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Freyre, Gilberto.

Casa grande & Senzala: formação da família brasileira sob o


regime da economia patriarcal. Apresentação Fernando Henrique Cardoso - 51ª ed.
Ver. – São Paulo: Global, 2006. – (Introdução da história da sociedade patriarcal no
Brasil; 1).
Por Isac Justino Miranda
4º semestre de Ciências Sociais pela UFMT

UM LIVRO PERENE
Fernando Henrique Cardoso discute o trajeto da obra sob os olhares dos
críticos, que destaca as contradições ali procedentes, porém, destaca que “Casa
grande & senzala foi, é e será referência para compreensão do Brasil”. Sua analise
é de que a obra apresenta “construções hiper-realistas mescladas com
perspectivas surrealistas que tornam o real fugidio. (...) essas caracterizações,
embora expressivas, simplificam e podem iludir o leitor. Mas, com elas, o livro não
ganha apenas força descritiva como se torna quase uma novela, e das melhores já
escrita e ao mesmo tempo, ganha força explicativa”. (p. 20).
“Casa grande & senzala eleva à condição de mito um paradigma que mostra
o movimento da sociedade escravocrata e ilumina o patriarcalismo vigente no Brasil
pré-urbano-industrial”. Considera que “Gilberto Freyre inova nas análises sociais da
época: sua sociologia incorpora a vida cotidiana. Não apenas a vida pública ou o
exercício de funções sociais definidas (...), mas a vida privada”, posto que na época
do escrito descrever hábitos e costumes, “e, sobretudo, a vida sexual, era
inusitado”. (p.21).
“a obra é eterna?”, “Talvez porque ao enunciar tão abertamente como
valiosa uma situação cheia de aspectos horrorosos, Gilberto Freyre desvende uma
dimensão que, gostemos ou não, conviveu com quase todos os brasileiros até o
advento da sociedade urbanizada, competitiva e industrializada. (...) a história que
ele conta era a história que os brasileiros, ou pelo menos a elite que lia e escrevia
sobre o Brasil, queria ouvir. (...). A história que está sendo contada é a história de
muitos de nós, de quase todos nós, senhores e escravos”. (p. 22).
“Gilberto Freyre seria o mestre do equilíbrio dos contrários. Sua obra está
perpassada por antagonismos. Mas dessas contradições não nasce uma dialética,
não há superação dos contrários, nem por conseqüência se vislumbra qualquer
sentido da História. Os contrários se ajustam frequentemente de forma ambígua, e
convivem em harmonia.” (p.23).
Destaca que Gilberto Freyre “não visava propriamente demonstrar, mas
convencer. (...) vencer junto, autor e leitor”. Fernando Henrique prossegue
enfatizando que “essa característica vem sendo notada desde as primeiras edições
de Casa grande & senzala”, em que o autor “não conclui. Sugere, é incompleto, é
introspectivo, mostra o percurso, talvez mostre o arcabouço de uma sociedade.
Mas não ‘totaliza’. Não oferece, nem pretende uma explicação global. Analisa
fragmentos e com eles faz-nos construir pistas para entender partes da sociedade e
da história.” (p.24).
No que se refere às “oposições simplificadoras, os contrários em equilíbrio,
se não explicam logicamente o movimento da sociedade, servem para salientar
características fundamentais. São, nesse aspecto, instrumentos heurísticos cuja
fundamentação na realidade conta menos do que a inspiração derivada delas, que
permite captar o que é essencial para a interpretação proposta. (...) E como, apesar
disso, a obra de Freyre sobrevive, e suas interpretações não só são repetidas (...),
como continua a incomodar muitos, é preciso indagar mais o porquê de tanta
resistência para aceitar e louvar o que de positivo existe nela”. (p. 25).
Quanto à visão da evolução política do país, observa que na obra gilbertiana
“a grande eloqüência, o tom exclamatório dos ‘grandes ideais’, messiânicos, (...) é
posto à margem e substituído pela valorização das práticas econômicas e humanas
que (...) refletem a experiência comprovada de muitas pessoas”. Observa que ”com
as características culturais e com a situação social dos habitantes do latifúndio, não
se constrói uma nação, não se desenvolve capitalísticamente um país e, menos
ainda, poder-se-ia construir uma sociedade democrática”. Diferentemente da
“intelectualidade universitária e dos autores, pesquisadores e ensaístas pós-Estado
Novo (...) que queriam construir a democracia, Gilberto Freyre foi, repetindo José
Guilherme Merquior, ‘nosso mais completo anti-Rui Barbosa’”. (p.26).
Com relação à visão de pensadores mais democráticos do passado, citando
Sérgio Buarque, Florestam Fernandes, Simon Schwartzman e José Murilo de
Carvalho, estes formulam as suas críticas à obra gilbertiana quanto “ao iberismo e
à visão de uma ‘cultura nacional’, mais próxima da emoção do que da razão”.
Fernando Henrique pensa que “terá sido mais fácil assimilar Weber da Ética
protestante e da crítica ao patrimonialismo do que ver no tradicionalismo um
caminho fiel às identidades nacionais para uma construção do Brasil moderno”.
Infere que “o Brasil (...) vivendo uma situação social na qual as massas estão
presentes e são reivindicantes de cidadania e ansiosas por melhores condições de
vida, vai continuar lendo Gilberto Freyre. Aprenderá com ele algo do que fomos ou
do que ainda somos em parte. Mas não o que queremos ser no futuro.” (p. 27).
A título de conclusão sintetiza que em sua obra, “Gilberto Freyre nos faz
fazer as pazes com o que somos. Valorizou o negro. Chamou atenção para a
região. Reinterpretou a raça pela cultura e até pelo meio físico. Mostrou, com mais
força do que todos, que a mestiçagem, o hibridismo, e mesmo (mistificação à parte)
a plasticidade cultural da convivência entre contrários, não são apenas uma
característica, mas uma vantagem do Brasil”. (p.28).
Prefácio à 1ª Edição
Gilberto Freyre fala das suas viagens, a partir de 1930, começando pela
Bahia; depois para Portugal e África; passando pela Universidade de Stanford,
viagens que caracterizou como “ideal para os estudos e as preocupações que este
ensaio reflete” (p. 29).
Em oportunidade de fazer rota através do Novo México, do Arizona, e do
Texas, considera o reconhecimento “de toda uma região que ao brasileiro do Norte
recorda, nos seus trechos mais acres, os nossos sertões ouriçados de mandacarus
e de xiquexiques. Descampados em que a vegetação parece uns enormes cacos
de garrafa, de um verde duro, às vezes sinistro, espetados na areia seca”. Porém
seu interesse estende-se para além da paisagem sertaneja, voltando-se para o
“velho Sul escravocrata”. Infere que “a todo estudioso da formação patriarcal e da
economia escravocrata do Brasil impõe-se o conhecimento do chamado ‘deep
South’” (p. 30-1).
Freyre avalia a importância do encontro e companhia de estudiosos
(estrangeiros) de assunto correlato, que lhe proporcionaram sugestões valiosas
para seu trabalho. Do seu encontro com Franz Boas, destaca que através de
orientação de estudo antropológico, “me revelou o negro e o mulato no seu justo
valor (...) a considerar fundamental diferença entre raça e cultura; a discriminar
entre os efeitos de relações puramente genéticas e os de influências sociais, de
herança cultural e de meio.” (p. 32).
Do materialismo histórico destaca, “temos que admitir influência considerável
(...) da técnica de produção econômica sobre a estrutura das sociedades: na
caracterização da sua fisionomia moral (...) sujeita à capacidade de aristocratizar ou
de democratizar sociedades; de desenvolver tendências para a poligamia ou a
monogamia; para a estratificação ou a mobilidade”. Considera que ainda que
estudos em desenvolvimento sobre eugenia e cacogenia, estes como que sendo
“resultado de traços ou taras hereditárias preponderando sobre outras influências,
deve-se antes associar à persistência, através de gerações, de condições
econômicas e sociais, favoráveis ou desfavoráveis ao desenvolvimento humano”.
(p. 32).
Freyre considera que, no Brasil, os “europeus e seus descendentes tiveram
(...) de transigir com índios e africanos quanto às relações genéticas e sociais”.
Dado à escassez de mulheres, “sem deixarem de ser relações (...) de ‘superiores’
com ‘inferiores’, surgiu a necessidade experimentada por muitos colonos de
constituírem família. (...). A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a
distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-
grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala”. (p. 33).
Nos moldes do sistema patriarcal e escravocrata de colonização, Freyre
estuda a importância do processo alimentar das ‘raças inferiores’, que resulta num
quadro de hiponutrição, ou ‘fome crônica’, decorrente “dos defeitos da qualidade
dos alimentos”. Desse fato decorre “entre as conseqüências (...) a diminuição da
estatura, do peso e do perímetro torácico; deformações esqueléticas;
descalcificação dos dentes; insuficiêcias tiróidea, hipofisária e gonadial
provocadoras de velhice prematura, fertilidade em geral pobre, apatia, não raro
infecundidade”. Lembra também outras influências desse sistema como a sífilis,
destacando que a “economia e organização social (...) às vezes contrariaram não
só a moral sexual católica como as tendências semitas do portugês aventureiro
para a mercania e o tráfico”. (p. 34).
Freyre infere que “o sistema patriarcal de colonização portuguesa do Brasil,
(...) ao mesmo tempo que exprimiu uma imposição imperialista da raça adiantada à
atrasada, (...) de formas européias ao meio tropical, representou um
contemporização com as novas condições de vida e ambiente”. (p. 35).
Nesse prefácio o autor fala da diferença entre o português do reino e o
português do Brasil, tornado luso-brasileiro que, citando Capistrano de Abreu,
provém do ‘transacionismo’ e torna-se “fundador de uma nova ordem econômica e
social; o criador de um novo tipo de habitação”. Este, “na formação brasileira, agiu
do alto das casas-grandes, que foram centros de coesão patriarcal e religiosa: os
pontos de apoio para a organização nacional”. (p. 36).
I.Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de
uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida
Neste primeiro capítulo de Casa-grande & senzala, Gilberto Freyre faz uma
análise dos fatores que possibilitaram a fixação e colonização portuguesa no Brasil.
Essa análise tem como ponto de partida as características do português que define
como:
“A singular predisposição do português para a colonização híbrida e
escravocrata dos trópicos, explica-a em grande parte o seu passado étnico,
ou antes, cultural, de povo indefinido entre a Europa e a África” (p.66).
Essa posição de “indecisão étnica”, por vezes traduzidos em
“bicontinentalidade” ou “dualismo de cultura e raça”, tornaram-se fatores que
dotaram o português de atributos essenciais à colonização dos trópicos ao delinear
no seu caráter a flexibilidade. Sobre o equilíbrio entre os antagonismos resultantes
das duas culturas, a européia e a africana, Freyre destaca que entre:
“(...) a católica e a maometana, a dinâmica e a fatalista encontrando-
se no português, fazendo dele, de sua vida, de sua moral, de sua economia,
de sua arte um regime de influências que se alternam, se equilibram ou se
hostilizam. Tomando em conta tais antagonismos de cultura, a flexibilidade,
a indecisão, o equilíbrio ou a desarmonia deles resultantes, é que bem se
compreende o especialíssimo caráter que tomou a colonização brasileira,
igualmente equilibrada nos seus começos e ainda hoje sobre
antagonismos.” (p.69).
