhia dele as realizações que nos competem alcançar. — Nota do autor espiritual. a senhora agradeceu com palavras generosas e concluiu: — Ao terminares a fase essencial de tua missão. ele me recordará tua bondade e teu devotamento apoiando-me os propósitos de descer para servir.. Mostrando intenso júbilo e grande esperança na expressão fisionômica. porque só aquele que sabe amar e suportar consegue triunfo nas consciências que se degradaram no mal. se Gregório me flagelasse nos círculos em que domina. semelhante aflição se converteria igualmente em júbilo. porqüanto Gregório virá possivelmente em tua companhia. Nesse dia abençoado. Socorreste-me com a tua intercessão. dentro de mim.. agora. à face de tua amorosa tarefa. Seguir-te-ei a ação e aproximar-me-ei no instante oportuno. por nossa vez. Onde existe a alegria. o sofrimento não se detém. os dons divinos descem sobre nós.. conto reorganizar elementos ante o futuro promissor. sou pequenino em excesso para merecer-te as palavras. inapagada. ajuda-nos a fim de que auxiliemos. Creio na vitória do amor. descansa. e. meu amigo. os mais necessitados. mover-se-lhe-á o espírito endurecido. Gúbio pronunciou algumas frases de compromisso fraterno. salvarei minha filha. As dores que me acarretasse seriam abençoados espinhos nas rosas que me ofereceste. dentro de justas condicionais. a chama do amor que nos une para sempre. Diante daqueles olhos divinos. Um coração paternal é sempre venturoso. e considerou: — A hora é chegada. O Senhor estará conosco. Gúbio valeu-se do intervalo e considerou. encorajado e feliz. De qualquer modo. da permissão de fazer-me sentir e acredito que. Em teu nome. extática: — Possam minhas lágrimas de alegria orvalhar-te o espírito laborioso. Gregório e eu semearemos de novo. cuja experiência atual no corpo denso nos é sumamente importante às reencarnações porvindouras. reverencioso: — Abnegada Matilde. sobre o que serei notificada por nossos mensageiros. logo resplandeça o minuto do reencontro. lutarei. em se humilhando pelos filhos que ama. amparando-me o zelo afetivo. outra vez! Detendo-se particularmente sobre nosso Instrutor. entre as esferas inferiores e superiores.27 sentimentos. A emissária acentuou a expressão brilhante do rosto. perante as necessidades de Margarida. Então. dá-nos alguma coisa para ensaiarmos a distribuição de benefícios que Lhe pertencem. nos dias próximos. quem sabe? é provável se verifique o encontro pessoal que almejo há muito tempo.. agora velados de lágrimas que não chegavam a cair. Mais recolhe quem mais semeia. Há tempo de plantar e tempo de colher. irei ao teu encontro nos “campos de saida” (1). Seremos mãe e filho... .. até a um ponto em que de alguma sorte a manifestação da luz será possibilitada ante as trevas. Disponho. entretanto.. Trabalharei reconhecido ao ensejo que me deste.

Amanhã. seguiremos na direção da tarefa nova. despedimo-nos da família cristã que ali se congregava. delicadamente murmurou: — Repousa a mente e não perguntes por agora. A Lua reinava num trono de azul macio.28 Trabalharíamos sem descanso. Findo aquele culto vivo de amor imortal. . Cá fora. afagandome os ombros. mas Gúbio. e convence-te de que o serviço nos esclarecerá com a sua linguagem viva. Ergui para o Instrutor olhos repletos de indagações. Flores inúmeras saudavam-nos com perfume inebriante. a noite se fizera mais bela. constelado de estrelas luzentes. que nos exigirá muita prudência e compreensão fraternal. A singular entrevista terminou entre preces de gratidão ao Eterno Pai. Desvelar-nos-íamos pela execução das ordens afetuosas.

As árvores não se vestiam de folhagem farta e os galhos. de frondes ressecadas. Fumo cinzento cobria o céu em toda a sua extensão. Aves agoureiras. e. A volitação fácil se fizera impossível. crocitavam em surdina. eu trazia o coração premido de interrogativas inquietantes. de grande tamanho. mas vivas. pusemo-nos em marcha. Falavam em alta voz. penetramos vasto domínio de sombras. Após a travessia de várias regiões. cujos olhos brilhavam desagradàvelmente nas sombras. mais ou menos semelhante a outros de meu conhecimento. mas também pela necessidade da formação de novos cooperadores. nos esclareceu: . Gemidos tipicamente humanos eram pronunciados em todos os tons. A vegetação exibia aspecto sinistro e angustiado. teríamos examinado individualmente os sofredores que aí se localizavam. Lembrando a “selva escura” a que Alighieri se reporta no imortal poema. seguindo adiante. num trabalho que ele poderia desenvolver sôzinho. os apelos cortantes que provinham dos charcos. indiferentes. não se detinha para atender a curiosidade improfícua. Além dos serviços referentes ao encargo particular que nos mobilizava. especializados no ministério de socorro às trevas. evidenciando. e Gúbio. de uma espécie que poderá ser situada entre os corvideos. Avançamos mais profundamente. porém. seriam homens desencarnados sob tremendo castigo da forma? Quem chorava nos vales extensos de lama? criaturas que houvessem vivido na Terra que recordávamos. sim. todavia. pelas gargalhadas. não só pela confiança que em nós depositava. semelhando-Se a pequenos monstros alados espiando presas ocultas. mas o ambiente passou a sufocar-nos. grupos hostis de entidades espirituais em desequilíbrio nos defrontavam. A claridade solar jazia diferençada. seriam almas convertidas em silenciosas sentinelas de dor. Gúbio. depois de alguns momentos. ou duendes desconhecidos para nós? De quando em quando. davam a ideia de braços erguidos em súplicas dolorosas. afirmou que nos admitira. com escalas por diversos postos e instituições socorristas. Respondendo-nos às argüições afetuosas. “em descida”. quase secos.29 4 Numa cidade estranha No dia imediato. transformada simbôlicamente em estátua de sal? E aquelas grandes corujas diferentes. Técnico em missões dessa natureza. mas inteligível. Acredito. incapazes de registrar-nos a presença. àmaneira de outros instrutores. de algum modo. Aquelas árvores estranhas. entraríamos em algumas atividades secundárias de auxílio. o Instrutor informou-nos de que teríamos apenas alguns dias de ausência. vencidos de fadiga singular. O que mais contristava. Apresentavam-se em trajes bisonhos e conduziam apetrechos de lutar e ferir. não era o quadro desolador. qual a mulher de Lot. em português degradado. deploráveis condições de ignorância. Repousamos. se nos entregássemos a detida apreciação.

30 — Nossas organizações perispiríticas. nosso programa será estraçalhado em alguns instantes. por enquanto. busquei padronizar atitudes pela conduta do Instrutor. à maneira de escafandro estruturado em material absorvente. quando na Crosta. sofrendo-lhes. Gúbio dividiu conosco um olhar de benevolência e explicou. A oração. ignorantes do próprio destino. Pouco a pouco. trabalham inúmeros companheiros do bem nas condições em que nos achamos. de improviso. Não estamos em cavernas infernais. religado. Para a malta de irmãos retardados que nos envolverá. asfixiante opressão. nos quais noventa e cinco por cento das inteligências se encontram devotadas ao mal e à desarmonia. por minha vez. bondoso: — Não te recordas do texto evangélico que recomenda não saiba a mão esquerda o que dá a direita? Este é o momento de ajudarmos sem alarde. qual o minuto mais adequado de nosso retorno aos dons luminescentes. Passamos a inalar as substâncias espessas que pairavam em derredor. Elói estirou-se. que tolerava a metamorfose. Reparei. por ato deliberado de nossa vontade. sob a vigilância de tribos cruéis. seremos vistos por qualquer dos habitantes desta região menos feliz. por amor. formadas de espíritos egoístas. a fim de alcançarmos nossos fins. Decorridos longos minutos. Se erguermos bandeira provocante. para socorrer eficientemente os que se adaptaram a ele. são compelidos a cobrir-se com as substâncias do charco. invejosos e brutalizados Para a sensibilidade medianamente desenvolvida. seremos simples desencarnados. descessem a operar num imenso lago de lodo. me via revestido de matéria densa. a identificação pessoal. quase refeito. porque. de agora em diante. onde os homens terrestres lhes sofrem permanente influenciação. ofegante. com paciência e coragem. nestes campos. como se o ar fosse constituído de fluidos viscosos. o sofrimento aqui é inapreciável. — Mas. sem que lhe vejamos a presença. O Senhor não é mentiroso quando nos estende invisíveis recursos de salvação. o orientador apelou. silencioso e palidíssimo. Chegou para nós o momento de pequeno testemunho. Não nos convém. de novo. confundido. Centenas de milhares de criaturas aqui padecem amargos choques de retorno à realidade. seremos auxiliares anônimos. Podemos perder por falta de paciência ou por escassez de vocação para o sacrifício. ao corpo de carne. deve ser nosso único fio de comunicação com o Alto. e não obstante experimentar. — E ha governo estabelecido num reino estranho e sinistro quanto este? — indaguei. . até que eu possa verificar. Nesta cidade sombria. sentimo-nos pesados e tive a ideia de que fora. não será isto mentir? clamou Elói. Atravessamos importantes limites vibratórios e cabe-nos entregar a forma exterior ao meio que nos recebe. a influenciação deprimente. Muita capacidade de renúncia é indispensável. que a voluntária integração com os elementos inferiores do plano nos desfigurava enormemente. Finda a nossa transformação transitória. diligente: — Prossigamos! Doravante. não devem reagir contra as baixas vibrações deste plano. Estamos na posição de homens que. anexo aos círculos da Crosta. como se fôsse obrigado a envergar inesperada armadura. a fim de sermos realmente úteis aos que nos propomos auxiliar. mas atingimos grande império de inteligências perversas e atrasadas. embora me sentisse dono da própria individualidade.

Comigo. . — Qual ocorre na esfera carnal. não mais identificam nestas paragens senão motivos de cansaço. senhoreando milhares de mentes preguiçosas. a direção. como se fazia possível. Grande aristocracia de gênios implacáveis aqui se alinha.. De período a período. repugnância e pavor. de antemão. Em minutos breves. assistido por assessores políticos e religiosos tão frios e perversos quanto ele mesmo. agora. é uma zona da natureza pedindo o socorro dos servos mais fortes e generosos. para que aprenda a integrar-se na ordem eterna que preside à vida universal.. mas a entrega à expiação dos próprios crimes e ao infortúnio de si mesma. — Significa então que os gênios malditos. Qualquer precipitação pode arrojar-nos a estados primitivistas. mas os choques biológicos do renascimento e da desencarnação. atenciosamente. este grande empório de padecimentos regeneratívos permanece dirigido por um sátrapa de inqualificável impiedade. neste domínio. qual acontece nos círculos terrenos.. paciente — quando nos desviamos. não para justiçar e sim para educar e servir. Gúbio replicou: — Pelas mesmas razões educativas através das quais não aniquila uma nação humana quando. semi-apavorado. porém. é concedida pelos Poderes Superiores. de ora em diante. Adiantamo-nos. delinqüentes e enfermiças. de novo. ante os compromissos que assumíramos. penetramos vastissima aglomeração de vielas. a matéria utilizada por semelhantes inteligências é revolvida e reestruturada. contado cada um por vários séculos.. mais ou menos recentes. — exclamei.31 — Como não? — respondeu Gúbio. Em voz baixa. caminho a fora. Lembremo-nos de que aceitamos o encargo desta hora. — Somos nós mesmos — completou o Instrutor. que aliciou para si próprio o pomposo título de Grande Juiz. Música exótica fazia-se ouvir não distante e Gúbio rogou-nos prudência e humildade em favor do êxito no trabalho a desdobrar-se. já me confere recordações mais dilatadas e. nem a Elói. na vida livre. em nossas necessidades de reabastecimento psíquico. não nos esqueçamos da prece. todavia. mas se o Senhor visita os homens pelos homens que se santificam. Reerguemo-nos e avançamos. de ânimo voltado para o Cristo. invariàvelmente. a título precário. os demônios de todos os tempos. da Lei. o desabrocho de reminiscências completas do passado. doçura e resistência. desencadeia guerras cruentas e destruidoras. A extensão de meu tempo. desvairada pela sede de dominação. não te permitem. Na atualidade.. a situação é diversa. guindados à altura. análogo ao dos espíritos infelizes que desejamos auxiliar. corrige igualmente as criaturas por intermédio das criaturas que se endurecem ou bestializam. é forçoso observar que o pântano. o orientador reiterou a recomendação: — Em qualquer constrangimento íntimo. Tenhamos calma e energia. Muitos de nossos companheiros. reticencioso. Fizera-se-nos tardio o passo e nossa movimentação difícil. lançando-nos em nivel inferior. era o meu colega que perguntava. impenitentes. Já perambulamos por estes sítios sombrios e inquietantes. É.. o único recurso de que dispomos a fim de mobilizar nossas reservas mentais superiores. Longe de perturbar-se. conheço as lições que constituam novidade. — E porque permite Deus semelhante absurdo? Dessa vez.

32

reunindo casario decadente e sórdido. Rostos horrendos contemplavam-nos furtivamente, a princípio, mas, à medida que varávamos o terreno, éramos observados, com atitude agressiva, por transeuntes de miserável aspecto. Alguns quilômetros de via pública, repletos de quadros deploráveis, desfilaram a nossos olhos. Mutilados às centenas, aleijados de todos os matizes, entidades visceralmente desequilibradas, ofereciam-nos paisagens de arrepiar. Impressionado com a multidão de criaturas deformadas que se enfileiravam sob nosso raio visual, perfeitamente arrebanhadas ali em experiência coletiva, enderecei algumas interrogações ao Instrutor, em tom discreto. Porque tão extensa comunidade de sofredores? Que causas impunham tão flagrante decadência da forma? Paciente, o orientador não se fêz demorado na resposta. — Milhões de pessoas — informou, calmo —, depois da morte, encontram perigosos inimigos no medo e na vergonha de si mesmas. Nada se perde, André, no círculo de nossas ações, palavras e pensamentos. O registro de nossa vida opera-se em duas fases distintas, perseverando no exterior, através dos efeitos de nossa atuação em criaturas, situações e coisas, e persistindo em nós mesmos, nos arquivos da própria consciência, que recolhe matemàticamente todos os resultados de nosso esforço, no bem ou no mal, ao interior dela própria, O espírito, em qualquer parte, move-se no centro das criações que desenvolveu. Defeitos escuros e qualidades louváveis envolvemno, onde se encontre. A criatura na Terra, por onde peregrinamos, ouve argumentos alusivos ao Céu e ao Inferno e acredita vagamente na vida espiritual que a espera, além-túmulo. Mais cedo que possa imaginar, perde o veículo de carne e compreende que não se pode ocultar por mais tempo, desfeita a máscara do corpo sob a qual se escondia à maneira da tartaruga dentro da carapaça. Sente-se tal qual é e receia a presença dos filhos da luz, cujos dons de penetração lhe identificariam, de pronto, as mazelas indesejáveis. O perispírito, para a mente, é uma cápsula mais delicada, mais suscetível de refletir-lhe a glória ou a viciação, em virtude dos tecidos rarefeitos de que se constitui. Em razão disso, as almas decaídas, num impulso de revolta contra os deveres que nos competem a cada um, nos serviços de sublimação, aliam-se umas às outras através de organizações em que exteriorizam, tanto quanto possível, os lamentáveis pendores que lhes são peculiares, não obstante ferretoadas pelo aguilhão das inteligências vigorosas e cruéis. — Mas — interferi — não há recurSos de soerguer semelhantes comunidades? — A mesma lei de esforço próprio funciona igualmente aqui. Não faltam apelos santificantes de Cima; contudo, com a ausência da íntima adesão dos interessados ao ideal da melhoria própria, é impraticável qualquer iniciativa legítima, em matéria de reajustamento geral. Sem que o espírito, senhor da razão e dos valores eternos que lhe são consequentes, delibere mobilizar o patrimônio que lhe é próprio, no sentido de elevar o seu campo vibratório, não é justo seja arrebatado, por imposição, a regiões superiores que ele mesmo, por enquanto, não sabe desejar. E até que resolva atirar-se ao empreendimento da própria ascenSãO, vai sendo aproveitado pelas leis universais no que possa ser útil à Obra Divina. A minhoca, enquanto é

33

minhoca, é compelida a trabalhar o solo; o peixe, enquanto é peixe, não viverá fora d’água... Sorrindo, ante a própria argumentação, concluiu bem humorado: — É natural, pois, que o homem, dono de vastaS teorias de virtude salvadora, enquanto se demora no comboio da inferioridade seja empregado em atividades inferiores. A Lei estima infinitamente a Lógica. Calou-se Gübio, evidentemente constrangido pela necessidade de não acordarmoS demasiada atenção em torno de nós. Tocado, no entanto, pela miséria que ali emoldurava tanta dor, perdi-me num mar de indagações íntimas. Que empório extravagante era aquele? algum país onde vicejassem tipos sub-humanos? Eu sabia que semelhantes criaturas não envergavam corpos carnais e que se congregavam num reino purgatorial, em beneficio próprio; entretanto, vestiam-Se de roupagens de matéria francamente imunda. Lombroso e Freud encontrariam aí extenso material de observação. Incontáveis tipos que interessariam, de perto, à criminologia e à psicanálise. Vagueavam absortos, sem rumo. Exemplares inúmeros de pigmeus, cuja natureza em si ainda não posso precisar, passavam por nós, aos magotes. Plantas exóticas, desagradáveis ao nosso olhar, ali proliferam, e animais em cópia abundante, embora monstruosos, se movimentavam a esmo, dando-me a ideia de seres acabrunhados que pesada mão transformara em duendes. Becos e despenhadeiros escuros se multiplicavam em derredor, acentuando-nos o angustioso assombro. Após a travessia de vastíssima área, não sopitei as interrogações que me escapavam do cérebro. O Instrutor, todavia, esclareceu, discreto: — Guarda as perguntas intempestivas no momento. Estamos numa colônia purgatorial de vasta expressão. Quem não cumpre aqui dolorosa penitência regenerativa, pode ser considerado inteligência sub-humana. Milhares de criaturas, utilizadas nos serviços mais rudes da natureza, movimentam-se nestes sítios em posição infraterrestre. A ignorância, por ora, não lhes confere a glória da responsabilidade. Em desenvolvimento de tendências dignas, candidatam-se à humanidade que conhecemos na Crosta. Situam-se entre o raciocínio fragmentário do macacóide e a idéia simples do homem primitivo na floresta. Afeiçoam-se a personalidades encarnadas ou obedecem, cegamente, aos espíritos prepotentes que dominam em paisagens como esta. Guardam, enfim, a ingenuidade do selvagem e a fidelidade do cão. O contacto com certos indivíduos inclina-os ao bem ou ao mal e somos responsabilizados pelas Forças Superiores que nos governam, quanto ao tipo de influência que exercermos sobre a mente infantil de semelhantes criaturas. Com respeito aos Espíritos que se mostram nestas ruas Sinistras, exibindo formas quase animalescas, neles reparamos várias demonstrações da anormalidade a que somos conduzidos pela desarmonia interna. Nossa atividade mental nos marca o perispírito. Podemos reconhecer a propriedade do asserto, quando ainda no mundo. O glutão começa a adquirir aspecto deprimente no corpo em que habita. Os viciados no abuso do álcool passam a viver de borco, arrojados ao solo, à maneira de grandes vermes. A mulher que se habituou a mercadejar com o vaso físico, olvidando as sagradas finalidades da vida, apresenta máscara triste, sem sair da carne. Aqui, porém, André, o fogo devorador das paixões aviltantes revela suas vítimas com mais hedionda crueldade.

34

Certo, porque eu refletisse no problema de assistência, o orientador aduziu: — É impraticável a enfermagem individual e sistemática numa cidade em que se amontoam milhares de alienados e doentes. Um médico do mundo surpreenderia aqui, às centenas, casos de amnésia, de psicastenia, de loucura, através de neuroses complexas, alcançando a conclusão de que toda a patogenia permanece radicada aos ascendentes de ordem mental. Quem cura nestes lugares há de ser o tempo com a piedade celeste ou a piedade celeste por intermédio de embaixadores da renúncia, em serviços de intercessão para os espíritos arrependidos que se refugiem na obediência aos imperativos da Lei, inspirados pela boa vontade. Alguns transeuntes repulsivos ombrearam conosco e Gúbio considerou prudente silenciar. Notei a existência de algumas organizações de serviços que nos pareceriam, na esfera carnal, ingênuas e infantis, reconhecendo que a ociosidade era, ali, a nota dominante. E porque não visse crianças, exceção feita das raças de anões, cuja existência percebia sem distinguir os pais dos filhos, arrisquei, de novo, uma indagação, em voz baixa. Respondeu o Instrutor, atencioso: — Para os homens da Terra, prôpriamente considerados, este plano é quase infernal. Se a compaixão humana separa as crianças dos criminosos definidos, que dizer do carinho com que a compaixão celestial vela pelos infantes? — E porque em geral tanta ociosidade neste plano? — indaguei ainda. — Quase todas as almas humanas, situadas nestas furnas, sugam as energias dos encarnados e lhes vampirizam a vida, qual se fôssem lampreias insaciáveis no oceano do oxigênio terrestre. Suspiram pelo retorno ao corpo físico, de vez que não aperfeiçoaram a mente para a ascensão, e perseguem as emoções do campo carnal com o desvario dos sedentos no deserto. Quais fetos adiantados absorvendo as energias do seio materno, consomem altas reservas de força dos seres encarnados que as acalentam, desprevenidos de conhecimento superior. Daí, esse desespero com que defendem no mundo os poderes da inércia e essa aversão com que interpretam qualquer progresso espiritual ou qualquer avanço do homem na montanha de santificação. No fundo, as bases econômicas de toda essa gente residem, ainda, na esfera dos homens comuns e, por isto, preservam, apaixonadamente, o sistema de furto psíquico, dentro do qual se sustentam, junto às comunidades da Terra. A essa altura, defrontamos acidentes no solo, que o Instrutor nos levou a atravessar. Subimos, dificilmente, a rua íngreme e, em pequeno planalto, que se nos descortinou aos olhos espantadiços, a paisagem alterou-se. Palácios estranhos surgiam imponentes, revestidos de claridade abraseada, semelhante à auréola do aço incandescente. Praças bem cuidadas, cheias de povo, ostentavam carros soberbos, puxados por escravos e animais. O aspecto devia, a nosso ver, identificar-se com o das grandes cidades do Oriente, de duzentos anos atrás. Liteiras e carruagens transportavam personalidades humanas, trajadas de modo surpreendente, em que o escarlate exercia domínio, acentuando a dureza dos rostos que emergiam dos singulares indumentos.

implacável: — Não sei quem seja. retirou-se. com todos os característicos de um templo. de nariz adunco e olhos felinos. Amanhã. mas observou. antes de admitidos ao meu serviço. Entregues a um servidor de fisionomia desagradável. admirando o suntuoso casario em contraste chocante com o vasto reino de miséria que atravessáramos. — E quem os enviou? — inquiriu o sacerdote. demandamos porão escuro. . sob visível perturbação. humilde. Nem mais uma palavra. descortês: — Que fazem? Era um homem alto. podem entrar. Tenho serviços nos mistérios e não posso ouvi-los agora. de alma conturbada por receio absorvente e indefinível. determinou lhe acompanhássemos as passadas. — É aqui! — disse em tom seco e. alguém nos interpelou. asseverando que a casa se destinava a espetaculoso culto externo. Todavia. O estranho pôs-se à frente. em silêncio. envolvido em longa e complicada túnica. e guiou-nos a um casarão de feio aspecto. — Certa mensageira de nome Matilde. Gregório não nos recebeu hospitaleiramente. a quem estamos recomendados — esclareceu Gúbio. há muito tempo? — Sim — respondeu nosso Instrutor —. Fitou em Gúbio os olhos desconfiados de fera surpreendida e interrogou: — Vieram da Crosta.35 Respeitável edifício destacava-se diante de uma fortaleza. porém. e o orientador confirmou-me as impressões. e confesso que acompanhei Gúbio e Elói. — Procuramos o sacerdote Gregório. com todas as maneiras do policial desrespeitoso. O anfitrião estremeceu. após apresentar-nos a um homem maduro. — Já foram examinados? — Não. serão levados aos setores de seleção. a identificar-nos. Enquanto nos movimentávamos. e temos necessidade de auxilio. ao anoitecer.

A divisão para facilitar o serviço judiciário é. afastando-se de nós. Alguns gemiam e choravam. recordando as oleografias religiosas da Crosta. homens e mulheres. perfeitos. aproveitadas em meditações e preces. das mais completas. apresentava o aspecto desagradável de uma casa incendiada. por isto mesmo. que nos comunicaram a necessi• dade de exame antes de qualquer contacto direto com o aludido sacerdote. no campo das vítimas. sem entendimentos verbais. perversos e desequilibrados. curioso: — Todas estas entidades vieram constrangidas. penetramos o recinto de largas dimensões. porque o silêncio caía. Alguns servidores da casa. Observei-lhes. A essa altura. O perispírito de todos os que aí se enclausuravam. embora a inquietação que transparecia de todos os rostos.. o aspecto enfermiço. em seleção para julgamento oportuno. obedecendo a forças de atração. através das cores que caracterizam o halo dos Espíritos Ignorantes. alongando-se para cima em torres pardacentas. conforme sucedeu conosco? Há espíritos satânicos. aí se misturavam em relativo silêncio. de algum modo. Muitos padeciam desequilíbrios mentais visíveis. O esquisito palácio guardava a forma de enorme hexágono. por grupos vários. Respeitado o nosso trio pelos selecionadores que não nos alteraram a união.36 5 Operações seletivas Transcorridas longas horas em compartimento escuro. naquele momento. no qual se congregavam algumas dezenas de entidades em deploráveis condições. Semelhante princípio prevalece para quem respira no corpo denso ou fora dele. Sob a custódia de quatro guardas da residência de Gregório. a um edifício de grandes e curiosas proporções. são técnicos especializados na identificação de males numerosos. o pessoal de Gregório nos dera tréguas. cada mente vive na companhia que elege. as pessoas desencarnadas que entrariam. em sua quase totalidade. não obstante vigiar-nos das galerias repletas de gente. agora. Os estigmas da velhice. o Instrutor elucidou-nos: — Presenciamos uma cerimônia semanal dos juizes implacáveis que vivem sediados aqui. fluminado externa e interior-mente pela claridade de volumosos tocheiros. separavam. A operação seletiva realiza-se com base nas irradiações de cada um. Incapazes de perceber a presença dos . porém. Atento à explicação ouvida. O medo controlava os mais desesperados. indaguei. compondo grupos diversos. André. em trajes caracteristicos. disputando as almas no leito de morte? O orientador obtemperou. Reparei que a multidão se constituía. Discretamente.. mostrava a mesma opacidade do corpo físico. impressionado. É imperioso reconhecer. situávamo-nos. fomos conduzidos. pacientes e expectadores. Moços e velhos. abafante. Os guardas que vemos em trabalho de escolha. e reunia muitos salões consagrados a estranhos serviços. que perseguem a experiência humana. na noite imediata. de almas doentes. muito calmo: — Sim. da moléstia e do desencanto. que a maioria das almas asiladas neste sítio vieram ter aqui. ali triunfavam.

curiosamente. Que solenidade religiosa era aquela? As poltronas suspensas eram. Aportando aqui. um dos julgadores se levantou e dirigiu-se à massa. e confrangeu-se-me toda a alma. sozinhas. predominavam a humildade e a aflição. desceram. carregando a simbólica machadinha (fasces) ao ombro. Varando. torturando-nos a sensibilidade. em vista do baixo teor vibratório em que se precipitaram.37 benfeitores espirituais que militam entre os homens encarnados. como acontece na Crosta Planetária. Os julgadores. com toda a bagagem de paixões destruidoras que lhes marcam a estrada. como se estivéssemos numa parada militar em grande estilo. agregando-se naturalmente a este imenso cortiço. corretos. agora. sofrem. desagradáveis e pesados. calou-se de súbito. sobre a qual resplandecia alarmante facho de luz. porque a turba inconsciente. Vagueei o olhar. Penetraram o átrio em passos rítmicos e. dos tronos içados e tomaram assento numa espécie de nicho a salientar-se de cima. a vigilância de inteligências poderosas e endurecidas que Imperam ditatorialmente nestas regiões. por sua vez. A frente de vasta tribuna vazia e sob as galerias laterais abarrotadas de povo. sete andores. irreverente. arrebanhadas aos magotes. entre as sentinelas que nos nodeavam. desvairadas. Alguns minutos decorreram. Na comunidade das vitimas. em tarefas de renunciação e benevolência. esquisitamente ataviados. é ocupada por aquele que a deseja e procura. em tudo. procuraram as criaturas desencarnadas que com elas se afinam. quando absorvente vozento se fêz ouvido: — Os magistrados! os magistrados! Lugar! lugar para os sacerdotes da justiça! Procurei a paisagem exterior. os lictores passaram o instrumento simbólico às mãos e alinharam-se. compacta multidão se amontoava. tanto quanto me era possível. e uma composição musical semi-selvagem acompanhou-lhes o ritmo. e vi que funcionários rigorosamente trajados à moda dos lictores da Roma antiga. além da morte. idênticas à “sédia gestatória” das cerimônias papalinas. sustentados por dignitários diversos daquela corte brutalizada. inspirando silêncio e temor. Palavrões eram desferidos. aproximadamente nestes termos: . desrespeitosamente. mas. perante a tribuna espaçosa. em derredor. em redor. cada posição. — Oh! — exclamei em voz sussurrante — por que motivo confere o Senhor atribuições de julgadores a Espíritos despóticos? porque estará a justiça. onde os frutos amargos da maldade e da indiferença enchem o celeiro dos corações desprevenidos e maliciosos. avançavam. nesta cidade estranha. da ociosidade inipenitente ou da deliberada cristalização no erro. em mãos de príncipes diabólicos? Gúbio estampou na fisionomia significativa expressão e ajuntou: — Quem se atreveria a nomear um anjo de amor para exercer o papel de carrasco? Ao demais. a esmo. traziam os juizes. Tambores variados rufaram. como se fôssem animais raros para uma festa. Terminado aquele ruído. o recinto. ladeados por servidores que sobraçavam grandes tochas a lhes clarearem o caminho. através de delitos reiterados. depois deles. não encontraram senão o manto de sombras em que se envolveram e. porém. a peçonha da ironia transbordava. pomposos.

Nem sentença condenatória. mantidas pela alma no corpo físico. a fim de que as penas lavradas pela vontade de cada um sejam devidamente aplicadas em lugar e tempo justos. Amaldiçoados sejam pelo Governo do Mundo quem nos desrespeite as deliberações. discórdia. Nossa função é a de selecionar delinqüentes. intuitivamente. Olhos esgazeados pelo pavor jaziam abertos em todas as máscaras fisionômicas. Esta casa não pune. não parecia respeitar o menor resquício de misericórdia. não obstante usar. A morte é caminho para a justiça. explodem aqui. A represa por longo tempo guarda micróbios e monstros. Mostrava-se interessado em criar ambiente negativo a qualquer espécie de soerguimento moral. necessidades enlouquecedoras. organize resistência para a colheita de espinhos. ciúme e perturbação deliberada. Nesse ponto. o orador fêz pausa e reparei os circunstantes. e procura hipnotizar as vítimas em sentido destrutivo. Quem abrigou a calúnia. sim. Escusado qualquer recurso à compaixão. a queixa mental dos ouvintes. entre criminosos. quanto o fruto não foge às propriedades da árvore que o produziu. todavia. mordomos do Governo do Mundo. e. baseadas. nem absolvição gratuita. enderecei com o olhar silenciosa interrogação ao nosso orientador.38 — “Nem lágrimas. espontaneamente. de retorno. O juiz. Assinalando. se espalhem e crescem em toda a extensão da corrente. por sua vez. dolorosas e arrasadoras. Prolongando-se o intervalo. segregados a distância do curso tranquilo das águas. doravante. chega um momento em que a tempestade ou a decadência surpreendem a obra vigorosa de alvenaria e as formas repelentes. Não somos distribuidores de sofrimento. Quem centralizou os sentidos no abuso de faculdades sagradas espere. suportará os gênios infelizes aos quais confiou os ouvidos. aliás. Quem desviou a visão para o ódio e para a desordem. Seguidores do vício e do crime. . nas esferas inferiores. terrificante: . nem lamentos. a verdade contundente. porque ninguém escapará aos resultados das próprias obras. porque as paixões envilecentes. descubra novas energias para contemplar os resultados do desequilíbrio a que se consagrou. Quem abriu a boca para vilipendiar e ferir. estabelecendo nos ouvintes angustioso temor. que me falou quase em segredo: — O julgador conhece à saciedade as leis magnéticas. nos arquivos mentais de cada um. como vemos. conservais a mente prisioneira das mais baixas forças da vida. prepare-se a receber. inveja. bradou. libertadas. nem recompensa. tremei! Condenados por vós mesmos. ao qual se habituou no transcurso dos séculos!. Quem utilizou as mãos em sementeiras de malícia. — Não vale acusar a edilidade desta colônia — prosseguiu a voz trovejante —. as forças tremendas que desencadeou através da palavra envenenada. à maneira do batráquio encarcerado no visco do pântano.

Muitos se prosternaram de joelhos. orgulhosos e vencidos. diante de nós.. impune. recordei meus velhos caminhos de ilusão e — porque não dizer? — ajoelheime também. Gúbio trazia a destra sobre o peito. Entortou-se-lhe a boca. triunfante... a cerviz curvou-se. Exasperado. O crime. enquanto me demorei no corpo. Perseguiu-me. conduzidos pelos próprios ídolos que adorastes? Nesse momento. clamou: — Quero vinho! vinho! prazer!. a misericórdia? E incidindo toda a força magnética que lhe era peculiar.. conhecendo a organização frágil e passiva a que se dirigia.. senão rebotalho humano? Não viestes. Gritos atormentados. rogativas de compaixão se fizeram ouvir. em baixo.. asseverou. espontânea. . — Confesse! confesse! — determinou o desapiedado julgador. convulsivo choro invadiu a muitos. de uma loba. o julgador bradou. Em vigorosa demonstração de poder. ó Deus meu! E como se estivesse sob a ação de droga misteriosa que a obrigasse a desnudar o íntimo.. estarrecida. lacrimosa: — Perdoai-me! perdoai-me. e por mais buscasse afogar o infortúnio em “bebidas de prazer”. sobre uma pobre mulher que o fixava. Simiesca expressão revestiu-lhe o rosto. através das mãos.39 — Quem nos acusa de crueldade? Não será benfeitor do espírito coletivo o homem que se consagra à vigilância de uma penitenciária? e quem sois vós. modificava a expressão fisionômica.. fixando sobre ela as irradiações que lhe emanavam do temível olhar.. vendo por minha vez aquele grande grupo de espíritos rebelados e humilhados... colérico: — Perdão? Quando desculpastes sinceramente os companheiros da estrada? onde está o juiz reto que possa exercer. como se contivesse o coração. e combinei o assassínio de meu intolerável esposo. sob os raios positivos da atenção dele. a infeliz obedeceu à ordem. Imensa dor generalizara-se. o magistrado: — Como libertar semelhante fera humana ao preço de rogativas e lágrimas? Em seguida. dentro das órbitas. parecendo sofrer a interferência de lembranças menos dignas. dando-nos a impressão de que rezava o “confiteor” e gritou. A medida que repetia a afirmação. porém. falou. afirmou. mais me chafurdei no charco de mim mesma. em voz alta e pausada: — Matei quatro filhinhos inocentes e tenros. peremptório: — A sentença foi lavrada por si mesma! não passa de uma loba. em vão. notei que a mulher. ordenou-lhe com voz soturna: — Venha! venha! Com expressão de sonâmbula. é um monstro vivo. profundamente influenciável. Tentei fugir-lhe através de todos os recursos. implorando piedade em silêncio. até aqui.. para a frente. mas.. De repente. A desventurada senhora bateu no peito.. qual se procurasse persuadi-la a sentirse na condição do irracional mencionado. lastimando amargamente as oportunidades perdidas. destacando-se da multidão e colocando-se. compungido. os olhos alteraram-se.

Notando. semelhante a uma nuvem móvel. de modo singular. em grande solenidade. em casos como este. denunciando. a que se refere a Bíblia? Conta-nos o Livro Sagrado que ele viveu. a voz quase imperceptível. Interjeições de espanto e dor eram proferidas sem rumo. patente. despovoada. três entidades tomaram forma perfeitamente humana. pode também esforçar-se intimamente. a condição de respeitável hierofante. não brilhante. para a investigação dos médicos encarnados. todavia. André. Tudo. a que no porte guardava maior autoridade hierárquica. se resume a problema de sintonia. através da qual o credor se insinua. Onde colocamos o pensamento. com tristeza: — Ela não passaria por esta humilhação se não a merecesse. Ambos os acólitos da personalidade central do trio tomaram folhas de . o Instrutor informou. até então. ainda. O orientador não conseguiu continuar. E acentuando. fazendonos sentir que presidia ao estranho cenáculo. mais acentuadamente viva em volta da fronte. fêz uma invocação em alta voz. que recordavam a esbraseada expressão do ferro incandescido. determinou silêncio e exprobrou. sempre chega um minuto em que o remorso nos descerra a vida mental aos choques de retorno das nossas próprias emissões. Trajavam túnicas de curiosa e indefinível substância em amarelo vivo e revestiam-se de halo afogueado. A dureza coagula-nos a sensibilidade durante certo tempo. porém. Lembras-te de Nabucodonosor. durante sete anos. O hipnotismo étão velho quanto o mundo e é recurso empregado pelos bons e pelos maus. Terminada que foi a alocução. tomando-se por base. apareceu na tribuna que se mantinha. que a mulher infeliz prosseguia guardando estranhos caracteres no semblante perguntei: — Esta irmã infortunada permanecerá doravante em tal aviltamento da forma? Finda longa pausa. sem dúvida. E pouco a pouco. ergueu as mãos em mímica reverencial e. procurei recolher o ensinamento de Gúbio. a atitude dos queixosos. pequeno instrumento cristalino nas mãos. apresentando uma delas. mas também é uma brecha. Além disso. desferia radiações perturbadoras. sentindo-se animal. O magistrado. inextricáveis. Ao redor de nós. cobrando pagamento. aí se nos desenvolverá a própria vida. em breves minutos. diante de nossos olhos assombrados. o rei poderoso. e que os interessados poderiam solicitar deles as explicações que desejassem. que me esclareceu num cicio: — O remorso é uma bênção. Logo após. acima de tudo. Em voz baixa. vasto lençol nebuloso. se se adaptou às energias positivas do juiz cruel. as lamentações se fizeram estridentes. o efeito do hipnotismo sobre o corpo perispirítico. que detinha a palavra. em cujas mãos veio a cair. Concomitantemente. naquela exibição de poder. Essa auréola. notificou que os Espíritos Seletores se materializariam. acrescentou: — Temos aqui a gênese dos fenômenos de licantropia.40 Via-se. por levar-nos à corrigenda. renovar a vida mental para o bem supremo e afeiçoar-se à influenciação de benfeitores que nunca escasseiam na senda redentora. nos gestos. os elementos plásticos do perispírito. asperamente.

em silencio. entre as criaturas encarnadas. inventando para ele impedimentos e enfermidades que só existiam em vossa imaginação. O homem que ajunta letras e livros. Inesperada quietação tomou a turba. angustiadamente. Alçou ele o instrumento cristalino. pôs-se em marcha. sereno: — A condenação transparece de vós mesmo. firme: — Clamais debalde... Auscultava uma formação de oito pessoas. desceram até nós. reclamou: — Se escolheis com eqüidade. porque desagradável vibração de egoísmo cristalizante vos caracteriza a todos.. Conseguistes quanto pretendi eis. à frente do primeiro grupo.. que se retirasse.. um cavalheiro de faces macilentas salientóu-se e exclamou. Ainda não sei de que recôndita organização provinham tais funcionários espirituais. assim. reparei que o chefe da expedição tríplice mostrava infinita melancolia na tela fisionômica. Fui homem de pensamento e de letras. os estudos eram meu tema predileto. todavia. . fui correto e digno e. aduzia. Debitastes aos órgãos robustos deficiências e moléstias deploráveis.. . é irmão infortunado daquele que amontoa moedas e apólices. Que fizestes do tesouro cultural recebido? Vosso “tom vibratório” demonstra avareza sarcástica.. ladeando-a. acerca das observações recolhidas.. O selecionador elucidou. nunca trai as obrigações sociais. — Esta casa é de justiça. sem distribuí-los a benefício dos outros. comovedoramente. Caluniastes vosso próprio corpo. cumpri todos os deveres que o mundo me assinalou. Efetuou observações que não pude acompanhar e disse algo aos companheiros que se dispuseram à anotação imediata.. porém. Com acento colérico.. títulos e objetos preciosos. em nome do Governo do Mundo! — afiançou o explicador sem alterar-se.. enquanto se comunicava com os assessores. não obstante aposentado desde cedo. livrai-me do labirinto em que me vejo! Não terminara. Pode. não pertenço à classe dos sovinas. por quem sois!. embora visivelmente amargurado. quem me acusa?. no entanto. — Por amor de Deus! — suplicou um dos circunstantes. quando desempenhei o papel de homem honrado. dantes agitada. aflito: — Quem me acusa?. dois membros do conjunto avançaram implorando socorro: — Justiça! justiça! — suplicou o primeiro — estou punido sem culpa. Antes. sem ajudar a ninguém.41 apontamento num cofre vizinho e. Criei numerosa família.... Imantaram-me a seres sórdidos e desprezíveis! Minha vida transcorreu entre livros.. formado de catorze homens e mulheres de vários tipos.. ajuntando: — Magistrado venerável.. E impassível.A Ciência fascinou-me. não entre moedas. Porque deverei suportar a companhia dos avarentos? Fitando o seletor. tão somente no propósito de conquistardes repouso prematuro. O mesmo prato lhes serve na balança da vida. teorias e valores científicos. interessada na fuga ao trabalho benéfico e salvador. o intelectual equiparar-se ao usurário? O dirigente da seleção mostrou reservada piedade no semblante calmo e elucidou. e o segundo interferiu. estadeando enorme fúria: — Que ocorre neste recinto misterioso? estou entre caluniadores confessos.

as intenções mais profundas e passou adiante. à argumentação ouvida e retomou o lugar que lhe competia. mal havia aplicado o singular instrumento ao campo vibratório que lhes dizia respeito. o que se faz possível pelas cores e vibrações do círculo vital que nos rodeia a cada um. O orientador não se fêz rogado e elucidou: — Trata-se de um captador de ondas mentais. o altar doméstico não foi bem o vosso lugar. Ao nosso lado. em maior parte. É recurso para a identificação de perispíritos desequilibrados e não atinge a zona superior. . As autoridades que dominam nestas regiões preferem a apreciação em grupo. protestou. gesticulou. aplicou o instrumento. constituído de mulheres diversas. declarou sem rebuços: — Estamos numa esfera onde o equívoco se faz mais difícil. Agora. durante quarenta anos de experiência terrestre em que outra ação não desenvolvestes senão dormir e conversar sem proveito. dentro de uma calma que mais se avizinhava da frieza. mudo. — Que aparelho vem a ser esse? — indagou Elói. em lágrimas. Vossos arquivos mentais se reportam a desregramentos emotivos em cuja extinção gastareis longo tempo. definindo-nos a posição: — Entidades neutras. foi o mensageiro abordado por uma senhora. — O instrumento não é suscetível de marcar a posição das mentes que já se transferiram para a nossa esfera. A senhora gritou. antecipando-me a curiosidade. Consultai a própria consciência. — Porque nos considerou neutros? — interroguei por minha vez. realmente. dama de nobre procedência. foram desprezadas. Gúbio esclareceu: — Não fomos acusados. mas os selecionadores prosseguiram na tarefa a que se impunham. o convívio de meretrizes? Forte crise de soluços embargou-lhe a voz.42 Empenhastes amigos. que lhe lançou em rosto atrozes queixas. O infeliz não teve forças para a tréplica. pavorosamente desfigurada. O selecionador. como se nos surpreendesse. voltei para cá rodeada de especiais considerações. no entanto. Submeteu-se. a padroeira de um lar respeitável. subornastes consciências delituosas e obtivestes o descanso remunerado. como julgais? O teor vibratório assevera que as vossas energias santificantes de mulher. em que se salientavam pequeninos espelhos e falou para os auxiliares. Teríeis sido. naturalmente devidas ao meu estado social e arrebanham-me entre mulheres sem pudor? que autoridades são estas que impõem a mim. Ao que parece. Ser-nos-á possível o engajamento no serviço desejado. — Porque tamanha humilhação? — inquiriu em pranto copioso — fui dona de uma casa que me encheu de trabalho. é razoável que o vosso círculo vital se identifique ao de quantos se mergulharam no pântano da calúnia criminosa. Instado por mim. A seleção individual exigiria longas horas. Alcançando o terceiro grupo. Fixou-nos com penetrante fulguração de olhar.

sob a vigilância das sentinelas. a cerimônia terminou com a mesma imponência de culto externo em que se havia iniciado e. . porque se fala nesta casa em nome do Governo do Mundo? O Instrutor endereçou-me expressivo gesto e ajuntou: — André. Quanta vez. não te esqueças de que nos encontramos num plano de matéria algum tanto densa e não nos círculos de gloriosa santidade.43 — Mas — perguntei. no corpo físico. em nome de Deus? Pouco a pouco. guardando inesperadas meditações e profundos pensamentos. notamos sentenças cruéis. tornamos ao ponto de origem. ainda —. emitidas por espíritos ignorantes. Não olvides a palavra “evolução” e recorda que os maiores crimes das civilizações terrestres foram cometidos em nome da Divindade.

