CAOS

Terrorismo Po´tico e e Outros Crimes Exemplares
Hakim Bey

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Sum´rio a
1 Caos: Os Panfletos do Anarquismo Ontol´gico o 1.1 Caos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.2 Terrorismo Po´tico (TP) . . . . . . . . . . . . . e 1.3 Amor Louco (AL) . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.4 Crian¸as Selvagens . . . . . . . . . . . . . . . . c 1.5 Paganismo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.6 Arte-Sabotagem (AS) . . . . . . . . . . . . . . . 1.7 Os Assassinos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.8 Pirotecnia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.9 Mitos do Caos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.10 Pornografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.11 Crime . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1.12 Feiti¸aria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . c 1.13 Publicidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 Comunicados da AAO 2.1 Comunicado #1 (Primavera de 1986) . . 2.2 Comunicado #2 . . . . . . . . . . . . . . 2.3 Comunicado #3 . . . . . . . . . . . . . . 2.4 Comunicado #4 . . . . . . . . . . . . . . 2.5 Comunicado #5 . . . . . . . . . . . . . . 2.6 Comunicado #6 . . . . . . . . . . . . . . 2.7 Comunicado #7 . . . . . . . . . . . . . . 2.8 Comunicado #8 . . . . . . . . . . . . . . 2.9 Comunicado #9 . . . . . . . . . . . . . . 2.10 Comunicado #10 . . . . . . . . . . . . . 2.11 Comunicado #11 . . . . . . . . . . . . . 2.12 Comunicado Especial do Dia das Bruxas 2.13 Comunicado Especial . . . . . . . . . . . 2.14 Anarquia do P´s-Anarquismo . . . . . . o 3 5 5 6 7 8 10 11 12 13 14 16 18 19 20 23 23 25 26 27 28 31 33 36 37 38 40 42 44 45

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4 2.15 2.16 2.17 2.18 2.19 2.20 2.21 2.22 Coroa Negra e Rosa Negra . . . . . . . . . . . . . . . . . . Instru¸˜es para Kali Yuga . . . . . . . . . . . . . . . . . . co Contra a Reprodu¸˜o da Morte . . . . . . . . . . . . . . . ca Sonora Den´ncia do Surrealismo . . . . . . . . . . . . . . . u Por um Congresso de Religi˜es Estranhas . . . . . . . . . . o Terra Oca . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Nietzsche e os Dervixes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Resolu¸˜o para os anos 1990: Boicote ` Cultura Policial!!! ca a . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

´ SUMARIO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47 52 54 57 58 60 62 64

Este livro foi lan¸ado pela Conrad Editora do Brasil – 2003. c Tradu¸˜o de Patricia Decia & Renato Resende ca www.conradeditora.com.br Vers˜o digital baseada em uma c´pia do livro publicada pelo CMI: a o http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/12/296700.shtml Esta vers˜o foi revisada de acordo com o original em inglˆs dispon´vel em: a e ı http://www.hermetic.com/bey/taz cont.html Setembro de 2007. http://catarse.co.nr/hakimbey/

(Dedicado a Ustad Mahmud Ali Abd al-Khabir)

Cap´ ıtulo 1 Caos: Os Panfletos do Anarquismo Ontol´gico o
1.1 Caos

O Caos nunca morreu. Bloco intacto e primordial, unico monstro digno de adora¸˜o, ´ ca inerte e espontˆneo, mais ultravioleta do que qualquer mitologia (como as sombras ` a a Babilˆnia), a original e indiferenciada unidade-do-ser ainda resplandece, imperturb´vel o a como as flˆmulas negras fren´tica e perpetuamente embriagada dos Assassinos1 . a e O caos ´ anterior a todos os princ´ e ıpios de ordem e entropia, n˜o ´ nem um deus nem a e uma larva, seu desejos primais englobam e definem todas coreografia poss´ ıvel, todos ´teres e e flog´ ısticos sem sentido algum: suas m´scaras, como nuvens, s˜o cristaliza¸˜es da sua a a co pr´pria ausˆncia de rosto. o e Tudo na natureza, inclusive a consciˆncia, ´ perfeitamente real: n˜o h´ absolutamente e e a a nada com o que se preocupar. As correntes da Lei n˜o foram apenas quebradas, elas a nunca existiram. Demˆnios nunca vigiaram as estrales, o Imp´rio nunca come¸ou, Eros o e c nunca deixou a barba crescer. N˜o. Ou¸a, foi isso que aconteceu: eles mentiram, venderam-lhe id´ias de bem e mal, a c e infundiram-lhe a desconfian¸a de seu pr´prio corpo e a vergonha pela sua condi¸˜o de c o ca profeta do caos, inventaram palavras de nojo para seu amor molecular, hipnotizaramno com a falta de aten¸˜o, entediaram-no com a civiliza¸˜o e todas as suas emo¸˜es ca ca co mesquinhas. N˜o h´ transforma¸˜o, revolu¸˜o, luta, caminho. Vocˆ j´ ´ o monarca de sua pr´pria a a ca ca e ae o pele – sua liberdade inviol´vel espera ser completa apenas pelo amor de outros monarcas: a uma pol´ ıtica se sonho, urgente como o azul do c´u. e Para lograr abrir m˜o de todos os acentos e hesita¸˜es ilus´ria da hist´ria, ´ preciso a co o o e evocar a economia de uma Idade da Pedra lend´ria – xamˆs e n˜o padres, bardos e n˜o a a a a senhores, ca¸adores e n˜o policiais, coletores paleoliticamente pregui¸osos, gentis como c a c sangue, que ficam nus para simbolizar algo ou se pintam como p´ssaros, equilibrados a
O autor refere-se aos Hassasin ou Hassisin (“consumidores de haxixe”), membros de uma seita islˆmica a secreta que durante as Cruzadas emboscavam l´ ıderes crist˜os. Eles agiam supostamente sob a influˆncia a e de haxixe, da´ seu nome. Ver p´gina 12 (N.T) ı a
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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

sobre a onda da presen¸a expl´ c ıcita, o agora-sempre atemporal. Agentes do caos lan¸am olhares ardentes a qualquer coisa ou pessoa capaz de suportar c ser testemunha de sua condi¸˜o, sua febre por lux et voluptas. Estou desperto apenas ca no que amo e at´ o limite do terror – todo o resto ´ apenas mob´ coberta, anestesia e e ılia di´ria, merda para c´rebros, t´dio sub-r´ptil de regimes totalit´rios, censura banal e dor a e e e a desnecess´ria. a Avatares do caos agem com espi˜es, sabotadores, criminosos do amor louco, nem geo nerosos nem generosos nem ego´ ıstas, acess´ ıveis como crian¸as, semelhantes a b´rbaros, c a perseguidos por obsess˜es, desempregados, sexualmente perturbados, anjos terr´ o ıveis, espelhos para a contempla¸˜o, olhos que lembram flores, piratas de todos os signos e sentidos. ca Aqui estamos, engatinhando pelas frestas entres as paredes da Igreja, do Estado, da Escola e da Empresa, todos os monolitos paran´icos. Arrancados da tribo pela nostalgia o selvagem, escavamos em busca de mundos perdidos, bombas imagin´rias. a A ultima proeza poss´ ´ aquela que define a pr´pria percep¸˜o, um invis´ cord˜o ´ ıvel e o ca ıvel a de ouro que nos conecta: dan¸a ilegal pelos corredores do tribunal. Seu eu fosse beijar vocˆ c e aqui, chamariam isso de um ato de terrorismo – ent˜o vamos levar nossos rev´lveres para a o a cama e acordar a cidade ` meia-noite como bandidos bˆbados celebrando a mensagem a e do sabor do caos com um tiroteio.

1.2

Terrorismo Po´tico (TP) e

Dan¸ar de forma bizarra durante a noite inteira nos caixas eletrˆnicos dos banco. c o 2 Apresenta¸˜es pirot´cnicas n˜o autorizadas. Land-art , pe¸as de argila que sugerem esco e a c tranhos artefatos alien´ ıgenas espalhados em parques estaduais. Arrombe apartamentos, mas, em vez de roubar, deixe objetos Po´tico-Terroristas. Seq¨estre algu´m e o fa¸a feliz. e u e c Escolha algu´m ao acaso e o conven¸a de que ´ herdeiro de uma enorme, in´til e e c e u impressionante fortuna – digamos, 5 mil quilˆmetros quadrados na Ant´rtica, um velho o a elefante de circo, um orfanato em Bombaim ou uma cole¸˜o de manuscritos de alquimia. ca Mais tarde, essa pessoa perceber´ que por alguns momentos acreditou em algo extraora din´rio e talvez se sinta motivada a procurar um modo mais interessante de existˆncia. a e Coloque placas de bronze comemorativas nos lugares (p´blicos ou privados) onde vocˆ u e teve uma revela¸˜o ou viveu uma experiˆncia sexual particularmente inesquec´ etc. ca e ıvel Fique nu para simbolizar algo. Organize uma greve em sua escola ou trabalho em protesto por eles n˜o satisfazerem a a sua necessidade de indolˆncia e beleza espiritual. e A arte do grafite emprestou alguma gra¸a aos horr´ c ıveis vag˜es do metrˆ e s´brios o o o monumentos p´blicos – a arte-TP tamb´m pode ser criada para lugares p´blicos: poemas u e u rabiscados nos lavabos dos tribunais, pequenos fetiches abandonados em parques e restaurantes, arte-xerox sob o limpador de p´ra-brisas de carros estacionados, slogans escritos a com letras gigantes nas paredes de playgrunds, cartas anˆnimas enviadas a destinat´rios o a
Corrente que pretende utilizar os espa¸os naturais de cria¸˜o art´ c ca ıstica. Para isso, fazem coisas como empilhar pedras, tra¸ar imensas linhas de gesso em desertos, cavar tumbas etc. (N.E.) c
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1.3. AMOR LOUCO (AL)

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previamente eleitos ou escolhidos ao acaso (fraude postal), transmiss˜es de r´dio piratas. o a Cimento fresco... A rea¸˜o do p´blico ou choque-est´tico produzido pelo TP tem de ser uma emo¸˜o ca u e ca menos t˜o forte quanto o terror – profunda repugnˆncia, tes˜o sexual, temor supersticioso, a a a s´bitas revela¸˜es intuitivas, ang´stia dad´ – n˜o importa se o TP ´ dirigido a apenas u co u ısta a e uma ou v´rias pessoas, se ´ “assinado” ou anˆnimo: se n˜o mudar a vida de algu´m (al´m a e o a e e da do artista), ele falhou. TP ´ um ato num Teatro da Crueldade sem palco, sem fileiras de poltronas, sem e ingressos ou paredes. Pare que funcione, o TP deve afastar-se de forma categ´rica de o todas as estruturas tradicionais para o consumo de arte (galerias, publica¸˜es, m´ co ıdia). Mesmo as t´ticas da guerrilha Situacionista do teatro de rua talvez j´ tenham se tornado a a conhecidas e previs´ ıveis demais. Uma primorosa sedu¸˜o praticada n˜o apenas em busca da satisfa¸˜o m´tua, mas ca a ca u tamb´m como um ato consciente de uma vida deliberadamente bela – talvez isso seja o TP e em seu alto grau. Os Terroristas-Po´ticos comportam-se como um trapaceiro totalmente e confiante cujo objetivo n˜o ´ dinheiro, mas transforma¸˜o. a e ca N˜o fa¸a TP Para outros artistas, fa¸a-o para aquelas pessoas que n˜o perceber˜o a c c a a (pelo menos n˜o imediatamente) que aquilo que vocˆ fez ´ arte. Evite categorias art´ a e e ısticas reconhec´ ıveis, evite politicagem, n˜o argumente, n˜o seja sentimental. Seja brutal, assuma a a riscos, vandalize apenas o que deve ser destru´ fa¸a algo de que as crian¸as se lembrar˜o ıdo, c c a por toda a vida – mas n˜o seja espontˆneo a menos que a musa do TP tenha se apossado a a de vocˆ. e Vista-se de forma intencional. Deixe um nome falso. Torne-se uma lenda. O melhor TP ´ contra a lei, mas n˜o seja pego. Arte como crime; crime como arte. e a

1.3

Amor Louco (AL)

O amor louco n˜o ´ uma social-democracia, n˜o ´ um parlamentarismo a dois. As a e a e atas de suas reuni˜es secretas lidam com significados amplos, mas precisos demais para a o prosa. Nem isso, nem aquilo – seu Livro de Emblemas treme em suas m˜os. a Naturalmente, ele caga para os professores e para a pol´ ıcia. Mas tamb´m despreza e os liberais e os ide´logos – n˜o ´ um quarto limpo e bem iluminado. Um top´grafo o a e o embusteiro projetou seus corredores e e seus parques abandonados, criou sua decora¸˜o ca de emboscada feita de tons pretos lustrosos e vermelhos man´ ıacos membranosos. Cada um de n´s possui metade do mapa – como dois potentados renascentistas, defio nimos uma nova cultura com a nossa excomungada uni˜o de corpos, fus˜o de l´ a a ıquidos – as fronteiras imagin´rias da nossa cidade-Estado se borram com o nosso suor. a O anarquismo antol´gico nunca retornou de sua ultima viagem de pecas. Conquanto o ´ ningu´m nos denuncie para o FBI, o Caos n˜o se importa nem um pouco com o futuro da e a civiliza¸˜o. O amor louco procria apenas por acidente – seu objetivo principal ´ engolir a ca e Gal´xia. Uma conspira¸˜o de transmuta¸˜o. a ca ca Seu unico interesse pela Fam´ est´ na possibilidade de incesto (“Amplie o seu ´ ılia a ´ mais sincero dos leitores, semelhante meu, meu Eu”, “Toda pessoas ´ um Fara´”) – O, e o

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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

irm˜o/irm˜ – e na masturba¸˜o de uma crian¸a ele encontra, oculta (como uma caixaa a ca c surpresa japonesa com flores de papel), a imagem do esfarelamento do Estado. As palavras pertencem `queles que as usam apenas at´ algu´m as roube de volta. a e e Os surrealistas se desgra¸aram ao vender o amor louco para a m´quina de sombras do c a Abstracionismo – a unica coisa que procuraram em sua inconsciˆncia foi o poder sobre os ´ e outros, e nisso foram seguidores de Sade (que queria “liberdade” apenas para que homens brancos e adultos pudessem estripar mulheres e crian¸as). c O amor louco ´ saturado de sua pr´pria est´tica, enche-se at´ as bordas com a trajet´ria e o e e o de seus pr´prios gestos, vive pelo rel´gio dos anjos, n˜o ´ um destino adequado para o o a e comiss´rios ou lojistas. Seu ego evapora-se com a mutabilidade do desejo, seu esp´ a ırito comunal murcha em contato com o ego´ ısmo da obsess˜o. a O amor louco pede uma sexualidade incomum. O mundo anglo-sax˜o p´s-protestante a o canaliza toda sua sensualidade reprimida para a publicidade e divide-se entre multid˜es o conflitantes: caretas hist´ricos versus clones prom´ e ıscuos e ex-ex-solterios. O AL n˜o quer a se alistar no ex´rcito de ningu´m, n˜o toma partido na Guerra dos Sexos, entedia-se e e a com os argumentos a favor de iguais oportunidades de trabalho (na verdade, recusa-se a trabalhar para ganhar a vida), n˜o reclama, n˜o explica, nunca vota e nunca paga a a impostos. O AL gostaria de ver todo bastardo (“filho natural”) chagar ao fim de sua gest˜o e a nascer – o AL vive de aparelhos antientr´picos – o AL adora ser molestado por crian¸as o c 3 – o AL ´ melhor que sensimilla – o AL leva para onde for sua pr´prias palmeiras e sua e o pr´pria lua. O AL admira o tropicalismo, a sabotagem, a break dance, Layla e Majnun4 , o o cheiro de p´lvora e de esperma. o O AL ´ sempre ilegal, n˜o importa se disfar¸ado de casamento ou de um grupo de e a c escoteiros – sempre embriagados do vinho de suas pr´prias secre¸˜es ou do fumo de suas o co virtudes polimorfas. N˜o ´ a deteriora¸˜o dos sentidos, mas sim sua apoteose – n˜o ´ o a e ca a e resultados da liberdade, mas seu pr´-requisito. Lux et voluptas. e

1.4

Crian¸as Selvagens c

O insond´vel rastro de luz da lua cheia – meados de maio, meia-noite em algum Estado a americano que come¸as com “I”, t˜o bidimensional que mal se pode dizer que possui uma c a geografia – o luar ´ t˜o urgente e tang´ que ´ preciso fechar as cortinas para se poder e a ıvel e pensar em palavras. Nem pense em escrever para as Crian¸as Selvagens. Elas pensam em imagens – para c elas a prosa ´ um c´digo ainda n˜o inteiramente digerido e sedimentado, assim como, para e o a n´s, ela nunca ser´ totalmente confi´vel. o a a Vocˆ pode escrever sobre elas, para que outros, que tenham perdido o cord˜o de prata, e a ´ possam nos compreender. Ou escrever para elas, fazendo das HISTORIA e do EMBLEMA
Tipo de maconha feita a partir dos brotos e das flores da cannabis e que apresenta 7,5% de THC, seu componente psicoativo. (N.E) 4 Lend´rios amantes do mundo ´rabe. Ver o livro de Nizami Laila & Majnun – A Cl´ssica Hist´ria de a a a o Amor da Literatura Persa, Jorge Zahar Editor. (N.E)
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1.4. CRIANCAS SELVAGENS ¸

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um processo de sedu¸˜o de suas pr´prias mem´rias paleol´ ca o o ıticas, uma b´rbara tenta¸˜o a ca para a liberdade (o caos na compreens˜o do pr´prio CAOS). a o Para essa esp´cie do outro mundo, ou “terceiro sexo”, les enfants sauvages, ilus˜o e e a Imagina¸˜o ainda s˜o indissoci´veis. JOGO licencioso: de uma s´ vez e ao mesmo tempo ca a a o a fonte de nossa Arte e de todo o mais precioso erotismo da ra¸a. c Abra¸ar a desordem como fonte de estilo e como armaz´m de vol´pia, um fundamento c e u de nossa civiliza¸˜o alien´ ca ıgena e oculta, nossa est´tica conspirat´ria, nossa espionagem e o lun´tica – essa ´ a a¸˜o (reconhe¸amos) de um certo tipo de artista ou de uma crian¸a de a e ca c c 10 ou 13 anos. As crian¸as, denunciadas por seus pr´prios sentidos purificados, pela brilhante feiti¸aria c o c de uma prazer belo, espelham algo de fatal e obsceno na pr´pria natureza da realidade: o anarquistas ontol´gicos naturais, anjos do caos – seus gestos e cheiros emanam para o seu entorno uma selva de presen¸a, uma floresta de press´gios repleta de cobras, armas c a ninja, tartarugas, xamanismo futur´ ıstico, confus˜o incr´ a ıvel, urina, fantasmas, luz do sol, ejacula¸˜es, ninhos e ovos de p´ssaros – agress˜o cheia de alegria contra os crescentes co a a gemidos daquelas Regi˜es Inferiores incapazes de englobar tanto epifanias destruidoras o quanto a cria¸˜o, como farsa fr´gil, mas afiadas o bastante para contar o luar. ca a No entanto, os habitantes dessas insignificantes prov´ ıncias inferiores acreditam que realmente controlam os destinos das Crian¸as Selvagens – e aqui embaixo, tais cren¸as c c viciadas moldam, de fato, a maior parte da substˆncia da casualidade. a Os unicos que realmente desejam compartilhar o destino travesso dos fugitivos selva´ gens ou crian¸as guerrilheiras (em vez de tentar control´-lo), os unicos, artistas, anarquisc a ´ tas, pervertidos, her´ticos, um bando ` parte (distantes um do outro e do mundo), ou e a capazes de se encontrar apenas como as crian¸as selvagens se encontram, trocando olhares c secretos ` mesa de jantar enquanto os adultos tagarelam por detr´s de suas m´scaras. a a a Jovens demais para helic´pteros de guerra – fracassados na escola, dan¸arinos de o c break, poetas p´beres de vilarejos ` beira da estrada – um milh˜o de centelhas caindo u a a em cascata dos roj˜es de Rimbaud e Mogli – fr´geis terroristas cujas bombas espalhao a fatosas s˜o amor polimorfo e preciosos fragmentos compactados de cultura popular – a franco-atiradores punks sonhando em furar as orelhas, ciclistas animistas deslizando no crep´sculo cor de estanho pelas ruas com flores acidentais nos bairros mais miser´veis – u a mergulhadores ciganos nus fora de temporada, ladr˜es sorridentes, de olhar enviesado, de o totens poderosos, troco pequeno e navalhas de pantera – est˜o em todos os lugares, n´s os a o vemos – publicamos esta oferta para trocar a corrup¸˜o do nosso pr´prio lux et gaudium ca o por sua perfeita e gentil imund´ ıcie. Compreenda: nossa realiza¸˜o, nossa liberta¸˜o depende da deles – n˜o porque imica ca a tamos a Fam´ ılia, estes “avaros do amor” que mantˆm ref´ns para um futuro banal, ou e e Estado, que nos ensina a afundar num horizonte de eventos de enfadonha “utilidade” – n˜o – mas porque n´s e eles, os selvagens, somos o espelho um do outro, unidos e limitados a o por aquele cord˜o de prata que define as fronteiras entre a sensualidade, a transgress˜o e a a a revela¸˜o. ca N´s temos os mesmos inimigos e nossos meios para o escapa triunfal tamb´m s˜o os o e a mesmos: um jogo delirante e obsessivo, energizado pelo brilho espectral dos lobos e seus filhotes.

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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

1.5

Paganismo

Constela¸˜es por onde dirigir o barco da alma. co “Se o mu¸ulmano entendesse o Isl˜, ele se tornaria um adorador de ´ c a ıdolos.” – Mahmud Shabestari. Elegu´5 , o porteiro horroroso com um gancho na cabe¸a e conchas nos lugar dos olhos, a c charutos negros de macumba e copo de rum – como Ganesh6 , o deus dos In´ ıcios, garoto gordo com cabe¸a de elefante montando num rato. c O ´rg˜o que compreende as atrofias numinosas com os sentidos. Aqueles que n˜o o a a podem sentir o baraka7 n˜o conhecem as car´ a ıcias do mundo. Hermes Poimandres8 ensinou a anima¸˜o de ´ ca ıdolos, a permanˆncia m´gica dos esp´ e a ıritos nos ´ ıcones – mas aqueles que n˜o podem realizar esse ritual em si mesmo e em todo o a tecido palp´vel do ser material v˜o herdar apenas melancolia, dejetos, decadˆncia. a a e O corpo pag˜o torna-se como Corte de Anjos que experimenta este lugar – este arvoa redo – como o para´ (“Se existe um para´ com certeza ´ aqui !” – inscri¸˜o no p´rtico ıso ıso, e ca o de um jardim mongol9 ). Mas o anarquismo ontol´gico ´ paleol´ o e ıtico demais para a escatologia – as coisas s˜o a reais, feiti¸aria funciona, os esp´ c ıritos dos arbustos s˜o unos com a Imagina¸˜o, a morte ´ a ca e um vago desconforto – o enredo das Metamorfoses de Ov´ – um ´pico de mutabilidade. ıdio e O cen´rio mitol´gico pessoal. a o O paganismo ainda n˜o inventou leis – apenas virtudes. Nenhum maneirismo de a padres, nenhuma teologia, ou metaf´ ısica, ou moral – apenas um xamanismo universal no qual ningu´m obt´m real humanidade sem uma revela¸˜o. e e ca Comida dinheiro sexo sono sol areia e sensimilla – amor verdade paz liberdade e justi¸a. c Beleza. Dion´ ısio, o garoto bˆbado numa pantera – ran¸oso suor adolescente – P˜, meio e c a homem, meio cabra, avan¸a pesadamente na terra s´lida at´ a cintura como se fosse o c o e mar, com a pele suja de musgo e l´ ıquen – Eros se multiplica em uma d´zia de pastorais u rapazes nus de uma fazenda do Iowa, com p´s sujos de barro e musgo dos lagos em sua e coxas. Raven, o trapaceiro do potlatch10 , `s vezes um garoto, `s vezes uma velha, um p´ssaro a a a que roubou a lua, agulhas de pinho flutuando num lago, totens com cabe¸as da Fa´ c ısca e Fuma¸a, coral de corvos com olhos prateados dan¸ando sobre uma pilha de lenha – como c c Semar, o corcunda albino e hermafrodita, fantoche-sombra patrono da revolu¸˜o javanesa. ca Iemanj´, estrela azul deusa-do-mar e padroeira dos homossexuais – como Tara, aspecto a
Nome que em Cuba se d´ a Exu, um dos quatro orix´s guerreiros da religi˜o iorub´. (N.T) a a a a Um dos deuses mais cultuados do pante˜o hindu´ a ısta, invocado no in´ de qualquer atividade como ıcio aquele que retira obst´culos. (N.T) a 7 Conceito sufista, que significa ben¸˜o, gra¸a, a for¸a vital de toda cria¸˜o. (N.T) ca c c ca 8 Ou H. Trismegisto, mitol´gico fundador do hermetismo, doutrina ligada ao gnosticismo, no Egito, no o s´culo I. (N.T) e 9 Imp´rio mu¸ulmano na ´ e c India (1526-1857), fortemente influenciado pela est´tica persa. O mais coe nhecido imperador mongol foi Akbar (1542-1605). (N.T) 10 Festival de inverno celebrado pelos ´ ındios da costa noroeste dos EUA, com distribui¸˜o e troca de ca presentes, e eventual dissipa¸˜o dos bens do anfitri˜o. (N.T) ca a
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1.6. ARTE-SABOTAGEM (AS)

11

azul-acinzentado de Kali11 , colar de crˆnios, dan¸ando no lingam12 enrijecido de Shiva13 , a c lambendo nuvens de mon¸˜es com sua l´ co ıngua comprid´ ıssima – como Loro Kidul, deusado-mar verde-jade javanesa que confere o poder da invulnerabilidade aos sult˜os por meio a de intercurso tˆntrico em torres e cavernas m´gicas. a a Sob um ponto de vista, o anarquismo ontol´gico ´ extremamente nu, despido de todas o e as qualidades e possess˜es, podre como o pr´prio CAOS – mas, sob outro ponto de vista, o o ele pulula de barroquismos como os templos de foda de Katmandu ou um livro de s´ ımbolos 14 alqu´ ımicos – ele se derrama de seu div˜ comendo loukoum e divertidas id´ias her´ticas, a e e uma m˜o perdida dentro de suas cal¸as largas. a c O casco de seus navios piratas ´ laqueado de preto, as velas triangulares s˜o vermelhas, e a as flˆmulas s˜o negras, ostentando o emblema de um ampulheta alada. a a Um mar do sul da China dentro da mente, pr´ximo a um litoral selvagem coberto por o palmeiras, ru´ ınas de templos de ouro constru´ ıdos para deuses desconhecidos e bestiais, ilha ap´s ilha, a brisa como uma seda amarela e umida sobre a pela nua, navega¸˜o por o ´ ca estrelas pante´ ıstas, hierologia sobre hierologia, luz sobre luz contra a escurid˜o reluzente a e ca´tica. o

1.6

Arte-Sabotagem (AS)