Freyre chama a atenção para uma das heranças recebidas pelos portugueses:
“(...) gente de uma mobilidade, de uma plasticidade, de uma
adaptabilidade tanto social como física (...). (...) o elemento semita, (...), terá
dado ao colonizador português do Brasil algumas das suas principais
condições físicas e psíquicas de êxito e de resistência.” (p. 60-70).
Dessa herança é que Portugal, reino de parco capital humano, enfraquecido
por epidemias, fome e guerras, conseguiu superar-se e impor-se quanto
colonizadores. Assim assinala Freyre a esse ímpeto de superação:
“dominando espaços enormes e onde quer que pousassem, na África
ou na América, emprenhando mulheres e fazendo filhos, em uma atividade
genésica que tanto tinha de violentamente instintiva da parte do indivíduo
quanto de política, de calculada, de estimulada por evidentes razões
econômicas e políticas da parte do Estado. (...) A miscibilidade, mais do que
a mobilidade, foi o processo pelos quais os portugueses compensaram-se
da deficiência em massa ou volume humano para a colonização em larga
escala e sobre áreas extensíssimas.” (p.70-71).
Quando Gilberto Freyre conduz sua análise para a colonização do Brasil,
avalia como outro fator favorável de adaptação do português nesta terra, a
aclimatabilidade:
“Nas condições físicas de solo e de temperatura, Portugal é antes
África do que Europa. O chamado ‘clima português’ de Martone, único na
Europa, é um clima aproximado do africano. Estava assim o português
predisposto pela sua mesma mesologia ao contato vitorioso com os trópicos:
seu deslocamento para as regiões quentes da América não traria as graves
perturbações da adaptação nem as profundas dificuldades de aclimatação
experimentadas pelos colonizadores vindos de países de clima frio.” (p72).
No percurso de avaliação da formação colonizadora portuguesa, Freyre usa
constantemente de comparação com a forma de colonização inglesa, espanhola,
holandesa e outros países europeus. Destes destaca que estudos demonstram que
todas as tentativas de estabelecerem-se nos trópicos resultaram em fracassos.
Além do fator climático, menciona estudos que atribuem esse fracasso em razão
desses europeus terem o objetivo de estabelecer no Brasil uma “colônia
exclusivamente branca”. Outros, por sua vez, discordam desse “caráter de genuína
expansão étnica” atribuindo-lhes antes interesses de “exploração econômica ou
domínio político”. Porém, dentre os aspectos que se fizeram favoráveis ou
desfavoráveis à colonização nos trópicos o autor assinala:
“de formação portuguesa é a primeira sociedade moderna constituída
nos trópicos com características nacionais e qualidades de permanência.”
(p.73).
Quando se refere às condições locais, sejam morfológicas, meteorológicas
ou geológicas, com as quais se deparam o colonizador, Freyre destaca que há que
se considerar o:
“clima irregular, palustre, perturbador do sistema digestivo: clima na
sua relação com o solo desfavorável ao homem agrícola e particularmente
ao homem europeu, por não permitir nem a prática de sua lavoura tradicional
regulada pelas quatro estações do ano nem a cultura vantajosa daquelas
plantas alimentares a que ele estava desde há muitos séculos habituado.”
(p.76).
Prossegue destacando que a realidade que aqui o colonizador encontrou
difere do “entusiasmo do primeiro cronista” (Pero Vaz de Caminha):
“Tudo aqui era desequilíbrio. Grandes excessos e grandes
deficiências, as da nova terra. O solo, excetuadas as manchas de terra preta
ou roxa, de excepcional fertilidade, estava longe de ser o bom de se plantar
nele tudo o que se quisesse, (...). Em grande parte rebelde à disciplina
agrícola. Os rios outros inimigos da regularidade do esforço agrícola e da
estabilidade da vida da família. Enchentes mortíferas e secas esterilizantes –
tal o regime das suas águas. E pelas terras e matagais de tão difícil cultura
como pelos rios quase impossíveis de ser aproveitados economicamente na
lavoura, na indústria ou no transporte regular de produtos agrícolas – viveiros
de larvas, multidões de insetos e de vermes nocivos ao homem.” (p.77).
Avalia que foi dentro dessas condições adversas que se empreendeu o
processo civilizador da colonização portuguesa. Também ao português coube a
inovação no processo de exploração dos trópicos que até então se atinha ao
comércio através de feitorias ou extração de riqueza mineral para a criação local de
riqueza. Destaca a diferença política de colonização entre portugueses e espanhóis
e ingleses, sendo que estes adotaram a de “extermínio e segregação” das raças
nativas:
“No Brasil os portugueses iniciaram a colonização em larga escala
dos trópicos por uma técnica econômica e por uma política social
inteiramente novas (...). A primeira: a utilização e o desenvolvimento de
riqueza vegetal pelo capital e pelo esforço do particular; a sesmaria; a
grande lavoura escravocrata. A segunda: o aproveitamento da gente nativa,
principalmente da mulher, não só como instrumento de trabalho, mas como
elemento de formação de família.” (p. 79).
Quanto ao processo de formação social infere:
“A nossa verdadeira formação social se processa a partir de 1532 em
diante, tendo a família rural ou semi-rural por unidade (...). Vivo e absorvente
órgão da formação social brasileira, a família colonial reuniu, sobre a base
econômica da riqueza agrícola e do trabalho escravo, uma variedade de
funções sociais e econômicas. Inclusive, (...), a do mando político: o
oligarquismo ou nepotismo, que aqui madrugou, chocando-se ainda em
meados do século XVI com o clericalismo dos padres da Companhia.” (p.85).
Freyre esclarece que:
“Pela presença de um tão forte elemento ponderador como a família
rural ou, antes, latifundiária, é que a colonização portuguesa do Brasil tomou
desde cedo rumo e aspectos sociais tão diversos da teocrática, idealizada
pelos jesuítas.” (p.85).
Essa mudança de postura saída da base de colonização comercial para a
rural não ocorreu de forma espontânea, mas pelas circunstâncias, dado que no
Brasil “terra e homem estavam em estado bruto”, desfavorecendo-lhes o intercurso
comercial, conforme se procedia no oriente. Assim, definida a base de fixação dos
colonizadores, delinearam o modo de instalação onde:
“Tanto mais rica em qualidade e condições de permanência foi a
nossa vida rural do século XVI ao XIX onde mais regular foi o suprimento de
água; onde mais equilibrados os rios ou mananciais.” (p.88).
Porém, salienta Freyre, “prolongou-se no brasileiro a tendência de derramar-
se em vez de condensar-se. (...) derramamo-nos em superfície antes de nos
desenvolvermos”, referindo-se à expansão colonial através da fundação de
subcolônias na ânsia da extensão populacional aventureira ou em empresa
capitalista. Desta feita Freyre também aponta os antagonismos vividos:
“Se é certo que o furor expansionista dos bandeirantes conquistou-nos
verdadeiros luxos de terras, é também exato que nesse desadoro de
expansão comprometeu-se a nossa saúde econômica e quase se
comprometia a nossa unidade política.”, porém, complementa Freyre: “A
mesma mobilidade que nos dispersa desde o século XVI em paulistas e
pernambucanos, ou paulistas e baianos, e daí ao século XIX em vários
subgrupos, mantém-nos em contato, em comunhão mesmo, através de difícil
mas nem por isso infreqüente intercomunicação colonial.” (p.89).
Freyre argumenta que:
“os portugueses não trazem para o Brasil sem separatismos políticos,
como os espanhóis para o seu domínio americano, nem divergências
religiosas, como ingleses e franceses para as suas colônias”. (p. 90).
Complementado que às autoridades o que importava era a religião. Contato
que fossem cristãos católicos a colônia do Brasil encontrou-se aberta, inclusive a
estrangeiros, em quase todo o século XV. Quanto a esse pressuposto Freyre
coloca que:
“Temia-se no adventício acatólico o inimigo político capaz de quebrar
ou enfraquecer aquela solidariedade que em Portugal se desenvolvera junto
com a religião católica. Essa solidariedade manteve-se entre nós
esplendidamente através de toda nossa formação colonial, reunindo-nos
contra calvinistas franceses, contra os reformados holandeses, contra os
protestantes ingleses. Daí ser tão difícil, (...), separar o brasileiro do católico:
o catolicismo foi realmente o cimento da nossa unidade.” (p.91-92).
A colônia brasileira passa então a ser regionalista, cada qual se adaptando
às características locais, porém mantendo-se a tendência à uniformização. O
antagonismo se manifestaria de outra forma, conforme observa Freyre:
“O antagonismo econômico se esboçaria mais tarde entre os homens
de maior capital, que podiam suportar os custos da agricultura da cana e da
indústria do açúcar, e os menos favorecidos de recursos, obrigados a se
espalhar pelos sertões em busca de escravos – espécie de capital vivo – ou
a ficarem por lá, como criadores de gado. Antagonismo vasto que a terra
pôde tolerar sem quebra do equilíbrio econômico. Dele resultaria, entretanto
o Brasil antiescravocrata ou indiferente aos interesses da escravidão
representados pelo Ceará em particular, e de modo geral pelo sertanejo ou
vaqueiro.” (p.93).
As diferenças econômicas regionais se apresentam com o deslocamento do
cultivo da cana-de-açucar para a exploração de minas na capitânia de Minas Gerais
e cultivo cafeeiro em São Paulo, mantendo-se o primeiro no nordeste. Ao nordeste
coube maior e intensa exploração da mão-de-obra escrava, argumenta Freyre, o
que resultou “em profunda diferença de cultura regional”.
De modo geral, argumenta Freyre:
“Na formação da nossa sociedade, o mau regime alimentar decorrente
da monocultura, por um lado, e por outro da inadaptação ao clima, agiu
sobre o desenvolvimento físico e sobre a eficiência econômica do brasileiro
no mesmo mau sentido do clima deprimente e solo quimicamente pobre. A
mesma economia latifundiária e escravocrata que tornou possível o
desenvolvimento econômico do Brasil, sua relativa estabilidade em contraste
com as turbulências nos países vizinhos, envenenou-o e perverteu-o nas
suas fontes de nutrição.” (p. 96).
Freyre desmistifica de maneira incisiva o país da narrativa de Capistrano de
Abreu:
“País de Cocagne coisa nenhuma: terra de alimentação incerta e vida
difícil é que foi o Brasil dos três séculos coloniais. A sombra da monocultura
esterilizando tudo. Os grandes senhores rurais sempre endividados. As
saúvas, as enchentes, as secas dificultando ao grosso da população o
suprimento de víveres.” (p. 101).
Sob essas condições Freyre infere:
“Não só na Bahia, em Pernambuco e no Maranhão como em Sergipe
del-Rei e no Rio de Janeiro verificou-se com maior ou menor intensidade,
através do período colonial, o fenômeno, tão perturbador da eugenia
brasileira, da escassez de víveres frescos, que animais quer vegetais.”
(p.103).
A exceção Freyre apresenta São Paulo, atribuindo-lhe favoravelmente
condições geológicas e meteorológicas que contribuem para o desenvolvimento
agrícola generalizado, inclusive do trigo, bem como provável superioridade química
do solo, o que propiciam maior enriquecimento na qualidade alimentar. Além
desses fatores o paulista diferencia-se por não ser gente dada ao ruralismo, e sim
“semi-ruralistas e gregária”; ainda, por não se aterem `monocultura latifundiária,
prevalecendo entre eles a atividade tanto agrária quanto pastoril.
Precisamente, na formação nutricional do brasileiro, a melhor influência
Freyre atribui ao africano:

