Diva, de José de Alencar

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Diva José de Alencar

A G.M. Envio-lhe outro perfil de mulher, tirado ao vivo, como o primeiro. Deste, a senhora pode sem escrúpulo permitir a leitura à sua neta. É natural que deseje conhecer a origem deste livro; previno pois sua pergunta. Foi em março de 1856. Havia dois meses que eu tinha perdido a minha Lúcia; ela enchera tanto a vida para mim, que partindo-se deixou-me isolado neste mundo indiferente. Senti a necessidade de dar ao calor da família uma nova têmpera à minha alma usada pela dor. Parti para o Recife. A bordo encontrei o Dr. Amaral, que vira algumas vezes nas melhores salas da corte. Formado em medicina, havia um ano apenas, com uma vocação decidida e um talento superior para essa nobre ciência, ele ia a Paris fazer na capital da Europa, que é também o primeiro hospital do mundo, o estádio quase obrigatório dos jovens médicos brasileiros. Amaral, moço de vinte e três anos, era uma natureza crioula de sangue europeu, plácida e serena, mas não fria; porque sentia-se em torno dela o doce e calmo calor das paixões em repouso. Minha alma magoada devia pois achar, nesse contato brando e suave, a delícia do corpo alquebrado, recostando-se em leito macio e fresco. Quanto a mim, Lúcia desenvolvera com tanto vigor em meu coração as potências do amor, que cercavame uma como atmosfera amante, evaporação do sentimento que exuberava. Havia em meu coração tal riqueza de afeto que chegava para distribuir a tudo quanto eu via, e sobejava-me ainda. Essa virtude amante, que eu tinha em toda a minha pessoa, exerceu sobre meu companheiro de viagem influência igual à que produzira em mim sua grande serenidade. Ele fora um repouso para minha alma; eu fui um estímulo para a sua. Sucedeu o que era natural. Desde a primeira noite passada a bordo, fomos amigos. Essa amizade nascera na véspera, mas já era velha no dia seguinte. As confidências a impregnaram logo de um aroma de nossa

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mútua infância. Separamo-nos em Pernambuco, apesar das instâncias de Amaral para que eu o acompanhasse à Europa. Durante dois anos nos carteamos com uma pontualidade e abundância de coração dignas de namorados. Em sua volta, esteve comigo no Recife; escrevi-lhe ainda para o Rio; mas pouco tempo depois minhas cartas ficaram sem resposta, e nossa correspondência foi interrompida. Decorreram meses. Um belo dia recebi pelo seguro uma carta de Amaral; envolvia um volumoso manuscrito, e dizia: "Adivinho que estás muito queixoso de mim, e não tens razão. "Há tempos me escreveste, pedindo-me notícias de minha vida íntima: desde então comecei a resposta, que só agora concluí: é a minha história numa carta. "Foste meu confidente, Paulo, sem o saberes; a só lembrança da tua amizade bastou muitas vezes para consolar-me, quando eu derramava neste papel, como se fora o invólucro de teu coração, todo o pranto de minha alma." O manuscrito é o que lhe envio agora, um retrato ao natural, a que a senhora dará, como ao outro, a graciosa moldura.

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P. EMÍLIA tinha quatorze anos quando a vi pela primeira vez. Era uma menina muito feia, mas da fealdade núbil que promete a donzela esplendores de beleza. Há. meninas que se fazem mulheres como as rosas: passam de botão a flor: desabrocham. Outras saem das faixas como os colibris da gema: enquanto não emplumam são monstrinhos; depois tornam-se maravilhas ou primores. Era Emília um colibri implume; por conseguinte um monstrinho. Seu crescimento fora muito rápido; tinha já altura de mulher em talhe de criança. Daí uma. excessiva magreza: quanta seiva acumulava aquele organismo era consumida no desenvolvimento precoce da estatura. Ninguém caracterizava com mais propriedade esse defeito de Emília do que a menina Júlia, sua prima. Quando as duas se agastavam, o que era freqüente, Júlia a chamava de esguicho de gente. Não parava aí a fealdade da pobre Emília. A óssea estrutura do talhe tinha nas espáduas, no peito e nos cotovelos, agudas saliências, que davam ao corpo uma aspereza hirta. Era uma boneca, desconjuntada amiúdo pelo gesto ao mesmo tempo brusco e tímido. Como ela trazia a cabeça constantemente baixa, a parte inferior do rosto ficava na sombra. A barba fugialhe pelo pescoço fino e longo; faces, não as tinha; a testa era comprimida sob as pastas batidas do cabelo, que repuxavam duas tranças compridas e espessas. Restava apenas uma nesga de fisionomia para os olhos, o nariz e a boca. Esta rasgava a maxila de uma orelha à. outra. O nariz romano seria bonito em outro semblante mais regular. Os olhos negros e desmedidamente grandes afundavam na penumbra do sobrolho sempre carregado, como buracos, pelas órbitas. A respeito do trajo, que é segunda epiderma da mulher e pétalas dessa flor animada, o da menina correspondia a seu físico. Compunha-se ele de um vestido liso e escorrido, que fechava o corpo como uma bainha desde a garganta até os punhos e tornozelos; de um lenço enrolado no pescoço; e de umas calças largas, que arrastavam, escondendo quase toda a botina. Emília ainda assim não parecia satisfeita. Estava constantemente a encolher-se, fazendo trejeitos para mergulhar o resto do pescoço e o queixo no talho do vestido, e sumir as mãos no punho das mangas. Caminhando, dobrava as curvas a fim de tornar comprida a saia curta; sentada, metia os pés por baixo da cadeira. Tinha um cuidado extremo em puxar para a frente as longas tranças do cabelo, que andavam sempre a dançar-lhe, como antolhos pelo rosto. Se lhe falava alguma pessoa de intimidade da família, não lhe voltava as costas como fazia com os estranhos; mas sentia logo uma necessidade invencível de coçar a cabeça, acompanhada por um repuxamento dos ombros. Eram modos de atravessar o braço diante do rosto e furtar o queixo, escondendo assim o que lhe restava de fisionomia. Muitas vezes o Sr. Duarte zombava com terna ironia desses biocos da filha: Deixa estar, Mila!... dizia ele abraçando-a. Vou mandar fazer para ti um saco de lã com dous buracos no lugar dos olhos. Tal era Emília aos quatorze anos. Entretanto, quem soubera a anatomia viva da beleza, conhecera que havia nessa menina feia e desengraçada o arcabouço de uma soberba mulher. O esqueleto ali estava: só carecia da encarnação.

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a primeira vez que estive com ela.. E pronunciava essa palavra como se ela simbolizasse a maior injúria possível. quando. 4 ..Ainda me lembro da cólera infantil de Emília. dizia-me então. eu a perseguia de longe chamando-a: —Minha noiva! —Feio!.

hirta e horrivelmente pálida. Geraldo despediu-se : —Não vens? —Para quê? Não faço falta lá. Leocádia pediu-me que saísse um momento. Duarte veio à sala.. D. —Ora Deus!. clamou o lábio erriçado de cólera e indignação. aproveite enquanto ela dorme. o olhar da menina. Não te admire portanto a leviandade desse moço. designadamente? —E esta!. que amanheceu com uma febre danada. que fazia-lhe agora as vezes de mãe. repassado de um ódio profundo. doutor. o carro está na porta à espera...II COMEÇARA o verão de 1855. que me repeliu da borda do leito.. —Ah! É como médico que me pedes para ir ver tua irmã? —Pois então!. Sr. Senti nos ombros choque tão brusco e violento. estava sentada à cabeceira. Até logo! Geraldo pertencia à classe dos homens a quem lateja a moleira toda a vida. Sua tia D. e eu não pude erguer a cabeça tão depressa. O que passou depois foi rápido como o pensamento. ela apontava para a porta. deixando o seio da menina envolto com as roupagens de linho. disse eu. 5 . acompanhou-me até que desapareci na porta. de busto erguido.. —Sim. sentada. veste-te. conforme o seu costume. Duarte à uma hora da tarde. Ouvi um grito. —Atrevido!. que não sentisse no meu rosto a doce pressão de seu colo ofegante. Voltou logo com o charuto aceso: —Tua irmã? perguntei sem compreendê-lo. Cheguei à chácara do Sr... Sobre este. Entrou.. —Minha senhora. Mandou-me chamar um médico. A família estava na maior aflição. sob as coberturas de lã. Todos os sintomas pareciam indicar uma afecção pulmonar. estrepitosamente. Geraldo. A senhora afastou a ponta da cobertura. Ele não entende disso! Ao entrar no carro. No aposento reinava uma frouxa claridade que mal deixava distinguir os objetos. são ainda meninos de cabelos brancos. é necessário auscultar-lhe o peito.. e cantarolando não sei que ária do seu repertório italiano. Leocádia.. logo! —Quem sabe! Talvez não lhe inspire confiança. e velhos já. surgira Emília. Ao retirar-me. nada a fará consentir.. queixando-se de fortes pontadas sobre o coração. Fiquei atônito. Uma manhã apareceu Geraldo em minha casa. com a outra estendida sob as amplas dobras dessa espécie de túnica. —Então. Vamos. —Mas. Os olhos esbraseados cintilavam na sombra : conchegando ao seio com uma das mãos crispadas as longas coberturas. parecia inteiramente sopitada no letargo da febre. —Vai ver minha irmã! disse passando por mim e sumindo-se pelo interior da casa. Mal encostei o ouvido ao seu corpo. Se acordar. teve ela um forte sobressalto.. Mila. tu és um. Emília prostrada no leito. —A mim. Com pouco o Sr. A menina ardia em febre desde a véspera. Foi tua família que mandou chamar-me? —Foi meu pai.

Quase se pode afirmar que o não percebeu. —Por que não receita já.. como sua amizade. e só respiram livremente na atmosfera do armazém. depois de rico só vive para ser milionário. e nos hábitos do homem pobre e laborioso. metódica e fria. Sr. O negociante voltou acabrunhado: —Ela recusa! murmurou. Capaz de qualquer sacrifício que exijam dele. —É verdade! —Demais. é chamar V. mas vem bem e com simetria a flor cultivada dos afetos calmos. muitas vezes fiz-lhe ver o inconveniente disso. acordou sobressaltada. sem iniciativa.. mas destino.. 6 . um belo dia. Duarte voltou ao quarto da filha. —Mudará com a idade. V. Mas. para ele conserva a antiga mediocridade. uma boa alma. Duarte admitiu a menor alteração em seu sistema de vida. que desde muito tempo batia k porta de sua velha habitação. doutor. —Deste modo não sei o que faça. um médico de sua confiança. Entretanto a moléstia é grave. Por meios brandos!. portanto. Não oferece. como deve ser uma alma aclimatada ao balcão desde a infância. Para ele essa grande revolução doméstica não passava de uma questão de pagamento. trabalhou toda a vida para enriquecer.. Agora convém que V. doutor.. eu também não posso usar de rigor com Mila.? —Não posso indicar um tratamento sem conhecer a moléstia. eu sou para ela quase um estranho. Nessa alma. —Não se aflija. pelo que acaba de acontecer. não brota a urze das paixões.. —O que me parece mais acertado. De resto. Sr. Em resumo. A riqueza não o fez melhor nem pior. que representa na família um papel importante pela sua nulidade.. S. habituado a tratar na família. mas passivamente. sem que ele tivesse consciência disso. não mudou de caráter.. e sucumbiu à dor: as lágrimas saltaram-lhe dos olhos. —Pois. Minha falecida mulher era nesse ponto de um rigor excessivo. Mila teve uma educação muito severa. Sua filha não estava prevenida. mudou de fortuna.. a convença da necessidade de consentir. que nascem predestinadas para o negócio. nem de sentimentos. que já parece vicio. é negociante.. Sr. Duarte deixou-se cair sobre uma cadeira. —É dos casos em que um pai deve interpor a sua autoridade. e educada exclusivamente para o juro e a conta corrente. devia penetrá-la enfim. como nos canteiros regulares de um jardim. Duarte. tem Duarte uma dessas naturezas essencialmente mercantis. Havia. Quer a riqueza para seus filhos. Sr. motivos de sobra para o seu vexame. Essa febre nele não é ambição. bem sabe quanto as mães são zelosas de sua autoridade.—Peço-lhe mil desculpas. —Tanto que lhe pedi já e roguei! Não quer ouvir falar de semelhante cousa. que fora. Esse homem. parentes e amigos.. Duarte ama sua família e estima seus amigos com sinceridade. O luxo.. Eu compreendi logo a razão do que se passou.S. doutor. Nunca até hoje o Sr. mas também não recusa seu dinheiro. porque sei que isso seria matá-la mais depressa. Como o faria agora que a vejo tão doente? —Não será talvez necessário recorrer a esse extremo. nunca teve a espontaneidade do mais insignificante favor. O recato é tão bela virtude em uma menina! —Mas em minha filha é em tal excesso. S. e portanto da competência do seu caixa. —Oh! sinto que não teria ânimo! Nunca até hoje ralhei com minha filha.

Sentei-me à borda do leito. Sr. Aceitei a primeira e recusei a última. nada menos do que uma pneumonia dupla. a esse cuidado incessante de todas as horas e de todos os momentos. o mesmo que o senhor! Meu Deus! Condenado a ver morrer minha filha. entre a parede e o cortinado. Leocádia dormitava extenuada à cabeceira do leito. e achei em mim uma energia nova. a pedido do Sr. Um mês arquei com a dissolução que invadia esse corpo frágil. Tinha. o que devem sentir os grandes artistas tratando um assunto difícil. —Bem. Santa virgindade das emoções. trabalhei para ele como o sacerdote de minha nova religião. júbilos imensos. e eu advertido por Julinha ou por D. quando a consciência da minha fraqueza contra as leis da natureza me acabrunhava. ela acordava eom sobressaltos. embora temessem a cada instante que a minha suscetibilidade se ofendesse com aqueles modos ríspidos. Mas o meu orgulho de médico principiante estava empenhado nessa cura. sem poder salvá-la. que a aridez do mundo tão depressa estanca! A quantos espetáculos pungentes não tenho eu assistido depois com os olhos enxutos e o espírito sereno! D. Essa menina inspirava-me não sei que estranho e vivo interesse. A gratidão do pai foi sincera. Mal sabia eu da influência que devia ter no meu destino essa existência. primeiros orvalhos do coração. e não pude reter as lágrimas que me saltaram em bagas dos olhos. eu assumira a tremenda responsabilidade da conservação de uma vida. que lhe faltava devorar.. Nunca. Tive de lutar contra a enfermidade rebelde e a tenacidade inflexível de um caráter singular de menina. a máscara da morte cobria já aquele rosto diáfano. A moléstia era realmente grave. quando meu espirito. Eu sentia. mal lhe tocava o pulso. quis sagrá-lo 7 . Leocádia me chegava ao leito.. que um erro meu.—Já não existe! exclamou com um soluço. Venci afinal. como ordens imperiosas. habituada a ver satisfeitas todas as suas vontades. doutor? Enxuguei as lágrimas envergonhado. arcava com a moléstia e a subjugava por instantes. Emília tomara-me tal rancor.. Emília entrou em convalescença. eu reanimara com os lumes de minha alma. tirando forças da ciência e da vontade. —Por quê? me perguntarias talvez.. ficado em sua casa. mas não tinham nem a força nem a vontade de contrariá-Ia. Uma ocasião um olhar de Julinha traiu-nos. Leocádia e o irmão se afligiam muito com os caprichos de Emília. sua recompensa generosa. devo o resultado que obtive. ela surpreendeu-me e gritou cobrindo o rasto: —Deitem fora este homem! D. Era ela que devia me dar a consciência da minha força ou talvez o desengano de uma carreira. E não era uma vida indiferente. mais esperança. até então. volvendo os olhos inquietos pelo aposento. calma e impassível à dor. Era como te disse o meu primeiro triunfo em medicina. Aproximei-me. Leocádia abriu os olhos: —Não há. prestes a se apagarem. Emília não dava mais acordo de si. Duarte. Duarte. que não me deixou mais penetrar em seu aposento. Foi ela que decidiu do meu futuro. Por um desses movimentos misteriosos do coração que não se explicam. Lancei mão dos últimos recursos. velando-se como as virgens mártires do cristianismo para morrer pudicamente. e dai esgueirava-me pela porta. Eu tratarei de sua filha. Uma vez perdi a esperança. Essa menina caprichosa. cujos frouxos clarões. combatendo sua enfermidade. podiam sacrificar. D. Qualquer outro que venha me responderá. Ocultava-me então do lado da cabeceira. e a isso. raiva e desespero. um instante de hesitação. Se adormecia. disputando às garras da morte os sobejos de vida.

Afinal lhe disse : —Eu conheço. Então ainda a luz intensa da paixão. que faço uma violência à sua generosidade. como estereótipo nas lâminas do coração. mas inutilmente. 8 . Emília. "Meu primeiro doente foi para mim como um primeiro filho. o desespero de minha fraqueza nesses momentos. e insistiu. Se não me engano. em nossas conversas intimas a bordo falei-te alguma vez dessa família. eu minha felicidade. Começo a minha vida. em compensação lhe prometo. As emoções que senti lutando com a moléstia. onde me demorei perto de dous anos. as angustias por que passei nas suas recrudescências. Já a recebi do meu coração.. Fizemos juntos até Pernambuco a viagem. Foi a pura e santa alegria de restituir a vida querida. Duarte." O negociante ainda me procurou. Substituí-la por outra. Pouco tempo depois sabes que fui h Europa. o senhor a vida de sua filha. Sr. "Essas emoções só podiam ter uma recompensa. Nesse caso recorrerei ao senhor! —Promete-me? —Dou-lhe minha palavra. de que nasceu a nossa boa e sincera amizade. que veio depois. Duarte pouco mais ou menos o seguinte: "Foi Deus quem salvou D. não tinha debuxado. extreme e puro de todo o interesse pecuniário. e não mal-entendido pudor de receber a justa remuneração de tão nobre serviço.unicamente à ciência. a ele devemos agradecer. Tal foi o motivo de minha recusa. Mas. mas sem as particularidades que refiro agora. Escrevi ao Sr. é possível que alguma vez me veja em embaraços. Duarte. que me fora confiada. Sr. não seria generoso de sua parte. um pai os deve compreender.. a imagem viva dessa menina.

porém na mesma delicadeza do porte esculpiam-se os contornos mais graciosos com firme nitidez das linhas e uma deliciosa suavidade nos relevos. e a luz coa pelo fino tecido.. e um sangue puro a escumilha de róseo matiz. A dela era assim.III VOLTANDO da Europa. como diadema cintilando na cabeça de um anjo. Havia em toda a sua pessoa um quer que fosse de sublime e excelso que a abstraía da terra. Nesses momentos toda ela era somente coração. que se revelavam também no basto trançado do luxuoso cabelo negro. Era alta e esbelta. era de um molde severo. ainda nimiamente avaro dos encantos que ocultava. Fulminou-me com um olhar augusto. Mimosa cor de mulher. Tinha um desses talhes flexíveis e lançados. vi ao entrar na sala uma linda moça. uns toques artísticos. a influência misteriosa que um espírito superior tinha exercido na revolução operada em sua pessoa. Ela vestiu-se como de uma túnica lívida e glacial: logo depois sua fisionomia anuviou-se. De pé no vão da janela cheia de luz. Paulo. e não me devia só a cortesia a que tem direito o homem delicado. Voltei impressionado por essa visão de sala em pleno dia. porém. Então desferia alma por todos os poros. surgiu alguma vez em meu espirito aquela imagem de moça. dir-se-ia que ela se preparava para sua celeste ascensão. Acreditas. devia-me gratidão. quando vão desfalecendo ao beijo do sol. Às vezes. 9 . murmurei inclinando-me. Também eu já não reparava na vergonhosa esquivança da menina. velutados de negro. a menina feia e desgraciosa que eu deixara dous anos antes? Que sublime trabalho de florescência animada não realizara a natureza nessa mulher! Emília teria então dezessete anos. também não era morena. maior foi a humilhação que sofri com o seu desdém. porque toda ela palpitava e sentia. Se a transformação de Emília produzira em mim uma admiração grande. Uma tarde encontrei-me com o irmão: —Ia à tua casa! disse-me Geraldo. mas essa lembrança me incomodava. Visitando o negociante. se a aveluda a pubescência juvenil. Tinha-me despedido dele e de sua família. Ouvindo o rumor dos meus passos. que não reconheci. Tinha sua tez a cor das pétalas da magnólia. O trajo. e despertava nela a mulher. e desapareceu. Emília não me quis aparecer. e admirava: afinal adiantei-me para cumprimentá-la. —Pois vamos. a primeira visita que recebi foi a do Sr. e eu vi lampejos fuzilarem naquela densidade de uma cólera súbita. —Minha senhora!. meio reclinada ao peitoril. Nos dias que se seguiram. Não é possível idear nada mais puro e harmonioso do que o perfil dessa estátua de moça. Estava só. Uma altivez de rainha cingia-lhe a fronte. que essa moça que te descrevi fosse Emília. rasgavam-se para dardejar as centelhas elétricas do nervoso organismo.. Duarte. tinha na mão um livro aberto e lia com atenção. Não era alva. olhando-a. Contemplando-a naquele instante de enlevo. estava moça. ela voltou-se. Sentia-se. mas havia no gracioso da forma e na combinação do enfeite. apesar dos esforços do pai. a impressão da leitura turbava a serena elação da sua figura. Os grandes olhos. que são hastes de lírio para o rosto gentil. As cores fugiram-lhe. —Talvez ignore! disse eu comigo. Já não era uma menina. Eu tinha parado na porta. nessa ocasião ainda.