A arte-sabotagem aspira ser perfeitamente exemplar, mas, ao mesmo tempo, ret´m e um elemento de opacidade – n˜o propaganda, mas choque est´tico – aterradoramente a e direta, mas ainda assim sutilmente transversal – a¸˜o-como-met´fora. ca a A Arte-Sabotagem ´ o lado negro do Terrorismo Po´tico – cria¸˜o-atrav´s-da-destrui¸˜o e e ca e ca –, mas n˜o pode servir a nenhum partido ou niilismo, nem mesmo ` pr´pria arte. Assim a a o como a destrui¸˜o da ilus˜o eleva a consciˆncia, a demoli¸˜o da praga est´tica ado¸a o ar ca a e ca e c no mundo do discurso, do Outro. A Arte-Sabotagem serve apenas ` percep¸˜o, aten¸˜o, a ca ca consciˆncia. e A AS vai al´m da paran´ia, al´m de desconstru¸˜o – a cr´ e o e ca ıtica definitiva – ataque f´ ısico a ` arte ofensiva – cruzada est´tica. O menor ind´ de um egotismo mesquinho ou mesmo e ıcio de um gosto pessoal estraga sua pureza e vicia sua for¸a. A AS n˜o pode nunca procurar c a o poder – apenas renunciar a ele. Obras de arte individuais (mesmo as piores) s˜o amplamente irrelevantes – a AS a procura causar danos `s institui¸˜es que usam a arte para diminuir a consciˆncia e lucrar a co e com a ilus˜o. Este ou aquele poeta ou pintor pode ser condenado por falta de vis˜o – mas a a Id´ias malignas podem ser atacadas atrav´s dos artefatos que eles criam. O MUZAK15 e e foi feito para hipnotizar e controlar – seu mecanismo pode ser destru´ ıdo. Queima p´blica de livros – porque caipiras reacion´rios e funcion´rios das alfˆndegas u a a a
No hindu´ ısmo, a forma da M˜e Divina em seu aspecto dissoluto e destruidor. (N.T) a O mais importante dos s´ ımbolos de Shiva, que tem a forma de um falo, e representa o aspecto impessoal de Deus. (N.T) 13 Nome da Realidade Suprema para o shaivismo da Caxemira; ou, no hindu´ ısmo, um dos trˆs deuses e principais (ao lado de Vishnu e Brahma), representando Deus em sua forma destruidora. (N.T) 14 Doce turco. (N.T) 15 Sistema de distribui¸˜o de m´sica ambiente. (N.T) ca u
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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

devem monopolizar essa arma? Livros sobre crian¸as possu´ c ıdas pelo demˆnio; a lista o de best sellers do The New York Times; tratados feministas contra a pornografia; livros escolares (especialmente de estudos Sociais, Educa¸˜o Moral e C´ ca ıvica e Sa´de); pilhas u do New York Post, Village Voice e outros jornais de supermercado; uma compila¸˜o de ca editoras crist˜s; alguns romances populares – uma atmosfera festiva, garrafas de vinho e a baseados numa tarde clara de outono. Jogar dinheiro para o alto no meio da bolsa de valores seria um Terrorismo Po´tico e bastante razo´vel – mas destruir o dinheiro seria uma excelente Arte-Sabotagem. Intera ferir numa transmiss˜o de TV e colocar no ar alguns minutos de arte incendi´ria ca´tica a a o seria uma grande feito de TP – mas simplesmente explodir a torre de transmiss˜o seria a uma ato de Arte-Sabotagem perfeitamente adequado. Se certas galerias e museus merecem, de vez em quando, receber uma tijolada pela Janela – n˜o a destrui¸˜o, mas sim uma sacudida na sua complacˆncia –, ent˜o o que dizer a ca e a dos BANCOS? Galerias transformam beleza em mercadoria, mas bancos transmutam a Imagina¸˜o em vezes e d´ ca ıvida. O mundo n˜o ganharia um pouco mais de beleza com cada a banco que tremesse... ou ca´ ısse? Mas como? A Arte-Sabotagem provavelmente deve ficar longe da pol´ ıtica (´ t˜o chata!) – mas n˜o dos bancos. e a a N˜o fa¸a piquetes – vandalize. N˜o proteste – desfigure. Quando fei´ra, design podre a c a u e desperd´ ıcios est´pidos estiverem sendo impostos a vocˆ, transforme-se num luddita16 , u e jogue o sapato no mecanismo, retalie. Esmague os s´ ımbolos do Imp´rio, mas n˜o o fa¸a e a c em nome de nada que n˜o seja a busca do cora¸˜o pela gra¸a. a ca c

1.7

Os Assassinos

Atravessando o brilho do deserto e ganhando as montanhas policromadas, nuas e ocre, violeta pardo e terracota, no alto de um vale dissecado azul, os viajantes encontram um o´sis artificial, um castelo fortificado em estilo sarraceno, guardando um jardim escondido. a Como convidados de Hassan-i Sabbah, o Velho da Montanha, eles sobem os degraus cortados na pedra que levam at´ o castelo. Aqui, o Dia da Ressurrei¸˜o veio e passou – e ca os do lado de dentro vivem fora do Tempo profano, que ´ mantido a distˆncia com lan¸as e a c e veneno. Por tr´s de torres crenuladas e de longas janelas talhadas, estudiosos e fedains velam a em estreitas celas monol´ ıticas. Mapas do c´u, astrol´bios, destiladores e retortas, pilhas e a de livros abertos sob a luz da manh˜ – uma cimitarra descoberta. a Cada um dos que entram no reino do Im˜-de-seu-pr´prio-ser transforma-se num sult˜o a o a de revela¸˜o inversa, num monarca da anula¸˜o e da apostasia. Num aposento central, ca ca entrecortado pela luz e adornado com uma tape¸aria de arabescos, eles se recostam em c almofadas e fumam longos narguil´s de haxixe perfumado com ´pio e ˆmbar. e o a Para eles, a hierarquia do ser compactou-se num ponto adimensional do real – as correntes da Lei foram quebradas – eles terminam seu jejum com vinho. Para eles, o exterior de todas as coisas ´ o interior delas, sua face verdadeira revela-se diretamente. Mas e
Membro dos grupos de trabalhadores ingleses que, no in´ ıcio da revolu¸˜o industrial, revoltaram-se ca contra o desemprego causado pelo novo maquin´rio tˆxtil, procurando destru´ a e ı-lo. (N.T)
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1.8. PIROTECNIA

13

os port˜es do jardim est˜o camuflados com terrorismo, espelhos, rumores de assassinos, o a trompe l’oeil, lendas. Ram˜s, v´rios tipos de amoras, caquis, a melancolia er´tica dos ciprestes, rosas de a a o Shiraz de delicadas p´talas cor-de-rosa, jardineiras com alo´ e benjoim de Meca, os caules e e r´ ıgidos das tulipas otomanas, tapetes abertos como jardins artificiais sobre gramados verdadeiros – um pavilh˜o inteiro decorado com um mosaico de caligramas – um salgueiro, a um riacho repleto de agri˜es do brejo – uma fonte sob cristais geom´tricos – o escˆndalo o e a metaf´ ısico que s˜o as odaliscas banhando-se os criados negros brincando de escondea esconde, molhados, por entre a folhagem – “´gua, verdura, belos rostos”. a Ao cair da noite, Hassan-i Sabbah, como um lobo civilizado de turbante, debru¸a-se c no parapeito sobre o jardim e contempla o c´u, estudando pequenos asterismos de heresia e ´ no ar fresco e sem rumo do deserto. E verdade que nesse mito alguns disc´ ıpulos aspirantes podem receber o comando de arremessarem-se do alto das muralhas para a escurid˜o – a mas tamb´m ´ verdade que alguns deles v˜o aprender a voar como feiticeiros. e e a O emblema de Alamut persiste em nossas mentes, uma mandala ou circulo m´gico pera dido na hist´ria, mas entalhado ou impresso na consciˆncia. O Velho passa rapidamente, o e como um fantasma, por dentro das tendas dos reis e dos aposentos dos te´logos, atravessa o todas as trancas e passa por todas as sentinelas que usam t´cnicas ninja/mu¸ulmanas j´ e c a esquecidas, deixando pesadelos, estiletes sobre os travesseiros, subornos poderosos. O perfume de sua propaganda embebe-se nos sonhos criminosos do anarquismo ontol´gico, a her´ldica de nossas obsess˜es exibe as lustrosas bandeiras negras dos Assaso a o sinos... todos pretendentes ao trono de um Egito Imagin´rio, um cont´ a ınuo espa¸o/luz c oculto consumido por liberdades ainda n˜o imaginadas. a

1.8

Pirotecnia

Inventadas pelos chineses, mas nunca desenvolvida para a guerra – um bom exemplo de Terrorismo Po´tico – uma arma usada para disparar choques est´ticos em vez de matar e e – os chineses odiavam a guerra e costumavam entrar em luto quando os ex´rcitos se e levantavam – a p´lvora era mais util para espantar demˆnios malignos, deleitar crian¸as, o ´ o c saturar o ar com uma bruma de bravura e com o cheiro de perigo. Roj˜es de terceira categoria da prov´ o ıncia de Kwantung, foguetes, borboletas, M-80’s, girass´is, “Uma Floresta na Primavera” – clima de revolu¸˜o – acenda seu cigarro com o ca a espoleta chamuscada de um roj˜o negro – imagine o ar repleto de lˆmures e ´ a e ıncubos, esp´ ıritos opressores, policiais fantasmas. Chame um garoto com um bast˜o em brasa ou um f´sforo aceso – ap´stolo-xam˜ de a o o a enredos de ver˜o de p´lvora – estilhace a noite escura com pitadas e cascatas de estrelas a o infladas, arsˆnico e antimˆnio, s´dio e calomelano, um corisco de magn´sio e um silvo e o o e estridente de picrato de potassa. Mande brasa (negro-de-fumo e salitre) a ferro e fogo – ataque o banco ou a horr´ ıvel igreja de seu bairro com velas romanas e foguetes p´rpura-dourados, de sopet˜o e anoniu a mamente (talvez lan¸ados da carroceria de uma picape em movimento). c Construa estruturas entrela¸adas com vigas de metal nos tetos dos edif´ c ıcios de companhias de seguro ou escola – serpente cundalini ou drag˜o do Caos verde-b´rio enrolado a a

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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

contra um fundo de amarelo-s´dio – N˜o Pise em Mim – ou monstros copulando e arreo a messando bolas de fogo na casa de velhos batistas. Escultura de nuvens, escultura de fuma¸a e bandeiras = Arte do Ar. Obras de Terra. c ´ Fontes = Arte da Agua. E fogos de artif´ ıcio. N˜o se apresente patrocinando pelos a Rockefeller e com a autoriza¸˜o da pol´ para uma audiˆncia de amantes da cultura. ca ıcia e Evanescentes bombas-mentais incendi´rias, mandalas assustadoras inflamando-se em esa fuma¸adas noites suburbanas, alien´ c ıgenas nuvens verdades da peste emocional detonadas por raios vajra17 azuis de orgˆnio18 , feux d’artifice a laser. o Cometas que explodem com odor de haxixe e carv˜o radioativo – demˆnios do pˆntano a o a e fogos-f´tuos assombrando os parques p´blicos – falso fogo-de-santelmo piscando sobre a u a arquitetura da burguesia – correntes de pequenos fogos de artif´ caindo no ch˜o da ıcio a 19 Assembl´ia Legislativa – salamandras-elementais atacando conhecidos reformados de e moral. Goma-laca flamejante, a¸ucar do leite, estrˆncio, piche, ´gua viscosa, fogo chinˆs – c´ o a e por alguns momentos o ar ´ puro ozˆnio – uma nuvem opala de pungente fuma¸a de e o c drag˜o/fˆnix se espalhando. Por um instante, o Imp´rio cai, seus pr´ a e e ıncipes e governadores fogem para sua podrid˜o satˆnica e nebulosa, penachos de enxofre dos elfos atiradores de a a chamas queimando suas bundas chamuscadas, enquanto eles recuam. O Assassino-crian¸a, c psique de fogo, mant´m o poder por uma breve noite escaldante da estrela S´ e ırio.

1.9

Mitos do Caos
Caos invis´ (po-te-kitea) ıvel Indom´vel, intranspon´ a ıvel Caos da escurid˜o absoluta a Intocado e intoc´vel a — canto Maori

O Caos empoleira-se numa montanha de c´u: um p´ssaro gigantesco, como uma asae a delta amarela ou uma bola de fogo vermelha, com seis p´s e quatro asas – ele n˜o tem e a rosto, mas dan¸a e canta. c Ou o Caos ´ um c˜o negro de pˆlos compridos, cego e surdo, sem as cinco v´ e a e ısceras. Caos, o Abismo, ´ anterior a tudo, depois vem a Terra/Gaia, e ent˜o o Desejo/Eros. e a ´ ´ Desses trˆs surgiram dois pares – Erebo e Noite ancestral, Eter e Luz diurna. e Nem Ser, nem N˜o-ser a Nem ar, nem terra, nem espa¸o: c o que estava escondido? onde? sob a prote¸˜o de quem? ca
No budismo e no hindu´ ısmo, um raio ou arma m´ ıtica, geralmente controlado pelo deus Indra (N.E) Na teoria desenvolvida por William Reich, orgˆnio ´ a energia vital, a energia a que ´ a fonte da vida. o e e (N.E) 19 Desde a Antig¨idade, a salamandra tem sido reconhecida como a personifica¸˜o do fogo, um animal u ca que sobreviveria ileso no fogo. (N.E)
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1.9. MITOS DO CAOS O que era a ´gua, profunda, insond´vel? a a Nem morte, nem imortalidade, dia ou noite... mas o UNO soprado por si mesmo, sem vento. Nada mais. Escurid˜o envolvendo escurid˜o, a a a ´gua n˜o-manifesta. a O UNO, escondido pelo vazio, sentiu a gera¸˜o do calor, tornou-se ser ca na forma de Desejo, primeira semente da Mente... O que estava por cima e o que, por baixo? Existiam semeadores, existiam poderes: energia embaixo, impulso em cima. Mas quem pode ter certeza? — Rig Veda

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Tiamar, o Oceano de Caos, expele lentamente de seu ventre Lama e Saliva, os Horizontes, o C´u e Sabedoria l´ e ıquida. Esses rebentos crescem barulhentos e pretensiosos – ela pensa em destru´ ı-los. Mas Marduk, o deus da guerra babilˆnico, levanta-se em rebeli˜o contra a Velha Bruxa o a e seus Monstros do Caos, totens infernais – o Verme, a Ogre Fˆmea, o Grande Le˜o, o e a Cachorro Louco, o Homem Escorpi˜o, a Tempestade Trovejante – drag˜es vestindo suas a o gl´rias como deuses – e a pr´pria Tiamat ´ uma serpente marinha gigante. o o e Marduk a acusa de fazer os filhos se rebelarem contra os pais – ela ama Neblina e Nuvens, princ´ ıpios da desordem. Marduk ser´ o primeiro a reinar, a inventar o governo. a Durante a batalha, ele trucida Tiamat e com o seu corpo encomenda o universo material. Inaugura o imp´rio da Babilˆnia – e ent˜o, com os mi´dos e as tripas sangrentas do filho e o a u incestuoso de Tiamat, ele cria a ra¸a humana para servir aos deuses para sempre e aos c altos sacerdotes e reis sacramentados. Zeus Pai e os deuses do Olimpo travam guerra contra M˜e Gaia e os Tit˜s, esses a a partid´rios do Caos, da velhas formas de ca¸a e coleta, das longas andan¸as sem destino, a c c da androginia e da licenciosidade das bestas. Amon-Ra (Ser) senta-se sozinho no Oceano do Caos primordial da MADRE masturbandose e criando todo os outros deuses – mas o Caos tamb´m se manifesta como o drag˜o e a Apophis a quem Ra deve destruir (juntamente com seu estado de gl´ria, sua sombra e o sua m´gica) para que o fara´ possa governar com seguran¸a – um ritual de vit´ria recria o c o ado diariamente nos templos Imperiais para confundir os inimigos do Estado, da Ordem c´smica. o Caos ´ Hun Tun, Imperador do Centro. Um dia, o Mar do Sul, Imperador Shu, e e o Mar do Norte, Imperador Hu (shu hu – relˆmpago), visitaram Hun Tun, que sempre a os recebeu bem. Desejando retribuir sua gentileza, eles disseram: “Todos os seres tˆm e sete orif´ ıcios para ver, ouvir, comer, cagar etc. – mas o pobre velho Hun Tun n˜o tem a

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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

nenhuma! Vamos perfurar alguns nele!” E assim fizeram – um orif´ por dia – at´ que, ıcio e no s´timo dia, o Caos morreu. e Mas... o Caos tamb´m ´ um enorme ovo de galinha. Dentro dele, P’an-ku nasce e e e cresce por 18 mil anos – finalmente o ovo se abre, divide-se entre c´u e terra, yin e yang. e Ent˜o P’an-ku transforma-se na coluna que sustenta o universo – ou talvez se torna o a universo (respira¸˜o –> vento, olhos –> sol e lua, sangue e flu´ ca ıdos –> rios e mares, cabelo e c´ ılios –> estrelas e planetas, esperma –> p´rolas, medula –> jade, suas pulgas –> seres e humanos etc.). Ou, ainda, transforma-se no homem/monstro, Imperador Amarelo. Ou transforma-se em Lao-ts´, profeta do Tao. Na verdade, o pobre velho Hun Tun ´ o pr´prio Tao. e e o “A m´sica da natureza n˜o existe al´m das coisas. As v´rias aberturas, gaitas, flautas, u a e a todos os seres vivos, juntos, formam a natureza. O ‘EU’ n˜o pode produzir coisas e as a coisas n˜o podem produzir o ‘EU’, que existe por si mesmo. As coisas s˜o o que s˜o a a a espontaneamente, n˜o por causa de alguma outra coisa. Tudo ´ natural sem saber por a e que o ´. As 10 mil coisas tem 1o mil estados diferentes, todos em movimento como se e existisse um Senhor Verdadeiro para movˆ-las – mas, se procuramos por evidˆncias desse e e Senhor, n˜o conseguimos encontr´-las.” (Kuo Hsiang). a a Cada consciˆncia iluminada ´ um “imperador”, cuja unica forma de reinado ´ n˜o e e ´ e a fazer nada para n˜o atrapalhar a espontaneidade da natureza, o Tao. O “s´bio” n˜o ´ o a a a e pr´prio Caos, mas um dos seus servidores leais – uma das pulgas de P’an-ku, um peda¸o o c de carne do filho monstruoso de Tiamat. “C´u ´ Terra”, diz Chunag-ts´, “nasceram no e e e mesmo momento em que eu nasci, e eu e as 10 mil coisas formamos um ser unico”. ´ O Anarquismo Ontol´gico tende a discordar apenas da total quietude do tao´ o ısmo. Em nosso mundo, o aos tem sido destitu´ por jovens deuses, moralistas, falocratas, padresıdo banqueiros, senhores adequados para escravos. Se a rebeli˜o provar-se imposs´ a ıvel, pelo menos algum tipo de guerra santa clandestina deve ser iniciada. Que ela siga as bandeiras da guerra do drag˜o negro anarquistas, Tiamat, Hun Tun. a O Caos nunca morreu.

1.10

Pornografia

Na P´rsia eu vi que a poesia ´ feita para ser musicada e cantada – por uma raz˜o e e a simples – porque funciona. Uma combina¸˜o perfeita de imagem e melodia coloca o p´blico num hal (algo entre ca u um estado de esp´ ırito emocional/est´tico e um transe de supraconsciˆncia), explos˜es de e e o choro, impulsos de dan¸a – uma mensur´vel resposta f´ c a ısica ` arte. Para n´s, a liga¸˜o a o ca entre poesia e corpo morreu junto com a ´poca dos bardos – lemos sob influˆncia de um e e g´s anestesiante cartesiano. a No norte de ´ India, mesmo a recita¸˜o n˜o-musical provoca barulho e movimento, ca a todo bom verso ´ aplaudido, “Bravo!” com elegantes movimentos de m˜os, e r´pias s˜o e a u a lan¸adas – enquanto n´s ouvimos poesia como um daqueles c´rebros de fic¸˜o cient´ c o e ca ıfica em um vidro – na melhor das hip´teses, um sorriso amarelo ou uma careta, vest´ o ıgios dos rituais s´ ımios – o resto do corpo longe, em algum outro planeta.

1.10. PORNOGRAFIA

17

No Oriente, `s vezes os poetas s˜o presos – uma esp´cie de elogio, j´ que sugere que o a a e a autor fez algo t˜o real quanto um roubo, em estupro ou uma revolu¸˜o. Aqui, os poetas a ca podem publicar qualquer coisa que quiserem – o que em si mesmo ´ uma esp´cie de e e puni¸˜o, uma pris˜o em paredes, sem eco, sem existˆncia palp´vel – reino de sombras do ca a e a mundo impresso, ou do pensamento abstrato – um mundo sem risco ou eros. A poesia est´ morta novamente – e mesmo que a m´mia do seu cad´ver possua ainda a u a algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressurei¸˜o n˜o ´ uma delas. ca a e Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, ent˜o algu´m precisa a e cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que possuam a ressonˆncia a do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer pre¸o. N˜o crimes contra o c a corpo, mas contra Id´ias (e Id´ias-dentro-das-coisas) que sejam letais e asfixiantes. N˜o e e a libertinagem est´pida, mas crimes exemplares, est´ticos, crimes por amor. u e Na Inglaterra, alguns livros pornogr´ficos ainda est˜o banidos. A pornogr´fica produz a a a um efeito f´ ısico mensur´vel em seus leitores. Como propaganda, ela `s vezes muda vidas a a por revelar desejos secretos. Nossa cultura gera a maior parte de sua pornografia motivada pelo ´dio ao corpo – o mas, como em certas obras orientais, a arte er´tica em si mesma cria um ve´ o ıculo elevado para o aprimoramento do ser/consciˆncia/gl´ria. Um esp´cie de pornˆ tˆntrico ocidental e o e o a poderia ajudar a galvanizar os cad´veres, fazˆ-los brilhar com uma pitada de glamour do a e crime. Os Estados Unidos oferecem liberdade de express˜o porque todas as palavras s˜o a a consideradas igualmente ins´ ıpidas. Apenas as imagens contam – os censores amam cenas de morte e mutila¸˜o, mas horrorizam-se diante de uma crian¸a se masturbando – para ca c eles, aparentemente, isso ´ uma invas˜o de seu fundamento existencial, sua identifica¸˜o e a ca com o Imp´rio e seus gestos mais sutis. e Sem d´vida, nem mesmo o pornˆ mais po´tico faria o cad´ver sem rosto reviver, u o e a dan¸ar e cantar (como o p´ssaro do Caos chinˆs) – mas... imagine o roteiro de uma filme c a e de trˆs minutos ambientados numa ilha m´ e ıtica povoada por crian¸as fugitivas que moram c nas ru´ ınas de antigos castelos ou em cabanas-totens e ninhos constru´ ıdos com detritos – uma mistura de anima¸˜o, efeitos especiais, computa¸˜o gr´fica e v´ ca ca a ıdeo – editado de forma compacta, como um comercial de fast-food... ... mas ins´lito e nu, penas e ossos, tendas abotoadas com cristais, cachorros negros, o sangue de pombos – vislumbres de membros cor de ˆmbar enrolados em len¸´is – rosa co tos, cobertos por m´scaras cheias de estrelas, beijando dobras macias de pele – piratas a andr´ginos, faces abandonadas de colombinas dormindo em altas flores brancas – piadas o sujas de se mijar de tanto rir, lagartos de estima¸˜o lambendo leite derramado – pessoas ca nuas dan¸ando break – banheiras vitorianas com patos de borracha e pintos cor-de-rosa c – Alice viajando no p´... o ... punk reggae atonal para gamel˜o, sintetizadores, saxofones e baterias – boogies a el´tricos cantados por um et´reo coro de crian¸as – antol´gicas can¸˜es anarquistas, um e e c o co misto de Hafiz20 & Pancho Villa, Li Po21 e Bakunin, Kabir22 e Tzara – chame-o de
At´ hoje, um dos mais queridos e lidos poetas m´ e ısticos da P´rsia (1320-1389) (N.T) e Ou Li Pai, poeta chinˆs (701-762 a.C.) (N.T) e 22 Poeta santo cultuado tanto por mu¸ulmanos quanto por hindu´ c ıstas, viveu em Benares (1440-1518). (N.T)
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18

´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

“CHAOS – The Rock Video!” N˜o... provavelmente ´ s´ um sonho. Muito caro para produzir e, al´m disso, quem o a e o e assistiria? N˜o as crian¸as a quem ele gostaria de seduzir. A TV pirata ´ uma fana c e tasia f´til; o rock, outra mera mercadoria – esque¸a o gesamtkunstwerk23 malandro, u c ent˜o. Inunde um playground com obscenos folhetos inflamat´rios – propaganda pornˆ, a o o excˆntricos manuscritos clandestinos para libertar o Desejo dos seus grilh˜es. e o

1.11

Crime

A justi¸a n˜o pode ser obtida sob nenhuma Lei que seja – uma a¸˜o que est´ de com c a ca a a natureza espontˆnea, uma a¸˜o justa, n˜o pode ser definida por dogmas. Os crimes a ca a defendidos nestes panfletos n˜o podem ser cometidos contra o “si mesmo” ou o “outro”, a mas apenas contra a mordaz cristaliza¸˜o de Id´ias em estruturas de Tronos e Domina¸˜es ca e co venenosas. Ou seja, n˜o crimes contra a natureza ou contra a humanidade, mas contra a ordem a legal. Mais cedo ou mais tarde, o descobrimento e a revela¸˜o de ser/natureza transforca mam uma pessoa num bandoleiro – como se ela visitasse outros mundos e, ao retornar, descobrisse que foi declarada traidora, herege, um ser exilado. A Lei espera at´ que vocˆ tropece num modo de ser, uma alma diferente do padr˜o de e e a “carne apropriada para consumo” aprovado pelo Sistema de Inspe¸˜o Federal – e, assim ca que vocˆ come¸a a agir de acordo com a natureza, a Lei o garroteia e o estrangula – e c portanto, n˜o dˆ uma de m´rtir aben¸oado e liberal da classe m´dia – aceite o fato de a e a c e que vocˆ ´ um criminoso e esteja preparado para agir como tal. ee Paradoxo: adotar o Caos n˜o ´ escorregar para a entropia, mas emergir para uma a e energia semelhante ` das estrelas, um esp´cime de gra¸a instantˆnea – uma organiza¸˜o a e c a ca orgˆnica espontˆnea completamente diferente das pirˆmides sociais putrefatas dos sult˜o, a a a a muftis, c´dis e carrascos. a Depois do Caos, vem o Eros – o princ´ ıpio da ordem impl´ ıcito no vazio do Uno inqualific´vel. O amor ´ estrutura, sistema, o unico c´digo n˜o contaminado pela escravid˜o a e ´ o a a e pelo sono drogado. Precisamos nos tornar vigaristas e persuasivos para proteger sua beleza espiritual num bisel de clandestinidade, num secreto jardim de espionagem. N˜o apenas sobreviva, enquanto espera que a revolu¸˜o de algu´m ilumine as suas a ca e id´ias, n˜o se aliste no ex´rcito da anorexia ou bulimia – aja como se j´ fosse livre, e a e a calcule as probabilidades, pule fora, lembre-se das regras de duelo – Fume Maconha/Coma Galinha/Tome Ch´. Todo homem tem sua pr´pria vinha e sua figueira (Circle Seven a o 24 Koran, Noble Drew Ali ) – carregue seu passaporte mouro com orgulho, n˜o fique parado a no meio do fogo cruzado, proteja-se – mas arrisque-se, dance antes que fique calcificado. O modelo social natural para o anarquismo ontol´gico ´ uma gangue de crian¸as o e c ou um bando de ladr˜es de banco. O dinheiro ´ uma mentira – esta aventura deve o e ser poss´ ıvel sem ele – o resultado das pilhagens e saques deve ser gasto antes que se
Termo alem˜o contemporˆneo que, grosso modo, implica diferentes formas simultˆneas de se apreciar a a a algo, especialmente um obras de arte computacional ou uma instala¸˜o. (N.T) ca 24 L´ ıder religioso norte–americano, fundador do Templo da Ciˆncia Islˆmica em 1913, em Chicago. e a (N.T)
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1.12. FEITICARIA ¸

19

torne p´ novamente. Hoje ´ o Dia da Ressurrei¸˜o – o dinheiro gasto com a beleza o e ca ser´ alquimicamente transformado num elixir. Como o meu tio Melvin dizia, melancias a roubadas s˜o mais doces. a O mundo j´ foi recriado segundo o desejo do cora¸˜o – mas a civiliza¸˜o ´ dona de a ca ca e todas as loca¸˜es e da maioria das armas. Nossos anjos ferozes exigem que invadamos a co propriedade alheia, porque se manifestam apenas em solo proibido. O Ladr˜o de Estrada. a A ioga da clandestinidade, o assalto relˆmpago, o desfrute do tesouro. a

1.12

Feiti¸aria c

O universo quer brincar. Aqueles que por ganˆncia espiritual se recusam a jogar a e escolhem a pura contempla¸˜o negligenciam sua humanidade – aqueles que evitam ca a brincadeira por causa de uma ang´stia tola, aqueles que hesitam, desperdi¸am sua u c oportunidade de divindade – aqueles que fabricam para si m´scaras cegas de Id´ias e a e vagam por a´ ` procura de uma prova para sua pr´pria solidez acabam vendo o mundo ıa o atrav´s dos olhos de um morto. e Feiti¸aria: o cultivo sistem´tico de uma consciˆncia aprimorada ou de uma percep¸˜o c a e ca incomum e sua aplica¸˜o no mundo das a¸˜es e objetos a fim de se conseguir os resultados ca co desejados. O aumento da amplitude da percep¸˜o gradualmente bane os falsos eus, nossos fantasca mas cacofˆnicos – a “magia negra” da inveja e da vingan¸a volta-se contra o autor porque o c o Desejo n˜o pode ser for¸ado. Quando o nosso conhecimento da beleza harmoniza-se a c com o ludus naturae, a feiti¸aria come¸a. c c N˜o, n˜o se trata de entortar colheres ou fazer hor´scopos, n˜o ´ a “Aurora Dourada” a a o a e nem um xamanismo de brincadeira, proje¸˜o astral ou uma Missa Satˆnica – se vocˆ quer ca a e mistifica¸˜o, procure as coisas reais, bancos, pol´ ca ıtica, ciˆncia social – n˜o esta baboseira e a barata da Madame Blavatsky. A feiti¸aria funciona criando ao redor de si um espa¸o f´ c c ısico/ps´ ıquico ou aberturas para um espa¸o de express˜o sem barreiras – a metamorfose do lugar cotidiano numa c a esfera angelical. Isso envolve a manipula¸˜o de s´ ca ımbolos (que tamb´m s˜o coisas) e de e a pessoas (que tamb´m s˜o simb´licas) – os arqu´tipos fornecem um vocabul´rio para esse e a o e a processo e portanto, s˜o tratados ao mesmo tempo como reais e irreais, como as palavras. a Ioga da Imagem. O feiticeiro ´ um Autˆntico Realista: o mundo ´ real – mas a consciˆncia tamb´m o e e e e e deve ser, j´ que seus efeitos s˜o t˜o tang´ a a a ıveis. Um obtuso acha que at´ mesmo o vinho e n˜o tem gosto, mas o feiticeiro pode se embriagar simplesmente olhando para a ´gua. A a a qualidade da percep¸˜o define o mundo do inebriamento – mas, sustent´-lo e expandi-lo, ca a para incluir os outros, exige um certo tipo de atividade – feiti¸aria. c A feiti¸aria n˜o infringe nenhuma lei da natureza porque n˜o existe nenhuma Lei c a a Natural, apenas a espontaneidade da natura naturans, o Tao. A feiti¸aria viola as leis c que procuram deter se fluxo – padres, reais, hierofantes, m´ ısticos, cientistas e vendedores consideram a feiti¸aria uma inimiga porque ela representa uma amea¸a ao poder de suas c c charadas e ` resistˆncia de sua teia ilus´ria. a e o Um poema pode agir como um feiti¸o e vice-versa – mas a feiti¸aria recusa-se a ser c c