“quer através dos valiosos alimentos, principalmente vegetais, que por


seu intermédio vieram-nos da África, quer através do seu regime alimentar,
melhor equilibrado do que o do branco.” (p.107).

Além dessa peculiaridade do africano, o senhor de engenho tinha o interesse


deles retirar o máximo de esforço possível com relação à capacidade produtiva da
sua mão-de-obra, daí fornecer-lhes alimentação farta, dentro das possibilidades de
então. A estes havia a abundância de milho, toucinho e feijão. Daí Freyre
considerar o escravo negro no Brasil como “o elemento melhor nutrido em nossa
sociedade patriarcal”.

Quanto à mistura de raças, Freyre fala da mistura das três raças, do branco,
do índio e do negro:

“A suposta imunidade absoluta do sertanejo do sangue ou da


influência africana não resiste ao exame demorado. (...). Um estudo
interessantíssimo a fazer seria a localização de redutos de antigos escravos
que teriam borrado de preto, hoje empalidecido, muita região central do
Brasil. Essas concentrações de negros puros correspondem
necessariamente a manchas negróides no seio de populações afastadas dos
centros de escravaria. Escasseavam entre os escravos fugidos as mulheres
de sua cor, recorrendo eles, para suprir a falta, ‘ao rapto das índias’ ou
caboclas de povoados e aldeamentos próximos(...).” (p.109).

Sobre o escravo africano o autor coloca que:

“Os escravos negros gozaram sobre os caboclos e brancarões livres


da vantagem e condições de vida antes conservadoras que
desprestigiadoras da sua eugenia: puderam resistir melhor às influências
patogênicas, sociais e do meio físico e perpetuar-se assim em
descendências, mais sadias e vigorosas.” (p. 109)

Freyre infere que “à vantagem da miscigenação correspondeu no Brasil a


desvantagem tremenda da sifilização”. Como deformação patológica e social Freyre
coloca a sifilização ante a civilização do colonizador europeu:

“De todas as influências sócias talvez a sífilis tenha sido, depois da


má nutrição, a mais deformadora plástica e a mais depauperadora da
energia econômica do mestiço brasileiro. Sua ação começou ao mesmo
tempo que da miscigenação; vem, segundo parece, das primeiras uniões de
europeus, desgarrados à-toa pelas nossas praias, com índias que iam elas
próprias oferecer-se ao amplexo sexual dos brancos.” (p.110).

É sob esse ponto de vista da miscigenação que Freyre coloca como


preparador para o processo de colonização que resultaria numa formação
poligâmica do brasileiro. Adentrando a abordagem sobre a vida sexual no Brasil
colônia, Freyre destaca que:

“Uma espécie de sadismo do branco e de masoquismo da índia ou da


negra terá predominado nas relações sexuais como nas sociais do europeu
com as mulheres das submetidas ao seu domínio. (...) Através da submissão
do moleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado
leva pancadas, iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico.”
(p.113).

Desse comportamento Gilberto Freyre vislumbra heranças do período


colonial:

“Resultado da ação persistente desse sadismo, de conquistador sobre


conquistado, de senhor sobre escravo, parece-nos de fato, ligado
naturalmente à circunstância econômica da nossa formação patriarcal, da
mulher ser tantas vezes no Brasil vítima inerme do domínio ou do abuso do
homem; (...). Por outro lado,, a tradição conservadora no Brasil sempre se
tem sustentado do sadismo do mando, disfarçado em ‘princípio de
Autoridade’ ou ‘defesa da Ordem’. Entre essas duas místicas – a da Ordem e
a da Liberdade, a da Autoridade e a da Democracia – é que se vem
equilibrando entre nós a vida política, precocemente saída do regime de
senhores e escravos.” (p. 114-115).

Enfim, Freire avalia:

“(...) resta-nos destacar na formação brasileira: a de não se ter


processado no puro sentido da europeização. Em vez de dura e seca,
rangendo do esforço de adaptar-se a condições inteiramente estranhas, a
cultura européia se pões em contato com a indígena, amaciada pelo óleo da
mediação africana.” (p.115).

Gilberto Freyre neste primeiro capítulo de Casa-grande & senzala nos


leva à compreensão da formação da sociedade brasileira e do movimento da
sociedade escravocrata. Numa linguagem única nos faz conhecer esse
constante “processo de equilíbrio e antagonismos”.
II.O indígena na formação da família brasileira

Gilberto Freyre inicia este capítulo constatando o fato de que:

“com a intrusão européia desorganiza-se entre os indígenas da América a


vida social e econômica; desfaz-se o equilíbrio nas relações do homem com
o meio físico.” (p. 157).

Inicia-se então o processo civilizatório dessa raça. Freyre destaca que


diferentemente dos espanhóis que se engendraram num processo de “dissolução
dos valores nativos”; os ingleses que demonstraram aversão à proximidade com os
nativos por preconceito de raça e moral cristã; por sua vez, os portugueses
desprovidos do espírito de fúria dos primeiros e menos rígidos que os segundos,
dotados de um espírito aventureiro, ao se depararem com uma cultura
“adolescente”, sem esboçarem resistências, ao contrário, demonstrando-se
receptivos e dóceis, permitiram-se então (os portugueses) contemporizar com os
nativos.

“(...) entre os indígenas das terras do pau-de-tinta outras foram as condições


de resistência ao europeu: resistência não mineral mas vegetal. Por sua vez
o invasor pouco numeroso foi desde logo contemporizando com o elemento
nativo; servindo-se do homem para as necessidades de trabalho e
principalmente de guerra, de conquista dos sertões e desbravamento de
mata virgem; e da mulher para as de geração e de formação da família.” (p.
158).

Segundo Freyre, a falta de capacidade técnica e política de reação por


parte dos indígenas não é contestada por estes em forma de agressividade o que
desperta a sensibilização por parte dos portugueses. O autor destaca quatro
características atribuídas às regiões em vias de colonização da América, com
observações de Ruediger Bilden:

“O primeiro grupo seria o formado pelas repúblicas (...) do Prata e do


Chile. (...), [onde] ‘o clima e as condições físicas em geral encorajaram o tipo
de colonização mais favorável ao desenvolvimento da sociedade
predominantemente européia.’ (...).
O segundo grupo seria ‘o que o Brasil tipifica quase sozinho (...);
região onde o elemento europeu nunca se encontrou em “situação de
absoluto domínio”. “Por mais rígido, (...), que fosse o seu domínio econômico
e político sobre os outros elementos étnicos, social e culturalmente os
portugueses foram forçados pelo meio geográfico e pelas exigências da
política colonizadora a competirem com aqueles numa base
aproximadamente igual.”

O terceiro grupo seria o representado pelo México ou pelo Peru, onde


o conflito do europeu com as civilizações indígenas já desenvolvidas, a
presença de riquezas minerais, o sistema colonial de exploração resultaram
antes em ‘justaposição e antagonismo de raças’ do que em ‘harmonioso
amalgamento’; (...).

O quarto grupo seria o constituído pelo Paraguai, pelo Haiti e


‘possivelmente pela República dominicana’. (...) ‘o elemento europeu é
quando muito um verniz’. Representa uma ‘incongruente mistura cultural de
substância francamente índia ou negróide com fragmentos ou elementos
mal-assimilados de origem européia’.” (p. 159).

