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prática clínica Impacto do uso e do abuso de álcool nas epilepsias e nas crises epiléticas: implicações terapêuticas

prática clínica

Impacto do uso e do abuso de álcool nas epilepsias e


nas crises epiléticas: implicações terapêuticas
The impact of alcohol use and abuse in epilepsy and epileptic seizures: therapeutical implications

Unitermos: álcool, alcoolismo, epilepsia, crises epiléticas, crises por abstinência alcoólica, benzodiazepínicos, topiramato.
Uniterms: alcohol, alcoholism, epilepsy, epileptic seizures, alcohol abstinence, benzodiazepinics, topiramate.

André Palmini*

RESUMO - As relações entre o uso de álcool, epilepsia e crises epiléticas são complexas e englobam pelo menos
quatro cenários com importância prática: (i) o risco de epilepsia e de crises epiléticas em abusadores de álcool
(alcoolistas); (ii) o risco e o manejo de crises epiléticas por abstinência alcoólica; (iii) o tratamento de pacientes
com epilepsia e abuso de álcool; e (iv) o impacto do uso ‘social’ de álcool em pacientes com epilepsia. Estes aspectos
são abordados a partir de uma revisão da literatura pertinente e da opinião do autor sobre o manejo de situações
específicas. Destaca-se uma discussão sobre o papel potencial do topiramato como um dos fármacos de escolha
para pacientes com a comorbidade entre epilepsia e alcoolismo e o posicionamento sobre a possibilidade do uso de
bebidas alcoólicas em doses modestas, consideradas seguras, em pacientes com epilepsia.

INTRODUÇÃO ções médicas em si (ie., das crises e do abuso de álcool, p.ex.)


quanto na esfera psicossocial, levando a privações desnecessá-
As quatro situações clínicas de que trata este artigo são al- rias.
tamente prevalentes na comunidade: o uso ‘social’ de bebidas A seguir serão abordadas questões práticas sobre estas re-
alcoólicas, o abuso de álcool, crises epiléticas e epilepsias. lações, priorizando-se as seguintes: (i) o risco de epilepsia e de
Mais da metade da população adulta americana havia in- crises epiléticas em abusadores de álcool (alcoolistas); (ii) o
gerido bebidas alcoólicas ao menos uma vez nos 30 dias ante- risco e o manejo de crises epiléticas por abstinência alcoólica;
riores a uma recente amostragem(1). Além disso, 5% dos entre- (iii) o tratamento de pacientes com epilepsia e abuso de álcool;
vistados haviam bebido excessivamente (média de mais de dois (iv) o impacto do uso ‘social’ de álcool em pacientes com epi-
drinques/dia para homens e de um drinque/dia para mulheres lepsia.
– um drinque correspondendo a uma garrafa de 300ml de cer- Antes de abordar estas questões práticas, algumas coloca-
veja ou um cálice de 100 ml de vinho) e 15% apresentaram epi- ções se fazem necessárias. A primeira é a constatação da exis-
sódios de ingesta excessiva aguda (binges; mais de quatro tência de instrumentos de rápida e fácil aplicação que, mesmo
drinques em uma ocasião). no contexto de uma sala de emergência, permitem determinar
No outro lado da equação, a prevalência de crises epiléticas se um paciente tem o hábito de abusar de álcool.
ao longo da vida é de 3% a 5% e a de epilepsia, ou seja, crises Estes questionários, embora não substituam o diagnóstico
recorrentes não provocadas de 1% a 1,5%(2). Assim, as possíveis mais detalhado e multifacetado de alcoolismo pelo DSM-IV(3),
relações entre estes quadros são relevantes para a prática médi- permitem um screening confiável e a suspeita de que o paciente
ca, afetando milhões de indivíduos e necessitando, portanto, da
atenção, especialmente, de neurologistas e psiquiatras. * Professor Adjunto de Neurologia do Departamento de Medicina Interna, Divi-
Apesar de sua dimensão epidemiológica, a tomada de de- são de Neurologia da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica
cisões terapêuticas nas relações entre álcool e epilepsia é fre- do Rio Grande do Sul (PUCRS). Diretor Científico do Programa de Cirurgia da
qüentemente afetada por visões deturpadas, seja por desconhe- Epilepsia de Porto Alegre, Hospital São Lucas da PUCRS.
Endereço para correspondência: André Palmini - Serviço de Neurologia, Hospital
cimento, preconceito ou anacronismo. Disso resultam prejuí- São Lucas da PUCRS. Av. Ipiranga, 6.690 - CEP 90610-000 - Porto Alegre - RS -
zos para os pacientes, tanto em termos do manejo das condi- Telefax: 55 (51) 3339-4936 - E-mail: apalmini@uol.com.br