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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

uma met´fora para uma mera literatura – ela insiste que os s´ a ımbolos devem provocar incidentes assim como epifanias particulares. N˜o ´ uma cr´ a e ıtica, mas um refazer. Ela rejeita toda escatologia e metaf´ ısica da remo¸˜o, tudo que ´ apenas nostalgia turva e ca e futurismo estridente, em favor de um paroxismo ou captura da presen¸a. c Incenso e cristal, adaga e espada, certo, t´nicas, rum, charutos, velas, ervas como u sonhos secos – o garoto virgem com olhar fixo num pote de tinta – vinho e haxixe, carne, iantras e rituais de prazer, o jardim de huris e sag¨is – o feiticeiro escala essas serpentes e u escadas at´ o momento totalmente saturado por sua pr´pria cor, em que montanhas s˜o e o a montanhas e ´rvores s˜o ´rvores, em que o corpo torna-se eternidade e o amado torna-se a a a vastid˜o. a As t´ticas do anarquismo ontol´gico est˜o enraizadas nesta Arte secreta – os objetivos a o a ao anarquismo ontol´gico aparecem no seu florescimento. O Caos enfeiti¸a seus inimigos o c e recompensa seus devotos... este estranho panfleto amarelado, pseudon´ ımico e manchado de p´, revela tudo... passe-o adiante por um segundo de eternidade. o

1.13

Publicidade

O que isso diz a vocˆ n˜o ´ prosa. Pode ser pendurado no quadro de avisos, mas ainda e a e est´ vivo e retorcendo-se. N˜o pretende seduzi-lo, a n˜o ser que vocˆ seja de extrema a a a e juventude e beleza (anexe uma foto recente). Hakim Bey mora num decadente hotel chinˆs onde os propriet´rios balan¸am a cabe¸a e a c c de um lado para o outro enquanto lˆem os jornais e escutam transmiss˜es estridentes da e o ´ Opera de Pequim. O ventilador de teto gira como um dervixe indolente – suor pinga sobre a p´gina – o cafet˜ do poeta est´ encardido, seus cinzeiros derramam cinzas no tapete – a a a seus mon´logos parecem desconexos e levemente sinistros – por tr´s das janelas fechadas, o a o gueto desaparece entre palmeiras, o ingˆnuo oceano azul, a filosofia do tropicalismo. e Numa estrada em algum lugar a leste de Baltimore, vocˆ passa por um trailer Airse tream, e enxerga uma grande placa plantada na grama: LEITURAS ESPIRITUAIS, com a imagem de uma rude m˜o negra sobre um fundo vermelho. L´ dentro, vocˆ encontra a a e livros sobre sonhos e numerologia, panfletos sobre vodu e macumba, revistas de nudismo velhas e empoeiradas, um pilha de Boy’s Life, tratados sobre briga de galos... e este livro, Caos. Como palavras ditas num sonho, portentosas, evanescentes, transformando-se em perfumes, p´ssaros, cores, m´sica esquecida. a u Este livro se mant´m a distˆncia por uma certa impassibilidade em sua superf´ e a ıcie, quase que vis´ atrav´s de um vidro. Ele n˜o abana o rabo e n˜o grunhe, mas morde e ıvel e a a estraga a mob´ ılia. Ele n˜o tem um n´mero ISBN e n˜o o quer como disc´ a u a ıpulo, mas pode seq¨estrar seus filhos. u Este livro ´ nervoso como o caf´ ou a mal´ria – ele cria, entre si e seus leitores, uma e e a rede de desertores e outsiders – mas ´ t˜o cara-de-pau eliteral que praticamente se codifica e a – fuma a si pr´prio em estupor. o Uma m´scara, uma automitologia, um mapa sem nome de lugar algum – hirto como a uma pintura eg´ ıpcia que, no entanto, logra acariciar o rosto de algu´m e, de repente, e encontra-se na rua, num corpo, envolvido em luz, andando, acordado, quase satisfeito.

1.13. PUBLICIDADE — Nova York, 1o de maio a 4 de julho de 1984

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´ CAP´ ITULO 1. CAOS: OS PANFLETOS DO ANARQUISMO ONTOLOGICO

Cap´ ıtulo 2 Comunicados da AAO
2.1 Comunicado #1 (Primavera de 1986)

I. Slogans e Motes para Pichar no Metrˆ e para Outros Prop´sitos o o
COSMOPOLITISMO DESENRAIZADO ´ TERRORISMO POETICO (para rabiscar ou carimbar em outdoors publicit´rios:) a ´ ESTE E O SEU VERDADEIRO DESEJO MARXISMO-STIRNERISMO ˆ ENTRE EM GREVE PELA INDOLENCIA e BELEZA ESPIRITUAL ˆ ´ CRIANCINHAS TEM PES LINDOS AS CORRENTES DA LEI FORAM QUEBRADAS ˆ PORNOGRAFIA TANTRICA ARISTOCRATISMO RADICAL GUERRILHA URBANA PARA A LIBERTACAO DAS CRIANCAS ¸˜ ¸ ´ ´ XIITAS FANATICOS IMAGINARIOS BOLO’BOLO1 SIONISMO GAY (SODOMA PARA OS SODOMITAS) UTOPIAS PIRATAS O CAOS NUNCA MORREU Alguns desses slogans da Associa¸˜o para a Anarquia Ontol´gica (AAO) s˜o “sinceros” ca o a – outros tˆm como objetivo despertar temores e apreens˜o p´blica – mas n˜o sabemos e a u a bem qual ´ qual. Nossos agradecimentos a Stalin, Anon, Bob Black, Pir Hassan (ao seu e
Espa¸o de convivˆncia libert´ria descrito na obra de mesmo nome publicada no Brasil nos anos 1990 c e a pela Editora Correcotia. (N.E)
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

nome ser mencionado, que reine em paz), F. Nietzsche, Hank Purcell Jr., “P.M.” e irm˜os a Abu Jehad al-Salah do Templo Islˆmico de Dagon. a

II. Algumas Id´ias Po´tico-Terroristas que ainda Continuam em e e Triste Languidez no Reino da “Arte Conceitual”
1. Entre na ´rea dos caixas eletrˆnicos do Citibank ou do Chembank numa hora de a o muito movimento, cague no ch˜o e v´ embora. a a 2. Chicago, Maio de 1886: organize uma prociss˜o “religiosa” para os “m´rtires” do a a 2 Haymarket – grandes faixas com retratos sentimentais coroados com flores e transbordando de fitas e lantejoulas, carregadas por penitentes vestidos em trajes com capuzes negros no estilo KKKat´lico – escandalosos e efeminados ac´litos de TV boro o rifam a multid˜o com ´gua benta e incenso – anarquistas com rostos emplastrados a a de cinzas flagelam-se com pequenos relhos e chicotes – um “Papa” de t´nica negra u aben¸oa min´sculos caix˜es simb´licos carregados reverentemente para o cemit´rio c u o o e por punks chorosos. Um espet´culo desse tipo deve ofender quase todo mundo. a 3. Cole em lugares p´blicos um cartaz xerocado com a foto de um lindo garoto de 12 u anos, nu e se masturbando, com o t´ ıtulo bem ` vista: A FACE DE DEUS. a 4. Envie elaboradas e requintadas “bˆn¸˜os” m´gicas pelo correio, anonimamente, para e ca a pessoas ou os grupos que vocˆ admira, por exemplo, por sua capacidade pol´ e ıtica ou espiritual, por sua beleza f´ ısica ou por seu sucesso no mundo do crime etc. Siga o mesmo procedimento descrito no item 5 a seguir, mas utilize uma est´tica de bons e votos, amor ou felicidade, o que for mais apropriado. 5. Rogue uma praga horr´ contra uma institui¸˜o maligna, tal como o New York ıvel ca Post ou a empresa MUZAK. Aqui, uma t´cnica adaptada dos feiticeiros da Mal´sia: e a envie para a empresa um pacote com uma garrafa tampada e selada com cera negra. E dentro dela: insetos mortos, escorpi˜es, lagartos e coisas do tipo; um saco com o terra de cemit´rio (“gris-gris” na terminologia vodu), junto com outras substˆncias e a nocivas; um ovo perfurado por pregos e alfinetes de ferro; um pergaminho onde est´ a desenhado um emblema (veja p´gina 78). a (Esse iantra ou veve invoca o Djim3 Negro, a sombra do Eu. Detalhes completos podem ser obtidos na AAO.) Um bilhete explica que a bruxaria ´ contra a institui¸˜o e e ca n˜o contra os indiv´ a ıduos – mas, a menos que a institui¸˜o deixe de ser maligna, a praga ca (como um espelho) come¸ar´ a infectar as dependˆncias com um destino terr´ c a e ıvel, um miasma de negatividade. Prepare um “comunicado” explicando a maldi¸˜o e atribuindo ca a sua autoridade ` Sociedade Po´tica Americana. Envie c´pias para todos os empregados a e o
Pra¸a em Chicago onde ocorreu o grande confronto descrito no livro A Bomba, de Frank Harris c (Conrad Livros, 2003), entre pol´ e oper´rios que faziam uma demonstra¸˜o pela jornada de trabalho ıcia a ca ´ de oito horas, em maio de 1886. E o evento que deu origem ao 1o de Maio como Dia dos Trabalhadores. (N.E) 3 Ser lend´rio mu¸ulmano que pode tomar qualquer forma humana ou animal e influir na vida das a c pessoas. (N.T)
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2.2. COMUNICADO #2

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da institui¸˜o e para a m´ ca ıdia. Na noite anterior ` chegada dessas cartas, cole nas paredes a da institui¸˜o c´pias do emblema do Djim Negro em locais que sejam vis´ ca o ıveis a todos os empregados quando eles chegarem ao trabalho pela manh˜. a (Nossos agradecimentos novamente a Abu Jehad e a Sri Anamananda – o Castel˜o a Mouro do Belvedere Weather Tower – e aos outros camaradas da zona autˆnoma do o Central Park e do Templo N´mero 1 do Brooklyn.) u

2.2

Comunicado #2

O Memorial Bolo Kallikak e O Caos Ashram4 : Uma Proposta
Alimentando uma obsess˜o por trailers Airstream – aqueles cl´ssicos dirig´ a a ıveis em miniatura sobre rodas – e tamb´m pela regi˜o de Pine Barrens em Nova Jersey, por suas e a infind´veis vastid˜es desertas de riachos arenosos e pinheiros negros, brejos de groselhas a o silvestres e cidades fantasmas, popula¸˜o em torno de catorze pessoas por milha quadrada, ca estradas n˜o pavimentadas onde samambaias crescem sem controle, cabanas de pinho e a casas sobre rodas, enferrujadas e isoladas, com carros engui¸ados no quintal da frente. c Terra dos m´ ıticos Kallikaks – fam´ ılias da regi˜o estudadas pelos eugenistas na d´cada a e de 1920 para justificar a campanha de esteriliza¸˜o dos pobres da ´rea rural. Alguns ca a Kallikaks fizeram bons casamentos, prosperaram e tornaram-se burgueses, gra¸as aos c bons genes – outros, no entanto, nunca tiveram emprego de verdade e viviam dos bosques – incestos, sodomia, deficiˆncias mentais abundantes – fotografias retocadas para fazˆ-los e e parecer absortos e morosos – descendentes de ´ ındios vagabundos, mercen´rios de Hesse5 , a ladr˜es p´s-de-chinelo, desertores – degenerados lovecraftianos. o e Pensando bem, os Kallikaks talvez tenham produzido alguns seguidores do Caos, percursores do sexo radical, profetas do Trabalho-Zero. Como outras paisagens mon´tonas o (desertos, mares, pˆntanos), a regi˜o de Pine Barrens parece estar imbu´ de um poder a a ıda er´tico – que n˜o ´ nem viril nem orgi´stica, mas que transmite uma desordem lˆnguida, o a e a a quase um desmazelo da Natureza, como se aquele solo e aquela ´gua fossem feitos de a carne sensual, membranas, tecidos esponjosos er´teis. Queremos acampar neste lugar, e talvez numa cabana de pesca e ca¸a abandonada com um velho fog˜o de lenha e banheiro c a externo – ou em decadentes cabanas de f´rias em alguma estrada secund´ria fora de uso – e a ou simplesmente num lugar onde podemos estacionar dois ou trˆs Airstreams escondidos e por detr´s dos pinheiros e Perto de um po¸o grande o suficiente para nadar. Ser´ que os a c a kallikaks estavam por dentro de algo bom? Vamos descobri. em algum lugar, garotos sonham que extraterrestres vir˜o resgat´-los de suas fam´ a a ılias, talvez desintegrando seus pais com um tipo de raio alien´ ıgena. Ent˜o, bem... Trama a de Seq¨estro do Pirata Espacial ´ Descoberta – “Alien´ u e ıgena” Desmascarado ´ Poeta Hoe mossexual Xiita Fan´tico – OVNIs avistados sobre Pine Barrens – “Garotos Perdidos a Deixar˜o a Terra”, afirma Hakim Bey, o Assim Chamado Profeta do Caos. a garotos fugitivos, bagun¸a e desordem, ˆxtase e Indolˆncia, nadar nus, infˆncia como c e e a
Uma comunidade ou institui¸˜o espiritual em que disciplinas espirituais s˜o praticadas: a residˆncia ca a e de um santo ou mestre espiritual (sˆnscrito). (N.T) a 5 Mercen´rios contratados pelo ex´rcito inglˆs durante a guerra de independˆncia americana. (N.T) a e e e
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

insurrei¸˜o permanente – cole¸˜es de sapos, lesmas, folhas – mijar da lua – 11, 12, 13 – ca co crescidos o suficiente para tomar as r´deas da pr´pria hist´ria da m˜o dos pais, da escola, e o o a da previdˆncia social, da TV – Venham viver conosco no Pine Barrens – n´s cultivaremos e o um tipo local de beberagem para financiar nossa lux´ria e contempla¸˜o da alquimia do u ca ver˜o – e al´m disso n˜o produziremos nada a n˜o ser artefatos de Terrorismo-Po´tico e a e a a e recorda¸˜es de nossos prazeres. co dar voltas sem destino na velha picape, pescar e coletar alimentos, deitar na sombra lendo quadrinhos e comendo uvas – essa ´ a nossa Economia. A realidade das coisas e quando libertas da Lei, cada mol´cula uma orqu´ e ıdea, cada ´tomo uma p´rola para a a e consciˆncia alerta – esse ´ nosso culto. O Airstream tem tapetes persa em todas suas e e paredes, a grama est´ cheia de ervas satisfeitas. a a casa na ´rvore torna-se uma nave espacial na nudez de julho e ` meia-noite, semia a aberta `s estrelas, aquecidas por um suor epicuriano, apressada e depois tranq¨ilizada a u pela respira¸˜o dos pinheirais. ca (Caro Di´rio de Bordo Bolo: Vocˆ pediu uma utopia pr´tica e poss´ – aqui est´ ela, a e a ıvel a n˜o apenas uma fantasia p´s-holocausto, nada de castelos da lua de J´piter – um esquema a o u que poder´ ıamos adotar amanh˜ – a n˜o ser pelo fato de que todos os seus aspectos violam a a certas leias, revelam alguns dos tabus absolutos da sociedade norte-americana, amea¸am c a pr´pria trama social etc. etc. etc. Azar. Esse ´ nosso desejo verdadeiro e para realiz´-lo o e a precisamos contemplar n˜o apenas uma vida de arte pura, mas tamb´m o crime puro, a a e insurrei¸˜o pura. Am´m.) ca e (Nossos agradecimentos a Grim Reaper e a outros membros do Templo Si Fan da Divina Providˆncia em prol de YALU, GANO, SILA e suas id´ias.) e e

2.3

Comunicado #3

O Tema Haymarket
“Preciso apenas mencionar en passant que existe um curioso ressurgimento da tradi¸˜o ca de bagres na popular s´rie de filmes Godzilla, surgida ap´s o caos nuclear lan¸ado sobre e o c o Jap˜o. Na verdade, os detalhes simb´licos da evolu¸˜o Godzilla no cinema de cultura a o ca pop s˜o surpreendentemente paralelos aos mais tradicionais e folcl´ricos temas japoneses e a o chineses de combate a uma ambivalente criatura do caos (alguns dos filmes, como Mothra, lembram diretamente os antigos motivos do ovo/caba¸a/casulo c´smico) que ´ geralmente c o e domesticada, ap´s o fracasso da ordem civilizada, pela a¸˜o especial e indireta de uma o ca crian¸a.” Girardot , Myth e Meaning in Early Taoism: The Theme of Chaos (hun-tun). c Em algum antigo Templo da Ciˆncia Islˆmica (em Chicago ou Baltimore), um antigo e a amigo afirmou Ter visto um altar secreto no qual descansavam pares combinados de seis rev´lveres (em caixas de veludo) e um fez negro. Supostamente, a inicia¸˜o ao c´ o ca ırculo mais secreto requer do ne´fito mouro o assassino de pelo menos um policial. /// E quando o Louis Lingg6 ? Foi ele um precursor do Anarquismo Ontol´gico? “Eu o desprezo” – n˜o o a
Um dos homens acusados de lan¸ar a bomba que matou v´rios policiais a manifesta¸˜o em Haymarket c a ca Sq., 1886. Julgado e condenado, suicidou-se na pris˜o. (N.T) a
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2.4. COMUNICADO #4

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podemos deixar de admitir tais sentimentos. Mas o homem se dinamitou aos 22 anos para enganar a for¸a... esses n˜o ´ exatamente o caminho que escolhemos. c a e ´ /// A IDEIA de POL´ ICIA ´ como a hidra em que crescem cem novas cabe¸as para e c cada uma que ´ decepada – e todas essa cabe¸as s˜o policiais vivos. Cortar fora as cabe¸as e c a c n˜o nos ajuda em nada, apenas aumenta o poder da besta at´ que ela nos engula. /// a e ´ Primeiro assassine a IDEIA – exploda o monumento dentro de n´s – e ent˜o, talvez... o o a equil´ ıbrio do poder se inverter´. Quando o ultimo tira em nosso c´rebro for assassinado a ´ e pelo ultimo desejo n˜o satisfeito – talvez at´ mesmo a paisagem ao nosso redor comece a ´ a e mudar... /// O Terrorismo Po´tico prop˜e tal sabotagem dos arqu´tipos como ´vidos pela e o e a derrubada (por qualquer meio) de toda pol´ ıcia, aiatol´s, banqueiros, carrascos, padres a etc., reservamo-nos a op¸˜o de venerar at´ mesmo os “fracassos” do excesso radical. /// ca e Uns poucos dias liberto do Imp´rio das Mentiras pode muito bem valer um sacrif´ e ıcio consider´vel; um momento de realiza¸˜o exaltada pode pesar mais do que uma vida a ca inteira de trabalho e t´dio microcef´lico. /// Mas esse momento deve tornar-se nosso – e a e nossa posse sobre ele ´ seriamente comprometida se precisamos cometer suic´ e ıdio para preservar sua integridade. Ent˜o, misturamos ironia ` nossa venera¸˜o – n˜o ´ o mart´ a a ca a e ırio que propomos, mas a coragem do dinamitador, a autoconfian¸a de um monstro do Caos, c a realiza¸˜o de prazeres criminosos e ilegais.” ca

2.4

Comunicado #4

O Fim do Mundo
A AAO declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A vers˜o canˆnica a o tem sido usada desde 1945 para nos manter acovardados diante do medo da Inevit´vel a Destrui¸˜o M´tua e em chorosa servid˜o aos nossos pol´ ca u a ıticos super-her´is ( os unicos o ´ capazes de lidar com a fatal Criptonita Verde)... Qual a importˆncia de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? a Quase nenhuma. N´s imaginamos isso como uma forma de fuga da contempla¸˜o de o ca nossas pr´prias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagemo espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo. A vers˜o n˜o oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um a a ´ Eden p´s-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revela¸˜es) podem o co se entregar indolentemente `s orgias de histeria dualista, aos intermin´veis confrontos a a finais com um demˆnio sedutor... o Vimos o fantasma de Ren´ Gu´non7 , cadav´rico e usando um fez (como Boris Karloff e e e interpretando Ardis Bey em A M´mia), liderando uma fun´rea banda de rock noise indusu e trial em altos zumbidos de moscas negras pela morte da Cultura e do Cosmos: o fetichismo elitista de niilistas pat´ticos, o autodesprezo gn´stico dos intelectual´ides “p´s-sexuais”. e o o o N˜o seriam essas baladas sombrias simplesmente imagens-espelhos de todas as mentia ras e superficialidades sobre o Progresso e o Futuro, berradas em todos os alto-falantes,
M´ ıstico francˆs (1886-1951) que abra¸ou as tradi¸˜es orientais e proclamou o decl´ e c co ınio do Ocidente em suas obras. (N.T)
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

e emitidas, no mundo do Consenso, como ondas cerebrais paran´icas de qualquer livro o escolar e da TV? A tanatologia dos sofisticados milenaristas brota como pus da falsa sa´de u do Para´ de Trabalhadores e Consumidores. ıso Qualquer um que pode ler a hist´ria com os dois hemisf´rios do c´rebro sabe que um o e e mundo termina a todo instante – as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as mem´rias de um passado fechado e petrificado – mem´ria imperfeita, ela mesma morio o bunda e autonal. E a todo instante tamb´m ´ gerado um mundo novo – apesar dos proe e testos dos fil´sofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram – uma atualidade na qual o todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premoni¸˜es dissipam-se co em nada num unico gesto presencial, psicomˆntrico e hologram´tico. ´ a a O passado “normativo” ou a futura morte do universo significam t˜o pouco para n´s a o quanto o PIB do ano passado ou a degenera¸˜o do Estado. Todos os passados Ideais, ca todos os futuros que ainda n˜o passaram, simplesmente obstruem a nossa consciˆncia da a e v´ ıvida presen¸a total. c Certas seitas acredita, que o mundo (ou “um” mundo) j´ chegou ao fim. Para as a Testemunhas de Jeov´, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o a Livro das Revela¸˜es agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande co Conjun¸˜o dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do ca Esp´ ırito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurrei¸˜o, a imanˆncia do eschaton, o para´ na Terra. O tempo profano ca e ıso terminou em algum ponto da Idade M´dia. Desde ent˜o, vivemos em tempos angelicais e a – s´ que a maioria de n´s n˜o sabe disso. o o a Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca come¸ou. O Caos nunca morreu. O Imp´rio nunca foi fundado. N˜o somos e nunca fomos c e a escravos do passado ou ref´ns do futuro. e Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli ; a data exata n˜o a importa. Os ranters8 , em 1650, sabiam que o Milˆnio se inicia agora em cada alma que e desperta para si mesma, para o seu pr´prio centro e divindade. “Regozije-se, compao nheiro”, era o cumprimento que usavam. “Tudo ´ nosso!” e Eu n˜o quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim a na rua. Um corvo negro pousa numa ´rvore de magn´lias rosadas, grasnando enquanto o a o orgˆnio se acumula e ´ liberado numa fra¸˜o de segundo sobre a cidade... o ver˜o come¸a. o e ca a c Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milˆnio. e

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Comunicado #5

“Sadomasoquismo Intelectual ´ o Fascismo dos Anos 1980 – A e Vanguarda Come Merda e Gosta”
CAMARADAS!
Grupo radical inglˆs de proeminˆncia entre os anos de 1649-54; influenciados pela ordem herege da e e Fraternidade do Esp´ ırito Livre (s´c.XIV) e pela “Era do Esp´ e ırito” de Joaquim de Fiore (s´c.XII). (N.T) e
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2.5. COMUNICADO #5

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Recentemente uma certa confus˜o sobre “Caos”, levantada por certos setores revana chistas, importunou a AAO, for¸ando-nos (a n´s, que desprezamos polˆmicas) a enfim c o e participar de uma Sess˜o Plen´ria devotada para den´ncias ex cathedra, nefastas como o a a u inferno; nossas faces de ret´rica, perdigotos voando de nossos l´bios, as veias do pesco¸o o a c inchadas com o fervor do p´lpito. Devemos, por fim, nos resumir com cartazes com u slogans raivosos (em caracteres de 1930) declarando o que a Anarquia Ontol´gica n˜o ´. o a e Lembrem-se de que s´ na f´ o ısica cl´ssica o Caos tem qualquer coisa a ver com entropia, a morte t´rmica e decadˆncia. Em nossa f´ e e ısica (Teoria do Caos), o Caos identifica-se com o Tao, mais al´m tanto do yin-como-entropia quanto do yang-como-energia, sendo mais um e princ´ de cria¸˜o do que qualquer nihil, um vazio no sentido de potentia, n˜o exaust˜o. ıpio ca a a (Caos como “a soma de todas as ordens”.) Dessa alquimia, quintessencializamos uma teoria est´tica. A arte do Caos pode ser e aterrorizante, pode at´ atuar num grand guignol, mas jamais pode deixar-se encharcar em e negatividade p´trida, tanatologia, schadenfreude (deleite com o sofrimento dos outros), u sussurrando sobre memorabilia nazista e assassinatos em s´rie. A Anarquia Ontol´gica e o n˜o coleciona filmes pedantes e entedia-se profundamente com elites que vomitam filosofia a francesa. (“N˜o h´ esperan¸a alguma e eu j´ sabia disso antes de vocˆ, seu merda. H´!”) a a c a e a Wilhelm Reich foi quase levado ` loucura total e assassinado por agentes da Praga a Emocional. Talvez metade de sua trabalho deveria da mais absoluta paran´ia (conso pira¸˜es de OVNIs, homofobia, at´ mesmo sua teoria sobre o orgasmo), MAS em um co e ponto n´s concordamos completamente – sexpol : repress˜o sexual alimenta a obsess˜o o a a pela morte, o que leva ` m´s pol´ticas. a a ı Uma grande parte da arte de vanguarda est´ saturada com Raios de Orgˆnio Mora o tal (ROM). A Anarquia Ontol´gica tem como objetivo construir detonadores de nuvens o est´ticas (armas-RO) para dispensar o miasma do sadomasoquismo cerebral que hoje e em dia ´ considerado moderno, brilhante, inteligente, o m´ximo, o novo. Artistas “pere a form´ticos” automutiladores s˜o para n´s banais e est´pidos – sua arte deixa todo mundo a a o u mais infeliz. Que tipo de bosta barata conivente... que artistas babacas com c´rebro de e minhoca prepararam esse cozido apocal´ ıptico? ´ E claro que a vanguarda parece “inteligente” – como Marinetti e os Futuristas, como Pound e Celine. Em compara¸˜o com esse tipo de inteligˆncia, preferimos a estupidez real, ca e a idiotice insossa e buc´lica do New Age – preferimos ser idiotas a ficar obcecados pela o morte. Mas, felizmente, n˜o precisamos esvaziar o c´rebro para alcan¸ar nosso tipo raro a e c 9 de satori . Todas as faculdades, todos os nossos sentidos s˜o nossos, nossa propriedade – a cora¸˜o e cabe¸a, esp´ ca c ırito e intelecto, alma e corpo. A nossa n˜o ´ uma arte de mutila¸˜o, a e ca mas de excesso, superabundˆncia, assombro. a Os distribuidores da melancolia sem sentido s˜o os Esquadr˜es da Morte da est´tica a o e contemporˆnea – e n´s os “desaparecidos”. Seu sal˜o de bailes de fantasia com ocula o a tos bricabraques do Terceiro Reich e assassinatos de crian¸as atrai os manipuladores do c Espet´culo – a morte fica melhor na TV do que na vida – e n´s, artistas do Caos, que a o pregamos uma alegria rebelde, somos encurralados e mantidos no silˆncio. e N˜o ´ precisos dizer que rejeitamos toda a censura da Igreja e do Estado – mas, “depois a e da revolu¸˜o”, de bom grado assumiremos a responsabilidade individual e pessoal pela ca
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No zen-budismo, o estado de ilumina¸˜o espiritual; o alcance repentino desse estado. (N.T) ca

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

queima de todo o embolorado lixo art´ ıstico dos Esquadr˜es da Morte e pela sua expuls˜o o a da cidade em caravana. (No contexto anarquista, a cr´ ıtica torna-se uma a¸˜o direta.) ca Em meu espa¸o n˜o cabe em Jesus e seus senhores das moscas nem Charles Manson e c a seus admiradores liter´rios. Eu n˜o quero nenhuma pol´ mundana – nem assassinos a a ıcia c´smicos e seus machados; nenhum massacre com serra el´trica na TV, nenhum sens´ o e ıvel romance p´s-estruturalista sobre necrofilia. o No momento, a AAO nutre vagu´ ıssimas esperan¸as de poder sabotar o mecanismo c sufocante do Estado e seu circuito fantasmag´rico – mas podemos chegar a ser capazes o de fazer algo para diminuir as manifesta¸˜es da praga dos ROM, como os comedores co de cad´veres do Lower East Side e outros lixos art´ a ısticos. Apoiamos artistas que usam materiais aterradores para alguma “causa nobre” – que usam material sexual/afetivo de qualquer tipo, n˜o importa se chocante ou ilegal – que usam sua raiva e asco e seus a desejos verdadeiros de caminhar em dire¸˜o ` auto-realiza¸˜o, beleza e aventura. “Niica a ca lismo Social”, sim – mas n˜o o niilismo morto do autodesprezo gn´stico. Mesmo se for a o violento e abrasivo, qualquer um com um vest´ do terceiro olho consegue enxergar as ıgio diferen¸as entre a arte revolucion´ria pr´-vida e a arte reacion´ria pr´-morte. Os ROM c a o a o fedem, e o nariz do artista do Caos pode senti-lo da mesma forma que discerne o perfume da alegria espiritual/sexual, mesmo quanto soterrado ou mascarado sob outros odores sombrios. Mesmo a Direita Radical, com todo seu horror da carne e dos sentidos, ocasionalmente aparece com um momento de percep¸˜o e aprimoramento da consciˆncia – ca e mas os Esquadr˜es da Morte, com todo seu cansativo discurso e suas abstra¸˜es revoo co lucion´rias modernas, oferecem-nos tanta energia libert´ria quanto o FBI, o FDA e os a a batistas recalcados. Vivemos numa sociedade que faz propaganda de suas mercadorias mais caras com imagens de morte e mutila¸˜o, enviada diretamente para a parte sub-rept´ do c´rebro ca ıcia e das multid˜es atrav´s de aparelhos carcin´genos geradores de ondas alfa que distorcem a o e o realidade – enquanto algumas imagens da vida (como a nossa favorita, de uma crian¸a se c masturbando) s˜o banidas e punidas com uma ferocidade incr´ a ıvel. N˜o ´ preciso coragem a e para ser um S´dico da Arte, pois a morte libidinosa est´ no centro est´tico do Paradigma a a e do Consenso. “Esquerdistas” que gostam de se fantasiar e brincar de pol´ e ladr˜o, pessoas que se ıcia a masturbam olhando para fotos de atrocidades, pessoas que gostam de pensar e intelectualizar sobre a arte “qualquer jeito”, a pretensiosa falta total de esperan¸a, monstruosidade c terr´ ıvel, as desgra¸as dos outros – tais “artistas” n˜o s˜o nada al´m de policiais-sem-poder c a a e (uma defini¸˜o perfeita tamb´m para muitos “revolucion´rios”) N´s temos uma bomba ca e a o negra para esses fascistas est´ticos – ela explode em espuma e estalos, ervas hilariantes e e pirataria, estranhas heresias xiitas e fontes paradis´ ıacas borbulhantes, ritmos complexos, pulsa¸˜es da vida, tudo o que for sem forma e raro. co Acorde! Respire! Sinta o h´lito do mundo em sua pele! Aproveite o dia! Respire! a Respire! (Nossos agradecimentos a J. Mander por seu livro Four Arguments for the Abolition Of Television, a Adam Exit e ao mouro cosmopolita de Williamsburg.)

