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O céu embaixo da Terra

MARCELO GLEISER,
é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover
(EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"

Existe uma astronomia que se enterra para estudar os astros

Quando se pensa em astronomia e astrônomos, a primeira imagem
que temos é a de um sujeito sozinho no seu observatório no alto de
uma montanha, com o olho fixo na lente de seu enorme telescópio.
Existe algo de romântico nessa visão, o homem em busca de uma
compreensão mais profunda do Universo, armado apenas de seu
instrumento e de sua criatividade.

Não há dúvida de que essa imagem do astrônomo foi inspirada pela
prática da astronomia que, tradicionalmente, era mesmo feita assim.
Porém, com a automatização dos telescópios e a digitação de sua
óptica, hoje controlada por CCDs acoplados a computadores ultra-
rápidos, poucos astrônomos precisam ir até seus observatórios para
colher dados para pesquisa.

Um exemplo extremo dessa automatização é o Telescópio Espacial
Hubble, um dos instrumentos científicos mais bem-sucedidos da
história, que é operado inteiramente da Terra por controle remoto. O
Hubble não passa de um robô extremamente sofisticado,
desenhado para colher imagens de alta precisão de objetos
celestes próximos e muito distantes.

Assim como ele, existem muitos outros robôs observatórios
colhendo dados em regiões do espectro eletromagnético além das
que nos são visíveis. Um exemplo recente é o observatório espacial
Glast, que estuda a radiação eletromagnética (RE) mais energética,
os raios gama. De passagem, menciono que um dos operadores
principais do Glast é o físico brasileiro Eduardo do Couto e Silva
(tema da coluna de 15 de junho de 2008).

Mas existe outro tipo de astronomia que, paradoxalmente, para
estudar o que existe nos céus, é realizada embaixo da Terra. Para
entendermos como isso é possível, é bom lembrar que a luz, os
raios X, os raios gama e as várias outras formas de RE são
compostas de partículas chamadas fótons. Os telescópios que
captam a luz, os raios gama ou outros tipos de RE são, na verdade,
detectores de fótons, como se fossem redes de pesca desenhadas
para apreender essas partículas.

Só que os fótons não são as únicas partículas que existem nos
céus. Pelo contrário, muitas outras "chovem" continuamente sobre
nós. A maioria faz parte dos chamados raios cósmicos, compostos
principalmente de prótons, elétrons e múons, que são elétrons mais
pesados. Outras são os neutrinos, as "partículas-fantasma",
produzidas no coração do Sol. Neutrinos são capazes de atravessar
a matéria normal como se fossem fantasmas.

Paredes ou mesmo a Terra inteira não são obstáculos para eles.
Algumas partículas, como os elétrons e os múons, também
penetram a matéria por boas distâncias. Portanto, para estudar os
neutrinos sem a interferência de outras partículas, físicos usam
cavidades subterrâneas, em geral minas abandonadas. Nelas,
montam seus "telescópios", detectores capazes de identificar as
raras colisões de neutrinos com a matéria comum.

Existem outras partículas cruzando o espaço ainda mais
misteriosas do que os neutrinos. Delas sabemos apenas que não
são como a matéria comum. Elas não produzem RE, como fazem
os elétrons. Portanto, não brilham, sendo conhecidas como "matéria
escura". Sabemos que existem apenas porque sua massa afeta o
comportamento das galáxias pela gravidade. Cada galáxia tem uma
espécie de véu de matéria escura, com uma massa que chega a ser
dez vezes maior do que a massa de todas as suas estrelas.

A matéria escura também é caçada em observatórios subterrâneos.
Até agora, nenhuma candidata foi detectada, o que causa uma
certa ansiedade nos físicos. Mas também aumenta o seu fascínio.
Vivemos numa realidade dominada pelo que nos é invisível.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth
College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do
Mundo"

Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe0308200803.htm

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