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abusou ou tem risco de ter abusado do álcool(4,5). Assim, a iden- crise epilética a 474 controles. O risco de uma primeira crise
tificação de pacientes com risco de crises epiléticas associadas tônico-clônica generalizada (TCG) em alcoolistas foi quase sete
ao álcool, antes mesmo de sua ocorrência (prevenção primá- vezes maior do que em não alcoolistas, tanto em homens quanto
ria) ou para prevenir novas crises, quando o paciente já chegou em mulheres. Da mesma forma que no estudo anterior, este risco
à sala de emergência tendo tido uma crise (prevenção secun- foi proporcional à ingesta média de álcool e encontrou resulta-
dária), é importante para o manejo clínico. dos similares: um risco minimamente maior para ingestas
O abuso de álcool como doença, particularmente, o uso re- médias de 1 a 50 g/dia, três vezes maior para 50 a 100 g/dia,
cente de álcool em quantidades excessivas, é uma causa comum oito vezes maior para 100 a 200 g/dia e quase 17 vezes maior
e geralmente subestimada de crises epiléticas generalizadas em para ingestas maiores do que 200 g/dia.
adultos, responsável por 20% a 35% das admissões de pacien- A título ilustrativo, um cálice com 100 ml de vinho a 12%
tes em salas de emergência com crises epiléticas ‘sem etiologia de volume alcoólico, contém 12 g de álcool etílico e, assim, uma
conhecida’(6). garrafa de vinho com 750 ml, contém 90 g de álcool etílico. Já
Um outro aspecto introdutório que se faz necessário, espe- uma cerveja pequena, com 300 ml a 5%, contém 15 g de álcool
cialmente para os profissionais da saúde que não lidam roti- etílico.
neiramente com pacientes com epilepsia ou crises epiléticas, é A apresentação inicial de crises epiléticas ligadas ao álcool
justamente a diferenciação entre estas duas condições. pode ser na forma de um status epilepticus. Em um estudo rea-
Crises epiléticas decorrem de alterações agudas da ativida- lizado ao longo dos anos 80, com 249 pacientes consecutivos
de elétrica cerebral. Estas crises, entretanto, podem ou não ter com status epilepticus generalizado que chegaram à Sala de
uma tendência à recorrência, dependendo se o insulto que pro- Emergência do San Francisco General Hospital, em 27 (11%) o
vocou a alteração elétrica foi autolimitado e removido ou se abuso de álcool foi o único fator precipitante do status e, em
persiste de forma crônica. metade destes pacientes, o status foi a primeira manifestação
Quando persiste uma tendência a crises epiléticas recorren- epilética, ou seja, a primeira crise já foi um status epilepticus(12).
tes, então o indivíduo tem epilepsia(2). No contexto das crises Quase a metade destes pacientes apresentou algumas ca-
epiléticas relacionadas ao álcool, estes conceitos são importan- racterísticas focais nas crises, antes da generalização, mostran-