2.6. COMUNICADO #6

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2.6

Comunicado #6

I. S˜o do Apocalipse: “Teatro Secreto” a
Conquanto nenhum Stalin fungue em nossos pesco¸os, por que n˜o fazer alguma arte c a a servi¸o de... um insurrei¸˜o? c ca N˜o importa se ´ “imposs´ a e ıvel”. O que mais devemos aspirar atingir sen˜o o “ima poss´ ıvel”? Devemos esperar que outras pessoas revelem nossos verdadeiros desejos? Se a arte morreu, ou o p´blico desapareceu, ent˜o nos encontramos livres de dois pesos u a mortos. Em potencial, todos n´s somos algum tipo de artista – e potencialmente todo o p´blico recuperou sua inocˆncia, sua capacidade de tornar-se a arte que experiˆncia. u e e Desde que possamos escapar dos museus que carregamos dentro de n´s mesmos, desde o que conseguimos parar de nos vender ingressos para as galerias que existem dentro de nossos pr´prios crˆnios, poderemos come¸ar a contemplar uma arte que recrie o objetivo o a c do feiticeiro: mudar a estrutura da realidade pela manipula¸˜o dos s´ ca ımbolos vivos (neste caso, as imagens que nos foram “dadas” pelos organizadores desse sal˜o – assassinato, a guerra, fome e ganˆncia). a Podemos agora contemplar a¸˜es est´ticas que possuam um pouco da ressonˆncia do co e a terrorismo (ou “crueldade”, como definiu Artaud) e cujo objetivo ´ destruir as abstra¸˜es e co em vez de destruir as pessoas, a liberta¸˜o em vez do poder, o prazer em lugar do lucro, ca a alegria e n˜o o medo. “Terrorismo Po´tico.” a e As imagens que escolhemos tˆm a potˆncia da escurid˜o – mas todas as imagens s˜o e e a a m´scaras, e por tr´s dessas m´scaras existem energias que podemos direcionar para a luz a a a e o prazer. Por exemplo, o homem que inventou o aikido era um samurai que se tornou pacifista e se recusou a lutar pelo imperialismo japonˆs. Ele acabou virando um eremita, vivia e numa montanha sentado sob uma ´rvore... a Um dia, um ex-colega samurai foi visit´-lo e acusou-o de trai¸˜o, covardia, etc. O a ca eremita n˜o disse nada, apenas continuou sentado – e ent˜o o soldado, irado, puxou sua a a espada e atacou-o. Espontaneamente, o mestre desarmado tomou a espada do soldado e devolveu-a em seguida. V´rias vezes o soldado tentou mat´-lo, usando todos os golpes a a mais sutis de seu repert´rio – mas a partir de sua mente vazia o eremita inventava, todas o as vezes, novas maneiras de desram´-lo. a O soldado, ´ claro, tornou-se seu primeiro disc´ e ıpulo. Mais tarde, eles aprenderam a esquivarem-se de balas. Podemos contemplar alguma forma de metadrama criado para capturar um pouco do sabor dessa atua¸˜o, que deu origem a uma arte totalmente nova, ca um modo totalmente n˜o violento de luta – guerra sem assassinato – “a espada da vida”, a e n˜o a da morte. a Uma conspira¸˜o de artistas, anˆnima como qualquer bombardeador maluco, mas ca o voltada para um ato de generosidade gratuita no lugar da violˆncia – para o milˆnio e e em vez de para o apocalipse – ou, ainda, apontada para o presente momento de choque est´tico a servi¸o da realiza¸˜o e libera¸˜o. e c ca ca A arte conta maravilhosas mentiras que se tornam realidade. ´ E poss´ criar um TEATRO SECRETO onde o artista quanto a audiˆncia desapaıvel e

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

recem completamente – apenas para reaparecer em outro plano, onde a vida e a arte se tornam a mesma coisa, puro oferecimento das d´divas? a

II. Assassinato – Guerra – Fome – Ganˆncia a
Os Maniqueus e os C´taros acreditavam que o corpo pode ser espiritualizado – ou a melhor, que o corpo simplesmente contamina o esp´ ırito puro e portanto deve ser rejeitado totalmente. Os gn´sticos perfecti (dualistas radicais) n˜o se alimentavam at´ morrer para o a e escapar do corpo e retornar ao pleroma da luz pura. Ent˜o: para fugir dos malef´ a ıcios da carne – assassinato, guerra, fome ganˆncia – a paradoxalmente apenas existe um caminho: o assassinato do pr´prio corpo, guerra contra o a carne, fome at´ a morte, ganˆncia por salva¸˜o. e a ca Os monistas radicais, no entanto (ismaelitas10 , ranters, antinomianos11 ), consideram que corpo e esp´ ırito s˜o uma coisa s´, que o mesmo esp´ a o ırito que impregna uma pedra negra tamb´m infunde a carne com sua luz; que vive e tudo ´ vida. e e “As coisas s˜o o que s˜o espontaneamente... tudo ´ natural... tudo est´ em movimento a a e a como se existisse um Verdadeiro Senhor para movˆ-las – mas, se procuramos por evidˆncias e e desse Senhor, n˜o conseguiremos encontr´-las.” (Kuo Hsiang) a a Paradoxalmente, o caminho monista tamb´m n˜o pode ser seguido sem algum tipo e a de “assassinato, guerra, fome, ganˆncia”: a transforma¸˜o da morte em vida (comida, a ca entropia negativa) – guerra contra o Imp´rio das Mentiras – “o jejum da alma”, ou a e ren´ncia ` Mentira, a tudo que n˜o ´ vida – e ganˆncia pela pr´pria vida, o poder u a a e a o absoluto do desejo. Mais ainda: sem o conhecimento da escurid˜o (“conhecimento carnal”) n˜o pode a a existir o conhecimento da luz (“gnose”). Os dois conhecimentos n˜o s˜o meramente a a complementares: s˜o idˆnticos, como a mesma nota tocada em duas oitavas diferentes. a e Her´clito afirma que a realidade persiste num estado de “guerra”. Apenas notas opostas a podem construir a harmonia. (“O Caos ´ a soma de todas as ordens.”) e Dˆ cada um desses quatro termos uma m´scara de linguagem diferente (chamar as e a F´rias de “as Gentis” n˜o ´ um mero eufemismo, mas uma maneira de revelar ainda mais u a e significados). Mascarados, ritualizados, percebidos como arte, os termos assumem sua beleza tenebrosa, sua “Luz Negra”. Em vez de assassinato, diga ca¸ada, a pura economia paleol´ c ıtica de todas sociedades tribais arcaicas e n˜o autorit´rias – venery12 , tanto a ca¸a e o consumo da carne quanto a a c o encanto de Vˆnus, do desejo. Em vez de guerra, diga insurrei¸˜o, n˜o a revolu¸˜o e ca a ca de classes e poderes, mas a do eterno rebelde, o sombrio que revela a luz. Em vez de ganˆncia, diga ˆnsia, desejo inconquist´vel, amor louco. E, em vez de fome, que ´ um a a a e
Adepto do ismaelismo, seita mu¸ulmana xiita surgida das disputas geradas no ano 765. d.C e que c teve sua maior influˆncia pol´ e ıtica no mundo islˆmico entre os s´culos X e XII. (N.E) a e 11 Sect´rios da doutrina luterana de Johannes Schnitter (1492-1566); que afirma ser a f´, e n˜o os atos, a e a a unica condi¸˜o para a salva¸˜o. (N.T) ´ ca ca 12 Venery, em inglˆs, tem dois sentidos bem diferentes. O primeiro, que vem do latim venus (amor, e desejo sexual), ´ de satisfa¸˜o sexual. O outro, do francˆs venerie, que por vez tem origem no latim e ca e venari (ca¸ada), ´ de ca¸ada como esporte. (N.E) c e c
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2.7. COMUNICADO #7

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tipo de mutila¸˜o, fale de completitude, inteireza, superanbundˆncia, generosidade do eu ca a sobe em espirais em dire¸˜o ao Outro. ca Sem esse baile de m´scaras, nada seria criado. A mais antiga mitologia faz de Eros o a primeiro rebento do Caos. Eros, o selvagem que pode domar, ´ a porta pela qual o artista e volta ao Caos, ao Uno, e depois retorna, reaparece novamente, trazendo uma das formas da beleza. O artista, o ca¸ador, o guerreiro: aquele que ´ ao mesmo tempo apaixonado e c e equilibrado, ganancioso e altru´ ao extremo. Devemos ser salvos de todas as salva¸˜es ısta co que querem salvar-nos de n´s mesmos, do animal que ´ tamb´m nossa anima, nossa o e e pr´pria for¸a de vida, e tamb´m nosso animus, nosso auto-apoderamento vitalizador, que o c e pode at´ mesmo se manifestar como raiva e ganˆncia. e a ˆ A BABILONIA ensinou-nos que a nossa carne ´ imunda – escravizou-nos com esse e argumento e a promessa de salva¸˜o. Mas, se a carne j´ estiver “salva”, j´ for luz – e se ca a a at´ mesmo a pr´pria consciˆncia for um tipo de carne, um ´ter simultaneamente palp´vel e o e e a e vivo –, ent˜o n˜o precisamos de nenhum poder para interceder a nosso favor. A selva, a a como diz Omar, ´ o para´ agora mesmo. e ıso A verdadeira posse do assassinato pertence ao Imp´rio, pois apenas a liberdade ´ e e vida completa. A guerra tamb´m ´ babilˆnica – nenhuma pessoa livre morrer´ pelo e e o a engrandecimento de uma outra. A fome passa a existir apenas com a civiliza¸˜o dos ca salvadores, os reis-padres – n˜o foi Jos´ quem ensinou ao fara´ a especular sobre as a e o colheitas futuras? A ganˆncia – pela terra, pela riqueza simb´lica, pelo poder de deformar a o os corpos e as almas dos outros para sua pr´pria salva¸˜o – a ganˆncia tampouco surge o ca a da “natureza natural”, mas do represamento e da canaliza¸˜o de todas as energia para a ca gl´ria do Imp´rio. o e Contra tudo isso, o artista tem o baile de m´scaras, a radicaliza¸˜o total da linguagem, a ca a inven¸˜o de um “Terrorismo Po´tico” que vai atacar n˜o seres humanos, mas id´ias ca e a e malignas, pesos mortos na tampa do caix˜o dos nossos desejos. A arquitetura da asfixia a e da paralisia ser´ destru´da apenas pela nossa celebra¸˜o total de tudo – incluindo a a ı ca escurid˜o. a — Solst´ de Ver˜o, 1986 ıcio a

2.7

Comunicado #7

Paleolitismo Ps´ ıquico e Alta Tecnologia: Um Ensaio de Posicionamento
S´ porque a AAO fala de “paleolitismo” o tempo todo, n˜o fique com a impress˜o de o a a que queremos nos mandar de volta ` Idade da Pedra. a N˜o temos o menor interesse em “voltar ` natureza” se o pacote de viagem incluir a a a entediante vida de camponˆs chutador-de-bosta —nem queremos o “tribalismo” se ele e vier com tabus, fetiches e m´ alimenta¸˜o. N˜o temos nada contra o conceito de cultura a ca a – incluindo a tecnologia; para n´s, o problema come¸a com a civiliza¸˜o. o c ca O que gostamos da vida no Paleol´ ıtico foi resumido pela escola de antropologia dos povos sem autoridade: a elegante pregui¸a da sociedade do ca¸ador/coletor, o trabalho de c c

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

duas horas por dia, a obsess˜o pela arte, dan¸a, poesia e afetividade, a “democratiza¸˜o a c ca do xamanismo”, o cultivo da percep¸˜o – em suma, a cultura. ca O que n´s detestamos na civiliza¸˜o pode ser deduzido da seguinte progress˜o: a o ca a “revolu¸˜o agr´ ca ıcola”; a emergˆncia das castas; a cidade e seu culto do controle hier´tico e a (“Babilˆnia”); escravid˜o; dogmas; imperialismo (“Roma”). A supress˜o da sexualidade o a a no “trabalho” sob a ´gide da “autoridade”. “O Imp´rio nunca terminou.” e e Um paleolitismo ps´quico, baseado na Alta Tecnologia – p´s-agr´ ı o ıcola, p´s-industrial, o “Trabalho-Zero”, nˆmade (ou “Cosmopolita Desenraizado”) – uma Sociedade de Parao digma do Quantum – essa constitui uma vis˜o ideal do futuro segundo a Teoria do aos e a a “futurologia” (no sentido que Robert Anton Wilson e T. Leary d˜o para o termo). a Quanto ao presente: rejeitamos todo tipo de colabora¸˜o com a Civiliza¸˜o da Anoca ca rexia e da Bulimia, com pessoas t˜o envergonhadas de nunca terem sofrido que inventam a m´scaras penitentes para si mesmas e para os outros – ou aqueles que se empanturram sem a d´ e depois despejam o vˆmito de sua culpa suprimida em grandes acessos masoquistas o o de exerc´ ıcios e dietas. Todos os nossos prazeres e autodisciplina nos pertencem por natureza – nunca nos negamos, nunca desistimos de nada; mas algumas coisas desistiram de n´s e nos deixaram, o porque somos muito grandes para elas. Sou ao mesmo tempo o homem da caverna, o mutante das estrelas, o seu conterrˆneo e o pr´ a ıncipe livre. Uma vez um chefe ind´ ıgena foi convidado para um banquete na Casa Branca. Quando a comida foi servida, o chefe encheu seu prato ao m´ximo poss´ a ıvel, n˜o apenas uma, mas trˆs vezes. Enfim, o branquelo a e sentado ao seu lado disse: Chefe, he, he, he, vocˆ n˜o acha que ´ um pouco demais?” e a e “Uh”, disse o chefe, “um pouco demais ´ perfeito para o Chefe!” e No entanto, certas doutrinas da “futurologia”, continuam problem´ticas. Por exemplo, a mesmo que aceitemos o potencial libertador das novas tecnologias como a TV, os computadores, a rob´tica, a explora¸˜o espacial etc., ainda percebemos uma grande distˆncia o ca a entre o potencial e realiza¸˜o. A banaliza¸˜o da TV, a “burguesifica¸˜o” dos computaca ca ca dores e a militariza¸˜o dos espa¸o sugerem que essas tecnologias, por si s´, n˜o oferecem ca c o a nenhuma garantia “espec´ ıfica” para seu uso libert´rio. a Mesmo se rejeitarmos o holocausto nuclear como apenas mais uma divers˜o espetacua lar orquestrada para distrair nossa aten¸˜o dos problemas reais, devemos admitir que a ca “Inevit´vel Destrui¸˜o M´tua” e a “Guerra Pura” tendem a diminuir nosso entusiasmo a ca u por alguns aspectos da aventura da Alta Tecnologia. A Anarquia Antol´gica mant´m sua o e afei¸˜o pelo luddismo como t´tica: se uma dada tecnologia, n˜o importa o qu˜o admir´vel ca a a a a em termos de potencial (no futuro), ´ usada para oprimir-me aqui e agora, ent˜o eu devo e a ou empunhar a arma da sabotagem, ou dominar os meios de produ¸˜o (ou, talvez mais ca importante, os meios de comunica¸˜o). N˜o h´ humanidade sem t´chne – mas n˜o h´ ca a a e a a t´chne mais valiosa do que minha humanidade. e Desprezamos o anarquismo panaca e antitecnol´gico – pelo menos no que nos diz o respeito (h´ aqueles que dizem que gostam da vida do campo) – e rejeitamos tamb´m a e o conceito de uma Solu¸˜o Tecnol´gica. Para n´s, todas as formas de determinismo s˜o ca o o a igualmente ins´ ıpidas – n˜o somos escravos nem de nossos genes nem de nossas m´quinas. a a O que ´ “natural” ´ aquilo que imaginamos e criamos. “A Natureza n˜o tem leis – apenas e e a h´bitos.” a Para n´s, a vida n˜o pertence nem ao passado – a terra dos famosos fantasmas amono a

2.7. COMUNICADO #7

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toando seus f´nebres e desbotados bens –, nem ao futuro, cujos cidad˜os mutantes com u a c´rebro em forma de bulbo guardam com zelo os segredos da imortalidade, do vˆo mais e o r´pido que a velocidade da luz, dos genes desenhados artificialmente e do encolhimento a do Estado. Aut nunc aut nihil. Todo momento cont´m uma eternidade a ser penetrada – no ene tanto, perdemo-nos em vis˜es assimiladas atrav´s dos olhos de cad´veres, ou na nostalgia o e a por uma perfei¸˜o ainda n˜o nascida. ca a As realiza¸˜es dos meus ancestrais e descendentes n˜o s˜o, para mim, nada mais do co a a que um conto instrutivo e interessante – eu jamais os verei como superiores, mesmo para desculpar minha pr´pria pequenez. Mandarei imprimir para mim mesmo uma licen¸a o c para roubar deles tudo o que eu quiser – paleolitismo ps´ ıquico ou alta tecnologia – ou, que seja, os belos detritos da pr´pria civiliza¸˜o, os segredos dos Mestres Ocultos, os o ca prazeres da nobreza fr´ ıvola e la vie boheme. La d´cadence. Nietzsche, ao contr´rio e apesar dela, possuir um papel t˜o profundo na e a a Anarquia Ontol´gica quanto a sa´de – cada um toma o que quiser do outro. Estetas deo u cadentes n˜o travam guerras est´pidas nem submergem sua consciˆncia no ressentimento a u e e na ganˆncia microcef´licos. Eles buscam aventura na inova¸˜o art´ a a ca ıstica e na sexualidade n˜o ordin´ria, em vez de busc´-la na desgra¸a alheia. A AAO admira e emula sua a a a c indolˆncia, seu desd´m pela estupidez e normalidade, sua expropria¸˜o das sensibilidades e e ca aristocr´ticas. Para n´s, essas qualidades harmonizam-se paradoxalmente com aquelas a o da Idade da Pedra e sua abundante sa´de, ignorˆncia de qualquer hierarquia, cultivo da u a virtu em vez da Lei. Exigimos decadˆncia sem doen¸a, e sa´de sem t´dio! e c u e Assim, a AAO oferece apoio incondicional para todos os povos ind´ ıgenas e tribais em sua luta por completa autonomia – e, ao mesmo tempo, para todas as especula¸˜es e co aspira¸˜es mais doidas e fora da realidade dos futurologistas. O paleolitismo do futuro co (que, para n´s, mutantes, j´ existe) ser´ alcan¸ado em grande escala atrav´s de uma o a a c e maci¸a tecnologia de Imagina¸˜o, e de um paradigma cient´ c ca ıfico que v´ at´m da mecˆnica a e a quˆntica para o reino da Teoria do Caos e da fic¸˜o especulativa. a ca Como cosmopolitas desenraizados, reivindicamos todas as belezas do passado, do Oriente, das sociedades tribais – tudo isso deve e pode ser nosso, mesmo os tesouros do Imp´rio: nosso para compartilharmos. E, ao mesmo tempo, exigimos uma tecnologia que e transcenda a agricultura, a ind´stria, a simultaneidade da eletricidade, um hardware que u fa¸a a interse¸˜o com o aparelho vivo da consciˆncia, que abranja o poder dos quarks, das c ca e part´ ıculas que viajam no tempo, do quasares e dos universos paralelos. Cada ide´logo enfurecido do anarquismo e do indeterminismo prescreve alguma utopia o an´loga aos v´rios tipos de vis˜o que eles tˆm, da comuna camponesa ` cidade espacial L-5. a a a e a N´s dizemos: Deixamos que um milh˜o de plantas flores¸am – sem nenhum jardineiro para o a c arrancar ervas daninhas e proibir brincadeiras de acordo com algum esquema moralizante ou eugenista. O unico conflito verdadeiro ´ entre a autoridade do tirano e a autoridade ´ e do ser realizado – todo o resto ´ ilus˜o, proje¸˜o psicol´gica, verborragia. e a ca o Num certo sentido, os filhos e filhas de Gaia nunca deixaram o Paleol´ ıtico; noutro, todas as perfei¸˜es do futuro j´ s˜o nossas. Apenas a insurrei¸˜o “resolver´” essa paradoxo co a a ca a – apenas o levante contra a falsa consciˆncia e a pobreza do Espet´culo. Nessa batalha, e a uma m´scara pintada ou o chocalho de um xam˜ pode vir a ser vital para a captura de a a um sat´lite de comunica¸˜o ou de uma rede secreta de computador. e ca

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

Nosso unico crit´rio de julgar uma arma ou uma ferramenta ´ sua beleza. De certo ´ e e ´ modo, os meios j´ s˜o os fins. A insurrei¸˜o j´ ´ nossa aventura. Torna-se E Ser. Passado a a ca a e e futuro existem dentro de n´s e para n´s. Estamos livres no TEMPO – e estaremos livres o o no ESPACO tamb´m. ¸ e (Nossos agradecimentos a Hagbard Celine, o s´bio de Howth e redondezas.) a

2.8

Comunicado #8

A Teoria do Caos e A Fam´ Nuclear ılia
Domingo no Parque de Riverside, os pais colocam se filhos no lugar certo, “pregandoos” ` grama como se por m´gica, com sinistros olhares enfeiti¸antes de camaradagem a a c leitosa, e os for¸am a jogar bolas de beisebol para um lado e para o outro durante horas. c Os garotos quase parecem pequenos S˜o Sebasti˜o perfurados por flechas de t´dio. a a e Os pretensiosos rituais de divers˜o familiar transformam todos os umidos gramados a ´ do ver˜o em parques tem´ticos; cada filho, uma alegoria inconsciente da riqueza do pai, a a uma representa¸˜o p´lida, duas ou trˆs vezes distanciadas da realidade: a crian¸a como ca a e c met´fora de uma-coisa-ou-outra. a E aqui eu chego ao cair da tarde, chapado de p´ de cogumelos, meio convencido de que o essas centenas de vaga-lumes surgem da minha pr´pria consciˆncia – Onde andavam eles o e todos esses anos? Por que tantos, t˜o de repente? – cada um ascendendo num momento de a incandescˆncia, descrevendo r´pidos arcos como gr´ficos abstratos da energia do esperma. e a a “Fam´ ılias! Os avaros do amor! Como eu as odeio!” Bolas de beisebol voam sem rumo da luz vespertina, algumas se perdem, as vozes elevam-se em exaust˜o mendigada, mas a ainda assim os Pais insistem em estender o t´pido posl´dio de seu sacrif´ patriarcal at´ e u ıcio e a hora do jantar, at´ que as sombras comam a grama. e Entre os filhos da plebe h´ um cujo olhar por um momento cruza com o meu – a transmito telepaticamente a imagem da doce licen¸a, o cheiro do TEMPO liberto de c todas as amarras da escola, das li¸˜es de m´sica, dos acampamentos de f´rias, das noites co u e familiares ao redor da TV, dos domingos no parque com papai – tempo autˆntico, tempo e ca´tico. o Agora a fam´ est´ deixando o parque, um pequeno batalh˜o de insatisfa¸˜o. Mas ılia a a ca aquele menino se volta e sorri para mim, em cumplicidade – “Mensagem Recebida” – e dan¸a atr´s de um vaga-lumes, encorajado por meu desejo. O pai ladra um mantra que c a dissipa meus poderes. O momento passa. O garoto ´ engolido pela textura da semana – desaparece como um e pirata seminu ou um ´ ındio que foi levado prisioneiro pelos mission´rios. O parque sabe a quem eu sou, mexe-se sob mim como um jaguar gigante pronto para despertar para sua medita¸˜o noturna. A tristeza ainda o det´m, mas ele continua indomado na sua essˆncia ca e e mais profunda: uma estranha desordem no cora¸˜o da noite da cidade. ca

2.9. COMUNICADO #9

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2.9

Comunicado #9

Duplas Den´ ncias u
I. Kristianismo Uma vez mais esperamos que aquele cad´ver moralista finalmente dˆ seu ultimo suspiro a e ´ ran¸oso e se transforme definitivamente em ab´bora. Uma vez mais imaginamos a derrota c o daquele obsceno espectro da morte pregando nas paredes de nossas salas de estar, nunca mais a lamentar sobre nossos pecados... mas, uma vez mais, ele ressuscita e volta, arrastando-se para nos ca¸ar como o vil˜o c a de um chat´ ıssimo filme pornˆ de quinta categoria – a mil´sima refilmagem de A Noite dos o e Mortos Vivos – trilhando seu rastro de lesma de humilha¸˜o lacrimosa... logo quando vocˆ ca e pensou que estava salvo no inconsciente... eis as MAND´ IBULAS13 de JESUS. Aten¸˜o! ca ´ E o ataque dos Batistas Barra-Pesada da Serra El´trica! e ˆ e os Esquerdista, nost´lgicos pelo Ponto Omega de seu para´ dial´tico, sa´dam cada a ıso e u renascimento galvanizado da f´ putrefata com arrulhos de del´ e ırio: Vamos dan¸ar um c tango com todos os bispos marxistas da Am´rica Latina – cantar uma balada para os e pios estivadores poloneses – sussurrar can¸˜es espirituais para o mais recente e promissor co afro-metodista presidenci´vel do Cintur˜o da B´ 14 ... a a ıblia A AAO denuncia a Teologia da Liberta¸˜o como uma conspira¸˜o das freiras stalica ca nistas – o acordo secreto escarlate da Puta da Babilˆnia com o fascismo vermelho dos o tr´picos. Solidarnosc? O pr´prio sindicato do Papa – apoiado pela Federa¸˜o Americana o o ca do Trabalho/Congresso de Organiza¸˜es Industriais (AFL-CIO), pelo Banco do Vaticano, co pelo Gabinete de Propaganda da Ma¸onaria e pela M´fia. E, se n´s alguma vez votarmos, c a o jamais gastaremos esse gesto vazio com algum c˜o krist˜o, n˜o importa sua ra¸a ou cor. a a a c Quanto aos krist˜os reais, esses tediosos fan´ticos autolobotomizados, esses m´rmons a a o assassinos de crian¸as, esses Guerreiros Estelares da Escravid˜o pela Moralidade, televanc a gelistas outoflageladores, esquadr˜es de zumbis da Aben¸oada Virgem Maria (que paira o c numa nuvem cor-de-rosa sobre o Bronx, vomitando ´dio, excomunh˜es e bile sobre a o o sexualidade das crian¸as, das adolescentes gr´vidas e das bichas)... c a Quanto aos que cultuam verdadeiramente a morte, canibais ritual´ ısticos, freaks do ˆ Armagedom – a Direita Crist˜ – s´ podemos rezar para que o EXTASE ACONTECA a o ¸ e arranque-os de detr´s dos volantes de seus carros, dos Programas de audit´rio e das a o camas castas, leve-os todos para o c´u e deixe-nos viver nossa vida humana. e II. Pr´-aborto e Antiaborto o Os Capiaus Retr´grados que jogam bombas em cl´ o ınicas de aborto pertencem ` mesma a categoria grotesca de estupidez depravada que os bispos que pregam a Paz e ainda assim condenam a sexualidade humana. A natureza humana n˜o tem leis (“apenas h´bitos”), e a a todas as leis n˜o s˜o naturais. Tudo pertence ` esfera da moralidade pessoal/imagin´ria a a a a – at´ mesmos o assassinato. e
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Jaws no original, que tamb´m pode significar “serm˜o”, “conversa ma¸ante”. (N.E) e a c Bible Belt, estados norte-americanos sulistas e do meio oeste de maioria crist˜ conservadora. (N.E) a