Freyre dá ênfase ao hibridismo no Brasil, por ser a sociedade brasileira entre


“todas da América a que se constituiu mais harmoniosamente quanto às relações
de raça”. Entre os vários autores estudados, observa a prevalência do pensamento
de que o homem português encontra na mulher índia não só o abrasamento de
suas necessidades sexuais, mas também uma forma política de aumentar o
povoamento em terras brasileiras, tendo em vista a escassez de mulheres brancas.
Além de que os portugueses que para cá vieram eram plebeus e economicamente
desprovidos e sem a consciência social dos fidalgos. Citando Basílio de Guimarães,
considera que:

“só a partir do século XVI (...) pode considerar-se formada, (...), ‘a primeira
geração de mamelucos’; os mestiços de portugueses com índios, com
definido valor demogênico e social.” (p. 162).

Da mulher índia, Freyre destaca:


“À mulher gentia temos que considerá-la não só a base física da
família brasileira, (...), mas valioso elemento de cultura, pelo menos material,
na formação brasileira. Por seu intermédio enriqueceu-se a vida no Brasil,
(...), de uma série de alimentos ainda hoje em uso, de drogas e remédios
caseiros, de tradições ligadas ao desenvolvimento da criança, de um
conjunto de utensílios de cozinha, de processos de higiene tropical. (...). (...)
[o uso da] rede. (...). O brasileiro de hoje, amante do banho e sempre de
pente e espelhinho no bolso, o cabelo brilhante de loção de coco, reflete a
influência de tão remotos avós.” (p. 162-3).

Do homem índio, seu estudo leva a considerar:

“(...) a contribuição (...) do homem. Foi formidável: mas só na obra de


devastamento e de conquista dos sertões, de que ele foi o guia, o canoeiro,
o guerreiro, o caçador e pescador. Muito auxiliou o índio ao bandeirante
mameluco, os dois excedendo ao português em mobilidade, atrevimento e
ardor de guerreiro; sua capacidade de ação e de trabalho falhou, (...).
Compensou-se o índio, amigo ou escravo dos portugueses, da inutilidade no
esforço estável e contínuo pela extrema bravura no heróico militar. Na obra
de sertanismo e de defesa da colônia contra espanhóis, contra tribos
inimigas dos portugueses, contra corsários.” (p. 163).

Quanto à contribuição do sistema de plantação indígena, o aproveitamento


da colonização agrária foi tão somente quanto ao processo de queimada para
preparação do solo com fins agrícolas, a coivara. Contribuição mínima pelo fato de
uma cultura nômade, aliado ao fator de que o pouco de lavoura que se cultivava era
uma função desdenhada pelos índios e atribuída às mulheres em suas atividades
consideradas domésticas. “Daí não terem as mulheres índias dado tão boas
escravas domésticas quanto as africanas”.

No que diz respeito à cultura, Freyre da ênfase aos traços das tribos do
Nordeste do Brasil, por considerar muitos deles extensivos a quase todo o Brasil,
observando, porém, a sua não generalização por existirem singularidades em
outras regiões. Destaca a observação minuciosa de Whiffen que sintetiza as
culturas indígenas com base na cultura das tribos do Nordeste do Brasil, assim
descrita:

“caça, pesca, cultura de mandioca, tabaco e coca, e em menor extensão o


milho, inhame ou cará, jerimum, pimenta; os campos clareados a fogo e
cavados a pau e não à enxada; nenhum animal doméstico; toda vida animal
aproveitada como alimento; uso do mel, havendo certa domesticação de
abelhas; (...); hábito de comer barro; canibalismo; sinais por meio de
tambores; decorações fálicas, redes de fibra de palmeira; cerâmica; cestos;
nenhum metal; pouco uso da pedra; instrumentos de madeira; canoas
cavadas na madeira; árvores derrubadas por meio de cunhas; grandes pilões
de pau para pisar coca, tabaco e milho; freqüente deslocamento de
habitações e de lavouras; comunidades inteiras em uma casa só, grande e
quadrangular, coberta de palha, quatro caibros sustentando-a no interior,
sem chaminé; o terreno em redor da casa limpo, mas esta escondida no
meio do mato e só acessível por caminhos e veredas confusas; nenhuma
indumentária, a não ser de casca de árvore para os homens; pentes para as
mulheres feitos de pedaços de palmeira; colares de dentes humanos;
ligaduras decorativas para o corpo, fusos atravessados no nariz, chocalho
atado às pernas, pintura elaborada do corpo; espécie de conferência ou
conclave em torno de uma bebida negra; de tabaco, antes de iniciar-se
qualquer empresa importante, de guerra ou de paz; couvade; proibição às
mulheres de se associarem às cerimônias mais sérias e de estarem
presentes às de iniciação dos meninos na puberdade; os nomes de pessoa
não pronunciados alto e os dos caracteres míticos apenas sussurrados;
principal função seria, entretanto, tirar espíritos maus; duas grandes
cerimônias para celebrar épocas de colheita ou de amadurecimento de
frutas, a da mandioca e do abacaxi; os meninos cruelmente espancados nas
cerimônias de puberdade; prova das formigas mordedeiras; os
ressentimentos ou mágoas do indivíduo por ele formalmente apresentados
ao grupo; uma espécie de dança de ciranda; gaita, flauta, castanhola e
maracá; cada um dos grupos acomodados em uma só habitação, exógamo;
descendência por via paterna; monogamia; cada habitação com um chefe,
sendo o conselho formado por todos os adultos do sexo masculino; contos
com semelhança ao do folclore europeu; contos de animais fazendo lembrar
os do lore africano; o Sol e a Lua, venerados; os mortos sepultados.” (p. 166-
7)

Freyre a seguir dará relevância aos “traços que se comunicaram à cultura e


à vida do colonizador português”, como:

“(...) esse de variar marido de mulher e mulher de marido, com o qual não
podia transigir, nem transigia no Brasil , a moral católica (...). (...) o
desregramento do conquistador europeu veio encontrar-se em nossas praias
com a sensualidade (...) da índia (...)” (p.168-9).

“Longe de ser o livre animal imaginado pelos românticos, o selvagem da


América, aqui surpreendido em plena nudez e nomadismo, vivia no meio de
sombras de preconceito e medo; muitos dos quais nossa cultura mestiça
absorveu, (...). É assim que a noção de caiporismo, (...), deriva-se da crença
ameríndia no gênio agourento do caipora; este era um cabloquinho nu,
andando de uma banda só, e que quando aparecia aos grandes era sinal
certo de desgraça. Sumiu-se o caipora, deixando em seu lugar o caiporismo,
do mesmo modo que desapareceram os pajés, deixando atrás de si primeiro
as ‘santidades’ do século XVI, depois várias formas de terapêutica e de
animismo, muitas delas hoje incorporadas, junto com sobrevivências de
magia ou de religião africana, ao baixo espiritismo, que tanta concorrência à
medicina à européia e ao exorcismo dos padres, nas principais cidades e por
todo o interior do Brasil.” (p. 172).

“No trajo popular do brasileiro rural e suburbano – a gente pobre moradora


do mucambo ou de tapujar – como na sua dieta, na vida íntima, na arte
doméstica, na atitude para com as doenças, os mortos, as crianças recém-
nascidas, as plantas, os animais, os minerais, os astros etc., subsiste muita
influência do fetichismo, do totemismo, da astrologia em começo e dos tabus
ameríndios.” (p. 172).

Ao considerar o choque entre a cultura européia e a amerínda, Freyre


destaca a predominância européia e católica. O contato com o europeu representou
para a cultura indígena a sua dissolução.
“Entre as populações nativas da América, dominadas pelo colono e
missionário, a degradação moral foi completa, como sempre acontece ao
juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada.” (p. 177).

Freyre observa que as ações dos missionários incumbem-se do poder


destruidor de culturas que não as européias. Com fins que consideravam de
puritanismo, procederam sufocando muitos dos costumes indígenas:

“os cantos indígenas, de um agreste sabor, substituíram-nos os jesuítas por


outros, compostos por eles, secos e mecânicos, cantos devotos, sem falar
de amor, apenas em Nossa Senhora e nos santos. À naturalidade das
diferentes línguas regionais superimpuseram uma só, a ‘geral’. Entre os
cablocos ao alcance da sua catequese acabaram com as danças e os
festivais mais impregnados dos instintos, dos interesses e da energia animal
da raça conquistada, só conservando uma ou outra dança, apenas graciosa,
de culumins. (...) Ainda mais, procuraram destruir, ou pelo menos castrar,
tudo o que fosse expressão viril de cultura artística ou religiosa em
desacordo com a moral católica e com as convenções européias. (...). (...)
povos acostumados à vida dispersa e nômade sempre se degradam quando
forçados à grande concentração e à sedentariedade absoluta.” (p. 178-9).

O autor assinala que o propósito europeizante dos missionários católicos dos


séculos XVI e XVII, foram substituídos posteriormente pela maior rigidez dos
presbiterianos e metodistas. Freyre considera destacável a classificação de pelo
menos nove ajustes de responsabilidades européias na degradação da raça e da
cultura indígena no Brasil, a saber:

“1) a concentração dos aborígenes em grandes aldeias (...); 2) vestuário à


européia (...); 3) segregação nas plantações; 4) obstáculo ao casamento à
moda indígena; 5) aplicação de legislação penal européia a supostos crimes
de fornicação; 6) abolição de guerras entre as tribos; 7) abolição da
poligamia; 8) aumento da mortalidade infantil devido as novas condições de
vida; 9) abolição do sistema comunal e da autoridade dos chefes
(acrescentemos: da autoridade dos pajés, mais visados que aqueles pela
rivalidade religiosa dos padres e mais importantes que os morubixabas).” (p.
179-80).