tes, pois o uso/abuso de álcool pode tanto causar crises epiléti- do que o fato de haver relação com o abuso de álcool não impe-
cas de ocorrência autolimitada (notadamente as crises por abs- de que as crises tenham elementos focais.
tinência alcoólica(6)) quanto alterações cerebrais que levam a
uma epilepsia crônica(7). O RISCO E O MANEJO DE CRISES EPILÉTICAS POR ABSTINÊNCIA
Além disso, e de relevância prática, o uso abusivo de álcool ALCOÓLICA
pode aumentar a freqüência de crises em pacientes com epi-
lepsia estabelecida(8,9). Embora existam alguns estudos questionando as relações
entre a abstinência alcoólica e a ocorrência de crises epiléti-
O RISCO DE EPILEPSIA, CRISES EPILÉTICAS E STATUS EPILEPTICUS cas(11), parece bem estabelecido que o limiar para a ocorrência
EM ABUSADORES DE ÁLCOOL de crises epiléticas diminui entre 6 e 48 horas após a cessação
da ingesta de álcool(13,14).
A prevalência de epilepsia em abusadores de álcool é, no Estudos experimentais mostram que o álcool atua no cére-
mínimo, o triplo daquela em indivíduos não alcoolistas(10) e a bro através de distintos mecanismos que interferem com o li-
ingesta alcoólica excessiva guarda uma relação íntima com a miar convulsivo, incluindo efeitos sobre o influxo de cálcio e
ocorrência de crises epiléticas. cloreto através de modificações nos receptores de GABA e glu-
Em um estudo com 308 pacientes que apresentaram uma tamato(9).
primeira crise epilética comparados a 294 controles, Ng e cols. A relevância de abstinência alcoólica para a ocorrência de
publicaram no NEJM, já em 1988, que o uso abusivo de álcool crises epiléticas tem sido avaliada através de desenhos experi-
pode levar a crises, independentemente do contexto de absti- mentais bastante criativos. Em um grupo de estudos, autores
nência ou da existência de insulto cerebral prévio(11). Os auto- noruegueses(13,15) pesquisaram o uso recente de álcool em indi-
res demonstraram que, comparados aos controles, o risco de víduos consecutivamente internados em um hospital geral por
uma crise epilética foi três vezes maior nas pessoas que ingeri- terem tido um dos seguintes três problemas: crises epiléticas,
am uma média de 50 a 100 g de etanol/dia, oito vezes maior acidente vascular cerebral ou dor ciática aguda.
com a ingestão de 100 a 200 g/dia e quase 20 vezes maior na- Incluíram também pacientes ambulatoriais com epilepsia
queles indivíduos com consumo médio acima de 200 g/dia. estabelecida, bem como indivíduos saudáveis. Por fim, aplica-
Em outro estudo, publicado dez anos mais tarde, Leone e ram a todos um questionário para identificar a presença de
cols.(7) compararam 237 pacientes que tiveram uma primeira ingesta alcoólica perigosa (hazardous drinking) - ‘Teste para