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

No entanto, segundo a Teoria do Caos, n´s n˜o somos obrigados a gostar e aprovar o o a assassinato – ou o aborto. O Caos gostaria de ver toda crian¸a bastarda gerada e nascida; c o ´vulo e esperma, separados, s˜o apenas secre¸˜es ador´veis, mas combinados em DNA a co a tornar-se consciˆncia em potencial, a entropia negativa, alegria. e Se “comer carne ´ assassinato”, como os vegetarianos afirmam, o que ´ o aborto? Os e e totemistas que dan¸avam para os animais que ca¸avam, que meditavam para se unir ao c c seu alimento vivo e compartilhavam de sua trag´dia, demonstravam valores muito mais e humanos do que a m´dia da classe das feministas liberais “pr´-aborto”. e o Em toda “quest˜o” a ser considerada para debate no livro de regras do Espet´culo, a a ambos os lados s˜o invariavelmente cheios de merda. A “quest˜o do aborto” n˜o ´ uma a a a e exce¸˜o. ca

2.10

Comunicado #10

Sess˜o Plen´ria Levantas Novas Den´ ncias – Expurgos s˜o Espea a u a rados
Para contrabalan¸ar qualquer carma viscoso que possamos ter adquirido com o nosso c irado serm˜ozinho de p´lpito contra os crist˜os e outros desagrad´veis adeptos do fim do a u a a mundo ver o ultimo comunicado) e apenas para deixar tudo muito claro: a AAO tamb´m ´ e denuncia todos os ateus renascidos imbecis e sua f´tida bagagem vitoriana de materialismo e cient´ ıfico vulgar. //// N´s aplaudimos os sentimentos anticrist˜os, ´ claro – e todos os ataques a todas o a e religi˜es organizadas. Mas... ao ouvir alguns anarquistas falarem, pode-se pensar que os o anos 1960 nunca aconteceram e que ningu´m tomou LSD. e //// A maioria dos cientistas, com Alice nos Loucos Pa´ do Quantum e da Teoria do ıses Caos, parte para o tao´ ısmo e para o vedanta (para n˜o falar no dada´ a ısmo) – e ainda assim, 15 se lermos The Match ou Freedom , poderemos pensar que a ciˆncia foi embalsamada com e o pr´ ıncipe Kropotkin – e a “religi˜o”, com o bispo Ussher. a ´ //// E claro que desprezamos os nazistas da era de Aqu´rio, o tipo de guru louvado a recentemente pelo The New York Times por sua contribui¸˜o aos Grandes Neg´cios, o ca o culto aos zumbis yuppies que outorgam franquias, a metaf´ ısica anor´xica da banalidade e New Age... mas NOSSO esoterismo continua indefin´ para esses med´ ıvel ıocres contadores de dinheiro e seus servos descerebrados. //// Os m´ ıticos her´ticos e antinomianos do Oriente e do Ocidente desenvolveram e sistemas fundamentados na liberta¸˜o interior. Alguns desses sistemas est˜o maculados ca a pelo misticismo religioso ou “psicol´gicos” – e alguns at´ mesmo se cristalizaram em o e movimentos revolucion´rios (os igualit´rios milenaristas, os Assassinos, os tao´ a a ıstas de turbante amarelo etc.). Quaisquer que sejam suas falhas, eles tˆm uma certa arma m´gica e a que o anarquismo dolorosamente n˜o possui: a (1) Um sentido de meta-racional (“metan´ia”), formas de ir al´m do pensamento o e fragmentado, para se chegar a um pensamento e percep¸˜o uniformes (ou nˆmandes, ou ca o
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Publica¸˜o anarquista. (N.E) ca

2.10. COMUNICADO #10

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“ca´ticos”); (2) uma defini¸˜o verdadeira da consciˆncia auto-realizada ou liberada, uma o ca e descri¸˜o positiva de sua estrutura, e as t´cnicas utilizadas para se chegar at´ ela; (3) uma ca e e vis˜o arquet´ a ıpica coerente da epistemologia – ou seja, uma forma de conhecimento (sobre hist´ria, por exemplo) que usa a fenomenologia hermenˆutica para descobrir padr˜es de o e o significado (algo como a “cr´ ıtica paran´ica” dos surrealistas); (4) um ensinamento sobre o sexualidade (nos aspectos “tˆntricos” de v´rias doutrinas) que valoriza o prazer em vez da a a autonega¸˜o, n˜o apenas por puro deleite, mas tamb´m como meio para uma consciˆncia ca a e e ou “liberta¸˜o” aprimoradas; ca

(5) uma atitude de celebra¸˜o, que pode ser chamada de “conceito de j´bilo”, o canceca u lamento de d´bitos ps´ e ıquicos por meios de uma generosidade inerente ` pr´pria realidade; a o (6) uma linguagem (incluindo gestos, rituais, inten¸˜o) com a qual ativar e comunicar ca esses cinco aspectos da cogni¸˜o; e (7) um silˆncio. //// N˜o ´ surpresa alguma descobrir ca e a e quantos anarquistas s˜o ex-cat´licos, padres e freiras ` paisana, ex-coroinhas, batistas a o a renascidos que escapuliram ou mesmo ex-xiitas fan´ticos. a

O anarquismo oferece uma missa negra (e vermelha) para des-ritualizar todos os c´rebros assombrados por fantasmas – um exorcismo secular –, mas ent˜o trai a si mesmo e a ao criar com remendos sua pr´pria Igreja, toda ela coberta pelas teias de aranha do Huo ´ manismo Etico, do Pensamento Livre, do Ate´ ısmo Muscular e da rude L´gica Cartesiana o Fundamentalista. //// H´ duas d´cadas demos in´ ao projeto de nos tornar Cosmoa e ıcio politas Desenraizados, determinados a peneirar os detritos de todas as tribos, culturas e civiliza¸˜es (inclusive a nossa) atr´s de fragmentos vi´veis – e sintetizar, dessa bagun¸a co a a c p´s-ortodoxias, o nosso pr´prio sistema de vida – a ultima coisa que queremos (como ado o ´ vertiu Blake) ´ nos tornar escravos de algu´m. //// Se algum feiticeiro javanˆs ou xam˜ e e e a de uma tribo de ´ ındios americanos possuir algum fragmento precioso que eu necessite para minha pr´pria “maleta de m´dico”, devo eu olh´-lo com desprezo, zombar dele e citar a o e a frase de Bakunin sobre enforcar padres com as v´ ısceras dos banqueiros? Ou devo lembrarme de que a anarquia n˜o conhece dogma, que o Caos n˜o pode ser mapeado – e servir-me a a de tudo sem me sentir acorrentado? /// Encontramos as primeiras defini¸˜es de anarquia co no Chuang Tzu e outros textos tao´ ıstas; o “anarquismo-m´ ıstico” ostenta uma linhagem bem mais antiga do que o racionalismo grego. Quando Nietzsche escreveu sobre os “hiperboreanos”, acho que estava profetizando a n´s – que fomos al´m da morte de Deus – e o e do renascimento da Deusa – a atingir um reino onde o esp´ ırito e a mat´ria s˜o uma coisa e a s´. Toda manifesta¸˜o desta hierogamia, todo objeto material e toda vida, tornam-se n˜o o ca a apenas “sagrados” em si mesmos, mas tamb´m algo simb´lico de sua pr´pria “essˆncia e o o e divina”. //// O ate´ ısmo nada mais ´ do que o ´pio do povo (ou melhor, o paladino que e o ele mesmo escolheu) – e n˜o uma droga muito fascinante ou sensual. Se formos seguir o a conselho de Baudelaire e “estarmos constantemente embriagados”, a AAO preferia algo como os cogumelos, muito obrigado. O Caos ´ o mais velho de todos os deuses – e o Caos e nunca morreu.

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

2.11

Comunicado #11

Especial e Bomb´stica Declara¸˜o de F´rias Sobre Alimentos: a ca e Abaixo o Light!
A Associa¸˜o para a Anarquia Ontol´gica conclama um boicote de todos os produtos ca o comercializados sob a senha de LIGHT – cerveja, carne, doces, cosm´ticos, m´sica, “estilos e u de vida” pr´-fabricados, o que for. e O conceito de LIGHT (no jarg˜o situacionista) desdobra um complexo de simbolismo a atrav´s do qual o Espet´culo espera controlar toda a repulsa contra o seu mercantilismo e a do desejo. O produto “natural”, “orgˆnico”, “saud´vel”, ´ designado para um setor do a a e mercado constitu´ por pessoas levemente insatisfeitas que apresentam um quadro mediıdo ano de horror do futuro e possuem uma aspira¸˜o mediana por uma autenticidade t´pida. ca e Um nicho foi preparado para vocˆ, suavemente iluminado pelas ilus˜es de simplicidade, e o limpeza, elegˆncia, uma pitada de ascetismo e autonega¸˜o. Claro, custa um pouco mais... a ca afinal, o que ´ LIGHT n˜o foi feito para primitivos pobre e famintos que ainda consideram e a comida nutri¸˜o e n˜o d´cor. Tem de custar mais – sen˜o, vocˆ n˜o compraria. ca a e a e a A classe m´dia americana (n˜o sofisme, vocˆ sabe o que quero dizer) divide-se natue a e ralmente em duas fac¸˜es opostas, mas complementares: os ex´rcitos da Anorexia e os co e da Bulimia. Casos cl´ ınicos dessas doen¸as representam apenas a espuma psicossom´tica c a sobre a onda de uma patologia cultural profunda, difusa e amplamente inconsciente. Os que sofrem de bulimia s˜o os yuppies que se fartam com margaritas e videocassetes, e dea pois se purgam com alimentos LIGHT, jogging e gin´stica (an)aer´bica. Os anorexos s˜o a o a rebeldes por um “estilo de vida”, seguidores da ultima moda em alimenta¸˜o, comedores ´ ca de algas, tristes, desespiritualizados e abatidos – mas presun¸osos em seu zelo puritano e c em seus instrumentos de autoflagelo com design sofisticado. A grotesca junk food simplesmente representa o outro lado da vampiresca health food: – nada tem gosto de nada que n˜o seja isopor ou aditivos – tudo ´ ou entediante ou a e cancer´ ıgeno – ou ambos – e incrivelmente est´pido. u Seja ela crua ou cozida, a comida n˜o pode escapar do simbolismo. Ela ´, e simultaa e neamente tamb´m representa, aquilo que ´. Toda comida ´ comida para a alma; ignorar e e e isso ´ cortejar uma indigest˜o, tanto crˆnica quanto metaf´ e a o ısica. Mas na ab´bada sem ar da nossa civiliza¸˜o, em que praticamente toda experiˆncia ´ o ca e e mediada, em que a realidade ´ filtrada atrav´s da malha mort´ e e ıfera da percep¸˜o-consenso, ca perdemos o contato com a comida como nutri¸˜o; come¸amos a construir para n´s mesmos ca c o personas baseadas naquilo que consumimos, tratando produtos como proje¸˜es da nossa co aspira¸˜o pelo autˆntico. ca e A AAO `s vezes visualiza o CAOS como uma cornuc´pia de cria¸˜o cont´ a o ca ınua, um tipo de gˆiser de generosidade c´smica. Portanto evitamos advocar qualquer dieta espec´ e o ıfica, a ultima coisa que queremos ´ ofender a Sagrada Multiplicidade e a Divina Subjetividade. ´ e N˜o vamos azucrin´-los com mais uma prescri¸˜o New Age para a sa´de perfeita (s´ os a a ca u o mortos tˆm sa´de perfeita); temos interesse pela vida, n˜o por “estilos de vida”. e u a Adoramos leveza verdadeira, e o denso e elaborado nos deleitam na sua hora apropriada. O excesso nos cai perfeitamente; a modera¸˜o nos agrada, e aprendemos que a fome ca pode ser o mais fino dos temperos. Tudo ´ leve, e as flores mais exuberantes crescem ao e

2.11. COMUNICADO #11

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redor da privada. Sonhamos com mesas falansterianas e com caf´s de Bolo’Bolo onde todo e grupo festivo de convivas compartilhar´ a genialidade individual de um Brillat-Savarin16 a (aquele santo do bom gosto). O xeque Abu Sa’id17 nunca economizou dinheiro ou mesmo guardou-o de um dia para o outro – portanto, sempre que algum patrono doava uma quantia generosa para a sua fraternidade de religiosos, os dervixes celebravam com uma banquete; e, nos outros dias, todos passavam fome. A id´ias era apreciar os dois estados, cheio e vazio... e O produto LIGHT faz uma par´dia do vazio espiritual da ilumina¸˜o, assim como o o ca McDonald’s traveste o imagin´rio da completitude e da celebra¸˜o. O esp´ a ca ırito humano (para n˜o mencionar a fome) pode conquistar e transcender todo esse fetichismo – a a alegria pode irromper mesmo num Burger King, e at´ uma cerveja LIGHT talvez esconda e uma dose dionis´ ıaca. Mas por que dever´ ıamos continuar lutando contra esta mar´ suja e de produtos insossos, fajutos e caros, quando poder´ ıamos estar bebendo vinho do Para´ ıso agora mesmo, sob nossas pr´prias parreiras e figueiras? o A comida pertence ao reino da vida di´ria, a arena principal de todo ato insurrecioa nal de tornar-se poderoso, de toda auto-eleva¸˜o espiritual, de toda retomada do prazer, ca de toda revolta contra a M´quina Planet´ria do Trabalho e seus desejos de imita¸˜o. a a ca Mantenhamo-nos longe de todo dogmatismo. Que o ca¸ador de uma tribo ind´ c ıgena americana possa alimentar sua alegria com um esquilo frito; e o anarco-tao´ ısta, com um punhado de damascos secos. Milarepa, o tibetano, depois de dez anos de sopa de macarr˜o. a Comeu um bolo de manteiga e alcan¸ou a ilumina¸˜o. c ca Um bronco n˜o percebe eros nenhum num champanhe fino; um feiticeiro pode se a embriagar com um copo d’´gua. a Nossa cultura, asfixiando-se em seus pr´prios poluentes, grita (como Goethe gritou o por luz ao morrer) “Mais LIGHT!” – como se esses efluentes poliinsaturados pudessem de algum modo aliviar nosso sofrimento, como se a sua insossa falta de peso, paladar e caracter´ ısticas pudesse nos proteger da escurid˜o crescente. a N˜o! Esta ultima ilus˜o finalmente nos parece cruel demais. Apesar de nossas Pr´prias a ´ a o tendˆncias indolentes somos for¸ados a nos posicionar e protestar. Boicote! Boicote! e c ABAIXO O LIGHT! Apˆndice: Card´pio para um Banquete Negro Anarquista (vegetariano e n˜o vegetae a a riano) Caviar e blinis18 , ovos com mais de cem anos; lulas e arroz cozido na tinta; beringelas cozidas com casca com alho preto em conserva; arroz silvestre com nozes negras e cogumelos negros; trufas na manteiga enegrecida; carne de ca¸a marinada em vinho do porto, c grelhada no carv˜o, servida com fatias de p˜o preto e guarnecida com castanhas assadas. a a Cuba-libres, Guiness-e-champanhe; ch´ preto chinˆs. Musse de chocola- te amargo, caf´ a e e turco, uvas negras, ameixas, cerejas etc.
Advogado, economista e gastrˆnomo francˆs (1755-1826), conhecido por seu tratado sobre a arte de o e comer. (N.T) 17 Mestre sufi famoso por seu misticismo expansivo, sua boˆmia e seu senso de humor (967-1049). (N.T) e 18 Panquecas pequenas e finas, geralmente servidas com caviar e uma esp´cie de coalhada. (N.T) e
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

2.12

Comunicado Especial do Dia das Bruxas

Magia Negra como A¸˜o Revolucion´ria ca a
Prepare uma tintura de a¸afr˜o puro e genu´ misturado com ´gua de rosas, adic a ıno a cionando, se poss´ ıvel, um pouco de sangue de um galo negro. Num quarto silencioso, instale um altar com uma Vasilha cheia de tintura, uma caneta com ponta de ferro, sete velas negras, incenso e um pouco de benjoim. O feiti¸o pode ser escrito num papel ou c pergaminho virgem. Desenhe o diagrama `s 4 horas da tarde de uma quarta-feira, de a frente para o Norte. Copie o diagrama de sete pontas (veja ilustra¸˜o) sem levantar a ca caneta do papel, numa opera¸˜o cont´ ca ınua, prendendo a respira¸˜o e apertando a l´ ca ıngua contra o c´u da boca. Isso ´ o Barisan Laksamana, ou o Reio dos Djins. Da´ desenhe a e e ı Estrela de Davi (que representa um djim de cinco pontas) e as outras partes do diagrama. Sobre a estrela de Davi, escreva o nome da pessoa ou institui¸˜o que ser´ amaldi¸oada. ca a c Mantenha o papel sobre a fuma¸a do benjoim e evoque os djins branco e negro dentro de c vocˆ. e Bismillah ar-Rahman ar-Rahim as-salaam alikum ´ O, Branco Djim, Resplendor de Maom´ e rei de todos os esp´ ıritos dentro de mim ´ O, Negro Djim, sombra de mim mesmo ˜ VAO, destruam me inimigo – e se n˜o o fizerem a considerem-se traidores de Al´ – a pelo efeito do feiti¸o c La illaha ill’Allah — Mohammad ar-Rasul Allah Se a maldi¸˜o for direcionada para uma pessoa opressora, uma boneca de cera pode ca ser preparada e o feiti¸o, instalado. c Sete agulhas devem ser inseridas de cima para baixo no topo da cabe¸a, nas axilas c esquerda e direita, quadris esquerdo e direito, l´bios ou narinas. Embrulhe a boneca numa a mortalha branca e enterre-a no solo sobre o qual o inimigo com certeza passar´. Enquanto a isso, recrute a ajuda dos esp´ ıritos da terra do local: Bismillah ar-rahman ar-Rahim ´ O, Djim da Terra, Esp´ ırito-sujo ´ O, Negro Djim que vive debaixo da terra escute, vampiro do solo Eu vos ordeno que marque e destrua

2.12. COMUNICADO ESPECIAL DO DIA DAS BRUXAS o corpo e a alma de Obede¸a minha ordens c pois eu sou o verdadeiro e original feiticeiro pelo efeito do feiti¸o c La illaha ill’Allah — Mohammad ar-Rasul Allah

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Se, no entanto, a maldi¸˜o for direcionada a uma institui¸˜o ou empresa, colete os ca ca seguintes itens: um ovo cozido, um prego de ferro e trˆs alfinetes de ferro (enfie o prego e e os alfinetes no ovo); um escorpi˜o, lagarto e/ou besouros secos; uma pequena bolsa de a camur¸a com terra de cemit´rio, retalhos de ferro magnetizado, goma f´tida e enxofre, e c e e amarrada com uma la¸o vermelho. Costure o feiti¸o numa seda amarela e sele-o com cera c c vermelha. Coloque tudo isso numa garrafa de boca larga, feche com rolhas e sele com cera. A garrafa pode agora ser cuidadosamente empacotada e enviada pelo correio para a institui¸˜o-alvo – por exemplo, um programa de televis˜o evang´lico, o New York Post, a ca a e empresa MUZAK, uma escola ou universidade – com uma c´pia da seguinte declara¸˜o o ca (c´pias extras podem ser enviadas para os funcion´rios , e/ou espalhadas de forma furtiva o a pelo pr´dio): e Maldi¸˜o do Djim Negro Maldito ca Estas instala¸˜es foram amaldi¸oadas por magia negra. A maldi¸˜o foi realizada de co c ca acordo com rituais corretos. Estas institui¸˜o ´ amaldi¸oada porque tem oprimido a Imaca e c gina¸˜o e desonrado o Intelecto, degradado as arte a fim de estupidific´-las e promovido ca a a escravid˜o espiritual, a propaganda para o Estado e o Capital, rea¸˜es puritanas, lucros a co injustos, mentiras e arruinamento est´tico. Os funcion´rios desta institui¸˜o agora core a ca rem perigo. Nenhum indiv´duo foi amaldi¸oado, mas o local foi infectado com m´ sorte e ı c a malignidade. Aqueles que n˜o despertarem e partirem, ou que n˜o come¸arem a sabotar o a a c local de trabalho, ir˜o gradualmente sofrer os efeitos desta feiti¸aria. Destruir ou remover a c o instrumento deste feiti¸o n˜o surtir´ nenhum efeito. Ele foi visto neste local, e o local c a a est´ amaldi¸oado. Recupere sua humanidade e revolte-se em nome da Imagina¸˜o – ou a c ca ser´ considerado (sob o espelho deste feiti¸o) um inimigo da ra¸a humana. a c c Sugerimos que o “cr´dito” desta a¸˜o seja dado a alguma outra institui¸˜o culturale ca ca mente ofensiva, como a Sociedade Po´tica Americana ou a Cruzada de Mulheres contra e a Pornografia (dˆ o endere¸o completo). e c Para contrabalan¸ar o efeito que a evoca¸˜o do djim negro pessoal possa ter sobre vocˆ, c ca e tamb´m sugerimos que envie uma ben¸˜o m´gica para algu´m ou algum grupo que vocˆ e ca a e e ame e/ou admire. Fa¸a isso anonimamente, e envie um belo presente. N˜o ´ necess´rio c a e a seguir nenhum ritual preciso, mas vocˆ deve permitir que o imagin´rio brote da fonte da e a consciˆncia num estado meditativo intuitivo/espontˆneo. Use incenso arom´tico, velas e a a vermelhas e brancas, balas coloridas, vinho, flores etc. Se poss´ ıvel, inclua no presente prata, ouro ou j´ias. o Este manual da Maldi¸˜o do Djim Negro Malaio foi preparado pelo Comitˆ de Terca e 19 rorismo Cultural da Cˆmara dos Adeptos da HMOCA (“Terceiro Para´ a ıso”) de acordo
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Sagrada Igreja Ortodoxa Mu¸ulmana na Am´rica. (N.E) c e

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

com rituais autˆnticos e completos. N´s somos Esot´ricos Nazari-ismaelitas; ou seja, xiie o e tas her´ticos e fan´ticos cuja linhagem espiritual prov´m de Hassan-i Sabbah atrav´s de e a e e Aladdin Mohammad III, “o Louco”, s´timo e ultimo Pir de Alamut (e n˜o atrav´s da e ´ a e linhagem da Aga Khans). Adotamos o monismo radical e o antinominalismo puro, e nos opomos a todas as formas de lei e autoridade, em nome do Caos. Atualmente, por raz˜es estrat´gicas, n˜o recomendamos violˆncia ou feiti¸aria contra o e a e c indiv´ ıduos. Proclamamos a¸˜es contra institui¸˜es e id´ias – arte-sabotagem e propaco co e ganda clandestina (incluindo rituais m´gicos e “pornografia tˆntrica”) – e especialmente a a contra a venenosa m´ ıdia do Imp´rio das Mentiras. A Maldi¸˜o do Djim Negro representa e ca apenas o primeiro passo na campanha do Terrorismo Po´tico, que – acreditamos – vai e gerar outras formas menos sutis de insurrei¸˜o. ca COMUNICADO ESPECIAL

2.13

Comunicado Especial

A AAO Anuncia Expurgos no Movimento do Caos
A Teoria do Caos deve, ´ claro, fluir impuramente. “O roceiro pregui¸oso ara sulcos e c tortos.” Qualquer tentativa de precipitar a forma¸˜o de um cristal ideol´gico iria gerar ca o uma rigidez desconjuntada, fossiliza¸˜es, o uso de armaduras e uma aspereza a que preco fer´ ıamos ent˜o renunciar, junto com toda a “pureza”. Sim, o Caos regozija-se numa certa a falta de forma desleixada semelhante ` er´tica desordem daqueles que amamos por sua a o capacidade de destruir h´bitos e revelar mutabilidades. a No entanto, essa flexibilidade n˜o significa que a Teoria do Caos deva aceitar todo a sanguessuga que procura se prender `s nossas membranas sagradas. Certas defini¸˜es ou a co deforma¸˜es do Caos merecem ser denunciadas e nossa dedica¸˜o para com a desordem co ca divina n˜o pode nos deter em desbancar os traidores e artistas oportunistas e vampiros a ps´ ıquicos que agora zumbem ao redor do Caos sob a impress˜o de que esta ´ a tendˆncia da a e e moda. N˜o propomos uma Inquisi¸˜o em nome de nossas defini¸˜es, mas sim um duelo, a ca co uma disputa, uma ato de violˆncia ou de rep´dio emocional, um exorcismo. Primeiro, e u gostar´ ıamos de definir e mesmo nomear nossos inimigos. 1. Todos estes artistas, com fixa¸˜o na morte e mutila¸˜o que associam o Caos exclusica ca vamente com mis´ria, negatividade e uma pseudolibertinagem sem alegria – aqueles e que pensam que “al´m do bem e do mal” significa fazer o mal – os intelectuais e sadomasoquistas, seresteiros do apocalipse – os novos gn´sticos dualistas, gente que o odeia o mundo e niilistas atrozes. 2. Todos esses cientistas que vendem o Caos tanto como uma for¸a destruidora (por c exemplo, armas com raios de part´ ıculas) quanto como um mecanismo para impor a Ordem, como no caso do uso da matem´tica do Caos para estat´ a ısticas sociol´gicas o e controle das massas. 3. Todos aqueles que se apropriam do Caos em nome de algum esquema New Age. Claro, n´s n˜o faremos nenhuma obje¸˜o se vocˆ quiser nos dar todo o seu dinheiro, o a ca e

´ 2.14. ANARQUIA DO POS-ANARQUISMO

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mas vamos deixar bem claro: vamos gast´-lo comprando maconha ou viajando para a o Marrocos. Vocˆ n˜o consegue vender ´gua na beira do rio; o Caos ´ a mat´ria sobre a qual os e a a e e alquimistas falaram, que os tolos consideram mais valiosa do que o ouro, embora possa ser encontrada em qualquer pilha de lixo. O maior inimigo nesta categoria ´ Werner Erhardt, e 20 fundador do EST , que agora est´ engarrafado “Caos” e tentando vender franquias para a yupp´ides. o Segundo, listaremos alguns dos nossos amigos, para dar uma id´ia das tendˆncias e e d´ ıspares que desfrutamos dentro da Teoria do caos: Ca´tica, a zona autˆnoma imagin´ria o o a descoberta por Feral Faun (tamb´m conhecido por Feral Ranter); a Academia de Artes e Ca´ticas de Tundra Wind; a revista KAOS, de Joel Birnoco; Chaos Inc., um boletim o informativo associado ao trabalho de Ralph Abraham, um proeminente cientista do Caos; a Igreja de Eris; o Zen da Disc´rdia; a Igreja Ortodoxa Islˆmica; certas fac¸˜es da Igreja o a co dos Subgˆnios; a Sagrada Cruzada de Nossa Senhora dos Caos Perp´tuo; os escritores e e associados com o “anarquismo tipo-3” e peri´dicos como o Popular Reality, etc. Os Postos o est˜o tomados. Caos n˜o ´ entropia, Caos n˜o ´ morte, Caos n˜o ´ uma mercadoria. Caos a a e a e a e ´ a cria¸˜o cont´ e ca ınua. O Caos nunca morreu.