embora através das ilusões douradas. 10 . Julinha faz anos. uma escola para Emília. Ainda vou à chácara. Seu bom gosto se apurou. havia em sua alma a centelha divina que forma essas grandes artistas de sala. ter o nobre orgulho do gênio criador. trabalhando para tirar dela os avultados rendimentos necessários ao luxo que sua família ostenta na corte. E realmente. ela observava. Nos domingos há jantar para um círculo mais escolhido.. me disse ela muitas vezes sorrindo. não são menos sublimes que o escultor quando talha no mármore a beleza inanimada. um belo dia surgiu outra.—Não. Matilde? —Sim. que nós chamamos senhoras elegantes: artistas que por cinzelarem imagens vivas e talharem em seda e veludo. próprio e original. bonita e muito elegante. D. como Fídias tinha criado o tipo da Vênus primitiva. como soube depois. nem imitou. Quando aos dezoito anos ela pôs o remate a esse primor de escultura viva e poliu a estátua de sua beleza. Todas as noites as salas ricamente adereçadas se abrem às visitas habituais. Lia muito. Podia então. Minha tia manda-te dizer que amanhá toma-se chá em sua casa. que são prendas da mulher. —Não posso. excedia-se em todos os mimosos lavores de agulha. Sua casa nobre em Matacavalos é ponto de reunião diária para uma parte da boa sociedade do Rio de Janeiro. Foi também. sabia música e a executava com mestria. Sua imaginação fora a tempo educada : ela desenhava bem. Não te falo desta casa somente por ter sido uma cena no drama de minha vida. ela é perdida pelo corteje e galanteio de sala. —Eu nasci artista!. De mês em mês aparece um pretexto qualquer para um baile. e já de longe penetrava o mundo com olhar perspicaz. Mas faltava ainda à inteligente menina o tato fino e o suave colorido que o pintor só adquire na tela e a mulher na sala. Nunca a honra conjugal sucumbiu a essa fascinação. e tenho de voltar para o teatro. a qual também é tela para o painel de sua formosura. Matilde que Emília deu os últimos toques à sua especial elegância.. a elegância teve nela um molde seu. a diva dos salões. Já que te encontrei poupa-me essa maçada. Ainda moça. Matilde é casada com um irmão de Duarte. mas a casta dignidade da esposa foi sacrificada sem reserva. Adeus. —Ah! D. Foi nas reuniões de D. e devia. havia atingido ao sublime da arte. —Espera. Não copiou. Começando a aparecer em casa da tia pouco tempo antes da minha volta. Essa moça tinha desde tenros anes o espirito mais cultivado do que faria supor o seu natural acanhamento. Ela criara o ideal da Vênus moderna. Seu marido vive constantemente na fazenda.

quando chegou-se pressuroso o Barbosinha: —Já tem par para esta contradança. e correu-me um olhar frio e gelado. senhor. em que eu a vira antes. no seio da confusão que é o seu maior encanto: a música. Ainda a flor agreste de sua gentileza não se havia aclimatado à atmosfera do baile. Matílde triunfava. com as repetidas provas de sua bondade. Matilde naquela época. Aproximei-me. no meio de suas rivais e aos olhos de seus adoradores. Cumprimentei-a. D. doutor? —Pode ser. Muitas vezes procuravam desculpá-la com seu excessivo acanhamento. Era o crepúsculo matutino de uma rosa. D. —Dance!. uma sombra a projetar-se. e fitava em face qualquer homem que a olhava. disse com a voz seca e ríspida. minha senhora. Estive conversando com D. Eu tive uma vertigem de cólera. Emília. Ela perdia à noite e no meio do salão ornado pelas mais elegantes formosuras da corte. a assustavam. que tanto admirei depois. os ruge-ruges das sedas. enchiam o salão. O baile foi esplêndido. —Naturalmente já tinha par. que se colocara para a quadrilha a pequena distância. não senhor. às vezes à força de vontade. um vestido que roçava. agora moça. Emília! —Ainda não tenho. Tive mais tarde a explicação dessa e muitas outras finezas que recebi de toda aquela família. era a segunda vez que essa menina humilhava-me.. Pôs os olhos em meu rosto. que me transiu. —Pois ela recusou! disse a senhora contrariada. Leocádia passou nessa ocasião. No meio dessa multidão jovial. Inclinou a fronte. voltou-se rápida ao ouvir as minhas 11 . Leocádia algum tempo. Ainda eu estava imóvel diante dela. que abotoara à noite e ainda não desatara ao sol. Leocádia. Contudo. mas para esquivar-me o rosto. as vozes. creio que ela fez um grande esforço. ela arrancava dessa mesma timidez audácias ingênuas. porque o seu pescoço de cisne perdeu a doce flexibilidade: ergueu a cabeça com certa aspereza. A menor palavra. erriçando os velos macios e estremecendo aos rumores vagos da floresta. Quando lhe pedi a contradança. D.. Emília tinha uma atitude de corça arisca. os risos. nem o fulgor radiante. quando me ergui ela perguntou: Não dança. Já o baile tinha perdido a simetria da entrada. respondeu ela com a pronúncia clara e vibrante. O pai e as tias de Emília queriam. apagar qualquer ressentimento que pudessem gerar no meu espírito os modos ríspidos da menina. —Não. faz-me a honra de dançar comigo? Levantou-se para tomar o braço do cavalheiro. e ainda mais quando no dia seguinte recebi um cartão de visita da senhora com palavras afetuosas. não para corresponder-me. que não teria uma senhora: erigia a fronte com altivos desdéns. Lá estava Emília.IV POUCAS entradas tinha eu em casa de D. E a boa senhora mostrou a sobrinha sentada a alguma distância. —Ah! Não quis dançar com Mila? —Ao contrário. —Então. Não tinha ali nem a suave limpidez do desalinho. D. não lhe mereci essa fineza. Olhe! vá tirar Mila. O convite me surpreendeu. os burburinhos da festa.

ela não soube recusar ao amor as carícias. mas esta acabava de espedaçarse no chão manchando a saia achamalotada de seu rico vestido de seda azul. perdera cedo o casto perfume.palavras. Deus a tinha feito nimiamente boa e compassiva. apesar de meu ressentimento. D. Isto foi dito enquanto a menina trocava algumas palavras com uma amiga. ela facilmente se consolava. que foram brincos da infância. Suas afeições eram sempre sinceras e leais. mas também se este a esquecia e mudava. Ela ia tomar uma xícara na bandeja que passava. —Ao menos a punição é generosa: foge-me o original. Emília ficou impassível. servia-se o chocolate. mas deixa-me a cópia sua. mas admiravelmente torneado.. recebeu inteiramente distraída.. Ali durante um mês. —Isso seria a minha recompensa. nem alto nem esbelto. disse-me ela. nós estamos em casa todas as noites que não forem de baile ou teatro lírico: e nas quintas-feiras com especialidade. porque em naturezas como a sua o amor não cria raízes profundas. e o agradeceu com terno sorriso: —Antes que me esqueça. doutor. Mas educada na sala. compreenderias porque. Uma noite de reunião. e a inveja da formosura alheia. Leocádia! Teria com isso o maior prazer. Continuei a frequentar a casa de D. por isso quando chegou a idade do coração. —Deveras. Pois vou dar-lhe outra mais doce. —Ah! É cata-vento assim? —Quem deixará de o ser. admira-me como a pude ter. doutor? atalhou D. Então. Emília não perdeu ocasião de crivar-me o coração com os alfinetes de sua cólera feminina.. Se visses o meigo império do olhar que me lançou. como é isso? O senhor já se retira? —Estava nessa intenção. Matilde esperava o meu cumprimento. eu me retiro já. —Parece-lhe?. apressei-me a servi-la. Parecia-se com a mãe somente no rosto: o talhe não o tinha.. e também o mais desdenhoso. Volvendo lentamente o rosto.. 12 . D. Matilde fez com o leque um aceno à filha: —Julinha? —Mamãe! —Dança com o Sr. superfície d'alma. obrigando-o a dançar comigo esta contradança. e vê se consegues fazê-lo esquecer as horas. Dê-me o seu braço. quando o criado sem perceber o movimento seguiu.. faltava-lhe para isso o orgulho de sua formosura. Um fino sorriso de ironia passou-lhe fugace entre os lábios. nunca traiu nem por pensamento o seu escolhido. Retirei a mão. Amaral. Desde menina habituou-se a ser amimada ao colo e beijada por quantos frequentavam a casa. que atravessava o salão. mas. atirou-me por cima do ombro estas duas palavras que vieram afogadas no escárnio: —Com efeito!. D. Matilde. Julinha nunca foi loureira. quando o sopro vem perfumado da mais linda boca? —Eu devia puni-lo por ser tão lisonjeiro. mas agora. —Muito agradecida! disse-me. —Vou preveni-la para a seguinte. me havia respondido a tia. Matilde. aos raios da galanteria materna. A prima e companheira de infância de Emília era uma moça muito galante. —Perdão. Matilde.. julgando que ela sustinha entre os dedos delicados a xícara. e só vegeta à. D.. sem me olhar. Entretanto quando lhe ofereci o chocolate. atirando a palavra da ponta do beiço o mais lindo.

Uma noite. —Ah! foi o senhor?. Matilde. surpresas: —Adeus! Adeus!. Se estava ao piano e eu chegava. Tudo isso me convenceu afinal que o procedimento de Emília não era filho de uma simples antipatia. resolvido a descobrir o seu ponto vulnerável. Procurei-a: já tinha partido. e serem já horas do jantar. pelo que sucedeu! —Quando? —Quinta-feira passada.. entravam no carro. chamado por alguma palavra amável de D. Nem reparei! disse-me com a maior indiferença. Proferidas estas palavras. Desde que a Duarteazinha. que afastava sem ofender. e partiam para a chácara.. Ela tinha deixado cair a xícara de propósito. Duas ou três vezes. Vendo-me entrar na sala. tinha-lhe inadvertidamente tomado a mão. Sua nobre altivez os mantinha em respeitosa distância. e nunca mais dançou com ele. e deixou cair sobre ele um dos seus olhares de Juno irritada: —Ainda não sabe como se dá a mão a uma senhora? disse com desprezo. O Amorim em uma das marcas. nunca nos bailes ela consentiu que o braço de um homem lhe cingisse o talhe. minha senhora. um mimo de orgulhosa esquivança. e tive-me em conta do maior desastrado. achei-a entretida a brincar com a prima e algumas amigas. sócio de seu pai. apenas roçavam a palma do cavalheiro: o mesmo era quando aceitava o braço de alguém. dirigi-me a ela para lhe pedir perdão de minha inadvertência: —Peço-lhe mil desculpas. logo que cheguei. Parecia um sistema de perseguição acintosa.. Quando porém algum mais apaixonado ou menos perspicaz de seus admiradores. Ela procurava sempre esquivarse ao meu cumprimento. apesar de ter ela prometido passar o dia com Julinha.. mas de um propósito firme de humilhar-me. Na próxima quinta-feira. mas naquela ocasião estava bem longe de suspeitá-lo. erguia-se. dançando com o Amorim. 13 . —Aquela minha distração de deixar cair a xícara. e quando de todo não podia evitá-lo. Ela conservava sempre na sala. como na intimidade. e com ele o desejo da vingança. como a chamavam nos salões. Emília não consentia que a manga de uma casaca roçasse nem de leve as rendas do seu decote. apareceu nas reuniões de D. sentou-se no meio da quadrilha. Lancei toda a culpa sobre mim. deixando suspensos os que a ouviam tocar ou cantar. Vamos. foi logo cercada por uma multidão de admiradores. recebia com fria altivez. chegando à casa de D. —Não me lembro. levantou-se bruscamente. e despediu-se das outras.. De longe e disfarçadamente comecei a estudar essa moça. Na contradança as pontas dos seus dedos afilados. Geraldo! Tomava o chapéu. ousava transpor aquela régia altivez e casta auréola em que ela resplandecia. Inventava então qualquer dos pretextos em que era fértil seu espirito vivaz. em vez de apresentar-lhe a sua.. Se eu me aproximava do círculo onde ela conversava. então sua cólera revestia certa majestade olímpia que fulminava. sempre calçados nas luvas. e no primeiro momento favorável eclipsava-se.E retirou-se da sala. Emília não valsava. Nem sequer com seu ódio ela se dignava me distinguir! De dia em dia a sua aversão tornou-se mais clara. porém o verdadeiro motivo deixava-o bem transparente. Matílde. calava-se imediatamente. Esta palavra me ofendeu mais que tudo quanto me tinha feito essa moça. Leocádia. recolheu a mão de repente. o irmão contrariado a seguia. Bem diferente nisso de certas moças que passeiam nas salas reclinadas ao peito de seus pares. O instinto da defesa acordou em mim.

eu observei.. apenas de espaço a espaqo dizia algumas palavras. depois de algumas semanas. Pois olhem! Eu acho aqueles modos tão bonitos!. coitadinha!. me confrangeu o coração. Muitas vezes eu assistia calado aos tiroteios dessa guerra feminina. —Não falem assim! dizia Júlia voltando-se com um gesto suplicante. especialmente por seu pai a quem estimo. mas fitou-lhe as mãos com olhos tão expressivos que o moço compreendeu e corou: —Tem razão. Esses felizes preferidos obtinham. Matilde pelas outras moças. Estes e muitos outros pequenos fatos eram comentados no salão de D. Tirando-a para dançar uma noite. Emília? Ela calou-se. Tinha uma nobre figura e o cunho da verdadeira beleza marcial. que eu lobrigava naquelas preferências de sala... senti n'alma o agridoce dos prazeres. E Julinha. observando a suprema delicadeza do gesto casto e gracioso de Emília. pensava eu. a flor exale da sua fragrância. Quando confirmei esta minha observação. Matilde um moço oficial de marinha. ela ergueu se e ia dar-lhe o braço. Era um dos mais ferventes adoradores de Emília. porém triste. Não posso dançar! —Por que motivo. D. —Pois há quem suporte aquilo? —Ora! É rica! Tem bom dote! —Já repararam? Nem ao mano ela se digna apertar a mão! —Tem medo que não lha quebrem. mísera. Tirei as luvas para tomar chá e esqueci-me de calçá-las. um largo intervalo de conversa íntima.Frequentava as reuniões de D. mas a profanação de sua alma.. —Desculpe-me.. que ela tinha um círculo especial de admiradores. Apesar da esquivança constante de Emília. que à semelhança do vinho se derrancam no coração. do espírito e da riqueza. que Deus tinha feito para a família e a mãe desterrara para o mundo. pois cingia-lhe a fronte a tríplice coroa da beleza. A beleza sem mácula dessa menina humilhava-me. Nessas ocasiões ela falava pouco. Ouvindo-a. onde escolhia habitualmente seus pares. eu me sentia atraido para essa boa alma. tão cedo perdera.. É por sua família.. mas retraiu-se logo e tornou a sentar. Como procurava eu iludir-me! 14 . séria umas vezes. mas escutava com visível interesse.. o tenente Veiga. tomava a defesa da prima. que não perdoavam a Emília tantas superioridades. além do favor da costumada contradança. —É uma namoradeira! murmurou minha alma vingada. Alguma rival. outras sorrindo. —É mesmo um alfenim! acudia outra. e fazia com uma doce melancolia o elogio daquele suave matiz de pudicícia. Que mal lhes fez Mila?. que ela. —Não é por ela que eu sinto. ralava-se de inveja e dizia para as amigas: —Ai gentes! Não me toquem!. como ela tinha.

para de improviso e no mais fidalgo salão da corte fazer sua brilhante metamorfose. Matilde ali sentadas. e em grande parte! —Quando é que o senhor há de perder o costume de ser lisonjeiro? —Quando a senhora quiser acreditar-me! D. com um só botão cor-de-rosa. a soberania da formosura e elegância. pelo mimoso e delicado. doutor! Que distraído que ele está hoje! —Perdão. —Ainda não. eu conhecia se tinham sido ou não felizes. Eu resistia contudo. e vestiu os fulgores da beleza. apesar do juramento que eu fizera de nunca dançar com ela depois da desfeita que sofri. que eu escutei. Matilde! Como passou?. apanhavam os fofos transparentes. se esta não me advertisse da minha falta. —D. que envolve como um sudário transparente as estátuas de mármore. abatendo com a mão afilada os rofos da Escócia. quando queria. Quando erguia-se e coleava o talhe flexível fazendo tremular as brancas roupagens. que naquele momento tinha inveja dos preferidos. balbuciei cortejando. se não temesse nova e humilhante repulsa. Pois sabe. Resvalando pela tez baça. que não veria Julinha e D. deixei-me embeber naquele sorriso. Paulo. Era o toque severo do pudor corrigindo a túnica da vestal imolada à admiração ardente das turbas. Senti. Ia com efeito. e ela distribuía aos seus prediletos as quadrilhas que pretendia dançar. Que interesse tão vivo achava eu nessa observação? Já compreendeste sem dúvida. A culpa por conseguinte também lhe cabe. D. Mas que estranha mutação! Sua esplêndida beleza congelou-se. o prendiam e levavam cativo e submisso a seus pés. —Boa noite. As longas pálpebras erguidas pareciam fixas sobre uns olhos lívidos e mortos. que essa menina me preocupava a malgrado meu. Pequenos ramos de urze. e tão alheio de mim. aproximando-me.V POR esse tempo Emília fez a sua entrada no Cassino. exalar-se dela a frialdade. sem ouvir. Passei. ela a tinha conquistado. —Já viu a rainha do baile? disseram-me logo que cheguei. Seu trajo era um primor do gênero. mas ela me sorriu. por tanto luxo e formosura. olhares de uma atração imperiosa e irresistivel que cravavam um homem. e fui. O forro de seda do corpinho. com a saia toda rofada de largos folhos.. que desde então arrastaram após si a admiração geral. Quem é? —A Duartezinha. que o menor sopro fazia arfar. Nessa noite ela quis ostentar-se deusa. A multidão de seus adoradores a cercava como de costume. Ela tinha. que surgiu mulher da espuma das ondas. Parecia que essa menina se guardara até aquele instante... Então não tive mais consciêncla de mim. e fitou-a em mim com uma persistência incômoda. Quando Emília sentava-se. ligeiramente decotado. parecia-me um cisne colhendo as asas à margem do lago. apenas debuxava entre a fina gaza os contornos nascentes do gárceo colo. e arrufando as níveas penas. 15 . lembrava o gracioso mito da beleza. não distraído. Emília. Trazia o vestido de alvas escumilhas. Pela expressão de júbilo ou de contrariedade dos que voltavam. O talhe de suaves ondulações crispava-se agora com uma rigidez granítica. Estive contemplando-a de longe. —Ah! Realmente. cego d'alma que ela me raptara e dos olhos que me deslumbrava. as luzes palejavam-lhe a fronte jaspeada. Livre um instante de sua roda de admiradores. e dentre as nuvens de rendas das mangas só escapava a parte inferior do mais lindo braço. mas ofuscado. cometeria a indignidade de ir suplicar-lhe ainda a graça de uma quadrilha.. Emília correu a vista pelo salão. Matilde começou então a sua revista do baile.

e eu senti a luz de seus olhos ferir-me a vista. não foram quinze. para ficar sentada. Se me pedirem muito!. durante o sono profundo e longo do coração.. rojavam espedaçados pelo chão. Então. e abateu uns olhos frios para o estrago do trajo mimoso. apesar de já a ter prometido: —Farei uma troca! disse-me. Ainda hoje. e vil. Desejava que não pairasse no seu espirito a mínima esperança de que eu me deixasse imolar ao seu orgulho... depois de tudo quanto sofri. A fímbria de um vestido roçou por mim. Emília me provocava diretamente para lhe pedir aquela terceira contradança reservada. queria me ver suplicante a seus pés. Os folhos do elegante vestido. para mim. compreendi o olhar. quando sua vaidade estivesse saciada.. sei eu compreender semelhante mulher? Desde que entrevi a perfídia da provocação. Depois esbeltou-se para dardejar-me sobranceira outro olhar. —Por quê? perguntou a prima. Emília retraiu o passo. anunciou-me a sua cólera e a minha punição. mordendo o lábio. disse ela rindo. composto com tanto esmero. passava altiva.. Compreendi tudo. —Que lembrança! —Depois. Minha intenção foi convencer logo a Emília que ela se iludia. que tantos elogios e maior inveja exeitara. Esta não tardou muito. eu não a olhava. porém mais festejado que o moderno. Eu me apoiara a uma delas.. o sorriso e o diálogo. De repente ela descaiu o corpo no movimento que fazem as senhoras quando sentem presa a cauda do vestido. Com essa inclinação as ondas da escumilha me envolveram os pés.. Dançarei a quinta com Dr. mas bem cruel vigília. apesar de sua riqueza. apesar da primeira humilhação. Também tive o meu sorriso desdenhoso e o meu gesto de indiferença. Emília passava pelo braço de uma de suas amigas. mais frio ainda que me 16 . Creio que viste o antigo Cassino.. Talvez me resolva a dançar. Hás de te lembrar das colunas que ali havia. —8e dançar-se a metade. sem querer... Meus espíritos alvoroçados serenaram como por eneanto. Quem sabe?. Emília sorria dizendo essas palavras. flagelando-me as faces com um daqueles seus olhares de soberano desprezo. Seu dente mimoso. —Guardei esta. enganei-me.. mas sentia. Reconheci-me o homem que fui e sou. o qual até agora felizmente só teve uma. Ouvi o rechino de lençarias que se rasgassem com violência. e estivera conversando numa das salas próximas. Para a terceira não aceitei. Empalideci!.. Fiquei imóvel entre ela e a coluna. frio e sempre calmo.. esperando que se formassem as quadrilhas.. acompanhando com a vista. de feia arquitetura e pobre decoração. meneando com gestos soberanos a linda cabeça coroada pelas tranças bastas do ondeado cabelo.. me insultaria de novo do alto de seu orgulho. o garboso desenvolvimento daquele passo de sílfide. cobrei a calma. e ela ma concedeu. Pedi a D. —Julinha!. Sabes quantas contradanças já me fizeram aceitar? Quinze!. Ela bem me entendeu. será muito! —Não. Chaves. Tinha-me eu retirado do salão. Matilde justamente a terceira contradança. lembrei-me que Julinha me prometera na véspera a primeira quadrilha e fui-me aproximando.. desdenhosa. Dando a música sinal de que o baile ia começar. Minto: eu não tinha compreendido nada.Emília estava ali perto.

