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Nine Inch Nails | Year Zero

Não é um tema novo, mas acho que o assunto foi tão pouco comentado,
principalmente em língua portuguesa, que merece um post aqui no
Brainstorm #9. Não apenas por isso, mas também por se tratar de um
exemplo real e bem-sucedido de como toda campanha viral deveria ser: uma
marca que utilize múltiplas formas de mídia, para permitir que as pessoas
espontaneamente se engajem em torno de algo realmente relevante e
interessante.

Isso é difícil? Não tem formulinha mágica? Aos olhos de muita gente do
mercado parece brincadeira tola de adolescente? Mas funciona, e muito bem.
Estou falando da ação que foi orquestrada de forma magistral pela 42
Entertainment para o lançamento do álbum “Year Zero”, o último do Nine
Inch Nails.

Assim como a própria 42 criou para o lançamento do game “Halo 2″ da
Microsoft, o I Love Bees, trata-se de um ARG (Alternate Reality Game) que
inclui uma rede de sites, muito mistério, pistas e mínimos detalhes escondidos
ao redor do mundo. Obviamente que, e você já deve imaginar, para isso
funcionar é preciso falar com as pessoas certas e, principalmente, falar do
jeito certo. Afinal, publicidade sempre foi isso e não vai mudar.

Tudo começou com uma camiseta em um show do Nine Inch Nails, no dia 12
de fevereiro de 2007. Fãs descobriram que a nova camiseta da turnê continha
letras destacadas, que juntas formavam a frase: “I am trying to believe.”
Claro que, na era digital, a primeira coisa que alguém tentou fazer foi digitar
iamtryingtobelieve.com em algum navegador de internet, e voi lá, um site
misterioso que discutia os efeitos de uma droga revolucionária chamada
Parepin apareceu.

Um arquivo com segundos sem som algum? Uma pessoa qualquer ignoraria. “My Violent Heart”. pouco depois. Esta imagem foi chamada posteriormente de “The Presence” e esteve presente (com o perdão do trocadilho) tanto no trailer como na capa do disco. . foi encontrado um pendrive dentro de um banheiro durante um show da banda em Lisboa. Todos descrevendo uma visão distópica do mundo 15 anos no futuro. Portugal. mas não um fã da banda e ciente do mistério que estava rolando. até então inédita. que em seguida se alastrou rapidamente pela internet. Um pendrive contendo a mesma faixa também foi encontrado em Madri. vários outros sites relacionados. em 14 de fevereiro. Dois dias depois. ou então eventos que aconteceram no ano 0000. no dia 19 do mesmo mês. o trecho de estática foi analisado através de um espectrograma. do mesmo modo que a temática do disco “Year Zero” do NIN. Pois bem. Rapidamente. e revelou uma imagem semelhante a um braço se estendendo do céu.Isso foi o pontapé inicial para uma longa e elaborada perseguição de gato e rato atrás de pistas para decifrar as inúmeras mensagens criptografadas do ARG. na Espanha. E mais: os últimos segundos da música encontrada no dispositivo eram ruídos de estática. e ainda mais misteriosos. o outro era um arquivo mp3 completo de estática. O fã que o achou se surpreendeu com o conteúdo: uma mp3 em alta qualidade da música. foram encontrados. Já em Barcelona. um fã encontrou outro pendrive com mais dois arquivos de áudio: um era a música “Me. I’m Not”.