Freyre prossegue esmiuçando as conseqüências dessas ações e as


contradições apresentadas. Observa que a obrigatoriedade de vestimenta veio a
interferir no hábito de higiene indígena, que acostumados à nudez a ao banho por
diversas vezes ao dia, viram-se obrigados a cobrirem com uma única roupa de que
dispunham até que esta se desmanchasse pelo uso freqüente e sujeira acumulada.
Por trás da exigência moral os europeus, além da aversão pelo banho, ocultavam
por baixo de suas vestimentas as manchas de sífilis, doença contagiosa e
disseminada na Europa, e que viriam a transmitir para os índios.

Sobre a divisão sexual do trabalho, seu estudo assim descreve, algumas


atividades exclusivas de homens, outras exclusivas de mulheres, uma poucas
mistas, e, ainda, outras executadas pelo “homem invertido” ou bissexual. Descreve
as observações de Thomas:

“entre os primitivos o homem é a atividade violenta e esporádica; a mulher, a


estável, sólida, contínua. Funda-se esse antagonismo na organização física
da mulher, que a habilita antes à resistência que ao movimento. Antes à
agricultura e à indústria que à caça e à guerra. Daí a atividade agrícola e
industrial desenvolver-se quase sempre pela mulher; pela mulher
desenvolver-se a própria técnica da habitação, a casa; e em grande parte a
domesticação de animais. Mesmo a magia e a arte, se não se desenvolvem
principalmente pela mulher, desenvolvem-se pelo homem efeminado ou
bissexual, que à vida de movimento e de guerra de homem puro prefere à
doméstica e regular da mulher. Os indígenas do Brasil estavam, pela época
da descoberta, ainda na situação de relativo parasitismo do homem e
sobrecarga da mulher. (p. 186).

Quanto ao à homossexualidade ou bissexualidade, o autor esclarece que


esses povos desconheciam o preconceito, e que em vez de desprezo ou
ridicularização, os efeminados eram respeitados por serem considerados dotados
de poderes e virtudes extraordinárias. Assim descreve:
“(...) não raro assumirem os homo ou bissexuais posição de mando ou
influência nas sociedades primitivas; (...). (...) muitas das mais importantes
diferenciações de vida social teriam decorrido de variações de natureza
sexual; (...). Teriam os homo e os bissexuais desempenhado valiosa função
criadora, lançando as bases de ciências, artes e religiões. Teriam sido os
profetas, os videntes, os curandeiros, os médicos, os sacerdotes, os artistas
plásticos.” (p. 187-8)

Sobre a homomixia, Freyre fala das evidências em várias sociedades


primitivas da América, talvez pelo fato do ritmo guerreiro em que viviam e que
propiciasse o intercurso sexual de homem com homem e até mesmo de mulher
com mulher. Foram várias as hipóteses levantadas por estudiosos para essa
inclinação, porém nenhuma conclusiva. A de perversão congênita; a escassez ou
privação de mulher; segregação ou internato dos jovens nas casas secretas dos
homens. Porém, para o Santo Oficio considerado crime de Sodomia.

Num outro momento, Gilberto Freyre fala da culinária indígena em riqueza de


detalhes sobre costumes, preferências e influências na alimentação do brasileiro,
muitas vezes misturadas ou fundidas com a culinária africana. Os utensílios
utilizados era a própria inda quem os fabricava.

“Ainda hoje o vasilhame de qualquer casa brasileira do norte ou do centro do


Brasil contém numerosas peças de origem ou feitio puramente indígena. (...)
Das comidas preparadas pela mulher as pricipais eram as que faziam com a
massa ou a farinha de mandioca. (...) A farinha adotaram-na os colonos em
lugar do pão de trigo, (...). (...). Ainda hoje a mandioca é o alimento
fundamental do brasileiro e a técnica do seu fabrico permanece, entre
grande parte da população, quase a mesma dos indígenas.” (p. 190-1).

Freyre fala da influência pelo gosto de consumo do peixe, principalmente na


Amazônia. O modo de preparo que se generalizou no Brasil, o da pokeka
abrasileirado para moqueca. O gosto pelo consumo da tartaruga, sendo que no
extremo-norte há uma variedade de pratos dessa carne. Também o uso da
pimenta, muito utilizado na culinária brasileira, aguçado pela influência africana. O
consumo do palmito, tanto cru quanto cozido. Doa frutos, como a cultura do
mamoeiro e do araçazeiro, além do caju com uma série de aplicações medicinais e
culinárias.

Sobre plantas e ervas medicinais, Freyre destaca que se não fosse a


interferência dos missionários o aproveitamento pela cultura brasileira poderia ter
sido maior. Ainda assim, alguns estudiosos registram a influência de curativos
indígenas como:

“carimã desfeita na água para meninos que têm lombriga ou para indivíduo
tocado por peçonha (...); milho cozido para doentes de boubas; sumo de caju
pela manhã, em jejum, para ‘conservação do estômago’, higiene da boca
(...); olho de embaíba para curar feridas e chagas velhas; emplastros de
almécega para ‘soldar carne quebrada’; petume para mal do sesso e, sorvido
o seu fumo por um canudo de palha, aceso na ponta (...) excelente para
‘todo homem que se toma de vinho’.” (p. 197).

Entre outros conhecimentos e influências indígenas absorvidos pelos


colonizadores, o autor assim descreve:

“o conhecimento de várias fibras para tecelagem ou entrançado – o algodão,


o tucum, o caraguatá-bravo; o de peipeçaba para fazer vassouras; o de
abóboras semeadas pelo gentio especialmente para servirem-se dos
cabaços como vasilhas de carregar água e guardar farinha, como gamelas e
parece que como urinóis; o método de curar jerimum no fumo para durar o
ano inteiro; o conhecimento de várias madeiras e outros elementos vegetais
de construção, como cipó, o timbó e o sapé ou a palha de pindoba,
empregada por muito tempo na cobertura das casas: o de animais, pássaros,
peixes, mariscos etc., valiosos para a alimentação, prestando-se ao mesmo
tempo os seus cascos, penas, peles, lanugem ou couro a vários fins úteis na
vida íntima e diária da família colonial; para cuias, agasalho, enchimento de
travesseiros, almofadas, colchões, redes; o de junco de tábua, material
excelente para esteiras; o da tinta de várias cores, logo empregadas na
caiação das cascas, na tintura de panos, na pintura do rosto das mulheres,
no fabrico de tintas de escrever o branco de tabatinga, o encarnado de
araribá, de pau-brasil e de urucu; o preto de jenipapo, o amarelo de tatajuba;
o conhecimento de gomas e resinas diversas – prestando-se para grudar
papéis, cerrar cartas à maneira de lacre etc.” (p. 198).

Sobre o sistema de educação dos meninos, Freyre observa que tanto em


sociedades civilizadas quanto primitivas encontra-se alusão a maus tratos
atribuídos a fins moralizadores ou pedagógicos. Os indígenas inculcavam medo
aos meninos para incutir-lhes sentimentos de obediência e respeito. Exemplifica a
criação de personagens amendrontadores que dançavam usando máscaras,
simbolizando criaturas de outro mundo que aqui vieram para devorar ou arrebatar
meninos maus. Estes mascarados imitavam os movimentos e a voz de animal
demoníaco. Eles tinham o fim de manter em boa ordem tanto mulheres quanto
crianças. Pois, segundo Freyre, o menino indígena se via livre de castigos corporais
e de disciplina materna ou paterna, havendo, entretanto, severa disciplina por parte
dos mais velhos.

“São sobrevivências fáceis de identificar, uma vez raspado o verniz de


dissimulação ou simulação européia:e onde muito se acusam é em jogos e
brinquedos de criança com imitação de animais (...). Também nas histórias e
contos de bichos (...) Por uma espécie de memória social, como que
herdada, o brasileiro, sobretudo na infância, quando mais instintivo e menos
intelectualizado pela educação européia, se sente estranhamente próximo da
floresta viva, cheia de animais e monstros, que conhece pelos nomes
indígenas e, em grande parte, através das experiências e superstições dos
índios.” (p. 200)

Freyre destaca outras heranças da tradição indígena ao brasileiro:

“O gosto pelos jogos e brinquedos infantis de arremedo de animais: o próprio


jogo de azar, chamado do bicho, tão popular no Brasil, encontra-se na base
para tamanha popularidade no resíduo animista e totêmico de cultura
ameríndia reforçada depois pela africana. Há, entretanto, uma contribuição
ainda mais positiva do menino ameríndio aos jogos infantis e esportes
europeus: a da bola de borracha por ele usada em um jogo de cabeçada.” (p.
206).
Do processo de iniciação, Freyre revela a atividade era a de educação moral
e técnica do menino, bem como o seu preparo para as responsabilidades e
privilégios da vida adulta. A doutrinação contava com processos de flagelação
através de jejuns, vigílias e privações.

“Porque já possuíssem o complexo da flagelação, fácil lhes foi adaptarem-se


ao da penitência, introduzido pelos missionários, e no qual desde os
primeiros tempos se notabilizaram. (...). Vários jogos brasileiros de meninos
– entre os quais o da peia queimada e o da manja – refletem o complexo de
flagelação.” (p. 208-9).

Ainda, outros traços da vida indígena que sobrevivem na cultura brasileira,


aponta Freyre:

“também são freqüentes entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou


primitivo de destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões
de fazendas por cangaceiros: (...). (...). Os relapsos em furor observamo-los
em movimentos de fins aparentemente políticos ou cívicos, mas na verdade
pretexto de regressão à cultura primitiva, recalcada porém não destruída.” (p.
212-3).

Freyre em outra observação (no mínimo intrigante), destaca:

“É natural que na noção de propriedade como na de outros valores, morais e


materiais, inclusive o da vida humana, seja ainda o Brasil um campo de
conflito entre antagonismos os mais violentos.” (p. 213).