Os diálogos e entendimentos surpreendiam. A marcha da Civilização é lenta e dolorosa. Formidandos atritos se fazem indispensáveis para que o espírito consiga . André. sob a égide do Cristo. sob os impulsos construtivos do próprio homem. Quase todos se referiam à esfera carnal. devíamos a mudança ao resultado encorajador que alcançáramos nas operações seletivas. através do nevoeiro que assaltava a paisagem noturna. Questões minuciosas e pequeninas da vida particular eram analisadas com inequívoco interesse. A determinadas horas da noite. acontecimentos mais trágicos estarreceriam as criaturas. era para nós imenso consolo contemplar algumas estrelas. A Bondade do Senhor não violenta o coração. ainda aí. a coroa da sabedoria e do amor é conquistada por evolução. não fôsse o trabalho ativo e constante dos Espíritos protetores que se desvelam pelos homens no labor sacrificial da caridade oculta e da educação perseverante. três quartas partes da população de cada um dos hemisférios da Crosta Terrestre se acham nas zonas de contacto conosco e a maior percentagem desses semi-libertos do corpo. Aproximamo-nos.44 6 Observações e novidades De volta ao domicilio de Gregório. das janelas que nos comunicavam com o exterior e reparei que o espetáculo era digno de estudo. Percebi diferentes expressões nos “halos vibratórios” que revestiam a personalidade dos conversadores. porém. Por aqui. De alma voltada para as noções da vida imensa que o ambiente sugeria. em verdade. as notas dominantes caíam no desequilíbrio sentimental e nas emoções primárias da experiência física. onde tudo desagradava à vista. Que temerária concepção a de um paraíso fácil! Gúbio percebeu-me a posição mental e falou em socorro de minhas pobres reflexões intimas: — Sim. Dirigi-me a Gúbio. buscando-lhe oportuno esclarecimento. O Instrutor. Grandes crimes têm nestes sítios as respectivas nascentes e. ainda — respondeu. pela influência natural do sono. prestimoso —‘ a extensão do intercâmbio entre encarnados e desencarnados. Certo. à maneira da semente de mostarda que se liberta dos envoltórios inferiores. congregando vários grupos de criaturas. por associação da criatura aos propósitos do Criador. através das cores de variação típica. muitas vezes se forjam dolorosos dramas que se desenrolam nos campos da carne. fomos transferidos da cela trevosa para um aposento de janelas gradeadas. esclarecendo se achavam imantados por forças elétricas de vigilância e acentuando que a nossa condição ainda era de simples prisioneiros. O Reino Divino nascerá dentro dele e. Grande movimento na via pública. permanecem detidos nos círculos de baixa vibração qual este em que nos movimentamos provisoriamente. rememorei o curso incessante das civilizações. mas. De qualquer modo. — Não mediste. recomendou-úos não tocar os varões de metal que nos impediam a retirada. por esforço. Pensamentos mais altos clarearam-me os raciocínios. contudo. medrará e crescerá gradativamente. em conversação não longe de nós. versado em expedições idênticas à nossa. nos achávamos em autêntico pardieiro.

no homem. A inteligência caída precipita-se. guardando o louco propósito de hostilizar a Bondade Excelsa.. coisa alguma se perde e todos os recursos são utilizados na química do Infinito Bem. tanto quanto a árvore é garantida pela própria seiva. parcialmente liberta nas asas do sono: — Notamos que você. nesta cidade. rente à grade. deixando de ser nosso instrumento na fábrica. no quadro evolucionário. temos raiz. você sabe que não . ültimamente. mais confiante. o homem exige para sustentar-se.. ainda sub-humanas. anda mais fraca. todavia. no curso dos anos. torturá-lo. feri-lo. mas a direção pertence a cada um. se fêz ocupado por extensas coletividades de almas vaidosas e cruéis. Segundo observamos. observou. A interlocutora. nos vem alterando a vida.. Na árvore. alimento das emoções que lhe são próprias nas esferas de vida psíquica que se afinam com ele e base mental no mundo íntimo. Entrincheiraram-se nestes sítios. representando três expressões distintas de base vital. ainda presa à experiência física. apesar de blasonarem inteligência e poder. não obstante atenderem a serviço que para nós outros seria presentemente insuportável. atento ao princípio que determina tenha cada assembleia o governo que merece. ingênua: — Ele se diz mais calmo. e exercem funções úteis junto a enorme agrupamento de criaturas. O homem encarnado vive simultaneamente em três planos diversos. ao modo de um animal surpreendido e gritou: — Orações? você está cega quanto ao perigo que isso significa? Quem reza cai na mansidão. A vida é patrimônio de todos. organização perispirítica em tipo de matéria mais rarefeita e mente. e é sustentado pelos princípios sutis da mente. Assim como ocorre à árvore que se radica no solo. O Instrutor confiou-Se a pausa mais longa e concentrei minha atenção numa dupla feminina que conversava. junto às quais é aproveitada pela Sabedoria Celestial para maior glorificação da obra divina. vemos corpo denso de carne. intempestiva —. pouco a pouco. Na economia do Senhor. quanto aos compromissos assumidos? A interpelada explicou um tanto confundida: — Acontece que João se filiou a um círculo de preces. a princípio. no entanto. A outra deu um salto à retaguarda. Aqui mesmo. estragar-nos-á o plano. Usam a violência em largas doses. quanto o vegetal se alonga no ar. despenhadeiro abaixo. mais serviçal. Se ganhar piedade. copa e seiva por três processos diferentes de manutenção para a mesma vida e. encontrando sempre. de alguma sorte. permanecerão nos postos que ocupam apenas enquanto perdurar o consentimento da Divina Direção. o que. segurança relativa no campo biológico. a fim de que a revolta o mantenha em nosso círculo.45 desenvolver a luz que lhe é própria. tínhamos. É necessário espezinhá-lo. milhões de vidas inferiores. estende os galhos dos sentimentos e desejos nos círculos de matéria mais leve. guarda ele raizes transitórias na vida física. autêntico império de vidas primitivas que. com vistas aos mesmos fins. a influenciação intelectual delas trará grandes benefícios aos oprimidos de agora e estejamos convictos de que.. — Marina — obtemperou a outra. Certa mulher já desencarnada dizia para a companheira. nos círculos inferiores que elege por moradia. Estará desencantada.

Muito difícil reajustar alguém que não deseja reajustar-se. reparei que a entidade astuta e vingativa envolvia a interlocutora em fluidos sombrios.Não admita encantamentos espirituais. somos satélites uns dos outros. O desespero dele chegará. por fim. A ignorância e a rebeldia são . prestimoso: — A obsessão desse teor apresenta milhões de casos. que o mais frágil de hoje pode ser a potência mais alta de amanhã. com as forças da insubmissão que forem exteriorizadas em nosso favor. alcançaremos os fins a que nos propomos. porém. emitidos pelas inteligências perversas que os assediam. E batendo-lhe esquisitamente nos ombros. nobre e contínuo. passaria a emitir raios transformadores e construtivos. com suficiente disposição para o bem. vacilante na fé. essa pobre mulher.46 podemos fazer milagres e não é justo aceitar regras e intrujices de espíritos acovardados que. em face da incerteza intima. que aqueles que se acham sob o controle de energias cegas. Nada de transigência. Corra com os apóstulos improvisados. Em toda parte a vida é aquilo que fazemos dela. Enderecei olhar interrogativo ao nosso orientador que. Prenda João. O projeto é enorme e interessante para nós. e. na condição de aparelhos receptores da desordem psíquica. em que se lhe caracterizam as atitudes. após haver atenciosamente acompanhado a cena. à maneira dos hipnotizadOreS comunS. Expedimos raios magnéticos e recebemo-los ao mesmo tempo. Fazem-nos mal. É imperioso reconhecer. integralmente. Desenvolva serviço eficiente e não o liberte. controlando-lhe O tempo. Em todos os quadros do Universo. — Como se libertaria de semelhante inimiga? — perguntou Elói. conforme nosso aproveitamento individual. que a persegue e subjuga para conseguir deplorável vingança. de mim mesma. — Mantendo-Se num padrão de firmeza superior. afeiçoando-os ás fontes sublimes da vida e. informou. demorar-se-á imantada a essa irmã ignorante e infeliz. Já esqueceu quanto sofremos? Eu. Os mais fortes arrastam os mais fracos. incapaz de apreciar a felicidade que o Senhor lhe concedeu num casamento digno e tranquilo. tenho duras lições por retribuir. Boquiaberto com o que me era dado perceber. a pretexto de fé religiosa. na Esfera da Crosta. em objeto de acentuada aflição para o esposo e suas conquistas incipientes periclitarão. entendendo-se. Precisamos de seu marido e de muitas outras pessoas que a ele se agregam em serviço e em nosso nível. interessado. A realidade é nossa e cabe-nos aproveitar o ensejo. por isso. se arvoram em ditadores de salvação. De manhãzinha. longo tempo. melhoraria intensivamente os seus princípios mentais. demoram-se. Volte para o corpo e não ceda um milímetro. acentuava: . acomodando-se aos golpes e sugestões da força tirânica. Não se atemorize com promessas de inferno ou céu depois da morte. de alma desconfiada e abatida. Converter-se-á. Fira-o devagarinho. Oscilando entre o “crer” e o “não crer” não saberá polarizar a mente na confiança com que deve enfrentar as dificuldades do caminho e aguardar as manifestações santificantes do Alto e. todavia. despertará no corpo. Com esse esforço. ao invés de converter-se em material absorvente das irradiações enfermiças e depressivas. em beneficio de si mesma e das entidades que se lhe aproximam do caminho.

o quadro. transportavam essas esferas vivas. — Sim. Ante o intervalo espontâneo. rumo a esferas sublimes. quando. não longe de nós. ainda mesmo em se tratando de criaturas perturbadas e sofredoras. reparei. demoradamente. Inquieto. embora estruturado em tipo de matéria mais rarefeita. até ali. Pela densidade da mente. imantam-se . em minha sede de saber. o campo de emanações era sempre normal. aparentemente inertes. A esses missionários. que se desfizeram dele. mais tarde. que o vaso perispirítico étambém transformável e perecível.. certas formas indecisas. circunspecto. tal fenômeno. os ignorantes e os maus. a forma perispiritual. de pronto. Grande número. raras aliás. antes. rogando-lhe ajuda. evidenciando a gravidade do assunto —. contudo. que já merecem a reencarnação trabalhada por valores intercessores. — Viste companheiros — prosseguiu o orientador —. com a perquirição do laboratorista diante de formas desconhecidas. compreendo-te o espanto. cuja grandeza por enquanto não nos é dado sondar. De outras vezes. ao lado de almas em desequilíbrio. Nunca havia observado. distinguidos por elevados títulos na vida superior. será objeto de mais amplos estudos das escolas espiritistas cristãs.. tive notícias de amigos que perderam o veículo perispiritual (1). nunca vira aquela irregularidade. outras. em desfile nas vizinhanças da grade. no dever bem cumprido.47 efetivamente a matriz de sufocantes males. — André — respondeu ele. permitido observar. mas. pareciam em repouso. recorri ao Instrutor. os transviados e os criminosos também perdem. tenho acompanhado vários amigos à tarefa reencarnacionista. conquistando planos mais altos. Algumas denunciavam movimento próprio. como que ligadas às personalidades sob nosso exame. não conseguem elevar-se e gravitam em derredor das paixões absorventes que por muitos anos elegeram em centro de interesses fundamentais. Vê-se. enquanto que os segundos são colegas nossos. Grande número de entidades. obscuras. cada uma das quais pouco maior que um crânio humano. Fixei. reticencioso. Gúbio sorriu e considerou: — Sabes. E quando em serviço. na Esfera da Crosta. ao jeito de grandes amebas. — Nota do Autor espiritual. tornam ao corpo de carne. e observaste irmãos que se submeteram a operações redutivas e desintegradoras dos elementos perispiríticos para renascerem na carne (1) O perispírito. ligadas ao halo vital das personalidades em movimento. um dia. não me foi possível seguir de perto. Variavam profusamente nas particularidades. como que imantadas às irradiações que lhes eram próprias. respirando naquele clima espiritual. pelo menos quanto me fora. de certo. Em nossa colônia de residência. tanto quanto ocorre aos companheiros respeitáveis desses dois tipos. Os primeiros são servidores enobrecidos e gloriosos. — acrescentei. nessas circunstâncias. Semelhavam-se a pequenas esferas ovóides. que és novo em serviços de auxílio. assim. Já ouviste falar. saturada de impulsos inferiores. terrestre. mormente os participantes de condenáveis delitos. numa “segunda morte” — Sim — acentuei —. atraídos por imperativos de evolução e redenção.

e. Enriquecer a mente de conhecimentos novos. é o tipo de veículo a que aspiramos. dentro da eternidade. sim. através de existências numerosas. destinados à expansão dos elementos divinos que nos integrarão. pelo máximo aproveitamento das oportunidades recebidas no aprimoramento de nossos valores mentais. em vicioso vaivém. o corpo perispirítico é o fruto que consubstancia o resultado das variadas operações da árvore. sob a orientação das inteligências que os entrelaçam na rede do mal. a disciplina dos impulsos pessoais. constituem as vias de crescimento mental. e a matéria mental é a semente que representa o . aperfeiçoar-lhe as faculdades de expressão. ir à matéria física e dela regressar ao campo de trabalho em que nos achamos presentemente. guarda consigo mente estreita e enfermiça. Em suma. através de imponderáveis fios de amor. Sacrificar-se é superar-se. E porque me visse na atitude do aprendiz que interroga em silêncio. Gúbio asseverou: — Para fazer-me mais claro. o esforço perseverante no infinito bem. O vaso físico é o vegetal. depois de certo período de maturação. e a ela ninguém é chamado a fim de candidatar-se a paraísos de favor e. purificá-la nas correntes iluminativas do bem e engrandecê-la com a incorporação definitiva de princípios nobres é desenvolver nosso corpo glorioso. Somos quais arbustos do solo planetário. a forma gloriosa. inspiração e reconhecimento. na expressão do apóstolo Paulo. nossos vínculos guardam extrema vitalidade nas camadas inferiores e renascemos entre aqueles mesmos que se converteram em nossos associados de longas eras. em razão disso. até que acordemos a vida mental para expressões santificadoras. mas se não progrediu no domínio das idéias. O trabalho incessante para o bem. com o desabrochar e evolver das sementes divinas que trazemos conosco.48 aos que se lhes associaram nos crimes. que prosseguiu: — A vida física é puro estágio educativo. Um homem poderá ser temido e respeitado no Planeta pelos títulos que adquiriu à convenção humana. através de lutas vividas em comum. e aos quais nos agrilhoamos pela comunhão de interesses da linha evolutiva em que nos encontramos. com aquisição de luz para a vida imperecível. melhorando-se e aperfeiçoando-se. os pupilos do ódio e da perversidade se demoram unidos. Vem a foice da morte e sega-nos os ramos dos desejos terrenos. conquistando a vida maior. todavia. um dia. Essa matéria. limitado no espaço e no tempo. àmoldagem viva do céu no santuário do Espírito. voltemos ao símbolo da árvore. estruturando-o em matéria sublimada e divina. a elevação de motivos na experiência transitória. Cada criatura nasce na Crosta da Terra para enriquecer-se através do serviço à coletividade. André. Imergimo-nos dentro dos fluidos carnais e deles nos libertamos. calei as interrogações que me vagueavam no íntimo. com amplo curso às manifestações mais nobres do sentimento. é submetermo-nos a profundos choques biológicos. Se o discípulo de Jesus se mantém ligado a Ele. Estamos ainda presos às aglutinações celulares dos elementos físio-perispiríticos. tanto quanto a tartaruga permanece algemada à carapaça. ao nos referirmos à vida que nos é superior. Nossas raízes emocionais se mergulham mais ou menos profundamente nos círculos da animalidade primitiva. para atenciosamente registrar as considerações do Instrutor. o Cristo asseverou que o maior no Reino Celeste é aquele que se converter em servo de todos. Por isto mesmo. As elucidações eram belas e novas aos meus ouvidos.

dormitam em estranhos pesadelos. contudo. Claro que os Espíritos em evolução natural não assinalam fenômenos dolorosos em qualquer período de transição. de se exteriorizarem de maneira completa. agora se categorizam em conta de fetos ou amebas mentais. O caminho de semelhantes companheiros é a reencarnação na Crosta da Terra ou em setores outros de vida congênere. deliberadamente. todavia. sem trair a cortesia que lhe é característica. seleção e aprimoramento. recomendou-me esperasse o dia seguinte. em semelhante posição nos sítios inferiores quanto este. afastando-se do caminho reto na direção de zonas irregulares em que recolhem experimentos doentios. O orientador silenciou por momentos e perguntou. ali. Compreendeste. por entidades perversas ou rebeladas. contudo. que a maioria das criaturas. pelo simples gosto de se entregarem à aventura. em companhia deles. incapazes que são. E quantos se complicam. ligados a grupos infelizes de companheiros que. as que se desviam. mobilizáveis. o sublime conteúdo das palavras do Cristo: “andai. provisoriamente. com mais propriedade. à maneira da semente que regressa ao chão.49 substrato da árvore e do fruto. por experiência própria. sem os veículos mais densos que perderam. ousei indagar: — E se consultarmos esses esferóides vivos? ouvir-nos-ão? possuem capacidade de sintonia? Gúbio atendeu. Registram-nos os apelos. O assunto era fascinante e tentei Gúbio a examiná-lo. qual ocorre à semente destinada à cova escura para trabalhos de produção. A criatura para adquirir sabedoria e amor renasce inúmeras vezes. Em verdade. . diante dos esferóides vivos. no campo fisiológico. com agravo de responsabilidade. como o que examinamos. na senda justa. o valor da vida corporal na Crosta Planetária. firme. na inércia ou na prática do mal. solícito: — Perfeitamente. nem sempre encontrarão surpresas agradáveis ou construtivas. enquanto tendes luz”. compreendendo-se. meu respeito ao veículo de carne cresceu de modo espantoso. agora? Apesar da gentileza do orientador. como é natural. Alcancei. então. A ovelha que prossegue. condensando-lhes as experiências. mas respondem-nos. a própria marcha. tristes mentes humanas sem apetrechos de manifestação. perdendo longo tempo para se afastarem do terreno resvaladiço a que se relegaram. no entanto. entendia. dentro da nova forma em que se segregam. mais detidamente. fugindo à jornada razoável. atrasam. de modo vago. porém. em seguida: — Entendeste a importância de uma existência terrestre? Sim. que fazia o possível por clarear o seu pensamento. se extraviaram através de graves compromissos com a leviandade ou com o desequilíbrio. o orientador. contará sempre com os benefícios decorrentes das diretrizes do pastor.

André. eram frequentes. Com efeito. provocando-nos sincera piedade. bondoso: — Vejamos. de que as mentes extraviadas. do conforto construtivo. asseverando-me. estudando os “ovóides”. perdem a noção do bom-gosto. que dispúnhamos de liberdade até as primeiras horas da tarde. a não ser através de serviço arriscado qual aquele de que o nosso Instrutor se incumbira. entre a amnésia e o desespero. tocado pela renúncia. em todos os ângulos. implacáveis e obcecantes. Muitos demonstravam-se irritadiços ante a calma de que lhes dávamos testemunho. mas também ao olfato. homens e mulheres de fisionomia torturada. a maior parte. se poderemos aproveitar alguns minutos. deixava muito a desejar. Elói e eu acompanhamo-lo. Ausentamo-nos do cubículo. com manifesta expressão de maldade. Gritos humanos. então. gastando longo tempo a fim de se reajustarem. idiotas de máscaras variadas. veio notificar-nos. a meu ver. a paisagem. excetuados os palácios da praça governativa. com semblante mal humorado.50 7 Quadro doloroso De manhã. Perante os desmantelos e detritos a transparecerem de toda parte. da beleza santificante e se entregam a lastimável relaxamento. pelo menos para mim que não conseguira qualquer quietação no repouso. lutam com idéias fixas. qualquer organização beneficente visível. era escassa e mirrada. satisfeitos. Convidou-nos Gúbio a pequena excursão educativa. Ofereciam a perfeita impressão de alienados mentais. conclui que o esforço coletivo se mantinha ausente de qualquer serviço metódico. desapontavam pelo aspecto e condições em que se mantinham. por isso. de modo geral. pelas exalações desagradáveis. onde se notava a movimentação de grande massa de escravos. As paredes. que dizer de uma cidade constituída por milhares de loucos declarados? Dentro de colmeia dessa natureza. mas. As edificações. na obra de santificação com o Cristo. um emissário do sacerdote Gregório. Não sômente o ruido exterior se fizera contínuo e desagradável. junto à matéria do plano. A noite fora simplesmente aflitiva. Aleijados de todos os matizes. revestidas de substância semelhante ao lodo. aos olhos alheios? Impraticável. Exceção de alguns que nos fixavam de olhar suspeitoso e cruel. A vegetação. em nome dele. O Instrutor informou-nos. ali. asfixiante. o traço dominante. Fôssem poucos os transeuntes infelizes e poder-se-ia pensar num serviço metódico de assistência individual. filhos da dor e da inconsciência. iam e vinham. Coalhava-se a rua de tipos característicos da anormalidade deprimente. sinceramente desafogados. situava-se entre a ignorância e o primitivismo. mostravam-Se repelentes não só à visão. quando nos receberia para entendimento particular. Rebaixadas pelas próprias ações. o homem sadio que tentasse impor socorro ao espírito geral não seria efetivamente o alienado mental. As alucinadoras conversações no ambiente me perturbavam e feriam. sob o ponto de vista de ordem. mas também a atmosfera pesava. . com muito acerto. A conversação ociosa era.

personalidades que alcançaram a sobrevivência sobre as ruínas do próprio “eu”. não só em mim. Marcháramos. Varamos lodosa muralha e. se o inferno era um hospício de proporções assim tão vastas. ignorou-a. A mente estuda. Gúbio refletiu alguns momentos rápidos e aduziu em tom grave: — Quando encontramos um morto de cada vez. e. Esgotam resíduos envenenados que acumularam na esfera íntima. através de longos anos vazios de trabalho edificante. confinados em escuro setor de alienação mental. nos quadros do Universo sem fim. alimentado pela dor humana. e asseverou. como se fôssem lenhos secos. São réus da própria consciência. lá dentro. Enquanto encarnado. depois da morte do corpo. à semelhança de uma bola de sangue afogueado. perguntou. A gritaria. através de espessa cortina de fumo. porque. — Mas não haverá recurso a tanto desamparo? — indagou Elói. cuja procedência me não foi possível determinar. Nenhum sofrimento. habitado por toda a espécie de padecimentos imagináveis. Elói. depois de avançarmos alguns passos. Sentíamo-nos. turbilhões de vozes explodiam. o pavoroso quadro se abriu dilatadamente. deliberadamente. forçando o bom humor. mas igualmente no espírito de Elói. atravessando compridos labirintos e achamo-nos diante de extensa edificação que. arquiteta. era de espantar. pairava na atmosfera sufocante nevoeiro que mal nos deixava entrever o horizonte distanciado. E. ser-me-ia extremamente difícil acreditar numa cena igual à que se nos desdobrou à visão inquieta. compungidamente. calmo: — Amontoam-se aqui.51 Além das perturbações reinantes. é fácil conceder-lhe . era visto por nós. ao que o nosso orientador respondeu aquiescendo e informando que o homem comum não possui senão vaga ideia da importância das criações mentais na própria vida. atencioso. talvez porque nosso espanto crescesse àvista da tela aflitiva e tenebrosa. A frente. parecendo estranha mistura de lamentos de homens e animais. estava firme. capazes de estabelecer a guerra de nervos nas criaturas mais equilibradas da Crosta do Mundo. qual se nos situássemos perante imensa cratera de vulcão vivo. na extremidade de um planalto que se quebrava em abrupto despenhadeiro. O orientador. presentemente. O Sol. Longe de endossar-nos a fraqueza. a propósito. acrescentou. esclareceu Gúbio. o movimento era de recuo instintivo. sucediam-se furnas e abismos. numa distância de dezenas de quilômetros. Tremeram-me as fibras mais íntimas. milhares de criaturas que abusaram de sagrados dons da vida. me tocara tão fundo o coração. e essa matéria que lhe plasma os impulsos é sempre formada por vidas inferiores inumeráveis. no entanto. determina e materializa os desejos que lhe são peculiares na matéria que a circunda. em torno. entregando-se. sereno: — Não estamos contemplando senão a superfície de trevosos cárceres a se confundirem com os precipícios subcrostais. Largo e profundo vale se estendia. a infindáveis dias de tortura redentora. em processo evolutivo. no mundo físico. com boa vontade. ininterruptos. agora. nomearemos por asilo de Espíritos desamparados.

Gúbio nela fixou os olhos muito lúcidos e. nada nos resta senão adotar a vala comum. Agora. sem detença: — São entidades infortunadas. ainda não descobriu que a ciência de amar é a ciência de libertar. Assumiu Gúbio a atitude do médico ante a paciente e os aprendizes. que nos resta fazer senão seguir nas linhas de paciência por onde se regula a influenciação dos nossos benfeitores? Sem dúvida. Ao invés de estruturarem destino santificante. em virtude da revolta que lhes atormenta o ser. sob inenarráveis tormentas de desesperação. menosprezam oportunidades de crescimento. esta paisagem é inquietante e angustiosa. se os cadáveres são contados por multidões. esta imensa coletividade dentro da qual preponderam individualidades que pelo sofrimento contínuo se caracterizam pelo comportamento sub-humano. por sua vez. curioso —. imperceptíveis aos olhos. — Vês. iluminar e redimir. diferençadas entre si nas disposições e nas cores. apesar de se expressarem por intermédio de matéria que me parece leve gelatina. a desventurada criatura. quando não se encontram em simples estrada evolutiva. A mulher sofredora. que me seriam. mas compreensível e necessária. Percebi que a infeliz se cercava de três formas ovóides. com todo o acervo de revelações religiosas de que dispõem para solucionar os problemas da alma. envolvida num halo de “força cinzento-escura”. registrou-nos a presença e gritou. que se lhe justapõem ao perispírito. Auscultamos. A renúncia opera com Jesus. senhores de preciosos dons de inteligência. naturalmente. todavia. não dispomos de ensejos para a identificação de missionários e servidores do bem. detentores da missão de consolar. porém. André? — inquiriu. recomendou-nos seguir-lhe a observação acurada. entre a aflição e a idiotia: — Joaquim! onde está Joaquim? digam-me. Vamos ao estudo que nos interessa de mais perto. sim — expliquei. depois de alguns momentos. ao que o nosso Instrutor respondeu afirmativamente. Gastaram o perispírito. de mais perto. paternal. a existência de três figuras vivas. e imantam-se. Todos os Espíritos renascem nos círculos carnais para destruírem os ídolos da mentira e da sombra e entronizarem. não está esquecida. adorar a morte na ociosidade. ali. — Sim — disse —. Perguntei-lhe se naqueles sítios purgatoriais não havia companheiros amigos. irmã esta que. nas demonstrações de ordem superior que lhes cabem. em toda parte. Elucidou Gúbio. todo o meu potencial de atenção. retardando a obra de elevação própria. dentro de si mesmos. contudo. na ignorância agressiva ou no crime disfarçado. Descemos alguns metros e encontramos esquálida mulher estendida no solo. os princípios da sublimação vitoriosa para a eternidade.52 sepultura condigna. com vistas ao porvir Infinito. — Reparo. preferem. fluida e amorfa. fogem ao aprendizado salutar e contraem débitos clamorosos. realmente. por piedade! para onde o levaram? ajudem-me! ajudem-me! . E se eles mesmos. caso não desenvolvesse. mas. à mulher que odeiam. olvidando a gloriosa imortalidade que lhes compete atingir. entregues aos propósitos de vingança e que perderam grandes patrimônios de tempo. se confiam voluntàriamente a semelhante atraso. na maioria das ocasiões.

53 O nosso orientador tranquilizou-a com algumas palavras e. penitente e desditosa. que corrige desvarios íntimos . Dominando-lhe a vida psíquica. positivamente. reuniram-Se à genitora revoltada. ainda moça. As exclamações “assassina! assassina!. a seu turno.. impondo-lhe destrutivo remorso ao espírito vacilante e fraco. observou-nos: — Examinem os ovóides! sondem-nos. esclarecendo: — Joaquim será naturalmente o companheiro que a precedeu nas lides da reencarnação. expedito. a fim de preparar-lhe lugar. gravemente.. um cavalheiro de idade madura. desafiando conselhos e medidas de cura. magnêticamente. Desencarnados. Operei. Os dois rapazes. no passado. No curso de reduzidoS meses. sustentando sinistros propósitos de desforço. Não obstante convidados à tolerância e ao perdão por amigos espirituais que os visitavam freqüentemente. que. formando um trio perturbador na organização ruralista que os expulsara. minha capacidade de ouvir ao campo íntimo da forma e. no idealismo superior. Liguei. Repeti a experiência com os dois outros e os resultados foram idênticos. Adoeceu ela. Viveram. não lhe conferindo maior atenção. passaram a exibir pesada corrente no pescoço ferido. a pobre mãe e escrava. Certo. desapiedadOs. nos arquivos mentais. a mulher que os tratara com dureza. Embora a mudança natural de vida. pelo fio do pensamento: — Vingança! vingança! Não descansarei até ao fim. atencioso. Após afagar a doente com fraternal carinho. Acusados de ladrões. Vejo-lhe o drama cruel.. a instâncias da senhora dominada de egoísmo terrificante. Arrasou-se-lhe o corpo fisico. a pouco e pouco. não mais recobrou o equilíbrio orgânico. já regressou à Terra mais densa. Em razão disso. num ato de vontade. Atacaram. A escrava sofredora foi separada de ambos os filhos que possuía e vendida para uma região palustre onde em breve encontrou a morte pela febre maligna. A pobrezinha está esperando ensejo de retorno à luta benéfica. colérica e violenta. Dirigiuse ao marido. analisando-a. metidos no tronco. mas desposou. Percebolhe as recordações da fazenda próspera e feliz. utilizando todos os processos de Luta suscetíveis de acentuar-lhe as perturbações. transformaram-se para ela em perigOsos carrascos invisíveis. caíram sem remissão. assombrado. além daquela que o psiquiatra dispensa ao enfermo em crise grave. nunca cederam um til nos planos sombrios em que penhoraram o coração. não abandonou ele o débito contraído. pelo capataz. ouvi gemidos e frases. o Instrutor dirigiu-nos a palavra.. minados pela tuberculose que ninguém socorreu. incapaz de expandir-se mentalmente.. como que longínquos. Embora socorrida por médicos e padres diversos. já assumira compromissos sentimentais com humilde filha do cativeiro. com as mãos. por isso. Com a passagem do tempo. Toquei o primeiro e notei que reagia. a esposa reqüestada e fascinante conheceu toda a extensão do assunto e revelou a irascibilidade que lhe povoava a alma. consoante o programa de provas salvadoras. prosseguiu agregada à propriedade rural com os rebentos de seu amor menos feliz. Esta mulher infame me pagará. Foi tirânica senhora de escravos no século que findou. dobrando-o aos caprichos que lhe exacerbavam a mente. sob humilhações incessantes. Foi jovem e bela.” transbordavam de cada um. à face do casamento. padeceram vexames e flagelações em frente da senzala..

Vive atormentada. à recepção de qualquer recurso do bem. observou. amigos prontos a lhe estenderem generosas mãos por ocasião da morte do corpo que se tornou inevitável. muito calmo: — Gastaremos tempo.. Padeceu muitíssimo. dez anos de mágoas constantes e indefiníveis. renascerá em círculos de vida torturada. instala-se à pressa. ditas ali em voz alta. quais algemas de bronze. Após uma pausa expressiva. André — concordou o Instrutor —. Clamava amedrontada. A revolta e o pavor do desconhecido. não obstante contemplada pela compaixão de benfeitores do Alto que sempre tentaram conduzi-la à humildade e à renovação pelo amor.54 e facUlta a cooperação vibratória das almas que respiram em esferas mais elevadas. por nós mesmos. quebrando-lhe as reticências. Desencarnado o esposo. através da inconfundível acústica da consciência. Claro que possuia. com os princípios de matéria mental em que se revestem. — Como não? Certamente. insulada no orgulho destrutivo que lhe assinalava o caminho. a desditOsa fazendeira sofreu. enfrentando obstáculos imensos para reencontrar o ex-esposo e partilhar-lhe as experiências futuras. por sua vez. nem mesmo para o regresso? Tenho acompanhado reencarnações que invariavelmente se fazem seguidas de cautelas especiais. Aguardemos a obra paciente dos dias. e que lhe diziam respeito. incapaz de socorrê-la em vista das próprias dores que o constrangiam a difíceis retificações. entretanto.. Gúbio. reparaste nos processos em . inabilitamo-nos. O Instrutor fêz ligeira pausa na narrativa e continuou — Exonerada dos liames carnaiS. aderiram a ela. Esta mulher retornará à carne. veio semilouco encontrá-la no mesmo invencível abatimento. Naturalmente. ainda mesmo depois de perderem a organização perispirítica. todavia. Vali-me ainda do ensejo para algumas indagações. Então. Tem o comportamento de um ser quase irresponsável. — Oh! — exclamei. acentuou: — Tudo me faz crer que os missionários da caridade já lhe reconduziram o esposo às correntes da reencarnação e é de supor que esta irmã se ache em vias de seguir-lhe as pegadas. A infeliz perseguida. Os impiedosos adversários prosseguiram na obra deplorável e. quando nos enceguecemos no mal. na posição em que se encontra. anulando-se-lhe a capacidade de iniciativa em virtude das emissões vibratórias do próprio medo perturbador. como encarar a solução? — desfechei a pergunta direta. a breve tempo. junto dela. o tempo de imersão nos fluidos terrestres. contudo.. viu-se perseguida pelas vitimas de outrO tempo. com absoluta ausência de perdão. não os vê.. ligam-nos uns aos outros. o caso já se encontra sob a jurisdição superior. pelo auxílio do companheiro. A infortunada criatura não parecia registrar as informações. mantenedora de cegueira e sublevação. mas o ódio permutado é uma fornalha ardente. mas sente-lhes a presença e ouve-lhes as vozes. retira-se muito devagar. — Os inimigos ser-lhe-ão filhos? — indaguei. A perturbação vem de inesperado. — Sim. não os apalpa. sem direção. — Diante deste quadro comovedor. profundamente espantado — não se separará dos perseguidores. seguida pelas mentes dos adversários que aguardarão. ansioso.

mas a hora controlavanos o serviço e era imperioso regressar. Gúbio considerou: — Porque a estranheza? Os princípios de atração governam o Universo inteiro. então. de acordo com os ditames da Lei. será. quanto à grandeza das leis que regem a vida e. existem. milhões de renascimentos de almas criminosas que tornam ao mergulho da carne premidas pela compulsória do Plano Superior. de modo a expiarem delitos graves. no próprio colo. a individualidade responsável pela desarmonia reinante converte-se em centro de gravitação das consciências desequilibradas por sua culpa e assume o comando dos trabalhos de reajustamento. Contudo. incompreensivelmente.. intimamente. os grandes delinqüentes se transformam em núcleos magnéticos das mentes que se extraviaram da senda reta. Se os bons representam centros de atenção dos Espíritos que se lhes afinam pelos ideais e tendências. Terá mocidade torturada por sonhos de maternidade e não repousará. em obediência a eles. por enquanto.. os três adversários convertidos. Na vida espiritual. O Instrutor acariciou a fronte da criatura desventurada.55 que funcionaram elementos intercessores de vulto. enquanto não oscular.. atendendo-se à nobilitante missão dos interessados no futuro e. por se originarem da persistente e invisível atuação dos inimigos de outra época. na alma opressa. O estudo era. numa bênção de fluidos divinos e acrescentou: —Pobre irmã! que o Céu a fortaleça na jornada por empreender! Seguida de perto pela influência dos seres que com ela se projetaram no abismo mental do ódio. envolvendo-a. intencionalmente. ainda. em filhinhos tenros de sua ternura sedenta de paz. Compreendendo meu assombro. recambiando-os à estrada certa. Elevamo-nos com aqueles que amamos e redimimos ou rebaixamo-nos com aqueles que perseguimos e odiamos. terá infância dolorosa e sombria pelos pesares desconhecidos que se lhe acumularão. . nos setores da luta humana. os ascendentes essenciais não diferem. até que os reajuste na forja do sacrifício. Transportará consigo três centros vitais desarmônicos e. no quadro dos conhecimentos humanos. um ímã atormentado ou a sede obscura e triste de uma constelação de dor. sempre longos e complicados. evitei novas perguntas. Conhecerá enfermidades de diagnose impossível. Em ocorrências dessa ordem. semelhantes casos contam-se por milhões. atento à meditação daquele instante.. As afirmativas inspiravam-me profundos pensamentos. na condição de mãe. Nos sistemas planetários e nos sistemas atômicos vemos o núcleo e os satélites. com o auxílio divino. absorvente e fascinante. sem dúvida.

cujos raios. a reduzida distância. Não deves. em alguns segundos. e falou: — Lembra-te de que sou juiz. estranhos à nossa presença. dura impassibilidade e. ladeando-lhe o dourado assento. indômita. à face da própria consciência. — Repete-o! — ordenou o sacerdote. nos feriam a retina. enunciaste um nome. — Matilde. Compreendi que cogitaríamos de grave assunto e fitei nosso orientador para copiar-lhe os movimentos. Cumprimentou-o Gregório. saturado de misterioso poder? Doze criaturas. humildes. de violentas emanações. ainda que me interessasse tal reencontro. há alguns séculos. Dir-se-ia recebera naquele instante tremenda punhalada invisível. a exótica personagem rodeava-se de mais de cem entidades em atitude adorativa. em cujo bojo se consumiam substâncias perfumadas. pois. Aquela particularidade da palestra bastava para que minha curiosidade explodisse. Quem seria Gregório naquele recinto? Um chefe tirânico ou um ídolo vivo. O semblante de Gregório fêz-se sombrio e angustiado. inquietantes e contundentes. acompanhei Gúbio. acrescentou: — Em nosso primeiro encontro. Gúbio. Fortemente empolgado. inquiriu: — Que tem de comum comigo semelhante criatura? Nosso orientador redargüiu. manejavam grandes turíbulos. a espreitar o esforço de nosso Instrutor para contornar os obstáculos do momento. porque. o de uma benfeitora. Com um simples gesto determinou regime sigiloso para a conversação que entabolaria conosco. mandatário do governo forte aqui estabelecido. dando-nos a entender que podíamos aproximar. Trajava ele uma túnica escarlate e nimbava-Se de halo pardo-escuro. eu sirvo aos Dragões (1). extravagantemente vestidos. ferino — minha mãe separou-se de mim. — Evidente engano! — aduziu Gregório. cuja luz interior se alimentava de tochas ardentes.. acercou-se do anfitrião que o contemplava de fisionomia rude. imperativo. Decorrida pequena pausa. exibindo fingida complacência.. Ela serve ao Cordeiro. no entanto. de minha parte. sereno —. ajoelhavam-se. sem afetação: — Asseverou-nos querer-te com desvelado amor materno. Sentado em pequeno trono que lhe singularizava a figura no desagradável ambiente. o recinto se esvaziou de quantos dentro dele se achavam. — Sim — respondeu Gúbio. atentas às ordens que lhe emanassem da boca.56 8 Inesperada intercessão A sala em que fomos recebidos pelo sacerdote Gregório semelhava-se a estranho santuário. Dois áulicos. seguido por Elói e por mim. Ao demais. faltar à verdade. Fixou em nós o olhar percuciente e inquiridor e estendeu-nos a destra. estamos fundamentalmente divorciados um do outro. com a firmeza de um administrador orgulhoso e torturado. . Dissimulou. de modo a não classificar-se por mentiroso. passando.