a música “The Beginning Of The End” tocou “inesperadamente” na rádio KROQ durante a madrugada. mais um pendrive foi descoberto. que acabou levando os fãs para um site chamado Hollywood in Memoriam. No mesmo dia. E logo após. Um outro pendrive.jpg. era possível escutar um trecho da música “Survivalism”.com/0024. No vídeo. a faixa revelou nada menos que um número de telefone: 1-216-333-1810. Para revelar a capa do disco. com a música “In This Twilight” e uma imagem do letreiro de Hollywood destruído. Enquanto o disco ia sendo revelado assim. uma mensagem subliminar foi adicionada a um teaser trailer exibido no mini-site do Year Zero. encontrado no dia 25 de fevereiro. era possível ver a URL yearzero.jpg”.Submetida a análise com um espectrograma. grupos . em Manchester. um outro pendrive encontrado trouxe o clipe da música “Survivalism”. a conta-gotas. Além disso. Além disso. Inglaterra. outra camiseta da turnê trazia letras em negrito que formavam outro telefone: 1-310-295-1040. domínio esse que trazia uma imagem nomeada como yearzero_cover.nin. Ligando para o número. uma rápida aparição de uma placa rodoviária azul mostrava a mensagem “I am trying to believe” e a imagem “The Presence” distorcida. a história ficcional ia sendo contada ao mesmo tempo. continha um arquivo de imagem intitulado “invitation. Ao ligar para este número era possível ouvir uma conversa de telefone captada clandestinamente. No dia 7 do mesmo mês. No dia 3 de março. pausando em um frame determinado do teaser. envolvendo os Estados Unidos. vídeo esse que em diversos frames exibia mensagens e URL’s criptografadas. vazou na internet em mp3 de alta qualidade.

Os participantes eram convocados a vestir algo para mostrar que faziam parte do movimento. O disco saiu em embalagem digipack. Na faixa 14. levando os fãs ao site redhorsevector. através do site Open Source Resistance. apontando para o site graceteacher. stencils. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência… No dia 4 de abril de 2007. trazendo um adesivo com o número 1-866-445-6580. Confira a cronologia de toda a história aqui. ataques biológicos. trazia uma voz computadorizada em determinado trecho. Estados Unidos e Japão. . governos ditadores.net. Do dia 13 ao dia 25 de abril. “Anoter Version Of The Truth”. A faixa 13. O CD em si tinha uma de suas faces termocromáticas. a voz dizia as palavras: “red horse vector”.terroristas. que quando aquecida ao ser tocado revelava uma seqüência binária indicando diversas URL’s (vídeo demonstrando o efeito). bandanas e cerca de 25 cases com telefones celulares pré-pagos. milícias xiitas. Quando os canais estéreo esquerdo e direito eram combinados em um simples canal mono. Reino Unido. o disco inteiro foi disponibilizado no site oficial para audição via streaming. posters. Austrália. nos quais os participantes recebiam ligações com mais pistas. “The Great Destroyer”.net Uma reunião chamada “Art is Resistance” foi marcada em Los Angeles. era possível ouvir um código morse que dizia: “grace the teacher”. o álbum “Year Zero” foi lançado na Europa. etc. O kit da reunião continha buttons.

segundo ele. eu acredito verdadeiramente que as pessoas pagariam e consumiriam mais música. Trent Reznor ainda comprou briga com a RIAA (Recording Industry Association of America). os “membros” da “Art is Resistance” receberam ligações automáticas via celular com uma mensagem que indicava a Hour of Arrival (hora da chegada). Reznor respondeu: “Os drives USB são simplesmente um mecanismo de carregar música e dados para onde nós quisermos. confira toda a timeline da campanha e todos os sites e números de telefone que fizeram parte da história.Finalmente. mas eu não contei e nem detalhei diversas partes desse ARG fantástico. Se tiver interesse. dizendo “we’ve got to go dark for a while. no dia 27 de abril.” Mas Reznor não gosta de chamar o ARG para lançar seu disco de marketing. Realmente é dolorosamente óbvio o desejo das pessoas: músicas livres de DRM (Digital Rights Management) com a qual elas podem fazer o que quiserem.” Percebam que foram vários parágrafos até aqui. A mídia CD ficou antiquada e irrelevante. que o acusou de estar incentivando a pirataria por distribuir música por “meios alternativos”. é mais do que uma mera brincadeira para fazer as pessoas . No meio de tudo. but that is ok – you don’t need us anymore. Se a gananciosa indústria da música abraçasse essa idéia. A ligação marcou o fim do jogo.

que engaja as pessoas ao invés de incomoda- las. Sei que repito esse discurso muitas vezes nesse blog. é uma experiência para os fãs. É um grande exemplo da linha tênue que pode existir entre o marketing e o entretenimento. que as conquista antes de vender algo. é mais um desses novos marcos que temos visto nos últimos tempos. não tem como ser diferente. uma verdadeira forma de arte. assim como diz o nome. “Year Zero”. mas vendo ações assim serem executadas com sucesso. como também na da propaganda.comprarem um disco. . não só na indústria da música.