No tocante à intercomunicação entre a cultura indígena e européia,


destacando que ao mesmo tempo em que eram mestres também eram discípulos
dos culumins, e estes também mestres dos seus pais, da sua gente:

“No Brasil o padre serviu-se principalmente do culumim, para recolher de sua


boca o material com que formou a língua tupi-guarani – o instrumento mais
poderoso de intercomunicação entre as duas culturas (...). Não somente de
intercomunicação moral como comercial e material. Língua que seria, com
toda a sua artificialidade, uma das bases mais sólidas da unidade do Brasil.”
(p. 219).
Da dualidade de línguas, o português e o tupi-guarani, sendo a primeira a
oficial e a outra a popular, revela:

“(...) dualidade que durou seguramente século e meio e que prolongou-se


depois, com outro caráter, no antagonismo entre a fala dos brancos das
casas-grandes e a dos negros das senzalas (...). (...). Tupis ficaram no Brasil
os nomes de quase todos os rios; de muitas das montanhas; de vários dos
utensílios domésticos.” (p. 220).

Sobre evasão dos índios, Freyre aponta:

“(...) fugindo não só à sedentariedade da segregação como à violências


civilizadoras, praticadas nas próprias aldeias de missionários, muitos dos
indígenas cristianizados deram para ganhar o mato (...). Situação que mais
se aguçou quando, desmontada a (...) máquina de civilização dos jesuítas,
os índios se encontraram, por um lado presos, pela moral que lhes fora
imposta, à obrigação de sustentar mulher e filhos, por outro lado em
condições econômicas de não poderem manter nem a si próprios. (...).
Causa de muito despovoamento foram ainda as guerras de repressão ou de
castigo levadas a efeito pelos portugueses contra os índios, com evidente
superioridade técnica.” (p. 225-6).

Quanto as doenças que foram acometendo os índios:

“As doenças novas, foram-nas atribuindo os índios, e não sem certa


razão, aos jesuítas. Em certos lugares, à aproximação dos padres,
queimavam pimenta e sal para esconjurá-los. (...) uma vez incorporados ao
sistema econômico do colonizador é que foi para eles demasiado brusca a
passagem do nomadismo à sedentariedade; da atividade esporádica à
contínua; é que neles se alterou desastrosamente o metabolismo ao novo
ritmo de vida econômica e de esforço físico.”” (p.227).

Freyre conclui este capítulo inferindo que:

“(...) o Brasil é dos países americanos onde mais se tem salvo da cultura e
dos valores nativos. O imperialismo português (...) se desde o primeiro
contato com a cultura indígena feriu-a de morte, não foi para abatê-la de
repente, com a mesma fúria dos ingleses na América do Norte. Deu-lhe
tempo de perpetuar-se em várias sobrevivências úteis.” (p. 231).

III.O colonizador português: antecedentes e predisposições

Neste capítulo Freyre irá discorrer sobre seu estudo, de forma mais profunda
e esmiuçada, buscando delinear a figura do colonizador português, já tratada no
capítulo I. Descreve o perfil do colonizador português, usando de parâmetro as
figuras dos espanhóis e ingleses, estes sim manifestamente hegemônicos em
detrimento à postura exagerada e parasitária do primeiro. Porém, apesar dessa
crítica, e da sua postura frouxa e aventureira, de quem valorizava mais o título de
doutor ao de imperador, o português conseguiu imprimir contornos de eficiência no
imperialismo colonizador. O Autor usa de uma linguagem rebuscada e até mesmo
literária para narrar o perfil do português e a sua empreitada colonizadora.

“O tipo contemporizador. Nem ideais absolutos, nem preconceitos


inflexíveis. O escravocrata que só faltou transportar da África para a América, (...), a
população inteira de negros, foi por outro lado o colonizador europeu que melhor
confraternizou com as raças chamadas inferiores. (...) Sem aguçar no
aristocratismo do castelhano, no que o português se antecipou aos europeu foi no
burguesismo. (...). Aristocrático, patriarcal, escravocrata. O português fez-se aqui
senhor de terras mais vastas, dono de homens mais numerosos que qualquer outro
colonizador da América. Essencialmente plebeu, ele teria falhado na esfera
aristocrática em que teve de desenvolver-se seu domínio colonial no Brasil. Não
falhou, antes fundou a maior civilização moderna nos trópicos.” (p.265-6-7).

No que se refere como motivo para o avanço colonizador peninsular, a


princípio sob o respaldo de profilaxia religiosa e civilizatória, estudos apontam não
serem estes o real fundamento. A mística religiosa fora sim utilizada como
instrumento de reconquista, um dos fatores que deu maior prestígio ao setor
eclesiástico em relação ao civil no espírito dessa gente peninsular:

“(...) a verdade é que o capital de instalação desse elemento aventureiro foi


muitas vezes o cativo de guerra moçárabe, e portanto cristão; o gado, a terra
e os bens desses seus correligionários, e não apenas infiéis.” (p. 270).
Já, no Brasil, isso não se sucederia dessa forma em razão de:

“As condições de colonização criadas pelo sistema político das


capitanias hereditárias e mantidas pelo econômico, das sesmarias e da
grande lavoura – condições francamente feudais – o que acentuaram de
superior aos governos e à justiça del-Rei foi o abuso do coito ou homizio
pelos grandes proprietários de engenhos; e não pelas catedrais e pelos
mosteiros.” (p. 270-1)

Mais adiante Freyre observa a repercussão dessa postura na constituição da


nossa formação social, informando que no Brasil não chega a haver clericalismo, e
que a igreja que age aqui é a de mosteiro e abadia, a capela de engenho:

“No Brasil, a catedral ou a igreja mais poderosa que o próprio rei seria
substituída pela casa-grande do engenho. Nossa formação social, tanto
quanto a portuguesa, fez-se pela solidariedade de ideal ou fé religiosa, que
nos supriu a lassidão de nexo político ou de mística ou consciência de raça.”
(p. 271)

Estudos mostram a possibilidade de subserviência, questionada, dos jesuítas


aos senhores de engenho, bem como a insinuação da sua aproximação de
excessiva de negras e mulatas.

“Em certas zonas do interior de Pernambuco, tradições maliciosas atribuem


aos antigos capelães de engenho a função útil, embora nada seráfica, de
procriadores.” (p. 272).

Freyre informa que o português, no Brasil, fez da ortodoxia uma condição de


unidade política:

“O Direito português iniciou-se, não sufocando e abafando as minorias


étnicas dentro do reino – os mouros e os judeus – suas tradições e
costumes, mas, reconhecendo-lhes a faculdade de se regerem por seu
mérito próprio e até permitindo-lhes magistrados à parte, como mais tare no
Brasil colonial, com relação aos ingleses protestantes.” (p. 273).

A essa postura Freyre deduz:


“É que a luta contra os mouros, como mais tarde o movimento separatista de
que resulta a Independência, são eles mesmos favoráveis ao cosmopolitismo
que se desenvolve no português ao lado, e em harmonia, com seu precoce
nacionalismo. De modo que a nenhum desses dois ódios ou antagonismo –
o ódio ao mouro e o ódio ao espanhol – pode-se atribuir ter atuado no
português em um só sentido e este inferior: o de crispa-lo.” (p. 273).

Sobre o mercantilismo burguês português, Freyre observa que a falta de


fronteiras naturais ou físicas, houve a necessidade em suprir com pura resistência
ou tensão humana, agressões e absorvências externas, para o que se valeram do
concurso de estrangeiros, o que veio a favorecer o seu nacionalismo e
cosmopolitismo. O que a princípio eram agentes de diferenciação, essa variedade
de contatos estrangeiros, resultou-se propícia à ascendência das classes marítimas
e comerciais na economia e na política portuguesa. Segundo estudos, Portugal
cedo esboça o antagonismo entre a classe comercial das cidades marítimas e a
aristocracia territorial do centro. Desse antagonismo econômico e de classe
acentua-se a divergência entre interesses rurais e marítimos, situação que se
revela interessante para a política dos reis. Estes promulgam leis para proteger o
comércio marítimo e animar a construção naval, iniciativas que favorecem a
ascendência burguesa:

“no desejo de libertar-se de tudo que fosse pressão aristocrática sobre o


poder real, inclinou-se para a burguesia e para o povo das cidades.” (p. 275).

Em decorrência do propósito do reinado português em processar uma


colonização aristocrática e agrária é que a colonização do Brasil afasta-se dos
objetivos comerciais e burgueses do primeiro século do imperialismo português
iniciado com a viagem para a Índia. Daí o “corpo mole”, a falta de interesse em vir
para o Brasil, só mudando essa postura após o início da sua colonização
propriamente dita.

Porém, a proposta de Freyre em seu ensaio aponta para o interesse pela


formação social da colonização do Brasil:

“Não nos interessa, porém, senão indiretamente, neste ensaio, o aspecto


econômico ou político da colonização portuguesa do Brasil. Diretamente, só
nos interessa o social, no sentido particular de social que coincide com o
sociológico. E nenhum antecedente social mais importante a considerar no
colonizador português que a sua extraordinária riqueza e variedade de
antagonismos étnicos e de cultura; que o seu cosmopolitismo.” (p. 276).

Assim, prossegue seu estudo direcionando-se para a chegada, posterior à


dos portugueses, de estrangeiros de proveniência inglesa, francesa, florentina,
genovesa, alemã, flamenga, espanhóis, ocasionando uma mistura livre, cujas
conseqüências e heranças lhe interessam a análise. Mistura essa cujas diferenças
de nacionalidade ou de raça não se colocaram como empecilhos, tendo como
principal exigência para que se adquirisse sesmaria no Brasil a de que o colono
professasse a religião católica, sendo essa exigência apresentada como uma
dificuldade, mas não impedimento de imigração. Essa liberalidade é resultado da
formação cosmopolita e heterogênea desse povo marítimo. Daí não estabelecer-se
em Portugal nenhuma hegemonia, nenhum exclusivismo de raça ou cultura. Da
heterogeneidade portuguesa pouco se sabe, a não ser que se encontrava nas
origens remotas do português. O substrato da nacionalidade portuguesa, segundo
Freyre, fora constituída sob a forma moçárabe, ou seja, militar e politicamente
fundada por outros, mas por eles constituída econômica e socialmente.