no entanto. criminosos. porque. convivem com as nojentas chagas do Planeta. no curso dos séculos. a teia que os planos inferiores nos prepararam servirá a milhões . — Criticas. que estima longas justificações. algo colérico —. — Quem sou para julgar? — comentou Gúbio. Experimentados que somos na queda. e que operam em zonas inferiores da vida. todavia. mas o mundo visível para nós constitui extenso reino de condenados . os tribunais terrestres são . nossa peneira não se fará complacente. então. em silêncio. porque individualmente se transformam para o bem. Sei que há uma ordem absoluta na Criação e não ignoro que cada Espírito é um mundo diferente e que cada consciência tem a sua rota.Temos. continuou. a animalidade domina. em todas as direções. Gúbio lançou-me significativo olhar. que seria da conservação da Terra? (1) Espíritos caídos no mal.Se é nosso destino joeirar o trigo do mundo. — Nota do autor espiritual.No corpo físico. por isso. — Respeitável sacerdote — obtemperou o nosso orientador. — Sem eles — prosseguiu o hierofanta. No entanto. entretanto. os Dragões. a perquirição Intima. que se incumbem da Justiça? — perguntou Gregório. dentro dela. lidam com os crimes do mundo. E à maneira da pessoa culpada. convidando-me. porventura. duramente. provaremos todos os que nos surgirem no caminho. convertem-se em carcereiros dos perversos e dos vis. de inteligência voltada contra os princípios salutares e redentores do Cristo. personificando líderes de rebelião. e é forçoso reconhecer que semelhantes individualidades se contam por milhões . como poderia operar o amor que salva. Afirma-se que não passamos de transviados morais . qual acontece aos próprios homens. contudo. Subordinam-se-nos todos os homens e mulheres afastados da evolução regular. aquele instante não comportava a conversação dum aprendiz e devia destinar-se às manifestações conscientes e seguras de um mestre. por minha vez. sem a justiça que corrige? Os Grandes Juizes são temidos e condenados. A Terra pertence-nos.Além disso.Seja Seremos. vigiando-nos uns aos outros. demônios eternos. que todos veneramos na condição do Cordeiro de Deus? Sem dúvida. não pedem auxílio nem liberação. caímos na rede de circunstâncias fatais. sem palavras. certamente depois de sondar-me. milhões de criaturas (1). Indiscutivelmente. como sucede a mim mesmo. não são. não te posso discutir os motivos pessoais. qualquer noção de Céu. desde eras primevas da Criação Planetária. suportam os resíduos humanos. Ordenam os Grandes Juizes que guardemos as portas . não me equivocava.57 Quem seriam os dragões a que se reportava? gênios satânicos da lenda de todos os tempos? Espíritos caídos no caminho evolucionário. irritadiço: — Os filhos do Cordeiro poderão ajudar e resgatar a muitos. vaidade e egoísmo. com grande surpresa para mim —. com simplicidade — não passo dum servidor na escola da vida. a selar os lábios entreabertos de assombro. ódio. Acredito seja uma corte de eleitos. oferecendo-nos clima ideal Não tenho. servidores.

a muitos homens representativos do mundo. assim. com humildade. desintegrando-lhe os abismos escuros a fim de que a luz sublime aí brilhasse para sempre. porque se a Sabedoria Celeste conhece a existência das folhas tenras das arvores. pois. a fim de sanar os desequilíbrios atmosféricos. obcecados pelos desvarios da inteligência. Ante o intervalo que se fizera. panteras e tigres (pela extrema analogia que ainda guardam com essas feras).58 insuficientes para a identificação de todos os delitos que se processam entre as criaturas. especializadas em corrigir as criaturas delinqüentes que se colocam sob nossa vara diretiva? Os Dragões são os gênios conservadores do mundo físico e se esmeram em preservar a aglutinação dos elementos planetários. sondo. fácil e instantânea. não entendem o paraíso de imposição. de um dia para outro. que não apresentava qualquer alteração.. Respeito. Coerentes com a lógica. para (1) Não devemos esquecer que a argumentação procede de um Espírito poderoso nos raciocínios e que ainda não aceitou a iluminação do Cristo. insofreável. senão constituir equipes de inteligências vigorosas. magnetizados ao mal que praticaram. de nossa parte. tanto tempo? somos aqui julgadores na morte de todos aqueles que malbarataram os tesouros da vida. respeitável Gregório. porventura. a vitória final da bondade. entretanto. os dramas sombrios daqueles que jazem nas furnas de dor. instalado nos corações. do mesmo modo que a faísca elétrica irrompe. os objetivos do supremo triunfo? O sacerdote ouviu. consoante as determinações soberanas. de perto. certa vez. calado. através do serviço fraterno que nos eleva e conduz ao Pai Supremo? Se gastássemos nos cometimentos divinos do Cordeiro as mesmas energias que se despendem a serviço dos Dragões. Conheço. contrariado. os criminosos que se imantam uns aos outros. não admites que o amor. o teu poder. mais apressadamente. não concordas em que a nossa interferência prevalece sobre a fatalidade. idêntico. há mil porcos ostentando as insígnias da carne. que não se deve lançar pérolas aos porcos? Para cada pastor de rebanho na Terra. Fitando Gregório. sim.. como acomodar nesse clima celestial as consciências de lobos e leões. segundo as nossas tendências e possibilidades de satisfazer-lhe os desígnios. os quadros pavorosos que se desdobram ao teu olhar. sabe também a razão de teu extenso domínio. Observo. os quais os menores dramas ocultos não passam despercebidos. de quando em vez. Se o amor conquistasse a Terra. contemplei o rosto de Gúbio. não alcançaríamos. e não ignoro que a Justiça deve reinar. contudo. E se o teu Mestre reclama pegureiros ao seu apostolado. Os fagócitos no corpo humano são utilizados na eliminação da impureza. é que somos os olhos da sombra. Como inocular amor em corações enregelados? Não disse o Cordeiro. e clamou com desagradável inflexão de voz: — Como pude escutar-te. que fazer. Nós. almas essas que . círculo fechado de circunstâncias que nós mesmos criamos? Não estou habilitado a apreciar o trabalho dos Juizes que administram estes pousos de sofrimento reparador. considerou: — Grande sacerdote. Todavia. — Nota do autor espiritual. eu sei que o Senhor Supremo nos aproveita em sua obra divina. redimiria todos os pecados? não aceitas.

todavia. assombrado. porque lhe armaste caprichoso caminho de morte. senão . imperturbável —. contrariado —. — Sim — concordou o nosso orientador. fortes razões te obrigam a constrangê-la ao retorno. entretanto. identificando-te o valor pessoal. faminta de redenção.59 habitam formas humanas aos milhares de milhares? Que seria dos Céus se não vigiássemos os infernos? Gargalhada sarcástica e estrepitosa seguiu-lhe as palavras. podemos receber prisão e tortura e. que o casamento. Aspirações renovadoras banharam-lhe a meninice e. se esta representa a vontade de teu coração. àleve ordem de tua boca. não se perturbou. em plena juventude. mas conteve-se. E ainda que o Senhor me conferisse algum alto encargo representativo. se nos lançássemos todos a socorrer os miseráveis. A estranha auréola que lhe revestia a fronte revelou tonalidades mais escuras. nesta aventura. — Venerável Gregório — pediu nosso Instrutor. o amor nos inspira e confiamos no mesmo Poder Soberano que te permite aplicar a justiça. por isto mesmo. O sacerdote fêz vibrar uma campainha. as probabilidades contra nós. Ouve-me com tolerãncia e bondade. Não disponho de tempo para falas inúteis. aproveitando este a transformação psicológica do momento. que me pareceu destinada a expandir-lhe as expressões de ira e gritou. Gúbio. expressando na fisionomia inquietação indisfarçável. Conhecíamos. se amparássemos os delinqüentes. o crime seria varrido da face da Terra. estamos prontos a recebê-las. — Não desconheces que Matilde possui na tua companheira de outras eras uma pupila muito amada ao coração. Não te reprovo. de antemão. rouquenho: — Cala-te! insolente! sabes que te posso punir!. Escutando o informe. a treva não teria razão de ser. Eu e meus companheiros. Gregório fitou Gúbio. Com simplicidade. nem te acuso. chamo-te de “respeitável” nos apelos que te dirijo. não obstante a direção diferente que imprimiste aos passos. agora. à vista de tamanha coragem e. que a tua nobreza não se esvaiu e que as tuas elevadas qualidades de caráter permanecem invioladas. Certamente. pois nada sou. A cólera do sacerdote pareceu amainar-se. Não ignoras que tua mãe espiritual jamais se esqueceria de Margarida. apesar da expressão agressiva e rude. tornou a considerar: — Ouso lembrar. sem razão de ser. Gregório: Margarida empenha-se em viver no corpo. enunciou com firmeza serena: — Declarou-nos Matilde. Tive a idéia de que ele nos fulminaria se pudesse. deseja demorar-se no campo de luta benéfica.. o hierofante modificou-se visivelmente. — Não acredito em tuas informações — acentuou. As preces dessa torturada filha espiritual atingem-lhe a alma abnegada e luminosa. imóvel.. de modo a ressarcir o passado culposo.. lhe revigoriza as esperanças. não me competiria julgar-te.. que. mas sê claro nas rogativas. decerto. oferecendo-lhes estímulos à luta regenerativa. a nossa benfeitora. serei breve. humilde —. suponho conhecer a extensão de tuas possibilidades. Dureza singúlar transpareceu-lhe nos olhos felinos e os lábios se lhe contraíram num neto de infinita amargura. porém. ameaçada atualmente de loucura e morte. se educássemos os ignorantes. a miséria se extinguiria.

o perdão é desconhecido. contrafeito. despreza a renúncia. experimentando as tuas próprias dores. voltar ao banho lustral da experiência humana. em sã consciência. quais flores abençoadas pelo orvalho celeste. O anfitrião. poderás. Não se faz imperioso o teu concurso pessoal. a autoridade soberana do Todo-Misericordioso que lhes permite agir em nome da corrigenda.. Ajudando-nos. — Sabemos. contudo. a fim de que nos orientemos com a precisa liberdade. em caminho de preciosa frutificação. não ultrapassariam eles. para resgate justo. pelos braços carinhosos da vitima de hoje poderias. Bastar-nos-á tua indiferença. quem sabe? Talvez. Promete-nos independência de ação! Não te pedimos sustar a sentença. que pelo amor e pelo ódio do pretérito ela permanece intensamente ligada aos raios de tua mente e todos sabemos que os credores e os devedores se encontrarão. renovando caminhos para glorioso futuro. pois. O hierofante riu-se. contrafeito. melancólico. não te ensurdeças aos apelos do coração materno. nem pretendemos inocentar Margarida. por mais impassível. de nenhum modo. face a face. E já que te mostras tão bem informado acerca de Margarida. a atual existência dela envolve largo serviço salvador. em voz súplice: — Se ainda não consegues ouvir os recursos interpostos pela Lei do Cordeiro Divino que nos recomenda o amor recíproco e santificante. todavia. Nosso Instrutor. Nossa alma. entre aflito e entristecido —. salvando-a da destrutiva perseguição. de frente. longe de desanimar. modifica-se com as horas. uns com os outros. ser-nos-ia difícil qualquer atividade libertadora.. grande sacerdote — continuou Gúbio. que sem a tua permissão. maternalmente. A matéria que nos serve às manifestações modifica-se com os dias. Pesados minutos de expectação e silêncio caíram sobre nós. poderosa e ativa. E. Quem assume compromissos diante das Leis Eternas é obrigado a encará-los. falou sem rebuços: — Quem lavra sentenças. Espíritos amigos da verdade e do bem se preparam a receber-lhe a ternura materna. e acrescentou: — Observo que conheces a justiça. Desposou antigo associado de luta evolutiva que te não é estranho ao coração e reinará. afeiçoando-lhes a tarefa ao bem comum. tarde ou cedo. Ajuda-nos a liberar Margarida. muito calmo —. Venho rogar-te. por mais invencíveis que fôssem os poderosos Juizes aos quais obedeces. Determinavam os legisladores da Bíblia que os arestos se baseassem no princípio da troca: “olho por olho e dente por dente”. no entanto. ouso insistir na súplica fraterna. — Qualquer idéia de volta à carne me é intolerável! — gritou Gregório. Entre os que defendem a ordem. retomou a palavra. tu mesmo. Auxilianos a conservar aquela existência valiosa e frutífera. . agora ou mais tarde. Sei. suprimir as razões que me compelem a decretar-lhe a morte? — Não discuto os motivos que te conduzem —exclamou nosso orientador. — Sim — concordou Gúbio. Entretanto.60 depois de haver vivido a tua própria tragédia. O tempo tudo devasta e nos subtrai todos os patrimônios da inferioridade para que a obra de aperfeiçoamento permaneça. em vista dos laços que Margarida criou com a tua mente. porém. seja suavizada a vindita cruel. num lar em que devotados benfeitores organizarão formoso ministério de trabalho iluminativo.

mas Gúbio prosseguia com simplicidade e firmeza: — Concede!. em silêncio. Demonstrando expressão de surpresa. em homenagem aos desvelos de tua mãe e. no entanto.. testemunhando a humildade e o amor que o Cordeiro nos ensina. tentando o serviço a que nos propomos? Compareceríamos. redimida e feliz. Gregório refletiu alguns instantes e redargüiu: — É muito tarde. — Porquê? — indagou nosso Instrutor. padecerá humilhações sem nome e desejará a morte como valioso bem. daria o último retoque em tuas decisões. não se deu por vencido e insistiu: — E se nos confundíssemos com a tua falange. tentando a restauração? O tempo. esperávamos que o orientador se impusesse. possivelmente. venho esperando. pouco a pouco. enfrentarás. dessa forma. até que Margarida te pudesse fornecer. o sublimado pão do espírito? O sacerdote levantou-se pela primeira vez e clamou: — Não creio. e o trabalho de imantação para a morte estão quase terminados. concede!. como amigos teus e.61 Rogar-te-íamos. Gregório considerou. Gregório pensava. nós mesmos. em cuja fonte interior só me fôsse possível recolher as águas turvas do desespero e do fel. Perguntou Gúbio. em face da imprevista solicitação de adiamento. um dia. Dá-nos tua palavra de sacerdote! lembra-te de que. procuraríamos a execução do programa que nos trouxe até aqui. mais encorajado: — E se reencontrasses o doce reconforto da ternura materna. após longos minutos de reflexão. O nosso dirigente. Atingida a rendição pelo sofrimento dilacerante. junto à enferma.. ainda que não creias. contudo. adiamento na execução de teus propósitos. amoroso e providencial. sob a chefia de duro perseguidor que lhe odeia a família.. menos contundente: — Tenho necessidade do alimento psíquico que só a mente de Margarida me pode proporcionar. sustentandote a alma. Será torturada como me torturou em outra época. com a revolta de vítima. — O caso de Margarida — esclareceu o hierofante em tom significativo — está definitivamente entregue a uma falange de sessenta servidores de meu serviço. de novo.. o olhar de tua mãe! O interpelado... envolvendo-me nas emissões de carinho que. — E se propuséssemos semelhante bênção em troca de tua neutralidade ante o nosso esforço de salvação? Permitir-nos-ias agir concomitantemente com os servidores que te obedecem às ordens? Não os inclinarias contra nós e deixar-nos-ias ombrear com eles. maduramente. Seria infrutífera qualquer tentativa liberatória.. Os raciocínios dela vão sendo conturbados.. reclamando revogação definitiva. a mente dela me receberá por benfeitor. inquieto. quando. mas não desejo que ela me volte às mãos.. há muitos anos. A solução cabal poderia ter sido alcançada em poucas horas. sem te desrespeitarmos a autoridade. os dias se encarregarão de modificar este processo doloroso.. ergueu os braços e asseverou: . Concede à tua devedora um intervalo benéfico.

invocou a presença de um certo Timão. tilintando a campainha de modo particular. Como que semivencido na batalha em que se empenhara com a própria consciência. indagando pelo andamento do “caso-Margarida”. Em seguida. todavia. Indicando-nos. . na execução gradual do seu decreto de morte. Questão de poucos dias para a segregação em casa de saúde. determinou Gregório que o auxiliar de sinistro aspecto nos situasse junto da falange que operava. concordo com a providência a que recorres. ativa. que nos surgiu pela frente surpreendendo-nos com seu semblante de carrasco. Não interferirei. algo constrangido. Dirigiu-lhe a palavra. determinou que os auxiliares se reaproximassem.62 — Não creio nas possibilidades do tentame. ao que o preposto informou estar o processo de alienação mental quase pronto.

notando-a ocupada por muitas personalidades espirituais de aspecto deprimente. aquela construção residencial permanecia vigiada por carcereiros frios e impassíveis. Saldanha. recolhendo impressões aflitivas e dolorosas. de horrível aspecto fisionômico. porém. atadas ao cérebro da paciente . em companhia de entidades ignorantes e transviadas. que de modo algum se faria reconhecível. inclinavam-se. A manhã resplandecia. Instado por Sérgio. — A jovem senhora vai cedendo. Interpenetrando a matéria espessa da cabeceira em que descansava. de alma opressa. confidencialmente. de modo vago —. Indiscutivelmente. De posse. à exceção de nós que o seguíamos. mas também pelos admiráveis jardins que o rodeavam. não só pela grandeza das linhas. o diretor da falange operante. Entidades inferiores. mostrando extrema palidez nas linhas nobres do semblante digno. dirigimo-nos para confortável residência. Rostos patibulares. quando concentrei todo o meu potencial de atenção na cabeça da jovem singularmente abatida. e. Compreendi que atingíramos a intimidade de Margarida. O ar jazia saturado de elementos intoxicantes. pela manhã. um tanto solícito. — O chefe deliberou apertar o cerco? — perguntou ao nosso Instrutor. devagarinho — esclareceu a singular personagem. através da vidraça cristalina. assemelhando-se a grandes sementes vivas. a custo. um gaiato rapaz que nos Introduziu com maneiras menos dignas. Reparei que o próprio Gúbio se fizera tão escuro. O edifício de enormes dimensões denunciava a condição aristocrática dos moradores. confiantes e dominadores. Dissimulei. Mulher ainda moça. mas. afluiram à sala de entrada. submetendo-a a complicada operação magnética. e o sol visitava o quarto. tudo fazíamos para nos assemelharmos a delinqüentes vulgares. deixou-nos livre a entrada da grande câmara de casal. carantonhas sinistras. admitiu-nos na condição de companheiros importantes.63 9 Perseguidores invisíveis No dia imediato. Pôs-se a fazer gestos hostis. desejaríamos examinar as condições gerais do assunto e auscultar a doente. Paramos junto à ala esquerda. sondando-nos as intenções. Dois desencarnados. em grande cópia. desde a primeira hora. Transpus o limiar. onde espetáculo inesperado nos surpreenderia. ante a senha com que Gregório nos favorecera. em seguida a breve pausa. entregava-se a tormentosa meditação. meu assombro foi muito mais longe. tão opaco na organização perispirítica. No entanto. de vários tamanhos e de cor plúmbea. lá fora. — Sim — informou Gúbio. Essa particularidade do quadro ambiente dava para espantar. a julgar pelas sombras que os cercavam. atentos. Acompanhou-nos. a obsidiada que o nosso orientador se propunha socorrer. mas desconfiado. sobre o busto da enferma. veio receber-nos. o malestar. surgiam algumas dezenas de “corpos ovóides”. indicando-nos vasto corredor atulhado de substâncias fluídicas detestáveis. das instruções do nosso orientador.

Dominadas as vias do equilíbrio no cerebelo e envolvidos os nervos óticos pela influência dos hipnotizadores. as “formas ovóides” haviam sido trazidas pelos hipnotizadores que senhoreavam o quadro. ao longo do bulbo. reconheci que. A vampirização era incessante. não só aos truculentos perturbadores que a assediavam. se a doente me fôsse assim tão cara. Fixou a paisagem aflitiva com inequívoca tristeza. examinando-as. em seguida. A própria pressão sanguínea demorava-se sob o comando dos perseguidores. Margarida demonstrava-se exausta e amargurada. Esforçava-se Gúbio por não trair a imensa piedade que o senhoreava. Reparei que todos os centros metabólicos da doente apareciam controlados. mas sempre dirigidos por paixões fulminatórias. de vez que os propósitos sinistros dos perseguidores se faziam patentes quanto à vagarosa destruição das fibras e células nervosas. pelo corpo perispirítico. Se vieram colaborar conosco. não contamos com qualquer resistência. automàticamente. lutaria contra os perseguidores. um a um. saibam que. Dentro de minha condição de humanidade. já observara. demorou o olhar bondoso em Saldanha. logo após. cuidadoso. As energias usuais do corpo pareciam transportadas às “formas ovóides”. vi que a enferma inalava substâncias escuras que não somente lhe pesavam nos pulmões. as observações acuradas. Em verdade. mas também à vasta falange de entidades inconscientes. porqüanto Gúbio. A região torácica apresentava apreciáveis feridas na pele e. grande quantidade de casos violentos de obsessão.64 através de fios sutilíssimos. Interrompi. felizmente. como a pedir-lhe impressões mais profundas. no entanto. nas células e fibras conjuntivas. Entretanto. Evidentemente. se estivesse livre. jazia absolutamente presa. — A presa foi colhida em cheio e. deixando perceber o baixo teor das visões e audições interiores a que se via submetida. Movimentaria passes de libertação. ali verificava o cerco tecnicamente organizado. por mim. resoluto. há dez dias precisamente — elucidou. a fim de verificar a atitude psicológica do nosso orientador. o chefe da tortura se sentiu na obrigação de prestar-lhe informações espontâneas. mas concluí que a infortunada senhora devia ter sido colhida através do sistema nervoso central. retirar-lhe-ia aquela carga pesada e inútil de mentes enfermiças e. que se alimentavam delas. naturalmente. segundo acredito. Mais alguns dias e a solução não . Secretamente tocado pelo impulso positivo do nosso dirigente. Lastimei a impossibilidade de consulta imediata ao Instrutor. — Estamos em serviço mais ativo. formando ulcerações na epiderme. a se lhe apropriarem das forças. não temos maior trabalho a fazer. Nosso Instrutor. porém. cruel. vampirizando-a em processo intensivo. assim não procedeu. que se caracterizavam pelo veículo mental. seus olhos espantados davam idéia dos fenômenos alucinatórios que lhe acometiam a mente. que se arriscara à aventura para socorrer aquela senhora doente a quem amava por filha muito querida ao coração. diante da enferma conduzida para a morte. não teria vacilado um momento. analisei a zona física hostilizada. mas se refletiam. sobremodo. Margarida. cuidadosamente dispostos na medula alongada. nos forneceria esclarecimentos amplos. A obra dos perseguidores desencarnados era meticulosa. Com a devida permissão. mas. num movimento indefinível de sucção.

ao fixar os altares. todavia. que os cônjuges. observei estranho espetáculo. num grande recipiente. a meu ver. à maneira de água cristalina e azeite impuro. Decorridos algunS minutos. e ajudou-a a vestir-Se com esmero. em cuja expressão carinhosa identifiquei. no casamento foi apenas transferido de “gozador da vida” a “homem sério”. a fim de confiar-nos alguns esclarecimentos. na esperança de melhoras. desde os pára-lamas até o teto luzente. quando nossa obrigação primordial é a de render-lhe culto na própria consciência. . apalermado. logo. Seguimo-nos sem detença. em nossa companhia. notei. perguntei ao nosso Instrutor: — Que vemos? não reza o segundo mandamento. prestimoso. Gúbio afastou-Se um tanto. no propósito evidente de captar simpatia. e determina o Testamento que ninguém se deve curvar diante delas. acentuou: — Vão à missa. o esposo da vitima. se os recebesse.65 se fará esperar. Dos adornos e objetos do culto emanava doce luz que se espraiava pelos cimos da nave visitada de sol. Gúbio conhecia todas as particularidades do assunto. de pronto. Dividiamse os fluidos. Hoje. com ela permutando palavras amorosas e confortantes. Descendo à porta de elegante santuário. intencionalmente. Penetramos o templo onde se comprimiam nada menos de sete a oito centenas de pessoas. era talvez cinco vezes maior que a assembleia de crentes em carne e osso. o infeliz não tem a menor noção de vida moral. tristonho e simpático cavalheiro. transformara-se como que num carro de festa carnavalesCa. A respiração fizera-se-me difícil pela condensação dos fluidos semicarnais ali reinantes. para dispensar-nos maior atenção e. fazia-se perceptível a nítida linha divisória entre as energias da parte inferior do recinto e as do plano superior. A atmosfera pesava. Minha curiosidade era enorme. Compreendi. Saldanha encontrava-se excessivamente preocupado com as vítimas. Amparou-a. Entidades diversas aboletavam-se dentro e em torno dele. é um erro criar ídolos de barro ou de pedra para simbolizar a grandeza do Senhor. Efetivamente. tomavam um táxi na direção dum templo católico. conduzirá a esposa à igreja. em posição de desequilíbriO. pois. A algazarra dos desencarnados ignorantes e perturbadores era de ensurdecer. confortante surpresa aliviou-me o coração. O veículo. A paternidade constituir-lhe-ia um trambolho e filhinhos. não passariam para ele de curiosos brinquedos. André. Mal acabara a informação. E. Não é mau homem. reforçando a inflexão sarcástiCa. Contemplando a formosa claridade dos nichos. A turba de desencarnados. acompanhados por extensa súcia de perseguidores. entrou no aposento. A meu ver. mas. todavia. trazido por Moisés. Interrogou: — E o marido? — Ora — esclareceu Saldanha com escarninho sorriso —. que em maior parte ali se achavam com o propósito deliberado de perturbar e iludir. que o homem não deve fazer imagens de escultura para representar a Paternidade Celeste? — Sim — concordou o orientador —.

precisariam despender imenso esforço. Há quase um século. o sacerdote e os acólitos. com grande assombro para mim. jaziam em sombras. saturando-as de princípios salutares e vitalizantes. a fim de preparar-se convenientemente para as responsabilidades da vida madura. como acontece nas sessões de Espiritismo Cristão. revelavam-se mentalmente muito distantes da verdadeira adoração à Divindade. Reflexos arroxeados. a criança acalenta bibelôs. diziam da sincera aspiração àvida superior que. tanto quanto ocorria aos encarnados. Nem por isso o Senhor as abandona. Quase todas as pessoas. E sorrindo. Entidades desencarnadas. naquele instante. mas. apareciam aqui e acolá. a Bondade Divina é infinita e aqui nos achamos perante apreciável quantidade de mentes infantis. os mensageiros celestes distribuem dádivas espirituais com todos quantos sintonizem com o plano superior. A liturgia anunciou o inicio da cerimônia. os altares recebem as projeções de matéria mental sublimada dos crentes. envergando soberba vestimenta. sem corpo físico. Não longe. sucedendo o mesmo aos assistentes. Admirado. mas os irmãos ignorantes que operavam no templo. Em algumas. Nesta casa de oração. passaram a fluidificar as hóstias. fixei a atenção numa senhora que acompanhava o sacerdote com o manifesto desejo de receber a bênção celestial. os olhos úmidos e os tênues raios de luz. através do halo de muita gente. a nossos olhos. que determinado número de frequentadores se esforçava por melhorar a atitude mental na oração. meu amigo. Reparei. em deplorável situação. entretanto. percebendo-lhe a . É natural que resplandeçam. e. Em grande parte. espalhavam-se em todos os recantos.66 entretanto. Magnetizaram as águas expostas. tendendo a vacilante brilho. procedendo de mais alto. O halo vital de que se cercavam definia pelas cores o baixo padrão vibratório a que se acolhiam. nas mesmas características. nem de longe registravam a presença dos nobres emissários espirituais que agiam em nome do Infinito Bem. as preces fervorosas de milhares deles aqui envolvem os nichos e apetrechos do culto. voltei a observar a plateia religiosa. três entidades de sublime posição hierárquica se fizeram visíveis à santa mesa. lhe banhava o pensamento devoto. ainda aquelas que ostentavam nas mãos delicados objetos de culto. acrescentou: — Quantas vezes. não conseguiriam disfarçar. ainda mesmo que desejassem orar com sinceridade. buscando conturbá-los. os malfeitores desencarnados propositadamente se postavam ao pé dos que se candidatavam à fé renovadora e reverente. transmitindo-lhes energias sagradas à fina contextura. dominavam o pardo-escuro e o cinzento-carregado. Ante ligeira pausa. A luz que oferecemos ao Céu serve sempre de base às manifestações do Céu para a Terra. que se lhe projetavam da mente. Ainda existem na Terra tribos primitivas que adoram o Pai na voz do trovão e coletividades vizinhas da taba que fazem de vários animais objeto de idolatria. contudo. dois transviados da esfera inferior. Entretanto. não obstante se dirigirem para o campo de luz do altar-mor. alonguei o olhar pela multidão bem vestida. Reconheci que os crentes elegantes. Através de semelhante material. Vale-se dos impulsos elevados que elas lhe oferecem e socorre-lhes as necessidades educativas. com o evidente propósito de ali semearem os benefícios divinos. em seguida. os raios rubro-negros denunciavam cólera vingativa que.

que muitos Espíritos sublimes penetraram o recinto. cada crente. E para a formação de semelhante clima interior. A aquisição de fé. necessitará também combater a influência dispersiva e perturbadora que procede dos companheiros desencarnados que lhe buscam arrefecer o fervor. para que alguém se coloque a caminho das eminências sociais. mas. que se interessam pela ignorância das massas. raros são aqueles que trazem até aqui o espírito efetivamente inclinado à assimilação do auxilio celestial. atacando os devotos de variados matizes. lhe sugeriam reminiscências de baixo teor. demanda trabalho individual dos mais persistentes. Não obstante. reparei que o sacerdote. no fundo. com lastimável menosprezo pela espiritualidade superior que nos governa os destinos. de boa vontade. a que nos afeiçoamos. Gúbio espraiou o olhar através da multidão que presenciava a cerimônia. num deslumbramento. a fim de recolhê-los. no entanto.67 esperança construtiva. é impossível ambientar o benefício. aparentemente contrita. Continuou Gúbio a prestar-nos valiosos esclarecimentos alusivos à solenidade. A experiência da alma no corpo denso destina-se. segundo o que me foi permitido verificar. preferiria ele os ruidos da ventania. A confiança no bem e o entusiasmo de viver que a luz religiosa nos infunde modificam-nos a tonalidade vibratória. em geral. é imprescindível que se prepare o coração nas linhas do mérito. Portanto. apagou a luz que a revestia com os raios cinzento-escuros que ele próprio expedia em todas as direções. e acentuou: — Em verdade. a tendência dos crentes. transformam-se em instrumentos passivos das inteligências rebeladas. Logo após. ao homem selvagem a vida num palácio erguido pela cultura moderna. onde o celebrante elevava o cálice. Voltei-me para o orientador. o serviço real que nos cabe não se resume só a palavras. de maneira fundamental. tentavam anular-lhe a atenção e. enquanto a missa se encaminhava para a fase final. ao aprimoramento do indivíduo. é indispensável seja educado. e um cabaz de flechas lhe pareceria mais valioso que um dos nossos mais perfeitos parques industriais. de imediato. Entre emissão e recepção. todavia. Lucramos infinitamente com a imersão das forças interiores no sublimado idealismo da crença santificante. que prestimosa-mente explicou: — A história de gênios satânicos. é a de fugir aos conflitos da senda. incapazes de receber as vantagens celestes. É nos atritos da marcha que o ser se desenvolve. além do serviço de purificação dos sentimentos. Em todas as casas de fé. prevalece o imperativo da sintonia. ao erguer a oferta sublime. Sem esforço preparatório. é. Pessoas existem que depois de servirem ao ideal religioso. pretendem o repouso de vinte séculos. e vi. As vozes do coro como que projetavam vibrações harmoniosas e lúcidas ao longo da nave radiosa. rumando para o altar. quando se preparou a distribuir o . entretanto. Embalde imporíamos. a missa é um ato religioso tão venerável quanto qualquer outro em que os corações procuram identificar-se com a Proteção Divina. se apura e ilumina. Intensa luminosidade fluía do sacrário. Aos acordes de nossa música. durante dois anos. de semblante glorificado. surpreendido. aceitando as sugestões de melhoria e serviço. os mensageiros do Senhor distribuem favores e bênçãos compatíveis com as necessidades de cada um. inutilizando-lhe a tentativa. depois de abençoar a sagrada partícula. A profissão de fé não é tudo. envolvendo todo o material do culto. absolutamente verdadeira. por isto mesmo. As inteligências pervertidas.

para junto da enferma e do esposo. humildes. no prateado recipiente que as custodiava. à frente da boca que se dispunha a receber o pão simbólico. Quanto aos que compartilharam à mesa da eucaristia. qual foco de fluidos luminescentes. apesar de consagrado para o culto. à mesa adornada de alvo linho. cheios de sentimentos rasteiros e sombrios. antes que lhes tragam benefícios imerecidos. atravessar a faringe. muito ponderado. mais se assemelhavam a barulhento bando de passarinhos de bela plumagem. eram autênticas flores de farinha. vi a hóstia. cuja contrição era irrepreensível. Sômente uma senhora. cercados pelo mesmo séquito de entidades infelizes. que se retiraram. eles mesmos se incumbem de anular as dádivas celestes. de regresso ao lar. Todavia. Irradiavam luz com tanta força que o magnetismo obscuro das mãos do ministro não conseguia inutilizá-las. O “ite. elucidou sem delonga: — Apreendeste a lição? O celebrante. Intrigado. sem esforço interior de sublimação própria. missa est” dispersou os fiéis que.68 alimento eucarístico entre os onze comungantes que se prosternavam. é ateu e gozador dos sentidos. Absorto em fundas reflexões. ainda jovem. recolheu a flor divina com a pureza desejável. de modo a não perder uma alegre excursão em perspectiva. Temos aqui grande quantidade de crentes titulares. mas muito poucos amigos do Cristo e servidores do bem. sem a menor alteração. enegreciam como por encanto. coroadas de doce esplendor. procurei ouvir o Instrutor que. A mente dele paira longe do altar. . acompanhei o nosso orientador e Elói. ao fim da reunião. Acha-se sumamente interessado em terminar a cerimônia com brevidade. alojando-se-lhe a claridade em pleno coração. notei que as hóstias. ante o que me fora dado observar.

juiz sem alma que me devastou o lar. Das complicadas operações sobre os olhos. a mente aflita e sofredora tiranizava o coração que batia. precipite. de olhar penetrante e doce: — Que razões teriam conduzido Gregório a conferir-lhe tão delicada missão? — O ódio. premido por uma tuberculose . ao longo dos olhos. exterminando-os. Percebi a facilidade com que os seres perversos das sombras hipnotizam as suas vítimas. mas ao pai. — Não propriamente a ela. o infeliz continuou: — Tão logo abandonei o corpo físico. meu amigo. em ambos os órgãos visuais. Grossas lágrimas banhavam o rosto da enferma. alegando que havia serviço em outra parte da cidade. agora não conseguiria erguer-se. E. Outros casos aguardavam a legião de Gregório. impondo-lhes os tormentos psíquicos que desejam. E enquanto Saldanha sorria. Terminada a esquisita intervenção. denunciava fenômenos alucinatórios. continuou. Faz onze anos. à exceção da dupla que se incumbia do hipnotismo. ainda que o desejasse. já recebera suficiente material de prostração para trinta horas consecutivas. Dilacerada. Não sômente o cristalino. absorvida de indefinível pavor. imprimindo graves alterações em todo o cosmos orgânico. A jovem senhora. carregando-as de substância escura. atencioso — é bastante significativa. e Margarida. aí permaneciam Saldanha. à Insinuação de Saldanha. Saldanha dispensou os terríveis colaboradores. semelhante agora a desprezada colmeia de maribondos vorazes. Gúbío procurou sondar-lhe o íntimo. o ódio! — explicou o interpelado decidido. o magnetizador passou a interessar-se pelas vias do equilíbrio e pelas células auditivas. envaidecidamente. os dois magnetizadores.. punha os olhos no ar vazio. esvaziou-se a casa. Margarida. Contudo. no parecer do chefe de tortura. traduzindo-lhe as agitações interiores. Um dos insensíveis magnetizadores presentes. ligadas ao cérebro da senhora flagelada. torturando as fibras de sustentação. precisamente. mas também as artérias oculares revelavam-se sob fortes modificações. indicando a doente..69 10 Em aprendizado De retorno a casa. diante da expressão de real interesse que o nosso Instrutor deixava perceber. em “formas ovóides». nós três e a coleção de mentes. — Sem dúvida que a sua fidelidade aos compromissos assumidos — declarou o nosso orientador. discretamente. começou a aplicar energias perturbadoras. com indisfarçável estranheza reparei que o nosso Instrutor não empreendia qualquer ataque em defesa da doente querida. novamente metida no leito. A sós com o temível obsessor. qual se estivesse doando combustível a um motor. Compacta emissão de fluidos tóxicos misturava-se à linfa dos canais semicirculares. que a sentença cruel de um magistrado caiu sobre os meus descendentes. — À senhora? — aduziu Gúbio. semi-aniquilada. Pouco a pouco.

autoridades e guardas. por isto. preferi a continuidade da vida em meu escuro pardieiro. procurei o juiz da causa. por minha vez. na ânsia de exculpar o verdadeiro criminoso. na minha condição de homem invisível para os encarnados. da transição corporal. aqui mesmo nesta casa. de algo recolher de útil. junto aos carrascos policiais que chegaram a improvisar fantásticas confissões da vítima. onde tresloucado irmão de Margarida procura arrastá-la sutilmente a grave desvio moral. conturbada pela necessidade e pelo infortúnio. Ainda assim. atende a serviço doméstico. ao angustiado casal. quando certo crime. por sua vez. Meu filho sofreu todo o gênero de atrocidades morais e físicas. como se fora homicida vulgar. definhando-se-lhe a mãezinha em padecimentos continuados e sofridos em silêncio. segui os interrogatórios infernais a que foi submetido. eu que me anexara aos parentes. Minha infortunada Iracema herdoume um filho querido. castigado por um delito que não cometeu. Identifiquei o verdadeiro criminoso que. Operário em rude serviço braçal. que aqui preside à assembleia familiar. suicidando-se para imantar-se ao espírito de meu pobre filho. desde o instante horrível. em face de circunstâncias inextricáveis. recebendo-me em sonho as promessas . preferiu ouvir pareceres de amigos influentes na política dominante. Jorge recebeu dolorosa pena. para mim. visitei chefias e repartições. inocente. recaiu sobre ele. esqueceu as obrigações de mãe. e prosseguiu: — Descrever-lhe o que foi minha dor é alguma coisa de impraticável à capacidade verbal. com indescritível terror. a quem não pude legar qualquer recurso apreciável. A experiência humana não me proporcionou tempo a estudos religiosos ou filosóficos. a seu turno. hoje menina e moça. na esperança de interferir benêficamente. jamais me senti disposto à submissão. de algum modo me reconfortava. por clarear o processo oprobrioso.70 galopante. A vida corria desesperadamente para o lar subalimentado e desprotegido. Humilhado. O magistrado. que o convidava à justiça e à piedade. minha esposa desencarnou num catre de indigência. Habituei-me muito cedo à rebelião contra aqueles que gozam os benefícios do mundo em detrimento dos desfavorecidos da sorte e. desse modo. acentuando a expressão de profundo rancor. Desanimado. porém. sem qualquer recurso para ampará-lo. e Irene. minha nora. quando seu corpo vacilava sob maus tratos. mas ameaçada por incerto porvir. Saldanha fêz pequeno intervalo. O juiz. reconhecendo que o túmulo não me revelara qualquer milagroso domínio. com uma colega de trabalho. Jorge contraiu núpcias. lhe deu uma filhinha atormentada e sofredora. desfruta posição social invejável e tudo fiz. muito cedo. ainda agora. Acompanhei-lhe a prisão imerecida e. Minha neta. Assisti. longe de aceitar-me a inspiração. através de profundos laços magnéticos. a enfrentar dificuldades e aflições que não posso relembrar sem imensa angústia.. e toda a culpa. reunindo-se. Jorge e sua genitora passaram. meu filho não conseguia sustentar dignamente a casa. que. aos detestáveis acontecimentos. sem resultado. que vivamente se interessavam pela indébita condenação. Ora. sobreveio na organização em que meu desventurado rapaz trabalhava. revoltado com a pobreza que me lançara à extrema penúria. tentando encontrar alguém que me auxiliasse a salvar Jorge. constituído de roubo e assassínio.. já de si mesmo tão infeliz. não pude afastar-me do ambiente doméstico. onde a convivência de Iracema. Torturada pelos sucessos aflitivos.

Enlouquecendo no cárcere. fitei Gúbio que se mantinha Imperturbável. Encorajado pelo tom amigo daquela frase. meu desforço não se fará menos enérgico. compareceu. a atenção do perseguidor para os ensinamentos de Jesus e. em vão. entre nós. dilacerada. se possível. não abrirei minhalma às sugestões religiosas. Admirado. e louvou-me o ânimo firme. e de Iracema. de alma suficientemente endurecida. apesar disso. solicitamente. sob a pressão mental de Irene. Surpreendido.71 de vingança. Dois ou três minutos rolaram.. Viu-nos e demonstrou compreender-nos a posição. O Instrutor.. Sorriu. Saldanha prosseguiu: — Muita gente convida-me à transformação espiritual. Acredita possa meu cérebro dispor de recursos para meditar em compaixão que não recebi de pessoa alguma? Enquanto esses quadros permanecerem sob meus olhos. Quase sempre dispomos de servidores em massa para os cometimentos retificadores. buscou sorrir. quando suportávamos a caixa dos ossos. com o mesmo ódio do princípio. contudo. Faltavam-lhe forças para tanto. porem. qualquer alvitre desse jaez. devagarinho. Pousando olhos cheios de simpatia no interlocutor. Quase no mesmo instante. Margarida. . Fora eu e talvez me desbordasse em comentários extensos e tirânicos. dobrar-lhe-ia a língua indisciplinada e insolente. qual se lhe fora dedicado enfermeiro. — É o médico — elucidou Saldanha. Meu desventurado Jorge. a sementeira de dor é das que mais nos afligem. Estou simplesmente diante da vida. o esposo da vitima. assim não procedeu. acercando-se do médico. Mostrava o relógio um quarto para meio-dia. Passeando colérico olhar pelos ângulos da câmara de repouso. um cavalheiro de idade madura penetrou o recinto. silencioso. acentuou: — Todos aqui pagarão. Não aceito. A conversação ia a meio. A sepultura apenas derruba o muro da carne. longos. quando alguns passos se fizeram ouvidos. evidentemente bem intencionada. Mas não é fácil encontrar um companheiro decidido a perseverar na vingança até ao fim. não resistiu e perturbou-se. foi transferido da cela úmida para misérrimo hospício.. em companhia de Gabriel. onde mais se assemelha a um animal encurralado. porqüanto nossas dores continuam tão vivas e tão contundentes quanto em outra época. porque fixou em nós cauteloso olhar sem dizer palavra. debalde. oprimida. porém. mudo. Abeirou-se da enferma. Todos. Observou que eu lhe atendia a exigência e confiou-me a tarefa. concitando-me ao perdão estéril. Foi nesse estado que o sacerdote Gregório me encontrou e agradou-se de minhas disposições Intimas. buscou colocá-la junto aos próprios parentes. Necessitava de alguém.. com ênfase. à existência terrestre. afagou-a gentil e pronunciou algumas palavras de encorajamento.. no entanto. quando uma entidade. com referência à lei do amor que nos governa os destinos. para presidir à retirada técnica desta moça que ele deseja arrebatar. notei que o nosso orientador não ensaiava qualquer doutrinação. murmurou apenas: — Realmente.. reclamaria. procurará lesões e micróbios. empenhado em reparar de algum modo o seu crime. com manifesta expressão de sarcasmo —. buscando disfarçar a própria tristeza.