—Nem de propósito!.. —Que foi isto? Quem lhe pôs nesse estado? —Quem?. cousas que só ao entusiasmo da primeira paixão sacrificam raras mulheres. risonha. Venha cá! —Não vale a pena. as moças pareciam agradecerme o serviço que lhes prestara com o eclipse da beleza-rainha da noite. procurava-a nas quadrilhas já formadas. para não roçar-me passando. nem mesmo a minha qualidade de criatura humana. Um pé!... e nem sequer me voltara? Junto de mim não estava outra pessoa. Uma chegou até a dizer-me: —Ande lá! O senhor o fez de propósito. e eu apanhei-os estupidamente. arrancando uns fragmentos que arrastavam ainda.. e se aproveitara do incidente para mortificarme. amesquinhar assim um homem e esmagá-lo com uma palavra? Emília atribuía a mim o que lhe acontecera. Era uma cousa. Adeus. Não vê? —Ainda o baile nem começou! —Acha você que estou muito decente? disse abrindo a manta e mostrando a escumilha esgarçada sobre o forro de cetim. quando ela surgiu diante de nós. Como já me aborrecia esse baile antes de começar! Não via Emília.. e agora quer negar! Não lhe dei resposta. Paulo. 17 . uma parte desprezível do corpo. eles vieram cair a meus pés. que lhe ocultava todo o corpo p cingia com uma das pontas o colo e parte da cabeça. envolta em sua ampla mantilha cor de cinza. Teria eu insensivelmente pisado a fímbria da saia? Mas como. Duvidei de mim um momento. um pé! Não sei o que na minha indignação ia responder-lhe. e não achava para designar-me. Estendeu a mão à prima: —Adeus! —Que é isso.. Por toda resposta.Mas isto conserta-se! disse Julinha seguindo-a. nem o meu nome. do que deixavam essas palavras rasgando-me os seios d'alma! Ainda me adiantei exclamando: —É uma injustiça. sem a menor sombra de contrariedade. minha senhora!. Retirou-se pelo braço do pai.. se ficara imóvel.. se ela me desse tempo. Por outro lado. Podia eu imaginar que ela tivesse por acinte a mim sacrificado deliberadamente sua elegância e os triunfos que lhe prometia o baile. Já viste alguma vez. Mila? —Vou-me embora. ela curvou-se para colher as orlas espedaçadas do vestido. se tu ouviras a voz com que me foram ditas estas palavras! O ferro boto não penetra. com dor mais intensa. Ah! Paulo. —. era pois ela própria quem.traspassou. serrando as carnes. e não se afastasse rápida. Durante o resto da noite fui o alvo dos remoques dos apaixonados de Emília. olhavam-me com a escarninha comiseração que inspirava neles o meu desaso. atirou-os de si. as heroínas do amor? Tocava a contradança: dei o braço a Julinha. rasgara sem querer o seu vestido.

para que lhe suplique meu perdão?. Emília soltou uma risada bem alta e dirigiu-se a Julinha: —Não lhe parece. ficou vaga uma cadeira entre ambas: ocupei-a logo. mas via. mas uma ligeira inflexão do rosto parecia indicar-me que se dispunha a ouvir. não! Ouve até muito bem! —Ah! há. e não a culpa. D. Emília estremeceu. Sua alma passava no olhar.. na sua fria e incisiva ironia. Uma das alusões de Emília. —D. pouco me pareceu o contrário! Emília ergueu-se: —Também a mim me parecia que o Sr. Esta passeava na sala pelo braço de um moço de vinte anos. Durante o princípio da noite.. Parecia não me ouvir.. senti que sua cadeira se afastava da minha por um movimento imperceptível. Que sentido porém tinham aquelas outras palavras —enxerga muito e longe! Devia ter breve a explicação. Emília. Estava resolvido a explicar-me com Emília. retratava-o com um monossílabo. Barbosinha. Mila? —Eu dizia aqui ao senhor que a gratidão é um sentimento 18 .. costumam afetar alguns órgãos importantes. Este nós era o pronome da fatuidade e efeminação do moço. por um espelho fronteiro à porta. voltou-se toda para falar a outra moça. Era quase sempre ela quem me aplacava as cóleras suscitadas pelos motejos da Duartezinha.. prima? —O quê. a um canto do salão. que lhe ficava à esquerda. que penetrava o coração de suaves eflúvios. —Pois ela. Passando por diante do piano. eu tinha compreendido perfeitamente: ela me qualificava de míope por não ter percebido logo quanto eu a importunava. A voz dessa menina tinha não sei quê de bom e mavioso. Amaral era míope. se alguma vez involuntariamente a ofendi. que a moda transformara num elegante boneco. ridículo arremedo de homem. —Desejo fazer-lhe um pedido. Havia em sua fisionomia e atitude a expressão pasma que deixa a alheação ou o recolho dos espíritos. conservei-me sentado na varanda. Por exemplo algumas vezes deixam uma surdez incômoda. —Não me responde. como a que ela sofreu. Leocádia. D. Emília? insisti ainda. Depois do chá realizou-se o que eu esperava.. —Enganou-se ainda desta vez! disse-me e afastou-se. —As moléstias graves. Se isso é verdade. Sr.. Leocádia e a sobrinha em seu lugar do costume. doutor. conversávamos. Emília! disse de modo que me atendesse. Mas creio antes que tive a infelicidade. Ela dizia por exemplo: —Nós somos um perfeito cavalheiro de sala. Estive algum tempo observando-a: depois voltei-me para D.. Dr. Emília. Continuou impassível. Emília? —Não. Julinha estava ao piano. farei que a minha presença não a importune mais! Levantei os olhos para ela. —Diga-me. D. mas agora conheço que enxerga muito e longe! —A senhora ouviu?. —A senhora tem notado alguma alteração na saúde de D.VI ESPEREI com impaciência a próxima quinta-feira. Ela olhou-me. e ia ao outro lado da sala. Desculpe! Cuidei que estava distraída. de desagradar-lhe. Não me respondeu. nem mesmo ter consciência de que eu ali estivesse e lhe falasse. por quê? perguntou-me assustada. Nós trajamos no rigor da moda.

—Pelo que vejo tua irmã tem parte nisto? —O negócio é dela. Geraldo. mas cuidado!. abrindo os olhos.. breves e finos sorrisos. pelo menos eu nunca desejaria inspirá-lo a alguém! —Por que razão. que eram como os espíritos maus de suas palavras. tinha gelo no coração e fogo nas faces. alheio de mim. Seu lábio desfolhava. voltou a calma. Se disseres uma palavra. que eu desejava ter podido lançar ao rosto daquela moça. A senhora minha irmã tem a mania de dar esmolas.mesquinho. sintomas do refrangimento de uma alma angustiada. e estava de pé. nem desejavam seus favores. Eu digo. D. pensava então. continuou ela. e a calcamos aos pés! Emília vendo-me levantar arrebatado. Sr. Matilde. e eu antes quero estar mal com meu pai. e talvez os podiam pagar? Emília falava com uma natural volubilidade. Parti imediatamente da casa de D. Barbosinha! replicou Emília sorrindo. mesmo que salvasse a vida a alguém. mas disfarçar a emoção. Sentados parece que nos curvamos à injúria. antes que ela a pronunciasse. Emília quer dizer que não passa de um fingimento. está tudo perdido! Mila é capaz de ficar mal comigo. —Ah! Não sabia! —Pois fica sabendo. o rancor se ocultara no coração. de tudo se zomba. e a deixamos pesar sobre nossa cabeça.. que assustou Emília. como se estivera conversando de cousas indiferentes.. prima. Disse-lhe folheando ao acaso um álbum de músicas: —Tem razão. Amaral? —Farei podendo. disse-me de repente no meio de uma conversa: —Agora me lembro!.. que não perdem ocasião de lembrar o beneficio feito. em todos eles meu primeiro pensamento. Erguera-me por esse movimento involuntário e misterioso que nos momentos solenes erige a estatura do homem. Eu te conto. Eu a insultaria na pessoa dele. —E alguns há desses generosos. Enfim.. Hás de fazer-me um favor. como a expansão natural de sua força e dignidade. Não é uma espécie de humilhação que se impõe àqueles que não pediram. que isso de gratidão não é um sentimento nobre e elevado. A minha resposta ao insulto de Emília me parecia ridícula e parva. soltando com estudada lentidão a palavra suspensa : —Uma especulação! Já eu tivera tempo. mediu-me com um olhar provocador. sentindo os dardos do escárnio que ela me atirava de revés. Havia decerto em meu rosto alguma cousa. Envergonhei-me do ridículo papel que fizera... —Como mesquinho? Não entendo! —D.. como a fera no covil. Eu vi clara e distinta a palavra especulação na boca de Emília. à estima e à amizade de uma pessoa?. jantando em minha casa. Não dês o menor sinal de que eu te disse 19 . não de reprimir. Ela desviou de mim os olhos e esquivou-se tímida e sobressaltada.. erguidos. arrogar-se uma certa superioridade sobre o outro e julgar-se com direito a tudo.. parece uma. Ganhar muito dinheiro para ter o direito de rir dos outros. porque prestou um serviço. Que ia eu fazer? Que podia eu. prima? —Pois não. para espreitar sua vingança. Decorreram dias. que tiveram suas manhãs de ódio. eis a grande questão!. e ali no meio de uma sala? Nada. do que com ela. Foram maus dias esses. atualmente com tudo se especula.. Emília . outras réplicas mais frisantes me acudiam. e a olhamos do alto. —Nós nos enganamos. como que lhe ficamos sobranceiros. de envolta com as palavras. acudiu o Barbosinha.... —Se ela amasse alguém!.. Julinha! Pode haver nada menos generoso e mais ridículo do que um indivíduo. —Mas olha que é segredo.. De repente vi passar-lhe pelos olhos vivo e súbito lampejo. era dessa mulher. Eu a escutava de parte. com receio de que o possam esquecer! Se não é uma infelicidade. contra o insulto de uma mulher. Pouco tempo depois.

.. Geraldo. suas protegidas. Deve estar no bolso do meu redingote.. —Onde vais já. E adeus. —Ela aprovou muito a idéia. além do que lhe dá sempre que ela pede. mas quanto me enganei! Sorvia o filtro dos ódios fugaces de um amor espezinhado! — Ah! Ela é boa e compassiva! murmurava eu.. sem o saber. e felizmente agora lembrou-me. Cuidei então que afagava a minha vingança. —Eu vou para casa. Nem já me lembra o nome da menina. que eu nem abri. Ao descer a escada voltou-se: —Sim! Eu prometi a Mila que o negócio não passaria desta semana. —Achas que sim? Melhor. Como se chama a menina? —Homem! Se queres que te diga. e meu pai deixa de propósito uma porção de moedinhas de prata. Geraldo suspirou: —Que dinheiro tão mal gasto. —Prometes então arranjar o negócio? —Dou-te a minha palavra. que teve.. o que é mais certo. —Aqui tens! disse-me tirando da carteira a nota. E não contentes já de pedirem para si. mas que seja logo! Mila não me deixa. que não se saem da porta. E de que havia de lembrar-se? De metê-la no recolhimento das órfãs! —Foi uma boa lembrança. Há muitos dias que estou para te falar nisso. respondi-lhe sorrindo. e uma vez machuquei o papel aos lábios. ou inventou. Era uma meia folha de pequeno velino. e eu não sei já que desculpas invente! —Amanhã mesmo tratarei disso. Vê que extravagância! Eu tenho lá tempo para cuidar dessas cousas? Mas não há remédio senão fazer-lhe a vontade. admira! —Oh! nem tu fazes idéia! Ela tem uma porção de velhas. onde a mão de Emília traçara algumas linhas com elegante e fina escritura. —Pois isso é indispensável. Sorria de contentamento. —Como? Tua irmã?. a tirar-lhe todo o dinheiro que ele traz solto na algibeira. —Pois bem. —Muito bem. quando meu pai volta da cidade. sem parentes que olhem para ela. e te mando o papel hoje mesmo. não sei. com um dote. Estou vingado!. Vê se me deixas ficar mal! —Vai descansado. mas no dia seguinte por volta de uma hora ele apareceu. e incumbiu-me de obter a admissão da menina. Conservei este papel por muito tempo. Reli a nota que Geraldo me havia dado. Uma carta da mulher que eu amasse talvez não produzisse em mim a emoção que senti lendo aquelas palavras. temos lá esta noite um pagodezinho sofrível. a história de uma menina que perdeu pai e mãe. Vou jantar ao Jardim. Mila deu-me um papel. Emília é tão caritativa assim? Em uma moça.. uma influência rápida. Tive uma inspiração. filiação. assim como a idade. pedem também para os outros. 20 . conheces aquela gente. Geraldo não cumpriu a promessa. creio que o queimei sem querer de envolta com outros. e está na miséria.. que deve receber quando se casar. e quase te posso assegurar que é cousa feita. Desde criança que Mila se acostumou. Mas então.. Esperei até a noite com febril impaciência. mas decisiva na minha vida. D. porque és tu quem hás de arranjar isto. Fica ao meu cuidado. Tu andas lá. Podia-me servir ao menos para charutos! —Mas que relação tem isso com o teu pedido? —É verdade! Uma das tais velhas descobriu. Pois quase todo esse dinheiro é filado pelas tais velhas.. pela Misericórdia.? Não queres jantar? —Hoje não.semelhante cousa! —Que interesse tenho eu em te comprometer? Podes estar descansado..

Concertado meu plano. e tinha medo. porque todo o desprezo.Até então. por outro lado. iria bater e pulverizar-se nessa crosta impenetrável. Recolhi um instante em mim para refletir. Duarte se recolhia mais cedo. Cheguei à casa do negociante com as primeiras sombras da noite. que eu pudesse amassar em meu coração para afrontá-la. o passeio de Geraldo me assegurava da sua ausência. a execução foi imediata. dia em que o Sr. cuidava que um egoísmo frio forrasse a alma dessa menina. Paulo. 21 . Tudo me favorecia: era um sábado.

essas lindas colinas. soberbas de seus enfeites. Emília teve grande vergonha de seu pânico. era um velho prédio. porém mesmo de longe. Caminhas íngremes e sinuosas veredas serpejavam então pelas faldas sombrias da montanha. o menor ruído a assustava. rolavam trépidas pela escarpa. Até que sucumbiu num ataque de nervos. Hão a viu. a intumescer-lhe a alma. coseu-se à falda do vestido de sua mãe. a mais leve sombra lhe incutia terrores e vertigens. e mesmo ainda depois de minha volta. A menina avançou afouta. Emília enfiava os olhos por entre os grupos de árvores. fugia a abrigar-se no colo materno. feio e irregular. que só podia viver elada ao seio materno. saltavam de cascata em cascata. hoje velha regateira. Tudo isto produziu efeito oposto ao que esperava a mãe. Naqueles lugares nascera Emília e se criara. Julinha foi estar algum tempo com a prima para distrai-la. Gozava-se aí de uma vista magnífica. como numa festa da roça as mais belas raparigas. tinha ela onze anos. balançam airosas ao som da música as frontes toucadas de nastros de fitas. formada ao contato dessa alpestre natureza cheia de fragosidades e umbrosas espessuras.VII A CASA do Sr. quis retroceder e não teve ânimo. Do colo passara ao regaço. A chácara coberta de arvoredo estendia-se pelas encostas até as pitorescas eminências de Santa Teresa. As paineiras em flor meneavam à doce brisa da tarde os brilhantes penachos. esse braço mil do centauro cidade . só anos depois espreguiçando pelas encostas. enquanto os leques das palmeiras vibrados pelo vento arpejavam como flauta rústica. O arrabalde era naquele tempo mais campo do que é hoje. e a medrosa menina se viu cercada dos maiores desvelos. nem raiva. Houve larga discussão a respeito do grave acontecimento. Cresciam ali bosques espessos de bambus que ciciavam brandamente. que uma cerca de tábuas separava da chácara inculta e abandonada. um mês durante não se falou de outra cousa. como flor que se planta em vaso de porcelana e vegeta nos terraços. A rua. porém um misto de tudo isso. cuidando encontrar perto a professora. pesar ou contentamento. a verde coroa da jovem Guanabara. A primeira vez que a tímida menina ousou penetrar esse mato esquecido às abas da cidade. a órbita do seu giro não se estendia além da beira da casa e do estreito jardim. quando principiou a andar. 22 . Um sentir novo e estranho. Que bem sabia do germe funesto que lançara na alma tenra da filha! Foi a semente da primeira rebelião. que não era desejo. Límpídas correntes. Emília esteve dous dias de cama. e prendiam como num abraço as raras habitações que alvejavam de longe em longe entre o arvoredo. Com os hábitos sedentários que tinha a senhora. e iam fugindo e garrulando conchegar-se nas alvas bacias debruadas de relva. Quando eu a conheci. de bons ares e sombras deliciosas. que a sede febril do gigante urbano ainda não estancara. fisgou as garras nos cimos frondosos das colinas. nua de seus prados. Vinham dali rumores vagos e estranhos mistérios que a estremeciam. calva de suas matas. construído numa das abas da montanha que cinge os amenos vales de Catumbi e Rio Comprido. Ainda a fouce exterminadora da civilização não esmoutara os bosques que revestiam os flancos da montanha. A mãe declarou-a doente por uma semana. tornou a avançar. tímida e melindrosa. um sentir nunca sentido turbou a inocência da menina. Um dia venceu a tentação. Cuidava ela conservar assim aquela natureza frágil. Duarte acabava de sofrer uma transformação completa. Eles foram o molde de sua alma. Até então vivera à sombra materna. Logo presa de grande pavor. Elas foram outrora. como hera ao tronco.

eu conhecia todos os trilhos e veredas. a agreste poesia daqueles ermos comunicava com seu espírito e o enchia de arrojos admiráveis. Quando o sol nasceu. numa volta ou noutra eu ganhava a chácara. surpreendeu sua alma triste e desconsolada no meio daquela velha habitação. Da cancela até o fim da alameda foi uma corrida só e de olhos fechados. com o talhe ereto. que devia ser orgulho na mulher. uma alma de criança e outra alma de heroína. teve grande trem . Emília jurou que arrostaria tudo para atraveasar ela só a alameda da chácara. Diante de gente tinha tal acanhamento que até já aborrecia. O senhor acredita?.Muita vez a sós as faces lhe ardiam.. Só em face da natureza. entrava ela sem ter sido pressentida. tanto o passo era firme e altivo. numerosa criadagem e serviço magnifico à européia. seu feito. a mão tinha tais ímpetos nervosos que partia as penas escrevendo.. a ponta de seu pé calcava mais firme o chão como se o quisera repelir. o olhar aceso. e logo feito.. A teima infantil. trepava nas árvores. eu observava pelas janelas. ninguém em casa podia desconfiar das minhas travessuras. Saltava de contente. que se formara essa natureza tímida ao mesmo tempo que audaz. o cajueiro mais doce. sem que me vissem. restava apenas na superfície uma sensibilidade irritável. Seu dito. mármores e repuxos. Ela recebia com gentileza de moça e dignidade de senhora a homenagem devida à superioridade do seu espírito. e amarrotava a custura. Assim percorreu duas ou três vezes a alameda. à luz frouxa das estrelas. Demais. tomou fôlego e correu a vista espavorida pelas densas e escuras ramadas. —Foi essa minha primeira travessura. levara meu cartão de visita.. A exceção de alguns escravos. —E sua mãe consentia nisso? perguntava-lhe eu. Um dia. Um ano depois o mato já não tinha segredos para mim . os tabuleiros de relva e os alvos passeios que se recortavam na areia da 23 . não! Pobre mãe! Nunca ela o soube. pareceu-lhe isso um degredo dos ricos salões onde algumas noites se expandia a sua beleza. a cabeça desafrontada. Esgueirou-se furtivamente pelas escadas e ganhou a cerca. sonsa como era então. Minha mestra chamava a isso com muita graça a minha ferocidade caseira!. Uma noite. e o coco de indaiá. e metia-se na cama. Emília. Um dos novos criados. Disse então uma palavra.. e saltava pelas ladeiras as mais íngremes. todos dormiam na casa. de que eu era muito gulosa! Eu mesma. Esperando. Nesse dia Emília esteve de uma alegria que não mostrara recebendo a mais enfeitada de suas bonecas. Eu aproveitava as horas de estudo em que me deixavam só. as lágrimas saltavam dos olhos. Os primeiros albores do dia a acharam f á pronta. De repente o feio edifício surgiu das ruínas maior e suntuoso. —Não consentia. pinturas e tapeçarias. Desde o pai até o último dos escravas todos lhe obedeciam cegamente. Erguia-se para bater com o pé no chão e desafiar do gesto uma visão de sua fantasia. A sala dava para o jardim. Lá parou. Com a idade essa menina assumira a pouco e pouco o governo despótico da casa e da família. Em presença de alguém a vida soldava-se no íntimo como num invólucro impenetrável. Dai em diante a minha afouteza foi em progresso. penduravame aos ramos. que não me conhecia. ao deitar. Fora assim. A luz filtrava mais viva na pupila negra. onde sua mãe com pouco a foi despertar. súbito erguiase. sabia onde estava a melhor goiabeira. e um sorriso —que sorriso! — mordido no lábio túrgido. o sangue fervia dentro. entre jardins. Disparou nova corrida. Havia nela a transfusão de duas almas.. estava-se gerando naquele coração de menina. mas já senhora de si. me dizia ela depois contando as suas recordações de infância. foi coberto de vasos. Paulo. que já começara a frequentar a sociedade. encheu-se de ricas mobilias.

—Bem aparecido. sentia em tudo quanto me cercava o tato delicado das mãos de Emília. D. Ouvi perto de mim a voz do Sr. levantou-se. que estavam acabando de decorar.chácara. e foi recostar-se à sacada. nesta sua casa! Cuidei que estava mal com ela! O negociante conduziu-me através de grandes salas. a uma saleta do lado oposto do edifício. mas vendo-me entrar. Nada sabendo ainda. correspondeu com a costumada frieza ao meu cumprimento. Emília estava ao piano. Leocádia cosia junto à mesa. doutor. 24 . Duarte.