Dando continuidade ao processo de miscibilidade, destaca Freyre que o


prestígio social e econômico da ascendente burguesia portuguesa ofuscou o viço
da nobreza. Estes, debilitados, foram buscar na classe média, “moça rica para
casar”. Assim:

“(...) a mobilidade de famílias e de indivíduos de uma classe para outra foi


constante. Impossível concluir por estratificações étnico-sociais em um povo que se
conservou sempre tão plástico e inquieto.” (p.287).

Destaca Freyre:

“Estava alias no interesse dos reis, que tão cedo se afirmaram em


Portugal contra os vagos esboços de feudalismo, nivelar o mais possível as
classes sociais;(...). (...). Depois de cinco séculos não se haviam estratificado
as classes sociais em Portugal em exclusivismos intransponíveis. (...). O que
vem reforçar a nossa convicção de ter sido a sociedade portuguesa móvel e
flutuante como nenhuma outra, constituindo-se e desenvolvendo-se por uma
intensa circulação tanto vertical como horizontal de elementos os mais
diversos de procedência.” (p. 294-5).

Quanto à colonização do Brasil, argumenta Freyre que o ponto a destacar


quanto aos que para aqui vieram, revela:

“Vindos para o Brasil, os descendentes de moçárabes e de mouros


cristianizados, (...), já não viriam diretos da servidão da gleba, mas do
serviço de poderosos e das ocupações urbanas a que muitos se acolheram
(...). Outros, do trabalho livre de lavoura em terra de coito. Ainda outros, dos
ofícios úteis, dos ofícios úteis de sapateiro e alfaiate. Nas cidades e nos
povoados, muitos já teriam chegado (...) engrandecidos, econômica e
socialmente, pelo comércio de peles de coelho e pelo exercício da arte (...)
como de ferreiro e peleteiro. (...) alguns (...) anciosos por uma oportunidade
de melhorarem de vida. (...). (...) é a presença, não esporádica porém farta,
de descendentes moçárabes, de representantes da plebe enérgica e
criadora, entre os povoadores e primeiros colonizadores do Brasil. Através
desse elemento moçárabe é que tantos traços de cultura (...) se transmitiram
ao Brasil. (...) cultura moral e material.” (p. 296-7).

Estudos esboçam referências a esses traços assim descritos:

“(...) a doçura no tratamento dos escravos que, na verdade, foram entre os


brasileiros, tanto quanto entre os mouros, mais gente de casa do que besta
de trabalho. (...) o ideal de mulher gorda e bonita de que tanto de que tanto
se impregnaram as gerações coloniais e do Império. (...) o gosto dos
voluptuosos banhos de gamela ou de ‘canoa’; o gosto da água corrente
cantando nos jardins das casas-grandes. (...). O sistema das crianças
cantarem todas ao mesmo tempo suas lições de tabuada e de soletração
(...). (...) o hábito de mulheres irem à missa de mantilha, o rosto quase
tapado, como o das mulheres árabes. (...). (...) de que nossas avós coloniais
preferiram sempre ao requinte europeu das poltronas e dos sofás, o oriental,
dos tapetes e das esteiras. (...). (...) a arte do azulejo que tanto relevo tomou
em nossas igrejas, conventos, residências, banheiros, bicas, chafarizes; a
telha mourisca; a janela quadriculada ou em xadrez; a gelosia; o abalcoado;
as paredes grossas. Também o conhecimento de vários quitutes e processos
culinários; certo gosto pelas comidas oleosas, gordas, ricas em açúcar. O
cuscuz, hoje tão brasileiro é de origem norte-africana.” (p. 299).

Ainda:

“(...) outra influência moura sobre a vida e o caráter português: a da moral


maometana sobre a moral cristã (...). (...) Nenhum resultado mais
interessante dos muitos séculos de contato do cristianismo com a religião do
profeta (...) que o caráter militar tomado por alguns santos no cristianismo
português e mais tarde no Brasil.” (p. 303).

Freyre pontua que com relação a Portugal, que sua formação nacional fora
toda agrária, depois modificada pela atividade comercial dos judeus e pela política
imperialista dos reis. Assim:

“Constituíram-se os judeus em Portugal em grande força e sutil


influência pelo comércio, pela agiotagem, pelo exercício de altos cargos
técnicos na administração, pelas ligações de sangue com a velha nobreza
guerreira e territorial, pela superioridade de sua cultura intelectual e
científica. (...). Concorreram os judeus em Portugal, (...), para o horror à
atividade manual e para o regime do trabalho escravo – tão característico da
Espanha e Portugal.” (p. 306-9).

Dessa aversão pelo trabalho manual decorre a pobreza percebida em


Portugal, não provinda da natureza do país, mas da índole dos seus habitantes,
que contrastava entre a atividade dos mouriscos e os desmazelos e ócio dos
hispânicos que não possuíam amor pela terra, cujos interesses manifestos eram
por guerras e aventuras comerciais nas Índias. Assim Freyre coloca:

“Colonizou o Brasil uma nação de homens mal-nutridos. É falsa a idéia que


geralmente se faz do português: um superalimentado. (...). (...) se deve
distinguir entre comezainas e banquetes e a alimentação dos dias comuns.
Entre o regime de reduzido número de ricos e o da grande maioria – o da
plebe rural e o das cidades. (p. 313-4).
Porém, assim como os espanhóis os portugueses ostentavam mais do que
possuíam em casa, também observado no Brasil, conforme relatos:

“(...) onde o esplendor das sedas e ao número excessivo de escravos


raramente correspondia o conforto doméstico das nações do Norte da
Europa. (...) Daí as casas-grandes de senhores de engenho (...) no Brasil –
todas de escasso mobiliário.” (p. 319).

Daí conclui Freyre que:

“O comércio marítimo precedeu ao imperialismo colonizador e é


provável que, independente deste, só pelos desmandos daquele, Portugal se
tivesse arruinado como país agrícola e economicamente autônomo. A
escravidão que o corrompeu não foi a colonial mas a doméstica. (...). (...)
quando a economia portuguesa deixou-se empolgar pela fúria parasitária de
explorar e transportar riqueza, em vez de produzi-la, não é fácil de dizer com
precisão” (p. 319).

Com relação à colonização do Brasil, Freyre coloca o entusiasmo religioso


em primeiro plano, depois os interesses econômicos por parte dos colonizadores
portugueses. Porém, estes ao perceberem a escassez na exploração de riquezas e
compreenderem a tendência para a estabilização agrícola dentro de um sistema de
latifúndios, justifica a necessidade da mão-de-obra escrava africana:

“No caso brasileiro, (...), parece-nos injusto acusar o português de ter


manchado, com instituição que hoje tanto nos repugna, sua obra grandiosa
de colonização tropical. O meio e as circunstâncias exigiram o escravo. A
princípio o índio. Quando este, por incapaz e molengo, mostrou não
corresponder às necessidades da agricultura colonial – o negro.” (p. 322).

Observa que:

“(...) a economia colonial praticada no Brasil durante os primeiros dois


séculos restituiu a Portugal cores e saúde há muito desaparecidas sob a
fúria mórbida de exploração de riqueza, de rapina, de saque.” (p. 324).

Porém, conforme pontua Freyre:


“A escravidão, de que sempre se serviu a economia portuguesa,
mesmo nos seus tempo de rija saúde, tomou aspecto acentuadamente
mórbido ao tornar-se a monarquia mercantil e imperialista. (...). (...) devido a
necessidade de corrigir-se a todo custo o desequilíbrio demográfico e
econômico causado pelas conquistas de ultramar. (...). (...) sob novos
estímulos, os senhores foram os primeiros a favorecer a dissolução ‘para
aumentar o número das crias, como quem promove o acréscimo de um
rebanho’. (...). As necessidades de braços, tanto no reino, desfalcado pela
imigração, como nas colônias agrícolas, tornavam proveitosíssimo o
comércio de gente.” (p. 332-2).

Sobre críticas elaboradas frente à dissolução moral e a devassidão


experimentadas pelos portugueses, Freyre justifica:

“Reconhecendo essa influência geral do imperialismo sobre a vida e a


moral sexual dos povos hispânicos, devemos, entretanto, recordar que sobre
eles atuaram condições de meio físico de situação geográfica, de
desenvolvimento histórico particularmente perturbadoras da moralidade
cristã (...); a instabilidade econômica, os contatos cosmopolitas por via
marítima; a convivência com os maometanos polígamos. (...) certa
disparidade, nos vestuários e nas práticas de higiene doméstica, entre as
exigências ou normas de moral sexual cristã no norte da Europa e o clima
africano de Portugal e de grande parte da Espanha. Todas essas influências
devem ter concorrido para o fato de excitar-se mais cedo que no norte a
fome sexual nos adolescentes espanhóis e portugueses.” (p. 334).

Assim também, atribui Freyre, entre nós, brasileiros, atuou a influência do


clima tropical para a superexcitação sexual de meninos e adolescentes.

IV.O escravo negro na vida sexual do brasileiro

Gilberto Freyre introduz este capítulo discorrendo, superficialmente, sobre a


influência da raça negra através do convívio escravo com o colonizador do Brasil.
Sobre a assimilação de certas características singulares; sobre as heranças
culturais absorvidas; a importância do negro na vida estética; sua parcela de
contribuição na vida econômica; sobre a diferença entre o índio e o negro africano.
Para então iniciar o seu propósito de esmiuçar a cultura africana, com o cuidado de
não incorrer nos erros de generalizações apresentados por alguns estudos:

“Nem da cultura nativa da América pode-se falar sem muita e rigorosa


discriminação (...) nem da África basta excluir o Egito, com a sua opulência
inconfundível de civilização, para falar-se então da cultura africana, chata e
uma só. Esta se apresenta com notáveis diferenças de relevo, variando seus
valores na quantidade e na elaboração.” (p. 369).

Freyre demonstra-se avesso às avaliações de classificatórias de


inferioridade ou superioridade a que alguns estudiosos preocuparam-se em
teorizar, do negro em relação ao indígena ou do indígena em relação ao negro.