— Todos os médicos — asseverou-me. a tarefa de ampará-lo nos empreendimentos profissionais. convicto —. ainda mesmo quando materialistas de mente impermeável à fé religiosa. esclarecendo: — André. combinamos que. por relaxamento ou indisciplina. em sua opinião. Declarou que a jovem senhora. a sugestão é uma força misteriosa. conversou com o marido da vítima de maneira superficial. E para não dar ideia de uma capitulação científica. Logo após. com satisfação. entregue a torpor inquietante. volta ao nosso posto. mas.. pousou a destra em sua fronte. certamente se mantinha sob o império da epilepsia secundária e que. como se desejasse transmitir-lhe algum alvitre providencial. de intervenção cirúrgica aconselhável. acerquei-me da personalidade que assistia o médico de perto e entabulamos amistoso diálogo. Dentro de algumas horas. e dispôs-se a sair. com desvelo. fora enfermeiro do esculápio que protegia e recebera.72 O especialista não parecia profundamente interessado no caso. convidou Gabriel a um dos ângulos do quarto e lembrou: — Porque não tenta o Espiritismo? Conheço ultimamente alguns casos intrincados que vão sendo resolvidos. porém. deves seguir o médico. Compreendi que o nosso orientador me proporcionava a recolha de novos ensinamentos e acompanhei o especialista em moléstias nervosas. para observações. A saúde humana é dos mais preciosos dons divinos. em última análise. delibera menosprezá-la. acrescentava: — Segundo sabemos hoje. seguido. com êxito. quase desconhecida. Claro que há erros tremendos em medicina e que não podemos evitar. mas ao cabo de alguns minutos. todavia. constrangido por sugestão exterior que não saberia compreender exatamente. para que a saúde das criaturas não seja prejudicada. porém. O esposo da enferma recebeu o conselho. relacionando drogas e injeções.. Em seguida. Todavia. segundo acredito. da esfera espiritual. em todos os lugares. O médico relutou bastante. dirigiu-se a mim. pela psicoterapia. Gúbio conversou qualquer coisa com o inquisidor desencarnado e. porque. não terá dificuldades para experimentar. contam com amigos espirituais que os auxiliam. de algum modo. não disponho de maior trato com os expoentes do assunto. deixou ali algumas indicações escritas. o pior surdo é aquele que não quer ouvir. sob o riso escarninho de Saldanha. e perguntou: — Poderá orientar-me suficientemente? O psiquiatra recuou. ao auscultar Margarida. possivelmente. Nossa colaboração não pode ultrapassar o campo receptivo daquele . à saciedade. se socorreria da colaboração de colegas eminentes para submetê-la a exame particularizado da lesão cérebro-meníngea. Distanciado agora do lugar em que nosso instrutor travava batalha singular. Quando a criatura. observei que a entidade espiritual recém-chegada e que o assistia. há sempre medidas de proteção à harmonia orgânica. O novo amigo atendia pelo nome de Maurício. cauteloso e contente. em seguida. que dominava amplamente a situação. faz-se difícil o socorro aos seus centros de equilíbrio. por parte de quantos ajudam a marcha humana. ante o idealismo religioso. com simpatia. e obtemperou: — Bem.

E. única maneira através da qual conseguia registrar os pensamentos do companheiro espiritual. Calou-se o informante. contra o nosso desejo. que considera sua propriedade exclusiva. e pude notar que. por vias indiretas. Nesse instante. há cinco anos. mas também a influência perniciosa que a segunda esposa exerce sobre ele. numa expressão profundamente significativa. — Tenho trabalhado tanto quanto me é possível — explicou o novo companheiro — a fim de ambientar aqui o espiritualismo de ordem superior. Acontece. da casa. permanecia transbordante de fluidos desagradáveis. maquinando planos diabólicos e. por isso encaminhamos até aqui. O especialista. com proveito. nem aquela que lhe fora ciumenta genitora. enquanto entravamos. num átimo. mas muitíssimo arraigado à remuneração dos sentidos. ainda não conseguimos retirá-la. . acentuou: — Ah! se os médicos orassem! Nesse instante. de algum modo. lembrando certa publicação técnica.73 que se interessa pela cura alheia ou pelo próprio reajustamento. efetivamente. referentes ao caso de Margarida. por mais que o envolvesse o socorro de Maurício. Via-se-lhe perfeitamente a condição de vaso receptivo da sublevada mente materna. entretanto. Fios tenuíssimos de força magnética ligavam-no à mãezinha infeliz. A residência. a fim de aperfeiçoar-se na tarefa junto à mente enferma. em singular posição de revolta ali se achava. Maurício elucidou. ninguém desculpa e o combate espiritual permanente transforma o recinto numa arena de trevas. Por mais que o nosso trabalho se acentue. o nosso amigo não suportou a viuvez e desposou. Achamo-nos. uma jovem que lhe exige pesado tributo à maturidade respeitável. Tinha as mãos crispadas e o olhar absorto. livros e publicações acerca do assunto. Mesmo assim. começou a articular o aparelhamento mental para exame do assunto que lhe era sugerido. realizamos sempre em favor da saúde geral quanto nos é possível. sem preâmbulos: — Estamos sumamente interessados em que o nosso amigo se enfronhe no trato com as magnas questões da alma. nem ele. Idéias inquietantes e delituosas povoavam-lhe a cabeça. entretanto. em conflito com o pai e com a madrasta. Entretanto. também. alcançamos o ponto de destino. Homem inteligente. moço de seus dezoito anos presumíveis. o médico transpôs o limiar e Maurício colocou sobre a fronte dele a destra generosa. de minuto a minuto. O filho atacou o genitor com recriminações acerbas. lhe invoca a atuação. em vista de se haver demorado excessivamente para o almoço. abraçada a um dos filhos. antecipando-nos. confortável. sem o corpo físico. que a esse problema acresce questão muito grave: a primeira esposa desencarnada deixou dois rapazes e permanece ligada à organização doméstica. ao amigo encarnado sob minha observação. num campo imensamente refratário. não somente preponderam os preconceitos da classe módica. o esforço não logrou êxito. O duelo mental nesta casa éenorme. porque o pensamento dos filhos. que fumava nervosamente numa espreguiçadeira. buscando fornecer-lhe intuições exatas. Ninguém cede. não obstante o formoso jardim que a circundava. se mostravam suscetíveis de receber-nos a influenciação restauradora. O clima doméstico era perturbador. a ex-dona da casa.

daqueles a quem nos propomos auxiliar. terminado o repasto. o nariz e os ouvidos revelavam algo de monstruoso. Recuou semi-espavorida. Alguma semelhança era de notar-se. O traje elegante e sóbrio. Intencionalmente. Maurício convidou-me a espreitar-lhe o repouso e. afinal de contas. Por mais que a convoquemos à preciosa viagem da periferia para o centro. deixam aleijões e sulcos horrendos no campo da alma. então. ali presente em clamorosa revolta. atitudes. Sorriu. A pintura do rosto. e a segunda esposa do médico me impressionou pelo apuro da apresentação. e. com os seus pensamentos. a jovem mulher buscou o sono da sesta. A esposa desencarnada veio igualmente sobre ele. tolerante —. Estampava no semblante os sinais das bruxas dos velhos contos infantis. Halo plúmbeo denunciavalhe a posição de inferioridade. Um homem. contudo. abstendo-se de certo comércio mais intenso com a satisfação egoística da experiência no corpo. os olhos. no intimo. Cada crime. Lembrei-me. tingindo-se-lhe a máscara fisionômica de cólera indisfarçável. e perdeu. Resmungou algumas palavras. enigmático. não lhe vi os mesmos traços fisionômicos na organização perispiritual que abandonava a estrutura carnal. num divã largo e macio. saturadas de indignação. com enorme surpresa. mas o sangue concentrou-se-lhe na região das têmporas. a fim de que ela se amolde aos imperativos da vida que a espera. dele recebi sensata elucidação: — Sim. ajuntou: — E observemos que nos achamos à frente de um homem chamado pelo campo social ao ministério da cura. deixou positivamente evidenciada sua deplorável condição psíquica. aquela dama devia ser das de mais fino trato. A própria esposa desencarnada. o contacto espiritual conosco. tanto quanto cada ação generosa e cada pensamento superior acrescentam . Depois de uma discussão menos feliz com o marido. aturdido mesmo. de todo.74 O esculápio depressa desligou a mente de nossos fios invisíveis. Reparei que o dono da casa não lhe assinalou os punhos ativos no rosto. por si mesmo deveria sentir santa curiosidade perante a vida. do livro em que Oscar Wilde nos conta a história do retrato de Dorian Gray. a imaginação de Wilde não fantasiou. não se animou a enfrentá-la. A boca. na esfera física. meu amigo — disse. mas rodeava-se ela de substância fluidica deprimente. Socialmente. sem dúvida. entregue ao descanso. Porém. como presentemente nos ocorre. endereçando a Maurício olhar indagador. a pequena família se reuniu. palavras e atos criam. diante do problema de Margarida. ao redor da mesa posta. a verdadeira forma espiritual a que se acolhem. precipitando-a no torvelinho das vibrações antagônicas. intelectualizado pela responsabilidade acadêmica. Maurício indicou-o com insofreâvel tristeza e acentuou: — É sempre assim. as jóias discretas e o penteado harmonioso realçavam-lhe a profundez do olhar. a senhora tornara-se irreconhecível. Nesse ínterim. furiosamente. era admirável. a criatura costuma persegui-la até o desgaste completo da forma carnal de que se serve. que adquiria horrenda expressão à medida que o dono se alterava. mas. Muito difícil aproximarmo-nos. na prática do mal e. tentando ocultar-se junto do filho. nosso esforço é quase sempre considerado adiável e inútil. Surgem ensejos valiosos de realização espiritual. além do sepulcro. nossas tentativas redundam em rematada frustração. intimamente. O homem e a mulher. cada queda. No entanto.

a reterão em lastimáveis desequilíbrios. sem fé renovadora. meu tempo disponível esgotara. aprender e transformar-se para o bem. do vaso de carne. acentuou: — Esta irmã desventurada permanece sob o império de Espíritos gozadores e animalizados que. E designando a infeliz que se ausentava de casa. mormente depois da morte do corpo denso. dentro da qual a individualidade real se manifesta. O assunto era realmente fascinante e a llção era imensa. em definitivo. são verdadeiros monstros mentais. O minuto exigia pronto regresso. semi-liberta do veículo material. no fundo. Há criaturas belas e admiráveis na carne e que. Acreditamos que ela. por muito tempo. sem ideais santificantes e sem conduta digna. Entretanto. não se precatará tão cedo dos perigos que corre e somente se lembrará de chorar.75 beleza e perfeição à forma perispirítica. de celestial formosura. quando se afastar. escondendo Espíritos angélicos. na condição de autêntica bruxa. no mundo. . do mesmo modo que há corpos torturados e detestados.

o conhecimento e o dinheiro apenas lhe agravarão os compromissos no egoísmo praticado. no dia imediato pela manhã dispôs-se Gabriel a conduzir a esposa ao exame de afamado professor em ciências psíquicas. Saldanha acompanhou as mínimas providências. em voz quase imperceptível — é atividade comum.76 11 Valiosa experiência Atento à sugestão do médico amigo. encontrávamo-nos todos em vasto salão de espera. Com muito interesse. atendendo a enfermo mental que se revelava. Se o detentor de tão grandes bens não se acha interessado em gastar os recursos de que dispõe. — Fazer psiquismo — falou-me o Instrutor. no intuito de conseguir-lhe cooperação benfazeja. por guardar a mente muito presa aos interesses vulgares da experiência terrestre. mas não oferecia proveito substancial aos que se acercassem dele. a favor da felicidade dos semelhantes. Reparei que os presentes se faziam seguidos de grande número de desencarnados. Alguns minutos antes das onze do dia. sem desagarrar-se da jovem senhora. admirável expoente de fenômenos. a seu parecer. portador de dons medianímicos notáveis. através de autoridade diferente no assunto. entraríamos em contacto com o psiquista lembrado. no sentido de manter Margarida sob severa custódia pessoal. Embora visivelmente preocupado. como quem sabia. é quase irrestrita. aguardando a chamada. na distração inoperante ou na perda lamentável de tempo. Em breve tempo. Demorava-se o professor em gabinete isolado. notamos que o esposo da obsidiada não oferecia receptividade mental que nos favorecesse a modificação desejável. porqüanto. Todo o nosso esforço sutil para colocá-lo noutro caminho redundou em fracasso. tão comum quanto qualquer outra. Em vista da férrea disposição de Saldanha. que a liberdade dos homens. no terreno da consulta. Apesar da oportuna observação. Gúbio demonstrou profundo desagrado. é o mesmo que entrar em contacto com os donos de soberba fortuna. alegando interesse . de longe. que tudo faria por impedir a providência que sômente seria profícua e aconselhável. Para definir corretamente. de nosso lado. então. discreto. Visitar medianeiros de reconhecida competência no trato entre os dois mundos. prestando pouca atenção à nossa presença. O essencial édesenvolver trabalho santificante. Pude reparar. aqui nos achamos para ajudar e servir. Gabriel não sabia cultivar a meditação. a casa inteira mais se assemelhava a larga colmeia de trabalhadores sem corpo físico. Entidades de reduzida expressão evolutiva iam e vinham. O professor indicado era. Acompanharemos o casal nessa nova aventura. de antemão. o nosso Instrutor. comentou o orientador: — De qualquer modo. os sucessos que se desdobrariam. asseverando-me. Mais três grupos de pessoas ali se congregavam em ansiosa espera. senhores de faculdades magníficas no setor informativo. pelas frases desconexas que proferia em alta voz. segundo a opinião do nosso desvelado orientador.

quais tempestades que se sucedem furiosas. Sentindo-nos as interrogações silenciosas do olhar. Gúbio passou a reparar conosco outro caso. somos condenados ou absolvidos. dentro de nós mesmos.. o remorso abriu-lhe grande brecha na fortaleza em que se entrincheirava. Gúbio observava-o meticulosamente. Suor frio lhe banhava a fronte e extrema palidez. Durante alguns anos. Chegado o tempo de meditar sobre os caminhos percorridos. Revelava-se torturado por visões pavorosas no campo íntimo. Registrei-lhe as perturbações cerebrais e vi. quebraram-lhe a fantasiosa resistência orgânica. Sobrevindo a crise. em que um cavalheiro de idade madura. em que respeitável senhora se sentava ao lado de jovem clorótica. cada pensamento de Indignação das vítimas passou a circular-lhe na atmosfera psíquica. libertadas de súbito pela aflição e pelo medo. detendo-se no exame acurado dos consulentes. As forças acumuladas dos pensamentos destrutivos que provocou para si mesmo. Os mais vulneráveis sofreram consequências terríveis. Não soube deter o bastão da responsabilidade. conseguiu manter o remorso a distância. sob forte assombro. escuras e diferençadas entre si. na intimidade dos primeiros sintomas de senectude corporal. com traços de terror. Acercamo-nos de acolhedora poltrona. Transcorridos alguns instantes. energias desequilibradas da mente em desvario vergastaram-lhe os delicados órgãos do corpo físico. atormentado pelo que fêz e pelo que tem sido. Só a extrema modificação mental para o bem poderá conservá-lo no vaso físico. dando mostras de evidente moléstia nervosa. falou-nos em voz sumida: — Vejamos a que calamidades fisiológicas podem os distúrbios da mente conduzir um homem. talvez para não acordar demasiada atenção em Saldanha e em outros Espíritos menos educados que nos contemplavam curiosamente. parecendo-me avó e neta. quanto à solução possível naquele enigma doloroso. conferir-lhe-á diretrizes superiores. aderindo-lhe à organização perispirítica. permanecia ladeado por dois rapazes. todavia. decerto nos preparando valiosos ensinamentos. Dele abusou para humilhar e ferir. Não apenas o sistema nervoso padece tortura incrível: o fígado traumatizado inclina-se para a cirrose fatal. mas também a convivência constante de entidades de péssimo comportamento que mais lhe arruinaram o teor de vida mental. Dois Espíritos de aspecto sinistro . Permanece dominado pelos quadros malignos que improvisou em gabinetes isolados e escuros. afastou-se um tanto. Por intermédio dela. em nossa companhia. através da conduta irrefletida a que se entregou levianamente. está perseguido por si mesmo. a pretexto de salvaguardar a harmonia social. com esforço de reforma persistente e digna da vida moral mais nobre. Com a maneira cruel de proceder atraiu. Abeiramo-nos de um divã. somente acessíveis a ele mesmo. não só a ira de muita gente. lhe exteriorizava a lipotimia. Achava-me interessado em que o nosso Instrutor se pronunciasse. O assunto era sedutor. mas. no fundo. Temos sob nosso olhar um investigador da polícia em graves perturbações.. dotando-o de forças imprescindíveis àauto-restauração. esperando ensejo de fazer-se sentir. Fotografa as imagens de nossas ações e recolhe o som de quanto falamos e ouvimos. o orientador acentuou: — Este amigo. pelo simples gosto de espancar infelizes.77 na sondagem do ambiente. esbarrondando a represa frágil com que se acredita conter o impulso crescente das águas. A memória é um disco vivo e milagroso. as várias formas ovóides. uma fé renovadora.

Exige renovação interior e. de humilde aspecto. Indicando o enfermo. reportando-se a projetos de vingança. O ex-marido ultrajado. — Encontrará remédio adequado? — interrogou Elói. Em casos de obsessão como este. que lhe absorvem az emanações e trabalham cegamente sob suas ordens. De imediato. seríamos singularmente favorecidos por ensinanlentoS novos se persistíssemos no estudo em foco. exclamando de maneira discreta: — Já lhes identifiquei. Ei-los. Desposou um homem e desviou-lhe o irmão para vicioso caminho. todavia. nos endereçava olhar indagador e era preciso seguir adiante. se mantinham em silêncio. com todas as características de idiotia e inconsciência. Não adianta retirar a sucata que perturba um imã. tanto para o bem quanto para o mal. entretanto. . que proferia disparates. ao que acredito. Buscamos o recanto mais escuro do salão. dispomos no recinto de vigoroso operador mediúnico. demonstrava sinais de profunda inquietação. mentalmente cristalizadas no propósito de desforra. Assalariou ele algumas dezenas de Espíritos desencarnados. Esta menina comprometeu-se gravemente no pretérito. Junto deles se encontrava uma entidade desencarnada. dirigiu-se a Gúbio. ambas as vítimas de outro tempo. ao lado dela para deplorável vindha. a avôzinha preparou-lhe um casamento nobre.78 rodeavam a menina. com agradável surpresa para mim. em que a paciente ainda pode reagir com segurança. Muito pálido e abatido. — Não me parece muito bem encaminhada — elucidou o nosso dirigente. Efetivamente. É infinita nos séculos infinitos. receando deixá-la no mundo entregue a si própria. não falava por si. Gúbio examinou-a com a atenção habitual e informou: — Encontramos aqui doloroso drama do passado. Tomei-a por parte integrante da vasta coleção de Espíritos perturbados que ali funcionava. em idade madura. de educação incipiente. sem resultado. reconhecemos que um deles guardava indiscutível desequilíbrio orgânico. Achava-se absolutamente controlada pelos pensamentos dele. quando o próprio ímã continua atraindo a sucata. sem presunção. A matrona aflitivamente aguardava o instante da consulta. A vida não pode ser considerada na conta estreita de uma existência carnal. entretanto. em fase primária de evolução. pelo tom vibratório. Segundo estarão informados. presentemente. qual se devesse estar custodiada por guardas tirânicos. O primeiro suicidou-se e o segundo asilou-se no fundo vale da loucura. não obterá nesta casa senão ligeiro paliativo. sem iluminação interior de maior vulto. Abrange a eternidade. acentuou: — Venho aqui na defesa deste amigo. subjuga-a e requisita-lhe a presença na esfera em que se encontra. buscam impedir-lhe a união esponsalicia. Enche-lhe a mente de ideias dele. sob forte impressão. Certamente já peregrinou por diversos consultórios de psiquiatria. em vésperas de concretização do plano benéfico. à maneira de magnetizado e magnetizador. e vem até aqui procurando socorro. a posição de amigos do bem. ainda não conseguiu esquecer-lhe a falta e ocupa-lhe os centros da fala e do equilíbrio. Saldanha. Na atualidade. de longe. faz-se indispensável o curso pessoal de resistência. Fios tênues de energia magnética ligavam-lhe o cérebro à cabeça do irmão infeliz que se lhe mantinha à esquerda. Permanece a pobrezinha saturada de fluidos que lhe não pertencem. onde dois homens. A jovem. A doente ria sem propósito e conversava a esmo.

para verificar até que ponto havia sofrido os golpes mentais em serviço. pela assistência espiritual edificante de que possa desfrutar. acrescentou: — Nesta casa. Com fina sagacidade asseverou que era necessário evitar a piedade do médium e confundir-lhe as observações. preparando-selhe. Em seguida à elucidação que me surpreendeu. explicou. sem cessar.79 Sorrindo. despertados por sua ação enérgica e educativa. em troca do favor. com respeito ao doente. incapaz de usar o algodão da ternura em feridas alheias. que a grande corrente de perseguidores. Na condição de mordomo e disciplinador. através de todos os recursos possíveis. com isso. Semelhantes ataques de forças imponderáveis visaram-lhe igualmente o fígado e o baço. um choque operatório. mas sem armas de amor na própria defensiva. o enfermo não é amparado pelo socorrista de que se vem valer e. adquiriu ódios gratuitos e silenciosas perseguições que lhe vergastam a mente. Cabia-nos a execução de deveres importantes e precisávamos retornar ao Saldanha. rogou a presença de um dos colaboradores mais influentes e apareceu diante de nós a esquisita figura de um anão de semblante enigmático e expressivo. de ânimo firme. eu gostaria de levar a efeito um exame no paciente. mas o olhar de Gúbio se fizera imperativo. O serviçal manifestou indisfarçado contentamento e assegurou que o médium não perceberia patavinas. gentil: — Este companheiro é austero administrador de serviços públicos. mas também a outros auxiliares no assunto excelente remuneraçãO em colônia não distante. Francamente. Acontece. no sentido de obstar a operação cirúrgica e confio na vitória de minha tarefa. acompanhei o desenrolar dos acontecimentos. acolheu-nos sem desconfiança. porém. apresenta consideráveis prejuízos nas veias coronárias. na intimidade. onde conhecêramos Gregório. comunicou ao nosso Instrutor que resolvera solicitar a neutralidade dos servos espirituais do professor operante. desassombrado. O problema de Margarida era complexo e competia-nos enfrentarlhe a solução. Logo à entrada do gabinete. Expedito. percebi que a oficina não inspirava segura . Recebi instruções. com largas promessaS1 quanto lhe poderia proporcionar em regalo e prazeres no cortiço de entidades perturbadas e ignorantes. O plano foi admiravelmente bem delineado. com perigosos reflexos no sistema circulatório. sim. O obsessor da infortunada senhora. Prometia-lhe. Com justificada curiosidade. desde muitos anos. que o assistem. E descreveu-lhe. E porque eu indagasse. Entretanto. que lhe imporá a morte inesperada do corpo. que se revelam em lamentáveis condições. esclarecendo que o operador da casa não deveria penetrar o problema de Margarida. a necessidade de uma intervenção na vesícula biliar. por reajustar a concepção de funcionários relapsos. buscaremos socorrê-lo através do médium que deliberou visitar. conseguiu insinuar nos médicos. zona menos resistente do seu cosmos físico. Lutando. sentindo-nos o concurso espontâneo. Assumindo ares de pessoa superinteligente. não só a ele. Saldanha pediu-lhe cooperação sem rebuços. pelo bem que existe no fundo da severidade com que o nosso companheiro tem agido.

por enquanto. os Espíritos que se alimentavam de seu esforço. podíamos analisar os fatos. através de todos os poros. O intercâmbio ali. pode ouvir-lhes os pareceres e registrar-lhes as considerações. dentro do Universo. das narinas. se podia controlar. notificando-nos. é a energia plástica da mente que a acumula em si mesma. se resumia a negócio tão comum quanto outro qualquer. Permanece em perfeito contacto com os Espíritos que o assistem e que encontram nele sólido sustentáculo. quando é inestimável recurso de auto-aprimoramento. Sem detença. mas não vemos aqui qualquer sinal de sublimação na ordem moral. na maioria das vezes. o “fluido magnético” de Mesmer e a “emanação ódica” de Rei chenbach. exigindo adiantadamente de Gabriel significativo pagamento. prazeroso. de algum modo. era também facilmente controlado por eles. Cada ser vivo éum transformador dessa força. porém. sorviam-na a longos haustos. Saldanha. semelhante a vapor fino e sutil. É o “spiritus subtilissimus” de Newton. tomando-a ao fluido universal em que todas as correntes da vida se banham e se refazem. aos trâmites da ação mediúnica. mas entendem-na e utilizam-na sômente aqueles que a exercitam através de acuradas meditações. ponderei: — É forçoso convir. Examinando a paisagem. mas muito particularmente da boca. inabordável. como que povoava o ambiente acanhado e reparei que as individualidades de ordem primária ou retardadas. a criatura foge à luta que interpreta por sofrimento e aflição. sintoniza-se com as emissões vibratórias das entidades que o acompanham em posição primitivista. Entretanto. de perto. que este vidente é vigoroso na instrumentalidade. No fundo. entre as duas esferas. sublimá-la. anunciou-nos que presidiria. sereno —. adiando a própria santificação. Gúbio esclareceu-nos em voz imperceptível aos demais: — Esta força não é patrimônio de privilegiados. quanto se nutre o homem comum de proteína. excessivamente atarefado. engrandecê-la e divinizá-la. dos ouvidos e do peito. É propriedade vulgar de todas as criaturas. em companhia de Gúbio. caminho único de nossa aproximação do Criador. reconheci que o médium. ao homem comum. recolhendo preciosa lição. que coadjuvavam o médium em suas incursões em nosso plano. segundo o potencial receptivo e irradiante que lhe diz respeito. que lhe fora hipotecada plena ajuda das entidades ali dominantes. desenvolvê-la. enriquecê-la. Entretanto. Vendo a cena que se desenrolava. O professor pôs-se imediatamente a combinar o preço do trabalho de que se encarregaria. para aprender a usá-la.80 confiança. sustentandose dela. O professor de relações com a nossa esfera. centenas de vezes. Aquela força. carboidratos e vitaminas. colocou-se o vidente em profunda concentração e notei o fluxo de energias a emanarem dele. O recinto jazia repleto de entidades em fase primária de evolução. nos mais diversos reinos da natureza. — Sim — confirmou o orientador. Nasce o homem e renasce. Depois de visivelmente satisfeito no acordo financeiro estabelecido. isto . Em razão disso.

reparamos que o médium. — Volte. Não há tempo a perder. Perante o quadro que nos era dado apreciar. meu amigo — asseverava. Bastar-lhe-á o socorro médico. sem comportas. ausente do envoltório carnal. a fim de que nos encontremos. Sistema nervoso em frangalhos. não teria gosto para tergiversações. não. sensibilizado. justamente a argumentação do assalariado mais inteligente. Pode ser um cooperador valioso em certas circunstâncias. num serviço de elevação para o Supremo Pai. fàcilmente. Estes não se animariam a comprometer grandes instruções por intermédio de servidores. isto não! Esclareça o problema. a eles mesmos e que. Se nosso concurso fôsse eficiente. Temos aqui um médium de possibilidades ricas e extensas. os companheiros de ideal cristão. O caminho da oração e do sacrifício é. ousei dirigir-me discretamente a Gúbio. através de padrões morais nobilitantes. se punha a ouvir. — Não seria lícito algo tentar em favor dela? — tornou o psiquista. — Não é uma obsidiada vulgar? — inquiriu o médium. se convertem em instrumentos passivos dos seus desejos e paixões. em alguns casos. André. porque. corporificados na Crosta da Terra. realmente. jactancioso. Esta senhora é candidata aos choques da casa de saúde. A essa altura. Desfazer-se alguém do veículo de carne não é iniciar-se na divindade. pelo simples comércio vulgar a que reduziu a movimentação de suas faculdades. ao médium desdobrado —. atencioso. da renúncia edificante. que não vacilam em vender as essências divinas em troca de recursos amoedados da luta comum. portanto. O interpelado riu-se numa tranquilidade de pasmar e rematou: — Ora. Entretanto. não acorda impressões construtivas naqueles que o buscam. quando o homem apenas confia na estreiteza da sua própria observação. enquanto a renúncia e a . constitua a nota fundamental de nossas atividades no psiquismo transformador. Saldanha endereçava-lhe um sorriso de satisfação. em todos os círculos de luta. se a virtude é transmissível. — Não. Há bilhões de Espíritos em evolução que rodeiam os homens encarnados. o imperativo de muita capacidade de sublimação para quantos se consagram ao intercâmbio entre os dois mundos. Nesse ínterim. ora. muito inferiores. você deve saber que. Jamais endossaremos um Espiritismo dogmático e intolerante. É imprescindível. sem disciplina. àfrente de legítimo fenômeno dentro do qual uma individualidade encarnada recebe os pareceres de outra.81 não basta. os males são epidêmicos. dilatando-lhe as energias e enobrecendo-as. porém. indispensável ainda a quantos se propõem dignificar a vida. mas não é o trabalhador ideal. cuja cooperação Saldanha requisitara. A prece sentida aumenta o potencial radiante da mente. do espírito de serviço e fé renovadora. bem intencionados embora. vão compreendendo agora que o fenômeno em si é tão rebelde quanto o rio encachoeirado que rola a esmo. aprovando o alvitre e fazendo-nos sentir como é possível enganar a muitos. cada criatura tem o seu próprio destino. indagando: — Não nos achamos diante de autêntica manif estação espiritista? — Sim — confirmou em tom grave —. que o clima da prece. individualmente. que. Nada mais. Daí. suscetível de provocar o interesse dos grandes benfeitores da Vida Superior. desligado do corpo físico. algo hesitante. e diga ao esposo de nossa irmã doente que o caso orgânico é simples. O enigma é de medicina comum.

O casal agradeceu. guardei respeitoso silêncio. É por esta razão que pugnamos pelo Espiritismo com Jesus. Não basta. humildemente. imprimir-lhe direção divina. exteriorizar a força mental de que todos somos dotados e mobilizá-la. e. abraçou os cooperadores. com que disfarçava a aflição extrema. É indispensável. notificou-nos em voz firme: — Vamos. e acompanhou-o. comovidamente. o professor recomendou à enferma resistência e cautela. ante OS estados mentais depressivos. . finalizando a operação simplesmente técnico-mecânica de contacto com a nossa esfera. à nossa vista. Endereçou-lhe Gúbio triste sorriso. acima de tudo. extremamente impressionado. combinou ocasião de encontro amistoso. Saldanha. dessa maneira.82 bondade educam a todos os que se lhes acercam da fonte. que tão bem haviam desempenhado a deplorável tarefa. e. Abriu os olhos. a fim de comemorarem o que se lhes figurava significativo triunfo e. única fórmula de não nos perdermos em ruinosa aventura. amigos! quem começa a vingança deve marchar seguro até ao fim. em seguida. sem qualquer resultado no capítulo de elevação espiritual que lhe melhorasse o ambiente. reajustou-se na cadeira e informou a Gabriel que o problema seria solucionado com a colaboração da psiquiatria. enraizada no Sumo Bem. enquanto se articulavam as despedidas. A jovem senhora recebeu as observações com o desencanto e a dor de quem se sente alvejado pelo sarcasmo. O vidente retomou a gaiola física. pronunciados à meia voz. Compreendi os preciosos argumentos do Instrutor. Comentou a situação precária dos nervos da doente e chegou a indicar um especialista de seu conhecimento para que novo método de cura fôsse tentado. e partiu.

ao passo que a genitora enlaçava o enfermo. Irene. Saldanha manifestou o propósito de visitar o filho hospitalizado. Concentradas nas forças do infeliz. Fluidos semelhantes a massa viscosa cobriam-lhes todo o cérebro. Mostrava as mãos feridas. efetivamente. exibindo ambas sinais iniludíveis de atormentada introversão. que até ali se nos afigurara impermeável e endurecido. E franzindo o sobrecenho. coladas ao rosto imóvel. na intenção evidente de ser agradável —. Não houve relutância. entretanto. não me compreendem. apresentando o quadro perfeito de quem vivia sob dolorosa aflição de envenenamento. vencidas pela ternura inoperante. algumas horas transcorreram tocadas para nós de singular expectativa. acentuando-se nas zonas motoras e sensitivas. relegadas a reajuste cruel. cortou-lhe o rumo das impressões destrutivas. certamente. Entre variadas vítimas da demência. acrescentou: — Raras mulheres sabem conservar a fortaleza nas guerras de revide. indagando. a posição de Jorge era de lamentar. transtornado agora por insofreável rancor. junto à doente. rumamos para o hospício. Nossas irmãs não . revelavam-se integralmente subjugadas pelos interesses primários da vida física. o rapaz tresloucado e abatido quem mais inspirava compaixão. Jaziam igualmente estiradas no chão. desde a extremidade da medula espinhal até os lobos frontais. acedeu. no cimento gelado de cela primitiva. em profunda hipnose. Corações de porcelana. porém. à noitinha. Com espanto. Não era. como se houvessem atravessado violento acesso de dor. letárgicas quase. otimista. trazia a destra jungida à garganta. embora me fixem. a suicida. nem me reconhecem. Agarradas a ele. desejando anular as vibrações de cólera no companheiro. quebrados fàcilmente. sucumbem ràpidamente. Encontramo-lo de bruços. — Estão loucas — informou Saldanha. Guardadas rigorosas precauções por parte de Saldanha. pesaroso: — Demoram-se. contemplou o filho com visível angústia nos olhos velados de pranto e elucidou com infinita amargura na voz: — Está. um dos dois implacáveis hipnotizadores. de olhos parados nele. repousando depois de crise forte. por Leôncio. Em geral. O genitor. algo surpreso. que se fêz substituir. Guardam o comportamento de crianças. quanto ao móvel de semelhante solicitação: — Quem sabe se poderemos ser úteis? — respondeu Gúbio. reparei que o nosso Instrutor lhe pedia permissão para que o acompanhássemos. a mãezinha e a esposa desencarnadas absorviam-lhe os recursos orgânicos. contudo. como se a personalidade de Jorge representasse a única ponte de que dispunham para a comunicação com a forma de existência que vinham de abandonar. ligadas ao circulo vital que lhe era próprio. confirmando. quando fustigadas pela dor. Nosso orientador. O perseguidor de Margarida.83 12 Missão de amor Voltando a casa.

logo que as suponho livres. — Como não? — falou quase gentil. tecidos por ele mesmo. num impulso análogo ao das agulhas que um Imã recolhe a distância. que amava por filha espiritual. acomodou no regaço paternal as cabeças das três personagens daquela cena comovente de dor. Se insisto. mas a memória e a atenção parecem mortas. A atmosfera para nós se fizera sufocante. hipnotizado por ambas. ansioso por Infundir-lhes vida nova com que me possam auxiliar na vingança. não expeliram as “forças coagulantes” do desalento. movem-se e se lastimam. qual acontece ao viajante que inicia a travessia de vasta corrente de águas turvas. Gúbio sentou-se no piso cimentado e. — É o que procuro realizar inutilmente. emocionando-o nas fibras mais íntimas. vive entre alucinações e desesperos. cotejando-a com a da câmara em que Margarida experimentava aflição e tortura. Pela ausência de trabalho mental contínuo e bem coordenado. ultrapassar o pesadelo do sofrimento. e. formadas pelos pensamentos em desequilíbrio de encarnados e desencarnados que perambulavam no local. que elas mesmas produziram. desânimo e sofrimento. no transe da morte. nas horas finais do corpo denso.. Drenado incessantemente nas reservas psíquicas. indagou: — Saldanha. entidades de repugnante aspecto se arrastavam a esmo. Mostravam algumas características animalescas. vejo baldado todo esforço. Nas celas contíguas. O obsessor de Margarida registrou as observações. em deplorável posição. porqüanto regressam Imediatamente para Jorge. todas as preocupações afetivas. Aquele gesto espontâneo do nosso orientador desarmava-lhe o coração. não conseguem entender-me. combinaram as próprias energias com as forças torturadas dele e aquietam-se.84 conseguiram. contemplei a paisagem ao redor. Ligadas ao filho e esposo. Com sincera disposição de servir. Confrontando as situações. dentro do qual se alimentam das energias do enfermo. através de longas frases desconexas. ao trabalho de . saturada de nuvens de substâncias escuras. sem reservas. o doente. Em verdade. endereçando olhar amigo ao algoz da mulher que pretendia salvar. como acontece ao “Bombyx mori” imobilizado e dormente sob os fios. Os impedimentos aqui eram muito mais difíceis de vencer. num gesto de extrema bondade. Impressionado com a lição que recebíamos.. mais calmo: — Por mais que eu me procure insinuar. a julgar pelo sorriso que lhe inundou o semblante até então desagradável e sombrio. com indiferença. permite-me algo fazer em benefício dos nossos? A fisionomia do perseguidor modificou-se. objeto que lhes centralizou. a custo. ali. de pasmar. por enquanto. mostram-se temporariamente esmagadas de pavor. — Sim — corroborou o nosso diretor —. gritando-lhes meu nome aos ouvidos. ante os imperativos da luta normal na Terra e entregaram-se. O cubículo transbordava imundície. para entregar-se. que o observava espantadiço. aflitivamente. inconformadas. carregando-as. demonstrando indisfarçável surpresa no olhar e acentuou. sem recursos para alcançar a outra margem. a deplorável torpor. no centro dos fluidos que lhes constituem criação individual. monologava mentalmente: por que motivo singular não operara nosso orientador no quarto da simpática senhora. naturalmente incompreensíveis para quantos o rodeiam.

alçando o pensamento ao Alto.. sob nosso olhar comovido. Nosso Instrutor valeu-se daquele minuto de simpatia e. ajudaste-a com fraternas mãos. em profundo abatimento. os que causam a cegueira... endereçou novo olhar ao verdugo de Margarida. entretanto.. a beleza emocionante e sublime do ensinamento evangélico: “Ama o teu inimigo. sem rumo. a enfermidade e o desânimo. o fariseu orgulhoso.. para amaldiçoarmo-nos... o Mensageiro Imaculado. parecendo liberar cada uma dos fluidos pesados que as entorpeciam. acreditas em semelhante panaceia? Mas... ouvimos rogativas em beneficio dos que obedecem.85 assistência cristã? Vendo-lhe. aduziu. confundido: — Sim.. sim. Misericordioso amigo. no entanto. humilde: — Senhor Jesus! Nosso Divino Amigo. não desprezaste a mulher transviada. Não menoscabaste a jactância dos doutores e conversaste amorosamente com ele. Espíritos endividados. no templo de Jerusalém. através da ação do mentor magnânimo. porque o teu amor é perfeito e infinito. Senhor. raríssimos corações Imploram concurso divino para os fortes. tua justiça não falha. Há muitos que rogam pelos fracos para que sejam. mas raros se lembram de auxiliar os perseguidores! Em toda parte. que lhe analisava os mínimos gestos com dobrada atenção. sim.. Não desamparaste os malfeitores. é dificil surpreendermos uma súplica em favor dos que administram. socorridos. Não condenaste os afortunados e. faze-nos sentir as dificuldades daqueles que nos atormentam para que saibamos vencer os obstáculos em teu nome. Quando atormentados. se querem. não te agastarias se eu orasse em voz alta? A pergunta obteve os efeitos de um choque. Mestre. pouco a pouco. Se Tu. não nos deixe. assim procedeste na Terra. buscas. as vítimas do mal. porque amparas. Decorrida meia hora na evidente operação magnética de estimulo. os pecadores. perdoa setenta vezes sete”. no dia da cruz.. doentes e desalentados da sorte. a solicitude na solução do problema afetivo que atormentava o adversário. — fêz o interpelado. Há sempre quem peça pelos perseguidos. quem somos nós.. deprecou.. Em casa de Simão. sentindo-nos. — Oh! oh!. Conheces aquele que fere e aquele que é ferido. porém. e interrogou: — Saldanha. ora por aqueles que te perseguem e caluniam. de pronto. Gúbio. aceitaste a companhia de dois ladrões. os infieis e os injustos. uns aos outros? Acende em nós a claridade dum entendimento novo! Auxilia-nos a interpretar as dores do próximo por nossas próprias dores. afagava a fronte das três entidades sofredoras. surpreendido —. Nunca te inclinaste tão somente para os cegos. Se salvas. abençoaste-lhes as obras úteis. Não julgas pelo padrão de nossos desejos caprichosos. na hora justa. igualmente. a fim de que sejam bem conduzidos. em verdade. entendi. a tempo. relegados à limitação dos . a infinita boa vontade.

86 nossos próprios sentimentos. Senhor. tensos jorros de luz projetavamse em torno dele. senão transformar o amor em ódio. que te suplicamos a bênção! Desata-os. aspira ao clima da verdadeira paz... que arrancara ao próprio coração. fora do sacrifício. o orientador interrompeu-se. por Isto. perante nosso aturdido olhar. em seguida. Possam eles sentir-te o desvelado carinho. Gúbio aplicou passes magnéticos em cada um dos três infelizes e. liberta-os para que se equilibrem e se reconheçam. Acrescenta-nos a fé vacilante. quando comparados contigo. finalmente. inconscientemente. gradualmente.. que despediam raios luminosos de intenso azul. recearíamos estender dadivosas mãos aos que nos não entendem ainda?. expulsaram as partículas obscuras de que se havia tocado. embora permaneçam supliciados no vale fundo de sentimentos escuros e degradantes. Mestre da caridade e da compaixão. Findo o intervalo. que nos possa facultar o anelado crescimento para os mundos divinos. tanto quanto Saldanha que recuara. nós outros. As vibrações vigorosas daquela súplica. que somos irmãos uns dos outros. porque não sabemos. quando os teus desígnios se modificam. Por que razão.. a fim de compreendermos. através das incompreensões que nos são próprias. Ajuda-nos a converter o ódio em amor. fêz incidir toda a luminosidade que o envolvia sobre as três criaturas que asilava no regaço e exorou: — É para eles. legaste o tesouro do conhecimento divino aos que te crucificaram e esqueceram. Impele-nos à compreensão do drama redentor a que nos achamos vinculados. e nossa mente. para os que repousam aqui em densas sombras. Senhor.. Gúbio transformara-se. ao mesmo tempo que formoso fio de claridade incompreensível o ligava com o Alto. falou ao rapaz encarnado: . em nossa condição de inferioridade. Parecia ocultar desconhecido alampadário no peito e na fronte. Nesse ponto. a nosso respeito. Temos o coração chagado e os pés feridos na longa marcha.. ressurgiste para os discípulos que te fugiram.. e sublimada luz brilhava-lhe agora no semblante que o pranto de amor e compunção irisava com intraduzível beleza. míseros vermes do lodo ante uma estrela celeste. Ajuda-os a se aprimorarem nas emoções do amor santificante. Ensina-nos que não existe outra lei. aterrado. Elói e eu tínhamos os olhos turvos de lágrimas. para um dos ângulos escuros da cela triste. infunde-nos o dom de nos ampararmos mutuamente. protegeste os que te não compreenderam. quando penetrávamos a colônia penal em que conhecêramos Gregório. Beneficiaste os que não creram em TI. porque também te amam e te buscam. descortina-nos as raízes comuns da vida. com a mesma aflição por que o viajor extenuado no deserto anseia por água pura. atirados por mãos invisíveis aos nossos olhos.. olvidando as paixões inferiores para sempre. Com perceptível emotividade. O Instrutor imprimira tocante inflexão aos últimos lances da rogativa.

passou a interessar-se pela companheira de infortúnio. no entanto. a presença do marido.. a sofredora mãe. liberando-lhe a economia psíquica. salva-me!. mas procurou o leito singelo onde se aquietou com inesperada serenidade. Inquietação e tristeza desapareceram-lhe do rosto. cêleremente. distribuindo vigorosas energias aos centros cerebrais da criatura que continuava abatida. em crise de desespero.. Num impulso maquinal. gemendo: — Onde estou?. Recompondo-se. A interferência do benfeitor quebrara os elos que o prendiam às parentas desencarnadas. com o poder de despertamento que lhe era peculiar. eu ainda não aprendi a ser útil. acalma-te... sem afetação: — Saldanha. medidas salvacionistas. mas antes que pudesse tomar-lhe as mãos. com as maneiras de uma criança humilhada que reconhece a superioridade do mestre. significativamente: — Iracema. derramava agora abundantes lágrimas e buscava o olhar de Gúbio. depois de ausência longa. O obsessor da doente que nos interessava de mais perto. faltando à palavra amorosa e confiante de outro tempo. instintivamente. — Em que mau sonho me demorei? — indagava a desventurada irmã.. ao lado.. Crendo a custo tratar-se da nora. parecendo acordar de pesadelo angustioso. obedeceu à ordem recebida.87 — Jorge. Vencido nos melhores sentimentos de que era detentor. o algoz de Margarida aproximou-se do nosso dirigente. em lágrimas: — Meu filho! meu filho!. para osculá-las talvez. nomeou-o por apelido carinhoso de família e bradou. levanta-te! Estás livre para o necessário reajustamento. tangido nas fibras recônditas do ser. ela perguntou a Saldanha porque emudecera.. gradualmente. Nosso Instrutor dirigiu-lhe palavras encorajadoras e indicou-lhe o filho que descansava. ao que o verdugo de Margarida respondeu. Não sei confortar ninguém. sem palavras. A essa altura. num grito terrível. a nora de Saldanha ergueu-se. apelou aflita: — Irene! Irene! Interveio Gúbio. Presenciando o acontecimento. desvairada de emoção: — Socorre-me! onde está nosso filho? nosso filho? Passou.. logo após. Saldanha gritou. Afagou a cabeça de Iracema e a infortunada mãe de Jorge voltou a si. rogando-lhe. acrescentava: — Temo o demônio! temo o demônio! Ó Deus meu! salva-me. para a fraseologia particular de quem reencontra um ser amado. . pediu-lhe Gúbio. Reparando. bem ao nosso lado. então desperta. que se lhe fizera irreconhecível. O doente não registrou as exclamações nascidas do entusiasmo paterno. chorando convulsivamente — que cela imunda é esta? Será verdade que já atravessamos o túmulo? E. Transcorridos alguns instantes. que fazia a mão direita movimentar-se sobre a garganta. O interpelado arregalou os órgãos visuais. erguendo-se com absoluto controle do raciocinio. Nossas amigas despertarão agora.