VIII PASSEI alguns instantes a conversar com D. porque. Leoeádia. —O doutor está gracejando! disse-me D. doutor!. Cuida que eu não vi o seu desespero quando Mila piorou? E até uma vez. se eu a votasse como pia oferenda à ciência e à humanidade. As minhas últimas palavras a arrancaram bruscamente a essa atitude pensativa. Recusando naquela ocasião prometi-lhe contudo que se alguma vez me achasse em embaraços. Um irmão não faria por sua irmã o que o senhor fez por Mila.. continuei.. D. e a maneira por. —Ora. D. onde regularmente todas as noites fumava seu charuto. Deve recordar-se. já me calo.. Leocádia... Ela estava ainda na janela. —Perdão. Leocádia! disse eu muito contrariado. A senhora compreende que não vim lembrar o que se passou há tanto tempo para provocar elogios.. começando o combate. doutor. —A respeito da maneira generosa por que o senhor quis recompensar os pequenos serviços que eu. —Repito. —Sr... respondeu a senhora com bondade. tive para isso uma razão. que meu desinteresse não passou de uma pequena especulação feita sobre a amizade e gratidão de sua família! Durante esta conversa eu não deixara de observar Emília.. Já vê pois.. Não o contrarie... que não mereço. Leocádia. Leocádia. —Pequenos serviços... Se não fosse o senhor. Duarte! disse eu alteando a voz. Duarte. Não sei se lhe disse? —Creio que sim.. e nada mais. mana. isso sim é que o fez conhecido e há de torná-lo um dos primeiros médicos do Rio de Janeiro. doutor! acudiu D. atravessou a sala e veio sentar-se no sofá. D. que a minha primeira cura me devia dar felicidade. por interesse e ambição! Também tenho as minhas superstições! Acreditava.. Nós cruzamos um olhar. não pensando em outra cousa. não fiz mais do que a minha obrigação: e quando recusei a recompensa generosa que o Sr. —Está bem. —Fiz o meu dever. quase sem dormir. —Recusei por interesse. Sr. desculpe. —Não tenho tais pretensões.. Toda ela era desdém e altivez. defronte de mim. e ainda acredito. —Doutor! —O senhor está lembrado do que se passou entre nós há três anos. logo depois do restabelecimento de D. Leocádia junto à mesa. Sr.. murmurou timidamente a tia de Emília. me desagradam sempre. mas eu sei que lhe devo a vida de minha filha. minha senhora. não recorreria a nenhuma outra pessoa. —Diga o seu talento.... que logo reprimiu.. um simples dever de médico! —Não! O senhor pode pensar como quiser... 25 . a principio fez um movimento para voltar-se. Duarte. —Demais. Foi sua amizade. eu não fui tão desinteressado como parecia. —Que passou vinte e tantos dias. como dois adversários cruzam o ferro. —É verdade. Duarte me ofereceu. e que. Emília? A que respeito?. O negociante sentara-se numa cadeira de palha à porta do terraço. E não me enganei!. —É tal e qual: sobre isto não é capaz de ceder. não se zangue. que me fizeram conhecido e chamado. —Ah! lembro-me!. depois pendera a fronte na mão e conservara-se imóvel. doutor. mas não me recordo bem. que recomendou o meu nome aos seus amigos.

. Eu me agasto com a senhora! —Decididamente. com o preqo dela poderei remir da desgraça a uma pobre criatura! Ao mesmo tempo livro-o da violência que fiz à sua generosidade. Por isso desejo que também a conheçam.. Emília me fizera justiça. Cem mil-réis ?. Emília estremeceu. Mas infelizmente ainda não chegou essa ocasião. Leocádia. doutor? exclamou o negociante ressentido.. Mas em vez desse movimento o talhe descaiu. bem! —Neste caso ficaremos como dantes. Espero obter a sua entrada no recolhimento das órfãs. Duarte. acudiu D.. Especulo ainda! A minha primeira cura será sempre o melhor momento da minha vida. doutor! exclamou D. —Aqui tem a minha conta. —Pelo tratamento de Emília? acudiu D. quero ter o egoísmo dessa boa ação. 26 . fez um gesto. e receio que nunca chegue.. depois do que havia passado entre nós. o senhor está zombando conosco! Pois havemos de lhe dar somente essa ridícula quantia pelo trabalho imenso que teve. D.. Emília. Mano José deseja sinceramente mostrar-lhe sua amizade. Sr. não se acanhe. —Meu egoismo porém não deve prejudicar a minha protegida. por uma criança desvalida que perdeu os pais. minha voz as pronunciava com tal aspereza. —Que é isso. —Que trabalho! Umas vinte visitas. recusando outrora o pagamento dos meus serviços. como se ao primeiro impulso se quisesse precipitar para me arrebatar das mãos o papel que eu lia. Não obstante a punição que eu ia infligir a essa moça. como um corpo a que desmaia a vida.. —Olhe lá. que para um médico principiante são generosamente pagas a cinco mil-réis! —O que é que você chama visitas.—É exato! O senhor deu-me a sua palavra. Quanto precisa? —Fale. Dr. —Seriamente. Duarte! Eu protesto contra esse nós: o dote há de ser dado por mim só. não me pude eximir ao vexame de parecer um instante dominado por mesquinho interesse pecuniário em face de pessoas que me estimavam. na minha superstição. Leocádia. —Interesso-me. privando-a da caridade de uma família que tantos benefícios lhe pode fazer. que parecia querer dar-lhes o tinido metálico de moedas. Leocádia. Mas o prazer da vingança me arrastava. Não pode haver dinheiro mais bem empregado! —E eu tenho o maior prazer em concorrer para tão bela ação! De quanto será o dote que nós lhe devemos fazer? —Com licença. —Deste modo. Leocádia. a primeira e talvez a única de minha vida.. Destas palavras. Amaral. Se quiser acrescentar uma cifra.. e desejava nessa mesma ocasião fazer-lhe um pequeno dote. Leocádia rindo-se... Tirei da carteira a lembrança dada a Geraldo pela irmã. Seu olhar fito em mim parecia querer arrancar-me do fundo da consciência a minha intenção oculta. Disponha francamente de mim. doutor? exclamou Duarte. Sr. dizia eu. eu persisto ainda na minha primeira idéia. —Muito bem. ela sentia que eu era homem a morrer na miséria antes de estender a mão ao dinheiro do pai. —Que teimoso que ele é! observou D. e a zombaria de minha simulada cupidez.. a sua altivez sucumbia vencida. não lhe pago esta conta... conclui. —Pois chegou! disse eu corando malgrado meu. aquelas que tinham uma significação pecuniária. —Acha que é muito? —Ora. doutor? Passar as noites em claro. Não sabe quanto isso me alegra.. que mudara de cores desde que eu falei na menina..

Emília atravessou o salão e desapareceu. um desejo vivo e ardente de ver Emília. Eu tremi! É verdade. me fatigara horrivelmente. ali estava cotada no mesquinho algarismo! Eu lhe dava plena quitação do seu reconhecimento! Ela esteve muito tempo a ler. franjadas de longos cílios. rica e adorada. Tu adivinhas. que ela devorou com a vista. as seis cifras. dê-me essa conta! disse ela.. mas criança ainda para a paixão que não me tinha encanecido a alma!. —O que. começava fazendo-me menino. Ria-me só. —Mila!. Esse sujeito ia prevenido. e Mila não voltou à sala. Veio o chá. —Papai. que ela pôs em mim. o dote da sua protegida. Não te revoltes. sua pessoa. Dizia-me ela: "Nós o esperamos hoje para jantar.. doutor. A menina entrara para o recolhimento. Como uma criança. Leocádia.. que eu visitava de longe em longe. sempre em seu nome. vibrando a voz. falemos de outra cousa. Não lhe digo o motivo deste convite de propósito. Emília ergueu-se arrebatadamente. nem de recibos. Fazia justamente uma semana que eu tinha ido ao Rio Comprido. doutor. Sr. úmidos da tênue marugem de uma lágrima estalada. Leocádia. Sua mão tremia segurando o papel. E ao mesmo tempo o papel voou em pedaços sobre a mesa. mas ela soube pela velha que eu tinha acrescentado. Esperava encontrá-la em Matacavalos. —O melhor é não falarmos mais disso! atalhei eu.. —É escusado! Já disse.—Mas escute. murmurou D... Vou dar-lhe. —Sou eu quem devo pagar-lhe! disse-me. enchia a imaginação das idéias mais extravagantes. Matilde. desvendaram os olhos. Retirei-me triste.. disse-me ele que a irmã não lhe fizera a menor observação. E eu o era então. sem mostrar afã que não devia.." A letra era de Emília. Entre nós.. 27 . disse ao negociante que para evitar demoras adiantara aquele dinheiro no recolhimento. mas sabia já que ousadias tinha seu orgulho de mulher formosa. Duarte com uma ordem minha os cem mil-réis. de modo que tratava-se de um reembolso.. Tive nesse dia alegrias pueris. habituada a ver o mundo aplaudir-lhe todos os caprichos.. não há necessidade de contas. muito cedo ainda. para que a curiosidade de saber o obrigue a vir sem falta e mais cedo. posso dizê-lo. de pé junto à.. O pai de Emília foi obrigado a ceder. que eu acabava de representar. Paulo! Já te confessei: essa mulher. depois as róseas pálpebras. Não podia voltar à casa de seu pai.. Desde então percebi em mim um desejo novo. eu cumprira a promessa feita a Geraldo como se nada houvera passado. recebi um bilhete de D. Duarte? —O menos que é possível. sua vida. mas nessa quinta-feira deixou de ir à partida de D. Paulo. homem para a razão sim. Mudei de conversa... Esta cena. —Ela tem razão! disse o pai erguendo-se. Paulo! Não conhecia ainda o caráter dessa menina. mesa. às sete horas da manhã. que devia envelhecer-me o coração. sua vida de moça bela. o sentimento e a intenção com que escrevera eu essa conta: seu nome.. No dia seguinte mandei um procurador receber do Sr.

Que nova humilhação me reservava ela! 28 .

respondeu-me o criado. Leocádia repetia a lição que recebera da sobrinha... Geraldo é uma criança. D. Leocádia saíra um instante. chegando. A tia voltava. O piano calou-se enfim. Leocádia veio receber-me. D. já calma e sem o menor vexame. já o adivinhei! —Deveras! Vamos a ver! —É mais uma prova da sua bondade para comigo. que não impunha unicamente obediência às pessoas que a cercavam... porque fui má e injusta. reunir aqui todas as pessoas da nossa amizade. um doente que paga bem. teria pena de mim! —Confessar-me o que. Leocádia. que exalava uns arpejos frouxos e dolentes. que D. Estou pago! Já. —Já sei que está muito curioso de saber o motivo deste jantar? —Creio que. e a sobriedade dos enfeites. Na simplicidade extrema de seu trajo ela parecia apenas vestida. da ausência de convidados. O império dessa menina era tal. Emília. porém mano José não entende destas cousas. Talvez note alguma cousa que não pareça bem! Era um pretexto. entretanto nunca roupas de virgem foram assim avaras de encantos. Fui até sem delicadeza!. e veio depois sentar-se ao piano. —Logo!. mas para um médico principiante e desconhecido. Enquanto eu continuava a conversar com D.. D. obrigava-as a se identificarem com a sua vontade... Ela articulou essa palavra. O senhor mesmo janta na cidade. Ela vinha.. e de seus repetidos obséquios. D. de uma mágoa talvez.. suas mãos corriam lentamente pelo teclado. apesar de não ser dos mais atilados. mas séria. Emília apareceu. transparecia. é uma fortuna! —Eu mereci estas palavras. Mas se lhe confessasse. porém nesse dia perpassava-lhe na fronte de ordinário tão límpida uma tênue sombra. A beleza não se mostrava. não fria. E a voz com que o disse tinha modulações sublimes. tal era o realce de sua beleza nativa. Cortejou-me . —Sei agora quanto o ofendi! Não sabia então quanto lhe devo! Minha tia contou-me. —Parece que não esperam ninguém mais. Um doente rico tem à sua disposição todos os médicos e os melhores. cujos reparos haviam completamente terminado.. foi até a janela. E nós queríamos saber a opinião de uma pessoa de gosto. —Pois não acertou! Pretendíamos logo que se acabassem as obras da casa. Foi o preço de uma gratidão que tanto a incomodava! —Não me diga isso! Seja sempre generoso! —Quem deve sou eu. anulando-se. 29 . D. —A senhora nada me deve. com a voz tão clara. recebi o meu salário. coroada pela régia altivez.. Emília? perguntei comovido. que era o gesto de sua formosura. estava preparada como para grande recepção: notava-se em toda ela o ar de festa que expande a fisionomia dos edifícios como a das pessoas... Leocádia devia ter ouvido. como sempre. hesitando no passo que a devia aproximar de mim: —Perdoe-me! disse-me ela. Entretanto a casa.IX ADMIREI-ME.. Eu vi Emília de pé no meio da sala. porque os edifícios inspiram a alma daqueles que os habitam. e especialmente da família de D.. Matilde..

de placidez e emoção? Depois de jantar fomos correr a chácara. D. tem necessidade de uma afeição criada por ele só. Não nos conhecíamos. Entretanto o coração sente. Há uma porção d'alma que pertence à família e vive nela.... Não sabe por quê? É ela que envolve os cabelos de minha mãe! Emudecemos ambos. continuou ela. Ela hesitou e reprimiu a palavra que ia pronunciar.Eu ia de mistério em mistério. Eu vi-a oscilar sobre uma ponta de rochedo coberto de musgos e batido pelas águas. Tenho dezessete anos. foi tão sensível. tinha-o escondido no seio... Leocádia. Pois enganou-se! O que eu sou... —Qual? —Conhece?. Ela passara rápida pelos meus olhos a carta que eu tinha escrito ao pai logo depois do seu restabelecimento.. A amabilidade.. formosura e riqueza. 30 . Acompanhei-a até a margem do tanque. não é verdade? replicou Emília voltando-se para mim. Emília? Não acredito!. Emília? —Oh! Não negue! eu sinto!. andava de propósito com extrema rapidez para fatigar a tia: afinal o conseguiu.. um espirito que duvida. no seio da terra que a produz. Mas por que me pôs ele n'alma esta dúvida cruel?.. deixando-se cair num banco de pedra.. estava surpreso. —Ah! Já fizeram as pazes? disse-nos a senhora. D. Emília esteve a brincar. como se falara consigo mesma num recolho íntimo: —Não acredito no amor!.. com umas flores aquáticas que vegetavam nas fendas. que D.. que dirigia o passeio.. para que a humanidade existisse. —A minha carta!.. Talvez não lhe saiba dizer.. Estávamos junto de uma cascatinha. ainda cerimoniosa. A maliciosa e gentil menina.. e que não venha do sangue. D. —Está assim amarrotada. um coração que vacila! Eu não compreendia... Mas a outra porção. O papel desapareceu outra vez.. —Pois creia! Tenho uma testemunha. apesar da sua constante bonomia.. Que significava a estranha confidência de Emília? Que exprimia aquele misto de franqueza e reserva. tudo que o mundo admira. ficávamos a alguns passos apenas de D.. Muito bem! —Nunca estivemos mal.. —Deus quis. —Esta gratidão que eu lhe consagro há três anos. Alguma cousa me diz que não amarei nunca!. como as raízes desta planta. Emília? Que lhe falta? Espirito. —Sou.. essa é nossa unicamente e também precisa de sentir e viver! Não é assim? —Deus quis que fosse assim. e já me sinto órfã das minhas esperanças! —A senhora. Ela abaixou os olhos para os borbotões de espuma que se esfrolavam a seus pés.. um pequeno lago e outros embelezamentos. tem sido a minha única alegria! —Como é possível. Passado um instante Emília falou de novo. mas. minha tia. porém o rumor das águas que batiam entre as rochas abafava nossas palavras. —Venha ver a cascata! me disse Emília.. Leocádia a notou.. —Eu quisera não ser admirada. saltando de pedra em pedra. com que Emília me tratava. De repente voltou-se: —O senhor me julga muito ingrata? —Eu. mas absorta... —Não posso mais! Estou muito cansada! murmurou D. Leocádia.. onde tinham arranjado uma gruta... mas doce..

Durante o ano que passou. —Obrigado. Mila! disse D.. Duvidava. de eloquentes silêncios. E eu defendia-me afastando-o... minha tia.. Parecia-me que o hálito de sua primeira palavra vinha murchar em minha alma a única flor de sentimento que brotara nela.. E não sabia tudo ainda.. Era a minha boa gratidão. era uma cousa minha.. Aqui.. Era uma cousa que não estava em mim! Um temor vago e indefinível. que eu dedicava no silêncio de minha alma à sua memória....... D. A solidão começava a encher-se de sombras. eu tinha medo. Gemidos. Já lhe disse que não acredito em paixões. Escute-me! Essa gratidão. sim. —Vamos. Emília sorveu com delícias esse respiro dos campos na hora do crepúsculo... não o entendi. Emília! —Oh! Não me agradeça!. —Seja meu amigo! E desceu como um silfo... voando sobre as pedras da cascata.. oculta e desconhecida. o reconhecimento que eu lhe votava. de perfumes.. Desculpe-me: eu não o conhecia então. —Sim..—Não falemos nisso.. Disse aquelas más palavras. —Que linda tarde!. quando o via. Perdoe-me! Eu também sofri....... Leocádia. que pedi a essa mulher o perdão de minha vingança. murmurou. —Mas por que motivo? Percebeu alguma vez em mim a menor intenção de abusar?.. Mas lá!.. Tinha medo que me arrancasse também do espirito mais essa doce ilusão. por essas reuniões. A tarde caia. Naquela noite... Sofri mais porque elas não eram vingança...... parece-me que eu poderia crer. Não tinha ainda aqui como agora suas lágrimas!. não.. minha alma! Sabe o que eu trazia? A desilusão!. de quem tanto perdia!. porém não ao senhor! —Ah! —Do senhor. esperdicei por aí.. Ela estendeu-me entre as rendas de seu lenço a ponta dos dedos que eu apertei de leve. —Nunca!. eu insultado e escarnecido. Quando entrava em mim não achava senão uma lembrança doce e pura. esse sentimento bom e puro... meus sonhos. Seu lábio desfolhou um triste sorriso... 31 . Fui eu então. minhas alegrias..

nalgum momento em que nos achávamos sós. Mas depois quantos amargores. num olhar ou numa palavra. que tolda a manhã da vida. onde esperava encontrá-la. fui a Matacavalos. transbordando dilúvios de imenso amor. como as tempestades dos primeiros dias do ano. sem o saber. comecei a adorá-la. Leocádia realizou-se afinal.. gelo na fronte. Era o aniversário do Sr. E bastou a sua presença para confranger de súbito as enérgicas expansões de minha alma. Uma vez pedi-lhe a explicação desse olhar. houvera mais que ódio. que de longe ainda já.. quando queria. cheia de graça e vida. Era a maneira por que me tinha recebido a primeira vez depois da minha volta.. despenhou-se pelos jardins e alamedas da chácara. Não lho direi nunca! Dous dias depois da nossa conversa junto à cascata. que ao menos me distinguia! Emília mostrava ter completamente esquecido quanto entre nós houvera três dias antes. que ansiava por se rojar a seus pés. o que as desmaia é sombra da infância ainda. Era quando eu menos esperava. Deve de ser a ingenuidade da inocência. Ia assim. a ternura de sua alma. Talvez amava-me já. que o severo pudor velava. Animado por aquela palavra afetuosa tornei-me assíduo junto dela. que a brisa balouçava. Ao sair passou junto de mim sorrindo: —Não quis hoje conversar comigo? disse-me com um doce enfado.X TODA a noite tive deslumbramentos n'alma. Amava Emília. eram 32 .. As rosas de sua alma não podem ter assim murchado na primavera da vida.. As folhas. A casa do negociante encheu-se pela primeira vez de uma multidão de convidados. Ela tinha medo de amar-me. Que fiz eu para tanta felicidade!. não me custavam aquelas gotas de mel? A reunião de que me falara D. A festa começou de manhã e acabou em um baile esplêndido ao alvorecer do dia seguinte. Era a mesma afabilidade que dispensava à turba dos seus adoradores! Quanto achei doce o passado desdém. Os repuxos de mármore esguichavam rubis e diamantes líquidos. toda sua pessoa envolveu-se de repente na frieza glacial. profundo rancor. inundado da felicidade que borbotava em meu seio.. que ela vertia sobre mim. me tinha congelado a palavra nos lábios. Uma vez no correr da noite quis falar-lhe. Uma circunstância unicamente me parecia obscura. depois da confidência de Emília. tinha o mágico poder de fazer-se mármore. Nessa noite ela retirou-se mais tarde do que tinha costume. Essa mulher. resistindo ainda!.. Ia cheio dos enlevos de tão sonhadas esperanças. Duarte. quantos azedumes. mas. e falando de amor com a franqueza e a calma de quem já dele se saciara! Coração puro de paixões e ermo já de esperanças! Seria a congelação precoce do sentimento? Não! pensava eu. Era sobretudo aquele olhar fulgurante de cólera. porém encontrava sempre o mesmo acolhimento. de tão soberba cólera! Não houvera nos seus olhos despeito só ou repulsão. e não o verme do coração —a dúvida.. Emília continuou a ser para mim uma esfinge. borbotando dos salões... Ela respondeu ao meu cumprimento com afabilidade. À noite uma cascata de luz. Vendo-me aproximar.. estão apenas em botão. Faze idéia do pasmo em que fiquei. Que esfinge era essa moça de dezoito anos? Virgem.. ela enrubesceu: —Não me pergunte isso!. —Meu Deus! exclamei. Que horas encantadas vivi repassando na memória os seus desdéns! Agora eu os compreendia: eles me revelavam a tormenta de uma paixão nascente. e sarcasmo no lábio.