2.14

Anarquia do P´s-Anarquismo o

Os membros da AAO re´nem-se em conclave, turbantes negros e t´nicas reluzenu u tes, esparramados sobre tapetes persas bebericando caf´ turco e fumando narguil´. A e e ˜ QUESTAO: Qual nossa posi¸˜o diante de todas essas retiradas e deser¸˜es do anarca co quismo (especialmente na Calif´rnia): condenamos ou toleramos? Expurgamos a todos o ou os saudamos como vanguarda? Elite gn´stica... ou traidores? o Na verdade, nutrimos uma profunda simpatia pelos desertores e seus v´rias cr´ a ıticas ao anarquISMO. Como Simbad e e o Velho Medonho, o anarquismo cambaleia por a´ com ı o cad´ver de um m´rtir magicamente preso aos seus ombros – perseguido pelo legado do a a fracasso e pelo masoquismo revolucion´rio – a estagnada ´gua negra da hist´ria perdida. a a o Entre um passado tr´gico e um futuro imposs´ a ıvel, o anarquismo parece carecer de ˜ um presente – como se tivesse medo de se perguntar, aqui e agora, QUAIS SAO MEUS VERDADEIROS DESEJOS? – e o que POSSO fazer antes que seja tarde demais?... Isso mesmo, imagine-se diante de um feiticeiro que perniciosamente lhe encare e Pergunte: “Qual ´ o seu Verdadeiro Desejo?” Vocˆ disfar¸a, gagueja, se refugia em platitudes e e c ideol´gicas? Vocˆ possui tanto imagina¸˜o quanto for¸a de vontade, pode Sonhar e Ousar o e ca c ao mesmo tempo –ou vocˆ ´ um cr´dulo incauto de uma fantasia impotente? ee e Olhe-se no espelho e tente... (pois uma de suas m´scaras ´ o rosto de um feiticeiro)... a e O “movimento” anarquista de hoje virtualmente n˜o possui nenhum negro, hispanoa americano, ´ ındio ou crian¸a... muito embora, em teoria, esses grupos realmente opric midos seriam os que mais ganhariam com qualquer revolta antiautorit´ria. Ser´ que o a a anarquISMO n˜o oferece um programa concreto atrav´s do qual os que s˜o realmente a e a
Sigla de Erhard Seminars Training Inc., empresa criada pelo guru da administra¸˜o Werner Erhard, ca popular nos anos 1970 a 1980. (N.E)
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

destitu´ ıdos poderiam satisfazer (ou pelo menos de forma realista lutar para satisfazer) suas necessidades e desejos reais? Se isso for verdade, ent˜o este fracasso explicaria n˜o apenas a falta de apelo que o a a anarquismo exerce sobre os pobres e marginais, mas tamb´m a insatisfa¸˜o e deser¸˜es e ca co dentro de seus pr´prios quadros. Manifesta¸˜es, piquetes e reedi¸˜es dos cl´ssicos do o co co a s´culo XIX n˜o gera, uma conspira¸˜o ousada e vital para a autoliberta¸˜o. Se quisermos e a ca ca que o movimento cres¸a ao inv´s de definhar, muito peso morto deve ser lan¸ado fora e c e c algumas id´ias arriscadas precisam ser aceitas. e O potencial existe. A qualquer momento, um grande n´mero de americanos ir´ notar u a que est´ sendo for¸ado a engolir uma por¸˜o de lixo reacion´rio, entediante, hist´rico e a c ca a e artificialmente aromatizado. Um amplo coro de gemidos, grunhidos e ˆnsias de vˆmito... a o multid˜es enfurecidas invadindo os shopping centers, destruindo e saqueando... etc. etc. o A Bandeira Negra poderia prover um foco para o ultraje e canaliz´-lo para uma ina surrei¸˜o da Imagina¸˜o. Poder´ ca ca ıamos resgatar o esfor¸o que foi abandonado pelo Sic tuacionismo de 1968 e pelo Autonomismo nos anos 1970, e lev´-lo ao pr´ximo est´gio. a o a Poder´ ıamos Ter revolta nos nossos tempos – e, nesse processo, poder´ ıamos compreender muitos de nosso verdadeiros desejos, mesmo que se por apenas uma temporada, uma breve Utopia Pirata, uma pervertida zona-livre dentro de velho cont´ ınuo do espa¸o-tempo. c Se a AAO ret´m sua afilia¸˜o com o “movimento”, isso ocorre n˜o por uma romˆntica e ca a a predile¸˜o por causas perdidas – pelo menos n˜o s´ por isso. Dentre todos os “sistemas ca a o pol´ ıticos”, o anarquismo (apesar de suas falhas, e precisamente porque n˜o ´ nem pol´ a e ıtico nem um sistema) ´ o que mais se aproxima de nossa compreens˜o de realidade, ontologia, e a natureza do ser. Quanto aos desertores... concordamos com suas cr´ ıticas, mas notamos que eles parecem n˜o oferecer nenhuma alternativa poderosa. Por isso, por enquanto, a preferimos nos concentrar em transformar o anarquismo por dentro. Camaradas, este ´ e nosso programa: 1. Procure compreender que um racismo ps´quico substitui o preconceito escancarado ı como um dos mais repugnantes aspectos da nossa sociedade. Participa¸˜o imaginaca tiva em outras culturas, especialmente aquelas com as quais convivemos. 2. Abandone toda pureza ideol´gica. Abrace o anarquismo “Tipo-3” (para usar o o slogan de Bob Black): nem coletivista nem individualista. Limpe o tempo dos ´ ıdolos da vaidade, livre-se do Velho Medonho, da rel´ ıquias e dos martirol´gicos. o 3. O movimento antitrabalho ou “Trabalho-Zero” ´ extremamente importante, ine cluindo um ataque radical e talvez violento ` Educa¸˜o e ao servilismo das crian¸as. a ca c 4. Desenvolva uma rede samizdat21 americana, substitua as t´ticas ultrapassadas de a publica¸˜o/propaganda. Pornografia e entretenimento popular como ve´ ca ıculos de uma reeduca¸˜o radical. ca 5. Na m´sica, a hegemonia da batida 2/4 e 4/4 deve ser destru´ u ıda. Precisamos de uma m´sica nova, totalmente insana mas que afirme a vida, ritmicamente sutil mas u poderosa, e precisamos dessa m´sica AGORA. u
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Publica¸˜es clandestinas na antiga Uni˜o Sovi´tica. (N.T) co a e

2.15. COROA NEGRA E ROSA NEGRA

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6. O anarquismo necessita afastar-se do materialismo evang´lico e do banal cientifie cismo bidimensional do s´culo XIX. “Estados mais elevados de consciˆncia” n˜o e e a s˜o meros FANTASMAS inventados por padres malignos. O Oriente, o oculto, as a culturas tribais possuem t´cnicas que podem ser “apropriadas” de uma forma verdae deiramente anarquista. Sem “estados mais elevados de consciˆncia”, o anarquismo e acaba e se resseca num certo tipo de mis´ria, a reclama¸˜o chorosa. Precisamos de e ca um tipo pr´tico de “anarquismo m´ a ıstico”, livre de toda merda New Age e inexoravelmente her´tico e anticlerical; ´vido por todas as novas tecnologias de consciˆncia e a e e metan´ia – uma democratiza¸˜o do xamanismo, embriagada e serena. o ca 7. A sexualidade sofre um forte ataque, obviamente da Direita, de forma mais sutil do movimento de pseudovanguarda da “p´s-sexualidade”, e de forma ainda mais sutil da o ´ Recupera¸˜o Espetacular na m´ e na propaganda. E chegado o momento para um ca ıdia passo adiante na conscientiza¸˜o de uma pol´ ca ıtica sexual, uma reafirma¸˜o explosiva ca de eros polimorfo – (at´ mesmo e especialmente diante do flagelo e da depress˜o) –, e a uma glorifica¸˜o literal dos sentidos, uma doutrina do deleite. Abandone todo ´dio ca o ao mundo e toda vergonha. 8. Experimente novas t´ticas para substituir a obsoleta bagagem das Esquerdas. Coa loque ˆnfase nos benef´ e ıcios pr´ticos, materiais e pessoais de um networking radical. a O momento talvez possa n˜o parecer apropriado para violˆncia ou militˆncia, mas a e a um pouco de sabotagem e rupturas imaginativas nunca ´ demais. Trame e conspire, e n˜o pragueje nem gema. O Mundo da Arte, em particular, merece uma dose de a “Terrorismo Po´tico”. e 9. A desespacializa¸˜o da sociedade p´s-industrial traz alguns benef´ ca o ıcios (por exemplo, a comunica¸˜o via computador), mas pode tamb´m se manifestar como uma forma ca e de opress˜o (abandono, massifica¸˜o, arquitetura despersonalizada, destrui¸˜o da a ca ca natureza etc.). As comunas dos anos 1960 tentaram ludibriar essas for¸as, mas c fracassaram. A quest˜o do terreno recusa-se a desaparecer. Como podemos separar a o conceito de espa¸o dos mecanismos de controle? Os gˆngsteres do territ´rio, c a o as Na¸˜es/Estados, tomaram o mapa inteiro. Quem pode inventar para n´s uma co o cartografia da autonomia, quem pode desenhar um mapa que inclua nossos desejos? AnarquISMO em ultima an´lise implica anarquia – e anarquia ´ caos. Caos ´ princ´ ´ a e e ıpio da cria¸˜o cont´ ca ınua... e o Caos nunca morreu. — Sess˜o Plen´ria da AAO a a Nova York, mar¸o de 1987 c

2.15

Coroa Negra e Rosa Negra

Anarco-Monarquismo e Anarco-Misticismo
Quando dormimos, sonhamos com apenas dois tipos de governo – anarquia e monarquia. A raiz primordial da consciˆncia n˜o compreende nenhuma pol´ e a ıtica e nunca joga limpo. Um sonho democr´tico? Um sonho socialista? Imposs´ a ıvel.

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

N˜o importa se meus REMs revelem vertiginosas vis˜es quase prof´ticas ou meras a o e satisfa¸˜es de desejos vienenses, apenas reis e povos selvagens povoam meus sonhos. co Mˆnadas e nˆmades. o o Um dia nublado (quando nada brilha com luz pr´pria) induz e insinua e sugere que nos o comprometamos com uma realidade triste e sem lustro. Mas em sonho nada nos governa a n˜o ser o amor ou a feiti¸aria, que s˜o habilidades de seguidores do caos e sult˜os. a c a a No meio de um povo que n˜o pode criar nem brincar, que sabe apenas trabalhar, os a artistas tamb´m n˜o tˆm nenhuma alternativa a n˜o ser a anarquia ou a monarquia. e a e a Como o sonhador, eles necessitam possuir, e, de fato, possuem, suas pr´prias percep¸˜es, o co e para isso precisam sacrificar o que ´ meramente social a favor de uma “musa tirana”. e A arte morre quando ´ tratada “sensatamente”. Ela precisa deleitar-se na selvageria e dos homens das cavernas ou ent˜o ter a boca cheia de ouro pela m˜o de algum pr´ a a ıncipe. Os burocratas e o departamento comercial envenenam-na, os professores mastigam-na e os fil´sofos cospem-na. A arte ´ um tipo de barbaridade bizantina feita apenas para nobres o e e b´rbaros. a Se vocˆ tivesse conhecido a do¸ura da vida como poeta no reino venal, corrupto, e c decadente, disfuncional e rid´ ıculo de algum pax´ ou emir, algum x´, de algum rei Farouk, a a de alguma rainha da P´rsia, vocˆ saberia que ´ exatamente isso o que todo anarquista e e e deve querer. Como aqueles voluptuosos insensatos j´ mortos amavam poemas e pinturas, a como eles absorveram todas as rosas e brisas, todas as tulipas e ala´des! u Sim, odeie sua crueldade e seus caprichos – mas pelo menos eles eram humanos. Os burocratas, por outro lado, que besuntam as paredes da mente com sujeira inodora – t˜o a gentis, t˜o gemutlich – que poluem a atmosfera interior com entorpecimento – n˜o s˜o a a a dignos nem de merecer o ´dio. Eles mal existem para al´m das id´ias sem vida a que o e e servem. Ademais: o sonhador, o artista, o anarquista – n˜o compartilham um quˆ de capricho a e cruel com o mais abomin´vel dos mong´is? Pode a vida genu´ ocorrer sem alguma loua o ına cura, algum excesso, alguns acessos de “contendas” heraclitinianas? N´s n˜o governamos o a – mas n˜o podemos ser e n˜o seremos governados. a a Na R´ssia, os anarquistas narodnik22 `s vezes forjavam um ukase, ou manifesto em u a nome do czar, no qual o autocrata reclamava que lordes gananciosos e oficiais sem cora¸˜o ca o haviam trancado em seu pal´cio e o separado do seu amado povo. Ele proclamava o a fim de servilismo e conclamava os camponeses e trabalhadores a se rebelarem contra o governo em Seu Nome. V´rias vezes esse estratagema logrou conflagrar revoltas. Por quˆ? Porque um soa e berano unico e absoluto funciona metaforicamente como um espelho para o singular e ´ profundo absolutismo do ser. Cada camponˆs ou camponesa olhou profundamente para e esta lenda esfuma¸ada e encontrou nela sua pr´pria liberdade – uma ilus˜o, que rouba c o a sua magia da l´gica dos sonhos. o Um mito semelhante deve ter inspirado os ranters, os antinomianos e os homens da Quinta monarquia, no s´culo XVII, a congregarem-se sob a bandeira jacobina com suas e intrigas eruditas e conspira¸˜es sangrentas. Os m´ co ısticos radicais foram tra´ ıdos primeiro
Membro do movimento socialista russo do s´culo XIX, que acreditava no despertar das massas pela e propaganda pol´ ıtica. Do russo narodnik, “populista”. (N.T)
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2.15. COROA NEGRA E ROSA NEGRA

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por Cromwell e depois pela Restaura¸˜o – portanto, por que n˜o se aliarem a cavaleiros ca a irreverentes e condes afetados, aos homens da rosa-cruz e ma¸ons do rito escocˆs, para c e colocar um messias oculto no trono de Albion? Entre aqueles que n˜o conseguem conceber uma sociedade humana sem um monarca, a os desejos radicais talvez possam ser expressos em termos mon´rquicos. Entre aqueles a que n˜o podem conceber a existˆncia humana sem uma religi˜o, desejos radicais talvez a e a falem o idioma da heresia. O tao´ ısmo rejeitou toda a burocracia confuciana, mas manteve a imagem do ImperadorS´bio, que se senta silencioso em seu trono mirando uma dire¸˜o prop´ e n˜o fazendo a ca ıcia a absolutamente nada. No Isl˜, os ismaelitas tomaram a id´ia do Im˜ da Fam´ do Profeta e a metamorfoa e a ılia searam em Im˜-de-seu-pr´prio-ser, o ser perfeito estabelecido al´m de toda Lei e regra, a o e reconciliando com o Uno. E essa doutrina levou-os a se revoltarem contra o Isl˜, a sofrea rem terror e homic´ ıdio em nome de uma realiza¸˜o do ser puramente esot´rica e da total ca e liberta¸˜o. ca O anarquismo cl´ssico do s´culo XIX definiu-se em meio ` batalha contra a coroa a e a e a igreja, e, portanto, num n´ ıvel consciente, considerava-se igualit´rio e ate´ a ısta. No entanto, essa ret´rica obscurece o que de fato ocorre: o “rei” torna-se o “anarquista!”, e o o “sacerdote”, um “herege”. Nesse estranho dueto de mutabilidade, n˜o h´ lugar para o a a pol´ ıtico, o democrata, o socialista, o ide´logo racional: eles n˜o podem escutar a m´sica o a u e n˜o tˆm ritmo nenhum. O terrorista e o monarca s˜o arqu´tipos; os outros s˜o meros a e a e a funcion´rios. a Houve um tempo em que o anarquista e o rei estrangulavam a garganta um do outro e valsavam um totentanz – uma batalha esplˆndida. Agora, no entanto, os dois est˜o e a relegados ` lata de lixo da hist´ria – “j´-eras”, curiosidades de um passado ocioso e mais a o a sofisticado. Eles giram t˜o r´pido que parece que se fundem... poderiam eles de alguma a a modo terem se tornado uma coisa s´, somo gˆmeos siameses, um Juno, uma unidade o e ex´tica? “O sonho da Raz˜o...” ah! os monstros mais desejados e desejosos! o a O Anarquismo Ontol´gico declara de forma direta, abrupta e quase sem pensar: sim, o os dois agora se tornaram um. O anarquista/rei renasceu como uma unica entidade; cada ´ um de n´s ´ o mandante de sua pr´pria carne, de suas pr´prias cria¸˜es – e de tudo o o e o o co mais que pudermos agarrar e segurar. Nossas a¸˜es s˜o justificadas por decreto e nossos relacionamentos se moldam por co a acordos com outros autocratas. Fazemos as leis para os nossos pr´prios dom´ o ınios – e as correntes da lei foram quebradas. No momento presente, talvez, sobrevivemos como meros Pretendentes – mas mesmo assim alcan¸amos alguns instantes, alguns metros quadrados c de realidade sobre o qual impomos nossa vontade, nossa royaume. L’etat, c’est moi. Se nos limitarmos por qualquer ´tica ou moral, ´ necess´rio que seja uma que n´s e e a o mesmos tenhamos imaginados, fabulosamente mais exaltada e libert´ria que o “´cido a a moral” dos puritanos e humanistas. “Sois como os deuses” – “Sois Isto”. As palavras monarquismo e misticismo est˜o sendo empregadas aqui em parte simplesa mente pour ´pater 23 aqueles anarquistas igualit´rios e ate´ e a ıstas que reagem com pio horror a qualquer men¸˜o de pompa ou comportamentos supersticiosos. Nenhuma revolu¸˜o ca ca
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Em francˆs no original: “para chocar, embasbacar”. (N.E) e

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

com champanhe para eles! Por outro lado, nosso ramo de antiautoritarismo prospera de em paradoxos barrocos; prefere estados de consciˆncia, emo¸˜o e est´tica a todos os dogmas e ideologias petrifie ca e cadas; abra¸a as multid˜es e deleita-se em contradi¸˜es. O Anarquismo Ontol´gico ´ um c o co o e bicho de sete cabe¸as para GRADES mentes. c A tradu¸˜o do t´ ca ıtulo (e palavra-chave) do opus magnum de Max Stirner por O Ego e Seu Pr´prio acarretou num sutil erro de interpreta¸˜o do que ´ o “individualismo”. A o ca e palavra anglo-latina ego est´ carregada e saturada com uma carga freudiana e protestante. a ´ Uma leitura cuidadosa de Stirner sugere que O Unico e Sua Propriedade talvez refletisse melhor as suas inten¸˜es, uma vez que ele nunca define o ego em oposi¸˜o ` libido ou ao co ca a ` Id, ou em oposi¸˜o ` “alma” ou “esp´ ca a ırito”. O Unico (der Einzege) talvez seja mais bem compreendido simplesmente como o ser individual. Stirner n˜o se compromete com nenhuma metaf´ a ısica, no entanto, outorga um certo ´ valor absoluto ao Unico. De que forma est˜o este Einzige difere do Ser do advaita vedanta? a Tat tvam asi : Sois (o ser individual) Isto (o Ser Absoluto). Muitos acreditam que misticismo “dissolve o ego”. Besteira. Apenas a morte faz isso (ou pelo menos de acordo com nossos pressupostos saduceus). E o misticismo tamb´m e n˜o destr´i o ser “carnal” ou “animal” – o que tamb´m acarretaria suic´ a o e ıdio. O que o misticismo realmente tenta superar ´ falsa consciˆncia, a ilus˜o, a realidade consensual e e e a todos os fracassos do ser que acompanham essas enfermidades. O verdadeiro misticismo cria um “ser em paz”, um ser com poder. A meta mais alta da metaf´ ısica (alcan¸ada, c por exemplo, Ibn Arabi, Boehme, Ramana Maharshi) ´, de certo modo, a autodestrui¸˜o, e ca a identifica¸˜o UNA do metaf´ ca ısico e do fis´ ıco, do transcendente e do imanente. Certos monistas radicais levaram essa doutrima para al´m do mero pante´ e ısmo ou misticismo religiosos. A percep¸˜o da imanente unidade do ser inspira certas heresias antinomianas ca (os ranters, os Assassinos) a quem n´s consideramos nossos ancestrais. o O pr´prio Stirner parece surdo `s poss´ o a ıveis ressonˆncias espirituais do individualismo a – e nisso ele pertence ao s´culo XIX: nascido muito depois da decadˆncia do cristianismo, e e mas muito antes da descoberta do Oriente e da secreta tradi¸˜o iluminista da alquimia ca ocidental, da heresia revolucion´ria e do ativismo, oculto. Stirner corretamente desprezou a o que ele compreendeu por “misticismo”, uma mera sentimentalidade piedosa baseada em auto-abnega¸˜o e ´dio do mundo. Nietzsche cerrou as portas para “Deus” alguns ca o anos mais tarde. Desde ent˜o, quem ousaria sugerir que o individualismo e o misticismo a poderiam se reconciliados e sintetizados? O elemento que falta em Stirner (Nietzsche chegou mais perto) ´ o uso de um conceito e de consciˆncia n˜o ordin´ria. A compreens˜o do ser unico (ou ubermensch) deve revere a a a ´ berar e expandir-se como ondas ou espirais ou m´sica para abranger a experiˆncia direta u e ou a percep¸˜o intuitiva da singularidade da pr´pria realidade. Essa compreens˜o engolfa ca o a e dissolve toda dualidade, dicotomia e dial´tica. Ela carrega em si, como uma corrente e el´trica, um senso de valor intenso e indescrit´ e ıvel: ela “diviniza” o ser. Ser/consciˆncia/ˆxtase (satchitananda) n˜o pode ser descartado meramente como mais e e a uma “excentricidade” ou um castelo nas nuvens” de Stirner. Esse conceito n˜o invoca a nenhum princ´ ıpio transcendente exclusivo para o qual o Einzige deve sacrificar a sua individualidade pr´pria. Ele simplesmente constata que uma intensa consciˆncia da pr´pria o e o existˆncia acarreta “ˆxtase” – ou, numa linguagem menos carregada, “consciˆncia valorae e e

2.15. COROA NEGRA E ROSA NEGRA

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´ tiva”. Afinal de contas, o objetivo do Unico ´ possuir tudo; o monista radical obt´m isso e e atrav´s da identifica¸˜o entre ser e percep¸˜o, como o pintor chinˆs de bico de pena que e ca ca e “se transforma no bambu” para que “ele mesmo pinte”. ´ Apesar das misteriosas alus˜es de Stirner ` “uni˜o dos Unicos” e apesar dos eternos o a a “vivas” e da exalta¸˜o da vida feita por Nietzsche, o individualismo deles parece estar, de ca alguma forma, moldado por uma certa frieza em rela¸˜o ao outro. Isso se deu, em parte, ca porque eles cultivavam uma tonificante e purificadora distˆncia da estufa de sentimentaa lidade e altru´ ısmo do s´culo XIX; e, em parte, porque eles simplesmente desprezavam o e que algu´m (Mencken?) chamou de “Homo Estupidus”. e No entanto, lendo por tr´s e por baixo da camada de gelo, descobrimos tra¸os de a c uma doutrina ardente – que Gaston Bachelard poderia ter chamado de “uma Po´tica do e Outro”. A rela¸˜o do Einzige com o Outro n˜o pode ser definida ou limitada por nenhuma ca a ´ institui¸˜o ou id´ia. Entretanto, de forma clara, ainda que paradoxal, o Unico depende ca e do Outro para ser completo, e n˜o pode e n˜o ser´ um ser realizado em isolamento. a a a O exemplo dos “meninos-lobos”, ou enfants sauvages, indicam que um infante humano desprovido da companhia humana por muito tempo jamais atingir´ um n´ de a ıvel humanidade consciente – nunca adquirir´ uma linguagem. A Crian¸a Selvagem talvez a c ´ proporcione uma met´fora po´tica para o Unico – e ainda assim, ao mesmo tempo, marca a e ´ o ponto preciso onde o Unico e o Outro devem se encontrar, se fundir, se unificar – para n˜o fracassarem em atingir e possuir tudo aquilo de que s˜o capazes. a a O Outro espelha o Ser – o Outro ´ nossa testemunha. O Outro completa o Ser e – o Outro nos d´ a chave de percep¸˜o da unidade-do-ser. Quando falamos de ser e a ca consciˆncia, apontamos para o Ser; quando mencionamos ˆxtase, referimo-nos ao Outro. e e A aquisi¸˜o da linguagem coloca-se sob o signo de Eros – toda comunica¸˜o ´ essencica ca e almente er´tica, todas as rela¸˜es s˜o er´ticas. Avicena e Dante declararam que ´ o amor o co a o e que move as estrelas e os planetas – tanto o Rig Veda quanto a Teogonia, de Hes´ ıodo, proclamam o Amor como o primeiro deus a nascer depois do Caos. Afei¸˜es, afinidades, co ´ percep¸˜es est´ticas, cria¸˜es de beleza, conv´ – todas as mais preciosas posses do Unico co e co ıvio surgem da conjun¸˜o entre o Ser e o Outro na constela¸˜o do Desejo. ca ca Novamente, o projeto iniciado pelo individualismo pode ser desenvolvido e revigorado com um enxerto de misticismo – especialmente o tantra. Como uma t´cnica esot´rica dise e tanciada do hinduismo ortodoxo, o tantra provˆ um contexto simb´lico (“Rede de J´ias”) e o o para a identifica¸˜o do prazer sexual e consciˆncia n˜o ordin´ria. Todas as seitas antinoca e a a mianas contiveram alguns aspectos “tˆntricos”, desde as fam´ a ılias de Amor e Fraternidade Lives e adamitas24 da Europa aos sufis pederastas da P´rsia e ao tao´ e ıstas alquimistas da China. At´ mesmo o anarquismo cl´ssico usufruir seus momentos tˆntricos: os fae a a lanst´rios de Fourier; o “Anarquismo M´ e ıstico” de G. Ivanov e outros simbolistas russos do fim do s´culo; o erotismo incestuoso de Sanine, de Arzibashaev, a estranha combina¸˜o e ca de niilismo e adora¸˜o ` deusa Kali que inspirou o Partido Terrorista de Bengala (ao qual ca a meu guru tˆntrico, Sir Kamanaransan Biswas, teve a honra de pertercer)... a N´s, no entanto, propomos um sincretismo muito mais profundo entre anarquia e o tantra do que qualquer um desses exemplos. De fato, simplesmente sugerimos ao o Anarquismo Individual e o Monismo Radical sejam, daqui por diante, considerados um unico ´
Membro de seita que surgiu no s´culo II e reapareceu no s´culo XV. Seus adeptos apresentava-se nus e e para imitar o estado original de inocˆncia de Ad˜o. (N.T) e a
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

e mesmo movimento. Este h´ ıbrido tem sido chamado de “materialismo espiritual”, um termo que queima toda a metaf´ ısica no fogo da unidade entre esp´ ırito e mat´ria. Tamb´m gostamos de e e “Anarquia Ontol´gica”, porque sugere que o ato de ser permanece num estado de “Caos o divino”, de total potencialidade, de cria¸˜o cont´ ca ınua. Neste fluxo incessante, apenas o desejo oferece qualquer princ´ ıpio de ordem, e, portanto, a unica sociedade poss´ (como bem compreendeu Fourier) ´ aquela formada por ´ ıvel e amantes. O anarquismo est´ morto, vida longa para a anarquia! J´ n˜o precisamos da bagagem a a a do masoquismo revolucion´rio e do auto-sacrif´ idealista – nem da frigidez do indivia ıcio dualismo com o seu desd´m pelo conv´ e ıvio, pelo viver junto – ou das supersti¸˜es vulgares co do ate´ ısmo, cientificismo e progressismo do s´culo XIX. Todo esse peso morto! Ao lixo e com as maletas maltratadas dos prolet´rios, com as pesadas malas de viagem burguesas, a com os entediantes sobretudos filos´ficos. o Desses sistemas, queremos apenas sua vitalidade, sua for¸a-vital, sua ousadia, sua c intransigˆncia, sua raiva, sua imprudˆncia – seu poder, sua shakti. Antes de jogar fora e e a tralha e mochilas velhas, vamos vascular o dep´sito ` procura de dinheiro, rev´lveres, o a o j´ias, drogas e outros itens uteis – ficar com o que gostarmos e lan¸ar m˜o do resto. o ´ c a Por que n˜o? Somos l´ sacerdotes de algum culto, para rezar por sobre restos mortais e a a resmungar nossos martirol´gio? o O monarquismo tamb´m possui algo que queremos – uma certa gra¸a, uma certa e c leveza de ser, um orgulho, uma superabundˆncia. Ficaremos com isso, e jogaremos o peso a do autoritarismo e da tortura na lata do lixo da hist´ria. O misticismo tem algo que o queremos – “auto-supera¸˜o”, consciˆncia exaltada, reservat´rios de potˆncia ps´ ca e o e ıquica. Apropriaremos-nos disso em nome do nosso levante – e deixaremos que os infort´nios da u moralidade e da religi˜o apodre¸am e se decomponham. a c Como os ranters diziam quando cumprimentavam qualquer “criatura companheira” – de um rei a um trombadinha –, “Regozije-se! Tudo ´ nosso!” e

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Instru¸oes para Kali Yuga c˜

A KALI YUGA ainda tem mais ou menos 200 mil anos para brincar – uma boa not´ ıcia para advogados e avatares do Caos, mas uma m´ not´ para brˆmanes, jeovista, deuses a ıcia a da burocracia e seus lacaios. Eu sabia que Darjeeling guardava alguma coisa para mim assim que ouvi o seu nome – dorje ling – cidade o trov˜o. Cheguei um pouco antes das mon¸˜es, em 1969. Antiga a co esta¸˜o montanhosa britˆnica, sede de ver˜o para o governo de Bengala – ruas com a forma ca a a de escadas de madeira curvas, do mercado avistava-se Sikkim e o Monte Katchenhunga – templos e refugiados tibetanos – belas pessoas de porcelana amarela chamadas Lepchas (os verdadeiros abor´ ıgenes) – hindus, mu¸ulmanos, nepaleses e budistas butaneses, al´m c e de ingleses decadentes que perderam o caminho para casa em 1947, ainda ` frente de a bancos antiquados e lojas de ch´. a Conheci Ganesh Baba, um saddhur gordo e de barbas brancas com um hiperimpec´vel a sotaque de Oxford – nunca vi ningu´m fumar tanta maconha, um narguil´ cheio ap´s o e e o