. morri? a morte é uma tragédia pior que a vida? — clamou. de modo a prestar-lhes todo o serviço que desejas. voz para suplicar? — A revolta consumiu-me. estentórica: — Jorge. ruidosamente.. implorou: — Ouve! atende-me! onde dormi tanto tempo? Nossa filha! onde está? O interpelado. sobretudo. as portas de tua casa no mundo cerraram-se para tua alma com os olhos do corpo que perdeste. Meu esposo permanece encarcerado injustamente.. reintegrado nas próprias faculdades e exclamou. acalmando-a. sereno —.. Não guardava a menor idéia de que seu corpo físico se desfizera no túmulo. Não me escuta. não me atende. um momento de rebeldia põe .. Jorge! ainda bem que o veneno nao me matou! Perdoa-me o gesto impensado. prosseguiu na mesma atitude fleumática e impassível de quem ajuizava com dificuldade a própria situação.. solícito —. desesperada. — explicou a desventurada.88 Sentia dificuldade em articular a voz. Por minha vez. esfacelando o vaso sagrado que o continha? nunca ouviste o choro dos que padeciam mais que tu mesma? jamais te inclinaste para registrar as aflições que vinham de mais fundo? porque não auscultaste o silencioso martírio daqueles que não possuem mãos para reagir.. Estará por certo dementado... foi acolhida em outro lar. Era o tipo da sonâmbula perfeita. pernas para andar. Curar-me-ei para vingar-te! Assassinarei o juiz que te condenou a tão cruéis padecimentos! Observando. respondeu-lhe com voz triste. minha filha! — Sossegar-me? eu? — protestou a infortunada — não posso! Quero tornar a casa.. prosseguiu. não obstante acariciar-lhe a fronte assustadiça: — Filha. comovido: — Porque atiraste fora o remédio salvador. Depois do sepulcro. vigilante. Adiantou-se na direção do esposo. todavia. que te refaças. Teu esposo jaz liberado dos compromissos do matrimônio carnal e tua filha. sinto a garganta carcomida de veneno mortal. de alguma sorte. Esta grade me asfixia. — Sim — confirmou o Instrutor. Embora despertada. — A morte é simples mudança de veste —elucidou Gúbio. segurou-lhe ambas as mãos com a destra e com a mão esquerda ministrou-lhe recursos magnético-balsâmicos sobre a glote e. elucidando: — Aquieta-te. presa de angústia infinita. ao longo das papilas gustativas... A desditosa criatura rojou-se de joelhos. que se lhe desligara da influência direta nos centros perispirituais. soluçando. Nosso orientador. por quem é! reconduza-me ao lar. É indispensável. contudo. que o esposo não reagia. Cavalheiro. ao contrário do que esperava. acordando de súbito. quero minha filha e um médico! Nosso orientador. Foi ainda Gúbio quem se abeirou de Irene. não encontramos senão o paraíso ou o inferno criados por nós mesmos. Sufocava-se... — Então. somos o que somos. E adoçando a voz para conversar na condição de um pai.. a suicida não mostrava a relativa consciência de si mesma. pois. desde muito.

Se o horizonte. se faz mais longínquo. antes. aceitando a amargosa realidade — onde estava Deus que me não socorreu a tempo? — A pergunta é inoportuna — esclareceu nosso dirigente bondosamente. de armas. vencerás. e eu creio que as mais nobres conquistas dele lhe . como diminuto erro de cálculo ameaça a estabilidade dum ediff cio inteiro. cavaste enorme precipício entre a tua consciência e a harmonia divina. Irene. Gúbio interferiu. da perseguição ou da cólera? Saldanha veio até este cárcere. identificou a presença de Saldanha. Se transparecia da bendita oportunidade terrena que te conduzia à vitória espiritual. todavia. onde te encontravas a ponto de te esqueceres tão profundamente de Deus? A bondade do Senhor nunca se ausenta de nós. procurou o olhar de Gúbio. por ele. porém. com que possas ferir o juiz desalmado que nos conspurcou a vida? Cessa.89 um destino em perigo. que procuras aqui? porque não vingaste o filho infeliz? não te dói tanta infâmia inútil? não disporás. por amor. com a morte o devotamento dos pais? descansarás. por vezes. mas. em algum céu. Não percas. A companheira de Jorge. melancólico —. acalmando-a. alcançar semelhante bênção. passando a gritar medrosamente. pousou no sogro os olhos atormentados e inquiriu: — Sombra ou fantasma. Acreditas que a legítima consagração de um pai deva traduzir-se através da dilaceração ou do homicídio. não te infunde respeito ao coração? Supões estejamos subordinados a um poder que nos desconhece? Perante a verdade nova que te surpreende a alma. acima da morte. Por algum tempo. reconhecendo-se diante de um condutor amoroso e sábio. nunca se torna inatingível. Desviando a atenção da verdade que a feria. não percebes a infinita sabedoria de um Supremo Doador de todas as bênçãos? Onde se encontra a felicidade da vingança? O sangue e as lágrimas de nossos inimigos apenas aprofundam as chagas que nos abriram nos corações. — Procuraste saber. E encorajando-a. que precisarás transpor efetuando a própria recomposição. rogando-lhe cooperação em silêncio. acentuou: — Vencerás. porqüanto extrema indignação lhe empalideceu o semblante. quanto à atitude a assumir. O perseguidor de Margarida recebia-as por vergastadas no íntimo. — Irene — exclamou. dominado o temor infantil. a esperança e dirige os passos na direção do bem. Hesitava. experimentarás a consequência do ato impensado. acaso. a certeza da vida vitoriosa. porventura. sem repouso. reduzido a frangalhos? ou ignoras a realidade cruel? que razões te compelem à mudez das estátuas? porque não buscaste. em breve. a justiça de Deus. e o nosso Instrutor tomou. então. regressou à intemperança mental. não parecia interessada em reter os elevados conceitos ouvidos. contemplando Jorge. assim. entre o desapontamento e a rebelião. Colher fruto imaturo é praticar violência. entretanto. Intoxicaste a matéria delicada sobre a qual se estruturam os tecidos da alma e poucas circunstâncias te atenuam a gravidade da falta. paternalmente. reside também agora nas lágrimas de contrição que te encaminham à regeneração salutar. Admito que possas. a palavra. — Infeliz de mim! — suspirou Irene. A interlocutora. que não se encontra na Terra? As perguntas semelhavam-se a golpes de ferro em brasa. fundo.

Se Jorge melhorara. vitoriosa e sublime. — Perfeitamente — concordou o obsessor de Margarida. desapontado. Não lhe precipites a ternura paterna no abismo do desespero. Ao retornarmos. ao que o nosso orientador retrucou atenciosamente: — Em todos os lugares. a grande fé. de cujas trevas procuras inútilmente fugir. sob intensa modificação —. arrebatando-a às culminâncias da vida. Saldanha não voltou à palavra e fizemos a maior parte do caminho em significativo silêncio. dilatando-lhe as fronteiras e impelindo-o para o Alto. Saldanha aceitou contente e agradeceu. não distante. não poderíamos olvidar-lhe a permissão. enquanto o sogro enxugava as lágrimas que as observações generosas de Gúbio lhe haviam arrancado. cabisbaixo e humilhado o perseguidor de Margarida perguntou. O nosso orientador convidou Saldanha a se pronunciar. onde Gúbio as internou com todo o prestígio de suas virtudes celestes. e agora que Iracema e Irene tornaram à consciência que lhes é própria. conheço os celerados que aqui se reúnem. mas. e. Nosso dirigente explicou-lhe que poderíamos abrigá-las numa organização socorrista. preocupa-me a gravidade do assunto. para levarmos a efeito semelhante medida. Sentia-se estimulado ao bem. timidamente. triunfantes e renascentes!. ante o visível espanto de Saldanha que não sabia como exprimir-se no reconhecimento a extravasar-lhe da alma. em toda parte. através da palavra cordial de nosso orientador e revelavase disposto a não perder o mínimo ensejo de corresponder-lhe à dedicação fraterna. soluçante. A desditosa mulher silenciou. Depois de alguns minutos. um grande amor pode socorrer o amor menor.90 retornam à superfície da personalidade. ausentávamo-nos do hospício conduzindo as irmãs enfermas a recolhimento adequado. Não seria lícito abandoná-las àquele clima de desintegração das melhores energias morais. . pode auxiliar a fé pequenina e vacilante. quais eram as armas justas num serviço de salvação.. Foi então que Iracema se declarou exausta e suplicou a dádiva dum leito. ambas as senhoras desencarnadas exigiam socorro urgente.

o tom de humildade que transparecia das palavras do vigoroso verdugo. — É possível — informou o nosso Instrutor — promovermos benéfica reunião. — Vejamo-lo — exclamou o interpelado. tentando forçá-la. e acredito que. — A noite é propícia — prosseguiu o Instrutor. Mostrava compreensão e doçura nos gestos reverentes. através de monossílabos. alterando-nos a direção. usavam pequena dependência. que nem de longe conseguiria registrar-nos a presença. indiscriminadamente. Em torno. cauteloso. O magistrado residia com os parentes na ala central do vasto edifício de que Gabriel e a esposa. com ameaças diversas. estende os processos de perseguição. respeitosos. o braço de Gúbio e notificou: — Este é Alencar. e observamos que. Saldanha concordou. se ainda não atingiu os fins indignos para os quais se orienta. prestativo e simples — e atravessamos os primeiros minutos da madrugada. mas confesso que o sono do magistrado não poderia ser tão calmo quanto desejaria. este rapaz se revela possuído de forças degradantes e precisa colaboração enérgica que o auxilie a buscar higiene mental. admirados. Gúbio. de leve. ao mestre. após descer alguns degraus. Saldanha. Seguimos o jovem. concordou: — Efetivamente. antes de nos instalarmos de novo junto à enferma. irmão de Margarida e perseguidor de minha neta. Reparando a resistência de Lia. percebendo-se que o jovem procedia de grandes libações. — Todas as noites — comentou Saldanha. O juiz. preocupado — procura abusar de nossa pobre menina. A consideração que dispensava a Gúbio dava-nos conhecimento da súbita transformação que nele se operara. Saldanha ressurgia visceralmente transfigurado. Ouvindo-o. Até então. assistido agora pelo enorme respeito de Saldanha. Dispunhamo-nos a visitar os aposentos particulares do dono da casa. . inalava-se-lhe o hálito viciado. não lhe havíamos atingido a zona domiciliar. nosso orientador. Notamos. ao modo do aprendiz que se vê na obrigação de aderir.91 13 Convocação familiar Alcançando a grande residência em que Margarida descansava. Entramos. Não tem o mínimo respeito a si mesmo. é porque permaneço a postos. sem qualquer alarde de superioridade. em virtude do grande número de entidades sofredoras que lhe batiam às portas internas. Saldanha tocou. A maioria reclamava justiça. ali refugiada. examinando a oportunidade de conversarmos com o juiz e analisar a situação da filhinha de Jorge. dispõe de alguma peça em que possamos permanecer congregados por alguns minutos. dirigiu-lhe a palavra. agindo na defesa com a brutalidade que me é característica. Algumas rogavam socorro em altos brados. quando um rapaz encarnado nos surge à frente. se postava à entrada de compartimento modesto. certamente. deslocando-se a caminho do pavimento inferior. convocando alguns encarnados a possível ajuste.

contudo. mostrando.92 Em seguida. agora. passamos ao apartamento privado do juiz. exausto. algo cambaleante. a mente inquieta. estudara. Alencar retirou-se. o encanecido cavalheiro meditava: “Onde estariam centralizados os supremos interesses da vida? onde a ambicionada paz espiritual que não conquistara em mais de meio século de experiência ativa na Terra? porque arquivava no coração os mesmos sonhos e necessidades do homem de quinze anos. contra a extinção gradual das energias orgânicas. a ciência comum. Conquistara os títulos que assinalam no mundo os sacerdotes do direito e. singular deserto lhe povoava a alma toda. Logo após. quando ultrapassara já os sessenta? Crescera. por centenas de vezes. Recebera homenagens de pobres e ricos. acreditando Saldanha que alguma enfermidade inofensiva. da vida humana. casara-se. Proferira sentenças inúmeras e tivera nas mãos. a partir daquela hora. comunicandonos que prepará-lo-ia para a conversação próxima. a destinação de muitos lares e de coletividades inteiras. a posse do ouro e a eminência na atividade pública impunham-lhe grandes obstáculos para ler a verdade na máscara dos semelhantes. de pálpebras semicerradas. como elucidaria. Sentia sede de fraternidade com os homens. o alvejar dos cabelos. dirigindo-lhe a intuição para . sob o próprio desígnio. Naquela hora avançada da noite. Experimentava intraduzível fome de Deus. Escoados alguns minutos. Por outro lado. atentamente. auscultando-lhe os pensamentos mais profundos. Ele que esclarecera a muitos. Permitiu Gúbio que eu lhe tocasse a fronte. os dogmas das religiões sectárias e as discórdias entre elas. mas. Respondera a milhares de consultas em casos de harmonia social. O magistrado se mantinha de corpo repousado sobre o colchão macio. reagia. em companhia de nosso devotado orientador. conduzindo-a a objetivos inesperados e ocultos?” Retirei a destra. afastavam-lhe o espírito de qualquer acordo com a fé atuante no mundo. negativista e impenitente. percebendo que o rêspeitável funcionário tinha os olhos úmidos. para a câmara de dormir. toda a vida humana seria tão importante como a bolha d’água a desfazer-se ao vento. Toda a existência se resumiria a simples fenômenos mecânicos dentro da natureza? Adotada essa hipótese. a si mesmo? Defrontado pelos primeiros sintomas da velhice do corpo de carne. por alguns dias. na vida íntima. todavia. No entanto. o ajudaria a meditar nos deveres do homem de bem. no fundo. oprimido. flagelada. envergara a toga para julgar processos difíceis. não lhe haviam modificado a personalidade. O obsidente de Margarida demonstrava indisfarçável contentamento. Aproximou-se Gúbio e colocou-lhe as mãos sobre a fronte. Todas as lutas. Porque as rugas do rosto. magoado. quanto às mais elevadas normas de conduta pessoal. o enfraquecimento da visão e o empobrecimento do celeiro vital. assim. ressecara-lhe o coração. se a mocidade lhe vibrava na mente ansiosa por renovação? Seria a morte simplesmente a noite sem alvorada? que misterioso poder dispunha. Sentia-se dilacerado. ministrou-lhe passes magnéticos nos órgãoS visuais. no transcurso da viagem pelo encapelado mar da experiência terrestre em face da posição que desfrutava no ataviado barco do tribunal. grandes e pequenos.

No entanto. e quando formosa luz se lhe irradiou do tórax e do cérebro. e. qual se a memória lho impusesse. ao cubículo do obsidiado que se achava ausente do vaso físico. ao domicílio do magistrado. o juiz. já se encontravam ao lado de Gúbio. por intermédio de operações fluídicas. o categorizado expoente da justiça perguntou a esmo. em espírito. O Instrutor recomendou-me tornar à auscultação psíquica e voltei a pousar a mão direita sobre o cérebro dele. unindo os três como que identificando-os a uma corrente magnética de forte expressão. que o despertamento não era análogo para os três. notei que os olhos do juiz exibiam modificada expressão. Dir-se-ia contemplarem cenas distanciadas. Nesse comenos. O magistrado era mais lúcido pela agilidade dos raciocínios. em grande prostração. a seu ver. a jovem Lia colocava-se em segundo lugar pelas singulares qualidades de inteligência. justificar-se. Que motivos o levavam a rememorar semelhante peça judiciária com tanta força? Via Jorge. entretanto. doridos. enquanto prepararia a este último o desligamento parcial do corpo através do sono.93 as reminiscências do processo em que Jorge fora implicado. por disco de estranho padecimento moral. Com as minhas percepções gerais algo desenvolvidas. o companheiro e eu.. Notei. Variava de acordo com a posição evolutiva e condições mentais de cada um. fora do veículo carnal.. réu de crime comum. com indizível tortura. ferindo o próprio coração? Anos haviam transcorrido sobre o crime obscuro. porque reterse naquele caso sem importância? Ele. de pronto. situava-se Jorge em posição inferior. Mostravamse angustiados. — “Por que razão se detinha — meditava o pai de Margarida — naquele processo liquidado. o dono da casa e a neta de Saldanha. o assunto lhe revivia na cabeça. emprestou-lhes forças àmente. Não conseguia. chamado a processos incontáveis. quanto às reminiscências do humilde condenado.. desde muito.. Voltamos. dando-nos a entender que o sentimento e a razão se . apreciara enigmas muito mais intrincados e importantes. tanto quanto possível. o Instrutor recomendou a Elói e a mim o trazimento de Jorge. esquecido no abismo da inconsciência e lembrava-lhe as palavras veementes. orava em silêncio. Não conseguia explicar por que fortes razões lhe recolhera a filha. tirânica e desapiedada.. no entanto. pois. naquela madrugada de inexplicável insônia. ouvi-lhe os pensamentos novos. afirmando inocência. mentalmente. Administrei-lhe ao organismo perispiritual recursos fluídicos reparadores e transportamo-lo à residência indicada. que identificou. A essa altura. provisôriamente libertos das teias fisiológicas. Daí a instantes. Recordou que o sentenciado perdera a assistência dos melhores amigos e a própria esposa suicidara-se em pleno desespero. Debalde procurava o móvel secreto que o levava a demorar-se no assunto. que recebeu Jorge com desvelado carinho. então. absorvido de insofreável espanto: — Onde estamos? onde estamos? Nenhum de nós se atreveu à resposta. para que o ouvissem acordados. Gúbio. em face do esgotamento em que se encontrava. introduzindo-a no próprio lar. Vendo-se à frente do antigo réu e da filha.

no quadro dos bens materiais ou espirituais do Planeta. em que a maioria das criaturas menosprezam semelhantes dádivas. aflito: — Apelam. certamente atendendo a injunções do Poder Divino. O crime foi averiguado. Consultei os códigos necessários. Admites que o homem viverá sem contas. — O homem encarnado na Terra — continuou Gúbio empolgante — é uma alma eterna usando um corpo perecível. Invocas a tua condição de sacerdote da lei. atores do drama sublime da evolução universal. porqüanto o homem que aceitou a mordomia. mostrando certo orgulho ferido e retorquiu. Indébita é a nossa interferência nos destinos uns dos outros. ao contacto da espiritualidade superior. Distribuir amor e justiça. o lar do mundo não é tão sômente um asilo de corpos que o tempo transformará.. Somos. acusado penitente. porventura. intensivamente. em favor deste condenado? — Sim — respondeu nosso Instrutor. simultâneamente. porém. onde o espírito pode entenderse com o espírito. entretanto. Congregamo-nos em teu próprio abrigo para uma audiência com a realidade. do cimo do monte para o seio recôndito do mar. e considerou: — Compreendo-te a negativa. não me pareces amoldado aos sublimes fundamentos de tua elevada missão no mundo. em sã consciência. é crivar-se de dores. diàriamente. — Não. mesmo tardias. Todavia. antes de emitir a sentença. compadecidamente. mesmo através de extremo sofrimento moral. sem argumentação ponderosa e cabível. Gúbio contemplou-o. Não posso. em definitivo? Acreditas haja o teu raciocínio . eu fui o juiz da causa. nunca alardeia superioridade. é razoável o apelo do amor para que a dor diminua. alma que procede de milenários caminhos para a integração com a verdade divina.94 achavam nele irmanados em claridade celeste. quando o sono sela os lábios de carne. na sala. O chefe daquele santuário doméstico escutava. quando nossos pés trilham retos caminhos. o único sentenciado indigno de uma pausa nas dores da remissão. exclamou para o assombrado interlocutor. suscetíveis de mentir. para esmagares o destino de um trabalhador que já perdeu tudo quanto possuía. perplexo. na atualidade da Terra. Não acreditas que esta vítima aparente de inconfessável erro judiciário já tenha esgotado o cálice do martírio oculto? — O caso dele. aceitar intromissões. os erros do passado distante. por entender na administração fiel um caminho de aprimoramento. Não seria Jorge. tocando-lhe afavelmente os ombros: — Juiz. quando consciente das obrigações que lhe cabem. permanece liquidado. se nos desviamos da rota adequada. O interlocutor arregalou os olhos. através do amor e da dor. e inquiriu. ainda. rolando nos séculos. ainda mesmo aquele que se supõe capacitado para julgar o próximo. os laudos periciais e as testemunhas condenaram o réu. O magistrado ligou os conceitos ouvidos à presença de Jorge. Os fluidos da carne tecem um véu pesado demais para ser facilmente rompido pelos que se não afeiçoam. à maneira do seixo que desce. nenhum de nós chegou ao fim dos processos redentores que nos dizem respeito. quase sarcástico: — Mas. a fim de que resgatasse. sem hesitar. juiz. Referes-te ao título que a convenção humana te conferiu. todos.. É igualmente o ninho das almas.

O Justo Juiz foi crucificado num madeiro de linhas retas por devotar-se no mundo à extrema retidão. — Ele é. a Harmonia descerra santuários. entretanto. ávidos de transitório poder? em quantos processos permitiste que os teus sentimentos se turvassem no personalismo delinqüente? O homem. Crês. dando-nos a perceber que precisava gravar na mente do juiz quanto se lhe pedia da ação providencial. ensina-me o caminho! que devo fazer a benefício do condenado? — Facilitarás a revisão do processo e restituí-lo-âs à liberdade. meu amigo! respira em mais alto clima. Palidez cadavérica lhe cobria o semblante. em cuja presença identificava Saldanha perigoso inimigo. colados que se acham aos efeitos de tuas decisões e demoramse em tua própria casa. arrebatados pela morte.. Missionário da lei. Quanto mais eminentemente colocada na experiência humana. na estrada multissecular do conhecimento edificante. que o dinheiro em disponibilidade deva satisfazer tão somente as exigências daqueles que se reuniram a nós. Explicaremos tudo. especializando-se na identificação do mal. então.95 acertado em todos os enigmas da senda? Terás agido imparcialmente em todas as decisões? Não creias. em estabelecimento condigno. o magistrado exteriorizou nos olhos indefinível terror. — Não serias. caiu de joelhos e rogou: — Benfeitor ou vingador. — Juiz — continuou Gúbio. Em quantas ocasiões já se te inclinou o mandato às contrafações da política desintegrante dos homens. dos que já sentenciaste em mais de vinte anos. porém. inocente? — indagou o interlocutor. na . não conseguiram seguir adiante. muita vez colocamos o desejo acima do dever e o capricho a cavaleiro dos princípios redentores que nos compete observar. E. amparando-te as ações. no Céu. mais intensivo pode tornarse o esforço da criatura. apreciando-nos a bondade e a virtude. todavia. se não pudesses recebê-lo. Muitos homens e mulheres. Verificando-se pausa mais longa.. sobre o qual grossas lágrimas principiaram a correr. Todos nós. revelava-se infinitamente confundido. exigindo bases sólidas a futuras conclusões. Na Terra. hoje internada por favor em tua casa. convocado por nós a semelhante encargo. onde possa receber a necessária educação. não fôsse a compaixão divina que te concede ao ministério diversos auxiliares invisíveis. por amor à Justiça que representas. únicos recursos através dos quais poderias abreviar o trabalho de esclarecimento que te assiste. sem hábitos de prece e meditação. continuou: — Não te circunscreverás à mencionada medida. na própria elevação. — Ninguém sofre sem necessidade à frente da Justiça Celeste e tão grande harmonia rege o Universo que os nossos próprios males se transubstanciam em bênçãos. grandes surpresas te reserva o transe final do corpo. dentro dos laços consangulneos? Liberta o coração. — Mas — interveio o jurista —. e as vítimas dos teus erros involuntários e das paixões obcecantes daqueles que te cercam não te permitiriam a permanência no cargo. esta menina não é minha filha. Teu palácio residencial mostra-se repleto de sombras. Aprende a semear amor no chão em que pisas. a justiça abre tribunais para examinar o crime em seus aspectos variados. consagrando-se à exaltação do bem. em voz firme —. Amparar-lhe-ás a filha. aguardanto-te explicações oportunas. nas lides do direito.

Já te auscultei. criamos causas e consequências com os nossos atos cotidianos. notando-se-lhe o propósito de endereçar ao nosso Instrutor novas interpelações. liberou certa parte do pretérito doloroso. pensativo. fêz grande pausa em suas elucidações. turvando-lhe a corrente límpida. pelas emoções do minuto. trazido por nós para benéfico entendimento. de leve. solvemos os débitos de ontem. um dia. calou-se.96 totalidade dos seus ângulos divinos. contudo. guardavas o título de posse sobre extensa faixa de terra e orgulhavas-te da posição de senhor de dezenas de escravos que. resignado e humilde. porém? — Amanhã — informou o Instrutor. Jorge e a filha trocavam olhares de alegria e esperança. a existência humana é como precioso tecido de que os olhos mortais apenas enxergam o lado avesso. não desejamos dizer que nossas falhas. perscrutando-lhe os pensamentos. os cabelos brancos e te ofereça. mais dia menos dia. O magistrado contemplou-os. calmo e persuasivo — te erguerás do leito sem a lembrança integral do nosso entendimento de agora. retransmitindo-te as sugestões desta hora de luz e paz. faze de Jorge um amigo e da filha dele uma companheira de luta que te afague. Jorge tem as mãos limpas. incapaz de suportar a carga de duas vidas. mais tarde. Com isto. entretanto. a fim de que a tua consciência de julgador consolide certos pontos de vista. tocou-lhe a fronte. no entanto. pessoas e sucessos que nos afetam a consciência de maneira particular não constituem objeto vulgar na marcha reveladora da vida . em pranto. muita vez oriundas da ociosidade ou da impenitência de agora.Por agora. com grave entono: — Juiz. com o receio de ingratidão ou com ruinosa obediência aos preconceitos estabelecidos. interrogou: — Como agir. trazes a mente subjugada pelo choque biológico do retorno à carne e não poderias seguir-nos na exumação do passado recente. os arquivos mentais e vejo os quadros que o tempo não destrói. A intuição. a toga que envergas temporariàmente acertará contas com todos aqueles que. sim. com ambas as mãos e falou em voz firme: — Gostarias que me expressasse a respeito da culpabilidade do réu. no entanto. quando. fixou o interlocutor mais profundamente e prosseguiu. Em verdade. Chegado esse momento. Jorge. que é o disco milagroso da consciência. Diante de Saldanha que acompanhava a cena. porém. a essa altura. se lastimam. o raciocínio vulgar luta contra o sentimento renovador. Gúbio. atualmente te integram a falange de colaboradores nos . que aqui não se encontra em reclamações e. Gúbio. em torno dela. já esposados no processo a que nos reportamos. sejam recursos providenciais ao pagamento de alheias dividas. demonstrando indizível bem-estar. mas idéias novas surgir-te-ão formosas e claras. não permitas que o cálculo te abafe o impulso das boas obras. a luz da prece. em maioria reencarnados. funcionará livremente. No coração hesitante. com respeito ao bem que necessitas praticar. em todas as horas. porque o cérebro de carne é um instrumento delicado. quando teu espírito for compelido a transpor o escuro portal do túmulo. O juiz. No século findo. Dominado. Enquanto étempo. Nos sofrimentos de hoje. gerando resultados ruinosos para nós mesmos e para outrem. As entidades que pranteiam às tuas portas não choram cem razão e. qual canteiro de bênçãos ofertando-te flores perfumosas e espontâneas. Entretanto. porque assim consagraríamos a fatalidade por soberana do mundo. quanto ao delito de que é presentemente acusado.

compadecido. Alguns se salientaram no drama que viveste e volvem ao teu caminho. teu filho de ontem e de hoje lhe transviou a filha do pretérito e de agora e. porqüanto os olhos dele pareciam iluminados de súbita determinação. e ao lado da jovem a quem prometeste amparar por filha muito querida ao coração. e rematou: — Não te dispões. Nunca lhe perdoaste semelhante aproximação. diante do condenado. cambaleante. Nem todos os servos do passado. tentando oscular-lhe as mãos. Jorge. auxílio e compreensão. e. suportando inominável martírio moral em poucos anos de acusação indébita e prisão tormentosa. junto do qual sempre te inclinaste à antipatia gratuita. A todos eles. em seguida. perante os códigos terrestres. Saldanha. oculto à nossa apreciação. Todo bem praticado felicitará a ti mesmo. abriu-lhe os braços acolhedores e exclamou comovido: — Serás minha filha. é tão grande quanto aquele que recolhemos no amor espontâneo de um amigo. A força magnética do nosso Instrutor alcançara-lhe as fibras mais íntimas. nem a morte apagam as aflições da responsabilidade que só o regresso à oportunidade de reconciliação consegue remediar. Semelhante alegria. de novo. porque Alencar e tua pupila serão atraídos à bênção do matrimônio. certamente sulcava. mas também a própria existência. suicidando-se em dramáticas circunstâncias. doravante. do perdão redentor. ante as divinas leis. plenamente modificado por uma alegria misteriosa que lhe refundia as expressões fisionômicas. quando semelhante amargura sobreveio. deves assistência e carinho.. considerada em tua casa por aviltante ultraje ao nome familiar. fora do entendimento construtivo. da bondade ativa. enfermidades e privações de toda a espécie. O nosso orientador fitou-o. Gúbio ajudou-os a partir na direção do interior doméstico.. que mostrava o semblante extremamente transformado. que o filho de Saldanha beijou igualmente em pranto. embora nascesse quase sob o mesmo teto que te assinalou os primeiros vagidos. obrigou-o a reajustar-se. humilhado e desiludido. e. Indescritível contentamento marcou-nos o inolvidável minuto.97 trabalhos comuns a que te sentes constrangido pela máquina funcional. com naturalidade. o qual. Jorge de hoje era ontem teu escravo. depois do amor de Deus. Chegados ambos à tarefa da paternidade. avançou para o nosso Instrutor e. se confundem no mesmo naipe de relações com o teu espírito. o espírito do magistrado. Vimo-lo levantar-se. acercou-se da jovem. Todavia. não somente roubou a vida ao corpo de teu filho que lhe invadira o santuário doméstico. nenhum júbilo. E aqui te encontras. murmurou: — Nunca pensei encontrar noite tão gloriosa quanto esta! Ia desmanchar-se em palavras de reconhecimento. porém. Trabalha. acrescentando: — Saldanha. porqüanto outro caminho para Deus não existe. aos testemunhos salvadores? Abalo salutar. por tua vez. quando nos dispúnhamos a reconduzir Jorge ao presídio de cura onde o corpo em repouso o esperava. apagou o desvario deplorável. Abeirou-se de Jorge. nem a dor. impressionando-te o coração. meu amigo! vale-te dos anos. com escárnio supremo para um lar cativo e triste. Era teu servidor. Age enquanto podes. fundo. . estendeu-lhe a destra em sinal de fraternidade. não obstante afagado por outra mãe. desarvorado e semilouco. com viuvez. para sempre !. mas Gúbio. em lágrimas. e irmão consanguíneo. na pausa mais ou menos longa que se fizera. determinaste medidas condenáveis que culminaram no insofreável desespero de Jorge em outros tempos.

. é nossa. E um abraço de carinhosa fraternidade coroou a tocante e inesquecível cena.98 neste momento. porque te sentimos a amizade nobre e sincera no coração.

fala-me se devo contar com o abençoado concurso de tuas mãos! Eu e Elói tínhamos lágrimas ardentes. Grossas lágrimas brotaram-lhe dos olhos antes frios e impassíveis. Gúbio. protegeste-me a nora infeliz. persegui e humilhei. e o déspota morreu dentro de mim. quando já me encontro confundido pelos teus atos convincentes. talvez tardia aos teus olhos. Sinto por ela o enternecimento com que cuidaste. nesta noite. lá nos aguardavam os dois hipnotizadores em função ativa. entendimento e perdão. comovendo-nos: — Ninguém me falou ainda como tu. Adotaste. minutos antes. Saldanha enxugou os olhos. quando o adversário esmolasse piedade ao meu orgulho. Experimentava diabólico prazer. defendendo-o com as forças de que dispões. Releva-me a identificação. quem me é tão querida ao espírito? Chega sempre um instante no mundo em que nos entediamos dos próprios erros. do teu Jorge. simpatia e ajuda? Somos irmãos no devotamento aos filhos. Observei. libertando. diante daquela doutrinação emocionante e inesperada.. Não acreditava em boas obras que não nascessem de minhas mãos. quando não passava de infeliz e insensato. Noutro tempo. Amparaste-me o filho demente. fixou-os. no interlocutor bondoso e asseverou. por minha vez. se me figuraria inacreditável. com relação aos objetivos que nos prendem aqui. esta senhora doente é filha de meu coração desde outras eras. esclareceu: — Saldanha. usando a gota d’água. Supunha-me dominador e invencível. denunciando imensa comoção na voz. Eu sei que a luta te impôs acerbos espinhos ao coração.. hoje. por filhos de teu coração todos os parentes em cuja memória ainda vivo. porque chegam aos meus ouvidos. até agora. O título de irmão é. Considerava inimigos quantos me não compreendessem os caprichos perigosos e me não louvassem a insânia. Saldanha amigo. enlaçando-lhe fraternalmente o busto. então. Tuas palavras são consagradas por uma força divina que eu não conheço.99 14 Singular episódio Penetrando o compartimento em que Margarida descansava. retalhou-me o coração com o estilete dos minutos. ajudaste-me a esposa alucinada. Não te merecerei. e gostava de praticar a generosidade humilhante daquele que determina sem concorrentes. Parecia inabilitado a responder. todavia. Não desejarás desculpar os que te feriram. companheiros da mesma luta. cena comovedora que. o único de que efetivamente me orgulho. diante da emotividade que lhe dominava a garganta. Faze de mim o que desejares. socorreste-me a . enfim. mas também guardo sentimentos de pai. Nossa alma se banha na fonte lustral do pranto renovador e esquecemos todo o mal a fim de valorizar todo o bem. se o ódio está igualmente morto em teu espírito. acrescentou: — Passamos horas sublimes de trabalho. Dize-me. Gúbio pousou significativo olhar em Saldanha e pediu-lhe em tom discreto: — Meu amigo. humilde. O perseguidor da enferma contemplou o nosso Instrutor com o olhar dum filho arrependido. chegou a minha vez de rogar. E. que faz caminhos na própria pedra. transformando-me devagar. porventura. Mas a vida.

100

neta indefesa e repreendeste os que me perturbavam sem motivo justo... Como não enlaçar, agora, as minhas mãos com as tuas na salvação da pobre mulher que amas por filha? Ainda que ela própria me houvesse apunhalado mil vezes, teu pedido, após o bem que me fizeste, redimi-la-ia ao meu olhar... E, detendo a custo o pranto que lhe manava espontâneo, o ex-perseguidor acentuou, com expressão respeitosa: — Poderoso Espírito e bom amigo, que me procuraste na condição do servo apagado para acordar-me as forças enrijecidas no gelo da vingança, estou pronto a servir-te! sou teu de agora em diante! — Seremos de Jesus para sempre! — corrigiu Gúbio, sem afetação. E abraçando-o efusivamente, conduziu-o a pequeno aposento próximo, naturalmente para organizar plano de ação eficiente e rápido. Sômente aí me lembrei de que nos achávamos na presença de ambos os hipnotizadores em função ativa, junto ao casal em repouso. Um deles se revelava inquieto e demonstrava-se francamente compreensivo; notava que algo de extraordinário se passava, mas, talvez compelido por votos de disciplina, não se animava a dirigir-nos palavra. O outro, todavia, não acusava qualquer emoção. Continuava alheio ao drama que vivíamos. Figurava-se um autômato em serviço, impressionando-me particularmente pela impassibilidade do olhar. Alguns minutos transcorreram pesados, quando Gúbio e Saldanha retornaram à cena. O ex-obsessor de Margarida mostrava-se mudado, quase imponente. Viase-lhe no porte a renovação de rumo interior. Certo, estabelecera novo programa de luta, em companhia do nosso dirigente, porque chamou o hipnotizador mais vivo, a conversação particular. Próximos de mim, a palestra desdobrou-se clara. — Leôncio — disse Saldanha, entusiasmado —, nosso projeto mudou e conto com a tua colaboração. — Que houve? — indagou curiosamente o interpelado. — Um grande acontecimento. E prosseguiu, transformado: — Temos aqui um mago da luz divina. Em traços rápidos, narrou-lhe os sucessos da noite, em comovedora síntese, terminando por apelar: — Poderemos contar contigo? — Perfeitamente — esclareceu o companheiro —, sou amigo dos amigos, não obstante os riscos da empresa. E designando com um golpe de olhar o outro magnetizador que prosseguia operando ao lado de Margarida, em serviço automático, objetou: — É indispensável, porém, todo o cuidado com Gaspar, que não se acha em condições de aderir. — Tranquiliza-te — esclareceu Saldanha, mais atencioso —, providenciaremos tudo. Mostrou Leôncio estranho brilho nos olhos e, dirigindo-se ao ex-chefe de tortura, falou súplice: — Escuta! conheces meu problema. Já que foste socorrido pelo mago, não poderei receber contribuição dele por minha vez? Tenho na Terra a esposa seduzida e o filho à morte. Imprimindo inolvidável acento à voz, observou: — Saldanha, não desconheces que sou criminoso, mas sou pai ainda... Se

101

eu pudesse livrar o filhinho da revolta e da sepultura enquanto étempo, considerar-me-ia sumamente feliz. Sabes que um condenado não deseja igual sorte para os rebentos do coração! Ante o choroso apelo, Saldanha não hesitou: — Bem — tornou um tanto embaraçado —, procura o benfeitor Gúbio e expõe-lhe o caso com franqueza. Leôncio não se fêz rogado. Acercou-se, respeitoso, de nosso Instrutor e explicou-se, simplesmente, sem rebuços: — Amigo, acabo de saber com que devotamento mobilizas tua força, a beneficio de criaturas desviadas do bem, como nós, que nos sentimos desprezíveis diante de todos. É por isto que também venho implorar-te auxilio imediato. — Em que poderemos ser úteis? — indagou o orientador, cortês. — Passei para cá, há longos sete anos, e deixei no mundo minha mulher e um filhinho recém-nato. Voltei, moço ainda, sufocado no esgotamento pelo trabalho excessivo em busca do dinheiro fácil. Obtive, realmente, o que intentara, com a provisão de vastos depósitos bancários com que a esposa ainda se mantém, até hoje, a coberto de todas as necessidades. O desespero, a ânsia inútil por retomar o corpo que abandonara, a vaidade ferida, converteram-me no colaborador desumano de que Gregório, o nosso chefe, tanto se orgulha... Ai de mim, porém, que me sentia dono exclusivo dos encantos da mulher que eu adorava! De dois anos para cá, minha infortunada Avelina passou a escutar as fantasiosas propostas de um enfermeiro que se aproveitou da fragilidade orgânica de meu filhinho para insinuar-se sobre o ânimo da pobre mãe, viúva e jovem. Chamado a prestar socorro ao menino, depois de um incidente sem importância, o profissional percebeu as preciosidades materiais da presa cobiçada. Desde então, assediou-me a esposa sem descanso e passou a envenenar meu pequeno, pouco a pouco, à força de entorpecentes, administrados por ele, seguindo um plano cruel. No decurso do tempo, conseguiu de Avelina quanto queria: dinheiro, ilusões, prazeres e promessa de casamento. Acredito que o consórcio se realizará, dentro de breves dias, e já me resignei a semelhante acontecimento, porque a alma encarnada respira sob teia grossa de pesadelos e exigências, mas o perseguidor embuçado, sentindo em meu filho um concorrente forte aos bens que amontoei, procura aniquilá-lo sem pressa, roubando-lhe, calculado e ingrato, o ensejo de viver para um futuro digno e feliz. Interrompeu-se, por alguns momentos, e prosseguiu, comovido: — Francamente, envergonho-me de suplicar um favor que não mereço, mas o espírito pervertido, como eu, que pede recursos salvadores para os entes amados, guarda consciência do próprio infortúnio no mal que elegeu para inspirar-lhe o caminho... Benfeitor, por piedade! meu desventurado Ângelo permanece à beira do túmulo... Admito que o fim do corpo esteja marcado para breves dias, se mãos amigas e devotadas não nos socorrerem à altura de nossa indigência. Já fiz tudo quanto se achava ao alcance de nossas possibilidades, porém sou parte integrante de uma falange de seres malvados e o mal não salva, nem melhora ninguém. Gúbio ia responder, mas Elói tomou a dianteira e, com imensa surpresa para nós, perguntou, sem cerimônia: — E o nome do enfermeiro? Quem é esse quase infanticida?