—Pois eu creio que foi o senhor quem se enganou. Não lhe perguntei qual foi a quadrilha que me pediu. Emília passou pelo braço do Dr.. Eu contemplava-a de longe e arredado. ela movia-se como o cisne sobre as águas. D. onde as luzes.. É esta! Depois voltou-se para seu cavalheiro: —O senhor permite?. que Emília recolheu em si. na plenitude de sua beleza. no meio da turba de adoradores. A quadrilha a chamava. Chaves. e iludira-me. por entre o esplêndido turbilhão... tomou o meu.. Que magnificências de luxo. e a deusa dele atravessava com gesto olímpio a via-láctea dos salões resplandecentes . tremulando entre áscuas de ouro. 33 . Emília! A senhora não é feliz? Tínhamos chegado ao terraço. D. e era realmente o sorriso mimoso daquela noite esplêndida. Meu Deus! O que é essa felicidade que os outros acham em cousas tão pequenas e eu. começou a cintilar. Foi só quando o edifício iluminou-se e a orquestra derramou torrentes de harmonia.... faziam sobre o pavimento uma ondulação constante de claros e sombras. Sem dúvida nesse momento ela deixou de ser artista para ser mulher. nem sequer notara a minha presença. Ia desfazer o seu engano. —E a senhora?.. ela assomava como um sorriso.. Sentia-me triste. Lembre-se! Era uma reparação. que foi o atributo da divindade.. e sem ânimo de segui-la. —Embora! Como me podia eu supor tão feliz! —Porquê! Por dançar uma contradança comigo? disse ela rindo. Fiquei onde estava. Assim. embora não me pedisse! —Ah! Perdão! —Eu devia.. como um painel ou um poema. para ocupar-se exclusivamente dessa exibição de luxo e riqueza.nesse adereço do baile as esmeraldas. O dia inteiro. —Decerto! Só um engano me podia dar este prazer. Vi-a algum tempo absorta e isolada em sua alma. Emília. e desapareceu. a natureza e a arte não derramavam sobre aquela festa noturna! Um céu abriu-se ali. como uma estrela. mas sim a que eu lhe dei. absorvida pela festa. das homenagens ardentes rendidas à sua beleza.. que se desnubla em noite límpida. que pompas. —E eu ainda não encontrei na minha vida. quando ela atalhou-me: —Ah!. semeando sorrisos e enlevos n'alma daquela multidão extática. brilhando entre as grandes folhas das palmeiras imperiais agitadas pela brisa. Eram onze horas já.. Eu não me animava a pedir-lhe uma contradança. A multidão afastava-se para deixá-la passar sem eclipse. Seu passo tinha o sereno deslize. Esquecia-se de si própria. Essa palavra magoou-me ainda mais. —Parece-lhe?. por uma ligeira ondulação das formas. Ela atravessou a sala. que ela preparara como uma inspiração de artista e poeta. —Qual é a contradança que eu lhe dei? disse-me ela com a maior naturalidade. Emília. e duas vezes achara um pretexto para demorar-me. respondeu-me séria. —Não diga isso. Duas vezes tinha-me dirigido à porta para me retirar. —Creio que a senhora enganou-se. Eu pensava que Emília reparasse na minha esquivança.. Deixando o braço do deputado. Foi a sexta. De repente sobressaltou-se. acudiu sorrindo.

. nesse momento ela pôs os olhos em mim e sorriu. a casa de Duarte recebeu todos os domingos a sociedade que D. —Se isto fosse uma enfermidade. e não a sinto! Emília falara maviosa e triste. Meu coração abriu-se de novo à doce esperança. não. não sei achá-la onde todos a encontram a cada momento. Uma aspiração vaga e indefinida? —Pode ser! Não sei! respondeu-me com encantadora ingenuidade.. procuro minha alma nesse vácuo imenso. não sou feliz. e fico muda e extática para não perturbar dentro em mim esse débil raio que vai nascendo. sinto um quer que seja. —O quê? Diga! —Não será um sonho ainda não realizado?. Mas de repente some-se tudo. que dele se partira. —Não.. 34 . As vezes. E quem sabe? Talvez seja! —Não é uma enfermidade. talvez a felicidade. Encontrava-me pois com Emília dous dias na semana. o senhor curava-me. além das visitas que algumas tardes fazia ao Rio Comprido.Algumas flores de magnólia exalavam para nós o seu fresco perfume. mas não é. Matilde reunia habitualmente nas quintas-feiras. digo baixinho. e eu não a tenho. como se um abismo se abrisse. Nada daquilo em que o mundo pensa que está a felicidade.. disse Emília. descaindo-lhe a fronte. é outra cousa. quantas!. nada me falta. Depois desse baile. uma ligeira emoção. como um sorriso que vem despontando em minha alma.

escapando ao burburinho da cidade.. Não havia regra nos seus caprichos. e rolando a pupila injetada. Leocádia.. —Pois eu receava que isso lhe desagradasse! —Por que motivo? —Já não tem medo?. Fale-me. —Diga-me alguma cousa! murmurava ela. e o fiz trêmulo e receoso. do que Deus criou de melhor neste mundo!.... e tocando-o com a ponta da botina obrigou-o a afastar-se. pensando que ela ia ser vitima da sua imprudência. talvez. ela parecia esquecer-me. das quais era impossível compreender o verdadeiro sentido. do mar. Dali descortinava-se o seu jardim. que lhe matavam a sede d'alma. De mim. —Do senhor?. Eu era para essa moça como um vaso onde ela guardava as essências de sua alma para mais tarde aspirarlhes o perfume. francamente. dominava-me na soberania de sua beleza. Emília não tinha rivais. a imprudência que ia cometer não assustaria uma afeição nascente? —Não importa! pensei eu.. Trabalhava então com 35 . Por mais que o irrite. Kão!. Tudo aqui me obedece. assaltou-me o receio de desagradar-lhe. Quando ela queria vir a mim. Fui vê-la.. Respondeu-me com simplicidade: —Melhor! Estaremos mais perto! Estimo bem.. Afagara sempre a idéia de ter uma pequena chácara onde me refugiasse às tardes. Outros dias chegava-se muda e absorta. o terraço e as janelas dos aposentos que ela ocupava na face esquerda do edifício. até este bruto!. sem afetação. em que sua alma sentia'uma necessidade irresistível de expansão ou de absorção. parecia haver dentro dela uma grande solidão. Emília tinha dessas frases incompletas. com que Emília me tratava. ela procurava-me para vazá-la em mim: a sua palavra ardente abundava então do lábio vívido. com um senho apenas da sua graciosa majestade. não me disputava a ninguém. não tinham nada que se parecesse com o jogo bem conhecido das moças loureiras. Depois voltou-se para mim com uma expressão indefinível de orgulho repassado de tédio: —Não tenha receio.. Sabia eu se era amado? E quando o fosse já.. e ela bebia as minhas palavras. Foi por este tempo que eu tomei uma grande resolução... das nuvens. onde seu espirito se perdia. encolhendo o dorso. Emília sorriu. Estava no jardim com D. perto de sua chácara. embebido a contemplá-la ou distraído ao braço de outra moça.. vinha. o cão irado rosnava. acariciando a fímbria do vestido. Imagina que delicia foram para mim os dous breves meses que passei naquele pitoresco retiro do Rio Comprido. o animal foi deitar-se a seus pés. que desdenham quem as persegue e procuram quem as foge.. Alugada a casa. E eu falava. perguntei-lhe sorrindo. proferidas com uma singeleza volúbil. Não passa disso! Anunciei-lhe a resolução que tomara de aproximar-me dela.. Indo visitá-la um dia. estivesse eu perto ou longe.. e atraiame ou arredava-me a seu bel-prazer.. Fora desses momentos. Ela atirou-lhe um olhar desdenhoso. Fale do céu. vi com escritos uma casinha pendurada na aba da montanha..XI As vicissitudes de frieza e indiferença. brincava com um grande cão da Terra-Nova. Com um óculo de alcance eu poderia vê-la a cada momento. a um gesto de sua mão. Uma vez sorri. R um meio decisivo de saber se ela me ama. Quando chegavam as horas dessa afluência do coração. onde eu me abrigava todas as tardes como no regaço da felicidade. Aproveitei esse pretexto para aproximar-me de Emília. e parecia sentir um indefinível prazer em irritar a cólera do tranquilo animal.

Iremos juntos amanhã. pretendo fazer um passeio. Entretanto Emília conservava a mesma serenidade que tinha no salão. Na sala. sobre que ela reinava pela formosura. o ermo da profunda solidão. Instantes depois de chegado. ouvi rugir o palhiço dos bambus que tapetava o chão. contudo eu sentia que o seu olhar soberano me confundia entre a multidão. Apesar do que Emília me dissera na véspera. antes que eu tivesse a consciência disso. Tens reparado na doce pubescência de que a natureza vestiu certos frutos? Se a nossa mão a alisa. perto de mim. atravessei o mato. As noites em que do seu lábio altivo fluíam ondas de fino sarcasmo. —Iremos até o alto da montanha. Ao mais leve rubor porém a alma de quem a contemplasse magoava-se na aspereza daquela formosura. Tomara o disfarce de caçador. Quer acompanhar-me? —Ia suplicar-lhe esse favor. Se o dia estiver bonito como o de hoje. que eu repelira semelhante idéia. que eu senti nesse momento tiritar-me o coração de frio. um coração amigo que recolhesse o que transbordava do meu. de conservar essa plácida confiança. se ao contrário a erriça. Era um bosque espesso de bambus. 36 . experimenta uma sensação aveludada. que se estendia desde a minha habitação pela encosta da montanha. Havia na sua beleza um matiz de castidade. me faziam cismar. dando-me assim unicamente a liberdade da confidência. Emília apareceu. Uma dor intima acusava-me de a ter ofendido. Nem um longe rubor no cetim da face. no lugar que ela me designara na véspera. que residia em sua tez mimosa. o tato é áspero. por que eu tanto suspirava. tão suave há pouco. Emília estava sentada ao meu lado: —Amanhã não vou à cidade. a minha ventura só floria na sombra. Vinha só. o fato de querer ela achar-se a sós comigo num ermo. ao vê-la parecia que ela praticava o ato o mais natural. as grandes sombras que oscilam pelas encostas. mas só te poderei explicar o que eu sentia por uma imagem. me parecia tão impossível. a fim de que o nosso encontro parecesse imprevisto. Era na intimidade e no isolamento que Emília vertia para mim os perfumes de sua alma. E entretanto não ousara ainda confessar a Emília o meu amor! Como as plantas mimosas. E ela tinha razão. Chegou a véspera de Corpo de Deus.entusiasmo. Os júbilos que vertiam de minha alma sobrariam à vida mais pródiga. mas dentro ainda de sua chácara. que chegaria bem para encher duas existências. Quero ver como sentirei agora ao seu lado. Não era preciso que Emília dissesse uma palavra ou fizesse um gesto para recalcar no intimo o pensamento ousado que mal despontara. que ficava distante da casa. Quando eu percorria só essas veredas escarpadas. Para chegar ali. Paulo. para mo restituir depois. Acreditava que ela se faria acompanhar de sua criada ao menos. apesar de marcar-me com a distinção sutil e delicada que é um tato do coração. e sentir cousas que eu não compreendia. que a resguardava melhor do que um severo recato. o que sentia outrora no isolamento de minha alma. Confesso-te. Sorria graciosa. nem uma névoa nos olhos límpidos e calmos. que há muito tempo não faço. Olhos puros e castos podiam espreguiçar-se docemente por sua beleza. Paulo. mas não me animava. estando só com ela. os rumores da mata. nem a minha submissa admiração achava graça perante ela. eu tinha ventura em profusão. a influência dessa força misteriosa. Assim era o pudor de Emília. disse-me ela. estava isso tão fora dos nossos costumes brasileiros . alguém a quem falar. Eu sentia muitas vezes. porque uma serena candidez a aveludava então. Desejava ter ali. As onze horas da manhã eu esperava por Emília.

Pareço-me com as flores. perdidos naquela solidão. presa de uma rápida vertigem. Mas a hora em que sou mais bonita.. é ao meio-dia no campo e à. enquanto os olhos velando-se. de noite o perfume mais suave! Eu escutava Emília. repetindo esse passeio da montanha. Enquanto ela falava. Avalia do excessivo melindre de Emília por dous fatos que te vou contar. eu dava-lhe o braço. Eu gosto da noite!. e não tenho o direito. na pureza do coração. em nossas conversas íntimas. uma noite de partida. E se vinham de envolta alguns raios dessa fragrância. Apesar da sutileza de beija-flor com que ela esvoaçava. Aniquilou-me com um olhar de Diana. e enquanto falava.. sobretudo nas noites escuras. E sofria cruelmente. que era poderosa em sua organização.. quando sei melhor sentir.. Dançava-se. como uma compensação do que a sua severidade me fizera sofrer. Ouvi como um débil queixume. como a grande claridade das salas. seu lábio túmido parecia sugar dela um gozo ignoto. É quando Deus me visita. É mais doce que o dia. Eu creio que as horas. não é verdade? Não há rumor que a assuste. deixou-me imóvel e pasmo no meio da sala. seus olhos se banhavam na suave limpidez do céu. afogavam num fluido luminoso. estrelas! O sol me alegra. com respeito profundo e um severo recato.Nunca se adorou de longe. em que só há. Emília recostou-se à janela. Se me perguntava alguma cousa. retirou o braço. vivo-as de noite. onde não encontrávamos criatura humana. mas não me toque! Outra vez. inadvertidamente. nem esse vapor que abrasa!. Voltei-me. parecia que minha voz ia dissipar o meu êxtase. eu os recolhia santamente no coração. e me anima. ainda me lembro do modo estranho por que me recebeu: —É a segunda vez que lhe tenho ódio! Soltando essa palavra. ela fazia cintilar a graça de seu espirito volúbil. Por força há de sentir aqui. Uma semana não me quis falar. As róseas narinas titilaram. ela quis atravessar o leito empedrado de um córrego que se precipitava pela frágoa escarpada. Fazia uma linda noite.. Seu pé resvalou. exclamando irada: —Deixe-me morrer. enlevado como sempre que. Nessa mesma noite. ela ia espedaçar-se. Ali naquele silêncio a alma pode abrir-se. Estendi os braços para ampará-la. De dia as cores mais vivas. —Como está. concedeu-me uma graça que eu nunca ousara esperar. Estava hirta e lívida.. Numa volta. Emília sorriu: —A nossa amizade é uma flor multo suave para este clima da sala. sem luar. Ele desce nos raios das 37 . mal roçou-lhe o marmóreo contorno do seio. eu tinha ciúmes da graça que esparzia assim para todos. meia-noite no baile! Não sabe por quê? Tenho bebido muita luz. que ela chamava perfumes de sua alma. Não lhe parece?. Repeliu-me com violência. como esta. conheço que meu coração é bom. não deixando as puras asas roçarem pelo mundo torpe.. a minha manga. como eu adorava Emília nas horas que tantas vezes passamos a sós. em que sou mais bonita. —As melhores horas da minha vida. assistindo aos triunfos da sua beleza. Quando afinal obtive o meu perdão. que exalaram seus lábios. estrelada a noite!. Um dia. acredite! Na sombra sim. Emília sofria como sempre a vertigem do baile. eu reprimia a respiração para não perturbar a melodia de suas palavras. borrifado pela doce luz das estrelas. é à noite. É quando eu sinto. e veio a mim : —Por que está triste? —Porque sou egoísta. a luz é um alimento para mim. As copas escuras das árvores nadavam no azul diáfano. Ela percebeu. não é a hora em que me sinto melhor.. tinha medo de responder-lhe.

E tinha razão.. e todos recolherem. pura como um anjo.. Olhe!. à sombra daquelas jaqueiras. Emília dava-me esta entrevista. todos os prejuízos do mundo! Ela dava-me a maior prova de confiança. como me convidara para o passeio a Santa Teresa. Arriscava por mim sua reputação. Pois vá até lá. aberta para recebê-lo. em um ermo... apenas com uma dignidade meiga de rainha compassiva. calcava aos pés todas as considerações sociais.estrelas. Veiome agora um capricho!.. à beira do lago. como me daria uma flor. um sorriso. Eu o espero. Não estava ela em qualquer lugar mais protegida pelo seu pudor celeste. Quando essas luzes se apagarem.... ela. Que estranha e bizarra criatura. Seu olhar casto pousou em mim.. um olhar. e entra em minha alma. alta noite. Tenho-o sentido aqui dentro tantas vezes!. —A uma hora.. e o fazia singela e natural. quero gozar desta bela noite.. como uma linda criança conchegando-se no regaço materno. Paulo! Com que desdém.. e nem o mais leve receio-lhe perpassava na fronte serena. Enfim. As jaqueiras de que falava Emília ficavam muito distantes da casa. —O senhor não acredita?. Insensivelmente movi a cabeça com um gesto de dúvida. —Consente!. frágil menina de dezessete anos. como me dera a primeira contradança que dançamos. Mas há de ser lá. do que tantas mulheres desvalidas dele no meio de um salão? 38 .

. sem a menor fadiga. meu Deus! balbuciei trêmulo e frio de susto. e assumira para comigo o despotismo da mulher amada com paixão. As vezes. porém. adoçou a voz para 39 . avaro do seu coração e das riquezas de sua alma? A senhora o é.XII ERA uma hora da noite.. Já te disse que os aposentos de Emília. tudo isto não me dizia bem claro e com a eloquência sublime das paixões irresistíveis. a solidão que nos cercava. Pouco depois estava junto de mim. Parecia-me a cada momento que o pé lhe faltava e. —Ainda estou frio!. e disse-me com uma placidez esmagadora: —Não. D. calma. A fonte de minhas alegrias.. Naquela noite. se ela fosse uma cadeia? Viver é gastar. Seu olhar tiranizava-me. meu Deus! exclamou Emília erguendo ao céu os belos olhos. Ela imperava em mim como soberana absoluta. já tocava a planície. —E eu morria!.. Emília! Oh! Não negue! —Como ele se engana. cuidei que era chegada a hora da minha ventura. Tudo mo anunciava. como se quisesse abrandar a dureza dessa declaração. manava de seus lábios. Desse lado o sobrado apoiava-se a uma escarpa da colina. Aqui estou! disse afoitamente.. as únicas em toda a casa que ainda apareciam frouxamente esclarecidas... os perigos que Emília afrontara para ir ter comigo.. fui para soltar um grito de pavor que a suspendesse. todas as preferências a que podia aspirar o escolhido do seu coração.. Se não fosse isso teria eu vindo? Podíamos ficar onde estávamos. esperdiçar a sua existência. Emília demorou seu olhar sobre mim. Eu esperava Emília com os olhos fitos na janela de seu quarto. uma boa e santa amizade. Essa entrevista alta noite. Esquecendo tudo. como de minhas tristezas. Emília? Se eu soubesse. Então posso acreditar enfim? E murmurei arquejante: —É verdade que me ama? Nunca até aquele momento. ouvindo a minha trêmula interrogação. como já sabes.. para só lembrar-me do risco imenso qu sua vida corria. mas persistia em chamar ao sentimento que nos ligava. a minha culpa era rigorosamente punida com alguns dias de uma indiferença completa. o sereno contentamento derramado por toda sua pessoa. Avançou até a borda do rochedo escarpado. Ali no quadro iluminado pela claridade interior. via eu de longe desenhar-se seu vulto esbelto. resvalando pelas pontas erriçadas do rochedo abrupto.. tranquilamente sentados no sofá.. que ela me amava? Pois bem. —Para que arrisca assim a sua vida. abaixando o capuz da longa mantilha. esses são os piores avarentos! —E quem se priva a si do mais belo sentimento. —Que diz?. como uma riqueza que Deus dá para ser prodigalizada. ocupavam a face esquerda do edifício. Se eles abriam-se. não é avaro também da vida. que lhe servira como de alicerce. uma alcova. risonha. não tinha aceitado! Ela ergueu os ombros desdenhosamente. conforme o sorriso era orvalho ou espinho. um gabinete de vestir e uma sala de trabalho. Ela tinha consciência disso. quem se esquiva de amar. —Que vai ela fazer. seu olhar incisivo cortava-me a palavra nascente. e até a última palavra que proferira invocando a Deus. em flor ou chaga. Os que só cuidam de preservá-la dos perigos. O gabinete de Emília abria uma porta para esse terraço. não o amo! Depois. D.. e fazia em minha alma a luz e a treva. Paulo. Emília dava-me. meu coração abria-se também. mas ela. e que para elegância da construção o arquiteto disfarçara com um terraço. nunca a palavra amor fora proferida em referência a nós. que eu ousava começar o nome doce e verdadeiro do meu afeto. durante dous meses vividos em doce intimidade e no conchego estreito de nossas almas. Para que serviria a vida.

miserável de amor. logo eu não o amo!.. como se fora o feliz que devesse merecer tão sublime paixão! —Medo de amar? exclamou ela. vou lhe fazer uma confissão. mas devorado pela sede imensa. em quem ela viveu e morreu. de minha louca paixão! —Eu julgava que tinha medo de amar? Creio que me disse. Acredite!.. porque eu sinto que o seria.. que o senhor ocupa uma grande parte da minha vida. que júbilo imenso não deve ser o amor. que as horas que passo a seu lado são as mais doces para mim. que nenhuma voz toca mais suavemente as cordas de minha alma. —De amar não.. e a encheria tanto. quando o senhor voltou. Eis o que me diz o meu coração... Pois saiba que mãe nenhuma espiando o primeiro sorriso nos lábios do seu filhinho. louca. Sente-se aqui perto de mim . —A mim? —Sim. sem que o senhor me perguntasse. não existiu para ninguém mais senão para mim. Devia dizer um coração pobre. Sentir o orgulho de só ter amado uma vez na vida!.. de que eu te falo. quando a esperança dele nos enche assim de contentamento! Foi há cinco meses... Amor! Amor! Não peço eu a Deus todos os dias que me encha dele esta alma? Tivesse-o eu. Seria a história do meu coração. Talvez aquele a quem o der o dilacere. eu só amarei assim.. mas ele não diz que pelo senhor eu sacrificaria tudo. Posso ainda ter uma esperança? —Eu a tenho!. Sentir que não restam do primeiro e único amor senão cinzas do coração extinto! Esquecido já do desengano que recebera há pouco.. é a verdade. Ajoelhei-me junto ao banco. que então o senhor não me chamaria avara. Lembrei-me até de escrever o que eu sentia. como dizia. sem o menor acanhamento.. atenda! A senhora ilude-se talvez. . Embora! Devem de haver delicias inefáveis neste mesmo suplício! Depois que supremo consolo!..acrescentar: —Não o amo.. foi a moça formosa. respondeu-me. Quero o meu bem vivo. não 40 —Sei o que pensa. —Ao menos diga-me. O senhor me supõe um coração frio e egoísta. avaro de amor. para dá-lo todo a quem for dele senhor. D. —De joelhos? Mas eu é que devia estar... Não diz isto. ele exclamaria sem duvida: "É impossível! Essa mulher não existiu!" E o mundo teria razão.. disse-lhe que não o amo ainda... de que ela buscava o mel. atirando às turbas o pó dourado de suas asas. A Emília. A Emília. Se o mundo soubesse um dia a história que eu te conto.. escuto-me viver interiormente. No dia em que ele me dissesse que eu o amava. as considerações do mundo. teve os estremecimentos de ventura com que eu espreito o primeiro palpite do meu coração. pois sou eu quem se confessa! disse ela rindo. Sou franca.. que o mundo conhecera e já esqueceu talvez. sem guardar para mim nem um instante dela! Tivesse eu essa opulência do meu coração. mas pródiga e louca. Na sua opinião o amor assim é impossível! Pois juro-lhe!.. Paulo. A flor... —Mas. que atravessou os salões. ele não diz que o senhor bastaria à minha vida. que sua lembrança gravou-se e não se apagará mais nunca em meu pensamento. que não houvesse mais lugar nela para outro pensamento e outro desejo. D.. Emília. É o contrário inteiramente. minha família. Sim. Escute! Não se agaste comigo. como a borboleta. Emília?. mas ambicioso. eu palpitava sob a palavra apaixonada de Emília. ao senhor. Meu Deus. que lhe dera sem hesitar toda a minha vida. —E seu coração até agora nada lhe disse ainda.... Cuidei que ia amar. —Meu coração diz-me que eu o estimo tanto como a meu pai. ainda! —E nunca me há de amar! —Por quê?. Emília ergueu-se. lhe confessaria.. Virei a amá-lo algum dia? Só Deus o sabe. que murcham o coração. mas dessas ilusões efêmeras... as minhas afeições e os meus sentimentos.. E desde então interrogo minha alma.