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Identificação de Transtornos Relacionados ao Uso de Álcool – Entretanto, algumas notas de cautela devem ser colocadas
AUDIT’(5). neste ponto. Uma delas foi descrita acima e se relaciona ao fato
Entre os pacientes com diferentes patologias e os indivídu- de que a primeira crise por abstinência alcoólica, especialmen-
os controles os autores compararam a prevalência de abusadores te se apresentar características focais, com ou sem generaliza-
de álcool, a ocorrência de binges e a quantidade de álcool inge- ção secundária, deve levar a uma investigação completa na bus-
rida na semana anterior à internação hospitalar ou à entrevista ca por outras etiologias. Encontrando-se uma lesão subjacente,
ambulatorial. Além disso, naqueles pacientes internados por muito embora possa ter havido uma relação temporal entre a
crises epiléticas agudas foram estudadas a relação entre as cri- ocorrência da crise e um episódio de abstinência alcoólica, es-
ses e períodos de abstinência e também o dia da semana em tes pacientes, via de regra, devem ser tratados a longo prazo
que ocorreram. com fármacos antiepiléticos.
Mais que o dobro de pacientes que internaram por crises Um segundo aspecto a salientar é que um episódio de abs-
epiléticas eram AUDIT + (35%), ou seja, abusadores de álcool, tinência alcoólica pode descompensar o controle de crises em
comparados a todos os outros grupos. A ocorrência de binges pacientes sabidamente epiléticos. Ou seja, pacientes que têm
na semana que antecedeu à internação foi também significati- suas crises, razoável ou completamente, controladas com fár-
vamente maior nos indivíduos que internaram por crises epi- macos podem apresentar uma descompensação em um episó-
léticas. dio de abstinência alcoólica.
Além disso, 70% dos pacientes abusadores de álcool que Um terceiro ponto, que deve ser visto como um alerta im-
internaram por crises, tiveram estas crises associadas à absti- portante, é a ocorrência de crises favorecidas tanto pela absti-
nência ao álcool, i.e., ocorrendo menos de 72 horas após a últi- nência quanto por uma má adesão aos fármacos antiepiléticos
ma ingesta. em pacientes com epilepsia que, justamente, decidem não tomar
Por fim, um padrão interessante foi observado na relação uma ou mais doses da sua medicação habitual por terem ‘decidi-
entre a ocorrência de crises epiléticas e o dia da semana em do beber’. Isso coloca em risco muito importante de crises por
que as crises ocorreram. Para pacientes AUDIT –, ou seja, não associar dois fatores predisponentes e, muitas vezes, decorre de
abusadores de álcool, a grande maioria das crises (e, por conse- desinformação e preconceito quanto à possibilidade do uso de
guinte, das internações hospitalares) ocorreu às segundas-fei- álcool em quantidades baixas, mesmo usando fármacos antiepi-
ras, seguindo-se a ingestas excessivas no final de semana. léticos. Este aspecto será detalhado mais adiante.
Por outro lado, os abusadores (AUDIT +) tiveram suas cri- Por fim, estudos experimentais, nos quais a epilepsia crô-
ses freqüentemente por abstinência, como vimos acima, em nica foi provocada pelo modelo da pilocarpina, mostraram que
qualquer dia da semana, pois bebiam de forma relativamente o uso de álcool e, especialmente, a recorrência de episódios de
homogênea ao longo da mesma. abstinência acentuam as alterações neuropatológicas nas regi-
Analisando os pacientes que tiveram crises por abstinên- ões hipocampais dos animais com epilepsia. Em outras pala-
cia, ou seja, até 72 horas após a última ingesta, os autores ob- vras, além de levar a um aumento da freqüência de crises, a
servaram um padrão de redução progressiva da ingesta ao lon- ingesta crônica de álcool por estes animais, com característi-
go dos três dias que antecederam a crise. cos episódios de abstinência, funcionou como um fator associ-
Um outro aspecto importante nesta discussão que, embora ado a lesões histológicas adicionais mais significativas(16).
aparentemente óbvio, deve ser explicitado é que crises epiléti- Após o tratamento agudo da crise inicial por abstinência, o
cas em abusadores de álcool nem sempre ocorrem por absti- manejo da possibilidade de recorrência destas crises em indi-
nência e podem também se dever a alterações metabólicas ou víduos que não têm epilepsia é melhor obtido com benzodia-
tóxicas concomitantes ou, ainda, a patologias infecciosas, trau- zepínicos, especialmente o lorazepam(13,17). Salienta-se mais uma
máticas, vasculares ou neoplásicas. vez que estes indivíduos não necessitam manter-se com fár-
Muitas das crises em que a ingesta alcoólica excessiva tem macos antiepiléticos(17).
apenas um papel, talvez, precipitante são focais e, assim, crises
focais, mesmo em abusadores de álcool, devem sempre levar a O TRATAMENTO DE PACIENTES COM EPILEPSIA ESTABELECIDA E
uma investigação completa do paciente, buscando uma causa ABUSO DE ÁLCOOL
associada(6).
Crises por abstinência alcoólica são classificadas como cri- Dentro da proposta de uma abordagem prática das relações
ses agudas provocadas, e não representam epilepsia. Embora na entre a epilepsia e o uso/abuso de álcool se deve considerar agora
vigência de uma crise o paciente deva ser tratado com anticon- o manejo de indivíduos que têm os dois problemas: epilepsia e
vulsivantes por via endovenosa (como a fenitoína e os benzodia- alcoolismo.
zepínicos), não há necessidade de manter-se o tratamento com Como visto anteriormente, deve-se esperar uma prevalên-
fármacos antiepiléticos após a alta do serviço de emergência. cia de epilepsia aumentada em pelo menos três vezes nos paci-