2.16. INSTRUCOES PARA KALI YUGA ¸˜

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outro, perambul´vamos pelas ruas, onde ele jogava bola com crian¸as barulhentas ou ara c rumava brigas nos bares, perseguindo funcion´rio do com´rcio assustados com seu guardaa e chuva, e morrendo de rir. Ele me apresentou a Sri Kamanaransan Biswas, um homem de meia-idade, pequeno e delicado, metido num terno surrado. Era funcion´rio do governo de Bengala e se ofereceu a para me ensinar tantra. O senhor Biswas vivia num min´sculo bangalˆ empoeirado num u o morro ´ ıngreme, enevoado e salpicado de pinheiros, onde eu o visitava diariamente com doses de conhaque barato para puja e bebericagens – ele me encorajava a fumar enquanto convers´vamos, um vez que, para Kali, tamb´m a maconha ´ sagrada. a e e Em sua selvagem juventude, o senhor Biswas havia sido membro do Partido Terrorista de Bengala, que inclu´ tanto adoradores de Kali e m´ ıa ısticos mu¸ulmanos her´ticos quanto c e anarquista e extremistas de esquerda. Ganesh Baba parecia provar esse passado secreto, como se fosse um sinal da for¸a tˆntrica oculta do senhor Biswas, escondida por tr´s de c a a sua aparˆncia externa d´cil e acomodada. e o N´s discutimos minhas leituras de Sir John Woodruffe (Arthur Avalon) todas as tardes. o Eu caminhava at´ l´ atrav´s da neblina fria do ver˜o, de armadilhas de esp´ e a e a ıritos tibetanas adejando na brisa umida que surgia da bruma e dos cedros. Pratic´vamos o Tara-mantra e ´ a o Tara-mudra (ou Yoni-mudra), e estud´vamos o diagrama Tara-iantra para fins m´gicos. a a Um vez, visitamos um templo para o Marte hindu (como o nosso, ao mesmo tempo planeta e deus da guerra), onde ele comprou um anel de dedo feito de prego de ferradura de cavalo e me deu. Mais conhaque e maconha. Tara: uma das formas de Kali, muito semelhante em atributos. Meio an˜, nua, com a quatro bra¸os armados, dan¸ando sobre um Shiva morto, colar de crˆnios de cabe¸as c c a c cortadas, l´ ıngua gotejando sangue, pele de um profundo azul-cinzento (a cor precisa das nuvens das mon¸˜es). Todo dia, mais chuva – deslizamentos de terra bloqueando as co estradas. Meu visto de permanˆncia em ´rea fronteiri¸a expira. O senhor Biswas e eu e a c descemos as deslizantes montanhas do Himalaia de jipe e de trem rumo ` sua cidade natal, a Siliguri, localizada nas plan´ ıcies de Bengala, onde o Ganges estendeu-se num encharcado delta verdejante. Visitamos sua esposa no hospital. No ano anterior, uma enchente havia submergido Siliguri e matado dezenas de milhares de pessoas. Houve uma epidemia de c´lera, a cidade o inteira parecia um naufr´gio, manchada de algas e arruinada, as paredes do hospital ainda a estavam empastadas de lodo, sangue, vˆmito, os l´ o ıquidos da morte. Ela senta-se silenciosa na sua cama olhando sem piscar para destinos horrendos. O lado negro da deusa. Ele me d´ uma litografia colorida de Tara que miraculosamente flutuou sobre a ´gua e foi salva. a a Naquela noite assistimos a uma cerimˆnia no templo local para Kali, um pequeno, o humilde e meio arruinado santu´rio ` beira da estrada – a luz proveniente de tochas era a a a unica ilumina¸˜o – cˆnticos e tambores com uma s´ ´ ca a ıncope estranha, quase africana, totalmente anticl´ssica, primordial e no entanto insanamente complexa. Bebemos, fumamos. a S´ no cemit´rio, pr´ximo a um cad´ver meio-queimado, sou iniciado no Tara-Tantra. o e o a No dia seguinte, febril e distante, dou adeus e sigo Assam, para o grande templo do yoni de Shakti, em Gauhati, em tempo para o festival anual. Assam ´ territ´rio proibido e eu e o ` n˜o tenho um visto. A meia-neite, em Gauhati, caio fora do trem, volto pelos trilhos sob a chuva e com lama at´ os joelhos em total escurid˜o, ando `s cegas at´ finalmente entrar e a a e na cidade e encontro um hotel cheio de insetos. Estou doente como um c˜o. N˜o durmo. a a

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

De manh˜, viagem de ˆnibus para o templo, que fica numa montanha pr´xima. Torres a o o enormes, divindades populares, p´tios, edif´ a ıcios anexos – centenas de milhares de peregrinos – saddhus esquisitos vindos de suas cavernas de gelo atarracados em peles de tigres e cantando. Ovelhas e pombos est˜o sendo abatidos aos milhares, uma verdadeira hecaa tombe – (nenhum outro sahib branco em vista) – as sarjetas escoam uma polegada de sangue – espadas-Kali de lˆmina curva cortam cortam cortam, cabe¸as mortas rolam nas a c pedra escorregadias da rua. Quando Shiva cortou Shakti em 53 peda¸os e os espalhou sobre toda a bacia do Ganges, c sua vagina caiu l´. Alguns sacerdotes amig´veis falam inglˆs e me ajudaram a encontrar a a e a caverna onde o yoni est´ exposto. Nessas alturas, sei que estou seriamente doente, a mas determinado a terminar o ritual. Uma multid˜o de peregrinos (todos ao menos uma a cabe¸a mais baixos do que eu) literalmente me engolfam como a correnteza do mar e c me carregam suspenso enquanto descemos umas escadas curvas, asfixiantes e trogloditas at´ entrarmos numa caverna-ventre claustrof´bica onde sou levando, tonto e nauseado, e o com alucina¸˜es, em dire¸˜o a um meteorito, meio cˆnico, meio disforme, manchado por co ca o s´culos de ghee e ocre. A multid˜o abre-se para mim e me permite atirar um guirlanda e a de jasmins sobre o yoni. Uma semana mais tarde, em Katmandu, dei entrada no Hospital Mission´rio Germˆnico a a (por um mˆs) com hepatite. Um pequeno pre¸o a pagar para todo aquele conhecimento – e c o f´ ıgado de algum coronel aposentado de uma hist´ria de Kipling! – mas eu conhe¸o ela, o c eu conhe¸o Kali. Sim, absolutamente o arqu´tipo de todo aquele horror, mas, para aquec e les que a conhecem, ela se torna a m˜e generosa. Mais tarde, numa caverna na selva al´m a e de Rishikish, meditei sobre Tara por muitos dias (com mantra, iantra, mudra, incenso e flores) e retornei ` serenidade de Darjeeling e de suas vis˜es ben´ficas. a o e Sua era deve conter horrores, pois a maioria de n´s n˜o pode compreendˆ-la ou alcan¸ar o a e c a guirlanda de jasmins al´m do colar de crˆnios, percebendo at´ que ponto s˜o a mesma e a e a coisa. Atravessar o caos, cavalg´-lo com um tigre, abra¸´-lo (mesmo sexualmente) e a ca absorver algo de sua shakti, sua for¸a-vital – esses ´ o caminho da Kali Yuga. Niilismo c e criativo,. Para aqueles que seguem o caminho, ela promete ilumina¸˜o e at´ mesmo ca e riqueza, uma parcela de seu poder temporal. A sexualidade e a violˆncia servem como met´foras num poema que age diretamente e a sobre a consciˆncia atrav´s da Imagem-ina¸˜o – ou talvez nas circunstˆncias corretas elas e e ca a possam ser abertamente distribu´ ıdas e gozadas, embebidas com o sentido do sagrado de cada coisa, desde o ˆxtase e o vinho at´ o lixo e os cad´veres. e e a Aqueles que a ignoram ou a vˆem fora de si mesmo est˜o arriscados de destrui¸˜o. e a ca Aqueles que a adoram como ishta-devata, ou ser divino, degustam de sua Era do Ferro como se fosse ouro, conhecendo a alquimia de sua presen¸a. c

2.17

Contra a Reprodu¸˜o da Morte ca

Um Dos Sinais da Aproxima¸˜o do Fim – que tantos parecem esperar – consiste em ca um fasc´ ınio por todos os detritos mais negativos e odiosos da ´poca, um fasc´ e ınio sentido pelos pr´prios pensadores que se consideravam os mais perspicazes sobre o assim chamado o apocalipse sobre o qual nos alertam. Estou falando de pessoas que conhe¸o muito bem c

2.17. CONTRA A REPRODUCAO DA MORTE ¸˜

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– aquelas da “direita espiritual” (como os neoguenonianos, com sua obsess˜o por sinas a de decadˆncia) – e aquelas da esquerda p´s-filos´fica, os neutros ensa´ e o o ıstas da morte, profundos conhecedores das artes da mutila¸˜o. ca Para ambos esses grupos, toda a¸˜o poss´ no mundo ´ depreciada como mais uma ca ıvel e manifesta¸˜o da coisa de sempre – tudo se torna igualmente sem sentido. Para os tradicioca nalistas, nada importa a n˜o ser preparar a alma para a morte (n˜o apenas a sua pr´pria, a a o mas tamb´m a do mundo todo). Para o “cr´ e ıtico cultural”, nada importa a n˜o ser o jogo a de encontrar uma raz˜o a mais para o desespero, analis´-la, adicion´-la ao cat´logo. a a a a O Fim do Mundo ´ uma abstra¸˜o porque nunca aconteceu. Ele n˜o tem nenhuma e ca a existˆncia no mundo real. Cessar´ de ser uma abstra¸˜o apenas quando ocorrer – se e a ca ocorrer. (N˜o pretendo conhecer “o pensamento de Deus” sobre o assunto – nem possuo a qualquer conhecimento cient´ ıfico sobre um futuro ainda n˜o existente.) Vejo apenas uma a imagem mental e suas ramifica¸˜es emocionais; de tal forma que o identifico como um tipo co de v´ fantasmag´rico, uma estranha doen¸a de mim mesmo, que deve ser eliminada em ırus o c vez de ser hipocondriacamente cozida em banho-maria e tolerada. Desprezo o “Fim do Mundo” como um ´ ıcone ideol´gico apontado para minha cabe¸a pela religi˜o, pelo Estado o c a e pelo meio cultural, como uma raz˜o para n˜o se fazer nada. a a Compreendo por que a religi˜o e os “poderes” pol´ a ıticos querem manter-me tremendo de medo. J´ que apenas eles oferecem a unica chance de se evitar o ragnarok (atrav´s a ´ e de prece, atrav´s da democracia, atrav´s do comunismo etc), devo seguir seus ditames e e como uma ovelha e n˜o ousar nada por mim mesmo. No entanto, o caso dos intelectuais a “iluminados” parece ser, ` primeira vista, mais complexo. De que poder eles gozam neste a ros´rio de medo e escurid˜o, sadismo e ´dio? a a o Essencialmente, eles ganham inteligˆncia. Qualquer ataque a eles parece est´pido, e u j´ que apenas eles tˆm os olhos abertos o suficiente para reconhecer a verdade, apenas a e eles ousam o suficiente para manifest´-la em desafio aos rudes censores jecas e liberais a covardes. Se eu os condeno como parte do mesmo problema que eles clamam estar discutindo objetivamente, serei considerado um capiau, um puritano, um Pollyanna. Se admito meu ´dio pelos artefatos de sua percep¸˜o (livros, obras de arte, performances), o ca serei dispensado como um mero ser desagrad´vel (e, ´ claro, psicologicamente reprimido) a e ou, na melhor das hip´teses, como algu´m sem seriedade. o e Muitas pessoas sup˜em que, por eu algumas vezes me expressar como um anarquista o amante de rapazes, devo tamb´m ter “interesse” por outras id´ias ultrap´s-modernas, e e o como assassinato de crian¸as em s´rie, ideologia fascista, ou as fotografias de Joel P. c e Witkin25 . Pressup˜em apenas dois lados para qualquer quest˜o – o lado da moda e o lado o a que n˜o est´ na moda. Uma marxista que fizesse obje¸˜es a todo este culto da morte a a co como algo atiprogressista seria considerado t˜o tolo quanto um fundamentalista crist˜o a a que o considerasse imoral. Sustento que (como de costume) muitos lados existem para essa quest˜o, mais do que a apenas dois. Quest˜es bilaterais (criacionismo versus darwinismo, choice contra pro-life26 o etc.) s˜o todas, sem exce¸˜o, ilus˜es, mentiras espetaculares. a ca o
Fot´grafo nova-iorquino especializado em fotos er´ticas “chocantes”. (N.E) o o Choice: movimento em defesa do direito de escolha das mulheres em rela¸˜o ao aborto. Pro-life: ca movimento contra o aborto, ligado a setores da direita, que ficou conhecido por seus ataques a cl´ ınicas que promovem essa pr´tica. (N.E) a
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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

Minha posi¸˜o ´ esta: tenho perfeita consciˆncia das “inteligˆncia” que direciona a ca e e e a¸˜o. Eu mesmo a possuo em abundˆncia. De vez em quando, no entanto, tenho conseca a guido me comportar como se fosse est´pido o suficiente para tentar mudar minha vida. u Algumas vezes usei perigosos entorpecentes, como a religi˜o, a maconha, o caos, o amor a pelo rapazes. Em algumas poucas ocasi˜es alcancei algum grau de sucesso – e digo isso o n˜o para me gabar, mas para dar testemunho. Atrav´s da destrui¸˜o dos ´ a e ca ıcones interiorizados do Fim do Mundo en da Futilidade de toda atividade mundana, tenho (raramente) atingido um estado que (em compara¸˜o com tudo que conhe¸o) parece ser um estado de ca c sa´de. As imagens de morte e mutila¸˜o que fascinam nossos artistas e intelectuais me u ca parecem – ` luz da lembran¸a dessas experiˆncias – tragicamente inapropriadas para o a c e potencial real da existˆncia e do discurso sobre a existˆncia. e e A pr´pria existˆncia pode ser considerada um abismo sem sentido algum. Eu n˜o vejo o e a isso como uma afirma¸˜o pessimista. Se for verdade, posso tom´-la somente como uma ca a declara¸˜o de autonomia para minha imagina¸˜o e minha vontade – e para o mais belo ca ca ato que elas possam conceber, assim conferir significado para a existˆncia. e Por que eu deveria emblemar esta liberdade com um ato como o assassinato (como fizeram os existencialistas) ou como algum dos gostos demon´ ıacos dos anos 1980? A morte pode apenas me matar uma vez – at´ l´, estou livre para expressar e experimentar (ao e a m´ximo que puder ) uma vida e uma arte de viver baseada em “experiˆncias de pico” a e autovalorativas e no “conv´ ıvio” (que tamb´m possui sua pr´pria recompensa). e o A replica¸˜o obsessiva do imagin´rio da morte (e sua reprodu¸˜o ou mesmo mercanca a ca tilismo) obstrui esse projeto t˜o veementemente quanto a censura ou a lavagem cerebral a feita pela m´ ıdia. Ela estabelece circuitos negativos de feedback – ´ um tabu maligno. N˜o e a ajuda ningu´m a vencer o medo da morte, e meramente inculca um medo m´rbido no lugar e o do medo saud´vel que todas as criaturas sens´ a ıveis ao farejar sua pr´pria mortalidade. o N˜o escrevo isso para absolver o mundo de sua fealdade, ou para negar que no mundo a existam coisas verdadeiramente aterrorizantes. Mas algumas dessas coisas podem ser vencidas – desde que n´s possamos construir uma est´tica de conquista, em vez de uma o e est´tica de medo. e Recentemente assisti a uma performance de poesia/dan¸a gay de uma firme sofisc tica¸˜o: o unico dan¸arino negro da trupe fingia foder uma ovelha morta. ca ´ c Confesso que parte da minha estupidez auto-induzida ´ acreditar (e mesmo sentir) que e ´ por isso que escrevo pornografia e a arte pode me transformar e transformar os outros. E propaganda – para causar transforma¸˜o. A arte nunca pode significar tanto quanto uma ca caso de amor, talvez, ou uma insurrei¸˜o. Mas... at´ certo ponto... funciona. ca e Entretanto, mesmo se eu tivesse desistido de toda esperan¸a na arte, de toda expectac tiva de exalta¸˜o, ainda me recusaria a tolerar uma arte que meramente exarceba minha ca mis´ria, ou se apraz no schadenfreude, “prazer com a mis´ria alheia”. Eu volto as costas e e para certo tipo de arte como um c˜o ase distanciaria uivando do cad´ver de seu coma a panheiro. Gostaria de poder renunciar ` sofistica¸˜o que me permite dar uma cheirada a ca em tal cad´ver – com indiferente curiosidade – como mais uma exemplo da decomposi¸˜o a ca p´s-industrial. o Apenas os mortos s˜o verdadeiramente inteligentes, verdadeiramente interessantes. a Nada os toca. Enquanto eu viver, no entanto, ficarei do lado da vida sofredora, desonesta e cheia de si, com a raiva em vez do t´dio, com a doce lux´ria, a fome e o desleixo... e u

´ 2.18. SONORA DENUNCIA DO SURREALISMO contra a vanguarda gelada e suas chiques premoni¸˜es do sepulcro. co

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2.18

Sonora Den´ ncia do Surrealismo u

( Para Harry Smith) Na Mostra de Cinema Surrealista, algu´m perguntou a Stan Brakhage27 sobre o uso e que a m´ faz do surrealismo (MTV etc.); ele respondeu que era uma “vergonha danada”. ıdia Bem, talvez seja e talvez n˜o seja (a kultura popular ipso fato carece de toda inspira¸˜o a ca ?) – mas, partindo-se do princ´ ıpio que, em algum n´ ıvel, a apropria¸˜o que a m´ ca ıdia faz do surrealismo ´ de fato uma vergonha danada, vamos acreditar que n˜o havia nada no e a surrealismo que permitisse que esse roubo acontecesse? O retorno do reprimido significa o retorno do paleol´ ıtico – n˜o um retorno ` Idade a a da Pedra, mas um movimento espiral em torno de um novo n´ ıvel da ´rbita. (Afinal, o 99,9999% da experiˆncia humana s˜o de ca¸a e coleta, sendo a agricultura e a ind´stria e a c u uma mera mancha de ´leo no profundo po¸o da n˜o-hist´ria.) O paleol´ o c a o ıtico equivale ao pr´-Trabalho (“sociedade de lazer original”). O P´s-Trabalho (Trabalho-Zero) equivale a e o “Paleol´ ıtico Ps´ ıquico”. Todos os projetos para a “liberta¸˜o dos desejos” (surrealismo), que permanecem ca emaranhados na matriz do Trabalho, podem levar apenas ao mercantilismo do desejo. O neol´ ıtico come¸a com o desejo por bens (excedente da agricultura), caminha para a c produ¸˜o do desejo (ind´stria) e termina com a implos˜o do desejo (propaganda). A ca u a liberta¸˜o surrealista do desejo, apenas dos seus feitos est´ticos, n˜o vai al´m de ser um ca e a e subconjunto da produ¸˜o – da´ a rendi¸˜o em bloco do surrealismo ao partido comunista ca ı ca e sua ideologia pr´-trabalho (para n˜o mencionar sua misoginia e homofobia). O lazer o a moderno. Por sua vez, ´ simplesmente uma subdivis˜o do trabalho (da´ seu mercantilismo) e a ı – ent˜o n˜o ´ por acaso que, quando o surrealismo fechou sua f´brica, os executivos de a a e a publicidade foram os unicos clientes da liquida¸˜o. ´ ca A propaganda, usando a coloniza¸˜o do inconsciente feita pelo surrealismo para criar ca desejo, leva ` implos˜o final do surrealismo. N˜o ´ simplesmente uma “vergonha danada e a a a e uma desgra¸a”, n˜o ´ uma simples apropria¸˜o. O surrealismo foi feito para a propaganda, c a e ca para o mercantilismo. O surrealismo ´, na verdade, uma trai¸˜o ao desejo. e ca E, no entanto, dos abismos do significado, o desejo ainda se levanta, inocente como uma fˆnix rec´m-nascida. O dada´ e e ısmo inicial de Berlim (que rejeitou o retorno da arte-objeto), apesar se suas falhas, fornece um modelo melhor para se lidar com implos˜o do social do a que o surrealismo jamais seria capaz de fornecer – um modelo anarquista, ou talvez (em jarg˜o antropol´gico), um modelo n˜o autorit´rio, uma destrui¸˜o de toda ideologia, a o a a ca de todas as correntes da lei. Assim como a estrutura do Trabalho/Lazer sucumbe no vazio, como todas as formas de controle desaparecem na dissolu¸˜o do sentido, o neol´ ca ıtico tamb´m parece estar destinado a desaparecer, com todos os seus templos e celeiros e e pol´ ıcias, para ser substitu´ por algum retorno ` ca¸a e coleta em termos ps´ ıdo a c ıquicos – uma re-nomadiza¸˜o. Tudo est´ implodindo e desaparecendo – a fam´ edipiana, a ca a ılia educa¸˜o, at´ mesmo o pr´prio inconsciente (como disse Andre Codrescu28 ). N˜o vamos ca e o a
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Cineasta, professor e ensa´ ısta norte-americano. (N.E) Escritor romeno radicado nos EUA. (N.E)

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

erroneamente tomar isso como o Armagedom (vamos resistir ` sedu¸˜o do apocalipse, ` a ca a conclus˜o escatol´gica) – n˜o ´ o mundo chegando ao fim – s˜o apenas as palhas vazias a o a e a do social pegando fogo e desaparecendo. O surrealismo deve ser lan¸ado ao lixo junto com todos os outros belos restos das c prim´rias artimanhas clericais e os enfadonhos sistemas de controle. Ningu´m sabe o que a e est´ por vir, que mis´ria, que esp´ a e ırito de selvageria, que alegria – mas a ultima coisa ´ de que n´s precisamos em nossa viagem ´ outro grupo de comiss´rios – papas de nossos o e a sonhos – pais. Abaixo o Surrealista... — Naropa, 9 de julho de 1988

2.19

Por um Congresso de Religi˜es Estranhas o

N´s temos aprendido a desconfiar do verbo ser, da palavra ´, – melhor dizendo: note o e a formid´vel semelhan¸a entre o conceito SATORI e o conceito REVOLUCAO DIA-Aa c ¸˜ 29 DIA – em ambos os casos h´ uma percep¸˜o do “cotidiano” com conseq¨ˆncias extraa ca ue ordin´rias para a tomada de consciˆncia e a a¸˜o. N˜o podemos usar a frase “parece-se a e ca a com” porque ambos os conceitos (como todos os conceitos e, ali´s, todas as palavras) vˆm a e carregados de acr´scimos – cada um deles est´ sobrecarregado por sua carga ps´ e a ıquicocultural, como convidados que suspeitosamente chegam com enorme excesso de malas para quem vem apenas passar o fim de semana. Portanto, permitam-me o antiquado uso beat-zen budista do satori, enquanto simultaneamente enfatizo – no caso do slogan situacionista – que uma das ra´ de sua dial´tica ızes e pode ser rastreada ao dada´ ısmo e ` no¸˜o surrealista do “maravilhoso”, irrompendo de a ca (ou dentro de) uma vida que apenas parece estar sufocada pelo banal, pelas mis´rias e da abstra¸˜o e da aliena¸˜o. Defino meus termos fazendo-os mais vagos, precisamente ca ca para evitar as ortodoxias tanto do bidismo quanto do Situacionismo, para escapar de suas armadilhas ideol´gico-semˆnticas – estas m´quinas de linguagem disfuncionais! Em o a a vez disso, proponho que n´s as destruamos em partes, um ato de bricolagem cultural. o “Revolu¸˜o” significa apenas outra reviravolta dos timoneiros – enquanto a ortodoxia ca religiosa de qualquer tipo origina, de forma l´gica, um verdadeiro governo de timoneio ros. N˜o vamos idolatrar o satori imaginando-o como monop´lio de monges m´ a o ısticos, ou como contingente de qualquer c´digo moral; e no lugar de fetichizar o esquerdismo de o 1968, preferimos o termo “insurrei¸˜o”, ou “levante”, usando por Stirner, que escapa ` ca a artificialidade de uma mera mudan¸a de autoridade. c Esta constela¸˜o de conceitos envolve “quebrar as regras” de percep¸˜o ordenada para ca ca chegar ` experiˆncia direta, algo an´logo ao processo atrav´s do qual o caos espontanea e a e amente se decomp˜e em ordens fractais n˜o-lineares, ou o modo como a energia criativa o a “selvagem” transforma-se em jogo e poesis. Uma “ordem espontˆnea” a partir do “caos”, a por sua vez, evoca o tao´ ısmo anarquista do Chuang Tzu. Os zen-budistas podem ser acusados de falta de conhecimento sobre as implica¸˜es “revolucion´rias” do satori, enquanto co a os situacionistas podem ser criticados por ignorar certa “espiritualidade” inerente a autoRevolution of Everyday Life no original, que ´ o t´ e ıtulo do livro Trait´ de Savoir-vivre ` L’usage des e a Jeunes G´n´rations, de Rauol Vaneigem, em suas edi¸˜es norte-americana e inglesa. No Brasil, esse livro e e co foi publicado com o nome de A Arte de Viver para as Novas Gera¸˜es, pela Conrad Livros. (N.E) co
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˜ 2.19. POR UM CONGRESSO DE RELIGIOES ESTRANHAS

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realiza¸˜o e no conv´ ca ıvio que sua causa exige. Ao identificarmos o satori com a revolu¸˜o ca do dia-a-dia, estmaos promovendo algo como um casamento for¸ado t˜o marcante quanto c a a famosa composi¸˜o surrealista com um guarda-chuva e uma m´quina de costura, ou ca a seja l´ o que fosse. Miscigena¸˜o. A mistura de ra¸as defendidas por Nietzsche, que, sem a ca c d´vida, foi atra´ pela sensualidade das “castas inferiores”. u ıdo Sinto-me impelido a tantar descrever o modo como o satori “assemelha-se” ` revolu¸˜o a ca do dia-a-dia – mas n˜o posso fazˆ-lo. Ou, melhor dizendo, praticamente tudo que eu a e escrevo gira em torno deste tema; teria de repetir quase tudo para elucidar este simples ponto. Em vez disso, ` guisa de apˆndice, ofere¸o mais uma curiosa coincidˆncia ou a e c e interpenetra¸˜o de dois termos, um novamente do Situacionismo e o outro, desta vez, do ca sufismo. O ato de d´rive ou “andar a esmo” foi concebido como um exerc´ para deliberae ıcio damente revolucionar o dia-a-dia – uma esp´cie de vagar sem rumo atrav´s das ruas da e e cidade, um nomandismo vision´rio urbano que envolve uma abertura para a “cultura a como natureza” (se compreendi a id´ia corretamente) – que, por sua pr´pria dura¸˜o, e o ca inculcaria nos nˆmades uma propens˜o a experimentar o maravilhoso; talvez nem sempre o a em sua forma benigna, mas, esperamos, sempre geradora de insights – seja atrav´s da e arquitetura, do er´tico, da aventura, bebidas e drogas, perigo, inspira¸˜o, o que quer que o ca seja – da intensidade de percep¸˜es e experiˆncias n˜o meditadas. co e a O termo paralelo no sufismo seria “jornada para os horizontes distantes”, ou simplesmente “jornada”, um exerc´ espiritual que combina as energias urbanas e nˆmades do ıcio o Isl˜ numa unica trajet´ria, algumas vezes chamada de “Caravana do Ver˜o”. Os dera ´ o a vixes fazem votos de viajar num determinado ritmo, nunca passando mais do que sete ou quarenta noites numa mesma cidade, aceitando o que quer que aconte¸a, dirigindo-se c para onde quer que os sinais e as coincidˆncias, ou simplesmente os caprichos, os levem, e movendo-se de um ponto de poder para outro, conscientes da “geografia sagrada”, do itiner´rio como significado, da topologia como simbologia. a Aqui outra constela¸˜o: Ibn Khaldun, P´ na Estrada (tanto de Jack Kerouac quanto ca e o de Jack London), a forma do romance picaresco em geral, o bar˜o de M¨nchhausen, a u wanderjahr, Marco Polo, meninos numa floresta de ver˜o suburbana, cavaleiros do rei a Arthur procurando barulho, veados ` ca¸a de meninos, perambular de bar em bar com a c Melville, Peo, Baudelaire – ou fazer canoagem com Thoreau em Maine... a viagem como a ant´ ıtese do turismo, espa¸o em vez de tempo. Projeto art´ c ıstico: a constru¸˜o de um ca “mapa” em escala 1:1 do territ´rio explorado. Projeto pol´ o ıtico: a constru¸˜o de “zonas ca autˆnomas” mut´veis dentro de uma invis´ rede nˆmade (como encontros sob o arcoo a ıvel o ´ ıris). Projeto espiritual: a cria¸˜o ou descoberta de peregrina¸˜es nas quais o conceito ca co “santu´rio” tenha sido substitu´ (ou “esoterizado”) pelo conceito “experiˆncia de pico”. a ıdo e O que estou tentando fazer aqui (como sempre) ´ prover uma base irracional s´lida, e o uma filosofia estranha (se assim preferirem), para o que chamo de Religi˜es Livres, ino cluindo as correntes psicod´lica e discordante, neopaganismo n˜o hier´rquico, as heresias e a a antinomianas, o caos e o caos m´gico, o vodu revolucion´rio, os crist˜os anarquistas e a a a “sem igreja”, o juda´ ısmo m´gico, a Igreja Ortodoxa Islˆmica, a Igreja dos Subgˆnios, as a a e fadas, os tao´ ıstas radicais, os m´ ısticos da cerveja, o pessoal da maconha etc. etc. Contr´rio `s expectativas dos radicais do s´culo XIX, a religi˜o n˜o acabou – talvez a a e a a tivesse sido melhor se ela tivesse acabado de fato – e tem, em vez disso, crescido em

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

poder, aparentemente em propor¸˜o ao crescimento global em tecnologia e controle racica onal. Tanto o fundamentalismo quanto o New Age extraem alguma for¸a da profunda e c difundida insatisfa¸˜o com o Sistema, que trabalha contra toda percep¸˜o do maravilhoso ca ca na vida cotidiana – chame-o de Babilˆnia ou de Espet´culo, de Capital ou de Imp´rio, de o a e Sociedade de Simula¸˜o ou de mecanismo desalmado – o que vocˆ quiser. Mas essas duas ca e for¸as religiosas canalizam seu pr´prio desejo pelo autˆntico para novas abstra¸˜es superc o e co poderosas e opressivas (moralidade no caso do fundamentalismo, mercantilismo no caso do New Age) e por essa raz˜o, podem, muito propriamente, ser chamadas de “reacion´rias”. a a Assim como radicais culturais desempenhar˜o fun¸˜es similares nas esferas do traa co balho, da fam´ e de outras organiza¸˜es sociais, existe a necessidade de os radicais ılia co penetrarem na institui¸˜o da religi˜o, indo al´m da mera repeti¸˜o afetada dos lugaresca a e ca comuns sobre o materialismo ate´ do s´culo XIX. Isso vai acontecer de um jeito ou de ısta e outro – ´ melhor fazer a abordagem com consciˆncia, gra¸a e estilo. e e c Tendo uma vez vivido perto da sede do Conselho Mundial das Igrejas, eu gosto da possibilidade de uma vers˜o parodiada de uma Igreja Livre – sendo a par´dia uma de nosa o sas principais estrat´gias (ou chame isso de d´tournement ou desconstru¸˜o ou destrui¸˜o e e ca ca criativa) – uma esp´cie de network solta (eu n˜o gosto dessa palavra; vamos cham´-la, e a a ent˜o, de webwork) de cultos estranhos e indiv´ a ıduos conversando entre si e oferecendo, pr´stimos uns aos outros, que poderiam originar um rumo, ou tendˆncia, ou “corrente” e e (em termos m´gicos) forte o suficiente para causar algum dano ps´ a ıquico aos fundamentalistas e ao pessoal New Age, at´ mesmo aos aiatol´s e ao papado, soci´veis o bastante e a a para que discordemos uns dos outros e ainda assim fazermos grandes festas – ou conclaves, conselhos ecumˆnicos, Congressos Mundiais – o que esperaremos em j´bilo. e u As Religi˜es Livres podem oferecer algumas das unicas alternativas espirituais poss´ o ´ ıveis para televangelistas nazistas e pat´ticos canalizadores da energia dos cristais (para n˜o e a mencionar as religi˜es estabelecidas), e assim se tornar˜o cada vez mais importantes, cada o a vez mais vitais num futuro em que a demanda pela erup¸˜o do maravilhoso dentro do ca cotidiano se tornar´ a mais sonora, tocante e tumultuosa de todas as demandas pol´ a ıticas – um futuro que come¸ar´ (espere um instante, deixe-me consultar meu rel´gio)... 7, 6, c a o 5, 4, 3, 2, 1... AGORA.

