A arte da rudeza  João Pereira Coutinho    A caminho do Porto, leio Paul Johnson. Uma crónica de Paul Johnson na boa e velha  Spectator.

  Inicio  a  leitura  em  Santa  Apolónia,  com  a  máquina  em  marcha.  Termino  cinco minutos depois, na primeira paragem da tarde: a horrenda estação do Oriente –  peço  desculpa:  a  Gare  do  Oriente  e  a  sua  paisagem  suburbana,  que  os  lisboetas  adoram.  Tenho  livros  sobre  a  mesa,  jornais  antigos,  prosa  académica  a  mendigar  atenção  e  trabalho.  Não  toco  em  rigorosamente  mais  nada.  Serão  três  horas  de  silêncio. Há dias assim: lemos o que lemos e sentimos que o dia está ganho. Arriscar é  perder. Ou, como diria um célebre professor de Oxford, “mudar para quê, se as coisas  já estão tão más?” Fico como estou. E fico bem. Só Deus sabe como eu fico bem.  De que nos fala Paul Johnson? Ah!, de que nos fala Paul Johnson... Da arte da  rudeza.  Da  aristocrática  arte  da  rudeza.  Uma  arte  definitivamente  perdida  numa  cultura  plebeia  e  vulgar.  Não  confundam  rudeza  com  ordinarice.  A  rudeza  é  tudo,  excepto ordinarice. A rudeza é insolência. É brutalidade. Não, não é brutalidade; é mais  do  que  brutalidade:  é  malícia  extrema,  perversidade  diabólica,  sofisticação  pura.  Ao  contrário do insulto reles, típico de selvagens e vagabundos, não é qualquer um que  exerce  a  rudeza.  A  rudeza  exige  inteligência,  elegância  e  um  ethos  aristocrático  que  uma  sociedade  radicalmente  demótica  não  permite  nem  premeia.  Paul  Johnson  cita  exemplos.  Leio  os  nomes  e  sinto,  com  angústia  e  tristeza, a  irremediável  pobreza  do  mundo  em  que  vivemos.  Winston  Churchill  e  seu  filho  Randolph.  Bernard  Shaw.  Disraeli. E o grande, grande, grande Evelyn Waugh. O meu coração encolhe. Meu Deus:  ainda haverá gente a ler Evelyn Waugh? Não falo de Brideshead Revisited em versão  televisiva. Falo de Decline and Fall ou Scoop, livros que me infectaram de iconoclastia e  que  ficarão  comigo  até  ao  fim  dos  meus  dias.  Sim,  falo  de  Vile  Bodies,  de  Black  Mischief,  de  Unconditional  Surrender.  Daria  tudo  para  os  ler  agora.  Como  se  fosse  a  primeira vez.  A  arte  da  rudeza  é  insulto.  Mas  não  é  apenas  insulto.  É  um  insulto  perverso,  insolente  e  demencialmente  elevado.  “Winston,  você  não  passa  de  um  bêbedo”,  diz  Lady  Astor  a  Churchill  numa  festa  social.  E  Churchill,  sem  perder  a  compostura,  responde: “E você, minha querida, é feia. Mas amanhã eu já estarei sóbrio”. 

O  mesmo  Churchill,  na  Câmara  dos  Comuns,  confrontado  com  as  críticas  de  uma  parlamentar  inflamada:  “Se  eu  fosse  sua  mulher,  punha  veneno  no  seu  chá”.  E  Churchill, sem perder a compostura, responde: “E se eu fosse seu marido, bebia‐o”.  Agora  tracem  as  diferenças.  A  nossa  vida  social,  vendida  pelas  revistas  da  paróquia,  pinga  vulgaridade.  As  elites  de  um  país  definem  esse  país?  Pois  bem:  as  nossas  elites  mais  visíveis  são  compostas  por  jogadores  de  futebol,  apresentadores  televisivos  e  concorrentes  do  Big  Brother.  Um  cortejo  grotesco,  que  diz  tudo  sobre  Portugal.  As  frases  desta  gente  são  deprimentes  e  vulgares.  As  fronhas  são  deprimentes  e  vulgares.  Os  amores  são  deprimentes  e  vulgares.  As  casas  são  deprimentes  e  vulgares.  Os  sentimentos  são  deprimentes  e  vulgares.  As  férias,  invariavelmente no Algarve, são deprimentes e vulgares. Os gostos são deprimentes e  vulgares.  As  opiniões  são  deprimentes  e  vulgares.  A  roupa  é  deprimente  e  vulgar.  A  educação  é  deprimente  e  vulgar.  Tudo  é  deprimente  e  vulgar  porque  tudo  surge  infectado  pelo  vírus  deprimente  e  vulgar  da  classe  média  arrivista  e  endinheirada,  amante  do  exibicionismo  saloio  ou,  então,  da  moderação  pacóvia,  obsessivamente  preocupada  com  o  decoro,  a  imagem,  as  aparências.  E  em  relação  ao  Parlamento,  o  que  há  para  acrescentar?  Dos  230  deputados,  talvez  trinta  sejam  pessoas  alfabetizadas.  Dessas  trinta,  talvez  vinte  consigam  ler  um  texto  sem  mexer  os  lábios.  Dessas  vinte,  talvez  dez  consigam  escrever  uma  frase  com  sujeito,  predicado  e  complemento directo. O que dizer dos restantes 200?  Não  se  pense  que  a  arte  da  rudeza  pode  existir  sem  humanidade.  Pelo  contrário: só pessoas invulgarmente humanas podem ser invulgarmente rudes. Serge  Gainsbourg,  outro  patife  nobre,  disse  um  dia  a  um  jovem  cantor  em  ascensão:  “Provoca, provoca sempre. Mas nunca deixes de ser humano”. A rudeza é humanidade  em estado puro. Puro e duro. Quando Evelyn Waugh soube que o seu amigo Randolph  Churchill  fora  submetido  a  uma  operação  cirúrgica  para  a  remoção  de  um  pulmão,  Waugh  comentou:  “Não  acham  a  medicina  moderna  fascinante?  Os  médicos  prescrutaram todo o corpo de Randolph e resolveram retirar‐lhe a única parte que não  era maligna”. Delicioso Evelyn. Patifório Evelyn. O mesmo Evelyn que, semanas depois,  ao encontrar o seu amigo em dolorosa convalescença, não hesitou em abraçá‐lo, com  as lágrimas nos olhos. 

A  arte  da  rudeza  é  um  património  a  preservar  numa  sociedade  civilizada.  E  talvez seja a única coisa verdadeiramente importante a fazer para salvar este Portugal  alinhado, deprimente, vazio e sombrio, povoado por criaturas alinhadas, deprimentes,  vazias e sombrias. Filhos, não obedeçam sempre aos vossos pais. Pais, não queiram ser  como os vossos filhos. Rapazes, aprendam a abusar. Riam muito. Chorem ainda mais.  Provoquem.  Excedam‐se.  Sejam  inteligentes.  Sejam  elegantes.  Sejam  nobres.  E,  puta  que pariu, sejam rudes e humanos.    O Independente, 7 fevereiro de 2003 

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