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entes alcoolistas, tornando a abordagem destes pacientes rele- o fato do topiramato ser considerado como uma das opções
vante(10). Um problema particularmente importante é que epi- para o tratamento, em monoterapia, de pacientes com epilep-
sódios repetidos de ‘miniabstinências’ podem levar a um au- sia recém-diagnosticada. Além disso, o topiramato pode e, na
mento da freqüência de crises e acentuação das alterações neu- opinião deste autor, deve, muitas vezes, ser o fármaco anti-
ropatológicas(9,16). epilético a ser acrescido em politerapia para tentar um melhor
Isto alimenta um círculo vicioso, no qual o uso abusivo de controle das crises em pacientes com crises de difícil controle e
álcool vai acarretando mais dificuldades para o controle das que sofram, também, de alcoolismo(23).
crises epiléticas, acentuando alterações neuropatológicas. Interessantemente, o mecanismo de ação antiepilética do
Não há um conjunto de orientações definidas quanto ao topiramato guarda relação com seu mecanismo antialcoolismo.
manejo de pacientes com epilepsia e alcoolismo. Sem dúvida, O perfil de aumento da atividade GABAérgica que contribui para
abordagens psicossociais são fundamentais para o manejo do a redução da excitabilidade cortical reduz também, em nível
alcoolismo, mas já existem alternativas farmacológicas que mesencefálico, a ativação da área tegmental ventral do mesencé-
podem auxiliar na redução da ingesta de álcool e no prolonga- falo, reduzindo a transmissão dopaminérgica associada a sen-
mento de períodos de abstinência(18-21). sações prazerosas do uso de álcool no sistema cerebral de re-
Entre estas alternativas, merece destaque a possibilidade do compensa(24).
topiramato como um dos fármacos de escolha para esses paci- Além disso, o bloqueio de receptores glutamatérgicos, outro
entes, pela sua eficácia tanto como medicamento antialcoolismo mecanismo de controle da excitabilidade cortical do topiramato,
quanto como antiepilético. ocorre também no núcleo accumbens, reduzindo a memória as-
Estudos recentes publicados em periódicos de alto impacto sociada a contextos que favorecem o uso/abuso de álcool(24).
têm mostrado que o topiramato melhora significativamente Por fim as possibilidades de interação com o álcool tam-
uma série de parâmetros relacionados ao abuso de álcool. Ma e bém devem influenciar a escolha do esquema antiepilético nes-
cols.(19) mostraram que o uso de topiramato por alcoolistas em ses pacientes. Aliás, é justamente neles que, por freqüentemen-
programas de abstinência progressiva quadruplicou as chances te terem níveis elevados de álcool na circulação, a preocupação
dos pacientes passarem pelo menos um mês bebendo de for- com as interações farmacológicas deve ser maior(9) e não, como