2.20

Terra Oca

Regi˜es Subterrˆneas do continente escavadas em cavernas cicl´picas, redes fractais o a o espa¸os que parecem catedrais, t´neis labir´ c u ınticos em forma de gargantas, rios subterrˆneos a vagarosos e negros, lagos est´ ıgios im´veis puros e levemente luminescentes, estreitas cao choeiras sobre rochas alisadas pela ´gua, cortando florestas petrificadas de estalactites e a estalagmites na complexidade dos desconcertantes peixes cegos exploradores de caverna e na vastid˜o insond´vel... Quem escavou esta terra oca debaixo do gelo previsto por a a Poe, por certos ocultistas alem˜es paran´icos, e por uf´logos malucos? Teria a Terra a o o sido colonizada na ´poca de Gonduana ou da Lem´ria por alguma ra¸a antiga? Seus e u c esqueletos de r´pteis ainda estariam se desfazendo nos labirintos mais secretos e distantes e ´ deste sistema de cavernas? Aguas paradas e dormentes, canais sem sa´ ıda, po¸os estagc nados distantes dos centros da civiliza¸˜o como Little America, Transport City, ou Nan ca Chi Han, l´ embaixo, nos recessos escuros e po¸as das cavernas da Ant´rtida, fungos e a c a

2.20. TERRA OCA

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samambaias albinas. Suspeitamos que sejam seres mutantes, com os dedos das m˜os e a dos p´s entrela¸ados como anf´ e c ıbios, h´bitos degenerados – kallikaks da Terra Oca, rea negados lovecraftianos, eremitas, contrabandistas incestuosos e sorrateiros, criminosos fugitivos, anarquistas for¸ados a se esconder depois das guerras de entropia, fugitivos do c puritanismo gen´rico, dissidentes das sociedades secretas chinesas e fan´ticos do turbante e a ´ amarelo, piratas das cavernas da costa da India, lixo brando p´lido e sem vida dos proa let´rios das majestosas ind´strias de Tongue Thwait, da costa de Walgreen e da terra a u de Edsel-Ford – os trogloditas tˆm mantido viva por mais de duzentos anos a mem´ria e o folcl´rica da Zona Autˆnoma, o mito de que algum dia ela aparecer´ de novo... tao´ o o a ısmo, filosofia libertina, bruxaria da Indon´sia, culto da Caverna M˜e (ou M˜es), identificada e a a por alguns estudiosos como a deusa javanesa do mar/lua Loro Kidul, por outros como um divindade menor da Seita da Estrela Polar do Sul, a “deusa Jade”... manuscritos (escritos em Bahasa Ingliss, o dialeto pidgin das cavernas profundas) contˆm cita¸˜es mutiladas de e co Nietzsche e e Chuang-ts´... O com´rcio consiste em ocasionais pedras preciosas e no cule e tivo de papoulas brancas, fungos, cerca de uma d´zia de diferentes esp´cies de cogumelos u e ´ “m´gicos”... O raso lago Erebo, com 5 milhas de diˆmetro, polvilhado de ilhotas pinheiros a a negros, mantidos numa caverna t˜o vasta que `s vezes cria seu pr´prio clima... A vila a a o oficialmente pertence a Little America, mas, em sua maioria, os habitantes s˜o troglos a vivendo de seguro-desemprego – e a caverna profunda do pa´ tribal estende-se no outro ıs lado do lago. A ral´, artistas, viciados em drogas, feiticeiros, contrabandistas, vagabundos e e pervertidos moram em hot´is de basalto e gesso caindo aos peda¸os, incrustados at´ a e c e metade por p´lidas trepadeiras verdes; ao longo do lago, uma avenida de esqu´lidos caf´s, a a e emp´rios de pedras preciosas defendidos por ninjas armados, botecos chineses que ofereo cem sopa de macarr˜o com pequenos camar˜es, o hall enfeitado vistosamente de cristal a o para lentos dan¸arinos de folk ao som dos gamel˜es, rapazes praticando seus mudras em c o sonolentas tardes eletrˆnicas azul-escuras ao som de gongos sint´ticos e metalofones... e o e sob o cais, talvez alguns poucos banhistas vacilantes ao largo da praia negra; perplexos, genu´ ınos turistas de baixa renda no santu´rio atr´s do bazar onde troglos p´lidos e velhos a a a entram em transe com fungos, babam e reviram os olhos, respiram os fumos do incenso pesado, tudo de repente parece amea¸adoramente brilhante, piscando com ˆnfase... uns c e poucos casos de dedos entrela¸ados, mas os rumores de promiscuidade ritual s˜o verdadeic a ´ ros. Estava eu vivendo numa vila de pescadores troglos, do outro lado do lago de Erebo, num quarto alugado em cima da loja de iscas... pregui¸a rural e degenerados ritos supersc ticiosos de abandono sensual, o mist´rio larval e doentio dos troglos mutantes cten´ides e e o oprimidos, pregui¸osos e sem vi¸o... c c Little America, t˜o crist˜ e livre de muta¸˜es, eugˆnica e ordeira, onde todos vivem a a co e conectados ao reino descartado de antigos softwares e holografias, t˜o euclidianos, newtoa nianos, limpos e patri´ticos – Los Angeles nunca entender´ esta inocente feiti¸aria suja, o a c este “espiritualismo material”. Esta escravid˜o aos desejos vulcˆnicos de gangues secrea a tas de rapazes das cavernas como flores sorridentes jorrando em ere¸˜es-d´ co ınamo, pulsando pura vida, curvados e tesos como arcos, e o cheiro de ´gua, musgo do lago, flores brancas a que desabrocham durante a noite, jasmins e figueiras-do-inferno, urina, cabelo molhado de crian¸a, esperma e lama... possu´ c ıdos por esp´ ıritos das cavernas, talvez os fantasmas de alien´ ıgenas antigos agora vagando como demˆnios, procurando renovar prazeres da carne o e de substˆncias perdidos h´ muito. Ou talvez a Zona tenha j´ renascido, j´ um nexo de a a a a autonomia, um v´ ırus do caos que se espalha em sua mais exuberante forma clandestina,

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

cogumelos brancos venenosos brotando dos pontos onde garotos troglos se masturbaram sozinhos no escuro...

2.21

Nietzsche e os Dervixes

Rendan, “Os Espertos”. Os sufis usam um termo t´cnico, rend (adjetivo rendi, plural e rendan), para designar algu´m “esperto o suficiente para beber vinho em segredo sem ser e pego”: a vers˜o dervixe da “dissimula¸˜o permiss´ a ca ıvel” (tagiyya, que permite aos xiitas mentir sobre sua verdadeira afilia¸˜o para evitar persegui¸˜es e favorecer o prop´sito de ca co o sua propaganda). Na esfera do “caminho”, o rend esconde seu estado espiritual (hal ) para contˆ-lo, e trabalh´-lo alquimicamente, expandi-lo. Esta “esperteza” explica muito dos sigilos das a Ordens, embora continue sendo verdade que muitos dervixes realmente quebraram as regras do Isl˜ (shariah), ofendem a tradi¸˜o (sunnah) e insultam os costumes de sua a ca sociedade – o que lhes d´ raz˜o para um segredo real. a a Ignorando-se o caso de “criminosos” que usam o sufismo como uma m´scara – ou a melhor, n˜o o sufismo em si, mas o dervixismo, que na P´rsia ´ quase um sinˆnimo de a e e o maneiras transigentes e, portanto, de relaxamento social, um estilo de amoralidade genial e pobre, mas elegante – a defini¸˜o acima ainda pode ser considerada tanto num sentido ca literal quanto metaf´rico. Isto ´: alguns sufis violam a Lei ao mesmo tempo permitem que o e ela exista e continue a existir; e eles o fazem por motivos espirituais, como um exerc´ ıcio da vontade (himmah). Nietzsche diz em algum lugar que um esp´ ırito livre n˜o se move para que as regras ou a mesmo para que sejam reformuladas, uma vez que ´ apenas quebrando as regras que ele se e conscientiza de sua vontade de querer. Uma pessoa precisa provar (para si mesma, se n˜o a algu´m mais) sua capacidade de romper com as regras do rebanho, de fazer sua pr´pria e o lei e ainda assim n˜o cair presa do rancor e do ressentimento pr´prios das almas inferiores a o que definem a lei e os costumes em QUALQUER sociedade. A pessoa precisa, com efeito, de um equivalente individual da guerra para atingir a transforma¸˜o do esp´ ca ırito livre – necessita de uma estupidez inerente contra a qual possa medir o seu pr´prio movimento o e inteligˆncia. e Anarquistas `s vezes postulam uma sociedade ideal sem lei. Os poucos experimentos a anarquistas que lograram um breve ˆxito (os makhnovistas, Catalunha) fracassaram em e sobreviver `s condi¸˜es da guerra que originaram sua existˆncia – dessa forma, n˜o temos a co e a meios de saber empiricamente se tais experimentos poderiam ter sobrevivido no in´ da ıcio paz. Alguns anarquistas, no entanto – como nosso falecido amigo, a “Marca” stirneriana italiana –, e at´ mesmo alguns que eram comunistas e socialistas, participaram de toda e sorte de levantes e revolu¸˜es, porque encontraram, no momento da insurrei¸˜o em si, o co ca tipo de liberdade que buscavam. Enquanto a utopia tem, at´ agora, sempre fracassado, e os anarquistas individualistas ou existencialistas tˆm logrado ˆxito visto que tˆm obtido e e e (embora brevemente) a realiza¸˜o de sua vontade durante a guerra. ca As restri¸˜es de Nietzsche aos “anarquistas” s˜o sempre endere¸adas ao tipo m´rtir co a c a comunista-igualit´rio narodnik, cujo idealismo ele via como mais um sobrevivente do moa

2.21. NIETZSCHE E OS DERVIXES

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ralismo p´s-crist˜o – embora ele algumas vezes os elogie por ao menos terem a coragem de o a se revoltar contra a autoridade majorit´ria. Ele nunca menciona Stirner, mas acredito que a teria classificado o rebelde individualista como um dos mais altos tipos de “criminosos”, que representavam para ele (assim como para Dostoievski) seres humanos muito superiores ` multid˜o, mesmo se tragicamente tra´ a a ıdos por suas pr´prias obsess˜es e poss´ o o ıveis motivos de vingan¸a ocultos. c O super-homem nietzschiano, se existisse, teria de compartilhar, at´ certo grau, dessa e “criminalidade”, mesmo se superasse todas as suas obsess˜es e compuls˜es, simplesmente o o porque sua lei nunca poderia concordar com a lei das massas, do Estado e da sociedade. Sua necessidade de “guerra” (seja literal ou metaf´rica) poderia at´ mesmo persuadi-lo a o e participar da revolta, tenha ela assumido a forma de insurrei¸˜o ou apenas uma boemia ca orgulhosa. Para ele, uma “sociedade sem lei” poderia Ter valor apenas enquanto pudesse medir sua pr´pria liberdade contra a sujei¸˜o de outros, contra seus ci´mes e ´dios. As o ca u o breves “utopias piratas” sem lei de Madagascar e do Caribe, a Rep´blica de Fiume de u D’Annunzio, a Ucrˆnia ou Barcelona – essas experiˆncias o atrairiam, porque prometia o a e tumulto do porvir e at´ mesmo a possibilidade do “fracasso” em vez da buc´lica sonolˆncia e o e de uma “perfeita” (e portanto morta) sociedade anarquista. Na ausˆncia de tais oportunidade, esse esp´ e ırito livre teria desdenhado perder tempo com agita¸˜es para reformas, com protestos, com sonhos vision´rios, com todo tipo de co a “mart´ revolucion´rio” – em suma, com a maior parte da atividade anarquista contemırio a porˆnea. Para ser rendi, para beber vinho em segredo e n˜o ser pego, para aceitar as a a regras a fim de viol´-las e assim atingir a eleva¸˜o espiritual ou o transe energ´tico do a ca e perigo e da aventura, a epifania privada da supera¸˜o de toda pol´ interior ao mesmo ca ıcia tempo em que se engana toda autoridade externa – tal poderia ser uma meta v´lida para a esse esp´ ırito e essa poderia ser sua defini¸˜o de crime. ca (Incidentalmente, acho que esta leitura talvez explique a insistˆncia de Nietzsche pela e ´ MASCARA, pela natureza dissimulada do proto-super-homem, que perturba at´ mesmo e os comentarias mais inteligentes, embora algo liberais, como Kaufman. Os artista por mais que Nietzsche os ame, s˜o criticados por contar segredos. Talvez ele tenha falhado a ao considerar que – parafraseando Allen Ginsberg – este ´ nosso modo de nos tornarmos e “grandes”; e tamb´m que – parafraseando Yeats – at´ mesmo o mais verdadeiro dos e e segredos torna-se uma outra m´scara.) a Sobre o movimento anarquista de hoje: pelo menos uma vez, gostar´ ıamos n´s de pisar o num solo onde as leis s˜o abolidas e o ultimo padre ´ enforcado com as tripas do ultimo a ´ e ´ burocrata? Sim, claro. Mas n˜o nutrimos grandes expectativas. H´ certas causas (para a a citar Nietzsche de novo) que nunca abandonamos completamente, nem que seja apenas em fun¸˜o da mera insipidez de todos os nosso inimigos. Oscar Wilde poderia ter dito que ca n˜o se pode ser um cavalheiro sem ser um pouco anarquista – uma paradoxo necess´rio, a a como a “aristocracia radical” de Nietzsche. Isso n˜o ´ apenas uma quest˜o de dandismo espiritual, mas tamb´m de compromisso a e a e existencial com uma espontaneidade subjacente, com um “Tao” filos´fico. Apesar do o desperd´ ıcio de energia pela sua Pr´pria falta de forma o anarquismo, entre todos os o ISMOS, aproxima-se daquele unico tipo de forma que pode nos interessar hoje, aquele ´ estranho atrator, a forma do caos, que (uma ultima cita¸˜o) se deve ter dentro de si, no ´ ca

64 caso de dar ` luz a uma estrela dan¸arina. a c — Equin´cio de Primavera, 1989 o

CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

2.22

Resolu¸˜o para os anos 1990: Boicote ` Cultura ca a Policial!!!

Se podemos dizer que um personagem ficcional tem dominado a cultura popular atual, ´ esse personagem ´ o policial. Os meganhas desgra¸ados est˜o em todo lugar. E pior do e c a que na vida real. Que chatea¸˜o incr´ ca ıvel. Policiais poderosos – protegendo os manos e humildes – ` custa de mais ou menos a ´ meia d´zia de artigos da declara¸˜o doas Direitos Civis – “Dirty Harry”. Otimos poliu ca ciais, humanos, lidando bem com a perversidade humana, agridoces, vocˆ sabe, dur˜es e o e arrogantes, mas mesmo assim, meigos por dentro: Hill Street Blues – o mais mal´fico e programa de TV de todos os tempos. Tiras negros sabich˜es fazendo observa¸˜es espirituo co osas e racistas contra tiras brancos e jecas, mas todos se amando no final – Eddi Murphy, traidor da classe. Numa dessa hist´rias masoquistas, vemos policiais corrompidos que o amea¸am implodir nossa Realidade Konfort´vel e Konsensual, como tˆnias solit´rias dec a e a 30 senhadas por Giger , mas que naturalmente s˜o detonados na hora H pelo ultimo policial a ´ honesto, Robocop, am´lgama ideal de pr´teses e pieguice. a o Somos obsediados por policiais desde o in´ – mas os guardas de outrora atuavam ıcio como tolos empavonados. Car 54, Where Are You? 31 , trouxas feitos na medida para serem arrasados e ridicularizados por Fatty Arbuckle ou Buster Keaton. Mas, no drama ideal dos nossos dias, o “pequeno homem”, que uma vez detonou centenas de varejeiras azuis com aquela bomba anarquista inocentemente usada para acender um cigarro – o Vagabundo, a v´ ıtima com o repentino poder do cora¸˜o puro –, n˜o tem mais um lugar ca a no centro da narrativa. Antes, “n´s” ´ramos aquele vagabundo, aquele her´i ca´tico o e o o quase surrealista que, atrav´s do wu-wei 32 , sai-se vitorioso sobre rid´ e ıculos meganhas de uma Ordem irrelevante e desprez´ ıvel. Mas, agora, “n´s” estamos reduzidos ao status de o v´ ıtimas sem poder, ou criminosos. J´ n˜o representamos o papel principal; j´ n˜o somos a a a a os her´is de nossas pr´prias hist´rias, fomos marginalizados e substitu´ o o o ıdos pelo Outro, o policial. Dessa forma, o show policial possui apenas trˆs personagens – a v´ e ıtima, o criminoso e o policial –, mas os dois primeiros n˜o logram ser completamente humanos – apenas a o meganha ´ real. Estranhamente, a sociedade humana de agora (como percebida pelas e outras m´ ıdias) algumas vezes parece ser constitu´ pelos mesmos trˆs clichˆs/arqu´tipos. ıda e e e Primeiro, as v´ ıtimas, as minorias chorosas reclamando por seus “direitos” – e, por deus, quem n˜o pertence a alguma “minoria” hoje? Porra, at´ mesmo os meganhas reclamaram a e que seus “direitos” estavam sendo infringidos. Depois, os criminosos: em sua maioria, n˜o brancos (apesar da obrigat´ria e delirante “integra¸˜o” mostrada pela m´ a o ca ıdia), muitos pobres (ou ent˜o obscenamente ricos, e portanto ainda mais distantes) e pervertidos (isto a
H.R. Giger, desenhista su´co, criador do design do filme Alien – O Oitavo Passageiro (1940-). (N.E) ı¸ Seriado policial norte-americano da d´cada de 1960. (N.E) e 32 No tao´ ısmo, a a¸˜o que realiza seu prop´sito fluindo de acordo com a natureza das coisas e eventos ca o (N.T)
31 30

` 2.22. RESOLUCAO PARA OS ANOS 1990: BOICOTE A CULTURA POLICIAL!!! 65 ¸˜ ´, os espelhos proibidos de “nossos” desejos). Ouvi dizer que uma em cada quatro casas e nos Estados Unidos ´ assaltada todo ano e que todo ano cerca de meio milh˜o de pessoas e a s˜o presas s´ por fumar maconha. Diante de tais estat´ a o ısticas (mesmo pressupondo que ˜ e elas n˜o passam de “mentiras deslavadas”), perguntamos a n´s mesmo quem NAO ´ a o v´ ıtima ou criminoso em nosso estado-de-consciˆncia-policial. Os detetives policias devem e fazer a media¸˜o por todos n´s, por mais que a interface seja obscura – eles s˜o apenas ca o a sacerdotes-guerreiros, embora profanos. O America’s Most Wanted – o programa de TV mais bem-sucedido dos anos 1980 – possibilitou para todos n´s o papel de tira amador, at´ ent˜o uma mera fantasia da m´ o e a ıdia produzida pelos sentimentos de ressentimento e vingan¸a da classe m´dia. Naturalmente, c e ningu´m ´ mais odiado pelo policial da vida real do que aqueles que resolvem cuidar e e da pr´pria comunidade – veja o que acontece `s iniciativas de autoprote¸˜o comunit´ria o a ca a de vizinhan¸as pobres e/ou n˜o brancas, como os mu¸ulmanos que tentaram eliminar o c a c tr´fico de crack no Brooklyn: os tiras afugentaram os mu¸ulmanos, os traficantes ficaram a c livres. Vigias de verdade amea¸am o monop´lio do cumprimento da lei, l`se majest´, o c o e e que ´ mais abomin´vel do que incesto ou assassinato. e a Mas os vigilantes da m´ ıdia (mediados) funcionam perfeitamente bem dentro do estados Policial. De fato, seria mais acurado consider´-los informantes n˜o pagos (eles nem a a mesmo possuem um conjunto de malas que combinam!): emiss´rios telem´tricos, pombos a e eletrˆnicos, dedos-duros por um dia. o O que ´ que a “Am´rica mais procura”? Essas frase refere-se aos criminosos – ou e e a crimes, a objetos de desejo em sua presen¸a real, n˜o representados, n˜o mediados, c a a literalmente roubados e apropriados? A Am´rica mais procura... dar um “foda-se” para e o trabalho, abandonar o casamento, drogar-se (porque somente as drogas fazem vocˆ se e sentir t˜o bem quanto as pessoas que aparecem nos comerciais de TV parecem se sentir), a fazer sexo com ninfetas n´beis, sodomia, arrombamentos, sim, o inferno! Quais prazeres u ˜ n˜o mediados NAO s˜o ilegais? At´ mesmo churrascos ao ar livre violam regulamentos a a e sobre emiss˜o de fuma¸a, hoje em dia. As divers˜es mais simples acabam por infringir a c o alguma lei; por fim, o prazer torna-se estressante, apenas a TV permanece – e o prazer da vingan¸a, a trai¸˜o vic´ria, a emo¸˜o doentia do mexerico. A Am´rica n˜o pode ter o c ca a ca e a que ela mais procura, ent˜o, em vez disso, ela tem o America’s Most Wanted. Uma na¸˜o a ca de bobalh˜es ginasianos lambendo o rabo de uma elite de brutamontes ginasianos. o ´ E claro que o programa ainda sofre de algumas poucas e estranhas distor¸˜es da co realidade: por exemplo, os segmentos dramatizados s˜o interpretados no estilo cinemaa verdade por atores; alguns telespectadores s˜o t˜o est´pidos que acreditam que est˜o a a u a assistindo a uma filmagem real de crimes reais. Por isso, os atores s˜o continuamente a importunados e mesmo presos, junto com (ou no lugar de) os verdadeiros criminosos cujas fotos de identifica¸˜o s˜o exibidas depois de cada pequeno document´ide. Que ca a o curioso, n˜o? Ningu´m experimenta nada de verdade – todos est˜o reduzidos ao status a e a de fantasmas – imagens da m´ se descolam e se deslocam de qualquer contato com a vida ıdia real de cada dia – telessexo – sexo virtual. A transcendˆncia final do corpo: cibergnose. e Os policiais da m´ ıdia, assim como os seus precursores televang´licos, preparam-nos e ˆ para o advento, a vinda final ou o Extase do estado policial – as “guerras” ao sexo e a `s drogas – controle total e totalmente esvaziado de qualquer conte´do; um mapa sem u coordenadas, em nenhum espa¸o conhecido; muito al´m do mero Espet´culo; puro ˆxtase c e a e

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CAP´ ITULO 2. COMUNICADOS DA AAO

(“permanˆcia-fora-do-corpo”); simulacro obsceno; violentos espasmos sem significado elee vados ao ultimo princ´ ´ ıpio de governo. A imagem de um pa´ consumido por imagens ıs de ´dio a si mesmo, guerra entre as metades esquiz´ides de uma personalidade dividida, o o Super-Ego contra Id Kid, para o campeonato de pesos pesados de uma paisagem abandonada, queimada, polu´ ıda, vazia, desolada, irreal. Assim como o romance policial ´ sempre um exerc´ de sadismo, o seriado policial, e ıcio sempre envolve a contempla¸˜o do controle. A imagem do inspetor ou detetive mede a ca imagem de “nossa” falta de substˆncia autˆnoma, nossa transparˆncia ante o olhar fixo a o e da autoridade. Nossa perversidade, nossa impotˆncia. N˜o importa se o consideramos e a “bons” ou “maus”, nossa invoca¸˜o obsessiva dos espectros policiais revela a extens˜o da ca a nossa aceita¸˜o da perspectiva manique´ ca ısta que eles simbolizam. Milh˜es de meganhas o min´sculos formigam em toda parte, como larvas de fantasmas famintos – eles enchem u a tela, como no famoso filme de Keaton, abarrotando o primeiro plano, uma Ant´rtica a onde nada se move a n˜o ser multid˜es de sinistros ping¨ins azuis. a o u Propomos uma exegese hermenˆutica e esot´rica do slogan surrealista “Mort aux vae e ches! ” N˜o o usamos ao nos referir ` morte de policiais individuais (“vacas” na g´ da a a ıria ´poca) – o que seria uma mera fantasia de vingan¸a esquerdista – sadismo mesquinho e c a `s avessas –, mas ` morte da imagem do policial, o Controle interior e suas mir´ a ıades de reflexos no Lugar Nenhum da m´ ıdia – o “quarto cinza”, como Burroughs o chama. Autocensura, medo do pr´prio desejo, “consciˆncia” com a voz interiorizada da autoridade o e consensual. O assass´ ınio dessas “for¸as de seguran¸a” de fato libertaria uma enchente de c c energia libidinosa, mas n˜o a violenta irrup¸˜o prevista pela teoria da Lei e da Ordem. a ca A “auto-supera¸˜o” nietzschiana provˆ o princ´ ca e ıpio da organiza¸˜o para o esp´ ca ırito livre (e tamb´m para a sociedade anarquista, ao menos em teoria). Na personalidade do ese tado policial, a energia libidinosa ´ represada e desviada para a auto-repress˜o; qualquer e a amea¸a ao Controle resulta em espasmos de violˆncia. Na personalidade do esp´ c e ırito livre, a energia flui desimpedida e portanto turbulenta, mas gentil – o seu caos encontra o seu estranho atrator, permitindo que novas ordens espontˆneas surjam. a Assim, clamamos por um boicote ` imagem do Policial e por uma morat´ria da sua a o produ¸˜o na arte. Assim... ca MORT AUX VACHES!

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