102

— É Felício de... Quando o nome de família foi pronunciado, nosso companheiro apoiou-se em mim, para não cair... É meu irmão! — bradou — é meu irmão... Forte emotividade empalideceu-lhe o rosto e expectativa inquietante desabou sobre nós. Mas Gúbio, com a serenidade sublime que lhe assinalava a fronte, abraçou Elói e inquiriu calmo: — Onde está o infeliz que não seja nosso irmão necessitado? A frase inteligente e bondosa sossegou o colega deprimido e ofegante. Desejoso talvez de desfazer as nuvens que se adensavam naquele reduto doméstico e de o transformar em abençoado santuário, nosso Instrutor convidou-nos a visitar o menino enfermo, sem perda de tempo. Saldanha indicou a figura estranha de Gaspar, que parecia surdo e insensível ao que se passava) e lembrou: — Deixá-lo-emos sôzinho por algumas horas. Aliás, precisamos, pelo menos, de um dia, a fim de fortificarmos a defensiva. A falange de Gregório não nos perdoará. Nosso Instrutor sorriu em silêncio e ausentamo-nos. Soprava brando e fresco vento da madrugada e pesada quietude reinava nas vias suburbanas que cruzávamos a passo rápido. Leôncio, à frente, mostrou-nos confortável vivenda e informou: — Aqui mesmo. Entramos. Em aposentos diversos, a dona da casa e o enfermeiro dormiam à solta, enquanto um pequeno simpático gemia, quase imperceptivelmente, demonstrando angústia e mal-estar. Notava-se nele a devastação operada pelos tóxicos insistentes. Profunda melancolia estampava-se-lhe no olhar. Leôncio, o temido hipnotizador, abraçou-o e esclareceu: — Os venenos sutis, que ingere em doses diminutas e sistemáticas, invadem-lhe o corpo e a alma. Fios magnéticos e invisíveis ligavam, ali, pai e filho, porque o menino, num lance comovedor, embora a prostração em que se achava, contemplou, embevecido, o retrato grande do paizinho, suspenso da parede, e falou, súplice, baixinho: — Papai, onde está o senhor?... tenho medo, muito medo... Lágrimas ardentes seguiram-lhe a prece inesperada e o hipnotizador de Margarida, que até então se nos afigurara um gênio horrível, prorrompeu em pranto emocionante. Gúbio ausentou-se por momentos e regressou trazendo Felício, o enfermeiro, provisôriamente desligado do aparelho fisiológico. O rapaz, não obstante semi-inconsciente, ao avistar Elói junto ao doentinho, procurou recuar, num impulso de evidente pavor, mas nosso dirigente conteve-o, sem aspereza. Meu colega abeirou-se dele, já de fisionomia transfigurada, buscando dirigir-lhe a palavra. O Instrutor, no entanto, afagou-o com a destra e avisou: — Elói, não interfiras. Não te encontras em condições sentimentais de operar com êxito. A indignação afetiva denunciar-te-ia a inabilidade provisória para atenderes a este gênero de serviço. Atuarás no fim. Em seguida, Gúbio aplicou passes de despertamento em Felício para que

103

a mente dele acompanhasse a lição daquela hora, dentro do mais alto estado de consciência que lhe fôsse possível, notando-se que o paciente passou a fixar-nos com mais clareza, envergonhado e espantadiço. Fitou Elói, positivamente amedrontado, e reparando Leôncio a chorar sobre o filhinho, fêz novo movimento de recuo, interrogando embora: — Quê? pois este monstro chora? Gúbio aproveitou a pergunta brutalmente desfechada e interveio, sereno: — Não concedes a um pai o direito de emocionar-se ante o filhinho perseguido e doente? — Sei apenas que ele é para mim um inimigo implacável — comentou o irmão de Elói, com insofreável animosidade —, e reconheço-o, de perto. É o marido de Avelina... A princípio, via-o nos odiosos retratos que povoam esta casa... depois passou a flagelar-me nas horas de sono... — Escuta! — disse-lhe o orientador, com inflexão de carinho — quem terá assumido a posição de adversário, em primeiro lugar? o coração dele, humilhado e ferido nos sentimentos mais altos que possui, ou o teu que urdiu deplorável projeto de conquista sentimental ante uma viúva indefesa? o dele que padece nos zelos inquietantes de pai ou o teu que comparece neste lar com o escuro propósito de assassinar-lhe o filhinho? — Mas, Leôncio é um morto”! — suspirou o enfermeiro, desapontado. E não hás de sê-lo, um dia — tornou o nosso dirigente —‘ quando houveres restituído o corpo de carne ao inventário de pó? E porque o interlocutor não pudesse prosseguir, conturbado pelas forças desintegrantes da culpa, o Instrutor continuou: — Felício, porque insistes no condenável enredo com que preparas tão calculado crime? Não te compadeces, porventura, de uma criança enferma e sem pai visível? Tens Leôncio na conta dum monstro, por defender o frágil rebento do coração, tal como a ave que ataca, ainda que impotente, na ânsia de preservar o ninho... Que dizer, porém, de ti, meu irmão, que não vacilas em devassar este santuário, tão sômente com o instinto de gozo e poder? como interpretar-te o gesto lastimável de enfermeiro que se vale do divino dom de aliviar e curar para perturbar e ferir? Felício, a experiência humana, confrontada com a eternidade em que se movimentará a consciência, é simples sonho ou pesadelo de alguns minutos. Porque comprometer o futuro ao preço do conforto ilusório de alguns dias? Os que plantam espinhos colhem espinhos na própria alma e comparecem perante o Senhor de mãos convertidas em garras abomináveis. Os que espalham pedras em derredor dos pés alheios serão surpreendidos, mais tarde, pelo endurecimento e paralisia do próprio coração. Guardas, porventura, suficiente noção da responsabilidade que assumes? Possuis ainda no coração evidentes restos de bondade igual à daqueles que se acolhem no âmbito de uma família abençoada e grande, em cujo seio a solidariedade é cultivada, desde os primórdios da luta. Vejo que o entusiasmo juvenil não se extinguiu, de todo, em tua mente. Porque ceder às sugestões do crime? não te comove a prostração deste menino a quem procuras impor a morte vagarosa? Repara! o drama de Leôncio não se resume ao conflito de um “morto”, como supões em teu perturbado raciocínio. Ausculta-lhe o coração de pai amoroso e dedicado! encontrarás dentro dele a afeição doce e pura, à maneira do brilhante oculto no cascalho rijo e contundente.

104

O irmão de Elói pousava em nosso Instrutor os olhos medrosos e espantados. Depois de leve pausa, Gúbio continuou: — Aproxima-te. Vem a nós. Perdeste a capacidade de amar? Leôncio é teu amigo, nosso irmão. Felício gritou com visível expressão de angústia: — Quero ser bom, mas não posso... Tento melhorar-me e não consigo... De voz entrecortada pelos soluços, acrescentou: — E o dinheiro? como resgatarei os débitos contraídos? sem o casamento com Avelina, a solução é impraticável! Nosso dirigente abraçou-o e aduziu: — E acreditas solver compromissos financeiros provocando dívidas morais que te atormentarão por tempo indeterminado? Ninguém te proibe o casamento, nem Leôncio, o organizador dos bens materiais de que pretendes dispor, discricionàriamente, te poderia induzir à abstenção nesse sentido, Os atos de cada homem e de cada mulher arquitetam-lhes os destinos. Somos responsáveis por todas as deliberações que perfilharmos ante os programas do Eterno e não poderíamos interferir em teu livre arbítrio, mas te pedimos concurso em benefício desta vida frágil que deve continuar... Queres dinheiro, recursos que te façam respeitado ou temido pelos outros homens. Convence-te, porém, de que a fortuna é uma coroa pesada demais para a cabeça que não sabe sustentá-la e costuma arrojar à poeira, através do cansaço e da desilusão, todos aqueles que a senhoreiam, sem horizontes largos de trabalho e benemerência. Não importa, pois, que comandes os valiosos depósitos de prata e ouro que Leôncio amontoou, inadvertidamente, porque aprenderás, com os anos, que a felicidade não está metida em cofres que a ferrugem consome. Todavia, Felício, interessamo-nos por tua promessa em favor desta criança, extenuada de sofrimento. Poupa-lhe o corpo tenro e aguarda o futuro! não tragas para o reino da morte semelhante delito, que te confinaria o espírito a furnas trevosas de expiação regeneradora. Ante a interrupção que se impusera natural, Felício quis dizer qualquer coisa para justificar-se, mas não pôde. Gúbio, todavia, prosseguiu, sereno: — Casa-te, esbanja as reservas preciosas deste lar se não souberes entender a tempo a sagrada missão do dinheiro, sobe aos píncaros da vida social transitória, adorna-te com os títulos convencionais com que o mundo inferior se habituou a premiar as criaturas sagazes que sobem a ladeira da dominação inútil ou ruinosa, sem ferir-lhe publicamente os preconceitos, porque o tempo te esperará sempre, com lições de mestre; sem embargo, ajuda o pequenino a restabelecer-se. E endereçando compassivo olhar ao hipnotizador de Margarida, acentuou: — Não é bem Isto, Leôncio, quanto desejamos? — Sim — confirmou o pobre pai em lágrimas enternecidas —, o dinheiro não importa e agora reconheço que Avelina é tão livre quanto eu mesno. Mas se meu filhinho continuar na Terra, tenho esperanças em minha própria regeneração. Terei nele um companheiro e um amigo, ligado à minha memória, em cuja capacidade de servir poderei encontrar bendito campo de serviço espiritual. Este menino, por enquanto, é o único meio de que disponho para retomar a crença no bem de que me havia afastado. Reconhecendo-lhe o doloroso esforço para falar e rogar naquela hora,

tanto assim que nos tolera as imperfeições renitentes até que aceitemos o imperativo de nossa conversão pessoal ao supremo bem. ergueu-o e disse: — Leôncio. acordou no leito em copiosas lágrimas. Boquiaberto. porém.105 Gúbio abraçou-o. não terminou aí. Forçando a situação de algum modo. viu-nos ambos. depois de nosso auxílio por reajustar-se no aparelho carnal. como verdadeiro pai! Em seguida. assombrado. acreditei com sinceridade que a promessa de Felício seria cumprida integralmente. apalermado. ajoelhou-se. eu mesmo te punirei. O lance. e jurou: — Em nome da Justiça Divina. abstendo-se delicadamente de receber a homenagem. Elói inoculou-lhe intensa energia magnética à esfera ocular e o irmão. De hoje em diante. mas o nosso Instrutor. Nesse instante. o teu filhinho não será mais vigiado por um perseguidor e. sim. reergueu-se e tentou beijar as mãos de Gúbio. por alguns segundos. Felícío abraçou-se a nós ambos e. diante de nós. francamente: — Se assassinares este menino. mas Elói acercou-se dele e com benéfica indignação a resplandecer-lhe nos olhos. exortou-o. digno de nosso concurso fraterno! O enfermeiro. Jesus crê na cooperação dos homens. O enfermeiro proferiu grito terrível e deixou cair no travesseiro a cabeça desfalecente. prometo amparar esta criança. recomendou a Elói e a mim conduzissemos o paciente ao corpo físico. não sabia que dizer. perdendo-nos de vista. Porque havíamos então de descrer? Confio na renovação de Felício. protegido por desvelado benfeitor. vencido por semelhantes palavras. enquanto ele mesmo aplicaria passes de fortalecimento ao doentinho. .

o socorro Entusiasmado com a atuação do nosso Instrutor. Respondia às mais longas e importantes perguntas. agora liberto de cuidados. Poderiam organizar-se em legião ameaçadora e estragar-nos os melhores projetos. de recursos regeneradores intensivos. prestimoso: — André. através de monossílabos. de presença desagradabilíssima pelos fluidos menos simpáticos que emitia. para não acordarmos. plenamente insensível. Saldanha abeirou-se de nós e pediu instruções. com reverência —. iguais àquele em que funcionávamos e permaneciam informados quanto ao potencial da zona inimiga. O orientador. Não podendo sofrear a curiosidade por mais tempo. no setor de flagelação à vítima. sem dissimular minha justificada estranheza. Tal operação. Nesse instante. Demora-se em aflitivo pesadelo. atentei para a situação de Gaspar. e tanto ele quanto Leôncio passaram a cooperar ativamente conosco nos preparativos em benefício da solução que buscávamos. há obsessores marcadamente endurecidos de coração que se petrificam quando sob a influência de perseguidores ainda mais fortes e mais perverSoS que eles mesmos. sem rebuços. compreendo que . Ouvindo-lhes os pareceres. de petrificação do pensamento. de imediato. em massa. perdeu transitoriamente a capacidade de ver. sob forte impressão. — Mas não poderá reintegrar-se na posse dos sentidos naturais? — inquiri. Passes contrários à ação paralisante restitui-lo-ão à normalidade. desavisadamente. dava idéia de paralisia da alma. — Meu benfeitor — disse a Gúbio. quase vítreo. quase cego. contra nós. Ambos solicitaram continuidade do mesmo quadro ambiente. do centro da qual poderiam surgir. centenas de adversários. continuava ausente de nossas conversações. O hipnotizador. Que significava aquela máscara psicológica do magnetizador das sombras? Jazia surdo. O próprio olhar. a fúria das entidades ignorantes que se mantinham em posição contrária à nossa. Há necessidade. suscetíveis de serem encontrados junto a serviços de grupo. esclareceu. Gaspar encontra-se nessa situação. quando necessário. indaguei de Gúbio quanto ao que lhe ocorria. em que a colaboração de muitos se entrosa a favor de um só. anestesiado pelos raios entorpecentes. ouvir e sentir com elevação.106 15 Finalmente. Inteligências temíveis das trevas absorvem certos centros perispíriticos de determinadas entidades que se revelam pervertidas e ingratas ao bem e utilizam-nas como instrumentalidade na extensão do mal que elegeram por sementeira na vida. Saldanha entregou-se a gestos de humildade quase ingênua. obcecante. Hipnotizado por senhores da desordem. — Perfeitamente. Conheciam processos de auxilio. incapaz de fixar-nos. contudo. e demonstrava insistência irredutível. exige momento adequado. àmaneira do homem comum. dentro do qual a dilaceração de Margarida se lhe torna a ideia fixa. no feito. contra aquela instituição doméstica menos preparada a resistir um cerco de semelhante jaez. de modo vago. O magnetismo é uma força universal que assume a direção que lhe ditarmos.

a doente abriu os olhos. exigindo especial atenção: traz o veículo perispirítico enfermiço e viciado. Gúbio agora. de pronto. Reparei que o esposo de Margarida. Até lá. Na intimidade do ex-perseguidor. em preparativos de serviço para a noite próxima. naturalmente. as zonas diretas da inspiração. precisa estudar sempre. Saldanha. senhor da situação. em minha posição. Espero situar o caso em algum núcleo de amor fraternal. espontâneo: — Margarida. É indispensável que Margarida alcance melhoras positivas. Estamos fracos para batalhar em conjunto. conservando conosco esta jovem senhora enferma. tornou o marido de olhos iluminados por indefinível esperança: — Ouve! Uma idéia súbita me brotou no pensamento. como quem encontrara inesperada senda salvadora e concordou. Desde muitos dias estamos atropelados por remédios violentos e medidas drásticas que não te socorreram com a eficiência precisa. no cérebro. perante os companheiros retardados? Ele fixou em mim o olhar espantado e observou: — Meu caro. cheios de interesse novo. Se nos dispusermos a lutar abertamente. dando curso. Mal não havia terminado a observação e Gabriel entrou no aposento e abeirou-se da esposa. a forças magnéticas suscetíveis de inclinar o problema de assistência a solução favorável. antes de tudo. sob desânimo tão profundo. Pequena pausa pesou sobre ambos. O esposo. o malogro em nossos objetivos de socorro . Aceitarei qualquer recurso que consideres por tua vez justo e digno. dói-me ver-te assim. passou a contemplar a companheira. desalentada e abatida. e colocou sobre a fronte dele a destra paternal. Tomou-lhe as mãos com sincera ternura e falou. interroguei: — Saldanha. sob a influência renovadora. mesmo porque Gaspar é outro doente. Aguardemos a noite. a nova situação seria atrair sobre nosso esforço terrível reação de quantos passarão a vigiar-nos desapiedadamente. e. Consentes em que eu peça. num transporte de esperança. acompanhado de Gúbio. saiu precipitadamente. contudo. feliz: — Estou pronta. enternecidamente. O interpelado anuiu com bondade: — Sim. como explicar tamanho temor de nosso lado. em padrão físico de menor resistência. Considerei que um trabalhador incompleto. conheço suficientemente este capitulo.107 demonstrar. o concurso de algum amigo interessado em Espiritismo Cristão? Tocada por aquela onda de abençoado carinho que fluía imperceptivelmente de Gúbio. Com franqueza. em nosso favor. convém guardarmos o ambiente doméstico sem alterações. não perdi tempo. permaneces bem inspirado. vejo-me num campo novo e desconheço o caminho por onde recomeçar. que nos recomendou a permanência ao lado de Saldanha. Internara-me em atividade absolutamente nova para mim e desejava ampliar conhecimentos e recursos. aproximou-se do rapaz. aproximando-me do verdugo transformado em amigo. sem alarde. dominando-lhe. ao cabo de alguns momentos. reclamando caridoso concurso. por intermédio de Gabriel.

contudo. logo depois de minha vinda. um sopro frágil à frente de um tufão. todavia. e prosseguiu: — Eu mesmo. no meio de tantos males.108 a ela será questão de alguns minutos. Acreditas que as palavras lhe satisfaçam as exigências do estômago? Isso foi precisamente o que me ocorreu. de experiência própria. Estou positivamente informado com relação aos deveres de ordem geral que me competem. Leitura. pensamentos menos dignos me povoavam a cabeça. Em verdade. Espanta-me o cabedal de teus comentários inteligentes. ponderei: — Teu próprio caso é um exemplo vivo. mil armas de despeito. atormentado pelo filho louco e pela neta em perigo. mas em vão. mentira e discórdia. articuladas então por minha boca. sorrindo — inteligência não me falta. — Ah! sim! — replicou o ex-verdugo. a maldade é força dominante em quase toda parte. com extrema desconfiança no olhar. Faltava-me. idem. e acentuou: — Sei. sentida e vivida. O novo aliado relanceou o olhar pelo quarto. O benfeitor Gúbio. o esclarecimento benéfico traduz verdadeira caridade. surpreendendo-me pela clareza de argumentação —. deliberadamente. Se a alma. cuja desenvoltura e acerto me assombravam. sem defesa. meu impulso para o bem legitimo era. Nos círculos inferiores em que nos encontramos. a companhia de alguém que conseguisse mostrar-me á eficiência e a segurança do bem. demonstrou-me que o bem é mais poderoso que o mal. a bondade humilha a perversidade. não será essa atitude mero reflexo da ignorância insustentável? — Admito que sim — elucidou o obsessor modificado. quem são os revoltados em cuja . Imagina um esfomeado a ouvir discursos. no fundo. Isto para mim bastou. contando com intérpretes que nos vigiam através de todos os flancos e não nos é fácil escapar. De outro modo é perder o tempo e cair. no entanto. não desconheces que a maior dificuldade não nasce da ignorância em si mesma. todavia. Assinalando-lhe a palavra tão fortemente esclarecida. A sabedoria golpeia a insciência. aqueles que são surpreendidos no campo da inferioridade manobram contra o bem. Nas dúvidas. — Entretanto — objetei —. em perigosas armadilhas das trevas. liberta do corpo de carne. De nenhum modo poderias ser um ignorante. provocando perturbação e desânimo. mas a vontade de melhorar-me era sincera em meu coração. infeliz e vingativa. Ao contacto dessa gente desencarnada. no entanto. que o tempo não consumiu de todo em meu espírito. o amor verdadeiro sitia o ódio num círculo de ferro. mereceram sarcasmo cruel dos inimigos do bem. mas de nossa dureza contrária à capitulação indispensável. não havia “espaço mental” em minha cabeça para simplesmente louvar teorias salvadoras. urge possuir a prudência e a abnegação dos anjos. tudo fiz por fugir ao mal. Reparou em derredor. Para combater o mal e vencê-lo. reagi quanto pude. calúnia. Esforcei-me de alguma sorte. a fim de certificar-se de que não vínhamos sendo ouvidos por adversários comuns. porém. Velhas orações por mim aprendidas nos recessos do lar. inveja. é quase impossível sair vitoriosa das ciladas escuras que nos armam. não se encontra amparada em princípios robustos de virtude santificante. perdi o resto da compostura moral que procurava debalde sustentar. desencarnadas em terrível desequilíbrio. à saciedade. Preocupado com a esposa e a nora. ciúme.

como a acentuar-lhe a resistência geral. que transformação salutar me possui agora o espírito. entretanto. Sem companheiros encarnados que nos correspondam aos objetivos na ação santificante. Noto. A doente encarnada e Gaspar. que nos fitava atencioso. Lá dentro. um automóvel recebia o casal. que se fêz acompanhado por nós e pelo grande número de “ovóides”. Leôncio. registrando-nos a conversação. a maioria espere a mediunidade espetacular. reanimando-os e instruindo-os. o hipnotizador traumatizado. os componentes habituais do círculo doméstico. que o assunto vinha sendo bem tratado. embora. forçoso é dizer.. Sidônio esclareceu. O braço é intérprete do pensamento. Alcançando confortadora vivenda. muito seguro: — Nosso agrupamento produz satisfatoriamente. aguardamos o anoitecer. passaram a trocar idéias com os visitantes. Saldanha tivera o cuidado de despistar todos os companheiros perturbadores que intentavam seguir-nos. Estou farto. até que o relógio indicasse o momento exato para os serviços da noite. contudo. a fim de cooperar conosco. Se puderem. aliás com muita razão. em nossas faculdades receptivas. ao que fomos informados. acolheu Gabriel e a esposa com inequívocas demonstrações de carinho. Perseguir-me-ão sem tréguas. Não pretendo regressar ao repugnante caminho percorrido. através do serviço aos nossos semelhantes. asseverou por sua vez: — Eu também não mais posso servir nas fileiras da vingança. quando Gúbio retomou ao compartimento da enferma. Sabemos que a instrumentalidade é essencial em qualquer serviço. Sorriam satisfeitos. afirmando. poderia levar a efeito mais ampla colheita de bênçãos se a confiança no bem e o ideal de servir fôssem mais dilatados em nossos colaboradores no plano físico. Com ansiedade. Francamente. quais se fôssem . o diretor espiritual dos trabalhos que se realizariam. De quando em quando. Não aceitam as necessidades do serviço que nos aconselham a buscar desenvolvimento substancial na auto-iluminação. receberiam recursos eficientes. e tocam a exigir dons medianímicos. Convenci-me de que o bem pode vencer o mal e espero que o nosso Instrutor não me abandone. ainda ligados à cabeça da enferma. fomos admiravelmente recebidos. notificando que o problema fora resolvido. conduzir-me-ão ao vale de miséria e penúria. importante setor de socorro mediúnico. Ainda que eu sofra. Gúbio colocava a destra sobre a fronte da enferma. quatro cavalheiros e três senhoras. Margarida e o esposo compareceriam na noite próxima a uma reunião familiar. o operário é complemento do administrador. sob processo de imantação. que lhes não faltaria acolhimento em plano superior.109 equipe trabalhei até ontem. encontramos irmãos dispostos ao concurso fraternal. À indagação de Gúbio.. Não procuram saber que todos somos médiuns de alguma força boa ou má. estendeu-nos braços fraternais. em nome de nosso orientador. ainda não sei com certeza que será de mim mesmo. O senhor Silva. o aprendiz é veículo do mestre. a ele acompanharei. como estabelecer a espiritualidade superior na Crosta da Terra? Efetivamente. Por volta de vinte horas. Hipotequei aos dois nossa simpatia e prometi-lhes. e Sidônio. dono da casa. Tranquilizou-os com palavras amigas.

interessadas na extensão do domínio das sombras. conforme o impulso que a orienta. com a mesma ternura consagrada pelo lavrador vigilante à plantinha tenra que encerra a esperança do porvir. não obstante cuidarmos devotadamente da crença deles. diferentes das nossas. Enquanto conosco. A exposição era muito interessante e tudo faria a benefício de mais amplas elucidações ao assunto. reúnem-se agora. duvidam de nosso esforço. Nossos amigos não percebem o valor de uma atitude desassombrada e permanente de fé positiva. e fogem ao serviço que a conservação. e procuram-nos a companhia espiritualizante. quando o espírito do trabalhador não está cónvenientemente apoiado no desejo robusto de progredir. ao solo do coração. indefinidamente. Todavia. e lá se vão os germens superiores que lhes confiamos. coletivamente considerando. costuma ser imediatamente visitado. aceitam ou provocam milhares de sugestões sutis. tanto quanto a enxada que pode ser mobilizada para servir ou ferir. Isto. nascidos da mente de encarnados e desencarnados. registrando-nos as vibrações edificantes das quais desejávamos fôssem eles nossos portadores permanentes e seguros na esfera vulgar da luta humana. quando em serviço metódico. quando esse ou aquele irmão revela disposições mais avançadas para servir a bem de todos.110 dádivas milagrosas a serem transmitidas graciosamente àqueles que se lhes candidatam aos benefícios. deixam-se envolver nas suaves irradiações da paz e da alegria. em favor do império da luz. desconfiam de si mesmos. por entidades renitentes na prática do mal. sob este teto amigo. com vistas ao aprimoramento próprio. aventurei-me a considerar: — A referência abrange um grupo assim tão harmoniosamente constituído quanto este? Será crivel que o conjunto organizado sobre propósitos tão sadios dê guarida fácil às forças deprimentes? O diretor da casa sorriu bem humorado e respondeu com franqueza: — Sim. e as energias mentais que deveriam centralizar em construção ativa e santificante. basta que espíritos perturbadores ou maliciosos os visitem. sutis. haja o que hoüver. em maior ou menor grau de exteriorização. por intermédio da antiga “varinha de condão”. do bom ânimo e da esperança. vinte e um colaboradores espirituais se movimentaram em nosso circulo de . acontece por seis horas. dentro do caminho louvável. redimir-se e marchar para a frente. Choques de pensamentos adversos ao nosso programa. nas horas de sono físico. Para os trabalhos da reunião que congregava nove pessoas terrestres. mas o relógio marcava o momento de nossa cooperação ativa e pusemo-nos em forma. Esquecem-se de que a mediunidade é uma energia peculiar a todos. ou revestindo-se de ferrugem asfixiante e destrutiva. nas cento e sessenta e oito horas de cada semana. incessantemente. à maneira de melros num arrozal. cerram os olhos ante a grandeza das leis que os cercam nos ângulos da natureza terrestre. De um instante para outro. Verificando-se espontânea parada. melhorando sempre. porém. Raros se capacitam de que a fé representa bênção suscetível de ser aumentada. tão logo se encontram a pequena distância de nossas portas. que lhe desintegram convicções e propósitos nascentes com insinuações menos dignas. e. são desbaratadas quase que diàriamente pela argumentação mentirosa de espíritos ingratos e menos permeáveis ao bem. a consolidação e o crescimento desse dom nos oferecem a todos. energia essa que se encontra subordinada aos princípios de direção e à lei do uso. vergastam-nos sem piedade. Além disso. quando em constante repouso.

111 ação. através da boca. Findos os serviços ativos. o hipnotizador gritou e chorou lamentosamente. em caráter definitivo. em pranto. fêz-lhe sentir a necessidade de renovação espiritual em edificante lição que nos tocava as fibras mais Intimas. com aguçada sensibilidade. o trabalho salutar das abelhas operosas. depois de sessenta minutos de exaustivo embate emocional. obtemperou: — O triunfo essencial ainda não veio. adestrando-lhe a faculdade de incorporação. por intermédio de passes magnéticos sobre a laringe e. À medida que se lhe casavam as forças às energias da médium. aliviada e. que lhe haviam fornecido energias vitalizantes. senhora daquele santuário doméstico e médium do culto familiar. os orientadores trouxeram Gaspar à organização medianímica. entre a penitência e a rebeldia. consolidando a resistência própria. Visão. a reunião foi encerrada. O senhor Silva. ao contacto dos companheiros materializados na experiência física. marido da médium. Misturou blasfêmias e lágrimas. mas precisamos agora socorrer-lhe a casa. pôs-se a gemer. foi extraida. desligando finalmente os “corpos ovóides” que foram entregues a uma comissão de seis companheiros que os conduziram. tato e olfato foram nele súbitamente acordados e intensificados. É necessário receber o auxílio externo. de viva voz. grande cópia de força nêurica. a postos socorristas. sobre o sistema nervoso. efetuaram operações magnéticas ao redor de Margarida. até que ela mesma incorpore à própria individualidade. a fim de que pudesse ele recolher algum benefício. Sorriu bondosamente e acrescentou: — Para que uma planta seja efetivamente preciosa. Apossando-se provisoriamente dos recursos orgânicos de Dona Isaura. qual se houvera acordado de intenso e longo pesadelo. com a devida compensação em fluidos revigoradores de nossa esfera. notando-se que imensa alegria transbordava de todos os corações. audição. dentro das contribuições de nosso círculo. mais se acentuava o fenômeno de reavivamento sensorial. à posição de demente com retorno gradativo à razão. Margarida estava. pedia ao esposo agradecesse. de impassível que se achava. Gaspar foi conduzido por dois servidores de nossa equipe ao lugar que lhe correspondia. narinas e mãos dos assistentes encarnados. . porém. de modo a produzir utilidades no bem comum. Margarida recebeu amparo imediato. em particular. Parecia um sonâmbulo. palavras comovedoras e palavras menos dignas. força essa que Gúbio e Sidônio aplicaram sobre Margarida e Gaspar. em visível processo de “enxertia psíquica”. cuidadosamente. os benefícios aqui recolhidos. nosso orientador preparou Dona Isaura. Quando a hora de amor cristão aos desencarnados começou a funcionar. as dádivas recebidas. isto é. A jovem senhora passou a demonstrar abençoados sinais de alívio e Gaspar. enfim. enquanto a prece e os estudos evangélicos se faziam ouvir. Reparei que os sentidos do insensível perseguidor ganharam inesperada percepção. Logo após. e. não basta que esteja bela e perfumada na estufa protetora. conversou detidamente com o doutrinador. Escutando agora. sem perceber. Gúbio e Sidônio. Gúbio. vendo Saldanha espantadiço. despertando. no evidente intuito de restaurar-lhes as energias perispiríticas. A essa altura. em esforço conjugado. tal como acontece às flores que sustentam.

teríamos guerra aberta com os assalariados de Gregório. . segundo Saldanha e Leôncio. por dez dias sucessivos. temíveis e insistentes. que viriam naturalmente sobre nós.112 E passando a entender-se com Sidônio. de vez que. de doze companheiros espirituais incorporados ao agrupamento destinado a reforçar as atividades defensivas na moradia de Gabriel. aceitou a colaboração. do dia seguinte em diante.

marca quase sempre uma entrevista pessoal. mormente nos trabalhos espirituais de ordem coletiva. num processo de semelhante natureza. reparei que a médium Dona Isaura Silva apresentava sensível transfiguração. qual se houvesse repentinamente apagado. agir com cautela. mostrava radiações brilhantes. e. Estampou na fisionomia significativa expressão e acrescentou: — Enquanto a criatura é vulgar e não se destaca por aspirações de ordem superior. sorridente. porém. todavia. no entanto. para a noite. terminada. algum recurso para socorrê-la? — indaguei. com as quais se sintonizou. a tarefa. Convenci-me de que o caso assumiria grande importância para os meus estudos particulares e. Crestar o grelo de hoje é perder a colheita de amanhã. Quando defendemos um broto tenro. porque não a abandonamos. com os seres e as forças que a povoam. porque o médium ésempre uma fonte que dá e recebe. em que age como válvula captadora das forças gerais dos assistentes. curioso. através dessa brecha que a induz a violentas vibrações de cólera. Reclama-nos concurso ativo. — Não há. E’ imprescindível. Isaura volta às tristes condições a que se relegou. . nesta noite. passa a ser notada pelos característicos de elevação e é naturalmente perseguida por quem se refugia na inveja ou na rebelião silenciosa. ao que ele me respondeu. Aguardar-me-ia o regresso no dia seguinte. Gúbio concordou. Nossa irmã é valorosa cooperadora. logo que demonstre propósitos de sublimação. quando se projeta em determinada faixa de vibrações inferiores durante o dia. alguma lâmpada invisível. viveu um dos seus dias mais infelizes. entretanto. compreendendo que Margarida já recebera grandes vantagens. cercou-se de emissões de substância fluídica cinzento-escura. Impressionado. desfruta bom ânimo e alegria. com natural indagação. entregando-se totalmente a esse gênero de flagelação interior. sem atingi-lo. as inteligências pervertidas não se preocupam com ela. apura-se-lhe o tom vibratório. em torno dela. porém.113 16 Encantamento pernicioso Finda a reunião. Hoje. é necessário combater os vermes invasores. sem humilhá-la e sem feri-la. em derredor do cérebro. perde excelentes oportunidades de servir e elevar-se. do qual é justo aguardar preciosa colheita no porvir. pedi permissão ao nosso Instrutor. oferecendo simpático ambiente pessoal. ainda não sucumbiu. para observar naquela noite o conflito inquietante entre a missionária e os que se lhe prendiam às teias escuras do sentimento. atencioso: — A pobrezinha encontra-se debaixo de verdadeira tempestade de fluidos malignos que lhe vão sendo desfechados por entidades menos esclarecidas. encerrada que foi a sessão. quando em função entre os dois planos. inadvertidamente. dirigi-me a Sidônio. visto não conformar-se com o progresso alheio. não perdeu ainda a noção de exclusivismo sobre a vida do companheiro e. revela qualidades apreciáveis e dignas. Enquanto perduravam os trabalhos. — Sem dúvida — elucidou o orientador da pequena e simpática instituição —. após o consentimento de Sidônio. contudo. pelos fios negros do ciúme Enquanto se acha sob nossa influência direta. pois cada servo acordado para o bem.

entretanto. contentes e otimistas. surgiu-nos à vista. Sidônio levantou-se e. Seguiu.114 Nosso grupo retirou-se conduzindo a doente e o esposo infinitamente satisfeitos e coloquei-me. Entretanto. deixando-nos perceber que a nossa aproximação lhe constituía. nem mesmo em nome do bem que não reclama escravos em sua ação e. Entidades perturbadoras ou criminosas não dispõem de acesso até aqui. a fim de ajudá-la. O interlocutor mostrou profunda tristeza no semblante calmo. em interessante conversação. à saciedade. já desligado do corpo físico. Caso quisesse perdê-las temporàriamente. alegou. com inflexão de energia na voz — naturalmente ainda hoje não se acha preparada para atender às lições. no entanto. não ignorava que a palavra do Mestre exortava os aprendizes ao perdão e ao amor para que os companheiros mais infelizes não se projetassem nos despenhadeiros fundos da estrada. Ali estava. naqueles instantes. se os seus desígnios se demorassem na linha contrária ao roteiro que o plano superior lhe havia traçado. ela mesma. convocando um de seus auxiliares. efetivamente. vai. revelando o perispírito intensamente obscuro. Isaura. e verás. na preservação das forças físicas. no fundo. mas a médium precipitou-se em desabalada carreira. Encontrava-se incapaz de assinalar-nos a presença. instintivamente. Mais alguns minutos e D. Com grande surpresa para mim. mas não me atendeu aos apelos! — Deixa-a! — observou Sidônio. o cooperador que lhe era apresentado. que o marido não lhe era propriedade exclusiva. ao encalço de maus conselheiros. quanto possível. detinha extensas possibilidades no serviço aos semelhantes. sob a ação do sono. Sabia. Esperemos que abandone o veículo de carne. Decorridas apenas duas horas. na experiência íntima. transtornada pelo ciúme. semelhante atitude de nosso lado implicaria a supressão indébita das possibilidades educativas. servidores livres. junto de nós. fora do corpo de carne. sim. — Por enquanto — explicou-me a certa altura da útil palestra —. à nossa influência. mas nossa amiga. este domicílio está sob a guarda dos nossos processos de vigilância. até que um dia conseguisse ela própria despertar em plano de compreensão mais alta. obrigandoa a submeter-se. Tentou o amigo tocá-la com a destra luminosa. O benfeitor explicou-me que poderia constrangê-la a ouvir-nos. vimos o senhor Silva que nos acenava de porta próxima. as vibrações mentais e demonstrava temer o contacto espiritual conosco. Sidônio endereçou-lhe algumas palavras amigas. percebia-nos. dispunha do direito de errar para melhor aprender — o mais acertado caminho de defesa da própria felicidade. mas não para algemá-la a atitudes com que ainda não pudesse concordar espontâneamente. era senhora do próprio destino e. mostrando-se encarcerada em absorvente idéia fixa. o prestimoso guardião continuou explicando que aquela senhora. ao lado de Sidônio. que não foram absolutamente ouvidas. porém não vacilou. Passou rente a nós sem prestarnos a mínima atenção. Isaura. sem reservas. que o ciúme tresloucado só poderia conduzi-la a perigosa situação espiritual. recomendou-lhe acompanhasse o dono da casa em proveitosa excursão de estudos. sem delongas. só nos restaria deixá-la circunscrita aos círculos da mente em desânimo ou em . O irmão Silva. de perto. outro recurso não nos cabia senão o de entregá-la à corrente da própria vontade. pesaroso: — Tanto desejava que Isaura viesse. aflitiva tortura.

a médium. através das sessões habituais. O ciúme e o egoísmo constituem portas fáceis de acesso à obsessão arrasadora do bem. acompanhávamos a senhora Silva. entrega-se a pensamentos de lascivia. Dona Isaura — disse um dos embusteiros. Sidônio informou-me: — Antes de tudo. o senhor também sabe? — Como não? — comentou o interlocutor. a cuja sombra se lhe depararam dois malfeitores desencarnados. acrescentou: — Repara. a senhora tem sofrido bastante em seus respeitáveis sentimentos de mulher. Deixando transparecer imensa tristeza. e prosseguiu: — Dona Isaura.. Isaura.. qual se fora andorinha delicada. enfático — sou um dos Espíritos que a “protegem” e sei que seu esposo lhe tem sido desalmado verdugo. Nunca sofri tanto! Indicando o quadro triste.. — Ah! meu amigo — clamou a interpelada visivelmente satisfeita por encontrar alguém que se lhe associasse às dores imaginárias e infantis — ‘então. sem se aperceberem da nossa presença. Abeiraram-se dela. — confirmava a pobre senhora. Pelo exclusivismo afetivo.. fixando senhoras que lhe frequentam o lar. — Reconheço — acentuou o loquaz perseguidor —. vejo-lhe o esforço e o sacrifício e não ignoro que seu marido eleva a voz nas preces. esta é que éa verdade! Sofro infinitamente. É evidente que a esperavam com o propósito deliberado de intoxicar-lhe o pensamento. aduzia: — É um absurdo! Dói-me vê-la algemada a um patife mascarado de apóstolo. a fim de que o tempo lhe ensinasse o reajustamento próprio. repentinamente presa num tabuleiro de mel —. D. E os protetores verdadeiros são aqueles que. — Com que então. lhe conhecem os padecimentos ocul- . Estugou o passo até encontrar velha casa desabitada. portadora de importante mensagem. em seguida. lhe aniquilarem as possibilidades de missionária. Sidônio concluiu num sorriso melancólico: — Educação não vem por imposição. por toda parte. — É isto mesmo. para. já se ligou mentalmente aos ardilosos adversários de seus compromissos sublimes. estou rodeada de gente desonesta. O inteligente obsessor abraçou a senhora.115 desespero. reconheço a extensão de seus padecimentoS morais. em lágrimas. parcialmente desligada do corpo físico. nesta conversação. surpreendendo-lhe as traições aos compromissos domésticos. confiou-se ao fingido amigo. fora do corpo de carne. Cada Espírito deverá a si mesmo a ascensão sublime ou a queda deplorável. molestada —.. para simplesmente acobertar as próprias culpas. Não existe neste mundo criatura mais desventurada que eu. a fugir de seu domicílio para a via pública.. tenho seguido o infeliz. acredite que somos seus leais amigos. A esse tempo. como nós.. os agentes da desarmonia perturbam-lhe os sentimentos de mulher. Depois de pacientes elucidações. — Sim — gritou. amistosos e macios. Envolvendo a médium imprevidente na melifluidade das frases.. apresentando na voz mentiroso acento de compaixão —. em plena oração. Por vezes. inimigos sagazes do serviço de libertação espiritual de que se convertera em devotada servidora. A fim de “ajudá-la”.

apontando os malfeitores desencarnados. Tome cuidado!. Impressionada com a estranha inflexão impressa nas palavras ouvidas. para que o bem se concretizasse e ela própria emprestou-nos os lábios a fim de ensinarmos princípios de salvação em nome do Cristo. e gritou: — Aconselhe-me. Se estudar a grave questão do Espiritismo. a quem deveria confiar-se. Não vê a plena consciência com que se entrega ao imaginado intercâmbio? Não creia em possibilidades que não possui. ouviu formosa e comovedora preleção evangélica contra os perigos do egoísmo enfermiço. A médium invigilante arregalou os olhos. que fizemos. observou com malicia: — A senhora não nasceu com a vocação do picadeiro.. Espantado com a passividade de Sidônio. depois de saquearem uma casa. que mais se assemelham a palhaçadas inúteis. que tão bem me conhece o martírio silencioso! O interlocutor. inerme. interessados em orações coletivas.. hipnotizam- . com inteligência e acerto. porém menos tranqüilo: — Não será razoável defendê-la? Ele sorriu compreensivamente e elucidou: — Todavia. e explicou: — Estes companheiros retardados procedem com os médiuns à maneira de ladrões que. Não é justo que se submeta às arbitrariedades do marido infiel. É um perigo entregar-se a práticas mediúnicas. apenas porque o esposo se dispôs a justa gentileza com as damas que lhe buscaram a companhia esclarecedora e fraterna. reconhecerá que as mensagens escritas por seu intermédio e as incorporações de entidades supostamente benfeitoras não passam de pálidas influências de Espíritos perturbados e de alta percentagem dos produtos de seu próprio cérebro e de sua sensibilidade agitada pelas exigências descabidas das pessoas que lhe frequentam a casa. Precisa ainda de longo tempo para desenvolver-se suficientemente. acordam o dono. Não permita a transformação de sua casa em sala de espetáculo. colaborou. tão ingênua e prestimosa. senão prepará-la à própria defensiva? Trabalhou mediúnicamente conosco. aduziu: — Já meditou bastante na mistificação inconsciente? Está convencida de que não engana os outros? É indispensável acautelar-se. mesmo porque seu esposo não tem outro objetivo senão o de utilizar-lhe a credulidade excessiva. na intenção de destruir a célula iluminativa que funcionava com imenso proveito no santuário doméstico da jovem senhora. endereceilhe a palavra. Abstenhase de receber-lhe o séquito de companheiros hipócritas. lançando-a a triste aventura do ridículo.. a entidades que lhe exploram o sentimentalismo. Entretanto. Trate de preservar a dignidade de sua casa. E envolvendo-a nos pesados véus da dúvida que anulam tantos trabalhadores bem intencionados. decidida. obscureceu o pensamento no ciúme destruidor e perdeu o equilíbrio íntimo. ante aquele assalto. respeitoso. Seu marido e suas relações sociais exageram-lhe as faculdades. há poucas horas. Fêz significativo gesto. registrava com visível terror aquela conceituação do assunto. A pobre criatura. Espírito generoso e amigo. entregando-se.116 tos. no culto da prece e do socorro fraternal.. assediada agora por seus argumentos adocicados e venenosos. qual vem fazendo em companhia de gente dessa espécie.