nem talvez na terra.viçava ali. Seria flor do céu? 41 .

que eu via cintilar em seus olhos um raio de amor. e o capuz meio erguido moldurava graciosamente seu rosto divino. Poucos instantes depois. dessas que a moça a mais austera pode conceder a um indiferente. Emília conservou-o no seu penteado por muitos dias até secar. Emília recusou.. estava chovendo.. Dias depois. nem mesmo pelo céu. ela recusava sempre. Resolvido a não ir à cidade senão mais tarde. mas altiva dignidade.. Emília tinha sobretudo um zelo excessivo de sua espontaneidade. As vezes era uma ternura suave e compassiva. escarnecia de mim. Uma capa de caxemira escura cobria-lhe quase todo o vestido. Não gosto de ser contrariada. como dous colibris voando ao meu encontro. coberta de espessa cerração.. Assim correndo ao seu encontro. eu refletia sem querer sobre esse caráter original de moça. não que eu tivesse ciúmes de semelhante fátuo.. Abri a minha janela. valesse como uma prova de amor? Quando lhe pedia alguma cousa. de improviso. Lembra-me de uma vez. manhã de inverno. Eram oito horas da manhã. Emília estava defronte. que os ecos de minha alma tanto conheciam. vinha espontaneamente com uns singela. passou pelo braço do Barbosinha e lançou-me este desafio: —Tire-me do braço dele. Esperando ver Emília passar na varanda e cortejar-me de longe. e sentia vibrarem as cordas frementes de sua alma. e tão suaves eram as flexões desse talhe. se quiser!. que. Eu devera já estar habituado aos caprichos dessa moça. deu-me o seu retrato. O exercício lhe avivara o saboroso encarnado das faces. Curvava-se para colher os botões de bogarim que me atirava. Emília parecia evitar-me. que me levava de surpresa em surpresa.. mas era ele desses homens ridículos cujo contato mancha uma senhora. conceder-me alguma prova de afeição. sem que eu lhe pedisse. Tinha decorrido uma semana. se me resignava e esquecia sua recusa. e ouço perto o gorjeio de um riso melodioso. —Guarde-o para lembrar-se de mim! Depois da noite em que estivemos juntos à. como se ela quisesse consolar-me por não ser amado. onde tremulavam algumas gotas da chuva. Seus olhos negros saltitavam de prazer. que me tirava a coragem de insistir.. além da cerca de espinheiros que dividia o meu jardim da sua chácara. e com tal firmeza. que peneirava no ar uma garoa finíssima. Uma noite pedi-lhe que não dançasse mais com o Barbosinha. estava eu sentado à janela.XIII HAVIA no tratamento de Emília uma variação incompreensível. No dia seguinte encontrei-a agastada comigo: —Não consinto mais que me ame!.. como às vezes costumava. Ora! Para que se inventaram as capas e os guarda-chuvas? Vi-o de lá pensativo. Em que estava 42 . tal que eu nunca me animara a esperar. outras vezes parecia que a minha-paixão a irritava. Se eu me agastava. Acordei hoje com uma alegria de passarinho! Tinha saudade das árvores!. mesmo pequena e insignificante. donde avistava a casa de Duarte. mas tudo quanto ela fazia era tão desusado. mas unicamente sorrisos para acolhê-la. disse-me ela voltando as costas. De repente sou arrancado às minhas reflexões por uma chuva de bogarins. mas era justamente nessas ocasiões de tormenta. insistindo eu por um botão de rosa que ela tinha nos cabelos. e eu voltei despeitado. que apesar das largas roupagens percebia-se a doce vibração do movimento revelado exteriormente por um harmonioso ondulado. Receava ela que a menor graça feita às minhas súplicas. borda do lago. não achei palavras. Tinha então o coração áspero e a palavra acre. —Está admirado de me ver aqui? disse ela. como se achasse um prazer infinito em prolongar assim tacitamente a sua recusa.

atalhou ela rindo francamente. do contrário ficaríamos aqui.. Creio que sua botina resvalando pelos galhos úmidos do espinheiro lhe traiu o elance. meu Deus!. de um e outro lado da cerca?.. porque senti no meu peito a doce pressão de seu talhe. —Ah! Aqui é o gabinete. Repeliu-me logo. Que olhar. que sua mão trêmula encontrava na passagem. Emília correu a estante com os olhos... serena e risonha. —Inspira-os. dirigiu-se à porta. e abrindo-se para tragar a vítima! Mas foi tão instantâneo. —Obrigada! Já lhe inspirei alguns? —A senhora. ou antes nunca soube fazer versos. que vagava de um para outro lado. Pode-se entrar? Eu tinha vergonha da minha modesta habitação. Ouvindo o ai que soltaram seus lábios.. D.. 43 ... lendo o título das poucas obras literárias. A voragem de uma alma revolta pela paixão. —Quantos. —E Mila chamará Augusto? —Está entendido! Não é como lhe chamam seus amigos? —Meus amigos me tratam por tu.. acompanhava quase como um autômato a ela. o que havia de melhor estava na cidade. O capuz lhe descera. não me comprometo. Depois calcando a mão sobre o meu ombro. acrescentou com um sorriso: —Não tenha cuidado. Confuso. percebi que ela saltava a cerca. Eu já não sei. indicando-me com um aceno gracioso que a seguisse.pensando? —É preciso perguntar-me? Em que penso eu sempre e a todas as horas? —Em mim?. ela encheu uma xícara e bebeu dous ou três goles frios e sem açúcar. é porque não existe mais eu em mim. —Eu não me escondo!. disse eu sorrindo.... Emília?.. e vendou-me com ele. Meu gabinete de trabalho era nesse tempo muito pobre.. não a quero! Podia alguém vê-la!... —O senhor nunca fez versos? —Quem é que não os fez aos dezoito anos? —Eu!. deixando a cabeça exposta à chuva e à brisa cortante. Tenho dezoito anos e nunca fiz um só. —Pois agora há de escrevê-los para mim.. naturalmente... à chuva! Está bem! Faça-me o favor de abaixar a cabeça. respondeu Emília com altivez. Pois aqui estou! —Que imprudência!. —Isso não! Quando eu disser tu. Depois de algumas voltas pelo jardim voltou calma.. Eu sou rica. —Deveras! —Oh! não me chame de ingrato para a felicidade! Mas se ela deve custar-lhe o menor dissabor!. sem o menor vexame.. Na sala de jantar onde entramos.. com esse tom afetuoso com que saudamos antigos amigos. onde se estuda! disse parando no lumiar. Já não me lembra o que disse! Mas com efeito o senhor é bem pouco amável! Nem sequer ainda me convidou para entrar! —Eu não me animava! —Foi bom então que me animasse eu. —Que significam estas palavras. arranquei o lenço arrebatadamente. sim. Mila.. —A senhora. Depois velando-se de súbita melancolia.. Porém responda! Já lhe inspirei algum verso?. Por que não me chama Mila? É como me tratam os que me querem bem. Augusto? —Não. Emília? —Vamos nós agora discutir aqui. meu Deus! —Mostre-me! Quero ver! —Mas eu não escrevi! Para quê? Eles não diriam tudo que eu sinto. que não era digna daquela honra. estava uma cafeteira.. que é melhor. Tirou o seu lenço. e surpreendi seu olhar. que eu não posso afirmar que vi. D. Já ela se tinha afastado bruscamente dilacerando entre os dedos os renovos das plantas..

Vejo que minha presença começa a incomodá-la: é tempo de torná. Por momentos soltava débeis modulações de alguma ária. Quando me dediquei à medicina não busquei só um meio de vida. O mundo e aqueles mesmos a quem salvamos. Augusto. Suas alegrias são sempre travadas de dores!. Mas os reveses.. que ela me queria embeber n'alma. —O que lhe disse eu naquela noite?. É o tempo das flores. dirigi-lhe por vezes a palavra sem obter mais resposta que um sim ou não. Deixe isso.. —Mas por que não há de escrever ainda? Se não quer ser poeta. fugiu por entre as árvores. como se os acariciasse. afinal conhecendo que ela estava preocupada. Sinto que a minha aptidão é essa. a única a que devo e posso hoje aspirar. Emília leu e releu. fugir a ela fora mentir à. Achei-a lendo uma folha de pequeno papel bordado que me pareceu carta: pensei que fosse da prima.-la mais rara e 44 . dobrando o papel. agora vou gostar ainda mais. que meteu no bolso. Afinal nos habituamos. e me preserve a alma desse terrível contágio do materialismo. Foi a natureza. a que me coube em partilha.. a glória da minha profissão. Ergueu-me a fronte. Emília começou a examinar os instrumentos e livros com uma travessura infantil. Emília. já lhe disse. O acaso deparou-lhe um atlas de anatomia. roçando por eles de leve a ponta dos dedos. minha missão neste mundo. Ela nem ergueu os olhos para cumprimentar-me. é natural. Nossos triunfos. que aridez! Por isso. diante da multidão que aplaude. —Tem razão! A verdadeira glória deve de ser essa. —Quem lhe impede de aspirar a outras? —A minha consciência. Não tem ambições? Não ama a glória? —Amo. bem sei. esperei calado pelo seu bel-prazer. parecia natural que eu fosse crescendo na afeição de Emília. Esteve a olhar muito tempo. de examinar o meu. pousando então a ponta da unha rosada sobre o título. Emília. dos sorrisos e dos cantos. talvez já esquecida da minha presença. sente-se essa veleidade. cheio de ternura. há. Senteime. que me proteja contra a descrença. bem triste! Vive das misérias do próximo. depois sobretudo da promessa que ela me fizera partindo. Espere! Talvez não espere muito tempo! Envolvendo-se na sua capa. nos pagam. Isso passa.. esses pesam sobre nós. Emília. seja escritor. verdadeiras esfinges d'alma. afinal murmurou: —Quando eu morrer. Mila! retorqui fechando os livros e instrumentos nos armários.Quando se começa a vida. É uma glória obscura e desconhecida. para que eu recebesse o meigo sorriso. no recôndito de uma casa. onde geme a criatura. visivelmente distraída. Sinto não ter em minha casa objetos mais alegres para distraí-la. Depois dessas mútuas expansões e das nossas entrevistas solitá. fazer o bem. Para ver se é diferente! —Que idéia!. depois fugia-lhe pelos lábios um sorriso misterioso. Eu é que sou uma louca! Mas já gostava da medicina. Emília me ouvira comovida.rias. porém esta moça era cada vez mais incompreensível. D. Só Deus os contempla. Não me pude mais conter: —Adeus.. voltou-se para mim sorrindo: —Quero ver o coração! Onde está? E afastou-se enquanto eu folheava o atlas para mostrar-lhe a estampa que ela pedira... e respondeu com uma simples inclinação da fronte. dizem eles. não os obtemos na praça ou no teatro. desses que se sorriem sem consciência. eu sinto a necessidade de um santo amor. votei-me a um sacerdócio.. que dúvidas! E quando chega. A minha profissão é triste. começou a passear pela sala. só ele os recompensa. Mas enquanto não chega essa indiferença. mas lá. no aposento silencioso. Os dias que seguiram tratou-me com bastante frieza: e uma tarde com desdém até. mas nem nos agradecem às vezes. É uma glória amarga. E para confirmar seu dito.

não era o que é. por que não? A senhora é de uma bondade extrema e cuida que eu tenho direito à sua gratidão. Emília.. sem saber como. Quem me fez acreditar no amor? Quem me deu a fé e a esperança nele?. uma vez? —Cale-se! atalhou ela com inexplicável pavor. —Ah! já cansou de esperar? respondeu com um ligeiro riso de mofa. como eu sonho e espero. uma fatalidade. não lhe dará tempo de interrogar-se. porque é boa.. a um irmão.. eu duvidava. Pareceu-lhe que recusar-me em troca sua afeição. Quando aparecer. para mim asseguro-lhe que não. disse-me ela afinal. quem o sente acredita sinceramente que ele não se extinguirá nunca. Se ele viesse quando o chamamos e desaparecesse à. Não tem razão. Emília. D. portanto que esperança posso ter? O melhor talvez fosse retirar-me. O homem a quem há de amar. era o mesmo que recusá-la a um pai. Como lhe veio semelhante pensamento? —Não me disse já. mas debalde. Iludiu-se. começou a amar! —Talvez isso seja verdade para outras. que esse amor era minha felicidade e minha vida. vontade.. —É outra ilusão sua! O amor tem a crença ingênua da eternidade. Seu coração palpitará por si mesmo. há de ser a minha vida inteira. a senhora não o conhece.. Emília ficou algum tempo muda e pálida.. sem que o suspeitem. absorta na estranha emoção. —Dir-lhe-ei. —Já perdi a esperança. portanto pareceme que tenho o direito e até o dever de conhecê-lo antes de entregar-me a ele sem reserva e para todo o sempre. Eu não tive a felicidade de lhe inspirar essa fé sublime . Já.menos importuna. fez todo o possível para isso. e a senhora sentirá que ama. exclamou Emília assustada. 45 . de repente. —Odiando-o?. porque enfim compreendo o que se passa em seu espírito. Essa palavra e um sorriso bastaram para serenar minha alma. confesso-lhe.. Conheceu que eu a amava. nem o viu talvez. Lembre-me! Antes de conhecê-lo. —Augusto!. porque à força de querer violentar seu coração. O amor. —Queria que me dissesse isso! Ficaria sabendo.. talvez acabe odiando-me!. nem quando. O amor nasce de si mesmo. Quis amar-me... e com terna melancolia.

Ela sofria já a ebriedade das luzes. eu sofria muito vendo Emília assim esquecida de mim e engolfada nos prazeres que outros partilhavam. A fadiga ou a emoção lhe havia umedecido a fronte. —O baile já a fatigou?. Ela atravessava a multidão agitada. —Tudo isto. Emília me disse a meia voz. que só ela possuía: uma espécie de previsão dos objetos que se aproximavam. na atitude e nos movimentos.. como a borboleta que enreda o vôo por entre as ramagens do rosal. Havia ali encostados à varanda. de que o senhor tem o talento admirável. anelos impetuosos. eu evocava debalde as recordações dos dias passados.. O seio arfava precipitadamente. com um tom suplicante: —Não fique tão longe de mim!. com uma fisionomia expressiva e o reflexo de suas glórias politicas. Chaves aproximou-se para oferecer-lhe o braço. Eu lhe peço! Segui-a por algum tempo. Hás de te lembrar dele... —Quase não dancei!. não é mais do que um desses bonitos discursos. disse-lhe com o riso amargo. Antes de aceitar-lhe o braço. tão cheia de glórias e ambições. como um sétimo sentido. e continuava com seu par uma conversa animada. murmurou com um riso singular.. Essas horas do baile eram meu lento suplicio. É a febre que vem!. debalde me acusava de egoísta. que dava à casa um aspecto campestre. quando o coração me desfalecia. porém eu os via perfeitamente no quadro iluminado da janela.. tive a coragem de arrancar-me a esse martírio. ele triunfava no salão... Algumas vezes.. Tinha visto Emília de relance. elegante. Nesses momentos havia em toda a sua pessoa. Mas seu pudor suscetível não a abandonava nunca. Muito depressa!.XIV HAVIA grande reunião em Matacavalos. Paulo. As horas perdidas do baile!. uns bancos de pedra cobertos por dosséis de uma trepadeira qualquer. da música e dos perfumes. bem como nessa noite.. frio n'alma!.. que a dominava sempre em pleno salão. Seus lábios aspiravam então com avidez o ambiente do baile. Contudo. A folhagem espessa me escondia aos olhos de ambos. e nos intervalos das sacadas. Chaves.... Fumava sentado num desses bancos. Nessa ocasião o Dr. que ela pela primeira vez veio onde eu estava. Moço ainda. Seus olhos tinham um bilho vítreo que incomodava. o ciúme afinal me vencia. Notei sua grande palidez. doutor. Nos dias de baile. O que a protegia na confusão. janela próxima... 46 . Foi já. o que resta para o amor?. De repente ouço a voz de Emília. mas quando a vi suspensa à palavra sedutora de seu par. Não me acha muito pálida? —Há de ser o calor!. Esta sala é muito abafada! —O calor? Se eu tenho frio.. —Então não me acredita? disse o Dr... Em uma vida como a sua. Parecia provocar as emoções.. —Não posso!. que se revelou de repente na câmara por alguns triunfos bem notáveis. não era tanto o rápido olhar. É um brilhante talento de orador. sem ferir nos espinhos a ponta das asas sutis... embalando-se docemente à música das frases talvez apaixonadas que ele lhe dirigia..... Mas não sei o que sinto!. Matilde fazia iluminar essa arcaria de verdura. D... como na tribuna. Ela se recostara à. Confesse!. Refugiei-me no jardim.

o senhor teria a coragem de sacrificar tudo a um capricho meu? —Ordene! —Não tenho esse direito. mas não são verdadeiros. O Alvares tirou com efeito do bolso um pequeno papel dobrado. ela ficou suspensa um instante. nada absolutamente! O que a revelação cruel produziu então em mim. que veio cair no jardim. me fez precipitar ligeiro sobre o papel. o ideal sonhado: todos têm sua Galatéla . com o sentimento do suicida tateando o punhal que o deve imolar.. 47 . é verdade! Mas por quê? Porque trabalhar. Chaves fora interrompido pela aproximação do Alvares.—Mas a senhora não sabe então. —Tem razão! Não dizem nem a sombra do que sinto! Mas sou eu o culpado? O verbo divino do meu amor.. e ali passei uma hora palpando aquele papel aveludado. Os meus mais belos triunfos.. Não sei que instinto da minha então embrutecida natureza. acredite-me. mas chegou tarde. e nós não somos para eles senão estátuas. para mim. D. A primeira dor envelhecera já. Paulo. ele animou-se a falar-lhe em voz submissa: —D.. e elevar-me do pó. são os únicos que vivo? O resto. fazer de quanto o mundo respeita e acata a humildade de meu amor!. Do primeiro olhar. —Oh! D. nada. As vezes o orgulho vibrava sua fronte nobre com um gesto divino. que até mesmo quando eu a desprezo. não pensaria assim. vi Emília sentada na outra extremidade.. Depois fitou os olhos no Chaves. Eu lhe suplico! —Não me sinto com forças. como fera sobre a presa. Se o tivesse. trabalho com entusiasmo.. não foi nem dor. Recostado ao umbral da porta. Nem mais me lembrava do que se passara com o Chaves. nem indignação. senhora.. pois nesse instante eu a admirava com olhos de maldição. não seria assim egoísta. ainda agora sofro! Naquele instante. durante o qual o jovem poeta esteve sob a influência do olhar soberano de Emília. mais por certo que nunca. A senhora leu os meus versos? —Li. que os seus versos devem anhnar. voltei à sala. porta da varanda. D. Emília escutava enlevada. O deputado teve de ceder o lugar... O diálogo do Dr. Depois de um curto silêncio. Emília! —Dê-me! Quero vê-la! —Não a trouxe! —Procure bem! disse Emília sorrindo. que vinha buscar Emília para a prometida quadrilha. respondeu sorrindo. não! Foi o amor que me deu esta sede de poder. Oh! que tirânica beleza é a dessa mulher. recusou entregá-lo. Fui esconder-me no fim do jardim. no idiotismo das minhas emoções. não os sinto quando os alcanço. Emília! —Oh! Os poetas! Eu os conheço! O que eles amam neste mundo é unicamente sua própria imaginação. São muito bonitos. —E se eu exigisse. Mas não! Sofri depois.. como centelhas do fogo sagrado! —Se a senhora tivesse lido a poesia que eu ontem escrevi. sempre bela e resplandecente. que estes curtos instantes em que a vejo. O movimento vivo que ele fez soltou-lhe dentre os dedos o papel. Emília. o tempo que sobra à minha tão rápida felicidade. Quando me supus calmo e senhor de mim. a fim de poder erguer os olhos para o céu sem ofendê-lo! Eu não era ambicioso. Emília. —Sempre essa cruel palavra! Como eu sofria. quando Emília estendia a mão para recebê-lo. não há na linguagem dos homens palavra que o exprima! —Não por certo! Não é possível exprimir o que não se compreende. disse ela. lhe pertence! Tome-o. é amar ainda. Ela riu e afastou-se exclamando: —Bem feito! O Alvares correu à. mas com a faceirice dos escritores. mas quando venho depôlos submisso a seus pés. Quisera ao contrário partilhar com o mundo inteiro os seus triunfos! —Mas esse direito. me força a admirá-la! Quando a voz que a raptava emudeceu. mas um estupor d'alma! Eu ali fiquei. A minha glória é essa unicamente.