“O critério histórico-cultural, porém, que tantas vezes tem retificado o


fisiológico e o psíquico na discriminação de característicos étnicos, mostra-
nos ter havido da parte dos ameríndios incapacidade antes social e técnica
que psíquica e biológica. Embora não se devam desprezar as indisposições
psíquicas, o fato que avulta é o do nomadismo, da vida econômica atuando
poderosamente sobre os ameríndios; incapacitando-os para o trabalho
agrícola regular. Ora, a esse trabalho e ao da criação de gado e utilização de
sua carne e leite, já se tinham afeito várias sociedades africanas de onde
nos vieram escravos em grandes massas.” (p. 371).

O autor esclarece que:

“(...) não pretendemos negar ao critério de tipos psicológicos a possibilidade


de vantajosa aplicação à discriminação de traços étnicos. A introversão do
índio, em contraste com a extroversão do negro da África, pode-se verificar a
qualquer momento no fácil laboratório que, para experiências desse gênero,
é o Brasil.” (p. 371-2).

A esse contraste de disposição psíquica e de adaptação talvez biológica ao


clima quente, segundo Freyre, explicam em parte ter sido o negro na América
portuguesa o maior e mais plástico colaborador do europeu na colonização agrária.
A essa extroversão teria sido atribuída até mesmo certa influência europeizante por
parte dos negros aos indígenas. Porém, sem que lhes sejam atribuídas influências
absolutas, argumentando que:

“Os antecedentes e as predisposições de cultura do africano é que devem


ser tomados em maior conta. E dentro desses e predisposições de cultura, a
dieta ou o regime alimentar. (...) No caso dos negros, comparados com os
indígenas do Brasil, pode-se talvez atribuir parte de sua superioridade de
eficiência econômica e eugênica ao regime alimentar mais equilibrado e rico
que o dos outros, povos ainda nômades, sem agricultura regular nem criação
de gado. Devendo-se acrescentar que vários dos mais característicos
valores nutritivos dos negros (...) acompanharam-nos à América,
concorrendo para o processo como que de africanização aqui sofrido por
brancos e indígenas; e amaciando para os africanos os efeitos os efeitos
perturbadores da transplantação” (p.373).

Freyre dirige seu olhar para os africanos vindos para o Brasil do início do
século XVI até meados do XIX, considerando a preocupação com o grau e o
momento em que as culturas se comunicaram, levando em conta que:

“(...) importaram-se para o Brasil, da área mais penetrante pelo islamismo,


negros maometanos de cultura superior não só à dos indígenas como à da
grande maioria dos colonos brancos – portugueses e filhos de portugueses
quase sem instrução nenhuma, analfabetos uns, semi-analfabetos na maior
parte.” (p. 382).

Mas, discorda de estudiosos que apontaram essa superioridade como fator


de revolução libertária, atribuindo-lhes o “sentido religioso, social ou cultural”. Esse
argumento baseia-se no fato que de outras áreas e cultura da africana também
foram transportados para o Brasil grande número de escravos. Ainda, estudos
apontam para o fato da política de distribuição de negros na colônia de modo a não
permitir concentração de uma mesma nação africana em uma capitania, o que
poderia trazer conseqüência de rebeliões indesejáveis.

“Infelizmente as pesquisas em torno da imigração de escravos negros


para o Brasil tornaram-se extremamente difíceis, em torno de certos pontos
de interesse histórico e antropológico, depois que o eminente baiano,
conselheiro Rui Barbosa, ministro do Governo Provisório após a
proclamação da República de 1889, por motivos de ordem ostensivamente
de ordem econômica (...) mandou queimar os arquivos da escravidão.”
(p.384).

Freyre ressalta ao ressaltar seu interesse pelo estudo de antropologia


cultural e de história social africana, como indicadores de que o Brasil beneficiou-se
melhor de colonização africana que outros países da América. Suas pesquisas o
levam a considerar que:

“Os escravos vindos das áreas de cultura negra mais adiantada foram
um elemento ativo, criador, e quase que se pode acrescentar nobre na
colonização do Brasil; degradados apenas pela sua condição de escravos.
Longe de terem sido apenas animais de tração e operários da enxada, a
serviço da agricultura, desempenharam uma função civilizadora. Foram a
mão direita da formação agrária brasileira, os índios, e sob certo ponto de
vista, os portugueses, a mão esquerda.” (p. 390).

Estudos apontam que não só a formação agrária, mas, também, a mineração


de ferro fora aprendida com os africanos, bem como a criação de gado. Quanto a
questão da religiosidade, fala que “da África vieram mestres e pregadores a fim de
ensinarem a ler no árabe os livros ao Alcorão”, estimulando o ardor religioso entre
os escravos, propagando o islamismo que se ramificou no Brasil em seita poderosa
nos escuros das senzalas.

“Encontramos traços de influência maometana nos papéis com oração


para livrar o corpo da morte e a casa dos ladrões e dos malfeitores; papel
que ainda se costumam atar ao pescoço das pessoas ou grudar às portas e
janelas das casas, no interior do Brasil. (...) O catolicismo das casas-grandes
aqui se enriqueceu de influências muçulmanas contra as quais tão impotente
foi o padre-capelão quanto o padre-mestre contra as corrupções do
português pelos dialetos indígenas e africanos. (...). Na Bahia, no Rio de
Janeiro, no Recife, em Minas, o trajo africano (...).” (p. 395-6).

Ao passar a considerar “aspectos mais íntimos” da influência e do contágio


com o negro africano, o autor considera:
“Sempre que consideramos a influência do negro sobre a vida íntima
do brasileiro, e a ação do escravo, e não a do negro por si, que apreciamos.”
(p. 397).

Argumenta, então:

“Diz-se geralmente que a negra corrompeu a vida sexual da


sociedade brasileira, iniciando precocemente no amor físico os filhos de
família. Mas essa corrupção não foi pela negra que se realizou, mas pela
escrava. (...). É absurdo responsabilizar-se o negro pelo que não foi obra sua
(...) mas do sistema social e econômico em que funcionaram passiva e
mecanicamente. Não há escravidão sem depravação sexual. (...). Nada nos
autoriza a concluir ter sido o negro quem trouxe para o Brasil a pegajenta
luxúria em que nos sentimos todos prender, mal atingida a adolescência. (...)
” (p. 398-9).

Freyre evidencia sua seu olhar ao africano como a de um herói:

“O negro foi patogênico, mas a serviço do branco; como parte


irresponsável de um sistema articulado por outros. (...). (...) entre os próprios
portugueses e espanhóis, e entre os judeus e mouriscos da Península,
lavrara intensamente essa forma de luxúria ao descobrir-se e colonizar-se o
Brasil, figurando nos processos frades, clérigos, fidalgos, desembargadores,
professores, escravos.” (p. 404-5).

Observa Freyre que sobre a influência da feitiçaria e da magia sexual entre


nós, apontados como de origem africana, esclarece que de Portugal foram trazidas
várias dessas crenças e magias, conforme registro do Santo Ofício dos vários
casos de bruxas portuguesas.

“Mas o grosso das crenças e práticas da magia sexual que se


desenvolveram no Brasil foram coloridas pelo misticismo do negro(...). (...)
Foi a perícia no preparo de feitiços sexuais e afrodisíacos que deu tanto
prestígio a escravos macumbeiros junto a senhores brancos já velhos e
gastos.” (p. 407-8).

Mas, Freyre coloca que:


“Não só para fins amorosos, como em torno ao recém-nascido
reuniram-se, no Brasil, as duas correntes místicas: a portuguesa, de um
lado; a africana ou a ameríndia do outro. Aquela representada pelo pai ou
pelo pai e mãe brancos; esta, pela mãe índia ou negra, pela ama-de-leite,
pela mãe de criação, pela mãe-preta, pela escrava africana.(...)”. (p. 409).

Sobre a ama negra, Freyre destaca:

“Também as canções de berço portuguesas, modificou-as a boca da


ama negra, ligando-as às crenças dos índios e às suas. (...). Novos medos
trazidos da África, ou assimilados dos índios pelos colonos brancos e pelos
negros, juntaram-se aos portugueses (...). (...). Foram as negras que se
tornaram entre nós as grandes contadoras de histórias.”. (p. 410-11,13).

Na figura da ama negra também se encontram associados, além do papel de


ama-de-leite que tinha sob seus os cuidados de embalá-lo na rede ou no berço, o
de ensinar-lhe as primeiras palavras, a primeira oração, experimentava-lhe o
primeiro alimento que não o leite do seio.

“Quanto às mães-pretas, referem as tradições o lugar


verdadeiramente de honra que ficavam ocupando no seio das famílias
patriarcais.” (p. 435).

Sobre o abrasileiramento do africano, Freyre observa:

“Na ordem de sua influência, as forças que de dentro do sistema


escravocrata atuaram no Brasil sobre o africano recém-chegado foram: a
igreja (menos a igreja com I grande, que a outra com i pequeno,
dependência do engenho ou da fazenda patriarcal); a senzala; a casa-
grande propriamente dita – isto é, considerada como parte, e não dominador
do sistema de colonização e formação patriarcal do Brasil.” (p. 440).

Dos molequinhos das casas-grandes, Freyre chama a atenção para:

“Tanto o excesso de mimo de mulher na criação dos meninos e até


dos mulatinhos, como o extremo oposto – a liberdade para os meninos
brancos cedo vadiarem com os moleques safados na bagaceira, deflorarem
negrinhas, emprenharem escravas, abusarem de animais, constituíram
vícios de educação, talvez inseparáveis do regime de economia
escravocrata, dentro do qual se formou o Brasil.” (p. 459).

V.O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro (continuação)

“Nos engenhos, tanto nas plantações como dentro de casa, nos tanques de
bater roupa, nas cozinhas, lavando roupa, enxugando prato, fazendo doce,
pilando café; nas cidades, carregando sacos de açúcar, pianos, sofás de
jacarandá de ioiô brancos – os negros trabalharam sempre cantando: os
seus cantos de trabalho, tanto quanto os de xangô, os de festas, os de ninar
menino pequeno, encheram de alegria africana a vida brasileira.” (p. 551)