zombou. Nessa posição. exclamando: — Vejo Sidônio. mais tarde. — Estude a senhora o próprio caso. no que foi seguido por mim. nosso devotado amigo espiritual! O verboso obsessor. tem a matéria mental em posição difícil e não se acha em condições de compreender-me. Sidônio voltou algo triste e informou sem rebuços: — Desde o instante em que Isaura se projetou na zona sombria do ciúme. bem humorado —. sacrílego: — Falo-lhe em nome das Esferas Superiores na qualidade de amigo fiel. enigmático.. mas. o obsidente de Dona Isaura afirmava-lhe. franco: — Nada disso. com sarcasmo imperceptível e sutil. quer dizer que ainda estima o personalismo inferior e o fenômeno.117 no e obrigam-no a tomar-lhes o lugar. e a médium registrou-lhe a presença com alguma dificuldade. obrigam-na a acreditar-se fantasiosa e desprezível. Abandone o vicio mental para furtar-se a maiores desequilíbrios. palrador. que será mais aconselhável? Espantar moscas ou curar a ferida? Sorriu. convive com as entidades cujo contacto prefere. sensibilizado — de afastar semelhantes malfeitores? — Sem dúvida — elucidou Sidônio. junto de vários amigos espirituais. É pura ilusão. — concordava a interlocutora. Em volitação rápida. furtam-lhe a tranquilidade e. Então cai vibratôriamente no nível moral a que se ajusta. disso fazendo condição para cooperar na obra do bem. compelindo-o a sentir-se na condição de mentiroso e mistificador.. verificando as horas preciosas que desprezou. sob pena de enlouquecer. através de preciosa sementeira que lhes enriqueça o futuro.. demorar-se-á longo tempo entre desencarnados ociosos que disputam a mesma presa. em toda parte existe contenção e panacéia. que de maneira alguma percebia a nossa vizinhança. Nesse momento. Sidônio abeirou-se do grupo e fêz-se visível para Dona Isaura. E comentava.. deve aproveitar em benditas experiências e não nos compete subtrair o ensinamento ao aprendiz. Mas. perde provisoriamente a companhia edificante de irmãos mais evolvidos que tudo fazem inútilmente pelo reerguer no caminho. dilaceram-lhe a harmonia. A senhora nada vê. Muitos missionários se deixam atropelar pela falsa argumentação que acabamos de ouvir e menosprezam as sublimes oportunidades de estender o bem. entre encarnados e desencarnados. — Mas não há recurso — inquiri. e prosseguiu: — Tais dificuldades são lições valiosas que o Espírito do medianeiro. a histórias que lhe lisonjeiem a esfera pessoal. e acorda. a fim de auxiliar a . remediando situações pela violência ou pelo engodo prejudiciais. compreendo. encontrou o marido da medianeira numa reunião instrutiva. Enquanto um trabalhador da mediunidade empresta ouvido. Leia as últimas novidades em psicanálise e não perca sua oportunidade de restauração. poderemos socorrê-la de outro modo. depois. e recomendou-lhe tomar o corpo físico sem perda de tempo. acima do serviço que lhe cabe no plano divino. depois de certo tempo de auxílio desaproveitado. anulando valiosa ocasião de elevar-se. Consulte cientistas competentes. — Sim. A esse tempo. hipnotizada pelos perseguidores. em virtude do baixo padrão emocional em que se mantinha. tímida e desapontada. Aproximam-se da mente invigilante. na intimidade de nossa tarefa. porque.

paciente — não temos sido tão amparados. abrindo os olhos assustadiços: — Oh! como sou infeliz! — bradou. André. ao lado dele. . O irmão Silva não hesitou. querida. Dócil à influenciação de Sidônio. sorrindo — jamais foste mentirosa. quase incorporado ao marido complacente e bondoso. E esta conversa agora seguirá até muito longe. — Como assim? — tornou ele. Com o milagroso concurso das horas. Tudo é expressão de mim mesma. construtivamente: — Lembra-te. levava-o a falar. regressava à câmara conjugal. Irritada. angustiada — estou sozinha! Sidônio. Caíste nas malhas dos nossos infelizes irmãos que te conduzem ao purgatório do ciúme terrível. através de tua própria mediunidade? — Nunca! nunca. procurou despertá-la. As mensagens que recebo são pura atividade de minha imaginação. mas Jesus nos auxiliará no oportuno reajustamento. Sidônio voltou-se para mim e lembrou: — Penso. retornou ao campo carnal sem detença. de nossa fé e de quanto temos recebido de nossos amados benfeitores espirituais! — Nada disso! —retrucou. tudo é uma farsa. que já assististe à fase culminante da lição. — protestou a pobre senhora —. em copioso pranto.. delicadamente. mas exclusivista e invigilante. sacudindo-lhe o busto. Em breve.. Nesse momento. Isaura. Isaura! — aduziu o esposo. Volta ao teu círculo de trabalho e guarda o ensinamento desta noite. pacificaremos a mente da servidora respeitável. Profundamente tocado pelo que vira. — Mas ouve.118 esposa em dificuldade. Já sei. O corpo da senhora. acorrentado a indizível pesadelo. arfava em reiteradas contorções. agradeci e afastei-me. reapossando-se do veículo denso.

meu amigo. Saldanha estampou na fisionomia perceptível gesto de reconhecimento e avançou na direção dos recém-chegados. De nosso lado. Teimavam em dizer que os adversários do bem voltariam à carga.. que novamente se revestia das doces claridades da paz. Enquanto aprestávamos a defensiva. que compareceu. velha serva encarnada. O interlocutor lançou-lhe um olhar ‘de revolta insofreável e indagou estentórico: — Onde tens a cabeça? . quando vozes ásperas se fizeram ouvir. O prédio como que se reconciliava com a harmonia. mas firme: — Meus compromissos foram assumidos com a própria consciência e acredito dispor do direito de escolher a minha rota. e rendia graças ao Eterno pelo “milagre” com que fora contemplada. junto de nós. Saldanha e Leôncio eram os primeiros a pedir instruções de trabalho. Conheciam a crueldade dos ex-companheiros e. E tentando insinuar-se de maneira direta. por influência indireta. ao redor da casa. clamou: — Deixa-me entrar! — Não posso — esclareceu o ex-perseguidor —. Gúbio começou por traçar expressivas fronteiras.. irreverente: — Então? que houve aqui? Traindo o comando? O interpelado. As medidas referentes à limpeza prosseguiam adiantadas. Veremos. Tem coragem e resiste ao venenoso fluido da cólera. partidas da via pública. porém. dando passagem a vastas correntes de ar fresco. a casa segue noutra direção. Usa a serenidade e a delicadeza. A casa transformou-se.. Nosso Instrutor paternalmente lhe recomendou: — Vai. nossa movimentação aureolava-se de sublime entusiasmo no santuário doméstico.. desapontado e algo aflito. respondeu humilde. porque muitos apaniguados de Gregório viriam fiscalizar a normalidade do processo alienatório da esposa de Gabriel. Saldanha dirigiu-se ao interior da casa e trouxe. e mostra-lhes o novo rumo. na tarefa de socorro a Margarida. de mãos à cintura. Elementos da falange gregoriana gritavam por Saldanha. bem disposta. O esposo formulava mil promessas de trabalho espiritual. sarcástico — tens agora o direito. Desde a véspera. Uma das entidades de horrível semblante. bruniu adornos e abriu as janelas. — Ah! — disse o outro. com o júbilo do neófito embriagado de sublime esperança. o jovem casal louvava a alegria que lhes retornara aos corações. mantidas dali em diante sob a responsabilidade dos colaboradores que Sidônio nos cedera por gentileza. as responsabilidades passaram a crescer. gritou-lhe. que es-panou móveis.119 17 Assistência fraternal No segundo dia de serviço espiritual definitivo. que os últimos sucessos haviam alterado profundamente. Atendendo às determinações de Gúbio. Margarida sentia-se leve.

.120 — No lugar próprio. livrei-me da aflição!. permitindo-lhe a passagem. sob regime de prisão aos círculos inferiores. E. afirmando-se dispostos à renovação de caminho. Temiam o desconhecido e mendigavam elucidações. Procediam da própria colônia que visitáramos. em grande bloco. mas bem intencionados. O orientador consolou-a. O visitante fêz carantonha de irritação extrema e aduziu: — Gregório saberá. naturalmente atraidos por eles. de repente. bondoso. Piedade! piedade!. Dezenas de criaturas desencarnadas. A primeira entidade a aproximar-se foi uma senhora que se ajoelhou. indicando a nova posição daquele abrigo doméstico. instigando-o à embriaguez. foi claro na enunciação dos propósitos de que se achava inspirado. porém. O nosso Instrutor atendeu-a. segregada por verdugos impassíveis que lhe exploravam antigas disposições mórbidas para o vício. Gúbio colocou sinais luminosos nas janelas. Curiosa dama compareceu pedindo providências contra Espíritos pervertidos e perturbadores que. agora. porém. Tive a idéia de que a missão de Gúbio se convertera. que vos congregastes nesta casa. — Salvem-me dos juizes cruéis! — suplicou. num edifício próximo. Antes. apareceram em grande número. Outra veio solicitar recursos contra os maus pensamentos de um Espírito vingativo que lhe não dava ensejo à oração. em serviço de luz. as consequências do gesto impensado? — Nada tenho de que penitenciar-me. Implorava asilo e socorro. numa avançada instituição de pronto-socorro espiritual. imediatamente. Transcorridos alguns instantes. não ficou aí. e. com a repetição dos mesmos quadros. outros elementos assomaram à entrada. opondo-se às manchas de sombra que provinham dali. as atrocidades que sou constrangido a praticar. rogando pousada.. e prometeu-lhe amparo. e um deles. assustadiços e insolentes. começaram a surgir vários elementos da falange de Gregório. contou em pranto que se mantinha. Achava-se. Espiritos sofredores e perseguidos. Revelavam-se possuídos de imenso terror. no pátio ao lado. à entrada.. Logo após. com grande assombro para mim. Ambos haviam desencarnado em extrema indigência num hospital. emocionando-nos pela inflexão de voz — não posso mais! não suporto. Não se conformavam com a morte. contudo. surgiram dois velhos. — Não temes. que o dia expirasse. cenas diversas passaram a desdobrar-se. suplicando: — Benfeitores de Cima. há muito tempo. E retirou-se acompanhado pelos demais. outro rumo. alinhavam-se. sob a determinação de Gúbio que dizia aguardar a noite para os serviços da prece em geral. A corrente dos pedintes. Penitenciava-se. cansada do erro e suspirava por mudança benéfica. lhe não permitiam aproximar-se do filho. ao lado da residência de Gabriel. Em breve. Soube que o próprio Saldanha se . porventura.. por mais tempo. Pretendia outra vida. Padeciam de verdadeira loucura.

pronunciando rogativas comovedoras. pedi a uma das irmãs presentes. o veneno que me desintegraria o corpo menosprezado. Apelos como este foram repetidos muitas vezes. em deploráveis condições perispiríticas. enfrentá-las-ei de bom grado. transportando-me ao suicídio! Mãe de dois filhos. no vasto recinto de que dispúnhamos. contudo. para acentuar-me a angústia. a fim de se prepararem mentalmente para as orações da noite. Despertei sob denso nevoeiro de lama e cinza e debalde clamei socorro. os filhos. Ajudem-me! Aspiro ànova estrada.. sem necessidade de doutrinação de minha parte. todavia. entreguei meus pobres filhos a parentes caridosos e sorvi. penosamente —ai de mim. os compromissos assumidos e precipitei-me no vale fundo de sofrimentos inenarráveis.121 transformou. — Ai de mim! — começou. De há muito aprendera que uma dor maior sempre consola uma dor menor e limitava-me a pronunciar frases curtas. a quem a paixão cegou e venceu. Eu não posso persistir no erro! Temo a perseguição de Gregório. por gentileza. mas. em vista de os necessitados continuarem chegando. o nosso orientador aconselhara fôsse a entrada privativa dos Espíritos que se mostrassem conscientes das próprias necessidades. Confesso que me senti à vontade. o toque de meu carinho nos filhos amados. Cerrei os olhos ao campo de obrigações que me convidavam ao entendimento e sufoquei as reflexões ante o futuro que se avizinhava. todavia. expor-nos. se é necessário arrostar as maiores dores. nem uma realização nem outra me surpreenderam o coração. gritei sem destino certo! A essa altura. A infortunada concentrou a atenção de todos. era imperioso abrir novos lugares no extenso grupo dos ouvintes. louca. Leviana que fui! quando me vi só e aparentemente desamparada. então. precisamente. para que os infelizes. Muitas entidades em desequilíbrio. mas. Coberta de chagas. Organizei os irmãos que me cabia atender em assembléia fraternal. a experiência de que fora objeto. de espaço a espaço. uns com os outros. Há quinze anos. qual se o tóxico letal me atingisse os mais finos tecidos da alma. perguntando. . em dois setores distintos. não suportei a solidão que o mundo me impusera com a morte de meu marido tuberculoso. Conduzindo-me desse modo. porque a emotividade lhe interceptasse a voz. com o bem. Olvidei o lar. interferi.. em virtude das feridas extensas que mostrava no semblante agora erguido. Enfileirando os sofredores de intenções nobres e retas que nos alcançavam. de modo a fixar o ensinamento: — E não conseguiu retornar ao santuário doméstico? — Ah! sim! fui até lá — informou a interpelada tentando dominar-se —. lá fora. preferindo-lhes o golpe fulminatório a regressar. à face dos padecimentos que me asfixiavam. Dividimo-nos. nosso Instrutor recomendou que eu e Elói nos colocássemos à disposição deles. vagueio sem pouso. reclamavam acesso. ouvindo-os com paciência e prestando-lhes a assistência possível. encontrassem reconforto. ali congregados. à feição da ave imprevidente que aniquilasse o ninho. Supunha reencontrar o esposo querido ou chafurdar-me no abismo da inexistência.

formulando ordens e propostas referentes a ações indignas que não posso aceitar. O interlocutor. vigilante. estabelecendo o padrão de nossa influência. sem dúvida. Desde então. Parecia alucinado. É por isto que venho até aqui implorando alívio e segurança. por intermédio da prece — esclareci. força criadora de nossa própria alma e. e reparando que um dos irmãos presentes buscava salientar-se. através da respiração. com enorme quadrilha de Espíritos perversos e galhofeiros que me tomavam por aparelho invigilante de suas manifestações . perambulo sem consolo e sem norte. então. mais que eu poderia imaginar. enquanto isto ocorre. aflito: — Permite-me indagar? — Perfeitamente — respondi surpreso. nos galarins da fama. centralizando minha capacidade receptiva. e. provàvelmente tocado pelo tom de minha solicitação afetuosa. atuamos no meio em que vivemos e agimos. deles fugi aterrada. Com a expressão típica da loucura cronicificada. — Convença-se de que receberá os recursos que pleiteia. sou incessantemente procurado pelas vítimas de minhas insinuações sutis.. um tanto atormentado — a explicação significa que as nossas idéias exteriorizadas criam imagens. estendendo minhas criações à mocidade de meus dias. — Que é o pensamento? Não aguardava a pergunta que me era desfechada.. tão vivas quanto desejamos? — Indiscutivelmente. para destruir nossas próprias obras. quando interferimos. mais calma. em torno das palavras que pronunciaria. elucidei como pude: — O pensamento é. roguei atenção. Estou cansada e vencida. envenenando-lhes a carne delicada. erroneamente. prometendo-lhe a colaboração eficiente de Gúbio. mas. no propósito de responder com acerto. falou. outras entidades me buscam. no bem ou no mal. Compreendi que me achava em ligação. desde a existência terrestre. Não consegui posição de evidência. Cultivava o chiste malicioso e com ele o gosto da volúpia. e notei-lhe o singular brilho dos olhos. entretanto. muitas mentalidades juvenis. Quando compreendi que a minha presença lhes inoculava pavoroso “virus fluídico”. provocava-lhes aflição e enfermidade. arrastando-as a perigosos pensamentos. A pobrezinha sentou-se. que me não deixam em paz. com frases incisivas. Através dele. abatido. e a continuação de nós mesmos. mas nunca me interessei pelo lado sério da vida. — Que fazer. destrutivamente. Depois do meu decesso. no intuito de relatar-nos a experiência de que era vítima. — Ah! — fêz o estranho cavalheiro. expôs a perturbação que lhe vagava no íntimo. contando-nos alguma coisa de sua experiência — pedi com interesse fraternal. quentes de sinceridade e dor: — Fui homem de letras. As irradiações de minha dor lhes alcançavam os corpos tenros. impressionei.122 que confiara aos parentes próximos. por isto mesmo. Fitei-o. na vida mental dos outros? — Auxilie-nos a apreciar seu caso. É preferível suportar o castigo de minha própria consciência isolada e sem rumo que infligirlhes sofrimento sem causa! Experimentei medo e horror de mim mesma.

que abrindo meus olhos à verdade. denunciava. semi-apalermado — merecerei a graça de transmitir alívio?. apupam-me e vergastam-me o brio. — Eu? eu? — falou o convertido. certas formas estranhas me apoquentam o mundo interior. entregando-se ao resgate próprio. em alguns segundos. Investem contra mim. Alçando a destra à garganta. na romagem carnal. meu amigo. correndo aos meus braços. indicou-lhe o doente em crise e falou peremptório. como se vivessem incrustadas à minha própria imaginação. com uma frase apenas. pode sustentar uma usina de força edificante. mas bondoso: — Opera. não obstante a calma reinante. se bem que sejam visíveis tão somente aos meus olhos. Falam.. É imperioso reconhecer. que eles exploraram largamente. sustei o tumulto que se iniciava. enviei um emissário a Gúbio. enquanto nos situamos nas linhas do mal.123 indesejáveis. suficiente material de leviandade e malícia. É uma das minhas personagens na literatura fescenina! Ai de mim! acusa-me! Gargalha irônica e tem as mãos crispadas! Vai enforcar-me!. Houve quem tentasse fugir. acusam-me e riem-se de mim. alarmaram-se. aliviando. todos somos devedores. que compareceu. mas. contudo. bradou: — Ei-lo! ei-lo que chega por dentro de mim.. Tenho vivido ao léu. no próprio espírito. O pobre beletrista desencarnado contorcia-se em meus braços. Gúbio. Reconheço-as sem dificuldade. que o bem é a nossa porta redentora. Cautelosamente. porém. titubeante.. sem que eu pudesse socorrer-lhe a mente transviada e ferida. qual alienado mental que ninguém compreende! Como entender. no entanto. aflito: — Serei assassinado! Socorro! socorro!. Quando não sou atribulado por mulheres e homens que se afirmam prejudicados pelas ideias que lhes infundi. Assemelham-se a personalidades autônomas. o ex-hipnotizador de Margarida.. Examinou o caso e pediu a presença de Leôncio.. como se fôssem filhos rebelados contra um pai criminoso. através do . Acontece.. os pesadelos que me possuem? Somos o domicílio vivo dos pensamentos que geramos ou as nossas idéias são pontos de apoio e manifestação dos Espíritos bons ou maus que sintonizam conosco? Havia nos ouvintes significativa expectação. Fitou em mim os olhos esgazeados de esquisito terror e. obtemperou. sem hesitar: — Serviço construtivo e atividade destrutiva constituem problema de direção. desditosos. gesticulam. À frente do recém-chegado. ali presentes. em vão busco adaptar-me a processos mais nobres de vida. devastadora. O infeliz deixou de falar. eu mantinha por mim mesmo. que derruba e mata. A corrente líquida. adicionando aos meus erros os erros maiores que intentariam debalde praticar. O maior criminoso pode abreviar longos anos de pena. No fundo. São imagens vivas de tudo o que meu pensamento e minha mão de escritor criaram para anestesiar a dignidade de meus semelhantes. Os demais companheiros perturbados e sofredores. Demonstrava-se atormentado por energias estranhas ao próprio campo íntimo. porém. na esfera em que hoje respiramos. sem meu concurso ativo. apalermado e trêmulo à nossa vista. Em verdade.

Leôncio não mais vacilou. esqueceu as promessas de muitos anos e entregoume os dois anjos à madrasta sem entranhas. nas últimas informações que transmitira. simpática senhora pediu-me permissão para cantar um hino evangélico. acerca das obrigações e esperanças que lhes competiam desenvolver. de triste fisionomia. poucos minutos depois. A assembléia.. em seis meses. mas a morte me arrebatou muito cedo do lar. o ex-perseguidor não mais me abandonou nas experiências do dia. interferi nas conversações. angústias e desencantos. e doce júbilo transparecia de todos os olhares. E nosso orientador fora categórico. Magnetizou o enfermo dementado que. em voz súplice: — Meu amigo. neste cenáculo de fraternidade. Dissipando-lhe as dúvidas. Na exaltação da fé e confiança que nos dominavam. Entidades de boa intenção buscavam-nos sequiosas de paz e esclarecimento. que cruelmente os amesquinha. Mas não foi a morte o único algoz que me feriu. Em razão disso. para os serviços de oração que ele pretendia realizar. Fixou os olhos lacrimosos nos meus e rogou. depois de comovente intervalo: — Promete-me. aos últimos versos do cântico de esperança. e cabia-nos preparar quantos nos buscavam. além da morte do corpo. Alegre e reconfortado pela expressão do serviço que nos fora conferido. prazeroso. em profundo repouso. mas. todavia. Sinto. quando. meu amigo. doía-me observar tanta ignorância. tomada de incoercível revolta. avançou para mim e disse. famintos de conhecimento santificante. jovem dama. tenho sede de esquecimen- . Raciocínios e sentimentos jaziam presos ao chão terrestre. a fim de ser mais útil.. A noite próxima assinalar-nos-ia o término da permanência junto ao lar de Margarida. tinha meus olhos nublados de pranto. a conformação e o contentamento reinavam em todos os rostos. tão belos e tão puros como duas estrelas. Ao entardecer. a bênção do olvido na “esfera do recomeço”! (1) Fui mãe de dois filhinhos. Nosso Instrutor prometera conduzir os companheiros de boa vontade a esfera mais elevada. Meu marido. porém. Em tua determinação de ajudar. vinculados a interesses e paixões. aqui e agora. Não convinha comparecessem desprevenidos de avisos salutares e oportunos.. que o mal nos afundará invariàvelmente nas trevas. silenciou. estou entediada do ódio que me constringe o coração! Preciso renovar-me para o bem. desapiedado.. e era de ver a beleza da melodia desferida em notas de maravilhoso encantamento. ao que anuí. Na maior parte dos presentes não surgia o mais leve traço de compreensão da espiritualidade.124 serviço benéfico aos semelhantes. esconde-se a solução do segredo da felicidade própria. Entretanto. Há vinte meses luto contra ela. porém. Desde esse instante. acentuou com inflexão de ternura: — Começa hoje. francamente. com o Cristo. garantindo-lhes a passagem para a condição superior. desempenhando as funções de excelente companheiro. de hoje em diante adotarei novo rumo. disseminando os esclarecimentos de que podia dispor. crescia de hora a hora.

sem o ciúme violento e aviltante! Entretanto. comovido. Sensibilizado. entregue aos caprichos que me arrastam. chorando por minha vez. Fixa-te em Jesus e doce esquecimento do perturbado campo terrestre te balsamizará o espírito. farei tudo quanto estiver em minhas forças para auxiliar-te. . como a criancinha quando se sente segura e feliz. por mais tempo. onde minhas recordações amargas possam tranqüilamente morrer. E refletindo nas dificuldades de quantos empreendem a reveladora viagem da morte. Ela abraçou-me. Serei teu amigo e desvelado irmão. ainda. confiante. Não me deixes. preparando-te para o vôo às torres celestes. nela enxerguei uma irmã pelo coração e que me cumpria esclarecer e amparar. Abracei-a.125 to. não ignoro que o Mestre Divino se entregou à cruz. Eu também sofrera intensivamente para desvencilhar-me dos laços inferiores da carne. como se o fizesse a uma filha. em extrema (1) Nos círculos mais próximos da experiência humana. exclamei: — Sim. sem bases de verdadeiro amor e de legítimo entendimento nos corações que permanecem à retaguarda. “esfera do recomeço” significa reencarnação. no seio da noite do mal que me envolve. Minha inclinação ao bem é insignificante réstia de luz. Compadece-te e ajuda-me! Não sei amar. renúncia! não permitas que as minhas elevadas aspirações desta hora venham a perecer! As rogativas e lágrimas daquela mulher acordaram-me a lembrança viva do próprio passado. — Nota do autor espiritual. Ajuda-me por piedade! Prende-me em algum lugar.

erguendo a voz no cenáculo de fraternidade. sequiosos das águas vivas do Reino Celeste! Aqui nos congregamos. Todavia. elegemos por nossos condutores nos despenhadeiros da sombra e da morte. Mestre. Mas nós. cai sobre santos e pecadores. mais que a surdez que nos toma os ouvidos e mais que a cegueira que nos absorve o olhar. porque o pensamento. Descerra-nos o futuro e inclina-nos a alma à atmosfera da bondade e da renúncia. à espera de tuas santificadas determinações. que ali nos encontrávamos para receber a bênção do Plano Superior. mas confiamos em Ti. por desdita nossa. nos achamos atrofiados pela própria imprevidência. mas. desconhecendo o próprio rumo. ainda. Ó Senhor! livra-nos do mal que amontoamos no santuário de nossa própria alma! . Senhor.. Sob a doce claridade lunar. usando a lava comburente. Gúbio assumiu a direção dos trabalhos e congregou-nos em largo circulo. aprendizes de boa vontade. qual sucedia no problema de Margarida. ésempre suscetível de comunicar alívio e iluminação a muita gente. nos menores gestos. cuja influência santificante regenera e salva sempre. Dentro da extensa noite que improvisamos para nós mesmos. Poderoso Amigo. rogou humilde e comovente: — Senhor Jesus. punha em jogo forças individuais de suma importância no êxito ou no fracasso do tentame. Temos o peito ressecado pelo egoísmo e os pés congelados na indiferença. pelo abuso dos benefícios que nos emprestaste. padecemos. efetivamente. Esclareceu que um caso de socorro. ainda que para isso sejamos compelidos a passar pelo vulcão do sofrimento! Não nos relegues aos precipícios do passado. discípulos teus.. tu que abres o seio da Terra pela vontade do Supremo Pai. possuímos tão sômente a lanterna bruxuleante da boa vontade. a fim de que as nossas energias mais nobres fôssem ali exteriorizadas. quanto a do Sol. emoldurada em otimismo renovador. justos e injustos. Recomendou-nos o esquecimento dos velhos erros e aconselhou-nos atitude interior de sublimada esperança. elucidando. liberta-nos o espírito dos velhos cárceres do «eu”. tornava-se imperioso guardar inequívoca posição de superioridade moral. Era. Sabemos que nunca nos impediste o acesso aos celeiros da graça divina e não ignoramos que a tua luz. precioso guia a conduzir-nos aos montes de elevação mental. através de muitos séculos. para isso. De todas as fisionomias transbordavam o contentamento e a confiança. de extrema petrificação na vaidade e no orgulho que. em reunião qual aquela. digna-te abençoar-nos. quando orientado nos princípios evangélicos. que a ventania das paixões pode apagar de um momento para outro. quando o nosso orientador.126 18 Palavras de benfeitora A reunião noturna guardava-nos surpreendente alegria.

a fim de que. em silêncio. pretende ela visitar-nos. daquele êxtase bendito que nos assomava. Calara-se-lhe a voz. todos aguardais a hora feliz de abençoado retorno à “esfera do recomeço’. a dádiva do vaso de carne é inapreciável bênção divina. encorajando quantos aqui hoje se candidatam ao serviço preparatório de ingresso em circulos superiores. não nos deixes cadaverizados no egoísmo e na discórdia. em forma de mulher. sem detença. Em breves instantes. . possamos alcançar. embora o halo radioso que lhe cobria gloriosamente a cabeça veneranda. dominadas de incoercível emoção. Envia-nos. ao coração. porque verdadeira chuva de raios diamantinos começou a jorrar do Alto sobre ele. porque as irradiações pairavam em torno.127 Abre-nos. a glória da ressurreição verdadeira. mas o quadro sublime arrancava-nos pranto de emotividade indefinível. efetivamente. A abnegada protetora endereçou à assembleia um gesto de bênção e falou em voz pausada e emocionante. venerável e bela. Reparamos. do semblante e das mãos. Não havia um só dos circunstantes sem o toque visível. Ante a benfeitora. Antes do reencontro com Gregório. enquanto o sábio mentor se recolhia a dois passos de nós. como se força misteriosa e invisível ali houvesse libertado divina torrente de claridade em nosso favor. que luz brilhante e doce passou a se lhe irradiar do peito. depois de ligeira saudação: — Meus amigos. receberam resposta celestial. entretanto. porque. de assalto. Tremi. magnânimo. semelhando-se a matéria estelar. enquanto devo fornecer recursos à materialização de nossa benfeitora Matilde. do corpo de carne. agora. perante a ordem. Tomei-lhe o lugar. O fenômeno da materialização de uma entidade sublimada ali se fizera prodigioso aos nossos olhos. dando-nos a ideia de que manipuladores invisíveis lhe infundiam plena vida humana. Vejo-a ao nosso lado. em profunda meditação. por piedade. Mais alguns instantes e Matilde surgiu diante de nós. mas não hesitei. Revela-nos tua vontade soberana e misericordiosa. o caminho salvador que nos laça dignos de tua com paixão divina. os mensageiros de tua bondade infinita. dirige os trabalhos da reunião. em companhia de bemaventuradas entidades que a assistem. em ondas sucessivas. nos sentíamos em contacto direto com um anjo glorioso. em processo quase análogo ao que se verifica nos círculos carnais. as lágrimas serenas do orientador. esclarecendo haver chegado a noite longamente esperada por seu coração materno. como que formando singulares paradas nos movimentos que lhe eram característicos. tenuíssima. Distanciados. um dia. diversas mulheres presentes prosternaram-Se. no rosto. atitude natural que não nos surpreendeu. aquela massa suave e luminescente adquiria contornos definidos. Chamou-me num sopro e informou: — André. de maneira tangível. executando-a. para que possamos abandonar o sepulcro de nossas antigas ilusões! Nesse momento. O Instrutor parecia vacilante. em prece.

A aquisição das virtudes iluminativas. no instante oportuno. não constitui serviço instantâneo da alma. quando nos faleçam méritos para obtê-la.128 Não busqueis a reencarnação tão sômente pela ânsia de olvido. movimentando amigos que nos conduzam aos objetivos disputados. tão só para usarem direitos que nada fizeram pelos merecer. onde estiver. é contínuo processo de aperfeiçoamento. nos sonhos do mundo que as tentações do campo inferior podem transformar em pesadelo. Não basta desejar. Sou humilde servidora. com absoluta perda do tempo. tanto quanto é possível conseguir trabalho digno na Esfera da Crosta. e que nos definem muito mais que as palavras. para repetirem as mesmas faltas de outra época. no entanto. prosseguiu: — Não julgueis seja eu excepcional emissária do reino da luz. Não me confirais. É imprescindível orientar o desejo na direção do Bem Infinito. encarnada ou desencarnada. formulando precipitadas promessas. sem outro crédito perante o Eterno Doador que não seja o da boa vontade. interessada em acordar-vos para a sublimidade do futuro. nomes e títulos que não possuo. arrebatando-nos às esferas resplandecentes. não conseguiram apagar. A criatura. Todos nós exteriorizamos energias. Gloriosas sementes de divindade esperam-nos a harmonia e o ajustamento interiores para desabrocharem. A vida que conhecemos. Tímidas. ao redor dos próprios passos. Sou simplesmente vossa irmã de luta. por nós mesmos. Nesse momento. talvez respondendo à argüição mental de muitos. dentro de nós mesmos. aproveitam o estágio bendito na Região da Neblina (1). que é patrimônio do Senhor. Meus pés jazem ainda marcados pelo pretérito obscuro e meu coração ainda guarda cicatrizes recentes e profundas de experiências amargosas. com as quais nos revestimos. cada qual de nós. De que vos valeria o retorno à oficina da carne. que os dias incessantes. ante a Justiça Divina? que nos adiantaria o temporário esquecimento do passado. a fim de habitar conosco para sempre. com flagrante abuso das leis que nos regem as ações. suscetível de efetuar-se de momento para outro. portanto. sem nos integrarmos na responsabilidade. até agora. no entanto. Somos. qual ocorre a muitos encarnados que se localizam em respeitáveis quadros de serviço. tal qual a aranha que se confunde nos fios escuros que produz ou da andorinha que corta os altos céus com as próprias asas. e nele penetram agravando os próprios débitos. dentro de breve intervalo que imprimiu à alocução . respira entre os raios de vida superior ou inferior que emite. a maior força capaz de nos socorrer nos círculos de matéria densa e que se traduz em tendência nobre a persistir conosco? A volta à vestimenta física é uma bênção que poderemos conseguir à custa de generosas intercessões. Nosso coração é um templo que o Senhor edificou. levianas ou inconseqüentes. sem conhecimento das obrigações que nos competem. atraindo forças que se harmonizam com as nossas e delas constituindo nosso domicílio espiritual. um ímã de elevada potência ou um centro de vida inteligente. até agora. muitas almas procuram o santuário da carne. Fêz ligeira pausa e.

não poderá vegetar. alargando-a para o bem supremo e iluminando-a àclaridade renovadora do Divino Mestre. maternal: — Rogais o regresso à sombra protetora da carne. de modo a não vos intoxicardes amanhã. a vida não pode resumir-se a mero sonho. ofendendo e sendo ofendidos. que aperfeiçoam instintos para ingressarem. da inveja ou do ciúme nefasto? permaneceis convencidos de que ninguém se aquecerá ao Sol Divino. Todavia. A mente humana. qualquer empresa dessa ordem é arriscada. anulando na própria alma as zonas viciadas de sintonia com os poderes das trevas? já auxiliastes os companheiros de caminho evolutivo e salvador com a intensidade e a eficiência que vos justifiquem a rogativa de colaboração intercessora? que boas obras já efetuastes a fim de rogardes novos recursos do Céu? com quem contais para vencer nas experiências porvindouras? Acreditais. nos círculos selvagens da natureza. amando e odiando. acaso. Para nós. porventura. para nós outros é acontecimento importante demais para que o apreciemos sem maior consideração. por mais humilde. cada . Contudo. no santuário da razão. sem abrir o próprio coração às correntes da Luz Eterna? ignorais. — Nota do autor espiritual. É indispensável. que nos deve marcar o esforço de santificação. no propósito de desfazer os sinais desagradáveis que vos marcam a veste espiritual. sem aflições alucinatórias? aprendestes a servir com o Cordeiro Divino. por se abeirarem ainda dos reinos inferiores. a semi-inconsciência do viver. pois. aprimorando o tom vibratório de nossa consciência. a fim de examinar as necessidades que vos são peculiares. na recapitulação. Recebem a reencarnação quase ao jeito dos irracionais. serenidade e entendimento no coração. como se a reencarnação constituísse simples processo de anestesia da alma. por agora.129 edificante e piedosa. mais tarde. Uma existência entre os homens. honrando os patrimônios celestiais que lhe foram conferidos. até ao sacrifício pessoal na cruz da incompreensão humana. conhecem. que é preciso igualmente trabalhar para que se mereça a bênção de um templo carnal na Terra? que amigos beneficiastes para pedir-lhes a ternura e o sacrifício da paternidade e da maternidade no mundo. resgatando débitos e contraindo-os. Somente as criaturas primitivas. acertando e errando. porém. nem deve imitar o irracional que se localiza na retaguarda da inteligência incompleta. em vosso favor? Não vos iludais. já armazenastes suficiente força para esquecer os males que vos foram causados na Crosta da Terra? reconheceis os vossos erros. sem abraçar a noção de responsabilidade individual. a ponto de aceitar a necessária retificação? fortalecestes o ânimo. Matilde estendeu-nos as mãos que despediam raios de intensa luz e exclamou. que o lavrador recolherá sem plantar? armazenastes bastante (1) “Região de Neblina” é também sinônimo de Esfera Carnal. no plano físico. senhores de vigorosa inteligência. porque em nosso aprendizado intensivo. que já respiramos em centenas de formas diversas e que já atravessamos vários climas evolutivos. à feição do arbusto enfezado que nada produz de útil na economia do orbe. que nos refaçamos. sob o bombardeio sutil dos raios pardos da cólera.

gravemente —. o corpo físico. Um cavalheiro de olhos fulgurantes destacou-se e foi claro na consulta. Sofrerlhes-ás as injúrias. Matilde. Afagou-o. prostrando-os a golpe mortal. visitar-te-á . como se desejasse quebrar a feição de solenidade que a sua presença nos imprimira à reunião. Começarás ajudando-os a enxergar a senda regenerativa. bondosa. perseguido pelo remorso. acaba aprendendo as mais difíceis lições da responsabilidade que adquire. Contudo. Semelhante expectativa aliviava-me. na constante aplicação do bem. com aviltamento de mim próprio. prostrado e palidíssimo. desditosos. entre o pesadelo e a aflição inomináveis. no reino de si mesma. fui duplamente homicida. comovente: — Como iniciar o esforço de minha restauração? Tão imensa tristeza perpassava naquela voz humilde. Vejo-me. Cada criatura encarnada permanece só. os remoques. as incompreensões. até ao Calvário da suprema ressurreição. daí em diante. dirigiu-se. sob o invisível madeiro redentor que nos aperfeiçoa a vida. pelo esforço. principiarás a recolher as bênçãos de paz e de luz. e a tentação de eliminar adversários. comovidas. todavia. retomarás. respondeu. então. e faz-se indispensável muita fé e suficiente coragem para marcharmos vitoriosamente. peregrinam. Respirei muitos anos no corpo carnal. na derradeira romagem terrestre. com acento carinhoso. embora delituoso e imperfeito. desculparam-me e esqueceram-me. suportando a carga das mesmas culpas.130 Espírito segue sozinho no círculo dos próprios pensamentos. porqüanto. Ludibriei quantos me cercavam. Há um tribunal invisível em minha consciência e debalde procuro fugir aos sítios em que menoscabei as obrigações de respeito ao próximo. Matilde fêz mais longa pausa na alocução com que nos enriquecia aquela hora de sabedoria e luz e acercou-se de Gúbio. supus que tremendas acusações me esperariam. não longe de nós. mas descobrirás um meio de ampará-los com eficiência e brandura. com palavras de agradecimento e. porque o criminoso. sem titubear: — Outros irmãos. que nos sentíamos todos tocados nas fibras mais íntimas. Depois de semelhante sementeira. Vozes de gratidão elevaram-se. não encontrei senão o desprezo. Abafando os soluços. em seguida. transmitindo a outros revelações salvadoras que lhe não pertencem. Realizado esse serviço nobilitante. rogando-lhes que se pronunciassem acerca dos projetos acalentados para o futuro. lhe conheçam as esperanças mais nobres e lhe partilhem as aspirações dignificadoras. através da máscara da hipocrisia. não obstante trazer a consciência tisnada de remorso e as mãos enodoadas de sangue humano. o Espírito que ensina com amor. mil motivos para a cólera violenta. acicatado por forças punitivas que nunca poderei descrever com as minúcias desejáveis. aos ouvintes. Minhas vitimas distanciaram-se de mim. — Grande benfeitora — disse. Abre teu coração para eles. Reencontrarás. rematou. como se fora a pessoa mais tranquila do mundo. de algum modo. mais tarde. alimentando-os com esperanças e ideais novos e atraindo-os ao trabalho de sublimação. Atravessando os umbrais do túmulo. atormentado de acerbas reminiscênCiaS. Nesse instante. recapitulando os ensinamentos que gravaste na mente interessada em renovar-se. contudo. sem que os companheiros de jornada. encontra verdadeiro socorro nas humilhações que o espezinham. com raríssimas exceções.