estava um homem, que a devorava com a vista, esperando impaciente a oportunidade para falar-me. Era o tenente Veiga, de quem já te falei. —Ainda outro, meu Deus! soluçou minha alma agonizante. Julga do meu sofrimento, Paulo, pela vileza a que me arrastava o desespero. Acabava de roubar um papel que me não pertencia; não era bastante; fiz-me espião. Dei volta pela varanda de modo a aproximar-me da porta sem que os dous me pressentissem. Não cheguei já a tempo de ouvir, mas vi... Emília desprendera uma violeta de seu ramo e deixara-a cair aos pés intencionalmente: o oficial curvouse, apanhou rápido a flor, que beijou e prendeu com orgulho ao peito da farda ornada de condecorações. Tudo isto fora feito com tão delicado disfarce, que ninguém mais na sala o viu, nem suspeitou. Vaguei pelo salão conversando com um e outro, cumprimentando algumas senhoras de meu conhecimento, procurando assim gastar ao atrito dos indiferentes as emoções dolorosas que me pungiam. Depois sentei-me à mesa do jogo. Chegou finalmente a quadrilha que eu devia dançar com Emília, a sexta, se não me engano. Uma das finezas que ela me fazia nesse tempo, era não dançar mais em um baile, depois de ter dançado comigo; por isso me reservava sempre a última de suas quadrilhas. —Como o senhor está pálido, meu Deus! exclamou ela tomando-me o braço. —Não; há de ser o efeito das luzes sobre este papel escarlate; respondi sorrindo. E o seu acesso? Já passou? —Que acesso? perguntou surpresa. —Não disse há pouco... que tinha febre n'alma? —Ah!... Sim! Já passou! replicou sorrindo. O senhor é tão bom médico de minha alma, que bastou sua lembrança para curar-me. —Então lembrou-se de mim? —Que remédio, se não lembrar-me? Procurei-o tantas vezes com os olhos, e não o vi!... Onde esteve o senhor todo este tempo? —Pois deveras reparou em minha ausência, D. Emília? Juraria o contrário! —Jurava falso! Se não fosse verdade, por que lho diria? —Quem sabe? — Quem melhor do que o senhor! A voz de Emília nessa conversa era doce e meiga. Seu olhar macio acariciava-me com delícias. Em toda a sua pessoa derramava-se um celeste eflúvio de ternura, que manava de sua alma, e rorejava a flor nativa de sua ingênua altivez. Nunca eu a vira assim maviosa, nem mesmo nas horas em que estávamos sós. —E não me quer dizer onde esteve? perguntou de novo com branda queixa. —Estive jogando. —O senhor?... o senhor que aborrece o jogo? Que lembrança foi esta? —Aborreço o jogo, é verdade! É de todos os vícios o que mais revolve os instintos maus. Porém às vezes é necessário. Os venenos também são remédios... perigosos, sim... Quando não curam, matam. —Queria esquecer-me! disse Emília com terna exprobração. Ingrato!... Quando minha alma o chamava!... Esta palavra exacerbou-me o coração: —Para que, D. Emília? Para que me chamava a senhora? Não tenho nem posição brilhante, nem glória, nem talento, para depor a seus pés. O meu amor?... Esse fora um mesquinho triunfo para quem alcança os mais brilhantes. Um amor banal... Mas perdão! Não devo mais profanar o meu sentimento com esse nome. Chamarei amizade —como a senhora. Não me disse uma noite, por outras palavras, que a minha afeição era uma flor muito modesta para se fazer dela ramalhetes e grinaldas de baile?... Tinha razão!... No campo, por desfastio, em algum dia monótono, pode excitar a curiosidade. Não lhe parece?... Assim foi melhor que eu me conservasse longe; devia mesmo não voltar. Tenho receio de envergonhá-la com

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uma paixão ridícula! Emília cravara em mim seu olhar inteligente e soberano, que me trespassou a alma todo o tempo que eu levei a proferir estas palavras. Havia nesse olhar, de uma fixidade importuna, arrogância e curiosidade ao mesmo tempo. Ela parecia querer recalcar-me no coração minha palavra sarcástica, e ao mesmo tempo arrancar dali o segredo da súbita mudança operada em mim. Depois de uma pausa começou com a palavra triste e lenta: —Não me fale assim! Eu tenho, o senhor bem sabe, um espinho em minha alma; é o orgulho. Quando tocam nele o fel se derrama, e eu me sinto má!... Não quero responder-lhe. Posso dizer-lhe alguma palavra dura e magoá-lo... Depois sofreremos ambos. Não é melhor a franqueza, do que estarmos aqui como duas crianças a ferir-nos com pontas de alfinetes, que podem entrar no coração? O senhor tem alguma cousa que o aflige e que eu ignoro. Fale! Emília deu à, sua voz uma terna inflexão para pronunciar estas últimas palavras: —Se eu o ofendi, Augusto, acuse-me! Não será a primeira vez que lhe peça perdão! Eu sentia, aos sons maviosos dessa voz celeste, meu coração hirto embrandecer-se como uma cera; mas de repente o toque do papel que eu tinha no bolso o enregelou. —Não posso falar aqui; respondi trêmulo. Não estamos sós. —Pois amanhã; me disse Emília. As sete horas, junto aos bambus. Estimei essa demora; naquele momento, tão próximo ainda da amarga decepção, sentia que não poderia ter a dignidade da minha dor.

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XV AO nascer do sol, já eu esperava Emília. Que longa noite! Sofria horrivelmente, mas como um enfermo desacordado. O estupor do espirito, que me fulminou ouvindo a cruel revelação, continuava. Não podia compreender Emília, o anjo do celeste pudor, a altiva rainha das minhas adorações, transformada de súbito numa desprezível namoradeira de sala. Havia momentos, em que eu achava dentro em mim a imagem de duas Emílias, uma para o meu desprezo, outra para o meu amor. E minha alma, ora exaltava-se em seu orgulho para cuspir a baba da indignação às faces daquela, ora ajoelhava humilde e dolente para chorar seu infortúnio aos pés desta. Passara uma parte da noite a reler os versos do Álvares; ainda os tenho de cor apesar dos esforços que faço para esquecê-los. Eles por aí correm num volume de poesias, recentemente publicado por esse moço. Tem por epigrafe —A ela. Quando o sol espalhou as trevas, não sei que serenidade derramou-se em meu seio. Era talvez a saciedade do sofrimento. Emília veio meiga e serena, como a tinha deixado na véspera. O baile longe de fatigar, repousava sempre essa incompreensível criatura. Havia no sorriso dos lábios, no cetim das faces e na irradiação do olhar, o primor de virgindade que têm as flores recentemente desabrochadas. Quem visse essas límpidas auroras de sua beleza, julgaria que ela acabava de nascer moça, ao despontar do sol, como as rosas e as borboletas. Tal era o frescor e o viço da sua formosura. Quando a percebi de longe, senti que o meu coração exauria-se; a indignação que o enchera até aquele momento fugiu dele. Temia que o primeiro olhar de Emília dissipasse a minha cólera, e que sua primeira palavra me curvasse a seus pés humilhado ainda por um amor indigno. —D. Emília, disse-lhe eu, receio ofendê-la... Talvez o melhor fosse calar-me. —O que mais me pode ofender de sua parte é o silêncio, quando o senhor tem um ressentimento de mim. Fale, não tenha receio. Bem vê que eu estou tranquila. —Pois então ouça-me e desculpe. Sem dúvida a senhora julgará pouco nobre meu procedimento, surpreendendo um segredo alheio; mas lembre-se que eu a amava!... E a amava tanto, que tive a coragem de aviltar-me ao meu amor. Sinto este orgulho! Pela primeira vez Emília pareceu surpresa: —Não compreendo! Que fez o senhor? Mostrei-lhe os versos e contei-lhe tudo quanto soubera na véspera, durante o baile; tímido e balbuciante em princípio, ia-me reanimando a medida que a evocação daquelas cruéis recordações magoava minha alma ulcerada; o desespero prorrompeu afinal. Emília me ouvira impassível. —Bem vê que eu sei tudo, D. Emília! Ela não me respondeu. —Ouviria eu mal? Não compreenderia as suas palavras? —Ora! O senhor é tão perspicaz! —Assim não me iludi? Esses homens a amam, e a senhora lhes corresponde? —O senhor o diz! —Meu Deus! Mas a senhora não sabe que nome tem isso?... Emília ergueu-se de um ímpeto. Seus olhos tinham raios lívidos, e sua fronte um luzimento de mármore. —O nome?... exclamou ela. O nome que isso tem? Eu lhe digo! É a indiferença... Não! É o desprezo, que me inspiram todas estas paixões ridículas que tenho encontrado em meu caminho! Ah! Pensa que amo a algum deles? Tanto como ao senhor!... O amor, eu bem o procuro, mas não o acho. Ninguém ainda mo soube inspirar. Meu coração está, virgem! Tenho eu a culpa?... Oh! Que ente injusto e egoísta que é o

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. Emília. o que me restará de coração? Uma úlcera apenas!.. Emília! Ela derramou sobre mim num só olhar todo o seu desdém. Cuida o senhor que é a minha vaidade que me arrasta pelas salas. nem preciso que me consolem! exclamou arrebatada. não.. D. deixou-me sepultado naquele desengano cruel.... Eu sofria. os desprezo. e entretanto julga-se com direito a exigir de nós um coração não só puro. Esperei debalde que voltasse o rosto.. me desprezasse o senhor embora. atirou-se com sofreguidão aos cortejos de sala. —Ao senhor?. Cheguei a iludir-me. Pois eu. pelo prazer de se verem admiradas e ouvirem elogios à sua beleza?..... Era outra vez em casa de D. Os outros podem me fazer a vida amarga e triste sem que eu me queixe. ou de propósito. Deus mo levará em conta para o meu amor. Matilde que eu me encontrava agora mais frequentemente com Emília. não!.. a essa profanação de meu belo ideal. Mas o senhor. não consinta mais que esses homens lhe falem de sua paixão. assistindo.. —Não posso! —Tem razão! É melhor assim! respondeu sorrindo. Basta-lhe um aceno.. se o amasse. Oh! não. 51 . a eles compete ensinar-nos. o que ela conversava comigo a respeito de sua prima. pensei que também amava essa menina. Emília parou um instante para respirar... porém as minhas visitas a pouco e pouco foram sendo mais raras. —Não me queixo. e os desprezo a todos. Promete-me? — Não. para atrair novos. e creio agora que não o amarei nunca! Desatando o passo augusto.homem! Quando nos ama. dá-nos apenas os sobejos de suas paixões e as ruínas de sua alma. com indignação do amor imenso que eu sinto em mim. Não me retirei completamente da casa de Duarte.. —D. que eram logo substituídos.. como dizem em seu orgulho! E ai da mísera escrava que mais tarde conheceu que não amava!. foi só o que vinha de Emília. e a palavra sarcástica frisou outra vez seu lábio mimoso: —Os homens.. aos quais ela de repente despedia com um gesto ou uma palavra. Julinha me compreendera e me consolava. educar a mulher. eu que tenho orgulho de merecer um nobre amor.. começou ingenuamente a amar-me.. e a multidão apedreja. O senhor. Emília?... A boa menina. —Ao menos. senhor! —Bem! —Se me quer amar como eu sou. não o amo.. Para quê? O que eu sofro agora. meu Deus!. sim. deslumbrado. Emília!. a quem eu dei minha amizade e confiança. julga que esperaria tanto tempo para lho declarar? Os outros têm o direito de mentir-me porque me são indiferentes... dizendo com voz pausada: —E me tinha amor!.. balbuciei comovido.. —Refere-se a mim... ela parou.. arrancando-lhe as fibras e escalpelando-o.. Seu senhor é inexorável e não perdoa!. Emília afastou-se: e eu a segui involuntariamente. como tantas mulheres. mas sem consciência e sem egoísmo. e que nem um deles merece!. Seria uma indignidade!. Todas as noites a cercava a grande roda dos seus apaixonados. por fim a chamei. Quando esse amor fugir de todo. mas o que eu amei em Júlia. ou porque não tivesse mais reservas a guardar comigo. —Então adeus. na terra ou no céu. quando eu amar um dia.. D.. Era meu amor que a pouco e pouco se despegava do coração.. às erupções que produzia o orgulho ofendido naquela alma inteligente.. Se eu tivesse um tal pensamento a seu respeito.. eu o acompanharia até aos pés da minha rival para suplicar-lhe as migalhas de seu amor! Eu sim! Mas felizmente para nós ambos. Vós sabeis quanta humilhação tenho tragado. vendo-me infeliz. Felizmente aprendi cedo a conhecê-los.. unicamente por uma força invencível de sua extrema sensibilidade. D. vendo-me objeto de paixões mentidas e interesseiras!. um suplicio cruel. mas também ignorante! Devemos amá-los sem saber ainda o que é o amor. com os meus caprichos. Eu assistia. Ela.

. pois justamente nessa ocasião. vendo-me chegar obediente. e fazê-la acreditar que realmente amava Julinha. quando ela a despia da luva. Enxotava-me com a ponta do pé. não sei como. Matilde. Enfim. E eu vivia. que era impossível resistir. Já não me via. tinha uma alma. ela nunca me fez confidências. não: recebia-me risonha e amável. que estupidava-me. vinha com uma resolução firme de mostrar-lhe minha completa indiferença. —Ela confessou-lhe alguma vez? —Não. uma doce inflexão do seu colo. E eu ficava sem palavra e sem movimento. —Julinha está zangada! Vá dançar com ela! dizia-me então. Emília. Tratava-me como ao cão da Terra-Nova que havia em sua chácara. todo olhar. essa mulher escarnecia de mim. como uma estátua de gelo. Paulo. a fazer pena. Outras vezes. sua funesta influência. quando ela me via assim alheio de mim e cativo de sua graça. espremendo em minha alma o fel dessas humilhações a ver se irritava aí a dignidade abatida. Paulo. lambendo o chão por onde ela passava. Uma noite aproximou-se para dizer-me com um sorriso ameno: —Os seus novos amores não toleram nem mesmo as antigas amizades? Confesso-te a minha vergonha. chamava-me com uma imperceptível vibração de fronte. a contemplá-la de longe. Pois quando estava mais entregue a esse jogo do coração.. Nunca o império dessa mulher sobre mim foi tão tirânico como nesse tempo em que me violentava para arrancar minha alma à. —Não acredite! Zomba de todos eles. eu me atordoava a ponto de supor que o sentia pela filha de D. Bastava-lhe para isso um nada. Emília tinha seduções tão poderosas. como um anjo que descera do céu para acariciá-la. arrancava-me de perto da prima e arrastava-me a seus pés. e à força de falar de amor. nem me ouvia: eu voltava tragando em silêncio a minha vergonha. movia-se em torno de sua beleza. Eu chegava. Oh! Essa mão gentil. 52 . para ter o prazer de me fazer voltar. mas eu a conheço muito! — Gosta de mim. se demudava por tal forma. Olhe!. e com o qual a vira tantas vezes brincar. um sorriso. Mas percebeu ela o que se passava em mim. eu sei! dizia-me Julinha. apesar dos meus esforços para simular indiferença? Não sei. De ordinário. Emília viu a minha assiduidade junto à prima. era então fria e glacial. Afinal. Aos toques suaves dos dedos mágicos parecia que sua lindeza debuxava-se mais brilhante.—Não se aflija! Mila gosta do senhor. como daqueles que a cercam neste momento. um gesto gracioso da mão afilada brincando com um anel dos cabelos ou com uma fita do vestido.

Esses homens eram apenas livros para mim.. Eu estava louco! Ela foi nessa noite e nos dias seguintes de uma bondade inexaurível para mim. Matilde. e guardava toda. Mas não me queira mal. que procuro preservar minha alma dessa profanação. Promete repelir os seus adoradores! —Eu os afastarei tanto de mim. virgem de amor e imaculada. como não chegam a Deus as blasfêmias do ímpio!. não é verdade? me disse ela compungida. D. —Ah! se eu houvesse profanado a minha alma nesses arremedos de amor com que as moças se divertem antes de casar. mostrandolhe ao vivo o egoísmo. que Emília se comiserou de mim. —Como eu o tenho feito sofrer.. é tarde! —Perdão. Apareceu ainda algumas noites em casa de D.. Também eu sofro! Que natureza é a minha? Parece que tenho prazer em me contrariar e afligir a mim mesma. Eu. para que outra vez não me deixe cair de tão alto!.. Emília cumprira sua palavra de um modo que eu não ousaria esperar. talvez me julgasse digna de sua afeição. o que perturbou nossa amizade não sucederá nunca mais. não por mim. representação de uma comédia? —Já lhe supliquei meu perdão. e muitas vezes afligia. As horas que ali passou esteve completamente isolada. que me guardo para aquele a quem amar. Mila!. —Então isso lhe é indiferente. que nem a sombra deles se possa interpor entre nós. Emília respondeu-me com um sorriso delicioso. Terá ciúmes. Desde então parecia que ela se poupava ao mundo. Emília teve um dos seus gestos de rainha. Voltamos aos nossos antigos passeios e às conversas íntimas. mas orguIhoso e contente do meu triunfo. Eu sou um insensato! Mas meu amor é uma tão pura adoração. que as palavras apaixonadas desses homens me pareciam denegri-la como o fumo de um torpe incenso. ou perto de mim e ao meu braço..XVI TINHA caído numa tal prostração de ânimo.. —Deveras!. e fez que cessassem as reuniões em sua própria casa. às vezes tinha lido na véspera sua cópia impressa. dos romances que eu leio? Sofreu vendo-me no teatro assistir à. para entregar-se sem reserva às expansões de meu amor.. e seu olhar envolveu-me daquela ternura compassiva e protetora. Eu. Emília! Obrigado pela senhora. Mas eu. Durante todo esse tempo. Augusto.. Por fim deixou de sair. —Vem tarde! O mal está.. Eu lhe prometo ser outra daqui em diante. —Obrigado. Assim voaram dous meses de felicidade. como para mostrar-me o modo significativo por que despedia os seus adoradores. Uma noite veio sentar-se a meu lado. Emília foi de uma submissão e docilidade que me punha sempre atônito. 53 . realmente soube arredá-los a tal distância que nem um deles se animou a voltar. pousando a mão sobre a minha: —Não me eleve tanto. não sou digna de sua estima.. eu a coloquei tão alto na minha veneração. Loucura!. a cupidez e a baixeza que escondem as paixões improvisadas numa noite de baile e calculadas friamente no dia seguinte. se eu estivesse em meu quarto ou quinto namoro quando o senhor me conheceu.. Augusto! Para mim.. Eu estava outra vez terno e amante a seus pés. Sim! imaculada até dos olhares que resvalam sem penetrar-me!.. feito.. unicamente.. Eu devia saber que elas não chegavam ao seu coração.. até nos domingos. que dava à sua virgem beleza um perfume de ideal maternidade. Augusto.

ou comprava qualquer novidade parisiense recentemente chegada. sem dar grande importância à questão. já a não escutava. Ela. parecia que minha vontade a tiranizava. e fosse feio. tão avessos dos anteriores inspirados no orgulho. e tinha o talento de. Acontecia às vezes que o vestido era da cor ou da moda não preferida por mim. ajoelhava todo meu ser ante o ídolo de sua graça. como estava. Entretanto o vestido era lindo.Tomava para comigo uma atitude de vitima resignada e contrita. insinuar que obedecia ao mínimo aceno meu. fazia dele presente a alguma moça. e abstraía-se às ferventes adorações para se refugiar em não sei que penosa e amarga cisma. O que encantara outra mulher. 54 . ela insistia impaciente. em folha. Em nossos mútuos devaneios. derramava-se por seu rosto uma nuvem de tédio e desgosto. quando era eu mísero quem suportava a tirania de seus caprichos. Sucederam muitos acidentes. Encomendava ela à sua modista algum elegante vestido. Quase sempre esquivava-se logo. parecia enfastiá-la. cativando-me o coração e o pensamento. ela o imolava sem piedade. Se eu incomodava-me com estes novos caprichos de humildade. rompia a conversa. A primeira vez que nos víamos logo me fazia alguma pergunta neste gênero: —Qual é a cor mais de seu gosto? Ou então: —Acha bonita a nova moda de vestidos? Respondia-lhe com volubilidade. antes meiga e dócil à minha palavra. e não tolerava da minha parte a mínima observação. como o que te vou referir. Mas ela sentia não sei que íntimo prazer em humilhar-se aos meus olhos. que eu o achara divino. trajado por ela. ou sepultava-o nos recantos de uma cômoda. e deixando-me só alguns instantes. quando me cabia a vez de falar. Muitas vezes por essa causa nos separamos tristes e magoados. e como eles tão imperativos. vazando as expansões de meu coração cheio.

Achei-a porém já esquecida dessa pequena contrariedade. e agora para sempre. Geraldo entrava nesse momento. que ela esboçava a traços finos e delicados.. mesmo vulgar!. tinha certa gravidade no olhar e na fronte que anunciava o peso de muitos pensamentos ali concentrados.. se me afigurou que essa moça ia outra vez ser-me arrebatada pela vertigem do mundo.. Poderá então impor-me sua vontade. falou do passado.. —Foi ela quem me disse!.. e satisfeita.. É uma esquisitice minha!. enquanto me dirigia com a voz lenta estas palavras: —Está satisfeito? Não foi cegamente obedecido? —Oh! Mila! Obedecido. Emília?... —D. e eu a recebi de joelhos!. que riqueza de paixão. que eu a ia perder. Leocádia. bonita e risonha só para mim!... Eu lhe suplico!. Antes de partir dê-me coragem! Diga-me essa palavra que eu espero há tanto tempo! Ela esquivou a mão. a alma não verte numa só palavra.. Geraldo! respondi eu enfadado.. —Volta cedo? —Não! Vamos ao teatro. mas habituado já a vê-la longe do mundo.. Tive um terror pânico.. Tinha-me. achei o carro à porta e ela na sala pronta para sair. Deixara Emília na véspera descontente por causa de um dos nossos conflitos de submissão recíproca. Espere. mas os hábitos sempre continuados afinal trazem a monotonia. Depois de comparar sua existência anterior tão agitada com o atual isolamento e tranquilidade.. de querer também um juramento solene. que firme seus direitos. fixou-me nos olhos... —Não vê? respondeu correndo os olhos pelo seu trajo... Contudo.. —Ah! fez ela com uma expressão indefinível de tédio.. Mas. Era sua história íntima. Ouvindo as palavras desdenhosas de Emília e vendo-a calçar as luvas.. Amaral? Por que razão proibiste a Mila de sair de casa? —Ora. —Tem muita pressa de ouvir essa palavra!.XVII FOI ontem. prometido não. —Vai sair? perguntei-lhe triste.. recordando de leve as fases por que passara nosso amor. Falou com sua graça costumada. e que remédio terei eu se não sujeitar-me!.. Há. Não compreendo este temor. —Ah!.. não sei que alucinação foi a minha. Hoje à tarde. Nunca hás de ter juízo... subjugado por ela eu apenas pude pronunciar uma frase. não! Não me atrevia a pedir tanto. —Mila. vestindo-se da dignidade fria que a envolvia às vezes como túnica de gelo. o romance de sua alma..... —E tu acreditaste! disse Mila ao irmão com um riso irônico. É uma graça que me concedeu. chegando à sua casa. —É verdade. Que cousa mais simples do que ir ao teatro?... só esperava por D.... meu senhor! Súbita e profunda revolução se operou em mim. que eu procurava. Mas ainda é cedo. 55 . não sei que tristeza profunda me causa esta sua ida ao teatro.. Depois de apertar-me a mão: —Diz-me uma cousa. mas que profusão de sentimentos.. Isto passava-se ontem.