ma apenas leve (≤ 2 drinques/dia em homens e ≤ 1 drinque/ se verá a seguir, no grande contingente de pacientes com epi-
dia em mulheres), comparados a alcoolistas que não usaram lepsia sem associação com alcoolismo, que poderiam beber em
topiramato. quantidades baixas, dentro de uma perspectiva de melhor in-
A média do período máximo de uso apenas leve de bebidas serção social, e não o fazem por preconceitos e visões equivo-
alcoólicas foi de 16 dias nos pacientes usando topiramato versus cadas sobre estas interações.
8 dias naqueles que receberam placebo. Em outro estudo ran- Em outras palavras, a preocupação com interações entre
domizado, duplo-cego, com 150 pacientes alcoolistas, o mes- fármacos antiepiléticos e álcool se aplica muito mais ao mane-
mo grupo mostrou que aqueles que receberam topiramato ti- jo de alcoolistas com epilepsia do que aos pacientes muito mais
nham probabilidade significativamente maior de relatar níveis prevalentes com epilepsia, mas sem alcoolismo que desejam
elevados de bem-estar, de satisfação com a vida e também de fazer uso leve e ocasional de bebidas alcoólicas. Em linhas ge-
apresentar períodos mais longos de abstinência e de redução rais, o uso crônico de álcool, em quantidades mais do que mo-
de comportamentos perigosos associados ao uso de álcool do destas, leva a uma aceleração do metabolismo de praticamente
que os pacientes que receberam placebo(20). todos os fármacos antiepiléticos, tanto por indução enzimática
Além disso, esse estudo quantificou o uso de álcool e mos- em nível hepático quanto por redução da fração ligada às pro-
trou que, comparados ao grupo placebo, alcoolistas em trata- teínas plasmáticas.
mento com topiramato beberam uma média de três drinques a Assim, pacientes com a comorbidade epilepsia/alcoolismo
menos por dia. Por fim, apresentaram redução de aproximada- devem receber doses totais diárias relativamente mais eleva-
mente 30% no número de dias de uso excessivo de álcool(21). das de fármacos antiepiléticos, em geral na forma de um nú-
Embora outras substâncias já estejam também estabeleci- mero maior de tomadas, a intervalos menores(9).
das como eficazes no manejo farmacológico do alcoolismo, e
muitas outras estejam em fase de estudo(18), o topiramato reú- O IMPACTO DO USO ‘SOCIAL’ DE ÁLCOOL EM PACIENTES COM
ne um padrão diferenciado de eficácia no manejo dos dois la- EPILEPSIA
dos da equação considerada aqui: o alcoolismo e a epilepsia.
Em recente declaração do Therapeutics and Technology Indivíduos com epilepsia freqüentemente padecem de uma
Assessment Subcommittee and Quality Standards Subcommittee série de privações que, em conjunto, baixam sua auto-estima,
da Academia Americana de Neurologia e da Sociedade Ameri- estimulam uma espécie de ‘revolta’ contra sua doença e contri-
cana de Epilepsia(22), os especialistas chamaram a atenção para buem para o estigma social associado ao diagnóstico. A maio-