Poderás encetar o reajustamento de tuas energias. sob o güante cruel das paixões a que se algemaram. reconquistando. Nesse momento. comece desde agora a sementeira de amor e paz. Possuí um lar que não honrei. Se souberes. quando te encontrares em plena e abençoada luta na “esfera do recomeço”. e Espírito algum trairá os imperativos sábios do esforço e do tempo! Quem pretende a colheita de felicidade no século vindouro. espraiou o olhar na assembleia que a ouvia. aos pântanos de dor em que se debatem. tão só porque atualmente nos vejamos libertos das cadeias beneméritas do corpo de carne. receberás. um esposo que depressa esqueci e filhos que afastei. O Senhor criou leis imperecíveis e perfeitas para que não alcancemos o Reino da Divina Luz. ante as dores alheias. Esta éa lei. Reconduzida. arrebatarás muitos Espíritos. expectante. nunca fui punida pelos meus excessos no abuso dos sentidos. Que farei por retornar à paz? como traduzir o arrependimento que me enche a alma de infinita amargura? Matilde fitou-a. depois da queda ao precipício. A benfeitora imprimiu ligeira interrupção ao verbo generoso. em prece. nos círculos próximos. Meu transviamento moral não foi conhecido na comunidade em que vivi. exclamando.131 com frequência o coração. e observou: — Milhares de seres. minha filha! Para que nos reergamos com segurança. despojados da roupagem fisiológica. Plantarás na mente deles novos princípios e novas luzes. para gozar. e concluiu: — E que nenhum de nós admita o acesso fácil aos tesouros eternos. de seu tórax iluminado nasciam. chorosa mulher recorreu-lhe ao conselho. Com esquecimento de ti mesma. e. o direito de regresso ao campo bendito da carne. ao levantamento dos sofredores de boa vontade. plantando amor e paz. cadaverizados no abuso. ao redor dos teus pés. talvez. confesso aqui minhas faltas diante de todos e peço-te roteiro salvador. Enquanto encarnada. humilhada: — Grande mensageira do bem. os prazeres que a mocidade me oferecia. luz e aperfeiçoamento. é imprescindível auxiliar quantos se projetaram nele. compungidamente. invigilantes. enquanto parecia meditar. se quiseres vencer os próprios impulsos destrutivos. . porém. O único recurso de fugirmos definitivamente ao mal é o apoio constante no Bem Infinito. de modo que a reencarnação não se converta em novo mergulho no egoísmo. deliberadamente. sobretudo. consolando-os e transformando-os. Antes que a emissária pudesse imprimir novo brilho ao ensinamento. se conseguires manter fidelidade suprema ao amor santificante. por tua vez. à saciedade. espontâneas e brilhantes. estertoram em zona próxima. dedicando-te. ondas sucessivas de maravilhosa luz. então terás demonstrado aproveitamento real e efetivo das dádivas recebidas e revelar-te-ás preparado para maior ascensão. então. ao sabor do acaso. a prova terrível da beleza física. consolidando. àabençoada escola terrestre. a noção da responsabilidade que nos deve presidir às ações porvindouras. mas a morte apodreceu a máscara que me ocultava aos alheios olhos e passei a experimentar horrível pavor de mim mesma. de meu convívio. a caminho da harmonia divina. entregou-se Matilde a maior parada e. a fim de que o contacto com as tentações da própria natureza inferior te retempere o aço do caráter.

evidenciando ânsia suprema de integração espiritual. revelando a semi-inconsciência em que se demorava. as zonas do sistema endocrinico emitiam radiações diamantinas. Matilde osculou-a. a desfazer-se no vasto oceano de oxigênio comum. enternecida. em se voltando para o semblante doce e iluminado da benfeitora.132 19 Precioso entendimento Certo. então. Fenômenos de metabolismo. a luz reinante não lhe afetou o olhar. a jovem senhora abriu desmedidamente os olhos. deixando perceber que pretendia consolidar-lhe o equilíbrio e fortalecer-lhe a resistência.. reagiu. em maior ou menor grau. à hipnose profunda ou à anestesia temporária. Reparei. Mostrava passo vacilante e estranho alheamento no olhar. Do peito de Matilde ondas luminosas partiam ininterruptas e tudo nos fazia crer que a tutelada de Gúbio se achava. peculiares aos planos inferiores. contudo. operações que não pude compreender tão bem quanto desejava. fizeram-se patentes à nossa observação. aprimoramento e redenção. assustadiça. bradou. Caracterizava-se. a nobre mensageira recomendou a Elói trouxesse Margarida àquele plenário amoroso. qual se fora sonâmbula vulgar. A certa altura do singular processo de despertamento. como que magnetizada por indefinível amor. Parecia acordar. no espaço e no tempo. Margarida. que o estado natural da alma encarnada pode ser comparado. que Matilde lhe aplicava recursos magnéticos sobre os condutores nervosos do órgão de manifestação do pensamento. em lágrimas comoventes: — Mãe! Querida mãezinha! . acreditando haver transmitido a nós outros os ensinamentos que podíamos receber.. até ali opaco e vulgar. compareceu no cenáculo. tanto quanto ao longo de toda a região do simpático. tão depressa se acolheu no regaço da benfeitora que a envolvia em doce ternura. Ao que me pareceu. favoravelmente. em nosso meio. Transcorridos alguns minutos. Logo após semelhante “operação de limpeza”. esclarecendo-me o Instrutor. mostrando-se tocada nos recessos do ser. mais tarde. fluidos cinzento-escuros. qual criança espantada. através do tórax e das mãos. e. para fins de evolução. figurando-se uma constelação de caprichosos contornos a brilhar nas sombras do perispírito. porque Margarida expelia. pouco a pouco. naquela hora. que se convertera em objeto de nossas melhores atenções naqueles dias. Maquinalmente se asilou nos braços maternos que Matilde lhe oferecia e. Mas. a que desce a mente da criatura através de vibrações mais lentas. ao contacto daqueles lábios sublimes. desligada do envoltório denso. e fixou-nos com expressão de assombro. em forma de vapor tenuíssimo. pelos movimentos impulsivos. na organização perispiritica. brandamente. Parecendo desvairada de repentino júbilo. ensaiando movimentos de recuo e pavor. caminhando. A protetora. a esposa de Gabriel. abraçou-lhe o busto. num banho autêntico de essências divinas. contemplando-nos. interessada em despertar-lhe alguns centros importantes da vida mental começou a aplicar-lhe passes ao longo do cérebro. aquietou-se. naquela hora.

enfrenta. em que eu depositava os mais caros sonhos. se a experiência humana pode ser doloroso curso de renunciação pessoal. nas trevas da separação. acolhendo-a com mais intensa ternura. atende à incompreensão quanto qualquer de nós. Margarida. conseguirá decidir. sorrindo. É imperioso reconhecer. localizados pela magnanimidade do Senhor na ourivesaria da Terra. revestidos pelo duro cascalho de nossas milenárias imperfeições. não obstante filhos do mesmo mundo. O batráquio e a ave caracterizam-se por impulsos diferentes. procede em determinada linha de pensamento. nele situando nossa lição benfeitora. O próprio matrimônio. fixos na protetora. minha filha. na esfera menos elevada que atravessamos presentemente. sou eu — disse a inter-locutora. funcionando em nosso favor. — Porque me abandonaste? — inquiriu a esposa de Gabriel. recordando-nos o infinito e a eternidade. Frustração e ruína espiritual seguem-me de perto.. qual ocorre a nós mesmos. De olhos ansiosos.. Para isto. A veneranda emissária enxugou-me o pranto e falou. bondosa: — Margarida.. com referência aos adversários. afagando-a com extremado afeto —.133 — Sim. seremos adversários naturais da obra dos Anjos. entre lágrimas: — Mãezinha querida. sombra alguma conseguirá separar-nos. Soluços violentos impediram-na de continuar. Noto invencível antagonismo entre meus sentimentos e a realidade humana. do barro que repelisse a influência do oleiro? Modifica as mais íntimas disposições. todavia. — O pais da “neblina carnal” muitas vezes parece distanciarnos uns dos outros. é indispensável se abra o coração ao clima interior da bondade e do entendimento. no entanto. porque se acredita em roteiro infalível aos próprios olhos. Somos diamantes brutos. não é tão fácil. o obstáculo e o conflito são bem-aventuradas ferramentas de melhoria. nos lances do trabalho a que se empenhou nos círculos da vida. assim como as estrelas se assemelham a balizas brilhantes no nevoeiro noturno. colando-selhe ao coração. Na maioria das vezes. — Sinto-me cercada de inimigos sem entranhas. quais pontos de luz. viver no corpo terrestre. Trago meu coração extenuado e oprimido. Que dizer da pedra preciosa que fugisse às mãos do lapidário. as Potências Angélicas não nos punem a incapacidade temporária de compreensão ante os serviços divinos que lhes . sabermos utilizar o inimigo. como que magnetizada por incomensurável afeto. estou cansada e infeliz! — Quando a boa luta apenas começa? — perguntou Matilde. sou um fardo pesado ao esposo dedicado e digno de melhor sorte. o amor jamais desaparece! A união das almas vence o tempo e a morte. Todos possuimos culposo pretérito a redimir. Nossas aspirações e esperanças se confundem. problemas de visão que só o tempo. que. a ex-obsidiada parecia acordar cada vez mais largamente em nosso plano. ponderou. Ao som caricioso daquelas palavras. todavia. não me foi senão escuro livro de desenganos cruéis. num transporte de inexprimível ventura. entretanto.. Por isto. em vista da nossa posição de inferioridade. — Nunca te esqueci — elucidou a benfeitora. Devo ser atormentada dia e noite. ante a glória infinita que em companhia dele podemos recolher. entendendo os deveres divinos que nos cabem. A rigor. O inimigo nem sempre é uma consciência agindo deliberadamente no mal. aliado ao esforço pessoal na execução do bem. é também abençoada escola em que o Espírito de boa vontade pode alcançar culminâncias. É necessário. A dor.

134 cabem na economia do Universo. Ajuda. Lá dentro. aos olhos do mundo. afetuosa —. já se evadiu das limitações da animalidade. abafando os próprios soluços que. de algum modo. à maneira do lidador num estádio de provas benfeitoras. Desculpa os outros. ascensão. E à rajada de luta que te conduzirá ao píncaro luminoso. a jovem senhora obtemperou. Não persigas o respeito humano que te faça aparecer melhor que és. na arena das possibilidades sublimes que a região do nevoeiro oferece. Tudo agora é consolação e esperança. A vida. aos milhares. indefinido. mas . sem o propósito de receber. Entretanto. nem sorvas o mentiroso elixir da ilusão. São homens esquecidos e mulheres desamparadas que passam despercebidos e humilhados. fonte de toda a beleza. há quem se encaminhe para cima e há quem se dirija para baixo. Outras. Desejo honrar a bendita oportunidade que recebi! — Não procures ser atendida em todos os teus desejos — falou a benfeitora. antes de procurares auxílio. Não fujas ao óbice valioso na corrida de aperfeiçoamento. cada vez mais impreciso e distante. amanhã serei novamente prisioneira no cárcere físico e caminharei de memória anestesiada. filha — acrescentou Matilde. lhes acarretariam implacável punição. desprotegidos e dilacerados. Dá. a fim de que aprendamos a escalar o monte da sublimação. se ouvidos. identificam-nos as deficiências compadecidamente e estendem-nos braços fraternos. não te suponhas sôzinha na jornada áspera. como tu. ensina-me a continuar. é serviço. suavemente —. contando com um amanhã. em marcha para os cumes celestes. sem desculpar a ti mesma. Passam na cena do mundo. em conflito incessante com os monstros que me assediam! — Este. não percas os tesouros do tempo em considerações inúteis. Compreende. Ao invés de condenar-nos. em silêncio. é o imperativo da tarefa que te compete realizar. nem podem guardar os mínimos sonhos que arregimentas no coração feminil. súplice: — Mãezinha querida. que assinalava enternecidamente a argumentação. encontra-se no corpo de carne. suam e sangram. incapazes de aceitar o desafio que o mundo lhes endereça. a dádiva de um corpo normal. todavia. sem o afeto de um esposo e sem a bênção de um lar. apesar do espesso véu de lágrimas que lhes dificulta a marcha. Entretanto. através de mil recursos invisíveis e indiretos. Verificando-se pequena pausa nas observações maternais. Respiram em regime de tortura moral e seguem. continuam caminhando impávidos. Ampara. estrada afora. Enche as tuas horas de trabalho salutar com a possível harmonia. que parece ocultar-se. Margarida. para toda alma que triunfa no carreiro áspero. A inteligência que. enlevada: — Amada Mãezinha! Pudessem meus ouvidos guardar sempre a doce música de tuas palavras! Tristemente. nos horizontes sem fim. fraternalmente. rogou. mas procura servir. sem exigir compreensão imediata. movimento. sem a intenção de ser amparada. apaixonadamente usado por todos os que se deixaram vencer pelas tentações do desânimo. do berço ao túmulo. a quantos te reclamem arrimo e braço forte. antevejo o torvelinho das dificuldades terrenas a que devo retornar. Não conhecem.

o momento em que a benfeitora se revelou interessada em despedir-se. Confraternizadora palestra estabeleceu-se. desconfia das palavras que te lisonjeiem a fantasiosa superioridade pessoal ou que te inclinem à dureza de coração. É indispensável. A finalidade divina há de ser. Margarida. Para a sabedoria divina. A alegria que improvisares. porém. são princípios da vida radiante. quanto as mãos repletas de trabalho salutar. aperfeiçoa os teus sentimentos. a semelhante programa. apresentou-nos a ela. Nesse ínterim. recorda o serviço que o Senhor te convocou a realizar e produze o bem em seu nome. o que seria talvez induzir-te ao caminho da despreocupação irresponsável que nunca nos dirige à verdadeira paz. regular consciência de ti mesma em nossa esfera de ação. O egoísmo conseguirá criar um oásis. entretanto. Na paz que semeares. quanto a ovelha que perdeu o pastor. Em te socorrendo das diretrizes alheias. Estes. antes de tudo. por particulares amigos. cada vez mais. pretendendo talvez imprimir ampla familiaridade à cena a que assistíamos. extinguindo-se a onda de lágrimas que nos visitava. a alma de nossa ação. calou-se a voz da protetora e. tanto quanto possível. . Antes. mas nunca edificará um continente. onde estiveres. A desistência de ajudar é tão escura quanto o relaxamento de extraviar-se. te fará mais rica de júbilo. tão infortunado é o pastor que perdeu o rebanho. Para que atendas. em torno dos pés alheios. diante dos outros. a esposa de Gabriel indagou. indistintamente. Diante da fartura ou da escassez. ninguém recolherá a suprema alegria. em todo tempo e lugar. Não procures destacada posição. sem propaganda de tuas virtudes vacilantes e problemáticas. jamais encontrarás a própria felicidade. agora que reténs. aprenderes a sair de ti mesma. a que devo atribuir a graça inolvidável desta hora? Matilde.135 busca. levantou-se. embriagada de ventura: — Ó Deus! Pai Misericordioso. e. auscultando a necessidade e a dor daqueles que te cercam. De alma cerrada ao interesse pela felicidade do próximo. ante a conversação comovedora e inesquecível. é imprescindível abras o coração ao sol renovador do Sumo Bem. ouve o apelo que te endereçamos. em tudo. Não suponhas que te visito pelo simples prazer de consolar-te. caminhando ao nosso encontro. Chegou. resoluta: — Margarida. a bênção divina na aprovação da própria consciência. Age corretamente e esquece as frases vazias ou venenosas da maledicência contumaz. porém. encontrarás a colheita da paz que desejas. abraçada à filha espiritual. sentindo-se banhada na infinita luz daqueles momentos inesquecíveis. No insulamento. cravou o olhar muito lúcido na ex-obsidiada e falou-lhe. Lembra-te de que a experiência na carne é demasiadamente breve e que a tua cabeça deve permanecer tão cheia de ideais santificantes.

olvidarás. entretanto. não te deixarão esquecer de todo. igualmente. Nossas melhores possibilidades se perdem na “esfera do recomeço”. reservado ou ostensivo. voltarei também ao círculo de lutas em que te debates. quase sempre. sem grave prejuízo para nós mesmos. a saúde e a harmonia que te inundarão a estrada doravante. por muitos séculos. não falta no santuário familiar. na maioria das vezes. não fazem exceção. regressando por tua vez ao envoltório que te liga ao círculo comum da luta terrestre. — Tu? — gritou Margarida. direto ou indireto. algo espera da sementeira que lhe reclama o esforço diário. O tempo é valioso. todos temos doces laços do coração. junto aos irmãos de raciocínios e sentimentos ainda rudimentares ou inferiores. O esquecimento temporário me acompanhará. que dominam na Crosta. As leis fisiológicas. Os moradores dos círculos mais elevados não se arriscariam a descer.136 O lavrador que amanha o solo e o socorre com irrigação confortadora. por falta de braços decididos e conscientes que nos guiem através dos labirintos do mundo. não é apenas mera exibição de poder celestial. Bem sei que. Além disso. filha amada. A Crosta da Terra é comparável a imenso mar onde a alma operosa encontra valores eternos aceitando os imperativos de serviço que a Bondade Divina nos oferece. ao domicílio da mente encarnada. constitua recurso corretivo de Espíritos renitentes na desordem e no crime. que se demoram. na orientação dos Espíritos renascentes. sem fins educativos. enlevada. O amparo do Alto. o amor éa força gloriosa que alimenta a vida e move os mundos. O anjo que desça ao fundo da mina de carvão continuará naturalmente a ser um anjo na vida íntima. Impõem-se sobre os justos com o mesmo rigor dentro do qual funcionam para os pecadores. sem objetivos de ordem superior. assim como os artistas da inteligência não se animariam a movimentar espetáculos de cultura intelectual. Carinho. É indispensável buscar as pérolas perdidas para que o paraíso não permaneça vazio de beleza ao nosso olhar. A benfeitora fitou a jovem senhora. Ante a expressão de surpresa que a tutelada de Gúbio estampava no semblante inquieto. nos abafadores das células físicas. que persistirão em teu espírito por recordações indeléveis e vagas destes instantes divinos. . a ternura absoluta é tão nociva quanto a absoluta aspereza. sorrindo —. No entanto. que a entidade mais enobrecida. ante a perspectiva de renascimento carnal para o ser iluminado que se mantinha à nossa vista — porque te seria imposta semelhante pena? — Não te guardes em tamanha incompreensão da lei do trabalho — ajuntou a mensageira. apalermada. depois. a nossa conversação desta hora. Matilde continuou: — Em breves anos. aliadas ao otimismo e à esperança. mas o êxito desejável somente me felicitará se eu puder contar com a tua orientação robusta e vigilante. onde a alma se habilita à recapitulação de valiosa aventura. a reencarnação nem sempre é simples processo regenerativo. embora. é compelida a sofrer-lhe os regulamentos. em retomando o veículo de carne. não escapará ao clima deprimente do sub-solo. minha filha. e não podemos menoscabá-lo. Depois de Deus. entretanto. espero não desconheças a santidade do ministério maternal. retidos ao fundo do abismo. fêz pequena pausa e aduziu: — Em razão disto. Não ignoras.

reparamos que Margarida. resoluta. sim. sim. Viveremos mais juntas. As conveniências humanas são respeitáveis. Margarida. a grande mentora acrescentou algumas recomendações de adeus.137 Defende o teu corpo. dos perigosos fantasmas do ciúme e da discórdia. bondosa —. Auxilia-me a conquistar equilíbrio nas primeiras. A estufa pode alimentar as flores mais lindas da Terra. ainda mesmo quando a tempestade te açoite as fibras mais íntimas do coração. identificando neles o ensejo bendito de elevação. porém. ajuda-me na sementeira renovada para que eu te seja útil na colheita infalível. Foge. por nossa vontade. Logo que me sintas nos braços. o êxito espiritual que a experiência te pode oferecer. envolveu-a em operações magnéticas. não me relegues à garridice e à inutilidade. no momento oportuno. o caráter edificado e cristalino. ainda. — Margarida — disse. mas ainda te não libertaste dos males próprios. de maneira a aprendermos. Estás livre dos males exteriores. . base segura de que se expande a boa consciência. mas não produz os melhores frutos. por boneca mimosa e impassível. Não comprometas. Confia no Divino Poder e não desfaleças. o meu retorno ser-te-ás acrifício doloroso ao corpo frágil e delicado. Matilde agora revelava no olhar a preocupação de ausentar-se. e. Aprende a renunciar. Dirigiu. Compreende-me as necessidades para que eu te possa entender no momento justo. para que o amor e a gratidão a Deus perdurem para sempre em minha memória frágil. Não me recebas. Adornos externos nunca trazem felicidade legítima ao coração. através das quais realizamos a superação de nossos velhos obstáculos. não te esqueças do reino de beleza que podes improvisar no santuário doméstico. na peregrinação meritória. seria indefinidamente alongada no tempo. com a vigilância na defesa. a ciência da fraternidade universal. Não me percas de vista. mais intensamente. prometia tudo quanto lhe era solicitado. em copioso pranto. com o adubo estimulante e com a poda benfeitora. todavia. porém. É necessário não menosprezá-los. A luta e o atrito são bênçãos sublimes. com o esforço perseverante da enxada. nas questões pequeninas. Despedindo-se em definitivo. A doce palestra interessava-nos a todos e. a pretexto de guardar-me em maternal proteção. por bagatelas. a fim de atender aos imperativos celestiais do espírito eterno. A árvore benfeitora não prescindirá do carinho e da assistência constante do pomicultor. É imperioso reconhecer. debaixo de aguaceiros salutares ou aos golpes da ventania forte. nos braços. e rogou o auxílio de Elói para que a esposa de Gabriel regressasse ao envoltório carnal. carinhosamente. Realmente. Nos abençoados elos do sangue seremos mãe e filha. mas. para recolheres com facilidade a luz que emana do sacrifício. reajustando-lhe os centros perispirítícos. Socorreme em tempo para que eu seja útil. que sómente se fortalecerá sob a temperatura atormentadora da canícula. brandas frases de reconforto àfilha querida. como quem preserva um recipiente sagrado para o serviço do Senhor e espera-me em tempo breve. Não é com enfeites exteriores que ajudaremos o vegetal precioso a crescer e frutificar. mas as conveniências espirituais são divinas. Edificados com a lição indireta que se nos administrava.

discreta. na direção dos círculos mais altos com escala em um dos “campos de saida” da esfera carnal. restituindo. ao nosso orientador as forças que lhe subtraira. o trabalho que planejara para as horas seguintes. naturalmente. exceção feita a quatro companheiros que montariam guarda fraterna junto ao lar de Gabriel. Logo após. retomou as rédeas do trabalho. encaminhando-se para Gúbio. Em seguida. a este explicou Matilde. em caráter temporário. ausentou-se. deveríamos partir todos. . não nos oferecendo oportunidade de exprimir-lhe o reconhecimento e o júbilo que nos possuíam a alma. então. Gúbio.138 Mãe e filha permutaram um abraço cheio de indefinível ternura e. agradeceu-nos com extrema gentileza. notificando que. asseverando que nos esperaria em paisagem próxima.

determinando sobre as vidas inferiores da gleba planetária. a filha espiritual que passara a convalescer em brando e defendido repouso. ainda mesmo as que se conservavam nas mediações da loucura pelos desequilíbrios do sentimento a que se haviam confiado. nem provocar solução pacífica e imediata para problemas que gastamos longos anos a entretecer . vagueando o olhar em torno. ainda neste instante. onde estudantes do bem e da luz lhes acolherão. cravavam o olhar inquieto e jubiloso em nosso orientador. ali socorridos. alegria. pensativo.139 20 Reencontro A noite ia avançada. a esperança balsamiza. mas o esforço próprio na direção do bem é a alma da realização esperada. cabenos não esquecer a promessa evangélica: “quem perseverar até ao fim. ensimesmado. parecia consultar a paisagem externa. para fixar-lhe os raios e recebê-los. sem dúvida. Urge. Ninguém suplique protecionismo a que não fêz jus. temos. Todos os corações. nem flores de mel às sementes amargas que semeou em outro tempo. enternecido. em todos os ângulos do Universo. Espero. na Crosta da Terra. que não aguardem milagres na esfera próxima. a bênção do minuto.. ainda aqui. Se há um ministério humano. a dádiva da hora e o tesouro das oportunidades de cada dia hão de ser convenientemente aproveitados se pretendemos santificadora ascensão. a criação de qualidades superiores em nós. não podemos contar com o favoritismo. junto dela. E como emendar é sempre mais difícil que fazer. Aves tornando ao ninho de esperança e de paz. não se improvisam. com simpatia. o entusiasmo revigora. Doce intervalo mostrou-nos o júbilo reinante. em seguida. é um sol permanente e sublime. o ideal ilumina. as aspirações de vida superior. seguem ao nosso lado. . em nossas linhas de ação. Orou. em toda parte. com acesso aos círculos de trabalho condigno.A prece ajuda. Por isto mesmo. porém. Possuímos agora o que ajuntamos no dia de ontem e possuiremos amanhã o que estejamos buscando no dia de hoje. Somos livros vivos de quanto pensamos e praticamos e os olhos cristalinos da Justiça Divina nos lêem. junto de nós. agora. o ministério dos anjos. Em razão disso. será salvo. talvez. deveríamos. dominando em nossos caminhos evolutivos. desde agora estamos abrigados no santuário da boa vontade e. Felizmente. Aquelas entidades sofredoras e amigas. a fé sustenta. veio anunciar-nos o instante da partida. fitou. contudo. Salutar otimismo transbordava de todos os rostos. paternal desde que se mantenham perseverantes no propósito de auto-restauração. Logo após. tinham lágrimas de alegria e reconhecimento nos olhos. longamente. transportar conosco outros pássaros de asas semimutiladas que a tormentadas paixões ameaçava. na câmara íntima e. demandariam. A Graça Celestial. Representam conquistas da alma no serviço incessante de renovar-se para a execução dos Desígnios Divinos. O trabalho de reajustamento próprio é artigo de lei irrevogável. paz.. mas o nosso Instrutor. na obra laboriosa do aprimoramento individual. — Todos os companheiros incorporados à nossa missão destes dias — avisava Gúbio. Felicidade. Ninguém trai os princípios estabelecidos. como que a lhe devorarem as palavras. Em cada uma palpitava o anseio de retificação e de vida nova. outros campos de ação regenerativa e redentora.

a breve tempo. — Nota do autor espiritual. de novo. Não deveríamos receber os doestos e insultos de Gregório por ofensas pessoais. impedindo. mas. tornou o Instrutor bondoso. nos recessos do ser. que num duelo espiritual. Emissões de mágoa ou revide colocar-nos-iam em trabalho contraproducente. dos olhos. enchendo-nos o coração de intraduzível bem-estar. algumas irmãs entoaram formoso hino de louvor à bondade do Cristo. Merecia. confundia-nos pelo pranto de contrição purificadora. nossa dedicação carinhosa e confortadora. enquanto as vozes harmoniosas e singelas se espalhavam. Matilde antecipara-se. se revoltara contra ele Gúbio. não só a manifestação providencial de Matilde. de olhos fitos em nosso dirigente. ainda mesmo que . que pela perversidade. ciente das novidades havidas no drama de Margarida e informado acerca da renovação de muitos companheiros e colaboradores (1) Salmo 90. em derredor. entediados da ignorância e do ódio. Raios de safirina luz derramaram-se profusamente sobre nós. Gregório era tão sômente um infeliz. Além disso. o Instrutor retomou a palavra e informou que. a correr-lhe. a eclosão de uma revolta doentia e infeliz que não poderia prejudicar e ferir senão a ele próprio. dantes ansioso e dorido. da vaidade e do egoísmo que atormentam a experiência humana. cumpria-nos considerar que aquela mente transviada do trilho divino se caracterizava muito mais pela moléstia do orgulho ferido e impenitente.140 Saldanha. Antes que o nosso Instrutor pudesse retomar o fio da palavra encorajadora e vigilante. de modo a esperar-nos em região intermediária. As vibrações de amor fraternal. a batalha não estava finda. dele. Faltava-nos o epílogo. quais as que o Cristo nos legou. Terminado o cântico melodioso e tocante que nos recordava os pensamentos sublimes de inolvidável Salmo de David (1). que guardava a inteligência centralizada no mal. por isso mesmo. sim. nem levar suas atitudes à conta de maldade ou grosseria. não a maldade deliberada. agora francamente inclinados ao bem. dispondose a buscá-lo para um ajuste de que se julgava credor. Explicou. não obstante as santificadas alegrias daquela hora. são as verdadeiras energias dissolventes da vingança. comandando os mínimos impulsos da alma e. tangendo-nos as fibras mais recônditas. vendo-lhe nas palavras. quanto nós mesmos em passado próximo ou remoto. abundante. esclareceu com inflexão mais grave na voz. em cujo clima vibracional lhe seria possível materializar-se. aos olhos de todos. pactuaríamos com a violência. Evidenciando manifesta preocupação no olhar muito lúcido. esperava de todos nós o auxilio eficiente da prece e das emissões mentais de amor puro. realizando o sonhado reencontro espiritual com o filho de outras eras que. da indisciplina. como aquele a esboçar-se. da perseguição. o nosso orientador prosseguiu esclarecendo que Gregório. mas também a renovação de Gregório. emocionado. armada de ódio ou desarmonia. O pensamento é uma força vigorosa. Competia-nos observarlhe nos gestos de incompreensão a dor que se lhe cristalizara no Espírito oprimido e inconformado. a benfeitora. nos procuraria na condição de vingador. se nos entregássemos à reação espiritual. da perversidade e da insensatez. acicatado por rebeliões e remorsos interiores a lhe desajustarem os sentimentos. com visível desassombro no olhar firme.

com entendimento das lições de sacrifício e iluminação que nos deixou. e que. em companhia do Mestre que abraçamos. Notificou-nos. aprofundando o sulco da carne em sangue. silenciosa e bela. porque não fora para ensinar-nos outras lições que o Cristo trabalhara em benefício de todos e padecera na cruz. Amparados os mais doentes naqueles que se mostravam mais fortes. com ascendentes de amor. agora. enquanto a Lua. assumia a mesma posição de instrumento mediúnico. pela densidade do padrão mental em que se mantinham. Gúbio passou a elevada condição . ajudar e perdoar. só há lugar para o trabalho sadio. em bloco. embora sem hesitar. Nosso Instrutor fêz-nos sentar em semicírculo. em sua vinda até nós. em nosso agrupamento. o que aceitei. em virtude de a elevada percentagem de peregrinos. nada apresentava de surpreendente. Nossa conduta. O ex-perseguidor calou-se. Cabia-nos. de muitos companheiros tão envenenados mentalmente quanto ele. Do zimbório estrelejado desciam valiosos estímulos para nós. remédio ou retificação. Somos servos. Reparei que o nosso dirigente. se revelarem incapazes de volitação em alto plano. A defesa. parecia disposta a testemunhar-nos o esforço cristão. que. ao que o dirigente. ainda. sem ninguém. Valendo-se da pausa que se impusera. aliás. se alguns dos companheiros procurassem evitar-lhe a presença. com visível emoção. confiante. era singularmente belo. Decorridos alguns minutos. segundo mensagem particular por ele registrada. a direção da assembléia. pois. Quem pretende o Reinado do Cristo entrega-se a Ele. cautelosos. coroado de luar. O campo. através da fraternidade legitima. em semelhante capítulo. compelindo-nos a recordar várias cenas evangélicas e informou. Constelações tremeluziam distantes. qualquer fuga. sob a supervisão de Gúbio perfeitamente treinado em experiências daquela natureza. Gregório e os dele já se haviam colocado em nosso encalço e que. insulado na relva macia. convidava-nos à meditação e à prece. ali reunidos. A cicatriz abençoada surge sempre à custa de enfermagem. retiramo-nos. em torno. humilde. Não se cura a ferida. sábio e amigo. Providenciada semelhante medida. Duas horas de jornada. conduziram-nos ao local desejado. e brisas ligeiras e frescas da madrugada como que nos bafejavam o cérebro convidando-nos a reconfortar as fontes do pensamento.141 nos visitasse com aparências de celerado ou de louco. Verdejante planalto. a atitude de oração e expectativa amorosa de quem sabia compreender. sorrindo: — Saldanha. porque me entregou. que o sacerdote das sombras se faria acompanhar. se fazia impraticável. cabia-nos formar um todo de defesa harmônica. qual acontecera na reunião que vínhamos de efetuar. contra essa equipe de criaturas inimigas da luz. qualquer que seja. pertence ao Senhor. da oração intercessora e do amor espiritual que se compadece e age em favor da restauração do bem. respondeu. natural. Não acredites que um golpe possa desaparecer com outro golpe. Saldanha perguntou ao nosso mentor se não devíamos organizar pelo menos um movimento coordenado de repulsão enérgica. pondo-nos a caminho da zona preestabelecida. dentro de preocupação extrema. algo constrangidos afastamo-nos. da vivenda em que tantos ensinamentos preciosos havíamos recebido.

dirigidas sobre nós. cuja superioridade conhecíamos por experiência própria. sem mágoa e sem desânimo. não obstante palidíssimo. não te levantas para ouvir-me a acusação justa e digna? Perdeste também o brio. Demorávamo-nos em observação expectante. Alguns minutos se desdobraram apressados e Gregório. assim. com algumas dezenas de assalariados. sim. ao reparar as máscaras sinistras que se abeiravam de nós. por minha vez. na força determinativa para não soçobrar. a aceitar princípios que relaxam a dignidade humana? Admites.142 mental. não obstante cercado de intensa luz. em tempo algum. em nome de um Mestre que não ofereceu aos que o acompanharam senão sarcasmo. num problema de ordem pessoal. a tempo. emitindo ondas de luminosidade intensa. à serenidade e à prece. antes de começar a batalha. onde se alinham tuas armas para o duelo desta hora? Não contente em prejudicar-me os projetos mais íntimos. que o Trono Divino paira distante demais para que nos preocupemos em alcançá-lo. Não há um Deus misericordioso e. à paciência. Entendi. Não foi preciso esperar muito. imponderáveis. em maioria monstruosos. contudo. igualmente. . a meu turno. O “querer”. reverentes. martírio e crucificação! Acreditas. O Instrutor. Os recém-chegados apareceram acompanhados de grande cópia de animais. ali se mantinha. por intermédio da oração. esteja eu disposto. à semelhança de general parlamentando na praça.Encastelei-me. acaso. semelhando-te a quantos te antecederam no movimento de humilhação que persiste no mundo. compelido por indefinível prostração. investindo-nos com palavrões que se caracterizavam pela dureza e violência. permaneça. sem revolta. Acompanhamo-lo. senti tamanha ameaça de medo e tão profundo contágio de confiança. sem a bênção do aviso salutar. Noutras circunstâncias. resoluto e imperturbável. surgiu em campo. sentimento . e acusou sem rodeios: — Miserável hipnotizador de servos ingênuos. porventura. recomendando-nos seguir todos os fatos. Não havia gosto para conversações estranhas ao problema delicado daquela hora. nos ideais em que hoje te empenhas. uma Causa que dirige. Essa causa é inteligência e não. como que nos supria de recursos necessários ao procedimento irrepreensível. dando-nos a idéia de que já se achava em comunicação com entidades superiores e imperceptíveis ao nosso olhar. Por mim. noutra época. como que chumbado ao solo. o sacerdote dos mistérios negros. acreditei na celestial proteção através da atividade religiosa. O sacerdote das sombras avançou para o nosso orientador. que. provàvelmente teríamos debandado. aliciaste numerosos colaboradores meus. mais uma vez nos exortou ao silêncio. fascinado pelos feiticeiros de tua estirpe? Traidor da palavra empenhada. confundir-te-ei os poderes de bruxo desconhecido! Não creio no amor açucarado que elegeste por senha de luta! Creio na força que governa a vida e que te dobrará. quando ruído longínquo nos anunciou a alteração dos acontecimentos. aos meus pés! Percebendo que o nosso orientador não se erguia. acentuou. confesso que. acariciando os copos da espada luzente. veiculando forças magnéticas. há quase dois mil anos? Também. mas Gúbio. o “mandar” e o “poder” estão em minhas mãos. irado: — Covarde.

porventura — prosseguiu a voz materna. que deveria permanecer atento à tarefa direcional que me fora cometida. qual o fizera. à maneira de garganta improvisada em fluidos radiantes. por mim mesmo. que eu te pudesse esquecer? Olvidaste a imantação de nossos destinos? Peregrine minhalma através de mil mundos. na residência de Margarida. um dia. num complexo de espanto. porém. Demonstrando acentuado desapontamento. enquanto o fogo o não consome. a defecção e a desobediência. os circunstantes ligados à missão de Gúbio. não. ressurge! E. filho meu. A luz sublime do amor que nos arde nos sentimentos mais profundos pode resplandecer nos precipícios infernais. mais estreitamente. Compreendi que a benfeitora se valia dos fluidos vitais de nosso orientador para exprimir-se. os meus colaboradores que adormeceram. com amorosa firmeza: — Gregório. exortando-o. entre os encarnados. ao trabalho renovador! O teu longo período de dureza e secura está terminado. vergonhosamente. Fixou. numa inflexão de lágrimas que desarmaria o raciocínio mais enrijecido. acima de nossas cabeças. usando os sopapos que mereces. ao teu cântico sedutor. tinha agora o aspecto de uma fera enjaulada. rebelião e amargura. delicado aparelho luminoso surgiu no alto. A ignorância pode muito. com mais atenção. não conseguíamos dissimular a imensa surpresa que nos dominava. O sacerdote transviado.143 Se tuas mágicas prevalecem acima dos princípios que consagro e defendo. adulçorada —. que o amor pode alterar-se no curso do tempo? Supuseste. atraindo para o Senhor aqueles que amamos. e a voz cristalina e terna de Matilde ressoou. como as que se formam nas sessões de voz direta. o temível diretor de legiões sombrias abeirou-se. enquanto o fio d’água a não desgasta! Para a tua alma. semi-aterrado. Antes. acentuou: — Lembra-te! Deixaste morrer nos séculos os projetos de amor que traçamos na Toscana e na Lombardia distantes? esqueceste nossos votos ao pé dos altares humildes? olvidaste as cruzes de pedra que nos ouviam as orações? não prometemos ambos trabalhar em comum pela purificação dos . no entanto. de nosso Instrutor sereno e bradou: — Levantar-te-ei. Gregório. aceita a luva que te lanço à face! Combatamos! Gregório espraiou torvo olhar pela assistência muda e exclamou: — Aqui descansam inermes. ao passo que nós mesmos. ninguém ousou modificar a atitude de profunda concentração nos propósitos de humildade e amor a que fôramos conclamados. em face dos insultos sem resposta. suspirarei sempre pela integração de nossos espíritos. por mil modos. horas antes. naquele plano. cada qual deles me pagará. muito caro. exceto eu. ao teu lado. e a pedra mostra resistência. os olhos felinos na assembléia. é simples nada quando a sabedoria espalha os seus avisos. — Acreditas. mas. que conseguisse ligar o intento à ação. enregeles o coração quando o Senhor te chama. entretanto. findou a noite em que a tua razão se eclipsou no mal. ante o quadro imponente e inesperado. Não admitas que os monstros da negra magia te alimentem o coração com a felicidade desejável! O temido perseguidor mantinha-se confundido. Não intentes contra os abençoados aguilhões de nosso Eterno Pai! o espinho fere.

apresentava enorme dificuldade para continuar. Mas. à cena inesperada. exteriorizou na expressão fisionômica todo o desespero extremo que lhe vagava nalma.. Foi então que Gregório. alma de tua alma. coagulaste os pensamentos no ácido venenoso da revolta e elegeste a escravização das inteligências inferiores por única posição digna de conquistar. e.144 santuários de Deus na Terra? Sempre grande e belo no combate à política venal dos homens. embora humilhado e padecente. Tremendos desenganos surpreenderam-te o despertar. não para argumentar. ante a assembléia extática e silenciosa. atônitos. te adotou por filho querido e a quem amaste como dedicada mãe espiritual. entretanto. Incensaste a grandeza dos poderosos do mundo em desfavor dos humildes. que ninguém ousou interromper. que Jesus dispõe de escasso tempo para frequentar basílicas suntuosas. gritou. . mergulhando-te na sombra dos cálculos pela extensão do império de teus caprichos. após longa pausa. Durante séculos. — Não creio! não creio! Estou só! consagrei-me ao serviço das sombras e não tenho outros compromissos. e. Não admito a presença de minha mãe espiritual de outras eras. agora. sentindo-se no centro de quantos assistiam. comovida: — Como pudeste esquecer. e sabes. sem arrimo e sem pao. não obstante respeitáveis. cristalizaste na mente os desvarios do orgulho e da vaidade. como ansioso por fugir a si mesmo. e supunhas que o Céu. mas. Transbordava-lhe da voz menos altiva um tom de pavor indescritível. quase asfixiada pela emoção. porém. além da morte. as nossas redentoras visões do Cristo angustiado na cruz? Aderiste aos Dragões do Mal pela simples verificação de que a tiara passageira não te poderia aureolar a cabeça nos domínios da vida eterna a que a morte nos arrebatou. Espraiou o olhar de leão ferido através de todos os ângulos do campo que nos situava. bela e terrível. um dia. por alguns dias de autoridade efêmera na Terra. crendo-te possuidor de autoridade infalível. nada mais fôsse que simples cópia dos Tribunais e das Cortes da Terra. Calou-se a voz da mensageira. francamente transformado.. ali. incentivaste a tirania espiritual. escalpelando-lhe a consciência. austera e doce. Conheço as artimanhas dos fascinadores e não tenho outra alternativa senão duelar. filho meu. Vamos! Sou Matilde. Não te doerá. Não temo sortilégios. o Divino Amigo jamais descreu das nossas promessas de serviço e espera por nós com a mesma abnegação do princípio. porque da escura senda humana emergem soluços de peregrinos sem luz e sem lar. arrancou a espada da bainha e bradou encolerizado: — Vim para combater. fazendo quanto lhe era possível por manter-se de pé. Parecia disposto à fuga. Aprendeste com infinito desapontamento que os tesouros divinos não repousam em frias arcas de valores amoedados. interditada pela corrente de pranto. prosseguiu. Via-se que a benfeitora. a triste condição de gênio desprezível? Semelhante pergunta não morre sem resposta. tens sido apenas rude disciplinador de almas criminosas e perturbadas que o túmulo encontrou na imprudência e no vicio. Afogaste ideais preciosos na corrente de ouro mundano e perdeste a visão dos horizontes divinos. Sou um chefe e não posso perder os minutos com palavras tergiversantes. mantinha-se magnetizado pela palavra da benfeitora que se fazia ouvir. adquiridos ao contacto de uma coroa putrescível. Falam por ti o imenso tédio do mal e a profunda solidão interior que presentemente te invadem as horas. que.

de rosto velado por véu de gaze tenuíssima. apagou-se a garganta luminosa que brilhava sobre nós. aliada ao porte esguio e nobre... asseverando-nos que o abnegado Gúbio se encarregaria de guardar. espantoso choque entre a luz e a treva.. acrescentou: — Por quem és! Anjo ou demônio. todavia. senão a do amor com que sempre te amei! E de súbito desvelou o semblante vestalino. em pleno desmaio da força que o sustinha. Após alguns momentos de ansiosa expectativa. movimentou-se novamente e.145 Fitando a delicada forma de luz que pairava no espaço. feliz. alçando a destra radiosa até ao coração. sob a auréola de safirina luz de que se tocava. agora. em repentina aparição. como que abalado nos refolhos do ser. — Vê-la-ás dentro em breve.. em voz doce e terna: — Eu não tenho outra espada. atacou-a de longe e empunhou a lâmina em riste.. revelando-lhe a individualidade num dilúvio de intensa luz. Gregório deixou cair a lâmina acerada e de joelhos se prosternou. enlanguescido. erguia-se Matilde. digna e calma. Adiantava-se. Gúbio sustentou Gregório.. bradando: — Mãe! Minha mãe! Minha mãe!. a preparação do futuro glorioso. generosa.. mas leve massa radiante e disforme surgiu. a fim de seguir. com ternura e humildade. perturbado e impaciente. ali mesmo. de mais longe. utilizando os fluidos’ vitais que o nosso orientador lhe forneceria. banhada de lágrimas. iniciara sua libertação. nosso olhar. por algum tempo. A benfeitora. Matilde estacou. na direção do sombrio perseguidor. Decorridos alguns instantes ligeiros. exclamando. aquele que ela considerava o seu divino tesouro. confiou aos nossos cuidados o filho vencido. Júbilo e assombro dominavam a assembléia.. não longe.. vitoriosa. desmaterializou-se ao nosso coro de hosanas. Compreendi que a valorosa emissária se materializaria. A túnica alva e luminescente. arquejante. agradeceu em palavras que nos faziam vibrar as fibras mais recônditas da alma. se lhe abriam. Edificado. e sentindo-lhe as irradiações enternecedoras dos braços que. Em poucos instantes. e. caminhou para ele. em seguida. enlevada. Matilde enlaçou-o e exclamou: — Meu filho! Meu filho! Deus te abençoe! quero-te mais que nunca! Verificara-se. serena e humilde. aparece e combate! Aceitas meu desafio? — Sim. Finalmente. envolventes e acolhedores. reintegrando-se em nosso grupo de serviço. Gregório. regressara à fragilidade infantil.. — respondeu Matilde. a beleza suave e sublime. embora imponente e bela. traziam à lembrança alguma encantada madona da Idade Média. à nossa vista. Gregório. nos braços à maneira do . Após abraçar-nos. naquele abraço. ali. — Tua espada? — trovejou Gregório. e a treva não resistiu. afirmando. resoluto: — Às armas! às armas!. Refez-se o nosso orientador. Contemplando-lhe. Matilde. então. enquanto numerosos membros da sombria falange fugiam espavoridos. com a majestade de uma rainha coroada de Sol. inerte. a. nos braços. recolhera-o.

retendo-me junto do coração. ante a paz que se estabelecera. roguei. reinava insondável e sublime silêncio. discípulo inábil. todavia. em busca de outros setores. também. chorando: — Mestre de Bondade Infinita. falou. Surgira. bondoso: — Jesus te recompense. O orientador. Mas. filho meu. para mim.146 cristão fiel que se orgulha de suportar o companheiro menos feliz. sozinho. cabia o dever de gratidão. Elói. recolhidos nos trabalhos de salvação de Margarida. preludiando a festa da aurora. ao meu domicílio espiritual. dispondo-se a guiar a heterogênea. Nunca te esqueças de que o amor vence todo ódio e de que o bem aniquila todo mal. incoercível emotividade prendeu-me a voz. a despedida Tinha meus olhos úmidos de pranto. triunfante e ditosa. Orou. cercado de claridade santificante. arrancando-nos lágrimas irreprimíveis de alegria e reconhecimento e. enquanto o horizonte se tingia de rubro. esclarecendo que sômente a mim. tremeluzindo aos meus olhos. leu-me no olhar os sentimentos mais profundos e sorriu. O Instrutor abraçou-me e. rumou para longe. mas expressiva coletividade de novos estudantes do bem. em retirada. Quis responder. a estrela matutina brilhava. deu por finda a nossa tarefa. não me abandones! ampara-me a insuficiência de servo imperfeito e infiel! Em torno. qual celeste resposta de luz. E voltando. pelo papel que desempenhaste nesta jornada de libertação. Fim . depois. até a importante e abençoada colônia de trabalho regenerador. no entanto.