Durante ele evitei encontrar-me com Emília.. Então. Despedi-me e parti...... Paulo. Acabou. no lugar onde o senhor estiver.. se a minha vida é necessária à sua felicidade.. Calou-se um instante. passou-se o que só pode compreender quem viu essa mulher sublime. D. a esta mesma hora. Responder-lhe com uma dessas afeições banais a que o coração reserva apenas as horas vagas que deixam o cálculo e a vaidade. Leocádia entrava.. —Acredite. achei-me calmo. sem amor. a nu.. Realmente já não amo essa mulher. Há horas em que duvido ainda como outrora. como eu pedia a Deus que me desse a fortuna de inspirar!. Quer um juramento? —É inútil! Eu já a não amo! Fui sincero nesse momento.. senhora! Não sei se minha voz ecoou nalma de Emília.. para não ser obrigada a dizer-lhe um dia: "Eu me iludi! Esta vida que lhe dei. Quero esperar um ano ainda. repeti com desprezo. nem o que ouvia. Imagina uma apoteose da beleza. eu lha dou com prazer. Eis a história do meu primeiro e talvez único amor. eu lhe pertenço. e escoado o amor até a última gota. ou se a amo ainda. mas cheia de dedicação!" Ouviu. tome-a.. Eu acabava de ver. tinham traspassado minha alma. Tive a coragem de não aparecer no teatro. Fez-se nela como um jubileu de graça e luz.. não me pertencia. precisava derramar no teu seio as lágrimas que ainda neste momento afogam meu coração. só me resta morrer!" Eis porque eu lhe digo que espere. como ressoava na minha. Paulo. seria uma profanação indigna!. Mas eu estava tão profundamente mergulhado em mim mesmo que não compreendia naquele instante nem o que olhava. —É impossível!.—Basta. mas àquele de quem a roubei e agora a reclama! Trai a um. Augusto?. mas imediatamente sua altivez a serenou. Espero e lhe peço que espere para não causar por engano a sua e minha desgraça. seme1hante afeição está sepultada debaixo de outras paixões que acabarão por aniquilá-la completamente. a sua palavra caindo a uma e uma no meu cérebro. PENSAVA ter concluído esta carta. O que eu sinto agora é só um desejo frio de vingar-me e pagar a Emília desprezo por desprezo. e encontrei-o forte.. os seus olhos nos meus. era o grito de uma paixão na agonia. Emília assim transfigurada teve um sublime gesto de dúvida. Se daqui a um ano eu conhecer que não amo. absorta em dolorosa emoção: senti sua mão pousar no meu ombro. mas o senhor me ama. —Augusto! Seu amor é um nobre e santo amor. o egoísmo frio que ela revelara. Emília caminhou para mim. 56 . São duas horas da noite. Aquela radiante formosura expandiu-se vertendo de si nova e mais esplêndida formosura. Ela mostrou uma ligeira perturbação. não a podia dar.. eu irei dizer-lhe: "Deus negou-me a ventura de amar. falhei meu destino. Minha alma precisava desse momento de repouso entre o amor extinto e o ódio nascente. mas não. o aleijão repulsivo daquele coração de moça. Paulo! Tornei a vê-la! É passado um mês. menti ao outro. Lembrando-me que Emília lá estava e desenhando em meu espírito a imagem de sua fulgurante beleza.. Acha muito? Para decidir de duas existências?. Aquele sarcasmo com que Emília respondera à minha suplica. perscrutei meu coração. —Talvez me iluda!. o seu hálito nas minhas faces. e já nem me lembro que amei! Está agora tão longe de mim esse passado!..

quando veio a falar-se de uma moça. e de repente se casara com o filho de um rico capitalista. que amava seu primo a quem estava prometida. Voltei o rosto sem responder-lhe. ou mesmo de longe me envolve com seu olhar maléfico. —Pois não tenho uma pulseira com a forma de um grilhão?. talvez que de propósito. —Mila! disse-lhe D. esteve a olhar a nódoa roxa que deixara a pressão de meus dedos. —A senhora acredita que a consciência de uma grande infâmia pode matar um homem de brio?. Matilde de longe. longe de ofender-se. Estava encostado ao piano ouvindo Julinha tocar. entre os 57 . Paulo? É a coragem do desespero.. sinto que teria tão grande asco de mim e uma vergonha tal que me fulminaria como o raio! Soltei-lhe o braço. Eu não a desculparia se ela fosse rica. ela cerrou-me tanto. O sarcasmo de Emília irritou-me de uma maneira que ainda agora não compreendo. Mila? perguntou D... E nem só comprá-lo. parece deleitar-se com as explosões do meu desprezo e ressentimento. —Tens. Em outra cena mais larga eu a julgaria capaz de vibrar o punhal de Judite ou de Macbeth. —Hoje brincando. Nessa ocasião Emília aproximou-se de mim e disse-me com o seu habitual sarcasmo: —Já não me ama. —Não deves mais usar dela. Já sabes. Que foi isso? —É o sinal da minha cadeia! respondeu Emília sorrindo. Conversávamos indiferentemente. Matilde. e. Eu começava a sentir uma espécie de pavor dessa menina. malgrado meu. se contentasse em comprá-lo. Não te posso explicar o que foi isso. que pensei me quebrava o pulso!. Adejava em seus lábios um sorriso de mártir. Ela deixou-se cair sobre uma cadeira. Desde esse dia quando ela se aproxima de mim.. a culpa foi minha. os pequenos as humilham. Seria porque eu ainda a amo. sim. —Pois eu desculpo essa moça. Mas ela.. O que tens no braço esquerdo? —É verdade! acudiu Julinha.. e para mostrar a contusão. sustendo com a outra mão o pulso magoado. a mãe chamou-a. seu amor tinha talvez a coragem da morte. Eu me afastara indignado de minha própria brutalidade. a minha coragem vacila. com o seu dinheiro.Foi há três dias que a vi pela primeira vez depois do nosso rompimento. mas acenar. Há naturezas assim. mas não tinha a coragem da pobreza. Está roxo. para ter o prazer incompreensível de aviltar a turba de adoradores. Emília estava sentada quase defronte de mim. Cubro-me então com o motejo ofensivo e grosseiro. eu tomei sua defesa contra Julinha. A raiva que sinto de mim mesmo reflui sobre ela. e em vez de sentir o orgulho de inspirar um amor capaz de resistir a essa sedução do dinheiro. Pois se fosse possível que eu viesse a amá-la ainda. Por que foge de mim? Tem medo? Estávamos sós na sala. como os avarentos. a incompreensível criatura. Havia nela inspiração heróica e a tentação satânica que o gênio do bem ou do mal derrama sobre a humanidade pela transfusão da mulher. e sua palavra me denunciara minha própria vileza? No jantar incomodava-me muito aquela nódoa roxa. D. —Que cadeia. —Por quê? Ela é inocente.... a noiva era acremente censurada. os grandes sacrifícios as exaltam. Jantava eu em casa de D. Travei-lhe do braço e apertei-o com ímpeto brutal. Não foi? disse espreguiçando sobre mim o lânguido olhar. Julinha.. Que queres. Leocádia. e a cada momento seu braço volteava em torno dela. Ainda ontem.

retrai-me contra a árvore para não tocá-la. Fiquei ali imóvel. e veio a mim feita em risos. com as costas apoiadas a uma árvore do jardim. porque o meu primeiro assomo fora terrível. do alto de sua beleza mais que nunca altiva e radiosa atirou-me um olhar augusto. vendo-a de longe a voltear entre os arbustos. Um marido regateado!. 58 . se eu desse naquela circunstância um primeiro passo para essa moça. Parou enfim: estendendo o lábio altivo. Tive necessidade de insultar essa moça. e não sei que elação deu ela com esse movimento ao seu talhe. uma voz que parecia canto. grito e soluço ao mesmo tempo: —Que é isso. reação da grande cólera... Conservava-me de pé no mesmo lugar. Vendo-a aproximar-se tanto. com o passo tão doce e lento que resvalava sobre a areia. e agora a fímbria de seu vestido roçagando rojava pela areia. e de propósito inclinavase mais para enegrecê-la no pó.. meiguice e sarcasmo. desprezo e ternura. que parecia subida a um trono. uma voz onde havia tudo. Ergueu-se. como se fora a minha alma abjeta que ela arrastasse assim pelo chão. ódio e amor. Eu não sei o que seria de mim.quais ela afinal escolherá um marido!.. e ela olhava-a sorrindo por cima do ombro. Ela atravessou o espaço que nos dividia. se não amor?. onde a orla de seu vestido mal roçava. Firmei-me ao tronco da árvore com todas as minhas forças. Emília soltou uma risada argentina. De repente senti uma calma assustadora derramar-se em minha alma: era alguma cousa como uma algidez moral. Ama-me ainda e mais do que nunca! Voltou. disse-me com uma voz indefinível...

. ambos erramos. e honestamente. há tempo. —O que lhe vou dizer é talvez humilhante para mim. A alguma distância. mas diga sempre. —Mentiu-me. —Menti. Foi o senhor mesmo quem se denunciou!. Aproximei-me . voltou-se de novo para mim e sorriu. —Ah! fez ela cerrando as pálpebras e encostando a cabeça no recosto do banco para ouvir-me impassível.... eu quero ser franco. só havia um recurso à minha ambição. a beleza de Emília. nós estamos representando o papel de duas crianças. Paulo! Que noite de ira. inclinando-se com um sério imperturbável. —Eu não sou inteiramente pobre.. irritavame. ela continuou seu passeio solitário pela chácara. confesso!.. Falei-lhe com volubilidade. Mas essa doçura da tarde.. e para que estas cenas não se repitam. D. e tenho acima de tudo a ambição do dinheiro. chegavamnos através das folhas e da sombra com uma suavidade extrema. Como eu hesitasse se devia segui-la. tudo que havia de suave ali. travada do fel que borbotava do coração. atormentando-nos um ao outro. Adivinha qual? —Suspeito. e não havia bálsamos. —D. coando entre os cílios e partindo-se em mil raios. —O do casamento.... As vozes de Julinha e das outras moças que passeavam ao lado oposto. eu não amo a senhora. A mentira é irmã do insulto. Ontem. senão cautérios. mal dá para viver com decência. a senhora sabe que não há no Brasil carreira alguma pela qual se possa chegar depressa. 59 . Portanto sendo eu honesto. Estavam todos no jardim. Emília. —É um recurso lícito e fácil. —Creio antes que mente agora. Depois de alguns instantes. mas eu me sacrifico! —Muito agradecida! Isso me penhora: respondeu-me.. A senhora me fez uma vez. A minha. eu tinha a alma ulcerada. —Desculpemo-nos mutuamente. os perfumes das flores. uma sombra luminosa ainda e de uma doçura imensa derramavase por aqueles lugares. porque tenho medo da polícia. —Não tanto como lhe parece. voltou-se e olhou-me. e talvez servindo de tema à malignidade alheia. Seu olhar. mas também não sou rico. sua confissão: quer ouvir a minha? —Fale! replicou Emília com um tom de ameaça. repito. e não gosto que me incomodem. Chegando à cerca onde as murtas formavam um bosque espesso em torno de assentos de pedra. então?.. Emília. para cicatrizá-la.XIX VOLTO de sua casa.... Sentamo-nos: eram seis horas da tarde. sendo eu honesto. —Já lhe disse e repito. —A exceção do comércio. Nunca amei!. Emília ergueu-se e afastou lentamente do grupo. Que noite. à riqueza. D.. parou para colher uma flor. fez-me um aceno gracioso. como o trêmulo rutilo-de uma estrela. Emília..... foi esta para mim! Cheguei ao Rio Comprido quase ao escurecer. cintilava sobre o meu rosto. a senhora cuida que não ouviram suas palavras? —Que as ouvissem!.

. seria um absurdo.. pois se eu quero ser rico é para ser feliz. A senhora quer! É verdade! Eu a amo! Mas aquela adoração de outrora. —O que é que a senhora compreende. pensei eu. alguém. —Ah! Eu ignorava! —Pois saiba que é.. Duarte tinham prosperado por tal forma que ele era.. do ouro. ergueu-se indomável em minha alma. e as suas comparações minerais. senti-me atraído para a senhora por uma inclinação que eu considerei amor .. Não sei se deva continuar!. Como sua formosura então revelou-se resplancedente aos meus olhos!.. vendo-a quando voltei da Europa. não o amei.. Eu compreendi nessa ocasião os poetas que eu não compreendera nunca. de me desprezar! O senhor ama-me. A paixão recalcada por algum tempo. —Para mim.. Como não fiquei ao ver aquela mulher. a meu lado. Então D.. assegurou-me que o Sr. —Bem.. a melodia do ouro. doutor? Eu estou ouvindo-o com um prazer imenso! —Mas eu me acanho... que sabem viver Mas nós nos conhecemos!.. eu continuo... —Pois bem...—Ora! Para o senhor?. e há de esperar aqui. —Por que não. se não o maior.. Oh! Que paixão. tornou-se uma paixão digna de Romeu. e seus olhos diamantes da melhor água! Sua voz argentina tinha aos meus ouvidos essa melodia inefável. um dos maiores e mais sólidos capitalistas da praça do Rio de Janeiro. Duarte era nada menos que milionário. que pensava têla afinal humilhado com meu frio sarcasmo.. aquele culto sagrado cheio de respeito e admiração... em face de mim.. e há de amar-me enquanto eu quiser... que nem Rossini nem Verdi puderam ainda imitar. faminto. repassado de ódio. uma loucura. Viúvo. é o amor brutal. só com dois filhos. e a raiva de querê-la e obrigá-la a pertencer-me para sempre e contra sua própria vontade!... e precipitou como uma fera sedenta para essa mulher. Foi então que eu não pude mais resistir e confessei-lhe que a amava! Emília ergueu-se rápida: —Ah! compreendo agora!. que não tem. dos mais celebrados heróis de dramas e romances.. Disse-lhe que a amava já muito. porque embora ambicioso. Toda a lia que o pecado original depositou no fundo do coração humano. Um dia.. é que posso jurar-lhe: não o amo. Emília? —Que eu vivo em sua alma! E como o senhor não pode arrancar-me dela. Tudo isso morreu! O que resta agora neste coração que a senhora esmagou por um bárbaro divertimento. Porque eu. Vi que seus dentes mimosos eram realmente pérolas de Ceilão.... eu não estou disposto a sacrificar à riqueza minha felicidade. sim senhora .. respondeu-me Emília. e essa inclinação. exclamei eu com a voz surda e trêmula...... D.. a senhora bem sabe. não devo ocultar cousa alguma para minha maior vergonha. o que resta. deviam incutir-lhe terror. —É modéstia própria dos homens de talento. —Eu o desprezo!... essa inclinação aumentou involuntariamente quando soube que os negócios do Sr. a lira de Orfeu deste século!. até que chegue a hora em que me perca para sempre. revolveu-se e extravasou... de Otelo. D. mas isso não era nada em comparação do que senti depois. duas vezes milionário. Emília! Era um delírio. —E como pretende conciliar isto? Deve ser curioso... creio que um corretor... 60 . —É agora que eu preciso de toda a sua indulgência. é o desespero de se ver escarnecido. procura rebaixar-me a seus próprios olhos e humilhar-me para ter a força. exultando de júbilo e orgulho ali... e meu passo hirto... e meu olhar abrasado... seus lábios rubis de Ofir. Eu avancei para Emília... não o amarei nunca. Emília terá um milhão do dote! Um milhão! Desde esse momento meu amor não teve mais limites.

chamando a prima. Corri espavorido. hesitei. Ela atirara rapidamente para trás a altiva cabeça. arqueando o talhe. Emília estava a meus pés. e parecia que a prima se tinha afastado. Sem sentir eu lhe travara dos pulsos e a prostrara de joelhos diante de mim. soluçou a voz maviosa. Fiz um esforço supremo. Quando o silêncio restabeleceu-se.. ficou muda enquanto os ecos da voz de Julinha continuando a chamála ressoavam ao longe. Seu hálito abrasado passou em meu rosto como um sopro de tormenta.. E ela ali estava diante de mim. erguendo para mim seu divino semblante que o pranto orvalhava. Emília arrastou-se de joelhos pelo chão. —Criança!. A voz de Julinha soou no jardim. murmurei afastando-me.. inclinei-me para beijar-lhe a fronte. e erigindo o talhe e cruzando os braços afrontou-me com o olhar. essa orgulhosa menina não exalava um queixume . e sorria submissa e amante. ela veio colocar-se em face de mim.. Fechei os olhos. Apertou-me convulsa as mãos. —Fuja. Augusto! Eu te amo!. Perdão. 61 .. soltei-lhe os braços magoados e ela caiu com a fronte sobre a areia. onde a sua. senhora! Ela não se moveu. como se a quisera esmagar. Eu ia dar um ultimo passo para Emília. Apesar da minha raiva e da violência com que a molestava. Seus lábios úmidos das lágrimas pousaram rápidos na minha face. —O senhor é um infame! disse com arrogância... fugindo como um fantasma a essa visão sinistra.Era quase noite. e sua mão fina e nervosa flagelou-me a face sem piedade. Quando dei acordo de mim. —Perdão!. mão tinha tocado.. E louca!.

"Quero guardar-me toda só para ti. A minha vida terminou. e os meus próprios lábios que roçaram tua face num beijo de perdão. Augusto.. nem uma emoção fatigou-a ainda. Augusto?. guardei-a até agora virgem e pura . —Sim! Eu te amo!. que eu respeito depois que ela te confessou que eu te amo. Segui-te repetindo mil vezes que te amava.... Vendo-me. toda essa bela criatura assumiu-se num só e inefável sorriso para cair aos meus pés.XX SIM.que tu havias apertado. Acabando de ler o que ela me escrevera. aqui na cidade. meu Deus. que me santificara como uma cousa tua! "Vieram encontrar-me submergida assim na minha felicidade. falariam para dizer-te.. e de repente todo aquele ódio violento e profundo fez-se amor! Mas que amor! "Desde então me sinto como inundada por este imenso júbilo de amar." São onze horas. se tivessem uma voz. difundindo sua alma nestas palavras impetuosas: —Eu te amo. Era alguma cousa de ti. como o rouxinol canta na primavera e as harpas eólias ressoam ao sopro de Deus. "Que suprema delícia. Entretanto receio que ela não baste para tanta paixão.. foi para mim a dor que me causavam os meus pulsos magoados pelas tuas mãos! Como abençoei este sofrimento!. Eu?. Quando ela desafogou sua alma desta exuberância da paixão. que tinham ficado em minha pessoa e entravam em mim para tomar posse do que te pertencia. Emília. Eu te pertenço. Augusto! Depois continuou repetindo uma e muitas vezes a mesma frase. confessei-o a cada flor que me cercava. "Por que me fugiste. Recebo agora esta carta. eu te amo!.. Eram as notas da celeste harmonia que seu coração vibrava. meus cabelos soltos.. detestava-te com todas as forças de minha alma.. minhas mãos súplices.. de joelhos.. sou uma 62 . Não lhes falei.. falei-lhe : —Mas reflita. A que nos levará esse amor? —Não sei!. tinha tão grande terror de mim mesmo. Quando fugi ontem de Emília. beijei a mão que te ultrajara num momento de loucura. essa grande luz encheu meu coração. Tu não és só o árbitro supremo de minha alma. És tu que deves pensar e querer por mim.. a cada estrela que luzia no céu. O que sei é que te amo!. a tua cólera e indignação. porém eu só ouvia os cânticos de minha alma cheia das melodias do meu amor. como se estudasse uma modulação de voz que pudesse exprimir quanto havia de sublime naquele grito d'alma... começo agora a viver em ti. —eu te amo! Tudo em mim. absorta em seu enlevo. Já não tenho outra consciência de minha vida. Augusto: eu te espero. Achei Emília sentada em uma cadeira.. és o motor de minha vida. Minha alma vinha aos meus lábios para voar a ti nesta abençoada palavra. Eu te amo!. pedi a Deus que me desse coragem para resistir: —Senhor! Vós sabeis que eu não devo amar essa mulher! Seria uma infâmia!. Não deixei que me tocassem para não te ofenderem no que é teu. meu pensamento e minha vontade. porque te amo. É preciso que eu derrame em torno de mim a felicidade que me esmaga.. Pedi a Deus que tornasse indelével esse vestígio de tua ira.. a teus pés. Minha alma é grande e forte. meus olhos cheios de lágrimas. Interrogaram-me. que não me animei a ficar no Rio Comprido. Acabava de ultrajar-te cruelmente. respondeu-me com indefinível candura. —ela te ama! "Beijei na areia os sinais de teus passos.. com receio de profanar a minha voz. "Tua Emília. Vem. "Naquele momento.. Sei que existo. beijei os meus braços . um ímpeto de tua alma.

63 ... Podes conservá-la ou destrui-la... podes fazer dela tua mulher ou tua escrava!. Só o que tu não podes em mim. Enfim.. é fazer que eu não te ame!. Ela é minha mulher. eu ainda a amava!.. É o teu direito e o meu destino. Paulo.cousa tua.

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