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ria dos pacientes com epilepsia tem suas crises adequadamen- Uma outra questão diz respeito às possíveis interações en-
te controladas e podem ter uma vida praticamente normal. tre álcool e fármacos antiepiléticos. Esta é uma situação fre-
Aliás, este é um dos objetivos declarados das entidades que qüentemente invocada para restringir o uso de álcool em paci-
congregam médicos especialistas e associações de pacientes: entes com epilepsia. Entretanto, muito embora o uso crônico
reduzir o estigma e tomar iniciativas que permitam ao paciente de álcool em abusadores possa reduzir os níveis séricos de di-
integrar-se ao máximo no convívio social. Nesse contexto, levan- versos fármacos antiepiléticos, o uso de quantidades modestas
do-se em conta aspectos culturais, o uso de álcool socialmente é e seguras não leva a interações clinicamente relevantes(9,25,26).
uma questão importante para pacientes com epilepsia. Especificamente doses modestas de álcool (até 30 g por oca-
Existem estudos que mostram que o uso de doses baixas sião) não modificaram significativamente os níveis séricos de
de álcool (até 30 g de etanol, três a quatro dias por semana; i.e., carbamazepina, fenitoína ou ácido valpróico(9,25). Naturalmen-
um cálice de vinho ou duas garrafas pequenas de cerveja) não te, interações com benzodiazepínicos ou barbitúricos podem
se associa à perda do controle das crises epiléticas ou a aumen- acentuar quadros de sonolência, e isso deve ser observado.
to da freqüência de crises(25,26). Assim, este autor crê que o conjunto das evidências sugere
Este autor deseja propor que o desconhecimento de estu- não existir uma razão consistente para uma postura excessiva-
dos como estes leva a posturas excessivamente restritivas em mente restrita quanto ao uso de álcool em doses pequenas, con-
relação ao ‘uso social’ de álcool, o que muitas vezes reforça o sideradas seguras. O fundamental é que o paciente não deixe
estigma e dificulta a fluidez social de muitos pacientes. É im- de tomar a medicação conforme prescrito, uma vez que proble-
portante, entretanto, que se entenda a origem destas percep- mas sérios podem advir da suspensão abrupta.
ções restritivas. Infelizmente, tragédias têm sido observadas em pacientes
Em primeiro lugar, não há dúvidas de que algumas síndro- que, proibidos de usar álcool pela dita interferência com seus
mes epiléticas se associam a padrões de alteração elétrica cere- fármacos, ou pela postura excessivamente restritiva de seus
bral que são mais sensíveis ao uso de álcool. Talvez o protótipo médicos, arriscam-se ocasionalmente ao uso, mas, pelo receio
seja a epilepsia mioclônica juvenil, em que o álcool é um dos dos efeitos da “mistura”, suspendem uma ou mais doses dos
fatores precipitantes de crises. fármacos.
Entretanto, a percepção deste autor, complementada por Neste contexto, status epilepticus e crises em situações de
estudos na literatura, é de que é muito difícil separar-se o efeito risco, com seqüelas irreversíveis, podem ocorrer nestes paci-
do uso de álcool em quantidades modestas do uso excessivo, entes. Estas tragédias podem ser evitadas com uma aborda-
especialmente quando existe, adicionalmente, privação de sono. gem mais racional da questão, respeitando os anseios, especi-
Em termos práticos, a maior parte das vezes em que paci- almente de adolescentes, de não serem vistos como ‘doentes’ ou
entes com epilepsia mioclônica juvenil relatam crises ‘precipita- ‘incapazes’, com proibições que os impeçam de integrar-se, de
das por álcool’, o uso foi excessivo e houve também privação de forma sadia e bem orientada, com seus amigos e familiares.
sono(27). Além disso, o médico deve ter clara a possibilidade de
ajustar as doses do fármaco antiepilético para contemplar a SUMMARY
ocorrência ocasional de fatores precipitantes de crises.
Em especial, em adolescentes com epilepsias generalizadas The relations between alcohol use, epilepsy, and epileptic sei-
primárias, é pensamento deste autor ser mais adequado pres- zures are complex and encompass at least four clinically relevant
crever doses mais elevadas e permitir que o paciente participe situations: (i) the risk of epilepsy and epileptic seizures in alcohol-
de atividades sociais próprias à sua faixa etária, do que restrin- ics; (ii) the risk and the management of alcohol-withdrawal sei-
gir estas atividades, usando doses menores. Uma discussão zures; (iii) the treatment of patients with epilepsy and alcoholism;
aberta com o paciente e seus familiares, geralmente, permite and (iv) the impact of modest intake of alcoholic beverages by epi-
um bom controle, preservando um trânsito social ‘sadio’. leptic patients. These aspects are addressed both from a literature
Além disso, em outros tipos de epilepsia existe a idéia de review and the author’s experience in the management of specific
que o uso de álcool, mesmo em quantidades pequenas, poderia situations. In particular, the potential role of topiramate as one of
descompensar o controle das crises. Neste ponto, é muito im- the drugs of choice for patients with both epilepsy and alcoholism
portante frisar a diferença entre uso de pequenas quantidades and the possibilities for a safe use of modest amounts of alcoholic
e uso excessivo. Como visto acima, o uso excessivo pode levar a beverages in patients with epilepsy are discussed.
‘miniabstinências’, e isso poderia realmente atrapalhar o con-
trole das crises. Entretanto, as evidências não confirmam a pos- Este artigo foi redigido de forma independente e expressa as
sibilidade real de que o uso modesto descompense a maioria opiniões pessoais do autor, com base em sua experiência clíni-
dos pacientes que fazem uso de álcool, dentro das quantidades ca e visão sobre a literatura, tendo sido comissionado pela
consideradas ‘seguras’(25,26). Janssen-Cilag Farmacêutica.

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